Rcc   ministério de formação - apostila - 1  - identidade da renovação carismática católica
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Rcc ministério de formação - apostila - 1 - identidade da renovação carismática católica Document Transcript

  • 1. ESCOLA PAULO APÓSTOLO MÓDULO BÁSICO A IDENTIDADE DA RCC 
  • 2. 2DERCIDES PIRES DA SILVA
  • 3. 3LISTA DE ABREVIATURASAA Apostolican ActuositatemCATEC Catecismo da Igreja CatólicaDU Constituição Dogmática Dei VerbumLG Constituição Dogmática Lumem GentiumCL Christifidelis LaiciCIC Código do Direito CanônicoAG Decreto Ad GentesCNBB Documentos da Conferência Nacional dos Bispos do BrasilRMI Redenptores Missio
  • 4. 4 SUMÁROApresentação.........................................................................................................................011. Ofensiva Nacional da Renovação......................................................................................061.1Conceito de Ofensiva Nacional............................................... .........................................071.2 Ofensiva: Plano de Deus Para a Renovação Carismática..................................................091.3 Princípios Da Ofensiva Nacional......................................................................................111.4 Objetivos da Ofensiva Nacional.......................................................................................161.5 Conclusão.......................................................................................................................162. A espiritualidade Da Renovação Carismática Católica......................................................182.1Estatuto Do Serviço Internacional da Renovação Carismática Católica (ICCRS)..............192.2 Espiritualidade................................................................................................................192.3 Espiritualidade Da Renovação Carismática Católica........................................................202.4 Fundamentação Teológica da RCC.................................................................................252.5 Frutos da Espiritualidade da RCC...................................................................................403. Batismo No Espírito Santo.............................................................................................493.1 Conceito.........................................................................................................................493.2 Fundamentos..................................................................................................................503.3 Finalidade Do Batismo No Espírito Santo.......................................................................523.4 Frutos Do Batismo No Espírito Santo.............................................................................533.5 Jesus, O Batizador..........................................................................................................543.6 Quem Pode Ser Batizado No Espírito Santo...................................................................553.7 Condições Para Ser Batizado No Espírito Santo.............................................................563.8 Chave Do Batismo No Espírito Santo.............................................................................573.9 Conclusão.......................................................................................................................594. Renovação Carismática Como Um Novo Pentecostes.....................................................624.1 Primeiro Pentecostes......................................................................................................624.2 Pentecostes Atual...........................................................................................................655. Contexto Eclesial da Renovação Carismática Católica.....................................................725.1 Critérios de Eclesialidade................................................................................................725.2 A RCC Está Inserida No contexto Eclesial......................................................................735.3 Efeitos da Eclesialidade da Renovação............................................................................76
  • 5. 5
  • 6. 6 ABREVIATURAS USADAS DOCUMENTO ABREVIATURACatecismo da Igreja Católica Catec.Christifideles Laici CLCódigo do Direito Canônico CICConstituição Dogmática Dei Verbum DVConstituição Dogmática Lumen Gentium LGDecreto Ad Gentes AGDecreto Apostolicam Actuositatem AADocumentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBBRedemptoris Missio Rmi
  • 7. 7 APRESENTAÇÃO Conta-se que aprouve ao rei de um identidade da Renovação, carismas, grupo de oração, vidagrande povo presentear sua filha com um de oração, liderança e santidade; outra para contemplar um estudo introdutório sobre a Igreja e outra paralindo retrato feito à mão. O presente seria apresentar uma doutrina social com base na Sagradaentregue em uma solenidade especial que Escritura, na Sagrada Tradição e na Doutrina da Igreja.comporia os festejos dos seus quinze anos. Fizemos o melhor que podíamos, mas podemos Expedidas as ordens reais, abriu-se o concurso, ao melhorar. Por isso contamos com as sugestões dos irmãosqual acorreram os melhores artistas do mundo. Para a para eliminar alguma coisa que ainda sobrar, bem comoconcorrência deveriam exibir sua melhor criação. O para acrescentar outras. Nós mesmos estaremosvencedor faria o retrato da princesa e seria regiamente empenhados nisto.compensado. Entregues as pinturas, o ministro da cultura Agora falemos desta apostila. Ela contém cincosupervisionou a seleção das melhores, que foram temas. No capítulo “Ofensiva Nacional da Renovaçãoentregues ao rei. Ele desejava fazer a escolha final, Carismática Católica,” demonstramos que a Ofensiva épessoalmente, e marcou a entrevista dos artistas para um um fenômeno espiritual afeto ao campo da revelaçãodia de domingo. privada, acontecido no âmbito da Renovação e dirigido a No dia aprazado os pintores chegaram cedo e logo ela.foram entrevistados, um a um. A todos o monarca Quando estudamos o capítulo sobre aindagava se a pintura apresentada era a melhor que “Espiritualidade da Renovação Carismática Católica,”podiam fazer. Todos pressurosamente respondiam que nossa intenção principal foi apresentar fundamentossim. Logo o rei começou a se angustiar. Embora os teológicos para a nossa expressão de Igreja, poisquadros fossem bonitos, não estava gostando dos artistas; entendemos que o ponto gerador de perplexidade entrejulgava-os limitados. Todos estavam respondendo a muitas pessoas não é nossa organização como movimentomesma coisa. Por fim um dos pintores deu a resposta que leigo, embora isto também tenha sido abordado. Oso rei esperava: dissabores que às vezes tem se abatido sobre os ânimos de –– Majestade, a minha melhor obra é sempre o alguns tem sido por causa de nossa espiritualidade,próximo quadro que pintarei. Sempre no próximo coloco principalmente pelo desconhecimento dela. Acreditamos,tudo que já aprendi com os grandes mestres, uso as novas portanto, que se a espiritualidade que vivemos estivercores que descobri, emprego as últimas experiências que bem fundamentada, por extensão toda a Renovaçãoadquiri, busco nova inspiração, não deixo de fora um também estará.renovado desejo de fazer melhor do que já fiz. É por isso Na abordagem do Batismo no Espírito Santoque minha melhor arte é sempre a próxima. A cada assumimos o que ele realmente é: um Batismo no Espíritopróxima dou tudo de mim. Santo. Nada mais, nada menos. Colocamos a efusão como Esta historieta ilustra o nosso sentimento enquanto seu paralelo. Buscamos, como já feito antes, resgatar suasexaminávamos o nosso antigo módulo básico. Sabemos origens, seu desenvolvimento e suas implicaçõesque cada feito poderá ser melhor do que o anterior, mas pastorais, a partir do tempo dos Apóstolos.também somos consciente de que o próximo poderá ser Para apresentar a Renovação Carismática comoainda melhor. “Contudo, seja qual for o grau a que um novo Pentecostes, analisamos em primeiro lugar ochegamos, o que importa é prosseguir decididamente" (Flp Pentecostes dos Apóstolos com seus antecedentes bíblicos3,16). e seus desdobramentos na Igreja daquela época. Cremos que o seu bom entendimento auxiliará os homens de hoje Conscientes de nossas limitações, mas imbuídos a compreender o que ocorre em nossos dias. Após issodo desejo de contribuir para o crescimento dos irmãos, apresentamos o nosso Pentecostes, como um paralelo doexaminamos o conteúdo das apostilas. Após meditar e Primitivo.orar bastante, depois de muitas reflexões, partilhas edebates, concluímos que ele deveria ficar como estava, Enfim, “Contexto Eclesial da Renovaçãoou, então, ser reformulado por completo, sob pena de Carismática Católica” esclarecemos, a começar dosquebrar sua unidade. Optamos por sua reformulação. critérios de eclesialidade que a Igreja exige dos movimentos, que a Renovação é uma legítima forma da Aproveitamos alguns temas antigos, introduzindo- Igreja se expressar, com todos as decorrências destalhes conteúdos novos, e acrescentamos outros, totalizando legitimidade.oito apostilas, para tratar dos seguintes assuntos:
  • 8. 8 Todos os capítulos são marcados por um caráter a primeira revisão teológica, à Alides D. Mariotti, que fezenciclopédico, introdutório, genérico, pois considerados a primeira revisão de texto e ao Antônio Carlos Lugnaniem si mesmos dariam cada um obras completas. Mas, ao que, dentre outras coisas, promoveu a organização dasmesmo tempo, apresentamos as questões fundamentais de citações e notas bibliográficas.nossa identidade. Expressamos também os mesmos agradecimentos Em todo o tempo tivemos dois cuidados principais: aos teólogos que gentilmente fizeram a revisão teológicao primeiro foi não nos afastarmos da Sã Doutrina. Para final, são eles: João Luiz da Silva, SVA, Reginaldoisso trilhamos os caminhos da Sagrada Escritura, da Albuquerque da Silva, SVA e Cláudio José Cardoso.Sagrada Tradição e do Magistério da Igreja. O segundo Colaboração inestimável foi prestada na revisãofoi apresentar o estudo com linguagem e fatos gramatical pelo professor Raul Pimenta. A ele tambémconsoladores aos irmãos. agradecemos. Quanto à linguagem e à argumentação, seguindo as Finalmente, agradecemos às amigas Andréapegadas dos Apóstolos, adotamos várias vezes um tom Paniago Fideles e Lília que abnegadamente doaram umapologético, pelo qual pedimos desculpa aos que, optando pouco do seu tempo para ler os originais e oferecerpela tendência cientificista deste tempo, ou esperando a acertadas sugestões, bem como a todos os irmãos que,linguagem sóbria dos tratados, possam se sentir compreensivamente, esperaram a publicação destedesconfortáveis com nossa abordagem. trabalho. Estamos abertos às críticas e sugestões. Oro a Deus para que dê a todos a recompensa do Ainda uma palavra final. Esta não poderia faltar, é profeta, com infinito amor.de agradecimento sincero aos colegas da Comissão deFormação Nacional da Renovação Carismática Católica Amém. Deus os abençoe. “Intensificai as vossasque, exaustivamente, analisaram esta apostila, mas de invocações e súplicas. Orai também por mim” (Ef 6,18-maneira especial ao Marcos Dione Ugoski Volcan, que fez 19). Fraternalmente, Dercides Pires da Silva
  • 9. 9 CAPÍTULO PRIMEIROIDENTIDADE DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICAExistem muitas formas de identificar um ser. Uma faltar uma delas, não poderá ser tido como um genuíno organismo do nosso Movimento.pessoa, por exemplo, biologicamente é identificada comoum animal mamífero, bípede, homeotermo, dentre outras Com efeito, para identificar nossa espiritualidadedesignações. Filosoficamente o homem é um ser racional, com exatidão precisamos entender que sua essência é odotado de alma; psicologicamente é um conjunto batismo no Espírito Santo e os seus desdobramentos sãocomposto por emoções, sentimentos, vontade. as manifestações dos carismas bíblicos, a começar pelosTeologicamente o homem é um ente que, sem deixar de que se encontram em Marcos 16,17-18 e na Primeiraser animal e portador de alma, é dotado de um espírito, Carta aos Coríntios 12,7-10, bem como as comunidadeslogo, é um ente espiritual-animal racional. Já socialmente de aliança, de vida e os próprios grupos de oração, umao ser humano é identificado por características bio- vez que preenchem os requisitos teológicos para seremsociais, isto é, pela estatura, pela cor dos olhos, pelo nome designados como formas de comunidades cristãs eclesiais.e sobrenome. Isto demonstra que identificar um ser Isso é fácil de compreender, pois o que se entende porcomplexo como o homem, de forma completa e identidade é formado por características ou dadosdefinitiva, não é tarefa fácil. Esta mesma dificuldade se próprios do ser que se deseja identificar, seja este ser umaapresenta à identificação de um movimento religioso pessoa ou uma instituição social.como a Renovação Carismática Católica. Mas, tal como ohomem, ela também pode ser identificada, pois possui Encontrar os dados que identificam a Renovaçãocaracteres que a aproximam de outros movimentos, bem só é possível porque ela possui algo próprio, que são oscomo alguns que lhe são próprios. Vamos a eles. elementos básicos de sua espiritualidade, ou seja, são as características enumeradas acima. Alguém que a observar Partimos da idéia de que a Renovação possui de fora poderá dizer assim: “Este povo não pertence aoidentidade, isto é, tem nome e sobrenome. Tal como o Cursilho de Cristandade, nem ao Movimento doshomem que recebe sua identidade espiritual no Batismo Focolares, nem aos Vicentinos, nem tampouco são deSacramental, quando passa a ser filho de Deus, o nosso alguma ordem terceira ligada a alguma ordem religiosa.Movimento recebe sua identidade com o batismo no Este povo é, na verdade, o Movimento denominado deEspírito Santo, quando passa a ser Renovação Pentecostal Renovação Carismática Católica ou Renovaçãoou Carismática,1 conforme o costume do lugar em que for Pentecostal Católica”.organizada. Em nossa reflexão devemos entender que cada A Renovação possui muitas características. Todas movimento católico tem suas características peculiares.nos dizem que a Renovação é Renovação, como as do Isto é um princípio, e dele partimos para dizer que éhomem nos dizem que ele é humano. Uma grande parte exatamente por isso que os movimentos são expressões dadelas será analisada nesta apostila. Todas nos ajudarão a Igreja, isto é, um jeito de a Igreja se manifestar. Estasconhecer nosso Movimento, mas as três principais serão características atraem as pessoas para eles, permitindo queanalisadas neste capítulo. São elas: Batismo no Espírito se organizem e coloquem seus carismas a serviço doSanto, prática dos carismas, notadamente dos Reino. Os movimentos partilham várias características,extraordinários, e formas de vida comunitária. Em se uma vez que têm a Santíssima Trindade como matriz; mastratando de identificação, estas três características são o cada um conserva algo próprio, algo que o torna único naDNA2 da Renovação, de tal forma que se em um grupo comunidade dos cristãos. Quanto à Renovação, muitos dados a identificam,1 Nota do autor: Pessoalmente, entendo que o além dos três elementos básicos – Batismo no Espíritomelhor nome para designar nosso Movimento é Santo, prática dos carismas e comunidades. Eis alguns:“Renovação Pentecostal Católica,” pois entendo que Aceitação incondicional de Jesus como Salvador pessoalo termo “carismática” reduz seu significado, por e como Senhor Absoluto; amar a nós mesmos como filhoscontemplar somente um dos elementos que a de Deus, amar a Deus como Pai, cultivar os dons de nossaidentificam, que são os carismas. No início, pelos santificação, docilidade ao Espírito Santo, engajamentocarismas serem mais evidentes, e por surgirem pastoral, experiência de filhos de Deus, fé, sólido eimediatamente após a efusão do Espírito Santo, foi equilibrado relacionamento com Maria, mãe de Jesus emais fácil, e até natural, ligá-los diretamente aonome da Renovação, chamando-a de Renovação que, mediante exames laboratoriais, a ciência dê aCarismática. Hoje, entretanto, após mais de três última palavra sobre a identificação dos seres vivos.décadas de existência do Movimento Pentecostal Assim, pela sua análise, determinam-se os reinosCatólico moderno, nota-se com clareza que o termo dos seres vivos, concluindo se são animais ou“Pentecostal” o definiria com mais exatidão e com vegetais. Determinam-se também suas espécies elarga vantagem, pois nele existem inúmeros frutos até suas famílias. Assim, com grande margem depentecostais, além dos carismas. segurança, indicam-se os parentescos mais2 DNA é a sigla inglesa do ácido próximos possíveis, chegando até a determinar adesoxirribonucléico. O DNA, atualmente, permite maternidade e a paternidade.
  • 10. 10nossa; coração missionário, amor e zelo pelo Evangelho, Dado a sua importância, analisaremos este dado dereconhecimento de nossa realidade pecadora, nossa identidade mais demoradamente.relacionamento de amor com a Igreja, relacionamento Antes de analisar este tema gostaria defraternal com os santos, vivência sacramental, promoção lembrar sua importância. Lembremos que na análisehumana e espiritual dos filhos de Deus, engajamento da Espiritualidade da Renovação, feita no capítulosóciopolítico, conversão. próprio, concluímos que o Batismo no Espírito Santo Os dados acima inegavelmente perpassam, em é o fato gerador de nossa espiritualidade e com elaforma de frutos, todo o perfil da espiritualidade da nossa identidade. É com o Batismo que tudoRenovação. Entretanto não são suficientes para identificá- começa para o cristão. É com essa nova Efusão dola, pelo simples fato de também serem patrimônio, pelo Espírito Santo que tudo começa para a Renovação.menos em parte, de todas as espiritualidades O Batismo no Espírito Santo não é o fim dagenuinamente católicas. Por exemplo, amor e zelo pelo Renovação; não é, em absoluto, seu ponto deEvangelho marcam profundamente os franciscanos e chegada. Ao invés, é seu princípio; tanto comofocolarinos; promoção humana e espiritual dos pobres é o início, quanto como norma.objetivo dos vicentinos; já o engajamento sóciopolíticorecheia a cartilha do movimento das CEBs. A novidade daRenovação neste caso é que nela se encontram, em vários a) CONCEITOestágios, todos os dados acima enumerados, além deoutros não listados. Primeiramente digamos o que o batismo no Espírito Santo não é. Assim nos resta analisar os elementos básicos denossa identidade que realmente nos distinguem: “A Igreja Primitiva utilizava o Batismo no Espírito Santo para a iniciação cristã. O emprego desta frase, hoje, para o despertar mais tardio da graça sacramental original não significa, 1. BATISMO NO ESPÍRITO SANTO de modo algum, um segundo Batismo".7 Quanto ao batismo no Espírito Santo, ele, por si Então é isto: definitivamente o Batismo nosó, ainda é pouco para nos identificar, mas é a essência de Espírito Santo não pode ser confundido com onossa espiritualidade. Cremos ser sinal de maturidade Sacramento do Batismo ministrado com rito próprioreconhecer isso. A razão é simples: é que toda pessoa pela Igreja, pois não são a mesma coisa.cristã, cujo batismo seja válido, foi batizada em nome doPai, do Filho e do Espírito Santo. Logo, todas são, Visto que o Batismo no Espírito Santo não é umaportanto, batizadas no Espírito Santo. Todos os repetição do Batismo Sacramental, vejamos o que ele é.movimentos católicos podem dizer, com justiça, que seus Para isso partiremos de uma idéia apresentada por Jesusmembros são batizados no Espírito Santo. Dizemos mais: no principal dia de uma das Festas dos Tabernáculosaté mesmo as pessoas que não pertencem a nenhum realizada em Jerusalém, quando Ele, de pé, proclamava:movimento religioso, a nenhuma forma de congregação “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quemreligiosa, desde que sejam batizadas sacramentalmente, crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interiortambém podem dizer que são batizadas no Espírito do manarão rios de água viva" (João 7,37-38). O EvangelistaSenhor, porque Jesus ordenou que os Apóstolos fizessem segue esclarecendo o significado destas palavras de Jesus,discípulos para Ele batizando os neoconvertidos em nome dizendo: “(Jesus) Dizia isso, referindo-se ao Espíritodo Pai, do Filho e do Espírito Santo3 justamente para que, que haviam de receber os que cressem nele" (Joãoplenos do Espírito, como Ele próprio, recebessem o poder 7,39).de se tornarem filhos de Deus.4 Como vemos na pregação de Jesus, cuja O dado novo que tem ocorrido na Renovação, em interpretação vem a lume por meio do Evangelista,relação ao Batismo no Espírito Santo, é que no seu seio o Espírito Santo é apresentado metaforicamenteessa graça tem sido dinâmica e se renova continuamente, como sendo um Rio de Água Viva.como acontecia na Igreja Primitiva.5 Assim, essarenovação constante do batismo, bem como o seu Encontramos a segunda idéia importante paradinamismo, nos tem dado uma identidade ímpar, em se o conceito de Batismo no Espírito Santo notratando de Igreja Católica; infelizmente única, pois o significado etimológico da palavra batismo, que noideal é que todos os católicos, senão todas as pessoas, 6vivam essa graça. 7 COMISSÃO DE SERVIÇO NACIONAL DA3 Cf. Mt 28,19-20 RENOVAÇÃO CARISMÁTICA DOS EUA. Avivar a4 Cf. Jo 1,12; Rm 8,14 Chama. Documento da Conferência do Coração da5 Cf. At 2,1-4; 4,29-31; Ef 5,18 Igreja de Teólogos e Líderes Pastorais, São Paulo:6 Cf. Nm 11,29; Jl 3,1-2; Catec. 1287 Loyola, 1992.
