ALTA SENSIBILIDADE   EMOCIONAL NOVAS PERSPECTIVAS     Helena Polak
Contato com a autora:helenapolak@terra.com.brBlog:http://helenapolak.blogspot.com/Este livro pode ser adquirido através do...
I. IDENTIFICANDO A ALTA SENSIBILIDADEEMOCIONAL...........................................................................6...
c) Procurar distração........................................................57     d) Conversar consigo mesma ..............
3. Reprogramando suas crenças ..........................................88  4. Identificando valores ........................
I. IDENTIFICANDO A ALTA SENSIBILIDADEEMOCIONAL Você se identifica com a maioria das afirmativas abaixo?             Tenho ...
Veja como a renomada escritora Pearl Buck descreve uma pessoa altamente  criativa  que  já  nasce  com  extrema  sensibili...
com  base  nisto,  partir  para  a  adoção  de  uma  nova  perspectiva, adotando atitudes que podem melhorar consideravelm...
emocionais  ou  de  relacionamento,  que  podem  vir  a  ser  úteis  de alguma forma.   Mas,  se  você  reconhecer,  nem  ...
II. O QUE PODE GERAR COMPORTAMENTOS DO TIPOBORDERLINE?Não  há  resposta  simples  para  essa  pergunta.  Existe  um  inten...
sintomas  Borderline,  principalmente  através  de  terapia,  para permitir que tenha uma vida mais tranqüila e equilibrad...
Pershall,  por  enquanto  disponíveis  somente  em  inglês),  entre outras fontes.   É  interessante  observar  que  muita...
informativos          e         interativos,         tais         como http://vidadeumaborderline.blogspot.com/,          ...
Segunda:  a  capacidade  do  paciente  de  colocar‐se  no  lugar  do outro. Quanto mais entender as aflições de outra pess...
emocional  (potencialmente  Borderline),  e,  por  não  terem conhecimento suficiente sobre o assunto, ficam sem saber com...
 Esse  caos  interno  é  descrito  assim  em  primeira  mão  por  uma pessoa com sintomas Borderline:                     ...
Sou um caos inconsistente. Existe uma parte de mim que está feliz econfiante, e uma outra parte que é insegura e carente. ...
Isso é dirigido a você, mas você representa muitas pessoas. As pessoas queestão próximas a mim agora. As pessoas das quais...
III. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNOBORDERLINE1. Vergonha / Invalidação A  vergonha  é  um  aspecto  que  não  só  p...
autoconfiança  saudável.  Quando  a  manifestação  de  suas emoções  negativas  é  bloqueada  ou  punida,  isso  gera  uma...
A  reação  natural  a  um  sentimento  de  vergonha  é  acobertá‐lo, pois  a  pessoa  se  sente  vulnerável,  e  a  vergon...
abandono. Porém, incontrolada e mal usada, acaba atrapalhando a  nossa  vida,  e  nessa  ânsia  de  nos  defender  desses ...
 Um  fator  que  talvez  contribua  para  esta  impulsividade  é  uma possível diferença na organização dos circuitos neur...
4. Variações de humor                                Uma das principais características da                                ...
incomodam  os  outros),  sabores,  luminosidade,  e  assim  por diante.   As  pesquisas  também  indicam  que  pode  haver...
por  causa  da  vergonha  (sou uma má pessoa)  e  vai  se  rejeitar  (nãomereço aceitação).   Além disso, por mais paradox...
Borderline,  muitas  vezes  já  com  conotação  negativa,  acusatória, crítica.   Pesquisas  recentes  realizadas por  Lar...
Isto  é  algo  a  ser  levado  em  conta  tanto  pelos  familiares  quanto pelos terapeutas. Pois os parentes, confrontado...
A  pessoa  com  sintomas  Borderline  não  necessariamente  se baseia naquilo que vê, ouve, testemunha ‐ baseia‐se mais no...
Às  vezes  as  pessoas  com  sintomas  Borderline  relatam  eventos para  amigos,  parentes  e  terapeutas  de  forma  bem...
Portanto,  se  algo  no  ambiente  da  pessoa  com  sintomas Borderline a remete a uma memória implícita ou emocional, e s...
Como  disse  um  homem  com  Borderline  para  a  sua  esposa,  ao tentar explicar porque a culpava por tantas coisas:    ...
Relacionamentos  intensos  e  íntimos  envolvem  emoções  muito profundas. Infelizmente, para a pessoa com sintomas Border...
perda de emprego;     medo de rejeição ao descobrir preferência por     relacionamentos com pessoas do mesmo sexo;     sen...
pessoal  de  “abandonar  antes  de  ser  abandonada”,  baseada  na seguinte crença:   “Pensamento é realidade. Se penso em...
físicas, mentais, sociais ou outras. Além disso, algumas formas de meditação  que  visam  a  concentração  no  momento  pr...
fonte, a reação primordial do corpo e da mente é de buscar alívio o mais rápido possível, por qualquer meio que seja.  14....
monólogos  (geralmente  sobre  si  mesma),  usando  linguagem inapropriada ou abordando assuntos inadequados para a ocasiã...
relacionamentos,  inclusive  seu  eventual  término  (novamente, garantia de que possa abandonar antes de ser abandonada)....
pensamentos suicidas são bastante comuns e recorrentes, pois o desânimo  diante  das  dificuldades  enfrentadas  nos relac...
IV. REAÇÃO DAS PESSOAS À SUA VOLTA Se você se identificou com uma série de características descritas acima, e viu como são...
pouco  “diferente”,  uma  espécie  de  “ovelha  negra”  que  não  se encaixa  nos  padrões  aceitos  pela  família  e  pel...
orgulhosamente defendidas possam não ser a “verdade suprema e única”... Opiniões são somente isso – opiniões. Elas podem s...
habilidades  de  inteligência  emocional  são  desenvolvidas  numa região  do  cérebro  chamada  sistema  límbico,  que  c...
Pode ocorrer que você realmente tenha magoado e prejudicado outras pessoas no passado por comportamentos decorrentes de su...
V. ABORDAGENS TERAPÊUTICAS Não é muito comum uma pessoa com sintomas Borderline buscar ajuda psicoterápica por iniciativa ...
Borderline  não  sentirem  tão  rapidamente  os  efeitos     esperados dos mesmos; e   b. terapias  de  eficácia  comprova...
A  terapia  individual  da  TCD  tende  a  ser  bastante  direta  e confrontativa,  e  busca  abordar  em  uma  sessão  se...
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A alta sensibilidade emocional pdf

  1. 1. ALTA SENSIBILIDADE EMOCIONAL NOVAS PERSPECTIVAS Helena Polak
  2. 2. Contato com a autora:helenapolak@terra.com.brBlog:http://helenapolak.blogspot.com/Este livro pode ser adquirido através do site: www.clubedeautores.com.br Obrigada a todos que incentivaram e contribuíram com a elaboração deste livro!! 2
  3. 3. I. IDENTIFICANDO A ALTA SENSIBILIDADEEMOCIONAL...........................................................................6II. O QUE PODE GERAR COMPORTAMENTOS DO TIPOBORDERLINE?......................................................................10III. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNOBORDERLINE........................................................................19 1. Vergonha / Invalidação ...................................................19 2. Raiva................................................................................21 3. Impulsividade ..................................................................22 4. Variações de humor.........................................................24 5. Sensibilidade sensorial / ansiedade .................................24 6. Sensibilidade a crítica......................................................25 7. Interpretação equivocada de emoções.............................26 8. Distorção de “fatos” / memória emocional / atemporalidade ....................................................................28 9. Atribuição de culpa .........................................................31 10. Medo de abandono / medo de intimidade .....................32 11. Atitude “oito ou oitenta” ...............................................34 12. Ruminação.....................................................................35 13. Depressão / Medicamentos............................................36 14. Insônia ...........................................................................37 15. Problemas de Interação Social ......................................37 16. Autolesão / dor / pensamentos suicidas.........................39IV. REAÇÃO DAS PESSOAS À SUA VOLTA....................41V. ABORDAGENS TERAPÊUTICAS ..................................46VI. EMOÇÕES........................................................................49VII. LIDANDO COM IMPULSIVIDADE E/OUDEPRESSÃO ..........................................................................53 1. Táticas para conter impulsos prejudiciais .......................54 2. Táticas para combater depressão.....................................55 3. Outras dicas para inserir uma pausa entre o impulso e o ato decorrente ......................................................................56 a) Fazer perguntas a si mesma.........................................56 b) Protelar........................................................................57 3
  4. 4. c) Procurar distração........................................................57 d) Conversar consigo mesma ..........................................58 4. Táticas a médio e longo prazo.........................................59 a)Fazer papel de repórter.................................................59 b) Usar auto-afirmações ..................................................60 c) Buscar outras fontes de adrenalina..............................61VIII. NOVAS PERSPECTIVAS.............................................63 1) Reconhecendo distorções cognitivas, como: ..................64 a) Pensamento preto ou branco, oito ou oitenta ..............64 b) Extrapolação/ generalização .......................................64 c) Prisma negativo...........................................................64 d) Conclusões precipitadas..............................................64 e) Tamanho dos problemas .............................................64 f) Raciocínio emocional ..................................................65 g) Projeções do “deveria”................................................65 h) Rótulos ........................................................................65 i) Personalização e culpa .................................................65 2. Modificando as distorções cognitivas .............................66 a) Identifique o tipo de percepção errônea ......................66 b) Examine as provas ......................................................66 c) Fale consigo mesma ....................................................66 d) Busque o meio termo ..................................................67 e) Faça uma pequena pesquisa de opinião ......................67 f) Descreva situações com outras palavras......................67 g) Não assuma toda a culpa.............................................67 h) Não atribua toda a culpa aos outros ............................67 i) Analise o custo-benefício.............................................68 3. Libertando-se de ressentimentos .....................................68 4. Sugestões de outras pessoas para lidar melhor com seus pensamentos negativos:.......................................................72IX. APRENDENDO A CONVIVER MELHOR COM OSOUTROS.................................................................................75X. CONSOLIDANDO SUA IDENTIDADE..........................85 1. Crenças problemáticas.....................................................85 2. Identificando suas crenças...............................................85 4
