Revista Cordel

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Revista Brasileira de Literatura de Cordel - Projeto Gráfico e diagramação.

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Revista Cordel

  1. 1. O Que é Literatura de Cordel? 06 A Filosofia nos folhetos de Cordel 18 A Criação de Brasília 34 A Arca de Noé 41 Patativa do Assare O voo do centenario mestre da poesia 47
  2. 2. Uma escola literaria Editorial poetico A nossa Literatura De Cordel, apelidada, Tem raiz em Portugal Mas aqui foi recriada. A de lá ficou mofina, Diante da nordestina A de lá não vale nada! Aqui, folhetos, canções, Romances e gemedeira, ABCs, moirões, pelejas, Capa talhada em madeira, Normas rígidas, pauta vária... É uma escola literária Da cultura brasileira! Desde o maior teatrólogo, Músico, pintor e escritor Todos vão beber na fonte Dos versos do cantador. Se os produtos derivados São muito valorizados, A matriz tem mais valor. Cordel não é só Folclore, Folheto e xilogravura, É Filosofia e estilo, É arte e Literatura É luta, dor e alegria É a mais pura poesia... Crispiniano Neto A mãe da nossa cultura! Cordelista
  3. 3. Editorial rEvista BrasilEira 06. dE litEratura dE O que é 14. CordEl Literatura A Popu- dirEtoria ExECu- de Cordel? laridade e tiva Editorial Atualidade Editora imEph do Cordel rEdação Crispiniano nEto ProjEto GráfiCo E diaGramação mayara Carol araújo 30. 28. Regras da O Brasil de Poética Pindorama Cordeliana Fala Tupi Guarani Sumário 38. A História 41. da Ciência A Arca de nos Versos Noé de Gonçalo Ferreira
  4. 4. 18. A Filosofia 27. nos Soletrando Folhetos de Cordel 36. 34. 5 Séculos Criação de de Luta e Brasília Aventur, Desem- prego, Racismo e Violência 44. De Capa Repente... 47. O Vôo de centenário mestre da Poesia
  5. 5. O QUE Ée LITERA TURA DE CORDEL “Q ue Literatura é esta, cujos temas são aproveitados pelo cinema, pelo teatro, pela música, televisão e até mesmo pelos poetas e escritores eruditos? O que é isto que está chamando a atenção dos professores universitários e universidades do mundo todo, sendo su- jeito de muitas teses de pós-graduação, de doutoramento e de estudos, como na França Estados Unidos, Japão, Rússia e outros países? Seria ela um traço do nordestino que desceu para o Sul do país, com os “paus- de-arara”, estendendo a sua influência cultural? Afinal, o que é Literatura de Cordel que, no Nordeste, é somente conhecida por folhetos, abecês, romances e cantorias?” MACHADO, Franklin. O que é Literatura de Cordel? / Rio de Janeiro. Editora Co- decri, 1980. P.11. Revista Brasileira de Artigo | 06 Literatura de Cordel
  6. 6. Quando Portugal colonizou o festas num tempo em que não Brasil, a maioria da população havia rádio nem televisão.. Eles portuguesa era analfabeta e as acompanhavam os poemas can- gráficas, mesmo na Europa eram tados, com violas ou rabecas, o de um tecnologia muito atrasa- que aprenderam com os ‘medajs’ da, pois ainda não fazia muito árabes que trouxeram o alaúde tempo que Gutemberg tinha in- para a região, quando domina- ventado a imprensa e as máqui- ram por cerca de oito séculos, nas impressoras eram extrema- a Espanha, vizinha de Portugal mente rústicas. Não havia sequer e que, por um tempo foi reino a eletricidade para permitir a unido do país que nos colonizou. fabricação de máquinas mais Chegando ao Brasil, os modernas, como as tipográficas folhetos contando histórias de de alta velocidade e muito me- princesas, bruxas, príncipes nos as off-sets. Imprimir um livro valentes e princesas encantadas, grande, como a Bíblia Sagrada, monstros e sábios encontrou um Os Lusíadas era uma tarefa de povo ansioso por estes mistérios anos, para não demorar demais e encantos, formado dos três as tiragens de livros grandes sangues que formam a etnia não passavam de dez exem- brasileira, o próprio português plares. Então, uma comunicação com toda esta carga cultural, o mais rápida, uma literatura que índio que costumava sentar ao permitisse tiragens maiores tinha redor da fogueira e ouvir o pajé que ser através de impressão de contar histórias mirabolantes “folhas soltas” e de pequenos que preenchiam o imaginário de folhetos, os quais eram vendidos todos, com idealizações, lendas, em Portugal, pendurados em medos, milagres e heroísmos; o cordões (cordéis) nas feiras e nas negro africano, um pouco mais ruas mais movimentadas, através adiantado culturalmente que o de cegos cantadores, autoriza- nosso índio, também vinha de dos pelo Rei, como forma de uma cultura de muita imagina- gerar emprego e renda para ção, lenda, temores e lutas. Es- os deficientes visuais que tinham tava formado o ambiente fértil dotes artísticos. para nascer uma nova expressão Trovadores, jograis, menes- cultural. tréis e cantadores tinham grande influência na difusão cultural da época, pois, sendo a população analfabeta, como já dissemos, uma literatura rimada permitia melhor compreensão e facilitava demais a memorização. Can- tadores populares eram figuras indispensáveis em todas as vilas por- tuguesas da época, animando feiras e Artigo | 07
  7. 7. Os primeiros folhetos Os primeiros folhetos vieram de Portugal, nas caravelas juntos com os colonizadores, nem sempre eram escritos em versos, mas eram a principal fonte de leitura dos primeiros séculos do Brasil. Antes de entrarem nas caravelas tinham que passar pela rigorosa cen- sura da Santa inquisição. Na Casada Torre do Tombo, em Lisboa, eram selecionados os que podiam ser lidos nas colônias e os que não podiam vir para o Brasil, Açores, Guiné, Moçambique, Algarves. Surge a ‘Cantoria de Viola’ na Serra do Teixeira, Paraíba Na primeira metade do século dezenove, por volta da década de 1840 surgem as primeiras cantorias de viola, organizadas, estrutura- das como um espetáculo de produção poética sob o ritmo da viola com os versos sendo feitos no calor do improviso. Era uma evolução dos aboios dos vaqueiros que fizeram a povoação dos sertões nordestinos a casco de cavalo e além de chamar e tanger o gado através do grito mágico do aboio, quando no descanso, pega- vam da viola e improvisavam versos relatando suas próprias aventuras e contando histórias do “arco da velha” que decoravam dos livrinhos que chegaram através das caravelas. A cultura que brota em torno da pecuária em todas as partes é sempre muito cantante. Os primeiros cantadores, considerados os pais da Cantoria de Viola O primeiro Nordestina, são Ugolino do Sabugi, Romano do Teixeira, Silvino Pi- rauá de Lima e outros que deram forma ao espetáculo, definiram os que se tem primeiros gêneros poéticos a serem cantados, como as quadras, sextil- noticia has, glosas, romances, etc. Historia do Capitao do Navio, Nasce a Literatura de Cordel Nordestina de autoria de No final do século XIX surgiram os primeiros folhetos impressos, Silvino Piraua produzidos por poetas nordestinos e impressos em gráficas da região. de Lima. O primeiro que se tem notícia História do Capitão do Navio, de autoria de Silvino Pirauá de Lima. Começaram surgir as gráficas no interior do Nordeste e a litera- tura de folhetos e romances populares ganhou fôlego, formando-se uma verdadeira indústria, com tipografia dedicadas exclusivamente a publicar folhetos. Em torno destas tipografias desenvolveu-se uma rede de distribuição dos folhetos, através de “folheteiros”, que saiam Sertão a fora, de feira em feira, cantando e vendendo o produto, bem como dos cantadores repentistas que iam fazer usas cantorias e aproveita- vam para também faturar um pouco mais com a venda de folhetos que eram por eles cantados e depois vendidos, independente de serem da própria autoria ou não. Num determinado da cantoria paravam de fazer improvisos e iam cantar os versos feitos dos folhetos e romances que traziam na mala. Fonte: Apostilha CURSO DE INICIAÇÃO À POESIA – O Universo da Literatura de Cordel, de Crispiniano Neto Revista Brasileira de Artigo | 08 Literatura de Cordel
