Jornalismo Reflexivo
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

Like this? Share it with your network

Share

Jornalismo Reflexivo

on

  • 4,311 views

Jornalismo Reflexivo - visões teórico-metodológicas de autores do sul brasileiro. São Paulo: Intercom e-livros, 2010

Jornalismo Reflexivo - visões teórico-metodológicas de autores do sul brasileiro. São Paulo: Intercom e-livros, 2010

Statistics

Views

Total Views
4,311
Views on SlideShare
4,310
Embed Views
1

Actions

Likes
1
Downloads
42
Comments
0

1 Embed 1

http://www.slashdocs.com 1

Accessibility

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

Jornalismo Reflexivo Presentation Transcript

  • 1. Conselho Editorial INTERCOM Jornalismo Reflexivo Visões teórico metodológicas de autores do sul brasileiroDiretor EditorialOsvando J. de Morais Organização Ariane PereiraPresidente Marcio FernandesRaquel Paiva (UFRJ) Capa, projeto gráfico e diagramaçãoMuniz Sodré (UFRJ]) Letícia FutataMaria Teresa Quiroz (Universidade de Lima/Felafacs)José Manuel Rebelo (ISCTE, Lisboa) São Paulo, maio de 2010Luciano Arcella (Universidade d’ Aquila, Itália) ISBN 978-85-88537-54-5Alexandre Barbalho (UFCE) Alguns direitos reservados. Venda proibida.Moha Hajji (UFR)Márcio Guerra (UFJF)Marialva Barbosa(UFF)Luís C. Martino (UNB)Nelia Del Bianco (UNB)Pedro Russi (UNB)Etienne Samain (UNICAMP)Norval Baitello (PUCSP)Olgária Matos (UNISO)Paulo Schettino (UNISO)Giovandro Ferreira (UFBA)Ana Silvia Medula (UNESP Bauru)Juremir Machado da Silva (PUCRS)Erick Felinto (UERJ)Alex Primo (UFRS)Christa Berger (UNISINOS)Afonso Albuquerque (UFF)Cicilia M. Krohling Peruzzo (Univ. Metodista) 2
  • 2. sumárioPrefácio .......................................................................................................................................................................................................... 5Apresentação Geral ................................................................................................................................................................................... 8Apresentação Parte I ............................................................................................................................................................................... 12Algumas idéias de Paulo Freire e a responsabilidade social do jornalista .............................................................................15A semiótica discursiva no estudo do jornalismo e da sociedade ............................................................................................ 31Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede Globo ............................................. 52A percepção dos universitários da UFSC sobre o Jornalismo - uma abordagem quantitativa ..................................... 67Mercado de Trabalho:o que querem os jornalista formados em 2008, nas universidades estaduais do Paraná? ............................................. 91Da esfera pública ao Ciberespaço: reflexões sobre o futuro do jornalismo na Internet ................................................ 103A (IN)volução do meio impresso e a (RE)invenção do público-leitor na Era do “MEU JORNAL DIÁRIO” ................. 127 3
  • 3. Apresentação Parte II ........................................................................................................................................................................... 137Para quem quer viver mais e melhor: o enquadramento pedagógico darevista Vida Simples .................................. 141A Amazônia, uma capa, um anúncio e três leituras ................................................................................................................... 165Os editores de moda “em revista”: um estudo de caso sobre o site Erika Palomino e a revista Elle .......................... 188A notícia de moda na web: um breve panorama ........................................................................................................................ 213O site como espaço da autorreferencialidade do jornalismo televisivo:o caso do Programa Globo Rural ...................................................................................................................................................... 240O medo no telejornalismo brasileiro: um estudo do caso João Hélio ................................................................................. 258O João Goulart de Silvio Tendler:uma análise do acontecimento jornalístico golpe militar no filme Jango ......................................................................... 287Entre a lança e a prensa: Conhecimento e Realidade no discurso do jornal O Povo (1838) ......................................... 314“Todo compositor brasileiro é um complexado”:Anonimato e fama de Tom Zé na mídia impressa especializada ........................................................................................... 338The Beatles Setting the Agenda:Considerações Sobre a Cobertura Jornalística da Beatlemania na Inglaterra .................................................................. 360Midiatização de imagens: entre circulação e circularidade .................................................................................................... 382 4
  • 4. prefácio Aprendendo e ensinando O e-book ganha cada vez maior importância entre nós. Num país onde se lêpouco, e onde, na maioria das vezes, a desculpa é o alegado alto preço do livro, o e-bookganha uma significação social extremamente grande: vai evidenciar que a nossa falta dehábito de leitura, baseada no alto preço, é apenas desculpa. Mas vai possibilitar, por outrolado, àqueles que realmente, não apenas lêem quanto gostam de pesquisar, o encontrode textos variados, que poderão ser, primeiro visualizados e depois impressos apenasnaquelas partes que interessarem mais diretamente ao leitor. No caso desta antologia, ela ganha uma importância maior ainda: resulta de umtrabalho coletivo, de um debate aberto, da persistência de jovens pesquisadores e de umconjunto de reflexões a respeito do jornalismo, extremamente importante, sobretudo nomomento em que, como se afirma logo na abertura do volume, o ensino universitário damatéria está sendo contestado e humilhado. Além de professor, sou, fui e continuarei sendo jornalista. Não somos melhores,mas somos diferentes. Temos nossas idiossincrasias, mas assumimos, sobretudo, nossasresponsabilidades. Responsabilidades junto à sociedade. 5
  • 5. É sobre este conjunto de responsabilidades que, em última análise, estes trabalhosfalam. São resultado de esforços de pesquisadores iniciantes, em boa parte. Sua divulgaçãovai facilitar o conhecimento, mas vai, também, servir de incentivo a seus autores. Tive a oportunidade de assistir à exposição de vários deles, ao longo das sessõesda Divisão temática sobre jornalismo, ao longo do Congresso Regional-Sul da INTERCOM,uma das instâncias de pesquisa que a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinaresda Comunicação promove junto a professores e jovens estudantes, desde a Graduação,até o Doutorado. A lembrança que me ficou foi a imagem de jovens ainda inseguros,mas entusiasmados, felizes por poderem repartir com os colegas as suas descobertas.Ávidos para receberem sugestões. Ansiosos para ouvirem comentários. Depois daquelasexposições, em que cada um se esmera em mostrar até onde foi capaz de chegar,atingimos esta nova etapa: ter os textos divulgados para serem ainda uma vez avaliados eatingirem um público absolutamente inimaginável. Agora, a partir desta circulação, cadaum deles pode começar a se considerar, efetivamente, um autor. Basta pensar que, umavez publicado e colocado na rede mundial de computadores, cada vez que clicarmos emum de seus nomes, ou indicarmos algum tema determinado, um desses artigos poderáser acessado: gratuitamente, em sua totalidade, sem censura, num processo de circulaçãojamais pensado há cerca de meio século. O conjunto dos textos é variado. Mas é importante. Mostra um determinadomomento da pesquisa brasileira. Daqui a algum tempo talvez esteja ultrapassado. Mas 6
  • 6. ficará sempre como documento de um processo mais amplo, que é o da aprendizagem. Avariedade dos temas atesta a importância desses estudos. Por trás de cada autor, aluno ouprofessor, estão horas de pesquisa, de estudo, de reflexão. O texto daí resultante, por seulado, poderá vir a gerar novos processos, outras idéias, sugestões variadas. A INTERCOM vem, há mais de trinta anos, promovendo esta troca dinâmica,permanentemente realimentadora da reflexão sobre a comunicação social em geral, delasobre si mesma e dela com outros campos de conhecimento, e, muito especialmente,neste caso, sobre o jornalismo. Mais que isso, vem incentivando o intercâmbio entrepesquisadores, sem o quê a própria atividade de pesquisa perde seu sentido. Certamente,muitos dos que, hoje, eventualmente, são convidados a integrar comissões de seleção detrabalhos, ou mesmo respondem pela orientação de jovens alunos, já tiveram, um dia,aquela oportunidade da estréia em um grupo de trabalho como este. Parabéns aos organizadores do volume que ora percorremos. Acho que vocês,enquanto responsáveis pela iniciativa da publicação, como nós, que hoje coordenamoseventualmente a INTERCOM, estamos nos somando justamente para garantir esteresultado: que a pesquisa continue; que a curiosidade encontre seu espaço; e que oaprendizado resultante de tais trocas seja um grande incentivo para todos nós. Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt Presidente da INTERCOM 7
  • 7. apresentação geral Por um Jornalismo mais reflexivo Jornalismo: atividade/prática/profissão sempre em movimento. Afinal, nós,jornalistas, lidamos com fatos e estes são voláteis, diferentes a cada dia. Característica quejá exigiria, por si só, ininterrupta reflexão. (Re)Pensar constante que, nos últimos tempos,intensificou-se (ou deveria ter se intensificado). Afinal, são muitas as transformações. Asnovas tecnologias mudando linguagens, o modus operandi... A queda do diploma e adesregulamentação profissional. As discussões que levarão a mudanças nos cursos deJornalismo, nas grades curriculares, na formação do jornalista. Movimentos que apontam para diversos rumos, inúmeros trajetos. Caminhos emaberto e, por isso mesmo, tão propícios a reflexão, a conversa, a troca. E é essa a propostade Jornalismo Reflexivo: um diálogo entre jornalistas (diplomados ou não), acadêmicosde cursos espalhados Brasil afora, estudantes interessados na profissão, professores,pesquisadores, sociedade em geral (já que essa nunca valorizou e teve tanto acesso ainformação quanto na contemporaneidade). Assim, este e-book que você começa a ler agora apresenta uma série de artigos – eporque não dizer filigranas já que a proposta não é apresentar modelos, nem perguntascom respostas fechadas, e sim problematizar, (re)pensar o Jornalismo e a prática 8
  • 8. jornalística – que apontam para os novos rumos desta atividade em alguns momentoscom status de quarto poder e em outros comparada a tarefa/ao ato de cozinhar (embora,cozinheiros, jornalistas ou caminhoneiros exerçam tarefas tão nobres, cada uma com suasparticularidades, quanto as de médicos, engenheiros ou advogados). Essas filigranas, 18 no total, foram reunidas a partir dos debates iniciados noIntercom Sul 2009, realizado em Blumenau, Santa Catarina. Os autores de trabalhosaprovados e apresentados na DT (Divisão Temática) Jornalismo do congresso, o maior daregião sul do país a tratar das Ciências da Comunicação, foram convidados a, a partir dasdiscussões, re-pensar as análises primeiras. Isso significa que os textos presentes nestee-book não foram, simplesmente, transpostos dos Anais para estas páginas. Jornalismo Reflexivo trás visões/perspectivas/leituras transformadas e, quiça,transformadoras, não no sentido de mudar modos de pensar o e fazer jornalismo; massim com a conotação de provocar/suscitar inquietações, e essas gerarem mais reflexõese novos debates. Garantindo, dessa maneira, que a proposta deste e-book se concretize,ou seja, que tenhamos um jornalismo reflexivo no dia-a-dia de nossas redações, salas deaula, laboratórios... Essas filigranas, nossas reflexões-conversas, estão divididas em duas partes. Naprimeira delas, Jornalismo como proposta de reflexão, estão reunidos sete textos, todoseles, e cada um deles a sua maneira – o que reflete a pluralidade (de leituras, de olhares, deóculos teóricos) permitida pela pesquisa em Jornalismo –, propondo uma leitura diferente, 9
  • 9. singular do próprio Jornalismo. Gestos de interpretação como os de Jorge Kanehide Ijuim,da UFSC, e de Francismar Formentão, da UNICENTRO. O primeiro tem como ponto departida o texto “O compromisso do profissional com a sociedade”, de Paulo Freire, e a luzdeste busca refletir a responsabilidade social do jornalista. Já o segundo, busca mostrarcomo o pensamento bakhtiniano, conhecido por Filosofia da Linguagem ou SemióticaDiscursiva, pode ajudar na compreensão do campo de atuação do jornalismo/dosjornalistas. Já Reflexões acerca da prática jornalística, segunda parte de Jornalismo Reflexivo,encarta onze filigranas que tem como objeto de análise o jornalismo em sua prática,seja ela na web, em revistas, televisão, ou seja, em diferentes veículos e formatos. Textoscomo o de Gisele Reginato, da UFSM, intitulado “Para quem quer viver mais e melhor:o enquadramento pedagógico da revista Vida Simples”, que, a partir dos conceitos deenquadramento e de dispositivos pedagógicos, procura mostrar como a revista mensalVida Simples produz “ensinamentos” com seu formato “didático”. Outra exemplo é “Omedo no telejornalismo brasileiro: um estudo do caso João Hélio”, de Elza Vieira Filha eTaianá Martinez, da Positivo, cuja intenção é identificar de que forma o medo é construídonos produtos específicos do jornalismo e no que ele interfere no imaginário coletivo. Estas são pequenas amostras das reflexões que você encontrará nas páginasde Jornalismo Reflexivo, quarto livro da coleção 3C – Conversas Contemporâneas emComunicação –, série de publicações idealizada e concretizada pelo Grupo de Estudos 10
  • 10. Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos, formado por professores de ComunicaçãoSocial da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Outros livros virão,complementando a coleção 3C, enquanto isso, empreenda novos gestos de interpretaçãoa partir das discussões de Jornalismo Reflexivo. Boa leitura! Os Organizadores 11
  • 11. apresentação parte I Jornalismo como proposta de reflexão Sete filigramas compõem a primeira parte de Jornalismo Refleximo, chamadaJornalismo como proposta de reflexão. Em cada uma delas, uma leitura do movimentovivido pelo jornalismo, reflexões acerca do futuro da profissão e da atividade dosprofissionais da área. O primeiro texto a discutir o Jornalismo é Algumas idéias de Paulo Freire e aresponsabilidade social do jornalista, de Jorge Kanehide Ijuim, onde o autor discuteaspectos da responsabilidade social do jornalista – que, para ele, não é um mero produtorde notícias – a partir de idéias de Paulo Freire presentes em “O compromisso do profissionalcom a sociedade”. Mostrar como a Filosofia da Linguagem, também chamada de Semiótica Discursiva,proporciona condições de estudo epistemológico, ético, estético e ontológico doJornalismo é o que procura evidenciar Francismar Formentão em A semiótica discursiva noestudo do jornalismo e da sociedade, segunda filigrana desta primeira parte do e-book. A proposta de Ariane Pereira e Márcio Fernandes, em Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede Globo, é apresentar um panorama sobraa implantação da TV digital para, em seguida, discorrer sobre as percepções de como a 12
  • 12. Rede Globo de Televisão, a partir de palestras realizadas por profissionais da emissoradurante os Seminários Globo-Intercom em 2007 e 2008, encara este processo e comodeve se configurar esse momento de concretização, o que realmente se mostra comoperspectiva e o que, aparentemente, ficará apenas no nível da possibilidade. Em A percepção dos universitários da UFSC sobre o Jornalismo: uma abordagemquantitativa, Tarsia Paula Farias e Eduardo Medisch apresentam resultados de duaspesquisas. Para a primeira delas, de caráter qualitativo, foram entrevistados jovens deFlorianópolis com o objetivo de levantar as causas do não-acompanhamento de notíciaspor estes. Já a segunda, realizada entre acadêmicos da Universidade Federal de SantaCatarina, procurou quantificar os resultados da primeira. Resultados de pesquisa também são apresentados por Layse Nascimento, emMercado de Trabalho: o que querem os jornalistas formados em 2008, nas universidadesestaduais do Paraná. Para avaliar qual o mercado de trabalho que detém a preferência dosnovos profissionais do jornalismo e o grau de interesse dos acadêmicos pela atividadeprofissional do comunicador em uma empresa foram entrevistados os formandos de 2008dos cursos de jornalismo das três universidades estaduais do Paraná – Londrina, PontaGrossa e Centro-Oeste. O sexto texto, Da esfera pública ao ciberespaço: reflexões sobre o futuro do jornalismona internet, de Luís Francisco Munaro, tem como intuito discutir como o rompimento dastradicionais fronteiras do “intelectual” pelo ciberespaço se configura como uma fase pós- 13
  • 13. literária da cultura moderna, onde, segundo o autor, os protagonistas são produtoresindividuais de cultura desvinculados do Estado moderno tradicional. No último artigo desta primeira parte, A (IN)volução do meio impresso e a (RE)invenção do público-leitor na Era do “Meu Jornal Diário”, Alexandre Correia dos Santosdiscute a realidade do jornalismo impresso, o papel do jornalista e a função primordial deinformar do jornalismo no momento em que uma nova geração de leitores lança mão doconceito do “meu jornal diário”, de Nicholas Negroponte. Este é nosso convite para que você não deixe de se aventurar pelas veredasreflexivas do Jornalismo. 14
  • 14. Algumas idéias de Paulo Freire e a responsabilidade social do jornalista1 Jorge Kanehide IJUIM2 A questão da responsabilidade social parece ser algo consagrado no meiojornalístico. A expressão, que carrega força e impacto, é comumente usada comobordão de campanhas institucionais e mercadológicas de empresas de comunicação. Talconsagração talvez advenha do papel histórico da imprensa de ser tribuna para debates einstrumento de movimentos decisivos que culminaram em conquistas expressivas para asociedade. O respeito a este papel histórico faz com que tenha destaque em documentosfundamentais dos profissionais de imprensa, como nos “Princípios Internacionais daÉtica Profissional no Jornalismo”. O texto obtido em debates promovidos pela Unesco,na década de 1980, foi subscritado por várias organizações internacionais de jornalistas,inclusive a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Seu Princípio III assinala: Informação em jornalismo é compreendida como bem social e não como uma comodidade, o que significa que os jornalistas não estão isentos de responsabilidade em relação à informação transmitida e isso vale não só para aqueles que estão controlando a mídia, mas em última instância para o grande público, incluindo vários interesses sociais. A responsabilidade social do jornalista requer que ele ou ela agirão debaixo de todas as circunstâncias1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na FURB, Blumenau (SC)2 Professor de Jornalismo da UFSC; doutor em Ciências da Comunicação/Jornalismo pela Escola de Comunica-ções e Artes da USP. 15
  • 15. em conformidade com uma consciência ética pessoal. (UNESCO, 1980). O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, reexaminado nos últimos anos eaprovado em assembléia da Federação Nacional dos Jornalistas, em agosto de 2007,também atribui especial atenção ao tema. O Artigo 2º explicita: Art. 2º - Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: ... III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão. (FENAJ, 2007) Ambos documentos caracterizam o jornalismo como atividade social e, de formaexplícita ou implícita, estabelecem uma relação entre esta responsabilidade social e aDeclaração Universal dos Direitos Humanos. A bibliografia no campo do Jornalismo, seja em abordagens sobre as teorias e astécnicas ou focadas na ética profissional, reflete a preocupação constante com o assunto.Luiz Amaral, em Técnica de jornal e periódico, em 1969 – justamente o ano em que a profissãofora regulamentada no País –, já dedicava um capítulo ao papel e à responsabilidade daimprensa. Ali já ressaltava as múltiplas possibilidades de interpretação de preceitos queregem a instituição imprensa e, por consequência, seus profissionais. 16
  • 16. O alerta de Amaral era pertinente. Qual pode ser o espírito deste preceito daresponsabilidade social? Carrega a inspiração modernista que imaginava a imprensa capazde levar as luzes a todos os recantos e, por isso, a função social da elevação cultural? Ou trazconsigo a concepção gramisciana do intelectual orgânico responsável pela informação epela formação da população? Ou é expressão do capitalismo norte-americano pelo qual asociedade delega à imprensa o poder de fiscalizar as instituições em seu nome? O pesquisador Fábio Henrique Pereira frisa que muitas dessas interpretaçõesreferem-se a concepções românticas do jornalismo. Para o autor, é notório o processode transformação pelo qual a atividade passou, desde sua fase artesanal e instrumentode lutas ao jornalismo industrial e de mercado. Alicerçado em pensadores como Medina,Néveu, Lipimann e Schudson, o pesquisador promove uma discussão sobre o jornalismoenquanto ação social e o jornalista como um intelectual, na qual constata que “a evoluçãoda identidade do jornalista se forma a partir de um duplo discurso – a fala humanista e afala tecnológico-metodológica” (PEREIRA, 2004). Sem a pretensão de esgotar o tema e, portanto, sem a preocupação de serconclusivo, Pereira aponta em seu estudo um momento de transição por que passa ainstituição imprensa – e seus profissionais. Tal reflexão permite-nos inferir que, nessatransição, certos preceitos que nos regem – inclusive o da responsabilidade social –caminham sobre um fio tênue, além de ofuscados pelo brilho da pressa das tecnologiasde informação. 17
  • 17. Esse estado de indefinição, evidentemente, vem de um sentido macro. CiroMarcondes Filho, ao analisar a chamada Sociedade tecnológica (1994), aponta uma sériede fragilidades proporcionadas por esse “período tecnocêntrico”. Enquanto o mundoteocêntrico tinha Deus como figura dominante, a fase antropocêntrica elegeu para tantoo homem e o mundo material, ao passo que a recente era tecnológica tem a racionalidadeda máquina como imagem e referência. Com relação ao saber, Marcondes destaca queno modelo anterior as luzes, a razão controlava a ciência e o progresso, ao passo queatualmente a luz é fracionada, especialmente via MCM. Ao passo que o antropocentrismobuscava uma utopia terrena, movida por uma força vinculante – ideológica –, e sua metaera a construção da história, o pensamento predominante entre os tecnocentristas leva auma busca virtual, sem qualquer força vinculante e, por isso mesmo, sem meta nitidamentedefinida. A imprensa e seus profissionais, como membros desse mesmo conjunto social,convivem, atuam e servem a esta sociedade virtualizada, indefenida e ideologicamentepulverizada. Portanto, aquilo que está consagrado, e possa parecer mesmo óbvio, a rigor não étão óbvio. E merece reflexão contínua. É o que pretendo neste trabalho: contribuir com anecessária reflexão sobre o que ‘parece óbvio’, a partir do pensamento de Paulo Freire.Responsabilidade social = compromisso Paulo Freire costumava construir seus ensaios de forma provocativa. Perguntas e mais 18
  • 18. perguntas, que respondia de forma densa no decorrer do texto. Sobre a responsabilidadesocial, em seu período de exílio [de 15 anos], escreveu O compromisso do profissional coma sociedade, publicado em português pela primeira vez em 1979. Tornou-se um clássicoe uma referência indispensável ao campo da educação, mas também iluminador paraoutras áreas do conhecimento, como pretendo demonstrar. Quem pode se comprometer? A primeira preocupação do autor é esclarecer a relevância e a seriedade dostermos que compõem o enunciado contido no título de seu trabalho. Julga necessárioexplicitar que o compromisso proposto não pode ser encarado como uma abstração, masalgo assumido por uma decisão lúcida, no plano concreto. O ato comprometido pode serassumido quando compreendemos a natureza do ser que é capaz de se comprometer.Dessa forma, “a primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometidoestá em ser capaz de agir e refletir” (FREIRE, 1983, p.16). A capacidade de agir e refletir, um dos pontos primordiais da dialética marxista,implica na consciência do ser de não apenas estar no mundo, mas estar com o mundo.“? preciso que seja capaz de, estando no mundo, saber-se nele”. Esta aptidão para estarno e com o mundo suscita a possibilidade de, pela reflexão, ter consciência de si e, porum olhar crítico diante do mundo, ter consciência da realidade concreta. O olhar críticodiante do mundo, porém, não admite uma postura de admiração, ou contemplação. Ao 19
  • 19. contrário, supõe a ação para a transformação. Que transformação? A transformação proposta por Freire é justamente uma das máximas marxistas[devir] que sugere a transformação daquilo que é naquilo que deve ser. O ser da práxis éaquele capaz de transformar. Em outros termos, é aquele que pode exercer um atocomprometido, como sustenta o autor: É exatamente esta capacidade de atuar, operar, de transformar a realidade de acordo com finalidades propostas pelo homem, qual está associada sua capacidade de refletir, que o faz um ser da práxis (FREIRE, 1983, p. 17). Por isso, ação e reflexão são constituintes inseparáveis e a própria maneira humanade existir. E existir é algo mais profundo do que, descuidadamente, possamos imaginar,como enfatiza Paulo Freire: Existir ultrapassa viver, porque é mais do que estar no mundo. ? estar nele e com ele. E é essa capacidade ou possibilidade de ligação comunicativa do existente com o mundo objetivo, contida na própria etimologia da palavra, que incorpora ao existir o sentido de criticidade que não há no simples viver. Transcender, discernir, dialogar (comunicar e participar) são exclusividades do existir. O existir é individual, contudo só se realiza em relação com outros existires. Em comunicação com eles (FREIRE, 1982, p. 48-49). 20
  • 20. Dessa forma, não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade.Ao profissional de jornalismo, que não vê em seu trabalho apenas a mera execução detécnicas, cabe desenvolver-se nessas habilidades de agir e refletir. Agir e refletir sobre arealidade concreta, sobre o mundo, pois, conforme Cremilda Medina, pelo papel socialque está investido, “sua função é estabelecer pontes na realidade dividida, estratificadaem grupos de interesse, classes sociais, extratos culturais e faixas até mesmo etárias”(MEDINA, 1982, p.22). No exercício desse papel social, ao sair para a sociedade “para rastrear o maiornúmero possível de versões, na busca incessante de uma verdade inatingível, nasolidariedade aberta a todos que tenham alguma coisa a falar” (MEDINA, 1982, p.23),o jornalista constrói a realidade. Constrói a realidade, conforme ensinam as teoriasconstrucionaistas, no sentido de “não permitir que os acontecimentos permaneçam nolimbo do aleatório, mas sejam trazidos aos horizontes do significativo” (Hall in Traquina,2005, p.171). Se é assim, o jornalista não executa simples técnicas de investigação eredação, mas desenvolve apurada e cuidadosa habilidade de ver o mundo [sentir-se como mundo]. Da mesma forma, ao concluir sua reportagem, o profissional não apresentaapenas um relato sobre fatos, pois o que viu, ouviu, sentiu e vivenciou foi processado pelasua inteligência e pelos seus sentimentos – um processo de atribuição de significados. Eleapresenta uma narrativa viva, uma construção da realidade, mediada pelo social. Qualquer jornalista atua desta forma? Paulo Freire alerta que a relação homem- 21
  • 21. realidade, ou homem-mundo, implica a transformação de mundo, cujo produto, porsua vez, condiciona ambas, ação e reflexão. “Os homens que a criam são os mesmosque podem prosseguir transformando-a” (FREIRE, 1983, p.18). Em outros termos,firmar o compromisso com o mundo tanto requer como é decorrência de um processohumanizador – humanização dos outros homens, como de si mesmo. Sobre esse processo, Dermeval Saviani apresenta uma opinião relevante. Para ele,a humanização acontece pela relação do homem com a cultura – que ele contribui comsua construção, assim como a cultura contribui com a sua construção. Esta relação se dáde forma vertical – domínio dos objetos e do conhecimento historicamente acumulados(prático-utilitário); e no nível horizontal – na relação homem/homem (colaboração).Em outros termos, humanização para Saviani abriga o mesmo sentido de solidariedadetambém invocado por Freire. Por isso mesmo, o compromisso com a humanização dos homens, que implica umaresponsabilidade histórica, segundo o autor, não pode realizar-se através do palavrório,nem de nenhuma outra forma de fuga do mundo, pois o compromisso, próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, de cujas ‘águas’ os homens verdadeiramente comprometidos ficam ‘molhados’, ensopados (FREIRE, 1983, p.19). Tal engajamento, que é um ato corajoso, decidido e consciente, o impede que seja 22
  • 22. neutro. “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, refleteapenas o medo que se tem de revelar o compromisso... o verdadeiro compromisso é asolidariedade” (FREIRE, 1983, p.19). Esse compromisso, esse engajamento, no entanto, nãopode ser confundido com militância. Um ser-jornalista engajado não é necessariamenteum jornalista militante de causas, ideologias ou segmentos políticos. Nesse caso, comolembra Alberto Dines, seria o mal-entendido de adotar a postura de ‘partisan ou torcedor’(1986, p. 62). O engajamento a que nos referimos pode ser o que Cremilda Medina chama‘solidariedade às dores universais’. Transformar o quê? E quem? A esse compromisso e transformação, cabe refletir ainda mais sobre o quetransformar e a quem transformar. Paulo Freire considera indispensável reconhecerque um profissional, antes de ser profissional, é homem. Deve ser comprometido por simesmo. Ou seja, independentemente do seu ofício ou de sua categoria profissional, desuas particularidades e/ou de seus códigos deontológicos, suas responsabilidades comoprofissional não são (ou não podem) dicotomizar-se de seu compromisso original dehomem. Por isso, um jornalista é, antes de tudo, um homem (ser humano). Como entende Manuel Carlos Chaparro, o jornalismo é um processo social deações conscientes, controladas ou controláveis. Se é assim, “cada jornalista é responsávelmoral pelos seus fazeres” (CHAPARRO, 1994, p.22). Bertrand Russell em seus estudos 23
  • 23. sobre a ética e a moralidade, enfatiza que as escolhas do ser humano para suas aspiraçõesde liberdade e bem-estar decorrem de um quadro de referência determinado pelascondições histórico-sociais. O certo ou o errado, o bem ou o mal são definidos por umacomunidade com a atribuição de valores, segundo uma ideologia, de conceitos delouvor ou censura, estabelecendo uma consciência que orienta as ações do indivíduo.Uma ação objetivamente certa, para Russell, é a que melhor serve aos interesses dogrupo eticamente dominante – desejadas pelo grupo. O quadro de referência, portanto,pode ser ampliado e/ou reformulado de acordo com a vivência, do exercício do debate,da reflexão do indivíduo e do grupo. Esse exercício ético (ou seja, o debate e a reflexão)contínua sobre o desejável para si e para os outros e pode refletir na elevação do nível deconsciência – a visão de mundo que orienta as ações dos indivíduos, seus propósitos eintenções (Russell, 1977). Essa postura reflexiva parece-me, portanto, um aspecto indispensável ao jornalistapara a sua tarefa de atribuir significados aos fenômenos. Pelo exercício ético, com aelevação do seu nível de consciência poderá melhor pensar-expressar, compreendere levar a compreensão à audiência, como autor e responsável moral por seus fazeres ecompromissos. Com a ampliação contínua do seu quadro de referência – seu nível de consciência– seus fazeres poderão constituir, mais que “notícias”, os relatos humanizados ehumanizadores que promovam o debate, que contribuam com a inter-relação de pessoas 24
  • 24. com quadros de referências diferentes. Esta postura colabora com a reflexão de outrosseres humanos – da audiência –, com o alargamento da visão de mundo e a elevaçãodo nível de compreensão, de cumplicidade e solidariedade entre seres humanos. Se estecompromisso constituir um propósito e um dever e querer-fazer do jornalista, ele estarácontribuindo para estender ao seu público o exercício ético do qual pratica/participadiuturnamente. Em outros termos, podemos ratificar a argumentação já proposta: o serque, pela ação e reflexão, contribui com a transformação da sociedade, como a sociedadecontribui com a sua transformação.Riscos da especialização profissional Exatamente neste momento em que tantos estão ‘encantados’ com o brilho dastecnologias de comunicação, vale destacar que a responsabilidade deste compromisso nãopermite ao profissional, enquanto um especialista, cair na ‘vala comum’ do especialismo.Como enfatiza Paulo Freire, isto seria julgar-se “habitante de um mundo estranho, mundode técnicos e especialistas salvadores dos demais, donos da verdade, proprietários dosaber, que devem ser doados aos ignorantes incapazes” (1983, p.20-21). Para o autor, ‘profissional’ é atributo de homem e, por isso, este não pode, quandoexerce um quefazer atributivo, negar o sentido profundo do quefazer substantivo original.Ou seja, não cabe a inversão de valores de servir mais aos meios que ao fim do homem.Não cabe reduzir o homem a um simples objeto da técnica, a um autômato manipulável. 25
  • 25. Como contraponto, Paulo Freire sublinha: Quanto mais me capacito como profissional, quanto mais sistematizo minhas experiências, quanto mais me utilizo do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos a ao qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens (FREIRE, 1983, p.20). Por outro lado, frisa a importância da superação do especialismo por umadenotação mais apropriada ao termo especialização. Se o compromisso não pode ser umato passivo, mas práxis – ação e reflexão sobre a realidade –, isso implica em inserção,em conhecimento da realidade. Para tanto, um compromisso carregado de humanismodeve ser fundamentado cientificamente, ou seja, a este profissional é exigido constanteaperfeiçoamento. A maior e melhor qualificação supõem o domínio, mas ao mesmo tempo, aabertura para a experimentação de técnicas de reportagem, das formas de elaboraçãode mensagens, da edição, de maneira que consiga ser tradutor de linguagens paraaudiências amplas ou específicas. Como alerta Medina (1982), o jornalista deve interligarfragmentações, através da conquista de ferramentas de trabalho de amplo alcance ede códigos pluralistas, e não o retrocesso de platéias fechadas, incomunicadas com amaioria dos estratos sociais. Por essas razões, o enfrentamento ao risco da especializaçãoprofissional requer o constante aperfeiçoamento técnico, intelectual, ético – a capacidadede refletir para agir. 26
  • 26. Considerações finais – Buscar as brechas Ao reexaminar O compromisso do profissional com a sociedade, proposto por PauloFreire, a intenção não é retomar teorias como a da “Ação política” – na versão da esquerda– que contestavam a atuação da mídia como maneira unicamente de manutenção doestablishment. Mesmo porque estas aludiam aos profissionais um papel ‘passivo’, uma vezque os consideravam, de certa forma, impotentes diante do poder instituído. Por outrolado, Adelmo Genro Filho já havia refutado tais versões ao constatar que o jornalismodesempenha função muito maior que a contestação à hegemonia capitalista. Para ele, umde seus papéis relevantes é a produção social do conhecimento (1987). O propósito, no entanto, é reconhecer que vivemos um momento de transição – nasociedade e no jornalismo – marcado pelo estado de indefinição com relação ao papeldo profissional, como bem alertou Fábio Henrique Pereira. O quadro desenhado pelopesquisador dá conta que esta identidade do jornalista se forma a partir de um duplodiscurso – a fala humanista e a fala tecnológico-metodológica. Do jornalismo artesanal ao jornalismo de mercado, realmente as empresasde comunicação estão reconfiguradas. Os modernos modelos de administração sepreocuparam com a otimização de recursos, o que acarretou, de imediato, numa virtualprofissionalização das redações e, certamente, as tornou mais enxutas. As chamadasnovas tecnologias de informação – ferramentas importantes e aliadas na produção edivulgação do noticiário – muitas vezes, equivocadamente, constituem argumentos para 27
  • 27. a diminuição de quadros. Essas novas tecnologias também promoveram avanços com a criação de novasplataformas para a disseminação de informações, mais ágeis, dinâmicas, práticas paragrande faixa de público. Assim também, tais tecnologias proporcionaram opções deconvergência de mídias, que podem oferecer, com maior versatilidade, informaçõesvariadas, em menor tempo, com mais abrangência, conforme o gosto e a necessidade daaudiência. Como decorrência, no entanto, pode-se averiguar que, quanto maior a agilidadee a eficiência desse ‘novos meios’, mais aumenta a pressa, o desejo pelo furo, a ansiedadepor maior cobertura... maior concorrência... entre algumas outras consequências. Esse quadro, muito rapidamente esboçado, nos leva a inferir algo preocupante:redações menores, todos com menor tempo para produção em alta escala... menostempo para pensar. E é justamente nesse contexto que aflora o grande e fundamentaldesafio – persistir no princípio, e na postura, da humanização, pela ação e reflexão sobrea realidade. Os postulados de Paulo Freire são incisivos. As aspirações e os interesses globais dasociedade devem se sobrepor aos interesses de grupos, sejam políticos, econômicos oupessoais. A defesa última de Paulo Freire em prol da resistência invoca o ‘projeto histórico’em permanente construção: “Fugir da concretização deste compromisso é não só negar-se a si mesmo como negar o próprio projeto nacional” (1983, p. 25). Como argumento final, recorro a um pensamento de Medina: “Na dura 28
  • 28. estratificação social, verdadeira muralha muitas vezes instransponível, o jornalista precisacavar sua trincheira e avançar, gradativa e firmemente” (1982, p. 23). Por outras palavras,pessoalmente, assumo meu dever de persistir no compromisso aqui debatido. Senão coma imprudência do “peito aberto na linha de frente”, mas buscando as “brechas” do sistemageralmente fechado para, dia após dia, concretizar nosso projeto – de vida e profissional.Bibliografia consultadaAMARAL, Luiz. Técnica de jornal e periódico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do jornalismo. São Paulo. Summus, 1994.DINES, Alberto. O papel do jornal – uma releitura. 2ed. São Paulo: Summus, 1986.GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide – Para uma teoria marxista dojornalismo. Porto Alegre: Tchê Editora, 1987.MARCONDES FILHO, Ciro. Sociedade tecnológica. São Paulo: Scipione, 1994.MEDINA, Cremilda. Profissão jornalista: responsabilidade social. Rio de Janeiro:Forense-Universitária, 1982.FREIRE, Paulo. O compromisso do profissional com a sociedade, in Educação e mudança.10ed. Trad. Moacir Gadotti e Lílian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 29
  • 29. FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1982.PEREIRA, Fábio Henrique. Da responsabilidade social ao jornalismo de mercado: ojornalismo como profissão. Lisboa: Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação, 2004.Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/pereira-fabio-responsabilidade-jornalista.pdf. Acesso em 13 de abril de 2009.RUSSELL, Bertrand. Etica e política na sociedade humana. Trad. Nathanael C. Caixeiro.Rio de Janeiro: Zahar, 1977.SAVIANI, Dermeval. Educação – Do senso comum à consciência filosófica. 11ed.Campinas: Autores Associados, 1993.TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo – Porque as notícias são como são. Vol. I. 2ed.Florianópolis: Insular, 2005. 30
  • 30. A semiótica discursiva no estudo do jornalismo e da sociedade1 Francismar FORMENTãO2 A comunicação tem recebido ao longo da história contribuições importante dediferentes campos teóricos; estudos que buscam compreender a cultura envolvida nascomunicações, as tecnologias e o próprio desenvolvimento humano e social. Destaca-senesta pesquisa o referencial filosófico-científico que pode fornecer subsídios para estudosabrangentes, que necessariamente, dialogizam com diferentes campos e métodos teóricosenvolvidos na comunicação, mantendo o rigor que o estudo científico exige, mas sem arigidez que mina os diálogos necessários com o mundo e com os diversos conhecimentos.Assim, a proposta da filosofia da linguagem permite um estudo epistemológico, ético,estético e ontológico, observando o signo ideológico em sua forma, seu conteúdo e osdiversos tempos que o envolve, a sua produção de sentido e relação ética cognitiva comas alteridades envolvidas em sujeitos dos mais diversos campos sociais, dialogizando comoutros discursos e conhecimentos existentes. Dessa forma, pode-se estudar a multiplicidade e o dinamismo existentenuma sociedade constituída historicamente e materializada num eterno devir, num1Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2008, realizado na FURB, Blumenau (SC).2 O autor é jornalista, Especialista em Comunicação, Educação e Artes, Mestre em Letras – Linguagem e Socieda-de (Unioeste); docente da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) Guarapuava – PR (Brasil). 31
  • 31. inacabamento que a torna fluída. Na comunicação social, ou mesmo na especificidade dojornalismo encontram-se signos materializados, que permitem o estudo e a compreensãodos movimentos objetivados na sociedade. O conhecimento sobre a comunicação surge principalmente devido à proliferaçãode diversos sistemas de transmissão de dados, destaque para a idéia da comunicação comosendo aquela da reprodução dos estados mentais (MATTELART, 2004). Neste sentido, “épreciso pensar de maneira diferente, portanto, a questão da liberdade e da democracia. Aliberdade política não pode se resumir no direito de exercer a própria vontade. Ela resideigualmente no direito de dominar o processo de formação dessa vontade” (MATTELART,2004, p.187). Percebe-se que a comunicação está mesmo situada em lugar de grandeimportância para o estudo da sociedade. Situados na encruzilhada de várias disciplinas, os processos de comunicação suscitaram o interesse de ciências tão diversas quanto a filosofia, a história, a geografia, a psicologia, a sociologia, a etnologia, a economia, as ciências políticas, a cibernética ou as ciências cognitivas. Ao longo de sua construção, esse campo particular das ciências sociais esteve, por outro lado, continuamente às voltas com a questão de sua legitimidade científica. Isso o conduziu a buscar modelos de cientificidade (MATTELART, 2004, p. 9). Nos estudos sociais não se pode descartar as diferentes correntes de pensamento,é importante existir um diálogo consistente e produzir conhecimento a partir deste, éimpossível pensar em um conhecimento unidirecional. Toda realidade é envolta em 32
  • 32. perspectivas diversas, multidisciplinares, inter ou transdisciplinares, com o termo quemelhor convir, esta multiplicidade evita reducionismos empobrecedores, principalmentepor estar a comunicação social na encruzilhada de tantos estudos. No estudo da comunicação é importante lembrar os esforços da chamada Escolade Frankfurt. Entre eles, destaca-se Theodor Adorno, crítico do iluminismo, que defendeuque o indivíduo passa a ser uma peça dependente da sociedade, com sua liberdadedescartada pela sociedade, deixando de ser original. Para Adorno, o iluminismo fez surgirum domínio da razão sobre as demais dimensões humanas (MASIP, 2001, p. 356). MaxHorkhemier, outro influente pesquisador desta escola, concordou com Marx quanto àidéia de que a dialética é um processo que abrange não só as relações econômicas, mastambém as relações culturais e científicas. Para ele, o processo gerado pelo iluminismo foio agente causador de “manipulação, exploração e opressão que se constata na sociedadecontemporânea, pois instituiu o indivíduo e a realização pessoal como ideais humanosúltimos” (MASIP, 2001, p. 355-356). Destaca-se, na crítica desses pesquisadores, o conceito de indústria cultural, quesuprime a função crítica e criativa até então existente na cultura e ocorre sua metamorfoseem valor mercadológico, dissolve o patrimônio até então acumulado pela humanidadeem sua autêntica experiência, degradando-se, conseqüentemente, o papel “filosófico-existencial” que lhe é inerente (MATTELART, 2004, p. 78). O objetivo da indústria culturalé inteiramente a 33
  • 33. imitação. Reduzida a puro estilo, trai o seu segredo: a obediência à hierarquia social. A barbárie estética realiza hoje a ameaça que pesa sobre as criações espirituais desde o dia em que foram colecionadas e neutralizadas como cultura. Falar de cultura foi sempre contra cultura. O denominador “cultura” já contém, virtualmente, a tomada de posse, o enquadramento, a classificação que a cultura assume no reino da administração. Só a “administração” industrializada, radical e conseqüente, é plenamente adequada a este conceito de cultura. (HORKHEIMER; ADORNO In: LIMA, 1982, p. 169). Os estudiosos observam que a indústria cultural – pode-se aqui pensar tambémem comunicação jornalística – faz não necessitar de pensamento intelectual para aqueleque percebe esta comunicação. Assim, a massa, como destacam, tem seu comportamentoautomatizado e é forçada à disciplina do espetáculo numa pressão que exclui e desmoralizaaqueles que não se deixam domar, inibindo a reflexão crítica. (HORKHEIMER; ADORNO In:LIMA, 1982, p.175-190). Em outra área de estudos da comunicação, pesquisadores apresentam a perspectivado impacto das tecnologias da informação na sociedade contemporânea, enfatizando arecepção dessas tecnologias sobre as ciências, sobre as formas novas de representação darealidade e sobre a interação entre os novos espaços públicos e os novos sujeitos sociais.Pesquisadores como Muniz Sodré, Dênis Moraes, Armand Mattelart, Eduardo Galeano,Jesús Martín-Barbero, entre outros, analisam a nova ordem fundada na sociedade dainformação: sua mercantilização, sua eticidade, seus múltiplos objetos, suas técnicas e 34
  • 34. seus mecanismos de construção de realidades, suas mediações. Trata-se de fato da afetação de formas de vida tradicionais por uma qualificação de natureza informacional, cuja inclinação, no sentido de configurar discursivamente o funcionamento social em função dos vetores mercadológicos e tecnológicos, é caracterizada por uma prevalência de forma (que alguns autores preferem chamar de “código”; outros, de “meio”) sobre os conteúdos semânticos. (SODR? In: MORAES, 2006, p.21). Para Muniz Sodré, a midiatização é mediação social prevalente no mundo atual comautonomia e espaço particular. Ela tem como objeto fundante a interatividade contínua,articulando-se em múltiplas formas híbridas com as várias organizações sociais, todas elasorganicamente articuladas em suas finalidades mercadológicas. A midiatização promoveo reflexo do real, que é aquele preconizado pela própria tecnologia. As discussões apresentadas, algumas recorrentes em estudos da comunicação,representam passagens de pesquisas que podem enriquecer diálogos em estudos daformação social e da constituição de indivíduos nestas interações, nota-se nos exemplosdados da indústria cultura ou mesmo da midiatização que o dialogismo com estesconhecimentos é enriquecedor para o estudo da comunicação e da sociedade. Para utilização da semiótica discursiva (ou da filosofia da linguagem, ou métododialógico) para realização de um estudo com rigor científico, é necessário compreenderque é na linguagem que o homem existe no mundo e é pela comunicação que ele interagecom os outros seres humanos e com o próprio mundo. A linguagem é o começo e o fim de 35
  • 35. todas as realizações, que só têm sentido na própria linguagem. Compreendemos o mundo,os sujeitos, os acontecimentos, a vida, os tempos históricos pelos signos impressos emcadeias discursivas, seja na comunicação midiada ou na comunicação face-a-face. A comunicação e a própria sociedade tem na linguagem um ponto comum paraa análise e a interpretação em estudos elaborados. Bakhtin (1995) especifica que alinguagem é produto material da criação ideológica, negando a interpretação da ideologiacomo falsa consciência, pois: um produto faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. (BAKHTIN, 1995, p.31). Bakhtin demonstra como este sentido dado ao signo carrega o peso da ideologia,objetivando uma relação materializada, neste caso, na imprensa, a comunicação socialjornalística, com os signos materializados numa interação comunicativa, refletindo erefratando (como um resultado) uma realidade social. O signo ganha mais complexidade na comunicação, neste movimento tambémexiste a dialogia e evidencia as alteridades dos sujeitos, apresentando-se de forma diversa,orientando-se para uma dinâmica de fluxo interacional de “totalidades” sócio-históricasem sua integração, em sua funcionalidade ideológica e de construção, produção e 36
  • 36. circulação de sentido de ordem estética, ética e cognitiva. Os discursos promovidos pelaforma e pelo conteúdo da comunicação ou comunicação social dialogam entre si e, ossignos envolvem-se na interação, possibilitando múltiplas relações de alteridade. O campoepistemológico é o do plurilinguismo e o da pluridiscursividade, dos múltiplos eus e nós. A filosofia da linguagem de Bakhtin não esclarece a alteridade como diferença oucomo par antagônico do eu. Não estabelece também ordenação, combinação de ordemvalorativa ou normativa. O significado da alteridade ocorre entre o eu e o outro comointeração em que ambos se incluem mutuamente. As relações recíprocas se definem natríade eu-para-mim, no outro-para-mim e no eu-para-o outro, como ação concreta, ato emrealização que requer compreensão responsiva e assunção responsável (responsabilidade)de ordem ética e cognitiva. Nesse movimento, os sujeitos participam ativamente dainteração, experienciam o mundo em ação situada, avaliativa e valorada. O método de estudo da comunicação e da sociedade centrado na semióticabakhtiniana, ou filosofia da linguagem, tem o signo ideológico como determinantena interação e na socialização do homem, e mais ainda, propulsor da ação materialque transforma o próprio homem e a natureza. Os signos assumem forma e conteúdo,conduzindo o sentido para a materialização dos movimentos da comunicação. Esta lógicaé observada na comunicação contemporânea, por exemplo, a jornalística, que é submissaàs relações que a “empresa” jornalística estabelece tendo em vista seus interesses privados.Para estabelecer uma discussão sobre a lógica do modelo de comunicação existente 37
  • 37. deve-se considerar a multiplicidade de teorias sobre a comunicação. É importante aindaconsiderar as esferas de criatividade ideológica e os campos sociais envolvidos, um estudomais virtuoso da comunicação passa necessariamente por um estudo da multiplicidadeenvolvida, um estudo da sociedade, sejam eles do conhecimento do objeto de seu estudoou de sua própria realidade, comunicação social e sociedade. O conceito de esfera da comunicação discursiva (ou da criatividade ideológica, ou da atividade humana, ou da comunicação social, ou da utilização da língua, ou simplesmente da ideologia) está presente ao longo de toda a obra de Bakhtin e de seu Círculo, iluminando, por um lado, a teorização dos aspectos sociais nas obras literárias e, por outro, a natureza ao mesmo tempo onipresente e diversa da linguagem verbal humana. (GRILLO In: BRAIT, 2006, p.133-134). Os signos materializados nas esferas/campos sócio-históricos (jornais, círculossociais) refratam e refletem as marcas de sua própria materialidade sígnica. No domínio dos signos, isto é, na esfera ideológica, existem diferenças profundas, pois este domínio é, ao mesmo tempo, o da representação, do símbolo religioso, da fórmula científica e da forma jurídica etc. Cada campo da criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua maneira. Cada campo dispõe de sua própria função no conjunto da vida social. (BAKHTIN, 1995, p.33). Para o estudo da sociedade o campo da comunicação social – ou mais 38
  • 38. especificamente do jornalismo – carrega a materialização de relações sociais em seussignos, envolve esferas como da produção jornalística e de interesses privados, dacomunicação e da política, e uma possibilidade de entendimento de momentos históricos,uma vez que a sociedade é um campo dialógico da comunicação social. Eixo central do pensamento baktiniano, o dialogismo (relações discursivas entrehomem-mundo, homem-natureza e sujeito-objeto do conhecimento) ocorre entrediscursos que interagem na comunicação e, nessa interação, produzem o movimento dasignificação. “O discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussãoideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipaas respostas e objeções potenciais, procura apoio etc.” (BAKHTIN, 1995, p. 123). Atravésda linguagem, os discursos são produzidos em condições específicas (enunciação),estabelecendo formas num intercurso social (enunciados) que, além de instaurar relaçõesentre o eu e os outros, veicula o universo ideológico. O movimento dos enunciados/enunciação é constante, não sendo apenas uma falaface a face ou em monólogo do “interior” do sujeito, pois “a situação e o auditório obrigamo discurso interior a realizar-se em uma expressão corrente, e nele se amplia pela ação,pelo gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes na situação de enunciação”(BAKHTIN, 1995, p. 125). O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados, aos quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunicação 39
  • 39. verbal. O enunciado deve ser considerado acima de tudo como resposta a enunciados anteriores dentro de uma dada esfera: refuta-os, confirma-os, completa-os, baseia-se neles, supõe-nos conhecidos e, de um modo ou de outro, conta com eles [...] Os enunciados não são indiferentes uns aos outros, nem auto-suficientes; são mutuamente conscientes e refletem um ao outro... Cada enunciado é pleno de ecos e reverberações de outros enunciados, com os quais se relaciona pela comunhão da esfera da comunicação verbal. (BAKHTIN, 1992, p.316). No dialogismo percebe-se que todo enunciado refuta, confirma, complementa edepende dos outros, levando em consideração o outro. O lugar onde brota o discurso oua enunciação está determinado por uma situação social imediata independentementeda existência real do interlocutor. O meio social concreto propicia a emissão de discursos,tendo em vista um horizonte social do outro da classe social do contexto histórico detal sorte que os discursos irão se aproximar “do auditório médio da criação ideológica”sem “ultrapassar as fronteiras de uma classe e uma época bem definidas” (BAKHTIN,1995, p.113). Para Bakhtin, “a situação social mais imediata e o meio social mais amplodeterminam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estruturada enunciação” (BAKHTIN, 1995, p.113). Compreende-se as enunciações quando “reagimosàquelas (palavras) que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida”.(BAKHTIN, 1995, p. 95). Produzido em uma realidade material concreta, o sujeito é o ser dodiscurso, em uma condição sócio-histórica; com uma individualidade condicionada ao eue ao outro, integrados em uma cadeia semiótica (sígnica) no contexto mediato e imediato, 40
  • 40. sujeitos situados em devir e sustentados na alteridade.Como o dialogismo é também oprincípio gerador da linguagem e da produção de sentido do discurso, todos os discursosempreendem o dialogismo “retrospectivos e prospectivos com outros enunciados/discursos” (SOBRAL. In: BRAIT, 2005, p.106). O sujeito descentralizado, interativo, forma asua consciência pela cadeia ideológica. Essa cadeia ideológica estende-se de consciência individual em consciência individual, ligando umas às outras. Os signos só emergem, decididamente, no processo de interação entre uma consciência individual e uma outra. E a própria consciência individual está repleta de signos. A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, conseqüentemente, somente no processo de interação social (BAKHTIN, 1995, p.34) Trata-se de uma cadeia de significação de aproximação entre um signo e outro, ououtros signos conhecidos, ocorrendo a compreensão pelo seu próprio encadeamento. E essa cadeia de criatividade e de compreensão ideológicas, deslocando-se de signo em signo para um novo signo, é única e contínua: de um elo de natureza semiótica (e, portanto, também de natureza material) passamos sem interrupção para um outro elo de natureza estritamente idêntica (BAKHTIN, 1995, p.34). A cultura, com seus universos de discursos e suas diferentes materialidadesideológicas, está em um constante fluxo de sentido, com conexões e movimentos em 41
  • 41. cadeias interdiscursivas que estão entre a ideologia do cotidiano e os sistemas ideológicosjá cristalizados e constituídos (moral, ciência, arte e religião) (BAKHTIN, 1999, p.119). Para Bakhtin, o embate ideológico localiza-se no centro vivo dos discursos, seja na forma de um texto artístico, seja com intercâmbio cotidiano da linguagem. Na vida social do enunciado (seja ela uma frase proferida verbalmente, um texto literário, um filme, uma propaganda ou um desfile de escola de samba), cada “palavra” é dirigida a um interlocutor específico numa situação específica, palavra essa sujeita a pronúncias, entonações e alusão distintas. (STAM, 2000, p.62). Na interação social, o intercurso da pluralidade sígnica abrange comunidadessemióticas que têm funcionalidades específicas. Essas funcionalidades, contudo, pelaprópria plurivalência dos signos (inúmeros valores que se entrecruzam em um únicodiscurso), permite a construção de uma identidade que é por esses signos, construídatanto quanto a fluidez dessa identidade em suas múltiplas refrações (BAKHTIN, 1995, p. 33-34). No movimento histórico de formação identitária, o sujeito não se estabelece de modounivocamente distinto, particular. Ao contrário, se estabelece em vir-a-ser, constantementese refazendo (SOBRAL In: BRAIT, 2005, p.105). Esse aspecto é pouco perceptível parao próprio sujeito por estar em constante interação com o outro, acreditando que esseoutro não faz parte de si mesmo. Assim, a filosofia da linguagem ou semiótica discursivapermite, através da alteridade, compreender a relação dialógica dos discursos em suascombinações de ordem valorativa e normativa. Com seus sentidos refratados e refletidos 42
  • 42. em formas e conteúdos em tempo e espaço objetivados numa dinâmica fluida; paraBakhtin, este sistema é aberto e não absolutiza e nem relativiza axiologicamente o devirhumano. O sentido refratado e refletido signicamente tem nas marcas ideológicas amaterialização das esferas e dos campos sociais, demonstram objetivamente a formadialógica determinada por um horizonte social de uma época (espaço/tempo) e de umgrupo social que carrega um índice de valor (conteúdo) (BAKHNTIN, 1995, p. 44). Juntos,forma e conteúdo, na interação social, produzem sentido ideológico que, na sua época,axiologicamente tenciona as tramas das diversas esferas ideológicas e dos campos sociais.O jornal acolhe esferas ideológicas que estão em constante tensão: o jornalista, os editores,os publicitários que querem tornar o jornal vendável, os donos do jornal que procuramo lucro. Outros campos sociais apresentam interferência significativa no conteúdo e naforma da comunicação social do jornal, como o campo político e o campo dos leitores,cada qual também com diversas esferas de criatividade ideológica produzindo refrações,condicionando o horizonte social e os índices de valores que determinam a comunicaçãosocial e, portanto, a forma e o conteúdo dos jornais. Para compreender como o signo é resultado de um consenso da interação social,“razão pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social detais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece” (BAKHTIN, 1995, p.44),é necessário estudar a ideologia como fator que influencia as relações entre os signos e 43
  • 43. indivíduos. “é apenas sob esta condição que o processo de determinação causal do signopelo ser aparece como uma verdadeira passagem do ser ao signo, como um processo derefração realmente dialético do ser no signo” (BAKHTIN, 1995, p.44). Bakhtin apresentacomo questão indispensável para compreensão da ideologia no signo: 1. Não separar a ideologia da realidade material do signo (colocando-a no campo da “consciência” ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível). 2. Não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto físico). 3. Não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material [...]. (BAKHTIN, 1995, p.44). Adail Sobral, em Filosofias (e Filosofia) em Bakhtin, especifica que os intelectuaisdo Círculo de Bakhtin, no conceito da unidade singularidade/generalidade, propunhama análise de objetos de estudo mediante “procedimentos” que contemplassem a“identificação e explicação de relações (não dicotômicas) entre elementos dos objetosestudados” (SOBRA. In: BRAIT, 2005, p. 137). O estudioso destaca entre elas a) forma-conteúdo-material; b) resultado-processo; c) material-organização-arquitetônica; d) individual-interação entre indivíduos; e) cognição-vida prática; 44
  • 44. f ) universalidade-singularidade; g) objetividade (o real concreto) – objetivação (a manifestação semiótica da objetividade); h) estética/ética/cognição (esta última em termos de conhecimento, não de processo cerebral). (SOBRAL In: BRAIT, 2005, p. 137). Esses movimentos apresentados acima são fundamentais para a semióticadiscursiva, variáveis indispensáveis para que no estudo científico exista uma passagem doconhecimento abstrato para um conhecimento concreto, materializado em uma realidadehistórica e social. Exemplo destes movimentos é a demonstração que, mantendo-se aunidade conteúdo-forma, acrescenta-se a “natureza do material” e os “procedimentos porele condicionados” (BAKHTIN, 2003, p.177-178). A forma é dependente do conteúdo e domaterial. Nos signos ideológicos, o objetivo é o conteúdo. Este conteúdo ético-cognitivoserá enformado e concluído, subordinando o material ao próprio objetivo. Concluirimplica a subordinação do material e alcançar o objetivo ético-cognitivo ou “tensão ético-cognitiva”. Há necessidade de superar o material na tarefa comunicativa. Neste estudo pode-se entender então, que no jornalismo, superar a linguagem(técnica jornalística) afim de um sentido, ou a superação da própria língua para a conclusãode um discurso, evidencia a obediência de uma lógica criativa, “uma lógica imanente dacriação”, com os valores da produção de sentido, o contexto do “ato criador”. [...] antes de tudo precisamos compreender a estrutura dos valores e do 45
  • 45. sentido em que a criação transcorre e toma consciência de si mesma por via axiológica, compreender o contexto em que se assimila o ato criador. A consciência criadora [...] nunca coincide com a consciência lingüística, a consciência lingüística é apenas um elemento, um material [...]. (BAKHTIN, 2003, 179). O conteúdo apresenta os elementos do mundo, da vida, forjado em parâmetroséticos e cognitivos. Interligado à forma, conteúdo e forma são mutuamente condicionados,produzindo sentido na própria criação. Aquele que cria é o artista e a arte (no caso destapesquisa, é o jornalista que apresenta um discurso, uma visão, uma realidade materializadano jornal). A atividade estética (acabada na obra jornalística) agrega sentidos de formaacabada, e auto-suficiente. Trata-se de um ato que passa a existir em um novo campoaxiológico (o jornal), num devir da interação comunicativa. Assim, também o materialcondiciona-se com forma e conteúdo, em que o signo é o meio de expressão; numa“lógica imanente da criação”, o material deve ser superado, aperfeiçoado num contextode criação em que forma e conteúdo revelam o signo em sua superação. De um contextofactual, para a interpretação jornalística, revelado nas páginas de um jornal em outraforma (uso das técnicas jornalísticas) com conteúdos que provocam a “tensão” entre ocriador e este contexto de criação.Considerações finais A exemplificação do método semiótico discursivo, ou da filosofia da linguagem, 46
  • 46. de bases bakhtinianas é um estudo mais abrangente e que envolve diversas outrascategorias deste filósofo. ? importante compreender, seja no estudo da comunicação, sejano estudo da sociedade ou até mesmo no método ora discutido, que agir no mundo,seja nesta pesquisa ou na vida, trata-se de um movimento aberto, inacabado e em eternodevir, um movimento histórico que valoriza dialógicamente a diferença, os vários outros,como correntes diversas de pensamento, que de forma alguma podem ser descartadas. Bakhtin, com o dialogismo, a alteridade e a potencialidade do signo ideológico,rompe como o cartesianismo e o positivismo, sem nunca negar o dialogismo e a relaçãode alteridade de sua própria pesquisa com estes conhecimentos. Ele demonstra acomunicação como um movimento: nele as consciências individuais interagem com outrasconsciências individuais, num movimento que ganha em complexidade e dinamismoquando o conteúdo e a forma desta comunicação são observados como signos, que, porsua vez, também possuem forma e conteúdo ideológicos em constante interação a partirde esferas e de campos específicos evidentes em múltiplos discursos (BAKHTIN, 1995,p.31-38). Observa-se, na complexidade jornalística, além de seu conteúdo, a forma queorganiza os componentes apresentados, signos que compõem o discurso na comunicação,seja em palavras, imagens, cores ou sons, todos, conteúdo e forma sígnica da comunicação.A comunicação é instrumento de existência social, conteúdo como linguagem e processo,e forma, como movimento estético efetivado nas relações, um acontecimento material 47
  • 47. que busca ser interpretado pelas assim chamadas teorias da comunicação. Acontecimentoque carrega a alteridade do homem como fator fundamental de um movimento que, pelalinguagem, dá ao signo sentido e existência ideológica. O homem – num entendimentoque não se deixa levar por um reducionismo economicista – é um ser social imerso nestadinâmica, pois, Para entrar na história é pouco nascer fisicamente: assim nasce o animal, mas ele não entra na história. ? necessário algo como um segundo nascimento, um nascimento social. O homem não nasce como um organismo biológico abstrato, mas como fazendeiro ou camponês, burguês ou proletário: isto é o principal. [...] Só essa localização social e histórica do homem o torna real e lhe determina o conteúdo da criação da vida e da cultura (BAKHTIN, 2004, p. 11). Para Bakhtin, o papel contínuo da comunicação, a consolidação do signo ideológicona materialidade deste movimento, não aparece em lugar algum de forma mais clara doque na própria comunicação. O entendimento da realidade material nos vários camposda sociedade da informação implica no reconhecimento da materialidade ideológicado signo e do papel fundamental da semiótica como instrumento metodológico depesquisa, de análise e de exposição de dados sustentada nos parâmetros da filosofia dalinguagem. A arquitetônica do conhecimento semiótico incorpora dialogicamente o movimentohistórico e as condições de elaboração de epistemes no movimento de transformaçãocontínua, na dinâmica das forças vivas sociais que se determina ética e esteticamente. 48
  • 48. Bakhtin une dialogicamente sua fundamentação do signo ideológico e da alteridade dasrelações sociais com essa arquitetônica vinculada a diversas categorias conceituais, comodialogismo, cronotopo, exotopia, polifonia, palavra, esfera, campo, enunciação, ética,estética, entre outras. As potencialidades da filosofia da linguagem, da semiótica discursiva, proporcionamrecursos teóricos e metodológicos para o estudo da comunicação e sua complexidade nasociedade contemporânea, seja por um viés epistemológico, ético, estético ou ontológico,além de permitir por meio do dialogismo, a construção de sínteses ricas e concretas deconhecimento, seja sobre o jornalismo ou a própria sociedade.Bibliografia consultadaBAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.BAKHTIN, Mikhail. Discurso na vida e discurso na arte: sobre a poética sociológica.In: Freudism – a marxist critique. Tradução de FARACO, C. e TEZZA, C. (UFPR) para finsdidáticos. New York: Academic Press, 1976.BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995.BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999. 49
  • 49. BAKHTIN, Mikhail. O freudismo: um esboço crítico. São Paulo: Perspectiva, 2004.BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2001.FORMENTãO, Francismar; HENRIQUES, Maria José Rizzi. A filosofia da linguagem noestudo da comunicação. In: 4? Encontro de Professores de Jornalismo do Paraná e2? Encontro de Professores de Jornalismo de Santa Catarina, 2008, Joinville. Anais do4? Encontro de Professores de Jornalismo do Paraná e 2? Encontro de Professores deJornalismo de Santa Catarina, 2008.FORMENT?O, Francismar. Palavra e imagem: signos do presidente Lula na mídia impressa.Cascavel: Editora Coluna do Saber, 2008.GRILLO, Sheila V. de Camargo. Esfera e campo. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: outrosconceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2006.HORKHEIMER, Max e ADORNO, Theodor W. A indústria cultural: o iluminismo comomistificação de massas. In: LIMA, Luiz Costa (Org.). Teoria da cultura de massa. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1982.LAGE, Nilson. Linguagem jornalística. São Paulo: Ática, 1998.MASIP, Vicente. História da filosofia ocidental. São Paulo: EPU, 2001. 50
  • 50. MATTELART, Armand e MATTELART, Michèle. História das teorias da comunicação. SãoPaulo: Loyola, 2004.MIOTELLO, Valdemir. Ideologia. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo:Contexto, 2005.SOBRAL, Adail. Ato/atividade e evento. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave.São Paulo: Contexto, 2005.SOBRAL, Adail. Filosofias (e filosofia em Bakhtin). In: BRAIT, Beth (Org.) Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005.SODRÉ, Muniz. Eticidade, campo comunicacional e midiatização. In: MORAES, Dênis de(Org). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.STAM, Robert. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo, Ática, 2000.THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meiosde comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. 51
  • 51. Promessas e perspectivas da/na implantação da TV digital no Brasil: o caso Rede Globo1 Ariane Carla PEREIRA2 Márcio FERNANDES3 Chegar em casa, depois de um dia de trabalho, sentar no sofá em frente à TV e ligar oaparelho com a ajuda de um controle remoto. Essa maneira tradicional de assistir televisão,em breve, deixará de ser a única, depois de quase três décadas. Afinal, desde dezembrode 2007, emissoras brasileiras começaram a implantar a chamada TV de Alta Definição, aHDTV. Digitalização que já implica para quem produz conteúdo formas diferentes de sefazer televisão e que significará, mais uma vez em pouco tempo, mudanças para quemestá no outro lado da telinha, o telespectador. A TV digital não significa apenas um monitor/aparelho diferente na sala das casas.O televisor sim já está muito diferente – a tela quase quadrada (4x3) da TV convencionaltem no sistema digital proporções de um retângulo, 16x9, (e isso implica também um1 Texto-base originalmente apresentado no Intercom Sul 2009. realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Jornalista profissional, mestre em Letras, professora efetiva do Departamento de Comunicação Social da Uni-centro e membro do grupo de pesquisa Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos. Em 2008 e 2009, partici-pou do Seminário Globo-Intercom.3 Jornalista profissional, mestre em Comunicação e Linguagens, professor efetivo do Departamento de Comu-nicação Social da Unicentro e membro do grupo de pesquisa Processos Midiáticos Eletrônicos e Impressos. Em2007, participou do Seminário Globo-Intercom. 52
  • 52. fazer diferente, assunto que trataremos adiante); além disso, o velho tubo de imagemresponsável pelo televisor grandão e pesado some e as TVs ficam leves e finas, podendoser confundidas com quadros na parede. A TV digital significa, sobretudo, alta definição de imagens. E isso representa devez a aposentadoria de um acessório já algum tempo em crescente desuso: as antenas.As imagens com chuviscos, tremidas, com interferências, têm dias contados, restandopara muitos as memórias dos anos 80, quando um pedaço de esponja de aço era recursosessencial para bem captar determinado programa em certos horários debaixo de umtemporal lá fora. Historicamente, esse método agora ultrapassado é resultado de umsistema que precisa de antenas e torres e que, entre elas, sempre encontra pelo caminhoobstáculos naturais – como morros – ou construídos pelos homens – arranha-céus entreeles. Com a mudança, a transmissão deixará para trás esse problema já que o sinal serádigital, em bits, garantia de imagem limpa, em “alta definição”, para utilizar um jargãocomum no noticiário nos últimos anos. Porém, a alta definição é apenas uma das promessas da Era Digital. Mobilidade,portabilidade e interatividade são palavras-chave nesse novo conceito imagético, nessanova maneira de se fazer e de se ver televisão. E é sobre isso que trataremos no tópico aseguir. 53