  • 11. 11grego, donde ela vem, designa o ato de submergir, significa nosso mergulho nEle; e efusão, seude mergulhar.8 derramamento sobre nós.11 Ora, já que o vocábulo batismo em suaorigem significa mergulho, nada mais natural do queentender o mesmo que a Igreja Primitiva entendeu b) FUNDAMENTOSdos ensinamentos de Jesus e de João Batista sobreeste acontecimento espiritual, isto é, que este Nos outros capítulos destas reflexõesbatismo feito por Jesus diretamente sobre os encontram-se inúmeros fundamentos para oprimeiros discípulos, e a partir daí ministrado por Batismo no Espírito Santo, quer sejam bíblicos, quermeio deles aos demais cristãos, é um verdadeiro sejam doutrinários ou, ainda, extraídos da Tradiçãomergulho no Rio de Água Viva, que é o Espírito que a Igreja recebeu de Jesus e dos Apóstolos paraSanto. viver e ensinar, desde sua fundação até a vinda gloriosa de Cristo. Desta forma, neste capítulo Das idéias acima fica claro que o desejo do exporemos somente alguns fundamentos maisSenhor é que sejamos mergulhados por Ele em seu específicos.próprio Espírito. É por isso que João Batista9revelou que Jesus é aquele que batiza no EspíritoSanto (que mergulha no Espírito Santo). b.1) Fundamentos Bíblicos O termo Batismo no Espírito Santo designa o O Batismo no Espírito é conhecidofenômeno espiritual que consiste no ato de uma sistematicamente no Novo Testamento, embora nopessoa acolher a divina graça de ser colocada no Velho tenha acontecido na vida dos profetas. 12 Écoração da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade assim que vemos já quase na abertura daspor meio da ação do Filho. narrações evangélicas o profeta João Batista A graça deste batismo pode ser expressa de revelando que o Messias batizaria os seus nooutra forma. Estamos falando da Efusão do Espírito Espírito Santo e no Fogo.13Santo. A palavra efusão vem de efundir, que éformada pelo verbo fundir antecedido pelo prefixo Posteriormente Jesus promete aos discípulos que“e”: e+fundir. rogaria ao Pai para que Ele lhes mandasse outro Paráclito, isto é, o Espírito Santo; ao mesmo tempo os instruiu Entre os inúmeros significados de “fundir” acerca do Espírito e do que Ele era capaz de fazer.14está o de unir, juntar. O prefixo “e” leva aosignificado de movimento externo, para fora; como Após a Ressurreição o Senhor sopra sobre ossair, por exemplo. Assim, efundir significa verter, discípulos dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Joentornar, espalhar-se, derramar-se. Donde se 20, 22). Também por essa época Jesus refaz a promessaconclui que efusão é o ato de efundir-se.10 do envio do Paráclito, como vemos em Lucas 24,49 eRelacionando estes significados com a Efusão do Atos 1,8.Espírito Santo, é natural deduzir que ela denomina o Como Lucas narrou, estas promessas foramato de Jesus derramar sobre os crentes o seupróprio Espírito. literalmente cumpridas no dia de Pentecostes.15 Enquanto o Batismo designa o movimento de Dessa forma, quando se fala em Batismo noJesus ao introduzir uma pessoa crente no Rio de Espírito Santo, está-se fazendo referência uma graçaÁgua Viva, a Efusão leva à idéia de que o crente é espiritual com profundas raízes bíblicas lançadas peloplenificado pelo Espírito Santo que a ele vem, profeta João Batista e pelo próprio Mestre, quando,sempre por um ato de Jesus que O envia, que O segundo o testemunho dos evangelistas, a revelaram aosderrama sobre quem crê. Ambas significam uma discípulos e os instruíram a seu respeito, tendo-os oúnica realidade espiritual, que é a graça da Senhor, por fim, batizado.plenitude do Espírito Santo, concedida a umapessoa que crê em Jesus. 11 O Batismo no Espírito Santo está relacionado Assim, podemos concluir que o termo entre os objetivos da Renovação, nos Estatutos doBatismo no Espírito Santo nomeia a graça pela qual Serviço Internacional da Renovação Carismáticao Pai e o Filho nos dão do seu Espírito. Também Católica (ICCRS), registrados no Vaticano, que,pode ser designado de Efusão do Espírito Santo, antes de serem aprovados pelo Pontifício Conselhopara significar o seu derramamento sobre nós. De para os Leigos, foram examinados por váriosforma que, literalmente, Batismo no Espírito Santo canonistas e teólogos da Santa Sé (Cf. ALDAY, Salvador Carrillo. Renovação Carismática, Um Pentecostes Hoje, 1996, páginas 5 e 10).8 Cf. Catec. 1214 12 Cf. Nm 11,1-309 Cf. Mt 3,11 13 Cf. Mt 3,11; Mc 1,8; Lc 3,16; Jo 1,3310 FERREIRA, Aurélio B. H. Novo Dicionário da 14 Cf. Jo 14,15-16.26; 15,26; 16,7-15Língua Portuguesa., 1986. 15 Cf. At 2, 1-11
  • 12. 12 iniciação cristã com estas palavras: ‘Convertei-vos e cada um peça o Batismo em nome b.2) Fundamentos Doutrinários de Jesus Cristo, para conseguir perdão dos A doutrina sobre o Batismo no Espírito Santo se pecados. Assim, recebereis o dom do Espíritoformou a partir dos ensinamentos que Jesus ministrou Santo’ (At 2,38). A vida cristã começa compessoalmente aos Apóstolos e que estes transmitiram à uma conversão à pessoa de Jesus, masIgreja Primitiva. Desta forma é a partir desta SagradaTradição que compreendemos os fundamentos também envolve, essencialmente, odoutrinários da Efusão do Espírito Santo. dom do Espírito Santo”. Naquele tempo o Batismo no Espírito Santo não Com base na doutrina da Igreja só nos resta umagerava polêmica entre os crentes, nem tampouco conclusão lógica: o Batismo no Espírito Santo é liturgiaperplexidades. Notamos isto desde os ensinamentos dos pública e é normativo. Justino Mártir, Orígenes, Dídimo,escritores do período subapostólico, Inácio (†110) e o Cego, e Cirilo de Jerusalém o tinham por sinônimo dePolicarpo (†155), por exemplo. Eles instruíam os iniciação cristã. Hilário de Poitiers, João Crisóstomo, Joãocatecúmenos sobre o batismo já pressupondo a graça da de Apaméia, Filoxeno de Mabugo, Severo de Antioquia,Efusão do Espírito. Quando catequizavam os José de Hazaia e ainda Cirilo de Jerusalém, consideravamneoconvertidos os instruíam sobre os carismas do Espírito o recebimento de carismas parte integrante da iniciaçãoSanto que, como se sabe, seguem-se à Efusão. cristã.18 Na primeira versão desta apostila,16 já Cirilo de Jerusalém (c. 315-387) em vinte e trêsencontramos a seguinte constatação: ensinos que ministrou sobre o Batismo, entendeu “Além dos textos do Novo Testamento, “que a Igreja de Jerusalém, como foram identificados alguns textos pós-bíblicos que todas as outras, situa-se em uma demonstram como os autores do início do sucessão carismática, uma história do cristianismo compreendiam o Batismo no Espírito Espírito iniciada com Moisés. O Espírito Santo. O recebimento dos carismas, inclusive o é uma ‘nova espécie de água”.19 dom da revelação, pertenciam à celebração dos Sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Com o passar dos séculos ninguém jamais duvidou Eucaristia, através dos quais as pessoas da presença do Espírito Santo nos Sacramentos de iniciação cristã. Salvador Carrillo Alday, calcado no tornavam-se parte da Comunidade Cristã, isto é, cristãs. Os testemunhos de Tertuliano (c. 160- ensinamento de São Tomás,20 vai mais além ao informar 245), Hilário de Poitiers (c. 315-365), Cirilo de que o Doutor Angélico admite o Batismo no Espírito Jerusalém (c. 315-389), João Crisóstomo (347- Santo e ensina sobre ele e seus efeitos em sua obra mais 407), Basílio de Cesaréia (c. 330-379) Gregório célebre, a Suma Teológica. Diz ele que a cada novo envio Nazianzeno (329-389), entre outros afirmam que do Espírito a graça passa a operar de um modo os carismas eram recebidos na iniciação cristã. O absolutamente novo. Para ele cada novo envio do Espírito mesmo testemunho é dado pelas comunidades que produz uma verdadeira ‘vida nova’. representam as culturas Latina, Grega e Síria”. O atual Catecismo da Igreja Católica, editado em A esta conclusão chegam todos os que investigam 11 de outubro de 1992, recolheu esta doutrina em váriosa doutrina cristã, como a Conferência do Coração da parágrafos. Cito como exemplo os números 696, 731,Igreja de teólogos e líderes pastorais da Renovação 746, 1287 e 1699.Carismática Católica dos Estados Unidos da América, em No parágrafo 696 o Catecismo repete Lucas 3,16,seu documento Avivar a Chama.17 Neste documento dizendo que "João Batista (...) anuncia o Cristoaquela conferência conclui e diz que “a iniciação como aquele que ‘batizará com o Espírito Santo..."cristã é Batismo no Espírito Santo”. E segue com Já nos parágrafos 731 e 746, fala-se da Efusão do Espíritoa mesma linguagem incisiva: Santo no dia de Pentecostes como sendo o seu “Os pentecostais ortodoxos derramamento sobre os Apóstolos e seus companheiros. (pentecostais protestantes) não Algo muito bom e reconfortante vem no número inventaram o Batismo no Espírito. Mais 1287, com as seguintes palavras: exatamente, ele pertence à integridade “Ora, esta plenitude do Espírito da iniciação cristã testemunhada pelo não devia ser apenas a do Messias; Novo Testamento e pelos primeiros devia ser comunicada a todo o povo mestres pós-bíblicos da Igreja. Pedro messiânico. Por várias vezes Cristo descreve os elementos essenciais da 18 Ibid., p. 2016 RCC - Escola Paulo Apóstolo. Identidade da 19 Ibid., p. 23RCC. p. 21 20 ALDAY, Salvador Carrillo. Renovação17 Cf. COMISSÃO... Avivar a Chama. Op. Cit., pp. Carismática Católica. Um Pentecostes hoje, pp. 43-17 e 18 44.
  • 13. 13 prometeu esta efusão do Espírito, caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele promessa que realizou primeiramente que é a cabeça, Cristo.22 no dia da Páscoa (Jo 20,22) e em seguida, de maneira mais marcante, no Com palavras ocidentais não se expressa com dia de Pentecostes (...).” clareza a plenitude do Espírito. Com efeito, a palavra grega utilizada no Novo Testamento para o que se traduz O parágrafo 1288 segue dizendo que a partir de por “cheio” no termo “cheio do Espírito” não tem similarentão os Apóstolos seguiram comunicando esta graça a em nossa língua. O vocábulo que mais se aproxima é atodos os que creram em Jesus e que assim esta graça é palavra “pleno”, que vem a ser cheio totalmente. Essaperpetuada na Igreja. dificuldade se dá porque o termo grego “pleró” (πλερο) Conclusivamente podemos dizer que a Doutrina da tem um significado dinâmico. Enquanto para nós ao seIgreja, formada a partir da Tradição Apostólica, passando encher alguma coisa, como um copo de água, porpelos séculos chegou aos nossos dias fundamentando o exemplo, para-se de colocar a água nele assim que estaBatismo no Espírito Santo ou sua Efusão, como queiram. atinge suas bordas, justamente por estar cheio, com a palavra grega “pleró” não é assim. Apesar de ela também designar algo cheio, não se trata de um cheio estático, mas dinâmico, que não pára de se encher, igual a um copo que c) FINALIDADE DO BATISMO NO se coloca sob torneira aberta. Ninguém dirá que o copo ESPÍRITO SANTO não estará cheio quando a água começar a se derramar. O Aparentemente muitas finalidades poderiam copo ao permanecer debaixo da torneira aberta estaráser ligadas ao Batismo no Espírito Santo, porém continuamente cheio, não se esvaziará jamais, exatamentesomente uma poderá ser tida como finalidade real. como quer dizer a palavra “pleró:” cheio derramando. ÉTrata-se da plenitude do Espírito Santo. Jesus nos diferente de um copo que se enche e se coloca sobre abatiza no seu Espírito para, em primeiro lugar, mesa.ficarmos cheios dEle. A partir desta plenitude é que A partir do termo grego “pleró,” entendemos aoutros efeitos são gerados. Falamos aqui dos vontade de Deus para nós, em relação ao Seu Espírito. Eleefeitos visíveis e sensíveis que decorrem deseja que nosso Pentecostes seja perene, ininterrupto. Éimediatamente da Plenitude do Espírito que a sua por isso que Ele nos convida a acolhermos a presença doEfusão nos dá. Espírito Santo como um dom dinâmico, capaz de nos Esta consideração é muito importante, pois realça a fazer experimentar seu transbordamentonecessidade de se buscar a plenitude do Espírito do ininterruptamente.Senhor, que nos alça à categoria de filhos de Altíssimo.21 A finalidade do Batismo no Espírito Santo, como O que faz a diferença entre nós e os demais seres já foi dito, será mais esclarecida no item abaixo.não é simplesmente a posse de uma alma racional, se bemque isso é muito importante. Somos testemunhas dequantidade infinita de pessoas inteligentes que têm d) FRUTOS DO BATISMO NO ESPÍRITOdegradado seus relacionamentos interpessoais a níveis SANTOinfra-humanos. Aqui, mais uma vez, ressalta-se a Quem aceita o Batismo no Espírito Santo énecessidade da plenitude do Espírito Santo para que o plenificado por Ele e torna-se apto a produzir seus frutos.homem possa atingir a sua maturidade, “até que todos Assim, desde São Paulo,23 é conhecida a linguagemtenhamos chegado à unidade da fé e do “frutos do Espírito”. A chave de entendimento é simples,conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o mas é bom mencioná-la. Ei-la: o Batismo no Espíritoestado de homem feito, a estatura da maturidade de Santo leva à sua plenitude; esta produz os frutos. AssimCristo. Para que não continuemos crianças ao sabor sabemos que os frutos do Espírito Santo decorrem de suadas ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, plenitude em nosso ser, exceto um, que é o próprioao capricho da malignidade dos homens e de seus Espírito que recebemos por meio do Batismo.artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da A quem não é batizado o primeiro fruto do Batismo é o próprio Dom do Espírito Santo. Mas nos dias atuais, para os católicos que já são batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, portanto já portadores21 "A todos aqueles que o receberam, aos que crêem no do Dom do Espírito, o primeiro fruto da Efusão tem sidoseu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de o “despertar” deste Dom, ou como alguns preferem dizer,Deus, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de a sua renovação. Esta Efusão põe em operação a opusDeus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um operantis (a parte que o homem deve fazer para a eficáciaespírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas sacramental) em relação ao Sacramento do Batismo, arecebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! qual que estava em parte somente “ligada;” estava "exPai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito deque somos filhos de Deus" (Jo 1,12; Rm 8,14-16; Lc 22 Cf. Ef 4, 13-1524,49; At 1,8). 23 Cf. Gal 5,22-23
  • 14. 14opere operantis", pois dependia de alguma ação ou proporciona, a começar da plenitude do próprio Espírito,qualidade humana para ter eficácia. Em Deus, a partir de passando pelas manifestações de carismas e chegando àDeus, todo Sacramento já nasce plenamente eficaz e apto conversão, que impulsiona o crente cada vez mais para apara produzir os frutos a que se destina. Da parte do santidade de vida.homem, contudo, não é assim. Pode haver inúmeros Mas tudo isso ocorre após a plenitude do Espíritoobstáculos humanos a impedir a operação da graça. O Santo, que se obtém por meio de sua Efusão. A Efusão éBatismo também está sujeito a estas mazelas do homem. aceita mediante a fé. É por isso que um adulto que foiMuitos são batizados, mas sequer conseguem vislumbrar batizado quando criança, no momento em que crer emuma vida digna de filhos de Deus. Com a efusão do Jesus basta acolher o Batismo no Espírito Santo para terEspírito Santo que temos experimentado, o nosso Batismo os seus frutos. Acolhendo o seu Batismo, o resto é com osacramental tem deixado de ser, para a nossa vida, Espírito Santo.somente uma promessa, um presente em potencial, paraser alçado ao grau de Dom ativo que libera em nós as Assim, podemos elencar, a título de exemplo e degraças que nos pertenciam desde o tempo do nosso lembrança do que já foi dito em outros capítulos, osprecioso Sacramento Batismal. seguintes frutos do Batismo no Espírito Santo: o próprio De outra parte, todos os frutos mencionados no Espírito Santo,25 como Dom ativo, a vivência da filiaçãocapítulo sobre a espiritualidade, não são outra coisa senão divina, a conversão, a caridade e seus efeitos, a vida emautênticos frutos do Batismo no Espírito Santo. comunidade. Destes consideremos a importância da vivência da filiação divina. Para entender melhor esta idéia tomemos a noçãode sacramento “ligado” que o Frei Raniero Em primeira João 3,1, nossa filiação divina éCantalamessa,24 pregador da Casa Papal, nos traz. Ele se afirmada categoricamente por estas palavras: “Consideraibaseia na teologia católica que adota a idéia de com que amor nos amou o Pai, para que sejamossacramento lícito e válido, porém “ligado”. O sacramento considerados filhos de Deus. E nós o somos de fato”.é dito “ligado” quando ministrado validamente, mas seus Em João 1,12 esta idéia é estendida pelofrutos não são usufruídos por falta do implemento de Testemunho do Evangelista. Ao falar do Verbo ele diz:alguma condição. O Sacramento, com esta característica,é uma graça em potencial, à espera de que a condição se “Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem norealize. seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”. É óbvio que estamos falando de condiçõeshumanas, pois da parte de Deus o sacramento já nasce Pela fé sabemos que somos filhos de Deus de fato.eficaz. Sabemos também que Deus nos dá o poder de sermos seus filhos. Mas que poder é este? Este é o poder do Ainda para esclarecer essas idéias um pouco mais,lembremos a conexão do Batismo no Espírito Santo com Espírito Santo que recebemos em nosso batismo, “poiso Batismo Sacramental. No ensinamento teológico todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus sãoreconhece-se que para inúmeros católicos o batismo é um filhos de Deus)” (Rm 8, 14). Aqui se vê uma vez mais asacramento em parte apenas “ligado”. De fato, Deus, por importância da plenitude do Espírito Santo, porque é pormeio de um agir conhecido por opus operantum, faz gerar meio dela que seremos conduzidos por Ele, que teremos aos efeitos que dependem exclusivamente da graça divina. Vida no Espírito.26 Existiria algum fruto, alguma dádiva,Isto significa que desde o sagrado instante em que se alguma graça maior do que a filiação divina? a filiaçãoministra o Batismo, ainda que o batizado seja uma divina vivida a partir da vida terrena?criança, os pecados anteriores são remidos, as virtudesteologais da fé, da esperança e da caridade já sãoconcedidas e a filiação divina já se opera, tudo isso pelaeficácia da ação do Espírito Santo. Mas a parte do homem e) JESUS, O BATIZADORtambém é necessária, embora não se revista da Uma verdade bíblica é que Jesus é aquele queimportância da parte de Deus. Essa parte humana se batiza no Espírito Santo.27 Ele próprio disse que mandariachama opus operantis, isto é, obra a realizar. É aquilo que o seu Espírito para os seus.28 Entretanto também noo homem precisa ainda fazer. Evangelho Ele aparece dizendo: “E eu rogarei ao Pai, e Em que consiste esta obra do homem? Ainda ele vos dará outro Paráclito)” (Jo 14, 16). E mais:segundo o pregador papal, que ensina embasado na “...quanto mais vosso Pai celestial dará o EspíritoDoutrina da Igreja, a qual remonta ao tempo dos SantosPadres, que a parte humana se resume na fé que torna o Santo aos que lho pedirem”. Segundo ainda obatizado apto a acolher Nosso Senhor Jesus Cristo, bem testemunho de João, Jesus disse que o Espírito Santocomo o introduz no discipulado do Mestre. Agora estamos em condições de entender melhor 25 ALDAY, Salvador Carrillo. Op.cit., página 31.os frutos sensíveis que o Batismo no Espírito Santo nos 26 Catec. 169924 CANTALAMESSA, Raniero. A Poderosa Unção 27 Cf. Mt 3,11b; Mc 1,8; Lc 3,16; Jo 1,33do Espírito Santo, 1996. p. 41 28 Cf. Lc 24,49
  • 15. 15 29 30procede do Pai. Com base nestas revelações a Igreja, ama porque Ele é amor, que Ele é apaixonado por nósdesde os primeiros séculos, ensinou que o Espírito porque somos seus filhos e sua natureza é amor,procede do Pai e do Filho, porque ambos podem no-lo abriremos nosso coração para receber tudo o que Eledar. quiser nos dar, por mais contraditório que seja perante nossa mentalidade mundana. Mais ainda: uma vez que o Espírito Santo é Deus,podemos pedir por seu batismo diretamente a Ele. E isso a E se realmente existe algum presente, algum bem,Igreja sempre fez. algum Dom, que Deus deseja nos dar já nesta vida terrena é o seu Espírito, porque, como já dissemos antes, o Com base nestas considerações não vejo motivo Espírito Santo é o poder de Deus para gerar filhos parapara inquietação sobre quem nos batiza no Espírito Santo, Ele. Jesus encabeçou a lista desta geração comopois de qualquer das Pessoas da Santíssima Trindade aquem o pedirmos, crendo em Jesus, com certeza o primogênito de uma multidão de irmãos,31 agora é a nossareceberemos. vez. Uma solução prática seria seguir o próprio Vejamos algumas passagens bíblicas quecoração, que se move segundo o momento espiritual que demonstram esse desejo de Deus.se vive, no que toca à intimidade com a Santíssima Um dia, quando o povo de Israel se tornara umTrindade. Lembrando o que se disse no capítulo sobre a fardo muito pesado para Moisés, ele foi se queixar aoespiritualidade da Renovação, quando se analisou o Senhor. Deus se compadeceu dele e mandou queaspecto Trinitário de nossa espiritualidade, dissemos que escolhesse setenta anciãos de autoridade junto ao povo.conforme o estágio espiritual que a pessoa está vivendo, Ordenou que os escolhidos fossem para a Tenda deora se liga mais ao Pai, ora ao Filho, ora ao Espírito Reunião a fim de receberem do mesmo Espírito queSanto, até que isto se equilibre numa intimidade conduzia o servo Moisés. Estes anciãos seriam seusigualitária. Assim, quem se sentir mais íntimo do Pai, colaboradores na árdua missão de servir o povo eleito.peça a Ele o seu Batismo; quem se sentir mais ligado aoFilho, pode pedir-lhe o Espírito Santo; quem estiver mais Cumprida a ordem, todos receberam o Espíritoligado ao Espírito Santo, clame por Ele; enfim, quem se Santo e começaram a profetizar. Entretanto dois dosrelacionar equilibradamente com as Pessoas da Santíssima escolhidos não atenderam à ordem do Senhor,Trindade, peça, então, a qualquer delas, ou a todas, como permanecendo no Acampamento. Porém, mesmo assim,Deus Trino, a desejada Efusão. Em qualquer destas profetizavam à vista de todo o povo. Um jovem aosituações com certeza seremos batizados no Espírito presenciar este fato correu à Tenda para noticiá-lo aSanto. Moisés. Ao ouvir o relato daquele jovem, Josué, zeloso da autoridade de Moisés, expressou o seu desejo de ver os dois repreendidos. Graças a Deus o dócil servo Moisés não os admoestou. Ao invés disso, proclamou uma linda f) QUEM PODE SER BATIZADO NO profecia com estas palavras: ESPÍRITO SANTO “Por que és tão zeloso por mim? Prouvera a Nossa mentalidade cultural nos obriga a Deus que todo o povo do Senhor profetizasse, e quemerecer as coisas boas que a vida oferece. Umacriança quando erra não encontra compreensão, é o Senhor lhe desse o seu espírito!” (Nm 11, 29)castigada. Quando ela deseja algo bom, é-lhe Josué não conseguia ver a graça do Espírito Santooferecida uma barganha: “Se você se comportar que recaíra efusivamente sobre os anciãos. Ele via abem, irá à casa dos primos, ganhará uma bola, um autoridade profética de Moisés conspurcada. Para ele ossorvete”. Vivemos uma espécie de “cultura do que haviam permanecido no acampamento erammerecimento”. Esta mentalidade entrou em nossa pecadores desobedientes e não mereciam profetizar e nemcatequese há séculos. Já nem percebemos sua poderiam ter recebido do Espírito que animava Moisés.nocividade para o nosso relacionamento com Deus. Então este é o desejo de Deus: que todo o seu povo É também por causa desta forma de pensar que profetize. Mas vemos também neste episódio que Ele deuincontável quantidade de pessoas jamais acreditaram que o Espírito Santo a todos os escolhidos, incluindo aquelespodem experimentar o amor de Deus. Acreditam que por que, aos olhos dos homens, não o mereciam.serem pecadoras não o merecem. Quem é prisioneirodesta torção cultural deve buscar ajuda, pois com certeza Noutra época o Senhor disse:não deve estar conseguindo sequer pedir a Deus a cura de “Depois disso, acontecerá que derramarei ouma simples dor de cabeça. Tudo por acreditar que nãomerece. meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão De fato, confrontando nossos pecados com a sonhos, e vossos jovens terão visões. Naqueles dias,santidade de Deus, ninguém se verá merecedor de graçaalguma. Mas, por outro lado, se aceitarmos que Deus nos 30 Cf. 1ª Jo 4,1629 Cf. Jo 15,26 31 Cf. Rm 8,29
