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Ctsa Possibilidades 12 Ctsa Possibilidades 12 Document Transcript

  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 DEBATE EDUCAÇÃO CTSA: OBSTÁCULOS E POSSIBILIDADES PARA SUA IMPLEMENTAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR Elio Carlos Ricardo Introdução com a vida diária. Na esteira dessas preocupações A sociedade se encontra, bem ou surgem pesquisas e trabalhos que podem mal, cada vez mais dependente dos se enquadrar no que se chama usualmente avanços científicos e tecnológicos e, se por de Educação CTSA (Ciência, Tecnologia, um lado, a ciência e as máquinas estão à Sociedade e Ambiente). No entanto, há disposição para os mais variados fins, por ainda um caminho a ser percorrido na outro, criam-se novas demandas de esfera do aprofundamento didático para energia e matéria prima, e também o que tais propostas estejam presentes na homem adquire novos hábitos de vida sala de aula em condições normais de diária. prática educacional e não em períodos de O mundo moderno é cada vez mais exceção, quando ocorrem. artificial, no sentido de intervenção O presente trabalho busca explorar humana, e há uma crescente necessidade algumas dessas questões que se por conhecimentos científicos e constituem em verdadeiros obstáculos tecnológicos para a tomada de decisões para a implementação da Educação CTSA comuns, individuais ou coletivas, ainda no contexto escolar e pretende, com isso, que nem sempre essa influência seja encaminhar algumas alternativas para percebida claramente por todos. Os diminuir as dificuldades e a distância jovens, em particular, interagem entre as propostas e a prática. O ponto de constantemente com novos hábitos de partida é a compreensão do movimento consumo que são reflexos diretos da CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) em tecnologia atual. Paradoxalmente, não sua dimensão sociológica e os recebem na escola uma formação para a conseqüentes riscos da sua transposição ciência e a tecnologia que vá além da para a educação formal. Isso implica, entre informação e de relações meramente outras coisas, uma nova ênfase curricular ilustrativas ou motivacionais entre esses e a escolha de saberes que serão campos de saberes. Mesmo quando há transformados em conteúdos inovações, que buscam aproximar os disciplinares. Outros temas em questão alunos do funcionamento das coisas e das são os distintos status atribuídos a cada questões tecnológicas, ainda ficam pólo que a sigla designa (Ciência, ausentes outras dimensões do mundo Tecnologia, Sociedade e Ambiente), artificial e da compreensão da sua relação apontados como obstáculo metodológico,
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 bem como a pertinência de ampliar as decisões ficariam nas mãos de (supostos) entidades conceituais sem necessidade. técnicos, os quais atuariam Finalmente, sugere-se que a ciência e a (supostamente) de forma “neutra” e tecnologia sejam assumidas como “apolítica”, já que se apóiam unicamente referências dos saberes escolares e a em aspectos científicos e técnicos, sociedade e o ambiente sejam tratados excluindo as negociações relativas às como o cenário de aprendizagem, do qual decisões tomadas e que têm efeitos sobre a os problemas e questões sociais sociedade. A segunda corrente pretende significativas surgiriam como temas a mostrar o oposto, ou seja, não é certo que serem investigados com o suporte dos a ciência e a tecnologia seriam suficientes saberes científicos e tecnológicos. para decidir, embora seus saberes possam, e talvez devam, ser considerados, mas sem a falsa perspectiva de estarem livres de 1. O Movimento CTS valores. Lacey (1998), por exemplo, As origens do movimento CTS já salienta que no momento presente a foram discutidas, com diferentes ênfases, ciência moderna serve a determinados por Fourez (1995), Santos e Mortimer valores, mais especificamente ao (2000) e Cruz e Zylbersztajn (2001). neoliberalismo, e não a outros, e coloca em Entretanto, vale destacar aqui que se trata questão se tal ciência poderia servir a de um movimento no sentido sociológico valores alternativos. do termo, como ressalta Fourez. Ou seja, Nesse sentido, o movimento CTS se refere-se a uma conjunção de opiniões insere em um contexto bem mais amplo com algumas características comuns e que que a escola. Mesmo a designação correspondem a mudanças que ocorrem Educação CTSA ainda comporta na sociedade, que passam a questionar as elementos que transcendem a educação relações entre as instituições que a sigla formal, isto é, aquela que se dá em uma designa. Assim, podem-se distinguir relação didática, em um espaço e um inicialmente duas correntes de tempo definidos pela escola. Veja-se, por pensamento: a tradição segundo a qual os exemplo, o papel da mídia na tomada de saberes da ciência e da tecnologia levam a decisões de ordem política que envolve os humanidade a um futuro melhor; e uma mais variados temas e exerce forte outra corrente para a qual a ciência e a influência na opinião pública. Acrescente- tecnologia não teriam um fim em si se a isso um paradoxo: ao mesmo tempo mesmas, mas estariam orientadas para a em que as disciplinas científicas parecem ação a partir de uma análise da sociedade não ter uma boa aceitação entre os alunos, em seus componentes históricos, sociais, a ciência desfruta de grande prestígio na políticos e econômicos. sociedade, o que leva a supor que tal efeito A primeira, conforme Fourez, não é produzido pela escola, pois esta não configura um risco social, pois “se admite é a única fonte promotora de uma cultura cada vez mais que sem cultura científica e científica1. tecnológica os sistemas democráticos se As diversas formas de comunicação a tornam cada vez mais vulneráveis à tecnocracia” (1997, p.23). Nesse caso, as 1 Vogt e Polino (2003) apresentam dados interessantes a esse respeito.