  8. 8. Universo tematico e propostas de classificacao da Literatura de Cordel C laro que não é fácil diz- er por que tal ou qual tema foi, ou é, escolhi- do. Suas razões nem sempre se podem fixar em definitivo, mas lado, aspectos de vivência social: religiosidade, aventu- ras, casos de amor. E também as narrativas que envolvem animais, o que representa, de sem dúvida nenhuma se pode certo modo, a maneira como a encontrar uma relação temática respectiva população consid- com a época em que surgem era o animal: ora exaltando-o, as temas. De fato, mesmo os como é em grande parte, o romances tradicionais, e não os ciclo do gado no romance fatos circunstanciais estão rela- nordestino, ora criando-lhe uma cionados a épocas históricas, a lenda prejudicial ao homem. determinado momento, tendo De modo geral, se pode em vista sua manifestação. verificar por um estudo mais Daí a diversidade com que os aprofundado dos temas, que temas se apresentam. De um a elaboração dos romances, lado, figuras humanas, como tradicionais ou modernos se herói ou anti-herói; de outro prendeu sempre à necessidade Revista Brasileira de Materia | 09 Literatura de Cordel
  9. 9. " Desta forma muitas tem sido as tentativas de dar uma classificacao ao romanceiro, ora seguindo a grande tematica que envolve os romances, ora tendo em consideracao as caracteristicas que eles apresentam. " de fixar os acontecimentos, de registrar as figu- são também hoje, com a facilidade das comu- ras que dele participam, de anotar a maneira nicações, certos fatos de repercussão interna- como decorreram, enfim tudo aquilo que, sem cional. Temos assim os temas tradicionais, de um imprensa, sem jornais, sem rádio, as gerações lado; e de outro lado, os fatos circunstanciais, mais antigas tiveram necessidade de gravar quando a literatura de cordel se transforma em e transmitir através da história popular, para jornal escrito e falado e em crônica ou fixação fazer a sua história. Daí haver sempre, - isto dos acontecimentos. sobre tudo nos romances de fundo histórico, que narram guerras ou lutas realmente acontecidas, A variedade temática: tentativa de ou fixam figuras que efetivamente viveram, - no classificação romanceiro não apenas a notícia como também Muitas têm sido as classificações a respeito o entretenimento. do romanceiro em especial do português, Desta maneira, podemos desde logo transladado para o Brasil, e aqui sofrendo as evidenciar a existência, no romanceiro e hoje adaptações ou reformulações que adequaram na literatura de cordel, de dois tipos fundamen- os romances ao novo ambiente. Porque é real- tais da temática: os temas tradicionais, vindos mente este um dos aspectos mais salientes em um através do romanceiro, conservados inicialmente romanceiro quando estudado comparativamente: na memória e hoje transmitidos pelos próprios as modificações que cada povo realiza no tema. folhetos – e aí se situam as narrativas de Carlos E realiza dentro de sua época, do momento Magno, dos Doze Pares de França, de Oliveiros, histórico que vive. de Joana d’Arc, de Malasartes, etc.; e os temas Desta forma muitas têm sido as tenta- circunstanciais, os acontecimentos contemporâ- tivas de dar uma classificação ao romanceiro, neos ocorridos em dado instante e que tiveram ora seguindo a grande temática que envolve repercussão na população respectiva – são os romances, ora tendo em consideração as enchentes que prejudicaram populações, são características que eles apresentam. Entretanto, crimes perpetrados, são cangaceiros famosos menores têm sido as tentativas de classificação que invadem cidades ou praticam assassínios, Revista Brasileira de Materia | 10 Literatura de Cordel
  10. 10. de nossa literatura de cordel; a temática aí tem sido menos explorada no sentido de identificá-la em torno de determina- dos assuntos. Fora do Brasil, podemos lembrar duas sugestões de classificação da literatura de cordel: a de Júlio Caro Baroja, na Espanha, e a de Robert Mandrou, na França. No caso do Brasil, a respeito da classificação da litera- tura popular em versos, além da tentativa de Leonardo Mota, aí por 1921, em Cantadores, e possivelmente outras, podemos registrar duas mais recentes. Uma a que se deve à Casa de Rui Barbosa, feita por um grupo sob a orientação de Caval- canti Proença; foi fundamentalmente desse saudoso especial- ista o esquema inicial, que, afinal, predominou. É realmente um quadro amplo, entrando em pormenorização bastante expres- siva para um melhor conhecimento da produção de literatura de cordel. Orígenes Lessa, partindo da observação de que a temática dos romances populares é muito variada, assinala que essa temática é riquíssima (9); contudo, para classificá-la registra uma série de temas permanentes e outros que con- sidera tipos que, em geral, passam, não se reproduzindo os folhetos. No primeiro caso, situa os seguintes temas: O desafio, real ou imaginário: histórias tradicionais; can- gaço; Antônio Silvino, Lampião, Maria Bonita; seca e retirantes; vaqueiros e vaquejadas; mística; histórias bíblicas; profecias; milagres; festa religiosas; beatas e santos do sertão; Padre Cícero; sobrenatural; o diabo; romances de amor, de aven- turas, trágicos; no segundo caso, incluem-se casos da época; crimes, desastre, acontecimentos policiais, revoluções; campan- has eleitorais; fatos políticos; luta ideológica (guerra da Coré- ia, Hitler, etc.); miséria do povo; eleições; Getúlio e sua morte; crítica de costumes; sátira política e social (crises, preços, falta de luz, etc.). Outra é a que propõe Ariano Suassuna (10); é mais sintética, procura situar a sistematização da literatura de cordel em limites mais definidos a partir dos dois grandes gru- pos – o tradicional e o de “acontecido”: 1. Poesia improvisada; 2. Poesia de composição: a) ciclos heróico; do maravil- hoso; religioso e de moralidade; cômico, satírico e picaresco; de circunstância de histórico; de amor e fidelidade; b) formas: romances; canções; pelejas; abecês. A classificação adotada pela casa de Rui Barbosa, basicamente elaborada por Cavalcanti Proença: assim pode ser apresentada, conforme se vê no volume do catálogo da Literatura Popular (11): Revista Brasileira de Materia | 11 Literatura de Cordel
  11. 11. I – Herói Humano: 1. Herói Recentemente Roberto Câmara Benjamin em inter- Singular; 2. Herói Casal; 3. Re- essante estudo sobre os temas de religião apresentados portagem (crimes, desastres, etc.); em folhetos (12), sugere uma classificação deste, levando 4. Política; em conta seus objetivos; seriam distribuídos em três gru- II – Herói Animal; pos; 1. Folhetos informativos, os que registram fatos “de III – Herói Sobrenatural; época”, ou de “acontecimento”, isto é, acontecimentos IV – Herói Metamorfoseado; atuais, fixando-os para conhecimento de grande público; V – Natureza: 1. Regiões; 2. 2. Romances, são as narrativas tradicionais destinadas a Fenômenos; entreter e distrair; 3. Opinião, são os que incluem crítica VI – Religião; social. A estes três grupos o próprio escritor acrescenta, a VII – Ética: 1. Sátira Social – seguir, um outro conjunto de folhetos: os que narram “ca- Humorismo; 2. Sátira Econômica; 3. sos”, os folhetos de “exemplo”, onde se arrolam aconteci- Exaltação; 4. Moralizante; mentos sem explicação para o povo, mas que constituem VIII – Pelejas; exemplos a serem observados. IX – Ciclo: 1. Carlos Magno; 2. A nosso ver é possível chegarmos a uma síntese Antônio Silvino; 3. Padre Cícero; 4. das duas classificações brasileiras antes citadas: a de Getúlio; 5. Lampião; 6. Valentes; Proença e a de Suassuna. A nossa preocupação é a de 7. Anti-Heróis; 8. Boi e Cavalos; apresentar a temática da literatura de cordel; e tam- X – Miscelânea: 1. Lírica; 2. bém assentar aqueles temas que são constantes ou per- Guerra; 3. Crônica – Descrições. manentes nesta literatura, e isto sob duplo aspecto: de um lado quais são estes temas, como são expostos, por que existem; e de outro lado, como o cantador ou tro- vador populares consideram estes como os interpretam, o que seria, por assim dizer, a sua cosmovisão. Ou seja: como, no quadro de sua cultura, compreendem o fato tradicional ou o acontecido em face da sociedade em que vive. O que representa, de certo modo, o próprio sentimento desta sociedade. Daí procuramos harmonizar, de maneira mais singela – e sobretudo exemplificativa – o que existe nas diferentes manifestações populares em torno de determinado assuntos, constantes, senão permanentes, na literatura de cordel. Chegamos assim a uma simplifi- cação do que sugerem Cavalcanti Proença e Suassuna, procurando indicar, em suas linhas gerais os assuntos da literatura de cordel.
