Volume 10 Uma Visao Do Desenvolvimento - Presentation Transcript
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
UMA VISÃO DO NOVO DESENVOLVIMENTO
VOLUME ESPECIAL
MINAS GERAIS DO SÉCULO XXI
VOLUME ESPECIAL
UMA VISÃO DO NOVO
DESENVOLVIMENTO
Banco de
Desenvolvimento de
Minas Gerais
BANCO DE DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS S.A. - BDMG
Conselho de Administração
José Augusto Trópia Reis - Presidente
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Programas e Estudos Econômicos D.PE
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BANCO DE DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS S.A. - BDMG
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Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais
Minas Gerais do Século XXI / Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais.
B213m
2002 Belo Horizonte: Rona Editora, 2002.
10 v. : il. -
Conteúdo: v.1 - O Ponto de Partida. v. 2 - Reinterpretando o Espaço Mineiro.
v. 3 - Infra-Estrutura: sustentando o desenvolvimento. v. 4 - Transformando o
Desenvolvimento na Agropecuária. v. 5 - Consolidando Posições na
Mineração. v. 6 - Integrando a Indústria para o Futuro. v. 7 - Desenvolvimento
Sustentável: apostando no futuro. v. 8 - Investindo em Políticas Sociais. v. 9 -
Transformando o Poder Público: a busca da eficácia. v. Especial – Uma Visão do Novo
Desenvolvimento
1. Condições econômicas – Minas Gerais. 2. Desenvolvimento econômico –
Minas Gerais. I. Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. II. BDMG. III. Título
CDU: 338.92(815.1)
Catalogação na publicação: Biblioteca BDMG
4 Minas Gerais do Século XXI - Volume I - O ponto de partida
VOLUME ESPECIAL
UMA VISÃO DO NOVO
DESENVOLVIMENTO
Autor do Volume
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos,
com redação do economista do BDMG Iran Almeida Pordeus e
do jornalista Pedro Luiz Lobato
Coordenação do Projeto
Tadeu Barreto Guimarães - Coordenação Geral
Marco Antônio Rodrigues da Cunha - Coordenação Executiva
Marilena Chaves - Coordenação Técnica
SUMÁRIO
CARTA DO PRESIDENTE ............................................................................................................................................. 9
PREFÁCIO ........................................................................................................................................................................... 11
1. DESENVOLVIMENTO: MISSÃO DE TODOS ................................................................................................... 15
1.1. O novo desenvolvimento ............................................................................................................................................ 16
2. UMA VISÃO DE FUTURO: MINAS GERAIS COMO UM DOS CENTROS DINÂMICOS DA
ECONOMIA NACIONAL ............................................................................................................................................. 19
2.1. Eixos de atuação ............................................................................................................................................................ 20
3. O ESTADO E OS NOVOS ATORES ........................................................................................................................... 22
3.1. A classe política .............................................................................................................................................................. 22
3.2. Os empresários ............................................................................................................................................................... 23
3.3. O terceiro setor .............................................................................................................................................................. 24
4. A MÁQUINA PÚBLICA E O NOVO DESENVOLVIMENTO ..................................................................... 25
4.1. A busca da eficácia ........................................................................................................................................................ 26
4.2. Resgatando as finanças públicas ................................................................................................................................. 26
5. MINAS GERAIS E O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO .................................................................... 28
5.1. Infra-estrutura: Gargalos e espaços para intervenção estadual ............................................................................ 32
5.2. Transformando o desenvolvimento da agropecuária ............................................................................................. 35
5.3. Consolidando posições na mineração ........................................................................................................................ 38
5.4. Integrando a indústria para o futuro ......................................................................................................................... 39
5.5. Serviços ............................................................................................................................................................................ 43
6. POR UM SISTEMA ESTADUAL DE INOVAÇÕES ........................................................................................... 47
7. A PERSPECTIVA REGIONAL ................................................................................................................................... 49
8. A RMBH NO SÉCULO XXI: INSERÇÃO E COMPETITIVIDADE ........................................................... 54
8.1. Globalização e exclusão social .................................................................................................................................... 54
9. MINAS GERAIS E O DESENVOLVIMENTO SOCIAL .................................................................................. 57
9.1. Educação e desenvolvimento ...................................................................................................................................... 57
9.2. Saúde e desenvolvimento ............................................................................................................................................. 59
9.3. Segurança pública e desenvolvimento ...................................................................................................................... 61
9.4. Habitação e desenvolvimento ..................................................................................................................................... 63
9.5. Trabalho e desenvolvimento ....................................................................................................................................... 66
9.6. Desenvolvimento e combate à pobreza .................................................................................................................... 70
10. MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .............................................................. 73
10.1. A intervenção pela sustentabilidade ........................................................................................................................ 73
11. CULTURA: O SUBSTRATO DE UM PROJETO .................................................................................................. 75
EPÍLOGO: A CONSTRUÇÃO COLETIVA ............................................................................................................. 77
PLANO DA OBRA E AUTORES ................................................................................................................................. 79
BDMG
40 anos
Carta do Presidente
Ao completar 40 anos como ator fundamental ao desenvolvimento do Estado, o Banco
de Desenvolvimento de Minas Gerais S.A. entrega à sociedade o Minas Gerais do Século XXI.
Trata-se do mais abrangente estudo já realizado sobre o Estado, produto do esforço coletivo de
diversos especialistas de instituições mineiras e de outros estados, sob a coordenação do BDMG,
conferindo-lhe, assim, a legitimidade jamais alcançada por sua amplitude e categoria intelectual.
Fruto da capacidade técnica adquirida nos dois estudos realizados pelo BDMG, que o pre-
cederam — o Diagnóstico da Economia Mineira, de 1967, e o Economia Mineira: diagnóstico e perspecti-
vas, de 1989 — a obra Minas Gerais do Século XXI completa a bibliografia indispensável à visão e
à compreensão de todos os fenômenos que se processam nos campos social, político e econô-
mico.
O Minas Gerais do Século XXI, ao indicar caminhos para o novo desenvolvimento de Mi-
nas Gerais, não apenas reforça o tradicional papel do BDMG como fonte de conhecimento so-
bre o Estado, mas também inova, ao fazer um chamamento aos mineiros. O processo de de-
senvolvimento sofreu profundas transformações: deixou de ser tarefa autônoma do Estado, mui-
to menos dos mercados, para se impor como missão irrecusável de todos.
Nada de mais simbólico nessa convocação à sociedade do que seu momento histórico,
em que o Governador Itamar Franco agracia os futuros Governadores e toda a sociedade mi-
neira com uma visão do novo desenvolvimento, seus desafios e possibilidades, contidas nos dez
belos volumes que compõem o Minas Gerais do Século XXI — contribuição inestimável do nosso
governador à missão do desenvolvimento, que representa uma pequena ilustração do seu incan-
sável trabalho em alcançá-lo.
Murilo Badaró
Presidente
Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais S.A.
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Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
10 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
Prefácio
Minas Gerais do Século XXI – A escolha do título deste estudo é um alerta aos minei-
ros. Apesar do expressivo avanço da economia do Estado desde a publicação do Diagnóstico da
Economia Mineira em 1967, não existem razões para acomodações. O desafio hoje é diferente, ou
mesmo maior, que o observado na década de 1970, quando o objetivo principal dos atores soci-
ais era o crescimento econômico através da industrialização, e o indicador de sucesso de uma
região era a evolução de seu PIB per capita.
O entendimento sobre o desenvolvimento que orienta este estudo é outro. Desenvolvi-
mento mensurado pela qualidade de vida dos mineiros, variável dinâmica, com inúmeros
determinantes inter-relacionados e sem relações lineares. De tão complexo deixou de ser tarefa
exclusiva do Estado ou dos mercados.
O desenvolvimento como missão de todos é a premissa básica presente em todos os vo-
lumes que compõem este Minas Gerais do Século XXI. Buscou-se, em cada um deles, apon-
tar os problemas e indicar estratégias para os diversos responsáveis pelo desenvolvimento de
Minas Gerais: trabalhadores, classe política, empresários, Estado e terceiro setor. Esta peça,
destarte, não poderia ser um monólogo do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais S. A. –
BDMG.
Figura como objetivo permanente e tradição do BDMG a realização de estudos que ele-
vem o conhecimento sobre os aspectos socioeconômicos do Estado. Os mais conhecidos foram
os diagnósticos de 1967 e de 1989. Dentro dessa linha de atuação, nos últimos anos, o Banco
retomou a publicação dos Cadernos BDMG, elaborou um diagnóstico da Zona da Mata e cons-
truiu uma Matriz Insumo-Produto para o Estado.
O Minas Gerais do Século XXI é, certamente, o mais abrangente desses estudos, pois
contempla amplo escopo temático e mobilizou pessoas de diversas instituições mineiras e de
outros estados. Essas características conferem-lhe pluralidade ímpar, tornando-o documento com
grande representatividade coletiva. A pluralidade foi intencional, com objetivo de captar várias
dimensões e diversas percepções sobre o novo desenvolvimento. Ao BDMG coube a liderança
desse processo.
Importante enfatizar que este estudo não é uma análise dos últimos governos, não apre-
senta propostas de programas ou projetos de governo, nem pretende apresentar um rol de so-
luções. Seu objetivo maior é contribuir para o desenvolvimento econômico e social das nossas
Minas, oferecendo um conjunto de informações, análises e discussões que possam subsidiar a
tomada de decisão por parte de governos e outros agentes sociais, no médio e longo prazos.
Participaram diretamente da elaboração do estudo 48 consultores especialistas, entre
responsáveis pelos textos e suas equipes, filiados a diversas instituições (Fundação João Pi-
nheiro, CEDEPLAR-UFMG, IE-UFRJ, UFV, UFU e PUC-Minas); mais de 60 profissionais e re-
presentantes de diversas organizações (INDI, FIEMG, FEDERAMINAS, FAEMG, SEBRAE-MG, AC-
Minas, BNDES e CDL) como relatores e participantes dos workshops; além da equipe pró-
pria do Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos e dez consulto-
res internos do BDMG.
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Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Este trabalho contou, ainda, com orientação de seis consultores, que colaboraram com
BDMG
40 anos
a coordenação nas linhas gerais da sua condução, e de um mentor que, além da orientação
intelectual, inspirou a todos os participantes, com sua coragem e lucidez, impregnando o estu-
do com a necessidade de ousadia nas proposições e confiança no futuro do nosso Estado. Tra-
ta-se de um notável mineiro, João Camilo Penna.
A retomada dos esforços do BDMG para a geração de conhecimentos estratégicos e ino-
vadores sobre Minas, ressalte-se, só foi possível em virtude do desempenho econômico-finan-
ceiro dos últimos anos, com a elevação expressiva do seu patrimônio líquido e a geração de lu-
cro líquido por quatro anos consecutivos.
Do esforço empreendido por mais de uma centena de pessoas, coordenadas pela equipe
do Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos e sob a supervisão da Di-
retoria de Planejamento e Controle, resultaram nove volumes temáticos, listados ao final deste.
Na elaboração deste volume especial, a equipe fundamentou-se literalmente no conteúdo
dos outros nove volumes, dispensando os procedimentos de citações dos autores, mesmo da-
queles que apresentam, de forma inédita, novos conceitos, interpretações ou tipologias. O Ban-
co agradece aos autores citados em cada volume pela valiosa contribuição na construção do
Minas Gerais do Século XXI.
Neste volume especial, Uma Visão do Novo Desenvolvimento, o BDMG ousa apre-
sentar sua percepção sobre o novo desenvolvimento, a partir do diagnóstico e das proposições
dos outros volumes. Essa ousadia nasce do desejo de dar o primeiro passo na direção da cons-
trução de uma agenda para o desenvolvimento de Minas Gerais.
As análises e proposições contidas ao final de cada volume e neste volume especial cons-
tituem um conjunto de contribuições do BDMG para o debate em torno de uma agenda para o
desenvolvimento de Minas. Algumas premissas norteiam essas contribuições:
– Inclusão social – As várias faces da pobreza são inaceitáveis e, além disso, constituem
graves entraves ao desenvolvimento.
– Transformação do Estado – Para incentivar o novo desenvolvimento, o Poder Público
Estadual terá que “reinventar-se”, tanto por imposição do novo contexto econômico
e social, quanto pelas restrições fiscais, financeiras e gerenciais que hoje experimenta.
– Articulações das políticas estaduais com as federais e municipais – Para potencializar
os resultados de sua intervenção, o Poder Público Estadual deverá buscar as oportuni-
dades e os esforços de atuação em sintonia com as políticas federais e com as possibi-
lidades dos municípios, através da negociação, regulamentação, criação de sistemas de
incentivos e seletividade nas ações.
– Infra-estrutura e supra-estrutura – O suprimento adequado de infra-estrutura consti-
tui-se em elemento decisivo de estímulo ao crescimento econômico e de atração de
novos investimentos, condição que, hoje, coloca o Estado em clara desvantagem fren-
te a outras economias regionais. Mas, no quadro atual, o diferencial está, cada vez mais,
no que pode ser entendido como a “supra-estrutura” necessária aos investimentos,
apoiada na construção de um sistema de serviços eficientes, alinhado com a utilização
da tecnologia da informação e atento às múltiplas possibilidades oferecidas por essa
fronteira tecnológica.
– Desenvolvimento tecnológico e meio ambiente – Esses são dois eixos de sustentação
do novo desenvolvimento e exigem políticas públicas com maior efetividade.
12 Minas Gerais do Século XXI
– Belo Horizonte e a rede de cidades – Necessidade de uma política estadual para os
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40 anos
centros urbanos emergentes e, especialmente, para reforçar o papel da Região Metro-
politana de Belo Horizonte como o elo do Estado com a rede nacional e mundial de
geração de conhecimento e atividades inovadoras de alto valor agregado.
Nesse contexto, o Estado terá papel fundamental a desempenhar na economia, nas polí-
ticas sociais, enfim, na promoção da melhoria na qualidade de vida de seus habitantes. A ques-
tão que se coloca é como o Poder Público deve fazer para alcançar seus objetivos.
Como apontado no volume IX, sanear as finanças públicas e promover o chamado ajuste
fiscal, mesmo que passo fundamental e de caráter urgentíssimo, não deve ser posto como um
objetivo per se. Pode, aliás, configurar uma solução incompleta se não vier acompanhado de mu-
danças estruturantes do ponto de vista institucional e gerencial, e, portanto, afastar Minas dos
caminhos do desenvolvimento. O trabalho de reformulação da máquina pública é complexo, pois
envolve dotá-la de capacidade de coordenação, regulação e de investimento. Dois pontos são
considerados essenciais à eficácia da máquina pública mineira: gestão e previdência dos servido-
res.
Ao BDMG, particularmente, cabe ainda refletir sobre sua forma de atuação e seu portfólio
de produtos e serviços a partir das conclusões do Minas Gerais do Século XXI e adequar-se
ao papel exigido pelo novo desenvolvimento. Além disso, será fundamental manter a atual bus-
ca da eficiência empresarial exigida às instituições financeiras, por regulamentação legal e pela
própria concorrência, e combiná-la com a eficácia operacional esperada para sua atuação como
entidade de fomento.
Poder-se-ia questionar sobre a oportunidade de um trabalho dessa natureza em meio a
uma conjuntura nacional e internacional de grande incerteza e das dificuldades de formulação
de cenários para o desempenho da economia nos próximos anos. Mas é, exatamente, diante dessa
situação que cabe, ainda mais, uma atitude de confiança, acolhida pela nossa tradição de buscar
ampliar a coesão social e, assim, reforçar as potencialidades existentes no Estado. E, indepen-
dente do cenário prevalecente no futuro, despontar como um dos centros dinâmicos da econo-
mia nacional. Esse é o desafio para alcançarmos as Minas Gerais do Século XXI.
Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2002
Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais S.A.
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Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
14 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
1. Desenvolvimento: missão de todos
Este documento é uma convocação que os mineiros fazem a si mesmos.
A realidade é preocupante e está exigindo coesão e esforço de todos, sob pena de se pôr
a perder todo o caminho do desenvolvimento de Minas Gerais até agora percorrido. A econo-
mia mineira, que chegou ao final do século XX com desempenho acima das médias nacionais,
está emitindo sinais de perda de dinamismo. É algo que, se não for atacado com urgência e fir-
meza, certamente comprometerá gravemente a competitividade de Minas Gerais, numa época
de acirramento da disputa nacional e internacional por melhores posições de mercado.
Além de afastar o risco de perder a corrida pelo crescimento, a retomada do dinamismo
da economia estadual é condição primária para que se dêem os passos que ainda faltam no sen-
tido de elevar a renda per capita e aumentar a qualidade de vida em Minas Gerais. O baixo
ritmo da atividade econômica brasileira é um agravante a cercear o crescimento regional, mas
não é o único nem o mais importante, no momento. É que a máquina pública de Minas Gerais,
à qual é necessário atribuir papéis essenciais, seja de prestadora de serviços básicos, seja de
indutora de um processo de reação construtiva, encontra-se perto da inviabilidade total,
constrangida por dívidas, engessada por despesas e limitada em sua capacidade de financiamen-
to.
Reverter esse quadro, resgatando o poder de ação e reação do Estado e recolocando Mi-
nas Gerais de volta ao caminho do desenvolvimento, é desafio que, mais uma vez em sua histó-
ria, não intimida os mineiros. Ao contrário, começa aqui a trajetória da mudança, com a cora-
gem de se levantar a fundo, com rigor técnico, as deficiências e as potencialidades para se ofere-
cer aos construtores do desenvolvimento não apenas um diagnóstico amplo mas também um
olhar para o futuro de Minas Gerais.
Este não é, contudo, um roteiro de soluções acabadas, propósito que certamente não cabe
a quem pode se orgulhar de ter desenvolvido uma longa tradição em planejamento, capacidade
de refletir sobre si mesmo, ler corretamente sua própria realidade e descortinar caminhos a se-
rem seguidos.
É, sim, um mergulho profundo nas distâncias a nos separar do verdadeiro desenvolvi-
mento, bem como uma análise isenta da eficácia dos mecanismos disponíveis para promovê-lo.
E, ao fazê-lo, os mineiros não apenas se deram conta da dimensão de um novo conceito de
desenvolvimento — mais amplo e mais difícil, todavia mais democrático, universal e duradouro
— como também se convenceram de que são capazes de alcançá-lo.
O novo desenvolvimento não é sinônimo apenas de crescimento econômico, nem de ri-
queza ou mesmo de renda per capita, fenômenos de fácil percepção e classicamente mensurados
por índices popularmente conhecidos. Para ser sustentável, condição de que hoje não se abre
mão, o desenvolvimento há de ser entendido em dimensões até então negligenciadas, ou menos
valorizadas, como a qualidade de vida. Para ter esse nome, o desenvolvimento promove a pros-
peridade econômica e mostra novas faces, como educação, saúde, atenuação das desigualdades
sociais e equilíbrio ambiental.
Em última análise, o novo desenvolvimento que querem os mineiros tem na liberdade o
seu principal objetivo e, ao mesmo tempo, o seu mais importante ingrediente. A liberdade é bem
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Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
precioso para os mineiros. Tem sido a causa maior de nossos mais destacados heróis e o motor
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40 anos
de nossas posturas mais corajosas. Esses mesmos heróis sonharam uma pátria grande e próspe-
ra. Nunca se conformaram com a modéstia de seus recursos ante as potencialidades de sua terra
e de sua gente. Foi o sonho da liberdade e do desenvolvimento que os moveu e que ainda hoje
continua a nos encorajar.
Para os mineiros, a liberdade é um compromisso, e o desenvolvimento, uma voca-
ção.
Por sua nova dimensão, fica claro que o desenvolvimento não cabe mais a um único agen-
te, seja o Estado, seja o mercado. O novo desenvolvimento é missão de todos. A todos os
mineiros reservou-se papel importante. Identificar e assumir esse papel: é a isso que cada um
está sendo convocado.
Agência de fomento por excelência no Estado, o Banco de Desenvolvimento de Minas
Gerais S.A. (BDMG) cumpre com esse trabalho, um dos seus mais importantes papéis: pro-
duzir, a partir da íntima convivência e da permanente análise da vida econômica e empresarial
mineira, orientação sobre a hora, a conveniência e a modelagem de novos saltos que devemos
empreender rumo ao futuro.
E, ao fazer tal exercício pela terceira vez em apenas 40 anos, o BDMG foi além de ape-
nas cumprir uma tarefa. Percebeu que o novo diagnóstico teria que ser não apenas mais profun-
do e rigoroso mas também mais amplo, se se quisesse algo compatível com a enorme mudança
produzida pelo moderno pensamento sobre o desenvolvimento. Não bastaria medir nosso atra-
so industrial e sugerir novas armas sedutoras para atrair capitais. Tampouco poderia se resumir
na história da degradação e da obsolescência de alguns aparatos que um dia fizeram brilhar Mi-
nas Gerais na corrida pelo desenvolvimento. Se há um novo desenvolvimento, há novos atores.
O Estado não é mais o único a ter papel, mas tem um papel decisivo como regulador,
estabilizador, articulador e mobilizador da sociedade organizada. Cabe insistir: recuperar o Es-
tado é esforço imprescindível e urgente.
Em linha com essas constatações e, ao mesmo tempo, coerente com a sua tradição de
buscar sempre a excelência, o BDMG tomou a iniciativa de mobilizar inteligências, não se limi-
tando a seus quadros, mas procurando somar a eles o que de mais atualizado e tecnicamente
qualificado estivesse disponível. Orientou, conduziu e liderou o processo de diagnose, análises e
reflexões que, enfim, trouxeram à luz esta produção, exercendo, portanto, o papel que aqui se
preconiza para o ente público no novo desenvolvimento.
1.1. O novo desenvolvimento
A disposição de promover o desenvolvimento já nos levou, em Minas Gerais, a inúmeras
experiências importantes. Acumuladas em centros de excelência do planejamento regional —
como o CEDEPLAR-UFMG, a Fundação João Pinheiro, a PUC Minas e o próprio BDMG —
elas nos permitem hoje lançar um olhar construtivo sobre os conceitos que nos orientaram no
passado recente e que agora nos ajudam a formar a convicção de qual é o desenvolvimento que
queremos.
Foi com a mesma intenção que hoje nos anima, mas com conhecimentos e experiências
gestados na década de 50, que uma primeira geração do pensamento sobre o desenvolvimento
enfatizou a acumulação do capital físico como principal fonte do crescimento econômico. O
crescimento econômico deveria ser maior do que o da população para, assim, gerar um aumen-
16 Minas Gerais do Século XXI
to da riqueza de cada indivíduo. Isto é, a riqueza per capita seria o principal indicador do desen-
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40 anos
volvimento, e promover a sua elevação tornou-se a meta central do modelo.
Em torno desse modelo, chegou-se mesmo a acreditar que a distribuição desigual da ren-
da teria o benefício de permitir taxas mais elevadas de poupança. Influenciados pelo rápido cres-
cimento de algumas economias da Europa no pós-guerra, atendidas pelo Plano Marshall, os
planejadores da época apostaram na intervenção direta do Estado na economia, da qual ele se
tornava o principal agente. O modelo minimizava o papel de outros atores e atribuía apenas ao
Estado definir o rumo da economia e administrar a alocação de recursos para que aquele rumo
fosse seguido. Portanto, para essa geração, o desenvolvimento era missão do Estado.
A segunda geração do pensamento sobre o desenvolvimento faria, nos anos 70, um exer-
cício oposto. Enfatizava o ganho que cada país passava a ter com seu avanço tecnológico, não
só na produção mas também nas técnicas de gestão. Era natural que essa linha de pensamento
também desse importância ao capital humano, já que dependeria dele, do seu adestramento, o
desempenho em ambiente tocado por novas tecnologias. A disponibilidade e o nível desse capi-
tal humano seria, portanto, um diferencial entre os países, e os pensadores da época acharam aí
a explicação para as diferenças persistentes. Dispondo de maior capital humano qualificado, os
países desenvolvidos teriam se apropriado mais rapidamente dos ganhos proporcionados pelo
progresso tecnológico.
Para essa geração, as ações do Estado não deveriam distorcer os resultados do mercado,
regido por suas próprias forças. O Estado não seria mais um ente benevolente e principal
maximizador do bem-estar social. Reconheciam-se falhas de mercado, notadamente no campo
social, e o Estado deveria se limitar a elas, reduzindo suas ações a programas de saúde, educa-
ção e outras políticas sociais. É a idéia do Estado minimalista em ambiente neoliberal. Para essa
segunda geração, o desenvolvimento era uma missão do mercado.
O tempo e seus efeitos mostraram que não havia um receituário único para o desenvolvi-
mento de todos os países. Ele se dava de maneira e ritmos muito diferentes, criando indesejá-
veis distanciamentos. Já no início dos anos 90 se procuravam novas explicações para essas dife-
renças e foram claramente identificadas novas falhas de mercado, somadas a falhas institucionais,
todas a exigir uma nova forma de intervenção do Estado, agora obrigado a dispor também de
novo ferramental.
Um exemplo de falha de mercado está no setor financeiro, onde se constatou que a taxa
de poupança, fator de peso no crescimento econômico, não determina automaticamente o in-
vestimento, pois existem imperfeições no mercado de crédito. E, então, velhas mazelas como a
concentração de renda, que chegou a ser defendida na primeira geração, mostram a que vieram.
É que o acesso ao crédito depende de bens e propriedades que o tomador pode oferecer em
garantia. Países com distribuição desigual da renda têm mercados de crédito ineficientes, o que
acaba prejudicando seu crescimento econômico.
A terceira ou nova geração do pensamento sobre o desenvolvimento, evoluindo a partir
do reconhecimento dessas falhas de mercado e institucionais, não faz uma volta nem se concen-
tra na busca de uma nova fórmula para alcançá-lo. Ao contrário, parte para uma nova definição
de desenvolvimento, com seus novos indicadores e metas. Percebe que é um processo não-line-
ar, multifacetado, com diversos caminhos e determinantes. Não há como se concentrar num cri-
tério único para mensurar o desenvolvimento e muito menos definir uma receita universal para
alcançá-lo, pois o novo desenvolvimento tem dimensões e terá caminhos que dependem de va-
riáveis até então não consideradas, como a história de cada país, da qual resultaram suas condi-
17
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
ções iniciais, os aspectos socioculturais e políticos de cada povo, e as instituições formais e in-
BDMG
40 anos
formais estabelecidas em cada ambiente.
Ante visão tão ampla e tão mais profunda do que vem a ser o desenvolvimento para cada
um dos povos, pensadores passaram a fazer, já no final dos anos 90, a associação de desenvolvi-
mento com liberdade. Concluíram que o desenvolvimento não pode estar desconectado da vida
que as pessoas vivem e da liberdade que verdadeiramente desfrutam. A liberdade é, pois, o ob-
jetivo primário do desenvolvimento e o principal meio de alcançá-lo. Não é uma idéia vaga de
liberdade. O desenvolvimento é a interconexão de vários tipos de liberdades: a liberdade políti-
ca, oportunidades sociais e a liberdade transacional e de mercado.
