Portfólio marta spínola aguiar

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Portfólio marta spínola aguiar

  1. 1. PORTFÓLIO Marta Spínola Aguiar Página 1 de 27
  2. 2. Reportagens e Perfil O país do 36-BÀ entrada, um mapa de Portugal. No interior, o som de guitarras portuguesas. Gallassa Café.É assim que se chama o acolhedor café de gastronomia tradicional portuguesa, situado naRua da Trindade 36-B, no Chiado, em Lisboa.Marta Spínola AguiarCultura e tradição são as palavras-chave que melhor caracterizam o café que se situa ao ladoda casa de Rafael Bordalo Pinheiro, um dos expoentes máximos da beleza e representatividadedos roteiros turísticos de Lisboa.“Decidimos trazer para junto do cliente o melhor que o nosso país tem a nível gastronómico”,afirma Sónia Menezes, uma das donas do café que faz hoje um ano. “No fundo, é trazer atradição de Portugal inteiro, ir buscar um bocadinho a cada lado”.Não podendo ser um restaurante gourmet, pois não tem cozinha mas copa, Sónia encara ocafé como um “sítio agradável para passar um bom bocado com os amigos enquanto sepetisca alguma coisa”. O Galo de Barcelos é o símbolo do Gallassa, a provar que no modernocabe o tradicional.De entre queijos e enchidos, o “Tour Gastronómico” é um dos pratos mais requisitados noGallassa e que mais faz as delícias dos clientes, segundo Tiago Rocha, um dos funcionáriosdesta casa portuguesa. Antônio Netto é cliente assíduo do café e afirma “gosto do conceito dotour. Posso comer todos os doces, enchidos, queijos e beber tudo o que é típico de Portugal”.Sónia salienta que este prato é apropriado para duas pessoas e traz, também, “uma típicasalada de tomate, batatinhas, azeitonas e ainda frutas como o ananás e as uvas para cortar asgorduras dos enchidos e permitir que as pessoas comam sem se fartarem”.A ideia de englobar grande parte da gastronomia num único prato, surgiu no final do anopassado e veio substituir, no topo das preferências, o prato Gallassa, “que traz os enchidoscom um misto de queijo”. Tiago garante que o “Tour” é o elo de atracção de muitos turistasque “primeiro começam com um enchido ou uma bebida mais típica e logo que vêem o pratono menu, ficam com o desejo de experimentar quando voltam.”Descrito por muitos como “um café inovador”, o nome “Gallassa” surge “na sequência de umapeça, um assador moderno, com forma de galo que vem substituir o assador de barro doporquinho”, explica Sónia. A originalidade no nome e nesse assador que vai à mesa para o Página 2 de 27
  3. 3. cliente poder assar os enchidos e fazer a espetada de fruta, permite criar uma dinâmica muitopouco conhecida em Portugal e que cativa quem visita o café.Tiago salienta que este é um conceito “totalmente novo e atractivo”. Para além disso, “a ideiade apresentar um visual inovador é interessante, no sentido em que explica um pouco dahistória dos produtos apresentados nesta ‘tasca urbana’, como muitos lhe chamam”, comenta.O mapa de Portugal à entrada do café consegue, desde logo, captar a atenção do cliente epermite estabelecer uma ligação entre os produtos e as suas terras de origem. Segundo Netto,“a ideia foi genial. Assim, cada vez que lá vou, posso escolher e provar algo diferente e aindasaber a história e a tradição que estão por trás”.Mas a “tasca urbana” fez questão de manter alguns traços característicos das “tascas menosurbanas”. Simpatia, animação e atendimento personalizado são a fórmula para que o cliente“se sinta em casa” e o que faz com que a equipa continue “a apostar num conceito minimalistacomo este”, esclarece Tiago.De forma a manter o contacto forte e assíduo com o cliente, o Gallassa aposta em três áreasde negócio: a descoberta do taste, “em que a pessoa vem cá e experimenta os produtos emprato normal”, o take, em que “se o cliente gostar muito do queijo da serra, ou dos vinhos, doslicores, das compotas, pode comprar e levar para casa” e por fim o merchandising, “uma linhadesenhada por nós” e que concede mais vida e cor aos objectos, como é o caso do “porta-guardanapos e da base para tachos”, explica Sónia.Fechado apenas à segunda-feira, o Gallassa prima pelo desejo de cativar os clientes das maisvariadas formas. Se de manhã o cheiro a pão quente sai do pequeno café e conquista quempor lá passa, é nas principais refeições que toda a equipa se esforça por manter uma linhaexigente, criativa e profissional.Com o peso da responsabilidade de ser um café dinamizador e representante da história dePortugal, o Gallassa é, para Netto, “mais do que um café, um espaço de cultura e tradição”. Ese para muitos faltam as palavras para descrever o café, os fãs da página oficial no facebooknão hesitam em afirmar que “ser Gallasseiro é ser português”. Página 3 de 27
  4. 4. Funmácia: Para acabar de vez com o mal-estarIntensificadores, desbloqueadores, estimulantes, inibidores. É assim a Funmácia, no centrode Lisboa, recheada de sonhos doces. Sem receita médica, as tomas diárias não têm horamarcada e “são os doces que acabam por atrair os clientes”Marta Spínola AguiarMal se entra na pequena loja, o cheiro doce invade as narinas. Gomas, chocolates e rebuçadosenchem os pequenos boiões colocados em nichos nas paredes.À entrada as “regras da casa” que orientam os clientes nas suas compras: “usar umaferramenta de serviço”; “escolher os recipientes”; “encher até ao topo”; “escolher etiqueta”;“levar tudo até à caixa” e, por fim, o mais importante, “aproveite o dia e divirta-se”. Foi sobeste lema que o designer Bruno Mendes, 28 anos, e o gestor Ricardo Belchior, 27, decidiramtrazer para Portugal a Funmácia. “Ao fazer este trocadilho, o objectivo foi chamar a atençãodas pessoas, já que o termo farmácia estava muito usado e vinculado ao sofrimento”,esclarece Ricardo Belchior.Inspirados no conceito da loja espanhola Happy Pills, a ideia chegou a terras lusas com algunsretoques nacionais, quer nas embalagens como na própria apresentação da loja. “Achámos oconceito super interessante e depois de estudá-lo durante o ano, não podíamos deixá-lo numsítio só [em Barcelona]”, comenta Ricardo Belchior.“A loja de Barcelona está muito segmentada e nós quisemos abrir mais o leque, começandopela alusão ao nome”, acrescenta. A preferência por “chamar as coisas como elas são” foipoder pegar numa ideia e “criar algo da nossa autoria”. Por isso, apostaram numa decoraçãosimples, que se confunde com uma farmácia tradicional, e num símbolo alusivo às cores dosdoces.“Reinventar” foi uma das palavras de ordem para estes dois jovens empreendedores. “Serealmente todos os comprimidos trazem uma descrição, porque não brincar com isso”,comenta Ricardo Belchior referindo-se aos autocolantes que fazem com que a escolha dosdoces seja ainda mais divertida. “Inibidor de mau feitio”, “estimulador de inteligência”,“activador de memória”, “desbloqueador de timidez”, “potenciador de amizade” são algunsdos rótulos que “crmia o lado divertido”. “Quisemos criar uma administração, asconsiderações terapêuticas e as contra-indicações”, refere o gestor.Para clientes como Rita da Nova, 20 anos, a loja portuguesa é melhor que a espanhola.Considera que “para além dos presentes muito giros, todo o ambiente da loja é divertido”,para além de salientar a boa disposição dos “funmacêuticos” que se vestem a rigor, com atípica bata branca. Página 4 de 27
  5. 5. Já Gonçalo Simões, 21 anos, gosta do processo de escolha. “Desde os frascos às tabletes aimitar as de medicamentos com um bocadinho de tudo... e isso só torna o processo maisdivertido. Afinal, estamos apenas a escolher um medicamento que na verdade não o é, masque tem um rótulo”. O objectivo de Bruno Mendes e de Ricardo Belchior é claro. “Desde anossa abertura [24 de Outubro] que a receptividade tem sido enorme. Tentámos sempre criarnovas coisas para que todas as visitas à loja sejam uma experiência”, sublinha Ricardo Belchior.“Queremos que o tempo dos clientes seja bem passado”.Para os proprietários este projecto tem pernas para andar, “porque é divertido”. Pretendemestender este conceito um pouco por todo o país, já que os pedidos de encomendas temcrescido na página do facebook. Situada na Avenida António Augusto Aguiar, nº 167, e abertade segunda a sábado, esta loja procura a cura lúdica dos mais variados males. Afinal “rir é omelhor remédio” e esse é o espírito dos administradores. Página 5 de 27
