Volume 7 Desenvolvimento Sustentavel - Presentation Transcript
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: APOSTANDO NO FUTURO
VOLUME VII
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME VII
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
APOSTANDO NO FUTURO
Banco de
Desenvolvimento de
Minas Gerais
BANCO DE DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS S.A. - BDMG
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Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais
Minas Gerais do Século XXI / Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais.
B213m
2002 Belo Horizonte: Rona Editora, 2002.
10 v. : il. -
Conteúdo: v.1 - O Ponto de Partida. v. 2 - Reinterpretando o Espaço Mineiro.
v. 3 - Infra-Estrutura: sustentando o desenvolvimento. v. 4 - Transformando o
Desenvolvimento na Agropecuária. v. 5 - Consolidando Posições na
Mineração. v. 6 - Integrando a Indústria para o Futuro. v. 7 - Desenvolvimento
Sustentável: apostando no futuro. v. 8 - Investindo em Políticas Sociais. v. 9 -
Transformando o Poder Público: a busca da eficácia. v. Especial – Uma Visão do Novo
Desenvolvimento
1. Condições econômicas – Minas Gerais. 2. Desenvolvimento econômico –
Minas Gerais. I. Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. II. BDMG. III. Título
CDU: 338.92(815.1)
Catalogação na publicação: Biblioteca BDMG
4 Minas Gerais do Século XXI - Volume I - O ponto de partida
VOLUME 7
DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL:
APOSTANDO NO FUTURO
Coordenação do Projeto
Tadeu Barreto Guimarães - Coordenação Geral
Marco Antônio Rodrigues da Cunha - Coordenação Executiva
Marilena Chaves - Coordenação Técnica
Coordenadores Técnicos do Volume
Bernardo Tavares de Almeida
Iran Almeida Pordeus
SUMÁRIO
1. DIMENSÕES DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ....................................................................................... 9
2. MEIO-AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO .................................................................................................. 17
3. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO ............................................................................... 65
4. O PAPEL DO SETOR TERCIÁRIO NA DINÂMICA DO DESENVOLVIMENTO
DE MINAS GERAIS .......................................................................................................................................................... 173
5. CULTURA E DESENVOLVIMENTO .................................................................................................................... 209
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME VII
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
APOSTANDO NO FUTURO
CAPÍTULO 1
DIMENSÕES DO
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
D.PE/BDMG
BDMG
40 anos
1 . Dimensões do desenvolvimento sustentável
Os quatro estudos que integram o presente volume abordam temas que estão se
convertendo em obrigatórios na literatura do desenvolvimento sustentável. À luz desse
conceito, diversos autores têm se dedicado crescentemente a questões ambientais, tecnológicas
e às novas atividades econômicas que emergem do terciário. O volume VII compreende as
contribuições do Minas Gerais do Século XXI para essas temáticas, com reflexões específicas a
Minas Gerais, e um ensaio sobre matéria pouco freqüente em estudos econômicos atuais, qual
seja, a oportuna lembrança do papel que a cultura desempenha no estabelecimento de um projeto
de desenvolvimento sustentável.
O Capítulo 2 analisa, de forma abrangente, o desenvolvimento tecnológico e, com sólida
argumentação, recomenda que, na agenda do desenvolvimento de Minas Gerais, se conceda
prioridade máxima ao reforço do sistema estadual de inovação, tendo como principal iniciativa a
constituição de um Conselho Estadual de Inovação CEI. O Conselho seria
... de fato um fórum de convergência de instituições e políticas, cujo sentido geral é a
formulação de políticas e incentivos ao desenvolvimento científico e tecnológico de Minas
Gerais. Propõe-se a sua composição de forma tripartite (cinco representantes do setor público
estadual, cinco de universidades e instituições de pesquisa, outros cinco de empresas e ONG´s
que desenvolvam atividades de P&D, um representante da FAPEMIG, e um do BDMG).
O Conselho dividir-se-ia em três Câmaras: de Legislação e Financiamento, de Apoio à Pesquisa
e de Recursos Humanos. A partir de sua constituição, prevê-se para o Estado uma maior
capacidade de impulsionar a geração e a incorporação de inovações tecnológicas.
A proposta resulta, no estudo, de uma completa incursão na questão tecnológica iniciada
com o pleno reconhecimento, na literatura ali revista, em especial naquela de inspiração
neoschumpeteriana, de sua centralidade nas sociedades contemporâneas. Daí nasce o conceito
sistema nacional de inovação, a partir das formulações seminais de Freeman e Nelson em 1988:
Um sistema nacional de inovação é uma construção institucional, produto seja de uma ação
planejada e consciente, seja de um somatório de decisões não planejadas e desarticuladas,
que impulsionam o progresso tecnológico em economias capitalistas e complexas.
A partir de variáveis econômicas e indicadores de C&T, os especialistas inferem que o
Brasil integra um conjunto de países que se situa em um terceiro grupo, abaixo dos grupos
dos países avançados e daqueles em processo de catching up. Nesse terceiro grupo, a produção
científica ainda não teria constituído massa crítica suficiente para o estabelecimento de fortes
integrações entre a infra-estrutura científica e a produção tecnológica. Em termos nacionais,
disporíamos de um sistema de inovação ainda imaturo, fortemente concentrado em São Paulo,
mas já no limiar do ponto de inflexão. Os mesmos indicadores aplicados às unidades federativas
sugerem um quadro mais desalentador para Minas Gerais.
Adicionalmente, é examinada a trajetória do desenvolvimento científico e tecnológico
no Estado desde a instalação da Escola de Farmácia de Ouro Preto, em 1839, até o final dos
anos oitenta. Tal retrospecto, por si só, sugere a aderência da infra-estrutura científica às
vocações econômicas de Minas Gerais: indústria extrativa e agricultura. Ressalta-se a
inexistência de setores produtivos classificados como de alta tecnologia. Entretanto, a exemplo
dos estudos do Diagnóstico sobre o setor industrial, consignam-se janelas de oportunidades
no estabelecimento de clusters da área de informática em Belo Horizonte, na incipiente indústria
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Capítulo 1 - Dimensões do desenvolvimento sustentável
produtora de máquinas para a exploração mineral, além de na especialização produtiva no complexo
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40 anos
metalúrgico. Registra-se que as especializações relativas dos pesquisadores mineiros situam-se
nas ciências agrárias e biológicas. Em termos de produção científica, os destaques estão nas ciências
exatas e da terra. As patentes concedidas a empresas sediadas no Estado seguem o mesmo padrão.
Em termos geográficos, registram a concentração da atividade de C&T em Belo Horizonte, Viçosa,
Lavras e Ipatinga.
Na proposição de políticas, o destaque é para a constituição do Conselho Estadual de
Inovação, ao lado das indicações dos vetores setoriais candidatos a fomentos: novos materiais,
agropecuária e alimentos, biotecnologia, energias alternativas, informática/telecomunicação, bem
como biodiversidade e meio ambiente. Para melhor estabelecimento dos alvos, sugere-se que se
retome, de forma crítica, a organização de missões tecnológicas. Por fim, discutem-se as linhas
de financiamentos existentes e suas limitações, propondo-se a criação de uma Agencia Especial
de Seguros, que ofereceria a financiadores de investimentos privados em P&D a possibilidade de
recuperar parte dos recursos no eventual insucesso por razões tecnológicas.
Tais propostas, bem como o retrospecto sobre a atuação da FAPEMIG, merecem ampla
consideração ao se formular uma nova estratégia para o progresso da sociedade mineira, em
especial, na hipótese da sustentabilidade figurar como preocupação maior desta estratégia.
A questão ambiental é o objeto do Capítulo 3 deste volume, onde se apresenta uma
coletânea de conceitos, análises e propostas relativas à matéria, destacando-se, entre outros:
A evolução da vertente ambiental do conceito de desenvolvimento sustentável;
A ampliação do conceito de desenvolvimento sustentável até se expressar hoje no tripé:
competitividade sistêmica, eqüidade social e qualidade do meio ambiente;
A necessária articulação dos objetivos das políticas econômicas de curto prazo com aqueles
de horizonte temporal ampliado;
A multiplicidade de mecanismos e instrumentos passíveis de ser implementados com
vistas ao desenvolvimento sustentável; e,
A possibilidade de se aproveitarem as inúmeras oportunidades de investimentos nas
áreas de econegócios.
Tais reflexões são feitas com referências imediatas ao Brasil e a Minas Gerais, além de
abordarem a atual organização do Sistema Estadual de Meio Ambiente.
No que se refere à situação ambiental do Estado, os indicadores ambientais apontados
em 1992 pela Fundação Estadual do Meio Ambiente e aqui transcritos registram passivos
ambientais já consideráveis, tais como a alta contaminação por tóxicos em 66% das águas
superficiais monitoradas.
A degradação do meio ambiente decorreria dos três padrões de crescimento econômico
vivenciados:
a) Do padrão histórico primário exportador, com o uso predatório e indiscriminado
de recursos em ritmo superior àquele suportável pela regeneração.
b) Da substituição das exportações, mediante a instalações de grandes plantas
industriais intensivas na utilização de recursos naturais (matérias-primas, solos,
energia e mão-de-obra a baixo custo).
c) Da promoção de exportações intentada nos últimos vinte anos, com a implantação
de projetos em busca de divisas nem sempre com o atendimento a objetivos sociais.
12 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
A herança dos três padrões de crescimento, agravada ainda pela crise fiscal e pelo
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40 anos
insuficiente avanço dos programas de educação ambiental, pela ausência de um sistema efetivo
de planejamento governamental e pelas reduzidas alocações em projetos de desenvolvimento
científico e tecnológico formam o pano de fundo da elaboração da Agenda 21 Brasileira,
levada à reunião de Johannesburgo.
A implantação da Agenda 21 em Minas Gerais e, ainda, a participação do Estado no II
Programa Nacional de Meio Ambiente reclamam o atendimento a requisitos mínimos em
relação à estruturação e capacidade executiva do Sistema Estadual de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável. Confirma-se, pois, a oportunidade de, neste trabalho,
recapitular-se o marco histórico do sistema, sua atual configuração e as respectivas políticas,
que já teriam sido apresentadas pelo Estado ao Ministério do Meio Ambiente.
Adicionalmente, indica-se a imperiosa necessidade de adesão do BDMG ao Protocolo
Verde, bem como de sua incorporação, de forma plena, a dimensão ambiental em sua análise
dos projetos de investimento.
No Capítulo 4 deste volume, aborda-se o setor terciário. A ênfase recai sobre as novas
configurações que os setores terciário e quaternário este, intensivo em atividades de ciência
e tecnologia têm assumido, em resposta às transformações em curso no país: abertura da
economia, privatização e modernização tecnológica.
A argumentação inicia-se com o reconhecimento de que o indicador de PIB per capita,
medido em termos de paridade de poder de compra, provê um melhor reflexo de prosperidade
econômica. Como corolário, emerge a sugestão de se avaliar o estoque de capitais intangíveis
em uma sociedade, uma vez que tais capitais são, por um lado, expressões da mesma
prosperidade e, por outro, insumos para que se produza maior riqueza material.
Sob essa ótica, o setor terciário apresenta-se como um grande contribuinte para os
capitais intangíveis, nas formas culturais cívicas, humanas, sociais e institucionais. Ou, na
melhor expressão de Celso Furtado citada no Capítulo:
(...) o verdadeiro desenvolvimento é, principalmente, um processo de ativação e canalização
das forças sociais, de melhoria da capacidade associativa, de exercício da iniciativa e da
criatividade. Portanto, trata-se de um processo social e cultural, e apenas secundariamente
econômico.
Certamente essa concepção se concilia, de forma plena, com os fundamentos dos que
advogam em favor a sustentabilidade do desenvolvimento como objetivo final da política
pública. Dela emerge, ainda, o conceito economia de serviço.
A partir da Análise Inter-regional de Insumo-Produto realizada pelo BDMG em 2002,
destaca-se a inserção do setor terciário nas relações interindustriais de Minas Gerais.
Ao retratar os principais indicadores dos setores terciários e quaternários em Minas
Gerais na segunda metade da década de 90, identifica-se um notável crescimento da importância
relativa destes setores para a formação da renda estadual. Interno ao conjunto de atividades
heterogêneas contidas no setor terciário, registram-se variações diferenciadas em termos de
suas contribuições para o valor adicionado. Entre outras, a perda de importância relativa da
intermediação financeira pós-Plano Real, o crescimento relativo da administração pública e
das atividades imobiliárias.
A evolução da intermediação financeira é objeto de análise mais detalhada, onde, como
estudo de caso, é confirmada a premissa de que as atividades agrupadas sob o terciário têm,
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Capítulo 1 - Dimensões do desenvolvimento sustentável
nos últimos anos, passado por profundas transformações que lhes alteram as estruturas internas e
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40 anos
o desempenho. No caso dos Bancos, evidemciam-se seus ajustes à estabilização monetária,
contando para tanto com a colaboração governamental via PROES e PROER.
Em ajuste oposto ao sistema financeiro e no mesmo setor terciário, é lembrada a capacidade
irradiadora de vantagens competitivas dinâmicas, mediante a observação do desempenho notável
das comunicações em Minas Gerais, no período de 1985 a 1999.
Tais evoluções com direções opostas são ainda evidências da necessidade de se incorporar
capital humano (ou intelectual) a sistemas produtivos locais, de sorte a fomentar clusters
dinâmicos, com crescente agregação de renda a uma mesma base produtiva material.
A noção de cluster de serviço é ainda desenvolvida para o setor de turismo, indicando-
se os ganhos que tal abordagem pode propiciar quando se busca ampliar ofertas de empregos
e maior equidade social, além de seus possíveis efeitos benéficos para a valorização dos
patrimônios naturais, históricos e culturais de Minas Gerais. Ou seja, uma clara indicação de
locus privilegiado para se promover o desenvolvimento sustentado.
O Capítulo 5 Cultura e Desenvolvimento não se restringe à avaliação da importância
da infra-estrutura cultural: analisa a cultura como uma dimensão do processo de
desenvolvimento sustentável. A necessidade da cultura como um elemento integrador e
includente da sociedade é enfatizada, nesse precioso trabalho, como uma das condições para
alcançarmos um desenvolvimento digno. Ressalta-se a (...) centralidade da dimensão cultural
como cimento capaz de amalgamar com consistência o processo de desenvolvimento das
nações.
Diferentes realidades são apresentadas nesse capítulo. Das Revoluções Francesa e Inglesa
ao desenvolvimento capitalista nos Estados Unidos e à realidade no Brasil, são analisados
aspectos histórico-culturais que de alguma forma influenciaram o desenvolvimento desses
países. Caso emblemático citado é o do Japão, onde a cultura tem papel decisivo como
motor de seu desenvolvimento econômico.
Descartam-se, no entanto, quaisquer tentativas de rotular esse ou aquele povo com
características intrínsecas que determinariam, de forma imutável, seus comportamentos.
Demonstra-se no trabalho que tais preconceitos não sobreviveram à história dos diferentes
países analisados. As condições históricas em que se constroem os ambientes culturais e
institucionais dos países, estas, sim, influenciam o comportamento presente observado em
países ou regiões.
No caso Minas Gerais, uma observação geral, sob o risco de tornar-se reducionista,
sugere que não se pode estereotipar o mineiro como um sujeito de caráter doce e conciliatório,
nem sua classe política como conservadora ou liberal. A análise histórica indica que, de fato,
como disse Guimarães Rosa, Minas são muitas, são pelo menos várias.
Uma análise comparativa entre Minas Gerais e São Paulo não permite concluir sobre
uma possível maior capacidade empresarial dos paulistas. O texto identifica na história do
setor cafeeiro de São Paulo cuja expansão a partir do final do século XIX e o pioneirismo
no lançamento do modo de produção de bases capitalistas permitiram a acumulação primitiva
do capital e o surgimento do proletariado , os pilares do desenvolvimento industrial paulista.
O possível espírito empresarial paulista decorre, nas palavras do autor: (...) das condições
histórico-concretas que permitiram a constituição em São Paulo de uma ambiência cultural
e institucional que tanto valoriza, quanto sanciona as atitudes voltadas para a busca do
14 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
lucro como processo decorrente da permanente busca de aumento da produtividade de trabalho.
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40 anos
Entre essas condições destacam-se a concentração fundiária paulista, que implicou o fechamento
do acesso à terra, e a expressiva imigração que possibilitou o surgimento do proletariado.
Em Minas Gerais, a realidade até a República Velha era de permanência de formas pré-
capitalistas de produção. Essa situação não seria necessariamente reflexo do comportamento
do empresário mineiro, pois, como o autor demonstra, nos séculos XVIII e XIX os dados
não comprovam a ausência de mentalidade empresarial em Minas Gerais.
A principal conclusão indica que a distribuição de renda, do poder e da informação são
condições necessárias para a construção de um processo de desenvolvimento desejável. A
valorização da cultura popular, por meios de uma infra-estrutura cultural adequada, é parte
deste processo.
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Capítulo 1 - Dimensões do desenvolvimento sustentável
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40 anos
16 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME VII
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
APOSTANDO NO FUTURO
CAPÍTULO 2
MEIO-AMBIENTE
E DESENVOLVIMENTO
Paulo Roberto Haddad
(Diretor Presidente da Phorum Consultoria e Pesquisas em Economia Ltda)
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................................................................... 21
2. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DO ESTADO DE MINAS GERAIS ............................................................. 23
3. MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO: A EVOLUÇÃO DOS DEBATES DESDE
A ECO-92 ATÉ A REUNIÃO DE JOHANESBURGO DEZ ANOS DEPOIS ...................................................... 26
4. CONSIDERAÇÕES SOBRE O QUADRO AMBIENTAL DO ESTADO DE MINAS GERAIS:
ASPECTOS ADMINISTRATIVOS E FUNCIONAIS .................................................................................................. 29
4.1. Organização do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável ................................... 30
4.2. Atividades dos órgãos vinculados ................................................................................................................................ 34
5. A CONCEPÇÃO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL COMO BASE PARA A FORMULAÇÃO
DE ESTRATÉGIAS E DIRETRIZES PARA O DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS
NO SÉCULO XXI ............................................................................................................................................................... 44
5.1. As dimensões múltiplas de um processo de desenvolvimento sustentável .......................................................... 44
5.2. Um conceito operacional de desenvolvimento sustentável para fins de planejamento .................................... 48
5.3. A Agenda 21 Brasileira e suas implicações para o desenvolvimento de Minas Gerais ...................................... 51
5.4. Os mecanismos institucionais e os instrumentos de implementação de uma Agenda 21 estadual ...................... 52
5.5. As perspectivas de econegócios e o papel do BDMG .............................................................................................. 60
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................................................................. 64
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40 anos
1 . Introdução
O uso descontrolado dos recursos ambientais gerou, ao longo do tempo, crescente
redução de suas disponibilidades e, principalmente, de sua qualidade. Apesar de antigo
o debate sobre o tema, só recentemente a sociedade reconheceu a relevância dos
impactos ambientais advindos da atividade econômica, bem como a necessidade de
controlá-los por meio de políticas ambientais adequadas. O desenvolvimento sustentável
na dimensão ambiental surge, então, como condição necessária ao crescimento
econômico, uma vez que o crescimento no presente não deve afetar, de forma negativa,
o meio ambiente e as condições de vida das futuras gerações.
Em Minas Gerais, já se identificam importantes passivos ambientais acumulados,
como são os casos das inundações; da redução dos estoques populacionais da flora e
fauna no Estado; o de Furnas; da escassez de água no semi-árido; da má qualidade das
águas, como as do Rio das Velhas, do Paraopeba, do Doce e do Paraíba do Sul; da
desordenada ocupação urbana; dos incêndios; do avanço não sustentável da fronteira
agropecuária, etc.
Atualmente, o conceito de desenvolvimento sustentável encontra-se ainda em
processo de construção e vem recebendo importantes contribuições ao longo do tempo.
Ele deve focar não somente a abordagem tradicional e mais restrita, que envolve a
preocupação com o uso racional dos recursos naturais, mas, também, se preocupar com
a simultânea redução da desigualdade e nível de pobreza. É com base nessas três
dimensões do desenvolvimento que as discussões sobre o desenvolvimento sustentável
de Minas Gerais, seus alicerces institucionais e sua agenda devem ser construídos.
Considerando-se que as questões colocadas tendem a ser conflitantes, visto que o
mercado não é capaz de resolver, por si só, os conflitos intertemporais associados ao
uso dos recursos ambientais, abre-se uma importante lacuna para a atuação do Estado,
principalmente como agente gestor dos interesses de gerações futuras quanto ao
desenvolvimento sustentável.
Além do mencionado conflito intergeracional associado à utilização dos recursos
ambientais, existem possíveis trade-offs entre eficiência econômica e eqüidade, eficiência
e sustentabilidade ambiental, e entre políticas de curto prazo e políticas de
desenvolvimento. Demonstra-se que, muitas vezes, tais conflitos mostram-se presentes
apenas em perspectivas de curto prazo, não resistindo às analises que levem em conta
prazos mais longos.
O presente capítulo divide-se em quatro seções, nas quais, se discutem aspectos
relevantes à proposição de estratégias e diretrizes para o desenvolvimento sustentável
do Estado. Na primeira, denominada CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DO ESTADO DE
MINAS GERAIS, insere-se um quadro-resumo dos resultados dos indicadores ambientais
de Minas Gerais presentes em relatório da Fundação Estadual de Minas Gerais (FEAM),
no ano de 2001.
A seção seguinte, MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO: A evolução dos debates
desde a ECO-92 até a reunião de Johanesburgo dez anos depois, constitui-se dos debates
relevantes acerca do tema, apresenta diferentes impactos ambientais decorrentes dos
21
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
diferentes padrões de crescimento econômico, assim como aborda a evolução das
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40 anos
discussões desse tema no Brasil, que resultaram na elaboração da Agenda 21 brasileira.
A seção 3, CONSIDERAÇÕES SOBRE O QUADRO AMBIENTAL DO ESTADO DE
MINAS GERAIS - Aspectos administrativos e funcionais, apresenta um diagnóstico que
trata desde a evolução recente até o estado atual da situação ambiental do Estado do
ponto de vista institucional.
A última seção, A CONCEPÇÃO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL COMO
BASE PARA A FORMULAÇÃO DE ESTRATÉGIAS E DIRETRIZES PARA O
DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XXI?, elabora o conceito de
desenvolvimento sustentável que deverá reger a atuação do Estado, além de delinear
os mecanismos institucionais e os instrumentos para a implementação da Agenda 21
estadual. Por fim, propõe políticas públicas relevantes e destaca o papel do BDMG
como importante agente no processo de desenvolvimento sustentável do Estado.
22 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
2 . Caracterização ambiental do Estado de
BDMG
40 anos
Minas Gerais
A Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) publicou, recentemente, um relatório
sobre os indicadores ambientais da Agenda Marrom no Estado de Minas Gerais. Trata-se da
primeira iniciativa no campo de emprego sistemático de indicadores que permitam a identificação
objetiva dos esforços desenvolvidos para o acompanhamento das atividades de gestão dos
empreendimentos e serviços potencialmente poluidores no campo da indústria extrativa e de
transformação, bem como, nos serviços, como postos de combustíveis, entre outros.
Esses indicadores não compõem um estudo completo da situação ambiental de Minas
Gerais em suas diferentes dimensões (Agenda Azul, Agenda Verde, Agenda Marrom) de forma
que o diagnóstico ainda não se encontra concebido e elaborado em nosso Estado. O objetivo
central do relatório é estabelecer as bases da avaliação contínua de indicadores de resultados e
de processos de implementação da Agenda Marrom, entendida como o conjunto das atividades
voltadas para o controle e monitoramento dos dispositivos legais referentes às atividades de
extração e transformação industrial, bem como às de infra-estrutura, em todos os seus aspectos
(QUADRO 1).
Embora esses indicadores se refiram às ações programáticas da FEAM, a sua leitura,
em conjunto com as informações sobre a organização do Sistema Estadual do Meio
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (seção 3), permite vislumbrar o grande esforço
político-institucional para enfrentar os desafios de conservação, preservação e o uso dos
recursos ambientais nos processos de produção e de consumo em Minas. Da mesma
forma, trata-se de esforço pioneiro para a concepção e a organização de indicadores
de terceira geração no nosso Estado.
Durante a crise de 1929, os governos dos EE.UU., Inglaterra e França se deram
conta de que não dispunham de um sistema atualizado de informações para acompanhar
a conjuntura econômica e as tendências de crescimento de suas economias (nível de
atividade), assim como não dispunham de mecanismos de monitoramento para acompanhar
os movimentos dos preços em seus países e regiões (índices gerais de preços e índices de
custo de vida). Assim, pouco a pouco, sob as orientações conceituais das obras de Keynes
e as diretrizes operacionais de Stone, entre outros, foram se desenvolvendo indicadores
de acompanhamento da conjuntura e do ambiente macroeconômico de diversos países
do Mundo, até que as Nações Unidas assumiram a responsabilidade técnica para a
normatização desses indicadores e para a sua sistematização nos países menos
desenvolvidos, a partir dos anos 50.
A segunda geração de indicadores socioeconômicos está relacionada com a
necessidade de se dispor de informações atualizadas, desagregadas e relevantes para a
concepção e a implementação de políticas públicas de natureza redistributiva da renda e
da riqueza em países, regiões e localidades. A motivação política para o desenvolvimento
dos sistemas de indicadores sociais emergiu particularmente nos anos 70, quando se
constatou que os ciclos de crescimento econômico do pós-Guerra haviam gerado
desigualdades e assimetrias na distribuição de seus custos e benefícios entre grupos sociais,
famílias e regiões. O desenvolvimento da segunda geração de indicadores ocorreu de
forma intensa e rápida, a partir da institucionalização de organismos públicos e privados
de coleta sistemática de estatísticas até o início dos anos 60, em praticamente todos os
países do Mundo.
23
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
QUADRO 1
BDMG
40 anos
RESUMO DOS RESULTADOS DOS INDICADORES AMBIENTAIS
ESTADO DE MINAS GERAIS - ANO-BASE 2001
GRUPOS-ALVO INDICADOR RESULTADO
Educação e Extensão Formação de Recursos Humanos 94 municípios
Ambiental
• Número de municípios que participaram de
treinamentos com recursos do MTB/FAT.
• Número de municípios treinados em Iniciação ao 96 municípios
Desenvolvimento Sustentável.
Atividades Industriais e Mineráveis
• Emissão de material particulado (MP) pelas
Indústria Metalúrgica 56.985 kg MP/dia
indústrias de ferro-gusa.
• Redução de emissão de material particulado pelas Emissão da DN COPAM 49 de
indústrias de ferro-gusa, exigida pelo COPAM. 28 de setembro de 2001
Indústria Química • Geração de carga orgânica biodegradável – DBO Indústrias têxteis = 34.073 kg
decorrente das indústrias têxteis e curtumes. DBO/dia
• Medição de carga orgânica biodegradável – DBO Curtumes = 39.428,43 kg
nos efluentes das indústrias têxteis e curtumes. DBO/dia
• Avaliação da redução de carga orgânica biodegradável Indústrias têxteis = 15.997,00kg
– DBO nos efluentes das indústrias têxteis e curtumes, DBO/dia
Curtumes = 33.221,33 kg
exigida pela FEAM.
DBO/dia
Indústrias têxteis –
18.096,39 kg DBO/dia
Curtumes = 6.207,10 kg
DBO/dia
Extração de Minerais • Áreas de titularidade requeridas junto do DNPM 3.444,62 ha
nas Bacias do Alto Velhas e Alto Paraopeba.
• Áreas diretamente impactadas pelas mineradoras não 282,31 ha
metálicas nas Bacias do Alto Velhas e Alto Paraopeba.
Atividades de Infra-estrutura
• Supressão de vegetação arbórea para implantação de
reservatórios e infra-estrutura de usinas hidrelétricas.
Energia 1.820,63 ha
• Áreas destinadas à criação de Unidades de
Conservação (Ucs), em função dos licenciamentos
3.630,28 ha
de operação (LO) das usinas hidrelétricas,
considerando as diversas tipologias vegetacionais.
Saneamento 165.138 habitantes
• População urbana atendida por sistema de
tratamento de esgotos sanitários, com LO concedida
3.294.444 habitantes
pelo COPAM.
• População urbana atendida por sistema de disposição
final de lixo, com LO concedida pelo COPAM.
Serviços
Postos de combustível 232
• Número de postos de combustível com ocorrência
de vazamento.
474
• Número de postos com tanques subterrâneos com
idade igual ou superior a 20 anos.
Ambientes
Muito ruim 2%
• IQA – Índice de Qualidade de Águas Superficiais
Água
Ruim 13%
do Estado (2001).
Médio 72%
• Contaminação por Tóxicos nas águas superficiais
Bom 13%
do Estado (2001).
Excelente 0%
Baixa 8%
Média 26%
Alta 66%
Belo Horizonte = 1
Ar • Número de dias de ultrapassagem do Padrão
Contagem = 29
PM-10 de qualidade do ar no eixo Belo Horizonte –
Betim = 18
Contagem – Betim (1995-2001).
FONTE: FEAM. Agenda Marrom: indicadores ambientais. 2002.
24 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
A terceira geração de indicadores está contextualizada na necessidade de melhor
BDMG
40 anos
conhecimento do desenvolvimento científico e tecnológico das nações e de suas regiões,
assim como das inextricáveis relações entre crescimento econômico e sustentabilidade
ambiental. Desde a ECO-92, a concepção de desenvolvimento sustentável, que procura um
equilíbrio entre competitividade sistêmica, eqüidade social e qualidade do meio ambiente,
está demandando, para a sua operacionalização, uma outra geração de indicadores de
caráter inovador que vêm se configurando como de enorme relevância ao longo dos
últimos dez anos. No Brasil, o IBGE, o Ministério de Ciência e Tecnologia e o Ministério do
Meio Ambiente têm liderado o processo de construção desses novos indicadores de
desenvolvimento sustentável. Em Minas, a FEAM tomou a iniciativa pioneira de construir
alguns dos principais desses indicadores no campo ambiental relacionados com a Agenda
Marrom e apresentados no QUADRO 1.
25
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
BDMG
40 anos
3 . Meio ambiente e desenvolvimento: a
evolução dos debates desde a Eco-92 até a
reunião de Johanesburgo dez anos depois
Embora os debates sobre as conexões entre meio ambiente e crescimento econômico
tenham mais de meio século de ativas controvérsias, foram os recentes padrões de
crescimento econômico e seus impactos adversos sobre o meio ambiente que trouxeram
à baila a necessidade de se conceberem e de se executarem políticas ambientais no País.
Do ponto de vista de seus impactos ambientais, podemos identificar três padrões de
crescimento econômico e suas relações com o subsistema ecológico no território em que
se localizam suas atividades produtivas:
a ) padrão histórico primário-exportador: as localidades ou regiões se especializam
na produção de produtos primários (café, soja, minérios, madeiras, etc.) para
exportação internacional ou inter-regional; essa produção tem se processado
com o uso predatório de recursos renováveis e não-renováveis, em um ritmo
maior do que a taxa natural que podem regenerar ou que podem ser substituídos
pelo progresso tecnológico, caracterizando a sua não-sustentabilidade dentro
de uma divisão internacional de trabalho com base em vantagens comparativas;
não é o fato de um produto ser primário que determina a sua capacidade de
degradar a base de recursos naturais, mas a forma de sua exploração em
termos da organização social da produção e dos processos tecnológicos adotados;
b ) padrão de substituição de importações: as localidades ou regiões atraem
atividades econômicas que substituem importações de bens de consumo duráveis
e não-duráveis, de insumos básicos ou de bens de capital; a questão ambiental
fundamental nesse padrão se refere às atividades que se intensificam no País a
partir dos anos 70, dentro do processo da Segunda Divisão Internacional do
Trabalho, no qual países emergentes como o Brasil se tornaram hospedeiros de
grandes projetos de investimento caracterizados pela sua intensidade em recursos
naturais renováveis (celulose e produção de grãos nas áreas de cerrados), em
recursos naturais não-renováveis (siderurgia básica, alumínio, petroquímicos),
em energia hidroelétrica, em excedentes de mão-de-obra a baixo custo para os
padrões dos capitais multinacionais; nesses grandes projetos de investimentos,
tem ocorrido, freqüentemente, uma situação em que os recursos naturais
renováveis são utilizados em ritmo maior do que podem regenerar-se, ou que
os fluxos de resíduos no meio ambiente crescem em nível acima de sua
capacidade assimilativa, casos típicos de desenvolvimento não-sustentável dada
a sua imensa capacidade potencial de poluição ambiental;
c ) padrão de promoção de exportações: as localidades ou regiões que são as
grandes beneficiárias dos programas de promoção de exportações que o
País vem desenvolvendo nos últimos vinte anos, visando a equilibrar as
contas de seu balanço de pagamentos após o grande endividamento externo
dos anos 70 e 80, são, ao mesmo tempo, as que sofrem os impactos
ambientais da implantação e da operação dos projetos exportadores se
inadequadamente concebidos em termos de sua avaliação social; na média
26 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
do período 1997-1999, destaca-se a participação do SUDESTE nas exportações
BDMG
40 anos
totais brasileiras, que foram de 67% para o Mercosul, 51% para a União
Européia, de 62% para o Nafta e de 50% para o Resto do Mundo.
Não se pode subestimar o enorme esforço que foi realizado, nos últimos dez
anos, para consolidar as políticas ambientais no Brasil no campo das estruturas
regulatórias (promulgação e execução da Lei dos Crimes Ambientais, organização e
operação da Agência Nacional de Águas, Novo Código Florestal, Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza, etc.); no campo da estruturação do Sistema
Nacional do Meio Ambiente; na concepção e execução de programas inovadores de
econegócios e da mobilização comunitária; na melhoria da instrumentação das políticas
ambientais (novas técnicas de licenciamento ambiental, introdução de novos
instrumentos econômicos, etc.), entre outras iniciativas. Nem podem ser subestimados
os benefícios que a população brasileira conquistou, desde a Rio-92, em termos das
políticas sociais de saúde, educação, saneamento, etc.
Entretanto, mantidas as atuais características do padrão de crescimento econômico
e de acumulação de capital no País, o cenário tendencial de evolução dos indicadores
de desenvolvimento sustentável poderá vir a ser de sua crescente deterioração, uma
vez que: a) a crise fiscal e financeira dos três níveis de governo é um fator impeditivo
de maior eficácia dos órgãos públicos que formulam, implementam e controlam as
políticas de desenvolvimento sustentável; b) existem componentes autônomos nos
processos de decisões descentralizadas de produção e de consumo nas diversas regiões
do País, decorrentes de fatores econômicos e culturais, que continuam resultando em
deterioração do seu capital natural e em reforço dos mecanismos sociais de reprodução
da pobreza; c) é lento o avanço dos programas de educação ambiental que poderiam
contra-arrestar essa deterioração; d) a ausência de um efetivo sistema nacional de
planejamento no País dificulta a inserção das questões de desenvolvimento sustentável
na agenda de prioridades do Governo Federal; e) ainda é pouco expressivo o volume
de recursos públicos e privados que vêm sendo alocados no desenvolvimento científico
e tecnológico para enfrentar as questões de desenvolvimento sustentável no Brasil.
A resposta da sociedade a esses desafios está configurada na proposta da Agenda
21 Brasileira, a ser apresentada na reunião de Johanesburgo, que se realiza dez anos
depois da Eco-92. O processo de elaboração da Agenda 21 Brasileira foi conduzido
pela Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional
CPDS. A CPDS foi criada por Decreto Presidencial de 26/02/97, com a seguinte
composição: Ministério do Meio Ambiente; Ministério do Planejamento; Ministério da
Ciência e Tecnologia; Ministério das Relações Exteriores; Secretaria de Assuntos
Estratégicos; Câmara de Políticas Sociais; Fórum Brasileiro de Ongs e Movimentos
Sociais; Instituto Nacional de Altos Estudos; Fundação Movimento Onda Azul; Conselho
Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável; Universidade Federal de Minas Gerais.
A CPDS teve por principal objetivo redefinir o modelo de desenvolvimento do País,
introduzindo o conceito ampliado e progressivo de sustentabilidade e qualificando-o
com os tons das potencialidades e das vulnerabilidades do Brasil.
A metodologia de trabalho aprovada pela CPDS selecionou seis áreas temáticas e
determinou a forma de consulta e construção do documento Agenda 21 Brasileira. A
escolha dos temas centrais foi feita de forma a abarcar a complexidade do País e suas
regiões dentro do conceito da sustentabilidade ampliada. São eles: Agricultura Sustentável;
Cidades Sustentáveis; Infra-estrutura e Integração Regional; Gestão dos Recursos Naturais;
27
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Redução das Desigualdades Sociais; Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento
BDMG
40 anos
Sustentável. De setembro de 2000 a maio de 2001, a CPDS e o Ministério do Meio
Ambiente - MMA - visitaram os Estados da Federação divulgando, organizando e realizando
os debates sobre a Agenda. Nos vinte e seis debates estaduais realizados, foram apresentadas
e discutidas 5.839 propostas, endereçadas aos seis temas. Três mil e novecentos
representantes de instituições governamentais, civis e do setor produtivo participaram, de forma
direta, dos debates estaduais. No total, estima-se que este processo envolveu mais de 40 mil
participantes.
Como resultado desses debates, foram produzidos, para cada Unidade da Federação,
um documento de relatoria que expressa a visão predominante no Estado sobre as
contribuições apresentadas pelas diferentes entidades locais e sobre as diretrizes e estratégias
constantes de uma plataforma de ação.
Os Encontros Regionais foram realizados de junho a outubro de 2001 e visavam a
identificar as tendências dominantes entre as propostas apresentadas nos Estados de cada
Macrorregião do País: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Para cada Macrorregião,
foram elaborados documentos síntese dos relatórios estaduais, consolidando as grandes
questões que se destacaram nos debates, bem como um texto de autoria de um estudioso,
de relevância na respectiva Macrorregião, contendo assuntos de interesse regional e do
País, que, porventura, ainda não tivessem sido abordados nos diversos debates realizados.
A fase final do processo de consulta nacional adotou a metodologia desenvolvida
pela UNEP (United Nations Environment Programme), visando a construir consensos
entre os setores relevantes do Estado, do Mercado e da Sociedade Civil: Poder Executivo,
Poder Legislativo, Comunidade Científica, Organizações Não-Governamentais e
Organizações Produtivas.
Todos esses eventos e sua documentação, que constituem a mais ampla experiência
de planejamento participativo jamais realizada no Brasil, estão registrados no endereço
eletrônico do MMA (www.mma.gov.br) e podem ser analisados pelos cidadãos brasileiros a
qualquer momento. As aspirações sociais da população de Minas quanto ao processo de
desenvolvimento sustentável do Estado estão mapeadas nesse endereço eletrônico, onde se
encontram, também, as propostas para a Macrorregião do SUDESTE, de interesse mais
próximo dos mineiros.
Se a Agenda 21 Brasileira vier a se tornar o novo marco de referência para o
processo de desenvolvimento sustentável no Brasil, é fundamental que Minas venha a
construir a sua própria Agenda, com elementos específicos de sua realidade histórica mas
em consonância com as aspirações nacionais manifestas na agenda nacional.
Operacionalmente, isso significa que as políticas, programas e projetos de desenvolvimento
do Estado deverão estar sintonizadas com o princípio da sustentabilidade progressiva.
28 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
BDMG
40 anos
4 . Considerações sobre o quadro ambiental
do Estado de Minas Gerais: aspectos
administrativos e funcionais
No campo da Política Ambiental, a evolução político-institucional e o contexto
nacional e internacional, representaram um marco essencial para a configuração do seu
quadro administrativo e funcional e, conseqüentemente, trouxe incidências significativas
tanto para a Federação quanto para os estados e municípios.
Deve-se considerar, inicialmente, o final da década de 80, com a promulgação da
nova Constituição, que consagrou, em seu Art. 225, o tratamento das questões ambientais,
a criação do IBAMA e a aceitação do Brasil como sede da Conferência do Rio de Janeiro,
o que marcou o ingresso do País numa fase avançada do tratamento das questões
ambientais.
Inicialmente, registra-se a questão constitucional que instituiu o princípio das
competências concorrentes entre a União e os entes federados até o nível municipal. Esse
dispositivo constitucional obrigou, de forma direta, o aumento da sensibilidade dos estados
e municípios quanto à estruturação e à organização administrativa, mas também quanto
ao estabelecimento de propostas de abordagem da questão ambiental de modo mais
efetivo do que o que vinha sendo feito no País até então.
O IBAMA teve, a despeito de todos os problemas associados à sua criação, um
papel central, não necessariamente na organização dos entes federados, até porque instituiu,
naquele momento, Superintendências Estaduais que, em certos casos, tinham posturas
discordantes daquelas observadas em alguns órgãos estaduais; todavia sua ação enfática
nos primeiros anos e a participação efetiva na RIO-92 levaram os Estados a se conduzir de
forma diferenciada quanto à área de meio ambiente.
Por outro lado, alguns estados procuraram seguir o exemplo de coordenação das
principais vertentes da área ambiental, como as questões da gestão florestal e da
biodiversidade, dos recursos hídricos e do licenciamento ambiental de atividades
potencialmente poluidoras. Em Minas Gerais, essa indução culminou com a criação da
Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, que, diferentemente do
IBAMA, manteve os organismos separados mas, desde então, vem, progressivamente,
promovendo a articulação e a ação coordenada entre os mesmos.
Outro componente de grande importância foi o chamado Protocolo Verde, um
compromisso interagências de financiamento que condiciona o acesso aos recursos
financeiros à observância dos dispositivos legais relativos à área de meio ambiente, em
todas as suas diferentes vertentes.
Não se deve deixar de mencionar, a título introdutório, o papel do setor privado,
particularmente da FIEMG, que vem, desde a década de oitenta, com ênfase na década
de noventa, enfatizando a observância dos dispositivos ambientais por parte do setor
industrial. Mais recentemente, notam-se iniciativas semelhantes no campo do empresariado
agrícola, tradicionalmente reticente na maioria dos países.
29
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Será dentro desse contexto que se procurará apresentar e discutir os elementos
BDMG
40 anos
principais da Política Ambiental de Minas, destacando, a cada momento e em função da
disponibilidade e da acessibilidade dos dados, os principais marcos históricos que
conformam o quadro atual.
4.1. Organização do Sistema Estadual de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável foi criada
em setembro de 1995, pela Lei 11.903, tendo como competências, de acordo com o Art. 2º
da referida Lei:
I - Coordenar e supervisionar as ações voltadas para a proteção ambiental, bem
como a aplicação de normas e da legislação específicas de meio ambiente e
recursos naturais, não sendo consideradas predatórias e estando, por isso,
dispensadas de licença do poder público e isentas de punição fiscal ou de
qualquer outro tipo, a extração em regime individual ou familiar de lenha
para consumo doméstico, e a limpeza de pastagens ou culturas em
propriedades particulares;
II - Zelar pela observância de normas de controle e proteção ambiental, em
articulação com a finalidade de garantir a execução da política ambiental;
III - Planejar, propor e coordenar a gestão ambiental integrada no Estado, com
vistas à manutenção dos ecossistemas e ao desenvolvimento sustentável;
IV - Articular-se com os organismos que atuam na área de meio ambiente com a
finalidade de garantir a execução da política ambiental;
V - Estabelecer e consolidar, em conjunto com os órgãos e entidades que atuam
na área ambiental, as normas técnicas a serem por eles observados;
VI - Orientar e coordenar tecnicamente, quanto ao aspecto ambiental, os órgãos e
entidades que atuam na área do meio ambiente;
VII - Identificar os recursos naturais do Estado, com vistas à compatibilização das
medidas preservacionistas e conservacionistas e à exploração racional,
conforme as diretrizes do desenvolvimento sustentável;
VIII - Propor e coordenar a implantação de unidades de conservação de uso direto
e indireto sob jurisdição estadual;
IX - Coordenar planos, programas e projetos de proteção de mananciais;
X - Representar o Governo do Estado de Minas Gerais no Conselho Nacional de
Meio Ambiente CONAMA e no Conselho Nacional de Recursos Naturais
Renováveis;
XI - Coordenar planos, programas e projetos de educação ambiental;
XII - Coordenar o zoneamento ambiental do Estado.
30 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Para tanto, desde sua criação, a Secretaria SEMAD vem estruturando seu quadro
BDMG
40 anos
de funcionários e organizando ações que visam à organização do Sistema Estadual de
Meio Ambiente e à implantação e implementação das atividades sob sua responsabilidade.