  • 53. As possibilidades da TV digital A história da Televisão enquanto mídia (meio de comunicação), desde sua origematé a contemporaneidade, pode ser dividida, sobretudo para efeitos de análise, em trêsestágios/períodos. O primeiro deles tem início com a origem da TV (ainda no século 19)e vai até a década de 1970. É a época em que o veículo TV se caracteriza pelo númeroreduzido de canais cujas concessões, espécie de permissão para explorar o serviço deradiodifusão, eram concedidas pelo governo federal. A justificativa para esse “modelo” de televisão era a limitação do espectro, já que asfaixas de transmissão comportavam um número definido de canais. Fator que, segundoGalperin (2003, p. 13), resultou/originou nos/os oligopólios de Comunicação. Outroponto a ser destacado sobre as concessões é que em troca delas os governos exigiama exibição de programas de prestação de serviços – como os de conteúdo educativo,informativo ou político. Neste período, uma certa distinção quanto às receitas financeirasdivide os Estados Unidos e a América Latina da Europa, por exemplo. Enquanto que, noVelho Mundo, a fonte prioritária era o Estado (basta citar o caso da Itália), na América eraa iniciativa privada quem bancava o sistema. A década de 1970 é marcada também por uma série de evoluções tecnológicas queresultaram numa “revolução” na já revolucionária televisão. São deste segundo períododa TV, embora tenham se consolidado na década seguinte, as TVs a cabo e por satélite.“Modelos” que marcam o segundo estágio da televisão e que exigiram nova regulação. 54
  • 54. Afinal, o número de canais aumentou consideravelmente; a programação passou a ser maissegmentada, dirigida a um público menor, porém mais identificado com o canal. Enquantoos canais da primeira etapa transmitem seus sinais gratuitamente, aqui inaugura-se umnovo negócio baseado na assinatura de pacotes de programação. Ao contrário dos anosanteriores, quando a TV era um serviço público, as concessões adquirem caráter privadoe são os transmissores que controlam o conteúdo. Em âmbito internacional, empresascomo MTV e CNN se sobressaem neste cenário da segmentação. O terceiro estágio evolutivo da televisão é o da TV digital – ou seja, a produção,transmissão e recepção digital dos sinais audiovisuais. As pesquisas para essa nova erada TV tiveram início no final dos anos de 1980 e se consolidaram na década seguintequando foram lançados os dois primeiros padrões, o americano (ATSC) e o europeu (DVB).O terceiro padrão (ISDB) acabou tornado público em 2003, pelo Japão – país que deu opontapé inicial nas pesquisas para uma TV de alta definição. Televisão digital essa que é considerada o início de uma nova era na relaçãoemissoras-telespectadores, uma revolução nas maneiras de se fazer e se ver TV. Issoporque as diferenças deste novo sistema – quando comparado ao tradicional, analógico –são muitas, perceptíveis e inovadoras. A vantagem mais facilmente percebida e discutida da transmissão em sistemadigital é a conservação da qualidade do sinal. O número de linhas horizontais nos canaisreceptores, nos atuais sistemas analógicos, não passa de 330. Por isso, a ocorrência de 55
  • 55. de interferências e ruídos, os conhecidos chuviscos e “fantasmas”. Na transmissão digital,a imagem recebida pelos aparelhos tem 1080 linhas de definição. Além disso, no novosistema, os sinais de som e imagem são representados por uma seqüência de bits, e nãomais por uma onda eletromagnética análoga ao sinal televisivo. Isso impacta diretamentena qualidade da imagem que vemos na TV. Outro fator a implicar em perda da qualidade da imagem na TV analógica é ainterferência de um canal sobre outro. Ou seja, quando as freqüências são muito próximasos sinais de dois ou mais canais podem se misturar, mesclar. Nos televisores isso é facilmentepercebido. Quem ao sintonizar os canais de um aparelho já não se deparou com umcanal/emissora funcionando bem num certo número, e em outros esse mesmo sinal serperceptível através de imagem ou áudio com interferências, ruídos? Com a implantaçãoda TV digital isso não continuará ocorrendo. Os sinais de cada emissora serão transmitidosapenas em seu respectivo canal. Com isso, os canais vagos poderão ser ocupados. Ainda em relação a imagem, não é possível comparar os sistemas analógico e digitalsem tratar do formato desta e, conseqüentemente, dos televisores. Na tradicional, a telatem proporção de 4x3, mais quadrada, enquanto na HDTV esta relação é de 16x9, maisretangular, o que impacta – sobretudo – na produção televisiva. Afinal, a composição dascenas implica numa nova estética, num olhar novo para a definição também de quadrose ângulos. Outra vantagem técnica e de sinal da TV digital é a possibilidade de compactação 56
  • 56. deste. Na tecnologia analógica, os sinais não podem ser comprimidos ou compactados.Ou seja, cada pixel precisa estar incluído no sinal, totalizando 378 mil pixels por quadro,o que ocupa todo canal de 6 MHz disponível no sistema brasileiro. Já os sinais datransmissão digital podem ser compactados e, conseqüentemente, não há necessidadede utilização de toda a banda na transmissão. Isto resulta na possibilidade de que maisconteúdo seja veiculado por cada banda. Ou seja, uma banda que hoje comporta umcanal – que representa uma emissora, ou seja, um conteúdo ou programação – de TV,poderá, com a digitalização, transmitir o sinal de até quatro canais, emissoras, conteúdosou programações diferentes simultaneamente. Porém, as diferenças ou vantagens da TV digital, numa comparação com atelevisão analógica, vão além do sinal e da imagem. E neste ponto residem as inovaçõesmais profundas permitidas pelo sistema em gestação e, também, onde se encontram asmaiores expectativas e promessas. E aqui as palavras-chave são portabilidade, mobilidadee interatividade. A interatividade é uma das características mais festejadas da TV digital. Afinal,significa, em tese, o fim da unilateralidade nas transmissões televisivas. Ou seja, o assistirtelevisão deixa de ser um ato passivo, e o telespectador se torna um agente nesseprocesso, podendo com apenas um toque no controle remoto interagir com a emissora.As possibilidades com abertura desse “canal” são inúmeras. O telespectador votar emprogramas como realitys shows, responder a testes, participar de debates, acessar mais 57
  • 57. informações sobre o conteúdo (programa, por meio de um banco de dados web conectadoà própria TV) e comprar – desde produtos anunciados nos intervalos comerciais até aroupa da apresentadora do telejornal ou o lençol que aparece numa das cenas da novela.De um modo geral, tais possibilidades já marcam o dia-a-dia dos brasileiros, embora seprocessem não através do próprio aparelho de TV e sim a partir de uma segunda mídia, ocomputador conectado a internet. Mobilidade e portabilidade se complementam e são recursos que ainda engatinhamno cotidiano verde-amarelo. Portabilidade, de seu turno, diz respeito a recepção –gratuita - dos sinais, em formato digital, das emissoras de TV abertas em equipamentoscomo laptops, celulares, televisores portáteis. Já a segunda refere-se a recepção daprogramação por esses mesmos aparelhos mesmo com eles em movimento – o quesignifica a possibilidade de acompanhar a novela, o telejornal ou o filme caminhando, nocarro, no trem ou no ônibus.A digitalização da TV Globo: observações dos Seminários Globo-Intercom 2007 e2008 Um quadro geral de perspectivas e expectativas dominou a parcela sobre TVDigital do seminário de 2007, cujo tema central era a gestão da Indústria do Audiovisual,especificamente a Rede Globo de Televisão. Um vídeo lúdico, apresentado por ZecaCamargo (âncora do dominical Fantástico), apresentava à platéia docente as diferenças 58
  • 58. técnicas previstas para paulatinamente entrarem em vigor (e que, no seminário de2008, já tinham desdobramentos mais nítidos) – entre elas a necessidade de um melhoracabamento da cenografia e cuidados redobrados com a iluminação, já que, no esquemaHTDV, o suor de determinado ator, durante as gravações de uma novela, minissérie ousoap opera, por exemplo, se tornaria/tornará mais evidente ao telespectador, algo que,esteticamente, faz parte do rol de abominações dos manuais de TV. E, se em 2008 (como se verá nas linhas a seguir), o quadro ainda era de preocupação/indefinição, tal cenário era mais notório no evento do ano passado. No braço jornalísticodo grupo Globo, o mote de discussões sobre os impactos da HDTV se centrava nos custosdos equipamentos e de logística. Uma unidade móvel de alta definição, ponderaramdirigentes da emissora em diversos momentos do Seminário, tem custo-padrão previstopara os próximos anos na casa de alguns milhões de dólares, dependendo da complexidadeexigida para determinada transmissão. Outro item de discussão na edição de 2007, a partir de ganchos lançados porOctávio Florisbal, diretor geral da TV Globo, logo na conferência de abertura do congresso(ainda na sede do bairro Jardim Botânico), era a perspectiva de que a massificaçãoda HDTV seria um processo de pelo menos 10 anos. Dito de outro modo, a TV de altadefinição tenderia a ser um negócio comercialmente viável em larga escala por volta de2018, quando boa parte do território brasileiro estaria coberto pelo novo sistema, coma maior parcela da população já tendo equipamentos adequados à disposição em suas 59
  • 59. residências, escritórios e espaços móveis (como táxis). No âmbito interno, a direção doconglomerado estimava que as 121 emissoras da rede estariam totalmente adaptadas àalta definição por volta de 2016. Cabe lembrar que, semanas antes do Seminário 2007, omesmo Florisbal havia anunciado que, entre 2007 e 2009, o grupo pretendia aplicar U$100 milhões anuais em melhorias de toda espécie, boa parte dos quais para pesquisa edesenvolvimento voltados para TV digital. Ao longo do evento, as falas de lideranças globais como Luís Erlanger (diretor daCentral Globo de Comunicação), Luiz Gleiser (diretor de programas de entretenimento),Luiz Fernando Lima (diretor geral de Esportes) e, principalmente, Florisbal apontavampara o começo das operações públicas da TV Globo em alta definição para dezembro de2007, em São Paulo, primeiramente, o que acabou ocorrendo, levando o novo métodonos meses seguintes para a cidade do Rio de Janeiro. O apontamento de que dezembroseria um mês-chave para a emissora acabou se tornando um ponto de referência bastantepalpável para a platéia seletiva do evento, em meio a um emaranhado de incertezas eprevisões, algo que se dissiparia em boa quantidade na edição de 2008 (cabe lembrarque o Seminário de 2007 não era focado na TV Digital, mas no propalado Padrão Globode Qualidade, o que incluiu, para os congressistas, uma visita aos diversos, amplos emoderníssimos estúdios de telejornalismo e às cidades cenográficas do Projac). No momento seguinte, a televisão digital, a implantação gradativa pela TV Globoe como a emissora carioca vem se preparando para esse novo momento da transmissão 60
  • 60. de som e imagem foram temas recorrentes no Seminário Globo-Intercom 2008. Apesar dotema - O entretenimento da TV Globo - aparentemente não ter relação com este assunto,por sua importância e atualidade, ele já se colocava como de fundamental discussãona contemporaneidade na programação. Afinal, uma das sete palestras previstas tinhacomo título TV Digital. Mas não foram apenas os palestrantes Celso Araújo, gerente deOperações, e Rodolfo Santos, responsável pela caracterização, que a abordaram. Logo na abertura, o diretor de Competências da Central Globo de Produção(uma espécie de prefeito do Projac, como o apresentou o diretor da Central Globo deComunicação, Luis Erlanger), Edson Pimentel, enfatizou que, nos últimos três anos, o fatorde maior preocupação da/na CGP – Central Globo de Produção – é/era como produzircom qualidade em alta definição. Preocupação justificada pelas mudanças nos modos de se fazer televisão quea HDTV já começa a exigir. Mudanças que passam pela técnica – que ainda precisa serestudada, pesquisada, entendida, aprimorada – e, este é um motivo extra de preocupaçãojá que demandará uma mudança cultural, pelos profissionais de TV. Por isso, segundoPimentel, a TV Globo tem investido em qualificação que é “intrínseca ao HDTV”. Para demonstrar as transformações exigidas pela – e também conseqüênciada – TV digital, Pimentel citou as proporções da nova tecnologia (16x9 contra 4x3 daTV convencional, mencionadas anteriormente neste texto) que, nas palavras dele,representam um “desafio adicional”. O formato mais retangular dos televisores, e 61
  • 61. conseqüentemente das imagens, “impacta também nos estúdios” que, de acordo com odiretor de Competências da CGP, precisarão ser construídos em formato diferente queainda precisa ser pensado/definido. O formato da TV digital também foi colocado como um desafio por Celso Araújo,um dos responsáveis pela implantação da TV digital pela emissora. “O equilíbrio estéticodas cenas está em jogo, afinal, nesse período de transição, algumas pessoas vão receberas imagens mais quadradas – no caso, quem continua(rá) com a TV analógica – e outrasverão as mesmas cenas mais retangulares – quem tiver em casa uma TV de plasma ou LCDe um conversor”, enfatizou. As dificuldades por quem produz conteúdo televisivo nesse momentos vão além doenquadramento e não são decorrência, apenas, do novo formato. A cenografia precisarátambém ser aperfeiçoada. Afinal, a TV analógica permite que as imitações utilizadas comosoluções mais viáveis financeiramente. Porém, com a TV digital, as paredes não poderãomais ser revestidas com papéis que imitam tijolos ou madeira. Esses ficarão evidentes nasimagens. Com a migração de sistemas, as paredes precisarão ter a textura original. Como exemplo de como as mudanças são fundamentais nesse área, durante apalestra TV Digital foram exibidas cenas em modo analógico e digital de um mesmo porta-retrato e de um mesmo abajur. Na TV tradicional, nenhuma imperfeição era perceptível.Já no segundo caso ficavam evidentes digitais no porta-retrato e um parafuso espanadoe de cor diferente dos outros no abajur. 62
  • 62. Outro fator de preocupação é com a caracterização de personagens. A TV digital, quetorna os detalhes até seis vezes mais perceptíveis, é implacável com rugas e manchas napele, por exemplo. Por isso, as maquiagens precisarão ser mais uniformes. Cabelos, barbase bigodes postiços também perderão a naturalidade e parecerão mais artificiais. “A HDTVestá sendo estudada e testada no mundo e aqui não é diferente. O sangue cenográfico,por exemplo, vai precisar de uma gama de pigmentos sangue. O que funcionar paraum determinado tipo de tecido provavelmente não terá o mesmo resultado em outro”,explicou um dos responsáveis pela caracterização na TV Globo, Rodolfo Santos. Ainda sobre a TV digital – seus desafios e como a TV Globo tem lidado com cadaum deles - foi apresentado o vídeo “Altas Definições – a TV digital está chegando, estejapreparado”. O audiovisual apontou que os estudos relacionados a TV de alta definiçãocomeçaram ainda em 1994 e foram intensificados a partir de 1999. De lá até os dias atuais,as preocupações maiores estiveram relacionadas à 1) como produzir com qualidade nonovo formato (mudanças ligadas à cenografia, à caracterização, ao enquadramento e àluz); 2) ao sistema a ser adotado pelo Brasil e a defesa do padrão japonês por ser o únicoa permitir alta definição, mobilidade e portabilidade conjuntamente; 3) à digitalizaçãoda produção global (hoje, São Paulo opera digitalmente, por exemplo, e a novela das 21horas e as partidas de futebol já são produzidas em alta definição e, também, transmitidosassim da mesma maneira que os filmes). O vídeo Altas definições também abordou as temáticas que estarão no centro das 63
  • 63. preocupações, estudos e pesquisas daqui em diante: 1) a transmissão em alta definiçãopelas emissoras de todas as capitais brasileiras até o final de 2009 e, principalmente, 2)a captação de um “mercado adicional de audiência”, ou seja, pessoas que não estão emcasa e que, mesmo em trânsito, poderão assistir a programação graças a portabilidadee a mobilidade. De acordo com vídeo, “essa audiência deve provocar mudanças naprogramação”.Reflexões (nada) finais A melhora na qualidade do sinal no sistema digital é inegável e palpável. Por isso, apreocupação global por aprimorar o lado estético (cenografia, caracterização, composiçãode cenas) neste primeiro momento. Afinal, a produção em HDTV, embora ainda parciale em menor escala que a em sistema analógico, começou. A transmissão também. E arecepção, para os telespectadores que já compraram um televisor de alta definição ouum conversor (ainda com preço elevado), também. Segundo informações repassadas novídeo Altas definições, nesse último caso, a imagem e o áudio são melhores que as dequem tem TV a cabo. Já a expectativa da implantação da multi-programação, embora tecnicamentepossível com a TV digital, deve ficar apenas no nível das possibilidades. Isso porque,segundo o gerente de Operações da TV Globo, Celso Araújo, “pensando em termos denegócio não é viável. Afinal, levando em conta que um canal poderá se dividir em três, para 64
  • 64. manter três programações diferentes, teremos três custos de produção. E isso acarretariaem divisão da audiência e, também, dos anunciantes”. O que pode se concretizar é apossibilidade de câmeras extras, em jogos de futebol, por exemplo. Quem quisesse teracesso a essas imagens, compraria o direito de assisti-las. Mobilidade e portabilidade são entendidas como uma revolução a parte dentro daTV digital e, por isso, merecerão a concentração dos estudos e das pesquisas a partir dessemomento. Afinal, significam a ampliação da audiência quantitativa. Tome-se o caso domunicípio de São Paulo como ilustração: dados oficiosos indicam a circulação permanentede 32 mil táxis pela capital, que devem passar a ser parte desse novo público-alvo dasemissoras televisivas. E tal aumento da audiência, como conseqüência, resultará em maisanunciantes e mais receita. Por isso, a preocupação e a expectativa que essa audiência“provoque mudanças na programação”, como afirmou Araújo, uma fala ainda um tantovaga mas prenúncio de revoluções por minuto que estão por acontecer na mídia TV, amais fantástica máquina de difusão informacional que o Ser Humano já criou.Bibliografia ConsultadaCENTRAL GLOBO.COM, http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo, acesso em 22 fev 2009.DIZARD JR, Wilson. A nova mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. 65
  • 65. GALPERIN, Hernan. Comunicación e integración en la era digital: um balance de latransición hacia la televisión digital en Brasil Y Argentina. Revista Eletrônica Telos,Madrid, 2003.NEGROPONTE, Nicholas. Vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 66
  • 66. A percepção dos universitários da UFSC sobre o Jornalismo - uma abordagem quantitativa1 Tarsia Paula Piovesan FARIAS2 Eduardo MEDITSCH3 A primeira etapa deste estudo, de natureza qualitativa, baseou-se em seteentrevistas semi-estruturadas (em profundidade) feitas com jovens de ambos os sexosde faixa etária entre 14 e 29 anos, moradores da região metropolitana da capital, entreoutubro e dezembro de 2007. A metodologia foi escolhida de modo a extrair dosentrevistados suas opiniões e reflexões pessoais com maior profundidade. As entrevistasindividuais foram orientadas a partir de um tópico-guia elaborado com vistas a baseteórica estudada (estudos de recepção), partindo da constatação de que o consumo dejornalismo de todas as faixas etárias e socioeconômicas vem caindo desde a geraçãopassada (MINDICH, 2005). O objetivo foi descobrir o que motivava e o que desestimulava os entrevistados aacompanhar as notícias, levando em conta as circunstâncias particulares de cada pessoa.Tentou-se buscar nos entrevistados diferentes características no que diz respeito a sexo,1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Ex-bolsista de Iniciação Científica do Programa Pibic CNPq/UFSC, formada em Jornalismo em dezembro de2008 pelo Curso de Jornalismo da UFSC.3 Orientador do trabalho. Pesquisador do CNPq e professor doutor do Curso de Jornalismo da UFSC. 67
  • 67. idade, atividade ocupacional, nível de renda e religião, de modo a obter um espectrosocioeconômico mais amplo da juventude florianopolitana. Apesar disso, a seleção nãopretendeu ser representativa do público jovem de Florianópolis, ou seja, a amostragemda pesquisa não é adequada para conclusões estatísticas quantitativas. Os resultados da primeira fase trouxeram algumas razões para a tendênciade queda no consumo de notícias, principalmente entre as populações mais jovens(MINDICH, 2005). Entre as razões apontadas pelos entrevistados, o principal motivo donão-acompanhamento das notícias é que o hábito de consumir notícias não faz partedaquilo que o jovem elege como prioridade. Eles assinalam que há muitas outras coisaspara se fazer, que a vida hoje em dia está muito corrida e que é improvável que o tempodedicado ao lazer inclua os noticiários. Os jovens entrevistados em geral entendem quenão há necessidade de saber o que se passa no mundo através das notícias. Para eles, aprioridade é o entretenimento. O entrevistado E3, 29 anos, acredita que “os jovens tãopreocupados mais com o mundinho deles ali do que saber o que tá acontecendo, né. Eu,propriamente, assisto pouco jornal, me deixo levar mais por um desenho animado doque por um jornal.” Já E5, 14 anos, diz que “tem muita coisa melhor pra fazer, do que irpesquisar jornal, ler jornal. Entediante, tipo, a leitura já tá virando entediante”. Nossa pesquisa confirmou o resultado de outra, realizada nos Estados Unidos epublicada em 2005 no livro Tuned Out - Why Americans Under 40 Don’t Follow The News,David Mindich entrevista jovens americanos de várias localidades do país com a finalidade 68
  • 68. de descobrir porque as pessoas abaixo de 40 anos vêm abandonando as notícias. Em umade suas conclusões, o autor responsabiliza o aumento das opções de entretenimentocomo um dos motivos para a queda de consumo de jornalismo entre os jovens: In discussion with young people around the country, the topic of entertainment came up again and again. If we want to understand why many young people don’t follow the news, we need to understand the lure of entertainment. (...) what attracts young people today has little to do with news and a lot to do with their own wants. (MINDICH, 2005, p.41-53). Outras razões também foram apontadas pelos entrevistados. Entre elas destaca-sea percepção de que as notícias locais são de má-qualidade. Os jovens entrevistados deFlorianópolis se referiram aos telejornais e jornais impressos regionais como repetitivose pouco relevantes. Mindich (2005, p.78) também encontrou o mesmo problema aoentrevistar jovens norte-americanos: “even among young people who were tuned in tonational news, there was a lot of frustration about the local stuff.” O alto preço das revistase jornais – e o fato de que a compra de um impresso implica em pagar por uma grandequantidade de propaganda indesejada – faz com que as publicações impressas nãosejam lidas. Outros pretextos apresentados foram a falta de tempo, a preguiça, a sensaçãode que as notícias não interferem no cotidiano, e a idéia de que “ler jornal e ouvir rádio[de notícias] é coisa de velho”, justificativa que apareceu na fala dos entrevistados maisnovos. 69
  • 69. A despeito do objetivo desta investigação (descobrir as possíveis causas de rejeiçãono consumo de notícias), os entrevistados apontaram mais razões para consumi-las do quepara ignorá-las, embora estas razões não sejam suficientes para motivar o consumo. E adespeito dessas razões positivas, eles mesmos não procuravam se informar regularmenteatravés da imprensa. O motivo mais citado foi a necessidade de colher informações econhecimentos para formar opinião sobre diversos assuntos e servir de alimento para asconversas com amigos, parentes e conhecidos, como revelou E5, 17 anos: “(...) pra formaropinião e pra expor essas opiniões. Tipo, impor o que eu penso e ás vezes tentar mudaralgo com isso. Não fazer a pessoa pensar do jeito que eu penso, mas tipo, demonstrarmesmo que a minha opinião é igual ou deixa de ser igual a dos outros”. Além de aproveitarem as notícias para bater papo, os jovens consideraram-nasúteis para adquirir conhecimentos e informações proveitosos para a escola, vestibular,profissão e seleções de emprego. Como disse E5, 17 anos “Ah, eu já precisei saber muitodo mensalão pra fazer redação pra escola e eu não sabia. ? um assunto que eu soucompletamente por fora, não me interessei naquela época, não tava nem aí. Foi até umerro, eu gostaria de saber até”. As notícias são usadas também como forma de prevençãocontra roubos, golpes, aumentos de preços e outros episódios do cotidiano que poderiamser evitados ou aproveitados de algum modo, desde que conhecidos antecipadamente,como explicou E5, 17 anos: “Então pelo menos eu sei do que acontece, pelo menos se algoacontecer não posso falar assim: ‘ah, não sabia’, deixar me levar pela opinião dos outros e 70
  • 70. não saber o que eu tô fazendo (...) tem que saber pra poder escolher melhor para si”. As preocupações que os jovens têm sobre os problemas do mundo tambéminfluenciam o consumo de notícias, pois fazem os mesmos se informarem sobre essesassuntos causadores de apreensão. As notícias com enfoque ecológico são as que maisinteressam esses jovens. Poluição, aquecimento global e falta de água foram os maiscitados. A proximidade, tanto espacial quanto afetiva, estimula os jovens a consumiremnotícias. Embora os entrevistados tenham apontado a má-qualidade das notícias regionaiscomo motivo de não-acompanhamento, o jornalismo regional também foi consideradoum fator de aproximação a esse tipo de notícias por se sentirem identificados com elas. Os meios mais utilizados pelos entrevistados para consumirem notícias foram aTV, a internet e em menor grau o jornal e a revista. Esta etapa preocupou-se em mapeara variedade de razões, para que na segunda etapa se pudesse testar a prevalência dosmeios utilizados e opiniões apontadas pelos entrevistados.Métodos Esta segunda fase baseou-se em 97 entrevistas feitas com jovens de ambos os sexoscom faixa etária entre 17 e 33 anos, estudantes regularmente matriculados em cursosde graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), localizada na capitaldo estado. A amostra foi escolhida por representar uma parcela jovem da populaçãoem um universo bem delimitado. O número total de alunos da graduação regularmente 71
  • 71. matriculados durante o período de realização da parte quantitativa do estudo (1. semestrede 2008) era de 24.833 pessoas. Esse survey foi obtido a partir da aplicação, de junho ajulho de 2008, de um questionário de 20 questões de múltipla escolha, elaborado a partirdos resultados das entrevistas da fase qualitativa. Os questionários foram aplicados através do método de entrevista, em que aentrevistadora fazia as perguntas oralmente e anotava as respostas. Apenas uma perguntafugiu à regra: a número sete, uma tabela que pedia ao entrevistado que classificasse17 tipos de notícia em quatro categorias: importante, interessante/legal, útil e fácil deentender, podendo escolher para cada categoria as respostas muito, médio, pouco ounada. Devido ao tamanho da tabela, a entrevistadora pediu que os próprios entrevistadosmarcassem as respostas após uma explicação do que se pretendia com a questão. Asentrevistas foram feitas em sua maioria nas lanchonetes localizadas no campus, na horado intervalo das aulas, quando era mais fácil encontrá-los com tempo e sentados emmesas, o que facilitava a aplicação. A amostra foi definida através da técnica de amostragem estratificada proporcional,em que a proporcionalidade do tamanho de cada estrato da população é mantida (Barbetta,2007:, p.49), e o número de entrevistados foi decidido em comum acordo entre a bolsistae o orientador. O cálculo de amostragem foi feito inicialmente com 100 entrevistados,mas o cálculo de porcentagem por centros da UFSC produziu um total de 97 entrevistas.Os critérios de estratificação foram os centros a que os alunos pertenciam (os centros 72
  • 72. agrupam os cursos superiores de uma mesma área) e o sexo de cada entrevistado. Essaescolha deveu-se ao fato de a UFSC não possuir registro de nenhum outro dado sobre osalunos de graduação que pudesse servir de critério. Os dados utilizados foram fornecidospelo Departamento de Administração Escolar (DAE) da universidade. Segue abaixo onúmero de entrevistados e esses divididos proporcionalmente por sexo e por centro. Tabela 1: Número de entrevistados distribuídos por centros universitários e sexo Centro CCA CCB CCE CCJ CCS CDS CED CFH CFM CSE CTC Masculino 2 1 4 2 3 1 1 5 6 10 16 Feminino 1 1 8 2 6 1 3 4 5 10 5Tabela elaborada pela autora. Legenda: CCA - Centro de Ciências Agrárias CCB - Centro de Ciências Biológicas CCE - Centro de Comunicação e Expressão CCJ - Centro de Ciências Jurídicas CCS - Centro de Ciências da Saúde CDS - Centro de Desportos CED - Centro de Ciências da Educação CFH - Centro de Filosofia e Ciências Humanas 73
  • 73. CFM - Centro de Ciências Físicas e Matemáticas CSE - Centro Sócio-Econômico CTC - Centro Tecnológico Para a definição de renda, utilizou-se o Critério de Classificação Econômica Brasil(CCEB), disponibilizado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP). Ocritério define a população em classes econômicas (A1, A2, B1, B2, C1, C2, D, E), “enfatizandoa função de estimar o poder de compra das pessoas” através da posse de itens e do grau deinstrução do chefe da família. Ao final do questionário foram acrescentadas dez perguntas,e a soma dos pontos de cada resposta indicaram a classe econômica de cada entrevistado.Segue abaixo o número de entrevistados por classe econômica. Tabela 2: Número de entrevistados distribuídos por classes econômicas Classes Econômicas A1 A2 B1 B2 C1 C2 Número de entrevistados 5 18 29 27 16 2 Classes Econômicas A B C Número de Entrevistados 23 56 18Tabela elaborada pela autora O questionário pronto foi inicialmente aplicado em três jovens. Essas trêsentrevistas não foram utilizadas na pesquisa, pois serviram como teste para a definição 74
  • 74. do questionário final. Depois de realizados os ajustes – principalmente a troca de termoscomplexos por outros de mais fácil compreensão – o questionário foi dado como pronto.Ainda assim houve dificuldades, pois alguns entrevistados reclamavam da extensão doquestionário e da tabela (questão sete), a qual foi motivo de manifestações de irritação oupreguiça por parte desses jovens. Foram entrevistados 52 homens e 45 mulheres no total, com idades entre 17 e33, sendo que as idades que mais ocorreram foram 20 anos (22 entrevistados), 19 (16entrevistados), 21 (15 entrevistados) e 22 (13 entrevistados). Todos os dados pessoaisrelevantes dos entrevistados e respostas às perguntas do questionário foram digitalizadose analisados por meio do programa Access da Microsoft Office. Os resultados estãoexpressos a seguir.Resultados Esta etapa quantitativa descobriu que 93,8% dos universitários da UFSCacompanham notícias, enquanto apenas 6,1% não o fazem, e 51,5% gastam de uma aduas horas por dia nessa tarefa. 6,1% gastam de três a quatro horas, 1% gasta de cinco aseis horas, e ninguém gasta sete ou mais horas na tarefa. Os que utilizam meia hora parase informarem aparecem em segundo lugar com 23,7%, e 11,3% utilizam menos de meiahora. Ou seja, a maioria dos entrevistados disse acompanhar regularmente as notícias daimprensa brasileira – como se vê no gráfico abaixo: 75
  • 75. Gráfico 1: Freqüência de acompanhamento de notícias com especificação de mídiaem número de universitários entrevistados (97 no total) A TV é o meio mais utilizado como fonte noticiosa para os entrevistados dentretodas as mídias, mas a internet supera a TV no número de jovens que utilizam o meio 76
  • 76. todos os dias em busca de notícias (60% preferem navegar pela internet à procura denotícias). São poucos os jovens que quase não assistem a programas jornalísticos natelevisão (6%). Uma pergunta aberta pedia para que os entrevistados indicassem quaisos programas jornalísticos da TV que assistiam. Foram citados 18 programas diferentes, amaioria telejornais, e o número total de citações foi de 167. A Rede Globo foi o grupo como maior número de programas citados: 86,2% dos universitários assistem a programasjornalísticos nas emissoras de sinal aberto ou a cabo da rede. O telejornal mais visto pelosentrevistados é o Jornal Nacional, com 35,3% das citações; e o Jornal do Almoço, da RedeBrasil Sul de Comunicação (RBS), é o telejornal regional mais assistido.Tabela 3: Programas noticiosos de TV citados pelos entrevistados por número decitações Programa noticioso de TV Número de vezes citadas Jornal Nacional 59 Jornal da Globo 18 Jornal do Almoço 16 Jornal da Record 13 Jornal Hoje 12 Bom Dia Brasil 10 RBS Notícias 7 Jornal da Band 6 77
  • 77. Programa noticioso de TV Número de vezes citadas Fantástico 6 Bom Dia Santa Catarina 5 Globo News (Emissora) 4 Globo Esporte 4 CNN (Emissora) 2 Jornal da Rede TV! 1 Jornal da Cultura 1 Globo Rural 1 Domingo Espetacular 1 Manhattan Connection 1Tabela elaborada pela autora. Já na internet, os grandes portais que unem notícias com entretenimento são osque mais atraem os entrevistados, seguidos pelos sites que disponibilizam o serviço dee-mail, como o Yahoo! e o MSN. O site Terra foi o mais citado, com 23,3% das referências, eo Globo.com o segundo mais citado (19,6%). O site Folha Online, do jornal Folha de S. Paulo,apareceu em terceiro lugar, com 15,4% das citações, enquanto 10,4% dos entrevistadosdisseram acessar o clicRBS para acompanhar notícias. Sites de notícias esportivas, denotícias sobre economia e de jornais estrangeiros também foram mencionados pelomenos uma vez, conforme a tabela abaixo. 78
  • 78. Tabela 4: Sites só de/com notícias citados pelos entrevistados por número decitações Sites (só de/com notícias) Número de vezes citadas Terra 38 Globo.com 32 UOL 20 ClickRBS 17 Folha Online 15 Yahoo! 13 MSN 9 Estadão 2 Centro de Mídia Independente (CMI) 2 Reuters 1 Gazeta Esportiva 1 Lancenet 1 Bloomberg 1 Financial Times 1 Globo Esporte 1 BBC 1 New York Times 1 Gazeta Mercantil 1Tabela elaborada pela autora. 79
  • 79. A revista foi a que menos concentrou os entrevistados na opção todo dia, mas élida por mais da metade dos entrevistados algumas vezes por mês. (52,5% lêem revistaalgumas vezes por mês, e 21,6% lêem pelo menos uma vez por semana). Considerandoque a maioria das revistas que os entrevistados disseram ler são mensais, há muitouniversitários que lêem revistas. A Veja, da Editora Abril, é lida por 27,4% dos estudantes, ea Superinteressante, publicada pela mesma editora, fica em segundo lugar na preferênciados entrevistados com 14,8%. As revistas Exame e Você SA aparecem na 5? e 6? posições, echamam a atenção por serem revistas específicas sobre administração e negócios.Tabela 5: Revistas impressas citadas pelos entrevistados por número de citações Revista Número de vezes citadas Veja 37 Superinteressante 20 Época 14 Isto É 9 Exame 8 Você SA 6 Carta Capital 5 Estilo 2 Seleções 2 Quatro Rodas 2 80
  • 80. Revista Número de vezes citadas Galileu 2 Bravo 2 Mundo Estranho 2 Caros Amigos 2 Ciência Hoje 2Scientific American 2 Info Nature 1 Globo Rural 1 Ana Maria 1 Vida Simples 1 Piauí 1 Rolling Stone 1 Mente e Cérebro 1 Men’s Health 1 Saúde! 1 Viva Saúde 1Medicina Alternativa 1 Casa Cor 1 Gloss 1 Manequim 1 81
  • 81. Revista Número de vezes citadas Cláudia 1 Época Negócios 1Tabela elaborada pela autora. O jornal impresso é muito pouco utilizado como fonte de informação pelos jovens,pois apenas 7% dos entrevistados disseram ler jornal todos os dias em um meio cujacirculação é predominantemente diária. Apesar disto, 26,8% lêem jornal pelo menos umavez por semana. O Diário Catarinense, da RBS, é o mais lido pelo público universitário(58,3%). A Folha de S.Paulo, da Empresa Folha da Manhã, é o segundo na preferênciados jovens leitores entrevistados (16,6%). O único jornal de bairro citado foi o Jornal doCampeche, produzido pela própria comunidade moradora do local.Tabela 6: Jornais impressos citados pelos entrevistados por número de citações Jornal Impresso Número de vezes citadas Diário Catarinense 30 Folha de São Paulo 10 A Notícia 5 Hora de Santa Catarina 3 Zero Hora 1 Estadão 2 82
  • 82. Jornal Impresso Número de vezes citadas Valor Econômico 2 Página 3 (Balneário Camburiú) 1 VIP (Santo Amaro da Imperatriz) 1 Regional (São Miguel do Oeste) 1 Jornal do Campeche (Florianópolis) 1Tabela elaborada pela autora. O rádio supera o jornal impresso em audiência diária (18,5% dos entrevistadosouvem notícias em emissoras de rádio todos os dias, enquanto 7% lêem jornaldiariamente). Uma pergunta aberta pedia para os entrevistados nomearem os programasde notícias que ouviam na rádio, mas o único nome de programa citado foi a Voz do Brasil,por vezes chamada de Hora do Brasil. Os estudantes indicaram as emissoras de rádio emque ouviam notícias, mas não souberam apontar o nome dos programas que ouviam.A emissora mais citada foi a CBN Diário AM (32% dos jovens que ouviam rádio disseramouvir essa emissora). A Voz do Brasil apareceu com 10,3% das citações. As emissoras maisouvidas pelos jovens entrevistados foram as seguintes: 83
  • 83. Tabela 7: Emissoras de rádio só de/com notícias citadas pelos entrevistados pornúmero de citações Emissora de rádio só de/com notícias Número de vezes citadas 1 CBN Diário Florianópolis AM 31 2 Voz do Brasil da ECB (programa) 10 3 Atlândida FM 3 4 Jovem Pan FM 3 5 UDESC FM 1 6 Rádio Comunitária Campeche FM 1 A pesquisa quantitativa também procurou descobrir o que pensam os jovensuniversitários sobre as notícias que consomem. Para isso, montou-se uma pergunta queavaliava o grau de concordância do entrevistado em quatro questões sobre característicasdas notícias que poderiam influenciar no seu consumo, como se vê na tabela a seguir:Tabela 8: Avaliação das notícias por número de entrevistados Geralmente, as notícias informam todas as opiniões sobre os assuntos? Muito: 1 Médio: 21 Pouco: 56 Nada: 19 Geralmente, as notícias trazem a sua opinião sobre os assuntos? Muito: 13 Médio: 48 Pouco: 33 Nada: 3 84
  • 84. Geralmente, as notícias trazem informações completas? Muito: 4 Médio: 45 Pouco: 43 Nada: 5 Você acha que dá pra acreditar no que as notícias falam? Muito: 3 Médio: 56 Pouco: 37 Nada: 1Tabela elaborada pela autora. Analisando os dados, percebe-se que os universitários consideraram que asnotícias em geral pouco informam o leitor/expectador/ouvinte sobre todas as opiniõesacerca de um fato, e vêem suas opiniões medianamente e pouco representadas nasnotícias. Os estudantes perceberam as informações trazidas pelas notícias como pouco oumedianamente completas. Apesar de terem um baixo índice de confiabilidade, os jovensas consideram úteis para formar opinião e obter assuntos para as conversas do dia-a-dia(quase 96% dos entrevistados afirmaram comentar as notícias com amigos, parentes econhecidos). Sobre a propaganda encontrada em todos os meios que veiculam notícias, 39,1%dos jovens disseram que a propaganda atrapalha muito; 43,2% que a propagandaatrapalha pouco; e 17,5% que a propaganda não atrapalha. Ou seja, 82,4% se incomodamem algum grau com as propagandas, independentemente deste. Sobre o preço dos jornaise revistas, 49,4% acham que são caros, e o mesmo porcentual acha que são acessíveis.Mesmo assim, 69% dos entrevistados deixam de comprar uma publicação por causa dopreço elevado, como aponta a tabela: 85
  • 85. Tabela 9: Avaliação dos obstáculos ao consumo de notícias por número deentrevistados A propaganda atrapalha quando você lê jornal ou revista, ouve rádio, vê TV ou navega na internet? Atrapalha muito: 39 Atrapalha pouco: 42 Não atrapalha: 17 Em sua opinião, o preço dos jornais e revistas brasileiros é: Caro: Acessível: Barato: 0 Você gostaria de comprar um jornal ou revista e deixa e comprar por causa do preço? Sim: 67 Não: 30Tabela elaborada pela autora.Conclusões Através da comparação das duas fases da pesquisa pode-se concluir que a principalrazão para o não-acompanhamento de notícias entre os jovens é a questão de prioridadese preferências, e o principal motivo que os leva a consumir notícias é a necessidade decaptar informações para formar opiniões e arranjar assuntos para as conversas do dia-a-dia. Entretanto, a hipótese formulada a partir dos resultados da fase qualitativa não seconfirmou totalmente no caso dos universitários entrevistados na segunda etapa, poisos resultados dos questionários mostraram que a maioria quase absoluta destes jovensdeclarou acompanhar as notícias, e mais da metade dos entrevistados disse dedicar entreuma e duas horas do seu dia para essa atividade. Essa discrepância pode ter sido causada 86
  • 86. pela diferença entre os públicos da pesquisa: os jovens da etapa qualitativa possuíam de14 a 29 anos, e apenas um encontrava-se na universidade, enquanto os jovens da etapaquantitativa tinham entre 17 e 33, e todos eram estudantes universitários. A TV é o meio mais utilizado como fonte noticiosa para os entrevistados emquantidade de uso mais freqüente, mas a internet supera a TV no número de jovens queutilizam o meio todos os dias em busca de notícias. A TV é também o meio que tem amenor taxa de rejeição, pois são poucos os jovens que assistem pouco ou quase nãoassistem a programas jornalísticos na televisão. O rádio tem a maior taxa de rejeição nacategoria quase nunca ou nunca, sendo que a maioria dos jovens quase não usa o rádiocomo fonte de notícias. Os entrevistados não conseguiram indicar o nome dos programasnoticiosos que costumavam ouvir, mas citaram as emissoras onde ouviam notícias.A revista é a que menos concentra os entrevistados na opção todo dia, mas é lida pormais da metade dos entrevistados algumas vezes por mês, em um meio em que muitaspublicações têm periodicidade mensal. O jornal impresso é muito pouco utilizado comofonte de informação pelos jovens, pois verifica-se que apenas sete entrevistados lêemjornal todo dia em um meio cuja circulação é predominantemente diária. Com relação às emissoras e empresas produtoras de conteúdo midiático, a RedeGlobo predomina no número de programas de TV nacionais mais assistidos. Já na seararegional, os telejornais mais assistidos são da RBS. A RBS domina também o consumode notícias através do jornal impresso: 60% dos jornais citados pelos jovens são do 87
  • 87. grupo gaúcho. Na internet, o clicRBS aparece em quarto lugar como fonte noticiosa dosentrevistados, que preferem os grandes portais Terra, Globo.com e UOL. A revista semanalmais lida é a Veja, enquanto a mensal mais apreciada é a Superinteressante, ambas daEditora Abril. E por fim, no meio rádio, a CBN Diário AM é a de maior audiência, com 51,6%da preferência dos entrevistados. Durante a fase qualitativa, os entrevistados apontaram as editorias de política eeconomia como os tipos de notícia mais difíceis e menos consumidas. A parte quantitativaconfirma esse resultado: apesar de os jovens considerarem estas editorias muitoimportantes, elas não atraem seu interesse, pois são avaliadas como pouco legais. Os universitários consideram que as notícias no geral são pouco completas, poucotrazem a opinião do entrevistado, pouco representam o jovem, tem baixo índice deconfiabilidade, mas são úteis para formar opinião e obter assuntos para as conversas dodia-a-dia. A grande maioria deixa de comprar uma publicação impressa por considerá-lasde alto preço e acredita que a propaganda atrapalha a leitura de jornais e revistas.Bibliografia consultadaASSOCIAÇAO BRASILEIRA DE EMPRESAS DE PESQUISA. Critério de Classificação EconômicaBrasil. Disponível em http://www.abep.org/default.aspx?usaritem=arquivos&iditem=23.Acesso em 25 de maio 2008. 88
  • 88. AYRES, Melina e GARCIA, Maria Noel. Vosotras, nosotras y ellas. El receptor y laconstrucción de agenda. Memoria de grado Universidad Católica del Uruguay: 2005.BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisas de Survey. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.BARBETTA, Pedro Alberto. Estatística aplicada às Ciências Sociais. Florianópolis. Editorada UFSC, 2007.BAUER, Martin e GASKELL, George (editores). Pesquisa qualitativa com texto, imagem esom: um manual prático. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.DIJK, Teun A. Van. Notícias e conhecimento. Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol II N. 2,Florianópolis, Segundo semestre de 2005.FARIAS, Tarsia Paula Piovesan. A percepção dos jovens de Florianópolis sobre o jornalismo.Relatório final PIBIC/CNPq, Florianópolis, 29 ago 2008.LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. Muito além do Jardim Botânico. Um estudo de caso sobrea audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores. 3. ed. São Paulo: Summus,1985.KAPLUN, Mario. El estúdio de la recepción: un área prioritaria de investigación-acciónante los nuevos desafíos. In: MELO, José Marques de (coordinador). ComunicacíonLatinoamericana: desafíos de la investigacíon para el siglo XXI. São Paulo: AsociaciónLatinoamericana de Investigadores de la Comunicación / Escola de Comunicação e Artes, 89
  • 89. 1992.MEDITSCH, Eduardo B. V. Acessos e barreiras à informação: avaliação das interfaces sócio-cognitivas do discurso jornalístico no rádio e em outros meios. Projeto de Pesquisa. CNPq:2004.MEDITSCH, Eduardo. O rádio na Era da Informação. Florianópolis, Insular/EdUFSC, 2ed.2007MINDICH, David. Tuned out: why Americans under 40 don’t follow the news. Oxford, NewYork: Oxford University Press, 2005.PICCININ, Fabiana. Do outro lado da tela: as apropriações do telejornal pelos fumicultoresde Santa Cruz. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2007.PORTO, Mauro. A pesquisa sobre a recepção e os efeitos da mídia: propondo um enfoqueintegrado. In: FERREIRA, Giovandro Marcus; MARTINO, L. C. Teorias da Comunicação:epistemologia, ensino, discurso e recepção. Salvador: EDUFBA, p. 245-268, 2007.SILVA, Maria Terezinha. Gestão e mediações nas rádios comunitárias de SC. Limitese possibilidades educativas. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-graduação emEducação. UFSC, 2005.THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM. The State of the News Media 2004/2008:An Annual Report on American Journalism. New York, Columbia University. Disponível em 90
  • 90. Mercado de Trabalho: o que querem os jornalista formados em 2008, nas universidades estaduais do Paraná?1 Layse Pereira Soares do NASCIMENTO2O jornalista na empresa Boanerges Lopes (2003), afirma que a despeito dos preconceitos existentes contrajornalistas que optaram pelo exercício profissional em assessorias de imprensa, estatísticasrecentes demonstram uma mudança acentuada no mercado. O autor está se referindo àexpansão deste mercado que passa a contratar um número cada vez maior de jornalistas,ficando atrás somente das empresas jornalísticas. De acordo com Boanerges Lopes, “osegundo bloco de absorção de profissionais de comunicação é a área de ComunicaçãoEmpresarial e Institucional, com 40%, superando o rádio e a tevê, hoje com 20%” (LOPES,2003, p.13 ). Conforme Elisabeth Brandão: No Brasil, as atividades de comunicação que mais se expandem são as de assessoria e consultoria, frequente e erroneamente denominadas apenas por “assessoria de imprensa”, ainda que o trabalho cotidiano não esteja restrito à divulgação e contatos com a imprensa e, ao contrário, envolva ações de comunicação integrada com os clientes e opinião pública (BRANDãO; CARVALHO, 2002, p.199).1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 A autora é jornalista, professora efetiva da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), tem especiali-zação em Publicidade e Marketing e mestrado em Comunicação e Linguagens. 91
  • 91. Como as melhores ofertas de emprego se encontram nessa área, a disputa pelomercado de trabalho é acirrada, sobretudo entre jornalistas e relações públicas” (BRANDãO;CARVALHO, 2002, p.199). Os autores recordam que a execução do trabalho de assessoria“independe do profissional ser jornalista, publicitário, relações públicas ou qualquer outraprofissão” (BRANDãO; CARVALHO, 2002, p. 199). Gaudêncio Torquato afirma que as disputas entre relações públicas e jornalistascederam lugar à competência. “As empresas passaram a contratar profissionais pelocritério da qualidade profissional” (2004, p.5). Historicamente, Torquato apresenta o momento em que os jornalistas começama deixar as redações. “Já em meados dos anos 70, o mercado jornalístico dava sinais desaturação” (2004, p.4). De acordo com o autor, nesse momento há uma luta ideológicaentre os “jornalistas revolucionários” e os “imperialistas”. Estes últimos, representados pelopoder econômico e as grandes estruturas. Quando os jornalistas finalmente chegam àsempresas, eles imprimem um novo ritmo à comunicação organizacional, e, universidades,profissionais e organizações foram obrigados a rever suas posições. Na década de 1970, enquanto Gaudêncio Torquato propõe um dos primeirosmodelos de comunicação corporativa cuja “estrutura comportava assessoria de imprensa,publicações internas/editoração, marketing/propaganda institucional e mercadológica,relações públicas/eventos e pesquisa” (2004, p.4), o primeiro curso de jornalismo éofertado por uma universidade estadual paranaense. 92
  • 92. Em agosto de 1974 a Universidade Estadual de Londrina (UEL) cria o primeiro cursode jornalismo público estadual. No segundo semestre de 1985, é a vez da UniversidadeEstadual de Ponta Grossa (UEPG). E, em 2001, a Universidade Estadual do Centro-Oeste(Unicentro) passa a ofertar o curso de jornalismo. Conhecer qual setor de atuação profissional é priorizado pelos acadêmicos queestão concluindo o curso de graduação em jornalismo nas universidades estaduaisdo Paraná, verificar o interesse em trabalhar com comunicação empresarial e se háresquícios ou não de preconceitos voltados a atuação destes profissionais dentro dasempresas, impulsionou a realização de uma pesquisa de campo com estudantes das trêsuniversidades citadas anteriormente. A escolha dos alunos do último ano do curso ocorre justamente porque estesapresentam um amadurecimento e teoricamente, já percorreram toda a grade curricularque com suas disciplinas teórias e práticas, qualificam o profissional para entrar nomercado de trabalho. Pressupõe-se que durante quatro anos os acadêmicos tiveramoportunidade de participar de inúmeros debates, eventos, e experiências complementaresque enriquecerão seus conhecimentos e formação profissional.Comunicação empresarial e o jornal impresso A pesquisa realizada nos meses de novembro e dezembro de 2008, com acadêmicosdo 4º ano do curso de Jornalismo das três universidades estaduais do Paraná, possibilitou 93
  • 93. conhecer as áreas de preferência de atuação dos futuros jornalistas e também aquelasque não despertam o interesse profissional do grupo investigado. Quanto à atuação no mercado de trabalho, a preferência dos acadêmicos sedivide entre a comunicação empresarial e o jornal impresso. De 61 entrevistados, 22acadêmicos informaram que pretendem trabalhar com a comunicação empresarial, e, 21preferem trabalhar com impresso, jornal/revista. Por outro lado, os entrevistados tambéminformaram as áreas de atuação profissional pelas quais não tem interesse em atuar comojornalistas. 14 afirmam que não tem intenção de trabalhar com comunicação empresarial,12 apontam o rádio como a mídia que não querem trabalhar, seguido pela televisão, 9. O grupo investigado avaliou ainda os seguintes aspectos: se o curso de graduaçãooportunizou conhecimento sobre as áreas de atuação profissional; seus conhecimentossobre a área de abrangência da comunicação empresarial e sobre as atividades exercidaspelos jornalistas que atuam dentro das empresas. A pesquisa aponta que este grupoconsidera que o curso de graduação proporcionou de forma razoável os conhecimentossobre as áreas de atuação profissional. Na Unicentro, dos 18 formandos entrevistados (total de alunos no 4º ano era 25),44,4% demonstraram ter preferência para atuar em assessoria de imprensa, seguidode televisão (16,6%). Por outro lado, a televisão também reuniu o maior número deentrevistados que disseram não ter intenção de trabalhar nesse gênero e alegaram nãogostar da sua imagem no vídeo, não ter voz adequada, e ainda falta de perfil. 94
  • 94. Embora 50% dos entrevistados da Unicentro afirmem que procuraram aprofundarseus conhecimentos sobre a comunicação empresarial durante o curso, 72,2% dizemque seus conhecimentos sobre a área de abrangência da comunicação empresarial sãorazoáveis, e 61% que seus conhecimentos sobre as atividades exercidas pelos jornalistasempresariais são razoáveis. 50 % revelaram ter tido experiência profissional no decorrerdo curso, sendo que a maioria trabalhou na área por mais de um ano. A preferência dos alunos entrevistados da Universidade Estadual de Londrinase revelou pelo impresso (igualitariamente entre jornal e revista) e, em seguida,pela comunicação empresarial. Foram entrevistados 8 alunos de um universo de 34,representando 27,2% dos acadêmicos da instituição que concluíram o curso de jornalismoem 2008. A maioria dos pesquisados considera os conhecimentos adquiridos no cursosobre as áreas de atuação profissional entre razoável e satisfatório, já os conhecimentossobre a área de abrangência da comunicação empresarial são vistos como insatisfatóriose razoáveis. As avaliações quanto aos conhecimentos sobre as atividades exercidas pelosjornalistas empresariais oscilam como insatisfatórios e satisfatórios. Na UEL, os entrevistados que afirmaram não ter interesse pela comunicaçãoempresarial (27,2%), justificam argumentando que não tem conhecimento suficiente, ouainda, desinteresse em trabalhar para entidades particulares. Jornal impresso também éapontado como área de desinteresse (também por 27,2%), ou porque paga pouco, oupor não haver identificação com o meio. Outros entrevistados (55,6%) afirmam que tem 95
  • 95. interesse por todas as áreas porque são potenciais mercados de trabalho. Na UEPG foram entrevistados 35 alunos, o total da turma. Destes, 25,71%afirmaram não ter interesse pela área empresarial, 20% pelo rádio, seguido de 11,42%pelo jornalismo digital. Os entrevistados da UEPG apresentaram maior nível de satisfaçãoao avaliar os conhecimentos sobre as áreas de atuação profissional proporcionadosdurante o curso de graduação; os seus conhecimentos sobre a área de abrangência dacomunicação empresarial e sobre as atividades exercidas pelos jornalistas empresariais.O jornal impresso se destaca na preferência dos formandos de Ponta Grossa, 42,8%,seguido pela comunicação empresarial, 34,2%. Os entrevistados do sexo masculino,representando 25,7% do universo pesquisado na UEPG, apresentam a maior rejeição pelaárea da Comunicação Empresarial. Cabe observar que o meio digital não tem forte apelo junto a esse público, comopoderia se supor. Na Unicentro, nenhum dos entrevistados demonstrou interesse por essemercado, que também não registra nenhum desinteresse. Na UEL apenas um entrevistadomanifesta preferência por esta área para exercer a atividade profissional. Na UEPG, ojornalismo digital não foi escolhido nem rejeitado pelos formandos do sexo masculino,enquanto entre o sexo feminino apresentou uma preferência e 4 rejeições.Considerações Fica evidenciado com a pesquisa que, para parte dos entrevistados, jornalismo 96
  • 96. e comunicação empresarial não se misturam. Em seus argumentos contra essa área,alguns alegam pouco conhecimento, falta de afinidade ou falta de aptidão. E ainda, serãoreproduzidas aqui algumas justificativas apresentadas para explicar por qual motivo aárea empresarial não faz parte dos interesses profissionais: “na comunicação empresarialperde-se o conceito de imparcialidade do jornalismo com o qual o profissional devetrabalhar, não enxergar o jornalismo como algo empresarial, por acreditar no papel socialdo jornalismo, porque o assessor ‘soa’ como secretário com nível superior”. Entre os acadêmicos que afirmaram querer trabalhar como assessor de imprensa,alguns pensam no salário que quase sempre é superior ao piso da categoria, pago emempresas jornalísticas. Conforme Gaudêncio Torquato (2004), os comunicadores ingressamem um novo ciclo: a alta consultoria e o aconselhamento político. Ainda Torquato: O empresário precisa enxergar no comunicador mais do que um operador, precisa ver nele o estrategista, um assessor próximo, cuja contribuição será decisiva para a articulação de um discurso adequado e de uma identidade organizacional compatível com os negócios (TORQUATO, 2004, p.7). Mas estes aspirantes a uma vaga no mercado de trabalho, estão longe decorresponderem à figura de gestor da informação, do estrategista que sabe trabalharafinado com os interesses, metas e objetivos da empresa. Eles se sentem jornalistas, ecomo tal, preparados para detectar uma notícia onde quer que ela esteja, dentro daempresa, ou nas ruas. Torquato aponta que os novos profissionais, para atuar nos espaços 97
  • 97. organizacionais devem possuir conhecimentos específicos e reunir condições e potencialpara estabelecer abordagens abrangentes da sociedade e da empresa. Jaurês Palma (1994) chama a atenção para a distinção entre as atividades dentro deuma empresa jornalística e a função do jornalista na estrutura encarregada da comunicaçãocorporativa de uma organização. “Nem mesmo as recomendações e técnicas redacionaisaplicadas ao jornalismo de massa, podem ser aplicadas indistintamente à atividade”.(PALMA, 1994, p.18). Conforme o autor: A clássica formatação de texto a partir de um lide, os pontos de apoio baseados nas perguntas quem, onde, quando, como e porque, se aplicadas incondicionalmente (...) podem resultar em produções ridículas ou, no mínimo ineficazes em relação aos objetivos da publicação e ao público a que se destina (PALMA, 1994, p.18). Conquistar uma vaga neste mercado vai depender das características e habilidadesreunidas pelo profissional que não necessariamente, tem que ser um jornalista. SegundoPalma, “a um jornalista, portanto, pode caber o gerenciamento do processo como umtodo, mas por sua capacidade profissional e não pela habilitação acadêmica” (PALMA,1994, p.17). Embora afirmem ter preferência pela comunicação empresarial, a pesquisaaponta que durante o curso, a maioria dos acadêmicos não procurou aprofundar seusconhecimentos sobre a área declaradamente pretendida. Acreditar que assessoria paga 98
  • 98. bem e tem a ver com o seu perfil revela um entendimento superficial e ilusório da atividadedo jornalista empresarial. Além de lidar com resquícios de preconceitos existentes, este profissional trabalhasobressaltado. Conforme Armando Medeiros de Faria (2002), dentro das organizações,espera-se que suas ações que ultrapassam a simples atuação no front da divulgaçãoexterna de notícias e do atendimento às pautas da imprensa. A perspectiva privilegiada de analista do cenário político-econômico-social, tornando-se por base os assuntos agendados pela mídia, faz do assessor de imprensa um profissional capaz de oxigenar as organizações e de ampliar os horizontes internos das instituições nas quais atua (FARIA, 2002, p.161). O que se espera da contribuição do assessor, é quase um milagre. ElisabethBrandão (2002) apresenta o assessor como o arauto da imagem da felicidade, nestecaso, da empresa. Armando Medeiros de Faria (2002) destaca que a contribuição que oassessor pode dar, é justamente dimensionar os fatos das organizações de acordo com osmovimentos e os interesses na órbita da esfera pública. Como o mais qualificado e especializado na leitura dos conflitos sociais, o assessor de imprensa exerce o papel de abrir os muros das organizações para o mundo. A realidade das instituições_com culturas próprias, processos decisórios complexos e jogos de poder particulares_pode apresentar um quadro de comportamentos reativos, atitudes corporativas e visões estreitas (FARIA, 2002, p. 161). 99
  • 99. É nesse universo cheio de conflitos e interesses que o jornalista vai trabalhar, econforme trata Faria, ainda se espera que ele “desenvolva uma ação pedagógica internaa fim de abrir perspectivas fechadas e unir visões fragmentadas, comuns no universo dasorganizações” (2002,p.161). Marilene Lopes (2000) já alertava em Quem tem medo de ser notícia?, que cabe aoprofissional de comunicação que atua na empresa outra função pedagógica: esclarecerpara os “porta-vozes” a diferença existente entre o espaço editorial e o publicitário equal é a função de cada um deles. O publieditorial, palavra que resulta da união entrepublicidade e editorial, não tem conteúdo jornalístico e deve ser apresentado ao públicocomo informação paga e não como informação jornalística. Armando Medeiros de Faria aponta que não há como controlar o relacionamento dasorganizações com a imprensa e até mesmo o “experiente assessor pode ser surpreeendidocom a exploração de um dado aparentemente secundário” (2002, p.164), mas dentro deum enfoque desfavorável e negativo. O autor nos lembra que na prática do jornalismo, notícia boa é notícia ruim. “Ovalor-notícia primário ou fundamental é a orientação do jornalismo para situações fora docomum, inesperadas, com consequências negativas que rompem com a ordem natural docotidiano” (FARIA, 2002, p.164). Gaudêncio Torquanto (2004), ainda na década de 1970, começou a “atuar 100
  • 100. ativamente na área de formação de alunos (graduação) e de professores (pós-graduação),dando formato e visibilidade a disciplinas específicas (da comunicação organizacional)em várias universidades”. O objetivo do pesquisador estava em formar “corpos funcionaispreparados para galgar postos elevados” dentro das organizações (TORQUATO, 2004,p.5).Bibliografia consultadaBRANDãO, Elisabeth; CARVALHO, Bruno. Imagem Corporativa: Marketing da Ilusão. In:DUARTE, Jorge (org.). Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia: Teoria eTécnica. São Paulo: Atlas, 2002, p.189-204.FARIA, Armando Medeiros de. Imprensa e Organizações. In: DUARTE, Jorge (org.).Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia: Teoria e Técnica. São Paulo:Atlas, 2002, p. 161-166.LOPES, Boanerges. O que é Assessoria de Imprensa. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 2003.LOPES, Marilena. Quem tem medo de ser Notícia? Da informação à Notícia: a mídiaformando ou deformando uma imagem. São Paulo: Makron Books, 2000.PALMA, Jaurês. Jornalismo Empresarial. Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto, 1994.TORQUATO, Guadêncio. Tratado de Comunicação Organizacional e Política. São Paulo: 101
  • 101. Pioneira Thomsom Learning, 2004.______. Jornalismo Empresarial. São Paulo: Summus, 1984. 102
  • 102. Da esfera pública ao Ciberespaço: reflexões sobre o futuro do jornalismo na Internet1 Luís Francisco MUNARO2 O presente artigo tem como intuito discutir a vinculação do Estado-nacionalmoderno a uma literatura fundadora de mitos e tradições e seu desembocar na crescentedesfronteirização do conhecimento propiciada pelo advento de novas tecnologiaseletrônicas, mais notadamente a Internet. O rompimento das fronteiras intelectuaistradicionais no Ciberespaço traz consigo o frisson daquilo que se chama uma fase pós-literária da cultura moderna, na qual os protagonistas são cada vez mais os produtoresindividuais de cultura, em crescente desvinculação do Estado moderno tradicional. Paraconcluir tanto se tem por base uma breve discussão sobre a constituição do Estado nodecorrer do processo civilizador humano a partir da possibilidade de manipulação deuma teoria política para influir concretamente em dada práxis social, nas idéias de umracionalismo político herdado de Nicolau Maquiavel. Surge no interior desses Estados centralizados, cuja centralização crescente foipropiciada pelo surgimento da tipografia e das grandes literaturas nacionais, a idéia de1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Luís Francisco Munaro é mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e graduadoem Jornalismo e em História pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). 103
  • 103. uma opinião pública, na qual o produtor e o consumidor de cultura se encontram emcrescente relacionamento uns com os outros e são capazes de interferir ativamente nomeio político. A essa fase da opinião pública de Edmund Burke (apud. HABERMAS, 1984),situada mais precisamente no século XIX, segue a fase de constituição capitalista queHabermas definiu como “feudalismo industrial”, na qual um grupo de poucos senhoresestaria em posse dos meios de produção capitalistas, dentre os quais a própria imprensa. Habermas opõe, nessas duas fases distintas, a Publicidade em sua possibilidadede crítica política ativa e, por outro lado, a “Publicidade” acrítica como um fenômenomeramente mercantil direcionado para uma massa de consumidores desorganizados. Anoção de “esfera pública literária” adquire fundamental importância, pois no interior delase perpetrarão os conflitos de poder que caracterizam as duas fases. Essa “transformaçãoestrutural”, mais recentemente, teria sofrido uma nova guinada, o que, por se tratar deum fenômeno vivenciado ativamente, oferece pouca possibilidade de ser pensadoestruturalmente. Trata-se da Internet, a “revolução mágica”, no termo de Bernardo Kucinski(2005), objeto principal do estudo que ora se propõe. Como se verá, a Internet desenvolve mecanismos próprios de organizaçãocomunicativa que independem da legislação do Estado, o que poderia levar a umreposicionamento da noção habermasiana de “feudalismo industrial”. Tem-se a partir disso,como objetivos fundamentais, observar e testar alguns conceitos que, por ora, apresentam-se cada vez mais ineficazes para tratar temáticas de importância: a readequação da 104
  • 104. noção de esfera pública literária e a autonomia do jornalista no seio da Internet, bemcomo especular, nessa nova fase, sobre as variações das relações entre senhor e escravoreproduzidas no bojo do Estado-nacional moderno a partir da “Publicidade” em sua formaacrítica.Construindo a “opinião pública” Civilização, como a entende Karel Kosik (1976), é um conjunto de obras sociaisconstruídas pela possibilidade de compreensão mútua entre os homens, num processoem que a finitude aparece como característica inevitável e, na tentativa de obstá-la,desenvolve-se um conteúdo durável e que sempre aparece para os seus realizadorescomo imanente e definitivo. O presente sempre presentifica o que há de mais durável:a Razão, o Mito, a Cultura. Mesmo quando se fala na desmistificação absoluta da razão,tem-se como imperativo a probabilidade de manipulação de um poder simbólico quecarrega consigo a idéia da realização derradeira da liberdade humana. Nesse quadro noqual o homem combate o finito, o processo de escravização acaba se convertendo numprincípio de reificação da doutrina do superior, que manipula o inferior com o objetivo deconstruir o durável. A idéia de Hegel, apresentada por Karel Kosik, consta em que a luta pela vida e pela morte não pode terminar com a morte; ambos os combatentes devem continuar vivos, mesmo se para cada um deles o que está em jogo é a vida ou a morte. Tal premissa da dialética do senhor e do servo é, no entanto, um pressuposto histórico. No combate pela vida e pela 105
  • 105. morte o homem deixa o seu adversário com vida só porque (...) ambos sabem o que é o futuro e sabem o que os espera: a dominação ou a escravidão (KOSIK, 1976, p.203). A oposição entre senhor e escravo passou a insinuar com Nietzsche (2008)um existencialismo no qual a atitude do senhor se estabelecia a partir de seu olharsoberano sobre o mundo. A “vontade de potência” pode ser entendida, dentre tantosoutros entendimentos que vem recebendo, como uma filosofia da práxis voltada paraa construção do “homem superior”, o senhor, em oposição ao tipo dominado, o escravo.Mas a idéia de domínio como uma necessidade constitutiva da civilização remonta aosestudos de política moderna inaugurados com Nicolau Maquiavel (apud. KOSIK, 1976).Nas perspectivas do racionalismo político elaboradas no livro O Príncipe, o mundo deixapela primeira vez de revelar uma ordem de coisas sagrada e imutável para refletir apossibilidade contínua de sua manipulação pelos senhores políticos. Nesse sentido, Napoleão Bonaparte é um político exemplar para demonstrar comoa teoria, uma vez convertida em prática, pode revelar resultados políticos duradouros. Anovidade de Napoleão, além de desprezar conceitos de guerra e formalismos derivadosdo período feudal, foi perceber as diversas implicações das doutrinas sobre os homens,chamados aqui “material humano”. O Terceiro Reich, de forma similar, tentou construir oEstado do “homem forte” baseado na interpretação hitlerista da doutrina nietzschiana,sobretudo através da leitura da obra Vontade de Potência, construída após o falecimento 106
  • 106. de Nietzsche. Existe em ambos os casos, citados para de forma introdutória explicitar aconstrução da civilização e do Estado-nacional moderno, uma objetivação da guerra quelida com a manipulação da práxis social. O Estado, em Vontade de Potência, é “a imoralidade organizada... interior: comopoliciam direito penal, classes sociais, comércio, família; exterior: como vontade depoder, de guerra, de conquista, de vingança” (NIETZSCHE, 2008, p.363). Essa idéia deEstado como construção de um poder arbitrário e altamente coercitivo vem sendo maissistematicamente estudada depois das teses apresentadas por Louis Althusser (2007),referentes aos “aparelhos ideológicos do Estado”, tendo sofrido uma certa diluiçãodepois das obras de Foucault. Para esse último autor, o poder exercido pelo Estado seapresentaria sob as mais diversas formas, através “desses terríveis regimes disciplinaresque se encontram nas escolas, nos hospitais, nas casernas, nas oficinas, nas cidades, nosedifícios, nas famílias” (FOUCAULT, 2006, p.147). Mas, sobretudo, o poder se fragmentariaem múltiplas instâncias de ação social, não podendo ser precisado como algo que partequase que exclusivamente dos governos. O poder é exercido, de forma geral, pelos homense contra os homens. A idéia de Foucault que ora vale ressaltar está em que: “percebeu-se que este poder tão rígido não era assim tão indispensável quanto se acreditava, queas sociedades industriais podiam se contentar com um poder muito mais tênue sobre ocorpo” (FOUCAULT, 2006, p.148). Para o objetivo do presente artigo com relação ao Estado – apresentá-lo como 107
  • 107. uma instância reveladora de poderes que agem, por assim dizer, espiritualmente sobrea sociedade –, Habermas apresenta uma forte complementaridade quando estuda maisprofundamente os mecanismos sutis através dos quais se projetarão os poderes doEstado, principalmente a “Publicidade”. O autor teria percebido como poderes privadosse enraizariam no interior do corpo burocrático do Estado gerando influências concretassobre o público. O problema apontado por Habermas reside na transformação de umaesfera pública de produtores de cultura, como se teria configurado já no século XVIII,sobretudo na França e Inglaterra, em uma massa de consumidores desorganizados(HABERMAS, 1984, p. 288-9). Nas palavras do frankfurtiano, a opinião, que uma vez já provinha de um contexto comunicativo constituído por pessoas privadas, está em parte decomposta em opiniões informais de pessoas privadas e sem público e, em parte, concentrada em opiniões formais de instituições jornalísticas ativas (ibid., p. 287). A ideologia surge assim através da “opinião pública”, uma opinião não provenientedo próprio público, mas de instâncias como que “exteriores” a ele, isto é, privadas. Nãose pretende trabalhar e reforçar a dicotomia habermasiana ou do marxismo ortodoxoentre uma tese e antítese, ou poderes que se sobrepõem sobre a massa amorfa através daprojeção daquilo que se chama ideologia. Mas se entende que, de fato, um forte poder decoerção é ministrado por vários setores privados que jogam com seus interesses atravésdo Estado de Direito burguês, gerando a chamada “Publicidade”. 108
  • 108. O poder continua a existir como uma projeção daquela práxis dominadora, surgidae intensificada no interior de uma sempre inacabada luta contra a fatalidade da morte.O processo civilizatório se sutiliza nas fronteiras do Estado-nacional e de um aparelhoburocrático no qual se situam esferas de poder reguladas por um conjunto de normasdesenvolvidas no processo histórico de formação do Estado e sua busca de legitimidadediante da nação. Os senhores feudais vêem-se assim superados pelo senhorio industrial,em posse de meios cada vez mais eficazes de justificação ideológica e exercício do poder.A essa revolução no interior da civilização, permitida pelo advento da imprensa, quecalhou na unificação dos sistemas lingüísticos e no desenvolvimento de uma literaturaregular, o desenvolvimento de “comunidades políticas imaginadas” dentro de fronteirasdefinidas e tidas por estáticas, segue a desfronteirização do conhecimento aprofundadaa partir da década de 60. Ela vem atravessando um período de aceleração crescente como surgimento da Internet e, com ela, a possibilidade de criação de grupos sem fronteirasterritoriais definidas, baseados sobretudo numa certa unidade doutrinária e política, o quepõe em questão alguns dos poderes ideológicos verticais que agem sobre a sociedade. A Internet como poder aparentemente auto-imanente, “poder antiindustrial” comoo denomina Kucinski, “rompe a verticalidade e a concentração das agências das notícias ealimenta não apenas jornais a partir de escritórios centrais, mas também ONGS, produtoresintelectuais independentes e movimentos políticos e sociais” (KUCISNKI, 2005, p.73-4). A“Publicidade” seria então ultrapassada pela possibilidade de autonomia intelectual. O 109