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 respeito da ciência e da tecnologia representações do campo de chegada e, contribuem para a construção de uma igualmente, levar a ilusões conceituais e percepção pública da ciência e isso não operacionais. Tardif (2002) e Perrenoud ocorre somente com os alunos, mas (2002) mostraram bastante bem a também com os professores, uma vez que influência das representações nas práticas todos estão suscetíveis a criar suas docentes, as quais assumem muitas vezes representações sociais acerca do status de verdade e se transformam em empreendimento científico e tecnológico. obstáculos a mudanças. Tais representações interferem nas Assumindo-se como princípio que escolhas didáticas e a relevância social da uma Educação CTSA implica uma ciência e da tecnologia supostamente mudança de ênfase curricular e se destina justificaria o ensino destas na escola com a outra formação, conforme será discutido uma finalidade em si mesma, como se mais adiante, os obstáculos acima ganham fosse óbvia e natural, o que é discutível. Os proporções ainda maiores, uma vez que se meios não formais de divulgação e exige uma reorientação nos saberes educação científica e tecnológica ensinados e nas práticas docentes. Em assumem, de certo modo, um vazio relação a essas últimas, observa-se deixado pela escola, que é o de dar acesso freqüentemente que os professores têm aos avanços dessas áreas de saberes às certa dificuldade em abstrair suas pessoas, uma vez que estas vivenciam em experiências e os saberes práticos seu cotidiano2 a tomada de decisões e produzidos são discursivos e refletem debates atuais que envolvem aspectos “muito mais consciência no trabalho do científicos e tecnológicos. Poder-se-ia que consciência sobre o trabalho” (Tardif, dizer que há uma demanda subjacente por 2002, p.110). Ou seja, estão impregnados uma alfabetização científica e tecnológica3. da história de vida dos professores, com Entretanto, as discussões características individuais e sociais, e, por precedentes podem indicar um primeiro não apresentarem um caráter analítico, obstáculo para a implementação da não são reflexivos. Ao mesmo tempo, tais Educação CTSA na escola, a saber, a saberes práticos tornam-se parâmetros transposição de objetivos e expectativas de para escolhas didáticas4, cujas ações um movimento social para a sala de aula. acabam tendo relativa validação na Há pelo menos dois riscos imediatos: o atividade diária, pois de certa forma o primeiro consiste em transpor a metáfora, professor sobrevive em seu meio os termos, ou apenas a sigla CTS ou CTSA, profissional. Podem surgir esquecendo-se de suas origens e questionamentos por parte dos docentes, negligenciando algumas de suas freqüentemente pessoais, em relação a características, que podem não se suas práticas a partir da sensibilidade operacionalizar em novos contextos. O adquirida ao longo do exercício segundo risco é que essa transferência profissional, mas sem instrumentos de possa ser contaminada pelas análise pertinentes não serão suficientes 2 para mudanças substanciais. Vale Cotidiano aqui é entendido para além da proximidade 4 física. Inclui, por exemplo, os meios de comunicação. Didática, no presente trabalho, é entendida em suas 3 Metáfora utilizada aqui no sentido atribuído por dimensões epistemológicas, psicológicas e Fourez (1997). praxiológicas.
