Conselho Editorial INTERCOM                           Jornalismo Reflexivo                                                ...
sumárioPrefácio .............................................................................................................
Apresentação Parte II .......................................................................................................
prefácio       Aprendendo e ensinando       O e-book ganha cada vez maior importância entre nós. Num país onde se lêpouco,...
É sobre este conjunto de responsabilidades que, em última análise, estes trabalhosfalam. São resultado de esforços de pesq...
ficará sempre como documento de um processo mais amplo, que é o da aprendizagem. Avariedade dos temas atesta a importância...
apresentação geral       Por um Jornalismo mais reflexivo        Jornalismo: atividade/prática/profissão sempre em movimen...
jornalística – que apontam para os novos rumos desta atividade em alguns momentoscom status de quarto poder e em outros co...
singular do próprio Jornalismo. Gestos de interpretação como os de Jorge Kanehide Ijuim,da UFSC, e de Francismar Formentão...
Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos, formado por professores de ComunicaçãoSocial da Universidade Estadual do Cen...
apresentação parte I       Jornalismo como proposta de reflexão       Sete filigramas compõem a primeira parte de Jornalis...
Rede Globo de Televisão, a partir de palestras realizadas por profissionais da emissoradurante os Seminários Globo-Interco...
literária da cultura moderna, onde, segundo o autor, os protagonistas são produtoresindividuais de cultura desvinculados d...
Algumas idéias de Paulo Freire e a responsabilidade social do jornalista1                                         Jorge Ka...
em conformidade com uma consciência ética pessoal. (UNESCO, 1980).      O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, ree...
O alerta de Amaral era pertinente. Qual pode ser o espírito deste preceito daresponsabilidade social? Carrega a inspiração...
Esse estado de indefinição, evidentemente, vem de um sentido macro. CiroMarcondes Filho, ao analisar a chamada Sociedade t...
perguntas, que respondia de forma densa no decorrer do texto. Sobre a responsabilidadesocial, em seu período de exílio [de...
contrário, supõe a ação para a transformação.        Que transformação?        A transformação proposta por Freire é justa...
Dessa forma, não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade.Ao profissional de jornalismo, que não vê em s...
realidade, ou homem-mundo, implica a transformação de mundo, cujo produto, porsua vez, condiciona ambas, ação e reflexão. ...
neutro. “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, refleteapenas o medo que se tem de revel...
sobre a ética e a moralidade, enfatiza que as escolhas do ser humano para suas aspiraçõesde liberdade e bem-estar decorrem...
com quadros de referências diferentes. Esta postura colabora com a reflexão de outrosseres humanos – da audiência –, com o...
Como contraponto, Paulo Freire sublinha:                           Quanto mais me capacito como profissional, quanto mais ...
Considerações finais – Buscar as brechas        Ao reexaminar O compromisso do profissional com a sociedade, proposto por ...
a diminuição de quadros.       Essas novas tecnologias também promoveram avanços com a criação de novasplataformas para a ...
estratificação social, verdadeira muralha muitas vezes instransponível, o jornalista precisacavar sua trincheira e avançar...
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1982.PEREIRA, Fábio Henrique. Da responsab...
A semiótica discursiva no estudo do jornalismo e da sociedade1                                       Francismar FORMENTãO2...
inacabamento que a torna fluída. Na comunicação social, ou mesmo na especificidade dojornalismo encontram-se signos materi...
perspectivas diversas, multidisciplinares, inter ou transdisciplinares, com o termo quemelhor convir, esta multiplicidade ...
imitação. Reduzida a puro estilo, trai o seu segredo: a obediência à hierarquia                           social. A barbár...
seus mecanismos de construção de realidades, suas mediações.                           Trata-se de fato da afetação de for...
todas as realizações, que só têm sentido na própria linguagem. Compreendemos o mundo,os sujeitos, os acontecimentos, a vid...
circulação de sentido de ordem estética, ética e cognitiva. Os discursos promovidos pelaforma e pelo conteúdo da comunicaç...
deve-se considerar a multiplicidade de teorias sobre a comunicação. É importante aindaconsiderar as esferas de criatividad...
especificamente do jornalismo – carrega a materialização de relações sociais em seussignos, envolve esferas como da produç...
verbal. O enunciado deve ser considerado acima de tudo como resposta a                           enunciados anteriores den...
sujeitos situados em devir e sustentados na alteridade.Como o dialogismo é também oprincípio gerador da linguagem e da pro...
cadeias interdiscursivas que estão entre a ideologia do cotidiano e os sistemas ideológicosjá cristalizados e constituídos...
em formas e conteúdos em tempo e espaço objetivados numa dinâmica fluida; paraBakhtin, este sistema é aberto e não absolut...
indivíduos. “é apenas sob esta condição que o processo de determinação causal do signopelo ser aparece como uma verdadeira...
f ) universalidade-singularidade;                            g) objetividade (o real concreto) – objetivação (a manifestaç...
sentido em que a criação transcorre e toma consciência de si mesma por                           via axiológica, compreend...
de bases bakhtinianas é um estudo mais abrangente e que envolve diversas outrascategorias deste filósofo. ? importante com...
que busca ser interpretado pelas assim chamadas teorias da comunicação. Acontecimentoque carrega a alteridade do homem com...
Bakhtin une dialogicamente sua fundamentação do signo ideológico e da alteridade dasrelações sociais com essa arquitetônic...
BAKHTIN, Mikhail. O freudismo: um esboço crítico. São Paulo: Perspectiva, 2004.BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chav...
MATTELART, Armand e MATTELART, Michèle. História das teorias da comunicação. SãoPaulo: Loyola, 2004.MIOTELLO, Valdemir. Id...
Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede                                     Globo1...
fazer diferente, assunto que trataremos adiante); além disso, o velho tubo de imagemresponsável pelo televisor grandão e p...
As possibilidades da TV digital       A história da Televisão enquanto mídia (meio de comunicação), desde sua origematé a ...
Afinal, o número de canais aumentou consideravelmente; a programação passou a ser maissegmentada, dirigida a um público me...
de interferências e ruídos, os conhecidos chuviscos e “fantasmas”. Na transmissão digital,a imagem recebida pelos aparelho...
deste. Na tecnologia analógica, os sinais não podem ser comprimidos ou compactados.Ou seja, cada pixel precisa estar inclu...
informações sobre o conteúdo (programa, por meio de um banco de dados web conectadoà própria TV) e comprar – desde produto...
técnicas previstas para paulatinamente entrarem em vigor (e que, no seminário de2008, já tinham desdobramentos mais nítido...
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Jornalismo Reflexivo - visões teórico-metodológicas de autores do sul brasileiro. São Paulo: Intercom e-livros, 2010

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Jornalismo Reflexivo

  1. 1. Conselho Editorial INTERCOM Jornalismo Reflexivo Visões teórico metodológicas de autores do sul brasileiroDiretor EditorialOsvando J. de Morais Organização Ariane PereiraPresidente Marcio FernandesRaquel Paiva (UFRJ) Capa, projeto gráfico e diagramaçãoMuniz Sodré (UFRJ]) Letícia FutataMaria Teresa Quiroz (Universidade de Lima/Felafacs)José Manuel Rebelo (ISCTE, Lisboa) São Paulo, maio de 2010Luciano Arcella (Universidade d’ Aquila, Itália) ISBN 978-85-88537-54-5Alexandre Barbalho (UFCE) Alguns direitos reservados. Venda proibida.Moha Hajji (UFR)Márcio Guerra (UFJF)Marialva Barbosa(UFF)Luís C. Martino (UNB)Nelia Del Bianco (UNB)Pedro Russi (UNB)Etienne Samain (UNICAMP)Norval Baitello (PUCSP)Olgária Matos (UNISO)Paulo Schettino (UNISO)Giovandro Ferreira (UFBA)Ana Silvia Medula (UNESP Bauru)Juremir Machado da Silva (PUCRS)Erick Felinto (UERJ)Alex Primo (UFRS)Christa Berger (UNISINOS)Afonso Albuquerque (UFF)Cicilia M. Krohling Peruzzo (Univ. Metodista) 2
  2. 2. sumárioPrefácio .......................................................................................................................................................................................................... 5Apresentação Geral ................................................................................................................................................................................... 8Apresentação Parte I ............................................................................................................................................................................... 12Algumas idéias de Paulo Freire e a responsabilidade social do jornalista .............................................................................15A semiótica discursiva no estudo do jornalismo e da sociedade ............................................................................................ 31Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede Globo ............................................. 52A percepção dos universitários da UFSC sobre o Jornalismo - uma abordagem quantitativa ..................................... 67Mercado de Trabalho:o que querem os jornalista formados em 2008, nas universidades estaduais do Paraná? ............................................. 91Da esfera pública ao Ciberespaço: reflexões sobre o futuro do jornalismo na Internet ................................................ 103A (IN)volução do meio impresso e a (RE)invenção do público-leitor na Era do “MEU JORNAL DIÁRIO” ................. 127 3
