Volume 9 O Poder Publico - Presentation Transcript
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
TRANSFORMANDO O PODER PÚBLICO: A BUSCA DA EFICÁCIA
VOLUME IX
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME IX
TRANSFORMANDO O PODER
PÚBLICO: A BUSCA DA EFICÁCIA
Banco de
Desenvolvimento de
Minas Gerais
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Apresentação
BANCO DE DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS S.A. - BDMG
Conselho de Administração
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Equipe Técnica do Departamento de Planejamento,
Programas e Estudos Econômicos D.PE
Bernardo Tavares de Almeida
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Marco Antônio Rodrigues da Cunha
Marilena Chaves
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Apoio Administrativo
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Apresentação
As idéias expostas nos textos assinados são de responsabilidade dos autores,
não refletindo necessariamente a opinião do BDMG.
BANCO DE DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS S.A. - BDMG
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IDM / Técnica Composição e Arte
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Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais
Minas Gerais do Século XXI / Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais.
B213m
2002 Belo Horizonte: Rona Editora, 2002.
10 v. : il. -
Conteúdo: v.1 - O Ponto de Partida. v. 2 - Reinterpretando o Espaço Mineiro.
v. 3 - Infra-Estrutura: sustentando o desenvolvimento. v. 4 - Transformando o
Desenvolvimento na Agropecuária. v. 5 - Consolidando Posições na
Mineração. v. 6 - Integrando a Indústria para o Futuro. v. 7 - Desenvolvimento
Sustentável: apostando no futuro. v. 8 - Investindo em Políticas Sociais. v. 9 -
Transformando o Poder Público: a busca da eficácia. v. Especial – Uma Visão do Novo
Desenvolvimento
1. Condições econômicas – Minas Gerais. 2. Desenvolvimento econômico –
Minas Gerais. I. Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. II. BDMG. III. Título
CDU: 338.92(815.1)
Catalogação na publicação: Biblioteca BDMG
4 Minas Gerais do Século XXI - Volume I - O ponto de partida
VOLUME 9
TRANSFORMANDO O PODER PÚBLICO:
A BUSCA DA EFICÁCIA
Coordenação do Projeto
Tadeu Barreto Guimarães - Coordenação Geral
Marco Antônio Rodrigues da Cunha - Coordenação Executiva
Marilena Chaves - Coordenação Técnica
Coordenadores Técnicos do Volume
Bernardo Tavares de Almeida (D.PE/BDMG)
Luís Aureliano Gama de Andrade
(Cientista político, consultor e professor da Faculdade de
Ciências Humanas de Pedro Leopoldo)
Marilena Chaves (D.PE/BDMG)
Tadeu Barreto Guimarães (D.PE/BDMG)
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Apresentação
6 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................................................ 9
1. DESENVOLVIMENTO: MISSÃO DE TODOS ..................................................................................................... 13
2. REFORMULANDO A MÁQUINA PÚBLICA ........................................................................................................ 47
3. RESGATANDO AS FINANÇAS PÚBLICAS ............................................................................................................ 91
4. POLÍTICAS PÚBLICAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS PARA
A REGIÃO METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE (RMBH) ........................................................ 127
5. O FINANCIAMENTO DO DESENVOLVIMENTO: O PAPEL DAS
AGÊNCIAS DE FOMENTO E O BDMG .............................................................................................................. 165
POSFÁCIO .......................................................................................................................................................................... 215
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Apresentação
8 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Apresentação
Este volume do Minas Gerais do Século XXI Transformando o Poder Público: a
busca da eficácia tem o objetivo de indicar os novos desafios que se impõem ao Estado e os
principais instrumentos para alcançá-los. Propositadamente, este volume encerra esse amplo estudo
sobre Minas Gerais. Parte-se da premissa de que, atualmente, não é suficiente que o Poder Público
Estadual execute bem suas tarefas, mas que execute bem o que deve ser feito. Novo século, novas
Minas Gerais só virão com um Estado eficaz.
Aqui sintetizado, o papel esperado do Estado foi sendo construído ao longo dos demais
volumes, nos quais se mostrou que a tarefa do Poder Público Estadual perpassa todos os setores
econômicos e sociais e, enfim, tem influência nos resultados dos mercados e na qualidade de vida
das pessoas.
Registre-se desde já a principal característica deste volume: a coragem. Para mostrar os
desafios, identificar os problemas e indicar soluções nem sempre indolores.
O volume se inicia pelo papel do Estado no novo desenvolvimento, em bases sustentadas
e sustentáveis. Apresenta, no capítulo 1, o entendimento atual sobre o desenvolvimento e,
principalmente, o papel do governo estadual nessa missão que, ressalte-se, não é só do Estado,
mas de todos os atores sociais que influenciam e são influenciados pelo desenvolvimento. O
Estado, autonomamente, não é capaz de promover o desenvolvimento, tampouco de o reconhecer
claramente. Mas é capaz e fundamental na coordenação e no incentivo aos diversos atores
envolvidos no desenvolvimento: trabalhadores, empresários, classe política e terceiro setor. Não
se apregoa, no trabalho, a participação altruísta da sociedade, mas sim, de uma sociedade
devidamente incentivada pelo Estado. O capítulo 1, Desenvolvimento: missão de todos, tem
como idéia-força a noção de que o desenvolvimento envolve muito mais do que o essencial
crescimento da economia. O objetivo do desenvolvimento é proporcionar qualidade de vida às
pessoas desta e de futuras gerações, por isso deve ser sustentável.
Ao identificar uma crise de identidade dos estados federados, o estudo apresentado no
Capítulo 1 identifica o papel das unidades federativas, indicando quais as novas tarefas dos governos
estaduais. As políticas sociais e de desenvolvimento regionais, se é que existe tal distinção, têm
como principal articulador o Poder Público Estadual. Nas políticas sociais, destacam-se aquelas
abordadas no volume VIII do Minas Gerais do Século XXI: saúde, educação, segurança pública,
trabalho, pobreza e habitação. Nas políticas de desenvolvimento, por exemplo, indicam-se as funções
do Poder Público Estadual no incentivo às aglomerações produtivas locais, no alinhamento às
políticas nacionais de desenvolvimento e nas políticas para a Região Metropolitana de Belo
Horizonte (RMBH). Em seguida, o trabalho situa as tarefas da classe política, de empresários e
das entidades do terceiro setor no desenvolvimento.
O capítulo 2 Reformulando a máquina pública parte, exatamente, da constatação do
capítulo inicial, de que o Estado, apesar de necessário, não se encontra alinhado com os novos
preceitos do desenvolvimento. Após o estabelecimento de um breve marco conceitual sobre a
administração pública e algumas experiências internacionais, o trabalho descreve as experiências de
reformulação da máquina pública do governo federal e de alguns estados federados. Mostra, em
seguida, que o ambiente econômico atual é distinto daquele observado na década de 1970, quando
a abundância de recursos afrouxava os limites e ampliava as escolhas na atuação do Estado.
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Apresentação
No caso de Minas Gerais, a reforma das finanças estaduais implementada no início da
década de 1970 serve como exemplo de que Minas Gerais pôde ser pioneira na retomada do
desenvolvimento, e que o equilíbrio das finanças públicas, embora não suficiente, é imprescindível
ao desenvolvimento. Após sintética radiografia da máquina pública mineira, de seus principais
componentes, são apresentadas as linhas de ação para transformar a administração pública do
Estado. Destaca-se a proposta de gestão por programas, que dinamiza a administração pública e
cria mecanismos de verificação de resultados e incentivos. Mas o fortalecimento do planejamento
figura, certamente, como uma das principais propostas apresentadas. Planejamento em moldes
diferentes do observado no passado, pois se propõe claramente a definição das prioridades ou
metas após a identificação dos recursos existentes, atenuando-se o risco de se criar peças de
ficção.
O capítulo 3 Resgatando as finanças públicas decorre da conclusão obtida no capítulo
anterior sobre a necessidade premente de equilibrar as finanças públicas. O capítulo mostra a
realidade das finanças públicas em Minas Geras e aponta o problema: a previdência dos servidores
estaduais. O trabalho tem a virtude de desmistificar algumas questões, como o impacto da dívida
pública no déficit estadual, que, ao contrário do que pensam alguns, não é o nó górdio das finanças
estaduais. Em outras palavras, a redução nos encargos com a dívida, embora importante, não
representa solução definitiva.
Outro apontamento importante do trabalho é com relação à forma de ajuste que vem sendo
implementada. O engessamento das finanças mineiras, isto é, a impossibilidade de redução nas
despesas e reordenamento nas receitas têm feito com que o ajuste se dê na conta de custeio. Os
níveis atuais de gastos com custeio inviabilizam o funcionamento eficaz da máquina pública, nos
moldes delineados no capítulo 1, em que as funções coordenadora e reguladora do Governo
Estadual são essenciais.
A questão previdenciária, em Minas Gerais, no Brasil e em outros estados, permanece na
pauta como um dos principais problemas, de curto e longo prazos, enfrentados pela administração
pública. Em Minas, como demonstrado no capítulo, se nenhuma nova medida for tomada, nos
próximos 10 anos alcançaremos uma situação de insustentabilidade, com prejuízos à eficácia da
máquina pública e, principalmente, com riscos para os ativos e inativos do Estado. É dever do
Estado zelar pelo bem-estar dos que contribuíram e ainda contribuem para seu funcionamento,
mas só um esforço conjunto, com a participação dos servidores, pode equacionar a questão.
No capítulo 4 Políticas Públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana
de Belo Horizonte as políticas para a RMBH são analisadas em duas dimensões: local e global. Na
dimensão local, os principais problemas econômicos e sociais da Região Metropolitana são apontados.
e propostas para superá-los são sugeridas. É analisada, também, a RMBH como fonte de insumos
trabalho especializado, serviços de alta tecnologia, etc. para outras regiões do Estado.
Do ponto de vista global, a Região Metropolitana é tratada como o portal de Minas para o
mundo, o locus de atração do Estado, nesse mundo globalizado, de pessoas e instituições dos
setores tradicionais e, principalmente, dos modernos e emergentes setores.
O fomento ao desenvolvimento foi identificado como uma importante tarefa do governo
Estadual. O capítulo 5 O financiamento do desenvolvimento: o papel das agências de
fomento e o BDMG pretende delimitar a atuação do Estado, em particular do BDMG, no
fomento econômico, indicando as necessidades de ação para a agência mineira nesse novo contexto
de desenvolvimento. O alinhamento às políticas federais, aos fatores exógenos, e o apoio aos
setores produtivos essenciais ao desenvolvimento sustentável devem ser os focos das políticas de
fomento.
10 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
O trabalho apresentado do capítulo 5 mostra que, além da indústria de transformação,
setor-chave da economia mineira, o sistema de fomento mineiro deve olhar com atenção para o
desenvolvimento tecnológico, a infra-estrutura e o meio ambiente, e as micro e pequenas empresas.
Novos mecanismos são propostos, como as parcerias público-privado e project finance na infra-
estrutura, adoção do protocolo verde pelo BDMG no meio ambiente e apoio às micro e pequenas
empresas nas aglomerações locais de maior potencial.
O BDMG, ao ousar em um trabalho tão amplo sobre Minas Gerais, sobre a Minas Gerais do
Século XXI, não poderia deixar de falar de si, de forma transparente e sem caráter reivindicativo.
Propõe-se, para a agência de fomento mineira, entre outras coisas, uma medida nacionalmente
inovadora na administração pública estadual: o estabelecimento de um contrato de gestão entre o
governo estadual e o BDMG. O contrato de gestão permite que a sociedade, através do governo,
estabeleça metas para o BDMG, fornecendo-lhe os meios. Isso representa um importante mecanismo
de incentivo para o BDMG e, permite que se justifique para sociedade a existência da agência
mineira de fomento.
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Apresentação
12 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME IX
TRANSFORMANDO O PODER
PÚBLICO: A BUSCA DA EFICÁCIA
CAPÍTULO 1
DESENVOLVIMENTO:
MISSÃO DE TODOS
Luís Aureliano Gama de Andrade
(Cientista Político, Consultor e Professor da Faculdade
de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo)
SUMÁRIO
1.1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................... 17
1.2. DESENVOLVIMENTO: A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO
ECONÔMICO CONTEMPORÂNEO ....................................................................................................................... 19
1.2.1. O pensamento sobre o desenvolvimento no Brasil ............................................................................................... 23
1.3. BRASIL: O NOVO DESENVOLVIMENTO E O NOVO ESTADO ............................................................... 28
1.3.1. Minas Gerais e o novo desenvolvimento ............................................................................................................... 31
1.3.2. Por uma nova dinâmica de desenvolvimento em Minas ..................................................................................... 32
1.4. OS ATORES DO DESENVOLVIMENTO ............................................................................................................... 34
1.5. CONCLUSÕES .................................................................................................................................................................... 42
1.6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................................... 43
BDMG
40 anos
1.1. Introdução
O Estado não é ente estático, invariante às circunstâncias históricas ou a mudanças na
conjuntura internacional ou nacional. No último quarto de século, o surgimento da crise fiscal
que abalou o chamado Estado de Bem-Estar, o fim da guerra fria e do conflito capitalismo vs.
socialismo e o processo de globalização foram determinantes de profundas alterações por que
vem passando a ordem econômica internacional. No centro dessas transformações encontra-se
o próprio Estado-Nação e seu papel no tocante ao desenvolvimento e ao mercado.
Não se completou ainda o ciclo dessas mudanças e nem se logrou tampouco a decantação
histórica nos moldes do que ocorreu, por exemplo, em meados dos anos 30 do século passado,
quando, em reação à crise de 29, teve origem no bloco dos países capitalistas um novo Estado,
com tom intervencionista, ênfase no planejamento e com forte atuação social (Schonfield, 1965).
Nos arranjos federativos, tais mudanças não se cingem ao âmbito da União. Ao contrário,
desdobram-se em todos os planos e entidades que compõem a Federação, determinando a
necessidade de ajustes e acomodações entre os entes federados. No caso brasileiro, estendem-
se, além do Governo Federal, aos estados e municípios.
Diante desse quadro, e tendo em vista os objetivos e proposições de políticas, é crucial
delimitar com clareza a função do estado-membro na Federação brasileira e seu papel em relação
às políticas públicas associadas ao desenvolvimento econômico e social. Mais especificamente,
em relação ao governo de Minas Gerais, busca-se a resposta para a questão: qual deve ser o seu
papel na promoção do desenvolvimento econômico e social do território mineiro?
A resposta a essa indagação exige, preliminarmente, o enfrentamento de dupla questão:
como se apresenta hoje a tarefa do desenvolvimento e que forma ou formato deve assumir o
Estado em âmbito nacional para desincumbir-se da parte que lhe toca nessa missão. Missão
que, ressalte-se, não é exclusiva do Estado, mas de todos os atores sociais envolvidos no
desenvolvimento, destacando-se empresários, trabalhadores e organizações não-governamentais.
Esses atores, se devidamente incentivados pelo Estado, podem alinhar-se à nova missão do
desenvolvimento.
Há quem considere que, após a Constituição de 1988, e com a privatização de empresas
estaduais levada a cabo durante a década de 90, os estados passam hoje por aguda crise de
identidade, emparedados entre a União e os municípios.
De fato, com a municipalização de diversos serviços públicos e a privatização ou extinção
de empresas estaduais de infra-estrutura e do setor financeiro, os governos estaduais perderam
importantes instrumentos de políticas públicas. Até o início dos anos 90, por exemplo, os bancos
comerciais estaduais constituíam mecanismos que, na prática, permitiam relaxamento da restrição
orçamentária dos estados, com impactos na política monetária nacional. A estabilização da
economia determinou, em alguma medida, o fim dessas instituições e, com efeito, os estados
perderam importantes fontes de recursos. Da mesma forma, a saída de alguns estados de
importantes setores de infra-estrutura determinou o fim de uma época em que as tarifas públicas
não eram alinhadas com os custos, e a oferta de serviços pretensamente respeitava questões de
universalização ou, de fato, pressões políticas, conflitantes com a busca da eficácia.
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Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
A despeito das análises das vantagens e desvantagens para o bem-estar social de empresas
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40 anos
públicas vis-à-vis a empresas privadas, o que importa é que o ambiente parece estar definido, isto é,
não existe atualmente o espaço para o Estado empresário observado no passado, seja por uma
opção político-ideológica, seja por restrições fiscais.
Nesse novo ambiente, é preciso redefinir, de fato e não de jure, o papel das unidades
federativas, partindo do que cada ente da Federação pode e deve fazer para induzir o
desenvolvimento econômico e social. Com base no que se pode esperar da União, dos estados e
dos municípios no tocante ao desenvolvimento é que se deve cogitar a reformulação da máquina
pública estadual, com o estabelecimento do arcabouço institucional e das medidas gerenciais que
a alinhem com a divisão de trabalho nos demais entes da Federação. A manutenção do aparato
público estadual não articulado com os novos desafios do Estado representa um entrave ao
desenvolvimento.
Na seção seguinte, busca-se delinear a evolução do pensamento sobre desenvolvimento,
seus principais determinantes e o papel do Estado, em sentido amplo. A seção 1.3 mostra
qual o papel das unidades federativas nesse modelo de desenvolvimento, e especifica os
instr umentos desejáveis para o alinhamento da máquina pública estadual ao novo
desenvolvimento. A seção 1.4 mostra os papéis das classes políticas, de empresários e do setor
não-governamental no desenvolvimento. E a seção final tenta brevemente sintetizar as conclusões.
18 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
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40 anos
1.2. Desenvolvimento: a evolução do
pensamento econômico contemporâneo
Mudanças nas conjunturas nacional e internacional vêm determinando a necessidade de
pensar novos modelos, tanto para o desenvolvimento quanto para o Estado. No tocante aos
modelos de desenvolvimento, a primeira observação é de que, aplicados indistintamente a diferentes
países, têm grande probabilidade de fracasso. O que serve para um, possivelmente não serve para
os outros, pois não há um caminho único para o progresso. A história, as normas sociais, as
instituições, o ambiente econômico, político e sociocultural de um país, condicionam e determinam
a trajetória de seu crescimento (Hoff e Stiglitz, 2001).
A primeira geração do pensamento sobre o desenvolvimento, gestada na década de 50,
considerava o crescimento da riqueza per capita do país como o principal indicador e meta para
alcançar o desenvolvimento. Essa geração enfatizava a acumulação do capital físico como principal
fonte de crescimento econômico. A idéia de que o crescimento da economia deveria suplantar o
crescimento populacional para gerar um aumento na riqueza per capita é a base dos modelos de
desenvolvimento da década de 501 .
Acreditava-se, à época, que a taxa de poupança e o investimento associado em capital
físico eram os principais determinantes do crescimento econômico. Países com taxas mais altas de
poupança cresceriam mais, e a desigual distribuição de renda, sob algumas condições, seria benéfica
ao crescimento (Lewis, 1954). A idéia de que os capitalistas poupam mais do que os trabalhadores
e de que, em função disso, maior parcela da renda nas mãos dos primeiros significa maior
crescimento chegou a ser aceita por algum tempo.
Em relação ao papel do Estado, essa primeira geração do pensamento sobre o
desenvolvimento, ainda sob os efeitos do rápido crescimento proporcionado pela reconstrução do
capital físico do Plano Marshall na Europa, apostava na intervenção do Estado através da
programação e do planejamento. Para os países em desenvolvimento, a receita era mais severa em
relação à intervenção estatal. Presumia-se, para aqueles países, entre outras falhas de mercado,
uma ausência de capacidade empreendedora e um sistema de preços não confiável. A receita
proposta incluía mudanças estruturais, tendo o Estado como principal agente nesse processo.
Surgem daí as políticas industriais, de substituição de importação e de alocação de recursos
externos ou não , coordenadas e implementadas pelo Estado através do planejamento.
Note-se que essa conformação do Estado negligenciava o papel de outros atores sociais
nas políticas de desenvolvimento, isto é, cabia ao Estado definir a alocação de recursos, o rumo
da economia. Pode-se afirmar que a primeira geração do pensamento sobre o desenvolvimento
colocava este como uma missão do Estado.
Embora a racionalidade econômica para a intervenção do Estado na economia fosse
supostamente a presença de falhas de mercado, houve uma constatação de que muitas vezes as
falhas de governo predominavam. Essas falhas de governo estariam associadas à oferta e demanda
por intervenção do Estado, isto é, a grupos de interesse que demandam políticas favoráveis e
àqueles que obtêm políticas favoráveis. As constatações de que nem sempre o bem-estar social
Os principais modelos da década de 50 são o de Harrod-Domar, o modelo de estágios de desenvolvimento de Rostow, o dual de
1
Lewis, o de crescimento balanceado de Nukes, o big push de Rosenstein-Rodans e a hipótese sobre termos de troca e substituição
de importações de Prebisch-Myrdal-Singer.
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Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
era a principal preocupação dos governos e de que a acumulação de capital físico não
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40 anos
necessariamente determina o crescimento econômico deram origem à segunda geração do
pensamento sobre o desenvolvimento.
A segunda geração do pensamento sobre o desenvolvimento tem sua versão inicial no modelo
neoclássico de crescimento (Solow, 1957). Esse modelo prediz que o país crescerá, no equilíbrio
estacionário, a uma taxa igual à taxa de mudança tecnológica, dada uma taxa de poupança. Se a
taxa de poupança for crescente, o país crescerá a taxas crescentes no curto prazo. Isso explicaria o
caminho de alto crescimento, alta taxa de poupança, do Leste Asiático. Pode-se ter, portanto,
múltiplos caminhos de transição que convergem em uma taxa de crescimento para um país.
Se um país, como é o caso dos menos desenvolvidos, é caracterizado por baixo volume de
capital, a hipótese de uma única função de produção para todos os países com retornos decrescentes
sobre o capital faria com que este recebesse um fluxo externo de capital daqueles em que os
retornos já estão em patamares menores; ou seja, países desenvolvidos remeteriam recursos para
países menos desenvolvidos. Esta última afirmativa não foi sustentada por constatações empíricas,
o que vislumbrou o relaxamento de algumas premissas neoclássicas.
A segunda geração do pensamento sobre o desenvolvimento, paradigma dominante da
década de 70 até o início da última década, também enfatizou o papel do capital humano na
determinação do crescimento econômico. Ao contrário da primeira geração, esta concluiu que
mais importante do que o nível de capital é a aplicação do capital, isto é, o modo como o capital
é alocado. A fonte de crescimento, determinada pelo progresso tecnológico, seria proveniente de
diferentes forças:
I. aumento da qualidade da força de trabalho através da educação e treinamento;
II. realocação de recursos para usos de alta produtividade;
III. aproveitamento das economias e escala;
IV. novas técnicas de gestão dos negócios. (Méier, 2001)
Essas hipóteses explicariam a diferença, muitas vezes imutável, no desenvolvimento entre
países, pois, supostamente, os países desenvolvidos teriam maior estoque de capital humano e
aproveitar-se-iam melhor das economias de escala.
O receituário dessa segunda geração para os países em desenvolvimento privilegiava as
forças de mercado, preços e incentivos. As políticas governamentais associadas não deveriam
distorcer os resultados do mercado. O Estado não mais era visto como um ente benevolente
maximizador do bem-estar social, mas, sim, composto por agentes auto-interessados maximizadores
do bem-estar individual que raramente coincidia com o bem-estar social.
Surge então a idéia do governo minimalista, que deveria intervir somente nas falhas de
mercado reconhecidas por essa segunda geração do pensamento sobre o desenvolvimento.
Basicamente, educação, saúde e outras políticas sociais deveriam ser alvos de intervenção dos
governos. O receituário universal, para ser aplicado em todos os países em desenvolvimento,
recomendava as seguintes estratégias:
I. liberalização comercial e financeira;
II. promoção das exportações;
III. privatização de empresas estatais;
IV. programas de estabilização com disciplina fiscal e monetária;
V. reforma tributária e desregulação dos mercados para diminuir as distorções nos preços
e incentivos.
20 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Esse receituário deu origem ao célebre Consenso de Washington, ápice do pensamento
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40 anos
neoliberal, corrente ideológica associada ao Estado minimalista que guiou por algum tempo as
orientações do FMI e do Banco Mundial. Na ideologia neoliberal, o desenvolvimento, com efeito,
era uma missão do mercado.
A experiência mostrou que uma receita única para todos os países, em geral, não resultava
nos resultados esperados. Surgiram, no início da década de 90, hipóteses para explicar as diferenças
no desenvolvimento entre países, denominadas por Méier (2001) de novas falhas de mercado e
falhas institucionais.
As novas falhas de mercado são o reconhecimento da existência de informação imperfeita,
mercados e contratos incompletos e custos de transação. Além das falhas de mercado já
reconhecidas principalmente as externalidades e as falhas na competição as novas falhas de
mercado determinam novos mecanismos corretivos no ferramental do Estado. O setor financeiro
e a agricultura, em alguma medida negligenciados pela primeira geração do pensamento sobre
desenvolvimento, foram reconhecidos como fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento
dos países.
No setor financeiro, por exemplo, a taxa de poupança, embora seja um importante
determinante do crescimento dos países, não determina automaticamente o investimento, pois
existem imperfeições no mercado de crédito. O papel do Estado, nesse caso, é garantir que os
custos de transação e os riscos dos poupadores sejam baixos, o que implica alto retorno. Contudo,
recentes desenvolvimentos das teorias de crescimento mostram que uma melhor distribuição de
renda, ao contrário do que se pensava na década de 50, pode ter efeitos positivos no crescimento
econômico, (Hoff e Stiglitz, 2001).
O acesso ao crédito depende dos bens e propriedades que o tomador pode oferecer, ao
agente de crédito, em garantia da operação. Países com distribuição muito desigual da renda têm
mercados de crédito ineficientes e, como crédito tem um papel fundamental na geração de
investimentos, o crescimento econômico acaba sento prejudicado. Isso porque indivíduos com
boas oportunidades de negócios, mas sem riqueza para dar como penhor, não têm acesso ao
mercado de crédito. Importa notar que o efeito de exclusão do acesso ao crédito, determinado
pela má distribuição de renda, tende a se reproduzir no tempo. Os recentes programas de
microcrédito tentam remediar essa imperfeição no mercado de crédito, criando um efeito catalítico
sobre o crescimento econômico.
É a terceira geração ou nova geração do pensamento sobre o desenvolvimento que reconhece
a existência das falhas institucionais como gargalos para o desenvolvimento. Mas o principal avanço
dessa nova geração é, na definição de desenvolvimento, seus indicadores e metas.
O crescimento da riqueza da riqueza per capita , os indicadores não monetários de
desenvolvimento como o Índice de Desenvolvimento Humano , a redução da pobreza e o
estoque de capital humano compõem as metas de desenvolvimento presentes na primeira e,
principalmente, na segunda geração do pensamento sobre desenvolvimento. A nova geração mostra
que o desenvolvimento é um processo não-linear, multifacetado, com diversos caminhos e
determinantes. Não existe um critério único para mensurar o desenvolvimento e nem uma receita
universal para alcançá-lo. O desenvolvimento depende da história (condições iniciais do país),
dos aspectos socioculturais e políticos e das instituições formais e informais (Adelman, 2001).
Embora não exista um único critério para mensurar o desenvolvimento, Amartya Sen (1999)
destaca que a liberdade é o objetivo primário do desenvolvimento e o principal meio de alcançá-
lo. Segundo Sen, o desenvolvimento não pode estar desconectado da vida que as pessoas vivem e
21
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
da verdadeira liberdade de que elas desfrutam. E o desenvolvimento como liberdade implica
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40 anos
diferentes tipos de liberdades interconectadas: liberdade política, oportunidades sociais, e liberdade
transacional e de mercado.
A liberdade política determina o desenvolvimento, pois o bem-estar social depende da
liberdade política, liberdade para que todos os atores sociais possam se sentir representados de alguma
forma. Países com liberdade política relativa, historicamente, não observaram grandes fomes com
grande aumento da mortalidade nas classes mais pobres, mesmo em épocas de depressão econômica
(Sen, 1999). A democracia funciona como uma proteção às classes mais vulneráveis. Uma queda na
riqueza de um país (demonstrada pelo PIB) não implica, necessariamente, piora no seu desenvolvimento:
quando este goza de relativa liberdade política, uma queda na riqueza não gera miséria, grandes fomes,
aumento da mortalidade; isso mostra que a riqueza não é perversamente distribuída.
As oportunidades sociais também determinam o desenvolvimento. Entenda-se por
oportunidades sociais o acesso das pessoas à educação, boas condições de saúde e incentivo às
iniciativas. A educação aumenta a capacidade humana e, além de seus impactos positivos sobre o
crescimento econômico, substitui em certa medida a necessidade de mecanismos coercivos do
Estado. Boas condições de saúde melhoram a vida das pessoas e exercem forte efeito na
produtividade dos trabalhadores. E, por fim, o incentivo às iniciativas, proporcionado
principalmente pelo acesso ao crédito e políticas de emprego, promove a inclusão social e o
crescimento econômico sustentado. Obviamente os tipos de oportunidades sociais aqui ilustrados
e outros existentes estão inter-relacionados, e precisam ser tratados em conjunto.
A liberdade de mercado e transacional também figura como um importante determinante
do desenvolvimento. O livre acesso das pessoas aos mercados e os baixos custos de transação
melhoram as condições de vida, a eficiência econômica, geram crescimento econômico e, sob
certas condições, eqüidade. Isso não significa que o livre mercado seja sempre socialmente
desejável. Em alguns casos, como nas falhas na competição, o mercado não aloca eficientemente
os recursos, sendo necessária a regulação do Estado.
Se, como quer Amartya Sen, os diferentes e interconectados tipos de liberdade conduzem
ao desenvolvimento econômico, a questão agora é saber de que forma se pode alcançar essa
liberdade e qual o papel do Estado em promovê-la.
A nova geração do pensamento sobre o desenvolvimento enfatiza o capital social, além do
físico e do humano, como geradores do desenvolvimento. O capital social é definido por Collier
(1998) como a coerência interna social e cultural da sociedade, as normas e valores que guiam as
interações entre os indivíduos, e as instituições em que elas estão inseridas. Por exemplo, o
capital social do governo incorpora os benefícios da lei, ordem, direitos de propriedade, educação
e saúde. Como o capital social reduz os custos transacionais e informacionais, ele é uma fonte de
crescimento econômico, pois torna o capital físico e o capital humano mais produtivos. Note-se,
enfim, que o capital social depende do desenvolvimento do país e ao mesmo tempo o determina.
A nova geração do pensamento sobre o desenvolvimento não advoga nem o Estado
minimalista nem o Estado empresário. O papel do Estado é proporcionar um ambiente adequado
ao desenvolvimento econômico, através de sua Constituição, leis, instituições e regulação. A forma
e o grau de intervenção do Estado, ao contrário do que apregoa o Consenso de Washington,
dependem do ambiente de cada país.
A seguir são apresentadas breves notas sobre a evolução do pensamento sobre
desenvolvimento, os desafios e caminhos para o desenvolvimento no Brasil. A partir daí, pode-se
delinear o Estado de que precisamos para alcançarmos um novo desenvolvimento.
22 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
1.2.1. O pensamento sobre o desenvolvimento no Brasil
BDMG
40 anos
Seguindo a evolução mundial, desde meados do século passado, o desenvolvimento figura
com destaque na agenda política nacional. Três grandes correntes de idéias formaram-se em torno
da matéria, conforme apontado por Bielschowsky (2000). A primeira, liderada por Eugenio Gudin
e Octavio Bulhões, era de feição tipicamente neoliberal. A segunda, que abrangia os chamados
desenvolvimentistas, apresentava caráter heterogêneo. Dela participavam grupos distintos: os
desenvolvimentistas do setor privado e os do setor público, estes últimos divididos entre os
economistas não nacionalistas e os nacionalistas . A terceira corrente era constituída pelos
socialistas.
A questão chave que estruturou o debate entre essas correntes e em torno da qual se
nuclearam suas posições referia-se ao papel da industrialização. Os neoliberais não se opunham
diretamente ao processo de industrialização, mas consideravam o equilíbrio monetário e financeiro
condição essencial para a promoção do desenvolvimento do País. Consonante com essa premissa,
advogavam a redução da intervenção do Estado, e eram visceralmente contrários a políticas
públicas para apoiar a industrialização, embora não vetassem medidas governamentais para sanar
as imperfeições do Mercado ou para lidar com as fases de depressão da economia (Bielschowsky,
2000, p.37).
Os desenvolvimentistas opunham-se radicalmente a essa posição, especialmente a corrente
ligada aos setores empresariais. Segundo Roberto Simonsen (Bielschowsky, 2000, p.83), esses
defendiam incondicionalmente a industrialização porque seria esse o processo que fornecia as
bases para o progresso da civilização.
O legado do desenvolvimentismo
Em meados dos anos 50, a corrente dos desenvolvimentistas havia-se tornado hegemônica
no País. Desde então, as políticas adotadas pelo Estado brasileiro para descontar o atraso e promover
a expansão da economia foram moldadas a partir das premissas dos desenvolvimentistas. Ora
prevaleceu uma de suas divisões, ora outra, mas a tônica da política foi marcada fundamentalmente
pela crença de que a tarefa do desenvolvimento deveria ser liderada pelo Estado, e não deixada às
forças espontâneas do mercado.
Forçoso reconhecer que, apesar das diferenças entre as correntes desenvolvimentistas, havia
um núcleo de pontos convergentes, quais sejam:
I. a necessidade do planejamento;
II. a defesa da intervenção estatal no desenvolvimento deveria ser liderada pelo Estado
e não deixada às forças espontâneas do mercado, seja por meio de inversões em
infra-estrutura, seja por meio de investimentos diretamente produtivos em setores
estratégicos, para suprir a insuficiência do capital nacional ou por subsídios;
III. a participação do capital estrangeiro no processo;
IV. a subordinação da política cambial e monetária à de desenvolvimento.
Guardadas as distinções de estilo e escopo, tanto nos anos da presidência Kubitscheck
(e mesmo um pouco antes) quanto no período do milagre brasileiro, a política econômica
foi guiada por essas diretrizes. Construiu-se, não por acaso, no âmbito federal e também no
dos Estados, um arcabouço público derivado diretamente do modelo desenvolvimentista.
23
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
A criação do BNDE, replicada nos Estados, das estatais federais e estaduais, bem como a
BDMG
40 anos
incorporação do planejamento ao aparato público, representaram, de fato, a fundação de uma
institucionalidade econômica do desenvolvimento, bem diversa da arquitetura de mercado cum
regulação do Estado, prevalecente nos países desenvolvidos do mundo capitalista.
A exceção a essa tendência deu-se durante o governo Castelo Branco, quando, com a
instituição do Banco Central, a reforma fiscal e as medidas para fortalecer o mercado de capitais
no País, foram lançadas as bases institucionais para a atuação do Estado em outros moldes.
Por um desenvolvimento sustentado e sustentável no Brasil
O velho desenvolvimento no Brasil, ao lograr vencer as barreiras da industrialização,
expandiu e modernizou a agricultura e urbanizou o País; deixou, contudo, uma herança de novos
dilemas, exigências e problemas a superar: em 1999, segundo o IPEADATA, 34,09% da população
brasileira encontravam-se abaixo da linha da pobreza, e havia 22,6 milhões de indigentes; entre
1977 e 1999, houve queda na proporção desses contingentes na população total do país, mas o
número absoluto cresceu: em 1977, o número de pobres era de 40,7 milhões; em 1999, atingiu
53,11 milhões; os indigentes eram 17,43 milhões em 1977, número que subiu para 22,6 milhões
em 1999 (IPEADATA). Os piores índices ocorreram na década de 80: em 1988, a indigência
atingiu 30,56% de toda a população brasileira.
É verdade que entre os fins dos anos 70 e 90, quando a economia cresceu, a pobreza e a
indigência, como proporção da população total, foram reduzidas, mas mesmo nesses períodos o
número absoluto de pobres e indigentes continuava elevado, enquanto a desigualdade aumentou
(Barros, Mendonça & Duarte, 1997).
Tudo isso encarece a necessidade de uma vigorosa política de combate à pobreza, à parte
das medidas destinadas a estimular o crescimento econômico. Mas, paralelamente, é preciso mudar
a ênfase da política de desenvolvimento.
Nas fases de expansão da economia brasileira, a prioridade foi concedida ao capital físico.
Educação e saúde ficaram em plano secundário. Houve, é fato, a exceção, digna de nota, quando
se disseminou a pós-graduação no Brasil. Mas o ensino fundamental, a cargo então dos estados,
ficou relegado a segundo plano.
A educação, por si só, pelo que representa para as pessoas, já justificaria maior atenção
por parte dos governos. Contudo, seus efeitos se estendem mais além e são decisivos para o
próprio desenvolvimento. A educação eleva a produtividade dos indivíduos, causa impactos
positivos no crescimento do PIB, aumenta os salários e contribui para a diminuição da pobreza.
Promove, além disso, a mobilidade social e concorre para maior igualdade social2 , sem contar
seus efeitos positivos para a cidadania e para o processo político, de mais difícil mensuração.
Estima-se que um ano a mais na escolaridade média da população brasileira elevaria a taxa de
crescimento da renda per capita em 0,35 ponto percentual (Barros, Henriques & Mendonça,
2002, p.2).
Lamentavelmente, segundo estudos recentes, o Brasil apresenta um atraso, em termos de
educação, de cerca de uma década em relação a um país típico com padrão de desenvolvimento
similar ao nosso (Barros, Henriques & Mendonça, 2002, p.16).
Sobre a relação entre educação e desigualdade de renda, ver Barros, Henriques, & Mendonça, 2002.
2
24 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Inegáveis progressos têm ocorrido, nos últimos anos, na área educacional, depois que se
BDMG
40 anos
instituiu a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação e o Fundef, contudo isso não tem sido
suficiente para compensar a defasagem do setor. Ínfima parcela das crianças em idade escolar
encontra-se fora da escola, mas a qualidade da educação no ensino fundamental é ainda um
problema. Adicionalmente, o segundo grau e o ensino técnico precisam ser significativamente
incrementados.
Encontrar meios para financiar a educação, incrementá-la, aumentar os anos de escolaridade
da população e elevar a qualidade do ensino e da aprendizagem são, talvez, os maiores desafios
que confrontam o desenvolvimento do País. Com os novos requerimentos de conhecimento exigidos
pela transformação tecnológica dos nossos dias, saber ler, escrever e contar não é suficiente. À
política educacional é preciso propor metas mais ousadas.
Ignorar o nexo causal entre educação e desenvolvimento foi, sem dúvida, o maior equívoco
das políticas de desenvolvimento postas em prática no Brasil. Perseverar nesse erro agora significaria
comprometer definitivamente o futuro do País.
Ao lado da educação, a saúde é o outro pilar do novo desenvolvimento. Por um longo
tempo as questões sanitárias foram tratadas de forma residual entre nós. Ignorou-se sua contribuição
para o desenvolvimento. Um direito social instituído pela Constituição de 1988, a saúde traz
ganhos para a produtividade da educação, eleva a renda nacional, ao diminuir os dias perdidos de
trabalho, e concorre para a redução da pobreza (Macroeconomics, 2001). A saúde está ligada à educação,
saneamento, alimentação, enfim, às condições de vida. Mas enquanto não é possível sanar os
problemas com os determinantes da saúde, é preciso remediá-los.
A criação do SUS, no bojo da nova Carta Constitucional, representou um avanço, mas
também trouxe novos dilemas. Com o novo sistema, as responsabilidades dos entes federativos
pela política foram melhor definidas, cabendo à União a provisão dos recursos, e, aos municípios,
a prestação de serviços. Os estados, entretanto, ficaram emparedados e difusos, competindo-lhes
complementar a atuação do poder público municipal e algumas outras funções.
O SUS paga ainda o preço da juventude, magnificado pela grandeza dos números e a
complexidade dos problemas. Se trouxe ganhos, como os decorrentes da descentralização, a
separação entre provisão e produção dos bens de saúde, entre outros, carece de reformulações e
melhor aproveitamento de suas potencialidades.
Outra área, que também deve integrar a linha de frente das políticas de desenvolvimento
do País, é a da proteção ao meio ambiente. Embora tenha havido avanços desde meados dos anos
70, quando o tema veio à baila em encontro da ONU em Estocolmo e entrou na agenda dos
países, entre nós a política ambiental tem-se dado em bases fragmentárias, marcada pela oscilação
na prioridade que lhe concedem os governos.
Conflitos de várias ordens, entre agentes produtivos que competem pelo uso de um
determinado recurso, entre produtores e consumidores, entre habitantes das diferentes localidades
onde se dá a produção e os depósitos dos resíduos, entre os que querem produzir e os que querem
conservar, tornam inviável a solução dos problemas ambientais só via mercado.
Ademais, no âmago da questão está o dilema do quanto e de como extrair as riquezas
naturais para propiciar a satisfação atual das necessidades dos indivíduos, sem comprometer os
processos de regeneração da natureza e sem prejudicar as gerações futuras. Em vista dessas
razões, é inevitável a regulação do Estado3 .
Ver a detalhada análise sobre o assunto, vol. VII.
3
25
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
Mecanismos institucionais e leis existem tanto no nível federal quanto no da Unidade da
BDMG
40 anos
Federação4 . Licenciar atividades produtivas, fiscalizar e monitorar a qualidade das águas ou a
extração de minerais, funções básicas para a proteção do meio ambiente e que hoje se encontram
sob a jurisdição estadual, exigem estudos e pessoal altamente qualificado. A lentidão na elaboração
de pareceres e respostas às solicitações de licenciamento ambiental acarretam danos à produção e
desgastam os órgãos e a própria política ambiental.
Urge tratar a proteção ao meio ambiente não como uma dimensão residual, mas, ao contrário,
como uma categoria essencial do desenvolvimento, como proposto na noção de desenvolvimento
sustentável5 .
A discussão sobre o desenvolvimento ficaria incompleta se não enfrentasse a questão de
como combinar restrições, recursos e valores, ou seja, a estratégia, ou como articular Estado,
setor privado e os demais stakeholders para a consecução dos objetivos visados, isto é, a questão
institucional do desenvolvimento. Nesse aspecto, cabe assinalar novamente a relevância do
estabelecimento de mecanismos regulatórios e institucionais que gerem os incentivos corretos
para os agentes.
Em passado recente, nas experiências desse processo, no Brasil, era o Estado, em sentido
amplo, quem ditava os rumos, estabelecia os objetivos e escolhia os meios. Cabia-lhe também
papel não pequeno na implementação das políticas, na aplicação dos investimentos e até na criação
e a gestão de empresas. Na realidade, o desenvolvimento foi tipicamente uma política de cima
para baixo, decidida por uma elite tecnocrática à qual se associava uma parte da classe política e
segmentos do setor empresarial.
A mudança política do país, com a redemocratização, a crise fiscal e financeira e o próprio
contexto atual do desenvolvimento estão a exigir nova moldura institucional para esse processo.
O Estado, embora continue a ser ator decisivo, não é mais hegemônico. Pode muito, mas não
pode tudo.
O Brasil conta hoje com uma numerosa e dinâmica classe empresarial, e as decisões políticas
dão-se dentro de um marco democrático, que requer negociação e acomodação dos interesses em
conflito. A margem de ação do poder público acha-se limitada tanto pelas circunstâncias da crise
por que passa a economia quanto pelas mudanças no quadro internacional.
O novo desenvolvimento, em bases sustentadas e sustentáveis, é missão de todos, e não
apenas do Estado. O QUADRO 1 compara os papéis do Estado no velho e no novo
desenvolvimento.
Ver, a propósito do assunto, Meio Ambiente e Desenvolvimento, neste Estudo.
4
Neste Estudo, no capítulo referente ao meio ambiente (volume VII), são apresentadas diferentes concepções do desenvolvimento
5
sustentável. Ver também a Agenda 21, documento do governo brasileiro a ser apresentado em reunião da Eco3, a se realizar em
2003 em Joanesburgo, que se encontra disponível no site do Ministério do Meio Ambiente.
26 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
QUADRO 1
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40 anos
O \"VELHO\" E O NOVO DESENVOLVIMENTO
VELHO DESENVOLVIMENTO
NOVO DESENVOLVIMENTO
Período Kubistcheck Milagre Brasileiro
Papel do Estado Hegemônico. Hegemônico. Regulador, garantidor da
estabilidade, articulador e
mobilizador da sociedade
organizada.
Planejamento do De cima para baixo, com De cima para baixo. Horizontal e participativo.
desenvolvimento mobilização política a
posteriori.
Eixos da ação Capital físico. Capital físico, apoio à Estabilidade, capital humano
desenvolvimentista indústria de base, e capital social.
Estado-empresário.
Instrumentos de Investimentos públicos. Investimentos públicos, Regulação, privatizações,
política reservas de mercado, concessões, alianças e parceria
investimentos produtivos com os setores organizados da
com controle integral sociedade.
do Estado.
Financiamento do Poupança pública Poupança do Estado Poupança pública (limitada),
desenvolvimento (abundante), (abundante), investimentos privados.
investimento estrangeiro poupança privada
(abundante). compulsória (abundante),
capital externo,
(abundante).
Atores do Técnicos e políticos. Técnicos e organizações Técnicos, políticos, empresários
desenvolvimento de grupos empresariais. e organizações estruturadas da
sociedade.