Da liberdade política, que garante a todos os atores sociais alguma forma de se sentirem
representados, depende o bem-estar social. A experiência tem demonstrado que países com li-
berdade política relativa, historicamente não observaram grandes fomes, com acentuado aumento
da mortalidade nas classes mais pobres, mesmo em épocas de depressão econômica. A demo-
cracia acaba funcionando como uma proteção às classes mais vulneráveis. A eventual queda na
riqueza de um país, medida pelo PIB, não implica necessariamente a piora de seu desenvolvi-
mento, pois se o país goza de relativa liberdade política, a riqueza não terá sido perversamente
distribuída.
Por oportunidades sociais — outro determinante do desenvolvimento — entenda-se o
acesso das pessoas à educação, boas condições de saúde e incentivo às iniciativas. A educação
aumenta a capacidade humana e, além de seus impactos positivos sobre o crescimento econô-
mico, dispensa, em muitos casos, o emprego de mecanismos coercitivos do Estado. Por sua vez,
boas condições de saúde melhoram a vida das pessoas e aumentam a sua produtividade no tra-
balho. O incentivo às iniciativas construtivas, proporcionado, por exemplo, pelo acesso ao crédi-
to e por políticas de emprego, promove a inclusão social e o crescimento econômico sustenta-
do.
A liberdade de mercado e transacional é também fundamental ao desenvolvimento, pois
tem a ver com a eficiência econômica. O livre acesso das pessoas aos mercados e os baixos cus-
tos de transação melhoram as condições de vida, geram crescimento econômico e, em condi-
ções mais avançadas, promovem a eqüidade. Não significa que o livre mercado é sempre social-
mente desejável, pois pode haver falhas na competição, casos em que o mercado não aloca efi-
cientemente os recursos, e é necessária a regulação do Estado.
O novo desenvolvimento, afinal, compreende que, se a almejada prosperidade econômica
é a base para a evolução sociocultural e sanitária de um povo, essa mesma evolução retorna
sustentabilidade e ampliação daquela prosperidade. Ao novo desenvolvimento se impõem, por-
tanto, novas metas que, no caso brasileiro, demandarão primeiramente um grande esforço no
sentido de superar o atraso sociocultural, falha que os modelos anteriores não consideraram com
a devida ênfase. O velho desenvolvimento conseguiu promover a industrialização, modernizou
a agricultura e urbanizou o País. Mas deixou problemas e exigências a superar.
18 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
2. Uma visão de futuro: Minas Gerais como um
dos centros dinâmicos da economia nacional
Com a disposição de quem não deixa de encarar os desafios que dizem respeito a seu pró-
prio futuro, os mineiros, ao aceitarem a convocação do presente já sabem que reverter os sinais
de perda de dinamismo econômico deste início de século é apenas o começo de uma tarefa mai-
or. A ousadia de quem pode confiar em sua tradição de força, conhecimento e criatividade está
propondo a mobilização de todos para mais um salto histórico: retirar o Estado de Minas Gerais
da condição periférica em que se encontra e fazer dele um dos centros dinâmicos do País.
E, longe do conformismo que poderia dar como aceitável a situação de Minas Gerais nos
moldes do “velho desenvolvimento”, o que se propõe agora são novos padrões de qualidade de
vida para os mineiros e eliminação do desconforto que resulta da comparação dos nossos indi-
cadores sociais e de renda per capita com as demais economias regionais mais desenvolvidas.
Minas conta com heranças positivas, como a enorme capacitação acumulada nas empre-
sas mineiras e as vantagens competitivas reunidas e mantidas ao longo de décadas. Por outro
lado, interessa ao Brasil a evolução de vários centros dinâmicos, fato que só aumenta a
competitividade do País na economia mundial.
Mas isso não basta para se dar o pretendido salto. Transformar Minas em um dos centros
dinâmicos nacionais exigirá políticas e atitudes que busquem a criação de um novo círculo vir-
tuoso do desenvolvimento. E é fundamental começar logo.
Ousado e inserido em um mundo novo, mais aberto e marcado por forte integração de
mercados, o objetivo maior dos mineiros vai muito além de suas fronteiras e ultrapassa mesmo
os limites nacionais. Há, portanto, que se levar em conta certas condicionantes, premissas a
balizarem e a tornarem mais proveitosas as estratégias mineiras.
Uma delas é a crescente importância que as políticas federais serão forçadas a atribuir às
exportações, o que significa a abertura de oportunidades de crescimento para as nossas empre-
sas. Mas daí a aproveitá-las vai uma distância que os mineiros terão que se preparar para percor-
rer rapidamente, tratando de ocupar espaços que serão duramente disputados. Minas já tem a
tradição de ser o segundo maior estado exportador, mas não pode mais se contentar com o de-
sempenho de poucas empresas de grande concentração de capital e baixa agregação de valor.
É tempo de inovação, da adoção de políticas de produtos diferenciados, o que, além de
facilitar a penetração em nichos menos pressionados pelas mercadorias mais “comoditizadas”,
abre a possibilidade de participação de um número muito maior de empresas de menor porte e
de setores variados. Na mesma linha, a substituição de importações também tende a ganhar im-
portância nos planos federais e poderá ser aproveitada pela economia mineira. Ao levar em con-
ta essa premissa, a formulação das estratégias para apoiar e estimular o crescimento da atividade
econômica em Minas Gerais terá que ser precedida da identificação de oportunidades localiza-
das em elos das cadeias produtivas em que se pretende elevar os níveis de nacionalização.
Uma terceira premissa que, ao ser observada, pode abreviar o caminho do êxito em polí-
ticas de estímulo ao desenvolvimento regional é o fortalecimento de aglomerações produtivas
locais que tendem a prosperar, mesmo diante da realidade das cadeias produtivas globais. A al-
ternativa é a formação de clusters, experimentada com sucesso em várias partes do mundo. Em
19
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Minas, foram identificadas 40 aglomerações de diversos tamanhos e em diferentes estágios de
BDMG
40 anos
desenvolvimento das sinergias e da atualização tecnológica que caracterizam e potencializam es-
sas aglomerações.
A quarta e irrecorrível premissa na formulação das estratégias mineiras rumo à condição
de centro dinâmico nacional é a da correção da atual posição subalterna dos indicadores sociais
de Minas Gerais, quando comparados aos dos demais estados do Sul e Sudeste. O fortalecimen-
to da rede de proteção e de inclusão social, como condição para o desenvolvimento do País,
tende a receber especial atenção das políticas federais, cabendo a Minas Gerais se organizar para
tirar o melhor proveito de uma nova fase de ações que deixam de ser meramente populistas e
buscam o fortalecimento da cidadania e a melhoria de renda.
2.1. Eixos de atuação
As políticas e ações destinadas ao alcance do objetivo maior de tornar Minas Gerais um
dos centros dinâmicos do País podem ser sintetizadas em eixos de atuação:
• Alinhamento às políticas federais: Uma política de desenvolvimento regional, para
os diversos setores, deve estar em sintonia com as políticas nacionais e dela capturar
impulsos dinamizadores da atividade econômica estadual, bem como obter recursos de
programas federais existentes e influenciar políticas em gestação nas quais as ativida-
des e as empresas locais se enquadrem.
• Provisão da infra-estrutura e da supra-estrutura: O suprimento adequado de infra-
estrutura se constitui em elemento decisivo de estímulo ao crescimento econômico e
de atração de novos investimentos. Além desse grande desafio, é preciso ressaltar que,
no quadro atual, o diferencial está, cada vez mais, no que pode ser entendido como a
“supra-estrutura” necessária aos modernos empreendimentos, apoiada na construção
de um sistema de serviços eficientes, alinhado com a utilização da tecnologia da in-
formação e atenta às múltiplas possibilidades oferecidas por essa fronteira tecnológica.
• Sistema Estadual de Inovações: O adequado funcionamento, de um sistema esta-
dual de inovação configura-se como uma prioridade no contexto de uma nova políti-
ca de desenvolvimento para Minas Gerais. É, na verdade, o grande diferencial que
permitirá a mudança de patamar da sua estrutura produtiva.
• Rede de informações estratégicas: No âmbito da provisão de externalidades
indutoras dos esforços de modernização produtiva e tecnológica do Estado, um desta-
que é a atualização constante e o aprimoramento dos bancos de dados existentes nas
instituições públicas e privadas, visando estabelecer uma eficiente rede de informações
que, de fato, subsidie e alicerce a tomada de decisão de investimento.
• Sistema de normatização, fiscalização e certificação: Essas são funções reconhe-
cidas como indispensáveis em um cenário concorrencial que se reproduz em escala
mundial. São, assim, vitais ao desenvolvimento e à melhoria das condições da
competitividade dos diversos setores, por garantirem a qualidade do produto nos ní-
veis exigidos pelas indústrias processadoras e pelos consumidores no mercado domés-
tico e externo.
• Sistema institucional de fomento: Minas Gerais possui uma estrutura de fomento
sofisticada, especialmente em relação ao setor industrial, que conta com incentivos fis-
20 Minas Gerais do Século XXI
cais e financeiros e com a presença de instituições que prestam suporte aos empresári-
BDMG
40 anos
os e que se ocupam da indução e promoção de investimentos. Todavia, é bastante opor-
tuna uma reestruturação de tal sistema, buscando sua modernização e, no caso do se-
tor agropecuário, praticamente a reconstrução. Devem ser intensificadas as funções de
promoção comercial e de divulgação de potencialidades de negócios, preparando o sis-
tema para desempenhar novas funções exigidas pela realidade atual. Entre essas novas
funções, está a de promover a internacionalização da empresa mineira e o
restabelecimento da coordenação institucional das diversas instituições.
• Políticas urbanas: A cidade assumiu uma importância de tal ordem que passou a ser
objeto de análises e legislação específicas no plano federal. Os estudos realizados
para Minas Gerais apontaram, entretanto, a fragilidade da rede de cidades no Estado,
quando comparada às suas correspondentes nos estados do centro-sul do País. As-
sim, há necessidade de resgatar experiências de políticas urbanas integradas ao plane-
jamento estadual.
• Região Metropolitana de Belo Horizonte como pólo urbano estruturante da eco-
nomia mineira: A valorização da Região Metropolitana de Belo Horizonte, o desen-
volvimento de medidas que aprofundem a sofisticação e a diversificação do setor ser-
viços produtivos modernos, de forma a ampliar os ganhos de economias externas de
urbanização para o conjunto das atividades econômicas, são aspectos fundamentais
ao processo de desenvolvimento do Estado. É crucial o papel do Governo Estadual
no planejamento, na coordenação e, em alguns casos, na execução de políticas em que
se faça avançar a competitividade e a inserção da RMBH na rede econômica global e
que, ao mesmo tempo, promovam a inversão da degradação e da exclusão social pre-
valecentes.
• Investimento social: O investimento em políticas sociais – educação, saúde, com-
bate à pobreza, segurança pública, habitação e emprego – implica, no presente, o au-
mento da qualidade de vida da população e, futuramente, a acumulação de capital
social e detonação do ciclo virtuoso do desenvolvimento sustentável. O desejável prin-
cípio da subsidiariedade deslocou para esfera municipal muitas dessas políticas. O Es-
tado segue, contudo, com função precípua em algumas áreas e complementar (de
regulação e coordenação) aos municípios em outras.
• Confiança: Para o investidor, tão importante quanto as condições das linhas de fi-
nanciamento ou dos incentivos existentes é a segurança de que as condições contra-
tadas serão preservadas. Desse modo, revela-se importante, nesse momento, reforçar
a confiança do investidor nas instituições mineiras e nos instrumentos de política in-
dustrial disponíveis no Estado.
• Transformando o Poder Público: O maior desafio de todos, contudo, é a tarefa,
inadiável, de “relançar” a máquina pública mineira. Praticamente paralisado por uma já
crônica falta de recursos, o aparato do Estado apresenta, ainda, uma série de disfunções
que terão que ser enfrentadas. Ao se conceber o novo desenvolvimento, fica claro que
a recuperação da máquina pública é prioridade absoluta. Afinal, além do papel de
indutor e coordenador de um processo de construção do desenvolvimento, ao Gover-
no Estadual se atribui papel essencial no esforço de reverter o risco de estagnação e de
perda de competitividade na economia mineira e, ao mesmo tempo, de dotar a socie-
dade mineira de amplo acesso à educação e aos serviços de saúde e segurança, vale
dizer, de melhor qualidade de vida.
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Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
3. O Estado e os novos atores
Missão de todos, o novo desenvolvimento exige novos atores. Mais amplo e mais
abrangente, o desenvolvimento que se pretende sustentável requer muito além do Estado, que
deixa de ser o único, para inserir nessa tarefa segmentos ativos da sociedade organizada: os polí-
ticos, os empresários, os trabalhadores, os contribuintes, os consumidores e as inúmeras formas
de manifestação do chamado Terceiro Setor.
Mas também se afirma aqui, com proposital clareza que, se ao Estado não cabe mais pa-
pel hegemônico e que está definitivamente no passado o Estado-empresário, também não se
pretende repetir o equívoco radical do Estado minimalista. É bem o contrário. Ao valorizar fren-
tes até então marginalizadas pelos antigos modelos de desenvolvimento, como é o caso da edu-
cação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento tecnológico, o desenvolvimento que agora se
pretende demanda o Estado forte. Além disso, será decisiva para o sucesso de qualquer projeto
de desenvolvimento a ação do Estado em duas outras frentes: aquela que se refere ao papel de
regulador e a da articulação para a inserção dos novos atores da sociedade organizada.
As continuadas crises fiscais e financeiras por que tem passado o Brasil levaram à debili-
dade e ao desarranjo os aparatos do Estado, situação a ser atacada com vigor, ao contrário do
que já se apregoou no País, a pretexto de se atribuir quase tudo ao mercado. Hoje, mesmo se se
demandasse apenas enfrentar as tarefas do velho desenvolvimento, ainda assim o Estado não
teria como oferecer performance razoável. As atuais condições da máquina pública de Minas
Gerais e propostas para o resgate de sua funcionalidade serão tratadas mais adiante.
3.1. A classe política
Está ultrapassada a imagem negativa do político mineiro avesso à inovação, fortemente
orientado pela tradição e pouco empreendedor, só atenuada pelos méritos da habilidade como
negociador e conciliador. Contrasta com essa imagem e a desautoriza a trajetória de governantes
de Minas, que mais cedo do que os políticos de outros estados, deram mostras de interesse pe-
las questões do desenvolvimento mineiro. Para registrar esse contraponto, basta lembrar que o
primeiro sítio planejado e destinado a sediar indústrias, a Cidade Industrial de Contagem, foi
obra de um governador mineiro, Benedito Valadares, em 1941.
Minas é o Estado com mais longa e forte tradição de planejamento entre seus pares na
Federação. Belo Horizonte foi a primeira de uma série de capitais planejadas no País. Ainda no
começo do século passado, o governador João Pinheiro promovia feiras e tomava medidas para
propiciar o progresso de Minas. É de 1947 o Plano de Recuperação e Fomento da Produ-
ção. Em 1950, o governo mineiro lançou o Plano de Eletrificação de Minas Gerais, que te-
ria como desdobramento a criação da Cemig. Nos anos 60 do século passado, o BDMG, então
uma jovem instituição, realizou o Diagnóstico da Economia Mineira, que expôs o atraso da
economia do Estado e abriu caminho para a vigorosa recuperação nos anos seguintes.
João Pinheiro, Milton Campos, Juscelino Kubistcheck, Israel Pinheiro e Rondon Pacheco
marcaram suas administrações à frente do governo de Minas por atuação fortemente orientada
para o terreno do desenvolvimento da economia. Não há razões para supor que a classe política
22 Minas Gerais do Século XXI
mineira não venha a reconhecer a necessidade de engajar-se decisivamente em ações para a pro-
BDMG
40 anos
moção do desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida dos mineiros, nos moldes que
agora se propõe.
A estratégia que se preconiza para o desenvolvimento de Minas, enfatiza ações integradas
e mobiliza o capital social das comunidades locais, suas lideranças formais e informais bem como
as organizações não-governamentais com atuação na região. Os representantes políticos dessas
comunidades no parlamento estadual não poderiam ficar ausentes. A atuação do Estado, nos
moldes acima delineados, implica de fato criação de novas instâncias públicas de decisão. Ex-
cluir ou não contar com a presença ativa de parlamentares junto a essas arenas novas de delibe-
ração política poderia levá-las a colidir ou a entrar em conflito com as instituições formalmente
encarregadas da representação da vontade popular no Estado.
3.2. Os empresários
No início dos anos 70, Minas Gerais deslanchou uma bem-sucedida escalada de cresci-
mento industrial, atraindo a aplicação de US$ 4,3 bilhões em novas plantas e expansão da capa-
cidade existente. O quadro econômico era favorável e contou com a entrada em operação de
um aparato montado pelo governo mineiro com o objetivo de atuar agressivamente na atração
e na recepção desses investimentos vindo de outros Estados e do exterior. Esse aparato, que
fazia parte de um “projeto de desenvolvimento” para Minas, era resultado de um arranjo de ór-
gãos e instituições da administração estadual. A Secretaria de Estado da Fazenda, o BDMG, o
INDI, o CDI e a Fundação João Pinheiro foram ativos protagonistas desse processo e constitu-
íram o “diferencial de Minas” na competição com outros estados.
Revisto e atualizado, tal modelo voltará a ser útil na promoção do desenvolvimento. O
governo estadual deve continuar a luta para atrair capitais e empresas de fora, mas procurando
“vender” as vantagens comparativas de Minas, concedendo subsídios apenas nos casos de pro-
jetos com grande impacto na economia das regiões e nas cadeias produtivas do Estado.
Na atualidade, o quadro empresarial é bem diverso daquele dos anos 70. Muitas micro,
pequenas e médias empresas que respondem por significativa parcela da produção e do empre-
go gerado em Minas encontram-se nucleadas em aglomerações produtivas, o que será um dos
alvos da nova dinâmica do desenvolvimento mineiro. A viabilidade do desenvolvimento estadu-
al assenta-se, principalmente, nas potencialidades de sua base territorial. Minas conta com, pelo
menos, 40 aglomerações produtivas distribuídas em quase todas as suas regiões. Essas aglome-
rações encontram-se em diferentes estágios de maturação e consolidação, e precisam ser
alavancadas para que alcancem patamares crescentes de competitividade.
Para alcançar esse objetivo ou qualquer outro no campo do desenvolvimento industrial
e/ou agropecuário, é imprescindível contar com a participação e o apoio dos segmentos empre-
sariais. O empresariado mineiro é, em geral, formado por numeroso grupo de pequenos propri-
etários, com interesses atomizados, especialmente nas cidades do interior. Sua mobilização e par-
ticipação em ações coletivas, como de resto a de todo ator social ou político com grande con-
tingente de membros, só se dá quando convenientemente incentivados.
Daí a necessidade de se criar espaços institucionais no nível local ou sub-regional, combi-
nados com estímulos, para induzi-lo a participar, logrando, assim, o desenvolvimento almejado.
Portanto, no tocante ao empresário mineiro, não há razões para duvidar de que ele responderá
positivamente às iniciativas de desenvolvimento projetadas.
23
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
3.3. O Terceiro Setor
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A complexidade e a presença de dilemas na definição e implementação do desenvolvi-
mento desejável impossibilitam ou tornam ineficientes, em larga medida, ações autônomas do
Estado (Primeiro Setor) ou do mercado (Segundo Setor). As organizações da sociedade civil ou
terceiro setor podem ser entendidas como o conjunto de iniciativas de caráter não-lucrativo na
provisão de políticas públicas de caráter social. Exercem papel importante na construção do ca-
pital social, pois seus efeitos mobilizadores sobre os diferentes atores, sua capacidade de organi-
zar interesses difusamente distribuídos na sociedade e a modernização gerencial que represen-
tam, concorrem para o estabelecimento de algo como uma moralidade condicional, permitindo
aos atores antecipar suas ações na crença da participação num jogo de soma positiva.
Organizações de diferentes matizes foram surgindo espontaneamente no espectro do ter-
ceiro setor. As mais comuns são:
• Associações comunitárias;
• Organizações não-governamentais (ONGs);
• Instituições filantrópicas;
• Fundações;
• Igrejas e seitas;
• Organizações sociais (OS);
• Projetos sociais desenvolvidos por empresas;
• Sindicatos.
Várias dessas organizações têm aportado concepções modernizantes das políticas sociais.
Livres das limitações do setor público e movidas em muitos casos pela vontade de agir dos cida-
dãos que se uniram em torno de uma idéia comum, as organizações do terceiro setor têm virtu-
des importantes que as tornam parceiras que, por muitas razões podem ser de grande eficiência
no processo do novo desenvolvimento.
Mais próximas do cidadão, têm maiores chances de fornecer os serviços e benefícios pú-
blicos que a população deseja, e não aqueles que o Estado lhes deseja oferecer. Operam com
baixo custo e podem utilizar melhor as verbas, pois não gastam recursos com folhas de paga-
mento muito extensas, sofisticação tecnológica ou grandes estruturas físicas. Desenvolvem a ci-
dadania ao trabalhar com voluntários e valorizam soluções da própria comunidade, não só mais
baratas e fáceis de aplicar, mas muitas vezes, mais eficientes do que as grandes soluções idealiza-
das e implementadas através de políticas públicas centralizadas.
24 Minas Gerais do Século XXI
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40 anos
4. A máquina pública e o novo desenvolvimento
Minas não tem mais como adiar o desafio de repensar o Estado. O novo desenvolvimen-
to não se dará sem o Estado. Não mais o Estado-empresário nem o Estado minimalista que já
se apregoou. Com autoridade e liderança para ser o indutor/coordenador de todas as forças da
sociedade envolvidas no processo de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, com legitimidade
para ser o regulador/mediador das atividades e dos conflitos nesse mesmo processo, o Estado
terá papel novo e decisivo no desenvolvimento. Mas, a realidade é que, incapaz de cumprir a
contento até mesmo funções tradicionais de educação, saúde e segurança, a máquina pública
mineira não está em condições de assumir novas atribuições.
Há, portanto, uma tarefa que vai além de resgatar o nível da capacidade funcional do apa-
rato estadual. Será necessário adequar o Estado ao papel que os novos tempos lhe atribuem na
economia, nas políticas sociais e nas ações destinadas a elevar a qualidade de vida. A atual capa-
cidade de coordenação está reduzida e a regulação é somente uma palavra nova na adminis-
tração pública mineira.
Mas essa adequação do Estado não será obtida apenas com reformas superficiais. Aos
graves problemas imediatos, como os de caixa, somam-se questões de grande profundidade,
como a da previdência dos servidores públicos que, se não for equacionada logo, poderá levar o
Estado à imobilização total e os próprios servidores a não ter aposentadoria alguma.
A situação financeira do Estado tem desafiado vários governos e a sua capacidade
de irradiar paralisia por toda a máquina pública tornou inadiável colocar em ordem as con-
tas do Tesouro. Mas mesmo sendo fundamental a curto prazo, esse ajuste não pode ser en-
carado como uma meta em si. É, na verdade um dos meios a serem acionados no propósi-
to do desenvolvimento. Além disso, reformas estruturantes no sentido de uma nova manei-
ra de operar o Estado deverão acompanhar o esforço de saneamento das finanças públicas.
Teria vida breve a conquista de uma nova situação de equilíbrio financeiro, caso permane-
çam os mesmos modos de organização e gestão que, de alguma maneira, ajudaram a pro-
mover a situação atual.
Não será tarefa fácil. O orçamento do Estado se encontra com elevado grau de
engessamento, devido ao comprometimento prévio com desembolsos obrigatórios que deixam
poucos espaços para ajustes do lado da despesa. O Estado gasta, atualmente, 74% de suas recei-
tas com o funcionalismo. E o que é mais preocupante: 44% desse montante, com tendência cla-
ra para o crescimento, são consumidos com o pagamento a inativos. O serviço da dívida leva
outros 13%, e sobra pouco para “outros custeios” e investimentos.
Não é tarefa impossível. Reformas que eliminaram ineficiências cristalizadas na máquina
pública, racionalizaram seus custos e otimizaram o funcionamento do aparato instalado foram
implantadas por alguns Estados como São Paulo, Bahia e Ceará, além da própria administração
federal, que já conseguiram, em alguma medida, afastar o drama da realimentação do
desequilíbrio e se liberaram para cumprir programas de desenvolvimento.
Se o novo desenvolvimento é missão de todos, a corajosa reformulação da máquina pú-
blica estadual é passo fundamental e, também, pede o envolvimento e o apoio de todos os mi-
neiros.
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Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
4.1. A busca da eficácia
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Tendo como norte a identificação do que efetivamente é papel do Estado no novo de-
senvolvimento, o governo de Minas precisa passar por uma profunda revisão de sua estrutura,
da qual dependerá sua eficácia. A administração direta estadual conta, hoje, com 21 secretari-
as, 11 órgãos autônomos e a Governadoria. A administração indireta é composta por 49 enti-
dades. Há ainda 53 conselhos estaduais, a maioria inoperante. Essa estrutura persiste mesmo
após algum esforço de racionalização da máquina pública que resultou na privatização de al-
gumas empresas e federalização de outras.
Durante décadas, foi prática comum na administração pública a criação de órgãos para
atender a demandas específicas. Também era comum, fosse pela inércia, fosse pelo descaso da
administração, tais órgãos ganharem sobrevivência mesmo tendo sido superada a sua necessidade
original. Os instrumentos criados para atender necessidades apontadas pela sociedade não devem
perdurar depois de cumprir ou mesmo se não forem capazes de cumprir seus propósitos.
Vai nessa mesma direção a proposta de um “choque de gestão” na administração pública
mineira. Esse choque não se resume em melhorar o que vem sendo feito, mas fazer bem feito o
que deve ser feito pelo Estado.
Será necessário revigorar o planejamento, mas em novos moldes, evitando planos abran-
gentes sem a precedência de estudos de viabilidade técnica e econômica. É desejável que o plane-
jamento se baseie em Programas Estratégicos, com objetivos delimitados e mensuráveis, previsão
de recursos e instituição de mecanismos de acompanhamento e de avaliação de resultados.
As Secretarias devem recuperar sua função de coordenadoras e integradoras dos sistemas
operacionais, dando-lhes uma direção planejada e articulando suas ações. Contratos de gestão,
firmados entre as Secretarias e seus órgãos vinculados, com metas definidas e com mecanismos
que estimulem a criatividade e a produtividade das pessoas envolvidas, permitirão a coordena-
ção e a manutenção da autonomia das entidades. Com isso, pode-se romper a inércia que do-
mina a máquina pública mineira.
4.2. Resgatando as finanças públicas
O resgate das finanças do Estado deverá atacar simultaneamente receita e despesa, sem
perder oportunidades para negociar algum alívio no serviço da dívida contratado com a União.