  3. 3. Apresentação Parte II ........................................................................................................................................................................... 137Para quem quer viver mais e melhor: o enquadramento pedagógico darevista Vida Simples .................................. 141A Amazônia, uma capa, um anúncio e três leituras ................................................................................................................... 165Os editores de moda “em revista”: um estudo de caso sobre o site Erika Palomino e a revista Elle .......................... 188A notícia de moda na web: um breve panorama ........................................................................................................................ 213O site como espaço da autorreferencialidade do jornalismo televisivo:o caso do Programa Globo Rural ...................................................................................................................................................... 240O medo no telejornalismo brasileiro: um estudo do caso João Hélio ................................................................................. 258O João Goulart de Silvio Tendler:uma análise do acontecimento jornalístico golpe militar no filme Jango ......................................................................... 287Entre a lança e a prensa: Conhecimento e Realidade no discurso do jornal O Povo (1838) ......................................... 314“Todo compositor brasileiro é um complexado”:Anonimato e fama de Tom Zé na mídia impressa especializada ........................................................................................... 338The Beatles Setting the Agenda:Considerações Sobre a Cobertura Jornalística da Beatlemania na Inglaterra .................................................................. 360Midiatização de imagens: entre circulação e circularidade .................................................................................................... 382 4
  4. 4. prefácio Aprendendo e ensinando O e-book ganha cada vez maior importância entre nós. Num país onde se lêpouco, e onde, na maioria das vezes, a desculpa é o alegado alto preço do livro, o e-bookganha uma significação social extremamente grande: vai evidenciar que a nossa falta dehábito de leitura, baseada no alto preço, é apenas desculpa. Mas vai possibilitar, por outrolado, àqueles que realmente, não apenas lêem quanto gostam de pesquisar, o encontrode textos variados, que poderão ser, primeiro visualizados e depois impressos apenasnaquelas partes que interessarem mais diretamente ao leitor. No caso desta antologia, ela ganha uma importância maior ainda: resulta de umtrabalho coletivo, de um debate aberto, da persistência de jovens pesquisadores e de umconjunto de reflexões a respeito do jornalismo, extremamente importante, sobretudo nomomento em que, como se afirma logo na abertura do volume, o ensino universitário damatéria está sendo contestado e humilhado. Além de professor, sou, fui e continuarei sendo jornalista. Não somos melhores,mas somos diferentes. Temos nossas idiossincrasias, mas assumimos, sobretudo, nossasresponsabilidades. Responsabilidades junto à sociedade. 5
  5. 5. É sobre este conjunto de responsabilidades que, em última análise, estes trabalhosfalam. São resultado de esforços de pesquisadores iniciantes, em boa parte. Sua divulgaçãovai facilitar o conhecimento, mas vai, também, servir de incentivo a seus autores. Tive a oportunidade de assistir à exposição de vários deles, ao longo das sessõesda Divisão temática sobre jornalismo, ao longo do Congresso Regional-Sul da INTERCOM,uma das instâncias de pesquisa que a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinaresda Comunicação promove junto a professores e jovens estudantes, desde a Graduação,até o Doutorado. A lembrança que me ficou foi a imagem de jovens ainda inseguros,mas entusiasmados, felizes por poderem repartir com os colegas as suas descobertas.Ávidos para receberem sugestões. Ansiosos para ouvirem comentários. Depois daquelasexposições, em que cada um se esmera em mostrar até onde foi capaz de chegar,atingimos esta nova etapa: ter os textos divulgados para serem ainda uma vez avaliados eatingirem um público absolutamente inimaginável. Agora, a partir desta circulação, cadaum deles pode começar a se considerar, efetivamente, um autor. Basta pensar que, umavez publicado e colocado na rede mundial de computadores, cada vez que clicarmos emum de seus nomes, ou indicarmos algum tema determinado, um desses artigos poderáser acessado: gratuitamente, em sua totalidade, sem censura, num processo de circulaçãojamais pensado há cerca de meio século. O conjunto dos textos é variado. Mas é importante. Mostra um determinadomomento da pesquisa brasileira. Daqui a algum tempo talvez esteja ultrapassado. Mas 6
  6. 6. ficará sempre como documento de um processo mais amplo, que é o da aprendizagem. Avariedade dos temas atesta a importância desses estudos. Por trás de cada autor, aluno ouprofessor, estão horas de pesquisa, de estudo, de reflexão. O texto daí resultante, por seulado, poderá vir a gerar novos processos, outras idéias, sugestões variadas. A INTERCOM vem, há mais de trinta anos, promovendo esta troca dinâmica,permanentemente realimentadora da reflexão sobre a comunicação social em geral, delasobre si mesma e dela com outros campos de conhecimento, e, muito especialmente,neste caso, sobre o jornalismo. Mais que isso, vem incentivando o intercâmbio entrepesquisadores, sem o quê a própria atividade de pesquisa perde seu sentido. Certamente,muitos dos que, hoje, eventualmente, são convidados a integrar comissões de seleção detrabalhos, ou mesmo respondem pela orientação de jovens alunos, já tiveram, um dia,aquela oportunidade da estréia em um grupo de trabalho como este. Parabéns aos organizadores do volume que ora percorremos. Acho que vocês,enquanto responsáveis pela iniciativa da publicação, como nós, que hoje coordenamoseventualmente a INTERCOM, estamos nos somando justamente para garantir esteresultado: que a pesquisa continue; que a curiosidade encontre seu espaço; e que oaprendizado resultante de tais trocas seja um grande incentivo para todos nós. Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt Presidente da INTERCOM 7
  7. 7. apresentação geral Por um Jornalismo mais reflexivo Jornalismo: atividade/prática/profissão sempre em movimento. Afinal, nós,jornalistas, lidamos com fatos e estes são voláteis, diferentes a cada dia. Característica quejá exigiria, por si só, ininterrupta reflexão. (Re)Pensar constante que, nos últimos tempos,intensificou-se (ou deveria ter se intensificado). Afinal, são muitas as transformações. Asnovas tecnologias mudando linguagens, o modus operandi... A queda do diploma e adesregulamentação profissional. As discussões que levarão a mudanças nos cursos deJornalismo, nas grades curriculares, na formação do jornalista. Movimentos que apontam para diversos rumos, inúmeros trajetos. Caminhos emaberto e, por isso mesmo, tão propícios a reflexão, a conversa, a troca. E é essa a propostade Jornalismo Reflexivo: um diálogo entre jornalistas (diplomados ou não), acadêmicosde cursos espalhados Brasil afora, estudantes interessados na profissão, professores,pesquisadores, sociedade em geral (já que essa nunca valorizou e teve tanto acesso ainformação quanto na contemporaneidade). Assim, este e-book que você começa a ler agora apresenta uma série de artigos – eporque não dizer filigranas já que a proposta não é apresentar modelos, nem perguntascom respostas fechadas, e sim problematizar, (re)pensar o Jornalismo e a prática 8
  8. 8. jornalística – que apontam para os novos rumos desta atividade em alguns momentoscom status de quarto poder e em outros comparada a tarefa/ao ato de cozinhar (embora,cozinheiros, jornalistas ou caminhoneiros exerçam tarefas tão nobres, cada uma com suasparticularidades, quanto as de médicos, engenheiros ou advogados). Essas filigranas, 18 no total, foram reunidas a partir dos debates iniciados noIntercom Sul 2009, realizado em Blumenau, Santa Catarina. Os autores de trabalhosaprovados e apresentados na DT (Divisão Temática) Jornalismo do congresso, o maior daregião sul do país a tratar das Ciências da Comunicação, foram convidados a, a partir dasdiscussões, re-pensar as análises primeiras. Isso significa que os textos presentes nestee-book não foram, simplesmente, transpostos dos Anais para estas páginas. Jornalismo Reflexivo trás visões/perspectivas/leituras transformadas e, quiça,transformadoras, não no sentido de mudar modos de pensar o e fazer jornalismo; massim com a conotação de provocar/suscitar inquietações, e essas gerarem mais reflexõese novos debates. Garantindo, dessa maneira, que a proposta deste e-book se concretize,ou seja, que tenhamos um jornalismo reflexivo no dia-a-dia de nossas redações, salas deaula, laboratórios... Essas filigranas, nossas reflexões-conversas, estão divididas em duas partes. Naprimeira delas, Jornalismo como proposta de reflexão, estão reunidos sete textos, todoseles, e cada um deles a sua maneira – o que reflete a pluralidade (de leituras, de olhares, deóculos teóricos) permitida pela pesquisa em Jornalismo –, propondo uma leitura diferente, 9
  9. 9. singular do próprio Jornalismo. Gestos de interpretação como os de Jorge Kanehide Ijuim,da UFSC, e de Francismar Formentão, da UNICENTRO. O primeiro tem como ponto departida o texto “O compromisso do profissional com a sociedade”, de Paulo Freire, e a luzdeste busca refletir a responsabilidade social do jornalista. Já o segundo, busca mostrarcomo o pensamento bakhtiniano, conhecido por Filosofia da Linguagem ou SemióticaDiscursiva, pode ajudar na compreensão do campo de atuação do jornalismo/dosjornalistas. Já Reflexões acerca da prática jornalística, segunda parte de Jornalismo Reflexivo,encarta onze filigranas que tem como objeto de análise o jornalismo em sua prática,seja ela na web, em revistas, televisão, ou seja, em diferentes veículos e formatos. Textoscomo o de Gisele Reginato, da UFSM, intitulado “Para quem quer viver mais e melhor:o enquadramento pedagógico da revista Vida Simples”, que, a partir dos conceitos deenquadramento e de dispositivos pedagógicos, procura mostrar como a revista mensalVida Simples produz “ensinamentos” com seu formato “didático”. Outra exemplo é “Omedo no telejornalismo brasileiro: um estudo do caso João Hélio”, de Elza Vieira Filha eTaianá Martinez, da Positivo, cuja intenção é identificar de que forma o medo é construídonos produtos específicos do jornalismo e no que ele interfere no imaginário coletivo. Estas são pequenas amostras das reflexões que você encontrará nas páginasde Jornalismo Reflexivo, quarto livro da coleção 3C – Conversas Contemporâneas emComunicação –, série de publicações idealizada e concretizada pelo Grupo de Estudos 10
  10. 10. Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos, formado por professores de ComunicaçãoSocial da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Outros livros virão,complementando a coleção 3C, enquanto isso, empreenda novos gestos de interpretaçãoa partir das discussões de Jornalismo Reflexivo. Boa leitura! Os Organizadores 11
  11. 11. apresentação parte I Jornalismo como proposta de reflexão Sete filigramas compõem a primeira parte de Jornalismo Refleximo, chamadaJornalismo como proposta de reflexão. Em cada uma delas, uma leitura do movimentovivido pelo jornalismo, reflexões acerca do futuro da profissão e da atividade dosprofissionais da área. O primeiro texto a discutir o Jornalismo é Algumas idéias de Paulo Freire e aresponsabilidade social do jornalista, de Jorge Kanehide Ijuim, onde o autor discuteaspectos da responsabilidade social do jornalista – que, para ele, não é um mero produtorde notícias – a partir de idéias de Paulo Freire presentes em “O compromisso do profissionalcom a sociedade”. Mostrar como a Filosofia da Linguagem, também chamada de Semiótica Discursiva,proporciona condições de estudo epistemológico, ético, estético e ontológico doJornalismo é o que procura evidenciar Francismar Formentão em A semiótica discursiva noestudo do jornalismo e da sociedade, segunda filigrana desta primeira parte do e-book. A proposta de Ariane Pereira e Márcio Fernandes, em Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede Globo, é apresentar um panorama sobraa implantação da TV digital para, em seguida, discorrer sobre as percepções de como a 12