  • 109. produtor de cultura, atuando através da Internet, se libertaria dos espaços discursivostradicionais, fomentados e regulados pelo Estado e muitas vezes pelos poderes privadosnele incrustados. O objetivo de Kucinski é talvez mais revelar um deslumbramentopessoal com relação ao poder auto-imanente da Internet do que oferecer subsídiossólidos para uma compreensão do assunto – à qual nos vemos nitidamente limitadospela transformação constante da rede. Nesse cenário no qual o poder de dissuadir setorna cada vez menos perceptível e dividido entre atores ligados através de vínculosdesterritorializados, busca-se aqui inserir, ainda que de forma pacata, a função do jornalistacomo produtor tradicional de conhecimento. Há que, apenas a título de complementação e enriquecimento teórico do presentetexto, citar a situação ainda mais ambígua dos estados latino-americanos, nos quais oprocesso de criação de um Estado-nacional não refletiu, logicamente, uma dinâmicasocial condicionada pelo processo civilizatório europeu, o que se revelou na criação deEstados postiços sobre vastos conjuntos de culturas não integradas. A criação de Estadossobre imensas populações analfabetas gera aquele fenômeno pensado por RaymundoFaoro, o Estado como “uma pesada túnica, fio a fio costurada, capaz de disciplinar a seivaespontânea, mantido o divórcio entre a camada dominante e a nação dominada e tímida,relutantemente submissa” (FAORO, 2001, p. 287). Kucinski complementa dizendo que,no interior destes Estados postiços, a imprensa é o resultado de concessões públicas erelações íntimas entre oficialismo e jornalismo, diante de uma população incapaz em 110
  • 110. grande parte de participar da cultura letrada: a produção do consenso parece ser antes um processo político que se realiza primeiro na esfera do poder, e só depois busca a esfera pública como processo midiático. Dessa instância superior, o consenso é imposto à mídia e parece determinar o próprio padrão da cobertura jornalística (KUCINSKI, 1998, p.21) Depreende-se da leitura de Kucinski que, à possibilidade de uma Modernidadecom características próprias e de uma rede comunicativa construída por produtoresautônomos organizados em comunidades auto-reguladas, estaria o contrabalanço a umasérie de tensões históricas sobre o modelo de Estado autocrático predominante na AméricaLatina. O jornalista, pensado até aqui como uma peça constitutiva da esfera públicaliterária, como a expressão de um grupo, também se encontraria desterritorializado. Apresente reflexão se situa num período de crise do Estado representativo e numa buscageral apontar soluções para a sua dissolução como instância reguladora e concentradorada imoralidade.Esfera pública e Ciberespaço O jornalismo é uma importante instância de publicidade: seus atores sãoreconhecidos no plano social como aqueles que detêm informações relevantes, capazesde questionar os procedimentos legais do Estado, compondo assim aquilo que desde oinício do século XX se tem chamado “quarto poder”. Como se verifica nas teses sobre o 111
  • 111. “poder simbólico” apresentadas por Pierre Bourdieu (1987), os atores que reivindicamo papel de divulgadores de acontecimentos noticiosos, compreendidos no interior dagenérica denominação media, protagonizam o reconhecimento de uma “classe” diantede outras “classes”. A classe (ou o povo, ou a nação, ou qualquer outra realidade social de outro modo inapreensível) existe se existirem pessoas que possam dizer que elas são a classe, pelo simples fato de falarem publicamente, oficialmente, no lugar dela, e de serem reconhecidas como legitimadas para fazê-lo por pessoas que, desse modo, se reconhecem como membros da classe, do povo, da nação ou de qualquer outra realidade social que uma construção do mundo realista possa inventar e impor (BOURDIEU, 1987, p.168). “Classes” adotam assim porta-vozes públicos e, através deles, adquiremlegitimidade diante de uma realidade social mais ampla, que pode representar a naçãocomo um todo ou mesmo ir além dela. Essa necessidade de grupos sociais adquiriremsua própria representatividade é também prenunciada pela categoria habermasiana deesfera pública literária, que vai assumir a função de instância produtora da cultura de umgrupo. Instância que, como se viu, teria degenerado com o crescimento do Estado sobreas vozes individuais, acelerando a crise do sistema representativo. O sistema da exclusão configurado pelo alargamento do capital industrial e suarelação com a esfera pública literária poderia, como se extrai da leitura de Kucinski, sofreuma reviravolta com a autonomização da produção intelectual propiciada pela Internet 112
  • 112. (KUCINSKI, 2005, p.78). A restrição da circulação de informações não mais existiria com apossibilidade de acesso do“produtor autônomo”ao imenso banco de dados disponibilizadovirtualmente. Essa crescente concentração de poder de decisão no indivíduo provocariarupturas no Estado industrial e, conseqüentemente, também na esfera da “Publicidade”. A idéia implícita nas hipóteses de Kucinski é a de uma reativação da esfera públicaliterária como grupo de produtores organizados de cultura como forma de adquirirvisibilidade própria. Talvez aqui seja mais importante pensar a lógica das comunidadesorganizadas através da Internet, e não no insulamento do sujeito como produtor decultura autônomo. Autonomia só representará um recurso retórico para indicar apossibilidade de o indivíduo sentar em frente a um computador e escrever sem coerçãoaparente, olvidando o fato de que as instâncias grupais básicas são fundamentais paraa sua constituição intelectual. A Internet não representa uma dimensão que permiteuma segunda organização social, apesar de oferecer a possibilidade de os indivíduos sereorganizarem efetivamente no “mundo da vida”. O mundo da vida constitui o contexto da situação de ação; ao mesmo tempo, ele fornece os recursos para os processos de interpretação com os quais os participantes da comunicação procuram suprir a carência de entendimento mútuo que surgiu em cada situação de ação. Porém, se os agentes comunicativos querem executar os seus planos de ação em bom acordo, com base numa situação de ação definida em comum, eles têm que se entender acerca de algo no mundo (HABERMAS, 2003, p.167). 113
  • 113. O deslumbramento generalizado com relação às possibilidades da Internet esua esfera de produtores intelectuais autônomos não deixa de lembrar aquele fascíniohabermasiano com relação à imprensa moderna, que se estabelecia a partir da necessidadede os indivíduos criarem instâncias próprias de representação social. Os homens, atravésda imprensa, poderiam ser encorajados a pensar por eles mesmos. O jornal representariaum pequeno mundo acessível ao indivíduo, produzido por seus semelhantes, através doqual ele mesmo adquiriria visibilidade e assim se tornaria um membro legítimo do Estado-nacional. Como diz a célebre formulação de Edmund Burke, no século XIX: every man thinks he has a concern in all public matters; that he has a right to form and to deliver an opinion on them. They sift, examine and discusse them. They are curious, eager, attentive and jealous; and by making such matters the daily subjects of their thoughts and discoveries, vast numbers contract a very tolerable knowledge of them, and some a very considerable one... Whereas in other countries none but men whose office calls them to it having much care or thought about public affairs, and not daring to try to force of their opinions with one another, ability of this sort is extremely rare in any station of life. In free countries, there is often found more real public wisdom and sagacity in shops and manufactories than in the cabinets of princes in countries where none dares to have an opinion until he comes into them. Your whole importance therefore depends upon a constant, discreet use of your own reason (BURKE apud. HABERMAS, 1984, p.116) No Ciberespaço de Kucinski, o indivíduo autônomo, passada a fase industrial daimprensa, se tornaria capaz de produzir a sua própria compreensão de mundo através 114
  • 114. das informações trazidas pelos outros participantes da comunicação (KUCINSKI, 2005,p. 74). Destarte, ele produziria cultura sem qualquer limitação aparente, num terrenoexterior à atividade coercitiva efetiva do Estado-nacional moderno. Segue-se a mistura deinformações, estilos e tendências, condição mesma para a confirmação da horizontalidadeda Internet e, mais adiante, a superação daquelas relações de dominador e dominado. Essa ruptura da verticalidade parece apontar, por outro lado, para o desenvolvimentode uma barbárie que, nas palavras de Jean-Françoi Mattei, quando de sua confrontaçãoentre civilização e barbárie, “exalta o sujeito e, assim, decreta a morte do homem, e, com ele,da civilização” (MATTÉI, 2001, p. 79). O ressecamento das tradições constitutivas do Sujeitomoderno com a crescente autonomia dos indivíduos diante das comunidades nacionais,levada ao sublime com a exaltação do “produtor intelectual autônomo”, ao passo quesupera a dialética civilizatória senhor e escravo reitera indefinidamente um Sujeito que setorna desconhecido de si mesmo. Ele perde de vista a sua história constitutiva, geralmentetraduzida pelas literaturas organizadoras, algo incrustadas no desenvolvimento doEstado-nacional, e assim cede a uma epifania deslumbrada do indivíduo consigo mesmo,na qual ele é celebrado como seu próprio herói. Para descrever essa incomunicabilidadedo indivíduo com os outros Mattéi recorre à história própria da designação do bárbaro:este é aquele que, por ser incapaz de pronunciar palavras e organizá-las sintaticamente,não consegue se fazer entender pelos outros, senão muito vagamente. É importantelembrar que as línguas constitutivas do indivíduo estão de fato sedimentadas no Estado- 115
  • 115. nacional moderno, sendo difícil de pensar estas mesmas línguas e a literatura por elasgeradas numa fase aparentemente pós-literária. A desconfiança quanto à possibilidadede autonomização do indivíduo é derivada de uma evidente carência de modelos deanálise, eles mesmos costumeiramente estruturados a partir das comunidades políticasimaginadas e sua íntima relação com os grandes sistemas lingüísticos unificados. Segue-seaqui o raciocínio proposto pela linha teórica do deslumbramento com relação à tecnologiavirtual e sua possibilidade de desfronteirização, sem deixar de lembrar, contudo, que essemesmo “apocalipse” já era prenunciado de forma otimista com o desenvolvimento dosmeios de comunicação eletrônicos em geral – como exposto na Galáxia de Gutenberg deMarshall McLuhan (1972). Por um lado temos um Estado-nacional mitificado, por outro,quiçá sua também mitificada dissolução. Bernardo Kucinski, utilizado aqui para exemplificar um certo fascínio geral existentena atualidade com relação ao futuro da Internet, lamenta em seu livro Jornalismo na EraVirtual, o declínio e morte do jornalismo como vocação: “a grande reportagem típicado velho jornalismo não é necessária no novo; a postura contra-hegemônica e crítica, airreverência e o desafio às autoridades e ideologias dominantes também eram marca dovelho jornalismo (...)” (KUCINSKI, 2005, p. 104). Ao aplauso incondicional da tecnologiacomo uma possível destruidora das fronteiras entre meio de divulgação e indivíduointelectual, acompanha um certo saudosismo com relação àquela geração que desafiavaas autoridades. Saudosismo que lamenta o exercício comprometido do jornalismo, talvez 116
  • 116. como aquele prenunciado por Hipólito da Costa, primeiro periodista nacional, tantas vezesvítima de processos judiciais da diplomacia lusitana e só não perseguido mais diretamentepela Corte de d. João em virtude de sua residência na Inglaterra, onde gozava da situaçãode denizen. Ele dizia em 1808 que O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela; e cada um deve, segundo as suas forças físicas ou morais, administrar, em benefício da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte, ou a educação lhe prestou. O indivíduo que abrange o bem geral de uma sociedade vem a ser o membro mais distinto dela: as luzes que ele espalha, tiram das trevas ou da ilusão aqueles que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia e do engano. (COSTA, 2001, p.3) A autonomia intelectual, essa idéia que vem perseguindo o Ocidente desde Platãoaté Kant, implica no primeiro jornalismo brasileiro numa certa pedagogia das massas:o jornalista letrado deveria levar a palavra aos incapazes, assegurando o progressocomunitário e o sucesso de sua pátria. No caso brasileiro, de Hipólito a Kucinski, o jornalismovem prometendo atuar com autonomia frente aos diversos poderes. O primeiro dizia quea liberdade era o bem humano mais importante, e talvez nada, nem mesmo a morte, seriacapaz de compensá-la. Depois de três anos no cárcere da inquisição lusitana, o ar inglêsfez bem aos pulmões do anglobrasileiro: de 1808 a 1822 publicou ininterruptamente oseu Correio Braziliense, dedicando-se a nele pensar o Brasil. Não é menor o otimismo deKucinski ao pensar a imprensa na Internet, onde cada jornalista disporia de uma espécie 117
  • 117. de tipografia cibernética própria, publicando, igualmente, as notícias que ao seu tempoconvém. Esse panorama futurista revelará não mais do que uma dada práxis social humana,fundamentada em princípios comunicativos relativamente ordenados sobre uma basede saber acumulado. As comunidades desterritorializadas que crescem no interior darede, como a enciclopédia pública Wikipedia, a título de exemplo, possuem critérios dejulgamento próprios e acesso restrito a novos locutores. Sendo a Internet um meio atravésdo qual se permite trocar ativamente informações, pode-se especular que os locutoresmovimentam-se segundo o que Habermas chama agir comunicativo, uma relação fundadabasicamente no “dar e exigir razões” (Robert Brandom, apud. HABERMAS, 2004, p.136).Não se pode perder de vista a dimensão discursiva da rede, de forma que o entendimentodos interlocutores depende do “êxito ilocucionário”: chamamos racionais não apenas atos de fala válidos, mas todos os atos de fala inteligíveis pelos quais o falante pode assumir, sob condições dadas cada vez, uma garantia crível de que as pretensões de validade levantadas poderiam, se necessário, ser cumpridas discursivamente. Também aqui há uma relação interna entre a racionalidade do ato de fala e sua justificação possível. ? apenas em argumentações que as pretensões de validade implicitamente levantadas com um ato de fala podem ser tematizadas como tais e examinadas com base em razões (HABERMAS, 2004, p.108) Não se pretende reforçar o idealismo habermasiano quanto a um processo 118
  • 118. integralmente construtivo da fala humana. Mesmo atos de fala não pautados por um telosracional podem ser relativamente bem justificados. Daí a necessidade de os “produtoresculturais autônomos” observarem um código ético baseado na veracidade das informaçõestransmitidas, o que poderia aproximar um número muito amplo de indivíduos do exercíciojornalístico. Dênis de Moraes aparentemente segue a lógica argumentativa habermasiana emsua análise do Ciberespaço, quando afirma que os usuários da Internet desenvolvemacordos e regulamentos que limitam a possibilidade do uso da comunicação parafins que comprometam uma “maioria moral”, ao mesmo tempo em que se rendemobrigatoriamente ao pano de fundo do “mundo da vida” – e ainda que o Ciberespaçomesmo faça parte da composição do “mundo da vida” dos falantes. Essa lógica extrapolao modelo de comunicação tradicional no qual o leitor se veria restrito à posição de“receptor”: ele produz diretamente os seus comentários e assim autoriza ou não umdeterminado locutor. Por meio dessa teia de reconhecimentos os interlocutores constroemum ambiente argumentativo orientado por pretensões de validez. Internet constituye uma vida comunitaria regulada por interacciones y no por leyes, decretos y porterías. Lejos de eximir a los indivíduos de deberes éticos, el ciberespacio propone una coexistencia autorregulada. Lejos de padronizar conductas sobre la base de una “mayoría moral” (normas y interdicciones al servicio de las totalidades dominantes), la cibernética se apoya em reglas y valores consensuados establecidos por las células de usuarios respetando la pluralidad de contextos, los proyectos sociales y, por encima de todo, la 119
  • 119. libertad de expresión (MORAES, 2002, p.39). Importa observar na Internet a necessária busca pela integração de um falante aosoutros, condição mesma de sua existência como falante. Pode-se identificar esse princípioda comunicação como uma característica ontológica da constituição humana – o queaponta para a necessidade de através dela os “atores” participarem do “jogo social”. A necessidade de comunicação nasce, por sua vez, da necessidade de manter em harmonia as opiniões e intenções – de sujeitos que decidem de forma independente – relevantes para a ação. A comunicação não é um jogo auto-suficiente, por meio do qual os parceiros informam uns aos outros sobre suas opiniões e intenções. Apenas o imperativo da integração social – a necessidade da coordenação de planos de ação de participantes da interação que decidem de modo independente – explica o que é primordial ao entendimento lingüístico mútuo (HABERMAS, 2004, p.173). Enrique Dussel, em seu livro Filosofia da Libertação, enxergou problemas na doutrinado agir comunicativo por ela não comportar modelos comunicacionais mais simples,como a interpelação de um despossuído a pedido de comida, por exemplo (1995). Defato, a criança que na praia de Copacabana interpela o turista estrangeiro dizendo “hot-dog” não espera dele nada mais do que um gesto simples de distribuir algumas moedase livrar-se do “constrangimento” de se ver interpelado por um dessemelhante. O “mundoda vida”, como o chama Habermas, é deveras mais complexo do que aquele previsto nos 120
  • 120. modelos comunicativos que compreendem sempre no seu interior um teor racionalistade dar e exigir razões. Mas por outro lado, o ambiente lingüístico da Internet tem como pressupostomesmo de funcionamento a produção de discursos e através deles a busca peloentendimento sobre temas aparentemente importantes para os lados envolvidos noprocesso comunicativo. Nele a horizontalidade funciona como ponto de partida: osatores ganham reconhecimento especialmente pelo seu discurso, mais do que pelostatus quo que mantém no “mundo da vida”. Os jornalistas, por exemplo, perdem o seuposto de locutores tradicionais da sociedade civil, cedendo-o a uma pluralidade de outrosatores interessados em comunicar os seus pares acerca de certas ocorrências sociaisconsideradas importantes. Aquele jornalista que, nas palavras de Sylvia Moretzsohn,deveria “reconhecer os constrangimentos impostos por uma estrutura que entretantojamais consegue conformar integralmente o processo produtivo” (MORETZSOHN, 2007,p. 12), agora tanto consegue imaginar o processo produtivo quase em sua integralidadecomo pode se afastar das formas tradicionais de “coleta de informações”. A comunicaçãose torna, nesse sentido, nitidamente apócrifa. Sylvia Moretzsohn também deixa explícito em seus trabalhos o seu desejo de vero jornalista restituir aquela sua função de portador das Luzes. Trata-se do jornalismo quesuspende o cotidiano na busca por descobrir o que se esconde por detrás de eventosaparentemente diferenciados uns dos outros, a mesma função do “jornalismo como 121
  • 121. vocação” de Bernardo Kucinski ou do “ser útil aos membros da sociedade” de Hipólito daCosta. Trata-se, em suma, do mesmo projeto de Adelmo Genro Filho (1987), para quemo jornalismo consistia na assunção de uma responsabilidade com a singularidade, ofato que salta os olhos, a partir das categorias particular e universal, estas incrustadasna biografia do jornalista. Quiçá o jornalismo, seja no Ciberespaço ou não, permanecesempre o mesmo em seus princípios fundadores.Conclusões? Fica implícito no âmbito deste artigo uma certa negação do poder do Estadopara gerar bem social duradouro, assim como a assunção de uma fase pós-literária dacultura humana, na qual o Estado tradicional não é mais o motor das grandes literaturasque fundamentam uma experiência coletiva em comum. A Internet afirma a superaçãode semelhantes barreiras territoriais na medida em que o comunicador comum pode ircada vez “mais longe” para adquirir a sua própria informação, independentemente dosprodutores profissionais de informações, os jornalistas. No bojo desse processo, a dicotomia entre escravo e senhor se descobre cada vezmais corroída pela multiplicidade dos modos de ver. O senhor, desde as consideraçõesde Hegel, descobre a si mesmo a partir do reflexo causado no escravo: “os sujeitosautoconscientes precisam aprender que não podem se afirmar egocentricamente comosujeitos com juízos e planos próprios, mas devem se reconhecer reciprocamente como 122
  • 122. fontes de pretensões normativas” (HABERMAS, 2004, p. 204). Os interlocutores, sobretudono ciberespaço, buscam tornar-se adequados uns aos outros, sob a pena pura e simples danão autorização. Em sua busca de adequação eles trazem à tona a interessante metáforade Robert Brandom, a dança de Fred Astaire e Ginger Rogers: I have in mind thinking of conversation as somewhat like Fred Astaire and Ginger Rogers dancing: they are doing very different things – at least moving in different ways – but are coordinating, adjusting, and making up one dance. The dance is all they share, and it is not independent or and antecedent to what they are doing (BRANDOM, apud. HABERMAS, 2004, p.174). Para usar uma metáfora arriscada, a Internet pode ser compreendida como umsalão de danças, com polarizações ainda arraigadas, é verdade, mas sobretudo dialógicae horizontalizada, reflexo e ao mesmo tempo possibilidade de transformação de um meiosocial. Nesse sentido, ela se torna uma quadrilha com indivíduos diferentes buscandoassumir uma posição ordenada no fluxo musical do “mundo da vida”. Ela é o canal quepermite, dentre os indivíduos cada vez mais integrados – segundo um projeto ordenadopor evidente idealismo – o reconhecimento derradeiro de que o Eu se produz através doOutro, lembrando de uma vez por todas que, no dizer de Jean François Mattéi, “tudo queaprendemos, mesmo como autodidatas, nos vem sempre de outrem: a língua de nossopaís, a afeição de nossos parentes, a cultura de nossa sociedade, como uma luz que vemiluminar nossas trevas interiores” (MATTÉI, 2001, p.81). 123
  • 123. Ela não homogeneíza, posto que é sobretudo construída sobre um processoinacabado de tensões, no qual projetos organizadores se vêem tentados a aplainar o finalque aparece como conseqüência mesma da razão. A Internet oferece a possibilidade deuma integração crescente, mas não muda o caráter dialógico do mundo, no qual senhorescombatem e dependem dos escravos, naquele processo hegeliano de reconhecimentomútuo. A pergunta derradeira, referente aos produtores autorizados de informação, osjornalistas, e sua adequação no Ciberespaço, permanece pouco conclusa. O quarto poder,vigilante com relação aos procedimentos do Estado e, ao mesmo tempo tão próximodele, não se teria dilatado entre várias esferas de poder, com o acesso crescente doscidadãos mesmos à informação produzida pelos seus pares? Uma hipótese parece guiarpara a capacitação constante do cidadão no que diz respeito à produção da informaçãoatravés do Ciberespaço, com conseqüente erosão do quarto poder institucional. Umaoutra guia para a denegação da excelência que poderia ser gerada pelo final do exercícioregulamentado do jornalismo, o que só seria sanado pela crescente integração dojornalista autônomo no Ciberespaço. São questões que se inserem no fluxo da carênciade literaturas da sociedade moderna e que, pelo que ainda não revelaram, respondemapenas com mais perguntas.Bibliografia consultadaALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado. São Paulo: Graal, 2007. 124
  • 124. BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. Brasiliense: São Paulo, 1987.COSTA, Hipólito José da. Correio Braziliense. Vol I (org. Alberto Dines). São Paulo: ImprensaOficial do Estado, 2001.DUSSEL, Enrique. Filosofia da Libertação. Crítica à ideologia da exclusão. São Paulo:Paulus, 1995.FAORO, Raymundo. Os donos do poder. A formação do patronato político brasileiro. SãoPaulo: Globo, 2001.FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. São Paulo: Paz e Terra, 2006.GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do jornalismo.Porto Alegre, Tchê, 1987.HABERMAS, Jurgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: TempoBrasileiro, 2003.___________. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro,1984.___________. Verdade e justificação. Ensaios filosóficos. São Paulo: Loyola, 2004. 125
  • 125. KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.KUCISNKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica. Etica no jornalismo brasileiro.São Paulo: Perseu Abramo, 1998.___________. Jornalismo na era virtual. Ensaios sobre o colapso da razão e ética. SãoPaulo: Perseu Abramo, 2005.MATT?I, Jean François. “Civilização e barbárie”. IN: ROSENFIELD, Denis. Etica e Estética. Riode Janeiro: Jorge Zahar, 2001.MCLUHAN, Marshall. A Galáxia de Gutenberg. São Paulo: Edusp, 1972.MORAES, Dênis de. “Ciberespaço y las mutaciones comunicacionales”. IN: ISLAS, Octavio,GUTIERREZ, Fernando e ALBARR?N, Gerardo (orgs.). Explorando el ciberperiodismoiberoamericano. México: Editorial Pátria, 2002.MORETZSOHN, Sylvia. Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do sensocomum ao senso crítico. Rio de Janeiro: Revan, 2007.NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de poder. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. 126
  • 126. A (IN)volução do meio impresso e a (RE)invenção do público-leitor na Era do “MEU JORNAL DIÁRIO”1 Alexandre Correia dos SANTOS2 No século XX, antigas ideias defendidas de racionalidade e liberdade foramdisseminadas em curto espaço de tempo como forte instrumento político-partidário,relegando o leitor a um coadjuvante passivo de todo o processo, quando com acesso aessa informação dirigida - restritiva. Esse jornalismo, amador e panfletário, perdeu campopara a transformação dos chamados processos midiáticos. Os jornais tradicionais ganharam corpo, prestígio e notoriedade, com suasredações abastecendo-se de bons profissionais, transformando-os em fontes alimentadaspor compromissos e relações com todas as áreas do conhecimento e com a sociedade,objetivando um senso comum de missão, em uma mídia prática e acessível a todos. Nesseprimeiro momento - esse profissional - peça-chave do processo, se reinventou e logo, seadaptou. Em seguida, em prol do comercial – ora respeitado como um dos principais alicercesda estrutura da mídia impressa se determinou um público-leitor para o jornal impresso,1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Mestrando em Comunicação e Linguagens, especialista em Planejamento de Comunicação Integrada, bacha-rel em Publicidade e Propaganda, coordenador e professor de Comunicação Social das Faculdades OPET. 127
  • 127. que antes não era tão segmentado, ou - no mínimo - não tinha um foco tão específico. Aobjetividade passou a ser então, a sua principal razão de continuidade, separando-se ofato da opinião. A matéria passou a ter um cunho comercial também e não raras as vezesonde o jornalista era pautado pelo comercial da empresa. Essa busca essencial do jornalismo contemporâneo pela audiência fragmentoua realidade presenteando o jornalista com uma identidade verdadeira. Esse passou acompartilhar valores distintos, porém, regidos por concepções em comum que compõema chamada - imprensa moderna. Os questionamentos inerentes ao distanciamento e asdiscursivas da estrutura comercial x redação, foram questionadas na prática diária, norelacionamento comum entre as partes.A crise não é necessariamente uma novidade A alardeada crise que invade as baias de redação não é nova. Sempre se discutiua relação do jornalismo impresso tradicional com as demais mídias no universo dacomunicação. Jornais tradicionais lançam mão de novas formas de administração ede gerenciamento do negócio e do risco, para tentar uma renovação urgente ou umasobrevida. Os diários Los Angeles Times e Chicago Tribune contabilizam uma dívida dequase 13 bilhões de dólares e estão à beira da concordata. Recentemente, o New York Times, um dos maiores conglomerados de comunicaçãodo mundo, anunciou que hipotecou o seu edifício-sede, para saldar dívidas. 128
  • 128. O jornalismo impresso não evoluiu? É hora das grandes Editoras perceberem qual a verdadeira razão do jornalismoimpresso, buscando alternativas comerciais e editoriais para alcançar novos públicos ereconquistar e/ou resgatar o antigo leitor de jornal. Não basta apenas “dar” a notícia. Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, jorna que tem umatiragem média de 500.000 de exemplares/dia, avalia que o noticiário impresso parouno tempo. Não evoluiu. Classifica o jornal impresso como “chato, previsível, repetitivo,superficial e atrasado”. O furo jornalístico, principal motivação do profissional formador de opinião, jánão cabe mais apenas ao jornalismo impresso, ao diário. A notícia tem que ser repassadainteligentemente, com conteúdo, bem elaborada. Alternativas como matérias especiais,grandes reportagens, jornalismo investigativo, educativo e colaborativo devem ajudar narevitalização do material impresso. Este espaço, só o veículo tradicional pode proporcionar através dessa forma econteúdo para o leitor. Outra dificuldade que o profissional encontra na apuração dosfatos é a pré-pauta gerada por meio da televisão, ou através de outros meios eletrônicos.O inverso deveria ser o verdadeiro. A análise detalhada dos fatos e seus signos e significados devem sobressair ànotícia, poder de síntese este que o jornalismo impresso domina há anos. 129
  • 129. Inovações comerciais e o público-leitor Comercialmente, o jornalismo precisa buscar um público-leitor assíduo e contínuo,que não se resuma a adquirir assinaturas em trocas de presentes sazonais ou atemporais.A paciência do consumidor anda limitada com promoções de lugar comum, com trocade selos, vale-brindes e seus derivativos. Ao adquirir um exemplar ou uma assinatura opúblico-leitor busca mais que uma simples lembrança. O relacionamento com o público-leitor deve permear as suas ações comerciais. Em recente experimentação, uma grande agência de São Paulo, criou uma idéiaonde o leitor do Estadão, seria também o seu principal pauteiro e formulador das matériasde primeira página. Por meio de ferramenta eletrônica, os leitores poderiam mandarsugestões de manchetes, além de ilustrar a matéria com fotos. Mais de mil pessoas atenderam à campanha e foram agraciados com capas doEstadão personalizado, entregues em casa. O restante dos 140 mil assinantes recebeu em casa uma falsa capa do Jornal,onde figuravam notícias boas, “completamente fora do padrão”. O simples fato rendeu aoEstadão uma série de prêmios e com certeza, a simpatia do seu público-leitor. Mais umexemplo do que pode ser feito em termos de relacionamento, sem onerar e/ou modificarseriamente os processos cotidianos. A força da imagem, a criatividade das chamadas e anúncio plasticamente bemformulado também tem diferenciado a criação para o Jornal. O mesmo tratamento que 130
  • 130. antes era dado às revistas, tem sido empregado com sucesso no jornalismo impresso.Mais um ponto positivo para o meio. O crescimento exponencial de novas formas de busca, não encontra contrapartidasnessa (re)volução do meio impresso, porque alguns o consideram, obsoleto e vagaroso oque caracteriza a sua (in)volução. Porém, as previsões mais pessimistas são refutadas com índices de crescimentoabsoluto na publicidade desse jornal diário, que pode ser o indício de que o impressoainda impera no quesito retorno, pelo menos no Brasil. Curiosamente, a circulação dos jornais impressos - nessa região - cresceexponencialmente. Com crescimento médio acima da inflação, contabilizamos mais detrês mil jornais impressos com mais de quinhentos diários.Internet – algoz ou plataforma complementar Paralelamente a todo este movimento, a Internet conquista espaços e o público-leitor se transforma. Migra - no sentido literal da palavra - buscando novas fronteiras,soluções, plataformas, fontes, rapidez, objetividade e credibilidade. Afinal, quandonavegamos solitariamente on-line, somos editores de nós mesmos. Além disso, a idademédia dos leitores ou do público-leitor diminuiu. É sabido que o jovem independenteda sua nacionalidade ou crença só consome a notícia se for oferecido a ele algo atraente.Com isso, destacamos uma categoria de “interventores positivos” que servem inclusive 131
  • 131. como pauteiros do jornalismo diário. A principal ligação entre público, notícia eacontecimento continua sendo o jornalista. Porém, esta interação com o público leitor,não tem precedentes. Nunca fora experimentada tamanha intervenção. Assim, os denominados jornalistas tradicionais, acabam por perder parte de suaautonomia. “O jornalismo é uma área dominada cada vez mais por um pensamentoideológico e mecanicista, acompanhada pelo avanço tecnológico” (RUNGER, 2006, p.247).Esta nova visão derrubou alguns paradigmas junto com outras regras. Algumas linhaseditoriais passaram a ditar o rumo do órgão midiático. “O ente (jornalista) passou a ser cada vez mais interpelado pela armação” (RUNGER,2006, p.248). Linha esta, que não por acaso, muitas vezes está atrelada ao lucro comercial.Alguns jornalistas, da antiga escola, denominam este fenômeno como uma “censurasubconsciente”. Afinal, gerar comentários, e suas conseqüências, é uma característicadessa atividade. Assim, fica muito claro que a contemporaneidade é quem determina opadrão ideológico do SER jornalista e do SEU público-leitor. A (in)volução se faz presenteem algumas dessas caracterizações. Para assegurar um espaço “caberá ao jornal do presente investir naquilo que oleitor espera encontrar nele” (CALDAS, 2003, p.17). Há, então, uma clara e explícita divisãomarcada por uma disputa de mercado e poder entre as mais diversas plataformas. Mudanças sem precedentes fazem com que os jornais se reinventem, porque aInternet se não é parceira de editoria - do fato - é a sua algoz. Cabe a cada um desses jornais 132
  • 132. a definição do seu papel e a sua verdadeira razão frente à sociedade. “Uma caracterizaçãomais ampla do jornalismo concebe o repórter como eficiente armador de quebra-cabeças,cujas peças estão dispersas e alguém trata de manter ocultas” (REYES, 1996, p.98). A grande maioria dos jornais já migrou para a Internet e mantém ainda quetimidamente alguma forma de interação e contato com o seu público-leitor. Esse espaçodeve ser sabiamente utilizado no provimento de conteúdo, informação e entretenimento,completando a edição impressa. O limite entre a divisão de conteúdos deve ser revistaporque ainda não existe uma regra exata que dite o rumo das duas plataformas.Representação do bom ou mau exercício da interpretação dos fatos Com base em todo este contexto, o leitor assumiu papel preponderante nainterpretação das matérias, notícias e informações, criando assim o que Negroponte (1968)chama de “Meu jornal Diário”, que mostra que só gostamos de ler, tudo aquilo em querealmente acreditamos. Afinal, somos culpados por buscar as “verdades” seletivamente. Surge um novo dilema. Bill Bishop em seu livro A grande classificação: porque adivisão da América em agrupamentos de ideias iguais está dividindo, argumenta que: “estetipo de leitura que classifica os seus interesses próprios e segrega o formador de opinião,gera um contexto politicamente separatista” (2008, p.150). Portanto, o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniõesse perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos. 133
  • 133. “As mídias tradicionais são passivas. As atuais, participativas e interativas. Elascoexistem e estão em rota de colisão” (JENKINS, 2008, capa). A polarização e a intolerâncianão devem servir como ponto de discussão para os rumos da comunicação, em especialpara as mídias impressas e suas derivações. Pode-se afirmar também, que o meio jornal está disponível para grande maioriadas pessoas. Nunca antes, os leitores estiveram tão submetidos a um fluxo tão grandede palavras, notícias e quadros tão instantaneamente e (num sentido amplo, físico) tãoeficientemente. Portanto, se admitimos que os meios de comunicação estão disponíveis emum volume espantoso e que as pessoas estão expostas a quantidades de conteúdo,necessariamente, segue que tornamo-nos mais interessados, ou no que diz respeito,melhor informados. Isso destaca o efeito ideológico e perturbador da notícia de jornal.A necessária (E)volução dos meios tradicionais O principal objetivo deste artigo não é questionar o andamento dos fatos nojornalismo impresso. É tentar mostrar ao leitor que vivemos um período importante detransformações em todos os âmbitos, sem precedentes e que talvez ainda não tenha sidoencontrado qual o melhor caminho a ser seguido. “As notícias predominam no dia-a-dia, carregadas da dupla função de informar/distrair” (MEDINA, 1998, p.71). A ideia pré-concebida de “Daily Me - Meu Jornal Diário”, se 134
  • 134. não for medida com cautela, pode mergulhar os leitores numa autoconfiança míope deuma realidade distante do diário. Esse definitivamente, não deve ser o ideal de jornalismo impresso. Como citado porWilliam Gibson: “O futuro já chegou. Só não está distribuído de forma equilibrada” (2008,p.11). Aqui não devemos discutir nem a mentira, nem a omissão, nem a passividade - porconta - desta (in)volução de um objeto de imensurável valor simbólico e praticidade quecertamente suscitará novas e interessantes discussões coletivas, que – definitivamente -não devem e não podem ter fim.Bibliografia consultadaABREU, J.B. de. As manobras da informação. Rio de Janeiro: Mauad/Eduff, 2000.BISHOP, Bill. A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos.Texas, Hougtton Mifflin Books, 2008.CALDAS, A. Deu no Jornal. Rio de Janeiro: PUC, 2003.GIBSON, W. Cultura da Convergência. Nova Iorque, Aleph, 2008.JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. NY: Aleph, 2008.MEDINA, C. Notícia. Um produto à venda. São Paulo: CIP, 1998. 135
  • 135. NEGROPONTE, Nicholas. Being Digital. National Bestseller, 1998.REYES, G. Periodismo de Investigación. Cidade do México: Editorial Trillas, 1996.RUDIGER, F. Martin Heidegger e a questão da técnica. Porto Alegre: Sulinas, 2006.SILVA, Carlos Eduardo Lins, ombudsman da Folha de S. Paulo. Em entrevista para a Fo-lha de S.Paulo em 22 de abril de 2008. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ombudsman/biografia-carlos_eduardo_lins_da_silva.shtml 136
  • 136. apresentação parte II Reflexões acerca da prática jornalística Reflexões acerca da prática jornalística reúne onze filigranas que tratam/discutem/analisam/problematizam, enfim, tomam como objeto de estudo o jornalismoem suas muitas variedades, formatos e veículos. Assim, aqueles que se aventurarempor esta segunda parte de Jornalismo Reflexivo poderão seguir trilhas que percorrem aprática jornalística e o exercício profissional em revistas, sites, televisão, documentários,jornalismo impresso; poderão percorrer trajetos que apontam para editoriais que vão domeio ambiente à moda, do agronegócio à música, passando por notícias policiais e deenfoque histórico. O texto de abertura desta segunda parte, Para quem quer viver mais e melhor:o enquadramento pedagógico da revista Vida Simples, de Gisele Reginato, evidencia osenquadramentos predominantes nas reportagens de Vida Simples, publicação mensal daEditora Abril, mostrando as nuances pedagógicas e/ou pedagogizantes de uma escritamarcadamente didática que (re)produz saberes e ensinamentos para os leitores. Outra revista é tomada como corpus na segunda filigrana. A edição 2.012, de 28de maio de 2008, de IstoE é analisada, multidisciplinarmente, pela jornalista Ariane Pereira,pelo publicitário Márcio Macedo e pelo estudante de Biologia Norbert Heinz por trazer em 137
  • 137. sua capa, como chamada principal, a Amazônia e apresentar, também, um anúncio, logona contra-capa, tratando da mesma temática. Estas leituras você confere em A Amazônia,uma capa, um anúncio e três leituras. A revista Elle e o site de moda Erika Palomino são analisadas por Ana MartaMoreira Flores e Daniela Hinerasky no terceiro texto dessa segunda parte. Os editores demoda “em revista”: um estudo de caso sobre o site Erika Palomino e a revista Elle apresentaresultados de pesquisa cujos objetivos centrais são compreender a construção da notíciade moda nos dois veículos e discutir o papel do editor de moda nestes. A cobertura de moda continua sendo o foco de Ana Marta Moreira Flores,Daniela Hinerasky e, tmabém, de Kellen Severo, na filigrana seguinte: A notícia de modana web: um breve panorama. Este texto discute as características da linguagem web e dosconteúdos sobre moda no blog Oficina de Estilo e no site Chic. No contexto atual, as práticas do Jornalismo têm apresentado variadas mutações,tais como o fortalecimento das estratégias de auto-referencialidade. Sob esta perspectiva,Andréa Weber e Fabiana Sgorla analisam o site do programa televisivo Globo Rural, daRede Globo. O site como espaço da auto-referencialidade do jornalismo televisivo: o casodo Programa Globo Rural é o artigo de número cinco desta segunda parte. O medo no telejornalismo brasileiro: um estudo do caso João Hélio buscaaprofundar o estudo dos medos sociais, partindo da constatação de que a violência e acriminalidade são assuntos muito presentes nas rodas de conversa da atualidade, e que 138
  • 138. esses temores são intensificados pelo Jornalismo. Assim, a intenção de Elza de OliveiraFilha e de Taianá Martinez é identificar de que forma o medo é construído no jornalismo ede que forma ele interfere no imaginário coletivo. Para tal, as autoras tomam como objetoreportagens veiculadas pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, sobre o assassinato, no Riode Janeiro, do menino João Hélio Fernandes. Resgatar e atualizar uma importante passagem da história do Brasil é o objetivode Maria Joana Chaise. Para isso, ela toma o filme, de 1984, “Jango – Como, quando eporque se depõe um Presidente ds Repúbica”, do cineasta Sílvio Tendler, com as pretensõesde demonstrar como o documentário constrói de maneira positiva a imagem do ex-presidente e de recuperar o personagem histórico-político João Goulart. O João Goulartde Silvio Tendler: uma análise do acontecimento jornalístico golpe militar no filme Jangoé a filigrana de número 7. Entre a lança e a prensa: conhecimento e realidade no discurso do jornal OPovo (1838), de Camila Kieling, apresenta uma análise das relações entre conhecimentoe realidade no discurso do jornal O Povo, o primeiro periódico oficial da República Rio-Grandense, que circulou de 1838 a 1840 , nas cidade gaúchas de Paratini e Caçapava. Aautora toma como amostra o texto Prospecto, publicado na primeira edição do jornaldatada de 1. de setembro de 1838, que apresenta o jornal, explica seu papel e alguns dosideais da Revolução Farroupilha. Lygia Maria Silva Rocha é a autora de “Todo compositor brasileiro é um 139
  • 139. complexado”: anonimato e fama de Tom Zé na mídia impressa especializada. Texto quediscute o que faz um produto/artista ser divulgado na grande mídia especializada e o queo faz ser renegado pela mesma, a partir da análise da trajetória do músico brasileiro TomZé reportada, entre 1968 e 2002, pelos cadernos culturais de jornais do país. A música e a imprensa também são o tema da discussão proposta por Brunado Amaral Paulin em The Beatles Setting the Agenda: considerações sobre a coberturajornalística da beatlemania na Inglaterra. Para interpretar a cobertura jornalística dosurgimento do fenômeno beatlemania foram tomados os conceitos de agenda-setting eframing. A última reflexão desta segunda parte e do e-book é Midiatização de imagens:entre circulação e circularidade. Ana Paula Rosa, a partir do posicionamento de que osmeios de comunicação desempenham papel de ordenador da sociedade, afirma que asimagens fotojornalísticas se autonomizam e sobrevivem para além dos referentes. Ouseja, para a autora, o que tem se modificado é o processo de circulação de sentido, que ésempre um sentido segundo, resultado da interpretação do próprio meio. 140
  • 140. Para quem quer viver mais e melhor: o enquadramento pedagógico darevista Vida Simples1 Gisele Dotto REGINATO2 A mídia frequentemente e, cada vez mais, aponta para a audiência modos deviver, maneiras de se comportar, jeitos de proceder no cotidiano. Nos textos jornalísticos,especialmente em revistas, é comum a utilização de um formato que produz saberes eensinamentos para a audiência como “Descubra como ter mais sucesso no trabalho” e“Aprenda a ter mais auto-estima”. O slogan estampado na capa - “Para quem quer viver mais e melhor” – mostra aproposta da Vida Simples de falar com um público (homens e mulheres acima dos 30anos) que se preocupa cada vez mais com qualidade de vida e faz do bem-estar umaprioridade em sua vida. A revista, editada pela Abril, surgiu em 2003 e, após ter passadopor vários momentos que a fizeram adequar seu produto ao modo de vida dos leitores,hoje o público-alvo é bem estabelecido: urbano, classe média alta, com elevado nívelcultural – a maioria com Ensino Superior completo. A revista Vida Simples aposta nos ideais de que é possível ter uma vida muitomais sábia, gentil e equilibrada; que podemos ajudar a transformar nosso ambiente, nas1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, ralizado na Furb, Blumenau (SC).2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática da UFSM . Orientadora: Prof. Dra. Már-cia Franz Amaral (UFSM). 141
  • 141. cidades, em lugares mais humanos, menos poluídos, com solidariedade e cultura. Assim,a revista se utiliza de estratégias pedagógicas para enquadrar seus temas, transparecendosempre a proposta de simplificar a vida dos leitores. Buscamos, então, verificar como os enquadramentos dos temas são determinadose construídos na Vida Simples e identificar as estratégias que o veículo utiliza para ensinarcomo fazer determinadas tarefas cotidianas. Neste artigo, analisamos as reportagensde capa da Vida Simples publicadas no período compreendido pelos meses de março aagosto de 2008, mapeando no texto os elementos que formam um quadro disciplinar ecompõem uma informação didática.Enquadramento: a informação emoldurada pela mídia Para entender o processo de enquadramento dos temas cobertos, é necessáriopartir do pressuposto de que os jornalistas não espelham a realidade, mas sim constroemativamente as notícias baseados em suas rotinas de trabalho, normas e regras. É necessárioperceber claramente que, nas práticas diárias, os jornalistas fazem enquadramentos dasvárias realidades. Conforme nos explicita Kosicki (1993), os estudos sobre a construção danotícia oferecem a chave para entender como um tópico é enquadrado e oferecido parao público. Consideramos que a realidade não pode ser retratada sem mediação e é impossívelapresentar os fatos livres de interesses humanos. Antes de construir um fato o jornalista 142
  • 142. precisa selecionar, pois seria impossível noticiar tudo o que acontece em toda parte a todahora e “não somente o do comunicador, mas todo ato social que implique em transmissãode informação é um processo seletivo” (MARCONDES FILHO, 1993, p. 134). Após a seleçãodo assunto, o jornalista passa a eleger o ângulo para abordá-lo. Depois, precisa optar pelamelhor palavra, pela foto mais persuasiva, pelo título mais atrativo, pela manchete maissedutora. Em mínima análise, essa simples sequência serve para ilustrar a percepção deque a mídia estabelece que assunto deve ser visto ou lido pelos receptores e que parte deleé destaque para se ver ou ler. Contribui ainda para ressaltar que o jornalista faz um recorteespecífico dos fatos e os ordena. Apreendemos em Schudson (1999) que as pessoas nãoveem as notícias como elas acontecem; elas apenas ouvem ou leem as estórias que osjornalistas fizeram sobre elas. Eu sugiro que o poder dos media não está apenas (e nem sequer primariamente) no seu poder de declarar as coisas como sendo verdadeiras, mas no seu poder de fornecer as formas nas quais as declarações aparecem (SCHUDSON, 1999, p. 279). Bucci (2003) considera que ao discurso jornalístico cabe hierarquizar os sentidos eos valores, preconizar as condutas e modos de falar e, ainda mais, cabe-lhe separar o queé dizível e o que é indizível. O autor explica que o jornalismo, como discurso, ordena edisciplina o que chamamos, “por algum resíduo de inocência imperdoável”, de realidade. Ora, e o que é a realidade, senão aquela que é dada pela mídia – ou pelas 143
  • 143. reações à mídia, o que dá no mesmo? O que é a realidade senão a composição de sentidos e de significados tal como ela pode acontecer nos termos da comunicação social? (BUCCI, 2003, p.12). A partir dessa reflexão, podemos pensar que a mídia tem um papel importantena “modelização social” (GOMES, 2003) na medida em que constrói verdades, determinamodos de viver e organiza as relações sociais. Essa tarefa é desempenhada pelos meios decomunicação como um todo, mas o discurso jornalístico se destaca e o que não está noseu conteúdo parece nem ter acontecido. A bem da verdade (dos fatos e dos discursos), a velha função simbólica do direito – a função de ordenar os conceitos e os valores, estabelecendo o lugar do proibido e o lugar do Bem – vem sendo progressivamente ocupada, exercida e usurpada pela mídia. Sim, uma função simbólica, que inclui o efeito normatizador, punitivo e assim por diante (BUCCI, 2003, p. 12). A tarefa de ordenar, disciplinar e educar se torna, então, inerente ao discursomidiático, já que o jornalista, muitas vezes, é detentor de um saber que o público não possui.Charaudeau (2007) apresenta que o sujeito que procura seduzir, persuadir, demonstrar ouexplicar adquire uma posição de autoridade e toda instância de informação, querendo ounão, exerce um poder sobre o outro. O discurso informativo não tem uma relação estreita somente com o imaginário do saber, mas igualmente com o imaginário do poder, quanto mais não seja, pela autoridade que o saber lhe confere. Informar é possuir 144
  • 144. um saber que o outro ignora (“saber”), ter a aptidão que permite transmiti-lo a esse outro (“poder dizer”), ser legitimado nessa atividade de transmissão (“poder de dizer”) (CHARAUDEAU, 2007, p. 63). A legitimidade lembrada por Charaudeau é fundamental nesse contexto, porquepara analisar o poder dos textos midiáticos, é preciso entender que a mídia ocupa umlugar de credibilidade para dizer aquilo que diz. Segundo Bourdieu (2005), o maior poderdas palavras – e das palavras de ordem - é a crença na legitimidade das palavras e daqueleque as pronuncia. O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo [...], só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário (BOURDIEU, 2005, p.14, grifo do autor). Gomes (2003) utiliza as noções de palavra de ordem, de Gilles Deleuze, e dedispositivo disciplinar, de Michel Foucault, conceitos referentes à prática discursiva comolugar de majoração de poder.3 Com base nesses autores, ressalta que “a seleção por sisó coloca o jornalismo numa posição privilegiada na tarefa disciplinar: toda a produçãojornalística se constrói em torno do eixo do que é importante, portanto, na visada dadisciplinariedade” (GOMES, 2003, p. 84).3 A autora lembra que embora haja distinções entre a noção de palavra de ordem e a de dispositivo disciplinar,uma vez que a primeira é dada como coextensiva à linguagem e a segunda é dada na dimensão de um discursoespecífico, há um grande parentesco entre ambas. 145
  • 145. Foucault (1991) estudou os procedimentos disciplinares e nos lembra que poder e saberestão intimamente ligados: o poder produz saber e o saber produz poder. O estudiosopensava que o conhecimento era buscado por sua utilidade e era caracterizado por umavontade de dominar ou apropriar. O autor sugere que não há relação de poder sem li-gação mútua com um campo de saber, nem saber que não constitua ao mesmo temporelações de poder. Foucault (1991) cita a “ordem do discurso” e a designa como tendo umafunção normativa e reguladora, que coloca em funcionamento mecanismos de organiza-ção do real por meio da produção de saberes, de estratégias e de práticas. Gomes (2003)acrescenta que onde quer que haja discurso, há palavras de ordem. Chamamos palavras de ordem não uma categoria particular de enunciados explícitos (por exemplo, no imperativo), mas a relação de qualquer palavra ou de qualquer enunciado com pressupostos implícitos, ou seja, com atos de fala que se realizam no enunciado, e que podem se realizar apenas nele. As palavras de ordem não remetem, então, somente aos comandos, mas a todos os atos que estão ligados aos enunciados por uma ‘obrigação social’. Não existe enunciado que não apresente esse vínculo, direta ou indiretamente. Uma pergunta, uma promessa, são palavras de ordem, pressupostos implícitos ou atos de fala que percorrem uma língua em todo momento (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p.16, grifos dos autores). Deleuze e Guattari (1995) defendem que a linguagem não se limita a ir de alguémque viu alguma coisa a alguém que não viu, mas que ela vai necessariamente de umsegundo a um terceiro, não tendo, nenhum deles, visto. “É nesse sentido que a linguagem 146
  • 146. é transmissão de palavra funcionando como palavra de ordem, e não comunicação de umsigno como informação” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 14). Em outras palavras, os autoresafirmam que é impossível conceber a fala como a comunicação de uma informação,visto que “ordenar, interrogar, prometer, afirmar, não é informar um comando, umadúvida, um compromisso, uma asserção, mas efetuar esses atos específicos imanentes,necessariamente implícitos” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 14). Com essa explanação, certamente abreviada diante da complexidade proposta porDeleuze e Guattari, pretendemos utilizar a elaboração dos autores de que a palavra deordem é, em si mesma, redundância do ato e do enunciado – o que nos é útil para pensarque não é por acaso que muitas palavras aparecem repetidas no texto jornalístico. Os jornais, as notícias, procedem por redundância pelo fato de nos dizerem o que ‘é necessário’ pensar, reter, esperar, etc. A linguagem não é informativa nem comunicativa, não é comunicação de informação, mas – o que é bastante diferente- transmissão de palavras de ordem, seja de um enunciado a um outro, seja no interior de cada enunciado, uma vez que o enunciado realiza um ato e que o ato se realiza no enunciado (DELEUZE; GUATTARI, 2003. p. 16- 17, grifos dos autores). Assim, ponderamos que os textos midiáticos têm grande poder porque selecionama realidade, tornando uns aspectos mais aparentes que outros. O poder para definir osacontecimentos surge, em parte, do poder da mídia para enquadrá-los. Conforme nosexplicita Kosicki (1993), os estudos sobre a construção da notícia oferecem a chave para 147
  • 147. entender como um tópico é emoldurado e oferecido para o público. Para Goffman, umframe é constituído pelos princípios de organização que governam os acontecimentos– pelo menos os sociais - e o nosso envolvimento subjetivo neles: “os frames organizamas strips do mundo cotidiano, entendendo-se por strip uma fatia ou corte arbitrário daatividade corrente” (apud TUCHMAN, 1999, p. 259). Ou seja, os enquadramentos regulamos episódios e organizam os recortes do mundo cotidiano: os frames podem ser pensados como um tipo de esquema, similar a scripts, protótipos, categorias, e assim por diante. Isto é, eles ajudam a estruturar nossas experiências diárias e basicamente facilitam o processo de construção de significado. Esses frames nos ajudam a entender questões de maneiras particulares, e também guiam a reação da audiência ao conteúdo midiático (KOSICKI, 1993, p. 115, tradução nossa). É pertinente ainda o conceito elaborado por Gitlin de que os enquadramentos são“padrões persistentes de cognição, interpretação, apresentação, seleção, ênfase e exclusão,através dos quais aqueles que trabalham os símbolos organizam geralmente o discurso,tanto verbal como visual” (apud HACKETT, 1999, p. 120-121). O termo designa umamoldura de referência, construída para os temas/acontecimentos midiáticos e tambémusada pela audiência para interpretar esses eventos: “o frame seria justamente o quadroa partir do qual um determinado tema é pautado e, consequentemente, processado ediscutido na esfera pública” (GUTMANN, 2006, p. 30). 148
  • 148. Sendo assim, os frames devem ser considerados esquemas tanto para aapresentação, quanto para a compreensão das notícias. Scheufele (1999) especifica duasformas de concepção do enquadramento: o framing da mídia, que se refere aos enfoquesapresentados pelos veículos de comunicação para um determinado tema, e o framingda audiência, que se relaciona ao modo como o público vai enquadrar certos assuntos apartir do que é oferecido pelos meios. Em outras palavras, “os frames organizam o mundotanto para os jornalistas que o relatam, quanto para nós que dependemos da informaçãodeles” (GITLIN apud SCHEUFELE, 1999, p. 106, tradução nossa). Alguns estudiosos buscaram uma explicação mais detalhada sobre como a mídiaabastece a audiência com esquemas para interpretar os acontecimentos, considerando,por exemplo, que a seleção e a ênfase são fatores essenciais para essa compreensão. Enquadrar é selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê- los mais salientes no texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular do problema, interpretação causal, avaliação moral, e/ou tratamento recomendado (ENTMAN apud SCHEUFELE, 1999, p. 107, tradução nossa). Também consideramos a exclusão como um fator necessário nesse entendimento,na medida em que ao selecionar um aspecto para ser o assunto central ou o enfoquedo texto jornalístico, eliminam-se muitos outros assuntos e enfoques possíveis, sejasimplesmente pela necessidade de seleção inerente ao processo comunicativo, seja parasilenciar algum aspecto que se queira de fato ocultar. 149
  • 149. A mídia que informa também ensina? O conceito de “dispositivo pedagógico da mídia” foi desenvolvido por Fischer (2001,2002a, 2002b) e vem sendo utilizado em pesquisas recentes sobre televisão e educação.Fischer (2002b) pretende mostrar de que modo opera a mídia, e particularmente atelevisão, no sentido de participar da construção de sujeitos e subjetividades, na medidaem que produz imagens, significações, enfim, saberes que se dirigem à educação daspessoas, ensinando-lhes modos de ser e estar na cultura em que vivem. Portanto, osmeios de comunicação não constituiriam apenas uma das fontes básicas de informação e lazer: trata-se bem mais de um lugar extremamente poderoso no que tange à produção e à circulação de uma série de valores, concepções, representações - relacionadas a um aprendizado cotidiano sobre quem nós somos, o que devemos fazer com nosso corpo, como devemos educar nossos filhos, de que modo deve ser feita nossa alimentação diária, como devem ser vistos por nós os negros, as mulheres, pessoas das camadas populares [...] e assim por diante (FISCHER, 2002b, p. 2). A mídia utiliza estratégias para “ensinar como fazer” determinadas tarefascotidianas, determinadas operações com o próprio corpo, determinadas mudançasno cotidiano familiar. Fischer (2001) elabora que se os discursos sobre como devemosproceder, como devemos ser e estar nesse mundo, produzem-se e reproduzem-se nos 150
  • 150. diferentes campos de saber e práticas sociais, talvez se possa afirmar que adquirem umaforça particular quando acontecem no espaço dos meios de comunicação. As “dicas”médicas e psicológicas, comunicadas através de especialistas, ao se tornarem presentesnos espaços dos diferentes meios de comunicação “não só ampliam seu poder de alcancepúblico como conferem à própria mídia, ao próprio meio, um poder de verdade, de ciência,de seriedade” (FISCHER, 2001, p. 50, grifo da autora).Um leitor “novo em folha” e cheio de energia A fim de identificar o enquadramento de uma reportagem, Entman (apudGUTMANN, 2006) apresenta cinco elementos: palavras-chave, metáforas, conceitos,símbolos e imagens enfatizadas na narrativa jornalística. Isso significa que o framingpode ser identificado através da observação de imagens visuais e palavras repetidasinsistentemente no texto midiático, que tornam algumas ideias mais aparentes que outras.Com base nesse conceito e nas formulações de Fischer (2002a), pretende-se identificaros enquadramentos4 dos temas através do quadro disciplinar e da informação didática.Por quadro disciplinar, entendemos os termos textuais que dizem respeito à educação edisciplina porque “remetem à organização, hierarquização, doação de valores (tudo queas disciplinas querem)” (GOMES, 2003, p. 96). Informação didática refere-se ao conjuntode elementos no texto que colocam o leitor na posição de quem deve ser cotidianamente4 Para perceber como são construídos os textos na revista Vida Simples, nos limitamos à utilização da noção deframing da mídia. 151
  • 151. ensinado, reproduzindo práticas nitidamente “escolarizadas”. A capa da edição de março da Vida Simples traz os dizeres: “Liberdade – É a coisamais importante da vida. Aprenda a reconhecer aquilo que aprisiona você (e siga livre,leve e solto)”. A reportagem tem o título “Caminhos da liberdade” e traz a promessa: “Comoreconhecer o que ainda nos amarra? E o que é realmente ser livre? Algumas das repostaspara essas perguntas fundamentais em nossa vida podem estar por aqui”. Essa promessa indicada pelo subtítulo da matéria é disciplinar porque não só dizque a matéria pode responder dúvidas, mas também as classifica como fundamentais.Além disso, os conselhos e filosofias de vida apresentados na reportagem são comumentecomparados com pessoas “comuns” e generalizados como sendo preocupação de todos,como nos casos: “Tagore era como qualquer um de nós: querendo ser livre mas aindaassim amando e desejando aquilo que o agrilhoava” e “O belo e famoso soneto da poetaamericana Emma lazarus, [...], aos pés da Estátua da Liberdade, em Nova York, dá as boas-vindas aos fracos, miseráveis e desesperados como nós, que desejam ser livres”. Os seguintestrechos acabam transmitindo juízos de valor e determinando a leitura: “disse ele em suacrueza cristalina”, “sua resposta para essa pergunta é muito estranha”. As generalizaçõese os juízos de valor são disciplinares porque bloqueiam a contra-argumentação, comoquando se utiliza: “é evidente” ou “como não poderia deixar de ser”. Essas são expressõesdos shifters de organização, ou seja, de uma referencialidade ao próprio enunciadorenquanto organizador de um discurso coerente, verossímil e verificável. Tais termos 152
  • 152. marcam a inclusão do repórter no texto, e se os “juízos nos remetem à pessoa do discurso,retirando-a da impessoalidade simulada, ainda mais mostra a presença de um shifter deorganização” (GOMES, 2003, p. 99). A reportagem central dessa edição utiliza uma estratégia diferente: após lermosque existem muitos caminhos na vida e, com liberdade, podemos escolhê-los entre asmais variadas opções, o próprio texto nos oferece, ou nos incentiva a ter, a “liberdade” deler a reportagem na ordem que desejarmos. Você terá agora a liberdade de escolher a maneira como quer ler este texto. Se desejar saber qual o significado da metáfora do camelo, do leão e da criança, vá em frente. Se quiser participar de uma reunião no Deux Magots, o café dos existencialistas em Paris, para saber o que Sartre achava da liberdade, pule três blocos de texto. Se desejar ler este artigo de trás pra frente, vá até o fim e leia os blocos de texto na ordem inversa (VIDA SIMPLES, março, p. 23, grifos nossos). Claro que essa ordem de leitura, mesmo aparentando liberdade, é uma ordempossível, pré-determinada e, portanto, remete à organização. Na linguagem autoritária,o destaque é o modo verbal imperativo, que é comum no texto da Vida Simples eaparece nas partes textuais que trazem a “liberdade” para o leitor realizar o percurso daspáginas reiterando a maneira como se espera que a leitura da reportagem seja feita pelosreceptores: “Se você quiser conhecer a frase que fica nos pés da Estátua da Liberdade, váem frente. Se quiser parar para reler algum trecho do texto antes de terminá-lo, faça issosem pressa, sem afobação” (VIDA SIMPLES, março, p. 29, grifos nossos). 153
  • 153. As informações didáticas permeiam a reportagem e surgem como forma deexplicar a informação ou de o repórter se inserir no texto: “Pode ser por meio da arte,como Picasso, que subverteu os cânones dos critérios artísticos aceitos até sua época (nãosem antes dominá-la muito bem, por sinal)”. Além disso, o didatismo pode ser observadoatravés da repetição de estruturas que causam identificação com o leitor, como termosda oralidade ou expressões usadas no cotidiano: “Uma metáfora, com suas imagens, émuito mais forte que mil palavras”. Outro exemplo do didatismo presente na reportagemsão as perguntas que interagem com o leitor – que nesse caso também mostra a relaçãodos “especialistas/mestres” com as pessoas “comuns”: “Mas será que nós, pobres mortais,também a atingimos? Ao longo do texto, quatro figuras diferentes são criadas por uma espécie de papelde dobradura: na primeira página a figura tem uma forma fechada e na última página omesmo material dá a forma a um boneco, com ideia de movimento, permitindo ao leitor areflexão de que ao longo do texto ele está se livrando daquilo que o aprisiona, o que estáem total sintonia com o objetivo da reportagem. A leitura das figuras (ou fotos) é guiadapelas legendas, também didáticas, afinal “a foto não é nada sem a legenda que diz o queé preciso ler” (BOURDIEU, 1997, p.26). A capa da edição de agosto estampa: “DESPERTE SUA ENERGIA – Você quer umavida com mais vigor, alegria e criatividade? É só entrar em contato com seu lado criança (enós vamos ensinar direitinho como fazer isso). Oba!”. A reportagem “Iuuuuuupi” tem como 154
  • 154. subtítulo: “A vida está boa? Você está com vontade de sair pulando feito um potrinho nocampo? Então sua criança interior está no auge da felicidade. Mas, se não estiver, tem jeitode despertá-la, mesmo sem precisar empinar pipa, tomar sorvete ou puxar o cavanhaquedo chefe”. A introdução fortalece nossa ideia de que a revista usa informação didática,ensinando modos de ser e estar para os leitores, porque a própria chamada de capa buscaatrair o leitor em função desse propósito, ao prometer: “nós vamos ensinar direitinho comofazer isso”. O texto parece ser construído em etapas e, cada vez que uma é concluída, surgea próxima – o que lembra uma prática escolarizada. Por exemplo, após a fala da especialistasobre quem é a criança interior, a repórter escreve: “Bom, agora que já sabemos quemela é, como vamos acessá-la em nossa memória?” e, após apresentar alguns “exercícios”,lemos: “Agora que já sabemos entrar em contato com a criança interna, temos de saberpara que serve isso, afinal”. Para finalizar a “lição”, o texto retoma o que foi tratado atéentão (didatismo) e promete que o assunto tem diversos desdobramentos (disciplina): Então tá combinado: toda vez que você apostar em realizar um sonho (mesmo os atuais), tiver certeza de que o futuro vai ser benéfico e se sentir radiante e feliz, já vai saber que estará expressando sua criança interior [...]. Isso só para começar o jogo, porque tem muito mais coisas interessantes a respeito desse assunto, se a gente quiser se aprofundar. Da próxima vez que passar por uma seção de livros que falem da criança interior, juro que dou mais uma olhadinha e conto (VIDA SIMPLES, agosto, p. 29, grifos nossos).A chamada de capa dessa edição, assim como a maioria delas, apresenta uma promessa, 155
  • 155. o que remete à disciplina porque funciona como uma palavra de ordem. Os verbos nomodo imperativo são amplamente verificados, como no exemplo abaixo que, além dedisciplinar, enfatiza os ensinamentos possíveis com a leitura da reportagem: Existem várias maneiras de contatar sua criança interna, e uma das melhores é a mais direta. Isto é, sempre que tiver chance, torne-se uma criança, desperte em você mesmo o menino ou menina que já foi um dia. Um grande mestre nos ensina como fazer isso: Se estiver na praia, comece a catar conchinhas ou a fazer desenhos na areia; se estiver no jardim, brinque com o cachorro, observe com atenção formigas, passarinhos e borboletas. Sempre que puder estar com crianças de verdade, misture-se a elas e deixe de ser adulto. Deite-se no gramado, como uma criança pequena aproveitando o quentinho do sol. Corra pelado, como a meninada faria [...] (VIDA SIMPLES, agosto, p. 24, grifos nossos). Os questionamentos que fazem o leitor refletir aparecem já na capa e são elesque formam o primeiro parágrafo, juntamente com as impressões do repórter, quecondicionam a leitura e a reflexão: Se um marciano recém-chegado à Terra perguntasse a você o que é felicidade, que cena você escolheria para mostrar esse sentimento em seu mais puro estado? Um casal se unindo numa igreja? Um jovem recebendo seu diploma? [...] Todas essas imagens expressam diferentes formas de realização, mas eu preferiria levá-lo para a beira de um rio para ver crianças brincando de pular na água, naquele tchibum sem igual na vida [...] Tem alegria maior, mais pura que essa? (VIDA SIMPLES, agosto, p. 23, grifos nossos). Os questionamentos são ainda mais usados para interagir com o leitor, dando a 156
  • 156. impressão de querer fazê-lo enxergar o que poderia passar despercebido, e mostrar queas mudanças propostas são possíveis: Se a gente reparar bem, ao nomear essas qualidades estaremos falando exatamente dos componentes básicos que garantem a felicidade. Não tem dinheiro no meio, tem? Também não tem segurança e estabilidade, tem? Esses momentos, ora veja, também não dependem nem de nada nem de ninguém. Muito menos [...] de como a coisa deve ou não deve ser, essa mania de gente adulta. Porém, vamos ter de admitir: todo mundo sabe que não é mais criança. Temos outras necessidades, compromissos e responsabilidades. [...] Mas, hummm, será que não dá mesmo para conciliar as duas coisas? Será que não dá para buscar mais leveza e frescor, espontaneidade e alegria ou aventura e irreverência em nossas vidas? O mais legal dessa história é que dá, sim (VIDA SIMPLES, agosto, p. 23, grifos nossos). Em muitos momentos, as dicas dos especialistas parecem conselhos, não só parao leitor, mas também para a repórter, cujas palavras têm ar de confissão – e acabamtransmitindo um valor de que as crianças quietinhas são menos espertas (o que édisciplinar e marca um shifter de organização), como no exemplo seguinte: Você era uma criança levada? Mandona? O dono da bola ou o que escolhia o pessoal na hora de jogar queimada? Ou era aquela criaturinha tímida e sensível com o cobertorzinho na mão e o último a ser escolhido na hora do jogo de vôlei? Morro de vergonha de dizer que era do segundo time, o das crianças quietinhas. Daquelas que costumam ser passadas para trás pelas mais espertas, sabe? Então, uma das questões cruciais que tinha para a psicoterapeuta junguiana Sônia Belotti era exatamente essa: a criança interior com que tenho de entrar em contato é aquela menina que sempre preferiu seu mundo interno e as paisagens da natureza? São as crianças que já fomos na 157
  • 157. vida? (VIDA SIMPLES, agosto, p. 24, grifos nossos). A repórter continua a se inserir na sequência do texto, talvez a fim de tornarmais prático o conselho aparentemente subjetivo da psicanalista: “Sônia me aconselhoutambém a fazer uma meditação usando visualização: imaginar a garota que fui, no meuquarto, ou envolvida com minha brincadeira favorita”. O texto prossegue: “Quando essasimagens estivessem nítidas em minha mente, ela me disse para olhar para essa criança emseus olhos e abraçá-la, totalmente disposta a aceitá-la de coração tal como ela é”. Alémde apresentar o conselho, a repórter relata sua vivência ao praticá-lo, de forma a ser umexemplo: “Com uma certa resistência, fui fazer a experiência da tal visualização. Emocionei-me bastante, percebi o quanto gostava dessa menina de pijaminha de flanela que eu tinhasido”.Como viver e estar Se a linguagem disciplinar ressalta os ensinamentos possíveis com a leitura do textoe se as informações didáticas também buscam esse propósito, adotamos a perspectiva deque a revista Vida Simples se utiliza de enquadramentos pedagógicos, na medida em queajuda a construir discursos e produzir significados, sendo um lugar de aprendizado sobrea vida que levamos, ou que deveríamos levar. Essa didaticidade encontrada, no entanto, se mostra midiática, ou seja, não perdeo seu objetivo final de informar. Salientamos essa questão com base em uma reflexão 158
  • 158. proposta por Charaudeau (2007), de que o jornalista não pode visar a um discursoperfeitamente didático, mesmo que determinada intenção pedagógica o atravesse eque se possa encontrar grande quantidade de traços didáticos em seu discurso, pois asexigências de organização do saber no discurso didático, sua construção que prevê provasde verificação e de avaliação são de fato incompatíveis com uma informação que devecaptar o público em geral – a menos que se especifique o que é didaticidade e que seconclua pela existência de uma didaticidade midiática diferente da escolar, universitária,administrativa. Vida Simples utiliza a didaticidade na maneira como enquadra seus textos, ouseja, o repórter organiza as informações a partir de um quadro que se mostra didático,no sentido de ensinar aos leitores como ser e estar. A utilização dessas estratégias queconsideramos pedagógicas pode ser inconsciente: o repórter apenas as seleciona porqueé um método do qual que os leitores gostam e, portanto, vende. Um tal enquadramento não é necessariamente um processo consciente por parte dos jornalistas; pode muito bem ser o resultado da absorção inconsciente de pressuposições acerca do mundo social no qual a notícia tem de ser embutida de modo a ser inteligível para o seu público pretendido (GAMSON apud HACKETT, 1999, p. 121). De qualquer forma, essas estratégias, a nosso ver, tornam o enquadramentopredominante da revista pedagógico, e direcionam tanto o trabalho dos jornalistasquanto a audiência na interpretação desse conteúdo. Até porque os assuntos tratados, 159