Há margem para essa negociação, mas note-se que, ao contrário do que em geral se pensa, a
desobrigação ou o simples rebaixamento dos compromissos atuais com o pagamento da dívida
não bastariam ante a situação de desequilíbrio da contas estaduais.
Daí a necessidade de grande esforço que contemple todas as frentes, o que inclui uma
nova visão do gasto público, sob o enfoque de torná-lo mais produtivo, não apenas em função
de sua escassez, mas também de sua relevância no cumprimento do papel do Estado no proces-
so de desenvolvimento.
Medidas deverão ser adotadas para a revitalização da receita, independentemente das ex-
pectativas de maior ou menor crescimento econômico do País. São iniciativas como programas
mais rigorosos de combate à sonegação, sem que se configure o “terrorismo fiscal”. Deverá ser
feita uma reavaliação das renúncias tributárias, não com o sentido de extingui-las, mas com o
objetivo de definir instrumentos eficazes de apoio ao desenvolvimento e que melhor combinem
seus custos para o Estado com o retorno para a sociedade.
26 Minas Gerais do Século XXI
Há também espaço para um esforço no sentido de se reverterem perdas de receitas
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provocadas por políticas federais que atingiram a arrecadação estadual sem as devidas compen-
sações, como foi o caso da conhecida “Lei Kandir”. O governo deverá restabelecer, sempre que
couber, o autofinanciamento total ou parcial de entidades da administração indireta com a co-
bertura de seus custos mediante cobrança por serviços prestados.
No campo da despesa, onde as margens de manobra parecem limitadas, há trabalho a ser
desenvolvido. De um lado, os gastos com pessoal, que tanto pesam nas receitas do Estado, de-
verão ser objeto de estudos mais aprofundados. Diante da magnitude do problema, cabe à ad-
ministração tornar clara para todos a separação dos esforços visando melhor empregar a produ-
ção dos funcionários ativos, das medidas de profundidade demandadas pela grave questão dos
inativos.
TABELA 1
SERVIDORES ATIVOS E INATIVOS
(ADMINISTRAÇÃO DIRETA E INDIRETA)
Quantidade de Despesa Mensal Renda Média
Servidores % %
Pagamentos (R$ milhões) (R$)
Ativos 312.730 68% 304,84 58% 974,77
Inativos 146.238 32% 222,06 42% 1.518,48
Total 458.968 100% 526,9 100%
FONTE: Governo do Estado de Minas Gerais Junho/2002.
Sem dúvida, o encaminhamento de uma solução para a previdência pública estadual é o
desafio mais difícil a ser enfrentado tanto pela administração – pois poderá ser imobilizada por
ele – quanto pelos servidores, que já correm o risco de não receber o benefício, e, ainda, pela
sociedade, que a banca com o pagamento de tributos.
De outro lado, preconiza-se um novo olhar sobre os gastos com os “outros custeios”.
Tradicionalmente associados ao desperdício ou ao supérfluo, os custeios têm sofrido cortes fre-
qüentes que já os reduziram a cerca de 8% da receita do Estado, nível claramente insuficiente
para o bom funcionamento da máquina. Tal solução, muitas vezes simplista ou tratada de forma
genérica, nem sempre levou em conta a qualidade do funcionamento da máquina pública, mes-
mo em serviços básicos.
Essa nova visão compreende como estratégico o bom emprego desses recursos no cus-
teio da máquina, não apenas como indispensáveis à melhoria do seu desempenho, como tam-
bém sob a ótica da elevação da produtividade do capital fixo já empregado pelo Estado. O al-
cance de melhores níveis de produtividade do aparato público terá o condão de reduzir a neces-
sidade de novos investimentos em determinadas áreas, liberando recursos para outras mais ca-
rentes.
Em termos práticos, será o gerenciamento eficaz dos gastos com os custeios que permiti-
rá a realização de grande parte das políticas públicas. É o caso, por exemplo, dos combustíveis
para o abastecimento dos carros de patrulha da polícia militar e órgãos de segurança pública; da
merenda escolar para alunos da rede estadual; de medicamentos para a saúde; da alimentação
para os presos. Sem esses ingredientes bem-administrados, o ativo público ali imobilizado não
atenderá as demandas sociais para as quais foram criados.
27
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
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5. Minas Gerais e o desenvolvimento econômico
Em 2000, o PIB a preços de mercado, de Minas Gerais, atingiu cerca de R$ 108 bilhões,
o equivalente a 10% do PIB brasileiro. Tal dimensão econômica confere a Minas Gerais um porte
aproximado às economias do Chile, Paquistão ou Peru.
Caso o PIB seja calculado levando-se em conta a paridade do poder de compra das dife-
rentes moedas, o produto per capita mineiro se situa na 63ª posição entre as economias do mun-
do, portanto, colocaria Minas Gerais como um “país” de renda média.
Ao longo dos últimos 15 anos, a participação de Minas Gerais no PIB do Brasil manteve-
se em torno de 9,5%, assegurando ao Estado a posição de terceiro maior PIB do País. Dentre
os cinco Estados de maior PIB — que concentram mais de dois terços do produto nacional —
apenas o Paraná apresentou, no período, uma performance superior à mineira.
TABELA 2
PARTICIPAÇÃO RELATIVA DOS ESTADOS NO PIB DO BRASIL (%)
1970 1985 1999
Minas Gerais 8,3 9,6 9,6
São Paulo 39,4 36,1 34,9
Rio de Janeiro 16,1 12,7 11,7
Paraná 5,5 5,9 6,3
Rio Grande do Sul 8,7 7,9 7,7
BRASIL 100,0 100,0 100,0
FONTE: 1970 - IBGE. Estatísticas Históricas do Brasil.
1985 e 1999 - IBGE. Contas Regionais do Brasil.
Elaboração: Fundação João Pinheiro.
Os indicadores tradicionais de desempenho da economia mineira durante a década de 90
apontam ligeiros ganhos em relação ao verificado na economia nacional. Assim, a uma taxa de
crescimento médio anual do PIB per capita de 0,8% observada para o País durante o período,
corresponde uma taxa de 1,4% em Minas Gerais. A produtividade, medida pelo quociente PIB/
PEA, cresceu cerca de 12% no conjunto da economia nacional e, em Minas Gerais, alcançou
cerca de 15,5% no mesmo período.
Apesar de o quadro comparativo com a situação nacional sugerir uma posição favorável a
Minas Gerais, tal avaliação não se sustenta quando considerados outros indicadores. Primeiro, o
PIB per capita mineiro é quase 10% inferior à média nacional. Segundo, a produtividade da po-
pulação economicamente ativa do Estado é quase 12% inferior à da média do País. A disparidade
assume coloração dramática se cotejamos o quadro mineiro com as demais grandes economias
estaduais:
• em termos de PIB per capita apurado em 1999, o indicador mineiro representa tão-so-
mente 81% do paranaense, 70% do gaúcho, 66% do carioca e ínfimos 57% do paulista;
28 Minas Gerais do Século XXI
• quanto à produtividade em 1999, a paranaense é 15% superior à mineira, a gaúcha é
BDMG
40 anos
26% acima, enquanto a diferença em favor da carioca e paulista passa a ser superlativa:
respectivamente, 53% e 71% acima da observada em Minas Gerais.
TABELA 3
PIB PER CAPITA DOS ESTADOS SELECIONADOS EM
RELAÇÃO AO PIB PER CAPITA DO BRASIL - 1970, 1985 E 1999 - (%)
1970 1985 1999
Minas Gerais 55,5 87,6 91,0
São Paulo 171,0 169,7 159,2
Rio de Janeiro 270,8 139,5 138,7
Paraná 60,4 97,4 113,3
Rio Grande do Sul 99,5 123,5 130,0
BRASIL 100,0 100,0 100,0
FONTE: 1970: IBGE e Fundação Getúlio Vargas.
1985 e 1999: IBGE. Contas Regionais do Brasil, 1985 - 1999.
Elaboração: Fundação João Pinheiro.
O esforço para entender as razões da disparidade e reduzi-las é de longa data. Em 1947,
o Plano de Recuperação Econômica e Fomento da Produção apontou as deficiências de infra-estrutura
como o mais sério entrave à decolagem industrial, o que explicava o atraso econômico do Esta-
do. Mediante maciços investimentos em energia e transportes, foram superados tais entraves.
Assim, já no final dos anos 60, o dinamismo da economia mineira – liderado pelos seto-
res de mineração e indústria de transformação – superava o do conjunto da economia brasileira.
O Diagnóstico da Economia Mineira, elaborado pelo BDMG em 1967, se transformou no
marco fundamental do desenvolvimento alcançado no final do século passado, pois foi a partir
dele que se estabeleceu o aparato institucional de fomento que vigora até hoje sem maiores alte-
rações. Entretanto, o Diagnóstico não percebeu que a especialização mineira na produção de
bens intermediários, que então se aprofundava, é que fornece uma das bases propulsoras da eco-
nomia estadual.
O surto industrializante da década de 70 e a simultânea reversão da decadência histórica
da agricultura mineira são já lembrados como uma das experiências estaduais de desenvolvimento
mais exitosas do País. Realizado sob uma conjuntura favorável é ele creditado a um conjunto de
fatores:
• recursos naturais abundantes;
• posição geográfica do Estado;
• infra-estrutura econômica;
• base econômica na indústria cimenteira e minero-metalúrgica;
• aparato institucional de apoio;
• reorganização das finanças estaduais; e
• ativa liderança política.
29
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Já na década de 80, mesmo no contexto da intensa crise econômica brasileira, a econo-
BDMG
40 anos
mia mineira conseguiu crescer acima da média nacional, notadamente pelo direcionamento às
exportações de seu esforço produtivo. O extraordinário crescimento médio de 11,6% ao ano
verificado no PIB mineiro na década de setenta reduz-se para 2,4% nos anos oitenta. Ainda as-
sim, Minas registrou uma leve perda na sua contribuição para o PIB brasileiro, decorrente do
maior dinamismo apresentado pela Região Sul do País.
Quando se realizou o retrospecto daquela década, em “Economia Mineira 1989: diag-
nóstico e perspectivas”, a especialização na produção de bens intermediários deixa de ser en-
tendida pelo BDMG como “peculiaridade perversa”, mas como propiciadora de condições para
a diversificação em direção de setores com maior elaboração industrial: material de transporte,
máquinas e equipamentos.
Encerrada a década de 90, confirma-se que a geração de riqueza em Minas Gerais é lar-
gamente insatisfatória para atender à população aqui residente, mesmo que a referência seja o
Brasil. Minas Gerais ocupa tão-somente a 10ª posição em termos de PIB per capita. Foi ultrapas-
sado pelo Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. Trata-se, portanto, da economia mais pobre da
porção centro-meridional do Brasil. A lembrança desse aspecto, que já se manifestava com a
mesma intensidade no início dos anos 90, é aqui realizada para contextualizar o transcorrido
nos quadros da economia mineira durante a década passada.
O período representou, para a economia brasileira, época de profundos ajustes determi-
nados, tanto por novas tendências operantes em escala global, quanto pela reestruturação pro-
dutiva a partir da estabilização obtida pelo Plano Real. A nova revolução industrial gerada pelas
tecnologias da informação, a intensificação do comércio internacional e dos fluxos financeiros
e, mesmo, a consagração político-ideológica do “livre mercado”, redesenharam empresas e re-
gras da concorrência, além de impor desafios inéditos às economias emergentes. As trajetórias
de reformas observadas nesses países não obedecem a um único padrão, observando-se a ocor-
rência de quatro tipos:
• reforma e especialização, como é o caso do Chile, onde o país aprofundou as suas van-
tagens comparativas baseadas em recursos naturais;
• reforma e implosão, verificada em muitos dos países do ex-bloco soviético onde, ao
invés de uma transição, assistiu-se ao desmoronamento das estruturas política e econô-
mica;
• reformas adaptadas e novos setores, onde se inclui a China e, possivelmente, a Índia, e
caracterizado pelo êxito na modernização das instituições e setores tradicionais, associ-
ado ao surgimento de novos setores e, por fim,
• “hibridação”, que é o caso brasileiro e onde, no plano empresarial, o reaproveitamento
de seus recursos internos dá a tônica da reconversão e preservação do parque produtivo.
Assim, na economia brasileira dos anos 90, a “herança” – entendida como o tecido de
empresas e capacitação nela embutido –, ao lado da escala industrial, constituiu um elemento
definidor de sucesso da reforma.
O Plano Real, ao eliminar o imposto inflacionário e reduzir o preço relativo de bens
comercializáveis, determinou um salto do poder aquisitivo doméstico e teria se constituído o
segundo elemento favorável para a reforma brasileira, com tamanha intensidade que estudiosos
chegam a sugerir sua equivalência funcional e não-planejada ao Plano Marshall em termos da
renovação do mercado doméstico.
30 Minas Gerais do Século XXI
Para a economia mineira, conhecida a especialização relativa do Estado no complexo me-
BDMG
40 anos
tal-mecânico e o melhor desempenho mineiro quando comparado aos nacionais, fica sugerido
que a reconversão do tecido empresarial tenha sido aqui mais profunda que na média do País.
Outro aspecto destacado da década de 90 é que os efeitos da “estabilização com refor-
mas” são desiguais no espaço e indicam claramente o reforço da posição de São Paulo como o
grande centro de serviços – incluindo-se os financeiros –, ao mesmo tempo que beneficiam o
Paraná e Minas Gerais pela reconcentração de atividades econômicas.
A nova organização do espaço econômico nacional decorre, assim, de duas tendências
principais. A primeira é de desconcentração, a partir de São Paulo, de indústrias tradicionais em
busca de localizações que oferecem menores custos, em especial da mão-de-obra, e ainda, de in-
dústrias dos gêneros de bens de consumo duráveis, atraídas por benefícios estaduais oferecidos na
“guerra fiscal” (cujo melhor exemplo é o de montadoras de veículos). A segunda tendência é a de
reconcentrar atividades intensivas em conhecimento nos grandes centros ofertantes de serviços
“inteligentes” para a indústria e que dispõem de melhor infra-estrutura científico-tecnológica.
Tais tendências configurariam um “desenvolvimento poligonal”, conforme formulação do
Prof. Clélio Campolina (Face/UFMG), sendo a Região Metropolitana de Belo Horizonte
(RMBH) um dos vértices norte do polígono. A tendência aponta, portanto, para o agravamento
da disparidade regional na economia mineira, destacando-se que a Região Central responde, hoje,
por mais de 45% do PIB estadual. Grosso modo, porções do território mineiro situados ao Sul
da RMBH, incluídas, portanto, no referido polígono, tendem a apresentar maior dinamismo que
aquelas situadas ao Norte. Ademais, o significativo crescimento das atividades agropecuárias a
Oeste do Estado, nelas incluído a Região Noroeste, reforçam a situação relativamente privilegia-
da das áreas do Triângulo e Alto Paranaíba.
Entretanto, há que se ressaltar a significativa diferenciação interna a cada Região de Pla-
nejamento quando a avaliação – em termos de condições urbanas, aspectos infra-estruturais, or-
ganização produtiva e fatores de competitividade – é feita em nível microrregional. A avaliação
indica a existência de poucos centros urbanos com capacidade para estruturar o espaço urbano
sob sua influência, além de demonstrar que as atuais Regiões de Planejamento são insuficientes
para expressar a heterogeneidade presente no Estado.
No comércio exterior, Minas Gerais se apresenta como segundo principal Estado expor-
tador, apresentando uma pauta concentrada em produtos básicos (cerca de 43% do valor total
exportado em 2000, notadamente com minério de ferro e café), seguindo-se os manufaturados
com 33% do total. Comparado com outras pautas exportadoras estaduais, a mineira apresenta a
vantagem de ser principalmente originária do complexo metal-mecânico, setores onde a vanta-
gem competitiva do Brasil é pouco contestada. Por outro lado, observe-se que os produtos mi-
neiros exportados têm um conteúdo de valor agregado menor que os provenientes de outros
estados, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Ademais, na década de 90, o maior dinamismo
exportador é apresentado pelo Paraná, em especial pela força de seu complexo agroindustrial e
início de vendas externas de plantas automotivas lá instaladas.
Em termos de mercados de destino, mais de três quartos das exportações mineiras, pela
ordem, destinaram-se à União Européia, Ásia e ao Bloco da NAFTA.
Quanto ao futuro, um grave alerta se inscreve. É ele a brutal redução das intenções de
investimento anunciadas em Minas Gerais nos últimos anos. A magnitude da queda é: desde
1996, os investimentos declinaram sistematicamente, até atingir em 2000, menos da metade da-
queles anunciados naquele ano. Registre-se que, durante a década de setenta, Minas Gerais atraiu
31
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
25% de todo o investimento direto estrangeiro destinado ao Brasil. Já no ano de 2000, o equiva-
BDMG
40 anos
lente a 13% do total alocado por estrangeiros no País é que se dirigiram a Minas Gerais.
A conjugação desse dado com duas outras observações aqui feitas, quais sejam, que Mi-
nas Gerais é a mais pobre economia estadual do Sul–Sudeste e a imperiosa necessidade de
reformular a sua máquina pública, obriga os atores sociais e autoridades estaduais a se debruçar
sobre os detalhes de nossa economia.
Tendências de longo prazo e aspectos relevantes da infra-estrutura e dos setores produti-
vos (agropecuária, indústria e serviços) são apontados a seguir, destacando-se direções possíveis
para a política de fomento. Às abordagens setoriais e à perspectiva regional somam-se duas óti-
cas: a da RMBH e a da inovação. O acréscimo das duas espelha a importância que alcançaram
para o atual estágio da Economia Mineira.
5.1. Infra-estrutura: gargalos e espaços para intervenção estadual
Os serviços de infra-estrutura têm importante participação na riqueza do País e de Minas
Gerais. Os serviços industriais de utilidade pública, que, grosso modo, incorporam segmentos
do saneamento e da energia, têm participação de 4,5% no PIB estadual (ano de 2000). Estima-
se que os serviços de comunicações, que abarcam as telecomunicações, tenham peso superior a
1,9% no PIB estadual (ano de 2000) e, no caso dos transportes, a participação se aproxima de
3% do PIB.
Ademais, sua importância na qualidade de vida das pessoas e na produção de praticamen-
te todos os bens e serviços da economia reforçam sua relevância. Transporte e logística, sanea-
mento, telecomunicações e energia têm a natureza de bens públicos, isto é, bens que não são
produzidos em quantidade e qualidade suficientes sem a intervenção do Estado.
Através da provisão direta ou regulação da provisão não-estatal dos bens e serviços infra-
estruturais, o Estado deve garantir o acesso da sociedade à infra-estrutura. Do ponto de vista
institucional, cada nível de poder – federal, estadual e municipal – tem tarefas distintas nos di-
versos componentes de infra-estrutura. Tarefas que, tendo em vista a situação dramática de al-
guns componentes de infra-estrutura em Minas Gerais, especialmente o transporte, logística e
saneamento, não estão sendo desincumbidas satisfatoriamente.
Registrem-se, a propósito, as mudanças implementadas no governo federal, com a
privatização e a concessão ao setor privado de alguns ativos infra-estruturais, e a criação de agên-
cias reguladoras. Essas reformas avançaram rapidamente nos setores de telecomunicações e ener-
gia, mas ainda estão germinando nos setores de transporte, logística e saneamento. Não se pode,
entretanto, creditar o melhor desempenho aos setores cujas reformas já amadureceram, pois
estes já estavam mais bem-organizados, permitindo, inclusive, as mencionadas reformas. No en-
tanto, percebe-se nítido avanço nos setores em que existem marcos regulatórios, definição clara
das regras e instituições mais bem consolidadas.
O setor de telecomunicações evidencia que é possível avançar, aumentando o acesso da
população aos serviços, em um espaço de tempo relativamente curto. Apesar da distância em
relação ao nível de acesso nas nações mais desenvolvidas, em Minas Gerais os dados indicam
espantosa evolução na última década, especialmente na telefonia. Atualmente, com exceção da
zona rural, é possível obter acesso aos serviços de telefonia em praticamente todo o Estado. A
posse de telefone que, em 1993, era privilégio de 18,9 % da população, em 2000 alcançou 41%
32 Minas Gerais do Século XXI
dos domicílios mineiros. Obviamente, a renda das famílias é um fator inibidor da demanda, ain-
BDMG
40 anos
da que, para as faixas de menor renda, a atual disponibilidade de terminais públicos é, em larga
medida, indicativo de universalização. O realinhamento de tarifas, a privatização e a regulação,
eminentemente federal, implementadas no setor, foram essenciais na atração de investimentos e
na universalização dos serviços.
A heterogeneidade geoeconômica de Minas Gerais determina que o poder público esta-
dual atue junto ao governo federal e coordene os diferentes atores – escolas, municípios e agen-
tes financiadores – para assegurar recursos para a manutenção da universalização.
Contrariamente ao setor de telecomunicações, em que o papel do Poder Público Estadu-
al é residual, o setor de transporte e logística em seus diferentes modais – rodoviário, ferroviári-
os, dutoviário e aeroviário – reclama políticas estaduais ativas e incisivas, tanto junto ao governo
federal quanto coordenando municípios, realizando investimentos e exercendo o papel de poder
concedente.
A modalidade rodoviária em Minas Gerais está em situação de extrema precariedade,
impactando negativamente na qualidade de vida das pessoas, nos custos de produção e na deci-
são locacional de novas empresas. Aproximadamente 76% das rodovias estaduais e federais de
Minas Gerais estão em situação deficiente ou mau, segundo a classificação da Confederação
Nacional de Transportes (CNT). Gastos públicos com saúde provenientes de vítimas de aciden-
tes de trânsito representam grande parcela do orçamento da saúde, sem contar que os mais afe-
tados nos acidentes são indivíduos em plena atividade econômica que, se não perdem suas vi-
das, as comprometem permanentemente. Somente essa desalentadora questão já justificaria al-
çar a modalidade rodoviária como uma prioridade para o estabelecimento de políticas e
direcionamento de esforços do Poder Público Estadual.
Mas, a precariedade de nossas rodovias ainda impõe custos a um setor produtivo dela
muito dependente e, em conseqüência, afasta novos investimentos do Estado. A esse aspecto
somam-se a ausência de uma maior integração multimodal e a não-implementação de marcos
regulatórios. No caso da integração multimodal, a falta de coordenação entre os estados, junta-
mente com a ausência de regras para as ferrovias operadas pelo setor privado, são os maiores
impedimentos ao seu desenvolvimento.
TABELA 4
ESTADO GERAL DE CONSERVAÇÃO DA REDE RODOVIÁRIA PESQUISADA
BRASIL, REGIÃO SUDESTE E ESTADOS SELECIONADOS – 2001
Conceito (em % )
Extensão Avaliada
Estado % do Total
(km) B om Deficiente e Mau
Goiás 3.500 7,7 34,3 65,7
Minas Gerais 6.365 14,1 24,0 76
Paraná 2.771 6,1 55,6 44,4
Rio Grande do Sul 4.436 9,8 41,3 58,7
São Paulo 1.789 3,9 72,5 27,5
Sudeste 9.676 21,3 39,3 60,7
Brasil 45.294 100,0 31,3 68,8
FONTE: Pesquisa rodoviária 2001, CNT, 2002.
33
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Além dessas questões, o transporte público, especialmente na Região Metropolitana de
BDMG
40 anos
Belo Horizonte, padece pela falta de coordenação entre os municípios e carece da expansão do
trem metropolitano, fatores que influenciam de forma adversa o ordenamento territorial.
Portanto, a tarefa do Poder Público Estadual no setor de transporte e logística é extensa.
Na modalidade rodoviária, em particular, cabe aos nossos dirigentes atuar no sentido de: (1) atrair
o investimento privado e implementar a necessária regulação nas vias e sistemas operacionais
sob sua jurisdição, ou delegados pelo governo federal, que permitem retorno privado suficiente-
mente atrativo; (2) assegurar recursos públicos para adequação, recuperação e manutenção da
malha federal; e, (3) investir diretamente ou através de parcerias público-privadas (PPPs) nas
infra-estruturas estaduais de transporte que se mostram economicamente inviáveis para a atua-
ção do setor privado.
Saneamento e energia são dois setores nos quais Minas Gerais está em situação peculiar.
Em ambos, apesar de não ter a competência de poder concedente, o Estado opera as principais
empresas: Copasa e Cemig.
O saneamento é de responsabilidade municipal, ainda que se advogue a competência es-
tadual para o caso das regiões metropolitanas. A Copasa, empresa controlada pelo governo esta-
dual, é responsável pelo abastecimento de água e, em menor escala, esgotamento sanitário em
boa parte do Estado. O saneamento carece de marcos regulatórios, entidades fiscalizadoras da
qualidade dos serviços, definição de competências e, principalmente, mecanismos de financia-
mento eficientes. Na esfera estadual, a falta de regulamentação da Lei Estadual de Saneamento
e um dos atuais mecanismos de financiamento utilizados, através de subsídios cruzados, deter-
mina desigualdades no acesso, pois a Copasa não atende todos os municípios e tampouco provê
abastecimento e esgotamento sanitário na mesma escala da água. É nítida a preferência da
Copasa, em função da estrutura tarifária vigente, por oferecer serviços de abastecimento de água,
deixando o esgotamento sanitário relegado a segundo plano. Ressalte-se que a Copasa, histori-
camente, vem realizando investimentos físicos com recursos aportados de forma significativa
pelo governo estadual, ou seja, a empresa mineira de saneamento, em alguma medida, não ate-
nua as desigualdades no acesso ao saneamento por não atender todos os municípios do Estado
e tampouco atendê-los de forma homogênea.
Há uma maior carência em esgotamento sanitário e a presença de municípios fora da área
de atuação da Copasa com atendimento, em média, precário. As conseqüências são devastado-
ras, notadamente nas doenças relacionadas com a falta de saneamento e na degradação ambiental.
Na drenagem urbana e limpeza pública, outros componentes do saneamento, o governo
estadual está praticamente ausente. Na drenagem urbana, dos 853 municípios de Minas Ge-
rais, 671 (79%) relataram oferecer tais serviços. Trata-se de um serviço essencialmente provido
pela administração direta do Poder Público Municipal (99,5% dos municípios com serviço de
drenagem). Da mesma forma, na limpeza pública o serviço é predominantemente prestado
pela administração direta municipal, em 838 de 912 distritos (91,9%).
Apontados os problemas, torna-se transparente o papel precípuo do governo estadual no
saneamento, abrange definições regulatórias, desenho de mecanismos de financiamento e coor-
denação da ação municipal no setor, especialmente na RMBH. Registre-se, por fim, a existência
do Fundo Novo SOMMA, gerido pelo BDMG, destinado a investimentos municipais em sanea-
mento.