  12. 12. Exemplificacao dos diversos temas 1. Temas Tradicionais a) Romances e novelas: Leandro Gomes Costa Leite – A vaca misteriosa que falou de Barros – Batalha de Oliveiros com Fer- profetizando. rabrás; João Martins de Ataíde – Roldão d) Anti-heróis: Leandro Gomes de Barros no Leão de Ouro; José Bernardo da Silva – A vida completa de João Lezo; - Fran- (ed. prop). – História da Donzela Teodora. cisco Sales – As presepadas de Pedro b) Contos Maravilhosos: Leandro Gomes de Malasarte; João Martins de Ataíde – As Barros – História de Maria e Alonso; João proezas de João Grilo. José da Silva – Aladim e a Princesa de e) Tradição Religiosa: - Manuel d’Almeida Bagdá; Antônio Alves da Silva – Os últimos Filho – História de Jesus e o Mestre dos dias de Pompéia. Mestres; José João dos Santos (Azulão) – c) Estórias de animais: Leandro Gomes de O milagre de Jesus e o ferreiro orgulhoso; Barros – O boi misterioso; Luís da Costa José Soares – Os milagres da Virgem – História do papagaio misterioso; José Conceição. 2. Fatos circunstanciais ou acontecidos a) Manifestações de natureza física: José – Feira de Santana, princesa do sertão; Bernardo da Silva – Os horrores do Nor- Manoel Camilo dos Santos – Descrição da deste; Delarme Monteiro – A seca, flagelo Capital João Pessoa. do sertão; João José da Silva – As cheias d) Crítica e sátira: Erotildes Miranda – Os do interior e as inundações do Recife. horrores da devassidão; Expedito Se- b) Fatos de repercussão social: Rodolfo bastião da Silva – A marcha dos cabelos e Coelho Cavalcante – A morte de Zé os usos de hoje em dia; Minelvino F. Silva – Arigó, o famoso médium de Minas Gerais; ABC dos tubarões. Severino Paulino da Silva – A tragédia de e) Elemento humano: João Florêncio da Garanhuns ou a morte do Bispo; Antônio Costa – História de Getúlio Vargas; Arinos Batista – A guerra de Juazeiro; Joaquim de Belém – História de Antônio Conselheiro; Batista de Sena – A vitória do Marechal João Martins de Ataíde – A morte de Castelo Branco e a derrota dos corruptos; Padre Cícero Romão; José Costa Leite – A Manoel d’Almeida filho – Brasil, tricampeão voz de Frei Damião; Francisco das Cha- do mundo; José Soares – O homem na lua; gas Batista – A história de Antônio Silvino; Joaquim Batista de Sena – História da nove- Antônio Francisco da Silva – As bravuras la de Antônio Maria em versos de cordel. e morte de Lampião; Ivo Luís Silva – O rei c) Cidade e vida urbana: Leandro Gomes dos vaqueiros; Severino Borges da Silva – de Barros – O Recife novo; João Carlos Bravuras de sertanejo. Classificação de Franklin Maxado De época ou de Ocasião, Históricos, Didáticos ou educativos, Biográficos, De louvor ou homenagens, De propaganda política ou comercial, Promoção pessoal e anonimato, Pasquim ou de intriga, De safadeza ou putaria, Maliciosos ou de cachor- rada, Cômicos ou de gracejos, De bichos ou infantis Religiosos ou místicos, De profecias ou eras, De conselhos ou exemplos, De fenômenos ou de casos, Maravilhosos ou mágicos, Fantásticos ou sobrenaturais, De amor ou de romance amoroso, De bravura ou heróicos, Vaquejadas, De presepadas ou dos anti- heróis, De pelejas ou desafios e De discussão ou encontros. Fontes: Literatura de Cordel Antologia – Banco do Nordeste, organizado por Ribamar Lopes e O Que É Litera- tura de Cordel, Franklin Maxado, Editora Codecri – Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Materia | 13 Literatura de Cordel
  13. 13. Da Popularidade e atualidade Da Literatura de Cordel. C om mais de cem anos de publicações inin- terruptas, a Literatura Popular em Versos Escrita ou “Versos de feira”, ou, ainda, “romances e folhetos”, conhecida nos meios intelec- tuais como Literatura de Cordel - nomenclatura herdada de Portugal, onde os folhetos eram vendi- dos nas feiras, pendurados em barbantes (cordões ou cordéis) – já teve sua morte anunciada várias vezes, mas resistiu a todas elas. Achavam que ela sucumbiria à penetração dos jornais no interior; depois foi a era do rádio, com grande penetração nos sertões e mais uma vez falou alto o prenúncio trágico. Com a chegada da televisão ao interior, se previu de novo a derrocada do velho “cor- reio do Sertão”. E agora se fala que a internet irá acabar a literatura popular nordestina... Tudo balela. O “cordel” resiste, por mais que lhe es- tiquem a corda. E tem conseguido até se aliar a cada um destes concorrentes, poderosos instrumen- tos de comunicação de massas. Revista Brasileira de Artigo | 14 Literatura de Cordel
  14. 14. " O radio, o jornal, e a TV chegam primeiro, mas a publicacao da mesma noticia em folhetos de cordel da mais credibilidade e desperta mais interesse ao acontecido. " Em pleno século XXI o fol- dades e escolas de todos os ao Brasil serviu de inspiração heto poético permanece firme recantos do Norte, Nordeste para a publicação de cerca de e forte, lépido e fagueiro, e do Sudeste. O maior prob- cinqüenta títulos cordelianos. cruzando veredas e animando lema foi o fechamento das A morte de Tancredo Neves alpendres nas comunidades tipografias de Literatura de provocou dezenas de publica- rurais dos minifúndios anti- Cordel, que foram 42. Mas ções, a morte de Luiz Gonzaga econômicos, latifúndios improd- elas estão ressurgindo. Agora também motivou uma enxur- utivos, fazendas modernas de em off-set, que os tempos rada de poemas publicados. irrigação e assentamentos de são outros. Através de enti- Por último tivemos a derrubada reforma agrária. dades de apoio à cultura ou, das torres gêmeas, em Nova Ameaça deverasmente forte até mesmo, com fins comerci- Yorque. Poucos dias depois, foi o êxodo rural. Mas, em vez ais, editam-se folhetos, o que vários folhetos estavam sendo de morrer ele acompanhou o garante a volta do vigor de vendidos nas feiras do Nor- seu leitor. Veio para as perife- mercado do folheto. deste e dos grandes centros rias das cidades e chegou às Quando se pensava que do Sudeste, com Osama bin metrópoles, não só do Nor- esta literatura tinha sucum- Laden na capa. Hoje, o fol- deste como Recife, Fortaleza e bido, eis que morreu Frei heto jornalístico não leva mais Salvador, mas também ao Rio Damião e mais de setenta novidades aos seus leitores de Janeiro, São Paulo e todas títulos foram publicados cativos. O rádio, o jornal, e as cidades satélites de Brasília. sobre o fato. A primeira a TV chegam primeiro, mas a Chegou também às universi- vinda do papa João Paulo II publicação da mesma notícia Revista Brasileira de Artigo | 15 Literatura de Cordel
  15. 15. em “folhetos de cordel” dá mais credibilidade e desperta mais inter- esse ao acontecido. “Saiu até um folheto sobre esse assunto”, essa é a marca registrada da credibilidade conferida a uma notícia para as pessoas do povo que têm nessa literatura, na Bíblia Sagrada e nos almanaques populares anuais, suas maiores referências culturais impressas. Esta força imorredoura e crescente, é que faz com que os folhetos de Literatura de Cordel sejam hoje tão utilizados em cam- panhas educativas e no marketing comercial ou político. Quando Cristóvão Buarque criou a Bolsa-Escola no Distrito Federal, por volta de 1995, seu governo me encomendou um poema para divulgar o programa entre os migrantes que moram em Brasília. Dele foram Isabela Nardoni, João Hélio e até o presidente Lula já se tornaram temas de cordéis publicadas duzentas mil cópias. Mais recentemente, a Secretaria da Cidadania de Mossoró me encomendou 15 títulos sobre temas da saúde. De cada um, foram publicados cinco mil exemplares, com perspectiva de novas edições. Folhetos sobre DST/AIDS, contra o alcoolismo, contra o Tabag- ismo, em prol da economia da água, em defesa da ecologia, contra a dengue, em defesa da escola pública, dos direitos da criança, da mulher, dos animais, do plantio do caju, da criação de capri- nos e ovinos, enfim, em qualquer assunto que se queira falar com o povo na sua linguagem, recorre-se à poesia cordelista. Como dizia o mestre Paulo Freire, “não se chega à cabeça do homem do povo, sem passar pelo coração”. O uso da Literatura de Cordel em cam- panhas educativas está abrindo um novo ciclo, como os Cômicos ou de gracejos, Religiosos ou místicos, de Profecias ou eras, de Consel- hos ou exemplos, de Lampião, de Padre Cícero e tantos outros que foram catalogados por Ariano Suassuna, Liedo Maranhão de Souza, Franklin Maxado e Orígenes Lessa. Revista Brasileira de Artigo | 16 Literatura de Cordel
