Your SlideShare is downloading. ×
Abbagnano, nicola. Dicionário de Filosofia
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Abbagnano, nicola. Dicionário de Filosofia

14,160

Published on

Published in: Education
0 Comments
5 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
14,160
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
321
Comments
0
Likes
5
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. PREFACIO O objetivo deste dicionário é colocar à disposição de todos um repertório das possi-bilidades de filosofar oferecidas pelos conceitos da linguagem filosófica, que vem se cons-tituindo desde o tempo da Grécia antiga até nossos dias. O Dicionário mostra como algumasdessas possibilidades foram desenvolvidas e exploradas à exaustão, ao passo que outrasforam insuficientemente elaboradas ou deixadas de lado. Ele apresenta, assim, um balançodo trabalho filosófico do ponto de vista de sua fase atual. Em função desse objetivo foi estabelecida a regra fundamental a que obedeceu aformulação dos verbetes: a de especificar as constantes de significado passíveis de seremdemonstradas ou documentadas com citações textuais, mesmo que de doutrinas aparente-mente diferentes. Mas as constantes de significado só podem ser especificadas quando osdiferentes significados, compreendidos por um mesmo termo, são claramente reconhecidose distintos. Essa é a exigência da clareza, considerada fundamental numa obra como estae que, na verdade, é condição essencial para que a filosofia possa exercer qualquer funçãode esclarecimento e orientação nos confrontos entre os seres humanos. Numa época em que os conceitos são freqüentemente confusos e equívocos a pontode se tornarem inutilizáveis, a exigência de uma definição rigorosa dos conceitos e de suasarticulações internas adquire importância vital. Espero que o Dicionário que ora apresentoao leitor esteja à altura dessa exigência e contribua para difundi-la, restituindo aos conceitossua força diretiva e asseguradora. Vejo-me agora na grata obrigação de lembrar aqui as pessoas que me ajudaram narealização deste trabalho. O professor GIULIO PRETI elaborou para mim alguns verbetes de lógica (sendo oprincipal, justamente, Lógica), todos assinados com as iniciais G. P. Também me ajudou nacompilação de alguns outros, que trazem suas iniciais e as minhas. Todos os artigos principais do Dicionário foram discutidos, às vezes longa e minucio-samente, com um grupo restrito de amigos: NORBERTO BOBBIO, EUGÊNIO GARIN, C. A. Viano,Pietro Rossi, Pietro Chiodi. Outros amigos ajudaram-me a encontrar ou confrontar textos de mais difícil acesso.Foram eles GRAZIELLA VESCOVINI FEDERICI, GRAZIELLA GIORDANO, SÉRGIO RUFFINO. Minha mulher, Marian Taylor, me prestou grande ajuda na correção das provas. A todas essas pessoas dirijo meu cordial agradecimento. Mas o trabalho deste Dicionárionão teria sido iniciado nem levado a termo sem a ampla ajuda da grande e benemérita casaeditora UTET, que agora a publica. A ela expresso, portanto, minha gratidão. NlCOLA ABBAGNANO Turim, 11 de outubro de 1960.
  • 2. VI PREFÁCIONOTA À SEGUNDA EDIÇÃO ITALIANA Esta segunda edição, inteiramente revista, contém 22 verbetes novos: Artefato; Asserção;Autômato; Casamento; Classe, consciência de, Deus, morte de, Diacrônico, Sincrônico;Doxologia; Ensomatose; Futurologia; Iluminismo; Ocorrência; Performativo; Poiético;Praxiologia; Previsão-, Psicodélico; Recusa, grande, Tábuas de verdade, Teleonomia; Ler, Tra-balho. Foram inteiramente refeitos os verbetes: Condicional; Conseqüência; Entimema; Implicação-, Matrizes, método das; Panteísmo;Tecnocracia. N.A. Turim, 20 de abril de 1971.
  • 3. OBSERVAÇÕES 1. — O Dicionário contém apenas termos, não nomes próprios. No entanto, contémtermos como Platonísmo, Aristotelismo, Criticismo, Idealismo, etc, que se referem à dou-trina de um filósofo ou de uma escola, ou a aspectos ou linhas comuns a várias doutrinas.Mas esses verbetes limitam-se a expor os pontos principais das doutrinas ou linhas emquestão com a maior brevidade possível, dado que as opiniões dos filósofos a que sereferem são amplamente citadas em todos os verbetes principais. 2. — Foram incluídos artigos dedicados não apenas às simples disciplinas filosóficas(Metafísica, Ontologia, Gnosiologia, Metodologia, Ética, Estética, etc), mas também a discipli-nas científicas de caráter ou fundamento teórico (Matemática, Geometria, Economia, Física,Psicologia, etc), em cuja abordagem os verbetes do Dicionário limitam-se a distinguir asdiversas fases conceituais pelas quais a disciplina passou ou as diversas linhas que ela oferececomo alternativas de pesquisa ou de interpretação. 3. — Para os termos que se referem a conceitos complexos ou problemáticos, ou quetiveram ou têm interpretações diversas, foi adotado o seguinte procedimento: A) Demos deinício, quando possível, o significado geral ou generalizado ao qual podem ser reduzidostodos os significados encontráveis, ou a maioria deles; E) distinguimos e agrupamos empoucas categorias estes últimos significados; O cada categoria de significado foi ilustradacom citações de textos. Tivemos o cuidado de fazer com que os significados fundamentaisfossem distinguidos e formulados de modo que incluíssem o maior número possível designificados encontráveis. 4. — O Dicionário tem, como qualquer outro Dicionário lingüístico, uma base essen-cialmente histórica: isso mostra quais foram e quais são os usos de um termo na linguagemfilosófica ocidental e também, se for o caso, relaciona-os com seu uso na linguagem comum.As ambigüidades de significado foram cuidadosamente registradas. Quando foi possívelfazê-lo sem demasiado arbítrio, indicamos o modo de evitar tais ambigüidades. 5. — Foram utilizadas abreviações para os títulos das obras citadas com maior freqüên-cia (ver a lista apresentada nas páginas seguintes). Para as obras clássicas, utilizamos ossistemas de citação adotados correntemente pelos estudiosos. Sempre que possível, indica-mos, das obras citadas, a parte ou volume, o capítulo e o parágrafo, além da página, paratornar a citação independente das diversas edições ou traduções existentes. 6. — Os verbetes assinados pelas iniciais G. P. são da autoria do professor Giulio Preti,da Universidade de Florença.