No setor de energia, da mesma forma que nas telecomunicações, o problema da
universalização do acesso está relativamente equacionado, em particular na energia elétrica, prin-
34 Minas Gerais do Século XXI
cipal fonte da matriz energética. Existem, contudo, carências localizadas na zona rural e proble-
BDMG
40 anos
mas de qualidade em algumas regiões. A Cemig, controlada pelo governo de Minas Gerais, é a
principal empresa do setor de energia elétrica, atendendo aproximadamente 90% dos municípi-
os e operando na geração, transmissão e distribuição. Como empresa verticalmente integrada, a
Cemig atualmente não está alinhada ao novo modelo do governo federal para o setor, que re-
quer a desverticalização da empresa e a criação de uma empresa comercializadora. O modelo
propicia, ainda, oportunidades a serem examinadas pelo Governo Estadual na condição de prin-
cipal acionista da Cemig.
De fato, a presença de empresas controladas pelo governo estadual em setores de infra-
estrutura permite uma melhor coordenação do Estado, que, ao contrário de outras unidades fe-
derativas, não precisa negociar com diferentes atores em cada setor infra-estrutural. Isso pode
representar menor risco aos investidores privados, pois a negociação para provisão de um con-
junto infra-estrutural – energia, saneamento e transporte – pode ser feita diretamente com o
Governo do Estado e não com múltiplos atores. O menor risco regulatório é fator determinante
na decisão locacional das empresas, mas, para isso ocorrer, é fundamental que as empresas esta-
duais se alinhem em torno das diretrizes do governo, de forma que todos possam, ao final, co-
lher resultados positivos.
5.2. Transformando o desenvolvimento da agropecuária
Nas últimas décadas, as transformações estruturais da agropecuária nacional agregaram,
cada vez mais, aos interesses ligados à propriedade da terra os da indústria, comércio e finanças,
configurando o avanço do agronegócio e reforçando a adoção do conceito de cadeias produti-
vas. A consolidação desse novo modelo firmou-se no tripé:
• crescente oligopolização, tanto a montante quanto a jusante da base agropecuária nas
cadeias produtivas;
• exclusão tecnológica de parcela significativa de produtores, derivada do constante apri-
moramento tecnológico da produção agropecuária, com impacto sobre o porte dos em-
preendimentos;
• mobilidade geográfica da base produtiva, dada a possibilidade, aberta pela tecnologia,
de incorporação de novas áreas à fronteira agrícola.
Nesse ambiente, assistiu-se à contínua expansão da agropecuária na direção oeste do Es-
tado e do País, concomitante à maior articulação dos setores industriais, comerciais e financei-
ros com a produção primária, bem como à profissionalização empresarial de boa parte dos pro-
dutores rurais. Em outras palavras, a agropecuária se tecnificou, em especial pela sua vinculação
crescente ao setor industrial, expressa no uso de máquinas, defensivos e insumos, além do
processamento de sua produção se realizar, cada vez mais, por plantas industriais de porte. A
sobrevivência econômica do produtor rural passa a depender, criticamente, de sua situação
tecnológica, capacidade de acoplar-se, em moldes empresariais, a estruturas comerciais e indus-
triais, muitas vezes, organizadas sob a forma de oligopólios. Deve-se observar que a maior efici-
ência dos setores industriais e logísticos supridores da agropecuária pode se traduzir em meno-
res preços pagos pelos produtores rurais na aquisição de máquinas, insumos e serviços. Estima-
se que cerca de 34% dos produtores rurais brasileiros encontram-se inseridos, em bases empre-
sariais, no agronegócio e respondem por 70% da renda agrícola.
35
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Em Minas Gerais, deve-se observar, em primeiro lugar que, na última década, a
BDMG
40 anos
agropecuária foi o setor de maior expansão no âmbito da economia mineira. O PIB setorial al-
cançou o crescimento médio anual de 4,1% a.a., apesar da redução de 12% na área cultivada.
Há avanços de produtividade, pelo uso cada vez mais difundido de tecnologias mais atualizadas,
apesar da grande heterogeneidade que marca o campo no Estado. Exemplificando os avanços
da produtividade da agropecuária mineira, observe-se que, em grãos, na safra de 2000, o Estado
alcançou 2.633kg/ha, ou seja, uma produtividade média superior em 11% da média nacional.
TABELA 5
PARTICIPAÇÃO RELATIVA DE ESTADOS SELECIONADOS NO
PRODUTO AGROPECUÁRIO A PREÇO BÁSICO (%)
1970* 1985 1999
Minas Gerais 11,9 14,7 11,4
São Paulo 16,2 18,0 20,8
Paraná 12,1 12,7 11,5
Rio Grande do Sul 15,9 11,3 13,2
BRASIL 100,0 100,0 100,0
FONTE: 1970: IBGE. Séries Históricas do Brasil.
1985 e 1999: IBGE. Contas Regionais do Brasil, 1985 - 1999.
* Produto Agropecuário a Custo de Fatores.
Elaboração: Fundação João Pinheiro.
As diferenças em relação a outras economias agropecuárias estaduais fundamentam-se,
de um lado, na contínua expansão da fronteira em direção ao Centro-Oeste e mesmo para al-
guns estados do Norte e Nordeste; e, de outro, na desfavorável evolução de preços relativos,
que se fez sentir com maior intensidade em Minas Gerais do que em São Paulo. Ou seja, a traje-
tória declinante dos preços internacionais do café desde 1997 e a simultânea e contínua depreci-
ação nos preços pagos ao produtor de leite representaram perdas para o produto agrícola destes
segmentos que, em Minas Gerais, respondem por 35% deste produto setorial.
Em face da evolução de preços relativos desfavorável, a contribuição da agropecuária para
o PIB estadual declinou de 11,2% em 1990 para 8,5% em 2000. Da mesma forma, muito embo-
ra Minas Gerais mantenha-se, historicamente, como um dos principais contribuintes para a pro-
dução agropecuária primária do País, registra-se redução da participação mineira sobre o produ-
to agropecuário brasileiro: de 12,6%, em 1990, para cerca de 11% em 2000, rebaixando Minas
Gerais de segunda para a quarta posição, em termos de maiores contribuições estaduais para o
produto agropecuário nacional. Observe-se, em contraposição, o notável crescimento da
agropecuária paranaense, cujo crescimento de produto foi de tal ordem que superou os efeitos
adversos de preços relativos.
Se a contribuição da agropecuária ao PIB estadual é declinante, o mesmo não se pode
dizer do comportamento do setor em outras áreas. No comércio exterior, a agropecuária
viabilizou a geração de superávits comerciais e a obtenção de divisas e, no mercado interno,
manteve a regularidade do abastecimento da demanda por alimentos, contribuindo no controle
dos preços da economia.
36 Minas Gerais do Século XXI
Por outro lado, alguns fatores, dentre os quais a adoção de melhores práticas gerenciais e
BDMG
40 anos
tecnológicas, os ganhos de escala e os avanços da produtividade tiveram impacto francamente
negativo sobre a ocupação da mão-de-obra, onde se confirma a histórica tendência declinante
relativa: de mais de 50% do total de pessoal ocupado no Estado em 1970, passa para 33% em
1980, 26% em 1991, reduzindo-se para menos de 22% em 1999.
Não obstante as transformações setoriais, a pauta produtiva em Minas Gerais continua
fortemente concentrada em três produtos: café, leite e carne bovina. Esses produtos perfazem
mais de 57% do valor bruto da produção agropecuária. Estão presentes ainda três outras cadei-
as agroindustriais comparativamente menos expressivas: cana-de-açúcar, frutas, e algodão, cujo
surgimento é mais recente. Sem que se configure o aspecto da transformação industrial da soja,
com a mesma intensidade do Sul do País, comparecem, ainda, quatro cadeias produtivas de grãos
(milho, arroz, feijão e soja), além da produção de batata e mandioca.
O café produzido em Minas Gerais responde por 48% do total nacional; a batata por 30%
do obtido no País; os grãos – neles incluídos arroz, feijão, milho e soja – por 8% do total, e
nestes, com nítido predomínio do milho e feijão. Ao mesmo tempo, a diversidade regional do
Estado em termos climáticos, edáficos e biológicos propicia uma pauta agrícola diversificada,
contendo produtos tais como o abacaxi (24% do nacional), a quarta produção de laranja, além
de hortifrutis como o alho e o tomate.
Quanto à atividade pecuária, o Estado tem uma participação média de 11% no valor bru-
to da produção nacional, sublinhando-se que a safra mineira do leite responde por 30% da naci-
onal, enquanto Minas Gerais abriga o segundo rebanho bovino, é o segundo produtor de ovos,
tem o quarto rebanho suíno e o quinto plantel de aves. Na pecuária, os avanços foram notáveis
durante a última década, registrando a expansão de 67% do plantel de suínos, 57% na avicultura
e de 30% na bovinocultura de corte. A par da modernização da atividade mediante a maior
presença dos “empresários rurais”, a erradicação da febre aftosa e a ampliação dos mercados
externos se apresentam como indutores da expansão.
O desafiante objetivo de transformar Minas Gerais no principal espaço do agronegócio
do Brasil tem fundamento na produção primária descrita, à qual se deve acoplar um
posicionamento estratégico centrado nos conceitos de cadeia produtiva, competitividade e ar-
ranjos produtivos regionais e locais. Para garantir a competitividade da agropecuária mineira
como forma de melhor inseri-la, de forma sustentável, nos mercados mundiais, além de garantir
o abastecimento doméstico, faz-se necessário observar algumas condições estruturais, que re-
presentam alvos preferenciais para as políticas públicas:
• a existência de um grande contingente de produtores tradicionais, pouco articulados
com o setor industrial,que têm na terra e no trabalho os fatores de produção quase
exclusivos;
• a convivência de regiões de uso intensivo de tecnologia e alta produtividade com ou-
tras de base produtiva rudimentar, orientadas para a sobrevivência;
• a heterogeneidade espacial expressa no aprofundamento da concentração produtiva nas
áreas de cerrado no Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste, em detrimento das demais
regiões;
• a diversidade de formas de exploração (tradicional versus empresarial) e a diferencia-
ção do mercado atendido (abastecimento doméstico ou exportações);
37
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
• o nível de elaboração da produção primária (in natura ou processado industrialmente);
BDMG
40 anos
• os diferentes níveis de conteúdo tecnológico disponíveis e/ou utilizados no setor
agropecuário.
A esse conjunto de variáveis, somam-se a crise fiscal vivenciada em Minas Gerais e o na-
tural envelhecimento de instituições, a maior parte delas estabelecidas há mais de três décadas.
Assim, registra-se perda de efetividade e capacidade operacional em algumas instituições – a
exemplo da Emater, Ruralminas e Epamig. Toda essa variada gama de problemas determina a
oportunidade da revisão do papel do Estado, implicando a necessidade de revisão tributária, o
reforço da regulamentação, normatização e fiscalização sanitária, tarefas a serem desempenha-
das em grande parte pela Administração Estadual, em colaboração com as autoridades federais
e municipais.
A reestruturação do sistema operacional da agricultura é percebida como fundamental,
tanto pelos seus próprios quadros técnicos e diretivos quanto pelos agentes privados do setor.
O debate se instaurou desde a década de 80, já com resultados parciais mediante a criação do
Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), do sistema de informação Agridata e da federalização
da Cia. de Armazéns e Silos de Minas Gerais (Casemg) e das Centrais de Abastecimento de Mi-
nas Gerais (Ceasa).
5.3. Consolidando posições na mineração
Os minérios são a principal base produtiva de Minas Gerais, por fornecer os insumos do
complexo metal-mecânico e pela sua presença marcante na pauta de exportações mesmo em
estágios de menor elaboração industrial. Comparecem, ainda, no início da indústria da constru-
ção, através do cimento e da produção agrícola, mediante o fosfato.
Sua relevância econômica não é traduzida de forma plena pela participação no PIB de
Minas Gerais, que é bem pequena (1,6% em 2000), mas a participação da indústria extrativa mi-
neral do Estado de 7,6% no total nacional espelha uma das especializações produtivas mineiras.
Duas tendências de longo prazo determinam a redução do peso de Minas Gerais na pau-
ta mineral brasileira, que declinou de 12,6% em 1985 para 7,6% em 1999. São:
• a expansão da fronteira mineral em direção aos Estados do Pará (notadamente o Proje-
to Carajás), Goiás e Bahia;
• os notáveis avanços alcançados na extração de petróleo no Rio de Janeiro.
O diagnóstico atual da mineração no Estado de Minas Gerais tem como principal con-
clusão que a grande maioria das substâncias atualmente em exploração no Estado deve manter
sua produção no futuro pelo menos no intervalo dos próximos dez anos.
A análise das sete principais substâncias minerais em produção no Estado (ferro, ouro,
zinco, níquel, nióbio, fosfato e calcário) indica:
• ritmo de crescimento: sendo uma atividade madura apresenta taxas de crescimento mode-
radas no âmbito mundial, brasileira e estadual; entretanto, algumas substâncias explo-
radas em Minas Gerais (zinco e fosfato, por exemplo) devem continuar apresentando
taxas de crescimento relativamente elevadas;
38 Minas Gerais do Século XXI
• proeminência do Estado em relação ao País: espera-se uma maior retração da participação do
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40 anos
Estado, em especial pelos projetos da CVRD no Pará, notadamente de cobre e níquel
e, em menor escala, de bauxita e alumina;
• diversificação da pauta produtiva: a importância relativa do ferro tem se ampliado e deverá
prosseguir em Minas Gerais;
• principais substâncias minerais: as perspectivas de mercado – oferta, demanda e preços –
são favoráveis para seis das principais substâncias, revelando-se insatisfatórias para o
níquel pela exaustão próxima das reservas, enquanto nas demais haverá substituição de
minas;
• perfil das empresas e mercado: a mineração é exercida em Minas Gerais por empresas de
grande porte, nível “classe mundial”, operando em estruturas oligopólicas de mercado
e direcionadas para a demanda internacional. Não foram identificadas vulnerabilidades
decorrentes de flutuação de preços. As substâncias com maior dependência do merca-
do doméstico são fosfato e calcário.
Para as sete principais substâncias minerais não se constataram deficiências quanto à
competitividade estrutural ou empresarial. Assim, as ações públicas requeridas são a manuten-
ção do mapeamento aerogeofísico e básico pela Comig, além de se promover uma revisão nos
procedimentos operacionais da FEAM, IEF e IGAM com vistas à simplificação e celeridade.
Já a situação das micro, pequenas e médias mineradoras é bastante diversa. A melhor atu-
ação do Estado junto a tais empresas poderia ocorrer a partir do desenvolvimento de seu pró-
prio sistema estatístico em relação à mineração, o que já havia sido sugerido pelo BDMG em
“Economia Mineira – 1989: diagnóstico e perspectivas”, mediante a proposta de criação do De-
partamento Estadual de Produção Mineral.
A avaliação qualitativa das 24 substâncias minerais exploradas pelas empresas de menor
porte identificou que 11 delas se inscrevem na cadeia produtiva da construção civil e 7 na meta-
lurgia/siderurgia. Perspectivas desfavoráveis de crescimento foram vislumbradas para seis subs-
tâncias: cassiterita, feldspato, manganês, mica, talco e tantalita. Apenas em duas substâncias (água
e lítio) os impactos ambientais foram avaliados como baixos enquanto, no outro extremo, cin-
co foram tidas como de alto impacto: ardósia, areia para construção, argila, diamante e gemas,
quartzito.
Há notórias deficiências na competitividade empresarial e setorial; por isso, sugerem-se
iniciativas voltadas para o treinamento gerencial, regularização empresarial, redução de impac-
tos ambientais adversos, agregação de valor ao produtor, bem como a adoção de formas de
cooperação empresarial.
Tais iniciativas devem partir da identificação, em cada segmento de mercado atendido, das
estratégias capazes de alcançar melhor inserção competitiva, seja mediante a complementaridade/
competição com a grande empresa, seja mediante a busca de nichos e interstícios de mercado.
5.4. Integrando a indústria para o futuro
O parque industrial mineiro hoje contribui menos para o emprego direto do que no iní-
cio da década de 80. Se antes, em 1980, participava com cerca de 24% do pessoal ocupado, em
1999 viu sua absorção da mão-de-obra reduzir-se para quase 21%. Tal redução, reflexo tanto do
39
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
quadro recessivo da década de 80 quanto do ajuste “híbrido” dos anos 90 não retira da indús-
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40 anos
tria o caráter de motor do desenvolvimento, por abrigar a “chave” da inovação tecnológica e
ser capaz de gerar efeitos retroalimentadores da contínua expansão.
TABELA 6
PARTICIPAÇÃO RELATIVA DE ESTADOS SELECIONADOS
NO PRODUTO INDUSTRIAL* A PREÇO BÁSICO
1970** 1985 1999
Minas Gerais 6,9 9,3 10,4
Rio de Janeiro 15,3 13,2 12,9
São Paulo 56,4 43,6 36,4
Paraná 3,0 4,8 6,7
Rio Grande do Sul 6,3 7,0 7,7
BRASIL 100,0 100,0 100,0
FONTE: 1970: IBGE. Séries Históricas do Brasil.
1985 e 1999: IBGE. Contas Regionais do Brasil, 1985 - 1999.
* Produto Industrial inclui o produto das indústrias extrativa mineral e de transformação, serviços de utilidade pública e
construção.
** Produto industrial a custo de fatores.
Elaboração: Fundação João Pinheiro.
Conforme já antecipado, a indústria mineira tem dois pilares de sustentação inicial, ou
seja, a agroindústria e a extração mineral, ambas completadas dentro dos limites geográficos
do próprio Estado. Em uma perspectiva quase secular, o seu desempenho registra um impulso
notável, pois, de 1960 para 1999, viu saltar sua participação relativa na indústria nacional de
meros 6% para 10,0%.
Dos quatro subsetores que integram o setor industrial em Minas Gerais, o mais impor-
tante é a indústria de transformação que, em 2000, respondia por pouco mais da metade do
produto industrial. Entretanto, nos últimos quinze anos a indústria de transformação tem assis-
tido à perda de sua contribuição para a geração do produto tanto nacionalmente quanto em Mi-
nas Gerais.
O desempenho da indústria de transformação não é linear nos últimos trinta anos. Ao
surto industrializante dos anos setenta seguiu-se a sustentação do crescimento, pela via das ex-
portações, nos anos oitenta, procedendo-se à reestruturação produtiva nos anos 90.
Em todos esses momentos, o “carro-chefe” em Minas Gerais foi o complexo metal-me-
cânico, reforçando-se, nos anos 90, a integração industrial das economias mineira e paulista. Na
década, os Estados do Sul e Sudeste foram beneficiários da desconcentração industrial de São
Paulo. Se tal tendência é inconteste, a posição relativa de Minas Gerais não o é, ainda que se
busquem os dados na mesma fonte, no caso, o IBGE. Caso essa participação seja consultada
nas contas regionais, Minas Gerais se apresenta como a quarta economia industrial do País, con-
tribuindo com 9% do valor adicionado bruto. Já a Pesquisa Industrial Anual para o mesmo ano
de 1999 indica que Minas Gerais seria a terceira economia estadual, com 9,6% pouco à frente,
portanto, da economia gaúcha.
40 Minas Gerais do Século XXI
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40 anos
TABELA 7
PARTICIPAÇÃO DOS GÊNEROS NO PIB DA INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO
DE MINAS GERAIS - 1985 E 2000 - (%)
2000(1)
ESPECIFICAÇÃO 1985
Bens de Consumo Não Duráveis 24,8 25,2
Produtos alimentares 10,1 15,9
B ebi das 0,8 3,7
Fumo 1,6 1,7
Têxtil 7,5 1,6
Perfumaria, sabões, velas 0,2 1,3
Mobiliário 1,0 0,9
Vestuário, calçados e artefatos de tecidos 3,6 0,1
Bens de Consumo Intermediário 54,6 49,5
Metalurgia 32,0 24,7
Quimica 14,3 13,2
Minerais não-metálicos 6,6 10,1
Papel e papelão 1,7 1,5
Produtos de matéria plástica 1,0 0,2
Bens de Consumo Duráveis e de Capital 7,0 12,0
Material de transporte 4,7 11,6
Material elétrico e de comunicação 2,4 0,4
(2)
Outras 10,6 10,3
Autônomos 1,9 2,8
Indústria de Transformação 100,0 100,0
Fonte: IBGE/DECNA e FJP/CEI.
Elaboração: Fundação João Pinheiro.
Notas: (1) Resultados preliminares;
(2) Inclui Mecânica, Madeira, Borracha, Couros e peles, Produtos farmacêuticos e veterinários, Editorial e Gráfica
e Diversos.
A participação do complexo metal-mecânico de Minas Gerais no produto industrial es-
tadual passa de 37,5%, em 1960, para 51%, em 1999. A diversificação do complexo se fez
notadamente a partir das indústrias automotiva e mecânica, esta última em bases mais frágeis e
gravemente afetada pela crise dos anos 80 e, ainda, sofrendo os efeitos do ajuste produtivo em
curso.
Os dois pontos fortes do complexo metal-mecânico de Minas Gerais são:
• as intensas transações de compra e venda dos setores localizados na base do complexo
– siderurgia, produtos metalúrgicos e metálicos não-ferrosos – com os setores nos elos
superiores do complexo, ou seja, a sua forte integração interna e,
• o desenvolvimento recente da indústria de material de transporte, de sorte a legitima-
mente designá-lo como uma “cadeia produtiva”, pelas fortes relações de compras, não
apenas internas ao segmento automotivo, mas alcançando, ainda, o de máquinas e equi-
pamentos.
41
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Suas fragilidades residem:
BDMG
40 anos
• nos segmentos material elétrico, equipamentos eletrônicos e de telecomunicação, e
• na perda de importância da indústria mecânica.
Em termos prospectivos, destaca-se ainda como promissor o vetor da industrialização do
agronegócio, ressaltando que, até então, o parque agroindustrial do Estado está aquém da
potencialidade oferecida pela base agropecuária. À exceção de laticínios, em todos os demais
segmentos observam-se lacunas a serem ocupadas, desde a cafeeira e de carnes, passando por
couros, óleos e massas, sucos e conservas, bem como açúcar e álcool. Sugere-se que tais lacunas
podem estar associadas à menor escala das plantas industriais, porte de empresas e menor pre-
sença de cooperativas.
A cadeia produtiva da construção civil é o segundo subsetor de maior peso na indústria
mineira. Na última década que se encerrou, a construção civil viu aumentar sua participação no
PIB mineiro de 8,5% para 13,3%. Além dessa importância, cumpre registrar:
• em Minas Gerais, a construção civil tem sua base produtiva estabelecida internamente,
na produção de minerais não-metálicos, que responde por 10% do valor da produção
manufatureira, além de em outros gêneros industriais de menor expressão, como os da
cerâmica branca e vermelha;
• o know-how acumulado em atividades de construção metálica e em pré-moldados de con-
creto confere a Minas Gerais vantagens singulares;
• a relevância da indústria de construção civil para a ocupação da mão-de-obra, respon-
dendo por algo próximo a 6% do total em 1999, tendo chegado a contribuir com cerca
de 10% em 1980.
Na cadeia da construção civil, os esforços devem se dirigir para a disseminação de técni-
cas construtivas orientadas à elevação da produtividade. Outra oportunidade reside na padroni-
zação e controle de qualidade na manufatura de materiais construtivos, o que pode propiciar a
obtenção de ganhos de escala.
Na cadeia têxtil, realizou-se um decisivo processo de modernização de plantas, acompa-
nhado da concentração industrial, nos segmentos de fiação, tecelagem e malharia. Em Minas
Gerais, hoje, o que ressalta é tanto a pequena dimensão do segmento confeccionista e sua capa-
cidade de gerar empregos quanto a possibilidade de se alavancar o seu desenvolvimento medi-
ante a abordagem de “aglomeração produtiva”.
Do ponto de vista espacial, foram identificadas 40 aglomerações produtivas nas diversas
regiões do Estado, com múltiplas dimensões econômicas e variados estágios de cooperação, atua-
lização tecnológica e capacitação gerencial. Ao lado do predomínio das aglomerações em indús-
trias maduras, tais como a têxtil e confecções, calçados, madeira e mobiliário, extrativa mineral e
materiais de construção, foram identificadas aglomerações em atividades de maior conteúdo
tecnológico, tais como biotecnologia, material de transporte, química, material elétrico e de co-
municação.
Tanto para os complexos metal-mecânico e agroindustrial e cadeias produtivas da cons-
trução e têxtil, quanto para as aglomerações produtivas, à palavra de ordem, já corriqueira, de
avançar no enobrecimento da produção e incorporação de produtos de maior conteúdo
tecnológico se soma a necessidade de “ir além”. Trata-se de assegurar que vantagens compa-
42 Minas Gerais do Século XXI
rativas ditadas pelas dotações de recursos sejam incorporadas, ao lado de economias externas
BDMG
40 anos
e de escala. Requer, ainda, internalizar as mudanças associadas a tecnologias de informação e
novas formas de organização do trabalho, pela busca incessante de inovações, “design”,
marketing, customização, serviços pós-venda. Assim, além de obter a excelência fabril, há que
rejuvenescer continuamente a linha de produtos e serviços a ele associados, agregar valor a
outros elos da cadeia além da planta industrial, agora sob o primado dos “ativos intangíveis”.
Nesse sentido, o estabelecimento de um sistema nacional e estadual de inovação se impõe como
prioritário e fundamental.
O detalhamento de políticas consistentes com a direção proposta e a sua plena
implementação pressupõe, em Minas Gerais, a modernização do sistema estadual de fomento
concebido para a atração de grandes projetos industriais.
Ao mesmo tempo, elencam-se as seguintes premissas e proposições para a ação governa-
mental:
• ênfase exportadora;
• substituição competitiva e seletiva de importações;
• reforço da infra-estrutura econômica associada à supra-estrutura de serviços do
“quaternário”;
• articulação com o governo federal;
• nucleação em aglomerações produtivas locais.
Ao avançar na elaboração de uma política industrial, há que se reconhecer, nas cadeias de
produção, a eventual ocorrência de empresas-líderes, pois elas imprimem o impulso dinâmico a
toda a cadeia.
Nas aglomerações produtivas em que inexista a empresa-líder, a ação pública requerida tor-
na-se mais abrangente, envolvendo desde iniciativas nas áreas educacionais e de defesa da concor-
rência, passando por esforços para coordenar a interação do tecido empresarial, além da
regulação e fiscalização. Compara-se o escopo de ação pública nessas aglomerações produtivas ao
extensionismo rural e ganha maior destaque a necessária participação – ou mesmo liderança – de
entidades empresariais e do poder público municipal na condução de iniciativas com vistas ao
melhor desenvolvimento das aglomerações produtivas. Em tais situações, cogita-se da reedição,
em versão atualizada, das “Jornadas de Desenvolvimento” promovidas na década de 70.
5.5. Serviços
Diversidade é a característica intrínseca do setor de serviços. Sua abrangência comporta,
desde a administração pública e a intermediação financeira, até aluguéis e serviços domésticos,
depois de abrigar a operação de infra-estrutura de transporte, armazenagem e comunicação, den-
tre os seus componentes principais. À soma dos serviços com a construção civil, convenciona-se
aqui designação de “setor terciário”.