  12. 12. Rede Globo de Televisão, a partir de palestras realizadas por profissionais da emissoradurante os Seminários Globo-Intercom em 2007 e 2008, encara este processo e comodeve se configurar esse momento de concretização, o que realmente se mostra comoperspectiva e o que, aparentemente, ficará apenas no nível da possibilidade. Em A percepção dos universitários da UFSC sobre o Jornalismo: uma abordagemquantitativa, Tarsia Paula Farias e Eduardo Medisch apresentam resultados de duaspesquisas. Para a primeira delas, de caráter qualitativo, foram entrevistados jovens deFlorianópolis com o objetivo de levantar as causas do não-acompanhamento de notíciaspor estes. Já a segunda, realizada entre acadêmicos da Universidade Federal de SantaCatarina, procurou quantificar os resultados da primeira. Resultados de pesquisa também são apresentados por Layse Nascimento, emMercado de Trabalho: o que querem os jornalistas formados em 2008, nas universidadesestaduais do Paraná. Para avaliar qual o mercado de trabalho que detém a preferência dosnovos profissionais do jornalismo e o grau de interesse dos acadêmicos pela atividadeprofissional do comunicador em uma empresa foram entrevistados os formandos de 2008dos cursos de jornalismo das três universidades estaduais do Paraná – Londrina, PontaGrossa e Centro-Oeste. O sexto texto, Da esfera pública ao ciberespaço: reflexões sobre o futuro do jornalismona internet, de Luís Francisco Munaro, tem como intuito discutir como o rompimento dastradicionais fronteiras do “intelectual” pelo ciberespaço se configura como uma fase pós- 13
  13. 13. literária da cultura moderna, onde, segundo o autor, os protagonistas são produtoresindividuais de cultura desvinculados do Estado moderno tradicional. No último artigo desta primeira parte, A (IN)volução do meio impresso e a (RE)invenção do público-leitor na Era do “Meu Jornal Diário”, Alexandre Correia dos Santosdiscute a realidade do jornalismo impresso, o papel do jornalista e a função primordial deinformar do jornalismo no momento em que uma nova geração de leitores lança mão doconceito do “meu jornal diário”, de Nicholas Negroponte. Este é nosso convite para que você não deixe de se aventurar pelas veredasreflexivas do Jornalismo. 14
  14. 14. Algumas idéias de Paulo Freire e a responsabilidade social do jornalista1 Jorge Kanehide IJUIM2 A questão da responsabilidade social parece ser algo consagrado no meiojornalístico. A expressão, que carrega força e impacto, é comumente usada comobordão de campanhas institucionais e mercadológicas de empresas de comunicação. Talconsagração talvez advenha do papel histórico da imprensa de ser tribuna para debates einstrumento de movimentos decisivos que culminaram em conquistas expressivas para asociedade. O respeito a este papel histórico faz com que tenha destaque em documentosfundamentais dos profissionais de imprensa, como nos “Princípios Internacionais daÉtica Profissional no Jornalismo”. O texto obtido em debates promovidos pela Unesco,na década de 1980, foi subscritado por várias organizações internacionais de jornalistas,inclusive a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Seu Princípio III assinala: Informação em jornalismo é compreendida como bem social e não como uma comodidade, o que significa que os jornalistas não estão isentos de responsabilidade em relação à informação transmitida e isso vale não só para aqueles que estão controlando a mídia, mas em última instância para o grande público, incluindo vários interesses sociais. A responsabilidade social do jornalista requer que ele ou ela agirão debaixo de todas as circunstâncias1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na FURB, Blumenau (SC)2 Professor de Jornalismo da UFSC; doutor em Ciências da Comunicação/Jornalismo pela Escola de Comunica-ções e Artes da USP. 15
  15. 15. em conformidade com uma consciência ética pessoal. (UNESCO, 1980). O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, reexaminado nos últimos anos eaprovado em assembléia da Federação Nacional dos Jornalistas, em agosto de 2007,também atribui especial atenção ao tema. O Artigo 2º explicita: Art. 2º - Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: ... III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão. (FENAJ, 2007) Ambos documentos caracterizam o jornalismo como atividade social e, de formaexplícita ou implícita, estabelecem uma relação entre esta responsabilidade social e aDeclaração Universal dos Direitos Humanos. A bibliografia no campo do Jornalismo, seja em abordagens sobre as teorias e astécnicas ou focadas na ética profissional, reflete a preocupação constante com o assunto.Luiz Amaral, em Técnica de jornal e periódico, em 1969 – justamente o ano em que a profissãofora regulamentada no País –, já dedicava um capítulo ao papel e à responsabilidade daimprensa. Ali já ressaltava as múltiplas possibilidades de interpretação de preceitos queregem a instituição imprensa e, por consequência, seus profissionais. 16
  16. 16. O alerta de Amaral era pertinente. Qual pode ser o espírito deste preceito daresponsabilidade social? Carrega a inspiração modernista que imaginava a imprensa capazde levar as luzes a todos os recantos e, por isso, a função social da elevação cultural? Ou trazconsigo a concepção gramisciana do intelectual orgânico responsável pela informação epela formação da população? Ou é expressão do capitalismo norte-americano pelo qual asociedade delega à imprensa o poder de fiscalizar as instituições em seu nome? O pesquisador Fábio Henrique Pereira frisa que muitas dessas interpretaçõesreferem-se a concepções românticas do jornalismo. Para o autor, é notório o processode transformação pelo qual a atividade passou, desde sua fase artesanal e instrumentode lutas ao jornalismo industrial e de mercado. Alicerçado em pensadores como Medina,Néveu, Lipimann e Schudson, o pesquisador promove uma discussão sobre o jornalismoenquanto ação social e o jornalista como um intelectual, na qual constata que “a evoluçãoda identidade do jornalista se forma a partir de um duplo discurso – a fala humanista e afala tecnológico-metodológica” (PEREIRA, 2004). Sem a pretensão de esgotar o tema e, portanto, sem a preocupação de serconclusivo, Pereira aponta em seu estudo um momento de transição por que passa ainstituição imprensa – e seus profissionais. Tal reflexão permite-nos inferir que, nessatransição, certos preceitos que nos regem – inclusive o da responsabilidade social –caminham sobre um fio tênue, além de ofuscados pelo brilho da pressa das tecnologiasde informação. 17
  17. 17. Esse estado de indefinição, evidentemente, vem de um sentido macro. CiroMarcondes Filho, ao analisar a chamada Sociedade tecnológica (1994), aponta uma sériede fragilidades proporcionadas por esse “período tecnocêntrico”. Enquanto o mundoteocêntrico tinha Deus como figura dominante, a fase antropocêntrica elegeu para tantoo homem e o mundo material, ao passo que a recente era tecnológica tem a racionalidadeda máquina como imagem e referência. Com relação ao saber, Marcondes destaca queno modelo anterior as luzes, a razão controlava a ciência e o progresso, ao passo queatualmente a luz é fracionada, especialmente via MCM. Ao passo que o antropocentrismobuscava uma utopia terrena, movida por uma força vinculante – ideológica –, e sua metaera a construção da história, o pensamento predominante entre os tecnocentristas leva auma busca virtual, sem qualquer força vinculante e, por isso mesmo, sem meta nitidamentedefinida. A imprensa e seus profissionais, como membros desse mesmo conjunto social,convivem, atuam e servem a esta sociedade virtualizada, indefenida e ideologicamentepulverizada. Portanto, aquilo que está consagrado, e possa parecer mesmo óbvio, a rigor não étão óbvio. E merece reflexão contínua. É o que pretendo neste trabalho: contribuir com anecessária reflexão sobre o que ‘parece óbvio’, a partir do pensamento de Paulo Freire.Responsabilidade social = compromisso Paulo Freire costumava construir seus ensaios de forma provocativa. Perguntas e mais 18
  18. 18. perguntas, que respondia de forma densa no decorrer do texto. Sobre a responsabilidadesocial, em seu período de exílio [de 15 anos], escreveu O compromisso do profissional coma sociedade, publicado em português pela primeira vez em 1979. Tornou-se um clássicoe uma referência indispensável ao campo da educação, mas também iluminador paraoutras áreas do conhecimento, como pretendo demonstrar. Quem pode se comprometer? A primeira preocupação do autor é esclarecer a relevância e a seriedade dostermos que compõem o enunciado contido no título de seu trabalho. Julga necessárioexplicitar que o compromisso proposto não pode ser encarado como uma abstração, masalgo assumido por uma decisão lúcida, no plano concreto. O ato comprometido pode serassumido quando compreendemos a natureza do ser que é capaz de se comprometer.Dessa forma, “a primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometidoestá em ser capaz de agir e refletir” (FREIRE, 1983, p.16). A capacidade de agir e refletir, um dos pontos primordiais da dialética marxista,implica na consciência do ser de não apenas estar no mundo, mas estar com o mundo.“? preciso que seja capaz de, estando no mundo, saber-se nele”. Esta aptidão para estarno e com o mundo suscita a possibilidade de, pela reflexão, ter consciência de si e, porum olhar crítico diante do mundo, ter consciência da realidade concreta. O olhar críticodiante do mundo, porém, não admite uma postura de admiração, ou contemplação. Ao 19
  19. 19. contrário, supõe a ação para a transformação. Que transformação? A transformação proposta por Freire é justamente uma das máximas marxistas[devir] que sugere a transformação daquilo que é naquilo que deve ser. O ser da práxis éaquele capaz de transformar. Em outros termos, é aquele que pode exercer um atocomprometido, como sustenta o autor: É exatamente esta capacidade de atuar, operar, de transformar a realidade de acordo com finalidades propostas pelo homem, qual está associada sua capacidade de refletir, que o faz um ser da práxis (FREIRE, 1983, p. 17). Por isso, ação e reflexão são constituintes inseparáveis e a própria maneira humanade existir. E existir é algo mais profundo do que, descuidadamente, possamos imaginar,como enfatiza Paulo Freire: Existir ultrapassa viver, porque é mais do que estar no mundo. ? estar nele e com ele. E é essa capacidade ou possibilidade de ligação comunicativa do existente com o mundo objetivo, contida na própria etimologia da palavra, que incorpora ao existir o sentido de criticidade que não há no simples viver. Transcender, discernir, dialogar (comunicar e participar) são exclusividades do existir. O existir é individual, contudo só se realiza em relação com outros existires. Em comunicação com eles (FREIRE, 1982, p. 48-49). 20