  • 4. LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURASAristóteles (384-322 a.C.) Boécio (c. 480-c. 526)An.post. = Analayticaposteriora, ed. Ross, 1949- Phil. cons. = Phüosophiae consolationís libri V, 524.An. pr. = Analyticapriora, ed. Ross, 1949-Cat. = Categoriae, ed. Minio-Paluello, 1949. Campanella (1568-1639)De cael. = De caelo, ed. Allan, 1936. Phil. rat. = Philosophia rationalis, 1638.Degen. an. = De generatione animalium, ed. Cícero (106-43 a.C.) Bekker, 1831. Acad. = Academicontm reliquiae cum Lucullo,Depart. an. = departibusanimalum, ed. Becker, ed. Plasberg, 1923. 1831. De divin. = De divinatione, ed. Plasberg e Ax,El. sof. = De sohphisticis elenchis, ed. Bekker, 1965. 1831. De finibus = De finibus bonorum et malorum,Et. eud. = Ethica eudemia, ed. Susemihl, 1879. ed. Shiche, 1915.Et. nic. = Ethica nicomachea, ed. Bywather 1957. De leg. = De legibus, ed. Mueller, 1897.Eis. = Physícorum Hhri VIII, ed. Ross, 1950. De nat. deor. = De natura deorum, ed. PlasbergMet. = Metaphysica, ed. Ross, 1924. 1933.Poet. = De arte poética, ed. Bywather, 1953. De off. = De officis, ed. Atzert, 1932.Pol. = Política, ed. Newman, 1887-1902. De rep. = De republica, ed. Castiglioni, 1947.Ret. = Rethorica, ed. Bekker, 1831. Top. = Tópica, ed. Klotz, 1883.Top. = Topicorum libri VIII, ed. Bekker, 1831. Tusc. = Tusculanae disputationes, ed. Pohlenz, 1938.Arnauld (1612-1694)log. = La logíque ou lart depenser, 1662, in Descartes (1596-1650) CEuvres Phüosophiques, 1893. Discours = Discours de Ia mêthode, 1637.Aulo Géllio (c. 122-c. 180) Méd. = Méditations touchant Iapremièrephilo-Noct. Att. = Noctes Attícae, ed. Hertz e Hosius, sophie, 1641. Pass. de Vârne = Passions de Vâme, 1649. 1903. Princ.phil. = Principia philosophiae, 1644.Bacon (1561-1626)Nov. Org. = Novum Organum, 1620. Diels (1848-1922)Deaugtn. scient. = De augmentis scientiarum, DIELS = Die Fragmente der Vorsokratiker, 5a 1623. ed., 1934. A letra A refere-se aos testemu- nhos, a letra B aos fragmentos; o númeroBergson (1859-1941) é sempre o que foi dado por Diels em suaÉvol. créatr. = Évolution créatrice, 1907, 8a ed., classificação. 1911.Deux sources = Deux sources de Ia morale et de Diógenes Laércio (séc. III d.C.) Ia religion, 1932; trad. it. M. Vinciguerra, DIOG. L. = Vitae etplacíta philosophorum, ed. Milano, 1947. Cobet, 1878.
  • 5. LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURASDunsScot (1265-1308) Inq. Cone. Underst. = Inquiry ConcerningRep. Par. = Reportata Parisiensía, in Opera, ed. Human Understanding, 1748. Wadding, vol. Xi, 1639- Treatise = A Treatise of Human Nature, 1738;Op. Ox. = Opus Oxoniense, nelle Opere, ed. de ed. Selby-Bigge, 1888. L. Wadding, vol. V-X. As partes desta obra publicadas sob o título de Ordinatio nos Husserl (1859-1938) quatro primeiros volumes da Opera omnia, ldeen, I, II, III = Ideen zu einer reinen em ed. org. pela Commissione Vaticana em Phãnomenologie u ndphãnomenologischen 1950, foram citadas no texto seguido nesta Philosophie, I, II, III, 1950, 1951, 1952. última edição. Cart.Med.= Cartesianische Meditationen, 1950. Krisis - Die Krisis der europãischen Wissens-Fichte (1762-1814) chaften unddie transzendentalePhãnome-Wissenschaftslehre = Grundlagedergesammten nologie, 1954. Wissenschaftslehre, 1794, in Werke, org. pelo filho I. H."Fichte, 8 vols., 1845-46. Jaspers (1883-1969) Também as outras obras de Fichte são cita- das (salvo advertência em contrário) por essa Phil. = Philosophie, 3 vols., 1932; 3a ed., 1956. edição ou pela das Machgelassene Werke, org. também pelo filho, 1834-35 (citadas no Kant (1724-1804) texto como Werke, IX, X, XI). Antr. = Anthropologie inpragmatischerHinsicht, 1798.Ficino (1433-1499) Crít do JUÍZO = Kritik der Urteilskraft, 1790.Theol. Plat. = Theologia Platônica, in Opera, 1561. Crít. R. Prática Kritik derpraktischen Vernunft,In Conv. Plat. de Am. Comm. = In Convivium 1787. PlatonisdeAmore Commentarium, íbidem. Crít. R. Pura = Kritik der reinen Vernunft, Ia ed., 1781; 2a ed., 1787. As citações referem-Fílon (c. 20 a.C.-c. 50 d.C.) se à 2- ed., salvo indicação em contrário.Ali. leg. =Allegoria legis, ed. Colson e Whitaker, Met. derSitten = Metaphysik der Sitten, 1797. 1929-62. Prol. = Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik, die ais Wissenschaft wird auf-Hegel (1770-1831) treten kónnen, 1783-Ene. = Encyklopãdie derphilosophischen Wis- Religion = Die Religion innerhalb der Grenzen senschaften im Grundrisse, 2- ed., 1827; ed. der blossen Vernunft, 1793. Lasson, 1950. Nas citações desta obra tam- Às vezes são indicadas entre colchetes as bém foi consultada a versão italiana de B. páginas segundo a edição da Academia Croce, Bari, 1906. Prussiana. Nesse caso, no que diz respeito àFil. do dir. = Grundlinien der Philosophie des Crítica da Razão Pura, indica-se com A a 1 - Rechts, 1821. edição e com B a segunda,Phãnomen. des Geistes = Phãnomenologie des Geistes, 1807. Kierkegaard (1813-1855) Quando não é dada outra indicação, as obras Werke = Gesammelte Werke, trad. ted. E. Hirsch, de Hegel são citadas na edição original: 1957 ss. Werke, Volstãndige Ausgabe, 1832-45. Leibniz (1646-1716)Hobbes (1588-1679) Disc. demét. = Discoursdemétaphysique, 1686,Decorp. = De corpore, 1655.De bom. = De homine, 1658 ed. Lestienée, 1929.Leviath. = Leviathan, 1651. Monad. = Monadologie, 1714. Nouv. ess. = Nouveaux essaissur 1entendementHume (1711-1776) humain, 1703.Inq. Cone. Morais = Inquiry Concerning the Théod. = Essais de Théodicée sur Ia bonté de Principies ofMorais, 1752; ed. Greene Grose, Dieu, Ia liberte de Vhomme et Vorígine du 1879; nova ed., 1912. mal, 1710.
