Revista out 2008a
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  • 1. 1
  • 2. REVISTA CIENTÍFICA FAMEC / FAAC / FMI ANO 7 - NÚMERO 7 - 20082
  • 3. REVISTA CIENTÍFICA FAMEC/FAAC/FMIISSN - 1677-4612 Ano 7 - Número 07/2008SUMÁRIO1. Nexus Institute – Instituto de Desenvolvimento 13. Resolução de problemas como alternativa para Humano: luz divina, amor e saúde no caminho a residência pedagógica – Dra. Denise dos Homens. Dr. Thomas Rex......................... 07 Rockenbach Nery (FAMEC)............................. 822. Body Talk System – Medicina Energética 14. Formas e recursos de comunicação: uma análise (Transcrição de palestra proferida na FAMEC). Dr. dos sites das principais livrarias virtuais do Brasil – Ms. Gisele Borges (coordenadora do curso de John Veltheim................................................ 09 Administração da FAMEC)................... 873. Inteligência Social: o diferencial no Ensino 15. O casamento da criminalidade com a tecnologia: Superior – Ms. Sônia Maria Martins Adoglio Dick história do famoso Hacker Kevin Mitrick – Ms. (FAMEC)........................................................ 16 Josyane Lannes Florenzano de Souza (coordenadora do curso de Sistemas de Informação da FAMEC);4. A Dança como área de conhecimento na Gislie da Silva Fernandes, Maurice Henrico Marin, Educação Básica – Ms. Andréa Francklin Lomardo Bruno César Febraio (alunos do curso de Sistemas (FAAC, FAMEC, Uniradial,); Ms. Daniela Leonardi de Informação da FAMEC)............................... 93 Libâneo (FAMEC)............................................ 23 16. Ergonomia: estudo de caso de um posto de5. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural trabalho informatizado de um autor de livros – Márcio Gonçalves (FAMEC), Dorlivete Moreira e o ensino superior. Ms. Erick Orloski (FAMEC)..28 Shitsuka, (Professora de Informática no Ensino Superior); Eduardo Penna Gouvêa (Professor do6. Letramento visual: a comunicação por meio de Ensino Básico, graduado em Lic. Computação); imagens – Paula Hana Akita de Oliveira Ricardo Shitsuka (Uninove)............................ 100 (coordenadora de Artes Visuais da FMI), Denílson Pereira (aluno 5º. Semestre de Artes Visuais da 17. Economia de Comunhão. Um novo paradigma FMI)................................................................ 34 de mudança organizacional – Carlos Alberto Araripe (FMI)................................................. 1087. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significati- va sobre a inclusão – Ms. Nilza Isaac de Macedo 18. A importância da gestão ambiental na (FAMEC)........................................................... 37 organização – Dr. Ricardo Roberto Plaza Teixeira (FAAC e FAMEC); Cibele Lima Siqueira, Elaine8. A importância da pesquisa na formação do Cardoso da Silva, Roseane Gasperini da Rocha, educador: três artigos representativos no curso Sandra Aparecida Domingues Alexandre Queiroz (alunos do curso de Administração da FAAC)... 112 de pedagogia – Ms. Katsue Hamada e Zenun (coordenadora pedagógica dos projetos: Ler e 19. Serviços e clientes – uma abordagem conceitual Escrever, Bolsa Universidade, e Alfabetização de – PhD. Maria de Fátima Abud Oliveira (FAMEC), PhD. Jovens e Adultos da FAMEC);; Ms. Daniela Libâneo Maria José Carvas Pedro (Professora universitária Leonardi (professora FAMEC), Edinéia Aparecida em cursos de pós-graduação em várias instituições Potente, Eunice Matos de Almeida, Rosana Medeiros do Ensino Superior)....................................... 119 (ex-alunas do curso de Pedagogia FAMEC)........ 45 20. Da terapia ocupacional ao profissional9. Elaboração da demonstração do valor adiciona- socialmente responsável – a trajetória e os do para as instituições privadas de Ensino desafios das Instituições de Ensino na formação Superior e seus aspectos sociais – Dra. Elza do profissional de Turismo no Brasil – Hugo Stauber (FAAC)............................................... 54 Grandis Filho (FAMEC), Ms. Ana Maria Diniz Rosaline (Mestre em Administração Hoteleira,10. A inclusão de todos – Ms. Guilherme Santinho professora universitária, e, Guia de Turismo Jacobik (FAAC)................................................. 61 credenciada pelo Ministério do Turismo).......... 126 21. Metáfora e notícia – Ms. Sueli de Britto Salles11. Trabalho docente com a programação televisiva (FAAC).......................................................... 133 na escola – Dr. Claudemir Edson Viana (Diretor da FAMEC)......................................................... 65 22. Implicações do ethos para a leitura do discurso literário: análise de um poema de Gregório12. Considerações sobre a formação inicial dos arte- de Matos – Ms. Eduardo Lopes Pires (FMI).... 139 educadores: a experiência como orientadora de estágios da graduação em licenciatura em 23. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em Artes Visuais – Ms. Guilherme Nakashato A Relíquia – Ms.Ubiracy Alberto Macieira Cintra (FAMEC)........................................................ 77 (FAMEC)...................................................... 143 3
  • 4. REVISTA CIENTÍFICA FAMEC/FAAC/FMIISSN - 1677-4612 Ano 7 - Número 07/2008REVISTA CIENTÍFICA FAMEC/FAAC/FMIISSN – 1677-4612 Ano 7 – Número 07/2008REVISTA CIENTÍFICA resulta da organização e produção acadêmica das Instituições do Ensino Superior:FAMEC – FACULDADE DE EDUCAÇÃO E CULTURA MONTESSORIFAAC – FACULDADE ASSOCIADA DE COTIAFMI – FACULDADE MONTESSORI DE IBIÚNAPresidente FAMEC, FAAC, FMISelma Ligeiro ReinVice-Presidente FAMEC, FAAC, FMIMichelle Ligeiro ReinDiretores AcadêmicosFAMEC – Prof. Dr. Claudemir Edson VianaFAAC – Adailton Costa RodriguesFMI – James PrestesDiretor de Planejamento e Marketing FAMEC, FAAC, FMIAdalberto Borges de Oliveira JuniorConselho EditorialProf. Ms. Carlos Alberto SroripeProf. Dr. Claudemir Edson VianaProfa. Ms. Gisele BorgesProf. Ms. José Manoel Vidal PiñeiroProfa. Ms. Josyane Lannes Florenzano de SouzaProf. Ms. Luiz Fernando Costa de LourdesProf. Ms. Manoel Edson de OliveiraProfa. Ms. Márcia Bregues Marques da SilvaProfa. Ms. Márcia Moreira de CarvahoProfa. Ms. Maria Cristina Santos GidraiteProfa. Paula Hana Aquita de OliveiraProf. Ms. Paulo Henrique de Oliveira LopesProf. Ms. Ricardo ZaniProfa. Ms. Rita Della RoccaProf. Sandro Mauro do NascimentoProfa. Ms. Ubiracy Alberto Macieira CintraConsultoresProfa. Dra. Márcia Giuzi MareuseProfa. Ms. Ubiracy Alberto Macieria CintraProf. Dr. Valdevino Rodrigues dos SantosCoordenação EditorialProf. Dr. Claudemir Edson VianaProjeto Gráfico e Diagramação InternaProfa. Ms. Sônia Maria M. A DickRevisãoProfa. Ms. Ubiracy Alberto Macieira CintraTiragemEm PDF disponível nos sites das Instituições organizadoras e em CD-ROM.4
  • 5. REVISTA CIENTÍFICA FAMEC/FAAC/FMIISSN - 1677-4612 Ano 7 - Número 07/2008EDITORIAL Neste ano de 2008, o Grupo Montessori come- Em seguida temos dos autores Denílson Pereira,mora 10 anos de atuação no Ensino Superior. E uma aluno do curso de Artes Visuais, e Hana Akita de Oliveira,das decorrências da atuação no Ensino Superior do coordenadora do mesmo curso oferecido pela FaculdadeGrupo Montessori tem sido a publicação anual da Revista Montessori de Ibiúna, o artigo intitulado LetramentoCientífica que completa 7 (sete) anos com este número, visual: a comunicação por meio de imagens.trazendo sempre trabalhos de alunos e professores das Na seqüência, é apresentado o texto da docenteFaculdades que integram o Grupo: Faculdade de da FAMEC, profa. Nilza Isaac de Macedo, intituladoEducação e Cultura Montessori, Faculdade Associada CIEJA-Butantã: uma aprendizagem significativade Cotia, e Faculdade Montessori de Ibiúna. sobre a inclusão que trata dos aspectos que podem ser observados em relação à inclusão na educação. Assim como nos números anteriores, neste, você Depois é apresentado o artigo A importância daleitor encontrará artigos resultantes de vivências dos pesquisa na formação do educador: três artigoseducadores e estudantes das IES que integram o Grupo representativos no curso de pedagogia, resultanteMontessori. Dando continuidade ao perfil das seções da da produção das professoras da FAMEC Katsue HamadaRevista Científica dos anos anteriores, neste número 07 e Zenun e Daniela Libâneo Leonardi, e das ex-alunas dotrazemos inicialmente um breve artigo apresentando uma curso de pedagogia da mesma Instituição EdinéiaInstituição cuja ação tem repercussão de importância aparecida Potente, Eunice Matos de Almeida e Rosanasocial. Com o título Nexus Institute – Instituto de Medeiros que atuaram em 2007 nos Programas Ler eDesenvolvimento Humano: luz divina, amor e saúde Escrever e Bolsa Escola Pública e Universidade nano caminho dos Homens, seu autor, Dr. Thomas Rex, Alfabetização como professor-auxiliar em salas deapresenta os propósitos deste Instituto por ele criado, primeira série do Ensino Fundamental das Redescom sede na cidade de São Paulo, e cujas atuações Municipal e Estadual de São Paulo, e que trazem notem tido repercussão em todo país graças principalmente artigo uma análise sobre a repercussão desta atuaçãoaos cursos que tem promovido na área da Terapia. para o curso de Pedagogia. Na seqüência, a seção dedicada sempre à Com outra abordagem sobre o Ensino Superior,publicação de texto referente a eventos ocorridos no temos o artigo Elaboração da demonstração do valorGrupo, trazemos a palestra do Dr. John Velthe intitulada adicionado para as instituições privadas de EnsinoBody talk System: sistema de medicina energética, Superior e seus aspectos sociais, da professora Elzaquando o especialista esteve pela primeira vez em São Stauber, docente da Faculdade Associada de Cotia. E da mesma instituição pertencente ao Grupo MontessoriPaulo no 1º. Semestre de 2008, e proferiu a palestra no temos o próximo artigo intitulado A inclusão de todos,auditório da FAMEC. de Guilherme Santinho Jacobik, que procura dar condições ao educador leigo para entender sobre os Em seguida, são apresentados artigos na área princípios mínimos ao adequado atendimento ao alunode educação iniciando com o trabalho da professora portador de deficiência.mestra Sônia M. M. A. Dick, coordenadora dos cursosem Terapias Complementares da FAMEC, intitulado O artigo Trabalho docente com programaçãoInteligência Social: um diferencial no Ensino televisiva na escola de autoria de Claudemir EdsonSuperior, onde demonstra o quanto hoje temos o Viana foi originalmente escrito para um Portal Educativo,professor mais como um conselheiro desenvolvendo e adaptado posteriormente para este tipo de publicaçãotécnicas de coaching junto a discípulos e conhecedor com a intenção de divulgar aos docentes do Ensinoda situação quase que individual de sua classe. Básico sobre metodologias de ensino com o uso da programação televisiva e desta linguagem. E encerrando Depois, temos o artigo das educadoras Andrea a seção com artigos voltados a temas que tratam doFrancklin Lomardo e Daniela Leonardi Libâneo intitulado ensino, temos o artigo Considerações sobre aA dança como área de conhecimento na educação formação inicial dos arte-educadores: a experiênciabásica. Em seguida é apresentado o artigo Diálogos e como orientador de estágios da graduação emreflexões entre a instituição cultural e o ensino Licenciatura em Artes Visuais, de Guilhermesuperior, de Erick Orloski que traz a experiência do Nakashato, e o artigo Resolução de problemas comoautor decorrente da sua atuação como arte-educador na alternativa para a residência pedagógica de DeniseFaculdade Montessori. Rockenbach Nery, ambos docentes da FAMEC. 5
  • 6. REVISTA CIENTÍFICA FAMEC/FAAC/FMIISSN - 1677-4612 Ano 7 - Número 07/2008 Na área do saber em que se encontra a Encerrando esta edição temos artigos abordandoComunicação, temos o artigo Formas e recursos de temas da área de língua e literatura, como o Metáfora ecomunicação: uma análise dos sites das principais Notícia, de autoria de Sueli de Britto Salles, docente dalivrarias virtuais do Brasil, de autoria da coordenadora FAAC e que trata das ligações entre as metáforas dodo curso de Administração da FAMEC, professora Gisele cotidiano e a linguagem jornalística; o texto ImplicaçõesBorges. do ethos para a leitura do discurso literário: análise de um poema de Gregório de Matos, de Eduardo A seção que traz artigos na área de tecnologia Lopes Piris, docente da Faculdade Montessori Ibiúna,apresenta o artigo O casamento da criminalidade com que apresenta no texto o problema da produção e daa tecnologia: história do famoso hacker Kevin recepção do discurso literário; e por fim o texto daMitnick , de autoria da coordenadora do curso de professora Ubiracy Alberto Macieira Cintra, docente daSistemas de Informação da FAMEC, professora Josyane FAMEC, intitulado Entre o sagrado e o profano: aLannes Florenzano de Souza, e dos alunos do mesmo imago mundi em a Relíquia, uma breve comparaçãocurso Geslie da Silva Fernández, Maruice henrico Marin entre a narração do julgamento de Cristo em A Relíquiae Bruno Cesar Febraio. Outro artigo desta seção é que acontece através de um sonho e a narração da Bíblia.intitulado Ergonomia: estudo de caso de um postode trabalho informatizado de um autor de livros, de Assim, temos a certeza da valia que todos osautoria de Márcio Gonçalves, professor da FAMEC, em trabalhos que compõem este número da Revista Científicaco-autoria com Dorlivete Moreira Shitsuka, Ricardo do Grupo Montessori têm para a comunidade acadêmicaShitsuka e Eduardo Penna Gouvêa, colegas docentes das faculdades que o constituem, e também parade outras Instituições do Ensino Superior, que analisam estudantes e professores de outras Instituições doo posto de trabalho de um autor de livros em termos de Ensino Superior do país. E fazemos o convite a todosergonomia e sugere-se alterações no sentido de minorar os docentes do Grupo para utilizarem os trabalhos emas dificuldades encontradas. suas práticas pedagógicas, bem como a todos os acadêmicos para participarem da próxima edição da A área do saber em que se encontra a Revista com o envio de trabalhos ao Conselho EditorialAdministração é representada pelo artigo Economia de (revistacientifica@montessorinet.com.br).Comunhão: um novo paradigma de mudançaorganizacional, de autoria de Carlos Alberto Araripe,coordenador do curso de Administração da Faculdade Selma Ligeiro ReinMontessori de Ibiúna. E também o artigo A importância Presidente do Grupo Montessorida gestão ambiental nas organizações de autoria de Setembro de 2008Ricardo Roberto Plaza Teixeira, professor da FAMEC eda FAAC, em co-autoria com alunos do curso deAdministração da FAAC, Cibele Lima Siqueira, ElaineCardoso da Silva, Roseane Gasperini da Rocha, SandraAparecida D. A . Queiroz. Ainda tratando de questõesrelativas a empresas e o atendimento a seus clientestemos o artigo Serviços e clientes: uma abordagemconceitual, de autoria de Maria de Fátima Abud Oliveira,professora da FAMEC, em co-autoria com Maria JoséCarvas Pedro, docente de outra Instituição do EnsinoSuperior. Na seqüência, é apresentado o artigo Da terapiaocupacional ao profissional socialmenteresponsável – a trajetória e os desafios dasInstituições de Ensino na formação do profissionalde turismo no Brasil, de autoria de Hugo Grandis Filho,professor do curso de Administração da FAMEC, em co-autoria com Ana Maria Diniz Rosalini, docente de outraInstituição do Ensino Superior.6
  • 7. Nexus Institute – Instituto de Desenvolvimento Humano: luz divina, amor e saúde no caminho dos Homens Rex Thomas*Resumo AbstractApresentação dos objetivos e fundamentos filosóficos Presentation of the goals and philosophical foundationsdo Nexus Institute, com sede na cidade de São Paulo, e of the Nexus Institute, with headquarters in Sao Paulo,que promove cursos de formação de Terapeutas Nexus, which promotes training courses for therapists Nexus,cuja proposta é promover o resgate da paz interior e da whose proposal is to promote the recovery of inner peaceauto-estima. and self-esteem.Palavras-chave: terapia, Instituto Nexus, coaching Keywords: therapy, Nexus Institute, coaching staff.pessoal. 7
  • 8. Nexus Institute – Instituto de Desenvolvimento Humano: luz divina, amor e saúde no caminho dos Homens Desde 1994 o Nexus Institute (Instituto de trabalhos voluntários, como o projeto “Celebrando aDesenvolvimento Humano) vem crescendo e inovando Vida”, direcionado para os idosos e o projeto educacionalcom visão na evolução humana, proporcionando em valores humanos, para crianças e jovens.treinamentos, coaching, eventos e experiências que A principal crença do Nexus Institute e do “Amigostocam e transformam as vidas. A missão e filosofia do Espírito Humano” é que nós somos, individual esempre foram motivar, encorajar, guiar, ensinar e ajudar coletivamente, responsáveis por criar nossas realidadescom amor, atenção, vigor, cuidado, eficiência, experiência, mentais e físicas, e que dentro de cada indivíduo há umrapidez e qualidade, através de cursos de infinito universo de potenciais, esperando para serdesenvolvimento pessoal, motivacional, terapêutico e despertado e desenvolvido.serviços sociais ao público. http://www.nexusinstitute.com.br Os cursos e atividades do Nexus Institute incluemtreinamento da língua inglesa com o método de coachingpessoal: uma metodologia que transcende a NOTASaprendizagem da língua inglesa, proporcionando amplaoportunidade de desenvolvimento e motivação pessoal.O método é excelente para empresas, profissionais * Com Doutorado em Filosofia, amplo treinamento eliberais e alunos que buscam um novo conceito de experiência em Life-Coaching, Psicoterapia, Metafísica,aprendizado da língua inglesa, com dinamismo, Programação Neuro-Lingüística e Multiple Intelligence,motivação e êxito, em menor tempo e custo. é Life-Coach, Terapeuta, facilitador de Motivação e Desenvolvimento Pessoal, Colunista e Jornalista para Nexus Institute é conceituado na formação de um Jornal Norte Americano, com mais de 13 anos decurso de coaching pessoal e empresarial. A essência do experiência em Coaching Pessoal e Empresarialcoaching é guiar, encorajar e ajudar uma pessoa a atingir (Personal and Corporate).os objetivos e as mudanças que deseja, e seguir nadireção almejada. O coaching apóia o indivíduo nos níveispessoal e profissional, para que ele se torne quem desejaser e melhor do que já é. O processo cria consciência,capacita à escolha e produz mudança. Ele revela opotencial de uma pessoa para maximizar seu própriodesempenho. Mais que ensinar, o coaching ajuda aaprender. Sempre visando o bem estar emocional, motivaçãoe auto-redescobrimento, o Nexus Institute desenvolveua Terapia Nexus conhecida internacionalmente comoNexus Therapy, que visa o resgate da paz interior e daauto-estima, o alívio emocional e a auto-motivação. Coma compreensão de que “vida é emoção e emoção é vida”,o propósito de tudo o que nós fazemos nesta vida é sentiruma emoção desejada ou não sentir uma emoçãoindesejada. A Terapia Nexus serve como uma ferramentapara explorar os domínios da mente humana através dasleis da física quântica, que já são cientificamentequalificadas e conhecidas mundialmente. Com a missão e filosofia de motivar, encorajar,guiar, ensinar e ajudar, o Nexus Institute oferece projetossociais através da sua ONG “Amigos do EspíritoHumano”, uma associação sem fins lucrativos, não-religiosa, sem dogmas e sem doutrinas. Sua finalidadeé promover estudos para o aprofundamento da reflexãosobre a vida e filosofia, por uma jornada de auto-redescoberta mais elevada, através de atividades demotivação, desenvolvimento pessoal e apoio emocional,através de palestras, debates, grupos de discussão etrocas de experiências. Além disso, a entidade promove8
  • 9. Body Talk System: sistema de medicina energética1 John Velthe∗Resumo AbstractTranscrição de palestra proferida pelo Dr. John Velthe no Transcription of lecture given by Dr. John Velthe in theauditório da Faculdade de Educação e Cultura auditorium of the Faculdade de Educação e CulturaMontessori, quando esteve pela primeira vez em São Montessori, when he was at the first time in Sao Paulo,Paulo, para a divulgação do método Body Talk System, for the disclosure of the method Body Talk System,criado por ele, como um sistema revolucionário de created by him as a revolutionary system for treatmenttratamento e cura. and cure.Palavras-chave: palestra, medicina energética, sistema Keywords: lecture, energy medicine, body talk systembody talk. 9
  • 10. Body Talk System: sistema de medicina energética Dr. John Velthe: boa noite, bem vindo ao Brasil! enquanto existe uma nova ciência que é a medicinaEu cheguei hoje de manhã e ainda não me recuperei energética.completamente da viagem. Vou falar para vocês um pouco E aqui é a ciência onde podemos estudar todassobre o Body Talk System que é, basicamente, uma as partes do corpo, desde o seu elemento mais refinadomedicina energética. que é a questão da sua consciência. E nós estudamos A medicina energética tem uma história bastante e aprendemos jeitos sofisticados de entender como éconfusa. Existem várias técnicas da medicina energética que funciona o corpo humano. E o desafio é colocar todohá muito tempo, a acupuntura é uma delas. Aqui no este conhecimento num formato que permita ensinar àsocidente temos uma certa resistência a estas técnicas pessoas. Então a medicina energética é, se eu tenhoporque elas não são consideradas científicas. uma classe com 50 pessoas, eu tenho que conseguir ensinar a todas as pessoas sobre como utilizar este No começo dos anos 70, quando eu era presidente sistema.de uma faculdade de acupuntura na Austrália e, apesarde apelos que existiam, conseguíamos resultados Isto significa que a medicina energética é utilizadaincríveis. Mesmo assim, nós recebíamos críticas de de acordo com leis da física, da matemática, e outrasprofissionais da medicina. Eu me lembro de estar ciências. Na verdade, a medicina energética é umparticipando de um debate na TV com um médico quando sistema de cura que pode ser aprendido por qualquerele nos disse que sabia que a acupuntura não funcionava pessoa. A acupuntura seria um bom exemplo, mas temporque ele havia olhado dentro de vários corpos e ele suas limitações. Uma, é que você leva muito tempo paranunca havia encontrado os meridianos de acupuntura. E ser bom nisso, e a segunda é que existem movimentoseu perguntei a ele se alguma vez havia visto emoções e muito importantes ou significativos dentro da própriasentimentos, e ele não havia visto, portanto, não existiam. acupuntura. Mas por sorte as coisas mudaram drasticamente. Eu pratiquei a acupuntura durante muitos anos eE agora nós temos equipamentos e máquinas que fui diretor do BRISBANE COLLEGE - Faculdade depodem medir campos energéticos muito sutis. E a Acupuntura e T erapias Naturais -, por cinco anos, e quemaioria das universidades pelo mundo todo abriu chegou a ter mil alunos, e isto foi na Austrália. Masdepartamentos para estudarem a medicina energética. infelizmente a acupuntura também se apóia emNa América já temos professores nas Universidades de diagnósticos, quando o terapeuta pensa no que fazer, eHarvard, Bristol e Stanford, e estão envolvidos com dessa maneira é muito similar às técnicas da medicina ocidental: naturopatia, homeopatia, e assim por diante,pessoas que ganharam o Prêmio Nobel, e o que se porque em cada um dos casos você tem o ego docomeçou a perceber é que a medicina energética vai terapeuta vindo à frente para decidir o que ele vai fazerpredominar no futuro. em cada caso. E isso, pra mim, estudando todos estes E para entender melhor, uma das primeiras coisas sistemas, é o principal problema que a gente tem.que temos que fazer é separar a cura energética da Diagnóstico é uma coisa que eu estudei bem; eu estudeimedicina energética. Há alguns anos, eu estava num diagnóstico de medicina ocidental, diagnóstico decongresso sobre cura energética e medicina energética, medicina chinesa, de naturopatia, de homeopatia,e eu recebi a tarefa de resumir a conferência. E o que eu diagnóstico através do chácras, de cabelo (risos), podepercebi é que até agora as pessoas gastam muita energia falar.... eu estudei....em descobrir como curar as pessoas através da energia, Por um tempo eu trabalhei com diagnósticos, mase que pessoas com este poder extraordinário existem eu logo aprendi o quão pouco eu sabia. Na verdade,há muito tempo, e particularmente em países como o quando eu falo de diagnóstico eu não estou falando deBrasil onde há uma grande tradição da cultura negra, de só dar um rótulo; dar um rótulo é muito fácil. Você podexamãs, curandeiros etc. Mas na minha experiência de trazer uma pessoa, perguntar sobre todos os sintomas,estudar a cura energética, eu observei algumas coisas fazer um raio-x, passar um scanner, e aí você junta tudocomo o quanto na prática destes curandeiros há de limites aquilo que você encontrou e tenta fazer uma aproximaçãono tipo de curas que eles podem fazer. Isto tende a exaurí- daquilo a um nome; e aí você vem com um nome bemlos e normalmente acaba afetando a saúde deles. E se bonito, onde o ponto principal é que ele seja em latim, ecolocar cinqüenta pessoas na frente destes curandeiros que deixa o paciente muito bem impressionado.e pedir para eles ensinarem como curar, eles não sabem. Mas, na verdade, o que é que você está dizendoE se houver uma ou duas pessoas naquele grupo que aí? Você deu um rótulo, mas você não explicou porqueparecem ter aprendido a fazer a cura, é porque na verdade ele está doente. E em muitos casos, quando você temjá tinham esse dom. Isto quer dizer que a grande maioria muitos sintomas você não sabe o que fazer com isso.que exerce esse tipo de cura é porque tem este dom, Você dá um rótulo como fibrionalgia, e o que você está10
  • 11. Body Talk System: sistema de medicina energéticadizendo? : simplesmente não tenho a menor idéia do se transformava em sapo, aquela parte danificadaque está acontecendo com você, e vá embora.... e também se apresentava danificada no sapo. E agora elesenquanto isso,tome um remédio contra dor. Fibrionalgia conseguiram identificar essa energia em volta do óvuloé uma das doenças mais comuns na sociedade de três dias, só que se trata de um óvulo de um girino eocidental; na América, uma entre seis pessoas tem essa não o de um ser humano.doença. Mas o interessante é que este rótulo não diz Então, o que eles dizem é que este print dá asnada sobre o que está acontecendo com a pessoa, linhas mestras do que vai ser este ser. E nas pesquisasporque em qualquer doença existem vários fatores mais recentes, eles dizem mais ainda; é baseado noenvolvidos. princípio da física. Nas escolas você faz experiências Eu tratei, literalmente, mais de mil casos de usando um ímã muito poderoso, se você põe um papelfibrionalgia, e em muitos deles existia o mesmo fator em cima de um ímã com pedacinhos de ferro em cima,por baixo disso, e mesmo assim eu nunca encontrei a se você sacode o papel os pedacinhos de ferro semesma causa; é sempre uma combinação diferente de rearranjam de acordo com o campo eletromagnéticocoisas. Em alguns casos são parasitas nas glândulas daquele ímã, e se você coloca outro ímã isto vai modificarsupra-renais ou em outro órgão, pode ser uma bactéria, a configuração. O fundamental agora é que toda vez quemas em muitos casos pode ser estresse ou problemas você faz alguma mudança no blue pen2 do corpo humano,emocionais; pode ser um fator ambiental na família ou você muda o campo eletromagnético, imediatamente vocêno local de trabalho, podem ter alergias envolvidas, vai modificar as células que representam estes pequenosquestões alimentares, problemas mecânicos na coluna, pedaços de ferro; muda as estruturas das células, epor exemplo, ou no crânio, e eu posso continuar a falar mudando a estrutura da célula muda a sua função e suasobre isso durante a próxima hora. O que acontece é fisiologia. E onde, normalmente, as células seriamque na verdade, para a maioria das pessoas, é uma influenciadas por coisas como cirurgias e medicamentos,mistura de todas elas, e a chave é saber que mistura é as células são influenciadas diretamente por isso, masessa, e não importa o quanto de estudo você tenha feito, a blu pen pode ser influenciada por fatores energéticosvocê nunca vai saber disso intelectualmente. A única como pensamentos, emoções, sentimentos. Na verdade,pessoa que sabe o que há de errado é a própria pessoa, o Dr. Bruce Linton que escreveu vários livros sobre células,ou o que a gente chama de sabedoria inata do corpo. E é um amigo meu e um apoiador entusiasta do bodyeste termo de sabedoria inata do corpo não é mais um system, e demonstrou que 90% das mudanças no DNAtermo estranho, é um termo científico. A ciência está vem por interação com fatores ambientais e, na verdade,muito bem atenda quanto a esta energia bem sutil que a tendência por desenvolver doenças genéticas vem dedetermina o que vai acontecer. Existe um sistema fatores sociais. Ou seja, a tendência para várias doençasancestral bem primário que determina o que vai já está presente no feto, mas quais serão os genes queacontecer. Sempre foi uma coisa para a qual a ciência serão manifestos de determinadas doenças sãonunca quis olhar. determinados por eventos que acontecem por influência Eu me lembro que, na universidade, quando eu no ambiente externo na vida fetal. E neste estudo, aaprendi sobre embriologia, quando no meio da noite dois gente tem desenvolvimentos bem interessantes. Elesseres se encontram e depois um bebê nasce, e eu não descobriram que a mãe, é claro, tem uma influenciapreciso explicar porque, mas estas células começam a muito forte no desenvolvimento do feto porque é ela quecrescer e algumas se tornam o sistema nervoso, provê a nutrição e o ambiente, mas o que elesalgumas se tornam um coração, e assim vai...e tudo descobriram agora é que as doenças realmente sériasque a medicina fez foi entender como isso acontecia. são disparadas por questões que aconteceram com oMas quando se pergunta por que isto aconteceu?, e como pai, quando na verdade, o que se pensa na sociedade éelas sabem para onde elas vão?, isto não está nos livros que a mulher cuida dela, fica em casa protegida, e eue nos textos. pai posso fazer o que quiser. Mas o que eles mostraram é que você como pai pode estar do outro lado do planeta, Mas agora, com equipamentos sensíveis, eles passar por uma crise de estresse e sentir muita raiva, epodem mostrar tudo isso. E isso começou com estudos o que vai acontecer é que o bebê vai ser atingido porem girinos, em Sidney, em Cambrachy. Eles tiraram uma isso. Na verdade, o que se mostrou é que aquilo quefoto dos girinos e viram que em volta dos girinos havia acontece durante a vida fetal é que vai determinar quaisuma energia na forma do que viria a ser um sapo. Como doenças vão ser apresentadas. E usando o body talk ose fosse um membro fantasma quando uma pessoa perde que a gente faz é trabalhar esta blue pen que foi afetada.aquele membro e continua sentindo-o como se ele aindaexistisse. Mais ainda, eles demonstraram que se Muitos outros desenvolvimentos aconteceram nobombardeassem essa camada e a danificassem, ainda estudo do corpo humano. Eles descobriram agora queassim o girino continuaria vivendo. Mas quando o girino muitas das funções, por exemplo do cérebro, não são 11
  • 12. Body Talk System: sistema de medicina energéticaexatamente como se sabe até agora. A coisa mais pessoas que têm uma metade inteira do cérebro faltando,interessante na ciência é perceber este espaço que mas que têm o cérebro funcionando normalmente. Naexiste entre o que há no texto é o que é produzido de verdade, o que eles mostram é como que pessoas quemais novo. Por exemplo, o que está no livro agora trata- têm reflexia, e que tiram uma parte do cérebro, e elasse de coisas que foram descobertas há 20 e 25 anos. O funcionam normalmente, e agora tem também evidênciaque acontece é que há um espaço de 20 anos entre a documentada, por exemplo, de uma pessoa que sentedescoberta e a sua publicação. É por isso que eu tenho ter três mãos. Ou ainda, uma pessoa que teve uma batidafalado com os maiores neurofisiologistas do mundo, e o no cérebro, e se tira um raio X do cérebro e se verificaque eles têm dito é que basicamente todos os livros de que não há nenhuma danificação no cérebro. Nãoneurofisiologistas existentes agora tratam de assuntos desenvolveu a danificação na parte de cima, no cérebro,que foram descobertos há anos atrás. Basicamente, se parou atrás, no pescoço, e na cavidade onde fica o cérebrovocê quer saber de algo novo é preciso consultar a internet, está completada somente com fluido, mas aqui está aou falar diretamente com os cientistas. E é isso que eu chave!. Quando eles usam um tipo de fotografia parafaço, eu tenho uma rede destes cientistas líderes que captar tipos de energia mais sutis, o que observaram éme passam o que tem sido descoberto. que a blue pen do cérebro estava lá. Então este fluido é como um cristal líquido, e toda atividade estava ocorrendo E todas as descobertas novas só vêm confirmando neste nível energético enviando todas as informaçõeseste imenso poder da medicina energética. Por exemplo, para o sistema nervoso. Na verdade, o cérebro não é tãoeles descobriram que o sistema nervoso não é o sistema importante assim, é só a gente que pensa que ele é tãomais importante do corpo. Que muitas das funções não importante assim.podem ser explicadas através do sistema nervoso. Avelocidade entre os neurônios é simplesmente muito lenta Poderia ficar a noite inteira aqui falando sobre comopara explicar os pensamentos, por exemplo. Questões eles descobriram como o corpo todo funciona de formamais avançadas, como a imaginação e o raciocínio mais diferente. Então, portanto, o jeito mais eficiente da gentecomplexo, não podem ser explicadas através do sistema atuar sobre o corpo humano é através da energia, porquenervoso. Entre os impulsos que ligam um hemisfério do a ciência diz: a energia vem primeiro, a matéria vemcérebro com outro, somente 40% vem através do sistema depois. Então, o body talk fala bastante sobre comonervoso, o resto vem através de freqüências energéticas trabalhar neste nível, e usamos alguns princípios:como onda de rádio e ondas eletromagnéticas. Naverdade eles demonstraram através de testes com gênios 1º. Não se faz diagnóstico. Ao invés disso, aprendemosem matemática, que, quando eles pedem para estas sobre como nos comunicarmos com o corpo e atravéspessoas fazerem testes simples, e escaneam seus dele saber o que está errado, como numa conversa comcérebros, algumas áreas dos cérebros acendem a gente. O que fazemos é ter um feedback para respostasdemonstrando que estão pensando em matemática. sim ou não. Isto já está à nossa volta há bastante tempoMas, então, pedem para que eles resolvam questões como em sinesiologia aplicada, em testes musculares.bem complexas de matemática usando a genialidade Em body talk a gente usa isso de forma mais sofisticada,que possuem, e aí é quando estas pessoas usam o que na verdade você não tem que testar a musculatura, euchamamos de zonas, e aquelas outras partes do cérebro posso testar com pessoas que estão em coma, quese apagam completamente. Nenhuma atividade estão dormindo; eu só tenho que aprender como meneurológica ocorre, é só a energia. Acontece também comunicar para obter a resposta, e isto não leva muitocom pessoas como esportistas e em qualquer tipo de tempo para aprender a fazer isso. Mas a questão épessoa que vai para uma atividade muito criativa, sua aprender que pergunta temos a fazer, e uma questãoatividade neurológica fica completamente apagada. chave é que em body talk existe um protocolo científicoE agora, com a possibilidade de scanear o cérebro, o que ensina a você jeitos para se fazer as perguntas paraque se tem descoberto é que existem mais e mais obter a resposta do corpo dizendo o que ele precisa.pessoas com partes inteiras do cérebro faltando, e isto Agora, o jeito que o body talk funciona dependeé interessante; é como uma pessoa que nasce cega e do nível que você está usando. O body talk pode sercomo ela tem uma audição melhor, o corpo faz esta praticado em vários níveis diferentes, como dizemos: noscompensação. módulos básicos até os módulos avançados. Os O que eles observaram é que pessoas mais módulos básicos ainda são os mais importantes, porqueinteligentes, com maior capacidade, mais avançadas, o que eles fazem de fato é restabelecer os níveis básicostêm partes do cérebro deteriorada porque outra parte do de comunicação do corpo. O que a gente achou nacérebro tem que trabalhar a mais para compensar a parte maioria dos casos de doenças é que cada um destesdo cérebro que está faltando. Mas, mais importante ainda fatores estressores, ambientais, químicos, seja lá o quepara a medicina energética, é que eles têm descoberto for, causa uma ruptura no sistema de comunicação, uma12
  • 13. Body Talk System: sistema de medicina energéticaruptura no sistema energético do corpo. A mesma coisa que as coisas certas aconteçam na ordem correta e horaé se você comparar com um sistema elétrico de uma correta, e isto pára de acontecer quando o sistema decasa quando os fuzíveis estão queimados. Você tem que sincronização do corpo pára de funcionar. Então, nocolocar o fusível novo e restabelecer todo o sistema. Na nosso sistema, o que agente quer fazer é que todas asverdade é que, numa pessoa média, a gente está o tempo partes do corpo se comuniquem, conversem entre si,todo estourando estes fusíveis, e apesar de se ter um portanto, daí o termo body talk, o corpo fala. E, o que amecanismo natural de restabelecer isso, na maioria das gente observou é que uma vez feito isto o corpo conseguevezes a gente está explodindo estes fusíveis mais rápido uma recuperação tremenda. Claro que existemdo que a gente consegue recuperá-los. E como resultado limitações; tem vezes que o corpo está muito debilitadodisso, todo o circuito energético fica prejudicado, e isto para se recuperar, e nestes casos uma cirurgia ou umaafeta profundamente as funções do corpo, e, portanto, medicação são necessárias, mas mesmo assim se eleas fraquezas do corpo vão aparecer em forma de tem body talk junto, recupera-se mais rápido destesdoenças. procedimentos. E eu sempre fico muito impressionado Dentre os princípios do body talk utilizados, o como o corpo humano pode se recuperar rapidamente.principal é restabelecer a comunicação entre as partes, Uma vez, no início da minha prática, na América,para poder trazer de volta o estado básico de equilíbrio. eu ia viajar para ensinar num outro lugar, e aí umaE não é só comunicação, é também sincronização, paciente ligou, falou com minha recepcionista e pediuporque, mais uma vez, um dos grandes problemas de um horário, e a recepcionista respondeu que o mais cedosaúde é a sincronização dos diversos processos que seria dalí quatro meses, e aí a paciente disse que acabaraacontecem no corpo humano. Por exemplo, veja bem, o de voltar de uma cirurgia e que os médicos tinham dadocorpo é um processo holístico, e a gente sempre tem só quatro dias de vida, então não dava para esperar...que pensar nele como um sistema holístico onde na Bem, sendo assim, fui atendê-la um pouco antes de eumaioria dos sistemas de saúde, sejam eles ocidentais ir para o aeroporto. E quando ela entrou, pude verou orientais, eles existem segundo o modelo cartesiano claramente que 50% da sua pele estava preta e a outraque é dividir o corpo em partes, por exemplo, especialista branca; ela tinha uma doença muito rara. Ela tinhado coração só sabe tratar o coração, o especialista do parasitas em todo seu sistema circulatório, e elesrim só trata o rim, o naturopata trata a química do corpo, estavam comendo as paredes das veias, e na verdadee ainda assim é o modelo cartesiano. Então, o conceito ela estava sangrando até a morte, e toda a pele pretadeste tratamento holístico não tem sido colocado em era o sangue saindo das veias para a pele, e o únicoprática. A maioria das pessoas que diz tratar de uma jeito era aplicar cortisona intravenosa, mas isto nãomaneira holística está, na verdade, fazendo a mesma estava adiantando, então os médicos deram apenascoisa que os especialistas. Na medicina holística, todosos níveis têm que ser tratados em conjunto, o nível mental, alguns dias de vida. Ela era uma professora de Yoga, e,o emocional, o fisiológico. de qualquer forma, eu fiz um tratamento para ela, sem saber o que dizer a ela, se tinha quanto tempo de vida. Eu comecei a trabalhar com body talk em 1998, Na verdade, quando eu voltei, estava no aeroporto, emnuma clínica, e fui o primeiro a trabalhar com este Tampa,e minha esposa estava lá para me receber, emétodo, e era visto como uma coisa estranha, com um antes de minha esposa me abraçar, veio uma mulher enome estranho. E eu fui muito bem, tive três pacientes começou a me agarrar e a me beijar, e era esta senhora.no primeiro dia, e depois de um mês eu tinha uma lista Claro que a pessoa estava bem melhor, e estava bemde espera de três meses. E depois de um ano eu tinha feliz por causa disso. Ela ainda tinha algumasseis mil pessoas na lista de espera. Então devia estar manchas pretas na pele, e demorou três meses parafazendo alguma coisa de bom! Mas as primeiras pessoas clarear totalmente, mas era bem sensível à questão doque vinham eram do tipo de pessoas loucas por saúde, corpo por ser professora de Yoga. E o que ela disse,pessoas que faziam todas as coisas certas para terem literalmente, foi que depois de algumas horas após oseus corpos em plena saúde, tipo limpeza com óleos tratamento, ela sentiu os parasitas diminuírem. Então,para o fígado, para os intestinos, faziam passeios na lua o corpo pode fazer isso se você estabelecer as conexõescheia... Eles tinham sim fígado saudável, pâncreas corretas.saudáveis.... e mesmo assim, sentavam na minha frentee diziam que se sentiam cansadas, que se sentiam Quando eu falo estabelecer as corretas condições,doentes, enquanto outras pessoas que fazem tudo eu digo, perguntar as questões corretas paraerrado, fumam, bebem, e ainda assim se sentem bem. compreender o que está acontecendo, porque inúmerosO fato é que não se tratava de todas as partes estarem fatores podem se tornar doenças. Então, eu mencioneisaudáveis. Para uma boa digestão, é uma questão de questões emocionais do passado que podem causarsincronização correta entre todas as partes envolvidas; doenças. (...) 13
  • 14. Body Talk System: sistema de medicina energética Outra aplicação muito importante do body talk é traz estas pessoas em ônibus, e nós estamos treinandoa medicina esportiva. Recuperação que vem de cirurgia, estas pessoas para se tornarem técnicos de body talkde machucados, a gente pode acelerar drasticamente a acesso, e vão aplicar estas técnicas em seus vilarejos.recuperação. Usando técnicas mais avançadas, podemos E o que se observou é que nestes lugares, as pessoasprovocar grandes transformações no corpo.(...) demonstraram dar conta de 70% dos problemas de Então, body talk tem usos bastante diversos. saúde, e isto está economizando uma fortuna do governoComo disse, é praticado em diferentes níveis. Até alguns porque caso contrário estas pessoas precisariam seranos atrás, estes níveis básicos estavam divididos em tratadas por médicos, e isto custaria uma fortuna. Namódulos, organizados em cursos durante 4 dias, onde verdade, as pessoas vão até os médicos devido questõesvocê aprende os dois módulos básicos, e isto permite a muito sérias. A gente está fazendo isto também na Índia,você aprender o básico de body talk para aplicar em aqui na América Latina, e também nos subúrbios dosmuitas situações. Na verdade, todas as pessoas podem Estados Unidos, e mesmo nas regiões ricas da América.fazer o curso, mesmo as pessoas leigas, apesar de que Meu objetivo é ter uma pessoa que saiba praticar o bodyestas pessoas precisarão estudar muito como anatomia, talk acesso em todas as famílias, e já avisei meusfisiologia, e podem continuar estudando para módulos instrutores que eles têm que cumprir esta meta até omais difíceis, e você nunca acaba de aprender. ano que vem (risos). Mas o mais interessante é que a gente tem recebido suporte dos governos porque eles Agora, há alguns anos atrás eu fiz algumas têm percebido que diferença isto faz. E eu tenho memudanças. Eu comecei um nível avançado que é encontrado com os ministros de saúde de muitos países,chamado de body talk acesso, criado para fazer o body e isto pra mim é muito importante porque, se em cadatalk acessível a todas as pessoas e lugares. O que eu família houver uma pessoa capaz de cuidar da saúde,descobri é que existem seis técnicas mais usadas em isto vai trazer um status de saúde geral, e outra partebody talk e que são extremamente eficazes para muitas importante é como se manter a saúde e maximizar osituações, e que são muito fáceis para se aprender. Você potencial de saúde.nem precisa perguntar ao corpo, você pode usar isto Na verdade, a pessoa mediana na nossacomo um sistema, e pode ensinar isto em um dia, em sociedade tem o que se chama de disfunção entre aseis horas, para qualquer um. E a idéia é que você possa ligação do lado direito e lado esquerdo do cérebro. Ousar isso em qualquer situação simples do cotidiano. sistema da amídala é a parte do centro do cérebro que O que está acontecendo hoje no mundo é que o controla o nosso mecanismo de luta e fuga, o jeito comosistema de saúde pública está muito complicado ou a gente se relaciona com o ambiente. Antigamente,muito caro. Mesmo em países ricos como na América o quando a gente lidava com o perigo, os dois modos eramsistema de saúde é terrível porque é muito caro, e a fugir ou lutar, e a amídala trazia pra gente a energia dasgente tem 40 milhões de pessoas na América que não supra-renais para a gente lutar ou para fugir. Na verdadetêm plano de saúde, e se alguém precisa de uma a amídala produz um medo profundo e uma raiva muitooperação normalmente tem que vender sua casa para grande, e o que acontece é que na sociedade modernaser operado, porque uma operação no hospital pode é que a gente está constantemente de frente a estascustar até cem mil dólares. E o que eu via era a ameaças, mas que não são tão óbvias, como um tigre, por exemplo, como problemas no casamento. Na teoria,necessidade de dar às pessoas o poder delas se o jeito de lidar com isso é lutar contra isso ou fingir quecuidarem, de cuidarem de sua saúde. Isto é uma coisa isto não existe, o que, na verdade, o que a gente faz?, aque eu sempre sonhei, que eu sempre quis fazer. Eu gente não foge, a gente congela, ou seja, a gente nãosempre acreditei que as pessoas, as famílias, as faz nada. E a gente vai para o que se chama “ignorar oscomunidades poderiam cuidar de sua saúde. Mas o problemas”, e isto acontece entre crianças, adultos, naproblema é como a gente pode fazer isso, qual o verdade com todo mundo. E o que se sabe é que esta ésistema?, e um sistema eficiente. Há muitos sistemas a forma de estresse mais profunda que o corpo podeem que se tem aquilo que eu chamo de resultados enfrentar. Isto cria um estresse profundo interno no corpoprofissionais. Então, o que eu fiz foi começar a ensinar que sobrecarrega demais o sistema. Quando você estáeste acesso e nas áreas pobres não só na América mas nem fugindo, nem lutando, você está neste sistema detambém pelo mundo, como por exemplo em alguns conivência, e este sistema traz medo, que a gente podeprogramas que temos na África do Sul, onde temos nos mostrar ou esconder, e medo sempre traz raiva, o que avilarejos aquilo que chamamos de trabalhadores gente pode mostrar através da violência, nãocomunitários, pessoas que têm um nível pouco melhor necessariamente violência física, e que pode ser contrade educação e que ajudam as demais pessoas a se outra pessoa ou contra a gente mesmo, como álcool,relacionarem com representantes do governo, e coisas drogas e coisas assim, e isto traz inúmeras doenças eassim. E o que a gente está fazendo é que o governo atrapalha funções do cérebro, atrapalha a tomada de14
  • 15. Body Talk System: sistema de medicina energéticadecisões, e nos leva a tomar decisões que tendem a ser É criador do método Body Talk, sistema revolucionáriouma auto-sabotagem, o que se faz é buscar as coisas de tratamento e cura.que são erradas pra gente, também causa a síndromede déficit de atenção e também causa vários tipos dedesordem psicológica, e você não precisa procurar muito 1 Palestra do Dr. John Velthe ocorrida na FAMEC em 05para encontrar pessoas com estes problemas na nossa de março de 2008, quando esteve pela primeira vez emsociedade. São Paulo. 2 Este é um problema que causa a impossibilidade Blue pen pode ser traduzido por “duplo etérico”, ode usar nossas capacidades nos nossos primeiro corpo sutil próximo ao corpo físico e que faz arelacionamentos, no jeito de pensar.... Isto provoca ligação entre este corpo com os demais corpos sutis.também que pessoas se juntem em organizaçõesreligiosas, de gangues, enfim, de crenças extremadas...e novamente do medo vem a raiva, e que faz as pessoaslutarem entre si, ou contra outras religiões, contra outrospaíses, e isto é familiar a vocês? Isto é um problemanúmero 1 atualmente, que é na verdade a manifestaçãodo desequilíbrio que está dentro de nós. E a primeiratécnica que a gente aplica no body talk acesso é ocoquises, que foi desenhado para se reequilibrar os doishemisférios do cérebro e restabelecer o circuito, e o queacontece é que você sente uma mudança imediata assimque você aplica isso. Mas quem tem feito regularmente,diariamente, por aproximadamente três meses, vairestabelecer todo este sistema de luta e fuga. E o quevai se observar é também uma mudança significativa nacapacidade de aprendizagem, de se ler.... a genteestabeleceu este programa numa escola de Chicago,entre jovens afro-americanos, com menos de 13 anosmas que já tinham ficha na polícia, viviam em gangues,mas depois do programa estabelecido e aplicado duranteseis semanas, observou-se mudanças significativas. Elespassaram a aprender e deixaram as gangues, e a gentequer isso não só em algumas escolas de Chicago, massim em todos os lugares. Então o body talk acesso é oque a gente considera um trabalho missionário para omundo, e na verdade qualquer pessoa pode aprender,até mesmo pessoas que não sabem ler através de manualorganizado em fotos, pois eles aprendem as técnicas edepois vão relembrando-as através das fotos. (...) Mas, na verdade, o body talk acesso foi feito paraser usado em família, e não tanto para uso profissional.Os que pretendem usar o body talk profissionalmenteprecisam fazer o curso por completo.(terminada a exposição acima, deram-se início àsperguntas que não foram transcritas neste texto).NOTAS* Dr. John é quiroprata, acupunturista e dirigiu durante15 anos uma clínica em Brisbane, Austrália ondetambém foi diretor do BRISBANE COLLEGE - Faculdadede Acupuntura e Terapias Naturais por cinco anos. 15
  • 16. Inteligência Social: o diferencial no Ensino Superior Sônia Maria Martins Adoglio Dick *Resumo AbstractA posição do docente de nível universitário perante os The position of the college teacher towards his studentsalunos vem sendo objeto de constantes indagações. is being constantly put into question.Breaking up andQuebrando e ultrapassando antigos paradigmas que o exceeding old patterns, which used to put him as acolocavam como um educador e disciplinador frio e teacher and disciplinary, cold and dist ant from thedistante, preocupado apenas em transmitir individual problems of his students, with the sole objectiveensinamentos, hoje temos o professor mais como um of transmiting his knowledge, today a teacher must actconselheiro, desenvolvendo técnicas de coaching junto more like a councelor developing coaching tecniques ,a discípulos e conhecedor da situação quase que which should not exclude even those teachers whoindividual de sua classe. Quanto ao papel de coach, o graduated some time ago.Emphasis should be given topresente irá apenas tangenciá-lo, detendo um olhar mais modern tools that teachers have nowadays at theirdemorado em algumas ferramentas de que dispõe o disposal to better carry on their teaching objectives. Bydocente para levar adiante suas propostas de ensino. using social and emotional intelligence techniques, theUtilizando as inteligências social e emocional, o docente teacher must adjust himself to the new methodstem que ajustar-se a novos tempos, que não poupam available nowadays which should not be spared even fromnem aqueles com titulação adquirida há algum tempo. senior teachers.Não tendo a pretensão de ser uma crítica, este artigoprocura de maneira breve e não esgotando o assunto, Keywords: social intelligence, college teacher,trazer uma visão moderna do atual professor do 3° grau. coaching, teacher.Palavras-chave: inteligência social, ensino superior,coaching, docente.16
  • 17. Inteligência Social: o diferencial no Ensino SuperiorINTRODUÇÃO as transformações afetam de forma diferenciada os indivíduos em cada contexto; para tanto, entre outros A teoria da “Inteligência Social” (IS) de aspectos, busca promover e evidenciar estudos eGoleman1 (2006) está baseada numa síntese original, possibilidades de intervenção social. A empatia oufeita a partir de pesquisas e recentes descobertas capacidade de harmonizar pensamentos e sentimentossobre o funcionamento do cérebro. Elas mostram nas relações interpessoais é a principal característicacomo a IS pode ser alimentada e fortalecida em todas enfatizada na teoria IS. Portanto, o seu campo de atuaçãoas pessoas, indistintamente, principalmente na encontra-se na interface entre a Psicologia e ainfância, período no qual toda a estrutura neurológica Sociedade.encontra-se em formação. A titulação do professor universitário por si só, não O indivíduo que possui um alto grau de Inteligência é fato determinante de um relacionamento interpessoalEmocional (IE) não assegura que ele adquiriu as satisfatório entre o docente e seu aluno. É fundamentalcompetências emocionais que têm importância para o desenvolver a IS para o bom relacionamento interpessoaltrabalho. No entanto, Goleman (2001, p. 49) diz que “as nas relações profissionais em sala de aula, poispessoas com prática emocional bem desenvolvida têm possibilita a criação de um clima harmonioso e motivadormais probabilidade de se sentirem satisfeitas e de serem entre pessoas, contribuindo para uma maioreficientes em suas vidas”. Pode significar tão somente produtividade no ensino-aprendizagem.que elas possuem um excelente potencial para adquirir A partir do constante estímulo ao aluno paraesta competência, ou esta inteligência. desenvolver todo o seu potencial, o docente passa a Os dois principais traços relacionados à investir não mais em um “seguidor”, mas em um sujeitocompetência pessoal são: capaz, junto com ele, de criar possibilidades de aprendizado, procurando uma maior inserção na• Capacidade de autopercepção e de autoconhecimento. realidade. Para isso, necessário e urgente se faz• Capacidade de autocontrole, especialmente na área construir um ambiente favorável a essa perfeita interação,emocional. de forma a permitir que alunos e seus docentes tenham um bom relacionamento, e enquanto forma de intervenção O autocontrole, segundo Goleman (1999) se refere no mundo, reconheçam que a educação é, tambéma lidar com as emoções perturbadoras e impulsos. Kiel ideológica. Isso se torna importante a partir do momentoe Lennick (2005, p. 119) dizem que “não importa o que em que se permite um movimento de ruptura efetiva comfazemos, estamos sempre pensando, sentindo e fazendo, o descompromisso relativo aos interesses que não sejame estamos fazendo todas essas coisas simultaneamente os da busca de soluções adequadas a problemas.[...] O que nós pensamos certamente afeta o modo comonos sentimos e o que fazemos” – e isso pode favorecer O DOCENTE E A INSTITUIÇÃOmuito o autoconhecimento, de acordo com os autores. Goleman (1999) ainda reforça outras competências É necessário, portanto implementar nasdentro desse autocontrole que são: merecer confiança instituições de ensino superior um processo seletivo parapara manter padrões de honestidade e integridade; ser ingresso no cargo de docente universitário, com bancaconsciencioso em relação a assumir a responsabilidade examinadora e entrevista psicológica, visando a captaçãopelo desempenho; adaptabilidade no sentido da de profissionais mais adequados para a função;flexibilidade para lidar com mudanças e inovação para treinamento na função após a contratação, para adequarsentir-se à vontade e aberto diante de novas idéias, o docente selecionado ao trabalho esperado e à políticaenfoques e novas informações. da instituição de ensino. Hanashiro e Teixeira (2008) Os dois principais traços relacionados à dizem que o aspecto político na organização, seja qualcompetência social são: for, pode determinar a quem caberá a decisão de escolha das pessoas que irão trabalhar na empresa e até mesmo• Empatia. os métodos e técnicas empregados. Assim, pode ocorrer• Aptidões interpessoais. que na seleção de professores não especializados, em Para cada um desses traços, Goleman (2006) uma faculdade, a responsabilidade fica por conta doprocura esmiuçar um pouco o que ele entende por essas profissional de gestão de pessoas. As autoras dizem:características. Há, em qualquer organização, Albrecht2 (2006) concebe a IS como uma das uma rede de relacionamentoáreas do conhecimento que procura compreender como – pessoas que apóiam outras, 17
  • 18. Inteligência Social: o diferencial no Ensino Superior grupos e subgrupos com Narcisistas – normalmente este profissional é opiniões diferentes e várias muito competitivo e propenso a explorar as pessoas para participações no poder - que sobressair-se. Não tem empatia, pois só pensa em si será alterada com a entrada mesmo. de novas pessoas. Esse jogo político poderá, inclusive, Maquiavélicos – termo usado indevidamente para determinar a aprovação de um se referir a pessoa socialmente esperta, sagaz e que candidato, em detrimento da desenvolve empatia com o objetivo de beneficiar-se. Para sua competência técnica, ela, os fins justificam os meios e possui grande afetando o lado estratégico da capacidade de negociação e diplomacia, mas escolha (p. 117). normalmente é fria e calculista, porém firme em seus propósitos. Em consonância com as autoras, pode-seentender que ambientes muito competitivos que Psicopatas – geralmente incapaz de reconhecerglorificam modelos ambiciosos incentivam o emoções, não tem empatia, não tem medo, nem sentedesenvolvimento de profissionais incapazes de sentir ansiedade e age friamente mantendo-se calmo emempatia. Lisboa (In: OLIVEIRA e MARINHO, 2005) diz ocasiões de muito stress. São pessoas que se dão muitoque: bem em situações ilícitas ou no mundo do crime. A interação homem/ O autor considera estes três tipos de organização é complexa e comportamento de “deformação psicológica” que são dinâmica, em elementos extremamente prejudiciais nas organizações e na vida de reciprocidade. A base social, também. Demonstram baixo grau de IS desse processo é o comprometendo o relacionamento profissional e “contrato psicológico”, ou prejudicando a organização em que trabalham. seja, a expectativa Desenvolver a IS torna-se muito importante para existente entre as duas as pessoas que desejam manter relacionamentos partes e que vai além do interpessoais saudáveis. Isto reflete na vida profissional contrato formal de trabalho, como na familiar, pois possibilita um clima harmonioso regulando as relações de e motivado no ambiente. Esse ambiente na sala de aula interação e regendo o encoraja o aluno a desenvolver suas habilidades, comportamento das acelerando o processo de ensino-aprendizagem. pessoas e da empresa (p. É sabido segundo PRANDI (1982) que os egressos 156). do ensino universitário no Brasil não atendem às Compreender pessoas desde quando chegam à necessidades das empresas, e as instituições de ensinoempresa pode se constituir algo fundamental na superior acabam por se responsabilizar perante acontratação de novos profissionais e importante na sociedade pela defasagem cultural desses profissionaisgestão de pessoas, pois possibilita compreender a graduados. Goleman (2006, p. 291) diz que “se quisermosdiferença entre o envolvimento da pessoa e o nível de ter organizações mais humanas, será necessário efetuarcomprometimento que ela oferece. Se alto, o líder pode uma mudança em dois níveis: dentro dos corações eobter resultados positivos, se baixo, negativos. O das mentes dos que oferecem assistências e nas regrasenvolvimento, segundo a autora, “é o sentimento básicas – tanto as explícitas quanto as ocultas – dasdispensado pelo funcionário ao seu trabalho”. instituições”. Esse “sentimento de exclusividade” que a autora O docente do ensino superior pode não possuirprossegue deve acompanhar o docente do ensino necessariamente a IS desenvolvida e, segundo Golemansuperior, caso contrário, o mesmo irá demonstrar uma (2006) um bom desempenho no relacionamento docente/relação negativa com a faculdade. Por exemplo, em aluno envolve auto-percepção, IE e a IS. Diz o autor quesituações de conflito com um aluno ou colega de pessoas que desenvolvem autoconsciência sãotrabalho, ou com a direção imediata, de fácil ou dificultosa sofisticadas no que diz respeito a sua vida emocional,solução, ele não irá perder a oportunidade de se desligar ou seja, conseguem elaborar relacionamentos saudáveis.da instituição. Goleman (2006) apresenta três comportamentos Um alto Quoeficiente de Inteligência (QI) tradicionalde pessoas: os narcisistas, os maquiavélicos e os não significa certeza absoluta de sucesso na vidapsicopatas. profissional, quer seja nas áreas intelectuais, simbólicas,18
