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Apostila de Sociologia

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Apostila de sociologia geral, incluindo conceitos básicos como imaginação sociológica, processos sociais, controle social, estratificação, grupos e organizações formais.

Apostila de sociologia geral, incluindo conceitos básicos como imaginação sociológica, processos sociais, controle social, estratificação, grupos e organizações formais.

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  • 1. Apostila deSociologiaMarcelo Sabbatini Recife, 2013
  • 2. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 2.0 BrasilA OBRA (CONFORME DEFINIDA ABAIXO) É DISPONIBILIZADA DE ACORDOCOM OS TERMOS DESTA LICENÇA PÚBLICA CREATIVE COMMONS ("CCPL" OU"LICENÇA"). A OBRA É PROTEGIDA POR DIREITO AUTORAL E/OU OUTRAS LEISAPLICÁVEIS. QUALQUER USO DA OBRA QUE NÃO O AUTORIZADO SOB ESTALICENÇA OU PELA LEGISLAÇÃO AUTORAL É PROIBIDO.AO EXERCER QUAISQUER DOS DIREITOS À OBRA AQUI CONCEDIDOS, VOCÊACEITA E CONCORDA FICAR OBRIGADO NOS TERMOS DESTA LICENÇA. OLICENCIANTE CONCEDE A VOCÊ OS DIREITOS AQUI CONTIDOS EMCONTRAPARTIDA À SUA ACEITAÇÃO DESTES TERMOS E CONDIÇÕES. Você pode:  copiar, distribuir, exibir e executar a obra  criar obras derivadas Sob as seguintes condições: Atribuição. Você deve dar crédito ao autor original, da forma especificada pelo autor. Uso Não-Comercial. Você não pode utilizar esta obra com finalidades comerciais. Compartilhamento pela mesma Licença. Se você alterar, transformar, ou criar outra obra com base nesta, você somente poderá distribuir a obra resultante sob uma licença idêntica a esta.  Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros os termos da licença desta obra.  Qualquer uma destas condições podem ser renunciadas, desde que Você obtenha permissão do autor.Qualquer direito de uso legítimo (ou "fair use") concedido por lei, ou qualquer outro direito protegido pela legislação local, não são em hipótese alguma afetados pelo disposto acima. Este é um sumário para leigos da Licença Jurídica (na íntegra): http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/br/legalcode©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 2
  • 3. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniSobre o autorMarcelo Sabbatini Doutor em Teoria e História da Educação – Universidad de Salamanca (Espanha) em 2004. Pós-doutorado realizado no Programa de Extensão Rural e Desenvolvimento Local – POSMEX da Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2006. Mestre em Comunicação Social, modalidade Comunicação Científica e Tecnológica, Universidade Metodista de São Paulo, 2000. Especialista em Comunicação e Cultura Científica, Universidad de Salamanca, 1999. MBA em Administração de Empresas, foco em Gestão, Fundação Getúlio Vargas, 2009. Engenheiro químico, Universidade Estadual de Campinas, 1997. Página Web: http://marcelo.sabbatini.com Email: marcelo@sabbatini.com Facebook: https://www.facebook.com/marsabbatini Twitter: #marsabbatini©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 3
  • 4. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniSumário 1. Introdução à Sociologia. Conceito. A imaginação sociológica. “O Suicídio”. 2. Aula-exemplo: o estudo sociológico da sexualidade. 3. O surgimento da Sociologia no contexto histórico. A Revolução Industrial, as mudanças culturais no trabalho. 4. O pensamento sociológico moderno. Principais pensadores e linhas teóricas. A sociologia como conhecimento. 5. Status e papel social. Conflito de papéis. 6. Estratificação social. Mobilidade social. Classes sociais. Desigualdade social. 7. As relações e os processos sociais básicos. Isolamento, acomodação, assimilação, cooperação, competição e conflito. Socialização. 8. Controle social. Normas. Sanções. Desvio social. Marginalização e crime. 9. Mudança social. Teorias da mudança social. 10. Conceito de cultura. Sub-cultura. Contracultura. Símbolos. Aculturação. Etnocentrismo. Introdução à cultura organizacional. 11. Grupos sociais. Grupos primários e secundários. Grupo de fora e grupo de dentro. Grupos formais e informais. 12. Redes sociais e a teoria do mundo pequeno. Sociograma. 13. Institucionalização. Instituições sociais básicas. Introdução às organizações formais.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 4
  • 5. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini1 Introdução à Sociologia. Conceito. A imaginação sociológica. “O Suicídio”.Características que vamos buscar neste curso de Sociologia:  Sintonia com a realidade com exemplos de casos concretos, estudo da comunidade onde os alunos estão inseridos. Buscar as causas e propor soluções para os problemas sociais é a razão de ser da Sociologia.  Compreensão do ambiente social onde os alunos vivem e a função social da carreira que escolheram.  O mundo que muda (origem da sociologia na revolução industrial): mudanças no mundo hoje com a integração mundial e o desenvolvimento da tecnologia.  Uma relação entre o social e o pessoal, com a compreensão de si mesmo e do mundo social. Uma experiência libertadora!E algumas habilidades específicas a desenvolver:  Aprender como pensar, além de o quê pensar.  Desaprender algumas idéias familiares.  Aprender algumas novas idéias que nos acompanharão para o resto da vida.  Aprender a diferença entre crença (desejo) e realidade (o que realmente é).  Aprender que o senso comum (como forma de pensar) é limitado.  Aprender a reconhecer tendências históricas de longo prazo, não tomando o agora somente como a única perspectiva.  Aprender a valorizar-se como pessoa capaz de defender suas idéias.E por quê tudo isso? O trabalho sociológico, ao questionar os dogmas, ensinar-nos a apreciar a variedade cultura e nos permitir compreender o funcionamento das instituições sociais, aumenta as possibilidades da liberdade humana. Anthony Giddens©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 5
  • 6. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniMais especificamente na Sociologia Aplicada à Administração, nos concentraremos em:  Teorias sobre as relaciones sociais no trabalho  Problemas históricos relativos à industrialização, e sua prospectiva (o futuro)  Estudo das organizações como sistema social e dos papéis que a compõe  Problemas relacionados ao controle e a participação na empresa  Temas relativos ao contexto exterior no qual se desenvolve a atividade empresarial: conflitos, sociedades, lazer, meio cultural, econômico e social.Algumas definições  A Sociologia é o estudo da vida social humana, dos grupos e sociedades (Giddens)  É a ciência do comportamento coletivo (Park, Burgess)  A sociologia geral é, em conjunto, a teoria da vida humana em grupo (Tönnies)  A Sociologia pergunta o que acontece com os homens, quais as regras de seu comportamento, não no que se refere ao desenvolvimento perceptível de suas existências individuais como um todo, porém, na medida em que forma grupos e são influenciados, devido às interações, por sua vida grupal (Simmel). A Sociologia é um encontro com as Forças Sociais que moldam nossa vida, especialmente aquelas que afetam a nossa percepção (ou ignorância) de como criamos, mantemos e mudamos estas mesmas Forças Sociais ().Os pontos comuns destas definições são as relações humanas, do comportamento dohomem com os seus semelhantes.Mas é um estudo científico (sistemático e crítico) que busca a verdade “além dasaparências”.Historicamente, a sociologia foi vista tanto como “arma a serviço dos interessesdominantes” ou como “expressão teórica dos movimentos revolucionários”.De forma geral, a Sociologia também pode ser entendida como uma “tentativa dedialogar com a civilização capitalista”, relacionada então com um desejo de interferirno rumo da civilização (possuindo dimensão política, portanto) tanto para amanutenção ou alteração das relações de poder na sociedade.O pensamento sociológicoO chamado pensamento sociológico, exige cultivar a imaginação, colocar-se no lugar dooutro, liberar-se das circunstâncias pessoais e um distanciar-se do cotidiano.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 6
  • 7. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniSomente assim, o poderemos pensar na sociedade e em suas forças, sem estarmosinfluenciados por nossa própria experiência pessoal.Exemplo: quais são os significados sociológicos de tomar uma simples xícara de café?  Valor simbólico: tomar café como um ritual diário, “não me sinto gente até”  Valor bioquímico: cafeína  Relações sociais e econômicas: cultivo, preparação, distribuição, comercialização do café, afetando diversos grupos e culturas  Desenvolvimento social e econômico anterior, histórico. Processo de disseminação pelo mundo auxiliado pelo comércio internacional (século 19), hoje cultivado em países em desenvolvimentoPortanto, para passar do problema pessoal ao problema social, necessitamos do queCharles Wright Mill chamou a imaginação sociológica.ExemploPodemos pensar que um divórcio é motivado por razões puramente pessoais(emocionais, psicológicas): afastamento, incompatibilidade, ciúmes, traição, falta deconfiança, monotonia....Porém se pensarmos nas estatísticas a nível nacional (mais de metade dos jovens casaisse separam após cinco anos, ver Leitura rápida #1), podemos pensar que há algo nasociedade que explica o por quê de um comportamento tão generalizado: aindependência da mulher trabalhadora, o enfraquecimento dos laços morais e religiosos,a industrialização e a vida urbana com seu ritmo rápido e individualista e a própriapossibilidade de se divorciar legalmente (que antes não existia)!!!Portanto, dentro de uma discussão científica e sociológica sobre o divórcio temos queaplicar a imaginação sociológica para escapar das nossas experiências pessoais.As forças sociaisToda experiência pessoal é influenciada pelo ambiente social (estrutura social), nossasações são pautadas pela família, pela igreja, pelo estado...Podemos dizer então que o comportamento humano é ordenado, padronizado eestruturado.Mas as interações sociais também são relacionadas entre si, então a sociologia devebuscar a compreensão da totalidade, adotar uma visão de sistema (conjunto deelementos interligados que são modificados devido às relações entre si onde cadaalteração em um elemento provoca uma mudança no todo).©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 7
  • 8. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniPara mostrar como a sociedade pauta o comportamento humano, mais além do pessoa,Émile Durkheim, no momento que a Sociologia surgia como disciplina, realizou umestudo clássico, a explicação sociológica do suicídio.Justamente como o suicídio, um ato aparentemente altamente pessoal, que geralmente éexplica do pelos motivos pessoais que levaram a pessoa á isso. Com efeito, se em lugar de apenas vermos os suicídios como acontecimentos particulares, isolados uns dos outros e que demandam ser examinados cada um separadamente, nós considerássemos o conjunto dos suicídios cometidos numa sociedade dada, durante uma unidade de tempo dada, constata- se que o total assim obtido não é uma simples soma de unidades independentes, um todo de coleção, mas que ele constitui por si só um fato novo e sui generis, que possui sua unidade e sua individualidade, conseqüentemente sua natureza própria, e que, ademais, é uma natureza eminentemente social. DurkheimDurkheim foi buscar suas causas sociais e estudou as taxas de variação em suicídios emdiferentes países e regiões (método estatístico):  Compara a taxa de mortalidade/suicídio com a taxa de mortalidade geral, particularmente suas variações ao longo do tempo. o Observa que não somente a taxa (de mortalidade/suicídio) permanece constante durante longos períodos de tempo, mas sua invariabilidade é muito maior do que aquela observada nos principais fenômenos demográficos.  Compara as variações anuais nas taxas de suicídio (que só acusam pequenas mudanças), com as variações entre diferentes sociedades (que podem ir do dobro ao quádruplo ou ainda mais) o Conclui que as taxas de suicídio são, portanto, “num grau bem mais alto que as taxas de mortalidade, pessoais a cada grupo social do qual elas podem ser vistas como um índice característico”.Mas estas diferenças entre as taxas de suicídio de diferentes grupos não podiam serexplicadas somente por doença mental, etnia ou mesmo pelo clima. Sua conclusão foique o grupo social encoraja ou desencoraja o suicídio e identificou quatro tipos desuicídio:©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 8
  • 9. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini 1. Suicídio egoísta: isolamento excessivo, pessoa separada do grupo, ostracismo 2. Suicídio altruístico: apego excessivo, valor da vida perde valor frente ao valor que pode aportar ao grupo (exemplo, terroristas, kamikazes) 3. Suicídio anômico: devido à anomia, a ausência de normas, perda dos valores tradicionais e das normas de comportamento 4. Suicídio fatalista: sociedades com alto grau de controle sobre emoções e motivações (exemplo, seitas religiosas, adolescentes japoneses).Durkheim conseguiu assim uma explicação em função dos grupos e das comunidades,não em fatores biológicos ou psicológicos.Neste esquema os suicídios egoísta / altruístico estão relacionados com a integraçãosocial. Os suicídios anômico / fatalista e regulação moral.A sociedade é mais que a soma de seus membros individuaisUm conceito básico é o de fatos sociais (regras e normas coletivas que orientam a vidados indivíduos), tudo aquilo que é: externo ao indivíduo e determinador de suas ações.Para o indivíduo na sociedade as “maneiras de agir, pensar e sentir exteriores aoindivíduo, e dotadas de um poder coercitivo”, “chegam a cada um de nós do exterior eque são susceptíveis de nos arrastar, mesmo contra nossa vontade”.  Exteriores : porque consistem em idéias , normas ou regras de conduta que não são criadas isoladamente pelos indivíduos, mas foram criadas pela coletividade e já existem fora de nós quando nascemos .  Coercitivos: porque essas idéias, normas e regras devem ser seguidas pelos membros da sociedade. Se isso não acontece, se alguém desobedece a elas, é punido, de alguma maneira pelo resto do grupo.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 9
  • 10. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniEm conclusão: "A sociedade não só controla nosso movimentos, como ainda dá forma à nossa identidade, nosso pensamento e nossas emoções. As estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa própria consciência...As paredes de nosso cárcere já existiam antes de entrarmos em cena, mas nós a reconstruímos eternamente. Somos aprisionados com nossa própria cooperação...Em suma, a sociedade constitui as paredes de nosso encarceramento na história" Berger©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 10
  • 11. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1Casamentos diminuem e separações aumentam, diz IBGEAna Paula GraboisFolha Online, 1999Mais separações e divórcios e menos casamentos no Brasil. Esta é uma das conclusõesda pesquisa de registros civis referente ao ano de 1998, realizada pelo IBGE (InstitutoBrasileiro de Geografia e Estatística).No Brasil de 1991 ocorriam 21,2 dissoluções de uniões para cada 100 casamentos. Em1998, para cada 100 casamentos, foram contabilizados 28,1 separações ou divórcios.O número de casamentos no Brasil, apesar de ter crescido entre 1991 e 1994, caiu em1998. Em 1994, houve o maior volume de uniões legais, cerca de 763 mil. Em 1998,caiu 6%, passando para 699 mil.No entanto, a taxa de nupcialidade (divisão do número de casamentos por habitantes)vem caindo ao longo da década. Segundo o IBGE, a população cresceu num ritmo maisacelerado que o crescimento das uniões.Segundo o IBGE, os fatores que influenciaram mais o comportamento dos casamentosno Brasil são de ordem econômica e cultural.O econômico ocorre porque casa-se mais quando a renda aumenta. Isto pode sercomprovado pelo fato de que em 1994 - ano de implantação do Plano Real e de aumentoda massa salarial - ter ocorrido o maior número de uniões.O fator cultural é explicado pela tendência de aumento nas uniões consensuais,indicando um mudança de comportamento social.Enquanto os casamentos diminuem, as separações e divórcios judiciais aumentam. Onúmero de separações cresceu 19% de 1991 para 1998. Em 1991, o Brasil registrou76.233 separações judiciais. Este número saltou para 90.778 em 1998.Já os divórcios cresceram 29,7% no país de 1991 a 1998, ano no qual foram registrados105.253 divórcios no país. Em 1991, eram 81.128. Na região Norte, o número dedivórcios praticamente dobrou, com 99% a mais de divórcios.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 11
  • 12. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #2Japão: O céu dos suicidasAriel Kostman (de VEJA)Na semana passada, os corpos de sete jovens japoneses – quatro homens e três mulheresna faixa dos 20 anos – foram encontrados numa caminhonete numa estrada próxima aTóquio. Os vidros do veículo estavam selados com fita e, no chão, quatro fogareiros acarvão indicavam a causa da morte: asfixia por monóxido de carbono. Logo depois, ospoliciais acharam o corpo de outras duas mulheres num carro em outra provínciavizinha da capital. As duas haviam se suicidado usando o mesmo método. No carro, umbilhete: "Não se trata de assassinato. Nós planejamos isso". Embora chocantes, os casosnão surpreenderam a polícia. Apenas neste ano, vinte japoneses entre 16 e 30 anos sesuicidaram em circunstâncias semelhantes. Todos os casos estão ligados a um hábitomacabro que vem se disseminando naquele país: o pacto de morte coletivo combinadopela Internet. Em dezenas de salas virtuais de bate-papo, candidatos ao suicídio trocamidéias sobre os melhores locais e as maneiras mais rápidas e menos dolorosas de tirar aprópria vida. Muitos passam da conversa à ação. Na maioria dos casos, as pessoas quese matam em grupo mantêm contato apenas pelo computador e só se conhecem na horaem que se encontram para morrer.O pacto de morte coletivo via Internet é a manifestação mais recente de um fenômenoque aflige a sociedade japonesa e impressiona o mundo: a escalada do número desuicídios no país. Nesta década, o número de suicidas tem crescido à razão de 10% aoano. Em 2003, 34.000 pessoas se mataram no Japão. É o maior índice em relação àpopulação (25 em cada 100.000 habitantes) entre os países desenvolvidos, mais que odobro daquele verificado nos Estados Unidos e seis vezes o brasileiro. Entre japonesesna faixa de 20 a 30 anos, o suicídio já é a principal causa de mortalidade. Na origemdessa corrida para a morte combinam-se fatores culturais e reflexos de treze anosconsecutivos de estagnação econômica enfrentada pelo Japão. Para começar, o suicídioé uma tradição antiga no país. O ritual do hara-quiri era comum na classe guerreira doperíodo medieval. O samurai o utilizava quando não conseguia cumprir uma missãodesignada por seu mestre. A forma mais popular de arte dramática do Japão, o teatrokabuki, refere-se em muitas peças ao suicídio dos samurais e também ao pacto de morterealizado entre amantes. No fim da II Guerra, diante da derrota, militares japoneses sesuicidaram para lavar a honra da nação.Esses rituais pertencem à história, mas a prática do suicídio continua a ser encarada comcerta tolerância pela sociedade japonesa, ao contrário do que ocorre nas sociedadesocidentais. No budismo e no xintoísmo, religiões predominantes no Japão, tirar aprópria vida não é pecado. Muitos vêem o gesto como uma forma aceitável, e atévalorizada, de resolver uma situação. Se a pessoa tem uma dívida que não conseguepagar, considera-se que se matar é uma saída honrosa. O fato de a cultura japonesavalorizar o grupo, e não o indivíduo, também contribui para o alto número de suicídiosno país. "Os idosos que precisam de um tratamento médico muito caro, ou que nãopodem pagar por um asilo, muitas vezes se matam para não onerar a família, e ninguémse espanta com isso", comenta a psicóloga Kyoko Nakagawa, japonesa radicada noBrasil. Também é comum que pessoas em dificuldade financeira façam um seguro de©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 12
  • 13. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatinivida e depois se matem, garantindo assim o futuro da família. Há atualmente umaqueda-de-braço entre as companhias de seguro que operam no Japão e a Justiça. Asprimeiras não querem mais pagar prêmios às famílias de suicidas, mas a Suprema Cortejaponesa decidiu que devem pagar, sim.Outro fator que ajuda a explicar a alta incidência de suicídios no Japão é a rigidez dasociedade, que imputa enorme importância a valores como honra e vergonha. Como asociedade é muito fechada, há muitos casos de crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos dos colegas na escola que não conseguem expor seus problemas para os pais ouprofessores e acabam se matando. "Muitos jovens estão também céticos com relação aofuturo, depois de anos de crise econômica", avalia o psiquiatra japonês Rika Kayama,que tem estudado o fenômeno dos suicídios coletivos combinados pela Internet.Nos últimos anos, as autoridades japonesas vêm tomando medidas para desestimular ossuicídios. Muitos prédios em Tóquio foram reformados para impedir o acesso fácil aamuradas que servem de trampolim. No metrô de Tóquio, instalaram-se barreiras paraevitar que pessoas pulem nos trilhos, uma forma tão comum de suicídio que o governocobra das famílias das vítimas os estragos feitos nos trens e nas linhas. Também nometrô foram colocados enormes espelhos que cobrem inteiramente as paredes dasplataformas, com a intenção de dissuadir os que planejam a própria morte. Espera-seque, ao olhar o próprio rosto, os suicidas pensem duas vezes e desistam de seu intento.Nada disso, porém, tem freado as estatísticas que fazem do Japão o céu dos suicidas.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 13