  5. 5. 3. Reprogramando suas crenças ..........................................88 4. Identificando valores .......................................................89 5. Definindo metas ..............................................................92XI. LIDANDO COM O ESTRESSE DA ALTASENSIBILIDADE EMOCIONAL..........................................96 1. Aprendendo a relaxar ......................................................96 a) Relaxamento muscular progressivo ............................97 b) Meditação....................................................................98 2. Cuidando melhor de si.....................................................99 a) Alimentação ................................................................99 b) Movimentação.............................................................99 c) Sono reparador ..........................................................100 3. Organizando seu tempo.................................................101XII. DEPOIMENTOS DE ALGUMAS PESSOASDIAGNOSTICADAS COM TRANSTORNO DEPERSONALIDADE BORDERLINE ...................................103REFERÊNCIAS ....................................................................113 5
  6. 6. I. IDENTIFICANDO A ALTA SENSIBILIDADEEMOCIONAL Você se identifica com a maioria das afirmativas abaixo?   Tenho medo de ser abandonada pelos outros  Quando tenho um impulso muito forte, eu o sigo sem  pensar nas consequencias   Meus relacionamentos são instáveis e problemáticos  Quando penso sobre minha infância, vem a sensação  de falta de compreensão e carinho, lembranças de  abuso e trauma  Sinto um vazio interior a maior parte do tempo, uma  falta de rumo  Tenho problemas com vícios, dependências,  compulsões, transtornos alimentares, etc.  Meu humor varia de uma hora para outra e até muitas  vezes no mesmo dia  Frequentemente não consigo controlar minhas  reações, que são muito intensas  Sinto que o mundo à minha volta é cheio de ameaças  e pressões e cobranças   Às vezes me acho muito vulnerável e fraca, sinto que  não dou conta de lidar com a vida  Desconfio que frequentemente incomodo as pessoas,  que elas não me aceitam como sou  Sofro muito com as palavras e atitudes dos outros,  pois levo tudo de forma pessoal – e negativa   Tenho problemas de insônia, depressão, ataques de  pânico, de ansiedade.      6
  7. 7. Veja como a renomada escritora Pearl Buck descreve uma pessoa altamente  criativa  que  já  nasce  com  extrema  sensibilidade emocional – para a qual:   “Um toque é uma pancada, um barulho é um estrondo, um revés é uma tragédia, uma alegria é um êxtase, um amigo é um amado, um amado é um deus, e o fracasso é a morte.”Se você chega a sofrer com sua extrema sensibilidade emocional, é  possível  que  você  apresente  algumas  características  daquilo que,  no  seu  conjunto,  é  chamado  (por  falta  ainda  de  um  nome melhor)  de  “transtorno  de  personalidade  borderline”  ( “bórderláine”, ou simplesmente “bórder”).   O  objetivo  aqui  não  é  rotular  ninguém,  e  sim  identificar  e entender da melhor forma possível os fatores que lhe afligem e,  7
  8. 8. com  base  nisto,  partir  para  a  adoção  de  uma  nova  perspectiva, adotando atitudes que podem melhorar consideravelmente a sua qualidade de vida, atenuando suas angústias e incertezas.   Às vezes a simples constatação de que aquilo que nos atormenta tem um nome específico,  possui características específicas, tem potencial  de  recuperação,  e  é  compartilhado  por  milhares  e milhares  de pessoas  ao  redor  do  mundo,  pode  proporcionar  um certo  alívio.  E  essa  identificação  talvez  lhe  permita  partir  mais rapidamente  para  o  próximo  passo  –  ok, se é esse o meu problema, oque posso fazer então para melhorar?   Entretanto,  mesmo  com  toda  a  sua  inteligência  e  percepção, poderá haver diversos motivos pelos quais você talvez relute em aceitar  de  imediato  essa  possibilidade,  por  considerá‐la perturbadora,  depreciativa,  radical,  discriminatória,  pessimista, constrangedora, etc.   Em vista da sua experiência de vida e sua alta sensibilidade inata, talvez você nao queira aceitar ou admitir que tenha qualquer tipo de  “transtorno”  de  personalidade,  ou  comportamental,  ou emocional, ou o que seja. Essa reação é perfeitamente normal.   De modo geral, não queremos ser considerados “diferentes”  de forma  negativa.  Além  disso,  todos  nós  no  fundo  tememos  que algum  profissional  da  área  de  saúde  (seja  mental  ou  física)    nos diga que realmente sofremos de algum problema que precisa ser analisado,  tratado,  acompanhado,  medicado,  etc.,  ou  que  nos diga que temos que fazer algumas mudanças em nosso estilo de vida  (como  ter  que  fazer  atividade  física,  ou  parar  de  fumar,  de beber,  de  comer  doces,  etc.).  Mudança  é  uma  palavra  chave:  a ponte entre o conhecido e o desconhecido.  Se você quiser, pode optar por considerar o conteúdo deste livro simplesmente como um conjunto de informações sobre questões  8
  9. 9. emocionais  ou  de  relacionamento,  que  podem  vir  a  ser  úteis  de alguma forma.   Mas,  se  você  reconhecer,  nem  que  seja  somente  no  seu  íntimo, que  você  efetivamente  possui  algumas  das  características  acima descritas,  comuns  ao  transtorno  borderline,  e  sabe  que  suas reações  impulsivas  e/ou  negativas  atrapalham  a  sua  vida  e  seus relacionamentos  –  então  você  pode  começar  a  trabalhar  suas questões com a ajuda das ferramentas oferecidas aqui, como um primeiro  passo,  enquanto  você  não  busca  e  encontra  o  apoio profissional (e/ou familiar) necessário para progredir mais rápida e seguramente na construção de uma vida melhor.   O  importante  é  justamente  dar  o  primeiro  passo,  e  colocar intenção no seu progresso e recuperação. Não é um caminho fácil –  você  vai  precisar  de  muita  coragem,  perseverança  e  fé. Confiança  de  que  você  vai  chegar  a  um  ponto  de  poder aproveitar  muito  melhor  sua  vida  como  recompensa  por  este esforço.   Quanto  mais  você  protelar  em  analisar  objetivamente  a relevância  das  características  e  consequências  da  alta sensibilidade  emocional  no  seu  caso,  e  em  tomar  as  medidas necessárias para se entender melhor e procurar a ajuda adequada para  fazer  as  mudanças  indicadas,  mais  íngreme  e  lento  será  o seu  caminho  de  recuperação.  Aproveite  esta  oportunidade  para começar a mudar sua perspectiva desde já.  Observação: Adota-se o uso do feminino ao longo do livro para concordar com apalavra “pessoa” – embora naturalmente a alta sensibilidade emocional possa ser encontrada tanto em homens quanto mulheres. 9
  10. 10. II. O QUE PODE GERAR COMPORTAMENTOS DO TIPOBORDERLINE?Não  há  resposta  simples  para  essa  pergunta.  Existe  um  intenso debate  em  andamento  sobre  os  fatores  que  podem  contribuir para  a  manifestação  dos  sintomas  do  Transtorno  de Personalidade Borderline (TPB), sem que se tenha chegado ainda a  um  consenso.  Somente  para  ilustrar  como  que  esse  problema tem  sido  relativamente  pouco  estudado  até  agora,  o primeiríssimo  congresso  internacional  sobre  Borderline  foi realizado apenas em 2010, em Berlim.   Um  dos  novos  nomes  propostos  para  o  distúrbio  é  “Transtorno de  Regulação  Emocional”,  pois  é  justamente  a  “desregulação emocional”  que  traduz  a  dificuldade  que  a  pessoa  tem  em regular,  modular,  controlar,  e  até  reconhecer  e  classificar  suas próprias emoções.  Muitas  pesquisas  estão  sendo  conduzidas  sob  diversas  óticas, mas de modo geral a constatação é de que  algumas pessoas jánascem com um certo conjunto de vulnerabilidadesneurobiológicas, as quais podem (ou não) levar a umamanifestação dos comportamentos associados ao transtorno,dependendo das experiências pessoais e influências do meio.   Estas  pesquisas  continuam  analisando  a  ação  de neurotransmissores,  serotonina,  a  amídala  (parte  do  sistema límbico),  as  diferentes  formas  de  perceber  e  processar conhecimento  e  emoções,  a  hipersensibilidade  a  estímulos  e mudanças,  a  atividade  do  córtex  pré‐frontal,  as  questões relacionadas  à  insônia,  resposta  a  dor,  receptores  opióides,  o cerebelo, o hipocampo, baixa ocitocina, entre outras.   Existe  uma  grande  diversidade  na  “programação”  individual  –  o que, por sua vez – e isto é de suma importância ‐ aponta para o potencial de “reprogramar” as reações e atitudes da pessoa com  10
  11. 11. sintomas  Borderline,  principalmente  através  de  terapia,  para permitir que tenha uma vida mais tranqüila e equilibrada.  Alguns  tipos  de  comportamento  “menos  comuns”  encontrados em  nosso  meio  de  familiares  e  amigos  podem  dizer  respeito, talvez,  a  um  tio  impulsivo  e  esbanjador,  uma  tia  que  sofre  de depressão, um avô que bebia demais, um primo super tímido, um outro  primo  brilhante  porém  imprevisível,  um  parente  muito “sistemático”,  outro  extremamente  ciumento  e  possessivo,  um colega  que  só  quer  saber  de  aventuras  radicais,  e  assim  por diante.   Considerados individualmente, tais traços podem até ser aceitos socialmente como hábitos “excêntricos” (embora o alcoolismo, o homossexualismo  e  transtornos  de  comportamento,  por exemplo,  ainda  carreguem  um  pesado  estigma,  contribuindo para  que  as  próprias  pessoas  e  seus  parentes  não  queiram comentá‐los abertamente nem buscar ajuda).   Mas,  no  caso  do  Borderline,  pode  ocorrer  a  concentração  de diversas  destas  vulnerabilidades  e  características  em  uma  só pessoa – o que representa uma carga individual excessivamente pesada para se lidar de forma adequada sem alguma espécie de ajuda.  Com  uma  boa  terapia  (uma  das  opções  mais  eficazes  sendo  a Cognitiva  comportamental,  que  visa  justamente  essa reprogramação,  ou  psico‐educação)  e  o  apoio  e  envolvimento positivo de pessoas amadas e amigas, e também, muitas vezes, a ajuda de medicação adequada, a pessoa com sintomas Borderline pode  atingir  um  excelente  grau  de  recuperação.  Relatos fascinantes  e  inspiradores  podem  ser  encontrados  em  grande quantidade em blogs e vídeos e sites na internet, em livros (como The Buddha and the Borderline, por Kiera Van Gelder, BPD Coaching andAdvocacy,  por  A.  J.  Mahari,  Loud in the House of Myself,  por  Stacy  11