É do conjunto heterogêneo de atividades abrigadas sob serviços que hoje deriva a maior
parcela do PIB mineiro (cerca de 48% do total), em que se provê o grosso da ocupação para a
população: quase 58% do total. Se acrescentarmos a ocupação oferecida pela construção civil, o
Terciário responde por 64% da ocupação total.
43
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Na tradição da literatura quanto a “estágios de desenvolvimento”, Minas Gerais teria
BDMG
40 anos
assim alcançado a posição da “economia pós-industrial” não fora por qualificativos decisivos.
Primeiro, em economias emergentes, o crescimento do terciário mais do que refletir um está-
gio “superior” de desenvolvimento – portanto após a sociedade agrícola e depois da
maturação dos frutos de duas revoluções industriais – pode indicar, mediante o “inchaço do
terciário”, a erosão de relações tradicionais no campo, combinada com industrialização em
ritmo insuficiente para absorver os excedentes populacionais que migraram para os centros
urbanos.
O segundo qualificativo decorre das novas tendências, em escala global, e os conseqüen-
tes ajustes promovidos na economia brasileira. Os ajustes resultam, tanto do surgimento de ati-
vidades intensivas em conhecimento – tendo a produção de softwares, talvez, como o seu me-
lhor exemplo –, quanto de reestruturações empresariais, em que se realizou a busca da eficiên-
cia produtiva, muitas das vezes, pela via do desemprego. Em ambos os aspectos apura-se um
crescimento da ocupação no terciário, entretanto, com conotações opostas.
O desenvolvimento de atividades intensivas em conhecimento e gestão – logística, design,
marketing e infovias, por exemplo – leva especialistas a identificar um “setor quaternário” a ser
apartado do terciário tradicional. Já o desemprego da mão-de-obra industrial se traduz, com fre-
qüência, em aumento de ocupação no terciário pela obtenção da nova ocupação, ainda que tran-
sitória, em atividades ali compreendidas.
A evolução do setor terciário mineiro pode ser feita sob a ótica do pessoal nele ocupado,
que por convenção é desagregado em:
• “serviços produtivos”, nos quais se incluem, do Censo Demográfico, os ramos de ati-
vidade comércio, construção civil, transportes e comunicação, além de serviços auxilia-
res às atividades;
• “outros serviços”, aos quais se somam as ocupações oferecidas nos ramos da adminis-
tração pública, social, prestação de serviços e outras atividades.
O uso combinado dessas categorias analíticas utilizadas nos Censos Demográficos com
as utilizadas nos Censos Econômicos sugere a ocorrência, em Minas Gerais, nos últimos trinta
anos, de todas as tendências referidas.
TABELA 8
PARTICIPAÇÃO RELATIVA DOS SERVIÇOS PRODUTIVOS* (%)
POR UNIDADE FEDERATIVA SELECIONADA
1970 1980 1991 2000
Minas Gerais 95,46 103,74 101,09 99,64
São Paulo 103,13 100,96 104,72 104,96
Rio de Janeiro 106,88 91,81 94,61 97,98
Paraná 104,97 104,23 107,10 104,40
Rio Grande do Sul 99,76 99,75 101,91 104,85
BRASIL 100,00 100,00 100,00 100,00
FONTE: FIBGE. Censos Demográficos 1970, 1980, 1991 e 2000.
* Pessoal Ocupado em Serviços Produtivos / Pessoal Ocupado no Terciário.
Elaboração: Fundação João Pinheiro.
44 Minas Gerais do Século XXI
Em 1970, as atividades serviços em Minas Gerais absorviam 34% do pessoal ocupado e
BDMG
40 anos
aqueles nos serviços produtivos perfaziam um quociente em relação ao total do terciário inferior à
média então apurada para o País. É clara a indicação, portanto, de que Minas Gerais se apresen-
tava ainda como uma economia com fortes bases agrárias.
Já em 1980, no auge, portanto, do surto industrializante mineiro, o pessoal ocupado em
serviços alcança 43%, e o quociente dos lotados em serviços produtivos passa a ser nitidamente supe-
rior ao quociente médio verificado para o País, sugerindo que o impulso industrial se fez acom-
panhar de expansão nas atividades terciárias dentro das fronteiras do próprio Estado. Naquela
ocasião, Minas Gerais participava com 8,4% do PIB nacional mensurado para as atividades de
serviços.
Os efeitos plenos dos grandes projetos industriais em Minas Gerais ocorrem ao longo da
década de 80, fazendo-se acompanhar de urbanização em um quadro nacional recessivo. Essas
trajetórias se expressam nos serviços em 1990, quando o setor passa a responder por 51% da ocu-
pação. Tal indicador poderia vir a ser entendido como sugestivo de uma “sociedade pós-indus-
trial”. Entretanto, o próprio contexto recessivo e a redução observada na relação serviços pro-
dutivos/total, tanto absoluta, quanto no comparativo com o resto do País, induzem à cogita-
ção de que o conceito de ”inchaço do terciário” descreve melhor o fenômeno.
Encerra-se a década de 90 com o setor de serviços mineiro participando com 9,3% do pro-
duto setorial nacional, percentual que, por ser inferior às participações setoriais mineiras na
agropecuária e industrial do País, expressa, portanto, que o grau de “profundidade” dos serviços
no Estado não se realizou de forma plena. Entendida a economia estadual no espaço nacio-
nal, fica sugerido que muitos dos efeitos indiretos em serviços, gerados pela agropecuária e in-
dústria mineiras extravasam a fronteira estadual e se fazem sentir, em centros urbanos
polarizadores situados em Estados limítrofes, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A
afirmativa é corroborada ao se observar que, apesar do significativo crescimento, em Minas
Gerais, do quociente população ocupada em serviços produtivos/total de ocupação no
terciário de 44%, em 1991, para 53% em 2000, tal incremento se fez em proporção inferior à
evolução do quociente nacional.
TABELA 9
PARTICIPAÇÃO DO SETOR SERVIÇOS NO PIB DE MINAS GERAIS
A PREÇOS BÁSICOS - MINAS GERAIS - 1985 - 1999 (%)
1985 1999
Comércio e reparação de veículos e de objetos pessoais e de uso doméstico 9,1 7,8
Alojamento e alimentação 2,1 1,8
Transportes e armazenagem 3,1 2,7
Comunicações 0,8 1,9
Intermediação financeira 9,2 3,7
Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços prestados às empresas 4,2 12,4
Administração pública, defesa e seguridade social 7,1 14,1
Saúde e educação mercantis 1,7 2,7
Serviços domésticos e outros serviços 1,2 2,1
Setor Serviços 38,5 49,2
FONTE: IBGE. Contas Regionais do Brasil - 1985 - 1997, 1998 e 1999.
Elaboração própria.
45
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
Na comparação da estrutura desagregada em atividades do Censo Econômico no setor
serviços em Minas Gerais nos anos de 1985 e 1999, identifica-se, claramente:
• a notável expansão da “administração pública”, indicativa provável de maiores dispên-
dios em políticas sociais, neles incluídas a seguridade social;
• o significativo crescimento de “saúde e educação mercantis”, expressão possívelmente
derivada tanto das falhas de governo em provê-las quanto do crescimento e sofistica-
ção da demanda por tais serviços;
• o incremento extraordinário de “comunicações” devendo-se reportar à universalização
do atendimento nas telecomunicações, ao “realismo tarifário” e a novos serviços
ofertados;
• a redução de importância relativa do comércio, transportes e armazenagem, uma pro-
vável decorrência de maior eficiência nas atividades, seguida de redução de margens e,
ainda, da força gravitacional que centros em Estados limítrofes têm exercido.
• a acentuada perda de participação da intermediação financeira, em parte decorrente da
eliminação, após o Plano Real, das transferências de rendas determinadas pela inflação,
uma segunda parte, resultante do posterior “enxugamento” no sistema financeiro e, uma
terceira parte, talvez proveniente de imposições metodológicas na forma de apuração
da atividade no PIB, mediante imputação. A propósito de metodologias de cálculos, não
foi possível esclarecê-las também para o crescimento observado em “aluguéis”.
Entretanto, o aspecto atual mais relevante do setor serviços ainda não se expressa de for-
ma clara e direta na apuração do PIB. Refere-se à contribuição que as atividades dos serviços –
em especial as intensivas em conhecimento – agregam à agropecuária e indústria. São os impac-
tos de serviços decorrentes de inovação tecnológica e gerencial, qualificação da força de traba-
lho, “design”, marketing, logística e comercialização. Os efeitos desses serviços se expressam, no
PIB, especialmente pela agregação de maior valor bruto de produção às atividades primárias e
secundárias, além de reduzir o custo relativo de insumos adquiridos por essas atividades, contri-
buindo assim para ampliar o valor agregado nelas apurado.
46 Minas Gerais do Século XXI
6. Por um sistema estadual de inovações
BDMG
40 anos
O progresso tecnológico constitui, desde tempos imemoriais, a alavanca essencial das
civilizações. Configura e conforma as estruturas produtivas, sociais e políticas, representando
o elemento diferenciador de países e regiões. Sua trajetória escreve a história das sociedades.
No mundo contemporâneo, chamado de sociedade informacional, a primazia da ciência e
tecnologia se tornou quase absoluta. Reconheça-se, entretanto, que o seu desenvolvimento tem
pressupostos e condicionantes, cabendo aos agentes econômicos — públicos e privados —
estabelecer políticas conducentes à geração do conhecimento e seu desdobramento, como ino-
vação, para a estrutura econômica, social e política. Ademais, destaque-se que, em países de-
senvolvidos, é intenso o entrelaçamento entre as dimensões científicas e tecnológicas, pois, se
é verdade que a ciência é fonte para a tecnologia, a direção oposta, a da tecnologia moldar a
ciência, também é verificável. Pode-se mesmo afirmar que o marco diferenciador das socieda-
des avançadas é a existência de forte interação entre Ciência e Tecnologia (C&T), por meca-
nismos retroalimentadores capazes de estabelecer o círculo virtuoso do desenvolvimento sus-
tentado.
Identificam-se três grupos de países em termos de infra-estrutura e interação de C&T.
Abaixo de dois grupos, o primeiro integrado pelas economias avançadas, e o segundo por países
em processo de catching up, é no terceiro grupo que o Brasil se insere. Nesse grupo, a produção
científica ainda não constituiu massa crítica suficiente para forjar fortes interações entre a infra-
estrutura científica e a produção tecnológica. Em termos nacionais, o sistema de inovação reve-
la-se ainda imaturo, fortemente concentrado em São Paulo, mas já no limiar do ponto de inflexão.
Os mesmos indicadores adotados para identificar grupos de países quando aplicados para as eco-
nomias estaduais revelaram um quadro mais desalentador para a inovação em Minas Gerais.
Para Minas Gerais e o Brasil, a interação de C&T se torna referência central ao estabele-
cer a “nova agenda” do desenvolvimento. Partindo-se de que seja correto o diagnóstico de que
ganhos significativos de competitividade já foram auferidos em segmentos mais organizados
dessas economias, que em outros há ainda aprimoramentos a incorporar e, por fim, que o rumo
a ser perseguido, em ambos os casos, é “ir além”, o caminho a ser trilhado é necessariamente o
da inovação.
Inovação, conforme aqui já salientado, se manifesta não apenas no “chão da fábrica” ou
em “campos e pastagens cultivados”, mas na diferenciação dos produtos pela via do design e
marketing, na logística associada à produção, na busca incessante – no país e no exterior – por
novos mercados ou nichos deles, entre outros aspectos. Não deve passar despercebido que a
inovação da gestão pública também se inscreve nessa perspectiva.
É sob essa lógica que se advoga, com veemência, o estabelecimento de um Sistema Es-
tadual de Inovação em Minas Gerais, seguindo conceitos da literatura schumpeteriana, aqui
resumidos, de forma adaptada:
Uma construção planejada ou mesmo desarticulada que impulsiona o progresso tecnológico. Medi-
ante o seu estabelecimento, assegura-se o fluxo de informações necessárias ao processo de inovação
tecnológica. Envolve firmas, redes de interação entre empresas, agências governamentais, universi-
dades, centros de pesquisa, laboratórios de empresa, atividades de cientistas e engenheiros, integra-
dos e interagindo em arranjos institucionais. Estes arranjos articulam-se com o sistema educacio-
nal, setores empresariais e financeiros, de sorte a formar um circuito de agentes responsáveis pela
geração, implementação e difusão das inovações.
47
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
A proposta desdobra-se em dois blocos de questões:
BDMG
40 anos
• a formulação de um plano estratégico de inovação aderente à estrutura produtiva atual
e à possível;
• o arranjo articulador dos produtores, gestores, divulgadores, financiadores e
demandantes da ciência e tecnologia.
Para a segunda questão, propõe-se o estabelecimento do Conselho Estadual de Inova-
ção, composto por 17 representantes dos agentes de C&T em Minas Gerais, e a quem competi-
ria definir políticas e diretrizes gerais, a serem desdobradas em três vertentes principais: legisla-
ção e financiamento, apoio à pesquisa e recursos humanos.
Quanto à primeira questão, foi identificado que Minas Gerais tem tradição, capacidade
instalada e recursos humanos em C&T.
Os pesquisadores sediados em Minas Gerais, em termos numéricos, concentram-se nas
áreas de ciências agrárias (33%), engenharias e ciência da computação (22%), e Belo Horizonte
abriga 43% deles, seguindo-se, em importância, Viçosa, Lavras, Uberlândia, Juiz de Fora, Sete
Lagoas e Itajubá.
Já a produção científica, medida por artigos indexados em 1998 e 1999, apresenta uma
maior dispersão: ciências agrárias e biológicas comparecem, cada uma, com 18% do total, se-
guindo-se ciências da saúde (18%) e exatas (13%). Destaque-se que tal produção, quando com-
parada à nacional, confere uma especialização mineira em ciências agrárias e, com menor inten-
sidade, em ciências biológicas.
A produção tecnológica, auferida pelo número de patentes depositadas, está concentrada
em metalurgia e extração mineral, alinhadas, portanto, com especializações econômicas de Mi-
nas Gerais, respondendo a Região Metropolitana de Belo Horizonte com 47% do total.
A articulação observada entre infra-estrutura científico-tecnológica e especializações eco-
nômicas do Estado é indicativa da capacidade de resposta às demandas por inovação. Ao mes-
mo tempo, sugere que as especializações científicas andam mais “a reboque” da tecnologia do
que a interação reversa.
A inexistência de maior expressão dos setores produtivos classificados como de alta
tecnologia é reiterada, mas apresentam-se algumas “janelas de oportunidades” no estabelecimen-
to de “cluster” da área de informática em Belo Horizonte, na incipiente indústria produtora de
máquinas para a exploração mineral e outros segmentos a montante do complexo metalúrgico.
Em resposta à estrutura produtiva possível, são sugeridos os seguintes vetores setoriais
para a inovação no Estado: novos materiais, agropecuária e alimentos, biotecnologia, energias
alternativas, informática/telecomunicações, bem como biodiversidade e meio ambiente. Para
melhor se estabelecer os alvos, sugere-se a revisão crítica, com vistas à sua possível retomada,
da iniciativa de “missões tecnológicas”.
Destaquem-se, finalmente, as importantes funções que institutos de pesquisa estaduais –
Cetec, Epamig, Funed, FJP e IGA – podem vir a desempenhar no sistema proposto, além de
universidades – notadamente as federais – outros centros da pesquisa públicos e privados, e do
fomento estadual à atividade da inovação pela Fapemig e por outras instituições financiadoras
federais e estaduais.
48 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
7. A perspectiva regional
É por demais conhecido o quadro das desigualdades regionais em Minas Gerais. De
fato, ao serem examinados os indicadores econômicos e demográficos, sobressai a Região
Central na produção de praticamente a metade do PIB estadual (45,6%) e 35% da população
residente no Estado, sendo a ela assegurada uma renda per capita 31% superior à média esta-
dual.
A Região Sul de Minas é a segunda no ranking regional do PIB responsável por 13%
desse agregado e pouco mais de 13% da população mineira, obtendo-se, entretanto, um PIB
por habitante pouco inferior à média estadual (97%). A Zona da Mata vem em seguida, ge-
rando 8,5% do PIB estadual e um per capita equivalente a 74% da média do Estado. Seguem-
se, na ordenação pelo PIB, as regiões do Triângulo Mineiro e do Rio Doce, cada uma res-
ponsável por cerca de 8,0% do PIB. A menor expressão demográfica do Triângulo, com 7%
do total estadual, assegura à sua população um produto por habitante superior em 12% à
média estadual.
Em posição intermediária, encontram-se as regiões Centro-Oeste de Minas e Alto
Paranaíba, as quais contribuem com respectivos 4,9% e 3,5% do PIB estadual. Dessas regi-
ões, destaca-se o PIB por habitante da Região Alto Paranaíba, 7,4% superior à média esta-
dual.
A Região Noroeste e o Jequitinhonha/Mucuri têm participações inexpressivas no PIB
gerado, valendo salientar que se trata de realidades bastante diferentes. Assim, esta última,
além de uma participação pouco expressiva na geração do PIB, responde pelo menor PIB
por habitante, pouco mais de 35% da média estadual. Já a Região Noroeste registra o menor
PIB regional, mas também exibe a menor área e abriga o menor contingente populacional
(1,9%), equivalendo o seu PIB por habitante a 90% da média do Estado. A dramaticidade da
pobreza no Jequitinhonha/Mucuri é mais bem-entendida quando se lembra que a distância
de seu PIB per capita e o indicador paulista é de cinco vezes. Tal disparidade é a mesma ob-
servada entre as rendas por habitante da Itália e do Brasil. Em situação semelhante se encon-
traria a Região Norte de Minas, com uma participação no PIB estadual de 4,7%.
A distribuição regional da produção setorial consigna uma alta concentração de ativi-
dades industriais (47%) e de serviços (52%) na Região Central. Segue-se, para os dois setores,
o Sul de Minas, com 13% da produção industrial e 11% nos serviços estaduais. Com relação
à agropecuária, o padrão locacional é bastante pulverizado, destacando-se novamente o Sul
de Minas com quase 24% do total estadual, seguindo-se as regiões do Triângulo e do Alto
Paranaíba, respectivamente, com 14% e 12% da produção agropecuária mineira.
Todavia, se notáveis diferenciações são observadas entre as regiões de planejamento
(RP), mais diverso ainda é o cenário no interior de cada região, e esse foi um dos objetivos
centrais dessa “reinterpretação” do espaço mineiro. Constatou-se, assim, que as regiões de
planejamento são instrumentos insuficientes para capturar, na ótica espacial, a diversidade
dos fenômenos socioeconômicos estaduais.
Assim, por exemplo, a Região Metropolitana de Belo Horizonte concentra cerca de
35% do PIB mineiro, abrigando quase 24% da população estadual e sua proeminência eco-
nômica e demográfica assegura, em termos de regiões de planejamento, o destaque alcançado
49
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
pela Região Central. Observa-se, além disso, que, dentre as treze microrregiões integrantes da
BDMG
40 anos
Região Central, duas, as de Diamantina e Conceição do Mato Dentro, apresentam PIB por
habitante semelhantes ao Jequitinhonha/Mucuri.
Os estudos realizados mostraram, em termos espaciais, a heterogeneidade intra-regional
presente em Minas Gerais, onde poucos “focos de dinamismo” convivem com espaços de baixo
dinamismo.
Mostraram, também, um quadro bastante contundente de baixas condições urbanas, de
organização produtiva, de competitividade e de infra-estrutura.
No propósito de complementar a percepção espacial, foi estabelecida uma tipologia das
microrregiões homogêneas que se expressa no Mapa e no quadro a seguir:
MINAS GERAIS - MICRORREGIÕES - 1999
MASSA SÓCIO-ECONÔMICA - COMPONENTE I
Massa Sócio-Econômica
Componente I
2,0 a 9,0 (1)
1,8 a 2,0 (2)
1,0 a 1,8 (10)
0,9 a 1,0 (6)
0,8 a 0,9 (21)
0,7 a 0,8 (17)
0,6 a 0,7 (9)
50 Minas Gerais do Século XXI
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40 anos
Nova Unidade da Massa sócio-
Microrregiões
Tipologia econômica
1 2,0 a 9,0 30 - Belo Horizonte
18 - Uberlândia
2 1,8 a 2,0
65 - Juiz de Fora
43 - Divinópolis
27 - Sete Lagoas
31 - Itabira
39 - Ipatinga
37 - Governador Valadares
3 1,0 a 1,8
7 - Montes Claros
22 - Uberaba
50 - Varginha
51 - Poços de Caldas
52 - Pouso Alegre
20 - Patos de Minas
23 - Araxá
4 7 - P a sso s
4 0,9 a 1,9
48 - São Sebastião do Paraíso
34 - Conselheiro Lafaiete
63 - Muriaé
4 - Janaúba
17 - Ituiutaba
21 - Frutal
19 - Patrocínio
2 - Paracatu
6 - Pirapora
64 - Ubá
66 - Cataguases
6 2 - V i ço sa
60 - Ponte Nova
5 0,8 a 0,9
61 - Manhuaçu
33 - Ouro Preto
58 - São João Del Rei
59 - Barbacena
40 - Caratinga
15 - Teófilo Otoni
49 - Alfenas
56 - Itajubá
54 - São Lourenço
26 - Bom Despacho
44 - Formiga
51
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
Nova Unidade da Massa sócio-
Microrregiões
Tipologia econômica
1 - Unaí
3 - Januária
41 - Aimorés
42 - Piumhi
46 - Oliveira
45 - Campo Belo
57 - Lavras
25 - Curvelo
6 0,7 a 0,8 24 - Três Marias
35 - Guanhães
11 - Capelinha
12 - Araçuaí
14 - Almenara
16 - Nanuque
29 - Pará de Minas
53 - Santa Rita do Sapucaí
5 - Salinas
28 - Conceição do Mato Dentro
36 - Peçanha
10 - Diamantina
9 - Bocaiúva
7 0,6 a 0,7 8 - Grão Mogol
13 - Pedra Azul
38 - Mantena
32 - Itaguara
55 - Andrelândia
Evidencia-se ali a importância inconteste da microrregião de Belo Horizonte, seguida de
forma conjunta pelas microrregiões de Uberlândia e Juiz de Fora. O grupo seguinte é integrado
por dez microrregiões com localizações distribuídas pelas Regiões Central, Sul, Mata, Triângulo,
Centro-Oeste, Doce e Norte. O conjunto dessas treze microrregiões, entre as 64 que integram
o Estado, responde por mais de 65% do PIB estadual.
Deve-se salientar que a tipologia expressa no mapa se baseou no conceito de massa
socioeconômica, em que o PIB comparece com destaque, mas a ele se acrescem, de forma pon-
derada, outras variáveis demográficas, econômicas, posição na rede de cidades e níveis de aces-
so e cobertura de serviços públicos e infra-estrutura.
No contexto regional, sobressai um outro tipo de estrutura – a urbana – que deve ser
adequadamente considerada em suas múltiplas facetas. A cidade é o elemento essencial à
estruturação de uma região, visto ser o local privilegiado de concentração e dispersão dos fluxos
econômicos e de infra-estrutura de prestação de serviços à atividade produtiva e à população. A
cidade assumiu uma importância de tal ordem que passou a ser objeto de análises e legislação
específica.
52 Minas Gerais do Século XXI
Quanto à rede urbana existente em Minas Gerais, observa-se que o sistema urbano mais
BDMG
40 anos
extenso é aquele comandando pela RMBH que, entretanto, perde poder de atração nas regiões
do Estado situadas a Oeste, Sudoeste, Sul, Sudeste e Leste, pela maior primazia de outras me-
trópoles, notadamente a paulistana e outras a ela subordinadas, além do Rio de Janeiro (com
influência declinante) e de Brasília e Vitória (estas com expressão crescente).
Além desse padrão, o que se destaca, nos 45 centros urbanos identificados na Região Su-
deste do País é, em Minas Gerais, a inexistência de centros com níveis hierárquicos intermediá-
rios, capazes de coordenar e configurar a rede urbana situada em sua área de influência.
Na realidade, o Estado se vê diante de uma situação grave: um grande número de cidades
sede de municípios e poucos centros com uma certa capacidade de estruturar o espaço sob sua
influência, gerando microrregiões empobrecidas, sem dinamismo e com baixos níveis de bem-
estar social. Uma política urbana coerente e sistemática deve, na sua explicitação, adequar-se a
diferentes categorias de centros urbanos e integrar-se à política regional visando criar novas fun-
cionalidades e melhoria das condições de infra-estrutura e de bem-estar social.
A reinterpretação do espaço mineiro aqui feita pretende oferecer novos subsídios à dis-
cussão das questões regionais, notadamente pela expectativa que questões dessa ordem ocupem
maior destaque em futuro próximo do que o conferido nos últimos anos.
Nesse sentido, é essencial o retorno do papel do Estado como coordenador, promotor e
facilitador de ações de interesse público e privado, oferecendo soluções criativas às múltiplas
questões regionais/microrregionais – tendo em vista seus problemas e potenciais – e urbanas,
em função do grau de urbanização da população e da concentração da pobreza, desemprego e
deficiências de infra-estrutura presentes nos centros urbanos. Ou seja, é essencial o retorno do
planejamento, não como interesse de um grupo de especialistas bem-intencionados, mas como
uma atividade continuada de governo.
O Estado de Minas Gerais não pode ausentar-se do debate e, principalmente, do
enfrentamento de situações ocorrentes no interior de seu território, no sentido de permitir a
integração de seus vários subespaços – hoje considerados como marginais ou não competitivos
– criando mecanismos específicos de atuação.
53
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
BDMG
40 anos
8. A RMBH no século XXI: inserção e
competitividade
A globalização da economia, fenômeno que impõe a todos os países um grande esforço
de inserção proveitosa nos mercados do mundo, acabou conferindo às regiões metropolitanas,
concentradoras de produção sofisticada em escala competitiva, uma importância estratégica nova.
Tornaram-se o elo mais imediato das economias regionais com a economia mundial. A essa nova
importância soma-se o elevado peso relativo na economia, na cultura e na sociedade mineira
que a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), passou a representar nas últimas déca-
das. Por isso mesmo, tornou-se obrigatório conceder a essa área do Estado uma preocupação
específica, em qualquer programa de desenvolvimento que venha a se desenhar para Minas Ge-
rais.
Receptora de fluxos migratórios a partir da metade do século XX, a região teve expansão
demográfica média de 5% ao ano. Hoje, a RMBH compreende 34 municípios, mais de quatro
milhões de habitantes, representando cerca de 24% da população mineira. A cidade de Belo
Horizonte, por seu turno, compreende, aproximadamente 12,5% da população estadual e 51%
da população metropolitana.
TABELA 10
PARTICIPAÇÃO NA FORMAÇÃO DO PIB ESTADUAL – 1999
%
Ente
Serviços Indústria Agropecuária Total
Belo Horizonte 33,1 15,7 – 22,8
RMBH 42,8 33,8 1,4 35,2
FONTE: FJP/Elaboração WSPV.