  • 19. Inteligência Social: o diferencial no Ensino Superiorespirituais, ou materiais-econômicas. Kiel e Lennick para as diferenças, para o erro, para a colaboração(2005) dizem que: mútua, para a indignação frente à injustiça e para a criatividade. Uma universidade que preserve o bem-estar A maioria de nós conhece e a qualidade de vida das pessoas, em que professores outros tipos de inteligência, e alunos possam usufruir de autonomia, do pensar livre, como nossa inteligência da reflexão sobre o seu próprio processo de construção cognitiva (QI) e nossa de conhecimento e ter acesso a novas informações. Uma inteligência técnica. QI e universidade em que o conhecimento já sistematizado inteligência técnica são não seja tratado de forma dogmática e esvaziado de indubitavelmente importantes significado e afetividade. para o sucesso de um líder. Líderes precisam ter facilidade As universidades mais parecem “ilhas de aprendizado (QI) e paradisíacas” que ignoram o que se passa em seu redor conhecimento a respeito de e no mundo. No entanto, novos desafios colocam-se ao suas áreas específicas de buscar entre autores uma definição para a universidade, negócios (técnica) (p. 4-5). no que se refere a sua finalidade. Belloni (1992, p. 71) Em harmonia com os autores, entende-se que os diz que “apesar de existir por vários séculos e em paíseslíderes precisam cultivar vários tipos de inteligências, profundamente distintos entre si, não há um conceitopor exemplo, a Inteligência Moral (IM) que, segundo Kiel único a universalmente válido de universidade, nem suase Lennick (2008) “é a capacidade de diferenciar o certo funções são as mesmas em tempo e em espaçosdo errado de acordo com princípios universais”, e isso diferentes”. Da universidade brasileira, é possível afirmarparece envolver a auto-percepção de cada um. Já os que esta se constituiu historicamente a partir da somaprincípios universais, conforme os autores são aquelas de várias influências, as quais traziam no seu bojocrenças a respeito da conduta humana que são comuns concepções de universidades diversificadas. A históriaa todas as culturas do mundo. da sua relação com a sociedade traduziu-se pela idéia (ou idéias) de universidade assumida pelas elites Nos últimos anos, a educação em direitos dominantes, ou inclusive, a partir de modelos externoshumanos e em função de uma transformação social ao continente latino. Parece que se não conseguiuemergente e necessária, vem ampliando seu âmbito no desenvolver uma trajetória construída com base naBrasil, constituindo-se num campo específico de realidade nacional, decorrente de discussões epesquisa e de intervenção com conceitos, bibliografia, experiências próprias, e essa afirmativa vem semétodos e um amplo e articulado debate nacional e mostrando válida até hoje.internacional de educadores, psicólogos, sociólogos,filósofos, cientistas e afetos. Neste sentido, pode-se Nas suas origens, o ensino superior no país teveafirmar que a educação contemporânea em direitos influência no modelo napoleônico ao reduzir sua finalidadehumanos foi substituindo o que, nas décadas de setenta à formação de profissionais e às necessidades da elitee oitenta, era chamada de “educação popular” ou dirigente da sociedade aristocrática, carente de quadros“educação libertadora” (VALENTE, 2007). para desempenhar funções do Estado. Teixeira (Apud Resende, 1978, p. 31) caracterizou as faculdades O termo Educação tradicionalmente relaciona-se isoladas no país como uma corporação de estudantes ea divulgação, experiência e aperfeiçoamento de padrões professores e diz ser uma “torre de marfim dedicada àde comportamento, crenças, conhecimentos e costumes cultura impessoal e universal, alienada do ambienteque distinguem um grupo social. Sua finalidade pode imediato”.ser idealizada na formação de indivíduos capazes dedesenvolver a capacidade de percepção crítica. Ela é Na contemporaneidade fala-se de um processoobjetivada como um meio facilitador do entendimento da intenso de transformações conceituais que atingem asrealidade, ou seja, o esclarecimento com o qual os universidades e a sociedade como um todo. Ocorre umaindivíduos podem buscar a emancipação, tomando ciência crescente perda do poder econômico e social dosdos limites de sua liberdade, ao mesmo tempo em que, indivíduos, mudanças nos valores sócio-culturais, compela transcendência, alteram-se (Cf. ADORNO, 1995). crescente individualismo, generalização de papéis e Segundo Rego (1995), os postulados de Vygotsky atitudes, bem como mudanças na maneira de separecem apontar para a necessidade de criação de uma comportar e se relacionar na família, na escola e nauniversidade bem diferente da existente hoje. Uma empresa. Os filhos brigam por liberdade, os casais optamuniversidade em que docentes e seus alunos possam por um estilo de vida que garanta a privacidade individual,dialogar, duvidar, discutir, questionar compartilhar saberes , o aluno na escola passa a exigir seus direitos,e solidariedade. Onde há espaço para transformações, esquecendo-se dos deveres e obrigações, o docente 19
  • 20. Inteligência Social: o diferencial no Ensino Superiorpassa a negligenciar a excelência de ensino e o e sociedade a escola projeta construir a partir de suasdesenvolvimento de suas potencialidades. práticas. Outros fatores cruciais, tais como as relacionadas O docente, incapaz de corresponder ao que lhe écom a eliminação das desigualdades sociais e espaciais, exigido, modifica suas condutas e a forma como se situados conflitos étnicos, quase sempre a causa de “novas em uma universidade, para si e com o mundo, vivendoguerras”, da pobreza urbana e rural, da falta de qualidade contradições ao comportamento desejado de profissionaldos serviços de assistência às comunidades mais da educação, podendo indeterminar-se também elecarentes, concretizados na saúde pública e, nesse processo, acarretando estresse, desânimo eprincipalmente na educação contemporânea, dependem desesperança. Nesse contexto, a educação possívelde profissionais mais bem qualificados e experientes para enfrenta conflito naquilo que o próprio ser humano passaaturarem na tomada de decisão e na responsabilidade a se caracterizar na contemporaneidade: o sujeitodiante de governantes que, muitas vezes, têm pouco a letárgico.fazer. Uma escola amiga, bonita, companheira, alegre Para a tomada de decisão conforme Goleman e prazerosa da qual a sociedade contemporânea(1997), as emoções são uma fonte valiosa da informação. necessita para descobrir um novo caminho à educação,As emoções ajudam a tomar decisões. O autor mostra deve ser construída e permanentemente reconstruída comque quando as conexões emocionais de uma pessoa base na ousadia, na criatividade, na vontade política eestão danificadas no cérebro, ela não pode tomar nem social, no desejo e na ação política de pessoas maismesmo as decisões simples. Por que? Porque não comprometidas com a educação dos jovens do presentesentirá nada sobre suas escolhas. As escolas e e do futuro, sujeitos concretos e históricos que possamuniversidades, em sua missão de pertinência, não desafiar o imobilismo, que não se conformam diante dopoderão passar ao largo destas transformações. Assim, descaso com a coisa pública, que buscam repensar asa educação precisa ser discutida face ao avanço das coisas em sua volta e ao deredor, como também as suasnovas tecnologias de informação e de comunicação. próprias práticas. A educação contemporânea passou por um longo A educação contemporânea parece viver aperíodo de transformação. A globalização das culturas experiência tensa da democracia e um novo caminhodesencadeou processos idênticos em permanentes para ela deve ser compreendido como um processo demutações. O universo de percepção se expandiu, transformação permanente e continuado, substanciadoprimeiro, através das telas de televisão, posteriormente numa política de formação voltada para a práxis dosatravés da magia da informática. Neste contexto, parece docentes e dos demais segmentos escolares, já queque a sociedade contemporânea gestou a necessidade todos necessitam de educação durante toda a vida, nãode um profissional da educação como agente de auxílio só o professor, nem só a direção ou as equipes técnicasna formação de indivíduos que convivem dia-a-dia com e pedagógicas, mas todo cidadão comum, como umincertezas e exigências de posturas definidas de direito de todos e um dever do Estado.liderança, versatilidade, autonomia e, principalmente, decriatividade para a garantia da própria sobrevivência. CONCLUSÃORepensar a educação contemporânea nesse cenárioepistemológico da complexidade, com suas A reflexão lançada neste estudo recai sobre a ISpossibilidades e limites, revela notar que este projeto de Goleman (2006) no desempenho do docente comodeverá ir além da problemática da globalização e da uma abertura de um novo caminho para a educaçãoeducação. contemporânea, e isso implica, também uma abordagem A escola também tem sua crítica ao falar de sobre o relacionamento interpessoal do docente com otransparência em seus objetivos ou na sua ausência de seu aluno, mais especificamente como o docente interageresultados, urge, então a necessidade de um com esses alunos. Envolve também uma busca pelaplanejamento participativo que contemple a integração compreensão de Competências de liderança, além dode pessoas e uma gestão democrática, presente em reconhecimento da importância do docente desenvolveruma educação fundada em princípios da liberdade e diferentes inteligências. Assim, Munhoz (In: OLIVEIRApluralismo de idéias. Um planejamento que norteie as e MARINHO, 2005, p. 220) diz que “Gardner acreditaações da escola a partir de uma construção vinda de que a formação de um indivíduo criativo constitui-se detoda a sociedade (SAVIANI, 1980). O conceito de estágio de elaboração, treinamento e maturação, comoeducação parece ser tratado como uma das etapas de aprendizado que favorecem a criação de algooportunidades de emancipação do indivíduo no e para o consistente e duradouro”. Porém, analisar a criatividadesocial, na concepção de Freire (1995), visando qual sujeito desenvolvida de uma pessoa, ou de um profissional sem20
  • 21. Inteligência Social: o diferencial no Ensino Superiorcompreender as suas relações é ignorar o processo REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASplurideterminado e a virtude multifacetada dascaracterísticas individuais. Pesquisadores do ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Riocomportamento humano já tentaram definir um perfil exato de Janeiro: Paz e Terra, 1995.ou um conjunto de características para identificarem o ALBRECHT, K. Inteligência Social. A Nova Ciência doprofissional que todas as empresas desejam ter. Sucesso. São Paulo: M. Books do Brasil, 2006.Entretanto, as características podem ser adquiridas ou BELLONI, Isaura. Função da universidade: notas paradesenvolvidas, pois variam de acordo com as atividades reflexão. In: Universidades e Educação. Campinas:de cada indivíduo em dada época e em função da etapa Papirus, 1992. p. 71-78.de crescimento da empresa. Para adquiri-las, parece ser FREIRE, P A Educação na Cidade . 5. ed. São Paulo: .necessário que o indivíduo trabalhe seus aspectos Cortez, 1995.intrínsecos e individuais. Goleman (2001, p. 103) diz que“a aptidão não é uma propriedade fixa; há uma imensa GOLEMAN, D. Inteligência Social: o poder das relações humanas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.variabilidade da maneira como atuamos”. Tudo devedepender de como o indivíduo foi desenvolvido e _________. Inteligência Emocional. Rio de Janeiro:estimulado em seu ambiente e das aptidões naturais Objetiva, 2001.provenientes de sua personalidade, de sua formação de _________. Trabalhando com a Inteligênciapensamento. Emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. Os docentes, com títulos muitas vezes defasados, HANASHITO, Darcy Mitiko Mori; TEIXEIRA, Maria Luisapor falta de tempo hábil para atualizarem-se, premidos Mendes; ZACCARELLI, Laura Menegon. Gestão dopor horários rígidos e acúmulos de horas/aulas aceitas Fator Humano. Uma visão baseada em Stakeholders. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva,por uma questão puramente de sobrevivência, acabam 2008.perdendo o contato com os alunos, distanciando-se delesde maneira lenta, porém gradual, não podendo ser KIEL, Fred; LENNICK, Doug. Inteligência Moral.esquecidos aqueles, poucos, que se voltam para si Descubra a poderosa relação entre os valores morais e o sucesso nos negócios. Rio de Janeiro: Elsevier,próprios, sabedores que são de sua fragilidade em lidar 2005.com alunos de maneira mais atual, adquirindo, na visãodo aluno, uma postura arrogante. LISBOA, Teresinha Covas. In: OLIVEIRA, Jair Figueiredo de; MARINHO, M. Robson. Liderança em Teoria O perfil do jovem contemporâneo é diferente do e Prática . Liderança: Uma questão dejovem de antigamente, cujos pais separavam-se apenas Competencia. São Paulo: Saraiva, 2005. p.1-14.em casos extremos e a mãe, que não trabalhava fora, MARINHO, M. Robson In: OLIVEIRA, Fair Figueiredo de;cuidava da casa e da família em período integral. Naquela MARINHO, M. Robson. Liderança em Teoria eépoca os valores morais eram mais rígidos e o aluno Prática. Liderança: Uma questão de Competencia.devia obediência irrestrita aos pais e aos mestres. Hoje, São Paulo: Saraiva, 2005. p.1-14.o aluno está na sala de aula com uma carga emocional MUNHOZ, Maria L. P. Liderar com Criatividade: umanegativa em razão dos problemas que ele enfrenta no Competência Humana. In: OLIVEIRA, Jayr Figueiredodia-a-dia e toda a sua carga de agressividade pode ser de; MARINHO, Robson M. (Orgs.). Liderança: umaliberada em sala de aula, através de atitudes de questão de competência. Albert Sugo [et al.]. Sãodesrespeito, agressões morais e até físicas. O docente Paulo: Saraiva, 2005. p. 206-30.que tem a IS desenvolvida tem claro entendimento dos OLIVEIRA, Jayr Figueiredo de; MARINHO, Robson M.papéis de cada indivíduo na sociedade e no processo (Orgs.). Liderança: uma questão de competência.ensino-aprendizagem. Isso faz com que ele tenha mais Albert Sugo [et al.]. São Paulo: Saraiva, 2005.condições de lidar com situações diversas e adversas e PRANDI, Reginaldo. Os favoritos degradados: Ensinoque consiga resolver conflitos em sala de aula. O aluno superior e profissões de nível universitário no Brasilirá perceber que o papel do professor não é só transmitir hoje. São Paulo: Loyola. 1982.conhecimento, mas, sim, entendê-lo em sua REGO, Teresa Cristina. Vygotsky. Uma perspectivacomplexidade e em seu contexto, tanto familiar como histórico-cultural da educação. 10 ed. Petrópolis:intelectual e emocional. Vozes, 1995. 21
  • 22. Inteligência Social: o diferencial no Ensino SuperiorSAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez/ Autores Associados, 1980.NOTAS* Mestre em Liderança Organizacional. Pós-graduadaem Psicologia Organizacional e Liderança e EstratégiaOrganizacional. Psicóloga, Coordenadora dos Cursosde pós-graduação em Terapias Holísticas Vibracionaise Aperfeiçoamento Profissional em TerapiasComplementares – Faculdade Montessori. Diretoraexecutiva do Instituto de Desenvolvimento Pessoal eCultural Saúde & Harmonia – IDEPES.E-mails: soniadoglio@hotmail.comidepes@idepes.com.br –Site: www.idepes.com.br1 Daniel Goleman (nascido em 1946) é um psicólogodos Estados Unidos da América e Ph.D. pela Faculdadede Harvard.Escritor de renome internacional, psicólogo e jornalista.Ele é filho de um casal de jornalistas de Stockton,Califórnia, onde o seu pai ensinava literatura mundialno San Joaquin Delta College, enquanto sua mãeensinava no departamento social, que é agora a Universityof the Pacific.2 Karl Albrecht (nasceu em 1920).22
  • 23. A dança como área de conhecimento na educação básica Andrea Francklin Lomardo* Daniela Leonardi Libâneo**Resumo AbstractO artigo trata da dança como área de conhecimento a The article deals with the dance as knowledge area toser desenvolvida dentro do currículo da educação básica. be developed in the curriculum of the Basic Education.Com o objetivo de destacar suas possibilidades With the aim at detaching its expressive possibilities andexpressivas e de linguagem, enfoca sua existência ao language, it focuses its existence over the History,longo da história, classificando-a em danças étnicas, classifying itself into ethnic, popular and/or folkloric,populares e/ou folclóricas, teatrais e ainda a dança na theatrical dances and dance in education as well. Righteducação. Em seguida, apresenta a mesma como afterwards, it presents the dance as a discipline holderdisciplina detentora de saberes específicos e of specific and fundamental knowledge in the formationfundamentais na formação de indivíduos plenos, of full, conscious, critical and transformer individuals.conscientes, críticos e transformadores. Key words: Dance, Education, Curriculum.Palavras chave: Dança, Educação, Currículo. 23
  • 24. A dança como área de conhecimento na educação básicaINTRODUÇÃO culturalmente homogênea, transmitida de geração em geração, com mínimos acréscimos e modificações. A dança é considerada por diversos autores a Neste caso estariam as danças tribais dos índios brasileiros. A dança étnica pressupõe também umaexpressão artística mais antiga do homem. Durante os elaborada expressão artística, exigindo peritos treinadosséculos, o homem dançou como sinal de exuberância longamente e havendo assim separação entre osfísica, como tentativa de comunicação, e também como executantes e os demais membros da comunidade.forma de ritual. Nas mais remotas organizações sociais Como exemplo: Bharat Natyam da Índia e o Teatro Nôa dança estava presente, celebrando as forças da japonês. Embora cristalizada na tradição, a dança étnicanatureza, representando as guerras e as mudanças das pode influenciar o folclore de uma região ou de um país.estações. Dançava-se também, para expressar medos,louvores, desejos, alegrias, pesares, gratidão, respeito, Dança folclórica é aquela produzidatemor, poder. E nesse sentido, a existência da dança espontaneamente numa comunidade com laços culturaispode ser entendida como forma de comunicar algo, sendo em comum, resultantes de um longo convívio e troca deexpressa por meio do movimento. experiências. Ela funciona como fator de integração celebrando eventos de relevo ou como simples Mas que impulso irresistível leva o homem a manifestação de vitalidade e regozijo. Pode absorverdançar? Provavelmente uma necessidade interior muito influências diversas e por vezes até contraditórias.mais próxima do campo espiritual do que do físico.Segundo Robinson (apud STRAZZACAPPA, 2001, p.72) Segundo Frade (1997) danças folclóricas sãoa motivação principal é a magia. A partir dessa magia expressões populares, desenvolvidas em conjunto ousurgem três outras motivações: o lazer, o espetáculo e individualmente, que têm na coreografia o elementoa expressão. Para Strazzacappa (2001) temos ainda definidor. Sobre sua história, sabe-se que originariamenteoutras possibilidades, como as questões étnicas e existiram enquanto elemento integrante de rituaisterapêuticas. religiosos, guerreiros e fúnebres dos chamados “povos primitivos”. Eram manifestações exclusivamente Porém, entende-se a expressão como uma das coletivas, com os dançadores organizados em círculo,mais significativas motivações em relação ao ato de fazendo todos, simultaneamente, os mesmosdançar, uma vez que em todas as sociedades e épocas, movimentos, às vezes com a presença de um solista noa dança é utilizada como forma primordial de centro do círculo. As danças desenvolvidas em pares,comunicação, demonstrando visões individuais de sobretudo os “enlaçados”, revelam a influência domundo, sentimentos e as pulsações do inconsciente. elemento colonizador.Para Garaudy (1980, p.13) a dança é: “(...) a expressão,através de movimentos do corpo, organizados em As danças folclóricas podem ser sistematizadasseqüências significativas, de experiências que de acordo com os seguintes aspectos:transcendem o poder das palavras e da mímica. A dança • Coreografia: Mímicas, acrobáticas ou figuradas.é um modo de existir.” • Dançarinos: Em roda, par solto, par unido, Este artigo trata da dança como área de conjunto ou individual.conhecimento e como linguagem expressiva. Pretende, • Gênero.fundamentalmente, refletir sobre sua importância naeducação básica. Para tanto, abordaremos • Período de celebraçãoprimeiramente, em uma classificação didática, a • Área geográficatrajetória da dança na história e em seguida, enfatizamos • Indumentária.uma discussão sobre a dança na educação. • Danças teatrais:1. POR DENTRO DA DANÇA Para compreendermos a dança na educação é O surgimento da dança teatral esteve diretamentepertinente conhecermos um pouco de sua história. vinculado ao nascimento do ballet clássico na França, que atingiu seu apogeu com Luís XIV, o “Rei Sol”. Ele foi• Danças Étnicas, Populares e/ou Folclóricas: um grande estimulador das artes, criando uma série de O limite entre dança étnica e dança folclórica tem instituições destinadas a promovê-las, dentre as quaisgerado debate, sem que os especialistas cheguem a a “Académie Royale de la Danse”, em 1661. Em seuum acordo definitivo. No geral tem-se por dança étnica reinado surgiram as figuras do professor e do coreógrafoaquela produzida por uma comunidade racial e de dança. Suas características referem-se à linearidade24
  • 25. A dança como área de conhecimento na educação básicanos movimentos; à verticalidade; à utilização de narrativas transdisciplinar da dança, tais como a educaçãoassociadas aos contos de fadas, histórias de príncipes somática, psicologia, novas tecnologias, entre outras.e princesas; ao padrão estético definido: bailarinos ebailarinas magros, altos, de pernas longas; à busca pelo • Dança na educaçãoetéreo, divino, além do humano. Nesse contexto, surgiua sapatilha de ponta e o “coque” nos cabelos dasmulheres. Alguns de seus principais representantes Coerente com a ideologia da dançaforam Diaghilev, Nijinsky, Fokine, Ana Pavlova, Margot contemporânea, entendemos a dança na educação comoFonteyn, Barishnikov. uma das modalidades da arte em geral e da linguagem estética do movimento corporal. Como arte, caracteriza- O ensino do ballet clássico ainda hoje – em muitos se por uma sabedoria particular, por um trabalho, nocasos -, segue uma proposta pedagógica tradicional, mesmo pé de igualdade dos outros saberes com os quaisbaseada na hierarquia da relação professor aluno, quer ser parceira e não subalterna.disciplina autoritária, ênfase na cópia e repetição demovimentos. Daí compreendermos a dança como conhecimento em si mesma, como inteligência sensível-cognitiva do A dança moderna surgiu como uma oposição ao mundo da natureza e da cultura, não podendo serballet clássico em todos os sentidos: foram tiradas as considerada apenas como auxiliar, “serviçal”,sapatilhas, passou-se a dançar com os pés descalços “atividadezinha” mediadora de outras áreas doe utilizando-se o chão como apoio. As narrativas conhecimento entendidas como mais nobres, maispassaram a ser vinculadas aos dilemas humanos, científicas.anseios e crenças, ao mesmo tempo em que houve um A arte da dança é uma das linguagens doretorno aos ideais gregos, orientais e aos elementos danatureza. Os movimentos tornaram-se mais circulares e movimento corporal. Conforme os Parâmetrosampliados para além das linhas rígidas do ballet clássico. Curriculares Nacionais de Arte (MEC/ BRASIL, 1996), “aO padrão estético dos dançarinos também se atividade da dança na escola pode desenvolver na criança a compreensão de sua capacidade de movimento”, dodesvinculou do ideal de beleza clássico, ou seja, não potencial de funcionamento do seu corpo.havia tanta preocupação com corpos esguios e similares,os cabelos podiam ser soltos, os figurinos mais leves e O interessante nessa idéia é a ligação entre avariados. Alguns de seus principais representantes foram inteligência, os sentimentos e o movimento corporal.Isadora Duncan, Martha Grahan, Mary Wigman, Rudolf Neste sentido é importante observarmos dois aspectos:Laban. 1) a dança não é apenas corpo, sensibilidade, ela Referente ao ensino, a dança moderna é também uma atividade cognitiva.corresponde à pedagogia nova, no sentido de valorização 2) A atividade cognitiva não é apenas mente,do indivíduo e de suas necessidades individuais, maior cabeça, mas também sentimento, corpo, expressividade.preocupação com a espontaneidade, harmonia dosmovimentos e consciência corporal. A dança é uma forma de expressão tanto individual quanto coletiva. Exercita a atenção, a percepção do corpo A dança contemporânea, por sua vez, não se e do movimento; a cooperação e a solidariedade, odefine por uma técnica específica, pelo contrário, relacionamento interpessoal, a sensibilidade aospossibilita a diversidade de movimentos, temas, narrativas movimentos individuais e coletivos, às diferenças, àe corpos. A concepção é de que todos podem dançar e coordenação de suas ações com a dos outros. Ao mesmonão há uma única estética a ser seguida. Alguns dos tempo, é fonte de comunicação e criação informada nasrepresentantes desse movimento são Merce culturas, leva à consciência e construção da imagemCunningham, Pina Bausch, Companhia Déborah Colker, corporal, auto-estima (tomar consciência do próprio corpo,os grupos Corpo e Quasar. do gesto e do movimento como uma manifestação O ensino da dança contemporânea pode ser pessoal e cultural), é manifestação cultural, expressandovinculado, na educação, com as pedagogias criações regionais, nacionais, internacionais.progressistas, no sentido de proporcionar uma relação Portanto, é fundamental compreender a dançaprofessor aluno baseada na construção do saber e nos como objetivo pedagógico numa perspectiva de educaçãoprocessos criativos, na introdução de outros emancipatória, como ingrediente de desenvolvimento daconhecimentos que permitam uma compreensão cidadania 25
  • 26. A dança como área de conhecimento na educação básica2. DANÇA É ÁREA DE CONHECIMENTO como uma experiência prazerosa e de autoconhecimento, auxiliando no desenvolvimento da criatividade e individualidade. A dança, sendo esta entendida “(...) enquanto umalinguagem social que permite a transmissão desentimentos e emoções da afetividade vividas nas esferasda religiosidade, do trabalho, dos costumes, etc. (...)”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS(SOARES, TAFFAREL e ESCOBAR apud MOREIRA,1992, p.219) ainda não tem feito parte da vida da escola. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto.Apesar de nossos alunos dançarem o tempo todo, em Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensinodiferentes situações, e de diversas formas, a Fundamental: Educação Física. Brasília: MEC – SEF,compreensão de dança que parece ser mais difundida 1997.entre os diretores e professores é de que faz parte da _________________________________________.esfera da diversão e, portanto, não cabe no ambiente Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino“sério e compromissado” da vida escolar. Fundamental: Arte. Brasília: MEC – SEF, 1996. Quando a dança é convidada a fazer parte do FRADE, Cássia. Folclore. São Paulo: Global, 1997. 72currículo, na maioria das vezes, tem sido chamada a p.desempenhar um papel utilitário, animando as festinhas GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de janeiro: Novaescolares e dessa forma mostrando um resultado aos Fronteira, 6ª ed., 1980.pais. Isso acontece nas festas juninas, da primavera ouna festinha de encerramento do ano, onde os alunos MARQUES, Isabel A. Ensino de dança hoje: textos efazem passinhos certinhos, bem ensaiados, contextos. São Paulo: Cortez,1999.coreografados pela professora ou ainda, que fazem parte MOREIRA, Wagner Wey (org). Educação física eda tradição de alguma dança folclórica. esportes: perspectivas para o século XXI. Campinas: Nos Parâmetros Curriculares Nacionais a dança Papirus, 1992. 260p.aparece tanto no documento de arte quanto no de STRAZZACAPPA, Márcia. A Educação e a fábrica deeducação física. Porém não deixa claro aos educadores corpos: a dança na escola. Cadernos Cedes, ano XXI,até que ponto vai a ação de um componente curricular nº 53, abril/2001.ou do outro. Enquanto isso, a dança continua nãofazendo parte da maioria das aulas, nem dos professoresde arte e nem de educação física. E isso parece BIBLIOGRAFIA CONSULTADAacontecer por diversas razões. Podemos citar, segundoStrazzacappa (2001) a falta de preparo e conhecimento BARBOSA, Ana Mae. Arte-educação pós-colonialistaem relação ao ensino da dança, falta de local adequado no Brasil: A aprendizagem triangular. Comunicação epara realização das aulas e falta de material. Educação, 2, p.59-64, jan/abr., 1995. Porém não podemos considerar essa situação ____________________. Modernidade e pós-como definitiva. É fundamental que, para existirem modernidade no ensino da arte. MAC Revista, Ano I,práticas competentes e transformadoras, tenhamos nas abril, 1992, p. 6 –15.escolas profissionais especialistas na área, que dominem CALAZANS, Julieta, CASTILHO, Jacyan, GOMES,seus conteúdos e metodologias específicos, e que sejam Simone (Coord.) Dança e educação em movimento.professores reflexivos e artistas (Cf. MARQUES, 1999). São Paulo: Cortez, 2003.Não podemos mais colocar a “sujeira embaixo do tapete”, FERNANDES, Ciane. O corpo em movimento: oé preciso debater e viver o corpo e dança dentro da escola. sistema Laban/ Bartenieff na formação e pesquisa em artes cênicas. São Paulo: Annablume, 2002.CONSIDERAÇÕES FINAIS COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortes e Autores O ensino da arte na escola e, mais Associados, 1992.especificamente o ensino da dança, só são possíveis FERREIRA, Sueli (Org.) O ensino das artes:quando ampliamos nossa visão do que é arte e passamos Construindo caminhos. Campinas: Papirus, 2001.a acreditar nela não como um meio de educação, mas (Coleção Ágere)como uma ação constante na nossa vida. Sendo assimé imprescindível que a dança faça parte da vida de nossos LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. SP, Summus,alunos e da nossa vida, como educadores e pessoas, 1978.26
  • 27. A dança como área de conhecimento na educação básica______________. Dança Educativa Moderna. SP.Ícone, 1990.LIBÂNEO, Daniela. Ensinando dança flamenca. SãoPaulo: Dissertação (mestrado) – UNICAMP, 1997._________________. O sentido do estético. Texto parautilização em sala de aula. São Paulo, 2006.LOMARDO, Andrea Francklin. Estudo do movimentodo próprio corpo, do corpo alheio e dos “nossos”corpos na dança. In: Catia Mary Volp (Org.) Atividadesrítmicas e dança. São Paulo: Guanabara Koogan. (noprelo)________________________. A influência da mídiatelevisiva e de sua música no significado da dança:manifestação de valores e comportamentos em crianças.Rio Claro: Dissertação (mestrado) – UniversidadeEstadual Paulista, Instituto de Biociências, 2005.MARQUES, IsabelA.. Dançando na escola. São Paulo:Cortez, 2003.PRESTON-DUNLOP, V. A Handbook for Dance inEducation. London, Longman, 1986.__________________. Dance is a language, isn’t it?London, Laban Centre for movement and dance, 1987.OSSONA, Paulina. A educação pela dança . SãoPaulo: Summus, 1988.PORTINARI, Maribel. História da dança. Rio de Janeiro:NOTAS* Graduada em Educação Física, especialista emEducação Motora e Mestre em Ciências da Motricidade.Dedica-se à docência no ensino superior nas faculdadesUniradial, FAAC, e FAMEC (cursos de pedagogia eEducação Física), e na Escola livre de Dança daPrefeitura de Santo André.** Graduada em Pedagogia e mestre em Arte. Foiprofessora de dança, coreógrafa e bailarina profissionalpor 16 anos. Atualmente dedica-se à docência no ensinosuperior (faculdades de pedagogia e artes visuais) naFAMEC e à pesquisa em arte-educação. 27
  • 28. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural e o ensino superior Erick Orloski*Resumo AbstractO texto caracteriza-se como uma reflexão do autor sobre This text Dialogues and reflections between the culturala relação entre sua prática como professor universitário institution and university study is characterized as thee como arte-educador e pesquisador em instituições author’s reflection about the relation between his practicelculturais. O relato centra-se em uma experiência relativa as an university professor and as an art-educator andao ano de 2005, junto aos alunos da disciplina researcher in cultural institutions. His centered in theFundamentos da Arte-educação no curso de Licenciatura experience that took part in the year of 2005, with thePlena em Artes Visuais, na Faculdade de Educação e students of Basis of Art-education, which is a subject ofCultura Montessori (FAMEC) em São Paulo e as relações the course of Visual Arts at Faculdade Montessori deestabelecidas com as atividades oferecidas pelo Educação e Cultura (FAMEC) in São Paulo and thePrograma Educativo do Centro Cultural Banco do Brasil activities offered by the Educative Program of Centrode São Paulo (CCBB-SP). Cultural Banco do Brasil in São Paulo (CCBB-SP).Palavras-chave: arte-educação; instituição cultural; Keywords: art-education; cultural institution; universityensino superior; formação de educadores. study; formation of educators;28
  • 29. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural e o ensino superior Neste ano escrevi sob encomenda um depoimento diversos trabalhos em diferentes instituições culturaispara a Revista Digital Art& (2006) onde abordava do país, em especial no CCBB-SP Atuando nesta .aspectos sobre minha dissertação de mestrado e o instituição desde 2001, a equipe já desenvolveu mais deprograma Diálogos e reflexões com educadores (D&R), 15 projetos de ação educativa e está atuando na quartarealizado pela equipe do Arteducação Produções, no edição do programa D&R.Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB- Vale à pena contextualizar que, segundo a linhaSP), objeto de minha pesquisa. No texto descrevi em de funcionamento do CCBB-SP, ação educativa é oparte minha trajetória como arte-educador, em especial projeto específico de atendimento ao público visitanteno que diz respeito ao trabalho junto à instituições das exposições de artes visuais – sendo esteculturais. No presente artigo, parto de um outro ponto espontâneo, agendado e/ou escolar – realizado por arte-de vista, o de professor universitário, e desenvolvo uma educadores. Estes são contratados e coordenados porreflexão acerca das relações entre atuar no ensino uma equipe terceirizada, responsável pela propostasuperior e na instituição cultural. pedagógico-conceitual. Desde 2005, leciono na Faculdade de Educação Já o programa D&R é constituído por encontrose Cultura Montessori (FAMEC), na cidade de São Paulo, voltados a educadores, mas abertos ao públicono curso de Licenciatura Plena em Artes Visuais, que interessado em geral, que acompanham o calendário depossui a duração de três (03) anos. No ano em questão, exposições de artes visuais do CCBB-SP. A cadalecionava a disciplina Fundamentos da Arte-educação , exposição é desenvolvido um encontro específico,para os alunos ingressantes, e neste ano de 2006, leciono oferecido em diversas datas para diferentes grupos dea disciplina Trabalho de Conclusão de Curso, para alunos educadores, o que totaliza cerca de quatro (04) diferentesde terceiro (3º) ano. As reflexões aqui apresentadas encontros no ano, número de exposições que o CCBB-dizem respeito às experiências de 2005. SP vem realizando regularmente por ano, desde 2004. Os encontros são gratuitos e têm a duração de quatro (04) horas, compreendendo geralmente uma visita àEncontros com a formação de educadores exposição e diferentes dinâmicas para aprofundamento, discussão e reflexão de temas ligados ao universo da Em 1998, ao me graduar em Licenciatura Plena exposição e da arte-educação. Embora exista umem Educação Artística, com habilitação em artes estímulo para que o educador freqüente os diferentescênicas, pelo Instituto de Artes/UNESP, já tinha o encontros do ano, os mesmos são independentes e nãointeresse em dar continuidade à carreira acadêmica, bem constituem um curso formalmente.como lecionar no ensino superior. Havia um foco deinteresse também relativamente definido: a formação de Parte deste estímulo se dá pelo material gráficoeducadores em arte. educativo oferecido aos participantes, em forma de encarte, sendo um específico para cada exposição/ Entre 1998 e 2000, iniciei minhas primeiras encontro e estes compõem um pequeno conjunto, emexperiências em relação ao tema, ministrando uma série uma espécie de caixa-fichário. Este material contém umde oficinas para alunos do curso de Pedagogia da texto escrito sempre por dois pesquisadores, integrantesFaculdade de Educação da USP (FEUSP), ainda ligadas da equipe do Arteducação Produções – sob coordenaçãoàs artes cênicas, mas com ênfase no aspecto de Rejane Coutinho e com consultoria de Ana Maeeducacional. Vale ressaltar que esta experiência refletia Barbosa – além de imagens da exposição e referênciasfortemente a formação que havia tido na graduação, que bibliográficas, virtuais e afins. Este material foi alvo dehoje reconheço como de caráter expressionista e/ou uma pesquisa no ano de 2004, encomendada pelo própriomodernista, como classificaria Ana Mae Barbosa (1998), CCBB-SP, que resultou no livro Artes visuais: dae ao mesmo tempo muito ligada à idéia de um professor exposição à sala de aula (BARBOSA; COUTINHO;de arte polivalente, tendo nas artes cênicas uma SALES, 2005).ferramenta privilegiada para a reunião das linguagens No trabalho junto ao programa, identifiquei umaartísticas. oportunidade concreta de pesquisa e, em 2003, ingressei Foi apenas em 2001 que minhas concepções no curso de pós-gradução em Artes Visuais, do Institutocomeçaram a passar por significativas transformações, de Artes/UNESP, na linha de pesquisa Ensino ea partir do momento que passei a integrar a equipe do aprendizagem da arte, sob orientação da Profª Drª MirianAteducação Produções. Sob coordenação das arte- Celeste Martins. A pesquisa resultou na defesa daeducadoras Ana Amália e Rejane Coutinho e tendo como dissertação de mestrado Diálogos e reflexões comprincipal eixo teórico a Proposta Triangular para o ensino educadores: a instituição cultural como potencialidadede arte, a equipe de arte-educadores vem realizando na formação docente (ORLOSKI, 2005), onde o objetivo 29
  • 30. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural e o ensino superiorfoi o de verificar o quanto a participação no programa – Com o intuito de complementar as discussõesreferente ao ano de 2003 – influenciava o processo e das aulas, estimular os alunos a visitarem museus eformação contínua de um grupo de educadores, através instituições culturais e proporcionar aos mesmos umada análise de seus depoimentos. vivência em arte-educação junto a uma exposição de Na pesquisa, adotei como principais referenciais artes visuais programei uma visita ao CCBB-SP.teóricos os conceitos de pensamento reflexivo e Preocupei-me em agendar a visita para o horário de aulaexperiência estética, segundo John Dewey (1959,1994), (no período da noite), para que todos os alunose conceito de professor reflexivo, segundo Donald Schön pudessem comparecer. A exposição visitada foi a Erótica:(1999) e Selma Garrido Pimenta (2002). Alguns aspectos os sentidos na arte, com curadoria de Tadeu Chiarelli, ada pesquisa serão mencionados em reflexões adiante. qual a ação educativa estava sendo desenvolvida pelo Arteducação Produções. Neste caso, a temática da exposição foi indiferente, pois o foco era o exercício deUm novo encontro com o ensino superior mediação arte/público, embora a polêmica do tema levantasse interessantes reflexões acerca da própria arte. Foi justamente no ano de 2005, um pouco anterior A Profª Eliany Salvatierra seguiu o mesmoà defesa de minha dissertação de mestrado, que tive programa com suas turmas, incluindo as visitas, masminha primeira oportunidade de lecionar formalmente no obviamente suas aulas ocorreram diferentemente, emensino superior, na instituição que trabalho até então, a função de sua dinâmica específica de ensino, bem comoFAMEC. Assumi inicialmente apenas uma (01) turma de o perfil de cada turma. Estou relatando neste textoprimeiro (1º) ano, na disciplina Fundamentos da arte- especificamente as experiências junto a minha turma.educação, ministrada em outras turmas pela Profª ElianySalvatierra, com quem pude estabelecer uma frutíferaparceria. Desenvolvendo o programa de aula No primeiro semestre, assumi a turma com as As discussões iniciais acerca dos diferentesaulas já iniciadas e dei continuidade ao programa temas sobre o ensino de arte aconteceram com relativoproposto por minha colega, centrado primeiramente na entusiasmo. No entanto, começaram a ficar evidenteshistória do ensino de arte no Brasil, partindo depois para muitas lacunas em relação à formação dos alunos, ouma análise mais aprofundada das teorias de Herbert que dificultava muito o desenvolvimento das discussões.Read, em A educação através da arte (2001). Após um Há de se descontar o fato de serem alunos de primeiroperíodo inicial de adaptação para mim e para os alunos, (1º) ano, situação que faria diferença em qualquerbem como uma adaptação ao trabalho da própria faculdade e/ou universidade, mas vale a penainstituição, eu e minha colega elaboramos em conjunto contextualizar o público específico da FAMEC. Emborao programa de aula para o semestre seguinte. se localize em um bairro nobre da cidade de São Paulo, Interessei-me em utilizar meus estudos do por conta de oferecer valores de mensalidades maismestrado, ainda no calor da finalização da pesquisa. acessíveis, a faculdade atende um público socialmenteElaboramos então um programa a partir de uma menos favorecido, em sua maioria residente da periferiadiscussão sobre o texto Cultura e ensino de arte da zona sul paulistana. Isto inevitavelmente reflete sérios(BARBOSA, 1998), visando percorrer alguns dos problemas de formação dos alunos, muitos advindos deprincipais temas relativos ao ensino de arte na escolas públicas de baixa qualidade. Em meu ponto decontemporaneidade. Nenhum dos cerca de quatorze (14) vista, trabalhar a formação desses alunos é um desafiotópicos levantados pelo texto – tais como leitura visual, e também um compromisso para a mudança dessamulticuturalidade, entre outros – foram discutidos em realidade, pois ao lidar com tais problemas de formação,profundidade, já que o intuito era despertar nos alunos possivelmente estaremos contribuindo para a melhorapossíveis reflexões em relação a estes temas, objetivo do ensino público, já que muitos desses alunos atuarãoque acredito ser o mesmo da autora neste artigo. como docentes na rede pública de ensino da cidade. Por intermédio das idéias de Barbosa, adentrei Retornando às discussões realizadas com a turmauma breve contextualização acerca da Proposta sobre ensino de arte, ao adentrar o conceito deTriangular, que seria trabalhada com maior profundidade experiência estética, estas lacunas conceituais ficaramnos anos seguintes, na disciplina de Metodologia do absolutamente evidentes. Notei então que uma série deensino de arte. A Proposta funcionou como um gancho questões deveriam ter sido trabalhadas anteriormente epara se trabalhar o conceito de experiência estética de que aquele conceito apresentava-se como demasiadoDewey, com base na leitura de Barbosa (1998, 2001) e complexo naquele momento. Eu e minha colega fizemostambém de minha dissertação de mestrado. uma avaliação destas questões ao final do processo, o30
  • 31. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural e o ensino superiorque gerou uma modificação no programa de aula da exposição e quebrou uma barreira entre asdisciplina para o ano seguinte, que se iniciou com um pessoas e a exposição, pois muitos nãotrabalho voltado à essas questões, por assim dizer, de tinham o conhecimento de ir a uma exposiçãobase. às vezes por medo. Em função de sua complexidade, acredito não ser Na realidade, em função de meu grande contatopossível uma contextualização neste texto sobre o com o universo das instituições culturais, procureiconceito de experiência estética . Recomendo, estimular os alunos ao conhecimento e à visitação dasobviamente, a leitura do texto do próprio Dewey (1994), mesmas desde o início de meu exercício. Inclusive,Tendo uma experiência, único capítulo traduzido para o minha primeira aula com a turma foi uma discussão aportuguês de seu importante livro Art as experience, além partir de uma matéria publicada em jornal no período,dos textos de Barbosa ou ainda o de minha dissertação, que abordava o crescimento e um maior reconhecimentotodos presentes nas referências bibliográficas. do ensino de arte no Brasil, em especial a partir do Se este conceito pareceu relativamente complexo desenvolvimento de programas e/ou ações educativaspara o grupo de alunos na ocasião, a visita à exposição de museus e instituições culturais.despontou como um grande acerto, tanto em minha Desde o início divulguei o programa D&R para osopinião como a dos próprios alunos. É preciso alunos, estimulando-os a participarem, bem como emreconhecer que estes alunos estavam ainda iniciando outros projetos de diferentes museus e instituiçõessua vida acadêmica – e também cultural de uma forma culturais da cidade, inclusive para que pudessem validarmais ativa – mas ainda assim foi uma triste constatação estes encontros em seus estágios culturais. Minhaque parte significativa dos alunos, senão a maioria, estava enorme satisfação é que alguns, ainda que muito poucos,indo a um museu e/ou instituição cultural pela primeira começaram a freqüentar os encontros por conta própria,vez, o que me pareceu grave por se tratar de um curso antes da visita com toda a turma ao CCBB-SP. Estesde artes visuais. Um deles não teve maiores pudores em têm buscado estimular seus colegas a tambémescrever em seu relatório: participarem, mas existem as já mencionadas limitações, em especial de tempo, tendo em vista que o programa é Eu nunca fui a uma exposição, a partir daquele gratuito. momento em que chegamos lá, a minha percepção de ver as coisas, e de imaginar foi Na qualidade de um dos organizadores do completamente diferente, eu comecei a ver programa D&R ressalto um aspecto interessante: é cada uma outra vida que eu não conhecia. Eu acho vez maior a participação de alunos de cursos de que nosso curso está faltando isso, “visitas licenciaturas, em especial de arte, nos encontros. Ao técnicas”. que parece, diversos professores de diferentes Os alunos têm uma carga horária de estágios e instituições de ensino superior têm divulgado eser cumprida no decorrer do curso, que inclui visitas a estimulado seus alunos a freqüentarem e se valeremexposições de artes visuais. Como apenas teriam que destes espaços de formação de educadores.prestar contas destes estágios em relatórios no final do No caso especificamente do D&R, isto temano, os alunos acabaram por se concentrar em outras contribuído para uma diversificação de seu já bastanteatividades, também ligadas ao curso. Outro agravante heterogêneo público, constituído por educadores dospara esta situação está diretamente relacionada à mais diversos segmentos e níveis, da educação infantilcondição sócio-econômica dos alunos, que em sua ao ensino superior, bem como de educação não-formal,maioria trabalham durante toda a semana – muitos já além deste crescente número de alunos de licenciaturas,inseridos na rede pública – e boa parte deles também inseridos na rede ou não. Vale a pena ressaltar que atrabalha em um projeto da Secretaria Estadual de maioria destes educadores – estudantes e profissionaisEducação de atividades em escolas nos finais de – é da área de arte, mas os de outras áreas constituemsemana, o que lhes assegura uma bolsa de estudos. parte significativa do total de participantes. O estímulo por parte dos professores para queestes alunos usufruam e se apropriem de bens culturais A visita ao CCBB-SPtem se mostrado mais do que necessário e possibilitareste exercício dentro do próprio espaço da aula foi A exposição Erótica: os sentidos na arte fez umrealmente muito gratificante. Nas palavras de um dos recorte acerca do erotismo nas artes visuais, reunindoalunos: artistas brasileiros e internacionais, do final do século Foi tão boa esta iniciativa que fez com que XIX à contemporaneidade, além de peças arqueológicas os alunos do 1º D comparecessem a latino-americanas. 31
  • 32. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural e o ensino superior A exposição ocorreu em São Paulo com respeito do sexo feminino, da suanormalidade, tendo apenas uma inevitável baixa de representação na sociedade.visitação por parte das escolas, por conta do tema, mas A obra a qual a aluna se refere chama-se Coleçãotambém muito em função de seu período, de outubro a de vulvas metálicas (1998-1999) de Franklin Cassarojaneiro, em que as escolas dificilmente realizam visitas. (1962), que reúne uma série de latas de produtosPor outro lado, a visitação do público dito especializado industrializados, de diversos tamanhos, desde tampinhasfoi bastante intensa e vale ressaltar que apesar do tema de garrafas até latas de biscoito, todas moldadas emtão peculiar, a exposição se caracterizou como “clássica”, um formato de vulva.como classificou o próprio curador, que colocou comoeixo central a própria linguagem das artes visuais. O termo estético usado por Dewey transcende a antiga discussão acerca do belo, trazendo à tona A proposta de visita concebida pela equipe do questões de ordem intelectual e também emocional, numArteducação Produções para a exposição partiu de um processo de reflexão, de forma ativa e consciente. Oprincípio semelhante. Além da leitura e contextualização depoimento evidencia que a aluna não alcançou umdas obras, realizada em diálogo entre os arte-educadores entendimento mais concreto sobre o conceito, pois elae o público durante a visita, os participantes também não reconhece como de caráter estético algumas daseram convidados à uma produção a partir da linguagem principais características referentes e/ou próximas aodo desenho. Desenhando a própria imagem em espelhos próprio conceito segundo o autor. No entanto, sua escrita,ou ao desenhar a imagem de outro visitante através de com certa liberdade poética, exprime uma importanteuma placa de acrílico transparente, os participantes eram reflexão potencializada pela visita à exposição.estimulados a uma reflexão sobre o olhar, que sepotencializava frente às obras de arte. Considerações finais Como já foi dito anteriormente, o tema daexposição não era o foco da discussão ao qual eupretendia levar os meus alunos, mas o exercício do olhar Selma Garrido Pimenta (2002), ao abordar oem muito se relacionava com o conceito de experiência conceito de professor reflexivo, ressalta seuestética. Em função disto, o que seria apenas um relatório posicionamento político-educacional, elegendo a escolasobre a visita realizada tornou-se o próprio trabalho de como ambiente privilegiado para a formação contínua dofinalização do semestre (e também do ano). Além de professor, e que deveriam se tornar comunidades desolicitar que avaliassem a exposição, a proposta de visita pesquisa. A autora critica duramente a formação dose a atuação dos arte-educadores que os atenderam, professores que se dá através de cursos esparsos e emsolicitei que estabelecessem relações com algum dos especial os cursos de nível superior proporcionados pelotópicos do texto Cultura e ensino de arte de Barbosa, próprio Estado (de São Paulo), realizados de formaalém de também avaliar se a visita teria sido uma aligeirada, à distância, através basicamente de tele-aulasexperiência estética e porquê. e recursos afins. A crítica reside principalmente no fato destes cursos terem o caráter quase que exclusivamente Posso sintetizar em dois (02) principais aspectos práticos, sem a devida fundamentação teórica e– um positivo e outro negativo – os resultados obtidos tampouco o necessário exercício reflexivo acerca dasnestes relatórios: primeiramente, a experiência foi teorias educacionais.enriquecedora para todos e intensificou o contato dosalunos com a arte; no entanto, a dificuldade dos alunos Em minha dissertação, o pensamento da autoraem articular o conhecimento adquirido e vivenciado, em me levou a uma reflexão acerca do próprio programa D&R,especial através da escrita, ficou ainda mais evidente. se este teria o mesmo caráter redutor destes cursos mencionados. A própria essência, bem como o nome do Acredito que o depoimento de uma aluna, sobre programa, deixam claro que o mesmo se contrapõe àse a visita teria sido uma experiência estética, ilustra este tipo de ação e, apesar dos encontros serem debem este contraponto: curta duração – e justamente por isso – os professores Sim. Mas foi além do estético, belo e formoso, participantes são estimulados ao exercício da pesquisa. pois mexeu não só com a visão, com meu No D&R os professores não recebem fórmulas ou lado intelectual, a exposição estimula outros respostas prontas, mas provocações e questionamentos, sentidos. Tem um calor de resgate, memória, realizados no intuito de estimulá-los ao desenvolvimento reflexivo. de seus próprios projetos pedagógicos, mediante suas Vi obras que não tinham valor estético, mas necessidades específicas. outros, como por exemplo, as vulvas de lata Concordo plenamente com a autora quanto à que representavam uma idéia magnífica a necessidade das escolas se tornarem, de fato,32
  • 33. Diálogos e reflexões entre a instituição cultural e o ensino superiorcomunidades de pesquisa e que o processo de formação BARBOSA, Ana Mae. A arte e a experiência segundodos professores deve privilegiar a autonomia, sem John Dewey. In: Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/imposição de cima para baixo. Mas uma de minhas Arte, 1998. p. 21-29considerações finais, especificamente em relação ao ______.Cultura e ensino de arte. In: Tópicos utópicos.conteúdo arte, é que o museu e a instituição cultural Belo Horizonte: C/Arte, 1998. p. 13-20possuem um aspecto exclusivo, inviável ao ambiente daescola: o contato direto com a obra de arte. ______.John Dewey e o ensino de arte no Brasil. São Paulo: Cortez, 2002. Arte-educadores são obrigados, na maior parte DEWEY, John. Tendo uma experiência. In: O sdo tempo, a utilizarem reproduções de obras de arte em pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1994. p. 245-263.suas aulas, pois na maioria dos casos não é possívelque a produção artística original esteja na escola e ______. Como pensamos . São Paulo: Nacional, 1959.acredito que este nem seja o papel da mesma. A ORLOSKI, Erick. Diálogos e reflexões com educadores:responsabilidade em relação a estes bens – materiais a instituição cultural como potencialidade na formaçãoou não – reside nos museus e instituições culturais e o docente, 2005. (Dissertação de mestrado. Instituto deque se apresenta como fundamental é a relação entre Artes/UNESP)estes e as escolas. Programas e/ou ações educativas ORLOSKI, Erick. Diálogos e reflexões com educadores:de museus e instituições culturais vêm crescendo e se a instituição cultural como potencialidade na formaçãodesenvolvendo no Brasil, em especial na última década, docente (2006). http://www.revista.art.br/site-numero-05/ampliando sua oferta às escolas, tanto aos alunos apresentacao.htm. Acesso em jun. 2006.quantos aos professores, embora esta oferta ainda sejamuito inferior à demanda de rede escolar no país. PIMENTA, Selma G. Professor reflexivo: construindo uma crítica. In: Pimenta & Ghedin. Professor reflexivo no Constituem espaços importantes a serem Brasil: gênese e crítica do conceito. São Paulo: Cortez,apropriados pelos professores em seu processo de 2002. p. 17-52.formação inicial e contínua. No entanto, programas comoo D&R e similares não têm função de substituir as READ, Herbert. A educação pela arte. São Paulo: Martinsinstituições de ensino superior, em especial no que diz Fontes, 2001.respeito à formação inicial. Minha experiência junto ao SCHÖN, Donald. Formar professores como profissionaisensino superior tem reforçado uma das considerações reflexivos. In: NÓVOA, Antonio (org.). Os professores efinais de minha pesquisa: de que é necessária uma sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. p. 51-76.parceria entre as faculdades e universidades com osmuseus e instituições culturais. Esta reflexão é resultado da prática que venho NOTASdesenvolvendo enquanto professor universitário e tambémcomo pesquisador no campo da arte-educação não- * Arte-educador; mestre em artes visuais pelo Institutoformal. A meu ver, a busca destas parcerias se encontra de Artes UNESP, professor da disciplina Trabalho deainda um pouco centralizada na prática individualizada conclusão de curso (TCC), na Licenciatura Plena emde professores de diferentes instituições de ensino Artes Visuais da Faculdade Montessori de Educação esuperior, sem uma maior articulação e/ou sistematização. Cultura (FAMEC); integrante da equipe do arteducaçãoAcredito – e tenho esperança – que o desenvolvimento produções, onde já atuou em vários projetos, como odestas parcerias deverá ser potencializado pelas Diálogos e reflexões com educadores.crescentes – embora ainda em pouca quantidade –pesquisas na área, que buscam oferecer cada vez maissubsídios para o trabalho tanto das instituições de ensinosuperior como dos museus e instituições culturais.Referências bibliográficasBARBOSA, Ana Mae; COUTINHO, Rejane; SALES,Heloisa Margarido. Artes visuais: da exposição à salade aula. São Paulo: Edusp, 2005. 33
  • 34. Letramento Visual: a comunicação por meio de imagens Denílson Pereira* Hana Akita de Oliveira**Resumo AbstractEsta pesquisa tem início na disciplina de História da This research opened in the discipline of art history andArte e Estética – TCC, para o curso de graduação em aesthetics - TCC, for the course for graduation inArtes Visuais da Faculdade Montessori de Ibiúna e Montessori School of Visual Arts in Ibiúna and wants topretende fazer parte do Projeto de Iniciação Científica be part of Project Initiation scientific of this institution.desta Instituição. Trata-se de um estudo de caso sobre This is a case study on the use of images aso uso das imagens enquanto expressão comunicativa communicative expression for different people, and visualpara diferentes pessoas e o letramento visual como literacy as a method of learning regardless of theirmétodo de aprendizagem independente de suas nationalities or their levels of literacy. The visual literacynacionalidades ou seus níveis de alfabetização. O is the area of study that will go to work with what can beletramento visual é a área de estudo que vai trabalhar seen and how to interpret what is seen. After the studycom o que pode ser visto e como se pode interpretar o of theories and lectures on communication, I see theque é visto. Após o estudo de teorias e leituras sobre importance of extending this knowledge to future teachers,comunicação, vejo a importância de se estender esses to feel the importance of literacy and visual literacy as aconhecimentos a futuros educadores, para que sintam a holistic method of learning.importância da alfabetização e do letramento visual comoum método holístico de aprendizagem. Keywords: Visual Literacy, communication, artemedia, interactivity.Palavras-chave: Letramento visual, comunicação,artemídia e interatividade.34
  • 35. Letramento Visual: a comunicação por meio de imagens Na mutável sociedade pós – moderna, falar dealfabetização visual parece um assunto ultrapassado eantiquado, visto que imagens permeiam nossas vidasdesde o nascimento. Entretanto, devido à apropriaçãoda linguagem não – verbal sem uso de legendas pelamaioria dos veículos de comunicação, torna-se essenciala aprendizagem das informações construídas por signosplásticos, daí o termo alfabetização. Após este primeirocontato, surge o segundo momento chamado deletramento, termo que lida com a leitura e compreensão Ilustração 1: Desenhos criados por Denílsonimagética. Este estudo mostra-se oportuno por tratarde um momento historicamente datado, em que podemos Pereira, para ilustrar o texto.observar a evolução das linguagens nos levando a analisartanto o poder de manipulação das mesmas, quanto à Se houvesse uma identificação através de umrapidez de assimilação de informações por parte do símbolo, o lutador não passaria por este constrangimento.receptor que as vê. Assim, a escolha deste tema se deutanto por uma questão de aptidão pelas Artes Visuais,como também por uma preocupação em desvendar osdesafios propostos pela leitura e interpretação de imagenscotidianas. A pesquisa objetiva compreender a função dasimagens como matéria da comunicação, reconhecer aimportância da linguagem na arte como expressãocultural, valorizar o estudo da comunicação visual paramelhor compreensão das mensagens visuais, questionarsobre o uso das mesmas pelos meios de comunicaçãona atualidade, refletir sobre a contribuição que as imagenstrazem aos diferentes segmentos da sociedade atuandocomo ferramenta de auxílio em determinadas profissõese sendo indispensáveis em outras, tais como na Ilustração 2: Desenhos criados para ilustrarEducação e na Publicidade e Propaganda. o texto elaborados por Denílson Pereira. A comunicação visual começou no PeríodoPaleolítico quando o homem primitivo registrou nasparedes das cavernas as cenas do seu cotidiano,passando por diversas transformações, quer como E a dos “Travecos”?expressão comunicativa, quer como artística, até chegarà atualidade. Antes mesmo de saber escrever o homemexpressou e interpretou o mundo em que vivia pelalinguagem da arte (símbolos). A caverna, com suaumidade rochosa, foi o ateliê do homem pré-histórico. Hoje a imagem está presente nos diversos meiosde comunicação, tais como: televisão, cinema, revistas,livros, outdoors, informática e outros. A comunicaçãoacha-se estreitamente vinculada ao conceito desociedade, e como tantas outras conquistas do homem,ela é causa e efeito do progresso social. Deste modo, ahistória da humanidade é de certa maneira, a históriados meios de comunicação. A partir do século XX, no entanto, a importânciada imagem chegou a tal ponto que ela passou a ser umdos meios mais desejados pelos poderosos comoinstrumento de comércio e até mesmo como arma políticade dominação. E são por esses motivos que se faz tãoimportante a educação de toda uma sociedade para a Ilustração 3: Charge criada por Denílson Pereiraleitura e interpretação imagética, tornando-a mais crítica para esta pesquisa, referente ao acontecimentoe consciente quanto a construção do seu universo. recente do jogador de Futebol Ronaldo 35
  • 36. Letramento Visual: a comunicação por meio de imagensAs cenas anteriores poderiam ser evitadas... da semiótica, ou por outras, como um alquimista, tentando combinar várias teorias-texto no propósito de encontrar uma poção mágica para a compreensão do não - verbal. Entretanto, acredito que este trabalho ofereça alguns pressupostos para futuras pesquisas, uma vez que a teoria da imagem ainda reserva um vasto campo de estudo a ser desvendado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALLIEZ, É. Deleuze – Filosofia Virtual. São Paulo: Editora 34, 1996. COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO. São Paulo: Curso de Gestão de Processos Comunicacionais, do Departamento de Comunicações e Artes da ECA – USP, nº 23, Ano VIII, maio/ago 2002. De CAMILLIS, L. S. Criação e docência em arte. Araraquara: JM Editora, 2002. JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. Ilustração 4: Desenho elaborado a partir das MARTINS, I. Desenho: Arte e Técnica. São Paulo: Editora referências de símbolos informativos das Ponte, 1992 modalidades dos Jogos de Pequim para as Olimpíadas de 2008, retirados nos folhetos de SANTAELLA, L. Cultura das Mídias. São Paulo: publicidade da empresa McDonald´s. Experimento, 1996. SÃO PAULO (ESTADO) SECRETARIA DA EDUCAÇÃO. COORDENADORIA DE ESTUDOS E NORMAS PEDAGÓGICAS. O ensino de arte nas séries iniciais: Ciclo I. São Paulo: FDE, 2006. SOARES, I. de O. Sociedade da informação ou da comunicação?. São Paulo: Cidade Nova, 1996. NOTAS * Aluno regularmente matriculado no 5º semestre do curso de Artes Visuais da Faculdade Montessori de Ibiúna. ** Professora da disciplina de História da Arte e Estética Ilustração 5: Desenho elaborado a partir da – TCC, orientadora deste projeto de pesquisa e referência universal de identificação para coordenadora do curso de Artes Visuais da Faculdade Perigo e Alt a Voltagem, por Denílson Pereira. Montessori de Ibiúna. Portanto, a imagem é construída por códigos, eestes por natureza necessitam ser decodificados. Nestesentido, a frase popular: “uma imagem vale mais milpalavras”, ao contrário do que se possa imaginar, evidenciaa complexidade da imagem. Assim, durante este estudo,por vezes me vi percorrendo o campo de areias movediças36
  • 37. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusão Nilza Isaac de Macêdo* Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Paulo FreireResumo AbstractEste artigo é resultado da discussão e reflexão do grupo This article is the result of discussion and reflection ofde professores no Centro Integrado de Educação de the group of teachers at the Centre for IntegratedJovens e Adultos (CIEJA-Butantã) - Unidade Escolar da Education, Youth and Adults (CIEJA-Butantã) - UnityPrefeitura Municipal de São Paulo -, que foram convidados School of the City of Sao Paulo - which were invited topela coordenação pedagógica a relatar os aspectos que report for coordinating educational aspects that seem toparecem favorecer a inclusão dos alunos atendidos. favor the inclusion of students attended. Among theDentre os vários aspectos que podem ser observados various aspects that can be seen in relation to theem relação à inclusão na Educação, buscamos destacar inclusion in Education, sought to highlight those whoaqueles que julgamos facilitadores no processo de believe facilitators in the process of care for young peopleatendimento aos jovens e adultos com necessidades and adults with special needs, because we believe theespeciais, pois consideramos a interação e o respeito interaction and respect for differences as a guiding actionàs diferenças como norteadores de uma ação pedagógica and more effective pedagogical at the same time, moremais efetiva e, ao mesmo tempo, mais inclusiva. inclusive.Palavras-chave: educação de jovens e adultos, Keywords: adult and youth education, learning, inclusion.aprendizagem, inclusão. 37
