Your SlideShare is downloading. ×
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Representações da sida nos jornais
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Representações da sida nos jornais

439

Published on

Published in: Education
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
439
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
3
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. REPRESENTAÇÕES DA SIDA NOS JORNAIS1. IntroduçãoSe, para um médico, a categoria de doença corresponde a uma realidade empírica, asociologia aplicada à doença e o jornalismo consideram-na uma construção social. Aconstrução social do conhecimento e da realidade está no centro do trabalho de Berger eLuckmann (1999), para quem o conhecimento produzido pelas pessoas se orienta paraproblemas práticos e particulares, validando realidades socialmente determinadas.Assim, perspectiva-se a entidade doença como produto da razão e das práticas sociais,“fabricado” através das interacções sociais. Como considera Nettleton (1995: 25), ascategorias de doença podem aplicar-se no reforço das estruturas sociais existentes, queconformam uma aparência “natural” nas relações sociais. Para Augé e Herzlich (1995:1), o significado da doença requer interpretação, que pode variar conforme a sociedadeem que ocorre. Também Pierret (1995: 182) fala de usos discursivos diferentes na saúdee nos seus significados sociais. Trechler (1999: 149) representa outra visão, a daconstrução cultural aplicada a uma doença particular, a sida. Para ela, a construçãocultural implica debates prolongados sobre o conhecimento humano e sobre a naturezado mundo. A natureza da sida é constituída pela linguagem e, em especial, pelosdiscursos da medicina e da ciência.O modo como a sida se constituiu como doença e foi construída em termos de notícia éo objecto principal deste texto, a partir de uma profunda revisão da literatura da área.2. Do discurso científico sobre doenças às notíciasA ciência e a descoberta científica para combater uma doença passam, cada vez mais,pelas definições saídas em textos que um especialista ou grupo de cientistas escrevempara os seus pares e colegas, na tentativa de obterem aprovação. Ao mesmo tempo, anovidade científica no terreno da saúde e da doença conhece também uma divulgaçãorápida nos media noticiosos. A construção social da realidade, fruto da interacção deagentes sociais que pretendem fazer triunfar as suas definições e significadosdiscursivos, opera naquilo a que Bourdieu (1997) chamou campo jornalístico e que aquiadaptamos para campo científico das notícias.Como analisa Treichler (1999: 167), a profissão médica pode resultar de lutas sociais epolíticas. O nome VIH como agente viral que provoca a sida resultou de lutas científicasdesencadeadas entre Luc Montagnier e Robert Gallo, dois cientistas de méritointernacional. Ambos usaram as designações LAV e HTLV-III para exprimir o vírus,em 1983. Durante cerca de três anos, muitos cientistas e jornais científicos empregaram 1
  • 2. o nome LAV/HTLV-III (ou HTLV-III/LAV) – a barra marcava a identidade do víruscomo construída e disputada culturalmente. A recomendação do emprego do acrónimoVIH (HIV em inglês) pela comissão internacional de taxonomia de vírus seria adoptadapelos institutos a que pertenciam os aqueles cientistas. A questão do nome escondeutambém interesses económicos e políticos dos países dos dois investigadores, França eEstados Unidos (fármacos e vacinas). Patentear, produzir e comercializar medicamentossignifica ganhar muito dinheiro, conforme confirmariam notícias de 1994, após sereconhecer a Luc Montagnier a paternidade da descoberta do VIH.No sentido de manter o domínio do seu saber, o campo científico hegemónico trabalha oseu discurso, passando da vulgarização à mediatização dos conhecimentos (Zappalà,1997: 181; Wolton, 1997: 11). Para Wolton, se a vulgarização é transmissão de valorese conhecimentos do meio científico para o público, a mediatização garante visibilidade.Esta não permaneceria o único elemento principal da divulgação da ciência; ascontrovérsias científicas geradas entre especialistas, quando se define uma nova área doconhecimento e os efeitos e causas a ele associados, também contribui para despertar aatenção dos jornalistas, dados os valores-notícia envolvidos. Como aponta Foucault(1997: 15), a vontade de verdade do discurso, reforça-se com práticas, procedimentos eregras, e que conduzem o discurso a um jogo ambíguo de segredo e divulgação.Nas notícias da sida há dois outros lados que marcam o sentido da construção social ecultural. Numa perspectiva dramática, as notícias remetem constantemente para adoença e a morte. A dramatização fácil resulta da ausência de cura do mal, daimprobabilidade da sua descoberta, que se faz acompanhar de ingredientes clássicoscomo o amor, a solidariedade, o sofrimento, a morte e o “preço do pecado” (Grandi,1995: 36; Mattoso, 1998: 22). A imagem que acompanhava uma notícia fala do abraço,ideia de reconforto retomada nas cadeias humanas de solidariedade em recordação dosdoentes com sida já falecidos. Porém, a representação do doente com sida raramenteocorre nas notícias (Traquina, 2000).As notícias da sida atiram também para a vontade permanente e eterna da humanidadelutar contra a doença, para atingir a vitória sobre o imprevisível, o caos e o perecível. Osquadros de referência da morte e das tentativas de vitória sobre a morte e a doençaenformam todas as notícias da sida. O remédio, a vacina e a cura pairam constantementenos textos jornalísticos.3. Doença, riscos e estilos de vidaA doença associa-se ao risco, conceito que emergiu nas últimas décadas devido aameaças de consequências devastadoras e incalculáveis para a humanidade, caso de 2