  • 16. 16 derramarei também o meu Espírito sobre os Se o Espírito Santo é para todos, existiria escravos e as escravas ” (Joel 3, 1-3). alguma condição para o seu Batismo? Naturalmente que sim. Existe a parte do homem a ser feita. No tempo desta profecia as mulheres e os filhos Vamos a ela.não tinham valor social para a mentalidade da época. Osescravos, menos ainda. E as escravas, muito menos. Mas Em João 1,12 “a todos aqueles que o (o Verbo,o Senhor é claro ao expressar o seu desejo: o seu Espírito Jesus, acréscimo do autor) receberam, aos que crêem noé para “todo ser vivo”. Ao Senhor não importa a seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos decondição da pessoa. O Espírito Santo é destinado a todos. Deus”. Romanos 8,14-16 nos esclarece que este poder Enfim chegou a vez de Jesus, a Palavra Viva do que nos faz filhos de Deus é o Espírito Santo. Em AtosPai, dizer a quem Deus deseja dar o Espírito Santo. E Ele encontramos: “Pedro lhes respondeu: Arrependei-vos edisse assim: cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas Espírito Santo" (At 2,38). coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem Assim, de forma direta e pessoal, temos as ” (Lc 11, 13). seguintes condições para a Efusão do Espírito Santo: crer em Jesus33, converter-se, batizar-se34 e receber Jesus. Então vemos mais uma vez que Deus não desejaexcluir ninguém da graça de receber o seu Espírito. Qual seria a utilidade dessas condições, já que o Espírito Santo é para todos? Ao refletir sobre isso só Este desejo do Pai foi recolhido pela Doutrina da encontramos uma utilidade digna de nota: é a abertura deIgreja. Lemos em nosso catecismo a seguinte formulação: coração para receber a graça de Deus. O Pai não força “Ora, esta plenitude do Espírito ninguém a receber seus dons, por isso, para recebê-los, é Santo não devia ser apenas a do necessário aceitá-los. E esta aceitação deve ser sincera, Messias; devia ser comunicada a todo o pois sabemos como Deus abomina a hipocrisia. povo messiânico” (catec. , 1287). Caso houvesse algum jeito de alguém abrir o coração para o Batismo no Espírito Santo sem as Gostaria de chamar a atenção para uma palavraque foi empregada em todas as passagens acima. Trata-se condições acima, certamente o Pai, que é amor, lho daria.do pronome TODO. Três vezes ele veio literalmente e Mas não há nenhum jeito de se abrir à graça de Deus que não seja por estas condições. Elas são os chaveiros queuma, implicitamente. Em Números foi dito: “todo o povo nos confeccionam a chave. A chave é o pedido. Sem crerdo Senhor”; Em Joel: “todo ser vivo”; Em Lucas: “aos em Jesus nada lhe pediremos. Conversão é alteração deque”, significando “todos os que”; No Catecismo: “todo rota, mudança de direção. Quem está sob a direção doo povo messiânico”. Não há dúvida, portanto, que mundo, se não se voltar para a direção de Jesus, tambémDeus deseja que todos os homens sejam batizados no nada lhe pedirá. O batismo aqui significa aceitar o perdãoEspírito Santo. dos pecados. A recusa do perdão dos pecados foi o que causou o suicídio de Judas Iscariotes. Ninguém que rejeita Aqui não se indaga sobre a santidade ou o a graça do perdão terá o coração aberto para o Espíritomerecimento de alguém. O Espírito Santo vem para todos. Santo. Por fim, quem não recebe Jesus, não recebe o Pai eDeus não espera que o pecador se santifique para dar-lhe permanecerá hermeticamente fechado para o Dom doo Seu Espírito; o Espírito é que santifica o pecador. Deus Espírito.não aguarda que o homem se salve para plenificá-lo doEspírito Santo; o pecador é tocado pelo Espírito para ir a Sem estas condições seríamos presas fáceis doJesus, o Salvador.32 pecado de Simão, o Mago.35 Este homem acreditou em Jesus, O recebeu e foi batizado em Seu Nome. Contudo, Todo é um pronome indefinido. Isto significa que não saiu da direção do mundo, não se converteu, eo Espírito Santo não vem para pessoas determinadas, ofereceu dinheiro para comprar o Dom do Espírito Santo.“iluminadas” por algum dom pessoal ou por alguma Por isso foi-lhe negada qualquer possibilidade deespécie de merecimento particular. Não. A ninguém o participar do ministério dos Apóstolos.Senhor definiu aprioristicamente para receber o EspíritoSanto. Ele é muito claro a este respeito. O Espírito Santo Cumpridas estas condições estaremos aptos aé para todos; até para Saulo, até para Agostinho, até para acionar a chave do Batismo no Espírito Santo. MasMadalena, até para Zaqueu... até para mim, você e eu ninguém deve se preocupar em demasia com as condiçõespodemos dizer. Que bom saber disso! Amém. acima apresentadas, como se desejasse ter certeza de já tê- las cumprido ou não. Quem isto fizer cairá no outro extremo, isto é, na exigência da santidade para merecer o g) CONDIÇÕES PARA SER BATIZADO NO Espírito Santo. O que se pede aqui é que se creia em ESPÍRITO SANTO 33 Cf. Catec. 1287 34 Cf. Catec. 128732 Cf. Catec. 683. 35 Cf. At 8,9-23
  • 17. 17Jesus, que se receba Jesus, que se volte para Ele e que se próprio coração e não descobrir nele a fé; ao olhar para siaceite a remissão dos pecados. e não ver nenhum pouquinho de conversão; se questionar o próprio Batismo; se tentar aceitar Jesus e não conseguir; mesmo assim tenha ânimo. Não seja seu próprio carrasco. h) CHAVE DO BATISMO NO ESPÍRITO Lance as “redes” na Palavra do Mestre36 e peça o seu SANTO Espírito. Ele garante que o Pai no-lo dará. Confiemos em sua grande misericórdia.37 A chave que mencionamos está no capítulo onzedo Livro de Lucas. Precisamente no versículo treze. Notem como Jesus coloca o exemplo de um pai deLeiamo-lo diretamente do testemunho dos Apóstolos: família pedindo comida para um amigo. Não pedia para “Um dia, num certo lugar, estava Jesus a 36 Cf. Lc 5,5 rezar. Terminando a oração, disse-lhe um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a rezar, como 37 Testemunho do autor: “Certa vez, no ano de 1.984, também João ensinou a seus discípulos. Disse-lhes quando eu participava de uma seita de origem japonesa, ele, então: Quando orardes, dizei: Pai, santificado chamada Seicho-no-ie, vivi alguns anos de muita confusão. Naquela época eu participava dos cultos da seja o vosso nome; venha o vosso Reino; dai-nos seita aos domingos de manhã, nas tardes dos mesmos hoje o pão necessário ao nosso sustento; perdoai- domingos ia às missas. Também na mesma época nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos coordenava uma equipe de vigília de um encontro de àqueles que nos ofenderam; e não nos deixeis cair casais. Ainda devorava literatura das várias religiões em tentação. orientais e do espiritismo, além de flertar com a Rosa- Cruz e desejar ser maçom. Em seguida, ele continuou: Se alguém de Era realmente uma grande confusão, vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite, e principalmente porque a Seicho-no-ie me bombardeava lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, pois um para me convencer de que ela portava a “verdade da vida” amigo meu acaba de chegar à minha casa, de uma e que todas as religiões “eram” boas e “vinham” de Deus. viagem, e não tenho nada para lhe oferecer; e se ele Por aquele tempo, em uma tarde quando eu lia o responder lá de dentro: Não me incomodes; a porta Evangelho de João, parei no capítulo dezesseis, onde diz já está fechada, meus filhos e eu estamos deitados; que “quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, não posso levantar-me para te dar os pães; eu vos ensinar-vos-á toda a verdade (versículo 13).” Naquele digo: no caso de não se levantar para lhe dar os momento pensei que se Deus existisse estaria mais pães por ser seu amigo, certamente por causa da interessado em me convencer da verdade do que eu sua importunação se levantará e lhe dará quantos mesmo. Então ajoelhei e clamei pelo Espírito Santo do pães necessitar. jeito que pude. Estava em minha casa, fechado em um quarto. Pedi-lhe que me mostrasse qual era a verdade; E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e onde estava a verdade. achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele Orei e esqueci que havia orado. Mas Deus não se que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que esqueceu. bater, se lhe abrirá. Se um filho pedir um pão, qual Alguns meses após, ao sair de uma missa, recebi o pai entre vós lhe dará uma pedra? Se ele pedir um panfleto no qual se convidava para o Encontro um peixe, acaso lhe dará uma serpente? Ou se lhe Regional de Oração da Renovação Carismática em pedir um ovo, dar-lhe-á porventura um escorpião? Goiânia. Sem perceber a mão de Deus, imediatamente Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a senti-me pessoalmente convidado. E fui. vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará O encontro foi no primeiro fim de semana de o Espírito Santo aos que lho pedirem"(Lc 11,1-13). agosto do mesmo ano (1.984) em que fiz a oração ao Espírito Santo. Fui sexta-feira e sábado. No domingo de Vários aspectos deste trecho sagrado nos atraem. manhã havia o culto da Seicho-no-ie, ao qual eu nãoInicialmente vemos Jesus ensinando aos discípulos como faltava por três anos e meio. Até hoje não me lembro seorar e o que pedir. Em seguida não se pode deixar de pensei no dito culto naquela manhã de domingo. Só seinotar que o Mestre está ensinando que se deve pedir o que fui para o encontro de Jesus, isto é, para o EncontrãoEspírito Santo, especificamente. Completa o ensinamento da Renovação, como é conhecido até hoje. O Espíritoinstruindo quando pedi-lo, como e até quando. Por fim, Santo me levou aonde eu pude encontrar a Verdade e meencerra a lição dizendo que para ter o Espírito Santo basta batizou. Como católico desde que nasci, certamente estivepedir. em inúmeros lugares onde a Verdade estava, mas não a É bastante consoladora esta promessa de Jesus: havia reconhecido antes. Porém naquele fim de semanabasta pedir. Pedir é a chave. “vosso Pai celestial dará o feliz, A Reconheci e A aceitei. Assim, por umaEspírito Santo aos que lho pedirem”. Ao examinar o intervenção do Espírito Santo, fui salvo de todas as armadilhas e artimanhas do inimigo. Amém!
  • 18. 18si, mas mesmo assim precisava urgentemente da comida que esta chave deve ser acionada sempre que nãopara alimentar o seu hóspede. Se não por caridade, pelo estivermos vivendo como filhos de Deus, e também quemenos para cumprir o dever da hospitalidade. não se deve cessar de acioná-la enquanto não se vir pleno do Espírito. Vimos ainda que se pode e deve-se acioná-la A atitude deste anfitrião é a atitude que Deus quantas vezes necessitar e que ao acioná-la não se deveespera de nós ao pedir o seu Espírito. Aquele homem não ter vergonha, medo ou preconceito das conseqüências,teve vergonha e nem medo das conseqüências de gritar aovizinho em altas horas da madrugada. Ele tinha certeza mesmo que nos chamem de bêbados,41 sob pena deque precisava de pão e pelo pão enfrentou o preconceito, fechar-se o coração. Coração fechado é tudo que se deveo orgulho, o apego à auto-imagem e os venceu. Enfrentou evitar no relacionamento com o Espírito Santo.até as negativas do vizinho, mas perseverante as venceu Ah! Mais uma coisa: para permanecer cheio dotambém. Espírito Santo é necessário cultivar a santidade. Com o Todos sabem quando precisam de comida. É Batismo O recebemos, mas não basta somente recebê-Lo.quando se sente fome. Todos precisam aprender quando É necessário que permaneçamos nEle e Ele em nós. Masestão vazios do Espírito Santo, para pedi-lo. De fato, isto é assunto para outro estudo. Até lá.mesmo sem querer vamos contristando o Espírito Santoaté extinguir38 sua presença manifesta em nós. Issoacontece por causa de nossos pecados.39 Quando estamos 2. PRÁTICA DOS CARISMAS42vazios da presença do Espírito ficamos mornos, nossas O dinamismo da efusão do Espírito de Deus naatividades religiosas tornam-se pesadas, substituímos os Renovação se manifesta em inúmeros frutos. Um deleslouvores pelas lamúrias, o perdão passa a ser um esforço compõem a trilogia que melhor nos identifica. Estamossobre-humano, nossa vontade de orar se perde; perdemos falando dos carismas; precisamente, da prática doso entusiasmo, o ardor; ou, na melhor das hipóteses, carismas. Não trataremos simplesmente da aceitação dosfazemos tudo isso com demasiado esforço. Estes são dons do Espírito, mas sim de uma prática sensível,somente alguns sinais. palpável, efetiva, real. Quantas vezes podemos pedir o Batismo no A identificação da Renovação pela prática dosEspírito Santo? Respondemos a esta pergunta com outras carismas é tão veemente que dispensa maiores análises.duas: quantas vezes devemos alimentar o nosso corpo? Basta lembrar que o próprio nome com o qual nosQuantas vezes devemos pedir o Espírito Santo? A Sagrada designam, “carismáticos”, advém dessa prática.Escritura nos mostra os Apóstolos recebendo o EspíritoSanto mais de uma vez. Em algumas a presença do De fato, reforçando o que já foi dito acima,Espírito está implícita; noutras ela vem explicitamente.40 lembremos que o ardor missionário, outras espiritualidades o possuem. Igualmente as obras sociais, a Até quando se deve pedir o Espírito Santo? Até conscientização política, o amor fraterno, o surgimento dequando o pai de família da história de Jesus, narrada por pequenas comunidades. O mesmo se diga da aceitaçãoLucas e transcrita acima, pediu pão? Pede-se comida até dos carismas. Deve ser dificílimo encontrar um só cristãorecebê-la. Pede-se o Espírito Santo até encharcar-se dEle. de outra espiritualidade que tenha coragem de dizer queComo se sabe que se está cheio do Espírito Santo? não aceita os carismas, que não acredita neles. Já, porQuando Ele vem a nós, de alguma forma somos tocados. outro lado, conheço muitos que não os praticam, nosPrecisamos aprender a perceber seus toques. Você se moldes bíblicos e conforme a Tradição. Para muitos oslembra daquele cântico dos primeiros anos da carismas existem... na Bíblia, na prática não. É como seRenovação? Aquele que diz assim: “Quando o Espírito do eles tivessem de ficar quietinhos no seu canto, dentro daSenhor se move em mim eu rezo como o Rei Davi... Eu Bíblia, para não incomodar. Agem como se os carismas,canto... eu danço... eu luto... eu venço... eu louvo como o ao lançarem seus galhos na vida eclesial deixassem de serRei Davi?” verdadeiros, deixassem de ser do Espírito Santo. Quando o Espírito do Senhor nos plenifica, Por isso podemos concluir este pensamentovencemos a tristeza, a mornidão, a apatia, vivemos como dizendo que a espiritualidade da Renovação Pentecostalfilhos de Deus. Para entender isso basta lançar os olhos Católica é profundamente marcada pelos carismas, tantopara os cristãos que viam seus entes queridos sendo que em muitos lugares do mundo ela é conhecida porassassinados pelos perseguidores da Igreja, sabendo ser Renovação Carismática Católica. A manifestação doseles os próximos, mas mesmo assim permaneciam carismas atesta o nosso batismo no Espírito Santo, logo,cantando louvores que confundiam seus algozes. podemos afirmar que o Batismo no Espírito Santo, acompanhado das manifestações dos sinais do Então neste item vimos que o Senhor nos deu umachave para “acionarmos” as comportas de Deus a fim desaciarmos nossa sede com sua Água Viva. Vimos também 41 Cf. At 2,13 42 A prática dos carismas é também um dos38 Cf. 1 Ts 5,12-22 objetivos relacionados nos Estatutos do Serviço39 Cf. Ef 4,17-32 Internacional da Renovação Carismática Católica40 Cf. Mt 10,1; Lc 10,1-19; Jo 20,22; At 2,1-4; 4,29- (ICCRS), Cf. ALDAY, Salvador Carrillo. Op. cit.,31 página 10.
  • 19. 19 43Pentecostes prometidos por Jesus é, com certeza, nossaidentidade. O Senhor ao renovar o nosso batismo em seuEspírito, nos impele a assumi-lo com todos os seusefeitos, inclusive os carismas. Devido à grande variedade dos carismas, umestudo específico lhes será dedicado, por meio de umaapostila própria. Por hora encerramos o seu assunto. 3. COMUNIDADES O terceiro elemento básico de nossa identidade, avivência comunitária, existe também em outrosmovimentos. Há muito tempo que os focolarinos levamavante o seu projeto de comunhão de vida. Também oscebianos lutam há dezenas de anos por suas comunidadeseclesiais de base. O que existe de novo em nossascomunidades é que são carismáticas e têm nascidoespontaneamente, conforme o sopro do Espírito. Entre nós existem os grupos de oração, cujoselementos fundamentais os caracterizam comoverdadeiras comunidades eclesiais. Outras duas espéciesde comunidades ainda existem. Uma, reúne pessoas quese comprometem umas com as outras com mais arrojo doque nos grupos de oração. Partilham vários aspectos davida com mais profundidade. Ajudam-se mutuamente emvárias situações do viver humano, inclusive no financeiro,caso seja necessário. Estas são as comunidades de aliança. A outra espécie de comunidade, denominadacomunidade de vida, que tem nascido a partir deexperiências pneumatológicas no seio da Renovação,podem se ligar à sua estrutura ou não. Caso optem porvida independente, conservam em as graças pentecostais. Nas comunidades de vida tudo é partilhado. Osbens pertencem a todos, comumente, incluindo o dinheiro. As comunidades, oportunamente, também terãoinvestigação própria. 4. CONCLUSÃO Neste tema demonstrou-se que o batismo noEspírito Santo sempre esteve presente na Igreja. Está bemfundamentado na Sagrada Escritura, na Sagrada Tradiçãoe no Magistério. É uma graça atual, para os nossos dias,como o foi sempre. Milhares de pessoas o recebem dentroda Igreja Católica. Em nossos dias já existe literaturacatólica produzida por bons teólogos investigando estefenômeno. Assim podemos aceitá-lo, pedi-lo, vivê-lo,propagá-lo, destemidamente e com fé.Amém. Deus os abençoe. “Intensificai as vossasinvocações e súplicas. Orai também por mim” (Ef 6,18-19)43 Cf. Mc 16,17-18
  • 20. 20. RESUMO A identidade da Renovação é composta pelo Batismo no Espírito Santo, pela prática dos carismas epela geração de comunidades. Destes elementos analisamos somente o Batismo no Espírito Santo, deixando os outros paraposteriores estudos. Recordemos, portanto, o que o batismo no Espírito Santo não é. “A Igreja Primitiva utilizava o Batismono Espírito Santo para a iniciação cristã. O emprego desta frase, hoje, para o despertar mais tardio da graçasacramental original não significa, de modo algum, um segundo Batismo.” Então é isto: definitivamente oBatismo no Espírito Santo não pode ser confundido com o Sacramento do Batismo ministrado com ritopróprio pela Igreja, pois não são a mesma coisa. O termo Batismo no Espírito Santo designa o fenômeno espiritual que consiste no ato de uma pessoaacolher a divina graça de ser colocada no coração da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade por meio daação do Filho. Enquanto o Batismo designa o movimento de Jesus ao introduzir uma pessoa crente no Riode Água Viva, a Efusão leva à idéia de que o crente é plenificado pelo Espírito Santo que a ele vem,novamente por um ato de Jesus que O envia, que O derrama sobre quem crê. Encontramos fundamentos bíblicos para o Batismo no Espírito Santo desde o Velho Testamento (Nm11,1-30; Jl 3,1-2), que perpassam o Novo (Mt 3,11; Mc 1,8; Lc 3,16; 24,49; Jo 1,33; 14,15-16.26; 15,26;16,7-15; Jo 20, 22 ; At 1,8; 2,1-11; 4,30-31; 10,44-46) e atinge em cheio a Patrística, no ensinamento depadres como Inácio (†110) e Policarpo (†155) que instruíam os catecúmenos sobre o batismo jápressupondo a graça da Efusão do Espírito. Quando catequizavam os neoconvertidos os instruíam sobre oscarismas do Espírito Santo. Outros ainda podemos lembrar neste momento. Cirilo de Jerusalém (c. 315-387), que em vinte e três ensinos que ministrou sobre o Batismo, entendeu “que a Igreja de Jerusalém,como todas as outras, situa-se em uma sucessão carismática, uma história do Espírito iniciadacom Moisés. O Espírito é uma ‘nova espécie de água’:” Santo Tomás também ensinou que noBatismo no EspíritoSanto há um novo envio do Espírito e que a graça passa a operar de um modo absolutamente novo. A respeito da presença do Espírito Santo, em manifestações carismáticas, o Padre Domenico Grassoresume a doutrina encontrada na Igreja, desde os Apóstolos até o final do Século Vinte. Tudo comprovandoa efusão do Espírito Santo., desde o Apóstolo Paulo até nossos dias, ininterruptamente: Mas algo muito bom e reconfortante vem no número 1287 do Catecismo da Igreja Católica com asseguintes palavras: “Ora, esta plenitude do Espírito não devia ser apenas a do Messias; devia ser comunicada a todo o povo messiânico. Por várias vezes Cristo prometeu esta efusão do Espírito, promessa que realizou primeiramente no dia da Páscoa (Jo 20,22) e em seguida, de maneira mais marcante, no dia de Pentecostes (...)”. Portanto, com base na doutrina da Igreja só nos resta uma conclusão lógica: oBatismo no Espírito Santo é liturgia pública e é normativo. Justino Mártir, Orígenes,Dídimo, o Cego, e Cirilo de Jerusalém o tinham por sinônimo de iniciação cristã. Hilário dePoitiers, João Crisóstomo, João de Apaméia, Filoxeno de Mabugo, Severo de Antioquia,José de Hazaia e ainda Cirilo de Jerusalém, consideravam o recebimento de carismasparte integrante da iniciação cristã: Ponto importante a destacar neste resumo é a finalidade do Batismo no EspíritoSanto. Esta finalidade é nos plenificar do Espírito Santo, pois tudo mais em nossa vidadecorre desta plenitude. Não é por outro motivo que o Catecismo da Igreja Católica nosconvoca a viver no Espírito.44 Esta plenitude gera inúmeros frutos, como o despertar doDom do Espírito recebido no Batismo, a manifestação de carismas, a vivência da filiação44 Cf. Catec.1699