27
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
1.3. Brasil: o novo desenvolvimento e o novo
BDMG
40 anos
Estado
Desde o princípio dos anos 90, em resposta às transformações no quadro externo e interno
do país, vêm ocorrendo mudanças na organização e no modo de atuação do aparato do Estado
brasileiro, com reflexos diretos sobre o estilo e o modelo de desenvolvimento.
A crise fiscal e financeira por que vem passando o País praticamente inviabilizou a estratégia
levada a cabo na era desenvolvimentista da presidência Kubitscheck e no período do milagre.
Desde meados dos anos 80, o poder público não conta com folga de recursos e nem pode recorrer
à clássica solução da poupança compulsória, porque a carga tributária já se encontra em patamar
muito elevado (Giambiagi, 2002).
Paralelamente, a inserção crescente do Brasil no quadro da economia globalizada impõe
modificações e restrições às políticas de desenvolvimento que limitam a possibilidade de o Estado
lançar mão de instrumentos clássicos de financiamento do desenvolvimento, como, por exemplo,
os subsídios. Acordos internacionais, como os estabelecidos com a participação na Organização
Mundial do Comércio, reduzem cada vez mais o uso desses mecanismos.
De fato, o modelo do Estado empresário, ápice da filosofia desenvolvimentista, não tem
mais lugar no cenário atual do País e do mundo. Ainda que se possa tentar justificá-lo no passado,
pelas peculiaridades do desenvolvimento tardio ou periférico, pelas limitações do capital nacional,
os baixos fluxos de capital internacional ou pela pequena atratividade do Brasil para os investidores
estrangeiros, hoje tal arranjo não mais se sustenta.
A visão predominante considera que o espaço de atuação do Estado, em sentido amplo, é
determinado principalmente pela presença de falhas de mercado, situações em que o mercado
fracassa em alocar eficientemente os recursos. As falhas de mercado são muitas externalidades,
falhas na competição, informação imperfeita, mercados e contratos incompletos e, com efeito,
existe um grande espaço para a atuação do Estado, seja através de mecanismos regulatórios com
possibilidade de imposição de taxa, subsídios e outros controles, seja, em alguns casos, através da
provisão pública de bens e serviços6 .
Dessa análise constata-se que visões maniqueístas, que tentam colocar, de um lado, o
Estado empresário, e, de outro, o Estado minimalista, não incorporam os preceitos básicos da
teoria econômica (Rodrik, 2002). O Estado pode e deve atuar quando há falhas de mercado;
contudo, muitas vezes, é difícil identificar essas falhas e determinar quais são as melhores formas
de intervenção do Estado na economia. Esse é o maior desafio que enfrentamos.
O modelo do Estado empresário brasileiro exauriu-se no início da década de 90. Os ganhos
que dele poderiam advir são mais que sobrepesados pelas desvantagens que acarretam na atualidade
ou carregam para o futuro, tanto em termos econômicos quanto sociais. Isso não quer dizer que o
Estado deva abdicar de exercer papel ativo na busca do desenvolvimento. Ao contrário, as carências
da economia brasileira e o déficit social do País não foram eliminados, e o mercado, superior na
alocação de recursos em muitos casos, não saberia nem teria como responder a esses desafios
sozinho. Por outro lado, a globalização, com suas exigências de abertura do comércio e dos fluxos
de capitais e de informação, somada à intensa revolução de base científico-tecnológica, sepultou
de vez a quimera do desenvolvimento autárquico.
Laffont e Tirole (1993) discutem as vantagens e desvantagens da provisão pública vis-à-vis à provisão privada regulada. O
6
principal resultado mostra que só uma análise caso a caso pode concluir em direção a uma ou outra forma de provisão.
28 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
O País não encontrou ainda o molde certo para sua inserção na nova ordem econômica
BDMG
40 anos
internacional. Não somos mais a nação rural e agrária dos anos 40, que tinha no café o item
principal de sua pauta de exportações. Temos uma base industrial sólida e diversificada, que, nos
últimos anos, à medida que se dava a abertura comercial, tornou-se competitiva, mesmo não
contando com subsídios e tratamento governamental privilegiado. A própria agricultura expandiu-
se e modernizou-se, e apresenta hoje elevado nível de competitividade. Mas isso não significa a
viabilidade de um projeto de desenvolvimento autônomo e fechado.
Frente às circunstâncias históricas atuais, agravadas pela debilidade da economia brasileira,
e considerando o estágio de crescimento alcançado no País e as exigências de participação e
legitimidade políticas criadas com a consolidação da democracia entre nós, a missão do
desenvolvimento exige um Estado eficiente e organizado em bases novas. Cabe-lhe, antes de mais
nada, propiciar as condições e o ambiente para que floresçam os investimentos e o progresso. Tais
exigências tornam imperiosa a estabilidade, não apenas a econômica e financeira, que requer a
administração prudente dos recursos públicos, mas a estabilidade em seu sentido amplo, com a
institucionalização de regras críveis, para que se alcance a previsibilidade de negócios, o que
permitiria, assim, decisões com horizonte de tempo mais largo.
Avulta nesse quadro o papel institucional e regulador que o Estado deve assumir entre nós.
Mercado e Estado não são antípodas. Aquele precisa das garantias deste para operar. Só a confiança
entre as partes não assegura o cumprimento dos contratos. A interação dos agentes econômicos
seria caótica, se não houvesse leis, marcos institucionais e credibilidade para mediá-la. Tudo isso
só se conquista a longo prazo, pois leva tempo para os agentes crerem que os governos não
romperão ou não revisarão unilateralmente contratos frente a contingências ou pressões políticas
inesperadas. Se, como se acredita atualmente, as instituições e a regulação determinam o
desenvolvimento econômico, o desenho dessas instituições pode ser benéfico ou prejudicial ao
desenvolvimento.
A regulação pública não é, pois, invasão descabida dos mercados. Na realidade, é condição
sine qua non para que os mercados existam, sejam completos e funcionem efetivamente. Códigos
de consumidores ou legislações sobre sociedades anônimas que incentivem o disclosering são
instrumentos indispensáveis para fazer valer o que foi pactuado, para proteger as relações entre os
agentes econômicos e impedir que prevaleça a lei do mais forte. Contudo, mais uma vez, não
bastam leis, marcos institucionais ou boas intenções, já que os mercados respondem a incentivos.
Incentivos, de fato, são determinantes desse novo ambiente, pois representam a resposta de todos
os agentes a uma ação governamental.
Com efeito, incentivos podem ser ou não bem-sucedidos na promoção do desenvolvimento.
O estabelecimento de instituições e o desenho de contratos, incluindo contrato implícitos entre o
governo e a sociedade, são condições necessárias para colocar o País na rota do desenvolvimento.
Complementarmente, o que costuma ser denominado atualmente de capital social normas,
redes de informação, mecanismos de reputação, sanções sociais e todos os outros contratos
estabelecidos informalmente pela sociedade têm importantes efeitos sobre o desenvolvimento
econômico e social. O capital social, claramente, depende da história do País, mas pode ser
desenvolvido através de políticas que aumentem o conhecimento da sociedade. Por exemplo, a
violência urbana, que gera efeitos indesejáveis no desenvolvimento, pode ter como um dos
determinantes a ausência de capital social. O enforcement fazer cumprir das leis depende do
capital social associado, ou seja, dos contratos implícitos que a sociedade estabelece.
A função das instituições, da regulação e do capital social é solucionar os problemas de
coordenação que propiciam mercados incompletos. As justificativas para a correção das falhas de
29
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
coordenação baseiam-se em questões centrais do desenvolvimento econômico, como inovação,
BDMG
40 anos
transparência nos negócios, investimento, treinamento da força de trabalho e poupança, que
proporcionam externalidades positivas aproveitáveis através da intervenção do Estado (Hoff e
Stiglitz, 2001). Esses pontos, a ser desenvolvidos na seção 1.4 - Minas Gerais e o novo
desenvolvimento, sinalizam que existem variáveis sobre o controle das unidades federativas.
Portanto, Estado regulador não é sinônimo de Estado fraco. Ao contrário, para exercitar
esse papel, o poder público precisa de organização, conhecimento, marco legal, meios materiais e
recursos humanos. Em outras palavras, precisa contar com instituições efetivas e críveis. Ou
melhor, ele próprio precisa ser efetivo. A noção neoclássica de acumulação de capital e a noção
shumpeteriana de inovação como indutoras do desenvolvimento são incompletas, na medida em
que não incorporam o papel das instituições e do capital social (Méier, 2001).
Entretanto, seria ilusório e ingênuo supor que apenas isso basta para assegurar uma economia
afluente. O desenvolvimento é concentrador e provoca desequilíbrios que atingem indivíduos, grupos
e regiões. Corrigir as disparidades de renda inter-regionais e promover a eqüidade são objetivos inerentes
ao bom governo, sobretudo nas democracias. Estudos e trabalhos recentes sobre o desenvolvimento
vêem mostrando que a melhor distribuição de renda pode levar a maior crescimento econômico.
Outra vertente para a intervenção do Estado refere-se à educação e à saúde. O velho
desenvolvimento, se assim se pode chamar o modelo de crescimento praticado no país, priorizou
o capital físico e relegou a plano subalterno os gastos com educação e saúde. Estes se justificam
não só por se tratarem de bens de mérito, que a sociedade considera positivos e desejáveis, mas
também por serem fatores decisivos para o desenvolvimento. A educação comprovadamente
aumenta a produtividade dos trabalhadores, fonte principal de crescimento da riqueza das nações.
Mais recentemente, tem-se constatado que a saúde é também um diferencial do desenvolvimento.
Recentemente, no Brasil, vêem-se formando convergência de idéias e de posições sobre o
papel do Estado e suas políticas de desenvolvimento. Integram-na os seguintes pontos:
I. a alta inflação é um mal a ser evitado;
II. a estabilidade é uma necessidade;
III. o nível atual da desigualdade social é intolerável;
IV. as disparidades regionais precisam ser diminuídas;
V. privatizações podem ser necessárias;
VI. subsídios indiscriminados são socialmente indesejáveis;
VII. há necessidade de conciliar o crescimento econômico com as exigências da proteção
do meio ambiente (desenvolvimento sustentável);
VIII. a vulnerabilidade externa da economia brasileira precisa ser drasticamente reduzida;
IX. os governos devem gastar com parcimônia e eficiência, dados os objetivos pré-
definidos pela sociedade;
X. os mecanismos regulatórios devem propiciar um ambiente favorável ao
desenvolvimento econômico e social.
É contra o pano de fundo dessas considerações que se propõe que o governo de Minas Gerais
se estruture e formule sua estratégia de desenvolvimento para o Estado. O estágio desse processo
no País e em Minas, as lições do passado, somadas às circunstâncias internas e externas do presente,
com suas restrições, indicam a necessidade imperativa de reciclar o papel do Estado. Entretanto,
falta definir qual é o papel das unidades federativas nessa nova idéia de desenvolvimento. As políticas
indutoras de desenvolvimento delineadas até aqui são, em grande medida, de incumbência da esfera
federal do governo. Resta definir o papel das unidades federativas, em particular de Minas Gerais,
no novo desenvolvimento.
30 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
1.3.1. Minas Gerais e o novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
Com a Constituição de 1988, os estados ficaram espremidos e emparedados entre a União
e os municípios: estes últimos, guindados, pela primeira vez, à condição de entes autônomos da
Federação brasileira. Matérias, como as relativas ao meio ambiente, que pela Carta de 1946 pertenciam
exclusivamente à órbita estadual, passaram a ser compartilhadas com a União e com os municípios.
Por outro lado, os estados perderam autonomia em relação a outras questões que passaram a ser
detalhadas na Constituição Federal, como as pertinentes à organização administrativa. Apesar disso,
o poder público estadual continua a ter um papel de relevo no tocante ao desenvolvimento de seu
território. Cabe a ele proceder de forma própria e independente, mas também supletiva à União,
explorando primeiro as potencialidades que lhe conferem seu papel constitucional e tratando de tirar
partido das brechas e lacunas da atuação do Governo Federal e dos municípios, buscando com isso
encontrar um nicho que lhe seja pertinente para participar desse processo.
Em princípio, à União compete, primordialmente, propiciar as condições de ambiência
estável para o desenvolvimento, induzir, aglutinar e articular a ação em prol do crescimento em
âmbito nacional, combater a pobreza e a desigualdade social e promover a igualdade de
oportunidades e a redução das disparidade regionais.
Aos estados incumbe atuar supletiva e complementarmente à União, exercer a regulação
que lhes foi destinada pela Constituição, garantir a segurança pública, desempenhar com eficiência
e efetividade os papéis que lhes são atribuídos na saúde, na educação e na proteção ao meio
ambiente, explorar e potencializar os recursos dormentes ou pouco aproveitados em seu território,
mobilizar e catalisar as forças sociais e regionais em prol do desenvolvimento e reduzir as diferenças
entre as diversas áreas e municípios que integram seu território. Adicionalmente, cabe à unidade
federativa garantir a estabilidade e credibilidade das instituições para assegurar os incentivos ao
investimento.
Aos municípios, guindados à condição de ente federativo pela Constituição de 1988, foram
destinadas, principalmente, a jurisdição sobre as matérias locais e grande parte da responsabilidade
pela prestação dos serviços públicos básicos.
Para desincumbir-se das tarefas que lhes tocam em relação ao desenvolvimento, é
indispensável que os governos estaduais se aparelhem para lidar com os seguintes desafios:
I. aproveitar as oportunidades criadas com as políticas nacionais;
II. identificar os potenciais de crescimento próprio e desenvolver estratégias para
potencializá-los;
III. coordenar e integrar as ações dos municípios para suprir deficiências de escalas na
produção de bens ou serviços de responsabilidade do escalão municipal de governo,
para sanar falhas de comunicação e informação na implementação de políticas
públicas prestadas localmente e para complementar decisões municipais que têm
alcance regional e apresentam interdependência com relação a iniciativas de outros
municípios que integram um mesmo espaço articulado;
IV. criar mecanismos que assegurem o afluxo de capital para região;
V. garantir um nível de educação básica à população, de modo a permitir a formação
de mão-de-obra minimamente qualificada.
A realização desses objetivos requer, por uma parte, que a estrutura organizacional e o
modo de atuação do poder público estadual sejam alinhados com o Governo Federal e, por outro,
que se reconheçam os papéis, os limites e os constrangimentos para a atuação de cada instância
governamental.
31
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
O arranjo federativo deve basear-se no princípio de que a divisão de trabalho entre os
BDMG
40 anos
níveis de governo precisa refletir as possibilidades de eficiência de cada um de seus níveis
municipal, estadual e federal e necessita ser conciliada com as aspirações de autonomia e auto-
governo das populações.
Ao Município deve caber, preferentemente, a prestação e execução dos serviços públicos,
observando-se o preceito da subsidiariedade. Coerente com essa posição, cabe ao governo de
Minas, a médio e a longo prazo, ampliar a municipalização da saúde, educação e outros serviços
sob sua responsabilidade e a dos governos locais. À União caberiam, como fiadora da eqüidade e
da igualdade que deve prevalecer entre os membros da Federação, os papéis ligados ao
financiamento, à compensação de diferenças regionais de renda e de riquezas e ao estabelecimento
de normas gerais com respeito a provisão e implementação das políticas públicas.
Ao Governo Estadual competiria, ainda, a regulação que lhe for atribuída constitucionalmente
e a ação supletiva e complementar à União e aos municípios, para assegurar eficiência, efetividade e
equidade das políticas sociais.
Um exemplo claro da necessidade desse papel são as políticas compensatórias de emprego
e de habitação. Se os municípios decidem implementar políticas complementares à União nessas
dimensões, o resultado será a imigração desordenada, que vai onerar os mais dinâmicos, produzindo
efeitos bumerangue, gravosos e contrários à intenção original dessas políticas. A União não teria
instrumentos para remediar esse problema, pois não dispõe de capacidade de coordenar o universo
dos municípios. Além disso, as preferências da sociedade local são melhor conhecidas pela classe
política regional. Esse exemplo ilustra a função fundamental das unidades federativas na correção
de falhas de coordenação. Tais falhas de coordenação existem em praticamente todas as políticas
sociais7 e em várias das dimensões relevantes das políticas de desenvolvimento.
No caso de políticas sociais, à unidade federativa cabe coordenar a alocação de recursos de
forma a maximizar o bem-estar social da região. Esta coordenação deve-se dar por meio de marcos
institucionais e regulatórios e sistemas de incentivos que induzam os municípios a atuarem em
conformidade com as grandes diretrizes dessas políticas.
1.3.2. Por uma nova dinâmica de desenvolvimento em Minas
Consonante com os pontos acima expostos, as ações de desenvolvimento do governo de
Minas devem desdobrar-se em duas grandes frentes. A primeira deverá procurar tirar partido das
oportunidades exógenas de crescimento econômico, criadas com a retomada do desenvolvimento
nacional, adaptando as políticas estaduais, mas também procurando influenciar as iniciativas de
desenvolvimento levadas a cabo pela União. A segunda visa especificamente à promoção do
desenvolvimento com base nos fatores endógenos. Cabe ao governo do Estado o papel de indutor
e catalisador dos recursos dormentes e das potencialidades existentes no território mineiro, a
mobilização e a articulação das forças sociais orientadas para o desenvolvimento e a criação de
arranjos institucionais locais, regionais e estadual que propiciem a aceleração e a maturação desse
processo em Minas.
Tal opção justifica-se não apenas pela crise por que passa a economia nacional, ou pela
precariedade das finanças públicas estaduais, mas também pelas oportunidades de aproveitamento
desse novo filão de crescimento.
O vol. VIII do Minas Gerais do Século XXI contempla trabalhos sobre Saúde, Habitação, Segurança, Educação Pobreza e Emprego.
7
32 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Uma das oportunidades endógenas para o desenvolvimento de Minas vincula-se à existência,
BDMG
40 anos
no território mineiro, de numerosas aglomerações produtivas, com diferentes graus de dinamismo
e em distintos estágios de consolidação. Cabe ao Governo Estadual apoiá-las e estimulá-las,
reforçando a oferta de capital humano de que precisam, levantando suas carências, inventariando
seus recursos, oferecendo informação e espaço institucional para a integração dos agentes políticos
econômicos locais e das lideranças das organizações comunitárias estruturadas, e mediando e
intermediando a solução dos problemas que podem tolher seu crescimento.
Nos últimos anos, a economia mundial alcançou nível sem precedentes de articulação e
interdependência. Consumidores e produtores, crescentemente separados geograficamente,
encontram-se cada vez mais próximos. Os fluxos financeiros passaram a se mover em velocidade
instantânea. A produção se globalizou e a competição, agora, é de todos contra todos, ou de
blocos contra blocos, e acirrada. Em conseqüência, mudou a ordem econômica internacional,
provocando crises, mas ensejando também oportunidades.
No plano das empresas teve lugar processo semelhante. A organização vertical da produção
cedeu lugar à terceirização e a formação de cadeias produtivas. A grande empresa volta-se cada
vez mais para o seu core business, e a questão da eficiência e da inovação tecnológica não se põe
apenas para ela, mas para toda sua cadeia de produção, com diferentes fornecedores e empresas.
Sobrevive nessa etapa nova da organização econômica mundial quem detiver vantagens
competitivas.
Diante desse quadro, o objetivo do desenvolvimento de Minas deve ser o aumento da
competitividade de sua plataforma econômica; o alvo, as cadeias produtivas e as aglomerações de
base territorial; e o instrumento principal, a mobilização dos atores organizados nas comunidades
locais e regionais. O objetivo maior deve ser o de transformar as vantagens comparativas de
Minas Gerais em vantagens competitivas reais e duradouras, com impacto além de suas fronteiras
físicas dentro do Estado8 .
Isso não quer dizer que o governo de Minas deva deixar de fazer investimentos em capital
social básico que se afigurarem necessários para o progresso do Estado. Deve buscar fazê-lo
preferentemente por meio de parcerias, ou delegando a tarefa através de concessões, ficando a
seu cargo apenas nos casos em que, por razões de escala, não houver economicidade para
capitais privados.
A nova dinâmica do desenvolvimento mineiro reclama a contrapartida de mudanças no
aparato público mineiro. Para responder à nova exigência, é preciso reestruturar a máquina
governamental de Minas, fortalecendo o planejamento não o planejamento compreensivo e
com pretensões oniscientes e onipotentes, mas o planejamento adaptativo ou um muddling through
articulado e deliberado , redesenhando suas instituições e organizações e aprendendo a operar
em moldes participativos, e não por decreto ou por um fiat governamental.
A nova dinâmica do desenvolvimento de Minas requer, além de um estilo novo de atuação
do Estado, a inclusão ativa a esse processo da classe política, dos empresários, do poder público
municipal, das lideranças organizadas das comunidades e das organizações não-governamentais.
Tais mudanças respondem a necessidades trazidas pela redemocratização do País e pelas exigências
da construção-consolidação da ordem democrática entre nós. Dentre essas exigências novas estão
a transparência, o controle social do Estado e a participação. Na ambiência do desenvolvimento
democrático, os mecanismos da ação do Estado precisam ser porosos e aptos a abrigar os reclamos
dos protagonistas desse processo.
As idéias aqui expostas beneficiaram-se de sugestões discutidas com William Penido e Glaucia Penido.
8
33
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
BDMG
40 anos
1.4. Os atores do desenvolvimento
A Classe Política e o Desenvolvimento de Minas
A imagem do político mineiro é em geral marcada por traços e chavões que o retratam como
avesso à inovação, fortemente orientado pela tradição e pouco empreendedor. Embora sejam-lhe
atribuídas também virtudes e habilidades de negociação e conciliação, a representação que dele se
faz é, no conjunto, negativa.
Avaliar a qualidade da classe política é sempre tarefa árdua e de difícil mensuração.
Freqüentemente, em lugar de resultado abalizado pela pesquisa científica, lida-se com estereótipos9 .
Contrastam com essa imagem e a desautorizam a trajetória de governantes de Minas que,
mais cedo do que os políticos de outros Estados, deram mostras de interessar-se pelas questões do
desenvolvimento mineiro. Para registrar esse contraponto, basta lembrar que o primeiro sítio planejado
e destinado a sediar indústrias, a Cidade Industrial de Contagem, foi obra de um governador mineiro,
Benedito Valadares.
Minas é o Estado com mais a longa e forte tradição de planejamento entre seus pares na
Federação. Belo Horizonte foi a primeira de uma série de capitais planejadas no País. Ainda no
começo do século XX, o governador João Pinheiro promovia feiras e tomava medidas para propiciar
o progresso de Minas. Em 1941, deu-se a criação da Cidade Industrial; em 1947, o governo do
Estado lançava o Plano de Recuperação e Fomento da Produção, com o deliberado intento de contrapor-se
à perda de substância da economia mineira, descrita como uma economia colonial que exporta e
vende matérias-primas a baixos preços e compra e importa, em troca, manufaturas de maior
valor(Minas Gerais, p.26). Em 1950, o governo mineiro lançou o Plano de Eletrificação de Minas
Gerais, que teria como desdobramento a criação da Cemig.
Nos anos 60, o BDMG, então uma jovem instituição, realizou o Diagnóstico da Economia Mineira,
que expôs o atraso da economia do Estado e abriu caminho para a vigorosa recuperação nos anos
seguintes.
João Pinheiro, Milton Campos, Juscelino Kubistcheck, Israel Pinheiro e Rondon Pacheco
marcaram suas administrações à frente do governo de Minas por atuações fortemente orientadas
para o terreno do desenvolvimento da economia.
Não há razões para supor que a classe política mineira não venha a reconhecer a necessidade de
engajar-se decisivamente em ações para a promoção do desenvolvimento e a melhoria da qualidade de
vida dos mineiros, nos moldes que agora se propõe. Resta saber como fazê-lo. Diferentemente das
vezes anteriores, quando o esforço desenvolvimentista foi liderado pelo Executivo, hoje é imprescindível
contar com o Legislativo estadual e as lideranças políticas municipais para esse empreendimento.
Um primeiro ponto a superar é a limitação que a Constituição de 1988 impôs à atuação das
assembléias legislativas estaduais. A nova Carta estipulou competências residuais para os legislativos
dos Estados. Cabe-lhes tomar iniciativas apenas sobre matérias que não fazem parte das atribuições
da União e do Município. É-lhes permitido, em caráter complementar, legislar sobre outras questões,
mas subordinados a orientações e princípios gerais estabelecidos por lei federal.
A Ciência Política dispõe de métodos e técnicas para fazê-lo, mas eles não existem quando se trata da classe política mineira.
9
34 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Entretanto, apesar desse desequilíbrio do arranjo federalista, sobram espaços para o poder
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40 anos
legislativo dos Estados atuarem, e a Assembléia de Minas pode e deve fazer muito pelo
desenvolvimento mineiro. Antigamente conhecida como lei de meios, o orçamento é peça de
elaboração conjunta do Executivo e Legislativo estaduais. É nele que estão contidas as provisões
de recursos financeiros para as atividades do poder público.
A feitura do orçamento estadual deve alinhar-se ao esforço desenvolvimentista. Mas o
papel do Legislativo não deve ficar adstrito ao exame e à aprovação da proposta orçamentária do
Executivo, legitimando-a ou não. Compete-lhe ir além e acompanhar e avaliar a execução dos
programas nela contidos, verificando se os efeitos que deles se esperavam foram alcançados,
ouvindo autoridades responsáveis por sua execução e os públicos-alvo supostamente por eles
beneficiados, para verificar o acerto das medidas, os desvios de rotas e os erros porventura
cometidos tanto em sua concepção quanto em sua implementação.
A intervenção na realidade social e econômica, através de políticas, programas e projetos,
é tarefa complexa e sujeita a incertezas de várias ordens. Boa parte dos problemas atacados é
pouco conhecida, e a teoria, argumento ou idéia subjacente às medidas públicas para saná-los têm
caráter quase experimental. A avaliação dos programas, ao apontar os erros e ao identificar os
acertos, concorre decisivamente para a aprendizagem requerida para melhorar a ação do Estado.
Não é só por esse ângulo que a tarefa do Legislativo de avaliar as políticas públicas estaduais
se faz necessária e possível. A implementação de políticas não é um processo automático. Decisões
tomadas em instâncias mais altas da burocracia são interpretadas e podem ser distorcidas; e,
quando há a intervenção de diversos agentes, é necessária a coordenação, o que pode retardar o
processo e alterá-lo. O trabalho do Legislativo, monitorando e acompanhando de perto as ações
do Executivo, é fundamental para identificar falhas de execução, problemas não antecipados e
conflitos de interesses que porventura se manifestem no curso da implementação de políticas.
Entretanto, não apenas por isso se postula a participação da classe política no
desenvolvimento mineiro. A estratégia que se preconiza para esse processo em Minas, com ênfase
em ações integradas e prioridade concedida para as aglomerações de atividades produtivas, supõe
a mobilização do capital social das comunidades locais, a mobilização de suas lideranças formais
e informais e das organizações não-governamentais com atuação na região. Os representantes
políticos dessas comunidades no parlamento estadual não poderiam ficar ausentes.
A atuação do Estado, nos moldes acima delineados, implica de fato a criação de novas
instâncias públicas de decisão. Excluir, ou não contar com a presença ativa de parlamentares
junto a essas arenas novas de deliberação política, poderia levá-las a colidir ou a entrar em conflito
com as instituições formalmente encarregadas da representação da vontade popular no Estado.
Sabe-se que, apesar da inexistência da representação por distritos e embora a legislação
eleitoral propicie a escolha de representantes votados em todo o território estadual, grande parte
do corpo de legisladores estaduais de fato representa regiões e sub-regiões do Estado. Em outras
palavras, os deputados, tanto federais quanto estaduais, são, na sua maioria, também deputados
distritais. Não bastassem ao deputado outras qualificações advindas de seu papel como
representante político da população, essa, por si só, já o torna um interessado nas questões locais,
com direito a assento nas novas instâncias de deliberação que vierem a ser criadas para a mobilização
das comunidades em prol do desenvolvimento de Minas.
Colocados frente a frente com as lideranças locais e as entidades das comunidades que
representam, os parlamentares teriam todas as razões para se comprometerem com o que for
decidido e se empenharem com o encaminhamento da solução junto a outras instâncias, inclusive
e principalmente, a Assembléia Legislativa de Minas.
35
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
Os empresários e a nova dinâmica do desenvolvimento mineiro
BDMG
40 anos
Entre 1969 e 1975, a economia mineira experimentou vigoroso impulso. US$4,3 bilhões
foram aplicados em novas plantas ou na expansão da capacidade industrial existente no Estado
no período (Diniz, 1978 e Andrade, 1980).
A atração de investimentos deveu-se não só às condições propícias do quadro econômico
nacional, mas também, e principalmente, em virtude do aparato institucional montado pelo governo
mineiro.
Havia um projeto de desenvolvimento para Minas10 , respaldado por um arranjo de órgãos
e instituições da administração estadual. A Secretaria de Estado da Fazenda, o BDMG, o INDI, o
CDI e a Fundação João Pinheiro foram ativos protagonistas desse processo e constituíram o
diferencial de Minas na competição com outros Estados.
Tal modelo esbarra hoje nas incertezas da conjuntura nacional, nas barreiras legais à guerra
fiscal e na oposição de significativas correntes da opinião pública que teme distorções na política
estadual de atrações de investimentos. Isso não significa que a única via aberta é a do
desenvolvimento autóctone. O Governo Estadual deve continuar a luta para atrair capitais e
empresas de fora, mas procurando vender as vantagens comparativas de Minas, e concedendo
subsídios apenas nos casos de projetos com grande impacto na economia das regiões e nas cadeias
produtivas do Estado.
A viabilidade do desenvolvimento estadual assenta-se, principalmente, nas potencialidades
de sua base territorial. Minas conta com 40 aglomerações produtivas distribuídas em quase todas
as suas regiões 11 . Essas aglomerações encontram-se em diferentes estágios de maturação e
consolidação e precisam de ser alavancadas para que alcancem patamares crescentes de
competitividade e possam sobreviver e crescer. Para lograr esse objetivo, é imprescindível contar
com a participação e o apoio dos segmentos empresariais.
Há quase quatro décadas, o BDMG lançou as chamadas Jornadas para o Desenvolvimento,
encontros com pequenos empresários locais, em que buscava despertá-los para as oportunidades
de investimento nas comunidades. A experiência não foi bem-sucedida e logo seria abandonada
pelo Banco. Há que se pensar se seria viável agora. Para tal, um dos pontos de análise é com
relação ao principal problema apontado pelos técnicos das Jornadas: a falta de empreendedorismo,
ou de mentalidade empresarial, dos envolvidos. de que se queixavam à época os técnicos das
Jornadas não seria mais problema?
Seria um equívoco supor que as Jornadas para o Desenvolvimento eram equivalentes à
dinâmica do desenvolvimento a partir das aglomerações produtivas e com base territorial. As
Jornadas visavam garimpar os talentos empresariais locais e despertá-los para o aproveitamento
das oportunidades que a economia do município ou da região lhes ofereciam. O foco era, portanto,
o indivíduo. Ademais, tais esforços limitavam-se a encontros, precedidos de um mapeamento das
potencialidades, e não havia seqüência nesse trabalho. Na atualidade, o quadro é bem diverso.
Muitas micro, pequenas e médias empresas que respondem por significativa parcela da produção
e do emprego gerado em Minas encontram-se nucleada em aglomerações produtivas que seriam o
alvo prioritário da nova dinâmica do desenvolvimento mineiro.
O projeto de desenvolvimento de Minas não coincidia com as recomendações e estratégias formuladas no Plano Mineiro de
10
Desenvolvimento Econômico e Social (PMDES), conforme se pode depreender da análise de Andrade (1980).
Ver Volume VI deste Estudo.
11
36 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
As Jornadas fracassaram porque partiam do pressuposto de que ao empresário bastava
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40 anos
apenas o conhecimento das oportunidades de empreendimento para que se decidissem a fazer o
seu aproveitamento e exploração. O micro e o pequeno empreendedor, contudo, precisam de ser
apoiados para se engajarem no processo de desenvolvimento nos moldes delineados (Olson Jr.,
1968), que é essencialmente um jogo de cooperação envolvendo uma ação coletiva da qual
participam o Estado, as lideranças locais formais e informais e representantes dos segmentos
organizados da comunidade local. Isso porque, para superar as barreiras que tolhem o seu
crescimento, as organizações produtivas de uma aglomeração precisarão contar com recursos não
apenas materiais e financeiros, mas de outra ordem, parte dos quais depende da ação concertada
entre eles e deles com o poder público local, o Estado e as lideranças e agentes comunitários.
Amiúde, costuma-se retratar o empresário mineiro como pouco empreendedor ou carente,
até mesmo de espírito ou mentalidade empresarial. As causas apontadas para esses alegados defeitos
são difusas, equivocadas e preconceituosas e resvalam quase sempre para o campo cultural.
Esse estereótipo não se aplica na prática. O empresariado mineiro é, em geral, formado
por numeroso grupo de pequenos proprietários, com interesses atomizados, especialmente nas
cidades do interior. Sua mobilização e participação em ações coletivas, como de resto a de todo
ator social ou político com grande contingente de membros, só ocorrem quando são
convenientemente incentivados(Olson Jr., 1968). No tocante ao empresário mineiro, não há,
pois, razões para duvidar que responderá positivamente às iniciativas de desenvolvimento
projetadas.
Deriva daí a necessidade de criar espaços institucionais no nível local ou sub-regional,
combinados com estímulos, para induzir o empresário a participar, logrando, assim, o
desenvolvimento almejado. Tais espaços e mecanismos serão tratados e discutidos
detalhadamente no próximo capítulo deste estudo, quando se abordar a reestruturação da máquina
pública mineira.
O Papel do Terceiro Setor no Desenvolvimento12
Mencionou-se que o desenvolvimento não é missão privativa do Estado ou do mercado,
tampouco é sinônimo de crescimento econômico, da riqueza ou mesmo da riqueza per capita.
Desenvolvimento sustentável compreende diversas dimensões de desenvolvimento que
proporcionam qualidade de vida, em sentido amplo, à sociedade. Educação, saúde, atenuação das
desigualdades sociais e equilíbrio ambiental são algumas faces do que se aceita hoje, ainda que
confinado ao marco da boa referência teórica, como desenvolvimento. A complexidade e a presença
de dilemas (trade-offs) na definição e implementação do desenvolvimento desejável impossibilitam
ou tornam ineficientes, em larga medida, ações autônomas do Estado (primeiro setor) ou do
mercado (segundo setor).
As organizações da sociedade civil ou Terceiro Setor podem ser entendidas como o conjunto
de iniciativas da sociedade civil, de caráter não-lucrativo, na provisão de políticas públicas de
caráter social. Papel fundamental exercem na construção do capital social, pois seus efeitos
mobilizadores sobre os diferentes atores, sua capacidade de organizar interesses difusamente
distribuídos na sociedade e a modernização gerencial que representam concorrem para o
estabelecimento de algo como uma moralidade condicional, permitindo aos atores anteciparem
suas ações na crença da participação num jogo de soma positiva (Penido, 2002).
Esta seção é uma compilação literal do trabalho de Teodósio (2002), elaborado especificamente para este Estudo.
12
37
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
Na verdade, dentro do espectro do Terceiro Setor, encontram-se organizações de diferentes
BDMG
40 anos
matizes. Eis alguns exemplos de organizações que podem ser definidas como pertencentes ao
Terceiro Setor:
associações comunitárias;
organizações não-governamentais (ONGs);
instituições filantrópicas;
fundações;
igrejas e seitas;
organizações sociais (OS, conforme definição da proposta de reforma do Estado);
projetos sociais desenvolvidos por empresas;
sindicatos.
O ponto de convergência entre as várias organizações que comporiam o Terceiro Setor
parece ser a ausência do lucro como finalidade central em sua orientação gerencial e a objetivação
de benefícios para toda a comunidade ou grupos sociais específicos. Dentre os fatores articuladores
desses grupos/organizações encontram-se variáveis não excludentes, como localização geográfica,
etnia, ideologia, condição socioeconômica, interesses econômicos, políticos e sociais, orientação
religiosa, opção sexual, dentre outros.
Por detrás da atenção crescente da mídia e da academia com relação ao Terceiro Setor,
encontram-se algumas concepções modernizantes das políticas sociais. Ora estando mais próximas
do cidadão, ora provendo políticas públicas com maior eficiência, eficácia e efetividade, as
organizações da esfera pública não-governamental apresentariam as seguintes virtudes:
maior proximidade do cidadão, tendo maiores chances de fornecer os serviços e benefícios
públicos que a população deseja e não aqueles que o Estado lhes deseja oferecer (Ioschpe,
1997; Tenório, 1997);
maior agilidade e desburocratização, visto que apresentariam estruturas de funcionamento
reduzidas, ágeis e não submetidas aos rigores legais que imperam na esfera pública estatal
(Morales, 1999; Barreto, 1999);
melhor utilização das verbas, dado o fato de que não gastariam recursos com folhas de
pagamento muito extensas, sofisticação tecnológica ou estruturas físicas gigantescas,
canalizariam todo o dinheiro para a ponta dos projetos sociais (Ioschpe, 1997; Barreto,
1999);
desenvolvimento mais profundo da cidadania, na medida em que envolveriam pessoas
da comunidade, principalmente na condição de trabalhadores voluntários, na solução
dos problemas sociais, rompendo com uma postura comodista, fatalista e imobilista da
sociedade (Ioschpe, 1997; Álvares, 2000);
valorização de soluções da própria comunidade, que seriam não só mais baratas e fáceis
de aplicar, mas, muitas vezes, mais eficientes do que as grandes soluções idealizadas e
implementadas através de políticas públicas centralizadas (Teodósio, 2000);
rompimento do assistencialismo, ou seja, a quebra de uma posição de paternalismo com
relação aos pobres. Isso se daria principalmente pelo fato de os projetos sociais no Terceiro
Setor sempre buscarem algum tipo de contrapartida por parte do cidadão beneficiado
(Melo Neto & Froes, 1999);
38 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
geração de emprego e renda, através da criação de trabalho remunerado em projetos
BDMG
40 anos
sociais. Para muitos, o Terceiro Setor seria a saída para o desemprego, ao incorporar a
mão-de-obra expulsa do Primeiro e do Segundo Setor pelos processos de reestruturação
organizacional implementados por grandes corporações privadas e pelo Estado (Rifkin,
1995; Salomon, 1998);
controle sobre o Estado, cobrando uma atuação direta sobre os problemas sociais, coibindo
a corrupção, exigindo a modernização das políticas públicas e avaliando os resultados
dos programas sociais (Barreto, 1999).
Ressalve-se que, muitas vezes, perspectivas analíticas e prescritivas de reflexão sobre o
Terceiro Setor se interpenetram.Ou seja, o desejo e as propostas / estratégias de modernização
das políticas públicas se mesclam à avaliação sobre o papel efetivo da esfera pública não-
governamental no cenário contemporâneo.
Perde-se de vista, com efeito, o fato de o setor ser extremamente heterogêneo, podendo
subsistir, em seu interior, desde práticas modernas de gestão pública e fomentadoras da cidadania
até modernizações conservadoras, capazes de alterar mais o discurso do que as práticas
assistencialistas, clientelistas e arcaicas de várias organizações e projetos sociais.
Além disso, deve-se entender que o espaço da modernização das políticas públicas é feito
pelo embate político, econômico e simbólico entre diferentes correntes e grupos de interesses.
Isso exige uma problematização mais precisa e incisiva acerca das possibilidades advindas da
emergência e/ou maior centralidade do Terceiro Setor na condução de políticas sociais. No entanto,
o que se percebe em alguns casos é uma verdadeira mitificação do papel desse setor no
desenvolvimento social brasileiro.
Importante papel que várias organizações do Terceiro Setor têm desenvolvido, muito
presente em movimentos que defendem direitos humanos ou lutam contra a corrupção, é exigir
do governo, empresas e mesmo da sociedade as posturas e propostas inicialmente negociadas
entre eles, o cumprimento das leis, ou, então, a adoção de posições condizentes com visões
consideradas mais avançadas de organização e convivência social.
Outra perspectiva de ação bastante difundida, tanto em organizações do Terceiro Setor
com alcance geográfico mais restrito quanto naquelas de ação nacional ou internacional, é a
articulação com o Estado na execução de políticas públicas. Além disso, muitas delas atuam em
sistema de parceria com grandes empresas privadas ou mesmo outras organizações do Terceiro
Setor.
Essa parceria entre Estado, empresas privadas, ONGs internacionais e organizações do
Terceiro Setor se constitui a partir de trocas contínuas de recursos financeiros e humanos,
conhecimento, tecnologia e informações entre os parceiros. No entanto, cabe destacar que algumas
vezes a chamada parceria não passa de uma captura da organização do Terceiro Setor, seja pelo
Estado, grandes empresas ou organismos e ONGs internacionais. Assim, estabelece-se não uma
relação de parceria, mas de submissão do Terceiro Setor ao Estado, às empresas privadas, aos
organismos internacionais e/ou às ONGs mais fortes.
Outro papel do Terceiro Setor é a execução autônoma de projetos sociais. Essa é a forma
de atuação mais difícil de se encontrar em estado puro, visto que as organizações do Terceiro
Setor encontram muitas dificuldades de obter recursos para seu funcionamento, o que exige o
estabelecimento de parcerias. No entanto, as organizações que detêm maior credibilidade junto à
39
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
sociedade geralmente conseguem atuar de forma autônoma na execução de seus projetos sociais.
BDMG
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Trata-se, muitas vezes, de organizações que conseguiram resolver um dos grandes dilemas do
Terceiro Setor: a captação de recursos.
Dentre as estratégias para se conseguir provimento regular de recursos encontram-se
desde a comercialização de produtos ligados à luta social empreendida até o recolhimento de
doações. Porém essas estratégias de captação de recursos podem incorrer na perda de foco no
objetivo principal da organização ou movimento social, despendendo energias e recursos mais
para a sobrevivência própria do que no ataque aos problemas sociais. A tendência a voltar-se
mais para a sobrevivência organizacional, desprendendo-se das demandas da base comunitária,
longe de ser um fenômeno residual, é uma das categorias centrais de análise dos movimentos
sociais, remetendo ao dilema micheliano da chamada Lei de Ferro das Oligarquias (Azevedo
& Prates, 1991).
Por fim, em algumas organizações do Terceiro Setor existem as tentativas de influência
nos processos decisórios, quer seja do Legislativo ou do Executivo. Percebe-se que o universo
do Terceiro Setor é bastante heterogêneo em relação a essa capacidade de ação. Pode-se encontrar
desde ONGs com significativo poder de intervenção na definição de agendas internacionais,
fato bastante comum entre algumas organizações de alcance planetário, até movimentos sociais
desprovidos de capacidade de articulação política.
Nesse aspecto, um ponto importante de reflexão diz respeito à focalização exagerada das
políticas públicas em decorrência da ação de grupos de representação dos interesses de
organizações do Terceiro Setor. Ainda que o clientelismo e a disputa por recursos públicos
possam ser inerentes ao processo democrático, pode-se reproduzir, com o fortalecimento do
Terceiro Setor, uma verdadeira lei da selva, na qual apenas os melhor aparelhados, política e
gerencialmente, obterão recursos, em detrimento de projetos sociais relevantes mas poucos
estruturados para a disputa política e econômica.
Ressalte-se, contudo que, dentro da lógica da ação coletiva, e a partir da constatação de
que os grupos de interesse mais bem organizados historicamente não representavam o desejo
da coletividade, a presença do Teceiro Setor pode ser bastante benéfica, uma vez que proporciona
maior equilíbrio ao jogo político, organizando interesses de grupos mal organizados, usualmente
numerosos e mal informados, isto é, em larga medida, excluídos da decisão política.
Organizações não-governamentais se constituíram, nos últimos anos, tanto no Brasil
quanto no cenário internacional, como atores sociais extremamente relevantes nos processos
políticos. Questionamentos à legitimidade de suas ações, como nos recentes episódios envolvendo
ONGs internacionais na Amazônia, que culminaram na instauração da chamada CPI das
ONGs, ou mesmo nos escândalos de desvio de verbas no Rio de Janeiro durante década de
80, parecem não ter maculado sua centralidade nas discussões sobre o provimento de políticas
públicas e a imagem construída pela mídia em torno das virtudes cívicas das organizações não-
governamentais.
Nesse sentido, não é exagero afirmar que o imaginário social construiu uma percepção
extremamente positiva acerca dessas organizações, associando-as a uma profunda legitimidade
social, a representação de eficiência dos interesses públicos, ao trato correto dos recursos públicos
e, principalmente, ao alto conteúdo de participação popular em suas atividades, propostas e
estruturas organizacionais.
É justamente na caracterização da natureza gerencial das ONGs que se encontram os
principais fatores para análise da ação dessas organizações. A forma como as ONGs delimitam
40 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
para si a questão social fundamenta-se em sua dinâmica econômica-gerencial-institucional.
BDMG
40 anos
Nesse sentido, cabe questionar como é exercido o poder para fora e para dentro de sua
estrutura organizacional, ou melhor, como se constrói a participação popular em seus mecanismos
internos e quais são seus desdobramentos sobre sua ação externa (Teodósio, 2000).