  • 3. acidentes nucleares, genéticos, ecológicos e da probabilidade de ataques terroristas comarmas químicas ou bacteriológicas. Ligam-se o aumento do nível de risco e a ansiedadeno indivíduo e nos grupos sociais (Douglas, 1991, 1992; Giddens, 1997, 1995; Beck,1997, 1996; Lupton, 1999, 1999a). Aquilo a que Giddens (1997: 73) chama desentimentos de desorientação e mal-estar provocados pelo fin-de-siècle, Beck (1997: 15)opõe obsolescência da sociedade industrial à emergência da sociedade do risco, comesta última a caracterizar-se pelos prejuízos dos efeitos colaterais e pelo retorno daincerteza. Há, nesses dois autores, o problema da insegurança. Para o sociólogo alemão,o “«retorno da incerteza à sociedade» significa aqui, antes de tudo, que um número cadavez maior de conflitos sociais não é mais tratado como problemas de ordem, mas comoproblemas de risco” (Beck, 1997: 19).Se as desgraças (pragas e fomes) nas sociedades pré-industriais eram atribuídas a Deusou à magia e a desastres naturais, os riscos modernos devem-se a processos sociais eeconómicos da industrialização feita pelo homem (Beck, 1996: 30), e que conduzem àemergência dos sistemas de seguros (Lupton, 1999a). Segurar significa tomar umadecisão perante o imprevisto e o risco. Beck considera que a transição da épocaindustrial para a civilização do risco é não intencional, compulsiva e não se vê. Taisideias, que Beck e Giddens partilham, servem de comentário a Scott Lash (Giddens,Beck e Lash, 1997: 169), para quem os riscos se encaram como perigos, na medida emque a sociedade actual aumenta o individualismo e os riscos são assumidosespecialmente pelos indivíduos.Antropólogos como Mary Douglas estudaram e examinaram a influência dos factorespolíticos, culturais e sociais na percepção do risco. O risco age na sociedade e criaameaças à ordem social, mas também à ordem do corpo – se a sociedade está em perigo,também está o corpo. Com base nesse princípio, Douglas (1991) discute os modossimbólicos e rituais em que se classifica o mundo. O corpo humano é conceptualizadocomo possuído por fronteiras para fora e para dentro, as aberturas do corpo; também asociedade tem uma forma, com fronteiras externas, margens e estrutura interna. “Sujo”e “poluído” são coisas fora do sítio, que transcendem as fronteiras e as classificaçõesaceites socialmente no corpo e no mundo. A teoria sobre pureza, poluição e perigoacaba, assim, por apoiar o peso do risco na sociedade ocidental contemporânea,particularmente o uso do risco como conceito de culpa e marginalização do “outro”.Manter a estabilidade significa controlar a desordem, a contaminação e a poluição. Ocontrolo corporal é, em Douglas, o equivalente a controlo social. Como corolário doargumento, se se relaxam os controlos sociais sobre as margens, também se distendemos controlos sobre as aberturas do corpo individual. As noções contemporâneas de 3
  • 4. impureza e limpeza não são o efeito do interesse sobre os microrganismos mas deinteresses simbólicos.As ideias sobre poluição operam em dois níveis de significado. No primeiro nível,instrumental, reforça-se a pressão sobre leis sociais, que sustentam códigos morais. ParaNelkin et al. (1991: 4), o juízo sobre um risco pode traduzir um comentário social ereflectir pontos de tensão e conflitos sociais. Na sida, o pânico levou a propostascontroversas, como as de colocar os seropositivos em quarentena, para além do rastreioobrigatório e do fecho de bares de homossexuais, de obstáculos em casamentos e noscuidados de crianças e exclusão das pessoas infectadas em empregos e lugares públicos.Tal escassa tolerância levaria a fortes distinções entre normal e perverso, legal ecriminal. Pela sida, culpabiliza-se quem a contraiu, na tentativa de isolamento das fontesde contaminação e de contágio.A um nível mais simbólico, as crenças na poluição actuam como analogias parainteresses mais vastos sobre o sistema social e que reflectem ideias sobre hierarquias ousimetrias nas relações sociais. O risco compreende-se, assim, como resposta cultural àtransgressão (Lupton, 1999): o resultado de uma quebra de tabu, atravessar um limite,cometer um pecado. A transgressão evoca ainda emoções e sentimentos deconflitualidade, tais como fascínio, excitação e desejo. Na vida diária, o risco traduz aorganização social e as suas decisões. Nettleton (1995: 37) associa riscos e estilos devida. Por exemplo, fumar aumenta o risco de contrair cancro de pulmão, enquanto aprática de sexo seguro faz baixar a possibilidade de contrair sida. Assume-se um sentidoduplo da palavra risco: a sorte implica o que é incontrolável, acaso e irracional (sucessonos desportos radicais ou na empresa), o azar liga-se à probabilidade matemática, àracionalidade e ao controlo (acidente ambiental).Numa retoma da ideia do indivíduo que assume o risco, Mary Douglas, em Risk andblame (1992), trabalha a teoria do contágio face à sida. Na sociedade contemporânea, orisco substituiu as antigas ideias sobre a desgraça, caso do pecado. A diferença entreperigo no contexto do tabu e risco como tema central do perigo contemporâneo é que otabu reside na retórica da retribuição e acusação contra um indivíduo específico e orisco é invocado para proteger os indivíduos contra os outros (Douglas, 1992: 27-28).Reforçam-se as ideias de corpo e infecção face à invasão da sida. Se, na sida, o vírusinvade o corpo, descreve-se a doença como invasora da sociedade inteira. Contínuoassalto viral, com contaminação e vulnerabilidade, a sida torna o corpo do indivíduo oua sociedade incapazes de reagir. Por isso, Paula Treichler (1999: 171) descreve a sidacomo falha sismológica, com o corpo a perder a imunidade. Já para Lupton (1999: 55),que interpreta o modelo de Douglas, os grupos sociais dominantes reagem aos que seposicionam como “desviantes” e de “risco”, e tentam marginalizá-los e exclui-los, 4