  6. 6. Caos controlado“Caótica”. É assim que Leopoldo Antunes, de 22 anos, descreve a sua arte. Inovação paraalguns, e extravagância para outros, uma forma de pintar que se distancia das ideias fixas.Chamada “desenho mecânico”, a arte de Leopoldo consiste na adaptação de uma caneta aum mecanismo de desenho que é controlado por fios, à distância.Marta Spínola AguiarFolha de papel, canetas de ponta grossa ou ponta fina, fios e roldanas. “Os materiais hão-deser sempre os mesmos”, afirma Leopoldo Antunes. O que varia é o movimento e o vaguear dascanetas no papel. “Nas mãos tenho fios que estão ligados a uma roldana que por sua vez estáligada à mola onde está a caneta”, descreve Leopoldo. A caneta cumpre, assim, a função maisimportante em todo o desenho: riscar o suporte que se encontra na vertical.O produto final traduz-se numa combinação do movimento do artista com os materiais queusa no processo de criação: “Não me preocupo muito com o resultado, mas sim o todo oprocesso de criação». Assim, o produto final traduz-se numa combinação do movimento doartista com os materiais que usa, materiais esses que são sempre variáveis. Desta forma, nestetipo de arte, neste caos controlado, nada é estanque.Leopoldo deu os primeiros passos na arte deste cedo, quando decide ingressar naUniversidade de Évora, mais especificamente na Fábrica dos Leões. Esta é um anexo daUniversidade de Évora que acolhe o Complexo de Arquitectura, Artes Visuais e Artes Cénicas.Esta é a «primeira casa» de Leopoldo. O seu aspecto antigo, a construção em mau estado e ascondições precárias retratam o caos em que Leopoldo cresceu enquanto artista.Havia, então, uma essência em cada ranhura daquelas paredes que se transpunham para otrabalho de Leopoldo. Havia uma vontade imensa de transformar o velho em novo; um caosorganizado e experimentado por todos os que lá passam e transfiguram aquele edifício numsítio cheio de memórias, vivacidade e com muito para contar.Quanto ao templo do artista, esse traduz-se numa sala ampla, espelhada e com referência àsartes em todos os cantos. E lá é fácil tropeçar num pincel, num cavalete ou num desenhoinacabado. É fácil cruzar-se com a criatividade de quem passa o dia a soltar imagens dopensamento e a tatuá-las nas telas. É, então, no meio de ideias a fervilhar, que Leopoldo secruza com a arte. E relativamente ao mecanismo, o artista impõe apenas uma condição: “Osuporte tem que ficar ligeiramente à frente em relação às roldanas para haver mais atrito dacaneta para a folha. Depois é só deixar fluir”. Página 6 de 27
  7. 7. E se os Leões dispõem uma pontinha de inspiração, foi no seu quarto que o artista começou aexpandir a arte. Caracterizando-o como “naif”, desenvolveu um desenho no quarto que fezcom que a sua inspiração fosse controlada, ou seja, o que era desenhado, dependeria da formacomo os objectos se encontravam espalhados. Essa disposição dependia apenas dele, aocontrário das inspirações que vai buscar à vida que o circunda.Adaptando um jogo medieval ao desenho mecânico, Leopoldo encontrou o conceito da suaarte: “Eu vi aquilo e fez clique”. Assim, o desenho começou a acomodar-se a todas as formas epormenores dispostas no momento da pintura e o resultado era sempre “uma simbioseperfeita”.Descrito pelo amigo Ricardo Brito, com quem tem um projecto em comum, como sendo um“engenhoca”, Leopoldo foi desenvolvendo a arte através dos fios, das roldanas e das canetas.“Uma vez cheguei aqui à escola e vi-o sentado numa cadeira com uma folha gigante à frente ecom duas cordas a fazer uma data de riscos”, conta Ricardo.Orgulhoso do companheiro com quem partilha escolhas musicais e artísticas, o resultado dessa«data de riscos» não poderia ter sido melhor. A surpresa era soberana e a pintura, apesar deabstracta como sempre o faz, soberba. E a cada projecto que desenvolve, o artista não pára desurpreender, especialmente na forma como “adapta a engenhoca a toda uma forma deexpressar a sua arte”, continua Ricardo.Pouco diversificado em termos de cor, Leopoldo está “muito agarrado” ao preto e branco.Contudo, o desenho mecânico pode assumir duas fases, segundo o artista. Na primeira, odesenho no quarto, na segunda a adaptação de movimentos ao desenho: “Se nesta primeiraparte controlo o movimento, na segunda fase do trabalho o que me preocupou mais foi buscarmovimentos à vida quotidiana, ao vento, às viagens de carrinha…”, explica.Assim, a inspiração, para além do jogo medieval, agarra-se a particularidades e aexcentricidades das pequenas coisas que circundam o pintor. “Vou buscar inspiração aosmovimentos que estão à minha volta”. É desta forma que “o Huguinho”, como o chamacarinhosamente a amiga Ana Leitão, se arrisca em projectos incertos, variáveis consoante oque provoca o desenho.Desde a música, passando pelo drum drawing, que resulta na adaptação dos movimentos dabateria ao desenho, às viagens de Norte a Sul do país, o produto final é o misto de movimentose sonoridades que constroem um abstracto ditado pelo acaso. De todas as experiências feitaspor Leopoldo, o desenho da carrinha deverá ser o mais imprevisível e o mais simples de fazer:“Na parte de trás da carrinha, estendi uma folha branca e pendurei canetas que nemmarionetas e aquilo que fazia no início da viagem era tirar as tampas das canetas, depois faziaa minha vida normal e o resultado das viagens estava expresso no desenho. As canetas iamdeambulando no papel consoante o movimento do carro e o resultado era, então, o trajecto”,declara.Membro da CAL, uma Comunidade de Artistas Livres criada há cerca de dois anos e meio,Leopoldo integra-se na secção de Artes Plásticas. A mistura de diversas disciplinas como a arte,o teatro e a música, fazem com que na CAL, Leopoldo se interligue, sobretudo, com o Teatro,especialmente a nível cenográfico. «O Leopoldo contribuiu com a imagem e plasticidade do Página 7 de 27
  8. 8. espaço em si», comenta Ana Leitão, directora artística da CAL e amiga do artista. Muitas vezes,o propósito da CAL é «inserir o público dentro do espectáculo e esse trabalho de interacção dopúblico com a cenografia vem do design plástico. O Leopoldo está sempre ligado a essa parte».“Instintivo e talentoso”, é assim que Ana Leitão o descreve: «Lançamos uma ideia e ele é superperspicaz na composição. Capta muito bem a ideia daquilo que queremos mostrar e conseguecompactá-la num cartaz de forma muito eficiente», refere a amiga.A sua última exposição foi feita no espaço Makala, em Lisboa. Apostando no desenhomecânico, «foi muito importante para mim e para o Daniel [colega de trabalho e amigo] tirar onosso trabalho deste nicho que é Évora, e levá-lo para um espaço maior e com maiorvisibilidade, como Lisboa», atesta.Realizada em Novembro, foi uma exposição que teve as mãos dadas com o Teatro. O desenhomecânico, nunca antes visto pelo público presente na Rua do Forno do Tijolo nº 48, fez comque a grandiosidade da obra encolhesse quem lá se encontrava e se espantava a cadaexplicação e risco de Leopoldo. E, com uma pequena demonstração, roldanas, fios, tela ecanetas, funcionavam em perfeita harmonia e respondiam à letra a incessante pergunta «oque é a arte?». Quanto à aceitação do público, esta «foi fantástica», comenta Leopoldovisivelmente satisfeito.Bebendo truques e ideias de artistas nacionais e internacionais, como Leonel Moura e RebbecaAnn, a viagem a Madrid, há dois anos, embarcou Leopoldo e Daniel numa «overdose de arte»e quando retornaram a terras lusas «notou-se a influência disso tudo», conta.Quanto ao futuro, o estudante de Design de Comunicação ambiciona fazer mais trabalhos,especialmente relacionados com a música e, assim, alargar os seus traços neste conceito aindapouco desenvolvido e conhecido em Portugal. Afinal, «quanto maior o afastamento [da tela],melhor pode ficar o resultado». Página 8 de 27