  • 21. 21divina, a vida em comunidade, a conversão, a caridade e seus frutos e todos os demaisfrutos mencionados no capítulo sobre a espiritualidade da Renovação. Falta ainda relembrar que Jesus é quem nos batiza no Espírito Santo, contudo,devemos levar em consideração que a Santíssima Trindade é Uma, portanto, podemospedir o Batismo no Espírito Santo ao Pai, ao Filho e ao próprio Espírito. A Santíssima Trindade batiza a todos que pedirem, quantas vezes pedirem. A chave do Batismo no Espírito Santoé o pedido que se faz: “... O Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem.” (Lc 11,13). CAPÍTULO SEGUNDO OFENSIVA NACIONAL DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA “Somos obra sua, criados em Jesus Cristo Assim, experimentando a realidade da existência para as boas ações, que Deus de antemão preparou de Deus, tiveram forças para se deixarem conduzir pelo Espírito Santo. O resultado desta dinâmica pode ser para que nós as praticássemos” (Ef 2,10). constatado no Livro dos Atos dos Apóstolos com muita Nosso Deus não ata o homem a uma cadeia de clareza, como naquele dia em que Pedro orava, enquantofatalismo, entretanto planeja a sua salvação e o seu bem- esperava que lhe preparassem uma refeição, quandoviver. No plano de salvação existe muito a realizar. Tudo Senhor abriu o seu entendimento com uma visão,já está preparado para nós. Se aceitarmos, Ele nos revelando-lhe que o Evangelho não era só para os judeus,revelará.45 Caso não aceitemos o seu plano, poderemos como ele acreditava e estava praticando.46 Também empreparar outro, ou simplesmente seguir sem nenhum outras passagens de Atos encontramos Jesus intervindo naprojeto. Ele respeitará nossa decisão. Às vezes até missão dos Apóstolos, como é o caso de Paulo em uma deaceitamos o seu plano, mas o executamos à nossa suas missões, que com alguns companheirosmaneira. Ele aceita isso também, todavia nos orienta protagonizaram um episódio narrado em Atos 16,1-10,conforme nossa fé, nosso discernimento e nossa como segue:capacidade auditiva espiritual consigam distinguir suamão misteriosa a nos guiar. “Chegou a Derbe e depois a Listra. Havia ali um discípulo, chamado Timóteo, filho de uma Não é fácil acolher a direção divina em trabalhos judia cristã, mas de pai grego, que gozava de ótimapastorais nem em outras atividades humanas. De imediatoduas dificuldades se impõem. A primeira vem de uma fé reputação junto dos irmãos de Listra e de Icônio.imperfeita que nos impede de ter intimidade com Jesus, Paulo quis que ele fosse em sua companhia. Aopor ser Ele invisível a olhos carnais. A segunda é gerada tomá-lo consigo, circuncidou-o, por causa dospor uma cultura que rejeita qualquer interferência nas judeus daqueles lugares, pois todos sabiam que oliberdades individuais. Imagine agora os efeitos maléficos seu pai era grego. Nas cidades pelas quaisdessas dificuldades em nossa vida, em nossas atividades passavam, ensinavam que observassem as decisõespastorais! Para servir ao Pai em sua Obra é necessáriofazer tudo em nome de Jesus, como se fosse Ele mesmo que haviam sido tomadas pelos apóstolos e anciãosque estivesse fazendo. É que somos seus comissionados. em Jerusalém. Assim as igrejas eram confirmadasEle nos constituiu como seus procuradores. Como alguém na fé, e cresciam em número dia a dia.poderia ser um bom procurador sem seguir fielmente as Atravessando em seguida a Frígia e a província daorientações de quem o envia? Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de Estas dificuldades foram vencidas pelos Apóstolos anunciar a palavra de Deus na (província da)mediante os contatos que tiveram com Jesus Ásia. Ao chegarem aos confins da Mísia,Ressuscitado. Pedro e seus companheiros os tiveram tencionavam seguir para a Bitínia, mas o Espíritofisicamente. Paulo, misticamente, no caminho de de Jesus não o permitiu. Depois de haveremDamasco. atravessado rapidamente a Mísia, desceram a Trôade. De noite, Paulo teve uma visão: um45 Cf. Catec. 66 e 67 46 Cf. At 10, 1-46; 15,7-11
  • 22. 22 macedônio, em pé, diante dele, lhe rogava: Passa à cujas fazendas eram dotadas de terras que Macedônia, e vem em nosso auxílio! Assim que produziam sem adubo. Na época nem se ouvia falar em adubos químicos. Eram terras realmente férteis, teve essa visão, procuramos partir para a próprias para culturas de milho, arroz e feijão, que Macedônia, certos de que Deus nos chamava a exigem do solo umidade e temperaturas próprias de pregar-lhes o Evangelho”. climas tropicais. O Senhor deseja nos orientar e o faz realmente. Os maiores fazendeiros plantavam muitosQuando acatamos suas decisões ”procuramos partir alqueires de arroz. Como sua plantação dependiacertos de que Deus nos chama a pregar o da chuva, era necessário plantar tudo de uma vez,Evangelho”. E quando estamos com Ele nosso trabalho é na melhor temporada da chuva. Com isso a lavoura amadurecia também de uma vez. O arroz, quandoconfirmado por seus sinais,47 da mesma forma que um maduro, se não for colhido no tempo certo perde aoutorgante ratifica os atos do seu procurador. Este é o sua boa qualidade, pois fica quebradiço; “viragrande segredo do êxito dos Apóstolos. No exemplo quirera”, no dizer do sertanejo. Chuva sobre ele?acima os evangelizadores, obedecendo ao Espírito Santo, Nem pensar. Um simples chuvisco ou um serenochegaram a Filipos. Lá conheceram Lídia e sua família. mais forte são suficientes para pô-lo a perder.Lá fundaram uma comunidade que muito agradou aoSenhor. Na época da colheita do arroz todos os recursos financeiros, humanos e tecnológicos – É exatamente neste contexto de acolhimento das havia tecnologia rudimentar: cutelo, banca, veículosboas ações de Deus revelada ao homem que enquadramos de tração animal – eram mobilizados para a messe.a Ofensiva Nacional e também a própria Renovação. E é Quando os recursos próprios eram insuficientes,nesta perspectiva que estudaremos a nossa espiritualidade buscava-se reforço nos arredores.e que agora analisaremos a Ofensiva, pois ela é umadessas boas ações que Deus nos preparou. Nos exemplos acima vimos primeiramente nossa Nação, depois uma diminuta parte dela, se mobilizando e organizando suas forças para realizar uma tarefa. 1. CONCEITO DE OFENSIVA Estes exemplos servem para alargar o NACIONAL conceito de ofensiva, que é um termo emprestado a) Ofensiva da doutrina militar. Na caserna ele significa a ação dos exércitos na qual todas as suas forças agem Esta Ofensiva lembra um fato ocorrido em coordenadamente, cumprindo cada qual sua missãonosso País na década de um mil e novecentos e particular, porém todas sob comando único, comsessenta. Naquela época houve um terrível surto de vista a obter a vitória.varíola. Inúmeras crianças e adultos eramcontaminados. Sofriam horrivelmente. A técnica Nosso inimigo é pior do que aqueles que osmédica ainda era precária. Os doentes podiam exércitos das nações enfrentam. Aliás, nenhumasofrer seqüelas permanentes, inclusive a cegueira. nação tem inimigos humanos verdadeiros. Seus verdadeiros inimigos são o egoísmo e a intolerância, Naquele tempo o governo desenvolveu uma que as fazem destruir impiedosamente milhões deação organizada para debelar a terrível peste. filhos de Deus. Nosso inimigo é o ateísmo queColocou à disposição de todos a vacina, os veículos impede a geração de filhos de Deus48 e ainda gerade transportes, muitos médicos e técnicos de saúde,os recursos financeiros, a máquina administrativa; filhos para o mundo. Se entendêssemos realmentechamou a si o rádio, o jornal, a televisão, as o que isso significa49 sentiríamos cada fibra dorevistas. Com isso mobilizou toda a Nação com um nosso ser se abalar.só objetivo: vencer a varíola. E venceu. Graças a Em face de nossa inércia ante tal inimigo, éDeus. compreensível que os filhos do mundo tenham sido Na época se viam os carros do governo nas mais prudentes do que os filhos da Luz 50 nasruas, nas praças; nas portas das Igrejas, das batalhas infindas ao longo dos séculos.escolas, dos cinemas. Também havia os cartazes, Para vencer este inimigo, que habilmenteos panfletos, os alto-falantes; os avisos dos padres, esconde seu rosto entre os milhões de anônimosdas professoras, das catequistas, os comentários espalhados por este mundo, podendo não estar emdos vizinhos. As cidades viviam impressionadas nenhum lugar, mas também podendo serpela campanha. Logo os colonos também foram onipresente, ocupando casebres e palácios,envolvidos por ela. Pelas estatísticas da época dirigindo cozinhas ou grandes empresas,quase todos, se não todos, foram vacinados. alfabetizando ou promulgando leis, falando por um Outro fato que nossa Ofensiva recorda serelaciona com os fazendeiros de Goiás, aqueles 48 Cf. Jo 1,12 49 Cf. Jo 14,3047 Cf. Mc 16,20 50 Cf. Lc 16,8
  • 23. 23simples telefone ou sendo a voz da imagem 51 infelizmente, existirão. Mas não podemos nos dartelevisiva, devemos nos organizar. Não poderemos ao luxo de perder e perder; perder e perder. Devencer esta verdadeira guerra sem um bom nossa vitória depende a felicidade do mundo. Deplanejamento, acompanhado por uma boa nosso êxito depende a instauração do Reino deexecução. justiça. Em cada pessoa incrédula que existe neste Ao lançar os olhos para a Ofensiva Nacional mundo podemos ver estampada nossa waterloo.da Renovação, nosso coração se enche de Com todas estas considerações, cremos queesperança. Mas precisamos estar atentos, pois já está bem caracterizado que uma ofensiva, paraofensiva exige planejamento meticuloso, no qual se ser realmente o que se propõe a ser, isto é, umaanalisa a situação do próprio exército, considerando ofensiva, deve ser uma ação planejada e executadaas armas disponíveis, o treinamento dos soldados, coordenadamente com vistas a conquistar umas informações, as comunicações, os apoios objetivo, no nosso caso “a salvação de todos osinternos e externos, o terreno onde se desenvolverá homens e do homem todo”.52a ação, a visibilidade, o clima. Analisa-se também oantagonista com os mesmos critérios. A sua execução deverá ser perfeitamente b) Ofensiva nacional da Renovaçãocoordenada, sob pena de derrota. A históriauniversal narra a derrota de um hábil marechal A lavoura de arroz pronta para ser colhida é afrancês, chamado Napoleão Bonaparte. Ele estava messe do agricultor. Se não for colhidaprestes a conquistar a Europa e realizar o sonho de oportunamente a safra se perde; quando muito seráter para si um império semelhante aos mais comida pelos animais selvagens, que não precisamfamosos da humanidade. Planejou suas ações dela. As pessoas sedentas de Deus e ávidas porcomo sempre. Ansiava pelo início da batalha. Cairia salvação são a messe do Senhor; caso não sejamsobre Waterloo como matilha de lobos sobre hoje evangelizadas, o mundo as destruirá, nocoelhos. mínimo as tomará para si e muitas, se não todas, se perderão. Sua estratégia era combater o inimigo por umflanco, empregando uma parte do seu exército, que Lembrando que existe uma messe a serseria comandada por ele em pessoa. Quando o colhida,53 sintetizamos o conceito de Ofensivaexército adversário estivesse envolvido com ele o Nacional como sendo um plano de ação no mínimorestante de suas forças atacaria por outro flanco. inspirado por Deus, no qual todas as suasAssim o inimigo seria colhido entre dois fogos e expressões deverão agir em conjunto, como umfatalmente derrotado. Antes de partir Napoleão corpo orgânico, onde cada uma, cumprindo seuordenou a um general, um dos seus melhores, que mister particular, concorrerá para o bom êxito daaguardasse ordens para o ataque. missão geral que Jesus reservou à Renovação, como expressão da Igreja. Tudo ia bem para Napoleão. O que foraplanejado estava se cumprindo. No momento certoenviou ordens de avançar àquele general que oapoiaria. Mas o mensageiro jamais chegou ao seu 2. OFENSIVA: PLANO DE DEUS PARAdestino. Enquanto Napoleão sustentava o seu A RENOVAÇÃO CARISMÁTICAataque e esperava o apoio planejado, o inesperado A fim de que nossos esforços evangelísticosaconteceu, outro exército o atacou pela retaguarda. não descambem para ações estéreis, para fadigasEle ficou encurralado entre dois exércitos inimigos. inúteis, Deus nos socorre revelando-nos o queO velho ditado “o feitiço virou contra o feiticeiro”recaiu sobre ele. 51 Abrindo um parêntesis, como poderíamos acabar Entrementes, seu general, sem nada saber, com as guerras? Com uma evangelização eficaz.com o seu exército pronto e em ordem de marcha, Mas até que a evangelização surta efeito, o queaguardava as ordens para avançar. Ordens que fazer? Duas coisas, talvez: Primeira: impedir que osjamais chegaram. De onde estava ouvia os ruídos adolescentes cresçam, pois enquanto houver jovensda batalha, mas não podia fazer nada, pois não via que aceitem morrer pelos velhos – que são os quee nem sabia o que estava acontecendo. Por falta de realmente provocam as guerras (velhos nãocoordenação Napoleão foi humilhado. somente em idade) – haverá guerra. Segunda: Não gostaríamos de trilhar os caminhos de enviar para os campos de batalhas, de fuzis emNapoleão. Mas ele pelos menos sofreu somente punho, os generais, sem seus soldados; ou os reis euma derrota temporária. Não discutiremos aqui os presidentes, com seus parlamentos, mas sem seusdeméritos de suas guerras, nem as de outros tantos embaixadores. Que tal? Achou muito radical amarechais que já existiram e que ainda, sugestão? Pode ser. Mas ajuda a pensar. 52 FLORES, José H. Prado. Formação de Discípulos, p. 9 53 Cf. Mt 9,37
  • 24. 24 54fazer. Com essa idéia inicial desejamos inserir ‘completar’ a Revelação definitiva denossa Ofensiva Nacional no contexto da revelação Cristo, mas ajudar a viver dela comprivada. É evidente que este espaço não é mais plenitude em uma determinadaapropriado para estudarmos as implicações época da história. Guiado peloteológicas da revelação privada, mas para melhor Magistério da Igreja, o senso dos fiéisentendimento faremos algumas considerações. sabe discernir e acolher o que nessas Para entendê-la devemos partir da fé. Da fé revelações constitui um apelo autênticona existência de Deus, da confiança no seu amor. A de Cristo ou dos seus santos à Igreja.Sagrada Escritura nos dá certeza de que Ele A fé cristã não pode aceitarsempre revela seu plano aos seus enviados. Foi ‘revelações’ que pretendam ultrapassarassim com Moisés, com Elias e todos os profetas; ou corrigir a Revelação da qual Cristo éfoi assim com os Apóstolos e com certeza deverá a perfeição. Este é o caso de certasser sempre assim, porque Jesus está vivo; religiões não-cristãs e também deressuscitou e permanece o mesmo para toda a certas seitas recentes que seeternidade.55 Se nos tempos apostólicos Ele esteve fundamentam em tais ‘revelações’”.presente na Igreja em sua humanidade e por seuEspírito, se naqueles tempos Ele a assistiu e a Ad. Tanquerey ensina que a “Revelação divinadirigiu,56 haverá de estar desejoso de fazer o em geral é a manifestação sobrenatural, feita por Deus,mesmo hoje, pois nossa santidade e sabedoria não duma verdade oculta. Quando esta manifestação se fazchegaram ao ponto de superar as daqueles que para bem de toda a Igreja, é uma revelação pública;conviveram com o Ressuscitado, nem serão quando se faz para utilidade particular dos que por ela sãosuficientes para nos fazer prescindir de sua favorecidos, chama-se revelação privada.57assistência. Ao inverso, necessitamos dela tanto ou Naturalmente que lecionando Teologiamais que antes, e não só intelectual, mas também Ascética e Mística, Tanquerey circunscreveu ovisivelmente, com sinais. conceito de revelação privada aos limites do seu Outra consideração que devemos fazer é trabalho, mas mesmo assim seus princípiossobre o ensinamento da Igreja. Quando lançamos fundamentais foram expressos, e servem paranosso olhar sobre a Igreja, vemos que ela, Mãe e identificar uma revelação privada em qualquerMestra, não deseja nos desanimar quando vigia o circunstância. São eles: a revelação é feita pordepósito da fé. Muito pelo contrário, sua intenção é Deus, ela manifesta algo oculto e sua utilidade énos encorajar para prosseguirmos num proveitoso restrita aos que a recebem.58relacionamento com nosso Deus. Os três princípios acima estão presentes no Em matéria de Revelação, a Dei Verbum contexto do advento da Ofensiva Nacional. Issoensinou normativamente que a Revelação de Deus vemos claramente na seqüência de fatos quese consumou com Jesus Cristo e “não há que antecederam o seu advento. Em uma reunião daesperar nenhuma nova revelação pública antiga Comissão Nacional da Renovação, realizadaantes da gloriosa manifestação de Nosso no dia 05/8/92, o Senhor enviou a seguinte profecia:Senhor Jesus Cristo” (DV, 4). “A Renovação é uma obra do Espírito Naturalmente que esta regra da Constituição Santo. E, quando Eu a realizo neste tempo é paraDogmática Dei Verbum diz respeito à Revelação voltar às origens. E uma das formas de voltar osPública, pois para a revelação privada a Igrejadestinou os seguintes parágrafos do nosso homens às origens é a oração. Neste caso a origemCatecismo: é a oração de intercessão. A Renovação foi feita para a intercessão, para vocês clamarem pelos 66. “(...) Todavia, embora a homens por meu coração. Neste momento renovo o Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé meu pedido, não só para intercederem pelo País de cristã captar gradualmente todo seu vocês, como também pela Igreja. Intercedam muito alcance ao longo dos séculos. pelos meus sacerdotes. 67. No decurso dos séculos houve revelações denominadas ‘privadas’, e algumas delas têm sido reconhecidas 56 Cf. At 8, 26.29; 10, 9-20; 15, 28; 16, 6-10 pela autoridade da Igreja. Elas não 57 TANQUEREY, Ad. Compêndio de Teologia pertencem, contudo, ao depósito da fé. Ascética e Mística), p. 937, § 1490. 58 Para aprofundar o significado da Revelação, A função delas não é ‘melhorar’ ou sugerimos uma consulta rápida ao Vocabulário de Teologia Bíblica, Editora Vozes, Petrópolis-RJ: 199254 Cf. At 16,6-10 e ao Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Editora55 Cf. Jo 5,17; 1ª Cor 15,3-8; Heb 13,8 Vozes, Petrópolis-RJ: 1992.
  • 25. 25 Muitos se deixam levar pelas coisas do Sois servos e não senhores; sois mundo porque não oram. Façam um chamado para trabalhadores... sois trabalhadores e não uma grande intercessão pela Igreja e pelo País. É proprietários. Submetei-vos àquele que vos criou.” um combate espiritual, e gravíssimo, de grande Visualização: proporção. Intercedam. Intercedam. (Confirmação: Is 57,14-20). “Conjunto de máquinas, cheias de engrenagens, grandes e pequenas, trabalham bem, “Eis o que declara o Senhor dos exércitos: sem parar, mas estão desconectadas entre si. considerai o que fazeis! Semeais muito e recolheis Trabalham soltas, isoladas.” pouco; comeis e não vos saciais; bebeis e não chegais a apagar a vossa sede; vestis, mas não vos Confirmação: Eclo 29, 13-14: aqueceis; e o operário guarda o seu salário em saco “Perde o teu dinheiro em favor de teu irmão roto! Assim fala o Senhor dos exércitos: refleti no e de teu amigo; não o escondas debaixo de uma que fazeis! Subi a montanha, trazei madeira e pedra para ficar perdido. Gasta o teu tesouro reconstruí a minha casa; ela me será agradável e segundo o preceito do Altíssimo, e isso te nela serei glorificado, - oráculo do Senhor” (Ag aproveitará mais do que o ouro.” 1,4b-8). Interpretação das profecias e das Discernimento: Deus tem um plano para este visualizações acima: “Temos sido grupos isolados,momento. Ele é uma graça e não podemos deixar com atuação independente.”de participar dela. Devemos buscar a unidade Discernimento: “A unidade pretendida é anacional através da formação. unidade dentro de toda a diversidade de expressões Meios de realizar a formação e a unidade e carismas que caracterizam e enriquecem a próprianacional: jornal de âmbito nacional, rede de Renovação Carismática.”intercessão, cartas carismáticas, eventos: Ação: “O Conselho Nacional traçou metas acongressos, grupos de trabalho-nacionais e serem atingidas através de um planejamentoregionais, grupo teológico. estratégico cujo nome é: OFENSIVA NACIONAL.” Conforme notícia divulgada no periódico Desta hora em diante o Conselho abandonouJESUS É O SENHOR, na época jornal oficial da aquele planejamento que já estava pronto eComissão Nacional da Renovação Carismática retomou as orações de escuta a Deus para elaborarCatólica, “Nº 04 Jul/Ago/93,” publicou-se que em novo plano, que só foi apresentado detalhadamenteuma reunião do Conselho Nacional da Renovação, meses após.realizada no dia 17/9/1992, quando os planos paraos próximos cinco anos estavam elaborados, o É que aquelas profecias, acompanhadas pelaSenhor manifestou-se por meio de profecias, visualização e o trecho do livro do Eclesiástico,visualização e confirmação bíblica, consoante levaram o Conselho a discernir que o Senhor desejaapresentado abaixo: que a RCC, em suas várias expressões (pregação, música, obras sociais, ação política) trabalhe Profecias: organizadamente, rumo a um mesmo objetivo: EVANGELIZAR COM RENOVADO ARDOR “Meus planos são superiores aos vossos. MISSIONÁRIO, A PARTIR DO BATISMO NO Rendei-vos a mim. Tendes segurado as coisas. Não ESPÍRITO SANTO. vos quero humilhar, porém toda a vossa Portanto, após meses de orações, escuta e inteligência é mínima diante do meu plano. planejamento, a Renovação pôde afirmar, com Despojai-vos diante de mim. fundamento nas revelações proféticas classificadas pela Tudo que conquistastes e guardastes junto Igreja como revelações privadas, que “pareceu bem ao a vós é nada em comparação com o enorme plano Espírito Santo e a nós” (At 15,28) elaborar e instituir que tenho a fazer. um plano de ação no qual todas as expressões da Renovação Carismática, alicerçadas sobre os princípios Estais atrapalhando o meu plano. Despojai- da unidade, identidade e missão, trabalharão em conjunto, vos para que meu plano possa se realizar” realizando cada uma seu mister particular para propiciar à Renovação, como expressão da Igreja, cumprimento “Quero tirar dos vossos olhos os limites dos integral do mandato de Jesus Cristo: “Ide por todo mundo planos pessoais, quero tirar-lhes a miopia. Disse- e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). vos que faríeis coisas maiores. É verdade! Mas sob a condição de que façais segundo a vontade do Pai.