Percebe-se que a concepção da participação como panacéia para a gestão de políticas públicas
e o rompimento dos impasses da democracia no Brasil podem gerar efeitos indesejáveis sobre as
metas propostas. O espaço da gestão pública apresenta-se como construto social inacabado, fundado
tanto na preparação técnica quanto no exercício da política.
A consolidação de práticas participativas na gestão de políticas públicas têm como caminho
tanto a democratização dos bens quanto a gestão do poder. Essas duas faces de uma mesma
moeda, chamada democracia, indicam não só que ganhos valorativos devem vir acompanhados
de avanços materiais, pois se reforçam continuamente. Indicam, antes de mais nada, que na esfera
da gestão pública faz-se necessário o esforço contínuo e a autocrítica dilacerante, visto que as
possibilidades de modernização se fazem sempre acompanhadas de dilemas e impasses. Nesse
sentido, cabe lembrar as palavras de Putnam et al. (1996, p. 194): Criar capital social não é fácil,
mas é fundamental para fazer a democracia funcionar.
41
Capítulo 1 - Desenvolvimento: missão de todos
BDMG
40 anos
1.5. Conclusões
O desenvolvimento é missão de todos. Tarefas complementares cabem aos distintos atores
sociais: governos, classe política, empresários e sociedade civil. Mas o desenvolvimento, como
queriam alguns, não ocorre naturalmente, tampouco é inercial. Forças aglutinadoras, coordenadoras
são necessárias para disparar o ciclo virtuoso do desenvolvimento sustentável. Virtuoso, pois o
capital social que dele depende e por ele é criado não se deprecia; na verdade, se auto-alimenta.
Virtuoso, pois não está necessariamente ligado aos movimentos dos ciclos econômicos, mas à
constatação de que mesmo em uma depressão econômica os impactos sociais são atenuados, isto
é, o desenvolvimento mantém-se em bases sustentáveis.
O papel de aglutinador, coordenador, é do Estado União, Unidades Federativas e municípios
únicos com legitimidade para abarcar tal tarefa. No entanto, como se mencionou previamente,
atualmente o Estado não se encontra alinhado aos preceitos desse novo desenvolvimento, seja
porque não alterou sua antiga natureza intervencionista, seja porque tomou feições minimalistas.
O papel da máquina pública estadual no desenvolvimento foi delineado neste capítulo.
Metodologicamente, pôde-se distinguir as políticas requeridas de desenvolvimento regional em
políticas para inclusão social e de apoio à ampliação da competitividade. Mostrou-se que a inserção
do Governo Estadual em políticas sociais, em especial na educação, na atenuação das desigualdades,
na saúde e no meio ambiente, se dá diretamente ou através da regulação e coordenação das políticas
municipais.
Na dimensão competitividade, é papel precípuo do Governo Estadual incentivar as
aglomerações produtivas locais e aproveitar-se dos ganhos de escala e escopo da presença de
grandes empresas estruturantes e cadeias produtivas. O alinhamento das políticas estaduais às
federais permitirá maior eficácia na atração de recursos, principalmente para a reconstrução e
incremento da infra-estrutura física.
Ressalte-se, com efeito, o papel do Governo Estadual na coordenação das políticas de
desenvolvimento regional, papel este que requer uma reformulação da máquina pública, que deve
deixar de ser agente autônomo do desenvolvimento para tornar-se eficaz na identificação e
coordenação das políticas requeridas para o desenvolvimento sustentável. Para tanto, a gestão
pública deve se orientar por indicadores de resultados alinhados com as definições estratégicas do
Governo Estadual.
42 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
BDMG
40 anos
1.6. Referências Bibliográficas
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46 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME IX
TRANSFORMANDO O PODER
PÚBLICO: A BUSCA DA EFICÁCIA
CAPÍTULO 2
REFORMULANDO A MÁQUINA
PÚBLICA
Luís Aureliano Gama de Andrade
(Cientista Político, Consultor e Professor da Faculdade de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo)
Caio Marini
(Administrador público, Assessor do SERPRO e Professor colaborador da Fundação Getúlio Vargas)
Alexandre Queiroz Guimarães
(Doutorando em Political Economy - University of Sheffield, Pesquisador da Fundação João Pinheiro )
(Organizador: D.PE/BDMG)
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................................ 51
2.1. PONTOS RELEVANTES DO DEBATE CONTEMPORÂNEO ................................................................... 52
2.1.1. Iniciativas em outros países ................................................................................................................................... 53
2.1.2. A reforma no contexto latino-americano ............................................................................................................ 54
2.1.3. Novas parcerias para a governança: o Terceiro Setor ........................................................................................ 55
2.2. A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA NOS ANOS 90 .................................................................................................. 56
2.2.1. O avanço das reformas do Estado em nível federal .......................................................................................... 56
2.2.3. A reforma nos estados federados .......................................................................................................................... 57
2.3. DESENVOLVIMENTO E A MÁQUINA PÚBLICA DE MINAS GERAIS ............................................... 62
2.3.1. As lições do desenvolvimento de Minas: bases de uma política para o setor público ................................. 63
2.3.2. As disfuncionalidades do Setor Público Estadual ............................................................................................. 64
2.4. BREVE AVALIAÇÃO DA MÁQUINA PÚBLICA MINEIRA .......................................................................... 66
2.4.1. O Sistema da Saúde ................................................................................................................................................. 67
2.4.2. O Sistema de Educação .......................................................................................................................................... 68
2.4.3. O Sistema da Agricultura ....................................................................................................................................... 69
2.4.4. O Sistema de Ciência e Tecnologia ....................................................................................................................... 71
2.4.5. O Sistema de Fomento Industrial ......................................................................................................................... 72
2.4.6. O Sistema de Planejamento ................................................................................................................................... 75
2.4.7. Outras observações sobre a máquina pública mineira ...................................................................................... 77
2.5. ALGUMAS DIRETRIZES PARA A REFORMULAÇÃO DA MÁQUINA PÚBLICA MINEIRA ....... 79
2.5.1. Adaptação do aparato institucional às exigências do novo modelo de desenvolvimento .......................... 80
2.5.2. O revigoramento do planejamento ....................................................................................................................... 82
2.4.3. Melhoria da Gestão Pública ................................................................................................................................... 84
2.4.4. Renovação do aparato de apoio e fomento ........................................................................................................ 86
2.6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................................... 89
40 anos
BDMG
Introdução
A tarefa do desenvolvimento de Minas, em moldes sustentado e sustentável, como preconizado
no capítulo anterior, reclama não apenas estratégias para colocar a economia mineira nos trilhos do
crescimento mas, principalmente, políticas para dotar o Poder Público Estadual dos meios para
desincumbir-se de seu fundamental papel nesse processo.
De fato, a prosperidade de Minas depende de fatores exógenos e endógenos. Mas, a retomada
do crescimento nacional (fatores exógenos), se condição necessária, não é suficiente para o progresso
do Estado. Desse modo, cumpre ao Governo Estadual identificar as tendências e oportunidades do
desenvolvimento do País, para tirar partido delas e procurar influenciar as decisões desse processo,
ou seja, alinhar-se de modo eficiente às políticas federais.
No tocante aos fatores endógenos do crescimento, mesmo que a grande parte deles estejam
afetos aos demais agentes do desenvolvimento, cabe ao governo estadual exercer os papéis de
indutor, aglutinador e mobilizador dos recursos e potencialidades existentes em seu território.
Para tanto, faz-se necessário articular a máquina pública mineira com os requerimentos desses
papéis e da nova estratégia de desenvolvimento para o Estado como foi delineado no capítulo
anterior. Antes de qualquer coisa, é preciso que o Poder Público Estadual seja eficaz e eficiente, ou
seja, seja capaz de formular e implementar as políticas adequadas, com o máximo de aproveitamento
do dinheiro público.
Frente ao desdobrar do processo de consolidação da democracia, impõe-se novo estilo de
atuação do Poder Público, para que seja poroso aos anseios sociais, transparente e aberto ao
controle social.
Novos princípios e diretrizes devem pautar a ação dos governos: as parcerias com o setor privado
e a gestão por resultados, para garantir eficiência e o melhor uso dos recursos governamentais; a
participação dos segmentos dinâmicos da sociedade, para responder positivamente às exigências da
cidadania e do processo democrático; e a descentralização, para propiciar a articulação com os governos
locais e garantir a norma saudável da subsidiariedade. Por tudo isso é imperativo que se proceda à
reformulação da máquina pública mineira, com o fim de ajustá-la a esses princípios e diretrizes.
A seguir, na seção 2.1, discutem-se pontos relevantes do debate contemporâneo sobre a
reforma do Estado, em especial as motivações e as indicações úteis ao caso mineiro. São, assim,
destacadas iniciativas em alguns países e a experiência latino-americana.
As reformas implementadas na década de 1990 no Governo Federal e em alguns governos
estaduais constituem os temas da seção 2.2, com ênfase naquelas que estariam, em alguma medida,
alinhadas com os movimentos centrais dos debates sobre a reforma do Estado.
Na seção 2.3 retoma-se a principal lição recente de reformulação da máquina pública mineira,
implementada na década de 1970, para mostrar que, a despeito dos distintos ambientes econômico e
político observados atualmente, uma reforma bem implementada é capaz de impulsionar o
desenvolvimento. Assim, ainda nessa seção, procura-se estabelecer o contraste com a situação atual,
na qual se apontam problemas diversos, além de novos desafios.
A seção 2.4 descreve, brevemente, a situação atual da máquina pública mineira, como pano
de fundo para a indicação de diretrizes, visando alinhá-la aos novos preceitos do desenvolvimento
econômico e da moderna administração pública. A última seção, portanto, se ocupa das diretrizes
para as reformas indispensáveis à eficácia da máquina pública.
51
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
40 anos
BDMG
2.1. Pontos relevantes do debate contemporâneo
A crise mundial dos anos 1970, que provocou iniciativas de reestruturação econômica e
a reconfiguração das estratégias empresariais em todo o mundo, também introduziu no debate
sobre o Estado questões relativas às necessidades de incorporação de novos papéis, de abandono
de outros e, sobretudo, a exigência de sua reorganização. O enfrentamento de tais questões se
aprestava, já nos anos 80, como pontos fundamentais para enfrentar a crise econômica e para
adequar o Poder Público aos novos requerimentos.
Esta crise, em que pese a preponderância da dimensão financeira (incapacidade de gerar
poupança pública para a realização dos investimentos sociais e de infra-estrutura), colocava em
questionamento o modo tradicional de organização e gestão governamental, a partir do
esgotamento do modelo burocrático de administração pública vigente. Como conseqüência,
vinha produzindo um profundo déficit de desempenho em termos da baixa qualidade (e
quantidade) na prestação dos serviços ao cidadão, que é a dimensão percebida pela sociedade.
Esse cenário colocava um caráter emergente à necessidade de reformar o Estado e, mais
particularmente, o seu aparato administrativo, a partir de três movimentos centrais:
Busca permanente do aumento da eficiência da máquina pública, por intermédio da
racionalização e do incremento de produtividade (fazer mais com menos).
Melhoria contínua da qualidade na prestação dos serviços públicos, visando a atender
aos requerimentos da sociedade no que diz respeito às demandas sociais básicas
(fazer melhor).
Resgate da esfera pública como instrumento de expressão da cidadania e fórum do
aprendizado social (fazer o que deve ser feito).
Tratava-se, assim, de uma mudança radical na maneira pela qual a administração pública
devia organizar-se. Não era, entretanto, uma mudança visível, pois envolveria mudanças de
mentalidade e de práticas cotidianas, uma transformação no modo pelo qual os governos se
relacionam com os cidadãos.
O alvo era o estabelecimento de uma gestão empreendedora em contraponto ao modelo
tradicional no qual administração é tida como rotina: o administrador, tido como aquele que
aplica a norma, e o empreendedor, como aquele que inova. As duas funções, agora, tendem, cada
vez mais, a se fundir.
52 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
2.1.1. Iniciativas em outros países
40 anos
BDMG
Inicialmente na Grã-Bretanha, e depois adotada quase que de forma generalizada em diversos
outros países, essa estratégia de enfrentamento ficou conhecida como a Nova Gerência Pública
(New Public Management, ou NPG)1 . As principais influências foram extraídas das teorias da Escolha
Pública (Public Choice2 ) e, principalmente, da Agente-Principal3 , que pressupõe a existência de
relações contratuais entre atores.
Nesse caso, o Estado (Principal) contrata empresas privadas (Agente) quando da concessão
de serviços públicos;o mesmo modo, os cidadãos (Principal) contratam políticos (Agente) para
representar seus interesses;políticos contratam burocratas, etc. Nessa perspectiva, o objetivo
da reforma é o de aperfeiçoar as relações contratuais entre as partes que estabeleçam mecanismos
de incentivos e, destarte, de prestação de contas e verificação de resultados, para os diferentes
atores.
Adicionalmente, o movimento da NGP recebeu igualmente influências dos avanços da
gestão contemporânea (notadamente da gestão empresarial).
As principais iniciativas nessa direção, em alguns países, a partir dos anos 80, colocaram
em marcha mudanças relevantes em seus respectivos modelos institucionais e de gestão, pública,
podem ser resumidas conforme QUADRO 1.
QUADRO 1
INICIATIVAS DE REFORMA DO ESTADO - PAÍSES SELECIONADOS
PAÍS INICIATIVAS
Grã-Bretanha Redução de gastos: privatizações; enxugamento e escrutínios (breves diagnósticos
visando racionalização dos órgãos públicos).
Melhoria da eficiência: consciência de custos (value for money) e sistemas de
informação e avaliação de desempenho institucional com mecanismos de incentivo.
Consolidação da reforma: intensificação de mecanismos de mercado,
desconcentração, criação das Agências Executivas (separadas do núcleo
formulador de políticas e administradas por contrato de gestão) e os Citizens
Charter (declaração pública de metas, padrões de serviço e responsáveis).
Estados Unidos Instalação do NPR – National Performance Review (iniciativa do Executivo), com o
objetivo de melhorar o funcionamento da Administração Pública, reduzir custos e
mudar o padrão de gerenciamento para melhoria do desempenho governamental.
GPRA: Government Performance and Results Act: lei aprovada pelo Congresso
inspirada na idéia da gestão por resultados (iniciativa do legislativo).
Focos:
• Integração de programas e orçamentos, com ênfase no gerenciamento de custos
e provimento de informações gerenciais para apoio à tomada de decisão.
• Reforma da legislação contábil/financeira e da legislação tecnológica para a
integração de custos, orçamentos e resultados.
Nova Zelândia Redução de custos via enxugamento, transferência das atividades comerciais para
as corporações públicas; maior autonomia para os administradores seniores e
redução de monopólios.
Contratualização e equiparação dos mercados de trabalho (público e privado).
(Continua...)
Segundo Barzelay (2001), a NGP é, antes de tudo, um âmbito de debate (diálogo) profissional sobre a estrutura, gestão e
1
controle da administração pública, envolvendo a comunidade acadêmica e funcionários e, como tal, deve descartar a tentação de definições
formais, concentrando o debate na busca de respostas, segundo determinadas circunstâncias, para as questões de como estruturar, gerenciar
e controlar os sistemas burocráticos públicos.
Ver, a esse respeito, Buchanan & Tullock (1965).
2
Ver, a esse respeito, Salanié (1996).
3
53
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
QUADRO 1 (Continuação)
40 anos
BDMG
INICIATIVAS DE REFORMA DO ESTADO - PAÍSES SELECIONADOS
PAÍS INICIATIVAS
Austrália Melhoria da eficiência, criação da carreira de administrador sênior, nova política de
carreiras.
Consciência de custos, mecanismos de mercado, autonomia e criação das
Agências de Ombudsman.
França Contratualização: contratos de gestão com os estabelecimentos públicos.
Descentralização: transferências de competências e recursos aos níveis
subnacionais.
Desconcentração: transferências de competências e recursos aos níveis
operacionais dentro da administração central; centros de responsabilidade,
projetos de serviço, programas de qualidade.
FONTE: Elaboração própria.
2.1.2. A reforma no contexto latino-americano
A realidade latino-americana não era distinta da descrição feita anteriormente.
Todavia, as iniciativas mais concretas para a adequação aos novos cenários só tomariam
força na segunda metade dos anos 1990. Nesse contexto, o Conselho Diretor do CLAD
Centro Latino-americano de Administração para o Desenvolvimento aprovou, em 1988,
documento que estabeleceu as bases da reforma gerencial na região. Nele são destacadas
as especificidades da América Latina, em particular aquelas referentes à gravidade da
crise do Estado muito maior que a existente no mundo desenvolvido.
O documento aponta três pontos a serem tomados como direcionadores da reforma
a ser implementada na região: a consolidação da democracia, a retomada do crescimento
econômico e a redução da desigualdade social. Também enuncia o objetivo central da
reforma gerencial: o de assegurar os mecanismos necessários para o aumento da eficácia,
da eficiência e da efetividade da administração pública, além de criar novas condições
que possibilitem uma relação mais democrática entre Estado e sociedade. Finalmente,
são destacados os princípios básicos que deverão orientar a implementação desse novo
modelo administrativo, com destaque para:
a focalização no atendimento das demandas do cliente-cidadão;
a transparência e responsabilização democrática na administração pública;
a descentralização da execução dos serviços aos níveis subnacionais;
a desconcentração organizacional da execução de funções do governo central
para agências especializadas;
a orientação dos mecanismos de controle para resultados baseados em indicadores
fixados em contratos de gestão;
a adoção de um novo desenho organizacional para as atividades não exclusivas
(formuladas, reguladas e financiadas pelo Estado, mas executadas pelo setor
público não estatal).
O exame da experiência latino-americana recente, infelizmente, é pouco conclusivo
e, contraditoriamente ao princípio da NGP que destaca a orientação a resultados, não
permite aferições mais precisas sobre a efetividade dos programas de reforma gerencial.
Os balanços tendem a produzir mais registros de iniciativas do que avaliação de impactos
dos programas. Contudo, o exame dessas iniciativas indica uma trajetória, quase um
padrão, no qual é possível identificar alguns elementos comuns, como por exemplo:
54 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
fortalecimento de canais de relacionamento Estado/sociedade, a partir de iniciativas
40 anos
BDMG
orientadas para a melhoria da qualidade na formulação das políticas públicas, busca de
maior participação cidadã, introdução de mecanismos de controle social, melhoria na
entrega de serviços públicos e maior envolvimento do terceiro setor;
aperfeiçoamento do marco legal visando à eliminação de entraves de natureza burocrática
que impedem a adoção de modelos de gestão orientados a resultados com maior
flexibilidade e autonomia;
recuperação da capacidade financeira (racionalismo econômico), a partir de iniciativas
voltadas para a melhoria da eficiência e introdução da cultura da responsabilidade
fiscal;
desenvolvimento das capacidades institucionais dos órgãos da administração pública
incluindo o fortalecimento do planejamento estratégico como ferramenta de gestão,
programas de reestruturação administrativa, desenhos de contratos, intensificação do
uso da tecnologia da informação e a terceirização de serviços de apoio;
desenvolvimento do capital intelectual, a partir de iniciativas voltadas para a
profissionalização e modernização do serviço civil, intensificação de programas de
capacitação de servidores e de lideranças, ética na administração pública, adoção de
mecanismos inovadores de remuneração de funcionários e introdução da gestão do
conhecimento.
2.1.3. Novas parcerias para a governança: o Terceiro Setor
Além das discussões relativas à governança e aos modelos de gestão mais adequados à
nova realidade das relações Estado/cidadão e público/privado, que podem ser extraídas das
experiências antes analisadas, outro ponto relevante do debate contemporâneo sobre as
reformas do Estado refere-se à emergência do chamado Terceiro Setor, ou a atuação das
organizações não-governamentais.
A emergência do Terceiro Setor e das parcerias público-privado, além dos movimentos
baseados no voluntariado, vêm introduzindo elementos desafiadores na nova configuração
em rede que caracteriza o Estado contemporâneo.
O objetivo é comum, e trata, fundamentalmente, de encontrar alternativas para superar
as desigualdades, ampliando o espaço de inclusão na vida social, política e econômica na
direção do desenvolvimento. São, assim, premissas dessa atuação a internalização/
fortalecimento dos conceitos de cidadania, eqüidade e transparência, além da temática própria
da gestão contemporânea, que supõe maior eficiência e qualidade no tratamento do interesse
público.
Isso, seguramente, força a adoção de enfoques não convencionais na construção de
estratégias para enfrentar a crise, o que implica o fortalecimento de mecanismos de interação
Estado/sociedade. Afinal, isoladamente, as forças direcionadas para a mudança perdem
vitalidade e objetividade. Portanto, é necessário consolidar alianças que assegurem sinergia,
a partir da ampliação da consciência de cidadania e da construção de soluções criativas e
inovadoras que garantam legitimidade e viabilidade às transformações reclamadas pela
sociedade. Tais alianças, além do mais, alavancam novos recursos, reduzem custos, evitam
duplicações desnecessárias, simplificam e melhoram a prestação de serviços.
55
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
40 anos
BDMG
2.2. A experiência brasileira nos anos 90
O Brasil, no início de 1995, guardava várias semelhanças com outros países latino-
americanos, caracterizando-se, assim, pelo aprofundamento da crise do Estado e pela urgência de
reformas estruturais. Na verdade, algumas delas já haviam sido iniciadas poucos meses antes da
posse do Presidente, em 1995, com o Plano de Estabilização Macroeconômica (Plano Real). De
todo modo, durante a campanha presidencial eram apresentadas como prioritárias a flexibilização
de monopólios, as mudanças na previdência social, a reforma tributária, a reforma política e
outras, uma indicação de que muito teria que ser feito para adaptar o Estado brasileiro aos novos
princípios do desenvolvimento. Já se destacava, além disso, a necessidade de repensar a
Administração Pública, a partir de sinais de evidente esgotamento do modelo burocrático vigente.
Entretanto, do lado dos estados federados, o comportamento não foi homogêneo, apesar
de a maioria deles se apresentar a essa época com graves desequilíbrios em suas finanças, além de
deficiências já evidentes no desempenho de suas funções tradicionais.
2.2.1. O avanço das reformas do Estado em nível federal
Ao longo das duas últimas administrações (1995/1998 e 1999/2002), embora não tenha
sido possível equacionar problemas essenciais, como as questões tributárias e a reforma política,
os avanços conseguidos pela União em relação a várias das reformas anunciadas foram
expressivos, em particular as referentes à reestruturação e à modernização da Administração
Pública.
Uma das primeiras demonstrações da prioridade conferida às reformas da administração
pública foi dada em 1995, quando da transformação da então Secretaria da Administração
Federal (SAF), em ministério (o MARE Ministério da Administração Federal e Reforma do
Estado), que, além das funções tradicionais de gestão da função pública, assumiu o papel de
coordenador do processo de reforma do aparelho do Estado. Junto do novo ministério, foi
também instalada a Câmara da Reforma do Estado, instância interministerial deliberativa sobre
planos e projetos de implementação da reforma, e o Conselho da Reforma do Estado, integrado
por representantes da sociedade civil, com atribuições de assessoria da Câmara nessa matéria.
Ainda em 1995, foi elaborado o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado
documento de expressão da visão estratégica e orientador dos projetos de reforma
que, a partir de um diagnóstico que apontou os principais problemas da administração
pública brasileira nas dimensões institucional-legal, cultural e de gestão, propôs um novo
modelo conceitual distinguindo os quatro segmentos fundamentais característicos da ação
do Estado:
Núcleo estratégico: definição de leis e de políticas públicas, e cobrança de seu
cumprimento.
Atividades exclusivas: aquelas que são indelegáveis e cujo exercício é necessário o
poder de Estado.
56 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Atividades não-exclusivas: aquelas de alta relevância em que o Estado atua
40 anos
BDMG
simultaneamente com outras organizações privadas e do Terceiro Setor na prestação de
serviços sociais.
Produção de bens e serviços ao mercado: que corresponde ao setor de infra-estrutura
onde atuam as empresas, públicas ou privadas, reguladas pelo governo.
As principais iniciativas, nesse primeiro período, foram orientadas para: revisão do marco
legal (reforma constitucional e da legislação corrente); proposição de uma nova arquitetura
organizacional (agências reguladoras, executivas e organizações sociais); adoção de instrumentos
gerenciais inovadores (contratos de gestão, programas de inovação e de qualidade na
Administração Pública); disponibilização de boletins estatísticos sobre quantitativos e
distribuição dos recursos humanos na administração federal e valorização do servidor (nova
política de Recursos Humanos, fortalecimento de carreiras estratégicas, revisão da política de
remuneração, realização de concursos públicos e intensificação da capacitação de funcionários
visando promover a mudança cultural).
Em 1998, o MARE foi extinto, sendo suas funções absorvidas pelo Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão, num esforço de integração dos principais
instrumentos de gerenciamento governamental: planejamento orçamento gestão. A
esse respeito, Bresser Pereira (2002) argumenta que o desafio seguinte o de
implementação não poderia ser atribuído a um ministério pequeno desprovido de
Poder Executivo, daí a recomendação feita (inspirada na experiência chilena) de passar
a responsabilidade ao novo ministério. Nesse novo contexto, o planejamento
governamental, a partir do lançamento do PPA Plano Plurianual 2000/2003 (também
conhecido como AVANÇA BRASIL), assumiu papel protagonista.
O Plano foi elaborado com base em diretrizes estratégicas do Presidente da República,
destinadas a consolidar a estabilidade econômica com crescimento sustentado a partir de uma
nova visão estratégica espacial baseada no estudo dos eixos nacionais de integração e
desenvolvimento, tendo como referência todo o território nacional e o fluxo real de bens e
serviços. Essa nova visão é traduzida em um leque de oportunidades de investimento, tanto
para o setor público como para o setor privado nacional e estrangeiro.
Além disto, foi adotado um novo conceito de programa, segundo o qual as ações e os
recursos do governo são organizados de acordo com os objetivos a serem atingidos e foi instituída
a figura do gerente de programa como elemento central no processo. Ainda no âmbito federal,
merecem ser destacadas as iniciativas de intensificação do uso da tecnologia da informação
orientadas para a melhoria do atendimento ao cidadão no relacionamento com o setor privado,
transparência e modernização da gestão interna (governo eletrônico, comprasnet, receitanet,
quiosques, rede governo, sistemas corporativos de gestão).
2.2.3. A reforma nos estados federados
No início dos anos 1990, a situação nos estados não diferia muito da federal:
agravamento da crise fiscal, esgotamento do modelo burocrático e crescente déficit de
desempenho em termos de quantidade e qualidade dos serviços prestados à sociedade.
57
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
Entre as várias dimensões dessa crise, Abrúcio e Costa (1999) chamam a atenção para o
40 anos
BDMG
federalismo predatório, salientado pelos autores como um marco institucional importante para
entender a trajetória dos estados e as respectivas crises fiscais durante toda a década de 80 e até o
início da de 90.
A emergência desse federalismo predatório, segundo Abrúcio e Costa (1999), está ligada
à direção dada ao processo de redemocratização no Brasil, nos anos 80, que foi conduzido pelos
governadores, na condição de principais fiadores do governo federal até 1995. A influência dos
governadores esteve fortemente amparada na lógica da carreira política vigente no Brasil: os
parlamentares, muito dependentes dos governadores para consolidar suas bases eleitorais,
demonstravam pouca disposição para aprovar medidas que conflitassem com os interesses
imediatos dos estados. Consolidou-se, então, um federalismo marcado pela grande heterogeneidade
entre os estados e pela inexistência de um arranjo institucional que estimulasse a colaboração
entre os diferentes atores. Na falta desse arranjo, os estados tomavam suas decisões maximizando
seus interesses individuais e imediatos, desconsiderando os efeitos de suas ações para o conjunto
da federação.
Tal situação teve efeitos bastante negativos sobre as finanças públicas federais. Na
inexistência de mecanismos eficazes de controle, os estados tendiam a gastar excessivamente,
endividando-se via bancos estaduais e repassando os custos para a União. Como o
governo federal dependia das bancadas estaduais para suporte político, ficava difícil a
aprovação de medidas visando controlar a ação dos estados. Portanto, os governadores
tinham poder de barganha para renegociar suas dívidas, repassá-las à União e continuar
gastando acima dos seus recursos (Barreira e Roarelli, 1995). Essa prática, à época, colocava
dificuldades insuperáveis para o ajuste fiscal e controle da inflação. Ressalte-se que a
estrutura institucional não estimulava uma mudança de comportamento. A um Estado,
isoladamente, não interessava fazer o ajuste, visto que o comportamento predatório dos
demais continuaria a alimentar a fogueira do déficit público e da inflação.
Um importante componente desse federalismo predatório é a guerra fiscal entre
os estados, visando a atração de investimentos e a proteção de suas empresas. Essa
prática, que, na verdade, já se fazia presente desde os anos 70, tem continuidade nos
anos 80, apesar de a União ter estabelecido normas visando coibi-la. Como Abrúcio e
Costa (1999) enfatizam, a guerra fiscal ocupa o vácuo deixado pela crise do Estado
desenvolvimentista. O mesmo ponto é destacado por Affonso (2000), que enfatiza a
redução da capacidade da União em soldar interesses e a ausência de uma política
regional como componentes importantes do contexto que leva os estados a amplificarem
os mecanismos de renúncia fiscal na tentativa de atrair investimentos.
Importa observar que, também durante os anos 80, os estados tiveram a possibilidade
de aumentar suas receitas, na medida em que houve alterações relevantes nos fundos de
participação de estados e municípios. Com a Constituição de 1988, os estados são ainda
mais beneficiados com ampliação da base do ICMS, que passa a incluir áreas antes de
incidência de impostos federais (combustíveis; energia elétrica; transporte e comunicações).
Uma evidência das várias iniciativas que beneficiaram as receitas públicas estaduais é o
fato de que entre 1987 e 1991 os estados aumentam sua participação no total dos recursos
fiscais, de 25,2% para 31,1%.
58 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
No entanto, a despeito desse aumento de participação na receita, as despesas
40 anos
BDMG
correntes e de pessoal cresceram significativamente. Os gastos com pessoal continuaram
crescendo nas décadas de 1980 e 1990, favorecidos por um contexto institucional que
não colocava limites rígidos à capacidade de gastos dos estados 4 . Assim, por exemplo,
na transição dos governos em 1994-1995, os salários dos funcionários foram, no
apagar das luzes, fortemente elevados. As dificuldades eram ampliadas pelo déficit
da Previdência, que se expandia ano a ano.
No início dos anos 90, as finanças estaduais sofrem ainda mais com a recessão e
com a redução ulterior dos investimentos federais (Abrúcio & Costa, 1999). Acrescenta-
se a esse quadro uma dificuldade inédita decorrente do Plano Real: a administração
financeira e fiscal em regime de estabilização monetária. No período de inflação alta,
os estados obtinham fortes ganhos financeiros com o adiamento das despesas e
aplicação dos recursos no mercado financeiro e também com ganhos inflacionários
dos bancos estaduais. Essa importante fonte suplementar de receitas é eliminada com
a estabilização. Além disso, o aumento substancial da taxa de juros, efetivada nos
anos seguintes ao Plano Real, teve efeitos explosivos sobre as dívidas estaduais.
Em síntese, as dificuldades financeiras dos estados brasileiros, que iriam se
revelar insustentáveis nos anos 90, têm início nos anos 80, quando as finanças estaduais
sofrem com a redução na arrecadação, com o aumento dos juros e com a queda dos
investimentos federais e das empresas estatais. Os incentivos, implicando considerável
renúncia fiscal, tiveram também papel importante nesse contexto. Do lado das despesas,
os incrementos nos gastos de pessoal e no déficit previdenciário se revelaram,
principalmente na década de 1990, principal fonte de desequilíbrio nas contas públicas
estaduais.
Em face das dificuldades fiscais e financeiras, que se tornaram evidentes na
metade dos anos 90, diversas medidas foram adotadas por alguns estados no intuito
de melhorar as contas públicas. Entre elas, a reestruturação ou venda de empresas
estatais, a extinção de cargos comissionados, controle ou extinção de gratificações e
outras vantagens, monitoramento da folha de pagamentos, demissão de pessoal não
concursado, limitação ou veto a novas contratações, proibição de acúmulo de cargos,
alterações nos planos de carreira e no regime jurídico aplicável ao funcionalismo,
recadastramento de servidores e treinamento de pessoal (Abrúcio & Costa, 1999).
O que os parágrafos anteriores procuraram mostrar é que a crise dos estados é
um fenômeno nacional, verificado, em diferentes graus, para todos. Todavia, a trajetória
seguida pelos estados federados não foi uniforme, com alguns avançando mais; outros,
porém, como é o caso de Minas Gerais, com iniciativas e resultados ainda muito
frágeis.
O QUADRO 2 sintetiza algumas iniciativas estaduais relevantes.
As despesas de pessoal no decênio 1982-1991 aumentaram, em média, 2% ao ano.
4
59
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
QUADRO 2
40 anos
BDMG
PRINCIPAIS INICIATIVAS DE REFORMAS INSTITUCIONAIS E ADMINISTRATIVAS - ESTADOS SELECIONADOS
ESTADOS INICIATIVAS
Bahia Reordenamento administrativo (extinção de órgãos e cargos em comissão).
Saneamento das finanças públicas e rigoroso controle do gasto.
Privatizações (COELBA, BANEB, concessão de rodovias).
Novo modelo de gestão (3 organizações sociais, 1 agência reguladora, 13 hospitais
terceirizados e gerenciamento por programa).
Valorização do servidor (criação de carreiras, capacitação, remuneração por
produtividade e portal do servidor).
Atendimento ao cidadão (disseminação do padrão de atendimento SAC: 8 na capital
e 14 no interior, SACnet, SACmovel, SACsaúde, SAJ judiciário).
Maranhão Saneamento das finanças públicas (com ajuste de folha), modernização dos
sistemas administrativos e democratização do acesso do cidadão aos serviços.
Reestruturação administrativa baseada na regionalização: criação de 8 gerências
centrais responsáveis pela formulação e avaliação das políticas públicas e divisão
do estado em 18 gerências regionais responsáveis pela execução.
Criação do 10 centros de atendimento integrados (Viva Cidadão).
São Paulo Saneamento das finanças públicas.
Atendimento ao cidadão (Poupa Tempo).
Criação de Organizações Sociais na área de saúde.
Uso da tecnologia da informação na modernização da gestão pública.
Ceará Saneamento das finanças públicas.
Adoção do Pacto de Cooperação envolvendo os diversos níveis do poder público,
universidades, movimentos comunitários, empresários, trabalhadores e
organismos nacionais e internacionais com o objetivo de repensar o Estado.
Criação de Organizações Sociais (Lei 12781/97).
Pernambuco Medidas de contenção de despesas de pessoal (centralização e auditoria da folha,
definição de subteto, recadastramento, desligamento voluntário e por nulidade de
contrato, eliminação de vantagens indevidas e publicação de boletim estatístico).
Programa de valorização do servidor (modernização da previdência, novo modelo
de assistência médica e criação da escola de governo).
Medidas para a contenção de despesas de custeio (redução de repasse, dos
contratos terceirizados etc).
Privatização, extinção e fusão de empresas estatais.
Programa de modernização administrativa (enxugamento, redução de cargos e
criação de Organizações Sociais: Casa do estudante e Porto Digital).
FONTE: Elaboração própria.
Em nível federal, o Governo Fernando Henrique Cardoso obteve importantes avanços
na capacidade de regular a ação dos estados, impondo mudanças importantes nos
parâmetros do quadro federativo, atenuando o federalismo predatório. Nesse contexto,
destacam-se: o impedimento legal à pratica usual de antecipação de receita orçamentária (o
chamado ARO); a limitação à capacidade de endividamento em um montante equivalente a um
ano de receita; o saneamento, privatização, federalização ou extinção dos bancos estaduais; e,
finalmente, a Lei de Responsabilidade Fiscal, que praticamente consolida normas disciplinares ao
processo de endividamento e de gastos dos estados, estabelecendo, de forma inédita, mecanismos
de punição à desobservância às suas determinações.
Outra iniciativa importante, no campo da recuperação da capacidade financeira, dentro do
novo marco de responsabilidade fiscal, é o PNAF Programa Nacional de Apoio à Administração
Fiscal. O programa vem cumprindo importante papel de melhor aparelhar as máquinas de
60 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
administração tributária e financeira dos estados brasileiros (agora estendido aos municípios), a
40 anos
BDMG
partir da adoção de um modelo inovador, estruturado em rede (Ministério da Fazenda e secretarias
estaduais de finanças), uma vez que, além de realizar atividades de apoio financeiro e assistência
técnica, trabalha a perspectiva educacional com iniciativas de sensibilização da sociedade para a
conscientização fiscal (via campanhas e projetos nas escolas).
Por fim, um ponto de grande relevância nas discussões atuais sobre reformas nos estados
federados é o CONSAR Conselho Nacional de Secretários de Administração. Com o objetivo
de sistematizar a troca de experiências estaduais na área de gestão pública os secretários estaduais
de administração, promovem regularmente fóruns nacionais de discussão. Depois de
aproximadamente 40 encontros, decidiram constituir o CONSAR com visando promover a
articulação entre as diversas secretarias. A agenda básica proposta (Carta de Maceió novembro
2000), contém os seguintes destaques:
1. A situação previdenciária do País e em particular dos estados é, dos temas de grande
relevância, aquele que mais afeta o equilíbrio das finanças públicas e que poderá
inviabilizar a administração dos governos, com sérios prejuízos à população em geral e
em especial no tocante aos programas sociais.
2. A situação enfrentada hoje pelos estados é decorrente de distorções administrativas
enfrentadas ao longo dos últimos anos, que configuram situações de privilégios de
grupos e setores de servidores públicos em todos os poderes.
3. Faz-se necessária a conjunção de esforços dos Poderes Constituídos para a
implementação, dentre outras medidas, da desvinculação entre os salários de ativos e
inativos da extinção do regime de benefício definido e a cobrança de alíquotas
previdenciárias para os inativos e pensionistas, com o imperativo estabelecimento de
tetos salariais, nacional e estaduais, do Poder Público.
4. Há que se avançar, ademais, na busca de soluções complementares para a questão
previdenciária, adotando-se medidas tributárias capazes de estabelecer justiça social,
mediante maior contribuição relativa de grupos ou setores com maior poder econômico.
5. Finalmente, torna-se imprescindível a edição de novo instrumento jurídico que garanta
a estados e municípios a faculdade de poder habilitar-se à compensação financeira
prevista na Lei n. 9.796, de 5 de maio de 1999, que dispõe sobre a compensação
financeira entre o Regime Geral de Previdência Social e os regimes de previdência dos
servidores da União, dos estados, Distrito Federal e municípios.
Pode-se concluir, assim, que no mundo e no País, e em vários de seus estados, há,
efetivamente, esforços e experiências vitoriosas no sentido de permitir ao Poder Público
adequar-se aos novos papéis e funções a ele atribuído, pela sociedade, em um novo
modelo de desenvolvimento. Contudo, mais do que nunca, há urgência no aprofundamento
desse processo, ainda mais porque, no nível dos estados federados, o movimento se
encontra relativamente atrasado, particularmente em Minas Gerais.
61
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
2.3. Desenvolvimento e a máquina pública de
40 anos
BDMG
Minas Gerais
Reformas administrativas têm sido uma constante no Setor Público. Com maior ou menor
intensidade, com caráter mais circunstancial do que estrutural, o Estado de Minas Gerais
implementou, ao longo dos anos, alterações importantes ou marginais em seu aparato
institucional. Todavia, decidiu-se tomar a de 1972 como ponto de referência para esta seção
por ter sido a mais completa e a melhor estudada dentre as iniciativas de modernização do
aparato público mineiro. Ademais, corresponde a período em que a ação do governo estadual
foi considerada decisiva para o desenvolvimento do Estado, situação bastante apropriada para
valer-se como referência para a análise que se pretende desenvolver nas seções subseqüentes.
Ressalte-se, entretanto, que as circunstâncias e o contexto do desenvolvimento na
atualidade são radicalmente distintos das que prevaleciam na década de 1970. O País vivia,
então, sob a égide do autoritarismo; hoje, experimenta a democracia, e a ação do poder público
requer negociação, participação e a formação de consensos; havia crescimento naquela época,
enquanto a fase atual é marcada por incertezas, e acanhadas são as taxas de expansão da
economia; antes a capacidade de investimento do Estado era suficiente, hoje é modesta, em
razão da crise fiscal.
A análise do desenvolvimento de Minas nos anos 70, a ser tratada a seguir em maior
detalhe, mostra que o governo estadual foi ator decisivo no processo àquela época. Mostra
também que não basta dispor de diagnósticos realistas ou de planos bem concebidos para alcançar
os resultados almejados, se não são acompanhados de mudanças profundas na estrutura e no
estilo de atuação da máquina pública estadual.
Soluções pretéritas, ainda que vitoriosas, dificilmente se prestam a repetições. O desafio
do desenvolvimento muda com as novas conjunturas nacionais e internacionais e reclama novos
argumentos que fundamentem e subsidiem a formação das políticas, assim como novos arranjos
institucionais que as viabilizem.
A nova dinâmica de desenvolvimento que se propõe para Minas precisa ser articulada a
uma nova arquitetura do aparato público estadual. Ao Estado cabe, como se delineou no
capítulo anterior, não o papel que desempenhou no passado recente, de líder ou de executor
principal do processo, mas o de articulador e mobilizador dos diferentes atores sociais
interessados no desenvolvimento e de catalisador das forças e recursos existentes em seu território.
Além disso, é imprescindível que o Estado ordene suas finanças, equilibre-as, recupere a
capacidade de investir, para que possa fazer a sua parte no novo processo de desenvolvimento
de Minas.
Nas considerações que a seguir se fazem busca-se aprender com a experiência de
desenvolvimento de Minas nos anos 70, não para copiá-la, mas para extrair suas lições. Nela se
evidencia que a arrumação das finanças publicas do Estado foi fator crucial para colocar a
economia mineira na rota do crescimento econômico. A seção 2.3.2, por sua vez, fará o
contraponto com essa situação dos anos 70, procurando, exatamente, indicar a necessidade de,
mais uma vez, realizar uma reforma não apenas marginal, mas, sim, com os propósitos de
reordenar a máquina pública como condição fundamental para garantir a eficiência e a eficácia
do Setor Público Estadual.
62 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
2.3.1. As lições do desenvolvimento de Minas: bases de uma política
40 anos
BDMG
para o setor público
Na década de 70, a economia de Minas Gerais experimentou um boom de industrialização.
Cresceu a taxas expressivas, com a grande massa de investimentos que se localizaram em seu
território, aproveitando-se da expansão da economia brasileira, da desconcentração industrial
que se verificava no País e de uma conjuntura internacional favorável.
Esse surto de desenvolvimento não foi espontâneo. Ao contrário, foi induzido pela
ação do Estado mineiro que, desde meados dos anos sessenta, havia instituído inovadora
estrutura de planejamento e fomento, que soube tirar partido das condições favoráveis da
conjuntura nacional. Naquela época, foram criados o Instituto de Desenvolvimento Industrial
INDI, a Fundação João Pinheiro, a Companhia de Distritos Industriais CDI, que,
juntamente com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais BDMG, instituído em
1962, formaram forte aparato institucional de apoio e fomento ao desenvolvimento do Estado.
Tão ou mais decisivo para a atuação desenvolvimentista do governo de Minas foi a
reforma fazendária, levada a cabo a partir de 1969, que retirou a Secretaria da Fazenda da
órbita da política tradicional, modernizou-a e saneou as finanças do Estado. A reforma do
Tesouro surgiu no BDMG, em seu então Departamento de Estudos e Projetos DEP, e
correu paralela à grande reforma administrativa deflagrada pelo então Conselho de
Desenvolvimento.
Até então, a cobrança dos impostos era feita por meio de coletorias, a Secretaria não
dispunha de informações sobre a arrecadação e muitos dos exatores retinham o que coletavam
nos seus municípios, para garantir o pagamento dos servidores públicos locais 5 . A reforma
fazendária estabeleceu o pagamento de tributos pela rede bancária, centralizou a arrecadação,
instituiu o caixa único e o sistema de quotas para o custeio e o investimento dos órgãos da
administração estadual, dando às autoridades fazendárias o controle real das finanças do
Estado. Com tais medidas, as despesas foram comprimidas e o Estado adquiriu capacidade
de investir.
Quando os ventos do desenvolvimento começaram a soprar sobre a economia brasileira,
as finanças públicas de Minas estavam saneadas e o Estado havia recuperado a capacidade de
investir. O INDI, o BDMG, a CDI e a FJP, que integravam a arquitetura institucional criada
para promover o desenvolvimento da economia mineira, tiveram, então, recursos e condições
institucionais para lançar-se ao papel de tirar Minas do atraso que os profetas da catástrofe,
os jovens economistas do BDMG, haviam revelado no Diagnóstico da Economia Mineira de
1967/1968.
Com as finanças arrumadas e escorado por uma rede de instituições de fomento do
desenvolvimento, o Estado estava pronto para captar boa parte dos investimentos gerados
pelo boom do milagre econômico e pelas políticas de diversificação industrial promovidas
pelo PND II6 .