  9. 9. Águas Passadas – Madeira, um ano depoisMarta Spínola AguiarO que aconteceu no dia 20 de fevereiro?A tempestade na Ilha da Madeira, a 20 de fevereiro de 2010, deixou para trás um cenário deprofunda destruição, a nível material e humano. Para além das dezenas de mortos e feridos,que aumentavam de dia para dia, o número de desalojados rondou os 600 e os danos foramavaliados em cerca de 1080 milhões de euros.Muitas foram as inundações e derrocadas que ocorreram em vários pontos da ilha,especialmente na parte Sul, afetando drasticamente a baixa do Funchal, Câmara de Lobos eRibeira Brava. Após várias análises feitas por especialistas, chegou-se à conclusão que otemporal, originado no arquipélago dos Açores, tomou contornos mais violentos e definidos aoaproximar-se da ilha da Madeira. A par de uma forte precipitação, os erros de planeamentourbanístico, como por exemplo a construção ilegal dentro ou até mesmo próximo dos cursosde água e a acumulação de lixo nos leitos das ribeiras, fizeram com que o dia 20 de fevereiroficasse para sempre marcado na memória de todos os madeirenses.As primeiras medidas tomadas durante e após a tempestadeAquele sábado de fevereiro começou da pior forma possível. As medidas tomadas peloGoverno Regional, bem como a ajuda de toda a população, instituições e empresasmadeirenses, apareceram de forma imediata e rápida, o que acabou por evitar que a tragédiaassumisse proporções ainda maiores.Havia, então, uma primeira questão que tinha que ser resolvida em primeiro lugar: socorrer aspessoas feridas que se encontravam em vários pontos da ilha, tanto no litoral como nointerior, onde era mais difícil aceder. Simultaneamente, os desalojados representaram,também, uma preocupação para o Governo Regional que rapidamente tentou arranjaralojamento provisório, disponibilizando o Regimento de Guarnição nº 3, no Funchal. Otenente-conorel Perdigão declarou à agência Lusa, no dia da tragédia, que «25 [desalojados]são crianças, 45 são mulheres e 30 são homens, no total de 30 famílias». O número de vítimasdo mau tempo alojadas neste quartel continuou a aumentar nos dias que se seguiram, tendoeste Regimento chegado a albergar perto de 100 pessoas. Para além disso, no dia em que sederam as enchentes, o Exército pediu que «todos os militares disponíveis daquele regimento,mais de 450, se apresentassem de imediato no quartel», como adiantou o tenente-coronel. Deigual forma, solicitou a mobilização de «meios técnicos e equipamentos para restabelecer ascomunicações operacionais no terreno», para assim de recuperar o acesso às redes viárias efacilitar a ajuda às vítimas que se encontravam sem apoio há algumas horas.Assim, outra urgência foi o restabelecimento de fornecimento de água e eletricidade àpopulação, meios fundamentais, que tinham sido cortados devido às enxurradas, comomedida de prevenção e condicionaram a normalização da vida das pessoas no dia da tragédia. Página 9 de 27
  10. 10. A população madeirense mostrou-se, também, solidária. E, como «povo unido jamais serávencido», reuniram-se esforços e um enorme cordão humano mobilizou-se para fornecerroupas, alimentos e diversos materiais que fossem úteis à reconstrução da ilha e ao bem-estardas vítimas.- Medidas económicasQuanto às ajudas económicas, nem todas se processaram de forma imediata, mas chegaramdos mais variados meios. Relativamente à ajuda do Governo Central, foi dois meses depois dacatástrofe que José Sócrates, primeiro-ministro português, juntamente com os responsáveisdo Governo Regional e da República, anunciou que «a comissão [constituída por elementosdos dois executivos] estima que as necessidades de reconstrução, uma estimativa dosprejuízos fiável, são de 1080 milhões de euros. É esse montante que a comissão nos diz que énecessário reunir para que se promovam todas as obras de reconstrução da Região Autónomada Madeira». Então, baseando-se nesta quantia, a Lei de Meios extraordinários para areconstrução da Madeira foi aprovada na Assembleia da República do dia 12 de maio de 2010e deveria ser dotada para três anos (2010 a 2013). De todos os fundos, o Governo da Repúblicadisponibilizou 740 milhões de euros e o Governo Regional suportou 309 milhões. Para alémdisso, esta lei previa, e, citando o jornal Público na sua edição online de 29 de abril de 2010, «areafetação do Fundo de Coesão com reforço das verbas destinadas à Região Autónoma daMadeira, na importância de 265 milhões de euros e a reafetação das verbas do PIDDAC[Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central],previsto no Orçamento de Estado para intervenções na Região Autónoma da Madeira, nomontante de 25 milhões de euros.» Assim, já era possível «iniciar a reprogramação do nossoQuadro de Referência Estratégica Nacional», como afirmou José Sócrates e, por meio doMinistérios das Finanças, contrair um empréstimo de 250 milhões de euros junto ao BancoEuropeu de Investimentos (BEI).Tais fundos foram essenciais para a ilha da Madeira dar mais um passo para uma reconstruçãoprofunda, uma vez que já tinha meios para financiar os seus projetos. Do mesmo modo, 31milhões de euros foram disponibilizados pelo Fundo de Solidariedade da União Europeia.Contudo, Durão Barroso, em declarações ao jornal Diário de Notícias na edição online de 13 demarço de 2010, não se comprometeu com uma data específica pois «são (exigidos)procedimentos que não dependem só da Comissão. Se tudo correr bem prevê-se para ooutono [de 2010].». Realçou, ainda, que «o contributo da UE não vai resolver tudo» e solicitouo apoio do Estado Português, apoio esse que deveria ser feito de «forma inteligente» eestimulando «a economia regional, a reconstrução de casas, estradas, pontes», disse.Contudo, e para contrariar o «atraso» verificado na ajuda proveniente do Governo Português eda União Europeia, no dia da tempestade que devastou a Madeira foram criadas linhas decrédito para o apoio imediato às pequenas e médias empresas, bem como a criação de fundospara re-erguer equipamentos suficientes para a reconstrução da ilha. De igual modo, nas redessociais foi possível assistir aos pedidos de ajuda com a criação de grupos como «SOS Madeira»,onde era atualizado, quase de minuto a minuto e com a constante utilização de fotografias,todos os passos dados pelas autoridades, bem como as derrotas e as vitórias de quem tentava,a todo o custo, trazer a normalidade à Pérola do Atlântico. Semelhantes às redes sociais foramas inúmeras galas televisivas, cujo propósito era o de se angariar fundos para ajudar no Página 10 de 27