  12. 12. Pershall,  por  enquanto  disponíveis  somente  em  inglês),  entre outras fontes.   É  interessante  observar  que  muitas  pessoas  com  sintomas Borderline  acabam  encontrando  equilíbrio,  satisfação  e realização  ao  exercer  atividades  que  envolvem  a  prestação  de ajuda aos outros, seja através de enfermagem, assistência social, voluntariado, ensino de modo geral, terapia, etc.  Um dos exemplos mais marcantes na área internacional é da Dra. Marsha  Linehan,  da  Universidade  de  Washington  nos  EUA, pioneira  no  desenvolvimento  e  utilização  da  Terapia Comportamental  Dialética,  que  já  ajudou  um  grande  número  de pessoas  com  sintomas  borderline  ao  redor  do  mundo  –  sendo que  ela  mesma  passou  por  uma  juventude  turbulenta, atormentada  por  sintomas  borderline.  Maiores  detalhes  sobre  o caso  dela  podem  ser  encontrados  no  sitewww.borderlinepersonalitydisorder.com. Temos  também  o  caso  amplamente  divulgado  do  jogador  de futebol  americano,  Brandon  Marshall,  que  declarou  que  vai trabalhar para que o transtorno se torne mais conhecido, e assim mais  rapidamente  diagnosticado  e  tratado.  Entre  pessoas  já falecidas,  podemos  somente  especular,  mas  aparentemente tanto o famoso pintor Van Gogh quanto à Lady Diana sofriam de vários sintomas borderline.    No  final  deste  livro  você  encontrará  também  relatos  de  outras pessoas  já  diagnosticadas  como  portadoras  do  transtorno  de personalidade  Borderline  (ou  seja,  desregulação  emocional), ilustrando sua trajetória, suas dúvidas e angústias, sua coragem e seus avanços. E você poderá acompanhar também alguns grupos excelentes  no  Facebook,  como  Transtorno  de  Personalidade Borderline  e  Grupo  de  Portadores  do  Transtorno  Borderline  onde as  pessoas  conversam  sobre  seus  problemas,  trocam  idéias    e sugestões, encontrando apoio e compreensão, assim como blogs  12
  13. 13. informativos  e  interativos,  tais  como http://vidadeumaborderline.blogspot.com/,  e http://cafepsicanalitico.blogspot.com/.   Não  devemos  nunca  esquecer  de  que  existem  muitos  níveis  e tipos de sintomas Borderline, bem como variadas fases e ciclos e combinações de comportamentos. Às vezes, se as circunstâncias de  vida  não  desencadeiam  as  fortes  e  negativas  reações emocionais  características  do  transtorno,  a  vulnerabilidade biológica  pode  permanecer  dormente  por  muito  tempo,  ou mesmo latente para sempre, e/ou poderá manifestar‐se de forma relativamente branda, e/ou mais passageira.   Além disso, à medida que a pessoa chega aos quarenta, levando uma  vida  com  menos  conflitos  emocionais,  registra‐se  uma frequente tendência à diminuição dos sintomas de instabilidade e impulsividade,  às  vezes  até  sem  tratamento  específico. Entretanto,  sem  um  ambiente  estruturado  e  sem  terapia, algumas pessoas podem até piorar – portanto, não é a idade em si  o  fator  determinante.  Entre  outros  profissionais  a  confirmar essa  tendência,  temos  o  Dr.  Erlei  Sassi  Junior,  formado  em medicina  e  psicoterapia  pela  Universidade  de  São  Paulo  (USP), que  estuda  pacientes  com  transtorno  borderline  há  15  anos  e atualmente  coordena  o  Ambulatório  dos  Transtornos  de Personalidade  e  do  Impulso  do  Instituto  de  Psiquiatria  do Hospital das Clínicas, também na capital paulista.   O  mesmo,  ao  ser  indagado  sobre  as  principais  mudanças esperadas  no  Manual  de  Diagnóstico  e  Estatística  de  Distúrbios Mentais,  o  DSM‐V,  previsto  para  publicação  em  maio  de  2013, respondeu  à  Veja  Online  de  31/07/2011  o  seguinte:  “no  DSM‐V,  a principal evolução no diagnóstico do transtorno será a aplicação de  questionários  destinados  a  medir  duas  características. Primeira:  em  que  medida  o  paciente  se  vê  como  um  indivíduo autônomo,  ou  seja,  que  não  depende  dos  outros.  Quanto  mais considerar‐se  independente,  menos  graves  são  os  sintomas.  13
  14. 14. Segunda:  a  capacidade  do  paciente  de  colocar‐se  no  lugar  do outro. Quanto mais entender as aflições de outra pessoa, menos graves  são  os  sintomas.  Desta  maneira,  será  possível  medir  o nível  de  intensidade  do  transtorno.  Dependendo  do  grau  da doença, o tratamento muda.”  Resumindo  –  não  há  uma  única  causa  específica  do  transtorno Borderline,  pois  a  manifestação  dos  sintomas  depende  do conjunto  individual  de  vulnerabilidades  e  a sequencia/combinação  de  eventos  que  impactaram  aquela pessoa.  Por  conseguinte,  é  importante  frisar  que  a  pessoa  que apresenta  o  transtorno  não  “tem  culpa”  pelo  aparecimento  e manifestação  dos  sintomas  de  Borderline,  e  nem  existe  uma figura  exclusiva  a  quem  possa  ser  atribuída  a  “culpa”  pelo desenvolvimento  do  transtorno,  entre  pais,  parentes,  parceiros, cônjuges ou amigos. É  essencial  lembrar  que  todos  nós  temos  momentos  de desregulação  emocional.  Porém  alguns  aspectos  que  levam certas  pessoas  a  serem  efetivamente  diagnosticadas  como portadoras  do  Transtorno  de  Personalidade  Borderline  dizem respeito  ao grau em que tais características afetam as suasvidas e a dos outros, a intensidade e velocidade com que essasemoções surgem e são expressas, e a demora em retornar paraum estado emocional mais objetivo e tranqüilo.   A  possibilidade  de  que  a  causa  destes  comportamentos perturbadores  seja  o  Transtorno  de  Personalidade  Borderline deve  ser  contemplada,  avaliada  e/ou  confirmada  por  um profissional  da  área  de  saúde  mental,  única  pessoa  com competência  para  fazer  o  diagnóstico  preciso  e  oferecer  o tratamento e acompanhamento terapêutico adequado.   Entretanto,  geralmente  são  os  familiares  ou  cônjuges  os primeiros  a  testemunhar  os  comportamentos  imprevisíveis  e impulsivos  apresentados  pela  pessoa  com  alta  sensibilidade  14
  15. 15. emocional  (potencialmente  Borderline),  e,  por  não  terem conhecimento suficiente sobre o assunto, ficam sem saber como agir  ou  reagir,  onde  e  que  tipo  de  ajuda  devem  procurar,  e  nem têm condições de avaliar devidamente se a ajuda encontrada é a mais adequada para o caso em questão.   A própria pessoa com sintomas Borderline muitas vezes não sabe onde  e  como  procurar  ajuda  para  seus  dilemas  e  angústias, principalmente  se  nao  tem  conhecimento  do  conjunto  de características  que  pode  indicar  a  presença  do  transtorno.  E existem  também  fatores  pessoais,  econômicos,  familiares,  etc. que criam obstáculos à sua busca e obtenção da ajuda necessária e eficaz. Como resultado, normalmente há uma longa e lastimável demora  no  reconhecimento  do  problema  e  na  definição  do diagnóstico correto, assim como na posterior disponibilização de suporte e tratamento adequado.   Foi justamente pensando neste aspecto – o da frequentedemora em se encontrar ajuda terapêutica eficaz - econsiderando que esse tempo perdido é traduzido emsofrimento para cada pessoa e sua família - que tomamos ainiciativa de oferecer uma compilação de “primeiros passos”para que a própria pessoa com sintomas Borderline possa iradquirindo mais consciência e autoconfiança até que consigater acesso ao devido apoio profissional. Pois  o  sofrimento  emocional  é  um  fator  constante  na  vida  da pessoa  altamente  sensível,  decorrendo  basicamente  do  fato  de carregar  suas  emoções  à  flor  da  pele,  como  se  lhe  faltasse  uma importante  camada  protetora  que  a  maioria  dos  outros  possui. Ela  vive  num  turbilhão  emocional,  e  por  conseguinte  procura aliviar  sua  dor  de  qualquer  forma  disponível  no  momento  – mesmo se isto faz com que ela se vire contra os outros ou contra si  mesma.  É  como  se  estivesse  literalmente  pegando  fogo  e corresse desesperadamente em direção ao rio mais próximo para apagar  as  chamas,  nem  que  para  isso  tenha  de  derrubar  todos que se encontram em seu caminho. 15
  16. 16.  Esse  caos  interno  é  descrito  assim  em  primeira  mão  por  uma pessoa com sintomas Borderline:  “Você queria saber o pior sobre mim, as coisas que não contei para ninguém e escondi debaixo da superfície. Como posso explicar? Como posso explicar quem eu sou, se nem eu mesma sei com certeza? Como colocar em palavras os piores aspectos de mim, dos quais tenho fugido há tanto tempo? Vou lhe contar meus segredos, vou contar tudo. Pode ser que isso me ajude. Talvez você me deteste por isso ou talvez você entenda. Não sei, mas estou cansada de fugir. Então aqui vai,vou lhe dar o que você pediu.Eu te odeio. Isso não é verdade, mas às vezes acho que é. Não atendo otelefone quando você liga, embora queira falar com você. Não te ligo, mesmosendo isso a única coisa que quero fazer. Não vou te procurar, embora todasas partes de mim queiram fazer isso. Vou sentir raiva de você, vou querer temagoar, vou te afugentar porque tenho medo que você se aproxime demais.Preciso de sua atenção constante, seu apoio, mas os receberei com friaindiferença.Terei ciúme da atenção que você dá para outros, e terei raiva de você por meignorar. Vou me sentir bem carinhosa e próxima de você um dia, somentepara ficar com raiva de você e querer te expulsar da minha vida no diaseguinte.Sofro de amnésia emocional, talvez eu tenha sido sempre assim. Vejo cadaevento, cada dia, cada conversa como um evento separado, sempre buscandosinais de que você possa vir a me magoar. Quando me sinto ignorada, ficocom raiva e esqueço que no dia anterior você me falou quanto que gostavade mim. 16