  • 38. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusãoIntrodução significativa; itinerários formativos (como eixo/fio condutor) para a articulação entre a educação fundamental e a profissional; organização do currículo A história de nosso Centro se inicia em 1999, com em módulos flexíveis, seqüenciais e progressivos, quea fundação do CEMES - Butantã (Centro Municipal de devem ser constituídos a partir de projetos; flexibilidade;Ensino Supletivo). No Projeto do CEMES, o objetivo era dialogicidade e interação grupal; interdisciplinaridade.atender grupos específicos de trabalhadores quenecessitavam concluir o ensino fundamental, mas que Tendo em vita a explicitação desses princípios,não tinham possibilidade de freqüentar a escola da estrutura organizacional dos conteúdos e dosdiariamente e nem de cumprir a carga horária que a escola objetivos gerais do projeto, faz-se necessário passarmosformal exigia. Mantinha-se o ensino à distância para à enunciação do aporte teórico que funcionará comoalunos que estivessem cursando o Módulo III (de 5ª a 8ª indicador na análise das práticas desenvolvidas no interiorséries) e atendimento presencial aos alunos dos Módulos do CIEJA-Butantã (Centro Integrado de Educação deI e II (de 1ª a 4ª séries). Jovens e Adultos), a partir do relato de experiência de seus professores. O CEMES, proposição considerada avançada noadvento de sua criação em 1992, teve sua configuraçãoalterada e, a partir de 2001, foi convertido em CIEJA A aprendizagem segundo as teorias mediacionais(Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos).Naquele momento, o ensino passou a ser presencial paratodos os módulos, em atendimento aos termos da Para Piaget (apud Wadsworth, 1987), alegislação e das Diretrizes Curriculares Nacionais para aprendizagem provoca a modificação e a transformaçãoa Educação de Jovens e Adultos: “com a finalidade de das estruturas mentais que, modificadas, permitemoferecer, no âmbito do sistema municipal de ensino, uma novas aprendizagens de maior riqueza e complexidade.modalidade da educação básica, com especificidade A aprendizagem é um produto do desenvolvimentoprópria, que exerça função reparadora, enquanto cognitivo, um processo de aquisição na relação do indivíduo com o meio, mediatizado por estruturas depossibilita a entrada de jovens e adultos no circuito dos princípio hereditário. O conhecimento é o resultado dadireitos1 ”. junção das ações que o indivíduo exerce ao manipular e Da estrutura organizacional do CEMES, alguns explorar a realidade objetiva.aspectos foram alterados durante o processo de Já para a psicologia soviética, a aprendizagemreestruturação: a) o CIEJA passou a ter quatro módulos está em função da comunicação e do desenvolvimento,e não mais três, visto que o módulo três foi subdividido desenvolvimento este que é o resultado da relação entreem dois, prevendo-se também, para esses módulos, a a informação genética e o contato experimental com oformação dos grupos-classe com curso presencial e sua meio historicamente constituído.conseqüente disposição de horários, em que osatendimentos eram feitos diariamente em seis períodos Para se compreender qualquer fenômeno dede duas horas e quinze minutos cada; b) o oferecimento aprendizagem, será necessário determinar o nível dede curso de profissionalização básica, através de desenvolvimento alcançado pelo indivíduo em função dasitinerários formativos, que seriam desenvolvidos por experiências prévias. Portanto, na escola se faztécnicos do SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem necessária a reflexão de que o nível de desenvolvimentoComercial2). alcançado não é um ponto estável, mas um amplo e flexível intervalo. De acordo com Vygoysky (1998); o No entanto, do ponto de vista da concepção dosprincípios, mantiveram-se aqueles relacionados à desenvolvimento potencial do individuo envolve, desdeautonomia, responsabilidade, solidariedade e respeito ao sua capacidade de atividade independente, até suabem comum; cidadania, exercício da criticidade e respeito capacidade de atividade imitativa ou dirigida.à democracia; articulação entre o ensino fundamental e É preciso compreender o que Vygotsky chamaeducação profissional; construção da história e da cultura de área de desenvolvimento potencial ou zona decomo referência para a identificação humana e, por fim, desenvolvimento proximal, pois essa compreensão noscontextualização, diversidade e identidade cultural. permite perceber a relação dialética entre a A organização curricular, por sua vez, continua aprendizagem e desenvolvimento. Isto é, é preciso pensarpautada nas referências ao construtivismo sócio- sobre o que o aluno pode fazer hoje com ajuda pois,interacionista, que concebe a educação como uma com certeza, isto o ajudará a realizar uma determinadaprática que possibilita a criação de situações em que o tarefa sozinho, amanhã. Para Vygotsky (1998), aconteúdo é trabalhado de forma contextualizada e aprendizagem cria uma área de desenvolvimento38
  • 39. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusãopotencial, estimula e ativa processos internos no marco As teorias e nossos referenciais sobre adas inter-relações, que se transformam em aquisições aprendizagem se mostrarão adequado à medida queinternas. puderem apresentar explicações sobre as interrogações da aprendizagem escolar e ampliar as respostas em um Ainda de acordo com Vygotsky (1998), a referencial coerente.aprendizagem é responsável pela criação da área dedesenvolvimento proximal. Já as responsáveis pela Segundo Zabala (1996 p.181):formação das estruturas formais são as atividades e a A opção por um ensino que entenda quecoordenação das ações que o indivíduo realiza além da sua função vai além da introdução dosapropriação da bagagem cultural, que é produto da saberes culturalmente organizados e que,evolução histórica da humanidade, transmitida pela por tanto, deve abranger não só a formaçãorelação educativa. Podemos perceber então, que a ação em determinadas capacidades cognosciti-educacional para a teoria psicológica soviética é vista vas, mas alcançar o maior desenvolvimentocom bons olhos, mais do que a atividade experimental da pessoa em todas as suas capacidadesexercida pelo próprio aluno, pois a aprendizagem não é implica que as estratégias de ensino, osapenas uma questão de maturidade, mas um processo tipos de agrupamento e o próprio papel doem que entram em jogo as experiências vividas, o professor, assim como a organização doscontexto social e cultural, as características da pessoa conteúdos, possuam certas característicasem diferentes fases de desenvolvimento e a qualidade que possibilitem esse desenvolvimentoda mediação do adulto. Em especial na área da global.educação, o professor tem um papel importante nasaprendizagens futuras e na vida dos alunos. Talvez por isso a escola não consiga atribuir ainda um real significado à questão da aprendizagem. Não podemos esquecer também que a psicologiasoviética coloca a linguagem como um importante meio Como podemos perceber , as teorias dede transmissão social. Na comunicação com o outro, a aprendizagem se desenvolveram em investigações decriança e o aluno adulto consegue assimilá-la e laboratórios e, para obtermos respostas realmentetransformá-la em pensamento, o que irá regular o seu significativas sobre o que é aprendizagem, devemos,comportamento (Luria, 1986). antes de tudo, estudá-la no contexto em que ela ocorre – a sala de aula –, pois a aprendizagem escolar, que é a Desde os anos 60, desenvolvem-se teorias que realmente nos inquieta, está evidentemente psicológicas que procuram explicar a descontextualizada. aprendizagem e, o que podemos notar a partir delas, é que o conceito de apren- dizagem é responsável e indispensável para Uma questão nova que nos remete a problemas a elaboração de qualquer teoria sobre o antigos ensino. Ao examinarmos, porém, as diferentes teorias de Desde a fundação do CEMES, recebemos muitosaprendizagem, verificamos os enfoques diferentes que alunos que precisam concluir seus estudos nahá entre elas e, conseqüentemente, a dificuldade de modalidade do ensino fundamental, com demandas quecompreensão delas por parte da escola. podem ser assim descritas: aqueles que já freqüentaram uma escola; outros que até o momento nunca A aprendizagem escolar é uma aprendizagem fora freqüentaram uma escola; alguns que haviam sidodo contexto já que, na escola, se pretende aprender fora encaminhados pelo Conselho Tutelar; analfabetos quedo lugar em que os fenômenos realmente ocorrem. O buscam a alfabetização; alunos alfabetizados quecurrículo escolar pouco ou nada tem a ver com a vida do precisam apenas da certificação; e, finalmente, alunosindivíduo. Em sua vida cotidiana, o indivíduo aprende com necessidades especiais (tais como: pessoas comdando novos sentidos aos elementos da cultura, através Síndrome de Down, paralisia cerebral, autistas, baixade constantes e diferentes processos de interpretação. visão, deficiência auditiva etc), que também não tiveramNa escola, os alunos deveriam aprender atribuindo outros acesso à escola em idade própria. Ou seja, o CEMES/sentidos (significados) às coisas, através de novos CIEJA é um caminho ou alternativa para atender o alunoprocessos de interpretação e não apenas adquirindo a com necessidades diferenciadas e reconhecido como:cultura elaborada nas disciplinas escolares. Isto é tanto “[...] cidadão que deseja resgatar a escolarização emmais válido para jovens e adultos, trabalhadores, com uma escola em que encontre uma formação maistantas histórias de vida e tantas aprendizagens diferentes. apropriada e mais próxima das questões enfrentadas em 39
  • 40. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusãoseu cotidiano [...]3 ”. Portanto, esta é uma escola que relação à aprendizagem desses alunos? Como fazer umtrabalha em prol da inclusão social, daqueles que não trabalho que possa realmente incluí-los? O que é precisotiveram a oportunidade de freqüentar a escola regular. saber para interferir em suas aprendizagens? Que expectativas podemos ter em relação à aprendizagem Para que essa formação possa ocorrer, desde a desses alunos? E, essas perguntas ocorrem,época do CEMES, nossos planejamentos são discutidos principalmente, porque os professores que atendem anas equipes e socializados no coletivo, pois sabemos esses alunos são profissionais que tiveram formaçãoda necessidade de refletir sobre como atender às para trabalhar em salas de aula “comuns”. Suasnecessidades de nosso público. Esse é o diferencial que formações iniciais não lhes ofereceram subsídios paranos auxilia a fazer um trabalho que inclua a todos e os que pudessem ensinar a essas diversidades.faz pensar e gostar de aprender, pois muitos alunos,como já dissemos, procuram o Centro apenas para a Algumas iniciativas para orientar os educadorescertificação. É preciso convencê-los de que podemos foram realizadas pelas Coordenadorias de Educação emoferecer mais. Além disso, garantir a permanência dos parceria com algumas entidades, Universidades e outrosdemais alunos é questão de alta prioridade para nós. setores da Saúde Pública e da Promoção Social. Nos No primeiro momento, o número de alunos com últimos anos, equipes de educadores especialistas emnecessidades especiais era pequeno e não parecia Educação Especial passaram a compor os quadros dos“assustar” os professores. Apenas os módulos I e II Grupos de Acompanhamento da Ação Educativa (GAAE)atendiam a esses alunos. Quando o ensino passou a nas Coordenadorias, cursos foram oferecidos aosser presencial também para os módulos III e IV, o número professores e coordenadores pedagógicos e fóruns dede alunos com necessidades especiais aumentou discussão permanente foram criados.juntamente com o número de alunos excluídos das Contudo, o atendimento a essa clientela ocorreuE.M.E.F.’s (Escolas Municipais de Ensino Fundamental), paralelamente ou até mesmo anteriormente a essasos adolescentes. iniciativas de SME5. A sensação de que não estávamos Atualmente, atendemos a novecentos alunos, dez preparados para atender a esses alunos que procuravampor cento dos quais são pessoas com necessidades as escolas, era dominante.especiais atendidas em todos os módulos. Temos duas No caso do Centro Integrado de Educação deSAAIs (Sala de Atendimento e Apoio à Inclusão) que Jovens e Adultos (CIEJA-Butantã), como já dissemos,fazem atendimentos aos alunos com necessidades iniciamos o atendimento a alunos jovens (em sua maioria)especiais. Uma delas recebe exclusivamente portadores e adultos com necessidades especiais, ainda nade deficiências múltiplas; outra atende aos alunos estrutura de CEMES (Centro Municipal de Ensinomatriculados nas turmas regulares, fora do horário de Supletivo). Naquele momento, como a preocupaçãoaula, funcionando como apoio pedagógico. central era um atendimento mais individualizado (em O Decreto nº. 45.415/04 define como demanda grupos pequenos), podemos perceber que, além daspara atendimento educacional especializado os dificuldades de aprendizagem decorrentes de pouca ouidentificados no parágrafo primeiro do artigo 4º: “Entende- nenhuma escolarização, alguns alunos tambémse por crianças, adolescentes, jovens e adultos com apresentavam dificuldades diferenciadas.necessidades educacionais especiais aqueles cujas Certos fatores favoreciam essa percepção. Umnecessidades educacionais se relacionem comdiferenças determinadas, ou não, por deficiências, deles se dava no momento da inscrição dos alunos.limitações e/ ou disfunções no processo de Durante o preenchimento da ficha de inscrição,desenvolvimento e altas habilidades / superdotação”. conversávamos com o aluno e/ou familiares, levantando dados de sua escolaridade anterior e de suas Um dos motivos pelos quais o Centro é muito expectativas em relação aos estudos. Outro aspecto eraprocurado é que o atendimento a esses jovens e adultos a avaliação diagnóstica realizada através de uma provafeito pelas EMFEs se dá exclusivamente no período escrita e de uma pequena entrevista no momento danoturno, o que inviabiliza sua inclusão nas salas comuns, correção da mesma.pois os mesmos, muitas vezes, necessitam de Um terceiro fator que proporcionava o maioracompanhantes. O CIEJA, além de atender a esse público conhecimento sobre os alunos que nos procuravam eraespecífico, o faz em vários horários e em um tempo de que, no início das aulas, todas as equipes docentesaula reduzido 4, permitindo que os acompanhantes realizavam a orientação inicial que consistia napossam esperá-los. apresentação da proposta do curso, bem como no Entretanto, muitas questões surgem nas relações diagnóstico inicial dos conhecimentos que os alunoscotidianas com os alunos de inclusão: O que fazer em traziam para a sala de aula. Nesse momento, os40
  • 41. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusãoprofessores procuravam detectar as necessidades do Professora 1 - “A inclusão social não deve ser pensadagrupo para, nas reuniões coletivas, definir melhor como somente para os portadores de necessidades especiais,os objetivos poderiam ser alcançados. A equipe de mas também para a aceitação geral das diferençasprofessoras de Módulo I e II que atendia alunos com individuais. E ela se dá com a valorização de cadanecessidades especiais, discutia durante as reuniões indivíduo e com a convivência em meio à diversidadede equipe as dificuldades encontradas e as iniciativas e human, investindo na aprendizagem por meio daintervenções realizadas no dia-a-dia. Podemos afirmar cooperação”.que, partilhar com o grupo as experiências, foi o primeiropasso para auxiliar a compreensão de nosso papel no Afinal, o que é incluir?trabalho com as diferenças. Tivemos que desvelar nossaslimitações, preconceitos e, ao mesmo tempo, nossosdesejos de superá-los, reformulando e formando nossa Não fugimos de uma conceituação de normalidadeintervenção pedagógica. “[...] As diferenças constituem que não foi explicitada e nem discutida, mas se desvelasoluções e não problemas, desde que sejam nas queixas acerca de como lidar com as pessoas quereconhecidas, valorizadas e consideradas como ponto apresentavam comportamentos destoantes do grupo.de partida para a construção do conhecimento, Nesse aspecto, incluímos também o grupo de alunosorientando o processo de ensino, aprendizagem e adolescentes que trazem “hábitos cristalizados”6 deavaliação”.(SME, EducAção 4: 2003, p. 5). outras experiências escolares, tais como, a não realização da atividade proposta em sala de aula ou do Com a implantação do CIEJA não abandonamos questionamento sobre a validade ou importância deas práticas citadas. Elas têm sido determinantes para o determinada atividade. Assim, ampliamos o significadodesenvolvimento de nosso trabalho. que se faz de “inclusão”. Cabe ressaltar que a organização da intervenção Skliar (2004), referindo-se às diferenças emcoletiva da equipe só foi possível porque todos os educação, afirma que estas não podem ser apresentadasprofessores dispunham de horário coletivo comum, ou descritas em termos de melhor ou pior, bem ou mal,realizado às sextas-feiras. superior ou inferior, positivas ou negativas. São Outro fator preponderante refere-se ao Projeto simplesmente diferenças. Mas o fato de traduzir algumasEspecial de Ação (PEA), definido por nosso Centro que diferenças como ‘diferentes’ e não simplesmente comoprioriza, desde aquela época, o desenvolvimento da diferenças, volta a posicionar essas marcas comoautonomia de docentes e discentes. Esse projeto foi contrárias, como opostas e negativas à idéia de ‘norma’,incorporado por todos os funcionários. Apesar de nem de ‘normal’ e daquilo que é pensado e fabricado como osempre encontrarmos respostas às questões cotidianas, ‘correto’, como o ‘positivo’, como o ‘melhor’.temos como orientação o desenvolvimento da autonomia O diálogo entre professores da área de Ciênciasconstruída nas relações interpessoais e na formação da Natureza e Matemática apresentado a seguir, ilustrapermanente. um pouco a preocupação que temos em relação à Para exemplificar essa situação, citaremos inclusão e ao trabalho com as diferenças:alguns questionamentos das professoras de módulos I Professor 3 - “O que quer dizer ser incluído? Eu achoe II sobre dúvidas advindas do trabalho com alunos com que quando usamos esse termo, estamos dizendo quenecessidades especiais: há um padrão de normalidade e o resto é que são osProfessora 1 - “Quando iniciei meu trabalho com excluídos [...] Incluir é considerar todos os aspectos,inclusão, confesso, fiquei insegura e cheia de dúvidas. todas as cores da vida que a gente trabalha aqui dentro.Temia não saber ajudá-los. Foram dias de angústia, Em algumas escolas há uma tentativa de tornar asquestionava todos os colegas do Centro, como se, de relações impessoais, há um distanciamento. E eu achorepente, alguém aparecesse com uma poção mágica e que a gente trabalha com vida.”pronto, tudo resolvido [...]. Eles seriam apenas mais um “O desafio é trabalhar com umana sala? Não isso eu não queria [...] Hoje me sinto mais gama muito variada de interesses esegura e com eles vou aprendendo o caminho a seguir.” de vivências, por exemplo: um alunoProfessora 2- “Passado o primeiro impacto, com o apoio que vem procurar a escolaridade pore a troca com algumas colegas, o aprendizado em alguns razões profissionais, porque acursos, me senti mais confiante. E hoje tenho clareza empresa em que ele trabalha estáde que este é um trabalho desafiante, mas vou dia-a-dia exigindo a escolaridade. Parece que,me superando pela experiência como educadora e nesse caso, ele é menos excluídotambém pelo insights que recebo dos próprios alunos”. do que outros.” 41
  • 42. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusãoProfessor 4 - “Muitas escolas privilegiam a avaliação, o Um dilema que nós, educadores, enfrentamos emdesempenho do aluno através das notas e dos conceitos, relação à aprendizagem de nossos alunos é o ponto dee isso acaba dificultando muito o relacionamento com a chegada. Até concordamos que os pontos de partidapessoa, Aqui, por exemplo, não existe essa preocupação são diferenciados, mas nos angustiamos ao saber que,com a questão da nota que vai levar ou não a uma ao final da etapa, nem todos os alunos irão apresentarpromoção, e isso facilita a relação com as pessoas.” as mesmas aprendizagens daquelas trabalhadas e porProfessora 5 - “Nem sempre podemos afirmar que os nós esperadas. Dizemos dilema porque ainda não fomosalunos do CIEJA-Butantã saem com as competências capazes de problematizar, encaminhar ações quee conhecimentos esperados, ou, pelo menos, com o que auxiliassem a compreensão desse processo.almejamos que eles saibam. Então, o desafio é não ter Argumentamos que, ao analisarmos a aprendizagem desó esse lado humano trabalhado, mas o humano que determinado aluno comparando o diagnóstico inicialincluísse de fato essa perspectiva de ser competente”. (como ele chegou) e o que ele construiu no processo, podemos apontar seus avanços e limitações. Contudo, Em nosso caso específico, trabalhamos com quando analisamos o que ele construiu comparando, porpessoas que trazem consigo o estigma da exclusão exemplo, com a competência da leitura e compreensãoescolar por não terem tido acesso à escola na idade daquilo que se lê, constatamos que essa construçãoapropriada ou pelo fracasso em sua vida escolar anterior. nem sempre é suficiente. Outra argumentação usual é O grupo de educadores do CIEJA-Butantã que, às vezes, não pudemos apontar muitos avanços nacompreende como tarefa primordial trabalhar os aspectos construção do conhecimento mas que, se analisarmosque envolvem essa exclusão. Os eixos temáticos as mudanças de atitudes e comportamentos, somosdefinidos confirmam tal prioridade; os objetivos e capazes de reconhecer muitos avanços.conteúdos tratam das questões que envolvem aidentidade cultural e social desse aluno e também dosaspectos relacionados à qualidade de vida. Considerações finais Aseguir, transcrevemos o diálogo entre professorasda área de Linguagens e Códigos, que buscam identificar É nesse último aspecto que talvez devamoselementos facilitadores de seu trabalho: centrar, em primeiro plano, nosso trabalho de inclusão.Professora 6 - “No início eles chegam introspectivos, O indivíduo capaz de interagir satisfatoriamente com seusnão se comunicam muito, são fechados como pares e de lidar adequadamente com as mais diversasconchinhas mesmo, mas com o tempo, a própria situações-problema será, espera-se, um indivíduo maisdinâmica do grupo, do atendimento às pessoas, faz com apto também cognitivamente. Tal processo só é possível,que esses alunos se soltem e mostrem suas entretanto, em meio à diversidade de natureza sócio-potencialidades, só que isso leva um tempo. A estrutura cultural. Há, portanto, que se considerar esses aspectosdo CIEJA facilitou (esse processo) e os amigos (também) dentro da escola, em especial a escola voltada à[...]”. educação do jovem e do adulto.Professora 7 - “A aceitação (por parte) da classe facilita, Os conhecimentos e habilidades prévios doseles acolhem”. alunos constituem-se no ponto de partida para aProfessora 8 - “Eu imagino esse universo que a gente resolução de problemas, cabendo ao professor estimulartem aqui multiplicado, numa sala maior, deve ser muito a pesquisa, a descoberta e a construção de instrumentosdifícil trabalhar”. de compreensão da realidade e participação em relaçõesProfessora 9 - “Uma estrutura como essa permite que a sociais, políticas e culturais diversificadas e cada vezgente conheça mais sobre o aluno. Numa estrutura maior, mais amplas. A aprendizagem é compartilhada e ocorrea professora não vai ter condições de conhecer o aluno”. por meio da interação com os outros.Professora 8- “A estrutura da sala facilita, essa coisa da Em se tratando da inclusão de jovens e adultos,gente estar se olhando [...] As salas voltadas para o há muito que se construir. Começamos apenas agora apátio interno, um espaço que também é compartilhado perceber que a demanda, até há pouco desconhecida,por todos”. traz consigo a necessidade de novas experiências deProfessora 9 - “Nosso centro não se parece com escola. atendimento e de acolhimento. Portanto, consideramosLembro-me também de um aluno que não conseguia essencial que nós, educadores, nos dediquemos àperceber que tinha hora para falar, porque quando ele pesquisa e à prática educativa, tendo em vista achegou aqui ele falava o tempo todo. Foi na convivência construção de novas relações de aprendizagem e decom o grupo que ele encontrou os limites necessários”. significação da mesma.42
  • 43. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusão Encerramos este artigo com as palavras da Kohl Sites consultados:(1999) por nos parecerem dizer tão bem o que www.forumeja.org.br Acesso em 22/09/2007procuramos expressar em nossa discussão sobreinclusão de jovens e adultos com necessidades www.prefeitura.sp.gov.br/arquivos/cidadania Acesso emespeciais, e aprendizagens dos alunos e professores do 22/09/2007CIEJA-Butantã: “A escola voltada à educação de jovens www.forumeja.org.br Acesso em 22/09/2007e adultos, portanto, é ao mesmo tempo um local deconfronto de culturas (cujo maior efeito é, muitas vezes,uma espécie de “domesticação” dos membros dos grupos NOTASpouco ou não escolarizados, no sentido de conformá-los a um padrão dominante de funcionamento intelectual)e, como qualquer situação de interação social, um local * Profª Ms. do curso de Pedagogia da FAMEC ede encontro de singularidades”. Coordenadora Pedagógica do CIEJA-Butantã.Referências Bibliográficas 1 Parecer do Conselho Municipal de Educação Nº. 10/02 - CEFM – aprovado em 07/11/02 2GÓMES, A.I. Pérez . Os processos de ensino- Tais cursos não tinham a intenção de oferecer umaaprendizagem: análise didática das principais teorias da formação mais técnica: visavam a uma formação básica,aprendizagem. In SACRISTÁN, J. Gimeno. Compreender voltada para a aprendizagem de certas posturas ee transformar o ensino. Trad. Ernani F. da Fonseca Rosa. linguagem profissionais – tais como: atender a um4. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998. telefonema, anotar recados, receber e encaminharLURIA, Alexandr Romanovich. Pensamento e linguagem: pessoas em um consultório, trato e apresentaçãoAs últimas conferências de Luria/Alexandr Romanovich. pessoal etc. –, bem como conhecer o funcionamentoPorto Alegre: Artes Médicas, 1986. de determinados equipamentos tecnológicos. Tinham como objetivo fazer a ligação entre o “Mundo da Cultura”OLIVEIRA, Marta Kohl de. Jovens e adultos como e o “Mundo do Trabalho”. A cada módulo escolar (dosujeitos de conhecimento e aprendizagem. Trabalhoencomendado pelo GT “Educação de pessoas jovens e Ensino Fundamental) era oferecido um itinerário formativoadultas” e apresentado na 22ª Reunião Anual da ANPED. diferente, que tinha a duração de 27 encontros. No CiejaCaxambú, setembro de 1999. Butantã, por exemplo, foram oferecidos os cursos de Telefonista Básico para o módulo I, Balconista para oSKLIAR, Carlos. Outras alteridades, outra perguntas: módulo II, Recepcionista de Consultórios, para o módulooutra políticas educacionais? In: Currículo e Diversidade. III e Atendente de Telemarketing para o módulo IV. NaEducação Especial: Novas Perspectivas em uma prática, devido à falta de maiores recursos técnicosEducação Inclusiva. Caderno Temático de Formação 3. (como um mini Call Center para simular o atendimentoSME- DOT, São Paulo: 2004. de Telemarketing), tais cursos acabaram por auxiliar (eSME- DOT (Secretaria Municipal de Educação de São de maneira bastante significativa) a aprendizagem noPaulo- Diretoria de Orientação Técnica). Cidade curso regular, na medida em que estava apoiado no usoEducadora: Educação inclusiva, um sonho possível. de apostilas muito interessantes e bem elaboradas, queCaderno EducAção 4. São Paulo: 2003. ofereciam farto material para leitura e escrita. Além disso, tiveram também o mérito de oportunizar ao alunoVYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da conhecimentos gerais sobre direitos e deveres domente: o desenvolvimento dos processos psicológicos trabalhador e do cidadão, como, por exemplo, o estudosuperiores. 6ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1998. – do Código do Consumidor.(Psicologia e Pedagogia). 3 www.forumeja.org.br - acesso em 22/09/2007______. Pensamento e Linguagem.2ª ed. – São Paulo; 4Martins Fontes, 1998. Os CIEJA’s atendem aos alunos em grupo classes com um tempo de 2h15. Diariamente atende em seisWADSWORTH, Barry J.. Piaget para professor da pré- períodos, enquanto as EMEF’s atendem em trêsescola e 1º grau /. Tradução de Marília Zanella Sanvicente. períodos de cinco horas aula2. ed. – São Paulo: Pioneira, 1987. 5 S.M.E. Secretaria Municipal de Educação.ZABALA, Antoni. Os enfoques didáticos. In: COLL. Césaret al. O construtivismo na sala de aula. 6. ed. São 6 Referimos-nos a hábitos cristalizados que foramPaulo:Editora Ática, 1996. desenvolvidos no ambiente escolar, ou seja, foram 43
  • 44. CIEJA-BUTANTÃ: uma aprendizagem significativa sobre a inclusãoaprendidos na escola: apesar de seu aspecto negativo,são frutos da aprendizagem nas relações de poder entreprofessor e aluno, como também nas relações entrealunos, decorrentes da tentativa de homogeinização doensino e conseqüentemente da aprendizagem.44
  • 45. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogia Katsue Hamada e Zenun* Daniela Libâneo Leonardi** Edinéia Aparecida Potente*** Eunice Matos de Almeida**** Rosana Medeiros*****Resumo AbstractApresentamos neste tema-título três trabalhos de It is presented in this paper three final works of underconclusão de curso (TCC), selecionados pela relevância graduating conclusion selected by the relevance of thedo tema para a formação do professor e o perfil de seus theme for training teacher and the profile of their authors,autores, participantes dos Programas Ler e Escrever em participants of the Reading and Writing Programs inparceria com as Secretarias Municipal e Estadual de partnership with the City and State Departments ofEducação, como alunos pesquisadores. Education, as student researchers.Palavras-chave: formação do professor, Programa Ler Keywords: teacher training, Reading and Writinge Escrever, alunos-pesquisadores, dislexia. Program, students, researchers, dyslexia. 45
  • 46. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiaApresentação No entanto, apesar dessa orientação ficar relegada a um segundo plano na maioria dos cursos de formação A pesquisa é inerente à formação do educador naatualidade quando os métodos conhecidos não dão conta de professores, entendemos a sua importância, isto é, é preciso formar um profissional que reflita na e sobre ada complexidade e imprevisibilidade da práticapedagógica, impelindo-nos a buscar novos caminhos, ação para poder tomar decisões. Um forte componenteproblematizar as experiências para buscar a raiz, de reflexão, pois quanto mais nos defrontamos comcolocando os problemas de uma nova forma, tarefas complexas, mais é preciso avaliar a pertinênciacompreendê-los para mudar a prática, para uma prática de tal ou qual método, combinar vários, e até mesmoreflexiva e investigativa que possibilite a formação de inventá-los para fazer frente à singularidade da situação.educadores competentes e comprometidos socialmente Concordamos com Schön (1992) ao afirmar que,com uma educação de qualidade para todos e de uma para formar este profissional precisamos superar asociedade humana mais justa e democrática. formação baseada no modelo da ciência aplicada que O tema da Dislexia é um alerta para esse não dá conta da complexidade e imprevisibilidade dadistúrbio de aprendizagem no processo da alfabetização. prática pedagógica, para implantarmos um modelo deA formação para a Condição Humana inicia-se na formação baseada na prática reflexiva. Ou seja, não seinfância junto à família e se amplia envolvendo a escola trata de conhecermos primeiro a teoria parae é neste espaço que se combate e se busca a superação posteriormente aplicá-la aos problemas da prática, masda discriminação e estigmatização, fortalecendo o sim, com o auxílio da teoria, dos conhecimentosprocesso de construção de valores e atitudes que podem científicos, problematizar as experiências para buscar amelhorar as relações sociais para conviver de forma justa raiz, colocando os problemas de uma nova forma. Criare solidária. A introdução de LIBRAS como a primeira não apenas formas de resolver os problemas da prática,língua dos surdos e mudos contribuiu para compreender mas de compreendê-los para mudar a prática, pois formarmelhor o que é a surdez, como ela ocorre e o para a prática reflexiva significa, sobretudo, tornar acomportamento da pessoa surda, situando historicamente reflexão uma rotina da vida cotidiana - o hábito de duvidar,a luta pela legalização da Língua de Sinais no Brasil. de se espantar, de perguntar, de ler, de anotar algumas questões, de debater, de refletir em voz alta, dentreIntrodução outros, a levantar hipóteses, a seguir intuições, a enfrentar Estudar para o professor é insepa- contradições, enfim, aprender a operar e mesmo brincar rável de seu ofício. com as idéias. Não há como ser bom professor sem estudar. São essas as perspectivas que norteiam as parcerias que a FAMEC mantém como os Programas Estudar é também e, sobretudo voltados à alfabetização e as orientações para os pensar a prática e pensar a prática é a melhor maneira de pensar certo. trabalhos de conclusão de curso (TCC), buscando a formação de educadores competentes, investigadores Paulo Freire da sua própria prática e comprometidos socialmente com Desde os anos 60, as pesquisas e estudos sobre uma educação de qualidade para todos e de umaa formação de professores no Brasil vêm apontando a sociedade humana mais justa e democrática.falta de habilidades e competências do professor para Os três textos que compõem o tema-título do artigoinvestigar a própria prática. Tais habilidades e resultaram da pesquisa para a elaboração do TCC -competências tornam-se necessárias, especialmente Trabalho de Conclusão de Curso (2007), selecionadosdurante o processo de democratização do acesso à pelo perfil que eles manifestam, considerando-se queescola e a conseqüente entrada no sistema de crianças seus autores também participaram dos programas comoe jovens oriundos das camadas populares, o que faz alunos pesquisadores. A seguir, Edinéia, Rosana ecom que a prática pedagógica se depare crescentemente Eunice escrevem respectivamente sobre “Dislexia”,com desafios mais complexos. “LIBRAS – conquista da identidade surda” e “A condição A nova Lei de Diretrizes e Bases de 1996 refere- humana - formação que se inicia na infância”, temasse à pesquisa enquanto inerente às diferentes extremamente relevantes para a formação do professor.modalidades de ensino, mas a enfatiza como primordial É importante ressaltar que a elaboração de taisno ensino superior e especificamente na área de monografias constitui-se, com freqüência, na primeiraformação de professores e demais licenciaturas, experiência de pesquisa e é, portanto, aberta aconsiderada como finalidade.2 aprofundamentos e revisões futuras.46
  • 47. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiaDislexia: Uma reflexão sobre a alfabetização de mediante uma avaliação adequada. A seguir alguns dosdisléxicos. sintomas mais comuns entre os disléxicos (Op. cit., p. 26): desempenho inconstante; demora na aquisição da Sem a curiosidade que me move, que leitura e da escrita; lentidão nas tarefas de leitura e me inquieta, que me insere na busca, não aprendo e nem ensino. escrita, mas não nas orais; escrita incorreta, com trocas, omissões, junções e aglutinações de fonemas; (Paulo Freire, Pedagogia da discrepância entre as realizações acadêmicas, as autonomia). habilidades lingüísticas e o potencial cognitivo;Dislexia: o que é? desconforto ao tomar notas e/ou relutância para escrever. Além disso, apresentam dificuldades diversas, como: De acordo com IANHEZ e NICO (2003, p.35), há com os sons das palavras e, conseqüentemente, com acerca de 130 anos vêm sendo realizadas pesquisas a soletração; associar o som ao símbolo; a rima erespeito da Dislexia e dentre as várias definições aliteração; associações (ex.: associar os rótulos aos seusapontadas, a que atualmente é utilizada foi a apresentada produtos); organização seqüencial (ex.: letras do alfabeto,no Comitê deAbril de 1994, sendo baseada em pesquisas meses do ano, tabuada etc); nomear objetos, tarefasanteriores: etc; organizar-se com o tempo (hora), no espaço (antes ”A dislexia é um dos muitos e depois) e direção (direita e esquerda); memorizar distúrbios de aprendizagem números de telefone, mensagens, fazer anotações ou específico da linguagem, de origem efetuar alguma tarefa que sobrecarregue a memória constitucional, caracterizado pela imediata; persistência no mesmo erro (mesmo com ajuda dificuldade em decodificar palavras profissional). simples. Mostra uma insuficiência no Pode-se suspeitar de um quadro de dislexia ou processo fonológico. Essas de risco, quando, apesar da inteligência adequada e dificuldades na decodificação de oportunidades de ensino e aprendizagem, a pessoa palavras simples não são esperadas apresentar alguns destes sintomas. Essas em relação à idade. Apesar da características podem se manifestar de forma isolada instrução convencional, adequada ou combinada e se combinarem de diferentes modos inteligência, oportunidade sociocul- em cada disléxico. Ou seja, em cada indivíduo a dislexia tural e ausência de distúrbios se manifestará de uma forma única e própria. Como cognitivos e sensoriais fundamen- relatado anteriormente, foram várias as definições tais, a criança falha no processo da apresentadas, entretanto somente algumas difundidas. aquisição da linguagem com A seguir um panorama com cinco das várias contribuições freqüência, incluídos aí os problemas apresentadas. de leitura, aquisição e capacidade de escrever e soletrar”. (Apud. IANHEZ Em 1971, Elena Boder e Myklebust (p. 37) e NICO, p. 23). propuseram as seguintes classificações: Pelo fato de apresentar muitas formas e variados 1- Dislexia disfonética – dificuldades de percepçãosintomas que se combinam de modos diferentes em cada auditiva na análise e síntese de fonemas, dificuldadesindivíduo, quando se fala em dislexia, fala-se de uma temporais, nas percepções da sucessão e da duração.dificuldade que é mais facilmente descrita do que Exemplos: trocas de fonemas (sons) e grafemas (letras)definida, ou mesmo denominada. No Brasil, assim como diferentes: vaca – faca; dificuldades no reconhecimentoem outros países, foi adotado o termo dislexia com base e na leitura de logatomas: reabo; alterações na ordemem análise etimológica da palavra para denominar um das sílabas: copo – poco; omissões e acréscimos: leituradistúrbio específico na aquisição da leitura e da escrita: – letura; além – aleim; maior dificuldade na escrita doDIS = distúrbio; dificuldade + LEXIA = leitura (do latim) que na leitura; substituições de palavras por sinônimose/ou linguagem (do grego) - DISLEXIA = distúrbio de ou trocas de palavras por outras visualmentelinguagem. semelhantes (reconhecimento global): infâmia – infância; Nem por isso pode-se acreditar que qualquer 2- Dislexia diseidética – dificuldade na percepção visual,dificuldade apresentada em leitura e escrita seja sinal na percepção gestátilca, na análise e síntese dede dislexia. As causas que podem interferir no processo fonemas. Exemplos: leitura silábica, sem conseguir ade aquisição da linguagem são as mais variadas síntese das palavras: comigo – com – migo;possíveis, por isso torna-se tão importante um diagnóstico aglutinações e fragmentações de palavras: fazer isso –preciso. A observação de alguns sintomas pode remeter fazerisso; enquanto – em quanto; troca por equivalenteso chamado ‘quadro de risco’, que deve ser confirmado fonéticos: vaca – faca; pato – bato; maior dificuldade 47
  • 48. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiapara a leitura do que para a escrita. 3- Dislexia Visual – o princípio alfabético e, progressivamente, dominar odeficiência na percepção visual e na coordenação conhecimento ortográfico próprio de sua língua.visuomotora (não visualiza cognitivamente o fonema): m Tanto CAPOVILLA quanto SOARES, afirmam que:– n; a – e; q – p. as crianças aprendem quando se4- Dislexia Auditiva – deficiência na percepção auditiva ena memória auditiva: pato – bato; gato – cata. 5- Dislexia trabalham sistematicamente asMista – combinação de mais de um tipo de dislexia. relações fonema – grafema. Ou seja, é a aprendizagem do sistema de É perceptível, como exposto nas classificações, escrita.que síntese, análise visual e auditiva, bem comodiscriminação temporoespacial, não são características (...) É a aquisição do sistemadominantes nos disléxicos. Portanto, a aquisição da alfabético e ortográfico pela criançaescrita (para os disléxicos) não se dá como o esperado, nas suas relações com o sistemaou das formas convencionais que em geral são feitas fonológico.nas escolas. Este processo faz com que esse aluno Entretanto, o Método Fônico não é o único meionão responda às expectativas esperadas e poderá trazer- pelo qual se pode alfabetizar alunos disléxicos.lhe frustrações. Visando amenizar estas possíveis Lembrando que a maioria das crianças tem um sistemafrustrações recomenda-se que o indivíduo que apresente sensoriomotor especialmente ajustado para a aquisiçãoum quadro de risco procure profissionais especializados e desenvolvimento da linguagem falada e escrita, e queem distúrbios de aprendizagem. o mesmo não ocorre em crianças disléxicas, pois seus O diagnóstico da dislexia é de exclusão e deve canais sensoriomotores (percepções como visão,ser realizado por uma equipe multidisciplinar formada audição, fonoarticulatória e cinestésico-motora) não sepor psicólogo, fonoaudiólogo e psicopedagogo. Quando desenvolvem/trabalham em harmonia, tem-se pornecessário, é feito um encaminhamento ao neurologista conseqüência a incapacidade da criança em produzire/ou a outros profissionais como oftalmologistas, um estímulo para uma resposta imediata. Portanto, parageneticistas, otorrinolaringologistas, pediatras, dentre que tais habilidades sejam desenvolvidas, a metodologiaoutros, para se determinar se existem ou não fatores aplicada é a Multissensorial.que possam estar comprometendo o processo deaprendizagem, ou mesmo coexistindo com a dislexia(exemplo disto é a hiperatividade, muito confundida coma própria dislexia). Todos os profissionais envolvidos com odiagnóstico devem trocar informações sobre odesenvolvimento da criança, histórico familiar,desempenho escolar, métodos de ensino e repertórioadquirido para confirmar ou não o distúrbio. A partir dessasinformações faz-se o encaminhamento adequado para oprograma de reeducação. O diagnóstico multidisciplinarvisa, também, esclarecer pais, professores e profissionaisque acompanham o caso, assim como ao própriodisléxico.Alfabetização e Dislexia: métodos apropriados Uma vez compreendido que a Dislexia é umdistúrbio específico na área de aquisição da linguagem A cartilha “Facilitando a Alfabetização –e que sua principal característica é a dificuldade em Multissensorial, Fônica e Articulatória” tem comoestabelecer a relação entre fonema e grafema(consciência fonológica), um dos métodos mais foco a estimulação visual, auditivo, tátil e sinestésico,apropriados passa a ser o Fônico, pois este tem por apresentando as letras em alto-relevo e figurasembasamento ensinar, de forma explícita, a relação entre correspondentes, com setas direcionando a escrita,grafemas e fonemas, possibilitando à criança descobrir como mostra a imagem acima.48
  • 49. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogia De acordo com IANHEZ e NICO (2003): familiar. As mudanças ocorridas nas últimas décadas geraram vivências de outras realidades tanto no âmbito o aprendizado multissensorial familiar quanto social. Porém, não se deve perder o foco trabalha simultaneamente com o uso que é a educação dos filhos, baseada no exemplo dos olhos, ouvidos, órgãos da fala, cotidiano, nas crenças familiares, nos valores dedos e músculos, envolvendo os disseminados por ela, cultivando o vínculo tão necessário caminhos para o cérebro (...) para o desenvolvimento da criança. (SME - Secretaria o ensino dado à criança disléxica é Municipal de Educação de Taboão da Serra. Programa sistemático e cumulativo, Interação Família e Escola. Taboão da Serra: SME cuidadosamente monitorado e Taboão da Serra, 2005.) regularmente avaliado de forma a verificar sua eficiência. (..) as tarefas É no convívio familiar que aprendemos valores devem ser fixadas num nível que humanos como o respeito ao próximo e que nos ajudam garanta algum grau de sucesso (...) a entender e escolher entre esta ou aquela ação. A partir . (p. 88 e 89). do momento em que julgamos que nosso passado não foi tão bom para servir de exemplo para nossos filhos, Daí torna-se tão claro o porquê da importância da ao invés de negarmos o fato de que esse passado nosmetodologia multissensorial. A partir do momento em fez quem somos hoje, tivemos a oportunidade deque todas as percepções estiverem em processo, para julgarmos nosso passado para entendermos nossoo disléxico, a assimilação e a abstração se torna possível. presente e assim pré-julgar o futuro de quem amamos, Esta pesquisa convida à reflexão sobre o que é mas não podemos esquecer que se não estamos felizesDislexia, como esta se dá, como se processa a com quem somos devemos rever conceitos e não fatosalfabetização (em especial para alunos disléxicos) e isolados, ressaltar o fato de que esta vivência, apesarcomo podemos atuar junto a profissionais especializados das limitações, é que pode ter nos formado pessoasvisando o pleno desenvolvimento de nossos alunos, justas, batalhadoras e críticas.sejam eles disléxicos ou não. O método fônico apesar No entanto, o cotidiano das escolas de educaçãode ser considerado ultrapassado, possibilita trabalhar infantil manifestam uma outra realidade: da omissão,melhor em casos de dislexia, melhor ainda quando há abandono, descompromisso, irresponsabilidade,avanços como vimos na publicação da Cartilha negligência dentre outras.Multissensorial. Entender como pensamos e agimos Na superação das dificuldades, concordamos cotidianamente propicia a compreensão de que pequenoscom Magda Soares ao afirmar que: atos podem promover uma formação adequada ou não Avançamos quando acumulamos o para a inserção benéfica no convívio social. Perceber as que aprendemos com o passado, condições que suscitaram tais ações, evita pré- juntando a eles as novidades que o julgamentos para com as pessoas que vivem em situação presente traz. de risco e, muitas vezes, por não terem alternativas, só lhes restam agir de acordo com a sua realidade. Ainda hoje ocorrem situações dentro da realidade escolar queA condição humana - formação que se inicia na não são divulgadas. Atos e fatos que semeiam ainfância violência, cujas vozes são muitas vezes caladas, negligenciadas ou que são percebidas ou intuídas por Escrever sobre Barbárie Social na Educação se meio de fragmentos – olhares, gestos, marcas oudeve ao meu trabalho como educadora que alertou para expressões. Fatos como esses nos ferem comoa importância da formação familiar, escolar e social, pessoas, sobretudo como educadores, pois sabemos elugares em que se formam para a vida. No entanto, nos buscamos sempre o melhor. É dentro da escola quedeparamos com situações de violência de toda ordem podemos unir formação familiar e social, criando o elocometida contra as crianças em locais em que há necessário para o pleno desenvolvimento da criança.garantias legais de proteção.( NIDELCOFF, Maria Teresa. (GAVALDON, Liza Laforgia. Desnudando a Escola. SãoUma escola para o povo, 37 ed. – São Paulo: Paulo: Pioneira. Thomson Learning, 2003.)Brasiliense,1994) A escola deve ser um lugar de formação “política”, A formação familiar é muitas vezes prejudicada de defesa de direitos, ampliando conceitos, socializandodevido a fatores como a necessidade de trabalhar para ideais para melhoria da nossa realidade. A escola é osustentar a família, a preocupação com questões outras único lugar em que ainda podemos falar e sermosque afastam os filhos dos pais, além da própria estrutura ouvidos, lutar e crescer como pessoas críticas, defender 49
  • 50. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiaidéias e semear crenças outrora questionadas. Para que II – Deficiência auditiva – perdaessa aprendizagem ocorra é necessário conviver, parcial ou total das possibilidadescompartilhar experiências de situações que nos auditivas sonoras, variando de grausdesestabilizam e nos obrigam a refletir nossos conceitos e níveis na forma seguinte:e nossa visão de mundo. (SAVATER, Fernando. O valor a) de 25 a 40 decibéis db - surdezde Educar. Trad. Monica Atahel. São Paulo: Martins leve;Fontes, 1998.) b) de 41 a 55 db – surdez moderada; Os pais e a comunidade devem estar presentes c) de 56 a 70 db – surdez acentuada;na escola, pois nela terão voz, poderão se identificar e d) de 71 a 90 db – surdez severa;buscar melhorias para o bairro e a comunidade que d) de 91 db – surdez profunda eresultarão em uma escola melhor. f) anacusia; [...]. A pesquisa de campo corroborou com os A surdez pode decorrer de vários fatores. Segundoexemplos para fortalecer a hipótese de que a formação STROBEL e DIAS (1995, p.3), ela pode ocorrer quandoescolar e familiar é fundamental para minimizar a as mães têm rubéola nos primeiros meses de gestação;violência que é disseminada dentro da escola. Além quando as mães têm doenças venéreas; alcoolismodisso, a formação escolar no contexto de que deve ser durante a gestação, diabetes; dificuldades no parto;feita com idoneidade e sabedoria, a formação familiar sarampo, dentre outros. Durante o período de vida deque muitas vezes acontece de forma desestruturada, não qualquer pessoa pode ocorrer a perda auditiva, seja pordeve se encarada como a única mola propulsora da meio de doenças como a meningite ou através deviolência social, dificultando e até mesmo impedindo que constantes exposições a elevados níveis de decibéis.o indivíduo mostre a sua capacidade e se desenvolva Para que o indivíduo possa ter essa patologiaplenamente. diagnosticada por um médico faz-se necessário A pesquisa contribuiu para a compreensão de que identificar algumas características: como a criança reagenão existem fatos isolados, mas realidades em suas quando batem palmas ou chamam pelo seu nome;múltiplas dimensões desveladas pelo olhar observador - quando não consegue identificar a origem do som; pareceindícios que denunciam a violência vivenciada no inquieta; dentre outros. Dessa maneira, o melhor a fazercotidiano, social e escolar. é investir em cuidados preventivos. Em postos de saúde existem profissionais habilitados a prestar esse tipo deLIBRAS – conquista da identidade surda serviço à população. De acordo como dicionário Michaelis de Língua Desde a Idade Antiga se têm relatos sobre aPortuguesa (2004, p.571): Surdez ou Surdez: sf.1 surdez. Aristóteles (apud KOJIMA e SEGALA. 2001,Qualidade ou doença do que é surdo. 2 Falta ou perda pp.15/16) afirmava que se não tem capacidade de falar,absoluta do sentido da audição. O Dicionário de LIBRAS também não pode pensar (500 a.C.). Percebe-se quedefine: os surdos já existiam nesta época e que foram rotulados Surdez: sf: Perda auditiva profunda de incapazes. Na Idade Média, os surdos foram (isto é, com o limiar auditivo igual ou considerados como deficientes mentais, tirados do superior a 80 – 95 dB), ou pelo menos convívio da sociedade e tratados como perigo público, severa a profunda (isto é, com o limiar voltando ao convívio social por meio do trabalho, somente auditivo igual ou superior a 70 dB), no século XV. em que mesmo com o uso de Entre o final do século XIX e meados de século XX aparelhos auditivos de ampliação a vários congressos mundiais decidiram como e quando pessoa não consegue compreender os surdos deveriam usar a sua língua. A exemplo, disso a fala que ocorre ao nível usual de pode-se mencionar ações como: a proibição da conversação [...]. gesticulação e a imposição da oralização (1880 – Milão, Entretanto, a Lei nº. 3.298 de 20 de dezembro Itália)-; a fala tornou-se obrigatória com as novasde 1999, define como surdez a quantidade de medida tecnologias (1900); os surdos foram considerados comoem decibéis para que a pessoa possa ser considerada sub-educados, isto é, não tinham preparação para osurda: mercado de trabalho e nem para o convívio social por serem considerados incapazes (1975 – Washington, Art. 4 ° É considerada pessoa EUA). Além disso, durante a 2ª Guerra Mundial, Hitler portadora de deficiência a que se mandou matar todas as pessoas portadoras de enquadra nas seguintes categorias necessidades especiais, inclusive os surdos (1939 a [...] 1945).50
  • 51. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiaLibras no Brasil Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais - Libras não poderá LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) é uma substituir a modalidade escrita dalinguagem autônoma, ou seja, independente da língua língua portuguesa.falada, com mecanismos próprios de natureza espacial Independentemente das leis vigentes, o respeitopara relacionar a forma e o significado utilizados no Brasil. aos alunos surdos é fundamental para que se sintam de Baseada na Língua Francesa de Sinais, a LIBRAS fato inseridos em sala de aula e acolhidos enquantono Brasil foi implantada pelo francês Hernest Huet, alunos que têm as mesmas necessidades esofrendo algumas alterações com o passar dos anos e competências como qualquer aluno ouvinte.com os regionalismos. A primeira Associação dos Surdos Beethoven escreveu nove sinfonias e vários outrosno Brasil foi fundada entre 1910 e 1913. De 1930 a 1947, trabalhos após a sua perda auditiva. Há váriasse os surdos quisessem se comunicar deveriam utilizar possibilidades de aprendizagem ao surdo e trabalhospapel e lápis (na forma da escrita) e fazer o uso da fala. muito bem feitos de alfabetização quando este incorporaEm 1950, a ex-diretora do INES – Instituto Nacional de a estrutura lingüística e a LIBRAS, inclusiveEducação aos Surdos, Ana Rimoli de Faria Dória, proporcionando comunicar-se autonomamente comimplantou o oralismo, forma mais pura que propõe ouvintes (pessoas não surdas), como mostra o diálogosomente o ensino de técnicas oralistas, como leitura abaixo, via internet:labial, vocalização e aproveitamento dos resíduos 16:30 R.: oi Paulo tudo bem comauditivos, visando ao desenvolvimento da língua oral. Em você e a Ana?1970, chega ao Brasil a Comunicação Total, um novo 16:31 Paulo: Oi tudo bem, sou Paulométodo de ensino para os surdos, baseado numa filosofia 16:33 R.: se esqueceu de mim?educacional para a educação dos surdos, fazendo uso 16:34 Paulo: Não esqueço de vcde vários sistemas de comunicação simultaneamente. mesmoDe 1990 até os dias atuais, vários congressos sobre a porque???educação dos surdos buscando oferecer acesso e R. não sei...melhores condições de educação foram realizados, Paulo: Eu vou apanhar vc mesmo!!!porém, alguns educadores defendem a idéia de que o 16:35 R.: ????surdo deve aprender LIBRAS e a Língua Portuguesa para 16:36 Paulo: Então preciso sair pqque não tenham nenhuma dificuldade na Comunicação. eu e a minha esposa vamos juntos a minha família para igreja à missa. Com a promulgação da Lei nº 10.436, de 24 de Pela minha tia faleceuabril de 2002, têm-se uma grande conquista, ou seja, o R: tudo bem, uma hora dessas areconhecimento da LIBRAS como Linguagem, instituindo gente se encontra para brincar...o dia 27 de setembro como o dia do Surdo. Tanto o ótimo sabado...Estado quanto o Município de São Paulo instituíram o 16:37 Paulo: Tudo bem!!!! Até mais!!!!último domingo do mês de setembro para comemorar Abraço!!!! Pauloesta data. Art. 1º É reconhecida como meio Ponto final – um sinal ortográfico legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras É necessário ressaltar a luta e a coragem no longo e outros recursos de expressão a ela caminho percorrido pelos surdos na sua luta pela inclusão associados. e a legalização das suas conquistas. No Brasil, apesar das leis que os protegem e dão garantias de uma Parágrafo único. Entende-se como educação digna e com as mesmas condições de acesso Língua Brasileira de Sinais - Libras à educação e de igualdade como qualquer ouvinte, ainda a forma de comunicação e expres- falta muito. Todavia, é fundament al a prevenção da são, em que o sistema lingüístico de doença na gestação e o investimento na formação de natureza visual-motora, com estrutu- professores para proporcionar uma melhor qualidade de ra gramatical própria, constituem um educação inclusiva aos surdos e deficientes auditivos, sistema lingüístico de transmissão além de professores capacitados e qualificados nas de idéias e fatos, oriundos de duas línguas – Língua Brasileira de Sinais (a “língua mãe”) comunidades de pessoas surdas do e a Língua Portuguesa (segunda língua). É preciso, ainda, Brasil. [...] viabilizar a lei na prática educativa cotidiana em prol de 51
  • 52. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiauma educação que proporcione qualificação para o IANHEZ, Maria Eugênia, NICO, Maria Ângela. Nemtrabalho, possibilitando, de fato, exercício à cidadania e sempre é o que parece: como enfrentar a dislexia eautonomia de vida. os fracassos escolares. 9ª, Rio de Janeiro: Elsevier, Não quero concluir este artigo com o sinal 2003.ortográfico chamado de ponto final, porque não considero Site: dislexia.org.bro mesmo como concluído e acredito que há muito queser estudado... A condição humana - formação que se inicia na infância:Há muito que aprender FEFFERMANN, Marisa. Vidas Arriscadas: o cotidiano dos jovens. Petrópolis: Vozes, 2006. As pesquisas que constituíram o Trabalho de FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberesConclusão de Curso revelam apenas uma das facetas necessários á pratica educativa. São Paulo: Paz edo complexo mundo que é a realidade escolar e o longo Terra, 1996, p. 76caminho a percorrer para superar as desigualdades,contribuir para um ensino de qualidade e de tornar a GAVALDON, Liza Laforgia. Desnudando a Escola. Sãohumanidade mais humana. Emprestando as palavras do Paulo: Pioneira. Thomson Learning, 2003.poeta Manoel de Barros: NIDELCOFF Maria Teresa. Uma escola para o povo, , A maior riqueza do homem é a sua 37ª., São Paulo: Brasiliense,1994. incompletude. Nesse ponto sou abastado. SAVATER, Fernando. O valor de Educar. Trad. Monica Palavras que me aceitam como sou Atahel. São Paulo: Martins Fontes, 1998. - eu não aceito. TAILLE, Yves de La. Limites: três dimensões Não agüento ser apenas um sujeito educacionais. 3ª., 7ª impressão – palavra de professor que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão . São Paulo: Ática, 2002. às 6 horas da tarde, que vai lá fora, LIBRAS: que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. CAPOVILLA, Fernando César e.RAPHAEL, Walquíria Perdoai. Duarte. Dicionário Ilustrado Trilíngue de Língua de Mas eu preciso ser Outros. Sinais Brasileira. São Paulo: EDUSP, 2004 Eu penso renovar o homem usando GOLDFELD, Márcia, A criança surda: linguagem e borboletas. Manoel de Barros. A maior riqueza cognição numa perspectiva sociointeracionista. - 2ª, do homem é a sua incompletude. São Paulo: Pexus, 2004. Extraído do livro Retrato do artista MONTE, Francisca Roseneide Furtado do, SANTOS, Idê quando coisa. Rio de Janeiro: Rocco, Borges dos. Saberes e Práticas da Inclusão: 1998. Apud Biblioteca Educarede. dificuldades de comunicação e sinalização: surdez. Disponível em http://www.educarede.org.br/educa/ Brasília: MEC, SEESP, 2004. index.cfm?pg=textoapoio.ds_ QUADROS, Ronice Muller de, KARNOPP, Lodenir home&id_comunidade=44#390 Becker. Língua de sinais brasileira: estudos (acesso em 30/3/07) lingüísticos. Porto Alegre: Atmed, 2004. SITES:REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS www.feneis.org.br/p age/libras_nacional-integra.asp (acesso em 30/04/2007).Dislexia: w w w. p l a n a l t o . g o v. b r / c c i v i l _ 0 3 / C o n s t i t u i c a o /ASSUNÇÃO JOSÉ, Elisabete da, COELHO, Maria Constitui%C3%A7ao.htm, (acesso dia 16/09/2007) Teresa. Problemas de aprendizagem. 12ª Ed. São Paulo, Ática, 2004. www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L8069.htm (acesso dia 20/09/2007)FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. 19ª, São Paulo: Cortez - Autores Associados, 1991. v. www.planalto.gov.br/ccivil/decreto/2001/D3956.htm ( 17. 103 p. acesso dia21/09/2007)52
  • 53. A importância da pesquisa na formação do educador: três artigos representativos no curso de pedagogiaFormação de professoresFIORENTINI, GERALDI e PEREIRA (org.) Cartografias do Trabalho Docente. Campinas: Mercado Aberto, 1996.FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.SCHÖN, D. In NÓVOA, António (org.) Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.PIMENTA, Selma Garrido. Saberes da Docência e atividade docente. São Paulo: Cortez , 1999.NOTAS* Profª Ms., da FAMEC - orientadora dos ProgramasLer e Escrever (SME/DOT), Bolsa Formação EscolaPública e Universidade na Alfabetização (SEE/FDE);coordenadora e capacitadora da Educação de Jovens eAdultos (EJA) no Centro de Referência do Idosos (CRI)no Hospital Mandaqui, em parceria com Programa deAlfabetização Solidária (ALFASOL/MEC).** Profª Ms, docente na FAMEC, nos cursos dePedagogia e Artes Visuais, nas disciplinas de Didática,Metodologia do Ensino da Arte, Metodologia Científica eorientadora dos Trabalhos de Conclusão de Curso.*** Concluiu o curso de Pedagogia em 2007, é pós-graduanda em Psicopedagogia Institucional e Clínica eleciona em uma 1ª série da rede Estadual de Ensino**** Concluiu o curso de Pedagogia em 2007, atualmentetrabalhando na SOBEI CEI JD dos Sábias.***** Concluiu o curso de Pedagogia em 2007, é tradutorae intérprete de LIBRAS e atualmente educadora noProjeto Esperança. 53
  • 54. Elaboração da demonstração do valor adicionado para asInstituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociais Elza Stauber*Resumo AbstractEste artigo apresenta proposta de demonstrativo contábil, This article introduces the proposalsob o enfoque social, aplicada às Instituições de Ensino concerning an accounting statement under the socialSuperior Particulares, baseada na Demonstração do Valor viewpoint applied to Private Education Institutions, basedAdicionado (Agregado). Tem por objetivo mostrar aos upon the Added Value Statement. It has the purpose ofgestores, docentes, alunos e à comunidade em geral a demonstrating to the administrators, professors, studentsreal importância do aspecto social, do ponto de vista and the community at large the real importance of thecontábil. social aspect, at the accounting standpoint.Dessa forma, foi possível a realização de uma análise This way, it was possible to analyze thedo atual estágio do entendimento da contabilidade social actual stage of understanding of the social accounting inno Brasil e, a partir do resultado, oferecer uma sugestão Brazil, and based upon the results to give a suggestionde um modelo de Demonstração do Valor Adicionado, concerning a blueprint of the Added Value Statement topara as Instituições de Ensino Superior Particular, com the Private Education Institution, with the purpose ofo objetivo de obter uma amostra com elevado grau de obtaining a sample with high grade of consistency andconsistência e uniformidade. uniformity.Este trabalho não tem a presunção de esgotar o assunto, This work does not have the purpose of being conclusive,mas de oferecer uma alternativa para atender aos diversos but of providing an option to meet the several topics relatedtópicos relacionados ao tema que devem ser observados to this theme which must be taken into account sinceno início e na continuidade das atividades das the beginning e during the development of the activitiesInstituições de Ensino Superior. of the Private Education Institutions.Portanto, conclui-se que é viável a aplicação da Therefore, it is concluded that it is possibleDemonstração do Valor Adicionado nas Instituições de to apply the Added Value Statement in Private EducationEnsino Superior Particular, para que a sociedade, como Institutions, in order for the society as a whole to benefitum todo, seja efetivamente beneficiada. therefrom.Palavras-chave: Demonstração do valor adicionado, Keywords: Added value statement, social accounting,contabilidade social, Instituições de Ensino Superior, education institution, social viewpoint, social balance.enfoque social, balanço social.54