  • 14. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniAlta tecnologia e obsoletismo programado no setor de telefonia celular no Brasil:uma análise sociológicaWagner AraújoIntroduçãoA partir de 1997, com a quebra do monopólio estatal da Telebrás, o setor detelecomunicação no Brasil vem sofrendo radicais mudanças. Dentre as áreas que maisse modificaram, encontra-se a telefonia celular. Toda esta mudança vem tendo váriasimplicações para a sociedade brasileira, seja no âmbito econômico, jurídico, financeiro,ou sociológico. O presente trabalho se concentra nas implicações sociológicas datelefonia celular no Brasil, especialmente os aparelhos telefônicos, e sua ligação com oobsoletismo programado. Para tanto fez-se necessário uma pequena contextualizaçãoeconômica para que se possa compreender a análise sociológica.Contexto Econômico e TecnológicoDesde a Lei Federal 9.472/97 que iniciou o processo de privatização do setor telefônicono Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vemfinanciando uma quantia elevada de investimentos nesta área. A maioria das empresasque contraem o investimento no BNDES são empresas de capital estrangeiro, paraconstituir as operadoras. As operadoras são as responsáveis pela definição de quase todaa tecnologia envolvida no processo. Na balança comercial do segmento detelecomunicações brasileiro, o total de importações de telefones celulares fica em tornode apenas 15% do total. Embora aparentemente alto, este investimento fica muitoaquém do investido na infra-estrutura de operação. O número de telefones móveis subiude 6 milhões em 1997 para 12 milhões em 1999, porém a maioria desses telefones, pelomenos inicialmente, utilizava o sistema analógico, mesmo que as operadoras possuíamtecnologia para operar no sistema digital. Outro problema era o obsoletismo dosaparelhos, e ao mesmo tempo, paradoxalmente, a quantidade de funções inúteis esubtilizadas, daí surge os primeiros traços do obsoletismo programado neste setor.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 14
  • 15. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniO Obsoletismo programado e a "febre" dos celulares no BrasilO obsoletismo programado consiste em lançar ou manter um produto no mercado,sabendo-se que tem uma ou várias tecnologias desenvolvidas, de melhor qualidade quea antiga, e também quando este produto vai ser substituído. Tal substituição visa a trocados usuários das tecnologias passadas para as mais modernas. A diferença entre aevolução natural da tecnologia está na retenção desta que deixa, toda a tecnologia domercado obsoleta. Neste ponto Gelernter, um dos fundadores da Internet e Doutor emCiência da Computação, afirma que todos esses sistemas e máquinas são obsoletos eque "estão nos empurrando velharias, porcarias baratas". Embora esses aparelhostenham uma série de funções como, por exemplo, calculadora, agenda, jogos, etc., quenão são utilizadas pelos usuários, eles possuem uma tecnologia muito atrasada. Daísurge o aparente paradoxo: se de um lado a tecnologia é obsoleta, as pessoas necessitamde aparelhos muito mais simples, não utilizando a tecnologia que possuem. Esteparadoxo, entretanto, é falso. O que acontece é que para "mascarar" o obsoletismo deseus produtos, os fabricantes os enchem de funções ditas "de última tecnologia", criandoa imagem de um aparelho moderno e eficiente. Segundo GElernter, "alta tecnologia nãoé sinal de complexidade, nem complexidade é sinal de alta tecnologia." Para o autor, osaparelhos realmente modernos são os que reúnem "altíssima tecnologia comsimplicidade extrema". Nada mais lógico, pois o objetivo da tecnologia de ponta seriamelhorar, agilizar e tornar mais prática a vida do ser humano, não complicar, enchendo-o de manuais gigantescos e inúmeras teclas e funções que ocupam um enorme espaço etempo para serem memorizadas. Mas apesar de todo este problema, muitas vezesvisível, as pessoas, em específico os brasileiros, continuam comprando cada vez maistelefones celulares, sempre procurando a "última tecnologia", não refletindo nem umpouco sobre este ato. Por quê?Perspectivas SociológicasO porquê da pergunta anteriormente proposta encontra sua resposta na teoriasociológica. Ou seja, muitas vezes essas pessoas que compram celulares não são levadospor sua necessidade pessoal, mas por uma exigência coletiva. Segundo BERGER asociedade diz ao indivíduo exatamente aquilo o que ele deve fazer, e este não pode fazermuito para mudar essa situação. Uma das maneiras que o autor aponta para o exercíciodo controle social está nos mecanismos de persuasão, difamação e exposição aoridículo. A sociedade, criando a necessidade de se ter um celular, expõe quem não o temao ridículo. Frases como "Ora, como você consegue viver sem um celular" são comuns,principalmente nas classes médias e altas. As pessoas dessas classes que não têm umaparelho celular são vistas com um certo desprezo pois, segundo a visão da sociedade,sua verdadeira classe social é contestável devido ao fato da grande maioria dessa classepossuir um celular. Resumindo, ter um celular é uma questão de status. Nesse pontocomeça um grande ciclo vicioso. Isto acontece porque as classes mais baixas, devido àfacilidade de acesso aos celulares, começam a comprar aparelhos para tentar se igualar,pelo menos aparentemente, às classes mais elevadas. Estas porém, ao perceberem essaconduta das classes inferiores, procuram comprar aparelhos mais caros e com a últimatecnologia existe no mercado. As classes altas querem estabelecer um diferencial, paraisso adquirem aparelhos que as classes mais baixas não podem adquirir. Entretanto, aopassar do tempo, esses aparelhos mais caros vão se tornando mais acessíveis às classes©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 15
  • 16. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatinimais baixas, o que faz com que as classes mais altas tenham a necessidade de buscarnovos aparelhos para poder mostrar seu status social. Este é o grande ciclo datecnologia. Mas onde se localiza o obsoletismo programado neste ciclo? Bem, as classesmais elevadas estão sempre em busca, como afirma Berger, da manutenção da suaposição na sociedade, e como já foi exposto, procuram adquirir a tecnologia mais cara.Contudo, pouco se preocupam em questionar a qualidade e a modernidade do produto,compram porque é o mais novo e mais caro no mercado. A classe alta está, na verdade,preocupada em manter seu papel social. Diante desta situação, os fabricantes podem seaproveitar amplamente. Enquanto em seus centros de Pesquisa e Desenvolvimentodesenvolvem tecnologias dez anos mais avançadas, vendem tecnologias obsoletas,disfarçadas por algumas peculiaridades e sustentadas por uma necessidade social.Considerando que essa situação é imperativa ao indivíduo e condiciona suas ações,pode-se considerar, sem exageros, a posse de um celular como uma instituição social,mesmo que pequena. E como instituição, pode proporcionar sanções coercitivas àquelesque não a seguem. Neste ponto, exatamente pode-se observar BERGER: "...sempredesejamos exatamente aquilo que a sociedade espera de nós". O indivíduo nestaperspectiva passa a estar subordinado à vontade coletiva, sua necessidade é criada porseu grupo de referência, independente da classe que ocupa. Esta concepção é tangente àdurkheimiana, pois este fato social é externo às vontades individuais, é anterior aoindivíduo. A idéia de necessidade de celulares não advém de deliberações e críticasindividuais, mas sim do todo. Porém é criada a ilusão de que ele próprio é quem temesta precisão. Dentro do que expõe Durkheim, encontra-se o caráter sui generis destafato social. Ou seja, o efeito total dessas ações é muito mais significativo do que a suasoma: o fato da manutenção do status de uma classe se torna infinitamente maior do queo simples de fato de várias pessoas adquirirem celulares novos. Outro ponto a serconsiderado, dentro desse autor, é o papel chave da comunicação. Pois assim osconhecimentos das distintas classes tomam conhecimento do fato social. Acomunicação é um meio de extrema importância para os fabricantes conseguiremestabelecer o obsoletismo programado. Não basta lançar um produto no mercado, énecessário apresentá-lo às classes inferiores e superiores. Primeiro para que estas ocomprem de imediato; e segundo, para que aquelas tenham o desejo de comprá-lo.Portanto, assim, como Durkheim os fatos sociais não podem ser vistos da perspectivaindividual, mas sim da ação da sociedade sobre tal indivíduo. Neste caso específico ficaclaro que as imposições sociais fazem com que necessidades surjam entre os indivíduos.ConclusãoPôde-se perceber neste estudo a grande influência que a sociedade possui sobre oindivíduo e suas ações. O que faz com que os grandes fabricantes possam facilmenteprorrogar o obsoletismo programado. Tal obsoletismo não ocorre somente comtelefones celulares. Pode-se encontrar exemplos como computadores, automóveis, e atémesmo produtos mais simples como fogões, geladeiras, aparelhos de som, etc. Umaprova que de tecnologia realmente avançada está no telefone de cartão, que conseguecumprir às exigências que esta se propõe: prática, de fácil uso e manutenção, barata eeficiente. Fazer com que as pessoas percebam este engano se torna um problema vitalpara um grande avanço tecnológico e cultural da sociedade. Todavia, com asdeterminações e pressões sociais existentes, torna-se uma tarefa extremamente difícil. E.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 16
  • 17. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatiniconsiderando-se os interesses econômicos envolvidos, quase impossível, pois, comoafirma BERGER, pode-se concluir: "A sociedade não só controla nosso movimentos, como ainda dá forma à nossaidentidade, nosso pensamento e nossas emoções. As estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa própria consciência... As paredes de nosso cárcere já existiam antes de entrarmos em cena, mas nós a reconstruímos eternamente. Somos aprisionados com nossa própria cooperação... Em suma, a sociedade constitui as paredes de nosso encarceramento na história."©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 17
  • 18. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini2 Aula-exemplo: o estudo sociológico da sexualidade©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 18
  • 19. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniPara exemplificar ainda melhor a relação entre o individual e o social, vamos analisarsociologicamente outro fato social que geralmente se relaciona com fatores psicológicose emocionais somente: a sexualidade.O estudo científico da sexualidade deve ser tratado multidisciplinarmente, comcontribuições da psicologia, da medicina, da antropologia e da sociologia.Quando falamos de sexualidade, existem diferentes visões e perspectivas dos indivíduossobre o objetivo da prática sexual. A explicação primária da sexualidade pode serdividida em:  Orientação procriacional: geração de filhos, reprodução.  Orientação relacional-afetiva: expressão de apego emocional ao parceiro.  Orientação recreacional: o sexo como prazer.Também distinguimos duas correntes de pensamento teórico: 1) Essencialismo: o comportamento biológico é natural e ubíqüo. Exemplo: as teorias evolucionistas dizem que o sexo deve maximizar a reprodução; os machos devem transmitir seus genes e por isso tentam engravidar o maior número de fêmeas possível. Estas, por sua vez, buscariam um parceiro capaz de proteger, a longo prazo, seus filhos. Neste esquema, perpetuaria-se a espécie. 2) Construcionismo: minimiza os fatores biológicos. A sexualidade é construída socialmente. Promiscuidade e fidelidade seriam valores transmitidos de uma geração à outra através da socialização (mensagens culturais). A identidade sexual (comportamento masculino, feminino) é aprendido através da interação social dos indivíduos. Exemplo: segundo a teoria da troca social, os indivíduos buscam a maximização das recompensas e a minimização dos custos (por exemplo fidelidade em troca de recursos financeiros, atração física e poder). Já a teoria do conflito postula que existe uma luta de poder com relações de dominação e exploração. Dessa forma os indivíduos utilizariam da sexualidade para atingir os próprios objetivos.Na atualidade, chama a atenção a natureza descritiva da pesquisa sociológica sobresexualidade, com a falta de uma base teórica que dê o caráter explicativo necessáriopara compreendê-la totalmente. Justamente, os sociólogos ainda não sabem muito sobrecomo ou por quê a sociedade afeta o comportamento individual, apesar de poderemdescrever este.[Os dados a seguir são baseados em pesquisas norte-americanas (1994): 1) Freqüência do ato sexual©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 19
  • 20. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniO senso comum nos diz que “pessoas casadas não fazem sexo”. Apesar disso aspesquisas indicam que em relação a não realização do ato sexual no período de um ano :  1,3% dos homens casados  3,0% das mulheres casadas  22% dos homens não casados  30% das mulhers não casadasDos casais que responderam positivamente:  45% dos casais com 2 anos ou mais de união: 3 vezes por semana  61% dos co-habitantes (união estável) recentes; 3 vezes por semana  67% dos casais gays: 3 vezes por semana  33% dos casais de lésbicas: 3 vezes por semanaEm resumo, o casamento não é a anomalia que o senso comum nos diz, apesar de que oscasais de união estável apresentem maior freqüência e que os casais casados diminuamsua freqüência com o aumento da duração da relação. 2) Satisfação sexualAs pesquisas indicam que a freqüência de relações sexuais está correlacionadadiretamente com a percepção da qualidade de vida do indivíduo.Dos pesquisados:  Aqueles que praticam sexo 3 vezes por semana: 89% mostram-se satisfeitos.  Aqueles que praticam sexo 1 vez por mês: 32% mostram-se satisfeitos. 3) E a infidelidade?Ou melhor, sexo extra-marital ou extra-diádico, utilizando terminologia científica.  25% dos homens afirmam ter traído  15 % das mulheres afirmam ter traídoPorém, o método estatístico tem suas armadilhas. Quando analisamos estes percentuaiscom uma divisão por idades, vemos que os jovens não mostram diferenças em relaçãoao sexo extra-diádico, mas aos 40 anos:  29,3% dos homens traem  19,3% das mulheres traem©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 20
  • 21. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniE aos 60 anos:  34% dos homens traem  7,6% das mulheres traemQuando buscam-se as causas da traição:  As mulheres afirmam que buscam o aumento da auto-estima, da confiança e da independência. Citam fatores como fatores amorosos (afeição, necessidade de se apaixonar) e afetivos (companhia, respeito, compreensão).  Os homens justificam a traição principalmente em função da insatisfação sexual com o parceiro. Mencionam fatores como a novidade, a curiosidade e a excitação.Como conclusões, o sexo extra-marital não é uma experiência majoritária, e a maioriados casais é monogâmica.ConclusõesA pesquisa sociológica sobre a sexualidade em relações próximas é basicamentedescritiva, faltando ainda explicações sobre as negociações que os casais fazem emrelação a sua sexualidade e à forma de como a sociedade em geral influencia ocomportamento individual nesta questão. Entretanto, os resultados desmistificam váriosditos do senso comum, ao utilizar dados, ao invés de opiniões.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 21
  • 22. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1Questões tratadas pela Sociologia da SexualidadeA sexualidade e com a emergência da subjetividade moderna reflete a organizaçãosocial e sexual dos gêneros, trata, mais especificamente, da ordem dos sexos e dascoisas vistas como imutáveis. Classificação dualista e binária dos sexos. Em torno dareprodução, oposição entre feminino e masculino, masculino ativo x feminino passivo.Reforço da dependência social e sexual das mulheres em relação aos homens. Esfera dareprodução.O processo de normatização dos corpos e a importante influência da biologia nesseprocesso. A “segunda revolução contraceptiva” ou o que comumente denominamos de“revolução sexual”, a partir do final dos anos 60, nos então países desenvolvidos.Esta se caracteriza por uma reorganização e rédea docontrole do corpo, ampla difusãode métodos contraceptivos médicos, associado a uma maior autonomia e controle doprocesso reprodutivo por parte da mulher. A fecundidade passa a ser vista como projetoindividual. Articulação destes acontecimentos em países desenvolvidos e suacomparação com os chamados países em desenvolvimento. O impacto da adoção destesmétodos contraceptivos modernos na vida sócio-familiar contemporânea. A redução dasuniões oficiais, com casamentos no civil e no religioso; o planejamento no número defilhos; e a racionalização do prazer, associadas ao direito ao prazer, liberação dasminorias e maior igualdade sexual entre homens e mulheres.Reorganização de hábitos e costumes em relação ao exercício da sexualidade. Emtempos de Aids, aumento da adoção de preservativo masculino e recuo de contraceptivooral, pelo menos no início das relações sexuais. Nos adultos, fala da vida em comum docasal, da queda na freqüência das relações sexuais, associadas à procriação,parentalidade e influência do investimento na trajetória profissional. Em relação aosidosos, o aumento significativo da atividade sexual neste segmento; em particular dasmulheres, o que está vinculado ao oferecimento no mercado das modernas técnicascientíficas contra impotência e outros. Em termos de práticas sexuais, ahomossexualidade ainda aparece relacionada à dificuldade da aceitação institucional eos conflitos internos / privados, como a família; e os externos / públicos, como osamigos, escola e trabalho. Juventude e homossexualidade, e os conflitos familiares eoutros advindos desta orientação. O declínio do discurso religioso, tanto a medicinaquanto a psicologia são cada vez mais utilizadas como suporte de uma novanormatividade, mais técnica, das condutas e funcionamentos sexuais. A organização dasexualidade através dos tempos, o surgimento dos escritos eróticos, da pornografia e alibertinagem francesa; está última como uma ruptura nas representações e nos códigosde sexualidade vigente.Leitura rápida #2Comportamento sexual: o relatório Kinsey©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 22
  • 23. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniQuando Alfred Kinsey começou suas pesquisas nos Estados Unidos nos anos quarenta ecinqüenta, era a primeira vez que se levava a cabo um estudo de envergadura sobre aconduta sexual real. Kinsey e seus colaboradores se enfrentaram a condenação denumerosas organizações religiosas e seu trabalho foi tachado de imoral na imprensa eno Congresso. Entretanto, Kinsey persistiu em seu empenho e finalmente obteve ahistória da vida sexual de 18.000 pessoas, uma amostra bastante apreciativa dapopulação norte-americana branca.Os resultados que obteve Kinsey surpreenderam a maioria e resultaram impactantespara muitos, já que revelavam uma profunda diferença entre as concepções dominantesna opinião pública do momento a respeito da conduta sexual e o que era ocomportamento sexual real. Kinsey descobriu que aproximadamente 70% dos homenstinham freqüentando prostitutas e que 84% tinham mantido relações sexuais antes domatrimônio. Entretanto, 40% dos homens esperavam que sua mulher fora virgem aocasar-se. Mais de 90% tinham praticado a masturbação e ao redor do de 60% algum tipode sexo oral. Entre as mulheres, ao redor do 50% tinha tido alguma experiência sexualantes do matrimônio, embora a maioria fosse com seus futuros maridos. Ao redor de60% se masturbava e a mesma percentagem de mulheres tinha tido contatos genitaisorais.A diferença que havia entre as atitudes aceitas publicamente e o comportamento realque demonstravam as conclusões de Kinsey é muito provável que fosse especialmentegrande naquele momento, imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Umpouco antes, nos anos vinte, tinha começado uma fase de liberalização sexual em quemuitos jovens se livraram dos estritos códigos morais que tinham governado àsgerações anteriores. Provavelmente, a conduta sexual mudou muito, mas as questõesrelacionadas com a sexualidade não se discutiam abertamente como é habitual hoje emdia. Aqueles que praticavam atividades sexuais que ainda recebiam a desaprovação daopinião pública as ocultavam, sem dar-se conta de até que ponto outros muitos estavamimersos em práticas similares. A era mais permissiva dos anos sessenta aproximou asatitudes expostas abertamente às realidades da conduta sexual.Leitura rápida #3Juventudes e sexualidadeO livro Juventudes e sexualidade resulta de uma pesquisa realizada em 13 capitais(Belém, Cuiabá, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Maceió, Manaus, Porto Alegre,Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória) e no Distrito Federal.Abrange diferentes aspectos da vida sexual dos jovens, tais como a iniciação sexual,comportamentos diversificados como o “ficar” e o namorar, a iniciação sexual cada vezmais precoce, o conhecimento e as informações que possuem sobre métodosanticoncepcionais, de prevenção da gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis(DSTs).No livro também se faz uma discussão sobre como os jovens encaminham asnegociações entre eles a respeito da utilização desses métodos, além de problemáticas©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 23
  • 24. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatinicomo a gravidez juvenil e o aborto. Analisa-se ainda, a partir de diálogos com osadultos, os diversos tipos de violência e abordagens desenvolvidas pela escola a respeitoda sexualidade.A pesquisa indica que os jovens, apesar da precocidade da vida sexual, tendem a tercontatos com apenas um parceiro - o que remete a um questionamento do senso-comumsobre a suposta “promiscuidade” sexual juvenil.A gravidez juvenil é um tema de destaque no estudo: a maioria dos alunos e professoresafirmam ter contato com adolescentes grávidas nas escolas.No que diz respeito à violência, mostra a pesquisa, muitos jovens ainda estãovulneráveis e já sofreram violências de várias ordens (tais como assédio, estupro ediscriminação por conta de gênero e opção sexual).A discriminação em relação aos homossexuais é um aspecto de grande relevância queaparece em dados como o seguinte: cerca de um quarto dos alunos afirma que nãogostaria de ter um colega homossexual.A pesquisa também indica uma certa vulnerabilidade negativa dos jovens no campo dasexualidade. Nesse sentido, faz-se necessário a implantação de políticas públicas, assimcomo o auxílio do ambiente escolar para suprir a carência de informação do jovemacerca da sexualidade.Entretanto, além das vulnerabilidades negativas, percebe-se as “vulnerabilidadespositivas” entre os jovens, como a impulsividade e as curiosidades pelas possibilidadesdo seu corpo e das relações com o parceiro.Finalmente, também foram registrados na pesquisa questionamentos sobre estereótipos,tabus, preconceitos e a vontade de saber e construir relacionamentos mais ricos eafetuosos, atribuindo sentidos positivos para as relações.Leitura rápida #4Mulher que usa sexualidade no trabalho ganha menos, diz pesquisaFolha OnlineUma pesquisa divulgada pelo jornal americano "USA Today" revela que as mulheresamericanas que usam a sexualidade para crescer dentro de uma empresa acabamrecebendo salário menores e menos promoções.A reportagem apresenta números para mostrar que as mulheres que cruzam as pernas demaneira provocante, vestem saias curtas ou camisas com decote e massageiam osombros dos chefes crescem menos na carreira.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 24