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 destacar, no entanto, que a estrutura 2. Ciência e Tecnologia escolar atual obriga, tanto os professores A Educação CTSA transposta para o como os alunos, a rotinizar suas ações, contexto escolar implica novas referências conforme ressalta Perrenoud (1999). de saberes e práticas. Historicamente as Em relação aos saberes a ensinar em disciplinas científicas do currículo escolar uma perspectiva de Educação CTSA, as (biologia, física, química) estariam mais questões que se colocam não são menos propensas a integrar os objetivos complexas. O que ensinar? A ponte entre formadores desse movimento. Todavia, os saberes presentes nos programas seus programas preservam conteúdos escolares e os objetivos de formação oriundos unicamente, ou impostos por essa nova orientação predominantemente, da ciência curricular não é simples de fazer. Dito de correspondente. Assim, os saberes da outro modo: quais saberes oriundos da física escolar provêm da ciência física e ciência, da tecnologia, da sociedade, do assim por diante7. É verdade que existem ambiente seriam transpostos, e como o iniciativas para articular mais de uma seriam, para a sala de aula? área, mas ainda se encontram em estágios Os saberes ensinados passam por um rudimentares. processo de didatização e sofrem, por Quando se pensa em Educação CTSA conseguinte, transformações e são na escola, uma via natural é integrar a exilados de suas origens e deslocados de tecnologia aos programas e conteúdos, seu contexto histórico. Chevallard (1991) uma vez que aparentemente sua já evidenciou algumas transformações por justificativa é facilitada. Ao ser que passam os saberes de referência até questionado pelos alunos a respeito do chegarem à sala de aula, o que ele chama porquê se aprender física, é comum se de transposição didática5. Trata-se de uma fazer referência ao mundo tecnológico denúncia, no sentido de que os saberes atual. No entanto, é permitido duvidar que ensinados não são os mesmos daqueles a ciência ensinada na escola tenha alguma das instâncias produtoras dos saberes e, relação substancial com tal mundo, para portanto, não desfrutam das mesmas além de ilustração ou motivação. legitimações e justificativas Uma nova questão aparece: na epistemológicas e culturais . Um outro 6 Educação CTSA, a ciência, a tecnologia, a obstáculo se impõe, o qual pode ser sociedade e o ambiente são entendidos expresso na forma de pergunta: quais como instâncias produtoras de saberes, os saberes devem/podem ser transpostos ou quais poderiam/deveriam ser transpostos transferidos para a sala de aula em uma para a educação formal? Ou a ciência e a Educação CTSA? A compreensão dos tecnologia seriam referências dos saberes objetos de estudo envolvidos pode indicar escolares e a sociedade e o ambiente caminhos. seriam fontes de temas ou problemas 7 Chevallard (1991) já mostrou que essa relação não é de 5 A origem desse termo é atribuída a Michel Verret superposição, pois a física escolar seria um novo saber, (Chevallard, 1991). uma variante local do texto do saber ditatizado. Críticas 6 Objeções à adequação do modelo teórico de à visão predominantemente sociológica de Yves Chevallard para outras disciplinas escolares, além da Chevallard a esse respeito podem ser encontradas em matemática, encontram-se em Michel Caillot (1996). Ricardo (2005).
