Na Morte de Sophia Andresen

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    Na Morte de Sophia Andresen - Presentation Transcript

    1. PRÉMIOS E D E S TA Q U E 5 PÚBLICO•SÁBADO, 3 JUL 2004 HOMENAGENS Sophia escreveu e publicou quase até ao final da vida, so- Uma criança A força das bretudo poesia e livros para crianças, mas também contos, palavras na um ou dois ensaios e uma peça de teatro, “O Colar”, editada em 2001. Devem-se-lhe ainda algumas traduções: “A Anun- ciação a Maria”, de Claudel, não é um pateta defesa da “Um Amigo” e “Ser Feliz”, de Leif Kristiansson, “A Vi- da Quotidiana no Tempo de Gostando de contar histó- rias, Sophia não suportava uma fantasia — é o símbo- lo de uma realidade” (“As Revolução Homero”, de Émile Mireaux, “a sentimentalidade da Crianças Entrevistam 16 Deputada à Assembleia Constituinte e o “Hamlet”, de Shakespeare. mensagem” das narrati- Escritores”, edição da Es- Traduziu também o “Purga- vas que ia lendo aos filhos: cola Preparatória de Fran- e militante socialista, Sophia de Mello tório” para uma versão da “Uma criança é uma crian- cisco Arruda). Também na Breyner criticou os excessos da revolução “Divina Comédia” de Dante ça, não é um pateta. Atirei obra “O Cavaleiro da Dina- e defendeu a cultura como “necessidade co-realizada com Fernanda os livros fora e resolvi in- marca” (1964) a religião e Botelho e Armindo Rodri- ventar.” Estava-se no final o Natal estão presentes. fundamental de todos os homens” gues. Para francês, traduziu dos anos 50 e a literatura Há um cavaleiro que parte poemas de Camões, Cesário, para crianças em Portu- para a Terra Santa e no ca- EUNICE LOURENÇO Sá-Carneiro e Pessoa. gal tinha um excessivo minho é posto à prova, algo Além do já referido prémio pendor didáctico e uma semelhante a um percurso Para comemorar os 30 anos do 25 de Abril, o Presidente da Sociedade Portuguesa de asfixia moralizante. iniciático para a regenera- da República escolheu um poema de Sophia de Mello Escritores, atribuído a “Livro Sophia rompeu com essa ção espiritual. Regressa a Breyner. No Quartel do Carmo, na presença de alguns Sexto”, em 1964 (ver texto ao prática e com o infantilismo casa na noite em que dos filhos da poetisa, Jorge Sampaio descerrou uma lado), recebeu o Prémio Tei- dos contos. Nada de diminutivos Jesus Cristo nasceu. placa com os quatro versos que ela dedicou à Revo- xeira de Pascoaes, em 1977, pe- nem concessões às pressupostas A fé de Sophia. lução: “Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia la obra “O Nome das Coisas”, limitações das crianças. Antes “O Rapaz de Bronze” inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do o Prémio do Centro Português o maravilhoso, a fantasia, a ale- é o livro que se segue silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo.” da Associação de Críticos Li- goria do real, para uma leitura na cronologia, datando O seu empenho político vinha muito de trás. Depois terários, em 1983, atribuído a de encantamento. de 1966. À noite, uma do casamento com o advogado e jornalista Francisco “Navegações”, o Prémio D. Ao fascínio pelo mundo e ao estátua salta do seu Sousa Tavares, fixou-se em Lisboa, onde passou a divi- Dinis, da Fundação Casa de louvor à vida junta o respeito pedestal, atravessa o dir a sua actividade entre a poesia e a actividade cívica, Mateus, em 1990, por “Ilhas”, pelas palavras. E pelos outros. lago e conversa com as tendo sido notória activista contra o regime de Salazar, O Grande Prémio de Poesia A justiça, a ordem, a integrida- flores. Também a filha sobretudo através da Comissão Nacional de Socorro do Pen Club português, em de são os valores que reclama. do jardineiro o pode aos Presos Políticos, de que foi sócia-fundadora. 