  11. 11. momento difícil que a ilha portuguesa atravessava, galas essas onde foi bastante visível toda aunião e esforços do povo português (e de todo o mundo) para voltar a re-erguer a Madeira.Mas, como consequência da catástrofe natural que a ilha sofreu e, claro, a urgência em todasmedidas desta natureza, o Orçamento Regional refletiu negativamente todas as açõestomadas nesse período, uma vez que foi necessário o adiamento das obras previstas para sepoder solucionar os problemas originados pelo temporal e acudir às necessidades dapopulação.As reações dos líderesAlberto João Jardim:O medo assolava Alberto João Jardim, que, relembrou o Marquês de Pombal aquando doterramoto de 1775, afirmando que «é preciso sepultar os mortos e cuidar dos vivos». OPresidente do Governo Regional da Madeira temeu que o número de desaparecidosrapidamente fizesse aumentar o instável número de mortes, apesar de considerar bastanteplausível existirem cadáveres nos parques de estacionamento dos centros comerciais DolceVita e Anadia Shopping, os mais atingidos pelo temporal.Contudo, mantinha a esperança sempre viva, insistindo que «eu vou reconstruir isto. Voureconstruir isto» e elogiou o trabalho desempenhado pela Igreja: «vocês têm sidoincansáveis», declarou ao D. António Carrilho, bispo do Funchal. Todo o apoio dado porPortugal Continental e por restantes países, foi também reconhecido pelo presidente doGoverno Regional que pôs de parte as lutas partidárias e acolheu de bom grado asolidariedade dos portugueses.«Seria uma calamidade decretar o estado de calamidade». O líder do PSD-Madeira, afirmouque é importante manter um mercado que garante a sobrevivência da ilha e tal nãoaconteceria se declarasse o estado de calamidade pois, «iria afetar as pessoas da Madeira»,visto que a sua economia estaria comprometida.Várias foram as vezes em que o Presidente do Governo Regional afirmou que «com a vida daspessoas não se brinca» e, apesar da quantia monetária necessária para reconstruir a ilhasuperar os mil milhões de euros, o seu principal objetivo era «pôr tudo bonitinho», vencer«uma grande batalha (…) demore o tempo que tiver que demorar».Mário Soares:O ex-presidente da República, Mário Soares, admirou toda a solidariedade dos portuguesesperante a catástrofe natural, afirmando que «não houve “cubanos”, como antigamente alguns,chegaram a rotular os seus irmãos continentais». Apontou, ainda, que muito provavelmente acausa desta tempestade que abalou a ilha da Madeira deve-se aos «desequilíbrios que têmvindo a manifestar-se, em todos os Continentes» Página 11 de 27
  12. 12. Mário Soares salientou, assim, a importância de todos os apoios para a Madeira e elogiou todoo trabalho desempenhado pelo Governo português: «o Presidente da República manifestou asua preocupação. O primeiro-ministro e o ministro da Administração Interna, voaram para aMadeira, (…) e prometeram pôr à disposição das autoridades da Região, militares, bombeiros,médicos, enfermeiros e técnicos diversos do Continente. (…) Cumpriram em tempo recorde – ebem – o que deles se esperava.»Ainda na sua declaração de 25 de fevereiro de 2010, Soares relembra que as críticas feitas àsconstruções legais ou ilegais são supérfluas e toda a reconstrução das zonas mais afetadas «vailevar tempo». A tarefa que se tinha pela frente não era fácil e «na altura própria devemos,então sim, aprender com os erros urbanísticos, se é que os houve, e não os cometer agora.Mas sem recriminações quanto ao passado». A sua mensagem para todos os portuguesescentrou-se na união de todas as pessoas porque «somos todos e tão só Portugal, na riqueza danossa diversidade e na reciprocidade do nosso afeto.»Cavaco Silva:«Ninguém se pode abater», afirmou convictamente o Presidente da República, Cavaco Silva,na sua mensagem de esperança à Madeira, no dia 20 de fevereiro. Foi esta a sua primeirareação: incentivar todos os madeirenses a lutarem pela sua ilha e fazerem com que elavoltasse a ser o que era. Um projeto complicado de idealizar e, sobretudo de concretizar, umavez que, emocionado, descreveu o cenário como «é impressionante o que estamos a ver»,quando, no dia 24 de fevereiro, quarta-feira, chegou à Madeira com o objetivo de se inteirardos danos provocados pela tempestade. Durante a sua visita, o Presidente da República estevesempre acompanhado pelo Presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, e elogiou otrabalho desempenhado quer pelas autoridades como por toda a população, e atestou quenuma altura tão difícil «não faltará solidariedade».Ainda na sua mensagem de esperança aos madeirenses, expressou as suas condolências àsfamílias que mais ficaram lesadas pelo temporal e «aos que perderam os seus bens, umapalavra de esperança.»Durão Barroso, José Luis Zapatero e Nicolas Sarkozy:Em declarações à agência Lusa, o primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, quis«expressar a (…) máxima solidariedade para com os habitantes da Madeira, com as famíliasque perderam filhos e reitero o nosso compromisso de apoio que já oferecemos ao Governodo primeiro-ministro Sócrates.».Zapatero corroborou, a 23 de fevereiro de 2010 que a catástrofe natural na ilha da Madeira,seria um dos assuntos debatidos na reunião que o governo espanhol teria com a ComissãoEuropeia, nesse mesmo dia. Às suas palavras, aliavam-se as de Durão Barroso que afirmou que«a Comissão Europeia, através do fundo de solidariedade, (…), pode apoiar a reconstrução seas autoridades portuguesas fizerem um pedido fundamentado, num prazo de dez semanas». Página 12 de 27
  13. 13. Assim, seria possível re-erguer a ilha que foi «tão terrivelmente afetada por uma tragédiadesta dimensão.».Também a França quis mostrar solidariedade com o povo madeirense. Um dia após a tragédia,o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, enviou as suas condolências ao Presidente da Repúblicaportuguês, Cavaco Silva: «nesta hora de luto, sofrimento e perda, pela Madeira e por Portugal,envio-lhe as minhas condolências e expresso a solidariedade do povo francês para com o povoportuguês.»Madeira: a reconstruçãoOnde estão os fundos monetários?Ao contrário do que se possa pensar, a reconstrução da ilha da Madeira não mostra fins àvista. Hoje, um ano depois da tragédia, a Câmara do Funchal ainda só recebeu 915 milhões deeuros para cobrir os danos causados pelo temporal.Miguel Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal do Funchal, afirmou que houve a«alteração do orçamento [regional], adiando um conjunto de obras para fazer face àsprioritárias» e, para que tal fosse possível, foi investido cerce de 6,1 milhões de euros, no anopassado, em equipamentos diversificados, trabalhos de limpeza e recuperação de algumasinfraestruturas. Para além disso, Albuquerque prevê gastos muito elevados nos próximos doisanos, sendo que a estimativa aponta para 5,4 milhões em 2011, 4,2 em 2012 e dois milhões deeuros em 2013.Mas, o autarca faz um balanço positivo relativamente às ações que tiveram prioridade naaltura do temporal e ao longo dos meses seguintes: «já foram realojadas definitivamente emnovas casas 546 pessoas, o que corresponde a 168 famílias», afirma. Sublinha, ainda, que todaa solidariedade do povo português foi um passo importantíssimo para re-erguer a Madeira doseu período mais complicado e negro. Todas as verbas atribuídas destinaram-se, pois, a«apoios sobretudo às famílias afetadas pela intempérie».Um ano depois: o que mudou?Um ano depois e a Madeira está ainda a ser reconstruída. Um ano depois e o dia do temporalestá bem presente na memória de todos os madeirenses. Um ano depois e o «Funchal estámais vulnerável mas as pessoas estão mais conscientes dessa vulnerabilidade». São estas aspalavras de Miguel Albuquerque, Presidente da Câmara do Funchal, que salienta asconsequências da catástrofe natural e realça a importância de «aprender com os erros» e,citando o jornal Público na sua edição online de 20 de fevereiro de 2010, «adotar osprocedimentos corretos». Contudo, Hélder Spínola, antigo dirigente do movimentoambientalista Quercus, aponta alguns erros na reconstrução da ilha da Madeira como porexemplo a «ocupação dos leitos de cheia das ribeiras». Assim, «os leitos estão novamente aser estrangulados». Página 13 de 27