  • 6. LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURAS XI As duas obras precedentes e muitos outros Ap, = Apologia Socratis. escritos de Leibniz são citados de Opera Carm. = Charmides. Phüosophica, ed. Erdmann, 1840. Também Conv. = Symposium. são citadas as duas coletâneas: Mathematische Crat. = Cratylus. Schriften, ed. Gerhardt, 7 vols., 1849-63; Crit. = Crito. Philosophische Schriften, ed. Gerhardt, 7 vols., Critia = Critias. 1875-90. Def. = Definitiones. Ep, = Epistulae.Locke (1632-1704) Eutid. = Euthydemus.Saggio = An Essay conceming Human Un- Eed. = Phaedo. EU. = Philebus. derstanding, 1690; ed. Fraser, 1894; trad. it. Gorg. = Gorgias. C. Pellízzí, Bari, 1951. lon. = Lone. Lach. = Laches.Lucrécio (c. 96-c. 53 a.C.) Leggi = Leges.Derer. nat. =Dererum natura, ed. Bailey, 1947. Men. = Menon. Parm. = Parmenides.MillJ. S. (1806-1873) Pol. = Politicus.Logic = System of Logic Ratiocinative and Prot. = Protagoras. Inductive, 1843. Rep. = Respublica, ed. Chambry, 1932. Sof. = Sophista.Nicolau de Cusa (1401-1464) Teet. = feaethetus.De docta ignor. = De docta ignorantia, 1440. Tim. = Timaeus. Os textos são citados na edição de Burnet,Ockham (c. 1280-c. 1349) 1899-1906.In Sent. = Quaestiones in LVlibros Sententiarum, 1495. Plotino (205-270) Enn. = Enneades, ed. Bréhier, 1924.Orígenes (c. 185-c. 253)Deprinc. = De principiis. Santo Agostinho (354-430)Injohann. = Lnjobannem. De civ. Dei = De civitate Dei. Conf. = Confessionum libri XIII.Pascal (1623-1662)Pensées (os números referem-se à ordem da Santo Tomás de Aquino (1225-1274) ed. Brunschvicg). S. Th. = Summa Theologiae, ed. Caramello,P. G. = MIGNE, Patrologia graeca, o primeiro Torino, 1950. Contra Gent. = Summa contra Gentiles, Torino, número indica o volume. 1938.P. L. = MIGNE, Patrologia latina, o primeiro nú- De ver. = Quaestiones disputatae de veritate, mero indica o volume. Torino, 1931.Pedro Hispano (Papa João XXI, c. 1220-1277) Scheler (1874-1928)Summ. log. = Summulae logicales, ed. Bo- Formalismus = Formalismus in der Ethik und nhenski, 1947 die materiale Wertethik, 1913-16. Sympatbie= Wesen undFormen der SympathiePeirce 1839-1914) 1923; trad. franc. Lefebvre, 1928.Coll. Pap, = Collected Papers, vols. I-VI, ed. Hartshorne e Weiss, 1931-35; vols. VII-VIII, Schelling (1775-1854) ed. Burks, 1958. Werke = Sãmmtliche Werke, organizada pelo filho K. F. A. Schelling: I série (obras já edita-Platão (c. 427-c. 347 a.C.) das), 10 vols.; II série (obras inéditas), 4Ale, I, II = Alcibiades, I, II. vols., 1.856 ss.
  • 7. XII LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURASSchopenhauer (1788-1860) Stobeo (séc. V)Die Welt = Die Welt ais Wille und Vorstellung, Ed. = Eclogaephysicaeetethicae, ed. Wachsmuth 1819; 2a ed., 1844; trad. it. P. Savi-Lopez e e Hense, 1884-1923. G. De Lorenzo, Bari, 1914-30. Spinoza Et. = Ethica more geométrico demonstrata, 1677,Scotus Erigena (séc. D0 in Opera, ed. Wachsmuth e Hense, 1884-1923.De divis, nat. = De divisione naturae, nella P. L, 122. Telésio (1509-1588) De rer. nat. = De rerum natura iuxta própria principia, I-II, 1565; III-IX, 1586; ed. Spam-Sêneca (12 a.C-65 d.C.) panato, 1910-23.Ep. = Epistulae moralesadLucilium, ed. Beltrami, 1931; trad. it. U. Boella, Torino, 1951. Wittgenstein (1889-1951) Tractatus= Tractatns logicophilosophicus, 1922.Sexto Empírico (180-220.)Adv. math. = Adversus mathematicos, ed. Mau, Wolff (1679-1754) 1954. Cosm. = Cosmologia generalis, 1731-Pirr. hyp. = Pirroneion hypotyposeon libri três, Log. = Philosophia rationalis, siveLógica, 1728. ed. Mutschmann, 1912. Ont. = Philosophia prima sive Ontologia, 1729. Outras abreviaturas não estão registradas acima porque ou são de uso corrente entre osestudiosos, ou são de compreensão imediata, como Ap., para Apêndice; Fil. para Filosofia;Phil. para Philosophie ou Philosophy; Intr. para Introdução; Schol. para scholium; etc.