Além da implantação e efetivação daquelas atividades dispostas na sua Lei de
criação, a SEMAD tem investido, desde os primeiros momentos, na articulação entre os
diferentes órgãos do Sistema e, na atualidade, toma como elemento central desse processo
o Programa Nacional de Meio Ambiente em sua segunda versão o PNMA II.
De acordo com informações disponibilizadas pelo Ministério do Meio Ambiente
MMA -, a elaboração do PNMA II foi precedida de um Diagnóstico Ambiental, por Unidade
da Federação, e tem como pressupostos: o aprimoramento do controle ambiental
(licenciamento, fiscalização e monitoramento) e o estímulo à sociedade para a adoção de
práticas econômicas e cotidianas sustentáveis, tendo em vista a implementação de um
processo de desenvolvimento que utilize racionalmente os recursos ambientais,
aproveitando suas potencialidades, e eleve os padrões de qualidade de vida da população,
promovendo a inclusão social 1 . Tem como objetivo a implementação dos seguintes
instrumentos de Política Ambiental: Desenvolvimento Institucional e Gestão Integrada de
Ativos Ambientais. Para ambos, estão destinados recursos que, entre outras ações, deverão
financiar iniciativas nos Estados e no Distrito Federal que busquem a melhoria de três
instrumentos da Política Nacional de Meio Ambiente, considerados estratégicos: o Sistema
de Licenciamento Ambiental, o Sistema de Monitoramento de Qualidade da Água e o
Ordenamento Territorial da Zona Costeira. Além desses, também projetos de gestão integrada
do meio ambiente deverão ser financiados pelo Programa (MMA, página da Internet
citada).
Para ter acesso aos recursos do PNMA, os estados e o Distrito Federal devem
cumprir requisitos mínimos em relação à sua estruturação e capacidade executiva, além
da apresentação e julgamento dos projetos propostos, que passam por um processo de
pontuação, em vista da identificação de sua qualificação e hierarquização frente aos
demais estados e Distrito Federal. Trata-se, portanto, de um processo competitivo, à
semelhança dos Editais, o que estimula uma atitude proativa por parte dos estados e a
conseqüente estruturação dos mesmos para o emprego mais eficiente dos recursos alocados.
Será com base nesse Diagnóstico2, disponibilizado pelo Ministério do Meio Ambiente
em sua página sobre o PNMA, que serão apresentados os dados do Sistema de Meio
Ambiente em Minas Gerais, uma vez que os mesmos representam as informações mais
recentes e sistematizadas sobre o Estado, a partir das próprias instituições estaduais. Dados
e informações complementares serão acrescentados, com base em estudos técnico-
científicos produzidos por outras fontes, tais como os estudos conduzidos por outras
instituições oficiais e não-governamentais, quando pertinentes e necessários à análise ora
conduzida.
MMA página da Internet: http://www.mma.gov.br/ item PNMA II.
1
MMA - PNMA II. Diagnóstico da Gestão Ambiental nas Unidades da Federação - RELATÓRIO FINAL ESTADO DE
2
MINAS GERAIS. Ministério do Meio Ambiente Programa Nacional do Meio Ambiente PNMA II, Brasília DF,
Abril 2001. 92 p.
31
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
De acordo com o Diagnóstico, a partir da criação da SEMAD, foi instituído o
BDMG
40 anos
Sistema Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável SISEMA,
incorporando a Fundação Estadual do Meio Ambiente, o Instituto Estadual de Florestas
e criando o Instituto Mineiro de Gestão das Águas, a partir da transformação do
Departamento de Recursos Hídricos DRH, vinculado à Secretaria de Estado de
Minas e Energia e responsável pelas outorgas de águas.
A criação do SISEMA irá introduzir várias modificações na gestão ambiental do
Estado, principalmente no que diz respeito à repartição das atividades de gestão
ambiental, muitas delas até então concentradas exclusivamente na FEAM. Tal fato
explica-se por ser a FEAM a instituição que substitui, em 1987, a Superintendência de
Meio Ambiente SMA, criada em 1983 para assessorar a Comissão de Política Ambiental,
posteriormente conduzida à condição de Conselho de Política Ambiental do Estado.
Assim sendo, até a configuração do SISEMA, apenas a FEAM exercia atribuições
de licenciamento ambiental, cabendo ao IEF e DRH, respectivamente, o
acompanhamento da Câmara de Defesa dos Ecossistemas e a presença na Câmara de
Bacias Hidrográficas. A partir do estabelecimento do SISEMA, essa situação será
substancialmente modificada.
Além da transformação da COPAM em conselho, juntamente com a criação da
FEAM, em 1987, será criado o Conselho Estadual de Recursos Hídricos CERH. Para
complementar a configuração necessária à boa operação do SISEMA, a FEAM foi
reorganizada através da Lei n.º 12.583, de 17 de julho de 1997, passando as atribuições
de licenciamento de empreendimentos agropecuários à responsabilidade do IEF e
repassando ao Instituto Mineiro de Gestão das Águas as atribuições de Enquadramento
dos Cursos dÁgua e, mais recentemente, conforme identificado nas páginas do
IGAM, a atribuição de monitoramento geral das qualidades das águas.
Deve-se acrescentar que, com a criação do Conselho Estadual de Recursos
Hídricos, o IGAM, antigo DRH, nasce com atribuições atualizadas e ampliadas, entre
as quais a responsabilidade de conduzir, no âmbito do Estado, a criação dos Comitês
de Bacias Hidrográficas e de representação junto ao Conselho Nacional de Recursos
Hídricos. Cria-se, portanto, um fórum especial para a gestão das águas, sem, contudo,
desvinculá-lo do Conselho Estadual de Meio Ambiente, que mantém uma Câmara de
Recursos Hídricos com a seguinte composição: (1)representante de organizações não-
governamentais especializadas em saneamento ou recursos hídricos; (2)representante
Governamental dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Ambiental-CODEMAs;
(3)Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação GeralSEPLAN;
(4)representante das organizações não-governamentais legalmente constituídas no
Estado de Minas Gerais, para a proteção, conservação e melhoria do meio ambiente;
(5)Companhia de Saneamento de Minas Gerais - COPASA/MG; (6)Sindicato dos
Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de
Esgoto do Estado de Minas Gerais SINDÁGUA. Os vínculos entre ambos os Conselhos
estão, assim, estabelecidos.
O IEF, mais antiga e tradicional instituição agregada ao SISEMA, também deverá
sofrer transformações em sua estrutura, até então voltada basicamente para o fomento
à atividade florestal e a criação e manutenção de Parques. Com o advento da SEMAD,
o IEF terá suas atribuições no âmbito da conservação para a proteção e conservação
da Biodiversidade e será acrescido da responsabilidade relativa aos recursos pesqueiros.
32 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
O esquema geral do SISEMA, conforme apresentado no Diagnóstico do Ministério
BDMG
40 anos
do Meio Ambiente, pode ser assim representado:
Destaque-se que os Conselhos Estaduais de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos
são presididos pelo Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o
que busca garantir, em parte, a intercomunicação entre ambas as instâncias em seu
mais alto nível.
Embora o Conselho de Administração e Política Florestal não possua o mesmo
nível de representação que os dois Conselhos citados anteriormente e esteja ligado ao
Diretor Geral do IEF, a comunicação entre o COPAM e as atividades geridas pelo IEF
está assegurada pela Câmara de Biodiversidade do COPAM, além da Câmara de
Atividades Agropastoris, que regulamenta o licenciamento dessas atividades, cuja
atribuições de assessoramento e acompanhamento da Câmara foram repassadas ao
IEF, a partir da estruturação do SISEMA.
Outra alteração relevante foi a instituição das Agendas como forma de
disciplinamento e caracterização das áreas de atuação das entidades vinculadas à
SEMAD. À FEAM cabe a Agenda Marrom, referente ao licenciamento e controle das
atividades potencialmente poluidoras, ao IGAM a Agenda Azul, responsável pela gestão
dos recursos hídricos e ao IEF a Agenda Verde, que inclui desde os aspectos tradicionais
do fomento Florestal até suas mais novas atividades, que incluem a gestão da
biodiversidade e dos recursos pesqueiros. Estes, embora parte da gestão da
biodiversidade, foram assim destacados por se constituírem, igualmente, atividade de
fomento enquanto recursos naturais, e de proteção enquanto estoque pesqueiro que
necessita ser gerenciado para assegurar a sustentabilidade desses recursos.
33
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Tendo sido apresentado o arcabouço geral do SISEMA, em seus aspectos principais,
BDMG
40 anos
passaremos a analisar as ações setoriais, concluindo, posteriormente, com atividades da
SEMAD, que tem como responsabilidade manter a coesão do sistema e o seu direcionamento
global.
4.2. Atividades dos órgãos vinculados
A análise dos órgãos vinculados será feita em duas vertentes: a apresentação de suas
competências principais e o estágio atual das atividades desenvolvidas. Dessa forma, acredita-
se, torna-se possível verificar o estágio atual da organização e implementação das Agendas,
bem como o nível de estruturação de cada órgão para atender às suas competências legais
e institucionais.
Instituto Mineiro de Gestão das Águas
O IGAM é, em termos de competências estabelecidas e organização, o mais novo
integrante do SISEMA e, também, aquele que possui o quadro mais reduzido de
funcionários, de acordo com o Diagnóstico apresentado pelo MMA (opus cit., pág. 72).
Sua estrutura organizacional, bastante simplificada, é composta, basicamente, de duas
diretorias operacionais e cinco divisões técnicas.
Essa estrutura deve responder pela implementação da Agenda Azul por meio dos
seguintes instrumentos: Plano Estadual de Recursos Hídricos (em fase de elaboração),
Planos Diretores de Bacia, Outorga de uso das águas, Enquadramento dos cursos dágua,
Cobrança pelo Uso das Águas, Monitoramento, Cadastro de Usuários e a operação do
Sistema de Informações de Recursos Hídricos.
A despeito de seu reduzido quadro técnico, incluída a contratação de consultores, o
IGAM tem perseguido uma estruturação coerente e promovido, de forma acelerada, a
estruturação dos recursos hídricos no Estado, contando para tanto com recursos próprios,
do FEHIDRO e do MMA, através da SRH e, mais recentemente, da Agência Nacional de
Águas (ANA).
De acordo com informações prestadas pelo IGAM3, os Planos Diretores, financiados
com recursos do MMA, através da SRH, devem conter o Diagnóstico e o Prognóstico
sobre as bacias analisadas dentro dos seguintes parâmetros de execução:
Parte A - Diagnóstico e prognóstico
Concepção e implementação de um sistema de informações, incluindo SIG4, MAGs5
e demais programas computacionais utilizados nos trabalhos.
http://www.igam.mg.gov.br/pl_diretor.php
3
SIG Sistema de Informações Geográficas
4
MAG Modelo Matemático de Gestão dos Recursos Hídricos
5
34 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Definição da metodologia de integração das informações no diagnóstico:
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40 anos
a ) Estudos ambientais - Levantamento, análise e processamento de informações
sobre geologia e recursos minerais, geomorfologia e erosão, pedologia e classes
de terra para irrigação, uso do solo e cobertura vegetal, áreas de preservação
legal ou de interesse para preservação e conservação, estudos da biota aquática.
b ) Estudos socioeconômicos - Análise do contexto social e econômico -
Levantamento das formas de organização social existentes na bacia, análise
institucional e legal, cadastramento dos usuários da água, avaliação das
tecnologias de uso da água pelos diferentes tipos de usuários.
c ) Estudos e inventários dos recursos hídricos - Estudos hidrológicos básicos: águas
superficiais e subterrâneas, meteorológicos, sedimentológicos e de qualidade
físico-química e biológica da água. Inventário dos recursos hídricos regionais.
Aplicação de modelos de avaliação e gestão dos recursos hídricos MAGs.
d ) Audiência pública para apresentação e discussão dos resultados do diagnóstico.
e ) Análise das perspectivas de utilização dos recursos hídricos. Análise integrada
da situação atual dos recursos hídricos da bacia.
Parte B - Elaboração do Plano Diretor de Recursos Hídricos
a ) Definição de metas e estratégias e proposição de programas e projetos:
Estabelecimento de metas e estratégias.
Audiência pública para consolidação das metas e estratégias.
Ações necessárias à otimização do uso múltiplo dos recursos hídricos.
Ações para implementação dos instrumentos de gestão previstos nas leis
federal e estadual de gestão dos recursos hídricos.
Consolidação das ações em projetos e programas específicos a serem
desenvolvidos nos horizontes de planejamento do plano.
Programação físico-financeira para a implementação das ações propostas.
b ) Diretrizes para implementação dos instrumentos de gestão dos recursos hídricos
da bacia:
Sistema de informação sobre os recursos hídricos da bacia contendo todas as
informações básicas utilizadas nos estudos.
Indicação de trechos dos cursos de água mais comprometidos e os com
conflitos de uso, para serem priorizados no processo de enquadramento.
Critérios para subsidiar o processo de outorga, como prioridades de uso,
proposta de vazões de referência.
Critérios para subsidiar a cobrança de acordo com as características da bacia.
c) Proposta organizacional para a implementação de um sistema de gerenciamento
dos recursos hídricos da bacia.
d) Programa de treinamento das entidades gestoras de recursos hídricos nos programas
computacionais utilizados no projeto.
Ainda, de acordo com as informações do IGAM, os Planos Diretores encontram-se
em fase de conclusão, conforme apresentado no Mapa 1.
35
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
MAPA 1
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40 anos
ESTÁGIO ATUAL DE DESENVOLVIMENTO DOS PLANOS DIRETORES
Situação dos planos diretores de recursos hídricos
FONTE: IGAM. http://www.igam.mg.gov.br/pl-diretor.phd
Na mesma página, o IGAM informa que, atualmente, apenas os Planos referentes
às bacias dos rios Jequitinhonha e Pardo e o da bacia do rio Paracatu foram concluídos.
Os demais Planos encontram-se paralisados em razão de problemas orçamentários
de contrapartida do Estado, que deve colocar recursos para viabilizar o repasse de verbas
da União, conforme estabelecido pela ISTN 016.
Ainda segundo o IGAM, com a conclusão dos Planos Diretores contratados, mais de
50% do território mineiro estarão cobertos por esse instrumento de gestão das águas. Isso se
reveste de grande importância, uma vez que a orientação atual dos programas de financiamento,
como o PROÁGUA e GEF, é a de priorizar investimentos em bacias que possuem Comitês
instituídos e Planos de Recursos Hídricos. Por Comitês, deve-se entender Comitês de Bacia.
A razão básica dessas exigências pode ser encontrada na Lei 9.433, que estabelece, em
seu Capítulo V Dos Instrumentos os Planos de Recursos Hídricos; no seu Título II Do
Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, Capítulo III Dos Comitês da Bacia
Hidrográfica, que aos referidos Comitês compete: Art. 38, inciso III aprovar o Plano de Recursos
Hídricos da bacia, e em seu inciso IV acompanhar a execução do Plano de Recursos Hídricos
da bacia e sugerir as providências necessárias ao cumprimento de suas metas. Assim, ao condicionar
o repasse de recursos à contrapartida estadual e à estruturação dos Comitês de Bacia, o MMA
está não apenas observando a Lei de Recursos Hídricos, mas, também, impulsionando a
organização mínima necessária à boa condução da gestão dos recursos hídricos.
Concluindo esse importante tópico sobre recursos hídricos, o IGAM observa que:
a ) Para a bacia do rio Paraíba do Sul, foi concluído o Projeto de Qualidade das Águas
e Controle da Poluição Hídrica, referente à sua porção territorial mineira, e foi
Instrução do Tesouro Nacional que disciplina o repasse de recursos da União para estados e municípios e
6
estabelece, de acordo com as diferentes regiões do País, percentual de contrapartida a ser, obrigatoriamente,
apresentado peo convenente, sob a forma de recursos financeiros.
36 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
elaborado, no âmbito do Comitê de Bacia, os Termos de Referência para a
BDMG
40 anos
elaboração do Plano Diretor da Bacia, considerando um ajuste de escopo em
função dos estudos já realizados nessa bacia. No caso da bacia do rio Doce,
outra bacia com grande número de estudos já realizados, estão sendo aprovados
recursos financeiros federais (SRH/MMA) para a estruturação do Comitê da
Bacia e elaboração de um Plano de Ações para atuação desse Comitê.
b ) Quanto à bacia do rio Grande, além do Plano Diretor de Irrigação para o seu
baixo curso, deverá ser apresentada ao PROÁGUA uma proposta de realização
do Plano Diretor de Recursos Hídricos, contemplando toda a Bacia e considerando
os usos múltiplos da água, conforme orientações preconizadas pelos instrumentos
legais vigentes. Essa demanda surgiu dos representantes da bacia, que
participaram tanto dos eventos da Pré-Conferência das Águas realizados pelo
IGAM em municípios dessa bacia, quanto da 1ª Conferência das Águas de
Minas. Os representantes da sociedade dessa bacia elegeram como uma das
ações prioritárias para a bacia do Rio Grande a elaboração do Plano de Recursos
Hídricos.
Outro elemento de fundamental importância na consideração da gestão dos recursos
hídricos refere-se à intensa participação social tanto na apreciação dos Planos Diretores
quanto na constituição dos Comitês. Destaque-se que, nestes últimos, a formação do
Comitê é impossível sem a participação da sociedade. O Mapa 2, apresentada a seguir,
mostra o estágio atual da organização dos comitês de bacia no Estado.
MAPA 2
NÍVEL ATUAL DE ORGANIZAÇÃO DOS COMITÊS DE BACIA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
37
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Concluindo, deve-se destacar o esforço que vem sendo feito pelo IGAM no tocante
BDMG
40 anos
à organização dos dados sobre a disponibilidade hídrica das águas superficiais do Estado
e na regularização dos processos de outorga. Esse esforço está apoiado pela Lei 13.199/
99, que deu ao Estado de Minas Gerais um dos mais modernos instrumentos para a
gestão dos recursos hídricos no Brasil. Essa lei apresenta um caráter inovador na medida
em que estimula a descentralização administrativa e as práticas participativas.
Instituto Estadual de Florestas
Embora constitua a maior e mais antiga instituição vinculada ao SISEMA, o IEF vem
encontrando problemas para a efetivação do conjunto de suas atividades, especialmente no
que se refere à inserção de suas novas atribuições no campo efetivo de sua atuação. Assim,
quando analisado o Diagnóstico apresentado pelo MMA, é possível observar no documento
a ênfase nas atividades que vinham sendo desenvolvidas tradicionalmente pela instituição, a
despeito de algumas iniciativas nos campos do licenciamento ambiental, principalmente.
Deve-se destacar, entretanto, os esforços conduzidos pela área de Monitoramento da
Cobertura Vegeta, que, em Convênio com o INPE, vem desenvolvendo esse tipo de
atividade desde 1988. Além das ações conduzidas pela área de monitoramento, sediada
em Belo Horizonte, o IEF conta com o apoio de 150 escritórios florestais e unidades de
controle das prefeituras municipais conveniadas.
No Diagnóstico promovido pelo MMA, há evidências de que as ações no campo da
proteção à Biodiversidade da Gestão dos Recursos Pesqueiros demonstram dificuldades
operacionais nessas áreas, tendo em vista que o referido Diagnóstico, como mencionado
anteriormente, foi realizado com vistas à apresentação da capacitação da entidade para receber
recursos do PNMA II. Também em termos de disponibilidade direta de informações sobre
essas áreas, não é possível obter dados recentes e consistentes.
Assim, no corpo do Diagnóstico constam as seguintes informações sobre a proteção
da Biodiversidade:
O Estado de Minas Gerais possui atualmente 205 unidades de conservação em seu
território, as quais somam área de 2.498.357ha, perfazendo 4,07 % de sua extensão.
Desse total, 554.260ha são considerados unidades de conservação de uso indireto,
de proteção integral, representando 0,92 % da superfície territorial de Minas Gerais.
As unidades estaduais de conservação correspondem a 1.252.406ha, sendo 304.925ha
de uso indireto e 947.481ha de uso direto.
Entretanto, quando consultadas fontes alternativas, como o caso da Fundação Biodiversitas-
Organização Não-Governamental de caráter técnico-científico, citada, inclusive, pelo Diagnóstico
do MMA, é possível verificar que o IEF enfatizou a questão do estabelecimento de prioridades
para conservação em 1998, quando foram conduzidos estudos para a definição de áreas
prioritárias para a conservação, como apresentado pela própria ONG:
Em 1998, o Estado de Minas Gerais, em uma iniciativa pioneira no planejamento
regional, definiu, com o apoio da comunidade científica e ambientalistas reunidos em um
workshop, as prioridades para a conservação da sua biodiversidade. Os resultados das
discussões foram sintetizados na publicação Biodiversidade em Minas Gerais: um atlas
para sua conservação. As informações contidas no Atlas foram orientadas para subsidiar
as ações de conservação no Estado e os programas que visam à criação de novas áreas
protegidas, definindo as prioridades para pesquisa e inventariamento.
38 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Pode-se deduzir, portanto, que não há, a priori, carência de informações sobre
BDMG
40 anos
áreas prioritárias. O cruzamento das informações de monitoramento do uso da terra com
as prioridades estabelecidas em estudo solicitado pelo próprio Estado poderia ser de
grande utilidade para o estabelecimento de novas unidades de conservação. O Mapa-
Síntese produzido pela Fundação Biodiversitas é apresentado a seguir.
MAPA 3
PRIORIDADES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE
FONTE: http://www.biodiversitas.org.br
Destaque-se, ademais, que a Biodiversitas disponibiliza cartogramas referentes às
prioridades no tocante à proteção da flora e da fauna, que é detalhada em mamíferos, aves, répteis,
peixes e invertebrados.
Deve-se destacar, igualmente, que as prioridades referentes à Ictiofauna poderiam
ter contribuído para o estabelecimento de um Política de Gestão dos Recursos Pesqueiros
no Estado. Acrescente-se que o trabalho da Fundação Biodiversitas apresenta, também,
um documento técnico realizado por dois consultores (Alexandre Lima Godinho & Fábio
Vieira), com ampla discussão sobre a ictiofauna no Estado.
Ressalte-se, em conclusão, que as observações feitas com o emprego de dados
externos ao IEF devem-se, principalmente, à ausência de acesso e disponibilidade dos
mesmos, conforme atesta o próprio Diagnóstico do MMA.
39
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
A carta referente às prioridades de conservação da ictiofauna é apresentada a seguir:
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40 anos
MAPA 4
PRIORIDADES PARA CONSERVAÇÃO DA ICTIOFAUNA
FONTE: http://www.biodiversitas.org.br
Fundação Estadual do Meio Ambiente
Dentre as três instituições vinculadas à SEMAD, a Fundação Estadual do Meio Ambiente
é aquela que tem apresentado maiores indicadores de continuidade nos seus planos de
modernização gerencial, que foram iniciados quando da implantação do PROSAM, com apoio
do Banco Mundial.
A despeito da alternância de direção com a seqüência de cinco presidentes desde o
início dos trabalhos, a Fundação tem persistido na busca de alternativas gerenciais voltadas
para a modernização, conforme evidencia o Diagnóstico do MMA.
Assim, citando o referido Diagnóstico, que tem servido como base para a presente
análise, observa-se que:
a ) A necessidade de autorização ambiental (sistema de licenciamento) para qualquer
atividade potencialmente poluidora ou degradadora ambiental se instalar no
Estado proporciona uma demanda de análise de estudos e projetos bastante
elevada na FEAM, requerendo competência e agilidade para atender usuários
cada vez mais exigentes, que pagam por esses serviços;
40 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
b ) A FEAM procede à análise de mais de 1.000 processos/ano de licenciamento
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40 anos
ambiental de indústrias, minerações, rodovias, barragens, loteamentos, linhas de
transmissão e infra-estrutura de saneamento básico (água, lixo, esgoto e drenagem).
Paralelamente às atividades de licenciamento e fiscalização ambiental, grandes esforços
vêm sendo feitos nas atividades de monitoramento, para a definição dos indicadores de
qualidade ambiental, de normatização, estabelecendo normas e padrões adequados às
características de nosso Estado e de Educação e Extensão Ambiental, com programas sistemáticos
de treinamento para as prefeituras, órgãos municipais, setor produtivo e Polícia Militar.
Sumariando, a FEAM atua em três enfoques preferenciais:
(i) Pesquisa e Desenvolvimento de Tecnologias de Gestão Ambiental - voltada
para o aperfeiçoamento dos instrumentos de gestão integrada do meio ambiente,
envolvendo métodos e técnicas de avaliação, monitoramento e uso sustentado dos
recursos naturais e de produção industrial;
(ii) Serviço Tecnológico para a assessorar o setor produtivo na incorporação de
tecnologias de gerenciamento da produção e controle dos descartes potencialmente
poluidores, através do aconselhamento técnico no processo de licenciamento
ambiental;
(iii) Educação Ambiental e Difusão Tecnológica - para a disseminação e apropriação
das tecnologias de gestão ambiental.
No período de 1999-2002, a FEAM atuará em cinco diretrizes institucionais a seguir
apresentadas, no contexto dos enfoques descritos.
1. Colaboração e Assessoria - Nova estratégia de Relacionamento com o
Empreendedor - Programa lançado em junho/99, apresentando três faces do órgão
ambiental: colaboradora, assessora e controladora.
2. Municipalização - Descentralização das Atividades de Licenciamento e Fiscalização
com condições estabelecidas por Deliberação Normativa do COPAM em
setembro de 1998, visando a capacitar e transferir para os municípios algumas
atividades de licenciamento e fiscalização ambiental.
3. Definição de Indicadores de Qualidade Ambiental - que dará suporte às áreas de
planejamento visando ao desenvolvimento sustentável.
4. Implantação de Instrumentos Econômicos visando à implementação de lei federal
que já prevê instrumentos como poluidor-pagador.
5. FEAM/Centro de Excelência/Centro de Treinamento - com esforços
preferencialmente dirigidos para a procedimentação das atividades e processos
institucionais e para a formação de gestores ambientais.
Deve-se destacar a ênfase no processo de informatização e dinamização do
licenciamento ambiental, a busca do intercâmbio contínuo com o setor produtivo e a
preocupação com a municipalização.
O processo de municipalização constitui um dos pontos centrais da preocupação
do Órgão, não apenas com vistas à facilitação e agilização dos processos, mas também
como forma de aproximar a gestão ambiental do âmbito municipal, como estabelece o
Artigo 225 da Constituição e, mais recentemente, a Resolução CONAMA 237/96, que
estimula a participação dos municípios do processo de licenciamento.
41
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Essas três preocupações estão enfatizadas nas páginas da Internet da FEAM, que
BDMG
40 anos
emprega o recurso como forma de disponibilizar documentos e comunicar com a
comunidade direta e indiretamente interessada.
Nessas páginas podem ser encontrados os Programas Município e Gestão Ambiental,
onde são disponibilizados todos os documentos necessários ao credenciamento dos
municípios para o processo de gestão ambiental acompanhado pelo COPAM, de acordo
com a Deliberação Normativa 029/98. A FEAM, em seu processo de facilitação aos municípios,
coloca, na referida página, inclusive propostas de Minutas para Legislação Municipal, de
criação do Conselho Municipal de Meio Ambiente, criação do Órgão Executivo Municipal e
orientações relativas à elaboração do Convênio com a SEMAD, onde são intervenientes
todas as instituições subordinadas.
Também por meio eletrônico, foi comunicada a proposta de relacionamento com o
empresariado, denominada FEAM-PARCEIRA. Na página em questão, podem ser encontrados
todos os elementos necessários para a participação no Programa, que propõe diferentes níveis
de acesso e a atribuição de um selo de parceira ambiental, além de outras vantagens, para
aquelas empresas que atenderem aos níveis mais altos das exigências feitas pelo Programa.
Nas páginas da Internet referentes ao Órgão, são colocados, ainda, os dispositivos
legais e normativos de âmbito Estadual e Federal, além de informações sobre a qualidade
do Meio Ambiente (ar e água).
No Diagnóstico realizado pelo MMA, é possível identificar vários outros Programas,
desenvolvidos principalmente em cooperação com a Alemanha, através da GTZ, envolvendo
o empresariado e a Universidade.
No Diagnóstico do MMA (p. 36), são encontradas evidências da estratégia geral do órgão:
A FEAM não adota o sistema de desconcentração administrativa, mas sim vem buscando
a descentralização das atividades de licenciamento e fiscalização, através da municipalização.
Nos municípios de Montes Claros e Ponte Nova, a FEAM mantém dois técnicos, alocados
por cooperação técnica na Universidade de Montes Claros - UNIMONTES - e em escritório
particular, respectivamente. Esses técnicos, cumprindo planejamento estabelecido pela FEAM,
executam os trabalhos de campo referentes ao licenciamento e à fiscalização dos empreendimentos
da região, retornando a cada 15 dias a Belo Horizonte para orientação e informação.
Mais recentemente, no dia 5 de junho de 2002, a FEAM lançou oficialmente o
documento Agenda Marrom Indicadores Ambientais 2002. No documento estão
apresentados indicadores ambientais de praticamente todas as áreas operacionais da
instituição. Segundo sua introdução, o uso dos indicadores representa o início de um
processo contínuo de organização do grande volume de informações disponíveis no
âmbito da instituição, como resultado do processo de licenciamento.
Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
Coordenando o conjunto das atividades do SISEMA, a SEMAD, além de exercer a
Secretaria Executiva dos Conselhos já apresentados anteriormente no organograma do SISEMA,
vem conduzindo programas e projetos e promovendo a articulação permanente entre os
órgãos vinculados.
Luiz Fernando S. Assis e Isabel Cristina R.R.C.Meneses (Coord.) Indicadores ambientais da Agenda Marrom no
7
Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, 68 p.
42 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Assim, após conduzir Programas na área de Educação Ambiental e percepção social
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40 anos
quanto às prioridades ambientais do Estado, a Secretaria coordena, hoje, o Programa
Nacional de Meio Ambiente PNMA II. O Programa deverá enfatizar, conforme proposta
do próprio MMA, o processo de melhoria do Sistema de Licenciamento Ambiental, o
Monitoramento da Qualidade do Ambiente, com ênfase nos recursos hídricos, e introduzir
um novo conceito de gestão ambiental, qual seja, a de Gestão de Ativos Ambientais, que
busca aproximar as instâncias administrativas e a sociedade na gestão dos recursos
ambientais, dentro de uma perspectiva de desenvolvimento sustentável.
Concluindo, pode-se afirmar que o SISEMA, coordenado pela SEMAD, encontra-se
em franca afirmação, embora algumas estratégias, como a condução do IEF, necessitem
ser revistas, fato que, acredita-se, deverá acontecer no âmbito do PNMA II.
43
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
5. A concepção de desenvolvimento sustentável
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40 anos
como base para a formulação de estratégias e
diretrizes para o desenvolvimento de Minas
Gerais no século XXI*
5.1. As dimensões múltiplas de um processo de desenvolvimento
sustentável
Embora seja comum o uso das expressões desenvolvimento sustentado e
desenvolvimento sustentável como se fossem sinônimas, há uma grande diferença entre
elas. O desenvolvimento sustentado é uma expressão da teoria macroeconômica de
crescimento, a qual procura identificar em que circunstâncias estruturais o crescimento
econômico pode ocorrer continuamente ao longo do tempo sem grandes instabilidades
(inflações, depressões, desequilíbrios conjunturais crônicos, etc.).
O conceito de desenvolvimento sustentável surgiu, basicamente, a partir das
preocupações relacionadas com a sobreexploração dos recursos naturais e ambientais em
determinado padrão de crescimento econômico. A idéia de sustentabilidade indicaria, pois,
que as decisões atuais sobre o uso dos recursos naturais não deveriam afetar negativamente as
perspectivas para manter ou melhorar os padrões de vida no futuro. O sistema econômico
deveria ser administrado de tal forma que as gerações futuras venham a dispor de condições
de viver iguais ou melhores do que as gerações atuais; vale dizer, deveria decidir sobre a
quantidade máxima de bens e serviços que pode ser consumida no período atual sem
reduzir as perspectivas de consumo no futuro.
Na reunião da Eco-92, realizada no Rio, buscava-se a definição de políticas, programas
e projetos que pudessem equacionar o inextricável relacionamento entre crescimento
econômico e o meio ambiente. Nesse sentido, o processo de desenvolvimento sustentável
pode ser ilustrado por meio da FIG. 1:
a ) a primeira função dos recursos naturais (R) é prover insumos para o sistema
produtivo (P), que objetiva produzir bens de consumo e de capital (C) para
criar bem-estar ou utilidade (U) para a população;
b ) o meio ambiente é, também, o receptor de última instância de resíduos (W)
que vêm da produção (WP), do consumo (WC) ou dos próprios sistemas
naturais (WR); a diferença básica entre os sistemas naturais e econômicos é
que os sistemas naturais tendem a reciclar os seus resíduos (r), ainda que
parcialmente;
* Este capítulo se baseia em diversos textos preparados pelo consultor para a Comissão de Políticas de Desenvolvimento
Sustentável e da Agenda 21 Brasileira, assim como em alguns fundamentos conceituais dessa Agenda.
44 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
c ) a sustentabilidade dos recursos renováveis depende de sua utilização a uma
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40 anos
taxa (h) que não seja maior do que sua capacidade regenerativa (y);
d ) a terceira função do meio ambiente é a de oferecer utilidade diretamente (de R
para U), na forma de prazer estético e conforto espiritual; se dispusermos
resíduos (W) além da sua capacidade assimilativa (A), o meio ambiente será
prejudicado nessa terceira função.
FIGURA 1
A ECONOMIA CIRCULAR
(+)
(+)
(+)
(+)
Amenidade
negativa
(+)
Fluxos de Materiais / Energia
Fluxos de Utilidade
FONTE: Pearce, D. W. and Turner, R. K. Economics of Natural Resources and the Environment. Johns Hopkins, USA, 1991.
45
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Nessa primeira versão do conceito de desenvolvimento sustentável, propõe-se a
BDMG
40 anos
seguinte definição operacional para o desenvolvimento sustentável: este envolve a
maximização dos benefícios líquidos do desenvolvimento econômico, sujeito à
manutenção dos serviços e da qualidade dos recursos naturais ao longo do tempo.
Essa manutenção implica, desde que seja possível, a aceitação das seguintes regras:
1 utilizar os recursos renováveis a taxas menores ou iguais à taxa natural que
podem regenerar (h < y);
2 otimizar a eficiência com que recursos não-renováveis são usados, sujeitando-
a ao grau de substituição entre recursos e progresso tecnológico;
3 manter sempre os fluxos de resíduos no meio ambiente no nível igual ou
abaixo de sua capacidade assimilativa (W < A).
As decisões sobre as formas de se utilizarem, sustentavelmente, os recursos naturais
não podem ser tomadas sem que haja uma valoração econômica desses recursos, pois estes
apresentam muitas opções alternativas para o desenvolvimento regional. Eles podem ser
preservados, ou seja: nenhum uso humano é permitido na sua exploração. Eles podem ser
conservados, ou seja: a ação antrópica pode ocorrer, desde que sejam mantidos os serviços
e a qualidade dos recursos naturais ao longo do tempo. Assim, há um grande espectro de
opções de conservação, principalmente quando levamos em consideração os demais objetivos
de desenvolvimento de uma região ou localidade (geração de emprego, redução da pobreza
absoluta, etc.) e os respectivos trade-off, os quais se definem, economicamente, a partir de
seus custos e benefícios relativos. No fundo, o desafio é mostrar se os valores econômicos
resultantes do uso sustentável dos recursos ambientais são superiores aos valores gerados
pelas atuais formas de intervenção nas economias regionais ou locais.
O conceito de desenvolvimento sustentável vem ganhando, em anos recentes,
múltiplas dimensões tanto na área científica quanto na área das políticas públicas:
sustentabilidade ecológica: refere-se à base física do processo de crescimento e
tem como objetivo a manutenção de estoques de capital natural incorporados às
atividades produtivas;
sustentabilidade ambiental: refere-se à manutenção da capacidade de sustentação
dos ecossistemas, o que implica a capacidade de absorção e recomposição dos
ecossistemas em face das interferências antrópicas;
sustentabilidade social: tem como referência o desenvolvimento e como objeto a melhoria
da qualidade de vida da população; em países com desigualdades, implica a adoção
de políticas distributivas e/ou redistributivas e a universalização do atendimento na área
social, principalmente na saúde, educação, habitação e seguridade social;
sustentabilidade política: refere-se ao processo de construção da cidadania, em
seus vários ângulos, e visa a garantir a plena incorporação dos indivíduos ao
processo de desenvolvimento;
sustentabilidade econômica: implica uma gestão eficiente dos recursos em geral e
caracteriza-se pela regularidade de fluxos do investimento público e privado o que quer
dizer que a eficiência pode e precisa ser avaliada por processos macrossociais;
sustentabilidade demográfica: revela os limites da capacidade de suporte de
determinado território e de sua base de recursos; implica cotejar os cenários ou
tendências de crescimento econômico com as taxas demográficas na sua
composição etária e contingentes de população economicamente ativa;
46 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
sustentabilidade cultural: relaciona-se com a capacidade de manter a diversidade
BDMG
40 anos
de culturas, valores e práticas no Planeta, no país e/ou numa região, que compõem,
ao longo do tempo, a identidade dos povos;
sustentabilidade institucional: trata de criar e fortalecer engenharias institucionais
e/ou instituições que considerem critérios de sustentabilidade;
sustentabilidade espacial: norteada pela busca de maior eqüidade nas relações
inter-regionais.
Em última análise, diante dessas dimensões multifacetadas da sustentabilidade, admite-
se que o conceito de desenvolvimento sustentável está em processo de construção e que, ao
adotá-lo como idéia-força para formular e executar políticas de desenvolvimento, é preciso
operacionalizá-lo sem, contudo, dar-lhe um tratamento fragmentado. Assim, ao discutirmos a
construção dos alicerces organizacionais e dos instrumentos para a promoção do desenvolvimento
sustentável em Minas, há a necessidade de se estruturar uma agenda de transição, que abranja
as questões centrais reduzir a degradação do meio ambiente e, simultaneamente, a pobreza
e as desigualdades e contribua para a sustentabilidade progressiva.
Uma concepção ampliada de desenvolvimento sustentável pode conter uma justificativa
instrumental para a redução da pobreza como um meio para proteger o meio ambiente:
como as famílias pobres (vítimas e agentes de danos ambientais) quase sempre não dispõem
de recursos para evitar a degradação dos recursos ambientais como valor de uso, a redução
da pobreza se apresenta como um pré-requisito para a conservação ambiental. Entretanto o
desenvolvimento humano em bases sustentáveis é um objetivo por si só, uma vez que
intensifica diretamente a capacidade das pessoas para desfrutar uma vida longa e saudável,
de tal forma que há ganhos imediatos no que é importante em última instância, enquanto
se salvaguardam oportunidades no futuro 8.
É fundamental esclarecer, também, o indispensável papel do Estado na construção do
processo de desenvolvimento sustentável no Brasil. A obrigação social de sustentabilidade,
como tem insistido Amartya Sen, não pode ser deixada inteiramente por conta do mercado,
uma vez que o futuro não está adequadamente representado no mercado pelo menos o
futuro mais distante. O Estado deve servir como gestor dos interesses das futuras gerações, por
meio de políticas públicas que utilizem mecanismos regulatórios ou de mercado, adaptando a
estrutura de incentivos a fim de proteger o meio ambiente global e a base de recursos para as
pessoas que ainda vão nascer. Até mesmo quando se busca estimular o uso de mecanismos
descentralizados de mercado para operacionalizar os objetivos das políticas de desenvolvimento
sustentável, deve-se dar ênfase, igualmente, às necessidades dos excluídos e não apenas às
demandas presentes e futuras do mercado.
O conceito de necessidades é muito importante, pois tem de levar em consideração as
carências dos mais pobres (ao mesmo tempo, vítimas e agentes dos danos ambientais), assim
como as limitações impostas pela situação atual da tecnologia e da organização social para
atender às necessidades presentes e futuras. A noção de desenvolvimento sustentável não
implica em deixar intacta a capacidade produtiva em todos os seus detalhes, mas conservar as
oportunidades para que as futuras gerações disponham de condições de vida dignas. Para
isso, é indispensável sinalizar a importância de que se formulem e se implementem políticas
públicas adequadas de desenvolvimento sustentável, sem que se deixe a impressão da existência
de um conflito ou de uma querela entre essas políticas e a lógica da economia de mercado.
Sen, A. Development as freedom. Anchor Books, 1999, New York.
8
Sudhir, A. and Sen, A. Sustainable human development: Concepts and Priorities. New York: UNDP, 1996, New York.
47
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Apesar de Minas Gerais ter um dos sistemas estaduais de meio ambiente mais bem
BDMG
40 anos
estruturados do País, a questão ambiental ainda tem sido tratada como uma política setorial
a mais dentro do conjunto das políticas públicas do Estado. É evidente que a busca de uma
eficácia operacional nas políticas ambientais induz um esforço de integração dessas políticas
com os objetivos de desenvolvimento setorial (energia, transporte, água, indústria, etc.) em
termos de novos investimentos e da sua gestão estratégica. Entretanto a adoção do moderno
conceito de desenvolvimento sustentável poderá servir de base de referência e de elemento
de integração em todas as políticas setoriais num cenário de Minas para o século XXI. Para
isso, é fundamental que o conceito seja operacionalizado para fins de planejamento.
5.2. Um conceito operacional de desenvolvimento sustentável
para fins de planejamento
A ampliação do conceito de desenvolvimento sustentável, para incorporar um tripé
formado pela competitividade sistêmica, pela eqüidade social e pela qualidade do meio
ambiente, coloca a questão dos conflitos que a sua operacionalização faz emergir. Assim,
para delimitar as estratégias de desenvolvimento sustentável do ponto de vista operacional
e dar-lhes um tom de realismo, é indispensável estabelecer os alicerces da construção das
políticas públicas que irão fundamentá-las. Para que essas políticas sejam factíveis, é preciso
que sejam identificados os conflitos de interesses de curto prazo entre os diferentes objetivos
de desenvolvimento sustentável que estão contidos nas diversas estratégias, a fim de se
dimensionar a intensidade do esforço de negociação para a superação desses conflitos.
a ) Eficiência econômica versus eqüidade social
As estratégias propostas por uma agenda de desenvolvimento sustentável podem
ser avaliadas sob a óptica da eficiência econômica e da competitividade (alocação eficiente
de fatores escassos que têm usos alternativos) ou sob a óptica da eqüidade social
(distribuição da renda e da riqueza).
Em princípio, não se pode afirmar que os critérios de eficiência econômica e de eqüidade
social (ou de distribuição de renda e de riqueza) que orientam a seleção e a prioridade de
estratégias de desenvolvimento sustentável sejam mutuamente exclusivos. Um programa ou
projeto, como o de melhoria da competitividade de um cluster de fruticultura no Norte de
Minas, pode se enquadrar no critério de eficiência e no critério de distribuição, pois aumenta
os fluxos de comercialização, as margens de lucro, e, enfim, a competitividade agrícola regional
e, ao mesmo tempo, pode beneficiar os pequenos produtores de menor nível de rendimentos.
O que interessa ressaltar é a ênfase dada ao programa ou projeto a ser executado. Os programas
ou projetos de natureza distributiva, por exemplo, devem, na maioria das vezes, ser eficientes
sob o aspecto econômico. Contudo o objetivo distributivista colocará todo o empenho,
intencionalmente, nas ações e medidas que tenham maior probabilidade (ou que nos dão
certeza) de beneficiar os grupos sociais de baixa renda.
A separação dos critérios de eficiência e distribuição não se deve à idéia de que sejam
antagônicos. A experiência de longos anos, em vários países, entretanto, mostra que o aumento da
eficiência econômica e, portanto, da produtividade e da competitividade pode não resultar,
necessariamente, em aumento do bem-estar socioeconômico dos cidadãos mais pobres da
comunidade, nem reduz o desemprego e o subemprego significativamente. Nessas questões, a
regra geral é o provável insucesso das ações e medidas propostas para gerar mais eqüidade social.
Embora possam ocorrer programas ou projetos de gastos públicos de caráter
fundamentalmente distributivo (ex. programa de nutrição para grupos de baixa renda) e
outros de caráter eminentemente de eficiência (ex. criação de infra-estrutura econômica
48 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
para atuação de programas industriais num sistema de concorrência entre regiões), essa
BDMG
40 anos
desvinculação é tanto mais obscura quanto mais longo for o período em que se avaliam os
impactos dos programas e dos projetos (ex. programas de educação para a população de baixa
renda, os quais, no longo prazo, gerarão recursos humanos qualificados para o sistema produtivo).