  • 5. através de um cordon sanitaire de estratégias higiénicas que delimitam as fronteiras,tendência clara na história da sida.O risco associa-se, pois, às ideias de contaminação, impureza e imunidade. A sida, maisdo que qualquer outra doença, possui diversas analogias com a poluição e ordem social.O VIH-sida constitui uma ameaça para os indivíduos, e as reacções dos grupos sociaissugerem que são uma ameaça à ordem social. A uma percepção elevada de riscocorrespondem reacções de pouca tolerância pessoal e social face aos perigoscomportados por esses riscos. Para Sontag (1988/1998: 174), as epidemias provocamsempre um clamor contra a complacência ou tolerância, assimiladas ao laxismo, àfraqueza, à desordem e à corrupção.A sida é uma doença epidémica que vem de fora, que estabelece uma fronteira.Normalmente, as epidemias qualificam-se de peste quando o risco vem de fora. Aorigem do VIH reside algures; nos outros países, no “outro” e no “diferente”,presumidos como grupos “desviantes” sociais (Nettleton, 1995: 61). A doença liga-se afronteiras geográficas, caso da África, e às identidades sociais, que incluem os estilos devida. Como alguns cientistas pensavam que os estilos de vida eram a causa da sida,quando a doença surgiu nos começos dos anos de 1980, os grupos de risco(homossexuais, por exemplo) foram postos no “outro” lado da fronteira. Na moral e,muitas vezes, no discurso médico, a culpa da sida incidiu nos estilos de vida. Comoresultado, o pânico instalado levou à formulação de ideias e valores mais favoráveis aintervenções repressivas.Vimos atrás que a doença é uma construção social e cultural da realidade. A doença temum discurso por trás de si. O discurso da sida comporta um conjunto de metáforas que odominam (Herzlich e Pierret, 1977/1984; Sontag, 1988/1998; Treichler, 1999). Ametáfora é um discurso e um contexto, caracterizados em relação a outro discurso oucontexto com espaço para negociar uma posição. Nenhum discurso é autónomo, masformado nas lutas diárias de sobrevivência e legitimidade, dentro dos processos designificação. Sontag descreve a sida como invasão, batalha, guerra e peste, enquantoque, para Treichler (1999: 170-171), a riqueza conotativa das metáforas permitecompará-las, criticá-las e redefini-las na sua utilidade e eficácia. Na Austrália, alinguagem da campanha de comunicação “Grim Reaper” (1987) usou várias metáforas(Tulloch e Lupton, 1997; Lupton, 1999). O “Grim Reaper” (ceifeiro austero) era umícone da morte com séculos de idade e a metáfora “Grim Reaper é a morte” tornou-se aimagem dominante da publicidade, que criaria uma nova frase-metáfora – “Grim Reaperé a sida”. Lupton (1999) salienta que a figura grotesca e medieval da imagem ficou, emdefinitivo, o sinal da sida, trazendo consigo os velhos significados de morte, fome epraga. 5
  • 6. Uma última característica a assinalar. Notou-se, na segunda metade do século XX, umamudança significativa na responsabilidade da doença. Para além das preocupações a tercom as doenças temporárias, passou a cuidar-se das doenças crónicas (cancro,reumatismo, doenças coronárias), com a preocupação quer pela intervenção cirúrgicaquer pela vigilância, pela cura como pelo cuidado (Berridge, 1996: 4; Berridge, 1993:3). As doenças crónicas ocupariam o centro da consciência moderna sobre o significadoda doença, porque se instalou a incerteza das causas e da cura dessas doenças. Contudo,as melhorias nos fármacos e o cuidado médico permanente inclinaram a sida para oterreno das doenças crónicas. Em simultâneo, as preocupações clínicas e sociaisligavam-se a questões da linguagem: a partir de 1987, os discursos oficiais alteram areferência “grupos de risco” da sida para “comportamentos de risco” na sida.Há uma mudança de modelo: do epidémico para o de doença crónica. Isto traz umachamada de atenção para os estilos de vida, o que leva os mais propensos a contraíremuma doença crónica a fazerem esforços que eliminem os riscos. Claro que oenvelhecimento individual conduz a uma maior probabilidade de contrair uma doençacrónica, mas as pessoas conseguem viver com elas durante muitos anos, graças àvigilância e ao cuidado permanentes. Mas a doença pode fragilizar. Para Raidley (1994:147), o doente tem uma vida mais restrita de contactos sociais e uma ideia de descréditode si mesmo, no que pode constituir um fardo para outros (família, amigos, assistênciasocial). À culpa junta-se a vergonha de ter a doença, com frequência um estigma letal.4. Sida e outras doençasNas duas últimas décadas do séc. XX, a sida constituiu-se em importante temanoticioso. De início, olhada como a doença do século, de fácil transmissão e associada acomportamentos sexuais considerados de risco, o medo de a contrair estendeu-seprogressivamente a todas as camadas sociais e culturais e tornou-se um problemapolítico central na segunda metade dos anos 1980. Mas os media noticiosos não deramatenção imediata à doença. Para Cook (1997: 221), uma explicação para a entradademorada da sida na agenda política reside na possibilidade de o seu anúncio públicogerar pânico, o que colocou os meios noticiosos em situação delicada. Apesar dosavanços e recuos, a opinião pública conseguiu que medidas sociais e políticas fossemtomadas com razoável rapidez e disponibilizados meios apreciáveis.A cobertura noticiosa da sida em vários países partilhou alguns traços comuns. Por umlado, as notícias enfatizaram a doença como se ela se confinasse a homossexuais,tinham uma tendência para relatos noticiosos dramáticos que incitam ao pânico, compresença enfática de determinados grupos sociais e ausência de outros. Por outro lado,algumas individualidades distinguiam-se pela sua enorme capacidade de influência na 6