  • 8. A A. 1. Foi Aristóteles quem usou pela primei- § 1). Durante muito tempo essa fórmula expri-ra vez, particularmente em Analíticos, as pri- miu o princípio de identidade e, ao mesmomeiras letras maiúsculas do alfabeto, A, B, F, tempo, constituiu um tipo de verdade absoluta-para indicar os três termos de um silogismo. mente indubitável. Diz Boutroux: "O princípioTodavia, como na sua sintaxe o predicado é de identidade pode ser assim expresso: A é A.posto antes do sujeito (A vnáp%ti tco B, "A é Não digo o Ser, mas simplesmente A, isto é,inerente [ou pertence] a B"), em geral em Ana- qualquer coisa, absolutamente qualquer, susce-líticos os sujeitos são B e L. Na Lógica da Idade tível de ser concebida, etc." (De 1idée de loiModerna, com o costume de se escrever "A est naturelle, 1895, p. 12).B", A tornou-se normalmente o símbolo do 5. No simbolismo de Lukasiewicz a letra "A"sujeito. é usada como o símbolo da disjunção para a 2. A partir dos tratadistas escolásticos (ao qual se emprega mais comumente o símboloque parece, de Introductiones de Guilherme "V" (cf. A. CHURCH, Introduction to Mathema-de Shyreswood, séc. XIII), a letra A é usada na tical Logic, nota 91).Lógica formal "aristotélica" como símbolo da ABALIEDADE. V. ASF.IDADE.proposição universal afirmativa (v.), segundoos conhecidos versos que chegaram até nós em ABDERITISMO (ai. Abderitismus). Assimvárias redações. Nas Summulae de Pedro His- Kant designou a concepção que considera quepano (ed. Bochenski, 1. 21), lê-se: a história não está em progresso nem em re- A affirmat, negat E, sed universaliter gresso, mas sempre no mesmo estado. Desteambae, ponto de vista, a história humana não teria I affirmat, negat O, sed particulariter mais significado do que a de qualquer espécieambae. animal; seria apenas mais penosa (Se o gênero 3. Na lógica modal tradicional, a letra A de- humano esta em constante progresso para osigna a proposição modal que consiste na melhor, 1798).afirmação do modo e na afirmação da propo- ABDUÇÃO (gr. ànayorfí]; lat. Keductio; in.sição. P. ex.: "É possível que p" onde p é uma Abduction; fr. Abduction; ai. Abduction; it.proposição afirmativa qualquer (ARNAULD, Log., Abduzioné). É um processo de prova indireta,II, 8). semidemonstrativa (teorizado por Aristóteles 4. Na fórmula "A é A" ou "A=A", que come- em Top., VIII, 5, 159 b 8, e 160 a 11 ss.; An.pr,çou a ser usada com Leibniz como tipo das ver- II, 25, 69 a 20 ss.), em que a premissa maior édades idênticas e foi adotada depois por Wolff evidente, porém a menor é só provável ou dee por Kant como expressão do chamado prin- qualquer forma mais facilmente aceita pelocípio de identidade (v.), A significa um objeto interlocutor do que a conclusão que se querou um conceito qualquer. Fichte dizia: "Todos demonstrar. Embora se trate de um processoconcordam que a proposição A é A (assim mais dialético do que apodítico, já fora admiti-como A=A porque este é o significado da có- do por Platão (cf. Men., 86 ss.) para a matemá-pula lógica) e, de fato, não é preciso pensar tica, e também será sancionado como um dosmuito para reconhecê-la como plenamente cer- métodos de demonstração matemática porta e indubitável" (Wissenschaftslehre, 1794, Proclo (In Eucl, 212, 24).
  • 9. ABERTO ABSOLUTISMO Peirce introduziu o termo abduction (ou mim, salvá-la-á". Por isso nos Evangelhos, aretroductíon) para indicar o primeiro momento noção de abnegação não é uma noção de mo-do processo indutivo, o da escolha de uma ral ascética, mas exprime o ato da renovaçãohipótese que possa servir para explicar determi- cristã, pelo qual da negação do homem velhonados fatos empíricos (Coll. Pap., 2.643). nasce o homem novo ou espiritual. ABERTO (in. Open; fr. Oiwert; it. Aperto). ABSOLUTISMO (in. Absolutisni; fr. Absolu-Adjetivo empregado freqüentemente em sen- tisme, ai. Absolutismus; it. Assolutismo). Termotido metafórico na linguagem comum e filo- cunhado na primeira metade do séc. XVIII para sófica para indicar atitudes ou instituições que indicar toda doutrina que defenda o "poder ab- admitem a possibilidade de participação ou co- soluto" ou a "soberania absoluta" do Estado. No municação ampla ou até mesmo universal. Um seu sentido político original, esse termo agora "espírito aberto" é um espírito acessível a su- designa: le o A. utopista de Platão em Repú-gestões, conselhos, críticas que lhe vêm dos blica; 2- o A. papal afirmado por Gregório VII outros ou da própria situação e que está dis- e por Bonifácio VIII, que reivindica para o Papa,posto a levar em conta, isto é, sem preconcei- como representante de Deus sobre a Terra, atos, tais sugestões. Uma "sociedade aberta" é plenitudopotestatis, isto é, a soberania absolutauma sociedade que possibilita a correção de sobre todos os homens, inclusive os príncipes,suas instituições por vias pacíficas (K. POPPER, os reis e o imperador; 3Q o A. monárquico doThe Open Society and it Enemies, Londres, séc. XVI, cujo defensor é Hobbes; 4B o A. demo-1945). Bergson deu o nome de sociedade aber- crático, teorizado por Rousseau no Contrato so-ta àquela que "abraça a humanidade inteira" cial, por Marx e pelos escritores marxistas como(Deux sources, 1932,1; trad. ital., p. 28). C. Morris "ditadura do proletariado". Todas essas formasfalou de um "eu aberto" (The Open Self, 1948), do A. defendem igualmente, embora com moti-A. Capitini de uma "religião aberta" (Religione vos ou fundamentos vários, a exigência de queaperta, 1955). o poder estatal seja exercido sem limitações ou AB ESSE AD POSSE. É uma