  • 159. como vingança, insegurança, culpa, são bastante abstratos no nosso dia-a-dia, o queaumenta a sensação de que a cada página estamos aprendendo lições. Aí estaria um dossignificados do enquadramento e da função interpretativa, já que os media apresentamfrequentemente informações de acontecimentos que ocorrem fora da experiência diretada maioria da sociedade. Os media [...] apresentam a primeira, e muitas vezes a única, fonte de informação acerca de muitos acontecimentos e questões importantes. Mais ainda, dado que a notícia está repetidamente relacionada com acontecimentos que são “novos” ou “inesperados”, aos media cabe a tarefa de tornar compreensível o que chamaríamos de “realidade problemática” (HALL et al, 1999, p.228). Longe de tentar entender a mídia de forma unilateral, a pesquisa busca trazer paradiscussão os modos de vida produzidos pelos meios de comunicação, as significaçõesque são construídas através de seus textos, percebendo como os dispositivos midiáticosoperam na relação com a sociedade. Buscamos perceber a prática jornalística como umaconstrução e uma forma de “organizar discursivamente”, o que, segundo Gomes (2000), éa prática jornalística por excelência. Na revista Vida Simples, a observação do repórter aparece a cada linha, a cadarelação de uma história fictícia com o mundo real, a cada opção de se iniciar o texto por umviés e não outro. Enquanto os veículos que tratam de pautas com ligação factual podemser agendados por acontecimentos cuja repercussão se impõe à vontade da equipe e oleitor espera acompanhar o fato, a revista pode decidir “tudo”, nada se impõe a ela e o 160
  • 160. leitor busca ser surpreendido. É a revista que ordena os acontecimentos, considerando,como Hackett (1999) que um acontecimento é uma ocorrência utilizada criativamentecom propósitos de demarcação temporal: “as ocorrências tornam-se acontecimentosde acordo com a sua utilidade para um indivíduo (ou organização) querendo ordenar aexperiência” (HACKETT, 1999, p. 108). Assim, torna-se mais claro perceber que as notíciassão o “produto final de um processo complexo que se inicia numa escolha e seleçãosistemática de acontecimentos e tópicos de acordo com um conjunto de categoriassocialmente construídas” (HALL et al, 1999, p. 224). Com esse artigo, objetivamos mostrar que as escolhas de palavras e imagens nostextos jornalísticos – que podem parecer naturais, ou meras escolhas – são, na verdade,centrais para entender o modo como determinada notícia enquadra e interpreta oseventos. Pensamos, pois, que a mídia não apenas veicula, mas também constrói discursose produz significados. É por isso que, conforme Fischer (2005), conscientemente ou não,teremos na TV, nas revistas de ampla divulgação, nos programas de rádio, um lugar deaprendizado a respeito de nós mesmos, da vida que levamos, um aprendizado de comovamos receber e ler pessoas classificadas para nós como heróis ou vilões, cidadãos corretosou como transgressores da ordem. Nesse sentido, é pertinente refletir com a elaboração deSoares (2007) de que o enquadramento é um viés implícito da representação, ou seja, “asintervenções invisíveis do autor de um texto são potencialmente capazes de influenciarde maneira sutil as percepções sobre pessoas, gêneros, grupos sociais e categorias” (p. 161
  • 161. 51). Adotamos com o autor a percepção de que a noção de enquadramento serve paraanalisar como informações pontualmente corretas e verificáveis podem ser selecionadas,omitidas ou atenuadas de modo a produzirem representações diferentes de uma mesmasituação.Bibliografia consultadaBOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro, Zahar, 1997.___________. O poder simbólico. 8.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.BUCCI, Eugênio. Prefácio. In: GOMES, Mayra Rodrigues. Poder no Jornalismo: Discorrer,Disciplinar, Controlar. São Paulo: Hacker Editores/ Edusp, 2003.CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2007.DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Tradução: AnaLúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995, vol. 2.FISCHER, Rosa Maria Bueno. Televisão & Educação: fruir e pensar a TV. Belo Horizonte:Autêntica, 2001.___________. Uma análise foucaultiana da TV: das estratégias de subjetivação da cultura.Currículo sem Fronteiras, Porto Alegre, 2002a. 162
  • 162. ___________. O dispositivo pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV. RevistaEducação e Pesquisa, São Paulo, v.28, n.1, p. 151-162, jan./jun. 2002b. Disponível em:<http://dialogos.sites.uol.com.br/Boletins/Odispositivopedagogicodamidia.htm> Acessoem: 26 jun. 2008.___________. Mídia e juventude: experiências do público e do privado na cultura.Campinas: Cadernos CEDES, 2005.FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões. Petrópolis: Vozes,1991. 8.ed.GOMES, Mayra Rodrigues. Jornalismo e Ciências da Linguagem. São Paulo: HackerEditores/Edusp, 2000.___________. Poder no Jornalismo: Discorrer, Disciplinar, Controlar. São Paulo: HackerEditores / Edusp, 2003.GUTMANN, Juliana Freire. Quadros narrativos pautados pela mídia: framing como segundonível do agenda-setting? Contemporanea, v.4, n.1, p. 25-50, junho 2006.HACKETT, Robert A. Declínio de um paradigma? A parcialidade e a objetividade nosestudos dos media noticiosos. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: Questões, Teorias e“Estórias”. Lisboa: Vega, 1999. 2.ed. Coleção: Comunicação e Linguagens. 163
  • 163. HALL, S. et al. A produção social das notícias: O mugging nos media. In: TRAQUINA, Nelson.Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias”. Lisboa: Vega, 1999. 2.ed. Coleção: Comunicaçãoe Linguagens.KOSICKI, Gerald. Problems and Opportunities in Agenda-Setting Research. Journal ofCommunication, p. 100-127, 1993.MARCONDES FILHO, Ciro. Jornalismo fin-de-siécle. São Paulo: Página Aberta, 1993.SCHEUFELE, Dietram A. Framing as a Theory of Media effects. Journal of Communication,p.103 -122, 1999.SCHUDSON, Michael. A política da forma narrativa: a emergência das convençõesnoticiosas na imprensa e na televisão. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: Questões,Teorias e “Estórias”. Lisboa: Vega, 1999. 2.ed. Coleção: Comunicação e Linguagens.SOARES, Murilo César. Representações e comunicação: uma relação em crise. Libero, AnoX, n. 20, dez 2007 –p. 47 a 56.TUCHMAN, Gaye. Contando “estórias”. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: Questões,Teorias e “Estórias”. Lisboa: Vega, 1999. 2.ed. Coleção: Comunicação e Linguagens.VIDA SIMPLES, Editora Abril: Edição 64, março 2008.VIDA SIMPLES, Editora Abril: Edição 69, agosto 2008. 164
  • 164. A Amazônia, uma capa, um anúncio e três leituras1 Norbert HEINZ2 Márcio MACEDO3 Ariane PEREIRA4 As discussões relacionadas aos problemas ambientais começaram a ganhar força nasegunda metade do século XX, quando o discurso ecológico se tornou parte importantedo discurso político em todo o mundo, principalmente a partir da década de 70 ondesurgiram os primeiros grandes documentos e fóruns internacionais para a discussão dosimpactos da ação humana no meio ambiente (Bonfiglioli, 2004). Nesse cenário, os Meios de Comunicação de Massa (MCM) passaram a ter umimportante papel na difusão dessas informações relacionadas ao meio ambiente. Afinal,por definição, esta tem “um papel mediador importante a desempenhar para documentaras novas realidades e promover um fórum para discuti-las” (Dizard Jr., 2000, p. 274). Assim,a temática ambiental ganhou força, sobretudo nos últimos anos, tanto na Publicidadequanto no Jornalismo.1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Estudante de Biologia da Unicentro e aluno e Iniciação Científica.3 Publicitário, mestrando em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná, professor efetivodo Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).4 Jornalista, mestre em Letras, professora efetiva do Departamento de Comunicação Social da UniversidadeEstadual do Centro-Oeste (Unicentro). 165
  • 165. Neste último, as matérias relacionadas ao efeito estufa, ao aquecimento global eao papel da Amazônia na reversão do atual quadro de degradação ambiental passarama ser veiculadas com bastante freqüência pelos jornais, revistas, sites de conteúdo, rádioe telejornais. De tal maneira que o chamado “jornalismo ambiental”, hoje, é considerado,segundo Alves (2002), uma tendência irreversível na imprensa mundial. Um dos fatores possíveis para esta “tendência” é que se “a divulgação de notíciasestá intimamente relacionada à mudança ou reforma de crenças que redundem ematitudes que podem ou não se converter em ações de diversas amplitudes”, como afirmaHernandes (2006, p. 18), - e a questão ambiental passa pela conscientização e pelamudança de hábitos do cidadão comum -, o tema não pode ficar restrito aos corredoresdas instituições de pesquisa. Porém, a divulgação de pesquisas científicas em veículos jornalísticos voltados paraleigos ainda é controversa. A maioria das críticas, quando se fala em Jornalismo Ambiental,se dá quando os assuntos abordados são o Efeito Estufa e o Aquecimento Global, temasdeste estudo. Muitos pesquisadores apontam erros na maneira como esses conceitos sãodefinidos pela imprensa em geral. Se a preocupação sobre as questões ecológicas e ambientais evoluiu por várioscaminhos diferentes se intensificado a partir dos anos 60 e 70, onde surgiram osmovimentos ecológicos, é apenas em meados do século XX que estas questões passarama chamar a atenção das empresas como uma possível fonte de vantagem competitiva 166
  • 166. (Pereira; Ayrosa, 2004), passando assim a figurar também na Publicidade. Com o surgimento da ecologia política que, segundo Coelho (2006), pode sercompreendida como uma inter-relação dialética entre a sociedade (relações sociais deprodução) e os ciclos ecológicos (apreendidos a partir da noção de ecossistema), a meta pelasustentabilidade tornou-se um discurso obrigatório nas empresas – e, conseqüentementenas propagandas – que disputam um mercado cada vez mais competitivo. No Brasil, a Amazônia tornou-se uma grande oportunidade para as empresaspatrocinarem projetos, ONGs, reservas e áreas de preservação com o objetivo demostrarem sua responsabilidade ambiental, que esboçam em propagandas emocionantes.Tolmasquim (2003), no entanto, enfatiza que há dois tipos de abordagem para o conceitode desenvolvimento sustentável: uma econômica global e outra ambiental ou ecológica. Assim, o que a grande maioria das empresas fazem é aplicar a sustentabilidadeeconômica pensando estar ambientalmente corretas. Também existem aquelas empresasque programam apenas reformas simbólicas e medidas cosméticas (a chamada “lavagemverde”) visando responder à legislação ambiental e usá-las como propaganda institucional(Vinha, 2003). Por outro lado, aproveitando-se do marketing verde ou ambiental,algumas empresas incorporaram uma vasta gama de atividades, incluindo a elaboraçãoe modificação de produtos, mudança nos processos produtivos, nas embalagens e até noperfil da propaganda (Pereira: Ayrosa, 2004). O problema é que a publicidade pressiona na direção contrária. Ela nos leva para o 167
  • 167. consumo crescente, para dois tipos de desperdício: o ambiental e o das relações humanas;associa nossa felicidade ao consumo de mercadorias (Almeida Jr; Andrade, 2007). Apesardos publicitários conseguirem desenvolver uma excelente Green Washing ou “maquiagemverde” pregando a sustentabilidade (Ferraz, 2008), e apesar desse crescente interessepor parte da sociedade e das empresas em geral, a preocupação parece não ter afetadode forma significativa o comportamento de compra dos consumidores (Pereira; Ayrosa,2004). Nesse sentido, o de pensar o meio-ambiente em seus “retratos” publicitários ejornalísticos, este estudo toma como corpus a revista semanal de informação IstoE emsuas edições publicadas no período compreendido pelos meses de janeiro a junho de2008. A proposta inicial é identificar edições que tenham como chamada principal de capaa Amazônia, sobretudo priorizando a problemática do desmatamento da área. Depois,verificar-se-á se a mesma temática era abordada em algum anúncio publicado nas outraspáginas da revista. Dessa maneira, o exemplar que atendeu aos pré-requisitos acima estabelecidosfoi o de número 2.012, de 28 de maio de 2008. Capa com chamada principal destacando:“A Amazônia é nossa! Como e porque o Brasil deve reagir de imediato a nova pressão dacomunidade internacional que quer tomar o controle do pulmão do planeta”. Já ao virar apágina, saindo da capa e buscando o conteúdo interno, o leitor deparava-se com o anúnciopublicitário do Banco Bradesco que, também, abordava a questão do desmatamento na 168
  • 168. Amazônia. Anúncio este que tem como título: “Nós ajudamos a criar uma fundação naAmazônia. Para que a floresta valha mais de pé que derrubada”. O texto complementar diz:“A maneira mais realista de encarar as motosserras na Amazônia é admitir que a procurapor lucro fácil, a necessidade e a falta de informação são às vezes mais poderosas que arazão. E, a partir deste entendimento, atacar o problema de um ângulo novo. E isso quea Fundação Amazonas Sustentável está fazendo: - Programa Bolsa Floresta: reconhecer,valorizar e compensar as populações tradicionais pelo seu papel na conservação dasflorestas; - 34 Unidades de Conservação, que cobrem 16,4 milhões de hectares e ondevivem 9 mil famílias. Para saber mais sobre essa iniciativa única, acesse www.fas-amazonas.org. Inibir o desmatamento ilegal de maneira inteligente é mais uma ação concretado Banco do Planeta por um modo de vida sustentável. Banco do Planeta. Investindo,apoiando e informando.”. Por fim, localizado esse quadro, a proposta deste estudo é analisar textos de capae reportagem interna (ou seja, discurso jornalístico); e texto publicitário a partir de óculosteóricos diferente: o da biologia, com vistas a verificar a veracidade das informaçõesrelacionadas ao meio-ambiente publicadas; o da publicidade, objetivando compreendera relação agenda jornalística-publicidade; e o da análise do discurso de linha francesavisando empreender gestos de interpretação de aproximação e diferenciação entre osdiscursos jornalísticos e publicitários. 169
  • 169. O texto jornalístico da capa de IstoÉ a partir da perspectiva da biologia Afirmar que a Amazônia é o “pulmão do mundo” é um equivoco. Segundo Boff(1996), a Amazônia é um ecossistema auto-sustentável, portanto o que ela produz elamesma consome, isso quer dizer que nas florestas tropicais (como a Amazônia) o oxigênioproduzido pela fotossíntese durante o dia (fase clara) é consumido em grande parte ànoite (fase escura) pela respiração das mesmas. Apenas florestas primárias que aindaestão em desenvolvimento produzem mais oxigênio do que consomem. Abundantes nos ambientes aquáticos, as algas são responsáveis pela maior parteda produção de oxigênio molecular disponível no planeta a partir da fotossíntese (Lelis,2006). Dessa forma, produzem alimento e oxigênio para os seres vivos aquáticos e tambémde outros ambientes. Portanto, a maior parte da produção do oxigênio que respiramosprovém de algas e não de florestas tropicais como a Amazônia. Além da produção de oxigênio, Raven (2007) ressalta a importância das algas naabsorção do CO2 lançado na atmosfera pelas atividades do homem: as algas exercem importante papel no ciclo do carbono. São capazes de transformar o dióxido de carbono (CO2) – um dos assim chamados “gases de efeito estufa” que contribuem para o aquecimento global – em carboidratos, por meio da fotossíntese, e em carbonato de cálcio, pela calcificação. Grandes quantidades de carbono orgânico e carbonato de cálcio são incorporadas pelas algas e têm sido transportadas para o fundo dos oceanos. Atualmente, o fitoplâncton marinho absorve cerca de metade de todo o CO2 resultante de atividades humanas, tais como a queima de combustíveis fósseis, sobretudo carvão. (RAVEN et al, 2007. p. 318). 170
  • 170. Entretanto, não se deve pensar que por a Amazônia não ser o “pulmão do mundo”ela possa ser desmatada sem nenhuma preocupação. Ela continua a ter um papelfundamental na distribuição de chuvas não só no Brasil, mas também em outros países: estudos recentes mostram que o sumiço da floresta alteraria a precipitação das chuvas em várias regiões do globo, entre elas a Bacia do Prata, a Califórnia, o sul dos Estados Unidos, o México e o Oriente Médio, causando perturbações imprevisíveis à agricultura dessas regiões. No Brasil não seria diferente. Por meio da evaporação, a Amazônia produz um volume de vapor d’água que responde pela formação de 60% da chuva que cai sobre as regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. A diminuição da chuva teria um impacto direto sobre a produtividade agrícola em estados como Mato Grosso, Goiás e São Paulo. Os rios que abastecem o reservatório da Hidrelétrica de Itaipu teriam sua vazão sensivelmente diminuída, causando um colapso energético no país. (http://geografando.multiply.com/journal, acesso em 13 de abril de 2009). Assim, a leitura de um breve texto jornalístico que é a chamada de capa, porémimportantíssimo já que este tem a incumbência de chamar a atenção para o texto internocomo um resumo deste, já revela um erro na apuração e na redação de um assuntorelacionado ao meio ambiente, crítica tecida com freqüência pelos pesquisadores emrelação ao jornalismo ambiental.A Amazônia “jornalística” e “publicitária” a partir da ótica da análise do discurso O jornalismo – para ser respeitado, ético e ter credibilidade –, ainda hoje, precisa 171
  • 171. seguir normas que surgiram na década de 20 do século passado: o “bom” e “verdadeiro”texto jornalístico, ensinam os manuais de redação e os livros de técnicas de reportagem,deve ser imparcial, isento e objetivo. Preceitos estabilizados no período posterior à 1.Grande Guerra Mundial, período de construção e ascensão do capitalismo (cenário quemarcou o início do jornalismo como empresa voltada a gerar lucros e a inauguração daindústria cultural de massa) e que se mantém até os dias de hoje. Para cumpri-los uma dasprincipais recomendações é ouvir e/ou citar todos os lados envolvidos em determinadofato. Preceitos esses válidos sobretudo para o jornalismo do dia a dia com arespreponderantemente informativos. No caso de revistas de informação semanais, comoIstoE, que praticam/exercem jornalismo interpretativo a isenção, em alguns momentos,é deixada de lado para que a publicação mostre que tem lado, ou seja, que assume umaopinião. Porém, na tentativa de ganhar/captar a credibilidade de seus leitores – isto é,de convencê-los a tomar partido e fazer parte do “mesmo lado” - a citação de discursosproferidos por diversas fontes é mantida. Heterogeneidade de discursos que evidenciada no texto jornalístico apenasreflete uma prática cotidiana, segundo o princípio da heterogeidade discursiva presentena análise do discurso de linha francesa. Afinal, como afirma Indursky, “não é possívelconceber um discurso de modo isolado. Um discurso sempre está em relação com outrosdiscursos. [...] Um discurso é heterogêneo porque sempre comporta constitutivamente 172
  • 172. em seu interior outros discursos” (1997, p.196). Concordando com esse posicionamento e pensando a heterogeneidade dodiscurso jornalístico de interpretação ou opinião me deparei, logo de início, com umadúvida. Nesse caso, me perguntava se esses discursos seriam discursos do(s) outro(s)mesmo ou, apenas, falas do narrador disfarçadas? Questionamento que me pareceu ter uma resposta clara, simples e, até mesmo,óbvia depois da leitura de alguns autores que se posicionam sobre o discurso relatado.Para Benites “o texto citado, mesmo que literalmente repetido, apresenta-se como umaimagem desprovida de grande parte de seu entorno e adquire, por isso, significadodiferente ou até mesmo oposto” (2002, p.57). Dessa maneira, segundo a autora, “tanto odiscurso direto quanto o discurso indireto podem ser manipulados pelo locutor citante”(p.60). Nessa mesma linha de pensamento, Authier afirma que “o discurso direto cita aspalavras de (l), enquanto o discurso indireto as traduz; nem o primeiro nem o segundofalam com as palavras do outro” (AUTHIER apud INDURSKY, 1999, p.199). O discurso relatado divide-se em discurso direto, discurso indireto e discursoindireto livre. Porém, para este estudo, interessa o primeiro deles que, segundo Indursky,é “considerado usualmente como a citação textual do discurso de um outro locutor (l)”(1999, p.198). Porém, a transparência deste tipo de discurso relatado, a impressão de que arecuperação da fala do outro é fiel, não tendo sofrido transformações, é apenas uma 173
  • 173. ilusão. Afinal, ao trazer o discurso do outro para dentro de seu discurso, o enunciador estácriando uma nova situação enunciativa, assim como o faz no discurso indireto. Ou seja,nada garante que a palavra primeira é preservada e não distorcida. O DD é uma armadilha, uma ficção que remete ao conflito constitutivo do DD: (L) apaga-se diante de um enunciado textualmente reproduzido e, ao mesmo tempo, [...] corta todos os vestígios da situação de enunciação que está sendo relatada, na qual o enunciado se inscreve e é dotado de sentido. (AUTHIER apud INDURSKY, 1999, p.199) Nesse sentido, Maingueneau afirma que o DD “simula restituir as falas citadas ese caracteriza pelo fato de dissociar claramente as duas situações de enunciação: a dodiscurso citante e a do discurso citado” (2003, p.140, grifo do autor). Uma segunda reflexãodesse mesmo autor sobre o discurso direto mostrou-me que as dúvidas iniciais sobre odiscurso citado, de fato, não se justificavam: O discurso direto não relata necessariamente falas pronunciadas efetivamente. [...] Mesmo quando o DD relata falas consideradas como realmente proferidas, trata-se de uma encenação visando criar um efeito de autenticidade: eis as palavras exatas que foram ditas, parece dizer o enunciador. (MAINGUENEAU: 2003, p.141, grifos do autor) E é justamente este “efeito de autenticidade” que, acredito, justifica as citações dediscursos outros, entre aspas. Afinal, trazer o discurso do outro “fielmente” reforça a idéiade que se conta/relata/narra, apenas, a verdade. Hipótese que ganha mais força com uma 174
  • 174. nova retomada de Maingueneau. Afinal, segundo este autor, a escolha do DD está ligadaao gênero do discurso em questão já que com este modo de relatar o discurso do outropode-se: - criar autenticidade, indicando que as palavras relatadas são aquelas realmente proferidas; - distanciar-se: seja porque o enunciador citante não adere ao que é dito e não quer misturar esse dito com aquilo que ele efetivamente assume; seja porque o enunciador quer explicitar, por intermédio do discurso direto, sua adesão respeitosa ao dito [...]; - mostrar-se objetivo, sério. (MAINGUENEAU, 2003, p.142). Esses quatro efeitos – já que o segundo divide-se em dois – que podem ser obtidoscom o discurso direto são percebidos na reportagem analisada (os discursos (do) outroestarão destacados para facilitar que o leitor acompanhe a análise). 1. Autenticidade – ao recorrer ao DD o jornalista, sempre, quer demonstrar queestá falando a verdade, no caso a afirmação de que “avançam na comunidade mundial aspropostas para a internacionalização do maior tesouro verde do Brasil”. Exemplos: - “três dias antes de o The New York Times publicar seu artigo, o jornal inglês TheIndependent, noticiando o pedido de demissão da ministra do Meio Ambiente, MarinaSilva, foi quem deu plantão sobre a Amazônia. E sem o menor pudor: ‘Uma coisa estáclara. Essa parte do Brasil (a Amazônia) é muito importante para ser deixada com osbrasileiros”. 175
  • 175. 2. Não-aderência ao dito – ao contrapor dois posicionamentos, o da revista (“acerteza de que a Amazônia é nossa”) e o da imprensa internacional (“coro internacionalque tem questionado a soberania do Brasil sobre a Amazônia”). Como: - “seria muita ingenuidade acreditar que o conceituado jornal americano The NewYork Times abrisse espaço (...) sem que tivesse um objetivo editorial de maior alcance. Sobo título ‘De quem é a Amazônia, afinal?’, o texto assinado por Alexei Barrionuevo na ediçãodo domingo 18 veio engrossar o coro internacional e dá seu recado logo no início, quandocita um comentário do então senador americano Al Gore em 1989 (...): ‘Ao contrário doque pensam os brasileiros, a Amazônia não é propriedade deles, pertende a todos nós’ ”. 3. Aderência ao dito – ao inserir citações que confirmam o pensamento de queoutros países querem internacionalizar a Amazônia. Exemplos: - “o francês Pascal Lamy, ex-comissário de Comércio da União Européia, é da mesmaopinião: ‘as florestas tropicais como um todo devem ser submetidas à gestão coletiva, ouseja, à gestão da comunidade internacional’ ”. - “como ressalta o The Independent, a Amazônia é uma poderosa reserva de recursosnaturais. O diário espanhol El Pais também destaca que ‘o mundo tem os olhos postos nasriquezas da floresta’. E por isso que a soberania brasileira é questionada” 176
  • 176. 4. Seriedade – o DD é utilizado como para, também, dizer: “essas falas não sãominhas, sinal de que não digo sozinho. Assim, vocês – leitores – podem confiar em mim”.Como: - “o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, prefere não levar a sério o TheNew York Times e desqualifica a idéia de internacionalizar a região: ‘quem faz uma propostadessas deveria passar por uma requalificação psicológica, tal o disparate que contém. Osdonos da Amazônia somos nós’”. - “felizmente, o Exército brasileiro está consciente do perigo. E diz estar preparadoaté mesmo para a possibilidade mais radical de uma intervenção militar. ‘Hoje, a Amazôniaé nosso maior foco de preocupações com a segurança’, disse o ministro de AssuntosEstratégicos, Mangabeira Unger, em recente entrevista em Brasília”. - “o ministro da Defesa, Nelson Jobim, não vê um risco imediato, mas ressaltaque, apesar de não sermos beligerantes, saberemos nos defender. ‘Não há nenhum paísameaçando o Brasil, mas precisamos de uma força dissuasiva para remover a possibilidadede que aconteça uma invasão’”. - “‘os militares projetam um conflito futuro, para daqui a 30 ou 40 anos, com uminimigo mais provável, os Estados Unidos’, diz o cientista político Paulo Ribeiro Rodriguesda Cunha, da Unesp”. A reportagem, embora liste uma série de informações em relação à Amazônia, em 177
  • 177. nenhum momento trata desta como “o pulmão do mundo”, de tal maneira que a apuraçãodo conceito não pode analisada. Além disso, este fato possibilita uma nova reflexão, nãotratando desta temática específica, atendo-se a questão da internacionalização, a revistaao colocar na capa “o pulmão do planeta” e não “o pulmão do mundo”, como é recorrente,pode evocar ao Banco do “Planeta” do anúncio da duas páginas seguintes. O que podesugerir uma possível ligação entre a agenda jornalística – que se pauta através dosacontecimentos – e a publicidade.Uma leitura semiológica do anúncio publicitário Na perspectiva semiótica derivada de Greimas, procuram-se compreender osprocessos de construção do texto atentando para os mecanismos de geração dossentidos. Importa analisar o plano de conteúdo de um texto em diferentes níveis deprofundidade, partindo de um nível de significação mais abstrato (nível fundamental),passando por um nível intermediário (narrativo), para, finalmente, se chegar a umnível mais concreto (discursivo). A partir dessa análise sistemática em níveis, é possívelevidenciar o funcionamento da significação no interior do texto. Convém registrar o que Dondis (1997) fala sobre o “modo visual” que se configura,em linhas gerais, como a forma dos indivíduos de constituir e compreender elementosvisuais expressos pelos mais variados canais, como as artes ou a publicidade, porexemplo. O modo visual constitui todo um corpo de dados que, como a linguagem, pode ser 178
  • 178. usado para compor e compreender mensagens em diversos níveis de utilidade, desde opuramente funcional até os mais elevados domínios da expressão artística. “E um corpo dedados constituído de partes, um grupo de unidades determinadas por outras unidades,cujo significado, em conjunto, é uma função do significado das partes” (DONDIS, 1997,p.3). Imagem também é texto. Segundo Barros (2004), o texto é objeto de estudo dasemiótica. Pode ser um texto lingüístico, oral ou escrito como: poesia, romance, umeditorial de jornal, uma oração, quanto um texto visual ou gestual como: uma aquarela,uma gravura, uma dança, uma peça publicitária. O necessário para a análise de qualquer texto, seja ele formalizado de signos verbaisou não-verbais, é perceber sua tessitura, para a partir de suas unidades detectar o jogode representações que estabelece entre o que é dito e o que é mostrado nas intençõespersuasivas do locutor. A distinção entre dizer e mostrar permite penetrar nas relações entre linguagem, homem e mundo: é sob esse aspecto que se torna possível falar de ideologia na linguagem. A enunciação faz-se presente no enunciado através de uma série de marcas. E por meio delas – marcas lingüísticas que são – que se poderá chegar à macrossintaxe do discurso. (KOCH, 1999, p.32) Através das marcas presentes na peça publicitária analisada, é que se percebe oque elas dizem e o que mostram. “A semiótica tem por objeto o texto, ou melhor, procuradescrever e explicar o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz” (BARROS, 2004, 179
  • 179. p.7 ). E “para construir o sentido do texto, a semiótica concebe o seu plano do conteúdo soba forma de um percurso gerativo. A noção de percurso gerativo do sentido é fundamentalpara a teoria semiótica” (BARROS, 2004, p.9). O percurso gerativo de sentido vai do mais simples e abstrato ao mais complexoe concreto. Ele é constituído de três etapas: significação como uma oposição semânticamínima; nível narrativo ou das estruturas narrativas, donde organiza-se a narrativa doponto de vista de um sujeito; discurso, ou estruturas discursivas, assumido pelo sujeitoda enunciação. Como afirma Floch, o esquema narrativo é o “lugar onde se cruzam os diferentespercursos narrativos e se produz um desdobramento dos mesmos” (1993, p.14). Aobservação do esquema narrativo como modelo para a análise de enunciados narrativos éimportante para o entendimento das ações e relações das organizações com a sua própriacomunicação e, também, da relação das empresas com o seu público-alvo. A análise de enunciados narrativos pressupõe o conhecimento dos níveis deorganização narrativa que auxiliam no trabalho de compreensão do esquema narrativo.Os níveis apontados por Barros (2000) são o do percurso do destinador-manipulador, dopercurso do sujeito e do percurso do destinador-julgador. Para o que se propõe neste trabalho limita-se a mencionar o que a autoradescreve como destinador-manipulador e o percurso que ele desenvolve. O destinador-manipulador tanto determina os valores que devem ser visados pelo destinatário, quanto 180
  • 180. dota o destinatário de valores modais necessários à execução de uma ação. Isso significadizer que, no que se refere a uma marca, por exemplo, o destinador-manipulador provocae seduz o destinatário à execução da ação que pode se converter no entendimento e naaceitação dessa marca para a aquisição de produtos ou serviços por ela representados. O percurso do destinador-manipulador tem duas etapas, das quais se registra ade competência semântica, cuja relação entre destinador e destinatário envolve umfazer-crer, isto é, o destinatário necessita crer nos valores do destinador para se deixarmanipular. Na manipulação, o destinador propõe um contrato e exerce a persuasão paraconvencer o destinatário a aceitá-lo. O fazer-persuasivo ou fazer-crer do destinador temcomo contrapartida o fazer-interpretativo ou o querer do destinatário, de que decorrea aceitação ou a recusa do contrato (BARROS, 2000). De forma ilustrativa afirma-se que,firmado o contrato, o destinador (empresa) tem o poder de dirigir as ações do destinatário(cliente) em relação à marca ou produtos que comercializa. Toda relação de contrato pressupõe o que Fontanille (2001) chama de “fidúcia”, ouseja, é uma relação de confiança e de crença que se estabelece entre o destinador e odestinatário, onde um determina e o outro é determinado. A relação constitui ainda umacerta cumplicidade entre as partes. A “lógica do contato” (Landowski, 1992) visa estabelecer relações que ligammais ou menos íntima e duravelmente dois sujeitos (destinador e destinatário), e nesse 181
  • 181. sentido, se percebe que o contrato somente se concretiza nas extremidades do processocomunicativo, ou seja, entre o enunciador e o enunciatário. No alto da primeira página do anúncio analisado tem-se um texto em negrito comos dizeres “Nós ajudamos a criar uma fundação na Amazônia. Para que a floresta valhamais de pé que derrubada”. A seguir novo texto explica os motivos pelos quais o Bradescoapóia o projeto de uma fundação que tem como objetivos emprestar dinheiro para quepovos da floresta preservem e não desmatem a floresta amazônica; e criar unidades deconservação. Há, também, o endereço eletrônico da Fundação Amazonas Sustentável –www.fas-amazonas.org. O texto fecha com a seguinte frase “Banco do Planeta. Investindo,apoiando e informando”. Mais abaixo se encontra a logomarca da fundação e também dobanco que patrocina a peça publicitária, Bradescompleto. A imagem apresentada é de uma floresta devastada, em primeiro plano, compedaços de madeira e troncos de árvore jogados, como se tivessem sido cortados para ocontrabando. O tom da terra é marrom, sensação de terra arassada. Ao fundo percebe-seuma grande quantidade de floresta que ainda está em pé, intocada, mas que transmite asensação de que pode ser derrubada a qualquer momento se alguma coisa não for feitapara conter a devastação da Amazônia. A segunda parte da peça publicitária não apresenta textos, exceção feita para aassinatura Banco do Planeta que aparece na parte inferior direita da peça. Nesta segundapeça continuamos vendo uma terra devastada pela derrubada de árvores, pedaços de 182
  • 182. pau jogados, tocos de árvores torcidos e a terra ressecada. Ao fundo ainda podemos verque a floresta continua de pé. Mas o que se sobressai é uma grande montanha, na formaarredondada que lembra o globo terrestre, porém formado totalmente pela junção decentenas de motosserras, machados e serrotes que remetem nossa imaginação a pensarque são milhares de equipamentos utilizados para a devastação da floresta Amazônica. Nasduas peças o céu aparece azulado, mas uma cor bastante suave e com muitas nuvens. As cores preponderantes da peça são tons metálicos, que dão sensação de ausênciade ar, de coisas pesadas e que não têm possibilidade de serem restauradas. Toda a construção da peça é feita para reforçar a proposta de criação de umafundação para proteção da floresta amazônica, de uma forma sustentável, proporcionandoao homem que vive da floresta uma forma nova de encarar a sua sustentação sem agredirou derrubar de maneira desordenada o local em que vivem. Ao associar seu nome a uma causa como a da conservação a floresta amazônica,o Bradesco reforça seu posicionamento de ser um banco completo para todos os seusclientes e agora, completo também para a conservação do maior patrimônio brasileiro.Fim de papo Este estudo não teve, em nenhum momento, pretensão de apresentar conclusõesou aspectos definitivos acerca de qualquer questionamento. A proposta inicial era – econtinua sendo – apresentar a partir de uma revista, sua capa, texto de capa, textointerno e anúncio com temática igual a da chamada principal, diversidade de olhares que 183
  • 183. demonstrassem as inúmeras possibilidade de reflexão acerca da mídia e dos assuntos porela agendados em suas reportagens e anúncios. Dessa maneira, nosso diálogo – jornalismo-publicidade-biologia e autores-leitores– possivelmente prosseguirá em outros estudos. Sempre buscando a multiplicidadede gestos de interpretação e tendo como pretensão apontar trilhas diferentes a seremseguidas pela pesquisa em Comunicação que, como esta, mostra-se heterogênea.Bibliografia ConsultadaALMEIDA Jr, A. R. de; ANDRADE, T. N. de. Publicidade e Ambiente: Alguns Contornos.Ambiente & Sociedade, 2007. 10, 1.ALVES, J. M. R. O papel da mídia na informação ambiental. In: XXV Congresso Anual deCiência da Comunicação. Salvador, 2002.BARROS, D.L.P. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 2004.______. Teoria do discurso: fundamentos semióticos. São Paulo: Humanitas/ FFLCH/USP, 2001.BENITES, Sônia Aparecida Lopes. Contando e fazendo a história – a citação no discursojornalístico. Bela Vista/Assis: Arte & Ciência/Núcleo Editorial Proleitura, 2002.BOFF, L. Ecologia – Grito da Terra, grito dos pobres. 2.ed. São Paulo: Ática, 1996 184
  • 184. BONFIGLIOLI, C. P. Discurso ecológico e mídia impressa: análise de discurso de umacidente ambiental. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2004. PortoAlegre. Anais... São Paulo: Intercon, 2004. CD-ROM.COELHO, M. C. N. Impactos Ambientais em Áreas Urbanas – Teorias, Conceitos eMétodos de Pesquisa. In: GUERRA, A. J. T.; CUNHA, S. B. da. Impactos Ambientais Urbanosno Brasil. 4ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.DIZARD Jr. A nova Mídia: a comunicação de massa na era da informação. Tradução deEdmonde Jorge. 2ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.DONDIS, D.A. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes, 1997.FERRAZ, R. Zona Cinzenta por Trás do Verde. Revista Página 22: Informação para o NovoSéculo, 2008. 20.FLOCH, J.M. Semiótica, Marketing y Comunicación. Bajo los signos, las estrategias.Madrid: Paidos/Iberica, 1993.FONTANILLE, J.; ZILBERBERG, C. Tensão e significação. São Paulo: DiscursoEditorial:Humanitas/FFCHL/USP, 2001GEOGRAFANDO – Atitude e Ação. Amazônia. Disponível em <http://geografando.multiply.com/journal>. Acesso em 15 de Abril de 2009. 185
  • 185. GREIMAS, A. J.; COURTÉS, J. Dicionário de semiótica. São Paulo: Cultrix,1979._______; FONTANILLE, J. Semiótica das Paixões. São Paulo: Ática, 1993.HERNANDES, N. A Mídia e seus truques: o que Jornal, Revista, TV, Rádio e Internetfazem para captar e manter a atenção do público. São Paulo: Contexto, 2006.INDURSKY, Freda. A Fala dos Quartéis e as Outras Vozes. Campinas: Editora da Unicamp,1997.KOCH, Ingedore G.Villaça. Argumentação e linguagem. 5.ed. São Paulo: Cortez,1999LANDOWSKI, E. A sociedade refletida. São Paulo: Educ/Pontes, 1992.MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. 3.ed. São Paulo: Cortez,2003.PEREIRA, S. J. N.; AYROSA, E. A. T. Atitudes Relativas a Marcas e Argumentos Ecológicos: umEstudo Experimental. Revista Eletrônica Gestão Organizacional. 2004. 2, 2. Disponívelem: <www.gestaoorg.dca.ufpe.br>. Acesso em Agosto de 2008.RAVEN, P. H.; Evert, R. F.; Eichhorn, S. E. Biologia Vegetal. 7ª edição. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 2007. 186
  • 186. TOLMASQUIM, M. T. Economia do Meio Ambiente: Forças e Fraquesas. In: CAVALCANTI,C. (org.). Desenvolvimento e Natureza: Estudos para uma Sociedade Sustentável. 4ª edição.São Paulo: Cortez, 2003.VINHA, V. da. As Empresas e o Desenvolvimento Sustentável: da Eco-eficiência àResponsabilidade Social Corporativa. In: MAY, P. H.; LUSTOSA, M. C.; VINHA, V. da.Economia do Meio Ambiente: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. 187
  • 187. Os editores de moda “em revista”: um estudo de caso sobre o site Erika Palomino e a revista Elle1 Ana Marta Moreira FLORES2 Daniela Aline HINERASKY3 Cada vez mais, a supremacia da lógica midiática configura a sociedadecontemporânea, tendo em vista o papel estratégico dos meios comunicacionais na vidadas pessoas, ao informar, atualizar ou agendar. No campo da moda, a mídia é um espaçode exposição/difusão, não apenas de coleções sazonais de roupas, mas de tendências,modismos, estilos, comportamentos. Os veículos de comunicação de massa procuram“traduzir” a moda em suas multiplicidades, através da linguagem escrita e/ou audiovisual,de acordo com suas especificidades e o segmento a ser atingido (uma revista ou programade TV especializada da área, uma revista feminina, um portal online, um blog, um guiasobre o estilo e design, telejornais ou um programa de variedades. Atuam, pois, como“vitrines” do circuito cultural, atendendo, ao mesmo tempo, às necessidades imediatas,desejos e sonhos dos indivíduos e aos interesses comercias de estilistas, fabricantes oulojistas e até deles próprios.1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, em Blumenau (SC).2 Pesquisadora colaboradora, bacharel em Jornalismo do Centro Universitário Fransciscano – UNIFRA/RS.3 Professora no Curso de Jornalismo do Centro Universitário Fransciscano – UNIFRA/RS, Doutoranda em Comu-nicação Social/PUC/RS, Mestre em Comunicação e Informação – PPGCOM/UFRGS. 188
  • 188. Neste cenário se concretiza o processo denominado midiatização, cuja característica-chave é (re)configurar não apenas o próprio campo (midiático), mas atravessar todos osoutros campos sociais, “condicioná-los e adequá-los às formas expressivas e representativasda mídia” (MALDONADO, 2001) e promover novas formas de interação social com odecorrer das transformações e da acessibilidade aos meios. É inegável, por sua vez, que a midiatização apenas reflete “hoje” a chamadasociedade hipermidiática que supervaloriza a experiência imagética4 da cultura doentretenimento e do consumo (DAVIS, 2003), uma sociedade alavancada pela mediaçãoeletrônica e pelos mass media, os quais estão editorialmente atrelados à oferta excessiva:de estímulos, de imagens, referências, sentidos e modismos. Melinda Davis (2003) explicaesta experiência como a “nova cultura do desejo”, um processo que está atrelado ao quemove o comportamento e as escolhas dos indivíduos. De qualquer forma, a midiatização é o sistema no qual a mídia passa a funcionarcomo uma matriz configuradora de sentidos, marcando processos de apropriação econstrução de significações, conforme Maria Cristina Mata (s/d, p. 84). Desde este pontode vista e, no caso do jornalismo de moda, compreendemos as sociabilidades sendo4 É a experiência de deslocamento do foco de atenção do mundo físico/material, para o mundo mental/in-terior promovida pela relação com os veículos de comunicação eletrônicos. O mundo imagético é a ex-periência cuja imaginação me leva a desejos, aspirações, projeções – daí, por exemplo, a tendência aoculto às celebridades, imaginando que parecer com/como elas me proporcionará o bem-estar de espíri-to que almejo. Segundo Davis (2003, p. 252), “a tecnorrealidade desta era (a rápida proliferação de superes-tímulo) inevitavelmente colidirá com novas realizações humanas (a explosão pós-moderna do entusia-mos pelos intangíveis que tornam a vida melhor – prazer de estado de espírito, deleite psicoespiritual, etc)”. 189
  • 189. demarcadas por duas instâncias de atores sociais fundamentais: as audiências (os leitores)e os jornalistas/editores – nosso objeto de estudo. Surgem discussões a respeito destesprofissionais que atuam em meios tradicionais – uma revista mensal – e, claro (tambémsimultaneamente), nos contemporâneos, como um site, por exemplo. Isto porque hoje seestabelecem diferentes (e novas) formas de sociabilização, interação e, inclusive, produçãonestes segmentos (a Internet e suas ferramentas), nos quais, as lógicas mercadológicas eas rotinas têm transformado as tarefas e papéis de um editor (FELICIANO; FOGEL et al,2007).O papel dos editores Os editores têm novas funções hoje nos veículos. Eles precisam aproximar-se cadavez mais das audiências5 (estas mesmas estão produzindo conteúdos), além de refletirconstantemente sobre suas práticas. “Hoy en día un editor se define mucho más por lamanera en que está ubicado en un fluxo de contenido que por su posición hierárquica […] Eleditor ha perdido el protagonismo en el sentido de que ha perdido sus herramientas” (FOGEL,2007), considerando também as condições e necessidades/imposições mercantis. O jornalismo especializado em moda, um segmento específico, segundo Joffily(1991), deve manter o público atualizado em relação aos lançamentos e tendências. Seuvalor5 François Fogel (2007) explica que conviver com a audiência requer, de certa maneira, se colocar no lugar dela,se interessar pelas suas opiniões, ouvi-la, lê-la através dos blogs; ou seja: ser a audiência da audiência. 190
  • 190. está em realizar a crítica, buscando critérios estéticos e pragmáticos. Estéticos pelo lado criativo e artístico da criação da moda. Pragmáticos, porque a roupa é para ser usada no cotidiano, porque há períodos em que o consumidor anda de bolso vazio. Está em acompanhar, pelo prisma da moda, a flutuação dos comportamentos, a mudança nas correntes sócio-culturais (JOFFILY, 1991, p.12). Os profissionais têm que atender às(os) leitoras(es), prestar um serviço. E é atravésda informação extremamente objetiva que isso se realiza: “a concretização do nosso papeljunto ao público, qual seja o de adequar o sonho da moda à realidade da leitora…dar a elao direito de se apropriar do sonho no seu dia-a-dia” (JOFFILY, 1991, p.12), completa. Joffilyacredita que o jornalista de moda deve estar apto também a cobrir as questões culturais.A sua formação, técnica e cultural, é a única arma de que dispõe contra a desvalorizaçãoque lhe é imposta. Inserido na esfera da midiatização, a rotinas dos editores de moda (e suas tomadas dedecisões), envolvem práticas comuns ao jornalismo6 e aos seus critérios de noticiabilidadee são responsáveis, em grande medida, pelas representações da moda difundidas e pelareprodução e valorização de determinados padrões e modelos de beleza. Não se trata deafirmar, por exemplo, que são/foram os mass media que inventaram e criaram o glamour6 Entendemos o jornalismo como um processo de construção de informações no qual interferem fatores de or-dem sociocultural, organizacional, temporal, ideológica/política, editorial, mercadológica, com variações confor-me o contexto dos veículos de comunicação. Na rotina desse trabalho, tais fatores determinam a noticiabilidadedos acontecimentos e/ou assuntos (e seus critérios) e, grosso modo, chegam a interferir no nível de aprofunda-mento das coberturas informativas. 191
  • 191. do mundo fashion; mas a linguagem e os códigos escritos, estéticos – gráficos, visuais,artísticos – e até sonoros que circulam envolvem escolhas/seleção dos editores quetrabalham em revistas de moda, imprensa7 feminina em geral, as quais funcionam comocatalisadoras das tendências propostas em todo o setor, segundo Torrejón. A jornalistaelucida que esse tipo de imprensa toma as tendências propostas pelo establishment – as marcas, os criadores, a indústria, no fim do circuito de produção ligado à moda – e os grupos de opinião como por exemplo o gosto dos jovens e o resultado deste cocktail é a proposta que o veículo produz, que é, em definitivo, sua própria ideologia. [...] Não creio nas propostas dogmáticas, o veículo não diz às pessoas o que elas têm que vestir ou o que têm que pensar, mas apresenta uma notícia e a moda é sempre notícia (TORREJON, 2005, p.23) Sem desconsiderar que audiências são heterogêneas e processam as informaçõesem função de seus códigos, os editores contribuem na construção de certas representações(magreza, glamour, futilidade, citando algumas estigmatizadas) em torno do universo damoda (quando o sistema8 da moda liga-se, através da linguagem, a culturas, períodos7 É fundamental ressaltar que com a revolução digital o cenário do jornalismo esteja em transformação, commudanças na produção de conteúdo, considerando o espaço conquistado pelas versões online dos veículos epelos blogs destes e, especialmente, dos leitores. Jean François Fogel (2007, p. 17) destaca três tendências queé importante assinalar em todos os meios: “1. La fragmentación tantos en los medios como en las audiencias.;2. La personalización. Hay una presentación distinta para cada audiência, y; 3. La agregación de contenidos apedido de la audiencia. Esto nos permite concluir que que con el internet se ha hecho posible la idea de la aldeaglobal que prometía McLuhan. Todo se parece a una sala de redación donde cada uno puede tomar decisionscon relación al contenido , a la presentación y a la agregación”.8 Entendemos a moda como um sistema consagrado pela sociedade, organizado, normativo e formado por 192
  • 192. históricos, personagens, cenários etc). Corroborando o ciclo de moda midiatizado, ojornalista Alberto Dines (2006) enfatiza que quem martela continuamente essas imagensnas capas, reportagens, colunas sociais, empresariais, telejornais e telenovelas é a mídia.Segundo Dines, na ânsia de faturar anúncios das coleções da próxima estação e abiscoitar algumas assinaturas no segmento feminino, jornais responsáveis ultimamente aderiram de forma pouco crítica e leviana à febre das fashion weeks, eventos puramente comerciais disfarçados em fatos jornalísticos (DINES, 2006, p.1). É certo que estilistas e grifes em geral têm o objetivo de vender e, com as agênciasde manequim mantêm preocupações mais estéticas e comerciais e menos morais. Noentanto, a crítica é que “a imprensa noticiosa não tem o direito de esquecer o ‘contratosocial’ com seus leitores. Revistas especializadas em Moda&Beleza têm compromissosdiferenciados, operam em faixa própria, meio caminho entre o jornalismo e a promoçãocomercial” (DINES, 2006, p. 02). Por outro lado, em outro campo, podem ser responsáveis por ajudar criadores aemplacar no mercado pelo fato de suas rotinas interferirem na visibilidade/publicizaçãodas coleções. O papel dos editores é considerado e se impõe de forma mais clara emalgumas regiões do mundo, como em revistas de circulação mundial norte-americanas eeuropéias. Segundo a editora Gloria Kalil,uma combinação de elementos – linguagens, materiais, fotografia/imagens –, a partir da explicação de Barthes(2005) 193
  • 193. Em Paris e Nova York, a crítica da editora de moda determina o que vai vender. Tem um peso comercial no sucesso da coleção. Aqui também. Vejo com responsabilidade a crítica de um desfile. Você está mexendo com seis meses antes (no preparo da coleção) e seis meses para frente (quando a indústria vive da coleção) (Kalil In: DEODORO, 2006, p.34) Os editores de moda, nesta via, são tidos como os atores sociais, isto é, agentesresponsáveis pela difusão das representações de padrões e modelos de moda/beleza e osresponsáveis, dentro dos veículos, pelos sentidos ofertados. Eles são os elos fundamentaisentre a produção cultural e a circulação dos produtos, imagens, idéias, tendências queinterferem diretamente no ciclo da moda-mercado. Ao realizarem seu trabalho no interior de veículos em particular, ainda quegeralmente estejam em uma situação social diferenciada dos leitores, o fazem inseridono contexto sócio-histórico de que participam, na qual também são consumidores eprodutores de sentidos em comum da cultura brasileira, latina, mundializada etc. Sãojornalistas “submersos” em rotinas produtivas e em uma série de códigos e ideologiaspessoais e profissionais, e com diferentes aspirações e projetos (tanto pessoais comosociais), que não são obrigatoriamente preteridos pela lógica econômica. Por sua vez, estão envolvidos em um contexto e uma estrutura comercial deprodução com funções diferenciadas em que as decisões obedecem a um padrão dehierarquia que impede algumas formas de expressão e decisão, por exemplo. Considera-se, então, que os conteúdos e imagens neste segmento jornalístico situam-se numa 194
  • 194. dinâmica de condições estruturais, econômicas, socioculturais e relacionais, além deenvolver práticas, hábitos, decisões e opções não necessariamente conscientes ouracionais, como destacamos. Na lógica da produção jornalística consideramos, portanto, tomando Martín-Barbero (1997) alguns aspectos para a análise das processualidades do jornalismo demoda na perspectiva dos profissionais, entre os quais: os níveis e fases de decisão (critériose escolhas sobre enfoque/conteúdo do que será veiculado sobre o assunto), as ideologiasprofissionais (posicionamento dos produtores sobre a noção de moda), e as estratégias decomercialização (planejamento da cobertura de uma semana de moda, por exemplo). Foi através da visão e enfoque dos profissionais sobre o seu trabalho como editoresde moda que aprofundamos os debates sobre a construção das notícias nesta editorianas duas principais revistas especializadas no segmento (Vogue e Elle) e no site da ErikaPalomino, uma das mais conceituadas fashionistas e profissionais da moda no país.Em busca dos caminhos: a metodologia da pesquisa Partindo de um revisão bibliográfica sobre moda e o papel do editor no jornalismoe suas transformações, realizamos, inicialmente, uma análise exploratória de veículosespecializados para, então, concluirmos a delimitação do corpus. A partir do cenário domercado editorial do jornalismo de moda brasileiro9, a idéia foi compreender as diferenças9 Mapeamento realizado na pesquisa em 2006 – “Jornalismo de Moda no Brasil: a cobertura da São Paulo FashionWeek”. 195
  • 195. na produção e apresentação de notícias de moda entre os formatos revista feminina,revista especializada e site. Isto porque saber o modo como as notícias são apresentadasé a chave para entender o que significam. Especificamente, mapeamos as diferenças entre as notícias das revistas Elle eVogue e dos sites Erika Palomino (http://www.erikapalomino.com.br) e Chic (http://www.chic.ig.com.br), da jornalista e conceituada consultora Glória Kalil, considerando oreconhecimento e a projeção no mercado nacional. A proposta foi conhecer os modelose formatos de notícias, editorias e seções de moda dos respectivos veículos. O contatocom os editores via e-mail e telefone consistiu a segunda etapa. Entretanto, ao longo dapesquisa não obtivemos resposta da nossa entrevista dos editores e/ou jornalistas dosite Chic, nem da Glória Kalil, nem da editora da Vogue, Maria Prata e, considerando asnecessidades de delimitação/foco da pesquisa, os excluímos da análise. A partir do recorte do corpus, realizamos a análise descritiva dos veículos paraidentificar e definir particularidades de linguagem e temática para, posterior a isso,efetivarmos entrevistas com os profissionais destes veículos (repórteres e editores) atravésde contato via e-mail. As entrevistas, que no caso da internet são fechadas, porque não permitem diálogo(embora contatos posteriores tenha sido feitos), foram realizadas no intuito de dar contadas especificidades da pesquisa, verificar critérios de noticiabilidade e, investigar a funçãodo editor de moda como reprodutor – ou não – de imagens de moda padrões de beleza. 196
  • 196. A proposta das entrevistas foi, também, entender qual o espaço destinado aoassunto moda em cada veículo; verificar como se organizam as coberturas a respeito dotema; identificar o que a cobertura dos veículos prioriza e a definição das pautas. Nessaperspectiva, as reflexões e análises perpassaram as possíveis interferências dos editores demoda nas decisões no campo da moda a partir do conhecimento dos fatores definidoresde suas decisões (e estratégias).Editar é ditar moda? O papel do editor no site Erika Palomino e na revista Elle O http://www.erikapalomino.com.br (site EP) é um dos mais reconhecidos10 sitesdedicados à moda, comportamento e estilo de vida na atualidade. É a Diretora de Redação(proprietária) e estrela principal, quem dá o nome ao site – Erika Palomino – quem mantémum blog (Paloblog) no mesmo, atualizado sem regularidade definida, devido sua agendaextensa. Segundo a própria apresentação do EP, “as temporadas de moda nacionais einternacionais, os principais eventos de música, e diferentes manifestações relacionadas àcultura urbana: arte, arquitetura, design, viagens, grafitti-art etc” são os temas pautados.Há quatro editorias principais (Fashion, Lifestyle, Media e House11), sendo que cada uma,contempla seções específicas, como a editoria de moda, que aborda diversos assuntos1210 São cerca de 15 mil computadores visitando diariamente o site, conforme informação do editor Sérgio Ama-ral, via e-mail.11 Nesta editoria são noticiados eventos e assuntos relativos a House of Palomino.12 A maioria das matérias encontradas é em forma de pequenas notas, quase que apenas só com uma foto parailustrar o assunto, não há uma ampla cobertura fotográfica (contendo galerias de fotos) e nem audiovisual. 197
  • 197. nas seções: Notícias, Tendências, Fashionista (notícias sobre celebridades deste universo:estilistas, modelos, jornalistas etc), Fashionview, Beleza, Homem, Desfiles e Editorial. As semanas de moda têm uma seção exclusiva – Desfiles –, destinada a cada umdos estilistas ou maisons (nacionais ou internacionais), pois eles são divulgados para alémdas notícias diárias, com análise comentada, assinados pelos vários editores da equipe dosite EP e/ou e por alguns jornalistas editores da redação do site13, além de duas galeriasde fotos14. Há ainda de duas a três matérias sobre cada desfile, com diferentes abordagensnestas coberturas: ora focam no(a) estilista, ora na coleção, ora são a respeito da trilhasonora utilizada nos desfiles. A proposta do site Erika Palomino (EP), segundo o editor, Sérgio Amaral, “antes detudo, é ser novidadeiro, fresco, descolado, leve e bem-humorado. A moda é um dos canaisdo site (o outro é lifestyle) e por conta da trajetória da Erika é também uma das nossasespecialidades”. Com um público bastante diversificado15, a tentativa é não priorizar nemmoda nem lifestyle, conforme explica Sérgio, além de “ter sempre informações relevantesde todos os assuntos que nos interessam: moda, música, noite, arte, tecnologia, cinema13 André do Val, Guta Raeder, Hermano Silva.14 Há uma seção sobre o desfile e outra sobre o backstage (bastidores), em média com 50 fotos dos desfiles emais 20 de backstage.15 É bem dividido entre meninos e meninas. Acho que 70% tem entre 18 e 35 anos. Mas temos gente de todocanto do Brasil, de várias idades e até leitores que não entendem muito bem o nosso universo (as gírias e tudomais), mas que adoram entrar no site por achar divertido. Formadores de opinião e early-adopters tambémestão em casa no erikapalomino.com.br. Tem gente que vê pouquíssima TV, quase não tem contato com jornaise revistas, gente que já cresceu habituada a se informar na Internet. Bom, além dos fãs e profissionais de modatambém. Mas não tenho números exatos pra te passar. 198
  • 198. e etc”. Independente da editoria ou seção, entre os principais critérios de noticiabilidadedo site EP, segundo Sérgio Amaral, estão o inusitado, o alcance, o foco no leitor, tomandoum cuidado especial com as assessorias das marcas e seus exclusivos interesses emvisibilidade. A este respeito, ele comenta: Seguimos muito nossa sensibilidade também. Quando tem cara ou parece ser legal, gera interesse e vira pauta. Quando parece conversa mole, enrolação ou pretensao demais a gente costuma derrubar. Eu particularente tomo bastante cuidado com as sugestões das assessorias. Várias delas são de interesse único das marcas. Antes de tudo pensamos no nosso leitor, uma pessoa bem informada, viajada e que não tem tempo pra perder na Internet (AMARAL, 2007) Mas este foco nos leitores é uma prática que se dá cotidianamente, pelo próprioperfil da equipe de redação, que como a audiência, também é diversificada e, assim, osinteresses se cruzam: “de certa forma, nosso público tem gostos e vontades bastantessemelhantes aos nossos... É como se cada repórter do site representasse um segmento,um tipo de gosto musical, tem uma relação diferente com moda... É um equipe bastantediversificada, mesmo! Para além disso, a plataforma – Online – permite a proximidade com o leitor, que éconquistada e mantida “abrindo bate-papos, fazendo eventos abertos a eles na House [ofPalomino], sugerindo enquetes no nosso pop-up, respondendo a todos os emails deles.É uma coisa do dia-a-dia mesmo. É bem simples e natural pra gente. Encontramos eles 199
  • 199. nas noites, festas etc. Eles conversam, fazem perguntas, é uma relação super tranqüila etransparente”. Faz parte da rotina a novidade dentro do perfil do site EP, o que confirmamosna declaração do editor: o assunto tem que “ser novo, divertido, fresco, jovem... Coisasengraçadas e bem-humoradas também têm passe livre nas pautas. Gostamos de revelarcoisas pouco conhecidas, detectar movimentos e comportamentos novos”. No que dizrespeito ao critério para definir o que é tendência e traduzir aos leitores aquilo que estána passarela ou mesmo nas ruas, Sérgio é sucinto e taxativo: “pela repetição”. Isto porque,para ele, tendência é tudo aquilo que você começa a ver aqui, ali, junta os pontos e vê que está em toda parte […] Daí que temos até uma seção de TENDÊNCIAS no site, onde entram desde coisas de moda (xadrez, ankle boots, jeans skinny etc) até a volta das supermodels dos 90 e pautas de comportamento mesmo. Claro que se Prada, Balenciaga e Vuitton fizerem, o fundamento ganha mais força (AMARAL, 2007) Entretanto, evidenciamos que a equipe adota critérios pessoais a partir depreferências particulares em muitas das matérias sobre as “escolhas”16 do site, o que16 Com relação a valores (preços) das peças/looks, não se evidencia uma preocupação em adaptar o look apre-sentado à realidade dos leitores do site, já que é bastante heterogêno. “A gente faz pautas de liquidações e vezou outra de compras, mas não é toda semana. Quando a gente faz, pensa sempre em ter peças ou objetos devalores variados, afinal ninguém na House vive comprando Dior Homme, Prada, Gucci, Vouitton e Balenciaga epessoalmente acho irreal e bobo fingir que vivemos assim. Quem trabalha com moda sabe o quanto se rala paraganhar dinheiro. Assim a gente tenta pegar peças mais acessíveis e algumas mais caras, mas sempre de marcasbrasileiras, das lojas que a gente freqüenta e gosta _Alexandre, V.Rom, Surface 2 Air, Ellus e 2nd Floor, Zoomp, 200
  • 200. confirma um certo “poder” destinado ao editor em sugestão/edição do que é mais“moderno”, considerando (auto)confiança a ser depositada pelos leitores naquelesprodutos. Sérgio comenta: “A gente indica o que a gente gostaria de ter ou o que estáusando. Não tem jabá certo nem nada. Se a gente vê e acha legal, indica para o leitortambém. Não existe um quesito determinante”. O caráter efêmero e circular da moda seevidencia nestas matérias e, em função disso, faz com que tomem cuidado com relação aoque vão indicar como tendência ou não: “Até porque na moda tudo muda o tempo todo.Então o Wayfarer [modelo RayBan] que era legal fica chato porque todo mundo tem e usa.Vira obviedade”, destaca o editor de EP. Com relação à linguagem, o site EP segue um estilo de texto para internetpredominantemente curto, informal, “na ordem direta, com palavras-chave destacadas,em blocos de cerca de cem palavras. […] porque internet é um meio de comunicaçãoindividual e pessoal”(MEIRA, 2000, p.88). É o que se pode notar em todas as notícias eeditoriais, os quais utilizam, também, o recurso de paginação no caso de textos maislongos, para não cansar o leitor. As ferramentas utilizadas numa cobertura online “vão muito além dastradicionalmente utilizadas na cobertura impressa – textos, fotos e gráficos. Pode-seadicionar sequências de vídeos, áudio e ilustrações animadas” (FERRARI, 2003, p.39), o queé bastante explorado no site EP, já que é possível encontrar a cada nova notícia publicadaum hyperlink que leva a uma galeria de fotos do próprio site. Isso evidencia, na prática,Forum... 201
  • 201. a potencialização deste segmento jornalístico agora com conteúdo customizado, umjornalismo interativo, hipertextual e multimídia – os quatro elementos-chave, de acordocom Mielniczuk (2000). A linguagem visual e escrita configurou uma identidade ao site EP, e há uma espéciede “dialeto” particular (talvez em função da Erika Palomino), que pode ser percebido empontuações presentes nos textos, através do uso de vários pontos de exclamação ouinterrogação, determinadas expressões que se repetem, gírias e estrangeirismos: “É a vezdos marinhos, listras e cordões!!!” (dez/2006); “SPFW já é!!! (jun/2007) “Back to black! Clássicoe elegante, total black invade coleções de inverno na SPFW (fev/2008)”. Trata-se de um recurso da equipe, na tentativa de utilizar as potencializades daInternet: “é um meio bastante emocional também. Dá pra pôr muitas exclamações, brincarcom o texto e com a notícia”, comenta o editor de moda do site EP. Segundo Amaral, odiferencial de um site de moda está na agilidade e facilidade da Internet e no tratamentoda notícia: mais superficial e direto. “Tirando as críticas de desfile, a gente não investeem textos longos demais. Quanto mais objetivo e leve, melhor. De vez em quando, nosaprofundamos em assuntos pertinentes. Outro diferencial da Internet é que ela possibilitainteratividade, troca e circulação de informação ágil e simples. Desde e-mail criticando osite até elogios, sugestões de pautas etc”, afirma Sérgio. A revista Elle – uma fórmula licenciada da França (editora Hachette) –, tambémpossui versão online17 desde o ano 2000 no Brasil, mas destaca-se pela edição impressa17 Há editores específicos para a versão online (Editor da Elle online é Yuri Hermuche e a programação é de 202
  • 202. (nosso objeto). Fundada por Pierre Lazareff e Hélène Gordon em 1945, e está no país hámais de 20 anos. É uma revista de moda comercial e vem sendo publicada pela editora Abril.Conforme a própria editora de moda18 Susana Barbosa Elle é “uma revista cosmopolita,que atende a mulheres de espirito jovem (não necessariamente de idade), que gostam deestar antenadas, que amam moda e que querem ser diferentes da maioria”. O website da revista tenta preservar a identidade da publicação impressa eapresenta todos os recursos que o meio online dispõe: vídeos, interatividade, hiperlinks,podcasts além de publicar um blog – diário virtual – da redação da revista. O interessanteé que mesmo sem todas as formas de interação e interatividade de um veículo que éonline e se sabe usufruir dessas ferramentas, a revista impressa Elle procura garantir umaproximidade com o leitor através de outras formas: “é o que chamamos de linha direta”,explica a editora de moda, Susana Barbosa. Segundo ela, quando alguém escreve fazendo alguma crítica, procuramos ligar e conversar, saber o que motivou o descontentamento. Muitas vezes revertemos o problema. A Lenita, diretora de redação, ou mesmo eu, temos prazer em ligar pessoalmente para alguns leitores para conversar, justificar um erro ou mesmo rebater uma crítica (BARBOSA, 2007) Na versão impressa, todos os meses são feitos quatro editoriais de moda e algumasreportagens sobre o assunto, por mês. Assim, a cada edição, são, em média, 30 páginasMilton Strassacappa), no entanto, não foi objetivo da pesquisa realizar um estudo comparativo sobre estes seg-mentos.18 Em entrevista a pesquisadora por e-mail (dezembro de 2007). 203
  • 203. dedicadas aos editoriais de moda nos meses em que não há divulgação das tendênciasde moda que saem da SPFW e Fashion Rio. “Nos meses dedicados aos lançamentos daestação este número sobe para uma média de 42 páginas dedicadas à moda”, segundoDaniela Schmitz (2007, p.33). De acordo com a editora de moda da publicação são vários os critérios para aescolha da pauta, entre os quais: a demanda do mês e, um dos principais que são, semdúvida, os leitores. “Todo o nosso foco é no leitor, na pessoa que gasta seu dinheiro paracomprar um exemplar da Elle e que quer receber algo em troca por esse investimento”,afirma Barbosa. Com relação aos assuntos e aos critérios de noticiabilidade, a editoracomenta: Antes de mais nada, a pauta precisa ser boa o suficiente para render chamadas de capa ‘vendedoras’. Ou seja, ao ler a chamada de capa o leitor precisa ter o desejo de saber mais sobre a matéria e comprar a revista. Na Elle existe uma espécie de calendário19 com alguns temas que sempre procuramos desenvolver em determinadas épocas do ano (e também edições especiais que saem encartadas com a revista). Isso cria uma certa fidelidade do leitor, uma expectativa. Ele sabe que naquele mês vai encontrar a matéria esperada. Funciona mais ou menos assim: logo após o lançamento das coleções por exemplo (março e agosto), fazemos a edição chamada “escolhas de Elle”, onde elegemos tudo o que mais gostamos de tudo o que vimos. Em abril e setembro publicamos o Especial Acessórios. E por aí vai: Elle Jeans, Elle Minas, Especial19 A editora comenta a respeito em outro momento: dezembro é época de festa, então é preciso fazer algumamatéria com esse tema; janeiro é alto verão, então é preciso pensar em quem está de férias...da mesma formaque precisamos talvez dar uma matéria com roupas para quem trabalha em pleno calor de janeiro! Se é maio,mês de aniversário da revista, precisamos pensar em algo especial, que encha os olhos das leitoras. 204
  • 204. Modos de Usar, Moda Praia, etc... Procuramos também mixar matérias que ofereçam algum tipo de serviço de moda, com idéias acessíveis, a outras que simplesmente informam a tendência mais nova no momento. Basicamente a pauta é uma mistura de todos esses itens.” (BARBOSA, 2007) Com relação à variedade de marcas presente nos editoriais de moda, a editoraexplica: ao receber a pauta, cada produtora vai “para a rua” com a sua matéria devidamente ‘dissecada’ por mim. Elas recebem toda a orientação sobre como eu vejo a matéria, que tipo de roupa eu imagino, para que caminho será conduzida a produção. A partir daí elas têm por obrigação fazer a cobertura mais ampla de mercado possível. É importante que elas visitem novos estilistas assim como os já consagrados, marcas que tenham boa distribuição em diferentes regiões do Brasil, ateliês que acabam de abrir, todos os importados, etc (BARBOSA, 2007). Aqui evidenciamos e corroboramos a função do editor na mediação dasrepresentações de moda e no seu papel (importante, é verdade), como um mediador naprojeção de profissionais da moda. A partir da proposta de uma imagem de moda e entreas ofertas trazidas, é o editor que dá a palavra final, podendo reverberar não só no campoda mídia e no social, mas especialmente no campo da moda. A edição que nomeamos de “Escolhas de Elle” é o que o nome diz: após vermos todos os lançamentos, todas as coleções, escolhemos tudo o que mais gostamos para mostrar ao leitor. A forma como será mostrado pode e deve variar, como já fizemos outras vezes. Por exemplo: podemos escolher um 205
  • 205. grande fotógrafo e uma grande modelo para fazer toda a edição, podemos fazer apenas uma grande matéria de 36 páginas contando um pouco de cada tendência.(BARBOSAa, 2007) De qualquer forma, em Elle, pelo próprio perfil da revista (revista de moda comercial),“todos os produtos fotografados na Elle têm seu preço publicado, não importando secustam R$1,00 ou R$100.000,00”, comenta a editora. Nos editorias, embora o principalseja a tendência e/ou imagem de moda como referência para os leitores, a editora explicaque se coloca no lugar das consumidoras: Normalmente usamos o bom senso. Algumas coisas valem o preço que têm e outras não. Pensamos como consumidoras. Mas nem tudo o que é mostrado numa revista precisa ser consumido. Muitas vezes uma produção (mesmo que seja caríssima) serve como inspiração, uma fonte de idéias de como misturar determinadas peças de um jeito novo e criativo. A partir daí, cada leitora busca aquilo que pode comprar para “imitar” aquele look. Essa é a parte mais gostosa. Não podemos esquecer também do lado aspiracional. Todos nós vemos uma revista de moda porque também gostamos de sonhar. E acreditamos que um dia também poderemos ter aquele anel de brilhantes da Tiffany ou aquela bolsa linda da Louis Vuitton (BARBOSA, 2007) Com relação aos critérios na definição daquilo que é tendência para os leitores e natradução da moda (seja da passarela ou das ruas), Susana argumenta que a proposta daElle é sempre fazer uma que seja acessível, tanto em termos de preço quanto em termosde idéias. Acreditamos no que é usável. Uma revista de moda comercial precisa ter 206
  • 206. foco na sua leitora, despertar nela o desejo de se vestir daquela forma, de ser aquela mulher representada ali. Para isso temos também uma matéria mensal chamada “Modos de usar”, onde procuramos ensinar de forma bem clara e didática como usar as tendências mais novas, as propostas mais modernas, sem cair no ridículo (BARBOSA, 2007). Nesta perspectiva, a maioria das matérias da revista são de serviço e tendência,porque “o determinante é fazer com que a leitora saiba que o que está ali tem o aval daElle e representa o que tem de mais novo e bonito para usar naquela estação”, explica aeditora. A linguagem da revista procura traduzir esta proposta, com matérias de modaserviço, ou seja, além das fotografias dos looks, sempre há dicas de como misturar aspeças para facilitar o uso. Ao editar fotos de passarela tenho sempre o cuidado de escolher looks mais usáveis. É importante também ressaltar que algumas coisas que aparentemente não são consideradas usáveis aos olhos do leitor, também estão ali como uma informação de moda que não pode deixar de ser noticiada, e que é nosso dever mostrar o que é moda, ainda que determinada tendência só seja assimilada nas ruas tempos depois (BARBOSA, 2007)Considerações O primeiro aspecto a ser ressaltado é que as diferenças na linguagem (escrita eestética), na apresentação das notícias, entre os veículos observados (site e revista), conformesuas especificidades (suporte, formato, linha editorial), não diferenciam o principal critériona seleção de pautas levado em conta pelos dois editores: seus leitores. Obviamente, as 207
  • 207. particularidades do suporte direcionam os critérios de noticiabilidade e as abordagensdas pautas, especialmente a linguagem utilizada, o que demonstrou ser conscienteentre ambos os profissionais. Sobre isso, inclusive, eles têm opiniões convergentes. ParaSusana Barbosa, de Elle, o diferencial da revista de moda é “a consistência da informaçãoe a isenção de gostos pessoais ou vaidades no julgamento, sendo a informação focadaestritamente no interesse do leitor”. Com relação às diferenças entre os formatos, SérgioAmaral, do site EP, acredita que “as revistas deveriam exercer papel mais analítico de tudoisso, já que a Internet e os jornais acabam tirando o ineditismo de muita coisa. Aí é oespaço pra se aprofundar, ler um texto coeso e carregado de informação”. O ciclo da moda indica que os editores são responsáveis não apenas pelas notícias(eventos, coleções, tendências, etc.) que circulam neste universo, como por (re)produzirpadrões de moda/beleza e, ainda por projetar designers (estilistas) no mercado. Em outraspalavras, a crítica dos editores de moda pode ser determinante no que vai vender, ter pesocomercial no sucesso da coleção. Por sua vez, eles não têm consciência do seu papel e/ou responsabilidade nocircuito da moda ou na sociedade, ao lidar nas suas rotinas, com pautas que constróemdiferentes imagens. Ambos os editores entrevistados não acreditam realmente que oeditor de moda é capaz de interferir em padrões de beleza. Por sua vez, enquanto editordo site EP acredita que são as revistas de moda quem exercem mais este papel, a editorada revista Elle, defende que, pelo menos, isoladamente, as revistas não têm força nem 208