  16. 16. O Caso Isabella, a morte da menina que foi jogada provavelmente pelos pais do sexto andar de um edifício em São Paulo, o Caso de João Hélio, o menino que morreu arrastado em um carro por marginais no Rio de Janeiro, tudo vira folheto de Cordel com uma velocidade impressio- nante. Estamos na praça com a segunda edição do livro Lula na Literatura de Cordel. São mais de duzentos folhetos que falam direta ou indire- tamente em Lula, um presidente que ainda está governando. No livro catalogamos nada menos que 110 deles, de vários estados do Brasil. As editoras estão trabalhando uma nova fase da Literatura de Cordel, trata-se do Cordelivro, que se constitui na edição de folhetos de Cordel em forma de livros, ilustrados, muitas vezes até com um belíssimo casa- As formas poeticas do cordel e do repente nordestinos vao surgindo em novos estilos musicais, enriquecendo o rap, o rock, o hip hop, a MPB mento entre Cordel e Quadrin- hoje uma presença marcante no ses acadêmicas sobre a Litera- hos, um antigo sonho do pes- Teatro, na Literatura, no Cinema tura de Cordel. quisador José Maria Luythen e nas artes visuais, inclusive um A publicação de folhetos que começa a se concretizar. peso fortíssimo dos versos, das acelerou nos últimos cinco anos Dezenas de projetos que levam toadas e das xilogravuras no com o surgimento de editoras a Literatura de Cordel à sal de marketing. como A Tupinankyn em For- aula podem ser encontrados em A agregação de valor ao taleza, a Queima-bucha em todos os estados nordestinos, produto “poema de cordel” Mossoró, a Casa do Cordel em e ainda em São Paulo, Rio de cresce a cada dia, além do Natal, um Sebo em João Pessoa, Janeiro, Distrito Federal, Goiás, cordelivro, há uma forte indús- Manoel Monteiro na Paraíba, estados do Norte para onde tria de produção e venda de a Coqueiro e a Unicordel em milhões de nordestinos migra- CDs, de DVDs, de caixinhas Recife, a ABLC No Rio de Ja- ram arrastando a saudade da de cordéis, de displays com neiro, a volta da Editora Luzeiro terrinha “sofrida, mas boa”. coleções para venda ou servin- e a chegada da Editora Novo As formas poéticas do cordel do de mostruário, camisetas Horizonte em São Paulo, além e do repente nordestinos vão com versos e xilogravuras, livros de várias editoras empresariais surgindo em novos estilos music- com coletâneas de poemas e que estão entrando no ramo do ais, enriquecendo o rap, o rock, poetas. E há uma impressionante Cordel por verem nele um nicho o hip hop, a MPB; o cordel tem produção de monografias e te- promissor. Revista Brasileira de Artigo | 17 Literatura de Cordel
  17. 17. A Filosofia nos folhetos de Cordel Questões pertinentes em relação à Filosofia e a literatura de Cordel Por Francisco José da Silva Prof. Mestre em Filosofia (UFC) Q uando fui convidado para falar sobre o tema a Filosofia nos folhetos de cordel, me senti desafiado, pois qualquer pessoa diante disto poderia se perguntar: Qual relação há entre filosofia e literatura de cordel? Seria o que há de filosofia no cordel? Ou seria o que há de cordel na filosofia? O titulo diz muito sobre a questão a qual nos propomos desenvolver, pois poderia ser ‘Filosofia em Cordel’, ou, ‘Cordel e Filosofia’, ‘Filosofia no Cordel’, ou, ‘Cordel na Filosofia’ e ainda ‘Filosofia do Cordel’. Diante destas questões eu me alinho às duas últimas como mote a partir do qual iniciaremos nossa reflexão de hoje, ou seja, até onde é possível falar de uma filosofia presente na literatura de cordel, e ainda, é possível falar de uma veia poética na filosofia, ainda mais uma poética popular?
  18. 18. A filosofia é, pois, uma musas, rotina sempre presente forma de saber que tem como na literatura de cordel, mas fundamento a busca da ver- que remonta a Homero, na dade através da razão, desta Ilíada e Odisséia, e Hesíodo, forma a reflexão filosófica nos na Teogonia e em Os Trabalhos permite pensar a realidade e os Dias. As primeiras grandes de forma critica e a partir obras poéticas da tradição do todo. Lembramos que o ocidental que tem sua origem grande expoente da filosofia na Grécia antiga. e modelo de atitude filosófica No Canto I da Ilíada lemos: foi o filosofo grego Sócrates, “Canta ó musa, a ira de Desse modo, que através de suas perguntas Aquiles filho de Peleu...”. podemos dizer levava as pessoas a pensarem As musas são as filhas de que existe uma por si mesmas. Zeus e Mnemosyne (Memória), Começaremos então por as quais presidem as criações relacao estreita uma frase que para mim ser- artísticas e conduzem os poetas entre a poesia e a viria de inspiradora a partir da à contemplação daquilo que os divindade, aquele qual refletiremos sobre a filo- deuses querem revelar através sofia nos folhetos de cordel. A da poesia, da tragédia, da que revela os frase é “A poesia é filosofia em música, da dança, etc. O poeta segredos da versos, a filosofia é a poesia é como que o arauto dos de- natureza, em prosa”. uses, aquele que em seu canto revela a palavra dos deuses, da vida humana A poesia na origem da não muito distante é a concep- Filosofia ção bíblica da profecia, pois os grandes profetas (neviim), Já que ao falar de litera- são os portadores da palavra tura de cordel estamos falando de Deus, e muitos deles como em poesia, podemos perceber Isaias e Jeremias eram consid- que na Filosofia há um pouco erados grandes poetas, sem de cordel, pois na sua origem a esquecer do repentista hebreu Filosofia era expressa na forma David, que deliciava os ouvidos de poesia, com versos. Desde de Saul ao “cantar seus Salmos tempos imemoriais a poesia pelos ares”, como diria Raul tem sido a forma mais utilizada Seixas. Desse modo, podemos para se expressar, especial- dizer que existe uma relação mente na carência de uma estreita entre a poesia e a literatura escrita, enquanto ela divindade, aquele que revela é uma forma de mnemotécnica, os segredos da natureza, da ou seja, uma técnica de memo- vida humana, etc. Esse caráter rização eficaz, além é claro revelador da poesia ultrapassa do caráter estético que nela se o âmbito estritamente religioso, apresenta que lhe dava uma ele é reconhecido inclusive na aura de divina. filosofia. Um exemplo deste caráter Em relação à importância divino da poesia pode ser da expressão poética na anti- constatado na invocação das guidade e sua relação com a Artigo | 19
  19. 19. Filosofia nos diz Aristóteles, em sua Poética: eles destacam-se ainda “Entretanto nada de comum existe entre Homero mais aqueles que poetica- (poeta) e Empédocles (filósofo) salvo a presença do mente filosofam. Entre os verso.” (Aristóteles, Arte Poética, I, 11). grandes ‘poetas-filósofos’ A partir deste texto, percebemos que o verso podemos citar Homero, era a linguagem comum tanto da poesia quanto Hesíodo, Sófocles, Esquilo, da filosofia, e ao contrário do que diria Platão, o Eurípedes, Virgilio, Camões, qual rejeita a poesia em sua Republica (vale res- Goethe, Schiller, Hölderlin, saltar que o próprio Platão era poeta, o que nos Fernando Pessoa, Augusto leva a questionar sobre sua posição), Aristóteles, ao dos Anjos, e por que não contrário, exalta o caráter racional e universal da acrescentar a estes grandes poesia, quando diz: poetas clássicos, os grandes poetas da literatura de cordel como Leandro Gomes de Barros, Manoel Camilo dos Santos, Patativa do Assaré, Klevisson Viana, Manoel Monteiro, Mestre Azulão, Rouxinol do Rinaré e tantos outros (?), os quais com sua poesia levantam questões das mais perti- nentes sobre a existência humana, sobre a morte, sobre a vida feliz, sobre o Por tal motivo a “Por tal motivo a Po- certo e o errado, sobre o esia é mais filosófica e de mal, sobre o conhecimento, Poesia e mais caráter mais elevado que sobre nossa cultura. filosofica e de a História, porque a Poesia Não podemos subestimar carater mais permanece no universal e a nem a poesia clássica nem História no particular.” (op. muito menos a poesia popu- elevado que a cit, IX, 3). lar, como o cordel, no que Historia, porque a Com isso vemos clara- diz respeito à forma de Poesia permanece mente que há algo que expressão ou ao conteúdo. aproxima a racionalidade A poesia é uma das primei- no universal e a filosófica da poesia e vice- ras manifestações artísticas Historia versa, é isto que faz com da humanidade e carrega no particular. que o cordel, enquanto toda genialidade do espíri- poética popular carregue to humano e, como pensa em si os germes da reflexão o filosofo alemão Hegel Aristoteles. filosófica na sua busca de (1770-1831) na sua obra expressar o real em sua Lições sobre a Estética, é a complexidade. forma de arte mais espiritu- Podemos dizer que os al e mais completa, aquela grandes poetas marcam que mais se aproxima da com suas obras a geniali- religião em sua manifesta- dade do pensamento, entre ção do absoluto. Revista Brasileira de Artigo | 20 Literatura de Cordel