  14. 14. Numa das zonas mais atingidas pela tempestade, na Ribeira Brava, ainda hoje se consegue veras marcas da catástrofe. Segundo o jornal i, na sua edição online de 18 de fevereiro de 2010,«parece que o tempo parou.».Roberto Almada, coordenador regional do Bloco de Esquerda, afirmou esta manhã ao Diáriode Notícias da Madeira que «os governantes desta Região e também deste concelho [RibeiraBrava] não aprenderam com as lições que o temporal de 20 de fevereiro veio trazer.» Declaraque os depósitos de terra são um dos exemplos das situações que colocam em perigo asegurança da população, uma vez que esses depósitos situam-se junto às linhas de água.Uma das estradas que permite a ligação com a zona norte da Ilha, a estrada da Meia Légua àSerra de Água, viu, faz hoje um ano, as inúmeras casas que lá existiam a serem consumidaspela água da ribeira, desalojando dezenas de famílias e provocando estragos na estrada,dificultando a circulação dos meios de socorro. Peter Câmara, em declarações ao jornal iafirma que, no dia da catástrofe, «não estava em casa. Quando cheguei deparei-me com estecenário. E aqui continuam as rochas e a lama.».Tal como Peter está Nuno Gouveia de Jesus, também morador na Serra de Água e que aindanão recebeu qualquer apoio. «A câmara não tem dinheiro, coitados!» e o Instituto daHabitação da Madeira (IHM) não aconselha a reconstrução da sua casa na mesma localizaçãovisto que «é perigoso». Mas Nuno de Jesus lamenta que «não tenho mesmo mais nada», e,por isso, não coloca qualquer objeção em ficar no mesmo lugar.Peter e Nuno esperam pelo novo apartamento, prometido pelo IHM que, até agora só realojou168 famílias. Apartamento que nunca mais chega e nada podem fazer quanto a isso. «Nada anão ser minimizar a dor uns dos outros com palavras».E se há uma nova tempestade?Ainda hoje se teme pela fragilidade dos solos. Ainda hoje o pânico acomoda-se na vida daspessoas sempre que há um dia mais chuvoso. Ainda hoje a população não sabe o que fazercaso haja uma tempestade idêntica à do dia 20 de fevereiro de 2010.Prova disso, foram os temporais do dia 20 de outubro e 20 de dezembro. Curiosamente, o dia20 é um dia funesto. Embora não tenha adquirido contornos tão graves como o de fevereiro,trouxe ao de cima todos os sentimentos e sensações vividos durante esse período. Econsciencializou a população de que ainda é preciso pôr mãos à obra. Alertou para o perigodas obras mal construídas e, reforçou a força dos madeirenses para lutarem para uma ilha cominfraestruturas mais estáveis e com condições suficientemente boas para enfrentar maisdesafios da natureza, quando e se os houver.E essas lutas reforçaram-se hoje. Esta tarde, por volta das 17h00 formou-se um cordãohumano à volta do aterro do Funchal, como forma de contestação e em memória das vítimasdo temporal. O aterro era, até há um ano, uma praia de areia preta situada na baixa da cidade.Após a tempestade, serviu de local para depositar todo o entulho trazido pelas águas da chuvae das ribeiras. Hoje, ainda lá está. Assim. Intacto. Transformado num monte de pedras e terra. Página 14 de 27
  15. 15. Raimundo Quintal, geógrafo e especialista em ambiente e conhecedor das características dailha, assegura, em declarações ao jornal i na sua edição online de 19 de fevereiro de 2010 queserá retirada «uma parte da areia, através do mar, para levar para a praia Formosa [onde acosta está a recuar]. A restante seria utilizada para construção.». Esta é, segundo o geógrafo,uma situação ideal uma vez que será menos dispendiosa que a construção de um novo cais -como o Governo pretende -, visto que se pensa «sempre que tudo pode ser resolvido comobras de engenharia, infraestruturas essas que, vimos, não resistiram». Mas, o projeto paraessa zona da cidade está atrasado e tem sido alvo de críticas por parte da população e deespecialistas.O geógrafo preocupa-se, agora, com o que levou às instabilidades das infraestruturas e dossolos nas cheias de outubro e dezembro. Então, diz que a preocupação do Governo Regionaldeveria ser a de um novo planeamento para a cidade para, dessa forma, ser possível recuperaralgum património perdido e (re)construir zonas mais seguras. A zona do Funchal transparece,em alguns lugares, essa insegurança. «A degradação dos edifícios e estruturas construído nosúltimos 20 anos é um dos dramas da nova Madeira. E não vamos ter dinheiro para osrecuperar, infelizmente». Raimundo teme, pois, o gasto (possivelmente) excessivo da Lei dosMeios e preocupa-se com a imprevisibilidade da Mãe-Natureza que não é «fácil de domar,nem com obras de engenharia».Porém, na sua generalidade, o Ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, numa passagemrápida pela ilha, afirma que a sua reconstrução «no essencial, está feita».Um ano depois, a Pérola do Atlântico tem motivos para brilhar. Página 15 de 27
  16. 16. Rui Santos, entre a rádio e a TelevisãoSe tivesse que escolher uma arma, Rui Santos, 43 anos, decerto escolheria a voz. Habituadoàs andanças da rádio desde adolescente, não subestima o microfone no estúdio. “A palavraque sai dali ecoa por todo o lado... é uma adrenalina, é ter muito poder.” Agora, será a novavoz da RTP Informação e é com o mesmo fascínio da adolescência que, 26 anos depois, usa avoz, espalhando-a já muito para além da rádioMarta Spínola AguiarDa criança rebelde e mimada, a uma das vozes mais sonantes da Antena 1, Rui gostava de sercomo o seu pai, com o qual tinha uma relação musculada, pois eram muito parecidos, mas quefoi, ainda assim, a sua principal influência. “Mesmo na época se tivesse que escolher entre oSuper-Homem, o Homem Aranha e o meu pai, a resposta seria o meu pai”, relembra,orgulhoso.O homem que dá voz às palavras com criatividade e sentido de humor, é visto por todos osque o rodeiam como um lutador, alguém disponível para aprender e captar a essência do quelhe é transmitido. Sabe que os seus dias na rádio lhe permitiram chegar ao mais variado tipode pessoas e partilhar com elas “sonhos, muitos, e tempo para os conquistar, ainda mais”. Aactual transferência para a RTP Informação abre-lhe “possibilidades múltiplas” e até alguma“intervenção social”. Valoriza a “criação espontânea e não planeada” bem como “muitotrabalho, ética e respeito pela língua portuguesa”.Mas tudo começou como uma brincadeira. “Na altura [nos anos 80], gravava-se uma cassetecom a nossa voz a ler um texto em português ou em inglês e enviávamos por correio ou íamoslá pôr à porta da rádio”, conta, desculpando a sua ambição com o facto de os seus amigosprocederem da mesma forma. Há dez anos, saiu das quatro paredes de um estúdio, ondeestava desde 1984, e encontrou-se perante holofotes e câmaras, sentindo-se “como umaestrela de cinema”.“Um feliz acidente”Sem querer fazer disso a sua vida profissional, Rui Santos tem feito publicidade desde a suapequena estreia no grande ecrã em 1997. Admite que a publicidade é “um caminho que se vaifazendo” e que, quando decorrem os castings, os realizadores estão sempre à caça depormenores. “Sabes porque é que te escolhi?”, confessa-lhe o realizador espanhol dapublicidade do Euromilhões, “porque no casting fizeste um determinado movimento com aboca e eu gostei disso”. E essa pequena expressão facial abriu um horizonte a Rui Santos: o do Página 16 de 27