As diferentes ações de um processo de desenvolvimento sustentável irão afetar a
distribuição da renda e da riqueza em suas áreas de atuação, através de benefícios derivados
dos salários e dos rendimentos privados gerados pelos projetos produtivos e, também, dos
benefícios dos projetos sociais não diretamente produtivos (por exemplo, educação e saúde).
Na análise dos efeitos distributivos desses projetos não diretamente produtivos, é importante
introduzir a dimensão temporal. Se a ênfase está na solução de problemas sociais pela
alocação de fundos em programas diretamente ligados a esse setor, as estratégias são de
curto prazo (políticas sociais de natureza compensatória). Quando se introduz a dimensão
de longo prazo, as estratégias têm de considerar que o uso alternativo de fundos em
projetos com efeitos distributivos positivos (a mobilização de clusters potenciais em áreas
de alto risco social, por exemplo) pode melhorar consideravelmente as carências existentes
e virá a se constituir em solução mais adequada e com maior sustentabilidade. No longo
prazo e quase sempre, eficiência e distribuição estão bastante interligadas.
b ) Eficiência econômica e sustentabilidade ambiental
O uso econômico dos recursos ambientais pode colocar uma grave questão para as
presentes e as futuras gerações, se não for conduzido segundo critérios de sustentabilidade. A
compatibilidade entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental não ocorre como
conseqüência natural do jogo espontâneo de mercado. Na verdade, a livre mobilização dos
fatores de produção pelos mecanismos de mercado, em geral, tem estimulado o uso predatório
dos recursos ambientais em diversos contextos históricos. O próprio sistema de incentivos fiscais,
adotado para a promoção do crescimento das áreas menos desenvolvidas do Brasil, não vinha
incluindo até recentemente, entre os seus critérios de avaliação dos projetos de investimentos, a
dimensão ambiental como variável relevante para a aprovação dos financiamentos. Assim,
muitos projetos incentivados da Amazônia e do Centro-Oeste contribuíram para a devastação da
flora e da fauna em extensas áreas de florestas tropicais e de cerrado.
A Constituição Brasileira de 1988, ao buscar uma nova ordem institucional a partir
da década de noventa, destacou a questão da preservação ambiental como objetivo
prioritário de desenvolvimento. Em 1998, foi editada uma lei extremamente rigorosa, um
mecanismo institucional que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas
de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Essa lei contra os crimes ambientais,
uma vez implantada, deverá levar para o nível da decisão microeconômica (empresários
e consumidores brasileiros) a questão dos custos ecológicos.
Esses dispositivos legais, ancorados em intensa mobilização dos movimentos
conservacionistas, nos dão certa garantia de que, ao longo do tempo, tenda a prevalecer uma
concepção alternativa de desenvolvimento na qual a questão ambiental não seja tratada à
margem das principais decisões sobre a acumulação de capital e seus efeitos distributivos.
Como não tem sido de sucesso a história dos processos de implementação de leis que
tentam disciplinar os interesses individuais em função dos interesses coletivos, é fundamental
trabalhar a consciência social de empresários e consumidores, num comprometimento permanente
com a dimensão do desenvolvimento sustentável em suas decisões cotidianas e estratégicas.
Nesse caso, destaca-se que há vinculação dos interesses individuais com o valor econômico da
natureza, de onde poderão extrair benefícios líquidos para a atual e as futuras gerações, desde
que adotem processos tecnológicos e padrões de consumo ecologicamente corretos.
49
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Os conflitos entre a busca da eficiência econômica e a sustentabilidade ambiental
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40 anos
derivam, em grande parte, dos usos econômicos alternativos dos recursos ambientais de
determinadas localidades e regiões: 1) valor de uso direto: valor atribuído aos recursos pelos
indivíduos e pelas organizações que usufruem dos insumos e dos produtos do meio ambiente;
2) valor de uso indireto: corresponde ao conceito de funções ecológicas, as quais podem ser
melhor compreendidas pelo valor do dano causado (o impacto do desflorestamento sobre a
erosão do solo, por exemplo) ou pelo custo de reposição (as despesas para a reconstituição
da área); 3) valor de opção: relacionado com o montante que os indivíduos e as organizações
estariam dispostos a pagar para conservar os recursos ambientais para um uso futuro; 4) valor
de existência: relacionado com as avaliações monetárias dos ativos ambientais, sem vinculação
com o seu uso corrente ou o seu uso opcional. É um componente importante do valor
econômico total, particularmente em situações de incerteza quanto à extensão dos danos ou
de ativos únicos (espécimes raros, por exemplo). Quando o desejo de pagar para preservar
um ativo ambiental está vinculado aos benefícios que esse ativo poderá trazer para os seus
descendentes, temos o caso do valor de legado.
c ) Políticas de curto prazo versus políticas de desenvolvimento
A concepção e a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável no
Brasil e em Minas colocam em questão os problemas de articulação dos objetivos das
políticas econômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento de médio e de
longo prazo. Essa questão inclui, de um lado, a consolidação do ajuste fiscal e financeiro
e, do outro lado, a superação do atual quadro de desigualdades sociais e regionais, por
meio de políticas públicas que promovam o crescimento econômico, com eqüidade e
sustentabilidade ambiental.
Políticas econômicas de curto prazo, que lidam com problemas de inflação, de
flutuações nos níveis de emprego ou de geração de renda, têm de ser operadas dentro
das restrições impostas por um tempo histórico e irreversível. É indispensável tomar essas
restrições e condicionalidades como ponto de partida. Se, nos momentos tumultuados do
presente, quisermos resolver graves questões econômicas com orientações estratégicas
que somente são eficazes no longo prazo, as políticas econômicas podem fracassar.
Por outro lado, uma sociedade em regime de inflação crônica e de inconsistências
macroeconômicas inclina-se a considerar as políticas de médio e de longo prazo supérfluas
e residuais. Pressupõe-se que os problemas de curto prazo (inflação, déficits públicos,
etc.) são tão críticos e dominantes que não haveria condições para que essa sociedade se
programasse para tratar das questões de médio e de longo prazo (a erradicação da
pobreza absoluta, a atenuação dos desequilíbrios regionais, o êxodo rural, etc.) antes de
se consolidar a estabilidade econômica. Vale dizer, numa sociedade em regime de rigoroso
ajuste fiscal e financeiro, as soluções dos problemas de estrutura (os de médio e de longo
prazo) ficariam cronologicamente condicionadas pelas soluções dos problemas de
conjuntura (os de curto prazo).
É de esperar que, num processo de reforma e de modernização do Estado brasileiro,
este venha a desempenhar um papel mais amplo do que apenas coordenar e manter a
consistência do equilíbrio macroeconômico e do ajuste fiscal, além de garantir a oferta de
bens e serviços públicos tradicionais, como sinaliza a tendência neoliberal. Há uma expectativa
de que o Estado possa coordenar, também, instrumentos de políticas públicas que visem a
promover ações compensatórias do ponto de vista da eqüidade social, para atenuar os
desequilíbrios regionais de bem-estar das populações, e ações de crescimento, para mobilizar
as potencialidades de expansão econômica das áreas menos desenvolvidas ou estagnadas.
50 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
5.3. A Agenda 21 Brasileira e suas implicações para o
BDMG
40 anos
desenvolvimento de Minas Gerais
Ao longo das últimas décadas, no período republicano, a sociedade brasileira assistiu a
alguns dos mais profundos processos de destruição segmentada e progressiva de seus principais
biomas por meio dos múltiplos impactos da dinâmica do seu padrão de crescimento econômico.
Este, em diferentes períodos históricos, assumiu o estilo de diversos modelos: o modelo primário-
exportador, o modelo de substituição de importações e o modelo de promoção de exportações.
De forma simultânea, essas etapas de intenso crescimento econômico do País configuraram um
processo acelerado de urbanização e de persistência generalizada dos elevados níveis de pobreza
em todas as Unidades da Federação. Esses processos provocaram rápida e intensa deterioração
nos indicadores de desenvolvimento sustentável do Brasil, clamando por uma nova concepção
de desenvolvimento, mais abrangente e mais justa.
Os principais desafios da sustentabilidade do desenvolvimento do Brasil residem nos
elevados índices de pobreza e conseqüente necessidade de incorporar parcela significativa da
população na economia e na oferta de serviços sociais básicos, assim como no uso recorrentemente
predatório da base de recursos naturais renováveis e não-renováveis do País. A escala de
pobreza e das carências tende a estimular a busca de soluções imediatistas e de curto prazo que,
normalmente, atrasam as iniciativas estruturais capazes de reorganizar o estilo ou padrão de
desenvolvimento prevalecente. A geração de renda e trabalho para os segmentos mais pobres
da população e a ampliação dos investimentos em infra-estrutura e oferta de serviços sociais não
podem ser alcançadas, contudo, ao custo da degradação do meio ambiente pelo crescimento
econômico insustentável. As tendências de reestruturação produtiva, após a abertura da economia
brasileira nos anos 90, e sua modernização futura podem reforçar a concentração econômica e
social no País, em detrimento principalmente das áreas menos desenvolvidas, criando ameaças
de uma fragmentação do Território e da Unidade Federativa. Essa perspectiva torna urgente e
fundamental a implementação de um projeto nacional de desenvolvimento, capaz de potencializar
as vantagens competitivas do País e da sua inserção na economia globalizada, para favorecer
um salto qualitativo na integração nacional.
O avanço da cultura da sustentabilidade somente será possível a partir de novas formas
de cooperação e diálogo entre os vários atores sociais na construção da Agenda 21 Brasileira,
que não será obra de um ou de outro setor de forma isolada: os diversos segmentos da
sociedade deverão estar unidos, aliados para alcançar eficácia nas ações projetadas.
A Agenda 21 Brasileira deve ser entendida como um processo, e não como uma
conquista imediata; uma caminhada permanente em direção a objetivos, não uma
realização de curto prazo; um conjunto de diagnósticos que devem orientar os consensos,
que, por sua vez, irão engendrar diretrizes e ações concretas capazes de levar à superação
paulatina dos obstáculos ao desenvolvimento sustentável.
A Agenda 21 Brasileira deverá exercer um papel particularmente destacado na concepção
e na coordenação da execução de uma nova geração de políticas públicas, que venham a
reduzir o quadro de desigualdades e discriminações sociais prevalecentes no País, levando a
uma melhoria dos componentes do desenvolvimento humano. O crescimento econômico,
como componente do desenvolvimento humano, é uma condição necessária, mas não suficiente
para o desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento pressupõe um processo de inclusão
social, com uma vasta gama de oportunidades e opções para as pessoas. Além de empregos de
melhor qualidade e de rendas mais elevadas, é preciso que os brasileiros, todos os brasileiros,
desfrutem de uma vida longa e saudável, adquiram conhecimentos técnicos e culturais, tenham
acesso aos recursos necessários a um padrão de vida decente. Não pode haver desenvolvimento
enquanto houver iniqüidades sociais crônicas no nosso País e se as formas de uso dos recursos
ambientais no presente comprometerem os níveis de bem-estar das gerações futuras.
51
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Alguns estados e muitos municípios do País construíram suas agendas locais de
BDMG
40 anos
acordo com a concepção geral da Agenda 21 Brasileira. Há grande probabilidade de que
a plataforma de ação proposta por esta Agenda venha a se constituir no referencial básico
para uma nova geração de políticas públicas no País, que, certamente, irão ter rebatimentos
espaciais sobre a economia e a sociedade de estados e municípios.
Além do mais, para o exame específico das propostas por Unidade da Federação, inclusive de
Minas Gerais, é possível consultá-las no endereço eletrônico do Ministério do Meio Ambiente
(www.mma.gov.br). A utilidade de se dispor de uma lista tão completa dessas propostas irá se
configurar ao longo do tempo, quando houver condições políticas para se resgatar um processo
de planejamento de médio e de longo prazo no País e nas Unidades da Federação. No caso de
Minas Gerais, há uma expectativa de que um novo ciclo de planejamento de médio e de longo
prazo se alicerce no conceito de desenvolvimento sustentável para a concepção e a
implementação das políticas, programas e projetos que irão compor esse novo ciclo.
5.4. Os mecanismos institucionais e os instrumentos de implementação
de uma Agenda 21 estadual
Existem inúmeros mecanismos institucionais e instrumentos que podem contribuir
para a implementação do processo de desenvolvimento sustentável. Alguns são mais
tradicionais, outros mais inovadores; muitos são da alçada do setor público, alguns são
controlados por decisões da iniciativa privada; há, também, uma diversidade muito grande
desses mecanismos e instrumentos em função de seu grau de descentralização administrativa,
de participação comunitária, de regionalização, etc. É praticamente impossível enumerá-
los e classificá-los a fim de avaliar a sua contribuição para a execução de políticas,
programas e projetos de desenvolvimento sustentável.
As FIG. 2 e 3 apresentam objetivos e alternativas de intervenção governamental nas
políticas de desenvolvimento sustentável, sem ter, contudo, a pretensão de esgotar todos
os mecanismos institucionais e instrumentos que podem ser mobilizados para a
implementação dessas políticas com seus programas e projetos. Antes de apresentar alguns
desses mecanismos e instrumentos, é preciso lembrar que há um elenco de dificuldades
político-administrativas, quando se busca operacionalizar o conceito de desenvolvimento
sustentável na gestão do cotidiano das burocracias governamentais.
Numa agenda de desenvolvimento sustentável, o que se busca é um mínimo de
integração, dentro de um processo de desenvolvimento, entre transformações produtivas,
eqüidade social e redução da degradação ambiental, numa perspectiva de sustentabilidade
ampliada e progressiva, sendo que essa integração tem de acontecer dentro de um aparelho
burocrático que, no Brasil, ainda se encontra em fase de reconstrução após uma seqüência
de reformas administrativas malsucedidas ao longo dos últimos anos.
Usualmente, a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável envolve
problemas de coordenação entre diferentes setores dos três níveis de governo, entre diferentes
equipes técnicas interdisciplinares, entre agências públicas e organizações não-governamentais
na formação de parcerias. Esse processo de coordenação resulta em inúmeros obstáculos
técnicos e, principalmente, políticos para as organizações responsáveis por uma perspectiva
integrada desta política no País. As instituições tendem a desenvolver o seu território
próprio de decisão, fechando-se em torno de missões e temas programáticos específicos
e, ao mesmo tempo, protegendo-se das tentativas de interferências das atividades de
coordenação externa. As ações da Agenda 21 são de natureza programática em busca de
52 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
resultados operacionais, envolvendo a mediação de conflitos e disputas, a eliminação de
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40 anos
setorialismos injustificáveis, a promoção de consensos, a busca do dinamismo efetivo em
lugar das divisões formais, etc., para, efetivamente, concretizar os objetivos e as metas dos
programas e projetos estruturantes de um processo de desenvolvimento sustentável.
Muitos dos problemas reais com o desenvolvimento de programas e projetos de
desenvolvimento sustentável, que busquem, simultaneamente, o crescimento econômico, com
redução da pobreza e das desigualdades num contexto em que seja preservada a qualidade
do meio ambiente, não estão tanto em sua concepção e planejamento, mas na sua
implementação, ou seja, nas dificuldades que têm as instituições de “fazer as coisas
certas” (eficácia) e “fazer certo as coisas certas” (eficiência).
FIGURA 2
OBJETIVOS E ALTERNATIVAS DE INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL NAS POLÍTICAS
DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
53
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
FIGURA 3
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MECANISMOS DE FINANCIAMENTO DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Necessidades de
=
financiamento das políticas Recursos Déficit financeiro
de desenvolvimento disponíveis potencial
Sustentável
Financiamento de
investimentos ambientais e
do desenvolvimento
sustentável
= Recursos Adicionais de
Necessidades de
+
Novos mecanismos
mecanismos Existentes
financiamento Reduzidas de financiamento
• Orçamento de base zero; • Financiamentos
• Impostos verdes;
• Eficiência e eficácia; • Taxas ambientais; multilaterais;
• Sinergias; • Certificados
• Fundos especiais;
negociáveis;
• Depósitos restituíveis;
• Financiamentos de
Projetos de Seqüestro
de Carbono.
a ) Ao longo das últimas décadas, os três níveis de governo no Brasil têm utilizado,
crescentemente, estruturas e mecanismos de regulamentação (leis, decretos, portarias,
etc.) visando a implementar as mais diferentes políticas públicas. Numa primeira
etapa, as regulamentações se concentravam nas áreas das políticas sociais (saúde,
segurança no trabalho, defesa do consumidor, educação, etc.). Mais recentemente,
com o avanço do processo de privatização dos setores de infra-estrutura econômica,
foram criadas as agências regulatórias para telecomunicação, energia, petróleo, etc.
As políticas ambientais também dispõem para a sua implementação, atualmente, da
Lei Federal 9.605 de fevereiro de 1988, como um dispositivo fundamental sobre as sanções
penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente a
Lei de Crimes Ambientais. Trata-se de um sistema de comando e controle para garantir os
objetivos das políticas ambientais de conservação ou de preservação dos ecossistemas, de
recuperação de áreas degradadas, etc.
Há um entendimento, observável em diversos países, de que, quanto mais intensos
os processos de privatizações e de concessões de serviços públicos, mais se expande a
necessidade de se conceberem e de se executarem estruturas e mecanismos de
regulamentação. Em muitas situações, o Brasil ainda está em fase de aprendizado histórico
para lidar com esses mecanismos institucionais. Cite-se, por exemplo, o caso das agências
regulatórias, criadas após as privatizações, abrangentes ou parciais, dos setores de infra-
estrutura econômica e de energia (ANATEL, ANEEL, ANP, etc.). Como ainda é limitado o
controle social externo dessas Agências, são grandes as chances de que venham a ser
capturadas e influenciadas de forma dominante pelos grupos sociais e organizações
empresariais interessados em suas decisões, sem que estejam necessariamente
comprometidos com os interesses públicos nacionais.
54 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
É evidente que não se pode subestimar o conjunto das estruturas regulatórias do
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40 anos
País que serve de base institucional para a concepção e a execução das políticas de
desenvolvimento sustentável, inclusive as que venham a utilizar mais amplamente os
mecanismos baseados em mercado. Nas políticas ambientais, por exemplo:
os processos de licenciamento ambiental, os princípios gerais para a implantação
do sistema de gestão ambiental e para a auditoria ambiental constituem o suporte
jurídico indispensável tanto para a execução de leis e normas, quanto para a
implantação de instrumentos econômicos;
especificamente para projetos de investimento, há todo um processo de licenciamento
ambiental para as atividades potencialmente poluidoras (licenças prévias de instalação
e de operação) e, em princípio, uma agência financiadora deveria examinar os
possíveis comprometimentos ambientais do investimento, tendo em vista as exigências
legais e de mercado, assim como os procedimentos de gestão ambiental preexistentes
e propostos pelo mutuário, para eliminar ou minimizar os impactos da implantação
e operação do empreendimento, e para permitir o menor comprometimento
ambiental possível dos resíduos finais de seus produtos;
a SÉRIE ISO 14000 passou a conter as normas ambientais de mercado, que, quando
introduzidas no Brasil, através das NBRs, estabeleceram os princípios gerais para a
implantação do Sistema de Gestão Ambiental e para a Auditoria Ambiental.
Todo esse conjunto de normas visa à integração dos princípios de qualidade
ambiental na gestão empresarial e constitui o suporte jurídico tanto para a execução de
leis e normas quanto para a implantação dos instrumentos econômicos. Dada a inequívoca
importância das estruturas e dos mecanismos regulatórios para o processo de implementação
das políticas de desenvolvimento sustentável, é fundamental que sejam aperfeiçoados
tecnicamente e fortalecidos politicamente. Ressalte-se, finalmente, que, embora a legislação
ambiental do Brasil seja classificada como uma das mais avançadas do Mundo, a sua
implantação enfrenta problemas de escassez de recursos para ampliar a fiscalização e de
mais estímulos à atuação das organizações não-governamentais.
b ) Pode-se dizer que, nas duas últimas décadas, em razão do avanço da consciência
social e ecológica no País, foi se configurando uma verdadeira avalanche de
demandas pelos movimentos sociais organizados para que os três níveis de
governo passem a alocar mais recursos financeiros, humanos e institucionais
no processo de desenvolvimento sustentável. Entretanto, enquanto vêm
avançando as demandas de ações governamentais para o desenvolvimento
social e ambiental do Brasil, ainda está difícil estruturar um sólido e consistente
sistema de financiamento para a concretização dos princípios e dos objetivos
da Agenda 21, nesse início de século XXI. Dessa forma, de um lado, poderá
haver uma grande frustração na opinião pública brasileira com a falta de
exeqüibilidade de muitas propostas e estratégias concebidas dentro de uma
agenda estadual; do outro lado, torna-se indispensável expandir as alternativas
de mecanismos institucionais e instrumentos para a sua implementação.
Poder-se-ia pensar na possibilidade de uma vinculação adicional de receitas tributárias
(impostos, taxas, contribuições parafiscais) aos gastos com as políticas, programas e projetos
de desenvolvimento sustentável definidos pela Agenda 21 Brasileira, por meio da formação
de um fundo especial para o seu financiamento. Ao nível do País, essas vinculações
foram um caminho encontrado, desde 1988, pelos setores de educação, saúde,
desenvolvimento regional, etc. para reduzir as incertezas relativas à efetividade dos seus
55
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
gastos, em períodos em que a estabilidade da economia brasileira tem exigido, recorrentemente, o
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40 anos
contingenciamento de recursos orçamentários diante de eventuais desequilíbrios macroeconômicos.
Mais recentemente, ocorreu a criação de Fundos Setoriais vinculados ao financiamento da Política
Nacional de Ciência e Tecnologia.
É evidente que todo esforço de negociação para expandir as cotas orçamentárias nos três
níveis de governo, relacionadas com as ações de desenvolvimento sustentável, deve ser estimulado,
embora seja desaconselhável, do ponto de vista do interesse nacional, que se venha a ampliar
ainda mais as vinculações dos parcos recursos livres dos Orçamentos para financiar a Agenda 21
Brasileira e as Agendas Locais. Mas o hiato de recursos acumulado no passado é tão grandioso que
o crescimento dos recursos fiscais ainda pode ficar muito aquém de suas necessidades de
financiamento. Por isso, torna-se necessário avaliar a medida em que mecanismos e instrumentos
de mercado podem ser utilizados para aliviar a carga das demandas para ações de desenvolvimento
sustentável nos orçamentos fiscais dos três níveis de governo. Da mesma forma, é fundamental
valorizar o papel do Segundo Setor (organizações produtivas) e do Terceiro Setor (organizações
sem fins lucrativos) na concepção e na formação de parcerias de programas e projetos de
desenvolvimento sustentável.
c) É sempre possível pensar em soluções de caráter mais radical para gerar fontes de
financiamento dos orçamentos fiscais para a implementação da Agenda 21 Brasileira.
Freqüentemente, mais importante do que as tentativas de vincular receitas ou de
gerar fundos adicionais, aumentando a já elevada carga tributária brasileira, para a
execução de políticas, programas e projetos de desenvolvimento sustentável, é a
função de reprogramação dos recursos públicos que já estão sendo normalmente
aplicados, pelos três níveis de governo. Podem ser grandes as possibilidades de
que as atuais estruturas de gastos não sejam consideradas, em seu conteúdo ou em
sua forma, como prioritárias diante das novas estratégias da Agenda 21 Brasileira.
Nesse caso, haverá condições político-institucionais para reformulá-las de tempos
em tempos, a fim de identificar a oportunidade de remanejamento dos respectivos
recursos. A função de reprogramação orçamentária consiste, pois, basicamente, na
desativação, na reorientação e na integração de programas e projetos que diferentes
instituições do setor público dos três níveis de governo vêm executando, de forma
a redirecionar os recursos correspondentes a esses programas e projetos, segundo
as diretrizes propostas por novas estratégias de desenvolvimento.
Até mesmo os gastos em programas com receitas vinculadas poderiam ser
reestruturados a nível desagregado das características dos seus projetos e atividades.
Nesse caso, é recomendável para o País, os estados e os municípios de maior
complexidade econômica e social (centros metropolitanos e cidades de porte médio), que
realizem um processo de reprogramação a partir de uma experiência de formulação e execução
do Orçamento de Base Zero. Normalmente, há uma forte tendência para que os orçamentos
de cada ano sejam uma reprodução da estrutura de gastos do ano anterior, com pequenas
alterações quanto à introdução de novas atividades ou projetos. Dessa forma, vai-se repetindo,
hoje, o que basicamente se fazia ontem e, com grande chance, far-se-á amanhã, sem uma
perspectiva crítica da composição das despesas de custeio e de investimento. De acordo com
a metodologia do Orçamento de Base Zero, nenhum órgão da administração direta ou indireta
dispõe, inicialmente, de cotas preestabelecidas ou corrigidas segundo regras uniformes. Na
verdade, há que haver uma sólida justificativa para cada programa, subprograma, projeto ou
atividade a ser incluída no orçamento, a fim de se ter acesso aos recursos fiscais. A partir do
conjunto de demandas multifacetadas, estrutura-se o novo orçamento, tendo como referência
estratégias de desenvolvimento, como as que se inserem na Agenda 21. Recomenda-se que
56 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
esse tipo de reformulação conceitual do orçamento se processe uma única vez e no primeiro
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40 anos
ano de cada mandato, dadas as eventuais dificuldades político-institucionais para a sua
implementação.
d) Historicamente, têm sido os instrumentos fiscais e financeiros de intervenção indireta a
que o Poder Público mais recorreu para atingir os objetivos das políticas de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, são esses mesmos instrumentos que geraram o maior número de falhas
de governo no processo de desenvolvimento sustentável no País, em suas regiões e em
suas localidades. De qualquer forma, o uso intenso desses instrumentos ainda se constitui
no meio mais eficaz e universal para a implementação das políticas, dos programas e dos
projetos da Agenda 21 Brasileira.
Em geral, quando há determinadas atividades de mérito sociocultural inquestionável; quando
há discrepâncias entre a taxa de rentabilidade privada e a taxa de rentabilidade social de
determinados investimentos; ou quando surgem externalidades negativas na implantação ou
operação desses investimentos, recorre-se, com certa freqüência, a mudanças na política tributária
(alíquotas diferenciadas de impostos e taxas, desonerações, isenções, etc.), visando a apoiar ações
de desenvolvimento para corrigir falhas de mercado.
Os incentivos fiscais se apresentam como o instrumento mais utilizado na promoção de
soluções para problemas de redistribuição de benefícios sociais e oportunidades econômicas, por
meio de programas e projetos de natureza meritória. Por serem recursos com baixo custo de
oportunidade econômica para os que deles se beneficiam, sendo acessados geralmente por meio de
negociações políticas no Executivo e no Legislativo, é comum, também, que o seu uso esteja
freqüentemente associado às mais diferentes mazelas.
Mesmo com as dificuldades operacionais e os obstáculos político-institucionais para
lidar com os instrumentos tributários impostos pelas exigências do processo de ajuste fiscal e
da Lei de Responsabilidade Fiscal, eles ainda apresentam um grande potencial para a
implementação das políticas, dos programas e dos projetos da Agenda. Cite-se como ilustração
a cota-parte livre do ICMS, cuja aplicação é definida por lei estadual, constitui enorme
possibilidade para a promoção de políticas, programas e projetos de desenvolvimento
sustentável; algumas Unidades da Federação têm legislado no sentido de que haja pesos
distributivos na repartição desta cota-parte livre, de tal forma que têm estimulado os municípios
a preservar o meio ambiente (ICMS ecológico), a promover a pequena produção agrícola, a
valorizar o seu patrimônio histórico, etc.
e) Quando se procura estimar o montante de recursos financeiros de que os três níveis
de governo dispõem, com certo grau de autonomia, para equacionar os problemas
de desenvolvimento sustentável do País, constata-se que, efetivamente, os valores
são muito pouco significativos. De um lado, a crise social vem se agravando a partir
dos elevados índices de desemprego e subemprego nos principais centros urbanos,
gerando uma verdadeira avalanche de demandas para o sistema público de saúde, de
educação, de assistência social, etc. Por outro lado, os compromissos dos governos
com os serviços da dívida interna e da dívida externa, com a vinculação das receitas
para despesas específicas e com o pesado custeio do pessoal ativo e inativo, deixam
um volume inexpressivo de recursos livres para financiar as políticas sociais
compensatórias. O que fazer?
É evidente que a situação se tornaria extremamente grave, se as soluções dos problemas de
desenvolvimento sustentável dependessem apenas de recursos fiscais dos três níveis de governo
para serem equacionados. Na verdade, é preciso redefinir o conceito do que seja recurso de
desenvolvimento para que possamos dispor de um horizonte ampliado para tratar desse tipo de
57
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
questão. Um caminho alternativo nessa direção tem sido a geração de sinergias de recursos, a
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partir da formação de parcerias governo-sociedade, as quais têm trazido resultados surpreendentes
para a melhoria das condições de vida de muitos segmentos sociais.
De fato, inúmeras experiências de cooperação entre os governos e entidades da sociedade
civil (o chamado Terceiro Setor) têm-se acumulado durante as últimas décadas, em diferentes
países em desenvolvimento, visando à busca de formas alternativas de conceber e executar projetos
de desenvolvimento econômico e social. Em geral, esses projetos têm algumas características
semelhantes, as quais podem ser registradas a partir de um grande número de experiências já
realizadas e considerando seus fundamentos comuns, em nosso próprio País.
São projetos que envolvem uma intensa participação de segmentos organizados da
sociedade civil, desde sua definição inicial até as diferentes etapas de sua implementação,
estimulando a prática da cidadania responsável. São projetos que, inicialmente, estavam
centrados no atendimento das necessidades básicas da população mais pobre de cada município
ou região e se destinavam a melhorar as condições de habitação, educação, saúde e nutrição dos
mais carentes. Numa etapa posterior, identificou-se que o seu estilo de mobilizar ações de
baixo para cima poderia ser adotado, também, para a promoção de micro e pequenos projetos
de geração de renda e de emprego, a partir de nichos de mercado devidamente identificados:
produtos diferenciados pela qualidade, produtos substitutivos da economia de subsistência,
produtos gerados em regime de subcontratação, etc. Da mesma forma, evoluiu-se para uma
nova geração de projetos que organizavam a prestação de serviços onde as falhas da economia
de mercado se tornavam evidentes: a organização da oferta de crédito popular (diversas
experiências de banco do povo), de sistemas simplificados de abastecimento alimentar em áreas
periféricas dos grandes centros urbanos, etc.
São projetos nos quais se buscam condições de sustentabilidade ao longo do tempo, para
evitar que se tornem meras experiências de vitrine, exercícios de proselitismo político ou campo
de frustração para os seus beneficiários. Essas condições de sustentabilidade podem ser mapeadas
a partir de indicadores que avaliam a prática da ação coletiva das associações comunitárias, a
qualidade das lideranças na sua capacidade de gestão e de mobilização articulada dos interesses e
das emoções da população-alvo, o grau de endogenia dos grupos sociais específicos na definição
de projetos e na ativação de recursos latentes, etc.
O resultado geral dessas experiências de parcerias em programas e projetos de combate à
pobreza, de geração de renda e de emprego, etc., tem sido muito positivo, sob os mais diferentes
critérios de avaliação: são praticamente nulos os índices de inadimplência no crédito popular;
os projetos executados dentro desse novo paradigma têm custos extremamente reduzidos; na
dinâmica de conceber, executar e controlar os projetos, exercita-se a prática da cidadania e daí
emerge um novo quadro de lideranças comunitárias; a metodologia adotada para viabilizar os
projetos elimina desperdícios, aglutina recursos dispersos e restringe as práticas de corrupção
administrativa.
As lideranças políticas, as organizações empresariais, assim como muitas burocracias
governamentais estão reconhecendo, cada vez mais, a importância dessas sinergias e mobilizações
e, felizmente, têm acionado novos instrumentos e mecanismos institucionais, visando a dar suporte
a esse estilo de desenvolvimento endógeno, o qual vem sendo conduzido por mais de 200 mil
organizações não-governamentais no Brasil.
f) Os instrumentos econômicos mais relevantes para a formulação e a execução das
políticas de desenvolvimento ambiental podem ser definidos e classificados de diferentes
formas. O Diagrama 1 mostra, no lado esquerdo, os principais instrumentos que vêm
58 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
sendo utilizados, ao longo das últimas décadas, pelos países da OCDE. Esses
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instrumentos pretendem estimular comportamentos de produção, de consumo e de
investimento, no sentido da sustentabilidade ambiental, por meio de:
alteração direta dos níveis de preços e de custos: ocorre quando impostos e taxas são aplicados
diretamente a produtos e aos processos que geram esses produtos, assim como quando
sistemas de depósitos restituíveis são operacionalizados; o governo aplica taxas,
impostos ou multas aos poluidores individuais ou aos usuários de recursos, baseado
no uso do recurso e na natureza do meio recipiente, e em valores suficientemente
elevados para reduzir impactos desfavoráveis;
alteração indireta de preços e custos através de medidas fiscais ou financeiras: quando ocorrem
subsídios diretos, financiamentos facilitados ou incentivos fiscais (de imposto de renda,
de depreciação acelerada, etc.); bônus de desempenho ou aplicação de multas também
podem ser incluídos nesse item;
criação de mercados ou apoio a mercados: na criação de mercados, há instrumentos
formulados a partir de legislação modificada ou de regulação (emissões de títulos
negociáveis, esquemas de seguro para atender ao passivo ambiental, etc.); no apoio a
mercados, há situações em que as autoridades públicas se responsabilizam pela
estabilização de preços ou pela organização de determinados mercados (materiais
secundários de reciclagem, estruturação de ecomercados, etc.).
Há mais de uma centena de instrumentos econômicos diferenciados, utilizados em muitos
países, que poderiam dar suporte efetivo para a concepção e a implementação de políticas de
sustentabilidade ambiental, tais como:
Permissões Negociáveis: O Governo estabelece um sistema de permissões negociáveis
para poluição ou uso de recurso, leiloa ou distribui as permissões e monitora o
cumprimento; poluidores ou usuários de recurso negociam as permissões por meio de
preços de mercado não-regulados;
Classificação de Desempenho: O Governo apóia programas de certificação ou de
classificação que requeiram a divulgação de informações ambientais de produtos de
uso final, que permitam identificar os ambientalmente amigáveis;
Legislação Rígida sobre Passivos Ambientais: O poluidor ou usuário do recurso deve, por
lei, pagar todos os danos aos prejudicados; as partes prejudicadas fazem acordos por
meio de litígios e cortes de justiça, etc.
No lado direito do Diagrama 1, há um conjunto de critérios visando à seleção dos
instrumentos mais apropriados para tornar factíveis os objetivos das políticas de sustentabilidade
ambiental. Esses critérios são, em geral, auto-explicativos: os instrumentos não podem gerar
mecanismos fortemente regressivos (eqüidade); devem dar continuidade aos estímulos para as
melhorias ambientais (incentivo dinâmico); devem ter a confiança dos atores sociais relevantes,
mesmo num contexto de inevitáveis incertezas (fidedignidade), etc. Enfim, a escolha dos
instrumentos mais adequados para viabilizar os objetivos das políticas ambientais depende de
características de cada situação socioeconômica. Em geral, a experiência internacional acumulada
no uso desses instrumentos tem sido mais freqüente em questões ambientais urbanas e, em
menor intensidade, em questões ligadas ao desenvolvimento rural (florestas tropicais, pequena
produção rural, etc.).
59
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
Nesse sentido, é preferível adotar-se uma abordagem pragmática que considere instrumentos
BDMG
40 anos
múltiplos, onde cada instrumento focalize uma dimensão relevante do processo de desenvolvimento
sustentável e disponha de maior eficácia. O desafio, no entanto, é balancear os diversos critérios
simultaneamente: identificar instrumentos, políticas e propostas que sejam econômica, social e
ambientalmente superiores (ou pelo menos iguais) às suas alternativas e às práticas correntes.
DIAGRAMA 1
INSTRUMENTOS ECONÔMICOS MAIS UTILIZADOS NOS PAÍSES
COM POLÍTICAS AMBIENTAIS CONSOLIDADAS
II. Critérios para seleção de instrumentos
I. Instrumentos
II.1. Eficiência econômica
I.1. Taxa de efluente
Ar
Água
Lixo
Ruído
II.2. Reduzido volume de informações
I.2. Taxa do usuário
requeridas
II.3. Baixo custo administrativo
I.3. Taxa de produto
II.4. Eqüidade
I.4. Taxa administrativa
Licença
Controle
II.5. Fidedignidade
I.5. Imposto diferenciado
II.6. Adaptabilidade
I.6. Subsídios
Doações
Empréstimos subsidiados
Isenções tributárias
II.7. Incentivo dinâmico
I.7. Depósitos restituíveis
II.8. Aceitação política
I.8. Apoio e criação de mercado
Emissão de certificados negociáveis
Intervenção de mercado
FONTE: D. Pearce – “An Economic Approach to Saving the Tropical Forests” in D. Helm (ed.) Economic Policy Towards the
Environment, Blackwell, 1991.
5.5. As perspectivas de econegócios e o papel do BDMG
Entre os mecanismos e instrumentos de mercado ancilares às políticas de desenvolvimento
sustentável, está a incorporação da dimensão social e da dimensão ambiental na avaliação de
financiamentos oficiais e na concessão de incentivos fiscais. Há uma larga experiência internacional
60 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
em se incorporarem a questões sociais e ambientais em projetos de investimento com financiamento
BDMG
40 anos
público ou privado, embora esse processo ainda apresente dificuldades técnicas e controvérsias
conceituais.
É indispensável que as instituições financeiras federais (BNDES, BASA, BNB, CEF,
BB), as agências financeiras de fomento dos estados, assim como as novas agências de
desenvolvimento regional (ADA, ADENE e ADECO) incorporem, de forma sistemática, a
dimensão social e a dimensão ambiental como critérios decisivos nos seus financiamentos,
empréstimos ou concessão de incentivos fiscais. Essa providência evita, de um lado, que
venham a ocorrer efeitos distributivos concentracionistas e grandes danos ambientais
provocados pelos projetos de investimentos subsidiados com dinheiro público; e, do outro
lado, que deixem-se de incentivar os projetos mais apropriados do ponto de vista das políticas
sociais ativas e do ecossistema regional e local. Em Minas, a liderança de uma perspectiva
ambientalista para empréstimos e financiamentos será naturalmente do BDMG, que vem
constr uindo uma sólida cooperação com o Sistema Estadual de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável.
A avaliação de um projeto de investimento não deve restringir-se à inclusão dos benefícios
ou dos custos sociais e ecológicos no fluxo de caixa: deve estender-se ao enquadramento na
legislação ambiental e nas legislações sociais vigentes: delimitar o seu nível de risco ambiental
e determinar as ações conseqüentes (EIA, RIMA, SGA, etc.); às relações sociais de trabalho
prevalecentes, etc. Essa abordagem de regulamentação vem funcionando adequadamente em
alguns Estados e Municípios da Federação, como é o caso de Minas Gerais, onde os órgãos
oficiais de controle ambiental têm sido consultados previamente, por obrigação legal, antes da
aprovação de um financiamento favorecido ou de um subsídio a ser concedido a um projeto de
investimento; onde são avaliadas as condições de trabalho em termos de discriminação por
gênero, raça, etc., na cadeia produtiva em que se insere o projeto financiado ou subsidiado
(controle do uso de mão-de-obra infantil na produção de energético de biomassa como insumo
de siderúrgicas, por exemplo).
A própria existência dessa estrutura regulatória é muitas vezes suficiente, por si só, para que
o investidor faça ajustes prévios nas características do projeto (tecnologia, microlocalização,
organização do trabalho, etc.), antes de submetê-lo a um processo de financiamento ou de concessão
de incentivo fiscal.
No caso de projetos integrados de investimento, como é o caso da maioria dos Eixos
Nacionais de Integração e Desenvolvimento do Programa Avança Brasil, alguns dos quais com
grandes impactos econômicos e socioambientais em Minas, sugere-se que haja um processo de
articulação dos cronogramas físicos e financeiros dos seus diferentes componentes, para evitar
uma falta de sincronia entre as ações dos investimentos de infra-estrutura física e as ações de
proteção ambiental e social. As liberações financeiras para os investimentos de infra-estrutura
poderiam ficar condicionadas à implementação das diferentes etapas das ações de proteção ambiental
e social.
Um caminho alternativo para o tratamento dessas questões, muitas vezes de difícil
quantificação, é o abandono da análise ampliada dos custos e dos benefícios e a utilização do
conceito de custo-efetividade. A análise custo-efetividade, uma variante da análise custo-benefício,
é utilizada com maior freqüência pelas instituições federais e estaduais de fomento e é mais simples
de ser desenvolvida operacionalmente. Nela, os benefícios são especificados exogenamente
(a geração de emprego em áreas deprimidas economicamente, a conservação ou a preservação de
uma reserva florestal, etc.) e o problema passa a ser como minimizar os custos associados com um
61
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
dado perfil de benefícios. É aplicada na avaliação de projetos nos quais algum objetivo,
BDMG
40 anos
geralmente não pecuniário, é estipulado pelas autoridades políticas, por escolha dos
beneficiários (a prioridade dada à geração de emprego e renda ou à organização de um sistema
nacional de unidades de conservação). Um grande número dos projetos de investimentos na
área social ou de preservação ecológica se situa dentro da análise custo-efetividade, quando
de sua implantação e operação. É evidente que um processo de decisão exógena, sobre o que
se entende por benefício de um projeto, pode afetar, de maneira profunda, a ordem de
prioridade dos investimentos. Esse método de análise é fortemente passível de decisões
políticas envolvendo interesses velados.
No âmbito do Governo Federal, em novembro de 1995, foi assinada a Carta de Princípios
para o Desenvolvimento Sustentável pelos cinco bancos controlados pelo Governo Federal:
o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social BNDES -, o Banco do Brasil
BB -, a Caixa Econômica Federal CEF -, o Banco do Nordeste do Brasil BNB - e o Banco
da Amazônia BASA. Nessa carta, conhecida como o Protocolo Verde, as cinco instituições
financeiras federais assumem o compromisso de incorporar a dimensão ambiental no seu
sistema de análise e avaliação de projetos, e de priorizar ações de apoio ao desenvolvimento
sustentável. Visando à implementação das atividades decorrentes do Protocolo Verde, as
instituições signatárias e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) estabeleceram, em 1996, as
seguintes prioridades:
definir critérios para análise da dimensão ambiental na alocação de créditos e
financiamentos;
priorizar projetos identificados com maior sustentabilidade ambiental;
estimular a criação de facilidades creditícias para aquelas empresas que implementarem
sistemas de gestão ambiental e processos de certificação como a ISO 14.000;
identificar novos mecanismos para incrementar a disponibilidade de fundos financeiros
para projetos de investimentos de desenvolvimento sustentável.
Buscou-se, também, contribuir para a criação de unidades ambientais dentro das agências
financeiras, capacitando-as a operacionalizar as diretrizes do Protocolo Verde, à semelhança de
iniciativa do BNDES. Houve, igualmente, uma tentativa de inclusão, no Cadastro Informativo de
Créditos Não-Quitados do Setor Público Federal CADIN -, dos responsáveis pelo não atendimento
de obrigações pecuniárias referentes à legislação ambiental, o que lhes proibiria o acesso aos
créditos e financiamentos oficiais. Uma primeira iniciativa nesse sentido gerou grande impacto,
envolvendo, segundo o MMA, mais de doze mil situações irregulares, sujeitas à interrupção do
processo de concessão de crédito por parte das instituições federais aos responsáveis. O recurso
ao CADIN foi, todavia, suspenso através de liminar junto ao Supremo Tribunal Federal e aguarda
julgamento do mérito.
O Protocolo Verde trouxe muitos avanços nas instituições financeiras federais, que
passaram a lidar melhor com a questão da sustentabilidade ao priorizar e aprovar a concessão
de seus créditos e financiamentos, ao contrário dos anos 70 e 80 quando contribuíram
significativamente para a degradação de ecossistemas rurais e urbanos, inclusive através
de empréstimos subsidiados. Entretanto ainda há muito prog resso a se realizar,
particularmente no processo de financiamento de negócios sustentáveis e no detalhamento
técnico da avaliação dos custos e benefícios ecológicos a serem considerados na rentabilidade
social dos projetos.