  • 55. Elaboração da demonstração do valor adicionado para as Instituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociaisOBJETIVO: trabalho justifica-se pela necessidade de trabalhar a prática contábil que envolva o âmbito social com a Elaborar um novo Demonstrativo Contábil demonstração do valor agregado, para que a sociedadeSocial, para as Instituições de Ensino Superior como um todo seja beneficiada, contribuindo para a(Particular), baseado na Demonstração do Valor qualificação das Instituições de Ensino Superior juntoAdicionado. aos órgãos do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e estabelecendo uma relação entre a Instituição e a qualidade do aluno nela formado.JUSTIFICATIVA: Quanto aos resultados esperados em relação a Embora todas as instituições de ensino utilizem este trabalho, pressupõe-se que as Instituições deos Demonstrativos Contábeis (Balanço Patrimonial, Ensino terão reconhecimento dos cursos com maiorDemonstração do Resultado do Exercício, Demonstração eficácia e rapidez, abertura de oportunidades de trabalhode Mutações do Patrimônio Líquido, Demonstrações de e melhor remuneração para todos os colaboradores,Origens e Aplicações de Recursos, Notas Explicativas gerando benefícios para a sociedade em geral, priorizandoe Parecer dos Auditores) semelhantes, seria conveniente a atuação destas Instituições como mediadora entre ose as mesmas levassem em consideração a proposta governo e a sociedade para reversão do quadro socialde Demonstração de Valor Adicionado no âmbito social, atual. Dessa forma, passará uma imagem depara complementar os demonstrativos contábeis usuais confiabilidade e solidariedade, criando reconhecimentocom a finalidade de preencher as lacunas em termos por parte dos cidadãos, devido a uma nova postura, sobsociais. Além disso, a referida demonstração tem por o enfoque social alterando, assim, o contexto histórico -objetivo mostrar aos gestores, docentes, alunos e àcomunidade em geral a real importância do aspecto socioeconômico e cultural.social, do ponto de vista contábil. IMPLANTAÇÃO DA DVA COM ÊNFASE SOCIAL:METODOLOGIA: Notamos que as Organizações (no sentido- Seleção de leituras pertinentes à Demonstração do empresarial e como Instituição de Ensino) apresentam Valor Adicionado e ao Balanço Social, participação seus demonstrativos contábeis, de acordo com a Lei em palestras,entrevistas com profissionais da área, 6.404 de 15.12.76 – Lei das Sociedades Anônimas, etc. semelhantes a quaisquer outras empresas atendendo- Relação das IES dos Cursos de Economia, Ciências prioritariamente a visão de lucro. Contábeis e Administração que participaram desta Esses demonstrativos contábeis são utilizados pesquisa. Essa relação foi fornecida, pelos gestores para prestarem contas, perante credores, respectivamente, pelos Conselhos Regionais de acionistas, governo e a própria comunidade, Economia, Contabilidade e Administração, em maio demonstrando a situação financeira e econômica das de 2000 – abrangendo as IES (Capital, Interior e Instituições de Ensino Superior, não se levando em Litoral). consideração o cunho social.- Carta de apresentação do projeto, acompanhada da Dessa forma, sugerimos a proposta de primeira proposta de Demonstração do Valor Demonstração de Valor Adicionado sob o âmbito social Adicionado, para as IES e modelo de questionário para as Instituições de Ensino Superior, para melhorar a enviado às IES particulares, solicitando o seu eficácia e a eficiência de nossas Instituições. preenchimento.- Recebimento dos questionários preenchidos pelas Segundo Suplicy (1997), Balanço Social é um IES particulares. documento pelo qual a empresa anualmente obtém dados que permitam identificar a qualidade de suas relações com os empregados, com a comunidade e com o meioINTRODUÇÃO: ambiente. É um registro do perfil social da empresa. Já Ricca (1980) conceitua Balanço Social como um conjunto de informações quantificadas, por meio das Esse artigo descreve a proposta da elaboração quais a empresa poderá acompanhar de maneira objetivados demonstrativos contábeis sociais nas Instituições o desenvolvimento de suas atividades no campo dosde Ensino Superior, baseada na demonstração do valor recursos humanos e medir seu desempenho naadicionado, sob o enfoque social. A realização deste implementação de caráter social. Para isso, ele será 55
  • 56. Elaboração da demonstração do valor adicionado para as Instituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociaiscomposto de indicadores, reunidos em grupos, nos quais Consideramos muito importante a Demonstraçãose medirá a eficiência e o grau de satisfação dos do Valor Adicionado para as Instituições de Ensino, sejamfuncionários em relação a diferentes aspectos da vida elas com fins lucrativos ou sem fins lucrativos,da empresa. demonstrando maior transparência na geração e aplicação dos recursos e investimentos na área social e Para Neves & Viceconti (2005), a Demonstração com o meio ambiente. Através desse demonstrativo, asdo Valor Adicionado representa a riqueza criada por uma Instituições terão oportunidades de ser avaliadas pelosentidade num determinado período de tempo (geralmente seus gestores e pela sociedade como um todo, de formaum ano). A soma das importâncias agregadas representa, objetiva e clara. As Instituições de Ensino têm junto àna verdade, a soma das riquezas criadas. A riqueza total sociedade imensa responsabilidade, no que se refere àde um país pode ser obtida pela soma dos valores transformação, evolução e melhora da qualidade de vida.agregados pelos seus agentes econômicos, ou seja,pelas pessoas físicas e jurídicas, associações, entidades Trata-se de um trabalho pioneiro, graças àcom ou sem fins lucrativos. O somatório dos valores inexistência de demonstrações contábeis de cunhoagregados por todos esses agentes é conhecido pelo social. Tal Demonstração torna possível melhorarnome de Produto Interno Bruto (PIB). grandemente a eficácia e a eficiência das Instituições Segundo Luca (1998), Demonstração do Valor de Ensino, em virtude de possibilitar uma visão amplaAdicionado (Agregado) é um conjunto de informações em termos contábeis e sociais, principalmente.de natureza econômica. É um relatório contábil que visa Embora todas as instituições de ensino utilizemdemonstrar o valor da riqueza gerada pela empresa e a os demonstrativos contábeis semelhantes aosdistribuição para os elementos que contribuíram para sua demonstrativos contábeis de quaisquer empresasgeração. O conceito de valor adicionado é utilizado na comerciais, seria conveniente que as Instituições demacroeconomia para avaliação do chamado Produto Ensino Superior levassem seriamente em consideraçãoNacional. a proposta anexa: a de utilizarem um demonstrativo Através desse demonstrativo, a Instituição terá contábil específico intitulado “Demonstração do Valoroportunidade de ser avaliada pelos seus gestores e pela Agregado”, que se constitui em uma demonstração desociedade como um todo, de forma objetiva e clara. Ele conteúdo social.é um reflexo das Instituições de Ensino, que, quantomais acumularem riquezas, maior será esta distribuição Esta Demonstração visa a complementar osperante as pessoas que contribuíram para tal e a utilidade demonstrativos contábeis usuais (Balanço Patrimonial,para os Administradores das Instituições, como Demonstração do Resultado do Exercício, Demonstraçãoinstrumento gerencial. de Mutações do Patrimônio Líquido e Demonstrações de Origens e Aplicações de Recursos acompanhados Esta Demonstração do Valor Adicionado pode ser das Notas Explicativas e Parecer dos Auditores) eaplicada em quaisquer cursos dessas Instituições, sendo preencher as lacunas em termos sociais.passível de aperfeiçoamento e enriquecimento eoferecendo uma alternativa para atender aos diversos A nossa proposta não tem a presunção de esgotartópicos relacionados ao tema que devem ser observados o assunto (sendo, portanto, passível de aperfeiçoamentono início e na continuidade das atividades das e enriquecimento) e oferece uma alternativa para atenderInstituições de Ensino, passando a se constituir em um aos diversos tópicos relacionados ao tema que devemcomplemento valioso das demonstrações contábeis ser observados no início e na continuidade das atividadestradicionais. das instituições de ensino superior. Esta demonstração de natureza contábil social Esta proposta de Demonstração do Valorproporciona uma visão mais ampla dos recursos obtidos Agregado não se constitui em um modelo rígido quepelas Instituições de Ensino e da destinação dos tem de ser seguido à risca, e sim, é passível de alteraçõesmesmos, possibilitando uma avaliação qualitativa por parte de cada instituição de ensino individual, paraexcelente de tais Instituições. adequar-se às suas necessidades específicas. Pode ser Analisamos também que todas as Instituições de aperfeiçoado e aplicado em todas as instituições deEnsino poderão adaptar outros indicadores, tais como: ensino (públicas, privadas, fundações, etc.) e emfuncional (funcionários negros admitidos ou demitidos, quaisquer tipos de empresas.quantidade de mulheres admitidas ou demitidas, homensadmitidos ou demitidos, deficientes físicos admitidos ou Esta Demonstração de natureza contábil socialdemitidos), indicadores do corpo docente admitidos e proporciona uma visão mais ampla dos recursos obtidosdemitidos, indicadores do corpo discente, indicadores pelas Instituições de Ensino Superior e da destinaçãode remunerações entre os sexos feminino e masculino, dos mesmos, possibilitando uma avaliação qualitativaetc. excelente de tais instituições.56
  • 57. Elaboração da demonstração do valor adicionado para as Instituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociais As Instituições de Ensino Superior apresentam seus demonstrativos contábeis, de acordo com a LegislaçãoSocietária (Lei nº 6.404 de 15.12.76), semelhantes a quaisquer outras empresas. Esses demonstrativos contábeis sãoutilizados pelos gestores para prestarem contas, perante credores, governo, acionistas e a própria comunidade,demonstrando a situação financeira e econômica das Instituições de Ensino Superior, não se levando em consideraçãoa parte social. Dessa forma, sugiro a proposta de Demonstração de Valor Adicionado sob o âmbito social para asInstituições de Ensino Superior, para melhorar a eficiência e eficácia de nossas Instituições, conforme propostaapresentada a seguir: 57
  • 58. Elaboração da demonstração do valor adicionado para as Instituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociais58
  • 59. Elaboração da demonstração do valor adicionado para asInstituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociais 59
  • 60. Elaboração da demonstração do valor adicionado para as Instituições Privadas de Ensino Superior e seus aspectos sociaisCONCLUSÃO: RICCA, José Luiz – Sociedade Industrial – Diário da Indústria – Out.1980 p.24-30. Portanto, conclui-se que é viável a aplicação da ROSSETTI, José Paschoal - Contabilidade social. 7a .Demonstração do Valor Adicionado nas Instituições de São Paulo: Atlas,1995.Ensino Superior Particular, para que a sociedade, comoum todo, seja efetivamente beneficiada. SANTOS, Ariovaldo dos - Demonstração contábil do valor Em nossa opinião, esta Demonstração do Valor adicionado - DVA - um instrumento para mediçãoAgregado pode ser aplicada em quaisquer cursos dessas da geração e distribuição de riqueza das empresasInstituições de Ensino Superior, mediante adaptações - São Paulo: FEA/USP 1999. (Tese de Livre ,adequadas, passando a se constituir em um Docência).complemento valioso das demonstrações contábeistradicionais. SANTOS, Ariovaldo dos – Demonstração do Valor Adicionado – Como elaborar e analisar a DVA. 1ª. Assim, espera-se conscientização por parte dos São Paulo: Atlas, 2003.gestores e de toda a sociedade, para que todos possamparticipar do progresso do país, em todos os aspectos: SILVA, César Augusto Tibúrcio; FREIRE, Fátima desocial, intelectual e econômico. Souza – Balanço Social – Teoria e Prática – 1ª. Portanto, as Instituições de ensino terão muito a São Paulo:Atlas, 2001.ganhar com esta Demonstração, em virtude de permitiro direcionamento adequado dos recursos e esforços SUPLICY, Marta. O que é balanço social? Folha de S.aplicados na parte social, abrangendo o corpo docente, Paulo, 10 jun. 1997.funcional, discente e a comunidade em geral. STAUBER, Elza – Uma contribuição à elaboração da Demonstração de Valor Adicionado aplicado nasREFERÊNCIAS Instituições de Ensino Superior: Uma abordagem Social-Tese de Doutorado UniversidadeKROETZ, César Eduardo Stevens – Balanço Social – Presbiteriana Mackenzie- São Paulo: 2001. Teoria e Prática – 1ª. São Paulo: Atlas, 2000. TINOCO, João Eduardo Prudêncio - Balanço Social -LUCA, Márcia Martins Mendes de - Demonstração do Uma abordagem sócio- econômica da Contabilidade valor adicionado: do cálculo da riqueza criada pela - (Dissertação de Mestrado) – São Paulo: FEA/USP. empresa ao valor do PIB. 1ª. São Paulo: Atlas, P.48-51, 1984. 1998. TINOCO, João Eduardo Prudêncio – Balanço Social –LUCA, Márcia Martins Mendes de - Demonstração do Uma abordagem da transparência da Valor Adicionado. São Paulo: FEA/USP, Responsabilidade pública das organizações – 1ª. (Dissertação de Mestrado), 1991. São Paulo: Atlas, 2001.LUCA, Márcia Martins Mendes de - A contribuição da TINOCO, João Eduardo Prudêncio; KRAEMER, Maria demonstração do valor adicionado no processo Elisabeth Pereira – Contabilidade e Gestão de mensuração do PIB e em algumas análises Ambiental – 1ª. São Paulo: Atlas, 2004. macroeconômicas. São Paulo: FEA/USP, (Tese de Doutorado), 1996.NEVES, Silvério das; VICECONTI, Paulo Eduardo NOTAS Viechez – Contabilidade Avançada e análise das demonstrações financeiras. 9ª. São Paulo:Frase, * Doutora em Administração de Empresas (Universidade 2005. Presbiteriana Mackenzie). Mestra em Administração de Empresas (Universidade Metodista de São B.do Campo/RIBEIRO, Maísa de Souza - Contabilidade e meio SP). Graduada em Ciências Contábeis e Administração ambiente - Dissertação de Mestrado, São Paulo: de Empresas – Faculdade Paulo Eiró (Costa Braga). FEA/USP, 1992. Profa. da Faculdade Associada de Cotia – Curso Administração Geral e Marketing. Profa. do CentroRIBEIRO, Maísa de Souza - Custeio das Atividades de Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. Natureza Ambiental - São Paulo - Tese de Doutorado - FEA/USP, 1998.60
  • 61. A inclusão de todos Guilherme Santinho Jacobik*Resumo AbstractO presente artigo busca aproximar o leitor das principais The present article is aimed to aproximate the reader toleis e, principalmente, dar condições o educador leigo themain laws and, mainly, to give conditions to the nonnos princípios mínimos ao adequado atendimento ao experiented educator in the minimun principles to thealuno portador de deficiência. adequate assistance to the disabled student.PALAVRAS-CHAVE: Inclusão; deficiência; leis e KEYWORDS: to include; physical and mental disable;educação básica. laws and basic education. 61
  • 62. A inclusão de todosINTRODUÇÃO todas as atividades propostas ao grupo; 4. a pressão dos pais por acharem que a presença do deficiente, que Sabemos que o tema da inclusão escolar não é demanda mais atenção, pode prejudicar onovo, já há muitos anos pais, profissionais especializados desenvolvimento das aulas e, portanto, de outras crianças.e professores leigos no assunto, mas sensibilizados econscientes da importância desse tema, lutam para Quando a inclusão faz parte dos processos detornar realidade a formulação de leis que garantam os discussão da escola:direitos dos portadores de deficiência. Se não forem Avalia-se que o aluno portador de deficiência temcriadas as condições necessárias, não somente ao o direito de não ser poupado de situações de desafio,sujeito portador de deficiência, mas também aos que deve enfrentá-los e procurar superá-los do seuprofissionais escolares que com ele irão conviver, corre- “melhor jeito”, tanto quanto outros alunos não portadores.se o risco de, ao invés de incluir, excluí-los ainda mais. O aluno portador de deficiência, em situação deO presente artigo busca aproximar o leitor das principais igualdade (no que se refere aos combinados do grupo/leis e, principalmente, instrumentalizar o educador leigo classe), tem o direito de não ser vitimado em situaçõesnos princípios mínimos ao adequado atendimento ao constrangedoras, assim como todo ser humano.aluno portador de deficiência. A inclusão deve ser preocupação de toda escolaDESENVOLVIMENTO Sabemos que cada professor desenvolve através de suas experiências uma metodologia própria de A realidade da inclusão de alunos portadores de trabalho, o que é muito saudável para o exercício dadeficiência nas escolas regulares, garantido inclusive pela criatividade, mas é necessário também que algumaslei (7.853/89) e pela Lei de Diretrizes e Bases da metodologias no trato com o aluno portador de deficiênciaEducação (1996) traz à tona temas de reflexão que são sejam discutidas por todos no âmbito da escola. Ée devem ser conteúdos abordados nas aulas onde esse necessário que ele encontre fora da sala de aula o mesmosujeito/cidadão está inserido, entre eles: tratamento recebido dentro dela. Esse tratamento, 1. respeito às diferenças físicas, sensoriais, de pautado no respeito às diferenças e entendido como adesenvolvimento intelectual, distúrbios de aprendizagem igualdade de deveres e direitos.e de comunicação; 2. contratos sociais, leis e normas Conhecendo algumas dificuldades do DMde conduta do cidadão, tanto do que porta deficiênciaquanto dos demais pares do grupo de convívio;3. 1. Compreensão de assuntos em lugaresexploração do espaço físico da escola, ruas, calçadas, barulhentos ou em situações onde há muitas pessoascomércio, casas e a discussão sobre a adaptação ou conversando ao mesmo tempo; 2. Conseguir manternão em relação ao portador de deficiência; 4. atenção na classe em outros grupos; 3. Seguirreconhecimento do próprio corpo através de jogos instruções verbais; 4. Seguir mais de uma instrução aocorporais nas diversas áreas do conhecimento, tais como mesmo tempo e 5. Assuntos de linguagem básica (leitura,Dança, Educação Física e Ciências e 5. capacidade de silabação, escrita etc).adaptação e mudança do meio. DEZ DICAS QUE AUXILIAM A TODOS OSOs Conteúdos avaliativos ALUNOS E NÃO SÓ AO DEFICIENTE Para o professor o comportamento do grupo/classe 1. Obtenha a atenção da criança deficiente beme do aluno portador da deficiência é um ótimo conteúdo como das demais, antes de falar com a classe, dessaavaliativo, pois as interações funcionam como “usinas” forma garantindo o silêncio necessário e a compreensãode situações problema que podem ser discutidas e inicial da comanda; 2. Procurar estabelecer contato visualsolucionadas pelos alunos e professores. com o portador de N.E., falando em velocidade moderada e num tom normal, mas sem afetações, excesso deExemplos de situações que geralmente surgem: gestos. Fale com normalidade e muita clareza, algo excelente para todos os alunos; 3. Antecipe-se às 1. “chacotas” sobre a deficiência e suas dúvidas, se o silêncio imperar, pergunte se todosconseqüências; 2. estranhamento por parte das demais compreenderam o que foi dito; 4. Prefira refazer umacrianças e isolamento do aluno portador de deficiência; frase ao invés de repetir exaustivamente. Caso os alunos3. possibilidade de compreender que, dentro de suas não tenham compreendido, troque a ordem das palavraslimitações, o aluno portador de deficiência pode realizar ou use sinônimos sem que se altere o sentido das62
  • 63. A inclusão de todosinformações. Tente se aproximar dos conhecimentos que sala toda, a postura “café-com-leite”deve ser evitada, oa criança possui; 5. Somente introduza novos assuntos deficiente não deve ser poupado em nenhum ambientese tiver certeza da compreensão; 6. Escreva, antes das da escola. Adaptações não significam “regalias” ouexplicações, palavras-chave que resumam o tema da quebra de combinados, estes sempre muito claros. Emaula, por exemplo, se for descrever uma comanda em caso de burlar regras explicitamente, tentando se valerque tenham que, após leitura de um livro, reescrever com da sua condição, deve sofrer as conseqüênciasas próprias palavras a história, escreva assim na lousa: acordadas.LEITURA DO LIVRO; O QUE ENTENDEMOS; NOVALEITURA; RECONTO ORAL; DICAS DE ESCRITA;ESCREVER A HISTÓRIA COM SUAS PALAVRAS; 7. O professor também deve ser incluídoTrabalhar com seqüências didáticas auxilia a melhor O tema da Inclusão na escola suscita muitascompreensão do aluno, pois possibilita colocar a seu dúvidas, polêmicas e reflexões. O assunto deveria serserviço o aprendizado anterior recente. Significa preparar tratado com muita sensibilidade e profissionalismo.aulas que se completem, que tenham um único tema Buscar se colocar na posição do outro, ou melhor, dosprincipal que se desdobre em outras atividades que outros: o outro/sujeito portador de deficiência; O outro/reforcem o conteúdo a ser aprendido; 8. Sempre inicie pessoa que enfrenta o estranhamento de seus pares; oum novo tópico ou aula resgatando, junto aos alunos, o outro que pensa e sabe muito de sua condição eque foi visto na aula anterior; 9. Formule questões para possíveis melhorias em sua inclusão e o outro que, comomanter na mente antes de cada aula. Escreva-as na lousa qualquer sujeito, pensa, opina, quer mudanças, cresce,e feche as aulas com as respostas, coletivas e com sua erra. Faz-se necessária uma reflexão coletiva, tanto dosinteração. Essas questões irão permitir que o aluno portadores de deficiência, quanto dos profissionaismantenha sua atenção sobre as idéias principais e as envolvidos. É muito importante que, além das técnicasconsiga recuperar posteriormente; 10. Crie “áreas” livres e saberes necessários para se lidar com o tema, osde distrações visuais ou auditivas para estudos que profissionais envolvidos tenham espaço para aexijam maior concentração individual, na própria sala de explicitação de sentimentos pessoais, juntamente comaula ou em espaços apropriados como a biblioteca. a formação, buscando assim a construção de elementos norteadores, parâmetros de conduta, levantamento de pontos de ação e reflexão na escola sobre a Inclusão. AAlém disso é preciso: adaptação das condições físicas da escola são 1. Monitoramento periódico para avaliar as necessárias. Em muitos casos o professor e os demaisdeficiências apresentadas, de preferência com exames profissionais do meio educacional receiam receber omédicos especializados; 2. Se possível, portador de deficiência, nem sempre por preconceito,acompanhamento, em serviço, por um profissional do mas muitas vezes por despreparo e até mesmo descasoramo da deficiência. Acompanhamento especializado, das autoridades competentes que exigem o cumprimentoem horário oposto ao ensino regular é desejável; 3. da lei pela metade. Garantem a entrada do aluno portadorSaídas da escola exigem cuidados a mais, combinados de deficiência, mas se omitem em fornecer a formaçãoclaros para todo o grupo em relação ao deficiente e e as condições físicas, materiais e humanas necessáriascombinados específicos feitos com ele, pois deve ter à verdadeira inclusão. Entre elas, a adaptação doautonomia para determinados desafios, combinados mobiliário às condições do aluno portador de deficiência,relativamente fáceis que possa dar conta; 4. Incentive o a garantia de salas de aula com redução do número deestudante a repetir ordens, instruções em voz alta para alunos para assim permitir aos professores dar a devidaajudar na retenção ou memorização de regras e atenção aos alunos e cursos de formação contínuosconceitos. Um exemplo, “não mecânico” é pedir que “diga previstos dentro de sua rotina de trabalho.com suas próprias palavras o que deve ser feito”; 5. As discussões sobre inclusão na escola, tantoEnfatize a qualidade das respostas e não a velocidade em reuniões de formação de professores quanto nasdas mesmas; 6. Peça aos estudantes para formularem aulas, diretamente com os alunos, devem assumir umsuas respostas em frases antes de levantar as mãos caráter aberto às dúvidas, opiniões, medos, incertezaspara respondê-las. Proporcione um tempo com silêncio que o tema faz aflorar. Dessa maneira as pessoaspara isso. 7. Ensine os alunos a ler previamente o texto envolvidas terão a possibilidade de construírem, juntas,e formulem perguntas em mente enquanto lêem, estas mecanismos de inclusão dentro de seus perfisserão respondidas após o tempo combinado dessa socioculturais, de diminuírem suas dúvidas, de seleitura; 8. Encoraje o estudante a pedir esclarecimentos sentirem integradas ao tema e não recebê-lo como umacaso não tenha compreendido algo; 9. Procure elogiar a imposição das leis do Estado. 63
  • 64. A inclusão de todosCONCLUSÃO É inegável o caráter imensamente positivo dainclusão, o de que crianças não portadoras de deficiênciaem contato contínuo com as portadoras, dentro de umambiente de igualdade de condições, passam a entenderque as diferenças existem e que elas são naturais. Umambiente como esse promove uma formação solidária,digna e ética. No entanto não podemos esquecer que,para muitos profissionais, esse é um tema novo para oqual eles devem ser convidados a participar. Osprofessores também necessitam ser incluídos nessetema. Incluir significa ser orientado, tanto em cursos deformação inicial, quanto em serviço.BIBLIOGRAFIA CONSULTADABRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional(9394/96)Estatuto da criança e do adolescentewww.saci.org.br – Almeida, M.R. Manual InformativoSobre Educação Especial.NOTAS* Professor Mestre FAAC64
  • 65. Trabalho docente com programação televisiva na escola1 Claudemir Edson Viana*Resumo AbstractEste artigo apresenta a cultura televisiva na atualidade, This article presents the television culture in the presente apresenta propostas aos professores de aplicação de days, and makes proposals to teachers for implementingconteúdos da programação televisiva e de sua linguagem the content of television programming and its languageem situações de ensino formal para três níveis de ensino: in situations of formal education in three levels: from 1de 1ª. à 4ª séries, da 5ª. à 8ª. séries, e da 1ª. à 3ª. séries st. to 4 th series, from 5 th. to 8 th. series, and from 1 st.do Ensino Médio. Traz, ainda, sugestões bibliográfica, to 3 rd. series of high school. In addition, it brings,de filmes e sites. suggestions of literature, films and sites.Palavras-chave: televisão, educação, seqüência Keywords: television, education, didactic streakdidática. 65
  • 66. Trabalho docente com programação televisiva na escola A Televisão Entretanto, cabe aqui mais uma reflexão: o que a televisão ensina? A televisão é concorrente da escola? A sedução e a alienação do telespectador seriamMais do que uma tecnologia que transmite sons e ima- fenômenos “naturais” e inevitáveis promovidos pelagens em movimento e que se presta principalmente ao televisão? As respostas a estas questões não são tãoentretenimento, sabemos que a televisão é parte consti- simples e exigem muita pesquisa para entendermostuinte da cultura presente no cotidiano de todos nós, e melhor o fenômeno da recepção televisiva, sobretudoque tomamos o seu conteúdo como referência sobre a pelas crianças e jovens. Entretanto, percebemos que arealidade. televisão ensina muito, e não só a respeito de conteúdos, mas também sobre atitudes, valores etc., e que a Entreter, informar, mobilizar pessoas e instituições televisão pode não ser uma concorrente da escola e simsão algumas atribuições que podemos identificar como uma parceira, a depender da atuação do educador. Nestecaracterísticas da televisão, e aí nos vem a questão cen- contexto, ao lado da sedução praticada pela televisão, atral: educar é função da televisão? Também, mas, tal- mediação escolar permitiria a educação devez, não só explicitamente por meio da programação telespectadores mais críticos e protagonistas quanto aosidentificada como educativa! conteúdos da programação televisiva. Fala-se muito sobre as possíveis mazelas causa- Há vários estudos que explicam a gramáticadas nas famílias, sobretudo em crianças e adolescen- televisiva, os recursos próprios da linguagem audiovisualtes, decorrentes dos conteúdos inapropriados para a e a exploração de determinados conteúdos por este meio“boa” educação deles. Credita-se à televisão o poder e a de comunicação como sendo um tipo de conhecimentoculpa pelos transtornos nas relações humanas e, em a que poucos têm acesso de forma clara e consciente,particular, na dificuldade do educador em “ensinar” às restrito aos especialistas. Entretanto, percebe-se quecrianças e aos adolescentes aquilo que se entende por a televisão colabora para a construção de uma “visão deconhecimento adequado e natural ao ambiente escolar mundo” e “educa” seus telespectadores sobre conteúdosformal. abordados e para aspectos de sua gramática, de modo que estes se tornem inteligíveis. Imagem: Mosqueta66
  • 67. Trabalho docente com programação televisiva na escola Os canais da televisão aberta, predominante no indicativa dos programas veiculados pelos canais da TVtempo cronológico e no espaço geográfico brasileiros, aberta, visando reordenar essa programação para quetêm promovido entre seus telespectadores a formação se tenha mais referências ao exercer a mediaçãode hábitos que constituem referência para, por exemplo, necessária e adequada sobre o seu consumo pelasalmoçar/jantar, dormir/não dormir, horários para crianças e jovens.determinadas atividades, enfim, é um meio de organizar Em outra frente, organizações não-a vida cotidiana. Por outro lado, gêneros televisivos foram governamentais, institutos de ensino e pesquisa ese constituindo em modelos para uma postura do autarquias municipais, estaduais e federais têmtelespectador frente aos programas transmitidos como promovido ações que visam ampliar e aprofundar oos talk shows , os famosos programas de auditório de conhecimento sobre aspectos da linguagem televisiva edomingo à tarde, telenovelas e seriados, telejornal e de sua programação, sobre a produção audiovisual pelosdocumentários, shows e, mais recentemente, os reality diferentes agentes culturais, inclusive crianças e jovens,shows. e desenvolver capacidades no telespectador que Atualmente, nos centros urbanos brasileiros, a permitam a leitura crítica de seus conteúdos e o usotelevisão paga (TV a cabo) tem promovido a participativo de suas informações.especialização da produção/veiculação e do consumo E aí voltamos a perguntar: o que a escola tem ade sua programação, como os canais de desenhos ver com isso?animados, os de jornalismo, os temáticos, de filmes,dentre outros. As novidades ocorrem não só no televisor,com telas planas, de plasma, mas também na forma A TV e a Escolacomo assistiremos à TV, pois a programação seráorganizada pelo telespectador conforme seus interesses,e será possível acessar a Internet diretamente a partirdo conteúdo assistido para saber mais detalhes sobredeterminado produto, personagem, ou fato. A TV do futurojá existe e está plenamente articulada com a Internet.TV na era da Internet A TV via Internet, ou IPTV [Internet ProtocolTelevision], é uma das maiores apostas. Segundo estudodo Instituto Gartner, até 2010, cerca de 48 milhões decasas em todo o mundo receberão sinais de TV pelaWeb. A Microsoft já oferece software que permite navegarpor menus pela grade de programação e selecionar, porexemplo, a gravação de um determinado programa oude todos os programas de uma série, semanalmente. Osoftware também integra conteúdos do PC e do telefone– dá para ver fotos, ouvir músicas e até ler e-mails e Percebemos que nem é preciso levar o televisormensagens SMS na tela da TV. Outro aspecto dessa até a sala de aula para que a TV esteja presente naintegração da TV e da Web é a possibilidade de navegarpela Internet a partir do clique em imagens de comerciais escola, pois a cultura televisiva surge em comentáriosque aparecem na TV, por exemplo, e ir direto para um entre alunos e professores sobre determinadossite de vendas do produto anunciado; ou clicar em programas e personagens. Algum desenho de preferênciaimagens de um determinado filme ou seriado e ser das crianças, um fato bom ou ruim destacado pelosremetido a uma página contendo mais informações sobre telejornais, uma competição esportiva do momento e atéaquele detalhe. mesmo cenas de um capítulo de novela são exemplos de como a programação televisiva apresenta-se em Neste contexto, em que a televisão amplia sua outros momentos que não somente naqueles em que separticipação no cotidiano de todos, os desafios para a assiste a ela.sociedade em geral, e para a escola em particular, sãogigantescos. Um exemplo disso foi o movimento Pensa-se também que esta cultura televisiva éencabeçado, entre 2005 e 2007, pelo Ministério da inútil e que, até mesmo, chega a atrapalhar o bomJustiça, que contou com a participação de instituições andamento da aprendizagem escolar. Quando muito, aoda sociedade para a reelaboração da classificação se falar em TV na escola, pensa-se em programas 67
  • 68. Trabalho docente com programação televisiva na escola“educativos”, no sentido mais tradicional do que se ou seja, como conseqüência das atividades de reflexãoentende por este termo, desconsiderando-se que sobre temas do currículo presentes na TV tais como ,“educativo” pode ser tudo e qualquer coisa presente no meio ambiente, sociedade, fatos históricos, biologia,meio social, inclusive na TV, a depender das relações matemática e assim por diante.que se estabeleçam com ela. Neste sentido é que a TV presente na escola passanecessariamente pela ampliação da consciência de todos– educadores e educandos – de que as informaçõesdisponíveis nos meios de comunicação fazem parte doprocesso de construção de conhecimentos, embora, namaioria das vezes, de forma inconsciente e atéinconseqüente. Por isso, contemplar a programaçãotelevisiva para a pauta educativa das escolas requeralguns exercícios por parte dos educadores para queviabilizem processos de ensino e aprendizagem positivos. Imagem: Walt Jabsco Naturalmente, no Ensino Fundamental é mais fácil para o educador a segunda situação, embora ela possa ser aplicada também no Ensino Médio. Por isso, é importante perceber que se trata de um processo paulatino, tanto para o professor quanto para os alunos, de construção desse caminho de educação para os meios, partindo-se de uma abordagem quase “conteudista” sobre a programação televisiva para uma abordagem mais ampla, complexa e reflexiva em que elementos da linguagem televisiva, como enquadramentos, cores e sons, edições, gêneros televisivos, dentre outros, vão se constituindo em A televisão pode ser trabalhada na escola como informações percebidas e entendidas por meio dasobjeto de estudo ou como meio para o estudo de temas atividades e dinâmicas propostas pelo professor.relacionados aos conteúdos contemplados no currículo.No primeiro caso, são conteúdos de estudo aqueles que É importante que o professor inicie as atividadesdizem respeito à linguagem televisiva e aos processos com a utilização da programação televisiva tendo estade produção, transmissão e recepção da sua visão ampla sobre as possibilidades de estudo, mesmoprogramação. No segundo caso, a partir de conteúdos que seus objetivos e abordagens sejam simples eda programação televisiva, o professor estimula a reflexão limitados inicialmente.e a construção de conhecimentos sobre determinadotema tratado direta ou indiretamente pelo programaretirado da TV. Certamente, nos estudos sobre TV como meiode comunicação é necessário que o professor percebaa adequação e o nível da abordagem, de acordo com operfil de seus alunos (faixa etária, ano escolar,conhecimento prévio para a reflexão sobre discursos etécnicas utilizados pela TV etc.) e com os objetivos doestudo para a formação dos alunos. Embora essescuidados sejam importantes, cabe destacar que“entender” a TV também faz parte do conteúdo a serconsiderado pelo currículo escolar e, na maior parte dasvezes, essa dimensão pode ser trabalhada indiretamente,68
  • 69. Trabalho docente com programação televisiva na escola Debater com os alunos sobre determinada notícia • Como produção, ao documentar eventos comoveiculada pelo telejornal, ou discutir sobre as ações de aulas, ao realizar entrevistas, dentre outros; ou comouma personagem em destaque de uma novela, pode releitura de determinados programas já veiculadosrepresentar a importante etapa de despertar nos alunos pela televisão por meio de paródias, imitação/a reflexão sobre as relações entre ficção e realidade, transformação, etc.; ou, ainda, como forma debem como sobre a “edição” dos fatos reais, tão comuns expressão de alunos e professores, promovendona atuação dos meios de comunicação. Isto já diversas habilidades, tais como a linguagem (escrita e oral), a organização, o trabalho em grupo, dentrerepresentará a promoção entre os alunos de uma outras.consciência mais crítica sobre a programação televisiva,sua produção e seus objetivos. • Produção resultante de um processo para compor a avaliação dos alunos, do professor e do grupo Entretanto, e considerando o processo educativo sobre um determinado conteúdo ou sobreno Ensino Médio, podemos partir da observação de procedimentos realizados.determinados gêneros televisivos e de alguns temasabordados por eles, tomando como base as possíveisrelações entre seus conteúdos e os temas a serem Atividades de 1a. a 4a. sérietrabalhos em sala de aula, conforme o currículo e oplanejamento pedagógico. 1. Título: Conhecendo a cultura televisiva do grupo Também com esta postura, o professor deveconsiderar a cultura televisiva de seus alunos, ou seja,conhecer mais sobre o que eles assistem, quais suas Objetivo: Conhecer a cultura televisiva dos alunospreferências e em que ambientes costumam assistir àtelevisão. Desta forma, além de conhecer melhor osalunos, o professor pode conhecer um pouco mais sobre Justificativa: Um passo importante para iniciar asa programação televisiva assistida pelos alunos, para atividades em sala de aula com uso da programaçãoestudar suas possibilidades de uso em atividades televisiva é conhecer os hábitos e preferências dosdidáticas que promovam o desenvolvimento de alunos sobre a programação televisiva para que, emdeterminados conhecimentos já previstos em seu seguida, o professor possa propor atividades de maior reflexão e aprofundamento e até relacionar aplanejamento. Assim, o professor contará, de início, com programação com conteúdos previstos no currículo.o interesse e a motivação de seus alunos para asatividades a serem propostas, e despertará neles apercepção sobre relações ainda desconhecidas. Além disso, é importante para o professor planejardiferentes abordagens sobre a programação televisiva eo uso de vídeo nas aulas, e conhecer de que forma ouso desses recursos tecnológicos pode ser útil.Tomamos por base o texto O Vídeo na Sala de Aula, doprofessor José Manuel Morán:• Para a sensibilização dos alunos em relação ao tema a ser introduzido e desenvolvido por meio de seqüência didática.• Para ilustrar algo que esteja em estudo, Roteiro: colaborando para a compreensão a respeito e no processo de construção de conhecimentos.• Para a simulação de situações que, inúmeras 1) Promova um primeiro debate com os alunos para vezes, são difíceis, se não impossíveis, de acontecer introduzir o tema. no ambiente escolar ou de sala de aula, tais como Para isso, faça algumas perguntas, tais como: experiências químicas, físicas, biológicas etc. • Quantas horas aproximadamente você vê televisão• Como conteúdo, ao considerar um tema como por dia? enredo do programa, de forma direta ou indireta, ou • Em que horários você costuma assistir à televisão? seja, explícita ou implicitamente, permitindo ao professor e aos alunos a construção de • Como você vê televisão: sozinho, com irmãos, conhecimentos sobre o tema. primos, vizinhos, pais, avós, tios? 69
  • 70. Trabalho docente com programação televisiva na escola• Que tipo de televisão você vê: aberta, a cabo, os 8) Com esse levantamento sobre a cultura televisiva do dois? grupo, o professor pode conhecer melhor seus alunos, conhecer indiretamente alguns dados sobre hábitos das• Onde você costuma ver TV: na sala, no quarto, outro famílias dos alunos, e, ainda, identificar alguns aspectos lugar? que norteiem seu trabalho. O professor pode fazer anotações em cartolina Avaliação:(ou algo semelhante) com as respostas das crianças apartir de um quadro resumo previamente elaborado com A avaliação das atividades pode se constituir deas questões acima, de modo a construir um painel sobre observação sobre:os hábitos do grupo a respeito. • A participação dos alunos nas respostas.2) A partir do painel, o professor pode estimular no grupo • A participação dos alunos no debate sobre a análiseuma rápida análise sobre os hábitos mais comuns no dos resultados.uso da TV de modo a traçar um primeiro perfil dos alunos. , • Os dados colhidos e sua relação com o planejamento3) O professor pode sugerir como tarefa (para uma de atividades futuras para o desenvolvimento depróxima aula) que os alunos observem de quais conteúdos previstos no currículo.programas de TV mais gostam e os que não gostam,mencionando os motivos. 2. Título: Percepção de elementos dos programas de TV4) Na aula combinada com o grupo, o professor podefazer um levantamento mais aprofundado sobre algunsaspectos da cultura televisiva de seus alunos, a partirde questões como:• Quais os canais de preferência de cada um?• Quais tipos de programa você assiste (telejornal, desenho, telenovelas, filmes...)?• O que você mais gosta de assistir na TV?• O que você menos gosta de assistir na TV?• Qual seu programa preferido?• Do programa preferido, que personagem mais gosta? Por quê?5) O professor pode também fazer anotações emcartolina (ou algo semelhante), num quadro previamenteelaborado, com as respostas dadas pelas crianças e,em seguida, fazer uma rápida análise global com elassobre o perfil do grupo a respeito.6) Com os resultados colhidos, o professor pode levar omaterial para casa ou para o horário de planejamentocoletivo na escola, a fim de estudar os resultados dapesquisa. Objetivo: Perceber alguns elementos da “gramática televisiva” que compõem os programas de televisão.7) A partir do que for identificado como sendo destaquenas respostas da maioria, é possível: Justificativa: Inúmeras vezes não se percebe a• Conhecer os programas mais citados, caso não os importância que têm os elementos utilizados na produção conheça, para estudar as possibilidades de seus de um programa de televisão como o som e as imagens, usos em atividades futuras que promovam nem a relação estabelecida entre eles. Por isso, é abordagens diretas ou indiretas de temas previstos interessante exercitar a observação entre os alunos, no currículo. levando-os a perceber alguns destes aspectos.• Planejar as etapas seguintes de levantamento entre seus alunos a partir dos programas citados como Roteiro: preferidos, para aprofundar questões como: quais são os ídolos mais citados? Por que o são? Que 1) A partir da atividade anterior (número 1), escolha dois tipos de programas desagradam as crianças? Por programas de TV pouco conhecidos pelos alunos, de quê? Quais aspectos ideológicos são possíveis preferência ficcionais (telenovela, desenho animado, identificar nas respostas dadas? Dentre outros. seriado, animação).70
  • 71. Trabalho docente com programação televisiva na escola2) Grave os programas e assista-os para conhecê-los da primeira atividade (sem as imagens) com aquilo aantes da atividade. que assistiram depois (com as imagens). Estimule-os a perceber as relações entre imagens e sons na3) Escolha um dos programas para a primeira etapa da composição da estória.atividade de percepção do som e da imagem (doprograma gravado): Avaliação:• Diga aos alunos que eles assistirão ao programa primeiramente sem o som, e que prestem atenção nas imagens.• Em seguida, organize a sala de aula de modo a propiciar aos alunos que assistam ao programa, desligando o som ou abaixando-o até zero.• Ao terminar o programa, ou o trecho escolhido, peça aos alunos que comentem sobre o que supõem ser a estória contada naquilo que viram.• Depois, peça aos alunos que escrevam uma redação reproduzindo a estória que supõem ser a do programa contendo o título, nomes de personagens e um breve relato sobre o desenrolar das ações apresentadas no programa. A avaliação dessas atividades pode se constituir da observação sobre:4) Em outra aula, traga o mesmo programa ou trechoescolhido e passe-o, desta vez com o som, e, em • A participação dos alunos nas atividades deseguida: levantamento de suas impressões sobre o que viram e o que ouviram.• Pergunte aos alunos o que eles perceberam de diferente e de igual entre o que escreveram • A participação dos alunos no debate sobre a análise anteriormente e a estória agora conhecida com o dos resultados comparativos entre a primeira e a som. segunda etapas de cada exercício (de som e de imagem).• Faça na lousa algumas anotações resumidas sobre esses relatos. • As produções dos alunos: redações e desenhos.• Em seguida, motive os alunos a perceberem as relações entre os sons e as imagens para a Atividades de 5a. a 8a. série composição de uma estória.5) Em outro momento, traga o programa (ou um trecho)diferente do utilizado na etapa anterior para fazer a Título: As diferentes versões de um mesmo fatoatividade contrária, ou seja, passá-lo sem as imagens,somente com o som. Objetivo: Estimular entre os alunos a percepção de que6) Para essa atividade, sugerimos virar a TV para a uma notícia sobre um mesmo fato veiculada por canaisparede, deixando o som bem alto. Peça aos alunos que de TV diferentes pode ter interpretações diversas. Issoprestem bastante atenção no que vão ouvir. explicita a edição sobre os fatos como parte do processo7) Ao final do programa, ou do trecho, peça aos alunos de produção dos programas de TV, no caso, deque desenhem algo que imaginam representar aquilo que telejornais.ouviram.8) Em seguida, estimule uma breve exposição sobre as Justificativa: Pensa-se em telejornais como reprodutoresproduções e peça aos alunos que expliquem o que da verdade dos fatos, sem se perceber o quanto podedesenharam. haver de manipulação e interesses envolvidos nessa veiculação. Por isso, o exercício aqui proposto pode levar9) Depois disso, passe novamente o programa ou o os alunos à reflexão sobre a edição como um dostrecho escolhido mostrando, desta vez, as imagens. elementos próprios da produção desse tipo de10) Por fim, promova um debate sobre as diferenças e programação televisiva, podendo ser estendido a notíciassemelhanças entre o que os alunos imaginaram a partir em outras mídias, como jornais, revistas etc. 71
  • 72. Trabalho docente com programação televisiva na escolaDisciplinas envolvidas : Esta atividade pode ser 7) Com a colaboração dos alunos, anote em lousa oudesenvolvida por disciplinas como Língua Portuguesa, em papel (cartolina ou papel manilha) as principaisHistória, Geografia ou outra, a depender do tema do fato observações que a maioria da classe pôde desenvolverocorrido e tratado pelas notícias da TV. Pode ainda ser ao comparar as notícias.desenvolvida interdisciplinarmente, envolvendo as 8) Por fim, amplie a discussão com os alunos sobredisciplinas de Redação ou Língua Portuguesa com alguns aspectos:disciplinas cuja área do saber tenha relação com o tematratado na notícia. • Houve diferenças entre as duas notícias sobre o mesmo fato veiculadas em canais diferentes da TV?Roteiro: • Se houve, quais foram? E o que estas diferenças indicam?1) Escolha um fato na semana que tenha sido destaque • Quais seriam as possíveis razões para essasna mídia. Provavelmente ele será motivo de notícias na diferenças?programação de telejornais de diferentes canais de TV • Seriam as notícias reproduções da verdade sobreno final de semana. os fatos ocorridos?2) Organize-se para gravar, no mínimo, dois telejornais 9) Proponha aos alunos que escrevam um texto sobrede canais de TV diferentes, de modo a registrar a notícia um tema indicado por eles e que tenha relação com osobre o fato em questão em ambos os telejornais. que foi discutido nas atividades aqui sugeridas.3) Assista aos programas gravados e prepare a atividade. Avaliação:Se possível, edite os telejornais gravados, destacandoapenas a notícia sobre o fato escolhido de cada canal, A avaliação pode ser composta pela:de modo a facilitar o desenvolvimento da atividade em • Participação dos alunos na atividade de observaçãosala de aula. Isto pode ser feito com a gravação, de um e análise verbal dos programas.vídeo para outro (se houver condições), apenas dostrechos escolhidos que contenham as notícias sobre o • Pelos textos produzidos pelos alunos.fato, ou, se não for possível, grave cada notícia em uma • Por uma prova com questões relativas ao conteúdofita diferente e deixe-as no ponto de iniciar cada notícia tratado pelas notícias, no caso das disciplinasa ser estudada, facilitando assim a dinâmica da aula. específicas que não Redação ou Língua Portuguesa.4) No dia da atividade, diga aos alunos que elesassistirão a dois telejornais diferentes com a notícia Atividades de ensino médiosobre um mesmo fato ocorrido.5) Veicule as notícias selecionadas. Se for preciso, Sugerimos, a seguir, duas atividades para ospasse mais de uma vez para que todos observem o alunos do Ensino Médio. A primeira – Produzindo ummáximo possível os detalhes de cada notícia. programa de televisão – despenderá mais tempo para 6) Faça uma rodada de depoimentos dos alunos sobre seu desenvolvimento, por se tratar de um projeto didáticoo que observaram de igual e de diferente entre as notícias cujo produto final pode ser um programa de TV produzidoassistidas. pelos alunos (gravado e editado) ou a encenação do programa. A segunda atividade, com tempo menor para sua elaboração, pode ser um exercício de análise crítica sobre a Publicidade na TV. 1. Título: Produzindo um programa de televisão Objetivo: Promover entre os alunos exercícios de produção de programa televisivo de modo a desenvolverem conhecimentos específicos sobre um determinado tema em estudo e habilidades necessárias para a produção: organização em grupo, pesquisa, produção de textos, expressão oral, filmagem e edição, dentre outras.72
  • 73. Trabalho docente com programação televisiva na escola • Elaborem um cronograma geral prevendo as etapas para a produção do programa, com base em um calendário e no tempo disponível. Etapas para a produção do programa: elaboração da pauta, pesquisa de informações e matérias a respeito do tema; definição sobre o gênero televisivo para o programa (para isso é necessário que os alunos façam um breve estudo sobre os principais gêneros televisivos ou que tomem como referência os que conhecem a partir do que assistem na TV); produção do roteiro do programa, preparação para a gravação (cenários, atores/sujeitos, ensaios, equipamentos); gravação; edição.Justificativa: Ao produzirem um programa de televisão, • Nesta etapa, professor e alunos decidirão se amesmo que não venha a ser veiculado de fato, os alunos produção será gravada ou apenas apresentada aoperceberão alguns aspectos que envolvem o processo vivo como numa encenação teatral, a depender dade produção, tais como definição de pauta, produção do disponibilidade ou não de equipamentos.roteiro, pesquisa e seleção de material (informações evisual), elaboração do texto, montagem e ensaios, 3) Realização da produção do programa, dandogravação e, por fim, a edição do programa. Além disso, prosseguimento às etapas planejadas anteriormente:aprofundarão seus conhecimentos sobre determinadotema indicado para constituir a pauta. Caso não sejapossível filmar e/ou editar por falta de equipamentos, o - Segunda etapa: pesquisaprograma poderá ser “encenado” em sala de aula. • Os alunos pesquisam sobre o tema a ser abordado pelo programa, o que pode ser feito em livros,Disciplinas envolvidas: Conforme o tema indicado para revistas, jornais, internet, dentre outros.constituir a pauta, esta atividade pode ser proposta por • É necessário que os alunos pesquisem e selecionemGeografia, História, Biologia, Química, Sociologia,Psicologia etc. Pode também ser proposta por Língua materiais relativos ao tema do programa e úteis àPortuguesa ou Artes em razão da necessidade de se produção, tais como imagens, cenários, figurinos etc.produzir textos e de envolver elementos cênicos como • Se for possível filmar a produção, verifiquem quaisensaios, cenários, interpretação. Outra possibilidade é equipamentos de filmagem estão disponíveis, aenvolver várias disciplinas, por ser um trabalho de natureza necessidade de adquirir fitas para a filmagem e ainterdisciplinar. possibilidade de contar com iluminação especial.Roteiro: - Terceira etapa: elaboração do roteiro A partir do que foi pesquisado, peça aos alunos que1) O professor pode indicar um tema para o programa a desenvolvam o roteiro do programa contendo:ser produzido pelos alunos a partir de conteúdos previstospelo currículo, ou fazê-lo com base no levantamento prévio • A descrição das cenas (numeradas na seqüência).entre os alunos daquilo que mais interessa como tema • Falas específicas para cada cena (dos atores/para pauta. apresentadores/em off – narração de fundo em cenas2) Definido o tema, promova um exercício de apresentadas).planejamento das etapas para a produção do programa,bem como a execução da seqüência de etapas previstas: • Os cenários para cada cena. • Duração prevista para cada cena.- Primeira etapa: planejamento• Decida com os alunos se a classe vai produzir um - Quarta etapa: ensaios só programa televisivo por meio da divisão de tarefas entre eles, organizados em grupos, ou se vão se Os alunos devem ensaiar de acordo com o tipo de dividir em grupos de modo a cada um produzir seu programa a ser produzido. Provavelmente será necessário programa. o ensaio: 73
  • 74. Trabalho docente com programação televisiva na escola• Dos textos a serem falados (falas de personagens • No caso de ter havido a gravação dos programas, ou do narrador em off, ou presente na cena). definam coletivamente um dia para a exibição. E se não houve, é interessante programar um dia para a• Da produção do cenário e do figurino. apresentação dos programas encenados.• Do uso dos equipamentos previstos. • É importante destacar novamente quais os aspectos importantes para avaliação do produto final, para que- Quinta etapa: gravação todos possam observá-los durante a exibição/ apresentação dos programas.• Com o cenário preparado, as falas estudadas e as ações conhecidas, os alunos gravarão as cenas • Por fim, estimule a avaliação por quem assistiu ao planejadas seguindo o roteiro elaborado. programa, e igualmente convide os alunos responsáveis pelo programa a avaliarem o processo• É importante para o grupo tomar alguns cuidados de produção. para viabilizar um trabalho mais tranqüilo na etapa posterior (da edição), tais como: identificar o início e o fim de cada cena de alguma forma (número da Avaliação cena, fala indicando o início ou o fim da cena, dentre outras); registrar esta ordem nas fitas caso seja usada A avaliação pode contemplar: mais de uma; identificar a fita ou o trecho que contenha as imagens que comporão o programa • A atuação dos alunos nas atividades de durante a edição. planejamento, pesquisa de campo e produção do programa.- Sexta etapa: edição • Elaboração do roteiro, incluindo textos para a narrativa do programa produzido. • Verificação individual sobre a compreensão e conhecimentos a respeito do tema tratado pelo programa produzido por meio de prova escrita, dissertação, seminários, dentre outras formas. • Criatividade na elaboração da mensagem (texto + imagem + argumento). • Capacidade de organização do trabalho durante o processo. • Caso o programa seja “encenado”, pode-se avaliar aspectos da encenação: clareza, objetividade e• Gravado todo o material, e dependendo dos fundamentação dada às informações etc. equipamentos a que o grupo de alunos tem acesso, • Aspectos técnicos específicos da produção do a edição pode ser feita de acordo com o roteiro geral. programa como gravação, iluminação e edição não Algumas filmadoras portáteis digitais têm recursos precisam compor a avaliação, por não fazerem parte de edição, ou os alunos podem utilizar uma estrutura dos objetivos da formação de alunos no Ensino Médio, maior e primária como a de dois videocassetes mas é possível promover um debate avaliativo a interligados. respeito disso com a classe.• Para esta etapa, se ocorrer, é importante destacar que os aspectos técnicos resultantes da gravação 2. Título: Publicidade na TV e edição não serão objeto de avaliação, e sim os referentes à criatividade e à abordagem dada ao tema tratado. Objetivo: Promover entre os alunos a reflexão e a análise crítica sobre as mensagens e os recursos utilizados pela4) Apresentação e avaliação do processo e do publicidade na TV.resultado alcançado: Justificativa: Será possível, com este exercício, aguçar- Sétima etapa: apresentação e avaliação nos alunos a percepção sobre as estratégias da74
  • 75. Trabalho docente com programação televisiva na escolalinguagem e da persuasão próprias da publicidade na 6) O exercício de reflexão a partir do roteiro indicadoTV, contribuindo para uma educação sobre o consumo e pode ser executado primeiramente por pequenos gruposuma abordagem transversal e interdisciplinar no currículo. de alunos, que produzirão um relatório pontual sobre os itens do roteiro de análise. 7) Em seguida, o professor pode promover umaDisciplinas envolvidas: Algumas disciplinas podem apresentação de cada grupo para a classe sobre odesenvolver a atividade por poderem relacioná-la a resultado da análise desenvolvida.conteúdos específicos de seu planejamento, como é ocaso de Língua Portuguesa, Geografia, História. O 8) Na seqüência, promova um debate com todos os grupos e, a partir do resultado da análise que cada grupotrabalho interdisciplinar é possível graças à abordagem apresentar, identifique semelhanças e diferenças entretransversal do tema consumo. eles. 9) Por fim, é possível elaborar, com a colaboração dosRoteiro alunos, um quadro resumo sobre o consenso da classe a respeito do que pôde ser observado no comercial, seguindo os itens do roteiro.1) Peça aos alunos que assistam à publicidade veiculada 10) Para encerrar a atividade, peça um texto individual apela TV, em canais diferentes, durante uma semana, respeito do que foi trabalhado.para observar mais atentamente seu conteúdo. Avaliação A avaliação pode ser composta pela: • Atuação dos alunos nos exercícios de análise do comercial, de apresentação da análise e nos debates sobre os resultados das análises efetuadas. • Na produção do texto proposto.2) Depois, em sala de aula, definam os comerciaisconsiderados mais interessantes, e identifique os Nas disciplinas cujo tema consumo esteja nomotivos (positivos ou negativos), registrando na lousa planejamento, tais como História, Geografia, Sociologia,ou em papel manilha (ou algo semelhante). Psicologia, é possível levar o conteúdo do comercial estudado para uma avaliação escrita mais dirigida.3) Elejam um comercial para o exercício maisaprofundado de análise do seu conteúdo, podendo tercomo critério o mais citado, o mais curioso, o maisdesqualificado pelos alunos, dentre outros. Referências bibliográficas4) Determinem quem gravará o comercial indicado paraque todos possam assisti-lo nas próximas aulas. BACCEGA, Maria Aparecida. Televisão e escola: aproximações e distanciamentos. São Paulo: SENAC.5) Organize as aulas de exercício sobre o comercialescolhido da seguinte forma: BELLONI, Maria Luiza. O que é Mídia-Educação. Campinas: Autores Associados,2001.• Indique alguns elementos para a análise, que podem ser previamente planejados por você, ou que resultem BUCCI, Eugênio. Brasil em tempos de TV. São Paulo: de um exercício com os alunos. Sugerimos recursos Boitempo,1997. audiovisuais (efeitos especiais, música, som e CITELLI, Adilson (org.). Outras linguagens na escola. imagem, cores, enquadramentos e planos utilizados São Paulo: Cortez Editora, 2001. – para isso talvez seja necessário uma breve pesquisa COGO, Denise & GOMES, Pedro Gilberto. Televisão, sobre o que são); conteúdo da mensagem (o que e escola e juventude. Porto Alegre: Mediação, 2001. como se promove a venda); recursos da linguagem FISCHER, Rosa Maria Bueno. Televisão & Educação – (quais argumentos de convencimento para o Fluir e pensar a TV. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. consumo do que se vende, o que há de subliminar no discurso publicitário do comercial em estudo); e GUIMARÃES, Gláucia. TV e escola – discursos em outros considerados importantes. confronto. São Paulo: Cortez Editora, 2000. 75
  • 76. Trabalho docente com programação televisiva na escolaMORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T.; Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e AdolescentesBEHRENS, Marilda Aparecida. Novas tecnologias e Centro de Criação de Imagem Popularmediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2003. Centro de Formação Continuada de Professores daNAPOLITANO, Marcos. Como usar a televisão na sala Universidade de Brasíliade aula . São Paulo: Contexto, 2002. Centro Internacional de Referência em Mídias paraPACHECO, Elza Dias (org.). Televisão, criança, Crianças e Adolescentesimaginário e educação . Campinas: Papirus, 2002. Comissão de Direitos Humanos da Câmara dosPENTEADO, Heloísa Dupas. Televisão e escola: conflito Deputadosou cooperação? São Paulo: Cortez, 1991. Fórum de debates sobre a programação da TV no Brasil Fórum Nacional de Democratização da ComunicaçãoCinema e vídeo LAPIC - Laboratório de Pesquisas sobre Infância, Imaginário e Comunicação (ECA/USP)Muito além do jardim [Being there], EUA, Hal Ashby, Ministério das Comunicações1979 (Warner). Ministério da Justiça, Classificação indicativa para aO filme trata da vida de um simplório jardineiro cuja programação televisivareferência do mundo exterior está calcada naprogramação televisiva com qual mantinha uma relação TV Culturade crença absoluta. Torna-se um assessor político de TV Futurasucesso por saber reproduzir falas decoradas datelevisão.Truman show. O show da vida [Truman show], EUA, NotasPeter Weir, 1997. *Truman é personagem de um reality show sem saber. Pesquisador do LAPIC – Laboratório de PesquisasSua vida é transmitida a milhões de telespectadores o sobre Infância, Imaginário e Comunicação (ECA/USP)dia todo por inúmeras câmeras de TV que o acompanham desde 1996. Diretor Acadêmico da Faculdade dedesde o seu nascimento. O filme é excelente para refletir Educação e Cultura Montessori – FAMEC, desde 1998.sobre o papel da televisão na sociedade. Integrante da equipe do Portal Educativo Educativo desde 2006. 1 Trabalho originalmente publicado no Portal EducativoPara Além do Cidadão Kane [Beyond Citizen Kane]. EducaRede com o título “O trabalho com TV naInglaterra, BBC,1992. escola”, disponível no endereço: http://www.educarede.org.br/educa/index.cfm?pg=Esse documentário aborda o poder de manipulação da oassuntoe.interna&id_tema=19&id_subtema=1&cdRede Globo e foi alvo de processo jurídico contra a BBC _area_atv=6(a TV Globo perdeu).Referências EletrônicasAcervo de vídeos da Rede SESC/SENACAssociação Cultural VideoBrasilCanal DiscoveryAssociação Brasileira de Emissoras de Rádio e TVAssociação Brasileira de TV por assinaturaCanal de TV gerenciado pela ACERP – OrganizaçãoSocial de direito privado76