  17. 17. teatro. Descrito pelos amigos como “o homem das artes”, desenvolveu várias formações deacting for camera, em Barcelona, e expressão dramática com o actor Gonçalo Amorim.A versatilidade dos actores, que o locutor admite não possuir mas admirar, inspira nele o gostopelo sentido de humor e a delicadeza, admirada por amigos, colegas de trabalho e familiares.Descendente de pais alentejanos, Rui Santos nasceu na Lapa e actualmente vive na Amadora.“É um percurso inverso à ascensão social”, satiriza. A morte do irmão marca-lhe as memóriasde infância. “Tinha 18 anos e eu tinha 8, portanto isso dividiu a minha família. Tornou-se umafamília muito diferente, mais triste, mais fechada.” “A comunicação era, então, um rompercom as teias da vida pessoal e talvez seja por essa razão que, ao longo da vida, tenha optadopor falar cada vez mais”.De ouvinte próximo a locutorCom apenas 17 anos, Rui Santos inicia-se na Rádio Regional da Amadora, uma rádio-pirataigual a tantas outras que existiam nessa época, com o actual director de informação da RTP,Nuno Santos. A paixão pela rádio estava criada. Mas o anseio pela mudança e pelaprofissionalização fizeram com que, aos 19 anos, e juntamente com Nuno Santos, JorgeGabriel e Jorge Alexandre Lopes, criasse, em 1986, uma outra estação, a “Rádio Mais”.“Fazíamos coisas fantásticas. Íamos para a rua, fazíamos directos, reportagens, oferecíamos oimprovável com grande entusiasmo.”O grupo acabou por se desmembrar e, em 1988, Rui Santos é convidado para ir trabalhar naRádio Comercial onde permanece até 1992, altura em que a rádio foi privatizada. “Mas eufiquei na casa-mãe, na RDP, Antena 1, onde tenho desempenhado funções diferentes e hojeseria um pouco alucinante mudar de empresa porque o mercado da rádio não funciona comoo mercado da televisão onde há transferências milionárias.”De todas as vivências dos tempos da rádio, Rui Santos refere, com saudade, a liberdadecriativa dos anos 80. Agora as “editoras dominam muito esse espaço das rádios. Joga-se muitonesta cumplicidade entre o interesse da rádio e os interesses da indústria”. Qualificando omodelo de hoje como “muito formatado”, o homem da voz possante, misteriosa e fluída,garante que os momentos onde é possível ser criativo são precisamente quando “se vai parafora cobrir um concerto ou um outro evento, no terreno. A rádio dentro do estúdio étecnicamente mais criativa, mas é emocionalmente mais distante das pessoas”.“Entrei, entrei, entrei!”Rui Santos considera que agora vive a terceira fase da sua vida.”O horizonte dos 40 fez-me darum balanço na vida e aperfeiçoar aspectos pessoais e, sobretudo, profissionais.” Quando deupor si, estava em 2008 e a ingressar no curso de Ciências da Comunicação da Faculdade deCiências Sociais e Humanas, (FCSH), da Universidade Nova de Lisboa. “Lembro-me de termandado mensagens de grande euforia aos meus amigos dizendo ‘entrei, entrei, entrei’ e umdeles respondeu-me ironicamente, ‘não te preocupes, hás-de conseguir sair’”. E conseguiu. A“boa disposição deste homem da rádio” é salientada por Carlos Felgueiras, amigo e técnico desom da Antena1 e por Luma Garbin, colega da FCSH e amiga, que refere “a sua presença eparticipação rica nas aulas, devido à sua perspectiva mais experiente”. Página 17 de 27
  18. 18. Profissional da rádio exigente consigo próprio, adora açúcar. Quem o revela é Andreia Brito,colega da Antena 1, que tanto elogia o “à vontade e a voz dele” como sublinha o lado “gulosode quem não resiste a um bolo ou a uma compota”. Página 18 de 27
  19. 19. Notícias e Artigos Croatas votam adesão à União EuropeiaOs dirigentes croatas esforçam-se, apesar da crise, para entrar na União Europeia. Para eles,esta adesão implicará um ambiente financeiro “mais instável e um sistema jurídico eficaz”Menos de metade do povo croata votou favoravelmente a adesão do país à União Europeia,no referendo realizado no passado dia 22. O “sim” venceu com 67 por cento dos votos,segundo resultados parciais anunciados pela Comissão Eleitoral.Em Dezembro, a Croácia, situada no norte da Eslovénia e da Hungria, assinou um tratado deadesão que agora terá que ser ratificado pelos 27 Estados-membros para que o país possaintegrar a UE em Julho de 2013. “É um dia muito importante para a Croácia. E estou aqui muitofeliz porque daqui em diante a Europa será a minha casa”, afirmou Ivo Josipovic, Presidentecroata.A afluência às urnas foi menor que o esperado, consequência da dívida que alastra pelaEuropa. A vontade de uma integração europeia apresentava 80 por cento das opiniõesfavoráveis em 2003. Agora, apenas 47 por cento dos eleitores exerceram o seu direito ao voto.Enquanto para uns o motivo do declínio relaciona-se com a crise europeia e mundial, para osoutros os números da abstenção devem-se a outros motivos. Para o primeiro-ministro, ZoranMilanovic, a baixa afluência às urnas não é uma consequência da instabilidade económica, masda longa duração do processo. “As pessoas estão, obviamente, cansadas. Teria sido melhorque o comparecimento às urnas fosse maior, mas isto é a realidade”, declara.Em 1992, 80 por cento da população manifestou-se a favor da independência face à antigaJugoslávia. Agora as opiniões dividem-se relativamente à adesão do país à União Europeia.Zeljko Sacic, ex-comandante de forças especiais do Ministério do Interior, está contra estaintegração, explicando que “a fraca afluência às urnas mostra que a Croácia voltou as costas àUE. Este referendo é ilegítimo”. A população mais jovem também revela insegurança. ParaMatea Kolenc, estudante de 23 anos, esta entrada da Croácia “não nos vai fazer bem. Ouvimuitas coisas más sobre a UE, a situação económica e o que ela tem para oferecer”.Mas Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros, considera esta adesão como algopositivo. “Isto significa que, mesmo apesar da crise do euro, que preocupa justamente muitasnações e pessoas, há vários países a quererem entrar na UE e não há notícia de que alguémqueira sair. Esse é um sinal optimista para o futuro”.A entrada deste país na UE não foi fácil. O legado político marcadamente nacionalista foi umadas razões que impediu a sua adesão nos últimos alargamentos da União Europeia em 2004 e2007. Durante sete anos de negociações, os croatas tiveram que cumprir diversos objectivos.Depois de aprovada a sua adesão, a capital, Zagreb, teve que se submeter a uma vigilânciarigorosa, como por exemplo na política de concorrência bem como melhorar o seu sistemajurídico, onde a corrupção dominava. Marta Spínola Aguiar Página 19 de 27
  20. 20. Nova Iorque une-se contra MubarakOs conflitos contra o regime de Hosni Mubarak estão a provocar reacções em todo o mundo,especialmente nos EUA. Na noite de ontem, foram centenas os manifestantes que, nas ruas daNova Iorque, protestaram contra as revoltas sociais vividas no Egipto e exigiram a saída deMubarak, que ocupa o poder há três décadas.A manifestação começou em Times Square, com 500 pessoas, e encaminhou-se em direcção aManhattan, fazendo com que esse número aumentasse ao longo da noite, chegando, assim,perto dos 60 mil manifestantes, a maioria de origem egípcia e residentes nas áreas deConnecticut, Nova Jérsia e Nova Iorque.Os seus “gritos de guerra” impunham-se com a presença de bandeiras egípcias e diversoscartazes, onde se podia ler, entre outros, “Que Mubarak saia!” ou “Os egípcios unidos jamaisserão vencidos”. Para além disso, angústia, tristeza e desespero, são sentimentos que tambémestão bem presentes nestes manifestantes: “Há muita gente que conheço que morreu naPraça Tahrir. Estou tão triste que vim aqui, dizer a Mubarak que pare (…) Não precisamos demais sangue. Por favor, vai-te embora”, confessa uma manifestante egípcia.Em simultâneo, na Casa Branca discute-se a partida imediata de Hosni Mubarak, através denegociações secretas com as autoridades do Cairo que possibilitam a resolução destesconflitos. Fonte segura afirma que “esse é um dos cenários” e no topo está, pois, a demissãodo presidente egípcio, que continua sem ceder à pressão feita pelos EUA e pelo resto domundo. Segundo ele, “se eu me demitir (…) vai ser o caos. E pouco me importa o que aspessoas dizem de mim. Neste momento preocupo-me é com o meu país”. Contudo, o chefe deEstado norte-americano acredita que Mubarak, apesar de orgulhoso, “também é um patriota”e, assim, “deve dar atenção à reclamação das pessoas e tomar uma decisão ordenada,construtiva e séria.”A mesma fonte oficial afirma que um dos planos seria o presidente egípcio fazer a transição dopoder para um chamado governo de transição, então liderado pelo vice-presidente, OmarSuleiman, que contaria com a ajuda do exército do país. Mas, esta aparente fácil resoluçãoprovocou especial desagrado pelo próprio vice-presidente que declarou, indignado, que “háumas quantas formas anormais através das quais países estrangeiros têm interferido”,contrastando, assim, com os laços que os países mantêm entre si. Como complemento, umafonte oficial egípcia também contestou a proposta de Washington, aclarando que essapossibilidade não é permitida pela Constituição do país e, à semelhança de Suleiman, mostroudesagrado perante a atitude dos norte-americanos que “devem tratar é dos seus assuntos”. Marta Spínola Aguiar Página 20 de 27