  20. 20. Dessa forma, não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade.Ao profissional de jornalismo, que não vê em seu trabalho apenas a mera execução detécnicas, cabe desenvolver-se nessas habilidades de agir e refletir. Agir e refletir sobre arealidade concreta, sobre o mundo, pois, conforme Cremilda Medina, pelo papel socialque está investido, “sua função é estabelecer pontes na realidade dividida, estratificadaem grupos de interesse, classes sociais, extratos culturais e faixas até mesmo etárias”(MEDINA, 1982, p.22). No exercício desse papel social, ao sair para a sociedade “para rastrear o maiornúmero possível de versões, na busca incessante de uma verdade inatingível, nasolidariedade aberta a todos que tenham alguma coisa a falar” (MEDINA, 1982, p.23),o jornalista constrói a realidade. Constrói a realidade, conforme ensinam as teoriasconstrucionaistas, no sentido de “não permitir que os acontecimentos permaneçam nolimbo do aleatório, mas sejam trazidos aos horizontes do significativo” (Hall in Traquina,2005, p.171). Se é assim, o jornalista não executa simples técnicas de investigação eredação, mas desenvolve apurada e cuidadosa habilidade de ver o mundo [sentir-se como mundo]. Da mesma forma, ao concluir sua reportagem, o profissional não apresentaapenas um relato sobre fatos, pois o que viu, ouviu, sentiu e vivenciou foi processado pelasua inteligência e pelos seus sentimentos – um processo de atribuição de significados. Eleapresenta uma narrativa viva, uma construção da realidade, mediada pelo social. Qualquer jornalista atua desta forma? Paulo Freire alerta que a relação homem- 21
  21. 21. realidade, ou homem-mundo, implica a transformação de mundo, cujo produto, porsua vez, condiciona ambas, ação e reflexão. “Os homens que a criam são os mesmosque podem prosseguir transformando-a” (FREIRE, 1983, p.18). Em outros termos,firmar o compromisso com o mundo tanto requer como é decorrência de um processohumanizador – humanização dos outros homens, como de si mesmo. Sobre esse processo, Dermeval Saviani apresenta uma opinião relevante. Para ele,a humanização acontece pela relação do homem com a cultura – que ele contribui comsua construção, assim como a cultura contribui com a sua construção. Esta relação se dáde forma vertical – domínio dos objetos e do conhecimento historicamente acumulados(prático-utilitário); e no nível horizontal – na relação homem/homem (colaboração).Em outros termos, humanização para Saviani abriga o mesmo sentido de solidariedadetambém invocado por Freire. Por isso mesmo, o compromisso com a humanização dos homens, que implica umaresponsabilidade histórica, segundo o autor, não pode realizar-se através do palavrório,nem de nenhuma outra forma de fuga do mundo, pois o compromisso, próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, de cujas ‘águas’ os homens verdadeiramente comprometidos ficam ‘molhados’, ensopados (FREIRE, 1983, p.19). Tal engajamento, que é um ato corajoso, decidido e consciente, o impede que seja 22
  22. 22. neutro. “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, refleteapenas o medo que se tem de revelar o compromisso... o verdadeiro compromisso é asolidariedade” (FREIRE, 1983, p.19). Esse compromisso, esse engajamento, no entanto, nãopode ser confundido com militância. Um ser-jornalista engajado não é necessariamenteum jornalista militante de causas, ideologias ou segmentos políticos. Nesse caso, comolembra Alberto Dines, seria o mal-entendido de adotar a postura de ‘partisan ou torcedor’(1986, p. 62). O engajamento a que nos referimos pode ser o que Cremilda Medina chama‘solidariedade às dores universais’. Transformar o quê? E quem? A esse compromisso e transformação, cabe refletir ainda mais sobre o quetransformar e a quem transformar. Paulo Freire considera indispensável reconhecerque um profissional, antes de ser profissional, é homem. Deve ser comprometido por simesmo. Ou seja, independentemente do seu ofício ou de sua categoria profissional, desuas particularidades e/ou de seus códigos deontológicos, suas responsabilidades comoprofissional não são (ou não podem) dicotomizar-se de seu compromisso original dehomem. Por isso, um jornalista é, antes de tudo, um homem (ser humano). Como entende Manuel Carlos Chaparro, o jornalismo é um processo social deações conscientes, controladas ou controláveis. Se é assim, “cada jornalista é responsávelmoral pelos seus fazeres” (CHAPARRO, 1994, p.22). Bertrand Russell em seus estudos 23
  23. 23. sobre a ética e a moralidade, enfatiza que as escolhas do ser humano para suas aspiraçõesde liberdade e bem-estar decorrem de um quadro de referência determinado pelascondições histórico-sociais. O certo ou o errado, o bem ou o mal são definidos por umacomunidade com a atribuição de valores, segundo uma ideologia, de conceitos delouvor ou censura, estabelecendo uma consciência que orienta as ações do indivíduo.Uma ação objetivamente certa, para Russell, é a que melhor serve aos interesses dogrupo eticamente dominante – desejadas pelo grupo. O quadro de referência, portanto,pode ser ampliado e/ou reformulado de acordo com a vivência, do exercício do debate,da reflexão do indivíduo e do grupo. Esse exercício ético (ou seja, o debate e a reflexão)contínua sobre o desejável para si e para os outros e pode refletir na elevação do nível deconsciência – a visão de mundo que orienta as ações dos indivíduos, seus propósitos eintenções (Russell, 1977). Essa postura reflexiva parece-me, portanto, um aspecto indispensável ao jornalistapara a sua tarefa de atribuir significados aos fenômenos. Pelo exercício ético, com aelevação do seu nível de consciência poderá melhor pensar-expressar, compreendere levar a compreensão à audiência, como autor e responsável moral por seus fazeres ecompromissos. Com a ampliação contínua do seu quadro de referência – seu nível de consciência– seus fazeres poderão constituir, mais que “notícias”, os relatos humanizados ehumanizadores que promovam o debate, que contribuam com a inter-relação de pessoas 24
  24. 24. com quadros de referências diferentes. Esta postura colabora com a reflexão de outrosseres humanos – da audiência –, com o alargamento da visão de mundo e a elevaçãodo nível de compreensão, de cumplicidade e solidariedade entre seres humanos. Se estecompromisso constituir um propósito e um dever e querer-fazer do jornalista, ele estarácontribuindo para estender ao seu público o exercício ético do qual pratica/participadiuturnamente. Em outros termos, podemos ratificar a argumentação já proposta: o serque, pela ação e reflexão, contribui com a transformação da sociedade, como a sociedadecontribui com a sua transformação.Riscos da especialização profissional Exatamente neste momento em que tantos estão ‘encantados’ com o brilho dastecnologias de comunicação, vale destacar que a responsabilidade deste compromisso nãopermite ao profissional, enquanto um especialista, cair na ‘vala comum’ do especialismo.Como enfatiza Paulo Freire, isto seria julgar-se “habitante de um mundo estranho, mundode técnicos e especialistas salvadores dos demais, donos da verdade, proprietários dosaber, que devem ser doados aos ignorantes incapazes” (1983, p.20-21). Para o autor, ‘profissional’ é atributo de homem e, por isso, este não pode, quandoexerce um quefazer atributivo, negar o sentido profundo do quefazer substantivo original.Ou seja, não cabe a inversão de valores de servir mais aos meios que ao fim do homem.Não cabe reduzir o homem a um simples objeto da técnica, a um autômato manipulável. 25
  25. 25. Como contraponto, Paulo Freire sublinha: Quanto mais me capacito como profissional, quanto mais sistematizo minhas experiências, quanto mais me utilizo do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos a ao qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens (FREIRE, 1983, p.20). Por outro lado, frisa a importância da superação do especialismo por umadenotação mais apropriada ao termo especialização. Se o compromisso não pode ser umato passivo, mas práxis – ação e reflexão sobre a realidade –, isso implica em inserção,em conhecimento da realidade. Para tanto, um compromisso carregado de humanismodeve ser fundamentado cientificamente, ou seja, a este profissional é exigido constanteaperfeiçoamento. A maior e melhor qualificação supõem o domínio, mas ao mesmo tempo, aabertura para a experimentação de técnicas de reportagem, das formas de elaboraçãode mensagens, da edição, de maneira que consiga ser tradutor de linguagens paraaudiências amplas ou específicas. Como alerta Medina (1982), o jornalista deve interligarfragmentações, através da conquista de ferramentas de trabalho de amplo alcance ede códigos pluralistas, e não o retrocesso de platéias fechadas, incomunicadas com amaioria dos estratos sociais. Por essas razões, o enfrentamento ao risco da especializaçãoprofissional requer o constante aperfeiçoamento técnico, intelectual, ético – a capacidadede refletir para agir. 26
  26. 26. Considerações finais – Buscar as brechas Ao reexaminar O compromisso do profissional com a sociedade, proposto por PauloFreire, a intenção não é retomar teorias como a da “Ação política” – na versão da esquerda– que contestavam a atuação da mídia como maneira unicamente de manutenção doestablishment. Mesmo porque estas aludiam aos profissionais um papel ‘passivo’, uma vezque os consideravam, de certa forma, impotentes diante do poder instituído. Por outrolado, Adelmo Genro Filho já havia refutado tais versões ao constatar que o jornalismodesempenha função muito maior que a contestação à hegemonia capitalista. Para ele, umde seus papéis relevantes é a produção social do conhecimento (1987). O propósito, no entanto, é reconhecer que vivemos um momento de transição – nasociedade e no jornalismo – marcado pelo estado de indefinição com relação ao papeldo profissional, como bem alertou Fábio Henrique Pereira. O quadro desenhado pelopesquisador dá conta que esta identidade do jornalista se forma a partir de um duplodiscurso – a fala humanista e a fala tecnológico-metodológica. Do jornalismo artesanal ao jornalismo de mercado, realmente as empresasde comunicação estão reconfiguradas. Os modernos modelos de administração sepreocuparam com a otimização de recursos, o que acarretou, de imediato, numa virtualprofissionalização das redações e, certamente, as tornou mais enxutas. As chamadasnovas tecnologias de informação – ferramentas importantes e aliadas na produção edivulgação do noticiário – muitas vezes, equivocadamente, constituem argumentos para 27