  20. 20. Cordeis sobre Filosofos Além da possibilidade de levantar estas questões funda- mentais, devemos lembrar da tarefa levada a cabo por al- guns cordelistas, a de escrever sobre a vida dos grandes filó- sofos da humanidade. Entre es- tes cordelistas citamos Gonçalo Ferreira que escreveu sobre Os vultos primaciais Pitágoras, Sócrates, Platão e Livres de contestação Aristóteles, vejamos este trecho Da filosofia grega o cordel sobre Platão: Inegavelmente são Os inexcedíveis Sócrates Aristóteles e Platão. Foram eles realmente Os construtores da fé Iluminando os caminhos Do cristianismo até A doce eclosão do Cristo Em Jesus de Nazaré. Vemos nestes versos uma Diógenes, o cínico, consid- Deus quando criou o homem concepção que alia as idéias erado o mais despojado, o Facultou-lhe liberdade cristãs ao pensamento dos mais irreverente dos filósofos Pra pensar e investigar filósofos gregos, o qual foi na gregos, que usava o sarcasmo, Deixou bem à vontade verdade a base para o desen- a ironia e literalmente ‘mordia’ Do amor a sabedoria volvimento da teologia cristã aqueles que ele considerava Nasceu a Filosofia posterior. reprováveis. Como busca da verdade Recentemente Rouxinol do Como exemplo, citemos Rinaré escreveu conosco um trechos do cordel Diógenes, o Do grego, Filos, amigo. cordel sobre o filósofo grego cínico: Sabedoria é Sofia A mãe de toda ciência Da mente que tudo cria Deus Pai, Primeiro Motor. Poeta superior Da divina poesia Como vemos de forma simples Revista Brasileira de Artigo | 21 Literatura de Cordel
  21. 21. e concisa o poeta expressa o signifi- ficas (morais, éticas, políticas, episte- cado da palavra ‘filosofia’(amigo da mológicas, metafísicas, etc.) e permi- sabedoria), e sintetiza todo seu con- tam entrever não só ao admirador, teúdo e ainda traduz uma concepção de mas ao pesquisador, ao professor racionalidade oriunda da divindade que em geral, e ao filósofo em particular, o conduz ao conhecimento de sua mais toda a riqueza filosófica que pode elevada aspiração. Além disso, o poeta se encontrar nesses modestos folhetos trata dos conceitos mais fundamentais de literatura popular, muitas vezes da filosofia, tais como liberdade, amor, subestimados pela grande maioria sabedoria, verdade, interpõe o conceito das pessoas. de deus cristão (Pai) e aristotélico (o Vejamos este trecho do cordel primeiro motor) e relaciona o criador Viagem a São Saruê de Manuel (poietes, em grego) e a criação (poema) Camilo, o qual relata uma viagem com a produção poética (poesia). fantástica a um lugar onde há tudo Pode-se encontrar maior profundi- em fartura: dade em tão poucos versos? O povo em São Saruê Podemos dizer ainda que se faz necessário e é importante a produção de cordéis biográficos sobre os grandes Tudo tem felicidade filósofos, tarefa a qual tem se dedicado Passa bem anda decente Gonzalo Ferreira, mas isto não é a regra Não há contrariedade para que se possa filosofar com cordéis, Não precisa trabalhar ao contrário do que têm feito alguns E tem dinheiro à vontade cordelistas que escrevem cordéis sobre Lá os tijolos das casas gramática, matemática, geografia, etc, São de cristal e marfim pois para isto basta que se escrevam As portas barras de prata cordéis, os quais devem ser ‘investigados’ Fechaduras de ‘rubim’ e neles se encontre todas estas disci- As telhas folhas de ouro plinas incluídas em seu conteúdo, seja E o piso de sitim num cordel de gracejo, seja biográfico, seja romance. (...) Tudo lá é bom e fácil Como filosofar com Cordéis? Não precisa se comprar Não há fome nem doença Diante disso tudo e sabendo que a O povo vive a gozar poesia tem uma ligação com a filosofia e Tem tudo e não falta nada pode expressar idéias e reflexões filosó- Sem precisar trabalhar ficas, podemos nos perguntar: Já que a O que pensar diante de um filosofia agora se tornou obrigatória em todas as escolas do país, seria possível ensinar filosofia com cordéis? Uma vez cordel que trata de uma sociedade dispondo de uma biblioteca de cor- plena de fartura se contrapormos a déis na escola poderia o professor de realidade do povo nordestino que filosofia utilizar-se dos cordéis e levar os nos períodos mais agudos da seca alunos à reflexão por meio deles? sofrem a privação das coisas mais Nada melhor que citar alguns trechos básicas? de cordéis que levantem questões filosó- Outro ponto digno de nota é Revista Brasileira de Artigo | 22 Literatura de Cordel
  22. 22. a concepção de que nesta sociedade esta critica ao trabalho é endereçada utópica as pessoas não precisam tra- não ao trabalho enquanto tal, mas pode balhar, uma clara referência a vida no ser uma alusão às condições de trabalho jardim do Éden, onde após o pecado do homem do campo, explorado e espo- original o homem é condenado ao liado pelos grandes latifundiários, que trabalho penoso. Esta visão do trabalho gozam da fartura sem mover uma palha. traz os ecos da visão de mundo antiga e Também é interessante notarmos o medieval, para os gregos, por exemplo, contraste entre amor e honra no cordel o trabalho era reservado apenas aos Entre o amor e a espada de José Cam- escravos, enquanto os livres cuidavam elo de Melo, autor do famoso Pavão das questões do pensamento. Também Misterioso: relacionado a isso podemos dizer que O amor quando se alberga No peito do rico ou pobre Seus frutos são o amor Se torna logo um guerreiro As raízes são a honra Com capacete de cobre Que de incógnito frescor E só obedece a honra Dão vida e beleza a árvore Porque a honra é mais nobre E a seus frutos sabor Se o amor é soberano Colhem-se os frutos da árvore A honra é sua coroa E ela não esmorece Portanto o amor sem honra Mas cortando-lhe as raízes É como um barco sem proa Ligeiramente emurchece É como um rei destronado Da mesma forma é a honra No mundo vagando a toa Ferida, o dono entristece. Qual dos dois tem proeminên- A árvore é como o amante cia e é mais importante, o amor ou honra? Seria a honra mais nobre que o amor? Por que seria a honra a coroa do amor, e não o contrar- io? Teria o amor que estar sempre amparado pela honra? Com certeza estes versos do cordel supracitado trazem a marca de uma época, na qual a honra era um dos bens mais importantes para as pessoas, mas será que poderíamos dizer que a honra seria tão valorizada nos dias de hoje? O poeta pretende ligar o amor e a honra de uma forma tão perfeita, mas deixa entrever uma valoriza- ção da honra mesmo em detrimento do amor. Em nossos dias podemos encontrar manifestações de honra, mas talvez não tão freqüentes como outrora, ou mesmo em outras culturas, como por exemplo, a oriental onde a honra ocupa um lugar privilegiado, talvez mesmo acima do amor. Até que ponto as pessoas não confundem a honra com uma alta consideração de si mesmo derivada do egoísmo, o qual leva muitos a cometerem os crimes mais horrendos em nome de uma pretensa ‘hon- ra’? Seriam os crimes passionais resultado do amor ou da honra? Por essas reflexões iniciais percebemos o quanto estes versos do cordel podem nos conduzir para questões complexas de ordem ética e Revista Brasileira de Artigo | 23 Literatura de Cordel
  23. 23. moral, que vão muito além de uma Rodolfo Teófilo): mera consideração do senso comum. São também muito interessantes O homem na vida sonha estes versos de Rouxinol do Rinaré Faz planos, mas na verdade tirados do cordel O Justiceiro do O desfecho do destino Norte: Só pertence à Divindade Sem ao menos pressentir O homem valente e justo Qualquer um pode cair Do berço já traz o tino Na cruel fatalidade! E tendo fibra e coragem Traça seu próprio destino Somos fruto do que escolhemos Como se deu nas andanças ou há um destino traçado para Do herói Pedro Justino. todos? O homem é livre ou é um joguete aos caprichos da divin- Pedro Justino é o personagem do dade? Será que Deus pode traçar cordel de Rouxinol do Rinaré que um destino contrario aquele que eu narra as aventuras de um sertanejo me propus? Com que finalidade? que vai além do sertão se embr- No verso do cordel supracitado o enhando nas regiões do Norte do autor propõe que apesar do homem Brasil. Mas para além do óbvio planejar sua vida, preparar todo o podemos encontrar nestas aventuras terreno para realizar seus sonhos, um misto de construção de um des- é a divindade que de forma mis- tino, o qual aponta para uma con- teriosa conduz seu destino, ou seja, cepção de liberdade, enquanto uma o desfecho de sua vida não lhe autonomia do sujeito face às circun- pertence, mas é resultado de uma stâncias, e de destino traçado, onde escolha de Deus. Esta visão fatalista o homem é o resultado de uma serie do destino encontra eco na filosofia de eventos previamente estabeleci- estóica dos gregos e na teologia dos que o conduzem a uma missão cristã, onde o homem está submeti- predestinada. Há um conflito entre do aos desígnios de Deus, e mesmo a liberdade do homem ser o que os maus estão sob sua vontade. Di- ele escolheu e o fatalismo que leva ziam os estóicos “suporta o que não o individuo a uma passividade di- depende de ti”, e buscavam agir ante de uma vida traçada por Deus. segundo a razão e a natureza. Este mesmo conceito é reforçado Totalmente diversa é a pelo próprio autor nos versos inici- visão existencialista, ais do Cordel Violação, a trágica que vê a escolha historia de Renato e Maria (uma como a única adaptação da novela homônima de forma Revista Brasileira de Artigo | 24 Literatura de Cordel