  17. 17. Sou um caos inconsistente. Existe uma parte de mim que está feliz econfiante, e uma outra parte que é insegura e carente. Esses dias, nunca seique lado vai vir à tona.Cada vez que acho que as coisas estão sob controle, que eu sei que você gostade mim e me sinto bem com nosso relacionamento, a dúvida e o medovoltam. Talvez com tempo possam sumir inteiramente, mas tenho minhasdúvidas. Basta aparecer um novo relacionamento, um novo amigo, um novodia, e tudo volta outra vez.Você pergunta o que pode fazer por mim, e eu não sei o que lhe responder. Aminha parte carente quer sua atenção constante, precisa de suas palavras eseus pensamentos, de sua presença. Mas sei que isto não é a resposta,preciso aceitar as limitações em nosso relacionamento. A minha parteassustada quer você fora da minha vida para facilitar as coisas. A minhaparte detestável quer te magoar e machucar porque acredita que você memachucou.Tudo que posso pedir é que você entenda, que não desista. Vou lhe ignorar àsvezes, posso ser grossa com você, posso tentar magoá-lo. Posso me esconderde você e esperar que você me procure, para que eu sinta que você realmentese importa comigo. Não é justo fazer essas coisas com você, mas eu as farei. Não posso lhe pedirpara agüentar isso tudo, não é justo, e, não importa como eu aja, gostodemais de você para lhe sujeitar a isso tudo. Mas você perguntou, e é issoque tenho a lhe dizer.Não gosto disso. Não gosto de ser carente e pegajosa. Não gosto de magoaras pessoas. Não gosto de ser grossa e sarcástica com as pessoas que mecercam. Não gosto dessa parte de mim. Durante muitos anos ignorei isso efiz de conta que isso era eu, mas entendi agora que eu estava errada. Issonão é eu – é uma falsa identidade criada para me proteger do mundo. Não foi fácil chegar a este entendimento, e talvez ainda não o tenha aceitointeiramente. Mas encontrei o meu caminho, sinto que posso mudar e queposso aceitar esse lado meu e impedi-lo de se tornar aquilo que sou. Não vaiser fácil e não vai ser rápido, mas tenho fé que vou conseguir. Talvez um diaeu me veja como a pessoa que você vê por trás de minhas defesas, e talvezum dia vou permitir que os outros também vejam aquela pessoa. 17
  18. 18. Isso é dirigido a você, mas você representa muitas pessoas. As pessoas queestão próximas a mim agora. As pessoas das quais eu quero estar próximamesmo as tendo afugentado. Os amigos que afastei no passado, os amigosque nunca perdoei e nunca permiti voltar para minha vida, os amigos aosquais nunca tive oportunidade de dizer essas coisas. As pessoas que vouconhecer no futuro, as pessoas das quais vou gostar até que novamente euas empurre para fora de minha vida. A parte de mim que ainda estátentando entender quem eu sou. Você é estas pessoas todas e muitas mais”. Os  conceitos  abordados  na  seção  a  seguir  estão  descritos também  no  primeiro  livro  da  autora,  Sensibilidade à Flor da Pele, dirigido  principalmente  a  familiares  de  pessoas  com  sintomas Borderline,  porém  são  incluídos  aqui  devido  à  sua  importância para o melhor entendimento dos aspectos mais problemáticas da alta sensibilidade emocional.     18
  19. 19. III. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNOBORDERLINE1. Vergonha / Invalidação A  vergonha  é  um  aspecto  que  não  só  permeia  como  provoca muitas das ações e reações da pessoa com sintomas Borderline.   Existem  diversas  maneiras  de  definir o  sentimento  de  vergonha. Mas,  basicamente,  podemos  dizer  que  a  vergonha  é  o  mal‐estar emocional  vinculado  à  idéia  de  alguma  ação  que  imaginamos censurada pelos outros e/ou por nós mesmos.   Mas, de onde vem essa vergonha? Essa sensação enraizada de vergonha entre muitas pessoas com sintomas  Borderline  é  geralmente  atribuída  a  um  ambiente “invalidante” na infância e/ou juventude – um ambiente em que as reações emocionais da criança, principalmente as negativas ou mal  compreendidas  (tais  como  raiva,  medo  e  tristeza)  foram tratadas com zombaria, ironia, impaciência, rejeição ou desprezo, e/ou  consideradas  inadequadas,  incômodas,  erradas,  inválidas, inaceitáveis  ou  indesejáveis;  um  ambiente  em  que  foram repetidamente  praticados  atos  ou  proferidas  palavras  para controlar, inibir, coibir ou moldar tais reações.   Essa invalidação pode ser percebida e assimilada pela pessoa com alta  sensibilidade  emocional  em  uma  grande  variedade  de situações, desde casos de abuso sexual real a uma mera falta de sintonia  entre  sua  personalidade  e  a  dos  seus  pais.  Mesmo  pais amorosos  e  bem‐intencionados  podem  ter  dificuldades  em  lidar com  uma  criança  mais  sensível,  por  falta  de  conhecimento,  de tempo, ou outros fatores.  Pessoas  com  predisposição  a  Borderline  podem  tornar‐se incapazes  de  validar  a  si  mesmas,  de  sentir  empatia  por  si mesmas,  de  se  consolar  e  acalentar,  de  gerar  e  manter  uma  19
  20. 20. autoconfiança  saudável.  Quando  a  manifestação  de  suas emoções  negativas  é  bloqueada  ou  punida,  isso  gera  uma resposta ou reação de vergonha – primeiro, pelo próprio fato de ter  sentido  essa  emoção  intensa,  e,  segundo,  por  ter  externado essa emoção, expondo‐se a crítica e juízo.   A  vulnerabilidade  biológica  da  pessoa  com  sintomas  Borderline impede  que  ela  consiga  distinguir  entre  o  que  ela  é  e  o  que  ela sente,  e,  por  não  corresponder  às  expectativas  da  família  ou  da sociedade,  sente‐se  punida  de  alguma  forma  pelas  suas  ações, que  são,  por  sua  vez,  uma  manifestação  direta  de  seus sentimentos  e  impulsos.  Portanto,  ela  age  conforme  seus sentimentos  e,  caso  punida,  internaliza  que  está  sendo  punida pelo que ela é.       Veja este comentário de uma pessoa com sintomas Borderline: “Um terapeuta me contou que toda família tem sua ovelha negra – essaovelha negra sendo a pessoa que se sobressai pelo seu poder, e que os outros,por se sentirem inseguros em seu convívio, buscam controlar e fazer comque se torne uma ovelha branca. Essa pessoa nunca conseguiu ser umaovelha branca, mas ficou com a sensação de que não se encaixava em lugarnenhum. Infelizmente, ela tem Borderline.”  20
  21. 21. A  reação  natural  a  um  sentimento  de  vergonha  é  acobertá‐lo, pois  a  pessoa  se  sente  vulnerável,  e  a  vergonha  acaba  gerando mais vergonha, num círculo vicioso.  E  é  justamente  essa  vergonha  que  impede  muitas  pessoas  com sintomas Borderline de procurar ajuda na forma de terapia, pois isto  também  acarreta  duas  reações  distintas  de  vergonha.  Uma, resultante  do  medo  de  que  o  terapeuta  vai  conseguir  enxergar seus  defeitos  e  enquadrá‐la  como  problemática  e  imperfeita, como  uma  pessoa  que  precisa  ser  “consertada”.  E  outra,  pelo medo de que, se a terapia não der resultado, sua vergonha e seu fracasso serão confirmados oficial e publicamente.   Passada  a  crise  de  desregulação  emocional,  a  pessoa  com sintomas  Borderline  pode  sentir‐se  envergonhada  e constrangida. Porém normalmente não expressa a sua vergonha, nem procura justificar seu comportamento, nem pede desculpas – mais uma vez porque, se admitisse sua culpa, poderia tornar‐se alvo  de  mais  crítica.  Ou  então  simplesmente  porque  ela  mesma não consegue se perdoar.  Sua  vergonha  pode  intensificar‐se  rapidamente,  externando‐se em forma de tristeza, medo e raiva. A raiva, por ser uma emoção extremamente  forte,  frequentemente  prevalecerá  sobre  as outras.  2. RaivaUma  pessoa  com  sintomas  Borderline  pode  ter  um  acesso  de raiva a troco de aparentemente nada: uma coisa mínima fora do lugar,  um  pequeno  atraso,  uma  palavra  descuidada,  uma  ligeira mudança de planos ‐ esses eventos remetem não só à vergonha mas  também  a  uma  hipersensibilidade  a  crítica, a  uma insegurança básica. A raiva tem a função, entre outras coisas, de criar uma barreira contra três sentimentos básicos que conduzem à  baixa  de  auto‐estima  –  vulnerabilidade,  impotência,  e  21
  22. 22. abandono. Porém, incontrolada e mal usada, acaba atrapalhando a  nossa  vida,  e  nessa  ânsia  de  nos  defender  desses  perigos, partimos para o ataque.  Veremos  mais  adiante  algumas  dicas  para  atenuar  acessos  de raiva.  3. ImpulsividadeDe  modo  geral,  nossas  emoções  podem  ser  desencadeadas  por sinais, indícios, impressões ou “vibrações” vindos do ambiente ao nosso  redor,  e  nosso  “sistema  imunológico  emocional”,  por assim  dizer,  automaticamente  procura  interpretar  o  significado desses sinais.   No  caso  das  pessoas  com  sintomas  Borderline,  o  significado destes  sinais  pode  ser  interpretado  erroneamente,  levando  à impulsividade e comportamentos aparentemente injustificados.   A  impulsividade  pode  ser  vista  como  uma  tendência  a  agir  com pouco  ou  nenhum  planejamento  para  reduzir  o  impacto  de estímulos  adversos.  Esta  reação  automática  pode  ser  essencial para sua sobrevivência quando você tiver que fugir de um perigo real,  como  desviar  de  um  outro  carro  ou  fugir  de  um  cachorro bravo. Entretanto, dependendo do contexto e da intensidade da resposta,  a  impulsividade  pode  ser  uma  característica disfuncional que gera sérios problemas na vida do Borderline.   A impulsividade extrema pode levar a comportamentos de risco, tais  como  imprudência  ao  volante,  jogatina,  libertinagem, promiscuidade, associação com pessoas à margem da lei, excesso de  consumismo,  viagens  repentinas,  obsessão  por  cirurgias plásticas,  distúrbios  alimentares  como  anorexia  e  bulimia, autolesão,  tudo  com  o  mesmo  objetivo  básico:  aliviar  a  dor emocional através de uma alta dose de adrenalina ou através de outras fontes de dor que suplantem a dor original.   22
  23. 23.  Um  fator  que  talvez  contribua  para  esta  impulsividade  é  uma possível diferença na organização dos circuitos neurais. Pesquisas recentes  com  ressonância  magnética  funcional  mostram  que  o cérebro  em  descanso  das  pessoas  com  sintomas  Borderline mostra maior ativação do córtex pré‐frontal (a parte do cérebro que  parece  ser  responsável  pela  análise  e  tomada  de  decisões, servindo  também  como  freio  de  agressão)  do  que  em  pessoas sem sintomas Borderline.   Isto  se  traduz  em  uma  percepção  mais  aguçada  de  ameaças, geralmente na área emocional. Quando a ameaça é percebida ou efetivamente  se  materializa,  o  córtex  pré‐frontal  “desliga”  e  o sistema  límbico  “acende”.  Como  conseqüência,  a  pessoa  com sintomas  Borderline  reage  de  forma  reativa  e  impulsiva,  tendo seu  processo  decisório  inibido.  Isto  muitas  vezes  leva  a  uma desregulação  emocional  e  extrema  personalização  –  em  outras palavras,  ela  não  só  percebe  uma  ameaça,  mas  acredita  que esteja especificamente direcionada a ela.  Um  dos  moderadores  da  atividade  no  córtex  pré‐frontal  é  a serotonina, que é o neurotransmissor modulador das vias senso‐perceptivas  responsáveis  pela  sensação  de  dor,  e  que  também contribui  para  o  melhor  controle  do  impulso  sexual,  da agressividade  e  da  ansiedade.  Cogita‐se  que  deficiências  no metabolismo  da  serotonina  (e  na  quantidade  e  sensibilidade  de seus receptores) possam exacerbar os sintomas Borderline.   O aspecto positivo desta visão neurobiológica é que este quadro pode  ser  aos  poucos  modificado  através  do  pensamento (durante  o  processo  da  terapia  Cognitiva  comportamental,  por exemplo), à medida que o córtex pré‐frontal vai sendo reativado e  re‐programado.  Isto  permite  que  as  emoções  se  transformem de impulsivas para ponderadas. E essa é uma das principais metas a ser buscada.   23