  • 7. cobertura da sida, relacionada ou não com a especialização médica ou a experiênciapessoal. Um terceiro traço, como enfatizam Williams e Miller (1995: 416), foi a própriadescrição da sida, invocadora de metáforas e imagens associadas à homofobia, medo,violência, contaminação, invasão, racismo, sexo, desvio e xenofobia.Para Montagnier et al. (1989: 546), a sida associou-se a tudo o que é mau –sensacionalismo, aventureirismo, medo. Por seu lado, Mattoso (1998: 18) nota que amorte por doença contagiosa sempre despertou horrores maiores do que a morte natural.Tal medo conduz o homem a quase perder a sua razão social, a excluir os contagiados, aprocurar culpados e castigar e exorcizar os desmandos sexuais, numa permanentedemonização e sentido de pecado dos considerados grupos de risco (homossexuais,toxicodependentes, prostitutas). Se o risco se associa à representação da doença e damorte, a sua elisão passa por procedimentos aperfeiçoados de diagnóstico e anulação dedoenças parasitárias e infecciosas (Giddens, 1994: 107).O medo do contacto de risco, do parceiro sexual que transmite a doença sem o saber,constitui sinal distintivo da sida face às outras doenças contagiosas, em termos sociais ementais. A contaminação não anunciada atravessou as notícias sobre a doença, com avalorização do preservativo enquanto instrumento que estanca a doença, e, em Portugal,alcançou um ponto de chegada quando a agência governamental deu início à campanhade troca de agulhas para não infectar companheiros e parceiros de toxicodependentes(1993). A sida seria a primeira epidemia numa sociedade de comunicação de massa,com quantidade de informação, características emocionais e indicaçõescomportamentais paralelas ao acidente nuclear de Chernobyl (Zanini et al., 1991: 81). Aepidemia continha os ingredientes jornalísticos suficientes para atrair a atenção:novidade, ausência de cura, sofrimento físico e infecção.Como doença, a sida ocorre num tempo de maturação e concorrência dos canais detelevisão, com as imagens da, e sobre, a doença a adaptarem-se ao meio noticioso. Asida e a seropositividade descrevem estados emocionais e de saúde de indivíduosjovens, que afectam jovens (ao contrário da concepção habitual de doença, identificadacom a velhice e o consequente desaparecimento físico). Por outro lado, a história clínicada sida mostra a ausência da autoridade absoluta do médico sobre o doente. Sem cura àvista, e com grande incidência nos jovens (caso dos toxicodependentes), aexperimentação de fármacos para prolongamento de qualidade de vida dos seropositivose dos doentes com sida tem sido feita em simultâneo pelo clínico e pelo doente, o quetorna este tão especialista como o médico (Epstein, 1996). A interacção social e anegociação de uns com os outros faz da sida uma doença construída social eculturalmente. Entretanto, os meios noticiosos ampliam a situação: as notícias de 7
  • 8. televisão, mais orientadas para o acontecimento, aproveitam-se da dor e apropriam-sedo escândalo, como no caso do sangue contaminado, estudado por Marchetti (1998).Existem outras razões que justificam o lugar especial que a sida tem no conjunto dasdoenças relativamente ao seu tratamento jornalístico. Primeiro, há fortes lutas naobtenção de subsídios à investigação de fármacos, o que conduz a uma permanentetomada de posições de médicos e outros especialistas em congressos e nas notícias emtermos de divulgação de vacinas para a cura da doença, individuais (médicos einvestigadores) e empresariais (companhias multinacionais).Segundo, a doença é atribuída, no início, a grupos de risco – um dos quais, ohomossexual, lutava pelo sua legitimidade social, política e cultural –, numa sociedadepretendente à limpeza e à liofilização, em luta constante contra os micróbios. Daí,acentua Giddens (1994/1997: 23), o contorno político da luta dos homossexuais, queestruturavam organizações de garantia da tolerância pública e do pluralismo sexual econtestavam a terminologia da perversão e do desvio, contra uma sociedade que nãoaceita a diferença e se mostra alheada ao sofrimento.A sida marcou uma nova atitude moral no acto sexual e na sua representação noticiosa.A rejeição da sexualidade periférica, na designação de Foucault (1994), fez-seacompanhar, em sentidos contrários, pelas noções de poluição e impureza e pelalibertação de vocabulário reprimido. Higiene e linguagem inseriam-se na discussão doscampos jornalístico e científico. Dava-se, por via disso, uma moralização de costumes:as tomadas de certas forças – casos do presidente americano Ronald Reagan, doministério britânico do Interior (1989), das entidades religiosas – centraram-se noscostumes sexuais. A sexualidade, balanceada entre a liberdade e o constrangimento, foiuma marca da nossa sociedade. Assim, ao longo da história da sida, registaram-se lutaspolíticas (costumes e moral, apoios económicos), lutas sociais (homossexuais ehemofílicos), lutas económicas (pressão das multinacionais para o reconhecimento eaceitação de fármacos que experimentam, na perspectiva de produção massiva e lucroscorrespondentes) e lutas culturais (homossexuais) que se espelharam no tratamento daepidemia e no seu noticiário.Podemos associar doenças diferentes como a lepra, o cancro e a sida, em termos demedo, discriminação e vergonha. Béniac (1997: 133-137) salienta que, caracterizadapela reabsorção de músculos, insensibilidade das extremidades e afecções cutâneas, alepra possuía um significado específico: a impureza, a falta, o pecado dos homens.Separado do convívio dos indivíduos não afectados e expulso de casa, a interdição doleproso era de ordem sanitária: ele usava um fato comprido, luvas e um chapéu grandepara dissimular as deformidades. Se não estava internado numa leprosaria e mendigava,a sua passagem fazia-se anunciar por uma matraca. 8
  • 9. Afastada a lepra do universo horroroso das doenças que deformam o homem, o cancroinvadiu o universo psicológico e social da humanidade. Considerado doençavergonhosa, consequência de um pecado desconhecido (Imbault-Huart, 1997: 184), como cancro o homem redescobriu a estigmatização (Sontag, 1998: 105). A maior parte dasvezes, o doente preferia não reconhecer a sua doença, embora nos anos mais recentes omédico anuncie abertamente o mal que padece o doente. Já na sida, o medo reside novírus e na ideia de contaminação e vulnerabilidade permanentes. Com as defesasimunitárias enfraquecidas em milhões de indivíduos em todo o mundo afectados com oVIH, ressurgiu o medo das doenças contagiosas consideradas debeladas ou controladas– a tuberculose e outras doenças infecciosas e parasitárias (Montagnier, 1993).As notícias sobre a doença reflectiram esses medos colectivos, situações de pânico ehorror a que corresponderam representações de estigma e discriminação. Devido à faltade tempo, espaço e recursos materiais por parte dos jornalistas, bem