Ver, a propósito, Andrade (1980).
5
Ver, a propósito, Diniz (1978).
6
63
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
2.3.2. As disfuncionalidades do Setor Público Estadual
40 anos
BDMG
A partir dos anos 80, refletindo, em parte, a conjuntura nacional marcada pela crise do
Estado e pela desaceleração econômica, o aparato de planejamento e fomento de Minas Gerais
começou a perder substância e efetividade. Não logrou redefinir seu papel e estilo de atuação
e, além disso, passou a ter a concorrência de outros estados que implantaram instituições
similares, reduzindo as vantagens de Minas para atrair novos investimentos.
Antes de atacar as questões da reformulação da máquina pública mineira, para que
possa voltar a contribuir para a retomada do desenvolvimento do Estado, é preciso retomar
as mudanças por que vem passando o País nos últimos 15 anos e que são diretamente
pertinentes para esse processo.
Três fenômenos assumem importância decisiva: a grande crise fiscal que atingiu a maior
parte dos estados brasileiros; a reforma do Estado federado, incluindo a redefinição de seu
papel na economia nos termos examinados no capítulo anterior; e modificações no pacto
federativo. Tais mudanças, combinadas com a abertura comercial do País e os novos
paradigmas da economia internacional, colocam desafios à tarefa de reestruturar a máquina
pública estadual.
Conforme observado na seção 2.2.2, as dificuldades financeiras dos estados brasileiros
têm origem no início dos anos 80, dada a conjugação de diversos fatores e permaneceram ao
longo da década de 1990, a despeito de várias iniciativas, inclusive constitucionais, que
permitiram a elevação das receitas estaduais. Ressaltam-se, já na segunda metade dos anos
90, medidas no âmbito do governo federal destinadas a impor maior controle às administrações
estaduais em relação às suas finanças, que acabou culminando na Lei de Responsabilidade
Fiscal.
No entanto, conforme salientado, apesar de alguns estados terem, de fato, se esforçado
na implementação de suas próprias reformas, existem diferenças importantes entre eles
resultando graus diferentes de endividamento, de maior ou menor relação servidor/habitante,
entre outros indicadores, indicando capacidade ou disposição diferente para realizar os ajustes.
Minas Gerais, além de não ter feito ajuste significante, sofre por ter uma dívida muito superior
à média nacional.
Estados que têm hoje obtido relativo sucesso em estratégias regionais de
desenvolvimento, como Bahia e Ceará, são os que conseguiram reduzir os constrangimentos
colocados pela crise fiscal e avançaram na modernização da máquina pública. Assim, embora
outras reformas sejam também necessárias, o ajuste financeiro é condição essencial para a
recuperação da capacidade de fomento do governo mineiro.
A gravidade da situação das finanças públicas
Sabe-se que a situação das finanças públicas de Minas é de desequilíbrio crescente,
tanto no curto quanto no longo prazo. Apesar do crescimento expressivo das receitas
tributárias estaduais, a partir de 1999, as despesas também cresceram de forma significativa.
Na verdade, o Estado continua gastando mais do que arrecada, e, o mais grave, o pagamento
64 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
dos inativos beira a 45% dos dispêndios com pessoal, sendo que este número tende a aumentar.
40 anos
BDMG
Além disso, os gastos com o funcionalismo crescem de forma vegetativa, em função dos
qüinqüênios e outras vantagens e a isso se somam os atuais 13% da receita corrente líquida
destinados ao pagamento da dívida com a União. Os compromissos com fornecedores vêm
sendo postergados e só com extrema dificuldade e grande esforço está sendo possível honrar os
salários do funcionalismo. O déficit operacional anual supera, atualmente, R$1,0 bilhão.7
Em conseqüência, o Estado ficou, praticamente, sem recursos para outros custeios e
para investimentos. O engessamento das despesas, principalmente no tocante ao funcionalismo
e inativos, obriga-o a reduzir os gastos de custeio, o que implica severos obstáculos à eficiência
da máquina pública.
Tal situação precisa ser superada. Ou o Estado promove o ajuste em suas finanças públicas,
reequilibrando receita e despesa, adquirindo capacidade mínima de investimento e custeio, no
curto prazo, e equacionando a solução para a conta dos inativos como fizeram, aliás, outros
estados ou pouco lhe restará a fazer no tocante ao desenvolvimento. A gravidade de tal
situação indica serem as finanças públicas um dos pontos cruciais da reforma do Estado em
Minas Gerais, e conforme evidencia a análise específica sobre o tema, a busca de soluções não
pode ser pensada apenas pelo lado da renegociação da dívida, mas sim, pela combinação de
esforços em todos os componentes, ou seja, nas receitas, despesas e dívida.
O dilema não é entre fazer ou não o ajuste, mas como e por que meios realizá-lo. O
governo de Minas precisa dispor de poupança própria, ainda que modesta, para recuperar a
capacidade de investir. Todavia, por mais urgente e necessária que seja, e é, a superação do
quadro desfavorável das finanças estaduais, isso não pode ser o objetivo único da reforma do
Estado.
A necessidade de um choque de gestão
O equilíbrio das finanças públicas estaduais é condição necessária para reformulação
mais ampla da máquina pública. Mas não é suficiente, pois o Estado deve reformular-se para
atender às demandas do novo desenvolvimento, como, aliás, já o fizeram vários países e, em
diferentes medidas, a União e alguns estados. Assim, outras diretrizes precisam ser contempladas,
entre elas a nova divisão de trabalho entre o poder público e o privado, o imperativo da gestão
eficiente das coisas públicas o choque de gestão , a descentralização, em parte, dos serviços
públicos, e as exigências de abertura de espaços de participação para a atuação dos setores
organizados da sociedade no Estado e, particularmente, no processo de desenvolvimento.
Nas considerações que se seguem, produz-se breve avaliação da máquina pública mineira,
como primeiro passo para balizar a proposta de mudanças.
Ainda neste volume, o capítulo que se segue dedica-se, exatamente, a avaliar a situação das finanças públicas em
7
Minas Gerais, enfatizando, além disso, a grave situação da Previdência, apontando-a como o principal fator de
ajuste.
65
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
2.4. Breve avaliação da máquina pública mineira
40 anos
BDMG
O setor público estadual compõe-se, atualmente, de 21 secretarias, 11 órgãos autônomos
e a Governadoria, com seus vários órgãos subordinados8 , formando a chamada Administração
Direta, e outras 49 entidades da Administração Indireta9 . Acrescente-se a essa estrutura 53
conselhos estaduais, dos mais diversos tipos, finalidades e formas de subordinação, criados
por variados instrumentos legais, alguns por determinação constitucional; ressalte-se, porém,
que a maioria é inoperante.
Não obstante iniciativas anteriores e recentes de fusões (por exemplo, CAMIG e METAMIG
que deram origem à COMIG), privatizações (bancos comerciais), federalização (CEASA E CASEMG)
e extinção e criação de instituições públicas estaduais ao longo dos anos, falta um princípio
estruturador que fundamente e defina o campo de atuação do Poder Público estadual e norteie
sua organização. A propósito, os últimos documentos legais que definem parâmetros formais
para a criação de órgãos e entidades datam de 1985 e sofreram inúmeras alterações ao longo
dos anos. Continua em vigor o Decreto n. 14.446, de 1972, que instituiu os sistemas
operacionais 10 , ainda que tais sistemas encontrem-se descaracterizados. Para cada problema
ou demanda em que se afigurava necessária a ação do Estado foi sendo criada uma Secretaria11 ,
um conselho ou uma entidade da Administração Indireta, como forma de lhe conferir status
institucional e visibilidade, resultando daí a estrutura fragmentada de hoje.
Tendo em vista a extensão e complexidade do setor público estadual, a avaliação que
se segue focaliza apenas alguns órgãos e entidades que haviam sido objetos de uma avaliação
semelhante ao final dos anos 70 12 . À parte a relevância de outros sistemas não constantes
desse levantamento, os aqui estudados, com certeza, têm importância estratégica para o
desempenho das funções públicas.
Não há, naturalmente, a intenção de tomar a estrutura institucional vigente nos anos
1970 como um modelo a ser reproduzido. Afinal, conforme ressaltado anteriormente, soluções
de outras épocas, ainda que vitoriosas, dificilmente se prestam a repetições, ainda mais em
um contexto como o atual, em que as grandes mudanças ocorridas nos últimos anos e as
novas demandas da sociedade reclamam novos arranjos institucionais.
O propósito dessa avaliação é, portanto, estabelecer o contraste da situação atual das
instituições com uma época que, conforme demonstrado, a eficiência do aparato público
mineiro apresentou-se como um dos fatores determinantes do salto de desenvolvimento
Entre eles, por exemplo, a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a Procuradoria Geral e a PRODEMGE.
8
São 18 autarquias, 16 empresas e 15 fundações.
9
Os sistemas operacionais são arranjos institucionais, por meio dos quais os órgãos da Administração Direta,
10
entidades da Administração Indireta e empresas públicas, com funções e atividades finalísticas, são vinculados a
uma Secretaria de Estado, que funciona como a cabeça do sistema. Em contraponto, órgãos e entidades da
administração, do planejamento e da fazenda formam os chamados sistemas centrais.
Minas conta hoje com uma secretaria para cada um dos seguintes setores: Turismo, Meio Ambiente, Habitação,
11
Comunicação Social, Minas e Energia, Governo e Assistência aos Municípios, Cultura, Ciência e Tecnologia; e ainda
com as tradicionais de Saúde, Educação, Segurança Pública, Justiça, Indústria e Comércio, Transportes e Obras.
Ver SEPLAN (1979). Esse breve diagnóstico dos sistemas operacionais baseia-se em entrevistas diretas com
12
especialistas, participantes ou ex-participantes de cada um dos setores examinados.
66 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
experimentado. Esse contraste leva a acreditar que, tal como nos anos 70, a nova dinâmica
40 anos
BDMG
de desenvolvimento que se propõe hoje para Minas precisa ser articulada a uma nova
arquitetura do aparato público estadual.
2.4.1. O Sistema da Saúde
Quase três décadas atrás, o sistema de saúde do Estado era considerado dos mais eficientes
do País. Naturalmente, havia problemas na articulação da Secretaria com os órgãos da
Administração Indireta e nas limitações orçamentárias que lhe eram destinadas, mas o núcleo
central do sistema era capaz de formular políticas, planos e estratégias para o setor e implementá-
los com razoável grau de eficácia e eficiência.
Hoje, o panorama é o contrário. A Secretaria não logrou ajustar-se às novas funções que
dela se espera com a implantação do SUS. Faltam-lhe informações, recursos materiais,
organização e quadros técnicos para desincumbir-se do papel de articulação e de organização
da oferta de saúde no Estado, bem como de proceder a avaliação e o acompanhamento das
ações do sistema.
O SUS transferiu o atendimento para os municípios. Houve ganhos com a mudança, mas
surgiram também necessidades e novos problemas. Um deles refere-se à escala dos serviços,
com impactos financeiros. Em vista das deficiências do planejamento e implementação de
políticas de regionalização, grande parte da demanda estadual converge para Belo Horizonte e
congestiona o sistema da capital. Em 2001, segundo dados do SUS, cerca de 43% dos pacientes
internados em Belo Horizonte eram de outras cidades. Do atendimento de alta complexidade
prestada pela rede hospitalar vinculada ao SUS da capital, 55% foram dispensados a moradores
de outras regiões do Estado.
A Secretaria de Saúde precisará sofrer profundas mudanças para se revitalizar e cumprir
o papel de líder e coordenador do sistema de saúde estadual. Além das carências e do déficit de
pessoal qualificado para exercer as funções de formulação, acompanhamento e avaliação das
políticas de saúde, a Secretaria não dispõe de braços no interior. As diretorias regionais estão
esvaziadas e sem recursos mínimos.
Um outro eixo de problemas que confronta o Sistema Estadual da Saúde tem origem na
FHEMIG, órgão encarregado da administração dos hospitais estaduais. São 23 hospitais, a maioria
deles exercendo função apenas local, sendo que apenas três deles têm raio de abrangência estadual.
Em consonância com a regionalização do atendimento e buscando a eficiência da gestão dos
recursos públicos, é necessário repassar a responsabilidade de estabelecimentos hospitalares de
alcance local para a órbita municipal, ficando a FHEMIG encarregada apenas dos que prestassem
serviços de alcance estadual e dos hospitais localizados em municípios pequenos das áreas
deprimidas de Minas.
Por sua vez, a Fundação Ezequiel Dias Funed, por suas atribuições, exerce função
crítica dentro do Sistema Estadual da Saúde. Compete-lhe a produção de medicamentos básicos
e o apoio laboratorial à vigilância sanitária, além de ser nela sediada a Escola de Saúde Pública.
Porém, em todos esses três papéis, o desempenho da FUNED vem ocorrendo de forma precária.
A fabricação de medicamentos pode ser justificada pelo papel que os laboratórios estatais,
embora com produção modesta, poderiam desenvolver na regulação da indústria farmacêutica
sediada no País. Há necessidade e mercado para os medicamentos da fundação. Recursos e
67
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
fontes de financiamento para suas atividades existem; falta-lhe, entretanto, capacidade gerencial
40 anos
BDMG
e autonomia para desincumbir-se dessa tarefa a contento.
No tocante à Escola de Saúde Pública, o quadro é ainda mais grave. A FUNED não vem
concedendo a essa atividade a prioridade que deveria ter, propiciando-lhe os meios para que se
convertesse em centro de treinamento e formação de recursos humanos para o SUS. Finalmente,
as atividades laboratoriais da fundação não estão articuladas com a política de vigilância sanitária.
Todos esses fatos apontam para a necessidade de vigorosa recuperação da FUNED, tanto
para definir-lhe a missão institucional quanto para modernizá-la do ponto de vista gerencial.
2.4.2. O Sistema de Educação
Nos últimos quinze anos, a educação em Minas mudou. Nota-se a melhoria não apenas
na produtividade do sistema estadual, que exibe estatísticas favoráveis em quase todos os
indicadores do ensino fundamental (a universalização da matrícula e a diminuição da repetência
e da evasão), mas também na ampliação da atuação educacional no ensino médio, além da
desvinculação das amarras que a ligavam à política tradicional.
Três décadas atrás, o relatório de pesquisa da Fundação João Pinheiro mostrava a
educação como um território da política clientelística:
(O sistema)... sofre de relativa contradição de papéis, pois precisa combinar o desempenho
de função tradicional, como recurso político, vital no atendimento das lideranças políticas
que a pressionam em vários níveis, com o desempenho de função mais moderna de
provedora do capital humano.(Fundação João Pinheiro, 1975, p.17).
A política de descentralização ou de autonomia da escola, com a designação das diretoras
por meio de processo competitivo, acompanhada de transferência real de poderes de
administração para a órbita da unidade escolar, implantada nos anos 90, abriu caminho para
que a educação se emancipasse da ligação com a política tradicional.
A implantação do FUNDEF, de iniciativa federal, cimentou esse processo, garantindo
ao sistema parte dos recursos de que precisa e que eram objeto de intensa e complexa
negociação com a Fazenda. Houve, além disso, um ganho importante: a Secretaria expandiu
a matrícula de 5ª a 8ª série e incrementou o ensino médio.
O Sistema Estadual de Educação está mudando e se modernizando, mas ainda se
encontra preso no emaranhado de leis e regulamentos que lhe tolhem os passos. Além disso,
continua a enfrentar o desafio de administrar rede numerosa de escolas, dispersas pelo território
mineiro, apesar da municipalização do ensino13 .
O sistema de distribuição dos recursos do FUNDEF tem penalizado o Estado: como os recursos do fundo são
13
repassados com base no número de matrículas e estas diminuíram na rede estadual com a municipalização,
recursos aportados pelo Estado ao FUNDEF foram transferidos para os municípios em igual proporção. Em conseqüência,
o Tesouro Estadual recebeu menos do que contribuiu para o Fundo, uma vez que o Estado está tendo dificuldades para compartilhar
com municípios os custos do processo, como permite a legislação aplicável. Por essa razão, depois de 1998, em vista da perda de
receita, o Estado deixou de estimular a municipalização.
68 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
A Secretaria, como líder do sistema, desempenha dois grandes papéis: a gestão de suas
40 anos
BDMG
escolas e a supervisão da rede municipal. Sua estrutura é pesada. Na sede trabalham mais de
mil funcionários, que, somados aos das 42 regionais, compõem um total de 6.400 servidores,
entre efetivos e os que exercem cargo de recrutamento amplo. O corpo docente é formado de
240 mil professores, aos quais se somam 70 mil aposentados.
A descentralização por que passou o sistema educacional a partir de 1991 melhorou a
administração da escola, porque conferiu autonomia a sua direção, dando-lhe possibilidade de
tomar decisões sobre numerosos e pequenos problemas do seu dia-a-dia sem precisar percorrer os
longos caminhos burocráticos da sede. Contudo, essa mudança não foi acompanhada de outras
medidas de modernização. Apesar de vários avanços, a gestão ainda ocorre por processo e não por
resultados.
O maior problema configura-se na administração de pessoal, problema esse que não reside
apenas no número de servidores no corpo docente, mas sobretudo na inflexibilidade do regime de
trabalho. Até muito recentemente, os concursos públicos eram realizados especificando o local e,
por vezes, até o estabelecimento escolar em que o professor prestaria serviço. Em conseqüência,
remanejamentos dentro de uma mesma cidade esbarram em obstáculos legais, embora ocorram, e
mudança de pessoal docente de uma cidade para outra é praticamente impossível.
Se a rigidez na administração dos recursos humanos não constituía problema no passado,
porque a demanda por ensino fundamental era crescente, agora já começa a sê-lo. Nos últimos
anos, há uma queda no número de matrículas tanto na rede estadual quanto na municipal, que
vem gerando um excedente de professores no sistema estadual. A estimativa da Secretaria é de
que haja hoje cerca de 2.000 professores sem classes, por falta de aluno. O regime de trabalho é,
portanto, uma camisa-de-força que impede a otimização dos recursos humanos da Educação.
Pode-se concluir, assim, que, não obstante os avanços alcançados, há ainda muito a ser
feito para conferir ao sistema da educação os contornos necessários à sua função, dispensável
dizer, imprescindível ao desenvolvimento do Estado, considerando o interesse público e o grande
volume de recursos envolvidos. Acrescente-se a esse desafio suas novas iniciativas em relação ao
ensino médio e ao ensino superior.
2.4.3. O Sistema da Agricultura
Em meados dos anos 70, a Agricultura era de longe o melhor sistema operacional do Estado.
Os organismos que o compunham exibiam grau elevado de articulação e integração institucional,
que não se explicava simplesmente pelo desenho do sistema ou pelos laços funcionais e legais que os
uniam. A agricultura constituía uma rede de organizações, partilhando objetivos e um projeto comum.
O conflito entre a administração direta e a indireta, tradicional na maioria dos sistemas operacionais
à época, praticamente inexistia.
A dinâmica do sistema operacional da agricultura tinha sido concebido dentro do molde
desenvolvimentista característico dos anos 70. Havia um órgão que cuidava do armazenamento, outro
que lidava com a venda de implementos agrícolas e as Centrais de Abastecimento. O núcleo do sistema
era formado pela RURALMINAS, pela antiga ACAR, que depois veio a se transformar em EMATER, e pela
EPAMIG. A Secretaria encarregava-se das funções de fiscalização e planejamento e ao Secretário cabia o
papel de empreendedor do sistema.
69
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
Hoje, o quadro é diverso. Do antigo sistema restou a EMATER, a EPAMIG, a RURALMINAS; nos
40 anos
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anos 90 foi criado o Instituto Mineiro de Agropecuária IMA, e em 2000, o Instituto de Terras
ITER. Ressalte-se, além disso, que, se antes necessárias, com o passar do tempo, à medida
que a iniciativa privada foi ganhando corpo no setor, grande parte das tarefas anteriormente
desempenhadas pelas entidades do sistema foram perdendo importância como função pública
estadual.
Com relação às funções de assistência rural, embora não possa ser caracterizada nem
como um bem público nem como um bem de mérito, como é o caso da saúde ou da educação,
tem sido atividade tradicional do poder público. O grande empresário dispõe de meios próprios
e dispensa a ajuda do Estado, mas para o pequeno e médio produtor rural, a assistência pública
faz a diferença em termos das possibilidades de sua inserção no mercado. As funções
desempenhadas pela EMATER podem ser consideradas, assim, necessárias, e sua atuação pode
ser de grande valia para o modelo de desenvolvimento centrado nas aglomerações produtivas
locais e regionais. Sua experiência de lidar com comunidades, acumulada desde os tempos da
antiga ACAR, constitui recurso crítico que precisa ser mobilizado na resolução direta ou indireta
dos problemas identificados nessas áreas e que se relacionem com a assistência técnica aos
produtores de baixa renda ou a questões afins.
Todavia, a empresa precisa passar por processo de reestruturação, no sentido de
desvincular-se da atuação direta em vários municípios, aprofundando a articulação com os
municípios; considera-se, para isso, a possibilidade de as prefeituras municipais sustentaram
parte dos gastos relativos às funções realizadas pela empresa nos respectivos municípios.
A pesquisa agrícola é instrumento crucial para o progresso da agricultura. O
desenvolvimento de novos cultivos, de novas técnicas, e o emprego da biotecnologia têm
propiciado avanços revolucionários na produção, na produtividade e na qualidade dos produtos
agrícolas. A EPAMIG foi concebida para atuar complementarmente à EMBRAPA, focalizando a pesquisa
em problemas e produtos que afetam a agropecuária mineira não cobertos por sua congênere
federal. Todavia, A EPAMIG não escapa à sina dos órgãos de pesquisa do Estado, que vêm perdendo
quadros, vivendo à mingua dos escassos e erráticos recursos dedicados à pesquisa. Em um
contexto em que o desenvolvimento tecnológico se apresenta como elemento-chave para o
desempenho de todas as atividades produtivas, as funções de pesquisa agrícola, principalmente
se eficientemente associadas à difusão e disseminação, revelam-se essenciais. Cabe, assim, ao
Estado procurar equacionar o modelo institucional mais adequado para realizá-las com a eficiência
necessária.
Por outro lado, a RURALMINAS (carro-chefe do Sistema Operacional da Agricultura nos
anos 70, quando sob seu encargo ficava a política de colonização, irrigação e legitimação de
terras) perdeu substância e é hoje pálida imagem da entidade poderosa que foi. Sob seu comando
estiveram os projetos especiais que marcaram o esplendor do sistema operacional da Agricultura,
como por exemplo, o Plano Noroeste, o PADAPE, o PRODEMATA, o PROVÁRZEAS, o
PROJETO JAÍBA, dentre outros. Recentemente, perdeu a política fundiária para o novo ITER
e, na atualidade, sobra-lhe, praticamente, a tarefa de irrigação, onde a presença do Estado não
é mais tão indispensável como foi em outras épocas. Para agravar essa trajetória, a
RURALMINAS padece dos mesmos males que a crise fiscal do Estado vem produzindo em
outras entidades estaduais: escassez de recursos, envelhecimento do quadro técnico e perda de
capacidade operacional. Trata-se, como se depreende, de um organismo que deve ser
urgentemente revisto em uma necessária reforma institucional do Estado.
70 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Criado há dez anos, o IMA contrasta com os demais órgãos da Agricultura atualmente.
40 anos
BDMG
Sua trajetória é ascendente e suas funções são reconhecidas como necessárias e até
indispensáveis: a defesa sanitária, a fiscalização, a certificação de produtos, de mudas e viveiros
e de feiras agropecuárias. Tais papéis, por garantirem a segurança alimentar e a qualidade do
produto pontos essenciais para competitividade e inserção no mercado internacional , são
vitais para agropecuária. O IMA dispõe de poder de polícia e exerce funções indelegáveis. Recebe
remuneração pelos serviços prestados, mas isso não lhe garante recursos para atuar com a eficácia
e eficiência que dele se espera. Tendo em vista sua essencialidade para a melhoria da
competitividade da agropecuária mineira, o governo estadual não pode decuidar-se de garantir
ao Instituto condições de trabalho adequadas.
2.4.4. O Sistema de Ciência e Tecnologia
Criada pela Lei n. 6.953, de 1976, a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia incumbia-
se também do meio ambiente, que ganhou secretaria própria em 1995. Atualmente, o Sistema
Estadual de Ciência e Tecnologia compõe-se da Secretaria e de quatro entidades da Administração
Indireta: CETEC, IPEM, FAPEMIG e IGA.
No início de sua constituição, a Secretaria e o sistema foram prestigiados, havia recursos
abundantes e o corpo técnico de seu órgão principal, o CETEC, cresceu e chegou a contar com
cerca de mil membros. Posteriormente, o sistema entrou em declínio. Nem mesmo a criação da
FAPEMIG, instituída pela Constituição Estadual de 1989, alterou esse quadro.
Mais recentemente, a Secretaria organizou-se e definiu melhor seu papel, mas a situação
geral dos órgãos a ela vinculados continuou praticamente inalterada. Hoje, a Secretaria de Ciência
e Tecnologia gere diretamente vários programas, definidos a partir das diretrizes baixadas pelo
Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia CONECIT, e executados em combinação com o
setor empresarial, as comunidades e a FAPEMIG.
A Secretaria vem conseguindo, em período recente, maior e melhor articulação com a
FAPEMIG. Esta opera uma linha de financiamento própria para os projetos induzidos pela
Secretaria, ao lado do atendimento da chamada demanda espontânea dos pesquisadores. Mesmo
esta última segue as orientações emanadas do CONECIT. Entretanto, com os demais órgãos
vinculados, não há maior integração. A Secretaria se limita a encaminhar suas demandas, mas
não tem programas ou projetos em conjunto.
Considerando a relevância do tema para a trajetória de desenvolvimento do Estado, este
é, sem dúvida, um dos sistemas a merecer urgentes ações no sentido de adequá-lo aos eixos
estratégicos estabelecidos pelo Governo, sob pena de atrasar ações relevantes para aquele
propósito.14
Anterior à própria Secretaria, o CETEC vive hoje um momento crítico. A entidade dispõe
atualmente de apenas 60 funcionários, para cuidar das suas 18 áreas de atuação. Apesar disso,
realiza tarefas de grande interesse para Minas Gerais. Assim, por exemplo, a água utilizada por
duas centenas de hospitais mineiros no tratamento por hemodiálise é testada em seus laboratórios,
com elevado grau de precisão. Conta ainda com instalações de ponta para análise de emissões
Ver neste Estudo, o trabalho Inovação Tecnológica e Desenvolvimento, que compõe o volume VII deste Estudo.
14
71
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
de gases por motores de automóveis e dispõe de sofisticado know-how e equipamentos na área
40 anos
BDMG
de nanoscopia. O CETEC tem sobrevivido, a duras penas, com as receitas de testes e análises
que realiza para o setor industrial. Não dispõe de meios materiais e de recursos humanos para
apoiar tecnologicamente a pequena e média empresa, desenvolver produtos ou aperfeiçoar
processos em suas áreas de atuação.
O Instituto de Pesos e Medidas IPEM, encarregado das funções de metrologia em
Minas, é outra entidade do sistema estadual de Ciência e Tecnologia. Conta com recursos próprios,
advindos da cobrança dos serviços prestados, o que lhe possibilita condições para se equipar.
Desincumbe-se a contento de suas tarefas, embora sofra também com a baixa remuneração de
seu pessoal.
O Instituto de Geociências Aplicadas IGA tem a seu encargo as funções ligadas à
cartografia no âmbito do Estado de Minas Gerais. Mapas são elementos básicos para o
planejamento dos municípios e do próprio Estado. Minas conta com 853 municípios, uma centena
dos quais resulta de desmembramento recente, o que ampliou a necessidade de plantas
cartográficas para dirimir disputas territoriais e indefinições quanto à cobrança de impostos e
prestação de serviços. O IGA, como os demais organismos estaduais de pesquisa e planejamento,
vive em estado de penúria, que limita substancialmente suas possibilidades de atuação.
A Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais FAPEMIG foi instituída
pela Constituição Estadual de 1989, em resposta às demandas da comunidade científica mineira,
que de longa data reclamava a existência de um organismo estatal, nos moldes da FAPESP,
para apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico no Estado. Desde o início a fundação
se vê diante dos problemas de escassez de recursos e a instabilidade dos repasses do Tesouro
Mineiro previstos em lei. O resultado é que o órgão é forçado a agir conservadoramente, para
não ficar inadimplente com os bolsistas com pesquisas aprovadas e contratadas. Nos últimos
dois anos, além do financiamento tradicional à demanda espontânea, a FAPEMIG lançou linha de
apoio à demanda induzida, estabelecida pela Secretaria e o CONECIT.
2.4.5. O Sistema de Fomento Industrial
Nos anos 70, Minas Gerais dispunha de aparato de fomento estruturado, com elevado grau
de articulação e eficiência. Os créditos do BDMG eram fartos e o órgão desempenhava papel
importante como centro pensante do desenvolvimento do Estado. O INDI fazia a ligação com os
meios empresariais, divulgando as potencialidades econômicas de Minas e atraindo projetos
industriais. A Companhia de Distritos Industriais CDI cuidava da oferta e preparações dos
terrenos para os investimentos industriais. Além disso, o Estado oferecia energia barata, uma rede
viária articulada e uma localização privilegiada.
Entretanto, essa estrutura começou a apresentar sinais de deterioração já nos anos 80.
Mudou-se a conjuntura econômica do País, o Estado entrou em crise, muitos técnicos
qualificados migraram e a falta de recursos impediu a renovação e readaptação da estrutura
institucional. O aparato mostrou-se incapaz de se adaptar às novas tendências exigidas pelas
transformações das últimas décadas.
O INDI ilustra bem essa tendência. Proeminente nos anos 70, modelo para muitas
agências que foram criadas em outros estados e até para o governo federal, o órgão perdeu
72 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
substância e mostrou-se incapaz de se adaptar à realidade atual. Muitos fatores explicam as
40 anos
BDMG
dificuldades enfrentadas pelo Instituto. Nas últimas décadas, sofreu forte redução de quadros,
uma vez que não houve substituição dos técnicos que se desligavam. Além disso, com as
mudanças institucionais na CEMIG, o INDI vem perdendo suporte financeiro. Sofre, portanto,
hoje, grandes problemas orçamentários, que comprometem sua capacidade de ação.
As atividades que desempenhou junto aos meios empresariais, contudo, foi e é ainda
necessária para o desenvolvimento de Minas. A promoção industrial, levando as oportunidades
de negócios existentes em Minas a várias partes do mundo, é uma exigência em um cenário de
grande competição por novos investimentos. A intermediação entre os investidores e os órgãos
do Estado, que o instituto executou com eficiência no passado, simplifica consideravelmente
os circuitos burocráticos, levando aos empresários informações sobre as linhas de crédito,
programas de incentivos concedidos pelo Estado e a legislação de meio ambiente.
Além disso, a entidade acumula ampla e detalhada gama de informações sobre os setores
da economia e sobre os municípios mineiros cruciais para auxiliar o empresário nas suas decisões
de investir em Minas e promover o aproveitamento das potencialidades do Estado. Pode-se,
assim, afirmar que faz-se necessária uma reestruturação, capaz de prepará-lo para uma ação
mais em sintonia com as práticas recentes de fomento regional.
A Companhia de Distritos Industriais CDI tinha, como enfatizado, grande papel no
aparato de fomento ao desenvolvimento vigente nos anos 70. Os recursos eram fartos e, em
muitos casos, a instalação dos distritos industriais se antecipava à demanda. Muitos dos distritos
que a companhia administra hoje foram instalados naquela década. A CDI tinha, então, mais de
300 técnicos.
Sua função era, e continua sendo, a de projetar e comercializar terrenos, dotando-os de
toda infra-estrutura necessária para a implantação de atividades industriais. A companhia realiza
estudos que indicam a melhor área do município para localização de um distrito industrial. Sua
avaliação inclui condições de topografia, análise de mapas, localização viária e análise econômica,
de forma a extrair o máximo da área venal do terreno. A CDI organiza um amplo cadastro das
áreas disponíveis para implantação dos distritos industriais, constituindo rico conjunto de
informações sobre mais de 300 municípios. A ação da companhia centra-se, hoje, em parceria
com as prefeituras, que oferecem o terreno e prestam infra-estrutura externa ao distrito, ficando
a infra-estrutura interna por conta da CDI. Suas operações são financiadas essencialmente com
recursos próprios, através da venda dos terrenos nos distritos e de uma pequena taxa de
administração. Atualmente, seu quadro técnico conta com 60 profissionais
Recentemente, a CDI vem passando por dificuldades financeiras. Apesar das modificações
na importância relativa do tipo de serviço prestado pela CDI, sua ação pode ser considerada
relevante para o Estado, sobretudo no apoio às políticas de interiorização da indústria assentadas
em aglomerações produtivas locais, desde que não onerosas ao Estado e efetivamente
compartilhados os custos com os municípios. O know-how acumulado e o grande cadastro dos
municípios mineiros constituem importantes elementos de apoio aos investimentos estaduais,
além da possibilidade de colaboração com políticas municipais de ordenamento urbano.
Por sua vez, a cabeça do sistema, a Secretaria de Indústria e Comércio, desempenhava,
nos anos 70, uma ação mais política, em contato direto com o Governador e mais centrada na
atração de grandes projetos para o Estado. Tinha um quadro de pessoal e recursos bem inferiores
73
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
à suas entidades vinculadas, não havendo significativa sobreposição de funções entre eles.
40 anos
BDMG
Essa tendência não se modificou essencialmente nas últimas décadas, a despeito da redução
de quadros e de recursos da CDI e do INDI. A Secretaria sofreu substancial redução de
quadros técnicos e suas ações têm-se concentrado na execução das deliberações do Conselho
de Industrialização (COIND), particularmente na gestão dos fundos estaduais. Isso não a
impede de desempenhar algumas funções de divulgação e coordenação de ações voltadas
para fomentar o parque industrial e os fluxos interestaduais de comércio. A interação com o
INDI é, em geral, articulada e sem conflito de competências. Em uma situação na qual a
interação política e institucional com órgãos federais de desenvolvimento industrial apresenta-
se como de grande relevância, o reforço ao papel político e coordenador da Secretaria adquire
grande importância.
Embora o BDMG, do ponto de vista institucional, não faça parte do Sistema Operacional
da Indústria e Comércio, é indispensável fazer algumas considerações sobre o órgão, estratégico
para o planejamento e fomento econômico do Estado. Nos anos 60, o BDMG teve papel
decisivo na elaboração de estudos que balizaram a ação do Estado no sentido de recuperar
certas indústrias e promover outras consideradas estratégicas para o desenvolvimento estadual.
Como indicam vários estudos, o Banco desempenhou papel de centro pensante do
desenvolvimento econômico do Estado.
Nos anos 70, os empréstimos e operações do BDMG cresceram rapidamente. Diniz &
Ferreira (1994) estimam que eles atingiam cerca de 5% da formação bruta de capital fixo do
Estado. No entanto, Diniz (1988) nota que o Banco passa a assumir cada vez mais, nos anos
80, características de uma agência financeira, deixando em um segundo plano seu papel de
centro pensante do desenvolvimento do Estado.
A partir dos meados dos anos 80, o Banco passou por vários reveses e dificuldades.
Modificações na regulamentação determinadas pelo Governo Federal, mudanças na sistemática
de repasses do BNDES e falta de recursos estaduais contribuíram para forte redução dos
recursos do órgão. Além disso, o Banco sofreu com a grande proporção de empréstimos
duvidosos em sua carteira e com a inadimplência de alguns clientes importantes.
Nos anos 90, o BDMG passou por certa reestruturação. Desempenhou papel importante
no esforço do Estado para obter recursos externos e assumiu a gestão de uma série de fundos
estratégicos para o desenvolvimento regional. Administra hoje importantes fundos estaduais
que visam fomentar setores tecnológicos intensivos e outros considerados importantes para a
modernização industrial, além de linhas de financiamento a pequenas e médias empresas.
O BDMG, dado seu grande conhecimento da realidade do Estado, tem papel estratégico
na definição de uma política de desenvolvimento estadual. Suas linhas de crédito e capacidade
de repassar recursos de outras instituições têm papel decisivo para a superação de pontos de
estrangulamento e financiamento de investimentos com fortes efeitos multiplicadores para a
economia do Estado. Além do reforço às suas atividades mais típicas, é imperativo que o
Banco dê continuidade e mesmo reforce seu papel na definição das linhas de desenvolvimento
para o Estado.
74 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
2.4.6. O Sistema de Planejamento
40 anos
BDMG
Compõem este sistema a Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral, a Fundação
João Pinheiro, o BDMG (já destacado na seção anterior), além do Instituto de Terras ITER e
do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais IDENE, criados
recentemente. De um modo geral, nos últimos anos, o Sistema Estadual de Planejamento não
tem sido bem-sucedido no sentido de garantir que os objetivos prioritários para o desenvolvimento
do Estado guiem a ação da máquina pública. Problemas institucionais, limitações no quadro técnico
e problemas fiscais vêm reduzindo a eficácia do planejamento estadual e impedindo uma ação
mais coordenada e eficiente.
A SEPLAN, seguindo determinação da Constituição, elabora o Plano Mineiro de
Desenvolvimento Integrado (PMDI) e o Plano Plurianual de Ação Governamental (PPAG),
planos que têm o objetivo de determinar as linhas mestras para o desenvolvimento do
Estado. No entanto, mesmo quando bem elaborados e efetivos no sentido de apontar
direções prioritárias para o desenvolvimento estadual, os planos não têm sido instrumentos
eficazes para guiar a ação do poder público. Muitos fatores colaboram para esse resultado.
Inicialmente, o governo enfrenta forte crise financeira e o Orçamento, embora uma referência
importante, acaba não determinando as prioridades para a liberação de recursos. Dada a crise
financeira, a alocação dos recursos é feita segundo disponibilidade de caixa e urgência. A própria
Junta de Programação Orçamentária e Financeira JPOF, que cumpria papel importante de
compatibilização das diretrizes do orçamento com a disponibilidade financeira, deixou de funcionar
em anos recentes.
Em segundo lugar, as Assessorias de Planejamento e Coordenação (APC), que deveriam
garantir a coordenação dos diferentes sistemas a partir de direções delineadas pelo planejamento,
não têm funcionado. Como reconhecido em documento recente da SEPLAN, as Assessorias de
Planejamento e Coordenação (APC), estruturas operacionais do sistema de planejamento, deixaram
de cumprir tal função e passaram a assumir atribuições diferenciadas ligadas às rotinas das
instituições das quais fazem parte15 .·
Em tal contexto, torna-se difícil organizar o aparato estadual no sentido de seguir algumas
direções prioritárias estabelecidas pelos planos. Mesmo havendo vontade política e acreditando-
se na relevância do plano, o que não é trivial, os obstáculos tendem a ser substanciais, o que acaba
levando ao abandono de alguns objetivos estruturantes para o desenvolvimento estadual. Dadas
as dificuldades, os quatro anos de governo tendem a não ser suficientes, e a descontinuidade pode
trazer sérios danos.
Experiências recentes mostram como um grau razoável de coordenação foi atingido devido
ao papel de pessoas estratégicas que ocuparam as secretarias e postos-chave do governo. No
entanto, a construção de um sistema de planejamento eficaz requer um arranjo institucional que
torne o funcionamento de certas agências e secretarias menos dependente das pessoas nomeadas
para os respectivos cargos. Em outras palavras, faz-se necessária a geração de certo grau de
coerência interna que permita o funcionamento adequado das agências e a preservação de certa
rotina, independentemente do governador ou do secretário que ocupem os cargos.
Ver, a esse respeito, SEPLAN (2001, p.17).
15
75
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
Quanto à Fundação João Pinheiro, estudos anteriores sobre o planejamento estadual
40 anos
BDMG
enfatizavam sua importância na elaboração de estudos e programas estratégicos e na
organização de uma ampla base de dados com informações relevantes para o planejamento
estadual (FJP, 1975). Estruturada, basicamente, para a produção de pesquisas econômicas e
sociais e de desenvolvimento regional, a entidade contou, também, com um centro de
desenvolvimento em administração. Durante os anos 70, especialmente, a Fundação teve
presença decisiva em praticamente todos os planos e programas desenvolvidos no Estado.
Nos anos 90, passou a contar com mais uma unidade de grande relevância para o Estado: a
Escola de Governo, que já adquiriu conceitos máximos na avaliação de cursos superiores de
administração pública no País.
Atualmente, a Fundação conta com cinco áreas de atuação: estatísticas e informações;
estudos econômicos e sociais, estudos históricos e culturais, estudos municipais e
metropolitanos, desenvolvimento em administração, além da Escola de Governo. Entretanto,
há carências de diversos tipos, em especial no que se refere ao pessoal dedicado a informações
estatísticas, ainda mais considerando que essa atividade é, sem dúvida, essencial para todas a
atividades de planejamento e de formulação de políticas públicas, além de servir à comunidade
empresarial e acadêmica.
Pode-se afirmar que Minas Gerais já esteve bem mais avançada nessa área em outras
épocas, quando nem se dispunha dos recursos atuais da informática. Os trabalhos da Fundação
João Pinheiro em contas regionais, por exemplo, foram pioneiros e de grande relevância na
experiência de planejamento dos anos 70, conforme observado anteriormente.
Mas, apesar dos muitos problemas nos últimos anos, a Fundação João Pinheiro conta
ainda com muitos técnicos de alta qualificação em várias áreas do conhecimento, que prestam
serviços a vários organismos, inclusive fora do Estado. Esse é um ativo da instituição, que
lhe dá potencial para desempenhar importante papel no planejamento do Estado e na
qualificação de administradores públicos.
Em síntese, a reestruturação da Fundação João Pinheiro é uma condição importante
para melhorar a eficácia do planejamento e a eficiência da ação do aparato público, tendo em
conta suas funções de produção de estatística sobre a economia mineira, de pesquisa econômica
e social, de apoio aos municípios e de formação de administradores públicos.
Órgão modelo nos anos 70, a Fundação tem sido suplantada por vários órgãos estaduais
de pesquisa, como ilustrado pelas experiências do SEPLAN-CE, no Ceará, IPARDES, no
Paraná, SEI, na Bahia, e Fundação FEE, no Rio Grande do Sul. Uma mera comparação dos
sites desses órgãos, das informações disponíveis e dos serviços oferecidos constitui um bom
indicador de como a Fundação João Pinheiro tem ficado para trás16 .
Um bom exemplo é a ausência de informações sobre as decisões de investimento no Estado e a realização estrita
16
de levantamentos de campo, uma vez que, na maioria dos casos, as informações publicadas originam-se de
dados secundários.
76 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
2.4.7. Outras observações sobre a máquina pública mineira
40 anos
BDMG
Vários dos problemas apontados nas análises anteriores podem ser também observados em
outros sistemas. Assim, por exemplo, a carência de pessoal qualificado, os sucessivos cortes de
custeio que vêm dificultando a execução de várias políticas públicas e a fragilidade de uma ação
coordenadora eficaz são circunstâncias presentes nos sistemas analisados e em outros.
Acrescentam-se os graves problemas decorrentes da estrutura salarial, que têm feito com
que a remuneração de grande parte dos funcionários especializados se encontre bastante defasada,
se comparada aos parâmetros de mercado, ao passo que a remuneração de funcionários de nível
elementar se apresenta, na maioria das vezes, superior. Tal situação é um claro desestímulo à
permanência e melhoria dos quadros técnicos, com evidente perda de eficiência.
Um dos principais entraves a uma política salarial que incentive os servidores é a atual
vinculação constitucional de vencimentos entre ativos e inativos. Essa vinculação, dado o atual
peso dos inativos na folha total, impede qualquer aumento aos ativos. Alternativas, como uma
política de premiação por resultados, são propostas no capítulo seguinte deste volume. De todo
modo, encontra-se na ordem do dia, em nível federal, a discussão dessa e de outras questões
previdenciárias.
Um bom exemplo, nesse sentido, são os administradores públicos formados pela Escola de
Governo da Fundação João Pinheiro, com alta formação profissional, que, ao concluir o curso,
são incorporados ao serviço público sem uma política deliberada para tirar partido de suas
habilidades e da vontade de servir de que se acham imbuídos. O resultado é que, com alguns anos,
muitos deles abandonam a administração pública, com graves perdas para o Estado, não apenas
com relação aos recursos investidos.
O mais importante, contudo, é a qualidade dos serviços prestados à população.Mesmo com
várias iniciativas tomadas nos últimos anos, ainda há muito por fazer. Um exemplo evidente é a
defasagem em relação às possibilidades criadas pela revolução tecnológica17 . É interessante observar
que a utilização dos serviços informatizados, aliás, não apenas na administração pública, mas
também nas empresas, começou pelas áreas-meio e, só recentemente, tem atingido as áreas-fins.
Pode-se, entretanto, afirmar que, comparativamente à União e a outros estados, Minas Gerais
encontra-se atrasada, principalmente em relação à utilização do chamado governo eletrônico.