  21. 21. De que lado fica o Ocidente?A par de todos os confrontos verificados no Egipto, o Ocidente vê-se obrigado a tomar umaposição marcante para, assim, ajudar a amainar a revolta social vivida nas ruas do Cairo. Aquestão fundamental converge, então, num só sentido: de que lado está, afinal, o Ocidente?Hosni Mubarak, Presidente Egípcio, está no poder há 30 anos e constitui-se como um dosprincipais aliados dos EUA. Contudo, esta não foi uma razão suficientemente forte para queBarack Obama, Presidente dos EUA, não assumisse um discurso rigoroso ao tentar aproximar oOcidente do mundo islâmico. “Vim para o Cairo à procura de um novo começo entre osEstados Unidos e os muçulmanos de todo o mundo, um começo baseado no interesse e norespeito mútuos”, afirma o Presidente norte-americano. Para além disso, pediu a Mubarak,principal responsável pelos confrontos, para não se recandidatar em Setembro deste ano eassumir, publicamente, a sua decisão.Barack Obama adopta, então, uma atitude que poderá ser vista como inesperada: expressa oseu apoio aos manifestantes e não ao presidente egípcio, assumindo, pois, um “tom de umlíder de direitos cívicos” e solicitando uma transição política que “tem que começar agora”.Aquando da conversa telefónica com Obama, esta transição urgente foi reconhecida por partede Mubarak, que horas antes, tinha classificado os manifestantes egípcios como “amotinadosviolentos», cujas motivações provinham «de uma qualquer força política sinistra”. Porém, todaa dignidade e luta dos manifestantes, é vista de bom grado por parte do Presidente norte-americano, anunciando convictamente que “nós estamos a ouvir-vos”, reforçando que elessão “uma inspiração para o resto do mundo.”.Do lado dos EUA está também a Europa. Os chefes do Governo alemão, inglês, francês, italianoe espanhol estão de acordo com a transição urgente do governo egípcio, expressaanteriormente por Barack Obama, emitindo, então, uma declaração conjunta. Como pano defundo desta iniciativa estão os violentos confrontos verificados na madrugada do dia 3 deFevereiro na Praça Tahrir, no Cairo, que provocaram dezenas de mortos.Os chefes europeus condenam a violência de Housin Mubarak que só pretende retirar-se dopoder em Setembro, altura em que o seu mandato fica concluído. Todavia, “apenas umatransição rápida e pacífica (…) permitirá superar os desafios que o Egipto enfrenta nestemomento”, salientam Angela Merkel, David Cameron, Nicolás Sarkozy, Silvio Berlusconi e JoséZapatero, na declaração comum. Demonstram, também, uma enorme preocupação peranteesta revolta social que só fará com que a crise política que o Egipto atravessa se acentue cadavez mais. Marta Spínola Aguiar Página 21 de 27
  22. 22. “Os Ridículos” continuam a percorrer o Arquipélago da MadeiraA peça “Os Ridículos”, do jornalista do Diário de Notícias da Madeira, Filipe Sousa, está apercorrer os teatros e os centros de arte da ilha da Madeira desde o final de Dezembro do anopassado.A história centra-se na gelotofia, ou seja, “no medo que temos de fazer figura de parvo, omedo de ser ridículo. Levado ao extremo manifesta-se com uma fobia”, confessa um dosactores e encenadores da peça, Nuno Morna. Assim, esta peça pode ser resumida “numespectáculo em que o espectador se vai rir, acima de tudo, de si próprio”, afirma.O nascimento, a entrada na escola, os namoros, a política, o casamento, o acaso e a morte, sãoalguns dos ingredientes que Nuno Morna e Paulo Lopes conjugam nos palcos madeirenses eque têm tornado “Os Ridículos”, um dos espectáculos da Com.Tema (Companhia de Teatro daMadeira), com “maior sucesso”, estando, até agora, “com uma média de 200 pessoas porespectáculo”, reitera Nuno Morna.Para além disso, a temática proposta e criada por Filipe Sousa, jornalista do DN Madeira,alerta-nos para a excentricidade que podemos adquirir na nossa vida quotidiana e que nemsempre nos apercebemos. Apesar de ser uma particularidade boa, uma vez que escapa aoprevisível, essa avaliação está sujeita àqueles que nos observam. Assim, o objectivo da peça éfazer com que o espectador embarque “numa viagem que é a própria vida e as figuras quefazemos…os papéis que vamos desempenhando”.Apresentada em vários pontos da ilha como Calheta, Machico, Estreito de Câmara de Lobos etambém no Porto Santo, a peça estará em cena no Centro de Congressos do Casino daMadeira, no Funchal, no dia 1 de Abril “e não é peta”, garante Morna.Quanto à hipótese de ser apresentada em Portugal Continental, essa é uma possibilidade queainda está em aberto pois, como afirma o actor “esta é uma peça de repertório. Estará emcena até nos fartarmos dela”. Marta Spínola Aguiar Página 22 de 27
  23. 23. Violino toca no PoliteamaA peça Um Violino no Telhado, de Filipe La Féria, está em cena no Teatro Politeama, em Lisboa,desde o dia 21 de Outubro de 2010 e estender-se-á até ao dia 13 de Março de 2011.Tradição, tolerância, união e amor. São estas as palavras-chave que fazem com que esteespectáculo, baseado num dos musicais com maior sucesso na Broadway e vencedor de todosos Tony Awards, em 1965, conquiste o coração dos portugueses. Quando adaptado para aSétima Arte, em 1971, obteve nove nomeações da Academia para os Óscares, incluindo o de“Melhor Filme”.Tendo a Revolução de Outubro na Rússia como pano de fundo, a peça de La Féria retrata avida de um pobre leiteiro, Tevye, (José Raposo) que partilha a educação das cinco filhas comGolde, (Rita Ribeiro) a sua mulher. Com a ajuda constante do seu Deus, omnipresente eessencial nas tomadas de decisões, Tevye resolve as questões familiares com humildade esensatez, tentando sempre analisar as duas faces dos problemas com base nos princípios datradição e cultura judaica.Mas, as mudanças sociais e políticas sentidas nesta comunidade judaica estão bem expressasna Revolução Russa e na força suprema dos jovens, que pretendem comutar a tradição eprocurar um futuro e, consequentemente, uma vida melhor. É, pois, imperativo mudar derumo e quebrar barreiras.Gonçalo Simões, de 20 anos, confessa ser “grande admirador e frequentador assíduo dosmusicais» do encenador português e afirma que a peça, Um Violino no Telhado, «está muitobem feita e capta a atenção de quem a está a ver”, referindo ainda que a visualização do filmenão é fulcral para compreender a história.Com uma mensagem forte, encenação e coreografia brilhantes, ao verdadeiro estilo de FilipeLa Féria, o espectáculo pode ser visto de terça a sábado às 21h30, havendo também matinésaos Sábados, Domingos e Feriados às 17h e o preço dos bilhetes varia entre os 10 e os 35€. Marta Spínola Aguiar Página 23 de 27