como àrepresentação social que jornalistas, fontes noticiosas e audiências constroem da sida –doença não tratável, associação a grupos de risco, medos morais e punições religiosas –,há lugar para a formulação ideológica que cria uma primeira definição. No conjuntogeral das notícias, para além da orientação para o acontecimento, o jornalista éconduzido ao acontecimento previamente marcado.No nosso país, nas notícias sobre sida, em especial entre 1982 e 1989, especialistas,médicos e membros da agência governamental fizeram passar as suas mensagens semqualquer dificuldade junto dos jornalistas. A definição da doença, os quadros clínicos eestatísticos e as campanhas de comunicação pública de prevenção constituíram algunsdos temas dentro da problemática que as fontes de informação forneceram aosjornalistas. No entanto, os jornalistas ultrapassam o papel de elementos secundários nadefinição do enquadramento da notícia, ao assumirem a decisão de atribuir importânciaa uma determinada fonte. A presença da ONG Abraço nas notícias indica tal postura,iniciada no começo da década de 90. A associação, apesar de funcionar como entidadede lobbying, veicularia críticas acerca da actividade da agência governamental,possibilidade para os jornalistas divulgarem novas perspectivas nas notícias. A presençade mais fontes de informação na problemática da sida permitiria ao jornalista investigarsituações e construir quadros de referência diferentes dos proporcionados pelas fontesoficiais.5. Perspectivas científicas e políticasA cobertura noticiosa do VIH-sida reflectiu o apoio que, nomeadamente nos paísesocidentais, se deu às campanhas governamentais, com governo e fontes médico-científicas a dominarem o enquadramento noticioso. Na Inglaterra, nas reportagens de 9
  • 10. finais de 1986, sentiu-se a ideia de “emergência nacional”, em que os jornalistas seidentificavam com as perspectivas governamentais, caso do tema da transmissãoheterossexual do VIH. Na agenda televisiva, houve uma coligação de interesses(consenso liberal-médico), apoiado pela classe médica e científica e pelos líderes deopinião liberais (Glasgow Media Group, 1998). Por oposição a esta perspectiva –assente na estratégia de que, à falta de uma vacina, se tinha de promover a educaçãopública –, surgiram três outros pontos de vista: conservador-moralista, libertário ecrítico. Para a corrente conservadora, as campanhas visaram a permissividade, aoinsinuarem que o governo cedera ao lobby homossexual, enquanto a linha libertária viuem todas as acções do governo tentativas de regulamentação das matérias sexuais. Aoinvés, os críticos concluíram pelo atraso dos esforços governamentais, o que permitiuideias como pânico moral (Watney, 1997; Thompson, 1998), estigma reforçado,racismo legitimado e identificação médica com as práticas sexuais.Uma ideia que atravessou os diversos estudos sobre a cobertura da sida é que a relaçãoentre meio de noticioso e especialista opera dentro da lógica de benefícios partilhados(Noyer, 1994): para um meio noticioso, uma forma de construir ou consolidar a suacredibilidade ancora-se na competência do especialista; para o especialista, avisibilidade conferida pelo meio noticioso é a oportunidade de, junto das instâncias dedecisão, se tornar um meio de pressão para orientação das decisões (financiamento dasactividades e reconhecimento do sector de investigação). À lógica de benefíciospartilhados juntemos a contínua necessidade de acontecimentos por parte dos jornalistase das fontes.Um número elevado de factores influenciou as estratégias das fontes oficiais epoderosas na interacção com os meios noticiosos, de modo a organizarem agendas(Glasgow Media Group, 1998). De entre os factores, destacaram-se a desconfiança dostécnicos de saúde face à veracidade dos relatos dos meios noticiosos, o baixo estatutodos técnicos de saúde, sem a credibilidade e autoridade do médico ou cientista, atentativa de controlo de uns departamentos governamentais sobre outros, o que retiravaeficácia às campanhas, o peso de “quem” falava, que vedava às fontes oficiais certasafirmações mas permitia que outras organizações as defendessem, e a publicitação dealguns cientistas nos meios noticiosos, mesmo sem serem especialistas do VIH-sida. Ocampo jornalístico tornava-se, assim, um palco de múltiplas vozes que procuravamaceder aos jornalistas.Outra questão importante na cobertura jornalística da sida foi a levantada por Epstein(1996), sobre as causas da síndroma, que originou uma controvérsia. Vindos de umponto zero de total incerteza, os grupos rivais de produção de pressupostos ereivindicações, que procuravam estabelecer a “propriedade” sobre a epidemia, 10
  • 11. avançaram várias hipóteses. Entre 1984 e 1986, após grupos de investigadoresdescreverem um vírus anteriormente desconhecido no sangue dos doentes com sida, oVIH formou-se a perspectiva cientificamente aceite de que ele era o agente da causamortal (como se viu no começo deste artigo).A associação de imagens da doença junto do público gerou uma análise profunda. NaAustrália, por exemplo, lançada a 5 de Abril de 1987 e destinada ao público em geral,tornou-se conhecida a campanha do Grim Reaper (ceifeiro austero), devido ao íconecentral empregue. Os anúncios na televisão, cinema e imprensa mostravam umaimagem medieval do horror (Tulloch e Lupton, 1997: 40), representada pelo ceifeiro, eque despertaram uma reacção de medo e choque semelhante à da campanha inglesaDont die of ignorance. A campanha (três semanas na televisão e seis semanas naimprensa) tornou-se uma das mais controversas e recordadas, marcada pelaintensificação, dramatização, controvérsia e debate público da cobertura da doença.Muitos artigos, reportagens e cartas ao director foram publicados na imprensa.Além do medo e do risco, a doença apareceu ligada ao escândalo, como escreveuMarchetti (1998). Durante anos, houve pouca mediatização do caso dos hemofílicos,por duas razões: a culpabilidade de pais que não ignorava o risco de hemofilia desde aconcepção dos filhos; o medo de