  • 208. acredita que a atuação delas possa ser considerada um papel relevante. “Pelo menos nãono Brasil”, comenta Susana. E acrescenta: “Talvez uma ou duas editoras no mundo tenhampoder para iniciar algum movimento nesse sentido. Mas isso geralmente se deve a umajunção de fatores, a um momento da moda, da sociedade, das vontades dos estilistas, dointeresse da indústria. É algo muito maior do que sonha a vã filosofia de um simples editorde moda”. Ao discutir sobre o papel do editor de moda, ambos os editores de moda tema opinião consensual de que é um trabalho de seleção e tradução das informações demoda conforme o veículo, no sentido de dar opções e “pistas” para os leitores, e não ditarescolhas ou comportamentos. É o que podemos verificar nas seguintes falas: Na minha opinião é o de apenas traduzir uma notícia, mostrar um jeito de usar, levar um pouco de sonho, ajudar as mulheres a se sentirem mais bonitas. Não tenho a pretensão de achar que mudaria alguma coisa na história. O papel do editor é transmitir o tempo em que vive, assim como a moda o reflete. É traduzir para o leitor, dentro da linguagem da revista, o que os estilistas propõem (BARBOSA, 2007) pensar moda e selecionar o que é mais interessante pra ela [sociedade]. O mar de informação é enorme. Então parte do nosso trabalho é ver tudo isso e pescar só aquilo que importa (que varia da Vogue, pra KEY, pro site Erika Palomino e Chic). Não existe mais certo e errado. Cada um veste o que quer, como quer, mesmo que não fique bonito ao olhar dos “fashionistas”. E no fundo tanto faz, o importante é ficar bem, por mais clichê e “brega” que isso possa soar. Até porque o grande mercado de moda (não é o fashion) é têxtil, de gente da vida real, confecções, nada de glamour e grife. É que nós somos apaixonados por esse mundo, somos sensíveis a essa mídia (AMARAL, 2007) 209
  • 209. Outro ponto considerável é o espaço destinado às tendências de moda, o qualrecebe muito mais páginas nas revistas de moda, vide o que foi verificado em Elle, o quetambém destaca o ciclo efêmero da moda, subsumida a sua lógica comercial. Por fim,em todos os aspectos discutidos desde o ponto de vista dos profissionais, os veículos demoda operam(riam) num fluxo de produtores-leitores pouco ou nada autoritários, aindaque de função relevante. Em tempos de crescimento das redes sociais, blogs, microblogs,já é real a dinâmica de leitores atuantes, opinativos, criadores de conteúdos e imagensde moda próprias. Vale ressaltar, inclusive, que várias discussões em blogs, por exemplo,partem, muitas vezes, de pautas e imagens lançadas por veículos consagrados, como aElle e o site EP, nos quais os editores de moda são os responsáveis pelas escolhas dastendências, da peça da estação, da cor etc. Neste sentido, e considerando as mudançasna sociedade, na moda e especialmente na comunicação e na “arquitetura” das redaçõese da própria informação, o artigo abre uma janela empírico-teórica para reflexões sobreoutros/novos modos de pensar a informação de moda e sua edição não só nas mídiastradicionais, como nas mídias recentes.Bibliografia ConsultadaBARTHES, Roland. Inéditos, vol. 3: Imagem e Moda. São Paulo: Martins Fontes, 2005.DAVIS, Melinda. A Nova Cultura do Desejo. São Paulo: Record, 2003. 210
  • 210. DINES, Alberto. Ela conseguiu ser capa de revista: quando morreu. Observatório daImprensa. http://www.observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ último acesso em:20/11/2006DEODORO, Paola. Editora é ditar. In: Zero Hora, Donna ZH, 17 de setembro de 2006. p. 7FELICIANO, Hector; FOGEL, Jean François; et al. El papel del editor en una sala deredacción que cambia: pistas para abordar un futuro incierto. 2007FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital. São Paulo: Contexto, 2003.HINERASKY, Daniela Aline. Jornalismo de moda no Brasil: questionamentos da cenabrasileira. ANAIS INTERCOM 2006. Brasília, DF.JOFFILY, Ruth. Jornalismo e produção de moda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.MALDONADO, Efendy. Teorias da comunicação na América Latina: enfoques, encontros eapropriações da obra de Verón. São Leopoldo, UNISINOS, 2001.MARTÍN-BARBERO, Jesús. 1997. Dos meios às mediações: comunicação, cultura ehegemonia. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ.MATA, Maria Cristina. De la cultura massiva a la cultura midiática. Diálogos de lacomunicación. Lima: FELAFACS, s/d. p. 80-91 211
  • 211. MIELNICZUK, Luciana. Jornalismo na web: Uma Contribuição para o Estudo do Formatoda Notícia na Escrita Hipertextual. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia.Salvador, UFBA, 2003.MUNDINHO Fashion – A moda é protagonista das novelas. TV + show. Zero Hora. Domingo,21 de maio de 2006.SCHMITZ, Daniela Maria. Mulher na moda: recepção e identidade feminina nos editoriade moda da revista Elle. Dissertação de Mestrado. Universidade do Vale do Rio dos Sinos.São Leopoldo, UNISINOS, 2007.TORREJÓN, Ana. La Moda en los Medios: “La moda es un buen pasaporte para la tolerancia”.Entrevista da diretora editorial da Elle argentina concedida a Olga Corna. Designis 1,2005. 212
  • 212. A notícia de moda na web: um breve panorama1 Ana Marta Moreira FLORES2 Daniela Aline HINERASKY3 Kellen dos Santos SEVERO4 As formas de noticiar constantemente se (re) configuram devido ao surgimentode novas tecnologias e de modificações estruturais e conjunturais na sociedade e naeconomia. Tais alternâncias refletem diretamente na maneira como se dá o fluxo dasinformações em suas diferentes plataformas. Com a crescente inserção do computador, internet, celular e outras mídias virtuaisna realidade cotidiana de grande parte das pessoas, percebe-se o delinear de ummomento bem específico para a comunicação. Fica claro um diálogo de informações coma entrada de cidadãos comuns como colaboradores ativos no fluxo da notícia. Pode-seaté mesmo afirmar que a atividade de construção da notícia e de exposição dos fatosjá não cabe apenas aos jornalistas, mas também aos usuários da internet e suas redessociais. A moda e as mídias online tem uma série de pontos em comum, o que os tornaexcelentes temas para reflexão e pesquisa. O universo fashion, em que está enquadradonosso objeto de análise, é alvo de preconceito e desdém quando se trata de uma temática1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Bacharel em Jornalismo pelo Centro Universitário Franciscano.3 Doutoranda em Comunicação PUC/RS.4 Acadêmica de Jornalismo no Centro Universitário Franciscano. 213
  • 213. escolhida para esmiuçar práticas e construção de saberes. Assim, a proposta central destetrabalho é destacar o caráter jornalístico em sites e blogs de moda brasileiros ao observarespecificamente: a linguagem e o formato das plataformas digitais e a maneira como (re)estruturam a comunicação; bem como identificar semelhanças ou disparidades entre osendereços em análise.Moldando o conteúdo: surge a moda O ato de o homem se vestir surgiu da necessidade de proteção do frio e da chuva.Na época, a vestimenta cumpria um papel bem mais funcional do que adorno. Com aevolução humana, os pelos no corpo passaram a cair e o homem encontrou nas pelesde animais, abatidos para o consumo, um substituto para proteger-se. Daquela épocaaos dias de hoje, muito mudou: os costumes, a evolução, tempos pacíficos e de guerraescreveram a história do homem. O sentido contemporâneo da moda, assim, só existecom o trajeto cíclico e fugaz das vestimentas e do contexto cultural, social e financeiro deuma sociedade. Concordando com Diana Galvão, a moda é o que seu tempo é, revela a História. Sua realização dá-se num incessante fluxo de vertentes sociais, morais, religiosas, artísticas, políticas, econômicas, científicas, tecnológicas; vetores interligados os quais formam a celebrada cultura de moda instaurada há centenas de séculos na Europa Ocidental (GALVAO, 2006, p.135). Tal cenário migra e evolui para todos os pontos do planeta. Nesta via, destacamos 214
  • 214. a necessidade do homem atual em encaixar-se em um grupo e com ele, definir sua(s)identidade(s) recorrendo à vestimenta, pois pode ser facilmente estabelecida – pelomenos sob o ponto de vista estético. Concordando com Georg Simmel (1957), conclui-seque a utilização da moda consiste na imitação de um modelo estabelecido, que satisfaçaa necessidade de adaptação social, diferenciação e desejo de mudar, sendo baseada pelaadoção por grupos sociais. Para adquirir esta inserção social existe necessariamente o consumo de produtos.Pierre Bourdieu (1979) diz que o combustível que faz funcionar a economia da modaencontra-se justamente aí. Se não existisse essa necessidade do homem, a moda nãoseria uma mola propulsora do capitalismo. Logo, proporcional a demanda por produtos,a procura de pessoas querendo consumir informações sobre moda também cresce, o queresulta na popularidade do tema: a presença na mídia. Além dos produtos principais damoda outros temas entram na pauta de revistas e jornais de todo o mundo. Ao longo das décadas, a indústria se desenvolveu: desfiles de grandes estilistas(prêt-à-porter5 internacional) e tendências antecipadas ficam nas mãos dos profissionaisdo ramo, grandes compradores (geralmente em nome de cadeias de lojas) movimentam5 Prêt-à-porter é o nome francês para “pronto para usar”. Em linhas gerais, pode-se dizer que significa a produ-ção em série e em tamanhos pré-definidos. (...) No entanto, o prêt-à-porter internacional acontece apenas duasvezes ao ano, no hemisfério norte. Os desfiles para o verão europeu ocorrem em setembro e outubro, e os parao inverno, em fevereiro e março. Essas roupas vão chegar às lojas de seis a sete meses depois, diferentementedo que ocorre no Brasil, onde os eventos são mais colados com o varejo. Isso se dá porque aquelas temporadasinternacionais estão mais consolidadas e acontecem de modo mais profissional. Ou seja, são feitas para os pro-fissionais do setor. (PALOMINO, 2002, p.28). 215
  • 215. ainda mais o mercado editorial. O fluxo multidirecional de informação só consegue sernovamente reorganizado e encaminhado ao público interessado através do jornalismoespecializado no tema. Chega a vez de o jornalista entrar em ação.Alinhavando informação: jornalismo, moda e internet O jornalista, então passou a fazer a mediação entre o mundo fashion e o públicoordinário. Muito do que é mostrado em passarelas é um conceito que o estilista querexplorar para aquela temporada. Para o público geral, é necessário que o jornalistatranscreva as ideias em editoriais e matérias que possam ser aplicadas à vida dos leitores.Desta forma, o papel do comunicador especializado é “desvendar” a moda que foiganhando espaço nos mais diferentes meios de comunicação. Embora consideremos que o jornalismo de moda tenha surgido juntamente com asrevistas femininas6, àquela época uma notícia sobre moda não recebia o reconhecimentode notícia “importante”. No entanto, a presença da moda na vida das pessoas está maisforte e tem atraído olhares sobre o tema. Curiosos, estudiosos e cidadãos comunsinteressados em saber sobre tendências, marcas e modelos estão em constante busca pelainformação acerca desses e outros assuntos presentes no campo da moda. O interessedo público é um dos princípios básicos de noticiabilidade jornalística. Com isso, a mídiatem referenciado moda com mais assiduidade. Jornais impressos e revistas jornalísticaspassaram a ter sessões (editorias) especiais para discorrer sobre moda. Com o surgimento6 Ver mais em JOFFILY, Ruth. Jornalismo e Produção de Moda e em BUITTONI, Dulcília. Imprensa Feminina. 216
  • 216. de espaços online das mídias impressas, rapidamente a moda achou sua plataforma ideal:a internet. O meio online parece ser o mais eficiente para noticiar a moda, com instantaneidade,opinião e dinamicidade. Disponibiliza informações e espaços de interatividade com oleitor. Assim, em pouco mais de uma década, pode-se afirmar que o Jornalismo Onlinejá consolidou características que se desenvolveram e que são convenções seguidas pelosprofissionais do meio digital, a partir das possibilidades providas pelo suporte. De acordo com Jo Bardoel e Mark Deuze (2000), o Jornalismo Online tem asseguintes características: interatividade, hipertextualidade, customização de conteúdo emultimidialidade. O pesquisador Marcos Palacios (1999) também aponta multimidialidade/convergência, interatividade, hipertextualidade, personalização como aspectos-chaveda Internet e acrescenta a memória, já que o meio online tem alta capacidade dearmazenamento de dados. A interatividade é um grande diferencial da mídia digital. Uma vez que nos meiosimpressos a única porta de comunicação entre leitor e jornalista era, praticamente, a sessãode cartas e correspondências. A interatividade apresenta-se como termômetro e feedbackquase instantâneo do que o público pensa ou gostaria de saber mais. É uma janela abertae de fácil acesso para quem está familiarizado com a web. O uso de enquetes e promoçõestambém é comum e necessita do leitor para que se cumpra o objetivo inicial. A hipertextualidade é a capacidade de conectar diferentes textos, como links externos 217
  • 217. ou notícias já publicadas pelo mesmo site, em uma dinâmica de autorreferencialidade.Para Ivone de Deus, a intenção da hipertextualidade “é fragmentar os textos e deixar àdisposição do leitor, ligações (links) para outras matérias se isso for de seu interesse. (...) Eleestabelece seu próprio percurso através da interação com texto” (DEUS,2005, p.06). A customização de conteúdo ou personalização, de acordo com LucianaMielniczuk, “consiste na existência de produtos jornalísticos configurados de acordocom os interesses individuais do usuário” (MIELNICZUK,2004). O leitor pode customizaro conteúdo, selecionando apenas os assuntos que lhe interessam, configurando umaleitura não-linear7. A multimidialidade é marca registrada do Jornalismo online, pois permiteconcentrar texto, imagem fixa (fotografia), vídeo e áudio em um mesmo local. Atualmente,com maior intensidade a partir de 2005 quando surgiu o portal You Tube (www.youtube.com), juntamente com o aumento da velocidade das conexões à internet - a transposiçãode vídeos para páginas pessoais e blogs8, além do envio por mensagem eletrônica, foifacilitada.7 Outro ponto importante a ser ressaltado no leitor de material online é a leitura não-linear. De acordo comCanavilhas (1999), “aparentemente, a integração de elementos multimédia na notícia obriga a uma leitura não-linear. (...) Quer isto dizer que perante um texto ou imagem se verifica imediatamente uma associação mentalentre os dois campos. Assim, a disponibilização de um complemento informativo permite ao indivíduo recorrera ele sem que isso provoque alterações no esquema mental de percepção da notícia. Esta estrutura narrativaexige uma maior concentração do utilizador na notícia, mas esse é precisamente o objectivo do webjornalismo:um jornalismo participado por via da interacção entre emissor e receptor”.8 Este termo será abordado no próximo tópico. 218
  • 218. O imediatismo é também traço fundamental para o jornalismo da web. Publicarnotícias “de último minuto” é rápido e simples, assemelhando-se ao rádio na rapidez dainformação. Na internet, a constante atualização de determinado tema ou notícia, tambémé outra característica. É importante lembrar que nem todos os sites tem uma constanteatualização, no entanto, o perfil de rotina define-se juntamente com o conteúdo, com ademanda do leitor e da própria estrutura dos sites. Usualmente o ciberleitor procura informação precisa, atualíssima, gratuita e de fácilleitura. Desta forma, o texto para online é “interativo, apresenta hipertextos, customizaçãode conteúdo e multimidialidade” (BARDOEL e DEUZE apud L. MIELNICZUK, 2001, p.1). Opúblico leitor de moda, por sua vez, encaixa-se certamente no perfil acima, embora tenhaainda suas particularidades. De acordo com Diana Galvão, na net, o público de moda exige mais que editoriais atualizados, virtualidades digitais e uma sensibilidade técnico-estética. Exige qualificação de opiniões sobre o universo de questões que é a moda, entrevistas, pesquisa de moda sobre o passado e pesquisas sobre o moderno (GALVAO, 2006, p.135). E, por fim, a memória virtual. O espaço na web é tão infinito quanto a Via Láctea,afirmam pesquisadores. Palacios (1999) assinala que o acúmulo de informações é muitomais viável técnica e economicamente aos usuários na web, ainda mais quando comparadoao jornalismo impresso. A busca de materiais publicados há meses, por exemplo, é agrande vantagem do jornalismo online. 219
  • 219. Os Blogs e a moda Os blogs são um fenômeno recente que data da década de 1990 e que vem sedisseminando com incrível rapidez9. A expressão “blog” foi cunhada pelo norte americanoJorn Barger em 1997 e inserida em 2003 no dicionário Oxford da língua inglesa. Essa ferramenta de inserção de conteúdos na plataforma online prolifera-se comsingular velocidade devido às facilidades que a caracterizam; como os vários programasgratuitos que a disponibilizam na internet, a facilidade de publicação de informações.O blog não é uma ferramenta limitante, visto que há inúmeras categorias, comoclassifica Recuero (2003): diários eletrônicos (“fatos e ocorrências da vida pessoal decada indivíduo”), publicações eletrônicas (“se destinam principalmente à informação”) epublicações mistas (“misturam posts pessoais sobre a vida do autor e posts informativos”).Todas essas possibilidades podem ser expressas na forma de diários pessoais, protestos,projetos, propagandas, notícias de bastidores, etc. A maioria deles conta com espaço dedicado à participação do leitor, o que invocaumas das características-chave da internet: a interatividade. A blogosfera é um espaçodedicado à diversidade de elementos, como descreve Manuel Pinto, no prefácio deWeblogs - Diário de Bordo, diversa nos seus gêneros e tipologias”, constituindo “um instrumento e um espaço de registro e de informação, de comentário e de opinião, de crítica e de escrutínio da vida pública, de memória e de manifestação de criatividade9 Numa notícia publicada a 2 de Agosto de 2005, no site BBC News, referia-se que a cada segundo é criado umnovo blogue. 220
  • 220. e engenho pessoais, de estruturação e de redes e comunidades de interesses e conhecimento” (BARBOSA; GRANADO, 2004, p.7). Já Jan Alyne Silva conceitua blogs como sendo “um sítio extremamente flexibilizado,com mensagens organizadas em ordem cronológica reversa e com uma interface de ediçãosimplificada, através da qual seu autor pode inserir novos conteúdos sem a necessidadede escrever qualquer tipo de código em HTML” (SILVA, 2003). Outra conceituação é elaborada por Alonso e Martinez: Um meio interativo definido por cinco pontos: é um espaço de comunicação pessoal, seus conteúdos abordam qualquer tipologia e são apresentados com uma marcada estrutura cronológica, o sujeito que os elabora pode usar links a outros sítios da web que tem relação com os conteúdos que se desenvolvem e a interatividade aporta um alto valor agregado como elemento dinamizador no processo de comunicação (ALONSO; MARTINEZ apud DIAZ NOCI, SALAVERRIA, 2003). Alguns elementos caracterizadores dos blogs também servem de definição àmoda, como a efemeridade, individualismo e multiplicidade. Talvez, por isso, ambos,blogs e moda, tenham tanta sincronia. A moda, como técnica e processo comunicacionalse encaixa como uma possibilidade de conteúdo para discussão em plataformas digitais. Concordando com Gilles Lipovetsky (1989), a transitoriedade é característicafundamental do universo fashion e vem de um passado histórico, em que a alta sociedadefoi sendo tomada pelo desejo de novidade e que encarna um novo tempo legítimo e 221
  • 221. uma paixão pelo moderno. “A novidade tornou-se fonte de valor mundano, marca deexcelência social. É preciso seguir ‘o que se faz’ de novo e adotar as últimas mudanças domomento: o presente se impôs como o eixo temporal que rege uma fase superficial, masprestigiosa da vida das elites” (LIPOVETSKY,1989, p. 33). A mesma efemeridade que está presente na moda acompanha a rotina dos blogs,visto que há uma necessidade de atualização, mudança de informações e acréscimo denovidades, de tal forma que esses processos de reciclagem são os que atraem os leitorese visitantes das páginas de blogs. Não é característica do ciberleitor manter participaçõese emitir opiniões em plataformas online que estejam desatualizadas. Partimos do pressuposto de que a base dos blogs caracteriza-se pela postagem detextos, diferentes de fotoblogs e videologs. Textos são ferramentas básicas de trabalhosde jornalistas. O profissional responsável pela construção de estruturas textuais e pelaemissão da informação. Se forem os jornalistas os responsáveis por formatar a notícia eblogs vinculam notícias, são os blogs ferramentas jornalísticas? Essa é uma questão muito pertinente e que tem suscitado reflexão. A notíciajornalística é constituída a partir de ditames que enfocam a imparcialidade na reconstruçãodos fatos, o correto uso da língua, os valores-notícia e ainda o interesse público, comodefende Muniz Sodré - “para o código jornalístico, o interesse por um evento está em relaçãodireta com a sua atualidade e sua significação social e em relação inversa com a distânciapsicológica entre o lugar do fato e do leitor” (SODRE, 1996). Seguindo esses pressupostos, o 222
  • 222. blog se distanciaria de um fazer jornalístico, pois não atende, necessariamente, às normasda língua, não se preocupa com a factualidade e expõe textos permeados por opiniões.Neste contexto chamamos a americana Rebeca Bloom para expressar sua contrariedadeao pressuposto que diz que blogs são elementos jornalísticos: O que os weblogs fazem é impossível para o jornalismo tradicional de reproduzir, e o que o jornalismo faz é impraticável de ser feito em um weblog. Para mim, reportar notícias consiste em entrevistar testemunhas e especialistas, checar fatos, escrever uma perspectiva original sobre um assunto, e supervisão editorial: o repórter pesquisa e escreve a história, e seu editor assegura-se de que ela está de acordo com suas expectativas. Cada passo é desenvolvido para se alcançar um produto consistente que é divulgado de acordo com os padrões da agência de notícias. Weblogs não fazem nada disso (BLOOD, 2001). Na contramão de premissas tradicionais, os blogs tem atendido a indicações deum fazer jornalístico contemporâneo e diferenciado. Reflexo das transformações pelasquais passamos em virtude das próprias mudanças da sociedade. Para Eduardo Meditsch(1992), o jornalismo se sustenta num tripé formado pelas linguagens, pelas tecnologias epelos modos de conhecimento. O pesquisador salienta que o jornalismo tem uma amplaimportância social no sentido de produzir conhecimento e de torná-lo acessível a todasas pessoas. Dentro desta ótica, a internet encaixa-se perfeitamente. O jornalismo digitaltraz em sua essência a divulgação da dita informação pílula, que é fácil de ler e pode serconsumida rapidamente. 223
  • 223. Quanto à usabilidade, os blogs assumem uma considerável vantagem, vistoque são de fácil manuseio e não exigem conhecimentos técnicos aprofundados. Como aumento de visitantes diários nas páginas dos blogueiros abre-se a possibilidade deanunciantes demonstrarem interesse pelo suporte, que de acordo com os conteúdos vãoatrair publicidades específicas. A adesão da temática moda nos blogs está alterando conceitos e disseminandonovas formas de pensar o que é fashion. A ousadia e a criatividade estão presentes em váriasdas propostas de notícia de moda na internet. A exemplo dos sites www.oficinadeestilo.com.br/blog e www.chic.com.br. Cabe destacar que ambas as propostas convergem natentativa de explorar as mais variadas facetas do que pode ser descrito como moda, sediferenciados, obviamente, quanto às abordagens escolhidas. A informação está disponível. Agora, como sabemos se é crível? A questão éimportante, visto que a credibilidade de um blog está intimamente ligada com a qualidadede seus conteúdos, refletida, certamente, no número de acessos. Alguns itens como:hipertextualidade, possibilidade de contato com o autor, ou seja, interatividade, citaçõese referências, dão à página mais respaldo. Como cita Paulo Serra, em Web e credibilidade O caso dos blogs, a competênciados blogs está ligada aos seguintes elementos: a) informação original; b) contextualizaçãoe relacionamento das informações com outros fatos; c) Informações especializadas etécnicas; d) atualização da página; e) tipo de linguagem que se utiliza e a capacidade 224
  • 224. argumentativa apresentada. A partir deste espectro, a pesquisa concentra-se nas características e possibilidadesda notícia de moda digital, a qual pode/deve contemplar quesitos como dinamicidade,atualização, polifonia, a hipertextualidade e acessibilidade, ao reconhecer a moda comoimportante setor econômico e social por movimentar milhares de pessoas ao redor domundo e chegar aos mais distantes locais, levando tendências, disseminando usos ecostumes, referindo a história e alavancando modismos.Procedimentos metodológicos Quanto aos procedimentos metodológicos, optou-se por trabalhar com base nomodelo híbrido proposto para jornalismo online pelos pesquisadores Elias Machadoe Marcos Palacios (2006), com as devidas alterações para encaixar-se nos objetivos eespecificidades desta pesquisa. Desta forma, os processos realizados foram: 1) Revisãode bibliografia e acompanhamento do blog e website 2) Delimitação e recorte dos sítiosque julgamos ter representatividade em nível nacional, além da definição do períodoa ser estudado e 3) Elaboração de categorias de análise, baseadas na pré-avaliação doswebsites, bem como nas características de jornalismo online e de moda, quais sejam:conteúdo e linguagem web. Acreditamos que a união de todos os elementos observadosnas categorias analíticas configuram determinantes para a compreensão da notícia demoda no Brasil. Desde tais categorias, realizamos a análise descritiva do weblog e website.A análise teve como ponto de partida a descrição dos objetos com base nos estudos 225
  • 225. teóricos. Ressaltamos que o objetivo central da pesquisa é observar a notícia em suaforma de texto, em como chega ao ciberleitor, e não em seu processo de produção.Apresentação e Características dos websites Blog Oficina de Estilo O blog oficina de estilo foi criado por Cristina Gabrieli e Fernanda Resende, ambassão consultoras de imagem. Elas trazem em sua bagagem cultural cursos sobre Análise deCores, Tecnologia Têxtil, História da Arte, Fotografia de Moda, Produção e Jornalismo deModa, Etiqueta Empresarial, entre outros. Todos os assuntos estudados são aplicados na rotina do weblog. As personal stylist10,responsáveis por alimentar a página na internet, adentraram a atmosfera do online em suaspráticas produtivas, em fevereiro de 2006. Além de consultoras de moda, blogueiras e personal stylist as moças realizam outrasações de moda, como o “Sacolão do Estilo”, evento semestral em que são comercializadaspeças usadas a preços mais acessíveis. Cris Gabrieli e Fê Resende ainda colaboram com arevista Catarina e com os blogs Filme Fashion e Update or Die11. Descrição e Linguagem Web O blog em estudo, situado no endereço www.oficinadeestilo.com.br/blog,10 Consultor de estilo e imagem.11 <www.filmefashion.com.br>, <www.updateordie.com.br> 226
  • 226. apresenta fundo lilás com bolinhas mais claras, referência à estampa clássica petit-pois. Notopo da página fica o cabeçalho com o título de abertura e com ilustrações e fotografiasque variam a cada entrada dos leitores no blog ou novos cliques. A página central temamplo espaço dedicado às postagens, que são inseridas diariamente, com exceçãodos domingos12. Os assuntos em pauta são diversificados e atendem as tendências domomento. Os textos estão distribuídos em ordem decrescente cronologicamente, do maisantigo ao mais novo, como são os blogs. As matérias em sua maioria estão acompanhadasde fotos ilustrativas ou vídeos, o que dinamiza a informação e as aproxima do leitor deinternet. No lado direito da página há uma coluna dedicada às informações gerais.Primeiramente há a apresentação das donas do blog, com seus respectivos nomes e umafoto conjunta. Logo, há uma distribuição em subitens: “A oficina”, onde é contada a históriado blog, como é desenvolvido o trabalho e os serviços que são prestados pelas consultorasde moda, na atividade blogueira e em outras áreas, ligadas à moda; “Mais da gente” , noqual estão descritos os lugares onde os internautas podem encontrar mais informaçõessobre o Oficina de Estilo, a exemplo de links externos como o dailymotion, flickr, orkut eyoutube13; “Busca” que é uma ferramenta para encontrar assuntos específicos no blog; “ Agente também tá aqui”, espaço com links dirigidos a outras ações das meninas, no circuito12 O fato de não ocorrer publicação aos domingos fez com que analisássemos o dia seguinte, 12 de maio, umasegunda-feira.13 http://www.dailymotion.com/chibitschibits, http://www.flickr.com/photos/oficina-de-estilo/ www.orkut.com.br, http://br.youtube.com/profile?user=chibitschibits 227
  • 227. moda/online; “Blogs de Moda”, o blogroll com endereços na internet recomendados peloOficina de Estilo; “Arquivos”, aqui figuram datas com os meses e o ano e as publicaçõesreferentes ao período. Além de todos os títulos elencados anteriormente, ainda constamoutros dedicados a indicar blogs de amigos e sugestões de compra, com o nome dasreferentes marcas. Os textos, quanto à linguagem web, tem como característica a leveza e a fluidez noque é publicado. As frases são, geralmente, curtas e a mensagem que é passada se dá empequenos blocos. Esses elementos são, também, caracterizadores do texto online. As matérias dispostas no blog Oficina de Estilo estão repletas de hipertextualidade.Elemento esse que dá margem para o leitor buscar mais notícias sobre a palavra sublinhada,e assim, aprofundar determinado assunto. Além disso, a hipertextualidade presente nostextos conduz o internauta aos arquivos do blog, onde é possível encontrar tópicossobre o mesmo assunto com diferente abordagem, feita anteriormente. Um exemplo dainteratividade presente no blog está presente na frase a seguir: “Na revista Bazaar dessemês tem matéria dizendo da “nova roupa de festa”. A palavra, Bazaar caracteriza umhiperlink que liga ao website da revista citada na frase anterior. A atualidade é outro elemento presente, visto que as consultoras de moda,responsáveis pela alimentação do site, mostram preocupação com a atualização da página.Constatamos isso ao perceber em nossa análise que o blog é, praticamente, alimentadotodos os dias com notícias do mundo da moda, nacional e internacional. Essa novidade é 228
  • 228. que, também, resulta no grande volume de acessos diários. Como o Oficina de Estilo cheira a novidade, os interessados em moda sabemque podem contar com informações de qualidade e com atualidade. Assim, eles leemas matérias e interagem com as donas do blog, de maneira a gerar uma série de outroscomentários sobre os assuntos em pauta. Logo abaixo de cada nova matéria postada estáo espaço dedicado aos comentários. A possibilidade de assistir vídeos, ver recortes de revistas como Vogue, Gloss eoutras especializadas em moda, perceber fotografias e imagens de desfiles, etc. faz do bloguma ferramenta multifacetada, que atrai diversos olhares pela convergência midiáticaque representa. Conteúdo do Blog Oficina de Estilo O perfil editorial do blog é definido por seu próprio slogan: “Moda para a vidareal”. No dia 7 de maio o assunto na página principal do Oficina de Estilo foi a exposição“Super Heroes - Fashion e Fantasy”. Neste dia, foi postada uma matéria sobre a exposiçãojá inserindo o tema com a moda do dia-a-dia. O assunto gerou 15 comentários referentesà publicação, que exibiu fotos de desfile e de pessoas vestidas como herois ou inspiradosem ícones famosos. As imagens, novamente, deram sustentação simbólica ao assunto.A matéria uniu o factual com o serviço, uma vez que ao noticiar a exposição tambémtrouxe dicas através de texto, imagens e links externos sobre como adaptar o estilo das 229
  • 229. vestimentas de heroi ao gosto pessoal do leitor. No post do dia 12 de maio, o assunto que motivou a pauta foi a Festa do MET14, festa de gala do Costume Institute, parte fashion do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. As blogueiras trataram de comentar os detalhes que chamaram a atenção nos trajes vestidos pelos convidados e celebridades. Embora já tivessem comentado sobre as roupas e modelitos levados ao evento (postagem em 06 de maio de 2008), chegou a vez de comentar os acessórios da noite. Os itens que mais estiveram presentes foram os braceletes e as pulseiras, resultando em uma reunião de diversos meios de comunicação que anunciaram as pulseiras como sendo o hit. Assim, a notícia foi escrita com esse foco. O tema foi desenvolvido em diversos ângulos, a exemplo de dicas de uso, ou tamanho e ou forma dos acessórios. Intitulada como “Mulherzinhas de Pulso Firme”, a matéria rendeu 23 comentários. O português usado está de acordo com as normas gramaticais, a exceção de casosFigura 1- Postagem do blog Oficina de Estilo - 7 demaio de 2008. nos quais as palavras são escritas de maneira equivocada, possivelmente, para expressar um determinado estilo de falar e que abra margem para uma outra interpretação da palavra. A exemplo, de citações como “Bom pra ir mointo ao cinema” ou outra frase como “só usar micro sainhas e xadrezes (existe xadrezes?)”. 14 O Museu Metropolitano de Arte (MET) foi fundado em 1870, em Nova Iorque, por um grupo de cidadãos americanos que pretendia criar um museu para levar arte e arte educação para o povo americano. In http:// www.metmuseum.org. 230
  • 230. Website Chic O website CHIC tem à frente a jornalista, empresária e consultora de moda Gloria Kalil. Gloria iniciou a carreira como jornalista da editora Abril, mas logo optou por trabalhar no ramo têxtil, e foi responsável por trazer grifes internacionais para o Brasil. Em 2000, Kalil lançou o site www.chic.com.br em que é a editora-responsável. Descrição e Linguagem Web O website Chic tem como endereço virtual www.chic.com.br, no entanto é encaminhado automaticamente para o site dentro do portal IG, no endereço http://chic. ig.com.br. O site é um dos grandes nomes quando a questão é jornalismo de moda no Brasil. Porém, constata-se que a moda é apenas um eixo de pautas que o site aborda. OFigura 2 – página inicial do blog oficina de estilo cabeçalho superior (primeira barra de links do site) é do próprio portal IG, seguido das- 12 de maio de 2008. seguintes opções: “Faça sua Busca”, “Assine”, “e-mail”, “SAC”, “Canais” e um ícone com o discador do portal, BrTurbo. Na faixa inferior, há uma pequena logomarca com o nome do site associado ao nome da editora. Ao lado mais uma ferramenta de busca, desta vez, disponibilizada pelo Google15. Na barra horizontal seguinte, seguem os links do site direcionados ao Chic: “Editorial”, “Chic News”, “Carinhas”, “Desfiles”, “Ouça” e “Assista”. Em “Editorial” é disponibilizado o último texto assinado por Gloria Kalil, no qual ela seleciona 15 O Google foi fundado por Larry Page e Sergey Brin, dois estudantes Ph.D de Stanford em 1998. Seus sócios incluem Kleiner Perkins Caufield & Byers e Sequoia Capital. Google presta serviços por meio de seu site público, www.google.com. A companhia também oferece soluções para busca na rede, em associação com provedores de conteúdo. 231
  • 231. um assunto específico e explora em forma de texto inserindo opinião e dicas sobre oassunto escolhido. Além disso, também é possível ler os últimos editoriais publicados. Em “Chic News” encontram-se todas as notícias publicadas no site, em ordem depostagem. Através do sistema de arquivamento é possível encontrar notícias que forampublicadas nas últimas duas semanas. Em “Carinhas” é onde estão as matérias com maiornúmero de imagens. São notícias que se focam mais em comentar e passar a ideia do quea redação aprova ou não em termos de estilo dress-code16, usando celebridades e nomesda moda como respaldo. Em “Desfiles” o leitor pode filtrar por cidade, por estação e por estilista/marcapara ter acesso à galeria de fotos, vídeos e informações sobre aquele desfile específico.É interessante detalhar que o site disponibiliza apenas desfiles do Brasil, centrando-seem três cidades: São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro. E nas seções “Ouça” e “Assista”,estão disponíveis seleções de músicas (remix) exclusivos para o Chic e vídeos de desfiles,videoclips ou até mesmo, dicas de Gloria Kalil. Abaixo, seguem chamadas ilustradas para matérias que podem variar de duas atrês notícias em destaque neste espaço. Na barra vertical, à direita, há a possibilidade de oleitor selecionar um desfile com três filtros diferentes, já citados. Quanto à imagem o site utiliza em cada matéria ao menos uma ilustração paradialogar com o texto. Nos dois dias analisados, todas as chamadas na página inicial sãoilustradas, e as principais notícias recebem destaque quanto ao tamanho da imagem16 Dress-code são parâmetros seguidos visando o ambiente e a ocasião para obter um determinado padrão. 232
  • 232. (6,5cm x 9,5 cm e 13,5cm x 9,5cm). Ao acessar cada matéria, incluindo o editorial da Gloria Kalil, é disponibilizada uma galeria de fotografias ou ilustrações sobre o tema. A única fotografia fixa na página inicial é a do editorial de Gloria que traz a mesma juntamente com sua assinatura. Quanto ao texto percebemos que a construção das matérias é muito próxima do jornalismo online no uso de linhas de apoio e texto curtos, em média dez linhas, divididas em dois parágrafos ou blocos. A sensação que as matérias passam através do texto é a de “conversa” com o ciberleitor, tanto pelo uso de exclamações quanto pelo uso de imperativo. Além disso, também foi possível observar que há uma aproximação dos textos com o “mundo da moda” no uso de trocadilhos e jargões do meio. O hipertexto é utilizado de maneira moderada e usualmente em uma dinâmica de autorreferencialidade, ou seja, os links que estão nos textos levam a outras matériasFigura 3 - Página inicial do site Chic - 11 de maiode 2008. já publicadas pelo Chic. Na matéria sobre as unhas das celebridades no jantar de gala do MET, disponível no dia sete de maio, há o link de autorreferencialidade duas vezes. Quanto à atualização é observada de acordo com a troca de matérias na página inicial entre os dias sete e 11 de maio de 2008. Observamos que as matérias não são trocadas todas de uma vez só, a cada dia a média é de duas a quatro matérias a serem atualizadas. Uma característica da linguagem web, considerando o grande potencial de armazenar conteúdo, são as matérias que não aparecem mais na página inicial. Estas não são descartadas, vão para um arquivo que pode ser facilmente encontrado ao acessar qualquer notícia dentro do website. 233
  • 233. A convergência de mídias se faz completa neste site. É possível ler notícias, ver galerias de fotos, vídeos e ouvir músicas; todos disponíveis dentro do próprio site, sem links externos. As seções que estão em destaque na página inicial, logo abaixo das notíciasFigura 4 - Detalhe da página inicial de 07/05/2008 principais, sempre traz dois elementos da convergência de mídias: “Ouça” e “Assista”.quanto à convergência de mídia no site Chic. Já a interatividade é muito pouco utilizada nem mesmo há o contato com os produtores de conteúdo. Não existe endereço eletrônico de contato com a redação do website e também não existe um link “Fale Conosco” ou semelhante. Além disso, ao clicar no link “expediente” o site retorna à página inicial sem apresentar nenhuma informação. É importante registrar que durante três meses testamos o link (expediente) e este não apresentou dados. Para nos certificarmos, utilizamos dois navegadores de Internet, Mozilla Firefox e Internet Explorer, mas o resultado obtido foi o mesmo para ambos. Desta forma, a interatividade resume-se em poder enviar notícias através da página (via e-mail pessoal) e a imprimir, links oferecidos na página, o que de forma alguma é o conceito de interatividade na web. Conteúdo do site Chic Ao estudar a página inicial do dia sete de maio de 2008 verificamos cinco matérias inseridas na subcategoria de tendência, do total de 11 disponibilizadas. Já no dia 11 de maio de 2008 (domingo) este número cai para dois de 12 matérias. Ressaltamos que os editoriais tratam de diversos temas e sempre trazem a 234
  • 234. assinatura da jornalista Gloria Kalil, como é comum em revistas impressas e, além disso,não tem periodicidade fixa para serem publicados, comprovado pela pesquisa. No períodode observação, o editorial permanece mesmo (“Os jeans e seus sapatos”) e foi publicado nodia cinco do mês de maio. A consultora de moda também faz às vezes de consultora de etiqueta, como é ocaso em “Gloria ensina: como dar os pêsames?”. Outra chamada que pode exemplificartanto a subcategoria de comportamento como a de celebridade é “Cindy, a arrependida:top fala que não aproveitou seu tempo...”, pois ao mesmo tempo em que trata de umcomportamento pessoal também usa o nome de uma conhecida modelo.Considerações finais Esta pesquisa buscou compreender de forma analítica como se dá o jornalismode moda em websites brasileiros por meio do recorte selecionado. A observação dos doiswebsites complementa uma visão pouco explorada do conteúdo para web em jornalismode moda. Para compreender o cenário contemporâneo da moda no suporte online, buscamosas origens do jornalismo online. Acreditamos que nossos objetos são uma fusão dejornalismo de moda e jornalismo online, manifestados no meio digital. Após a descrição analítica e com apoio dos capítulos teóricos, constatamos grandesdiferenças e, por outro lado, algumas semelhanças entre os sites estudados. Apuramos que 235
  • 235. os websites são próximos da linguagem online, quanto ao uso de imagens e na busca deser mais atraente ao leitor de web. Um fator comprovado pela pesquisa é que a imagemé sempre empregada nas matérias, consequência direta dos temas tratados. Portanto,afirmamos que a escolha de incluir uma galeria de imagens ou usá-las como plano defundo sempre terá vantagem sobre o recurso da descrição em forma de texto de umapeça de roupa ou de uma coleção, por exemplo. O jornalismo de moda online seguea máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras”, ainda mais apropriada quandoconsiderado o leitor na web. Além disso, os websites não desenvolvem uma relação de cores, tipo ou fonte coma seção trabalhada, o que geraria uma identificação mais imediata com o tema tratado.Destacamos que o jornalismo de moda online, por meio da segmentação pesquisada,seleciona diferentes ângulos na construção da notícia, os principais: factual, editorial,celebridades e serviço. Já no website Chic percebemos que o objetivo é pautar assuntos gerais, quepermeiem a moda. Ambos dão bastante ênfase para matérias que trabalham na dinâmicade aproximação do leitor não-especializado ao mundo da moda. Ou seja, partem damídia para a moda. Isso nos leva a seguinte proposta: podemos afirmar que Gloria Kalilcultiva em prioridade a consultoria de moda (serviço). Desta forma, não surpreende queo site Chic produza maior volume de matérias de serviço. Caso semelhante acontece noblog Oficina de Estilo, que trabalha com assuntos factuais, ou seja, ligados a eventos da 236
  • 236. moda ou casos específicos que suscitem um trabalho sobre o assunto. Como as donas doblog são consultoras de moda, também, não faltam matérias de serviço, que dão dicas eensinam o adequado e o menos adequado em algumas situações. O meio online tem capacidade imensurável de armazenamento de informações, oque também nos instigou a observar como os websites de jornalismo de moda no Brasilfazem o gerenciamento destas. Além disso, é importante lembrar que a moda é cíclicae em pouco tempo perde a “validade” de conteúdo, potencializada com o anseio dociberleitor em saber sempre o que é mais recente. Observamos que de modo geral as notícias e galerias de foto ou de vídeos sãofacilmente localizadas, pois são arquivadas por tema ou por ordem cronológica. Entendemos que a moda é um grande domínio que permite ser recortado deacordo com os anseios e objetivos dos produtores de notícia. Percebemos aí, na moda,a enorme semelhança com o jornalismo, que pode ser coligado aos mais diferentestemas. Sem dúvida, afirmamos que o Jornalismo de Moda em Websites no Brasil é umatrama maleável. Concluímos que a linha editorial e os interesses de cada website traçamseu posicionamento estético e de conteúdo e, de acordo com o segmento estudado,a qualidade e a diversificação de perfis atendem a todos os públicos consumidores deinformação na internet. Moda como conceito, como sistema, como estilo. Todas aspossibilidades são exploradas e descritas através dos ativos da notícia. Com informalidadeou não, as informações são passadas e construídas junto ao leitor, de maneira a absorver as 237
  • 237. potencialidades multimídia que a internet oferece. Assim, a notícia se prende a imagens,vídeos, som e luzes.Bibliografia consultadaALONSO, J.y MARTÍNEZ, L. (2004): “Enjuiciar Internet: oportunidades y perjuicios delas TIC en el Periodismo”. En II Congreso Online del Observatorio para la Cibersociedad.disponível em <http://www.cibersociedad.net/congres2004/index_es.html>BLOOD, Rebecca. Weblogs,  A  History  and  Perspective. Disponível em  <http://www.rebeccablood.net/essays/weblog_history.html> , 2001.BARBOSA, Elisabete, GRANADO, António. Weblogs: Diário de Bordo. Porto: Porto Editora,2004.FLORES, Ana Marta Moreira. Jornalismo de Moda Online No Brasil. 2008, Monografiadefendida no Centro Universitário Franciscano. Comunicação Social- Jornalismo – SantaMaria/RSMEDITSCH, Eduardo. O Conhecimento do Jornalismo. Florianópolis, Editora da UFSC,1992.RECUERO, Raquel . Warblogs: Os Weblogs, o Jornalismo Online e a Guerra no Iraque.Verso e Reverso (São Leopoldo), São Leopoldo, n. 37SILVA, Jan Aline. Mãos na Mídia: Weblogs, Apropriação Social e Liberação do Pólo da 238
  • 238. Emissão. 2003, Dissertação de mestrado defendida na UFBA. Estudos Interdisciplinaresda Comunicação - XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Salvador/BA 239
  • 239. O site como espaço da autorreferencialidade do jornalismo televisivo: o caso do Programa Globo Rural 1 Andréa Franciele WEBER2 Fabiane SGORLA3 O desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação,concomitante aos processos de globalização, vem gerando infinitas implicações naspráticas comunicacionais dos vários campos sociais, das instituições e nas relaçõesparticulares dos indivíduos. A Internet, a partir, especialmente, do sistema Web ou WorldWide Web (www - rede de alcance mundial), que permite a construção dos sites, foi umadas principais responsáveis pelas atuais transformações nas estratégias de comunicação. Como uma instância do campo midiático, o Jornalismo é uma das primeiras asofrer mutações devido ao desenvolvimento tecnológico, bem como devido às mudançassociais acarretadas por esse desenvolvimento. Essas mutações podem ser percebidas emtodas as dinâmicas da realidade do Jornalismo – da produção à recepção. Nesse cenáriode transformações, o Jornalismo teve que buscar novas estratégias para a sua aceitação,1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria UFSM – Cam-pus CESNOR, Mestre em Letras pela UFSM, Bacharel em Letras e Jornalismo pela UFSM.3 Mestre em Comunicação pela UFSM, Especialista em Comunicação Midiática pela UFSM. Bacharel em Jornalis-mo e Relações Públicas pela UFSM. 240
  • 240. valorização e reconhecimento por parte de seus públicos. Dentre as várias estratégias eoperações que afloraram nesse contexto, seja de discurso ou de ato, destacamos para estapesquisa a estratégia da autorreferencialidade. Na ordem prática, a autorreferencialidadese apresenta através da explicitação dos aspectos internos das rotinas de produção dasnotícias. Hoje, a autorreferencialidade é corriqueiramente percebida nos mais variados meiose veículos de comunicação, tendo como destaque os espaços midiáticos proporcionadospela Internet, que apresentam amplas possibilidades de arranjos para esse tipo deestratégia do Jornalismo. Por exemplo, no caso do telejornalismo, observamos que odiscurso auto-referencial desses programas televisivos aparece com frequência em seusrespectivos sites na Web. Sob esta perspectiva, buscamos, através deste artigo, refletir sobre a auto-referencialidade como categoria presente nas práticas jornalísticas que se observam nacontemporaneidade. Para tanto, discutimos o ambiente em que se configura a auto-referencialidade na realidade do Jornalismo, traçamos algumas de suas características eapresentamos relatos empíricos sobre a aplicação peculiar da auto-referencialidade deum telejornal intitulado Globo Rural, veiculado há 29 anos pela Rede Globo de Televisão.O Globo Rural apresenta um site (www.globo.com/globorural) em que são dispostosvídeos sobre os bastidores da redação do programa. A partir da observação dos vídeos aípublicados descrevemos e analisamos algumas das estratégias de auto-referencialidade 241
  • 241. usadas por seus produtores. Esta proposta de estudo se justifica, justamente, pela necessidade de se reconhecer,exemplificiar, descrever e analisar as características do Jornalismo contemporâneo queestá em constante metamorfose. Vários estudos estão sendo desenvolvidos nesse sentidoe o que propomos aqui vem colaborar com o aprofundamento de questões já iniciadas etambém apontar novos questionamentos. Este trabalho está organizado em três segmentos principais. Primeiramente éapresentada uma contextualização do “processo de midiatização”, identificado comocenário em que se configuram as práticas de auto-referencialidade no Jornalismo,considerando as acepções dos pesquisadores Eliseo Verón (1997), Muniz Sodré (2002) eAntônio Fausto Neto (2006). O segundo segmento é dedicado à compreensão da auto-referencialidade na realidade do Jornalismo, levando em conta argumentações dospesquisadores Viviane Borelli (2005), José Luiz Braga (2005), Antônio Fausto Neto (2007) eFabiane Sgorla e Maria Ivete Trevisan Fossá (2008). Por fim, observa-se o caso empírico doprograma jornalístico televisivo Globo Rural, que, em seu site, apresenta vídeos sobre osbastidores da produção do programa, efetivando o jornalístico auto-referencial.“Processo de midiatização” Verificamos, hoje, um redimensionando das ações e processos de comunicaçãoem variados campos sociais devido, principalmente, aos processos globalizantes.Concomitante à globalização está o desenvolvimento de novas tecnologias, que são 242
  • 242. associadas aos meios de comunicação tradicionais (rádio, televisão ou imprensa) ouresponsáveis pela criação de novas mídias (como as surgidas através dos mecanismos daInternet). Nessa conjuntura, certas tecnologias de mídia, bem como suas lógicas, linguagense estratégias, tornam-se disponíveis para serem utilizadas facilmente por diferentes atoressociais e com isso acabam sendo incorporadas ao dia-a-dia dos indivíduos, imbricando-se nas dinâmicas recorrentes no espaço social. A esse processo social dá-se o nome de“processo de midiatização” (VERÓN, 1997; SODRÉ, 2002; FAUSTO NETO, 2006). Segundo Fausto Neto (2006) a sociedade em que a “midiatização” se aplica sechamaria de “sociedade midiatizada” e é considerada um avanço deste momento. Trata-se de uma nova ambiência, de uma nova forma de vida que resulta da inscrição crescente das tecnologias nos processos de interação das práticas sociais, que passam a ser organizados pela “sócio-técnica”. Nesses termos, a experiência contemporânea é realizada por novos artefatos, cuja lógica, forma de saber de pensar e de fazer, decorrem menos dos fundamentos clássicos nos quais se produzam os vínculos sociais, e mais e mais da ordem informatividade4. Não existe nenhuma prática social dos mais diferentes campos e em distintos processos de funcionamento - que não seja afetada pela ordem da midiatização. Ela se converte num fenômeno social ao mesmo tempo em que ela própria transforma o “modo de ser” da sociedade onde ela opera. (FAUSTO NETO, 2006, p.23-24)4 Fausto Neto (2006b) utiliza o termo informatividade a partir do conceito de Scott Lasch, descrito na publicaçãoLASCH, Scott. Crítica de la información. Buenos Aires: Amorrortu, 2006. 243
  • 243. Na “sociedade midiatizada” há uma nítida complexificação dos processos decomunicação. No panorama dos meios de comunicação tradicionais, a percepção fixado emissor e do receptor, típica dos modelos clássicos da comunicação e que prezava alógica emissor-mensagem-receptor, é extrapolada. Hoje, já é possível ver que as funçõesdos atores se tornam mestiças - o leitor pode assumir características de produtor e vice-versa e ambos adquirem o papel de interagentes. Logo, o emissor e o receptor deixam deserem pólos estanques e tornam-se híbridos, trocando suas atribuições. A popularização da máquina fotográfica digital, dos artefatos de celular e apossibilidade da criação facilitada (por qualquer pessoa) de sites através do sistema daInternet, por exemplo, permitem que as relações particulares entre os indivíduos possamse processar através de tecnologias midiáticas. Segundo o pesquisador Muniz Sodré(2002), essas relações sociais específicas implicam em uma qualificação particular da vida,um novo modo de presença do indivíduo no mundo. Ao se instalar no interior dos campos sociais e no próprio espaço social como umtodo, o “processo de midiatização” estimula a criação de uma ambiência singular paraos indivíduos. Sodré (2002) acredita que a “midiatização”, como uma nova ambiência,interfere na consciência individual e coletiva, provocando visíveis alterações no sentidode espacialidade e temporalidade das relações. Essa nova ambiência acaba por configurar um tipo singular de controle moral, deum quarto âmbito existencial5, o bios midiático - ethos midiatizado, tal como explica Sodré5 De acordo com as construções do advindas da Grécia antiga a esfera do homem na sociedade era constituída 244
  • 244. (2002). Para o pesquisador, na jurisdição do bios midiático há o domínio mercadológico,com uma designação cultural própria - a “tecnocultura”, que rege nova qualificação davida, originária da evolução tecnológica. O bios midiático configura novos quadros desociabilidades, de valores, de percepções, de afetos, de costumes e hábitos, de padrõesidentitários e culturais. Isso acaba por ressoar, de maneira marcante, na construção dossentidos e significados socialmente participados, na formação de cada ator social, emsuas ações cotidianas e estratégias de sobrevivência. Desse modo, observamos que os “processos de midiatização” expõem uma novarealidade social a partir de transformações na edificação dos discursos, das interaçõese das práticas elaboradas no cerne dos variados atores sociais e os respectivos campossociais a qual pertencem. Nessa linha de raciocínio, Fausto Neto entende que essas novascondições sociais repercutem nos “processos de construção dos discursos sociais, nasoperações de produção de sentido” (2007, p.2). Isso aconteceria de modo particular noscampos sociais implicados “nos processos de construção da realidade” tal como o campomidiático. Portanto, as mídias, como “construtoras de realidade” (local em que os discursossão produzidos através de operações sociotécnicas), são ativamente responsáveis pelos“processos de midiatização”, simultaneamente, são vistas como a primeira instânciapor pelo bios polítco, (Sodré, 2002, p.) Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles concebe três formas de existênciahumana (bios) na Polis: bios theoretikos (vida contemplativa), bios politikos (vida política) e bios apolaustikos(vida prazerosa) 245
  • 245. a ser atingida por eles. Em outras palavras, salientamos que, de maneira recursiva,essas transformações causadas pela “midiatização” acabam por interferir e modificarprimeiramente os processos recorrentes no próprio perímetro do campo das mídias- no trabalho dos meios de comunicação tradicionais, de modo especial, no âmbito dojornalismo - como veremos a seguir.A estratégia da autorreferencialidade na realidade do Jornalismo O Jornalismo tem o papel de mobilizar o espaço público através da divulgação deinformações de interesse público, em veículos de comunicação específicos, coordenadospor empresas de mídia6. Para a pesquisadora Viviane Borelli (2005) o jornalismo é um dos“lugares privilegiados” para a “construção da atualidade e realidade social”. “Isto se efetivaporque o jornalismo é o espaço onde se constrói sentidos a partir do que de fato ocorreu,ao contrário da telenovela, do cinema, etc, que se caracterizam pelo aspecto ficcional,pela recriação de um real” (BORELLI, 2005, p. 6). O advento da “sociedade midiatizada” ativou mutações nos processos significantesdesenvolvidos no interior das mídias. As instâncias e profissões midiáticas tal comoo Publicitário, o Relações Públicas e o Jornalista, ao mesmo tempo que estimulam a“midiatização”, são os primeiros a serem impactados por esse processo. Ao observarmos,6 “As empresas de comunicação são, ao mesmo tempo, instituições que exercem um bem público e empresascomerciais que se regem pelas leis do mercado da concorrência e da necessidade de lucro para subsistir. Essasduas dimensões convivem dialeticamente e condicionam-se reciprocamente, fazendo com que seus processosinternos sejam extremamente complexos.” (GOMES, 2004, p.21). 246
  • 246. de modo especial, o Jornalismo constatamos múltiplas alterações em suas dinâmicas,tanto no âmbito da produção, quanto da recepção, através da evidência de estratégicascomo a de autorreferencialidade. Com efeito, Fausto Neto observa que a “midiatização” acaba por afetar “[...] nãosomente a estruturação da sociedade, mas também as operações desenvolvidas pelotrabalho de produção de sentido das práticas midiáticas (jornalísticas) que organizam asoperações de produção da referência e de sua própria auto-referência” (2007, p. 6). Assim,a estratégia da auto-referencialidade passa a ser uma forma utilizada pelo Jornalismopara buscar sua aceitação, valorização e reconhecimento por parte de seus públicos na“sociedade midiatizada”. Para Sgorla e Fossá (2008), a autorreferencialidade se apresenta como uma maneirade chamar atenção para a sua própria sistemática, o Jornalismo destaca suas rotinas,lógicas, estratégias intrínsecas, suas técnicas e intervenções tecnológicas, culturais esociais desencadeadas para a fabricação de seus produtos. No plano prático, a auto-referencialidade se mostra nas matérias jornalísticas, por exemplo, por meio da narração das rotinas produtivas, dos detalhes técnicos, do percurso até as fontes, da checagem de informações, da construção do discurso, das estratégias de edição, diagramação, a apresentação do making-off de reportagens ou entrevistas, entre outras. (SGORLA; FOSSÀ, 2008, p. 4) Em muitos casos a estratégia correferência surge associada à estratégia de 247
  • 247. autorreferência. A correferencialidade se expressa no exercício do Jornalismo emmomentos em que são apresentados argumentos que demonstram qualidades da própriaprática jornalística - como um modo de auto-promoção. Através dessa estratégia, que, porvezes, surge em meio a processos de comparação – sejam eles explícitos ou implícitos –entre diferentes veículos de comunicação ou entre programa jornalístico em específico,objetiva buscar a credibilidade e o elogio do público. A correferencialidade aparecetambém em situações em que certas notícias aparecem como fonte de outras notícias. Segundo Sgorla e Fossá, ao “falar de si” através da autorreferencialidade e dacorreferencialidade, o Jornalismo acaba também por mostrar, de modo mais explícito,“sua hierarquia de valores, normas, condutas, critérios de noticiabilidade e demaiselementos, objetivos e subjetivos, fundamentais em sua conformação (2008, p.5)”. Aodeixar transparecer esses aspectos ao seu público o mesmo pode perceber a ideologia(relações econômicas, políticas, sociais e culturais) que compõe a empresa de mídia, osveículos de comunicação e a própria prática jornalística. A Internet revela-se hoje como um dos principais espaços em que o Jornalismoradiofônico, impresso ou televisivo apresenta o discurso auto-referencial. Os sites sãoconstantemente utilizados como complemento dos telejornais, ainda que a Internetapresente uma defasagem de público em relação à televisão. Após observar o contextoem que a autorreferencialidade se processa e as características da autorreferencialidadeno Jornalismo contemporâneo, cabe-nos investigar, empiricamente, como a 248
  • 248. autorreferencialidade se apresenta no caso do telejornalismo e sua extensão na Internet.Estudo empírico Tendo em vista os objetivos propostos neste artigo, procuramos observar aautorreferencialidade do Jornalismo que se apresenta no site oficial (www.globo.com/globorural) do telejornal Globo Rural (Rede Globo de Televisão). Segundo informaçõesdisponíveis no site do programa, o Globo Rural foi criado em 6 de janeiro de 1980 paraatender o telespectador que surgia com a expansão do sinal da televisão: “o homem docampo”. Essa data coincidia também com um momento próspero da agricultura brasileira,chamado de “revolução verde”, que é marcado pelo aumento dos índices de produção eprodutividade agrícola propiciados pela intensa utilização de defensivos agrícolas. As reportagens do Globo Rural documentam as atividades técnicas da agriculturae da pecuária de todas as regiões do Brasil e também de várias partes do mundo. O termo‘Rural’, explícito no título do Programa, é entendido pelo programa para além dos aspectosprodutivos da agropecuária, incorporando a cultura, os costumes, as tradições, o folclore,as paisagens, enfim, o cotidiano de quem vive no campo. O público alvo do programasão os pequenos produtores e médios proprietários rurais, os quais têm menos acesso àinformação e igual necessidade de atualização que os grandes proprietários. São essesprodutores que interagem como programa através de cartas e e-mails. O Globo Rural pode ser considerado como o principal programa do segmentona televisão brasileira, arrebatando, ao longo desses 29 anos, importantes premiações 249
  • 249. do jornalismo nacional, como o Prêmio Esso, o Prêmio Wladimir Herzog, alcançandoreconhecimento dentro e fora do país. Em seu primeiro ano, o Globo Rural foi eleito omelhor programa jornalístico da TV de 1980 pela revista Veja. No mesmo ano, devido àgrande audiência, o programa dobra a sua duração, passando a ter 1 hora semanal. Em1985, foi lançada a revista Globo Rural como complemento ao programa. Em 2000, oprograma passou a contar com versão diária e também nesse ano, foi lançado o site doprograma (www.globorural.com). São duas as estruturas do programa Globo Rural: a edição diária e a edição dedomingo. O programa diário (segunda a sexta das 6h10min às 6h30min) tem o objetivode fornecer informações atualizadas sobre cotações, normativas, eventos e novidadespara o campo, já a edição de domingo (das 8h00min às 9h00min) que é mais longa ediversificada e elaborada, continua sendo o carro-chefe do programa. É no domingo queo programa atinge seus picos de audiência, que ficam, em media, em 12 pontos, segundoo IBOPE - número bastante expressivo considerado que mais de 80 % da populaçãobrasileira vive nas cidades. O programa semanal é reapresentado no canal da Globo Newsàs 17h05 e no cabal Futura às 23h00.A autorreferencialidade no Globo Rural Ao visitar (12 de março de 2009) o site oficial do Globo Rural verificamos no link“Redação” dois vídeos sobre os bastidores da produção dos programas. O primeiro vídeo,intitulado “Um passeio pelo Globo Rural diário com Priscila Brandão”, possui 2 minutos 250
  • 250. e 30 segundos de duração e o segundo vídeo, intitulado “Conheça a redação do GloboRural”, possui 4 minutos e 26 segundos de duração. Resumidamente, o vídeo “Um passeio pelo Globo Rural diário com Priscila Brandão”apresenta uma visita aos bastidores do programa Globo Rural diário, com a narraçãoda apresentadora Priscila Brandão. Ele inicia mostrando Priscila Brandão chegando aoestacionamento da emissora às 4 horas e 30 minutos da manhã e seguindo seu caminhoaté a redação do programa. Nesse momento, a câmera focaliza repórteres e computadorese acelera suas imagens, mostrando equipamentos e máquinas da sala de redação, inclusivea própria apresentadora, deixando claro que ela também realiza outras atividades além daapresentação. O vídeo insiste na apresentação dos equipamentos do estúdio, como câmerase ilhas de edição, as quais a repórter apresenta associados aos seus operadores. Cadaoperador e cada jornalista é apresentado e é associado à sua função. Toda a apresentaçãoé feita de modo descontraído e cordialmente. Os temas são introduzidos de maneira didática e informal, exatamente aos moldesdo próprio programa: “muita gente me pergunta porque eu tenho que chegar à redaçãodo Globo Rural tão cedo, mas, olha só, esse aqui é o texto de abertura do Globo Rural”(mostra as folhas do script). A insistência no horário de trabalho é marcante, de modoque o tempo é constantemente citado pela apresentadora: chega-se cedo, tem-se poucotempo para realizar as atividades e trabalha-se também depois que o programa vai ao ar. 251
  • 251. O vídeo também mostra toda a preparação de Priscila Brandão para a apresentação,como as etapas de maquiagem e cabelo, isto é, exibe o que há demais “íntimo” e “pessoal”na produção telejornalística. Por fim, explica o que é uma reunião de pauta, mostrandocomo ela ocorre - em círculo, em meio aos computadores- e quem dela participa. Naocasião, a narradora conceitua “reunião de pauta”. Finaliza com a abertura de uma ediçãodo Globo Rural diário, que é o “em frente às câmeras”, o resultado de todo um processo de“por trás das câmeras”, explicitado ao longo do vídeo. Já o segundo vídeo, intitulado “Conheça a redação do Globo Rural”, é apresentadopor Nelson Araújo, apresentador do programa Globo Rural de domingo. O vídeo iniciacom uma imagem panorâmica da redação e focaliza o jornalista Nelson Araújo, que é ocicerone do telespectador no passeio pelos bastidores do telejornal. Ele utiliza a analogia(estratégia didática) entre a organização do programa e uma árvore (elemento muitopresente na vida do “homem do campo”): “Se o globo rural fosse assim uma árvore, diriaque a raiz e o tronco estão fincados aqui nesta sala”, “não é fácil reunir o pessoal aqui, osgalhos dessa árvore se estendem pelo Brasil todo”. O apresentador insiste na menção de que o programa conta com uma equipemadura, cujos profissionais estão na equipe há muitos anos, muitos deles desde asprimeiras edições. O narrador busca explicitar que a maturidade, a permanência e ocompanheirismo são os valores que perpassam dessa apresentação, os quais estão deacordo com os valores do público do programa. Também aqui, jornalistas são apresentados 252
  • 252. e cada um deles é associado à sua função. Esse vídeo insiste menos nos equipamentos da emissora e mais na organização dotrabalho. Mostra as equipes do programa no mapa, evidenciando os locais do Brasil pelosquais elas estão espalhadas. Também destaca o sistema de trabalho: o próprio repórteredita, monta sua matéria. Para ressaltar a quantidade de trabalho que o programa exige,estabelece uma relação entre tempo de material gravado e tempo de material editado(meia hora para cada minuto), bem como entre material gravado e horas de trabalho(cada meia hora de gravação, seis de trabalho). Para ressaltar a qualidade do telejornal, Nelson Araújo apresenta dois avaliadorestécnicos, um Engenheiro Agrônomo e um Médico Veterinário, que avaliam cartas e e-mails,assim como o material que vai ao ar: como jornalistas não são especialistas em agriculturaou pecuária, estes – os especialistas - compõem o quadro de pessoal do telejornal paraavalizar o conteúdo e aumentar a credibilidade do programa. Para atestar a qualidade do Globo Rural, o apresentador destaca a atuação de seusrepórteres cinematográficos, que já receberam vários prêmios jornalísticos. Nesse caso,quem avaliza o telejornal são outras instituições, isto é, agentes externos. Desse modo,a qualidade, um dos pilares do telejornal - que tem tempo e capacidade de elaboraçãonarrativa, diferente do que ocorre com outros telejornais - é duplamente reafirmada. Por fim, o vídeo traz a afirmação de Nelson Araújo sobre a integração entre oprograma semanal e os diários, que ocorre especialmente nos aspectos mais informativos 253
  • 253. (já que o dominical poderia ser considerado mais interpretativo), como indicadoreseconômicos, novidades técnicas e eventos. Essa integração temática é resultado docompartilhamento de profissionais.Considerações finais Diante do cenário social midiatizado, a autorreferencialidade, bem como acorreferencialidade, apresenta-se como estratégias cada vez mais presentes no Jornalismocontemporâneo e que buscam a aceitação, o reconhecimento e a validação de suaspráticas a partir da captura de seu público, seja ele leitor, telespectador, usuário ou mesmointeragente. A autorreferencialidade passa a marcar uma significativa transformação naconstrução do discurso jornalístico, no status de sua linguagem e nos efeitos de sentidopretendidos e provocados. O desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, ligadas àInternet, ampliou densamente as possibilidades de operacionalização das estratégiasauto-referenciais. Através dos exemplos sinalizados neste artigo vimos que, na atualidade,a conexão entre o suporte midiático da televisão e da Internet é um modo comum em queestratégia de autorreferencialidade se aplica no contexto do telejornalismo. Os espaçosdos sites são ocupados hoje para apresentar os bastidores de seus processos produtivosdas notícias e apresentação de programas jornalísticos televisivos. Isso é constatado,tendo em vista que a televisão apresenta possibilidades temporais e espaciais limitadasao passo que a Internet constitui-se como um suporte midiático com vastas estruturas 254
  • 254. produtivas. Ao disponibilizar em seu site oficial vídeos apresentando os bastidores desua produção, o programa Globo Rural acaba por explicitar a sua estratégia deautorreferencialidade e também de correferencialidade. Ao revelar suas “entranhas” oprograma sinaliza transparência e estabelece uma relação de amizade com seu público. Aamizade e a transparência são valores importantes para o telespectador do programa, quese não é morador do campo tem um forte vínculo com ele e valoriza esse tipo de conduta.Estratégias como apresentar os profissionais pelo primeiro nome e revelar intimidade egentileza contribuem para a formação dessa aura em torno do programa. Observa-se, também, diferença de tratamento em termos de autorreferencialidadeentre o programa diário e o dominical, de modo que cada um reproduz no vídeo auto-referencial características observadas no respectivo programa. Assim, o primeiro enfatizaquestões associadas a equipamentos, estrutura e técnica, enquanto o segundo focaliza asrotinas produtivas e a organização do trabalho jornalístico. Poderíamos considerar que, aautorreferencialidade observada nos vídeos reproduz o perfil de cada um dos programas:o diário, voltado à informação técnica e econômica, objetivo e breve; o dominical, comuma abordagem mais humana e menos tecnicista, mais interpretativo e longo. Outraconstatação é a de que no vídeo relativo ao programa de domingo estão presentes muitosadjetivos, relacionados tanto à constituição do Globo Rural, quanto à própria posturados profissionais do programa, o que evidência uma insistência maior na estratégia da 255
  • 255. correferencialidade nesse caso.Bibliografia ConsultadaBRAGA, José Luiz. Quando a mídia é notícia. In: Anais do XXVIII Congresso Brasileiro deCiências da Comunicação. Rio de Janeiro, 2005.BORELLI, Viviane. Jornalismo como atividade produtora de sentidos. Biblioteca OnLine de Ciências da Comunicação, Portugal, 2005.FAUSTO NETO, Antônio. Um programa em tempos de midiatização. Revista Animus,Santa Maria: UFSM, v. 5, p. 9-26, jun, 2006b.________________________. Mudanças da Medusa? A enunciação midiatizada e suaincompletude. In: Anais do Encontro da Rede Prosul. São Leopoldo/RS: UNISINOS, 2007.GOMES, Pedro Gilberto. O processo de midiatização da sociedade e sua incidência emdeterminadas práticas sócio-simbólicas na contemporaneidade. A relação mídia e re-ligião. In: Anais do Encontro da Rede Prosul. São Leopoldo/RS: UNISINOS, 2007.GOMES, Pedro Gilberto. Processos midiáticos como objeto de estudo. In: Tópicos teoriade comunicação. São Leopoldo/RS: Editora Unisinos, 2004. (p.21)RIBEIRO, Marcelo Jorge Pereira Ribeiro. O globo rural e a comunicação no campo. Mono-grafia de conclusão de curso. Curso de Comunicação Social. UFJF-MG, 2005. 256
  • 256. SGORLA, Fabiane & FOSSÁ, Maria Ivete Trevisan. Estratégias e operações de auto-refe-rencialidade no telejornalismo. VI ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM JOR-NALISMO, 6, 2008, São Paulo. Anais eletrônicos. CD ROMSODRÉ, Muniz. O ethos midiatizado. In: Antropológica do Espelho. Por uma teoria dacomunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002. (p.11 a 82)GLOBO RURAL. Conheça a redação do Globo Rural. Disponível em: <<http://video.glo-bo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM385857-7823-CONHECA+A+REDACAO+DO+GLOBO+RURAL,00.html>. Acessado em: 12 de março de 2009._____________. Um passeio pelo Globo Rural diário com Priscila Brandão. Disponívelem: <http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM385860-7823-UM+PASSEIO+PELO+GLOBO+RURAL+DIARIO+COM+PRISCILA+BRANDAO,00.html. Acessado em: 12 demarço de 2009.VERÓN, Eliseo. Esquema para el análisis de la mediatización. In: Revista Diálogos de lacomunicación. N.48. Lima: Felafacs, 1997. p. 9-17 257