  24. 24. 4. Variações de humor Uma das principais características da  pessoa  com  sintomas  Borderline  é  a  sua  imprevisível  e  drástica  variação  de  humor.  Sua  alta  sensibilidade  e  reatividade  emocionais  prejudicam  seu  processo  cognitivo,  seu  raciocínio,  sua  tomada  de  decisões,  sua auto‐confiança. Seu humor tende  a oscilar de forma mais rápida do que ocorre  em  alguns  outros  distúrbios  comportamentais  (como  o bipolar, por exemplo), podendo mudar diversas vezes no decurso de  poucas  horas.  Isso  cria  um  clima  de  insegurança  geral  tanto para a própria pessoa quanto para seus amigos e familiares.   A amídala, uma parte do sistema límbico, parece ter participação nesta labilidade/instabilidade emocional. Sua função principal é o processamento  de  emoções  e  o  armazenamento  de  lembranças emocionais.  Serve  também  como  o  sistema  de  alarme  do cérebro, acendendo as reações de fuga ou luta. A amídala recebe informacoes  sensoriais  do  corpo  através  do  tálamo  e  envia mensagens  para  muitas  outras  áreas,  inclusive  o  rosto,  ativando expressões  faciais,  além  de  estar  associada  com  o  olfato.  As pessoas com sintomas Borderline em alguns estudos mostraram ter  amídalas  bem  mais  ativas  do  que  a  maioria  da  população, levando  a  uma  intensificação  nas  reações  emocionais  a  quase todas as situações de vida, colocando‐as em estado praticamente constante de alerta e prontidão.  5. Sensibilidade sensorial / ansiedade As  pessoas  com  sintomas  Borderline  frequentemente apresentam  alta  sensibilidade,  não  só  a  cheiros,  mas  também  a outros  estímulos  sensoriais,  tais  como  texturas  (tecidos,  etc.), ruídos  (interpretando  como  ofensivos  alguns  sons  que  nao  24
  25. 25. incomodam  os  outros),  sabores,  luminosidade,  e  assim  por diante.   As  pesquisas  também  indicam  que  pode  haver  uma  conexão entre  a  ansiedade,  a  impulsividade  e  variações  de  humor.  A ansiedade  é  geralmente  uma  das  primeiras  características observadas por terapeutas ao lidar com pessoas posteriormente diagnosticadas com Borderline (assim como a depressão).   Se  fosse  promovida  uma  conscientização  maior  entre  pais  e professores  quanto  à  importância  da  detecção  precoce  de ansiedade  e  sensibilidade  exacerbadas  em  crianças,  talvez  elas pudessem  ser  ensinadas  técnicas  de  “coping”  para  aprender  a lidar  melhor  com  essas  características,  evitando  assim  o desenvolvimento de problemas mais sérios no futuro.  6. Sensibilidade a críticaAs  pessoas  com  sintomas  Borderline  têm  tendência  a  reagir  de forma  inesperadamente  radical  a  críticas  e  rejeições  percebidas  ou imaginadas; a evitar tarefas, reuniões  ou  interações  sociais  em  que  possa  surgir  qualquer  rejeição  implícita;  a  monitorar  constantemente  as  reações  dos  outros  para  detectar  algum  indício,  por mais sutil que seja, de desaprovação  no  seu  radar  emocional;  e  a  vivenciar  antecipadamente  emoções  negativas  com base em supostas rejeições futuras.   Quando  tal  rejeição  ou  crítica  é  percebida  ou  efetivamente ocorre, principalmente quando parte de uma pessoa com a qual tenha  um  forte  vínculo  afetivo,  isto  gera  ondas  de  raiva, hostilidade e às vezes até violência física. Mais uma vez, isso tem a  ver  com  vergonha  e  medo  de  julgamento.  De  qualquer  forma, uma  pessoa  com  sintomas  Borderline  vai  se  julgar  severamente  25
  26. 26. por  causa  da  vergonha  (sou uma má pessoa)  e  vai  se  rejeitar  (nãomereço aceitação).   Além disso, por mais paradoxal que pareça, pode voltar‐se contra as  pessoas  que  lhe  estendem  a  mão  e  oferecem  aceitação, porque acha que no fundo não merece tal aceitação.   Esta é a lei de “efeito e causa”, assim explicada por uma pessoa com sintomas Borderline:   “O mundo opera no sentido de “efeito e causa” (e não ao contrário).Se eu sinto coisas de uma certa forma, vou procurar retroativamenteuma causa para as mesmas – uma causa que não possa ser atribuídaa mim! Pois se for, eu seria julgada como estando errada. E eu nãoaguento ser julgada como errada.”7. Interpretação equivocada de emoçõesO  processamento  de  informações,  ou  seja,  o  processamento cognitivo  e  emocional,  é  intimamente  relacionado  ao  nosso sistema  neurobiológico.  Alterações  nesse  processamento  são frequentemente  o  primeiro  sinal  observado  pelos  parentes  e próximos de que tem algo na pessoa amada que foge à regra.  Mesmo  afirmações  aparentemente  neutras  podem  ser interpretadas  de  forma  emocional,  e  levadas  pessoalmente, causando reações imprevistas. Pode  ser algo tão  inócuo como – “você  está  bonita  hoje”  (reação  personalizada,  focando  na palavra  “hoje”:  por que você diz isso, tou feia nos outros dias?),  e  assim por diante.   O transtorno de personalidade Borderline geralmente apresenta obstáculos  à  comunicação  habitual.  As  palavras  dos  outros parecem sofrer uma distorção “no ar”, uma mutação inexplicável entre o instante em que são proferidas e o momento em que são ouvidas,  absorvidas  e  interpretadas  pela  pessoa  com  sintomas  26
  27. 27. Borderline,  muitas  vezes  já  com  conotação  negativa,  acusatória, crítica.   Pesquisas  recentes  realizadas por  Larry  Siever  e  Barbara  Stanley indicam que alguns elementos químicos no cérebro, tais como a ocitocina, bem como o nosso sistema opióide endógeno, afetam nossa capacidade de confiar nos outros e firmar relacionamentos. Cada  área  do  cérebro  possui  uma  função  específica  e  precisa estar  corretamente  conectada  com  locais  neuroanatômicos específicos  para  que  todos  os  sistemas  funcionem adequadamente  em  harmonia.  Também  existem  muitos neurotransmissores e neuropeptídios (hormônios) envolvidos na regulação destes sistemas que afetam as formas de percepção de atos e palavras.  Alguns  estudos  também mostram  que  as  emoções negativas  são  processadas  de forma  distinta  das  positivas, usando estruturas e viajando por circuitos  neurais  diferentes.  Os gatilhos  negativos  parecem provocar  respostas  mais  intensas  do  que  os  positivos.  Por aparentemente  possuírem  uma  propensão  inata  a  enxergar  as coisas  pelo  lado  negativo,  as  pessoas  com  sintomas  Borderline podem  encontrar  mais  dificuldade  em  administrar  relações interpessoais,  levando  tudo  para  o  campo  pessoal  e  assim intensificando suas reações.  Um  aspecto  interessante  –  e  relevante  –  indicado  por  pesquisas usando  ressonância  magnética  funcional  é  que  as  pessoas  com sintomas  Borderline,  em  comparação  com  a  maioria  da população,  parecem  ter  uma  reação  muito  mais  intensa  e negativa  a  expressões  faciais  neutras,  interpretando‐as  como ameaçadoras, suspeitas, enigmáticas, negativas.    27
  28. 28. Isto  é  algo  a  ser  levado  em  conta  tanto  pelos  familiares  quanto pelos terapeutas. Pois os parentes, confrontados com acessos de raiva, geralmente procuram manter sua calma a qualquer custo – e acabam exacerbando a explosão emocional, por ter sua reação controlada interpretada como desinteresse, raiva contida, crítica, desamor,  condescendência,  etc.  E  os  terapeutas,  que normalmente  procuram  manter‐se  objetivos  e  impassíveis durante  suas  sessões,  podem  estar  transmitindo,  em  vez  de segurança  e  tranqüilidade,  algo  muito  diferente.  A  pessoa  com sintomas Borderline de modo geral parece preferir uma forma de comunicação  mais  emocional,  clara  e  vigorosa,  porém  sempre sem crítica ou julgamento.  8. Distorção de “fatos” / memória emocional /atemporalidade As  pessoas  com  sintomas  Borderline  podem  chegar  a  distorcer fatos ocorridos, em situações nas quais:  é menos doloroso mentir do que confessar a verdade;  querem dar uma impressão melhor à outra pessoa do  que elas têm de si mesmas;   querem evitar crítica ou autocrítica;   não conseguem enxergar a “verdade” por causa de  seu “raciocínio” emocional.   Se  a  pessoa  a  quem  elas  contam  a  sua  versão  dos  fatos  tem probabilidade  de  julgá‐la  como  “má”  ou  “imperfeita”,  a expectativa  da  desaprovação  desencadeia,  primeiro,  a sensibilidade  e  reação  à  rejeição,  e  depois  a  vergonha,  porque  a pessoa  com  sintomas  Borderline  realmente  acredita,  no  fundo, que, se ela confessar a verdade, os outros vão descobrir que ela é uma “má pessoa” e vão acabar por rejeitá‐la totalmente.   Algo que sempre precisa ser levado em conta é que:   A “verdade” da pessoa com sintomas Borderline é sua emoção. 28
  29. 29. A  pessoa  com  sintomas  Borderline  não  necessariamente  se baseia naquilo que vê, ouve, testemunha ‐ baseia‐se mais no que ela sente, e interpreta as coisas através das “lentes emocionais” de  suas  experiências,  mesmo  que  tal  interpretação  seja divergente dos “fatos” externos presenciados pelos outros à sua volta.   E uma pessoa tomada por fortes emoções não consegue aceitar, assimilar,  arquivar  ou  reconhecer  informações  que  não confirmem ou não justifiquem tal emoção, conforme evidencia o seguinte depoimento:   “As lembranças são como pastas no meu arquivo mental. Já que estousempre sendo julgada, eu uso esses arquivos seletivamente, assim como osadvogados no seu trabalho. Desta forma, somente serão utilizadas aslembranças que se adéquam aos meus sentimentos do momento. Pois aslembranças que apresentam provas contrárias aos meus sentimentos nãoserão consideradas como provas admissíveis – ou então serão alteradas parapreservar a minha inocência.”  Portanto,  ela  estará  mais  propensa  a  re‐interpretar  ou  gerar “fatos” alternativos que possam corroborar o que está sentindo. Na  sua  visão,  não  está  efetivamente  “mentindo”,  mas  sim salientando  ou  selecionando  “fatos”  para  respaldar  sua  forte reação emotiva à situação vivida.   É  muito  importante  entender  este  processo  que  leva  a  pessoa com  sintomas  Borderline  a  contar  inverdades,  pois  as  mesmas podem  ser  altamente  prejudiciais  e  ofensivas  às  pessoas  à  sua volta,  que,  por  desconhecerem  o  transtorno  e  suas características, não sabem que não devem levar essas acusações pessoalmente, e que não devem tentar se defender das mesmas, pois  estas  são  um  reflexo  de  ataque  ou  contra‐ataque  sobre  o qual  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  tem  pouco  ou  nenhum controle.  29