associação a homossexuais e toxicodependentes. Nofinal dos anos 80, as associações de hemofílicos e transfusionados rompiam o silêncio erecorriam aos meios noticiosos. Falava-se já em escândalo, na lentidão da acção doEstado e no receio de prescrição dos processos em tribunal. Ao mesmo tempo, oshemofílicos eram apresentados como vítimas inocentes por oposição a doentesculpados, nomeadamente na imprensa de extrema-direita.No interior dos meios noticiosos franceses, o escândalo constituiu rapidamente umespaço de luta entre rubricas (Champagne e Marchetti, 1994: 53). Em menos de dezanos, o grupo restrito de jornalistas especialistas em medicina alargava-se e sentia-seuma concorrência e conflitualidade interpares. A politização da questão levou a que asnotícias sobre sangue contaminado feitas por jornalistas especialistas em medicina esaúde se transferissem para jornalistas políticos, editorialistas e jornalistas dos processosjudiciais. Funcionava a hierarquia das secções dos meios noticiosos. Se, inicialmente, ainformação médica era garantida pelas instâncias médicas oficiais e os jornalistasmantinham um interesse profissional com as suas fontes, a sida e o sangue contaminadocontribuíram para acelerar as transformações jornalísticas. Os editorialistas e osjornalistas de política punham em causa a informação positiva sobre os progressos daciência. A ciência e a medicina perdiam a auréola de serviço público para adquirirem adimensão de competição económica, política e militar. 11
  • 12. 6. Cientistas e jornalistas científicos e de saúde nas notíciasSem ser fácil articular o discurso científico (formulação de hipóteses explicativas) coma produção jornalística (procura de respostas curtas e em linguagem acessível), asactividades da ciência e da saúde atingiram um elevado ponto de publicitação nasnotícias da sida. Muitos jornalistas ainda não possuem uma formação específica emtemas científicos, o que os pode levar a aceitar com passividade os pontos de vistatransmitidos pelas fontes de informação. Mas, com frequência, os jornalistasquestionam as fontes, nomeadamente os cientistas e os especialistas, quando não hárespostas rápidas e precisas a problemas de grande dimensão e impacto na vida daspessoas, como a resistência das bactérias aos antibióticos, o Ebola, as doenças das vacasloucas, a gripe das aves, a sida.A facilidade com que os cientistas surgem nos meios noticiosos dá a estes razõespositivas para esquecerem enganos ou omissões das suas teorias ou sugestões. Apromoção mediática dos cientistas, a percepção de que deixaram as “torres de marfim” ese tornaram pessoas com dúvidas e convicções como os outros cidadãos, trouxe avantagem de tornar acessível a divulgação das grandes temáticas científicas, ainda queem versão digerida.Ao visar a popularização ou a vulgarização da ciência, nas notícias aligeiram-seconceitos científicos ou técnicos, o que causa problemas à compreensão do corpocientífico tratado e à reputação das fontes que originam ou promovem a informação. Natelevisão, isso é muito perceptível: o reduzido tempo para explicar um assunto leva ocientista a construir um enquadramento perceptível à audiência. Quando o programainclui público a assistir – que pretende “democratizar” a discussão mas nivela gostos econhecimentos por baixo –, o cientista sente-se inibido em desenvolver as suas ideiaspróprias, pelo que fica na pequena frase ou pequena conversa. Enganos, imprecisões ouomissões sobre a ciência atribuem-se aos jornalistas, mas a responsabilidade também seimputa aos cientistas: estes não esperam pelas reacções dos colegas aos textospublicados nas revistas científicas, mas publicitam os trabalhos através de conferênciasde imprensa, como no anúncio das qualidades do Virodene.O trabalho de Marchetti (1998) sobre jornalismo médico oferece elementos importantespara a sua compreensão. Ainda em meados dos anos 70, em França, os textos sobremedicina eram escritos por médicos com propensão para as humanidades e ojornalismo. Os textos celebravam as conquistas da medicina. Nas duas décadasseguintes, formou-se uma geração de jornalistas especialistas em novas áreas de saber,como a ciência e a saúde, libertos das deferências dos avanços tecnológicos, quando osnão punham mesmo em causa. Fez-se a “desmedicalização” da informação (Marchetti,1998). A necessidade de divulgar dados sobre a sida, no sentido de tornar comum o 12
  • 13. conhecimento científico complexo perante uma doença em rápida expansão, vulgarizouconceitos e medidas de prevenção. Depois, a par da dessacralização da medicina,sucedeu a lógica do escândalo, caso do sangue contaminado com VIH.Do lado do cientista exige-se-lhe ser um especialista apto a responder a tudo. Mas oespecialista não é nem sábio, nem investigador, nem par (Wolton, 1997: 13), embora asua especialização legitime e reforce a autoridade do seu saber (Monnoyer, 1997: 162) ealargue mesmo a sua área de competência a outras actividades. Por isso, há cientistasabordados a qualquer hora ou local para comentarem qualquer assunto. De modoidêntico ao político, constrói-se a ideia de spin doctors científicos, que elaboramdiscursos em busca de visibilidade, prestígio e notabilidade, traduzíveis em lugares,poder e angariação de fundos. Neste sistema de teorias simplificadas, os cientistasescrevem livros, limitam o jargão técnico ao mínimo indispensável, descrevem osfenómenos científicos com uma construção narrativa semelhante a um romance, comhistórias, humor, drama emotivo e ficção, e formam fortes grupos de pressão.Cientistas, médicos, pessoal paramédico, associações de classe e laboratórios movem-seem grande actividade e esforço propagandístico, evidente na recomendação de dietasalimentares e na discussão dos factores de origem e relação das doenças. A autoridadecientífica rodeia-se de uma auréola mítica – muitas vezes, o médico é caracterizadocomo sábio, padre ou mágico (Zappalà, 1997: 183). Nas notícias sobre a sida, a assíduapresença dos grupos de pressão detecta-se na profusão de propostas de vacinas para acura da