62 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
A partir da estabilidade econômica conquistada pelo Plano Real, já se começa a observar
BDMG
40 anos
que o nível dos investimentos poderá caminhar para um patamar superior a 20% do PIB, e que a
poupança externa volta a ser uma expressiva fonte de financiamento desses investimentos (de 3 a
4% do PIB). A expectativa predominante é a de que, após as reformas institucionais e sua
consolidação no século XXI, o Brasil possa retomar sua trajetória histórica de crescimento de 7%
ao ano, o que exigirá uma taxa de investimento próxima de 25% do PIB, dependendo dos ganhos
de produtividade na capacidade produtiva instalada e da composição setorial dos investimentos.
Considerando-se que grande parcela dos financiamentos para esses investimentos virá das
instituições financeiras federais, signatárias do Protocolo Verde, dos organismos multilaterais de
fomento (BIRD, BID, etc.), sempre atentos à questão ambiental em suas linhas de empréstimos,
assim como das agências financeiras de fomento das Unidades da Federação, o Brasil não pode
deixar de escapar essa oportunidade ímpar de influenciar, decisivamente, a incorporação da
dimensão ambiental no processo de formação de capital do País.
Finalmente, é preciso destacar que estão se ampliando as oportunidades de investimentos
nas áreas de econegócios ou de negócios sustentáveis, as quais irão demandar mais e mais linhas
de financiamento especiais das instituições públicas e privadas. E essa expansão tenderá a se
tornar cumulativa se ocorrer um grande avanço das atuais experiências do capitalismo natural, as
quais se caracterizam por: a) mudança de ênfase da produtividade humana, para um aumento
radical da produtividade dos recursos ambientais; b) a necessidade de restauração do capital natural,
dos quais muitos elementos não estão vinculados apenas à eficiência econômica; c) a compilação
de informações técnicas e econômicas, a fim de tornar crescentes os retornos dos avanços da
produtividade dos recursos ambientais em práticas de negócios; d) um dos pontos principais para
o emprego benéfico das pessoas, dos recursos financeiros e do meio ambiente é a expansão radical
da produtividade dos recursos naturais; e) o meio ambiente não é apenas um fator de produção,
mas um envoltório contendo, provisionando e sustentando toda a economia. Os conceitos
fundamentais de um padrão de capitalismo natural são mais amplos do que o processo de
estruturação de negócios sustentáveis ou de econegócios, uma vez que pretendem ser a base da
nova revolução industrial em escala planetária, a qual se articularia com um conjunto de valores
econômicos, culturais e éticos para superar, historicamente, as diferentes formas do capitalismo
individualista tradicional, não-sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental.
Assim, cabe ao BDMG não apenas incorporar a dimensão ambiental no processo
decisório sobre a análise e a avaliação de seus empréstimos, mas também abrir linhas de
financiamento que estimulem, de um lado, projetos nas áreas de econegócios, e, do outro
lado, projetos de negócios sustentáveis, visando a aumentar a produtividade dos recursos
ambientais, a restauração do capital natural e a preservação de ecossistemas.
63
Capítulo 2 - Meio ambiente e desenvolvimento
BDMG
40 anos
6 . Referências Bibliográficas
ASSIS, Luiz Fernando S.; MENESES, Isabel Cristina R. R. C. (Coords). Indicadores ambientaris
da Agenda Marrom no Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: 68p.
BRASIL. Constituição Federal. Art. 225. 1988.
______. Lei 9.433.
CONAMA. Resolução n. 237/96.
COPAM. Deliberação Normativa, n. 029/98.
FEAM. Agenda marrom: indicadores ambientais 2002.
IGAM. Disponível em: <http://www.igam.mg.gov.br/pl_diretor.php>. Acesso em: jun.
2002.
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Programa Nacional do Meio Ambiente II. Diagnóstico
da gestão ambiental nas unidades da Federação - relatório final, Estado de Minas Gerais. Brasília,
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______. Disponível em: <www.mma.gov.br>. Acesso em: 10/06/2002.
PEARCE, D. W. An economic approach to saving the tropical forests. In: HELM, D. (Ed.).
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______; TURNER, R. K. Economics of natural resources and the environment. Baltimore: Johns
Hopkins, 1991.
SEN, A. Development as freedom. New York: Anchor Books, 1999.
SUDHIR, A.; SEN, A. Sustainable human development: concepts and priorities. New York:
UNDP, 1996.
64 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME VII
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
APOSTANDO NO FUTURO
CAPÍTULO 3
INOVAÇÃO TECNOLÓGICA
E DESENVOLVIMENTO
Eduardo da Motta e Albuquerque
(Cedeplar-UFMG)
João Antônio de Paula
(Cedeplar-UFMG)
Hugo Eduardo A. da Gama Cerqueira
(Cedeplar-UFMG)
(Bolsistas)
Adriano Ricardo Baessa
Ana Luiza Lara de Araújo
Camila Lins Rodrigues
Fábio Camponez Salazar
Túlio Antônio Cravo
Se pois o Brasil deseja ativar seu desenvolvimento intelectual, é de seu
imediato interesse trilhar desassombradamente a senda das investigações
científicas (...). É, pois, necessário fundar laboratórios, centros de
experiências largamente providos de todos os meios de pesquisa e de
todos os instrumentos de investigação.
Louis Couty, 1879
Lista de Abreviaturas
As seguintes siglas e abreviaturas foram empregadas ao longo do texto:
C&T Ciência e Tecnologia
Capes Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CDTN Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear
Cedeplar Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG
CEFET/MG Centro Federal de Educação Tecnológica
CETEC Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais
CNAE Classificação Nacional de Atividades Econômicas
CNEN Comissão Nacional de Energia Nuclear
CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CVRD Companhia Vale do Rio Doce
EFEI Escola Federal de Engenharia de Itajubá
EFOA Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas
Embrapa Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Embrapa/CNPGL Embrapa / Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite
Embrapa/CNPMS Embrapa/ Centro Nacional de Pesquisa de Milho e Sorgo
Epamig Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais
FAFEOD Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina
FAFI Faculdade de Filosofia
Fapemig Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
Fapesp Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
FAPs Fundações de Amparo à Pesquisa
FEAM Fundação Estadual de Minas Gerais
FHEMIG Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais
FINEP Financiadora de Estudos e Projetos
Fiocruz Fundação Oswaldo Cruz / René Rachou
FJP Fundação João Pinheiro
FMTM Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro
Fundep Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa
Funed Fundação Ezequiel Dias
Funrei Fundação de Ensino Superior de São João Del Rei
Furnas Furnas Centrais Elétricas S.A.
Hemominas Fundação Centro de Hematologia do Estado de Minas Gerais
IBGE Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INPI Instituto Nacional de Propriedade Industrial
ISI Institute for Scientific Information
LNA/CNPq Laboratório Nacional de Astrofísica
OMPI Organização Mundial de Propriedade Industrial
P&D Pesquisa e Desenvolvimento
PIA Pesquisa Industrial Anual
PIB Produto Interno Bruto
PNB Produto Nacional Bruto
PPP Paridade do Poder de Compra
PUC Minas Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
QL Quociente Locacional
RAIS Relação Anual de Informações Sociais
SEC Secretaria de Estado da Cultura
UEMG Universidade Estadual de Minas Gerais
UF Alfenas Universidade Federal de Alfenas
UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora
UFLA Universidade Federal de Lavras
UFLA/ESAL Universidade Federal de Lavras - Escola Superior de Agricultura de Lavras
UFMG Universidade Federal de Minas Gerais
UFOP Universidade Federal de Ouro Preto
UFU Universidade Federal de Uberlândia
UFV Fundação Universidade Federal de Viçosa
Unifenas Universidade de Alfenas
Unimontes Universidade Estadual de Montes Claros
Univale Universidade Vale do Rio Doce
USPTO United States Patent and Trademark Office
VTI Valor da Transformação Industrial
WoS Web of Science
Agradecimentos
Na execução deste trabalho, os autores contaram com a colaboração de um grande número de instituições e pessoas, às quais
gostariam de expressar seus agradecimentos. Em particular,
Aos Professores Evando Mirra de Paula e Silva e Ivan Moura Campos, pela leitura atenta de uma versão preliminar
do texto, pelas sugestões que permitiram aprofundar a análise e eliminar alguns equívocos e pelo incentivo ao trabalho.
À equipe do BDMG responsável pelo Diagnóstico Tadeu Barreto Guimarães, Marilena Chaves, Iran Almeida
Pordeus e Bernardo Tavares de Almeida , pelos comentários e pelo apoio ao longo do desenvolvimento do trabalho.
Ao Sr. Paulo Roberto Petrocchi Ribas Costa, do BDMG, pelas informações sobre as atividades do Banco no financiamento
do desenvolvimento tecnológico.
Aos Professores José Alberto Magno de Carvalho e Afrânio Carvalho Aguiar, pelas informações sobre a Fapemig,
além dos comentários sobre aspectos do texto.
À Sra. Maria Célia Carvalho de Resende, bibliotecária-chefe do Cedeplar-UFMG, pela ajuda na organização dos
dados relativos a publicações científicas.
Ao Professor Ricardo Barbosa, da FCI-UFMG, por disponibilizar o acesso às informações sobre publicações científicas.
Ao Professor Jacques Schwartzman, da FACE-UFMG e da Fundep, por fornecer os dados referentes às fontes de
financiamento de pesquisas da UFMG.
Ao Sr. Herbert Geraldo dos Reis e à Sra. Virgínia Tereza Banterli Ribeiro, da Fapemig, pelos esclarecimentos sobre
os dados obtidos junto ao CPD daquela Fundação.
À Professora Anna da Soledad Vieira, que contribuiu para a abertura de canais de informação para a pesquisa.
Os erros que porventura restarem são de exclusiva responsabilidade dos autores.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................................................... 75
2. O CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO ................................................ 77
3. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, O PAPEL DA CIÊNCIA E O ESTÁGIO
DE CONSTRUÇÃO DO SISTEMA DE INOVAÇÃO NO BRASIL ................................................................ 80
3.1. O conceito de sistema nacional de inovação e as fontes do progresso
tecnológico e da riqueza das nações .......................................................................................................... 80
3.2. Uma tipologia de sistemas de inovação ..................................................................................................... 82
3.3. Limiares de produção científica e as interações entre a ciência e a tecnologia ........................ 84
3.4. Sistema de inovação no Brasil: imaturidade e concentração ............................................................ 89
4. TRAJETÓRIA DO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO
E TECNOLÓGICO EM MINAS GERAIS ..................................................................................................................... 93
4.1. Da fundação da Escola de Farmácia de Ouro Preto (1839)
à Reforma do Ensino de João Pinheiro (1906) ........................................................................................ 94
4.2. Da Reforma do Ensino (1906) à fundação da Universidade Federal de Minas Gerais (1927) ................ 96
4.3. Da fundação da Universidade de Minas Gerais (1927) à criação da CEMIG (1952) ................................ 97
4.4. Da criação da CEMIG (1952) à criação da Fundação João Pinheiro (1970) .............................................. 98
4.5. Da criação da Fundação João Pinheiro (1970) à criação da Fapemig (1985) ............................................ 100
5. O SISTEMA DE INOVAÇÃO EM MINAS GERAIS ................................................................................................. 103
5.1. Uma visão introdutória das especializações econômicas e industriais de Minas Gerais ...... 103
5.2. Minas Gerais: um mapeamento dos recursos de ciência e tecnologia existentes ................... 107
6. POLÍTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO
E TECNOLÓGICO EM MINAS GERAIS .................................................................................................................... 126
7. UM SISTEMA ESTADUAL DE INOVAÇÃO EM MINAS GERAIS:
TRÊS METAS ARTICULADAS PARA SUA CONSTRUÇÃO ................................................................................ 128
7.1. Construção institucional para a interação entre ciência e tecnologia ........................................... 130
7.2. Financiando o sistema ..................................................................................................................................... 140
ANEXO I - Limitações das estatísticas de patentes .............................................................................................. 147
ANEXO II - A contribuição da FAPEMIG para a construção de um sistema
de inovação em Minas Gerais ..................................................................................................................................... 150
ANEXO III - Importação de tecnologia e as multinacionais ........................................................................... 159
ANEXO IV - O problema do financiamento à P&D: elementos para uma proposta alternativa ...... 162
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................................................ 166
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40 anos
1. Introdução
Há ampla e difusa consciência, hoje, da centralidade do desenvolvimento científico e
tecnológico como instrumento do desenvolvimento econômico, social, político e cultural.
Seja como insumos diretos do sistema produtivo, seja como instrumentos do
desenvolvimento político e cultural, a ciência e a tecnologia se apresentam como elementos
diferenciadores de países e regiões entre aqueles que podem almejar um futuro, em alguns
casos, um presente, de prosperidade material e sustentabilidade para suas sociedades, e aqueles
que vão continuar a já longa e sofrida caminhada do subdesenvolvimento e da precariedade
material.
Se é forçoso reconhecer a centralidade da ciência e da tecnologia no mundo
contemporâneo, que, expressando isso, tem sido chamado de sociedade informacional, não se
veja nisso nem panacéia, nem processo natural ou isento de contradições. É preciso reconhecer
que o desenvolvimento científico e tecnológico tem pressupostos e condicionamentos políticos,
econômicos, culturais e institucionais; é sempre o resultado de políticas deliberadas, públicas e
privadas; e implica, para ser bem sucedido, em perspectiva interdisciplinar e globalizante, na medida
em que, cada vez mais, ganha reconhecimento a tese de que o enfrentamento adequado de
questões centrais da contemporaneidade, como as referentes ao meio ambiente, à biotecnologia,
à realidade das grandes cidades, à gestão do território, à robótica, entre outros aspectos
importantes do nosso tempo, implicam, necessariamente, perspectiva interdisciplinar,
compartilhamento de objetos, instrumentos, conceitos etc.
Não se quer, ao dizer isso, negar a existência e o decisivo do mergulho disciplinar, do
aprofundamento dos conhecimentos, senão que constatar que quanto mais profunda a
investigação, mais ela cobra alargamento de perspectivas, porque cada vez mais incidente
sobre os fundamentos da realidade, porque quanto mais profunda a reflexão, mais ela explicita
as conexões necessárias entre ciência e filosofia.
A eficácia de políticas regionais de desenvolvimento científico e tecnológico depende
de uma adequada compreensão da realidade local, da apreensão de sua vocação, limites e
potencialidades e da compreensão das oportunidades efetivas dessas potencialidades no
contexto mais amplo da realidade nacional e internacional.
No caso de Minas Gerais, trata-se de explicitar três questões fundamentais:
1) a existência de uma considerável rede de instituições científicas e tecnológicas;
2) a existência de vocações, potencialidades e base de recursos que permitam afirmar
a possibilidade de efetivo desenvolvimento científico e tecnológico;
3) a constatação de que todos esses aspectos positivos presentes na realidade mineira
estão muito aquém do que poderiam resultar, como se constata a partir dos
indicadores de produção científica e geração de patentes.
Este capítulo pretende tanto explicitar algumas das razões básicas que explicam o
quadro da relativa atrofia do desenvolvimento científico e tecnológico de Minas Gerais
quanto tentar oferecer perspectivas de políticas que possam superar as dificuldades
apontadas.
75
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
No centro dessa problemática, está o conceito de sistema de inovação. Derivado da tradição
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40 anos
teórica neoshumpeteriana, esse conceito estabelece o núcleo de significado que permite
explicitar as interações entre instituições científicas e tecnológicas e entre estas e o setor
produtivo, que resultam em efetivas inovações tecnológicas, no sentido de Schumpeter, isto
é, inovações capazes de, induzindo investimentos, determinar movimentos expansivos na
atividade econômica.
Toda a questão, aqui, será buscar entender os bloqueios que, até hoje, têm impedido
que o significativo conjunto de instituições de ciência e tecnologia que, desde o século XIX,
tem sido montado em Minas Gerais, não tenha resultado em efetivo sistema de inovação.
76 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
2. O contexto do desenvolvimento
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40 anos
científico e tecnológico
Se o processo inflacionário é, hoje, em quase todo o mundo, como uma relíquia de um
passado ainda recente e doloroso, o crescimento econômico, expressivo e sustentado, não
veio atestar a existência de ciclo expansivo virtuoso, com exceção dos Estados Unidos, que
tiveram um crescimento recorde na década de 1990, e da China, ainda mais exitosa em sua
marcha expansiva. A década de 1990 e os primeiros anos da atual explicitam a incontrastável
hegemonia norte-americana e da economia globalizada, marcadas por uma sucessão de crises
nacionais, que tanto são impactadas quanto impactam o conjunto da economia mundial o
México, em 1994; o Leste Asiático, em 1997; a Rússia, em 1998; e mais a Argentina, a Turquia,
o Brasil, entre os chamados emergentes, e a longa prostração da economia japonesa. De tal modo
que o panorama global desses anos não pode ser caracterizado senão como de crescimento medíocre
e de significativa presença do desemprego, do subemprego, de precarização do trabalho, entre
outros aspectos problemáticos.
Houve quem dissesse, com acerto, que a dimensão efetivamente global da economia
contemporânea é a financeira, falando-se em financeirização, em globalização financeira, em
hegemonia da dimensão financeira como característica básica da economia contemporânea.
(CHESNAIS, 1996).
Se, para muitos, esse é aspecto circunstancial da dinâmica econômica contemporânea,
para certa corrente de pensamento, representada por Giovanni Arrighi, essa hipertrofia da
dimensão financeira do capital é manifestação de crise profunda, crise sistêmica, que estaria
solapando as bases do quarto ciclo sistêmico da acumulação liderado pelos Estados Unidos,
que se teria iniciado no final do século XIX. (ARRIGHI, 1996).
Publicado em 1994, o livro de Arrighi tem tido recepção controversa. Se, em alguns
momentos, ele pareceu definitivamente desmentido pela exuberância do crescimento
econômico norte-americano, isso não ameaçou a lógica central do seu argumento, que nunca
afirmou a impossibilidade de crescimento de uma economia em crise sistêmica. A questão
básica, aqui, é reconhecer que a expansão sustentada de uma economia depende da existência
de um horizonte de acumulação baseado nas oportunidades de investimento e perspectiva de
lucratividade decorrentes da produção de mercadorias, de inovações tecnológicas, no sentido
que dá a isso Schumpeter, e que inclui, além da invenção de novos produtos, novas técnicas
produtivas, novos mercados, novas formas de organização da indústria e, acrescente-se, novas
formas de organização do trabalho. (SCHUMPETER, 1982).
Toda a questão, assim, seria avaliar-se, de um lado, quanto do crescimento da economia
norte-americana decorreria de fundamentos efetivamente inovativos no sentido de Schumpeter;
de outro lado, se se chegar à conclusão de que o crescimento da economia norte-americana, de
fato, é resultado de ganhos de produtividade em setores efetivamente capazes de ampliar a produção
de capital e de mais valia, no sentido de Marx, então não se sustentaria a tese de Arrighi.
A grande dificuldade é que aspectos produtivos e não produtivos, isto é, dimensões
inovativas e não inovativas, para se usar com alguma liberdade a terminologia schumpeteriana,
estão presentes no atual momento da dinâmica capitalista norte-americana, sendo impossível
separá-las inteiramente. Daí que, se há inegável avanço tecnológico nos campos dos novos
materiais, da biotecnologia, das tecnologias da informação e telecomunicação, entre outros,
nem toda a tecnologia que resulta em lucro para os seus usuários significa aporte de riqueza
77
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
nova criada, significa riqueza social, na medida em que seus frutos forem apropriados, exclusivamente,
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40 anos
pelos titulares da propriedade privada em questão, a qual dá direito ao seu detentor a uma parte do
excedente gerado, seja ele o acionista de um banco, o dono de um cassino, um empresário do setor de
construção de iates de luxo etc.
Nesse sentido, para Arrighi, o crescimento da economia norte-americana verificado nos anos
90 não é o resultado da saúde da economia, mas o reflexo de uma atividade que, apesar de dinâmica,
não tem sustentação no tempo e, sobretudo, não amplia a capacidade de produção de riqueza real,
sendo, cada vez mais acentuadamente, a multiplicação de riqueza fictícia.
Haveria, ainda, uma outra maneira, não contrária à anterior, de entender a, até certo ponto,
surpreendente escalada expansiva norte-americana na década de 1990. É que essa década marca
não só a vitória americana na Guerra Fria, o fim da URSS, como, também, a definitiva imposição
do seu ditado hegemônico, expresso tanto em suas expedições punitivas quanto na imposição do
Consenso de Washington, no deslocamento do Japão do lugar de êxito que ele ocupou durante
largo período pós-1945. (TAVARES E MELIN, 1997).
Transformadas em dogmas pelo Banco Mundial e o FMI, as políticas neoliberais, se
significaram êxito no combate à inflação, por suas implicações e, sobretudo, por estarem
subordinadas a uma perspectiva global que reforça a assimetria e a desigualdade entre os
países e à defesa dos interesses do grande capital financeiro, têm resultado num sacrifício
imenso, em desemprego recorde e crise social e, mesmo, em tragédia coletiva, como no caso
da Argentina, que foi a mais zelosa das adeptas do receituário neoliberal.
Oito anos de estabilidade de preços no Brasil, alcançada pela adoção do ajuste neoliberal,
e os resultados básicos são: a economia teve crescimento irrisório; o desemprego é recorde; a
vulnerabilidade externa da economia ampliou-se a dependência crescente de recursos externos
obriga a que se pratiquem taxas de juros elevadíssimas e com pequena possibilidade de
diminuição, mantida a política atual. Na verdade, trata-se de uma armadilha em que qualquer
impulso de crescimento dispara tanto tensões inflacionárias quanto pressões sobre a Balança
Comercial. De resto, a economia tornou-se de tal modo vulnerável externamente que, mesmo
que haja, por um presente de deuses benfazejos, no plano interno, um impulso consistente
de crescimento, este será abortado ao menor sinal de crise internacional (cada vez mais
freqüentes) que obrigue o governo a aumentar as taxas de juros.
Nas palavras dos mais autorizados defensores da política econômica que se tem praticado
no Brasil, a solução do impasse, a retomada do crescimento econômico brasileiro virá com o
aumento da produtividade, virá quando a economia brasileira for capaz de competir com
vantagens no comércio internacional. Para isso, ela terá que buscar eficiência, guiar-se pelos
sinais infalíveis do mercado. É essa, fundamentalmente, a perspectiva dos atuais condutores
da política econômica brasileira. No centro dessa visão, estão ilusões perigosas e desmentidas
por todas as experiências históricas a idéia de que o desenvolvimento da economia capitalista
é simétrico e includente; a fé religiosa na capacidade do mercado de promover o bem-estar
coletivo, a qualidade de vida e a democracia.
No sentido oposto está o que se vai ler aqui. Em primeiro lugar, afirme-se que o
crescimento sustentado de uma economia pressupõe investimentos em setores com capacidade
de produção de riqueza real e que esses investimentos, como todos sabem, dependem da taxa
de juros. Também é decisivo reconhecer a dimensão estruturante e possibilitadora da existência
de um mercado interno, amplo e dinâmico, e o papel que nisso ocupa a distribuição primária
da renda, no sentido de Sen e Furtado. (FURTADO, 1992). A distribuição primária da renda
tanto incide sobre os insumos do desenvolvimento científico e tecnológico, na medida em
78 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
que significa melhoria da qualificação da mão-de-obra, quanto, de outro lado, ao funcionar como
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40 anos
massificação da demanda, acaba por impactar a oferta pelos ganhos de escala que permite.
A distribuição primária da renda também significa melhoria nos sistemas de educação e
veiculação de informação, tanto no plano do sistema formal de ensino fundamental, médio,
profissional e superior quanto nas redes informais de circulação de informações e decorrentes
dos meios de comunicação de massa, das redes de trocas simbólicas, que hoje se ampliam pela
multiplicação dos meios técnicos.
Em tudo o que foi dito aqui, houve sempre um sujeito pressuposto o Estado, o poder
público em seus diversos níveis de atuação. É do âmbito do Estado a articulação capaz de
produzir sistemas de inovação, é do âmbito do Estado a possibilidade de criar mecanismos de
financiamento da ciência e tecnologia. (PAULA, 1999).
Não se veja no parágrafo anterior um entusiasmo estatizante, sobretudo no Brasil,
onde o Estado tem sido tão precário e incapaz de atender a res publica. Se tem sido essa a
história do Estado no Brasil, não se projete isso como condenação absoluta, que o Estado
brasileiro, reformado à luz dos interesses democráticos e populares, pode ser um instrumento
do desenvolvimento nacional.
De resto, também não se superestime a autonomia do plano regional no referente à
política da ciência e tecnologia. Há limites na atuação do Estado como unidade da federação,
como há limites decorrentes do caráter impositivo de certas políticas da União em vários
campos. Contudo há espaços para a atuação do poder público estadual, de instituições estaduais
e, sobretudo, há potencialidades regionais que, devidamente trabalhadas, podem significar
efetivas vantagens comparativas.
79
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
3. Inovação tecnológica, o papel da ciência e o estágio
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40 anos
de construção do sistema de inovação no Brasil
3.1. O conceito de sistema nacional de inovação e as fontes do
progresso tecnológico e da riqueza das nações
Na última década, a literatura econômica tem dedicado atenção crescente à investigação das
causas do desenvolvimento econômico e das razões para as disparidades de renda entre nações.
Abramovitz (1989) apresenta uma extensa discussão do tema, salientando o papel das
causas próximas e profundas do desenvolvimento e apontando, entre as últimas, a
capacitação tecnológica e científica das nações. Fagerberg (1994), em uma resenha mais recente,
indicou o peso que a presença de instituições capazes de internalizar o progresso tecnológico
tem para a determinação da renda e da riqueza de cada país. Por outro lado, uma linha importante
de elaboração teórica no interior do mainstream do pensamento econômico deu início a um
esforço de incorporação de elementos da dimensão tecnológica aos modelos de crescimento
econômico. (ROMER, 1990; BARRO & SALA-I-MARTIN, 1995). Enfim, existe hoje um consenso
entre as várias correntes teóricas da economia sobre a importância do papel que a ciência e a
tecnologia cumprem na criação da riqueza das nações (DOSI, FREEMAN e FABIANI, 1994).
Por outro lado, até a primeira metade do século XX, a teoria econômica tinha pouco a
dizer sobre a estrutura social da ciência - por exemplo, sobre a organização e o financiamento
da pesquisa científica. Além disso, para a maioria dos economistas desse período, o crescimento
econômico era compreendido a partir de fatores ligados à dotação natural de recursos de cada
país e parecia guardar pouca relação com os esforços organizados de pesquisa. De acordo
com Mirowski e Sent (2002), essa situação começou a alterar-se a partir do pós-guerra, como
resultado das transformações na organização e no financiamento da ciência decorrentes das
necessidades de planejamento e coordenação das pesquisas no contexto da Guerra Fria, bem
como das transformações na própria teoria econômica, associadas à institucionalização da
teoria neoclássica como vertente hegemônica do pensamento econômico americano. O novo
regime de apoio à ciência promoveu a formulação de teorias voltadas para a justificação das
políticas científicas adotadas pelo governo americano. Entretanto o desenvolvimento da
economia da ciência como disciplina esbarrou numa série de obstáculos.
Num primeiro momento, autores como Kenneth Arrow e Richard Nelson formularam
uma abordagem inspirada na economia do bem-estar e em modelos walrasianos de equilíbrio
geral. Nesses modelos, a ciência era apresentada como um processo de produção de um bem, o
conhecimento, a exemplo dos processos produtivos em outras indústrias. O centro da discussão
procurava determinar se as características do conhecimento (o produto) permitiriam considerá-lo
um bem público e, como tal, merecedor do financiamento público. Outra característica dessa
abordagem era a postulação de uma rígida distinção entre ciência básica ou pura e ciência
aplicada. Concebia-se a ciência básica como uma esfera geradora de conhecimentos que seriam
transferidos unidirecionalmente às ciências aplicadas, que, por sua vez, encarregavam-se de
desenvolver aplicações dessas idéias à produção de riquezas. Essa representação das relações entre
a ciência e a economia que ficou conhecida como o modelo linear tomava como ponto de
partida uma maneira a-histórica e simplista de abordar as relações entre essas duas esferas.1
Além disso, ela distorce a realidade ao i) apresentar inadequadamente a evolução das relações entre conhecimento científico
1
e tecnológico; ii) ao representar o funcionamento da pesquisa básica como algo exógeno ao arranjo institucional que
caracteriza a economia; iii) ao subestimar o papel que mudanças incrementais associadas ao aprendizado no uso dos
equipamentos desempenham no desenvolvimento tecnológico. (DAVID, 1992).
80 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Por outro lado, desconsiderando as enormes diferenças entre a prática efetiva dos cientistas e a
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40 anos
produção de bens para o mercado, logrou conquistar a adesão da maioria dos economistas
convencionais, representando o conhecimento como uma mercadoria cujas características peculiares
(indivisibilidade, não-rivalidade, não-exclusividade) assegurariam sua condição de bem público e
justificariam a intervenção do governo para assegurar sua provisão.
As transformações recentes na teoria neoclássica 2 promoveram uma mudança de
perspectiva nos estudos de economia da ciência, com o gradual abandono do modelo linear
que dominou a literatura até os anos 1970, assim como da redução do conhecimento a um
tipo (especial) de bem, abrindo espaço para o reconhecimento, entre outros aspectos, da
importância de conhecimentos tácitos e da presença de normas não-explícitas na atividade
científica. Essa nova abordagem, que ficou conhecida como nova economia da ciência,
redirecionou o foco das investigações das características do conhecimento como produto
para as relações contratuais que permitiriam otimizar os resultados do processo de pesquisa.
Reconhecendo a inadequação do modelo linear, os representantes dessa abordagem
remodelaram a distinção entre ciência básica e aplicada a partir do problema estratégico de
conciliar os incentivos privados à pesquisa e o bem-estar social que dela decorre. A solução
residiria em confiar parte da atividade científica (responsável pela produção de conhecimentos
genéricos) a um sistema apoiado em relações de mérito, prioridade e reputação intelectual,
ao passo que a outra parte da pesquisa (aquela subordinada aos imperativos tecnológicos e
envolvendo conhecimentos apropriáveis privadamente, tais como produtos e patentes) seria
confiada a um sistema organizado com base em incentivos pecuniários. (MIROWSKI e SENT,
2002).3
Por outro lado, a literatura de economia da tecnologia tem feito avanços mais promissores
no estudo da definição do progresso tecnológico, de sua articulação com a dimensão
econômica, dos diversos e multifacetados fatores que determinam o surgimento e o
aproveitamento de oportunidades tecnológicas. Essa literatura apresenta uma síntese dos
determinantes do progresso tecnológico na proposição do conceito de sistema nacional de inovação.
(FREEMAN, 1987; NELSON, 1993).
Um sistema nacional de inovação é uma construção institucional, produto seja de
uma ação planejada e consciente, seja de um somatório de decisões não planejadas e
desarticuladas, que impulsiona o progresso tecnológico em economias capitalistas
complexas. (FREEMAN, 1988; NELSON, 1993). Através da construção do sistema de inovação,
viabiliza-se a realização de fluxos de informação necessários ao processo de inovação
tecnológica. Esses arranjos institucionais envolvem firmas, redes de interação entre empresas,
agências governamentais, universidades, institutos de pesquisa, laboratórios de empresas,
atividade de cientistas e engenheiros. São arranjos institucionais que se articulam com o
sistema educacional, com o setor industrial e empresarial e, também, com as instituições
financeiras, completando o circuito dos agentes que são responsáveis pela geração,
implementação e difusão das inovações.4
Sobretudo no que diz respeito aos desenvolvimentos em teoria dos jogos e da racionalidade, que promoveram uma re-
2
especificação da capacidade cognitiva dos agentes nesses modelos.
Mirowski e Sent (2002, p. 47-59) discutem as limitações dessa abordagem.
3
O tema sistemas nacionais de inovação tem recebido crescente atenção na literatura. A partir das contribuições pioneiras de
4
Freeman (1987), e de Nelson e Lundval na coletânea editada em Dosi et alli (1988), estudos, discussões e análises comparativas têm
sido apresentados. Lundval (1992) apresenta um conjunto de estudos sobre diversos aspectos dos sistemas de inovação, Nelson
(1993) organiza estudos comparativos envolvendo 16 países, Freeman (1995) indica o papel da articulação entre sistemas de
inovação e processos históricos, Edquist (1997) expande a discussão para dimensões setoriais e regionais. Um número especial do
Cambridge Journal of Economics (v. 19, n.1, Feb. 1995) é dedicado às implicações da globalização sobre os sistemas nacionais de
inovação. O site da OECD (www.oecd.org) disponibiliza vários estudos sobre o tema, em especial uma resenha geral (ver OECD,
1997). Pavitt e Patel (1994) inauguram um esforço de comparação estatística entre sistemas diferenciados.
81
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
O papel desempenhado pelas universidades, instituições de pesquisa e o
BDMG
40 anos
conjunto da estrutura educacional é crucial para a manutenção dos fluxos de
informação constitutivos de um sistema de inovação. A National Science Foundation
(NSF, 1996) estima que o total de cientistas e engenheiros empregados em atividades
de P&D nos Estados Unidos alcançou a cifra de 962.700 pessoas em 1993 (cerca de
1% da força de trabalho do país). O total de cientistas e engenheiros empregados
em atividades não acadêmicas atingiu 3.502.000 (1.749.000 cientistas e 1.753.000
engenheiros), cerca de 3% da força de trabalho em 1992.
Um sistema de inovação diversifica a divisão tecnológica de trabalho, fornecendo
às firmas oportunidades tecnológicas de forma persistente.
3.2. Uma tipologia de sistemas de inovação
O grau de construção dos sistemas de inovação difere entre os países. (NELSON, 1993).
Estudos comparativos permitem distinguir a existência de pelo menos quatro grupos de países
com padrões distintos de maturidade de seus sistemas de inovação.
TABELA 1
“TIPOS IDEAIS” DE SISTEMAS NACIONAIS DE INOVAÇÃO:
VARIÁVEIS ECONÔMICAS E INDICADORES DE C&T PARA PAÍSES CONSIDERADOS
1998
CORÉIA
INDICADOR EUA DO SUL BRASIL RÚSSIA MALÁSIA
Número de patentes por milhão de habitantes 501,23 117,42 0,99 1,86 1,85
Número de artigos por milhão de habitantes 996,61 224,94 50,92 180,24 33,23
Participação no total de patentes no mundo (1) 55,78% 2,24% 0,07% 0,11% 0,02%
Participação no total de artigos no mundo (2) 28,00% 1,00% 1,00% 3,00% 0,8%
(1) / (2) 1,98 2,06 0,08 0,04 0,22
Analfabetismo** —- 0,02 0,17 —- 0,16
Proporção entre matriculados no ensino
secundário e a população em idade de freqüentar** 97,4% 100,9% —- —- 58,7%
Proporção entre matriculados no ensino superior
e a população em idade de freqüentar** 80,9% 52,0% 12,0%* 45,0%* 11,7%
Razão entre patentes de residentes e
não-residentes*** 1,13 0,73 0,04 0,42 Nd
Patentes de residentes por milhão
de habitantes *** 578,59 1210,73 11,80 136,95 Nd
Crescimento das patentes (1981/1998) 2,17 85,19 2,50 0,65 8,20
Crescimento da renda per capita (1996/1999) 1,03% 0,96% 1,04% 1,00% 0,96%
Crescimento da renda per capita (1985/1994) 1,30% 7,80% -0,40% -4,10% 5,60%
Renda per capita**** 29.240 13.286 6.460 6.180 7.699
FONTE: Elaboração própria com base em WIPO e USPTO (patentes); Web of Science (artigos); Unesco (educação); Banco
Mundial (renda per capita).
Notas: * Dados referentes ao ano de 1992.
** Dados referentes ao ano de 1995.
*** Dados referentes ao ano de 1999.
**** PPP GNP per capita.
82 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Em primeiro lugar, o grupo dos países avançados, onde os sistemas de inovação
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40 anos
completaram o seu processo de construção, constituindo-se como sistemas maduros. Neles,
a articulação institucional entre o sistema científico-tecnológico, o sistema financeiro e o
sistema educacional alcançou um grau tal que torna o progresso tecnológico a principal
fonte de desenvolvimento econômico. Na TAB. 1, os Estados Unidos representam esse
grupo. Entre os aspectos que merecem destaque, registrem-se a presença de elevada renda
per capita (US$ 29.240,00), a alta proporção de patentes e de artigos científicos por milhão
de habitantes (respectivamente, 501 e 996) e a qualidade dos indicadores educacionais,
particularmente a proporção de matriculados no ensino superior entre a população em
idade de freqüentar a universidade (80,9%).5 Em segundo lugar, há um grupo de países em
processo de catching up 6 , como a Coréia do Sul e Taiwan, que, nas últimas três décadas,
foram um exemplo da importância da construção de instituições de apoio às atividades
científicas e tecnológicas para a criação das condições favoráveis ao crescimento econômico
acelerado. (AMSDEN, 1989; WADE, 1990). A avaliação dos processos de desenvolvimento
desses países indica que a construção e o amadurecimento de sistemas de inovação constitui
um pré-requisito para o processo de catching up. A TAB. 1 apresenta os dados para a
Coréia do Sul, destacando-se o ritmo do crescimento econômico entre 1985 e 1994, que,
medido pela variação da renda per capita, alcançou um crescimento médio anual de 7,8%:
esse é um indicador do sucesso do processo de catching up. Esse processo está correlacionado
com a melhoria de indicadores importantes, como produção de patentes e artigos científicos
(respectivamente, 117,42 e 224,9 por milhão de habitantes), a redução do analfabetismo e a
ampliação da parcela da população que freqüenta o ensino secundário e superior.
O terceiro grupo reúne países heterogêneos, como o Brasil, a Índia, o México, a África
do Sul, a Rússia e a Malásia, que possuem um certo grau de construção do sistema de
inovação, com a presença de elementos de infra-estrutura científica e alguma capacidade
tecnológica do setor produtivo. O caráter incompleto desses sistemas pode ser compreendido
a partir dos seus indicadores de produção científica e tecnológica. De acordo com a TAB. 1,
estes países apresentam baixa proporção de patentes por milhão de habitantes (0,99 no
Brasil; 1,86 na Rússia; 1,85 na Malásia); reduzido número de artigos por milhão de habitantes
(50,92 no Brasil; 33,23 na Malásia; e 180,24 na Rússia, que constitui uma exceção à regra no
que diz respeito a esse indicador); acesso limitado ao ensino superior (no Brasil, os matriculados
no ensino superior representam apenas 12% da população em idade de freqüentar a
universidade; na Malásia essa proporção é de 11,7%) e elevadas taxas de analfabetismo
(17% no Brasil e 16% na Malásia). Apesar da semelhança dos indicadores mencionados, há
uma significativa heterogeneidade entre esses países, que se torna evidente a partir da
avaliação das respectivas trajetórias de crescimento: entre 1985 e 1994, o Brasil conheceu
estagnação, regredindo 0,4% ao ano em termos de renda per capita; a Rússia passou por
uma regressão econômica, com uma queda de 4,1% ao ano em sua renda; e a Malásia
cresceu intensamente, a uma taxa média anual de 5,6%.
Finalmente, um quarto grupo de países inclui as nações mais pobres do mundo (o
grupo de países de baixa renda, segundo a classificação do Banco Mundial) e que, na
melhor das hipóteses, possuiriam sistemas de inovação rudimentares. (BANZE, 2000).
Os sistemas maduros são constituídos por um conjunto heterogêneo de arranjos institucionais. As diferenças podem ser
5
percebidas nos estudos, por exemplo, sobre os Estados Unidos, Japão e Alemanha apresentados no livro organizado por
Nelson (1993). Neles são indicadas diferenças com relação à articulação entre a dimensão financeira e as atividades inovativas,
ao peso do setor privado nos investimentos nacionais de P&D, ao mix entre pesquisa militar e civil e entre pesquisa básica e
aplicada, em relação às especializações científicas e tecnológicas etc.
Processo de desenvolvimento econômico acelerado, que leva a uma aproximação crescente, ao longo do tempo, dos níveis de
6
renda dos países centrais.
83
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Em resumo, essa comparação sumária permitiu destacar a estreita associação entre
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40 anos
essa capacitação científica e tecnológica das nações e o nível médio da renda per capita
de seus habitantes. 7
3.3. Limiares de produção científica e as interações entre a
ciência e a tecnologia
Para os objetivos deste capítulo, é conveniente discutir com mais detalhes o papel
da infra-estrutura científica no processo de desenvolvimento econômico, aprofundando,
a partir da literatura sobre sistemas nacionais de inovação, a compreensão das interações
entre a dimensão científica (a esfera das universidades, dos institutos de pesquisa) e a
dimensão tecnológica (a esfera das firmas, de seus laboratórios de P&D).
Apesar de serem distintas, essas duas esferas participam de uma complexa divisão
de trabalho que responde pela sustentação do dinamismo dos sistemas de inovação.
Importa, sobretudo, compreender o papel da interação entre elas.
3.3.1. Interação entre ciência e tecnologia nos sistemas de inovação maduros
Nelson e Rosenberg (1993) apontam o entrelaçamento entre as dimensões científica e
tecnológica e, destacando-as como uma das características principais dos sistemas de inovação,
resumem as complexas interações entre essas duas dimensões, afirmando que a ciência tanto
lidera como segue (science as a leader and a follower) o progresso tecnológico (p. 6).
Outras evidências desse duplo papel podem ser encontradas na literatura. Em
primeiro lugar, Rosenberg (1982, p. 141-159) discute quão exógena é a ciência. Ressaltando
como os fatores econômicos determinam, até certo ponto, o progresso da ciência, ele
procura explicitar a maneira como o avanço tecnológico antecede e estimula o progresso
da ciência. Esse papel do avanço tecnológico pode ser identificado de diversas formas: 1)
a tecnologia é uma fonte de questões e problemas para a ciência; 2) a tecnologia é um
enorme depósito de conhecimento empírico para ser investigado e avaliado pelos cientistas
(p. 144); 3) o progresso tecnológico contribui para a definição de uma agenda de pesquisa
científica; 4) avanços técnicos disponibilizam novos instrumentos e equipamentos para a
atividade científica. Rosenberg conclui que existem poderosos impulsos econômicos
moldando, dirigindo e constrangendo o empreendimento científico (p. 159).
Em segundo lugar, Klevorick et alli (1995) investigam o sentido oposto do fluxo,
apresentando evidências empíricas sobre o papel das universidades e da ciência como fonte
de oportunidades tecnológicas para a inovação industrial. Esse estudo mostra como os diferentes
setores industriais avaliam a importância relativa das universidades e da ciência para a sua
capacitação inovativa e permite compreender por que as firmas gastam recursos próprios para
monitorar e acompanhar a evolução da pesquisa acadêmica. Especialmente em áreas de alta
tecnologia, identificam-se fluxos de conhecimento fortes fluindo da infra-estrutura científica
para os setores industriais.
Em terceiro lugar, Pavitt (1991) investiga o que torna a pesquisa básica economicamente
útil. Para esse autor (p. 114), além da sua utilidade como um insumo de importância crescente
Para maiores detalhes sobre uma tipologia de sistemas de inovação, ver Albuquerque (1999). Sobre a correlação entre indicadores
7
de produção científica, produção tecnológica e renda, ver Bernardes e Albuquerque (2002).
84 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
para a tecnologia, a pesquisa básica tem duas outras influências, talvez até mais significativas: 1)
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40 anos
contribui para o desenvolvimento de habilidades de pesquisa e treina pesquisadores que
posteriormente são empregados no setor industrial; 2) é fonte de aplicações não planejadas.
Em quarto lugar, Rosenberg (1990) discute por que firmas fazem pesquisa básica e
sugere que ela é um bilhete de entrada para uma rede de informações. Esse ponto está relacionado
à discussão de Cohen & Levinthal (1989) sobre as duas faces do processo de P&D, destacando
a importância desse investimento para o desenvolvimento de capacidade de absorção. O
investimento em P&D é, simultaneamente, investimento para inovação e para aprendizado.
Em quinto lugar, Narin et al (1997) encontram evidências empíricas do vínculo crescente
entre a ciência (fundamentalmente financiada pelo setor público) e a capacidade inovativa da
indústria dos Estados Unidos.