  30. 30. Às  vezes  as  pessoas  com  sintomas  Borderline  relatam  eventos para  amigos,  parentes  e  terapeutas  de  forma  bem  diferente  do que  efetivamente  aconteceram.  Podem  até  acusar  seus  pais  de abuso,  sem  fundamento  na  realidade  vivenciada  pelos  outros.  É importante, portanto, ter uma visão mais clara de como funciona o  processo  de  elaboração  de  lembranças  emocionais (envolvendo  a  amídala,  o  hipocampo,  lobo  temporal,  entre outros)  para  entender  melhor  eventuais  divergências  de  fatos ocorridos.   Frequentemente, por ter uma forte desconfiança do mundo e das pessoas  que  a  cercam,  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  se sente  vulnerável  e  impotente.  E  já  que  as  suas  emoções  podem ser desencadeadas e desreguladas com tanta facilidade e rapidez, de  forma  tão  dolorosa,  ela  quer  proteger‐se  contra  essa  dor,  e pode  enxergar  sua  vulnerabilidade  como  uma  forma  de  abuso emocional pelos outros, em vista da intensidade da dor que isso acarreta. Em consequência, ela pode incorporar essa percepção à sua memória e “história pessoal” como se de fato tivesse sofrido abusos concretos.  Devemos  também  lembrar  do  aspecto  de  atemporalidade  ‐  a pessoa  com  sintomas  Borderline  tende  a  fazer  uma  conexão direta  e  atemporal  entre  experiências  emocionais  do  passado  e acontecimentos  atuais,  porque  a  sensação  para  ela  é  uma  só  ‐ não faz diferença se algo aconteceu há uma hora ou há vinte anos atrás. Por conseguinte, pode acabar agindo com base na soma de suas  lembranças  emocionais,  com  uma  intensidade  que  aos outros parece desproporcional à situação presente:  “Todo tempo é presente. Se algo me incomoda agora, é diretamenterelacionado à maior dor que já senti – e essa dor vem se juntar ao presentetambém. O tempo não cura feridas porque, na realidade, o tempo não passa.Tudo – passado, presente, e futuro – está sempre no aqui e no agora.” 30
  31. 31. Portanto,  se  algo  no  ambiente  da  pessoa  com  sintomas Borderline a remete a uma memória implícita ou emocional, e se ela  interpreta  algo  equivocadamente  de  forma  personalizada, suas  emoções  são  deflagradas  sem  que  ela  saiba  por  que, reativando  seguidamente  a  experiência  emocional  do  passado. Eventos  ou  palavras  que  magoaram  a  pessoa  no  passado parecem ser revividos com o mesmo (ou até maior) grau de dor, sofrimento  e  intensidade  emocional,  como  se  tivessem  acabado de  acontecer,  independente  da  cronologia  real.  A  dificuldade inerente que as pessoas com sintomas Borderline têm em deixar para  trás  lembranças  desagradáveis  faz  com  que  vivam  em constante  sofrimento,  o  qual  não  é  atenuado  nem  compensado por lembranças de bons momentos.  9. Atribuição de culpaA  pessoa  com  sintomas  Borderline  pode  responsabilizar  os outros  (seja  Deus,  o  destino,  o  mundo,  a  vida,  os  colegas  de trabalho,  os  pais,  o  cônjuge,  etc.)  pelos  problemas  percebidos,  entre outras causas porque ela mesma não quer ser vista como a “causa”  de  problemas  ou  sofrimento.  Isso  a  tornaria  uma  “má pessoa”  e,  assim  sendo,  ela  mereceria  nada  menos  do  que  a morte  (parece  dramático,  mas  a  vida  das  pessoas  com  sintomas Borderline  é  permeada  de  drama,  de  hipérboles,  de  extremos). Portanto, é mais fácil atribuir a culpa a outras pessoas ou fatores externos.   Isto  não  representa  exatamente  uma  projeção,  e  sim  uma tentativa de desvio de atenção, por medo de rejeição, de crítica e julgamento,  de  sofrimento.  Se  ela  tivesse  culpa  “no  cartório”, isso  reforçaria  a  sua  vergonha  e  a  sua  certeza  de  que  não consegue fazer nada direito. Pelo seu prisma de preto ou branco, oito  ou  oitenta,  basta  uma  ponta  de  culpa,  e  ela  já  se  sente condenada.    31
  32. 32. Como  disse  um  homem  com  Borderline  para  a  sua  esposa,  ao tentar explicar porque a culpava por tantas coisas:   “Eu quero que todo mundo concorde comigo. Se não concordam comigo,começo a ficar ansioso. Quando você discute comigo, quando você não estájogando no meu time, fico achando que você me considera um fracassado.Fico extremamente irritado quando você não concorda comigo. Não sei bempor que – simplesmente fico frustrado, e depois fico com raiva de vocêporque me sinto frustrado.”É  por  isso  que,  passado  o  período  de  desregulação  emocional, quando  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  retorna  a  um  humor mais estável, raramente “assume responsabilidade” pelo que fez ou  disse,  nos  moldes  do  que  os  outros  esperam  –  seja  com  um reconhecimento  de  culpa,  com  um  pedido  de  desculpas  ou  com explicativas e justificativas. 10. Medo de abandono / medo de intimidadeEstes  dois  medos  –  tanto  de  abandono  quanto  de  intimidade    ‐ são  os  dois  lados  da  mesma  moeda  –  e,  no  mundo  “preto  ou branco”  da  pessoa  com  sintomas  Borderline,  o  medo  de intimidade  pode  alternar  para  medo  do  abandono  muito rapidamente, e vice‐versa.     32
  33. 33. Relacionamentos  intensos  e  íntimos  envolvem  emoções  muito profundas. Infelizmente, para a pessoa com sintomas Borderline, essas  emoções  podem  ser  apavorantes,  por  serem  fortes, cansativas  e  desgastantes  demais.  Por  isso  ela  pode  afastar  a pessoa  amada  com  medo  de  se  perder  neste  turbilhão  de emoções.  Ela  sente  que  não  dá  conta  de  lidar  com  todos  os aspectos  desse  envolvimento  e  fica  com  medo  de  perder  a percepção de seu “eu”.   Por  outro  lado,  um  dos  seus  maiores  medos  é  o  medo  de abandono  pelas  pessoas  que  ela  preza.  Assim  sendo,  muitas vezes opta por terminar um relacionamento – de forma brusca e irremediável ‐ para não ter que sofrer essa perda pressentida do “eu”, sofrimento este alimentado tanto pelo medo de abandono quanto pelo medo de intimidade.   Em  outras  palavras,  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  pode optar por cortar relações com  outros  para impedir que  ocorra  o abandono  previsto  ou  então  para  mostrar  que  não  precisa  do outro, ou então para evitar possíveis críticas e rejeição. Assim ela acredita  poder  controlar  melhor  a  situação  para  mitigar  seu (potencial) sofrimento.   Mas  é  importante  falar  um  pouco  mais  sobre  a  questão  do abandono, pois é necessário entender que, para uma pessoa com sintomas  Borderline,  “abandono”  pode  significar  muito  mais  do que  o  abandono  físico  mais  objetivamente  percebido.  Existem outros  tipos  de  abandono  mais  sutis  que  são  impactantes.  Por exemplo, o sentimento de abandono pode ser deflagrado por:   sensação de falta de compreensão por parte dos outros;  dificuldade em se entrosar ou participar de um grupo;  sensação de solidão, de nostalgia;  sensação de perda pelo rompimento de um relacionamento;  morte de um animal de estimação;  mudança de residência;   33
  34. 34. perda de emprego;  medo de rejeição ao descobrir preferência por  relacionamentos com pessoas do mesmo sexo;  sensação de falta de rumo na vida;  falta de definição de identidade;  carência emocional;   percepção de rejeição, impaciência, invalidação;   morte de pessoa querida.  Uma sensação de abandono é uma ferida profunda, muitas vezes pouco  compreendida,  que  pode  passar  despercebida  pelos outros à sua volta.  11. Atitude “oito ou oitenta” A  pessoa  com  sintomas  Borderline  tem  a  tendência  de  ver  o  mundo  externo  ou  de  forma  muito  positiva  ou  então  muito  negativa,  e  frequentemente oscila de forma  inesperada  entre  esses  dois  extremos  de  opinião.  Essa  variabilidade  pode  ser extremamente frustrante e confusa para quem a ama, porque ela pode  achar  alguém  maravilhoso  um  dia,  e  detestável  no  dia seguinte.   Por  exemplo,  quando  uma  pessoa  com  sintomas  Borderline  se sente  (para  isso  bastando  a  sua  interpretação,  visão,  percepção do  caso)  criticada  por  um  amigo,  provavelmente  dirá  a  outros que  ele  é  burro,  incompetente,  mentiroso,  traiçoeiro,  etc.  Ao invés  de  esperar  passar  sua  onda  de  revolta  e  raiva  contra  o amigo, a pessoa com sintomas Borderline poderá impulsivamente romper com ele de forma radical, fazendo assim com que ele se afaste definitivamente – mais uma vez, mantendo‐se fiel à diretriz  34
  35. 35. pessoal  de  “abandonar  antes  de  ser  abandonada”,  baseada  na seguinte crença:   “Pensamento é realidade. Se penso em algo, já é fato. Se alguém menciona algo, já é fato.”12. RuminaçãoAs  pessoas  com  sintomas  Borderline  são  propensas  a  ficar remoendo  acontecimentos  e  conversas  para  tentar  detectar  a possível existência de críticas veladas ou segundas intenções por parte  de  outros.  Essa  tendência  a  ficar  remoendo  ou  ruminando pode explicar algumas manifestações de desconfiança e medo.   Isto envolve a personalização, isto é, a atitude de levar tudo para o campo pessoal, pois o medo de crítica e de julgamento faz com que  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  acredite  que  tudo,  tudo mesmo, tem a ver com ela.  A ruminação pode desencadear o “raciocínio emocional”, em que os  sentimentos  se  equiparam  a  fatos.  Pois,  conforme  ilustrado por  um  dos  depoimentos  acima,  a  pessoa  com  sintomas Borderline  pensa  em  ordem  inversa,  isto  é,  partindo  do  efeito para  a  busca  de  uma  causa.  Assim  sendo,  basta  ela  achar  que existe uma segunda intenção para que isto se torne um fato para ela e uma base plausível para futuras ações e reações.   A pessoa com sintomas Borderline fica mais inclinada a entrar em processo  de  ruminação  quando  está  ociosa,  entediada,  ou quando  sofre  de  insônia  (o  que  é  bastante  comum,  como veremos mais adiante).  Uma  forma  de  ajudar  a  combater  essa  tendência  de  remoer  as coisas  é  buscar  se  envolver  em  atividades  prazerosas,  sejam  35