  • 25. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniOs estudo, elaborado pela Universidade de Tulane (Louisiana) com base em 164entrevistadas de idades entre 20 e 60 anos, mostra que 49% das mulheres graduadas ecom MBA (especialização) admitem ter tentado galgar cargos dentro de uma empresapor meio do comportamento sexual.Essas mulheres conseguiram em média duas promoções na carreira e recebem entreUS$ 50 mil e US$ 75 mil por ano. Por outro lado, as demais, que afirmaram nunca terapelado para a sexualidade, dizem ter recebido em média três promoções na carreira epossuir um salário de US$ 75 mil a US$ 100 mil."Há conseqüências negativas paras as mulheres que usam a sexualidade no local detrabalho", afirmou o professor Arthur Brief, da Universidade de Tulane, ao "USAToday.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 25
  • 26. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini3 O surgimento da Sociologia no contexto histórico. A Revolução Industrial, as mudanças culturais no trabalho.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 26
  • 27. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniA Revolução Industrial (séculos XVIII-XIX)A Revolução Industrial foi uma revolução científico-tecnológica que ocasionou umamudança na organização social e grandes transformações em um curto espaço de tempo:economia agrária economia industrialsistema feudal sistema capitalistaartesão indústriautensílios manuais máquinaságua, vento, força animal eletricidadealdeões operários? empresários, engenheiros e cientistasFoi caracterizada por um conjunto de inovações técnicas:  teares mecânicos  Siderurgia e ferro de alta qualidade  Motor a vapor  Novas máquinas  Ferrovias e barcos a vaporE por novas formas de organização do trabalho: 1. Substituição progressiva do trabalho humano pelas máquinas 2. Divisão do trabalho: necessidade de coordenação, perda de qualificação, especialização e tarefas isoladas, repetitivas 3. Mudanças culturais no trabalho: auto-controle à disciplina imposta e à supervisão, modo de vida urbano, falta de condições impostas pelos empresários 4. Produção em massa, maior produção, mais produtos, mais baratosA Revolução Industrial, com suas inovações técnicas se auto-alimenta, pois cadainovação (o trem a vapor como forma de escoar as mercadorias, aço mais resistente parafabricação de máquinas mais eficientes, etc.) a produção aumenta e criam-se maisindústrias. O pioneirismo é da Inglaterra e cidades como Londres e Manchester são asgrandes metrópoles industriais.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 27
  • 28. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniE surgem também novos papéis sociais: empresário / industrial /capitalista detentor dos meios de produção (matéria prima, capital, máquinas) relação de interdependência operário / proletário detentor da força de produção criação de um “mercado de trabalho”Dentro desse cenário é que surge a chamada questão social:  Fluxo de massas camponesas rumo ao meio urbano  Grande concentração humana nas cidades  Degradação do espaço urbano e dos valores tradicionais  Exploração do homem pelo homem  Epidemias, prostituição, alcoolismo, violência, suicídios As fábricas do início da Revolução Industrial não apresentavam o melhor dos ambientes de trabalho. As condições das fábricas eram precárias. Eram ambientes com péssima iluminação, abafados e sujos. Os salários recebidos pelos trabalhadores eram muito baixos e chegava- se a empregar o trabalho infantil e feminino. Os empregados chegavam a trabalhar até 18 horas por dia e estavam sujeitos a castigos físicos dos patrões. Não havia direitos trabalhistas como, por exemplo, férias, décimo terceiro salário, auxílio doença, descanso semanal remunerado ou qualquer outro benefício. Quando desempregados, ficavam sem nenhum tipo de auxílio e passavam por situações de precariedade.De forma mais ou menos paralela ocorre uma revolução no pensamento:  Século XVII uso livre da razão: Racionalismo  Século XVIII uso da razão, associado a uma crítica da sociedade (esta seria injusta e impediria a liberdade dos homens). Surge a doutrina do Iluminismo que representa a ideologia burguesa versus sociedade feudal. Critica principalmente o aspecto irracional e injusto das instituições sociais, contrária à liberdade do homem. Existe uma única lei que, pela sua natureza, exige consentimento unânime - é o pacto social, por ser a associação civil o mais voluntário©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 28
  • 29. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini dos atos deste mundo. Todo homem, tendo nascido livre e senhor de si mesmo, ninguém pode, a qualquer pretexto imaginável, sujeitá-lo sem o seu consentimento. Afirmar que um filho de escravo nasce escravo, é afirmar que não nasce homem...Fora desse contrato primitivo, e em conseqüência do próprio contrato, o voto dos mais numerosos sempre obriga os demais. Pergunta-se, porém, como o homem poder ser livre, e forçado a conformar-se com vontades que não a sua. Como os opositores serão livres e submetidos a leis que não consentiram? ...Respondo que a questão está mal proposta. O cidadão consente todas as leis, mesmo as aprovadas contra sua vontade e até aquelas que o punem quando ousa violar uma delas. A vontade constante de todos os membros do Estado é a vontade geral: por ela é que são cidadãos e livres. Quando se propõe uma lei na assembléia do povo, o que se lhes pergunta não é precisamente se aprovam ou rejeitam a proposta, mas se estão ou não de acordo com a vontade geral que é a deles". Rousseau, Do Contrato SocialEste pensamento desembocará na Revolução Francesa, pregando a igualdade, aliberdade e a fraternidade entre os homens, frente à concepção anterior de que os reiseram descendentes diretos de Deus e devido a isso possuíam poder absoluto.A Sociologia aparece então em um contexto de uma dupla revolução, a industrial(aperfeiçoamento dos métodos produtivos, abandono da família patriarcal, urbanização)e a política-intelectual (organização da classe operária: consciência de interesses einstrumentos de ação e de crítica).Após a desorganização (derrubada de um sistema e criação de outro) ocasionada pelaRevolução, o Positivismo busca re-estabelecer a estabilidade, a hierarquia social, aautoridade e os valores morais, porém ainda conservando a idéia do uso livre da razão.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 29
  • 30. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniPor exemplo, alguns dos fatos surgidos com a Revolução e que são apontados porLeplay (um filósofo positivista) como razões da decadência da sociedade francesa:  Corrupção da língua  Falta de crença em deus e na religião  Influência anormal dos literados  Perda da influência das autoridades sociais  Excesso de burocracia  Falta de sentimento patriótico  Perda progressiva da autoridade paterna  Dissolução dos costumes  Espirito revolucionárioO pensamento positivista vê o capitalismo como forma de satisfazer necessidadeshumanas, como fim para os conflitos sociais, através do progresso econômico. Opensamento social então surgia como forma de orientar a ciência, a indústria e aprodução industrial.O principal expoente do positivismo é Augusto Comte (1798-1857), que em suaFilosofia Positiva sugere uma forma de organizar o conhecimento humano, com osseguintes níveis. Cada nível aumenta em complexidade e interesse, além de depender doanterior: 1. Astronomia 2. Física 3. Química 4. Fisiologia 5. Física Social, logo rebatizada como “Sociologia”.Algumas máximas de Comte:  “saber para prever, a fim de prover”, significando que se deve conhecer os problemas a fundo, para resolvê-los e dessa forma alcançar o progresso.  “progresso constituiria uma conseqüência suave e gradual da ordem” dando origem ao lema “ordem e progresso”©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 30
  • 31. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini Da Mecânica, Comte extraiu os conceitos de estática e dinâmica e aplicou-os ao estudo dos fenômenos sociais. Viu neles uma oposição e uma complementaridade, a estática era o desejo intrínseco de ordem que toda sociedade civilizada deseja, a dinâmica era o progresso, o destino que ela deve cumprir rumo às etapas superiores de organização e produção. Harmonizou-os no lema: "ordem e progresso", adotado na nova bandeira da brasileira por sugestão do coronel Benjamin Constant, um dos fundadores da república em 1889. Voltaire SchillingO positivismo, possui portanto um conteúdo estabilizador, pregando uma reformaconservadora, com a revalorização das instituições consideradas fundamentais para acoesão social (autoridade, família, hierarquia):É a partir das mudanças ocasionadas pela Revolução Industrial e pelas reformaspolíticas que a Sociologia surge para colocar a “sociedade num plano de análise”, comoobjeto de estudo a ser investigado orientação para a ação, para manter ou modificarradicalmente a realidade.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 31
  • 32. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1A análise da sociedade antes na AntiguidadeGrande parte dos filósofos da antigüidade praticamente abandonaram a análise neutra darealidade social, insistindo em falar sobre a forma que consideravam ideal para aquelemomento social.Em “República”, Platão insiste em impingir sua idéia de ideal social, assim comoTomás Morus em “Utopia”, Campanela em “Cidade do Sol”, e Santo Agostinho em“Cidade de Deus”.Embora todas essas obras sejam consideradas valiosas para o estudo da Sociologiadevemos levar em consideração que elas versam sobre o ideal social pensado eapresentado pelos seus autores.Em “República”, por exemplo, os comentários feitos por Platão sobre ainterdependência e divisão das funções sociais são valiosíssimos até hoje.O método comparativo, cuja eficácia é até hoje evidente, foi apresentado de formapioneira por Aristóteles em suas obras “Política” e em “Constituição de Atenas”. Nessasobras Aristóteles analisa as organizações sociais das cidades antigas e elabora estudossobre a ordem social.Entre suas idéias, Aristóteles reconhece a família como grupo social básico e elementare afirma que o homem é um animal político, destinado a viver em sociedade. Outracaracterística encontrada em Aristóteles é o conceito de sociedade como ser vivo,sujeito às mesmas leis que regem o Ser Humano: nascimento, crescimento e morte.Outras contribuições decisivas para o estudo social foi a trazida pelos romanos, comsuas análises e definições de instituições como família, matrimônio, propriedade, posse,contrato e outras, feitas pelos jurisconsultos romanos Caio, Paulo, Sabino, Labão,Juliano, Pompônio, Papiniano e Ulpiano.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 32
  • 33. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini4 O pensamento sociológico moderno. Principais pensadores e linhas teóricas. A sociologia como conhecimento©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 33
  • 34. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniA sociologia como ciênciaA sociologia, dentro da atual classificação das ciências, situa-se nas ciências sociais,que estudam a interação entre os seres humanos e o produto desta interação. Além dasociologia, são Ciências Sociais:  Antropologia Estuda a história, origem e desenvolvimento da cultura do homem. Inicialmente limitada ao estudo dos povos ágrafos (iletrados ou primitivos), estuda aspectos culturas e comportamentais do homem Exemplos: rituais, cerimônias, mitos, artesanato, folclore.  Direito Estuda as normas que regulam o comportamento social e as formas de controle social necessárias para exercer a coerção sobre os indivíduos. Dentro destas normas, preocupa-se com as leis (regras jurídicas) e seu conjunto, o sistema legislativo. Exemplos: normas de proteção ao trabalhador (direito trabalhista), divórcio (direito civil), penalidades por crimes cometidos (direito penal).  Economia Estuda a organização dos recursos, produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Analisa a atividade econômica em função das necessidades humanas. Exemplos: macroeconomia (sistema monetário, consumo, renda e investimentos na sociedade como um todo), microeconomia (agentes individuais, produtividade da empresa, orçamento familiar).  Ciências Políticas Estudam a distribuição do poder na sociedade, a teoria e prática do governo. Exemplos: formas de governo, organização dos partidos políticos, funções do Estado©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 34
  • 35. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  Psicologia social Estuda o comportamento e a motivação do indivíduo, no contexto de seu grupo e de seus valores associados. Analisa o fenômeno da personalidade, moldada pela cultura e pela sociedade. Exemplos: comportamento dos adolescentes, comportamento organizacional  Sociologia Estuda o homem na sociedade, suas relações sociais e os elementos comuns existentes em todos os tipos de fenômenos sociais. Busca um conhecimento objetivo da realidade social. Exemplos: formação e desintegração de grupos, divisão da sociedade em camadas.Diferentemente da psicologia social, a sociologia considera a sociedade como umtodo e busca por características que possam ser observadas em qualquer sociedade.Muitas vezes seu estudo transcende o campo das disciplinas específicas, pois o homosocius (o ser social) é o conjunto do homem econômico, político, religioso, ético,artístico, etc. Aprender Sociologia é aprender a analisar o comportamento social com mais abrangência, procurando compreender as atitudes das pessoas e dos grupos para poder interferir no momento certo e da forma mais acertada, para alcançar os seus objetivos. A Sociologia faz do Ser Humano mais do que um simples elemento no grupo, já que desenvolve nele a habilidade necessária ao exercício da verdadeira cidadania, com competência não só para entender o mundo e os fatos, mas também para influenciar e participar ativamente das necessárias reconstruções sociais.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 35
  • 36. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniCampos da sociologiaSociologia sistemática: estuda os elementos básicos e universais dos sistemas sociais eo modo como se relacionam.Exemplos: relações sociais, processos sociais, grupos.Sociologia descritiva: estuda os fenômenos sociais nas condições reais em que operam.Exemplo: estudo da família na sociedadeSociologia comparada: estuda como os fenômenos sociais variam na história humana,se apresentam semelhanças ou divergências.Exemplo: a família através dos tempos.Sociologia diferencial: busca as peculiaridades de cada sociedade específicaExemplo: característica da família brasileiraSociologia aplicada: utiliza a intervenção sobre as condições sociaisExemplo: racionalização do trabalho em uma empresaSociologia geral: busca estabelecer a validade lógica do conhecimento sociológico,sistematizando-o e realizando a crítica e a síntese do mesmo.Sociologia especial: analisa e estuda em profundidade as categorias específicas de fatossociaisExemplos: sociologia política, sociologia da educação, sociologia do turismo, sociologiada comunicação, sociologia rural, sociologia industrial, sociologia da arte.As fontes da verdade  Intuição: é a capacidade de perceber ou pressentir, independentemente de qualquer raciocínio lógico e explícito  Autoridade: é o acúmulo de conhecimento, confiável ou não. Já a autoridade sagrada ou conhecimento religioso é a fé em tradições e documentos de origem divina e tem como característica principal o fato de não poder ser questionada.  Tradição: sabedoria acumulada, conjunto de conhecimentos que deram certo no passado e portanto aceitos de forma geral.  Bom senso: estabelece relação entre os fatos, sem identificar causas reais.  Ciência: é a fonte de conhecimento mais confiável, para a compreensão da realidade. Também a mais jovem, devido a que o método científico existe apenas há 400 anos, aproximadamente. É questionável (avança sobre os novos descobrimentos, que substituem os antigos) e falível (é aberta, admite que o©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 36
  • 37. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini conhecimento pode mudar, pode avançar). Baseia-se no pensamento crítico e não admite o senso comum.Senso comum (opinião) Senso crítico  espontâneo  reflexivo  esporádico  demonstra os motivos  sem explicações satisfatórias  procura as causas dos fatos  falta de profundidade  as conclusões podem ser  aplicável a casos específicos generalizadas  utiliza juízos de valor  busca a "verdade por trás das  "o que -deve ser" aparências"  "o que é"Exemplo: o senso comum nos diz que “todas as mulheres são más motoristas”. Asestatísticas (e as companhias de seguro), utilizando fatos (e não opiniões) nos dizem queas mulheres envolvem-se em menos acidentes que os homens.Características dos conhecimento científico na Ciência Social  Detecta regularidades e padrões na vida social.  As mesmas causas levam aos mesmos efeitos.  Intersubjetivo, toda afirmação para tornar-se conhecimento aceito deve ser confirmado por outros observadores.  Estuda o comportamento da sociedade como um todo, não de indivíduos ou de casos específicos.O método científico na Sociologia:  Exige a observação sistemática, com a necessidade de provas e dados.  Busca a minimização do erro e do preconceito.  Suas conclusões nunca são absolutas, mas passam por um mecanismo de auto- correção.  São necessários o estudo de muitos casos, para chegar à generalizações.  Procura não somente descrições, mas explicações.E principalmente nas Ciências Sociais se destaca o duplo papel do homem:  ator/espectador©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 37
  • 38. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  objeto/observadorExiste portanto, objetividade e neutralidade na ciência social? Podemos chegar a algumconhecimento realmente confiável?Esta é uma questão aberta, talvez o sentido de objetividade seja diferente do utilizadonas ciências exatas, de forma pode estar limitada a que "não deve ser afetada pelaprópria crença, por emoções, hábitos ou preferências, desejos ou valores doobservador".Tipos de pesquisa utilizados na sociologiaMétodo históricoParte do princípio de que os atuais modos de vida possuem sua origem no passado.Pesquisa as raízes históricas dos fatos sociais, para compreender sua função atual.Exemplos: influência francesa nas quadrilhas da festa junina, “Casa Grande e Senzala”.Método comparativoCompara diferentes tipos de grupos, comunidades ou fenômenos, buscando identificarsemelhanças ou diferenças entre eles. A partir deste conhecimento, tenta obtergeneralizações sobre os fatos sociais.Exemplos: estudo comparativo entre as filiais brasileira e argentina de uma grandeorganização multinacional.Estudo de caso ou método monográficoÉ o estudo específico de um grupo, comunidade, etc, ou de algum aspecto dele. Parte doprincípio de qualquer caso pode ser representativo de muitos outros.Exemplo: estudo da política de recursos humanos da empresa X.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 38
  • 39. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniMétodo estatístico / quantitativoUtiliza procedimentos matemáticos (estatísticos) para estudar os fenômenos sociais.Reduz os fenômenos a indicadores quantitativos. Algumas vezes revela-se ineficaz,devido à imprevisibilidade no objeto de estudo (o homem), pois apesar do caráter diretoe aparentemente objetivo dos resultados, ocasiona a perda de uma riqueza noconhecimento social, pois não é capaz de identificar as atitudes e experiências pessoaisdos indivíduos estudados.Exemplo: “O suicídio” de Durkheim.De qualquer forma, na prática observamos a combinação dos diferentes métodos, coma combinação da fortaleza de cada um, para a obtenção de uma melhor compreensão darealidade social.Outros contribuidores para o início da Sociologia como CiênciaAlém de Auguste Comte, considerado o “pai da sociologia”, podemos destacar o papelde:Émile Durkheim (1858-1917)Fundador da sociologia como ciência independente, estabelece seus métodos e inicia acomunidade científica ao redor deste conhecimento. Uma de suas principais obras é "Asregras do método sociológico".Sua principal contribuição é a idéia de que os fatos sociais devem ser consideradoscomo "coisas", sendo aplicáveis os mesmos métodos de observação das ciências exatas.Defende a observação, a experimentação como forma de indagação racional, com oabandono do sobrenatural, da tradição, da revelação, em uma nova atitude intelectual. Éum dos precursores do método histórico, no qual a sociedade pode ser compreendidajustamente por que é obra dos indivíduos.Para Durkheim mais do que os: fatos econômicos é a fragilidade moral e de valores quedeterminam o comportamento na sociedade. Portanto, em resposta às propostassocialistas (modificação na propriedade, distribuição das riquezas), defende a divisão dotrabalho, onde cada membro da sociedade dependeria mais dos outros. Dessa forma,aumentaria a união e a solidariedade, que ele denomina, orgânica.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 39
  • 40. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniKarl Marx (1818-1883)Realiza uma crítica radical a nova ordem social estabelecida pela Revolução Industrial.Afirma que a estrutura econômica é a base da história humana e defende que oconhecimento da realidade social deve ser um instrumento político.Porém, oposto ao positivismo, defende a realização de mudanças na ordem social.Justamente, são nas situações de conflito econômico que a história avança, através doque denomina "luta de classes". Sua obra mais conhecida é "O Capital" (1867)Após Marx confrontar a economia política, lançando pela primeira vez o termo“alienação no trabalho” e suas conseqüências no cotidiano das pessoas, Marx expõepela primeira vez a alienação da sociedade burguesa.A alienação no trabalho é gerada na sociedade devido à mercadoria, que são os produtosconfeccionados pelos trabalhadores explorados, e o lucro, que vem a ser a usurpação dotrabalhador para que mais mercadorias sejam produzidas e vendidas acima do preçoinvestido no trabalhador, assim rompendo o homem de si mesmo.Já a alienação da sociedade, o fetichismo, que é a fato da pessoa idolatrar certos objetos(automóveis, jóias, etc). O importante não é mais o sentimento, a consciência,pensamentos, mas sim o que a pessoa tem. Sendo o dinheiro o maior fetiche destacultura, que passa a ilusão às pessoas de possuir tudo o que desejam a respeito de bensmateriais.Max Weber (1864-1820)Destaca-se no campo do estudo da burocracia como forma de organização e dasociologia da religião, estabelecendo assim as bases teóricas da estratificação social.Em sua obra "A ética protestante e o espírito capitalista" afirma que o maiordesenvolvimento econômico dos países com religião protestante na Europa e Américaocorreu por que esta religião valoriza o individualismo, o trabalho árduo, o êxito pessoale a acumulação de riquezas (capital). A ética protestante seria uma nova mentalidadediante da vida econômica (pioneirismo, ousadia), com o êxito econômico como bençãode Deus. Ao mesmo tempo, a não fruição dos lucros (rigidez na vida familiar) permite aacumulação e re-investimento do capital.Em comparação, o catolicismo prega a renúncia aos bens materiais, o amor fraterno econdena a usura (empréstimos). Seriam estas diferenças culturais que levaramInglaterra, Alemanha, Estados Unidos, Holanda Suécia, etc, a desenvolver o capitalismoe a Revolução Industrial muito mais cedo (e de melhor forma) que países como Itália,Espanha, Portugal, Brasil e outros países da América Latina.Frases do catolicismo negativas em relação ao dinheiro e à riqueza:©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 40