  • 26. 26 3. PRINCÍPIOS DA OFENSIVA Unidade, na prática, é todos terem “um só NACIONAL coração e uma só alma.” Significa todos terem o São três os princípios da Ofensiva: unidade, mesmo desejo de se inserirem na comunidade que seidentidade e missão. reúne em torno de Jesus. Esta comunidade, naturalmente, visa a cumprir a missão proposta por Jesus Ressuscitado. Para cumprir a missão organiza-se planejando. Nos planos escolhem-se objetivos, definem-se metas, distribuem-se a) Unidade tarefas, traçam-se estratégias, metodologias, prioridades. O princípio da unidade é fundamental. Dele jamais Tudo isso considerando as pessoas e contando com elas.poderemos desistir. A ele nunca poderemos renunciar. A Toda esta organização parece engolir a unidade. Onde estáunidade deve ser buscada até a última gota de suor, até o a unidade? A unidade deve estar onde sempre esteve, noúltimo suspiro. A Bíblia contém muitas passagens fortes coração de cada irmão que abraça, com a comunidade, asobre ela, como as seguintes: execução das tarefas planejadas para cumprir o mandato missionário de Jesus, materializado pelo Evangelista, “Tenho ainda outras ovelhas que não são quando recorda: “Ide por todo o mundo e pregai o deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor. Para que todos sejam um, assim como Realizar as tarefas que visam ao cumprimento da missão é importantíssimo para construir a unidade. Cada tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também tarefa que se cumpre é um tijolo que se assenta no edifício eles estejam em nós e o mundo creia que tu me da unidade. Mas este tijolo necessita de cimento para não enviaste” (Jo 10,16; 17,21). cair. O cimento do edifício da unidade é o ágape, aquele amor generoso, infinito. Miremos Jesus na cruz para “Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo abrirmos o coração a este ágape. Acolhamos do Espírito em comum. Vendiam as suas propriedades e os Santo o dom da caridade, príncipe dos carismas. Somente seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a com ele poderemos cimentar nossa unidade, que é outro necessidade de cada um. Unidos de coração carisma mais que precioso. freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o Ressalte-se, para concluir este tópico, que nossa pão nas casas e tomavam a comida com alegria e vitória depende do bom êxito de nossa ofensiva e esta singeleza de coração, louvando a Deus e cativando depende do bom funcionamento de várias engrenagens, a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes que são as diversas expressões da Renovação. Estas ajuntava outros que estavam a caminho da expressões – música, pregação, intercessão, etc. – como engrenagens, são compostas por pessoas dotadas de salvação. A multidão dos fiéis era um só coração e sentimento, razão, emoção, liberdade, virtudes, pecados, uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as marcas psicológicas. Cada pessoa que se insere nesta obra coisas que possuía, mas tudo entre eles era não vem para ser a ofensiva, nem para ser a engrenagem comum” (At 2,44-47; 4,32). da ofensiva, mas para se tornar um dente de alguma engrenagem. Dente importantíssimo, porém dente. Tudo Nos tempos atuais fala-se tanto em unidade que isso eleva às nuvens a necessidade da unidade, e aos céusparece desnecessário acrescentar qualquer outra análise. a urgência do amor.Que ela é fundamental, todos sabem. Que sem elaqualquer organismo comete suicídio, é também doconhecimento de todos, ou deveria ser. Que ela é b) Identidadenecessária para que “o mundo creia”, Jesus já o disse.Que falta então? Você deve estar dizendo: “vivê-la”. E Outro princípio muito importante para a Ofensivatem razão. É isto mesmo. Só nos falta aperfeiçoar a é o da identidade. Ele, para a Renovação, é fundamental.vivência deste princípio, que é na verdade um Como se sabe, a identidade integra a personalidade dosmandamento de Jesus. seres vivos e dos entes sociais. Quem perde a identidade se despersonaliza, se aliena. Se alguns de seus elementos Esta reflexão parte do princípio que você deseja básicos forem destruídos, quem os perde passa a nãoviver a unidade. Você crê que seus amigos também existir.querem. No final de toda análise se concluirá que todos oscristãos desejam ser “um”. Ora, se todos anelam a A identidade da Ofensiva Nacional é a identidadeunidade, por que não a conseguimos com perfeição? Seria da Renovação, cujos elementos básicos, conforme vistospor falta de perdão ou por egoísmo? Seria por orgulho, antes, são: Batismos no Espírito Santo, prática dossoberba, vaidade ou por machismo? Quem sabe seria por Carismas e formas de vida comunitária que têm nascidonão renunciarmos aos interesses pessoais? Isso nos leva espontaneamente.ao outro capítulo destes estudos: seria por falta do amor Cabe ao plano geral de ação, denominadogeneroso, o ágape? Poderia ser também por não entender, Ofensiva Nacional, esclarecer nossa identidade, haurindoem termos práticos, o que vem a ser unidade? da Igreja seus elementos, principalmente os fundamentais, de forma que sejamos inseridos com mais vigor e
  • 27. 27segurança no contexto eclesial, sem nos A importância da missão se eleva quando adespersonalizarmos como movimento leigo e analisamos sob o princípio da unidade. Vemos isso nasautenticamente católico. seguintes palavras de Jesus: “Quem não está comigo está contra mim; e quem não ajunta comigo, espalha” (Mt 12,30). c) Missão O mandato missionário de Jesus é trazido pelos “João disse-lhe: Mestre, vimos alguém, quequatro Evangelhos, e expresso em Marcos e Mateus nas não nos segue, expulsar demônios em teu nome, epassagens de 16,15 e 28,19-20, respectivamente. Quem lho proibimos. Jesus, porém, disse-lhe: Não lhoaté hoje não se sente tocado por essas palavras do Senhor: proibais, porque não há ninguém que faça um “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho prodígio em meu nome e em seguida possa falar a toda criatura. Ide, pois, e ensinai a todas as mal de mim. Pois quem não é contra nós, é a nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do nosso favor” (Mc 9,38-40). Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que Nestas passagens é o próprio Jesus quem coloca a vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, missão no centro da unidade. Quem realiza a missão dEle até o fim do mundo”. se coloca a seu favor, a seu lado, unido a Ele. Essas palavras de Jesus ressoam na Igreja desde a Executando a missão da Igreja, a Renovação, alémprimeira sílaba pronunciada pelo primeiro Papa. de se colocar em plena comunhão com ela, identifica-sePerpassou o coração de cada missionário de todos os nela e com ela, bem como com o seu fundador, Jesustempos para atingir em cheio as pessoas da atualidade. Cristo.Vemos as palavras do Divino Mestre ecoar em cada Por evangelização entendem-se as funçõesrecanto dos templos, em cada oração e cântico litúrgico, proclamativa e catequética. Proclama-se a novidade daem cada comunidade cristã que se funda, em cada pessoa ressurreição, que confirma tudo o mais que se encontra naque lhe serve, em cada livro espiritual que se lê. Às vezes Sagrada Escritura. Prega-se a Boa Nova de formasuas palavras são vozes de mil trovões que nos vêm nas metódica e ungida61 para facilitar o entendimento, poispessoas dos famintos e injustiçados que arcam sob o pesode uma nação mal evangelizada. Esta voz misteriosa “quando um homem ouve a palavra do Reino e não atambém ressoa na autoridade de uma exortação apostólica entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado nocomo a Christifideles Laici; nas lágrimas de Cristo seu coração” (Mt 13,19). Catequiza-se ensinandoescondidas nas entrelinhas da Encíclica Redemptoris sistematicamente a doutrina do Ressuscitado62 paraMissio, que vem nos dizer que a missão está apenas formar a Igreja, Corpo de Cristo.começando,59 e isso após dois milênios de evangelização. A evangelização exige um plano prático e fácil de A clareza da missão é cristalina, pois está explícita ser entendido para ser executado. O plano de Jesus eraem todos os Evangelhos e nas Cartas dos Apóstolos. simples: Ele “percorria toda a Galiléia, ensinando nasEntretanto o seu exercício tem se revelado complexo e suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curandovariado conforme o pluralismo oriundo das várias todas as doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4,23).experiências e situações das comunidades, bem comodevido ao dinamismo do Espírito Santo.60 Por isso faz-se O plano missionário de Jesus pode ser resumidooportuno relembrar que a missão da Renovação é a em quatro verbos: percorrer, proclamar, ensinar e curar. Émesma da Igreja. E não poderia ser diferente, posto que realmente simples e fácil de ser executado. A Igrejaela é simplesmente uma expressão da Igreja. A missão da primitiva o entendeu e executou. Se nós fizéssemos oIgreja se resume em cumprir o mandato missionário de mesmo, qual seria o resultado para a Igreja e para Cristo?Jesus, pois “é na evangelização que se Para finalizar este tópico, gostaríamos de lembrarconcentra e se desenrola toda a missão da alguns efeitos sobre quem lê os Evangelhos e no finalIgreja, cujo percurso histórico se faz sob a ressaltar a importância da nossa missão.graça e ordem de Jesus Cristo: ‘Ide por todoo mundo e pregai o Evangelho a toda Quando se lê o Evangelho pode-se ser tocado por muitas coisas, mas, dentre estas, três impressionamcriatura... Eis que estou convosco todos osdias até o fim do mundo’ (Mc 16,15; Mt profundamente: uma é a passagem: “Buscai em primeiro28,20). ‘Evangelizar – escreve Paulo VI – é a lugar o Reino de Deus, e tudo o mais vos será dado porgraça e a vocação própria da Igreja, a sua acréscimo” (Mt 6,33); outra, é a crueldade da paixão eidentidade mais profunda’ (sic.) (Christifideles morte de Jesus seguida por sua ressurreição, e a terceira éLaic, 33).” o mandato missionário. Certamente milhões de pessoas sentem-se impelidas a narrar aos quatro ventos o que se lê nos Evangelhos. E dessas, milhares não sossegam mais.59 Cf. Redemptoris Missio, 1 61 Cf. 1ª Jo 2,2760 Cf. Redemptoris Missio, 23 62 Cf. At 2,42
  • 28. 28Seus corações se tornam fogo ardente. É assim que o Peçamos a Jesus a graça de entender o objetivo daSenhor mantém sua missão entre os homens. E é por isso Ofensiva Nacional e a capacidade de atingi-lo dentro dosque compreendemos quanto ela lhe é cara e preciosa. princípios da unidade, identidade e missão. Amém. Deus os abençoe. “Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai também por mim.” (Ef 6,18- 4. OBJETIVO DA OFENSIVA NACIONAL 19). A Ofensiva Nacional visa a colocar a Renovaçãoem marcha, na unidade, coesamente, reunindo todas assuas expressões, revitalizando aquilo que é suaidentidade: a vivência da graça do Batismo no EspíritoSanto, para colaborar eficazmente na missão que Jesusdeu à Igreja: anunciar o Evangelho63 e fazer discípulos64,isto é, evangelizar e formar. Conseguindo alcançar seu objetivo, a Renovação,com certeza, atingirá também o objetivo da Igreja noBrasil, que é “Evangelizar com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em comunhão fraterna, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da esperança nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo”.65 5. CONCLUSÃO Para entender e acolher a Ofensiva Nacional daRenovação como sendo um dom de Deus, a enquadramosno conjunto das revelações privadas com base na SagradaEscritura e no Catecismo da Igreja Católica. Assimpercebemos que ela foi uma revelação divina trazida pormeio de dons proféticos. Analisando o caminhar do povo de Deus descobre-se que a revelação privada também tem sido muitoimportante para o entendimento, o acolhimento e aexecução do Plano de Salvação. A história sagrada, desdeAbraão até nossos dias, é marcada também por revelaçõesprivadas. Para recebê-las coloquemo-nos à disposição deDeus. Como vimos neste tema, Deus mais uma vez nosrevelou seus desejos. Estes desejos foram organizados emum plano denominado “Ofensiva Nacional”, cujaexecução será no âmbito da Renovação CarismáticaCatólica, como expressão da Igreja, e seguirá osprincípios da unidade, identidade e missão. Impulsionados pelo Espírito Santo,comprometamo-nos com o projeto que Deus nosrevelou, organizados em forma de uma grandeofensiva evangelizadora.63 Cf. Mc 16, 1564 Cf. Mt 28,1965 Documento da CNBB, 61 – Diretrizes Gerais daAção Evangelizadora da Igreja no Brasil.
  • 29. 29 RESUMO A OFENSIVA NACIONAL é um plano de açãorevelado por Deus, no qual todas as expressões daRCC (pregação, música, obras sociais, açãopolítica) deverão agir em conjunto, como um corpoorgânico, onde cada uma, cumprindo sua missãoparticular, concorrerá para o bom êxito da missãogeral que Jesus reservou à RCC, como expressãoda Igreja. Deus sempre revela seus planos aos seusenviados. Isto acontece desde o tempo dosApóstolos66 e tem se repetido ao longo dos séculos.Foi assim com os santos, como São Domingos eSão Francisco, por exemplo. A Ofensiva Nacional, pelo que analisamos, seinsere no contexto da revelação privada. Ao lançar os olhos sobre a ação de Deus nagênese da Ofensiva Nacional, podemos dizer que“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” elaborar einstituir um plano de ação no qual todas asexpressões da RCC, fundamentadas sobre osprincípios da unidade, identidade e missão, agirãoem conjunto; onde cada uma, cumprindo suamissão particular, propiciará à RCC, comoexpressão da Igreja, cumprir o mandato de JesusCristo: “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a todacriatura.” (Mc 16,15). A Ofensiva tem na Unidade seu princípiofundamental. A essência da Identidade daRenovação é o Batismo no Espírito Santo e seuselementos básicos são o próprio Batismo no EspíritoSanto, a prática dos carismas e a vivênciacomunitária nos grupos de oração, nascomunidades de aliança e de vida. A Ofensiva foiconcebida para realizar eficazmente a missão queJesus confiou à Igreja. Parte desta missão só serárealizada se for assumida por nós, leigos. Por issonão nos é lícito ficar inativos, no dizer daChristifideles Laici, 3. Por fim, digamos que o objetivo da OfensivaNacional é colocar a Renovação em marcha, na unidade,coesamente, reunindo todas as suas expressões,revitalizando aquilo que é sua identidade: a vivência dagraça do Batismo no Espírito Santo, para colaborareficazmente na missão que Jesus deu à Igreja: anunciar oEvangelho67 e fazer discípulos68, isto é, evangelizar eformar. Afinal, pela sua origem e pelo que se tem visto atéo momento, podemos ousar dizer que ela é uma das “...boas ações que Deus de antemão preparou para que nós aspraticássemos.” (Ef 2,10).66 Cf. At 16, 6-1067 Cf. Mc 16,1568 Cf. Mt 28,19
  • 30. 30 CAPÍTULO TERCEIRO A ESPIRITUALIDADE DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA Deus nos alerta pela profecia de Oséias69de que o Poderemos também evitar o que não nos convém fazer.Povo dEle se perde por falta de conhecimento. Durante Conhecendo a Renovação, sabendo que está no rumoestes anos de existência da Renovação Carismática certo, abriremos o coração para receber do Espírito SantoCatólica, inúmeros questionamentos foram gerados nos mais segurança para exercitar nossa espiritualidade comcorações de muitos que dela experimentaram ou que fé madura e entusiasmo. Isso propiciará um reavivamentosimplesmente dela ouviram falar. Tais questionamentos constante em nossos carismas, como deseja nossorelacionam-se, em grande parte, com sua espiritualidade. Senhor.70Como fenômeno espiritual, nossa espiritualidade, embora É oportuno ressaltar o que o Senhor nos diz poresteja ligada diretamente à mais profunda raiz da Igreja, é meio do nosso primeiro papa, a respeito de nossa fé.muito pouco conhecida. Este desconhecimento ensejou Leiamos diretamente na Palavra Sagrada:inúmeras ponderações, explicações e respostas, não raroabsurdas, mormente quando produzidas por pessoas que, “Antes, santificai a Cristo, o Senhor, emnão obstante serem conduzidas por boa fé e retas vossos corações, estando sempre prontos a darintenções, são influenciadas por preconceitos ou por falta razão da vossa esperança a todo aquele que vo-lade “conceitos”. O resultado dessa ordem de coisas foi osurgimento de dúvidas em muitos irmãos. As dúvidas pede; fazei-o, porém, com mansidão e respeito,criam inseguranças. Cristão inseguro não assume a sua fé, conservando a vossa boa consciência, para que, see se perde. em alguma coisa sois difamados, sejam Por outro lado, aqueles que conhecem bem nossa confundidos aqueles que ultrajam o vosso bomespiritualidade, que têm certeza de que estamos na comportamento em Cristo” (I Pedro 3,15-16).direção assinalada por nosso Deus, assumem sua missão Quando estamos errados, sermos corrigidos é umacom ardor e fervor. Dão frutos cem por um, além de grande bênção, pois a correção fraternal vem de Deus,gozarem da paz que Jesus dá aos seus. uma vez que Ele corrige aqueles a quem ama. 71 Quando As considerações acima servem para iluminar a estamos certos e somos perseguidos, o Espírito Santoimportância ímpar deste tema, assim como de todo o rejubila conosco por sermos achados dignos de sofrermódulo básico cujo estudo estamos empreendendo. pelo nome do Senhor.72 Entendemos a perplexidade de muitos. É que Agora, irmãos, por outro lado, quando estamos emnormalmente as coisas novas assustam. No mínimo nos dúvida não sabemos o que fazer. A perplexidade noscolocam em sobressalto. Este é o caso da espiritualidade domina. Estaremos sendo corrigidos ou perseguidos?da Renovação Carismática Católica. Ela é tão antiga, a Devemos nos emendar pelas correções ou rejubilar pelasponto de remontar ao antigo profetismo de Israel, e ao perseguições? Poucas coisas imobilizam a alma humanamesmo tempo tão jovem para nós, tanto que é chamada de com tanta crueza como a dúvida. A dúvida é ácido terrívelRenovação. Dela falta muito a conhecer, porém mais falta a corromper o coração, é ladrão de entusiasmo, é carrascoa vivenciar. E para vivenciá-la, uma boa ajuda é conhecê- do espírito. A dúvida é a mãe da mornidão condenadala. pelo Senhor em Apocalipse 3,14-18. Encaremos nossas dúvidas, mesmo que sejam a respeito das coisas que mais No início de nossa caminhada com a Renovação, nos são caras, a fim de vencê-las e recebermos tudo o queem muitas oportunidades somos surpreendidos com Jesus planejou para nós.indagações como esta: quem está certo a respeito daRenovação Carismática? Os seus formadores e Normalmente os movimentos eclesiais, ascoordenadores, ou os que a criticam? A Renovação é de congregações e ordens religiosas possuem seu fundador.Deus ou não? Se é, por que tantos versados em Teologia No dizer do Catecismo da Igreja Católica (nº 2.684), donão a aceitam? Será por que não a conhecem? Ou por que carisma pessoal dessas testemunhas do amor de Deusela está errada? Posso ser carismático? É certo ser nasceram diversas espiritualidades.carismático? Estarei errado em ser carismático? O certo é que, via de regra, os movimentos Nessa caminhada somos levados a incansável possuem a feição de quem lhes dá o impulso inicial,busca de saber quem é quem e qual a verdade a respeito mesmo que se desenvolvam de forma diluída, como é oda espiritualidade da Renovação. Este conhecimento é caso da Teologia da Libertação na América Latina, e têmmuito útil, pois a partir dele saberemos o que realizar. 70 Cf. Jo 20,2169 Cf. Os 4,6 1ª Tm 4,14 71 Cf. Dt 8,5; Pr 3,12; 1ª Cor 11,32 Cf. Mt 13,8 e Jo 20,21 72 Cf. Mt 5,10-12; Atos 5,40-41
  • 31. 31sua práxis condicionada pelo que de específico existe na em vista a Economia da Salvação, isto é, o Plano de Deusespiritualidade dos seus fundadores. Isso acontece, por para salvação do homem todo e de todos os homens.75exemplo, com os focolarinos, os cursilhistas, osvicentinos. Em suma, todos trazem em si alguma marca Das idéias acima, podemos concluir que, de umade seus fundadores. experiência com Deus, que Ele mesmo concede a alguém, como foi o caso do profeta Moisés, de são Paulo, de são Em matéria de espiritualidade, quando se trata da Francisco de Assis, ou a uma comunidade, comoRenovação, não encontramos o carisma de nenhuma aconteceu com os Apóstolos e os primeiros discípulos depessoa humana que lhe tenha dado o impulso inicial. É Jesus, nasce uma espiritualidade, isto é, um modo próprioque ela não foi fundada por homem e nem por mulher. de atender ao chamado de Deus, tanto no relacionamentoIsto é o que se conclui com os relatos do seu início.73 De pessoal com Ele, quanto no campo missionário. É por issofato, ela não tem fundador secular. Por quê? É porque seu que a espiritualidade se torna um facho luminoso a clarearfundador é o Espírito Santo – ou seria presunção admitir a caminhada espiritual e temporal de quantos a acolham.que a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, nos dias de É também força motivadora do ímpeto missionário doshoje, se revele com sinais a simples mortais? Na verdade, que nela se congregam. É assim que as espiritualidadesela já existe desde os tempos apostólicos. Mais “são guias indispensáveis para os fiéis,precisamente desde o Pentecostes de Pedro e seus refletindo, na sua rica diversidade, a pura ecompanheiros. O que ocorre hoje, então? A conclusão é única Luz do Espírito Santo” (Catec., nº 2.684, inuma só: o que hoje foi denominado de Renovação, é fine). É por isso que vemos no interior de todasimplesmente um redespertar do Fogo de Pentecostes, espiritualidade autêntica um interminável intercâmbioacompanhado dos carismas que sempre existiram na entre os filhos de Deus e Ele próprio, bem como entre osIgreja. Que benção! filhos, em face deles mesmos. A este fato costuma-se Aliás, não é outra coisa o que a Igreja reconhece definir como sendo relacionamento vertical – do homemao aprovar os Estatutos do Serviço Internacional da com Deus e de Deus com o homem – e horizontal – dosRenovação Carismática Católica – ICCRS, com sede homens com os homens.no Vaticano, que diz no seu preâmbulo: Outro fato digno de nota é que no cerne de toda “A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA espiritualidade genuinamente cristã está um autêntico CATÓLICA é um movimento mundial, jeito de ser Igreja. mas não uniforme, nem unificado. Não tem um fundador particular, nem um grupo de fundadores como muitos 2. ESPIRITUALIDADE DA RENOVAÇÃO outros movimentos. Não tem listas de CARISMÁTICA CATÓLICA membros participantes” .74 A partir de agora começaremos a nos conhecer um Esperamos que, guiado e iluminado pelo Espírito pouco mais. Antes lembremos que a identidade de umaSanto, você esteja encontrando respostas para muitas pessoa física é feita de vários dados, tais como: sexo,indagações no decorrer destes estudos. idade, altura, filiação, nome, sobrenome, dentre outros. Todos são fatores importantes, entretanto, os mais relevantes são o nome e o sobrenome. Em certos tipos de identificação outros caracteres também são levados em 1. ESPIRITUALIDADE consideração. Dentre eles podemos citar a cor dos cabelos Espiritualidade é uma daquelas palavras que muito e dos olhos, a personalidade, isto é, o jeito de ser.usamos, mas pouco conhecemos. Ela nos desafia a partir Para conhecer a Renovação vamos emparelhá-lade sua conceituação. Definir o seu alcance espiritual é com as pessoas. Veremos que ela tem alma, nome ecomo tentar interromper o curso de cachoeira com as sobrenome. Tem até o seu jeito de ser, que vai sendomãos nuas. Mas podemos pelo menos ensaiar seu moldado pelos influxos das graças do Pai e do Filho, no esignificado conceitual, dizendo que é uma forma pelo Espírito Santo.particular ou comunitária de responder ao chamado deDeus, bem como de colaborar no Seu plano de salvação. Neste tema vamos conhecê-la por suaOu ainda, um modo específico de relacionar-se com espiritualidade, que é seu motor.76 Nos demais seremosDeus-Pai, Deus-Filho, Deus-Espírito Santo, com a Igreja, convidados a nos familiarizar com outros atributosCorpo Místico de Cristo, em sua expressão terrena e também importantes.celestial, e com as pessoas que ainda não participam daIgreja, a partir de uma experiência pessoal de salvação(experiência religiosa). a) Conceito Este relacionamento implica necessariamente a A espiritualidade da Renovação Carismáticafraternidade e o serviço em prol do bem comum, tendo Católica é Trinitária e nasce a partir de uma experiência73 MANSFIELD, Patti Gallagher. Como um NovoPentecostes. 1993. 75 Cf. 1Cor 12,774 ALDAY, Salvador Carrillo. Op. cit.. 76 FLORES, José H. Prado. Op. cit., p. 156.