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 relacionados com aquelas? Respostas para Uma primeira hipótese para tal tais perguntas não são tão simples como distinção é “o lugar diferente que ocupam possam parecer e isso representa mais um a física e a química na esfera dos saberes e obstáculo para a implementação da das práticas sociais” (Caillot, 1996, p.30). Educação CTSA na escola. Para evidenciar A física, segundo Caillot, teria como isso, vale ressaltar que nem mesmo o objetivo principal o ensino de uma cultura status atribuído à ciência e à tecnologia é científica, enquanto que a química concilia equivalente. melhor a ciência e a tecnologia. Para o É comum atribuir à tecnologia um autor, é possível distinguir duas razões status inferior em relação às ciências, para tais abordagens: a primeira é de como se aquela fosse apenas uma ordem epistemológica. Ou seja, o ensino aplicação destas. Fourez (2003), chama a da física tem como referência as práticas atenção para esse fato ao afirmar que do físico, voltadas para a epistéme, e reduzir a tecnologia a uma ciência coloca a pesquisa científica no centro da aplicada é uma ideologia dominante em produção do saber físico. Desse modo, a nossa sociedade. Ressalta ainda que as tecnologia não teria o mesmo status que a implicações sociais, econômicas e física e não seria considerada como uma culturais são desconsideradas na referência dos conteúdos escolares. A construção da tecnologia quando química está mais voltada para a technê e entendida dessa maneira. Seria como se a considera tanto a pesquisa científica como tecnologia se seguisse automaticamente a tecnológica como fontes de produção de depois de elaborados e compreendidos os saberes e possíveis referências dos saberes modelos e teorias científicas. Essa a ensinar. A segunda razão é de ordem simplificação poderia levar a um econômica. A ciência química tem uma enfraquecimento do estudo crítico da indústria química correspondente, a qual tecnologia, assumindo-se a utilidade e a pode influenciar a elaboração dos aplicabilidade como boas por si mesmas. programas de formação dos químicos e Em uma pesquisa realizada com fazer incorporar as concepções do mundo professores de biologia, física, matemática do trabalho, com implicações no ensino da e química do ensino médio, Ricardo et al. química. Isso não ocorre com a mesma (2007) mostraram que há uma intensidade na formação do físico. compreensão simplificada da tecnologia Se entre disciplinas mais próximas como objeto de ensino, reduzindo-se ao do ponto de vista epistemológico as mero uso de recursos audiovisuais e concepções entre a ciência e a tecnologia instrucionais, computadores ou notícias a são distintas, é razoável supor que entre as respeito de aplicações da ciência. Caillot demais as diferenças tendem a aumentar. (1996), ao estudar as diferentes Nesse sentido, torna-se pertinente discutir concepções de currículo orientado por a tecnologia sob uma perspectiva competências, para as disciplinas de física epistemológica, a fim de proporcionar um e química na França, aponta que há um melhor entendimento dos objetos da tratamento distinto da tecnologia por tecnologia e da origem dos seus saberes estas disciplinas, as quais historicamente para que estes também possam ser são entendidas como próximas. tomados como um saber de referência.
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 Todavia, ainda que alguns filósofos planificação e da realização de contemporâneos (Bunge, 1985; Cupani, determinado artefato, ajustes, 2004; Simon, 2004) defendam uma manutenção, testes e monitoramentos à identidade própria para a tecnologia, não luz dos saberes científicos. Para Bunge se pode esperar uma distinção clara das (1985) e Simon (2004), trata-se do estudo classes de objetos da ciência e da científico do artificial, em contraste com o tecnologia, pois existem intersecções empreendimento científico que se ocupa difíceis de serem eliminadas e que se do estudo das coisas naturais. tornaram mais complexas com os avanços Foi a partir do Renascimento, com a científicos e tecnológicos. No entanto, isso ascensão das ciências exatas, que passou a não exclui a necessidade de uma haver uma aproximação entre estas e a epistemologia peculiar aos objetos técnica, buscando-se o domínio da tecnológicos, uma vez que sua abordagem existência humana, o que não implica como tema filosófico é ainda incipiente se somente o domínio da natureza, mas comparada, por exemplo, à ciência. também do homem sobre os outros Mesmo uma definição para a tecnologia, homens. Além disso, a vida do homem ou uma diferença entre técnica e moderno não coincide mais com suas tecnologia, não parece simples, conforme necessidades orgânicas. Veja-se, por alerta Utges (1996)8. Nessa mesma exemplo, o sucesso de vendas de artefatos direção, Cupani (2004) destaca que há supérfluos! Assim, a tecnocracia, da qual diferentes estilos de pensamento se falou anteriormente, pode ser derivada envolvidos nesse empreendimento da concepção de que a tecnologia é a filosófico. Engenheiros, físicos e prática racional por excelência. Desse humanistas, por exemplo, terão modo, a racionalidade como instrumento representações diferentes acerca da de crítica seria mitigada ou até tecnologia. neutralizada. Talvez, um ponto de partida Para os propósitos deste artigo, para distinguir a ciência e a tecnologia seja pode-se considerar que a técnica designa a intencionalidade que orienta suas atividades artesanais que recorrem a atividades. A tecnologia está associada à saberes vulgares e/ou pré-científicos e à utilidade e à funcionalidade, enquanto que tecnologia caberiam as atividades as pretensões das ciências são menos relacionadas às práticas industriais e/ou imediatas. Uma alternativa seria entender que se servem dos saberes científicos. a ciência aplicada como uma ponte entre a Técnica e tecnologia não precisam ser ciência básica e a tecnologia, pois os necessariamente coisas artificiais, podem resultados da ciência aplicada, embora ser estados ou mudanças artificiais tenham uma utilização direta na também. Ambas concebem um artefato e tecnologia, são saberes e não artefatos. buscam meios para produzi-lo, supondo conhecimentos e saberes já disponíveis ou 3. Obstáculos Metodológicos novos e têm algum valor social (Cupani, 2004). A tecnologia envolve, além da Foi dito anteriormente que a Educação CTSA implica uma nova ênfase 8 Maiores discussões a esse respeito podem ser curricular e se refere a uma outra encontradas em Ricardo et al. (2007).