  • 41. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  "Ora, aconteceu que o pobre morreu e ele foi levado pelos anjos para o seio de Abraão. O rico morreu também e foi amortalhado no inferno". - Evangelho de Lucas, 16  "Todo o homem rico é, ou injusto na sua pessoa, ou herdeiro da injustiça e da injustiça de outros" (Omnis dives aut iniquus est, aut heres iniqui) - São Jerónimo.  "Quem quer se tornar rico tomba nas armadilhas do demônio, e se entrega a mil desejos não apenas vãos mas perniciosos, que o precipitam por fim no abismo da perdição e da condenação eterna" São Timóteo, 6  "Ou tu és rico e tens o supérfluo, e nesse caso o supérfluo não é para ti mas para os pobres; ou então tu estás numa fortuna medíocre, e então que importa a ti procurar aquilo que não podes guardar ?" São BernardoHerbert Spencer (1820-1903)Aplica a teoria da evolução à sociedade humana, criando a "teoria da evolução social".Pensa na sociedade como um organismo, que cresce através da diferenciação(surgimento de órgãos especializados) e da interdependência entre partes. Assim, tantosnos organismos como nahistória das sociedades observa-se uma complexidade crescente. Com a evolução socialse parte de uma organização social vaga para convenções cada vez mais precisas /costumes que se transformam em lei / leis que se tornam cada vez mais rígidas eespecíficas. A evolução social e o progresso independem da vontade humana SpencerExemplo: uma tribo igual em todas as partes evolui para uma nação civilizada, repletade diferenças estruturais e funcionaisLeitura rápida #1O manifesto comunista (trechos)Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismoA história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história daslutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre decorporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constanteoposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerraque terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária, da sociedade inteira, oupela destruição das duas classes em luta.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 41
  • 42. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniA condição essencial da existência e da supremacia da classe burguesa é a acumulaçãoda riqueza nas mãos dos particulares, a formação e o crescimento do capital a condiçãode existência do capital é o trabalho assalariado. Este baseia-se exclusivamente naconcorrência dos operários entre si.Suprimi a exploração do homem pelo homem e tereis suprimido a exploração de umanação por outra. Quando os antagonismos de classe, no interior das nações, tiveremdesaparecido, desaparecerá ahostilidade entre as próprias nações.Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins. Proclamamabertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de todaa ordem social existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revoluçãocomunista! Os proletários nada têm a perder nela a não ser suas cadeias. Têm ummundo a ganhar.Escrito por Karl Marx e Friedrich Engels em dezembro de 1847 - janeiro de 1848.Publicado pela primeira. vez em Londres em fevereiro de 1848.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 42
  • 43. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini5 Status e papel social. Conflito de papéis.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 43
  • 44. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniStatus: posição que o indivíduo ocupa na sociedade.Observação: o status é diferente de prestígio, fama; todas pessoas possuem um status,que como a definição diz, é a posição.É o principal fator que vai determinar as relações sociais, pois a ele estão associados os:  direitos  deveres  e privilégiosdas pessoas na sociedadeA diferença entre posições estabelece uma distância social.ExemplosNa faculdade  reitor  diretor acadêmico  professor  secretária  estudantesNa família  avô  pai  filho  netoA distância social é maior entre os alunos e o reitor do que entre alunos e professores.O status é inseparável do papel social. O papel social é a parte dinâmica do status, ouseja, como as pessoas desempenham as funções que estão associadas com sua posiçãona sociedade.O status pode ser visto como as posições que umas pessoas ocupam em um carro(motorista, passageiro do banco da frente, outros passageiros). Já o papel social seriacomo o motorista está dirigindo, como os passageiros estão se comportando.Assim, status e papel social estão ligados a um comportamento socialmente esperado.Se este comportamento não é alcançado, então ocorre a pressão social. Todos estamossujeitos à pressão social, basta pensar em nosso comportamento, vestuário, linguagem...Por exemplo: o ocupante de um cargo político que bebe demais nas reuniões sociais nãoestá cumprindo o papel que dele se espera. Os meios de comunicação, e a sociedade emgeral, demandam uma atitude condizente.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 44
  • 45. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniSe o papel social é vastamente difundido e reconhecido pela sociedade, podemos falarde um papel padrão. É por exemplo o caso do "pai-gelol" (não basta ser pai, tem queparticipar) e do operário padrão, figura criada durante o governo de Getúlio Vargas.Portanto o conjunto de status e de papéis são uma forma de controle social, quer dizer,de controle do comportamento humano no grupo.Os papéis sociais algumas vezes são representados através de símbolos, que identificama posição de um determinado grupo na sociedade. É o caso da bata branca e oestetoscópio dos médicos, de uniformes, condecorações e medalhas dos militares.Símbolo: qualquer expressão verbal ou não-verbal que pretenda representar algumacoisa e é utilizada para transmitir significado do emissor para o receptor.Já os símbolos sociais são tipos de personalidades que as pessoas são levadas a imitar. Oherói é o mais significativo, possuindo traços que as pessoas devem copiar (bondade,perseverança, força, liderança, etc.). Mas também possibilita a promoção e manipulaçãode certos valores, sejam religiosos, sejam de solidariedade, prestígio ou aspirações.Exemplo: os heróis nacionais brasileiros são aqueles que nunca promoveram revoluçõesou derramamentos de sangue, transmitindo a idéias de uma “história incruenta”.O status pode ser de dois tipos:1) Atribuído: devido a quem se é, são obrigatórios, inevitáveis.Exemplos:  sexo (posição inferior da mulher no mundo islâmico)  idade (desconsideração com os idosos na sociedade atual)  primogênito (hereditariedade na sucessão de monarquias)  raça (segregação racial dos negros na África do Sul, até início da década de 90).2) Adquirido: é conseguido com o próprio esforço e habilidade. Relacionado com oprocesso social de competição, principalmente dentro da econômica e da políticaExemplos:  Sílvio Santos, de camelô passou a ser um dos maiores empresários do paísUma mesma pessoa pode possuir vários status, dependendo de que grupos faça parte.São diferentes, portanto, o papéis sociais associados que uma pessoa ocupa no trabalho,no clube, na comunidade onde vive, na família, etc.Daí que também existe um conjunto de papéis que a pessoa deve desempenhar.Algumas vezes existe o conflito de papéis, quando um papel de um determinado statusse confunde com outro.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 45
  • 46. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniExemplos:  O militar que traz para o ambiente familiar a disciplina e rigor que aplica a seus comandados.  O trabalhador que é promovido e deve abandonar o papel de empregado para assumir o de confidente do chefe.Mas existe o status principal, aquele que melhor identifica a pessoa. O status principaldependerá da sociedade em que a pessoa vive. Nas sociedades industriais, geralmente ostatus econômico e profissional é o mas valorizado. Em outras sociedades, a sabedoria ea experiência de uma pessoa podem valer mais.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 46
  • 47. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini6 Estratificação social. Mobilidade social. Classes sociais. Desigualdade social Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos Quando achava alguma coisa, Não examinava, nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão. Não era um gato. Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Manuel Bandeira©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 47
  • 48. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniEstratificação socialApesar dos indivíduos em uma sociedade apresentarem características semelhantes (porexemplo, elementos culturais como o idioma, a forma de ser, etc.), existem entre eles:  diferenças biológicas;  diferenças psicológicas;  e diferenças sociais (em relação aos direitos, deveres, privilégios e status).A existência dessas diferenças é o que dá origem à estratificação social, onde asociedade se divide em camadas (estratos), hierarquizadas e superpostas. A representação da estratificação geralmente se faz na forma de pirâmideO processo de formação das classes sociais no Brasil remonta à sua origem histórica.Nos anos 50, propôs-se a seguinte classificação:  Alta, média e baixaNos dias atuais, o esquema de estratificação se sofistica devido ao empobrecimentorelativo da classe média:  Classe alta tradicional, nova classe alta  Classe média alta, média-média, média-baixa  Baixa alta, baixa-baixa©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 48
  • 49. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniAtualmente, para pesquisas de opinião pública e de mercado se utiliza um esquemasimplificado:  Classe A (classe alta)  Classe B (média alta)  Classe C (média-média, média-baixa)  Classe D (baixa-alta)  Clase E (baixa-baixa)O mito da sociedade igualitáriaAo longo da história vários movimentos pregam a “sociedade de iguais” (por exemploos movimentos anarquista, socialista e comunista). Porém, trata-se de uma utopia, poisa igualdade é uma impossibilidade social!Utopia: diz-se de um conjunto de idéias ou práticas propostas que se julgamirrealizáveis. A construção de utopias é muito comum do ponto de vista de doutrinasque propõe saídas para a desigualdade social.Quando falarmos de igualdade, iremos nos referir, portanto, a igualdade deoportunidades entre todas as pessoas, ou seja, a existência de direitos iguais para todos(embora isto algumas vezes exija a redefinição de quais são estes "direitos", porexemplo a democracia ateniense excluía as mulheres).Mobilidade socialÉ a movimentação dos indivíduos de uma camada da sociedade para outra. Pode sertanto do indivíduo como do grupo.Exemplos:  mobilidade ascendente individual: Lula  mobilidade descendente grupal: senhores de engenhoJá os canais de mobilidade são “vias rápidas” através da qual um indivíduo podeascender mais rapidamente na sociedade.Os principais canais de mobilidade são  Educação  Política  Exército  Igreja©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 49
  • 50. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniJá as barreiras sociais são elementos que dificultam ou mesmo impossibilitam o acessode um indivíduo ou grupo a uma camada superior. Exemplos: exclusivismo profissional,religioso, racial.Conceito de classe socialKarl Marx explicava a estratificação social em função da dimensão econômica, dasrelações de produção. Gera o conceito, então, de "classe social, que é a expressão domodo de produzir de uma sociedade.Em seu estudo do capitalismo, Marx distingue:  burguesia  classes médias  proletariado  lumpemproletariado (submundo dos excluídos, marginalizado e sem consciência política)Com uma forte relação de oposição e interdependência entre a burguesia e oproletariado (luta de classes), enquanto as outras tenderiam a desaparecer.A possessão dos meios de produção é o fundamento básico da luta de classe que podeser monopolizada por uma minoria e utilizada para exercer o pode sobre os outros. Apropriedade é um mecanismo de fechamento social, processo pelo qual os grupos queestão no poder tratam de manter um controle sobre seus recursos.A análise econômica, no entanto, é unidimensional e se revela básica mas insuficientepara compreender a estratificação social. Max Weber propõe um sistema de posiçõesdivididos em três dimensões: econômica (riqueza) política social (poder) (prestígio)A posição de uma pessoa na sociedade, reflete então uma combinação de sua classeeconômica, seu status e seu poder.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 50
  • 51. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniAs desigualdades econômicas são uma característica permanente de todos os sistemassociais, à exceção das sociedades caçadoras e coletoras nas quais, de qualquer forma,gera-se pouca riqueza. As divisões de classe são cruciais nas desigualdadeseconômicas das sociedades modernas. A classe exerce uma grande influência emnossas vidas mas nossas atividades nunca estão totalmente determinadas por este tipode divisões e muitas pessoas experimentam certa mobilidade social. Outras, entretanto,encontram-se em situações de pobreza das que é muito difícil escapar. (...). A lutacontra a pobreza e a desesperança que, certamente, é desejável em si mesmo, podetambém ajudar um país a ser mais competitivo na economia. Anthony Giddens©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 51
  • 52. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1As desigualdades sociais no BrasilO crescente estado de miséria, as disparidades sociais, a extrema concentração de renda,os salários baixos, o desemprego, a fome que atinge milhões de brasileiros, adesnutrição, a mortalidade infantil, a marginalidade, a violência, etc, são expressões dograu a que chegaram as desigualdades sociais no Brasil.As desigualdades sociais não são acidentais, e sim produzidas por um conjunto derelações que abrangem as esferas da vida social. Na economia existem relações quelevam a exploração do trabalho e a concentração da riqueza nas mão de poucos. Napolítica, a população é excluída das decisões governamentais.Até 1930, a produção brasileira era predominantemente agrária, que coexistia com oesquema agrário-exportado, sendo o Brasil exportador de matéria prima, as indústriaseram pouquíssimas, mesmo tendo ocorrido, neste período, um verdadeiro “surtoindustrial”.A industrialização no Brasil, a partir da década de 30, criou condições para aacumulação capitalista, evidenciado não só pela redefinição do papel estatal quanto ainterferência na economia (onde ele passou a criar as condições para a industrialização)mas também pela implantação de indústrias voltadas para a produção de máquinas,equipamentos, etc.A política econômica, estando em prática, não se voltava para a criação, e sim para odesenvolvimento dos setores de produção, que economizam mão-de-obra. Resultado:desemprego.A extrema desigualdadeObservou-se anteriormente que mais de 50% da população ativa brasileira ganha até 2salários mínimos. Os índices apontados visam chamar a atenção sobre os indivíduosmiseráveis no Brasil.Mas não existem somente pobres no Brasil, pois cerca de 4% da população é muito rica.O que prova a concentração maciça da renda nas mãos de poucas pessoas.Além dos elementos já apontados, é importante destacar que a reprodução do capital, odesenvolvimento de alguns setores e a pouca organização dos sindicatos para tentarreivindicar melhores salários, são pontos esclarecedores da geração de desigualdades.Quanto aos bens de consumo duráveis (carros, geladeiras, televisores, etc), sãodestinados a uma pequena parcela da população. A sofisticação desses produtos, prova oquanto o processo de industrialização beneficiou apenas uma pequena parcela dapoppulação.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 52
  • 53. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniGeraldo Muller, no livro Introdução à economia mundial contemporânea, mostra comoa concentração de capital, combinado com a miserabilidade, é responsável pelosurgimento de um novo bloco econômico, onde estão Brasil, México, Coréia do Sul,Äfrica do Sul, são os chamados “países subdesenvolvidos industrializados”, em queocorre uma boa industrialização e um quadro dos enormes problemas sociais.O setor informal é outro fator indicador de condições de reprodução capitalista noBrasil. Os camelôs, vendedores ambulantes, marreteiros, etc, são trabalhadores que nãoestão juridicamente regulamentados, mas que revelam a especificidade da economiabrasileira e de seu desenvolvimento industrial.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 53
  • 54. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #2ONU ataca mito da democracia racial no BrasilFolha online, 18/11/2005Um relatório sobre o desenvolvimento humano no Brasil que a ONU divulga nestasexta-feira reunindo uma série de indicadores sociais e econômicos do país concluiuque, em todos eles, os negros brasileiros estão em situação desfavorável.O relatório mostras que a desigualdade se dá em áreas como renda, saúde e educação.Além disso, o trabalho faz comparações para mostrar que a situação não tem se alteradonas últimas décadas.“Os dados apenas corroboram o que está à vista de qualquer observador: quanto mais seavança rumo ao topo das hierarquias de poder, mais a sociedade brasileira se tornabranca”, diz o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), órgão daONU que produziu o levantamento.O levantamento mostra, por exemplo, que a renda média dos brasileiros negros em 2000foi de R$ 162,75, menos de metade dos R$ 341,71 (em valores corrigidos) que osbrancos ganhavam em 1980, de acordo com relatório.Desde então, a diferença entre brancos e negros praticamente não se alterou.O estudo afirma ainda que 64,1% dos pobres brasileiros são negros e que a taxa dedesemprego da população negra foi, na média, 23% maior do que o índice de brancossem emprego entre 1992 e 2003.O relatório da entidade diz que a democracia racial brasileira é um “mito” e defendeuma ação conjunta do governo e da sociedade para combater o racismo no país.O estudo acrescenta ainda que as ações afirmativas, incluindo as políticas de cotas, sãonecessárias no Brasil porque mulheres, negros e povos indígenas foram deixados “emsecular desvantagem na sociedade brasileira”.“Políticas universais são e serão sempre indispensáveis. Tratar igualmente desiguaispode, no entanto, agravar a desigualdade, em vez de reduzi-la”, afirma o relatório.Desenvolvimento humanoO levantamento do Pnud utiliza os indicadores pesquisados para revelar outro aspectoda desigualdade entre brancos e negros no Brasil.Em 2002, o Brasil ficou em 73° lugar no ranking do IDH (índice de desenvolvimentohumano, elaborado pela ONU). Mas o estudo indica que, se as populações brancas enegras representassem países diferentes, a distância entre os dois grupos seria de 61posições.O relatório diz que o ‘Brasil branco’ ficaria em 44° lugar no ranking, junto a paísescomo a Costa Rica e à frente da Croácia, por exemplo. Já o ‘Brasil negro’ seria o 105°colocado, com o mesmo índice de El Salvador e atrás de países como o Paraguai.O estudo também afirma que as desigualdades raciais se combinam às desigualdadesregionais.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 54
  • 55. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniUm grupo formado apenas pelos brancos do Sudeste ficaria na 37ª posição, com índicesemelhante ao da Polônia. Já os negros do Nordeste teriam condições de vidasemelhantes às da Bolívia e ocupariam o 115° lugar.ViolênciaO Pnud também aponta o perfil das principais vítimas da violência no Brasil: negro,jovem, de sexo masculino e solteiro.De acordo com o relatório, a taxa de homicídios para a população negra é de 46,3 paracada 100 mil. O índice é quase o dobro do registrado para brancos.O estudo afirma ainda que os negros são também as maiores vítimas da violênciapolicial no Brasil.“Revelar a relação existente entre racismo, pobreza e violência é um passo fundamentalpara compreender a forma singular que a manifestação do racismo adquire na sociedadebrasileira”, diz Carlos Lopes, editor-chefe do relatório.Educação, saúde e habitaçãoNa área de educação, o Pnud afirma que o percentual de brasileiros negros com diplomauniversitário em 2000 (2,7%) era menor do que o de brancos com nível universitário em1960 (3%). Outro indicador revela que a taxa de analfabetismo dos negros em 2000 eramaior que a dos brancos de 1980. O relatório aponta ainda que a expectativa de vida dapopulação branca do Brasil é de 71,5 anos. Entre os negros, no entanto, esse número caipara 66,2.“O racismo brasileiro há muitos séculos coloca a população brasileira em situação deflagrante desigualdade em todas as dimensões pesquisadas”, afirma Lopes, que foirepresentante do Pnud e da ONU no Brasil até outubro deste ano.“Isso exige um esforço conjunto de Estado e sociedade, e não será superado sem aimplementação de ações afirmativas e políticas que contemplem a diversidade cultural”,acrescenta o editor-chefe do relatório.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 55
  • 56. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini7 As relações e os processos sociais básicos. Isolamento, acomodação, assimilação, cooperação, competição e conflitos. Socialização Poema da necessidade É preciso casar João, É preciso suportar Antônio, É preciso odiar Melquíades, É preciso substituir nós tods. É preciso salvar o país, É preciso crer em Deus, É preciso pagar as dívidas, É preciso comprar um rádio, É preciso escolher fulana. Carlos Drummond de Andrade©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 56