A racionalização na prestação dos serviços públicos essenciais é, também, premente. Demandas
relevantes podem ser encontradas nas áreas de justiça e segurança pública. Assim, por exemplo, em
um procedimento básico, como o registro de uma ocorrência policial, o cidadão enfrenta vários
problemas, que, não raramente, acabam por funcionar como um desestímulo a fazê-lo. Como as
delegacias são especializadas e, não raramente, a definição do crime é ambígua, o reclamante é
levado a deslocamentos, em circunstâncias penosas e com elevado custo psicológico, até que ele
seja ouvido e a ocorrência seja feita.
Ressaltem-se iniciativas importantes em Minas Gerais, implantadas nos anos 90, foram o SIAFI (Sistema Integrado de Administração
17
Financeira), que atualmente vem sendo complementado pelo SIMG (Sistema Integrado de Minas Gerais), um
aperfeiçoamento do sistema anterior, o SIPAG (Sistema de Programação Acompanhamento e Avaliação da Ação
Governamental), além da informatização das áreas administrativas dos órgãos e entidades. Está em atividade,
também, o LIG-MINAS (Linhas de Informação do Governo), de atendimento ao cidadão, e o PSIU (Posto de Serviço
Integrado Urbano), com 25 postos no Estado.
77
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
O caso dos apenados é ainda mais grave. A sabida carência de vagas no sistema prisional
40 anos
BDMG
mineiro convive com a existência de um número elevado de detentos que já cumpriram pena, ou
que poderiam cumpri-la em outro regime, como já demonstraram diversos estudos. Todavia, a
lentidão nos exames dos processos e nas providências cabíveis vêm-se colocando como um dos
fatores agravantes dessa situação. Além de injusto, essa ineficiência acarreta a sobrecarga de
delegacias e de presídios, configurando, muitas vezes, como motivos de rebeliões. Tudo isso, além
de dificultar a ação da polícia, contribui para o aumento da impunidade, uma vez que a falta de
vagas no sistema prisional leva ao não cumprimento de outras ordens de prisão.
No tocante à burocracia interna, o quadro não é diferente: aposentadorias de professores
tramitam por um ou dois anos antes que o processo chegue a bom termo; a informação sobre o
servidor é precária e de difícil obtenção; a relação entre contribuintes e o Erário Público, mesmo
com a simplificação de procedimentos, ainda pode ser melhorada muito, em especial no que diz
respeito às obrigações acessórias.
78 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
2.5. Algumas diretrizes para a reformulação da
40 anos
BDMG
máquina pública mineira
As observações constantes da subseção anterior não podem, entretanto, ser tomadas,
simplesmente, como uma indicação de que os problemas atuais dos vários órgãos e entidades
precisariam ser equacionados, voltando as instituições à situação prevalecente no passado. O
problema é bem mais complexo, exigindo a formulação de diretrizes para a reforma institucional
em seu conjunto. Não se trata, assim, apenas, de fazer melhor as coisas. Mais que isso, trata-
se de fazer certo as coisas certas.
Aliás, conforme observado anteriormente (seções 2.1 e 2.2), as principais motivações
em vários países, inclusive no Brasil, para as iniciativas estruturais de reforma implementadas
nos últimos anos, foram a crise fiscal, a persistência da cultura burocrática em meio a práticas
patrimonialistas e o profundo déficit de desempenho em termos de quantidade e qualidade
na prestação de serviços públicos. Acrescentam-se, agora, novos temas, ou antigos temas
que emergem de forma diferente, que exigirão a incorporação de novos atributos nos modelos
de gerenciamento público.
O mais importante dentre esses novos temas é, com certeza, a questão do
desenvolvimento, agora posto em outra perspectiva, que inclui a idéia-força de
sustentabilidade e necessidade de alinhamento com outra idéia-força que é a
estabilidade (econômica, política, institucional e social) num mundo globalizado. O
tema já foi tratado pela administração pública (burocrática) à época do Estado (nacional e do
bem-estar) dos 50 e 60 com nome e sobrenome: administração para o desenvolvimento.
E agora? Que novos atributos precisam ser incorporados à gerência pública para que
ela seja um efetivo instrumento deste neodesenvolvimentismo?
A formulação de diretrizes para a reforma do Poder Público em Minas Gerais tem,
assim, as mesmas motivações já propostas, com a ressalva, confor me obser vado
anteriormente, de que estamos atrasados nesse processo, mesmo se a comparação for,
não os países mais desenvolvidos, mas com outros estados da federação.
Nesse sentido, é útil retomar os movimentos centrais das reformas implementadas
em outros países, conforme referido na seção 2.1:
Busca permanente do aumento da eficiência da máquina pública, por intermédio da
racionalização e do incremento de produtividade (fazer mais com menos).
Melhoria contínua da qualidade na prestação dos serviços públicos, visando a atender
aos requerimentos da sociedade no que diz respeito à assistência das demandas sociais
básicas (fazer melhor).
Resgate da esfera pública como instrumento de expressão da cidadania e fórum do
aprendizado social (fazer o que deve ser feito).
Em relação a Minas Gerais, quatro grandes vetores de mudanças devem ser
perseguidos com a reestruturação:
79
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
1. A adaptação do aparato institucional às exigências do novo modelo de desenvolvimento.
40 anos
BDMG
2. O revigoramento do planejamento governamental.
3. A melhoria da gestão pública.
4. O revigoramento do aparato institucional de fomento.
5. O saneamento das finanças públicas.
O saneamento das finanças púbicas, pela urgência do tema e especificidades envolvidas,
foi destacado como um capítulo específico deste volume, apresentado a seguir. Desse modo, as
subseções que se seguem tratam das diretrizes relacionadas aos quatro primeiros vetores de
mudanças aqui sugeridos.
2.5.1. Adaptação do aparato institucional às exigências do novo modelo
de desenvolvimento
1ª) Revisão da estrutura organizacional do Estado
De princípio, uma diretriz essencial é a remodelagem do aparato estatal, tendo em vista a
necessária reorganização dos sistemas centrais e operacionais e seus órgãos e entidades.
Conforme observado anteriormente, o Setor Público Estadual é composto, atualmente,
por 21 secretarias, além de vários órgãos autônomos, outras 49 entidades da Administração
Indireta e 53 conselhos estaduais. Não houve, ao longo do tempo, um princípio estruturador
que norteasse sua organização, o que resultou em uma estrutura fragmentada, com níveis
diferenciados de eficiência e de eficácia. Essa é, portanto, uma situação que precisa ser
revista, não apenas por razões financeiras, mas, principalmente, com o objetivo de garantir
funcionalidade e eficiência à máquina pública.
Afinal, organizações públicas não podem ter o dom da imortalidade, que acabam
adquirindo pela inércia ou descaso das administrações ou, simplesmente, em virtude dos
custos políticos de extinção. São instrumentos criados para atender demandas determinadas
que o Setor Público deve atender. Deviam existir enquanto durassem as necessidades para as
quais foram criadas. Mas, se essas necessidades mudam ou deixam de existir, ou podem ser mais
bem cumpridas pelo setor privado ou organizações não-governamentais e, além disso, se os diversos
órgãos não se reciclam e não conseguem adquirir capacidade para exercer outras funções públicas,
não há razões para mantê-las da forma como estão.
Não caberia em um trabalho como este a indicação de quais instituições ou conselhos
deveriam, ou não, permanecer em uma nova estrutura organizacional do Estado de
Minas Gerais. Há, naturalmente, várias alternativas para essa remodelagem, não restritas à
simples extinção de órgãos, como por exemplo, fusões, modificações nos estatutos e
figuras jurídicas, etc.
O importante é salientar que esse é um problema que não pode ser adiado, sob pena de
cristalizar um sistema que já dá sinais evidentes de esgotamento ou de inadaptação aos novos
papéis e responsabilidades que vêm sendo atribuídos ao Setor Público, na atualidade.
80 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
2ª) A melhoria da eficiência dos sistemas operacionais
40 anos
BDMG
A eficácia de uma nova estrutura organizacional depende, em muito, da eficiência do
modo de funcionamento das diversas instituições que a compõem.
O desenvolvimento das capacidades institucionais dos órgãos da administração pública,
incluindo o fortalecimento do planejamento estratégico como ferramenta de gestão, os
programas de reestruturação administrativa, entre outras, conforme apontado anteriormente,
são iniciativas em curso na União e em vários estados, no contexto das reformas que vêm
sendo implementadas.
Um ponto importante na busca da melhor eficiência do funcionamento da máquina
pública é a necessária articulação entre os diversos órgãos. Em Minas, atualmente, os sistemas
operacionais encontram-se descaracterizados. Inexiste a coordenação dos organismos
vinculados pela Secretaria e, salvo uma ou outra exceção, cada qual formula suas metas e
objetivos e executa programas e projetos de forma independente. O desperdício, a dispersão
de esforços e a perda de eficiência são inevitáveis, assim como se torna ineficiente a
coordenação.
A revitalização dos sistemas operacionais requer, como condição sine qua non, o
revigoramento da Administração Direta, ou seja, das próprias secretarias, de modo a permitir
que o núcleo estratégico tome decisões mais corretas e efetivas e que seus serviços, tanto os
exclusivos (que funcionam diretamente sob o seu comando), quanto os competitivos (exercidos
pela Administração Indireta), operem de forma mais eficiente.
Isto significa garantir maior governança, ou seja, maior capacidade de governar, maior
condição de implementar leis e políticas públicas. Significa governar com efetividade e
eficiência, voltando a ação dos serviços públicos para o atendimento dos cidadãos. Para isso,
é necessário substituir a administração pública voltada para o controle a priori dos processos,
pela administração pública baseada no controle a posteriori dos resultados. Dentro deste
princípio, a administração indireta deve ter sua autonomia preservada, com ampla liberdade
para administrar seus recursos humanos, materiais e financeiros, desde que atinjam os objetivos
qualitativos e quantitativos previamente acordados com a Administração Direta.
Em outras palavras, a revitalização e a integração dos sistemas operacionais devem ser
buscadas para garantir um mínimo de ordem, unidade e coerência às ações dos membros do
sistema e não como um fim-último ou como um objetivo per se. Pode-se lançar mão de algum
tipo de arranjo formal ou institucional, mas a integração deve ser obtida, principalmente, a
partir de ações que visem à solução de problemas comuns, necessários para o desenvolvimento
do Estado.
À luz dessas considerações, para revitalizar os sistemas operacionais, são sugeridas
algumas medidas:
(a) Fortalecimento das ações de planejamento e controle, tanto da Secretaria quanto
das entidades vinculadas, para que funcionem como núcleos do planejamento
setorial nas respectivas entidades e passem a se integrar em rede.
(b) Institucionalização de mecanismos efetivos e sistemáticos de acompanhamento e
avaliação de políticas. Planos são propostas de intervenção na realidade social e
econômica visando a realização de objetivos desejados. Baseiam-se em argumentos
81
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
ou marcos teóricos que, nem sempre, são garantia suficiente de que os efeitos
40 anos
BDMG
buscados serão alcançados. A avaliação permite identificar o que funciona e o
que não funciona, aprender com a experiência e corrigir os erros. Tal atividade
deverá ser desempenhada pelas assessorias de planejamento de controle.
2.5.2. O revigoramento do planejamento
A revitalização da atividade planejadora, depois de anos de descaso ou de pragmatismo,
requer uma política deliberada do Poder Público Estadual. A experiência indica a necessidade
de uma estratégia institucional para o planejamento.
Propõe-se um planejamento assentado não em modelo compreensivista ou global18 mas
estruturado a partir de concepção estratégica e convenientemente discutido com representantes
institucionais de organizações diversas, que, conforme destacado no capítulo 1, assumem
atualmente, missões igualmente relevantes às do Estado na busca do desenvolvimento.
O desenvolvimento da atividade planejadora, com essas características, vai exigir que
o planejamento se volte para novos papéis: o de pensar a política maior do Estado e os novos
contextos do desenvolvimento de Minas que emergirão derivados da própria ação planejada,
ou provocados de forma exógena.
O primeiro dever do planejamento é pensar as políticas, construir cenários futuros do
Estado e do País e antecipar problemas. Uma das críticas pertinentes que se tem feito ao
governo federal, e que se estende também ao mineiro, é o de ter reduzido o Planejamento ao
papel de coadjuvante secundário da Fazenda na gestão dos orçamentos públicos. Implicações
e conseqüências de políticas, porque não cogitadas com anterioridade, acabam sendo
descobertas só a posteriori, quando o custo de corrigi-las tornou-se proibitivo.
O estágio atual do desenvolvimento de Minas exige esforço redobrado do Planejamento.
A retomada sustentada do crescimento virá apenas quando o País lograr equacionar o déficit
da conta corrente e quando a economia brasileira reduzir a sua vulnerabilidade externa. A
tarefa maior do Planejamento estadual, então, será a de identificar como e em que setores
Minas pode contribuir para esse processo. É preciso, além disso, maximizar as formas
endógenas para o crescimento da economia mineira, como as aglomerações produtivas locais.
Outros blocos de questões relevantes para o planejamento e para a definição de políticas
públicas referem-se ao desenvolvimento tecnológico, ao sistema de infra-estrutura e aos
investimentos sociais, notadamente em segurança, educação e saúde.
Essas considerações indicam a necessidade premente do reforço às áreas de
conhecimento e informações hoje no Estado, isto é, a construção de um sistema com amplas
informações estratégicas, base fundamental para o desenho de políticas públicas e do eficaz
acompanhamento delas.
Em 1972, com o I PMDES tentou-se o planejamento em moldes globais ou compreensivos em Minas. A economia
18
mineira cresceu espetacularmente no período, mas não em razão do PMDES, que não foi seguido. Ver Andrade (1980).
82 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
1ª) Programas estratégicos
40 anos
BDMG
Planos nos moldes do I PMDES dos anos 70 são inadequados à atualidade e podem levar ao
insucesso. São excessivamente abrangentes em escopo, supõem vasta massa de informações e exigem
capacidade de coordenação que só os países com regimes de planejamento centralizado pareciam
dispor. Partem de lista de necessidades e carências, organizadas sob diferentes rótulos e classificações,
mas falta-lhes estratégia tanto para lidar com os problemas de escassez quanto para contornar os
obstáculos colocados pela máquina pública, heterogênea, frouxamente articulada e com órgãos de
diferentes dinamismos.
Em lugar deles, propõe-se que o Planejamento atue com base em programas estratégicos,
que têm foco em torno de um único ou de poucos objetivos, com as linhas de execução e
coordenação delimitadas e não gerais. Dessa forma, os requerimentos de integração são menores
e a execução das metas é mais visível.
A concepção dos programas estratégicos é atacar todos os elementos que formam a cadeia
de um problema, identificando, inicialmente, os pontos de estrangulamento, levantando os
investimentos para superá-los, caso necessário, ou as medidas para desatar seus nós e buscando a
necessária integração e coordenação dos agentes públicos responsáveis envolvidos.
Crucial para o planejamento por programas estratégicos é o controle dos recursos para sua
implantação, que servem de contrapartida para induzir a adesão dos órgãos executivos da administração
estadual aos programas. Para cuidar da gestão dos programas estratégicos recomenda-se a criação de
grupos executivos, utilizados com sucesso pelo Plano de Metas do governo Kubitscheck e também
pela administração federal na implementação dos programas do Avança Brasil.
A figura do Gerente de Programa, já experimentada com sucesso em outros estados,
pode aumentar a eficácia dos programas ao permitir uma avaliação precisa do seu andamento e
atenuar o problema do carona, que existe quando muitas pessoas estão encarregadas do programa.
Destarte, a atuação integrada é essencial para a ação de governo. Os problemas que mais
afligem a população, ou cujas soluções trazem mais dividendos para o desenvolvimento, raramente
abrangem só uma dimensão ou cabem inteiramente no território institucional de uma única agência
governamental. Soluções integradas, que supõem a ação conjunta de dois ou mais protagonistas
da administração pública, esbarram, entretanto, em vários obstáculos. O que é vital para um
órgão, pode ser acessório para outro. Rivalidades institucionais ou a competição pelo comando de
projetos e programas integrados podem levar a descompromisso ou até ao não engajamento dos
órgãos executivos, atrasando ou inviabilizando a realização dos objetivos perseguidos com o projeto.
A atuação por programas estratégicos, sob comando direto do Planejamento, facilita a tarefa
da coordenação e evita os problemas apontados.
2ª) Coordenação: função essencial do planejamento
Ainda a propósito da função planejamento, etapa essencial é a coordenação, tanto nas etapas
de implantação dos planos e programas, mas principalmente, no seu acompanhamento. Trata-se de
função essencial à eficácia e eficiência das políticas públicas.
83
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
Todavia, como já ressaltava o Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado PMDI,
40 anos
BDMG
lançado em 1995, planejar envolve, principalmente, coordenar, mas não toda a máquina. Isso
seria fonte potencial de conflito político com outros setores da administração, muitos deles não
necessariamente localizados no caminho crítico do plano. A coordenação deve recair sobre as
áreas em que interseções de políticas, e, para não se tornar intervenção com altos custos e
poucos benefícios, deve-se dar em torno de objetivos e programas definidos.19
3ª) Revitalização do sistema de informações estratégicas e gestão da informação
Tendo em vista que o conhecimento e o processo de tomada de decisões podem ser
postos, hoje, como o diferencial de eficácia e eficiência no Setor Público e de competitividade
no nível empresarial, faz-se urgente recuperar e reforçar o sistema estadual de informações e
estatística, para uso em geral e para uso específico na administração pública.
Acrescente-se a importância da gestão da informação, tendo em vista a necessidade de
mudança na qualidade gerencial do setor público. A transparência e o diálogo público
pressupõem a utilização da informação. É preciso informar e informar-se, saber o que está
acontecendo, verificar se o resultado está sendo atingido, se determinado padrão de qualidade
está sendo observado, se está havendo eficiência e eficácia. Obter a informação, saber usá-
la, gerenciá-la e decidir a partir dela são, hoje, habilidades estratégicas necessárias em qualquer
atividade gerencial e mais ainda em organizações governamentais.
A idéia de informação como instrumento de decisão não é nova. Tampouco é novidade
que a mudança de padrão de gestão, a transparência e a melhoria do diálogo público não se
viabilizam sem boas informações. É preciso saber o que está acontecendo para poder prestar
contas. Saber o que está acontecendo pressupõe atuar sobre os fatos e, com muita agilidade,
fazer ajustes de percurso. Assim, economizam-se tempo, esforços técnicos e recursos
financeiros, não se perde sinergia e motivação e dá-se credibilidade à ação pública.
É, portanto, necessário, que o governo, constituindo-se como o maior repositório de
informações, trabalhe-as e as devolva à sociedade como forma de possibilitar o controle
social.
2.4.3. Melhoria da Gestão Pública
Nos termos do documento aprovado pelo Conselho Diretor do CLAD, de 1998, que estabeleceu
as bases da reforma gerencial na América Latina, seu objetivo central é o de assegurar os mecanismos
necessários para o aumento da eficácia, da eficiência e da efetividade da administração pública, além
de criar novas condições que possibilitem uma relação mais democrática entre Estado e sociedade.
Foram destacados, assim, princípios orientadores para este novo modelo administrativo, conforme
relatado na seção 2.1.2.
Governo do Estado de Minas Gerais (1995).
19
84 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
A análise sobre as especificidades de Minas Gerais, realizada na seção 2.4.7, indicou ser
40 anos
BDMG
urgente a atuação direta sobre as cadeias dos serviços do Estado para melhorar-lhes a qualidade e o
acesso a eles, racionalizar o uso dos recursos, visando assegurar um governo eficaz, eficiente e
democrático. Afinal, uma burocracia pública operosa e eficiente não se justifica apenas pelos ganhos
financeiros que pode proporcionar ao Estado. É, principalmente, peça importante para a consolidação
da democracia e garantia dos direitos do cidadão.
Para a consecução dos objetivos de reestruturação da administração pública estadual
propõem-se ações em quatro grandes linhas: a racionalização de procedimentos na prestação
dos serviços públicos; a utilização maciça dos recursos do chamado governo eletrônico,
e uma nova política de recursos humanos.
1ª) A racionalização de procedimentos na prestação dos serviços públicos
Conforme apontam nas experiências de outros estados e da União, um ponto importante da
reforma do Setor Público é o aperfeiçoamento do marco legal visando à eliminação de entraves de
natureza burocrática que impedem a adoção de modelos de gestão orientados a resultados, com
maior flexibilidade.
Assim, deve o Estado atuar por meio de projetos especiais para intensificar ao máximo os
esforços de simplificação, desburocratização e melhoraria da prestação de serviços públicos, hoje
considerados críticos. São, por exemplo, os casos da burocracia presente nas áreas de segurança
pública, da justiça, fazendária e, mesmo, no interior do próprio Setor Público, conforme visto
anteriormente. Nessas, e em outras áreas, todas as fases dos serviços devem ser reexaminadas e
simplificadas, reduzindo procedimentos burocráticos ao mínimo necessário aos controles e
obrigações legais.
Outras linhas de atuação, com o propósito de racionalizar a prestação de serviços públicos,
podem ser extraídas das experiências de outros países e estados e incluem, por exemplo: a
desconcentração organizacional da execução de funções do governo central para agências
especializadas; a orientação dos mecanismos de controle para resultados baseados em indicadores
fixados em contratos de gestão; e a adoção de um novo desenho organizacional para as atividades
não-exclusivas (formuladas, reguladas e financiadas pelo Estado, mas executadas pelo setor público
não estatal).
2ª) Governo Eletrônico
A utilização das tecnologias da informação apresenta-se, hoje, como estratégia fundamental
para a melhoria da gestão da administração pública estadual, podendo valer-se como instrumento
fundamental da racionalização administrativa.
Há experiências vitoriosas na União, em alguns estados e também em Minas Gerais, onde já
vêm sendo conduzidas algumas iniciativas. As diversas opções oferecidas pelo desenvolvimento
tecnológico podem ser rapidamente aproveitadas pelo Estado, visando recuperar seu atraso relativo,
propiciando, inclusive, reduções de custos na prestação de diversos serviços. Tal processo pode
ser estendido, ou intensificado em praticamente todas as áreas de atuação do governo estadual: às
compras do Estado pelo sistema de pregão eletrônico, aos serviços prestados ao cidadão e ao
contribuinte, ao pagamento de impostos e taxas, à informação sobre processos e na comunicação
interna do Setor Público.
85
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
Com a utilização mais intensiva dessas tecnologias o Estado passa a funcionar, ao alcance
40 anos
BDMG
de todos, 24 horas por dia e sete dias na semana.
Crucial para o êxito dessas providências é que, à medida que se expandir o governo
eletrônico, também sejam revisados e simplificados os processos administrativos que serão
cobertos com o emprego dessas novas tecnologias.
3ª) Política de Recursos Humanos
A melhoria da gestão pública estaria, de antemão, fadada ao insucesso se não contemplasse
política para o servidor público. Conforme apontado na seção 2.4.7, há inúmeros problemas nessa
área, ainda mais agravados pelo fato de que, atualmente, os gastos do Estado com o pagamento de
servidores públicos configura-se como um dos principais problemas para o ajuste das finanças públicas20 .
Dois conjuntos de problemas precisam ser resolvidos: a flexibilização do regime de trabalho
e a implantação de política de carreiras em vários sistemas, que são interligados e merecem atenção
imediata porque, a persistir a situação atual, a administração pública estadual ficará engessada.
O primeiro a flexibilização do regime de trabalho aplica-se, exatamente, aos sistemas
como educação, que, pelo seu gigantismo tem repercussões sérias não só financeiras, mas,
principalmente, na qualidade dos serviços prestados.
A implantação ou revisão de carreiras, por sua vez, é um tema polêmico e que envolve discussões
complexas com os funcionários, seus sindicatos e com o Legislativo. Há, entretanto, referenciais
importantes, como por exemplo, a experiência da União, que, desde 1995, vem adotando uma política
de valorização do servidor, na qual se destacam o fortalecimento de carreiras estratégicas, a revisão da
política de remuneração, a realização de concursos públicos e intensificação da capacitação de
funcionários visando promover a mudança cultural.
No contexto de uma política de remuneração do funcionalismo público, a adoção do
planejamento por programas estratégicos pode ser um grande aliado, uma vez que permite a
mensuração do impacto de cada projeto no programa estratégico estabelecido. A possibilidade de
avaliação dos resultados do programa/projeto abre possibilidade para o desenho de mecanismos
de incentivos para os funcionários estaduais.
Entre estes mecanismos de incentivos podem ser destacados: a adoção de sistemas de
remuneração variável associada a resultados; o estabelecimento de orçamento para o órgão gestor
do programa condicionado ao resultado e redução de pessoal por desempenho insatisfatório ou
pouca contribuição ao programa estratégico. Obviamente, a adoção de tais mecanismos deverá
observar os limites legais vigentes.
2.4.4. Renovação do aparato de apoio e fomento
O Estado possui um aparato de fomento atuante, conforme examinado na seção 2.4.5.
Tendo em vista que, no Brasil, práticas estaduais de fomento estão mais centradas em incentivos
fiscais e creditícios, pelo menos nesse aspecto o aparato mineiro pode ser considerado bem
estruturado. Entidades como o BDMG21 , o INDI e a CDI prestam suporte aos empresários e
induzem a realização de investimento em Minas.
Ver a respeito o capítulo 5 deste volume.
20
Ver neste volume o capítulo 3, referente ao financiamento do desenvolvimento.
21
86 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Entretanto, embora os incentivos financeiros e fiscais continuem vigorando como parte
40 anos
BDMG
fundamental de uma política regional, a essas práticas vêm-se somando outras, tão ou mais
relevantes, que, efetivamente, têm o poder de conferir competitividade a um Estado ou região.
São os casos da oferta de serviços estratégicos e do estímulo à inovação, além, obviamente,
de investimentos em infra-estrutura. É premente, portanto, a necessidade de reconfiguração
do sistema estadual de fomento, preparando-o para desempenhar novas funções mais em
sintonia com as ações que vêm sendo praticadas em vários países, ressaltando sua interação
com um sistema eficiente de inovação 22 . Algumas ações apresentam-se como essenciais nesse
sentido.
1ª) A interação com os agentes regionais de desenvolvimento:
A ação pública deve-se caracterizar pela capacidade de se interagir com os vários agentes
do desenvolvimento.Tal coordenação abrange agências municipais ou regionais de
desenvolvimento, associações de classe e empresas.
Lições importantes podem ser tiradas da experiência de política de desenvolvimento
regional das Agências de Desenvolvimento Regional (ADR) européias, considerada a mais bem-
sucedida dos países desenvolvidos. A ação dessas agências tem sido centrada na oferta de serviços
como informação sobre mercados, capacitação de recursos humanos, publicidade, pesquisa e
desenvolvimento e capacitação empresarial. A principal preocupação tem sido criar um ambiente
favorável à inovação e difusão tecnológica, favorecendo a reestruturação produtiva e
organizativa das empresas.
No Brasil e em Minas Gerais já há iniciativas importantes nesse campo, estando em
operação algumas importantes agências de desenvolvimento regional. Ressalte-se, ainda, a
atuação do SEBRAE nessa direção. O aprofundamento da interação em rede das entidades estaduais
de fomento com agências regionais e municipais e com o SEBRAE é fator essencial para a
implementação de políticas com base em aglomerações produtivas locais.
2ª) A articulação estratégica com as agências nacionais de fomento e com organismos
multilaterais
A estrutura industrial mineira é, obviamente, parte integrante da economia nacional,
dependendo, assim, fortemente da condução das políticas federais. Até porque grande
parte dos instrumentos necessários para criar o ambiente favorável à decisão empresarial
para a realização de investimentos reside na órbita federal. É o caso das políticas
macroeconômicas, que influenciam fortemente a decisão empresarial; das políticas de infra-
estrutura e, especialmente, das políticas de financiamento a cargo do BNDES.
Assim, o aparato estadual de fomento deve estar estrategicamente articulado ao
sistema nacional, com o propósito de dele tirar o melhor proveito no interesse da economia
mineira e de levar às discussões federais, sob vários aspectos, o ponto de vista da economia
mineira.
Ver, no volume VII deste estudo, um capítulo específico sobre o tema e as proposições para o funcionamento de um sistema desse
22
tipo.
87
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
3ª) Promoção industrial e comercial
40 anos
BDMG
Em um cenário competitivo como o atual, a atividade de promoção continua bastante
oportuna e deve ser incrementada. Minas já tem expertise nessa área e deve aprofundá-la ainda
mais, avançando também em outras áreas como as de serviços e de comércio exterior. Tais atividades
são fundamentais para a atração de novos investimentos e para a abertura de mercados para as
empresas sediadas no Estado.
A promoção ou a presença sistemáticas do Estado em eventos que possam gerar negócios
para as empresas mineiras e que lhes permitam o acesso a novos mercados, principalmente no
exterior, é atividade fundamental para o desenvolvimento. Há várias instituições privadas ou
nacionais trabalhando nessa direção, com quem os laços devem ser aprofundados.
88 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
40 anos
BDMG
2.6. Referências Bibliográficas
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89
Capítulo 2 - Reformulando a máquina pública
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40 anos
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90 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME IX
TRANSFORMANDO O PODER
PÚBLICO: A BUSCA DA EFICÁCIA
CAPÍTULO 3
RESGATANDO AS FINANÇAS
PÚBLICAS
Fabrício Augusto de Oliveira
(Consultor, Doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas e
Professor do Programa de Mestrado da Fundação João Pinheiro)
Solange Paiva Vieira*
(Mestre em Economia pela FGV-Rio, ex-Assessora Especial do Ministério
da Previdência e ex-Secretária de Previdência Complementar)
* A autora agradece os comentários de Bernardo Tavares de Almeida e Gleison Pereira de Souza,
e o suporte técnico deste último no fornecimento dos dados sobre Minas Gerais.
SUMÁRIO
3.1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................... 95
3.2. OS DESAFIOS DAS FINANÇAS PÚBLICAS EM MINAS GERAIS .............................................................. 96
3.2.1. A situação atual ........................................................................................................................................................ 96
3.2.2. Estratégia para o ajuste das finanças públicas estaduais ................................................................................... 99
3.2.3. Considerações finais ............................................................................................................................................... 106
3.3. PREVIDÊNCIA PÚBLICA: BASES PARA UMA AÇÃO REALISTA DO ESTADO ............................... 108
3.3.1. Previdência Pública versus Previdência Privada ............................................................................................... 110
3.3.2. A situação do Estado de Minas Gerais .............................................................................................................. 112
3.3.3. Lei Complementar n. 64, de 25 de março de 2002 ....................................................................................... 115
3.3.4. Considerações finais ............................................................................................................................................... 119
3.4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................................................................... 121
ANEXO 1 .............................................................................................................................................................................. 122
ANEXO 2 .............................................................................................................................................................................. 124
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40 anos
3.1. Introdução
Fundamental para reformulação da máquina pública, conforme apontado no capítulo 2,
é o equilíbrio das finanças públicas estaduais. Não se trata de resgatar as finanças públicas no
sentido estrito de apenas melhorar os resultados financeiros do governo, mas, principalmente, de
permitir que a máquina pública opere alinhada ao novo papel do Estado. Papel não mais
intervencionista, nos moldes vigentes até o início da década de 1990; tampouco minimalista
como apregoavam alguns. Conforme demonstrado em outras partes deste volume, assumem cada
vez mais importância as funções reguladora, coordenadora e aglutinadora do Estado nas políticas
requeridas para o desenvolvimento sustentável.
Sob esse enfoque, dividiu-se este capítulo em duas seções. A primeira mostra, em grandes
números, a evolução e a situação atual das finanças públicas estaduais. Adicionalmente são
apontados caminhos para o equacionamento da séria situação apresentada, sempre tendo como
guia as funções necessárias ao Estado em seu novo papel. A segunda seção aprofunda na análise
da questão previdenciária do Estado. Nela são descritos os problemas estruturais da Previdência
dos funcionários públicos em geral, e do funcionalismo de Minas Gerais em particular. A seção
conclui apresentando alternativas para atenuar o problema.
Necessário lembrar a importância dessa difícil tarefa, para que esta e futuras gerações de
mineiros possam apreciar uma digna qualidade de vida.
95
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
3.2. Os desafios das finanças públicas em Minas
BDMG
40 anos
Gerais1
Esta seção avalia a situação atual das finanças públicas em Minas Gerais, visando identificar
os problemas que o Estado enfrenta e apresentar alternativas que possam contribuir para o seu
fortalecimento. Com esse objetivo, está estruturado em três itens. No primeiro, é feito um balanço
da situação atual, examinando a gravidade do quadro e os elementos que mais têm contribuído
para explicar seus desequilíbrios. No segundo, é apresentada uma estratégia para o ajuste das
finanças públicas, focada tanto em ações voltadas para aumentar a eficiência do gasto, à luz das
restrições orçamentárias atuais, como para melhorar o desempenho da receita, combinadas com
medidas destinadas a reduzir o comprometimento das receitas com o pagamento de algumas despesas
de caráter obrigatório e com o serviço da dívida. O terceiro item, à guisa de conclusões, apresenta
uma síntese da discussão realizada e destaca a importância do ajuste das contas públicas para
permitir, ao governo estadual, a implementação de programas de ações voltados para o atendimento
das demandas da sociedade.
3.2.1. A situação atual
Analisada pelos seus principais indicadores, a situação atual das finanças públicas mineiras
é crítica e não permite ilusões sobre uma solução dos problemas em curto prazo.
Não se trata de uma situação nova. Também a administração que assumiu o governo em
1999 deparou com as finanças estaduais extremamente debilitadas: recursos em caixa de R$ 19
milhões; salários do funcionalismo de dezembro a serem pagos já no início do mês; dívida
remanescente do 13º salário, de 1998, de R$ 242 milhões; débitos acumulados com fornecedores,
de R$ 300 milhões, além da obrigação de assumir, também, a partir daquele ano, aumento dos
compromissos com o pagamento do serviço da dívida renegociada com a União, que saltou de
6,75% para 12% como proporção da Receita Corrente Líquida (RCL). Isso, numa situação em que
se encontrava impedido de contratar novos empréstimos, por força do acordo assinado com a
União, e num quadro macroeconômico altamente desfavorável, em virtude das mudanças na política
cambial introduzida já no início daquele ano.
Os esforços que foram realizados para promover um rápido ajuste das contas, apesar de
terem contribuído para minorar a situação no curto prazo, revelaram-se, entretanto, insuficientes
para corrigir esses desequilíbrios, por não terem sido enfrentadas suas causas estruturais. Com
isso, esses desequilíbrios tenderam a acentuar-se ao longo do tempo, agravando a situação financeira
e de endividamento do Estado.
Alguns números das finanças do governo confirmam essa situação. A TAB. 1 mostra a
evolução da dívida pública nesse período. Como se percebe, mesmo sem a contratação de novas
dívidas importantes, dadas as restrições estabelecidas no acordo de sua renegociação assinado
com o governo federal, em 1998, e na Lei de Responsabilidade Fiscal, a partir de 2000, o estoque
da dívida (fundada + flutuante) saltou de R$ 26,9 bilhões em dezembro de 1997 para R$ 33,1
Seção elaborada por Fabrício Augusto de Oliveira.
1
96 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
bilhões em dezembro de 2001. Projeções realizadas pela Secretaria da Fazenda indicam que esses
BDMG
40 anos
valores poderão atingir R$ 38 bilhões até o final de 2002, caso as receitas não sejam suficientes
para permitir ao governo estadual quitar uma série de compromissos (aí incluídos os salários do
funcionalismo) com educação, saúde, fornecedores, etc., tendo de transferi-los para a rubrica
restos a pagar.
TABELA 1
EVOLUÇÃO DA DÍVIDA ESTADUAL (milhões de reais de dezembro de 2001)1
DÍVIDA 31/12/1996 31/12/1997 31/12/1998 31/12/1999 31/12/2000 31/12/2001
1. Flutuante 3.173,92 4.204,70 4.693,79 3.807,41 4.105,88 4.355,61
2. Fundada 20.100,25 22.714,12 27.187,68 28.111,12 28.118,63 28.756,59
2.1. Interna 18.706,03 21.657,02 25.968,76 26.805,85 27.142,88 27.854,30
Títulos 14.036,67 16.211,86 - - - -
Contratos 4.669,36 5.445,16 25.968,76 26.805,85 27.142,88 27.854,30
2.2. Externa 1.394,22 1.057,10 1.218,92 1.305,27 975,75 902,29
Títulos 332,31 331,27 352,30 217,14 - -
Contratos 1.061,91 725,82 866,62 1.088,14 975,75 902,29
3. TOTAL (1 + 2) 23.274,17 26.918,82 31.881,47 31.918,54 32.224,51 33.112,20
Crescimento Real
Anual da Dívida (%) - 15,66 18,44 0,12 0,96 2,75
Crescimento Real
Acumulado (%) - 15,66 36,98 37,14 38,46 42,27
FONTE: Dados Básicos:
Balanços Gerais do Estado/SCCG/SEF-MG.
Elaboração própria
1
Valores Atualizados pelo IGPM da FGV.
As causas desse crescimento da dívida, na ausência de contratações de novos empréstimos,
explicam-se não somente pela insuficiência do ajuste realizado nas contas do Estado, mas também pelo
crescimento superior de seus encargos vis-à-vis os pagamentos realizados, dado o descasamento entre
índices de correção e taxas de juros cobradas sobre seu estoque e o percentual de receitas destinado
para essa finalidade, estabelecido no acordo da dívida2 . Esse não é, todavia, o problema central da
situação de graves desequilíbrios das finanças públicas mineiras, conforme será analisado a seguir.
Em relação ao esforço de ajustamento desenvolvido, a TAB. 2 apresenta alguns resultados
que ajudam a explicar a razão de sua insuficiência. De sua análise, constata-se que o comportamento
da receita apresentou-se bastante favorável no período, apesar do processo de estagnação que
marcou a economia brasileira e mineira , a partir de 1999. Isso porque a receita tributária foi
fortemente beneficiada, de um lado, por reajustes nos preços administrados (energia,
telecomunicações e combustíveis) superiores à inflação; de outro, pela implementação, por parte
do governo estadual, de programas mais efetivos de combate à sonegação e de ganhos obtidos
com a realização de três anistias fiscais; e, finalmente, com o esforço desenvolvido para a obtenção
de receitas extra-orçamentárias.
A propósito, o Acordo da Divida, firmado com a União em 1998, contemplou condições análogas dos custos de seus encargos
2
para todos os estados, diferenciando-as, entretanto, em relação às taxas de juros cobradas, de acordo com o percentual inicial de
pagamento do débito renegociado de cada um: 6% ao ano para os que a renegociaram, pagando 20% de seu estoque, e 7,5% para
os que só conseguiram abater 10%.
97
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
Não foram ganhos pequenos, considerando o quadro de crise da economia brasileira e a
BDMG
40 anos
natureza pró-cíclica do principal imposto estadual, o ICMS: a receita tributária cresceu 14% em
2001 em comparação aos níveis registrados em 1999, praticamente a mesma expansão observada
para o ICMS. Todavia, apesar dessa elevação da receita, não foi ela suficiente para fazer frente ao
aumento ocorrido nos gastos e aos compromissos que o governo teve de assumir em relação ao
pagamento ampliado dos encargos da dívida renegociada com governo federal.
No tocante aos gastos, a mesma TAB. 2 apresenta a evolução de algumas categorias de
despesas que ajudam a entender o motivo pelo qual a elevação das receitas não foi suficiente para
que o equilíbrio fiscal fosse atingido. Como se observa, embora as medidas adotadas tenham
permitido garantir, no biênio 1999-2000, a geração de superávits primários, que contribuíram
para a redução do déficit operacional, essa situação não mais ocorreria em 2001.
O exame do comportamento desses componentes de despesa revela que apenas os gastos
com custeio apresentam redução em relação a 1998, devido ao ajuste que foi realizado, nesse
item, em 1999, apoiado no conceito de custeio crítico, necessário para o funcionamento da
máquina, com o qual criaram-se espaços para a promoção de uma série de cortes nesse componente.
Já os gastos com pessoal (o principal componente da estrutura das despesas públicas estaduais,
que absorve atualmente cerca de 74% de sua Receita Corrente Líquida) apresentaram contínua
expansão, explicada pelo crescimento vegetativo da folha de salário do funcionalismo e pelo
reajuste a ele concedido no ano 2000.
É possível perceber, pelos dados da mesma tabela, que, em virtude da elevação da receita
e do ajuste promovido nos gastos de custeio, o Estado conseguiu gerar, nos anos de 1999-2000,
superávits primários correspondentes a R$ 468 e R$ 366 milhões, respectivamente, o que já não
ocorreria no ano 2001. Mas também que esses superávits foram insuficientes para garantir o
pagamento dos encargos da dívida, que saltaram de R$ 750 milhões, na média de 1997-1998, para
R$ 1 bilhão, também em média, no biênio 1999-2000, e R$ 1.213 milhão em 2001. Como resultado,
o déficit operacional situou-se em R$ 620 milhões em 1999, R$ 553 milhões no ano seguinte, e R$
1.354 milhões em 2001, impactando sobre o estoque da dívida pública.
TABELA 2
COMPONENTES DE RECEITAS E GASTOS DA EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA E RESULTADOS
OPERACIONAL E PRIMÁRIO - GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
(em R$ milhões de dezembro de 2001)
ESPECIFICAÇÃO MÉDIA 1997/1998 1999 2000 2001
Receita Corrente 14.052,88 14.276,77 14.684,10 15.630,13
Tributária 9.017,59 9.057,76 9.545,72 10.344,83
ICMS 8.166,34 8.151,60 8.585,04 9.347,45
Despesa Corrente 15.055,60 14.136,19 14.470,29 15.895,48
Pessoal - 7.841,14 8.127,66 8.630,65
Custeio 2.152,77 1.735,55 1.746,93 1.734,46
Encargos Dívida 749,84 1.088,90 920,01 1.213,95
Res. Primário - 468,76 366,17 (140,19)
Res. Operacional - (620,04) (553,85) (1.354,15)
FONTE: MINAS GERAIS. Secretaria de Estado da Fazenda. Boletim Financeiro e Orçamentário, jun. 2002. Valores atualizados
pelo IGPM da Fundação Getúlio Vargas.
98 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Assim, apesar do crescimento das receitas, os gastos em elevação, notadamente com a
BDMG
40 anos
folha de salários do funcionalismo (ativos e inativos), não permitiram ao Estado realizar um
ajuste de equilíbrio, embora tenha sido capaz de transformar uma situação de geração de déficits
primários em superávits no biênio 1999-2000, insuficiente, entretanto, para retirar a dívida de sua
trajetória de crescimento.
Mais grave é que, de acordo com projeções realizadas pela Secretaria de Estado da Fazenda
de Minas Gerais veiculadas na imprensa, o déficit nominal poderá atingir R$ 1,6 bilhão em 2002,
enquanto, com as estimativas contidas na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2003
apreciada pela Assembléia Legislativa, projeta-se um desequilíbrio de R$ 2,3 bilhões para o próximo
ano. Isso confirma o agravamento da situação financeira do governo estadual e as maiores
dificuldades que o próximo governo terá de enfrentar para administrar suas finanças e implementar
seu programa de ações. Acrescenta-se um quadro macroeconômico altamente desfavorável que se
prenuncia para o País, coadjuvado com um orçamento federal altamente apertado e com maiores
esforços fiscais sendo exigidos dos estados e municípios para garantir a meta acertada com o FMI
de geração de um superávit primário mínimo, do setor público consolidado, de 3,75% do PIB.
Preocupante, nessa situação, é que o orçamento fiscal do Estado se encontra com um grau de
engessamento muito elevado, à medida que, comprometido previamente com o pagamento de despesas
obrigatórias, praticamente não deixa espaços para ajustes de curto prazo pelo lado das despesas.
Considerando as despesas com pessoal, com as quais o Estado deve comprometer cerca de 74% de sua
Receita Corrente Líquida em 2002 (cerca de 44% desse total com o pagamento de benefícios dos
inativos), os encargos da dívida com o governo federal (que absorvem 13% da RCL) e os gastos com
custeio, que se encontram no osso, e que representam cerca de 8% dessa receita, chega-se a um nível
de comprometimento da receita em torno de 95%, restando apenas cerca de 5%, com otimismo, para
a realização de investimentos e para o financiamento de outras atividades por ele desenvolvidas.
É essa a situação que deverá ser enfrentada se se pretende criar as condições necessárias
para a recuperação de sua capacidade de financiamento e para dar ao governo condições de atender
às demandas da sociedade. Apesar de difícil, e de exigir a adoção de medidas impopulares e
desgastantes politicamente, a solução é possível, considerando que, passada essa etapa, poderão
ser colhidos benefícios dessa política, mais do que compensando a população com o aumento da
oferta e a melhoria da qualidade de bens públicos a ela destinados.
Deve-se, entretanto, observar que ajustes bem-sucedidos são realizados primordialmente
pelo lado das despesas, considerando que elevações de receitas não somente são deletérias para a
atividade econômica, mas que, também, podem frustrar-se com o comportamento do quadro
macroeconômico, sobre o qual os governos estaduais têm pouca influência. Isso não significa que
não deva ser dada importância à receita, principalmente no que diz respeito às perdas decorrentes
de renúncias tributárias injustificáveis e da prática de sonegação, que impedem a entrada de recursos
substanciais para os cofres do Estado. Por isso, para o ajuste/ saneamento das finanças do governo
do Estado de Minas Gerais, é necessária uma estratégia que contemple tanto a revitalização da
receita, como a redução das despesas e dos encargos da dívida. É sobre essas questões que algumas
reflexões são desenvolvidas em seguida.