  • 32. 32pentecostal de quem participa da salvação do Pai, na destas Pessoas Santíssimas passa a ser a melhor pessoapessoa do Seu Filho Unigênito, nosso Senhor Jesus que existe. E nem percebemos isso. Mais tardeCristo, tendo como antecedente histórico o Pentecostes entendemos que isso ocorre por que muitos têmdos primeiros Apóstolos de Jesus Ressuscitado; reaviva os dificuldade de relacionamento com pessoas humanassacramentos, a começar pelo batismo, principalmente no como o pai humano, a mãe, os irmãos, as autoridades. Asentido de morrer com Cristo e com Ele ressuscitar; fixa esses embaraços se ajuntam influências de seitas de váriasinteiramente os fiéis no projeto de instauração do Reino origens, principalmente as reencarnacionistas. Porém ade Deus, como filhos Seus, sujeitos ativos da história da própria Pessoa da Santíssima Trindade para a qual somossalvação, co-herdeiros de Cristo; gera também uma atraídos primeiramente, nos conduz às demais, a seuconsciência viva do poder e da ação concreta do Espírito tempo e conforme o nosso desenvolvimento espiritual.Santo na vida pessoal e na história da redenção do Converse com quem já passou por isso. Ninguémhomem, acompanhada de docilidade às sua moções, se esquece da primeira vez que diz a Deus, em verdade einspirações e revelações, tendo a aceitação e a prática dos em espírito: “Meu Pai”. Sente-se um alívio interior e umacarismas como forte distintivo das outras espiritualidades. paz jamais experimentada. E Jesus? No início muitos mal conseguem vê-lo como Filho de Deus. Com a vivência numa dinâmica espiritual inusitada dentro da Renovação, b) Elementos do conceito Ele é aceito, de verdade e de coração, como Salvador b.1) Espiritualidade Trinitária pessoal e passa-se a viver com Jesus Senhor, Mestre, Deus, Pastor, Amigo, Protetor. Isso tudo sem perder e sem Leciona a boa doutrina que uma espiritualidade deixar de vivenciar as experiências do Espírito Santo e depara ser autêntica haverá de ser fundada na Santíssima Deus Pai. Acontece às vezes ao mesmo tempo, às vezesTrindade. E a da Renovação Carismática Católica o é,77 separadamente. Mas nunca se perde. Só encontramos umacomo se afirma no conceito acima. A este respeito, antes palavra para descrever isso: Maravilhoso! É de fatode conhecer a nossa espiritualidade, algumas pessoas são maravilhoso.confundidas pelos preconceitos que se têm se espalhado Nos dias de hoje entende-se melhor aqueles que aoem alguns lugares. É que ouvem algumas pessoas dizer irem a algum grupo de oração algumas vezes – semque o povo “dessa tal de Renovação só fala em Jesus. participar de nenhum Seminário de Vida no EspíritoEsquecem-se de Deus e do Espírito Santo”. Outros já Santo, sem se aprofundar em nossa espiritualidade – nãodizem que para a Renovação só existe o Espírito Santo. Já conseguem enxergar esta preciosa dádiva que o Senhorpara alguns, a Renovação só se preocupa com Deus Pai. nos concede, de aos poucos ir galgando os degraus maisOutros, ainda, dizem que a Renovação Carismática é um belos da espiritualidade cristã, em se tratando de mística ereduto mariano. prática. Certamente estes irmãos baseiam suas opiniões na Com toda essa sorte de opiniões contraditórias não superficialidade do que viram ou no preconceito do queé de admirar que muitos fiquem confusos. ouviram. Devem ter visto alguns neófitos que estavam vivenciando alguma das etapas de nossa escalada Ao participar da Renovação Carismática Católica, espiritual, ou, ainda, alguma oração ardente de alguém deentrando em seu âmago, e ao mesmo tempo observando o maior experiência que estava sendo conduzido peloque ocorre com aqueles que com ela comungam, Espírito Santo a uma adoração mais profunda a Eledescobre-se que ela é maravilhosamente Trinitária. Quem mesmo, ou a Deus Pai, ou a Deus Filho.não entende isso é porque não a conhece. Não obstante essa diversidade de opiniões, nada Analisando as várias opiniões que dizem ser ela temos a temer acerca do que se diz, pois é a própriaora do Espírito Santo, ora de Jesus, ora de Deus Pai, Santíssima Trindade, como uma unidade, ou na pessoa dochega-se à conclusão de que ela SÓ PODE SER Pai, do Filho ou do Espírito Santo, que tem nosTRINITÁRIA, UMA VEZ QUE CONTEMPLA, EM encaminhado a ela mesma, de tal forma que no tempo deSUA PRÁTICA, O RELACIONAMENTO COM AS cada um – no kairós pessoal – os filhos de DeusTRÊS PESSOAS SANTÍSSIMAS, NOSSO DEUS agraciados com este tesouro, que é a nossaTRINO E UNO. Mas, como isso ocorre? Como algumas espiritualidade, cairão inteiros no seio do nosso Deus Unopessoas têm sobre ela opiniões tão diversificadas? e Trino. Isso acontece assim: o Senhor tem seus caminhos Esta dinâmica atrativa da Santíssima Trindade,misteriosos para nos atrair e conduzir. A uns ele atrai feita inicialmente por alguma das Três Pessoas, seguidaprimeiro por Deus Pai, a outros, por Jesus, a outros, pelo de notável equilíbrio de relacionamento entre nós e Ela, éEspírito Santo; tudo conforme a disposição e a o que tem ocorrido entre nós, de forma espontânea, semnecessidade de cada um. nenhum trabalho nesta intenção, sem planejamento para Essa dinâmica de atração do Senhor aconteceu e este fim, sem nenhum controle de resultados, sem nenhumacontece com muitas pessoas do nosso convívio. No pastoreio para incrementar especificamente esta graça, atéinício só enxergam uma das Pessoas da Santíssima mesmo porque não sabíamos dessas coisas. Tudo tem sidoTrindade. Imediatamente apaixona-se por Deus Pai, por dom de Deus. Todavia, já que isso tem sido um fruto bomDeus Filho ou por Deus Espírito Santo. Em verdade uma e considerando que a graça age por meio de nossa natureza, imagine-se como seria se estivéssemos77 DOCUMENTO La Ceja. Op. cit., § 13.
  • 33. 33trabalhando com o intuito de apressar em nós e nos que aconteciam naqueles tempos: oração em línguas,irmãos este notável acontecimento, que é o ardor missionário, conversões abundantes, perseguições.relacionamento igualitário com a Santíssima Trindade, a O Pentecostes atual é, em verdade, a retomada, apar da geração da consciência de que a fundamentação de continuação daquele que aconteceu na aurora da Igreja.nossa espiritualidade, e portanto de nossa expressão de À luz da semelhança dos acontecimentos de hoje,Igreja, é trinitária! em relação aos acontecimentos daquela época, vemos que essa ligação é também inevitável. Quando se comparam os fatos que ocorrem em nosso meio com aqueles que b.2) Experiência pentecostal aconteceram na Igreja Primitiva, não há muito para Nossa espiritualidade se insere no contexto dos comentar, somente existe o que constatar, e o quemovimentos pentecostais do século vinte. Ao nos constatamos é que, ressalvadas as diferenças culturais –conhecer não há como negar que somos pentecostais, de nação para nação, de visão de mundo – o que acontecedesde que somos agraciados pelo Dom de Pentecostes conosco sucedeu com Pedro e os outros discípulos. E issoacompanhado dos mesmos sinais e prodígios que se nos basta. Não vale a pena nos desgastar em justificativasmanifestaram na Igreja Primitiva, tal como o santo Papa estéreis, em debates infrutíferos, em pelejas inúteis. IssoJoão XXIII pediu na oração preparatória ao Concílio nos levaria para um túnel sem fim. Melhor seguir oVaticano II. exemplo daqueles que já deram a vida por Jesus, acolhendo a graça de Pentecostes, usando as semelhanças O “fator pentecostal” de nossa espiritualidade já entre suas comunidades e as nossas para confirmar nossafoi aprovado pela Igreja. No número III dos referidos caminhada e nos animar a prosseguir decididamente.Estatutos Do Serviço Internacional Da RenovaçãoCarismática Católica (Iccrs) se lê: “Os objetivos centrais Desta curta análise conclui-se que nossada Renovação Carismática Católica ou Renovação espiritualidade se liga ao fato mais importante da Igreja, após a ressurreição de Jesus, cuja historicidade se atestaPentecostal Católica”....78 perenemente pela narração de são Lucas no Livro dos SALVADOR CARRILLO79 interpreta assim a inserção Atos dos Apóstolos, a partir do capítulo segundo. Isso édo termo “RENOVAÇÃO PENTECOSTAL CATÓLICA” muito confortador para nós e nos incentiva a continuarnos referidos Estatutos: nossa missão “O título ‘Renovação Pentecostal Católica’ é muito sugestivo e de grande significação, pois b.4) Reavivamento sacramental responde aos desejos profundos daqueles que estiveram nas origens da própria Renovação Qual é a graça que Deus deseja nos dar por meio Carismática. Com efeito, esta nasceu do anelo e do nosso batismo? O Catecismo da Igreja Católica 81 nos da esperança de que o Senhor realizasse em diz que a graça é múltipla, pois muitos são os seus efeitos. nossos dias, em vista da renovação profunda de As duas principais são a purificação dos pecados e o sua Igreja, o que sucedeu no primeiro Pentecostes. nascimento no Espírito Santo. Em outras palavras, a Renovação surgiu da É certo que todos os católicos cujos pais expectativa de um Pentecostes atual. Por isso, a diligenciaram a respeito nasceram no Espírito Santo desde Renovação pode ser definida em forma sintética criancinhas, uma vez que se ministra o sacramento do como ‘Um Pentecostes hoje’”. batismo desde tenra idade. Contudo, embora batizados, Como se vê, irmãos, somos pentecostais, graças a temos tido dificuldades em experimentar as graçasDeus. E o somos com as bênçãos de Deus por meio da batismais. É neste sentido que nossa espiritualidade temIgreja que aprovou os Estatutos do Serviço Internacional reavivado nosso batismo.da Renovação. Constatamos que é o Espírito Santo, de sua própria iniciativa, o agente iniciador da chuva de graças que tem vindo sobre nós. Ele é a luz que nos guia em um momento b.3) Antecedente histórico de perplexidade entre os cristãos. Quando todos ansiavam Nossa espiritualidade está diretamente ligada às por respostas para as questões mais angustiantes da vida;experiências pentecostais que o Espírito Santo concedeu quando muitos buscavam o que falar e o que ofertar aosaos Apóstolos. Essa ligação é importante; ela nos dá homens de elevado conhecimento humano, o Espíritosegurança para assumir a vocação específica que Deus Santo, na simplicidade do Pai e do Filho, veio em nossonos reservou80 enquanto movimento eclesial. socorro82 para fazer em nós e por nós o que é da vontade de Deus. Como sabemos que as graças de hoje estão ligadasao Pentecostes dos Apóstolos? Encontrar a resposta é Neste sentido verificamos que uma das primeirassimples. É só verificar os frutos de hoje. São os mesmos graças que recebemos depois da efusão do Espírito Santo, muitas vezes imediatamente após, é a consciência de que78 ALDAY, Salvador Carrillo. Op. Cit. p. 1079 Ibid. p. 29 81 Cf. Catec. 126280 Cf. Mc 16,15 82 Cf. Rm 8,26
  • 34. 34somos realmente pecadores e necessitados de salvação. tal é o amor que Deus nos tem dado por estes servos deIsso nos leva a aceitar incondicionalmente o perdão de sua predileção.nossos pecados e nossa salvação e purificação mediante o Também acreditamos sinceramente na unçãosacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta graça tem matrimonial. Para nós a família é instituição divina esido decisiva para nossa espiritualidade, pois com ela o sagrada, com tudo o que isso significa.Espírito do Senhor nos tem dado uma convicção nuncadantes experimentada, a respeito de nossa salvação pormeio de Jesus, nosso Senhor. Assim, sabemos –experimentamos – que somos dEle de fato. b.5) Consciência do poder e da ação do Espírito Santo Simultaneamente à aceitação incondicional dapurificação dos nossos pecados e da correspondente O Espírito Santo age em todos os cristãos, quersalvação, o Senhor nos tem concedido uma consciência aceitem os carismas, quer os rejeitem. Na Bíblia existemmuito clara de nossa filiação divina. Às vezes essa exemplos da ação do Espírito Santo em pessoas que nãoexperiência de filiação divina não acontece junto com a possuíam afinidade com a Revelação, como é o caso deda salvação, mas logo depois. Para alguns demora um Ciro, rei persa, que em determinado momento históricopouco mais, mas certamente a todos vem. É realmente torna-se instrumento de Iahweh para o bem do povouma graça muitos deixarem de “saber” que “poderiam” eleito. Existe também exemplo entre os portadores daser filhos de Deus, ao ganharem a consciência do Revelação. Em João 11,49-52, encontramos uma curiosaSABER, a nível profundo, que realmente SÃO filhos de fórmula profética – proclamada de forma indireta, oblíquaDeus. Pelo que o Espírito Santo nos tem dado a – na qual o sumo sacerdote torna-se instrumento daexperimentar, saber que somos filhos de Deus é dizer Revelação a respeito de Jesus para concretizar a nossapouco. Não somente sabemos que somos filhos de Deus, Salvação.mas em alguma parte de nós, nas entranhas profundas do É por isso que afirmamos que todos os cristãosnosso ser, sentimos – experimentamos – que somos filhos sabem do poder do Espírito Santo. Sabem também de suadEle. misteriosa ação em nosso mundo. Todavia quando Não afirmamos que com outras espiritualidades aludimos à consciência do poder e da ação concreta doisso não aconteça. No entanto, na Renovação temos Espírito Santo, não falamos só desse saber. É que temosexperimentado de forma pessoal a convicção de que para ganhado do Senhor uma consciência clara, tangível, dopecadores como nós existe esperança. É muito bom olhar poder do Espírito Santo. Sabemos e cremos que o Espíritopara si mesmo e ter convicção de que não se está perdido do Senhor é Deus em Deus. Temos certeza que Ele possuie que e-x-i-s-t-e r-e-a-l-m-e-n-t-e u-m-a E–S–P–E–R–A– um poder imenso, o qual emprega para continuar a missãoN–Ç–A. Melhor ainda é a consciência de que temos um de nosso Senhor Jesus Cristo. Esse poder é colocado emPai que nos ama incondicionalmente. E ainda melhor é ter ação concretamente na história humana, tanto pessoalcerteza que este Pai é um Deus, o nosso Deus, o Deus da quanto coletiva. Basta que nos deixemos conduzir pornossa vida; o Deus que adoramos sem nos cansar, sem nos Ele.saciar. Quanto mais O adoramos, mais O queremos Em muitos fatos podemos perceber – “ver” – aadorar. Amém! ação de Deus. Esta consciência pode ser descrita como Quanto à Eucaristia, há décadas que muitos de nós sendo uma sensibilidade para captar a misteriosa açãoparticipamos de missas diariamente, e o número de divina. Noutros acontecimentos o Senhor simplesmenteparticipantes vem aumentando. E onde a Renovação tem nos dá uma convicção interior de sua mão operando naliberdade para se expressar, temos missas alegres, bem história. Esta história deve ser entendida em nível pessoal,participadas, com ambiente de fé e amor, templos cheios. comunitário e universal. Tudo pertence ao Senhor.83 Esta consciência do poder e da ação concreta do Espírito Santo Em relação à crisma, que é o Sacramento do na história nos faz abrir o coração para receber do Senhorserviço, da missão, o seu reavivamento tem produzido uma convicção de que nós, e tudo o que nos pertence,nosso engajamento missionário permanentemente, a partir estamos em suas mãos. Junto com essa convicção Ele nosde nossas famílias. dá muita paz interior. Não há como negar que têm aumentado as filasdos confessionários. Muitas vezes nos confessamos compadres diferentes, para não sobrecarregar aqueles que já b.6) Docilidade ao Espírito Santosabemos serem muito ocupados. Entre nós a oração e aunção dos enfermos é profícua realidade. O cristão mais consciente deseja ser dócil ao Espírito Santo. Isso é muito bom. Temos recebido esta O Senhor tem também reavivado entre nós o graça de Jesus.Sacramento da ordem. Vemos isso nas inúmeras vocaçõessacerdotais oriundas dos grupos de oração. Muitos jovens Esta docilidade é realmente uma graça. O homemdesejam ser um dos ungidos que o Senhor consagra para de todos os tempos sempre teve dificuldade em seser sacerdote do Deus Altíssimo, a serviço do seu povo. submeter a outrem. Hoje é particularmente difícil para nósQuando começamos a orar e a louvar a Deus pelo dom do nos submetermos a qualquer pessoa, mesmo que estasacerdócio, por vezes a comoção leva alguns às lágrimas, 83 Cf. Fl 2,9-11
  • 35. 35pessoa seja o Espírito Santo. Estamos numa cultura que setembro de um mil novecentos e oitenta e sete, realizou-prima pelo individualismo e pela liberdade absoluta. se o Encontro Latino-Americano para estudar aAinda que liberdade desenfreada seja impossível, em Renovação Carismática Católica. Dele participaram centonível ideal é o que buscamos sofregamente. e nove arcebispos, bispos e prelados, entre os quais havia um brasileiro, Dom Davi Picão, na época Bispo de A essa dificuldade acrescente-se o fato de não Santos.vermos o Espírito Santo para recebermos sua orientação.Para resolver tais problemas o Senhor nos tem feito passar Esta Assembléia Episcopal Latino-Americanapor um aprendizado simples, que pode ser compreendido desenvolveu temas importantíssimos para a Renovaçãoe praticado por todos, cujo requisito mais importante é a Pentecostal, que estão relatados em documento, cujofé. Este tema merecerá melhor análise oportunamente. capítulo primeiro é dedicado à fundamentação teológica da Renovação. Este capítulo começa com o parágrafo treze e termina com o quarenta e dois. Nele a Renovação b.7) Prática dos carismas: distintivo de encontra fundamentos seguros.84 Ele nos fornece boa nossa espiritualidade fundamentação teológica. Eis dois exemplos, extraídos dos seus parágrafos treze e dezoito: A prática dos carismas tem sido a nossa marca. Aspessoas de outras espiritualidades nos chamam de “A base teológica da“carismáticos” exatamente por causa dos carismas que Renovação é essencialmentepraticamos. Quando nos olham podem dizer que nãosomos do movimento de CEBs, nem cursilhistas, trinitária (...)encontristas, vicentinos ou catecúmenos, por causa denossa prática carismática. Isto é um fato. É por este A grande fundamentaçãomotivo que esta prática dos carismas acabou se tornando teológica da Renovação espiritualo elemento que distingue nossa espiritualidade das carismática está, portanto, nodemais. Mistério Trinitário, e Bom seria que todas as outras espiritualidades particularmente no conhecimentotambém os praticassem, ainda que tivéssemos que progressivo da Pessoa do Espíritogarimpar outras características para nos distinguir, casofosse necessário alguma distinção. Santo e em sua ação insubstituível e ininterrupta na Este assunto foi analisado no capítulo sobre aOfensiva Nacional quando se expôs o princípio da Igreja e em cada um de nós.”identidade. A Comissão de Serviço Nacional da Renovação Carismática Católica dos Estados Unidos da América convocou uma reunião da “Conferência do Coração da 3. FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA DA Igreja de teólogos e líderes pastorais”, “para examinar RCC as conseqüências pastorais da evidência procedente dos primeiros autores pós-bíblicos Lembrando que fundamentação é o ato defundamentar e que fundamentar é colocar fundamento, de que o Batismo no Espírito Santo é partebase, alicerce, sustentação radical, isto é, suster, segurar, a integrante da iniciação cristã e é normativo”.começar das raízes, veremos que a fundamentação Estudaram na ocasião onze autores, dentre os santosteológica da Renovação se encontra na vida de Jesus de Padres. São eles: Tertuliano (no período em que foiNazaré e na vida da Igreja Primitiva e que, por isso, católico), Hilário de Poitiers, Cirilo de Jerusalém, Basílio,decorre necessariamente da práxis do Filho do Homem e Gregório de Nazianzo, João Crisóstomo, Filoxeno, Joãode sua Igreja, desde a sua fundação até os dias de hoje. de Apaméia, Teodoreto de Cirro, Severo de Antioquia e José Hazaia, que representam toda a cultura cristã da Gostaríamos que agora você se sentisse nosso época. Eram latinos, gregos e sírios e ocupavam quaseconvidado especial para juntos descobrirmos tesouros toda a costa do Mediterrâneo, berço cultural davivificantes que têm estado ocultos no fértil solo de nossa antigüidade.espiritualidade, bem como para desvendarmos ofenômeno espiritual conhecido por Renovação Esta comissão se reuniu com as bênçãos e osCarismática Católica, mediante a investigação dos seus incentivos da Comissão Ad Hoc dos Bispos da Renovaçãofundamentos e de sua maneira de ser Igreja, utilizando as Carismática dos Estados Unidos e examinou também asferramentas e os princípios oferecidos pela Teologia. evidências bíblicas do batismo no Espírito Santo. Tratou, portanto, do centro da espiritualidade da Renovação. Suas conclusões foram reunidas em um documento a) Fundamentos relativos à nossa cujo nome é “Avivar a Chama”, que foi organizado por espiritualidade Killian McDonnell e George T. Montague85. Neste documento encontramos alicerce seguro para o batismo Literatura variada vem oferecendo fundamentosteológicos à Renovação. De primeiro a quatro de 84 DOCUMENTO La Ceja. Op. cit., capítulo I.