No final da última década do século XX, o PIB regional e o de Belo Horizonte
correspondiam, respectivamente, a 35,2% e 22,8% do PIB estadual. Vale dizer que o município
de Belo Horizonte respondia, aproximadamente, por dois terços da atividade econômica
intrametropolitana. Os serviços haviam suplantado a indústria, passando a representar 33,1%
do PIB de Belo Horizonte 42,8% da RMBH.
8.1 Globalização e exclusão social
Mas os ganhos de importância relativa na economia de Minas Gerais não livraram a
RMBH de conviver com o drama da pobreza e da exclusão social de grande parte de sua popu-
lação. Ao contrário, as dimensões do problema socioeconômico em área de forte concentração
populacional estão se transformando num dos grandes desafios para os planejadores e gestores
públicos das regiões metropolitanas dos países menos desenvolvidos.
54 Minas Gerais do Século XXI
Trata-se do fenômeno conhecido como “dualismo”, já observado no passado, mas que
BDMG
40 anos
em sido exacerbado pela globalização nos últimos tempos. De um lado, a RMBH, como a maio-
ria das regiões metropolitanas da América Latina, vem registrando o aumento da importância
econômica dos bens e serviços avançados, como finanças, imóveis de luxo, bens superiores, edu-
cação privada, seguros, propaganda, projetos, marketing, serviços pessoais. De outro lado, ocor-
re, simultaneamente, o aumento de exclusão social, crime, desemprego aberto e/ou disfarçado,
miséria, desigualdade na distribuição da renda e da riqueza, corrupção cívica e política,
deslegitimação das instituições políticas.
Tal dualismo é perceptível até mesmo visualmente, nas diversas áreas da RMBH. Há aque-
las, como o Centro-Sul da capital mineira, que constituem o “núcleo central”, ambiente da elite
política, empresarial, profissional e tecnocrática, produtores dos bens e serviços avançados. É o
centro de negócios, ponto focal da articulação da região com a rede global. Contrapondo-se a
esse núcleo dinâmico, avultam-se as periferias, carentes de equipamentos públicos e coletivos.
A globalização vem intensificando, sobremaneira, a estratificação social do espaço urba-
no. Enquanto as “manchas dinâmicas” exibem os critérios de pertinência à rede global, os “bu-
racos negros” da marginalidade periférica são confinados, em certa medida, à geração de ativi-
dades “irrelevantes ou não-competitivas”, consoante valoração da rede global e/ou gravados
pela ruptura social.
O território da RMBH exibe agora as marcas de uma disrupção entre o núcleo dinâmico
e a periferia. Tais evidências incorporam, dentre outros aspectos, desigualdades crescentes na
renda, no consumo, nas estatísticas vitais, na oferta de equipamentos públicos, nas habitações,
nos comportamentos e atitudes, na visão do mundo, no exercício da cidadania, nas taxas de es-
colaridade e evasão escolar, etc. A disrupção excessiva promove efeitos danosos sobre o tecido
social e promove deseconomias de aglomeração em escala capaz de afetar seriamente a
competitividade da RMBH. Descurar do agravamento do dualismo é, pois, pôr em risco a eficá-
cia do principal elo entre a economia mineira aos mercados do mundo.
Articulação pelo Estado
É crucial o papel do governo estadual no planejamento, na coordenação e, em alguns ca-
sos, na execução de políticas que promovam a inversão da degradação e da exclusão social, ao
mesmo tempo que faça avançar a competitividade e a inserção da RMBH na rede global das
economias, já que, por essa via se fará mais rápida e consistentemente a inclusão de Minas Ge-
rais na nova economia mundial. É fundamental que a inclusão social e a competitividade econô-
mica tenham políticas convergentes no espaço na Região Metropolitana. Os veículos e instru-
mentos para administrar tal convergência existem. Existem as pessoas, as idéias, as organi-
zações estaduais, metropolitanas e locais. Sintonizá-las, coordená-las, criar novas
institucionalidades e pô-las em marcha é tarefa política.
Num ambiente como o brasileiro, marcado pelos limitantes macroeconômicos e a saliên-
cia dos conflitos de interesse, as políticas do Estado para a RMBH terão que se pautar pelo
protagonismo pluralista, pela visão inovadora na reorganização dos sistemas produtivos e pela
captura criativa das sinergias possíveis dos ganhos de competitividade e da inclusão social.
A Constituição de 1988 conferiu aos Estados o poder de legislar sobre as regiões metro-
politanas. Além disso, cabe aos Estados a coordenação dos esforços destinados ao desenvolvi-
mento das vantagens competitivas dessas regiões, particularmente pela mobilização dos demais
55
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
níveis de governo, sociedade civil e setor privado para constituir os equipamentos coletivos
BDMG
40 anos
essenciais à competitividade — equipamentos públicos, bens e serviços coletivos, canais e
fóruns para a mobilização da sociedade civil, sobretudo do empresariado, e outras agências do
Terceiro Setor.
Variáveis de natureza mesoeconômica, no âmbito estadual e num contexto de recursos
públicos escassos, podem ser, criativamente, manejadas. É a esfera, por excelência da difusão e
incorporação do progresso técnico, em íntima sintonia com o segmento empresarial e as insti-
tuições de ensino e pesquisa, estendendo-se ao desenvolvimento dos sistemas (meios) de inova-
ção, formação do capital humano e reciclagem da força de trabalho.
Ressalta-se aqui, mais uma vez, a prioridade da modernização da gestão pública, pois não
há como não atribuir ao Estado o papel de liderança e aglutinação na condução do processo
metropolitano de inclusão social. Terá o Estado a missão superior de promover a articulação
entre micros, pequenas, médias, grandes empresas e provedores de serviços; entre empresas, go-
verno metropolitano e governos locais; entre instituições de produção e adaptação do conheci-
mento e empresas; entre agências de produção cultural e artística, empresas e governos locais.
O papel da articulação do Estado se estende também à redução das tensões oriundas da
disrupção metropolitana. Há que ampliar o protagonismo da sociedade civil metropolitana atra-
vés da participação na arbitragem de divergências e consensos sobre ajustes de interesses; nos
pactos sociais vinculantes sobre políticas de Estado; na criação de capital social/cívico/
institucional; e na articulação entre políticas sociais e geração de empregos.
A articulação inteligente e persistente do Estado com a sociedade civil metropolitana é o
caminho seguro para a superação da política regional como “jogo de soma zero”. Nesse sentido
e para atenuação da disrupção metropolitana, há que reabilitar o ser humano local na sua condi-
ção múltipla de cidadão, produtor, contribuinte e consumidor. De especial interesse, nesse con-
texto, emerge o esforço da convergência público-privado, tendo em vista o reforço da identida-
de e da coesão social. Também avulta a captura de sinergias entre o metropolitano, o nacional, o
local e o global. Isso de molde a reforçar o papel do local/metropolitano como centro de inova-
ção e geração de relações comerciais, tecnológicas e culturais em escala internacional.
A inclusão social na RMBH demandará um esforço combinado do Estado e municípios,
que promoverão parcerias indispensáveis com o setor privado, em busca da expansão das ofer-
tas de empregos, de eventos e oportunidades de lazer e cultura, bem como acesso à educação,
habitação e aos serviços de saúde. Se bem combinada, essa atuação conjunta pode desenvolver
atividades profissionalizantes, formação de jovens empreendedores, difusão do microcrédito, in-
cubadoras populares, shoppings populares, cooperativismo.
Para ampliar essas ofertas no setor produtivo, será necessário o aumento da capacidade
competitiva, a ser obtida mediante montagem de arranjos produtivos potencialmente vencedo-
res na rede global. O Governo Estadual terá o papel fundamental de induzir sinergias entre o
global, o nacional, o estadual, o metropolitano e o local para reforçar a condição da RMBH de
funcionar como centro de inovação e geração de relações comerciais, culturais, financeiras e
tecnológicas na escala mais ampla possível.
56 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
9. Minas Gerais e o desenvolvimento social
9.1. Educação e desenvolvimento
É extremamente preocupante a realidade em que se encontra mergulhada a educação em
Minas Gerais, apesar de todos os investimentos realizados pela maioria dos governos estaduais
que lhe conferiram prioridade. A adoção de modernos mecanismos de avaliação foi um desses
esforços e, graças a ele pode-se perceber com mais precisão a complexidade da questão. Houve
também avanço na oferta de salas de aula. A educação pública de Minas Gerais ainda se man-
tém acima da média brasileira. Mas permanecem insuficiências importantes. Não faltam escolas
nem professores. Mas a qualidade do Ensino Fundamental e Médio da escola pública é tão bai-
xa que a manutenção de seus atuais níveis poderá comprometer seriamente a competitividade
dos mineiros.
Em vez de contribuir para reduzir as diferenças sociais e propiciar avanços no sentido
do nivelamento das condições de acesso aos mercados profissionais, a educação pública, tal como
oferecida pelas escolas estaduais e municipais de Minas Gerais, apenas reforça as vantagens das
classes mais favorecidas, que podem manter seus filhos na escola particular.
Uma bateria de testes aplicada nos alunos das escolas públicas mineiras e uma série de
estudos recentes realizados sobre o desempenho e a eficiência do sistema de ensino constata-
ram que mais de 50% dos alunos não dominam os requisitos nacionais básicos, nos vários ní-
veis. Menos de 20% dos alunos que concluem o Ensino Médio em escolas públicas da Região
Metropolitana de Belo Horizonte chegam a disputar uma vaga na UFMG e, desses que dispu-
tam, apenas 1% alcança padrão que o qualifica para qualquer curso competitivo daquela univer-
sidade.
A baixa qualidade do ensino está trazendo uma outra perda para a população. Há uma
forte tendência no mercado de trabalho, já detectada por estudos recentes, de ajuste para baixo
dos salários tendo em vista a menor qualificação dos diplomados. Em conseqüência, o trabalha-
dor precisa, atualmente, estudar mais tempo para ganhar relativamente menos do que ganhava
com menos anos de escolaridade.
Portanto, se pretendem tomar a educação como um dos pilares para o novo desenvolvi-
mento, todos os seus atores em Minas Gerais terão que praticar e apoiar ações que levem em
conta a prioridade absoluta em que se transformou a qualidade da oferta pública de Ensino Fun-
damental e Médio no Estado.
Essa cruzada pela educação se justifica quando se considera que, atualmente e ao longo
das próximas décadas, a velocidade do processo de desenvolvimento de uma região depende e
dependerá cada vez mais da capacidade dos indivíduos que a habitam de absorver e desenvolver
novas tecnologias, novos conhecimentos. Não parece haver dúvida de que a educação é premis-
sa irrecusável para se alcançar o novo desenvolvimento, mais ainda para sustentá-lo.
Portanto, um programa de desenvolvimento que se pretende amplo, terá que dar atenção
especial à correção de inúmeras distorções e ineficiência da educação pública em Minas Gerais.
Há excesso de professores que não estão na sala de aulas, não contribuem senão para o encare-
cimento do sistema. Somente na rede estadual são pagos 92,5 mil professores para 55,3 mil tur-
mas de Ensino Fundamental, ou seja, 1,7 professor por turma.
57
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Terá que ser enfrentada a polêmica em torno da questão da promoção automática,
BDMG
40 anos
que pode estar escondendo a ineficiência e a baixa qualidade do ensino público em Minas
Gerais, além de se tratar de prática não-consensual pela literatura científica sobre o tema.
Ao contrário, alguns especialistas consideram a promoção automática prejudicial ao aluno
que não se alfabetizou. E a alfabetização incompleta dos alunos, especialmente os das sé-
ries iniciais, tornou-se comum em nosso sistema público de ensino, sendo essa mais uma
deficiência a ser enfrentada.
Uma questão importante na oferta do ensino público e no novo papel que deve caber ao
Estado é a da municipalização da rede. Minas Gerais é um Estado com forte resistência ao pro-
cesso de municipalização do Ensino Fundamental. Desde 1995, a municipalização passou a con-
tar com recursos repassados pelo FUNDEF. Ainda assim, a rede estadual ainda é maior, em Mi-
nas, do que a municipal. O desempenho dos alunos das redes municipal urbana e estadual é
praticamente equivalente, apesar da diferença de custos dos dois sistemas — o estadual é mais
caro.
Uma das conseqüências desse quadro é que, se há um comando sobre a rede estadual
de escolas, inexiste uma política que oriente, em Minas Gerais, o Ensino Fundamental e Mé-
dio — etapas da educação que terão que ser objeto de um ordenamento e de um acompa-
nhamento mais eficaz por parte do Estado. Tal preocupação se apóia na constatação de que
60% das ocupações profissionais demandadas pelo mercado de trabalho requerem, no máxi-
mo, oito anos de escolaridade, o que permite a colocação mais cedo de boa parte dos que
procuram o primeiro emprego. Assim, o Ensino Fundamental de qualidade é premissa para
uma boa formação profissional de nível básico ou médio, bem como base para os que vão
continuar a estudar.
TABELA 11
MATRÍCULAS POR SÉRIE E DEPENDÊNCIA ADMINISTRATIVA
ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO – 2001
Série Federal Estadual Municipal Particular Total
1 250 161.690 326.936 26.690 515.566
2 264 163.020 249.324 25.374 437.982
3 263 175.505 244.192 25.379 445.339
4 263 171.835 235.097 24.821 432.016
5 470 305.352 128.710 27.789 462.321
6 493 300.470 115.559 27.9845 444.506
7 548 292.207 104.127 27.844 424.726
8 535 252.100 88.732 27.524 368.891
TOTAL EF 3.086 1.822.179 1.492.677 213.405 3.531.347
1 EM 4.043 354.972 12.086 33.709 404.810
2 EM 3.445 241.890 8.070 30.947 284.352
3 EM 3.128 222.088 7.021 31.980 264.217
Outros 586 240 379 5.340 6.545
11.202 819.190 27.556 101.976 959.924
TOTAL EM
E JA 190 98.086 60.155 60.190 218.621
FONTE: MEC/INEP para dados estatísticos, Censo 2000, para dados da população.
58 Minas Gerais do Século XXI
Novo papel do Estado
BDMG
40 anos
Como se preconiza ao longo deste documento, também na educação, o Estado assumirá
novos papéis, deixando, aos poucos a tradicional condição de operador de escolas. Será decisivo
o seu papel de regulador e de articulador. No primeiro caso, caberá ao Estado o estabelecimen-
to de padrões e normas para funcionamento de escolas, certificação de profissionais e desempe-
nho de alunos.
O aumento da eficiência e da produtividade de toda a rede de ensino é o que se espera da
articulação do Estado com municípios, o sistema “S”, o setor produtivo e as organizações da
sociedade civil, para compatibilizar políticas de atendimento à infância, juventude, formação pro-
fissional e educação. O Estado terá também o papel de provedor de informação e estatísticas
educacionais. Fará a avaliação, certificação e controle de qualidade, cuidará do financiamento
dos diversos níveis de ensino, além da criação de estímulos para a transição, inovação e controle
de qualidade.
Uma agenda mínima
Uma série de mudanças de curto e longo curso terão, portanto, que ser implementadas
no ensino público de Minas Gerais. Uma agenda mínima para se provocar logo algumas dessas
mudanças no sentido da melhoria da qualidade da oferta do sistema terá que incluir a
municipalização do ensino, associada a um programa de correção de fluxo escolar, a ser conclu-
ído num prazo de quatro anos.
Iniciar logo a correção de uma grave distorção com a implementação em todas as escolas
públicas de um programa de ensino que de fato alfabetize pelo menos 95% dos alunos ao final
da 1a série, dando a todos eles condições de cursar com êxito a 2a série.
O esforço em busca da qualidade do ensino será nulo sem a total imersão do professor.
Há, aliás, que começar pela sua qualificação. Por isso mesmo, terão de ser desenvolvidos pro-
gramas de estímulo à atração e manutenção de professores bem-formados, por meio de com-
binação de mecanismos de certificação e incentivos financeiros.
Há ainda medidas que complementam essa agenda, como a oferta de cursos de formação
profissional associados a supletivos do Ensino Fundamental para maiores de 15 anos já inseri-
dos no mercado de trabalho; oferta de cursos supletivos associados à formação profissional a
concluintes do Ensino Fundamental com mais de 16 anos; a municipalização do Ensino Médio
em municípios com mais de 200 mil habitantes; a criação de consórcios intermunicipais para
operar Ensino Médio nos municípios de menor porte.
9.2 Saúde e desenvolvimento
Na nova concepção de desenvolvimento, a saúde deixa o plano secundário que mereceu
em antigos modelos, para ganhar relevância de ingrediente fundamental e, ao mesmo tempo, de
indicador de alcance do verdadeiro desenvolvimento. Modernamente, considera-se a saúde como
componente do capital humano e estabelece-se uma relação direta entre taxas inferiores de cres-
cimento dos países às suas precárias condições de saúde. Apesar de alguma melhora nos indica-
dores de saúde, há um grande trabalho a ser desenvolvido em Minas Gerais, pois ainda é grande
a perda de produtividade do trabalhador mineiro motivada por problemas de saúde.
59
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Se a saúde em Minas Gerais acompanhou o resto do Brasil quanto à melhora dos índi-
BDMG
40 anos
ces de mortalidade, tanto infantil quanto materna, o mesmo não vem ocorrendo quanto às con-
dições de saúde das pessoas, levando-as com freqüência indesejável a reduzir suas condições
de trabalho. As perdas de produção e renda das pessoas em razão de afastamento ou baixa
produtividade por doenças têm sido altas. Dados do PNAD/98 e estudos recentes de especia-
listas concluíram que essas perdas, em 1998, foram da ordem de 1,9% do PIB, podendo che-
gar a 5%, dependendo do critério utilizado. Esses índices estão acima dos que foram encon-
trados para o Brasil. Esse resultado é bastante relevante e deixa Minas em uma posição
desconfortável uma vez que em relação ao restante do País estamos deixando de ganhar uma
parcela do PIB, ou seja, a saúde afeta adversamente mais um indivíduo que mora em Minas
Gerais do que o indivíduo brasileiro médio.
O processo de municipalização dos serviços públicos de saúde a partir da criação do Sis-
tema Único de Saúde (SUS) não tirou nem mesmo diminuiu a responsabilidade do Estado no
campo da saúde. Ao contrário, além de administrar sua própria rede de serviços de saúde, o
Estado ganhou papel indutor da regionalização, inclusive estimulando a atuação consorciada de
municípios, e de superior coordenação para a correção de desequilíbrios.
É no exercício desses papéis que a administração estadual terá que se mover, tendo como
foco gerar impactos distributivos e promover a maior cobertura geográfica possível pelos servi-
ços de saúde pública no território mineiro.
Uma das tarefas imediatas do Estado é completar o processo de adesão dos municípios
mineiros aos programas de atendimento e gestão definidos pelo SUS. Dos 853 municípios, 784
se encontram atualmente habilitados na Gestão Plena da Atenção Básica (GPAB) e 57 habilita-
dos na Gestão Plena do Sistema Municipal (GPSM). Há ainda 12 municípios não-habilitados
em nenhuma gestão. Esse quadro mostra Minas Gerais em posição de relativa inferioridade en-
tre os estados do Sudeste.
Dos 57 municípios habilitados na Gestão Plena do Sistema Municipal, que inclui a gestão
dos serviços ambulatoriais de alta complexidade, 40 possuem mais de 40.000 habitantes, reite-
rando a importância das economias de escala e escopo na oferta de serviços mais intensivos em
tecnologia.
TABELA 12
NÚMERO DE MUNICÍPIOS HABILITADOS POR ESTADO
E POR TIPO DE GESTÃO NA REGIÃO SUDESTE
Estado Nº de Municípios GPAB GPSM Não Habilitados
Espírito Santo 78 43 35 0
Minas Gerais 853 784 57 12
Rio de Janeiro 92 71 21 0
São Paulo 645 483 158 4
S U D E S TE 1.668 1.381 271 16
FONTE: Secretarias de Saúde dos Estados do Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.
Posição em 22/06/2001.
60 Minas Gerais do Século XXI
A regionalização pede um plano de gestão da oferta de serviços, considerando as necessi-
BDMG
40 anos
dades da população e a densidade tecnológica de cada nível de atenção. Na verdade, o papel do
poder público estadual deverá ir além. O Estado de Minas Gerais apresenta desigualdades ainda
bastante exacerbadas; por isso, é fundamental que o Estado intervenha no sentido de gerir os
serviços procurando minorar essas desigualdades. Se o Estado não coordenar e definir a locali-
zação dos novos investimentos, a ação local e individualista dos municípios vai exacerbar ainda
mais essas desigualdades, tornando o provimento mais desigual e menos eficiente.
Um espaço importante de atuação do Estado é a gerência da oferta de recursos humanos
em saúde, compatibilizando-a com os níveis tecnológicos definidos para cada divisão regional e
garantindo os incentivos para que exista uma disponibilidade de profissionais nas diferentes es-
pecialidades. Além de um cadastro da oferta disponível de profissionais, o Estado deverá ofere-
cer treinamento à mão-de-obra disponível e adequar a oferta às necessidades da demanda. Ain-
da no campo dos recursos humanos e cumprindo a função de corrigir desequilíbrios, o Estado
terá que estabelecer mecanismos de incentivos para que a oferta se distribua uniformemente
por todas as regiões de Minas Gerais.
O processo de descentralização coloca responsabilidades muito grandes nos municípios;
portanto, é fundamental que o Estado estabeleça critérios e indicadores de avaliação da
performance dos municípios. De fato, a permanente avaliação e orientação quanto ao desempe-
nho dos serviços de saúde assumidos pelos municípios somente terá eficácia se passar pela au-
toridade estadual. E caberá ao próprio Estado a criação de indicadores de avaliação da atenção
primária e mecanismos de incentivos para que os municípios organizem de forma eficiente a
atenção básica. Isso poderá aumentar a produtividade da estrutura, reduzindo o custo e aumen-
tando a eficácia do sistema. É o caso do atendimento ambulatorial preventivo que, se bem feito,
evita internações hospitalares.
Também de impacto distributivo será uma política de medicamentos, pela qual o Estado
poderá promover o acesso dos menos favorecidos a esse item que, para muitos, costuma pesar
significativamente nos gastos familiares. Minas Gerais já tem uma certa tradição na produção de
medicamentos. A Fundação Ezequiel Dias, mantida pelo Estado tem uma linha de produção
permanente de 36 itens farmacêuticos, em 44 formas de apresentação, atendendo a 17 classes
terapêuticas, com destaque para retrovirais, usados no tratamento da AIDS, e a talidomida, no
tratamento da Hanseníase.
O combate às doenças infecciosas e parasitárias, assim como doenças transmissíveis, é uma
responsabilidade da qual não pode se afastar a administração estadual. Tentativas de ações mu-
nicipais isoladas de provimento desse serviço são ineficientes, até mesmo pela extensão das áre-
as ou regiões afetadas. É importante que o Estado priorize esse tipo de ação, uma vez que essas
doenças determinam externalidades negativas para todo o conjunto da sociedade.
9.3. Segurança pública e desenvolvimento
É grave e preocupante a situação da segurança pública em Minas Gerais. Parte
indissociável da cidadania é função básica do Estado, a segurança pública tem que ser priorida-
de em qualquer processo de desenvolvimento. O aumento da prática de crimes violentos, que
triplicaram em apenas uma década, e da formação de organizações criminosas em Minas Gerais
ocorrem simultaneamente à falência do sistema prisional e à inadequação do aparato policial,
polarizado por duas Polícias sem integração e, não raro, antagônicas.
61
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
O rebaixamento dos níveis da segurança pública afeta a vida e o bem-estar das pessoas,
BDMG
40 anos
influi negativamente na produtividade e acaba pesando nos processos de decisão locacional de
investimentos em expansão da atividade industrial ou de serviços. Já não são mais casos isola-
dos de ação marginal que colocavam em perigo a integridade das pessoas. A proliferação dos
atentados está criando um clima de insegurança nada propício ao desenvolvimento social, cultu-
ral e econômico em Minas Gerais.
Novo perfil do crime
Originalmente concebidas e estruturadas para combater majoritariamente o crime contra
a pessoa, as estruturas policiais e judiciais em Minas Gerais, como em todos os Estados brasilei-
ros, estão convivendo com um rápida mudança no perfil da criminalidade violenta, agora pri-
mordialmente centrada no patrimônio.
Esse fenômeno aponta para a prevalência de crimes vinculados a uma espécie de organi-
zação mais elaborada do “mercado da atividade criminosa”, como é caso do tráfico de drogas,
nos crimes de natureza financeira (fraude, crimes de colarinho branco) e, principalmente, nos
crimes de assalto (que supõem um mercado de receptação e distribuição de itens roubados).
MINAS GERAIS
TX DE CRIMES VIOLENTOS POR 100.000 HABITANTES
Sistema Prisional
O sistema prisional constitui hoje um dos maiores problemas da gestão da Segurança Pú-
blica em Minas Gerais. A falta de estrutura adequada tem resultado na avassaladora superlotação
e na distorção representada pela presença de mais 15 mil presos em média no sistema de cadei-
as e distritos policiais sem levar em conta o Estado processual dessas pessoas. Se condenadas
pela Justiça, deveriam estar numa penitenciária de perfil ajustado a cada regime de punição. Caso
contrário, seu recolhimento não seria mais do que temporário, conforme a modalidade da pri-
são.
62 Minas Gerais do Século XXI
Essa situação atenta contra a lei e contraria os propósitos da pena da privação da liberdade,
BDMG
40 anos
dada a impossibilidade de execução de uma política pública de re-socialização e reinserção social do
criminoso em locais onde nem mesmo a integridade física do indivíduo pode ser garantida. É impor-
tante ressaltar que esse fenômeno encontra-se adstrito aos grandes Estados da Federação como São
Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, e o caso mais alarmante é o de Minas Gerais.
TABELA 13
PARTICIPAÇÃO DE MINAS GERAIS NO SISTEMA PENITENCIÁRIO NACIONAL
Vagas Disponíveis População Carcerária Déficit Total
Brasil 181.293 239.348 58.055
Minas Gerais 4.222 19.723 15.501
Participação de MG no Sistema Nacional 2,32% 8,24% 26,7%
FONTE: Departamento Penitenciário Nacional / MJ, agosto 2002.
Minas Gerais sozinho acumula 26,7% do déficit total de vagas do sistema penitenciário
brasileiro, mesmo possuindo apenas 8,24% do total da população carcerária. Essa situação é
extremamente perversa para o sistema de justiça criminal como um todo, uma vez que impede
a detenção de determinados indivíduos perigosos para a sociedade e impossibilita a correta
execução da investigação criminal, dado que os policiais civis acabam tendo que se ocupar da
guarda de presos, comprometendo ainda a execução de políticas públicas de recuperação do
criminoso, óbices que contribuem para a reprodução do ciclo vicioso de delinqüência e impu-
nidade.