3.2.2. Estratégia para o ajuste das finanças públicas estaduais
Estratégias de ajuste fiscal, para serem bem-sucedidas, não devem centrar-se em itens
isolados que compõem a estrutura das finanças públicas. Priorizar ajustes somente pelo lado da
receita pode resultar em fracasso, caso não se materializem as expectativas de crescimento
99
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
econômico, frustrando a arrecadação esperada. Ênfase nas despesas, apesar de serem considerados
BDMG
40 anos
os ajustes com maiores chances de êxito, tem-se tornado cada vez mais problemática com o peso
que têm assumido, no orçamento fiscal, as despesas de caráter obrigatório, protegidas por alguma
regra constitucional e/ou dispositivo legal, os compromissos financeiros com programas de duração
continuada ou gastos obrigatórios de outra natureza. O ajuste pela dívida nem sempre é suficiente,
por si, para equacionar os desequilíbrios existentes. De acordo com os dados contidos na TAB. 2,
se, em um exercício hipotético, o governo estadual deixar de pagar os encargos da dívida (R$ 1,21
bilhão em 2001), ou se vier a ser beneficiado com alguma medida dessa natureza por parte do
governo federal, ainda assim incorreria em um déficit primário da ordem de R$ 140 milhões, o que
significa que não existiriam recursos adicionais para o financiamento de outras atividades.
Uma estratégia bem-sucedida, para o caso de Minas Gerais, deve conter, assim, medidas
que contemplem, conjuntamente, os componentes das receitas, das despesas e da dívida. E, mais
ainda: considerando o quadro atual de restrições orçamentárias, embora não somente por essa
razão, e a ausência de recursos para investimentos em capital social básico, também há busca de
alternativas para aumentar a eficiência do gasto público, de forma a otimizar a aplicação dos
escassos recursos existentes, visando aumentar a oferta de bens públicos para a população e melhorar
sua qualidade.
A Receita
Para a expansão das receitas o melhor ingrediente é o crescimento econômico. Este,
entretanto, encontra-se travado no País desde 1999, dado o seu elevado nível de endividamento,
sua grande vulnerabilidade externa, bem como os compromissos assumidos no acordo recentemente
renovado com o FMI, em termos de metas inflacionárias, geração de superávits primários, resultados
da balança comercial etc. Caso essas restrições não sejam removidas, não se pode contar com
crescimento significativo da economia pelo menos no próximo ano (3%, de acordo com o
Memorando Técnico de Entendimento entre o Brasil e o FMI, e com o Orçamento da União,
encaminhado, em agosto, para apreciação do Congresso Nacional) e, portanto, com um campo
favorável para o aumento da arrecadação.
Mesmo que se consiga viabilizar o crescimento apoiado nas exportações, para reduzir a
vulnerabilidade externa do País, seus frutos serão limitados para as finanças públicas estaduais.
Isso porque, de uma maneira geral, essa atividade é isenta da cobrança de impostos, e os esquemas
de ressarcimentos das perdas que se encontram em vigor3 são insuficientes para cobri-las. Assim,
pelo menos até o momento em que o mercado interno não receber as influências positivas do
aumento das exportações, e que puder, através, por exemplo, da melhoria do poder de compra da
população, impactar as vendas internas, muito pouco se pode esperar dos efeitos de uma política
nacional de estímulo às exportações sobre a arrecadação tributária dos estados.
Nessa situação, devem ser realizados esforços para a revitalização da receita em algumas
frentes que apresentam grandes potencialidades, quais sejam:
a) Implementação de programas mais rigorosos de combate à sonegação, mesmo
com eventuais desgastes políticos causados por essa política junto ao empresariado.
Criado com a Constituição Federal de 1988, o IPIex, alimentado com 10% da arrecadação do Imposto sobre Produtos
3
Industrializados, destina-se a compensar os estados das perdas de arrecadação provocadas pela isenção do ICMS na exportação de
produtos manufaturados. Já a Lei Kandir, de 1996, visa também compensá-los dessas perdas decorrentes da isenção que passou
a ser concedida, a partir daquele ano, nas exportações realizadas pelo Estado de produtos primários e semi-elaborados e também
na utilização de créditos decorrentes da aquisição de bens de capital.
100 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Nos últimos anos, foram implementados programas bem-sucedidos para reduzir o grau
BDMG
40 anos
de sonegação existente no Estado e aumentar a arrecadação, tendo sido alcançado
resultados satisfatórios. Sabe-se, contudo, que, devido ao elevado grau de sonegação
existente no País e no Estado, ainda é grande o espaço para ser trabalhado com essa
política; deve-se evitar, entretanto, que se configure como uma política de terrorismo
fiscal, que termine colocando, numa mesma trincheira, sonegadores e contribuintes
sem problemas com o fisco o que inviabilizaria ações efetivas nessa direção, como já
ocorreu outras vezes.
b) Revisão das atuais renúncias tributárias, que representam, de acordo com a Lei de
Diretrizes Orçamentárias (LDO), de 2002, 15% da receita total do Estado e 25% de
sua receita tributária. Ressalte-se, todavia, que tal revisão deve ser cuidadosa e seletiva,
procurando combinar estímulos ao desenvolvimento econômico do Estado com
fortalecimento das receitas estaduais. Nota-se, assim, que não se propõe a renúncia da
utilização de instrumentos tributários para a promoção do desenvolvimento do Estado,
através da concessão de incentivos. Isso seria impensável, pelo menos enquanto
continuar em curso a guerra fiscal travada entre os governos estaduais para a atração
de empresas, já que, nesse caso, o Estado poderia ser prejudicado não somente com a
fuga de empresas como também pela incapacidade de exercer algum poder de atração
sobre as que se encontram instaladas no restante do País. O que deve ser feito é uma
avaliação dessas renúncias, dos custos e benefícios que representam para os cofres
públicos e a sociedade, inclusive pela sua dimensão, e a redefinição de uma nova
estrutura que tenha preocupação em combinar instrumentos eficazes voltados tanto
para o apoio ao processo de desenvolvimento do Estado como para a revitalização de
suas receitas.
c) Adoção de iniciativas voltadas para reverter perdas de receitas impostas ao Estado
pelo governo federal, com mudanças na estrutura tributária voltadas para os objetivos
de política econômica, sem os devidos ressarcimentos. O caso mais emblemático nos
anos recentes foi a Lei Complementar n. 87, editada em 13 de setembro de 1996,
também conhecida como Lei Kandir. Com o objetivo de incentivar as exportações,
sem ter de alterar, à época, a política cambial, e de estimular os investimentos internos,
foram desonerados da incidência do ICMS as exportações de produtos primários e
semi-elaborados e assegurada a utilização dos créditos decorrentes da aquisição de
bens de capital, da compra de energia elétrica e serviços de comunicação, numa primeira
etapa, e, em uma segunda etapa, de todo material de uso e consumo feito pelas empresas,
visando reduzir o custo-Brasil. Para compensar a perda de receitas que representaria
para os estados, instituiu-se o chamado seguro-receita, um mecanismo com o qual se
pretendia garantir a manutenção dos níveis anteriores de arrecadação do ICMS antes
da entrada em vigor da Lei. Na realidade, entretanto, o sistema de apuração do seguro-
receita revelou-se incapaz de evitar perdas de receitas para os estados, tendo essas
sido mais elevadas naqueles onde são maiores as exportações com produtos semi-
elaborados, casos mais notórios de Minas Gerais e do Pará. Estudo realizado por Riani
& Pontes de Albuquerque (2001) estima que essas perdas para Minas Gerais teriam
atingido, no período de 16 de setembro de 1996 até junho de 2001, o expressivo valor
de R$ 2,109 milhões, o correspondente a 7% da receita desse imposto no mesmo
período, ou cerca de R$ 400 milhões, em média. E, o que é mais grave, sem terem
identificado estímulos importantes adicionais para o aumento das exportações
realizadas pela economia do Estado para os produtos desonerados. Nem mesmo a
revisão feita nos parâmetros de cálculo desse ressarcimento, a partir de agosto do ano
101
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
2000, visando corrigir essas perdas (Lei Complementar n. 102, de 11 de julho de 2000),
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40 anos
a elas pôs um ponto final, já que a redução ocorrida foi, segundo concluem esses
autores, inferiores às expectativas criadas sobre as mudanças e às projeções realizadas
sobre os seus ganhos, com as finanças do Estado continuando a ser penalizadas ao
serem manejadas para os objetivos da política econômica nacional. Por isso, o
desenvolvimento de ações estratégicas com outros estados, para equacionar essa questão
e pôr cobro às perdas que representa para os cofres públicos estaduais, reponta como
medida vital para a revitalização da receita tributária.
d) Fortalecimento da capacidade de autofinanciamento dos órgãos da administração
indireta. A autonomia de que desfrutam esses órgãos contempla, também, a possibilidade
de cobrança dos custos de seus serviços, fato nem sempre explorado quando o Estado
operava sem restrições orçamentárias e conseguia acomodar as pressões por recursos
sem grandes problemas. Com a mudança desse quadro, progressos têm sido feitos nessa
direção, restando, entretanto, espaços para serem explorados cuja identificação exige a
realização de um diagnóstico sobre a situação financeira desses órgãos e de sua dependência
de recursos do Tesouro, sobre a natureza de seus serviços e sobre as receitas que podem
gerar e que ainda não estão sendo cobradas. Para o ajuste pretendido, é indispensável a
contribuição deste segmento, visando reduzir/aliviar as pressões por recursos sobre o
Tesouro estadual para o financiamento de suas atividades.
e) Introdução de novas taxas na administração direta para serviços específicos.
f) Acompanhamento atento da retomada das discussões a respeito da reforma
tributária, que deverá ser levada à frente pelo próximo governo federal, e avaliação/
estimativa dos impactos que as distintas propostas em discussão provocará sobre suas
finanças, visando influenciar a definição da nova estrutura e não ser prejudicado com
a que for aprovada. Reformas tributárias, que modificam o desenho da incidência de
impostos, tendem a gerar efeitos desconhecidos sobre a arrecadação, podendo provocar
perdas diferenciadas entre os entes federativos. Por isso, a necessidade de uma ação
pró-ativa na sua definição, com a realização de estudos e simulações sobre os resultados
dos projetos apresentados e de suas repercussões sobre as finanças do Estado, para
que não se aprove, às pressas, projetos que poderão revelar-se, mais tarde, prejudiciais
do ponto de vista da arrecadação.
A Despesa
A despesa representa, como discutido anteriormente, o nó górdio das finanças estaduais.
Os componentes gastos com pessoal, encargos da dívida e custeio totalizam, atualmente,
quase 100% da Receita Corrente Líquida, pouco restando para financiamento de outras necessidades
da máquina pública e para a realização de investimentos, praticamente inexistentes nos últimos
anos. Por isso, a necessidade e urgência de encontrar alternativas para torná-las sustentáveis,
visando garantir um ajuste fiscal confiável e duradouro.
Os gastos de custeio encontram-se reduzidos a cerca de 7% a 8% da Receita Corrente
Líquida do Estado, depois do esforço de ajustamento que foi realizado no início de 1999, com o
qual praticamente fecharam-se os espaços, nesse item, para a realização de novos cortes.
Ao contrário da visão predominante sobre a natureza desses gastos, associados, usualmente,
a uma idéia de desperdício para os cofres públicos, estes gastos podem se tornar uma variável
chave, especialmente numa situação de severas restrições orçamentárias e de ausência de recursos
102 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
para investimentos, tendo em vista os objetivos de melhorar a eficiência e a qualidade do gasto
BDMG
40 anos
público, podendo contribuir para suprir deficiências que poderiam não ser removidas mesmo com
grandes investimentos.
Quando se pensa em programas de governo, estes se encontram, geralmente, associados à
realização de investimentos, para os quais não se conta, na atualidade, com recursos suficientes.
Gastos com custeio costumam ser associados, de uma maneira geral, a desperdício da máquina
pública, nas figuras, sempre lembradas, do cafezinho, do material de consumo, do combustível
que movimenta os carros oficiais, da luz nunca desligada, dos telefonemas intermináveis e
desnecessários, e assim por diante, passíveis, por isso, de cortes e de economia. Por isso, quando
se esgotam as possibilidades de se utilizar os gastos com investimentos como variável de ajuste,
as atenções deslocam-se rapidamente para os de custeio. Essa é, entretanto, uma visão que
merece reparos, principalmente em vista das modificações por que tem passado o Poder Público
em geral, decorrente de seu novo papel.
Para isso, é necessário diferenciar duas categorias de custeio: a que atua como uma espécie
de atividade-meio, na qual se enquadram, entre outros gastos, os exemplos acima apontados, e a
que funciona como diretamente vinculada a uma atividade-fim, já que os gastos são parte integrante
da própria atividade que sustentam. É o caso, por exemplo, dos combustíveis para o abastecimento
dos carros de patrulha da polícia militar e órgãos de segurança pública; da merenda escolar para
alunos da rede estadual; de medicamentos para a saúde; da alimentação para os presos; da
contratação de quadros técnicos especializados para a atividade de planejamento e a realização de
estudos voltados para a melhoria da qualidade de ensino da rede estadual, etc., para ficar com
alguns exemplos.
No caso dos gastos de custeio ligados à atividade-meio, de fato sempre haverá espaços para
medidas visando sua redução, obviamente dentro de certos limites, sempre com o propósito de
diminuir ao mínimo os desperdícios e de promover, ao máximo, a eficiência. Todavia, no caso de
custeios ligados à atividade-fim, o reforço de recursos pode ser tão ou mais importante, e gerar
melhores resultados, do que a realização de investimentos nessas áreas, contribuindo para melhorar
a oferta e a qualidade dos serviços prestados. Porque pouco adiantará investir na aquisição de
novos carros para a polícia se não houver recursos suficientes para combustíveis; na construção
de escolas, se poucos forem os recursos para garantir a merenda escolar; na de hospitais, se não
existirem medicamentos para os doentes; e assim, por diante. O melhor aproveitamento dos recursos
públicos, nesses casos, aponta para o reforço dos gastos de custeio, e não para seus cortes. O
contrário significa não a desejada austeridade fiscal, mas, sim, a má utilização ou o desperdício do
capital já investido, além de perdas não justificáveis para a sociedade.
Por isso, antes de se implementar políticas de redução de gastos, via contenção indiscriminada
do custeio, é necessário, primeiramente, fazer um levantamento da natureza desses gastos, por
órgãos, secretarias, etc., classificá-los, de acordo com as categorias sugeridas, examinar sua
importância dentro dos contextos das políticas públicas que integram os programas de governo e
melhorar o aproveitamento de suas potencialidades, para torná-las mais eficientes e efetivas,
especialmente em situações de graves restrições orçamentárias e inexistência de recursos para
investimentos.
Afinal, o novo papel que tem sido atribuído ao Estado nas suas relações com a sociedade
no contexto atual de desenvolvimento tem resultado na redução de seu papel de interventor
direto na economia e na construção de infra-estrutura e, em contrapartida, no aumento de suas
funções de regulador/coordenador das atividades econômicas. Assim, justifica-se com mais clareza
a maior ênfase nos gastos com custeio, típicos dessas tarefas, do que com investimentos diretos.
103
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
Em outras palavras, a realização de investimentos, na acepção de gastos em capital fixo, deixa de
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40 anos
ter a importância que tinha em outras épocas, quando ao Estado, efetivamente, cabia a função de
responsabilizar-se inteiramente por ela, ao mesmo tempo em que gastos de custeio, especialmente
os vinculados às atividades-fins, passam a assumir relevância cada vez maior na execução das
políticas públicas. Não podem, portanto, continuar sendo passíveis de cortes lineares apenas por
se apresentarem como a variável mais fácil de um processo de ajuste das contas públicas.
Os gastos com pessoal (ativos e inativos), por sua vez, absorvem, atualmente, cerca de
74% da RCL. Desse total, de 42% a43% são destinados para o pagamento dos inativos, e o
restante, para os funcionários ativos. Algumas considerações devem ser feitas a respeito destes
dois contingentes e do comprometimento desses níveis de receita com o seu pagamento.
No caso dos ativos, à primeira vista, o espaço, se existe, é pequeno para a redução dos
gastos. Esta é, aliás, uma questão que só pode ser tratada com a realização de um estudo mais
aprofundado sobre as necessidades de pessoal para garantir o funcionamento eficiente da máquina
pública e dos serviços prestados à sociedade. Isso porque, atualmente, os funcionários das áreas
de educação, saúde e segurança, áreas consideradas altamente essenciais, respondem por mais de
80% do conjunto dos servidores públicos, o que dificulta, inclusive, operar ajustes para se chegar
aos limites estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), através de demissões do
funcionalismo, como é por ela facultado. Acrescentam-se os problemas, já detectados, de grandes
distorções na estrutura de vencimentos de diversas categorias de funcionários públicos.
Por isso, se esforços tiverem de ser desenvolvidos nessa direção, é indispensável que venham
acompanhados de uma reforma administrativa racionalizadora da máquina e dos órgãos públicos,
combinando economia de gastos com aumento na eficiência de serviços prestados. Cabe, de
qualquer forma, chamar a atenção para o fato de que se resolvida ou atenuada, do ponto de vista
financeiro, a situação dos inativos do Estado, os ativos deixariam de se apresentar como o maior
problema, já que respondem por pouco mais de 40% da RCL do Estado, enquadrando-se
perfeitamente dentro dos limites de gastos permitidos pela LRF.
No caso dos inativos, a situação é bem mais complexa e se encontra longe de ser resolvida.
Ao contrário do que se imagina, o Fundo Previdenciário agrava a situação das finanças públicas
mineiras no período de transição e não garante o equilíbrio atuarial do novo sistema no longo prazo,
como se discute na seção que se segue. A adoção de medidas que reduzam o atual déficit previdenciário
(elevação da receita de contribuição dos ativos, redução da contribuição do Estado, por exemplo) e
reprogramem as exigências do Fundo Previdenciário em relação ao aporte de recursos para sua
constituição, como ali é discutido, é indispensável para aí, sim, garantir o pagamento futuro dos
benefícios dos aposentados e pensionistas e evitar que os desequilíbrios atuais levem o sistema e as
finanças estaduais a uma situação de inadimplência geral. Sabe-se que as medidas que terão de ser
adotadas para resolver essa questão são altamente impopulares.Por essa razão, torna-se necessário
desenvolver um trabalho de esclarecimento junto ao funcionalismo com vistas a persuadir-lhes de
que, se essas medidas não forem tomadas, são grandes os riscos de, em algum momento, não mais
existirem recursos para o pagamento desses benefícios e de que, também, o governo do Estado não
mais disponha de condições para continuar ofertando serviços públicos essenciais à população.
Importantes para um período de transição e arrumação da casa, do ponto de vista
financeiro, são os ganhos que se podem obter em relação aos encargos representados atualmente
pela dívida, que foi renegociada com o governo federal em 1998. Atualmente, esses encargos
drenam cerca de 13% da RCL, o equivalente a algo em torno de R$ 100 milhões ao mês. Numa
situação de transição e de implementação de uma política de ajuste, é importante desenvolver
ações que possam gerar ganhos nessa frente. Pela importância que representam nesse processo, a
questão é tratada no item seguinte.
104 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
A dívida e os seus encargos
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40 anos
Os gastos com encargos da dívida têm representado, em média, cerca de 15% da RCL anual
do Estado, incluídos os que não se referem à dívida renegociada com a União. Chama-se a atenção
para o fato de que, conforme apontado anteriormente, somente a sua redução ou até mesmo sua
extinção não resolve o problema dos desequilíbrios financeiros do Estado e o coloca em condições
de aumentar a oferta de serviços públicos para sociedade. Isso não significa, entretanto, que se
deva abrir mão de obter ganhos nessa frente, mesmo porque, somados aos que poderão ser
conseguidos em relação às receitas e despesas, esses serão importantes para permitir-lhe caminhar
para a realização do ajuste necessário de suas contas. Por isso, a retomada das negociações com a
União, a principal credora do Estado, visando rever algumas condições do contrato firmado em
1998, reponta como indispensável para esse objetivo. Entre essas condições, as seguintes merecem
atenção:
a) Proposta de redução do nível de comprometimento da RCL dos estados para o
pagamento dos encargos da dívida com a União dos atuais 13% para algo em
torno de 7% a 8%, pelo menos durante o período de realização/implementação do
programa de ajuste das finanças do Estado. Cabe lembrar, a esse respeito, que continua
em tramitação, no Congresso Nacional, uma proposta apresentada pelo Senador José
de Alencar, de Minas Gerais, de redução desse percentual para 7%, o que pode favorecer
esse processo.
b) Reavaliação/ revisão do índice que corrige a dívida com o governo federal, o
IGP-DI, que espelha mais expectativas de inflação do que a inflação efetiva, já
que,é contaminado pelo índice de preços do atacado (IPA), altamente influenciado
pelo comportamento da taxa de câmbio. Deve-se lembrar que, nos anos em que o
quadro macroeconômico se tornou altamente volátil, como em 1999, o IGP-DI atingiu
o nível de 20%, garantindo uma correção da dívida de cerca de 27%, já que seus
encargos são também agravados com uma taxa de juros real de 7,5% ao ano. Nesse
mesmo ano, o IPCA/IBGE, o índice oficial da inflação, situou-se em reduzidos 9%.
c) Revisão das taxas de juros da dívida para Minas Gerais e Pará (7,5%), que fizeram
um abatimento inicial de seu estoque equivalente ao percentual de 10%, enquanto
outros estados que estavam em condições de abaterem os 20% requeridos ficaram
com taxas de juros correspondentes a 6%.
Deve-se ter clareza, entretanto, de que existem restrições legais e financeiras, que terão de
ser enfrentadas para viabilizar mudanças dessa natureza. Em relação às restrições legais, a Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF) proíbe expressamente, em seu art. 35, a concessão de novos
refinanciamentos por parte do governo federal e a modificação dos contratos em vigor, sendo
necessária a aprovação de Lei Complementar para alterá-lo. Isso significa a necessidade de se
contar com 257 votos na Câmara dos Deputados e de 41 no Senado Federal (maioria absoluta),
caso se queira criar condições legais para a revisão de seus termos, exigindo intensas negociações,
caso o próximo governo não consiga maioria no Congresso4 .
No tocante às restrições financeiras, o alívio que pode ser dado às finanças dos estados
com essas mudanças implicará maior aperto para o Orçamento da União. Isso porque o governo
De acordo com o art. 35 da LRF (Lei Complementar n.101, de 4 de maio de 2000), é vedada a realização de operação de crédito
4
entre um ente da Federação, diretamente ou por intermédio de fundo, autarquia, fundação ou empresa estatal dependente, e
outro, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que sob a forma de novação, refinanciamento ou postergação da
dívida contraída anteriormente.
105
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
federal, tendo se comprometido com a geração de um superávit primário mínimo de 3,75% do
BDMG
40 anos
PIB em 2003, teria, para garanti-lo, de aumentar a sua contribuição, prevista em 2,25% do PIB, já
que o segmento de estados e municípios, nesse caso, tenderá a produzir um superávit menor do
que os 0,95% do PIB para ele projetado. E isso só poderia ser alcançado através do aumento da
carga tributária, já bastante elevada, ou com redução de gastos no orçamento, que conta com
reduzida participação de despesas de caráter discricionário e, portanto, com pouca margem de
manobra para cortes. Essas medidas devem gerar inevitáveis resistências para implementação.
Cabe lembrar, a propósito, que a turbulência que se abateu sobre a economia brasileira
neste final do ano 2002 e as projeções mais pessimistas sobre o crescimento do PIB, a trajetória da
taxa de câmbio e dos juros variáveis que afetam diretamente a relação dívida/PIB , indicam
a necessidade de geração de superávits primários mais elevados do que os assumidos no acordo
com o FMI para garantir a meta da dívida, estabelecida em termos nominais. Tal situação, com
certeza, impõe maiores dificuldades para a flexibilização dos percentuais de comprometimento da
Receita Corrente Líquida dos estados com o pagamento dos encargos de seus débitos.
3.2.3. Considerações finais
A discussão aqui desenvolvida procurou mostrar a necessidade, os limites e as alternativas
existentes para a realização de um ajuste fiscal pelo Governo do Estado de Minas Gerais. Procurou
também demonstrar que, embora o quadro atual seja difícil, o ajuste é possível, embora medidas
impopulares tenham de ser adotadas para o enfrentamento de algumas questões, inclusive
estruturais, que obstam sua solução. Por mais desgastantes que sejam politicamente, são
indispensáveis para pavimentar mais solidamente os caminhos do futuro e viabilizar programas
voltados para fornecer, à sociedade, serviços públicos com qualidade.
Esse esforço, contudo, não pode ficar restrito ao Poder Executivo, devendo contar, também,
com a contribuição dos demais poderes Legislativo e Judiciário para ser bem-sucedido. De
uma maneira geral, tanto o Legislativo como o Judiciário, apoiados em argumentos sobre a reduzida
fração de recursos que absorvem dos cofres públicos e sobre a autonomia de que dispõem para
exercer suas atividades e terem garantido seu financiamento, têm conseguido passar incólumes
em processos dessa natureza.
Não é o caso na atualidade, quando a gravidade da situação exige a contribuição de todos
para sua solução. Principalmente considerando-se que, conforme demonstrado em não poucos
estudos, os gastos com esses poderes, notadamente com o Legislativo, têm crescido
consideravelmente no tempo. É indispensável, assim, através de ações cooperativas, e uma vez
identificadas as necessidades reais desses poderes para o exercício e desempenho de suas atividades,
envolvê-los também nesse esforço para que o ajuste necessário tenha êxito.
Nessa análise, procurou-se mostrar, ainda, que ajustes dessa natureza e dimensão não
podem priorizar componentes isolados das finanças públicas, devendo estar apoiados em várias
frentes que potencializem os ganhos obtidos: nas receitas, nos gastos e na dívida. E ainda que,
considerando-se as restrições orçamentárias atuais e os poucos recursos disponíveis para
investimentos, bem como o papel que tem sido atribuído ao Estado nas suas relações com a
sociedade (mais como regulador/coordenador das atividades econômicas), os gastos com custeio
adquirem papel essencial nas suas tarefas, tanto quanto os investimentos, podendo potencializar
seus resultados, desde que manejados com a preocupação de aumento da eficiência e da qualidade
do gasto público.
106 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Ênfase também foi dada ao papel importante da renegociação da dívida com a União para
BDMG
40 anos
a realização desse ajuste, embora chamando a atenção para o fato de que somente com a redução
ou extinção da dívida não se resolve o problema dos desequilíbrios financeiros nem se garante a
recuperação da capacidade de financiamento do Estado. E também que ações nesse sentido devem
enfrentar não poucas dificuldades colocadas por restrições de ordem legal e por compromissos
assumidos, pelo País, de geração de um superávit primário mínimo de 3,75% do PIB em 2003.
Por fim, procurou-se mostrar que o nó górdio das finanças do Estado é representado pelos
desequilíbrios no seu sistema de Previdência, que compromete a absorção de 31% da Receita
Corrente Líquida e que, embora as demais propostas feitas para viabilizar o ajuste das contas
sejam importantes, a solução para essa questão é vital para seu êxito. Por isso, uma discussão mais
aprofundada dessa questão e das alternativas que existem para seu equacionamento é realizada
em seguida.
107
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
3.3. Previdência pública: bases para uma ação
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40 anos
realista do Estado5
A previdência tem sido o ponto central de discussão de muitos países nos últimos anos. A
importância do setor está tanto na questão social, por representar a fonte de renda da maioria da
população em idade mais avançada como pelo fato de ocupar sempre uma fatia substancial dos gastos
públicos dos países. No Brasil, a previdência privada paga benefício a 20,6 milhões de pessoas e movimenta
um total de recursos, entre arrecadação e despesa com benefícios, de cerca de R$ 140 bilhões.
À medida que aumenta a expectativa média de vida da população, um novo desafio se
coloca para a previdência em todo o mundo: adequar-se à nova realidade e garantir a saúde financeira
do sistema, de modo que os participantes tenham seu direito à aposentadoria assegurado.
A aposentadoria deve ser vista como uma proteção ao trabalhador quando da perda de sua
capacidade laboral e não como uma renda adicional. Assim sendo, à medida que aumenta o período
no qual os trabalhadores permanecem em atividade, é necessário que os parâmetros da previdência
se adaptem a esse novo perfil.
No Brasil, bem como no resto do mundo, a expectativa de vida tem crescido constantemente.
Os avanços na área de saúde, saneamento e tecnologia têm representado importantes ganhos para o
aumento da idade média da população. Em 1930, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era de
apenas 41 anos, enquanto que em 1999 passou a ser de 68,6 e a expectativa de vida para alguém
com 50 anos evoluiu para 75,5 anos. No Estado de Minas Gerais observa-se a mesma tendência,
com a expectativa de vida ao nascer passando de 54,9 anos em 1970 para 68,4 anos em 1999.
A evolução do perfil demográfico da população brasileira ressalta a importância de revisão
dos parâmetros vigentes em nosso sistema de previdência, tais como idade de aposentadoria,
alíquota de contribuição, tempo de contribuição, dentre outros. Nos últimos 30 anos, a expectativa
de sobrevida6 nas idades acima de 50 anos cresceu em média 5 meses ao ano. Essa evolução tem
apresentado conseqüências imediatas nos custos de financiamento do sistema de previdência.
Além da questão demográfica, fatores como o aumento da produtividade, a redução da
estrutura administrativa do Estado, a privatização, a informalização do mercado de trabalho,
dentre outros, têm levado à redução contínua da relação entre contribuintes ativos e inativos no
sistema de previdência. No setor privado (INSS) essa relação se encontra, no ano de 2002, em
torno de 1,21 e no setor público, em 1,05. A relação existente torna-se ainda mais preocupante se
levado em conta que ambos os regimes estão estruturados na repartição simples7 .
Diante desse cenário, a previdência no Brasil tem passado por um profundo processo de
reestruturação. Nos últimos anos, o País teve o arcabouço legal da previdência alterado pela
Emenda Constitucional n. 20 e sua posterior regulamentação. A criação do fator previdenciário
para o cálculo das aposentadorias dos trabalhadores do setor privado, a idade mínima e a
Seção elaborada por Solange Paiva Vieira
5
Análises estatísticas dos dados de expectativa de vida no Brasil mostram que as expectativas de vida tendem a convergir nas idades
6
mais avançadas independente da amostra utilizada. Partindo desse pressuposto, foi utilizada neste trabalho a expectativa de vida
da população de Minas Gerais como proxi da expectativa dos servidores públicos do referido Estado.
Entenda-se por regime de repartição simples aquele em que a geração dos atuais ativos contribui para que a geração de
7
aposentados receba sua aposentadoria.
108 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
contribuição dos inativos do serviço público foram questões discutidas na esfera federal, sendo
BDMG
40 anos
algumas delas implementadas, e outras, não.
Apesar do avanço alcançado com a implantação do fator previdenciário8 na previdência
dos trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que deverá trazer um
maior equilíbrio atuarial para as contas do INSS ao longo do tempo9 , a derrota da idade mínima,
para o Regime Geral (INSS), no Congresso, e da contribuição dos inativos, para o setor público,
no Supremo Tribunal Federal, são retrocessos que permanecem como questões importantes a
serem equacionadas na previdência brasileira.
A idade mínima como condição de elegibilidade à aposentadoria na previdência tem sido sempre
uma questão polêmica e, embora no setor público tenha sido estabelecido um limite para os que forem
contratados a partir de 1998, este será um referencial inapropriado daqui a 30 anos, quando esses
servidores estiverem exercendo seu direito de aposentadoria, o que torna a medida ineficaz.
Em 1998, com a reforma da previdência, tentou-se estabelecer um limite de idade para os
trabalhadores celetistas (INSS) mas, ao que parece, sociedade e Congresso não estavam convencidos
da importância dessa questão. Basicamente, políticas que impõem perdas concentradas em grupos
privilegiados de pessoas e benefícios difusos na sociedade são de difícil implementação, pois a
perda per capita dos pequenos grupos, bem organizados, tende a superar o ganho marginal que é
distribuído entre a maioria.
Quase a totalidade dos países do mundo possui, nos seus regimes de previdência, limites de
idade compatíveis com os seus respectivos padrões de envelhecimento. México e Argentina fixaram
em 65 anos a idade mínima para o recebimento de benefícios de aposentadorias. Nos Estados
Unidos, esse limite está fixado em 60 anos, com tendência de elevação para os próximos anos. Na
Europa, essa idade se encontra entre 65 e 67 anos, também com perspectivas de aumento.
No Brasil, no entanto, a questão não tem evoluído de forma compatível com as mudanças
demográfica. O INSS permanece sem limite de idade. No regime público, somente os servidores
que ingressaram a partir de 1998 têm idade mínima fixada em 55 anos para as mulheres e 60 anos
para os homens e a previdência dos militares continua sem limites preestabelecidos.
Aposentadorias em idades precoces, associadas ao aumento da expectativa de vida da
população, e a existência de uma baixa correlação entre contribuição e benefício têm conseqüências
imediatas no financiamento do sistema de previdência e são fatores agravantes dos problemas
financeiros existentes, que podem levar a previdência para soluções drásticas, como as medidas
adotadas na Argentina ao longo dos últimos 2 anos.
Nesta seção serão abordados os principais pontos que permeiam o debate sobre a previdência
em Minas Gerais. Inicialmente será salientada a questão da previdência pública frente à previdência
privada e a grande transferência de renda existente entre ambas, em prejuízo desta última. A
seguir, serão analisados dados da previdência mineira, sua posição frente aos outros estados, bem
como as opções existentes na literatura sobre uma solução para a questão. O quarto item se detém
nos principais pontos da Lei n. 64, instituída em Minas em março de 2002. Finalizando, serão
apresentadas algumas opções para a questão previdenciária em Minas Gerais.
Para maiores detalhes sobre o fator previdenciário e a reforma da previdência, ver Ornelas & Vieira (1999).
8
Ver em Pinheiro & Vieira (1999).
9
109
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
3.3.1. Previdência Pública LAHIKI Previdência Privada
BDMG
40 anos
É fundamental que a sociedade brasileira tome consciência da transferência de renda
existente entre previdência pública10 e privada no Brasil. Enquanto o valor do benefício médio do
INSS é de R$ 342,31, segundo o Boletim Estatístico da Previdência Social de junho de 2002, no setor
público este mesmo benefício é aproximadamente de R$ 2.123,00. No Estado de Minas Gerais, o
valor médio do benefício dos servidores públicos, em junho de 2002, foi 343% superior ao do
INSS, ficando em R$ 1.518,00.
Os custos da previdência pública são repartidos com toda a sociedade através de aumento
de impostos e redução de investimentos em áreas fundamentais, com o objetivo de honrar as
aposentadorias dos servidores. No governo federal, os gastos com os aposentados e pensionistas
estão em torno de 2,6% do PIB (TAB. 3), e em Minas Gerais, representa cerca de 31% da Receita
Corrente Líquida do Estado. De acordo com os dados da TAB.3, estima-se que em 2002 o déficit
de todo o sistema de previdência brasileiro será de 5,5% do PIB.
TABELA 3
QUADRO COMPARATIVO ENTRE PREVIDÊNCIA PÚBLICA FEDERAL E PRIVADA
(% DO PIB-2002)
PREVIDÊNCIA PÚBLICA PREVIDÊNCIA PRIVADA (INSS)
Receita 0,3 5,5
Despesa 2,6 6,7
Necessidade financiamento 2,3 1,2
FONTE: GIAMBIAGI (2002, p. 9.).
NOTA: Estima-se que a necessidade de financiamento dos estados será de cerca de 1,5% do PIB, e dos municípios, de 0,5%.
A previdência do setor público brasileiro, amparada no direito constitucional federal do
último salário, produz distúrbios alocativos ineficientes do ponto de vista social. Estudos elaborados
pela Banco Mundial e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
apontam que o sistema de previdência pública brasileiro é um dos mais generosos existentes no
mundo (GRAF. 1). Uma taxa de reposição de 100% do último salário, conforme a observada no
regime de previdência público brasileiro, coloca o sistema como sendo a segunda maior taxa de
reposição do mundo e com uma correlação entre contribuição e benefício muito aquém da requerida
para que se alcance o equilíbrio atuarial.
Todos os dados de previdência pública apresentados neste texto incluem os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário e excluem
10
os militares. No caso de Minas Gerais, excluem a Polícia Militar.
110 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
GRÁFICO 1
BDMG
40 anos
FONTE: OCDE
Com a Emenda Constitucional n. 20, abriu-se espaço para que o Estado pudesse contratar
servidores como empregados públicos, regidos pelo regime celetista e, portanto, vinculados à
previdência privada (INSS). Por outro lado, para aqueles que continuarem a ser contratados como
servidores públicos, será possível também que a União, os estados e municípios instituam o regime
de previdência complementar para salários que excedam o teto do INSS11 , desobrigando-se do
pagamento do último salário como aposentadoria.
Com o novo Projeto de Lei Complementar (PLC n. 9), os servidores públicos passam a ter
o limite máximo do Regime Geral de Previdência Social (INSS) garantido como benefício básico,
e a complementação do que exceder este valor, assegurada através do fundo de previdência
complementar a ser constituído através da acumulação das contribuições efetuadas pelo servidor
e pelo governo. No entanto, o referido Projeto de Lei se encontra na Câmara dos Deputados desde
1999 aguardando votação. O atraso na votação do PLC n. 9 demonstra uma clara dificuldade da
sociedade em entender a questão da previdência pública como um mecanismo de seguro para o
trabalhador e tem como objetivo a proteção de sua perda de capacidade laboral. Najberg e Ikeda
(1999) observam que a Previdência, no Brasil, não era entendida como um seguro que visava
garantir renda para o indivíduo ou grupo familiar quando da perda da capacidade laborativa. Os
benefícios não estavam estreitamente vinculados às contribuições, daí o princípio da eqüidade
individual não ser atendido.
A previdência pública tem sido tratada como um componente da folha de salário do
trabalhador e como tal provoca inúmeras distorções no processo produtivo do serviço público.
Esse fenômeno é claramente observado nos estados, municípios e no governo federal à medida
que as informações referentes ao pagamento dos aposentados estão contidas na folha de pagamento
dos ativos, ou seja, as aposentadorias são tratadas como pagamento de salário, e não como um
benefício oriundo a partir da acumulação prévia de poupança pelo trabalhador.
Trabalhadores ativos recebem salário, em média, menores do que os que estão em inatividade,
o que faz com que exista um forte incentivo, inerente ao sistema, para que o trabalhador entre em
aposentadoria. Em Minas Gerais o salário médio dos inativos no primeiro semestre de 2002 ficou
56% maior do que o dos servidores ativos.
Dados do Governo de Minas Gerais de novembro de 2000 apontam que cerca de 90% dos servidores do Estado ganham abaixo
11
do teto do INSS, o que, de certo modo, faz com que as alterações proporcionadas pelo PLC n. 9 sejam de baixa efetividade para
o Estado.
111
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
Ao beneficiar o trabalhador aposentado, o sistema acaba por provocar uma alocação inversa
BDMG
40 anos
do esperado à dinâmica macroeconômica de alocação de recursos como um todo, uma vez que os
trabalhadores passam a ter maior poder de compra quando ingressam na inatividade. Esse fenômeno
pode provocar, inclusive, alteração da propensão a poupar dos trabalhadores, visto que a tradicional
poupança keynesiana, por motivo precaucional, não se faz necessária, frente à garantia, já
estabelecida previamente, de renda futura12 .
A previdência pública brasileira, nos moldes atuais, tem efeitos socialmente indesejáveis,
pois, ao garantir uma renda futura aos servidores públicos, incompatível com os recolhimentos
previamente efetuados, provoca o agravamento do nível de endividamento do Estado, a redução
da renda líquida dos trabalhadores ativos, bem como da capacidade de poupança desse grupo.
A renda líquida dos servidores ativos tem-se reduzido tanto pelo aumento da alíquota de
contribuição para fazer frente ao sistema de repartição existente, onde há uma solidariedade inter-
geracional, como pela própria redução do salário real colocada pelo Estado como mecanismo para
amenizar os custos, cada vez maiores, da folha de pagamento. Nesse caso, a vinculação entre os
salários de ativos e inativos faz com que políticas de pessoal voltadas para a produtividade e
busca de maior eficiência sejam completamente distorcidas. O salário real dos atuais ativos, que
na maioria das vezes são representantes de uma geração que pagou as maiores alíquotas até então
existentes e usufruem dos menores salários reais, comporta-se como a variável de ajuste do sistema
para que os gastos com os inativos sejam suportados.
O déficit crescente da previdência pública reflete uma geração que contribuiu com alíquotas
reduzidas para o sistema e hoje usufrui do benefício do último salário como aposentadoria, sem, contudo,
ter realizado o aporte de recursos necessários para tal, e sendo o custo, portanto, transferido para toda
a sociedade através de déficits públicos crescentes e, conseqüentemente, uma sobrecarga de impostos.
Ao final de 2000, a previdência dos servidores públicos apresentava um total de 2,4 milhões
de beneficiários, o que totalizava uma despesa com benefícios de 4,8% do PIB, enquanto que no
INSS o total de benefícios pagos era de 20 milhões, correspondendo a uma despesa de 6% do PIB.
As mudanças que têm sido traçadas para a previdência dos servidores públicos federais, estaduais
e municipais sinalizam o avanço da sociedade na direção de um sistema mais justo, em que o caráter
contributivo e a correlação entre contribuição e benefício passam a representar pontos fundamentais
do sistema. É importante para a justiça social e para uma alocação eficiente dos recursos que os
servidores públicos passem a ser tratados da mesma forma que os trabalhadores do setor privado.
Essa alteração no sistema de previdência pública proporcionará ao Estado maior capacidade
de financiamento, liberando-o de obrigações que foram constituídas por um sistema de previdência
paternalista, que entendia a previdência como uma continuidade do fluxo de pagamento de salários
do servidor, e não como uma poupança constituída pelo trabalhador com o objetivo de resguardar
a sua velhice.
3.3.2 A situação do Estado de Minas Gerais
Assim como o do Brasil, o sistema de previdência mineiro reflete dados de um sistema que
inicia os primeiros passos da maturidade. Embora o GRAF. 2 mostre que entre 1994 e 2001 a
participação dos servidores inativos no total tenha crescido cerca de 9%, uma média de 1,29
Acrescenta-se o fato de que o sistema de previdência dos servidores públicos é de benefício definido e, portanto, não apresenta
12
nenhuma volatilidade na renda percebida pelo servidor.
112 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
pontos percentuais ao ano, de acordo com os dados do Governo do Estado de Minas Gerais
BDMG
40 anos
(nov. 2000) a idade média dos aposentados é de 62 anos, e dos ativos, de 42 anos, o que reflete
um perfil ainda jovem do sistema.
De acordo com Moraes (2000) até 2020 o Brasil se beneficiará do chamado bônus demográfico,
gozando neste período da menor razão de dependência (relação entre dependentes e população em
idade ativa) de toda a sua história: é um momento único para reverter o deficit e acumular provisões
para os tempos difíceis, com a distribuição paulatina dos sacrifícios entre diversas gerações.
GRÁFICO 2
FONTE: Governo do Estado de Minas Gerais/Secretaria de Estado de Recursos Humanos e Administração (SERHA/MG)
Observando-se o perfil dos servidores públicos do Estado, nota-se que, do total de
aposentados, 78% são mulheres, enquanto que entre os ativos as mulheres representam 76%.
Esse perfil, associado a um quadro de pagamentos em que os professores de ensino fundamental
e médio representam cerca de 65% do total da despesa com servidores ativos, coloca o futuro da
previdência mineira em uma situação extremamente desconfortável no que se refere ao equilíbrio
das suas contas.
As mulheres, além de terem em média uma expectativa de vida de 5 anos a mais do que os
homens, usufruem, por direito constitucional federal, do benefício de se aposentarem com 5 anos
a menos do que os homens, seja por tempo de contribuição ou seja por idade. A categoria de
professores também detém o mesmo direito no que se refere ao tempo de contribuição. Essa
combinação de fatores resulta no fato de que as professoras podem se aposentar com 10 anos a
menos em seu tempo de contribuição.
Supondo que a idade média de aposentadoria será mantida em torno dos atuais 51 anos e
que o grupo de ativos apresenta uma distribuição normal13 , tem-se que em 9 anos metade dos
servidores hoje ativos estarão aposentados, dado que a média de idade dos ativos é de 42 anos.
Uma vez que a distribuição dos aposentados possui o perfil apresentado no GRAF. 3 e a expectativa
de vida para os 63 anos (idade média do grupo de aposentados) é de 11,24 anos14 , a tendência
para os próximo 11 anos é de que o número de aposentados tenha um crescimento contínuo e que
a relação servidor inativo/ativo alcance seu ápice em torno do ano 2012.
Foram realizados testes empíricos que mostraram ser razoável assumir uma distribuição normal em torno da média de idade de
13
51 anos para os servidores ativos.