  24. 24. autêntica do homem ser, para os algo mais por traz de tantas coin- existencialistas ateus crer em um cidências, o autor contrapõe acaso destino traçado por Deus seria e intervenção, se posicionando ao negar sua autonomia e liberdade de lado desta ultima como explicação escolha, ou como diz Sartre, estamos mais adequada e viável para a re- condenados a ser livres, pois mesmo sposta do grande mistério da vida. quando não escolhemos estamos Para ele, o universo é resultado da fazendo uma escolha, a de não vontade de uma Inteligência Supe- escolher (!). rior e não mero resultado do acaso Outro exemplo que podemos e na seqüência do cordel apresenta utilizar para demonstrar que o uma serie de argumentos para justi- cordel não é mera reprodução do ficar sua tese e arremata com essa que se diz, mesmo quando se trata brilhante estrofe: de ciência, é aquele tirado do cordel de Fernando Paixão A historia do “Matéria sem consciência começo do mundo – a teoria do Big Do universo é ruína” Beng, nele o autor assim se expressa: Pois o homem, ser pensante No universo predomina Então me ponho a pensar Legitima a criação Na suprema criação Seu destino determina. O que esta por traz da vida E das leis da evolução Seria o universo um projeto que Alguns pensam que é “acaso” tem como meta a produção de uma Eu penso em intervenção consciência capaz de conhecê-lo? Estaria a matéria trazendo em si a Porque disse um cientista busca de auto-conhecimento? Que a sublime existência A visão proposta pelo autor no É a obra de um acaso trecho acima citado é denominada Mas na minha consciência ponto de vista antrópico, ou seja, o Tudo é obra e criação homem devido a sua condição supe- Da Suprema rior de racionalidade interpreta o sen- Inteligência tido do universo como sendo um pro- cesso que conduziria necessariamente ao seu surgimento, como se a matéria Mesmo aceitando a contivesse em si os germes necessários leis da teoria da ao surgimento da consciência. evolução o au- Como podemos perceber até tor suspeita agora, estas e outras questões po- que haja dem ser encontradas, investigadas Revista Brasileira de Artigo | 25 Literatura de Cordel
  25. 25. e discutidas a partir da leitura de folhetos de cordel, problematização das falsas ver- o que requer do leitor (professor) uma curiosidade e dades e certezas impostas pelo preparação para tratar destes temas de forma lúdica neoliberalismo, pela tradição e e instigante. pelos meios de comunicação de Do que foi dito até aqui está claro que os folhetos massa. Só assim estaremos trans- de cordel trazem uma imensa gama de questões a formando nossos concidadãos serem elaboradas e desenvolvidas num espaço co- de meros zumbis teleguiados letivo de reflexão, ou como diria o filósofo Matthew e dependentes de celulares e Lipman, numa comunidade de investigação, a qual outras parafernálias modernas permitiria aos educandos um espaço democrático de em pessoas capazes de pensar debate e investigação das implicações contidas nas por si, de investigar o mundo que narrativas estudadas. O cordel é uma ferramenta os cerca, de criticar as falsas incrível para levar o educando ao conhecimento da verdades impostas, de denunciar nossa cultura nordestina, de nossas raízes, mas pode os desmandos da política, de ser mais que isso, ele pode levar-nos a uma reflexão se manifestar e transformar a critica de nossas idéias e ideais, de nossos costumes, realidade! das concepções e ideologias presentes em nossa formação e do pensamento do homem simples que expressa em seus poemas as realidades mais compl- exas da condição humana. Não devemos esquecer também o papel estético que os folhetos ocupam em nossa realidade, o qual acaba sendo obscurecido por aqueles que o querem manter numa cúpula, como um objeto de museu, mas que na verdade não percebem o quanto o cordel é versátil e capaz de se reinventar em sua linguagem e se atualizar em seus conteúdos. Mas para que o mesmo cumpra este papel é necessário da parte do professor um conhecimento das raízes de nossa cultura, ou seja, de sua própria identidade, para não se tornar um mero reprodutor das idéias advindas de outros lugares com a preten- são de serem universais, o professor precisa de tempo e condições mínimas para não se tornar cativo de uma estrutura que o nega a possibilidade de cumprir seu papel de forma mínima, isto é, a de ser um capacita- dor, um orientador, um motivador do aprendizado que leve os indivíduos a pensarem por si mesmos, a serem cidadãos autônomos. Não cabe aqui nenhuma critica ao professor enquanto tal, mas aos gestores públi- cos desse intrincado processo, os quais sabemos que propositalmente trabalham com o intuito de manter as pessoas sobre controle, dóceis e passivos, cristalizando um tipo de sociedade excludente e individualista. Por isso, consideramos que a Filosofia pode e deve ter no cordel, especialmente aqui no Ceará e em todo o Nordeste, mais um aliado em seu trabalho incan- sável de levar os homens ao conhecimento de si e a Revista Brasileira de Artigo | 26 Literatura de Cordel
  26. 26. Soletrando No ma-ti-nal vi-ta-mi-na a me-ren-da no to-ma-te re-co-men-da a-ba-ca-te ser só fru-gal ver-de po-mar pas-ta den-tal po-de cor-tar de es-co-var tos-se gri-pe Galope de-ve la-var com co-li-pe no ga-lo-pe da bei-ra-mar no ga-lo-pe Beira Mar da bei-ra-mar Um re-gi-me de ver-da-de (Fragmentos Não dei-xe li-ber-da-de o in-tes-ti-no é seu ti-me soletrados) fi-car fi-no que só fei-xe é su-bli-me ser po-pu-lar Compositores: Xangai e co-ma pei-xe par-la-men-tar Ivanildo Dias no pa-la-dar par-ti-ci-pe um ca-la-mar no ga-lo-pe CD: Xangai - Qué qui tu es-ca-lo-pe da bei-ra-mar tem Canário no ga-lo-pe da bei-ra-mar Um ex-em-plo de gi-gan-te ru-mi-nan-te um ca-me-lo pa-ta pe-lo ru-di-men-tar pa-ra ma-tar se-re-le-pe no ga-lo-pe da bei-ra-mar Es-car-la-te tan-ge-ri-na Revista Brasileira de Soletrando | 27 Literatura de Cordel
  27. 27. O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani Raimundo Caetano e Waldir Teles Cabeceira é Iacanga Terra antiga – Ibiporã Estaca – Ibirapoã Mel vermelho – Irapiranga Terra roxa – Ibipitanga Poço fundo – Itapuí Rio dos Índios – Avaí Mastro ou poste é Ibirama O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani A Várzea é Ibipetuba Nariz de Pedra - Itatina Descavado – Ibiapina Pedregulho – Itaituba Mel amarelo – Irajuba Clareira é Baiapendi Coisa verde é Batovi Cascatas é Iturama O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani A fonte é Itororó Lagoa branca – Ipatinga Terra branca é Ipitinga Bica d’água é Iteró Casca amarga é Iperó Rio dos ventos – Butuí De lei, é Camaçari Rio dos musgos Iguatama O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani Revista Brasileira de Cordel | 28 Literatura de Cordel