  24. 24. O homem sem caraChama-se Banksy, está nomeado para um Óscar e é um grafitter/artista plástico. Persistenteem manter o seu anonimato, o artista quer acomodar-se a esse mistério até mesmo nacerimónia dos Óscares da Academia, que se irão realizar amanhã no Kodak Theatre.Banksy possui uma dimensão infinita de obras que são avaliadas em, pelo menos, 300 mileuros. Contudo esse não é um motivo suficientemente forte para o grafitter revelar a suaidentidade. Numa das poucas entrevistas que deu, via email, no ano passado, afirma que“pode parecer marketing, mas o anonimato é vital para o meu trabalho. Sem isso nuncaconseguiria pintar”. Ao esconder-se do mundo, tem mais liberdade para desenhar o que lheparecer mais apropriado sem nunca ter que justificar o motivo da sua arte. Talvez seja por issoque teme as câmaras de vigilância pois, contraria o ditado de “se não fizeste nada de mal, nadatens a esconder”, atestando que todos têm alguma coisa que não querem revelar. No casodele, é a cara.Felizmente os seus trabalhos estão um pouco por todo o lado e a sua arte alegra a vida da rua,dando-lhe mais cor. Recusa-se a expor as suas pinturas num museu devido ao ar artificial quelhe pode conferir, enquanto “na rua, a única concorrência é o pó”, declara.Toda a sua criatividade está expressa no documentário chamado “Exit Through the Gift Shop”,pelo qual Banksy é responsável. O filme foca um artista de rua, Thierry Guetta – nome artísticode Mr. Brainwash - que leva sempre consigo uma câmara para filmar grafitters durante o seuprocesso criativo, mas tem uma particularidade diferente da de Banksy: revela a suaidentidade. Nas palavras dele “ele [Thierry] tem potencial de entretenimento”. Todavia, estedocumentário não teve grande receptividade por parte dos membros da comunidade dografitter anónimo que subvalorizaram o seu trabalho, contrastando com a opinião daAcademia da Sétima Arte que o considerou verdadeiramente bom e nomeou-o para o Óscar deMelhor Longa-metragem Documental.Mas, Banksy opõe-se aos clichés que a cerimónia da Sétima Arte exige, apesar de abrir umaexcepção quando se trata de prémios para os quais está nomeado. No entanto, uma barreiraque teima em não ser ultrapassada e essa barreira é colocada pelo próprio artista: Banksy sóirá à cerimónia dos Óscares se puder ir disfarçado com uma máscara de macaco, extravagânciaque a Academia não aceita.Bruce David, director executivo da Academia, em entrevista à Entertainment Week, confessaque a ideia do grafitter por muito interessante e excêntrica que seja é “preocupante, pois se ofilme ganha e aparecem cinco pessoas com máscaras de macaco no palco a dizer ‘Banksy soueu’, a quem é que damos [o prémio]?”.A dúvida fica então no ar. Os seus trabalhos inspiram-se em temas fortes como o imperialismo,a guerra e o capitalismo. A sua crítica social é feita a braços com tintas, paredes e imaginação.E o resultado está bem à vista. Caracterizado como um niilista e anarquista, Banksy é Página 24 de 27
  25. 25. conhecido em todo o mundo e as suas pinturas são cobiçadas por vários membros das classessociais mais elevadas. Então, posto isto, será que vai desperdiçar a oportunidade de, amanhã ànoite, dar uma cara ao seu já aclamado nome? Marta Spínola Aguiar Página 25 de 27
  26. 26. Central Nuclear em Portugal: porque não?Devido aos diversos problemas que se têm vivido no Japão, especialmente com as explosõesdas centrais nucleares, a preocupação quanto à segurança mundial tem vindo, cada vez mais, àtona. Todos os dias, os media têm presenteado a população de todo o mundo com imagens einformação que retratam os perigos que poderão pôr em causa o bem-estar das geraçõesvindouras e trazer consequências graves para o desenvolvimento e recuperação dassociedades que, atualmente, se veem num constante braço de forças com a Natureza.Em Portugal, o acompanhamento dos acontecimentos no Japão estão a ser seguidos minuto aminuto. Mas, várias questões ressurgem e debate-se temas que outrora já tinham sidoponderados e desacreditados. E uma vez mais a grande questão coloca-se: porque nãoconstruir uma central nuclear em Portugal?Retornando a 2005 e apesar do medo parecer assolar a maior parte dos portugueses, oempresário Patrick Monteiro de Barros tinha apresentado esta ideia ao governo, justificandoque tal construção prendia-se com o aumento do preço do petróleo que engrandeceraconsideravelmente (cerca de 60 dólares por barril, no mercado americano). Garantindo que osfundos aplicados seriam unicamente os privados, o Patrick insistira em comparar Portugal apaíses que tinham efetuado a construção e tinham saído beneficiados disso, como foi o casoda Finlândia. Assim, a confiança no projeto crescia e, a nível económico, seria possível reforçaros mercados nacionais que possuiriam mais abastecimentos. Para além disso, Portugalassumiria uma postura mais independente a nível energético relativamente ao estrangeiro.Contudo, um projeto que poderia ser inovador e essencial para a economia do país,rapidamente perdeu a força que tinha quando, ainda em 2005, o ambientalista da Quercus,Francisco Ferreira, referiu, em declarações à TSF, a existência de “problemas chave queafastam a energia nuclear de toda esta equação”, acrescentando que a possibilidade de“consequências de acidente” bem como da existência de “resíduos radioativos” seria umadificuldade que teria uma solução muito pouco visível. E tais questões até poderiam ser o“menor dos problemas”. Segundo o que declarou à estação radiofónica, no ano da proposta,Francisco Ferreira sublinhou que as centrais nucleares são um ponto elementar na lista dosatentados terroristas, visto que põem em causa o futuro de qualquer geração. Desta forma, asegurança do país estaria comprometida.Seis anos mais tarde, este assunto volta a ser exposto em cima da mesa. Patrick Monteiro deBarros não mudou a sua opinião quanto ao tema, afirmando que “Portugal tem capacidadepara ter uma ou duas centrai”». Como declarou ao Diário de Notícias no dia de ontem, 15 demarço, o empresário vê na central, uma solução ideal para Portugal ser um “país que exporta”e, assim, aumentar o seu nível de competitividade com o resto da Europa e do Mundo. Oacesso à energia seria mais barato bem como “mais seguro”, realçou, e as explosões das Página 26 de 27
  27. 27. centrais que ocorreram nos últimos dias do Japão, foram provocadas apenas “por umfenómeno exterior: um dos maiores tremores de terra da história”, justificou.E mais uma vez, à semelhança do que aconteceu em 2005, são feitas comparações com outrospaíses que não se deixaram influenciar pelo sucedido no Japão e vão construir seis centraisnucleares, como é o caso do Brasil. Patrick Monteiro, aclara, pois, que “não há nenhuma razãoque indique que só porque houve este evento no Japão se deva desistir do nuclear”.O acionista da Petrolus insiste na construção da central em terras lusas, mas a Quercus volta aintervir e reforça a resposta negativa que já tinha sido dada em 2005: o projeto é“insustentável não só do ponto de vista ambiental mas também financeiro”. Então, surge umleque de alternativas que garantem, pelo menos, uma maior segurança a toda a populaçãoportuguesa. Entre elas, está o incentivo à promoção da eficiência energética e também nasenergias renováveis que, cada vez mais, parecem ser o futuro de todo o mundo.Porém, não será a energia nuclear que vai colmatar os problemas, a nível petrolífero, para aindústria automóvel, por exemplo, que seria mais facilmente substituída para os transportespúblicos, visto que reduziriam em grande quantidade o número de poluentes emitidos para aatmosfera. Essa é a solução da Quercus que, prefere adotar uma postura menos radical eambiciosa.Para além dos custos que Portugal não seria capaz de suportar devido à crise económica efinanceira que se está a atravessar, a exploração do urânio (mineral radioativo) ainda não estáconsolidada, ou seja, não está enriquecida o suficiente, fazendo com que fosse fundamentalimportar o urânio e acentuando, ainda mais, a dependência com o estrangeiro.Razões não faltam à Quercus para mostrar que a construção de uma central nuclear não é umprojeto seguro e com perspetivas de futuro e refere a importância de “apostar nas áreas quepodem ser de facto fatores de promoção do desenvolvimento sustentável do país”, afirmaSusana Fonseca, a vice-presidente da Quercus. E não se trata apenas de uma questãomonetária. A nível territorial, Portugal não tem capacidade para dirigir um projeto destaenvergadura: os sismos em territórios nacionais, ainda que atingindo baixos níveis na escala,são uma realidade que não podemos ignorar e não há disponibilidade em termos hídricos parafacilitar o arrefecimento da central. Será, então, a construção de uma central nuclear umaideia (ainda) realista? Marta Spínola Aguiar Página 27 de 27

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