Todos os dados de expectativa de vida e sobrevida para Minas Gerais têm como fonte a UFMG/CEDEPLAR.
14
113
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
Ao mesmo tempo em que o ano de 2012 representa um ponto crítico da previdência mineira,
BDMG
40 anos
uma análise comparada com outros estados mostra que o Estado já apresentava no ano de 2000 a
quarta pior relação entre ativo/inativo, e o segundo maior déficit em valores absolutos (Anexo 1).
GRÁFICO 3
FONTE: Governo do Estado de Minas Gerais/Secretaria de Estado de Recursos Humanos e Administração (SERHA/MG).
Os resultados quantitativos ficam ainda mais preocupantes se analisados em termos de valores,
pois, uma vez que a remuneração média dos aposentados é 56% maior do que a dos ativos (TAB. 4), o
peso da relação inativos/ativos é majorado quando tomadas como referência as despesas efetuadas.
Essa tendência existente em todo o sistema de previdência público brasileiro faz com que políticas de
redução do salário real dos ativos sejam utilizadas como mecanismo de acomodação dos gastos da
folha com inativos, uma vez que a remuneração de ambos está atrelada por direito constitucional15.
No Estado de Minas Gerais, a distribuição do total de pagamentos em junho de 2002 foi de
68% para ativos e 32% para os inativos, sendo que em valor o peso dos inativos aumenta para 42%,
dado que o salário médio dos inativos é de R$ 1.518,00 contra um salário dos ativos de R$ 974,00.
TABELA 4
SERVIDORES ATIVOS E INATIVOS (ADMINISTRAÇÃO DIRETA E INDIRETA)
QUANTIDADE DE DESPESA MENSAL RENDA MÉDIA
SERVIDORES PAGAMENTOS % (R$ MILHÕES) % (R$)
Ativos 312.730 68% 304,84 58% 974,77
Inativos 146.238 32% 222,06 42% 1.518,48
Total 458.968 100% 526,9 100%
FONTE: Governo do Estado de Minas Gerais /Secretaria de Estado de Recursos Humanos e Administração (SERHA/MG)
Com o objetivo de amenizar o comprometimento da despesa corrente líquida com gastos
de pessoal, em especial com inativos, tanto o governo federal como estados e municípios foram
impedidos, nos últimos anos, de concederem aumento salarial aos servidores ativos.
Constituição Federal, em seu artigo 40, garante aos servidores inativos as alterações de remuneração que os servidores ativos
15
vierem a receber.
114 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
É interessante ressaltar como a atual geração de servidores públicos e a própria sociedade
BDMG
40 anos
têm sido complacentes em manter o status quo da geração de servidores hoje aposentados. Geração
esta que apresenta um histórico de alíquotas de contribuição próximas de zero e um salário real
médio muitas vezes maior que o atualmente vigente. Hemming (1999, p. 79) destaca que a carga
que uma geração de trabalhadores suporta, como conseqüência de aposentadorias, é determinada
pelo que deve ser pago e não pela forma em que são financiadas. Se uma geração julga que os
herdeiros reclamam demasiado do que ela produz, não irá querer respeitar essa reclamação, seja
qual for a forma de financiamento. Não parece que no Brasil a geração atual já tenha se dado
conta do esforço financeiro e fiscal que tem sido feito em prol dos inativos.
TABELA 5
FOLHA DE INATIVOS X FOLHA TOTAL
Mês/Ano Inativos/total
dez/94 35,38%
dez/95 34,61%
dez/96 37,59%
dez/97 39,80%
dez/98 42,52%
dez/99 44,13%
dez/00 41,56%
dez/01 42,76%
FONTE: SERHA/MG
Nota-se que os problemas de desequilíbrio financeiro da previdência no Brasil são muitas
vezes oriundos antes de questões associadas ao comprometimento dos gastos públicos de forma
benevolente, o que compromete o fluxo futuro de pagamentos do sistema, do que do
envelhecimento da população propriamente dito. Como conseqüência observa-se no sistema de
previdência pública a ausência de correlação entre benefício e contribuição.
3.3.3. Lei Complementar n. 64, de 25 de março de 2002
Antes de discutir a Lei Complementar n. 64 (LC 64), instituída em 25 de março de 2002,
cabe salientar a questão existente em torno da idéia de capitalização16 versus repartição e contribuição
definida17 versus benefício definido18 .
Muitas das críticas ao sistema de previdência público colocam no sistema de repartição e
nas mudanças demográficas as razões para o desequilíbrio do regime. Contudo, tanto na repartição
como na capitalização são necessários ajustes nos parâmetros, para que os benefícios sejam
garantidos, especialmente se estiverem estruturados na forma de um plano de benefício definido.
Regime de capitalização é aquele em que os recursos para pagamento da aposentadoria dos trabalhadores devem ser acumulados
16
durante a vida ativa do mesmo grupo de trabalhadores.
Por contribuição definida pode-se entender o plano de benefício que assegura aos participantes contribuições fixas, enquanto que
17
o valor do benefício (aposentadoria) a ser recebido será variável, de acordo com o total de recursos acumulados e a rentabilidade
dos mesmos.
Entenda-se por benefício definido o plano que assegura previamente aos participantes que o valor do benefício (aposentadoria)
18
e as alíquotas de contribuição devem ser ajustadas de modo a garantir tal valor.
115
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
Embora alguns afirmem que o sistema de repartição é facilmente sujeito a desequilíbrios,
BDMG
40 anos
não é possível dizer que no sistema de repartição as obrigações futuras trazidas a valor presente
não são capazes de fazer jus aos compromissos existentes, uma vez que é esta a idéia que está
presente no sistema de repartição. Ou seja, apenas no caso do regime de repartição não suportar o
aumento das alíquotas de contribuição é que faria sentido falar que o valor presente de direitos e
obrigações não se equivalem.
Alguns especialistas do setor de previdência tendem a polarizar a discussão da reforma da
previdência e o equilíbrio do sistema na forma de financiamento do mesmo, ou seja, repartição ou
capitalização. Não nos parece apropriado creditar o equilíbrio do sistema a tal questão, mesmo
porque um sistema de capitalização estruturado na forma de benefício definido terá quase sempre
os mesmos riscos demográficos do sistema de repartição, uma vez que as tábuas de vida que
determinam a alíquota de contribuição necessária na capitalização têm que ser ajustadas da mesma
forma que as alíquotas do sistema de repartição. A diferença na repartição é que os ajustes nas
alíquotas são distribuídos entre gerações diferentes, enquanto que na capitalização ele é feito
dentro de uma mesma geração.
O regime de repartição, se for estruturado de forma a manter estreita correlação entre
benefício e contribuição, tenderá a produzir o mesmo equilíbrio atuarial que a capitalização. Seria
ingênuo supor que o sistema de capitalização produz por si só uma solução mágica para as alterações
demográficas pelas quais os diversos regimes de previdência atravessam. Na verdade, o que a
capitalização faz é explicitar, mais claramente do que na repartição, os custos das aposentadorias.
No que concerne à questão de sistemas estruturados em planos de contribuição definida e
benefício definido, poderíamos dizer que o ajuste, e eventuais desequilíbrios, é facilitado pela flexibilidade
existente no valor das aposentadorias, quando o tipo de plano for de contribuição definida.
O plano de benefício definido, ao assegurar previamente ao aposentado um valor de
aposentadoria, dificulta a distribuição dos riscos demográficos, especialmente se for levado em
conta que na maioria das vezes o Poder Judiciário, no Brasil, tem interpretado o benefício de
aposentadoria como um direito imutável, não sujeito a ajustes intrínsecos à própria dinâmica do
sistema de previdência.
A LC 64 representa um passo importante de Minas na direção de um regime de previdência
mais equilibrado, especialmente no que se refere à vinculação entre contribuição e benefício.
Entretanto, ainda serão necessárias inúmeras mudanças para o equacionamento da questão
previdenciária no Estado.
A nova lei coloca seu foco na alteração da previdência de uma estrutura de repartição para
capitalização. Estrutura-se o Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais
(IPSEMG), criam-se normas gerais de contabilidade e atuaria, institui-se o Fundo de Previdência
do Estado de Minas Gerais (FUMPEMG), estabelece-se que os recursos provenientes de
contribuições previdenciárias serão utilizados exclusivamente para o pagamento de benefícios
previdenciários após um período de transição de 11 anos19 , ou seja, criaram-se as bases para que
fosse instituído o sistema de capitalização. No entanto, como aponta Hemming (1999, p. 83),
o problema previdenciário não está associado à forma de financiamento do sistema mas antes de
tudo a vontade política de realizar mudanças consistentes com as necessidades existentes. Onde
foi manifestada a vontade política de efetuar importantes ajustes nas pensões se demonstrou que
as finanças do sistema de repartição podem caminhar para situações sustentáveis.
Foi estabelecida uma regra de transição em que haverá um acréscimo gradual do repasse das contribuições efetuadas pelo servidor
19
e o Estado, tendo o repasse total atingido em 2012.
116 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Não é pelo simples fato de se criarem contas individuais para os servidores e instituir um
BDMG
40 anos
sistema com base na capitalização que se pode dizer que foi alcançada uma solução para a
previdência. A tarefa de alterar um regime de previdência calcado na repartição simples para
outro de capitalização gera um esforço fiscal para a sociedade, devido à interrupção do fluxo de
receita existente, que na maioria das vezes inviabiliza tal opção. Na verdade, um regime de
capitalização com base em uma estrutura de benefício definido gerará os mesmos problemas do
regime de repartição, ou seja, se os parâmetros atuariais forem mal dimensionados, o total de
recursos acumulados não será suficiente para fazer jus aos compromissos assumidos de
aposentadoria.
A mudança para a capitalização pode, ainda, trazer a explicitação de uma dívida não desejada,
a saber, o fluxo futuro de aposentadorias assumidas pelo Estado. Fluxo este que, a princípio,
estava diluído ao longo do tempo e passa a compor o estoque de dívida presente, se a mudança de
regime for realizada.
Na idéia de capitalização, adotada em Minas, a contribuição do Estado (22%) foi instituída
em um contexto de um regime de previdência que já funcionava em um sistema de repartição e
apresentava despesas anuais da ordem de 3,36 bilhões ao ano20 . Como onerar ainda mais a sociedade
criando um fundo em que o Estado terá que fazer um esforço adicional para obter recursos, dado
que as aposentadorias já existentes continuam a ser pagas? Esta é uma das respostas que a nova
lei não contempla.
Não é claro como será equacionada a questão entre fluxo e estoque de aposentadorias, nem
mesmo se tal opção é viável em médio prazo, visto que os dados indicam que a situação mais
crítica da previdência mineira deve ocorrer por volta do ano de 2012.
A proposta da nova lei coloca o Estado responsável por todas as aposentadorias concedidas
até 2009, além de impor uma transferência progressiva das contribuições do Estado e dos servidores
para o novo fundo. Essa combinação acarreta dois novos problemas. O Estado passa a ter uma
nova obrigação, que estava anteriormente diferida ao longo do tempo, e o novo fundo, por sua
vez, começa a operar já com um desequilíbrio atuarial preestabelecido, dado que a transferência
de recursos para o fundo será progressiva.
Destaca-se, ainda, que a tendência na previdência complementar em todos os fundos
patrocinados por empresas públicas tem sido a de estabelecer uma contribuição paritária entre
empregado e empregador. A paridade é colocada com o objetivo de reduzir o ônus que os fundos
de pensão de empresas estatais representavam para a sociedade. Frente a este novo direcionamento,
é no mínimo inapropriado que tenha sido proposta em Minas Gerais uma alíquota de contribuição
em que o Estado contribua com o dobro do servidor21 .
Se for levado em conta os outros estados do País, observa-se que Minas, seguida por apenas
mais dois estados de Federação, instituiu a alíquota patronal mais elevada existente, e que em sua
maioria, diferentemente de Minas Gerais, os estados estabeleceram alíquotas de contribuição
paritárias (Anexo 2).
Além de abrir mão do fluxo de contribuições dos servidores, o Estado passa a ter que pagar
uma taxa de administração de 2% da folha e a efetuar uma contribuição crescente para o novo
fundo instituído, sendo que esta contribuição alcançará o seu cume em 2012 (22%).
Estimativas do Governo do Estado de Minas Gerais apontam para um esforço fiscal de cerca de 47 bilhões para a mudança do
20
regime de repartição para capitalização.
Lei 9717, de 27 de novembro de 1998 estabelece que o máximo que União, Estado, Distrito Federal e municípios podem
21
contribuir é o dobro da contribuição do segurado.
117
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
O fato do Estado passar a ter sua arrecadação suspensa em prol do novo fundo, assumir o
BDMG
40 anos
compromisso de realizar um aporte adicional de 22% da folha ao fundo capitalizado, ser onerado
em 2% da folha como taxa de administração, combinado com o período em que o relação inativo/
ativo tenderá a atingir seu ápice (2012) parece uma situação insustentável, criada pela nova lei, e
que provocará uma explosão na dívida pública.
Cabe, ainda, ressaltar que existem dúvidas quanto à efetividade das alíquotas adotadas no
que se refere ao equilíbrio atuarial do regime de previdência. Apesar da nova lei colocar o caráter
contributivo na base do sistema, alterando a alíquota de contribuição dos servidores que ingressarem
a partir de 2002, dos até então 8,3% para 11%, e de instituir a alíquota de 22% para o patrocinador
(governo), estas alíquotas podem ser insuficientes, especialmente se forem levadas em conta as
variações das taxas de juros.
Uma análise preliminar da capitalização das contribuições dos servidores e do Estado,
levando-se em conta uma alíquota de contribuição total de 33%, mostra que os resultados são
muitos sensíveis às hipóteses utilizadas. Se levarmos em conta, por exemplo, que a taxa de juros
real é de 6%, 5% ou 4%, o sistema tenderá a ser superavitário para o caso de uma contribuição
com salário constante ao longo dos 35 anos de contribuição, conforme observado na TAB. 6. No
entanto, se a taxa de juros real se reduzir para 4%, e o salário apresentar uma taxa de crescimento
equivalente a taxa de juros, o resultado seria um déficit a partir do vigésimo quarto ano de
aposentadoria do segurado. Por outro lado, se a hipótese for de crescimento salarial equivalente ao
da taxa de juros mais um crescimento22 salarial de 88% ao longo de 35 anos de trabalho, nesse
caso, somente com taxas de juros iguais ou superiores a 6% é que o sistema ficaria superavitário23 .
TABELA 6
TESTE DE SENSIBILIDADE À TAXA DE JUROS E À TAXA DE CRESCIMENTO SALARIAL
NO REGIME DE CAPITALIZAÇÃO
HIPÓTESE DE POLÍTICA SALARIAL HIPÓTESE DE TAXA DE JUROS RESULTADO
Constante 6%, 5% e 4% Superavitário
Crescimento igual à taxa de juro 6%, 5% superavitário
Crescimento igual a taxa de juros + 175% 6% superavitário
FONTE: Elaboração própria.
Nota-se na tabela anterior que os resultados obtidos na capitalização podem ser muito
diferentes, dependendo das hipóteses adotadas. Tem-se que quanto maior a dispersão entre o
salário inicial e final maior deverá ser a taxa de juros que remunera os recursos acumulados, para
que seja alcançado o equilíbrio entre contribuição e benefício. Por outro lado, se a taxa se reduzir,
será necessário uma alíquota de contribuição mais elevada. Levando-se em conta que os cálculos
apresentados tomam por base apenas a aposentadoria por tempo de contribuição, eventuais custos
de benefícios não programáveis devem ainda ser adicionados à alíquota existente.
É importante ressaltar que, além das variações salariais pertinentes a cada categoria, a LC 64,
seguindo o arcabouço legal federal, aceita que funcionários que ingressem no serviço público
tragam consigo o tempo de contribuição existente no regime celetista (INSS). Apesar de estar
Dados do Governo de Minas Gerais/ Secretaria de Estado da Educação, junho de 2001, indicam que a variação entre o salário
22
inicial e final das professoras no Estado é de 87,85%.
Para efeitos de simplificação, todos os cálculos foram efetuados sem que fosse levados em conta os benefícios não programáveis.
23
118 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
definido que serão efetuadas compensações financeiras entre os diferentes regimes, é importante
BDMG
40 anos
ressaltar que a contribuição dos trabalhadores do setor privado está limitada ao teto do INSS,
enquanto que, no serviço público, não existe nenhum limite preestabelecido. Essa peculiaridade
pode acarretar uma distorção ainda maior entre o salário de contribuição do servidor e sua
aposentadoria, agravando assim o desequilíbrio atuarial.
Os dados apresentados ao longo do texto apontam para uma explosão do sistema a partir
de 2012. Hoje o grau de comprometimento da receita corrente líquida de Minas com os inativos já
é de 32%, portanto é fundamental que se tenha consciência de que eventuais alterações no regime
de previdência devem ser efetuadas não apenas no fluxo mas também no estoque de ativos existentes,
uma vez que as alterações buscam o equacionamento não apenas do futuro, mas também da
situação já existente.
Nesse contexto, são fundamentais alterações na alíquota de contribuição dos atuais
servidores, alteração da idade mínima de aposentadoria, desvinculação do salário do funcionário
ativo do inativo, e uma base de cálculo da aposentadoria mais realista, que foque não apenas o
último salário, mas também o histórico contributivo de cada servidor.
3.3.4. Considerações finais
Diante da situação previdenciária que o governo brasileiro atravessa, em especial estados e
municípios, é fundamental que se busque, o mais rápido possível, um equacionamento da questão.
Em que pese o fato das questões políticas serem as mais adversas possíveis, é importante que se
encarem os problemas e que se busquem soluções que possam remeter ou não a alteração do
sistema de repartição para capitalização, de benefício definido para contribuição definida. O
fundamental é que se tenha em foco que a reforma deve sempre levar em conta as limitações
políticas e financeiras de cada regime, a capacidade de financiamento do Estado e da sociedade e
a opção política posta por esses.
Das questões apresentadas, tem-se que Minas se insere dentro de um contexto nacional em
que a questão de reforma da previdência pública passa necessariamente por mudanças no nível da
esfera federal. Alterações constitucionais são fundamentais para que o sistema possa equacionar
de maneira eficaz seus desequilíbrios. Na Constituição Federal estão presentes questões como a
vinculação da aposentadoria do inativo ao salário do ativo, a idade mínima e a vedação à
contribuição dos inativos, ainda em decisão liminar no Supremo Tribunal Federal.
No que se refere ao estoque de aposentadorias concedidas, o Governo de Minas poderia
trabalhar algumas questões que minimizassem o nível de gastos já estabelecidos. Da mesma forma
que salários de ativos e inativos estão vinculados constitucionalmente, tem-se que não é proibido
ao Estado estabelecer políticas de remuneração para os servidores ativos que estejam atreladas a
ganhos de produtividade e sejam variáveis tanto em valor como na periodicidade dos recebimentos.
Acredita-se que tal mecanismo de política salarial, em que fosse instituído um ganho salarial
variável para o ativo, não geraria vinculação entre salário de ativos e inativos e, portanto, não
enfrentaria problemas judiciais24 .
Quanto à contribuição de inativos, apesar da decisão liminar do Supremo ser desfavorável, é
razoável acreditar que a idéia de algum outro tipo de alíquota sobre o salário do aposentado poderia
ser instituída sem que os tribunais entendessem tal alíquota como contribuição previdenciária.
O Estado de São Paulo já constituiu jurisprudência sobre essa questão no Supremo Tribunal Federal em casos semelhantes.
24
119
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
Levando-se em conta a questão do fluxo de servidores ativos existentes, o leque de opções
BDMG
40 anos
é ainda maior. A majoração da alíquota dos ativos até o nível de 14% é uma opção. Medidas
administrativas que criem incentivos para que os servidores posterguem sua aposentadoria também
podem ser adotadas, tais como políticas salariais em que o salário variável represente a maior
parte da parcela do salário do servidor, ou a criação de mecanismos que dificultem a volta do
servidor aposentado para a vida ativa.
Ingerências sobre as novas contratações, de modo a direcionar o perfil dos novos servidores,
também podem ser adotados, seja para alterar a distribuição dos atuais ativos, seja com o objetivo
de alterar o volume de aposentadorias especiais concedidas.
Na esfera do Governo Federal, além das mudanças constitucionais, tem-se, ainda, o Projeto
de Lei Complementar n. 9, que permite a criação de previdência complementar para os servidores
públicos estruturada em planos de contribuição definida, o qual se encontra na Câmara dos
Deputados, esperando pela votação de vários destaques.
Apesar de pouco ter sido alcançado em termos quantitativos, o debate previdenciário tem
se tornado cada vez mais transparente, com a sociedade discutindo questões que, por serem muitas
vezes incômodas e de pouca popularidade, eram relegadas a um segundo plano. Essa capacidade
de trazer à tona tais questões e de discuti-las, imprimindo maior transparência na forma de
administração pública é, provavelmente, um dos maiores avanços obtidos no processo e fica
como um marco do fortalecimento da democracia, seja ela em Minas Gerais ou no País.
120 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
BDMG
40 anos
3.4. Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília. 2000.
________. Lei Complementar nº 109, de 29 de maio de 2001. Dispõe sobre o regime de
previdência complementar e dá outras providências. Diário Oficial da União, 30 maio 2001.
p. 3.
________. Lei nº 9.717, de 27 de novembro de 1998. Dispõe sobre regras gerais para a
organização e o funcionamento dos regimes próprios de previdência social dos servidores
públicos da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, dos militares dos
estados e do Distrito Federal e dá outras providências. Diário Oficial da União, 28 nov. 1998.
p. 1.
________. Secretaria de Previdência Social. Boletim Estatístico da Previdência Social, Brasília,
jun. 2002.
GIAMBIAGI, F., Proposta para uma agenda de reformas da previdência social. Rio de
Janeiro. 2002. (Texto não publicado).
HEMMING, R., As pensões públicas devem ser capitalizadas? Conjuntura Social, Brasília, v.
10, n. 4, out./dez. 1999. p. 68-100.
MINAS GERAIS. Decreto n. 42.758, de 17 de julho de 2002. Regulamenta disposições da
Lei Complementar nº 64, de 25 de março de 2002, que institui o regime próprio de
previdência e assistência social dos servidores públicos do Estado de Minas Gerais. Minas
Gerais, Belo Horizonte, 18 jul. 2002. p. 5.
________. Lei Complementar nº 64, de 25 de março de 2002. Institui o regime próprio de
previdência e assistência social dos servidores públicos do Estado de Minas Gerais. Minas
Gerais, Belo Horizonte, 26 mar. 2002. p. 1.
________. Secretaria de Estado da Educação. jun. 2001.
________. Secretaria de Estado da Fazenda. Boletim Financeiro e Orçamentário, jun. 2002.
MORAES, M. E. Reformando a Previdência Brasileira. Brasília, 2002. (Texto não publicado).
NAJBERG, S.; IKEDA, M. Previdência no Brasil: desafios e limites. In: GIAMBIAGI, F.;
MOREIRA, M. (Org.). A economia brasileira nos anos 90. Rio de Janeiro: BNDES, 1999, p.
261-290.
ORNELAS, W.; VIEIRA, S. P. Novo rumo para a Previdência brasileira. Revista do BNDES,
Rio de Janeiro, n. 12, dez. 1999. p. 31-47.
PINHEIRO, V. C.; VIEIRA, S. P. Reforma da Previdência no Brasil: a nova regra de cálculo
dos benefícios. Conjuntura Social, Brasília, v.10, n. 4, out./dez 1999. p. 51-67.
RIANI, F.; PONTES DE ALBUQUERQUE, C. M. Perdas de arrecadação do ICMS no Estado
de Minas Gerais com a Lei Kandir: estimativas para 1996 a 2001. Belo Horizonte, 2001.
(Mimeo).
121
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
ANEXO 1
BDMG
40 anos
RECEITA, DESPESA E DÉFICIT PREVIDENCIÁRIO DOS ESTADOS - 2000
DESPESA TOTAL COM PREVISÃO DA RECEITA DE VALORES R$ MIL
ESTADO INATIVOS E PENSIONISTAS CONTRIBUIÇÃO DOS ATIVOS DÉFICIT
AC 43.817 32.772 11.045
AL 197.148 54.282 142.866
AM 212.334 95.069 117.265
AP 2.745 21.320 (18.575)
BA 671.442 151.151 520.291
CE 310.457 119.463 190.994
DF 1.085.290 273.382 811.909
ES 378.442 81.774 296.669
GO 547.740 61.235 486.506
MA 354.001 72.381 281.620
MG 2.903.558 310.761 2.592.798
MS 137.088 34.892 102.197
MT 226.779 64.916 161.863
PA 417.359 87.325 330.034
PB 266.184 46.028 220.156
PE 776.090 182.022 594.068
PI 109.924 53.081 56.843
PR 1.253.763 264.866 988.897
RJ 2.977.411 449.768 2.527.643
RN 234.639 42.897 191.742
RO 46.149 40.900 5.249
RR 1.252 15.561 (14.309)
RS 2.419.487 174.916 2.244.571
SC 500.873 126.875 373.998
SE 128.673 29.966 98.707
SP 7.559.664 743.665 6.815.999
TO 31.120 29.767 1.353
TOTAL 23.793.431 3.661.034 20.132.397
FONTE: Demonstrativos Estados/ Dados Publicados pelos Estados/ STN
Elaboração: SPS/MPAS
122 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
INFORMAÇÕES ESTATÍSTICAS
BDMG
40 anos
QUANTIDADE DE SERVIDORES ATIVOS, INATIVOS E PENSIONISTAS POR ESTADO - 2000
Total de Total de Total de Relação
ESTADO Servidores Ativos Servidores Inativos Pensionistas Ativos/Inativos
RS 165.770 112.765 57.532 0,97
RJ 215.772 110.008 84.972 1,11
SP 562.822 237.052 200.807 1,29
MG 250.000 160.000 26.000 1,34
SC 53.119 30.929 8.042 1,36
PR 104.894 61.719 13.381 1,40
PE 113.927 38.574 23.155 1,85
AL 32.202 11.886 4.416 1,98
GO 75.029 26.816 6.403 2,26
BA 155.140 48.720 16.218 2,39
PI 52.930 15.690 6.023 2,44
ES 59.684 16.478 5.721 2,69
CE 88.667 22.151 10.360 2,73
PB 74.871 19.199 7.418 2,81
AM 47.407 12.656 3.685 2,90
DF 118.952 30.358 9.017 3,02
SE 35.266 8.741 2.508 3,14
PA 92.453 21.036 8.297 3,15
MT 46.032 9.179 4,390 3,39
MS 39.906 9.351 2.395 3,40
MA 79.457 16.326 6.687 3,45
RN 73.742 13.166 6.351 3,78
TO 22.916 2.776 395 7,23
TOTAL 2.560.958 1.035.576 514.173 1,65
FONTE: Secretarias de Administração Estaduais - 2000
Elaboração: SPS/MPAS
123
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
ANEXO 2
BDMG
40 anos
PLANILHA DE ALÍQUOTAS DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL
Atualizado em 30/07/2002
Data da
UF atualiza- INATIVOS PENSIO- Legislação Vigente e Informações
ATIVOS ESTADO
ção NISTAS Complementares
AC 30/07/02 8% (para Lei Complementar n. 39, art. 270, de 18 jan.1994.
remuneração A Lei Compl. n. 52 revogou a contribuição
até duas patronal da Lei Compl. n.39, e a Portaria
vezes - - - n. 1309/00 suspendeu a contribuição dos
o valor da inativos, também prevista na LC nº.39.
menor
remuneração
paga pelo
Estado)10%
acima disso
AL 30/07/02 11% - - 11% Lei n. 6.288 de 28 mar. 2002.
AM 30/07/02 14% - - 14% LC n. 30, de 27dez. 2001, arts. 50 e 53.
A cobrança das alíquotas dos inativos e
pensionistas (14%) foi suspensa em 04/11/99,
após decisão do STF de suspender a
cobrança dos inativos da União.
AP 30/07/02 8% 8% 8% 5% Lei n. 0448, de 07 jul.1999, art. 15.
BA 30/07/02 2001: 8% 2001: 8% 2001: 8% 2002/ Lei 7943, de 05 de novembro de 2001, que
2002: 9,5% 2002: 9,5% 2002: 9,5% 2005 - 15% alterou a redação da Lei n. 7249, de 07 de
2003: 11% 2003: 11% 2003: 11% 2006: 16% janeiro de 1998, no tocante a alíquota patronal..
2004: 12% 2004: 12% 2004: 12% 2007: 17,5%
2008: 19%
2009: 20%
2010: 21%
CE 30/07/02 11% - - - Lei Complementar n.º 12 de 23/06/99, art. 5º,
alterada pela LC nº 17, de 20/12/99.
Não há previsão para o Estado.Até outubro
de 99 cobrava-se 8,5% apenas dos ativos.
DF 30/07/02 11% - - Lei Complementar n.º 232, de 13/07/99, art. 1º,
sendo que o artigo 2º prevê isenção para
inativo e pensionista.
ES 30/07/02 10% 10% - 10% Lei Complementar nº 109, de 17/12/97, art. 34.
GO 30/07/02 11% - - 22% Lei nº 13.903/01, art. 95 remete ao art. 31 da
Q Lei Complementar n.º 29, de 12/04/00.
MA 30/07/02 Até Até Até Até Lei Complementar nº 42, de 31/03/99, art. 1º
R$300 R$300 R$300 R$300 que alterou o art. 9º da Lei Complementar
8% - Acima 8% - Acima 8% - Acima 8% - Acima nº 40 de 29/12/98.
de R$ 600 - de R$ 600 - de R$ 600 - de R$ 600 -
9% - Acima 9% - Acima 9% - Acima 9%Acima
de R$ 1.200 - de R$ 1.200 - de R$ 1.200 - de R$ 1.200 -
9% - Acima 9% - Acima 9% - Acima 9% - Acima
de R$ 1.800 - de R$ 1.800 - de R$ 1.800 - de R$ 1.800 -
10% 10% 10% 10%
MG 30/07/02 11% 4,8% - 22% p/ ativo Lei Complementar nº 64, de 25/03/2002.
2,4% p/ inativo
MS 30/07/02 2001/2002 - 14% em 2001 Lei n.º 2.207, de 28/12/2000, art. 14. O parágrafo
9% mais 1% ao 2º do mesmo artigo isenta os inativos.
2003 - 10% - - ano até atingir
20%
MT 30/07/02 8% até 8% até 8% até - Lei Complementar nº 56, de 22/01/99, art. 2º.
R$260,00 R$260,00 R$260,00 A partir de julho de 1999, muitos trabalhadores
12% acima de 12% acima de 12% acima de obtiveram liminares na justiça restituindo a
R$260,00 R$260,00 R$260,00 cobrança de acordo com as alíquotas antigas:
8% até 3SM; 8,5% entre 3 e 5SM; 9% entre 5
e 7SM e 9,5% acima de 7SM.
PA 30/07/02 8% - - 16% Lei Complementar n.º 39, de 09/01/2002, art. 84.
PB 30/07/02 8% - - 8% Decreto n.º 5.144 de 28/10/70, c.c. o Decreto nº
20.974, de 30/03/00.
P 30/07/02
E 13,5% - - 13,5% Lei Comp. n.º 28 que institui a cobrança de 13,5%
dos servidores ativos para custeio de
aposentadorias e pensões. Inativos e
pensionistas não mais contribuirão.
(continua...)
124 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
ANEXO 2 (Continuação)
BDMG
40 anos
PLANILHA DE ALÍQUOTAS DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL
Atualizado em 30/07/2002
Data da
UF atualiza- INATIVOS PENSIO- Legislação Vigente e Informações
ATIVOS ESTADO
ção NISTAS Complementares
PI 30/07/02 8% até - - 8% até Lei n.º 5.078, de 26/07/99, art. 1º que deu nova
R$280 - 10% R$280 - 10% redação ao art. 50, I e II, da Lei 4.051/86.
de R$280 a de R$280 a
R$1200 R$1200
12% acima 12% acima
de R$1200 de R$1200
PR 30/07/02 10% até 10% até 10% até 10% até Lei nº 12.398, de 30/12/98, arts. 78 e 83.
R$1200 R$1200 R$1200 R$1200
14% sobre a 14% sobre a 14% sobre a 14% sobre a
parcela que parcela que parcela que parcela que
ultrapassar ultrapassar ultrapassar ultrapassar
R$1200 R$1200 R$1200 R$1200
RJ 30/07/02 11% 11% - 11% Lei n.º 3.189/99, art. 33.Até 13/01/2000
a contribuição de 11% atingia os aposentados
e pensionistas, suspensa por decisão do TJ.
RN 30/07/02 8% - - 7% Lei 5.693/87 prevê alíquota patronal e a Lei n.º
2.728, de 01/05/62, art. 28, com redação pela
Lei nº 4.937 de 30/05/80 estabelece alíquota
do servidor.
RO 30/07/02 8% - - 8% Lei Complementar 228, de 10/01/00, art. 72.
Antes desta Lei, ativos, inativos e pensionistas
contribuíam com 8%.
RR 30/07/02 11% - - 2002 - 11% A Lei Complementar nº 54, de 31/12/2001,
2003 - 12% art. 128, \"caput\" e §4º, e anexo único.
2004 - 14%
2005 - 16%
2006 - 18%
2007 - 20%
2008 - 22%
RS 15/07/02 5,4% 5,4% 2% sobre a - Alíquotas previstas no art. 42 da Lei n.º 7.672,
(+ 2% de (somente p/ remuneração de 18/06/82, art. 42, especificadas pela Lei
contribuição pensão) líquida Complementar nº 10.588, de 28/11/94, alterada
suplementar) pelo Decreto nº 41.232, de 26 de novembro de
2001 que separou as alíquotas p/ saúde.
SC 15/07/02 8% até 1 x a 8% até 1 x a - - Lei Complementar n.º 129, de 07/11/94,
mr (menor mr9% de 1 art. 16, alterada pela Lei Complementar 179 de
remuneração) até 4 x a mr 23/06/99 que suspendeu a cobrança dos
9% - 1 a 4 x a 10% de 4 até pensionistas.
mr.10% - 8 x a mr11%
4 a 8 x a mr de 8 até 14 x
11% - 8 a a mr12%
14 x a mr acima de
12% mais de 14 x a mr
14 x a mr Apenas
Apenas p/ p/ pensão
pensão
SE 15/07/02 10% sobre o 10% - 10% Lei 4413/2001 - Art. 1º.
salário de
contribuição.
-Estado: 10%
incidente
sobre o total
da folha de
pagamento
dos
servidores
estatutários.
SP 15/07/02 6% p/ pensão 6% p/ pensão - 6% Lei Complementar nº 180, de 12/05/78.
TO 15/07/02 11% 3% em 2002 Lei 1246, de 06/09/2001, arts. 74 e 76, com
4% em 2003 redação pela Lei 1324/02.
+ 1% ao ano
até chegar
em 11% em
2011.
125
Capítulo 3 - Resgatando as finanças públicas
BDMG
40 anos
126 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME IX
TRANSFORMANDO O PODER
PÚBLICO: A BUSCA DA EFICÁCIA
CAPÍTULO 4
POLÍTICAS PÚBLICAS DO ESTADO
DE MINAS GERAIS PARA A REGIÃO
METROPOLITANA DE
BELO HORIZONTE (RMBH)
Willian S. Penido Vale
(Doutor em Economia Regional e Consultor Internacional)
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................................................... 131
4.1. RETROSPECTIVA: O PRIMEIRO SÉCULO DE POLÍTICAS PÚBLICAS
MINEIRAS PARA O TERRITÓRIO CONEXO À ATUAL REGIÃO
METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE (RMBH) ........................................................................... 132
4.2. AVALIAÇÃO SUMÁRIA DE ALGUNS INDICADORES DA RMBH
AO FINAL DO SÉCULO XX ................................................................................................................................... 136
4.3. RMBH: A BASE INSTITUCIONAL PREVALENTE ................................................................................... 140
4.4. RMBH: INSERÇÃO NA ECONOMIA GLOBAL ........................................................................................... 142
4.5. RMBH : PRESSUPOSTOS PARA AS POLÍTICAS PÚBLICAS ................................................................. 146
4.6. CONCEPÇÕES PARA POLÍTICAS PÚBLICAS DE INCLUSÃO SOCIAL
NA RMBH (AGENDA VERMELHA) ................................................................................................................. 149
4.7. DIRETRIZES GERAIS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA AGENDA
INCLUSIVA (VERMELHA) .................................................................................................................................... 152
4.8. CONCEPÇÕES PARA AS POLÍTICAS PÚBLICAS DIRIGIDAS
À COMPETITIVIDADE METROPOLITANA (AGENDA AZUL) ......................................................... 154
4.9. DIRETRIZES PARA AS POLÍTICAS DE INCREMENTO DA
COMPETITIVIDADE METROPOLITANA (AGENDA AZUL) ............................................................. 156
4.10. RMBH: CONCLUSÕES PARA UM NOVO PAPEL DO ESTADO ........................................................... 158
4.11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................... 160
BDMG
40 anos
Introdução
Ajudaria, talvez, para o entendimento desta versão do texto, qualificar sumariamente sua
gênese e algumas hipóteses de trabalho:
As regiões metropolitanas, em todo o mundo, articuladas em rede, em graus variados,
administram funções e fluxos aos quais se subordina o desempenho próprio das economias nacionais.
Consoante tal nexo, este trabalho procura abordar a Região Metropolitana de Belo Horizonte
(RMBH) do ponto de vista, preferencialmente, da formulação de políticas públicas metropolitanas
pelo ator Governo de Minas Gerais (Estado). O universo das políticas preconizadas e seu
substrato analítico incidem sobre variáveis, predominantemente, da categoria usualmente trabalhada
pelos analistas do desenvolvimento econômico.
Promove-se incursão paradigmática, procurando estabelecer alguma causalidade entre o
processo de globalização, a estrutura produtiva e a forma urbana da RMBH, examinando os eixos
manifestos da competitividade sistêmica e da exclusão social na região. Tal exploração suporta a
concepção e a proposição de diretrizes para políticas públicas metropolitanas.
Como exposto, e pelo entendimento da missão original, a abordagem adotou o partido da
visão prospectiva vista de fora, isto é, em boa medida aquela do planejamento estadual
Tampouco tentou explorar a via da metrópole de vocação única, reconhecendo, não obstante,
do ponto de vista do ente político-administrativo Estado de Minas Gerais, o caráter estratégico da
RMBH para o desenvolvimento estadual sustentado de longo prazo.
Nesse sentido, as ações do Estado devem convergir para a promoção social de uma
organização produtiva territorial capaz de abrigar níveis crescentes de competitividade e inclusão
social metropolitana.
A conciliação desses propósitos é imperativa, porque inevitável e desprovida de alternativas,
isto é, exceto o fracasso, o que não se cogita como opção.
Emergem, contudo, estratégias possíveis e derivadas de experiências vitoriosas e saudável
base conceitual. Trata-se, em última análise, no nível metropolitano, de acelerar, inovadoramente,
a transição dos arranjos produtivos existentes para sistemas produtivos territoriais. Ou seja, da
gradual e sustentada construção de um sistema de acumulação suscetível de garantir o equilíbrio
tenso e criativo da cooperação, da competição e da inserção social.
Num ambiente, como o brasileiro, marcado pelos limitantes macroeconômicos e a saliência
dos conflitos de interesse, as políticas do Estado para a RMBH deverão se pautar pelo protagonismo
pluralista, pela visão inovadora na reorganização dos sistemas produtivos e pela captura criativa
das sinergias possíveis dos ganhos de competitividade e da inclusão social. Tais constatações dão
lugar a uma pauta de ações convergentes, designadas Agenda Vermelha (inclusão) e Agenda Azul
(competitividade). Os veículos e instrumentos para administrar tal convergência existem.
Existem as pessoas, as idéias, as organizações estaduais, metropolitanas e locais. Sintonizá-
las, coordená-las, criar novas institucionalidades e pô-las em marcha é uma tarefa política. Que
ocorra!
131
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
BDMG
40 anos
4.1. Retrospectiva: O primeiro século de
políticas públicas mineiras para o território
conexo à atual Região Metropolitana de
Belo Horizonte (RMBH)
O ímpeto inicial para a ocupação permanente da RMBH data das primeiras décadas do
século XVIII. A razão fundamental, à época, era a da exploração dos aluviões auríferos nas bacias
dos afluentes dos rios das Velhas e Paraopeba. Daí a gênese de lugares centrais como Sabará,
Caeté, Nova Lima, Rio Acima e outros. A partir da atividade motriz da mineração advieram
demandas novas e correlatas por bens agropecuários e industriais incipientes. Contagem,
Esmeraldas e Betim qualificariam o primeiro caso; Santa Luzia o segundo. Ainda, a reorientação
espacial protagonizada pela implantação ferroviária (final do século XIX) e pelo ciclo rodoviário
do pós-guerra viria a reconfigurar e/ou reforçar a paisagem de lugares centrais da região
(Brumadinho).
A espontaneidade foi a característica marcante da ocupação territorial da região durante os
dois primeiros séculos. As ações de estado (comando) limitavam-se, em ambos os regimes, colonial
e imperial, à administração da justiça, manutenção da ordem pública, precária administração de
caminhos e coleta de rendas fiscais. Qual seja, a prevalência de nexo liberal clássico para a gestão
pública.
O último quartel do século XIX foi marcado por iniciativas firmes e pioneiras de políticas
públicas associadas ao desenvolvimento do território hoje correspondente à RMBH. Tais iniciativas
originaram-se, então, no âmbito dos dois entes políticos superiores, o Governo Federal e o Governo
Estadual, na acepção contemporânea, com a preponderância programática e operativa do último.
O grande impulso adveio com a implantação deliberada da nova capital do Estado, Belo
Horizonte, inaugurada em 1897. À época, tal feito incorporava várias dimensões de políticas
públicas.
A implantação dos equipamentos urbanos básicos, numa paisagem agreste, configurou a
indústria da construção, nas várias modalidades, como atividade motriz ao longo das primeiras
décadas do século XX. A par do lançamento progressivo da rede viária urbana, dos edifícios
públicos, de residências para parcela da burocracia, das obras mínimas essenciais de saneamento
básico e ambiental, das redes de eletricidade e telecomunicações, completou-se a trama ferroviária
de acesso à nova capital.
Quase todas essas ações, em larga escala, foram financiadas através do orçamento estadual.
As políticas públicas para a região assumiram, assim, já na transição para o século XX, certa
feição keynesiana, com o agente indutor estadual na primazia do comando das políticas de geração
de renda e emprego via orçamento. Eram, não obstante, tais políticas, durante as quatro primeiras
décadas, centradas, em larga medida, na provisão dos equipamentos essenciais ao funcionamento
das funções públicas inerentes à nova cidade-capital.
Do ponto de vista da difusão espacial, sobre o território hoje definido pela RMBH, os
efeitos, até a Segunda Grande Guerra (2ªGG), decorrentes da implantação progressiva do projeto
da nova capital, foram limitados. De um lado induziu-se demanda crescente por produtos primários
132 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
para uma população urbana em expansão. Com isso configuravam-se novas zonas e cinturões de
BDMG
40 anos
produção agropecuária, de materiais de construção, etc. Em tais circunstâncias, inaugurava-se o
ciclo da progressiva devastação da cobertura florestal residual de matas ciliares e da poluição
hídrica nas bacias ribeirinhas locais.
A implantação progressiva da nova capital permitiu, do ponto de vista das políticas públicas
do Estado para com a região, uma gradual redução do perfil minimalista prévio. Seja pela
aludida feição keynesiana do impulso empreendedor público, seja, sobretudo, pela diversificação
na produção e incentivo ao consumo de certos bens coletivos: educação pública com razoável e
crescente oferta, saúde pública preventiva (vacinação e saneamento básico), habitação para parcela
seletiva da burocracia estadual, transporte público de baixo custo, etc. Tudo isso, a par de
considerável expansão do emprego público, nos três níveis de governo, na região.
Ainda nessa fase, adstrita à primeira metade do século XX, o processo decisório, associado
à formulação das políticas públicas para a capital, era confinado a limitado e seleto número de
atores detentores do poder público estadual. Programas e projetos eram essencialmente definidos
de cima para baixo, com recurso apenas marginal, se tanto e eventual, ao escrutínio de empresários,
agências da sociedade civil e população em geral.
Destarte, até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a marca característica da estrutura
espacial do território atual RMBH era a da ausência de contigüidade física.
O início do processo de conurbação dinâmica crescente, que desde os anos 50 vem marcando
o espaço metropolitano, guarda relação causal com significativas alterações de rumo na formulação
das políticas públicas estaduais para a região.
O primeiro evento de realce teve lugar ainda durante a guerra, com a implantação do
Complexo da Pampulha. Medido pelas possibilidades orçamentárias e o arrojo dos propósitos de
então, tratou-se de efetiva mudança de patamar para a intervenção do poder público. Além dos
efeitos projeto, decorrentes do impacto de grandes obras pontuais, para os padrões da época,
sobre a atividade econômica regional, tratava-se, deliberadamente, de, através de incentivos
públicos, criar equipamentos essenciais para uma ainda inexistente industria regional do turismo e
lazer. Buscava-se, com extraordinário pioneirismo, configurar a individualidade cultural da cidade
(região) através da gestação programada e criativa de ativos artísticos, paisagísticos e de lazer. A
elaboração e a exploração de peculiaridades culturais regionais para os fluxos de turismo constitui,
hoje, premissa expressiva das recomendações para incrementar, num contexto globalizado, a
competitividade local/regional.
