AS COMADRES
Autoras do blogue “Hoje há bolinhos no Palácio
das Comadres”
“A capacidade de projectar um novo olhar sobre o
que quer que seja, é o que para mim define a
verdadeira criatividade.”
Palavras Criativas – Como é que surgiu a ideia de criar um
blogue conjunto e porquê o nome “Hoje há bolinhos no
Palácio das Comadres”?
Margarida Santos – Uii, esta pergunta é complicada! Temos
quantas páginas?! Bem, quando frequentámos o Curso de
Escrita Criativa das PF, foi criado um blogue para publicação
dos exercícios que íamos desenvolvendo ao longo das
semanas de formação. Quando o curso terminou, houve um
grupo que continuou a alimentar esse espaço com histórias
dispersas, pequenos contos, enfim, com textos que nos
apeteciam escrever e que se integravam na lógica de
continuidade dos ensinamentos do Luís Filipe Borges e do
Nuno Costa Santos. No entanto, no decorrer deste percurso,
começamos a sentir a necessidade de transformar aquele
espaço em algo mais pessoal, mais adaptado às nossas
ambições, à forma como interagíamos umas com as outras, e
vêm daí a vontade de inaugurar um novo espaço na
blogosfera. Nasce assim a ideia, que dadas as características
de saudável loucura e considerável bom humor que existe
neste grupo, extrapolou rapidamente para um projecto de
construção de personagens, os nossos alter egos, que nos
permitem os maiores disparates e as línguas viperinas, tudo
num clima de boa disposição e amizade, e fazendo uma das
coisas que mais gostámos: escrever, escrever, escrever.
Quanto ao nome, resulta, como tudo o resto nesta iniciativa,
dum brainstorming colectivo, e acaba por ser uma
brincadeira com o nome do anterior blogue, o “Hoje não há
bolinhos” e este novo projecto, onde o mulherio assume o
estatuto de Comadres, apreciadoras dum bom chá “pingado”
e bolinhos doces, os tónicos favoritos para soltar a língua de
qualquer senhora de meia idade .
Palavras Criativas – Um blogue escrito a várias
mãos é criativamente mais exigente?
Susana Tavares - É exigentemente criativo. Eu acho
que existe maior criatividade precisamente por
existir maior exigência. Há sempre uma espécie de
irresistibilidade em acompanhar o ritmo das
restantes e em não deixar baixar a fasquia e essa
irresistibilidade é, em si, um grande estímulo à
criatividade. Às tantas torna-se irresistível dar
seguimento a uma ideia ou contribuir de forma
diferente para um tema que uma comadre lançou.
As mais pequenas coisas podem despoletar grandes
ideias. E essa cadeia de raciocínio conjunto é,
quanto a mim, a mais-valia da escrita a várias mãos
e a várias cabeças. Eu falo por mim. Ao contrário
das restantes comadres, que conseguem tirar
inspiração de uma simples parede branca, eu
preciso de mais estímulos. E no palacete, graças ao
talento das comadres, as paredes nunca são
brancas. Têm sempre detalhes interessantes, cores
e texturas :) São as diferentes "vozes" de cada uma
que fazem do humilde palacete um espaço de
debate, conversetas, cusquices, fricções,
impropérios e banalidades, tal como acontece em
qualquer ajuntamento de comadres que se preze.
Palavras Criativas – É difícil ser criativo?
Vanessa Luz - Comparo a criatividade a uma
modalidade desportiva. O Surf. A preparação
física e a aptidão são importantes, mas
existem dificuldades naturais, intrínsecas à
modalidade e que exigem treino. Há que ter
alguma preparação física para suportar a
barreira inicial, e força braçal para passar a
zona de rebentação. Depois, encontrar espaço
e conceder tranquilidade ao pensamento,
aguardar que a sorte, a destreza, e o mérito
nos levem a apanhar a tal onda. E se o vento
estiver de feição, a merecida adrenalina. Ser
criativo pode ser extraordinariamente difícil se
pensarmos em criatividade como a necessidade
de encontrar o tal lugar que ainda não foi
preenchido. A ideia original. Essa tentativa
parece-me importante, mas pouco criativa e às
vezes redutora. A criatividade pode estar num
olhar corriqueiro, resulta essencialmente da
perspectiva, do ponto de vista. Como diz a
nossa amiga e comadre, Margarida: “A
capacidade de projectar um novo olhar sobre o
que quer que seja, é o que para mim define a
verdadeira criatividade.”
Palavras Criativas – Onde vão buscar as ideias?
Andreia Moreira - As ideias nascem-me de
diferentes estímulos, que podem ser exteriores
ou não. Surgem por exemplo de pensamentos
(instantâneos) e reflexões pessoais ou, no dia-a-
dia, da observação das pessoas na rua, nos
transportes públicos, das atitudes que lhes
observo, ou adivinho e que me levam a imaginá-
las em determinadas situações e a "construir-
lhes" as respectivas vidas. Essas pessoas deixam,
dessa forma, o mundo real, para fazer parte do
imaginário que crio. O aspecto físico da pessoa,
por si só, pode ser o ponto de partida para a
personagem ou para a situação que descrevo. As
ideias surgem também de sensações que um
qualquer acontecimento me suscite. No caso
particular das comadres foi fácil, uma vez que
definimos à partida as personalidades para cada
uma, o que deu o mote para encarnar a Maximina
e agora ir acrescentando pormenores que a vão
enriquecendo. As ideias andam no ar, nós só
temos de estar atentas para as apanhar. Às vezes
sinto-me uma verdadeira espia das vidas alheias.
Vejo, ouço, cheiro, (pres)sinto, escrevo. É mais
ou menos assim.
Palavras Criativas – Obrigada por terem
aceite este desafio e deixem-nos uma
provocação criativa como mensagem final.
Joana Mil-Homens - Recentemente li num
blogue uma coisa muito interessante: toda a
gente deixa de desenhar quando percebe que
não é um Picasso, mas ninguém deixa de dar
uns toques na bola só porque sabe que não é
um Ronaldo. Há uma tendência para associar a
criatividade aos grandes génios. Acho que a
criatividade está nos pequenos exercícios do
dia-a-dia. No combate à quase inevitável
rotina. Não interessa se é a escrever num
blogue, a colorir t-shirts ou a fazer crochet.
Não interessa se as palavras são as certas ou
sequer se fazem sentido, não interessa se
somos o próximo Nobel. Interessa é continuar.
Com o mesmo empenho. E se houver galhofa à
mistura, tanto melhor.
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