Em resumo, esses estudos demonstram a relevância das duas dimensões da atividade
inovativa, enfatizando a divisão de trabalho entre elas e identificando a presença de uma
forte interação e de feedbacks entre a infra-estrutura científica e a produção tecnológica
nos países desenvolvidos. Importa, ainda, frisar, para os objetivos deste capítulo, que
essa literatura sugere que, para assegurar a sustentabilidade do crescimento econômico
moderno, essas interações devem estar operando.
3.3.2. O papel da ciência antes e durante o processo de catching up
A situação prevalecente nos países menos desenvolvidos não pode ser compreendida a
partir da aplicação direta e sem qualificações das conclusões alcançadas na literatura sobre os
países avançados. Há diferenças que devem ser levadas em conta.
No que diz respeito ao papel da ciência, a principal diferença reside na contribuição
que ela pode oferecer durante o processo de catching up: a infra-estrutura científica atua como
um instrumento de focalização, como uma antena para identificar oportunidades
tecnológicas e para constituir a capacidade de absorção do país. Em um país atrasado, a infra-
estrutura científica oferece conhecimento para focalizar buscas (NELSON, 1982), em vez de
ser uma fonte direta de oportunidades tecnológicas. Em outras palavras, a infra-estrutura
científica em países em desenvolvimento deve contribuir para vincular o país aos fluxos
científicos e tecnológicos internacionais.
Nesse sentido, o papel da ciência durante processos de catching up pode ser
desdobrado em três dimensões. Em primeiro lugar, ela atua como um instrumento de
focalização, contribuindo para a identificação de oportunidades e para a vinculação do
país aos fluxos internacionais. Em segundo lugar, a ciência cumpre o papel de instrumento
de apoio para o desenvolvimento industrial, provendo conhecimento necessário para a
entrada em setores industriais estratégicos (PEREZ & SOETE, 1988). Finalmente, ela serve
como fonte para algumas soluções criativas que dificilmente seriam obtidas fora do país
(exemplo: vacinas contra doenças tropicais, desenvolvimento de certas ligas metálicas,
preparação de softwares aplicados, etc.). Certamente há uma inter-relação entre esses
diferentes papéis, na medida em que o desenvolvimento da capacidade de absorção é
uma pré-condição para desenvolvimentos tecnológicos locais, originais e incrementais.
Comparando as interações entre as esferas da ciência e da tecnologia em países em processo
de catching up (Coréia do Sul e Taiwan) com o caso brasileiro, Rapini (2000) encontrou uma
importante diferença: nos países em catching up, é possível estabelecer uma relação estatística que
sugere a existência de causalidade tanto entre a produção científica (em termos de artigos
85
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
científicos indexados pelo ISI) e a produção tecnológica (em termos de patentes depositadas
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no USPTO) como entre a produção tecnológica e a produção científica.8 Ou seja, identificou-
se uma causalidade recíproca entre as dimensões científica e tecnológica ao longo do processo
de desenvolvimento acelerado. Esse achado contrasta com o caso brasileiro, no qual a autora
encontrou causalidade em apenas um sentido: da produção científica para a tecnológica.
3.3.3. Os limiares de produção científica
A constatação dessa diferença entre a dinâmica das esferas científica e tecnológica nos
países em catching up e no Brasil aponta a necessidade de investigar as condições necessárias
para que se estabeleça uma interação, uma relação recíproca entre essas esferas, tal como
aquela que caracteriza os sistemas de inovação maduros. Pergunta-se: seria necessária a
superação de algum limiar de produção científica para que fosse assegurada a existência de
uma massa crítica que permitisse à infra-estrutura científica assumir os papéis que lhe cabem
durante o processo de desenvolvimento?
A revisão feita até aqui sugere ser possível representar, em um modelo bastante simples,
a evolução das relações entre as dimensões científica e tecnológica ao longo do processo de
desenvolvimento. Trata-se de um modelo útil para estabelecer alguns parâmetros para a
investigação do papel da interação entre ciência e tecnologia. Seis passos são necessários:
1. o reconhecimento de duas dimensões diferentes entre as atividades relacionadas à
inovação: a científica e a tecnológica;
2. a identificação de uma divisão de trabalho institucional entre elas;
3. a sugestão de que a interação entre essas esferas muda ao longo do processo de
desenvolvimento até alcançar um patamar elevado de determinações recíprocas,
nível de interação que é característico dos países avançados;
4. a conjectura de que essa trajetória evolucionista é impulsionada pelo
desenvolvimento da infra-estrutura científica (o fortalecimento da infra-estrutura
científica é uma condição necessária, embora não suficiente, para detonar o
desenvolvimento tecnológico);
5. a conjectura da existência de limiares de produção científica que devem ser superados
para o alcance de novos estágios e de novos níveis de interação entre as dimensões
científica e tecnológica;
6. o reconhecimento de que é possível integrar essas interações entre ciência e
tecnologia nas determinações do crescimento econômico.
O modelo propõe a existência de pelo menos três diferentes regimes de interação ao
longo do processo de desenvolvimento. No regime I, a infra-estrutura científica é ainda muito
pequena e incapaz de alimentar uma produção tecnológica mínima.9 No regime II, a produção
científica cresce e pode determinar alguma produção tecnológica, mas não a ponto de viabilizar
um efeito retro-alimentador sobre a produção científica.10 Finalmente, no regime III, as
conexões e interações estão plenamente estabelecidas (como nos países desenvolvidos) e o
principal determinante do crescimento econômico é a capacitação científica e tecnológica.
A discussão sobre os limiares de produção científica contribui para o aprofundamento da
visão interativa que nasce da crítica ao modelo linear (ver tópico 3.1). A identificação da necessidade
A causalidade é identificada por meio de uma técnica desenvolvida por Granger. Rapini explica o sentido dessa técnica e ressalta
8
que o estudo permite afirmar que as duas séries temporais (artigos e patentes) comportam-se de forma tal que a causalidade no
sentido de Granger corre nos dois sentidos. Para mais detalhes, ver Rapini (2000).
Esse regime caracterizaria a situação de inúmeros países da África, que possuem alguma produção científica mas nenhuma
9
produção tecnológica identificada por patentes no USPTO. (BANZE, 2000).
Esse regime caracterizaria, por exemplo, o caso brasileiro. (RAPINI, 2000).
10
86 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
do alcance de pontos de massa crítica em termos de recursos científicos para que a interação possa
BDMG
40 anos
ser potencializada sugere a crítica a um modelo linear invertido, muitas vezes implícito na literatura.
Esse modelo sugere que, em primeiro lugar, o país se desenvolve economicamente; posteriormente,
investe em tecnologia e, apenas em um terceiro momento, aplica em ciência.11
O principal problema do modelo linear invertido é o desconhecimento do papel da
infra-estrutura científica na construção da capacidade de absorção indispensável para a imitação,
para a adaptação de tecnologias disponíveis em países mais avançados e para a realização de
inovações incrementais que caracterizam os movimentos iniciais nos processos de catching up.
Portanto, ao tratarmos dos países em desenvolvimento, é necessário combinar a crítica
ao modelo linear com a crítica ao modelo linear invertido, de modo a afirmar que há
mútua determinação e feedbacks positivos entre as dimensões científica e tecnológica.
O modelo proposto aqui pode ser corroborado por uma análise estatística dos dados
disponíveis para 120 países (renda per capita, artigos por milhão de habitantes, patentes por
milhão de habitantes, em 1998). A TAB. 2 apresenta esses dados, agrupando os países de
acordo com sua renda per capita e confirma a forte correlação entre esse indicador e os indicadores
de produção científica e tecnológica.12 O grupo de países mais ricos (19 países com renda per
capita acima de US$19,000.00) é o grupo de mais elevada produção científica (média de 938
artigos por milhão de habitantes) e de mais elevada produção tecnológica (média de 154 patentes
por milhão de habitantes). O grupo de países onde se encontra o Brasil (25 países com renda
entre US$5,000.00 e US$10,000.00) obtém valores mais baixos para produção científica e
tecnológica (respectivamente 115 e 1,45).13
TABELA 2
MÉDIAS E DESVIOS-PADRÃO DO NÚMERO DE ARTIGOS POR MILHÃO DE HABITANTES (A*);
NÚMERO DE PATENTES POR MILHÃO DE HABITANTES (P*); E O QUOCIENTE ENTRE ARTIGOS POR MILHÃO
DE HABITANTES E PATENTES POR MILHÃO DE HABITANTES (A*/P*) DE ACORDO COM OS GRUPOS DE
PAÍSES POR NÍVEL DE RENDA (PNB PER CAPITA) EM 1998
GRUPOS DE A* P* A*/P* NÚMERO DE
PAÍSES DESVIO DESVIO DESVIO PAÍSES NO
(PNB PER CAPITA) MÉDIA PADRÃO MÉDIA PADRÃO MÉDIA PADRÃO GRUPO
Maior que US$ 19,000 937.99 377.69 154.42 121.54 11.30 14.45 19
De US$ 10,000 a US$ 19,000 476.59 432.32 64.68 107.37 43.09 45.27 13
(a)
De US$ 5,000 a US$ 10,000 115.68 133.58 1.45 1.76 152.03 199.30 25
(b)
De US$ 3,000 a US$ 5,000 40.87 50.10 0.43 0.58 177.64 242.90 17
(c)
Menor que US$ 3,000 14.79 25.06 0.10 0.18 137.08 131.01 40
(d)
PNB não disponível 14.81 28.89 0.04 0.10 0 —- 6
FONTE: Elaboração própria com base nos dados de Banco Mundial (2000); USPTO (2001); ISI (2001).
Notas: (a) 3 países (com P* = 0) excluídos. (b) 2 países (com P* = 0) excluídos.
(c) 21 países (com P* = 0) excluídos. (d) 5 países (com P* = 0) excluídos.
Pavitt (1998), por exemplo, expõe de forma mais clara aquilo que, muitas vezes, é sugerido apenas de modo implícito nas
11
discussões sobre os países não-membros da OCDE. Em uma polêmica com Paul Romer, discute as relações entre tecnologia e
ciência na escala nacional. Perguntado sobre a causalidade, responde de forma cautelosa: nossa leitura da evidência (imperfeita)
... indica que a causalidade corre do sistema tecnológico nacional para o sistema científico nacional. (PAVITT 1998, p. 800).
Toma-se aqui o número de artigos científicos como uma proxy para a situação geral do sistema educacional desses países.
12
A justificativa para o emprego desse indicador baseia-se no fato de a produção científica sugerir algo sobre o nível de
desenvolvimento dos recursos educacionais e a qualidade do sistema universitário (sua conexão com os fluxos internacionais
de conhecimento e seu envolvimento com atividades de pesquisa).
Em 1998, o Brasil alcançou uma renda per capita de US$6,460.00, produziu 50,9 artigos por milhão de habitantes e 0,99
13
patentes por milhão de habitantes.
87
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Além disso, os dados são favoráveis à conjectura sobre a existência de limiares de produção
BDMG
40 anos
científica. A quarta coluna da TAB. 2 apresenta a razão entre a produção científica e a produção
tecnológica para cada grupo de países. Esse indicador revela o grau de eficiência na transformação
de artigos em patentes, isto é, a eficiência no uso dos recursos científicos para a geração de produção
tecnológica.14 O grupo de países de maior produção científica é o grupo de maior eficiência: a
cada 11,3 artigos científicos produzidos, é registrada uma patente. Essa eficiência vai declinando na
medida em que a produção científica do grupo também declina, de tal forma que, comparando-se
o grupo dos países ricos com o grupo que inclui o Brasil, o indicador passa de 11,3 artigos por
patente para 152,03, indicando que, nos países que integram o grupo do Brasil, a quantidade de
artigos necessária para gerar uma patente é significativamente maior. Esse resultado sugere a
existência de uma certa massa crítica mínima em termos de produção científica necessária para
tornar a produção de tecnologia mais eficiente. Portanto, aparentemente, certos limiares devem
ser ultrapassados para que uma eficiência maior seja alcançada, ou seja, para que se estabeleça
um número significativo de interações entre a produção científica e tecnológica.
O GRAF. 1 apresenta os dados referentes à produção científica (artigos por milhão de
habitantes, A*) e à produção tecnológica (patentes por milhão de habitantes, P*) de todos os
120 países que produziram ao menos uma patente e um artigo em 1998. Ele sugere a existência
de um ponto de cross-over (ponto a partir do qual a eficiência na transformação de artigos em
patentes cresce), representado pelo ponto onde dois subconjuntos de países podem ser
delimitados. A partir de 150 artigos por milhão de habitantes (ver o GRAF. 1), a eficiência
cresce, o que é expresso pela inclinação mais acentuada da reta para esse subconjunto. A
vizinhança da produção de 150 artigos por milhão de habitantes parece constituir-se no limiar
de produção científica, para os dados de 1998.
GRÁFICO 1
Log-log plot de artigos por milhão de habitantes (A*) versus patentes por milhão de habitantes (P*) para 120 países no ano 1998.
Aqui os dois subgrupos estão identificados por símbolos diferentes. Duas funções exponenciais foram usadas para enquadrá-los
Esse indicador não deve ser tomado como uma sugestão da existência de algum tipo de causação unidirecional entre produção
14
científica e produção tecnológica (algo que representaria um retorno ao velho modelo linear entre ciência e tecnologia).
Uma eficiência maior na transformação de artigos em patentes deve ser entendida como o resultado da presença de um
número maior de conexões e interações entre as duas esferas.
88 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
A investigação do comportamento desses dados para outros anos (1974, 1982, 1990)
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40 anos
indica um padrão similar de cross-over, mas sugere que o limiar tem se movimentado ao longo
do tempo: em 1974, 7 artigos por milhão de habitantes; em 1982, 28; e, em 1990, 60.15
3.4. Sistema de inovação no Brasil: imaturidade e concentração
Além de apresentar um sistema de inovação imaturo, o Brasil tem duas outras características
particulares significativas: sua dimensão continental e a presença de acentuadas disparidades
regionais, que sugerem a importância de políticas para o desenvolvimento de sistemas locais e
estaduais de inovação no país.
Cassiolato e Lastres (1999) realizaram um esforço inicial para captar as diferenças estaduais
mais importantes em termos de especializações e características dos arranjos produtivos e
inovativos dos principais estados brasileiros. Nesta sessão serão apresentados novos dados, baseados
em estatísticas de artigos, patentes e pesquisadores, que contribuem para a caracterização mais
precisa dessas diferenças regionais.
A TAB. 3 apresenta um quadro geral das disparidades estaduais entre os indicadores de
renda e de atividades científica e tecnológica.
TABELA 3
PARTICIPAÇÃO MÉDIA DAS UNIDADES DA FEDERAÇÃO NO PIB A CUSTO DE FATORES,
NO TOTAL DE PATENTES, NO TOTAL DE ARTIGOS CIENTÍFICOS E NO TOTAL DE PESQUISADORES
BRASIL, 1988-1996
DISTRIBUIÇÃO DISTRIBUIÇÃO
DAS PATENTES DAS PATENTES PARTICIPAÇÃO NO
PARTICIPAÇÃO REGISTRADAS NO REGISTRADAS NO DISTRIBUIÇÃO TOTAL DE
NO PIB INPI USPTO* DOS ARTIGOS** PESQUISADORES
UF (EM %) (EM %) (EM %) (EM %) ***
SP 37 53,68 52,24 46,88 32,38
RJ 11 10,73 20,06 17,37 14,88
MG 10 7,37 3,53 6,85 9,69
RS 7 9,34 8,02 6,16 8,80
PR 6 5,86 2,67 3,68 6,39
PE 2 0,94 0,38 3,07 4,67
DF 2 1,55 0,48 2,60 2,73
SC 3 4,03 6,88 2,44 3,14
BA 4 1,26 0,67 1,65 2,86
Outros 17 5,24 5,10 9,31 14,45
Total - 100,00 100,00 100,00 100,00
FONTE: Elaboração própria com base em dados da Fundação João Pinheiro, INPI, ISI, CNPq, USPTO.
Notas: * Dados correspondes ao período de 1981 a 2000.
**Devido à co-autoria em alguns artigos a soma dos Estados difere do total brasileiro.
***Dados relativos a 2000.
Para mais detalhes, ver Bernardes e Albuquerque (2002).
15
89
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Entre 1988 e 1996, cinco estados das regiões Sul e Sudeste responderam por 71% do PIB,
BDMG
40 anos
87% da produção tecnológica, 81% da produção científica e 72% dos pesquisadores. O peso de
São Paulo deve ser destacado: no mesmo período, esse estado respondeu por 37% do PIB
brasileiro, por 54% das patentes registradas no INPI e por 47% dos artigos científicos publicados.16
Desse modo, tanto a produção de artigos como a de patentes encontram-se
concentradas em São Paulo. Porém é importante ressaltar que houve uma pequena
desconcentração das atividades científicas e tecnológicas ao longo do tempo. Em termos
de artigos científicos, São Paulo respondia, em 1973, por 56,91% do total, participação
que caiu, em 1988, para 46,32% e, em 1999, para 41,85%. Em termos de patentes (no
INPI), a participação de São Paulo declinou de 59,75%, em 1988, para 56,08%, em 1996.
Quanto a Minas Gerais, é necessário destacar que seu peso no sistema inovativo
do país foi inferior à sua participação no conjunto da atividade econômica. No período
de 1988 a 1996, a produção científica e tecnológica mineira equivaliam a, respectivamente,
6,85% e 7,37% do total brasileiro. Por outro lado, a participação no total de pesquisadores
foi mais compatível com o peso econômico do Estado (9,69% do total, em 2000).
Ao longo do tempo, entretanto, a participação de Minas na produção científica nacional
(número de artigos científicos) vem se ampliando, tendo passado de 3,23%, em 1973, para
6,46%, em 1988, e alcançado 9,9% em 1999.17 No que tange à produção tecnológica (patentes
no INPI), a posição de Minas passou de 6,51%, em 1988, para 8,42%, em 1996.
Para além da constatação das enormes diferenças regionais e da concentração das
atividades científicas e tecnológicas em São Paulo, é conveniente avaliar a posição dos estados
em relação aos limiares de produção científica discutidos na seção anterior. Poderia vir a
existir no Brasil, com suas dimensões continentais, um amálgama dos três estágios
apresentados?
Com base nos dados apresentados na TAB. 4, a resposta é parcialmente positiva. Em
primeiro lugar, o Distrito Federal ultrapassou o limiar dos 150 artigos por milhão de
habitantes (A*). Porém esse dado deve ser visto com cautela, pois o caráter de capital
do País e a decorrente concentração de recursos educacionais e de pesquisa acadêmica
podem distorcer o quadro. Em segundo lugar, São Paulo e Rio de Janeiro, embora não
tenham ultrapassado o limiar, diferenciam-se do restante dos estados, alcançando uma
produção acima de 100 artigos por milhão de habitantes. Em terceiro lugar, há um conjunto
de unidades que, como Minas Gerais, registraram de 74 a 4 artigos científicos por milhão de
habitantes e, simultaneamente, obtiveram o registro de alguma patente junto ao USPTO.
Em quarto lugar, há um conjunto de estados cuja produção de artigos científicos girou
entre 45 e 7,39 artigos por milhão de habitantes, mas que não possuíam patentes no USPTO.
Enfim, parece existir um amálgama de dois dos regimes apresentados na seção 3.3.3,
com São Paulo e Rio constituindo-se em casos mais avançados no regime II (mais próximos
do limiar) e outros estados situando-se a uma distância maior do limiar. Minas Gerais é, nesse
sentido, um caso intermediário do regime II, encontrando-se pouco acima da média nacional
Barros (2000) apresenta dados sobre desigualdades regionais na produção técnico-científica e Quadros et alli (2000) demonstram
16
o peso de São Paulo no sistema de inovação brasileiro. É interessante ressaltar que, segundo dados do CNPq, a distribuição
regional do número de pesquisadores em 2000 era mais menos concentrada que a da renda (São Paulo tem 32,3% dos
pesquisadores do país).
Calculando-se as médias anuais por década, entre 1973 e 1980 a participação de Minas foi de 5,51%, passando a 6,61%, entre
17
1981 e 1990, e 7,9%, entre 1991 e 1999.
90 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
de produção científica (63,63 A*). Finalmente, outros nove estados estariam no regime I,
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40 anos
registrando alguma produção científica, mas em nível insuficiente para gerar patentes no USPTO.
De todo modo, mesmo as regiões mais desenvolvidas do país parecem não ter alcançado
aquele nível de interação entre a dinâmica tecnológica e a científica que as colocaria no estágio
de catching up. São Paulo, por exemplo, apesar de aproximar-se do limiar de 150 artigos por
milhão de habitantes, apresenta um comportamento ao longo do tempo semelhante ao do
conjunto do Brasil, com o crescimento da produção de artigos e queda da produção de patentes,
comportamento que se repete em outros estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e
Rio de Janeiro. Nesse sentido, é improvável que se possa criar uma dinâmica de interação
mutuamente reforçante em um ou em poucos estados do país. O processo de catching up não
pode depender de apenas uma região dinâmica em um país continental como o Brasil e, nesse
sentido, a responsabilidade de ampliar o número de estados com maior capacitação tecnológica
e científica é também a responsabilidade de ampliar as condições internas e nacionais para a
realização de um processo de catching up. Em outras palavras, discutir a construção de um
sistema estadual de inovação, como no caso de Minas Gerais, é também discutir importantes
pré-condições regionais para o amadurecimento do sistema nacional de inovação brasileiro.
TABELA 4
ARTIGOS E PATENTES POR MILHÃO DE HABITANTES POR UNIDADES DA FEDERAÇÃO - BRASIL, 1999
ARTIGOS POR PATENTES POR
UF MILHÃO DE HABITANTES MILHÃO DE HABITANTES
DF 163,19 -
RJ 138,95 1,08
SP 129,38 1,43
RS 74,03 0,99
MG 63,63 0,06
SC 61,92 0,96
PR 57,00 0,32
RN 45,83 -
AM 42,79 -
PE 36,27 0,13
PB 35,91 -
ES 29,53 1,33
CE 26,81 0,14
PA 21,82 -
GO 20,80 0,60
AL 14,24 -
BA 13,48 -
SE 8,62 -
AC 7,39 -
MA 4,20 0,18
FONTE: Elaboração própria com base nos dados de USPTO (2001); ISI (1999); IBGE.
91
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Esse conjunto de observações permite destacar um aspecto importante: o processo de
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desenvolvimento deve combinar, num duplo esforço, a redução do atraso do país em relação
aos países situados na fronteira tecnológica internacional com o processo de diminuição das
disparidades regionais.
As seções seguintes deste capítulo procuram aprofundar a discussão do sistema de
inovação em Minas Gerais. Primeiramente, a atenção se voltará para algumas etapas decisivas
do processo histórico de constituição das instituições envolvidas na pesquisa científica e
tecnológica no Estado. Essa reconstituição permitirá identificar alguns dos elementos que
impulsionaram ou restringiram a emergência do sistema de inovação no Estado, bem como
compreender algumas das características que determinam sua configuração presente.
Posteriormente, a análise se voltará para o detalhamento do perfil atual do sistema de inovação
mineiro e de suas relações com o sistema produtivo do Estado.
92 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
4. Trajetória do desenvolvimento
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40 anos
científico e tecnológico em Minas Gerais
Durante todo o período colonial, prevaleceram vários constrangimentos ao
desenvolvimento da vida intelectual na América Portuguesa. Entre esses constrangimentos, três
se destacam: a censura, a proibição da imprensa e a ausência de universidades. Se isso não
impediu que as idéias circulassem na Colônia, como se vê nos casos de certas bibliotecas mineiras
no século XVIII, particularmente atualizadas (FRIEIRO, 1957), não há como desconhecer quanto
esses constrangimentos bloquearam a disseminação de um autêntico e amplo sistema cultural,
que, como disse Antonio Candido, pressupõe a existência de um conjunto de produtores de
objetos simbólicos, um conjunto de receptores desses objetos e também, decisivamente, de um
conjunto de veículos capazes de fazê-los circular. (CANDIDO, 1964, p. 25).
De tal modo atuou a metrópole aqui que, se a existência de um certo sistema cultural
em Minas Gerais, no século XVIII, resultou numa escola literária de mérito, de uma escola
musical expressiva, de um artista superior como Antônio Francisco Lisboa, fatos prodigiosos,
isto deve ser visto, também, de outro modo no sentido de quanto esse processo teria sido
mais amplo e massivo se fossem outras as condições, se não tivessem prevalecido os
constrangimentos típicos da realidade colonial. Ou seja, se as restrições metropolitanas não
impediram inteiramente a vida cultural na colônia, elas impuseram um bloqueio, um déficit
na produção e na circulação simbólica que, certamente, explica aspectos do nosso
subdesenvolvimento no campo cultural.
A vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, dá início ao processo de
descolonização. No campo cultural, isso vai significar a permissão da imprensa, a abertura
de cursos superiores, a instalação de instituições decisivas como a Biblioteca Nacional, o
Jardim Botânico, o Museu Nacional, a Escola de Belas Artes. (AZEVEDO, s.d., p. 25, vol. I).
É desse período a criação das escolas médico-cirúrgicas, no Rio e na Bahia, das
Academias da Marinha e da Real Academia Militar, que significaram a introdução do
ensino da medicina e da engenharia entre nós. Mais tarde, em 1827, em Olinda e em São
Paulo, vão ser instaladas as Faculdades de Ciências Jurídicas e Sociais. De 1833 é a
reforma dos cursos de engenharia civil, militar e naval; de 1837 é a criação do Colégio Pedro
II; de 1838 é a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, instituições que vão
redefinindo o panorama do ensino no Brasil pela expansão de certa mentalidade científica,
num meio ainda fortemente marcado pela preeminência dos estudos literários.
Na verdade, a efetiva consolidação da mentalidade científica no Brasil virá com a reorganização
da Escola Militar, em 1858, que passará a se chamar Escola Central, introduzindo-se as seções de:
a) ciências naturais e matemáticas, e b) ciências físicas e matemáticas, e que se conferiram pela
primeira vez no Brasil os graus de bacharéis em ciências. (AZEVEDO, s.d., p. 27, vol. I).
Do final do século XIX é a criação de instituições decisivas para o desenvolvimento das
ciências experimentais naturais de 1887 é a criação do Instituto Agronômico de Campinas;
de 1885, a fundação do Museu Paraense, depois, em 1900, denominado Museu Emílio Goeldi;
de 1893 é o Museu Paulista; de 1898 é o Instituto do Butantã; de 1901 é o Instituto Soroterápico
Federal, chamado de Instituto de Patologia Experimental em 1907 e que, com Oswaldo Cruz,
assumirá lugar central entre as instituições científicas brasileiras (AZEVEDO, s.d., p. 32 e 33,
vol. I. SCHWARCZ, 1993).
93
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Destaca-se, nesse quadro geral, a Província de Minas Gerais pelo pioneirismo de certas
BDMG
40 anos
instituições científicas que aqui se instalaram, como a Escola de Farmácia de Ouro Preto, criada
em 1839, e a Escola de Minas de Ouro Preto, de 1876.
Se há que reconhecer a importância dessas instituições, é também forçoso apontar para a
precariedade do ensino médio na Província, situação que também marcou o século XVIII. Se
eram poucos e restritos às elites, os colégios mineiros do século XIX tinham ainda outro traço
marcante a ampla predominância do ensino de humanidades, entendido como o patrimônio da
cultura latina clássica.18
Se os currículos eram amplos, contemplando, além das humanidades, as ciências naturais, a
física e a química, os exames preparatórios, que definiam efetivamente o conteúdo do ensino,
excluíam as ciências. Veja-se o caso de um aluno do prestigioso Colégio do Caraça, em 1864,
que, tendo cursado 17 disciplinas, segundo seu boletim, durante os três anos do curso, foi, de
fato, aprovado apenas em nove.
Ou seja, em 17 matérias (como mostra o boletim), o aluno obtém um certificado de aprovação
em nove, excluindo (...) ciências naturais, física, química, desenho e música (as duas últimas
facultativas e as três, ditas científicas, não eram, nesse período, integrantes dos exames
preparatórios), e doutrina cristã, língua nacional e latina. (ANDRADE, 2000, p. 87).
Trata-se, como se sabe, de período marcado pela cultura livresca, do comentário
substituindo a explicação, da retórica em vez da experimentação, o paraíso da belas letras e do
bacharelismo.
4.1. Da fundação da Escola de Farmácia de Ouro Preto (1839) à
Reforma do Ensino de João Pinheiro (1906)
É uma significativa iniciativa a criação, em 1839, por lei da Assembléia Legislativa
Provincial no 140, da Escola de Farmácia de Ouro Preto. A citada lei que também mandava
criar uma Escola de Farmácia em São João del Rei, o que não se efetivou. A Escola de
Ouro Preto foi a primeira desse campo a ser criada no Brasil e deu início, entre nós, ao
ensino superior em disciplinas científico-experimentais.19
O reconhecimento da qualidade do ensino da Escola manifestava-se pela ampla procura
de seus cursos por alunos de todo o País. No início da República, freqüentavam a Escola
alunos de 17 Estados, e foram instalados novos laboratórios e ampliados os já existentes,
para o que foi aberto um crédito especial de 50 contos para a aquisição na Europa de aparelhos,
máquinas e material de laboratório, ficando o estabelecimento dotado do necessário ao ensino
prático. (GOMES, 1939, p. 15).
A Escola de Farmácia de Ouro Preto foi uma das matrizes importantes da consolidação,
em Minas Gerais, de uma tradição de estudos no campo das ciências biológicas e da saúde,
que é das suas marcas características até hoje.
Assim o conteúdo dos estudos secundários praticado no país, no século XIX e nas primeiras décadas deste século, trazia a
18
marca de um pensamento ou uma visão monolítica da cultura, soma de saberes inventariados e alicerçados na Antigüidade
clássica. (ANDRADE, 2000, p. 82).
Inicialmente cursado em dois anos, o currículo foi ampliado, passando a ser cursado em três anos, em 1871. Novamente
19
reorganizado em 1876, o curso passou a ter a seguinte estrutura: física e suas aplicações em medicina; botânica e noções de
zoologia, aplicada à medicina; química mineral e noções de mineralogia e suas aplicações à medicina; química orgânica e
aplicações à medicina; matéria médica e terapêutica; farmácia. (GOMES, 1939).
94 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Mais simbólica e materialmente decisiva é a criação, em 1876, da Escola de Minas de
BDMG
40 anos
Ouro Preto. Ela será, pela ação decidida de seu criador o engenheiro francês Claude Henri
Gorceix a mais atualizada das instituições de ensino técnico-científico do Brasil. No centro
do projeto de Gorceix, sua marca distintiva no panorama do ensino brasileiro, é o que José
Murilo Carvalho descreveu como a ênfase na criatividade e na pesquisa:
Em contraste com o ensino memorizante que predominava nas escolas brasileiras, Gorceix
fazia questão de insistir na compreensão e no desenvolvimento da criatividade e do espírito
de investigação. Para isto, eram os alunos submetidos, de um lado, a constantes exames
para verificação de aprendizado e, de outro, eram forçados a intensos trabalhos práticos de
laboratório. (CARVALHO, 1976, p. 73).
É também de José Murilo de Carvalho a identificação de outras fontes do sucesso e da
originalidade da Escola o tempo integral para alunos e professores; o ensino individualizado;
a preocupação com a realidade brasileira (CARVALHO, 1978, p. 74-81). O impacto da Escola
no desenvolvimento científico e econômico de Minas Gerais, na formação de administradores
públicos e de empresários, é inegável:
Navegando, no entanto, quase contra a corrente, a Escola produziu, até 1930, a primeira
geração de geólogos; os primeiros projetistas de altos-fornos depois do Intendente Câmara, e
um pioneiro do desenho, da construção e da operação de fornos elétricos; inúmeros
vasculhadores de nossas terras em busca de recursos minerais; diretores e técnicos do serviço
geológico; os primeiros industriais na área da siderurgia; os renovadores da Inspetoria de
obras contra as secas; diretores de estradas de ferro, secretários e ministros de Estado, quase
todos com a preocupação fundamental de explorar e desenvolver os recursos naturais do
país, de escapar das amarras da economia monocultora e exportadora, de defender os interesses
nacionais e de promover o desenvolvimento econômico. (CARVALHO, 1978, p. 165).
O mais importante a destacar na experiência da Escola de Minas, porém, é quanto sua
existência e seu êxito decorreram da ação lúcida do Estado, que, na figura do Imperador,
arrostou incompreensões, desafiou a precariedade do meio e, sobretudo, ultrapassou o exigido
por uma demanda incipiente no contexto de uma economia ainda fortemente primário-
exportadora.
É também resultado da intervenção lúcida do Estado a terceira peça decisiva dessa
primeira etapa do desenvolvimento científico e tecnológico em Minas Gerais. Trata-se da
Reforma do Ensino ocorrida em 1906, no governo de João Pinheiro, e que significou o efetivo
início da modernização pedagógica em Minas Gerais. O significado dessa iniciativa e as
motivações de seu promotor resultam da firme adesão positivista de João Pinheiro e de quanto
ele se inspirou no exemplo da longa governação de Porfírio Diaz no México, que foi a mais
acabada experiência de utilização das teses positivistas na gestão da coisa pública. Nas palavras
de Luciano Mendes de Faria Filho e Tarcísio Mauro Vago, com a reforma de 1906, a escola
ganhou notável centralidade, sendo conformada já nos ordenamentos legais, como o lugar
específico para uma educação específica o desenvolvimento da educação popular sob o
tríplice aspecto físico, intelectual e moral. (FARIA FILHO e VAGO, 2000, p. 38).
A Reforma do Ensino de 1906 fez parte de um conjunto mais amplo de reformas que
marcou a instauração da República em Minas Gerais e que teve seu momento simbólico mais
expressivo na construção da nova capital do Estado a materialização, no traçado das ruas,
na arquitetura e na geometria dos espaços, da vitória de uma certa racionalidade, de uma certa
concepção de Estado e cidadania.
95
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
4.2. Da Reforma do Ensino (1906) à fundação da Universidade de
BDMG
40 anos
Minas Gerais (1927)
O período de 1906 a 1927 foi marcado, em Minas Gerais, pelo surgimento de cursos
superiores em áreas importantes, como odontologia,20 medicina,21 engenharia,22 agronomia23 ,
por uma nova e abrangente reforma do ensino e pela criação da primeira universidade do Estado.
Destaquem-se, também, a criação da Companhia Siderúrgica Mineira, que, depois, com o aporte
de capitais belgas e luxemburgueses, vai passar a chamar-se Companhia Siderúrgica Belgo-
Mineira, e a instalação, em 1907, do Instituto Filial de Manguinhos, hoje, a Fundação
Ezequiel Dias.
Situado inicialmente na Praça da Liberdade, o Instituto foi dirigido, de 1907 a
1922, por Ezequiel Dias, e, de 1922 a 1940, por Octávio Magalhães. Contava com gabinetes
de bacteriologia, estufas de cultura, sala de microscópio, sala de vacinação, biotério,
inaugurando em Belo Horizonte a pesquisa científica à luz da experiência de Oswaldo Cruz.
(MOURÃO, 1970, p. 110).
Entre 1927 e 1928, sob inspiração do movimento da Escola Nova, liderado por
Lourenço Filho, Anísio Teixeira e Fernando Azevedo e implementado pelo Secretário do
Interior do Governo de Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, o jurista Francisco Campos,
tem lugar uma nova, ampla e decisiva Reforma do Ensino.24
Data de 7 de setembro de 1927 a criação da Universidade de Minas Gerais, resultado
da reunião dos cursos de Direito, Odontologia e Farmácia, Medicina e Engenharia. Mais
tarde, com a criação, em 1939, da Faculdade de Filosofia, pode-se dizer que a Universidade de
Minas Gerais realiza-se plenamente, na medida em que tem início, entre nós, não só os cursos
propedêuticos, formadores de professores e pesquisadores, como também se consolida a
prática efetiva da pesquisa nas áreas de física, química e biologia.25 Em 1949, a Universidade
de Minas Gerais foi federalizada, passando a chamar-se Universidade Federal de Minas Gerais
a partir de 1965.
Registre-se, para a exatidão, que tanto no Instituto Filial de Manguinhos quanto na
Faculdade de Medicina desenvolveu-se importante tradição de pesquisa nos campos da
bioquímica e da parasitologia, em que se destacaram os nomes de Baeta Viana e de Ezequiel
Dias, entre outros.
De 17 de março de 1907 é a criação da Escola Livre de Odontologia, em Belo Horizonte, que iniciou suas atividades em 7 de
20
agosto de 1907.
Em 1911 foi fundada a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, que começou a funcionar em 1912. Também em 1911
21
foi fundada a Escola de Farmácia de Belo Horizonte.
Data de 21 de maio de 1911 a criação da Escola de Engenharia de Belo Horizonte.
22
Em 1908, foi fundada a Escola Superior de Agricultura de Lavras, núcleo inicial da Universidade Federal de Lavras. Em
23
1922 foi criada a Escola Superior de Agricultura e Veterinária em Viçosa, que, inaugurada em 1926, foi o núcleo inicial
da atual Universidade Federal de Viçosa.
A reforma ficou consubstanciada nas seguintes normas legais: Decreto-Lei no 7.970, de 15 de outubro de 1927, que estabelece
24
a Reforma do Ensino Primário e Normal; o Decreto 8.094, de 22 de dezembro de 1927, que estabelece o Programa de Ensino
Primário; o Decreto-Lei no 8.162, de 20 de janeiro de 1928, que dispõe sobre o Regulamento do Ensino Normal; o Decreto-
Lei no 8.225, de 11 de fevereiro de 1928, que estabelece o Programa do Ensino Normal; e o Decreto-Lei no 8.987, de 22 de
fevereiro de 1928, que estabelece o Regulamento da Escola de Aperfeiçoamento. (VEIGA, 2000, p. 51).
Anteriormente foram criadas a Escola de Arquitetura de Belo Horizonte (1930), a Escola de Veterinária de Belo Horizonte
25
(1932) e a Escola de Enfermagem (1933). Mais tarde seria a vez da Faculdade de Ciências Econômicas (1941), da Escola de
Biblioteconomia (1950), da Escola de Belas Artes (1957) e do Centro Pedagógico (1958).
96 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
4.3. Da fundação da Universidade de Minas Gerais (1927) à criação
BDMG
40 anos
da CEMIG (1952)
A vocação mínero-metalúrgica de Minas Gerais, que vem desde os tempos coloniais,
teve nas décadas de 1930 e 1940 um momento de afirmação em grande escala. Desde a
rumorosa questão da Itabira Iron, nos anos 20, quando as elites mineiras reagiram às
tentativas de internacionalização de suas jazidas de minério de ferro, a necessidade de
uma política mineral baseada nos interesses nacionais colocou-se com importância na
agenda tanto do Governo de Minas Gerais quanto do Governo Federal. O Código de
Minas de 1934, no campo legal, e a criação da Companhia Vale do Rio Doce, em 1942,
redefiniram o perfil da indústria extrativa em Minas Gerais e no Brasil, de que resultará a
transformação da CVRD na maior empresa do mundo no campo da extração de minério
de ferro.
Também significativa foi a expansão da metalurgia em Minas Gerais, sobretudo a
siderurgia. É com a inauguração da Usina de Monlevade da Companhia Siderúrgica
Belgo-Mineira, em 1937, que teve início, no Brasil, a produção siderúrgica em grande
escala, produção que tem como traço específico a utilização, como redutor, do carvão
vegetal, o que vai significar o desenvolvimento de uma tecnologia específica para adaptar
o processo produtivo a uma matéria-prima não prevista pelos fabricantes de equipamentos.
De outro lado, a produção siderúrgica com carvão vegetal significou uma pressão importante
sobre as matas nativas, que serão devastadas, ao mesmo tempo que implicará no
desenvolvimento de uma nova tecnologia florestal decorrente da implantação das grandes
plantações de eucaliptos, planta australiana, do que decorreu e decorre uma série de
conseqüências econômicas, sociais e ambientais.
É parte do mesmo processo a criação, em 1944, da ACESITA - Aços Especiais de
Itabira -, em Timóteo, que entrou em operação em 1949 e foi incorporada ao Branco do
Brasil em 1951.
No centro desses vários empreendimentos, destaca-se a Escola de Minas de Ouro
Preto como formadora do pessoal técnico e de certa mentalidade empresarial que presidiu a
implantação dessas organizações. Foram formados ali os pioneiros da siderurgia, da mineralogia
e da geologia em Minas Gerais e no Brasil.26 Tanto no Departamento Nacional de Pesquisa
Mineral, DNPM, quanto no Conselho Nacional do Petróleo, CNP, quanto nos diversos
órgãos de planejamento e fomento industrial criados durante o Governo Vargas, foram
destacados a presença de formados na Escola de Minas e seu papel no desenvolvimento
científico e tecnológico brasileiro.
É também do período considerado, 1948, a criação, por influência da Universidade de
Viçosa, de uma instituição, a Associação de Crédito e Assistência Técnica Rural, a ACAR,
que, pioneira no Brasil, será o modelo tanto do Sistema Nacional de Assistência Técnica ao
Produtor Rural quando do Sistema de Pesquisa Agropecuária.
Finalmente, a CEMIG é, sob vários aspectos, uma espécie de síntese da evolução tanto
de certas instituições quanto de projetos e vocações do desenvolvimento mineiro. Para a sua
criação, convergiram técnicos formados na Escola de Minas de Ouro Preto e na UFMG.
Entre outros, Pandiá Calógeras, Clodomiro de Oliveira, Amaro Lanari, Cristiano Guimarães, Gil Guatimosin, Alberto Magalhães
26
Gomes, Euvaldo Lodi, José da Silva Brandão, Carlos Rocha e Athos de Leme Rache, Israel Pinheiro, Dermeval Pimenta, Djalma
Guimarães, Octávio Barbosa e Américo René Gianetti. (CARVALHO, 1978).
97
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Os estudos para a sua implantação, que constavam do Plano de Eletrificação de Minas Gerais,
BDMG
40 anos
coordenado pelo engenheiro Lucas Lopes e publicado em 1950, impressionam até hoje pela
qualidade e lucidez de suas análises. É que, enfrentando uma carência básica do Estado referente
à energia elétrica, a criação da CEMIG também significou um expressivo impulso para a
indústria da construção civil, as engenharias e as tecnologias no campo da hidroeletricidade.
Não há exagero em afirmar que a empresa foi a matriz tanto da formação de quadros, quanto
do desenvolvimento técnico e gerencial do sistema elétrico brasileiro em seu grande momento
de expansão, entre 1950 e 1980.
De resto, a atuação da CEMIG ultrapassou o específico da geração, transmissão e
distribuição de energia elétrica, tendo, a partir dos anos 60, também se tornado uma
agência de desenvolvimento, como se vê na criação, em conjunto com o BDMG, do
INDI, em 1968, entre outras iniciativas.
4.4. Da criação da CEMIG (1952) à criação da Fundação João Pinheiro
(1970)
Se foi destacado o papel da Escola de Minas de Ouro Preto como matriz do
desenvolvimento da pesquisa geológico-metalúrgica no Brasil, ela é importante também como
formadora de recursos humanos. Assim, não é surpresa encontrar egressos de seus cursos
entre os fundadores da Escola de Engenharia de Belo Horizonte, em 1911.
Nascida para oferecer os cursos de agronomia, eletrotécnica, engenharia industrial e de
condutores de obras, num primeiro momento a Escola ofereceu apenas o curso de engenharia
civil. Em 1917 foi criado o curso profissional de engenharia industrial, que iria funcionar até
1931; em 1921 surgiu o curso profissional de engenharia química industrial, que funcionaria
até 1931. Esses cursos terão reformulação em 1931 em razão da nova legislação do ensino
superior decorrente da chamada Reforma Francisco Campos. Já à luz da nova legislação,
serão recriados o curso de engenharia química industrial, em 1939, e o de engenharia
metalúrgica, em 1948 (MOURÃO, 1975).
Havia, então, significativa interação entre a Escola de Engenharia da Universidade de
Minas Gerais e os órgãos técnicos do Estado sediados na Secretaria de Agricultura, nas décadas
de 1930-40. Exemplo maior da cooperação de órgãos estaduais de pesquisa é a criação do
Instituto de Tecnologia Industrial, que funcionou no Instituto de Química da Universidade
de Minas Gerais e, reorganizado em 1945, tinha estrutura atualizadíssima e antecipadora de
iniciativas de que carecemos hoje, sobretudo pela perfeita articulação entre ciência, tecnologia
e vocação produtiva da região.27
Nesse sentido, veja-se como de complementaridade a relação entre a Escola de Minas
de Ouro Preto e a Escola de Engenharia na montagem e desenvolvimento de três grandes
projetos de forte incidência tecnológica em Minas Gerais: a CEMIG, o IPR e a Usiminas.