  • 36. 36no Espírito Santo, bem como para sua ligação direta com mundo. Esta missão tem sua origem noo batismo sacramental e a Crisma, sacramentos da Pai estendendo-se por meio do Filho noiniciação cristã. Leia-se abaixo o seu final: Espírito, para tocar e transformar a “‘Se vivemos pelo Espírito, sigamos Igreja e o mundo e guiá-los no Espírito por meio de Cristo, de volta ao Pai também o Espírito’ (Gal 5,25). (Metropolitas Ignatios of Latakia, Em conclusão, todos são ‘Palestra sobre o tema principal’, chamados a avivar a chama do dom do Relatório Uppsala 1968” (Genebra: Espírito Santo recebido nos WCC, 1969 p. 298). sacramentos de iniciação. Deus nos dá Portanto, considerando que a fundamentação geral livremente esta graça, mas ela exige da Renovação já está bem feita por vários autores e até uma resposta pessoal de contínua por documentos emanados de autoridades eclesiásticas, conversão à Autoridade de Jesus Cristo continuaremos abordando aspectos mais específicos de e receptividade à presença e ao poder nossa espiritualidade, pois se esta estiver bem alicerçada, transformadores do Espírito Santo. o nosso Movimento também estará. Entretanto faremos, Somente no Espírito a Igreja será capaz em destaque, breve análise do nosso relacionamento com de satisfazer suas necessidades a Santíssima Trindade, tendo em vista que é Ela nosso pastorais e as necessidades do mundo. primeiro e principal fundamento. O desafio está diante de nós e as suas Inegavelmente a alma da igreja, Corpo Místico de conseqüências são claras: Cristo, é o Espírito Santo. Como a Renovação é parcela Sem o Espírito Santo, Deus se da Igreja, ou, em outras palavras, é, pelo menos, um jeito afasta, de ser Igreja, necessariamente sua alma é também o Cristo fica no passado, Espírito Santo. Ele, como alma, tem suscitado uma o Evangelho é letra morta, espiritualidade capaz de nos dar vida em abundância, a Igreja é mera instituição, inclusive como movimento eclesial. a autoridade é questão de É oportuno lembrar a análise feita acima e acentuar prepotência, que o fundamento da espiritualidade carismática é a a missão, questão de propaganda, Santíssima Trindade, pois dEla vem e para Ela se destina, a liturgia nada mais que uma desde os tempos apostólicos. E mais: cultiva-se na evocação, Renovação a busca da plenitude do Espírito Santo, a o modo de viver cristão, virtude de docilidade a Ele, assim como um deixar-se conduzir por escravos. Ele, atingindo, em vivência, o âmago do nosso Deus, Trindade Una. Mas no Espírito Santo: Para nós, relacionar-se com a Santíssima Trindade, o cosmo se reanima e geme com as servir-lhe, adorá-la, não é simplesmente norma de moral dores de nascimento do reino, o religiosa, nem tampouco somente regra litúrgica; é, antes Cristo ali está, de tudo, vida espiritual. o Evangelho é o poder da vida, A espiritualidade carismática, temos comprovado a Igreja manifesta a vida da por fatos, é uma graça comunitária. Entretanto, para cada Trindade, pessoa ela começa quando se faz a experiência de a autoridade é um serviço de Pentecostes. “Neste dia é revelada plenamente a libertação, Santíssima Trindade. A partir deste dia, o a missão é um Pentecostes, Reino anunciado por Cristo está aberto aos a liturgia é momento comemorativo e que crêem nele; na humildade da carne e da também antecipação, fé, eles participam já da Comunhão da a ação humana é divinizada. Santíssima Trindade. Pela sua vinda – e ela O Espírito chama cada um de nós não cessa – o Espírito Santo faz o mundo em particular e a Igreja como um todo, entrar nos ‘últimos tempos’, o tempo da segundo o modelo de Maria e os Igreja, o Reino já recebido em herança, mas Apóstolos reunidos, para aceitar e ainda não consumado: abraçar o Batismo no Espírito Santo Vimos a verdadeira Luz, como o poder de transformação pessoal e comunitária, com todas as graças e recebemos o Espírito celeste, carismas necessários para a edificação encontramos a verdadeira fé: da Igreja e para nossa missão no adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou”85 traduzido por Barbara Theoto Lambert e (Liturgia Bizantina, Tropário daspublicado no Brasil pela “Edições Loyola”, em 1992
  • 37. 37 vésperas de Pentecostes. Catecismo extraíremos somente o essencial para o nosso da Igreja Católica, 732). tema. É indescritivelmente maravilhoso o que temos Os anciãos são os que conduzem o povo dovisto em nosso meio acerca da Santíssima Trindade. Senhor. Deus os quer dotados de carismas e praticantesPessoas analfabetas “teológicas” e não raro até de dos mesmos. Em profecia, pela boca de Moisés, o Senhorinstrução formal, de um momento para o outro começam nos revela o seu plano: “Oxalá todo o povo de Iahweha viver o mistério do Deus Trino e Único, embora sem fosse profeta, dando-lhe Iahweh o seu Espírito”.expressarem uma só palavra sobre a graça que receberam, A vontade de Deus é tão clara nesta passagem, aopelo simples fato de não dominarem os instrumentos revelar seu desejo de nos ver servindo-Lhe mediante osnecessários para essa expressão. carismas, que para não enxergá-la dever-se-á interpretá-la Só nos resta dizer: Amém, Senhor. Aleluia! de forma torcida, como, por exemplo, imaginando que aquilo era só para os tempos antigos. Mas para afirmar Mas os fundamentos teológicos não param por aí.Eles estão entremeados em todo este módulo de estudo, isso deveríamos esquecer o que Jesus disse: “Meu Paienvolvendo todos os temas analisados. Aqui, somente trabalha até agora e eu trabalho também” (Jo 5,17).privilegiamos alguns aspectos. Ora, todo o povo do Senhor sabe que a profecia A fundamentação de nossa espiritualidade é tão mencionada em Nm 11,29 é um dos frutos do Espíritovasta que a encontramos desde o Velho Testamento. Com Santo que ocorre em ambientes encharcados de suaefeito, se lermos a Revelação escrita, com os olhos presença, onde a docilidade a Ele chega ao nível dadespidos de preconceitos, descobriremos a riqueza aceitação da prática dos carismas. A espiritualidade quecarismática a partir do movimento profético de Israel, anima estes ambientes não é outra, senão a carismática,cujos representantes eram animados pelo Espírito de conforme entendido nos dias de hoje.Deus. Eis a segunda passagem: Para ilustrar nossa afirmação, selecionamos duas “Depois disto, derramarei o meu espíritopassagens que conservam, além do profetismo israelita, aspromessas de um dia em que todos seriam batizados no sobre toda a carne. Vossos filhos e vossas filhasEspírito Santo. profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e Eis a primeira: sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu “Moisés saiu e disse ao povo as palavras de espírito” (Joel 3,1-2). Iahweh. Em seguida reuniu setenta anciãos dentre Nesta profecia o Senhor nos revela não só o seu o povo e os colocou ao redor da Tenda. Iahweh plano de ter um povo batizado no Espírito Santo e desceu na Nuvem. Falou-lhe e tomou do Espírito praticante de carismas, mas nos diz claramente que Ele que repousava sobre ele e o colocou nos setenta fará isso. Segundo a interpretação da Igreja Primitiva esse anciãos. Quando o Espírito repousou sobre eles, tempo é agora. Desde o dia do primeiro Pentecostes profetizaram; porém, nunca mais o fizeram.” cristão estamos vivendo o kairós – χαιροσ – o tempo da graça, o tempo do Espírito Santo. Dois homens haviam permanecido no Tal interpretação é do príncipe dos Apóstolos e acampamento: um deles se chamava Eldad e outro primeiro Papa, conforme sua pregação inaugural Medad. O Espírito repousou sobre eles; ainda que consignada em Atos 2,17-18. Limitar sua aplicação aos não tivessem vindo à Tenda, estavam entre os tempos neotestamentários é cercear o incerceável, é inscritos. Puseram-se a profetizar no querer dirigir o Espírito Santo e não ser dirigido por Ele. acampamento. Um jovem correu e foi anunciar a Para fins de sistematização, vejamos a seguir Moisés: ‘Eis que Eldad e Medad’, disse ele, ‘estão outros fundamentos de nossa espiritualidade que se profetizando no acampamento.’ Josué, filho de comunicam à Renovação como movimento eclesial. Num, que desde a juventude servia a Moisés, tomou a palavra e disse: ‘Moisés, meu senhor, proíbe-os!’ Respondeu-lhe Moisés: ‘Estás ciumento b) Fundamentos relativos à práxis de Jesus por minha causa? Oxalá todo o povo de Iahweh b.1) Jesus pleno do Espírito Santo86 fosse profeta, dando-lhe Iahweh o seu Espírito.’ A seguir Moisés voltou ao acampamento e com ele os Os Evangelhos testemunham com clareza que Jesus era pleno do Espírito Santo. Assim também ensina a anciãos de Israel” (Nm 11, 24-30). Igreja.87 Eles marcam este fato nas narrativas de sua Esta é a primeira narração bíblica de umaefusão do Espírito Santo para um considerávelnúmero de pessoas. Ela prefigura o Pentecostes 86 Cf. Catec. 690apostólico e é riquíssima em significado. Contudo 87 Cf. Catec. 536
  • 38. 38 88 nascimento e do desenvolvimento de João Batista econcepção, do seu batismo e do início de seu ministério.A compreensão que o Senhor deu aos discípulos a de Jesus. Receberam também este ensinamento do própriorespeito de sua plenitude do Espírito Santo foi tão Mestre. Os Evangelistas recolheram este dado emprofunda que após sua ascensão eles continuaram falando algumas passagens.sobre ela quando precisaram explicar as ações do Mestre, Jesus ensina com obras e palavras; portanto, comcomo está anotado em Atos 10,38, com as seguintes sua vida. Em Mateus 4,196 Ele aparece conduzido pelopalavras: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Espírito Santo, textualmente. Em Atos 1,2 Ele instrui osNazaré com o Espírito Santo e com o poder, como Apóstolos pelo Espírito Santo. Ao inaugurar seuele andou fazendo o bem e curando todos os ministério em Nazaré, esclarece que está sob a unção dooprimidos por Satanás, porque Deus estava com mesmo Espírito.97 Noutro dia, quando realizava aEle”.89 formação dos discípulos, logo após avaliarem uma missão que efetuaram, “Jesus exultou de alegria no Espírito Em sua vida terrena, a relação de Jesus com o Santo” (Lc 10,21). Em outra oportunidade, quando JesusEspírito Santo era de comunhão;90 portanto maior foi acusado pelos fariseus de expulsar um demônio porplenitude do que esta não poderá haver. Os dois agiam meio do príncipe dos demônios, Ele se defendeujuntos. Isso é o que se deduz do ensinamento da Igrejaquando diz que a missão do Espírito era conjugada com a esclarecendo que o fazia pelo Espírito de Deus.98missão do Filho.91 Com certeza Jesus fez os discípulos Se não bastasse a clareza solar do testemunhocompreenderem que Ele viveu,em perfeita obediência ao evangélico para entendermos que Jesus foi semprePai e, humanamente, dependente do Espírito Santo, a conduzido pelo Espírito Santo, poderíamos indagar de quefórmula divina capaz de lhe facultar o poder e a outra forma Ele poderia fazer tudo o que fez, vivendoautoridade que tinha sem se prevalecer de sua condição de totalmente como ser humano, já que não se prevaleceu deDeus.92 Por isso permaneceram em Jerusalém após a sua condição divina para se livrar das humilhações,ascensão do Senhor, obedecendo, sem nada fazer, a não injustiças e sofrimentos a que o submeteram, 99ser orar e esperar, até que recebessem o mesmo Espírito, culminando com sua morte na cruz?com a mesma plenitude, para a mesma comunhão. b.3) Prática dos carismas no ministério b.2) Jesus conduzido pelo Espírito terreno de Jesus Santo A presença dos carismas no ministério de Jesus Uma indagação que surge naturalmente ao meditar está ligada à sua condição humana, pois se agisse somentesobre mais este mistério da vida de Jesus Messias, é sobre como Deus não precisaria de carismas, seria Ele mesmo oo motivo pelo qual foi demonstrado pelo Espírito Santo, próprio Dom. Por isso faremos agora uma incursão naem comunhão com o Pai, no batismo de Jesus, que Ele, o Doutrina da Igreja no que diz respeito à sua condiçãoEspírito, estava ungindo o Filho. Ainda mais: o próprio humana.100Messias marcou este fato no início do seu ministério.93Jesus e o Pai eram – e são – Um; mas nem por isso Ele Jesus, sendo Deus, não se prevaleceu de suadizia que era conduzido pelo Pai. Ao Pai Ele obedecia; condição divina para cumprir sua missão aqui na terra.101entretanto quem o conduzia neste mundo era o Espírito E sua missão era dificílima e impossível para um serSanto. É um mistério que nos permite concluir que tantas humano. Ele deveria nos ensinar a viver e a evangelizarmanifestações do Espírito Santo na vida de Jesus 94 foram como filhos de Deus, como realmente ensinou, tendopara demonstrar aos discípulos que Ele era conduzido ainda que morrer crucificado para remir nossos pecados.pelo Espírito de Deus e para ensinar-lhes que também eles E tudo isso sem usar suas prerrogativas de Deus e sem deixar de ser Deus. Foi realmente um grande desafio. Paradeveriam ser.95 que cumprisse sua missão em condição humana, foi Entre a formação catequética dos discípulos estava ungido pelo Espírito Santo,102 fonte de todos os carismas.o ensinamento de que Jesus foi gerado pelo Espírito Santoe conduzido por Ele. Eles a receberam por meio do Já aprendemos que o Espírito Santo é o verdadeirotestemunho de Maria, de outras pessoas da comunidade Dom de Deus. Agora podemos afirmar que tal como oque conheciam as circunstâncias da concepção, do Espírito Santo, Jesus é o maior dos carismas. Ele próprio é o grande carisma que o Pai doou à humanidade. Todo o88 Cf. Lc 1,35; Mt 3,13; Lc 4,18 e Catec. 486 seu ser é o carisma destinado a cada filho e filha de Deus.89 Cf. Catec. 48690 Cf. Catec. 727 96 Ver também Mc 1,12; Lc 4,191 Cf. Catec. 485 e 727 97 Cf. Lc 4,18.2192 Cf. Catec. 536 98 Cf. Mt 12,2893 Cf. Lc 4,18 99Cf. Mt 26,38-42.52-53; 27,40; Fl 2,694 Cf. Lc 1,35.42-45; 2,25-38; 3,21-22; 4,14-21; Mt 100Cf. Catec. 7274,1 101Cf. Fl 2,6-895 Cf. Mc 13,11 102Cf. Lc 4,16-21
  • 39. 39E como um excelente carisma, Ele manifestou em seu De fato Ele veio a este mundo porque era e é Deus.ministério inúmeros carismas. Suportou todo o sofrimento e realizou toda sua obra como Deus e porque era Deus. Porém enquanto aqui viveu, da Para cumprir sua missão Jesus recebeu do Pai, pelo encarnação até a morte, estava condicionado às limitadasEspírito Santo, todo o poder necessário. Com este poder capacidades humanas, portanto, para ser perfeito em tudorealizava prodígios, tais como: curas, milagres, como foi, dependeu do Espírito Santo. De que outraexorcismos, multiplicação de pães e peixes.103 Estas são forma se explicariam seus atos sobre-humanos sem ter seapenas algumas das obras que o Pai lhe confiou.104 socorrido de sua condição de Deus? De que outro modo se entenderia a presença do Espírito em sua vida, Jesus realizou prodígios como Deus ou como serhumano? À primeira vista a resposta mais simples seria conduzindo-O?.106dizer que foi como Deus; seria entender que Jesus Claro que se Ele quisesse, poderia ter usadorealizou milagres porque era Deus. E é verdade, mas não prerrogativas divinas para realizar seus grandes feitos.é só isso. Esta pergunta é pertinente para esta reflexão, Mas, então, como poderia nos ter ensinado a sermospois se fosse exclusivamente como Deus não existiria filhos de Deus em plenitude, mesmo sendo humanos?carisma do Espírito Santo em seu ministério, pois o Não poderia, pois sempre teríamos à nossa frente a idéiapróprio Deus estaria agindo pessoalmente. A ação pessoal de que Ele fora aqui na terra, o que foi e como foi, só porde Deus dispensaria a mediação carismática. O carisma é causa da sua divindade. Por isso “Sendo ele de condiçãouma forma de Deus agir por meio de seres humanos que divina, não se prevaleceu de sua igualdade comse colocam à sua disposição. Pelo que se vê na SagradaEscritura e na Doutrina da Igreja, Jesus aqui na terra, sem Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo adeixar de ser Deus, em tudo foi homem, menos no condição de escravo e assemelhando-se aos homens”pecado. Isso nos leva a concluir que se aceitarmos a (conforme Hb 4,15, passou pelas mesmas provaçõeshumanidade do Filho do Homem, entenderemos a que nós, com exceção do pecado). “E, sendodimensão carismática de sua vida.105 Mas pelo silêncio exteriormente reconhecido como homem, humilhou-dos estudiosos do nosso tempo sobre assunto tão se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, eimportante, perdemos o sentido da relação de Jesus morte de cruz” (Fl 2,6-8).histórico com o Espírito Santo e, por conseguinte,deixamos escapar a visão dos carismas em sua vida Pelo simples fato de Jesus ser Deus, ninguémpública. Este silêncio, além de obscurecer a magnitude duvida de que Ele seja dotado de todos os carismasPneumatológica da vida terrena de Jesus, empobrecendo imagináveis. A ambigüidade de entendimento fica porsobremaneira a dimensão carismática do seu ministério, conta de saber se Ele os empregou, por meio do Espíritoainda arrefece o ânimo de muitos cristãos no que diz Santo, devido à sua condição humana, ou se agiu comrespeito a sermos imitadores de Cristo. Esse poder próprio, por ser Deus. O Magistério da Igrejaesmorecimento no testemunho imitativo de Jesus se dá de formulou que “na humanidade de Cristo,maneira tão sutil que muitos nem a percebem. Mas não portanto, tudo deve ser atribuído à suapodemos ficar enganados, os sinais dessa mornidão pessoa divina como ao sujeito próprio. Nãoexistem e povoam nossas mentes em forma de somente os milagres, mas também ospreconceitos. Eis alguns exemplos: “Jesus perdoou como sofrimentos, e até a morte”.107perdoou, suportou o sacrifício na cruz, obedeceu ao Pai deforma perfeita, suportou perseguições atrozes, tudo no De qualquer modo, até parece soar mal ao nossoamor e na graça, sem se desesperar, sem se revoltar, só espírito dizer que Jesus foi nesta terra um verdadeiro serporque era Deus”. Será verdade? humano, e como tal viveu; sem, contudo, deixar de ser Deus. Mais: por saber que Ele é realmente Deus, sem103Cf. Mt 12,28; Mt 14, 15 e At 10,34-43 jamais perder essa natureza, quase naturalmente se aceita104Cf. Jo 5,36 a idéia, sem o exercício da razão e da fé, de que Ele,105 Nos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II – e vivendo como homem, não foi sequer cheio do Espíritopor que não dizer até os dias de hoje? – talvez por causa Santo e muito menos dotado de seus dons. Ora, sabemosda facilidade de ver a divindade de Jesus e também pela de seus próprios lábios que Ele era ungido pelo Espírito,dificuldade de por em prática o dado da Revelação sobre portanto pleno dEle (cf. L 4,14-21).sua vida terrena sem se valer de sua condição divina,pouco ou nada se considerou sobre o fato de Jesus, agindo Tem-se a impressão de que alguém nos ensinou –pelo poder do Espírito Santo, ter exercido seu ministério sem dizer uma palavra ou sem esboçar um só gesto – quepor meio dos carismas prometidos por Ele mesmo aos que o batismo de Jesus seria uma mera formalidade para secressem (cf. Mc 16,17-18). Se é correto que Jesus cumprir um rito da época, que a descida do Espírito Santorealizou suas obras miraculosas por poder próprio, porque sobre Ele teria sido só para atestar sua divindade e que nao poder do Espírito também lhe pertence, posto que é perícope de Lucas 4,14-30 não se deveria dar atenção aDeus e não deixou de sê-lo, mesmo em corpo de homem, um versículo do Livro de Isaías que diz: “O Espírito donão é menos certo que como homem estava ungido pelo Senhor está sobre mim, porque me ungiu,” que JesusEspírito Santo e dotado de todos os carismas. De maneira leu e aplicou a si mesmo ( Lc 4,21).prática não há como dissociar estas duas realidades sem 106Cf. Mt 4,1danos para a fé. 107 Catec. 468
  • 40. 40 É nesta linha que vemos os carismas. Tudo o que Sem almejar a solução de todos os problemas queJesus fez, incluindo curas, milagres, exorcismos, tal assunto suscita, analisaremos esta questãomultiplicação de pães e peixes e tudo o mais, foi como sinteticamente, naquilo que no momento nos interessa.verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Mas em qual Os Apóstolos que viveram com Jesus perceberammedida Ele agiu como Deus? Em qual proporção Ele logo que Ele era um homem extraordinário, capaz deoperou como Homem? A Igreja já respondeu: Ele foi cem realizar coisas além das forças humanas. Vemos issopor cento homem e cem por cento Deus. Mas a Revelação dramatizado no capítulo cinco de São Lucas, quandonos garante que Ele não se prevaleceu de sua condiçãodivina durante sua vida terrena,108 isto é, desde suaconcepção até sua morte de cruz. Este mistério extrapola a Com a encarnação Jesus se tornou verdadeirointeligência humana. Mas, exatamente por ser Deus, é que homem, sem deixar de ser Deus. A cristandade precisouEle conseguiu não se prevalecer de sua divindade para de séculos de reflexão para compreender este mistério.realizar sua missão, desde a evangelização de uma só Sua solução começou no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, no ano 325, onde se colheu a formulação de quepessoa,109 passando pelos milagres e chegando à Jesus é consubstancial ao Pai, sendo verdadeiro Deus ecrucificação110 e à morte na cruz. E se Ele não se valeu de verdadeiro homem. No III Concílio Ecumênico de Éfeso,sua condição divina, agindo, portanto, como homem – o em 431, deu-se mais um passo, produzindo a confissão dehomem por si só não tem nenhum poder – a realização que “o Verbo, unindo a si na sua pessoa umados prodígios repousa sobre o Espírito Santo, cuja carne animada por uma alma racional, seoperação se dá por meio de carismas. Aqui se vê tornou homem”. Coube ao IV Concílio Ecumênico,claramente a importância da Terceira Pessoa da realizado em Calcedônia, no ano de 451, afirmar:Santíssima Trindade na missão do Filho, enquantoSalvador, Redentor e Mestre da humanidade.111 “Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em108 Cf. Fl 2, 6-8 divindade e perfeito em humanidade, o109 Cf. Jo 4,7-42 mesmo verdadeiramente Deus e110 Cf. Mt 27,40 verdadeiramente homem, composto de111 Cremos que na raiz do problema da aceitação prática uma alma racional e de um corpo,– em nível pastoral – dos carismas na vida de Jesus, está consubstancial ao Pai segundo auma das questões mais espinhosas que a Igreja enfrentou divindade, consubstancial a nósdurante alguns séculos. Trata-se de aceitar segundo a humanidade, ‘semelhante aequilibradamente Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro nós em tudo, com exceção do pecado”homem. Doutrinariamente a solução já foi dada há mais (Hb 4,15).de mil anos, mas parece que no dia-a-dia dascomunidades, que é onde a pastoral deve acontecer, a Por fim, no ano de 553, em outro Concíliobalança sempre pende para o lado da divindade de Jesus, Ecumênico, desta vez reunido em Constantinopla,em detrimento da sua humanidade, empobrecendo assim assentou-se que “Não há senão uma só hipóstaseum dos dados mais importantes, mais sublimes e que mais [ou pessoa], que é Nosso Senhor Jesusdemonstram o amor de Deus por nós. Cristo, Um da Trindade“. Conclui o nosso Não estamos afirmando que seja ruim a tendência Catecismo (da Igreja Católica), em seu número 468, quede enxergar mais a divindade de Jesus e menos sua “na humanidade de Cristo, portanto, tudohumanidade. Até certo ponto, se for necessário pender deve ser atribuído à sua pessoa divina comopara uma delas, que seja para a divindade, uma vez que ao sujeito próprio. Não somente os milagres,isso não acarreta danos irreparáveis à salvação, mas mas também os sofrimentos, e até a morte:sempre lembrando que ambas são inseparáveis. ‘Aquele que foi crucificado na carne, nossoEntretanto, não há como negar que se não buscarmos o Senhor Jesus Cristo, é verdadeiro Deus,equilíbrio entre sua divindade e humanidade, perderemos Senhor da glória e Um da Santíssimaa riqueza de sua vida humana conduzida pelo Espírito Trindade’”.Santo. Ao contemplar este mistério, as pessoas de fé não O certo é que, sempre que se debateu a divindade têm dificuldade em se aproximar de Jesus para aceitá-lo ede Jesus em relação à sua humanidade, ou vice-versa, adorá-lo como Deus. Entretanto estas mesmas pessoashouve uma tendência em privilegiar a sua divindade. Essa encontram barreiras intransponíveis para suas própriastendência gerou mais de uma heresia (cf. Catec., 464- inteligências quando tentam se achegar ao mesmo Cristo469). Por isso podemos afirmar que um dos dados da para acolhê-lho como ser humano. Isto até parece ferir oRevelação que muito desafia a inteligência humana é a coração de algumas mais “espiritualizadas”. Mas éencarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A impossível compreender com um pouco mais deaceitação deste dado foi o primeiro problema realmente profundidade a relação de Jesus com o Espírito Santo,sério que se colocou perante a Igreja, mesmo antes do enquanto viveu como o carpinteiro de Nazaré ou operíodo subapostólico (cf. I Jo 4,1-3). pregador da Galiléia, despojando-o de sua humanidade.