sida e de medicamentos para atenuar os efeitos da doença. As propostas provêmde países distintos, através de comunicações de médicos e investigadores eapresentações públicas de remédios por parte de laboratórios. As palavras e os projectoscientíficos ganham, desta maneira, uma grande extensão de credibilidade.O aparecimento de agências não governamentais – com o seu aspecto de alerta e deconsciencialização sobre alguns assuntos, como os ambientais – tem muitas vezes, pordetrás de si, a obtenção de financiamentos e cargos, com vedetização dos seus líderes.As notícias sobre a ciência enchem-se de porta-vozes, fontes oficiais e fontes nãooficiais (ONGs e outras associações), que produzem discursos não coincidentes comooutros já elaborados e apresentados publicamente, numa arena de luta permanente naprodução de significados e em busca do reconhecimento e compensação pública, emespecial junto dos decisores políticos.Por isso, a autoridade científica aparece contestada com frequência. A imprevisibilidadee o impacto de riscos e catástrofes geram ansiedade e descrença, na população em geral,quanto à capacidade real dos cientistas. Temos, assim, um duplo registo: o da euforia eoptimismo do saber científico, muito mediatizado; o da insegurança e pessimismo no 13
  • 14. saber comum, também mediatizado. São dois pólos distintos, cada um capaz de produzirnoticiabilidade nos seus acontecimentos ou estórias e que os jornalistas trabalham.No campo científico, distinguem-se algumas outras premissas. Se a relação entre fontepolítica e jornalista se baseia na oportunidade do momento e na eficácia do gesto e daacção, divergem, no campo científico, os tempos do cientista e do jornalista. Ainvestigação científica prolonga-se pelo tempo, resulta de muitas hipótesesequacionadas e trabalho dedutivo e valoriza a citação de trabalhos em artigos publicadosem revistas internacionais e livros. O tempo do jornalista é de ruptura, não adaptado aodo cientista. Para o jornalista não importa o estudo do cientista ao longo dos anos(Cook, 1997: 226; Weiss e Singer, 1988: 151) nem as citações dos seus pares, mas oque traz de novo e o modo como ele é contado.Enquanto o político está habilitado a lidar com as incorrecções das notícias, ao falarcom os jornalistas graças a linguagem simples e redundante, o cientista sente aindadificuldade em expressar conceitos por meio de palavras acessíveis ao público. Daí queas relações entre cientistas e jornalistas balanceiem entre a cooperação e a desconfiança.Se um artigo traz uma referência ou citação incorrecta ao trabalho do cientista, estemostra-se indisponível para contactos posteriores com o jornalista. Quando um cientistatem acesso fácil aos jornalistas, os outros especialistas podem afastar-se dele, seconsiderarem a mediatização um processo de abastardar a ciência (Ussher, 1994: 123).7. ConclusãoNo campo científico em geral, se a preocupação inicial consistia na divulgação dasdescobertas, mais recentemente a ciência tem procurado a mediatização, através decontrovérsias. A querela em torno da origem do VIH tornou-se um bom exemplo.Assim, o campo científico é um palco onde se defrontam agentes sociais dotados delegitimidade especializada e que procuram a definição dominante da descobertacientífica. A mediatização, a controvérsia e a tentativa da definição “vencedora” numdomínio científico permitem amealhar prestígio, útil para obter recursos financeiros deentidades governamentais ou privadas e lugares de decisão.A querela atinge também contornos políticos. O campo científico é um lugar de disputaentre organizações governamentais (fontes oficiais) e outras organizações comoassociações, grupos de pressão e movimentos sociais. Muitas ONGs têm falta derecursos simbólicos, financeiros e culturais, mas a visibilidade adquirida nas notíciasserve para os jornalistas as incluírem como fontes de informação alternativas às oficiais.Funciona o que Noyer (1994) referiu como benefícios partilhados: se os jornalistas 14
  • 15. obtêm subsídios de informação de outras fontes, as fontes não oficiais ganham coberturajornalística.A sida surgiu como doença associada a grupos de risco, com muitas das notícias aserem estórias de homossexualidade. A partir de 1987, com a redefinição da sida comodoença transmissível sexualmente e por transfusão de sangue a todas as categoriassociais e de género, cresceu o pânico e a necessidade de os governos iniciarem fortescampanhas públicas de prevenção. A poluição e a impureza associam-se ao doente comVIH-sida e levam-no a ser considerado como o “outro”, o “diferente”.Doença recente e não anunciada, o seu conhecimento foi sendo acompanhado pelacomunidade científica e pelos doentes, nomeadamente jovens. Inconformados com adoença, tornaram-se activistas enquanto a doença os não atirava, em definitivo, para acama e a morte. O seu activismo possibilitou a aquisição de um conhecimento paraleloao dos médicos e a discussão dos tipos e doses de medicamentos receitados.A entrada de novas fontes de informação no campo jornalístico – como as associaçõesnão governamentais – permitiu, no caso português, chamar a atenção para a situação dosseropositivos e dos doentes com sida, em especial os que estavam em tratamentohospitalar permanente. A luta por melhores condições de vida, a denúncia de carênciasem número de médicos, instalações hospitalares e fornecimento de remédios,constituiria uma das batalhas mais importantes a travar na década de 90.BibliografiaAugé, Marc, e Claudine Herzlich (1983/1995). “Introduction”. In Marc Augé e Claudine Herzlich (eds.)The meaning of illness. Anthropology, history and sociology. Australia: Harwood Academic PublishersBeck, Ulrich (1994/1997). “A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva”. InGiddens, Anthony, Ulrich Beck e Scott Lash Modernização reflexiva – política, tradição e estética naordem social moderna. S. Paulo: UnespBeck, Ulrich (1996). “Risk society and the provident state”. In Scott Lash, Bronislaw Szerszynski e BrianWynne Risk, environment & modernity. