Cheiros da infância - Arthur da Távola - Presentation Transcript
CHEIROS DA INFÂNCIA Arthur da Távola
Outro dia eu me lembrava da chegada da Coca-Cola ao Brasil em 1942 e disparou-se-me a memória emotiva da infância. Mistério e milagre essa tal de Coca-Cola. Antes da China reatar relações com os Estados Unidos, a danada já lá estava a funcionar como embaixadora da paz.
Ipanema, 1942: bairro calmo, desconhecido de famas e badalações, o prestígio de Copacabana apenas começava.
Ipanema era de baixa classe média, já havia esboço de favela no Morro do Cantagalo e da minha casa, à Rua Visconde de Pirajá além de ver o morro, escutava-se de fato o galo cantar. Galo, aliás, é lembrança da infância em Ipanema, bem como caramboleiras, muito terreno baldio, cabras, praia com pescadores a puxar o arrastão, o susto das noites de black-out por causa da guerra.
Era bairro também de profissionais liberais, funcionários públicos como meus pais, tinha vilas, apartamentos iniciantes em edifícios de no máximo três andares, havia pitangueiras nascidas naturalmente perto do areal da Lagoa Rodrigo de Freitas, soltava-se pipa, tascava-se balão, havia o bonde 14 que fazia fim de linha na Praça General Osório e entrava pela Teixeira de Melo dando a volta justo na intercessão com a Barão da Torre bem na boca de entrada do Morro do Cantagalo.
E uma enorme e esverdeada estação da Light, aglutinava e controlava o horário e o ponto de condutores, fiscais e motorneiros dos bondes, com seus impecáveis ternos azul marinho e o boné inconfundível que alguns levantavam só um pouco em dias de muito calor.
Impressionava também ao garoto, o hábito depois desaparecido da turma mais pobre de envolver o colarinho da camisa com o lenço. Custei a entender a lógica: era mais fácil e barato lavar o lenço que a camisa, explicou-me minha mãe. Até hoje, no verão, tenho vontade de fazer o mesmo...
Nisso aparece na Visconde de Pirajá, bem no meu quarteirão, uma filial das Lojas Americanas. Pasmo. Encantamento. A gente só conhecia padaria, confeitaria e armazém... Um universo de novidades. Meus pais chamavam-na de loja dos dois “mirréis” porque houvera no Rio uma cadeia de lojas de bugigangas com esse nome e onde nada custava mais que dois mil réis.
A Lojas Americanas de Ipanema trazia entre suas atrações, uma lanchonete que emitia ou produzia dois cheiros dos quais jamais esquecerei e não consigo sentir sem salivar ou recordar a infância: o do molho de cachorro-quente e o de “waflles”, ambos novidades que os Estados Unidos começavam a exportar.
Pois ali, para alegria de um menino tímido de seis para sete anos, havia o supremo dos regalos que, depois, aprendi chamar-se “promoção de vendas”. Quem comprasse um cachorro-quente ganhava de graça uma Coca Cola, mas somente às quartas feiras. Eu não perdia uma. E assim a danada da Coca Cola, hoje em tempos de barrigudo consumida como Diet, nunca mais saiu de minha vida. Com gelo e limão.
FORMATAÇÃO: Mima (Wilma) Badan [email_address] MÚSICA: Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) Interpretação: Richard Clayderman IMAGENS (das crianças): de Kim Anderson (Repasse com os devidos créditos) Ipanema e Morro Dois Irmãos
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