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 formação, distinta da atual. Assim sendo, para o Ensino Médio (Brasil, 2002), haverá necessidade de uma reorientação ganharia aqui importância fundamental, tanto nos saberes a ensinar como nas desde que não seja reduzida ao cotidiano estratégias metodológicas adotadas. Mas, fisicamente próximo do aluno. A ainda terá lugar uma concepção contextualização se constrói em uma etapa educacional que apoiará tais escolhas e posterior a um processo de práticas. Nesse caso, o par metodologia – problematização da realidade vivida pelos conteúdo não poderá ser pensado alunos e da elaboração de modelos e separadamente, nem mesmo como uma teorizações apoiadas nos saberes relação subordinada, ou seja, escolhidos os científicos e tecnológicos. Por essa razão conteúdos, o passo seguinte seria escolher foi dito anteriormente que tais saberes as metodologias. Pode ocorrer o contrário, devem ser considerados nas tomadas de uma opção metodológica levaria a decisões e elaboração de hipóteses diferentes conteúdos. A própria referentes aos problemas em estudo. Esses metodologia pode ser entendida como um saberes são ferramentas importantes para conteúdo, conforme se verá na seqüência. a análise e a crítica. Um exemplo pode Quando se depara com desafios ilustrar: a lei ambiental brasileira prevê como esses propostos pela Educação audiências públicas para a exposição de CTSA, as questões que se mostram relatórios a respeito de impactos imediatamente são: o que ensinar? Como ambientais quando se pretende realizar ensinar? Quando ensinar? Para elaborar alguma obra que possa afetar o ambiente, alguma resposta a essas questões, é como uma estrada, uma usina, uma preciso inicialmente retomar o problema hidrelétrica. Os membros da comunidade apontado anteriormente, a saber, a local poderão analisar e levantar questões ciência, a tecnologia, a sociedade e o em relação a tais projetos se tiverem ambiente teriam o mesmo status como instrumentos para tal. Não basta a referência dos saberes escolares? Diante ideologia ambientalista romântica. O do estado atual das pesquisas em ensino conhecimento técnico nesse caso é vital de ciências que envolvem, de uma maneira para contrapor dados, elaborar críticas ou ou de outra, a Educação CTSA, poder-se-ia mesmo aprovar o projeto. Todavia, isso adotar como ponto de partida que os não consiste em cair na tecnocracia saberes da ciência e da tecnologia seriam mencionada anteriormente. Nesse caso, os referências dos saberes escolares e a saberes técnico-científicos servem como sociedade e o ambiente assumiriam o ferramentas balizadoras, não como o papel de cenário de aprendizagem, a partir veredicto absoluto. Em face disso, fica do qual surgiriam problemas e/ou temas a claro que uma Educação CTSA não esvazia serem investigados e no qual seriam a escola dos saberes teóricos, conceitos e aplicados os conhecimentos científicos e modelos, nem os dilui em generalidades, tecnológicos apreendidos, a fim de buscar ao contrário, exigir-se-á maior uma solução, uma tomada de decisão ou profundidade dos temas escolhidos para um juízo de valor. estudo. A idéia de contextualização, tão As disciplinas científicas já têm um enfatizada nos Parâmetros Curriculares conjunto extenso de conteúdos escolares
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 consolidados historicamente, ainda que acima está condicionadas aos objetivos sua abordagem e tratamento possam ser propostos para uma Educação CTSA. Estes questionados. A tecnologia ainda não tem é que irão definir temas, metodologias e conteúdos definidos em nível escolar programas. Em síntese: qual formação se básico. Quais conteúdos oriundos da pretende com a Educação CTSA? Poderia tecnologia seriam transpostos para os ser a de preparar os jovens para o mundo programas escolares? Aqui é conveniente do trabalho, ou para utilizarem a ciência e destacar que não apenas conceitos e a tecnologia de modo consciente. Ou teorias podem ser entendidos como ainda, para compreenderem os aspectos saberes a ensinar. sociais e humanistas envolvidos na ciência Algumas especialidades têm uma e na tecnologia. É possível também aderir relação