O impacto do Complexo da Pampulha sobre a forma urbana da futura Região Metropolitana
foi considerável. Consolidou-se a contigüidade urbana de Belo Horizonte para o norte, extravasando-
se em conurbação pronunciada, na segunda metade do século XX, na direção de Ribeirão das
Neves, Vespasiano, Santa Luzia, Lagoa Santa e Pedro Leopoldo.
Como ação de estado, a implantação do complexo da Pampulha revelou, pioneiramente,
um Estado criativo, desinibido e motivado para a promoção industrial, isto é, não limitado à
produção de bens públicos urbanos tradicionais. Ademais, configurou-se, explicitamente, o caráter
pró-ativo do empreendimento, visando à constituição deliberada de um pólo de atração turística e
de lazer conectado com o ambiente econômico externo.
O caráter pró-ativo das políticas públicas mineiras, relativamente ao território do entorno
imediato de Belo Horizonte, expandir-se-ia ainda mais nos anos imediatamente seguintes à Segunda
Guerra. A criação da Cidade Industrial Juventino Dias, no município de Contagem, pressagiaria
um ciclo mais enérgico e afirmativo da política industrial para a região.
133
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
A par da promoção direta de infra-estrutura e concessão de terrenos industriais, com a
BDMG
40 anos
implicação subjacente dos subsídios atribuídos diretamente à atividade produtiva privada, avultou
a presença primeira do estado-empresário, como produtor de insumos energéticos para a nova
empreitada industrial.
A política de distritos industriais e incentivos seletivos para o fomento expandiu-se, sobretudo
a partir dos anos 70, para outros municípios da região. Já na esteira do primeiro distrito industrial
(Contagem) ampliou-se a conurbação na direção oeste, configurando novo e expressivo patamar
demográfico regional.
O ativismo das políticas industriais do Estado, com impacto sobre o território da RMBH,
tornou-se ainda mais pronunciado, já no início dos anos 70, com a efetiva participação estadual
no planejamento, incorporação, implantação e co-gestão de empreendimentos industriais de porte
e escala. Tal foi o caso da instalação do primeiro pólo automobilístico nacional fora da Região
Metropolitana de São Paulo (RMSP). No contexto, o foco da política industrial estadual foi o de
deflagrar processo acelerado de crescimento regional, a partir da operação da indústria motriz
dinâmica.
O ativismo empresarial do Estado na região, desde a implantação do primeiro distrito
industrial, ensejou, ao nível do processo decisório, a participação seletiva e crescente da sociedade
civil, particularmente, das representações empresarias e das firmas médias e grandes.
Também, em síntese com a iniciativa pioneira do Estado provedor de insumos energéticos,
advieram novas instâncias pró-ativas, relativamente à Região Metropolitana, identificadas pela
constituição de agências de planejamento, pesquisas e fomento do desenvolvimento metropolitano.
Todavia, já a partir do início dos anos 80, e em progressão acelerada, o ativismo industrial
do Estado relativamente à RMBH declinou até a quase completa exaustão da inspiração, da vontade
política e dos recursos e meios autônomos disponíveis para a formulação e implantação de políticas
industriais metropolitanas.
A crise nacional dos anos 80 e as seqüelas macroeconômicas dos anos 90 refrearam o
ímpeto desenvolvimentista do Estado para com a RMBH.
O QUADRO 1 sumariza a retrospectiva histórica das políticas regionais do Estado e da
União relativamente à RMBH. A globalização vem promovendo novas limitações para as ações
keynesiana e pró-ativas do Estado na promoção do desenvolvimento metropolitano. Novos desafios
e oportunidades surgiram. Há que examiná-los, criativamente, e adotar, coletivamente, um partido
para a ação. As tendências correntes ilustram elenco de políticas regionais de sucesso
internacional e suscetível de aplicação pelo Estado.
134 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
QUADRO 1
BDMG
40 anos
PARADIGMAS DAS POLÍTICAS REGIONAIS APLICÁVEIS
PERÍODO EUROPA / ESTADOS UNIDOS RMBH REFERÊNCIAS BÁSICAS
Até 2ª GG • Keynesianas Idem Hoover(1948),Hirschmann
(1958),Tiehout(1956), Isard(1956)1.
• Ativismo Estatal Idem
Pós 2ª GG • Keynesianas Idem Marshall(1890), Hirschmann(1958),
• Ativismo Estatal Idem Perroux(1955), Paelinck(1963),
Hansen(1967), Friedmann(1972)2.
• Estado Empresário Idem
• Incentivos Fiscais Idem
• Pólos de Industrialização Idem
• Distritos industriais Idem
Tendências • Sistemas Regionais de Freeman(1995), Porter(1990),
Correntes4-5 Inovação Tecnológica (SRIT) Porter(1998), Schmitz &
Nadvi(1999), Aydalot(1986)3.
• Clusters
• Distritos Industriais ?
• Entorno Inovador
• Parques Tecnológicos
• Redes de Trabalho
As referências essenciais são encontradas em HOOVER (1948), HIRSCHMANN (1958), TIEBOUT (1956), ISARD (1956).
1
O conceito de distrito industrial remonta a A. Marshall, no contexto de padrão organizacional industrial inglês do final do séc.
2
XIX. Ver MARSHALL (1925). Ver, também, HIRSCHMANN (1958), PERROUX (1955), PAELINCK (1963), HANSEN
(1967), FRIEDMANN (1972).
FREEMAN (1995), PORTER (1990; 1998), SCHIMTZ & NADVI (1999), AYDALOT (1986). Ver, ainda, CASSIOLATO &
3
LASTRES (2000), LASTRES et al. (1998)
As polícas regionais referidas lastreiam-se em práticas exitosas relativamente recentes e corpo de doutrina já elaborado. Regra
4
geral, tais políticas, prioritariamente dirigidas para Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME), procuram acelerar a metamoforse
dos arranjos produtivos locais em sistemas produtivos locais. As concepções subjacentes são evolucionistas e fundadas na noção
de inovação e no instrumental das capacitações inovativas.
Distintamente das políticas regionais clássicas, predominantemente dependentes de iniciativas macroeconômicas, as tendências
5
correntes atuam a partir de nexo mesoeconômico, em que o papel do Estado é de aglutinação / coordenação, com foco na
construção de entornos inovadores.
135
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
4.2. Avaliação sumária de alguns indicadores da
BDMG
40 anos
RMBH ao final do Século XX
Ao findar o século XX, a RMBH compreendia 33 municípios6 e apresentava população
superior a quatro milhões de habitantes, representando cerca de 24% da população mineira. A
cidade de Belo Horizonte, por seu turno, compreendia, aproximadamente, 12,5% da população
estadual e 51% da população metropolitana.7
A dinâmica populacional da RMBH na segunda metade do século XX foi marcada pela
primazia dos fluxos migratórios para a expansão demográfica regional, marcada por uma taxa
média anual de crescimento superior a 5% a.a. Ao longo das duas últimas décadas, os municípios
de Belo Horizonte e Contagem vêm exibindo evidências de relativa estabilização. Betim, por
outro lado, mantém expressivo crescimento urbano. Atuam aqui as questões correlatas do
estancamento (ou não) das oportunidades econômicas e do adensamento espacial diferenciado.
Quanto ao valor agregado na região, o PIB regional e o de Belo Horizonte correspondiam,
respectivamente, a 35,2% e 22,8% do PIB estadual. Vale dizer que o município de Belo Horizonte
respondia, aproximadamente, por dois terços da atividade econômica intra-metropolitana. Se
desagregados pelos setores fundamentais, as evidências sugeriam os dados constantes na TAB. 1.
TABELA 1
PARTICIPAÇÃO NA FORMAÇÃO DO PIB ESTADUAL - 1999
%
ENTE Serviços Indústria Agropecuária Total
Belo Horizonte 33,1 15,7 - 22,8
RMBH 42,8 33,8 1,4 35,2
FONTE: FJP/Elaboração WSPV
Qual seja, da preeminência de Belo Horizonte, lugar central com maior número de funções
urbanas no território estadual, na formação do PIB mineiro de serviços. No caso da capital, os
setores do comércio varejista e da administração pública, combinados e em proporções equivalentes,
contribuiriam com cerca de 45% do PIB local, ou, ainda, com cerca de 11% do PIB estadual.8
Analogamente, do ponto de vista municipal e regional, a composição do PIB seguiria a
mesma intensidade em serviços (TAB. 2):
ALMG, Lei Complementar n. 56, de 12 jan. 2000. Pela ordem alfabética, os seguintes municípios foram incorporados: Baldim,
6
Belo Horizonte, Betim, Brumadinho, Caeté, Capim Branco, Confins, Contagem, Esmeraldas, Florestal, Ibirité, Igarapé, Itaguara,
Jaboticatubas, Juatuba, Lagoa Santa, Mário Campos, Mateus Leme, Matozinhos, Nova Lima, Nova União, Pedro Leopoldo,
Raposos, Ribeirão das Neves, Rio Acima, Rio Manso, Sabará, Santa Luzia, São Joaquim de Bicas, São José da Lapa, Sarzedo,
Taquaraçu de Minas, Vespasiano. A Lei Complementar n. 63, de 2002 incorporou o município de Itatiaiuçu à RMBH.
A base de dados utilizada para as estatísticas metropolitanas referida a: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Informações Básicas
7
da RMBH (1998); FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Boletim de Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMBH. (1999).
Fontes complementares de informação metropolitanas encontradas em Fundação João Pinheiro. Homepage; IBGE. Pesquisa
8
Nacional por Amostra Domiciliar. (1999).
136 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
TABELA 2
BDMG
40 anos
COMPOSIÇÃO DO PIB RESPECTIVO - 1999
%
ENTE SERVIÇOS INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA
Belo Horizonte 71,5 28,5 -
RMBH 59,8 39,8 0,4
Minas Gerais 49,2 41,4 9,4
FONTE: FJP/Elaboração WSPV
Quanto a indicadores mais amplos de qualidade de vida, o IDH mensurado em meados
da década passada configurava valor superior a 0,800 para Belo Horizonte (0,838) em contraste
com valores para a RMBH e para o Estado de Minas Gerais, aproximadamente, de 0,750 e
0,670. 9
O município de Belo Horizonte exerce ação polarizadora sobre a economia do Estado
em geral e da região metropolitana, em particular. Em termos do número de empresas, Belo
Horizonte absorve 70,5% do total da RMBH e 20% do total de Minas Gerais. No que diz
respeito aos empregos formais gerados pelos setores da indústria, comércio e serviços, a RMBH
absorve 49% do total mineiro, enquanto BH compreende 74% do total regional.1 0
Na última década do século XX, a da abertura da economia brasileira, a estrutura
econômica de Belo Horizonte sofreu transformações, consoante tendências de outras regiões
metropolitanas. A participação do setor industrial no PIB metropolitano, no período de 1993 a
2000, passou de 20,74% para 18%. A indústria de transformação reduziu sua parcela de 14,15%
para 9%. Nesse contexto, atividades produtivas outrora relevantes encolheram-se em termos
relativos, como a indústria extrativa mineral, que passou de 0,47% para 0,01%. Outras atividades
prosperaram no mesmo período, a exemplo da indústria da construção civil, que passou de
3,61% para 6%, ou de transportes, de 3,86% para 5,4%. A administração pública manteve-se
em um patamar relativamente estável, com 21%, enquanto o setor comércio/ serviços, de
maior expressão no PIB, teve um incremento significativo, passando de 52,27% para 54,46%.
O setor de serviços é dominante na economia de Belo Horizonte, com cerca de 71% do total
de empresas, seguindo-se o comércio, com 18% e, a indústria, com, 11%.
O segmento das micro e pequenas empresas (MPE) constitui dominância em Belo
Horizonte, compreendendo 97,6% das empresas industriais, comerciais e de serviços existentes.
Nas últimas décadas ampliaram sua participação na economia local e vêm consolidando uma
malha produtiva, ao mesmo tempo densa e extensa, que concentra seu efeito difusor sobretudo
na própria comunidade. Cerca de 62% do valor das compras das MPE localizadas na RMBH
são provenientes do próprio município (contra 51% no caso das MPE mineiras, em geral). Por
outro lado, cerca de 80% de suas vendas destinam-se ao próprio município. As empresas
industriais, em particular, destinam uma parcela maior de suas vendas para outras localidades,
da ordem de 40%.1 1
FJP (1998).; FJP. Homepage. Dados trabalhados num contexto de planejamento estratégico metropolitano são acessíveis em:
9
INSTITUTO HORIZONTES. Plano Estratégico da Grande BH. Ver também: IBGE. Atlas do Desenvolvimento Humano no
Brasil (1998).
IBGE (1999).; FJP (1999).
10
FJP (1999); IBGE (1999) ; SEBRAE-MG. Perfil das Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais. (1997).
11
137
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
Dentre as atividades produtivas registradas na Região Metropolitana, assinalam-se:
BDMG
40 anos
(a) a presença de grandes empresas, em setores variados, como metalurgia, indústria
extrativa, têxtil, construção pesada, finanças, serviços públicos, etc.;
(b) as pequenas atividades produtivas ligadas à indústria de transformação, que se encontram
dispersas em vários pontos do espaço urbano, tais como confecções, calçados, móveis,
alimentação, bebidas, gráfica, produtos químicos, etc.;
(c) a extensa variedade de estabelecimentos comerciais, varejistas, atividades lojistas e
correlatos;
(d) as micros e pequenas unidades produtivas informais, com presença saliente no comércio
de mercadorias, serviços de apoio domiciliar e diversões, construção civil, indústrias
de transformação e extrativa mineral;
(e) a profusa cadeia de estabelecimentos, agências e instalações provedoras de serviços
públicos relativos aos três níveis de governo;
(f) a produção artesanal, de base difusa e diversificada, incluindo, bordados, tecelagem,
tapeçaria, doces, bebidas, bijuterias e jóias, trabalhos em pedra, madeira, etc;
(g) as atividades da construção civil;
(h) as atividades de turismo, sendo este voltado, particularmente, para eventos e negócios,
além do turismo receptivo para alguns dos principais destinos turísticos do Estado;
(i) as atividades educacionais, culturais, artísticas, de P & D, C & T, de lazer, etc.;
(j) os agrupamentos comerciais de portes variados, formados pelos shopping e centros
comerciais diversos;
(k) as atividades de prestação de serviços de saúde, hospitais, etc.;
(l) as cooperativas de produção, consumo e de serviços profissionais (medicina,
odontologia, etc.);
(m) os serviços diversos de suporte às atividades econômicas, tais como despachantes,
transportes, etc.;
(n) as incubadoras em fase de implantação/expansão;
(o) os pólos produtivos voltados para atividades intensivas em tecnologia, tais como
biotecnologia, informática/ tecnologia de informação, etc.
No interior do sistema produtivo metropolitano coexistem diferentes categorias, consoante
o grau de interface, inclusão ou inserção no contexto da economia globalizada. Em um extremo
ao longo de um continuum, situam-se os setores dinâmicos, formados, em geral, por grandes empresas
exportadoras e por um conjunto de pequenas empresas em segmentos específicos, tais como
biotecnologia, tecnologia da informação, empresas do segmento de moda e confecção,
empreendimentos de produção de serviços de educação, saúde e cultura, que vêm conquistando
patamares superiores de competitividade, graças à capacidade de inovação e/ou poder de barganha,
levando o nome e a marca de Minas para fora das fronteiras do Estado e do país. Tratam-se, por
conseqüência, das atividades dominantes, perfeitamente inseridas na rede global.
138 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Na outra extremidade situam-se as pequenas atividades produtivas informais, de um ou
BDMG
40 anos
mais empregados, trabalhadores por conta própria e autônomos, em geral de baixa qualificação,
com tênues laços de conexão, via mercado, com o estrato acima. Topologicamente, entre esses
dois estratos, localiza-se um segmento produtivo amplo e diversificado, constituído por micro e
pequenas empresas que produzem em larga medida para o mercado metropolitano e que encontram
obstáculos gerenciais, tecnológicos, mercadológicos e de acesso ao crédito, para incrementos
substanciais de competitividade.
Essas diferentes categorias suscitam formas de intervenção distintas e complementares,
em termos de políticas públicas e programas de apoio. O segmento constituído por setores e
empresas dinâmicos, inseridos no contexto globalizado, solicita políticas de incremento da
competitividade global. Um elenco dessas políticas é de cunho macroeconômico e afeito ao espaço
de decisões da União política industrial, de ciência e tecnologia, tarifas e defesa comercial,
acordos de livre comércio, reforma tributária, redução do custo-Brasil, etc.
No outro extremo, o segmento constituído por empreendedores informais, autônomos e
trabalhadores por conta própria reivindica medidas básicas de intervenção pública, para geração
de trabalho, renda e inclusão social. Intermediariamente, encontra-se o grande contingente de MPE,
em busca de soluções dos problemas estruturais de sobrevivência empresarial e associados ao capital
de giro, gestão e acesso à informação, ao crédito, aos mercados, à administração pública, etc.
Neste contexto, e para o benefício da simplificação do discurso, identificam-se, em
justaposição ao continuum dos segmentos produtivos, duas agendas não exclusivas, interativas,
sinérgicas e orientadas para as políticas públicas de foco metropolitano: a Agenda Vermelha,
voltada para a atenuação da exclusão social metropolitana, e a Agenda Azul, focada na construção
de maior competitividade territorial para a RMBH. Não se trata de estratificar o planejamento ou
ainda de dualizar o espaço das políticas públicas. Trata-se apenas de concessão metodológica
para a análise. Na prática da política e do planejamento metropolitano participativo, tais agendas
se interpenetram e a praxis decorrente será o resultado da habilidade e do poder negocial dos
atores relevantes sob o escrutínio aglutinador do Estado.
139
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
BDMG
40 anos
4.3. RMBH: a base institucional prevalente
O ente região metropolitana foi entronizado na doutrina constitucional brasileira através
da Constituição Federal de 1967 e da Emenda Constitucional subseqüente (1968). Ainda, no
âmbito da legislação federal, a Lei Complementar 14/73 criou regiões metropolitanas, inclusive a
RMBH, e qualificou os serviços comuns de interesse metropolitano. Remeteu também aos Estados
poderes para a criação das instâncias de decisão colegiada (conselhos) de tais entes.
Posteriormente a Constituição Federal de 1988 no cap.III, art. 25, §3º, atribuiu aos estados,
mediante lei complementar, poderes para instituir regiões metropolitanas ( ) constituídas por
agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução
de funções públicas de interesse comum.
Na esfera legislativa estadual, a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) foi,
inicialmente, regulamentada pela Lei 6.303/74, modificada pelas Leis 6.695/75 e 6.765/76.
Já no bojo da Constituição Mineira de 1989 foi mantida a RMBH (art. 50 do Ato das
Disposições Transitórias), além de ter sido criado um novo ente, o Colar Metropolitano (art. 51),
formado por municípios do entorno da Região Metropolitana, afetados pelo processo de
metropolização, para integrar o planejamento, a organização e a execução das funções públicas de
interesse comum 1 2.
Sobretudo, de primacial importância para o processo decisório metropolitano foi criada a
Assembléia Metropolitana (arts. 43 e 45 da Constituição Estadual), com atribuições, dentre outras,
de exercer o poder normativo regulamentar de integração do planejamento, da organização e da
execução das funções públicas de interesse comum. Estas últimas são definidas e incidem sobre
a provisão de bens e equipamentos públicos convencionais tais como: transportes e sistemas
viários de âmbito metropolitano, saneamento básico e ambiental, saúde pública, preservação e
proteção ambiental, uso do solo metropolitano, habitação, etc. Sobremaneira, configura-se
competência para o planejamento integrado do desenvolvimento socioeconômico metropolitano.
Diplomas legais posteriores ao longo dos anos 90, definiram e qualificaram competências.
A Lei Complementar 26/1993 constituiu-se num marco de referência ao dispor sobre as atribuições,
a organização e o funcionamento da Assembléia Metropolitana da RMBH. Outros diplomas
subseqüentes, Leis Complementares 48/1997, 49/1997 , 53/1999 e 56/2000, et al, ainda
modificaram ou aperfeiçoaram disposições da Lei Complementar 26/1993.
O processo decisório preconizado pelos diplomas destacados relativamente à Assembléia
Metropolitana (AMBEL), e em concordância com a precisa disposição das funções públicas de
interesse comum, sugere algumas dificuldades. A composição da Assembléia é assentada
basicamente nos eleitos para funções legislativas e executivas municipais. A própria composição
estatuída dilui consideravelmente o peso relativo da participação do município de Belo Horizonte.
Numa organização de decisão coletiva unicameral, como é o caso, a diluição da presença política
belo-horizontina tende, naturalmente, a esvaziar ex-ante o alcance político e de representatividade
normativa do empreendimento.
Atualmente, nos termos da Lei Complementar nº 63, de 10 de outubro de 2002, o Colar Metropolitano é formado pelos seguintes
12
municípios: Barão de Cocais, Belo Vale, Bonfim, Fortuna de Minas, Funilândia, Inhaúma, Itabirito, Itaúna, Moeda, Pará de
Minas, Prudente de Morais, Santa Bárbara, São José da Varginha e Sete Lagoas.
140 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
Ainda, a transposição do mesmo modelo político de gestão municipal para a esfera
BDMG
40 anos
metropolitana tende a reduzir significativamente a presença e o interesse da sociedade civil no
processo decisório. No âmbito da provisão regional de serviços públicos de interesse comum,
as disfunções já se fazem óbvias. Tome-se o caso, por exemplo,do saneamento básico, com evidentes
assimetrias nos interesses dos distintos municípios relativamente à proteção de aqüíferos e
mananciais, tratamento de efluentes, composições tarifárias, etc. Daí, emergem obstáculos às
soluções mais eficazes pela ausência da representatividade melhor desenhada no corpo legislativo
metropolitano.
Tais circunstâncias tendem a se agravar quando se levam em consideração os novos
paradigmas para o desenvolvimento regional, com ênfase crescente no empoderamento da sociedade
civil, sustentabilidade, novas institucionalidades e interatividade. Aqui, certamente, residem
solicitações eloqüentes para a revisão e o aprimoramento do modelo deliberativo preconizado
para a gestão metropolitana.
Retrospectivamente, ao longo das últimas três décadas, o processo decisório metropolitano
evoluiu, com referência aos marcos políticos e institucional, da prevalência inicial da norma federal
(1965/75), através da intensa estadualização do problema (aprox. 1976/1989), para a
municipalização fragmentada (anos 90) corrente.
Como tal, a AMBEL, composta por quase uma centena de representantes detentores de
mandatos políticos municipais e coerente com o seu desenho legal, tende a sobrevalorizar os
municípios de baixa massa demográfica, enquanto, no sentido oposto, subvaloriza aqueles de
peso populacional.
Avultam-se, assim, certos efeitos perversos para a boa gestão metropolitana. A incapacidade
da definição de agenda inclusiva e democrática para o planejamento estratégico metropolitano é
um caso em pauta. A própria inexistência, distintamente do passado (PLAMBEL), de espaço
legitimado e eficaz para a resolução das questões técnicas do cotidiano metropolitano situa outra
disfunção. Enquanto isso, repercutem os problemas de relacionamento metropolitano: (a) entre
os municípios; (b) entre municípios, Estado e agentes coletivos estaduais; (c) entre municípios e
a União, etc.
Em face de tais disfunções, também características de outras regiões metropolitanas do
país e de outros ambientes nacionais, propõem alguns analistas a implantação de um quarto nível
de poder público metropolitano suscetível de amenizar e mesmo retificar tais desvios. A
questão é complexa e transcende o nível da competência constitucional estadual. Esta última,
contudo, poderia abrigar soluções político-administrativas criativas. Como por exemplo, a
implantação de sistema bicameral metropolitano que abrigasse, simultaneamente, uma câmara
alta que garantisse a representatividade política dos municípios constituintes, a par de uma câmara
de gestão, dotada de representatividade demográfica e comprometida com procedimentos (v.g.
comissões especializadas) para a boa gestão técnica e administrativa da RMBH.
Tais questões estão em aberto e exigirão iniciativas e articulações políticas para a formulação
de novos diplomas legais e rumos para o processo decisório formal metropolitano.
141
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
BDMG
40 anos
4.4. RMBH: inserção na economia global
Pelas redes articuladas do capitalismo informacional, a chamada globalização vem realçando
o caráter nodal das grandes regiões urbanas. A concentração funcional nas cidades assume
intensidade e modalidade novas.1 3
Como em outras regiões metropolitanas da América Latina, a RMBH vem protagonizando
o crescimento da participação dos bens e serviços avançados (finanças, imóveis de luxo, bens
superiores, educação privada, seguros, propaganda, projetos, marketing, serviços pessoais, etc.)
nos indicadores formais do PIB e do emprego regionais.
Tal tendência vem se desenvolvendo, simultaneamente, com o aumento de exclusão social
(crime, desemprego aberto e/ou disfarçado, miséria, desigualdade na distribuição da renda e da
riqueza, corrupção cívica e política, deslegitimação das instituições políticas, etc.).
O fenômeno do dualismo já vem ocupando a imaginação dos analistas do desenvolvimento
por quase três gerações. Trata-se agora, não obstante, de algo inusitado pela intensidade, extensão
e natureza.
É fato que boa parte dos fluxos (bens, serviços, capital financeiro, informações e poder
burocrático) que asseguram a integração da economia mineira à rede globalizada se originam e/ou
terminam e/ou são processados por atores residentes na RMBH. Como tal, o desempenho da região
é vital para assegurar a competitividade mineira no ambiente nacional / internacional. Por sua
vez, a eficácia da RMBH na sua inserção global depende da sua competitividade na rede universal.
A evidência empírica internacional vem indicando a intensificação do dualismo exacerbado,
ampliada pela globalização, na estrutura das regiões urbanas. O próprio padrão locacional intra-
metropolitano exibe evidências desta dualidade crescente. As atividades dinâmicas, isto é, a
produção dos bens e serviços credenciados pelo fluxo global, localizam-se em zonas definidas,
contíguas ou não, que guardam entre si forte padrão de conexidade. É o caso do chamado Núcleo
Central (principalmente o centro-sul da capital) e do eixo industrial da RMBH. Trata-se do Centro
de Negócios, ponto focal da articulação com a rede global. É o locus da elite político-empresarial-
profissional-tecnocrática inclusive dos produtores dos bens e serviços avançados. O Núcleo Central
também inclui áreas residenciais de alto poder aquisitivo, a par dos equipamentos coletivos. A
mais densa ocupação residencial, particularmente ocupada por extratos de renda média, compreende
a chamada Área Pericentral, que também acolhe atividade terciárias.
Contrapondo-se, inclusive visualmente, ao núcleo dinâmico, avultam as Periferias (também
contíguas ou não), identificadas pela carência de equipamentos públicos e coletivos. As áreas
periféricas são predominantemente residenciais, abrigando estratos de renda baixa e estendendo-
se, a partir da zona norte de Belo Horizonte, na direção dos municípios de Santa Luzia, Sabará,
Ribeirão das Neves, Vespasiano, Contagem e Ibirité.
Acrescenta-se, ainda, uma área, que poderia ser denominada a fronteira metropolitana,
que já habita o espaço institucional, mas que possui laços culturais e econômicos tênues com o
Núcleo Central da Região Metropolitana.
A jusante da interação dialética entre tecnologia e sociedade, o concerto de capitalismo informacional incorpora, além da lógica
13
das sociedades em rede, novas arquiteturas dos movimentos sociais e do Estado. A concepção é derivada de; CASTELLS, M.
(1989; 1996).
142 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
A globalização vem intensificando, sobremaneira, a estratificação social do espaço urbano.
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40 anos
Enquanto as manchas dinâmicas exibem os critérios de pertinência à rede global, os buracos
negros da marginalidade periférica são confinados, em certa medida, à geração de atividades
irrelevantes ou não-competitivas, consoante valoração da rede global, e/ou gravados pela ruptura
social (legal x ilegal, formal x informal).
Mais que em qualquer outro período de sua trajetória, o território da RMBH exibe agora as
marcas da disrupção entre o núcleo dinâmico e a periferia. Tais evidências incorporam, dentre
outros aspectos, desigualdades crescentes na renda, no consumo, nas estatísticas vitais, na oferta
de equipamentos públicos, nas habitações, nos comportamentos e atitudes, na visão do mundo,
no exercício da cidadania, nas taxas de escolaridade e evasão escolar, etc. A disrupção excessiva
promove efeitos deletérios sobre o tecido social.14
A governabilidade e a estabilidade social num estado democrático exigem patamares mínimos
para a ineqüidade e a disrupção urbanas. Ademais, o crescente dualismo metropolitano promove
a intensificação de deseconomias de aglomeração em escala suscetível de afetar seriamente a
própria competitividade da RMBH na rede global.15
Distintamente das regiões metropolitanas na Europa, e em certo grau, da América do Norte,
onde a inclusão social crescente, ao longo do século XX, reduziu consideravelmente o dualismo
urbano, o impacto da globalização sobre as regiões urbanas do Terceiro Mundo vem ampliando,
extraordinariamente, o processo de exclusão social. Tal intensificação coloca para as elites regionais
a necessidade de administrar tensões sociais complexas.
A fragmentação da metrópole, com a segregação de zonas e populações urbanas, agrava o
problema da inserção social. A dualidade metropolitana crescente solicita a presença do poder
público marcado por qualidades criativas e humanas de gestão da crise. De um lado, a marca
progressista da tolerância, pluralismo, integridade e da transparência. Destarte, a competência
para a negociação de conflitos, a busca de novas práticas de planejamento (inclusivas) e
metodologias de elaboração de planos.1 6
A despeito da crescente disrupção metropolitana, o fato central é que a RMBH é o pólo
dinâmico da economia mineira, integrando-a na rede global. A RMBH e a cidade de Belo Horizonte
em particular vêm assumindo, além das funções tradicionais centro de serviços, atividades
governamentais, etc. para as quais foi, inclusive, projetada, outras funções dinâmicas e
integradoras. É o caso, primacialmente, do seu papel estratégico como centro de inovação. Isto é,
como nó privilegiado de recepção, produção, intercâmbio e difusão da inovação. Cidades ao longo
da história têm desempenhado tal função, desde os albores da Revolução Agrária. Nunca,
presumivelmente, na intensidade e ritmo correntes.1 7
Como bem observado por Zukin, a articulação do centro (elites) contraposta à segmentação da periferia (massas) constitui
14
mecanismo de dominação social, em que o espaço urbano / metropolitano desempenha papel predominante. Ver ZUKIN (1991);
ver também CASTELLS (1989).
As severas implicações do novo modelo de divisão internacional do trabalho para a exclusão social urbana são contempladas em
15
RODGERS (1995).
A despeito do progresso considerável na inclusão social verificado, ao longo do século XX, nas regiões urbanas da Europa e da
16
América do Norte, observa-se, mais recentemente, estancamento na progressão de certos indicadores sociais relevantes. Tal
fenômeno guarda relação com o aumento das disparidades entre os pólos urbanos e suas periferias, simultaneamente com a maior
coesão da rede global. O aspecto foi destacado por CAPPELIN(1991); ver também RODGERS (1995).
Além de suas funções urbanas clássicas centros de comércio, serviços e poder político , as grandes cidades assumem novas
17
formas de funcionamento, no contexto da globalização. É o caso, por exemplo, da produção de inovações para o sistema
financeiro internacional e os serviços especializados. Vale contrapor duas concepções densas e ricas acerca do papel das cidades
na história humana. Ver MUMFORD (1961), SASSEN (1991) e PENIDO VALE (1985).
143
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
A globalização ampliou o papel estratégico da RMBH para a economia mineira. Trata-
BDMG
40 anos
se de elo privilegiado para a inclusão estadual nos fluxos globalizados. A despeito do crescente
dualismo urbano (e decorrentes externalidades negativas de aglomeração), a RMBH dispõe
das vantagens locacionais convencionais. O estoque de capital localizado (imobiliário,
produtivo) desincentiva abandono. A qualidade e o custo médio de vida são atraentes em
comparação com outras áreas metropolitanas brasileiras. A oferta de equipamentos
(insubstituíveis) de educação, lazer e saúde é razoável, para os estratos de renda média, em
contraposição a outras alternativas. O mesmo se dá para grande parte das atividades produtivas
e de governo.
Vale ressaltar que a globalização não aboliu boa parte das economias convencionais de
aglomeração. Os contatos pessoais ainda continuam imprescindíveis no mundo dos negócios,
do lazer, da política, da cultura, da arte e da ciência.18
Reside certa perversidade na lógica que explica o papel estratégico das regiões
metropolitanas na economia globalizada. De um lado realça a RMBH seu papel polar, para a
economia mineira, como centro de dinamismo cultural, econômico, tecnológico e social. A
despeito do etos interiorano (pequena cidade / vila), Belo Horizonte é, de fato, o grande
produtor cultural da mineiridade, sobretudo for export.
Em contrapartida, a arquitetura da nova economia em rede, primordialmente articulada
através dos nós metropolitanos, redesenha e reconstrói a forma e estrutura urbana da RMBH
e, como tal, privilegia as funções urbanas dinâmicas, enquanto descarta as funções
irrelevantes, os grupos sociais periféricos e as manchas urbanas desprovidas de valor. Erige-
se, assim, barreira social alentada entre os atores incluídos na rede global e a maioria da
população (suas atividades e seus locais) metropolitana. 19
A RMBH, como outras congêneres, dispõe de enorme potencial de ganhos ou perdas
com a continuidade do processo de globalização. Regiões metropolitanas localizadas
estrategicamente e marcadas por influência geográfica tendem a comandar importância
geopolítica, ou seja, posição hierárquica superior na rede global. Em contrapartida, regiões
metropolitanas em desvantagem geográfica encontram dificuldades para competir na economia
globalizada, vale dizer, na produção e comercialização de bens e serviços.
Ademais, com a redução dos níveis de autonomia e comando das economias nacionais,
num contexto globalizado, grande parte da exposição ao ciclo internacional (volatilidade) se
transfere para o desempenho das regiões metropolitanas. Algo como um industrial mix de
maior vulnerabilidade parece afetar a estabilidade dos principais setores dinâmicos desses
entes.
Portanto, o caráter assimétrico e heterogêneo da globalização é detectado de maneira
particular nas regiões metropolitanas. Do ponto de vista das políticas metropolitanas
concebíveis nas esferas estadual e federal, a tarefa reclamada é de duplo sentido. Há que se
ampliar a competitividade metropolitana, essencial à promoção do desenvolvimento nacional.
Há também que se reverter a dualidade e a exclusão social metropolitana. Nesse particular há
que se evitar a tentação das agendas políticas simplistas do localismo ingênuo ou da
globalização glorificada. Retórica à parte, o primeiro procura restringir o desempenho do
sistema metropolitano aos atores e atividades endóg enas. A segunda propõe a
Ver INSTITUTO HORIZONTES (2002). Além do inventário dos equipamentos urbanos que conferem extinção e singularidade
18
à região, o trabalho dispõe bibliografia de apoio sobre o tema.
Ver Cappelin (1991).
19
144 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
internacionalização do mercado como via única para o desenvolvimento, exibindo como
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40 anos
premissa a inserção submissa a qualquer custo. Existe, neste início de século globalizado,
uma importante questão premindo a sociedade civil brasileira. Diz respeito a evolução da
democracia e sua incidência sobre o modelo de desenvolvimento do povo brasileiro.2 0
Do ponto de vista metropolitano, nesse cenário, constitui missão estratégica de estado a
liderança do processo social amplo focado na reabilitação das funções urbanas marginalizadas, na
inclusão dos grupos sociais subordinados e no resgate dos territórios desvalorizados. Tal agenda
(Agenda Vermelha) repercutiria sensivelmente sobre a redução das expressivas e cumulativas
distâncias socioculturais prevalentes entre comunidades contíguas, culturas adjacentes e funções
hierarquizadas.21
Também se imporia a formulação de agenda conexa (Agenda Azul), centrada no incremento
da competitividade metropolitana, basicamente, uma articulação criativa e persistente entre
empresas, ONGs, governos federal, estadual, metropolitano e locais, instituições de pesquisa,
ensino, agências da sociedade civil, etc., visando: (a) a difusão e a incorporação do progresso
técnico; (b) a criação de capital social; (c) a formação do capital humano e a reciclagem da força
de trabalho; (d) a implementação dos equipamentos coletivos essenciais à expansão da
competitividade.2 2
O grande contributo das lideranças políticas estadual e federal seria o do discernimento e
visão das duas agendas como não excludentes, tampouco dicotômicas, mas integradas no mesmo
projeto de desenvolvimento democrático, participativo e realista.
Vale uma vez mais contrapor concepções opostas, acerca das possibilidades e promessas para a inclusão social urbana, derivadas
20
do processo acelerado de globalização. De um lado, a proposta otimista de Harris (1987) prenunciando o fim do Terceiro
Mundo. Destarte, em contraposição, as verificações empíricas de Rodgers (1995) e Lustig (1995) sugerem cautela e protagonismo
ativo dos atores locais / regionais na defesa dos seus interesses. Neste contexto ver; NIGEL (1987), RODGERS (1995),
LUSTIG (1995), STIGLITZ (2002), CACCIAMALI (2000), CEPAL, (2002), NARAYAN (2000).
Dentre outros, POCHMANN (2002), LAUTIER (1994); DE SOTO (2002), POCHMANN(2001).
21
A respeito, vale recorrer ao relato de BENTON (1992) acerca da experiência espanhola de descentralização econômica e política
22
associada à ampliação das alianças locais para incremento da competitividade regional. Ver BENTON (1992), LASTRES &
CASSIOLATO (2002).
145
Capítulo 4 - Políticas públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)
4.5. RMBH : pressupostos para as políticas
BDMG
40 anos
públicas
Para a concepção e o desenho das políticas públicas possíveis para a RMBH, há que se ter
em conta os limites que atuam sobre o Estado nacional brasileiro. O balanço crítico do ambiente
macroeconômico globalizado, onde o Brasil se insere, sinaliza, desde o início dos anos 90, certos
limites precisos para as políticas públicas federal e estaduais.
Num trabalho recente, acerca das fronteiras da Economia do Desenvolvimento, Joseph
Stiglitz e Shahid Yusuf propõem, de maneira inequívoca, o elenco das questões doutrinarias já
estabelecidas entre os especialistas na área. Destacam eles, como requisitos para o
desenvolvimento sustentado, a estabilidade macroeconômica e a abertura no comércio
internacional. Tais requisitos constituem parte do que é usualmente referido como Consenso de
Washington. Na visão dos autores, em contraposição a outras visões mais conservadoras, tais
requisitos constituiriam apenas condições de primeira ordem (necessárias), e não suficientes, para
o desenvolvimento sustentado.2 3
A prevalência desses condicionantes no passado recente ilustra o limitado espaço de ações
possíveis para as políticas públicas convencionais dirigidas para as regiões metropolitanas. A
conjugação das políticas macroeconômicas prevalentes metas de inflação, saneamento das finanças
públicas e câmbio flexível com o ciclo internacional dos negócios vem repercutindo, nos anos
recentes, sobre a ampliação das disparidades sociais, espaciais e, sobretudo, intrametropolitanas.
Isso, de resto, vem promovendo redução de eficácia da governabilidade e das instituições do Estado.
Realisticamente, a convivência da sociedade brasileira com os requisitos mínimos
macroeconômicos, aludidos por Stiglitz, parece provável.2 4
Qual o espaço de ações possível para a política metropolitana em tal contexto? O desafio
é manejável e a solução repousa sobre formas novas e criativas de mobilização e participação
social.
Um ponto de partida é o conhecimento de que na sociedade em rede as possibilidades de
sucesso são operadas em territórios específicos. Tratam-se dos nós, hierarquizados, da rede onde
a RMBH se insere. Distinguem-se os fatores endógenos cruciais para o sucesso: base tecnológica,
infra-estrutura e equipamentos coletivos, recursos humanos qualificados e sistema de gestão flexível.
Evidenciam-se fatores sobre os quais as ações conjugadas Estado / União e mesmo ações autônomas
estaduais podem operar criativamente. Mesmo a despeito dos limitantes macroeconômicos, resta
um espaço aberto e administrável, mesoeconômico. Por exemplo, a constatação, na sociedade
em rede, de que interessa não apenas a operação otimizada isolada da firma ao nível de sua função
de produção relevante, mas, também, os ganhos de produtividade dos fatores produtivos
metropolitanos, tais como conectividade, flexibilidade e inovação. Nesse sentido, o global abre
possibilidades para o local, uma vez que não são necessariamente antagônicos, mas,
complementares.25
A doutrina constitucional brasileira prevalente (1988) remeteu aos estados o poder
legiferante sobre as regiões metropolitanas. De fato cabe ao Estado a coordenação dos esforços
Ver MEIER & STIGLITZ (2001). Trata-se de alentado tomo reunindo trabalho de especialistas de notoriedade acerca da
23
economia do desenvolvimento.
Ver RODGERS (1995) e LUSTIG (1995).
24
BRASIL. Constituição Federal de 1988, art.25, § 3º.
25
146 Minas Gerais do Século XXI - Volume IX - Transformando o poder público: a busca da eficácia
para desenvolver vantagens competitivas metropolitanas. Isso, particularmente, pela mobilização
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40 anos
dos demais níveis de governo, sociedade civil e setor privado, para constituir os equipamentos
coletivos essenciais à competitividade equipamentos públicos, bens e serviços coletivos, canais
e fóruns para a mobilização da sociedade civil, sobretudo do empresariado, e outras agências do
Terceiro Setor.
A exploração criativa da própria heterogeneidade do espaço metropolitano pode ensejar o
surgimento de novas vantagens competitivas, através de assimetrias ecológicas, manejo ambiental,
valores culturais, artísticos e/ou de lazer. Tal foi o caso, por exemplo, da Pampulha nos anos 40,
ou de Bonito (MS) nos anos 90.26
Variáveis de natureza mesoeconômica, no âmbito estadual e num contexto de recursos
públicos escassos, podem ser, criativamente, manejadas. É a esfera, por excelência, da difusão e
incorporação do progresso técnico, em íntima sintonia com o segmento empresarial e as instituições
de ensino e pesquisa, estendendo-se ao desenvolvimento dos sistemas (meios) de inovação,
formação do capital humano e reciclagem da força de trabalho.
É importante sublinhar que a via preferencial (e possível) para a criação de valor na esfera
metropolitana é aquela constituída pelo tecido institucional articulado pelo Estado em sintonia
com os governos municipais, metropolitano, empresas e ONGs. A missão superior do Estado é a
da articulação: (a) entre micros, pequenas, médias, grandes empresas e provedores de serviços;
(b) entre empresas, governo metropolitano e governos locais; (c) entre instituições de produção e
adaptação do conhecimento e empresas; (d) entre agências de produção cultural e artística,
empresas e governos locais; enfim, (e) entre todos os atores intra e extrametropolitanos com
interesse na ampliação da capacidade competitiva da RMBH.27
O papel da articulação do Estado se estende também à redução das tensões oriundas da
disrupção metropolitana. Há que se ampliar, consideravelmente, o protagonismo da sociedade
civil metropolitana através da participação: (a) na arbitragem de divergências e consensos sobre
ajustes de interesses; (b) nos pactos sociais vinculantes sobre políticas de Estado; (c) na criação
de capital social / cívico / institucional; e (d) na articulação entre políticas sociais e geração de
empregos.
A articulação inteligente e persistente do Estado com a sociedade civil metropolitana é o
caminho seguro para a superação da política regional como jogo de soma zero. Nesse sentido, e
para atenuação da disrupção metropolitana, há que se reabilitar o ser humano local na sua condição
múltipla de cidadão, produtor, contribuinte e consumidor. De especial interesse, nesse contexto,
emerge o esforço da convergência público-privado, tendo em vista o reforço da identidade e da
coesão social. Também avulta a captura de sinergias entre o metropolitano, o nacional, o local e o
global. Isso, de molde a reforçar o papel do local / metropolitano como centro de inovação e
geração de relações comerciais, tecnológicas e culturais em escala internacional.
Depreende-se do exposto que as políticas públicas estaduais para a RMBH são
imprescindíveis, urgentes, limitadas por restrições macroeconômicas e confrontadas por duas classes
de problemas formidáveis; a busca da competitividade e a disrupção metropolitana. Como atores
primordiais desse nexo, os agentes públicos superiores estaduais (os eleitos e seus burocratas)
Ampliar o valor agregado pelas MPE constitui elemento comum às Agendas Vermelha e Azul. Como tal, elemento construtivo de
26
círculo virtuoso do desenvolvimento regional. Nesse contexto, um componente relevante busca apropriar, para o processo de
produção, intangíveis como o da vinculação geográfica, que em última análise propiciaria uma agregação de valor cultural.
Organizações da sociedade civil, como SEBRAE-NAC, SEBRAE-MG, FIEMG, já vêm trabalhando na busca da identificação e
valorização de atributos (brasilidade / mineiridade, etc.) agregáveis a produto
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