  • 257. O medo no telejornalismo brasileiro: um estudo do caso João Hélio1 Elza Aparecida de OLIVEIRA FILHA2 Taianá MARTINEZ3 João Hélio Fernandes Vieites tinha 6 anos de idade quando três assaltantes roubaramo automóvel de sua mãe, na zona norte do Rio de Janeiro. A mãe e a irmã conseguiramsair do carro, mas ele ficou pendurado pelo cinto de segurança e foi arrastado por cercade sete quilômetros. Os assaltantes pararam e fugiram a pé quando João Hélio já estavamorto. Entre os cinco envolvidos no crime, um deles era menor de idade. Este episódiodesencadeou uma série de manifestações pelo fim da violência no Brasil e também pelaredução da maioridade penal. Em janeiro de 2008 os criminosos foram condenados apenas que somam juntas 167 anos de prisão. O adolescente em conflito com a lei recebeua pena sócio-educativa mais grave, que é a internação por no máximo três anos, de acordocom o Estatuto da Criança e do Adolescente. O caso João Hélio foi amplamente mostrado nos veículos de comunicação doBrasil. Só no Jornal Nacional foram doze reportagens relacionadas ao tema entre os dias1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Doutora em Ciências da Comunicação pela Unisinos Professora do curso de jornalismo da Universidade Positi-vo, em Curitiba. E-mail: elzaap@hotmail.com3 Jornalista formada pela Universidade Positivo em 2008; pauteira da TV Iguaçu de Curitiba, afiliada SBT noParaná. 258
  • 258. 8 e 15 de fevereiro de 2007. No jornalismo brasileiro atual há uma intensa valorização detemas como a violência, crime e seus autores. Mostra-se a marginalidade, o perigo e orisco social que as pessoas enfrentam na vida urbana, principalmente. O presente estudose propôs a verificar como as notícias sobre crimes veiculadas pelo telejornal de maioraudiência no país, o Jornal Nacional, provocam sensação de medo, criando e fortalecendopreconceitos no imaginário social da população de Curitiba, partindo das hipóteses deque o medo gerado pela veiculação de violência fortalece o preconceito racial e social, deque o espaço cedido às notícias de violência cria a idéia de um real também violento, maisdo que é na realidade, e de que as matérias veiculadas sobre o assassinato de João HélioFernandes geraram apenas revolta, mas não reflexão. O trabalho buscou, portanto, o principal objetivo de verificar como as notícias decrime e violência são tratadas no telejornalismo e se há um reforço de preconceitos raciaise sociais. Para atingir este objetivo, foi pesquisado como o jornalismo contribui para aconstrução do imaginário social, identificado como o medo e a violência se relacionamcom o jornalismo, foram também analisadas reportagens televisivas que tratam deviolência urbana e examinado se o medo da violência é construído pelo telejornalismo noimaginário coletivo da população de Curitiba e se reforça preconceitos raciais e sociais.Violência e medo O homem é considerado um ser racional, dotado de inteligência e discernimento.Assim, torna-se difícil entender os atos agressivos e brutos reconhecidos diariamente na 259
  • 259. sociedade contemporânea. A teoria social, utilizada neste trabalho, “entende a violênciacomo um fenômeno social” (MICHAUD, 2001, p.92). Uma particularidade da violênciacomo fenômeno social, apontada pelos teóricos, é a sua ligação com as normas e leishumanas. Segundo Michaud (2001, p. 8), pode haver quase tantas formas de violênciaquantas forem as espécies de normas. Cada sociedade qualifica a violência conforme asnormas que a regem. Uma agressão é considerada mais violenta em uma sociedade denormas rígidas do que em uma de normas mais brandas. Dentro deste aspecto normativo,compreende-se a violência como conseqüência da definição de direitos e deveres dentroda sociedade. Merton, citado por Michaud (2001), afirma que qualquer sociedade designaobjetivos e finalidades legítimos a seus membros, ao mesmo tempo em que demarca econtrola os meios legais de atingi-los. A sociedade capitalista, por exemplo, define que o homem deve buscar o lucro,mas existem meios determinados socialmente para conquistá-lo. Porém, para Regis deMorais, “aqueles que, não podendo acompanhar a maratona do possuir, transformam afragilidade que suas frustrações impõem num feroz potencial de agressividade” (1985,p.16). Além disso, “deste ponto de vista, a violência é para atores sociais uma opçãopossível sob vários aspectos: como comportamento desviante a serviço da busca de finssocialmente legítimos (os criminosos que procuram fazer fortuna), como comportamentorebelde para mudar os fins ou os meios socialmente reconhecidos” (MICHAUD, 2001,p.94). Quem rouba, na batalha pelo ganho, está transgredindo normas, portanto, comete 260
  • 260. violência. Morais acredita que a maior parte dos crimes é resultado da “opressão das injustiçassociais, da miséria financeira ou afetiva” (1985, p.80). Para ele, a violência “sempre seoriginou de necessidades e interesses antagônicos geradores de um clima de disputa,de medição de forças” (p. 79). Na sociedade atual, mais do que nunca, a competiçãoindividual ou entre pequenos grupos é incentivada culturalmente. É a competição pelaconquista de status social que é demarcado principalmente pela capacidade de consumodo indivíduo. O autor também considera, em menor escala, que a motivação para algunsatos de violência são a falta de “fé no futuro, a uma morte das esperanças pessoais ecoletivas” (MORAIS, 1985, p.86), características da sociedade pós-moderna. As agressõesmorais e psicológicas também são consideradas formas de violência. Apesar disso, deacordo com Michaud (2001, p.11), os prejuízos materiais e físicos são mais importantes,porque a violência física e material deixa marcas visíveis. A criminalidade, a corrupção e a desigualdade social são facilmente encontradas noBrasil atual dentro de um ciclo vicioso de violência. Resultados obtidos pela 88ª Pesquisade Opinião Pública Nacional da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e SensusPesquisa e Consultoria, de abril de 2007, indicam que 90,9% dos brasileiros entrevistadosacham que a violência no país aumentou nos últimos anos e as causas disso, para 24,1%dos entrevistados, são a pobreza e a miséria. Maria Victoria Benevides, citada por CecíliaPires (1985, p. 59), diz que a violência é o problema mais grave que o Brasil enfrenta na 261
  • 261. atualidade, porque atinge todas as classes sociais indiscriminadamente. Mas, segundo ela,pune apenas uma: a classe pobre e marginalizada, que é quem assume efetivamente aculpa e acaba indo para a cadeia. O medo da violência urbana, quando se trata do aspecto da criminalidade, podeser considerado a principal angústia social da atualidade. Na 88ª Pesquisa CNT Sensus, osbrasileiros que consideram a cidade onde moram violenta ou muito violenta somam 34,8%.Barry Glassner (2003) mostra a realidade estadunidense na qual cerca de 62% da populaçãodo país, na década de 1990, se descreviam como “verdadeiramente desesperados” emrelação à criminalidade. As sensações de insegurança e de desconfiança permeiam asrelações cotidianas. O medo que invade o ser humano é de ser assaltado ou sofrer umseqüestro, por exemplo. “O sentimento de insegurança, que se encontra no coração dasdiscussões sobre o aumento da violência, raramente repousa sobre a experiência diretada violência. Ele corresponde à crença, fundada ou não, de que tudo pode acontecer, deque devemos esperar tudo, ou ainda de que não podemos mais ter certeza de nada noscomportamentos cotidianos” (MICHAUD, 2001, p. 13). Segundo Cecília Pires, a camada mais pobre da população das cidades foidenominada por alguns estudiosos do século XIX como “classe perigosa” (1985, p.60),iniciando-se aí a fobia social da criminalidade. A visão da classe empobrecida da sociedadecomo sinônimo de perigo reforça os privilégios da classe rica e ainda “enfraquece os laçosdo homem com a comunidade e fragmenta o ser humano” (PIRES, 1985, p. 12). Além 262
  • 262. disso, este espectro cria a chamada cultura do medo, já que a “permanente fabricação deestereótipos de inimigos permite o entendimento do medo como uma interpretação darealidade, uma maneira de olhar o mundo, uma estética peculiar à civilização mosaico-cristã” (BATISTA, 2003, p. 84). Mesmo sendo considerado uma defesa essencial por Delumau (1989), o medoafeta negativamente tanto a interioridade e a psique dos cidadãos quanto as relaçõessociais do mundo contemporâneo. Como conseqüência desse anseio por segurança,surgem os discursos de supressão das “classes perigosas” e pedidos de mais rigidez nasnormas da sociedade. “O medo da desordem dispara entre os conservadores a retórica darestrição de direitos e da impunidade” (BATISTA, 2003, p. 186). O medo, tanto individualquanto coletivo, é sempre do que é desconhecido. Teme-se o diferente. Na opinião deBatista, “no Brasil, a difusão do medo do caos e da desordem tem sempre servido paradetonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado do povo brasileiro”(2003, p.52). A cultura do medo serve, então, como ferramenta de controle social. A visãoque se tem hoje da violência, e a conseqüente cultura do medo, acabam por manter onível de insegurança nos indivíduos e, assim, sustentar as relações sociais de dominaçãoe privilégios.Jornalismo Agindo no imaginário social, a mídia pode provocar, propositalmente ou não, omedo nos indivíduos, principalmente o medo do outro, de um igual, no sentido de ser 263
  • 263. humano. São medos que dão continuidade a preconceitos e são usados como justificativapara alguns tipos de violência (física ou moral), como trata o antropólogo social LuizEduardo Soares (2005). A visão que um indivíduo tem de outro determina sua ação em relação a ele. Seesta visão é negativa, ela pode levar a uma ação violenta. De acordo com Frei Betto (2003),“quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem”.Alteridade, segundo ele, “é ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade,dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença” (BETTO, 2003). Fica claro que, nos paísesem que a violência é um problema recorrente tem-se também grandes barreiras entre asdiferenças raciais e sociais respeitadas – caso do Brasil. Ou seja, a violência é temida, mastambém as interações raciais e sociais não são aceitas. Jesús Martin-Barbero e Germán Rey consideram que os medos nas comunidadesurbanas provêm não somente do aumento da delinqüência e da criminalidade, masprincipalmente “da perda do sentido de pertença em cidades nas quais a racionalidadeformal e comercial foi acabando com os referenciais em que se apoiavam a memóriacoletiva” (2001, p.40). Os autores defendem a idéia de que existe uma grande relaçãoentre mídias e medos nos países da América Latina, principalmente na Colômbia. “Medos,enfim, que procedem de uma ordem construída sobre a incerteza e a desconfiança quenos produz o outro, qualquer outro – étnico, social, sexual – que se aproxima de nós na ruae é compulsivamente percebido como ameaça” (MARTÍN-BARBERO e REY, 2001, p. 40). 264
  • 264. Barry Glassner afirma que o jornalismo é o principal formador e transmissor dacultura do medo. “Entre as diversas instituições com mais culpa por criar e sustentar opânico, a imprensa ocupa indiscutivelmente um dos primeiros lugares” (GLASSNER, 2003,p. 33). O autor se fundamenta em uma pesquisa estadunidense de 1996, na qual foiperguntado aos entrevistados porque acreditam que os Estados Unidos enfrentam umsério problema em relação ao crime: 76% das pessoas citaram matérias vistas na mídia(GLASSNER, 2003). No telejornalismo, a principal ferramenta de informação são as imagens, que, deacordo com Jean-Jacques Jespers, “evocam de maneira indirecta a realidade à qual sereferem, mas sem a representar” (1998, p. 135). Ainda segundo o autor, estas imagenssão portadoras de um conteúdo emocional em detrimento de uma discussão racional.“As imagens de violência ou emocionalmente perturbadoras colocam, por outro lado, umproblema especial de mediatização: a imagem de um acontecimento violento reduz azero os esforços de explicação fornecidos anteriormente” (JESPERS,1998, p. 137). A escolhade noticiar uma ação violenta em horário nobre da televisão pode diminuir o valor deoutras notícias, evitando a discussão de determinados assuntos e apontar para outrosmais polêmicos e menos necessários para a sociedade. A televisão, como meio de comunicação, tem nas suas características a criaçãodo simulacro. Para Muniz Sodré, o simulacro “é entendido como uma produção artificial(mecânica, química, eletrônica) de uma imagem” (SODRÉ, 1994, p. 28). O simulacro é ao 265
  • 265. mesmo tempo imaginário e real, é o apagamento da diferença entre o real e o imaginárioentre o “verdadeiro” e o “falso”. A realidade da televisão, diz Sodré, é mais real do que averdadeira realidade. Sobre a contribuição da imprensa nos rumos das sociedades, Jorge Pedro Sousa(2004, p. 107) vai além e assegura que “embora as notícias representem determinadosaspectos da realidade quotidiana, pela sua mera existência contribuem para construirsocialmente novas realidades e novos referentes”. Para Martín-Barbero, isto ocorre “poisos meios de comunicação não somente descentralizam as formas de transmissão ecirculação do saber, mas constituem um âmbito decisivo de socialização, de dispositivosde identificação/projeção de pautas de comportamento, estilos de vida e padrões degosto” (2003, p. 67). O jornalismo se insere nesse processo de socialização já que é consideradoferramenta de difusão de diferentes vozes. Para isso, porém, na maior parte das vezes “aimprensa funciona como agente modeladora do conhecimento, usando os estereótiposcomo forma simplificada e distorcida de entender a realidade” (LIPPMAN citado porPENA, 2005, p. 142), e é por esse motivo que as diferentes vozes na sociedade podem serdesvirtuadas ou, ainda, simplesmente ignoradas. Por ser impossível para o jornalismo acompanhar e transmitir todos os fatosocorridos a cada dia, existem alguns critérios que levam os profissionais a cobrirem ounão um acontecimento. Os critérios utilizados pelos jornalistas para determinar o que 266
  • 266. vai para o noticiário são chamados de valores-notícia. A morte, de acordo com Traquina(2005) é um grande valor-notícia para a comunidade jornalística, bem como o conflitocom violência física. Traquina, citado por Sousa, enumera as características que tem umainformação com o valor-notícia de construção4: amplificação – hiperbolização do acontecimento e das suas conseqüências; relevância – capacidade de mostrar como o acontecimento é importante; potencial de personalização; potencial de dramatização; consonância – ou potencialidade de enquadrar um acontecimento em enquadramentos anteriores (TRAQUINA apud SOUZA, 2004, p.113) A morte do menino João Hélio, objeto de estudo deste trabalho, tem algumascaracterísticas acima citadas. O assassinato cruel, dramático em todas as suas dimensões,permitiu uma “amplificação” do acontecimento: foram realizadas passeatas pelo fim daviolência no Rio de Janeiro; foi discutida a redução da maioridade penal, já que um doscriminosos era menor de idade; e até mesmo o presidente da República, Luiz Inácio Lulada Silva, manifestou-se sobre a morte do menino, entre outros desdobramentos. Cecília Pires (1985) vai além das teorias da comunicação para explicar as escolhasdo jornalismo sobre o que é ou não notícia. Em uma abordagem social, ela entende que,para a notícia ser veiculada em jornais, ela deve atender aos interesses dos assinantes e4 Stephens, citado por Sousa, “notou que os valores-notícia são historicamente estáveis: privilegia-se o extraor-dinário, o insólito, a atualidade, a referência a pessoas de elite, a transgressão, as guerras, as tragédias e a morte”(2004, p. 112). É como se apenas o tempo e os personagens das notícias mudassem, mas as situações retratadasnos jornais fossem as mesmas. 267
  • 267. lembra que poucos assinantes moram na periferia das grandes cidades, ou seja, pertencema classes mais pobres. Esta visão pode explicar o afinco com que o assassinato do JoãoHélio foi abordado pela imprensa, quando membros de classes sociais menos favorecidassofrem diariamente de crimes igualmente violentos e não são sequer citados nos jornais.A família de João Hélio, neste caso, representa as famílias dos assinantes dos jornais. A imprensa retira as informações de seu contexto real, mas isso se intensificano telejornalismo. Nele, as mensagens são curtas e fragmentadas em poucos minutos(algumas vezes até em segundos), diferentemente do jornalismo impresso, por exemplo,em que há a oportunidade de um aprofundamento maior das informações. Na opinião deMarcondes Filho (1988, p. 54), nos telejornais, ninguém se informa seriamente de nada,só se tem a impressão de ficar informado. Barbeiro e Lima tratam da preocupação com adesinformação no telejornalismo ao falar da utilização das sonoras nas matérias. Segundoos autores, as sonoras devem ser as mais opinativas possíveis. “Sonoras que contenhamemoção também rendem boas edições. Um choro, uma gargalhada ou uma frase em tomde desabafo às vezes dizem mais que uma declaração de 20 segundos” (2002, p.104).Mas, para eles, o jornalista precisa ter cuidado diante dessas escolhas porque “a emoçãopode ser tanto um instrumento enriquecedor como o caminho para a desinformação”(2002, p. 104). Seja no texto falado pelo repórter, na escolha das imagens ou no conteúdoemocional das sonoras, o fato se modifica em sua realidade. O casamento da palavra com a imagem, característico do telejornalismo, constitui 268
  • 268. a linguagem telejornalística. Existem algumas convenções práticas que acabam porcaracterizar esta linguagem. Uma delas é, dentro da mistura de assuntos que o telejornalaborda e da rapidez com que eles devem ser tratados, a clareza no texto. SegundoBarbeiro e Lima (2002), contar a história de forma cronológica e evitando duplos sentidosfacilita a compreensão do telespectador. “Qualquer reportagem fracassa se o repórter nãodisser o que é compreensível para a pessoa comum” (2002, p.69). Eugênio Bucci, por outrolado, sustenta que há muita espetacularização da informação televisiva. “O telejornalismono Brasil é muito mais dramático do que factual. Organiza-se como ficção, e uma ficçãoprimária: tem suspense, tem lição de moral, tem mocinhos e bandidos, os ‘do bem’ e os ‘domal’, como desenho animado de super-heróis” (2000, p. 49). O autor argumenta que, aodramatizar tudo, o telejornalismo não tem sido capaz de explicar temas mais complexos. A hegemonia da televisão como veículo de comunicação no Brasil afeta de formaindireta esferas como a cultura e a educação. “Um veículo como a televisão, por exemplo,certamente muda nossas formas de aprendizado, pois passamos a nos acostumar coma velocidade das edições e a telegrafia da linguagem. Reflexões profundas e demoradastornam-se mais difíceis para as gerações que crescem em frente aos aparelhos de TV”(PENA, 2005, p. 144). A televisão é o meio de comunicação mais utilizado para se obterinformação no Brasil. E ela é capaz de fornecer um sentimento de pertencimento aotelespectador. “A TV capta, expressa e constantemente atualiza representações de umacomunidade nacional imaginária” (HAMBURGUER, 1998, p. 441). Porém, essa comunidade 269
  • 269. nacional pode ser muitas vezes considerada falsa. Martín-Barbero (2003), baseado emconceitos de Muniz Sodré, revela os problemas das representações pela televisão. Algunsgrupos sociais têm sua representação distorcida e seu espaço reduzidos no telejornalismobrasileiro. Não é com imagens baratas e esquemáticas dos indígenas, dos negros, dos primitivos que a imensa maioria dos discursos midiáticos, e especialmente da televisão, nos aproxima dos outros? E de forma parecida funciona o mecanismo de distanciamento: exotiza-se o outro, folcloriza-se o outro em um movimento de afirmação da heterogeneidade que, ao mesmo tempo que o torna “interessante”, o exclui de nosso universo negando-lhe a capacidade de interpelar-nos e questionar-nos (MARTÍN-BARBERO, 2003, p. 72). Para que a televisão no Brasil seja realmente criadora de uma unidade nacional,é necessário que todas as esferas da sociedade sejam diariamente representadas nela,principalmente no telejornalismo. Um dos papéis do jornalismo é dar voz a diversosagentes sociais. Porém, não é em geral o que se vê no telejornalismo que cria heróis ebandidos em discursos simples, descontextualizados e superficiais.A cobertura do caso João Hélio O Jornal Nacional exibiu 12 reportagens, somando 29 minutos e 65 segundos,sobre a morte do menino João Hélio Fernandes Vieites, entre os dias 8 a 15 de fevereiro de2007, período que corresponde à semana subseqüente ao assalto que levou à morte dacriança. Quatro delas foram apresentadas individualmente a dez pessoas residentes de 270
  • 270. Curitiba5, compondo um panorama geral sobre a cobertura semanal do caso6. Estas quatroreportagens e as demais (oito) foram analisadas com base em conceitos de teóricos sociaise da comunicação. Os entrevistados assistiram individualmente em suas casas, local detrabalho ou estudo, a seleção de reportagens de duração de cerca de 10 minutos e emseguida responderam a um formulário de doze questões abertas e fechadas, aplicadooralmente e gravado.5 1)ANGÉLICA, estudante de 18 anos, está completando o Ensino Fundamental e mora no bairro São Braz. Elaassiste ao Jornal Nacional pelo menos uma vez por semana e confia totalmente nas informações veiculadas. 2)EDGAR, empresário de 64 anos, morador do bairro Cabral, tem o Ensino Médio completo. Assiste todos os diaso telejornal e confia parcialmente no noticiário. 3) ELIZENE, auxiliar de serviços gerais, 33 anos, é moradora dobairro Parigot de Souza e tem o Ensino Fundamental completo. Assiste o Jornal Nacional de 3 a 4 vezes porsemana e confia totalmente em suas informações. 4) JOSIANE, dona de casa de 21 anos, mora no bairro SãoBraz e tem o Ensino Fundamental completo. Assiste o Jornal Nacional pelo menos uma vez por semana e confiatotalmente nele. 5) LEANDRO é cabeleireiro, tem 24 anos e o Ensino Médio completo. É morador do centro deCuritiba, assiste de 3 a 4 vezes por semana o telejornal e confia totalmente nas informações veiculadas. 6) LEO-NILDA é dona de casa, tem 58 anos e o Ensino Fundamental incompleto, mora no bairro São Braz, assiste o JornalNacional de 3 a 4 vezes por semana e confia totalmente nas informações. 7) NANCY é cirurgiã dentista, moradorado bairro Champagnat, tem 36 anos e seu grau de escolaridade é de nível Superior com Especializações. Assisteo Jornal Nacional de 3 a 4 vezes por semana e confia totalmente nas informações veiculadas. 8) ROSÂNGELA évendedora, tem 34 anos e o Ensino Médio completo, moradora do bairro Mercês, assiste o Jornal Nacional de 3a 4 vezes por semana e confia totalmente nele. 9) SILVIO JOSÉ é motorista, tem 42 anos e o Ensino Fundamentalincompleto. É morador do bairro Botiatuvinha, assiste o telejornal pelo menos uma vez por semana e confia to-talmente em suas informações. 10) TIAGO é estagiário na área de Biologia, tem 21 anos e está cursando o EnsinoSuperior. Mora no bairro Bacacheri, assiste o Jornal Nacional pelo menos uma vez por semana e confia em partesnas informações do telejornal. A escolha do perfil de cada um dos dez entrevistados foi baseada em indicativossociais da população de Curitiba, como sexo, faixa etária, grau de escolaridade e classe social, buscando refletiro universo dos habitantes da capital paranaense.6 A primeira foi veiculada um dia após o crime, a segunda três dias depois, a terceira após seis dias da morte domenino e a quarta reportagem sete dias depois do crime. 271
  • 271. Sensação de medo Ao serem perguntados sobre quais sensações tinham ao assistir reportagenscomo as que foram mostradas, alguns entrevistados falaram que era a de medo: Edgarrelatou “me dá uma sensação de pânico, de medo”; Josiane disse não saber explicar,porém, acrescentou “mas é uma sensação de medo”; e Elizene juntou à sensação demedo a de insegurança e revolta. Leonilda ligou a sensação de medo ao que vê nostelejornais quando respondeu se tinha medo da violência: “É que a gente vê muita coisano jornal, muitas coisas difíceis. Mas eu tenho muito medo. Depois essa cidade é muitogrande, você vai ficando preocupada com as coisas que você vê. Tanto vê como assistena televisão”, explica. Sensações como dor, raiva, indignação e revolta também foramcitadas pelos entrevistados. Nancy ficou com os olhos cheios de lágrimas quando assistiaa uma reportagem e lembrou o quanto o crime foi brutal. A sensação de raiva descritapor Rosângela foi acrescentada pela revelação: “Dá vontade de eu mesma matar um caradesses, sabe”. As reportagens apresentadas aos entrevistados possuem um conteúdo desentimentalismo e comoção. Em uma delas, que mostra a missa de 7º dia da morte domenino, o repórter diz que o sofrimento e as lágrimas aproximam, descrevendo imagensdas pessoas dentro da igreja, principalmente a de uma mulher chorando e sendo abraçadapor um menino. As narrações que explicam como foi a brutal morte de João Hélio não 272
  • 272. são tão emotivas quanto as que mostram as manifestações e a família durante o velórioou na igreja. O sensacionalismo, a preferência por acontecimentos negativos e o fatode a imprensa “ficar em cima” de determinados casos também foram abordados pelosentrevistados. Edgar e Tiago, que disseram confiar em partes nas informações do JornalNacional – ao contrário dos outros que declararam confiar totalmente – falaram que hámuito sensacionalismo e apelação no telejornal7. Os participantes da pesquisa também percebem o valor noticioso dos fatosnegativos para o jornalismo, a exemplo dos teóricos como citado no item 2 deste trabalho.Elizene diz assistir aos telejornais, mas apenas folhear um jornal impresso e não ouvirrádio: “É muita tragédia para estar repetindo tanto no jornal quanto no rádio... então émuita coisa pra gente, tem que se poupar um pouco”, explica. Outro aspecto citado pelosentrevistados foi a sensação de que nada é feito para modificar a realidade mostrada pelasreportagens. Pode-se tomar como exemplo a fala de Leandro. “Só que daí, nessas quatromatérias que você passou, eu acho assim, as pessoas pedem justiça, mas na verdadeninguém faz nada pela justiça”. Elezine propõe que manifestações como as que aparecemem três reportagens do conjunto aplicado para a amostra devem ser feitas em todo o país,pois manifestações apenas na cidade do Rio de Janeiro não solucionam os problemas. “A7 Danilo Angrimani (1995) explica que o telespectador (ou ouvinte/ leitor) remete a palavra sensacionalismoaos veículos de comunicação que tenham cometido algum deslize informativo, exagerado nas informações oupublicado/veiculado uma imagem ousada, etc. Mas ele explica que sensacionalismo “é tornar sensacional umfato jornalístico que, em outras circunstâncias editoriais, não mereceria esse tratamento. (...) Sensacionalismo éa produção de noticiário que extrapola o real, que superdimensiona o fato” (p. 16). 273
  • 273. passeata adverte bastante, chama bastante atenção, mas até agora nada foi resolvido”. Das manifestações mostradas nas reportagens, duas eram contra o fim da violênciae em homenagem a João Hélio e uma em frente à delegacia, onde populares se reunirampara esperar a chegada dos acusados para a acareação. A exemplo da manifestação emfrente à delegacia, em que um homem bate na porta de trás da ambulância que transportavao acusado menor de idade, Rosângela diz que “a população tinha que se unir num casodesses, matar um cara desses e não deixar nem ter direito a ser julgado, nada”. Revolta eindignação, portanto, são alguns dos sentimentos desencadeados por reportagens comoas apresentadas. Nancy destaca que, buscando uma justificativa pelo que assistiu, estáfaltando investimento básico em formação do cidadão: “Cultura, educação, esporte, pragente criar um ser humano melhor”. Tiago diz que reportagens como as assistidas por eledurante a exposição causam indignação, mas critica a cobertura jornalística: “Ao mesmotempo que me dói ver e saber que a criança morreu desta forma, eu sei que tem muitasoutras crianças morrendo por causa de outro fatores e que nem aparecem no jornal. Dáuma revolta por eles mostrarem somente esses casos. Na hora em que os caras são presosdá até uma sensação de alívio, ainda assim comove, mas não tanto”. A exemplo disto, uma das reportagens mostradas aos entrevistados revela odescaso que mortes de crianças de classes mais pobres às vezes recebem da imprensa,quando comparadas a de um filho da classe média. João Hélio é, nada mais correto, sempretratado pelos termos “menino” ou “criança” pelas reportagens. Já ao relembrar a chacina 274
  • 274. da Candelária o repórter chama as vítimas de “menores”. “Hoje, na igreja da Candelária,onde há 14 anos oito menores foram mortos por policiais, dezenas de famílias afetadaspela violência rezaram missa em nome de João Hélio Fernandes”.Quem é e de onde vem o mal Quando perguntados como são os criminosos que geralmente aparecem nostelejornais, algumas pessoas tiveram dificuldade em responder, ou por não teremcompreendido a questão ou por temerem parecer preconceituosas. Para Silvio, elessão todos iguais, já para Josiane, não é possível descrevê-los porque eles têm váriascaracterísticas diferentes. Descrições como “cara de ruim”, de “drogado”, “fisionomianegativa” ou de “cabelo rapadinho, tipo bandido mesmo”, também foram usadas pelosparticipantes. Para a maioria dos dez entrevistados, porém, o criminoso que geralmenteaparece nos telejornais é moreno ou negro e pobre. “Até acho chato falar isso, masgeralmente são pessoas mais morenas, negras, apesar de realmente ter uma ligação comclasse social e negros, excluídos, periféricos”, disse Tiago. Leandro observa da mesmamaneira. “Não sendo preconceituoso, mas são negros, geralmente. Se noticia muito doRio de Janeiro e no Rio de Janeiro tem muito moreno, talvez por isso a gente já associe obandido com o negro. Mas aqui em Curitiba também, se você for parar para ver um telejornalregional, são negros”. Morador de favela também foi citado como uma particularidade docriminoso que é mostrado no telejornalismo. Rosângela acha que “moram em favelas, já 275
  • 275. são viciados, drogados, não têm estrutura familiar nenhuma, é sempre o mesmo perfil” eacrescenta que “já nascem no meio de bandidos, já são todos assim, filhos de bandidos ejá vão virando bandido”. Alguns entrevistados, incluindo Rosângela, disseram achar que os criminosostêm realmente as características apresentadas pelo telejornalismo. Dois acreditam quea maioria pertence à etnia e à classe social citada, um não respondeu e três não achamque todos os criminosos são assim. Uma delas é Leonilda. Ela explica que na televisãosempre se vê homens de cabeça baixa, mal vestidos e que parecem pobres. Acha que, aocontrário, muitos estão bem vestidos e ninguém espera que sejam ladrões. Tiago tambémnão acredita que esta é a figura do criminoso: “Tanto que pra mim crime pior é você roubar10 milhões, crimes de colarinho branco, do que pegar e assaltar uma família inteira. Nãoprecisa e faz pra ficar ainda mais rico e ainda tira de muitas famílias, contra essas pessoasque estão roubando às vezes por necessidade ou por estar naquela condição de vida, porestar rodeado daquilo, ele nasceu no meio daquilo. O que sai no jornal é aquele cara todoacabado”. Dois entrevistados ainda deram ênfase ao aspecto da divisão de classes quecriminaliza a pobreza. Edgar diz que são pessoas de classe abaixo da miséria “que têmraiva de você estar numa situação e ele estar mal. Eu vejo que eles olham com ódio”. ParaNancy, o que acontece é que “o povo não tem acesso a nada, o povo é pobre, não temacesso a educação. Eles vêem televisão, eles querem, eles se projetam nos personagensdas novelas, aquilo de bonito, então eles vão tirar de quem tem que somos nós”. 276
  • 276. Nas quatro reportagens apresentadas para os participantes deste estudo aparecemimagens dos acusados da morte do João Hélio. Os cinco com características citadas pelosentrevistados: negros ou morenos, jovens, vestidos só de bermuda ou calça e chinelos,um ou outro aparece de camiseta. Em uma delas há também imagens de uma instituiçãosócio-educativa para menores em conflito com a lei. São cenas de uma grade sendotrancada com cadeado e dos pés dos internos usando chinelos e formando uma fila nopátio da instituição. O texto do repórter que cobre estas imagens reforça o medo quese deve ter de um jovem como estes (menor em conflito com a lei). Ao explicar a penaque ele poderá cumprir o repórter fala: “Em regime fechado o prazo máximo é de trêsanos, a partir daí ele poderá voltar para as ruas em regime semi-aberto até completar21 anos. Uma possibilidade que assusta uma família ainda marcada pela dor”. A últimafrase, porém, não é confirmada pela sonora do pai da criança, que entra em seguida nareportagem. Ele apenas diz que essa luta não é só dele, que é de todos que estão ali (emuma manifestação na igreja da Candelária). Na quarta reportagem mostrada aos entrevistados, a jornalista e apresentadora doJornal Nacional, Fátima Bernardes, fala que cidadãos assustados pediram socorro na igrejada Candelária, durante a missa de 7º dia da morte do João Hélio. A partir desta afirmação,foi perguntado a cada um dos depoentes se eles concordavam com a apresentadoraquando ela diz que a população está assustada com a violência. Todos disseram concordar.Angélica disse: “Concordo, porque a violência está na porta da nossa casa”. Para Elizene, a 277
  • 277. população está assustada com a violência porque “a criminalidade está maior do que aspessoas de bem, as pessoas que trabalham e eles têm mais poder do que as pessoas debem, por isso que a população está assustada e eles têm mais poder em tudo”. É importantedestacar que, ao responder se ela achava que a violência no Brasil era muito repercutidapela imprensa nacional, Elizene disse que acredita que delinqüentes em geral se sentembem ao ver seus crimes no telejornal: “Os bandidos vendo isso se sentem vitoriosos porestar repercutindo aquela história que eles cometeram... pra eles é um troféu”. Um outro aspecto que pode ser destacado, já que foi citado pelos participantes dapesquisa, é a idéia de que problemas com a violência urbana é mais comum e característicado Rio de Janeiro e que a capital paranaense ainda não sofre de tal problema, comoexplicou Edgar: “Em Curitiba ainda não temos tudo isso, no Rio já é pior, está mais violento,nossa capital ainda está um pouquinho mais leve”. Rosângela, que também não tem tantomedo da violência em Curitiba, diz que no Rio de Janeiro e em São Paulo é bem pior eacrescenta que não moraria nestes lugares. Silvio, que é motorista e por isso esteve váriasvezes na cidade do Rio de Janeiro, disse ter medo da violência. “Principalmente no Rio deJaneiro, aqui nem é tanto. Curitiba é gostoso de se viver, mas lá a violência é demais. Eutenho medo”.Edição atípica e balanço da cobertura Entre as edições do Jornal Nacional avaliadas na presente pesquisa, a do dia 12 278
  • 278. de fevereiro pode ser considerada atípica. Não apenas porque entraram três reportagenssobre o assunto, mas sim porque os apresentadores Willian Bonner e Fátima Bernardescomentaram informalmente a entrevista que ela fez com os pais do João Hélio e que foiveiculada no domingo no programa Fantástico. Bonner diz que a produção do JornalNacional recebeu muitos emails e telefonemas. Além disso, fala que os colegas jornalistascomentaram sobre as dificuldades que Fátima deve ter enfrentado para realizar o trabalho.Ela, então, explica que quando entrou no apartamento da família se sentiu “invadindo ador alheia”, mas que estava lá porque a família queria fazer esse “desabafo”. Em seguida,entram trechos da entrevista dos pais emocionados. O comentário dos apresentadoresmais os trechos da entrevista com os pais durou ao todo 3´42´´. As outras duas matériasapresentadas no dia 12 são exibidas em seguida. A primeira, que ocupa 5´00´´do telejornal,mostra a opinião de diversos especialistas sobre a redução da maioridade penal. A maioria,como explica Fátima Bernardes antes de entrar a reportagem, é contrária a mudançasna legislação em períodos de comoção por um crime como a morte de João Hélio. Já asegunda reportagem, de duração de 2´31´´, fala sobre a reincidência de crimes no Brasil,que chega à casa de 80%, de acordo com Ministério da Justiça. As duas reportagenspartem do perfil de um dos acusados do crime: um menor de idade e Carlos Eduardo, ochefe da quadrilha, que foi recolhido por furto cinco vezes quando ainda era menor deidade e, depois dos 18 anos respondeu a três condenações. Em geral, as doze reportagens apresentam uma abordagem em que a indignação 279
  • 279. e o medo são sempre reforçados. Termos como apelos, tragédias, desespero, dor eperplexidade são utilizados diversas vezes; imagens de manifestações pela paz ilustramum sentimento comum ao carioca da classe média, próximo à comoção, mas distante deverdadeiras mudanças. Na opinião dos pais da criança e de alguns especialistas ouvidos,as mudanças ficam por parte dos governantes. Já esses últimos se dividem entre os quequerem punições mais rígidas para jovens envolvidos na violência e os que defendem quea solução não virá com a redução da maioridade penal. Tomando duas reportagens queversam uma sobre a redução da maioridade penal e outra sobre diminuição da progressãode regime (o que reduziria o direito ao regime semi-aberto de condenação) pode-se dizerque ambas tratam de assuntos polêmicos e, portanto, como estabelece o conceito deimparcialidade jornalística, foram ouvidos um lado que defende e outro que é contra. Nas reportagens em questão aparecem vozes de especialistas e autoridades, masem ambos os casos as opiniões deixadas para o final foram as que defendem que asleis em vigor sejam mudadas e se tornem mais punitivas. As declarações que fecham asreportagens têm maiores chances de serem guardadas e refletidas pelo telespectador,como explica Perseu Abramo (2003, p. 37): “a retenção dessas imagens finais da notíciado telejornalismo vai subsistir, no telespectador, como a mensagem essencial da matéria”.Na que fala da redução da maioridade penal a última sonora é do deputado FernandoGabeira que defende a votação do assunto o quanto antes e reforça a situação de medo.“Há casos que comovem o país de vez em quando. Mas agora o país fica comovido 280
  • 280. permanentemente. Há pessoas que dizem: não vamos votar agora porque nós estamossob emoção. Eles supõem que vai haver uma normalidade e nunca mais vai havernormalidade no Brasil se nós não intervirmos. Pura e simplesmente não há momento sememoção. A cada semana praticamente se sucede um crime trágico no Brasil”. Quando o tema é a progressão de regime, a reportagem defende em váriosaspectos que a lei atual é muito branda. Um dos autores do crime e da morte de JoãoHélio é o exemplo de que o regime semi-aberto permite que o condenado saia da prisãoe se envolva novamente na criminalidade. O repórter explica que a última condenaçãode Carlos Eduardo foi de 4 anos por assalto a mão armada, mas ele cumpriu um ano.Ele estava em regime semi-aberto, mas em dezembro de 2006 foi dado como foragido.Apenas uma sonora, com o secretário do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro, defendeque a solução não é manter a maioria dos condenados em regime fechado e, sim, que épreciso programas eficazes de re-socialização do preso. A última sonora da reportagem é ade uma especialista que defende um maior policiamento mas o repórter também forneceoutra interpretação à fala dela: “Esta especialista diz que a insegurança nas ruas só vaidiminuir quando os bandidos tiverem certeza que vão ser punidos. Sonora da especialista:Aquele infrator que está à beira de cometer um ato violento ele não pensa ‘eu vou ficar nacadeia 5 anos, 10 anos ou 20 anos’, agora ele pensa assim: ‘a polícia vai me pegar ou nãovai me pegar?’ Isso inibe, isso faz com que ele pense duas vezes antes de puxar o gatilhoe cometer a violência”. 281
  • 281. Como é possível perceber, as duas matérias terminam oferecendo umposicionamento ao telespectador e uma visão do quanto a insegurança e o medo fazemparte do cotidiano do brasileiro. Outro aspecto que mostra o reforço que a cobertura dáao medo e à insegurança pode ser observado em algumas das reportagens em que assonoras de testemunhas do crime ou apenas de pessoas que se chocaram com o fato narua não foram identificadas. Um efeito foi colocado no rosto das pessoas e reflete o medoque se tem da criminalidade.Considerações finais A densa cobertura da morte do menino João Hélio Fernandes contribuiu sob váriosaspectos para o reforço do medo da violência nas grandes cidades, principalmente no Rio deJaneiro. Reportagens que têm como tema a violência contribuem para o fortalecimento dasensação de medo no telespectador, como ficou claro nos depoimentos dos entrevistadosdesta pesquisa. Alguns mecanismos observados na análise das reportagens mostram queo telejornalismo do Jornal Nacional apresenta ao público o que ele deve sentir com baseem generalizações e preceitos. A hipótese de que o medo gerado pela veiculação de violência no telejornalismofortalece o preconceito racial e social foi comprovada com esta pesquisa. A imagemdo criminoso como pertencente à etnia negra e da classe social pobre foi citada pelosentrevistados como a mais veiculada no telejornalismo. E como comprovação do reforço 282
  • 282. de preconceitos, alguns dos entrevistados acreditam que essa é realmente a figura docriminoso, portanto, a que deve ser temida socialmente. Outra hipótese que pode ser confirmada neste trabalho é a de que as reportagensveiculadas sobre o assassinato do menino João Hélio Fernandes geraram apenas revolta,mas não reflexão. Pelo conteúdo das reportagens pode-se observar que a sociedadeacabou discutindo soluções simplistas para a diminuição do quadro de violência nopaís, como a redução da maioridade penal. Além disso, fica claro quando analisado ostextos e as imagens das reportagens que o objetivo principal é a indignação e a repulsa. Ahipótese de que o espaço cedido às notícia de violência criam no imaginário social a idéiade uma realidade mais violenta do que realmente é não pôde ser totalmente comprovada.Porém, a pesquisa evidenciou que, para os curitibanos que participaram do estudo, o Riode Janeiro é uma cidade com muita violência urbana e essa não é a mesma realidadeda capital paranaense. Para a maioria dos entrevistados esta visão foi formulada pelaimprensa e pode ser entendida como um espectro deturpado da realidade.Bibliografia consultadaABRAMO, P. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Fundação PerseuAbramo, 2003.ANGRIMANI, D. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. 283
  • 283. S.P: Sumus, 1995.BARBEIRO, H.; LIMA, P. R. Manual de Telejornalismo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2002.BATISTA, V. M. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. RJ:Revan, 2003.BETTO, Frei. Alteridade. Disponível em: <http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=7063>. Data do artigo: 12 de maio de 2003. Acesso em: março de2008.BUCCI, E. Brasil em tempo de TV. São Paulo: Boitempo, 2000.CONFEDERAÇãO NACIONAL DO TRANSPORTE E SENSUS PESQUISA E CONSULTORIA.Pesquisa de Opinião Pública Nacional: Rodada 88. Disponível em: <http://www.cnt.org.br/arquivos/downloads/sensus/relat88.pdf>. Acesso em: outubro de 2008.DELUMEAU, J. História do medo no Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1989.GLASSNER, B. Cultura do medo. São Paulo: Francis, 2003.HAMBURGUER, E. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In NOVAIS,Fernando A. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea.SP: Cia das Letras, 1998. 284
  • 284. JESPERS, JJ. Jornalismo Televisivo: Princípios e Métodos. Coimbra: Minerva, 1998.MARCONDES FILHO, C. Televisão: a vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna, 1988.MARTÍN-BARBERO, J. Globalização comunicacional e transformação cultural. In MORAES,D. Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge ZaharEditora, 2004.MICHAUD, Y. A violência. São Paulo: Ática, 2001.MORAIS, R. O que é violência urbana. São Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1985.PENA, F. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.PIRES, C. A violência no Brasil. São Paulo: Moderna, 1985.SOARES, L. E.Violência e Política no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ISER,1996.SODRÉ, M. A Máquina de Narciso: Televisão, Indivíduo e Poder no Brasil. Rio de Janeiro:Cortez, 1994.SOUSA, J.P. Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e da Mídia. Florianópolis: 285
  • 285. Letras Contemporâneas, 2004.TRAQUINA,N. Teorias do Jornalismo: Porque as notícias são como são. Florianópolis:Insular, 2004. 286
  • 286. O João Goulart de Silvio Tendler: uma análise do acontecimento jornalístico golpe militar no filme Jango1 Maria Joana Chiodelli CHAISE2“Os acontecimentos daqueles diasainda estão na memóriafechado no escuro do quartoquerendo fugir do mundo que me chegava pelo rádio.Eu pouco mais que um meninochorando como se fosse mortea viagem-fuga do Presidente Jango.Os anos passados, a maturidadea visão diária da injustiça e do ódioda opressão, da mentira e do medome levam agora, maduro, em nome da verdade e da históriaa reafirmar o menino: as lágrimas derramadas de 64 continuam justas”. O poema que abre este texto, de Fernando Brant, é também o epitáfio do1 Texto-base apresentado durante o Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC)..2 Jornalista graduada pela Universidade de Passo Fundo (2002), mestranda pelo Programa de Pós-Graduaçãoem Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos/RS. 287
  • 287. documentário Jango. Como, quando e porque se depõe um Presidente da República, de SílvioTendler, objeto de análise deste artigo. O texto, síntese do propósito do filme realizado em1984, é colocado sobre a imagem do túmulo do gaúcho João Belchior Marques Goulart,único presidente a morrer no exílio, na Argentina, em 1976. Considerado herdeiro políticodo mito Getúlio Vargas, Jango, como era conhecido desde a infância, apresenta umabiografia marcante. Foi ele, enquanto ministro do Trabalho do governo Vargas, que dobrouo salário mínimo, e assegurou aos assalariados uma velha reivindicação trabalhista queperdura até hoje, o pagamento do décimo terceiro salário. Defendendo a bandeira dodesenvolvimento nacionalista, encaminhou ao Congresso as reformas estruturais de base- agrária, educacional, fiscal, administrativa, bancária e urbana -, sem as quais, julgava,o Brasil não poderia romper a barreira do atraso e da miséria. Impôs à agenda nacionala regulamentação da remessa de lucros das empresas multinacionais estrangeiras parafora do país e buscou a aproximação entre o Brasil e a China comunista de Mao Tse Tung.Governou no parlamentarismo e no presidencialismo. Caiu a 4 de abril de 1964, derrubadopela última das ditaduras. Observadores da política e historiadores debruçam-se a decifrar o que acreditamser um enigma da República: por que a figura política de João Goulart é esmaecida? Apesquisadora Marieta de Moraes Ferreira, do Centro de Pesquisa e Documentação daHistória Contemporânea do Brasil, autora do livro João Goulart: entre a memória e a história(2006), lembra que no campo da memória social, não se encontra qualquer destaque para 288
  • 288. a atuação política de Jango e, por mais que inúmeros trabalhos tenham sido produzidos arespeito da conjuntura econômica e política daquele período, o personagem histórico deJoão Goulart não ocupa papel central na grande maioria dos estudos3. Trinta e dois anos depois de sua morte e mais de quatro décadas após o golpeque apeou o fazendeiro-sindicalista do poder, porém, uma espécie de reparação doestado brasileiro é concedida ao presidente injustiçado, deposto pela ditadura. Em 15 denovembro de 2008, o ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou a concessão da anistiapolítica ao presidente João Goulart e à sua esposa, Maria Teresa. O pedido, movido pelaviúva, foi julgado pela Comissão de Anistia Política do Ministério da Justiça em caráterextraordinário durante o 20º Congresso Nacional dos Advogados, em Natal, no Rio Grandedo Norte. Na ocasião, Tarso Genro afirmou que João Goulart foi um homem injustamentecassado, perseguido e derrubado por meios ilegais: “[a concessão da anistia] significa dizerà nação que ele foi injustiçado, que ele foi um grande brasileiro”, afirmou em seu discurso.Na ocasião, Tarso Genro também leu uma carta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,na qual este destacou a anistia a Jango como um pedido oficial de desculpa do estadobrasileiro: “O governo reconhece os erros do passado e pede desculpas a um homem quedefendeu a nação e seu povo do qual jamais poderíamos ter prescindido”. É a partir desta construção problemática da imagem do presidente João Goulart -3 Sua análise também é sustentada pela comparação com o tratamento dispensado à memória política de Jus-celino Kubitschek, personagem que emergiu recentemente nos discursos dos políticos e mesmo em produçõestelevisivas como líder maior da história do Brasil republicano. 289
  • 289. ora considerado um herói injustiçado, ora sobreposto por outras figuras políticas de seutempo e avaliado como agente comunista inexperiente, despreparado e desinformado- que pretendemos analisar a produção de Sílvio Tendler enquanto uma narrativaaudiovisual de reconstituição do acontecimento, por meio de documentos e memóriasde quem viveu ou testemunhou o período. Consideraremos, assim, o tom documentalque é apresentado no filme e a proposta de uma nova significação, além de, sobretudo, aprópria memória do cineasta gerador da versão que inspira a produção4.O documentário como produto jornalístico de reflexão Recorrendo às palavras de um dos principais documentaristas brasileiros, EduardoCoutinho, podemos perceber qual é a dimensão de verdade a partir da qual os cineastasque se propõem a desenvolver filmes documentários atuam: “[...] o documentário, aocontrário do que os ingênuos pensam, e grande parte do público pensa, não é a filmagemda verdade. Admitindo-se que possa existir uma verdade, o que o documentário podepressupor, nos seus melhores casos – e isso já foi dito por muita gente – é a verdade dafilmagem” (COUTINHO, 1997, p.167). Para a perspectiva desenvolvida neste trabalho, esta abordagem é bastanteadequada, já que rompe com a relação corrente entre documentário e realidade e tornapossível pensarmos o documentário como um texto autoral, abrindo possibilidade para4 O cineasta possui graduação em História, Sorbonne (1974), mestrado em Cinema e História, École des Hautes-Études, Sorbonne (1976) e especialização em Cinema Aplicado às Ciências Sociais pelo Musée Guimet (Paris). 290
  • 290. discutir seus pressupostos e os argumentos que sustentam suas afirmações. Dito de outraforma, podemos pensar o cinema documentário como passível de manipulação, por meiodas narrativas, da mesma forma como acontece com o jornalismo convencional. Em texto onde sugere que o filme documentário problematiza questõesfundamentais da constituição de uma epistemologia do fazer jornalístico – a naturezado acontecimento, as dinâmicas do tempo e as tramas da memória-, o pesquisadorRonaldo Henn esclarece o entrelaçamento entre cinema documentário e jornalismo apartir da natureza semiótica que ambos possuem5. “O cinema documentário adensa osistema jornalístico. Trabalhando fundamentalmente com a memória e, muitas vezes,com a memória subterrânea, o documentário dinamiza a agenda, recupera personagense fatos, estabelece nexos perdidos: tem a capacidade de produzir textos fronteiriços coma potência de se irradiar até o conservador centro do jornalismo”6 (HENN, 2008, p.9). Partindo-se do pressuposto de que o cinema documentário acumula e reproduzno seu modo de produção os postulados do jornalismo convencional, atualizando ourecuperando os acontecimentos do plano histórico, é necessário compreender o que éeste acontecimento e de que forma ele é tratado pela mídia – neste caso especificamentepelo produto audiovisual em que se configura o filme documentário. O historiador francês Pierre Nora (1979) afirma que o fato de uma ocorrência ter5 Esta natureza semiótica é dada por meio da compreensão da Teoria Geral dos Signos, de Charles SandersPeirce.6 A referência à memória subterrânea citada pelo autor e trabalhada no artigo é feita a partir do texto de MichaelPollak, “Memória, esquecimento, silêncio” (1989), publicado pela revista Estudos Históricos. 291
  • 291. sido registrada a torna somente histórica. Para que haja acontecimento, o fato precisaser conhecido. O autor segue a linha do também historiador Jacques Le Goff, para oqual o jornalismo tem fundamental importância para a compreensão da história. Assim,Pierre Nora acredita que, na sociedade contemporânea, é através dos mass media que oacontecimento nos toca e não pode evitar-nos. Imprensa, rádio, imagens agem apenas como meios de que os acontecimentos seriam relativamente independentes, mas como a própria condição da sua existência. {...} Acontecimentos capitais podem ter lugar sem que deles se fale. {...} O fato de que tenham tido lugar não os torna históricos. Para que haja acontecimento, é preciso que ele seja conhecido (NORA, 1979, p.245). Na era de advento dos meios de comunicação de massa, esta relação nos parecenaturalizada, já que as afinidades entre o acontecimento e a mídia são tão intensas quechegam a parecer inseparáveis. Os media não agem apenas como meios transmissoresdos acontecimentos, mas como condição mesma de sua existência, tal qual pressupõe ohistoriador. A partir desta perspectiva, abordar o que podemos denominar como construçãodo acontecimento pela mídia não significa pensar nos termos de uma criação artificialdo acontecido, mas sim a partir de uma dimensão realista de impossibilidade de acessaro acontecimento bruto, sem interpretação. O exercício de relatar um acontecimentopressupõe uma escolha, que acaba por subtrair outros caminhos possíveis e, por issomesmo, de certa forma, reduzir a complexidade própria do acontecimento. 292
  • 292. Não há captura da realidade empírica que não passe pelo filtro de um ponto de vista particular, o qual constrói um objeto particular que é dado como um fragmento do real. Sempre que tentamos dar conta da realidade empírica, estamos às voltas com um real construído, e não com a própria realidade” (CHARAUDEAU, 2006, p.131). Tal como pressupõe Pierre Nora, o acontecimento também é uma seqüência deocorrências com ligação dos fatos entre si, uma seqüência de pequenas notícias tomadasjuntas e oferecidas como síntese inteligível. O autor critica, por este motivo, o esvaziamentoproduzido pelo que ele chama de máquina informativa, que cria pseudo-acontecimentoquando deveria apenas apresentar pequenas notícias, estas que, pela repetição e hábito,anulam o sentido inicial do acontecimento. “O sistema informativo dos media fabrica oininteligível. Ele bombadeia-nos com um saber interrogativo, enucleado, vazio de sentido,que espera de nós o seu significado, nos frustra e nos realiza simultaneamente com a suaevidência perturbadora” (Nora, 1979, p. 253-254). Enquanto produto jornalístico, talvez, o filme documentário possua algumavantagem no aspecto de oferecer mais subsídios para uma totalidade inteligível ao seupúblico. Inicialmente, porque sempre há algo nele que remete ao real e, principalmente,porque o filme documentário é desenvolvido fora do contexto das rotinas produtivasdo jornalismo, práticas estas que suprimem o espaço que deveria ser de reflexão eaprofundamento. No filme Jango, analisado neste artigo, além de o jornalismo inscrever a ocorrência 293
  • 293. nos arquivos sociais, por assim dizer, a sucessão de acontecimentos do período apresentadoforma o que Pierre Nora (1979) convencionou chamar de grande acontecimento ouacontecimento expandido. O pressuposto deste conceito é interessante por oferecersubsídios que permitem uma compreensão do contexto social, político, histórico ecultural de produção dos discursos apresentados. Em outras palavras, mesmo o filmedocumentário sendo uma construção, da mesma forma que outros produtos jornalísticosque tem como base a realidade, ele possui como vantagem a abertura de espaço parareflexão acerca do tema abordado, por tratar o assunto diferenciadamente, integrando asucessão de pequenos acontecimentos que possuem ligação entre si. Se a repetição ou o saturamento na mídia anulam o sentido inicial do acontecimentoe o transformam em outro fenômeno, como sugere Nora (1979), a escolha pela lembrançae não pelo esquecimento não é um acaso. Mesmo que, na opinião de alguns historiadores,de forma mais restrita do que mereça, o governo João Goulart continuou sendo lembradonestes mais de 40 anos. Dois estudos publicados recentemente corroboram esta análise.O primeiro, do historiador da UFF Marcelo Badaró Mattos, que apresenta em seu artigo“O governo João Goulart: novos rumos da produção historiográfica” (2008) um balançoda produção acadêmica recente sobre o período presidencial de Jango. Já a doutora emHistória e pesquisadora da UnB, Flávia Biroli, traz em seu artigo “João Goulart e o golpede 1964 na imprensa, da transição aos dias atuais: uma análise das relações entre mídia,política e memória” (2006) um estudo sobre como o personagem do presidente Jango é 294
  • 294. abordado pela imprensa nos aniversários de 20, 30 e 40 anos do golpe militar e no momentoda transferência do poder aos civis, em 19857. Por mais que o objetivo deste texto não sejaanalisar nem como a imprensa apresentou Jango nestes mais de 40 anos, tampouco comoos historiadores construíram sua imagem, os dois estudos revestem-se de importância namedida em que nos oferecem a possibilidade de conhecer a conjuntura historiográficae midiática que envolveu o cineasta Sílvio Tendler em 1984, quando da produção dofilme ora estudado. Acreditamos que as condições do entorno social, apresentadas pelosestudos, estão inseridas na maneira peculiar pela qual a narrativa audiovisual do filmeJango constrói a memória do presidente.A construção do acontecimento “golpe militar” no filme Jango Diversos fatores podem ter mobilizado Sílvio Tendler para a produção do filmeJango. Talvez apresentar as novas teses sobre o golpe, produzidas em torno dos seus vinteanos. Talvez lançar uma nova significação com base em depoimentos de quem vivenciouo período ou, quem sabe, como defendem Jean Claude Bernardet e Alcides Freire Ramos(1988), mostrar que a questão social deve merecer maior atenção. “João Goulart foiescolhido para ser o personagem central porque esteve preocupado com os trabalhadores.Aliás, de acordo com o filme, isto podia ser observado já na infância. O locutor nos informaque o presidente desde pequeno conviveu espontaneamente com os peões da fazenda”7 Para a reflexão a pesquisadora analisou textos de alguns dos principais jornais e revistas do país: Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Correio Braziliense; Isto é, Época, Veja e Carta Capital. 295
  • 295. (BERNARDET; RAMOS, 1988, p.44). O teórico de cinema e o historiador, respectivamente,acreditam que o filme é calcado em um mecanismo ideológico e pretende demonstrar aidéia de que o golpe de 1964 é a ruptura de um projeto nacional-progressista que acabariacom as injustiças e a opressão por meio da figura de Goulart e de seus partidários. “O filmefaz com que a visão destes grupos apareça como a mais válida sobre o tema. As opiniõescontrárias ao governo oferecidas pelos militares funcionam como reforço da versão doPTB, do PCB e do filme. As outras versões de esquerda, divergentes em relação a do filme,são eliminadas” (BERNARDET; RAMOS, 1988, p.45). As outras versões às quais os autores se referem podem ser compreendidas a partirdos textos de Mattos (2008) e Ostermann (2003). Para ambos, Jango procurou implantaruma política reformista, conciliadora das várias forças sociais – as reformas de base (agrária,administrativa, bancária, fiscal) – e uma política externa independente – como condiçãoessencial do desenvolvimento nacional, e pagou com a oposição tanto da direita quantode alguns setores da própria esquerda. Essa estratégia política, com base no populismo e no desenvolvimento do capitalismo nacional, provocou violenta oposição. Oficiais, a maioria do Congresso, a imprensa mais conservadora, empresas americanas concessionárias de serviços públicos, a esquerda radical, alguns setores populares ficaram seriamente descontentes com o que, para alguns, era o comunismo, para outros, o caos, a inflação desenfreada e, mesmo, o estado da ilegalidade (OSTERMANN, 2003, p.123). 296
  • 296. Na década seguinte ao golpe, as interpretações acadêmicas mais comuns pousavamem torno de dois fatores, como aponta Mattos (2008). O primeiro, a questão econômicada crise de acumulação, já que o modelo que precedeu o governo Jango, montadoprincipalmente com Juscelino Kubitschek, vivia uma crise cuja superação exigiria doEstado uma intervenção que o abriria para o capital estrangeiro e ofereceria ainda maisvantagens ao grande capital. Esta intervenção passava, até mesmo, “por garantir totalcontrole sobre as organizações e lutas dos trabalhadores, de forma a viabilizar o arrochosalarial” (MATTOS, 2008, p.246). Combinada a este fator, aparecia a tese que derivava o golpeda crise do populismo, ou seja, o pacto populista que sustentava a base de dominação declasses naquela fase entrara em crise a partir do momento em que as massas buscaramir além dos limites estabelecidos pelas classes dominantes para suas concessões. Mesmocom críticas a esta redução da forma organizativa dos trabalhadores a um “sindicalismopopulista”, Mattos considera que, de forma geral, esse marco interpretativo permaneceimportante, por enfatizar dimensões econômicas, políticas e sociais do golpe, entendidoem meio à análise de um processo mais amplo. Nos anos seguintes, quando é produzidoo filme Jango, porém, novas questões vêm à tona. Para o jornalismo, um fator que atua como importante gancho para oferecer umanotícia ao público é o acréscimo de pelo menos um elemento novo. Patrick Charaudeau(2006) considera que a atualidade fundamenta o discurso midiático e se renova com aapresentação de um elemento que seja portador de uma forte carga de inesperado. O 297
  • 297. passado também se torna presente, na opinião deste autor, em ocasiões específicas: umacomemoração ou uma “celebração de um acontecimento pertencente a um passadocujo valor simbólico é preciso reviver” (CHARAUDEAU, 2006, p.134). O acontecimento,para Charaudeau, somente se torna notícia a partir do momento em que é levado aoconhecimento de alguém e nomeado, ou seja, passa a existir discursivamente. Temos,assim, a necessidade de aparição de acontecimentos históricos na mídia calcada não emrepresentar simplesmente fatos do passado, mas sim em sintetizar noções, acrescentarvalores da atualidade e, porque não, mobilizar uma nova reflexão. Para uma melhor compreensão do golpe militar, surge na década de 1980 umaanálise considerada abrangente e significativa pelos historiadores sobre as articulaçõesentre os setores das classes dominantes e militares que resultaram no desfecho doprocesso. Escrita pelo historiador René Dreifuss, a tese sustentou a imagem do golpecomo um movimento social civil-militar, demonstrando como os empresários brasileirosagiam politicamente sob a liderança do bloco multinacional. “O trabalho de Dreifuss temum sentido bem mais profundo do que a análise do acontecimento golpe enquantofenômeno imediato. Seu estudo nos posiciona sobre as condições que viabilizaramo sucesso da tomada do poder pelo movimento civil-militar e a natureza das políticaspostas em prática nos anos seguintes” (MATTOS, 2008, p.248). No filme de Tendler,esse contexto é rememorado a todo o momento. A socióloga Maria Vitória Benevides,que figura entre os entrevistados extras do DVD8, acredita ser este documentário uma8 Não há ano de identificação das gravações de entrevistas extras da cópia do filme Jango distribuída em DVD. 298
  • 298. experiência pedagógica e multiplicadora. Para ela, em 1984, a produção ganha aindamaior sentido por ser a época de luta pela convocação de uma assembléia constituintesoberana e de eleições diretas. A pesquisadora também enfatiza a intervenção norte-americana exposta no filme, que não ocorreu apenas no Brasil, mas em outros paíseslatinos, já que a questão da democracia estava no contexto da guerra fria e os EstadosUnidos não hesitavam em apoiar golpes militares para garantir o poder de seus aliadosditos liberais. No documentário, a referência do apoio estadunidense aos políticos eestados que faziam oposição a Jango é apresentada no depoimento do jornalista MarcosSá Corrêa. À época repórter do Jornal do Brasil, o jornalista apresentou no periódico e, em1977, no livro “O Golpe de 64 visto e comentado pela Casa Branca” os resultados de suapesquisa na Biblioteca norte-americana Lyndon Johnson, revelando detalhes da chamadaoperação Brother Sam, montada pelo governo dos Estados Unidos em dezembro de 1963,como parte da estratégia dos mentores do golpe militar no Brasil. Corrêa conta no filmeque quatro petroleiros, seis navios de guerra, um porta-aviões e 24 aviões de combate etransporte de munição e combustível foram remetidos à costa brasileira para apoiar osmilitares caso houvesse resistência à derrubada do governo João Goulart. A forma como a figura do ex-presidente era tratada pela imprensa também nosauxilia a compreender o contexto vivido quando foi proposto o documentário de SílvioTendler. Na pesquisa de Biroli (2006), nos anos anteriores ao golpe, Jango é caracterizadoEntretanto, nas biografias dos entrevistados, constam indicações de suas produções até o ano de 2006, o quesubentende a brevidade destas entrevistas. 299
  • 299. pela imprensa como um demagogo, ora sem controle ou capacidade de conduzir oprocesso político, ora como um oportunista: Sobretudo nos anos de 1963 e início de 1964, quando a propaganda pró- golpe encontra-se em estágio avançado, a maior parte dos jornais de grande circulação faz oposição aberta a Goulart e anuncia o “caos” que serviria de justificativa mais imediata para o golpe. O Correio da Manhã é um exemplo. Depois de defender que Jango assumisse a Presidência, diante de estratégias golpistas que se anunciavam após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, passa, paulatinamente, a uma oposição cada vez mais agressiva, chegando aos famosos editoriais “Fora” e “Basta”, que pediam o afastamento de Goulart às vésperas do golpe (BIROLI, 2006, p.15). A pesquisadora lembra que durante o regime militar o controle imposto à imprensafez com que a imagem do antigo presidente fosse algo sobre o qual era preciso silenciar.Passados 20 anos do golpe, no entanto, discursos ainda conflituosos e não homogêneoseram produzidos para relembrar a atuação de Jango, mas a caracterização do ex-presidentepassou a ser positiva, em contraste à imagem anterior ao golpe. Tomado em conjunto, [o discurso] tende a uma caracterização positiva de Goulart, na mesma medida em que o noticiário, já a partir de 1984, caracteriza, predominantemente, de maneira negativa o golpe desfechado por civis e militares em 1964. Assim como a democracia que surgia com o enfraquecimento do regime, Goulart vai sendo caracterizado como um “outro” do golpe e da ditadura (BIROLLI, 2006, p.15). No documentário de Sílvio Tendler, a construção do acontecimento golpe militar 300
  • 300. como algo negativo e a opção por representar de maneira positiva a imagem do presidentepode ser compreendida sob diversos aspectos. Vamos nos deter, neste texto, a analisaralgumas sequências de cenas, consideradas fundamentais à versão pretendida; ainda, aopção pelos entrevistados, que oferecem veracidade aos fatos a partir de suas memórias;e a seleção da trilha sonora que ilustra o produto audiovisual.Os personagens, as imagens e os sons da proposta de Tendler O filme produzido por Tendler em 110 minutos de cenas documentais apresentaum total de 15 depoimentos de políticos, jornalistas, sociólogos e pessoas que conviveramcom Jango durante os anos de seu governo no Brasil. As entrevistas intercalam-se àscenas e apresentações de documentos e periódicos, que situam os telespectadores e dãoa chancela necessária para o grau de veracidade dos fatos apresentados. Juntamente comdepoimentos de participantes do golpe que fazem duras críticas ao governo Goulart, odocumentário apresenta testemunhos daqueles que faziam parte do campo progressistae de esquerda, que reforçam a imagem positiva de Jango. A escolha dos entrevistadospode ser considerada como um ponto forte para reforçar a versão positiva do presidenteproposta por Tendler e, pode-se acrescentar, comprovam não somente que o presidentetinha uma grande preocupação com a justiça social, mas que ele também possuía amploapoio popular. Bernardet e Ramos (1988) exemplificam uma das passagens em que a ediçãodo material audiovisual favorece o crédito às ações de João Goulart. “Sobre o comício da 301
  • 301. Central [histórico comício de Jango na Praça da Central do Brasil, dias antes do golpemilitar], o entrevistado é Raul Riff, Secretário de Imprensa do governo Goulart, lembrandocom orgulho a posição adotada pelo presidente à época: ‘eu prefiro cair, mas cair em pé’”(BERNARDET; RAMOS, 1988, p.45). A posição é assegurada com a declaração de LeonelBrizola, cunhado de Jango, sobre os episódios que sucederam o comício e tiveram comodesfecho a tomada de poder por parte dos militares. “Jango decidiu que não houvessea resistência porque considerava que seria um tributo de sangue demasiadamentegrande que o povo brasileiro teria que pagar para restaurar seus direitos”, afirma em seudepoimento o consultor político e apoiador do presidente. Em oposição, a versão militaroferecida pelo general Muricy, o principal entrevistado do filme neste aspecto, serve,de acordo com os historiadores, para dar respaldo, em negativo, às versões favoráveisao golpe. “Os espectadores não se identificam com aqueles que falam contra o governo,poucas são as pessoas que concordariam com o diagnóstico e com a solução propostapelo general Antonio Calos Muricy. Por outro lado, o leque daqueles que falam a favor dogoverno é um pouco mais amplo e despertaria, provavelmente, a simpatia do público”(BERNARDET; RAMOS, 1988, p.45). Da forma como são colocadas as entrevistas, à primeira vista tem-se a impressão deque o objetivo do diretor em oferecer entrevistados favoráveis e contrários ao governo éapresentar posições conflitantes e oferecer material para que os telespectadores reflitam.Porém, ao vincular os contrários ao governo diretamente ao projeto da ditadura militar, 302
  • 302. cumpre-se o objetivo de reforçar a imagem positiva de Jango. Como já exposto nestetexto, em 1984, o projeto da ditadura militar já estava caracterizado como violento,antidemocrático, articulado aos interesses das classes dominantes e do imperialismonorte-americano, ou seja, em total descompasso das propostas que apresentava odirigente deposto, de participação popular9. A narrativa fílmica construída por Tendler por meio de imagens também favorecea proposta de sua versão. A abertura do documentário apresenta cenas da viagem do, àépoca, vice-presidente João Goulart à antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.Já neste momento constrói-se a idéia do político estadista que, mesmo antes de assumira presidência, reagia aos interesses imperialistas das nações ocidentais, em especial aosEstados Unidos, e pretendia uma política externa independente para o Brasil, em nomedo interesse maior da nação. Durante toda a produção aparecem, constantemente, fotos evídeos do presidente sempre sorridente, equilibrado e disposto ao sacrifício pessoal paracolocar o interesse da nação em primeiro plano. Um exemplo representativo desta análiseé a sequência de cenas que apresenta, primeiro, o histórico comício de Jango na Praçada Central do Brasil, e, logo em seguida, a Marcha da família com Deus pela liberdade,em São Paulo. O comício, que reuniu mais de 200 mil pessoas, é apresentado por cenascarregadas de dramaticidade em que Jango, ao lado de sua esposa, proclama a execução9 Francisco Julião, ex-dirigente das ligas camponesa, por exemplo, afirma em seu depoimento que Jango defen-dia as reformas de base e que seu governo deu espaço para a participação popular. Aldo Arantes, ex-dirigenteestudantil, e também Gregório Bezerra, destacam de forma positiva as reformas e chamam atenção para o climademocrático garantido por este governo. 303
  • 303. das reformas que pretendia – agrária, tributária e eleitoral. O locutor, em off, explica quehoras antes o presidente havia assinado decretos desapropriando terras improdutivas eencampando refinarias. As cenas que seguem mostram a esperança do povo expressaem faixas e cartazes de apoio ao presidente que discursava no mesmo palanque queVargas costumava fazê-lo em suas aparições públicas. A mobilização contrária aparece deforma breve em seguida, na descaracterizada Marcha da família com Deus pela liberdade,movimento realizado na capital paulista em conjunto pelo governo daquele estado,sociedade rural, igreja e representantes do comércio contrários às reformas. Após o desfecho do golpe pelos militares e do exílio do presidente Jango no Uruguai,a locução dá uma clara idéia sobre a opinião do diretor do filme: “1964 fechava o ciclodos coronéis de 54. Desta vez eles estavam unidos e tinham um programa. Os conceitosforjados na Escola Superior de Guerra substituíam a justiça social pelo desenvolvimentoe a democracia pela segurança”. Em seguida, o locutor também explica as providênciastomadas pelo governo de Castelo Branco, que havia assumido o poder: revogar a lei deremessas de lucros e anular o decreto de desapropriação de terras improdutivas, açõesadotadas com o intuito de restabelecer a crença dos Estados Unidos na democraciabrasileira e tranquilizar os grandes proprietários rurais. Esta última locução esclarece comrelação à construção da imagem que o diretor quis construir com relação aos militaresque tomaram o poder por meio do golpe. Outro elemento que confere dramaticidade e apóia o desafio almejado por Tendler 304