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: SageBéniac, Françoise (1997). “O medo da lepra”. In Jacques Le Goff (apres.) As doenças têm história.Lisboa: TerramarBerger, Peter L., e Thomas Luckman (1966/1999). A construção social da realidade. Lisboa: DinalivroBerridge, Virginia (1993). “Introduction: AIDS and contemporary history”. In Virginia Berridge e PhilipStrong (eds.) AIDS and contemporary history. Cambridge, Nova Iorque e Victoria: Cambridge UniversityPressBerridge, Virginia (1996). AIDS in the UK. The making of policy, 1981-1994. Oxford: Oxford UniversityPressBourdieu, Pierre (1994/1997). Sobre a televisão. Oeiras: CeltaChampagne, Patrick, e Dominique Marchetti (1994). “L’information médicale sous contrainte – a proposdu «scandale du sang contaminé»”. Actes de la Recherche en sciences sociales, 101-102: 40-62Cook, Timothy (1997). “News coverage of AIDS”. In Pipa Norris (ed.) Politics and the press. Boulder eLondres: Lynne Rienner Publishers 15
  • 16. Douglas, Mary (1966/1991). Pureza e perigo. Lisboa: Edições 70Douglas, Mary (1992). Risk and blame. Essays in cultural theory. Londres e Nova Iorque: RoutledgeEpstein, Steve (1996). Impure science – aids, activism and the politics of knowledge. Berkeley, LosAngeles e Londres: University of California PressFoucault, Michel (1994). História da sexualidade, 3 volumes. Lisboa: Relógio D’ÁguaFoucault, Michel (1997). A ordem do discurso. Lisboa: Relógio D’ÁguaGiddens, Anthony, Ulrich Beck e Scott Lash (1994/1997). Modernização reflexiva – política, tradição eestética na ordem social moderna. S. Paulo: UnespGiddens, Anthony (1995). Transformações da intimidade. Oeiras: CeltaGlasgow Media Group (1998). The circuit of mass communication. Londres, Thousand Oaks e NovaDeli: SageGrandi, Roberto (1995). Texto y contexto en los medios de comunicación. Barcelona: BoschHerzlich, Claudine, e Janine Pierret (1987/1984). Illness and self in society. Baltimore e Londres: TheJohns Hopkins University PressImbault-Huart, Marie-José (1997). “História do cancro”. In Jacques Le Goff (apres.) As doenças têmhistória. Lisboa: TerramarLash, Scott (1994/1997). “A reflexidade e seus duplos: estrutura, estética, comunidade. In AnthonyGiddens, Ulrich Beck e Scott Lash Modernização reflexiva – política, tradição e estética na ordem socialmoderna. S. Paulo: UnespLupton, Deborah (1999). Risk. Londres e Nova Iorque: RoutledgeLupton, Deborah (1999 a) (ed.). Risk and sociocultural theory – new directions and perspectives.Cambridge: University PressMarchetti, Dominique (1998). Contribution à une sociologie des transformations du champ journalistiquedans les années 80 et 90. A propos d’“événements sida” et du “scandale du sang contaminé” (tese dedoutoramento em sociologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales)Mattoso, José (1998). “Para uma história das epidemias”. In Isabel Faria e Pedro Silvério Marques(coord.) Actas da 1ª jornada de Ética-Abraço. Lisboa: AbraçoMonnoyer, Laurence (1997). “La légitimation par la science: un défi pour la démocratie”. In Suzanne deCheveigné (coord.) Sciences et médias. Hermès, 21: 159-169Montagnier, Luc (1993). “Sida: agir e já!”. Diário de Notícias, 1 de FevereiroMontagnier, Luc, Willy Rozenbaum, e Jean-Claude Gluckman (1989). Sida et infection par VIH. Paris:FlammarionNelkin, Dorothy, David P. Willis e Scott V. Parris (eds.) (1991). A disease of society. Cultural andinstitutional responses to AIDS. Cambridge, Nova Iorque e Melbourne: Cambridge University PressNettleton, Sarah (1995). The sociology of health and illness. Cambridge: Polity PressNoyer, Jacques (1994). La couverture du sida dans la presse française de 1982 à 1989 a travers troisquotidiens nationaux (Le Figaro, Libération, Le Monde): approches de la notion d’evenement. Tese dedoutoramento apresentada na Universidade de Lille 3Pierret, Janine (1983/1995). “The social meanings of health: Paris, the Essonne, the Herault”. In MarcAugé e Claudine Herzlich (eds.) The meaning of illness. Anthropology, history and sociology. Australia:Harwood Academic PublishersRadley, Alan (1994). Making sense of illness. The social psychology of health and disease. Londres,Thousand Oaks e Nova Deli: SageSontag, Susan (1988/1998). A doença como metáfora e A sida e as suas metáforas. Lisboa: QuetzalThompson, Kenneth (1998). Moral panics. Londres: RoutledgeTraquina, Nelson (2000). “O jornalismo português e a problemática VIH/SIDA: um estudo exploratório”.Revista de Comunicação e Linguagens, 27: 261-285 16
  • 17. Treichler, Paula A. (1999). How to have theory in an epidemic – cultural chronicles of AIDS. Durham eLondres: Duke University PressTulloch, John, e Deborah Lupton (1997). Television, AIDS and risk. St Leonards: Allen & Unwin PtyUssher, Jane (1994). “Media representations of psychology: denigration and popularization, or worthydissemination of knowledge?”. In Cheryl Haslam e Alan Bryman Social scientists meet the media.Londres: RoutledgeWatney, Simon (1989/1997). “Moral panics”. In Tim O’Sullivan & Yvonne Jewkes The media studiesreader. Londres, Nova Iorque, Sidney e Auckland: ArnoldWeiss, Carol, e Eleanor Singer (1988). Reporting of social science in the national media. Nova Iorque:Russel Sage FoundationWilliams, Kevin, e David Miller (1995). “AIDS news and news cultures”. In Downing, Mohammadi eMohammadi Questioning the media – a critical introduction. Thousand Oaks, California: SageWolton, Dominique (1997). “Présentation. De la vulgarisation à la communication”. In Suzanne deCheveigné (coord.) Sciences et médias. Hermès, 21: 9-14Zanini, Serpelloni, Perini Morgante, Mirandola Galvan, Ciampalini Bosco e Montresor Gomma (1991).“Mass-media e infezione da HIV: la necessitá di una nuova gestione dellinformazione”. In Ministerodella Sanità Informazione e AIDS – informazione scientifica, mass-media ed individuo. Verona: Ministerodella SanitàZappalà, Annick (1997). “La médecine médiatisée: entre la médicalisation du social et la socialisation dela science”. In Suzanne de Cheveigné (coord.) Sciences et médias. Hermès, 21: 181-190 17

×