1990, o Prémio Gulbenkian de Com eles e através deles, So- ouvir, a Florinda, esco- Depois da Revolução, foi eleita deputada à Assem- Literatura para Crianças, em phia seduz e conquista. Ontem lhida para alegrar mais bleia Constituinte, pelo PS, participando assim num 1992, e o Prémio Vida Literá- e sempre. ainda a festa das flores. Parlamento em que a diversidade de origens, classes, ria da Associação Portuguesa Quantos dos que hoje va- A descoberta dos misté- formações e profissões era muito mais diverso do que de Escritores, em 1994. gueiam por estas páginas rios da noite e do crescimento. actualmente. “Era um estado de emergência. Muitas O seu último livro de (desse lado e deste) foram “As coisas extraordinárias e as pessoas entenderam que aquilo era um dever cívico poemas, “O Búzio de Cós”, seduzidos pelas suas histórias coisas fantásticas também são de emergência a que não podiam faltar”, dizia Pedro publicado em 1997, venceu a e personagens? Como aquela verdadeiras. Porque há um país Roseta ao PÚBLICO, há quatro anos, explicando aquela primeira edição do prémio criança em cuja mente ficou que é a noite e um país que é o Assembleia onde se juntavam de poesia da Fundação Luís a ecoar a frase: “Parece um dia”, explica o rapaz-estátua. operários e poetas, doutores e Miguel Nava, cuja revista, amigo. É exactamente igual a “Como o mundo é maravilho- engenheiros. “Relâmpago”, lhe consa- um amigo.” Sem se recordar so”, responde a menina. O des- A FRASE Nessa Assembleia, Sophia grou, em 2001, um número onde a teria lido, acabaria lumbramento de Sophia. interveio sobretudo em de- especial. Em 1999, Sophia por reencontrá-la já adulta Em 1968, é publicado “A Flo- “A cultura é uma bates em que a cultura estava recebeu finalmente o mais em “Uma Noite de Natal”. resta”. Um anão pede ajuda a das formas de presente. E, aliando a força das importante prémio literário E é inominável a alegria no Isabel na tarefa de distribuir o seu libertação do palavras a um vigor físico que de língua portuguesa, o Pré- momento de a recuperar e tesouro. Fica então a conhecer os homem. Por impressionava, foi uma voz lú- mio Camões. situar. benefícios e malefícios do dinhei- cida e clara contra os excessos Fora de Portugal, a impor- Eis a magia da autora, dar ro e a dor da separação. O anão isso, perante a do processo revolucionário. tância da sua obra foi reco- algo de essencial que resiste ao terá de partir para as florestas do política, a cultura “A Revolução que então nhecida através de galardões tempo. Daí a emoção que acom- Norte. Um professor aconselha-a: deve sempre ter a vimos pareceu-nos a revolu- como a Placa de Honra do panha cada regresso aos seus “Escreve esta história. As coisas possibilidade de ção exemplar. Mas desgra- Prémio Francesco Petrarca, livros, para crianças ou para os que passam ficam vivas para funcionar como çadamente, dia após dia, a ou o Prémio Max Jacob – de outros. sempre numa história escrita.” Revolução tem estado a ser que se tornou, em 2001, a pri- A sabedoria de Sophia. antipoder. E se desvirtuada pelo abuso e pela meira detentora não francesa. O imaginário de Sophia Dezassete anos mais tarde, é evidente que o avidez de poder das falsas Em 2003, recebeu o prestigia- “A Menina do Mar” e “A Fada surge “A Árvore”, dois contos Estado deve à vanguardas ideológicas. (…) díssimo Prémio Reina Sofia Oriana” nasceram em 1958. No tradicionais japoneses (o que dá cultura o apoio que A Revolução tem estado cons- de Poesia Iberoamericana, primeiro título, conta-se a apro- nome ao livro e “O Espelho ou o deve à identidade tantemente a ser liderada pelo atribuído pelo Património ximação entre uma menina que Retrato Vivo”) que homenageiam maximalismo literário dos fal- Nacional de Espanha e pela vive no mar e um menino que a transformação que os homens de um povo, esse sos intelectuais de Lisboa, pelo Universidade de Salamanca. vive na terra. Nenhum pode imprimem aos objectos e o apoio deve ser facciosismo dos inconscientes Em Loulé, a nova Bibliote- sobreviver no elemento do conhecimento das sucessi- equacionado de