  36. 36. físicas, mentais, sociais ou outras. Além disso, algumas formas de meditação  que  visam  a  concentração  no  momento  presente  ‐ como,  por  exemplo,  o  estado  de  plena  atenção  (o  mindfulness)proposto  pelo  budismo, que  é  usado  também  no  mundo corporativo  para  combater  o  estresse  ‐  ajudam  a  pessoa  a aprender a se preocupar menos com o passado e o futuro.  13. Depressão / Medicamentos  A  pessoa  com  sintomas  Borderline  muitas  vezes  faz  uso  de  grandes  quantidades  de  bebida  alcoólica  e/ou drogas para amortecer sua dor emocional.  O  perigo  é  exacerbado  pelo  fato  de  que  consegue ingerir  quantidades  espantosas  de  medicamentos  (inclusive remédios  receitados  pelos  seus  médicos,  tais  como  ansiolíticos, analgésicos,  antidepressivos,  etc.)  e/ou  drogas  ilícitas,  ou  álcool, sem  perder  a  consciência  e  sem  sofrer  efeitos  de  overdose  ou ressaca.   Infelizmente,  esses  remédios  e  drogas  podem  ter  sérios  efeitos colaterais  –  muitas  vezes  gerando  o  próprio  efeito  que supostamente  deveriam  combater  (como  antidepressivos  que geram pensamentos suicidas) – e podem aumentar o descontrole emocional ou estimular a impulsividade. Por conseqüência, além do  perigo  inerente,  os  resultados  de  seu  uso  podem  acabar gerando mais vergonha e autopunição por parte da pessoa com sintomas Borderline.   É  comum  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  sentir  intensa  dor emocional  em  diversas  ocasiões  durante  o  dia,  todo  dia.  Já  que essas  emoções  são  emoções  básicas,  como  tristeza,  raiva  e medo,  as  reações  às  mesmas  são  tanto  físicas  quanto  mentais. Esses  estados  emocionais  são  tão  poderosos  que  prevalecem sobre o pensamento racional. Ao sentir dor, independente da sua  36
  37. 37. fonte, a reação primordial do corpo e da mente é de buscar alívio o mais rápido possível, por qualquer meio que seja.  14. InsôniaUma das manifestações físicas comuns  de  Borderline  é insônia. Isso se deve em parte ao  fato  de  ficar  remoendo acontecimentos  (reais  ou imaginados,  passados  ou futuros).   Além  disso,  existem  indícios de  que  a  composição  química do  cérebro  da  pessoa  com  sintomas  Borderline  não  permita  ao organismo  um  eficiente  aproveitamento  da  serotonina,  um neurotransmissor que atua como sedativo e calmante natural do nosso  corpo.  Muitas  pessoas  com  sintomas  Borderline  precisam de soníferos para conseguir adormecer e acabam tomando esses remédios  em  altas  doses,  por  não  surtirem  efeito  facilmente.  A falta  de  descanso  adequado  acaba  exacerbando  as manifestações  de  sintomas  Borderline,  tais  como  ansiedade, isolamento, variações de humor e sensibilidade a estresse.15. Problemas de Interação SocialAs  pessoas  com  sintomas  Borderline  são  frequentemente  vistas como pessoas egoístas/egocêntricas que pouco se importam com os  problemas  e  o  sofrimento  dos  outros.  Precisamos  lembrar, entretanto,  que,  já  que  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  age sob  o  efeito  de  fortes  emoções  (principalmente  negativas),  ela tem  dificuldade  em  enxergar  muito  além  de  seu  redemoinho pessoal de preocupações.   Muitas  vezes  ela  fica  insegura  em  certos  contextos  sociais, fazendo  com  que  fale  excessivamente,  entregando‐se  a  longos  37
  38. 38. monólogos  (geralmente  sobre  si  mesma),  usando  linguagem inapropriada ou abordando assuntos inadequados para a ocasião e para sua platéia.   Embora  possa  parecer  que  isso  seja  fruto  de  alta  auto‐estima  e uma  demonstração  de  falta  de  consideração  com  os  outros,  na realidade o que ocorre é que ela passa muito tempo procurando detectar  se  as  outras  pessoas  enxergam  a  sua  vergonha  e  a rejeitam,  monitorando  constantemente  o  seu  ambiente  para captar  sinais  de  desaprovação,  às  vezes  manifestando comportamentos  de  extrema  desconfiança  e  até  tendências paranóicas.   Neste  sentido,  Larry  Siever  pondera  que  talvez  níveis  baixos  de opióides  endógenos  nas  pessoas  com  sintomas  Borderline contribuam  para  intensificar  suas  emoções  negativas  e  sua sensação  de  vazio  interior  e  disforia  (depressão,  tristeza, melancolia,  pessimismo),  alimentando  também  sua  busca impetuosa  por  laços  afetivos  e  sua  reação  exacerbada  a  uma perda dos mesmos. Isto tem a ver com o fato de que a satisfação geralmente  obtida  através  de  vínculos  emocionais,  desde  a infância, parece fugir do alcance de muitas pessoas com sintomas Borderline.   Hoje  em  dia,  com  a  facilidade  de  comunicação  via  internet  e celular,  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  pode  facilmente  criar uma rede de relacionamento “virtual”, o que lhe permite passar rapidamente  de  mera  “conhecida”  para  “amiga  do  peito”, contando detalhes de sua vida íntima, para que os outros fiquem com dó dela e/ou sintam admiração por ela.   Assim, cria um contingente de pessoas que estão “do lado dela”, compensando  a  sua  carência  afetiva,  alimentando  sua  fome  de aceitação,  validação,  elogios,  carinho,  respeito.  Isso  também  lhe permite  controlar  melhor  o  desenrolar  e  a  intensidade  de  38
  39. 39. relacionamentos,  inclusive  seu  eventual  término  (novamente, garantia de que possa abandonar antes de ser abandonada).  O  mesmo  ímpeto  de  busca  de  aprovação  muitas  vezes  leva  as pessoas  com  sintomas  Borderline  a  se  moldar,  como  um camaleão, aos anseios, interesses e preferências dos que querem impressionar  e  cativar,  tais  como  namorados,  surpreendendo‐os e  encantando‐os  com  o  nível  de  empatia,  sensibilidade  e compatibilidade demonstradas.  16. Autolesão / dor / pensamentos suicidasÀs  vezes  as  pessoas  com  sintomas  Borderline  recorrem  à autolesão,  cortando‐se  com  giletes  ou  facas,  queimando‐se  com fósforos  ou  cigarros,  arrancando  mechas  de  cabelo,  cutucando unhas ou o rosto até sangrar.   Mas  ‐  por  que  alguém  buscaria  infligir  dor  a  si  mesmo? Aparentemente, segundo pesquisas recentes feitas pela Barbara Stanley  da  Universidade  de  Colúmbia,  a  percepção  de  dor  entre as  pessoas  com  sintomas  Borderline  diminui  durante  os momentos  de  autolesão,  ao  mesmo  tempo  que  aumentam  seus níveis  de  opióides  endógenos  (produzidos  pelo  próprio  corpo). Assim, quando se cortam, sentem mais um alívio psíquico do que dor física.   É  importante  lembrar  que  o  objetivo  primordial  desses  atos  de autolesão  não  é  chamar  atenção,  até  porque  muitos  episódios ocorrem  longe  dos  olhares  das  pessoas  que  as  amam.  Às  vezes, quando  não  conseguem  encobrir  ou  disfarçar  os  cortes  ou cicatrizes resultantes, isso acaba gerando ainda mais vergonha e constrangimento  quando  os  outros  reparam  e  comentam  sobre os mesmos.   Como pode ser visto na literatura e também nos depoimentos de pessoas  com  o  transtorno  e  nos  blogs  mencionados,  39
  40. 40. pensamentos suicidas são bastante comuns e recorrentes, pois o desânimo  diante  das  dificuldades  enfrentadas  nos relacionamentos, principalmente, é muito grande, e a pessoa, ao se sentir extremamente frustrada e magoada, pode cogitar uma fuga definitiva.        40
  41. 41. IV. REAÇÃO DAS PESSOAS À SUA VOLTA Se você se identificou com uma série de características descritas acima, e viu como são comuns a tantas outras pessoas com alta sensibilidade emocional, você poderá até constatar que, entre as suas amizades e outros relacionamentos, você já está em contato com pessoas com características semelhantes, com as quais você poderá compartilhar e comentar suas novas descobertas.   Mas, e com relação aos outros à sua volta? O que você deve dizer ou deixar de falar? Esse aspecto é bem delicado. Antes de tomar qualquer  atitude,  o  ideal  seria  que  obtivesse  confirmação  do diagnóstico  efetivo  de  transtorno  de  personalidade  Borderline, elaborado  por  um  profissional  qualificado  da  área  de  saúde mental.   Mas, como já comentamos, esse processo pode ser muito difícil e demorado.  Portanto,  até  que  você  consiga  fazer  terapia  eficaz com um profissional experiente nesta área, mesmo que seja para tratar  de  alta  sensibilidade  emocional,  ou  ansiedade,  depressão ou  síndrome  do  pânico,  ou  distúrbio  alimentar  ou comportamental,  ou  algo  semelhante,  o  importante  é  que  você não se sinta sozinha e desamparada. Use todas as ferramentas e contatos  possíveis  para  buscar  apoio  e  compreensão,  tais  como livros, blogs, amigos (sejam virtuais ou não).  Dentro de sua própria família, você corre o risco de não encontrar muita  receptividade  ao  falar  sobre  suas  angústias  emocionais como  possíveis  sinais  de  um  transtorno  comportamental,  por uma  série  de  motivos.  Entre  outros:  seus  pais,  por  exemplo, podem  achar  que  estão  sendo  acusados  de  ter  lhe  criado  de forma  errada  e  vão  reagir  repelindo  essa  idéia  e  tudo  que  a mesma  implica  (seja  por  sentimento  de  culpa  ou  outro);  seus parentes  podem  não  se  sentir  em  condições  de  lidar  com  a  sua dor e portanto vão negar que você tenha qualquer “problema”; podem  hesitar  em  admitir  perante  outros  que  você  seja  um  41
  42. 42. pouco  “diferente”,  uma  espécie  de  “ovelha  negra”  que  não  se encaixa  nos  padrões  aceitos  pela  família  e  pela  sociedade  em geral;  os  cônjuges  ou  namorados  podem  ficar  temerosos  em dizer  ou  fazer  algo  “errado”  e  exacerbar  seus  sintomas  (por estarem  “pisando  em  ovos”),  e/ou  podem  ter  medo  de  ter  que mudar  algo  neles  mesmos  para  lidar  com  você  de  forma  mais compreensiva e eficaz.   Basicamente,  entretanto,  na  maioria  dos  casos  podemos procurar partir do pressuposto de que estas atitudes de aparente falta de empatia e apoio podem ser atribuídas mais a uma falta de conhecimento  e  de  flexibilidade,  do  que  a  uma  real  má  vontade ou desinteresse.   Às  vezes  sonhamos  com  um  tipo  de  apoio  e  compreensão  que simplesmente  não  vem  da  forma  e  na  hora  que  queremos  – nestes casos, devemos procurar aceitar as limitações dos outros, assim  como  queremos  que  os  outros  aceitem  as  nossas.  E  fica sempre  aquela  dúvida  no  ar  –  será  que  o  problema  está  no excesso  de  expectativas,  ou  na  insuficiência  do  retorno esperado?   De  modo  geral,  as  pessoas  possuem  um  sistema  de  crenças estabelecido, e têm medo de fazer mudanças. Além disso, muitas fazem julgamentos e críticas de forma automática e praticamente inconsciente.  Rebaixar  os  outros  não  deixa  de  ser  uma ferramenta  que  algumas  pessoas  usam  para  se  sentir  mais poderosas. Por isso, acham‐se no direito de julgar os outros pela sua  situação  econômica,  pelas  suas  decisões,  pelo  seu comportamento,  pela  sua  aparência,  até  pelo  seu  cansaço,  falta de  ânimo,  estado  de  saúde,  e  assim  por  diante  –  chamando  os outros de “fracos”, “frescos”, “incompetentes”, “lerdos”, etc.  Os  conceitos  rígidos,  às  vezes  expressos  de  forma  repetida  e enfática,  com  relação  ao  que  é  “certo“  ou  “errado“  não  levam em  conta  a  “possibilidade”  de  que  as  opiniões  tão  42