de aproximação entre a ciência e a a objetivos mais específicos, como o tecnologia bem mais óbvia, como a funcionamento de artefatos, máquinas eletrônica, as telecomunicações, a simples, dispositivos eletrônicos e de clonagem, o melhoramento genético de comunicação. sementes, a agroindústria e assim por Ainda não parecem estar diante. Uma alternativa seria buscar nas suficientemente discutidos e analisados os engenharias os saberes de referência. No objetivos de uma Educação CTSA e entanto, conforme destaca Utges (1996), a tampouco são fáceis de serem tecnologia integra um saber fazer estabelecidos e alcançados. Martinand (conhecimento sistematizado), os modos (2003) e Lebeaume (1996), com ênfases de fazer (processos) e as coisas feitas diferentes, fizeram uma retrospectiva (produtos) e visa a solucionar problemas, histórica e uma análise do ensino da a fim de transformar o ambiente natural e tecnologia no programa escolar francês e sócio-cultural. Um ponto forte da identificaram uma grande variedade de tecnologia nessa integração é seu temas: análise técnica e gráfica, referencial metodológico, tanto na análise fundamentos técnicos de medidas, ensino do objeto tecnológico como na elaboração experimental, trabalhos manuais, projetos do projeto tecnológico. Este último em para a ação, desenho técnico e outros seus aspectos técnicos, metodológicos e mais. Além disso, Martinand (2003) organizacionais. Para Utges, a tecnologia destaca que as finalidades dessa disciplina envolve o “uso racional, organizado, no programa também sofreram variações, planejado e criativo de recursos materiais” como apoiar orientações e escolhas (Idem, p.111). Nessa mesma direção, Cajas profissionais, aproximar os alunos do (2001) ressalta que projetos dessa mundo tecnológico, apropriação de natureza buscam equilibrar restrições, técnicas de informação (aqui não se trata avaliar vantagens e desvantagens, prever de informática apenas) ou ainda uma falhas, mediar confiabilidade e segurança pedagogia de ação. com custos e eficácia. Enfim, há uma gama A falta de objetivos claros para a de saberes e habilidades oriundos da Educação CTSA pode levar a distorções tecnologia que poderiam compor os entre o que se espera e o que, de fato, programas escolares. ocorre em inovações curriculares. Cajas A maior parte das escolhas sugeridas (2001), ao discutir a opção metodológica
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 dos projetos em uma educação científica e tecnológica, alerta que “depois que os estudantes desenvolvem seus projetos sociais, não está claro que ciência aprendem e, menos, qual é o conhecimento tecnológico que resulta desses projetos” (p.249). Esse mesmo alerta caberia para a adesão a efeitos de moda no campo educacional sem o devido Figura 01 aprofundamento, como interdisciplinaridade, contextualização, Nesse esquema, os conteúdos cotidiano, os quais podem conduzir a escolares e os livros didáticos distorções conceituais e tão somente freqüentemente utilizados acabam encobrir velhas práticas. Ao contrário, as servindo de obstáculos para a novas tendências educacionais defendem aproximação do educando com o Mundo, que no mundo moderno, ou para evocar a o Universo e a Vida, em função de sua perspectiva histórico-social freiriana, a forma excessivamente artificial. Ou seja, problematização da situação existencial ao terminar a situação didática na qual o concreta teria que ser o ponto de partida assunto ou problema foi trabalhado em para qualquer aprendizagem que tenha sala, acaba também o sentido dos saberes sentido para os alunos e, também, o ponto envolvidos. Em alguns casos pode haver de chegada, mas com um novo olhar, de uma tentativa de aproximação, mas não posse de novos conhecimentos, a fim de vai muito além de ilustrações ou possibilitar a análise crítica e a mudança, motivações, por isso que a representação se necessário. acima não é concêntrica. Os livros As orientações complementares aos didáticos, associados aos pára-didáticos, já Parâmetros Curriculares, os PCN+ (Brasil, vão um pouco mais além, mas seu uso na 2002), expressam bem a ampliação dos escola ainda é tímido. A Educação CTS ou objetivos educacionais para além