e dos loucos, pelas estratégias ca Municipal adoptou o seu outro, mas vão desvendando vas gerações. Uma árvore forma a defender dos oportunistas do marxismo nome. E o Centro Nacional mutuamente os mundos que antiga torna-se uma gui- a autonomia e pronto-a-vestir”, alertava, em de Cultura homenageou, habitam. E aceitam-se nas tarra japonesa, isto depois Agosto de 1975, num debate em em 2002, Sophia e Francisco diferenças. A tal ponto que o de ter sido mastro de uma a liberdade da que rejeitou a eventual criação Sousa Tavares pelo contribu- rapaz passa a ser “sábio como barca. A universalidade de cultura para que de uma Secretaria de Estado to que deram para a preserva- um caranguejo” e “feliz como Sophia. nunca a acção da Cultura no Ministério da ção da liberdade de expressão um peixe”. O mar é o reino de Em 1991, a autora seleccio- do Estado se Comunicação Social. naquele espaço, baptizando Sophia: “Quando tinha cinco na poemas para a infância e transforme em Dois meses depois, na uma das salas do edifício com ou seis anos (…) a felicidade adolescência de autores de discussão do artigo da Cons- os nomes de ambos. máxima era tomar banho países lusófonos. Uma espé- dirigismo” tituição sobre a liberdade de Homenagem não menos entre os rochedos” (“Anto- cie de iniciação à poesia. E ASSEMBLEIA criação, alertava para o enten- relevante à sua obra, e so- logia Diferente”). deixa um pedido: “Espero CONSTITUINTE, dimento da cultura não como bretudo mais útil para os No segundo livro, há uma fada que perde o que estes poemas sejam lidos em voz alta, pois Agosto de 1975 “um luxo de privilegiados, mas seus leitores, é o projecto de dom de voar. Envaidecida com os elogios de um a poesia é oralidade.” Em 1992, oferece ao padre uma necessidade fundamental uma edição crítica da poesia peixe (o mar, sempre), Oriana esquece-se dos Nuno Higino uma história, “O Anjo de Timor”. de todos os homens”. Em De- de Sophia, que deverá sair outros e apaga do seu íntimo a generosidade. Graça Morais ilustra-a e é publicada no final de zembro do mesmo ano, seria com a chancela da editorial Outro dom perdido. Para voltar à harmonia 2003. De novo o talento e a sensibilidade de quem a voz do PS a pedir a revisão do Pacto MFA/ partidos: Caminho, que entretanto tem em que antes vivia, a fada terá de recuperar a procura furiosamente a verdade e uma ordem “Queremos ser regidos por leis e não queremos ser vindo a publicar, em volumes justiça no tratamento com todos os seres. O bem cósmica — Sophia. regidos por regimentos. Queremos um exército que autónomos, reedições revistas e o mal segundo Sophia. O mundo que conhecemos está agora menos garanta a construção da democracia e não um exército de todos os livros de poemas Em 1959, o sagrado e o divino chegam-nos luminoso. Num outro, a bela Sophia dança com que se autodestrói ou destrói a democracia.” da autora. Até ao momento, através do conto “A Noite de Natal”. Joana se- um rapaz de bronze, rodeada de flores num Cumprido o “dever cívico” de dar uma Constituição saíram já onze títulos. Ambos gue a estrela com os Reis Magos, vai à procura imenso jardim perto da floresta. Ao fundo, o democrática a Portugal, Sophia não voltaria a sentar- os projectos vêm sendo coor- do seu amigo, um garoto “todo vestido de re- mar. E é Verão. Se por lá alguém houver que se em São Bento. Mas continuaria a ter intervenção denados por Maria Andresen, mendos”. É assim que celebra o nascimento de a não conheça, pensará: “Parece uma amiga. política relevante como militante socialista, tendo filha de Sophia, e Luís Manuel Cristo. “No mundo, todos nós somos pessoas que É exactamente igual a uma amiga.” ■ RITA tido um papel destacado na campanha presidencial Gaspar. ■ L.M.Q. vão atrás da estrela (…) E por isso a estrela não é PIMENTA de Mário Soares, em 1986. ■

    + mrvpimentamrvpimenta, 4 months ago

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