Um novo arranjo institucional
Um programa de melhoria do serviço de Segurança Pública em Minas Gerais não terá
como deixar de atacar o grave problema da falta de Integração entre as Polícias Civil e Mili-
tar. É urgente a implementação de mecanismos institucionais que tenham por fim reduzir a ação
desarticulada entre essas organizações, propiciando uma racionalidade mais coerente no exercí-
cio sistêmico da ação policial.
Pode-se mesmo avançar na idéia de um rearranjo institucional mais amplo e ousado, que
contemple todo o sistema, incluindo o prisional, com o propósito de dar articulação ao aparato
organizacional sob a responsabilidade do governo estadual. Essa desarticulação acaba constitu-
indo um foco crônico de disjunção do sistema e comprometendo a capacidade do governo de
lidar com a manutenção da ordem pública. Sob esse ponto de vista, a política de combate à
criminalidade no Estado seria mais bem-conduzida em outro reordenamento do desenho
institucional da segurança pública. Mais precisamente, é imprescindível criar os fundamentos
institucionais para que os dirigentes possam planejar e gerir as intervenções do executivo esta-
dual nesse âmbito, superando a fragmentação até então vigente.
9.4. Habitação e desenvolvimento
Parte integrante da qualidade de vida, a habitação sempre tem merecido muitos esfor-
ços do poder público brasileiro. Apesar desse empenho e por ser um bem de elevado valor, a
habitação é ainda uma meta a ser perseguida por milhares de pessoas no Brasil e em Minas
Gerais.
63
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Os estudos sobre a dinâmica demográfica brasileira das últimas décadas apontam dois
BDMG
40 anos
fenômenos marcantes, com repercussões expressivas no dimensionamento do problema
habitacional: a urbanização e a metropolização. As tendências de arrefecimento dos fenôme-
nos citados devem-se principalmente à exaustão da urbanização da população mineira (85%
dessa população já residem nas cidades, segundo o Censo Demográfico de 2000). A tendência
atual é de inchaço das cidades médias, para onde estão sendo deslocados os problemas
habitacionais antes confinados à Região Metropolitana. Há ainda um expressivo déficit a ven-
cer. Um desafio a enfrentar agora, sob pena de o poder público ser acusado de omissão pelas
gerações futuras.
Ações que visem eliminar ou minimizar o déficit habitacional não podem ser entendidas
apenas como construção de novas moradias nem ser de responsabilidade de uma única esfera
governamental, mas como um leque diferenciado de ações a serem implementadas segundo as
particularidades regionais e locais, controladas administrativamente, em parceria plena da União,
do Estado e dos municípios e da sociedade como um todo.
Os estudos mais recentes realizados pela Fundação João Pinheiro (FJP) mostram que,
embora o governo estadual tenha atuado no sentido de aumentar a oferta de moradias popula-
res, e apesar de haver um razoável número de imóveis sem ocupação, nos últimos anos persiste
um elevado déficit habitacional.
Esse déficit foi calculado pela FJP em 632 mil moradias no ano 2000. Somente na Região
Metropolitana de Belo Horizonte, esse déficit somou 155,6 mil unidades, segundo metodologia
que, embora tome de maneira abrangente o problema, não incorre em dupla contagem e conse-
qüente superestimação.
TABELA 14
COMPOSIÇÃO DO DÉFICIT HABITACIONAL - MINAS GERAIS E RMBH - 2000
Minas Gerais RMBH
Total Urbano Rural Total
Famílias conviventes 358.147 306.257 51.890 92.457
Cômodos alugados e cedidos 14.020 12.392 1.628 6.624
Ônus excessivo com aluguel 185.884 185.884 – 48.061
Domicílios rústicos 48.888 20.684 28.204 1.481
Domicílios improvisados 13.795 11.471 2.324 3.237
Depreciação 11.323 11.323 – 3.785
Total do déficit 632.057 548.011 84.046 155.645
FONTE: FJP, 2001
Além da questão de a renda média de grande parte da população não alcançar o crédito
disponível, que reflete em parte o aumento do estoque de imóveis vazios, outros fatores têm
contribuído para manutenção do déficit. Um deles é o fenômeno moderno da redução da den-
sidade familiar, que reduz o número de moradores por habitação. Os números comparados do
crescimento populacional e o do número de domicílios demonstram com clareza esse fenôme-
no. De 1991 a 2000, segundo a FJP, enquanto a população de Minas Gerais cresceu 13,5%, pas-
sando de 15,7 milhões para 17,7 milhões de pessoas, o número de domicílios aumentou de
3,7 milhões para 4,7 milhões, um crescimento de 28,6%.
64 Minas Gerais do Século XXI
Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi ainda mais evidente o efeito da redu-
BDMG
40 anos
ção da densidade familiar que, na média, caiu de 4,2 para 3,7 o número de moradores por do-
micílio. Na RMBH, houve um aumento de 25,4% na população, entre 1991 a 2000, quando
passou a somar 4,3 milhões de pessoas. No mesmo período, o número de domicílios cresceu
42,6%, passando para 1.173 mil. Mas o crescimento do número de domicílios vagos teve índi-
ces muito maiores. Mais do que dobrou na RMBH, 101,5%, acumulando, em 2000, estoque
de 170,4 mil unidades, o que equivale a 14,5% do estoque total de domicílios da região.
Ações para atacar o déficit
Há um espaço importante para o governo estadual agir no sentido de promover a contí-
nua redução do déficit habitacional, como parte de um programa de desenvolvimento amplo,
que busque a melhoria da qualidade de vida da população e eleve a produtividade do indivíduo.
Esse espaço fica bem visível quando se toma o modelo de atuação que o governo federal vem
adotando e que parte de quatro premissas básicas:
(i) a focalização das políticas públicas voltadas para a área habitacional no atendimen-
to das camadas populacionais de baixa renda, que compõem 85% do déficit
habitacional brasileiro;
(ii) a necessidade de descentralizar e aumentar o controle social sobre a gestão dos pro-
gramas federais de habitação;
(iii) o reconhecimento, por parte do governo, de sua incapacidade de resolver sozinho
o problema habitacional do País e da necessidade de tentar melhorar o funciona-
mento do mercado de moradias no Brasil;
(iv) o reconhecimento de que as políticas públicas não devem negligenciar a grande par-
cela da população de baixa renda do País que trabalha no setor informal da econo-
mia e/ou habita moradias informais.
A diferença entre as esferas governamentais está no foco de atuação de cada poder. Ao
governo estadual caberia o planejamento das intervenções procurando evitar que políticas
habitacionais diferenciadas levem a fluxos migratórios intensos. Caberia também ao Estado a
assessoria técnica às prefeituras desguarnecidas de aparato e recursos humanos para a
implementação de políticas habitacionais. Atuações de cunho social não devem ser de responsa-
bilidade exclusiva de uma única esfera governamental. Situações de acirramento do abismo so-
cial e de total desamparo das populações devem ser focos constantes de quaisquer políticas e
programas que venham a ser implantados por qualquer esfera. É válido destacar que os proble-
mas habitacionais são complexos, e atuações pontuais produzem resultados pouco eficientes.
Atuações diversificadas aos vários pontos deficitários devem estar na mente do planejador e em
todas as atuações do Estado.
Várias das sugestões que se seguem já compõem os mecanismos de política estaduais exis-
tentes. Demonstra-se, dessa maneira, que a efetivação de uma política habitacional eficiente está
ligada principalmente à disponibilização de recursos e à iniciativa de se colocar em prática os
mecanismos já implementados. Listam-se abaixo as sugestões para a atuação do governo esta-
dual, e indiretamente, para prefeituras:
65
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
• Investimento na melhoria de habitações de baixa renda, por meio de crédito direto à
BDMG
40 anos
população para construção e reforma de moradias. A concessão de crédito à popula-
ção atualmente trata-se de objeto de competência da COHAB, e a melhoria de habita-
ções de populações de baixa renda é o foco principal de todas as políticas e programas
atuais da SEHADU;
• Urbanização de favelas, já destacada como objeto de competência da COHAB e uma
diretriz do Plano Plurianual;
• Propostas para implantação de conjuntos habitacionais; já consideradas pelas políticas
do Estado e de competência da COHAB e da SEHADU; e
• Aprofundamento das pesquisas científicas acerca do tema habitação, já destacado como
área de competência da COHAB e da SEHADU.
9.5. Trabalho e desenvolvimento
O novo desenvolvimento dá especial atenção ao fenômeno moderno do desemprego, da
informalidade e da empregabilidade, já que as mudanças profundas ocorridas na economia mun-
dial e no ajuste a que se submeteram as empresas em todo o mundo promoveram o
reposicionamento de grandes faixas de trabalhadores, processo ainda em andamento e que, mui-
tas vezes, contribui para aumentar a exclusão social. Mais uma vez, invoca-se a participação di-
reta da sociedade civil organizada por meio de entidades empresariais e de trabalhadores, bem
como organizações não-governamentais no enfrentamento da correção dessas distorções, na pre-
paração adequada do trabalhador para as novas exigências do trabalho, bem como no eficiente e
rápido encaminhamento ao emprego.
Em boa parte, devido a essas mudanças na economia mundial, nos anos 90, a economia
brasileira presenciou fortes ajustes que acabaram por resultar numa ainda maior precariedade do
mercado de trabalho. O desemprego cresceu por vários motivos, dentre os principais o baixo
crescimento do PIB, o processo de reestruturação das empresas, significando ora desemprego
tecnológico, ora uma piora nas condições de trabalho e renda, à medida que as empresas
terceirizavam importantes etapas e partes do processo produtivo e de serviços para empresas
menores.
A reestruturação significou a exclusão daqueles trabalhadores de menor escolaridade dos
postos mais cobiçados do mercado de trabalho, ou seja, o das grandes empresas. Estas
viabilizaram, via terceirização, um profundo enxugamento dos quadros de pessoal, repassando a
força de trabalho menos qualificada e escolarizada para as empresas menores. Isso acarretou
numa ainda maior informalidade e menores rendimentos.
O mercado de trabalho brasileiro, que já apresentava acentuada heterogeneidade, com sig-
nificativo percentual de informalidade, aprofundou esse quadro ainda mais na década de 90, apre-
sentando forte aumento de variadas formas de subcontratação. Num mesmo canteiro de obras
da construção civil, por exemplo, convivem várias modalidades contratuais, como: trabalhado-
res com carteira de trabalho assinada e todos os encargos sociais pagos pelo empregador; com
carteira assinada e encargos não pagos pelo empregador; sem carteira; com contrato temporário
periodicamente renovado, ainda que ilegal; terceirizados de outras empresas, muitas vezes com
remuneração mais baixa e condições de trabalho e contratuais ainda mais precárias; trabalha-
dores sem carteira assinada que recebem o seguro desemprego. Mesmo nas grandes empresas,
66 Minas Gerais do Século XXI
o grau de múltiplos vínculos funcionais, ou variadas formas de subcontratação, tem aumenta-
BDMG
40 anos
do substancialmente.
A década de 90 presenciou, também, um forte aumento das importações, graças ao câm-
bio valorizado no período de 1994 até o início de 1999, trazendo perda de competitividade da
indústria brasileira que teve de se ajustar às novas condicionantes. Uma das medidas foi a redu-
ção do quadro de pessoal. Comparativamente aos demais setores econômicos, a indústria per-
deu importância relativa na geração de postos de trabalho, e durante toda a década não houve
expansão do trabalho industrial.
Em Minas Gerais, considerando todos os setores da economia, tem havido crescimento
no número de empregos, mas ainda inferior ao necessário para evitar o desemprego. Segundo
os dados da RAIS (2002) para a economia mineira, houve expansão do emprego formal em Mi-
nas Gerais entre os anos de 1991 e 2001, com a criação de 706.375 empregos formais e, se fos-
sem perfeitamente distribuídos anualmente, resultariam em 64.215 empregos/ano. O déficit en-
tre a população que chega anualmente e a criação de emprego formal foi de aproximadamente
98.000, valor que deveria ser coberto pelo emprego informal para que não houvesse ampliação
da taxa de desemprego no Estado de Minas Gerais. Porém, a informalidade não viabilizou a
quantidade de postos adicionais, e a taxa de desemprego se elevou.
TABELA 15
EVOLUÇÃO DAS OCUPAÇÕES NO SETOR FORMAL MINEIRO – 1991-2000
Ocupações 1991 2000 Cresc. %
Trab Serv Administrativos, Trab Assemelhados 220.190 242.615 10,2
Trabalhadores Braçais não Classificados 183.813 116.693 -36,5
Professores 154.450 234.078 51,6
Ignorado 114.292 42.606 -62,7
Trab Serv Admin, Conserv, Limp de Edifícios 113.932 221.136 94,1
Vendedores, Empregados do Comércio e Ass. 111.924 180.304 61,1
Condutores de Veículos de Transportes e 93.967 122.663 30,5
Agentes de Administração Pública 69.988 148.205 111,8
Trabalhadores da Construção Civil e Trab. Assem. 67.693 106.533 57,4
Ajustad. Mec Montadores e Mec de Máquinas 53.667 56.988 6,2
Trabalhadores de Serviços de Proteção e 52.065 58.911 13,1
Trabalhadores de Serviço de Contabilidade 50.700 59.974 18,3
Técnicos Desenhistas Técnicos e Trab Ass 47.492 53.394 12,4
Cozinheiros, Garçons, Barmen e Assemelhados. 43.601 68.546 57,2
Trabalhadores Agropecuários Polivalentes 38.687 104.578 170,3
Trabalhadores Metalúrgicos e Siderúrgicos 37.514 39.247 4,6
Trab Serviços de Higiene e Embelezamento 33.489 52.205 55,9
Trab Manipulação, Merc. Materiais, Oper Máquinas 33.034 39.479 19,5
Trabalhadores de Preparação de Alimentos 32.380 50.008 54,4
Méd Cirurgiões, Dentistas, Med Veterinários 31.435 42.707 35,9
Chefes Intermediários Administrativo de 31.296 30.754 -1,7
Trabalhadores de Costuras, Estofadores e 30.265 49.227 62,7
Secretários, Datilógrafos, Estenógrafos e assem. 28.157 32.089 14,0
67
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
continuação...
BDMG
40 anos
EVOLUÇÃO DAS OCUPAÇÕES NO SETOR FORMAL MINEIRO – 1991-2000
Ocupações 1991 2000 Cresc. %
Eletricistas Eletrônicos e Trabalhadores assem. 28.019 37.968 35,5
Fiandeiros, Tecelões, Tingidores e Trabalh. Assem. 27.828 20.864 -25,0
Trabalhadores Agrícolas Especializados 25.090 30.333 20,9
Trabalhadores de Comercio e Trab. Assemelhados 24.261 61.884 155,1
Gerentes de Empresas 23.620 35.881 51,9
Trabalhadores da Usinagem de Metais 20.647 26.774 29,7
Agentes de Mestria 19.684 15.029 -23,6
Encanad, Soldadores, Chapeadores, Caldeireiros 19.362 22.636 16,9
Despachantes, Fiscais, Cobradores de Trans. 17.967 24.021 33,7
Trab Servico Tur Hig Embelez Seg e Trab. 15.361 11.985 -22,0
Engenheiros Arquitetos e Trabalhadores assem. 15.351 12.702 -17,3
Trabalhadores da Pecuária 15.124 32.072 112,1
Trabalhadores Florestais 14.987 14.651 -2,2
Operadores de Máquinas Fixas e de Equipamentos 13.279 13.178 -0,8
Supervisores de Compras e de Vendas, com. 13.051 20.612 57,9
Economistas e Técnicos de Administração 13.048 10.487 -19,6
Trabalhadores da Fabricação de Calçados 13.035 16.987 30,3
Trabalhadores de Minas, Pedreiras, Condad. 12.757 11.069 -13,2
Marceneiros,Oper Máquinas de Lavrar Madeira 11.029 17.914 62,4
Trab Serventia e Comissários (Serv Transporte aéreo) 10.405 13.408 28,9
Oper.Maq.Contab, Calcular e Processamento 10.090 13.173 30,6
Vidreiros, Ceramistas e Trabalhadores assemelhados 9.441 11.651 23,4
Trabalhadores de Fabricação de Produtos 8.996 12.368 37,5
Trabalhadores das Artes Gráficas 7.632 9.649 26,4
Agentes Técnicos de Vendas e Representantes 7.206 7.870 9,2
Classificadores de Correspondência, Carteiros 7.006 9.079 29,6
Telefonistas, Telegrafistas e Trabalhado 6.909 11.847 71,5
Operadores.Máquinas e Implementos de Agricultura 6.671 12.015 80,1
Pintores 6.190 8.050 30,0
Membros Superiores do Poder Legislativo, 6.042 25.594 323,6
Outras Ocupações 66.525 78.763 18,4
Total 2.170.644 2.803.454 29,2
FONTE: IRT.
Para o conjunto do Estado de Minas Gerais, alguns setores de atividade econômica apre-
sentaram desempenho acima da média quanto à expansão relativa de trabalho formal e outros,
abaixo. A agropecuária foi o setor que mais expandiu sua participação relativa no total de em-
prego formal, no período 1991 a 2001. Em 1991 a agropecuária respondia por 3% do emprego
formal mineiro e em 2001 passou a responder por 7% deste. A expansão/formalização do setor
pode ser explicada, parcialmente, pela expansão da agropecuária das regiões do Triângulo Mi-
neiro, Sul e Noroeste de Minas.
68 Minas Gerais do Século XXI
O comércio cresceu três pontos percentuais, saltando de 14% para 17% do emprego for-
BDMG
40 anos
mal e o setor público passou de 21% para 22% no período 1991 a 2001.
E entre os setores que mais perderam, o destaque é a indústria de transformação, caindo
de 21% para 17% entre 1991 e 2001. Outros que perderam foram a extrativa mineral, os servi-
ços industriais de utilidade pública, a construção civil e o setor serviços. Em 2001, o emprego
formal estava assim distribuído, em ordem decrescente: serviços (30%), administração pública
(22%), indústria de transformação (17%), comércio (17%), agropecuária (7%), construção civil
(5%), serviços industriais de utilidade pública (1%) e extrativa mineral (1%).
Ainda segundo os dados da RAIS (2002), no período 1991 a 2001 presenciou-se uma sig-
nificativa perda relativa de postos de trabalho das grandes e médias empresas e crescimento das
micro e pequenas empresas no total do emprego formal no Estado de Minas Gerais. As empre-
sas/instituições com mais de 1000 trabalhadores apresentaram fortes reduções em suas partici-
pações relativas, caindo de aproximadamente 26% para 21% do total do emprego formal no
Estado de Minas Gerais no período considerado.
Ações para reduzir o desemprego
A participação do sociedade civil, como salientado, será de vital importância em qualquer
direção que se queira dar a programas de emprego em Minas Gerais. Mas caberá ao governo
estadual papel fundamental, não apenas liderando e orientando o processo, como também exe-
cutando programas de ação direta. Apontam-se, aqui, algumas políticas de intervenção por par-
te do Estado de Minas Gerais:
1) selecionar as parcelas da população que se encontram em situação de maior
vulnerabilidade socioeconômica, abrangendo também as questões raça e gênero, de-
finindo, para aplicação das políticas públicas, regiões prioritárias onde estão mais con-
centradas espacialmente;
2) articular esse tipo de seleção com as análises sobre os clusters e a especialização pro-
dutiva;
3) articular e auxiliar na coordenação de esforços para que o movimento de responsa-
bilidade social empresarial potencialize suas intervenções, alinhando-as com os obje-
tivos das políticas públicas;
4) ser motor de agências ou câmaras regionais de desenvolvimento em todo o Estado,
reunindo empresários, sindicatos de trabalhadores, prefeituras e sociedade civil orga-
nizada, respeitando as prioridades em relação às parcelas e regiões mais vulneráveis
(fornecendo suporte técnico permanente);
5) ampliar as pesquisas de emprego e desemprego para as cidades-pólo, gerando infor-
mações que permitam acompanhar a implementação das políticas;
6) montar um banco de informações sobre os mercados de trabalho municipais, atuali-
zado constantemente, e disponibilizá-lo para os atores públicos e privados envolvi-
dos;
7) apoiar as agências de intermediação no sentido de oferecer capacitação para os tra-
balhadores que estiverem procurando emprego;
69
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
8) estabelecer uma rede de oferta de microcrédito articulada com esse conjunto de po-
BDMG
40 anos
líticas;
9) fortalecimento dos atores sociais nas instâncias estaduais, reforçando os mecanismos
de participação da sociedade através do Conselho Estadual de Emprego;
10) vinculação mais forte da liberação de recursos públicos aos resultados obtidos em
cada município, no caso dos programas de qualificação com recursos do FAT, evi-
tando falta de foco e ineficácia como a execução e cursos de capacitação
desvinculados de qualquer planejamento ou necessidade das empresas locais;
11) incentivo ao empreendedorismo, ao cooperativismo e a outras formas de associação
produtiva;
12) atenção especial ao combate ao trabalho infantil, que pode ser viabilizado com a am-
pliação do programa bolsa-escola e com a ampliação das escolas técnicas profissio-
nalizantes.
9.6. Desenvolvimento e combate à pobreza
Um programa de desenvolvimento com a amplitude que se deseja terá que reservar fôle-
go e espaço para aquela parcela da população que, por inúmeros motivos e por décadas vem
sendo vítima da exclusão social e do abandono. Reintegrar essa parte da população à cidadania
e à vida produtiva além de ser um dever é também uma decisão estratégica dentro do desenvol-
vimento que se projeta.
A articulação entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social aponta para o
fato da superação da pobreza ser uma questão eminentemente política. Trata-se, em suma, de
inverter a posição subalterna das políticas sociais em relação às políticas econômicas, e inserir o
desenvolvimento social como um objetivo do desenvolvimento econômico. A partir dessa mu-
dança de foco, as políticas voltadas para as populações mais vulneráveis deixam de ser apenas
compensatórias, voltadas tão somente para minimizar os danos causados pela inserção e acesso
precário de grande parte da população aos bens, serviços e riquezas geradas pela sociedade.
A pobreza tem sido vista basicamente como uma situação de carências materiais: insufi-
ciência de renda, necessidades não-satisfeitas; falta de acesso a serviços públicos, etc. Essas di-
mensões materiais são centrais para a determinação da pobreza e são também suas faces mais
visíveis. Entretanto, um diagnóstico e uma estratégia consistente de combate à pobreza persis-
tente deve mirar não apenas as diferentes dimensões materiais da pobreza, mas também – e tal-
vez principalmente – para as diversas maneiras pelas quais, em diferentes situações e contextos
os distintos vetores da destituição se relacionam e se interpenetram, pois é aí que em grande
medida se encontram os mecanismos de sua reprodução e permanência. Ou seja, criam-se cer-
tos circuitos e situações nos quais desigualdades de ordens distintas tendem a se sobrepor e se
reforçar mutuamente, reproduzindo a pobreza e a exclusão social.
Por exemplo, a cobertura do sistema escolar, as taxas de evasão e reprovação e o desem-
penho dos alunos do Ensino Fundamental estão significativamente associados às condições
socioeconômicas dos municípios, afetando as chances futuras das crianças de disputar melhores
posições no mercado de trabalho. Sabe-se também que a escolaridade da mãe está fortemente
associada positivamente às chances futuras dos filhos na escola e negativamente à mortalidade
infantil.
70 Minas Gerais do Século XXI
Nesse ponto, começa a ficar claro que, dada a complexidade do problema, programas que
BDMG
40 anos
enfrentem de forma isolada apenas uma ou algumas das diferentes dimensões da pobreza serão
ineficazes no rompimento dos mecanismos de sua reprodução, gerando uma situação de depen-
dência permanente dos beneficiários em relação à provisão pública, o que, além de um impacto
negativo do ponto de vista de uma política social emancipatória e voltada para a autonomia dos
cidadãos, apresenta problemas evidentes de sustentabilidade tanto social quanto fiscal.
Uma nova abordagem
Uma política eficaz e sustentável de combate à pobreza deve estar voltada para o dese-
nho de programas que incidam sobre estes mecanismos de reprodução da destituição e não apre-
sentar apenas um caráter compensatório de suprimento imediato de carências materiais mais ex-
tremas. As novas políticas de combate à pobreza terão duas premissas básicas:
1. Eles devem evitar a abordagem tradicional - setorializada e residual - e adotar neces-
sariamente um modelo intersetorial de intervenção, em que a dimensão assistencial da
política possa apoiar e se apoiar no acesso às outras políticas sociais. O novo modelo
deve ser capaz de combinar iniciativas de diversos setores para desenhar programas
que sejam a um só tempo compensatórios e redistributivos, emergenciais e estratégi-
cos. No exemplo óbvio da educação, combinam-se transferência de renda e
escolarização, compensatório e redistributivo. No caso da situação de jovens no mer-
cado de trabalho, por exemplo, um programa que rompa o ciclo da pobreza de forma
sustentável só pode ser bem-sucedido se for capaz de combinar formação profissio-
nal com suporte à freqüência e aproveitamento escolar, socialização (no sentido de
“capital cultural” ou cultura de status, para utilizar os termos da literatura corrente) e
iniciativas específicas para proporcionar experiência profissional qualificada, além de
talvez algum tipo de bolsa ou transferência de renda que sustente um compromisso e
uma participação mais longa do beneficiário na intervenção pública. Ou seja, enfren-
tar a pobreza e melhorar as oportunidades de adolescentes e jovens particularmente
vulneráveis no mercado de trabalho implica a combinação de projetos de assistência
social, escolarização formal e qualificação profissional.
A intersetorialidade significa desenvolver ações integradas entre as diversas áreas soci-
ais: educação, saúde, habitação, assistência social e outras. Esse princípio busca rom-
per com uma visão fragmentada da ação social, ao exigir uma integração de objetivos,
metas e procedimentos de diversos órgãos e secretarias de governo. A perspectiva da
integração setorial implica uma considerável mudança nos órgãos governamentais, que
precisam reformular suas estratégias de ação, as formas de destinar recursos públicos,
sua estrutura organizacional e burocrática. Ao buscar a articulação horizontal das po-
líticas e programas municipais, a perspectiva da intersetorialidade aponta em direção
contrária à fragmentação, à verticalização e à excessiva setorialização das políticas,
marcas características do aparato institucional das administrações públicas ainda pre-
dominantes no País. Tal estratégia permite maior eficiência e resultados mais signifi-
cativos quanto ao impacto e sustentabilidade dessas políticas, evitando sobreposições
de ações e garantindo a elas maior organicidade.
2. Os programas devem ser flexíveis e desenhados a partir das características específicas
pelas quais a pobreza se apresenta e se reproduz nos diferentes contextos. Isso impli-
ca também o deslocamento da ênfase da gestão dos produtos e atividades para os efei-
71
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
tos e impactos. Sob o rótulo genérico de pobreza, encontram-se, na verdade, situa-
BDMG
40 anos
ções muito distintas com condicionantes e nexos causais distintos e que, portanto, re-
querem intervenções muito distintas. Jovens urbanos em situação vulnerável deman-
dam, como se afirmou, intervenções distintas das voltadas para a situação do trabalho
infantil familiar em zonas rurais, para citar situações extremas, já que seus
condicionantes e seus efeitos são na verdade muito díspares.