  • 57. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniAs relações sociaisO ser humano é um "ser social": vivemos em sociedade desde o momento em quenascemos e das pessoas que nos cercam começamos a apreender os costumes, as regrasde comportamento, a língua.A sociedade, portanto, precede o indivíduo, pois quando ele nasce, seu grupo social jáse encontra formado e praticamente determinará como será sua vida.Neste contexto, são fundamentais as interações sociais, ou seja, ações recíprocas detoca de idéias, atos ou sentimentos que ocasionam a modificação de seuscomportamentos e a influência mútua.A interação social é a base da vida socialJá as relações sociais são o conjunto de interações sociais que se dão no grupo e podemser culturais, econômicas, religiosas, políticas, familiares, segundo o objetivo e ocontexto onde ocorrem.Exemplos: temos portanto relações familiares (conjunto de interações que ocorremdentro da família), relações econômicas, jurídicas, políticas, educativas, etc...Os processos sociais básicos: são interações sociais que acontecem de forma repetitiva,padronizada e que estabelecem os padrões de comportamento do indivíduo ou degrupos. São eles:1) IsolamentoÉ a falta de contato ou de comunicação. Pode ser devido a  Fatores espaciais: separação do grupo devido a fatores geográficos (como no caso de aldeias isoladas na montanha)  Fatores estruturais: devido a diferenças biológicas como sexo, raça ou idade (isolamento das mulheres da vida social em países islâmicos radicais)  Fatores psíquicos: devido a características da personalidade, conhecimento, interesses ou valores dentro de uma cultura (por exemplo, o isolamento entre cientistas e analfabetos)  Fatores habitudinais: devido à diferença de hábitos e costumes (por exemplo, o idioma e a religião) Os quilomboloas©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 57
  • 58. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini Antes de englobar parte do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, o município de Cavalcante já abrigava um dos principais quilombos brasileiros: a comunidade calunga. É fácil entender por que os escravos que escapavam se refugiavam nessa região mais de 200 anos atrás. A chapada dos Veadeiros é um mar de serras, morros, cânions, cachoeiras e olhos-dágua, e os paredões de pedra formam muralhas penosas de ultrapassar. O isolamento foi a defesa contra os senhores de escravo que queriamreconduzir os quilombolas à escravidão. E esse isolamento --que diminuiu bastante nos últimos anos-- contribuiu para preservar a identidade e o modo de vida tradicional.2) CooperaçãoÉ a ação comum para conseguir determinado fim. A cooperação estabelece a divisãosocial do trabalho.Exemplos: mutirão, trabalhos em grupo, cooperativa3) CompetiçãoÉ a disputa por bens e vantagens sociais que são limitadas. É uma característica dasociedade capitalista, onde a competição é um estado permanente.Exemplo: vestibular, concorrência comercial, disputa entre naçõesUm estado intermediário é a rivalidade, quando o grupo opositor passa a serexplicitamente reconhecidoExemplo: times de futebol tradicionais: Palmeira versus Corinthians, Náutico versusSanta Cruz. Espírito e matéria podem conviver nos negócios Há muitos anos, o economista J. K. Galbraith - grande crítico da natureza humana - disse que "a competição traz à tona o melhor de um produto e o pior de uma pessoa". Talvez neste pensamento se resuma o dilema do capitalismo moderno que deve conciliar a sua própria sobrevivência com os valores humanos. Como resultado, ainda hoje testemunhamos verdadeiras aberrações, como o caso de um grande laboratórioamericano que modificou propositadamente a fórmula de um medicamento barato para obrigar os pacientes a migrarem para um similar mais caro. Em outro extremo, no entanto, já são numerosos os exemplos de empresas e dirigentes que compreenderam que o seu verdadeiro papel no mundo vai além do lucro no fim do ano. (..... Em publicação recente, o Schumacher UK - The Create Environment Centre resumiu daseguinte forma a sua filosofia sobre o papel da empresa no mundo moderno: "Empresa©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 58
  • 59. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini sem alma, negócios sem paixão, indústria que não respeita a ecologia, bancos que agem sem espírito de justiça, economia sem igualdade só podem causar o colapso da sociedade e a destruição da natureza. Somente quando espírito e negócios trabalham juntos, a humanidade encontra coerência em seu destino". (Francisco Gracioso, editorial da Revista da ESPM, jan.-fev. 2007).4) ConflitoEstado onde os competidores buscam a eliminação dos competidores. Geralmente émais consciente e mais transitório (exige o consumo de recursos importantes para asociedade ou para o grupo). Caracteriza-se por um estado de tensão social (predomíniode emoções pessoais como o ódio e podem ser de fundo raciais, econômicos, religiosos,políticos.Os conflitos assumem a forma de litígio, guerra, sabotagem, revolução, terrorismo.5) AcomodaçãoUma situação de ajuste ao conlito (justamente devido aos custos deste), com oestabelecimento de acordos temporários. Porém, não há a modificação das atitudes epensamentos dos envolvidos, a acomodação somente pode ser observada em aspectosexternos.AS formas de se obter a acomodação são a coerção, o acordo (arbitrado ou mediado) ea conciliação.6) AssimilaçãoApresenta uma solução permanente para o conflito, exigindo um processo longo econtínuo. ao final, existe o compartilhamento de uma cultura comum.É o caso de empresas que se fundem ou de países que após uma guerra civil passam ademonstrar uma identidade nacional.Uma forma especial de assimilação é a aculturação, quando a assimilação se refere aelementos culturais. Por exemplo, é o caso dos imigrantes, especialmente italianos,espanhóis e portugueses, que a partir de situações de conflito com sua introdução nasociedade brasileira passaram a fazer plenamente parte dela.SocializaçãoA socialização é o processo de aquisição da cultura, desde a forma de falar, pensar,agir, vestir-se, comer, em suma, todos os hábitos, costumes, normas e valores do grupo.  É um processo de transmissão de uma geração para outra.  É um processo de transmissão social (não biológica) e portanto, faz parte do universo cultural do homem.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 59
  • 60. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  É o processo através do qual se aprendem os papéis sociais, os padrões de comportamento social e a interiorização de valores.As funções da socialização são: a) Formar uma identidade própria (ao mesmo tempo que as pessoas são parecidas com os traços gerais da sociedade onde vivem, também são únicas). b) Adaptação ao ambiente social, aprendizagem dos papéis sociais, começa quando nascemos e dura durante toda a vida.Os agentes de socialização são:  Família: reprodução de normas e costumes com base em seu universo cultural  Pequenos grupos: compromisso, solidariedade, pressão de grupo. Exemplo: fumo entre os adolescentes.  Escola: ensino das relações formais e impessoais, da burocracia e regras de comportamento na sociedade.  Grupos de referência: são figuras dentro da sociedade que estimula modelos de comportamento e atitudes. Exemplo: os Beatles, na década de 60, artistas, esportistas...  Meios de comunicação de massa: incentivam hábitos, modismos, e na atualidade, o consumismo.A socialização se faz por participação em atividades sociais, imitando os mais madurosem situações concretas e por comunicação onde aprendem-se lições da vida alheia.Também apontamos uma distinção entre socialização concomitante (a que ocorre aomesmo tempo que o exercício de um papel) e a antecipatória (que prepara para umpapel futuro).A socialização é fundamental para o desenvolvimento do ser humano, existem casosde crianças que não foram socializadas e nunca tiveram um desenvolvimentointelectual pleno.Caso de estudo: o que acontece na ausência de socialização de um recém nascido? Naimpossibilidade de realizar um experimento desse tipo, a casualidade proporcionou aoscientistas sociais exemplos de "homus ferus", crianças criadas pelos animais, porexemplo, "meninos-lobos" na Índia que inspiraram Rudyard Kipling a escrever "O livroda Selva" (Mogli). Outro caso famoso é o "menino selvagem de Ayron"Daí sua importância, pois além de envolver a aprendizagem de uma consciência social,como por exemplo revidicar os direitos e desempenhar os deveres sociais, também estárelacionado com adquirir atitudes, aceitar ou rejeitar o papel que a sociedade atribui auma pessoa.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 60
  • 61. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1O caso da curva do sino (bell curve)Nos anos 60, apareceu uma curiosidade cientifica relativamente à relação entrehereditariedade, raça e inteligência, quando nos EUA se verificou que as crianças negrastinham testes de inteligência com resultados inferiores aos das crianças brancas.A investigação das causas decorreu segundo 3 caminhos: influência da hereditariedade edo meio ambiente sobre as capacidades mentais, critica ao valor dos testes de QIenquanto medida de inteligência; influencia do meio ambiente sobre a inteligênciacerebral.Quanto à influência da hereditariedade e do meio ambiente sobre as capacidadesmentais do indivíduo, os cientistas acreditavam que é o meio ambiente social eeducacional que promove o sucesso social e educacional, mais do que a hereditariedade.De fato a higiene, alimentação ou educação favoreciam ou não a ascensão de statusporque nem todos têm as mesmas oportunidades.Assim, o governo adotou uma política para que todas as pessoas de diversos meiossociais tivessem as mesmas oportunidades de ascensão na sociedade. Programas de açãosocial levavam às áreas mais empobrecidas onde havia crianças negras crianças brancase vice versa para haver assim classes mistas e diminuir o preconceito racial e as criançaspuderem trocar experiências entre si.Contudo esta idéia não foi bem vista, principalmente pelos pais das crianças mais ricasque diziam que professores das crianças negras eram piores. Arthur Jensen escreveu“Em que medida podemos superar os Qis e promover o ensino?”. Era um psicólogoeducacional, hereditarista e segregacionista defendendo que o ensino devia serdiferenciado e proporcional às capacidades das crianças. Ou seja, defendia que se ascrianças negras tinham piores resultados nos testes de QI, deveriam ser objeto de umensino proporcional as suas capacidades intelectuais.Esta polêmica foi ressuscitada em 1994 com o lançamento de um livro titulado A curvado sino (The Bell Curve), que fazia o mesmo tipo de afirmações. Entretanto, logosurgiram críticas em relação à objetividade do estudo. Uma revista chamada MankindQuarterly é citada cinco vezes no livro, além do que dezessete autores desta publicaçãotambém são citados. A revista foi fundada por Robert Gayle, um notório racista e outroseditores são membros de movimentos em favor da eugenia (melhoria genética da raçahumana). Além disso a revista é financiada pelo Pioneer Fund, um fundo estabelecidopor um simpatizante nazista e defensor do regime do apartheid, na África do Sul. Osautores de Bell Curve com este fundo pró-preconceito são substanciais, já que citamcientistas financiados com dinheiro (mais de quatro milhões de dólares) desta fundação.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 61
  • 62. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniOutros questionamentos são metodológicos. Serão sem valor os estudos que mostramque negros ou asiáticos obtêm resultados diferentes dos americanos assim chamados"brancos" nos testes padronizados de QI? Isto é, serão inúteis os trabalhos de pessoascomo Herrnstein e Murray? Não. São dados valiosos, mas também explosivos devido aonosso histórico político racista. Dados como esses serão inevitavelmente explorados pordefensores da supremacia branca, distorcidos para atingir seus objetivos políticos eusados, não para melhorar as relações raciais nos EUA, mas para incentivar maisconflitos raciais. Esses dados consistem principalmente em correlações e, embora issonão convença cientistas empíricos ortodoxos de nada, as correlações são o coração e aalma do trabalho do pesquisador racista.Na verdade, Herrnstein e Murray, capítulo após capítulo, clamam por reformas sociaispara melhorar a situação dos negros nos EUA. Podem ser reivindicações fingidas mas,de qualquer forma, são incoerentes com a idéia de que as condições sociais dos negrosnos EUA se deva a fatores genéticos. Se foram os genes que resultaram na sub-raçanegra de jovens selvagens que matam-se uns aos outros diariamente em quase todacidade nos EUA, não há fundamento em reivindicar programas educacionais evocacionais©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 62
  • 63. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #2Modernidade, disciplina e futebol: uma análise sociológica da produção social dojogador de futebol no Brasil (conclusão)Francisco Xavier Freire RodriguesSociologias, Porto Alegre, ano 6, nº 11, jan/jun 2004, p. 260-299Este trabalho investigou a relação entre modernidade, disciplina e formação profissionaldo jogador de futebol moderno. Uma das premissas principais que sustentou o trabalhoé que o futebol moderno é uma instituição disciplinadora e civilizadora.No futebol moderno, basicamente tudo é ensinado, exceção do talento, que é algonatural, porém aperfeiçoado por meio de treinamentos. Com a diminuição dos camposde várzea, devido ao crescimento urbano acentuado, a escolinha de futebol ganha relevoespecial. O aprendizado do futebol desloca-se para as escolinhas dos clubes. É nasdivisões de base dos clubes profissionais que ocorre o processo de ensino de futebol e,conseqüentemente a profissionalização do jogador. Nas escolinhas de futebol, tudo seensina: as técnicas, as regras, as condutas, a preparação e o uso do material esportivo.Podemos sintetizar o que foi exposto neste trabalho da seguinte forma:(1) O futebol surge no Brasil como um produto da modernidade. Seu desenvolvimentosegue dinâmica similar aos demais setores da sociedade, em que a modernizaçãoimplica a intervenção da ciência;(2) O controle social, os treinamentos e a repressão, os mecanismos principais nodisciplinamento na formação do atleta; (3) O dom, o sonho de enriquecer, o incentivo dafamília e a seleção brasileira são as motivações pelo futebol.A produção social do jogador de futebol, especialmente com o advento dos Centros deTreinamento, decorrente da recente modernização, consiste em um processo dedisciplinamento, adaptação, socialização, adestramento, desenvolvimento eaperfeiçoamento das potencialidades físicas e técnicas do atleta, além da administraçãodo seu potencial genético. Trata-se, pois, de um processo disciplinador, pedagógico ecivilizatório caracterizado pela regulamentação, controle, institucionalização eracionalização. O jogador de futebol é uma força de trabalho produto dodisciplinamento, treinamentos físicos, técnicos e táticos e do desenvolvimento de suascapacidades genéticas.Portanto, o jogador de futebol passa por uma formação profissional. O jogador defutebol brasileiro não nasce feito, é produzido socialmente, ou seja, é formado eminstituições especializadas.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 63
  • 64. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #3O menino selvagem de AyeronNum dia de Verão do ano de 1798, numa floresta francesa, foi encontrada por caçadoresuma criança selvagem.Levada para Paris, foi observada pelo mais célebre psiquiatra da época, Pinel, que aconsiderou como um idiota irrecuperável e pelo jovem médico Itard que, ao contrário,considerou ser possível recuperar o atraso provocado não por inferioridade congênitamas pelo seu isolamento total.O "selvagem" estava hirsuto e deslocava-se como um animal, quer a quatro patas, quersob as suas pernas. Vivia naturalmente nu. O corpo estava coberto de cicatrizes, tinhaunhas como garras e exprimia-se apenas por grunhidos. Na floresta, alimentava-seunicamente de castanhas e raízes e pensa-se que, entre o momento do seu abandono e oda sua captura, deve ter passado entre sete a oito anos em solidão absoluta. As cicatrizesque Victor tinha no corpo eram marcas de luta. Provavelmente, mordeduras de animaiscom que se havia batido. Mas, no pescoço, à altura da artéria uma cicatriz maisprofunda que as outras parecia a marca de um golpe de faca. Tratava-se talvez de umacriança que alguém teria querido matar, de que teriam querido desembaraçar-se, quandoela teria três ou quatro anos de idade e que, julgando-a morta, teria sido abandonada nafloresta. Pode supor-se que a ferida, com a ajuda de poeira e de folhas que se lhe tenhamvindo colar, tenha cicatrizado por si própria.Os médicos que examinaram o "selvagem" em Paris pensaram que se tratava de umacriança débil ou idiota que, por essa razão, tinha sido abandonada na floresta e que,portanto, seria inútil que alguém dela se tentasse ocupar. Segundo esses médicos, oselvagem deveria ser enviado a Bicêtre para junto dos loucos e dos incuráveis. Essa nãoera porém a posição de Jean Itard, um jovem médico que fazia investigação sobre asurdez. Ele pensava que o selvagem de Aveyron era digno de receber educação e pediuautorização para se encarregar dele, na sua casa perto de Paris. Inicia então a educaçãode Victor, inventando e utilizando toda a espécie de procedimentos de que nos servimoshoje ainda para a reeducação de crianças surdas-mudas e atrasadas.Para provar a veracidade das suas razões, Itard pediu a tutela desta criança. Assim, nasua casa em Batignoles, com a ajuda da sua governanta, Mme Guérin, iniciou a difíciltarefa de desenvolver as faculdades dos sentidos, intelectuais e afetivas de Victor, nomepelo qual se passou a chamar esta criança.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 64
  • 65. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini8 Controle social. Normas. Sanções. Desvio social. Marginalização e crime©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 65
  • 66. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniDesvio social, crime e controle socialO objetivo de toda sociedade é a convivência social, que somente é conseguida atravésde regras de convivência e de controle. Para aprofundar esta questão, vejamos algunsconceitos:Ordem social: sistema de pessoas, relacionamentos e costumes que operam para ofuncionamento da sociedadeValores: nos dizem o que é bom x mau honrado x vergonhoso agradável x desagradávelOu seja, orientam e condicionam o pensamento de todos os indivíduos em umacoletividade. Os valores variam com as classes sociais e inclusive com a história, aolongo do tempo.Hábitos e costumes: são fruto da socialização (aprendizagem social) e constituem asmaneiras normais e freqüentes de um grupo social fazer as coisas.Normas: são os hábitos que são fundamentais para o bem estar do grupo. Constituemuma obrigação social, pois exigem, permitem ou proíbem determinadoscomportamentos, ou sejam, buscam a conformidade.As normas podem ser: 1) formais: codificadas no Direito, sancionadas pelo Poder Público (ou em outros tipos de instituição como escola, empresas, clubes). 2) informais: sistema de regras não explicito, regras estas ritualizadas nos costumes e no comportamento. 3) de cortesia: controlam o comportamento entre indivíduos, mais do que entre o indivíduo e o grupo.A diferenciação formal e informal é relativa, pois através e um processo deinteriorização um norma formal pode transformar-se em informal e vice-versa.Exemplos: burkas no Afeganistão, eram formalmente proibidas, depois de liberadas pelalei, continuam proibidas, desta vez informalmente, pelos costumes.Controle social: busca fazer com que cada indivíduo desempenhe seu papel, utilizandotécnicas e estratégias específicas para regular o comportamento humano.O controle social pode ser©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 66
  • 67. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini 1) formal: cumprido por agentes autorizados: multa, sentença, promoção, demissão 2) informal: usado casualmente: riso, desprezo, ridicularização, concordância, aprovaçãoO controle social é exercido de inúmeras formas: 1) socialização: através do "domínio que o indivíduo exerce sobre si mesmo", através das regras e normas que lhe foram passados pela educação, convivência, etc. 2) pressão de grupo: adequação do indivíduo ao papel social que corresponde a seu status. 3) sanções: sistema de recompensas e punições que tem como objetivo fazer com que as normas sejam respeitadas.As sanções, com relação a seu caráter, podem ser:a) positivas: estimulam determinado comportamentoExemplos: promoção, aumento salarial, diploma.b) negativas: reprimem determinado comportamentoExemplos: multas, prisão.Com relação à forma, podem ser: 1. Físicas: palmada, tortura, jejum, afago. 2. Econômicas: multa, embargo comercial, aumento de salário. 3. Sociais: desprezo, ridículo, palmas. Jonathan Atholl, historiador da delinqüência, descreveu a vida em Newgate, uma das primeiras prisões de Londres. Era um lugarbuliçoso, animado e cheio de visitas grande parte do dia. Em 1790 e um dos condenados fez algo que não parece que fora incomum: celebrar uma festa na prisão. "serve-se o chá às quatro da tarde com música de violinos e flautas, e depois os convidados dançaram até as oito, momento em que se serve um jantar frio. A festa terminou às nove, hora habitual de fechamento da prisão" (Atholl, 1954, p.66). Até o século XIX as principais forma de castigo eram o pelourinho, as chicotadas, marcar com ferro candente ou a forca, e todas elas faziam-se em público e muita gente ia às presenciar. Algumas execuções atraíam a milhares de pessoas. Os prisioneiros, antes de ser executados, podiam fazer um discurso justificando seus atos ou declarando-se inocentes. A multidão aclamava, vaiava ou assobiava para expressar o que lhe pareciam as afirmações do réu. Anthony Giddens©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 67