  • 304. é a trilha sonora do filme, que se utiliza prioritariamente da emoção das composições.A música principal é “Coração de estudante”, de Milton Nascimento, feita em 1983especialmente para configurar-se melodia da produção. A canção é uma homenagem àmemória do estudante Edson Luís, de 16 anos, morto em 28 de março de 1968 em umconfronto entre estudantes e policiais militares, no Rio de Janeiro. Edson integrava aFrente Unida dos Estudantes do Calabouço e, no momento de sua morte, participava deuma manifestação contra os preços do restaurante Calabouço, custeado pelo governo ecriado para atender alunos carentes. Longe de ser um líder político, o estudante havia sedeslocado do interior para estudar e, de acordo com o que relata Zuenir Ventura (2008),para se manter recorria a pequenos trabalhos, inclusive na limpeza do restaurante. Ele não tinha nenhum dos componentes míticos para sonhar em ser o que acabou sendo: um mártir [...]. A repercussão de certos acontecimentos políticos nem sempre é proporcional à importância dos atores neles envolvidos. O episódio do Calabouço, que desencadeou uma série de manifestações de protesto que iriam culminar com a lendária Passeata dos 100 Mil, três meses depois, ficou na história como um marco” (VENTURA, 2008, p.99-100). Além da inspiração para a composição “Coração de Estudante”, Milton Nascimentotambém compôs em homenagem a Edson Luís a canção “Menino”, em parceria comRonaldo Bastos. A letra pode ser considerada um apelo: “Quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte/ talhada a ferro e fogo/ nas profundezas do corte/ que a bala traçouno peito/ quem cala morre contigo/ mais morto que estás agora”. No documentário, a 305
  • 305. canção ilustra as cenas do enterro do jovem, ao qual compareceram centenas de pessoas,numa cerimônia tensa e dramática realizada na Igreja Nossa Senhora da Candelária sob amira de fuzileiros armados, conforme lembra Ventura (2008). Já celebrando a Passeata dos Cem Mil, em agosto de 1968, é introduzida a canção“Enquanto seu lobo não vem”, de Caetano Veloso. Por meio de uma evocação à fábulainfantil do Chapeuzinho Vermelho, o passeio na floresta ao qual o compositor convidase dá sob o perigo iminente da presença do ‘lobo mau’: “Vamos passear na floresta/Enquanto seu Lobo não vem/ [...] Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil/ Vamospassear escondidos/ Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou/ Vamos por debaixodas ruas/ Debaixo das bombas, das bandeiras/ Debaixo das botas/”. Os componentes citados, a escolha dos entrevistados, a seleção de cenas e a trilhasonora que acompanha a produção não têm papel secundário no filme. Tomados de ummodo geral para análise, estes elementos nos dão a compreender que foram escolhidoscuidadosamente para fazer parte do projeto proposto pelo diretor Silvio Tendler, quebuscou, por meio da figura de Jango, oferecer nova interpretação ao contexto históricodo golpe militar de 1964. O efeito final obtido com as locuções simpáticas ao governo,os depoimentos de participantes daquele período histórico e o aparato cinematográficoproposto nos oferecem uma nova compreensão dos acontecimentos daquele ano,conforme lembra Ricardo Kotscho, à época repórter do Jornal Folha de São Paulo, ementrevista contida nos extras do documentário: “Jornalistas e cineastas têm a obrigação 306
  • 306. de resgatar a nossa história, para não ficar só a história oficial, que muitas vezes é contadapela mídia e que muitas vezes não corresponde ao que nós vimos”.A contribuição do filme para a memória do presidente João Goulart A narrativa audiovisual do filme Jango pode ser compreendida como umaconstrução da memória do presidente-personagem, pontuada por imagens de arquivo edepoimentos de amigos e correligionários. À sua maneira, apresenta o ponto de vista e osentimento de seu diretor e destaca-se pelo envolvimento afetivo do cineasta com o tema.Pode-se considerar, ainda, conforme já exposto, que o filme forja uma visão diferenciadada história do golpe militar e, por este motivo, também parcial, por buscar submeter avisão oficial a questionamentos, principalmente os relacionados aos encobrimentos elembranças, à memória. Produzido em 1984, ainda durante o período da ditadura militar, mas já em climade euforia proporcionado pela abertura política, o filme de Tendler busca apresentarum sentido de explicação ou, dito de outra forma, uma versão do acontecimento, aquicompreendido como momento singular da história do país, que foi o período do golpemilitar e os anos subseqüentes, do regime. De acordo com Christa Berger (2006), a partirde uma investigação acerca da memória do período da ditadura militar, identificada comouma memória de trauma, as primeiras descrições da ditadura foram feitas por militaresque registraram suas vivências, ora contando o que aconteceu com eles, ora contando o 307
  • 307. que viram acontecer com seus pares. São depoimentos e testemunhos que foram impondo-se no espaço público num tempo marcado pela progressiva introdução da figura da testemunha na configuração de uma específica expressão cultural: a cultura da memória que floresce entre nós. A memorialística do regime militar ainda é história oral, provem das narrativas dessas testemunhas e constitui-se ao mesmo tempo em fonte e objeto históricos, pois se é certo que descreve a época, também pode ser estudada como um discurso em que diferentes versões disputam sentidos (BERGER, 2006, p.2). Ao considerarmos, desta forma, a memória de quem testemunhou o períodocomo uma expressão cultural e mesmo um objeto histórico de construção de sentido,no filme Jango estamos diante de vários discursos que pretendem configurar uma versãopara narrar um acontecimento, todos eles eleitos para que configurem uma versão maior,proposta pelo diretor Sílvio Tendler. Se tivermos em mente, ainda, que o documentáriopode ser compreendido como um produto jornalístico que recupera personagens, fatose ainda propõe o estabelecimento de nexos, estaremos diante de um produto jornalísticoaudiovisual que desenvolveu um processo de processamento de informações do passadoe propôs uma nova significação da realidade. Henn (2006) argumenta que, na medida em que o jornalismo participa ativamenteda construção social da realidade, é lógico pensá-lo como um grande produtor dememória coletiva. Valendo-se da concepção construcionista do jornalismo apresentadapor Traquina, o pesquisador explica que para esta perspectiva, é impossível uma distinção 308
  • 308. radical entre realidade e os mídias noticiosos que deveriam refleti-la, na medida em queestes próprios mídias atuam na constituição desta realidade, teorização que corroboraas análises de Nora (1979) e Charaudeau (2006), anteriormente expostas. “Mesmo quese desconsidere as diversas interveniências do processo, só o fato do jornalismo poderincluir, excluir e hierarquizar os fatos segundo determinadas lógicas, já o coloca comoinstância que dá forma ao que é realidade relevante” (HENN, 2006, p.6, grifo do autor). Conforme já exposto neste texto, o documentário possui compromisso com arealidade e apresenta vantagens sobre o modelo convencional de trabalho jornalístico. Apartir desta premissa, pode ser pensado como uma fonte rica para estudos historiográficose mesmo como um espaço de construção de memória. Entretanto, parte-se do pressupostoque esta construção seja algo mais que um rememorar, mais que uma simples retomadado ocorrido ou do já significado. Pode-se pensar no filme Jango, por este viés, como um produtor de um discursoque configura uma relação entre o passado e o presente e que propõe, a partir destaconexão, uma reorganização dos discursos previamente emitidos ou significados, umanova significação da imagem do presidente, ou um novo presidente para a memóriahistoriográfica.Considerações finais Com a produção do documentário Jango e a partir do exposto neste trabalho, 309
  • 309. consideramos que Silvio Tendler consegue apresentar um resgate do período em que foideflagrado o golpe militar no Brasil, em 1964, e oferecer um novo entendimento sobre omomento histórico narrado, à luz das novas condições sociais, políticas e culturais. Alémdisso, consegue recuperar o personagem de destaque na cena política nacional que foiJoão Goulart, já que o filme escapa de um registro meramente personalista em torno dafigura do antigo presidente e, pode-se dizer, aproveita o momento de sua realização, deabertura política, para enunciar um discurso com relação à volta da democracia. Em boa parte da produção, o diretor também insere imagens históricas do regimemilitar, como no momento em que mostra a repressão às passeatas após 1968, buscandoconferir realidade e apresentando em uma produção cinematográfica nacional todaa brutalidade vivenciada pelos brasileiros durante a ditadura. Por este motivo, mesmopassados mais de 20 anos do fim do regime militar, as cenas apresentadas no documentárioainda mantêm seu impacto. Além disso, é pela compreensão de Pierre Nora (1979) de que o acontecimento tempor virtude amarrar um feixe de significações esparsas que reiteramos nossa compreensãode que o filme Jango promove uma releitura do acontecimento que foi o golpe militar,oferecendo uma nova compreensão a respeito das motivações pelas quais os militaresdepuseram o então presidente e desmistificando a imagem deste, por longo tempoinjustiçado. Os interesses sociais conflitantes no período também aparecem representados 310
  • 310. de forma esclarecedora no filme. Após estudar as lutas do período, o historiador MonizBandeira não tem dúvida em afirmar que “o golpe de Estado no Brasil, instigado esustentado pela comunidade dos homens de negócios e pelos proprietários de terras,constituiu nitidamente um episódio da luta de classes” (BANDEIRA in MATTOS, 2008,p.262). A visão de uma história política renovada do governo Goulart também apareceno depoimento da socióloga Maria Vitória Benevides que consta nos extras do DVD.Entretanto, para ela, alguns dos problemas políticos apresentados ainda permanecem:“acentuo a reforma agrária, que foi de certa maneira o estopim do movimento popular pré64 e depois um dos principais motivos para o golpe e continua hoje como bandeira crucialdaqueles que estavam do lado das lutas justas, como diz Fernando Brant no poema”. E écom esta referência ao poema de Brant, que abriu este texto, que ele também é encerrado,já que assim como as lágrimas derramadas em 64 permanecem justas na opinião do poeta,pode-se afirmar que o filme de Tendler, produzido em 1984, permanece atual.Bibliografia ConsultadaBERGER, Christa. Memória enquadrada: 30 anos se passaram e Vlado segue morrendo.In: IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, 2006, Porto Alegre. SBPjor -PPGCOM. Porto Alegre: UFRGS, 2006.BERNARDET, Jean-Claude e RAMOS, Alcides Freire. Cinema e história do Brasil. São Paulo: 311
  • 311. Contexto, 1988.BIROLI, Flávia. João Goulart e o golpe de 1964 na imprensa, da transição aos diasatuais: uma análise das relações entre mídia, política e memória. Disponível em http://www.fafich.ufmg.br/compolitica/anais2006/Biroli_2006.pdf. Acesso em 15/12/2008.CHARAUDEAU, Patrick. A construção da notícia: um mundo filtrado. In: CHARAUDEAU,Patrick. Discurso das mídias; tradução Ângela Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006.COUTINHO, Eduardo. O cinema documentário e a escuta sensível da alteridade.In: Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-graduados em História e doDepartamento de História da PUC-SP, n.15, abril/1997.FERREIRA, Marieta de Moraes. João Goulart, entre a memória e a história. Rio de Janeiro:FGV, 2006.-----------. A trajetória política de João Goulart. Disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/. Acesso em 15/01/2009.HENN, Ronaldo. Do documentário ao jornalismo: acontecimento, tempo e memóriaem Cabra Marcado para Morrer. In: 6º SBPJor - Encontro Nacional de Pesquisadores emJornalismo, 2008, São Bernardo do Campo. 6º SBPJor. São Bernardo do Campo: SBPJor,Universidade Metodista, 2008.-----------. Direito à memória na semiosfera midiatizada. In: XXIX Congresso Brasileiro de 312
  • 312. Ciências da Comunicação, 2006, Brasília. XXIX Intercom. Brasília: Intercom, UnB, 2006.Jango recebe anistia depois de derrubado pela ditadura militar (15/11/2008).Disponível em http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/11/15/e151124033.html. Acessoem 15/01/2009.LINS, Consuelo. O documentário de Eduardo Coutinho. Televisão, cinema e vídeo. Rio deJaneiro: Jorge Zahar Editor, 2004.MATTOS, Marcelo Badaró. O governo João Goulart: novos rumos da produçãohistoriográfica. Revista Brasileira de História. Vol. 28. nº 55, 2008.NORA, Pierre. O regresso do acontecimento. In: Fazer História. Lisboa: Bertrand Editora,1979.OSTERMANN, Nilse Wink. Filmes contam história. 2.ed. Porto Alegre: Movimento, 2003.VENTURA, Zuenir. 1968 – o ano que não terminou. São Paulo: Editora Planeta do Brasil,2008. 313
  • 313. Entre a lança e a prensa: Conhecimento e Realidade no discurso do jornal O Povo (1838)1 Camila Garcia KIELING2A imprensa oitocentista em perspectiva O recente movimento de resgate do estudo dos primeiros periódicos brasileiros sefaz através de um olhar cultural, que serve tanto para o campo da Comunicação quantoao da História, ao redimensionar o objeto como fonte para as memórias de um tempoescoado3, na versão de Sandra Pesavento “apresentando visões distintas de um mesmofato” e despontando “como agente histórico que intervém nos processos e episódios, enão mais como um simples ingrediente do acontecimento” (Neves, 2006, p.10). Em um momento de cunho historicista ou positivista da historiografia tradicional,os periódicos foram tratados como fontes privilegiadas, por constituírem uma porta deacesso do pesquisador à “verdade”. Mais tarde, os estudos críticos enxergaram nos jornaisa questão ideológica e suas imbricações socioeconômicas, abordando-os como reflexo deuma infra-estrutura e “falsificadores da verdade” (Morel; Barros, 2003, p.8).1 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2010, realizado em Blumenau (SC).2 Jornalista e editora, mestranda em Comunicação Social na PUCRS na linha de pesquisa de Práticas Profissionaise Processos Sociopolíticos nas Mídias e na Comunicação das Organizações. E-mail: camila.kieling@gmail.com.3 “Tempo escoado”, na expressão da professora Sandra Pesavento: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras da his-tória: uma leitura sensível do tempo. In.: SCHÜLER, Fernando, AXT, Gunter e SILVA, Juremir Machado da (orgs.).Fronteiras do Pensamento – Retratos de um mundo complexo. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2008. 314
  • 314. O movimento seguinte renova a importância da imprensa como referencialinterativo na complexidade de um contexto (Morel: Barros, 2003). Ela passa a “serconsiderada fonte documental (na medida em que enuncia discursos e expressões deprotagonistas) e também agente histórico que intervém nos processos e episódios, emvez de servir-lhes como simples ‘reflexo’” (MOREL: BARROS, 2003, p.9). Assim, pesquisasbuscam a riqueza de representações presentes nas páginas dos periódicos do século XIX. Nessa linha interpretativa, a ênfase no atraso, na censura e no oficialismo comofatores explicativos destes primeiros tempos da imprensa “não parecem suficientes paraexplicar a complexidade e compreender as características de tal imprensa, gerada numasociedade em mutação, do absolutismo em crise” (Morel, 2008, p.1). Assim, entendemosque o nascimento da imprensa no Brasil deu-se em um rico caldo de cultura social,político, econômico e cultural, que teve como impulso inicial a chegada da família realportuguesa ao Brasil. Daí para diante, os jornais, mesmo que de propriedade de governosou representantes declarados de ideais políticos, sempre estiveram imbricados coma circulação das idéias e com a realidade cotidiana da sociedade, através de artigos deopinião, notícias, crônicas, poesias, anúncios. Os papéis incendiários4 foram constantementealimentados pela lenha dos “extraordinários do dia-a-dia”, mas também pelas grandestransformações sociais, como os movimentos pela independência ou, mais tarde, a peleja4 Referência às primeiras manifestações impressas ou manuscritas que, desde o século XVIII, na França, cau-savam comoção e disse-que-disse na vida urbana, manifestando uma noção de “opinião pública”, na visão dahistoriadora Arlette Farge (Morel, 2003, p. 12). 315
  • 315. entre o Império e os movimentos republicanos. Esta última teve como expoente, na então Província de São Pedro do Rio Grande doSul, a Revolução Farroupilha (1835-1845). O confronto entre farrapos e legalistas deu-separa além dos campos de batalha, refletindo-se também nos jornais. Apesar de incipiente(o primeiro jornal da província, o Diário de Porto Alegre, data de 1827), a imprensa sul-rio-grandense também representou a grande agitação política do período regencialbrasileiro: “As publicações periódicas serviam então às duas causas em conflito, pois tantofarroupilhas quanto legalistas organizaram uma série de periódicos através dos quaisdefendiam suas idéias e atacavam-se mutuamente” (ALVES, 2000, p.19). O Povo foi o mais longevo periódico oficial da República Rio-Grandense, circulouentre 1838 e 1840, e começou a ser editado na cidade de Piratini, somando 160 números.Os equipamentos necessários para impressão foram comprados pelo Ministro da FazendaDomingos José de Almeida, com o produto da venda de 17 escravos (Hartmann, 2002). Oprimeiro redator d’O Povo foi Luiz Rossetti, um italiano refugiado no Brasil, partidário domovimento Jovem Itália5, que pretendia a unificação italiana. A influência de Rossetti nadireção do periódico não pode ser minimizada, como veremos com mais detalhes adiante.De acordo com Riopardense de Macedo (1994), autor de precioso levantamento intitulado5 O movimento Jovem Itália foi fundado por Giuseppe Mazzini, em 1831, na Marselha. Dissidente da Carbone-ria, sua intenção era “promover a insurreição popular republicana, com a participação do povo, que os liberaisevitavam” (Bones, 1996, p. 82). Em 1832, passa a publicar um jornal homônimo ao movimento, onde afirma: “Asrevoluções têm que ser feitas pelo povo e para o povo. Não podem ser mera substituição de uma aristocraciapor outra” (Bones, 1996, p.82-83). 316
  • 316. Imprensa Farroupilha, o italiano ajudou a produzir uma “propaganda republicana de bomnível que já ensaiava críticas aos processos próprios da burguesia” 1994, (p.7). À luta política, econômica e militar somou-se a peleja simbólica, provocadora degrandes gestos e paixões, os quais repercutiram de diversas formas na vida cotidiana dasociedade sulina, incluindo o jornalismo. Se “Napoleão Bonaparte dizia que três pasquinsraivosos são mais perigosos que mil baionetas” (Bones, 1996, p. 122), parece que osfarroupilhas entenderam bem o recado, tratando de produzir suas versões dos fatos. O texto que analisamos neste artigo, o Prospecto, apresenta-nos diversas faces davisão de mundo dos farroupilhas: o modo como encaram a guerra, o papel do jornalista eda imprensa, a perspectiva de futuro. O título traz em sua polissemia a riqueza simbólicade uma sociedade em um momento contundente de crise e mudanças. Um “prospecto”,além de uma folha avulsa contendo idéias ou propaganda, significa uma probabilidade,uma perspectiva, e também um projeto e uma visão. Trata-se do texto inaugural do jornalO Povo, publicado na primeira página do primeiro número, que circulou numa quarta-feira, dia 1º de setembro de 1838. Nesse sentido, o discurso presente n’O Povo é de grande relevância como fonte deestudo das formas simbólicas e das representações sociais daquele momento histórico,ainda tão caro à sociedade sulina, através das palavras e idéias que fazia circular. Comoos farrapos se referiam ao Império? Como se auto-referiam? Qual o papel do jornal e dojornalista no processo? Quais idiossincrasias marcam o ideal republicano? Para responder 317
  • 317. tais questionamentos, é nossa intenção analisar o discurso do jornal O Povo, através daamostra Prospecto, utilizando a Sociologia do Conhecimento (Berger; Luckmann, 1991) ea Análise do Discurso (Charaudeau, 2008).A Sociologia do Conhecimento e a Análise do Discurso como lentes A Sociologia do Conhecimento (Berger; Luckmann, 1991) preocupa-se com a análisedo processo de construção social da realidade, entendida como a vida cotidiana. Os autoresestão interessados no conhecimento que dirige a conduta na vida diária, que é dotadade sentido e coerência pelos homens que dela fazem parte através das objetivações etipificações. Assim, entramos no terreno da sociabilidade, ou seja, “o conjunto de relaçõesinterpessoais e atitudes pessoais que, ainda que dependam de padrões adquiridos, sãopragmaticamente reproduzidas ou modificadas na vida cotidiana” (CORREIA, 2005, p.12-13). É através da relação com os outros indivíduos que passamos a integrar a realidadeda vida cotidiana, um mundo de representações sociais, tomadas aqui como parte dasobjetivações e tipificações que estão “prontas” antes de começarmos a interagir e quese modificam com o passar do tempo. No contato face-a-face, considerado por Berger eLuckmann como o mais completo no relacionamento interpessoal, e nas outras formas maisremotas de interação (como através dos meios de comunicação), os indivíduos aprendeme compreendem a sua realidade social. A experiência comunicativa com o outro, com odiferente, possibilita a transcendência do que conhecemos como cotidiano e, neste sentido, 318
  • 318. tanto o entendimento quanto a estranheza contribuem para a complexa engrenagem quemove as representações sociais (Correia, 2005). Esse movimento não ocorre apenas entrecontemporâneos: as tipificações de predecessores e sucessores também influenciam aconstrução social da realidade. No caso dos predecessores, a relação pode ser de naturezamítica, como no caso das tipificações envolvendo a Revolução Farroupilha na sociedadesul-rio-grandense, principalmente da década de 1950 até a atualidade6. Daí a riqueza daobservação de um objeto de pesquisa como o jornal O Povo, que nos transporta para asobjetivações e tipificações presentes na sociedade que viveu o conflito. Entendemos, assim, que a Sociologia do Conhecimento propõe uma análise quequer ver a imbricada relação entre o psicologismo e o sociologismo, entre o indivíduo ea sociedade, entre o conhecimento e a realidade. Uma das formas que encontramos defazer essa análise é através da linguagem, já que “é o mais importante sistema de sinaisna sociedade humana” (Berger; Luckmann, 1991, p.56). Os autores explicam seu papelpreponderante nas objetivações: As objetivações comuns da vida cotidiana são mantidas primordialmente pela significação lingüística. A vida cotidiana é sobretudo a vida com a linguagem, e por meio dela, de que participo com meus semelhantes. A compreensão da linguagem é por isso essencial para a minha compreensão da realidade da vida cotidiana. (BERGER; LUCKMANN, 1991, p.56-57)6 Entra aí a Revolução Farroupilha como “mito fundador” da sociedade sulina, tal como o quer o MTG – Movimen-to Tradicionalista Gaúcho. Trata-se de um tema de grande relevância, mas que não nos cabe aprofundar aqui.Sugerimos a leitura de OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo: diversidade cultural no Brasil-Nação. Petrópolis:Vozes, 1992. 319
  • 319. Desta forma, a linguagem destaca-se também pela capacidade de referir conceitosou situações diferentes do aqui e agora. Através dela, é possível reportar-se a situaçõesjamais experimentadas de forma presencial e, “deste modo, a linguagem é capaz de setornar o repositório objetivo de vastas acumulações de significados e experiências, quepode então preservar no tempo e transmitir às gerações seguintes” (Berger; Luckmann,1991, p.57), como é o caso dos textos presentes n’O Povo. Assim, entendemos que a Análisedo Discurso, por sua visão abrangente da situação de comunicação (como explicaremos aseguir), é uma técnica adequada ao propósito de desvendar algumas das representaçõescontidas no Prospecto. A fim de sedimentar sua proposta de teoria de Análise do Discurso, PatrickCharaudeau (2008) traça um panorama de duas diferentes vertentes do pensamentolingüístico, evidenciando grandes tendências em relação ao Objeto, ao Método e aoConhecimento e chegando aos seguintes tipos de abordagem da linguagem: - uma que se caracteriza por sua concepção de linguagem-objeto-transparente, por seu método de atividade de abstração, e se interessa por do que nos fala a linguagem; - outra se caracteriza por sua concepção de linguagem-objeto-não- transparente, por seu método de atividade de elucidação, e se interessa por como nos fala a linguagem. (CHARAUDEAU, 2008, p. 20, grifos do autor) Por um lado, temos a linguagem em uma situação de comunicação neutra, com 320
  • 320. emissor e receptor ideais, esgotando sua significação em si mesma. O método de análisedos textos é a abstração, através de comparações e analogias, chegando a uma explicaçãoúltima da estrutura linguageira ou, em outras interpretações, à “verdade”. Assim, essasteorias buscam do que fala a linguagem, ou seja, qual é o mundo já organizado que seencontra por trás dela. Por outro, distintas abordagens entendem que o ato de linguagem não se esgotano seu significado, ligando-se ao contexto sociohistórico e constituindo um jogo entreimplícitos e explícitos. Os seres da fala (emissor e receptor) são definidos em suasdiferenças. Aqui, o método de análise baseia-se na atividade de elucidação, que jogacom a manifestação linguageira e o contexto, entre o sujeito coletivo e o individual,interessando-se em como fala a linguagem, ou seja, como a significação é significada. O que o autor pretende, ao expor essas tendências, é alertar-nos para a importânciade integrá-las em uma mesma problemática, pois a linguagem é marcada pelo selo dadiscordância e da concordância: “O mundo não é dado a princípio. Ele se faz através daestratégia humana de significação. O Método seguido deverá então ser duplo: elucidantedo ponto de vista do como e abstratizante do ponto de vista do do quê” (CHARAUDEAU,2008, p.21, grifo do autor). Charaudeau define o ato de linguagem como uma encenação. Trata-se de um atointer-enunciativo entre quatro sujeitos, “lugar de encontro imaginário de dois universosde discurso que não são idênticos” (2008, p. 45). Esquematicamente, o autor representa 321
  • 321. sua teoria no quadro ao lado. Quadro 1. Situação de comunicação (CHARAUDEAU, 2008, p. 52). Onde: EUc = sujeito comunicante. É um sujeito agente que se institui como locutor earticulador da fala. É testemunha de um determinado real ligado ao discurso. EUe = sujeito enunciador. É uma imagem de enunciador construída pelo sujeitoprodutor da fala e representa seu traço de intencionalidade no ato de produção. TUd = sujeito destinatário. É o interlocutor fabricado pelo EU como destinatárioideal, adequado a seu ato de enunciação, de acordo com as circunstâncias de discurso ecom o contrato de comunicação. TUi = sujeito interpretante. É responsável pelo processo de interpretação queescapa do domínio do EU. Encontra-se em relação de opacidade com a intencionalidadedo EU. No espaço externo do quadro está o contexto “real”. O ambiente interno abriga osimaginários, as representações, os ideais de comunicação. O sucesso na empreitada decomunicar depende da maior ou menor coincidência entre TUi e TUd. A noção de contratopressupõe que os sujeitos pertencem a um mesmo corpo de práticas sociais e estão deacordo com as representações linguageiras das mesmas e determina os protagonistas da 322
  • 322. linguagem em sua dupla existência de agentes e sujeitos da fala. O contrato pode deixartransparecer as estratégias de poder existentes na sociedade, num jogo de ser e parecerdo estatuto social dos sujeitos da ação linguageira (2008, p.61-62). Charaudeau afirma, ainda, que a análise de um discurso deve dar conta nãoapenas de EU ou TU, mas sim dos diferentes “possíveis interpretativos que surgem (ou secristalizam) no ponto de encontro dos dois processos de produção e de interpretação”(2008, p. 63). Em síntese, a proposta teórica do autor instiga o pesquisador a responder àpergunta: Quem o texto faz falar?, ou Quais sujeitos o texto faz falar? Nesse sentido, a Análise do Discurso coloca-se em harmonia com a Sociologia doConhecimento, pois as diferentes instâncias dos sujeitos enunciadores e interpretantesintegram-se à dinâmica da relação entre a realidade e o conhecimento, o social e osubjetivo, que movimenta o jogo das objetivações. Além disso, as teorias contam tantocom o entendimento quanto com a falha do processo comunicativo, o que dá instrumentoao pesquisador para questionar os diferentes possíveis interpretativos que os textos dão aler.Entre a lança e a prensa, a realidade e as idéias Para a análise do texto Prospecto, publicado no primeiro número do jornal O Povo,de 1º de setembro de 1838, começamos por uma contextualização do momento políticono Brasil e a situação da imprensa sul-rio-grandense no século XIX, a fim de orientar o 323
  • 323. leitor na atmosfera de produção do texto, o “espaço externo” do esquema de Charaudeau(2008). Sobre a relação entre texto e contexto, Castro (2004) explica: A realidade do discurso [...] parte da sua historicidade, representa-da na relação entre o que é repetível, ou exterior ao sujeito e a produção da seqüência lingüística específica, onde o sujeito intervém. O repetível ou domínio do saber é uma sistematicidade do discurso, que é histórica, e os objetos deste adquirem estabilidade através de formas pré-construídas, que ligam o contexto da enunciação ao contexto do enunciado. (CASTRO, 2004, p. 44) Assim, o uso das palavras leva a uma sedimentação, que é construída de formasocial e também individual, seja pelo contato com os predecessores realizado atravésda linguagem, ou da experiência pessoal de cada indivíduo, formando um repertóriode conhecimento que age na interação cotidiana das representações sociais (Oltramari,2005, p.5). Para entender o repertório de que falamos aqui, faz-se necessário trazer algunsaspectos contextuais do período regencial brasileiro. Os nove anos de duração do governo regencial (de 1831 a 1840), que seguiu aabdicação de D. Pedro I, foram marcados pelos conflitos políticos entre as classesdominantes e uma grave crise econômica e financeira que assolou o país e estimulouas províncias a exigir maior autonomia em relação ao poder central. Nesse cenário, osprodutores de café do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba representavam 44% do totaldas exportações (Silva, 1992), número que indica a sua relevância nas decisões políticas. 324
  • 324. A Revolução Farroupilha (1835-1845) insere-se num contexto de revolta das elites deprovíncias periféricas, como a Cabanagem (Grão-Pará, 1835-39), a Sabinada (Bahia, 1837-38) e a Balaiada (Maranhão, 1838-41). Pesavento (1997), ao analisar os componentes que incendiaram os revolucionáriossulinos, cita os fatores militar-fronteiriços (os constantes conflitos militares para defesadas fronteiras imperiais) e o atraso, os altos impostos e a dependência do mercado internoda atividade-base da economia sulina, a produção de charque. A ameaça à propriedadeprivada dos estancieiros do sul (no entendimento deles mesmos) foi determinantepara eclosão da Revolução Farroupilha, em 1835, e a separação do Império através daproclamação da República Rio-Grandense, em 1836. Entendemos, dessa análise, que háuma correspondência entre os objetivos da Revolução e sua base social: trata-se de umarevolta das elites interessadas em defender seus interesses privados. Para Alves (2000), as motivações político-partidárias ligadas ao processo depreparação e eclosão da revolta promoveram um grande crescimento das atividadesjornalísticas na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e, depois, na RepúblicaRio-Grandense. O mesmo fervor foi responsável pela superação das dificuldadesfinanceiras e técnicas da época. Esse é o caso de Luiz Rossetti, que, entre a lança e prensa,foi ao mesmo tempo redator d’O Povo e comandante da Marinha, morrendo no combatede Viamão, em 1840, aos 40 anos: Os escritores públicos responsabilizavam-se por praticamente todas as tarefas 325
  • 325. ligadas à elaboração dos periódicos, já que redigiam a notícia, selecionavam a transcrição, revisavam as provas, gerenciavam a tesouraria e a distribuição da folha e, em alguns casos, faziam mesmo, às vezes de tipógrafo, no intento de manter acesa a flama jornalística que acompanhava as disputas políticas. (Alves, 2000, p. 19-20) Hartmann (2002) explica que a decisão de ter um jornal oficial ocorreu por volta de1837, quando os farrapos haviam perdido a cidade de Porto Alegre e a barra da Lagoa dosPatos (Rio Grande e São José do Norte) para o Império. A idéia era levar às várias outrascidades dominadas por suas tropas e aos oficiais que elas comandavam as principaisnotícias do que ocorria na República. Percebemos, pelas informações fornecidas porHartmann, que essas derrotas suscitaram a necessidade de um novo fator agregador dasforças pró-revolução, e o jornal aparece para preencher essa lacuna, como veículo decoesão da sociedade civil e militar envolvidas na batalha. Nesse sentido, o Prospecto, textoque apresenta o jornal à opinião pública, traz em suas linhas a representação de um idealpelo qual valia matar ou morrer: a República. O texto é escrito na primeira pessoa do plural e não é assinado. Estas sãocaracterísticas importantes, reveladoras de uma importante simbiose entre os sujeitosenunciadores (EUc e EUe). Do ponto de vista enunciativo, como explica Charaudeau,o Prospecto encaixa-se em um comportamento Elocutivo, ou seja, aquele que visa“revelar o ponto de vista do locutor” (2008, p.82, grifo do autor). O locutor mostra quetem conhecimento de um propósito, realiza um julgamento sobre ele, enumera razões 326
  • 326. para segui-lo e ainda demonstra adesão a esse projeto. Todas essas características estãopresentes no discurso analisado. O Prospecto defende e conclama os patrícios a uma entrega abnegada aos ideaisda guerra: a República representa a salvação e a felicidade. Justifica o rompimento com oImpério por suas “usurpações do poder”7 e pela “incapacidade dos governantes”. O textorefere-se ao Império com grande hostilidade, começando com “inimigo” e chegando, noúltimo parágrafo, a “abominável monstro que engole as vidas, e acomete os destinos deprovíncias inteiras”. De acordo com o discurso analisado, vencer o Império e consolidar a República é oobjetivo maior que deve guiar a sociedade daquele momento, mesmo que sobrepujandoas liberdades individuais. Tempos extraordinários que exigiam medidas extraordinárias:“quando se trata dos destinos da Pátria, qualquer meio feito é santo, qualquer armaempunhada pelo valoroso que se oferece vítima consagrada, é abençoada de Deus, quesomente concede a palma da vitória aos que insurgem firmemente resolvidos a obtê-la”,ou ainda: “Para chegar da tirania à Liberdade, é mister valer-se de medidas incompatíveiscom a Liberdade regular e permanente”. O texto inflamado pretende incitar o TU a se identificar com a imagem de mundoapresentada pelo EU, utilizando uma subjetividade afetiva e prometendo:“mereceremos daposteridade imparcial, o merecido prêmio de nossos esforços, por termos corajosamente7 A partir daqui, os exemplos retirados do texto e destacados entre aspas estão no jornal O Povo, 1º de setembrode 1838, páginas 1 e 2. 327
  • 327. defendido a causa legítima do progresso e da humanidade” [grifos nossos]. O uso do “nós” é bastante revelador em termos de Análise do Discurso e, em nossocaso, indica relações importantes entre os sujeitos emissores da fala. Esquematicamente,podemos identificar o sujeito comunicador (EUc), aquele do plano concreto, como oredator Luiz Rossetti, pois, apesar do Prospecto não ser assinado, é consenso nas pesquisashistóricas que ele foi um dos idealizadores e o redator d’O Povo em sua fase inicial. Bonesrelata que foi encontrada no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul uma carta do ministroDomingos José de Almeida em que pedia que “se dirigissem a Luiz Rossetti, o redator dojornal” (1996, p.77). Já o sujeito enunciador (EUe), aquele que assume publicamente o texto, é oGoverno da República Rio-Grandense. O cabeçalho logo abaixo do título não deixadúvidas: “Este periódico é de Propriedade do Governo”. A coesão entre os enunciadores érevelada na correspondência entre Rossetti e seu companheiro de Jovem Itália, GiovanniBatista Cuneo: “O jornal é do governo e precisa parecer que tudo sai do seu laboratório”(BONES, 1996, p.77), escreve o editor d’O Povo. A mistura entre EUc e EUe fica evidente já no começo do texto. O primeiroparágrafo traz a reprodução de um trecho do folheto Jovem Itália, movimento do qualRossetti era oriundo, e que faz fortes afirmações sobre os sacrifícios a serem feitos emnome da “Liberdade”, palavra repetidamente utilizada para designar a mais alta benessetrazida pela República: “Para chegar da tirania à Liberdade, é mister valer-se de medidas, 328
  • 328. incompatíveis com a Liberdade regular, e permanente”. Ou seja: para atingir a liberdademaior, era preciso, pelo menos temporariamente, abrir mão daquela já conquistada. Todaa confiança deveria ser depositada no “Poder que governa a revolução”. A seguir, outrasmarcas indicam essa mistura: “Devemos nos identificar com o poder que rege a guerra”ou “Procurar com todas as nossas forças” (grifos nossos). O trecho do manifesto do Movimento Jovem Itália reproduzido no cabeçalho dojornal , que fica em destaque até o seu fim, em 1840, não deixa dúvidas sobre a influência 8da Jovem Itália trazida por Rossetti na construção do texto e, conseqüentemente, nasobjetivações e tipificações que traz em suas linhas. A República é sempre articuladacom palavras como liberdade, felicidade, salvação e, até mesmo, democracia. A inserçãode “doutrinas democráticas” parece mesmo um aparte ideológico de Rossetti, já que opedido do Governo é no sentido de tolerância a um regime de exceção, onde é precisoque o povo, para ajudar a vencer o inimigo, aceite concentrar “a vontade de todos em muipoucos, ou em uma só”, por uma questão até mesmo prática, já que “os Decretos têm desuceder-se com a rapidez dos golpes no combate, e a mais pequena dilação poderia serfatal ao êxito da guerra”. Assim, entendemos que a idéia republicana defendida pelo jornalnaquele momento traz uma clara contradição com sua prática, apresentando um modusoperandi característico dos governos centralizadores, justamente o seu objeto de repulsa.Mais tarde, a divergência entre os ideais republicanos e democráticos de Rossetti e os8 “O poder que dirige a Revolução tem que preparar os ânimos dos Cidadãos aos Sentimentos de fraternidade,de modéstia, de igualdade e desinteressado e ardente amor da Pátria”. 329
  • 329. planos dos estancieiros farrapos ficaria cada vez mais clara, o que fez o italiano manifestarseu descontentamento com os rumos da Revolução: “A guerra perdeu o sentido”, escreveua Garibaldi (BONES, 1996, p.77). As incoerências da proposta republicana sulina estão presentes em contradiçõesno próprio texto, por exemplo, quando afirma que o poder que rege a guerra deve utilizar“todos os meios lícitos” [grifo nosso] para vencer o confronto, mas ao mesmo tempo,declara com firmeza que “Querer governar a época tumultuosa da revolução com as regrasconservadoras do regime definitivo, seria o mesmo que avaliar a paz como a guerra” eestabelece que o conflito é, enfim, “uma guerra de insurreição”. Em outras palavras, o queocorria naquele momento era a transgressão (ou violação) das leis e não o uso de meioslícitos para combater o Império. Outra peculiaridade do discurso é a invocação de princípios religiosos naargumentação, como em: “quando se trata dos destinos da Pátria, qualquer meio feitoé santo, qualquer arma empunhada pelo valoroso que se oferece vítima consagrada éabençoada de Deus ” e também na seguinte passagem: Aquele que se propõe a escrever por um Povo e mais particularmente para um Povo que está para surgir à nova vida, tem que assumir o caráter do sacerdócio; e para que a voz dele soe venerada, e clara entre as multidões, deve, como a do interprete de Deus, ser forte, pura, e solene. Se analisarmos o discurso em um sentido puramente ideológico, parece-nos 330
  • 330. contraditório que um movimento que execrava a monarquia use a imagem de Deus comorecurso discursivo, já que a Igreja é uma histórica aliada dos regimes centralizadores,atuando, inclusive, como legitimadora da autoridade do rei, da linhagem escolhida porDeus. Além disso, o movimento da Jovem Itália, do qual Rossetti era oriundo, era ligadoà maçonaria. Essa divergência revela mais uma das singularidades do pensamentorepublicano sulino. Rossetti deixa suas marcas através de sua visão sobre o ofício do jornalista. Em suaspróprias palavras, seu papel como redator era de Educador, ajudando a guiar os leitoresno caminho da verdade e da retidão de princípios que o governo que comandava aguerra percebia como convenientes. Em oposição ao conceito de imparcialidade, um dosbastiões do jornalismo como o conhecemos hoje, O Povo deixava claro que se permitiaexcluir de suas colunas “qualquer correspondência ou comunicado que não esteja emperfeita harmonia com nossas doutrinas”. Outro fato interessante é a constatação de quea pecha de “vendido” ou “interesseiro” em relação aos jornais e jornalistas parece estarimbricada com a gênese do periodismo: E agora perguntamo-nos: todos esses jornais sem vida, e sem alvo, a não ser aquele vergonhoso do lucro, verdadeiras torres de Babel, onde se vê a soberba, e a confusão; e que saem corajosamente, para todo o Império, a cada dia, não sei se, mais para experimentar a constância, do que para cansar a excessiva vontade dos assinantes, cumprirão eles a santidade de seus deveres? Vê-se aí a importância da peleja simbólica através dos periódicos. Assim, o jornal 331
  • 331. O Povo, estudado aqui através da amostra Prospecto, aparece como uma manifestaçãodas relações intersubjetivas, tanto no campo da produção da enunciação, através ligaçãoestreita entre os produtores da fala (Rossetti e Governo Republicano Rio-Grandense)como na relação com a opinião pública da época, com quem os sujeitos enunciador ecomunicador dividiam ou confrontavam uma rica gama de representações, objetivaçõese tipificações. Procuramos no texto, através da linguagem, este elemento preponderante noterreno das objetivações, algumas amostras da visão de mundo dos representantesoficiais da Revolução Farroupilha. Trata-se de um momento exemplar da conexão entreo conhecimento e a realidade, pois as dificuldades econômicas vividas pela Provínciaafetaram a vida cotidiana dos sul-rio-grandenses como um todo, seja através da “ameaça” àpropriedade privada, no caso das elites, seja nas necessidades materiais e na incumbênciade arriscar a vida na Revolução, no caso dos escravos e peões que lutaram na guerra.Sabemos que os conflitos vão além do campo de batalha real, onde o sangue escorre,e são transportadas para o campo do simbólico, onde as idéias povoam e inflamam osdiscursos. A Sociologia do Conhecimento trata das relações entre o pensamento humano eo contexto social dentro do qual surge (Berger; Luckmann, 1991). Nesse sentido, o idealrepublicano expresso no Prospecto parece adequado com o momento histórico vivido,de crise do Império, e também em harmonia com o repertório trazido por Rossetti para a 332
  • 332. redação do jornal. Bones relata o projeto de Luiz Rossetti, citando também um trecho decarta endereçada ao amigo Cuneo: Para ele, o regime republicano seria conseqüência de um processo histórico irreversível, deflagrado com a independência dos Estados Unidos, em 1776, e que culminaria com a supressão de todas as monarquias e estruturas de privilégio. “Eu não vejo senão a humanidade, família imensa da qual também sou membro e desprezo bastante todos os que limitam seus esforços à felicidade do pequeno círculo de parentes e concidadãos no meio dos quais se acham eventualmente colocados”, dizia. (BONES, 1996, p.77) No caso estudado, parece-nos que a necessidade material das elites locais sesobrepôs ao ideal republicano democrático, de ampla participação popular, que se mostrapela pena de Rossetti. O ideal republicano era o motor do pensamento naquele contextohistórico, mas não chegou a ser consolidado na vida cotidiana sulina, onde prevaleciao estado de exceção, de guerra, demandado pela Revolução. Assim, corrobora-se o queafirma Pesavento (1985), sobre a correspondência entre a base social que promoveu ainsurreição e seu discurso: o movimento circunscreveu-se aos limites da classe dominante, pecuarista, latifundiária e escravocrata. Estes eram os “cidadãos” que se autodenominavam “o povo do Rio Grande” e que arrastavam junto a si seus empregados e dependentes para lutarem num movimento em torno de causas alheias aos horizontes destas camadas dominadas. Não há, portanto, falta de correspondência entre o discurso político e a sua base social. O pensar e o agir correspondem aos interesses dos grupos que empresariam o movimento, 333
  • 333. bem como à sua necessidade de manter a dominação sobre o corpo social. (PESAVENTO, 1985, p.28) Entretanto, essa correspondência, no discurso analisado, não se dá de forma direta,linear, objetiva. Através dos exemplos trazidos neste artigo, julgamos mostrar algunsindicativos de que o discurso articula-se de forma matreira, sutil, irregular. A encenaçãodo processo comunicativo de que nos fala Charaudeau (2008) traz uma riqueza designificados que tornam o discurso revolucionário d’O Povo um desfile de idiossincrasiasideológicas. Essas peculiaridades e contradições revelam a ligação das idéias com arealidade cotidiana, pois mesmo aqueles que se querem revolucionários não podem fugirde certas amarras do tempo histórico. Este exercício, realizado com uma amostra do corpus de nossa pesquisa para aDissertação de Mestrado, nos leva a crer que O Povo pode ser estudado como ponte parauma sensibilidade que fala de representações predecessoras no tempo histórico, masque dialogam com a atualidade, mesmo que sob uma “nuvem mítica”. O jornal, comomediador das subjetividades, atua como indicativo da relação entre o conhecimento ea vida cotidiana, e, ao mediar tipificações e objetivações da época, permite o acesso dopesquisador a algumas das sutilizas do discurso do movimento farroupilha. 334
  • 334. Bibliografia ConsultadaALVES, Francisco das Neves. Imprensa gaúcha: história, historiografia & política. RioGrande: Fundação Universidade Federal de Rio Grande, 2000.BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. 9 ed. Petrópolis:Vozes, 1991.BONES, Elmar e REVERBEL, Carlos. Luiz Rossetti: o editor sem rosto e outros aspectosda imprensa no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Copesul/L&PM, 1996.CASTRO, Maria Helena Steffens de. O literário como sedução: a publicidade na Revistado Globo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso. São Paulo: Contexto, 2008.CORREIA, João Carlos. A teoria da comunicação de Alfred Schutz. Lisboa: Livros Hori-zonte, 2005.HARTMANN, Ivar. Aspectos da guerra dos farrapos. Novo Hamburgo: Feevale, 2002.MACEDO, Francisco Riopardense de. Imprensa Farroupilha. Porto Alegre: IEL/Edipucrs,1994.MOREL, Marco. A imprensa periódica no século XIX. Rede da memória virtual brasileira. 335
  • 335. Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://catalogos.bn.br/redememoria/pe-riodico xix.html>. Acesso em 27 de outubro de 2008.MOREL, Marco e BARROS, Mariana Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimentoda imprensa no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.Museu e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Documentos interessantes para o estu-do da grande revolução de 1835-1845. Porto Alegre: Dep. de História Nacional, 1930. 2v.OLTRAMARI, Leandro Castro. Contribuições da fenomenologia de Alfred Schutz para aspesquisas sobre AIDS: Considerações Epistemológicas e Metodológicas. In: Revista Inter-nacional Interdisciplinar Interthesis. Florianópolis. v.2, n.2, jul/dez 2005. Disponível em:http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/ viewFile/726/576. Acessoem: 5 de janeiro de 2009.PESAVENTO, Sandra Jatahy. Farrapos, liberalismo e ideologia. In: DACANAL, JoséHildebrando (org). A Revolução Farroupilha: História e Interpretação. Porto Alegre:Mercado Aberto, 1985.PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras da história: uma leitura sensível do tempo. In.:SCHÜLER, Fernando, AXT, Gunter e SILVA, Juremir Machado da (orgs.). Fronteiras doPensamento – Retratos de um mundo complexo. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2008.SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1992. 336
  • 336. VIANNA, Lourival. Imprensa gaúcha (1827-1852). Porto Alegre: Museu de ComunicaçãoSocial Hipólito José da Costa, 1977. 337
  • 337. “Todo compositor brasileiro é um complexado” Anonimato e fama de Tom Zé na mídia impressa especializada1 Lygia Maria Silva ROCHA2 Esta pesquisa parte de duas hipóteses preliminares: primeiro, a de que o músicoTom Zé obteve reconhecimento midiático nas décadas de 60 e 70 e que na década de 80caiu praticamente em um ostracismo; segunda que, a partir da década de 90, este músicofoi novamente consagrado pelos cadernos culturais. Para comprová-las, coletamos eanalisamos 71 aparições de Tom Zé, entre matérias, notas, críticas e entrevistas, na mídiajornalística impressa brasileira no período de 1968 até 20023. A partir deste universo, aprimeira constatação que fizemos foi a discrepância de números de aparições comparando-se as décadas. A maior diferença se verifica quando vemos os dados da década de 90. ANO Matéria Nota Crítica Entrevista TOTAL 1960 3 1 0 0 4 1970 10 2 0 0 121 Texto-base originariamente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Pará (2003). Especialista em Co-municação Jornalística – Jornalismo Cultural pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2006). Mestran-da em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Endereço eletrônico: lymaria@ig.com.br3 Este artigo é uma adaptação (redução) e atualização da pesquisa, de mesmo título, realizada na Pontifícia Uni-versidade Católica de São Paulo, em 2006, para obtenção do título de Especialista em Jornalismo Cultural. Devi-do ao formato exíguo do artigo, não apresentamos a parte da pesquisa que trata do contexto histórico, político,cultural e estético dos anos 60 e do movimento tropicalista (onde insere-se o trabalho do músico Tom Zé). 338
  • 338. 1980 9 4 2 0 15 1990 17 2 6 5 30 2000 5 0 4 1 10 Em primeiro lugar, devemos frisar que a década de 1960 envolve apenas doisanos, os de 1968 e 1969, e que a década de 2000 também abrange apenas três anos, o de2000, 2001 e 2002. Escolhemos o ano de 1968 porque foi neste ano que Tom Zé apareceuefetivamente para o grande público quando participou, e foi vencedor, do IV Festival deMúsica Popular Brasileira da TV Record. Já o ano de 2002, foi escolhido como ano limiteda busca de aparições de Tom Zé na mídia, devido ao tempo hábil para a entrega dapesquisa. A partir daí, pode-se perceber facilmente o pequeno número de aparições domúsico nas décadas de 1960 e de 2000, comparado às outras décadas. Mesmo assim,podemos perceber que nos 3 anos da década de 2000, Tom Zé teve mais do que o dobrode aparições na mídia impressa comparado aos dois anos da década de 1960, além decontar, a partir de 2000, com 4 críticas e 1 entrevista que, devido à própria estrutura destestextos jornalísticos, respectivamente dão atenção mais aprofundada à obra e espaço aoartista para que comente seu trabalho e dê suas opiniões. Já vemos aí uma diferença de tratamento ao trabalho de Tom Zé. É óbvio que issose deve também ao fato de que na década de 1960, Tom Zé estava em começo de carreira,era praticamente um desconhecido do grande público. Já em 2000, Tom Zé é tratado comoartista experiente e consagrado. Mas isso se deve, principalmente, aos fatos ocorridosdurante a década de 90, pois, até esse momento, Tom Zé estava, ao contrário, praticamente 339
  • 339. esquecido. O próprio Tom Zé constata esse esquecimento ao falar de como um dosrecursos estilísticos de seu trabalho, o ostinato - motivo melódico ou rítmico repetidoobstinadamente, em geral parte baixa de trecho musical repetida persistentemente -,denominado por ele carinhosamente de mulher e namorada, o ajudou a ser novamentereconhecido: “O fato é que a aventura com essa mulher me introduziu nos Estados Unidose na Europa. Com ela, David Byrne criou pra mim uma nova vida e me tirou da sepulturaonde eu fora enterrado na divisão do espólio do Tropicalismo”(TOM ZE, 2003, p.35). Podemos ver que desde a sua primeira grande aparição, em 1968, até 2002, omúsico se faz presente no meio jornalístico, mas é nítida a discrepância desta presença.Por exemplo, se somarmos o material jornalístico sobre ele das décadas de 70 e 80, nãoalcançamos o número do material da década de 90 inteira. Sem contar que, comparandoas décadas de 80 e 90, podemos ver que na primeira, dos 15 textos jornalísticos 4 sãonotas pequenas, o que deixa apenas 11 textos mais aprofundados e interessados em suaobra. Já na década de 90 a valorização da mídia impressa sobre do trabalho de Tom Zé éperceptível através das 17 matérias, 6 críticas, 5 entrevistas e somente 2 notas. Através dascríticas e das entrevistas percebe-se o interesse da mídia não apenas na divulgação dotrabalho do músico, mas também na busca de compreensão de seu trabalho, de imergirmais profundamente na obra de Tom Zé e, principalmente através das entrevistas, navontade de ouvir o que o artista tem a dizer tanto sobre a sua obra, como sobre o mundoa sua volta. Ele passa, desta forma, de um esquecido da indústria cultural para um produto 340
  • 340. de interesse da mesma; não apenas produto, mas também sujeito ativo desta mesmaindustria, obtendo também o lugar de avaliar e consagrar outros produtos culturais. Constatado o esquecimento e o re-aparecimento de Tom Zé na grande mídiaimpressa, ficam as questões: de que forma isso se deu e, principalmente, porque issoaconteceu? Trabalhamos com a hipótese de que isso ocorreu devido a dois fatoresfundamentais. O primeiro indica que Tom Zé não havia alcançado, totalmente, a legitimidadecultural atribuída pelos seus pares dentro do campo de produção musical, nas décadas de60 e 70; tendo apenas alcançado esta legitimidade quando um produtor cultural, dotadode capital cultural para tal, o reconheceu, repassando para Tom Zé este mesmo capitalcultural e realizando, desta forma, o processo de consagração. Sendo importante lembrarque não apenas o produtor cultural que reconhece Tom Zé – o músico norte-americanoDavid Byrne -, detém o capital cultural necessário à consagração, mas o país de origemdeste mesmo produtor – os Estados Unidos - também detém capital cultural, em relaçãoa outros países, e, conseqüentemente, detém o poder de consagrar. O segundo fator fundamental desse descobrimento da obra de Tom Zé se devea intensificação do processo de globalização e de duas características importantes domomento pós-moderno, analisadas em profundidade pelo sociólogo brasileiro RenatoOrtiz (1999) e pelo antropólogo argentino Nestor García Canclini (2000): a mundializaçãoda cultura e o hibridismo cultural, sendo que estes alteram profundamente um outro 341
  • 341. conceito, o de identidade. A partir da constatação de que um país – no caso, os EstadosUnidos - começa a valorizar uma manifestação cultural de outro – no caso, o Brasil - e apartir desta mesma valorização o segundo país passa a reconhecer o que antes estavaesquecido, temos aí uma relação não apenas cultural, mas política e econômica, complexae hierárquica que demonstra que os limites das culturas nacionais e a constituiçãoda identidade cultural dos indivíduos não são mais os mesmos, principalmente secompararmos com a década de 60, onde se vivia exatamente o contrário: um certo tipode xenofobismo cultural, principalmente com relação aos Estados Unidos. Na verdade, foia partir deste período histórico que as características da globalização e do ambiente pós-moderno começam a se tornar mais nítidas, mais presentes, e foram os tropicalistas osprimeiros a constatarem e valorizarem essas transformações. Nada mais sintomático dissodo que o fato da redescoberta de Tom Zé se dê no momento onde essas transformaçõesiniciadas há 40 anos se encontram, atualmente, cristalizadas e fortemente presentes nocenário cultural e político mundial.A consagração de Tom Zé a partir da transferência de capital cultural Segundo o pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu, todas as práticassociais são desenvolvidas a partir de trocas, sendo estas sempre trocas lingüísticas (nosentido de linguagem e não de língua, não apenas verbal). Não há, portanto, práticasocial sem linguagem. A linguagem seria, portanto, o suporte material (através de sons, 342
  • 342. formas, cores, números etc.) e o discurso produzido por essa linguagem seria o suportesimbólico carregado de sentidos. Neste sentido, a interação social, seja ela qual for, sedá pelo meio de uma troca tanto de sentidos quanto de interesses, demonstrando erevelando poderes hierárquicos e formas de dominação. Portando, a produção de sentidoem uma comunidade é travada numa luta social (trocas) em que os atores sociais buscamo controle ou o acesso aos modelos de produção de sentido. Através de uma visãonitidamente materialista-marxista, em contraposição às tradicionais teorias dos signose da semiótica (mais individualista e psicológica), o filósofo iguala as trocas simbólicasàs trocas econômicas propriamente ditas: aqueles que detêm os modos de produção desentido detêm o capital simbólico assim como quem detêm os modos de produção dosbens matérias detêm o capital econômico, como na análise marxista clássica. Desta forma,historicamente, pode-se constatar que nos estados totalitários do passado, o controlesobre os modos de produção do sentido – assim como sobre os modos de produçãomateriais - recaía sobre o próprio Estado, já com o liberalismo – e posteriormente, com oneo-liberalismo – o controle desses modos de produção de sentido são controlados pelomercado. Desta forma, percebe-se que o universo econômico é formado por vários mundoseconômicos que, por sua vez, possuem razões práticas específicas que os caracterizam.Um desses mundos seria justamente o da economia das trocas simbólicas. A economia dosbens simbólicos possui suas peculiaridades específicas, mas na verdade funciona a partir 343
  • 343. da mesma lógica hierárquica e dominadora quanto a economia dos bens econômicos. Oque acontece é um disfarce com relação ao funcionamento da primeira, na verdade, umahipocrisia. Toda a engrenagem da economia dos bens simbólicos funciona no sentidode ver esses bens dotados de uma alma imaterial e superior que não se deixa atingirpela mesquinharia e competitividade presentes no mercado dos bens materiais. Porém,segundo Bourdieu, o bens simbólicos não estão situados pelas dicotomias (material/espiritual, corpo/espírito etc.) no lado espiritual. O que acontece é um recalque coletivoque nega a verdade da troca, a troca por troca, que, por sua vez, aniquilaria a troca dedons, de talentos. A economia dos bens simbólicos se baseia, portanto, nesta dualidade,em um verdadeiro “interesse no desinteresse” (BORDIEU, 2001, p.122), em uma hipocrisiaestrutural que transfigura as relações econômicas por trás das trocas simbólicas e, emparticular, transfigura as relações de exploração. Mas para que esse sistema de falseamentofuncione é preciso que haja uma espécie de desconhecimento coletivo cujo fundamentose inscreve nas estruturas objetivas e mentais, excluindo a possibilidade de pensar ou agirde outra forma. É o que Bourdieu chama de “tabu da explicitação”, conceito que explicauma característica da economia dos bens simbólicos em contraposição a economia dastrocas econômicas. O que na primeira não se pode explicitar é justamente aquilo que nasegunda é nítido: o preço. Mas se há um tabu na explicitação do preço, como ocorrem, então, as trocas dentroda economia dos bens simbólicos? As trocas simbólicas são sempre trocas de atos, de 344
  • 344. conhecimento e de reconhecimento sendo, portanto, necessárias categorias de percepçãoe de apreciação idênticas entre as duas partes. Mesmo com categorias de percepçãoidênticas as relações de troca são sempre desiguais já que há sempre aquele que detêm oque Bourdieu chama de “capital simbólico” ou “capital de reconhecimento”. O capital simbólico é uma qualquer propriedade, força física, riqueza, valor guerreiro, que, percebida por agentes sociais dotados das categorias de percepção e de apreciação permitindo percebê-la, conhecê-la e reconhecê- la, se torna simbolicamente eficaz, como uma verdadeira força mágica: uma propriedade que, por responder a “expectativas coletivas”, socialmente constituídas, a crenças, exerce uma espécie de ação à distância, sem contato físico (BOURDIEU, 2001, p.130). O capital simbólico é comum a todos os membros de uma determinadacomunidade, manifestando-se, ou sendo percebido, de forma positiva ou negativa. É aomesmo tempo o instrumento e o objeto em jogo de estratégias coletivas visando adquirí-lo ou conservá-lo, por meio de associação com os grupos dele dotados e distinguindo-sedos grupos pouco dotados ou desprovidos. Já que, para que exista o capital simbólico énecessário a cumplicidade de categorias de percepção entre os atores, forma-se, portantoum “campo” em torno do qual giram os interesses comuns. Um campo se constitui a partirde vários fatores aglutinadores: idade, interesses, classe social, raça, país, período históricoetc. Um deles é campo artístico, no qual são produzidos e consumidos os bens culturais.Como vimos anteriormente com a trocas dos bens simbólicos, aqui também acontece 345
  • 345. uma negação do econômico, o valor do bem se estabelece simbolicamente dissimulandoa operação econômica que há por trás da troca. Esta operação só funciona a partir deum constante recalque coletivo, entre os participantes do campo, no caso do campoartístico: produtores, intermediários e público. Há, portanto, desníveis de acúmulo decapital simbólico, fazendo com que a relação que, a priori, deve-se basear na negação doeconômico entre os atores, seja de dominação ou exploração. Afinal, quem tem o poderde atribui um valor a determinado produto artístico já que este valor deve ser simbólico?É justamente o campo, numa metáfora de um campo de forças, que organiza e articulaos valores. É necessário prestígio e autoridade dentro do campo para que o valor sejaatribuído, para que se tenha o poder de consagrar. Um exemplo desta operação é o que aconteceu com o músico Tom Zé. O artistadesponta do anonimato através do IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record,em 1968. Através da matéria “Tom Zé e Chico Vencem o Festival” (DEL RIOS, 1986) podemosaferir algumas análises a partir dos conceitos de Bourdieu. Em primeiro lugar, vemos aconsagração do músico através do subtítulo: “Tomzé, o novo ídolo” e do texto: “Nasceuontem o novo ídolo do público paulista: Tomzé, o baiano de Irará, Antônio José, SantanaMartins”. A TV Record neste caso, é o agente dotado de capital cultural que legitima omúsico. Mas a emissora de televisão não é o único, o júri também funciona como esteagente, e no caso de Tom Zé, um detalhe importante deve ser considerado. No IV Festivalda Record foram escolhidos dois vencedores através de dois júris distintos: um especial 346
  • 346. e outro popular, sendo que o primeiro era formado por artistas e especialistas da áreamusical e segundo pelo público que assistiu ao festival. Com a música “São São Paulomeu amor”, Tom Zé levou o primeiro lugar no júri especial, e Chico Buarque, com a música“Benvinda” foi considerado o melhor pelo júri popular. Uma característica marcante do mercado de bens culturais é a denegação doeconômico, a indiferença pelas sanções do mercado. Isso quando o mercado de bensculturais ocorre dentro de campos de produção cultural autônomos. Autônomos nosentido de não se deixar atingir por cobranças ou sanções exteriores a esse próprio campocomo “os fatores de diferenciação econômica, social, ou política, como a origem familiar, afortuna, o poder (...), bem como as tomadas de posição política” (BOURDIEU, 2001, p.106).Essa característica de autonomia se verifica nos campos de produção cultural que aindaestão no início do seu processo de formação, como o campo de produção literária ou deartes plásticas, do século XIX, na Europa, ou, no caso do campo musical brasileiro dos anos60, em um período em que a industria cultural ainda não estava totalmente formada esolidificada no país. Desta forma, o júri especial (formado pelo maestro Gabriel Migliori, os músicosJulio Medaglia e Cláudio Santoro, o pianista João Carlos Martins, os críticos Carlinhos deOliveira, Sergio Cabral e Raul Duarte e o autor teatral e jornalista Roberto Freire) escolheTom Zé mesmo este não tendo a mesma consagração popular. No caso, o gosto popularfica com Chico Buarque, autor já consagrado, vendedor de discos e vencedor de festivais. 347
  • 347. Aqui podemos perceber que, dentro do campo de produção artística, existem distinções.Um desses campos dentro do campo é o da produção erudita. Mesmo sendo nomeadocomo de produção erudita, este campo não está somente vinculado às manifestaçõesartísticas mais facilmente vinculadas a este termo, como a música erudita de câmara, àorquestras, à chamada “música clássica”. O campo erudito, tal como Bourdieu analisa éaquele que se opõe ao campo da indústria cultural. o campo de produção erudita enquanto sistema que produz bens culturais (e os instrumentos de apropriação deste bens) objetivamente destinados (ao menos a curto prazo) a público de produtores de bens culturais que também produzem para produtores de bens culturais e de outro, o campo da indústria cultural especificamente organizado com vistas à produção de bens culturais destinados a não-produtores de bens culturais (“o grande público”) que podem ser recrutados tanto nas frações não-intelectuais das classes dominantes (“o público cultivado”) como nas demais classes (BOURDIEU, 2001a, p.105). De acordo com esta conceituação, podemos perceber que o músico Tom Zé e seutrabalho se enquadram nos regras do campo de produção erudita. A sua consagraçãodentro do campo, mesmo sendo feita através de um instrumento da indústria cultural(um festival de uma emissora de televisão), ocorreu a partir do reconhecimento dos seuspares: por “produtores de bens culturais que também produzem para produtores de bensculturais”, basta ver a formação dos membros do júri especial. Já Chico Buarque se encontrano outro campo, como o vitorioso do júri formado pelos “não-produtores de bens culturais 348
  • 348. (‘o grande público’)”. Se o festival contasse apenas com o júri popular, Tom Zé não levariao primeiro lugar (no júri popular ele ficou na quinta colocação) ou provavelmente seriadesclassificado, como já ocorrera outras vezes na carreira do músico. O importante aqui é perceber que as linhas de diferenciação são tênues e que ariqueza da música popular brasileira cria uma série de matizes que ora se encontram orase distanciam, na verdade, como toda manifestação cultural, sempre mutante, nuncarígida. Porem, também não podemos esquecer que existem extremos: do ye-ye-ye dajovem guarda à música aleatória de Rogério Duprat há diferenças gritantes e, entre umae outra, há uma gama de subdivisões e misturas incalculáveis, sendo que a jovem guardaseria a representação mais próxima do campo de produção da indústria cultural, e Dupratdo campo de produção erudita. Percebe-se também que um campo não é homogêneo e apático. Dentro destemesmo campo há conflitos entre os pares. O campo de produção erudita é um campodifícil e complexo de trocas. O fato dos artistas produzirem não apenas para um público,mas para um público de pares, que são também seus concorrentes torna a entrada e amanutenção dentro deste grupo extremamente difícil. Cria-se, portanto, uma relação dedependência muito forte: “...poucos agentes sociais dependem tanto, no que são e no quefazem, da imagem que têm de si próprios e da imagem que os outros e, em particular, osoutros escritores e artistas, têm deles e do que eles fazem” (BOURDIEU, 2001a, p.108). 349
  • 349. Além de manifestar a ruptura com as demandas externas e a vontade de excluir os artistas suspeitos de se curvarem a tais demandas, a afirmação do primado da forma sobre a função, do modo de representação sobre o objeto da representação, constitui, na verdade, a expressão mais específica da reivindicação de autonomia do campo e de sua pretensão a deter e a impor os princípios de uma legitimidade propriamente cultural tanto no âmbito da produção como na recepção da obra de arte (BOURDIEU, 2001a, p.110). Podemos fazer uma comparação desta afirmativa sobre o campo de produçãodos artistas do final do século XIX, na Europa, com o contexto brasileiro da década de60. Isso porque se verifica a mesma questão de busca por autonomia do campo. Osartistas tropicalistas surgem no cenário, entre outras características, como sendo aquelegrupo que prima justamente pela forma em detrimento do conteúdo. Já vimos nasanálises anteriores que a questão do “objeto representado” nos trabalhos tropicalistas,na verdade, nem era tão diferente daquele representado pelas alas mais nacionalistas eideológicas da música brasileira. A questão é que a forma de criticar a realidade política ecultural brasileira era diferente. É neste sentido, e também através do uso de elementosestéticos diferenciados, de temas inéditos, da mistura de estilos, que o tropicalismodeixava mais à mostra a preocupação com forma da música do que com o que a músicase referia. Podemos, portanto, afirmar que o tropicalismo representou este momento dereivindicação de autonomia do campo de produção. Não é à toa que um dos grupos quemais apoiou o tropicalismo foi o dos artistas concretos, que basicamente primavam pelaforma em detrimento do conteúdo. 350
  • 350. Além disso, podemos concluir que a autonomia do campo de produção erudita vaise minimizando a partir do momento que se deixa atingir pelos princípios externos. É oque acontece no Brasil depois da década de 60, com desenvolvimento cada vez mais fortede uma indústria cultural que, nos países desenvolvidos já tinha ocorrido nas décadasanteriores. É neste sentido que podemos comparar o contexto do final do século XIX, naEuropa, e nos anos 60 no Brasil. Com o desenvolvimento da indústria fonográfica e doalcance dos meios de comunicação de massa, os trabalhos do grupo baiano foram cadavez mais se adequando aos princípios desta indústria, esvaziando, assim, o conteúdoestético revolucionário do movimento. Além, é claro da situação política do Brasil. Aexplosão tropicalista praticamente durou apenas 2 anos: do III Festival de Música Brasileirada Record, em 1967, até o AI-5, em 1968, a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil e depoiso exílio dos dois músicos em 1969. Com o passar do tempo e a chegada da liberdade de expressão total ao esperada, alguns desses autores deixaram a vida artística, e aqueles que permaneceram na ativa e com sucesso contínuo foram dedicando-se mais a carreiras individuais. Toda aquela preocupação com a problemática nacional e com a movimentação da cultura musical no país desaparece, dando lugar a carreiras do tipo pop star, repletas de glamour e tietagem (MEDAGLIA, disponível em http://tomze.com.br – acesso em 22/04/2009). Percebe-se, portanto, que o campo de produção erudita dentro da música popularbrasileira vai perdendo aos poucos sua autonomia, deixando cada vez mais se atingir porprincípios externos, sendo cada vez mais absorvido pelo campo de produção da indústria 351
  • 351. cultural. Essa é a nossa hipótese para o declínio cada vez maior da aparição de Tom Zé namídia impressa especializada. Isso porque, dentre os integrantes do tropicalismo, Tom Zéé o músico que continuou mais fiel aos preceitos criativos estéticos revolucionários doinício do movimento, sendo, portanto, cada vez mais membro de um campo artístico quese via em processo de esgotamento. O campo de produção erudita, que já é originalmentefechado por natureza se viu cada vez mais restrito, com seus membros, produtores, agentes,cada vez mais ligados à indústria cultural, um campo onde age a lei da concorrência para aconquista do maior mercado possível, diferentemente do campo erudito, que obedece àlei fundamental da concorrência pelo reconhecimento propriamente cultural concedidopelo grupo de pares. Podemos perceber como as características do trabalho do músico desviamdaquelas buscadas pelo campo de produção da indústria cultural, justamente por estaremvinculadas a uma tradição do campo de produção erudito, que produz para os pares deprodutores concorrentes que detêm um código específico de leitura e compreensão daobra. Não agradando à indústria e cada vez mais vinculado a um certo elitismo do campode produção erudita, Tom Zé vai deixando aos poucos, como vimos anteriormente, tantode fazer shows de grande visibilidade quanto de aparecer na grande mídia. Grava seuúltimo disco de forma experimental em 1984. Isso até 1990, quando o artista volta à cena 352
  • 352. novamente.Trocas simbólicas no ambiente globalizado Porém, podemos compreender essa relação não apenas como relação dedominação, dependência ou violência, mas a intensificação de um processo que teveinício a partir da segunda metade do século passado e que foi percebida, valorizada eutilizada pelo grupo tropicalista baiano: a globalização econômica e a mundialização dacultura. Segundo Ortiz, a construção da idéia de nação está intimamente ligada à idéia demodernidade e à Revolução Industrial. Até o desenvolvimento do capitalismo, tinha-se aidéia de Estado, de um Estado centralizador, mas a idéia de Estado-nação está vinculadaa uma unificação lingüística, escolar, comunicativa, ou seja, simbólica. A integração se dáatravés de dimensões políticas econômica e culturais, e não apenas com a violência física,a conquista e delimitação de território e a força de uma burocracia real. Se nação e modernidade estão intimamente ligados, pode-se considerar quenos países centrais, ou desenvolvidos, esse processo de deu primeiro e de forma maisindependente. É o caso dos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha etc. Nos paísesperiféricos já não se pode fazer essa correlação mediata mesmo porque o desenvolvimentocapitalista foi completamente diferente e posterior. É neste sentido que Ortiz fala que “no‘Terceiro Mundo’ a nação é uma utopia, uma busca situada no futuro (...) Por isso, nossos 353