  • 77. Considerações sobre a formação inicial dos arte- educadores: A experiência como orientador de estágios da graduação em Licenciatura em Artes Visuais Guilherme Nakashato*Resumo AbstractBreve ensaio construído como exigência obrigatória para Essay based text, built as obligatory requirement for aa disciplina de Seminários em Artes Visuais para o curso discipline in Visual Art’s Master’s degree in UNESP/SP’sde Mestrado em Artes Visuais do Instituto de Artes da Institute of Arts, searching for the auto-critical reflectionUNESP/SP, buscando a reflexão auto-crítica do próprio of the education process and the role of the supervisedprocesso de formação, as expectativas como formador teacher’s training as the necessary praxis of theory xde professores e o papel fundamental dos estágios reality, and to contribute for the debate of the art-educationsupervisionados como a práxis necessária da teoria x in higher education.realidade, visando contribuir para o debate da educação Keywords: teacher’s education, supervised teacher’sno ensino superior. training.Palavras-chave: formação de educadores, estágiossupervisionados 77
  • 78. Considerações sobre a formação inicial dos arte-educadores: A experiência como orientador de estágios da graduação em Licenciatura em Artes Visuais Desde 2001 venho atuando na área de arte- de Ensino de São Caetano do Sul. Realizei muitaseducação principalmente em duas frentes: como descobertas interessantes, que em minha época depesquisador e elaborador de propostas de mediação para estudante não havia percebido – como as aulas deo Arteducação Produções1 e, a partir de 2006, como Datilografia e de Comércio serem um resquício do antigoprofessor do curso de Licenciatura em Artes Visuais da prestígio que a escola possuía em decorrência daFaculdade de Educação e Cultura Montessori (São preparação dos alunos para o mercado de contabilidadePaulo). Nesse meio tempo atuei também em projetos nas décadas anteriores. Para as aulas de arte, muitoculturais em um dos Centros de Educação Unificado pouco havia mudado desde que saí de lá: a mesma(CEU) da Prefeitura de São Paulo. Todas estas professora ensinado desenho geométrico e noções deexperiências têm me proporcionado muitos linguagem visual2. Ao menos ela não distribuía desenhosquestionamentos sobre a ação e a formação dos arte- mimeografados para colorir, todas as propost as deveriameducadores que a sociedade contemporânea necessita. ser desenvolvidas pelo estudante.Como professor de licenciatura, atualmente oriento os Todas estas experiências foram preciosas eestágios supervisionados e a prática de ensino dos futuros auxiliaram-me na escolha de minha atuação profissional.docentes, especificamente em artes visuais. As vivências de práticas educativas não-formais Esta oportunidade abriu-me um enorme leque de seduziram-me a ponto de sempre buscar projetos nestaoutros questionamentos e dúvidas sobre o estágio na área. Não invalidava a ação como arte-educador da redeformação inicial. Uma das experiências que trago da básica de ensino – participei de várias entrevistas paraminha graduação no Instituto de Artes da UNESP foi tornar-me um. Porém a atração ao desafio em espaçosjustamente o estágio realizado em espaços culturais ou não-escolares era maior, talvez pelas contribuições ede educação não-escolar. Atuando em uma unidade do novidades que eram debatidos nestes espaços e queSESC (Serviço Social do Comércio) em 1998, pude não encontravam condições, nem eco no ensino formal.envolver-me na seleção e na produção de projetos de Hoje, deparando com o dilema de orientar os estágios eoficinas culturais; de eventos de artes visuais, cinema, perceber que a situação de minha época de graduaçãomúsica, multimídia, teatro e dança e em palestras e aparentemente manteve-se, no mínimo, estávelcursos dos mais variados assuntos da atualidade, como (professores de arte com concepções redutoras deo inesquecível “A Compreensão e o Prazer da Arte”, educação artística, baixa auto-estima profissional,evento sob coordenação de Ana Mae Barbosa que trouxe dificuldade de condições estruturais e sociais, além daespecialistas do mundo todo para discutir a arte- apatia – ou desinteresse – generalizada da sociedade),educação contemporânea. reforça a idéia que os arte-educadores em formação Trago também a experiência de ter estagiado na deveriam buscar alguma experiência significativa fora daFundação das Artes de São Caetano do Sul em 1997, escola, como condição de propor alternativas para parte dos problemas dentro dela. Este pensamento tambémuma escola que desenvolve as capacidades técnicas e compactua a concepção de que a escola está por demaiscriativas dos alunos nas diversas modalidades artísticas afastada da vida dos estudantes do ensino básico,(artes visuais, música e teatro, na época), muito parecido desestimulando as frágeis iniciativas de compreensãocom a Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA) de da necessidade deste tipo de ensino, ao passo queSão Paulo (também em Santo André). Infelizmente não alimenta as pesquisas na área, como constata Gisleneinteressei-me em pesquisar mais a fundo seu histórico, T. R. Delgado de Carvalho no livro Formação demas me lembro de histórias de várias personalidades professores e estágios supervisionados:das artes terem estudado lá. Os alunos matriculam-seespecificamente na linguagem desejada em turmas O fosso que se estabeleceu entre aseparadas por faixas etárias compatíveis. As turmas vão escola e a sociedade, à qual aqueladesde as crianças menores de 6 anos até os adultos e instituição deveria prestar seusterceira idade. Alguns cursos necessitam de uma espécie serviços, parece quase intranspo-de teste de aptidão para serem admitidos, devido à nível. Tal fato tem gerado inúmerosprocura, principalmente o curso de teatro que conta com estudos na tentativa de compreendermuito prestígio. esse descompasso e reverter tal Dentre os estágios cumpridos, lembro-me que o situação. (Carvalho & Utuari (orgs.),menos significativo em vivências da prática de arte- 2006, p.19)educação foi o da educação formal. Como queria fugir Ao propor aos professores em formação quedas experiências da escola pública que tanto me dinamizem suas vivências em estágio nas mais diversasaborreciam nas discussões das aulas de prática de situações de mediação possivelmente ampliará suasensino na graduação, optei por estagiar na escola reflexões sobre as diferentes naturezas das adversidadesparticular onde estudei no ensino fundamental, o Instituto encontradas no ensino formal, provocando a busca de78
  • 79. Considerações sobre a formação inicial dos arte-educadores: A experiência como orientador de estágios da graduação em Licenciatura em Artes Visuaisalternativas criativas. Como consequência, espera-se a Classes com 50, 80 alunos ou mais, fazem comdiminuição deste “fosso” entre a escola e a sociedade. que muitas aulas sejam um desafio prender a atenção da maioria. É claro que muitos alunos tentam aproveitar Por outro lado, a própria experiência na formação o máximo, porém torna-se desgastante com o passarde licenciados em artes visuais acaba provocando várias do tempo. Em aulas de disciplinas práticas como pinturareflexões sobre a qualidade dos profissionais que e escultura, a quantidade de alunos influencia diretamenteestamos colocando no mercado. Esta preocupação na qualidade dos trabalhos, pois há a real necessidadesegue minha formação, uma vez que na graduação na de ampla mobilidade em torno de cada indivíduo. EstaUNESP constantemente debatíamos sobre a precária situação torna mais distante a possibilidade do professorpreparação dos aspirantes a arte-educador. Uma vez apreciar cada caso e perceber individualmente os dilemasdentro de uma instituição formadora, posiciono-me no dos alunos. O desafio de acompanhar de perto odesafio de fazer o melhor trabalho, da maneira mais desenvolvimento torna-se por vezes impraticável ousignificativa possível. Junto de outros colegas docentes, frustradora, pois a cada período letivo esgotam-se asdebatemos muito sobre o assunto, com o intuito de estratégias de percebê-lo de maneira satisfatória. Reiterodesenvolvermos o curso. Elenco rapidamente alguns tal necessidade, pois como formadores de educadores,obstáculos a serem revistos nas faculdades: curso de apresentamos autores que sublinham açõestrês anos, sem disciplinas complementares; classes com indispensáveis do professor, como conhecer o educandonúmero excessivo de alunos e a falta de interesse de e perceber as reais necessidades deles (Paulo Freire,parte dos alunos nos assuntos abordados, além das Rubem Alves, José Carlos Libâneo, entre outros). Dessaquestões específicas do estágio supervisionado, como forma, não poderíamos adotar uma postura contraditória.a angústia exagerada de seu cumprimento frente à Muitos casos de falta de interesse dos alunos em relaçãorealidade projetada e a falta de tempo para se dedicarem aos assuntos abordados em aula estão diretamenteaos estágios. ligados à precariedade do diálogo, que em um grupo Três anos para uma licenciatura é um tempo um menor é mais facilmente percebido. A valorização detanto limitado para trabalhar todos os conteúdos de apenas parte da classe – aqueles que se comunicamassuntos tão vastos como arte e arte-educação, apesar mais – nem sempre é a mais justa, pois alunos quede estar plenamente de acordo com as normas de preferem silenciarem-se numa multidão estão igualmenteavaliação do MEC. Os alunos tem de se dedicar às desenvolvendo suas capacidades. Talvez em outradisciplinas de técnicas artísticas, às pedagógicas e situação tais alunos se exporiam mais.didáticas, às de de arte-educação e às teóricas de arte. No campo mais próximo de minha atuação docenteAlém de cumprirem 600 (seiscentas) horas de atividades na formação de arte-educadores, os estágiosfora do espaço acadêmico3 e finalizarem sua formação supervisionados também apresetam suascom a apresentação de uma pesquisa científico- particularidades. Uma delas é a ansiedade pelapedagógica (trabalho de conclusão de curso – TCC). Esta experiência negativa. Muitos licenciandos já apresentamcarga de afazeres, muitas vezes minam o potencial de de antemão indisposição para conhecer o lado de servários alunos, reduzindo seus aproveitamentos nas professor. A educação básica está passando por váriosdisciplinas. Disciplinas que discutem propriamente a arte momentos de crise como apresentado anteriormentesão mínimas: Estética e história da arte e Arte moderna neste texto, especialmente a arte-educação, quee contemporânea diluídas na graduação. Não há coleciona um rol de resistências juntamente com suasSociologia da arte, Poéticas visuais e Estética, enquanto várias vitórias ao longo de sua emancipação comodisciplina filosófica, não é propriamente trabalhada. Nas disciplina e área de conhecimento (Barbosa, 1998, p.36).disciplinas técnicas, ainda que se discuta o processo Mesmo focando que toda experiência é válida ede criação, foca-se à instrumentalização dos cognoscitiva – desde que bem percebido e analisado – oprocedimentos. Mesmo com o esforço dos professores temor por vivências angustiantes fazem com que ode tais disciplinas esta situação acaba por dificultar as estágio passe a ser visto inicialmente como um “martírio”,abordagens nas aulas de prática de ensino. Idealmente um “ritual de iniciação para a docência”. Talvez até hajapensa-se então que um curso de quatro anos poderia sentido, pois somente saberão como é a vida docentesanar estas indisposições, porém esta análise deve ser participando dela na realidade com suas agruras efeita com cuidado, pois pela lógica então deveríamos ter dificuldades, porém perpetuar esta concepção podecursos de cinco ou seis anos, que no atual contexto tornar-se prejudicial à convicção de ser um educador.torna-se impraticável. Por outro lado, a inclusão de novas Ajudar a construir o espírito crítico, trazendo estasdisciplinas não apenas enriqueceria o atual currículo4 , experiências como vivências significativas da práxis docomo potencializaria o debate e as convicções sobre as estágio é um dos focos que tenho como orientadorartes no panorama contemporâneo. (Oliveira in Oliveira & Hernández [orgs], 2005, p.61). 79
  • 80. Considerações sobre a formação inicial dos arte-educadores: A experiência como orientador de estágios da graduação em Licenciatura em Artes Visuais Outro ponto que percebo nos alunos é a dificuldade papel de formador de futuros formadores. E maisde conciliar a vida profissional com o cumprimento dos especificamente quanto a pertinência e o potencial daestágios (e de outros compromissos acadêmicos). atividade de estágio supervisionado. Ao rememorarAlguns deixam para fazer o estágio em outro momento minha própria formação, pude perceber os ganhos que ado curso (após cumprir a carga obrigatória ou em vivência em situações educacionais fora da escola“dependência” - “DP”), porém sem cursar a disciplina de trouxeram em aprendizados valiosos que podem serprática de ensino. Essa situação impede que a práxis revertidos para dentro de suas paredes. A ampliação dosda experiência docente seja plenamente construída de horizontes educacionais, bem como a própria profissãoforma coletiva em aula. Estes alunos apenas apoiam-se de arte-educador poderiam e deveriam ser conhecidas,no que ouvem dizer, mas não vivenciaram todos os estudadas, vivenciadas e analisadas em suas diferentesdetalhes da atividade docente. Não percebem a amplitude configurações. Esta concepção de arte-educadordo envolvimento profissional, emocional e afetivo que o provocaria a maior consciência das frentes de atuaçãoeducador está exposto, não somente com os educandos de profissionais mais preparados para as necessidadesmas com os colegas professores, diretores e da sociedade do século XXI. E um desafio para a áreafuncionários, além da comunidade não-discente que de arte-educação e para os formadores de educadores.participa da escola. Mesmo adotando a estratégia deanalisar a situação de sua própria graduação, o alunopode apenas tangenciar algumas questões similares. Em Referência Bibliográficacontrapartida, o fato de outros já atuarem prontamentena educação básica como professores substitutos ou BARBOSA, Ana Mae. Tópicos utópicos. Belo Horizonte:eventuais ou mesmo na educação não-formal5, dificultam C/Arte, 1998.a proposta de perceber o trabalho docente, uma vez queacabam imersos nos afazeres práticos, apesar de ainda CARVALHO, Gislene Teresinha R. D. de & UTUARI,não terem sido apresentados aos assuntos mais Solange (orgs.). Formação de professores e estágioespecíficos, como a realização de planos de ensino ou supervisionado: relatos, reflexões e percursos. Sãoos estudos sobre o desenvolvimento cognitivo da criança Paulo:Andross, 2006.e do adolescente. Esta situação pode acarretar na OLIVEIRA, Marilda Oliveira de & HERNÁNDEZ, Fernandosubordinação do futuro professor em relação planos (orgs.). A formação do professor e o ensino das artespedagógicos pré-existentes, nem sempre atendendo a visuais. Santa Maria, RS: UFSM, 2005.demanda dos educandos, perpetuando a concepçãosimplista de aulas de “educação artística” ou nadependência acrítica dos famosos livros didáticos (nem Bibliografia consultadasempre de qualidade). Procuro debater sempre estasquestões com estes alunos, mesmo que ainda não PIMENTA, Selma Garrido. O estágio na formação detenham desenvolvido total repertório destes assuntos professores: unidade teoria e prática? São Paulo: Cortez,específicos, procurando alertá-los para buscarem em 5ª ed., 2002.publicações da área. Dentre o rol de situações-obstáculos que tenho NOTASrefletido como orientador de estágios, não posso fugirde uma auto-análise. Como arte-educador venho * Arte Educador, professor do Curso de Artes Visuais daparticipando de propostas de formação de outros arte- FAMECeducadores como pesquisador e mediador. Porém atarefa de orientar estágios é recente e ainda estou me 1debruçando sobre os conhecimentos específicos da área. empresa criada por arte-educadores para prestação deMinhas últimas experiências em sala de aula no ensino serviços educativos, atuando em várias instiutições comobásico foram o acompanhamento de projetos de arte- o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, a redeeducação da prefeitura de São Paulo na época em que SESC/SP e a Prefeitura Municipal de São Paulo.estive no CEU6 em 2003/05, como produtor e 2 Não presenciei aulas de trabalhos domésticos, mascoordenador, participando das reuniões com os lembro-me que, como aluno, tive aulas de pregar botõesprofessores. Tais reflexões podem velar as ótimasexperiências que venho presenciado, porém o intuito e fazer barras de calças, além de outras tarefas quedeste texto – que já se modificou inúmeras vezes no achava “incomuns”.processo de escrita – é oferecer um panorama de uma 3 200 horas de Atividades Científicas e Culturais e 400determinada situação da formação de futuros arte- horas de Estágios Supervisionados a serem cumpridaseducadores, buscando analisar e refletir sobre o nosso além das disciplinas acadêmicas.80
  • 81. Considerações sobre a formação inicial dos arte-educadores: A experiência como orientador de estágios da graduação em Licenciatura em Artes Visuais4 À época da construção deste texto iniciaram-se osdebates para a reformulação do currículo do curso deLicenciatura em Artes Visuais da FAMEC, visando aatualização do mesmo. O debate sobre a reformulaçãofoi desenvolvido coletivamente, em que professores,coordenação e direção dialogaram em torno daspossibilidades e das necessidades do curso e será embreve aplicado para as novas turmas.5 Além das ONGs e outras instituições culturais, oprograma “Escola da Família” do governo do Estadopropõe que as escolas funcionem aos finais de semanacom atividades esportivas e culturais para a populaçãoem geral. Os alunos matriculados em cursos dasatividades correspondentes são selecionados pelosprojetos que enviam a fim de receberem bolsas deestudo, com o qual pagam as instituições particulares.Como realizam propostas de desenvolvimento artísticos,eram aceitos como estágio não-formal.6 CEU Meninos, localizado próximo à comunidade deHeliópolis na zona sul do município de São Paulo. 81
  • 82. Resolução de problemas como alternativa para a residência pedagógica Denise Rockenbach Nery∗Resumo AbstractO presente trabalho traz uma proposta pedagógica para This current paper comes out with a pedagogicala implementação de um projeto de lei que pretende proposal for the implementation of a governmentalaumentar os estágios nos cursos de Pedagogia de 300 project which intends to increase the amount ofpara 800 horas. A proposta é baseada na resolução de trainee hour time on the contrary to what is demandedproblemas, discutindo suas características e importância in university courses, from 300 to 800 hours. Thepara a formação de professores. proposal is based on problem solving situations, their features and their importance for the teacher learningPalavras-chave: Residência pedagógica, estágio, process.resolução de problemas, formação de professores. Keywords: Teaching internship; trainee job; problem solving situations; Teaching Learning Process82
  • 83. Resolução de problemas como alternativa para a residência pedagógicaIntrodução que a aplicação de um repertório de receitas: exigem um procedimento de resolução de problemas, uma forma de invenção. Toda normalização da resposta provoca Tramita no Senado um projeto de lei do Senador um enfraquecimento da capacidade de ação e reaçãoMarco Maciel com o objetivo de se aumentar o número em uma situação complexa” (PERRENOUD, 2001, p.de horas/aula dos estágios dos cursos de Pedagogia de 11)300 horas para 800 horas. Trata-se de um estágio queestá sendo chamado de residência pedagógica – umprograma de capacitação inicial fortemente baseado em A resolução de problemaatividades práticas. Os habilitados em Pedagogia, soba supervisão de profissionais mais experientes, A resolução de problema nada mais é que umpassariam por uma especialização obrigatória na desafio que nos é colocado, algo que pertuba,Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino problematiza, um obstáculo que nos propomos a transpor.Fundamental, permitindo uma convivência maior com a Um problema se diferencia de um exercício, pois,escola, com os alunos e com o cenário em que o novo enquanto o exercício refere-se a uma situação conhecidaprofessor começa a atuar. em que há indicação clara do caminho a percorrer com a utilização de técnicas e habilidades já automatizadas A residência pedagógica é uma clara alusão à pela prática, a resolução de problema coloca o alunoresidência médica, portanto, uma primeira questão a frente a uma situação nova em que ele não vislumbralevantar seria: que características aproximam a formação facilmente o caminho a percorre, ele vai precisar elaborarde médicos e professores? A partir desta questão o estratégias e tomar decisões para resolvê-lo. Nestepresente artigo parte para a procura de uma alternativa contexto, o aluno precisa aprender a aprender, o quepara a elaboração de uma proposta pedagógica para a pressupõe processos de pesquisa, reflexão eresidência pedagógica baseada na resolução de interiorização, de produção de conhecimento, além deproblemas, abordando suas características e vantagens desenvolve atitudes de crítica e de tomada de decisões.para a formação do professor. Desta forma, o conhecimento é entendido como uma construção histórica e social.Formação de professores e médicos: aproximações Ao resolver uma situação problema, a aprendizagem torna-se significativa para o aluno, a nova Uma primeira aproximação possível entre a informação incorpora-se de forma substantiva, naprofissão do médico e do professor seria o aspecto estrutura cognitiva do aluno. Há uma intencionalidadeartesanal de seu ofício, que, apesar dos imprescindíveis em relacionar idéias prévias com uma nova informação, em que ambas acabam por modificar-se.anos de formação inicial nas salas de aulas, sãoprofissões que se aprendem e se constroem na prática. Em Dez Novas Competências para Ensinar, Para Perrenoud (2001), a prática de ensino do Perrenoud (2000, p.42-43) transcreve as dezprofessor é a de ensinar: agir na urgência e decidir na características de uma situação-problema, indicadas porincerteza. O objetivo da formação de ambos profissionais, Astolfi:professores e médicos, não seria justamente prepará- 1) Uma situação-problema é organizada em torno dalos para lidar em seu cotidiano com situações diversas resolução de um obstáculo pela classe, obstáculoe complexas, em que se exige rápida tomada de previamente bem identificado.decisões e de ações? Nem sempre há tempo paradistanciamento e para uma atitude analítica como na 2) O estudo organiza-se em torno de uma situação deatividade de pesquisa, por isso mesmo professor e caráter concreto, que permita efetivamente ao aluno formular hipóteses e conjecturas.médico devem ter um espírito de investigação. Éextremamente importante que eles aprendam a observar, 3) Os alunos vêem a situação que lhes é proposta comoa formular questões e a selecionar instrumentos e dados um verdadeiro enigma a ser resolvido, no qual estãoque o ajudem a elucidar seus problemas e a encontrar em condições de investir. Esta é a condição paracaminhos alternativos na sua prática. que funcione a devolução: o problema ainda que inicialmente proposto pelo professor, torna-se As situações enfrentadas por estes profissionais “questão dos alunos”.exigem mais que o domínio teórico de sua especialidade,exigem domínio prático e a capacidade de gerir situações 4) Os alunos não dispõem, no início, dos meios dacomplexas. Abordando o trabalho do professor, solução buscada, devido à existência do obstáculoPerrenoud coloca que estas situações “exigem mais do a transpor até chegar a ela. É a necessidade de 83
  • 84. Resolução de problemas como alternativa para a residência pedagógica resolver que leva o aluno a elaborar ou a se apropriar Pela análise das características da resolução de coletivamente dos instrumentos intelectuais situações-problema propostas por Perrenoud, uma necessários à construção da solução. segunda vantagem da utilização da resolução de situações-problema na formação de professores é que o5) A situação deve oferecer resistência suficiente, levando o aluno a nela investir seus conhecimentos aluno passa a ter uma aprendizagem significativa de anteriores disponíveis, assim como suas conhecimentos aplicados em situações diversificadas, representações, de modo que ela leve a o aluno desenvolve a capacidade analítica e aprende a questionamentos e à elaboração de novas idéias. usar o método científico. Diante de uma situação- problema o aluno é estimulado no seu desenvolvimento6) Entretanto, a solução não deve ser percebida como social, político, moral, emocional e cognitivo, assim como fora de alcance pelos alunos, não sendo a situação desenvolve as capacidades de fazer escolhas e tomar problema uma situação de caráter problemático. A decisões. atividade deve operar em uma zona próxima, propícia ao desafio intelectual a ser resolvido e à interiorização das “regras do jogo”. DA ANÁLISE DA RESOLUÇÃO DE SITUAÇÕES-7) A antecipação dos resultados e sua expressão PROBLEMA À ELABORAÇÃO DE UMA PROPOSTA coletiva precedem a busca efetiva da solução, fazendo parte do jogo o “risco” assumido por cada um. Para elaborar situações-problema os professores8) O trabalho de situação-problema funciona assim, universitários, formadores de pedagogos e professores, como um debate científico dentro da classe, devem selecionar conhecimentos essenciais à formação estimulando conflitos sócio-cognitivos potenciais. destes profissionais e a melhor fonte de informação sobre estas situações-problema é a vida real, situações9) A validação da solução e sua sanção não são dadas escolares verdadeiras e contextualizadas, localizados de modo externo pelo professor, mas resultam de em um determinado tempo e espaço. Daqui advém a modo de estruturação da própria situação. proposta de que os alunos busquem estas situações10) O reexame coletivo do caminho percorrido é a nas escolas em que realizam estágios. Contudo, ocasião para um retorno reflexivo, de caráter devemos lembrar que estamos propondo a resolução de metacognitivo: auxilia os alunos a se situação-problema como base para a formação inicial conscientizarem das estratégias que executaram de de professores, permeando o curso desde seu início. forma heurística e a estabilizá-las em procedimentos Assim, os estágios não seriam encarados como a “parte disponíveis para novas situações-problema. prática” do curso que acontece após os alunos terem acumulado alguns conhecimentos desenvolvidos em algumas disciplinas, mas algo que ocorre desde o inícioA resolução de situações-problema e a formação de sua formação inicial.de professores Uma questão chave que se coloca com esta proposição é uma aproximação efetiva e eficaz entre teoria e prática, buscando romper crenças tão comuns Existem vantagens em se utilizar situações-problema na formação de professores, não apenas como entre os alunos estagiários como: “na teoria a prática ésituações esporádicas em que a resolução de problema outra”. A proposta é de se realizar a práxis na qual aé encarada como conteúdo ou estratégia, mas como prática é a fonte da qual a teoria se nutre como fonte deprincípio formativo permeando toda a formação inicial do interpretação e transformação e a teoria é umaprofessor. antecipação da prática, uma busca de resolução de problemas colocados pela prática. Uma primeira vantagem a destacar seria odesenvolvimento de competências, Existem várias Recolhida a situação-problema pelos estagiáriosdefinições para competência, de acordo com Perrenoud, in loco, nos contextos escolares, eles seriam levados“ser competente é estar pronto para enfrentar crises, no aos professores tutores cuja tarefa seria:momento em que elas sobrevêm, em geral de improviso, • fazer contato e reuniões preparatórias na escola quepois exigem uma reação tão imediata quanto adequada” será parceira nos estágios,(PERRENOUD, 2000, p. 162). • auxiliar o grupo de alunos a identificar o que já sa- A partir desta colocação, podemos entender que bem sobre o problema,a competência têm três características principais:tomada de decisões, mobilização de recursos e saber • formular objetivos de aprendizagem para aperfeiçoaragir, elementos todos presentes na resolução de os conhecimentos que já possuem (ou os que desejasituações-problema. adquirir),84
  • 85. Resolução de problemas como alternativa para a residência pedagógica• encaminhar os alunos para consultoria com estagiários se dividem: é realmente necessário todo este professores especialistas de acordo com as percurso (resolução de situações-problema, necessidades colocadas pela situação-problema, sistematização e jogos) para se ensinar tabuada? Não basta decorar? Qual a validade do jogo para o ensino da• orientar estudos individuais e/ou em grupos a fim de atingir os objetivos de aprendizagem, matemática? E de outras disciplinas? Os alunos podem ser orientados a questionar o(a) professor(a) de• em grupos, discutir o que foi aprendido e as propostas Metodologia de Matemática sobre os procedimentos de ação junto às escolas, adotados e também serem orientados, por algum outro• fazer reuniões nas escolas para discutir junto ao professor, a ler textos sobre a importância do lúdico na professor da classe a proposta de ação elaborada educação. pelos alunos. Exemplo 3: professor (a) de 3a série (2o ano) está• Supervisionar a ação dos alunos nas escolas parcei- trabalhando em Geografia com os alunos a divisão ras. territorial do Brasil, após as explicações em classe, de lição de casa o (a) professor (a) pede que os alunos Com esta proposta o aluno terá uma formação pintem um mapa do Brasil, com cada estado de umacom maior participação na rotina da escola, atuação em cor (devidamente explicada na legenda) e que decoremsala de aula sob supervisão de outro professor e reuniões todos os estados e capitais do país, pois esta matériaperiódicas de acompanhamento. Na verdade um trabalho cairá na prova. Para o (a) professor (a), o único “problema”é árduo, complexo, instável e cheio de dúvidas e conflitos, tem sido: como ensinar tudo isto a uma das crianças damas supervisionado, em busca da formação de um sala que é cega? Ao levar esta situação-problema paraprofissional autônomo, que reflete, toma decisões e divide uma reunião de tutoria, além de discutir a inclusão dostarefas. portadores de necessidades especiais em salas comuns, Para deixar mais clara a proposta apresentada, várias outras questões podem ser levantadas, como: Qualseguem alguns exemplos: a importância da lição de casa? Qual a concepção de avaliação embutida na ação do (a) professor (a)? Que Exemplo 1 - Situação-problema que pode ocorrer alternativas os alunos após estudos orientados eem qualquer escola de Educação Infantil (3-6 anos): a consulta a professores especialistas (Inclusão, Didática,equipe escolar está se preparando para a comemoração Avaliação, Metodologia de Geografia, etc.) poderiam levardo dia do índio, desenhos de índios estão sendo para a escola?xerocados para que as crianças possam colorir e penasestão sendo compradas para fazer pequenos cocares As situações-problema podem de um lado levarpara que os alunos utilizem ao sair da escola. A situação os alunos a perceberem a importância de “dissecar” arelatada pode ser encarada como um problema pelos prática de alguns professores, ou seja, entender a teoriaalunos estagiários: será esta a melhor forma de subjacente à sua prática (utilização de jogos, o uso docomemorar o dia do índio? Por que fazer tal livro didático, o portfólio como forma de avaliação). Decomemoração? Ao discutir com o professor tutor outras outro lado, após entender esta teoria, podem questioná-questões podem ser levantadas: qual a concepção de la com o professor tutor, e formular novas opções deartes (pintura de figura, confecção de cocar) e de história ação a serem levadas para as escolas como propostas.envolvidas nas atividades? Que informações existem Pelos exemplos citados podemos ver que asobre estas questões e sobre as “datas comemorativas” situação-problema do estágio pode ser o integrador deno Referencial Educacional para Educação Infantil? Os diferentes disciplinas, o que exige o envolvimento do corpoalunos poderiam recorrer a textos, documentos, além docente em um projeto político–pedagógico dade consultas com professores especialistas (EducaçãoInfantil, Metodologia de História, Metodologia de Artes, instituição, com várias rupturas das noções de “grade curricular”, “conteúdos mínimos necessários”, “formasetc) antes de elaborar e propor para a escola atividadesalternativas àquelas colocadas inicialmente. tradicionais de avaliação”, entre muitas outras. Além disso, os professores precisam de espaço-tempo (horário Exemplo 2: na terceira série (4o ano), após coletivo de trabalho) e o desenvolvimento de algumastrabalhar com as crianças várias situações cotidianas competências, como por exemplo: visão global daem que é necessário o raciocínio da multiplicação, o (a) profissão (formação e capacitação além de suaprofessor (a) sistematiza a multiplicação apresentando especialidade), conhecimento real e efetivo da situaçãoaos alunos a tabuada do 2 e do 3. A seguir, é explicado das escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental,aos alunos que, em duplas, elaborem um jogo da memória ser um professor investigador, saber organizar ecom estas tabuadas. Em reunião com o tutor, os alunos desenvolver projetos. 85
  • 86. Resolução de problemas como alternativa para a residência pedagógicaÀ guisa de conclusão __________________. O currículo: uma reflexão sobre a prática. São Paulo: Artmed, 2000 VYGOTSKY L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo, , Neste trabalho, busquei trazer uma opção para a Martins Fontes, 3a ed, 1991.formação de professores: a resolução de situações-problema dos estágios como eixo integrador de diferentes ZABALA, Antoni. Os enfoques didáticos. Construtivismodo curso. A proposta aqui apresentada poderia ser na sala de aula. 6a ed. São Paulo: Ática, 1996.submetida à ampla discussão nos cursos de formaçãode professores, tanto de sua parte teórica quanto daprática. Sabe-se que esta não é uma proposta de fácilimplementação, exige mudanças estruturais do curso. NOTASAntes de tudo, o que está presente neste trabalho éuma reflexão sobre as concepções de conhecimento, * Dra em Geografia Humana pela USP e professora dode ensinar e de aprender, na busca de preparar um curso de Pedagogia da FAMECprofissional para ser competente num mundoglobalizado, de grandes e rápidas transformações no qualmais que o domínio teórico de sua especialidade lheserão exigidos o domínio prático e a capacidade de gerirsituações complexas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASPERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar.Porto Alegre, Artmed, 2000.______________ Ensinar: agir na urgência, decidir naincerteza. (2a ed.) Porto Alegre, Artes Médicas, 2001.Bibliografia ConsultadaDEMO, Pedro. Pesquisa – Princípio científico e educativo,São Paulo, Cortez, 2a ed, 1991ERNEST, P. “Investigações, Resolução de Problemas ePedagogia”, in Abrantes, P., Leal, L.C., e Ponte, J.P.,Investigar para aprender Matemática, Lisboa: APM, 1996FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberesnecessários à prática educativa, 27a edição, São Paulo,Paz e Terra, 2003, (Coleção leitura).MACHADO, José Lúcio. Aprendizagem Baseada emProblemas e orientada para a comunidade. DVD-ROMMEIRIEU, P. Aprender ... Sim, mas como? Porto Alegre:Artmed, 1998.POLYA, G. A Arte de Resolver Problemas, Rio de Janeiro:Interciência, 1995SACRITRÁN, G. Consciência e Ação sobre a Práticacomo Libertação Profissional dos Professores. IN:NÓVOA, A (org.). Profissão Professor. Porto/Porto Ed.2 a ed, 199586
  • 87. Formas e recursos de comunicação: uma análise dos sites das principais livrarias virtuais do Brasil Gisele Borges∗Resumo AbstractAs formas e os recursos de comunicação estão se Forms and resources of communications are goingdirecionando para a realidade virtual, fazendo com que towards virtual reality, making their participants simulateseus participantes simulem situações da vida real. É o situations from the real life. It is the case of Second Life,caso do Second Life, mistura de realidade virtual, game mixture of virtual reality, game and net of relationship, ine rede de relacionamento em que os avatares, which avatars, graphic representation of the user in on-representação gráfica do usuário no mundo online, se line world, interact each other. Besides the movementinteragem uns com os outros. Apesar da movimentação that is going on around the virtual reality, and theque vem acontecendo em torno da realidade virtual e innovations in the way of interacting with the consumer,das inovações na forma de interagir com o consumidor, it is noticed that the sites of electronic commerce, in aobserva-se que os sites de comércio eletrônico de uma general way, has innovated a little in the forms andmaneira geral pouco tem inovado nas formas e recursos resources of communication. During the secondde comunicação. Durante o segundo bimestre de 2007, bimestrial of 2007, it was analysed 8 sites of Brazilianforam analisados 8 sites de livrarias brasileiras e observou- bookstores, and it was noticed that in relation tose, com relação à comunicação, que a grande maioria communication, the greater number of virtual bookstoresdas livrarias virtuais utiliza basicamente as mesmas use basically the same forms and resources.formas e recursos. Keywords: Communication, electronic commerce, virtualPalavras-chave: Comunicação, Comércio Eletrônico, bookstoresLivrarias Virtuais. 87
  • 88. Formas e recursos de comunicação: uma análise dos sites das principais livrarias virtuais do BrasilINTRODUÇÃO Reuters (agência de notícias), Nokia, Toyota, Levis, Johnny Walker e Sony Ericsson, além da fabricante de As formas e os recursos de comunicação estão servidores Sun Microsystems, e até mesmo a Petrobrás e a agência de publicidade britânica BBH são algumasse direcionando para a realidade virtual, fazendo com empresas que estão participando deste mundo virtual.que seus participantes simulem situações da vida real. Até o bloco Eva promoveu o seu carnaval neste ambiente.É o caso do Second Life, mistura de realidade virtual,game e rede de relacionamento em que os avatares, Apesar da movimentação que vem acontecendorepresentação gráfica do usuário no mundo online, se em torno da realidade virtual e das inovações na formainteragem uns com os outros. Neste ambiente virtual, de interagir com o consumidor, observa-se que os sitesassim como na vida real, o usuário cadastrado pode se de comércio eletrônico de uma maneira geral pouco temocupar em tarefas cotidianas, como visitar shoppings, inovado nas formas e recursos de comunicação.fazer compras, passear no parque ou meditar. Durante o segundo bimestre de 2007, foram Há até empresas virtuais administrando analisados 8 sites de livrarias brasileiras e observou-se,shoppings, cadeias de lojas e marcas digitais e lucrando com relação à comunicação, que a grande maioria dasna Bolsa de Valores no mundo real. De acordo com a livrarias virtuais utiliza basicamente as mesmas formasIDG Now!1 , o Brasil é a 4ª maior comunidade na rede a e recursos.participar do Second Life. O quadro abaixo sintetiza o referencial teórico Este mundo está atraindo agências de básico utilizado neste artigo para estudar as formas epropaganda e conseqüentemente empresas que divulgam os recursos de comunicação utilizados no comércioe compram espaços neste comércio virtual. Adidas, eletrônico.Quadro 11. Surgimento Comércio Eletrônico computador moderno foi efetivamente inaugurada pelo pioneirismo de Alan Turing, que em 1937 concebeu o conceito de uma “máquina universal” capaz de executar O comércio eletrônico começou, na realidade, com qualquer algoritmo.Blaise Pascal - cientista francês que há 350 anosconstruiu a primeira máquina de somar que empregou Nos últimos 50 anos, passamos pelo menos poruma série de engrenagens interconectadas para adicionar três fases do processamento de dados. Essas ondasnúmeros. Quase 200 anos mais tarde, na Grã - Bretanha, foram marcadas pelos computadores de grande porteCharles Babbage, o “pai do computador”, começo a (automatizaram tarefas complexas) e pelosprojetar o mecanismo analítico movido a vapor que deveria minicomputadores departamentais (colocaram àempregar cartões perfurados como dispositivos de disposição dos usuários ferramentas de produtividadeentrada e saída, e que incorporaria uma unidade de pessoal), a era dos PCs e da computação cliente/servidormemória, caso tivesse sido construído. Mas a era do (baseada em PCs e em servidores mais poderosos88
  • 89. Formas e recursos de comunicação: uma análise dos sites das principais livrarias virtuais do Brasilinterligados por uma rede de área local) e mais Este amadurecimento é o resultado direto dorecentemente, o surgimento do modelo de computação barateamento dos computadores, softwares e de maioratravés da Internet baseado nos padrões e tecnologias acesso da população à infra-estrutura necessária parada rede mundial (possibilidade de acesso a enormes compras on-line (linha de telefone e provedor).volumes de informações). Outros fatores que podem estar contribuindo para o crescimento deste comércio é a facilidade de As datas abaixo relatam os movimentos em navegação, a praticidade, conveniência e maior confiançadireção ao comércio eletrônico. nas formas de pagamento.1940 - John von Neumann, defendeu o emprego do bit 2. Formas e Recursos de Comunicaçãocomo uma unidade de medida de memória doscomputadores. A forma e os recursos de comunicação no comér-1946 - Construído nos Estados Unidos a ENIAC ( cio eletrônico são importantes, uma vez que objetivamIntegradora e Calculadora Numérica Eletrônica), um proporcionar uma navegação prazerosa. A criação,computador que continha 18 mil válvulas eletrônicas. Em design, conteúdo e tecnologia de um site é o meio de1948 foi construído a primeira máquina “Baby” de comunicação utilizado como forma de expressão nãoprograma armazenado , abrindo as portas da era da verbal.computação comercial. No comércio eletrônico, o canal pode ser definido1947 - Cientista da Bell (laboratório de telefonia dos como a estrutura da rede, como por exemplo backbone1,Estados Unidos), inventaram o transistor. provedores, capacidade do modem etc, enquanto que a fonte é o próprio site, o sinal é representado pela forma1950 - Utilização de circuitos integrados, permitindo a de comunicação e pelos recursos oferecidos e o desti-gravação de milhões de transistores sobre um único chip natário o usuário.de silício, fazendo despencar os custos da capacidadede processamento Para Palmer & Griffith (1998), o design do site está entre as características técnicas e as funções de1964 - IBM, lançamento da família System/360, primeira marketing. É o elo (forma de apresentação) entre as duassérie de computadores de grande porte, denominando a atividades e possui 05 características básicas:primeira onda da computação.1970 - Início da rede mundial com base no trabalho 1. multimídia – áudio, vídeo, texto e estrutura;desenvolvido por Vinton Cerf e colaboradores para 2. navegação – capacidade de ir ao lugar desejado;estabelecer sistemas que permitissem a cooperação 3. promoção;entre instituições acadêmicas e órgãos de pesquisaengajados em projetos militares. 4. comercial – venda e logística (entrega); 5. relacionamento.1971 - Intel, produziu o 4004, lançando uma família de“processadores num só chip”, o que conduziu, três anosmais tarde, ao desenvolvimento do microprocessador A Interface, que pode ser definida como o ponto8080, de 8 bits, e abriu a porta para o aparecimento do de encontro entre um computador e uma entidadeAltair 8800, o primeiro computador pessoal produzido externa, no caso um operador com um dispositivoem massa. periférico como meio de comunicação2, é onde ocorre a interação entre 2 sistemas, processos etc3 e pode-se1981 - A terceira onda da computação foi liderada pela dizer que é o elo essencial entre o conteúdo dos sitesApple e pela IBM, com a participação da Microsoft, que web e os usuários interessados em acessar este.forneceu à IBM o sistema operacional para o primeiro Com o avanço da tecnologia, pode-se utilizarPC. recursos multimídia, papel de parede (padrão visual de1990 - Utilização comercial da Internet com a ajuda de fundo), desenhos, fotos, ícones com movimento (paraferramentas como os programas de navegação. chamar a atenção para algum elemento na página), ligação com outros sites, e-mail personalizado (por De acordo com o Web Shoppers, publicação anual assunto e por departamento), etc.da empresa eBit, o comércio eletrônico teve umfaturamento de R$ 4,4 bilhões em 2006, com crescimento Ghosh(1998) menciona que a interatividade estáde 76% em relação ao ano anterior, demonstrando o ligada à facilidade de navegação, como do cliente emamadurecimento deste tipo de comercialização. obter as informações que deseja (que poderão estar 89
  • 90. Formas e recursos de comunicação: uma análise dos sites das principais livrarias virtuais do Brasilagrupadas por categorias específicas), à interação com Para Watson, Akselsen e Pitt (1998), o sucesso deoutros clientes ( as salas de “chat” proporcionam trocas um site web está ligado diretamente à capacidade dede experiências e opiniões e, fazem com que os clientes proporcionar novidades em entretenimento, informações ese reunam em torno de um assunto específico sobre serviços, além de dar a possibilidade do usuário se conectarprodutos ou serviços, facilitando a empresa à obter com outros site web. Essa conexão tem como objetivoinformações que proporcionam as mudanças destes), não interromper a navegação, pois de acordo com osconexão com outros sites (a conexão com outros sites autores, o ideal é fazer com que o site web tenha conexãoobjetiva fazer com que o cliente encontre o que deseja, com as ferramentas de pesquisas e diretórios, pois essesacrescentando desta maneira valor à interação, esta ação novos centros são shoppings eletrônicos que podem atrairé conseqüência de parcerias com outros site web) e na milhões de pessoas por dia.facilidade de conduzir a transação (da busca dainformação, à facilidade de compra). Entende-se por entretenimento na web, o oferecimento de games, vídeos, músicas e informações “Uma web site não é alguma coisa para a pessoa que buscam maior interatividade com o cliente, fazendo-oler, é alguma coisa para a pessoa fazer” (Sterne, 1995, retornar várias vezes ao site. É importante ressaltar que op.113). entretenimento oferecido deverá ter as características do Para o autor, a interatividade está ligada público que se pretende atrair. Talvez seja este o fator dediretamente à facilidade e prazer da navegação que sucesso do Orkut e do Second Life, pois além de ofereceremdeverá ser prazerosa através de um visual descomplicado, relacionamento, fazem com que as pessoas se sintam parteonde o cliente possa achar o que procura. de um grupo ( Maslow, apud Watson, Akselsen e Pitt 1998). As fotos são bonitas, porém poderão demorar As informações fornecidas no site deverão estarmuito para “abrir” se o usuário não estiver utilizando relacionadas com o aspecto histórico e com as atividadesequipamento apropriado, fazendo com que a navegação da organização. Essas informações reforçam a imagemnão seja prazerosa. O ideal é a utilização de ícones corporativa e estabelecem a credibilidade. Para Salam, Raocomo índice na primeira página, onde a abertura da página e Pegels (1998) e Bakos (1997), estes dados funcionampoderá se tornar mais rápida para o usuário. O principal como propaganda para o web site, bem como a capacidadeproblema com relação à reprodução de fotos é o fato de da empresa em orientar os usuários com relação ao produtoconter milhões de cores diferentes, enquanto que o que está vendendo, fornecendo informações com relaçãodesenho “estilizado” poderá conter poucas cores e a ao preço, entrega, garantia de pagamento etc.aparência poderá ser atrativa, facilitando desta maneiraa abertura da página para o usuário que possua um As pessoas têm necessidade de fazer parte de umequipamento mais lento. grupo e ter satisfação no relacionamento com outros (Maslow, apud Watson, Akselsen e Pitt 1998) e talvez seja Com relação ao recurso multimídia, Sterne (1995)comenta que só há três motivos para usá-lo: decoração, este o fator de sucesso do Orkut e do Second Life.navegação e informação. De uma maneira geral, um bom site de comércio As imagens decorativas e interessantes no vídeo eletrônico deverá ter o texto de fácil leitura e a navegaçãofazem com que o visual do site fique mais agradável, deverá ser ágil, uma vez que o usuário deverá saber paraporém o objetivo de utilizar elementos na navegação é onde ir, e como ir.ajudar o usuário a não se perder, portanto os Os links deverão estar identificados, bem comocomponentes utilizados comunicam a informação que o botões e tabelas. As escolhas das cores, fundos e os efeitosusuário procura que de outro modo ele não iria obter tão gráficos, deverão ser criteriosos. Se possível, utilizar coresrápido. de links que sejam familiares para os usuários da internet As que pertencem à categoria de decoração como o azul para indicar o link não visitado e o marrompoderão ser mantidas o menor possível, sem perder seu para o link que já foi visitado.apelo artístico, pois grandes imagens poderão serprejudicadas devido ao tempo que se leva para fazer“download”. CONCLUSÃO ANÁLISE DOS SITES Em um anúncio de revista, o leitor olha a páginacomo um todo. Um logotipo grande com poucas palavraspoderá ser trabalhado na Internet, porque a mente A tecnologia utilizada nos sites web é a mesma,registrará a identidade da corporação, pois no Web site diferenciando-se pelo sistema de navegação, pelaas pessoas estão olhando as informações e não a quantidade de informações fornecidas e pelos recursosexposição das fotos. disponibilizados na busca do relacionamento contínuo.90
  • 91. Formas e recursos de comunicação: uma análise dos sites das principais livrarias virtuais do Brasil Percebe-se uma nítida diferença entre os sites método de comercialização. Algumas buscam fazer decom aspectos comerciais (Submarino, Siciliano) e seu site uma coletânea de informações e outras buscamculturais (Arte Pau Brasil, Cultura). A maior quantidade a comercialização direta, sem necessariamente oferecerde informações e recursos disponibilizados está nos informações mais do que o necessário para se comprarsites com características culturais, enquanto que os o livro.comerciais procuram oferecer mais descontos do que O excesso de informações muitas vezes podeinformações. atrapalhar a navegação se esta não for bem organizada. A forma de pagamento também está se alterando, Deverá ser por tema / assunto e com facilidade emuma vez que algumas livrarias oferecem outras opções retornar para onde o cliente quiser.além do cartão de crédito e estão procurando oferecer Todas as livrarias nacionais têm seu sistema deem seu site diversos produtos (áudio/vídeo e papelaria) navegação por índice e fornecem ferramenta de pesquisaalém de livros. por categoria. Nenhuma possui salas de debates (“chat”). Com relação a disponibilização de e-mail para A Cultura menciona que disponibiliza um canalcontato, as livrarias buscam direcionar a correspondência chamado linha direta onde o cliente pode fazer críticas ede acordo com o assunto, dando várias opções de sugestões quanto aos serviços. Com relação aosescolha para o cliente, enquanto que outras fazem com produtos, qualquer cliente pode deixar sua opinião,que o cliente primeiro se identifique através do bastando entrar no “Detalhe” de cada livro e acionar opreenchimento de um questionário. ícone “Opinião Sobre Este Título” e estas são colocadas Há várias diferenças entre as livrarias virtuais no no ar em até 10 dias, assim, segundo a livraria, as salasBrasil, apesar de todas trabalharem com o mesmo de “chat” estariam substituídas.Bibliografia GHOSH, Shikhar. Making Business Sense of the Internet. Harvard – Business Review,BAKOS, J.Y. A Strategic Analysis of Eletronic Marketplaces. v.76, n.2, p.126-135, March-April 1998.MIS Quarterly. V.15, n.3, p.294-310, September 1991. LEWIS, Len. Site Unseen. Progressive Grocer, p. 83-Reducing Buyer Search Costs: Implications for Eletronic 88, Agt./1998.Marketplaces. Management Science, v. 43, n.12, p.1676- PALMER, Jonathan W., GRIFFITH, David. Na1692, Dez./1997. Emerging Model of Web Site Design for Marketing.BERLO, David K. O Processo da Comunicação, São Communications of the ACM – v. 41, n.3, p. 45-51,Paulo: Livraria Martins Fontes, 1999. Mar/1998. 91
  • 92. Formas e recursos de comunicação: uma análise dos sites das principais livrarias virtuais do BrasilMASLOW, Abraham. Motivacion and personality .New York: Harper & Row, 1954.P.80-108.SALAM, A.F.; RAO, H.R.; PEGELS, C.C. Content ofCorporate Web Pages as Advertising Media.Communications os the ACM, v.41, n.3, p. 76-77, Mar./1998.SHIMP, T. A., Promotion Management and MarketingCommunications, Orlando:Harcout Brace Jovanovich, 1990.STERNE, Jim. World Wide Web Marketing. Integrationthe Internet into your Marketing strategy: U.S.A. : WillyPublication, 1995.VASSOS, T. Marketing Estratégico na Internet, SãoPaulo : Makron Books, 1997.WATSON, Richard; AKSELSEN , Sigmund; PITT,Leyland F. Building Mountains in the Flat Landscapeof the World Wide Web : California ManagementReview, v.10, n.2. p. 36-56, 1998.NOTAS* Coordenadora do Curso de Administração da FAMEC1 Estrutura de anéis de interligação de redes. Permiteà operadora efetuar o transporte do tráfego de voz edados utilizando um par de fibras ópticas conectadas2 Webster’s New World Dictionary of Computer Terms -Macmillon3 Oxford American Dictionaray.Oxford University Press,Inc., 198092
  • 93. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnick Geslie da Silva Fernández, Maurice Henrico Marin* Bruno Cesar Febraio** Josyane Lannes Florenzano de Souza***Resumo AbstractEste artigo aborda a relação entre a criminalidade e a This article approaches the relation between crime andtecnologia, retratando a vida de um dos mais famosos the technology, portraying the most famous life of one ofhackers da história, o americano, Kevin Mitnick. Em hackers of history, the American, Kevin Mitnick. In storyrelato de sua própria autoria, Kevin, nega a sua fama, se of its proper authorship, Kevin, denies its fame, if victimdiz vítima de perseguição da imprensa e se defende of persecution of the press says and defends itselfalegando que não cometia crime algum quando tudo alleging that some did not commit crime when everythingcomeçou, já que não havia legislação vigente que tratasse started, since it did not have current law that it treatedos delitos cometidos por ele como crimes legais. No the delicts committed for it as legal crimes. However,entanto, o mesmo declarou-se arrependido de seus atos, the same it was declared sorry of its acts, it admits thatadmite que não agiu corretamente, e hoje, está do outro it does not act correctly, and today, it is of the other sidelado da cultura hacker: desenvolve sistemas de of the culture to hacker: it develops systems of securitysegurança contra invasores. against invaders. Key-Words: Hacker, Technology, Social EngineeringPalavras-Chave: Hacker, tecnologia, engenharia sociale segurança da informação. and Security of the information. 93
  • 94. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnick1. INTRODUÇÃO que decorre de tais aspectos. O profissional da informação tem que refletir a ética, deixando de atuar não apenas como mero disponibilizador de informações, O que antes era uma atividade informacional ligada mas como um valioso colaborador.apenas a dados de acessos, estoques e à entrega depacotes (onde já existia a responsabilidade civil por danos Se por um lado, é incontestável o avanço e oscausados ao usuário pela informação desatualizada ou benefícios incalculáveis que o uso ético da internet trouxeincorreta), hoje, com o fenômeno Internet, alguns multiplicando as informações, por outro, trouxe riscosconceitos precisam ser rediscutidos. Atualmente, não inesperados à tecnologia da informação.se pode fugir dos episódios de crimes cometidos na rede Infelizmente a prática de crimes está presente emmundial, o que exige um compromisso ético do diferentes níveis sociais e econômicos. Muitos podemprofissional com a informação e com sua própria ser os objetivos ou as intenções de quem opera a rede.profissão. Algumas delas sabiamente criminosas. Mas, enquanto Conforme o filósofo Gilberto Dupas (DUPAS, 2001), existe somente as intenções ou a cogitação, nada háo capitalismo global apossou-se por completo dos que se pode fazer. O problema surge no momento emdestinos da tecnologia, libertando-a de amarras que a intenção vira ação e produz resultados demetafísicas e orientando-a única e exclusivamente para importância penal.a criação de valor econômico. As legislações de marcas Os crimes praticados “com” e “contra” oe patentes transformaram-se em instrumentos eficazes computador, não podem deixar de ser uma preocupaçãode apropriação privada das conquistas da ciência, social. A Rede Mundial de Computadores passou apenasreforçando os traços concentradores e hegemônicos do a ser mais um meio para a realização de uma condutaatual desenvolvimento. As conseqüências dessa delituosa. Por exemplo, o crime como o de pornografiaautonomização das técnicas com relação a valores éticos infantil era realizado por meio de vídeos ou revistas,e normas morais foram dentre outras, o aumento da atualmente, encontra-se em sala de bate papo,concentração de renda e da exclusão social, o perigo ferramentas de comunicação (como messenger), emailsde destruição do hábitat humano por contaminação e de e sites. Mudou a forma como o crime é praticado, mas amanipulação genética. essência do crime permanece a mesma. A evolução das técnicas computacionais e o O computador pode ser um meio para a práticacrescimento da popularidade da informática na sociedade de crimes já previstos na lei, como por exemplo:têm causado o aumento das discussões sobre ética na ameaças; crime contra a honra, aqueles praticados viacomputação. Mas o significado da palavra ética tem e-mail (difamação, injúria, calúnia); tráfico de drogas;confundido muitos ao ser comparado com o significado apologia ao crime; homicídio doloso, na hipótese de umade moral. Moral é aplicada quando se quer ditar regras pessoa, intencionalmente, interferir na programação dede conduta a uma pessoa ou a um grupo. Ética é a algum aparelho cujo o desligamento venha causar aciência que estuda as várias morais, comparando-as e morte de um paciente que depende o uso. São condutasverificando sua legitimidade, se não são influenciadas, que trazem danos e que não são reconhecidas pelo Diretose realmente são modelos de referência para a tomada Penal.de decisões. É absurdo pensar que o delito praticado por meio A ética se baseia muito no bom senso pessoal do computador dependerá de uma análise concreta dopara estabelecer se uma moral atende às necessidades caso, levando em consideração a conduta do delinqüente,e desejos de um grupo/pessoa sem agredir os direitos e a legislação em vigor do país onde o crime for cometido.da sociedade em volta. Essa atitude subjetiva tem criado A Rede Mundial tornou-se num rico campo paracontrovérsias, pois toda ciência baseada no senso as mais variadas atividades ilícitas. As diferentescomum é duvidosa, porque cada pessoa pensa de um legislações entre os países só contribuem parajeito e o que é “certo” para alguém pode ser “errado” multiplicar, ainda mais, esse problema. A conduta que épara outrem. E como é baseada nas morais, que são considerada crime em um país pode ser lícita em outrobem variadas, a ética não é imutável, variando com o (às vezes essa diferença existe até em estados de umlugar, a época e fatores externos, deixando de ser uma mesmo país, como ocorre nos Estados Unidos). Essasciência 100% confiável. (MASIERO, 1994) diferenças dificultam as investigações e dispõe-se de Um conjunto de compromissos éticos deve ser cooperação entre os países.encarado, como qualidade de produto e serviços, valor Para o autor Manuel Castells (CASTELLS, 2003),estratégico e social da informação, a confiabilidade da que é o principal analista da Era da Informação e dainformação prestada e a responsabilidade profissional Sociedade de rede, importante filósofo do ciberespaço,94
  • 95. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnicka internet é a espinha dorsal das sociedades que a profissão não seja mal-vista pelo restante dacontemporâneas e da nova economia mundial. Ele sociedade.comenta que a internet afetou a ordem social, cultural, aparticipação política, a comunicação e a vida urbana. E Um código de ética consiste também em umdiz que ela tornou-se a alavanca na transição para uma conjunto de diretrizes que esclarecem as circunstânciasnova forma de sociedade. em que cada um dos mandamentos se aplica. Ou pode haver um conjunto de casos para estudo comparativo, As leis e obrigações tanto dos profissionais quanto auxiliando na resolução de novas situações. O código,usuários devem crescer nas mesmas proporções em que junto com seus suplementos, serve como base parase dá o avanço da tecnologia de informação. julgamento de casos mais complexos, utilizando Segundo Pierre Levy (LEVY, 1993) o principal princípios éticos que derivam de diretivas mais gerais.agente de transformação das sociedades atuais é a A necessidade de um código de ética se mostraTécnica. Ele diz que por trás do óbvio, estas técnicas quando nos deparamos com uma divergência de opiniõestrazem alterações em nosso meio de conhecer o mundo, devido aos envolvidos em uma ocorrência se acharemnas formas de representar este conhecimento, e na ambos prejudicados e protegidos pelos preceitos éticos,transmissão destas representações através da às vezes mal interpretados. Nestes casos, uma análiselinguagem. O jogo da comunicação consiste em, atravésde mensagens, precisar, ajustar, transformar o contexto detalhada dos mandamentos acompanhada de bomcompartilhado pelos parceiros. Ao dizer que o sentido senso de partes neutras podem definir a atitude correta.de uma mensagem é uma “função” do contexto, não se Não há dúvida da importância da ética para odefine nada, já que o contexto, longe de ser um dado desenvolvimento da humanidade, pois sem um conjuntoestável, é algo que está em jogo, um objeto de princípios humanitários visando o bem comum, asperpetuamente reconstruído e negociado. Palavras, civilizações já teriam se autodestruído. Mas, um códigofrases, letras, sinais ou caretas interpretam, cada um à de ética não é o suficiente para o progresso moral desua maneira, a rede das mensagens anteriores e tentam um povo. É preciso que haja uma concordância mínimainfluir sobre o significado das mensagens futuras. entre as nações sobre princípios básicos como justiça, igualdade, dignidade, cidadania, solidariedade, etc. para2. Códigos de Ética que estes possam ser postos em prática. E isso ainda não é o bastante. É necessário que cada cidadão assimile estes princípios e incorpore-os na prática diária, Um código de ética é formado basicamente dediretivas voltadas para seis aspectos de obrigações éticas zelando pelo seu cumprimento.(MASIERO, 1994): A maior dificuldade em se falar de ética na• para com a sociedade em geral, zelando pelo bem computação é que, como qualquer pessoa de qualquer estar de todas pessoas sem qualquer discriminação, área de estudo pode estudar informática, inclusive visando construir ou manter uma sociedade livre, pessoas que não fazem qualquer curso superior, fica justa e solidária; difícil criar uma regulamentação que todo profissional do setor deve seguir ao se deparar com situações em que é• para com os empregadores, usualmente quando preciso julgar o que é correto e o que é incorreto. Não estes não tem conhecimento na área e o existe um código de ética oficial, como na Medicina ou supervisionamento técnico do trabalho é todo realizado com base na confiança; no Direito, mesmo porque se houvesse, não abrangeria a todos os praticantes da área, atingindo apenas àqueles• para com os clientes, se estes forem leigos como que tomassem conhecimento através de disciplinas da no caso dos empregadores, quando o profissional é graduação, talvez eletivas. um prestador de serviços ou consultor; Não sendo a profissão regulamentada, não existem• para com a sociedade de classe, no caso, a órgãos fiscalizadores ou estruturas sindicais que zelam comunidade computacional, com o intuito de proteger os interesses da associação criadora do pelo bom desempenho do profissional. Em alguns países, código e de seus membros; foram criadas sociedades que tentam suprir essa necessidade, como a ACM (Association for Computer• para com os colegas de profissão, que compartilham Machinery), que possuem inclusive códigos de ética, os mesmos interesses e colaboram para o bem estar entretanto a punição pela não-obediência às diretivas de todos; geralmente limita-se ao banimento da associação, sendo• para com a profissão em geral, com o objetivo de o comportamento dos membros praticamente não difamar os outros trabalhadores da área e evitar determinado pela consciência individual. 95