  27. 27. a diminuição de quadros. Essas novas tecnologias também promoveram avanços com a criação de novasplataformas para a disseminação de informações, mais ágeis, dinâmicas, práticas paragrande faixa de público. Assim também, tais tecnologias proporcionaram opções deconvergência de mídias, que podem oferecer, com maior versatilidade, informaçõesvariadas, em menor tempo, com mais abrangência, conforme o gosto e a necessidade daaudiência. Como decorrência, no entanto, pode-se averiguar que, quanto maior a agilidadee a eficiência desse ‘novos meios’, mais aumenta a pressa, o desejo pelo furo, a ansiedadepor maior cobertura... maior concorrência... entre algumas outras consequências. Esse quadro, muito rapidamente esboçado, nos leva a inferir algo preocupante:redações menores, todos com menor tempo para produção em alta escala... menostempo para pensar. E é justamente nesse contexto que aflora o grande e fundamentaldesafio – persistir no princípio, e na postura, da humanização, pela ação e reflexão sobrea realidade. Os postulados de Paulo Freire são incisivos. As aspirações e os interesses globais dasociedade devem se sobrepor aos interesses de grupos, sejam políticos, econômicos oupessoais. A defesa última de Paulo Freire em prol da resistência invoca o ‘projeto histórico’em permanente construção: “Fugir da concretização deste compromisso é não só negar-se a si mesmo como negar o próprio projeto nacional” (1983, p. 25). Como argumento final, recorro a um pensamento de Medina: “Na dura 28
  28. 28. estratificação social, verdadeira muralha muitas vezes instransponível, o jornalista precisacavar sua trincheira e avançar, gradativa e firmemente” (1982, p. 23). Por outras palavras,pessoalmente, assumo meu dever de persistir no compromisso aqui debatido. Senão coma imprudência do “peito aberto na linha de frente”, mas buscando as “brechas” do sistemageralmente fechado para, dia após dia, concretizar nosso projeto – de vida e profissional.Bibliografia consultadaAMARAL, Luiz. Técnica de jornal e periódico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do jornalismo. São Paulo. Summus, 1994.DINES, Alberto. O papel do jornal – uma releitura. 2ed. São Paulo: Summus, 1986.GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide – Para uma teoria marxista dojornalismo. Porto Alegre: Tchê Editora, 1987.MARCONDES FILHO, Ciro. Sociedade tecnológica. São Paulo: Scipione, 1994.MEDINA, Cremilda. Profissão jornalista: responsabilidade social. Rio de Janeiro:Forense-Universitária, 1982.FREIRE, Paulo. O compromisso do profissional com a sociedade, in Educação e mudança.10ed. Trad. Moacir Gadotti e Lílian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 29
  29. 29. FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1982.PEREIRA, Fábio Henrique. Da responsabilidade social ao jornalismo de mercado: ojornalismo como profissão. Lisboa: Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação, 2004.Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/pereira-fabio-responsabilidade-jornalista.pdf. Acesso em 13 de abril de 2009.RUSSELL, Bertrand. Etica e política na sociedade humana. Trad. Nathanael C. Caixeiro.Rio de Janeiro: Zahar, 1977.SAVIANI, Dermeval. Educação – Do senso comum à consciência filosófica. 11ed.Campinas: Autores Associados, 1993.TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo – Porque as notícias são como são. Vol. I. 2ed.Florianópolis: Insular, 2005. 30
  30. 30. A semiótica discursiva no estudo do jornalismo e da sociedade1 Francismar FORMENTãO2 A comunicação tem recebido ao longo da história contribuições importante dediferentes campos teóricos; estudos que buscam compreender a cultura envolvida nascomunicações, as tecnologias e o próprio desenvolvimento humano e social. Destaca-senesta pesquisa o referencial filosófico-científico que pode fornecer subsídios para estudosabrangentes, que necessariamente, dialogizam com diferentes campos e métodos teóricosenvolvidos na comunicação, mantendo o rigor que o estudo científico exige, mas sem arigidez que mina os diálogos necessários com o mundo e com os diversos conhecimentos.Assim, a proposta da filosofia da linguagem permite um estudo epistemológico, ético,estético e ontológico, observando o signo ideológico em sua forma, seu conteúdo e osdiversos tempos que o envolve, a sua produção de sentido e relação ética cognitiva comas alteridades envolvidas em sujeitos dos mais diversos campos sociais, dialogizando comoutros discursos e conhecimentos existentes. Dessa forma, pode-se estudar a multiplicidade e o dinamismo existentenuma sociedade constituída historicamente e materializada num eterno devir, num1Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2008, realizado na FURB, Blumenau (SC).2 O autor é jornalista, Especialista em Comunicação, Educação e Artes, Mestre em Letras – Linguagem e Socieda-de (Unioeste); docente da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) Guarapuava – PR (Brasil). 31
  31. 31. inacabamento que a torna fluída. Na comunicação social, ou mesmo na especificidade dojornalismo encontram-se signos materializados, que permitem o estudo e a compreensãodos movimentos objetivados na sociedade. O conhecimento sobre a comunicação surge principalmente devido à proliferaçãode diversos sistemas de transmissão de dados, destaque para a idéia da comunicação comosendo aquela da reprodução dos estados mentais (MATTELART, 2004). Neste sentido, “épreciso pensar de maneira diferente, portanto, a questão da liberdade e da democracia. Aliberdade política não pode se resumir no direito de exercer a própria vontade. Ela resideigualmente no direito de dominar o processo de formação dessa vontade” (MATTELART,2004, p.187). Percebe-se que a comunicação está mesmo situada em lugar de grandeimportância para o estudo da sociedade. Situados na encruzilhada de várias disciplinas, os processos de comunicação suscitaram o interesse de ciências tão diversas quanto a filosofia, a história, a geografia, a psicologia, a sociologia, a etnologia, a economia, as ciências políticas, a cibernética ou as ciências cognitivas. Ao longo de sua construção, esse campo particular das ciências sociais esteve, por outro lado, continuamente às voltas com a questão de sua legitimidade científica. Isso o conduziu a buscar modelos de cientificidade (MATTELART, 2004, p. 9). Nos estudos sociais não se pode descartar as diferentes correntes de pensamento,é importante existir um diálogo consistente e produzir conhecimento a partir deste, éimpossível pensar em um conhecimento unidirecional. Toda realidade é envolta em 32
  32. 32. perspectivas diversas, multidisciplinares, inter ou transdisciplinares, com o termo quemelhor convir, esta multiplicidade evita reducionismos empobrecedores, principalmentepor estar a comunicação social na encruzilhada de tantos estudos. No estudo da comunicação é importante lembrar os esforços da chamada Escolade Frankfurt. Entre eles, destaca-se Theodor Adorno, crítico do iluminismo, que defendeuque o indivíduo passa a ser uma peça dependente da sociedade, com sua liberdadedescartada pela sociedade, deixando de ser original. Para Adorno, o iluminismo fez surgirum domínio da razão sobre as demais dimensões humanas (MASIP, 2001, p. 356). MaxHorkhemier, outro influente pesquisador desta escola, concordou com Marx quanto àidéia de que a dialética é um processo que abrange não só as relações econômicas, mastambém as relações culturais e científicas. Para ele, o processo gerado pelo iluminismo foio agente causador de “manipulação, exploração e opressão que se constata na sociedadecontemporânea, pois instituiu o indivíduo e a realização pessoal como ideais humanosúltimos” (MASIP, 2001, p. 355-356). Destaca-se, na crítica desses pesquisadores, o conceito de indústria cultural, quesuprime a função crítica e criativa até então existente na cultura e ocorre sua metamorfoseem valor mercadológico, dissolve o patrimônio até então acumulado pela humanidadeem sua autêntica experiência, degradando-se, conseqüentemente, o papel “filosófico-existencial” que lhe é inerente (MATTELART, 2004, p. 78). O objetivo da indústria culturalé inteiramente a 33
  33. 33. imitação. Reduzida a puro estilo, trai o seu segredo: a obediência à hierarquia social. A barbárie estética realiza hoje a ameaça que pesa sobre as criações espirituais desde o dia em que foram colecionadas e neutralizadas como cultura. Falar de cultura foi sempre contra cultura. O denominador “cultura” já contém, virtualmente, a tomada de posse, o enquadramento, a classificação que a cultura assume no reino da administração. Só a “administração” industrializada, radical e conseqüente, é plenamente adequada a este conceito de cultura. (HORKHEIMER; ADORNO In: LIMA, 1982, p. 169). Os estudiosos observam que a indústria cultural – pode-se aqui pensar tambémem comunicação jornalística – faz não necessitar de pensamento intelectual para aqueleque percebe esta comunicação. Assim, a massa, como destacam, tem seu comportamentoautomatizado e é forçada à disciplina do espetáculo numa pressão que exclui e desmoralizaaqueles que não se deixam domar, inibindo a reflexão crítica. (HORKHEIMER; ADORNO In:LIMA, 1982, p.175-190). Em outra área de estudos da comunicação, pesquisadores apresentam a perspectivado impacto das tecnologias da informação na sociedade contemporânea, enfatizando arecepção dessas tecnologias sobre as ciências, sobre as formas novas de representação darealidade e sobre a interação entre os novos espaços públicos e os novos sujeitos sociais.Pesquisadores como Muniz Sodré, Dênis Moraes, Armand Mattelart, Eduardo Galeano,Jesús Martín-Barbero, entre outros, analisam a nova ordem fundada na sociedade dainformação: sua mercantilização, sua eticidade, seus múltiplos objetos, suas técnicas e 34
  34. 34. seus mecanismos de construção de realidades, suas mediações. Trata-se de fato da afetação de formas de vida tradicionais por uma qualificação de natureza informacional, cuja inclinação, no sentido de configurar discursivamente o funcionamento social em função dos vetores mercadológicos e tecnológicos, é caracterizada por uma prevalência de forma (que alguns autores preferem chamar de “código”; outros, de “meio”) sobre os conteúdos semânticos. (SODR? In: MORAES, 2006, p.21). Para Muniz Sodré, a midiatização é mediação social prevalente no mundo atual comautonomia e espaço particular. Ela tem como objeto fundante a interatividade contínua,articulando-se em múltiplas formas híbridas com as várias organizações sociais, todas elasorganicamente articuladas em suas finalidades mercadológicas. A midiatização promoveo reflexo do real, que é aquele preconizado pela própria tecnologia. As discussões apresentadas, algumas recorrentes em estudos da comunicação,representam passagens de pesquisas que podem enriquecer diálogos em estudos daformação social e da constituição de indivíduos nestas interações, nota-se nos exemplosdados da indústria cultura ou mesmo da midiatização que o dialogismo com estesconhecimentos é enriquecedor para o estudo da comunicação e da sociedade. Para utilização da semiótica discursiva (ou da filosofia da linguagem, ou métododialógico) para realização de um estudo com rigor científico, é necessário compreenderque é na linguagem que o homem existe no mundo e é pela comunicação que ele interagecom os outros seres humanos e com o próprio mundo. A linguagem é o começo e o fim de 35