das consequen- restrições. A exigência oposta, própria do libe-tiaeformales (v. CONSEQÜÊNCIA) da Lógica Esco- ralismo (v.), é a que prescreve limites e restri-lástica; ab esse ad posse valet (tenef) con- ções para o poder estatal.sequentia, ou, com maior rigor, ab Ma de inesse No uso filosófico corrente, esse termo nãovalet (tenet) Ma depossibili; isto é: de "p é ver- se restringe mais a indicar determinada doutri-dadeira" segue-se que "p é possível". G. P. na política, mas estende-se à designação de AB INVTDIA. Assim Wolff denomina "as ra- toda e qualquer pretensão doutrinai ou práticazões com as quais se provoca ódio contra as ao absoluto, em qualquer campo que seja con-opiniões dos outros" (Log., § 1.049). É o assunto siderado. Diz, p. ex., Reiehenbach (The Theorypreferido pelos "perseguidores", isto é, por of Probabílíty, p. 378): "Devemos renunciar aaqueles "que, com o pretexto de defender a todos os resíduos do A. para compreender overdade, procuram levar os adversários ao pe- significado da interpretação, em termos de fre-rigo de perderem a fama, a fortuna ou a vida" qüência, de uma asserção de probabilidade em(Ibid., § 1.051). torno de um caso individual. Não há lugar para ABISSAL, PSICOLOGIA. V. PSICOLOGIA, E. o A. na teoria das asserções de probabilidade ABNEGAÇÃO (gr. à7rápvr|Oiç; lat. Abnega- referentes à realidade física. Tais asserções sãotio-, in. Self-denial; fr. Abnégation; ai. Verleu- usadas como regras de conduta, como regrasgnung- it. Abnegacione). É a negação de si que determinam a conduta mais eficaz emmesmo e a disposição de pôr-se a serviço dos dado estágio do conhecimento. Quem quiseroutros ou de Deus, com o sacrifício dos pró- encontrar algo a mais nessas asserções des-prios interesses. Assim é descrita essa noção no cobrirá no fim que perseguiu uma quimera". O A.Evangelho (Mat., XVI, 24; Luc, IX, 23): "Se al- filosófico não é tanto de quem fala do Absolutoguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, ou de quem lhe reconhece a existência, mas dee tome cada dia a sua cruz". Essa negação de si quem afirma que o próprio absoluto apoia suasmesmo, porém, não é a perda de si mesmo, palavras e lhes dá a garantia incondicional de ve-mas, antes, o reencontro do verdadeiro "si racidade. Nesse sentido, o protótipo do A.mesmo", como se explica no versículo seguin- doutrinai é o Idealismo romântico, segundo ote: "pois quem quiser conservar a sua vida, qual, na filosofia, não é o filósofo como ho-perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por mem que se manifesta e fala, mas o próprio
  • 10. ABSOLUTO ABSOLUTOAbsoluto que chega à sua consciência e se ma- A grande voga filosófica desse termo deve-nifesta. se ao Romantismo. Fichte fala de uma "dedu- ABSOLUTO (in. Absolute; fr. Absolu; ai. ção A.", de "atividade A.", de "saber A.", de "re-Absoluto; it. Assoluto). O termo latino absolutas flexão A.", de "Eu A.", para indicar, com esta(desligado de, destacado de, isto é, livre de última expressão, o Eu infinito, criador dotoda relação, independente) provavelmente mundo. E na segunda fase de sua filosofia,corresponde ao significado do termo grego quando procura interpretar o Eu como Deus,kath auto (ou por si) a propósito do qual diz usa a palavra de modo tão abusivo que beira oAristóteles: "Por si mesmo e enquanto ele mes- ridículo: "O A. é absolutamente aquilo que é,mo ésignificam a mesma coisa; p. ex.: o ponto repousa sobre si e em si mesmo absolutamen-e a noção de reta pertencem à linha por si por- te", "Ele é o que é absolutamente porque é porque pertencem à linha enquanto linha" (An. si mesmo... porque junto ao A. não permanecepost., I, 4, 73 b 30 ss.). Nesse sentido, essa nada de estranho, mas esvai-se tudo o que nãopalavra qualificaria uma determinação que per- é o A." (Wissenschaftslehre, 1801, §§ 5 e 8;tence a uma coisa pela própria substância ou Werke, II, pp. 12, 16). A mesma exageraçãoessência da coisa, portanto, intrinsecamente. dessa palavra acha-se em Schelling, que, assimEsse é um dos dois significados da palavra dis- como Fichte da segunda maneira, emprega,tinguidos por Kant, o que ele considera mais além disso, o substantivo "A." para designar odifundido, mas menos preciso. Nesse sentido, princípio infinito da realidade, isto é, Deus. O"absolutamente possível" significa possível "em mesmo uso da palavra reaparece em Hegel,si mesmo" ou "intrinsecamente" possível. Des- para quem, como para Fichte e Schelling, o A.se significado Kant distingue o outro, que con- é, ao mesmo tempo, o objeto e o sujeito dasidera preferível, segundo o qual essa palavra filosofia e, embora definido de várias formas,significaria "sob qualquer relação"; nesse caso, permanece caracterizado pela sua infinida-"absolutamente possível" significaria possível de positiva no sentido de estar além de to-sob todos os aspectos ou sob todas as relações da realidade finita e de compreender em si(Crít. R. Pura, Dial. transe, Conceitos da razão toda realidade finita. O princípio formulado napura, seç. II). Fenomenologia (Pref.) de que "o A. é essen- Esses dois significados se mantêm ainda no cialmente o resultado" e de que "só no fim estáuso genérico dessa palavra, mas o segundo o que é em verdade" leva Hegel a chamar deprevalece, talvez por ser menos dogmático e Espírito A. os graus últimos da realidade, aque-não fazer apelo ao misterioso em si ou à natu- les em que ela se revela a si mesma comoreza intrínseca das coisas. P. ex., dizer "Isto é Princípio autoconsciente infinito na religião, naabsolutamente verdadeiro" pode