  • 353. modernistas diziam: ‘para sermos modernos é preciso sermos nacionais’” (ORTIZ, 1999,p.143-144). E é por isso que a questão com o nacional e com a identidade brasileira sãopreocupações constantes das produções artísticas a partir década de 20. Daí analisamosa divisão que se deu na música popular brasileira dos anos 60 entre uma ala nacionalistae outra ligada à contracultura. Porém, com o passar da história, com o avanço do capitalismo, o aumento daprodução, a busca de novos mercados e a conseqüente globalização da economia, estemesmo capitalismo necessita de novas bases territoriais para se desenvolver e cria oque Ortiz denomina de “modernidade-mundo”. A unificação simbólica necessária para aconstituição das nações do período moderno amplia-se a nível global no contexto desta“modernidade-mundo”. A noção de “espaço” altera-se profundamente. A modernidade, noinício nacional, propicia a circulação dos indivíduos entre os espaços que antes estavamseparados, segmentados. Já a “modernidade-mundo” radicaliza este movimento dedesterritorialização, rompendo a unidade nacional. Podemos visualizar bem essa questãose compararmos as nações aos indivíduos. No momento da modernidade ligada à idéiade nacional, o camponês, que passa a ter direito à freqüentar a escola e a votar, estáocupando um espaço, um território, que antes não era seu. No contexto da modernidade-mundo temos a circulação cultural em escala global, e o uso de códigos e símbolos fora doseu espaço, do se território original, daí a idéia de desterritorialização. O tropicalismo foi um dos movimentos que percebeu essa mudança de contexto, 354
  • 354. nos anos 60. É por isso que a idéia de violência simbólica ou de dependência cultural narelação entre um país periférico e um central, a partir do caso do músico Tom Zé, nãoexplicita totalmente a questão. Na verdade, o que ocorre é uma relação circular ou, naverdade, um desenvolvimento de um processo que se inicia naquele período de surgimentodo movimento tropicalista. Já vimos que os músicos se valeram de elementos culturaisdos países desenvolvidos, como a arte pop e a música erudita contemporânea, em suasobras realizando fusões que, além de serem inovadoras esteticamente, posicionavam oBrasil diante de sua realidade história local e mundial. Naquele período, o Brasil vivia o contexto de uma modernidade centrada naconstituição de uma nação, daí a incompreensão de uma parcela do público e da crítica comrelação ao tropicalismo. Porém, 30 anos depois, com o desenvolvimento do capitalismoe a emersão de uma “modernidade-mundo”, o trabalho tropicalista se torna atual. Tom Zéfoi o mais radical do movimento, ou o mais tropicalista dentre os tropicalistas, seguindo nalinha de experimentação iniciada no fim dos anos 60. Com a intensificação da circulaçãodos bens simbólicos, sua música acaba realizando o caminho inverso, indo fazer sucessoem outro território e acaba influenciando artistas de países como os Estados Unidos. É neste sentido que Ortiz rejeita a visão de crise das culturas nacionais a partir deuma ameaça externa, mas compreende o atual estado de coisas como o desenvolvimentode um processo histórico específico: A globalização das sociedades e a mundialização da cultura fazem parte 355
  • 355. de um processo que atravessa as sociedades nacionais. Ela corresponde portanto á formação de um outro tipo de singularidade social (a “sociedade global”). A crise da sociedade nacional não decorre, pois, de uma “falha” no processo de sua construção (por exemplo a ganância das oligarquias latino- americanas ou o desvirtuamento de elites norte-americanas que buscariam no mercado mundial o sentido de suas ações). Ela é intrínseca ao modo como a modernidade- mundo se desenvolveu (ORTIZ, 1999, p.146). Fazendo, novamente, a transposição do local para o global, podemos perceber queassim como ao longo do processo de formação da nação brasileira foram-se quebrandoas rígidas divisões entre o popular e o erudito, assim também, no atual momento dodesenvolvimento do período moderno, com a mundialização da cultura, fundem-se asbarreiras culturais entre as nações hegemônicas e as da periferia. Essas fusões são outra característica deste contexto. É o que o antropólogoargentino Néstor García Canclini chama de “culturas híbridas”. Segundo ele, há uma visãomaniqueísta nos processos constitutivos da modernidade, que iguala o moderno ao cultoe ao hegemônico e os opõe, respectivamente, ao tradicional, ao popular e ao subalterno. Os modernizadores extraem dessa oposição a moral de que seu interesse pelos avanços, pelas promessas da história, justifica sua posição hegemônica, enquanto o atraso das classes populares as condena à subalternidade. Se a cultura popular se moderniza, como de fato ocorre, isso é para os grupos hegemônicos uma confirmação de seu tradicionalismo não tem saída; para os defensores das causas populares torna-se outra evidência da forma como a dominação os impede de ser eles mesmos (CANCLINI, 2000, p.206). 356
  • 356. O que o desenvolvimento do sistema capitalista e a intensificação do processo demodernização e de mundialização da cultura provocam é justamente a quebra destesestamentos, destas coleções. Ao utilizar criativamente a música popular tradicionalnordestina, as cantigas de roda, com enceradeiras e música dodecafônica, Tom Zé seinsere neste novo tipo de consciência e de visão do universo dos bens simbólicos. Fazisso desde os anos 60, mas só consegue o real reconhecimento quando o contexto tornamais nítido essas características da pós-modernidade, ou do contexto da “modernidade-mundo” para usar o termo de Ortiz. Uma manchete de uma matéria sobre Tom Zé demonstra bem esse momento:“Tom Zé em fase world music” (O Estado de S. Paulo, 18/04/1991). O próprio termo worldmusic não consegue significar um estilo definido. É um termo norte-americano para quasetudo aquilo que é estranho à sua cultura. Há aí uma certa relação de menosprezo com asmanifestações culturais dos demais países, principalmente os periféricos em relação aosEstados Unidos, mas, ao mesmo tempo que iguala – ou até diminui – divulga, valoriza,consagra. A música de Tom Zé volta a ser ouvida a partir justamente de um processode hibridização cultural internacional que se relaciona com sua própria arte, tambémhíbrida, Tom Zé fala de tradução intersemiótica e explica a Tropicália na razão direta da existência da ponte aérea São Paulo-Rio: a visão do alto que permitiu enquadrar na mesma imagem a favela Ordem e Progresso e as mansões do Morumbi. E, conseqüentemente, usar esse imenso plano geral para unir Beatles e Vicente Celestino (O Estado de S. Paulo, 1991). 357
  • 357. A mundialização da cultura, iniciada com o processo de globalização da economia,intensifica essas trocas e o consequente hibridismo cultural que daí se forma. Isto nadamais é do que um processo iniciado na década de 60 e que os músicos tropicalistasperceberam e valorizaram. É como se o trabalho de Tom Zé estivesse, a partir do final dadécada de 90, num campo mais propício sociologicamente para ser apreciado justamenteporque é quase uma metáfora deste mesmo campo. Uma metáfora da própria capacidadehumana de se comunicar, de interagir, de trocar, de produzir cultura. A dominação econômica de países mais desenvolvidos e da própria indústriacultural – e a mídia está aí incluída – impõe regras que facilitam a exclusão de muitosartistas. Porém, não se deve esquecer que o contexto desta indústria e do mercado de benssimbólicos facilita interações importantes no âmbito do desenvolvimento cultural dosindivíduos, das comunidades e dos países. Um jogo de forças que não é mais tão explícitocomo antes, e que expõe brechas tanto para as resignificações de produtos estrangeirosquanto para a valorização do próprio território simbólico de origem do produtor.Bibliografia ConsultadaBOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Oeiras: Celta, 2001. 358
  • 358. CANCLINI, Nestor García. Culturas Híbridas. São Paulo: Edusp: 2000.MEDAGLIA, Júlio. Caminhos da Tropicália, Disponível em: http://www.tomze.com.br/art81.htm. Acesso em: 22/ 04/2009.ORTIZ, Renato. Um outro território – ensaios sobre a mundialização. São Paulo: OlhoD´Água, 1999.TOM ZÉ. Tropicalista lenta luta. São Paulo: Publifolha, 2003.DEL RIOS, Jéferson. Tom Zé e Chico vencem o Festival. Folha de S. Paulo, 10/12/1968.JOE, Jimie. Tom Zé em fase world music. O Estado de S. Paulo, 18/04/1991. 359
  • 359. The Beatles Setting the Agenda: Considerações Sobre a Cobertura Jornalística da Beatlemania na Inglaterra1 Bruna do Amaral PAULIN2A Hipótese de Agenda-Setting Surgida como resultado de pesquisas durante os anos 1970, a hipótese de agendasetting é a representação de uma insatisfação em relação às teorias de comunicaçãomais utilizadas em estudos da época. Com o problema de serem sistemas fechados eexcludentes, as teorias criadas e utilizadas entre as décadas de 1920 e 1960 prejudicavamos resultados finais, já que não conseguiam englobar todos os pontos de vista dasamostras escolhidas. Formulada inicialmente pelos norte-americanos Maxwell E. McCombs e DonaldL. Shaw, a hipótese de agenda setting, nasce parte integrante do que, segundo AntonioHohlfeldt, “hoje se costuma denominar de communication research” (2001, p. 188), (...) através de diferentes pesquisadores que, não apenas se propunham a atuar em equipe, quanto buscavam o cruzamento das diferentes teorias e, muito especialmente, de múltiplas disciplinas, a fim de compreender o mais amplamente possível a abrangência do processo comunicacional (HOHLFELDT, 2001, p.188)1 Texto-base originalmente apresentado no Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC).2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS. 360
  • 360. O que podemos chamar de “vantagem” da hipótese de agenda setting, em relaçãoa estudos anteriores, é que, diferente de uma teoria, um paradigma hermético, a hipóteseé um processo aberto, imune a erros, exatamente o oposto de uma teoria: Assim, a uma hipótese não se pode jamais agregar um adjetivo que caracterize uma falha: uma hipótese é sempre uma experiência, um caminho a ser comprovado e que, se eventualmente não der certo naquela situação específica, não invalida necessariamente a perspectiva teórica. Pelo contrário, levanta, automaticamente, o pressuposto alternativo de que uma outra variante, não presumida, cruzou pela hipótese empírica, fazendo com que, na experiência concretizada, ela não se confirmasse (HOHLFELDT, 2001, p. 189). O agendamento trata da influência dos meios de comunicação em pautar asconversas de seus leitores e espectadores, através de um fluxo contínuo de informação,com efeitos a longo prazo. Felipe Pena afirma: “a mídia nos diz sobre o que falar e pautanossos relacionamentos, sendo a principal ligação entre os acontecimentos do mundo eas imagens desses acontecimentos em nossa mente” (2005, p. 142).Porém, o autor defende que manipulação não é a palavra correta para o procedimentoque ocorre nessa hipótese: A hipótese do agenda setting não defende que a imprensa pretende persuadir. A influência da mídia nas conversas dos cidadãos advém da dinâmica organizacional das empresas de comunicação, com sua cultura própria e critérios de noticiabilidade [...]. Nas palavras de Shaw, citado por Wolf, “as pessoas têm tendência para incluir ou excluir de seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo”. É 361
  • 361. disso que trata o agendamento (PENA, 2005, p. 144). O objetivo maior dessa hipótese é verificar como, após longos períodos e umbombardeio diário das mais variadas informações, os veículos conseguem influenciarpensamentos e conversas de seu público, “embora não sejam capazes de impor o quêpensar em relação a um determinado tema, como desejava a teoria hipodérmica”3. Semperceber, o público inclui a pauta agendada pela mídia em suas preocupações, fato queprovavelmente não aconteceria espontaneamente, dependendo do assunto em si. Eassim, “a agenda da mídia de fato passa a se constituir também na agenda individual emesmo na agenda social” (HOHLFELDT, 2001, p. 191). McCombs afirma que esses eventos incluídos na agenda pública são absorvidosgraças ao provável engrandecimento que a notícia dá ao fato, construindo umpseudoambiente, onde essas notícias são expostas ao público. Essa não é a realidaderetratada, mas sim, uma versão construída pela imprensa e veiculada aos seus leitores/espectadores. As notícias diárias nos alertam sobre os mais recentes eventos e mudanças em um ambiente maior além de nossa experiência imediata. Porém jornais e noticiários de televisão, até mesmo as páginas de um tablóide editado3 A teoria hipodérmica, também conhecida como teoria da bala mágica, surge na década de 1920 defendendoo poder absoluto da mídia sobre o público receptor, onde as mensagens quando enviadas atingiam a todosde maneira igual, com a mesma força de influência. O receptor era “concebido como vítima indefesa de toda equalquer mensagem emitida por alguma fonte. Esta teoria considerava o conceito de massa informe e indefesa,oriunda sobretudo das experiências da 1ª Grande Guerra e dos sistemas políticos autoritários então vigentes”(HOHLFELDT, 2005, p.222). 362
  • 362. rigorosamente ou um site da internet, fazem muito mais do que assimilar a existência de grandes acontecimentos e questões (MCCOMBS, 2004, p. 1, tradução nossa) . Esse pseudo-ambiente é construído pela mídia através do Enquadramento –Framing de acordo com McCombs, um processo de raízes sociológicas e psicológicas.Dietram Scheufele e David Tewsbury definem o termo da seguinte maneira: [Visto] como uma macroconstrução, o termo framing refere-se aos modos de apresentação que os jornalistas e outros comunicadores usam para apresentar a informação de uma maneira que remetesse à já existentes esquemas subjacentes entre sua audiência (Shoemaker & Reese, 1996). [...] De fato, enquadrar, para eles é uma ferramenta necessária para reduzir a complexidade de um tema, dadas as limitações de seus respectivos suportes relacionados com a notícia (Gans, 1979). O framing, em outras palavras, torna- se uma ferramenta inestimável para a veiculação de questões relativamente complexas, como a investigação sobre células estaminais, de maneira eficiente e em esquemas cognitivos. Como uma microconstrução, descreve a forma como as pessoas utilizam a elaboração e apresentação de características que dizem respeito a questões que formam impressões (SCHEUFELE; TEWSBURY, 2007, p. 12)64.4 As a macroconstruct, the term “framing” refers to modes of presentation that journalists and other communica-tors use to present information in a way that resonates with existing underlying schemas among their audience(Shoemaker & Reese, 1996)”. […] In fact, framing, for them, is a necessary tool to reduce the complexity of anissue, given the constraints of their respective media related to news holes and airtime (Gans, 1979). Frames,in other words, become invaluable tools for presenting relatively complex issues, such as stem cell research,efficiently and in cognitive schemas. As a microconstruct, framing describes how people use information andpresentation features regarding issues as they form impressions. 363
  • 363. O enquadramento apresenta-se como uma ferramenta essencial na construçãodeimagens e personagens através da imprensa. É a partir da moldura do jornalistaque se constrói uma história que o público absorverá e construirá para si a imagemdos personagens citados. Os diferentes focos apresentados e publicados nunca sãocompletos e nem conseguem englobar todos os aspectos de uma pessoa; porém, nãodeve ser encarado como um procedimento negativo ou positivo, mas sim, como parcial eespecífico, tendo diferentes funções, de acordo com o contexto do universo apresentadopela reportagem. McCombs ressalta que a repetição e o destaque (ou saliência) dados à informaçãosão uma poderosa receita para transformar a ênfase dos meios de comunicação de massaem questões importantes para as audiências. De acordo com o autor, “a calibração de tempoenvolvido na questão da transferência de saliência de agenda dos meios de comunicaçãopara a agenda do público em geral dura o intervalo de quatro a oito semanas” (MCCOMBS,2004, p. 44). A saliência está relacionada diretamente com os seguintes fatores: tempo derepetição, duração ou tamanho da matéria e destaque entre as outras notícias. O ponto mais importante no agendamento seria, então, como o receptor absorve eassimila as mensagens que recebe. Hohlfeldt afirma que“consciente ou inconscientemente,guardamos de maneira imperceptível em nossa memória uma série de informações deque, repentinamente, lançamos mão” (2005, p. 190). Já Pena destaca que “o que vale é o significado daquilo a que as pessoas estão 364
  • 364. expostas e, também, o impacto acumulativo dessa exposição, cuja freqüência continuadae cotidiana influencia na cognição”, e que essa ação da mídia de espalhar visões deacontecimentos é a responsável por transformar a realidade que “forma a cultura e agesobre ela” (2005, p. 45). Tversky e Kahneman relatam como essa influência se concretiza na audiência: [A agenda–setting] é baseada em uma memória formada por um repertório de modelos de processamento de informações. Esses modelos presumem que as pessoas constroem suas atitudes baseadas nas considerações mais salientes (ou seja, mais acessível) quando elas tomam decisões (Hastie & Park, 1986). Em outras palavras, julgamentos e definições de atitudes são diretamente correlacionadas com “a facilidade em instâncias ou associações que podem ser trazidas à mente” (TVERSKY; KAHNEMAN apud SCHEUFEKE; TEWSBURY 2007, p. 11)75. O que poderia ser encarado como uma influência negativa, por algumas visões,pode ser uma excelente maneira de interação social. Não somente durante eleições, porexemplo, os eleitores, através desse estímulo dos veículos, acabam por buscar mais dadossobre os candidatos e suas propostas, auxiliando na definição do voto e conseqüentementeinfluenciando o resultado da votação, como o agendamento pode possibilitar umamaior integração social, gerando discussões nos pequenos núcleos comunitários, como5 Based on memory-based models of information processing. These models assume that people form attitudesbased on the considerations that are most salient (i.e., most accessible) when they make decisions (Hastie&Park,1986). In other words, judgments and attitude formation are directly correlated with “the ease in which instancesor associations could be brought to mind” (Tversky & Kahneman, 1973, p. 208). 365
  • 365. familiares, vizinhos, entre colegas de trabalho, ampliando o efeito da influência para umpositivo resultado de aproximação dos indivíduos. Cada mídia desenvolve um tipo diferenciado de influência, graças às especificidades que apresenta, mas o que fica bastante claro é que, graças a este envolvimento da mídia, e seu posterior agendamento, amplia-se também a comunicação fora do circuito estrito da mídia, isto é, as pessoas aumentam, no conjunto de suas relações sociais, as mais variadas, do círculo familiar aos amigos do clube ou aos companheiros de trabalho ou escola, a troca de opiniões e informações, dinamizando o processo informacional comunicacional (HOHLFELDT, 2001, p. 199-200). O que se pode detectar é que, diferentemente da teoria hipodérmica, a hipótesede agendamento não coloca a mídia como vilã manipuladora, mas revela a integração e ainteração de diferentes áreas, que alimentam e são alimentadas, influenciam e absorvemconceitos distribuídos, tendo mais resultados positivos nessas trocas. Teoricamente,segundo o autor, conclui-se, assim, que a influência do agendamento por parte da mídia depende, efetivamente, do grau de exposição a que o receptor esteja exposto, mas, mais que isso, do tipo de mídia, do grau de relevância e interesse que este receptor venha a emprestar ao tema, a saliência que ele lhe reconhecer, sua necessidade de orientação ou sua falta de informação, ou ainda, seu grau de incerteza, além dos diferentes níveis de comunicação interpessoal que desenvolver (HOHLFELDT, 2005, p.200). 366
  • 366. O Surgimento da Beatlemania “Os Beatles foram os primeiros a fazer com que os jovens ingleses se sentissemconfiantes” (STARK, 2005, p. 138), declarou Richard Lester, cineasta que dirigiu A Hard day’snight e Help!. A mudança social no país era latente, já estava acontecendo gradativamentedesde os anos 1950, mas foi durante os primeiros anos da década de 1960 que astransformações alcançaram maior impacto. Diversos fatores foram influência dessarevolução, e um dos acontecimentos mais marcantes foi o aumento de quase 10 milhõesde discos vendidos em um ano, graças ao grupo de Liverpool. Os Beatles tornaram-se os primeiros representantes de nova geração que emergia na Inglaterra, que agora, oficialmente, era intocável pela guerra, diferente de seus ancestrais. “Nós finalmente tínhamos uma geração de homens que não seriam mortos”, disse Virginia Ironside, que tornou-se uma colunista de Londres. (STARK, 2005, p. 139 – tradução nossa).86 A banda não era a principal responsável por essas mudanças no país, mas seusintegrantes estavam disponíveis e pareciam ser os melhores personagens para darem voza esses acontecimentos. Depois do lançamento do primeiro LP, a mudança para a capital era imprescindível,já que os estúdios de gravação, emissoras de TV e rádio, grandes clubs, teatros, as novidades,uma revolução social, tudo acontecia em Londres. Era a capital que concentrava os meios6 The Beatles would become the first representatives of a fresh new generation to emerge in a Britan that now,officially, would be untouched by war, unlike its predecessors. “We finally had a generation of men who wouldn’tbe killed”, said Virginia Ironside, who became a young London columnist. 367
  • 367. de comunicação mais representativos e de maior alcance de audiência do país, veículosesses que, por sua abrangência e relevância, pautavam ingleses de todas as regiões eníveis sociais e veículos de menor audiência ou de distribuição regional, afirmação quepode ser reforçada através das idéias de McCombs (2004), que destaca que veículos demaior cobertura, como os jornais The New York Times, nos Estados Unidos ou The Times,na Inglaterra, influenciam com extrema eficiência não só seus leitores, como jornais demenor porte e programas de televisão e rádio. Durante o ano de 1963, foram quatro turnês pela Grã-Bretanha e fora do país,apresentações na Suécia e Irlanda. Essas turnês ocorriam com diversas bandas, queacompanhavam a apresentação de um artista já consolidado. Os Beatles, por exemplo,começaram uma dessas viagens para se apresentar com a troupe que seguia Roy Orbinson,mas a estrela do show mudou no meio da excursão, e a quantidade de meninas histéricasgritando pelos Beatles cresceu enormemente. A devoção crescente dos fãs foi um fenômeno popular. Sem um considerável estímulo da mídia inglesa, no entanto, poderia ter tomado uma forma muito diferente. “Nas suas características, coletivas e individuais, os Beatles eram perfeitos ‘McLuhanistas”, escreveu Ian MacDonald. Isso significa, em parte, que eles tinham a distinta vantagem de serem os favoritos dos três meios de comunicação que dominavam a nação (STARK, 2005, p. 143 – tradução nossa)7.7 The growing devotion of the fans was a grassroots phenomenon. Without a considerable boost from England’smedia, however, it might well have taken a very different form. “In their characters, collective and individual, theBeatles were perfect McLuhanites”, wrote Ian MacDonald. That mean, in part, that they had the distinct advan-tage on being favorites of all three major media then dominating their nation. 368
  • 368. A declaração de Stark reforça a explicação de Tamir Sheafer de como um tema setorna agenda de extrema importância para o público: Os meios de comunicação influenciam a opinião pública enfatizando determinadas questões e abrindo mão de outras. O montante da atenção ou saliência despendida por todos os veículos a determinados temas aumentam a sua acessibilidade e, conseqüentemente, influenciam o grau de preocupação pública em relação a estas questões (DEARING; ROGERS; MCCOMBS et MCCOMBS; SHAW apud SHEAFER, 2007, p. 22 – tradução nossa)8. Goldsmith (2004, p. 85-86) retrata o início da Beatlemania da seguinte maneira:“repentinamente, eles estavam em todos os lugares – nas ondas de rádio, nos jornais,revistas, e ainda muito na estrada, tocando para jovens platéias que, mais e maisdemonstravam por que a palavra fã deriva de fanático”9. Além disso, as meninas tornaram-se cada vez mais audaciosas: não mediamesforços para encontrá-los, inventando planos que as fizessem entrar no quarto de hotelcom sucesso e passar uma noite com os rapazes, por exemplo. Além de criativas, eramextremamente persistentes, como declarou George Harrison a Goldsmith: “Você pode8 […] the media influence public opinion by emphasizing certain issues over others. The amountof media attention, or the media salience, devoted to certain issues increases their accessibility andconsequently influences the degree of public concern for theses issues.9 Suddenly they seemed to be everywhere – on the airwaves, in the newspapers and magazines,and still very much on the road, performing for young audiences who, more and more, demon-strated just why the word fan derives from fanatic. 369
  • 369. colocá-las para fora do quarto, escorraçá-las, e mais tarde elas voltam”. O risco de serempresas, a chance de se machucarem, nada era empecilho para elas. Um dos argumentos para esse desejo explosivo e desesperador das fãs estárelacionado à mensagem trazida aos admiradores pelas canções. As palavras proferidaspelos Beatles representavam, de acordo com Goldsmith, o que todos os que faziam parteda Sensitive New Age Guy10 queriam dizer: A canção [She Loves You] é tão evocativa na essência do que podemos chamar de primeiros momentos da Beatlemania que os Beatles usaram mais de uma vez essa proposta em canções feitas em seguida. É um sincero conselho de um homem para outro, enquanto ele tenta arrumar o que pode se tornar o fim de um relacionamento entre o amigo e a namorada do amigo. O primeiro homem reconhece o medo, a culpa, e o irredutível orgulho que causou o desentendimento, mas traz boas notícias: apesar de tudo, ela ama você, e (conseqüentemente, você é um babaca estúpido) você sabe que deve ser muito orgulhoso disso. Então, deixe de ser um babaca e faça acontecer! (GOLDSMITH, 2004, p. 92 – tradução nossa)11. O posicionamento de um jovem rapaz, no início dos anos 1960, como um homem10 “Era do cara sensível”, que assume seus sentimentos, sofre por amor, um perfil completamente diferente docaminhoneiro machão de Elvis, por exemplo. Obviamente essa nova postura masculina enlouqueceu as garo-tas.11 [...] The song [She Loves You] that so evokes the essence of early Beatlemania that the Beatles twice quoted itin later songs. Its a sincere piece of advice from one man to another as he tries to patch up what could becomea relationship-ending quarrel between his friend and the friends girlfriend. The first man acknowledges the fear,the guilt, and the stubborn pride that the rift has wrought but brings good news: despite everything, she lovesyou, and (by implication, you stupid jerk), you know you should be very glad about that. So stop being a jerkand make up! 370
  • 370. sensível, que chora por amor e que sabe que, para ser feliz, deve deixar o orgulho delado é uma raridade, inclusive se pensarmos que uma das grandes influências do grupoé Elvis Presley, o eterno machão, bruto, rebelde, do tipo que tem várias mulheres, nuncasofreu por amor e que a única mulher que assume amar é sua mãe. A postura de queaceitar os sentimentos é uma atitude essencial, é uma afirmação concreta da banda,que crê na insubstituível importância do amor (GOLDSCHIMTH, 2004). Essa delicadeza ehonestidade de sentimentos, tão mais próximas de um perfil feminino, certamente podeser considerada um fator de grande influência da Beatlemania. No dia 23 de agosto, data de lançamento do single She Loves You, mais de 500 milcópias já haviam sido pré-vendidas. Esse compacto foi disco de ouro, o que significa queum milhão de cópias foram vendidas no dia 11 de outubro. She Loves you, em poucassemanas, tornou-se o single mais comercializado de toda história da Inglaterra. Um dia definitivo para o surgimento do fenômeno foi 13 de outubro, quando oconjunto alcançou outro patamar de reconhecimento: apresentou-se no programa SundayNight at London Palladium, transmitido em cadeia nacional aos domingos. Segundo BobSpitz , biógrafo do grupo, “era quase como uma instituição: praticamente cada aparelhodo país era sintonizado a todas as noites de domingo no palco das estrelas inglesas e dasvisitas americanas [...] Todas as grandes estrelas eventualmente acabavam aparecendo noprograma” (2005, p. 426). Novamente, encontramos a questão de que veículos influentes, com grandes 371
  • 371. índices de audiência e reconhecimento de sua credibilidade, pautam a agenda pública comextrema força e facilidade e são exemplo e fonte para outros veículos. Ainda analisando acitação de Spitz, podemos salientar mais uma característica de agendamento, a da forçade assuntos relacionados a entretenimento, como explica McCombs: A mídia de entretenimento pauta os veículos diários. Uma extensa análise de artigos sobre o Holocausto nos principais jornais canadenses durante quinze anos, de 1982 a 1996, constatou que o filme A lista de Schindler tinha uma influência – sobre o número de artigos e a duração do impacto ao longo do tempo – mais poderosa do que as notícias relacionadas ao Holocausto durante esses anos (MCCOMBS, 2004, p. 117 – tradução nossa)12. O show não teve nada de espetacular, mas ver seus nomes no letreiro do Palladiume assistir à confusão do lado de fora do teatro, isso sim, foi marcante. O movimento naentrada do prédio era muito maior do que atrasados tentando adquirir ingressos e curiososna esperança de enxergar o grupo entrando ou na saída do show: era uma multidão, queinterrompeu a rua de acesso ao prédio e as ruas próximas a ele, e a quantidade de policiaisnão era o suficiente para conter a multidão. Spitz narra a tentativa de fuga do grupo apósa passagem de som, ao final da tarde, algumas horas antes do início do programa: Neil [Aspinall] veio com um Austin Princess pela Argyll Street e esperava pelos12 Entertainment media set the agenda of the newsmedia. Extensive examination of articles about the Holo-caust in major Canadian newspapers over a fifteen-year period, 1982 to 1996, found that the film Schindlers listhad an influence - on the number of articles and the duration of the impact over time - that was more powerfulthan a number of Holocaust-related news events during those years. 372
  • 372. Beatles na esquina. Havia passado poucos minutos da cinco da tarde. A rua estava vazia, e pelo andar das coisas, eles estavam com uma boa chance de fugir discretamente. Havia muito espaço para passagem até a entrada do carro, ninguém à vista. “O que nós não estávamos contando”, disse Barrow [Tony Barrow, assistente de Brian Epstein], “é que haviam garotos de olho no carro”. No exato momento em que os Beatles saíram pelas portas principais do teatro, fãs – “hordas de garotos” – convergiam de todos os lados e “tudo aconteceu de uma vez”. Uma incrível multidão veio, e não qualquer multidão, mas um estrondo ensurdecedor de exultação, misturado com surpresa, êxtase, temor e com desenfreio. Era um pandemônio na calçada. Empurrando estava a massa se movendo em bloco, atrás do ágil e galopante quarteto. [...] A cena na rua pegou a imprensa de surpresa, mas em dez minutos todas as redações de Londres entraram em alerta, prontas para cobrir uma história que tinha vida própria (SPITZ, 2005, p. 427 – tradução nossa)13. No dia seguinte, a manchete do jornal Daily Herald de Londres era “Assédio dosBeatles”14 e duas matérias foram destaque: uma falava da confusão na rua, das garotas quegritavam e se jogavam contra a polícia, e outra que comentava o sucesso do show dentrodo teatro: “Pela Inglaterra, 15 milhões de pessoas, a maior platéia da banda até então,13 Neil pulled na Austin Princess around to Argyll Street and waited for the Beatles by the curb. It was a few mi-nutes after five o’clock. The street lay in dusky shadows, and from the look of things, they were in good shape tomake a clean getaway. There was a clear path to the entrance, no one in sight . “What we hadn’t counted on”, saysBarrow, “were the kids who’d been keeping their eyes on the car.” At exactly the moment the Beatles broke throu-gh the doors, fans – “hordes of kids” – converged from everywhere, and “it all happened at once.” An incredibleroar went up, and not merely any roar but an ear-splitting blast of exultation, mixed with surprise, rapture, awe,and abandon. It was pandemonium on the sidewalk. Pushing and shoving broke out as the crowd moved enmasse toward the agile, galloping quartet. The Beatles ran headlong through a gauntlet of grabby hands, divingfor cover through the hastily opened car doors, as security guards moved quickly to hold back the crowd.14 “Siege of the Beatles”. 373
  • 373. ligou-se para compartilhar amor” (GOLDSMITH, 2004, p. 95). Quem batizou esse fenômeno como conhecemos, logo depois dos acontecimentosdaquela noite, foi o jornal Daily Mirror, que, na capa, manchetou: “Beatlemania!” (2004, p.95). Na verdade, essa empolgação excessiva das fãs já fora assistida diversas vezes emLiverpool, algumas outras em Leeds, Blackpool ou Bournemouth, mas a quantidade depessoas daquela noite de outubro, e com aquela intensidade de desespero, ainda não.Outro fator que influiu para essa manifestação favorável da imprensa foi a apresentação dosrapazes, sua enorme audiência e o que sua performance provocou nos expectadores. O que Goldsmith (2004, p. 95) afirma, na verdade, é que o provincianismo dos editoresde jornais londrinos era tanto, que eles acreditavam que para um fato estar ocorrendo deverdade, ele tinha que acontecer em Londres. Logo, esse atraso do nascimento do fatopela imprensa londrina foi somente porque ela só abriu seus olhos e ouvidos naquelanoite, e o despertar que se deu através do público, fenômeno destacado por Hohlfeldt(2005), já que, em alguns casos, a opinião pública torna-se a fonte de agendamento dosveículos. Spitz entrevistou o repórter Don Short, “que cobriu todo o espectro do showbussiness da época para o Mirror”, que garante que os Beatles eram exatamente o tipo dehistória que a imprensa estava esperando: Até aquela época, eu rodava pelo Claridge’s ou pelo Savoy e entrevistava Sammy Davis Jr. em uma semana, Andy Williams na outra, mas os Beatles tinham todo o drama à sua volta – e eles eram sexy, era uma história muito 374
  • 374. sexy (SHORT apud SPITZ, 2005, p.428 – tradução nossa)15. Os jornais britânicos haviam descoberto o sexo como uma pauta naquelaprimavera de 1963, com o caso do secretário de Estado da Guerra, John Profumo, flagradotendo um caso extraconjugal com uma moça, chamada Christine Keeler. Na seqüência,a duquesa de Argyll fora pressionada pelo marido a pedir o divórcio. Esses dois casosforam responsáveis pelo aumento considerável na venda dos jornais naquela estação, e anecessidade de encontrar mais pautas sexies era urgente. Os Beatles vieram na hora certa:uma nova história, com drama, emoção, excitação e carregada de ousadia: era disso que aimprensa inglesa tanto necessitava e não encontrava. Um prato cheio para as publicações,uma divulgação gigantesca para o grupo e notícias e mais notícias para os fãs: tudo quepede um fenômeno. Podemos relacionar esses acontecimentos ao procedimento de Framing, já que abusca da imprensa inglesa era de enquadrar as histórias que publicava através da temáticasexy. A banda poderia ser divulgada através de matérias sobre suas composições, seupassado em Liverpool, sobre as influências artísticas e as prováveis influências provocadasem novas bandas que surgiam. Porém, o enfoque encontrado para noticiar o fenômenofoi o que provocava, de uma maneira quase animal, o público jovem (principalmentefeminino): a sexualidade. A opção da imprensa em focar a notícia por um aspecto específico15 Up until that time, I’d merely go around to Claridge’s or the Savoy and interview Sammy Davis Jr. one week,Andy Williams the next, but the Beatles had all the draam swirling around them – and they were sexy, a very sexystory. 375
  • 375. é uma das questões mais definitivas no agendamento de um tema. Outro fator de enorme influência para o aumento da popularização da bandafoi – dois dias depois da apresentação no Sunday Night – o convite da Rainha Mãe paraque o grupo tocasse no “Show de Variedades Real” (Royal Variety Performance), no mêsde novembro. Essa notícia fez com que não só a imprensa especializada em música eos tablóides dessem atenção ao grupo, mas que a imprensa de referência também osprocurasse. De acordo com Spitz, o fato “jogou a Beatlemania para fora das pequenassalas de cinema e colocasse no centro de um grande palco, com a benção da Rainha”(2005, p. 429). Os tão prestigiados jornalistas da imprensa séria, aqueles com que a equipede Brian tentara por meses a fio apenas uma conversa telefônica, eram os mais insistentesrepórteres nos dias seguintes ao convite da Rainha. Dessa maneira, tudo que os Beatles faziam virava notícia. Logo nenhum veículoperdia de publicar uma minúscula nota sobre qualquer fato relacionado a eles. A revistaMelody Maker chegou a criar uma coluna semanal chamada “This Week’s Beatlemania”,que catalogava todos os incidentes e fatos estranhos relacionados à banda, como osseguintes, encontrados na obra de Spitz: “Garotas desmaiam e se machucam. Polícia nãotem controle sobre as multidões. Fãs estão acampando na rua dias antes dos ingressos parao show serem postos à venda” (2005, p. 429). Spitz explica o que era de mais assustadordesse feito: Parecia não haver limite para as cenas selvagens. Os vandalismos durante 376
  • 376. os shows de Bill Haley sete anos antes eram basicamente trabalho dos teddy boys [denominação dada aos rockers nos EUA], que usavam a música como trilha sonora para suas intermináveis brigas. Mas os Beatles produziram o que aparentava ser um desmaio coletivo. Garotas de todas as classes foram niveladas pelos gritos, promessas de amor, soluços, puxões de cabelo e desmaios que acompanhavam cada show (SPITZ, 2005, p. 430 – tradução nossa)16. No dia 24 de outubro, o grupo fez uma viagem à Suécia, o que aliviou a demandada mídia e tranqüilizou temporariamente a histeria. Porém, na sua volta, no dia 31,milhares de fãs foram ao aeroporto receber o grupo aos berros e realimentar a loucuraem torno do conjunto. Por coincidência, a comoção foi assistida por um jornalista da TVnorte-americana, Ed Sullivan, que havia chegado à Inglaterra exatamente com o intuitode selecionar novos talentos. Abismado com o que estava acontecendo com o grupo, elelogo entrou em contato com Epstein, fazendo uma proposta de exclusividade nos EUA,onde o grupo só faria apresentações em seu programa na TV. Porém, os Beatles recusavam a idéia de visitar a América antes de ser sucesso lá.Já sabendo das experiências anteriores de outros artistas ingleses, que chegavam aosEstados Unidos para fracassar, voltando sem nada, aceitar exclusividade com Ed Sullivansem nem somente ter um compacto aceito pela gravadora para lançamento parecia aos16 There seemed no limit to wild scenes. The riots during Bill Haley concerts seven years earlier were basicallythe handiwork of teddy boys, who used the music as a soundtrack for their ongoing punch-ups. But the Beatleshad touched off what appered to be a mass swoon. Girls of all classes were caught up in the screaming, lovepledging, sobbing, hair pulling, and fainting that accompanied each show. 377
  • 377. Beatles um suicídio. Brian Epstein, segundo Spitz, “tinha um instinto – um bom instinto– para o tempo certo. Não somente ele sentiu que era o momento certo, ele soube – eleparecia saber instintivamente – como sincronizar os momentos” (2005, p. 431 – traduçãonossa)17. Enquanto a banda se apresentava na Suécia, ele fechou as negociações com aUnited Artists para um filme que a banda estrelasse. Com um filme distribuído e bemdivulgado por um grande estúdio cinematográfico, as chances de sucesso na excursãoamericana eram maiores. E para o filme, eles teriam de compor uma trilha sonora. O empresário do grupo tinha um arsenal para construir uma estrela: o contrato parao filme, propostas de merchandising, um potencial agendamento de apresentações naTV diretamente com Ed Sullivan, um extraordinário novo single, e o mais impressionantepacote de clipagem. Epstein embarcou para Nova York com todas as suas armas e algunstelefones importantes.Considerações É possível encontrar diversas características e acontecimentos que enquadram ofenômeno Beatlemania como um caso de agendamento. Desde o fato de ser um episódiorelacionado à área do entretenimento, como afirma McCombs (2004), tem uma enormeinfluência a longo prazo nas pautas relacionadas; ou informações curiosas e grandiosas,como o número de pessoas presentes em um show, o volume de audiência ou até mesmo17 […] had an instinct – a good instinct – for timing. Not only did he feel the moment was right, he knew – heseemed to know instinctively – how to synchronize it. 378
  • 378. a quantidade de discos vendidos pelo grupo podem representar fatores definidores de agenda-setting. A ferramenta utilizada pela imprensa para selecionar um ponto de vista, queenquadra e salienta um foco específico, o Framing, é detectado na cobertura dos jornais,rádios e televisões ingleses, que construíram suas reportagens baseadas na temáticasexual, tema que já havia pautado agendas anteriores tanto dos veículos quanto dopúblico com sucesso. Apesar das diversas facetas que um fenômeno como esse podeoferecer, foi escolhido o enfoque de maior impacto e repercussão, o aspecto sexual. Outro argumento que classifica a cobertura da Beatlemania na Inglaterra comoum caso de agendamento é a importância da apresentação do grupo no Sunday Night– programa de enorme audiência e credibilidade, produzido e sediado na capital dopaís e transmitido para todo território inglês – veículo forte que imediatamente pauta asagendas de seu público e de outros veículos. Porém, não é em todos os casos de agendamento que a fonte de influência surgedos veículos mais tradicionais e da produção jornalística carregada de credibilidade. Nocaso da Beatlemania, somente após o público tomar proporções de histeria extraordináriase o assunto entrar na pauta política – o grupo ser convidado para participar do Show deVariedades Real, com “a benção da Rainha” – é que grandes jornais e emissoras de televisãoe rádio inseriram o assunto em suas publicações e principalmente, jornais de referênciatambém começaram a considerar o tema uma pauta possível em suas páginas. 379
  • 379. A análise definitiva desse estudo de caso necessita de um maior aprofundamento dessa pesquisa, onde deve-se considerar um levantamento de dados, teorias eapreciações mais densas sobre o tema. Não se tem aqui, a intenção de realizar um estudoabsoluto, mas de lançar ao debate e instigar novas pesquisas no assunto.Bibliografia ConsultadaALSINA, Miguel Rodrigo. La construcción de la noticia. Barcelona : Paidós, 1989.FURASTÉ, Pedro Augusto. Normas Técnicas para o trabalho científico: elaboração eformatação. Porto Alegre, 2006.GOLDSMITH, Martin. The Beatles come to America. New Jersey: John Wiley and sons,2004.HOHLFELDT, Antonio & MARTINO, Luiz C. (Orgs). Teorias da comunicação:conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001.MCCOMBS, Maxwell. Setting the agenda – the mass media and public opinion.Cambridge: Polity Press, 2004.MILES, Barry. Paul McCartney: Many years from now. São Paulo: Dórea Books and Art,2000.PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005. 380
  • 380. SANDERCOMBE, W. Fraser. The Beatles: Press Reports 1961 – 1970. Ontario: Collector’sGuide Publishing Inc, 2007.SHEAFER, Tamir. How to evaluate it: the role of story-evaluative tone in agendasetting and priming. In Journal of Communication. Págs. 21 – 39. Volume 57, issue 1.March 2007.SCHEUFELE, Dietram A. & TEWSBURY, David. Framing, Agenda Setting and Priming: theevolution of three media effects models. In Journal of Communication. Págs. 09 – 20.Volume 57, issue 1. March 2007SPITZ, Bob. The Beatles: The Biography. New York: Little, Brown and Company, 2005.STARK, Steven D. Meet The Beatles. New York: Harper Collins, 2005.SOUSA, Jorge Pedro. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo. Volume 1: Porque as notícias são comosão. Chapecó: Argos, 2002a. 381
  • 381. Midiatização de imagens: entre circulação e circularidade1 Ana Paula da ROSAMidiatização : quando o campo ordena a sociedade A sociedade se modificou com o surgimento dos meios de comunicação, nãoapenas porque foi possível representar a realidade e aguardá-la em fotografias e textosimpressos, mas através dos meios a comunicação passou a ditar as regras da vida emsociedade, gerando uma nova forma de vida, não mais focada na experiência, mas sim navivência midiatizada. Desde que a Revolução Industrial ocorreu, muitas transformações sederam não apenas em termos de aparatos técnicos, mas em termos de comportamento,de acesso à informação e de organização, propriamente dita. Com a invenção da prensa deGutemberg, o surgimento da fotografia , do cinema, do rádio e da televisão, os aparelhos(ou seriam dispositivos?) tecnológicos passaram a ser adotados no cotidiano das pessoas,criando novas formas de relação, seja entre os homens e os aparelhos, entre os aparelhos eos aparelhos e entre o sentido gerado pelos aparelhos. Explicando melhor, com o adventodas “tecnologias” foi possível promover a comunicação “massiva” de modo que mudançasprofundas ocorreram na maneira de se relacionar com o mundo existente. Os aparelhospassaram a mostrar e revelar um mundo, nem sempre o mundo acessível pelos olhos. Seantes dos aparelhos tecnológicos era possível saber apenas daquilo que estava próximo,1 Trabalho originariamente apresentado ao Intercom Sul 2009, realizado na Furb, Blumenau (SC). 382
  • 382. com eles a informação alcançou ampla escala; se antes era possível discursar no praça,para um pequeno público, com os meios a discursividade migrou para um plano muitoamplo e mais complexo. Eliseo Veron (2001) argumenta que num primeiro momento os meios surgiram comfim “nobre”, ou seja, como meios a serviço da comunicação, como “funcionários” dela. “Unasociedad mediática es una sociedad donde los medios se instalan: se considera que estosrepresentan sus mil facetas, constituyen así una clase de espejo” (VERON, 2001, p.14). Umespelho que reflete a sociedade industrializada e que passa a depender destes “aparatostécnicos” para se comunicar. A sociedade passa a ser representada nos meios e mais queisso, pelos meios. Isto quer dizer que o surgimento dos meios de comunicação ou docampo dos media traz consigo uma crise representacional, uma vez que a representaçãosocial passa a ser feita pelos meios que, por sua natureza técnica, passam a tambémproduzir “leituras” deste ser ou objeto que representam. A velha discussão da fotografiade que é o aniquilamento do real versus a realidade fiel figurativizada. Neste sentido,Jacques Aumont (1997) defende que o real é “aniquilado no momento em que passa aser mediado”, pois o procedimento adotado para efetuar a fotografia modifica a forma depercepção daquele referente ou do acontecimento em si. Veron (2001, p.15) argumentaque os meios não apenas são dispositivos de reprodução de um real que copiam de formaaproximada, mas são, sim, dispositivos de produção de sentido. “ Una sociedad em vias demediatización es aquella donde el funcionamento de las instituciones, de las practicas, de 383
  • 383. los conflictos, de la cultura, comienza a estructurarse en relacion direta con la existencia delos medios”. Um exemplo disso são as próprias guerras, que mediatizadas, se transformamem guerras reais. Hitler usou da fotografia e da propaganda para difundir suas idéias epregar o medo, Bush recorreu aos meios e a censura para filtrar a realidade da guerra,sendo que a própria guerra muitas vezes não passa de uma fachada midiática construídapelas e para as lógicas da mídia. Desta forma convém explicitar que a sociedade mediatizada surge quando osmeios passam a ser não meramente uma forma de intermediação, de ligação entre ovivido (real) e o representado, mas, sim, quando os meios passam a se tornar um agentecomunicativo que gera e cria ações que repercutem na vida do cidadão, ocasionando decerta forma o que Ítalo Calvino (1998), em as “Seis propostas para o novo milênio”, temia,a substituição da experiência concreta pela experiência midiatizada. Sem apelar para asposições de Jean Baudrillard sobre a inexistência do real, é possível dizer que o mundoexiste fora da mídia, entretanto a realidade passa a ter uma única fonte que é a mídia, poissem a mediação os fatos propriamente ditos são esvaziados de sentido. Assim, a mídianão é mais uma transportadora, mas uma produtora de sentidos. Portanto, os dispositivos midiáticos seriam não apenas uma revolução técnica, masum suporte que propicia, gera e transmite sentidos, sentidos estes que fora dos meiostalvez não seriam possíveis. Conforme Fausto Neto (2006) a midiatização é uma açãointerna, crescente e generalizada, que constitui a formação da sociedade permeada por 384
  • 384. valores e protocolos focados na técnica. No entanto, a midiatização é algo maior do queinstrumentos e funções, ela é resultado da própria prática da comunicação, uma vez queos meios, na concepção de Fausto Neto (2006), passam a operar não apenas como meiosde representação da sociedade ou de campos sociais, mas a agir como “meios-pulsão”,onde se institui um novo tipo de real, um real que está ligado, diretamente, a produção desentido, uma produção que se dá não na sociedade, simplesmente, mas através de meios“sócio-técnicos”.Entre a midiatização e a sincronização: uma aproximação possível A midiatização atravessa todas as práticas sociais que se utilizam da mídia paraatingir seus públicos e objetivos, assim sendo a midiatização nada mais é do que a forçaorganizativa atribuída aos meios de comunicação que regulam e ordenam o que os demaiscampos sociais dizem e fazem. Harry Pross (1987), embora não se dedicasse ao estudo damidiatização, atribuí aos meios de comunicação a capacidade de sincronizar a vida e ostempos de vida. De certa forma é possível fazer uma aproximação do pensamento dePross com as definições de midiatização. Através do discurso midiático e dos dispositivosempregados pela mídia, este campo social acaba por representar os demais, legitimando-os e se auto-legitimando, propiciando a sincronização. Isto é, o que a mídia diz é verdade,é importante e merece ser visto, percebido, pensado. A mídia, desta forma, através dahabilidade comunicativa acaba por construir o próprio acontecimento atribuindo a ele 385
  • 385. sentido e valor social. Um exemplo disso é o que Antônio Fausto Neto (2006) apresenta no artigo“Dispositivos de telecura e contratos de salvação”. Ao abordar as estratégias midiáticasempregadas pelo campo religioso, Fausto Neto mostra a articulação direta do campomidiático com o religioso em torno dos dispositivos de operações discursivas que geramuma nova forma de fazer religião. Se no passado a religião era conhecida por mobilizarmultidões em torno de “messias”, “profetas da palavra Divina”, “pregadores”, hoje asmultidões são mobilizadas por meio da televisão o que cria uma nova forma de “fazer areligião”. Uma religião que “prega” a palavra de Deus, mas que reforça esta palavra atravésdos recursos disponíveis na midiatização, criando uma religião muito mais simbólica doque qualquer outra coisa. Hoje, no novo sistema midiático-religioso, o fiel não é aqueleque se ajoelha diante da cruz para orar, mas aquele que, ajoelhado, protagoniza umdepoimento em que demonstra o valor de sua fé. Em função do dispositivo midiático,os receptores se tornam atores, ainda que coadjuvantes, de um fazer da religião baseadona necessidade de exteriorizar esta fé, seja abraçando a pessoa ao lado, seja enviandoum e-mail ou se oferecendo para “agradecer”a Deus em uma missa-midiática-teatral. Essenovo “fazer religioso” afeta o campo religioso, mas também a legitimidade do processojunto aos demais campos sociais. É aí que a mídia, em especial o rádio e a televisão,se constitui em produtora de telecuras, estratégias que fomentam e permitem novasmaneiras de vínculos sociais e interações. 386
  • 386. Neste sentido, Adriano Duarte Rodrigues (1999) aponta para uma dependênciados dispositivos de mediação para a compreensão do mundo. De facto, a percepção que temos hoje do mundo tornou-se dependente de complexos e permanentes dispositivos de mediatização que marcam o ritmo da nossa vida cotidiana, sobrepondo-se cada vez mais não à nossa percepção imediata do mundo, mas também aos ritmos de funcionamento das instituições que formam os quadros da nossa experiência individual e coletiva. São cada vez mais os complexos dispositivos técnicos de mediação que ajustam a nossa percepção do mundo às suas capacidades de simulação. (DUARTE, 1999, p.1) A vida é, cada dia mais, demarcada pelas lógicas dos meios de comunicaçãoque são adotadas não apenas pela religião, mas pelos governos que determinam suasagendas através da mídia, pelas famílias que organizam seu calendário-tempo conformeos calendários seguido pelos meios. Até mesmo os movimentos sociais se valem dosprotocolos da mídia para que possam exibir seus protestos e, assim, ter direito a voz, emmeio ao emaranhado de vozes que não ganham relevo senão via a midiatização. Tudoisso demonstra o quanto a sociedade é depende dos meios para se organizar, gerandoo que Adriano Duarte Rodrigues chama de “autonomização” do campo dos media, ouseja, o campo dos media se tornando a forma de acesso, de visibilidade, e detentor deum poder delegado pelos demais campos. Em síntese, a sociedade midiatizada é aquelacaracterizada pelo fato de que suas práticas sociais precisam levar em conta a referência daexistência das lógicas mediáticas. É o campo dos media que organiza os acontecimentos, 387
  • 387. faz a gestão destes e regula ou determina a presença dos outros campos, bem como seusdiscursos. Um exemplo disso é o recente caso da morte da menina Isabella em São Paulo. Amidiatização do caso fez com que delegados, legistas, passassem a valer-se da mídia e desuas lógicas para apresentar argumentos, para ter acesso aos meios e, logo, para estimulare pautar o pensamento dos cidadãos e dos demais campos. A morte da menina fez comque a mídia se tornasse o próprio investigador da causa, ela se revestindo de um discursoque não é dela, mas que ao ser adotado gerou uma série de situações midiáticas comoum repórter sendo entrevistado enquanto “autoridade” e o “público” acompanhando naporta da delegacia o “circo midiático” da revelação de quem matou ou não. Em função damidiatização os discursos dos campos passam a se imbricar e se misturar já não sendomais possível identificar quem é aquele que fala.Circulação : espaço da construção do sentido O campo dos media atribui sentido à realidade e faz com que “bens” intangíveis eimateriais circulem, sendo que o que interessa aqui é exatamente as operações de sentidorealizadas. De que forma estes sentidos são percebidos pela sociedade? Há algo para alémdos sentidos dados? Para Antônio Fausto Neto (2006) o “mistério” para a comunicação estáexatamente na circulação, ou seja, nas condições em que as realidades são afetadas pelaslógicas dos meios. 388
  • 388. Os processos de produção de significação dão lugar a novos métodos de operações de sentidos, em função de lógicas de sentido pelas quais palavras abandonam suas pertenças a sistemas culturais de significação e ingressam nas lógicas de fluxos. Do ato significativo, ao acting out, ou ato indicial que beira o acting out. As lutas já não tem como meta velhas teologias morais, éticas, confessionais e políticas. São travadas visando o acesso à operacionalidade do código e não o exercício/aprendizado das gramáticas significacionais instituídas pelas racionalidades das instituições que definiam esquemas e modelos de pertença. (FAUSTO NETO, 2006, p.5) Deste modo o ator social já não é mais o intérprete, mas se constitui naquele quefaz as conexões com o campo dos media. Para Jairo Ferreira (2007) é na circulação que oprocesso de produção de sentido se efetiva. Partimos , num primeiro momento de aproximação desse foco, da análise da circulação centralizada no conceito de discurso (modelo de Veron sobre circulação). Em seu modelo há uma gramática de produção (representada por operações de produção) de discursos e uma gramática de reconhecimento (representada pelos processos de reconhecimento), sobre as quais novas gerações de produção discursiva são realizadas. O ciclo interminável forma a circulação. (FERREIRA, 2007, p.137) Isto quer dizer que a circulação se dá em dois momentos distintos: primeiro há umprocesso de produção do discurso propriamente dito e depois este discurso passa a serreconhecido e volta a gerar sentidos, produzindo novos discursos sobre esta produçãoanterior. Há, desta forma, uma constante relação entre as operações de produção e as 389
  • 389. operações de reconhecimento, ainda mais quando se pensa este reconhecimento se dandoa partir dos dispositivos midiáticos e de seus protocolos estabelecidos. O reconhecimentopassa, necessariamente, pela influência do próprio dispositivo que acrescenta sentidospara além dos já previstos. A comunicação, e em especial o jornalismo, implica sempreno movimento de trocas incessantes de materiais significantes, o que para Jairo Ferreira(2005) representa que a comunicação é “em sua gênese, circulação”. O campo dos mediarecebe informações, dados, sentidos que são redimensionados dentro do próprio campoe quando chegam até o “receptor-leitor-telespectador” já são revestidos de camadas desentidos atribuídos pelo campo, não mais pelos atores sociais primeiros de onde partiu ainformação. E por que se torna pertinente compreender este processo? Porque à primeiravista o que se recebe, em casa, é apenas o sentido gerado já em sua segunda instância, jána fase de reconhecimento, onde o que é apresentado é produto de uma leitura guiadapelo próprio dispositivo e meio de comunicação. No que tange às imagens fotográficasque chegam em capas de revistas ou jornais, todo o esforço feito para criar elementos,juntar situações e frases, faz com que aquele objeto seja revestido de sentidos a mais,os quais o receptor assumirá como verdadeiros, principalmente, quando se trata dojornalismo, visto que ainda paira no ar a máxima de que o jornalismo é a realidade, ourepresenta o real de forma objetiva. Ainda conforme Jairo Ferreira (2005), em função doprocesso de circulação, o discurso é objeto do discurso, em que as falas de agentes, instituições e 390
  • 390. campos sociais são reintegrados a outras, numa distribuição conforme as posições sociais (objetivas) dos interlocutores. Esse processo se expressa enquanto processo em que os materiais significantes são objetos interpretados e transformados, deslocando o lugar social de fala dos outros, através de diversos agentes do processo enunciativo que entrelaçam objetos (referentes) e imagens de outros agentes sociais (vinculados a instituições e campos sociais). (FERREIRA, 2005, p.7) A circulação a partir desta visada é, portanto, um processo em que o sentidocircula, muda, altera-se conforme a lógica dos meios, que ao sintetizarem fatos na formade imagens (objeto de estudo deste artigo) reinterpretam, gerando outras formas devínculos. Poderia se dizer que as imagens quando chegam nas redações possuem osentido atribuído por fotógrafos e jornalistas, mas que quando são midiatizadas passama receber influência dos dispositivos, das lógicas dos meios e recebem um novo sentido,este último o consumido pelo receptor final que ainda pode assumir o sentido dado,reconhecer-se nele ou produzir novos sentidos a partir de então. No entanto, cada vezmais os outros campos sociais que não o midiático já se valem das regras do trabalhojornalístico e passam a gerar processos de noticiabilidade. Vejamos como exemplo a capa da revista Veja de abril de 2008 que traz o jogadorde futebol Ronaldo, conhecido e popularizado como fenômeno, já esmaecido, em umfundo esbranquiçado com o título “A escolha de Ronaldo”, remetendo ao caso que setornou público de que o jogador teria se envolvido com três travestis na noite do Rio doJaneiro e que estes teriam extorquido dinheiro do jogador. O caso só se tornou público 391
  • 391. após a denúncia de um dos travestis à Polícia e quando este chantageou Ronaldo coma exibição do ocorrido em meios de comunicação. Sem entrar na questão em si, a capatraz ainda a linha de apoio “O Fenômeno podia ser um Pelé, mas de escândalo em escândalosua imagem se desfaz como a de Maradona”. A fotografia escolhida não é especial, nãofaz alusão ao caso em debate, mas ao relacionar a imagem se esvaindo da capa como ofamoso jogador argentino, a construção de sentido fica clara, Ronaldo está se perdendonão apenas como jogador, mas como ídolo que foi construído imageticamente, inclusivepela própria revista em diversas edições anteriores. Além disso, Ronaldo foi acusadode estar envolvido com drogas, sendo que a alusão a Maradona traz à tona, ainda queveladamente, este posicionamento. Ronaldo não é um Pelé, mas pode vir a ser umMaradona, constantemente em clínicas de recuperação. Mas este não é o primeiro caso em que Ronaldo vira assunto e tema de discussões.No final dos anos 90 foi acusado de ter se envolvido com prostituição na Itália, mas naépoca, em tempo do auge da carreira, foi tratado como vítima pela própria revista. Após a sua recente aparição na capa da Veja os próprios leitores criaram a sua capada revista, principalmente porque hoje, com a Internet, as imagens podem ser alteradas,modificadas e sentidos antes que só pertenciam ao imaginário individual passam a sersocializados e reproduzidos. O que se percebe na imagem abaixo é que a construção desentido efetuada para um blog possui a mesma lógica que é adotada pela revista, o jogode palavras, as entrelinhas, embora muito mais direta. 392
  • 392. Este caso se torna emblemático não apenas pela construção de sentido efetuadapela revista, mas pela postura adotada pelo próprio jogador que valeu-se da lógica dosmeios para tentar reverter o abalo em sua imagem. No programa Fantástico, Ronaldoconcedeu entrevista exclusiva à repórter-apresentadora Patrícia Poeta. Em uma mostrade que havia “baixado a guarda” Ronaldo confessa ter se envolvido com travestis, alegadesconhecimento, pede desculpas ao país e se diz culpado “pela própria inocência”. Sea estratégia foi eficaz para reverter os abalos causados é cedo para saber, mas o casodemonstra o quanto a midiatização está presente e como cada vez mais, conforme FaustoNeto (2007, p. 02) “seus fluxos de produção, circulação e de recepção estão subordinadose dispostos a uma complexa rede de dispositivos e uma teia de relações entre campos,afetados por lógicas, regras e operações do próprio trabalho de midiatização”.Circularidade: imagens em replicação A midiatização das imagens é um fenômeno cada vez mais presente, visto que acirculação não se vale apenas do discurso verbal. Vive-se uma época em que as imagensjá não pertencem mais aos retratados, mas sim à própria mídia que passa a deter o podersobre a imagem do indivíduo, o poder de exibir ou não. Ronaldo não teve escolha, suaimagem foi veiculada em jornais de todo o mundo, em revistas, associada aos travestisque viraram “celebridades” instantâneas em depoimentos, em canais de televisão abertae até em sátiras de programas de humor. A imagem de Ronaldo não se esvaiu só na capa 393
  • 393. de Veja, mas lhe escapou das mãos no momento em que a mídia passou a determinarquando e como ela deveria ser usada. O próprio jogador precisou se transformar emimagem, através das lentes da televisão, para tentar, ironicamente, pedir desculpas porter tido sua privacidade alardeada. Deste modo, a midiatização das imagens se relacionadiretamente com a idéia não só de circulação, mas de circularidade. A imagem de Ronaldoda revista migrou para a TV, que disponibilizou para outra emissora, que repercutiu nosjornais, que pautou blogs e assim por diante, sem saber onde começa e onde termina,numa circularidade sem fim. Neste sentido Dietmar Kamper (2000) coloca que tudo o que não é visível pareceter perdido a condição de existente e como num acordo tácito, todos sabem, mas todosestão vidrados nas poucas imagens que se mostram. Tudo o que não for visível tem que ser descartado como objeto sem valor, antes mesmo de entrar no jogo. Em compensação, toda imagem conformável ao olhar pode ser configurada ativamente, apresentada e reapresentada em encenações repetidas uma vida inteira, inclusive com a participação das pessoas que se colocam sob os olhares controladores. (KAMPER, 2000, p. 1) Ronaldo se fez imagem. A midiatização fez a imagem de Ronaldo: a primeira, dejogador prodígio, e a última de jogador em fim de carreira que se envolve em escândalosapós escândalos. 394
  • 394. Qual será a imagem futura? Quando não são as imagens que se repetem, são os ângulos de cobertura, oselementos, os aspectos. Assim, é a partir das imagens selecionadas para serem vistas queocorre a sincronização pelo olhar, que consiste num processo de combinação de fatos, oumelhor de fotos, para serem vistas de forma simultânea. Uma sociedade que vê a mesmaimagem, repetidas vezes, em vários suportes diferentes (televisão, jornal impresso,Internet) acaba por crer que aquela imagem é a única que vale a pena ser vista, mesmoque um contingente imenso de imagens tão, ou até mais, relevantes seja, simplesmente,deixado de lado. Desta forma, a ordenação pelo olhar se dá, principalmente, pela ritualização dasimagens que são oferecidas insistentemente, num processo circular que ocorre de duasformas no fotojornalismo. Primeiro, as imagens aparecem como se fossem pontuais, ou seja,apenas discursos visuais da notícia, fruto de coberturas jornalísticas pseudo preocupadascom a transmissão da realidade. Num segundo momento, essas fotografias passam a serreiteradas massivamente, fazendo com que tais imagens mediadas integrem a agendados cidadãos. Mais do que isso, estas imagens repetidas contribuem para a sincronizaçãoda sociedade, que não apenas aceita e inclui em sua agenda pessoal determinados temase ângulos que são mostrados pela mídia, como também do olhar que, de tanto ser exigido,passa a ser sincronizado, a ponto de já não se ter mais autonomia para ver diferente doque é mostrado. De concreto é possível dizer que os símbolos e seus sentidos nascem e 395
  • 395. morrem. Para Baitello Junior (1999, p. 109-110), os símbolos só podem se afirmar e manterquando são reiterados e repetidos. Os símbolos “carecem do apoio e da confirmaçãoreiterados do coletivo para que possam ter sua credibilidade legitimada e mantida. Sema legitimação da sociedade eles retornam ao universo da fantasia individual”. E quempossui o poder da legitimação? A própria mídia. A circularidade assim se inscreve em doismovimentos: o de apropriação das imagens pela mídia e o de sua legitimação replicante.Os meios passam a ser a fonte única da realidade, onde os acontecimentos e os própriosenvolvidos se submetem à lógica dos processos midiáticos.Considerações finais O surgimento dos meios de comunicação resultou numa nova forma de vida, umavida mediada. Os aparatos tecnológicos fizeram com que o homem se relacionasse demodo diferente com outros homens, bem como criaram novas relações entre homeme aparelho, aparelhos e aparelhos. Se no princípio os meios eram subordinados àcomunicação existente e, portanto, funcionários desta, com a sua evolução e massificaçãoa comunicação se tornou subordinada aos meios, invertendo o processo. O campo dosmedia há muito deixou de ser um reflexo do real, um meio de representação, para seconstituir na própria apresentação do mundo. Isto gerou a substituição da experiênciaconcreta pela midiática, ou seja, o homem já não precisa mais experimentar, vivenciar,pois os meios já lhe fornecem a experiência completa. 396
  • 396. Vive-se uma era onde sem a mediação há um esvaziamento do sentido, já quesão as lógicas dos meios que determinam quanto e qual sentido deve ser transmitido.A midiatização permite que ocorra a sincronização social, ou seja, por aquilo que étornado público, por aqueles discursos que a mídia disponibiliza, a sociedade passa aser organizada e regida. Só aquilo que é veiculado é pertinente, só aquela perspectiva éválida, o restante não é legitimado e, portanto, não possui peso o suficiente para durar.São as lógicas da midiatização que regulam e ordenam a sociedade, valendo-se da suainerente função de portadora/determinadora do acesso. Adriano Duarte Rodrigues deixaclaro que o campo dos media se autonomizou, ou seja, tornou-se autônomo e capaz defalar com propriedade em nome de quem, realmente, fala. A mídia cada vez mais tem seapropriado dos discursos dos demais campos, passando a reproduzi-los e disseminá-los apartir de uma nova perspectiva, esta baseada em sentidos diversos. O que está em jogo é a comunicação como circulação de sentido, um sentidocriado e mantido a partir das operações de produção presentes e integrantes dos própriosmeios. No caso das imagens midiatizadas, quando estas fotografias ou vídeos chegamao campo dos media elas deixam de pertencer àqueles que as criaram ou que estão porelas representados. O corpo que aparece na imagem, a intenção, pouco importa. Importa,sim, o poder do campo do media de atribuir novos, e mais, sentidos. No caso do jogadorRonaldo, por exemplo, a Revista Veja deu ampla cobertura sobre seu provável envolvimentocom travestis. Embora o jogador tenha tentado argumentar, sua imagem virou motivo de 397
  • 397. chacota e até de novas imagens. Para evitar maiores danos, Ronaldo recorreu às lógicasdos meios, se fez imagem em entrevista na maior rede de televisão brasileira, a Globo.Se desculpou diante das câmeras e ao responder todas as perguntas abriu caminhopara que seja possível pensar qual será sua próxima aparição. Em 98 seu rosto já haviaestampado uma capa de revista, logo após o fracasso na Copa, anos depois, no auge dacarreira, Ronaldo foi visto como um rei . Sucessivamente, sua imagem foi sendo tratada namídia, ora como um ídolo, ora como um jogador “metido em escândalos”. A circularidadeda imagem de Ronaldo deixa uma brecha, um espaço em branco para se questionar: qualserá a próxima? Certamente ela virá. E se Ronaldo se fez imagem, a midiatização fez emantém a imagem de Ronaldo.Bibliografia ConsultadaBAITELLO JUNIOR, Norval. O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação,cultura e mídia. São Paulo: Annablume, 1999, reimpressão 2003.______. Comunicação, mídia e cultura. Perspectiva. São Paulo:Fundação Seade, out-dez/1998.______. A era da iconofagia: ensaios de comunicação e cultura. São Paulo: HackerEditores, 2005. 398
  • 398. ______. A sociedade das imagens em série e a cultura do eco. Revista Faro, ano 1, tono 1,Valparaíso (Chile):Universidad de Playa Ancha, p. 97-111, agosto, 2005.BAITELLO JUNIOR, Norval; CONTRERA, Malena; MENEZES, Eugenio (orgs). Os meios daincomunicação. São Paulo: Annablume/CISC, 2005.CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. 2ª edição. SãoPaulo: Companhia das Letras, 1998.FAUSTO NETO, Antônio. A midiatização jornalística do dinheiro apreendido: das fotosfurtadas à fita leitora. Disponível em < www.compos.org.br/biblioteca 245pdf > Acessoem 20/07/2008.________________. Midiatização: prática social, prática de sentido. Paper, SeminárioMediatização. Bogotá, 2005._____________________. Dispositivo de telecura e contratos de salvação. In: Comunicação,mídia e consumo. Ano 3, V. 3, nº 6. São Paulo: ESPM, 2006.FERREIRA, Jairo; VIZER, Eduardo (orgs). Mídia e movimentos sociais: linguagem ecoletivos em ação. São Paulo: Paulus, 2007.________________. Dispositivos midiáticos. 2005. Disponível em <http://reposcom.portcom.intercom.org/bitstream/1904/20178/1/jairo+ferreira.pdf> Acesso em15/07/2008. 399
  • 399. ____________________. Midiatização: dispositivos, processos sociais e decomunicação. Paper: PPGCOM São Leopoldo, 2008.KAMPER, Dietmar. Os padecimentos dos olhos. In: CASTRO, G.; CARVALHO, E. ; ALMEIDA,MC. (orgs). Ensaios de Complexidade. Porto Alegre: Sulina, 1997, p. 131-137.______. Imagem. In: Cosmo, Corpo, Cultura: Enciclopédia Antropológica. A cura deChristoph Wulf. Milano, Itália: Ed. Mondadori, 2002.______. As máquinas são tão mortais quanto os homens. Disponível em: <http://www.eca.usp.br/nucleos/filocom/traducao9.html>. Acesso em: 15 out. 2005KLEIN, Alberto; ROSA, Ana Paula. Atentado em imagens: sincronização e circularidade namídia. Grhebh, nº 08, julho, 2006.PROSS, Harry. Estructura simbólica del poder. Barcelona: Gustavo Gilli, 1980.______. La violencia de los símbolos sociales. Barcelona: Antrhopos, 1989.RODRIGUES, Adriano Duarte. Experiencia, modernidade e campos dos media. 1999.Disponível em www.bocc.ubi.pt._________________________. A emergência dos campos sociais. In: REVAN, RaimundoSantana (org). Reflexões sobre o mundo contemporâneo. Teresina: UFPI, 2000. 400
  • 400. VERON, Eliseo. Esquema para el analisis de la mediatización. In: Diálogos. Nº 48. Lima:Felafac, 1997.____________. El cuerpo de las imágenes. Buenos Aires: Norma, 2005. 401