  28. 28. Rio doente Pedra redonda - Itanguá Laje branca é Itapetim, Ingaci Rio torto é Iampara Montanha é Ibitiura Luz da lua é Iaciara Água que brota é Imbura Fonte verde Ninho de abelhas - Irajá Flor é chamada Imbotim Impui Navio é Ingaratá Fonte funda é Inhapim Canteiro Rio do Leite - Icamburi Ponta de pedra Itapi Delegado é Canapi Rio dos musgos Iguaí Ibotirama Bem estar é Catuama Ossada é Canguaretama O Brasil O Brasil de Pindorama O Brasil de Pindorama de Pindorama Falou Tupi-Guarani Falou Tupi-Guarani Falou Pedra angular – Itatema Pedras soltas – Itaquera Tupi Guarani Vão estreito – Itacambiro Depois da fonte – Inharé Rio de pedra - Itaciro Rio das Frutas - Imbaré Rio imprestável - Ipanema Terra antiga é Ibiquera Pau d’alho - Imbirarema Cepo é Ibirapuera Rio doente é Ingaci Angelim – Aracuí Fonte verde é Impuí Flor de arara – Arapoti Canteiro é Ibotirama Umbuzais - Umburetama O Brasil de Pindorama O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani Falou Tupi-Guarani Charco se chama Ipuçaba Casa de pedra - Itaioca Aldeia negra – Itabuna Pedra amarela – Itaiuba Serra negra - Ibituruna Cerradão é Catanduba Cordilheira – Ibiapaba Construção quer dizer Moca Porto é Igarequiçaba Fenda ou rasgo – Vossoroca Pedra verde é Itaobí A lua é sempre Jaci Areia é Ibicuí O sol é Coaraci Bica d’água é Torotama E apiário é Iretama O Brasil de Pindorama O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani Falou Tupi-Guarani Água boa é Icatu Pomar se chama - Ipotiba Abundância – Imbiritiba Árvore grande - Imbiraçu Casa de vespa é Inchu Alameda - Imbiraci, Pedra agulha é Itabi Pedra erguida - Itapoama O Brasil de Pindorama Falou Tupi-Guarani Revista Brasileira de Cordel | 29 Literatura de Cordel
  29. 29. Regras da poéetica cordeliana Regras (O que é e o que não é Literatura de Cordel) N ão é qualquer folheto de 11cm X 16 cm que pode ser considerado Literatu- ra de Cordel. Além do formato com as medidas indicadas, para que se possa consid- erar Literatura de Cordel, é preciso observar, bolo, tábuas de marés, fases da lua, horóscopo, etc. Aqui no Nordeste brasileiro, é que ela se tornou forma de Literatura mesmo, ao definir- se, não só a forma dos folhetos, como também em primeiro lugar, o aspecto literário. a temática, as regras poéticas, o fato de serem A Literatura de Cordel Portuguesa, não é todos em poesia, a criatividade, fantasiosidade bem literatura, pois o que definiu mesmo o das histórias descritas. Enfim, todas as car- formato do folheto foi a tecnologia gráfica acterísticas de um segmento de arte literária. precária da época, mas os folhetos tanto po- Diferenças entre a Literatura de Cordel Por- diam trazer poemas, como escritos em prosa, tuguesa e a Literatura de Folhetos dita Litera- da forma que poderiam tratar de receitas de tura de Cordel Nordestina Revista Brasileira de Artigo | 30 Literatura de Cordel
  30. 30. Portuguesa Nordestina a. Dirigida a todos os públicos a. Dirigida ao meio popular b. Gênero literário, teatral, informativo e outros. b. Gênero estritamente literário e informativo c. Verso, Prosa e Receituários c. Definição pela poesia (exceto os almanaques) d. Postura ideológica de conciliação de classes d. postura ideológica denunciadora e crítica dos e. Vendida em ruas pendurados em barbantes opressores (cordéis) e. Vendida de mão em mão. Nas feiras é vendida em rodas, e expostos em mala aberta ou em pequenas bancas no meio da roda. A imensa maioria das apos- própria sextilha, que comum tilhas e livros que “ensinam” da aos folhetos e os repentes, a Litera- fazer Literatura de Cordel con- fundem a cantoria improvisada toada de sete linhas, as déci- mas, mas também diversos tipos com a Literatura de Cordel. de quadrões, de mourões, a tura de Somente Ariano Suassuna fez a divisão correta. Até mesmo os Gemedeira, o Gemido de Dois, Treze por Doze ou numerado, o Cordel e grandes estudiosos do Folclore confundiram estes dois universos da poesia popular nordestina. Galope à Beira-mar, os diver- sos tipos de martelos e os esti- los de fantasia, Brasil caboclo, Canto- A Literatura de Cordel é composta por toda a parte o Brasil de Pai Tomás, o Boi da Cajarana, Mulher Teimosa ou escrita e impressa da poesia Rojão Pernambucano. Enfim, um ria im- popular divulgada em formato de folhetos (08 e 16 páginas) mundo de mais de cem estilos, cada um deles com sua própria provi romances (de 24 páginas em diante, saltando de oito em oito por ser o que comporta uma estrutura de rimas, de métrica e uma lógica na oração a ser desenvolvida, além de uma sada folha de papel ofício dobrada em quatro partes e impressa melodia e um ritmo próprios. A intersecção entre cantoria frente e verso), as folhas soltas, e Literatura de Cordel se dá, com poemas, canções e em- na cantoria quando os repen- boladas. Esse é o gigantesco tistas cantam canções e poemas mundo da Literatura de Cordel. ou mesmo folhetos e romances Já a cantoria improvisada, o decorados e da Literatura de repente de viola é outro uni- Cordel quando em pelejas e verso gigantesco, com mais de discussões são usados diversos cem estilos poéticos, como a estilos de cantoria Revista Brasileira de Artigo | 31 Literatura de Cordel
  31. 31. As regras do Márcia Abreu em Histórias de Cordéis e Folhetos, Mer- cado das Letras, 1999 traz mestre Rodolfo as normas que eram definidas por Rodolfo Coelho Cavalcanti, mestre baiano da Literatura Coelho Caval- de Cordel sobre a forma de se produzir esta Literatura. Rod- canti para a po- olfo dá as cartas sobre técni- cas de versificação usadas na Literatura e Cordel e sobre a esia popular im- própria maneira de se diagra- mar e de se compor, do ponto de vista gráfica, um folheto. pressa. Quanto às regras, podemos lembrar basicamente: 1. As histórias/estórias têm sendo, os folhetos e romances são que ser descritas em versos; todos montados com números de páginas múltiplos de 8. Sendo, 2. As estrofes devem ser de portanto, de 8, 16, 24, 32, 40, 48 seis versos (sextilhas1), de sete ou 64 páginas. versos (Sete linhas2), de dez ver- 6. Os de oito e até 16 pági- sos (décimas ou glosas3); nas são chamados de folhetos; 3. Os versos, devem ser de 7. Os de 24 páginas em sete sílabas (heptassílabo ou re- diante são chamados de romances, dondilha maior) ou de dez sílabas( independente do assunto. decassílabos ou martelos); 8. As capas devem ser feitas 4. Cada página deve ter de de papel de cor e as páginas in- quatro a cinco estrofes (quatro, ternas (miolo), normalmente é feito quando se trata de estrofes de de papel jornal; sete linhas e até cinco, quando se trata de sextilhas. No caso espe- 9. A ilustração da capa pode cífico de ser em décimas, ficam ser feita de xilogravura, fotogra- apenas duas ou, no máximo três fia ou desenho. Sendo que o mais estrofes numa página; recomendável é o uso da xilogra- vura. 5. Os folhetos são montados no tamanho 11cm X 16 cm, o que 10. Os títulos, de preferên- representa ¼ de uma folha de cia, devem ser metrificados. Ex. O tamanho ofício, dobrada ao meio Soldado Jogador (sete sílabas), e novamente dobrada, de modo As proezas de João Grilo (sete que, ao dobrar duas vezes uma sílabas) História de Mariquinha e folha tamanho ofício, ficam oito José de Souza Leão (dois versos páginas de 11cm X 16cm. Assim de sete sílabas). Revista Brasileira de Artigo | | 32 Artigo 10 Literatura de Cordel
  32. 32. Sextilhas Sete linhas Décimas ou glosas São estrofes de seis São estrofes de sete As décimas são versos de sete sílabas versos de sete sílabas, estrofes de dez versos As rimas devem ser com rimas postas na de sete sílabas, com a postas na seqüência AB- seqüência ABCBDDB. posição das rimas obe- CBDB. Trata-se de um estilo decendo, na maioria dos Em alguns casos a poético pouco usado no casos, a seqüência AB- primeira rima (A) a pode rimar com a última da início da Literatura de BAACCDDC. Trata-se de estrofe anterior, como Cordel Nordestina, mas uma forma poética mais normalmente se faz na que depois passou a ser usada para glosar motes cantoria improvisada. Na adotada em poemas em pelejas e discussões, Literatura de Cordel não como A Chegada de mas também pode ser é obrigatória a “deixa” Lampião no Inferno. usada para a com- porque e é usada na O estilo Sete Linhas é posição completa de um cantoria improvisada muito usado na cantoria folheto, como é o caso para dificultar a prática improvisada por permitir da Batalha de Oliveiros que alguns poetas têm de melodias muito boni- e Ferrabrás, de Leandro levar estrofes decoradas. tas. É tão musical que é Gomes de Barros. Há também as sextilhas em decassílabos, mas ra- chamado na cantoria de Há também o chama- ramente ela é usada nos “Toada de Sete Linhas”. do “estilo de Assu” em folhetos de cordel, sendo Os cordelistas mod- que as rimas obedecem mais apropriada para o ernos usam bastante o a seqüência ABBAC- improviso. estilo Sete Linhas. CDEED. As décimas em decassílabos são usadas em poemas e pelejas. Obs. Os demais estilos que normalmente são apresentados em apostilhas de Literatura de Cordel como sendo próprios da poesia escrita, só são usados na composição de folhetos e romances, como Brasil Caboclo, Martelo a Desafio, Ge- medeira, Mourão Voltado, Quadrão Perguntado, Galope à Beira-mar ne outros, são estilos de cantoria improvisada, só sendo usados na Literatura de Cordel, quando se trata de pelejas e discussões. Estes outros estilos serão descritos nos próximos números desta revista, com acompanhamento de um CD para que se possa ter uma dimensão aproximada do universo da cantoria improvisada e da Literatura de Cordel. Revista Brasileira de Artigo | 33 Literatura de Cordel