  35. 35. todas as realizações, que só têm sentido na própria linguagem. Compreendemos o mundo,os sujeitos, os acontecimentos, a vida, os tempos históricos pelos signos impressos emcadeias discursivas, seja na comunicação midiada ou na comunicação face-a-face. A comunicação e a própria sociedade tem na linguagem um ponto comum paraa análise e a interpretação em estudos elaborados. Bakhtin (1995) especifica que alinguagem é produto material da criação ideológica, negando a interpretação da ideologiacomo falsa consciência, pois: um produto faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. (BAKHTIN, 1995, p.31). Bakhtin demonstra como este sentido dado ao signo carrega o peso da ideologia,objetivando uma relação materializada, neste caso, na imprensa, a comunicação socialjornalística, com os signos materializados numa interação comunicativa, refletindo erefratando (como um resultado) uma realidade social. O signo ganha mais complexidade na comunicação, neste movimento tambémexiste a dialogia e evidencia as alteridades dos sujeitos, apresentando-se de forma diversa,orientando-se para uma dinâmica de fluxo interacional de “totalidades” sócio-históricasem sua integração, em sua funcionalidade ideológica e de construção, produção e 36
  36. 36. circulação de sentido de ordem estética, ética e cognitiva. Os discursos promovidos pelaforma e pelo conteúdo da comunicação ou comunicação social dialogam entre si e, ossignos envolvem-se na interação, possibilitando múltiplas relações de alteridade. O campoepistemológico é o do plurilinguismo e o da pluridiscursividade, dos múltiplos eus e nós. A filosofia da linguagem de Bakhtin não esclarece a alteridade como diferença oucomo par antagônico do eu. Não estabelece também ordenação, combinação de ordemvalorativa ou normativa. O significado da alteridade ocorre entre o eu e o outro comointeração em que ambos se incluem mutuamente. As relações recíprocas se definem natríade eu-para-mim, no outro-para-mim e no eu-para-o outro, como ação concreta, ato emrealização que requer compreensão responsiva e assunção responsável (responsabilidade)de ordem ética e cognitiva. Nesse movimento, os sujeitos participam ativamente dainteração, experienciam o mundo em ação situada, avaliativa e valorada. O método de estudo da comunicação e da sociedade centrado na semióticabakhtiniana, ou filosofia da linguagem, tem o signo ideológico como determinantena interação e na socialização do homem, e mais ainda, propulsor da ação materialque transforma o próprio homem e a natureza. Os signos assumem forma e conteúdo,conduzindo o sentido para a materialização dos movimentos da comunicação. Esta lógicaé observada na comunicação contemporânea, por exemplo, a jornalística, que é submissaàs relações que a “empresa” jornalística estabelece tendo em vista seus interesses privados.Para estabelecer uma discussão sobre a lógica do modelo de comunicação existente 37
  37. 37. deve-se considerar a multiplicidade de teorias sobre a comunicação. É importante aindaconsiderar as esferas de criatividade ideológica e os campos sociais envolvidos, um estudomais virtuoso da comunicação passa necessariamente por um estudo da multiplicidadeenvolvida, um estudo da sociedade, sejam eles do conhecimento do objeto de seu estudoou de sua própria realidade, comunicação social e sociedade. O conceito de esfera da comunicação discursiva (ou da criatividade ideológica, ou da atividade humana, ou da comunicação social, ou da utilização da língua, ou simplesmente da ideologia) está presente ao longo de toda a obra de Bakhtin e de seu Círculo, iluminando, por um lado, a teorização dos aspectos sociais nas obras literárias e, por outro, a natureza ao mesmo tempo onipresente e diversa da linguagem verbal humana. (GRILLO In: BRAIT, 2006, p.133-134). Os signos materializados nas esferas/campos sócio-históricos (jornais, círculossociais) refratam e refletem as marcas de sua própria materialidade sígnica. No domínio dos signos, isto é, na esfera ideológica, existem diferenças profundas, pois este domínio é, ao mesmo tempo, o da representação, do símbolo religioso, da fórmula científica e da forma jurídica etc. Cada campo da criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua maneira. Cada campo dispõe de sua própria função no conjunto da vida social. (BAKHTIN, 1995, p.33). Para o estudo da sociedade o campo da comunicação social – ou mais 38
  38. 38. especificamente do jornalismo – carrega a materialização de relações sociais em seussignos, envolve esferas como da produção jornalística e de interesses privados, dacomunicação e da política, e uma possibilidade de entendimento de momentos históricos,uma vez que a sociedade é um campo dialógico da comunicação social. Eixo central do pensamento baktiniano, o dialogismo (relações discursivas entrehomem-mundo, homem-natureza e sujeito-objeto do conhecimento) ocorre entrediscursos que interagem na comunicação e, nessa interação, produzem o movimento dasignificação. “O discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussãoideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipaas respostas e objeções potenciais, procura apoio etc.” (BAKHTIN, 1995, p. 123). Atravésda linguagem, os discursos são produzidos em condições específicas (enunciação),estabelecendo formas num intercurso social (enunciados) que, além de instaurar relaçõesentre o eu e os outros, veicula o universo ideológico. O movimento dos enunciados/enunciação é constante, não sendo apenas uma falaface a face ou em monólogo do “interior” do sujeito, pois “a situação e o auditório obrigamo discurso interior a realizar-se em uma expressão corrente, e nele se amplia pela ação,pelo gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes na situação de enunciação”(BAKHTIN, 1995, p. 125). O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados, aos quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunicação 39
  39. 39. verbal. O enunciado deve ser considerado acima de tudo como resposta a enunciados anteriores dentro de uma dada esfera: refuta-os, confirma-os, completa-os, baseia-se neles, supõe-nos conhecidos e, de um modo ou de outro, conta com eles [...] Os enunciados não são indiferentes uns aos outros, nem auto-suficientes; são mutuamente conscientes e refletem um ao outro... Cada enunciado é pleno de ecos e reverberações de outros enunciados, com os quais se relaciona pela comunhão da esfera da comunicação verbal. (BAKHTIN, 1992, p.316). No dialogismo percebe-se que todo enunciado refuta, confirma, complementa edepende dos outros, levando em consideração o outro. O lugar onde brota o discurso oua enunciação está determinado por uma situação social imediata independentementeda existência real do interlocutor. O meio social concreto propicia a emissão de discursos,tendo em vista um horizonte social do outro da classe social do contexto histórico detal sorte que os discursos irão se aproximar “do auditório médio da criação ideológica”sem “ultrapassar as fronteiras de uma classe e uma época bem definidas” (BAKHTIN,1995, p.113). Para Bakhtin, “a situação social mais imediata e o meio social mais amplodeterminam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estruturada enunciação” (BAKHTIN, 1995, p.113). Compreende-se as enunciações quando “reagimosàquelas (palavras) que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida”.(BAKHTIN, 1995, p. 95). Produzido em uma realidade material concreta, o sujeito é o ser dodiscurso, em uma condição sócio-histórica; com uma individualidade condicionada ao eue ao outro, integrados em uma cadeia semiótica (sígnica) no contexto mediato e imediato, 40
  40. 40. sujeitos situados em devir e sustentados na alteridade.Como o dialogismo é também oprincípio gerador da linguagem e da produção de sentido do discurso, todos os discursosempreendem o dialogismo “retrospectivos e prospectivos com outros enunciados/discursos” (SOBRAL. In: BRAIT, 2005, p.106). O sujeito descentralizado, interativo, forma asua consciência pela cadeia ideológica. Essa cadeia ideológica estende-se de consciência individual em consciência individual, ligando umas às outras. Os signos só emergem, decididamente, no processo de interação entre uma consciência individual e uma outra. E a própria consciência individual está repleta de signos. A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, conseqüentemente, somente no processo de interação social (BAKHTIN, 1995, p.34) Trata-se de uma cadeia de significação de aproximação entre um signo e outro, ououtros signos conhecidos, ocorrendo a compreensão pelo seu próprio encadeamento. E essa cadeia de criatividade e de compreensão ideológicas, deslocando-se de signo em signo para um novo signo, é única e contínua: de um elo de natureza semiótica (e, portanto, também de natureza material) passamos sem interrupção para um outro elo de natureza estritamente idêntica (BAKHTIN, 1995, p.34). A cultura, com seus universos de discursos e suas diferentes materialidadesideológicas, está em um constante fluxo de sentido, com conexões e movimentos em 41
  41. 41. cadeias interdiscursivas que estão entre a ideologia do cotidiano e os sistemas ideológicosjá cristalizados e constituídos (moral, ciência, arte e religião) (BAKHTIN, 1999, p.119). Para Bakhtin, o embate ideológico localiza-se no centro vivo dos discursos, seja na forma de um texto artístico, seja com intercâmbio cotidiano da linguagem. Na vida social do enunciado (seja ela uma frase proferida verbalmente, um texto literário, um filme, uma propaganda ou um desfile de escola de samba), cada “palavra” é dirigida a um interlocutor específico numa situação específica, palavra essa sujeita a pronúncias, entonações e alusão distintas. (STAM, 2000, p.62). Na interação social, o intercurso da pluralidade sígnica abrange comunidadessemióticas que têm funcionalidades específicas. Essas funcionalidades, contudo, pelaprópria plurivalência dos signos (inúmeros valores que se entrecruzam em um únicodiscurso), permite a construção de uma identidade que é por esses signos, construídatanto quanto a fluidez dessa identidade em suas múltiplas refrações (BAKHTIN, 1995, p. 33-34). No movimento histórico de formação identitária, o sujeito não se estabelece de modounivocamente distinto, particular. Ao contrário, se estabelece em vir-a-ser, constantementese refazendo (SOBRAL In: BRAIT, 2005, p.105). Esse aspecto é pouco perceptível parao próprio sujeito por estar em constante interação com o outro, acreditando que esseoutro não faz parte de si mesmo. Assim, a filosofia da linguagem ou semiótica discursivapermite, através da alteridade, compreender a relação dialógica dos discursos em suascombinações de ordem valorativa e normativa. Com seus sentidos refratados e refletidos 42