  • 68. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniDesvio social: é o afastamento em relação às normas Violação das regras sociais equebra de valores. O desvio social é universal (observado em todas sociedades), masassim como os valores, profundamente cultural (exemplo, em algumas culturasprimitivas o canibalismo é uma virtude).O desvio social pode se transformar em norma e vice-versa (ex. mini-saia, foiconsiderada indecente quando surgiu, hoje é praticamente uma obrigação.Os desvios sociais podem ser:  culturalmente aprovados: o gênio, o santo, o líder, o herói  negativos: pecador, avarento, dedo-duroOutros desvios são: o assassinato, o roubo, o estupro, inclusive a homossexualidade(este último em relação valores atuais da sociedade). Àqueles que desenvolvem idéias novas na política, ciência, arte ou outros campos, aos que seguem caminhos ortodoxos lhes olham freqüentemente com suspeita ou hostilidade. Por exemplo, os ideais políticos que se desenvolveram com a Revolução Americana -liberdade do indivíduo e igualdade de oportunidades- encontraram uma grande oposição em muitos setores da época, embora hoje sejam aceitos em todo mundo. Apartar-se das normas dominantes de uma sociedade exige valentia e decisão, mas resulta freqüentemente crucial para assegurar processos de mudança que logo são considerados de interesse geral. Anthony Giddens©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 68
  • 69. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniMarginalidade: ocorre quando o indivíduo fica fora, "à margem" do grupo. Nestaocasião, cria-se um sistema alternativo de normas. A grande dificuldade do problemasocial da marginalidade é reinserir os marginalizados na sociedade implica, portanto,um processo de re-socialização.Crime (delito): è um tipo específico de desvio das normas sociais, no caso, aquelasestabelecidas pela Lei. Qualquer explicação satisfatória da natureza do delito deve ser sociológica, porque a definição de delito depende das instituições sociais de uma sociedade. Um dos aspectos mais importantes do pensamento sociológico sobre o delito é a ênfase que põe nas interconexões entre conformidade e separação em diferentes contextos sociais. As sociedades modernas contêm muitas sub- culturas distintas e o comportamento que respeita as normas de uma delas pode considerar-se desviado em outra. Por exemplo, um membro de uma gangue juvenil pode ser pressionado para ser testado roubando um carro. Além disso, existem profundas diferenças de riqueza e de poder na sociedade, que determinam em grande medida as oportunidades de que dispõe cada grupo. Não resulta surpreendente que o roubo e a invasão de moradia sejam realizadas por pessoas que pertencem aos setores mais pobres da população, enquanto que a malversação de recursos ou a evasão de impostos estão limitados, por definição, às pessoas que ocupam posições de certa influência Anthony Giddens©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 69
  • 70. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1Namoro de garotas vira caso de políciaFolha de São Paulo, sexta-feira, 07 de outubro de 2005LUÍSA BRITOO namoro entre duas garotas, na USP da zona leste, virou caso de polícia. Bárbara, 22, eMelissa, 18, (os nomes são fictícios) estavam na cantina da universidade, na tarde dasexta-feira passada, quando foram abordadas por uma policial militar que trabalha naregião. Houve discussão e elas foram levadas para a delegacia.As meninas, que namoram há quatro meses e se conheceram na própria universidade,dizem que uma estava no colo da outra e trocaram apenas um beijo, um "selinho". Naversão da PM, as duas se beijavam de forma acintosa e trocavam carícias nas partesíntimas, o que configurou "ato obsceno".As meninas afirmam que estavam numa mesa, na cantina, com vários colegas. Melissaestava sentada no colo de Bárbara e as duas se beijaram. Segundo elas, a policial, ao vera cena, aproximou-se e disse não saber que a homossexualidade era permitida por lei.As meninas e os colegas reagiram, dizendo que as duas podiam namorar ali. "Aí apolicial começou com um discurso preconceituoso, dizendo que a USP era um lugar demães de família e gente séria", disse Bárbara. "Estávamos conversando quando apolicial chegou. Achei que ela não estava falando sério", afirma a aluna PatríciaRezende, colega do casal.Segundo as meninas, a discussão acabou porque um funcionário da USP convenceu apolicial a deixar o local. Meia hora depois, elas foram informadas que o caso estavasendo registrado formalmente pela polícia e foram chamadas a assinar um termo. Comose recusaram, tiveram de ir até a delegacia de Ermelino Matarazzo, onde ficaram cercade três horas.Elas dizem ter se recusado a assinar o documento por considerar que ele não explicavaqual crime teriam cometido. Um funcionário da USP as acompanhou até a delegacia,evitando que fossem levadas em um carro policial.De acordo com o tenente Raul Marcel de Mendonça, responsável pelo patrulhamento daregião, a policial afirmou que as duas estavam se "beijando de forma acintosa epassavam a mão uma nas partes íntimas da outra", o que configurou o ato obsceno.Segundo o tenente, a policial que abordou as meninas não estava trabalhando ontem e,por isso, não poderia ser entrevistada.Bárbara diz que contou à família o que ocorreu e seus pais pediram apenas que fosseprudente, já que o caso envolve a polícia. O medo de Melissa, porém, é que a famíliadescubra que ela namora uma garota. As duas preferem não revelar seus nomes.O DCE(Diretório Central dos Estudantes) da USP pretende fazer um ato público contra o caso.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 70
  • 71. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniPara as meninas, a abordagem da policial e a ida para a delegacia foramconstrangedoras. "Vou processá-la [a policial] mesmo sabendo que isso não mudará suamente, mas é para ela saber que não fizemos nada ilegal", afirmou Bárbara. Nadelegacia, foi registrado um documento (termo circunstanciado) e, agora, as duas serãoouvidas pela Justiça.Bárbara e Melissa afirmam que costumam namorar na rua e que, geralmente, as pessoasmostram-se assustadas ou fazem brincadeiras. "De tudo o que já ouvi, isso [a declaraçãoda policial] foi o mais agressivo", disse Melissa.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 71
  • 72. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #2Cidade punirá penetras de festa, quem andar peladão em casa ou chutar cães semrazãoTabloideanas, 22/12/2004Atenção você, que entra em uma festa sem ser convidado(a). E atenção você, que gostade andar peladão (ou peladona) em casa. E principalmente você, que é vizinho (a) dealguém que gosta de andar nu no doce recanto de seu lar - e aproveita para dar aquelaespiadinha básica. As autoridades de Villahermosa (sudeste do México), que não têmmais o que fazer, estão de olho em vocês.A partir do próximo dia 1º de janeiro, Villahermosa irá punir -com multa ou até prisão(!!!)- quem cometer algum dos três crimes (!?!) citados no parágrafo anterior.E tem maisVocê pensa que a sede de punições dos manda-chuvas lá de Villahermosa parou por aí?Também serão punidos quem esbofetear ou socar uma pessoa em público, agredir cãessem motivo ou se manifestar nas ruas sem permissão das autoridades. Donos decachorros e outros mascotes que sujarem as ruas (sim, cocô ou xixi) também serãopunidos.As informações deste texto foram publicadas no jornal "La Jornada" que, espera-se, nãoserá punido pelas autoridades de Villahermosa por isso.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 72
  • 73. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini Leitura rápida #3 César Lombroso (1836 – 1909) Escreveu entre outras obras “Homem Delinqüente” 1876 e “Anatomia de um crime” 1893 Visitava as cadeias e, olhando para os presos, via os seus traços anatômicos e relacionava-os com determinados crimes, porque acreditava que as pessoas nasciam com predisposição para praticar crimes. Assim apresenta 7 tipos de criminosos:1. Criminoso nato ou atávico: não tem sensibilidade em relação à vida dos outros. Possui alguns estigmas : maças de rosto salientes, testa para trás, cabeça oval, demasiado grande ou pequena, olhos oblíquos, braços pequenos em relação ao corpo, ou então um maior que o outro.2. Criminoso epiléptico: cometiam crimes devido à sua doença3. Criminoso imbecil moral: não possui consciência do bem e do mal, comete o crime sem se aperceber4. Criminoso impetuoso ou apaixonado: comete crimes passionais5. Criminoso do tipo criminalóide: possui deficiências no sistema nervoso central, é facilmente irascível.6. Criminoso habitual e...7. Criminoso involuntário: são ambos influenciados pelo ambiente (aprendizagem social). Contudo, Lombroso e os seus discípulos foram refutados por autores ambientalistas como Gabriel Tarde que em 1890 escreve “Leis de imitação”, uma resposta a Lombroso onde é afirmado que a delinqüência é provocada pelo meio social e educacional (por imitação) e não por hereditariedade. ©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 73
  • 74. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #4Outros tipos de crimeAnthony Giddens.Crime de colarinho brancoO termo "crime do colarinho branco" foi cunhado pelo Edwin Sutherland (1949) paradenominar os delitos que cometem os que pertencem aos setores mais acomodados dasociedade. O termo abrange muitos tipos distintos de atividades delitivas, incluídas asfraudes fiscais, as práticas ilegais de venda, os seguros e as fraudes imobiliárias,desfalques, a manufatura ou venda de produtos perigosos e a contaminação ambientalpor cima dos limites permitidos, assim como o puro e simples roubo. O alcance dosdelitos de colarinho branco é inclusive mais difícil de medir que o do resto dos delitos;muitas de suas manifestações nem sequer aparecem nas estatísticas oficiais. Podemosdistinguir entre crimes de colarinho branco e delitos dos poderosos. Os primeirossuportam normalmente a utilização de uma posição profissional ou de classe média pararealizar atividades ilegais, enquanto que os segundos são aqueles nos que a autoridadeque confere uma posição é utilizada com fins delitivos; como quando um funcionárioaceita um suborno para favorecer uma determinada política.Crimes de EstadoPode-se dizer que as autoridades governamentais algumas vezes cometem delitos? Se o"delito" se definir de um modo mais amplo do que para referir-se a uma maldade moralque tem conseqüências perniciosas, a resposta está muito clara. Os Estados cometeramalguns dos delitos mais desprezíveis da história, incluindo a destruição de povosinteiros, os bombardeios maciços indiscriminados, o holocausto nazista e os campos deconcentração do Stalin. Entretanto, inclusive se definimos o delito como a atuaçãocontra as leis estabelecidas, não é incomum que os governos cometam delitos. Querdizer, que passem por cima ou transgridam as próprias leis cuja autoridade se supõe quetêm que defender.A polícia, a instituição estabelecida para controlar o crime, às vezes se envolve elamesma em atividades delitivas. Esta participação não só se manifesta em atos isolados,mas também é uma característica comum do trabalho policial. Entre as atividadesdelitivas dos policiais se incluem a intimidação, golpear ou matar suspeitos, aceitarsubornos, contribuir à organização de redes de delinqüência, fabricar ou esconderinformação e ficar com parte das lucros quando se recupera dinheiro, drogas ou outrosbens roubados.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 74
  • 75. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini9 Mudança social. Teorias da mudança social©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 75
  • 76. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniMudança socialAs sociedades estão em permanente estado de mudança: ela é inerente e inevitável.Assim, “o que é constante na vida social é a mudança, não a estabilidade”.As sociedades humanas têm demonstrado uma capacidade de mudar constantemente: éo chamado poder adaptativo. As mudanças podem ser rápidas e abruptas ou podemlevar um longo período de tempo.Na história da humanidade, foram observados três grandes momentos de rápidamudança:  1ª Revolução tecnológica: agricultura, roda (Neolítico, 12.000 AC)  2ª Revolução tecnológica: revolução industrial (final do século XIX)  3ª Revolução tecnológica: tecnologia da informação e da comunicação (final do século XX)De uma revolução para outra, observamos:  aumento da complexidade  aumento da taxa do ritmo de mudançaÉ importante diferenciar entre:  Mudança social (mudanças nas estruturas e relações sociais)  Mudança cultural (transformações de valores e normas)Fatores da mudança social1. Fatores geográficos:Cataclismos geológicos e climáticos mudam de forma permanente ou transitória aorganização e a estrutura de uma sociedade.2. Fatores socioeconômicosEnvolvem processos sociais e econômicos. Muitas vezes estão relacionados com oambiente físico (geográfico).Exemplos:  Guerras, revoluções, conquistas  Concentração e desenvolvimento econômico de uma região devido à descoberta de recursos naturais3. Fatores culturaisTransformação nas idéias e valoresEx. desenvolvimento da filosofia, difusão das religiões e ideologias, marxismo,feminismo, direitos humanos, cristianismo4) Fatores tecnológicos©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 76
  • 77. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniTecnologia: "conhecimento e ferramentas para manipular o meio físico para atingirdeterminados fins".A tecnologia contribui para a manutenção econômica da sociedade, impulsionamudanças culturas e sociais.Já o determinismo tecnológico explica a mudança social em função somente do fatortecnológico.5) Fatores biológicos  Epidemias, crescimento populacional,  MiscigenaçãoProblemas sociais(lembrando, a razão de ser da Sociologia!)Situações indesejáveis que vão em contra dos valores aceitos normalmente e de umasociedade harmonizada. São inseparáveis dos processos de mudança social, sejam porque esta os causou ou por que através dela pretende-se solucioná-los.Evolução socialResultado cumulativo de mudanças sofridas por uma sociedade, orientadas a umamesma direção processo de aperfeiçoamento contínuo das interações e relações sociais,permitindo a alteração da realidade social e a adaptação às mudanças.Pode assumir duas formas: 1) Progresso: aumento da capacidade humana de suprir suas próprias necessidades, melhorando sua qualidade de vida. Está condicionado a um juízo de valor, que condiciona uma determinada direção e uma determinada forma de pensar, por exemplo: o progresso técnico frente à valorização das características espirituais do ser humano 2) Desenvolvimento: o progresso entendido como riqueza (capitalismo) resulta na concentração da abundância nas mãos de poucos (elites) desenvolvimento seria a distribuição eqüitativa destes recursos, podendo ser: humano, sustentável, responsávelTeorias da mudança social1. Estágios definidos (evolucionismo)A sociedade avança gradualmente, segundo estágios sucessivos, em direção a um estadomais avançado de civilização.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 77
  • 78. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini2. TélicaMudança ocorre devido à forças racionais, intencionais (planejamento em turismo,educação e melhoria do nível cultural da sociedade).3. Deterministamudança ocorre devido a determinadas forças (economia, ideologia, tecnologia).4. CíclicasA história passa por ciclos, estágios sucessivos, até voltar ao ponto de origem (ascensão,apogeu e queda).©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 78
  • 79. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeituras rápida #1Hômi com hômi, mulé com muléRicardo FreireRevista Época, Edição 303 - 06/03/04A onda de casamentos gays em São Francisco lembra o êxodo de alemães orientais queantecedeu a queda do Muro de Berlim. Quando o governo húngaro resolveu abrir suafronteira com a Áustria, milhares de alemães do Leste inventaram férias na Hungria emontaram tocaia na divisa com o Ocidente, esperando o momento de escapulir.Mais uma vez, São Francisco é uma cidade na fronteira entre a comunidade gay e asociedade americana. A qualquer hora do dia, centenas de casais do mesmo sexo(conforme o novo jargão politicamente correto) aglomeram-se nas escadarias daprefeitura, à espera da sua vez de tornar-se marido e marido ou mulher e mulher. Gays elésbicas não param de vir de todas as partes dos Estados Unidos para aproveitar aperestroika antes que acabe.Se perguntados, muitos dirão que estão ali apenas para adquirir 1.043 direitosgarantidos pela Constituição dos EUA a cidadãos casados. No fundo, porém, o quemotiva a maioria é poder realizar aquilo que suas famílias passaram dez, 15, 20 anos lheenchendo o saco: Afinal, quando é que você vai casar e ter filhos?. Sim: filhos. À luzda medicina moderna, um par de pais e uma dupla de mães não passam de casaiscomuns, com problemas corriqueiros - e perfeitamente contornáveis -, no departamentoprocriação.Não há dúvida: gays e lésbicas estão se tornando cada vez mais conservadores. Arecíproca não é verdadeira - mas só por enquanto. Na semana passada, a revistaconservadora britânica The Economist publicou sua segunda capa pró-casamento gay. Apartir de agora, quem for a favor da austeridade fiscal, do superávit primário, dasprivatizações e do livre-comércio internacional não pode mais se opor ao casamentohomossexual de papel passado.Oficializar o casamento gay é uma questão de justiça social. Não há casamentoheterossexual sem algum envolvimento homo. Nem a filha do Mel Gibson conseguiriapassar por um dia da noiva sem gays por perto. No elenco de padrinhos, sempre tem umirmão ou um tio solteirão, e pelo menos uma prima que divide o apartamento com umaamiga faz um tempão.Não há por que se chocar com o casamento gay. Você já viu um casal de homens ou demulheres fazendo a compra do mês no supermercado? Pois então. Não há momentomais íntimo na vida de um casal. Se você compartilhou uma cena dessas e sobreviveu,então está pronto ou pronta para ser padrinho ou madrinha deles ou delas.Não são apenas os gays que tentam tirar vantagens do momento. George W. Bush, quenão tem bingos para fechar, aproveitou a polêmica para arrumar um assunto quedesviasse a atenção do eleitorado dos problemas da economia. Aqui embaixo, bem queo presidente Lula poderia demonstrar alguma simpatia pelo casamento de hômi comhômi e mulé com mulé. Em primeiro lugar, demonstraria seu não-alinhamento com©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 79
  • 80. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniGeorge W. De quebra, conseguiria tirar o foco do noticiário do caso Waldomiro, semdesempregar ninguém.A propósito, a legalização do casamento gay poderia fazer maravilhas por esse PIBnegativo do ministro Palocci - provocando um boom imobiliário, um aquecimento nomercado de móveis e eletrodomésticos e uma bolha no mercado de viagens de lua-de-mel. Fica a sugestão para a próxima reunião do Copom: baixa da taxa de juros, com viésde liberação do casamento gay.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 80
  • 81. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #2Determinismo tecnológicoDe acordo com os deterministas tecnológicos, (como Marshall McLuhan, Harold Innis,Neil Postman, Jacques Ellul, Sigfried Giedion, Leslie White, Lynn White Jr. and AlvinToffler), as tecnologias (particularmente as da comunicação ou mídias) sãoconsideradas como a causa principal das mudanças na sociedade, "e são vistas como acondição fundamental de sustentação do padrão da organização social. Os deterministastecnológicos interpretam a tecnologia como a base da sociedade no passado, presente eaté mesmo no futuro. Novas tecnologias transformam a sociedade em todos os níveis,inclusive institucional, social e individualmente. Os fatores humanos e sociais são vistoscomo secundários."A controvérsia do estriboUm das grandes teorias do determinismo tecnológico foi elaborada pelo historiado LynnWhite Jr. Que em 1962 no livro Tecnologia Medieval e Mudança Social afirmou que aIdade Média não teria sido nada sem o estribo de cavalo. A explicação é a seguinte:antes da Idade Média as guerras eram lutadas por grandes bando de soldados a pécarregando machados e a cavalaria infreqüente pois se utilizavam lanças de poucaprecisão. O estribo permitiu, porém, que os guerreiros se firmassem melhor no cavalo etambém a lança, podendo atacar melhor o inimigo. A cavalaria entretanto, era mais carade se manter e os reis passaram a dar terras para os senhores de forma que elespudessem treinar e manter cavaleiros. Em retorno do uso dessas terras, os senhoresfeudais deveriam prestar apoio militar, quando fosse necessário, criando assim o sistemafeudal. Os críticos desta teoria afirmam que o foco no estribo acaba desviando a atençãode outros fatos, como por exemplo de que os soldados a pé continuaram sendo a base detodos os exércitos, mesmo depois do estribo.O automóvelA influência do carro sobre a vida econômica, social e moral da sociedade foi imensa,segundo o determinista Fink.Econômica: afetando não somente fabricantes e compradores, mas também o empregoe o sistema bancário. O orçamento familiar mudou na medida em que o carro se tornouum bem de primeira ordem e outras necessidades foram relegadas. Surgiram osprimeiros sistemas de crédito, para permitir que as famílias comprassem um beminacessível.Social: o modo como as famílias trabalham, viviam e desfrutavam do lazer foi alterado.O carro permite que o indivíduo escape da pressão de conformidade imposta pelasociedade. Ao invés de viver próximas do trabalho, as famílias podiam mover-se desdeos centros populosos e poluídos em direção aos subúrbios tranqüilos de classe média-alta. O mercado de trabalho cresceu devido à necessidade de trabalhadoresespecializados, em fábricas de automóveis e construção de estradas.Moral: o carro teria sido o início da quebra das relações familiares e da moralidade. Oautomóvel passou a ser um lugar onde adolescentes poderiam desviar-se das normas©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 81