eqüivaler a arte e na filosofia. O Romantismo fixou assim odizer "Esta proposição contém em si mesma uso dessa palavra tanto como adjetivo quantouma garantia de verdade"; rna.s pode também como substantivo. Segundo esse uso, a pala-querer dizer "Esta proposição foi amplamente vra significa "sem restrições", "sem limitações",verificada e nada há ainda que possa provar "sem condições"; e como substantivo significaque ela é falsa"; este segundo significado é a Realidade que é desprovida de limites oumenos dogmático do que o primeiro. Assim, condições, a Realidade Suprema, o "Espírito"responder "Absolutamente não" a uma pergunta ou "Deus". Já Leibniz dissera: "O verdadeiro in-ou a um pedido significa simplesmente avisar finito, a rigor, nada mais é que o A." (Nouv. ess.,que este "não" está solidamente apoiado por II, 17, § 1). E na realidade esse termo pode serboas razões e será mantido. Esses usos comuns considerado sinônimo de "Infinito" (v.). Em vis-do termo correspondem ao uso filosófico que, ta da posição central que a noção de infinitogenericamente, é o de "sem limites", "sem res- ocupa no Romantismo (v.), entende-se por quetrições", e portanto "ilimitado" ou "infinito". esse sinônimo foi acolhido e muito utilizado noMuito provavelmente a difusão dessa palavra, período romântico. Na França, essa palavra foique tem início no séc. XVIII (embora tenha importada por Cousin, cujos vínculos com osido Nicolau de Cusa que definiu Deus como o Romantismo alemão são conhecidos. Na In-A., De docta ignor, II, 9), é devida à lingua- glaterra, foi introduzida por William Hamilton,gem política e a expressões como "poder A.", cujo primeiro livro foi um estudo sobre a Filo-"monarquia A.", etc, nas quais a palavra signi- sofia de Cousin (1829); e essa noção tornou-sefica claramente "sem restrições" ou "ilimitado". a base das discussões sobre a cognoscibilida-
  • 11. ABSORÇÃO, LEI DE ABSTRAÇÃOde de A., iniciadas por Hamilton e Mansel e it. Astrazionè). É a operação mediante a qualcontinuadas pelo evolucionismo positivista alguma coisa é escolhida como objeto de per-(Spencer, etc), que, assim como esses dois cepção, atenção, observação, consideração,pensadores, afirmou a existência e, ao mesmo pesquisa, estudo, etc, e isolada de outras coi-tempo, a incognoscibilidade do Absoluto. Na sas com que está em uma relação qualquer. Afilosofia contemporânea, essa palavra foi am- A. tem dois aspectos: l2 isolar a coisa previa-plamente usada pela corrente que estava mais mente escolhida das demais com que está rela-estreitamente ligada ao Idealismo romântico, cionada (o abstrair de); 2- assumir como objetoisto é, pelo Idealismo anglo-americano (Green, específico de consideração o que foi assim iso-Bradley, Royce) e italiano (Gentile, Croce), lado (A. seletiva ou prescindente). Esses doispara designar a Consciência infinita ou o Espíri- significados já foram distinguidos por Kantto infinito. (Logik, § 6), que, porém, pretendia reduzir a A. Essa palavra permanece, portanto, ligada a somente à primeira dessas formas.uma fase determinada do pensamento filosófi- A A. é inerente a qualquer procedimentoco, mais precisamente à concepção romântica cognoscitivo e pode servir para descrever tododo Infinito, que compreende e resolve em si processo desse gênero. Com tal finalidade foitoda realidade finita e não é, por isso, limitado utilizada desde a Antigüidade. Aristóteles expli-ou condicionado por nada, nada tendo fora de ca com a A. a formação das ciências teoréticas,si que possa limitá-lo ou condicioná-lo. No seu isto é, da matemática, da física e da filosofiauso comum, assim como no filosófico, esse pura. "O matemático", diz ele, "despoja as coi-termo continua significando o estado daquilo sas de todas as qualidades sensíveis (peso, le-que, a qualquer título, é desprovido de condi- veza, dureza, etc.) e as reduz à quantidadeções e de limites, ou (como substantivo) aquiloque se realiza a si mesmo de modo necessário e descontínua e contínua; o físico prescinde deinfalível. todas as determinações do ser que não se redu- zam ao movimento. Analogamente, o filósofo ABSORÇÃO, LEI DE (in. Law of absorption; despoja o ser de todas as determinações parti-fr. Loi dabsorption; it. Leggi di assorbimen- culares (quantidade, movimento, etc.) e limita-to). Com esse nome designam-se na Lógica se a considerá-lo só enquanto ser" (Met., XI, 3,contemporânea os dois teoremas da álgebradas proposições: 1.061 a 28 ss.). O processo todo do conhecer pode ser, segundo Aristóteles, descrito com a A.: "O conhecimento sensível consiste em assu- prpq = p; p(.prq)=p, mir as formas sensíveis sem a matéria assim como a cera assume a marca do sinete sem oe os dois teoremas correspondentes da álge- ferro ou o ouro de que ele é composto" (Debra das classes: an., II, 12, 424 a 18). E o conhecimento intelec- tual recebe as formas inteligíveis abstraindo-as a xab =a; a (arb) = a. das formas sensíveis em que estão presentes (ibid., III, 7, 431 ss.). S. Tomás reduz o conheci- A A. é, nessas expressões, a possibilidade mento intelectual à operação de A.: abstrair alógica de substituir-sep porpvpq ou porp(/>r) forma da matéria individual e assim extrair oq) nas primeiras expressões; ou a por a r ab universal do particular, a espécie inteligível dasou por a(ar b) nas segundas expressões. (Cf. imagens singulares. Assim como podemos con-CHURCH, Intr. toMathematicalLogic, 15, 8). Fora siderar a cor de um fruto prescindindo do fruto,da linguagem da lógica, essa lei significa que, sem por isso afirmar que ela existe separada-se um conceito implica outro, ele absorve este mente do fruto, também podemos conhecer asoutro, no sentido de que a asserção simultânea formas ou as espécies universais do homem,dos dois eqüivale à asserção do primeiro e do cavalo, da pedra, etc, prescindindo dospode ser, portanto, substituída pela asserção princípios individuais a que estão unidas, masdeste toda vez que ela reapareça. Cf. TAU- sem afirmar que existem separadamente des-TOLOGIA. tes. A A., por isso, não falsifica a realidade, mas ABSTRAÇÃO (gr. àípccípeaiç; lat. Abstractia, só possibilita a consideração separada da for-in. Abstraction; fr. Abstraction; ai. Abstraktion; ma e, com isso, o conhecimento intelectual hu-