  42. 42. em formas e conteúdos em tempo e espaço objetivados numa dinâmica fluida; paraBakhtin, este sistema é aberto e não absolutiza e nem relativiza axiologicamente o devirhumano. O sentido refratado e refletido signicamente tem nas marcas ideológicas amaterialização das esferas e dos campos sociais, demonstram objetivamente a formadialógica determinada por um horizonte social de uma época (espaço/tempo) e de umgrupo social que carrega um índice de valor (conteúdo) (BAKHNTIN, 1995, p. 44). Juntos,forma e conteúdo, na interação social, produzem sentido ideológico que, na sua época,axiologicamente tenciona as tramas das diversas esferas ideológicas e dos campos sociais.O jornal acolhe esferas ideológicas que estão em constante tensão: o jornalista, os editores,os publicitários que querem tornar o jornal vendável, os donos do jornal que procuramo lucro. Outros campos sociais apresentam interferência significativa no conteúdo e naforma da comunicação social do jornal, como o campo político e o campo dos leitores,cada qual também com diversas esferas de criatividade ideológica produzindo refrações,condicionando o horizonte social e os índices de valores que determinam a comunicaçãosocial e, portanto, a forma e o conteúdo dos jornais. Para compreender como o signo é resultado de um consenso da interação social,“razão pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social detais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece” (BAKHTIN, 1995, p.44),é necessário estudar a ideologia como fator que influencia as relações entre os signos e 43
  43. 43. indivíduos. “é apenas sob esta condição que o processo de determinação causal do signopelo ser aparece como uma verdadeira passagem do ser ao signo, como um processo derefração realmente dialético do ser no signo” (BAKHTIN, 1995, p.44). Bakhtin apresentacomo questão indispensável para compreensão da ideologia no signo: 1. Não separar a ideologia da realidade material do signo (colocando-a no campo da “consciência” ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível). 2. Não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto físico). 3. Não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material [...]. (BAKHTIN, 1995, p.44). Adail Sobral, em Filosofias (e Filosofia) em Bakhtin, especifica que os intelectuaisdo Círculo de Bakhtin, no conceito da unidade singularidade/generalidade, propunhama análise de objetos de estudo mediante “procedimentos” que contemplassem a“identificação e explicação de relações (não dicotômicas) entre elementos dos objetosestudados” (SOBRA. In: BRAIT, 2005, p. 137). O estudioso destaca entre elas a) forma-conteúdo-material; b) resultado-processo; c) material-organização-arquitetônica; d) individual-interação entre indivíduos; e) cognição-vida prática; 44
  44. 44. f ) universalidade-singularidade; g) objetividade (o real concreto) – objetivação (a manifestação semiótica da objetividade); h) estética/ética/cognição (esta última em termos de conhecimento, não de processo cerebral). (SOBRAL In: BRAIT, 2005, p. 137). Esses movimentos apresentados acima são fundamentais para a semióticadiscursiva, variáveis indispensáveis para que no estudo científico exista uma passagem doconhecimento abstrato para um conhecimento concreto, materializado em uma realidadehistórica e social. Exemplo destes movimentos é a demonstração que, mantendo-se aunidade conteúdo-forma, acrescenta-se a “natureza do material” e os “procedimentos porele condicionados” (BAKHTIN, 2003, p.177-178). A forma é dependente do conteúdo e domaterial. Nos signos ideológicos, o objetivo é o conteúdo. Este conteúdo ético-cognitivoserá enformado e concluído, subordinando o material ao próprio objetivo. Concluirimplica a subordinação do material e alcançar o objetivo ético-cognitivo ou “tensão ético-cognitiva”. Há necessidade de superar o material na tarefa comunicativa. Neste estudo pode-se entender então, que no jornalismo, superar a linguagem(técnica jornalística) afim de um sentido, ou a superação da própria língua para a conclusãode um discurso, evidencia a obediência de uma lógica criativa, “uma lógica imanente dacriação”, com os valores da produção de sentido, o contexto do “ato criador”. [...] antes de tudo precisamos compreender a estrutura dos valores e do 45
  45. 45. sentido em que a criação transcorre e toma consciência de si mesma por via axiológica, compreender o contexto em que se assimila o ato criador. A consciência criadora [...] nunca coincide com a consciência lingüística, a consciência lingüística é apenas um elemento, um material [...]. (BAKHTIN, 2003, 179). O conteúdo apresenta os elementos do mundo, da vida, forjado em parâmetroséticos e cognitivos. Interligado à forma, conteúdo e forma são mutuamente condicionados,produzindo sentido na própria criação. Aquele que cria é o artista e a arte (no caso destapesquisa, é o jornalista que apresenta um discurso, uma visão, uma realidade materializadano jornal). A atividade estética (acabada na obra jornalística) agrega sentidos de formaacabada, e auto-suficiente. Trata-se de um ato que passa a existir em um novo campoaxiológico (o jornal), num devir da interação comunicativa. Assim, também o materialcondiciona-se com forma e conteúdo, em que o signo é o meio de expressão; numa“lógica imanente da criação”, o material deve ser superado, aperfeiçoado num contextode criação em que forma e conteúdo revelam o signo em sua superação. De um contextofactual, para a interpretação jornalística, revelado nas páginas de um jornal em outraforma (uso das técnicas jornalísticas) com conteúdos que provocam a “tensão” entre ocriador e este contexto de criação.Considerações finais A exemplificação do método semiótico discursivo, ou da filosofia da linguagem, 46
  46. 46. de bases bakhtinianas é um estudo mais abrangente e que envolve diversas outrascategorias deste filósofo. ? importante compreender, seja no estudo da comunicação, sejano estudo da sociedade ou até mesmo no método ora discutido, que agir no mundo,seja nesta pesquisa ou na vida, trata-se de um movimento aberto, inacabado e em eternodevir, um movimento histórico que valoriza dialógicamente a diferença, os vários outros,como correntes diversas de pensamento, que de forma alguma podem ser descartadas. Bakhtin, com o dialogismo, a alteridade e a potencialidade do signo ideológico,rompe como o cartesianismo e o positivismo, sem nunca negar o dialogismo e a relaçãode alteridade de sua própria pesquisa com estes conhecimentos. Ele demonstra acomunicação como um movimento: nele as consciências individuais interagem com outrasconsciências individuais, num movimento que ganha em complexidade e dinamismoquando o conteúdo e a forma desta comunicação são observados como signos, que, porsua vez, também possuem forma e conteúdo ideológicos em constante interação a partirde esferas e de campos específicos evidentes em múltiplos discursos (BAKHTIN, 1995,p.31-38). Observa-se, na complexidade jornalística, além de seu conteúdo, a forma queorganiza os componentes apresentados, signos que compõem o discurso na comunicação,seja em palavras, imagens, cores ou sons, todos, conteúdo e forma sígnica da comunicação.A comunicação é instrumento de existência social, conteúdo como linguagem e processo,e forma, como movimento estético efetivado nas relações, um acontecimento material 47
  47. 47. que busca ser interpretado pelas assim chamadas teorias da comunicação. Acontecimentoque carrega a alteridade do homem como fator fundamental de um movimento que, pelalinguagem, dá ao signo sentido e existência ideológica. O homem – num entendimentoque não se deixa levar por um reducionismo economicista – é um ser social imerso nestadinâmica, pois, Para entrar na história é pouco nascer fisicamente: assim nasce o animal, mas ele não entra na história. ? necessário algo como um segundo nascimento, um nascimento social. O homem não nasce como um organismo biológico abstrato, mas como fazendeiro ou camponês, burguês ou proletário: isto é o principal. [...] Só essa localização social e histórica do homem o torna real e lhe determina o conteúdo da criação da vida e da cultura (BAKHTIN, 2004, p. 11). Para Bakhtin, o papel contínuo da comunicação, a consolidação do signo ideológicona materialidade deste movimento, não aparece em lugar algum de forma mais clara doque na própria comunicação. O entendimento da realidade material nos vários camposda sociedade da informação implica no reconhecimento da materialidade ideológicado signo e do papel fundamental da semiótica como instrumento metodológico depesquisa, de análise e de exposição de dados sustentada nos parâmetros da filosofia dalinguagem. A arquitetônica do conhecimento semiótico incorpora dialogicamente o movimentohistórico e as condições de elaboração de epistemes no movimento de transformaçãocontínua, na dinâmica das forças vivas sociais que se determina ética e esteticamente. 48
  48. 48. Bakhtin une dialogicamente sua fundamentação do signo ideológico e da alteridade dasrelações sociais com essa arquitetônica vinculada a diversas categorias conceituais, comodialogismo, cronotopo, exotopia, polifonia, palavra, esfera, campo, enunciação, ética,estética, entre outras. As potencialidades da filosofia da linguagem, da semiótica discursiva, proporcionamrecursos teóricos e metodológicos para o estudo da comunicação e sua complexidade nasociedade contemporânea, seja por um viés epistemológico, ético, estético ou ontológico,além de permitir por meio do dialogismo, a construção de sínteses ricas e concretas deconhecimento, seja sobre o jornalismo ou a própria sociedade.Bibliografia consultadaBAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.BAKHTIN, Mikhail. Discurso na vida e discurso na arte: sobre a poética sociológica.In: Freudism – a marxist critique. Tradução de FARACO, C. e TEZZA, C. (UFPR) para finsdidáticos. New York: Academic Press, 1976.BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995.BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999. 49
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  51. 51. Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede Globo1 Ariane Carla PEREIRA2 Márcio FERNANDES3 Chegar em casa, depois de um dia de trabalho, sentar no sofá em frente à TV e ligar oaparelho com a ajuda de um controle remoto. Essa maneira tradicional de assistir televisão,em breve, deixará de ser a única, depois de quase três décadas. Afinal, desde dezembrode 2007, emissoras brasileiras começaram a implantar a chamada TV de Alta Definição, aHDTV. Digitalização que já implica para quem produz conteúdo formas diferentes de sefazer televisão e que significará, mais uma vez em pouco tempo, mudanças para quemestá no outro lado da telinha, o telespectador. A TV digital não significa apenas um monitor/aparelho diferente na sala das casas.O televisor sim já está muito diferente – a tela quase quadrada (4x3) da TV convencionaltem no sistema digital proporções de um retângulo, 16x9, (e isso implica também um1 Texto-base originalmente apresentado no Intercom Sul 2009. realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Jornalista profissional, mestre em Letras, professora efetiva do Departamento de Comunicação Social da Uni-centro e membro do grupo de pesquisa Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos. Em 2008 e 2009, partici-pou do Seminário Globo-Intercom.3 Jornalista profissional, mestre em Comunicação e Linguagens, professor efetivo do Departamento de Comu-nicação Social da Unicentro e membro do grupo de pesquisa Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos. Em2007, participou do Seminário Globo-Intercom. 52