  • 96. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnick No Brasil existe a SBC (Sociedade Brasileira de arquitetos, construindo ou supervisionando a elaboraçãoComputação), que exerce grande influência na de especificações, ora como contadores, analisandocomunidade da área de informática, uma vez que a maioria financeira e comercialmente o mercado antes de iniciardos professores universitários da área são seus o desenvolvimento de softwares e sistemas. Sendoassociados, ajudando a formar profissionais assim, o Código de ética dos Contabilistas também podequalificados.(SBC, 2008) Porém a SBC não possui um ser uma fonte de consulta, principalmente paracódigo de ética para orientar seus membros, apenas um consultores, peritos, auditores, proprietários de micro-projeto baseado no código da ACM e da Britsh Computer empresas de informática ou para qualquer pessoa queSociety. A SUCESU (Sociedade de Usuários de trabalhe ou se relacione com pessoas da área contábil.Informática e Telecomunicações) é outra entidade atuanteno ramo, mas que também não possui um código 3. Caso do Hacker1 mais famoso da história: Kevindestinado a indivíduos por ser composta basicamente Mitnickpor instituições. O Instituto para Ética da Computaçãocriou um pequeno código de conduta que ficou conhecidocomo “Os Dez Mandamentos para Ética na Informática”, 3.1. Infânciatranscrito a seguir: Nasceu em 6 de agosto de 1963, em Van Nuys,• Você não deverá usar o computador p ara produzir Califórnia. Morava apenas com sua mãe, pois foram danos a outra pessoa; abandonados por seu pai quando tinha 3 anos de idade. (MITNICK, 2007)• Você não deve interferir no trabalho de computação de outra pessoa; Com doze anos ele já sabia como viajar por toda Los Angeles sem pagar nada e desde pequeno gostava• Você não deve interferir nos arquivos de outra pessoa; de mágica, através destas coisas descobriu o prazer de• Você não deve usar o computador para roubar; iludir as pessoas, mais tarde aprendeu a dar golpes telefônicos, logo o próximo passo foi começar a invadir• Você não deve usar o computador para dar falso sistemas. testemunho; Kevin começou a sua vida hacker ainda• Você não deverá usar software pirateado; adolescente.Aos 12 anos, desenvolveu uma técnica para• Você não deverá usar recursos de computadores de conseguir viajar de graça pelos ônibus de sua cidade de outras pessoas; residência, Los Angeles (primeiro desvio de conduta). Justificando-se como filho de “mãe solteira” (pois o seu• Você não deverá se apropriar do trabalho intelectual pai abandonou a família quando Kevin ainda tinha três de outra pessoa; anos de idade), ele acabou crescendo sem a tutela• Você deverá refletir sobre as conseqüências sociais presente de sua genitora, e criou ele mesmo formas de do que escreve; sobreviver “sozinho” numa grande cidade americana. A tática de conseguir ludibriar o precário sistema de• Você deverá usar o computador de maneira que marcação de passagens de ônibus vigente na época é mostre consideração e respeito ao interlocutor. um perfeito exemplo de como Mitnick adaptou-se ao Aos profissionais formados nos novos cursos de meio e às suas condições de vida.engenharia da computação é dada a possibilidade de se Kevin Mitnick se tornou o hacker mais conhecidoafiliar ao CREA (Conselho Regional de Engenharia, e temido dos anos 90 após seus feitos virarem assuntoArquitetura e Agronomia) e, com isso adotar suas normas de primeira página na revista New York Times em julhoe o Código de Ética do CONFEA (Conselho Federal de de 1994.Engenharia e Agronomia). Entretanto, as recomendaçõesdesse código não são específicas para a informática,negligenciando temas de repercussão na atualidade, 3.2. Adolescênciacomo a privacidade, confidencialidade, propriedade, etc. Na adolescência, tradicional época deCriado há mais de vinte anos, este guia visava esclarecer descobertas do ser humano, o futuro famoso hackerdúvidas éticas no campo da engenharia tradicional, não também notou em si um potencial para manipular assendo propriamente destinado a trabalhadores de pessoas, característica fundamental para acomputação, a não ser que passe por uma atualização argumentação de sua futura teoria, (primeiro encontropara abranger essas novas necessidades. com a Engenharia Social2 ), a qual prega que a Acredita-se que os profissionais da área de manipulação da tecnologia para invadir sistemas podeinformática se comportam ora como engenheiros ou ser complementada, ou até mesmo suprimida, pela96
  • 97. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnickmanipulação humana, por meio de artifícios companhias importantes, ora por curiosidade, ora porcuidadosamente preparados para se obter das pessoas solicitação de terceiros. Neste ponto, o hacker protege-certas as informações desejadas. (MITNICK, 2005) se, por dois lados: o primeiro diz respeito à ação do engenheiro social, que se vale de fraudes e persuasão Segundo Kevin existe duas sub-especialidades de de pessoas para se obter informação, e não vantagenscontravenção, o estelionatário, alguém que engana e financeiras (estelionato). Assim, ele diz que a suatrapaceia pessoas pra tirar-lhes dinheiro e o “Engenheiro categoria, inserida na engenharia social, não ésocial”, pessoa que usa fraude, influência e persuasão exatamente subversiva. Além disso, ele alega que, a partircontra negócios, geralmente visando obter informações do momento em que foi praticando ainda mais a suapertencentes à outra sub-especialidade. Uma das recém-criada teoria (para a qual ele ainda não havia semaneiras que Kevin usava para desenvolver habilidades atentado em minúcias), relacionou-se com pessoas deneste seu “ofício” era escolher um pedaço de informação má índole, confiou nelas e acabou sendo, por muitassem importância e ver se conseguia obtê-la da pessoa vezes, penalizado por seus atos, mas tendo sidodo outro lado do telefone, do mesmo modo treinava denunciado por seus supostos parceiros.truques de mágica. A facilidade de persuasão Kevin deveter herdado da família de seu pai, pois a mesma atuava Mesmo confessando que obteve acesso nãohá gerações na área de vendas. Logo Kevin descobriu autorizado a sistemas de computadores em algumasque com esta “tática” poderia conseguir praticamente das maiores corporações do planeta, ele afirma que tudoqualquer informação que desejasse, confirmando isto num foi apenas por curiosidade. Ele usava meios técnicos edepoimento ao congresso para senadores, falou também não técnicos para obter o código de fonte de váriosque (MITNICK, 2007): sistemas operacionais e dispositivos de telecomunicação para estudar sua vulnerabilidade e seu funcionamento “Obtive acesso não autorizado a interno. Também afirma que nunca destruiu informações, sistemas de computadores em nem usou ou tornou pública qualquer informação obtida, algumas das maiores corporações explica que as empresas continuariam vulneráveis a do planeta e invadi com sucesso estragos muito maiores se suas atividades não tivessem alguns dos sistemas de compu- alertado sobre os elos fracos na sua cadeia de tadores mais resistentes. Usei segurança. meios técnicos e não-técnicos para obter o código fonte de vários Essas declarações de Mitnick não foram sistemas operacionais e de dispo- suficientes para livrá-lo da prisão, então foi pre pelo FBI sitivos de telecomunicação para (Federal Bureau of Investigation) em 1995, ficou cinco anos no Instituto Corretivo Federal de Lompoc, na estudar suas vulnerabilidades e seu Califórnia. Ele afirma que o tratamento recebido do funcionamento interno, tudo isto foi governo federal não foi devido aos crimes, mas para se apenas para satisfazer minha transformar num exemplo. (MITNICK, 2007) curiosidade, ver o que poderia fazer e para descobrir informações “Eu não merecia ser tratado como secretas sobre sistemas operacio- um terrorista ou como um criminoso nais, telefones celulares e qualquer violento: minha casa foi vasculhada coisa que cutucava a minha sem um mandado de busca; fui curiosidade” colocado na solitária durante meses; meus direitos constitucionais Ele colocou em prática tal requisito quando, aos fundamentais, garantidos para17 anos, já dominava por completo o funcionamento da qualquer acusado de crime, foramcompanhia telefônica que mantinha as redes telefônicas negados; minha fiança foi negada,de Los Angeles, tendo absorvido informações de diversos assim como uma audiência detipos, de operacionais a logísticas, de jargão técnico à fiança; e fui forçado a gastar váriosestrutura da empresa. E tudo isso obtido de pessoas da anos lutando para obter do governoprópria empresa, sem nunca ter entrado na mesma. as evidências para que meuSegundo Kevin, foi aí que começou a se desenhar o seu advogado indicado pela justiçafuturo que desaguaria no que ele é hoje. pudesse preparar minha defesa.” Enfim, Kevin Mitnick conseguiu liberdade3.3. Fase Adulta condicional no ano de 2000. Ficou proibido de se aproximar de qualquer computador ligado à rede por três Kevin foi envolvendo-se em uma série de anos, nesse período escreveu dois livros (i) A Arte deempreitadas no mundo hacker, invadindo sistemas de Enganar (ii) A Arte de Invadir. 97
  • 98. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnick E chega então ao acontecimento, classificado 3.4. Atualmentecomo um marco por Kevin, que é a divulgação de uma Hoje em dia Kevin Mitnick atua do outro lado domatéria sobre ele mesmo no The New York Times, na “jogo”, pois é dono de uma consultoria de segurança equal um jornalista rancoroso (conforme a opinião de ajuda governos, empreendimentos e pessoas a prevenir,Mitnick) aponta o como criminoso impiedoso da grande detectar e responder a ameaças na segurança derede, e o qualifica como o maior hacker do mundo. Kevin informação. E ainda alerta que o hacker de hoje em dianão mede palavras para falar de John Markoff, o referido é mais perigoso não pela competência, mas porque ojornalista. Para o hacker, trata-se de uma pessoa sem objetivo de invasão mudou, nos anos 80 e 90 as pessoasescrúpulos, compromissado com os seus próprios se tornavam hacker por hobby, era tudo em busca dointeresses, que seria fazer fortuna a qualquer custo. Ele desafio intelectual, agora o objetivo principal de se tornarteria agido desta forma junto com um amigo, que auxiliava hacker é tirar proveito financeiro da empresa invadida ouo jornalista na confecção de um livro de autoria de Markoff. derrubar uma companhia concorrente.Trata-se de Tsutomu Shimomura, especialista em Kevin conclui dizendo que fica feliz em saber quesegurança eletrônica, pelo qual Mitnick também alimenta as gerações mais novas o admiram. Mas não encorajabastante desprezo. ninguém a invadir computadores como ele fez. Primeiro, porque não é algo socialmente aceitável, e segundo, Segundo o relato de Kevin, essa antipatia mútua porque vão ter sérios problemas com a Justiça. E pornasceu de uma recusa do próprio hacker em participar fim admite que errou.do livro de Markoff e Shimomura. Assim, ambostransformaram-no num vilão do ciberespaço, e teriamparticipado ativamente na prisão de Kevin, em 1995. 4. Considerações Finais Apesar de tantas objeções, a SBC assume que a Pesadas acusações caíam sobre os ombros de regulamentação da profissão é inevitável, e cedo ou tardeMitnick na época, inclusive a de que o hacker causara, algum projeto de lei, como o do deputado Silvio de Abreuem suas ações piratas pela rede, grandes prejuízos a (PDT/MG), que regulamenta a profissão de analista demegaempresas, o que Kevin nega até hoje. Ele admite sistemas, será aprovado. Portanto, ela toma a frente,ter provocado perdas a elas, mas nada comparado às criando sua própria proposta bem ao estilo do copyleft3enormes cifras divulgadas pelos jornais e revistas, sob o de outro projeto, dando ampla liberdade para o exercíciocomando de Markoff e Shimomura. Kevin vai ainda mais profissional, utilizando de um artifício legal e citandolonge: não reconhece ter destruído qualquer informação inclusive artigos da Constituição para justificar suaadquirida pela ação hacker, e nunca divulgou informação posição. Mas, não apóia a criação de qualquer conselhoalheia a quem quer que fosse. para proteger seu código. Mitnick, além de se dizer vítima de perseguição, Com ou sem regulamentação, a sociedadetambém alegou que foi deixado à margem do sistema necessita de um conjunto de normas para seremlegal norte-americano, o que se sabe que ocorre em seguidas não só pelos profissionais de informática comomuitos casos. Ele disse que fora privado de vários dos por qualquer aventureiro que se atreva a experimentar o poder da computação e verificar o quão frágeis são asseus direitos legais, como fiança, audiência preliminar, pessoas frente ao computador. Esse normativo precisatelefonemas limitados, tendo ficado quatro anos e meio ser dinâmico para acompanhar a constante aceleraçãopreso sem nenhum tipo de audiência judicial. Para das mudanças que ocorrem no contexto da ética nacomprovar a sua condição na época, Mitnick alega que informática.nenhuma das empresas que supostamente sofreraprejuízos após a sua intervenção queixou-se formalmente É necessário pensarmos não apenas no combate interno (dentro de nossas fronteiras) dos crimesdessas perdas. cometidos através da rede de computadores, mas Kevin Mitnick, ao fim de sua prisão, acabou ficando também nos adiantarmos no palco internacional, pois jáfora de circulação por cinco anos. Em 2000, obteve é de conhecimento geral, o casamento da criminalidadeliberdade condicional, e mesmo assim, foi proibido de com a tecnologia.utilizar qualquer computador em rede por mais três anos. Em relação ao hacker Kevin Mitnick, a pesquisaO hacker saiu da cadeia com outros propósitos na vida: observou que o mesmo foi anti-ético e atuou de formareconheceu a sua parcela de culpa em suas atitudes ilícita, apesar de em vários momentos (entrevistas epassadas. Mitnick admitiu que cometeu erros, mesmo publicações em livro) não considerar errada suas ações.agindo pela curiosidade e pelo desafio, pois invadira a Apesar de ter sido declarado inimigo número 1 doprivacidade de terceiros e praticando atos ilícitos. ciberespaço pelo jornalista John Markoff que se tornou98
  • 99. O Casamento da Criminalidade com a Tecnologia: História do famoso Hacker Kevin Mitnickcapa da revista The New York Times em 1994 com a 1 Hacker: termo usado para identificar uma pessoa quemanchete “Combinando magia tecnológica com uma passava a maior parte do tempo mexendo em hardwaremalícia de anos de estelionatário, Kevin Mitnick é um e software para desenvolver programas mais eficientesprogramador de computadores enfurecido”. ou para pular fases desnecessárias a fim de executar uma tarefa mais rapidamente. (MITNICK, 2003) 2 Engenharia Social: em segurança da informação, a5. Referências Bibliográficas engenharia social refere-se às práticas utilizadas para obter acesso a informações importantes ou sigilosas em organizações ou sistemas por meio da enganaçãoCASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: reflexões ou exploração da confiança das pessoas.sobre a internet, os negócios e a sociedade.Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. Rio de Janeiro: 3 Copyleft: licença Copyleft requer que suas modificações,Jorge Zahar, 2003. 243 p. ou extensões do mesmo, sejam livres, passando adiante a liberdade de copiá-lo e modificá-lo novamente.DUPAS, Gilberto. Ética e Poder na Sociedade daInformação. São Paulo: Editora UNESP, 2001. 134 p.LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: O futurodo pensamento na era da informática. Tradução deCarlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed 34, 1993. 208p.MASIERO, Paulo César. Ética para Profissionais emComputação. São Paulo, 1994. Disponível em<www.uri.com.br/~mzp/cursos/ETICA.htm>. Acessadoem 02/08/2003.MITNICK, Kevin; SIMON, William. A Arte de Enganar.São Paulo: Pearson Education. ISBN: 8534615160, 2003.290 p.MITNICK, Kevin; SIMON, William. A Arte de Invadir.São Paulo: Pearson Education. ISBN: 8576050552. 2005.256 p.MITNICK, Kevin. A História de Kevin Mitnick contadapor ele mesmo. Disponível em http://www.numaboa.com/informatica/aprendiz/228-mundo-hacker/792-Mitnick em janeiro de 2007. Acessado emjaneiro de 2007.SBC. Sociedade Brasileira de Computação. Educação:Grupos de Trabalho. Disponível em http://www.sbc.org.br. Acessado em julho de 2008.NOTAS* Alunos Curso Sistemas de Informação - FAMEC (5ºsemestre) - geslief@gmail.com, ndinene@yahoo.com.br**Aluno Curso Sistemas de Informação - FAMEC (3ºsemestre) - bfebraio@sabesp.com.br*** Coordenadora do Curso Bacharelado em Sistemasde Informação - Faculdade Montessori – FAMECjosyane@terra.com.br 99
  • 100. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livros Marcio Gonçalves* Dorlivete Moreira Shitsuka** Eduardo Penna Gouvêa *** Ricardo Shitsuka****Resumo AbstractOs escritores, professores, digitadores e pessoas que Writers, teachers, typists and persons who frequentellyutilizam computadores com muita freqüência em suas uses computers in their professional activities are proneatividades profissionais estão sujeitos a contrair alguma to get anykind o professional deseases related to theirdoença profissional relacionada com a atividade que kind of work. In this study, authors presents a caseexercem. No presente artigo apresenta-se o caso de um study of a professional that works as a writter and alsoprofissional que exerce a atividade de escritor e professor. professor, and uses computer every day. It’s analyzedAnalisa-se o posto de trabalho do mesmo em termos de the place of work of this professional, in terms ofergonomia e se sugere alterações no sentido de eliminar ergonomy science and it’s suggested alterations in theou minorar as dificuldades encontradas. sense to eliminate ou diminish the dificulties found.Palavras-chave: Ergonomia; Ambientes Informatizados; Keywords: Ergonomy; Computer environment; HumanInterface homem-máquina. LER. computer interaction, REL100
  • 101. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livros1. INTRODUÇÃO 2. REVISÃO DA LITERATURA Com a evolução da sociedade e das Tecnologias Na humanidade, grande parte das pessoasde Informação e Informação, cada vez mais a vida humana precisa trabalhar diariamente para garantir seu sustentoestá ligada ao uso de sistemas computacionais. e o de suas famílias. As pessoas, no entanto não são iguais e nem os ambientes nas quais elas trabalham Dia a dia projetistas de hardware e software são sempre padronizados e voltados para a satisfaçãooferecem novidades em computadores, teclados, do trabalhador. Entre os principais elementos dacelulares, equipamentos eletrônicos, máquinas diversidade humana e do ambiente de tarefas podemosautomáticas, robôs, identificação de voz, tutoriais, citar as habilidades e diferenças físicas (masculino,projetos institucionais, ensino a distância, sistemas feminino, crianças, adultos, europeu, asiático, gordo,multimídias e hipermídia, entre outros. No entanto, magro, alto, baixo, etc.). Outro fator importante são aspercebe-se que esses projetistas em muitos casos, se habilidades cognitivas, que são as experiências e oesquecem de conhecer e entender a comunidade de conhecimento do ser humano.usuários e o conjunto essencial de tarefas realizadas.Os usuários ficam então, encurralados pelos sistemas Segundo Zambalde e Alves (2003), os elementose pela tecnologia. da interface e do ambiente têm profunda influência na qualidade e no uso de um software ou hardware. Para As pessoas que têm que trabalhar continuamente estes autores, é fundamental entender que qualquerem ambientes, os quais, de modo geral, não são interface baseada em software ou hardware, quando bemergonomicamente favoráveis. Essas pessoas, projetada deve desaparecer, ou seja, não deveeventualmente, podem, ao longo do tempo, apresentar representar problemas para os usuários, fazendo comproblemas diversos de saúde relacionados com a sua que os mesmos se concentrem exclusivamente em suasatividade profissional. Este pode ser o caso de escritores atividades, seja no trabalho, na pesquisa ou no lazer.digitais, ou autores de obras que usam computadores,professores informatizados, digitadores e outros que Neste contexto, pode-se afirmar que estamospossuem uma grande produção por meio eletrônico, ou vivendo um momento vital e estratégico, para osseja, que estão freqüentemente escrevendo utilizando profissionais que são desenvolvedores de interfaces, sejaferramentas computacionais. no hardware e software. Tem-se a tecnologia. É A diversidade de habilidades, experiências, necessário estudar, conhecer e elaborar a melhormotivações, personalidades e estilos de trabalho dos estratégia para usá-la com eficiência e eficácia, levando-seres humanos desafiam os projetistas de interfaces se em conta o grande número de usuários e de tarefas.entre homens e máquinas. Estudar e entender essas É necessário sempre ter em mente que o uso dadiferenças físicas, intelectuais e culturais dos usuários tecnologia pode causar impactos dos mais diversos tipose conjunto de tarefas (métodos, modelos, processos e na vida dos usuários e das organizações.procedimentos) é vital para os profissionais da área deSistemas e Tecnologia de Informação, em particular para 2.1. Interface homem-máquinaos que pretendem atuar na área das interfaces humano-computacionais. (ZAMBALDE; ALVES, 2003). As pessoas têm que conviver com as máquinas e O primeiro passo, ou primeiro problema, é entram em contato com as mesmas ou controlar elasidentificar os postos de trabalho com problemas, ou por meio das interfaces. Uma interface homem máquinamelhor, identificar os problemas dos diversos postos de é o local onde podem ocorrer as interações entre usuáriostrabalho informatizado. Como somente no presente ano e computadores, e no caso poderiam ocorrer por meiode 2007, estima-se que serão comercializados mais de10 milhões de computadores no Brasil, o tema apresenta do monitor e suas telas, teclado, mouse, caixas de somuma relevância muito grande. etc. O presente estudo tem como objetivo apresentar Dix et al (1993) enxergavam a interface entreum estudo de caso de ergonomia de um posto de pessoas e máquina de um modo mais amplo que otrabalho informatizado de autor de livros. considerado anteriormente. Eles consideravam também o meio ambiente neste contexto. Segundo os mesmos A seguir serão desenvolvidos os itens: REVISÃO “uma interface homem-máquina (IHM) compreende osDA LITERATURA, METODOLOGIA, DESENVOL- comportamentos do usuário (ser humano) e asVIMENTO, RESULTADOS, DISCUSSÃO DOS características do sistema (desenvolvimento ou designRESULTADOS, CONCLUSÕES e REFERÊNCIAS e documentação) do equipamento (hardware) e doBIBLIOGRÁFICAS. ambiente (aspectos físicos e impactos da informa- 101
  • 102. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livrostização)”. As interfaces estão ligadas à questão da “Ryoki Inoue é o escritor maisergonomia pois uma depende da outra para ser bem produtivo do mundo, o mais prolíficosucedida. do planeta. É capaz de fazer surgir um título novo durante a madrugada, martelando as teclas impiedosa-2.2. Ergonomia mente. Esse paulista, morador ilustre de Piúma, no Espírito Santo, é um ex-cirurgião torácico com Ergonomia é a ciência que estuda a adequação gestos macios e tipicidade dosdas condições de trabalho às características orientais que vão envelhecendopsicofisiológicas dos trabalhadores de modo a homeopaticamente. Mesmo assim,proporcionar um máximo de conforto, segurança e a rapidez na criação se traduz emdesempenho eficiente (Grandjean, 1998). números invejáveis: por anos, dominou 95% do mercado de pocket No material didático do Centro Universitário books - desses vendidos em bancasClaretiano, encontramos que: “Ergonomia deriva de duas -; já ultrapassou os 10 milhões depalavras gregas: ERGOS, que significa trabalho, e exemplares vendidos; usou peloNOMOS, que significa leis ou normas”. (BASSOLI, 2007) menos 39 pseudônimos; e escreveu O Dicionário Aurélio eletrônico define ergonomia, de tudo: de faroeste à ficçãocomo sendo: “conjunto de estudos que visam à científica, de novelas românticas aorganização metódica do trabalho em função do fim livros de guerra, de misticismo aproposto e das relações entre homem e máquina”. apud suspense e intrigas políticas”. EleBASSOLI (2007). chegou a escrever 20 páginas por hora, uma a cada três minutos!” Outra definição de ergonomia enriquece o contextodo presente estudo e melhora a visão do leitor. Este é o Nosso País possui grandes valores, como é o casocaso de Silva (1998) apud Bassoli (2007) o qual do escritor mencionado, o qual, segundo o website, éafirma que: recordista em escrever obras. “A ergonomia é o estudo do Existe uma tendência, que pode ser observada relacionamento entre o homem e o na sociedade, principalmente, nos meios acadêmicos, de se escrever obras, crescentemente em meio digital, seu trabalho, equipamento e pois dessa forma, se facilita a correção da mesma, a ambiente, e particularmente a revisão e até o envio para locais distantes, por meio da aplicação dos conhecimentos de grande rede que é a Internet. anatomia, fisiologia e psicologia na solução surgida neste relaciona- Há também quem aconselhe a escrever e publicar mento”. com mais facilidade na Web. Este é o caso do website de Alessandro Martins (2007) que apresenta 14 razões Desta forma, mencionada nos parágrafos para uma pessoa publicar o trabalho na internet e nãoanteriores, pode-se entender, que a ergonomia é uma em papel. Na web existem escritores de Blogs, sites eciência importante e necessária nesses tempos atuais documentos que ficam pendurados em sites.para se buscar mais qualidade de vida para o trabalhador,para evitar perdas pelas organizações e para se alcançar Seja qual for a motivação ou o tipo de escritor oua produtividade e os benefícios almejados por qualquer autor de obras, o fato é que o mesmo estará manipulandosociedade competitiva. grande quantidade de palavras e estará digitando ou escrevendo em papel, forçando a extremidade dos membros superiores. Quando a quantidade de obras é2.3. O Escritor pequena, o escritor provavelmente não sentirá tanto o desgaste e as condições ambientais influindo no seu trabalho, porém, a proporção em que, o mesmo precisa Segundo o Dicionário Melhoramentos, escritor é produzir quantidades crescentes de obra, em algumaquele que escreve qualquer tipo de ensaio literário. Para momento de sua vida produtiva, pode vir a sentir doreso website Imprensa Gaveta (2007), o escritor mais nas mãos, braços e problemas relacionados com o usoprodutivo do mundo é Ryoki Inoue, de monitores de computador etc.102
  • 103. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livros3. METODOLOGIA 4. DESENVOLVIMENTO Neste trabalho será feito um estudo comparativo 4.1. Apresentação do professor.de um local de trabalho informatizado de um escritor emsua residência. O autor é professor universitário, consultor e Inicialmente serão tiradas fotos deste ambiente empresário, e, nas horas livres ele escreve livros e muitosde trabalho, será feito um estudo detalhado deste local artigos científico-acadêmicos. Atualmente ele possuide trabalho e, posteriormente serão apresentadas as mais de dez livros já publicados em editoras como a Érica, na Cidade de São Paulo e editoria Ciênciamelhorias, caso seja necessário e, finalmente, serão Moderna, na Cidade do Rio de Janeiro e outras. Alémapresentados as melhorias implantadas. das obras acadêmicas ele, freqüentemente, escreve Como se trata de um estudo de baixa artigos científicos para revistas universitárias.amostragem, não serão utilizados critérios estatísticos. O professor fica diariamente sentado no O escritor é um autor de obras que vai utilizar um computador em torno de 4 a 5 horas diárias, fora os outros trabalhos em outras empresas.computador e uma impressora. O computador é um pentium 4, que possui ummonitor digital de matrix ativa de 15 polegadas. 4.2. Apresentação do ambiente de trabalho No mesmo local de trabalho do autor, existe outrocomputador na mesma configuração, para trabalho de O ambiente de trabalho do escritor de livros sesua esposa. Ela é professora e leciona em Faculdade, localiza na sala de estar de sua casa.além de estar cursando outra Faculdade. Existe uma mesa de computador, e nesta mesa estão instalados dois computadores, conforme Os teclados são do tipo comum ABNT e são mencionado anteriormente.trocados a cada meio ano, devido ao excesso deutilização. Os mouses também são simples e seguem O escritor conta com a ajuda de sua esposa aesse esquema de troca. qual também escreve e realiza a conferência de todas as obras, além de fazer seus trabalhos como: preparar Pelo fato de a sala não ser muito grande, só cabe aulas, provas e exercícios para seus alunos da Faculdadeuma mesa de computador, onde ambos os computadores onde leciona, além de fazer os trabalhos da Faculdadeestão instalados, conforme Figura 1. onde estuda. Como a sala é relativamente pequena, não há espaço para duas mesas de computadores. Além da mesa do comput ador, existe uma impressora a laser ao lado de um dos computadores, um equipamento de FAX do outro lado e duas linhas telefônicas, fora dois celulares, e uma banqueta sem encosto, onde ele utiliza quando está trabalhando. 4.3. Condições atuais de trabalho O autor, como já foi dito anteriormente, trabalha em casa de 4 a 5 horas por dia, no sábado, domingo e feriado, ele trabalha por um período aproximado de 8 a 10 horas por dia. O local que ele se senta é um banco sem encosto. O mouse é colocado na mesa do lado, onde ele fica com o braço esticado o tempo todo. A iluminação também não é muito boa, é fraca. Depois de algumas horas de trabalho, o escrito Figura 1 - Instalação de 2 micros. está com dor nas costas, dor de cabeça e dores no 103
  • 104. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livrosbraço, além de dores nas vistas, nas juntas e algumas Na Figura 4, pode-se observar o bravo professorvezes, dores de cabeça. digitando no computador, em geral, com o braço suspenso, fato que lhe rende boas dores de braço e A seguir mostraremos algumas fotos do local de ombro. Porém, o incansável mestre, faz auto-massagenstrabalho do autor, conforme ilustrado abaixo. nos braços e ombro e continua valorosamente, enfrentando as dificuldades.4.3.1. Fotos do local de trabalho do professor: A seguir serão mostradas fotos do local de trabalhodo professor (Figuras 2, 3, 4, 5 e 6). Na Figura 2, pode-se observar a banqueta de trabalho que leva o professora ficar ligeiramente corcunda, fato que já o levou a receberpiadas de amigos sobre o corcunda de “notre ecóle”. Figura 4 - Altura do monitor. Não bastasse estar numa posição corcunda e com dores nos braços e ombro, também o valoroso escritor não tem apoio para as pernas, no restrito espaço. Este fato lhe rende também, após horas de trabalho e esforço físico, umas belas dores nos músculos da perna, calcanhar, tornozelo e dedos dos pés. (Figura 5) Figura 2 - Cadeira sem encosto A Figura 3 ilustra a mesa, onde o professor utilizao mouse. Como a mesma é distante da mesa docomputador, há a necessidade de esforço físico. Estefato, aparentemente, não desanima o professor que afirmaque está fazendo ginástica de alongamento. Porém, o Figura 5 - Posição das pernasmesmo já se queixou, várias vezes de dore no braço eno ombro em consideração. Além dos pontos mencionados, há tam- bém a altura do monitor, o qual está numa linha abaixo da linha de visão reta do professor. Este fato faz com que o mesmo também ande cabisbaixo, mesmo quando não está diante do monitor. Muitas pessoas já pensaram que ele estava desani- mado, por estar cabis- Figura 3 - Posição do mouse. baixo. (Figura 6) Figura 6 - Iluminação do ambiente104
  • 105. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livros4.4. Proposta de melhoria Na Figura 8, pode-se ver na nova configuração de trabalho, na qual, retirou-se um dos monitores, teclado e mouse da mesa, para dar mais espaço de trabalho Sugerimos algumas melhorias para o autor de para o escritor.livros, conforme o que se segue: colocar uma mesa para cada computador, para que o autor não fique com os braços esticados, para a utilização do mouse; trocar o banco por uma cadeira de encosto e regulável; trocar a lâmpada da sala, por uma mais potente; realizar uma ginástica laboral frequente, para melhorar a postura e a disposição para o trabalho deste grande escritor, pois ele fica em dias de semana de 4 a 5 horas e no final de semana e feriado de 8 a 10 horas aproximadamente. Figura 8 - Mouse na mesa do computador.4.5. Implantação de melhoria A Figura 9 ilustra a colocação de duas obras (livros), para ajust ar a altura do monitor, que dest a forma, ficou numa posição melhor e acertou a postura do professor. Depois de sugeridas as melhorias, somente umanão foi colocada em prática, pois no momento, o autornão dispõe de espaço físico, para colocar outra mesade computador no ambiente de trabalho ora estudado. As outras sugestões de melhoria, troca delâmpada e troca de cadeira foram implantadas, conformeas fotos a seguir ilustradas. Sugerimos também, que o autor, a cada 1 horade trabalho, ele dê uma pausa para fazer algunsexercícios de alongamento e exercícios físicos.4.5.1 Fotos com algumas sugestões de melhoria: (Figuras 7, 8, 9, 10 e 11) Figura 9 - Monitor na altura correta. A seguir serão mostradas algumas fotos com assituações de melhoria aplicadas. Também, com relação às dores dos pés e pernas, a Figura 10 apresenta a cadeira regulada na altura ideal, A Figura 7 apres-enta a nova cadeira com encosto onde os joelhos do professor ficam na mesma altura doque o professor ganhou. quadril, isto já tem apresentado efeitos positivos, segundo o professor. Figura 7 - Cadeira com encosto Figura 10 – Pés e pernas na posição correta. 105
  • 106. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livros Melhorou-se a iluminação da sala, como ilustra a para implantar as melhorias. Depois de váriosFigura 11, pela instalação de novas lâmpadas, mais argumentos, o mesmo concordou em ser fotografado epotentes e que melhoraram a visão do professor, o qual, a participar da pesquisa, em benefício dele mesmo, daagora, pode enxergar melhor seus livros e seus trabalhos. ciência e da nota na disciplina de tcd. Apesar do ambiente de trabalho considerado ser um local pequeno, em uma residência, acredita-se que o mesmo atendeu a todos os requisitos do presente trabalho. Após as modificações realizadas, o autor de obras e professor não queria mais voltar às condições do ambiente antigo. Este fato pode estar relacionado às diminuições de dores e problemas bem como à conscientização do mesmo a respeito da necessidade do ambiente de trabalho ergonômico para a melhoria da qualidade de vida, do trabalho e da saúde. A tecnologia de informação, embora facilite a vida Figura 11 - Maior luminosidade para a sala. das pessoas, também pode trazer consigo outros problemas como é o caso das doenças profissionais No item seguinte, apresentam-se os resultados associadas a mesma. Em relação ao trabalho com outros tipos de5. RESULTADOS equipamentos, como é o caso de notebooks, ainda se considera que os computadores desktop apresentam a vantagem de possibilitarem um ambiente mais Alguns dias depois da implantação das melhorias ergonômico.sugeridas, o autor comentou que não sente mais doresnas costas com a freqüência que sentia anteriormente Apesar do trabalho realizado em favor daàs modificações, e, que ele se sente com mais ergonomia no ambiente de trabalho considerado, com adisposição de escrever mais. tecnologia atual, ainda não é possível se eliminar todas A aplicação da ergonomia no posto de trabalho as tensões e dificuldades relacionadas com o ambienteobjeto do presente estudo, procurou diminuir os esforços, de trabalho. Há especulações para o futuro, relacionadaspois muitas vezes não é possível eliminá-los pois o tipo com o uso de equipamentos de voz ou algum outro tipode atividade e a tecnologia atual exigem tais tipos de de interface que evite o trabalho exclusivo de digitação,esforços. porém nesta oportunidade não foi possível se aplicar O autor e professor também está fazendo, estas tecnologias.diariamente exercícios físicos de alongamento e Acredita-se também que dos milhões derelaxamento, a cada 1 hora, bem como pequenascaminhadas pela sala ou arredores, e descansos no computadores comercializados em nosso país, grandeperíodo de cerca de 10 minutos. parte dos mesmos ocorrem em ambientes nos quais não se considera as noções mínimas de ergonomia. Em relação à visão, houve uma ligeira melhoria,talvez relacionada ao descanso a cada hora de trabalho. Todos os membros do grupo trabalharam Ainda, com relação a postura, houve uma melhora ativamente e de modo coordenado, para alcançar ossensível, a qual, porém só poderá ser comprovada ao resultados de modo eficiente e conclusivo, da seguintelongo do tempo. forma: Como resultado mais imediato, o autor e professor Todos participaram ativamente das discussões,comentou que o rendimento aumentou bem como sua fornecendo sugestões sobre o local de estudo, adisposição e sua auto-estima. definição do posto de trabalho a ser estudado, do roteiro de atividades, da execução das atividades, da identificação dos problemas do posto de trabalho, das6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS melhorias a serem implementadas, da correção, da elaboração dos textos e da revisão dos mesmos, também O trabalho apresentou algumas dificuldades as despesas foram rateadas democraticamente eminiciais, pois o professor não queria parar seu serviço partes iguais.106
  • 107. Ergonomia: estudo de caso de um posto de trabalho informatizado de um autor de livros Dorlivete participou com pesquisas bibliográficas BASSOLI, D.A. Ergonomia em ambientesna literatura, digitou parte do texto (Revisão da Literatura, informatizados. Material didático da disciplina deresumo, resultados e referência bibliográfica, também Ergonomia do curso de Licenciatura em Computaçãocriou índices de figuras, tabelas e sumário, folhas iniciais do Centro Universitário Claretiano - CEUCLAR. Sãodo trabalho), tirou fotos. Paulo: CEUCLAR, 2007. Eduardo realizou pesquisas nos sites da internet Dicionário Melhoramentos. Dicionário prático dae adquiriu uma cadeira regulável, realização dos bakups, língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos,escreveu a introdução e as conclusões, cuidou da 1987.iluminação do ambiente e dos computadores. DIX, A; FINLAY, J.; ABOWD, G.; BEALE, R. Human- Ricardo digitou parte do texto (metodologia, computer ineraction. Prentice Hall, 1993.desenvolvimento e discussões), fez tratamento das GRANDJEAN, E. Manual de erfonomia: adaptando oimagens, e participou como modelo das fotos. trabalho do homem. 4ª. Porto Alegre: Artes Médicas, Os autores do presente trabalho consideram que 1998.há espaço para muitos trabalhos futuros estudando-se Imprensa GAVETA. Website disponível em:os monitores, outras interfaces de som e mesmo ospontos já vistos ainda podem ser reestudados em http://www.ryoki.com.br/imprensa_cristofoletti.htm etrabalhos futuros. Esses autores aproveitam a visitado em 11/10/2007.oportunidade para agradecer ao professor Djalma Antonio ZAMBALDE, André Luiz; ALVES, Rêmulo Maia.Bassoli pelas importantes informações e orientações que Interface homem-máquina e ergonomia.possibilitaram a realização deste estudo. Lavras: FAEPA, 2003.7. CONCLUSÕES NOTAS A tecnologia de informação, embora facilite a vidadas pessoas, pode trazer consigo o problema de doençasprofissionais relacionadas com a sua utilização freqüente. * Professor da FAMEC, Especialista em Informática No presente trabalho se apresentou um estudo ** Professora do Ensino Superior, Especialista emde caso de ergonomia de um autor de livros que faz uso Informática, Especialista em Sistemas e Empresária.freqüente de recursos computacionais em seu serviço. *** Professor do Ensino Básico, graduado em Lic. Seja qual for o tipo de escritor ou autor de obras, Computação.o mesmo manipula uma quantidade grande de palavrasseja digitando ou escrevendo em papel. Este fato pode **** Professor do Ensino Superior, Mestre em Engenharia,forçar as extremidades dos membros superiores do Especialista em Sistemas e autor de obras.indivíduo. Analisou-se o posto de trabalho e se sugeriumodificações mais simples as quais resultaram namelhoria da qualidade de vida, e diminuição dos esforçosenvolvidos com a atividade profissional. As melhorias, ao que tudo indica, foram bemaceitas pelo escritor, o qual parece ter incorporado asmesmas ao seu cotidiano e com benefícios alegadospelo mesmo.8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAlessandro Martins. Website disponível em:http://www.alessandromartins.com/2007/05/24/14-razoes-pelas-quais-a-internet-e-melhor-que-o-livro-para-o-escritor-inedito/, visitado em 10/10/2007. 107
  • 108. Economia de Comunhão. Um novo paradigma de mudança organizacional Carlos Alberto Araripe∗Resumo AbstractO presente trabalho aborda a questão das mudanças The present work approaches the organizational changesorganizacionais, verificadas nos sistemas cujo foco está questions, verified in the systems whose focus is in theno processo, como o fordismo com a produção em process, as the fordism with the mass production andmassa e o toyotismo com a produção enxuta, até os the toyotism with the clean production, until the systemssistemas que colocam o homem como principal elemento that place the man as main element of the factors of thedos fatores da produção, deslocando o foco da production, dislocating the focus of the capitalreprodução do capital para a reprodução social. Tal é o reproduction, for the social reproduction. Such is the casecaso da EDC – Economia de Comunhão, em cujo seio of the EOC - Economy of Communion, in whose center adesenvolve-se um modelo de produção participativa, model of participative production is developed, differentdestoante dos modelos organizacionais capitalistas, of the organizational capitalist models, however withoutporém sem se identificar com aqueles denominados de if identifying with those called ones of socialist.socialistas. Keywords: Communion economy; organizationalPalavras chave: Economia de comunhão; mudança change; social reproduction.organizacional; reprodução social.108
  • 109. Economia de Comunhão. Um novo paradigma de mudança organizacionalIntrodução Outro elemento que demanda transformações em escala na sociedade moderna, e em seu seio, as organizações, é o vislumbre da complexidade (Genellot, O sistema capitalista, cujo foco está na 1995, e Morin, 2005), do descortinar do pensamentoreprodução do capital, através do que Marx denominou complexo, como forma de negação do pensamentode mais-valia, tem como base um intricado conjunto de simples e da lógica cartesiana que imperou sobre osubsistemas produtivos cujo objetivo é a produção de pensamento ocidental durante três séculos (Morin, 2000).bens e serviços para a sociedade, desde que estesprodutos tenham potencial de gerar acumulação de Pressupostos básicos da EDCriqueza para o capitalista. Dowbor (2002) coloca que ocapitalismo é um excelente sistema de geração deriqueza, porém um péssimo distribuidor destas riquezas, Além dos modelos citados anteriormente que seque se concentram numa parcela muito pequena de voltam à mudança organizacional, muitos outrospessoas, e isto em escala mundial. poderiam ser citados, todavia, concentraremos nossa atenção na EDC, objeto deste trabalho. Em busca desta possibilidade de acumulação deriquezas, verificamos ao longo da história uma série de Uma característica marcante da EDC no presenteestruturas produtivas sendo criadas, que vão desde as é a falta de conhecimento que se tem a seu respeito. Deorganizações mercantis dos fenícios, passando pelas sorte que muitos a confundem com obra de caridade oufeiras da idade média, pelas fábricas da revolução filantropia maçônica.industrial (Huberman, 1986), até aportar no século XX, O projeto da Economia de Comunhão teve iníciocom uma infinidade de estruturas organizacionais do em 1991, sendo lançado mundialmente no Brasil. Suatrabalho e da produção, com foco extrito na produtividade, gênese reside na experiência coletiva realizada no interioreficiência e maximização do lucro. As questões relativas de um movimento eclesial e civil, o Movimento dosao ser humano, à humanização da produção e ao que Focolares. Foi nesse contexto, ao longo de quase 50Dowbor (2002) denomina de reprodução social, anos que se condensaram elementos históricos e sociaisreceberam ênfase restrita, mas é nesta linha que propiciando o surgimento dessa organização de matrizdesenvolvemos este ensaio. comunitária. Trata-se de uma prática econômica peculiar, As dinâmicas de mudança das organizações baseada na constituição de empresas que tem por finalidade central, além de gerar emprego e renda, realizarestão longe de seguir uma lógica unidimensional. Há a distribuição do lucro segundo três finalidades:mudanças que tem como foco a competitividade, oselementos físicos e instrumentais necessários a um 1- Garantir e ampliar a atividade econômica;posicionamento diferenciado num mercado globalizado, 2- Investir na formação humana de modo a fortalecer ahá outras que se voltam a uma nova visão do ser humano, matriz cultural que lhe dá respaldo;tendo este como agente dos processos organizacionaisem suas esferas psíquicas e filosóficas. 3- Ajudar pessoas em situação de pobreza, inicialmente na esfera do Movimento dos Focolares. No primeiro caso, temos como exemplomovimentos ocorridos no interior das fábricas, como a Este Movimento dos Focolares (MF), que dá baseprodução em massa que caracterizou o fordismo, o “Just à EDC, foi fundado e presidido por Chiara Lubich, tevein time” ou produção enxuta que caracterizou o início em 1943, em Trento, no norte da Itália.toyotismo, a Qualidade Total e a Reengenharia, Atualmente está difundido em 198 países nosfundamentalmente baseados na transformação dos cinco continentes e conta com participação de mais deprocessos. No segundo caso, temos correntes de cunho 4 milhões de pessoas nos 18 setores que compõemideológico, concebidas nos entornos da fábrica, nos sua estrutura organizacional. É de natureza leiga, emborameios intelectuais e acadêmicos, que criaram coisas não se exclua a participação de sacerdotes, religiososdo tipo: “Learn organization” (Senge,1996), Organização e bispos. A presidência (leiga e feminina) sob o ponto deHolística e EDC (Economia de Comunhão). vista jurídico, é considerada inovadora no âmbito eclesial. O aspecto comunitário predomina na configuração de Estratégias de mudança organizacional são sua espiritualidade e nas atividades que lhe sãopensadas a cada dia e em grande escala. Tal situação peculiares: fortalecer a unidade no interior dareflete o presente estado de coisas de um mundo catolicidade, construir a unidade entre os cristãos deglobalizado (Giddens, 1999) e globalizante, onde os variadas igrejas (Atualmente são 300 as que têm umacontecimentos se dão no local, mas o motor está no contato estreito com o movimento), estabelecer diálogoglobal. com os fiéis de outras religiões (destaca-se o trabalho 109
  • 110. Economia de Comunhão. Um novo paradigma de mudança organizacionalrealizado no âmbito do islamismo, do judaísmo, budismo, nistração pública, tendo a atenção voltada para odentre outras) e com pessoas sem vinculação religiosa. interesse geral na vivência e na promoção do pleno respeito pela ética e pelo meio-ambiente. Tomando por base sua concepção histórica, eseus pressupostos filosóficos, nos reportamos à teoria Baseados nestes conceitos a administração deda complexidade de Genelot, no que tange às formas de uma empresa de EDC, ocorre de forma flexível erepresentação da realidade. Tentar entender o mecanismo descentralizada. O lucro é dividido em três partes: umpropulsor da EDC sob uma ótica simplista, além de ser terço vai para os funcionários, um terço para ser divididoum exercício incômodo poderá gerar mais confusão ainda entre os pobres, a princípio dos Focolares, depois parasobre o assunto. A EDC é uma tentativa de materializar os de fora, e o último terço remunera o capital investido.na prática das empresas e na relação capitalista com o Por trás disto está a tradição cristã da primeira igreja,mercado, a reprodução material de cunho cristão, que que, conforme narrado em Atos dos apóstolos: “os irmãosprocura enquanto ideologia se sobrepor à reprodução tinham tudo em comum”.material profana, do capital pelo capital e do lucro aqualquer preço. Nisto consiste a forma de interpretar a A EDC como paradigma de mudança organizacionalrealidade na ótica do MF. Resumidamente a EDC pretende favorecer aconcepção do agir econômico como um compromisso, Os mentores da EDC a colocam como um bastiãoque abrange as idéias e a ação, que visa a promoção contra o capitalismo e a forma perversa de distribuiçãointegral e solidária do homem e da sociedade. Portanto, da renda gerada em seu seio. As correntes capitalistasapesar de mirar a justa satisfação das exigências neoliberais não vêem com bons olhos um movimentomateriais, próprias e dos outros, o agir econômico se como este que privilegia e equidade, tendo por trás de siinsere num contexto antropológico completo, uma ideologia de cunho religioso. Seja como for a EDCdirecionando suas capacidades ao constante respeito e apresenta-se hoje como uma resposta àquilo que Beckvalorização da dignidade da pessoa, seja dos (1999) coloca como a grande duvida da globalização:funcionários da empresa seja dos destinatários de parte definir um caminho para a vida.do excedente. As pessoas que atuam no seio do MF e que tem A idéia da EDC é exprimir-se em todos os níveis sua fonte de sustento numa empresa da EDC estãoda vida humana, no nível das opções individuais, no nível certas de que encontraram a resposta correta. Nestede organizações produtivas e no nível das instituições ponto, nos reportamos à teoria de Huizinga (1996), do homo ludens, da aceitação do jogo e do cumprimentolegais (Neste ponto surgem os três componentes do de suas regras.sistema de representação de Genellot: o paradigma, ocontexto e a intenção). Segundo Sampaio e Leitão (2007), em 2005, já eram 735 o número de empresas trabalhando dentro da Os agentes econômicos que dirigem as empresas EDC em todo o mundo, caracterizadas pelo pequenoda EDC buscam um bem-estar social, e não apenas os porte: a maioria com até 50 funcionários; sendo a maiorpróprios interesses. Isto porque, para eles a empresa parte na Itália, 230, seguida de Brasil, 121 e Argentina,adquire um papel social, embora possa ser de 55. Segundo dados do escritório central da EDC nopropriedade privada. T conceito coloca-se sobre quatro al Brasil, localizado em Vargem Grande Paulista, há 6466pilares: famílias beneficiadas com a atividade de distribuição dos1- A conciliação das exigências de eficiência e de lucros. No Brasil, entre 1992 e 2005, foram destinados rentabilidade com o objetivo de tornar a atividade mais de U$ 1.000.000,00 (Um milhão dxe dólares) a econômica um verdadeiro lugar de encontro entre famílias carentes, sendo o pico atingido em 1996 com todos os sujeitos envolvidos; U$ 105.434,00.2- Na participação ativa dos trabalhadores na vida da No município de Vargem Grande Paulista, o MF empresa; criou um pólo industrial para reunir empresas aderentes à EDC. Lançado em 1994, hoje já são 7 as empresas3- No empenho concreto pela melhoria do ambiente que ali se situam, algumas delas complementares da social no qual atuam sem considerar que lhes sejam cadeia produtiva. O complexo empresarial foi batizado alheios ao bem comum e às necessidades urgentes de Spartaco, fazendo referência ao escravo grego que das pessoas menos favorecidas com as quais entram rebelou-se contra o império romano, oferecendo forte em contato; resistência durante muitos anos. É o símbolo de4- No estabelecimento de relações de abertura resistência ao “status quo”, ao mesmo tempo em que recíproca e de confiança com consumidores, nos remete à idéia de escravidão causada pelo modelo concorrentes, com a comunidade local e a admi- de produção capitalista que impera na economia mundial.110
  • 111. Economia de Comunhão. Um novo paradigma de mudança organizacionalConclusão Giddens, Anthony – Para Além da Esquerda e da Direita, São Paulo: Unesp, 1996. Existe muita especulação e desconfiança em Giddens, Anthony – Aterceira via, reflexões sobre otorno da EDC, sobretudo da real equidade na distribuição impasse político atual e o futuro da social-dos lucros, todavia ninguém que tenha um contato mais democracia – Rio de Janeiro: Record, 2000.estreito com EDC, pode negar que são empresas éticas, Huberman, Leo – História da Riqueza do Homem. Rioecologicamente e politicamente corretas, que se pautam de Janeiro: LTC, 1986.pela honestidade e no respeito mútuo no ambiente de Huiziga, Johan - Homo Ludens, São Paulo: Perspectiva,negócios, tanto com clientes quanto com fornecedores. 1996. Morin, Edgard – Terra Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2000. Num contexto mais amplo de “Organizações de ____________ - Introdução ao Pensamento Complexo.Aprendizagem” (OA), caracterizadas por Senge (1996) Porto Alegre: Sulina, 2005.através de cinco disciplinas: “domínio pessoal, modelos Sampaio, Marcelo A. L.; Leitão, Sérgio. P. Economiamentais, objetivo comum, aprendizado em grupo e de comunhão e organizações de aprendizagem:raciocínio sistêmico.” (Senge, 1996:14), as empresas compatibilidades conceituais. In RAP – Revista devinculadas à EDC são verdadeiros casos de aplicação Administração Pública da FGV; Rio de Janeiro, nºdos conceitos de Senge, firmando-se como modelo de 41(3): 419-42, Maio/Junho, 2007.“Organização de Aprendizagem”, conforme é destacado Senge, Peter – A quinta disciplina. São Paulo: Bestno competente trabalho de Sampaio e Leitão (2007): Seller, 1996. E a análise de conteúdo das ECONOMIA DE COMUNHÃO – UMA NOVA CULTURA. entrevistas em profundidade SUPLEMENTO DA REVISTA CIDADE NOVA, ANO 1, possibilitou a emergência de Nº 2, 3. VARGEM GRANDE PAULISTA: CIDADE NOVA, categorias compatíveis com as 1999. cinco disciplinas de Peter Senge. Então, quando se coloca a pergunta de se as empresas de economia de comunhão são organizações de NOTAS aprendizagem, pode-se concluir pela existência de considerável similaridade entre as duas * Coordenação do curso de Administração da FMI concepções de organização, em que pese algumas especificidades existentes entre elas. Elas seriam “organizações que aprendem” por facilitarem o aprendizado de seus membros de forma a possibilitar contínua transformação (Sampaio e Leitão, 2007:439). Num mundo complexo como o que vivemos, a EDCsurge como uma possibilidade da terceira via de Giddens(1998), ou dentro da visão do próprio Giddens (1996),uma alternativa para além da esquerda e da direita.Referências bibliográficasBeck, Ulrich – O que é globalização? São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999.Dowbor, Ladislau – A reprodução Social. Petrópolis: Vozes, 2002.Genelot, Dominique – Complex, Paris: INESEP, 19?? (Tradução livre da professora Dra. Maria Aparecida Aguiar, PUC/SP), 2000. 111
  • 112. A importância da gestão ambiental nas organizações Ricardo Roberto Plaza Teixeira* Cibele Lima Siqueira Elaine Cardoso da Silva Roseane Gasperini da Rocha Sandra Aparecida Domingues Alexandre Queiroz**Resumo AbstractEste artigo apresenta algumas reflexões sobre as This article presents some thoughts on environmentalquestões ambientais no Brasil e em todo o planeta no questions in Brazil and around the world. We also analyseséculo XXI. São analisadas também as características the ntypical trades of some different techniques ofde algumas diferentes técnicas de gestão ambiental environmental management, as well its advantages andexistentes, bem como as suas vantagens e desvantagens. disadvantages. One conclusionm is that a great obstacleUma das conclusões é a de que um dos principais to face environmental and climate crisis is the resistanceobstáculos para o enfrentamento da crise ambiental e to change habits. Therefore, two things are very important:climática está na dificuldade em mudar hábitos. Como to enhance investments in education and to place aconseqüência, são estratégicos o aumento dos greater emphasis on the environmental issues during theinvestimentos em educação e uma maior ênfase na educational process.temática ambiental durante os processos educacionais.Palavras-chave: Gestão ambiental; Mudanças Keywords: Environmental management; Climateclimáticas; Aquecimento global. changes; Global warming.112
  • 113. A importância da gestão ambiental nas organizações1- INTRODUÇÃO influenciam a cultura, o cotidiano e a vida familiar dos seus trabalhadores e da comunidade na qual ela está inserida. As questões relacionadas ao meio ambienteestão preocupando, de forma crescente, empresas, 2- HISTÓRICO DA QUESTÃO AMBIENTALgovernos e pessoas de todo planeta, conforme o séculoXXI avança. Os estudos relacionados ao aquecimentoglobal têm sido um divisor de águas, pois a “agenda” Desde o início da revolução industrial na Inglaterradas discussões ambientais não permite mais, de forma no século XVIII, a poluição crescente da água, do ar eresponsável, que se ignorem as suas conseqüências do solo foi vista por uma parcela da população dos paísespara toda Terra no curto, no médio e no longo prazo. O que se industrializaram como um sinal de progresso. Aimpacto que teve a obra “Uma verdade inconveniente” de explosão populacional ocorreu e vem ocorrendo, mas aoAl Gore (2006) – vencedora ao mesmo tempo do prêmio contrário do que previu Malthus (1983), a produção deNobel da Paz e do Oscar de melhor filme documentário alimentos vem crescendo – graças aos avanços– revela como são cada vez mais presentes as tecnológicos e de produtividade – a taxas pelo menospreocupações com o meio-ambiente em que vivemos. tão altas quanto às populacionais. O termo poluição vemUm possível colapso em escala global do planeta pode do latim polluere que significa sujar, corromper, profanarser evitado se mirarmos nos exemplos de sociedades e (Murgel, 1993). A intensificação deste processo decivilizações antigas que colapsaram devido ao uso poluição produz tal degradação e contaminaçãoperdulário e irresponsável de seus recursos ambientais ambiental que a partir de certo ponto provoca uma(Diamond, 2005). Sobre as conseqüências do efeito alteração na percepção hegemônica do binômio poluição-estufa, Isaac Asimov (1979), no seu livro adequadamente progresso. O crescimento e o desenvolvimento daintitulado “Escolha a catástrofe”, já alertava na década humanidade nos últimos dois séculos foi exponencial,1970: “Se o efeito encadeado de estufa vier, é provável com descobertas científicas e tecnológicasque venha tão cedo que custa-nos imaginar um avanço espetaculares e um aumento sem igual na capacidadetecnológico tão rápido que nos salve”. Mas mesmo de produção (Dias, 2006) e, conseqüentemente, deassim, enquanto muitas empresas e muitos seres consumo do ser humano, criando quase que um novohumanos já se empenham de forma expressiva para homem: o homem consumidor! A conseqüência evidenteproteger o meio ambiente para as atuais e futuras de todo este processo é que o homem tem se tornadogerações, outros, mesmo sabendo da gravidade e da crescentemente “o lobo de si mesmo”, o predador de sinecessidade de mudar, relutam, sobretudo devido à mesmo, pois a destruição em escala global estáinconveniência de ter que alterar hábitos tanto na vida inviabilizando uma vida humana digna para todos empessoal quanto na empresarial. nosso planeta. De qualquer forma, o vetor resultante deste Desde que a espécie humana surgiu, há muitasmovimento todo indica que, de modo geral, consumidores dezenas de milhares de anos possivelmente em algumae fornecedores estão cada vez mais exigentes em região do leste da África, tem se expandido por todos osrelação à qualidade dos produtos e serviços utilizados, ecossistemas e por todos os continentes do planetade forma que não prejudiquem a natureza e a saúde Terra, mostrando uma incrível capacidade de adaptaçãohumana, e já se tornam parceiros de empresas que vem a diferentes condições locais e transformando opraticando melhorias ambientais e que têm os ambiente no seu entorno um meio ambiente transformadodenominados “selos” verdes ou ambientais. As empresas, de modo a tornar-se um espaço adequado de vivênciadeste modo, estão sofrendo pressões para a implantação social. Esta modificação do ambiente natural para tornar-de sistemas de gestão ambiental que re-organizem as se um ambiente social e cultural vem acompanhandosuas atividades produtivas. Para isso, seguem condutas sistematicamente a história humana ao longo do tempojurídicas e legais obrigatórias, alteram muitas de suas e se intensificou com a urbanização a partir de 5.000técnicas de gestão e freqüentemente programam anos atrás.mudanças sem a coerção da lei, pensando nos fatoresestratégicos positivos para a competitividade da Jacque Attali (2001), em seu Dicionário do séculoempresa. É interessante, portanto, analisar quais os XXI, define de forma provocadora o verbete “meio-impactos efetivos da implantação de sistemas de gestão ambiente” como sendo a “principal riqueza do homem”,ambiental nas atividades cotidianas das empresas, mas, ao mesmo tempo, “desde sempre seu pior inimigoavaliando de que forma a sua implementação torna uma e sua vítima”. As atividades produtivas humanas nosempresa mais valorizada e competitiva diante da últimos séculos sobre o nosso planeta cresceramrealidade ambiental em que vivemos e de que forma as acompanhando o crescimento da própria populaçãomudanças da gestão ambiental dentro das empresas humana. A definição realista de Attali está embasada na 113