  • 82. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini(basicamente atos sexuais). As relações com os pais desabaram, a socialização dafamília também com a mobilidade de seus membros.Leitura complementar #3A educação tecnológica e o sistema logístico da informação na construção doindivíduo tecnológicoCarlos Correa, Geny Correa, Glória Maria Monetto, Tereza Fachada L CardosoSegundo Cardoso, na pré-história o homem aplicava os conhecimentos adquiridos parasolucionar os problemas da vida diária. Assim desenvolveu técnicas agrícolas, curtumede peles, a tecelagem, criação da cerâmica, fundição de metais, as alavancas, roda,assim como o cozimento dos alimentos. Quanto à transmissão destes conhecimentostécnicos, nas sociedades pré-históricas e primitivas, dava-se por meio da imitação, notreino prático dos processos que levavam à satisfação das necessidades daquelascomunidades.No IV milênio a.C. apareceram as primeiras civilizações nos grandes vales do Oriente:os sumérios, babilônios, fenícios egípcios e outros, que contribuíram com a criação daescrita, da álgebra, de sistemas de pesos e medidas, de técnicas agrícolas, como o uso doarado, que realizaram obras de grande vulto, como irrigação, drenagem, diques e canais.Desenvolveram também a ourivesaria, vidraçaria, tecelagem e a medicina. Tambémcriaram o calendário lunar com 365 dias. Todos estes conhecimentos foram decorrentesde sólida experiência prática, desenvolvida ao longo de vários milênios.Quanto ao ocidente europeu, Creta possuía um forte desenvolvimento naval, o quepossibilitou a expansão desta civilização pelo mar Egeu e as costas da Grécia, ondepraticava o comércio. O crescimento das cidades da Antigüidade gerou problemas,como por exemplo o abastecimento de água, solucionado em parte quando foramconstruídos os primeiros Aquedutos. Nesta época, apareceram as primeiras moedascunhadas em ouro, com um peso padrão que foi utilizada em transações comerciais. Foina Grécia, entre os séculos VI e IV a. C. que o homem deu início à prática de respondersua questões metafísicas via pensamento racional. Aparece o conceito de teoria –theoreo- , que significa ver com os olhos do espírito numa atitude de contemplar,examinar longe de qualquer atividade experimental. Mas também criaram o conceito dethecné, para resolver problemas práticos,estando ligado ao conjunto de conhecimentos e habilidades profissionais. Surge a escolade Platão, no bosque de Academus, de onde vem o termo Academia. Nela, Platãoministrava as disciplinas dearitmética, geometria, astronomia e harmonia, que não foram pensadas para finspráticos, mas para ,atingir a disciplina suprema, a filosofia.Ao homem da Idade Média européia, coube manter a tradição grega de valorizar oconhecimento teórico em detrimento da pesquisa empírica, sendo que o trabalho manualcontinuou desprezado e restrito aos servos da gleba, que foram os grandes responsáveispelo trabalho técnico, ou seja, aquele que a partir de conjunto de regras definidas econhecidas realiza um fim pré-estabelecido.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 82
  • 83. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniAs habilidades próprias dos diferentes ofícios continuaram a ser adquiridas por meio daaprendizagem que seguia a fórmula já conhecida: observar e imitar antes da produçãoautônoma. Ainda devemos ao homem da Idade Média, o desenvolvimento ouaperfeiçoamento da tecelagem, das construções, das navegações, da atrelagem deanimais, o que, por exemplo, mudou os métodos de combate. Ainda podemos citaroutros exemplos como a invenção da ferradura, do arreio, da biela, da manivela, doleme, o remo, dos arcos e vitrais nas construções, ainda do relógio mecânico, dosmoinhos de vento e do canhão.É oportuno destacar que foi durante o Renascimento, que os horizontes do homem seampliaram, devido a três descobertas que contribuíram para a Revolução Científica: abússola, possibilitando a navegação em oceanos; a pólvora, permitindo a fabricação dearmas; a impressão de livros, difundindo os conhecimentos. Ainda neste período,formularam-se os novos conceitos de ciência e de progresso científico; já abandonandoa concepção de ciência como desinteressada contemplação da verdade. É a história daconstrução de um novo saber progressivo, de caráter público e cooperativo, pertencentea todos os homens e das resistências que este enfrentou até se afirmar nasociedade como um novo paradigma nos séculos XVI e XVII.Entretanto, foi a partir da Revolução Científica, e depois, da Revolução Industrial, que oprogresso científico resultou de fundamental importância para a civilização moderna. Aciência moderna tornou possível a transformação da técnica e o surgimento datecnologia de base científica, ou seja, os conhecimentos científicos foram utilizadospara atuar de maneira prática transformando o mundo.Com a Revolução Industrial, surgiram a máquina a vapor, e o aparecimento dasprimeiras indústrias nos centros urbanos. Em uma segunda fase da Revolução Industrial,surgiram as aplicações da eletricidade, com a implantação das primeiras usinashidrelétricas e termelétricas. O uso dos derivados do petróleo, que deram origem aomotor a combustão, e conseqüentemente o aparecimento dos primeiros automóveis. Osurgimento das indústrias químicas, das novas técnicas de prospecção mineral, dos alto-fornos, das fundições, usinas siderúrgicas e dos primeiros materiais plásticos. Nomesmo impulso foram desenvolvidos novos meios de transporte, como ostransatlânticos, carros caminhões, motocicletas, trens expressos e aviões, além de novosmeios de comunicação como o telégrafo, com e sem fio, o rádio, os gramofones, afotografia e o cinema.Na primeira metade do século XX, vieram as guerras mundiais, com recursostecnológicos que proporcionaram um efeito de destruição em massa jamais visto, nuncatantos morreram tão rápido e atrozmente, devido em grande parte ao uso da tecnologia.Devemos ressaltar como todo esse caminho de criação da técnica, da ciência e datecnologia, percorrido pela humanidade, demorou milênios de nossa história, porque ocontraste com o ritmo observado a partir do século XIX é totalmente inédito natrajetória humana. Desse modo, nos últimos 40 anos presenciou-se um rápido processode transformações, principalmente devido à Revolução da Microeletrônica. A escala demudanças, desencadeadas a partir desse momento, são de tal magnitude, que fazem osmomentos anteriores da história humana parecerem projeções em câmara lenta. Aaceleração das inovações tecnológicas se dá agora numa escala multiplicativa, umaautêntica reação em cadeia, de modo que em curtos intervalos de tempo, o conjunto do©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 83
  • 84. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatiniaparato tecnológico vigente passa por saltos qualitativos em que a ampliação, acondensação e a miniaturização de seus potenciais, reconfiguram completamente ouniverso de possibilidades e expectativas, tornando-se cada vez mais imprevisível.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 84
  • 85. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini10 Conceito de cultura. Sub-cultura. Contracultura. Símbolos. Aculturação. Etnocentrismo. Introdução à cultura organizacional©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 85
  • 86. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniCulturaQuando falamos do indivíduo, “cultura” significa saber, refinamento.Porém quando falamos na sociedade, cultura é o “conjunto de comportamentos, crençase valores espirituais e materiais partilhados por seus membros”.Tecnicamente o é aquilo que o ser humano aprende do berço até o túmulo (se morrediferente em diferentes culturas). O conceito é o oposto à Natureza, a qual se entendecomo o que o ser humano possui geneticamente e o põe em ação instintivamente.Algumas características da cultura:  É transmitida pela herança social (e não pela biológica!).  Compreende a totalidade das criações humanas, para a satisfação nas necessidades da vida em sociedade.  É uma característica exclusiva das sociedades humanas, estando ausente no mundo animal.  Compreende tanto os elementos tangíveis (cultura material) como os elementos intangíveis (cultura não material).SubculturaSub-conjunto de uma cultura que faz parte da uma cultura total de uma sociedade quecaracteriza seus segmentos, com suas próprias normas valores e conjunto decomportamentos.Pode-se falar, por exemplo, de subcultura juvenil, para assinalar a maneira decomportar-se, as normas, pautas e valores dos jovens. Formas que são basicamente asmesmas da sociedade em que se encontram, mas que têm características próprias.ContraculturaÉ a negação dos valores e normas aceitos pelo grupo dominante. O mesmo termo nosfaz pensar em que pode existir, no seio de uma sociedade, uma cultura predominante,que abrange a maioria da população e culturas minoritárias.Mas nem toda cultura minoritária é uma “contracultura”. Esta última surge de umaoposição frontal em questões básicas de organização e funcionamento societário,geralmente quando ocorre um conflito entre as subculturas e a sociedade de forma maisgeral. Toda sociedade possui a contra-cultura que mercê, pois elas não somente contradizem, mas também expressam a situação da qual emergem...as contraculturas emprestam da cultura dominante na mesma forma em que a opõe. Yinger©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 86
  • 87. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniExemplo: nos ano 60-70 vários movimentos que questionavam a sociedadeindustrializada e tecnológica, propondo uma visão mais humanística e mística: hippies,hare krishna, rock punk...ContrasociedadeO grupo que se constitui além da sociedade dominante e que pretende mudá-la. Umbom exemplo poderia ser o Partido Comunista (quando existiam... realmente). Outroexemplo (que mencionam alguns autores) são as sociedades de fundamentalistasreligiosos nos países islâmicos. Mas em toda sociedade suficientemente grande ecomplexa se encontram casos de contrasociedades com suas contraculturas.EtnocentrismoTendência a considerar a sua cultura superior a cultura de outros grupos, sociedades ounacionalidades.Muitos grupos tendem a considerar-se o umbigo do mundo. A sociologia tende, por seuesforço de distanciamento científico, a atacar esta idéia, e a colocar, em princípio, todasas culturas em um mesmo nível valorativo (já que todas são bem-sucedidas emassegurar a sobrevivência de sua comunidade). Isto assegura ao sociólogo rigoroso umpapel especialmente antipático; o de pôr em duvida coisas “boas’ que todo mundo aceitacomo justas e necessárias.AculturaçãoQuando um indivíduo ou um grupo adquire as características culturais de outro porinteração. Processo de socialização em outra cultura.Introdução à cultura organizacionalAs organizações, como pequenas sociedades, também possuem sua própria cultura, achamada cultura organizacional. Esta é um critério de diferenciação entre diferentesorganizações, pois a cultura organizacional seria uma marca característica de cada uma.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 87
  • 88. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniExemplos Assim, a cultura do homem duro e macho, própria de um mundo de indivíduos que assumem altos riscos e obtêm rapidamente a retroinformação sobre seu êxito ou fracasso, atuando em conseqüência, aparece fundamentalmente na construção, a indústria de cosméticos, a publicidade, o mundo editorial, as empresas de lazer, etc. A cultura do “trabalhe muito, jogue muito”, na qual se inspira aos empregados a manter um alto grau de atividade mas sempre com riscos relativamente baixos, seria própria da distribuição e venda de automóveis, e em geral das vendas a domicílio ou de produtos massivos de consumo, vendas de equipes de escritório, etc. A cultura “aposte na companhia”, na qual as empresas acostumam a colocar muito em jogo em suas decisões, sem saber a curto prazo os resultados, quer dizer em um ambiente de alto risco e retroinformação lenta; encontramos-a em empresas dedicadas aos bens de produção; em companhias de mineração, petroleiras e de energia, bancos investidores, construção aeronáutica, naval e espacial, etc.O fenômeno da subcultura também existe, como resultado das ramificações existentes eda especialização das atividades.Tabmbém cabe lembrar que a cultura geral da sociedade influencia a culturaespecífica da organização.Cabe destacar o conflito entre cultura ideal (aqueles valores e mensagens que aorganização promove ou afirma ter) e cultura real (aqueles valores que realmentepossui, que são internos e somente observadores atentos podem detectar).O conflito entre cultura ideal e cultura real se dá através de padrões ostensivos(comportamentos contraditórios), como por exemplo, a admissão através de indicação(pistolão) ao invés do “rígido processo de seleção de pessoal”, a permissão da cola (fila)em avaliações no ambiente universitário, apesar da “honestidade acadêmica”.Isso se deve a que a cultura real obedece a um padrão oculto, valores que sãotransmitidos quase clandestinamente e informalmente ao novo membro da organização,seja por meio de conversas ou por ostracismo (“gelo”) aos que não obedecem. O padrãooculto é, portanto, encoberto, e para que um pesquisador externo possa descobri-los énecessário:  Analisar as pessoas típicas (personagens folclóricos), que permaneceram muito tempo na organização e por isso interiorizaram a cultural real.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 88
  • 89. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  Detectar as histórias que são contadas habitualmente e que mostram a a exceção, não a regra.  A cultura material (edifícios, equipamentos, máquinas) também mostram a cultura real. Por exemplo, portas de salas e divisórias vedam ou permite acesso a determinadas áreas.Variáveis da cultura organizacionalPara aplicar o conceito de cultura às organizações é necessário torná-lo mais explícito afim de colocá-lo em prática. Dividimos a cultura organizacional em três variáveis:1) Tecnologia  Resultados (bens ou serviços prestados)  Processos utilizados (manuais, mecânicos, automatizados)  Insumos necessários (máquinas, mão de obra, conhecimentos)2) Preceitos  Normas de procedimento  Posições ocupadas pelos participantes e grupos (sistema de status)  Valores compartilhados3) Sentimentos  São emoções decorrentes de execução de tarefas (obediência) e dos relacionamentos sociais  Podem ser de satisfação, alienação, inveja, raiva, simpatia, desprezo, etc...Quais componentes devemos examinar na cultura organizacional?1) intensidade: por exemplo prisões e campos de concentração possuem umaintensidade muito grande da variável preceitos (obediência, repressão das emoções), oque não ocorre por exemplo em uma cooperativa onde a variável tecnologia (produção)é mais importante.2) conteúdo: tanto no seminário quanto no quartel as normas são rígidas, mas não sãoorganizações com culturas próximas, pois o conteúdo da variável preceitos é diferenteem cada caso.Alguns elementos da variável preceitos na cultura de uma empresa:  A inovação e a assunção de riscos  O grau de atenção aos detalhes  A orientação para os resultados  A orientação para as pessoas  A orientação para a equipe  A agressividade©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 89
  • 90. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  A estabilidadeGestão da imagemA organização manifesta sua existência não só mediante a adição à sociedade de certosprodutos ou serviços, mas também mediante símbolos, às vezes mas não sempreincorporados a sua produção. Assim a organização é uma representação de valoressocialmente compartilhados e sancionados.Cada organização busca propagar uma imagem positiva de si mesmo (seja de formaespontânea, fundamentalmente através das relações com os clientes ou de formaplanejada). No caso de planejamento, as etapas são:  Afirmação da identidade, que deve dar-se a nível interno e entre todos os membros da empresa.  Construção da imagem global, inclui uma série de componentes: a imagem institucional (que é propriamente a imagem pública, compartilhada por um conjunto de públicos), a imagem de marca (no sentido comercial, isto é a imagem que gera o marketing), a imagem funcional (referida às relações com o público no serviço, informação, agilidade na relação), e finalmente a imagem emocional (que se refere às atitudes que a empresa suscita entre a população de seu entorno, ou entre alguns grupos sociais que podem incidir na opinião pública).  Comunicação da imagem, o que implica o projeto da identidade corporativa (do papel timbrado às embalagens) ao estilo arquitetônico dos edifícios, passando por todo tipo de comunicações da empresa para o exterior (memórias anuais, catálogos...), e logicamente, a publicidade.Gestão da cultura empresarial junto aos trabalhadoresTem como objetivo o projeto das relações empresa-indivíduo aceitáveis, através dastécnicas de motivação, de satisfação e de implicação dos trabalhadores.Identificamos quatro tipos de trabalhadores, como resultado da combinação da adesãoaos valores da empresa, e das oportunidades que esta oferece aos trabalhadores:  Missionário (geralmente jovem, fortemente aderido aos valores da empresa, e pouco preocupado pelas oportunidades que esta lhe oferece);  Mercenário (que base sua motivação exclusivamente nas oportunidades que a empresa lhe oferece em troca, e que estará sempre disposto a deixá-la ante uma melhor oferta).©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 90
  • 91. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  Demissionário (é um tipo que “passa” da adesão, mas em parte porque está já desiludido sobre as oportunidades que a empresa oferece).  Comprometido (que não só aceita plenamente o sistema de valores, mas além disso sente plenamente realizadas suas aspirações na empresa).©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 91
  • 92. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura rápida #1Cultura organizacional: o diferencial estratégico da área de recursos humanos(trecho)Luciana Helena CrnkovicValores: os valores são construídos principalmente, pela cúpula e estão amarrados aosobjetivos organizacionais, são o coração da cultura, e dizem o que é importante para seatingir o sucesso. No desenho da organização os valores indicam as questões que sãoprioritárias para a organização, determinam também os níveis hierárquicos e as relaçõesentre seus membros além de exercer um importante papel em comunicar ao mundoexterior o que se pode esperar da companhia.Valores compartilhados estão relacionados com os sentimentos de sucesso pessoal,com o comprometimento organizacional, com a autoconfiança no entendimento pessoale de valores organizacionais, com o comportamento ético e com os objetivosorganizacionais.Crenças e pressupostos: geralmente esses termos são utilizados para expressar o que étido como verdade na organização, os pressupostos tendem a tornar-se inconscientes einquestionáveis. Trata-se de “como nós interpretamos as coisas”, nesse sentido a culturaé vista como uma rede de significados. A cultura se refere a padrões internamenteconsistente de afirmações, restrições e permissões que guiam as pessoas a secomportarem caminhos permitidos e possibilitam-nas de julgarem outras e justificarem-se para outras.Ritos, rituais e cerimônias: são atividades planejadas que têm conseqüências práticas eexpressivas, tornando a cultura mais tangível e coesa. Os ritos e cerimônias tornamexpressiva a cultura à medida que comunicam comportamentos e procedimentos, eexercem influência visível e penetrante, pois promovem a integração dos membros daorganização.Estórias e mitos: As estórias narram os eventos ocorridos, reforçam o comportamentoexistente e enfatizam como esse comportamento se ajusta ao ambiente organizacional.Os mitos se referem a estórias consistentes com os valores da organização, porém, nãosustentadas em fatos. O mito é a relação de identificação ideologicamente construída, deindivíduos e grupos sociais com significantes do imaginário coletivo. É uma narrativaimaginária que estrutura e organiza de forma criativa as crenças culturais.Normalmente, o mito narra sobre a origem da organização.Tabus: demarcam as proibições, orienta o comportamento enfatizando o que não épermitido. Segundo Freitas (1991), “uma constatação curiosa é a quase total ausência demenção aos tabus organizacionais”.Heróis: personagens que incorporam os valores e condensam a força na organização.Os heróis tornam o sucesso atingível e humano, representam a organização para o©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 92
  • 93. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatinimundo exterior, preservam o que a organização tem de especial, estabelecem padrões dedesempenho e motivam seus funcionários, fornecendo influência duradoura.Normas: as normas são regras que defendem o comportamento que é esperado, aceitoou sancionado pelo grupo.O conceito de normas pode ser compreendido por indivíduosde diferentes níveis hierárquicos e educacionais dentro da organização, isso facilita asua aplicação de forma bem sucedida, além de facilitar as mudanças culturais que seembasam no sistema normativo da organização.Processo de comunicação: os processos de comunicação incluem uma rede de relaçõese papéis informais, que podem transformar o corriqueiro em brilhante. A linguagem éum sistema de signos ou sinais usados para indicar coisas, para a comunicação entre aspessoas e para a expressão de idéias, valores e sentimentos. Assim,a linguagem é umsistema de sinais com funções indicativas, comunicativas, expressivas,conotativas.Através dos processos de comunicação, o homem cria um mundo estável deidéias independentes da presença física das coisas, possibilitando instaurar atemporalidade permitindo lembrar o que já foi e projetar o que será, pela linguagem oser humano deixa de reagir somente ao presente imediato, podendo pensar o passado e ofuturo e com isso construir o seu projeto de vida.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 93
  • 94. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini11 Grupos sociais. Grupos primários e secundários. Grupo de fora e grupo de dentro. Grupos formais e informais Jamais aceitaria pertencer a um clube que admitisse como membro alguém como eu Groucho Marx©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 94
  • 95. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniGrupos sociais e organizaçõesO ser humano é um ser social, um ser grupal, onde adquire sua personalidade e suaidentidade individual.GrupoQualquer número de pessoas que partilham de uma consciência de interação e defiliação.Reunidas, as pessoas atingem mais facilmente seus objetivos pessoais mas por outrolado, é exigido algum tipo de retribuição (troca de benefícios).Todo grupo, sobretudo se é estável (se dura bastante tempo), tende a desenvolverrotinas de interação, lugares onde se reúne, temas de conversa e estilos, enfim, deresolver seus conflitos. Todo grupo desenvolve uma "cultura" de grupo, que é uma“subcultura” da cultura dominante da sociedade.Características  Condutas semelhantes  Objetivos comuns  Normas, símbolos e valores partilhadosGrupo é diferente de agregação, de coletividade (os indivíduos destas não interagem enão possuem sentido de unidade)Também é diferente de categoria (conjunto de pessoas que compartilham característicascomuns, mas que não interagem, por exemplo, todas pessoas de uma mesma faixaetária, mesma ocupação, mesma etnia)Todo grupo tem um líder e membros muito próximos a ele. Possui também, obviamentemembros marginais. Estes não se podem ser evitados mas tampouco devem servalorados negativamente. Os membros marginais, sempre que sejam consideradosmembros, contribuem com algo ao grupo; algo sutil mas real, contribuem com“número”. E o número é importante, porque de algum jeito leva um pouco de qualidadeao grupo.Grupos primários  Contatos pessoais, íntimos, próximos, "cara a cara"  Tamanho reduzido  Atividades e interesses comuns  São de formação espontânea  Fusão da individualidade: "nós"  Orientados em função do próprio relacionamento interno©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 95