O IPR, Instituto de Pesquisa Radioativa, cuja criação foi aprovada pela congregação da
Escola de Engenharia da Universidade de Minas Gerais em 4 de setembro de 1951, teve como
seu criador o professor Francisco de Assis Magalhães Gomes, formado pela Escola de Minas de
Veja-se sua estrutura composta dos seguintes setores: química tecnologia; geologia e minas; metalurgia; materiais de
27
construção; física tecnológica; combustíveis, estabilidade das construções; indústrias têxteis. (GUIMARÃES, s.d.). Esses setores
e mais o serviço de documentação e divulgação, no qual trabalhou o grande bibliógrafo que foi Hélio Gravatá, dão conta de
um órgão atualizado e que tinha um dado positivo a mais, que era a sua estreita articulação com a Universidade mediante a
presença de professores, como Djalma Guimarães, que pertenciam às duas instituições, que cooperavam sistematicamente.
98 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Ouro Preto. O Instituo nasceu da colaboração da Escola de Engenharia com o recém-criado
BDMG
40 anos
Conselho Nacional de Pesquisa e começou a funcionar em 1953. (GOMES, 1976).
As vicissitudes do IPR, seus projetos no sentido de criar tecnologia autônoma no campo
nuclear e o virtual torpedeamento que isso sofreu dos Estados Unidos talvez sejam o mais
emblemático exemplo dos constrangimentos impostos pela metrópole imperial à periferia
que tentava se autonomizar (GOMES, 1976). Trata-se, aqui, de uma estratégia que, a título de
limitar a proliferação de armas nucleares, bloqueou o projeto brasileiro de desenvolver
tecnologia nuclear à base de urânio natural, de que temos reservas, forçando o Brasil a adotar
tecnologia à base de urânio enriquecido, o que nos colocou na dependência dos grandes
produtores desse material, sobretudo dos Estados Unidos.
Não se trata de defender o uso indiscriminado da energia nuclear, de desconsiderar as
implicações ambientais dessa tecnologia, sobretudo em um país com tantas alternativas de
energia como o Brasil. Trata-se, isso sim, de defender a necessidade do desenvolvimento da
pesquisa nesse campo, processo que foi iniciado pioneiramente pelo IPR e que apresentou
significativos resultados para o desenvolvimento científico e tecnológico de Minas Gerais,
sobretudo em áreas como a física atômica, física do estado sólido e metalurgia. Essa competência
científica manifestou-se na consolidação do Departamento de Física da UFMG, que é dos
mais importantes do Brasil. De resto, o abandono do projeto do reator com urânio natural,
com a assinatura do acordo nuclear com a Alemanha, foi a reiteração de um quadro de frustração
de oportunidades pela interveniência de políticas descomprometidas com o desenvolvimento
nacional autônomo e democrático.
Veja-se, um pouco mais, a trajetória da CEMIG. Criada em 1952, a partir dos estudos
do Plano de Eletrificação de Minas Gerais, coordenado por Lucas Lopes,28 a CEMIG tornou-se
referência nacional e internacional em sua área de atuação:
Afirma Judith Tendler, economista norte-americana que fez minucioso estudo sobre a energia
elétrica no Brasil: - Nos círculos energéticos brasileiros havia um ponto sobre o qual as
partes oponentes sempre concordavam. A LIGHT e os nacionalistas contrários às companhias
estrangeiras, os privatistas e os estatistas (os que são contra e os que são a favor da energia
patrocinada pelo Estado), o Banco Mundial e o Banco Brasileiro de Desenvolvimento,
todos dizem que a empresa Energética do Estado de Minas Gerais, a CEMIG, é das
melhores empresas em funcionamento do Brasil (GOMES, 1986, p. 41).
A CEMIG estabelece os padrões técnicos que vão nortear a constituição do sistema
nacional de energia elétrica, ao mesmo tempo que seus técnicos e dirigentes serão recrutados
para ocuparem postos centrais seja na Eletrobrás, seja no Ministério de Minas e Energia.
Transformada em Companhia Energética, a CEMIG terá papel importante no
desenvolvimento de tecnologias alternativas no campo energético, sendo que estudos realizados
recentemente no contexto das privatizações revelaram que a empresa tem padrão de eficiência,
custos e produtividade em nada inferiores às mais acreditadas instituições assemelhadas no
mundo inteiro.
A criação da CEMIG é que vai permitir a significativa expansão industrial de Minas Gerais
nos anos 1950, 60 e 70, sobretudo nos setores mínero-metalúrgicos, de material de transporte e de
celulose, em que se destacam empresas como a Mannesmann, a Fiat, a Açominas, a Cenibra etc.
Formado pela Escola de Engenharia da Universidade de Minas Gerais, em 1932, Lucas Lopes será o principal operador
28
técnico e gerencial dos grandes projetos associados ao nome de Juscelino Kubitschek, na década de 1950.
99
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Registre-se, ainda neste período, a Usiminas. Constituída em 25 de abril de 1956, como sociedade
BDMG
40 anos
anônima, em 1958 a empresa foi reorganizada como resultado da associação entre capitais brasileiros
e japoneses, na proporção de 60 e 40% respectivamente.29 Inaugurada em 1962, a Usiminas vai
tornar-se das mais eficientes empresas siderúrgicas do mundo, o que se expressa tanto em sua capacidade
competitiva quanto em sua capacidade de desenvolvimento tecnológico.
Criado em 1962, o BDMG trará considerável aporte ao desenvolvimento econômico de
Minas Gerais, seja pela canalização de recursos para investimentos produtivos, seja por sua
significativa participação no processo de formação de uma matriz de planejamento e de recursos
humanos, como se vê nos decisivos Diagnósticos da Economia Mineira, de 1969 e 1989, no papel
importante do Banco nos grandes projetos de desenvolvimento de Minas Gerais, nas articulações
que estabeleceu entre o Estado, o setor empresarial e a Universidade, de que é exemplo a criação
do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, Cedeplar, em 1967, e em que se
destaca o economista, formado pela UFMG, Fernando Roquete Reis, então técnico do BDMG.
4.5. Da criação da Fundação João Pinheiro (1970) à criação da Fapemig
(1985)
Trata-se de período em que se ensaia em Minas Gerais a constituição do embrião de um
sistema regional de ciência e tecnologia. É o tempo em que certa mentalidade modernizadora e
autoritária, que marcou os governos militares, vai impor, também no campo da ciência e da
tecnologia, políticas e instituições consonantes com o modelo geral, que, se era modernizante,
bloqueava os desdobramentos dessas mesmas ações, porque parte de um sistema excludente,
concentrador de renda, riqueza, capital e informação. Daí que, passados os anos do milagre, a
realidade do subdesenvolvimento e da miséria tenha se mantido, apesar de certos avanços tópicos.
Destaquem-se nesse período dois grandes aspectos no referente ao desenvolvimento da
ciência e da tecnologia em Minas Gerais:
1) a existência de mecanismos de financiamento do desenvolvimento científico e
tecnológico, pela ampliação do recursos do CNPq e pela criação da FINEP, cujos
recursos também chegaram ao Estado;
2) a criação de um sistema estadual de ciência e tecnologia, com a criação da Fundação
João Pinheiro, em 1970, do CETEC, em 1972, e da Secretaria de Estado de Ciência
e Tecnologia, em 1976.
Trata-se, no essencial, de uma etapa em que há tentativa de se buscar articulação
institucional. Para exemplificar, tomem-se os casos da pesquisa agropecuária, da pesquisa em
biociências e da montagem do embrião de um sistema estadual de ciência e tecnologia.
No campo da assistência técnica e extensão rural, isto é, na difusão da tecnologia
agropecuária, é pioneira, em termos nacionais, a iniciativa do governo de Minas Gerais de criação,
em 1948, da Associação de Crédito e Assistência Rural, ACAR, mediante convênio com o
governo norte-americano. Essa instituição, sediada em Belo Horizonte, será a matriz da criação
do sistema EMBRATER, em 1976, que vai buscar nacionalizar uma política de extensão rural.
Outras iniciativas importantes no mesmo campo são a criação da Empresa de Pesquisa
Agropecuária de Minas Gerais, Epamig, em 1974, e do Instituto Estadual de Saúde Animal,
IESA, que foi criado em 1971 como Grupo Executivo da Erradicação da Febre Aftosa,
Entre os acionistas brasileiros, destacavam-se o governo da União, o governo do Estado de Minas Gerais, a CVRD, a CSN, a
29
ACESITA, o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, o Banco Mineiro da Produção, o Banco Hipotecário e Agrícola de Minas
Gerais, entre outros, e, pelo Japão, a sociedade anônima Nippon-Usiminas Kabushiky Faisha. (PIMENTA, 1967, p. 203).
100 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
GERFAMIG. Criado em 1962, o Instituto Estadual de Florestas, IEF, antecipou muito do
BDMG
40 anos
que hoje é atualíssimo no campo da preservação ambiental. De tal modo que o governo
de Minas Gerais, na década de 1970, vai constituir um sistema de órgãos de política e
pesquisa agropecuária, o Sistema Operacional de Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
SOAPA, que incluía a Companhia Agrícola de Minas Gerais, CAMIG; a Companhia de
Armazéns e Silos do Estado de Minas Gerais, CASEMG; a Centrais de Abastecimento de
Minas Gerais, CEASA; a EMATER; a Epamig; o Frigorífico Minas Gerais, FRIMISA; o IEF, o
IESA e a Fundação Rural Mineiro Colonização e Desenvolvimento Agrário, RURALMINAS;
(SECRETARIA DA AGRICULTURA DE MINAS GERAIS, 1979).
A complexa e articulada armadura institucional, criada com o SOAPA, seu inegável papel
inovador e sua posterior desarticulação reiteram quadro de estiolamento de experiências, que,
sendo inovadoras e potencialmente geradoras de desenvolvimento científico e tecnológico, acabam
por ser sufocadas por descontinuidades administrativas, falta de recursos financeiros, desmobilização
de quadros técnico-profissionais, entre os motivos imediatos. No fundo, o mais decisivo dos
motivos, o que de fato tem bloqueado o pleno desenvolvimento dessas iniciativas é que elas não
estão articuladas a um projeto mais amplo de desenvolvimento nacional, são iniciativas isoladas,
que podem ser abafadas por uma simples substituição de um dirigente. Daí a intercorrência de
fracassos, de frustrações de iniciativas importantes.
Entre os exemplos de sucesso no campo das biociências em Minas Gerais, podem ser
citados a produção de insulina a partir de pesquisas desenvolvidas na UFMG; a importante
participação de cientistas de instituições sediadas em Belo Horizonte no desenvolvimento
da pesquisa biomédica, microbiológica, parasitológica e bioquímica; a participação de
pesquisadores da UFMG no projeto do genoma humano. Não são episódios isolados, fruto
do puro acaso e da idiossincrasia, mas capítulos de uma longa tradição. Seu momento inicial
talvez seja a instalação em Belo Horizonte, em 3 de agosto de 1907, do Instituto Filial de
Manguinhos. A instalação dessa instituição, o exemplo de Oswaldo Cruz, seu papel como
formador de uma mentalidade, ao mesmo tempo científica e de compromisso com os
interesses públicos, vão marcar a vida da pesquisa em Minas Gerais. É de seus laboratórios,
de suas bancadas, que vai ser formada uma primeira e decisiva mentalidade de
experimentação entre nós.
Se iniciativas no campo do desenvolvimento científico e tecnológico marcam a história de
Minas Gerais desde o século XIX, é nos anos 1970 que vai se dar efetivo amadurecimento da
questão, com uma série de ações que não só explicitam o problema corretamente, quanto, ainda,
buscam intervenção articulada para enfrentá-lo. Também aqui há que se falar em antecedentes
materializados nos papéis exercidos, nos anos 1960, pelo Escritório Técnico da Racionalização
Administrativa, ETRA, hoje PRODEMGE; pelo Conselho Estadual de Desenvolvimento, CED;
e BDMG; na criação da Fundação João Pinheiro, FJP, que é tanto o desaguadouro de toda uma
tradição do planejamento e da administração pública em Minas Gerais quanto será a matriz
constituição do embrião de um sistema estadual de ciência e tecnologia.
Está na Lei no 5.399, de 12 de dezembro de 1969, que autoriza a criação da Fundação, a
definição de seus objetivos: a pesquisa aplicada nos campos da economia, da administração
e da tecnologia básica e social. Em que pese a modificações e ampliações de seus propósitos,
a FJP continuou a ter entre seus objetivos a ciência e a tecnologia.30 Se até a criação da Secretaria
É o que se vê com as medidas tomadas em 1975, como os Decretos 17.112 e 17.114, de 22 de abril, que vão estabelecer:
30
Integrou-se na sua estrutura o recém-criado Grupo Executivo de Ciência e Tecnologia, que tem o objetivo de planejar,
coordenar e controlar as atividades relativas ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos e tecnológicos, particularmente
os referentes ao meio ambiente, em Minas Gerais. (FJP, 1979, p. 8).
101
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Estadual de Ciência e Tecnologia, em 1976, a FJP exerceu essas funções, é também de sua
BDMG
40 anos
iniciativa a criação, em 1972, do CETEC. Registre-se o fato:
Sua missão básica (do CETEC) era solucionar problemas de cunho tecnológico, econômico e
administrativo, enfrentados pelo setor produtivo. O Centro foi estabelecido dentro da Fundação
João Pinheiro (FJP) e sua presidência era ocupada pelo presidente desta última instituição.
(...) O CETEC estava inicialmente estruturado em cinco áreas de atuação, escolhidas de
acordo com o que se definiu como as necessidades e vocações naturais do estado: tecnologia
mineral e metalúrgica, tecnologia de alimentos, engenharia de ambiente, economia e
administração, e análises e testes. (SOARES, 1995, p. 48).
Nesse sentido, a criação da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia e do Sistema
Operacional de Ciência e Tecnologia31 são marcos que explicitam a existência de uma realidade
com certa densidade e complexidade. Refletindo isso, em 1983, está no IV Plano Mineiro de
Desenvolvimento Econômico e Social:
Levantamento feito pela Secretaria de Ciência e Tecnologia, através da Fundação Centro
Tecnológica de Minas Gerais CETEC revelou a existência no Estado, ao final da
década passada, de quase 200 entidades públicas e privadas que, em maior ou menor grau,
estavam envolvidas em atividades de pesquisa, desenvolvimento, prestação de serviços técnico-
científicos para utilização interna e/ou atendimento a terceiros, bem como de infra-estrutura
para ciência e tecnologia. (IV PMDES, 1983, p. 253).
Esse Sistema Operacional de Ciência e Tecnologia, SOCT, contava, além da Secretaria,
com um órgão colegiado, o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia, CONECIT, criado
em 1982, e dos seguintes órgãos operativos:
1) Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais - CETEC;
2) Instituto de Geociências Aplicadas - IGA;
3) Comissão de Política Ambiental - COPAM;
4) Instituto de Pesos e Medidas de Minas Gerais - IPEM/MG;
5) Comitê Estadual de Estudos Integrados de Bacias Hidrográficas - CEEIBH/MG.
(IV PMDES, 1983, pp. 254 e 255).
Conclui esse momento de afirmação da montagem de um sistema estadual de ciência e
tecnologia a criação, em 1985, da Fapemig, por meio da Lei Delegada no 10, de 28 de agosto, que
autoriza ao Poder Executivo instituir a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas
Gerais, com os objetivos de:
custear projetos de pesquisa; fiscalizar a aplicação dos auxílios que fornecer; manter cadastro
de instituições de pesquisa e de pesquisas sob seu amparo; promover estudos periódicos sobre
a situação da pesquisa em Minas Gerais, identificando os campos que
devem receber prioridades de incentivos e fomento; e promover ou subvencionar a publicação
de resultados de pesquisa. (Fapemig, 2001, p. 51).
Os anos que se seguem à criação da Fapemig, do ponto de vista da ciência e tecnologia
em Minas Gerais, são marcados por um conjunto de dificuldades e impasses, resultantes tanto
de constrangimentos políticos, como a crise aguda decorrente da violência obscurantista do
governador do Estado que, em 1987, exonerou todos os membros do Conselho Curador da
Fapemig, como de constrangimentos financeiros, que expressam tanto a crise financeira do
Estado, em seus vários níveis, quanto o mais pesado e complexo das implicações da crise geral
que o Brasil experimenta desde o início dos anos 1980.
Respectivamente, pela Lei no 6.953, de 16 de dezembro de 1976, e pelo Decreto no 18.407, de março de 1977.
31
102 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
BDMG
40 anos
5. O Sistema de inovação em Minas Gerais
O objetivo desta seção é realizar um mapeamento preliminar dos recursos e da produção
científica e tecnológica de Minas Gerais, a partir de estatísticas sobre o número de artigos
científicos, patentes e pesquisadores presentes no Estado. Antes, porém, de abordar esses
dados, é conveniente identificar as especializações econômicas e industriais de Minas Gerais,
à luz de estatísticas disponíveis de emprego e produção industrial. Esse passo tem um objetivo
limitado no contexto deste capítulo, tratando-se apenas de permitir posterior comparação
com as especializações científicas e tecnológicas detectadas mais à frente.32 A comparação
entre as especializações econômicas e os recursos de ciência e tecnologia disponíveis permitirá,
por sua vez, a formulação de um diagnóstico sobre o tipo específico de inter-relação entre as
dimensões econômico-industrial e científico-tecnológica no Estado, bem como a proposição
de políticas adequadas a essa situação.
5.1. Uma visão introdutória das especializações econômicas e
industriais de Minas Gerais
Esta seção descreve sumariamente a estrutura econômica de Minas Gerais, a partir
de estatísticas disponibilizadas pelo IBGE, buscando captar especializações econômicas e
industriais do Estado.33 Três fontes de dados serão utilizadas: o Cadastro Geral de Empresas do
IBGE (doravante, Cadastro)34, a Pesquisa Industrial Anual do IBGE (doravante, PIA)35 e o
Relatório Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho (doravante, RAIS). 36
A cobertura desses três conjuntos de dados é diferente, o que permite compor um quadro
abrangente, embora introdutório, da economia mineira.
O cálculo das especializações de Minas Gerais fornece uma pista sobre os setores em
que se concentram atividades econômicas e industriais do Estado. O método utilizado é uma
ferramenta tradicional dos estudos de economia regional, o cálculo do quociente locacional
(QL), que visa a avaliar a aglomeração de atividades industriais e a eventual existência de
especializações locais em tipo determinado de atividade.
As especializações econômicas a e estrutura industrial de Minas Gerais são analisadas mais detidamente em outros capítulos
32
deste estudo.
A descrição da estrutura econômica e industrial de Minas Gerais é objeto de extensa e qualificada literatura, que tem se
33
preocupado em apontar as raízes históricas e as mudanças ocorridas ao longo do tempo. (Ver DINIZ, 1981; PAULA, 2000a e
2000b, entre outros).
O Cadastro Geral de Empresas, referente a 1998, é composto de 3.888.077 unidades locais que respondem por 27.981.400
34
empregos, envolvendo todas as seções de classificação de atividade, segundo o IBGE.
Os dados da PIA, que se referem a 1998, dizem respeito à indústria extrativa e de transformação. Apesar de ser mais restrito,
35
essa base de dados apresenta informações que não constam do Cadastro, como o valor adicionado e o valor bruto da produção.
A PIA de 1998 identificou em torno de 5 milhões de empregos industriais, oferecidos por cerca de 100 mil unidades de
produção.
Os dados da RAIS, produzidos a partir de informações fornecidas pelas empresas, envolvem cerca de 24 milhões de empregos
36
formais, abrangendo todos os setores de atividades econômicas. A principal vantagem dessa base de dados é a existência de
informações no nível municipal, permitindo o cálculo de especializações econômicas dos municípios de Minas Gerais. Por
outro lado, é importante notar que essa base de dados tem restrições, na medida em que não reflete a presença de atividades
informais, além de apresentar problemas de sub-registro de dados relativos a pequenas empresas. Para mais detalhes, ver
Britto e Albuquerque (2002).
103
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Adotando-se como base de cálculo o total de empregos registrados em determinada
BDMG
40 anos
localização, o QL é obtido a partir da fórmula abaixo: 37
QL = (n° de empregos no setor i na localidade j / n° de empregos na localidade j) /
(n° de empregos no país no setor i / n° de empregos no país)
A interpretação do QL deve tomar como base três situações distintas. Quando o QL
equivale a 1, a especialização da localização j em atividades do setor i é idêntica à do conjunto
do Brasil nas atividades do mesmo setor. Quando o QL é menor que 1, a especialização da
localização j em atividades do setor i é inferior à do conjunto do Brasil nas atividades desse
setor. Finalmente, um QL maior que 1 indica que a especialização da localização j em atividades
do setor i é superior à especialização do conjunto do Brasil nas atividades desse setor.
5.1.1. O peso das indústrias extrativas e da agricultura
De acordo com o Cadastro Geral de Empresas do IBGE, Minas detinha, em 1998, 12,07%
das unidades locais do país, que empregavam 10,72% do pessoal ocupado, que, por sua vez,
recebiam 8,47% dos salários e outras remunerações (IBGE, 2001).
Calculando-se o índice de especialização do Estado pelo critério de pessoal ocupado
segundo a classificação de atividades, tem-se que Minas Gerais é um Estado especializado em
indústrias extrativas (índice de especialização de 2,414), agricultura, pecuária, etc. (1,297),
produção e distribuição de eletricidade e gás (1,191) e saúde e serviços sociais (1,184).
Os mesmos dados mostram que Minas possui uma especialização inferior à nacional
nas atividades de intermediação financeira (0,6856) e educação (0,7892). A especialização
de Minas aproxima-se da nacional (índices de especialização entre 1,05 e 0,96) nos demais
setores de atividades. É importante destacar que o setor indústria de transformação possui
um índice de especialização de 0,967.
5.1.2. A ausência de especialização em setores industriais de alta tecnologia
Os dados da PIA permitem uma avaliação mais detalhada e mais completa das indústrias
extrativa e de transformação. Adotando-se o Valor da Transformação Industrial (VTI) como critério,
o Estado revelou uma especialização em 23 classes de atividade econômica (especialização maior
que 1,05).
Essas classes estão apresentadas na TAB. 5. As maiores especializações de Minas Gerais
(índices de especialização maiores que 3) encontram-se nos setores de extração de minério
de ferro (4,476), extração de minerais metálicos (4,065), fabricação de produtos de fumo
(3,260), fabricação de produtos siderúrgicos (3,157) e siderúrgicas integradas (3,135).
Entre as classes com especialização superior a 1,05, nota-se uma forte presença de setores
relacionados à exploração e processamento de minérios (metalurgia, siderurgia), que chega a envolver
a classe fabricação de máquinas e equipamentos para as indústrias de extração mineral e construção
(totalizando 11 setores). É importante ressaltar, por outro lado, que nenhuma delas pertence a
setores classificados como de alta tecnologia (de acordo com a classificação da OECD, 1996).
A partir dessa fórmula, o QL pode ser calculado variando-se os níveis de agregação e a definição da localização (Município,
37
Estado), de acordo com os objetivos da análise e a disponibilidade dos dados. Ao longo deste capítulo, o cálculo do QL é
utilizado para identificar especializações industriais (nesta seção) e especializações científicas (na seção 5.2). A intuição que
sustenta a interpretação desses indicadores é similar à exposta nesta seção.
104 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
5.1.3. Identificando clusters
BDMG
40 anos
Os dados da RAIS permitem uma análise mais desagregada do ponto de vista espacial.
Por um lado, indicam as regiões nas quais as especializações se concentram. Por outro, permitem
investigar se nessas regiões existem aglomerações especializadas ou arranjos mais complexos
que podem ser caracterizados como clusters.38
A existência de um cluster pressupõe mais do que a mera concentração espacial da atividade.
Por um lado, pode pressupor a existência de diferentes estágios de uma cadeia produtiva em
uma região: firmas de um setor produtor de bens de consumo, ao lado de firmas produtoras de
máquinas especializadas para essa indústria, por exemplo. Por outro lado, pode pressupor a
existência de várias firmas de setores próximos, proximidade que permite o compartilhamento
de recursos produtivos e humanos concentrados na região. Esse comentário permite organizar
os dados para a identificação dos clusters mineiros, isto é, a diferenciação entre clusters verticais
e horizontais torna mais operacional o levantamento das especializações municipais calculadas
a partir dos QLs com base nos dados da RAIS. (BRITTO & ALBUQUERQUE, 2002).
TABELA 5
ESPECIALIZAÇÃO SEGUNDO O VALOR DA TRANSFORMAÇÃO INDUSTRIAL
MINAS GERAIS, 1998
GRUPO ATIVIDADE ESPECIALIZAÇÃO
Extração de minério de ferro 4,476
Extração de minerais metálicos 4,065
Fabricação de produtos do fumo 3,260
Fabricação de produtos siderúrgicos - exclusive em siderúrgicas integradas 3,157
Siderúrgicas integradas 3,135
Metalurgia básica 2,403
Fabricação de estruturas metálicas e obras de caldeiraria pesada 2,331
Fabricação de cimento 2,249
Tecelagem - inclusive fiação e tecelagem 1,884
Laticínios 1,839
Metalurgia de metais não-ferrosos 1,808
Extração de minerais metálicos não-ferrosos 1,767
Aparelhamento de pedras e fabricação de cal e de outros produtos de minerais não-metálicos 1,640
Reciclagem de sucatas metálicas 1,635
Fabricação de automóveis, caminhonetas e utilitários 1,625
Fabricação de produtos de minerais não-metálicos 1,327
Reciclagem 1,321
Fabricação de produtos cerâmicos 1,316
Fabricação de tanques, caldeiras e reservatórios metálicos 1,245
Fabricação de máquinas e equipamentos para as indústrias de extração mineral e construção 1,185
Fabricação e montagem de veículos automotores, reboques e carrocerias 1,111
Fabricação de armas, munições e equipamentos militares 1,108
Fabricação de produtos químicos inorgânicos 1,070
FONTE: Elaboração própria com base nos dados da PIA-IBGE.
Para maiores detalhes metodológicos, ver Britto e Albuquerque (2002, p. 78).
38
105
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
A idéia de clusters verticais relaciona-se ao que a discussão conceitual realizada por Britto
BDMG
40 anos
(2000) trata como interdependência. Baseia-se na interação entre uma indústria produtora de
bens de consumo e uma indústria produtora de máquinas e equipamentos para a primeira.
Nesse tipo de cluster há espaço razoável para interação entre produtor-usuário que, por sua vez,
é um componente importante da construção de sistemas de inovação (LUNDVALL, 1992).
Um bom exemplo desse tipo de cluster é Novo Hamburgo (QLs altos tanto para a produção de
calçados como para a fabricação de máquinas para a produção calçadista).
A intuição que serve de apoio ao conceito de clusters horizontais é outra: a concentração
de diversas atividades relacionadas em um mesmo município. Diz respeito ao que Britto (2000)
identifica como similaridade. As firmas compartilham recursos disponíveis em uma região.
Um bom exemplo desse tipo de cluster é a indústria eletrônica: a proximidade de diversos
segmentos dessa indústria expressa a existência de vantagens aglomerativas, na medida em
que há uma concentração de profissionais que podem atuar nas diferentes firmas presentes
no município e no setor. Entre os clusters horizontais incluiríamos as aglomerações como as
provocadas pela produção de automóveis, que podem atrair um conjunto de indústrias
produtoras de peças e componentes.
Em relação a Minas Gerais, constata-se, inicialmente, a presença de algumas
aglomerações industriais que não podem ser consideradas clusters. Dois exemplos podem
ser citados. Em primeiro lugar, a microrregião de Uberlândia, altamente especializada na
produção de fumo (QL=22,6), onde, entretanto, inexiste a produção de máquinas para
essa indústria (em contrapartida, Porto Alegre e Curitiba atenderiam essas duas condições).39
Em segundo lugar, uma microrregião com uma alta especialização na produção de móveis
como Ubá (QL=24,9), que não possui uma indústria produtora de equipamentos para a
indústria moveleira.
Por outro lado, identificam-se pelo menos dois clusters horizontais em Minas: o primeiro,
na área de eletrônica, em Santa Rita de Sapucaí, e o segundo na área da indústria automobilística,
em Betim. (BRITTO & ALBUQUERQUE, 2002).
Os dados da RAIS sugerem, ainda, a presença de um cluster em Belo Horizonte no
setor de prestação de serviços na área de informática. Belo Horizonte possui uma especialização
nas atividades dos setores relacionados à informática em geral (classes CNAE), tais como
atividades de bancos de dados (QL=4,44), desenvolvimento de programas de informática
(1,77), processamento de dados(1,46) etc.40
Por sua vez, os dados da PIA (TAB. 5) indicam a presença, no âmbito estadual, de
interação entre um setor produtor de máquinas (fabricação de máquinas e equipamentos
para as indústrias de extração mineral e construção) e uma especialização geral em indústrias
extrativas (extração de minério de ferro, minerais metálicos, minerais metálicos não-ferrosos).
Finalmente, a investigação de setores como o calçadista, o têxtil, e o de extração e refino
de petróleo não permitiu a identificação de clusters verticais em Minas nessas áreas. (BRITTO &
ALBUQUERQUE, 2002). Uma explicação para a frágil presença de clusters industriais em Minas
Gerais pode ser a debilidade do setor produtor de máquinas e equipamentos no Estado.41
A especialização de Uberlândia nesse segmento reflete a presença de uma grande planta na região e não representa
39
propriamente um cluster.
A única exceção é a classe fabricação de aparelhos de medida, teste, controle etc.
40
Os dados da TAB. 5 apontam para um índice de especialização superior a 1,05 para a fabricação de máquinas e equipamentos
41
para as indústrias de extração mineral e construção. A próxima classe relacionada a esse setor é a fabricação de máquinas e
equipamentos de uso geral, com um índice de especialização de 0,40.
106 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
5.1.4. Nota sobre a especialização econômica de Minas Gerais
BDMG
40 anos
Os indicadores apresentados nesta seção permitem formar uma visão geral, ainda
que preliminar, das especializações econômica e industrial de Minas Gerais. Em primeiro
lugar, há que ressaltar a especialização do Estado nas atividades ligadas à agricultura e,
sobretudo, à indústria extrativa. Em segundo lugar, entre os setores ligados à indústria de
transformação, o Estado apresenta uma especialização naqueles ligados ao complexo
metalúrgico e siderúrgico, bem como à fabricação de produtos de fumo.
Merece também registro a existência de alguns clusters (eletrônica, automobilístico
e processamento de dados). Entretanto a identificação de várias aglomerações industriais
que não se caracterizam como clusters (móveis, calçados) revela uma importante debilidade
na estrutura industrial mineira: a ausência de uma forte indústria produtora de máquinas
e equipamentos. A única exceção é na área de máquinas para a exploração mineral, que,
aliás, contribui para a conformação de uma articulação com a especialização na indústria
extrativa.
Finalmente, é notória a ausência de especialização nas áreas de alta tecnologia. Esse
dado, aliado à discussão sobre os clusters (especializações mais localizadas, microrregionais no
caso discutido), é importante para orientar a discussão de políticas públicas, pois aponta para
a conveniência de focalizar áreas mais sintonizadas com a fronteira tecnológica.
5.2. Minas Gerais: um mapeamento dos recursos de ciência e tecnologia
existentes
Trata-se, nesta seção, de detalhar os dados sobre a atividade científica e tecnológica em
Minas Gerais, tendo em vista dois objetivos básicos. Em primeiro lugar, é necessário investigar
até onde a especialização científica e tecnológica do Estado articula-se com suas especializações
econômicas. Em segundo lugar, busca-se identificar a distribuição espacial dos recursos
científicos e tecnológicos do Estado.
5.2.1. Instituições de pesquisa, grupos de pesquisa e número de
pesquisadores
Esta seção baseia-se em dados do CNPq, disponibilizados através do programa Prossiga.42
Os dados referem-se ao ano de 2000.
A TAB. 6 apresenta a distribuição dos pesquisadores entre as grandes áreas do
conhecimento, no Brasil e em Minas Gerais. 43 Nas grandes áreas selecionadas para essa
pesquisa, Minas possuía 4.739 pesquisadores, ou 9,69% do total brasileiro. Esse percentual
é compatível com a participação mineira nos artigos científicos publicados (9,50% do total
brasileiro).
Esta base de dados apresenta um conjunto de instituições e de grupos de pesquisa, identificando as áreas de atuação de cada
42
grupo e o total de pesquisadores envolvidos. Trata-se de uma base em construção e que tem sido aprimorada em termos de
cobertura e de qualidade de informações (CNPq, 2000). Em sua versão mais recente, relativa ao ano 2000, o Diretório indica
a existência de 48.781 pesquisadores, distribuídos entre 11.760 grupos de 224 instituições. (Obs.: esse total difere do indicado
na TAB. 6, já que existem pesquisadores que atuam em grupos e linhas de pesquisa de mais de uma área).
Foram excluídos os dados relativos às áreas de Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas e Lingüística, Letras e Artes, que
43
não se enquadram nas disciplinas mais diretamente relacionadas à inovação industrial, segundo Klevorick et al (1995).
107
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
TABELA 6
BDMG
40 anos
NÚMERO DE PESQUISADORES POR GRANDE ÁREA DO CONHECIMENTO
BRASIL E MINAS GERAIS, 2000
GRANDE ÁREA BRASIL (%) MINAS GERAIS (%)
Ciências Agrárias 10.412 21,29 1.572 33,17
Ciências Biológicas 8.731 17,85 666 14,05
Ciências Exatas e da Terra 8.970 18,34 785 16,56
Ciências da Saúde 10.607 21,69 668 14,10
Engenharias e Ciência da Computação 10.186 20,83 1.048 22,11
Totais 48.906 100,00 4.739 100,00
FONTE: CNPq (2000).
Os dados também indicam diferenças em termos da distribuição dos pesquisadores segundo
as grandes áreas científicas. No Brasil, predominam as Ciências da Saúde (21,29% dos pesquisadores),
seguida de perto pelas Ciências Agrárias e pelas Engenharias e Ciência da Computação (21,29% e
20,83%, respectivamente). Em Minas, as Ciências Agrárias lideram (33,17%) com uma boa margem
sobre a segunda grande área, Engenharias e Ciências da Computação (22,11%).
Os dados da TAB. 7 mostram que os pesquisadores estão distribuídos entre 24
instituições, mas boa parcela está vinculada a quatro universidades federais (UFMG, UFV,
UFLA/ESAL e UFU), que respondem por 3.089 pesquisadores (65,18% do total do Estado).
As instituições sediadas em Belo Horizonte contam com 2.025 pesquisadores (42,73%
do total do Estado). Viçosa, Lavras, Uberlândia, Juiz de Fora, Sete Lagoas e Itajubá são cidades
com mais de 100 pesquisadores e ocupam as posições seguintes.
A liderança da UFMG (e de Belo Horizonte) em termos do número de pesquisadores
repete-se em cada grande área científica, exceto no caso das Ciências Agrárias, lideradas pela
UFV (Viçosa), seguida pela UFLA (Lavras).
Em resumo, os dados indicam que a infra-estrutura científica de Minas Gerais encontra-
se distribuída pelo Estado, com a presença de pólos importantes em Belo Horizonte, no
Triângulo Mineiro, na Zona da Mata e no Sul de Minas, destacando-se o papel das instituições
federais, que certamente é maior, em termos relativos, que o encontrado em São Paulo.
(cf. QUADROS et al, 2000).
TABELA 7
DISTRIBUIÇÃO DO NÚMERO DE PESQUISADORES E LINHAS DE PESQUISA SEGUNDO AS INSTITUIÇÕES
MINAS GERAIS, 2000
PESQUISADORES1
INSTITUIÇÃO LOCALIDADE LINHAS
CEFET/MG Belo Horizonte 24 34
CETEC Belo Horizonte 140 68
(2)
CNEN Belo Horizonte 140 68
(2)
CNEN Poços de Caldas 27 13
EFEI Itajubá 131 105
(Continua...)
108 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
TABELA 7 (Continuação)
BDMG
40 anos
DISTRIBUIÇÃO DO NÚMERO DE PESQUISADORES E LINHAS DE PESQUISA SEGUNDO AS INSTITUIÇÕES
MINAS GERAIS, 2000
PESQUISADORES1
INSTITUIÇÃO LOCALIDADE LINHAS
EFOA Alfenas 44 28
(2)
Embrapa Sete Lagoas 107 29
(2)
Embrapa Juiz de Fora 44 12
Epamig Viçosa 128 129
FAFEOD Diamantina 13 4
Fiocruz Belo Horizonte 68 50
FJP Belo Horizonte 8 5
FMTM Uberaba 58 39
Funed Belo Horizonte 8 7
Funrei São João del Rei 51 47
Furnas Alvinópolis 1 2
LNA/CNPQ Itajubá 8 10
PUC/MG Belo Horizonte 46 20
Unifenas Alfenas 211 107
Unimontes Montes Claros 5 7
UFJF Juiz de Fora 196 137
UFLA/ESAL Lavras 524 342
UFMG Belo Horizonte 1564 950
UFOP Ouro Preto 192 103
UFU Uberlândia 283 189
UFV Viçosa 718 453
Total 4739 2958
FONTE: Elaboração própria com dados do CNPq (2000); ISI (2000).
Notas: 1. Há dupla contagem no número de pesquisadores. O pesquisador que participa de n grupos de pesquisa
é computado n vezes.
2. A base não indica o número de pesquisadores por cidade. Quando a instituição tem unidades em mais
de uma cidade, imputou-se a cada uma delas uma fração do total de pesquisadores da instituição
através da relação pesquisador por linha de pesquisa (P/L).
5.2.2. Produção científica
Os dados desta seção foram extraídos da Web of Science, conjunto de bases de dados
mantido pelo Institute for Scientific Information (ISI). Realizando-se uma busca na base Science Citation
Index, 44 foram selecionados os 911 artigos científicos com pelo menos um autor filiado a
instituição localizada em Minas Gerais (em 1998) e os 9.668 artigos publicados com autores
filiados a instituições localizadas no Brasil (em 1999). A partir dessa pesquisa, construiu-se
Essa base não inclui periódicos das áreas de ciências sociais, humanidades e artes, o que a torna compatível com o recorte de
44
áreas adotado na subseção anterior.
109
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
um banco de dados de forma a tornar operacionalizáveis as informações relevantes (autores e
BDMG
40 anos
suas instituições, nome da revista).45
É importante notar que a base de dados do ISI não inclui toda a produção científica
desenvolvida no país. Ao contrário, os quase 10 mil artigos de autores ligados a instituições
brasileiras registrados nessa base em 1999 constituem apenas uma pequena parte da produção
científica brasileira. Um levantamento com base nos dados recolhidos pelo CNPq revelou
que, em 2000, os pesquisadores brasileiros publicaram 58.714 artigos científicos, dos quais
15.530 em revistas nacionais, 18.129 em periódicos estrangeiros e 25.055 em anais de eventos
científicos. Incluindo-se nesse cômputo outras publicações (como livros, capítulos de livros
etc.), o total de trabalhos científicos de autores ligados a instituições brasileiras alcançou 129.505
publicações, número que é cerca de 13 vezes maior que o de trabalhos indexados pelo ISI.46
Por outro lado, ainda que os artigos computados pelo ISI representem apenas a ponta
do iceberg da produção científica brasileira, há boas razões para empregar essa base de dados.
Em primeiro lugar, por abranger apenas os periódicos mais importantes e influentes de cada
área, os artigos incluídos nessa base tendem a representar o núcleo das publicações de elevado
impacto e qualidade. Em segundo lugar, a base do ISI permite realizar comparações entre as
produções científicas de diferentes países e regiões, minimizando a presença de algum tipo de
viés. Finalmente, essa base considera como unidade de registro o artigo publicado,
contornando os problema de dupla contagem presentes nos dados apurados por outras
instituições. 47
Desse modo, mesmo limitando-se a um período restrito, o banco construído a partir
dos dados do ISI apresenta uma contribuição inicial ao ser cotejado com as informações do
CNPq discutidas na seção anterior. De acordo com os dados do ISI, existem aproximadamente
97 instituições mineiras cujos membros publicaram artigos em 1999 (incluindo firmas como
a Biobrás, Mannesmann, hospitais etc.). Os dados do CNPq por outro lado, identificam
apenas 24 instituições de pesquisa no Estado (TAB. 7).48
A restrição a apenas dois anos (1998 e 1999, para Minas, e 1999, para o Brasil) impõe uma óbvia limitação à análise. Todavia,
45
dada a dificuldade da montagem do banco e a escassez de informações com esse nível de detalhamento, os dados permitem
compor um mapeamento preliminar dos recursos científicos disponíveis no Estado.
Esses dados foram cedidos pelo Prof. Evando Mirra, a quem agradecemos por chamar nossa atenção para esse aspecto.
46
Nesse sentido, o total de publicações apurados a partir dos dados do CNPq deve ser tomado com cautela, já que essas
47
informações foram extraídas dos currículos dos pesquisadores e, desse modo, estão sujeitas a dupla (ou tripla) contagem
sempre que um determinado artigo for resultado de co-autoria entre pesquisadores incluídos na base.
É importante notar que um artigo pode ter sido elaborado por pesquisadores de mais de uma instituição ou de mais de um
48
departamento de uma mesma instituição. Assim sendo, o WoS pode citar para cada artigo diversas referências de endereço.
110 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
TABELA 8
BDMG
40 anos
NÚMERO DE ARTIGOS INDEXADOS PELA WoS COM AUTORES LIGADOS A INSTITUIÇÕES MINEIRAS;
SEGUNDO AS GRANDES ÁREAS DO CNPQ E AS DISCIPLINAS DO INDEXADOR DE
PERIÓDICOS ULRICH - EM 1998 E1999
Grande Área (CNPq) Disciplina (ULRICH) 1998 % 1999 % Total %
Ciências Exatas e da Terra Física 131 14,38 126 11,23 257 12,64
Química 93 10,21 81 7,22 174 8,56
Matemática 4 0,44 19 1,69 23 1,13
Astronomia 1 0,11 15 1,34 16 0,79
Ciências da Terra - 10 0,89 10 0,49
Energia - 8 0,71 8 0,39
Estatística 1 0,11 6 0,53 7 0,34
Geologia 18 1,98 - 18 0,89
Paleontologia 1 0,11 - 1 0,05
Subtotal 249 27,33 265 23,62 514 25,28
Ciências Agrárias Veterinária 164 18,00 202 18,00 366 18,00
Agricultura 46 5,05 87 7,75 133 6,54
Alimentos - 4 0,36 4 0,20
Pesca - 2 0,18 2 0,10
Plantações e Solos - 1 0,09 1 0,05
Florestas - 1 0,09 1 0,05
Subtotal 210 23,05 297 26,47 507 24,94
Ciências Biológicas Biologia 137 15,04 229 20,41 366 18,00
Farmacologia 22 2,41 30 2,67 52 2,56
Estudos Ambientais 2 0,22 8 0,71 10 0,49
Recursos Hídricos - 5 0,45 5 0,25
Física e Biologia 2 0,22 - 2 0,10
Subtotal 163 17,89 272 24,24 435 21,40
Ciências da Saúde Medicina 149 16,36 164 14,62 313 15,40
Nutrição - 9 0,80 9 0,44
Drogas e Alcoolismo - 1 0,09 1 0,05
Terapia Ocupacional - 1 0,09 1 0,05
Biologia e Medicina 26 2,85 - 26 1,28
Odontologia 7 0,77 - 7 0,34
Saúde Pública 1 0,11 - 1 0,05
Subtotal 183 20,09 175 15,60 358 17,61
Engenharias e Ciência da
Computação Engenharia 60 6,59 44 3,92 104 5,12
Metalurgia 7 0,77 12 1,07 19 0,93
Computação 4 0,44 8 0,71 12 0,59
Eletrônica - 6 0,53 6 0,30
Minas e Mineração - 3 0,27 3 0,15
Papéis e Polpas - 2 0,18 2 0,10
Instrumentos - 1 0,09 1 0,05
Subtotal 71 7,79 76 6,77 147 7,23
Humanas Economia - 1 0,09 1 0,05
Cerâmica e Vidro - 1 0,09 1 0,05
Psicologia - 1 0,09 1 0,05
Subtotal 0 - 3 0,27 3 0,15
Todas as Áreas 3 0,33 - 3 0,15
Sem Classificação 32 3,51 34 3,03 66 3,25
Total 911 100,00 1122 100,00 2033 100,00
FONTE: Elaboração própria, com base em dados de ISI (2000); Ulrich (1999); CNPq (2001).