  • 114. A importância da gestão ambiental nas organizaçõesrelação histórica que a espécie humana teve com o (Bitar, 2004) é um campo do conhecimento que só podeambiente em que vive: uma história com muitos eventos ser abordado de forma plena por meio de um enfoqueque não são muito edificantes! Viver inevitavelmente é interdisciplinar (Acot, 1990), no qual diferentes disciplinasinterferir, de alguma forma, no ambiente em que se vive, (biologia, economia, administração, geologia, história,inter-relacionando-se com ele. Mas há várias formas psicologia, química, física, geografia, oceanografia, etc)pelas quais esta interação pode ocorrer, das mais cooperam para a compreensão efetiva e o enfrentamentocooperativas e equilibradas até as mais predatórias e conseqüente dos problemas existentes.desequilibradas. A relação homem-Terra, entretanto, só O livro “O relatório da CIA – Como será o mundoserá sustentável no longo prazo se algum equilíbrio for em 2020” (Barbeiro, 2006), salienta o modo como noatingido, para que as próximas gerações possam também futuro a persistência das desigualdades sociais e ousar os recursos disponíveis no planeta: uma sociedade crescimento das necessidades energéticas serãosó pode ser considerada sustentável se conseguir problemas cada vez mais inter-relacionados e que sósatisfazer suas necessidades sem comprometer as poderão ser resolvidos concomitantemente. A relação éperspectivas das futuras gerações (Andrade, 2000). direta e óbvia: para que todos respeitem minimamente o No mundo todo, e também no Brasil, a partir dos ambiente em que vivem, todos devem ser respeitadosanos 70 do século passado, o movimento ambientalista em seus direitos sociais mais básicos. Deste modo, “ofortaleceu-se com a formação de grupos de pressão, tais verdadeiro trabalho, que ainda está por ser feito, consistecomo partidos com plataformas ambientais (como os em encontrar um equilíbrio entre a política departidos verdes) e organizações não-governamentais desenvolvimento e a política do meio ambiente”vinculadas a questões ecológicas (como o Greenpeace (Tinbergen, 1977). O equilíbrio entre a necessidade dee o WWF). Mas, já antes da revolução industrial, crescimento das quantidades utilizadas de recursosdiscursos ambientalistas empolgavam a Inglaterra naturais e a premência do controle razoável do uso(Chassot, 2001) – propondo a proibição de serras desses mesmos recursos só se tornará possível comhidráulicas – e a França (Barbieri, 2007) – propondo leis políticas de distribuição de renda dentro de cada naçãoque protegessem as florestas e as águas –, mostrando e entre as nações: a ciência poderá ajudar evidentementeque a gestão ambiental não é um conceito novo nem para este objetivo, mas esta é uma tarefa eminentementeuma necessidade nova (Harrington, 2001). política que envolverá todas as nações do planeta. Há A agenda dos governos em geral, e dos grandes 50 países no globo que apresentam uma média degrupos empresariais, está começando lentamente a levar emissão de carbono per capita menor que 4% da médiaas considerações ambientais mais a sério quando se norte-americana (Segrè, 2005): tal situação detornam evidentes as conseqüências que os desequilíbrios desequilíbrio e de desigualdade extrema na distribuiçãoambientais acarretariam sobre a economia e a sociedade. de riquezas é insustentável. Uma menor diferença entreNa área educacional – que é fundamental para a as condições de vida de abastados e despossuídos –formação de novas consciências e de novos hábitos – a com a decorrente diminuição das desigualdadespartir dos anos 1990, no Brasil, os Parâmetros colossais existentes atualmente – é condiçãoCurriculares Nacionais (Brasil, 1997) definiram a questão necessária, apesar de não suficiente, para um equilíbrioambiental como um dos eixos interdisciplinares para o ambiental da humanidade com seu planeta.trabalho pedagógico em sala-de-aula no ensino A História, em certo sentido, dá sentido à vidafundamental e no ensino médio. Esse movimento colocou humana e, portanto, é importante conhecer os processosa questão ambiental no foco dos processos educacionais históricos pelos quais a humanidade passou até chegarde crianças e jovens, sobretudo a partir da observação nos tempos atuais. Um adversário deste conhecimentoempírica facilmente constatável por todos de que é mais histórico é o chamado “presenteísmo” (Chassot, 2000),difícil mudar hábitos de adultos do que construir novos ideologia pela qual o dia de hoje se justifica somente porhábitos na infância e na adolescência. Desta forma, o si mesmo, sendo rechaçada qualquer referência aoconceito de alfabetização ambiental (Nunes, 2005) tornou- passado. Nas palavras de Eric Hobsbawm (1995): “Ase central na educação do século XXI: o seu principal destruição do passado – ou melhor, dos mecanismosobjetivo é ensinar princípios fundamentais envolvendo as sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das“redes de interações que constituem a teia da vida”, gerações passadas – é um dos fenômenos maiscompreendendo as diversas relações que se estabelecem característicos e lúgubres do final do século XX. Quaseentre os seres vivos e o ambiente onde vivem, e todos os jovens de hoje crescem numa espécie deconscientizando o cidadão – ainda durante a sua presente contínuo, sem qualquer relação orgânica comformação – sobre a necessidade de construção de uma o passado público da época em que vivem.” Asociedade justa, equilibrada e sustentável. Porém, a despreocupação com a história das gerações passadasquestão ambiental devido a sua complexidade intrínseca está fortemente associada a uma postura inconseqüente114
  • 115. A importância da gestão ambiental nas organizaçõesem termos ambientais para com as gerações futuras: em Estocolmo, na Suécia, em 1972, ampliou a definiçãose só o presente importa, tanto o passado, quanto o de ambiente: “Ambiente é o conjunto de todos ospresente são irrelevantes. Posturas como estas se componentes físicos, químicos, biológicos e sociaisdisseminam com facilidade cada vez maior entre os capazes de causar efeitos diretos ou indiretos, em umjovens! O desconhecimento do passado é a ante-sala prazo curto ou longo, sobre os seres vivos e asda inconseqüência para com o futuro: os povos que não atividades humanas”. A cidade é o ambiente porconhecem seu passado estão condenados a repeti-lo, excelência de boa parte da humanidade neste início denas palavras de Hegel. século XXI. A sua necessidade de bens e serviços que dependem de atividades industriais (roupas, calçados, Uma questão fundamental, portanto, no que diz eletrodomésticos, produtos de higiene e limpeza,respeito à gestão dos recursos naturais, é desenvolver automóveis, energia, alimentos industrializados) trazprocessos de produção e técnicas de gestão ambiental prejuízos ao ambiente e, por decorrência direta, aos seresque não agridam a natureza e a comunidade do entorno humanos que nele vivem. Nesse cenário, surgem novasda empresa produtiva e que, adicionalmente, tornem-se formas de produção de bens e de serviços, com novosuma estratégia importante para a competitividade da princípios na busca de soluções menos agressivas eempresa, pois a viabilidade econômica é condição mais sustentáveis. Há um movimento – talvez aindanecessária para o sucesso perene na implantação de incipiente – para que as organizações passem apropostas inovadoras de gestão ambiental. demonstrar interesse em agir de forma consciente a respeito da importância da utilização dos recursos3- AS POSSIBILIDADES ABERTAS PELAS TÉCNICAS naturais, muito além da questão de marketing. Isto porDE GESTÃO AMBIENTAL que quem legitima as empresas não é apenas o mercado. O renomado jornal “Le Monde Toda a comunidade passa a respeitar uma marca pelos Diplomatique – Brasil” na sua edição valores que ela traz, e se existir transparência e acesso de janeiro de 2008, na reportagem às informações sobre ela, uma condição necessária para “Haverá água para todos?”, a ocorrência de todo este processo. apresenta dados inquestionáveis e A empresa é um pequeno mundo. Nela, são que permitem concluir que a água estabelecidas complexas relações entre seres humanos, potável para uso humano está cada que produzem diversos impactos ambientais e criam vez mais escassa no planeta. A água processos que movimentam o mercado. A prática da é a base da qual depende toda a vida gestão ambiental introduz de forma responsável a variável na Terra (Branco, 1993; Ward, 2000), ambiental no planejamento das empresas. Quando bem mas infelizmente a sua aparente aplicada, ela permite a redução de custos diretos, abundância – sobretudo no Brasil – sobretudo pela diminuição do desperdício de matérias- mascara a sua degradação primas e de recursos cada vez mais escassos e mais crescente como principal recurso dispendiosos, como água e energia. Propicia também a natural para a vida humana. Ao diminuição de custos indiretos, associados a sanções e extrair recursos do ambiente para a indenizações relacionadas a danos ao meio ambiente produção, o ser humano modifica a ou à saúde de funcionários e da população de natureza e causa danos irreversíveis. comunidades que tenham proximidade geográfica com As suas conseqüências devem as unidades de produção da empresa. sempre ser avaliadas e as A destruição da sociedade industrial – pregada alternativas mais adequadas em por um tipo extremado de ambientalismo –, com o retorno termos de custos e benefícios, tanto a um idílico passado rural da humanidade, está hoje fora econômicos, quanto ambientais, de questão. O mesmo deveria acontecer com posturas devem ser analisadas e ponderadas. igualmente extremadas que defendem o desenvolvimento O agravamento das condições ambientais capitalista a qualquer custo, desenvolvimento que seterrestres vem provocando um crescente aumento da justificaria por si mesmo. Deste modo, as questõesconsciência dos cidadãos sobre a importância do energéticas e ambientais só poderão ser razoavelmentecuidado com o meio ambiente. Assim sendo, a sociedade equacionadas se forem levados em consideração trêsde modo geral está aumentando suas exigências aspectos fundamentais (Branco, 1990): 1- Definição dasambientais para com as entidades e organizações necessidades reais de energia; 2- Desenvolvimento dediretamente envolvidas e, principalmente, para com as tecnologias de menor consumo; 3- Busca de novas fontesadministrações públicas e as empresas. A Conferência alternativas de energia levando em conta cada ambientedas Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizado específico. 115
  • 116. A importância da gestão ambiental nas organizações O enfrentamento aos problemas ambientais dentro o terceiro planeta do sistema solar, após Mercúrio edas empresas se dá basicamente de três formas (Barbieri, Vênus – de modo irônico, é feita a seguinte consideração:2007). A primeira e mais básica é a abordagem de controle “Considerando estes fatos bem estabelecidos, podemosda poluição, na qual para cumprir a legislação a empresa agora pesar as perspectivas de vida na Terra. De inícioadota uma postura reativa às pressões da comunidade devemos dizer que se apresentam exatamente pobres.com medidas corretivas e a aplicação de normas de Entretanto, conservemos abertas as nossas mentes esegurança. Percebida como geradora de custos, as estejamos preparados para aceitar as possibilidades porações ambientais se limitam aos setores da empresa mais remotas que sejam – conquanto não entrem emque são considerados como poluidores. Uma segunda e conflito com as leis científicas”. E, em seguida, omais profunda abordagem a respeito da gestão ambiental “relatório” enumera vários argumentos para os motivosfocaliza, sobretudo, na prevenção da poluição, pelo uso pelos quais a vida na Terra teria poucas chances de existir.eficiente e pela conservação dos insumos utilizados; Muito além da fina ironia de refletir como outros seresmedidas preventivas são implementadas usando-se eventualmente pensariam sobre nós e sobre o nossotecnologias limpas que permitem diminuir a geração de planeta, este ensaio permite também avaliar a fragilidadeefluentes, emissões e resíduos e, paralelamente, da vida em nosso planeta.aumentar a produtividade. Finalmente, uma terceira e O planeta Terra pode ser comparado a uma grandeainda mais completa abordagem pensa a gestão espaçonave (Miller, 1985) com uma tripulação que estáambiental de forma estratégica para a competitividade se aproximando da cifra de 7 bilhões e que apesar de,da empresa, com uma postura proativa e medidas obviamente, não poder se reabastecer, tem conseguidoantecipatórias, antecipando problemas, percebendo aproveitar de modo satisfatório a energia luminosa daoportunidades e propondo soluções de longo prazo: as estrela mais próxima de modo a reciclar a matériaatividades ambientais desta maneira se apresentam orgânica e perpetuar a vida: mas como a população dadisseminadas por toda a organização empresarial. Nesta tripulação desta “espaçonave” está crescendo atualmenteúltima etapa, a gestão ambiental não apresenta um de modo acentuado, o futuro apresenta problemascaráter inspecionista e corretivo, pois ao antecipar concretos para a manutenção desta “tripulação” de modosoluções para problemas futuros permite a criação de sustentável. Além disso, de acordo com a Segunda Leivantagens competitivas e oportunidades mercadológicas. da Termodinâmica, a seta do tempo aponta no sentido Deste modo, a gestão do ambiente deve ser uma da degradação na qualidade da energia que usamos oprioridade de toda organização e deve ser um fator que em outras palavras, implica no aumento da entropiadeterminante para o desenvolvimento sustentável. Isto – do grau de desordem – do meio em que vivemos. Assim,ocorre de forma plena quando técnicas de gestão o nosso metabolismo vital produz inevitavelmenteintegrada estabelecem políticas, programas e poluição, mas só uma relação de equilíbrio sustentávelprocedimentos em vários temas específicos: formação da população com o ecossistema planetário – Gaiade pessoal, conselhos de consumidores, pesquisas, (Lovelock, 2007) – pode permitir a manutenção da vida.planos de emergência, sistemas de avaliação prévia, Atualmente a taxa de mortalidade em todo otransferência de tecnologia, abertura ao diálogo e planeta é de cerca de 150 mil pessoas por dia enquantocumprimento de regulamentos (Andrade, 2000). Além que a taxa de natalidade está em torno de 350 mildisso é necessário todo um trabalho de educação de nascimentos por dia, mais que o dobro da primeira. Omodo a formar valores e consciências cidadãs e realizem diferencial de cerca de 200 mil pessoas indica odiscernimentos de forma autônoma sobre os problemas incremento diário da população terrestre (Braga, 2005).enfrentados coletivamente pelos seres humanos (Weber,2004). Muitos destes novos valores são fundamentais Em 2050, caso não aconteça uma catástrofe maior, cercapara as mudanças sociais ocorrerem viabilizando de 9,5 bilhões de seres humanos povoarão a Terra: quaserelações ambientais mais uma sadias (Helene, 1993). 3 bilhões a mais do que hoje (Attali, 2008). Muitos se perguntam qual é a “capacidade” máxima do planeta Terra? Ou de outra forma, quantas Terras seriam4 - CONCLUSÕES necessárias para abrigar com dignidade a população humana atual? Ou ainda, quantas Terras seriam necessárias, se o estilo de vida ocidental dos países Arthur C. Clarke (1972) inicia seu livro de ficção desenvolvidos, mais especificamente, se o estilo de vidacientífica intitulado “O terceiro planeta”, com um “Relatório norte-americano – american way of life – se disseminarsobre o Planeta Três”, ou seja, um relatório escrito por pelas populações dos países em desenvolvimento, nosmarcianos avaliando as possibilidades de vida no planeta quais as classes médias – as grandes consumidoras –Terra. Em um trecho deste “relatório” após algumas ampliam-se a passos largos? É claro queconsiderações sobre as características da Terra – que é inevitavelmente, muitos daqueles que afirmam que há116
  • 117. A importância da gestão ambiental nas organizaçõesgente em excesso no planeta, não se incluem neste ATTALI, Jacques. Dicionário do século XXI. Rio deexcedente populacional (Barbieri, 2007). Tais posturas Janeiro: Record, 2001.“eco-individualistas”, segundo as quais os problemas ATTALI, J. Uma breve história do futuro. Osasco, SP:sempre estão nos outros, não colaboram de forma Novo Século Editora, 2008.conseqüente para a tentativa de pelo menos minorar osproblemas. A questão básica, portanto, é como equilibrar BARBEIRO, H. Relatório da CIA – Como será o mundojustiça social e sustentabilidade ambiental para todos em 2020. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.na Terra, mantendo a habitabilidade humana na Terra BARBIERI, José Carlos. Gestão Ambiental Empresarial.para as próximas gerações (Ribeiro, 2001). São Paulo: Saraiva, 2007. A característica única da espécie humana é a sua BITAR, O. Y. Meio ambiente & geologia. São Paulo:capacidade racional que permite moldar a nossa conduta Editora Senac São Paulo, 2004.sobre princípios orientadores, sobre sistemas éticos esobre conjuntos de valores, possibilitando um equilíbrio BRAGA, B. et al. Introdução à engenharia ambiental.entre as recompensas individuais de curto prazo e a São Paulo: Pearson, 2005.satisfação coletiva no longo prazo (Bronowski, 1992). BRANCO, Samuel Murgel. Energia e meio ambiente. SãoUma “gestão ambiental planetária” necessita exatamente Paulo: Editora Moderna, 1990.desta habilidade humana por excelência. Carl Sagan(1998), em seu último livro, “Bilhões e bilhões”, termina BRANCO, S. M. Água: origem, uso e preservação. Sãoo capítulo no qual discute o efeito estufa afirmando que: Paulo: Editora Moderna, 1993.“Somos uma espécie talentosa quando pressionados BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília:pela necessidade. Sabemos o que fazer. Das crises Ministério da Educação, 1997.ambientais de nossa época deve resultar, a menos quesejamos muito mais imbecis do que imagino, uma união BRONOWSKI, J. A escalada do homem. São Paulo: Martins Fontes, 1992.das nações e gerações, bem como o fim de nossa longainfância”. Richard Fortey (2000), em “Vida: uma biografia CHASSOT, Attico. Alfabetização ambiental: questões enão-autorizada” também é otimista: “A única certeza é a desafios para a educação. Ijuí: Editora Unijuí, 2001.de que haverá mudanças, sempre. O homem será uma CHASSOT, Attico. Alfabetização científica. Ijuí: Editoracausa adicional A diferença em relação a qualquer uma Unijuí, 2000.das centenas de incidentes que descrevi nessa biografia[da vida na Terra] é que nós devemos ser capazes de CLARKE, A. C. O terceiro planeta. São Paulo: Hemus,prever seus efeitos. Vamos esperar que saibamos agir 1972.com sabedoria.” Na mesma linha de raciocínio, o ensaio DIAMOND, Jared. Colapso – Como as sociedades“Quem herdará a Terra?”, uma carta aberta aos seus escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro:filhos por Niles Eldredge (1997), afirma que “se tomarmos Record, 2005.consciência de que a Terra não é nossa propriedade, senos moderarmos, restabelecermos os ecossistemas e DIAS, Reinaldo. Gestão Ambiental: responsabilidadedeixarmos as outras espécies viverem, ainda existe uma social e sustentabilidade . São Paulo: Atlas, 2006.boa chance de que nós – juntamente com as outras ELDREDGE, Niles. Quem herdará a Terra? In: As coisasespécies – sobrevivamos para herdar a Terra.” Este são assim – Pequeno repertório científico do mundogrande desafio posto pela História para a humanidade, que nos cerca. Orgs: John Brockman e Katinkapara ser vencido, passa necessariamente pela educação Matson. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.das novas gerações. FORTEY, R. Vida: uma biografia não-autorizada. Rio de Janeiro: Record, 2000.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GORE, Albert. Uma verdade inconveniente. Barueri, SP: Manole, 2006.ACOT, Pascal. História da Ecologia. Rio de Janeiro: Campus, 1990. HARRINGTON, James; KNIGHT, Alan. A Implementação da ISO 14000 – Como Atualizar o Sistema deANDRADE, R. O. B., TACHIZAWA, T. e CARVALHO, A. Gestão Ambiental. São Paulo: Atlas, 2001. B. Gestão Ambiental: Enfoque Estratégico Aplicado ao Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Makron HELENE, M. E. M. et al. Poluentes atmosféricos. São Books, 2000. Paulo: Scipione, 1994.ASIMOV, Isaac. Escolha a catástrofe. São Paulo: HOBSBAWM, E. A era dos extremos. São Paulo: Melhoramentos, 1979. Companhia das Letras, 1995. 117
  • 118. A importância da gestão ambiental nas organizaçõesLOVELOCK, J. Gaia – Cura para um planeta doente. São Paulo: Cultrix, 2007.MALTHUS, Thomas Robert. Ensaio sobre a população. São Paulo: Abril Cultural, 1983.MILLER, G. T Living in the environment. Califórnia, EUA: . Wadsworth, 1985.NUNES, E. R. M. Alfabetização ecológica. São Paulo: Editado por Ellen Regina Mayhe Nunes, 2005.RIBEIRO, Wagner Costa. A Ordem Ambiental Internacional. São Paulo: Contexto, 2001.SAGAN, Carl. Bilhões e bilhões. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.SEGRÈ, Gino. Uma questão de graus – O que a temperatura revela sobre o passado e o futuro de nossa espécie, nosso planeta e nosso universo. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.TINBERGEN, Jan. Por uma terra habitável. São Paulo: EDUSP, 1977.WARD, P. D. e BROWNLEE, D. Sós no universo. Rio de Janeiro: Campus, 2000.WEBER, Max. Ciência e Política – Duas vocações . São Paulo: Cultrix, 2004.NOTAS* Doutor em ciências pela USP e professor da FAAC, daFAMEC, do CEFET -SP e da PUC-SP.E-mail: rrpteixeira@bol.com.br.* * Graduandos em Administração pela FAAC.118
  • 119. Serviços e clientes - uma abordagem conceitual Maria de Fátima Abud Olivieri, PhD.* Maria José Carvas Pedro, PhD.**Resumo AbstractO presente estudo procurou mostrar a nova cultura de The present study shows the new culture of services,serviços, onde a busca de qualidade como forte where the searching of quality as the great differential, indiferencial para agradar o cliente, tem grande importância order to delight the customer, has the big economiceconômica. Especialmente quando se trata de serviços, importance Especially for if treat of service, thea organização deverá reconhecer como estreitar o que é organization shall recognize how to narrow the one to isfornecido do que é percebido pelo cliente, de modo a provided whereby is sensed at customer, in order todesdobrar com maior eficiência seus desejos, anseios e display with major efficiency yours desires, longings andnecessidades. O resultado, sob o ponto de vista do lucro, needs. The result point of view of the profit shall bedeverá ser considerado como conseqüência do controle considerate as a consequence the process control thatdo processo que atenda o que o cliente deseja. aim the desire’s client.Palavras chave: Gestão, Pessoas, Serviços, Qualidade. Keywords: Management. People. Service. Quality. 119
  • 120. Serviços e clientes - uma abordagem conceitualINTRODUÇÃO Disponível em http://www.senac.br/ informativo/BTS/221/boltec221e.htm. Acesso em 17/02/07 ). Atualmente, com a evolução tecnológica e aglobalização, gerando um mercado de mudançasconstantes, como o que se vive, exige de cada Para Karl Albrecht,profissional um pouco mais de esforço e de cuidado naadministração dos bens pessoais e principalmente ... Observa-se historicamente umadaqueles ligados à sua atividade profissional. defasagem entre produtos manufa- Nas últimas décadas, vários setores estão turados e serviços. Evidenciado, aimplantando uma nova cultura de serviços, onde embora insatisfação generalizada aoso foco continue sendo o cliente, a qualidade no serviços recebidos na área da saúde,atendimento passou a atuar como forte diferencial. hotelaria, educação e serviços legais dentre outros. Neste sentido, o referido estudo procurouapresentar algumas abordagens conceituais, para Com isso percebe-se um conflito emconhecimento e reflexão sobre serviços e clientes, uma nível dos que prestam e dos quevez que frente a esse novo cenário, sabe-se que serão recebem serviços. Os clientes estãovencedoras aquelas empresas que dispuserem de se tornando cada vez mais críticosprodutos e serviços da mais alta qualidade, produzidos em relação aos serviços, formulandopor mão-de-obra devidamente qualificada. maiores expectativas de qualidade. Por outro lado, os executivos vêm demonstrando em pesquisas deEVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS SERVIÇOS opinião, a mesma preocupação em relação aos serviços, colocando as Com o esgotamento da fase industrial e de questões acerca dos serviços, acimareservas naturais, a busca pela nova fonte de riqueza de temas como produtividade edeslocou-se para a valorização da prestação de serviços, regulamentos governamentais.exigindo assim uma nova postura dos profissionais que ( ALBRECHT Karl - 1992 ) ,passaram a assumir sua face gestora. Isto requermudanças de base, ou seja, a implantação de uma Neste texto, observa-se que o autor salienta quecultura de serviços. O equivalente a migrar da era os conflitos encontrados nas empresas, estão passandoindustrial, para a contemporaneidade de ver a qualidade por profundas mudanças culturais nas últimas décadascomo grande diferencial na prestação de serviços, a qual para solucionar estes problemas, ou seja, implantaçãovem evoluindo nas últimas duas décadas, no que tange de uma cultura de serviços através da melhora constantea aproximar-se do cliente. de qualidade e satisfação do cliente.Segundo Rodrigues, CULTURA DE SERVIÇOS Para Hamilton Bueno, só existe uma forma de se A qualidade “objetiva” definida por fidelizar clientes, ou seja, através da implantação de uma Moller compreende os horários, taxa cultura de serviços. Mas o que seria uma cultura de de juros, instruções para uso, serviços? A resposta que ele nos dá é a seguinte: contratos, assim como o conforto de uma poltrona. Quanto à qualidade Cultura de serviços é uma filosofia subjetiva, devemos entendê-la como de trabalho pertencente a um a que vem diretamente do provedor contexto social que influencia o do serviço e pode ser representado modo pelo qual as pessoas se pela atitude, comprometimento, comportam e se relacionam. Uma flexibilidade e fundamentalmente cultura de serviços institui um atenção que esse provedor pode sistema de valores para o cliente passar para o cliente, que a (customer service). Sua solução perceberá pela atmosfera, solução de (produtos e serviços) tem uma atendimentos e cumprimento de filosofia de customer service: quando compromissos. (RODRIGUES,F.F.A. há criação de serviços percebidos e120
  • 121. Serviços e clientes - uma abordagem conceitual entendidos por seus clientes, e do respeito mútuo entre os empregados. ( interesse deles, que agreguem valor PARASURAMAN – 1985 . Grifo nosso ) e ganham preferência. (BUENO, H. Denton resume a administração de serviços como: – Como fidelizar Clientes. Disponível “Um enfoque organizacional global que faz da qualidade no site http://www.catho.com.br/jcs/ de serviço, tal como sentida pelo cliente, a principal força inputer_view.phtml?id=4146 . motriz do funcionamento da empresa”(DENTON, D. Keith. Acesso em 18/02/07 ) 1990. Disponível em http://www.eps.ufsc.br/disserta96/ perez/cap5/cap5.htm#5.3 . Acesso em 17/02/07). Segundo Parasuraman, A cultura representa um grande Carlzon define o que é fundamental para a elemento diferenciador de vantagem implantação desta cultura de serviços, sob a ótica do competitiva, uma vez que representa cliente: a personalidade da empresa, sem ! Toda pessoa precisa saber e sentir que é necessária; condições de imitação já que até os próprios serviços podem ser ! Todos gostam de ser tratados como indivíduos; imitados. Insiste que, para as ! Dar a alguém a liberdade para assumir empresas de serviço, a cultura responsabilidades libera recursos que de outra organizacional é crítica por se maneira permaneceriam ocultos; tratarem de empresas “people intensive”, e serem colocadas à prova ! Um indivíduo sem informações não pode assumir em todas as relações com seus responsabilidades; um indivíduo que recebeu clientes principalmente as não informações não pode deixar de assumir rotineiras ( PARASURAMAN 1985), responsabilidades. (CARLZON, Jan. A hora da verdade. 1993) Parasuraman focaliza quatro valores culturais deextrema relevância, para implantação e desenvolvimentodesta cultura de serviços: Segundo os autores anteriormente citados, cultura de serviços representa um grande elemento diferenciador! Foco unificado sobre a satisfação do cliente. A de vantagem competitiva, uma vez que representa a satisfação do cliente deve, assim, ter o valor cultural personalidade da empresa, sem condições de imitação mais apreciado nas empresas de serviços para já que até os próprios serviços podem ser imitados e poderem se sobressair em termos de processo de ainda é uma filosofia de trabalho pertencente a um prestação de serviço. Significa dizer que monitorar contexto social que influencia o modo pelo qual as os resultados é bem mais fácil que monitorar o pessoas se comportam e se relacionam. processo.! Boa vontade em ser flexível. A importância de se ter DEFINIÇÕES DE SERVIÇOS programas, regras e procedimentos por escrito e Para os consultores do Juran Institute, serviço atualizados é indiscutível, porém a empresa deve seria: “O trabalho desempenhado por alguém”. (JURAN, estar preparada a tolerar e, em alguns casos, J. M. 1990. Disponível em http://www.eps.ufsc.br/ encorajar certo grau de desvio dos mesmos nos disserta96/perez/cap5/cap5.htm#5.3. Acesso em 17/02/ relacionamentos empregado/cliente, se isso for 07) julgado necessário para assegurar a satisfação do cliente. “Uma ação, um desempenho, um evento social, ou uma atividade ou produção que é consumida onde é! Busca da criatividade. As empresas de serviço produzida” (BOWEN, D. E. & SCHNEIDER, B. 1988.), orientadas para o cliente devem estimular o pensamento empreendedor por parte de seus “Um processo que reúne os desejos dos clientes” empregados. Permitir que se tenham iniciativas em (BERRY, Leonard L. & PARASURAMAN, A. 1992.) prol de benefícios do cliente e da empresa, sem jamais tolher tal espírito com opressões inibidoras “Um produto fundamental - exigindo gerenciamento e de ações embasadas em regras e burocracias. estudo sistemático” (Albrecht e Zemke – 1992).! Respeito pelos empregados. As empresas de serviço devem esforçar-se em gerar um clima em que os Para Karl Albrecht, existe outra definição de empregados possam se orgulhar de seus trabalhos. serviços “como sendo trabalhos executados por uma A empresa deve promover o sentimento de união e pessoa em benefício de outra”. (ALBRECHT, Karl. 1992) 121
  • 122. Serviços e clientes - uma abordagem conceitualKotler e Bloom definem serviço como: ! É difícil avaliar a qualidade antes do fornecimento do Qualquer atividade ou benefício que serviço. uma parte possa oferecer à outra, que ! A satisfação do cliente, muitas vezes, pode ser seja essencialmente intangível e não percebida imediatamente ao fornecimento do serviço. resulte na propriedade de qualquer coisa. Sua produção pode ou não ! O local de interação entre o cliente e o fornecedor estar vinculada a um produto físico. de serviço se caracteriza tanto pela presença física ( KOTLER, P. & BLOOM, P. 1987. do cliente, bem como pela ocorrência simultânea Disponível em http://www.eps.ufsc.br/ da produção (fornecimento do serviço) e o consumo. disserta96/perez/cap5/cap5.htm#5.3 (JURAN, J. M., 1990. Disponível em http:// . Acesso em 17/02/07) w w w. e p s . u f s c . b r / d i s s e r ta 9 6 / p e r e z / c a p 5 / cap5.htm#5.3. Acesso em 17/02/07). Para Teboul serviços: “se caracterizamessencialmente pela sua interface, ou seja, o local onde Pelo exposto, ou seja, os serviços não podemcliente e o prestador de serviços interagem.(TEBOUL, ser estocados e que a satisfação do cliente, muitas vezesJames. 1991 ) pode ser percebida logo após o fornecimento do serviço, observa-se que o cenário exige e quer qualidade. Conforme SILPAKIT e FISK CONCEITO DE CLIENTES A participação do cliente nos serviços é definida como esforços e envolvimentos do cliente, mentais e Indiscutivelmente, o cliente é a peça mais físicos, necessários à produção e importante desta engrenagem, pois sem ele, não há entrega de serviços. Essa definição prestação de serviço. Ele é quem vai perceber e julgar deve conceituar um enfoque se o serviço superou suas expectativas, se a qualidade comportamental, dando ênfase ao recebida esteve de acordo com a esperada, enfim ele é papel ativo que o cliente o grande juiz do processo. Daí a importância e o desempenha no encontro de serviço. conhecimento do perfil e das necessidades do cliente [...] É, portanto uma conceituação ser tão vital para a permanência e o crescimento da situacional que considera como empresa no mercado. Conhecer, ouvir e interagir com condições de grande ou pequeno ele, é dever de toda organização que deseja prosperar. contacto podem afetar a operação de serviço. (SILPAKIT e FISK - 1985). Para Castelli, De forma geral, serviço é fruto da interação entreprestador e cliente, na qual estão presentes desejos,emoções ou mesmo expectativas no recebimento de umbenefício. Cabe ao prestador a realização da expectativa O cliente, na administração dedo cliente por meio da transformação do serviço intangível serviços, é a razão de ser daem algo tangível, sendo esta a parte mais difícil, pois empresa. Por isso ela necessita criarrequer o reconhecimento profundo do prestador uma cultura voltada para ele com o(profissional) e o reconhecimento do cliente. objetivo de conhecê-lo profunda- mente [...] Uma empresa obtém sucesso na medida em que produzirPRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE SERVIÇOS aquilo que vende aquilo que o cliente deseja. Para tanto a empresa precisa conhecer o cliente. Conhecer suas Juran analisa as várias faces desta prestação de necessidades, seus desejos, suasserviço; para ele os serviços são normalmente compostos expectativas, atitudes, seusde características distintas dos produtos; dentre elas o comportamentos e suas tendências.relacionamento entre produção e consumo, bem como Conhecer a sua percepção. [...]a presença física do cliente, e diz: Desse modo à empresa poderá melhorar constantemente a oferta de! Serviços não podem ser tocados ou manuseados; seus bens e serviços e manter-se conectada com os clientes. É preciso! Serviços não podem ser estocados ou armazenados; criar uma mania do permanente! O cliente muitas vezes participa e/ou observa o conhecimento do cliente.( CASTELLI processo de fornecimento do serviço; - 2003).122
  • 123. Serviços e clientes - uma abordagem conceitual Já Karl Albrecht diz que ! O cliente não significa só dinheiro na caixa . é um ser humano com sentimentos, que precisa ser tratado com todo respeito. O principal motivo para conhecer o cliente e tornar o serviço à força ! O cliente merece toda a nossa atenção e cortesia motriz da empresa, é o de criar diante possível dos concorrentes um fator de ! Ele é o sangue de qualquer negócio. É ele que paga diferenciação [...] Os vencedores o nosso salário. serão as próprias empresas que adotarem uma abordagem comple- ! Sem o cliente fecharíamos as portas. tamente diferente com relação ao ! Nunca esqueçamos disto. serviço e ao cliente [...] fazendo dos clientes o ponto central.. [...] Com isso torna-se possível, então, criar lbrecht, também dá a sua versão do que é um um clima, na empresa, totalmente cliente: voltado para o cliente e estabelecer uma vantagem competitiva faca à O cliente é um ser humano de todos concorrência. [...] Os objetivos da os tamanhos e cores. Um cliente é pesquisa sobre a percepção de uma criança que precisa de ajuda clientes são identificar as para alcançar um brinquedo numa características do produto que são prateleira alta. Um cliente é um cruciais para a aceitação pelo cliente homem idoso que já perdeu a direção e saber as características que no labirinto dos corredores de um podem formar a base de uma hospital. Um cliente é uma mulher diferenciação bem sucedida de seu que não fala bem o seu idioma e está serviço em relação a outros explicando o que precisa da única existentes no mercado. (ALBRECHT forma que pode. Um cliente é um 1992). companheiro de trabalho pedindo a sua ajuda para que possa prestar serviços ao público pagante. Pode-se observar que o foco principal deve ser a Contribuinte, paciente, pagador decaptação do cliente externo, pois de nada vale ter uma impostos, membro, hóspede, sócioboa clientela interna se os externos não existirem. – todos são sinônimos do maior patrimônio que uma empresa pode ter – o cliente, que vem até você e O QUE É UM CLIENTE paga pelo serviço ou produto. O que é um cliente? O cliente é a razão de Seria uma redundância ficar relatando sobre existência de sua empresa. Aocliente, quando Geraldo Castelli cita um autor responder a questão sobre quemdesconhecido, de forma objetiva e clara sobre o que é dependemos para realizar nossosum cliente: negócios, estaremos identificando quem são nossos clientes.! O cliente é a pessoa mais importante em qualquer Sem dúvida, o cliente merece todo o respeito em tipo de negócio. qualquer tipo de negócio, ele é pessoa física e assim sendo, é um ser humano que tem necessidades e! O cliente não depende de nós. Nós dependemos desejos, que precisam ser realizados. Por isso torna-se dele. uma figura imprescindível, sendo a razão de ser de uma! O cliente não interrompe o nosso trabalho. Ele é o organização. propósito do nosso trabalho.! O cliente nos faz uma favor quando entra. Nós não lhe estamos fazendo nenhum favor esperando por CONSIDERAÇÕES FINAIS ele.! O cliente é a parte essencial do nosso negócio e Pelo que foi exposto observa-se que há uma não uma parte descartável. necessidade de implantação de uma cultura em serviços, 123
  • 124. Serviços e clientes - uma abordagem conceitualna empresa. Que esta cultura depende de um fator JURAN, J. M. Juran na liderança pela qualidade. Sãoconstante, que é a existência do cliente e de um fator Paulo: Pioneira, 1990.variável - que pode e deve ser trabalhado para sempre KOTLER, P. & BLOOM, P. Marketing para serviçosmelhorar – que é a qualidade. profissionais. São Paulo: Atlas, 1987. Especialmente por se tratar de serviços, aorganização deverá reconhecer como estreitar o que é KOTLER, Philip.Administração de Marketing – a ediçãofornecido do que é percebido pelo cliente, de modo a do novo milênio. São Paulo: Prentice Hall, 2000.desdobrar com maior eficiência seus desejos, LAMENZA, Ademir . Estratégias Empresariais. Sãoanseios e necessidades. Paulo: Saint Paul Editora, 2008. O resultado sob o ponto de vista do lucro deverá MANCIOLA, C. Educação corporativa: desenvolvendoser considerado como conseqüência do controle do competências num mundo em transformação.processo que atenda o que o cliente deseja. Ter o lucro Disponível em <http://www.consultores.com.br>como recompensa de um primoroso atendimento e não Acesso em 12/08/05.como obstinações daqueles que pensam em curto prazo,oferecendo um serviço sem sustentação para as reais NAMURA, C. M. C. Empreendedorismo. Disponível emnecessidades do cliente. < http://www.consultores.com.br > Acesso em 13/ Desta forma, a prestação de um serviço de 08/05qualidade deve ser considerada uma estratégia essencial, NÓBREGA, C. KLEBER. Qualidade Total em Serviços.um fator diferencial para o sucesso e sobrevivência de Palestra proferida na Fundação CERTI (Centroqualquer empresa, representando um desafio para os Regional de Tecnologia e Informática),gestores, que visam conquistar e manter seus clientes. Florianópolis, 1994. NÓBREGA, C. KLEBER. Qualidade Total em Serviços.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Palestra proferida na Fundação CERTI (Centro Regional de Tecnologia e Informática), Florianópolis, 1994.ALBRECHT, Karl. Revolução nos serviços: como as empresas podem revolucionar a maneira de tratar PARASURAMAN, A. Customer - oriented organizational os seus clientes. São Paulo: Pioneira, 1992a. culture: a key to successful services marketing. Texas A&M University, 1985.ALBRECHT, Karl. ABORDAGEM CONCEITUAL DE SERVIÇOS E DA QUALIDADE. Disponível em PEDRO, Maria José Carvas; OLIVIERI, Maria de Fátima http://www.eps.ufsc.br/disserta96/perez/cap2/ Abud. Gestão de Pessoas aplicada à área da cap2.htm. Acesso 17/02/07. saúde: perfil do profissional. Nova Odessa:ARBIX,Glauco; DE NEGRI,João Alberto. Inovar para Napoleão, 2008. sustentar o crescimento. In: jornal O Estado de PEREZ, Carlos Henrique - estudo e prática de uma São Paulo,2006, pp.60-63. metodologia de gerenciamento da rotina numBUENO, Hamilton – Como Fidelizar Clientes. – Disponível ambiente de qualidade total em uma organização em http://www .catho.com.br/jcs/ de serviços. 1996. Disponível em http:// inputer_view.phtml?id=4146 . Acesso em 18/02/ www.eps.ufsc.br/disserta96/perez/index/index.htm 07. . Acessado 17/02/07 e 18/02/07.CARLZON, Jan. A hora da verdade. Rio de Janeiro: Cop, RODRIGUES, Francisco Flávio de A. A aventura da 1993. p.3. qualidade. Boletim Técnico do Senac, Rio deCASTELLI, G. Administração Hoteleira. 9º edição. Canela Janeiro, v. 20, n. 2, 12-9, maio/ago. 1994. – Rio Grande do Sul: Educs. 2003. 731p. Coleção SEYBOLD, Patrícia. Clientes.com. São Paulo: Makron Hotelaria Books, 2000.DENTON, D. Keith. Qualidade em serviços: o SILPAKIT, Patriya & FISK, Raymound P. “Participatizing” atendimento ao cliente como fator de vantagem competitiva . São Paulo, Makron Books, McGraw- the service encounter: a theoretical framework. Hill, 1990 Oklahoma State University, 1985.DOLABELA, F. O segredo de Luísa. 15ª. São Paulo: TEBOUL, James. Gerenciando a dinâmica da qualidade. Cultura,2004. Rio de Janeiro, Qualitymark, 1991.124
  • 125. Serviços e clientes - uma abordagem conceitualNOTAS*Maria de Fátima Abud Olivieri, PhD. e mAdministração, Mestre em Educação, Arte e História daCultura; Pós-Graduada em Marketing e Gestão dePessoas, Bacharel em Comunicação Social, Professorauniversitária em cursos de pós-graduação e graduaçãoda Faculdade Montessori de Educação e Cultura -FAMEC, nos Cursos de Administração, Pedagogia,Sistemas e Turismo.**Maria José Carvas Pedro, PhD. e Mestre emAdministração, Pós Graduada em Marketing e Gestãode Pessoas, Gestão em Saúde, entre outras. Graduadaem Odontologia. Professora universitária em cursos depós-graduação. Conferencista no Brasil e exterior.Diretora da Empresa BiteRight de Gestão e Consultoriaem Saúde. 125
  • 126. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no Brasil Ana Maria Diniz Rosalini * Hugo Grandis Filho **Resumo Abstract This article approaches the history of implementation ofO presente artigo aborda a história da implantação do Tourism courses in Brazil end the new competencecurso de Turismo no Brasil e as novas competências expected do professional of tourism.esperadas do profissional da área. Keywords: Tourism, Teaching, Social Responsability.Palavras-chave: Turismo, ensino, responsabilidadesocial.126
  • 127. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no Brasil O setor de turismo resume em si mesmo a grande O Impacto Social do Turismoevolução econômica e sócio-cultural que movimenta O turismo é uma atividade que tem grandevários segmentos do comércio, indústria e principalmente importância no desenvolvimento sócio-econômico, poisprestação de serviços, portanto pode ser considerado proporciona a redistribuição espacial de renda. Possuicomo uma alternativa para minimizar os problemas ainda, papel determinante na conservação do meiosociais causados pelo desemprego e pela má natural, pois em muitas regiões é a única atividadedistribuição de renda, tão comuns ultimamente. econômica que pode aliar geração de renda e emprego Pensando nestas possíveis conseqüências a conservação do meio natural, ao contrário de outrasadvindas do turismo, o planejamento da atividade se faz atividades como a agropecuária, a mineração ou anecessário, tanto para acelerar e maximizar seus efeitos indústria manufatureira. Fora isso, necessita de mão-positivos quanto e principalmente, para que os efeitos de-obra intensiva, podendo contribuir para a resoluçãonegativos sejam minimizados. do grande problema da sociedade moderna que é o A Organização Mundial do Turismo define turismo desemprego estrutural. Com isso, é notória a contribuiçãocomo “as atividades que as pessoas realizam durante do turismo no desenvolvimento cultural das comunidades.suas viagens e permanência em lugares distintos dos Contrariamente, o turismo pode ter efeitos negativosque vivem, por um período de tempo inferior a um ano sobre as regiões receptoras. Nas altas estações, aconsecutivo, com fins de lazer, negócios e outros”. concentração de demanda provoca elevação de preços Com uma taxa de crescimento constante, se tanto para os turistas, como para os moradores. Acaracteriza como o maior dos movimentos migratórios tendência em concentrar-se nas proximidades dasda história da humanidade. praias, rios, lagos, represas e em áreas frágeis como encostas de montanhas apresenta-se como fator para a O turismo é o resultado de um conjunto de poluição das águas e para a erosão e desmatamentoatividades heterogêneas. Por exigir cooperação e parceria dos vales.de vários olhares, modos de pensar e entender ummesmo acontecer é considerado um complexo fenômeno No contexto cultural pode ainda trazer umasocial; possui grande poder de redistribuição espacial contribuição negativa para os usos e os costumes locais.de renda, tendo por isso, grande importância no É cada vez mais freqüente serem observadas situaçõesdesenvolvimento sócio-econômico de uma nação. em que o artesanato ou o folclore local vão se alterando para satisfazer os desejos dos turistas. Desta forma É um setor que apresenta números muito como observa Pires:expressivos. Envolve mundialmente, direta ouindiretamente, o trabalho de aproximadamente 200 Como se sabe, a base domilhões de pessoas – um em cada nove trabalhadores – desenvolvimento do turismo repousarepresenta ainda a segunda industria que mais cresce sobre a existência de certosno mundo, ficando atrás apenas do setor de informática. elementos e manifestações deSozinho o turismo responde por 11% do PIB mundial e origem natural e cultural que6% das vendas de bens e serviços no mundo. A despertam o interesse nato no serimportância econômica da atividade turística cresce na humano pelo seu conhecimento emesma proporção do número de viajantes internacionais, desfrute. Tais elementos são osem especial nos países em desenvolvimento. Neles, o recursos turísticos. O turismo comosetor chega a representar 30% do PIB, ante a média de atividade econômica utiliza recursos3% a 5% registrada nos países desenvolvidos. – que são a sua “matéria-prima” – Hoje a importância do setor turístico resulta de de forma diferenciada dos demaisuma série de forças que determinaram sua estrutura e processos produtivos, pois osorganização ao longo do tempo. Uma das principais “consome” no seu próprio lugar decausas do desenvolvimento de regiões, cidades, estados origem e de forma normalmentee países tem sido a atividade turística. Autores como intangível, não havendo, emLage e Milone (2001) afirmam que a atividade está princípio, o esgotamento, mas simpróxima de atingir seu ponto de maturidade em situação a permanência dos recursosmundial, acenando para a estabilização de seu enquanto bem de mercado. (PIRES,desenvolvimento. 2001: 230-231) 127
  • 128. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no BrasilO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO NO BRASIL aumentou a divulgação na mídia televisiva. O próprio SESC – Serviço Social do Comércio, que foi criado em Durante a década de 20, mais precisamente em 1946, para assistir o comerciário e sua família de diversas1928, a Sociedade Brasileira de Turismo, hoje Touring maneiras, a partir de 1969, coloca o lazer como prioridadeClub do Brasil, promoveu a primeira Convenção de sua atuação.Interestadual de Turismo para seus sócios e, em 1932,foi organizada uma segunda convenção. A entidade era Concomitantemente, o governo federal, através dodirigida aos poucos proprietários de automóveis dos anos Decreto-Lei 67.227, concedia empréstimos, para que a1920 e foi a primeira a se preocupar com o turismo prática do lazer colaborasse para a diminuição dosnacional. conflitos entre o sindicato e o governo, pois, quando o sindicato aceitava a ajuda do governo, na forma de O Decreto-Lei nº 8.621, de 10 de janeiro de 1946, financiamentos, ficava atrelado a este. A partir disto,criou o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial acreditava-se também que o sindicato aceitava ajuda(Senac) que, no futuro, teria grande importância na financeira do governo para investir em lazer, porque dessaformação de profissionais nas áreas de hotelaria e turismo forma, estaria atraindo mais pessoas para a organização,no Senac/Ceatel. O Decreto-Lei n.º 853, de 13 de que vinham por causa dos atrativos, e com mais pessoassetembro de 1946 criou o Serviço Social do Comércio sindicalizadas, o sindicato ficaria mais forte e teria mais(Sesc). Essa entidade juntamente com o Senac, muito poder para lutar pelos direitos dos trabalhadores.contribuiu para a teoria e a prática do lazer social. Lazere cultura são atividades muito importantes no Sesc, e Os elementos estudados indicam a preocupaçãoreúnem colônias de férias, balneários, centros do governo com o tempo livre do trabalhador, umacampestres e centros culturais para usos de seus preocupação com a forma como esse trabalhador usariaassociados, em uma prática exemplar de lazer e turismo o seu tempo livre, pois se receava que o mesmo usassesocial. o seu momento de ócio com o vício, bebedeiras, arruaças e vadiagens ou planejasse algo contra os objetivos A Associação Brasileira de Agentes de Viagens governamentais. Dessa forma, institucionalizava-se o(Abav) foi criada em 1953, no Rio de Janeiro, lazer, sendo possível controlar até o momento de ócioposteriormente estruturada em outros estados da da classe assalariada. Independente do motivo, a verdadeFederação. O primeiro congresso nacional da Abav é que de fato o governo incentivava o sindicato a investiraconteceu em São Paulo, em abril de 1959. no lazer dos trabalhadores. Em 1966 é criada a Embratur e, junto com ela, oFungetur (Fundo Geral de Turismo) que atua através de Neste contexto de incentivo ao turismo e ao lazerincentivos fiscais na implantação de hotéis promovendo no Brasil, fez-se necessário criar um curso para formaruma nova fase na hotelaria brasileira, principalmente no profissionais capacitados – para fomentar estassegmento de hotéis de luxo, os chamados cinco estrelas. atividades. A EMBRATUR (Empresa Brasileira do Turismo, O Ensino de Turismo no Brasildepois denominado Instituto Brasileiro de Turismo) foi A Habilitação Única em Turismo écriada com o propósito de melhorar a imagem do Brasil relativamente recente no Brasil. Ono exterior, considerando que passávamos por um curso superior de turismo começoumomento de ditadura. Desta feita, a divulgação do a existir na burocracia governamentalturismo pelo Brasil foi incentivado como ideologia política; pelo Parecer n.º 35/71 do Ministérioou seja, fazer com que os estrangeiros vissem nossa de Educação e aprovado em 28 deterra como um país muito bom e não se envolvessem janeiro de 1971, no Conselho Federalnem tampouco se voltassem contra a política da ditadura. de Educação, que fixou o conteúdo Ainda que possamos considerar algumas variáveis mínimo e a duração do curso superiortais como: a mudança da imagem do Brasil no exterior de turismo.pela propaganda, as classes mais ricas, graças ao Alguns aspectos favoreceram o“milagre econômico brasileiro”, ficaram ainda mais ricas, surgimento do curso de turismo: asobrando dinheiro para o turismo. O Brasil se tornou mais classe média via no curso de turismoconhecido graças ao esporte, ação de divulgação do um curso de fácil ingresso e dessaBrasil no exterior, ou qualquer outro motivo, o fato é que forma teria possibilidade de cursaraumentou o turismo em nosso país a partir desse período. uma faculdade e ter, além da Sant‘Anna (1994), relata que no período do final profissionalização, todo o status queda década de 1960 e começo da década de 1970 muitos sempre acompanha um diploma deartigos sobre lazer foram escritos em jornais, revistas e curso superior.128
  • 129. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no Brasil A partir da década de 1960 houve equivalência dos Dentre as muitas versões sobre oscursos técnicos aos colegiais, que permitiam o ingresso motivos que levaram ao aumentona faculdade e por isso aumentou o número de alunos rápido do número de instituições quecom potencial para cursar o ensino superior. Desta forma, ofereciam o curso destacamosfaltaram vagas nas faculdades, o que gerou uma crise alguns motivos: tratava-se de umestudantil, que perturbava a ordem social. Este motivo curso que necessitaria de poucoinfluenciou o incentivo para a criação de novas investimento e fácil retorno,universidades e também de escolas de ensino superior, considerando que a novidade atrairiabem como de novos cursos de curta duração para atender alunos. Outro motivo seria aaos novos interessados provenientes da baixa classe necessidade de mão-de-obra emmédia, ou seja, investir em escolas de ensino superior locais com grandes potencialidadespassou a ser um negócio atraente. turísticas. Ao final de 1968, é apresentada a Lei 5.540 de Neste contexto é realmentenovembro de 1968, que autoriza a criação de cursos impossível pensar em aumento dasuperiores de profissões não regulamentadas. Vale qualidade, a partir da explosão doslembrar que até a presente data, a profissão de cursos, se não houve condições paraturismólogo ainda não é regulamentada. que egressos dos cursos se Trigo (2001) descreve que em 1971 o EMBRATUR titulassem de maneira adequada paracomeça a estimular a iniciativa privada para investir no atuarem como docentes. O númerosetor hoteleiro, inclusive permitindo o re-investimento do de professores com título deimposto de renda na hotelaria, situação esta que especialista ou mestre nas áreasproporcionou grandes investimentos no setor, fazendo específicas do turismo é muitonascer a necessidade por mão-de-obra qualificada, logo pequeno em relação à quantidade deturismólogos. salas de aula carentes de professores titulados. Também vivíamos em um país com rigorosa A falta de professores, especialmente tituladosDitadura Militar, que, de acordo com Barreto (2004), (mestres e doutores) acarreta a carência de uma visãoproibia e perseguia os cursos onde fosse estimulado o estratégica coerente com o dinamismo e sofisticaçãosenso crítico que poderia ir de encontro com os projetos dos setores de viagens epolíticos e incentivava os cursos que promoviam atecnologia e o entendimento superficial da sociedade. Os futuros profissionais, durante a graduação,Por conseguinte, áreas de conhecimento como turismo devem ter acesso a uma visão abrangente e completaforam incentivadas, pois eram consideradas neutras e do que a profissão e o mercado turístico representam.incapazes de produzir ideologias, poderes e controle Para isso, o curso todo, orientado por um projetosocial, logo, ideal para um governo militar em ditadura. pedagógico consistente, deve apontar para objetivos A primeira instituição de ensino superior a criar o claros e desafiadores.curso foi a Faculdade de Turismo do Morumbi, atualUniversidadeAnhembi-Morumbi em São Paulo, em 1971 Formação Profissional em Turismo no Brasilseguida, pela Faculdade Ibero-Americana de Letras eCiências Humanas – atual Centro Universitário Ibero- Segundo o Ministério da Educação, a oferta deAmericano/ UNIBERO em São Paulo em 1972. Após cursos na área de turismo é bastante diversificada eessas primeiras experiências, iniciaram novos cursos apresenta a seguinte diferenciação:de turismo, mas o curso toma mais força como objetode estudo acadêmico e científico em 1973, quando a a) Ensino superior: são os cursos de graduação, pós-Escola de Comunicações e Artes da Universidade de graduação Strictu Sensu (Mestrado e Doutorado),São Paulo – ECA/USP - cria o curso de turismo, sendo Lato Sensu (especialização e aperfeiçoamento), extensão e seqüenciais.a primeira universidade pública do país a oferecer umcurso nesta área de conhecimento. b) Ensino livre: cursos e programas não regulares. Não “Após 1995 os cursos de turismo no Brasil requerem credenciamento oficial e são dirigidos às necessidades de formação, treinamento epassaram por uma verdadeira explosão na quantidade,mas não, infelizmente, na qualidade”. Esse aumento aperfeiçoamento para o mercado, seguem as demandasquantitativo tenta suprir a crescente necessidade de e necessidades de mercado regional.especialização e segmentação apresentando, todavia, c) Cursos técnicos: são os cursos profissionalizantesinúmeros problemas. equivalentes ao ensino médio e pós-médio completo. 129
  • 130. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no BrasilProcuram a formação técnico-profissional, como os A sociedade tem exigido um profissionalcursos de guia de turismo. comprometido com o social e com o desenvolvimento de todas as pessoas do seu entorno, que contribua parad) Cursos seqüenciais: cursos oferecidos em a construção de uma sociedade mais justa.instituições de ensino superior. Podem ser de duasmaneiras: primeiramente de formação específica O mercado de trabalho, cada dia mais competitivooferecem diplomas e devem ser reconhecidos; e os de e instável, vem acompanhando esse movimento em tornocomplementação de estudos oferecem apenas da responsabilidade social e passa a procurarcertificado e não são considerados cursos de profissionais com um novo perfil: o de “profissional-graduação. cidadão”. Um ser não apenas técnico ou qualificado, mas dotado de consciência de suas responsabilidades perante a sociedade e problemas sociais em seuO Ensino Universitário Frente à Formação do entorno.Profissional de Turismo Socialmente Responsável As instituições de ensino superior – IES – podem exercer um papel de extrema importância na formação Segundo Maximiano, o princípio da da consciência de responsabilidade social e cidadania, Responsabilidade Social baseia-se na idéia de trabalhando esses conceitos durante a formação que as organizações são instituições sociais, acadêmica. que existem com autorização da sociedade, “A universidade é o espaço da utilizam os recursos da sociedade e afetam a reflexão e da pesquisa científica, por qualidade de vida da sociedade. excelência, que deve ser O lucro, tão defendido pelo capitalismo ainda é o compartilhada com toda amotivo principal da existência de muitas empresas, sociedade. Pensar respostas,porém, a maneira pela qual ele é obtido e distribuído discutir caminhos, apontarpassa a ser repensado. possibilidades são fundamentais para a tomada de ação. Pensar o A empresa deixa de pautar-se apenas pelos papel da Universidade e dointeresses financeiros dos acionistas e coloca em sua conhecimento humano é discutir ospauta de decisões, o interesse de todos os stackolders princípios que norteiam a Educação.(grupos de interesse que se relacionam, afetam e são É essencial que este processo sejaafetados pelas organizações e suas atividades). refletido numa dimensão ampla, Desenvolver programas sociais apenas com a considerando os agentesintenção de divulgar a empresa, ou como forma impulsionadores e os problemas acompensatória, não traz resultados positivos sustentáveis serem enfrentados. Não podemosao longo do tempo. Entretanto, nas empresas que esquecer que o conhecimento é umaincorporarem os princípios e os aplicarem corretamente, prévia condição para apodem ser sentidos resultados como valorização da ação.”(ASSUNÇÃO, 2006: 16)imagem institucional e da marca, maior lealdade do Não são os grandes investimentos que realizamconsumidor, maior capacidade de recrutar e manter melhorias na comunidade local, o maior investimento étalentos, flexibilidade, capacidade de adaptação e conscientizar todos os envolvidos neste projeto delongevidade. desenvolvimento sustentável com responsabilidade Em uma sociedade que apresenta tamanha social.desigualdade social, a maneira de agir de algumas Nesse contexto, espera-se que as universidadesempresas e seus dirigentes, têm recebido severascríticas por parte da comunidade, que está mais assumam uma postura socialmente responsável, levandoconsciente e atuante no que diz respeito a exigir o para dentro da sala de aula a discussão acerca dessacumprimento de seus direitos. nova realidade, preparando, assim, o aluno para exercer sua cidadania e quando ingressar no mercado de trabalho Essa tomada de consciência que coloca em assumir uma postura solidária e participativa frente aosjulgamento a ética e a responsabilidade das empresas problemas sociais de sua comunidade.com relação a tudo que está acontecendo em seuentorno, principalmente no campo social vem provocando É vital que além de conscientizar o empresariadouma mudança na mentalidade e na prática dos turístico, o turismólogo atue de maneira crítica,profissionais envolvidos. contribuindo para que a atividade turística seja realizada130
  • 131. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no Brasilcom base no cumprimento da responsabilidade social e REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASdo meio ambiente, e não apenas para atender meramenteum contrato comercial. ASSUNÇÃO, Paulo. A Universidade e a produção do A universidade vem sendo cada vez mais exigida conhecimento científico. Lúmen – Revista de estudospara atuar como centro de pensamento, criadora de e comunicações. São Paulo: IESP/ UNIFAI, 2006. Edição Especial – Anais do IV Simpósioopinião e formadora de profissionais que possamcolaborar eficientemente para o desenvolvimento de um Multidisciplinar do Centro Universitário Assunção –país. Assim no âmbito da estrutura da universidade e UNIFAI.sua relação com a sociedade os setores mais BARRETO, Maria Inês; WANDERLEY, Luiz Eduardo W.,diretamente ligados aos resultados almejados são os MARIANO, Marcelo Passini. Dimensão Subnacionalda educação para transformar os cidadãos em e as relações internacionais. São Paulo: UNESP,profissionais capazes de contribuir para o 2004. 462 p.desenvolvimento da nação, os da cultura preservando e BENI, Mario Carlos. Política e planejamento de turismoincentivando a memória da sociedade e do país, os no Brasil. São Paulo: ALEPH, 2006. 208 p.setores produtivos, industriais e comerciais, para odesenvolvimento econômico e social. O professor _______. A política do turismo. Turismo. Como aprender,universitário é o autor intelectual e paralelamente o ator como ensinar. São Paulo: SENAC, 2001.183 p.das ações que fundamentam o papel da universidade Diálogos Akatu. As novas relações de consumo no séculopara a nação. XXI. São Paulo: Promon, 2002. 67 p. As bases do ensino de turismo com MATIAS, Marlene. Turismo – formação eresponsabilidade social, em sua essência, devem ser profissionalização. São Paulo: Manole, 2002. 106p.plantadas nas instituições de ensino por intermédio deuma organização curricular dinâmica, diversificada e inter/ MAXIMIANO, A. Fundamentos da Administração. Sãotransdisciplinar, estruturação esta necessária à Paulo: Atlas, 2004. 280 p.compreensão do turismo como fenômeno não apenas MILONE, Paulo César; LAGE, Beatriz Helena Gelas.econômico, mas também social, cultural, que possibilite Economia do turismo. 7ª ed. São Paulo: Atlas, 2001.sólida formação cultural, princípios de ética e cidadania, 226 p.preservação e conservação do meio ambiente, ensinode línguas, comunicação interpessoal e leitura das formas ORCHIS, M; TOLDO, J. Responsabilidade social dase meios de comunicação, além das disciplinas de empresas – a contribuição das universidades. Sãoformação profissional. Paulo: Peirópolis, 2002. 495 p. É imperioso que a extensão educacional seja feita ORCHIS, M. A. Impactos da responsabilidade social nosna intenção de propagar cidadania por meio de projetos objetivos e estratégias empresariais. In: Institutocontínuos e permanentes de inclusão social valorização Ethos. Responsabilidade social das empresas: ade renda e melhoria da qualidade de vida. Por meio do contribuição das universidades. São Paulo:exercício da cidadania, possa o aluno revestir-se da Peirópolis, 2002, 495 p.consciência de ser um profissional socialmente PIRES, Paulo dos Santos. Interfaces ambientais doresponsável, capaz de interferir e transformar a realidade turismo, in: TRIGO, Luiz Gonzaga Godói. (org.)que está a sua volta, melhorando-a e aperfeiçoando-a e Turismo. Como aprender, como ensinar. São Paulo:assim contribuir para a formação de um mundo melhor. Senac, 2001. 320 p. Proporcionar a formação dessa consciência nos SANT’ANNA, Denize Bernuzzi de. O prazerbacharéis de turismo é de suma importância para que justificado: história e lazer. São Paulo: Marcoos impactos sociais e econômicos do turismo tragam Zero, 1994. 145 p.maiores benefícios à comunidade. SANTOS FILHO, João dos. Ontologia do Turismo. Caxias A responsabilidade social deve estar totalmente do Sul: EDUCS, 2005. 176 p.ligada às práticas do turismo e ao ensino dele. Umaatividade turística pode se considerar de qualidade não TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Turismo – como aprender,só quando se tem um bom lucro por meio dela, mas como ensinar – volume I. São Paulo: SENAC, 2001.ainda quando tem possibilidades de atender a todos, 320 p. nos berços da humanidade. São Paulo:sem restrições. Contexto, 2001. 86 p. 131