  • 12. ABSTRAÇÃO ABSTRAÇÃOmano (S. Th., I, q. 85, a. 1). Esses conceitos, ou análises, todavia, não negam a A., mas a suaconceitos afins, repetem-se em toda a Es- noção psicológica em favor do seu conceito ló-colástica. A Lógica de Port-Royal (I, 4) resumiu gico-simbólico. A A. não é o ato pelo qual o es-muito bem o pensamento da Escolástica e a es- pírito pensa certas idéias separadamente detreita conexão do processo abstrativo com a outras; é, antes, a função simbólica de certasnatureza do homem, dizendo: "A limitação da representações particulares. Kant, porém, su-nossa mente faz que não possamos compreen- blinha a importância da A. no sentido tradicio-der as coisas compostas senão considerando-as nal, pondo-a ao lado da atenção como um dosnas suas partes e contemplando as faces diver- atos ordinários do espírito e sublinhando a suasas com que elas se nos apresentam: isto é o função de separar uma representação, de queque geralmente se costuma chamar conhecer se está consciente, das outras com que ela estápor A.". ligada na consciência. Embora ele exemplifique Locke foi o primeiro a evidenciar a estreita de modo curioso a importância desse ato ("Mui-conexão entre o processo de A. e a função sim- tos homens são infelizes porque não sabembólica da linguagem. "Mediante a A.", diz ele, abstrair". "Um celibatário poderia fazer bom"as idéias extraídas de seres particulares tor- casamento se soubesse abstrair a partir de umanam-se representantes gerais de todos os obje- verruga do rosto ou a partir da falta de umtos da mesma espécie e os seus nomes tornam- dente de sua amada" [Antr., § 31), é claro que ose nomes gerais, aplicáveis a tudo o que existe procedimento todo de Kant, que tem por fime está conforme com tais idéias abstratas... As- isolar (isolieren) os elementos do conhecimento,sim, observando-se hoje no gesso ou na neve apriori, ou da atividade humana, em geral, éa mesma cor que ontem foi observada no leite, um procedimento abstrativo. Diz ele, por ex.:considera-se só esse aspecto e faz-se com ele a "Em uma lógica transcendental, nós isolamos orepresentação de todas as outras idéias da mes- intelecto (como acima, na Estética transcen-ma espécie; e dando-se o nome brancura, dental, a sensibilidade) e extraímos de todo ocom este som significa-se a mesma qualidade, nosso conhecimento só a parte do pensamen-onde quer que ela venha a ser imaginada ou to que tem origem unicamente no intelecto"encontrada; e assim são compostos os univer- (Crít. R. Pura, Div. da Lóg. transcend.).sais, quer se trate de idéias, quer se trate de Com Hegel, assiste-se ao estranho fenômenotermos" (Ensaio, II, 11, § 9). Baseando-se nes- da supervalorização da A. e da desvalorizaçãosas observações de Locke, Berkeley chegou à do abstrato. Hegel opõe-se à opinião de quenegação da idéia abstrata e da própria função abstrair significa somente extrair do concreto,da abstração. Nega, em outros termos, que o para proveito subjetivo, esta ou aquela nota quehomem possa abstrair a idéia da cor das cores, constitua o conceito, entre outras que todaviaa idéia do homem dos homens, etc. Não há, de permaneceriam reais e válidas fora do conceito,fato, a idéia de um homem que não tenha ne- na própria realidade. "O pensamento abs-nhuma característica particular, assim como traente", diz ele, "não pode ser consideradonão há, na realidade, um homem desse gênero. como pôr à parte a matéria sensível que nãoAs idéias gerais não são idéias desprovidas de seria prejudicada por isso em sua realidade; é,caráter particular (isto é, "abstratas"), mas idéias antes, superar e reduzir essa matéria, que é sim-particulares assumidas como signos de um gru- ples fenômeno, ao essencial, que só se ma-po de outras idéias particulares afins entre si. O nifesta no conceito" (Wissensch. der Logik, III,triângulo que um geômetra tem em mente para Do conceito em geral, trad. it., pp. 24-25). Odemonstrar um teorema não é um triângulo conceito a que se chega com a A. é, por isso, se-abstrato, mas um triângulo particular, p. ex., gundo Hegel, a própria realidade, aliás, a subs-isósceles; mas já que não se faz menção desse tância da realidade. Por outro lado, todavia, ocaráter particular durante a demonstração, o abstrato é considerado por Hegel como o que éteorema demonstrado vale para todos os triân- finito, imediato, não posto em relação com ogulos indistintamente, podendo cada um deles todo, não resolvido no devir da Idéia, e por issotomar o lugar do que foi considerado (Princ. of produto de uma perspectiva provisória e falaz.Hum. Know., Intr., § 16). Hume repetiu a análi- "O abstrato é o finito, o concreto é a verdade, ose negativa de Berkeley {Treatise, I, 1, 7). Tais objeto infinito" (Phil. derReligion, II, em Werke,