Entretanto, se está claro que as ações compensatórias deixam de ser o foco da nova polí-
tica de combate à pobreza, não se pode dispensá-las de pronto e totalmente. Na verdade, será
necessário articular políticas compensatórias, com foco no curto prazo e mais imediatas, com
políticas mais estruturais, que interfiram de forma mais profunda no fenômeno de reprodução
da pobreza. Transferências de renda, oferta de bens e serviços por si mesmos não são suficien-
tes para reduzir, de forma sustentável, a pobreza. Embora possam ser necessárias no curto pra-
zo, não são, contudo, suficientes. Seus efeitos duram apenas enquanto durar o programa ou a
ação e acabam sem que nada de substancial tenha se alterado nas condições de vida das popula-
ções mais pobres.
É preciso agir no curto prazo, mas também focar no longo prazo, tendo como perspecti-
va uma superação efetiva das condições de pobreza e exclusão. Portanto, o foco deve estar per-
manentemente orientado para a ampliação da autonomia e das capacidades dos indivíduos e gru-
pos, sem o que não é possível construir estratégias que sejam a um só tempo efetivas e sustentá-
veis.
72 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
10. Meio ambiente e desenvolvimento sustentável
Minas Gerais acumula passivos ambientais em decorrência de aspectos de seu processo
de desenvolvimento econômico levado a efeito nas últimas décadas, sem a observância de pro-
vidências quanto à defesa e preservação ambiental. Embora seja antigo o debate sobre o tema,
só recentemente a sociedade se deu conta e reconheceu a relevância dos impactos ambientais
advindos do uso descontrolado dos recursos naturais.
Exemplos claros são as grandes áreas inundadas, a redução dos estoques populacionais
da flora e da fauna no Estado, a escassez de água no semi-árido mineiro, a perda de qualidade
da água de alguns rios como o das Velhas, o Paraopeba, o Doce e o Paraíba do Sul. Registram-
se também as conseqüências da ocupação urbana desordenada, dos incêndios e do avanço in-
sustentável da fronteira agropecuária.
O novo desenvolvimento incorpora e valoriza o conceito da sustentabilidade, e percebe
que há uma importante área de atuação do Estado, já que o mercado não será capaz de resolver,
por si só, os conflitos decorrentes da disputa pelo uso dos recursos ambientais.
Por suas dimensões multifacetadas, admite-se que o conceito de desenvolvimento susten-
tável ainda está em construção. Não se lhe atribui mais apenas a questão dos recursos naturais,
mas também a redução das desigualdades sociais, dos desequilíbrios econômicos e do nível de
pobreza.
Especificamente quanto ao meio ambiente, o modelo atual passa a elevá-lo à condição de
ingrediente essencial do desenvolvimento, até mesmo como uma questão de comprometimento
com as gerações futuras. O Brasil tem feito progressos, especialmente no campo das estruturas
regulatórias e mesmo na atuação do IBAMA, a despeito de todas as suas limitações.
Por sua vez, Minas Gerais também tem promovido alguns avanços importantes no apara-
to estatal, especialmente pela criação e funcionamento de organismos que atuam na gestão flo-
restal e da biodiversidade, dos recursos hídricos e do licenciamento ambiental, coordenados pela
Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentantável. Também entidades do setor
privado, como a Federação das Indústrias (FIEMG), vêm há vários anos enfatizando a obser-
vância da preservação ambiental. Mais recentemente, o empresariado agrícola, tradicionalmente
reticente em vários países, tem tomado iniciativas semelhantes em Minas Gerais.
10.1. A intervenção pela sustentabilidade
Há, portanto, um quadro favorável à intervenção do Estado no que couber quanto à
regulação, fiscalização, controle e mesmo mediação em conflitos, bem como na ação integrada
com o setor privado em busca da permanente observação de práticas de preservação ambiental
e disseminação de sua importância para as próximas gerações.
Quanto à ampliação da ação do Estado, há instrumentos econômicos diferenciados, utili-
zados em muitos países, que poderiam dar suporte efetivo para a concepção e a implementação
de políticas de sustentabilidade ambiental, tais como:
73
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
• Permissões Negociáveis: O Governo estabelece um sistema de permissões negociáveis para
BDMG
40 anos
poluição ou uso de recurso, leiloa ou distribui as permissões e monitora o cumprimen-
to; poluidores ou usuários de recurso negociam as permissões por meio de preços de
mercado não-regulados;
• Classificação de Desempenho: O Governo apóia programas de certificação ou de classifi-
cação que requeiram a divulgação de informações ambientais de produtos de uso final,
que permitam identificar os “ambientalmente amigáveis”;
• Legislação Rígida sobre Passivos Ambientais: O poluidor ou usuário do recurso deve, por
lei, pagar todos os danos aos prejudicados; as partes prejudicadas fazem acordos por
meio de litígios e cortes de justiça, etc.
O Poder Público Estadual poderá se utilizar ainda de mecanismos e instrumentos de mer-
cado para apoiar as políticas de desenvolvimento sustentável. É o caso da incorporação da di-
mensão social e da dimensão ambiental na avaliação de financiamentos oficiais e na concessão
de incentivos fiscais. Há uma larga experiência internacional em se incorporar a avaliação de
questões sociais e ambientais em projetos de investimento com financiamento público ou priva-
do, embora esse processo ainda apresente dificuldades técnicas e controvérsias conceituais.
Em Minas Gerais a liderança de uma perspectiva ambientalista para empréstimos e finan-
ciamentos será naturalmente o BDMG, que vem construindo uma sólida cooperação com o Sis-
tema Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Dentro dessa perspectiva, o
BDMG, como principal agência de desenvolvimento regional, deverá aperfeiçoar os mecanis-
mos de que já dispõe para, ao adotar essa dimensão ambiental em suas análises de crédito, evi-
tar, de um lado, que venham a ocorrer efeitos distributivos concentracionistas e grandes danos
ambientais provocados pelos projetos de investimentos subsidiados com dinheiro público; e, do
outro lado, que se deixe de incentivar os projetos mais apropriados do ponto de vista das políti-
cas sociais ativas e do ecossistema regional e local.
74 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
11. Cultura: o substrato de um projeto
A relação da cultura com o desenvolvimento, analiticamente, tem duas faces. A da cultu-
ra como insumo, isto é, como um dos fatores de produção do desenvolvimento, e, uma segunda
face, da cultura como produto do desenvolvimento. Ambas as faces se determinam e, na práti-
ca, são indissociáveis.
As políticas públicas têm um efeito imediato na cultura como produto, pois influenciam
a provisão de uma infra-estrutura cultural – bibliotecas, museus, arquivos, escolas, institutos de
pesquisa, etc. – associada à regulação do Estado sobre a infra-estrutura instalada de monumen-
tos, igrejas; enfim, locais públicos que simbolizam aspectos culturais do povo. Obviamente, o
produto cultura, por ser tipicamente um bem público, será subproduzido se não houver inter-
venção do Estado. Como a cultura é global, nacional, regional e local, o Poder Público, nos três
níveis de governo, tem certamente seu papel nessa missão de fomentar a produção cultural e
ampliar o acesso à cultura.
Aspectos histórico-culturais dos mineiros, de sua classe política, intelectuais, empresários
e trabalhadores, moldam e mesmo definem o estágio de desenvolvimento social. Uma compara-
ção com São Paulo mostra que o desenvolvimento industrial paulista, entre outras condições, se
deveu à concentração fundiária paulista, que implicou o fechamento do acesso à terra, e a ex-
pressiva imigração que possibilitou o surgimento do proletariado.
Em Minas Gerais, a realidade até a República Velha era de permanência de formas pré-
capitalistas de produção. Essa situação não seria necessariamente reflexo do comportamento do
empresário mineiro, pois, nos séculos XVIII e XIX os dados evidenciam a presença de mentali-
dade empresarial em Minas Gerais. O número de profissionais liberais, que servem como variá-
vel explicativa da urbanização, e de fábricas, principalmente na indústria têxtil é semelhante em
São Paulo e Minas Gerais do século XVIII.
Ou seja, não é correto rotular mineiros, paulistas, sulistas, etc., com características intrín-
secas que determinariam, de forma imutável, seus comportamentos. Tais preconceitos não so-
breviveram à história. As condições históricas em que se constroem os ambientes culturais e
institucionais das sociedades, estas, sim, influenciam o comportamento presente observado em
países e regiões, e estabelecem os fundamentos dos avanços futuros.
A cultura como insumo, portanto, é o enfoque mais importante, pois dela depende o de-
senvolvimento. Qualquer projeto de desenvolvimento em Minas Gerais deve considerar os as-
pectos culturais do mineiro, reforçando os traços que permitiram ao Estado grandes vantagens
comparativas. Projetos que tentem imprimir características repelidas culturalmente pelos minei-
ros são improdutivos, pois representam um conflito aberto de capitais, entre o capital financei-
ro, físico e o capital social.
Em linhas gerais, a distribuição de renda, do poder e da informação é condição necessá-
ria para a construção de um processo de desenvolvimento desejável, posto que inclusivo e com-
partilhado socialmente. A valorização da cultura popular, por meio de uma infra-estrutura cul-
tural adequada, é parte desse processo.
75
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
O Poder Público Estadual tem papel fundamental nas duas dimensões da cultura anali-
BDMG
40 anos
sadas. Na provisão e regulação da infra-estrutura cultural e, principalmente, na observação dos
aspectos culturais do Estado, que, por sinal, são distribuídos de forma bastante heterogênea por
Minas Gerais. Ou, como certa vez disse Guimarães Rosa, “Minas são muitas, são pelo menos
várias”.
76 Minas Gerais do Século XXI
BDMG
40 anos
Epílogo: a construção coletiva
A idéia da realização do Minas Gerais do Século XXI surgiu no processo de planejamento
estratégico do BDMG, em 2000. De agosto a dezembro daquele ano, a Diretoria e todos os
executivos da instituição, com a colaboração de aproximadamente 70 profissionais do seu qua-
dro de pessoal, elaboraram o Projeto Estratégico BDMG 2001-2004.
Nas definições permanentes desse Projeto consta a missão de promover e financiar o desenvol-
vimento econômico e social do Estado de Minas Gerais, além de um objetivo estratégico: manter elevado
nível de conhecimento da realidade econômica e social de Minas Gerais. Essas definições motivaram o es-
tabelecimento de uma meta no Plano de Diretrizes e Metas do BDMG para 2002: elaborar o 3º
diagnóstico da economia mineira, sob a coordenação do Departamento de Planejamento, Programas
e Estudos Econômicos (D.PE) e a supervisão da Diretoria de Planejamento e Controle, que re-
sultou no Minas Gerais do Século XXI.
As discussões internas ao D.PE sobre o planejamento do estudo – abrangência, prazo e
orçamento – e sobre o método de construção iniciaram no final do 2º semestre de 2001. Em
janeiro de 2002, foi elaborado o projeto inicial e definidos os coordenadores – geral, executivo
e técnico –, com a opção por um trabalho amplo no escopo e plural na escolha dos especialis-
tas. A amplitude idealizada para o trabalho, ajustada ao longo de sua construção, resultou da
percepção da coordenação de que a dimensão econômica, isoladamente, não contempla a no-
ção atual de desenvolvimento, mote do trabalho, que considera a qualidade de vida das pessoas
seu objetivo-fim.
Em fevereiro de 2002, a Diretoria e os consultores internos aprovaram o projeto do Mi-
nas Gerais do Século XXI. Os trabalhos começaram efetivamente em março, com data de lança-
mento estabelecida: 16 de dezembro de 2002. Sob a coordenação do D.PE e a liderança intelec-
tual de João Camilo Penna, deu-se início aos trabalhos.
A construção coletiva pressupõe a árdua tarefa de absorver diferentes visões sobre os di-
versos temas. Coube aos consultores-orientadores, notadamente Clélio Campolina Diniz, Paulo
Roberto Haddad, Antônio Barros de Castro e João Carlos Ferraz, a participação na primeira
delimitação do escopo temático do estudo. Seguiram-se, daí, a elaboração pelo D.PE de termos
de referência para cada tema e a contratação dos especialistas autores desta obra. Os consulto-
res-orientadores Luis Aureliano Gama de Andrade e Caio Marini se incorporaram, em etapa pos-
terior, ao trabalho.
Para os autores, foram estabelecidos quatro marcos: a entrega de um texto inicial baseado
no termo de referência; a elaboração da versão preliminar baseada nas discussões com o D.PE;
a participação em workshops; e a finalização do texto com adoção das contribuições dos de-
mais consultores e do D.PE.
Nos workshops, sete no total, os especialistas apresentaram suas versões preliminares, sub-
metendo-as à apreciação de relatores experientes nos temas e, freqüentemente, com diferentes
percepções. Esses eventos também contaram com a participação de mais de 60 pessoas, entre
estudiosos e representantes de diversas instituições.
77
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Na etapa seguinte, a equipe do D.PE coordenou o processo de revisão dessas versões,
BDMG
40 anos
sempre respeitando as escolhas dos autores frente às sugestões dos relatores e demais partici-
pantes.
Finalmente, para integrar as diferentes abordagens e aspectos tratados no estudo, foi rea-
lizado um seminário de integração no Hotel-Fazenda Tauá, nos dias 4, 5 e 6 de setembro, com a
presença dos especialistas, da equipe do D.PE e dos consultores internos do BDMG. Desenha-
ram-se ali as linhas gerais para elaboração deste volume – Uma Visão do Novo Desenvolvimento —,
percepção do BDMG para o desenvolvimento de Minas. O capítulo Minas Gerais no Brasil e no
Mundo, sobre os eixos de atuação estratégicos para o Estado, integrante do volume I, também
foi delineado nesse seminário.
A apresentação e a conclusão de cada volume foram elaboradas pela equipe do D.PE com
a colaboração dos autores, dos consultores-orientadores e dos consultores internos. Nove me-
ses, 48 especialistas e 60 consultores de Minas Gerais e de outros estados, e a realização de um
trabalho com a dimensão agora visualizada.
Concluído o projeto, fica claro que somente através da construção coletiva, poder-se-ia
produzir um estudo tão amplo e plural sobre um tema de tal complexidade: o desenvolvimento
de Minas Gerais. E temos um projeto maior e necessariamente coletivo: Minas Gerais como
um dos centros dinâmicos do País.
78 Minas Gerais do Século XXI
PLANO DA OBRA E AUTORES
BDMG
40 anos
VOLUME I: O PONTO DE PARTIDA
1) A Construção Econômica Recente
Fabiana Borges Teixeira dos Santos (Ph.D Candidate e Pesquisadora Associada do CEDEPLAR /
UFMG)
2) As Transformações em Curso
Fernando Martins Prates (Pesquisador da Fundação João Pinheiro)
Elisa Maria Pinto da Rocha (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Fabiana Borges Teixeira dos Santos (Ph.D Candidate e Pesquisadora Associada do CEDEPLAR/
UFMG)
Frederico Gonzaga Jayme Júnior (Ph.D e Professor do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
Mauro Borges Lemos (Ph.D e Professor do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
Paulo Roberto Haddad (Diretor-Presidente da Phorum Consultoria e Pesquisas em Economia Ltda)
3) As Condições de Vida
Fernando Martins Prates (Pesquisador da Fundação João Pinheiro)
Edite Novais da Mata Machado (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Eduardo Cerqueira Batitucci (Pesquisador da Fundação João Pinheiro)
Maria Bernadette Araújo (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
4) O Quadro Internacional e a Evolução Recente da Economia Brasileira
Antônio Barros de Castro (Professor Titular do Instituto de Economia / UFRJ)
5) Minas Gerais no País e no Mundo
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
VOLUME II: REINTERPRETANDO O ESPAÇO MINEIRO
Introdução
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
1) A Base Física
Oswaldo Bueno Amorim Filho (Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Infor-
mação Espacial / PUC Minas)
Guilherme Taitson Bueno (Professor do Curso de Geografia e Análise Ambiental / UNI-BH)
2) O Acesso à Infra-Estrutura nas Diferentes Regiões
João Francisco de Abreu (PhD e Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Infor-
mação Espacial / PUC Minas)
Léo Heller (Professor Doutor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental / UFMG)
Nilo Oliveira Nascimento (Professor Doutor do Departamento de Engenharia Hidráulica e de Recur-
sos Hídricos / UFMG)
José Eustáquio Machado de Paiva (Arquiteto, Mestre em Tecnologia, Professor do Departamento
de Tecnologia da Arquitetura e do Urbanismo / UFMG)
79
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Ramon Victor César (Mestre em Tratamento da Informação Espacial; Consultor da TECGIS Sis-
BDMG
40 anos
temas de Informações e Engenharia e Professor da Escola de Turismo / PUC Minas)
Cláudio Caetano Machado (Doutor e Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da
Informação Espacial /PUC Minas)
Caio Bonilha (Professor e Consultor - Brampton Telecom)
Manuel Emílio de Lima Torres (Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da In-
formação Espacial / PUC Minas)
Paulo Eduardo Fernandes de Almeida (Engenheiro Eletricista e consultor)
3) Aspectos Demográficos do Espaço Mineiro
José Irineu Rangel Rigotti (Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Informação
Espacial / PUC Minas)
Oswaldo Bueno Amorim Filho (Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Infor-
mação Espacial / PUC Minas)
4) O Padrão Espacial do Setor Produtivo
Maria de Fátima A. B. Gomes (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Maria Aparecida Sales de Souza (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Maria Helena M. de Alencar (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Maria Bernadette Araújo (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Laura De Michelis Mendonça (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
5) Os Sistemas Urbanos
Maria Aparecida Arruda (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
Oswaldo Bueno Amorim Filho (Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Infor-
mação Espacial / PUC Minas)
6) Tipologia de Regiões
João Francisco de Abreu (Phd e Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Infor-
mação Espacial / PUC Minas)
Oswaldo Bueno Amorim Filho (Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Infor-
mação Espacial / PUC Minas)
José Irineu Rangel Rigotti (Professor do Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Informação
Espacial / PUC Minas)
Manuel Emílio de Lima Torres (Doutorando do Programa de Pós-graduação em Tratamento da In-
formação Espacial / PUC Minas)
7) Planejamento Regional, Política Regional e Política Urbana
Maria Aparecida Arruda (Pesquisadora da Fundação João Pinheiro)
VOLUME III: INFRA-ESTRUTURA: SUSTENTANDO O
DESENVOLVIMENTO
Apresentação
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
1) Transporte e Logística
Ramon Victor César (Engenheiro Civil e Mestre em Tratamento da Informação Espacial; Sócio-consul-
tor da TECGIS Sistemas de Informações e Engenharia e Professor da Escola de Turismo /PUC Minas)
80 Minas Gerais do Século XXI
Co-autores da seção 1.6: Transporte Urbano na Região Metropolitana de Belo Horizonte
BDMG
40 anos
Maurício Eduardo Guimarães Cadaval (Administrador e Sociólogo, mestre em ciências em Transpor-
te Urbano, consultor de empresas e presidente do Instituto de Desenvolvimento e Informação em Transpor-
tes – ITRANS)
Marcos Fontoura de Oliveira (Engenheiro Civil, especialista em Urbanismo e em Desenvolvimento
Gerencial e mestre em Administração Pública)
2) Energia
Manuel Emílio de Lima Torres (Doutorando do Programa de Pós-graduação em Tratamento da In-
formação Espacial / PUC Minas)
Paulo Eduardo Fernandes de Almeida (Engenheiro Eletricista e consultor)
3) Telecomunicações
Cláudio Caetano Machado (Doutor e Professor Adjunto III do Programa de Pós-Graduação em Trata-
mento da Informação Espacial / PUC Minas)
Caio Bonilha (Professor e Consultor - Brampton Telecom)
4) Saneamento
Léo Heller (Professor Doutor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental / UFMG)
Nilo Oliveira Nascimento (Professor Doutor do Departamento de Engenharia Hidráulica e de Recur-
sos Hídricos / UFMG)
José Eustáquio Machado de Paiva (Arquiteto, Mestre em Tecnologia, Professor do Departamento de
Tecnologia da Arquitetura e do Urbanismo /UFMG)
5) Os Gargalos e os Espaços para Intervenção Estadual
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
VOLUME IV: TRANSFORMANDO O DESENVOLVIMENTO DA
AGROPECUÁRIA
Rúbio de Andrade (Mestre em Economia Rural e Diretor da ECCON - Estudos, Sistemas e
Consultorias em Negócios Ltda.)
Eduardo A. P. Campelo (Pós-graduado em Planejamento Agrícola e Diretor da ECCON -
Estudos, Sistemas e Consultorias em Negócios Ltda.)
Viviani Silva Lírio (Professora e Doutora em Economia Rural - Universidade Federal de Viçosa –
UFV)
Brício dos Santos Reis (Professor e Doutor em Economia Rural - Universidade Federal de Viçosa –
UFV)
Marília Fernandes Maciel Gomes (Professora e Doutora em Economia Rural - Universidade Federal
de Viçosa – UFV)
Wilson da Cruz Vieira (Pós-Doutor em Métodos Quantitativos pela Universidade do
Arizona e Professor da Universidade Federal de Viçosa – UFV)
81
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
VOLUME V: CONSOLIDANDO POSIÇÕES NA MINERAÇÃO
BDMG
40 anos
Germano Mendes de Paula (Doutor e Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de
Uberlândia)
VOLUME VI: INTEGRANDO A INDÚSTRIA PARA O FUTURO
1) Estrutura e Dinâmica
Mauro Borges Lemos (Ph.D e Professor do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
2) Cadeias Produtivas Relevantes
Victor Prochnik (Professor do Instituto de Economia e do Mestrado em Ciências Contábeis da UFRJ,
e Coordenador do Grupo de Pesquisa em Cadeias Produtivas)
Bruno Ottoni Vaz (Aluno do Instituto de Economia da UFRJ e Bolsista do Programa PIBIC /
CNPq)
3) Aglomerações Produtivas Locais
Marco Aurélio Crocco (Ph.D e Professor do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
Rangel Galinari (Assistente de Pesquisa do CEDEPLAR / UFMG)
4) Considerações para uma Política Industrial
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
VOLUME VII: DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
APOSTANDO NO FUTURO
1) Introdução
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
2) Meio Ambiente e Desenvolvimento
Paulo Roberto Haddad (Diretor-Presidente da Phorum Consultoria e Pesquisas em Economia Ltda)
3) Inovação Tecnológica e Desenvolvimento
Eduardo da Motta e Albuquerque (Doutor e Professor Adjunto CEDEPLAR / FACE /UFMG)
João Antônio de Paula (Doutor e Professor do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
Hugo Eduardo A. da Gama Cerqueira (Doutorando e Professor do CEDEPLAR / UFMG)
4) O Papel do Setor Terciário na Dinâmica do Desenvolvimento de Minas Gerais
Paulo Roberto Haddad (Diretor-Presidente da Phorum Consultoria e Pesquisas em Economia Ltda)
5) Cultura e Desenvolvimento
João Antônio de Paula (Doutor, Professor e Pesquisador do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
82 Minas Gerais do Século XXI
VOLUME VIII: INVESTINDO EM POLÍTICAS SOCIAIS
BDMG
40 anos
PRÓLOGO - Breves Considerações sobre Políticas Estaduais na Área Social
Mônica Viegas Andrade (Doutora em economia e Professora do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
1) Educação: qualidade e eficácia do gasto público
João Batista Araujo e Oliveira (Consultor, Presidente da JM Associados).
2) Políticas Públicas na Área de Trabalho: desafios e oportunidades
Antônio Carvalho Neto (Doutor em Administração, Diretor do IRT–Instituto de Relações do Traba-
lho e Professor do Curso de Mestrado em Ciências Sociais: Gestão de Cidades/PUC Minas).
Magda de Almeida Neves (Doutora em Sociologia, Pesquisadora do IRT–Instituto de Relações do
Trabalho e Coordenadora do Curso de Mestrado em Ciências Sociais: Gestão de Cidades/PUC Minas).
André Mourthé de Oliveira (Mestre em Economia, Pesquisador do IRT–Instituto de Relações do
Trabalho e Professor do Departamento de Economia/PUC Minas).
3) Políticas Estaduais na Área da Saúde
Mônica Viegas Andrade (Doutora em Economia e Professora do CEDEPLAR / FACE / UFMG)
4) Uma Agenda Estadual para Habitação
Gustavo Henrique Naves Givisiez (Doutorando em Demografia – CEDEPLAR / UFMG)
5) Sugestões para uma Política Estadual de Combate à Pobreza Persistente
Bruno Lazzarotti Diniz Costa (Mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fun-
dação João Pinheiro)
Carla Bronzo Ladeira Carneiro (Mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fun-
dação João Pinheiro)
6) Diretrizes para uma Política de Segurança Pública em Minas Gerais
Eduardo Cerqueira Batitucci (Pesquisador da Fundação João Pinheiro).
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro (Administradora pública lotada na Fundação João Pinheiro)
Luís Flávio Sapori (Pesquisador pleno da Fundação João Pinheiro)
VOLUME IX: TRANSFORMANDO O PODER PÚBLICO:
A BUSCA DA EFICÁCIA
Apresentação
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG
1) Desenvolvimento: missão de todos
Luís Aureliano Gama de Andrade (Cientista Político, Consultor e Professor da Faculdade de Ciênci-
as Humanas de Pedro Leopoldo)
2) Reformulando a Máquina Pública
Organizador: Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do
BDMG
Luís Aureliano Gama de Andrade (Cientista Político, Consultor e Professor da Faculdade de Ciên-
cias Humanas de Pedro Leopoldo)
83
Volume Especial - Uma visão do novo desenvolvimento
Caio Marini (Administrador público, Assessor do SERPRO e professor colaborador da Fundação
BDMG
40 anos
Getúlio Vargas)
Alexandre Queiroz Guimarães (Pesquisador da Fundação João Pinheiro, doutorando em Political
Economy – University of Sheffield)
3) Resgatando as Finanças Públicas
Fabrício Augusto de Oliveira (Consultor, Doutor em Economia pela Universidade Estadual de Cam-
pinas e Professor do Programa de Mestrado da Fundação João Pinheiro).
Solange Paiva Vieira (Mestre em economia pela FGV-Rio, ex-Assessora Especial do Ministério da
Previdência e ex-Secretária de Previdência Complementar).
4) Políticas Públicas do Estado de Minas Gerais para a Região Metropolitana de Belo
Horizonte (RMBH)
Willian S. Penido Vale (Doutor em Economia Regional e Consultor Internacional)
5) O Financiamento do Desenvolvimento: o papel das agências de fomento e o BDMG
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG (com con-
tribuições da economista Maria Cristina Penido Freitas)
VOLUME ESPECIAL: UMA VISÃO DO NOVO
DESENVOLVIMENTO
Departamento de Planejamento, Programas e Estudos Econômicos do BDMG, com reda-
ção do economista do BDMG Iran Almeida Pordeus e do jornalista Pedro Luiz Lobato.
84 Minas Gerais do Século XXI
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