  • 96. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniPor quê primários? 1) fundamentais para a formação da natureza social e dos ideais do indivíduo (socialização); 2) cronologicamente são os primeiros com os quais os indivíduos têm contato (a família, os amigos).Nos grupos primários o controle social é mais eficiente devido à:  Visibilidade de seus membros  Controle direto  Auto-proteçãoGrupos secundários  Contatos sociais, impessoais, limitados  Seus membros são substituíveis  Controle social formal  Orientados em função a objetivosGrupos pessoais (grupos de dentro)  Pessoas sentem que pertencem ao grupo o "meu/minha", "nosso/nossa"  Espera-se reconhecimento, lealdade e auxílio Em 1927 Thrasher escreve “The Gang” onde estuda os bandos de jovens existentes nas cidades, “peer groups”, utilizando a técnica da observação participante. Thrasher vai caracterizar os gangs como pessoas que tentam integrar-se nos “grupos de pares” no inicio da puberdade; são compostos por indivíduos entre os 11 e os 25 anos; grupos não têm mais do que 10 a 30 elementos para que o líder consiga controlar o grupo todo; são grupos limitados na sua locomoção, funcionando nos limites do seu próprio bairro; cada grupo tem linguagem peculiar, formas de vestir diferenciadas; praticavam diferentes atividades ( delinqüentes: nocivos mas que não punham em risco a integridade física dos outros; violentos: não têm percepção da dor dos outros ).Grupos externos (de fora)  grupos aos quais não pertencemos©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 96
  • 97. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini o Os "outros", "estranhos", "indesejáveis"  relações de hostilidade, concorrência ou indiferençaEstereótipos: imagem geral e distorcida que um grupo possui de outro  ciganos = ladrões  políticos = corruptos  argentinos = Geralmente os estereótipos estão ligados a uma concepção de etnocentrismo, querdizer, vinculada à superioridade cultural de uma nacionalidade ou de um grupo.Os grupos possuem uma tendência natural de se aproximarem ao seuestereótipo, algumas vezes este molda seu comportamento / interação inicial com oestereótipo e não com a pessoa, levando a profecias auto-cumpridas.Já o rebaixamento do estereótipo a um nível inferior leva à: discriminação:"Tratamento desigual de pessoas com capacidade de iguais, pela limitação deoportunidades, pagamentos, etc, em razão da diversidade de religiões, de etnia, sexo, epor extensão de profissões de, classe social e até defeitos físicos"Grupos de referênciaSão grupos que o indivíduo aceita como modelo e guia de seu próprio comportamento ede suas ações. Estabelecem um padrão para a avaliação de seu próprio comportamento.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 97
  • 98. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniComunidadeModelo de organização social com um sentimento de identidade bem definido. 1) localização geográfica particular: olindenses 2) tipo particular de relação social: evangélicos, corintianos 3) sistema social em pequena escala: comunidade ruralIntrodução às organizações formaisAs organizações são o componente predominante da sociedade: trabalhamos,estudamos, morremos nelas.Por isso, vivemos em uma "sociedade de organizações".As organizações são:  Um instrumento para conseguir realizar determinados objetivos que o indivíduo somente não seria capaz;  Especializadas, definidas por suas tarefas. O objetivo de uma organização é a característica que serve para diferenciar uma organização de outra;  Constituídas por limites identificáveis: fronteiras físicas e simbólicas  Um sistema social bem estruturado, com status, papéis sociais, normas, valores, e em seu conjunto, uma cultura organizacional.A importância de estudar as organizações  Capacidade de viver e, principalmente, trabalhar nelas  Capacidade de reação frente a um mundo complexo, onde a globalização, a competição comercial, etc. exigem novas formas de organização para que os objetivos sejam cumpridos de uma melhor forma©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 98
  • 99. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini12 Redes sociais e a teoria do mundo pequeno. Sociograma©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 99
  • 100. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura preliminarOs seis graus de separação nas redes sociaisUma análise sobre o conceito de "Mundos Pequenos" e as relações interpersonalesMarcelo Sabbatini, dezembro de 2003Quantas vezes o leitor iniciou uma conversa com um perfeito desconhecido,somente para descobrir que o cunhado do primo de seu contador é amigoíntimo da prima dessa pessoa? É possível que iniciando uma conversa com oPapa, por exemplo, também o leitor descobrisse amigos quase comuns? Emboraesta idéia possa parecer corriqueira por um lado, e fantástica por outra,relaciona-se com o conceito das redes de “mundos pequenos” e dos “seis grausde separação”, objetos de pesquisa científica muito séria, na atualidade.O conceito do “problema dos mundos pequenos” aparece pela primeira vez emum artigo científico titulado “The Small World Problem” publicado na revistaPsychology Today em maio de 1967, pelo psicólogo Stanley Milgram. Oexperimento consistiu em escolher de forma aleatória pares de pessoas,designando à primeira como a “fonte” e a outra como o “alvo”. A pessoa fontedeveria enviar uma mensagem à pessoa alvo, tendo para isto que enviar umacarta a qualquer pessoa que julgasse pudesse conhecer a outra. A carta tambéminstruía seu receptor a realizar o mesmo procedimento, processo que se deveriarepetir até que chegasse à fonte. Os resultados revelaram que o número devínculos intermediários entre uma pessoa e outra se situava entre 2 e 10, comuma média de seis. Também é interessante que Milgram foi o responsável pelofamoso, e não menos controvertido, experimento sobre a “Obediência àautoridade”, revelando que a maioria das pessoas pode demonstrar umcomportamento cruel, se acreditam desempenharem um determinado papel,conforme com a expectativa de uma autoridade ou de um grupo de pressão.Na atualidade, esta idéia teve um grande impacto sobre a cultura, sobretudo apartir da peça de teatro “Seis graus de separação” (1990) de John Guare, levadaposteriormente ao cinema com o filme homônimo protagonizado pelo DonaldShuterland e Will Smith, em 1993. Embora no argumento não trate diretamentea idéia, sim recupera a noção de que todas as pessoas no planeta se encontramseparadas apenas por outras seis.A idéia tem sua força e seu encanto. Mais ou menos na mesma época trêsestudantes universitários inventam “Os seis graus do Kevin Bacon”, apoiadoneste conceito. O objetivo é encontrar uma ligação, quer dizer aparecer em ummesmo filme, entre qualquer outro ator e o ator norte-americano Kevin Bacon,no menor número de passos possíveis. Este número de passos se define como o©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 100
  • 101. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatininúmero do Bacon. Logicamente, ele mesmo tem um número do Bacon igual azero, enquanto que outros se situam entre 2 e 3. Um dos desafios do jogoconsiste em procurar números altos, quer dizer, entre 7 e 8, que são bastanteraros. Mais raro ainda é um número infinito, por exemplo de um tal Fred Ott,que apareceu em apenas três filmes, em todos eles sozinho, de maneira que éimpossível estabelecer um vínculo.Se o leitor tiver curiosidade de prová-lo, “O oráculo do Bacon”(http://www.cs.virginia.edu/oracle/) é uma simulação interativa realizada pordois estudantes de ciências da computação que utiliza a base de dados de filmesInternet Movie Database como fonte de dados. Segundo o “oráculo”, o númeromédio de Bacon no universo investigado é 2,943. Também curiosamente, Kevinnão é o melhor “centro do universo”, pois há outros atores que têm uma médiamais baixo, em outras palavras, são muito mais “interconectados”, por exemploRod Steiger, do filme “Tubarão”, que ocupa a primeira posição.O problema dos mundos pequenos se pode aplicar a qualquer grupo social. Acomunidade científica que funciona basicamente devido a sua estruturacomunitária, com a natureza acumulativa da construção do conhecimento – asnovas descobertas são feitas em função do trabalho realizado previamente poroutros cientistas, que colocaram a base para que estes possam suceder- é umcampo ideal para esta análise. O mesmo conceito do jogo do Bacon está sendoutilizado na ciência através do número do Erdos, baseado no eminentematemático húngaro dedicado ao estudo das redes de mesmo nome. Aqui,trata-se de identificar a quantos passos de co-autoria um determinado cientistase encontra do Erdos. As pessoas que co-escreveram um artigo científico comeste matemático possuem um número igual a zero; aqueles que co-escreveramum artigo com alguém que co-escreveu um artigo com o Erdos possuem umnúmero igual a um, e assim sucessivamente. Um estudo recente, de MarkNewman, do Santa Fé Institute no Novo México, situou os números de Erdosentre quatro e nove segundo a área científica, com uma média de justamente,seis! Na prática, isto se traduz em uma disseminação de idéias e atitudes maiseficaz dentro da comunidade científica.Mas como tudo no mundo é inovação, a moda agora é encontrar umacombinação entre os dois números, o chamado número Erdos-Bacon, definidocomo a soma dos anteriores e que se origina de uma curiosa mistura de ciênciae cultura. O ponto de partida foi a aparição de vários filmes que tratam omundo da matemática, de forma que neles aparecem pessoas que escreveramartigos científicos e participam do mundo do cinema. Erdos tem um número de©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 101
  • 102. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniBacon igual a 4, entrando na comunidade dos atores por ter protagonizado umdocumentário sobre a pesquisa matemática. Mas os recordistas são os tambémmatemáticos Brian Greene e Dave Bayer que atuaram em “Frequency” e “Umamente maravilhosa”, respectivamente, somando um número combinado de 5.Possivelmente agora os atores comecem ao co-escrever artigos científicos, com oobjetivo de baixar seus números Erdos-Bacon…Alguns especialistas que estudaram o fenômeno dos mundos pequenosafirmam que o fenômeno se produz devido à existência de indivíduos nasociedade altamente conectados, que estabelecem os vínculos entre as pessoas“mais comuns”. Por outro lado, se calculamos matematicamente, o fenômenodos seis graus de separação é ainda mais radical; pode-se estimar que comapenas cinqüenta conhecidos uma pessoa pode estar conectada a 15 trilhões depessoas mais.Outros estudos de redes sociais encontram resultados muito similares. Porexemplo, Pablo Gleiser e Leon Danon da Universidade de Barcelonaverificaram que entre 1912 e 1940 a comunidade do jazz era extremamenteinterconectada, possivelmente mais ainda que outras redes. Por outro lado,parece que também os golfinhos se organizam segundo mundos pequenos,conclui David Lousseau da Universidade do Aberdeen. Mas ao contrário dascomunidades profissionais, na Natureza são poucos os indivíduos “centros douniverso”, intensamente conectados. Isto se explica devido a que, se umgolfinho “conectado” morre, a comunidade ainda permaneceria unida. Acoincidência de todos estes estudos, por outro lado, pode-nos levar a pensarque existe uma tendência estrutural na forma como crescem as organizações emrede, até chegar à configuração de “mundo pequeno”.Mas, finalmente qual é a utilidade de todas estas teorias? A teoria dos mundospequenos foi aplicada na ciência e na tecnologia para o projeto de redestelefônicas, passando pela interconexão entre células cerebrais e inclusive nosestudos de transmissão de doenças venéreas. Em seu aspecto social, também sepode utilizar para a compreensão de como as notícias, os boatos e inclusive aopinião política se disseminam através da sociedade. Em outras palavras, osestudos dos mundos pequenos se vinculam a todos aqueles processos detransmissão do que se poderia definir amplamente como “informação” atravésde uma rede. Mas além de seu valor científico, possivelmente tenham um valormoral e ético, de nos fazer refletir a respeito de quão perto estamos da outraspessoas, neste pequeno mundo no qual vivemos.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 102
  • 103. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini13 Institucionalização. Instituições sociais básicas. Introdução às organizações formais.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 103
  • 104. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniInstituições sociaisUma instituição é sistema complexo e organizado das relações sociais que incorporavalores, costumes, crenças, práticas e procedimentos comuns, relativamentepermanente, com relações padronizadas, rotineiras e previsíveis para cumprir certasnecessidades básicassistema organizado = permanentede relações = estrutura interna (material e não material)valores = códigos de conduta, refletem os valores da sociedade mais geralnecessidades básicas = finalidade/função, meta ou propósito do grupo, com regulação das necessidadesSão entes abstratos, não podem ser vistos ou tocados, mas existem como fato social. Asinstituições incorporam valores fundamentais da sociedade e seus ideais também sãoaceitos por esta. Por isso, são (relativamente) duradouras.Uma instituição pode ser definida como uma organização de normas e costumes para aobtenção de alguma meta ou atividade que as pessoas julgarem importantes. Para que haja continuidade e previsão nas relações sociais, deve haver uma certa rotina nos procedimentos e meios aceitos de se lidar com os problemas que surgem. Cada nova geração não precisa inventar seus próprios métodos e crenças para lidar com tais problemas; as gerações anteriores já criaram instituições. DiasAs instituições sociais básicas podem ser encontradas em praticamente em qualquersociedade:1. Família2. Religião3. Educação4. Instituições econômicas e de trabalho5. Instituições políticasExemplo: na família temos como  Valores: amor, respeito aos mais velhos  Procedimentos: namoro, acomodar os pais já idosos em casa  Papéis/status: marido/mulher, avôA institucionalização é o processo pelo qual as atividades da instituição vão adquirindopadrões e rotinas, passando a ser esperadas e aprovadas, com o intuito de cumprirem umdeterminado objetivo normas papéis sociais status©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 104
  • 105. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini comportamento comportamento espontâneo previsívelÉ um processo gradativo, que surge diante das necessidades de regulação e controledas interações sociais.As instituições sociais utilizam símbolos que identificam uma instituição e nos lembramde sua existência.Exemplos: bandeira, crucifixo, hino, aliança, logotipo, prédios de empresas, sobrenome.Em relação às funções de uma instituição, estas podem ser:  Manifestas: mostram-se claramente, são aceitas pela sociedade.  Latentes: menos evidentes, inclusive podem não ser aprovadas.Exemplo: na educação a função manifesta é a transmissão cultural dos valores dasociedade, mas uma função latente é promover e intensificar o contato social, elevandoa sociabilidade e a tolerância.De forma geral, as instituições: Contribuem para a socialização, apresentam modelos de comportamento adequados e apropriados a diversas situações. Exemplo: na escola aprendemos como nos relacionar adequadamente com as autoridades (professor, diretor).  Proporcionam estabilidade e consistência a seus membros e um reconhecimento perante a sociedade devido à existência desse comportamento previsível. Exemplo: na igreja o indivíduo aprende valores como fidelidade, honestidade, caridade que lhe darão maior estabilidade na vida cotidiana.  Regulam e controlam o comportamento do indivíduo, através dos papéis, pressão e controle social e das expectativas aceitas pela sociedade. Exemplo: o marido não pode ter outra mulher, sob o risco de sofrer sanções sociais (recriminação) e de desfazer a família.Funções da família  Regulamentação do comportamento sexual  Reposição dos membros da sociedade, através da reprodução  Cuidado e proteção aos jovens, doentes e velhos  Socialização das crianças  Segurança econômica proporcionada pela família enquanto unidade básica de produção e do consumo, na economia.Funções das educação:©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 105
  • 106. Apostila de Sociologia Marcelo Sabbatini  Prover a preparação para os papéis profissionais  Servir de veículo para a transmissão cultural  Familiarizar os indivíduos com os papéis sociais  Promover mudança social através do desenvolvimento e da pesquisa  Estimular a adaptação pessoal e melhorar os relacionamentos sociaisFunções da religião  Auxílio na busca de identidade moral  Proporcionar explicações para interpretar o ambiente físico e social  Promoção da sociabilidade, coesão social e solidariedade grupalFunções das instituições econômicas  Produção, distribuição e consumo de bens e serviços  Distribuição de recursos econômicos (mão de obra e capitais)Funções das instituições políticas  Institucionalização das normas através das leis aprovadas pelo Legislativo  Execução das leis aprovadas  Solução de conflitos entre os membros da sociedade  Estabelecimento de serviços básicos para a ordem social  Proteção dos cidadãos contra ataques externos e situações de emergência pública©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 106
  • 107. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniLeitura breve #1O gerenciamento de empresas é semelhante à administração familiarL.M. Sixel (Houston Chronicle 11/06/2002 em Houston, Texas)Você possui companheiros de trabalho que sentem ciúmes uns dos outros? E quanto aum patrão que favorece determinados funcionários? Ou talvez funcionários que jogamcom os chefes para conseguir o que querem?Talvez você ache que tais comportamentosse constituem em algum tipo de desajuste profissional. Mas, na verdade, tem tudo a vercom comportamentos básicos aprendidos em casa, quando aprendemos a lidar comnossos pais e irmãos.E, de acordo com um dos autores do livro "Parenting the Office" (algo como,"Exercendo a Paternidade no Escritório"), os patrões que administram bem a relaçãocom os seus filhos são capazes também de gerenciar bem os seus empregados.Companheiros de trabalho ciumentos? Pense em rivalidade entre irmãos.Gerentes que são aprisionados pelos jogos de vontade dos funcionários? Trata-se apenasde uma versão mais sofisticada de aprender a exigir do pai que atenda a uma exigência.Quando você tentar resolver conflitos no trabalho, pense em como lida com os mesmosconflitos em casa, sugere Douglas Davidoff, que escreveu o livro com o seu irmão,Donald, e com os pais, Doris e Philip.Colegas de trabalho que reclamam demais? Faça como você lida com crianças quegritam, "Mãe, porque Benjamin recebeu a maça mais vermelha?", ou, "Você gosta maisde Charlotte porque ela ganhou o azul. Você sabe que eu gosto de azul"?Você já se sentou e tentou pensar nestas questões a partir do ponto de vista alheio? Outalvez ter uma conversa com essas pessoas para saber como elas se sentem? Se já o fez,provavelmente é um bom pai. E um grande gerente.Segundo Davidoff, a rivalidade não é algo de ruim. Os gerentes podem vê-la comocomportamento infantil, mas trata-se de comportamento humano. E o segredo é a formade lidar com tal fenômeno.Davidoff se recorda de uma época em que reposicionava uma mesa de trabalho em umafirma onde controlava o desenvolvimento dos negócios. Ele estava insatisfeito com aperformance de um funcionário e queria mantê-lo sob vigilância.Mas, de repente, ele percebeu que um outro funcionário ficou aborrecido com o novoposicionamento da mesa do companheiro de trabalho. O funcionário achou que amovimentação da mesa do colega representava um favorecimento deste último.Ele achava que o fato de a mesa ter sido movida para mais perto do chefe representavauma recompensa, diz Davidoff. Tudo se resume a apreciar a situação sob o ponto devista das outras pessoas.Ou digamos que você tenha um funcionário estafado - alguém que é um excelenteprofissional, mas trabalhou demais. Ele está chateado, anda altamente cínico e perdeugrande parcela da paixão pelo trabalho.Isso não soa bastante como revolta de adolescente?©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 107
  • 108. Apostila de Sociologia Marcelo SabbatiniDe acordo com Davidoff, lidar com um funcionário estafado e com um adolescente sãotarefas bastante semelhantes.Descubra o que o está chateando, sugere o autor. Veja a situação a partir da suaperspectiva. Procure oportunidades para lhe dar mais responsabilidade.Por exemplo, peça ao funcionário que não tem dado muito sinal de participar da equipepara liderar a próxima reunião do grupo de trabalho. Mencione que os colegas estãorealmente impressionados com o seu conhecimento e que o respeitam bastante. Aopreparar-se para a reunião e administra-la ele terá que apresentar uma performancemelhor, diz Davidoff. E o funcionário perceberá as recompensas que receberá por agirde tal forma.Kirk Blackard, um nativo de Houston que é diretor de recursos humanos aposentado daShell Oil Company escreveu um novo livro, "Capitalizing on Conflict: Strategies andPractices for Turning Conflict to Synergy in Organizations" (Capitalizando osConflitos: Estratégias e Prática para Transformar Conflito em Sinergia nasOrganizações).Blackard acredita que a maior parte dos conflitos organizacionais é causada porproblemas de gerenciamento. Segundo Blackard, muitas vezes os chefes nãodemonstram respeito suficiente para com os seus funcionários; ouvem pouco osempregados; não envolvem os funcionários nas decisões no grau que deveriam faze-lo;e não reconhecem que os funcionários sabem mais do que a gerência.Os indivíduos formam sindicatos devido ao mau gerenciamento, diz Blackward, quetambém escreveu "Managing Change in a Unionized Workplace: CountervailingCollaboration" ("Gerenciando a Mudança em um Ambiente de Trabalho Sindicalizado:A Colaboração que Contrabalança").Não são as condições de trabalho ou os salários, mas muitas vezes um mau supervisorque é a causa dos problemas.E as políticas aplicadas no ambiente de trabalho muitas vezes não são o problema, dizele. É a forma como elas são escritas e a maneira como são administradas que causamproblemas.©2005-2013 Marcelo Sabbatini (marcelo@sabbatini.com) 108

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