  • 13. ABSTRAÇÃO ABSTRATTVO, CONHECIMENTOed. Glockner, XVI, p. 226). "Somente o concreto às verdadeiras e próprias entidades abstratas,é o verdadeiro, o abstrato não é o verdadei- como p. ex., na matemática. "O fato mais co-ro" (Geschicbte der Phil, III, em Werke, ed. mum da percepção, como, p. ex., há luz, impli-Glockner, XIX, p. 99). Está claro, todavia, que ca A. prescindente ou prescindência. Mas a A.Hegel entende por abstrato aquilo que co- hipostática, que transforma há luz em há luzmumente se chama concreto — as coisas, os aqui, que é o sentido que dou comumente àobjetos particulares, as realidades singulares palavra A. (desde que prescindência indica a A.oferecidas ou testemunhadas pela experiência prescindente), é um modo especialíssimo do— enquanto chama de concreto o que o uso co- pensamento. Consiste em tomar certo aspectomum e filosófico sempre chamou de abstrato, de um objeto ou de vários objetos percebidosisto é, o conceito; e chama-o de concreto por- (depois que já foi pré-cindido dos outros as-que este constitui, para ele, a substância mesma pectos de tais objetos) e em exprimi-lo de formada realidade (conforme o seu princípio "Tudo proposicional com um juízo" (Coll. Pap., 4.235;o que é racional é real e tudo o que é real é ra- cf. 3.642; 5.304). Essa distinção que já fora ace-cional"). De qualquer forma, essa inversão de nada por James (Princ. ofPsychol, I. 243) esignificado permitiu que boa parte da filosofia aceita por Dewey {Logic, cap. 23; trad. it., pp.do séc. XIX se pronunciasse a favor do concreto 603-604) não impede que tanto a prescindênciae contra o abstrato, ainda quando o "concreto" quanto a A. hipostática sejam especificações dade que se tratava era, na realidade, uma simples função geral seletiva, que tradicionalmente foiA. filosófica. Gentile falava, p. ex., de uma "lógi- indicada pela palavra "abstração". Paul Valéryca do abstrato", ou do pensamento pensado, e insistiu poeticamente na importância da A. emde uma "lógica do concreto", ou do pensamen- todas as constaições humanas, logo tambémto pensante (Sistema di lógica, I, 1922, pp. 119 na arte: "Estou dizendo que o homem fabricass.). Croce falava da "concretitude" do conceito por A.; ignorando e esquecendo grande partecomo imanência deste nas representações sin- das qualidades daquilo que emprega, aplican-gulares e da "abstrateza" das noções considera- do-se somente a condições claras e distintasdas desligadas dos particulares ilógica, A- ed., que podem, via de regra, ser simultaneamente1920, p. 28). Bergson contrapôs constantemente satisfeitas não por uma, mas por muitas espé-o tempo "concreto" da consciência ao tempo cies de matérias" (Eupalinos, trad. ital., p. 134)."abstrato" da ciência e, de modo geral, o proce- ABSTRACIONISMO (in. Abstractionisni; fr.dimento da ciência que se vale de conceitos ou Abstractionnisme, ai. Abstraktionismus; it. As-símbolos, isto é, de "idéias abstratas ou gerais", trazionismo). Assim William James (The Mea-ao procedimento intuitivo ou simpático da filo- ning of Truth, 1909, cap. XIII) denominou osofia (cf., p. ex., Lapenséeet le mouvant, 3- ed., uso ilegítimo da abstração e em particular a1934, p. 210). Esses temas polêmicos foram tendência a considerar como reais os produtosbastante freqüentes na filosofia dos primeiros da abstração.decênios do nosso século. E certamente a polê- ABSTRATAS, CIÊNCIAS. V. CIÊNCIAS, CLASSI-mica contra a A. foi eficaz contra a tendência de FICAÇÃO DAS.entificar os produtos dela, isto é, de considerar ABSTRATAS, IDÉIAS. V. ABSTRAÇÃO.como substâncias ou realidades, entidades quenão têm outra função senão possibilitar a des- ABSTRATIVO, CONHECIMENTO (latcrição, a classificação e o uso de um complexo Cognitio abstractiva-, in. Abstractive knowledge,de dados. Mas, por outro lado, essa mesma po- fr. Connaissance abstractive, ai. Abstrahierendelêmica às vezes fez esquecer a função da A. em Erkenntniss; it. Conoscenza astrattiva). Termotodo tipo ou forma de atividade humana, en- que Duns Scot empregou de modo simétricoquanto tal atividade só pode operar através de e oposto ao de conhecimento intuitivo (cog-seleções abstrativas. Mach insistiu nessa função nitio intuitiva), para indicar uma das espé-da A. nas ciências, afirmando que ela é indis- cies fundamentais do conhecimento: a pri-pensável para a observação dos fenômenos, meira delas "abstrai de toda existência atual"para a descoberta, ou para a pesquisa dos prin- enquanto a segunda "se refere ao que existecípios (Erkenntniss undIrrtum, cap. VIII; trad. ou ao que está presente em certa existênciafr., pp. 146 ss.). A esse propósito foi oportuna- atual" (Op. Ox., II, d. 3, q. 9, n. 6). A distinçãomente distinguida por Peirce uma dupla função foi aceita por Durand de St. Pourçain (In Sent,da A.: a de operação seletiva e a que dá ensejo Prol, q. 3, F) e por Ockham, que, porém, a reinterpretou a seu modo, entendendo por co-
  • 14. ABSTRATOR ACADEMIAnhecimento intuitivo aquele mediante o qual se Em sentido mais restrito e preciso, essa pa-conhece com evidência a realidade ou a irrea- lavra significa "impossível" (adynatori) porquelidade de uma coisa ou de algum outro atributo contraditório. Nesse sentido, Aristóteles falavaempírico da própria coisa; portanto, em geral, de raciocínio por A. ou de redução ao A.: seria"toda noção simples de um termo ou de vários um raciocínio que assume como hipótese atermos de uma coisa ou de várias coisas, em vir- proposição contrária à condição que se quertude da qual se possa conhecer alguma verdade demonstrar e faz ver que de tal hipótese derivacontingente especial