  52. 52. fazer diferente, assunto que trataremos adiante); além disso, o velho tubo de imagemresponsável pelo televisor grandão e pesado some e as TVs ficam leves e finas, podendoser confundidas com quadros na parede. A TV digital significa, sobretudo, alta definição de imagens. E isso representa devez a aposentadoria de um acessório já algum tempo em crescente desuso: as antenas.As imagens com chuviscos, tremidas, com interferências, têm dias contados, restandopara muitos as memórias dos anos 80, quando um pedaço de esponja de aço era recursosessencial para bem captar determinado programa em certos horários debaixo de umtemporal lá fora. Historicamente, esse método agora ultrapassado é resultado de umsistema que precisa de antenas e torres e que, entre elas, sempre encontra pelo caminhoobstáculos naturais – como morros – ou construídos pelos homens – arranha-céus entreeles. Com a mudança, a transmissão deixará para trás esse problema já que o sinal serádigital, em bits, garantia de imagem limpa, em “alta definição”, para utilizar um jargãocomum no noticiário nos últimos anos. Porém, a alta definição é apenas uma das promessas da Era Digital. Mobilidade,portabilidade e interatividade são palavras-chave nesse novo conceito imagético, nessanova maneira de se fazer e de se ver televisão. E é sobre isso que trataremos no tópico aseguir. 53
  53. 53. As possibilidades da TV digital A história da Televisão enquanto mídia (meio de comunicação), desde sua origematé a contemporaneidade, pode ser dividida, sobretudo para efeitos de análise, em trêsestágios/períodos. O primeiro deles tem início com a origem da TV (ainda no século 19)e vai até a década de 1970. É a época em que o veículo TV se caracteriza pelo númeroreduzido de canais cujas concessões, espécie de permissão para explorar o serviço deradiodifusão, eram concedidas pelo governo federal. A justificativa para esse “modelo” de televisão era a limitação do espectro, já que asfaixas de transmissão comportavam um número definido de canais. Fator que, segundoGalperin (2003, p. 13), resultou/originou nos/os oligopólios de Comunicação. Outroponto a ser destacado sobre as concessões é que em troca delas os governos exigiama exibição de programas de prestação de serviços – como os de conteúdo educativo,informativo ou político. Neste período, uma certa distinção quanto às receitas financeirasdivide os Estados Unidos e a América Latina da Europa, por exemplo. Enquanto que, noVelho Mundo, a fonte prioritária era o Estado (basta citar o caso da Itália), na América eraa iniciativa privada quem bancava o sistema. A década de 1970 é marcada também por uma série de evoluções tecnológicas queresultaram numa “revolução” na já revolucionária televisão. São deste segundo períododa TV, embora tenham se consolidado na década seguinte, as TVs a cabo e por satélite.“Modelos” que marcam o segundo estágio da televisão e que exigiram nova regulação. 54
  54. 54. Afinal, o número de canais aumentou consideravelmente; a programação passou a ser maissegmentada, dirigida a um público menor, porém mais identificado com o canal. Enquantoos canais da primeira etapa transmitem seus sinais gratuitamente, aqui inaugura-se umnovo negócio baseado na assinatura de pacotes de programação. Ao contrário dos anosanteriores, quando a TV era um serviço público, as concessões adquirem caráter privadoe são os transmissores que controlam o conteúdo. Em âmbito internacional, empresascomo MTV e CNN se sobressaem neste cenário da segmentação. O terceiro estágio evolutivo da televisão é o da TV digital – ou seja, a produção,transmissão e recepção digital dos sinais audiovisuais. As pesquisas para essa nova erada TV tiveram início no final dos anos de 1980 e se consolidaram na década seguintequando foram lançados os dois primeiros padrões, o americano (ATSC) e o europeu (DVB).O terceiro padrão (ISDB) acabou tornado público em 2003, pelo Japão – país que deu opontapé inicial nas pesquisas para uma TV de alta definição. Televisão digital essa que é considerada o início de uma nova era na relaçãoemissoras-telespectadores, uma revolução nas maneiras de se fazer e se ver TV. Issoporque as diferenças deste novo sistema – quando comparado ao tradicional, analógico –são muitas, perceptíveis e inovadoras. A vantagem mais facilmente percebida e discutida da transmissão em sistemadigital é a conservação da qualidade do sinal. O número de linhas horizontais nos canaisreceptores, nos atuais sistemas analógicos, não passa de 330. Por isso, a ocorrência de 55
  55. 55. de interferências e ruídos, os conhecidos chuviscos e “fantasmas”. Na transmissão digital,a imagem recebida pelos aparelhos tem 1080 linhas de definição. Além disso, no novosistema, os sinais de som e imagem são representados por uma seqüência de bits, e nãomais por uma onda eletromagnética análoga ao sinal televisivo. Isso impacta diretamentena qualidade da imagem que vemos na TV. Outro fator a implicar em perda da qualidade da imagem na TV analógica é ainterferência de um canal sobre outro. Ou seja, quando as freqüências são muito próximasos sinais de dois ou mais canais podem se misturar, mesclar. Nos televisores isso é facilmentepercebido. Quem ao sintonizar os canais de um aparelho já não se deparou com umcanal/emissora funcionando bem num certo número, e em outros esse mesmo sinal serperceptível através de imagem ou áudio com interferências, ruídos? Com a implantaçãoda TV digital isso não continuará ocorrendo. Os sinais de cada emissora serão transmitidosapenas em seu respectivo canal. Com isso, os canais vagos poderão ser ocupados. Ainda em relação a imagem, não é possível comparar os sistemas analógico e digitalsem tratar do formato desta e, conseqüentemente, dos televisores. Na tradicional, a telatem proporção de 4x3, mais quadrada, enquanto na HDTV esta relação é de 16x9, maisretangular, o que impacta – sobretudo – na produção televisiva. Afinal, a composição dascenas implica numa nova estética, num olhar novo para a definição também de quadrose ângulos. Outra vantagem técnica e de sinal da TV digital é a possibilidade de compactação 56
  56. 56. deste. Na tecnologia analógica, os sinais não podem ser comprimidos ou compactados.Ou seja, cada pixel precisa estar incluído no sinal, totalizando 378 mil pixels por quadro,o que ocupa todo canal de 6 MHz disponível no sistema brasileiro. Já os sinais datransmissão digital podem ser compactados e, conseqüentemente, não há necessidadede utilização de toda a banda na transmissão. Isto resulta na possibilidade de que maisconteúdo seja veiculado por cada banda. Ou seja, uma banda que hoje comporta umcanal – que representa uma emissora, ou seja, um conteúdo ou programação – de TV,poderá, com a digitalização, transmitir o sinal de até quatro canais, emissoras, conteúdosou programações diferentes simultaneamente. Porém, as diferenças ou vantagens da TV digital, numa comparação com atelevisão analógica, vão além do sinal e da imagem. E neste ponto residem as inovaçõesmais profundas permitidas pelo sistema em gestação e, também, onde se encontram asmaiores expectativas e promessas. E aqui as palavras-chave são portabilidade, mobilidadee interatividade. A interatividade é uma das características mais festejadas da TV digital. Afinal,significa, em tese, o fim da unilateralidade nas transmissões televisivas. Ou seja, o assistirtelevisão deixa de ser um ato passivo, e o telespectador se torna um agente nesseprocesso, podendo com apenas um toque no controle remoto interagir com a emissora.As possibilidades com abertura desse “canal” são inúmeras. O telespectador votar emprogramas como realitys shows, responder a testes, participar de debates, acessar mais 57
  57. 57. informações sobre o conteúdo (programa, por meio de um banco de dados web conectadoà própria TV) e comprar – desde produtos anunciados nos intervalos comerciais até aroupa da apresentadora do telejornal ou o lençol que aparece numa das cenas da novela.De um modo geral, tais possibilidades já marcam o dia-a-dia dos brasileiros, embora seprocessem não através do próprio aparelho de TV e sim a partir de uma segunda mídia, ocomputador conectado a internet. Mobilidade e portabilidade se complementam e são recursos que ainda engatinhamno cotidiano verde-amarelo. Portabilidade, de seu turno, diz respeito a recepção –gratuita - dos sinais, em formato digital, das emissoras de TV abertas em equipamentoscomo laptops, celulares, televisores portáteis. Já a segunda refere-se a recepção daprogramação por esses mesmos aparelhos mesmo com eles em movimento – o quesignifica a possibilidade de acompanhar a novela, o telejornal ou o filme caminhando, nocarro, no trem ou no ônibus.A digitalização da TV Globo: observações dos Seminários Globo-Intercom 2007 e2008 Um quadro geral de perspectivas e expectativas dominou a parcela sobre TVDigital do seminário de 2007, cujo tema central era a gestão da Indústria do Audiovisual,especificamente a Rede Globo de Televisão. Um vídeo lúdico, apresentado por ZecaCamargo (âncora do dominical Fantástico), apresentava à platéia docente as diferenças 58
  58. 58. técnicas previstas para paulatinamente entrarem em vigor (e que, no seminário de2008, já tinham desdobramentos mais nítidos) – entre elas a necessidade de um melhoracabamento da cenografia e cuidados redobrados com a iluminação, já que, no esquemaHTDV, o suor de determinado ator, durante as gravações de uma novela, minissérie ousoap opera, por exemplo, se tornaria/tornará mais evidente ao telespectador, algo que,esteticamente, faz parte do rol de abominações dos manuais de TV. E, se em 2008 (como se verá nas linhas a seguir), o quadro ainda era de preocupação/indefinição, tal cenário era mais notório no evento do ano passado. No braço jornalísticodo grupo Globo, o mote de discussões sobre os impactos da HDTV se centrava nos custosdos equipamentos e de logística. Uma unidade móvel de alta definição, ponderaramdirigentes da emissora em diversos momentos do Seminário, tem custo-padrão previstopara os próximos anos na casa de alguns milhões de dólares, dependendo da complexidadeexigida para determinada transmissão. Outro item de discussão na edição de 2007, a partir de ganchos lançados porOctávio Florisbal, diretor geral da TV Globo, logo na conferência de abertura do congresso(ainda na sede do bairro Jardim Botânico), era a perspectiva de que a massificaçãoda HDTV seria um processo de pelo menos 10 anos. Dito de outro modo, a TV de altadefinição tenderia a ser um negócio comercialmente viável em larga escala por volta de2018, quando boa parte do território brasileiro estaria coberto pelo novo sistema, coma maior parcela da população já tendo equipamentos adequados à disposição em suas 59
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