  33. 33. A Criação de Brasília Chico Diassis Brasília, cidade linda Com o Padre João Ribeiro, É a musa do Cerrado Hipólito José da Costa Teu céu azul, estrelado, A mudança era proposta Tem belezas mais de mil E ganhava repercussão Tua miscigenação Era século dezenove No Distrito Federal No ano de vinte e dois Faz do Planalto central Quando Dom Pedro propôs O coração do Brasil. Sua denominação. Joaquim José da Silva Francisco Adolfo, Visconde Xavier, o Tiradentes, De Porto Seguro, faz Ele e os inconfidentes Uma viagem a Goiás Queriam teu esplendor Berço das grandes bacias Ao pedirem que o País E entre Trás Lagoas, nota Transferisse a capital O local apropriado Do imenso litoral Pra que seja sediado Para o vasto interior. O poder de nossos dias. Revista Brasileira de Cordel | 34 Literatura de Cordel
  34. 34. O senador Cavalcanti Apresentou ao Senado Um projeto baseado Na viagem do Visconde, Cento e oito anos antes Da fundação da cidade, A sua localidade O deputado Nogueira Já era sabida onde. Paranaguá autoriza A demarcação precisa No ano de oitenta e três No ano 92. Dom Bosco, salesiano, E Floriano Peixoto Sonhou com um altiplano A Comissão Cruz envia Onde a terra prometida Pra demarcação sadia Estava à beira de um lago Ser concluída depois Conforme a antevisão Nova civilização, Fez-se o Quadrilátero Cruz Novo tempo e nova vida. Em muitos mapas, presente O governo de Prudente Foi proclamada a República No ano 96 E sua constituição Mil novecentos e cinco Previa a demarcação Na campanha mudancista Do Distrito Federal. Senador e jornalista Virgílio Damásio e Muller Tocam o assunto outra vez Dois distintos senadores Do terceiro artigo, autores, Dia sete de setembro Após trinta e quatro anos Lembraram da capital. Data por nós consagrada, Juscelino entra em ação Em 22 foi lançada Inicia a construção A pedra fundamental. Consolidando a proposta O Epitácio Pessoa Contando com paisagista Comemorando a essência Arquiteto e engenheiro Cem anos de independência Faz com Israel Pinheiro, Da nossa pátria natal. Niemeyer e Lúcio Costa Em 21 de abril De 60 foi fundada A cidade projetada Pra sediar o governo. As maiores decisões De Brasília estão partindo E hoje estamos assistindo Nossa capital crescer. Revista Brasileira de Cordel | 35 Literatura de Cordel
  35. 35. Cinco seculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violencia SEVERINO DIONÍSIO Eu não vejo porque comemorar Cinco séculos de vida do Brasil, Deveria passar o mês de abril Sem ninguém desta data se lembrar Se o índio não tem onde morar, Prostituta não tem a assistência O político não usa coerência Pouca coisa mudou da ditadura Cinco séculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violência! EDVALDO ZUZU Não se pode esquecer o pelourinho, O porão do navio e a senzala O quilombo que tanto o povo fala Onde o negro sofreu sem ter padrinho, Conselheiro e Zumbi neste caminho Foram mártires da mesma penitência Suportaram castigos sem clemência Não tiveram da lei a cobertura Cinco séculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violência! SEVERINO DIONÍSIO Descobriram o Brasil, mas foi em vão. Não deviam jamais ter descoberto Que se o branco não tem chegado perto Só os índios mandavam nesse chão, Sem políticos corruptos na nação, Sem a droga gerando delinqüência, Não havia república nem regência Nem ninguém criticando a pele escura Cinco séculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violência! Revista Brasileira de Cordel | 36 Revista Brasileira de Artigo | 10 Literatura de Cordel Literatura de Cordel
  36. 36. EDVALDO ZUZU SEVERINO DIONÍSIO Este monstro cruel capitalismo São quinhentos janeiros de poder Não aceita o regime igualitário Concentrados nas mãos dos oligarcas, Sufocou o poder do operário Que sufocam, castigam e deixam mar- Colocou nossa pátria no abismo cas Afogou de uma vez o comunismo Onde o pobre não para de sofrer, Amparado na voz da prepotência Os mendigos não têm o que comer, Onde o fraco não ganha concorrência Os Sem Terra encontram resistência, Pra um regime cruel de linha dura Os Sem Teto caçando residência Cinco séculos de luta e aventura, E os doentes na rua da amargura Desemprego, racismo e violência! Cinco séculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violência! SEVERINO DIONÍSIO Este nosso Brasil é bom demais EDVALDO ZUZU Pra quem tem uma vida bem feliz, Nosso povo inda deve estar lembrado Quem desvia o dinheiro do país Do que houve em Olinda sempre praia, Vive entre os maiores marajás, Buriti Cristalino e Araguaia Quem explora as riquezas naturais, E o massacre no chão de Eldorado Quem jamais examina a consciência Quebra-quilos, Praieira, Contestado, Quem não tem um fiapo de exigência Quando vítimas não teve Inconfidência? Grita viva ao Brasil em toda altura Bater palmas pra sua independência Cinco séculos de luta e aventura, É juntar fanatismo com loucura Desemprego, racismo e violência! Cinco séculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violência EDVALDO ZUZU Vera Cruz, Santa Cruz, Monte Pascoal, Pindorama e Brasil até agora Quando a classe burguesa comemora A pobreza se sente muito mal. Uma grave injustiça social Vem trazendo terrível conseqüência As esmolas das frentes de emergência Humilhando os que estão na agricultura Cinco séculos de luta e aventura, Desemprego, racismo e violência Revista Brasileira de Cordel | 37 Literatura de Cordel
  37. 37. Gonçalo Ferreira, nascido três dezenas de biografias de em Ipu, no Ceará, reside no Rio cientistas produzidas em Cordel de Janeiro, onde é presidente por este primoroso poeta da ABLC – Academia Brasileira popular que, além de cordel- de Literatura de Cordel. ista é também contista e en- Autor de mais de 300 saísta, sendo um dos escritores folhetos abrangendo os mais de grande referência na área diversos assuntos, Gonçalo Fer- do cangaço. reira dedicou-se a contar em Pesquisador incansável, versos cordelianos as vidas de traz para seus poemas dados alguns mais afamados cientistas fundamentais para a com- do mundo. preensão da vida e da obra Pode se contra mais de destes grandes benfeitores da A história da Ciência Gonçalo nos versos de Ferreira humanidade. Brasil, também enveredou por Rigorosa obediência Vários outros poetas tam- pesquisas científicas especial- As conselhos soberanos bém se dedicaram a cantar mente nas áreas de Antropolo- Para que sejamos dignos as vidas dos cientistas e te- gia e Etnografia. Desses celestiais planos mas científicos, mas a obra de Sobre Aristóteles, Gonçalo Gonçalo Ferreira é a melhor Ferreira descreve: Aristóteles reuniu referência para qualquer pro- Mais do que dignidade; fessor que se disponha a usar a Quando Tales de Mileto, Pois ele, Platão e Sócrates Literatura de Cordel como fer- Da Grécia, o primeiro guia, Formaram a grande trin- ramenta didático-pedagógica As cortinas do saber dade no ensino de Ciências. Carinhosamente abria Dos mais notáveis filósofos Desde Aristóteles, so- Mostrava o florescimento Da Grécia da antiguidade. bre quem escreveu o folheto Da grega sabedoria. “Aristóteles Vida e Obra” até Gonçalo continua descreven- Câmara Cascudo, mesmo tendo Deus tem planos para todos do a vida de Aristóteles, consa- a marca de maior folclorista do Porém cabe a nós, humanos, grado como filósofo, ma tam- Revista Brasileira de Artigo | 38 Literatura de Cordel
  38. 38. O poeta descreve as andancas, os trabalhos exercidos por Aristoteles e, de modo especial suas grandes descobertas. bém reconhecido cientista e mostra Aristóteles empregou que Platão, o mestre, não lhe passou O tempo e o pensamento o bastão deixando a todos surpresos Como um observador e ainda levando a Aristóteles cuidar Meticuloso e atento de pesquisas científicas para so- Estudando, do organismo, mente depois voltar à Filosofia. O seu desenvolvimento. Com a morte de Platão Se nos domínios da Física Certamente caberia Pouco se aprofundaria A Aristóteles dirigir Noutras áreas do saber Os rumos da Academia, O seu prestígio crescia Mas Platão, frustrando a todos Sobretudo na acima Não lhe deu a honraria. Ditada Biologia. Aproveitando o momento GonÀ—^

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