111
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Para viabilizar a comparabilidade entre esse banco e o do CNPq, foi realizado um esforço
BDMG
40 anos
de identificação das áreas de cada periódico científico em que foram publicados os
artigos. (Ulrich, 1987).49 Esse esforço permitiu construir a TAB. 8, que apresenta a distribuição
dos artigos publicados com a participação de ao menos um autor vinculado a uma instituição
de pesquisa de Minas Gerais. Foram identificados 911 artigos, publicados em 1998, e 1.122,
em 1999. Os dados indicam a liderança da grande área de Ciências Exatas e da Terra (com
25,28% do total de artigos publicados nos dois anos), seguida de Ciências Agrárias, Ciências
Biológicas e Ciências da Saúde. A grande área Engenharia e Ciências da Computação responde
por apenas 7,23% dos artigos.
TABELA 9
ARTIGOS INDEXADOS NO WoS COM AUTORES LIGADOS A INSTITUIÇÕES MINEIRAS; SEGUNDO A
MICRORREGIÃO DE REFERÊNCIA DO AUTOR - 1998 E1999
MICRORREGIÃO 1998 % 1999 % TOTAL %
Belo Horizonte 558 56,48 1.357 58,19 1.915 57,68
Viçosa 185 18,72 434 18,61 619 18,64
Uberlândia 59 5,97 119 5,10 178 5,36
Juiz de Fora 47 4,76 113 4,85 160 4,82
Lavras 30 3,04 83 3,56 113 3,40
Ouro Preto 29 2,94 50 2,14 79 2,38
Uberaba 15 1,52 47 2,02 62 1,87
Itajubá 24 2,43 36 1,54 60 1,81
Sete Lagoas 11 1,11 35 1,50 46 1,39
Alfenas 8 0,81 24 1,03 32 0,96
São João del Rei 12 1,21 14 0,60 26 0,78
Poços de Caldas - 6 0,26 6 0,18
Araxá 1 0,10 4 0,17 5 0,15
Ipatinga 1 0,10 2 0,09 3 0,09
Ituiutaba 3 0,30 - 3 0,09
Montes Claros 1 0,10 2 0,09 3 0,09
Três Marias 1 0,10 2 0,09 3 0,09
Divinópolis - 1 0,04 1 0,03
Governador Valadares - 1 0,04 1 0,03
Nanuque 1 0,10 - 1 0,03
Paracatu - 1 0,04 1 0,03
Patos de Minas 1 0,10 - 1 0,03
Santa Rita do Sapucaí 1 0,10 - 1 0,03
Varginha - 1 0,04 1 0,03
Total 988 100 2.332 100 3.320 100
FONTE: Elaboração própria com base em ISI (2000); RAIS (1998).
A avaliação desses dados, entretanto, deve ser feita com muita cautela, já que as diversas
disciplinas científicas diferenciam-se em termos da propensão a publicar. Certamente os
pesquisadores de uma disciplina como a Física têm maior propensão a publicar, na medida
em que os resultados de suas pesquisas visam à publicação, ao passo que as pesquisas nas
O trabalho de identificação das áreas das revistas contou com a colaboração da bibliotecária do Cedeplar-UFMG, Maria Célia
49
Carvalho de Resende.
112 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Engenharias, por exemplo, podem resultar em produtos, processos, softwares e não
BDMG
40 anos
necessariamente em artigos. Essas diferenças entre as propensões a publicar podem explicar
por que uma grande área como Ciências Exatas e da Terra, que em Minas Gerais ocupa
apenas o terceiro lugar em relação ao número de pesquisadores (TAB. 6), é a que alcança
maior volume de publicações (TAB. 8).
A base de dados construída a partir das informações do ISI permite também calcular a
distribuição da produção científica (número de artigos indexados) por município ou
microrregião (TAB. 9), bem como por filiação instituição do autor. A microrregião de Belo
Horizonte responde por 57,68% dos artigos, percentual que supera sua participação no total
de pesquisadores do Estado.50 Por outro lado, 47,43% dos artigos tinham ao menos um autor
associado à UFMG, 18,61% à UFV, 5,02% à UFU e 4,59% à UFJF.51
Finalmente, os dados permitem calcular as especializações científicas de Minas Gerais
(TAB. 10 e TAB. 11).52 Em termos de grandes áreas, Minas possui especializações relevantes
em Ciências Agrárias (2,95) e em Ciências Biológicas (1,06).
TABELA 10
ARTIGOS INDEXADOS PELA WoS COM AUTORES LIGADOS A INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS SEGUNDO
GRANDES ÁREAS CNPq; E ÍNDICE DE ESPECIALIZAÇÃO DE MINAS GERAIS - 1999
ARTIGOS ÍNDICE DE
GRANDES ÁREAS CNPq Brasil MG ESPECIALIZAÇÃO
Ciências Agrárias 869 297 2,95
Ciências Biológicas 2206 272 1,06
Ciências da Saúde 1837 175 0,82
Ciências Exatas e da Terra 3566 265 0,64
Engenharias 769 76 0,85
Humanas 98 3 0,26
Sem classificação 328 34 0,89
Não tem 4
Total 9677 1122
FONTE: Elaboração própria com base em ISI (2000); Ulrich (2000), CNPq (2001).
Por outro lado, em termos de pequenas áreas, Minas Gerais apresenta especializações
em oito disciplinas: 53 Zootecnia, Probabilidade e Estatística, Agronomia, Engenharia de
Materiais e Metalúrgica, Nutrição, Farmacologia, Ciência e Tecnologia de Alimentos e Biologia
Geral (TAB. 11).
Um levantamento preliminar de artigos publicados entre 1973 e 1998 mostra que a participação de Belo Horizonte veio
50
declinando ao longo do período, passando, de 85,71% em 1973, para 70,39% em 1982, e chegando a 60,81% em 1998.
Esses percentuais podem totalizar mais que 100% em razão da existência de mais de um autor por artigo ou de autores com
51
mais de uma filiação institucional.
Essa especialização foi calculada com dados relativos a 1999, seguindo o raciocínio exposto na seção 5.1. Nesse caso, a
52
comparação leva em conta a produção estadual e nacional de artigos científicos por disciplinas ou áreas. O índice de
especialização é maior do que a unidade quando o Estado tem uma participação relativa na disciplina maior do que a
participação nacional.
Excluiu-se Fisioterapia e Terapia Ocupacional, em que Minas registrou o único artigo brasileiro indexado em 1999.
53
113
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
TABELA 11
BDMG
40 anos
ARTIGOS INDEXADOS PELA WoS COM AUTORES LIGADOS A INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS, SEGUNDO
PEQUENAS ÁREAS CNPq; E ÍNDICE DE ESPECIALIZAÇÃO DE MINAS GERAIS - 1999
ARTIGOS ÍNDICE DE
ÁREAS CNPq Brasil MG ESPECIALIZAÇÃO
Fisioterapia e Terapia Ocupacional 1 1 8,62
Zootecnia 380 202 4,58
Probabilidade e Estatística 25 6 2,07
Agronomia 424 88 1,79
Engenharia de Materiais e Metalúrgica 88 17 1,67
Nutrição 48 9 1,62
Farmacologia 239 30 1,08
Ciência e Tecnologia de Alimentos 32 4 1,08
Biologia Geral 1847 229 1,07
Ecologia 116 13 0,97
Engenharia Elétrica 60 6 0,86
Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca 21 2 0,82
Astronomia 160 15 0,81
Medicina 1774 165 0,80
Recursos Florestais e Engenharia Florestal 12 1 0,72
Química 995 81 0,70
Física 1893 134 0,61
Matemática 271 19 0,60
Geociências 180 10 0,48
Ciência da Computação 150 8 0,46
Bioquímica 2 - -
Engenharia Aeroespacial 15 - -
Engenharia Civil 14 - -
Engenharia de Transportes 3 - -
Fisiologia 2 - -
Oceanografia 2 - -
Saúde Coletiva 14 - -
Sem classificação 905 82 0,78
Não tem 4 - -
Total 9677 1122 1,00
FONTE: Elaboração própria com base em ISI (2000); ULRICH (2000), CNPq (2001).
É interessante notar que essas especializações científicas têm uma correspondência
importante, embora parcial, com as especializações econômicas e industriais do Estado (cf.
TAB. 5). Três observações podem ser feitas a propósito desse ponto. Em primeiro lugar, a
especialização na grande área de Ciências Agrárias acompanha o peso relativo do setor
agropecuário no Estado. O mesmo pode ser dito com relação à participação da produção
científica em disciplinas como Zootecnia, Agronomia, Ciência e Tecnologia de Alimentos
(TAB.10 e TAB. 11). Em segundo lugar, a especialização industrial do Estado em setores
relacionados à Siderurgia e Metalurgia tem correspondência com o peso relativo da disciplina
Engenharia de Materiais e Metalúrgica (TAB. 11). Finalmente, à pequena especialização (1,18)
em atividades ligadas à Saúde (de acordo com a classificação CNAE) corresponde uma produção
científica em disciplinas como Nutrição, Farmacologia e Biologia Geral (TAB. 11).54
Essas disciplinas também podem estar relacionadas, de modo mais indireto, ao setor agropecuário. Biologia Geral, por
54
exemplo, é uma disciplina necessária para competência em Agronomia, Zootecnia etc.
114 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
5.2.3. Produção tecnológica55
BDMG
40 anos
As estatísticas de patentes permitem visualizar um quadro das atividades tecnológicas de
empresas e indivíduos. Os dados sobre a participação de Minas nas atividades tecnológicas do
País (ver seção 3.4) serão aqui desagregados, detalhando-se a participação das firmas e municípios.
Entre 1988 e 1996, os residentes em Minas Gerais depositaram 4.250 patentes junto ao
INPI, das quais 2.988 foram depositadas por pessoas físicas.56 Das 1.262 patentes restantes,
registradas por 390 pessoas jurídicas residentes no Estado, foram excluídas aquelas de empresas
ou instituições que não foram identificadas na RAIS, restando 235 empresas titulares (60% do
total) com 1.010 patentes (80% do total). A identificação na RAIS dessas 235 empresas permitiu
a construção de um arquivo contendo informações sobre sua localização e a classificação das
suas atividades (classificação CNAE-IBGE).
A TAB. 12 lista as vinte maiores empresas patenteadoras em Minas Gerais.57
As vinte divisões da classificação CNAE que registraram o maior total de patentes
depositadas estão apresentadas na TAB. 13. As duas divisões líderes, metalurgia básica e
extração de minerais metálicos, relacionam-se com a rica dotação de recursos naturais do
Estado, respondem por 38,59% das patentes de pessoas jurídicas.58
A TAB. 14 reúne dados similares, porém em nível mais desagregado, apresentando as
vinte classes da classificação CNAE que mais patentes depositaram. Importa notar que as
quatro classes líderes também estão associadas à dotação de recursos naturais (produção de
laminados planos de aço, produção de laminados não-planos de aço, extração de minério
de ferro e metalurgia do alumínio e suas ligas).
Agrupando-se as patentes das empresas identificadas de acordo com classes tecnológicas
(OECD, 1996), fora, obtidos os dados apresentados na TAB. 15. Entre os segmentos da
indústria, predominam as patentes de empresas ligadas aos setores de baixa tecnologia (40,73%).
As empresas classificadas como de alta tecnologia responderam por apenas 6,18% das patentes
de pessoas jurídicas do Estado.
A TAB. 16 revela que, entre as empresas que patentearam no período, houve uma baixa
participação daquelas situadas em setores mais sofisticados: os fornecedores especializados
responderam por 5,31% do total e as firmas de setores baseados na ciência, por apenas 3,72%.
Essa seção baseia-se no estudo de Silva et al. (2000), que apresenta os dados com maior detalhe.
55
A participação de pessoas físicas no depósito de patentes em Minas Gerais (70,31%) é ligeiramente superior à média nacional
56
(67,32%).
A participação de empresas de capital estrangeiro nos dados da TAB. 12 permite introduzir a discussão sobre a globalização,
57
na medida em que as empresas transnacionais são um motor do crescimento da internacionalização da economia.
O ANEXO III apresenta um indicador, baseado em patentes, para avaliar a contribuição de multinacionais a atividades
tecnológicas nos países hospedeiros. Esse mesmo ANEXO também apresenta um conjunto de dados sobre importação de
tecnologias.
Tomando-se apenas as 279 patentes depositadas por empresas de Belo Horizonte, a relação das divisões líderes revela
58
diferenças importantes em relação à do Estado. Se a metalurgia básica (com 31,18% do total de patentes da cidade) também
se colocou em primeiro lugar, replicando na capital a especialização do Estado, as quatro posições seguintes foram ocupadas
por fabricação de equipamentos para usos médico-hospitalares (11,83%), confecção de artigos para vestuário (6,09%),
fabricação de máquinas e equipamentos (4,30%), comércio varejista (4,30%) e captação, purificação e distribuição de
água (3,94%).
115
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
TABELA 12
BDMG
40 anos
AS VINTE MAIORES EMPRESAS PATENTEADORAS POR ESTRUTURA DO CAPITAL E TIPO DE PATENTE
MINAS GERAIS, 1988-1996
PATENTES 2
CAPITAL1
TITULAR DI MI MU PI Total (%)
Usinas Siderúrgicas de M. Gerais S/A - Usiminas FOP 0 0 11 117 128 10,14
Companhia Vale do Rio Doce STA 0 0 33 59 92 7,29
Alcoa Alumínio S/A FOR 0 48 11 17 76 6,02
Mendes Júnior Siderurgia S/A DOM 0 0 9 66 75 5,94
Aço Minas Gerais S/A - Açominas FOP 0 0 18 26 44 3,49
Fiat Automóveis S/A FOR 10 16 3 4 33 2,61
Odous Industrial e Comercial Ltda. DOM 0 10 18 0 28 2,22
Cia. Aços Especiais Itabira - ACESITA FOP 0 0 11 12 23 1,82
Mueller Flex Ind. e Com. de Plásticos e Metais DOM 0 6 12 1 19 1,51
Hammer Indústria de Autopeças Ltda. DOM 0 7 5 4 16 1,27
Vibração Pronta Entrega de Roupas Ltda. DOM 0 14 0 0 14 1,11
Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira DOM 0 0 5 8 13 1,03
Itatiaia Móveis S/A DOM 2 9 2 0 13 1,03
Tacom Ltda. DOM 0 0 7 5 12 0,95
Cia. de Saneamento de Minas Gerais - Copasa STA 1 0 4 6 11 0,87
Protec Eletromecânica Ltda. DOM 0 0 2 6 8 0,63
Telecomunicações de Minas Gerais S/A - Telemig STA 0 4 2 2 8 0,63
Decoralita Indústria e Comércio Ltda. DOM 0 4 1 2 7 0,55
Enduro Indústria e Comércio Ltda. DOM 1 0 0 6 7 0,55
Fanape - Fábrica Nacional de Perfumes Ltda. DOM 0 7 0 0 7 0,55
Nansen S/A Instrumentos de Precisão DOM 0 1 1 5 7 0,55
Ritz do Brasil S.A. DOM 0 0 4 3 7 0,55
Siderúrgica Mendes Júnior S.A DOM 0 0 3 4 7 0,55
Subtotal - 14 125 162 353 655 51,90
Total do Estado - 28 250 397 587 1262 100,0
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do INPI e RAIS
Notas: 1. DOM - Empresa de capital majoritário nacional;
FOP - Empresa com participação minoritária de capital estrangeiro;
FOR - Empresa com participação majoritária de capital estrangeiro;
STA - Empresa estatal.
2. DI - Patentes de desenho industrial;
MI - Patentes de modelo industrial;
MU - Patentes de modelo de utilidade;
PI - Patentes de invenção.
116 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
TABELA 13
BDMG
40 anos
VINTE DIVISÕES CNAE COM MAIOR NÚMERO DE PEDIDOS DE PATENTES POR TIPO
MINAS GERAIS, 1988-1996
PATENTES 1
DIVISÃO CNAE DI MI MU PI Total (%)
Metalurgia Básico 1 49 71 260 381 30,19
Extração de Minerais Metálicos 0 0 33 73 106 8,40
Fabric. e Montagem de Veículos Automotores, Reboques e... 11 23 12 14 60 4,75
Fabric. de Equip. de Instrumentação para Usos Médico-Hospitalares 0 12 24 8 44 3,49
Fabricação de Artigos de Borracha e Plástico 0 11 22 5 38 3,01
Fabricação de Máquinas e Equipamentos 1 3 10 22 36 2,85
Fabricação de Produtos Químicos 0 8 8 18 34 2,69
Fabric. de Produtos de Metal - Exclusive Máquinas e Equipamentos 1 13 14 4 32 2,54
Fabricação de Móveis e Indústrias Diversas 3 15 7 1 26 2,06
Outras Atividades Empresariais 2 1 14 9 26 2,06
Comércio Varejista, exceto Comércio de Veículos Automotores... 2 2 11 8 23 1,82
Fabricação de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos 0 2 16 5 23 1,82
Confecção de Artigos do Vestuário e Acessórios 3 18 1 22 1,74
Fabricação de Produtos de Minerais Não-Metálicos 0 5 4 10 19 1,51
Construção 0 0 9 7 16 1,27
Preparação de Couros e Fabricação de Artefatos de Couro... 1 6 2 6 15 1,19
Fabricação de Produtos Alimentares e Bebidas 0 5 3 4 12 0,95
Captação, Purificação e Distribuição de Água 1 0 4 6 11 0,87
Comércio por Atacado e Intermed. do Comércio, exceto de Veículos... 0 2 5 4 11 0,87
Agricultura, Pecuária e Serviços relacionados com essas atividades 1 4 1 3 9 0,71
Subtotal 27 179 270 468 944 74,80
Total dos pedidos identificados 27 190 298 495 1010 80,03
Total de Minas Gerais 28 250 397 587 1262 100,0
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do INPI e RAIS
Notas: 1. DI - Patentes de desenho industrial;
MI - Patentes de modelo industrial;
MU - Patentes de modelo de utilidade;
PI - Patentes de invenção.
117
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
TABELA 14
BDMG
40 anos
VINTE CLASSES CNAE COM MAIOR NÚMERO DE PATENTES POR TIPO, CLASSE TECNOLÓGICA
E ORIENTAÇÃO - MINAS GERAIS, 1988-1996
TECNOLÓG.1
PATENTES 3
ORIENT. 2
CLASSE
DI MI MU PI Total (%)
CLASSE CNAE
Produção de laminados planos de aço 3 4 0 0 22 129 151 11,97
Produção de laminados não-planos de aço 3 4 0 0 30 97 127 10,06
Extração de minério de ferro 3 1 0 0 33 68 101 8,00
Metalurgia do alumínio e suas ligas 3 4 0 48 11 19 78 6,18
Fabric. de automóveis, camionetas e utilitários 2 4 0 16 3 4 23 1,82
Fabric. de aparelhos e instrumentos p/ usos médico-hospit. 1 5 0 11 21 32 2,54
Fabricação de artefatos diversos de plástico 2 4 0 6 21 4 31 2,46
Confecção de outras peças do vestuário 3 2 3 17 0 1 21 1,66
Fabric. de peças e acessórios de metal para veículos... 2 4 1 7 7 5 20 1,58
Fabric. de móveis com predominância de metal 3 1 3 11 2 0 16 1,27
Fabric. de outros aparelhos ou equip. elétricos 1 3 0 1 10 5 16 1,27
Outras ativ. de serviços prestados princip. às empresas... NI NI 0 1 10 5 16 1,27
Fabric. de outras máquinas e equip. de uso especifico 2 3 0 0 3 12 15 1,19
Fabricação de outros produtos elaborados de metal 3 2 1 11 2 14 1,11
Prod. de ferro, aço e ferro-ligas em formas primárias e... 3 4 0 0 5 8 13 1,03
Captação, tratamento e distribuição de água 0 0 1 4 6 11 0,87
Fabric. de aparelhos e instrum. de medida, teste e controle 1 5 0 1 2 7 10 0,79
Fabric. de estruturas metálicas para edifícios, pontes, torres 3 2 0 0 7 3 10 0,79
Fabric. de outros produtos de minerais não-metálicos 3 1 0 4 1 3 8 0,63
Telecomunicações NI NI 0 4 2 2 8 0,63
Total - - 9 138 196 378 721 57,13
Total do Estado - - 28 250 397 587 1262 100
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do INPI e RAIS
Notas: 1. Foram consideradas as seguintes Classes Tecnológicas:
1 - Alta tecnologia;
2 - Média tecnologia;
3 - Baixa tecnologia;
NI - Não industrial.
2. Foram consideradas as seguintes Orientações:
1 - Intensiva em recursos;
2 - Intensiva em trabalho;
3 - Fornecedor especializado;
4 - Intensiva em escala;
5 - Baseada na ciência;
NI - Não industrial.
3. DI - Patentes de desenho industrial;
MI - Patentes de modelo industrial;
UM - Patentes de modelo de utilidade;
PI - Patentes de invenção
118 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
TABELA 15
BDMG
40 anos
PEDIDOS DE PATENTES POR CLASSE TECNOLÓGICA - MINAS GERAIS, 1988-1996
PATENTES 1
CLASSE TECNOLÓGICA DI MI MU PI Total (%)
Alta Tecnologia 16 45 17 78 6,18
Média Tecnologia 12 48 52 62 174 13,79
Baixa Tecnologia 9 112 104 289 514 40,73
Não Industrial 4 9 81 114 208 16,48
Não Identificado 2 5 16 13 36 2,85
Subtotal 27 190 298 495 1010 80,03
Total do Estado 28 250 397 587 1262 100,0
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do INPI, OECD e RAIS.
Notas: 1. DI - Patentes de desenho industrial;
MI - Patentes de modelo industrial;
MU - Patentes de modelo de utilidade;
PI - Patentes de invenção.
TABELA 16
PEDIDOS DE PATENTES POR ORIENTAÇÃO - MINAS GERAIS, 1988-1996
PATENTES 1
ORIENTAÇÃO DI MI MU PI Total (%)
Intensiva em Recursos 3 25 15 15 58 4,60
Intensiva em Trabalho 5 38 16 11 70 5,55
Fornecedor Especializado 1 7 30 29 67 5,31
Intensiva em Escala 12 94 115 303 524 41,52
Baseada na Ciência 0 12 25 10 47 3,72
Não Industrial 4 9 81 114 208 16,48
Não Identificado 2 5 16 13 36 2,85
Subtotal 27 190 298 495 1010 80,03
Total do Estado 28 250 397 587 1262 100,0
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do INPI, OECD e RAIS.
Notas: 1. DI - Patentes de desenho industrial;
MI - Patentes de modelo industrial;
MU - Patentes de modelo de utilidade;
PI - Patentes de invenção.
Quanto à distribuição espacial da produção tecnológica, as empresas responsáveis
pelas 1.010 patentes pesquisadas, encontravam-se instaladas em 63 diferentes Municípios.
Destes, havia 22 cujas empresas depositaram ao menos quatro patentes durante o período
analisado e que responderam por quase 75% do total de patentes de pessoas jurídicas no
Estado (TAB. 17). Belo Horizonte liderou esse conjunto, com 22,11%, seguida por Ipatinga,
Contagem, Santa Luzia, Poços de Caldas e Betim, todos eles com mais de 50 patentes.
Ainda quanto ao registro de patentes, um levantamento junto ao USPTO revelou que,
entre 1981 e 2000, foram registradas 37 patentes cujo primeiro inventor residia no Estado,
das quais 57% eram patentes de indivíduos. A maior parte destas concentrava-se em Belo
Horizonte (56,76%), e o restante referia-se a residentes em Ipatinga (8,11%) e em outros nove
municípios.
119
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
TABELA 17
BDMG
40 anos
NÚMERO DE PATENTES POR MUNICÍPIO, TIPO E NÚMERO DE EMPRESAS - MINAS GERAIS, 1988-1996
PATENTES 1
MUNICÍPIO DI MI MU PI Total (%) Titulares
Belo Horizonte 8 50 98 123 279 22,11 90
Ipatinga 0 0 12 118 130 10,30 2
Contagem 1 30 41 41 113 8,95 25
Santa Luzia 0 0 36 62 98 7,77 5
Poços de Caldas 0 53 12 24 89 7,05 5
Betim 11 16 13 10 50 3,96 8
Ouro Branco 0 0 18 26 44 3,49 1
Timóteo 0 0 11 12 23 1,82 1
Uberlândia 2 9 4 3 18 1,43 10
João Monlevade 0 0 5 8 13 1,03 1
Ubá 2 9 2 0 13 1,03 1
Lagoa Santa 0 8 1 1 10 0,79 4
Juiz de Fora 0 1 7 1 9 0,71 7
Mariana 0 0 0 8 8 0,63 2
Nova Serrana 1 0 0 6 7 0,55 1
Cataguases 0 0 1 5 6 0,48 4
Montes Claros 0 0 2 4 6 0,48 1
Itabirito 0 2 0 3 5 0,40 1
Lambari 0 0 1 4 5 0,40 2
Ribeirão das Neves 0 1 3 0 4 0,32 4
Sabará 0 0 2 2 4 0,32 2
Uberaba 1 1 1 1 4 0,32 3
Subtotal 26 180 270 462 938 74,33 180
Total do Estado 28 250 397 587 1262 100,0 390
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do INPI e RAIS.
Notas: 1. DI - Patentes de desenho industrial;
MI - Patentes de modelo industrial;
MU - Patentes de modelo de utilidade;
PI - Patentes de invenção.
Por outro lado, é importante notar que as estatísticas de patentes apresentam limitações
(ver o ANEXO I). Uma debilidade deste indicador, por exemplo, é a incapacidade de captar
as atividades de produção de tecnologia no setor de software. Tendo em mente que os dados da
RAIS revelaram uma significativa especialização de Belo Horizonte nas atividades desse
segmento (ver seção 5.1.3), sugere-se a necessidade de uma avaliação mais aprofundada desse
setor.
Outra limitação das estatísticas de patentes, neste momento, é a identificação precisa
dos desenvolvimentos no setor de biotecnologia. Recentemente, a UFMG registrou uma
importante patente junto ao USPTO relacionada à produção de interferon, proteína
constitutiva de medicamento que combate a hepatite do tipo C (Veja, 13/12/2000, p. 153).
120 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Sabe-se, também, que a Biobrás estava trabalhando no desenvolvimento de uma vacina contra
BDMG
40 anos
a leishmaniose (Gazeta Mercantil, 7/11/2000, p. A-8). Além disso, segundo levantamento
apresentado pela (Gazeta Mercantil 7/11/2000, p. A-8, A-9), 58 empresas de biotecnologia do
pólo de Belo Horizonte tinham uma previsão de faturamento de R$ 416 milhões em 2000.
Este pólo tem sido objeto de estudos (LEMOS, 1999) e seu sucesso certamente está associado
à capacidade científica estabelecida na UFMG. Com efeito, Fajnzylber (2002) registra que um
terço das 15 empresas investigadas em sua pesquisa declararam que a proximidade com a
Universidade é o fator locacional mais importante. 59
Finalmente, em termos da articulação entre as especializações industriais e tecnológicas
do Estado, os dados apresentados permitem detectar uma razoável coerência entre essas
especializações, na medida em que a liderança das divisões CNAE de metalurgia básica e
extração de minerais metálicos na produção tecnológica (patentes) corresponde à
especialização econômica de Minas Gerais nas indústrias extrativas e nos setores relacionados
à siderurgia e metalurgia (TAB. 5).
5.2.4. Um quadro geral das regiões do Estado
É intuitivo supor que as regiões que concentram a maior parte dos pesquisadores do Estado
também deterão as primeiras colocações em termos de produção científica e tecnológica. Também
é intuitivo supor uma correlação maior entre a produção de artigos e a presença de instituições de
pesquisa (embora haja artigos cujos autores são pesquisadores ligados a empresas) e entre a produção
de patentes e a existência de firmas de maior porte.
Para visualizar a existência dessas relações, os dados sobre presença de pesquisadores e
a produção científica e tecnológica em cada microrregião do Estado foram reunidos na TAB,
18, que também apresenta o número de estabelecimentos com mais de 500 empregados e de
unidades com 100 a 500 empregados, apurados com base na RAIS. Para contribuir com a
análise, foram calculadas as correlações entre alguns desses conjuntos de dados. Os coeficientes
de correlação mais altos foram os encontrados entre pesquisadores e artigos científicos
(0,9731), e entre estabelecimentos com mais de 500 empregados e patentes (0,9498).60
A análise inicial desses dados sugere ao menos três linhas de reflexão. Em primeiro
lugar, identifica-se uma significativa concentração dos recursos científico-tecnológicos na região
de Belo Horizonte, podendo-se afirmar que as disparidades encontradas no nível nacional
repetem-se na escala estadual. É importante ressaltar que a participação da região de Belo
Horizonte em termos de artigos científicos e de patentes (58,19% e 56,59%, respectivamente)
superou sua participação relativa no total de pesquisadores e de firmas com mais de 100
empregados do Estado (42,16% e 35,03%, respectivamente).
A força das áreas científicas relacionadas à biotecnologia (ciências biológicas e agrárias) em Minas Gerais é atestada
59
pelas estatísticas de produção científica apresentadas anteriormente (ver subseção 5.2.2), bem como pela significativa
presença de instituições ligadas a essa área ao longo da trajetória histórica do sistema de ciência e tecnologia do Estado
(ver seções 4.2 e 4.5).
Foram apurados, ainda, os seguintes coeficientes de correlação: para estabelecimentos com 100 a 500 empregados e
60
patentes (0,9342); para artigos e patentes (0,8939); e para pesquisadores e patentes (0,8240).
121
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Por outro lado, existem regiões que apresentaram uma parcela expressiva do total de
BDMG
40 anos
pesquisadores e de artigos científicos publicados, mas que não encontrava correspondência
na produção tecnológica. Essa situação se apresenta em dois tipos distintos de regiões.
O primeiro pode ser exemplificado pela microrregião de Viçosa, que não contava com a presença
de estabelecimentos de grande porte (apenas um com mais de 100 empregados), e que reunia
17,85% dos pesquisadores do Estado, 18,81% dos artigos, e apenas 0,10% das patentes. A
microrregião de Lavras seria um caso similar. Por outro lado, um segundo padrão pode ser
exemplificado pela microrregião de Itajubá, que possuía quatro firmas com mais de 500 empregados
(representando 3,84% das firmas desse porte no Estado), mas também possui uma participação
em termos de patentes inferior aos recursos científico-tecnológicos (2,99% dos pesquisadores;
1,54% dos artigos e 0,29% das patentes).
Finalmente, há regiões que detinham uma participação em termos de patentes sem
correspondente na sua participação em termos de pesquisadores e artigos. Ipatinga, sobretudo
em razão da presença da Usiminas, enquadra-se nesse caso (nenhum pesquisador; 0,09% dos
artigos; 15,46% das patentes; 4,81% das firmas com mais de 500 empregados). Esse mesmo
padrão também pode ser encontrado nas microrregiões de Itabira e Ubá, por exemplo, que
estão entre as cidades sem infra-estrutura científica, mas, que registraram patentes e abrigavam
firmas com mais de 500 empregados.61
5.2.5. Um diagnóstico: articulação e descompasso no sistema de
inovação de Minas Gerais
Um diagnóstico preliminar da situação do sistema de inovação em Minas Gerais deve
partir de sua posição relativa no cenário nacional. Em 1999, o Estado produziu 63,62 artigos
por milhão de habitantes e registrou 0,05 patentes no USPTO por milhão de habitantes
(TAB. 4). Esses números mostram que, em termos quantitativos, os indicadores mineiros são
limitados, mesmo tomando-se por referência dados brasileiros. Nesse caso, o contraste com São
Paulo é revelador (129,37 artigos por milhão de habitantes e 1,45 patentes por milhão de
habitantes).
A avaliação qualitativa contribui, ao menos em parte, para a explicação desse resultado
limitado em termos quantitativos. Três conclusões importantes podem ser preliminarmente
aventadas.
Em primeiro lugar, em relação aos setores econômicos e especializações científico-
tecnológicas do Estado, a análise empreendida nesta seção indicou uma coerência entre a
estrutura industrial e econômica, a infra-estrutura científica e a produção tecnológica:
do ponto de vista da estrutura econômica, identificou-se uma especialização geral
nas indústrias extrativas e no setor agropecuário e, desagregando-se a indústria de
transformação, encontrou-se uma especialização no setor metalúrgico-siderúrgico;
quanto à estrutura científica, observou-se uma especialização nas grandes áreas de
Ciências Agrárias e Ciências Biológicas e nas disciplinas de Zootecnia, Agronomia e
Engenharia de Materiais e Metalúrgica, entre outras;
finalmente, do ponto de vista da produção de tecnologia, destacou-se o peso de setores
relacionados às indústrias extrativas e metalúrgicas.
Uma linha de investigação que poderia aprofundar a análise desenvolvida nesta seção buscaria relacionar as áreas dos
61
pesquisadores e as disciplinas dos artigos científicos com a classe das patentes (de acordo com a classificação da OMPI).
123
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Em segundo lugar, no que diz respeito à distribuição espacial das atividades industriais
BDMG
40 anos
e científico-tecnológicas, as informações sintetizadas na subseção 5.2.4 fornecem pistas com
relação a (pelo menos) três elementos que devem ser levados em conta na elaboração de
políticas para o Estado:
a necessidade de estimular a desconcentração das atividades científico-tecnológicas:
por um lado, ajustando a produção científica à presença de recursos de pesquisa,
por outro, ajustando a produção tecnológica para regiões com presença de firmas;
a possibilidade de promover em algumas regiões um desenvolvimento de cima para
baixo, estimulando-se a presença de firmas em áreas onde o peso da infra-estrutura
científica é elevado (Viçosa e Lavras, por exemplo), de forma a viabilizar o surgimento
de firmas mais sofisticadas tecnologicamente;
a possibilidade de promover um desenvolvimento de baixo para cima em outras
regiões, estimulando-se o desenvolvimento da infra-estrutura científica e educacional
em áreas que apresentam atividade tecnológica importante (Ipatinga e Ubá, por
exemplo), de modo a viabilizar a interação das empresas ali localizadas com instituições
capazes de alimentar o processo de atualização tecnológica das firmas já ativas.62
Em terceiro lugar, é possível identificar um descompasso entre o crescimento da
produção científica e a estagnação da produção tecnológica, evidenciando a presença de
potenciais inexplorados. A existência de oportunidades desperdiçadas pelo setor produtivo,
característica aparentemente geral dos sistemas de inovação imaturos (ALBUQUERQUE, 1997),
repete-se em escala regional em Minas Gerais. Certamente, uma decorrência desse descompasso
é o diagnóstico realizado por Silva et al (2000) sobre a situação tecnológica do Estado: a
concentração em atividades inovativas de conteúdo tecnológico mais baixo (setores de baixa
tecnologia e intensivos em escala).
Somando-se essas três observações ao resultado da análise quantitativa, é possível
apresentar um diagnóstico geral do estágio de construção do sistema de inovação de Minas
Gerais, destacando-se a presença simultânea de elementos de articulação e de descompasso.
No que diz respeito à articulação entre a infra-estrutura científico-tecnológica e as
especializações econômicas e industriais do Estado, pode-se dizer que é, por um lado, positiva,
na medida em que a infra-estrutura existente é capaz de responder a demandas apresentadas
pelo setor econômico e industrial. Mas, por outro lado, é problemática, pois, em primeiro
lugar, determina que a infra-estrutura científico-tecnológica concentre-se em áreas de mais
Essas políticas podem estar articuladas a propostas para a construção de clusters a partir dos recursos existentes. Com base
62
no que foi dito anteriormente (ver a subseção 5.1.3), quatro linhas de desenvolvimento podem ser exploradas.
Em primeiro lugar, é possível identificar inúmeras aglomerações especializadas onde o município concentra uma
determinada atividade (móveis em Ubá, metalurgia em Ipatinga). Nesses locais, políticas para o desenvolvimento do setor
fornecedor (máquinas para a produção dos bens finais) poderiam ser recomendadas. Para essa linha, um levantamento
geral de todos os municípios com QLs altos nos bens finais e com algum nível de atividade no setor fornecedor poderia ser
realizado. Em segundo lugar, existem áreas onde, embora exista certa especialização, a participação em termos de emprego
é baixa. Ampliar o peso dessas atividades na cidade no setor identificado pode ser uma medida interessante. Em terceiro
lugar, essas mesmas aglomerações especializadas poderiam ser investigadas para o fortalecimento de atividades relacionadas
com o conjunto da cadeia produtiva. Por exemplo, em locais com uma especialização identificada, políticas de formação
profissional e de ensino superior adequadas ao desenvolvimento do setor deveriam ser implementadas. Tomando-se o
exemplo de Ubá, o estabelecimento de escolas técnicas e de cursos superiores de design, como os que existem na região de
Bento Gonçalves (VARGAS et al, 2000) certamente contribuiriam para a transformação de uma aglomeração especializada em
um cluster. Em quarto lugar, áreas especializadas em certos produtos agrícolas podem ser estimuladas a implementar atividades
produtivas para cima na cadeia produtiva, por meio da introdução de unidades de processamento industrial de produtos
primários, iniciando movimentos na escada tecnológica que o processo de construção de um cluster deve necessariamente
representar. Ver Britto e Albuquerque (2002) para maiores detalhes.
124 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
baixa sofisticação tecnológica e, em segundo lugar, ressalta o caráter passivo da construção
BDMG
40 anos
das especializações científicas mineiras. Em tempos de crescente peso do componente
científico no desenvolvimento tecnológico (ver as seções 2 e 3 deste capítulo), trata-se de
um diagnóstico preocupante.
O descompasso entre o crescimento da produção científica e a estagnação da produção
tecnológica não deve ser tomado como um sinal de que a infra-estrutura científica tenha
alcançado uma posição razoável. Tanto o Brasil precisa ampliar seus investimentos na infra-
estrutura científica quanto Minas Gerais deve melhorar sua dotação e seu desempenho.
Retomando-se a discussão realizada na seção 3.3, certamente Minas (e o Brasil) ainda não
alcançou o limiar de produção científica, que é a condição necessária para detonar o processo
de retro-alimentação positiva entre ciência e tecnologia. O Estado encontra-se em um estágio
intermediário, em que a produção científica é capaz de gerar alguma produção tecnológica,
mas não é suficiente para apoiá-la em um nível tal que ela passe a estabelecer um feedback
positivo com a produção científica.
Este diagnóstico pode ser lido como uma introdução à discussão sobre a necessidade de
políticas públicas tanto para explorar potencialidades do sistema existente, como para superar
as debilidades identificadas.
125
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
BDMG
40 anos
6. Políticas para o desenvolvimento científico
e tecnológico em Minas Gerais
Essa discussão deve começar por apontar que um dos limites mais expressivos nesse
campo, no Brasil, decorre da própria escala a partir da qual a questão está apresentada. É que
no âmbito dos estados federados há constrangimentos no encaminhamento de certas políticas
que decorrem da ampla centralidade das competências legais, e mesmo da capacidade financeira
e institucional do Governo Federal. Desse modo, se há lugar para a existência de um sistema
estadual de inovação e mesmo para um sistema local, não se superestimem essas possibilidades.
No caso específico de Minas Gerais, conspira a favor do êxito de tais propostas a
existência de uma certa competência, razoavelmente bem sucedida em alguns campos, no
desenvolvimento científico e tecnológico. De qualquer modo, assume-se aqui que muito há
que ser feito e muito positivos poderão ser os resultados se houver esforços consistentes e
continuados no sentido de constituição de um sistema estadual de inovação. No centro
desses esforços deve estar a perspectiva de que um tal processo implica na convergência de
instituições públicas e privadas em torno de um projeto que seja o resultado tanto de amplo
consenso quanto do reconhecimento das limitações e potencialidades da realidade sobre a
qual se quer atuar.
No âmbito das limitações, é possível identificar-se quatro grandes aspectos em que elas
se manifestam. Um primeiro aspecto é o que decorre das implicações da atual dominação
capitalista internacional. Nesse plano, o que é decisivo é a virtual formação de concentração
oligopólica internacional que significa o bloqueio da autonomia nacional do desenvolvimento
tecnológico. Tem prevalecido, com força crescente, a tese de que não há sentido no
desenvolvimento tecnológico de países periféricos porque isso seria estratégia anti-econômica
vis-à-vis a possibilidade da importação de pacotes-produtos disponíveis no mercado externo.
A contraposição a essa tese não corresponde a uma perspectiva triunfalista, ou ingênua,
ou definitivamente avessa à racionalidade econômica. No centro dessa recusa estão três
questões básicas: a) a convicção de que o mercado não foi, em qualquer caso histórico, o
instrumento determinante da constituição de sistemas de inovação e que todo sistema relevante
implicou, em larga medida, na intervenção deliberada do poder público, em incentivos e
proteção; b) o segundo aspecto a destacar é o referente à necessidade de que um projeto de
sistema de inovação, para fazer sentido e ser conseqüente, tem que ser parte de um projeto
maior de desenvolvimento nacional em que é decisiva a efetiva distribuição da renda, da riqueza,
do poder e da informação; c) finalmente, no mais imediato da questão, registre-se que, mesmo
para se comprar tecnologia, é preciso desenvolver uma estrutura de ciência e tecnologia, sob
pena de se comprar aquilo de que não se precisa, a preços e condições lesivas aos interesses
nacionais vide o caso conspícuo do programa nuclear brasileiro nos anos 1970.
Assim, reconheça-se como um limite da constituição do sistema de inovação no âmbito
nacional e regional a prevalência da dominação neoliberal e o quanto ela tem influenciado
tanto o mundo empresarial no Brasil, hoje, em grande medida internacionalizado, quanto
importantes autoridades econômicas brasileiras e suas políticas, que têm se rendido às
imposições externas. Trata-se, essencialmente, de reconhecer que o processo de
desnacionalização do setor produtivo no Brasil significa cancelar esforços no sentido do
desenvolvimento nacional de tecnologia.
126 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Um segundo aspecto das limitações de um processo regional de inovação hoje diz
BDMG
40 anos
respeito aos constrangimentos decorrentes das políticas macroeconômicas que, empenhadas
em combater a inflação mediante a atração de capitais externos e o arrocho fiscal, têm
produzido resultados com algo de esquizofrenia: de um lado, os juros altos atraem capitais
e seguram os remanescentes; de outro lado, esses mesmos juros altos impedem
investimentos, impedem efetivo crescimento sustentado, o que significa, do ponto de vista
social, a reiteração de desemprego e miséria e, do ponto de visto econômico, virtual estagnação.
No que diz respeito às políticas de desenvolvimento científico e tecnológico, isso tem
significado restrições orçamentárias para as agências federais e estaduais.
Registre-se, nesse campo, o relativo aos efeitos do processo de privatização sobre
empresas que tinham tradição em investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Sabe-se
que em todas elas houve redução dos gastos em P&D depois das privatizações.
Outro plano em que se dão as limitações da constituição de sistema de inovação é
o referente à ausência hoje, no Brasil, de um projeto nacional includente e democrático,
que tanto signifique atendimento a direitos sociais básicos saúde, educação, saneamento,
habitação etc. quanto democratização do Estado e ampliação da participação popular
na definição de decisões políticas. Insista-se num ponto importante: a democratização
pretendida, se significa ampliação da participação popular na produção de decisões,
também significa democratização na produção e circulação de informações, o que coloca
em pauta a necessidade de democratização dos meios de comunicação e de informação.63
Por fim, fale-se das limitações imediatas do sistema estadual de inovação e que desdobrou-
se em dois blocos de questões:
1) na necessidade de se definir um plano estratégico de inovação com base nas
potencialidades regionais já evidenciadas e nas demandas por ciência e tecnologia
em Minas Gerais;
2) na necessidade de se montar um arranjo institucional que consiga articular e fazer
convergir tanto produtores quanto gestores, quanto divulgadores, quanto
financiadores, quanto demandantes de ciência e tecnologia.
Esse último é, sob vários aspectos, um dos elementos decisivos para explicar a reiterada
ausência de sinergias e de efeitos virtuosos e multiplicadores, que as políticas e ações em
desenvolvimento científico e tecnológico que existem não conseguem implementar. As seções
seguintes procuram avançar algumas proposições para o enfrentamento desses dois blocos
de questões.