  • 132. Da terapia ocupacional ao profissional socialmente responsável – a trajetória e os desafios das Instituições de Ensino na formação do profissional de turismo no BrasilNOTAS* Mestre em Administração Hoteleira, professora de Meiosde Hospedagem e Lazer e Recreação na graduação emTurismo no Centro Universitário Assunção - UNIFAI, Guiade Turismo credenciada pelo Ministério do Turismo.** Pesquisador em Gestão Ambiental e em EnsinoSuperior. Formado em Ciências Econômicas; pós-graduado em Administração de Marketing e pós-graduadoem Formação de Docentes para o Ensino Superior.Docente nos Cursos de Administração de Empresas,Gestão de Recursos Humanos, Gestão de Marketing,Gestão de Processamento de Dados, Gestão Ambiental,Turismo, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas doCentro Universitário Assunção – UNIFAI e professor deAdministração de Empresas da FAMEC.132
  • 133. Metáfora e notícia Sueli de Britto Salles*Resumo AbstractEste artigo trata das ligações entre as metáforas do This article intends to expose the relationship betweencotidiano e a linguagem jornalística, como forma de the methaphors and the news, showing how fragile ismostrar o quão relativos são conceitos como objetividade the concept of objectivity and truth.e verdade. Keywords: Methaphor. News. Language.Palavras-chave: Metáfora. Jornal. Linguagem. 133
  • 134. Metáfora e notícia A criação de títulos para textos jornalísticos exige segundo Santos (1998), passa por um “conhecimentogrande criatividade e poder de síntese, uma vez que estes prudente para uma vida decente”, ou seja, não pode sersão a apresentação do produto notícia e devem trazer o apenas um paradigma científico, tem de ser também ummáximo de informação com o mínimo de palavras. Não paradigma social, uma vez que a dicotomia entreé difícil imaginar, portanto, que a metáfora seja um ciências naturais e ciências sociais deixou de ter sentidoimportante mecanismo para a construção dessa etapa e utilidade. Essa mudança revaloriza os estudosdo texto, mas não tanto a metáfora criativa (que salienta humanísticos. O mundo é comunicação e por isso aa subjetividade do texto) e sim as metáforas do cotidiano, lógica existencial da ciência pós-moderna é promover aque acabam por confundir-se com o suposto (e ilusório) “situação comunicativa”, na qual confluem sentidos etom objetivo do jornalismo informativo. constelações de sentido vindos das nossas práticas locais, marcadas pelos nossos percursos individuais, A observação dos títulos de primeira página leva- comunitários, sociais.nos a alguns questionamentos: o que as metáforas podemrevelar sobre a subjetividade enunciativa do jornal? Que A ciência pós-moderna sabe que nenhuma formaoutras possíveis leituras dos fatos da realidade foram de conhecimento é, em si mesma, racional. As formasocultadas pelas escolhas feitas? Os objetivos deste de conhecimento interpenetram-se, inclusive peloartigo são fazer uma releitura de algumas reflexões conhecimento do senso comum, responsável pelateóricas sobre a metáfora, com base principalmente nos orientação das nossas ações diárias. No novo paradigma,estudos de Lakoff & Johnson, e analisar alguns títulos algumas condições do fazer ciência são vistas comojornalísticos segundo essas perspectivas, a fim de essenciais, como a questão da contextualização. Aindadesvelar os sentidos ocultos por trás de títulos nessa linha das subjetividades do novo fazer ciência,aparentemente objetivos. surgem as questões ligadas à teia de interpretações: “a Como corpus para análise, foram selecionados verdade é normativa e só existe enquanto luta detítulos de primeira página do jornal Folha de S.Paulo verdades”. Santos também comenta que “se a verdade é(entre maio e dezembro de 2001) que tivessem mulheres a luta de verdades, é também o consenso que permitecomo sujeito da notícia e que não fossem citadas lutar essa luta...” (1998: 107). A verdade é o efeito denominalmente. Esse recorte do corpus deu-se com a convencimentos dos vários discursos de verdade emintenção de traçar um perfil da imagem feminina presença. Vê-se aqui uma ligação entre o discursodesenhada nos títulos da principal página do jornal. Vale científico e a retórica. O domínio da argumentação é ocitar que a postura do jornal ao retratar mulheres em razoável, o plausível, o provável, e não o certo ou o falso.seus títulos é predominantemente por meio indireto, não A natureza retórica do discurso científico é definida pelonominal, o que justifica a escolha feita para este trabalho. tipo de argumento considerado válido e mais válido no seio do auditório relevante desse discurso. Se o que determina a maior parte das nossas convicções A metáfora na ciência e no cotidiano filosóficas são imagens e não proposições, percebe-se que nossas “verdades” são baseadas não em descrições, mas em metáforas, que traduzem nossa experiência de Nas últimas décadas, o estudo da metáfora vida da seguinte forma: propiciam estruturas coerentes,expandiu-se muito além dos limites da estilística ou da iluminando algumas coisas e ocultando outras. Asfilosofia, ganhando espaço inclusive nos meios imagens e analogias desempenham papel importante nocientíficos. Thomas Kuhn foi um dos primeiros teóricos desenvolvimento científico, pois a ciência é feita daa tratar da mudança de paradigma científico vivido permanente tensão entre a linguagem técnica e aatualmente, no qual a metáfora é vista como importante metafórica.recurso cognitivo. Nessa linha também seguiu o Assim, vemos que a metáfora está infiltrada naportuguês Boaventura de Sousa Santos, mostrando que vida cotidiana, não somente na linguagem, mas tambémestamos vivendo em um tempo de transição, no pensamento e na ação. Os conceitos que governamcaracterizado por ambigüidades e complexidades. O nosso pensamento e nossa atividade cotidianaparadigma ainda dominante é aquele que segue o modelo estruturam o que percebemos, a maneira como nosda racionalidade, mas sua crise é profunda e iniciou-se comportamos no mundo. Esses conceitos sãocom Einstein e a mecânica quântica, pois relativizaram metafóricos e não são de natureza puramente intelectual.o rigor de leis estudadas pela astrofísica e pela Lakoff & Johnson (2002) apresentam uma série demicrofísica. Heisenberg, em seu princípio da incerteza, exemplos para mostrar como um conceito pode sermostra que não conhecemos do real senão o que nele metafórico e estruturar uma atividade cotidiana, comointroduzimos, ou seja, não conhecemos do real senão a ocorre em “discussão é guerra” (como se vê em exemplosnossa intervenção nele. O paradigma emergente, do tipo “seus argumentos são indefensáveis”) e “tempo134
  • 135. Metáfora e notíciaé dinheiro” (revela um modo de pensar da cultura Roseana sobe e se isola no 2o. lugar. (FSP, 25/11/01)capitalista). Esse título refere-se ao aumento da popularidade A sistematicidade que nos permite compreender da pré-candidata à Presidência da República, Roseanaum aspecto de um conceito em termos de outro (discutir Sarney. Aqui, porém, a idéia de aceitação está implícita,como um combate, por exemplo) também encobre outros já que não é a pessoa Roseana (referência concreta, deaspectos de um mesmo conceito (discutir possui outros existência física) que “sobe” e sim sua popularidadeaspectos não revelados pela metáfora da guerra, como (referência abstrata, que não é um objeto em movimento).a cooperação). Como já foi dito, a metáfora ilumina Entre as metáforas ontológicas mais óbvias estãoalgumas coisas e oculta outras, procedimento natural a aquelas nas quais os objetos físicos são concebidosqualquer ato comunicativo, uma vez que isso exige como pessoas. A personificação, porém, não é umescolhas na criação de enunciados, como será visto mais processo único, pois difere em termos dos aspectosà frente, quando tratarmos de categorização. humanos selecionados, o que faz dessa metáfora não a simples transposição de algo não-humano em algoOs tipos de metáforas humano, mas sim em alguma característica específica de humanos. Vejamos alguns casos: São várias as classificações dos tipos demetáforas: estruturais (aquelas que tratam de casos nos 1- Mercado aposta nas mulheres. (FSP 23/7/01) ,quais um conceito é estruturado metaforicamente emtermos de outro), orientacionais (aquelas que organizam 2- Escola de meninas driblou o Taleban.todo um sistema de conceitos em relação a outro), (FSP, 24/11/01)ontológicas (formas de se conceber eventos, atividades,emoções, idéias, como entidades e substâncias), No primeiro caso, o mercado é personificado, masmetáforas de recipiente (como somos seres físicos, a metáfora não é meramente MERCADO É UMAdemarcados e separados do resto do mundo pela PESSOA. Ela é mais específica, ou seja, O MERCADOsuperfície de nossas peles, projetamos isso aos outros É UM APOSTADOR. Isso nos conduz a pensar noobjetos físicos, concebendo-os como recipientes com mercado financeiro como um participante de um jogo deum lado de dentro e outro de fora). azar, ou seja, alguém que não age movido pela razão, pela certeza, alguém que corre riscos, em quem não se Orientações espaciais como para cima- para baixo pode confiar. Essa mesma frase ainda traz outrafornecem uma base muito útil para a compreensão de metáfora: AS MULHERES SÃO UMA APOSTA, o queconceitos em termos orientacionais, assim como nossa implica o risco, a ausência de certeza, ou seja, asexperiência com substâncias e objetos físicos. Assim mulheres, para o mercado financeiro, não são umpodemos identificar nossas experiências como entidades investimento seguro, embora recebam algum crédito aou substâncias, o que permite categorizá-las, agrupá- partir da “aposta”.las e quantificá-las. As orientações espaciais humanasdão origem a metáforas orientacionais e as experiências No caso seguinte, o verbo driblou conduz o leitorcom objetos físicos fornecem a base para as metáforas a uma ação humana, mas não de qualquer ser humanoontológicas, ou seja, uma forma de conceber eventos, e sim de jogadores de futebol habilidosos que conseguematividades, emoções, idéias etc, como entidades e escapar da marcação adversária. Assim vê-se a oposiçãosubstâncias. Vejamos um exemplo de título sobre a entre adversários (escola de meninas e Taleban, ambosaceitação popular da na época prefeita da cidade de São personificados), sendo que o “jogador escola” mostra-Paulo, Marta Suplicy: se mais habilidoso (pelo menos nesse momento do jogo) que o “jogador Taleban”. A metáfora ganha maior importância nesse caso quando se observa o contexto Desaba a popularidade de Marta. (FSP, 1/7/01) no qual se desenvolve a ação: o Taleban, regime conservador do Afeganistão, é conhecido pelo seu forte Nesse caso, popularidade, que diz respeito a um poder de opressão sobre as mulheres, que, durante osentimento popular – ou seja, a aceitação, a aprovação governo desse grupo radical, não estavam autorizadas ade alguém por parte de pessoas da população – é vista freqüentar escolas. Assim, por serem a p artecomo um objeto (metáfora ontológica) que pode teoricamente mais frágil nesse combate, não poderiammovimentar-se para cima ou para baixo (metáfora entrar em um confronto direto com o adversário forte,orientacional). Assim, ter popularidade é para cima e não mas causam surpresa ao esquivarem-se da marcação ea ter é para baixo. Outra metáfora orientacional ocorre conseguirem “driblar” o Taleban para atingir seusem: objetivos. 135
  • 136. Metáfora e notíciaVerdade e categorização diárias e nossa forma de interagir no mundo baseiam-se naquilo que consideramos verdade: a noção que temos de nós mesmos e dos outros, a localização dos espaços Os valores fundamentais de uma cultura são pelos quais passamos, as escolhas, os valores, ascoerentes com a estrutura metafórica dos conceitos responsabilidades... Para adquirir tais verdades e fazerfundamentais dessa cultura. As metáforas podem criar uso delas, precisamos de uma compreensão do mundorealidades para nós, especialmente realidades sociais. em que vivemos que seja suficiente para nossasNa maior parte dos casos, o que está em questão não é necessidades e, para entender o mundo, temos dea veracidade ou a falsidade de uma metáfora, mas as categorizar as coisas e as experiências que encontramospercepções e inferências que a acompanham e as ações de forma que passem a fazer sentido para nós.sancionadas por ela. Em todos os aspectos da vidadefinimos nossa realidade em termos de metáforas e A categorização é uma forma natural de identificarentão começamos a agir com base nas metáforas. um tipo de objeto ou experiência iluminando certas A preocupação com a verdade, porém, ainda é propriedades, subestimando outras e até escondendoconstante nos estudos filosóficos. Os filósofos tendem outras. Ao focarmos um conjunto de propriedades,a entender as metáforas como expressões imaginativas desviamos nossa atenção das outras, ou seja, usamose o foco de suas discussões tem sido se essas categorizações para focar determinadas propriedades queexpressões lingüísticas podem ou não ser verdadeiras. se ajustam às nossas intenções. Nos exemplos “umaSua preocupação com a verdade surge de uma loura sexy e um jovem atlético jantaram juntos” e “umapreocupação com a objetividade: verdade para eles candidata petista e um prefeito tucano jantaram juntos”,significa verdade objetiva, absoluta. Mas não cremos que vemos que cada uma dessas pessoas pode encaixar-sehaja uma verdade objetiva e sim verdades, não nessas (e em mais uma infinidade de outras) descrições,necessariamente ligadas à visão objetivista, uma vez que mas cada descrição ilumina apenas alguns aspectos dea idéia da existência de uma verdade absoluta é, além uma pessoa, escondendo as outras.de errônea, perigosa social e politicamente, pois as Em geral, as afirmações verdadeiras que fazemospessoas que conseguem impor suas metáforas à cultura baseiam-se na maneira como categorizamos as coisas(no caso das culturas que ainda defendem o mito do e, portanto, no que é iluminado pelas dimensões naturaisobjetivismo) conseguem definir também o que será das categorias. Ao fazermos uma afirmação, fazemosconsiderado verdadeiro por aquele grupo. uma escolha de categoria, pois temos motivo para focar determinadas propriedades e subestimar outras. Cada Lakoff & Johnson propõem uma abordagem afirmação verdadeira, portanto, necessariamente deixaexperiencialista (baseada na metáfora) para estabelecer de fora o que é subestimado ou escondido pelasuma ponte entre os mitos objetivista e subjetivista, categorias usadas nela. Assim, para fazermos umamostrando que pode existir uma objetividade relativa ao afirmação verdadeira, temos de escolher categorias desistema conceptual de uma cultura, que descarta as descrição e essa escolha envolve nossas percepções evisões individuais em favor de um valor coletivo cultural nossos propósitos em uma dada situação.ou de subculturas. Assim, é importante considerar que Na análise do corpus jornalístico, percebemos ao modo como compreendemos o mundo está ligado à importância dada à categorização do sujeito da notícia,nossa interação com ele. A verdade, por exemplo, é principalmente para cumprir com as necessidadessempre relativa à compreensão, mas não elimina a idéia informativas do título (especialmente os de primeirade objetividade, apenas lhe dá novo sentido. A objetividade página). Vejamos alguns exemplos (todos da Folha deainda envolve olhar por cima do viés individual, seja na S. Paulo de 2001):questão do conhecimento seja na de valor. Nessa visão,o conhecimento científico ainda é possível, mas éimportante desistir da verdade absoluta, reconhecendo 1-Corpo de modelo é achado e enterrado. (4/8)que uma teoria científica pode esconder muito mais doque revelar e ter a consciência de que a busca objetivista 2-Ex-diretora da Prodasen é suspensa por 90 dias. (3/8)pela compreensão do mundo externo e a busca 3-Brasileira faz parte de time de acusações a Milosevic.subjetivista pelos aspectos internos da compreensão não (3/7)são preocupações opostas, mas complementares. 4-Menina de 12 anos vai a creche e seqüestra bebê. (15/ O homem deve ser visto como parte do meio, 8)numa interação de constante transformação mútua. Issoirá levar o homem a uma maior compreensão de si 5-Filha de Silvio Santos é libertada, e polícia prende 2mesmo, dos outros indivíduos (com os quais compartilha suspeitos. (29/8)uma cultura) e do próprio mundo, afinal, nossas ações 6-Ex-contadora diz que Estevão falsificou contas. (31/8)136
  • 137. Metáfora e notícia7-Mulher morre após fogo no metrô. (31/8) muito mais enfática do que “levar um tiro” ou “ser ferida8-Mulher morre após pane em avião da TAM. (17/9) por uma bala”, pois remete a uma suposta intencionalidade do agente agressor) em seu local e9-Baleada em aula, professora diz perdoar agressor. momento de trabalho (sala de aula). A vítima torna-se(8/9) ainda mais “maternal” ao perdoar o agressor.10-Feminista afegã quer poder usar saia e trabalha. Em 13, a profissão e a atuação na ONU fazem o(30/9) contraponto com a agressão sofrida pela mulher citada11-Grávida também é vítima de chacina. (13/11) e é justamente nessa oposição que se constrói a notícia.12-Mulheres de Cabul voltam a se cobrir com as burgas. Apesar de ter sido vítima de grande violência (mutilação(18/11) genital), é exemplo de superação, tanto pela beleza física, que a faz modelo, quanto pela capacidade intelectual,13-Modelo vítima de mutilação genital representa a ONU. que a faz representante da ONU.(18/11) Outra forma vista acima de descrever as mulheres Curioso também é observar como o jornal, em uma foi pela sua relação com alguns homens identificadosmesma página (C1), usa diferentes categorias para referir-se à mesma pessoa: pelos nomes, o que revela, na notícia, dependência delas em relação a eles. Em 3, a única importância dada à14-Mãe da acusada faz ataques ao apresentador. (5/9) mulher citada é o fato de ser brasileira (a única em um14’-Seqüestradora lembra sua ‘princesa’. grupo internacional), buscando a identificação dos leitores com este fato. Sua existência como notícia,14’’-Namorada de Esdras é presa em SP. porém, está ligada a outro acontecimento: Milosevic será acusado. O exemplo 5 mostra relação mais direta: a Em todos esses casos, percebe-se que a importância do fato está na fama do pai, citadocategorização ocultou o nome (pouco conhecido pelo nominalmente, e não na liberdade da seqüestrada. Emleitor ou considerado irrelevante pelo jornal) das mulheres 6, idem, pois é Estevão o nome conhecido e não o dacitadas, iluminando aspectos sociais considerados mais ex-contadora. Isso ainda acontece em 14’’, quando orelevantes por quem criou tais títulos. fato trata da prisão de alguém categorizada como Vejamos: em 1, 2, 6, 9 e 13, a categorização “namorada de Esdras” (este sim consideradoilumina a profissão das citadas, porém com intenções suficientemente relevante para ser citado pelo nome).distintas. Por fim, ainda há uma categorização comum a Em 1, cria-se um efeito de sentido a partir da vários dos títulos: a mulher citada simplesmente por “seroposição entre as palavras corpo (aqui com conotação mulher” (o que pressupõe um contraponto com o “sernegativa, já que é um corpo sem vida e marcado pelo homem”) ou pelas condições referentes a suatempo em que ficou perdido) e modelo (profissão baseada sexualidade (7,8,10,11,12 e14). Em 7 e 8, mulheresprincipalmente na beleza do corpo). morrem em acidentes. A identificação do sexo torna as vítimas “mais vítimas”, uma vez que culturalmente a Em 2, a categorização subestima a identidade da sociedade ocidental ainda carrega a idéia da fragilidadecitada, já que o importante para o país é a instituição na feminina. Isso também ocorre em 11, pois o fato de estarqual a ex-diretora trabalha e o cargo que exerce. Em 6, “grávida”(além de ser mulher, está em condições aindade modo semelhante, o importante é não apenas a mais frágeis), intensifica a tragédia da chacina. Em 10 eprofissão (uma contadora está qualificada a fazer 12, a identificação da nacionalidade das citadas ajuda adeclarações confiáveis sobre um ex-cliente), mas contextualizar os fatos: são mulheres e feministas queprincipalmente o nome do cliente famoso, este sim não possuem direitos considerados, no Brasil, básicoscitado. a pessoas de ambos os sexos, o que provoca a curiosidade. Em 14 e 14’’, as relações familiares Em 9, o efeito de contraste causa certa comoção exercidas por mulheres (mãe e namorada) sãosocial e explora valores culturais da sociedade à qual o enfatizadas. Quanto ao item 4, “menina de 12 anos”,jornal se destina. A imagem social de professora (aquela percebe-se o duplo enfoque à fragilidade (além da pessoaque geralmente tem uma relação diária e quase maternal ser do “sexo frágil”, ainda é uma criança), o que torna ocom os alunos, principalmente com as crianças) ajuda ato mais surpreendente, imprevisível e, portanto, curiosoa compor o efeito trágico de ser baleada (escolha lexical como notícia. 137
  • 138. Metáfora e notíciaConsiderações finais A linguagem metafórica, de acordo com o novoparadigma científico que se constrói nos últimos tempos,deixou de ser vista como um recurso supérfluo àcomunicação para ser entendida como um mecanismode cognição presente em todos os níveis e variações delinguagem. O enfoque principal dado neste trabalho àcategorização ocorreu com o intuito de mostrar que ametáfora (por iluminar algumas coisas e ocultar outras)é parte constante dos nossos enunciados e estáintrínseca em uma das atividades mais elementares àcomunicação: o ato a de denominar. O texto jornalístico, assim, também é marcadopela metáfora e, conseqüentemente, pela carga subjetivaque ela implica, relativizando as verdades noticiadas.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana . Campinas: Mercado das Letras, São Paulo: Educ, 2002.NEVES, Maralice de Souza. Metáforas que nos fazem rir. In: PAIVA, V.L.M.O (org.). Metáforas do Cotidiano. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1998.SANTOS, Boaventura de S. Introdução a uma ciência pós-moderna. 5ª., Porto: Edições Afrontamento, 1998.______ Um discurso sobre as ciências. 12ª., Porto: Edições Afrontamento, 2001.ZANOTTO, Mara S.T Metáfora e indeterminação: abrindo . a Caixa de Pandora. In: PAIVA, V.L.M.O (org.). Metáforas do Cotidiano. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1998.NOTAS* Mestre em Língua Portuguesa pela PUC/SP e professorados cursos de Letras, Pedagogia e Enfermagem daFAAC.138
  • 139. Implicações do ethos para a leitura do discurso literário: análise de um poema de Gregório de Matos Eduardo Lopes Piris*Resumo AbstractDe um modo geral, este trabalho trata do problema da This work deals with the problem of the production andprodução e da recepção do discurso literário, mais the reception of the literary discourse, more specificallyespecificamente da relação entre o autor e o seu leitor, of the relationship between the author and its reader,focalizando o papel que o ethos e suas noções conexas focusing the role that the ethos and its related notionsdesempenham na construção das relações intersubjetivas develop in the construction of the intersubjectiveentre enunciador e co-enunciador. Assim, com base na relationships between enunciator and co-enunciator.Análise do Discurso dita de linha francesa, ilustraremos Thus, based on the French Discourse Analysis, we willessas questões procedendo à análise de um poema de exemplify these questions with an analysis of an poemautoria de Gregório de Matos, considerando o sistema by Gregorio de Matos, considering the system of valuesde valores do século XVII, os quais permeiam a of century XVII which cross the construction of thisconstrução desse discurso, de suas instâncias discourse, of its subjective instances, of its meaning.subjetivas, de seu sentido, enfim. Os resultados mostram The results show how the French Discourse Analysisde que maneira a Análise do Discurso pode contribuir contributes to the question of the reading of the literaturepara a questão da leitura da obra literária enquanto as literary discourse.discurso. Keywords: literary discourse, baroque, reading, ethos.Palavras-chave: discurso literário, barroco, leitura,ethos. 139
  • 140. Implicações do ethos para a leitura do discurso literário: análise de um poema de Gregório de MatosO ETHOS DISCURSIVO E SUAS NOÇÕES CONEXAS com o mundo que ele deverá construir em seu enunciado (Maingueneau, 2002, p. 99). Em suma, as repre- sentações sociais axiologizadas pela ideologia e Inicialmente, cabe dizer que a noção de ethos tem impostas pelas formações discursivas, além de impor oorigem na Retórica de Aristóteles e, atualmente, vem que o enunciador deve e pode dizer, impõem também osendo discutida por analistas do discurso de diversas modo como ele deve e pode se apresentar perante seutendências teóricas, os quais não chegam a estabelecer co-enunciador1 , ou ainda, como se colocar no mundo.um consenso sobre sua concepção. De um modo bemgeral, essa problemática envolvendo o ethos pode ser Se, por outro lado, essas coerções impostas pelaobservada nas duas tendências a seguir. formação discursiva incidirem sobre o co-enunciador, observar-se-á então o que Maingueneau (1997, p. 48-49) Há teorias que vêem o ethos como parte de um denomina incorporação do ethos: noção que designajogo de estratégias arquitetadas por um orador que visa a mescla entre a formação discursiva e seu ethos queconscientemente a persuadir seu ouvinte, porque, entre ocorre na enunciação. Isto é, a partir de uma gama deoutras razões, tais teorias entendem que o sujeito da estereótipos predispostos socialmente, o co-enunciadorenunciação é o centro gerador de sentidos, isto é, o confere um ethos ao fiador do discurso, ao passo quesujeito é abordado aí em sua homogeneidade. Por outro assimila um modo de ser no espaço social. Para o autor,lado, há tendências da Análise do Discurso que trabalham a noção de incorporação parece compreender melhorcom um sujeito discursivo construído em sua esse fenômeno de identificação do sujeito com umaheterogeneidade, ou seja, o sujeito é constituído não formação discursiva do que a noção de assujeitamento2 .por meio de seu próprio discurso, mas sim de outrosdiscursos: o sujeito não possui seu discurso, são os Além das noções de fiador e de incorporação, édiscursos que o determinam. Essa será a perspectiva preciso ter em vista outras duas noções para oadotada por nós neste trabalho. entendimento do problema do ethos: o gênero do discurso e a cena enunciativa. Partindo desse pressuposto teórico, Maingueneau(1999, p. 76) entende que a instância subjetiva que se Para isso, o analista não pode considerar o gêneromanifesta através do discurso, pelo ethos, vai além de apenas como uma forma estanque, mas como umseu estatuto e de seu papel, porque ela é concebida dispositivo de comunicação instituído sócio-como uma “voz” e também como um “corpo enunciante” historicamente. Eis que cada gênero implica umhistoricamente especificado e inscrito numa situação que determinado tipo de ethos, ou seja, um modo de enunciarsua enunciação, simultaneamente, pressupõe e valida axiologizado conforme a situação de enunciação e oprogressivamente. contexto sócio-histórico. Ao integrar o ethos retórico à Análise do Discurso, Essa relação entre ethos e gênero discursivo pode,Maingueneau também integrou e reelaborou as noções entretanto, se apresentar de maneira mais ou menosde tom, corpo e caráter de forma que pudesse aplicá-las flexível dependendo do próprio gênero do discurso, o quea textos escritos. Assim, se desenvolveu uma noção de possibilita a construção de cenas enunciativas mais ouethos capaz de compreender as dimensões vocal, física menos usuais e a criação de efeitos de sentido variados.e psíquica ligadas à imagem criada do enunciador. Por exemplo, um discurso político de campanha eleitoral Segundo esse autor (2002, p. 98), todo discurso pode ser apresentado na forma de um diálogo entre paipossui um tom (uma voz) que dá autoridade ao que é e filho, contudo um discurso científico de divulgação jádito. E é esse tom que permite ao leitor construir uma não pode aparecer na forma de uma comédia, pois seurepresentação do corpo do enunciador, mas não do ethos cômico não autorizaria nem legitimaria tal discursocorpo do falante empírico, de carne e osso, e sim de científico.uma instância subjetiva encarnada que assume o É nesse sentido que Maingueneau estabelece apapel do fiador do discurso enunciado. noção de cena enunciativa. Para ele, essa noção integra A corporalidade (dimensão física desse fiador) se três cenas: a cena englobante, a cena genérica e aassocia a um modo de se vestir e de se movimentar cenografia. Retomando o exemplo acima, a cenanum espaço social, enquanto que o caráter (dimensão englobante corresponde ao tipo de discurso – o político;psíquica do fiador) corresponde a um feixe de traços a cena genérica corresponde ao gênero – a propagandapsicológicos. São dimensões que se apóiam em eleitoral; já a cenografia corresponde ao texto em si – orepresentações sociais axiologizadas, ou seja, diálogo entre pai e filho –, é o que aparece maisestereótipos culturais valorizados positiva ou nitidamente para o leitor, pois é, nesse exemplo, com onegativamente (Maingueneau, 1999, p. 79). Assim, a diálogo entre pai e filho que o leitor se depara e nãoqualidade do ethos está associada à imagem de um exatamente com o discurso político, já que este foifiador que confere a si próprio uma identidade compatível deslocado para o segundo plano.140
  • 141. Implicações do ethos para a leitura do discurso literário: análise de um poema de Gregório de Matos Para concluir essa apresentação teórica, vale dizer Essa cenografia do diálogo no Calvário constróique, em Análise do Discurso, o estudo da relação entre um mundo que valoriza a redenção, implicando um ethosas noções de ethos, cena enunciativa e gênero do compatível com as representações desse mundodiscurso não se restringe à observação das estratégias construído no enunciado. Seu fiador se apresenta, então,de persuasão e de suas formas de apresentação, pois oque se deve ter em conta são as restrições estabelecidas como um pecador digno de castigo e de condenaçãosócio-historicamente que regulam o discurso. que encontra o perdão, a unção e o chamado de Cristo ao buscá-lo no momento da expiação. Assim, o co- enunciador incorpora esse jeito de ser no mundo e, UMA BREVE ILUSTRAÇÃO assimilando seus valores, sente-se membro desse grupo de fiéis unidos e atados a Cristo. Toda a problemática do ethos aflora quando o Contudo, um detalhe que não transparece é queanalista se propõe a cotejar um texto distante de si no toda essa sacralização do ethos no diálogo é dita pelotempo e no espaço. Principalmente, por que a enunciador e não por Cristo, quer dizer, não é Cristohermenêutica exigida pela Análise do Discurso irá quem diz que perdoa, mas é o enunciador, assim comoconduzi-lo à contextualização e à recuperação dasrepresentações sociais de um determinado momento não é Cristo quem não condena e não castiga, mas oenunciativo. Tome-se um poema sacro do barroco enunciador. Trata-se aí de se observar um efeito de sentidobrasileiro seiscentista, por exemplo. Se a incorporação que ajuda a revelar a engenhosidade e a agudeza dase dá no momento da leitura, certamente não é a imagem poesia barroca de Gregório de Matos.de um co-enunciador do século XXI que estava emquestão naquela sociedade baiana do século XVII. Seriapreciso, então, considerar a recepção do discurso no CONSIDERAÇÕES FINAISmomento de seu surgimento histórico para seestabelecer uma imagem de co-enunciador maisapropriada às coerções daquela época. E isso já implica Mencionamos a engenhosidade barroca deoutra maneira ler o poema. Vejamos, pois, o poema Gregório de Matos, apresentando apenas a questão do“Buscando a Cristo”, de autoria de Gregório de Matos ethos, não no sentido de desconsiderar os recursosGuerra: estilísticos já tão bem reconhecidos em sua poesia, tais como os silogismos, a antítese, a anáfora etc. O objetivo Buscando a Cristo foi mostrar de que maneira a Análise do Discurso pode contribuir para a leitura de um texto literário. Nosso foco reside não na relação argumentativa que há entre o eu À vós correndo vou, braços sagrados, poético e Cristo, mas sim nos sistemas de valores que Nessa cruz sacrossanta descobertos Que, para receber-me, estais abertos, constituem a prática discursiva de tal fazer poético e o E, por não castigar-me, estais cravados. caráter dos sujeitos envolvidos nessa prática e nesse contexto sócio-histórico. A vós, divinos olhos, eclipsados A literatura vista como discurso revela modos de De tanto sangue e lágrimas abertos, Pois, para perdoar-me, estais despertos, ser e de presença no mundo, os quais também podem E, por não condenar-me, estais fechados. ser percebidos em outras esferas da atividade humana: a política, a jurídica, a religiosa. A vós, pregados pés, por não deixar-me, A vós, sangue vertido, para ungir-me, A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A vós, lado patente, quero unir-me, MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em Análise A vós, cravos preciosos, quero atar-me, Para ficar unido, atado e firme. do Discurso. Campinas: Pontes, 1997. ______. Ethos, scénographie, incorporation. In: AMOSSY, Ruth. Images de soi dans le discours. La O quadro cênico compõe-se da cena literária como construction de l’éthos. Lausanne: Delachaux et Niestlé,a cena englobante e da poesia sacra barroca como a 1999.cena genérica. Mas, é a cenografia de um diálogo que éoferecida em primeiro plano ao leitor, que, dessa forma, ______. Análise de textos de comunicação. São Paulo:é convidado a dialogar com Cristo no Calvário. Cortez, 2002. 141
  • 142. Implicações do ethos para a leitura do discurso literário: análise de um poema de Gregório de MatosNOTAS* Mestre em Lingüística pela Universidade de São Pauloe doutorando em Língua Portuguesa pela mesmainstituição. Professor de Lingüística, Língua Portuguesae Metodologia do Ensino nos cursos de Letras ePedagogia da Faculdade Montessori de Ibiúna.1 Termo introduzido pelo lingüista francês Antoine Culiolipara substituir o termo destinatário e, assim, destacarque a enunciação é, de fato, uma co-enunciação, ouseja, que os dois parceiros da enunciação desempenhamum papel ativo.2 A noção de assujeitamento é elaborada por LouisAlthusser no campo do materialismo histórico e, depois,adotada por Michel Pêcheux em suas primeiras obrassobre Análise do Discurso.142
  • 143. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A Relíquia Ubiracy Alberto Macieira Cintra ∗Resumo AbstractO texto se refere a uma breve comparação entre a This text refers to a brief comparison between thenarração do julgamento de Cristo em A Relíquia , que narration of the jugmente of Christ in The Relíquia, whichacontece através de um sonho e a narração da Bíblia, happens through a dream and narration of the Bible, whenquando o narrador do romance se encontra com a fé the narrator of the novel meets the true faith.verdadeira. Keywords: Relíquia, dream, Teodorico, Bible.Palavras-chave: Relíquia, sonho, Teodorico, Bíblia. 143
  • 144. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A RelíquiaIntrodução 1. O espaço do sonho de Teodorico O espaço em que o sonho de Teodorico acontece, Esta artigo se refere a uma comunicação é a cidade de Jerusalém, mas não a Jerusalém da épocaapresentada no XI Congresso Internacional ABRALIC da narração d’A Relíquia, e sim a Jerusalém da épocarealizado em 2008 na USP – São Paulo, e traz uma de Cristo. Tal como a cidade ou o santuário, a revelaçãobreve comparação entre o sonho do narrador d’A Relíquia, do espaço sagrado tem um valor existencial para oTeodorico, com a condenação de Cristo e a passagem homem religioso, pois a porta que se abre para o interiorque se encontra na Bíblia. Conforme perceberemos da igreja significa uma continuidade da existência, umexistem diferenças entre as duas passagens, tanto limiar que separa o espaço sagrado do espaço profano.quanto ao espaço profano que se transforma em espaço Visto que nosso mundo é um Cosmos, que está sempresagrado, como quanto ao discurso, que se trava a partir ameaçado de se transformar em Caos, buscamos odo texto bíblico com o próprio narrador. sagrado, a fim de mantermos o equilíbrio. E o Templo é N’A Relíquia de Eça de Queirós, Teodorico, por excelência o mundo ressantificado na sua totalidade,durante sua estada em Jerusalém, sonha que está na como nos diria Mircea Eliade em O sagrado e o profano.Via Sacra e guiado por Topsius, um historiador e Para o autor, “é a idéia de que a santidade do Templocompanheiro de viagem, presencia o julgamento e está ao abrigo de toda a corrupção terrestre” é ondecondenação de Cristo. ficamos mais próximos do céu, onde gozamos de uma existência espiritual, incorruptível, celeste. (ELIADE, “Havia certamente duas horas que Mircea, p. 56) E para o narrador d’A Relíquia Jerusalém assim dormia, denso e estirado no é um templo à própria religião, não apenas uma cidade, catre, quando me pareceu que uma mas o local sagrado do cristianismo. claridade trêmula, como a duma Sua chegada à cidade, no dia da prisão de Cristo tocha fumegante, penetrava na tenda pelos romanos, enche seus olhos, encanta-o: – e através dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente(...)” “O Sol banhava-a, suntuosamente! (QUEIRÓS, Eça, p.153) Uma severa, altiva muralha, guarnecida de torres novas, com É neste espaço “profano” que se inicia o sonho portas onde as catarias sede Teodorico. O que consideraremos aqui para profano entremeavam de lavores de ouro,será a conceituação de Mircea Eliade, em O sagrado e erguia-se sobre a ribanceirao Profano. Para o autor, a diferença entre a experiência escarpada do Cedron, já seco pelosde um espaço sagrado e um espaço profano é que no calores de Nizam, e ia correndo,espaço sagrado podemos obter um “ponto fixo”, cingindo Sião, para o lado de Hinnon“possibilitando, portanto, a orientação na homogeneidade e até aos cerros de Garebe.”caótica, ‘a fundação do mundo’, o viver real.” (ELIADE, (QUEIRÓS, Eça, p. 164)Mircea, p.27) O espaço profano enquanto experiênciade mundo, ao contrário, “mantém a homogeneidade e, A cidade de Jerusalém foi criada por Deus desdeportanto a relatividade do espaço”. Isto quer dizer que tempos anteriores aos da Bíblia, ou seja, uma cidadedentro do espaço profano, existe uma orientação celeste criada por Deus e, portanto in aeternum. Porconhecida, e que no espaço sagrado, enquanto estatuto isso mesmo, a cidade podia ser maculada pelo homem,ontológico único, o “ponto fixo” não oferece orientação mas o seu modelo era incorruptível porque não estavaverdadeira, e que este desaparece e aparece segundo implicada no Tempo mundano, e sim no Tempo dosnecessidades diárias de cada ser. Além disso, no espaço Deuses. Se de um lado a cidade de Jerusalém tem suasagrado não há mundo, e sim fragmentos de um universo forma enquanto sagrada, de outro, tem também a formafragmentado, uma massa amorfa infinita de lugares profana, pois ela existe enquanto ponto de desnível,neutros onde o homem se move. Como exemplo, projeta um ponto fixo no meio da fluidez amorfa dopodemos citar os lugares que guardamos na alma, como espaço profano, um Centro no Caos que produz umauma viagem que fizemos na infância, a casa materna de ruptura entre os níveis cósmicos: entre o Céu e a Terra.cada um de nós, ou outros ainda. Todos esses locais É no espaço “profano” que se inicia o sonho desão sagrados para nós, e fazem parte de um universo Teodorico, a cidade de Jerusalém de seu tempo. O queprivado, como se em cada um deles tivéssemos a consideraremos aqui para profano será a conceituaçãosensação da revelação de uma outra realidade, diferente de Mircea Eliade, em O sagrado e o Profano. Para oda do nosso cotidiano, mesmo que não sejamos por autor, a diferença entre a experiência de um espaçoessência seres religiosos. sagrado e um espaço profano é que no espaço sagrado144
  • 145. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A Relíquiapodemos obter um “ponto fixo”, “possibilitando, portanto, Nesta passagem, o sinal para a entrada no espaçoa orientação na homogeneidade caótica, ‘a fundação do sagrado se dá a partir das palavras de Topsius e do sonhomundo’, o viver real.” (ELIADE, Mircea, p.27) O espaço que manifesta o ponto de apoio ao narrador: a construçãoprofano enquanto experiência de mundo, ao contrário, e reconstrução de um espaço onde o narrador“mantém a homogeneidade e, portanto a relatividade do reencontrará sua fé.espaço”. Isto quer dizer que dentro do espaço profano,existe uma orientação conhecida, e que no espaço O mundo que se funda na passagem da narrativa,sagrado, enquanto estatuto ontológico único, o “ponto é um mundo que transforma, então, o Caos em Cosmos,fixo” não oferece orientação verdadeira, e que este que revela o “Centro do Mundo”, a imago mundi cristãdesaparece e aparece segundo necessidades diárias de que é a cidade de Jerusalém.cada ser. Além disso, no espaço sagrado não há mundo, Considerando ainda que todo homem é históricoe sim fragmentos de um universo fragmentado, uma e visto que só pode viver na sua própriamassa amorfa infinita de lugares neutros onde o homem contemporaneidade, o sonho passa a ser uma outrase move. situação que se dá para além da condição histórica, pois Como exemplo, podemos citar os lugares que o estado do sonho, ou de devaneio não são estadosguardamos na alma, como uma viagem que fizemos na “históricos”, embora sejam tão importantes para ainfância, a casa materna de cada um de nós, ou outros existência humana quanto a sua situação histórica. Aliás,ainda. Todos esses locais são sagrados para nós, e fazem o homem conhece vários ritmos temporais, não somenteparte de um universo privado, como se em cada um deles o tempo em que vive, mas aqueles que pertencem aotivéssemos a sensação da revelação de uma outra seu passado, bastando apenas uma música pararealidade, diferente da do nosso cotidiano, mesmo que despertar suas memórias. O ato de rezar tambémnão sejamos por essência seres religiosos. desencadeia a saída do tempo histórico “e reintegra o Assim, o espaço em que se inicia a narrativa do presente eterno do amor e da religião”, como nos diriasonho de Teodorico Raposo, pode ser considerado Eliade em Imagens e Símbolos. E, à medida que oprofano, na medida em que faz parte do mundo conhecido homem transcende ao seu próprio momento histórico edos homens civilizados de seu tempo. dá “livre curso ao seu desejo de reviver os arquétipos ‘religiosos’, ele se realiza como ser integral, universal.” Neste momento, o narrador se vê sendo levado (Eliade, p. 32)pelas ruas de Jerusalém, mas, agora não as ruas poronde havia andado durante a sua estadia, e sim as ruas Desta forma, a transposição espacial através dodo Tempo do Senhor, as ruas da Jerusalém da época do sonho, pode ser considerada como a busca do tempojulgamento de Cristo. E, por se encontrar nessa sagrado e da fé que Teodorico nunca teve.Jerusalém, transferiu-se, por assim dizer, para o espaçosagrado, aquele dos tempos bíblicos. Nesta medida, o interdiscurso entre a Bíblia e o romance A Relíquia acontece dentro do sonho, do estado Devemos aqui lembrar que, para Mircea Eliade, de alma do narrador, e o faz reviver o Tempo de Cristo, o“todo espaço sagrado implica uma hierofania, uma espaço sagrado de Jerusalém e os acontecimentos dairrupção do sagrado que tem como resultado destacarum território do meio cósmico que o envolve e o torna época do julgamento do Redentor.qualitativamente diferente.” (ELIADE, Mircea, p. 30) E o É neste momento que o narrador se depara comespaço sagrado se manifesta através de sinais seus remorsos e com a verdadeira paixão de Cristo, aportadores de significação religiosa que introduz um paixão religiosa dos portugueses do século XIX, queelemento absoluto e põe fim à confusão interna deRaposão. Assim, o narrador é conduzido ao dia mais sempre rejeitou. Se durante toda a sua vida a visão do Cristo crucificado havia sido um peso e cumprir osimportante do Cristianismo, o julgamento e crucificaçãode Cristo. desígnios religiosos impostos por sua tia Patrocínio havia sido um desgaste, pois refreavam seu erotismo e sua “– D. Raposo! Esta aurora que vai vida social, a visão dos últimos dias do Salvador o leva nascer, e em pouco tocar os cimos para um novo encontro com Jesus, uma nova forma de do Hebron, é a de 15 do mês de Nizam; e não houve em toda a sentir, uma nova forma de perceber o que significa ser história de Israel, desde que as tribos religioso. Ou seja, encontra um Jesus, como nos diria o voltaram de Babilônia, nem haverá, próprio narrador: “um homem que não era Jesus, nem até que Tito venha por o último cerco Cristo, nem Messias – mas o moço de Galiléia, que cheio ao Templo, um dia mais de um grande sonho, desce da sua aldeia para interessante.” (QUEIRÓS, Eça, p. transfigurar todo um mundo e renovar todo um céu.” (A 154) Relíquia, p. 195) 145
  • 146. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A Relíquia Raposão se transforma durante o sonho naquele “Debruçado de leve para o Rabbi,que “era uma testemunha inédita da paixão. Tornava-me com as mãos abertas: que pareciamS. Teodorico Evangelista! ” (QUEIRÓS, Eça, p. 190) soltar, deixar cair todo o interesse por esse pleito ritual de sectários E como testemunha da paixão de Cristo, começa arguciosos, Pôncios 1murmurou,e sentir sua fé mais próxima, desejando ver Jesus Cristo, enfastiado e incerto:já que tinha a mesma oportunidade que S. Mateus e S.João que escreveram a Bíblia Sagrada tiveram, ´- És tu então o rei dos judeus?... Os da tua nação trazem-te aqui!... Que fizeste tu?... Onde é teu reino? “Era só empurrar aquela porta de cedro, atravessar o pátio onde gemia O intérprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio a mó do moinho doméstico, - e logo de mármore, repetiu muito alto estas coisas da antiga da rua, eu poderia ‘ver’, presente e língua hebraica dos Livros Santos: e, como Rabbi corpóreo, o meu Senhor Jesus tão permanecia silencioso, gritou-as na fala caldaica2 que realmente e tão bem como o viram se usa em Galiléia.” (QUEIRÓS, Eça, p. 198) S. João e S. Mateus.” (QUEIRÓS, Bem, a passagem bíblica traz a linguagem que Eça, p. 190) todos conhecemos, seja por sua tradução ou pelas avaliações feitas pelo Conselho de Nicéa, que escolheu Para estabelecermos melhor os pontos de contato textos que fariam parte da Bíblia Sagrada, como ae de distanciamento, cabe aqui elegermos algumas conhecemos hoje. Já a passagem d’A Relíquia, trazpassagens bíblicas. Para efeito de comparação, termos como “Rabbi” e “fala caldaica”, palavras utilizadasescolhemos a passagem de São Marcos, a fim de na bíblia hebraica antes do Novo Testamento, queestabelecermos contato entre uma narração e outra. traduzidos originaram Jesus e fala aramaica, segundo oTentaremos mostrar que poucas vezes as “falas” bíblicas Dicionário Enciclopédico da Bíblia.são transcritas como as encontramos no texto sagrado.No entanto, algumas estão postas tais quais as lemos. A passagem narrada por Teodorico traz tambémEstamos cientes de que existem outras passagens em seu discurso colocações conhecidas na Bíblia, como:deste relato na Bíblia, assim como existem relatos da “És tu o rei dos Judeus?”. (QUEIRÓS, Eça, p. 199)condenação e crucificação nos textos Apócrifos. Mas, E reconhecemos o texto bíblico, quando o narradorem razão do tempo de que dispomos para esta nos diz: “onde é teu reino?”, “Que fizeste tu?” , que secomunicação, abreviaremos as transcrições referentes relaciona com a passagem bíblica: “Vê de quantos crimesàs comparações, utilizando apenas o Evangelho de S. te acusam?”Marcos. Além disso, há descrições do espaço em que o Tal passagem traz o julgamento de Cristo da julgamento se dá, como por exemplo, o pretório.seguinte forma: “Num espaço ladrilhado de mosaico, “E logo pela manhã, tendo conselho em face do sólio onde se erguia o os príncipes dos sacerdotes com os assento curul do Pretor, sob a Loba anciãos, e os escribas, e com todo Romana – Jesus estava de pé, com o conselho, fazendo amarrar a as mãos cruzadas e frouxamente Jesus, o levaram e entregaram a ligadas por uma corda que rojava no Pilatos.E Pilatos lhe perguntou: Tu chão.” (QUEIRÓS, Eça, p. 195) és o rei dos Judeus? E ele, O espaço ladrilhado, que na época do julgamento respondendo, lhe disse: Tu o dizes. seria um espaço profano para os judeus, se transforma E o príncipe dos sacerdotes o no espaço sagrado dos cristãos contemporâneos a acusava de muitas coisas.4 E Raposão. Aqui temos um espaço sagrado dentro do Pilatos lhe perguntou outra vez, profano, sagrado enquanto espaço que pertence à Bíblia, dizendo : Tu não respondes coisa profano enquanto espaço que não permite a entrada dos alguma? Vê de quantos crimes te judeus, como aparece na narração do próprio narrador acusam. Mas Jesus não respondeu n’A Relíquia . (falar da questão da sacralidade de pisar mais palavra, de sorte que Pilatos no espaço sagrado judeu). estava admirado.” (BÍLBIA, Mc 15, É neste espaço, que no momento em que é 4,5,6). contado na narrativa já é sagrado, pois se relaciona com Já na narração d’A Relíquia, o trecho aparece o espaço bíblico, e que Raposão tem a visão tão desejadaassim: no início do sonho:146
  • 147. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A Relíquia “Mas, oh rara surpresa da alma coroa de espinhos, lha põem na cabeça”.(BÍBLIA, Mc, variável, não senti êxtase nem terror! 16,17) Era como se de repente me tivessem A narração do flagelo de Cristo n’A Relíquia traz fugido da memória longos, um Jesus simples, vestido de branco, sem a coroa de laboriosos séculos de História e espinhos. Um Jesus mais próximo do homem que Religião. Nem pensei que aquele Teodorico desejava, um homem que permitisse a vivência homem seco e moreno fosse e espiritual por ser mais real, mais carnal. Sob este ponto Remidor da Humanidade... Achei-me de vista, temos uma descrição “profana” de um evento inexplicavelmente anterior nos sagrado, revelando a necessidade de Raposo viver o mais tempos.” (p. 194/195) próximo possível do Centro do Mundo, da imago mundi É como se o “lusitano bacharel e cristão”, como o cristã. Assim, os espaços e as histórias sãopróprio narrador se denomina, houvesse perdido sua “pervertidas”, (re-)construindo uma paráfrase da narrativaindividualidade, tornando-se um espectador da própria bíblica.História Bíblica. Presencia na imago mundi cristã, os A paráfrase bíblica, neste caso, serve comoacontecimentos que norteiam o crescimento da fé, que aspecto de dessacralização do espaço cristão. O temploorientam a religião cristã. Verifica-se, assim, que a imago judaico e sagrado dos tempos bíblicos se transformamundi é o Centro do universo que se repete no interior num espaço viável, conhecido, vivenciado pelo narrador.do narrador, o interior de um mundo habitado por pessoas E, definitivamente, é graças ao retorno ao templo judaicoque possivelmente existiram, e que no sonho de e bíblico que Jesus é ressantificado pelo narrador. PoisTeodorico se transformam em realidade. Teodorico se para Mircea Eliade, o Templo se constitui uma imagocomunica, através do mundo do sonho, com um outro mundi, “porque o Mundo, como obra dos deuses, émundo, um lugar que não podia aceitar como parte da sagrado. Mas a estrutura cosmológica do Templo permitereligião. Além disso, a visão de Cristo, aquele “homem uma nova valorização religiosa.” (ELIADE, Mircea, p. 57)que não era Jesus” e tão pouco o Messias, “apenas ummoço da Galiléia”, torna-se conhecido, real. O narrador, através do sonho com o julgamento de Cristo, se coloca entre o sagrado e o profano, e de Real, na medida em que se materializa na homem incrédulo passa a homem crédulo.narrativa, uma história que de bíblica e simbólica paraos cristãos passa pelo estado de inconsciência do Assim, o homem “lusitano bacharel e cristão”narrador, e acaba se traduzindo como racional. Assim, assume uma característica religiosa também, pois passao espaço sagrado, que é real na religião e pouco real a acreditar em Cristo e assume a paixão pelo ser sagradopara Raposão se desmistifica e se apresenta como o e bíblico. Ou seja, Teodorico vive a experiência do espaçoque para o mundo arcaico significava ser sagrado: “o e do Tempo sagrados, que permitirão ao homem religiosomito é real porque ele relata as manifestações da o encontro com o Cosmos tal qual no princípio, noverdadeira realidade: o sagrado”(Eliade, p. 37). instante mítico do julgamento do Redentor, ou seja, no momento em que se funda os preceitos da religião Outro aspecto bíblico do sonho na narrativa a se católica.considerar é a flagelação. Raposão refere-se a ela daseguinte forma: Conclusão “Não lhe ensangüentava a cabeça essa coroa inumana de espinhos, de que eu lera nos Evangelhos; tinha um O espaço sagrado e o espaço profano d’A Relíquia turbante branco, feito duma longa se fundem em um único espaço, pois só a experiência faixa de linho enrolada, cujas pontas do sagrado torna possível o espaço real. É onde o lhe pendiam de cada lado sobre os sagrado se manifesta que o real se revela. E, no caso ombros; um cordel amarrava-lho por de Teodorico Raposo, o real se confunde com o sonho, baixo da barba encaracolada e com o devaneio, com o desejo, com a vida cotidiana. aguda.” (QUEIRÓS, Eça, p. 196) Encontrar a fé só foi possível a partir do momento em Devemos considerar aqui que há uma descrição que ele sonhou com o acontecimento bíblico, e quebastante diferente daquela que conhecemos na Bíblia, através do sonho, vivenciou a fé. Foi através do sonhoque vem da seguinte forma: “E depois de fazer açoutar a no mundo profano que o narrador experimentou o mundoJesus, o entregou para que o crucificassem. E os sagrado. E essa manifestação do sagradono espaço temsoldados o levaram ao pátio do pretório, e ali convocam como conseqüência a valência cosmológica, e atoda coorte. E o vestem de púrpura, e, tecendo uma consagração do espaço equivale a uma cosmogonia, pois 147
  • 148. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A Relíquia“o mundo só se deixa perceber como Mundo, como _______________________. Eça, escritor ambíguo?, InCosmos, à medida em que se revela como mundo Ao contrário de Penélope, Lisboa: Bertrand, 1976.sagrado” .(ELIADE, Mircea, p. 59) CORTESÃO, Jaime. Eça e a questão social. Portugal: A fé cristã está montada na revelação histórica, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001.ou seja, na encarnação de Deus através de seu filho LIMA, Isabel Pires de. As máscaras do desengano.homem no tempo histórico, o que assegura à Jerusalém Lisboa: Caminho, 1987.seu caráter de cidade sagrada e como imago mundicristã. E é este acontecimento que leva Teodorico à LOURENÇO, Eduardo e outros autores. Diálogos comJerusalém. Primeiro ele buscar divertimento, de vida Eça no novo milênio.Lisboa: Livros Horizonte, 2001.“profana” e, depois, encontra o sagrado e o Cristo da fé. LUZES. Pedro. Sob o manto diáfano do Realismo: A experiência do narrador traz em seu centro aquilo Psicanálise de Eça de Queirós. Lisboa: Fim deque os homens só conseguem viver num mundo em que Século Edições, 2001.o sagrado coexista com o profano, muito embora sejam MATOS, A. Campos. (org.). Dicionário de Eça demúltiplos os meios pelos quais se obtém a sacralização. Queirós. 2a. ed. Revista e Aumentada, Lisboa:Os meios são múltiplos, mas o resultado será sempre omesmo: a vida é vivida num plano duplo, desenrola-se Caminho, 1988.como existência humana, como no caso d’A Relíquia, ________________ .Sobre Eça de Queiroz.Lisboa:Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, ocorre uma vida trans- Livros Horizonte, 2002.humana, de sonho, uma vida que transcende ao próprio MÓNICA, Maria Filomena. Eça: Vida e obra de Josémundo, uma vida de Cosmos ou dos Deuses. Maria da Eça de Queirós. Rio de Janeiro: Record, 2001.Referências Bibliográficas MONIZ, Edmundo. As mulheres Proibidas: O incesto em Eça de Queirós. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.1. Do Autor: REIS, Carlos. Introdução à leitura d’Os Maias. 5 a. ed.,QUEIRÓS, Eça. A Relíquia: Sob a nudez forte da verdade Coimbra: Almedina, 1995. – O manto diáfano da Fantasia, Porto: Lello & Irmão Editores, s/d. REIS, Carlos e MILHEIRO, Maria do Rosário. A construção da narrativa Queirosiana: O espólio de Eça de Queirós. Portugal: Imprensa Nacional - Casa2. Sobre o autor da Moeda, s/d.ALVES, Luís Alberto Marques (dir.) Eça e os Maias., SACRAMENTO, Mário. Eça de Queirós: Uma estética Porto: Ed. Asa, 2 a. ed., Col. Perspectivas Atuais, da ironia. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da 1991. Moeda, 2002.BARBOSA, João Alexandre. A biblioteca Imaginária. In SARAIVA, António José. As idéias de Eça de Queirós. Os intervalos de Eça de Queirós, São Paulo: Ateliê Lisboa, Livraria Bertrand, 1982. Editorial, 1996. SERQUEIRA, Maria do Carmo Castelo Branco de. ABARRETO, Costa (org.). Estrada Larga: Antologia do dimensão fantástica na obra de Eça de Suplemento “Cultura e arte”. Porto: Porto Editora, Queirós.Porto: Campo das Letras editores. 2002. s/d.DA CAL, Ernesto Guerra. Língua e estilo de Eça de 3. Geral Queirós. Coimbra: Almedina, 3a. ed., 1981. ___________________ Bíblia Sagrada. Rio de Janeiro:COELHO, Jacinto do Prado. Sobre “José Matias” de Eça Imprimatur, 1964. de Queirós. In A letra e o Leitor,Lisboa: Lello & Irmão, 3 ª ed., 1996. ADORNO, Theodor W. Textos escolhidos, Nova Cultural, São Paulo, 1996._______________________. A tese de A cidade e as serras.In A letra e o Leitor, Lisboa: Lello & Irmão, 3ª ADORNO, Theodor W.. Notas de Literatura I. Trad. ed., 1996. Apresentação Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades, 2006._______________________. Para a compreensão d’Os Maias como um todo orgânico, in Ao contrário de AQUINO, Tomás de. São Paulo: Editora Nova Cultural, Penélope, Lisboa: Bertrand, 1976. col. Os pensadores, 1990.148
  • 149. Entre o sagrado e o profano: a imago mundi em A RelíquiaARISTÓTELES. Col. Os pensadores, São Paulo: Editora BORN, A. Van Den (Dr.) (org.). Dicionário enciclopédico Nova Cultural, 1996. da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 6ª. ed. 2004.ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética BRAIT, Beth. Ironia em perspectiva polifônica . Clássica. Trad. Jaime Bruna, São Paulo: Cultrix, Campinas: Editora da Unicamp, 1996. 6ª. ed., 1995. BRANDÃO, Junito. Dicionário Mítico-Etimológico. Rio deARTÉMIDORE. La clef de songes, trad. A. J. Festugière, Janeiro, Vozes,2 vols., 1991. Paris: Librarie Philosofique J. Vrin, 1975. BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de Mitos Literários.AUERBACH, E.. Mimesis . São Paulo, Perspectiva, 1971. Trad. Carlos Sussekind [et.al.], Rio de Janeiro: JoséBACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Trad. Olympio, 2ª. ed., 1998. Antonio de Pádua Danesi, São Paulo, Martins BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário de Língua Fontes, 1998. Portuguesa, Rio de Janeiro, MEC, 7ª ed. , 1956.__________________. A terra e os devaneios do BUBER, Martin. O socialismo utópico. Trad. Pola Civelli. repouso. Trad. Paulo Neves da Silva, São Paulo, São Paulo, Perspectiva, 2a . ed., 1986. Martins Fontes, s/d. BUTOR, Michel. Repertório , Trad. e org. Leyla Perrone-__________________. A terra e os devaneios da Moisés, São Paulo, Perspectiva, s/d. vontade. Trad. Paulo Neves da Silva, São Paulo, Martins Fontes, s/d. CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces, Trad. Adail Ubirajara Sobral, São Paulo, Cultrix, 1997.__________________. O ar e os sonhos. Trad. Antonio de Pádua Danesi, São Paulo, Martins Fontes, s/d. CÂNDIDO, Antônio; ROSENFELD, Anatol; PRADO, Décio de Almeida e GOMES , Paulo Emilio Salles.__________________. A poética do espaço . Trad. A personagem de ficção. São Paulo, Perspectiva, Antonio de Pádua Danesi, São Paulo, Martins 9ª. ed., 1995. Fontes, 2000. _________________. O discurso e a cidade. São Paulo,BAJU, Anatole. Manifesto decadente, in TELLES, Livraria Duas Cidades, 1993. Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro: apresentação dos principais CANIATO, Benilde Justo. A solidão de mulheres a sós. poemas, manifestos e conferências vanguardistas São Paulo, Centro de estudos Portugueses, s/d. – 1857 a 1972, Petrópolis-RJ, Vozes, 13ª ed., 1997. CARDOSO, Sérgio. e outros autores. Os sentidos daBAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e paixão. São Paulo, Cia. das Letras, 1987. no Renascimento. Trad. Yara Frateschi, São Paulo- Brasília, Hucitec, 3a. ed., 1996. CAROTENUTO , Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento.São Paulo: Paulus, 1994._________________. Questões de Literatura e de Estética. Equipe de trad. sob org. Aurora Fornoni CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário Bernardini, São Paulo, Hucitec, 1988. de Símbolos, Trad. Vera Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim e Lúcia Melim, Rio de______________. Problemas da poética de Dostoiévsky . Janeiro, José Olympio, 10ª ed., s/d. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981. COSTA, Maria Osana de Medeiros. A mulher, o lúdico e______________. Marxismo e filosofia da linguagem. São o grotesco em Lya Luft. São Paulo, Annalube, 1996. Paulo: Hucitec,1988. CULLER, Jonathan. As idéias de Barthes, Trad. AdailBENJAMIN, Walter. Sociologia.(org.)Flávio R. Kothe, São Ubirajara Sobral, São Paulo, Cultrix, 1995. Paulo, Ática, 1985. DORIA, Francisco Antonio. Marcuse: vida e obra, Rio de_________________. Charles Baudelaire: Um lírico no Janeiro, José Álvaro editor, 1983. auge do capitalismo. Trad. José Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista, São Paulo, Brasiliense , ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo, 3ª ed., 1995. Martins Fontes, 2001.BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. _____________. Mito e realidade. Trad. Póla Civelli, São Trad. Arlene Caetano, São Paulo, Paz e Terra, 16a Paulo, Perspectiva, 2000. ed., 2002. _____________. Imagens e Símbolos: Ensaios sobre oBLANC, Charles Le. Kierkegaard. Trad. Marina simbolismo mágico-religioso. Trad. Sonia Appenzeller.São Paulo: Estação Liberdade, 2003. CristinaTamer.São Paulo: Martins Fontes, 1996. 149
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