  43. 43. orgulhosamente defendidas possam não ser a “verdade suprema e única”... Opiniões são somente isso – opiniões. Elas podem ser úteis  para  nortear  a  nossa  própria  vida  e  nossas ações,  mas  não constituem uma verdade absoluta que deva ser obrigatoriamente acatada por todos à nossa volta.   Com  relação  ao  conceito  de  “verdade”  versus  “mentira”, devemos  lembrar  que  “verdade”  pode  significar  algo  diferente do  que  “fatos  ocorridos”,  conforme  já  mencionado,  e  até  a descrição  de  fatos  ocorridos  pode  variar  de  uma  pessoa  para outra  –  dez  testemunhas  de  um  acidente  ou  crime  podem oferecer dez relatos diferentes, e três irmãos podem recordar um acontecimento na infância de modo inteiramente diverso.   Além  disso,  muitas  vezes  as  pessoas  confundem  aceitação  com aprovação, e têm medo de abrir mão de sua postura habitual por acreditar  que  elas  mesmas  serão  julgadas  como  fracas  ou indecisas ou “sem caráter”. A tendência mais enraizada é sempre buscar  impor  aos  outros  nossos  próprios  parâmetros,  julgando que  nossa  linha  de  conduta  é  a  única  certa.  Muitas  pessoas  se orgulham  de  seu  discernimento,  de  seus  preceitos  morais,  de saber  distinguir  entre  o  certo  e  o  errado,  às  vezes  agarrando‐se mais  à  sua  própria  necessidade  de  auto‐afirmação  do  que pensando no bem estar e sentimentos dos outros.   É  importante,  entretanto,  aceitar  que  as  emoções  não  são  nem certas nem erradas – simplesmente  são. E indispensável adquirir uma  compreensão  mais  ampla  da  força  e  da  importância  das emoções,  não  necessariamente  em  contraposição  à  razão,  mas em  complementação  à  mesma.  É  através  do  casamento equilibrado  do  emocional  com  o  racional  que  conseguimos otimizar a nossa tomada de decisões na vida. É interessante observar que os estudos da neurociência mostram claramente que a parte emocional do cérebro aprende coisas de um  modo  diferenciado  da  área  de  pensamento  lógico.  As  43
  44. 44. habilidades  de  inteligência  emocional  são  desenvolvidas  numa região  do  cérebro  chamada  sistema  límbico,  que  controla  os instintos,  os  impulsos,  as  motivações.  Por  outro  lado,  as habilidades  técnicas  e  analíticas  são  aprendidas  no  neocórtex, que é a parte do cérebro que processa a lógica e os conceitos.  Mas,  voltando  a  uma  pergunta  comum  –  a quem você pode oudeve contar que você acha ou sabe que tem sintomasBorderline? A resposta é – depende.  Primeiro,  você  tem  que  avaliar  isso  caso  a  caso,  para  tentar minimizar  o  risco  de  se  expor  a  críticas,  discriminação  (sim, infelizmente  tem  essa  possibilidade),  perda  de  confiança. Algumas  pessoas,  por  desconhecimento,  podem  achar  que  você só  está  querendo  justificar  suas  próprias  ações  e  reações  ao alegar  problemas  emocionais,  podem  começar  a  se  distanciar,  a espalhar  boatos  sobre  você  –  coisas  que  você  certamente  quer evitar.   Depende  também  do  relacionamento  que  você  tem  com  a pessoa, depende da forma e do momento em que você aborda e explica o assunto, depende das idades e parentescos envolvidos, e  assim  por  diante.  Mais  uma  vez,  o  ideal  seria  ter  o  suporte  de um  profissional  compassivo  e  experiente.  Na  falta  do  mesmo, procure  antes  de  mais  nada  sempre  avaliar  a  fundo  exatamente por  que  você  está  querendo  (ou  precisando)  contar  a  alguém sobre  seu  problema,  e  quais  são  os  possíveis  e/ou  prováveis benefícios/riscos/conseqüências.  O  caminho  mais  recomendável  talvez  seja  o  de  informar  os outros,  na  medida  que  julgar  necessário  e  viável,  que  você simplesmente  tem  dificuldade  em  administrar  suas  emoções  e reações,  e  que  você  está  trabalhando  isto,    assim  como  muitas pessoas ‐ inclusive executivos de grandes empresas – freqüentam cursos para aprender a controlar estresse e raiva.    44
  45. 45. Pode ocorrer que você realmente tenha magoado e prejudicado outras pessoas no passado por comportamentos decorrentes de sua  impulsividade,  intolerância  a  crítica,  medo  de  abandono,  e outras características da alta sensibilidade emocional.   Por  exemplo,  você  pode  ter  se  afastado  de  sua  família  e “adotado” a família de amigas ou namorados/cônjuges, por sentir que nestes outros ambientes você estará menos sujeita a críticas e  cobranças.  A  sua  dedicação  e  seus  atos  de  bondade  são apreciados  de  uma  forma  que  alimenta  a  sua  auto‐estima,  e  lhe faz  sentir‐se  mais  útil  e  acolhida.  Entretanto,  talvez  você  não  se dê  conta  da  dor  causada  aos  seus  familiares  pelo  seu afastamento e aparente rejeição dos mesmos.   Aos poucos, com terapia e uma reprogramação de suas reações, talvez  você  consiga  “chegar”  nessas  pessoas  que  lhe  são importantes  e  começar  a  reconstruir  seu  relacionamento.  Nada como um dia após o outro, mesmo não havendo garantia de que as coisas transcorram na forma exata que desejaríamos.   45
  46. 46. V. ABORDAGENS TERAPÊUTICAS Não é muito comum uma pessoa com sintomas Borderline buscar ajuda psicoterápica por iniciativa própria para o transtorno em si –  e,  também,  muitas  vezes,  mesmo  quando  inicia  terapia  e  a mesma começa a focar o transtorno, ela a abandona.  Pois,  considerando  que  a  pessoa com  sintomas  Borderline  sofre intensamente com crítica e medo de rejeição,  vergonha  de  si  mesma,  e confusão  quanto  aos  seus  próprios sentimentos,  uma  abordagem  que não  leva  esses  aspectos  em  conta provavelmente  não  terá  muito sucesso.  É  importante  o  terapeuta dar  o  mesmo  tanto  de  importância ao aspecto de aceitação quanto ao de necessidade de mudança, o que otimiza as chances de continuação do tratamento.  Terapias  tradicionais  que  partem  do  pressuposto  de  que  os comportamentos  de  hoje  são  causados  por  experiências  do passado  muitas  vezes  não  levam  em  conta  os  componentes neurobiológicos  do  Borderline,  limitando  assim  seu  potencial  de êxito.   Mas,  uma  vez  oficialmente  diagnosticado  o  transtorno,  as pessoas  com  Borderline  são  geralmente  tratadas  com  uma combinação de:   a. estabilizadores  de  humor  e  antidepressivos.  Esses  medicamentos  psicofarmacológicos  devem  ser  receitados  e  ministrados  de  forma  extremamente  criteriosa,  pois  podem  causar  graves  efeitos  colaterais,  que  variam  de  pessoa  para  pessoa, existindo ainda o perigo de exagero no consumo de  medicamentos,  pelo  fato  de  as  pessoas  com  sintomas  46
  47. 47. Borderline  não  sentirem  tão  rapidamente  os  efeitos  esperados dos mesmos; e   b. terapias  de  eficácia  comprovada,  como  a  Cognitiva  Comportamental  e  sua  derivada,  a  Terapia  Comportamental  Dialética,  que  ajudam  a  pessoa  com  sintomas  Borderline  a  reconhecer e diferenciar e reprogramar os seus pensamentos  e sentimentos. Cabe  aos  profissionais  da  área  de  saúde  mental  fornecer  uma descrição mais detalhada das terapias que podem ser usadas no tratamento  –  oferecemos  aqui  somente  um  pequeno  resumo superficial sobre as duas acima mencionadas.   Segundo  a  Dra.  Judith  Beck,  que  continua  desenvolvendo  o trabalho  pioneiro  de  psicoterapia  iniciado  pelo  seu  pai,  Aaron “Tim”  Beck,  no  Beck  Institute  na  Filadélfia,  a  Terapia  Cognitiva parte do princípio de que crenças e pensamentos de uma pessoa influenciam  suas  emoções,  ações  e  sintomas  físicos,  e  que  as técnicas específicas que o terapeuta escolhe para usar com cada paciente  devem  ser  individualizadas  com  base  na  Conceituação Cognitiva  deste  paciente  (a  compreensão  do  terapeuta, confirmada pelo paciente, de quais são as crenças subjacentes do paciente;  os  padrões  não  adaptativos  que  ele  desenvolveu  para “lidar”  com  estas  crenças;  e  os  pensamentos,  emoções  e comportamentos  diários  que  aparecem  como  resultado  destas crenças).  Por  outro  lado,  a  Terapia  Comportamental  Dialética  –  TCD  foi desenvolvida  especificamente  pela  Dra.  Marsha  Linehan, professora  de  psicologia  na  Universidade  de  Washington,  EUA, para tratar o transtorno de personalidade Borderline.  Essa  abordagem  –  TCD  ‐  visa  ajudar  a  pessoa  com  sintomas Borderline a vislumbrar aos poucos as tonalidades de cinza entre seus  extremos  usuais  de  “preto  ou  branco”  (isto  é,  os  dilemas dialéticos) na sua forma de agir e pensar.   47
  48. 48. A  terapia  individual  da  TCD  tende  a  ser  bastante  direta  e confrontativa,  e  busca  abordar  em  uma  sessão  semanal  os conteúdos  que  venham  a  se  apresentar.  A  prioridade  é  dada  à atenção a comportamentos suicidas e auto‐destrutivos, e depois a  comportamentos  que  interfiram  com  o  progresso  da  própria terapia. A seguir vem assuntos ligados à qualidade de vida e à sua melhora.  Durante  a  terapia  individual  frequentemente  se  discute  como melhorar as  aptidões que compõem o modelo da  TCD, ou como superar os obstáculos ao desenvolvimento das mesmas. A terapia de grupo consiste geralmente em uma sessão semanal orientada ao  desenvolvimento  de  habilidades  específicas,  divididas  da seguinte forma: a) Atenção Plena (“mindfulness”) b) Regulação de emoções c) Tolerância à pressão e frustração d) Efetividade nas relações interpessoais. Continue  sempre  pesquisando  (verifique  tratamento  disponível em Itapira, São Paulo, por exemplo, no Instituto Bairral, liderados pelo  Dr.  Sérgio  Monteiro,  tel.  (19)  3863‐9400 (vejahttp://www.doctoralia.com.br/medico/sergio+augusto+monteiro+dos+santos-11943276; ou  no  Rio  Grande  do  Sul,  pela  Dra.  Ângela Leggerini de Figueiredo na PUCRS (cujo telefone de consultório é 51  32227322,  ou  o  tratamento  focado  em  Terapia  Cognitiva Comportamental  realizado  pela  Dra.  Nilcéa  Coelho  na  região  do Rio  de  Janeiro  (falecomnilceacoelho@hotmail.com),  Continue também trocando idéias com outras pessoas e aprendendo cada vez  mais  sobre  as  manifestações  e  características  da  alta sensibilidade  emocional.  Novas  possibilidades  e  respostas surgirão, e assim você poderá encontrar ajuda para se recuperar mais  rapidamente  e  buscar  a  felicidade  que  você  procura.  Esse movimento,  essa  busca,  esse  esforço  de  sua  parte  certamente abrirão novos caminhos.  48

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