127
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
7. Um sistema estadual de inovação em Minas
BDMG
40 anos
Gerais: três metas articuladas para sua
construção
Uma análise da realidade mineira no referente à ciência e tecnologia deve começar por
reconhecer três pontos importantes: 1) que Minas Gerais tem tradição, capacidade instalada e
recursos humanos significativos em ciência e tecnologia; 2) que o Estado tem potencialidades
científicas e tecnológicas consideráveis em campos com capacidade de alavancagem; 3) que,
no entanto, tudo isso não resultou, até aqui, na montagem de um sistema estadual de inovação.
Vários fatores devem ser considerados para explicar essa limitação que, no essencial, se
expressa como desarticulação entre as instituições demandantes e ofertantes de ciência e tecnologia, sem
desconsiderar os outros aspectos intervenientes e importantes e que decorrem dos ambientes
macroeconômicos, do arcabouço jurídico, de recursos financeiros etc.
Também consensual parece ser a constatação de que isso pode ser superado pela ação
deliberada dos sujeitos envolvidos, que são tanto instituições públicas quanto privadas, mas
que têm no poder público estadual a sua centralidade.
É central a tarefa de elaboração de um Plano estratégico de inovação que reflita as
potencialidades e especificidades setoriais e regionais e seja capaz de mobilizar energias,
inteligências e recursos financeiros em atividades científicas e tecnológicas consistentes com o
desenvolvimento regional sustentável e democrático em seus efeitos distributivos.
Não há quem, nos dias de hoje, negue a forte correlação entre ciência, tecnologia e
desenvolvimento econômico e social. O prestígio acadêmico-científico das correntes teóricas
que priorizam a inovação como motor expansivo, o sucesso de experiências bem-sucedidas
de crescimento rápido, por meio de consistentes políticas de desenvolvimento científico e
tecnológico, como a do Japão, são sinais de um consenso.
Por outro lado, há também um outro e decisivo consenso: trata-se daquele que atribui
papel central neste processo ao Estado. Fora algumas vozes delirantemente liberais, ninguém
contesta a centralidade do Estado no desenvolvimento da ciência e tecnologia. Em artigo
recente, Alfredo Bosi demonstra a absoluta contundência desse fato mediante comparações
internacionais, em que se destaca o papel da universidade pública no desenvolvimento científico
e tecnológico no mundo inteiro. (BOSI, 2000).
Outro consenso, que também se impõe aqui, é relativo ao reconhecimento de um
conjunto de pressupostos para o desenvolvimento científico e tecnológico. Esses pressupostos
podem ser sintetizados pela presença de dois sistemas: a) pela existência de um sistema cultural
isto é, um sistema de produtores, veículos e consumidores de valores simbólicos arte,
ciência, filosofia, informação; b) pela existência de um sistema de distribuição primária da
Um exemplo conspícuo da importância da democratização das informações e ampliação das interações interinstitucionais é
63
o caso da ex-União Soviética. Durante considerável período, a URSS liderou a lista dos países com maior proporção de gastos
em ciência e tecnologia sobre o PIB (ver os dados em Silva, 1985, p. 58). Contudo isso não significou reverter o quadro de
perda de hegemonia em áreas estratégicas no campo da ciência e tecnologia, como as referentes à indústria aero-espacial e suas
associadas, que a URSS liderou entre 1956 e 1963. Entre outros fatores estruturais, deve ser invocado aqui, como elemento
explicativo para a crise do sistema de inovação da URSS, a presença de uma virtual rede de bloqueios às interações entre
institutos de pesquisa, universidades e empresas, resultante do primado da tecnologia como segredo de Estado e objeto da
geopolítica estratégica implantado pela guerra fria e suas conseqüências naquele país. Dotada de ampla e complexa rede de
pesquisadores e instituições de ciência e tecnologia, a URSS estiolou esses recursos na medida em que não permitiu a sua
efetiva circulação e a fecundação do conjunto da estrutura produtiva.
128 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
renda isto é, pela distribuição da renda, riqueza e habilitações necessárias dado o nível de
BDMG
40 anos
desenvolvimento tecnológico contemporâneo. Ou seja, o desenvolvimento científico e
tecnológico pressupõe um processo de distribuição da renda, da riqueza e da informação.
Foi assim nos Estados Unidos, na França, no Japão, na Alemanha. O que resulta em
afirmar que não há como conseguir efetivo desenvolvimento econômico e social, produto
da aplicação da ciência e da tecnologia, sem reformas democrático-populares, isto é, sem
reformas que garantam o acesso à terra, à educação, à saúde etc.
Também decisivo nesse passo é insistir que esse processo tem no Estado seu principal
instrumento e que o sucesso dessa intervenção será tanto maior quanto mais democrático for
o Estado, quanto mais capaz ele for de responder às demandas populares.
Experiências internacionais, como a que se desenvolve na Emília-Romagna italiana,
polarizada pela cidade de Bolonha, mostram que uma região bem aparelhada em equipamentos
científico-culturais museus, bibliotecas, universidades, centros de pesquisa etc. é capaz de
considerável poder de atração de empreendimentos que demandam mão-de-obra qualificada,
equipamentos culturais, capacidade instalada em ciência e tecnologia. Desse modo, a proposta
que se vai fazer aqui não é puro voluntarismo, mas tem apoio em experiências internacionais
bem-sucedidas.
Trata-se, no essencial, de afirmar que uma rede de equipamentos culturais museus,
arquivos, bibliotecas, salas de espetáculos, orquestras etc. de boa qualidade; que uma rede
de instituições de ensino, pesquisa, desenvolvimento tecnológico, assessoramento jurídico e
gerencial são, em si mesmos, produtos que atraem riquezas de outros locais, além de serem
insumos para o desenvolvimento das atividades produtivas instaladas na região.
Para uma retomada do desenvolvimento de Minas Gerais e um ajuste do padrão de
desenvolvimento tecnológico às características mais importantes da economia contemporânea,
este capítulo sustenta que a construção de um sistema estadual de inovação deve ser a espinha
dorsal do planejamento das ações do setor público estadual.
O diagnóstico realizado anteriormente indicou um conjunto de potencialidades e de
debilidades existentes no Estado. Existe um ponto de partida consolidado em termos de
ciência e de tecnologia, mas o caráter incompleto e imaturo do sistema estadual deve ser
ressaltado. Esse quadro reclama uma definição política clara no sentido do investir na
construção do sistema estadual de inovação a partir de medidas que, simultaneamente,
tenham como meta: 64
1) ampliação da infra-estrutura científica do Estado;
2) estímulo às atividades tecnológicas do setor privado, buscando tanto um maior
envolvimento das firmas estabelecidas (grandes e médias) com atividades inovativas,
como apoiando o surgimento e a consolidação de novas empresas de base
tecnológica;
3) articulação entre o setor científico em ampliação e consolidação e o setor
empresarial, com crescente consciência e envolvimento com atividades inovativas.
É importante ressaltar que essas três tarefas são também identificadas no esforço de amadurecimento do sistema nacional de
64
inovação. Em linhas gerais, essas três linhas são compatíveis com o recém-publicado Livro Branco: ciência, tecnologia e inovação
(MCT, 2002). Um exemplo: o Livro Branco apresenta a meta de alcançar em 2012 o patamar de 2% do PIB em investimentos
em P&D (pp. 41-42). Prevendo uma ampliação da participação do setor privado até alcançar 60% dos gastos nacionais em
P&D, o Livro Branco aponta que os gastos do setor público federal e estadual devem crescer à taxa média anual de cerca de 7%.
Para o setor privado (...) implicará crescimento médio anual da ordem de 15% (p. 42). O Estado de Minas Gerais deve estar
sintonizado com esses objetivos.
129
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Por que atacar simultaneamente esses três elementos?
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40 anos
Em primeiro lugar, porque é indispensável que se tenha clareza da divisão de trabalho
inter-institucional que sustenta um sistema de inovação. Essa divisão é importante para evitar
superposições, sobrecargas institucionais, expectativas frustradas e desconfiança entre os
participantes. O próprio significado teórico do conceito de sistema de inovação como um
arranjo interinstitucional justifica essa ênfase.
Em segundo lugar, para que exista uma interação adequada entre os componentes do
sistema, existem massas críticas que devem ser alcançadas, o que significa dizer que as três
metas estão interligadas.
Em terceiro lugar, porque o financiamento dessa construção requer que fontes diferentes
atuem simultaneamente, com espaço e papel para investimentos públicos, para atividades
indutoras, para parcerias entre o setor público e privado e para o investimento estritamente
privado. A consciência da limitação das forças de mercado para a construção de um sistema
de inovação não exime de responsabilidades o setor privado e nem mesmo o setor financeiro
privado. Ao contrário, é responsabilidade do poder público a proposição de mecanismos
indutores e estimuladores do investimento privado em atividades inovativas.
7.1. Construção institucional para a interação entre ciência e
tecnologia
Um dos aspectos centrais do conceito de sistema de inovação é a interação entre os
seus componentes constitutivos (universidades, firmas, sistema financeiro, governos).
No caso de Minas Gerais, o reconhecimento do caráter incompleto do sistema estadual não é
impedimento para tentativas imediatas de estabelecer e explorar essas interações. Há um
processo de construção a ser percorrido, que certamente alcançará resultados mais positivos
caso a interação comece a ser estabelecida já: o aprendizado institucional e a capacidade de
diálogo no estabelecimento de metas, na sua implementação e na avaliação dos resultados
obtidos significam ganhos importantes para uma capacidade de coordenação indispensável
a um sistema maduro.
Para a constituição dessa interação, desde já, três pontos devem ser discutidos: 1)
um formato institucional adequado para a coordenação do processo de construção do
sistema estadual; 2) o estabelecimento de linhas e setores que expressem as maiores
potencialidades para a interação entre os componentes do sistema; 3) o papel dos projetos
orientados por missões para a construção dessa interação.
7.1.1. O Conselho Estadual de Inovação
Do ponto de vista estratégico, a questão da busca de desenvolvimento científico e
tecnológico, da busca da inovação de produtos e processos, da gestão e do controle de processos
produtivos deve estar presente tanto no horizonte de ocupação dos sujeitos individuais quanto no
de instituições voltadas para atividades socioeconômicas. Assim como no caso da problemática
do meio-ambiente a regra básica é ambientalizar todos os espaços e dimensões das atividades
antrópicas, trata-se, no referente à questão científica e tecnológica, de introjetar em todas as
instituições sociais o explícito compromisso com a busca da inovação.
130 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
Em parte essa questão já tem relativamente ampla audiência, sendo cada vez mais
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40 anos
freqüentes os indícios de que se caminha para um consenso quanto à centralidade da inovação
como requisito para o desenvolvimento tomado em sentido abrangente e com sustentabilidade.
Se há indícios da afirmação da questão na agenda contemporânea, no caso específico do
Brasil, de Minas Gerais, isso tem desafios adicionais decorrentes da crise econômica que nos
freqüenta há mais de 20 anos e que nos tem impedido de superar certo viés imediatista das políticas
públicas, ao mesmo tempo que houve considerável debilitamento do aparelho de Estado em
vários sentidos e, principalmente, no referente à capacidade de planejamento e coordenação do
poder público e seu papel indescartável na articulação de um projeto nacional de desenvolvimento.
Considerando a situação específica de Minas Gerais no referente ao desenvolvimento
científico e tecnológico, reconhecendo a existência de instituições, competências estabelecidas
e potencialidades, trata-se de sublinhar também a necessidade de uma articulação forte e
conseqüente que potencialize e amplie a dinâmica de inovação em Minas Gerais.
Isso passa por buscar um arranjo institucional que seja capaz de coordenar, planejar,
incentivar e monitorar atividades e processos de inovação em Minas Gerais, com base na
articulação entre o poder público federal, estadual e municipal, universidades e institutos de
pesquisas, empresas e organizações não-governamentais, associações científicas, etc.
Esse arranjo institucional deve ter uma estrutura e uma dinâmica compatíveis com a
sua função: a maturação das iniciativas em ciência e tecnologia, em especial, o processo de
fortalecimento de um sistema ainda incompleto requer tempo, persistência e a possibilidade
de aprendizado. Portanto, deve ser um arranjo capaz de garantir continuidade de políticas
estruturantes mesmo em um ambiente de mudanças de governos.
Terá papel central nesse processo o poder público estadual. Este capítulo demonstrou
que o Estado de Minas Gerais tem um considerável patrimônio de instituições importantes
em ciência e tecnologia que podem ter ainda maior êxito no desempenho de suas atividades se
articuladas, se operando coordenada e planejadamente.
Ao poder público estadual cabe o papel decisivo na constituição de um Conselho
Estadual de Inovação, que, tendo o poder público estadual como núcleo, seja, de fato, um
fórum de convergência de instituições e políticas, cujo sentido geral é a formulação de políticas
e incentivos ao desenvolvimento científico e tecnológico de Minas Gerais.
Esse Conselho Estadual de Inovação não deve ser pensado como um substituto de
órgãos existentes, mas como efetiva inovação.65 Ele seria composto por 17 membros, sendo:
cinco representantes do setor público estadual; cinco representantes de universidades e
instituições de pesquisas instaladas em Minas Gerais que tenham atividades regulares de ciência
e tecnologia; cinco representantes de empresas e outras organizações não-governamentais
que desenvolvam atividades de pesquisa e desenvolvimento reconhecidas mediante a geração
de patentes ou atestado emitido pela Fapemig, Finep, CNPq, CAPES ou órgãos similares; um
representante da Fapemig; um representante do BDMG.
A proposta de criação do Conselho Estadual de Inovação não significa redundância em relação a órgãos existentes. Nem o
65
Conecit nem o Conselho Curador da Fapemig podem exercer o papel que o CEI deverá desenvolver. O Conecit continuaria
a desempenhar sua função de órgão das políticas no âmbito do poder público estadual no campo da ciência e tecnologia. Do
mesmo modo, é fundamental que se mantenha a Fapemig como instituição de fomento à ciência e tecnologia no Estado, com
autonomia em relação a programas e projetos específicos, já que deve continuar a basear sua ação fomentadora em critérios
estritamente referentes ao mérito para além de imediatismos e particularismos. De outro lado, o CEI não poderá existir plena
e eficazmente sem o concurso decisivo tanto do Conecit quanto da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia de Minas
Gerais, quanto da Fapemig, quanto do BDMG, que, necessariamente, deverão estar representados naquele Conselho.
131
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
O Conselho funcionaria como pleno nas definições de políticas e diretrizes gerais, no
BDMG
40 anos
cotidiano o Conselho se dividiria em três Câmaras:
1) Câmara de Legislação e Financiamento;
2) Câmara de Apoio à Pesquisa;
3) Câmara de Recursos Humanos.
A criação do Conselho Estadual de Inovação coloca novas tarefas para diversos organismos
estaduais. À Fapemig, cabe a transição para um novo papel, ativo e não mais complementar de
lacunas das políticas federais (ver ANEXO II) na organização e no amadurecimento da estrutura
científica do estado. À FJP, maior capacitação para o acompanhamento das atividades do Conselho,
em especial organizando e sistematizando as estatísticas de ciência e tecnologia do Estado,
construindo bancos de dados atualizados sobre todas as dimensões do sistema estadual (patentes,
artigos publicados, marcas e designs, gastos com pesquisa e desenvolvimento etc.), incluído um
Cadastro Geral da Pesquisa em Minas Gerais. Ao BDMG, um papel reforçado na proposição e
monitoramento da dimensão de planejamento e de financiamento do sistema.
7.1.2. Horizontes para a interação: a dimensão setorial
Este capítulo buscou combinar dois elementos na avaliação do estágio de construção do
sistema de inovação mineiro: a avaliação histórica da ciência e da tecnologia no Estado e um
mapeamento estatístico atual capaz de identificar especializações e fraquezas. É importante
enfatizar a coerência dos resultados encontrados. Essa coerência não é circunstancial: ela é
decorrência do caráter cumulativo do processo tecnológico, fortemente enraizado nas
particularidades do desenvolvimento histórico dos países e regiões (ver em especial FREEMAN,
1995).
Naturalmente, o esforço aqui apresentado de identificação de setores-chave deve ser
entendido como uma contribuição inicial. Em primeiro lugar, porque deve-se considerar que
novos setores podem vir a ser incorporados à medida que seu potencial de desenvolvimento
for identificado. Em segundo lugar, porque a tarefa de identificar, monitorar e, eventualmente,
alterar os setores prioritários deve caber ao Conselho Estadual de Inovação.
Esse diagnóstico permite sinalizar pontos de partida para o planejamento da política
pública estadual. Por um lado, do ponto de vista histórico (respondendo pelo lado
cumulativo do processo de mudança tecnológica), identifica-se a herança existente e os
setores onde o esforço realizado deu resultados persistentes. Por outro lado, do ponto de
vista prospectivo, apontam-se áreas onde as tendências atuais do desenvolvimento científico
e tecnológico podem fertilizar os esforços acumulados no Estado, encontrando espaço para
o crescimento e efetivo estabelecimento de circuitos virtuosos entre as dimensões científicas
e tecnológicas.
Em síntese, nos setores indicados a seguir, é possível desenhar estratégias de avanço em
direção à modernização tecnológica, encontrando segmentos e nichos em que tecnologias
avançadas podem ser implementadas a partir do legado existente. Evidentemente, para que
esses avanços (processos de catching up setoriais) ocorram, a dinâmica de interação entre as
dimensões científica e tecnológica deve estar operando.
132 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
7.1.2.1. Partir da capacitação em mineração e metalurgia para chegar
BDMG
40 anos
aos novos materiais
Desde a fundação da Escola de Minas de Ouro Preto, em 1876, Minas Gerais tem buscado
não só identificar e mapear seus recursos minerais, como também dar a eles uso produtivo.66 Se
muito foi feito nesse campo, muito resta a fazer, sobretudo no sentido de buscar identificar as
fontes, em Minas Gerais, de minerais e novos materiais associados às chamadas novas tecnologias.
Sabe-se que Minas Gerais continua tendo lugar de destaque no setor mineral brasileiro, e que a
mineração continua respondendo por parte importante do PIB do Estado.
Contudo é certo, também, que o grande potencial dos recursos minerais do Estado não
tem se realizado porque isto significa mudar a matriz tradicional da mineração no Estado, pela
exploração de minerais, diga-se, nobres, como as terras raras, por exemplo. Isso se deve à ausência
de pesquisa mineralógica básica e de pesquisa tecnológica que permita efetiva exploração
econômica desses minerais. A consecução desses objetivos depende do esforço de articulação
interinstitucional que promova a convergência dos esforços do IGA, CETEC, da Rede Estadual
de Tecnologia de Minérios da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia, da Fapemig, da
COMIG, do DNPM, da UFOP, da UFMG, da CVRD e das outras mineradoras atuantes em
Minas Gerais, num plano estratégico de desenvolvimento do setor mineral de Minas Gerais.
Associado a esse esforço coloca-se um outro, também identificado com a tradição
produtiva do Estado, e que é o referente à metalurgia. Desde o século XIX, Minas Gerais
tem posição importante na metalurgia brasileira, em particular por sua produção siderúrgica.
De tal modo que se concentra no Estado uma significativa expertise em engenharia, geologia,
gerenciamento, comercialização de produtos metalúrgicos. Se a dominância é da siderurgia,
não se subestime a importância da produção do alumínio, que tem larga presença na produção
metalúrgica mineira por meio de empresas como a ALCOA e a ALCAN.67
Mineração e metalurgia são, portanto, dois setores em que Minas Gerais tem grande
tradição. São também setores que têm experimentado importantes mudanças, desde a década
de 1990, resultantes tanto do processo de privatização quanto da expansão do capital estrangeiro
com intensos rearranjos acionários. A presença da Arcelor (resultante da fusão da Usinor, Aceralia
e Arbed), maior produtora de aço do mundo, na ACESITA e na Belgo-Mineira, o anúncio da
Um indicador da importância e amplitude dos estudos geológico-metalúrgicos em Minas Gerais, que vai reportar algumas das
66
mais importantes figuras desse processo, é o livro de Domício Figueiredo Murta (que foi professor da Faculdade de Ciências
Econômicas da UFMG, tradutor de Eschwege e especialista em questões de desenvolvimento regional), Literatura Geológica
do Estado de Minas Gerais (MURTA, 1946). Esse livro, como outras importantes publicações sobre geologia e metalurgia em
Minas Gerais, nasceu de trabalho conduzido pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais. É também por ação da
Secretaria de Agricultura, dirigida por Israel Pinheiro, que vão ser produzidos os trabalhos decisivos, no campo de geologia
de Minas Gerais, de Octávio Barbosa e Djalma Guimarães, dois dos maiores nomes da geologia brasileira. É de 1934 o Mapa
Geológico de Minas Gerais, organizado por Djalma Guimarães e Octávio Barbosa (GUIMARÃES e BARBOSA, 1934) e o Resumo da
Geologia do Estado de Minas Gerais (BARBOSA, 1934), que são documentos do avanço notável, se se considerar a disponibilidade
de recursos técnicos de então, da pesquisa geológica em Minas Gerais, pesquisa que, conduzida em grande medida pelo
Departamento dos Serviços Geográfico e Geológico Serviço Geológico da Secretaria da Agricultura do Estado de Minas
Gerais, deixou marcas importantes no desenvolvimento científico e tecnológico do Estado.
Uma aproximação à efetiva qualidade da pesquisa siderúrgica em Minas Gerais pode se fazer pelo exame do documento
67
Siderurgia Brasileira 1960/1972. Documentação Técnico-Econômica elaborado pelo Centro de Informações Técnicas da
USIMINAS. Trata-se de trabalho exemplar pela qualidade e abrangência das informações coletadas, reforçando o argumento
do prefaciador da obra, o então Presidente da USIMINAS, Amaro Lanari Júnior: Apoiado no conceito de que um dos
indicadores do nível de desenvolvimento de um país é o seu sistema de informações, é relevante o papel reservado à
informação técnica no Brasil, em sua marcha desenvolvimentista (LANARI Jr., 1973). O material compulsado foi
referenciado, indexado e resumido dando origem a uma bibliografia analítica com 1664 documentos, 1156 autores e 406
verbetes de assunto (USIMINAS, 1973, p. 5).
133
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
associação entre a CSN e a Corus, sexta maior empresa siderúrgica do mundo, vai obrigar a Usiminas
BDMG
40 anos
e outras empresas do setor a movimentos estratégicos, sob pena de enfraquecimento num mercado
cada vez mais internacionalizado.
Nesse sentido, é indispensável acompanhar esses movimentos societários e buscar definir
linha de intervenção do poder público, que resguarde os interesses de Minas Gerais. Para
tanto, sugere-se a criação de um grupo de acompanhamento do setor mínero-metalúrgico e
suas diversas implicações sobre Minas Gerais.
Especificamente no referente à ciência e tecnologia no campo da mínero-metalurgia, três
questões se impõem. A primeira é a relativa desarticulação entre as instituições de ciência e
tecnologia que atuam no setor. A segunda questão é o relativamente pequeno investimento das
empresas em pesquisa e desenvolvimento.68 De resto, é importante registrar a precariedade dos
esforços na formação e qualificação dos recursos humanos nas áreas de pesquisa e
desenvolvimento das empresas, que empregam poucos mestres e pouquíssimos doutores.69 A
terceira e decisiva questão é a ausência de um plano diretor mínero-metalúrgico de Minas Gerais
que estabeleça metas e diretrizes estratégicas para o setor. No caso de Minas Gerais, e isSo vale
para o resto do País, chama a atenção a ausência de um esforço sistemático e forte no sentido de
superar o paradigma do setor, que ainda está preso à matriz tecnológica da Segunda Revolução
Industrial e coloca sua ênfase em metais como o ferro, cobre, alumínio, zinco etc.
Sabe-se que Minas Gerais tem um potencial não inteiramente dimensionado de metais
de terceira geração, como nióbio, tântalo etc., e os ainda mais promissores para as novas
tecnologias, as chamadas terras raras ou lantanídeos , que são encontrados no Estado, e
têm várias aplicações como catalisadores; como elementos magnéticos, que podem ser usados
em memórias de computadores; como materiais cerâmicos e refratários; na fabricação de
lasers; na indústria nuclear; como supercondutores em altas temperaturas. Ou seja, são materiais
decisivos em muitos dos setores de ponta da tecnologia contemporânea que estão sendo
desprezados, ao mesmo tempo em que se insiste nas velhas tecnologias por absoluta falta de
pesquisa básica e desenvolvimento tecnológico.
Trata-se, então, de articular uma rede de instituições e de incentivos concretos que
signifiquem superar o velho paradigma mínero-metalúrgico de Minas Gerais, e coloquem o
Estado na fronteira de um novo paradigma sintonizado com as principais linhas de força das
tecnologias contemporâneas.
De resto, isso não significa abandonar as tecnologias tradicionais e os programas já
existentes como os desenvolvidos pela Secretaria do Estado da Ciência e Tecnologia
como a Rede Estadual das Tecnologias dos Minerais; pelo CETEC e suas atuações nas
áreas de tecnologia mineral e tecnologia metalúrgica e de materiais; pela CVRD em seu
Centro de Desenvolvimento mineral, em Santa Luzia; pelos esforços das demais empresas
do setor e das universidades sediadas em Minas Gerais, senão que se trata de dar a todas essas
iniciativas três ênfases: a) a busca de melhoramentos dos produtos; b) o treinamento e
qualificação da mão-de-obra em todos os níveis do processo; c) a exploração sustentável dos
recursos naturais.
Das quatro empresas pesquisadas no campo da siderurgia em Minas Gerais, uma disse ter investido apenas 0,3% de seu
68
faturamento em P&D, entre 1998 e 2000; outra disse ter investido, em 2001, 3,5% de seu faturamento em P&D. A terceira
tem longa tradição de investimento em P&D, mas vem declinando ao longo do tempo: era US$9,350,120 em 1996, e chegou
a US$3,992,941 em 2001. Duas dessas empresas reconheceram que todas as inovações tecnológicas que empreendem são
compradas do exterior.
Na empresa que disse ter investido 3,5% de seu faturamento em P&D, havia apenas, em 2001, um engenheiro com o nível
69
de doutorado e dois com o título de mestre.
134 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
7.1.2.2. Utilizar o peso da agropecuária para multiplicar e modernizar
BDMG
40 anos
a produção de alimentos
Caio Prado Jr., no capítulo referente à pecuária de Formação do Brasil Contemporâneo, apontou
a pecuária sul-mineira como a tecnologicamente mais desenvolvida do Brasil colonial. Essa situação
vai se manter por longo tempo, sendo inúmeros os exemplos do pioneirismo mineiro no campo da
pecuária, como se vê no desenvolvimento da pecuária do Triângulo Mineiro. A criação das Escolas
de Lavras e de Viçosa é explicitação de uma tradição e da importância da atividade agropecuária
em Minas Gerais, naquela época e ainda hoje.
As tendências recentes da produção agropecuária exigem esforços a que Minas Gerais está
particularmente bem aparelhada para responder, pela considerável competência das instituições
dedicadas à pesquisa agropecuária localizadas no Estado.
Tanto o setor público federal, por meio da UFMG, da UFV, da UFLA, da Embrapa, quanto
o setor público estadual com o CETEC, o IMA, a Epamig e a EMATER, a Fapemig, quanto o
setor empresarial têm consideráveis acervos de conhecimentos, experiências que, articulados,
isto é, mobilizados a partir da perspectiva e estratégia unificadas, podem resultar em significativos
ganhos de produtividade, mediante o desenvolvimento tecnológico.
Existem, explicitamente, em todas essas instituições, programas específicos de
desenvolvimento científico e tecnológico no campo da agropecuária e produção de alimentos. É
exemplo disso a existência no CETEC de uma área específica tecnologia de alimentos que,
articulada com as iniciativas na mesma direção da Epamig, da Embrapa, da UFV, da UFLA e da
UFMG, pode constituir um dos mais significativos parques inovativos, nessa área, do Brasil, e que
ainda não desenvolveu todas as suas sinergias potenciais por falta de plano estratégico e articulação
interinstitucional.
7.1.2.3. Partir da tradição da área de saúde para viabilizar a biotecnologia
Esse é outro setor que tem forte presença em Minas Gerais. Desde a instalação do Instituto
Filial de Manguinhos, em 1907, a atual FUNED, Minas Gerais vai se colocar em posição de
destaque no campo de pesquisa das biociências.
Trata-se de um processo de instalação de instituições no campo da pesquisa em biociências,
em que vai se destacar, num primeiro momento, o referente à microbiologia e à parasitologia. É
nesses campos que vai ser forte a influência de Ezequiel Dias, de Octávio Magalhães e toda uma
geração que vai desenvolver ainda mais esse trabalho em que se destacam Amílcar Viana Martins,
José Pellegrino, Wladimir Lobato Paraense, Zigman Brener, que vão desenvolver estudos decisivos
sobre doenças endêmicas em nosso meio rural como a doença de Chagas, a esquistossomose, a
febre maculosa, a leishmaniose. Todo esse esforço, que teve origem na criação do Instituto Filial
de Manguinhos, foi ampliado pela criação, em 1947, do Instituto de Endemias Rurais, INERU,
hoje Centro de Pesquisas René Rachou, ligado ao Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, que
é centro de excelência de âmbito internacional no campo da parasitologia. (MARTINS, 1990).
O outro campo em que a pesquisa biológica avançou em Minas Gerais foi no referente à
bioquímica. Nesse campo, destaca-se como um herói civilizador José Baeta Viana. Catedrático do
que se chamava então química fisiológica, Baeta Viana, depois de estudar nos Estados Unidos,
atualizou a pesquisa em bioquímica na Universidade de Minas Gerais, por meio tanto de
aparelhamento de laboratórios e bibliotecas quanto pela implantação de uma sistemática de trabalho
135
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
em que o laboratório era, ao mesmo tempo, centro de pesquisa e de formação e capacitação
BDMG
40 anos
técnico-científica. Alguns de seus alunos vão ter carreiras notáveis no campo da bioquímica,
como Carlos Ribeiro Diniz, Wilson Teixeira Beraldo, José Mauro Gonçalves e Marcos Mares Guia.
(DINIZ, 1993; BERALDO, 1990; GONÇALVES, 1989; MARES GUIA, 1988). Todos esses cientistas,
formados em Belo Horizonte por Baeta Viana, destacaram-se no panorama das ciências biológicas
em âmbito internacional, como é prova a descoberta da substância importante no tratamento da
hipertensão arterial, a bradicinina, pelo professor Wilson Beraldo.
O desenvolvimento da química em Minas Gerais tem um outro herói, além de José Baeta
Viana. Trata-se do professor Alfred Schaeffer, técnico alemão que foi professor da Faculdade de
Medicina e posteriormente da Escola de Engenharia, onde criou o Instituto de Química. É a ele
que se deve a efetiva introdução em Belo Horizonte dos métodos e teorias químicas sintonizadas
com o estado da arte de então. (MOURÃO, 1975, p. 22 e 37).
Uma síntese desta discussão deve reconhecer que se desenvolveu em Minas Gerais uma
tradição de pesquisa nos campos da microbiologia, parasitologia e bioquímica de qualidade superior
e com forte impacto tanto social, quanto econômico e tecnológico, como se vê pela criação e
sucesso da Biobrás.
São também dignos de registro, sinal de uma efetiva capacitação científica e tecnológica
instalada em Belo Horizonte, os avanços na pesquisa e a importante participação de
pesquisadores do ICB/UFMG no projeto de mapeamento do genoma humano, por meio da
liderança do professor Sérgio Danilo Pena.
Trata-se, afinal, de entender que o ambiente científico e tecnológico em biociência em
Minas Gerais é significativo, tendo já se desdobrado em empreendimentos privados de sucesso,
como a Biobrás, e como o que demonstra de potencial da iniciativa da criação da Biominas. O
que permite que se possa esperar ainda mais êxitos quanto mais se mobilizam recursos e
ações estratégicas nesse campo.
7.1.2.4. Do pioneirismo na energia às energias alternativas
Um dos gargalos do desenvolvimento econômico de Minas Gerais e do Brasil foi, até os
anos 1950, a carência de energia elétrica. Não por acaso, esse será um dos setores-chave dos
projetos de desenvolvimento a partir daquela data: do Plano SALTE, ao binômio Energia e
Transporte, de JK, à criação da Eletrobrás e às iniciativas dos governos militares pós-1964.
Minas Gerais tem particular importância nesse quadro, não só por seu potencial hidrelétrico,
mas, sobretudo, pelo considerável sucesso e pioneirismo de suas iniciativas nesse campo, sintetizados
na atuação da CEMIG. Trata-se de reconhecer a existência, em Minas Gerais, de competência técnica
e gerencial de primeira linha, de energia hidrelétrica, e da busca de alternativas energéticas.
Transformada em Companhia Energética, a CEMIG tem papel importante no
desenvolvimento das tecnologias energéticas alternativas. Essa tradição de instituições e
pesquisas no campo da energia em Minas Gerais foi consolidada, ainda mais, com a criação
do CETEC em 1972. Um exemplo disso se encontra no documento Projetos de pesquisa e
desenvolvimento em energia, Diretório de Minas Gerais, 1984-1985, em que são listados projetos e
instituições de pesquisa em vários campos conservação de energia; transferência de calor; álcool;
carvão mineral; carvão vegetal e alcatrão; eletrotermia e eletricidade; energia nuclear; energia
solar e eólica; gás combustível; lenha; óleos vegetais; resíduos agro-florestais e industriais; turfa
(CETEC, 1986).
136 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
A amplitude e importância dos temas, as diversas e qualificadas instituições envolvidas
BDMG
40 anos
nesses projetos dão conta da considerável capacidade científica e tecnológica em energia instalada
em Minas Gerais e seus significativos potenciais de desenvolvimento.
7.1.2.5. Informática e telecomunicações
Desde os anos 1960, nos ambientes IBM e BORROUGHS, as grandes empresas mineiras,
a CEMIG em particular, iniciaram processos de informatização. O sucesso dessa iniciativa foi
considerável, como se vê no caso da empresa BMS, que é subsidiária do grupo Belgo-Mineira,
voltada para a área de produção de softwares. Também no caso empresarial foi considerável o
avanço da informatização no campo das telecomunicações, como é exemplar a experiência
da TELEMIG, atual TELEMAR, e do Grupo ALGAR.
Do ponto de vista do setor público, a transformação do ETRA em PRODEMGE e a
criação, nos anos 1970, da PRODABEL vieram consolidar a posição de Minas Gerais como
centro de desenvolvimento de tecnologia em informática, com repercussões tanto sobre a
qualidade e eficiência do setor público quanto formando recursos humanos e certa mentalidade
necessária à expansão dessas tecnologias de informação e telecomunicação.
Decisiva também tem sido a contribuição das universidades públicas nesse campo,
destacando-se o Departamento de Ciência da Computação, da UFMG, como centro de excelência.
Não se esqueça, aqui, da significativa experiência das cidades de Itajubá e Santa Rita do
Sapucaí, que constituíram, como disse João Eduardo de Alves Pereira um pólo científico-
tecnológico no sul de Minas Gerais (Pereira, 1992), a partir do IEI, de Itajubá, que, federalizado,
passou a chamar-se IFEI, e do INATEL, de Santa Rita do Sapucaí, que estão na base da
criação de uma série de empresas no campo dos produtos eletrônicos e de telecomunicações.
7.1.2.6. Biodiversidade e meio ambiente: preparação para questões
centrais deste século
Minas Gerais é o resultado do encontro de ecossistemas: sua fauna, sua flora e seus recursos
hídricos são abundantes e diversificados. Estão representados em Minas tanto o cerrado quanto a
mata atlântica, tanto a caatinga, quanto a vegetação de altitude. De tal modo que é uma espécie de
mosaico de uma biodiversidade rica.
Se há um considerável patrimônio de biodiversidade a ser preservado e utilizado no sentido
da sustentabilidade e da justiça social, também presentes estão as condições para o adequado
enfrentamento da questão. No campo do setor público estadual, tanto o CETEC, quanto o IGA,
quanto o IGAM, quanto o IEF, quanto a COPASA, quanto a CEMIG têm desenvolvido ações e
criado instrumentos que autorizam a pensar na possibilidade de enfrentamento adequado não
apenas da questão ambiental, como também na questão da biodiversidade.
De outro lado, as universidades públicas federais sediadas em Minas Gerais, em particular a
UFV, a UFLA, a UFMG, mas também a UFU, têm considerável acúmulo de experiência e de
grupos de pesquisa treinados nesses campos.
A essa competência, somem-se os aportes de instituições federais como IBAMA, DNPM, ANA
e o que vem de ONGs, como a Fundação Biodiversitas, AMDA, Conservation International e outras,
e tem-se quadro expressivo da existência, em Minas Gerais, de potencial de desenvolvimento científico
e tecnológico, num campo - o relativo ao meio ambiente e à biodiversidade -, que é decisivo para o
futuro da humanidade.
137
Capítulo 3 - Inovação tecnológica e desenvolvimento
Trata-se, pela amplitude e diversidade dos recursos naturais de Minas Gerais e pela existência
BDMG
40 anos
de uma considerável capacidade instalada nas ciência e tecnologia nesse campo, de reconhecer as
potencialidades do desenvolvimento da tecnologia de controle, monitoramento e manejo de
recursos naturais tendo em vista a perspectiva da sustentabilidade que, certamente, podem
transformar o Estado no principal pólo produtor de tecnologias ambientais do País.
O atingimento desse fim depende, como sempre, de duas grandes iniciativas:
a) o investimento em infra-estrutura voltada para a produção e difusão de conhecimento e tecnologias
ambientais; b) a montagem de rede de interações entre os diversos sujeitos do processo universidades,
institutos de pesquisas, empresas, poder público regulador, ONGs etc.
Programas importantes já implantados, como o uso múltiplo de florestas renováveis e
a gestão tecnológica em recursos hídricos desenvolvidos pela Secretaria do Estado da Ciência
e Tecnologia; a expansão dos programas da COPASA de abastecimento de água, esgotamento
sanitário e reciclagem e compostagem de lixo são exemplos de iniciativas que apontam para a
existência de maturidade e competência científico-tecnológicas instalada em Minas Gerais nessas
áreas.
Contudo há muito o que fazer e, sobretudo, é indispensável que haja mudança de perspectiva
sobre a questão. Se, até aqui, a questão ambiental tem sido um dos déficits de nossa cidadania
incompleta, um dos indicadores mais expressivos da precariedade da qualidade de vida de
grande parte da população, ações conseqüentes nessa área, no sentido de implantação de
efetiva estratégia de desenvolvimento sustentável para a região, podem fazer de Minas Gerais
o centro de produção e difusão de tecnologias de mapeamento, monitoramento, controle,
gestão, conservação e uso de recursos naturais, na medida em que se aproveite a considerável
rede de ciência e tecnologia sobre essa temática implantada no Estado.
Para tanto, será indispensável a continuidade dos esforços para o controle dos efluentes
industriais e agropecuários, além do controle do lixo e esgotos urbanos, tanto por seus efeitos
como insumos para a melhoria da qualidade de vida da população do Estado quanto como
produtos, processos e serviços que Minas Gerais poderá exportar.
7.1.3. Horizontes para a interação: a dimensão regional
Há inúmeras possibilidades de explorar a dimensão regional para impulsionar o
dinamismo tecnológico. No caso de Minas Gerais, como discutido na seção 5.2, há
descompassos importantes nas diversas regiões do Estado. Um eixo das políticas públicas
pode ser o da superação desses descompassos. Certamente, esse aspecto requer forte articulação
entre o governo estadual e os governos locais.
Em segundo lugar, no que diz respeito à distribuição espacial das atividades industriais e científico-
tecnológicas, as informações sintetizadas na subseção 5.2.5 fornecem pistas com relação a (pelo menos)
três elementos que devem ser levados em conta na elaboração de políticas para o Estado:
a necessidade de estimular a desconcentração das atividades científico-tecnológicas: por
um lado, ajustando a produção científica à presença de recursos de pesquisa, por outro,
ajustando a produção tecnológica para regiões com presença de firmas;
a possibilidade de promover em algumas regiões um desenvolvimento de cima para
baixo, estimulando-se a presença de firmas em áreas onde o peso da infra-estrutura
científica é elevado (Viçosa e Lavras, por exemplo), de forma a viabilizar o surgimento
de firmas mais sofisticadas tecnologicamente;
138 Minas Gerais do Século XXI - Volume VII - Desenvolvimento sustentável: apostando no futuro
a possibilidade de promover um desenvolvimento de baixo para cima em outras regiões,
BDMG
40 anos
estimulando-se o desenvolvimento da infra-estrutura científica e educacional em áreas que
apresentam atividade tecnológica importante (Ipatinga e Ubá, por exemplo), de modo a
tornar possível a interação das empresas ali localizadas com instituições capazes de alimentar
o processo de atualização tecnológicas das firmas já ativas.70
Essas linhas podem estar articuladas a propostas para a construção de clusters a partir dos
recursos existentes (o que requer uma referência à discussão de aglomerações industriais realizada
em outro capítulo deste estudo). Com base no que foi dito anteriormente, quatro linhas de
desenvolvimento podem ser exploradas. Em primeiro lugar, é possível identificar inúmeras
aglomerações especializadas, onde o município concentra uma determinada atividade (móveis
em Ubá, metalurgia em Ipatinga). Nesses locais, políticas para o desenvolvimento do setor
fornecedor (máquinas para a produção dos bens finais) poderiam ser recomendadas. Para essa
linha, um levantamento geral de todos os municípios com altas concentrações de atividades nos
bens finais e com algum nível de atividade no setor fornecedor poderia ser realizado. Em segundo
lugar, existem áreas onde, embora exista certa especialização, a participação em termos de emprego
é baixa. Ampliar o peso dessas atividades nas cidades identificadas pode ser uma medida
interessante. Em terceiro lugar, essas mesmas aglomerações especializadas poderiam ser
investigadas para o fortalecimento de atividades relacionadas com o conjunto da cadeia produtiva.
Por exemplo, em locais com uma especialização identificada, políticas de formação profissional e
de ensino superior adequadas ao desenvolvimento do setor deveriam ser implementadas. Tomando-
se o exemplo de Ubá, o estabelecimento de escolas técnicas e de cursos superiores de design, como
os que existem na região de Bento Gonçalves (VARGAS et al, 2000) certamente contribuiriam para
a transformação de uma aglomeração especializada em um cluster. Em quarto lugar, áreas
especializadas em certos produtos agrícolas podem ser estimuladas a implementar atividades
produtivas para cima na cadeia produtiva, por meio da introdução de unidades de processamento
industrial de produtos primários, iniciando movimentos na escada tecnológica que o processo
de construção de um cluster deve necessariamente representar.
7.1.4. Estabelecendo projetos orientados por missões
Para a construção de um cenário de interações, uma ferramenta útil poderá ser a definição
de alvos (objetivos ou missões) para o desenvolvimento científico e tecnológico, de forma a
permitir, desde o início, o estabelecimento de vínculos entre o desenvolvimento científico, o
tecnológico e o socioeconômico.
O desenvolvimento de uma linha similar à aqui sugerida foi proposto no âmbito do PMDI
(1995-1998). Essa experiência deve ser melhor estudada para indicação de pontos fortes e problemas.71
Em geral, os especialistas ouvidos por esta pesquisa não consideram que essa linha tenha sido bem-
sucedida. Duas razões principais apóiam esse diagnóstico: 1) a forma como as prioridades foram
definidas (um modelo aplicado por um consultor especialmente contratado para tal), que não envolveu
a interação entre as diversos atores envolvidos desde o início; 2) a inexistência de um modo
Nesse ponto, há uma sobreposição entre políticas setoriais e regionais.
70
Dois Relatórios Técnicos das Missões Tecnológicas (SECT, 1996a e 1996b) apresentam um resumo da proposta e dos
71
encaminhamentos iniciais. Nesses relatórios ficam esclarecidos os critérios para a definição das missões (envolvendo a
identificação de problemas/oportunidades, mercado econômico social, externalidades, inserção social, capacidade de
mobilização de recursos e tempo de maturação), a composição do comitê de coordenação (SECT e SEPLAN coordenação
política -, FIEMG, FAEMG, FEDERAMINAS, ALEMG, BDMG, Fórum de Reitores das Instituições de Ensino Federal
em Minas Gerais, Sindicatos/Fetaemg e Associação das Donas-de-Casa). As missões definidas foram: 1) gemas e jóias; 2)
melhoria do rebanho e saúde animal; 3) agricultura; 4) florestas tropicais; 5) biotecnologia; 6) processamento de resíduos e
rejeitos poluidores.
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