do CTSA e a ACT (Alfabetização Científica e acúmulo de informações disciplinares Tecnológica) estariam bem mais próximas estritas na forma de três grandes das três grandes competências e, por competências: representação e conseguinte, da realidade vivida pelos comunicação, investigação e compreensão, educandos, professores e escola. Poder-se- contextualização sócio-cultural (Idem). ia dizer que se inverte o sentido de Nesse sentido, Ricardo (2005) sintetiza construção do programa escolar em uma em um esquema (Figura 01)9 a busca pela perspectiva de Educação CTSA, pois diminuição da distância que há entre o parece que partir do centro do esquema mundo abstrato das disciplinas científicas acima e chegar ao seu exterior é um ensinadas na escola e as experiências caminho difícil, uma vez que a forma cotidianas dos alunos: didatizada dos saberes escolares não comporta situações muito além das ideais. O que se pretende é uma via de mão 9 dupla: do exterior é que deveriam surgir Ricardo, 2005, p.221.
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 os temas, problemas, interesses e projetos. uma justificativa estratégica, pois Estes iriam buscar nos saberes conforme foi tratado anteriormente, disciplinares (técnico-científicos) possíveis ocupam distintos status na perspectiva de respostas, modelos, esquemas, para voltar uma Educação CTSA e entre os ao exterior já com novos recursos professores10. Todavia, se a relação entre a cognitivos, a fim de orientar melhor a ciência e a tecnologia for compreendida análise e a compreensão. Nesse sentido, os segundo as discussões acima, talvez fosse alunos terão que saber mais e melhor suficiente uma Educação em Ciência e acerca da ciência e da tecnologia para Tecnologia. De outro modo, haveria uma tomar decisões e emitir juízo de valor ampliação das entidades conceituais sem ultrapassando as limitações do senso necessidade, o que pode se transformar comum. em obstáculo para sua compreensão e implementação. Poderiam ocorrer desvios de propósitos do tipo: para chamar a Considerações Finais atenção dos aspectos éticos da ciência e da As discussões precedentes sugerem a tecnologia será proposta uma Educação necessidade de considerar as tecnologias CTSAE, e assim por diante. como referências dos saberes escolares O mesmo ocorre com as metáforas não apenas como o estudo das máquinas da alfabetização científica e tecnológica e ou equipamentos, mas para compreender do letramento científico e tecnológico. No o mundo artificial e sua relação com o campo da lingüística há diferenças entre mundo natural. Isso possibilitaria alfabetização e letramento, mas como desenvolver nos alunos uma atitude crítica metáfora é possível que o novo termo não diante da tecnologia moderna e resulte em uma compreensão mais reconhecer sua estreita articulação com os profunda. Além disso, Paulo Freire aspectos econômicos, sociais, políticos e ofereceu uma boa compreensão para a culturais, além do seu potencial alfabetização e que poderia ser estendida modificador da realidade e de dar para a educação formal11. Os termos em si respostas a problemas concretos. não carregam as soluções. Ao contrário, Com a Revolução Industrial, a sua ampliação desnecessária pode técnica, ou mais propriamente a encobrir deficiências teórico- tecnologia, assume importância metodológicas. fundamental e se consolida na Finalmente, cabe encontrar um lugar modernidade estabelecendo uma nova para a tecnologia, ou a Educação CTSA na dimensão para o homo sapiens: a de homo escola, pois estas ainda não têm espaços faber. Isso tem implicações definidos. Na estrutura escolar atual, antropológicas, uma vez que associa a talvez não seja apropriado criar uma nova tecnologia a aspectos éticos, sociais e disciplina, mas incorporar os elementos da políticos. Desse modo, caberia uma última Educação CTS ou CTSA nas disciplinas já pergunta: é pertinente a sigla CTSA, ou existentes, desde que se assumissem novos bastaria CT (ciência e tecnologia)? Se o encaminhamentos didáticos. Um bom objetivo é chamar a atenção para as 10 Ricardo et al. (2007). instituições que a sigla designa, então há 11 Ver, por exemplo, as discussões feitas por Delizoicov (2001).
  • Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007 ambiente para tais inovações seria a Parte CUPANI, Alberto. A tecnología como problema filosófico: três enfoques. Scientiae Diversificada do Currículo, a qual ainda Studia. São Paulo, v.2, n.4, p.493-518, 2004. parece mal entendida ou aproveitada nas DELIZOICOV, Demetrio. Problemas e escolas, com disciplinas criadas a partir da Problematizações. In: PIETROCOLA, disponibilidade dos professores e não da Maurício (org.). Ensino de Física: conteúdo, necessidade dos alunos. metodologia e epistemologia numa concepção O principal objetivo do presente integradora. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2001. trabalho foi encaminhar alguns questionamentos em relação às FOUREZ, Gerard. El Movimiento Ciencia, Tecnología e Sociedad (CTS) y la Enseñanza possibilidades de incorporar na educação de las Ciencias. Perspectivas UNESCO, v.XXV, formal as discussões oriundas do n.1, p.27-40, marzo 1995. movimento CTS, ou CTSA, e, assim, FOUREZ, Gerard. Alfabetización Científica y interrogar a escola e, mais precisamente, a Tecnológica: acerca de las finalidades de la Educação CTSA. Todavia, a complexidade enseñanza de las ciencias. Traducción: Elsa Gómez de Sarría. Buenos Aires: Ediciones das questões aqui exploradas e as Colihue, 1997. dificuldades para encontrar respostas não FOUREZ, Gerard. Crise no Ensino de deveriam intimidar a busca de Ciências? Investigações em Ensino de alternativas. Ciências. Porto Alegre – Instituto de Física da UFRGS, v.8, n.2, ago. 2003. Referências LACEY, Hugh. Valores e Atividade Científica. São Paulo: Discurso Editorial, 1998. BRASIL, Secretaria de Educação Média e LEBEAUME, Joël. Une discipline à la Tecnológica. PCN+ Ensino Médio: orientações recherche d´elle-même: trente ans de educacionais complementares aos Parâmetros technologie pour le collège. Aster, n.23, p.9- Curriculares Nacionais. Ciências da Natureza, 42, 1996. Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC, SEMTEC, 2002. MARTINAND, Jean-Louis. L´éducation technologique à l´école moyenne en France: BUNGE, Mario. Treatise on basic philosophy. problèmes de didactique curriculaire. La Vol.7, p.II, Life science, social science and Revue Canadienne de l´Enseignement des technology. Dordrecht: Reidel, 1985. Sciences des Mathématiques et des CAILLOT, Michel. La théorie de la Technologies, v.3, n.1, p.101-116, 2003. transposition didactique est-elle transposable? PERRENOUD, Philippe. Construir as In: RAISKY, Claude; CAILLOT, Michel (éds.). Competências desde a Escola. Trad. Bruno Au-delà des didactiques, le didactique: débats Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas autour de concepts fédérateurs. Bruxelles: De Sul, 1999. Boeck & Larcier S.A., 1996. PERRENOUD, Philippe. A Prática Reflexiva CAJAS, Fernando. Alfabetización Científica y no Ofício de Professor: profissionalização e Tecnológica: la transposición didáctica del razão pedagógica. Tradução de Cláudia conocimiento tecnológico. Enseñanza de las Schilling. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002. Ciencias, v.19, n.2, p.243-254, 2001. RICARDO, E. C.. Competências, CHEVALLARD, Yves. La transposición Interdisciplinaridade e Contextualização: dos didáctica: del saber sabio al saber enseñado. Parâmetros Curriculares Nacionais a uma Buenos Aires: Aique Grupo Editor S. A., 1991. compreensão para o ensino das ciências. Tese CRUZ, S. M.; ZYLBERSZTAJN, A.. Um de Doutorado. Universidade Federal de Santa module pédagogique sur l´accident radioactif Catarina, 2005. de Goiânia. Fundp Ac Be Cetthes, Courrierducethes, Bélgica, n.47, p.1-12, 2001.
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