  • 41. 41Pedro e seus companheiros, que começavam a conhecer Como todo judeu, os discípulos sabiam que DeusJesus, se espantaram com uma pesca milagrosa enviaria alguém para salvar Israel. Conheciam ascomandada pelo Mestre. A Palavra diz que eles ficaram profecias. Lembravam-se de que o messias nasceria deassombrados e Pedro chegou a se jogar aos pés de Jesus e uma virgem. Não deve ter sido difícil resgatar do meio dopedir: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um povo o paralelismo entre a gravidez de Isabel e Maria.homem pecador (Lc 5,8)”. Certamente Pedro viu em Esta era a virgem. As ações do Messias eram tãoJesus um homem santo que trazia em si as bênçãos e o extraordinárias e suas palavras tão poderosas quepoder do Deus que até então os judeus conheciam, ou compreenderam que Ele era mais do que um ser humano;seja, um ser poderosíssimo que comandara os exércitos de era um ser nascido diretamente de Deus,115 logo sóIsrael em muitas oportunidades e por várias vezes os poderia ser um filho de Deus, o Deus vivo de Israel,116 emlibertara de mãos inimigas. contraposição aos “deuses” humanos, tais como os ídolos, os reis, imperadores, faraós. A ação do Espírito Santo por meio de Jesus tantoaumentou a compreensão dos discípulos que fez de Pedro É natural pensar que até aqui os discípulosportador de uma das maiores revelações acerca da Pessoa acreditassem que Jesus fazia aqueles milagres e ensinavade Jesus, que aconteceu no dia em que ele proclamou: com autoridade só porque era “O” Filho de Deus e que“Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16).112 Com por ser este Filho é que podia dar-lhes uma parcela do seuessa revelação mereceu o título de bem-aventurado dos poder.117lábios do próprio Mestre. Aqui Jesus já era, na Assim é que vemos os Apóstolos no auge do saborcompreensão dos Apóstolos o ungido por Deus para a destas e outras revelações extraordinárias, como a dosalvação do povo de Israel, porém com uma novidade: Eleera o próprio filho de Deus. Então a filiação divina de Monte Tabor,118 se defrontarem com a humanidade deJesus, como fato, cuja revelação se iniciou nas profecias Jesus, que era, como a deles, capaz de sofrer e de sedo Antigo Testamento, passando pela boca do anjo angustiar119 e até de morrer. Felizmente o ciclo daGabriel e pelas teofanias acontecidas no seu batismo, na Revelação ainda não estava completo, faltava ainda otransfiguração ocorrida no Monte Tabor e na voz do Pai melhor: a ressurreição e os ensinamentos de Jesus antesquando respondeu a uma oração do Filho,113 agora estava da sua ascensão.120assentada no coração dos discípulos.114 Assim, os discípulos do Divino Mestre partiram de O testemunho dos Evangelhos não detalha a forma sua humanidade para chegar à sua divindade. Primeiroempregada por Jesus para instruir os Apóstolos sobre suas miravam-no como um simples carpinteiro. Logo depoisnaturezas divina e humana, porém é lícito seguir a mesma pareceu aos seus olhos que era um profeta. Depoismetodologia utilizada pelo Pai para formar o Povo de descobriram que não era um profeta comum, mas pareciaIsrael, isto é, a da revelação. Aos poucos, a partir do ter a estatura de Moisés, Elias ou João Batista. Por fimtestemunho dos profetas iluminado pelas palavras, gestos descobriram nEle o Filho de Deus. No ápice dessase atos de Jesus, os discípulos foram sendo esclarecidos. descobertas tiveram que fazer o movimento de volta. Se pelos prodígios e teofanias acolheram a revelação de sua divindade, agora, pela cruz, eram obrigados a reencontrarem a sua humanidade. Creio que este112 Revelação maior do que esta foi feita somente por movimento não seria possível sem as luzes e os auxíliosJesus, diretamente, ao dizer: “Eu e o Pai somos um” (Jo da graça.10,30) e neste diálogo com Filipe: “Disse-lhe Filipe: O movimento continuou. Dos sepulcros daSenhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. Respondeu humanidade saltaram para a deidade com as aparições doJesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me Ressuscitado. Novamente o ciclo de humanidade-conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. divindade se repetiu. Ao verem-no ressuscitado, assombraram-se. É que Ele podia ser um anjo, um espíritoComo, pois, dizes: Mostra-nos o Pai..” (Jo 14,8-9), donde desconhecido ou, quem sabe, a manifestação pura dovem que Ele é Deus, consubstancial ao Pai. Deus de Israel que assustava até os maiores profetas.121113 Cf. Mt 17, 1 e Jo 12,23-30 Novamente Jesus interveio para lhes provar que Ele114 Relacionar-se com Jesus Deus e homem estava ressuscitado mesmo, que Ele era Deus tanto quantoequilibradamente é um desafio para o ser humano. o Pai, mas que estava ressuscitado em carne, que nãoA tendência é estar mais para Jesus Deus ou maispara Jesus homem. O equilíbrio se consegue com desejava se separar de sua humanidade, agora “corpofé madura. Mesmo entre os primeiros escolhidos espiritual” (cf. 1ª Cor 15,44). Para isso até comeu compelo Mestre havia quem só conseguia vê-lo comohomem. Um deles, Judas Iscariotes, o entregou à 115 Cf. Lc 1,35morte. Em termos humanos, é difícil não pensar que 116 Cf. Mt 16,16esta traição se deveu ao fato de Judas não ter visto 117 Cf. Mt 10,1em Jesus o Filho do Deus vivo. Esta dificuldade de 118 Cf. Mt 17,1-13Iscariotes o colocou no prato da balança de quem 119 Cf. Lc 22,39-44só via a humanidade de Jesus, em evidente 120 Cf. Lc 24,13-31.36-50; At 1,3desequilíbrio. 121 Cf. Is 6,1-5
  • 42. 42Eles, se bem que não precisasse mais dos nossos mundo suas ações, os enviou como o Pai O enviara, istoalimentos.122 Agora estava tudo claro: misteriosamente é, cheio do Espírito Santo.130Jesus era para eles verdadeiro Deus e verdadeiro Durante três anos o Mestre preparou os discípuloshomem.123 para o batismo no Espírito Santo preparação que começou Com o fato da sua ressurreição e com as dúvidas efetivamente com a pregação do precursor,131 continuoudos discípulos dissipadas,124 Jesus encontrou o momento com a convivência do discipulado132 e com as palavrasde abrir-lhes o entendimento para que compreendessem as que ouviram,133 culminou com a solene promessa deescrituras125 e, lógico, tudo o que Ele próprio havia Jesus: “Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai;ensinado. Dentro do seu ensinamento está sua relação entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidoscom o Espírito Santo, que eles viram desde os tempos de da força do alto. Descerá sobre vós o Espírito Santo e vosNazaré, Decápole, Cafarnaum, Betânia. dará força” (Lc 24,49; At 1,8a). Para os discípulos não era nenhum espanto saber Enfim, “chegando o dia de Pentecostes, estavamque Jesus agia pelo Espírito Santo,126 e que o Espírito todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céuSanto atuava no Ungido do Pai por meio de graças que no um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, eministério Paulino foram chamadas carismas.127 encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes Assim, temos que o uso dos carismas na pastoral então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram eefetuada por Jesus é realidade inquestionável e sua pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios donecessidade decorreu diretamente da sua condição Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas,humana ou, dito de outra forma, emanou do fato de não conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem (Athaver Ele se valido de sua condição divina durante suavida terrena, embora dela pudesse ter se socorrido, se o 2,1-4)”.quisesse. Se entendêssemos de outro modo estaríamos Pronto. Grande dia! Tudo estava realmenteanulando importantes dados da Revelação, como por completo. O Messias, que viera havia tempo e conviveraexemplo, Ele agir pelo Espírito Santo e ter vivido, da com os discípulos manifestava-lhes a sua glória. Antes seconcepção até a morte na cruz, como homem, mesmo sem tornara Mestre para instruí-los em tudo que precisavamdeixar de ser Deus. De mais a mais, não se vê nada para que fossem servidores da Obra de Salvação, dóceisrelevante que anule ou diminua o entendimento no sentido ao Espírito Santo, como o Pai e o Filho planejaram.134 Osde ver na intenção de Jesus, revelando insistentemente128 grandes ensinamentos, as espetaculares revelações,aos discípulos que era pleno do Espírito, que agia por Ele inclusive a divindade do Ungido, tudo enfim, estavae por Ele era conduzido, que não seja o desejo de confirmado com a Ressurreição do Filho do Homem, suademonstrar-lhes como se deve desenvolver uma boa e Ascensão e a vinda do Espírito. O Enviado do Paifrutuosa ação pastoral. terminou sua missão. Agora a Obra repousa sobre os ombros de suas testemunhas que há poucos instantes foram batizadas no Espírito Santo, recebendo o Fogo que b.4) Jesus batiza os discípulos no guiou o povo na travessia do deserto,135 a Água Viva que Espírito Santo sacia a sede que o homem tem de Deus, com toda a profusão de carismas, ferramentas necessárias para a A missão de Jesus era a missão do Pai, que desde construção do Edifício Espiritual que começou a ser feitotempos remotos prometera um salvador. Mas Jesus não a há apenas alguns instantes, no exato momento em que arealizou sozinho; agiu em perfeita colaboração com o primeira Língua de Fogo tocou Pedro.Espírito Santo.129 Ele que viveu sob a unção do Espírito,sabia que os discípulos só poderiam levar avante o seu Os discípulos estão realmente batizados nomister se também agissem sob a mesma unção. Para Ele Espírito Santo, conforme as promessas bíblicas. Não há“O discípulo não é superior ao mestre; mas todo discípulo lugar para dúvidas; os prodígios e a unção do Espírito136perfeito será como o seu mestre” (Lc 6,40). E para que as dissipam. Cabe agora acolher mais este dado daseus discípulos fossem como Ele e reproduzissem no Revelação, experimentá-lo e testemunhá-lo.137122 Cf. Lc 24,36-44; Jo 21,9 c) Fundamento relativo à vida da Igreja123 Cf. 1ª Jo 4,1-3124 Cf. Lc 24,36-44 130 Cf. Jo 20,21-22125 Cf. Lc 24,45 131 Cf. Jo 1,33; Lc 3, 16; Mc 1,8; Mt 3,11126 Cf. Mt 12,28 132 Cf. Jo 20,21-22127 Cf.1 Cor 12,7-10; GRASSO, Domenico. Los 133 Cf. Jo 3,5-8; 7,37-39; 14,16-17.26; 16,7-15Carismas en la Iglesia: Teologia e História, 134 Cf. Jo 16,14-15pp. 15 a 18. 135 Cf. Êx 13,21; 14,20.24; Nm 14,14128 Cf. Catec. 535 136 Cf. 1ª Jo 2,27129 Cf. Catec. 485, 535, 689, 690 137 Cf. At 1,8
  • 43. 43 A Revelação é composta pela Sagrada Escritura e Na passagem de Atos 16,6-10, vemos concreta epela Sagrada Tradição.138 Nos vários tópicos acima, nossa explicitamente uma comunidade carismática sendoespiritualidade já foi fundamentada suficientemente na conduzida pelo Espírito Santo, a quem o Espírito ajudavaRevelação Bíblica, mas é necessário voltarmos a ela, pois por meio de carismas.resumiremos sua presença na Tradição viva da Igreja, a A espiritualidade carismática inicial produziu nacomeçar de sua ocorrência no tempo dos Apóstolos, pois Igreja tal riqueza de dons que em algumas comunidades oé impossível ler o Novo Testamento sem descobrir a Espírito Santo moveu os pastores a formarem osgrandiosa experiência carismática que o envolveu, do primeiros cristãos para o bom emprego dos carismas.147princípio ao fim. A não ser que não se queira ver. Todo eleestá entremeado de carismas. Já no primeiro capítulo de Como se vê, a própria Sagrada Escritura nos revelaMateus se destaca o carisma de revelação, por exemplo. E que a Espiritualidade que ora analisamos foi a mesma queassim vai o Espírito Santo se movendo por cada livro, o Espírito suscitou para a Igreja. Basta lembrar que Ela,epístola, capítulo e versículo, até atingir o Apocalipse, a fundada por Jesus,148 ficou em gestação até o dia degrande profecia. Pentecostes, quando nasceu, como diríamos hoje, Já no início do testemunho de João Evangelista, inteiramente carismática; justamente porque havia sidolemos a seguinte revelação feita por meio de João Batista: dotada de uma espiritualidade moldada diretamente pelo“Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é Espírito Santo.o que batiza com o Espírito Santo” (Jo 1,33b). Naquele período que se convencionou denominar de Igreja Primitiva, os sinais bíblicos são pródigos em Esta passagem é importante porque nela confirmar o que acima dissemos. Estes sinais foramDeus nos diz qual é a fonte da espiritualidade descritos com riqueza de detalhes no livro dos Atos doscarismática. Ela é o próprio Jesus, uma vez que Ele Apóstolos, que bem poderia se chamar de Atos doé quem batiza com o Espírito Santo. Ressalte-se Espírito Santo. Esta confirmação se estende por váriasainda que este batismo é parte integrante da obra Epístolas, notadamente nas de Paulo. Seu sinal evidente édo Messias,139 pois como está em Isaías 61,1-2, Ele a abundância de carismas com os quais o Senhorpróprio receberia este batismo; e de fato Ele o manifesta ao mundo o seu poder e confirma a pregaçãorecebeu140 e aplicou a si mesmo esta passagem de dos seus enviados.149Isaías,141 reservando para o tempo oportuno142 o Tendo como base as manifestações de carismas,cumprimento da profecia do Batista, registrada em que dissipam toda dúvida quanto a uma espiritualidade serJoão 1,33. Ele, portanto, é o batizador no Espírito ou não ser marcada pela presença do Espírito Santo,Santo.143 E como a experiência carismática começa podemos afirmar que a espiritualidade “carismática”com o batismo no Espírito Santo, não há como os continuou vigorosa no período subapostólico, atingindoseparar validamente. É por isso que todo católico, em cheio a patrística – ensinamento dos primeiros padrespor ser batizado em nome do Pai, do Filho e do da Igreja – continuando séculos afora, passando pela eraEspírito Santo,144 é um “carismático” em potencial, Medieval, a Idade Moderna e chegando aos nossospois todos nós somos portadores do Dom do dias.150Espírito do Senhor e como tais somos chamados a Ocorre que, por circunstâncias teológicas, a partirsermos filhos de Deus, que é o ápice da vivência do Século VI, após o Papa Gregório Magno ter emitidocristã, sendo conduzidos pelo Espírito Santo.145 sua opinião, não ex catedra, mas sim como teólogo, com Em Mateus 28,20b, Jesus promete estar conosco base numa explicação de São João Crisóstomo, passou-setodos os dias. A Bíblia não esclarece como os Apóstolos a não valorizar as manifestações sensíveis do Espírito. 151assimilaram esta promessa, nem como ela seria cumprida. Domenico Grasso152 informa que os estudiosos apósHoje sabemos que, além de sua onipresença, Ele está Gregório Magno não se animaram a aprofundar aconosco na Pessoa do Espírito Santo, posto que ambos investigação do tema por terem a opinião do grande Papasão Um. Falando com um estar-se-á também falando com como indiscutível.o outro. Sendo conduzido pelo Espírito Santo, estar-se-átambém sendo conduzido por Jesus. 140 Cf. Mt 3, 13-17 Em Lucas 24,49a, Jesus ordena aos discípulos que 141 Cf. Lc 4,18-19fiquem em Jerusalém até que recebam o Espírito Santo. 142 Cf. At 2,1-4Esta ordem foi reforçada em Atos 1,8. Quem ler o livro 143 Cf. Catec. 536 e 729dos Atos dos Apóstolos descobrirá que a vinda do 144 Cf. Mt 28,19Paráclito se deu em contexto eclesial no dia da festa do 145 Cf. Rm 8,14-16 146 Cf. At 2,1-4pentecostes judaico,146 dando nascimento à Igreja de 147 Cf. 1ª Cor 12, 3-14Jesus. 148 Cf. Mt 16,18-19; Jo 21,15-17 149 Cf. Mc 16,20 150 GRASSO, Domenico. Op. cit., pp. 159 a 166.138 Cf. Dei Verbum, 9 e 10 151Ibid. Op. cit., pp. 131 a 134.139 Cf. Catec. 536 152Ibid. Op. cit., pp. 134 a 136
  • 44. 44 Mas o certo é que existe uma linha contínua a ligar “‘O mundo precisa muito dessa ação do Espíritoa experiência carismática dos Apóstolos com a nossa, sem Santo, e de muitos instrumentos para essa açãointerrupção. Com esta linha visível na Igreja o Espírito (...)”“unifica-a na comunhão e no ministério. “Agora vejo esse movimento, essaDota-a e dirigi-a mediante os diversos dons atividade em todos os lugares. Em meu própriohierárquicos e carismáticos”.153 É por isso que País vi uma presença especial do Espírito Santo.podemos afirmar, sem nenhuma dúvida, que “os Por meio dessa ação Ele vem ao espírito humanocarismas nunca estiveram ausentes da e desde esse momento começamos novamente aIgreja”154 viver, a nos encontrar em nós mesmos, a encontrar nossa identidade, nossa humanidade total. De A palavra mais recente da Igreja, precisamente a maneira que estou convencido de que estepartir do Vaticano II, tem reconhecido os dons, ponto movimento é um componente muito importantenevrálgico da vida carismática, como uma graça a ser dessa total renovação da Igreja, dessa renovaçãovivida em nossos dias. São exemplos disso suas espiritual da Igreja.”referências em vários documentos. Vão no mesmo sentidoas inúmeras locuções papais de acolhimento, orientação, Vale também destacar o que o Papa disse naincentivo e exortação à Renovação Pentecostal Católica. audiência com os bispos do sul da França, Roma, 1982: Durante a Segunda Conferência Internacional de “Aludo à intensa busca espiritual que seLíderes da Renovação Carismática Católica realizada em observa em muitos cristãos. Refiro-meRoma, no ano de 1975, Paulo VI, entre outras coisas, concretamente à Renovação Espiritual, mas pensodisse o seguinte: igualmente nos numerosos grupos de oração, várias comunidades, retiros, locais de encontros “Ao se reunir em Roma, os integrantes da consagrados à oração (...). Refiro-me ao Renovação quiseram dar um testemunho de sua fé redescobrimento da oração. Tudo isso deve ser e fidelidade à Igreja e ao Papa, expressar o desejo cuidado e observado; é, antes de tudo, uma graça de ser dóceis para que o Espírito Santo os usasse que vem no momento oportuno para santificar a como instrumentos para a renovação da Igreja, Igreja (1ª Cor 3,16; 6,19). Ela cresce na Igreja (o celebrar em oração a festividade do Pentecostes, Espírito) e renova-se perpetuamente”.157 próximos do sucessor de Pedro, e aproveitar alegremente o Ano Santo como graça para cada A palavra dos papas, cujo múnus é apascentar o ano, para a Igreja e para o mundo”155 rebanho do Senhor, dispensa maiores comentários, pois se eles, guardiões da sã doutrina e fiéis depositários da fé Noutra oportunidade falou assim: que os Apóstolos receberam do Senhor Ressuscitado, “Deve ocorrer uma renovação, um acolhem a Renovação como uma bênção de Deus para a rejuvenescimento do mundo. Deve ocorrer de novo Igreja, é porque vêem nela verdadeiros fundamentos uma espiritualidade, uma alma, um pensamento doutrinários e bíblicos que a fazem apta para ser Igreja religioso no mundo; os lábios fechados à oração com a Igreja. devem se abrir de novo, abrir-se ao canto, à Depois de tudo o que refletimos, pensamos que alegria, ao hino, ao testemunho. Será bastaria a nossa fé na Revelação para aceitarmos a índole verdadeiramente uma grande fortuna para nosso carismática da Igreja. Vivenciando esse caráter tempo e para nossos irmãos que haja toda uma carismático da Igreja, nenhum católico oporia resistência geração, vossa geração de jovens, que grite ao à Renovação; ainda mais quando quiseram o Pai, o Filho mundo as grandezas de Deus em Pentecostes.” 156 e o Espírito Santo, que os carismas, um dos sinais visíveis Dentre as incontáveis falas de João Paulo II, da presença da Trindade, estivessem conosco no viverleiamos estes pequenos trechos: eclesial. “Este é o primeiro encontro com os A presença marcante do Espírito na vida eclesial é senhores, católicos carismáticos. De forma que mais do que necessária para a propagação da Boa Nova. ainda não posso responder a esta petição. Ela firma a presença da Igreja no mundo como um Permitam-me primeiro explicar minha própria Sacramento de Cristo. Assim, não há como desvincular, vida carismática. Sempre pertenci a esta sem prejuízos, o Corpo Eclesial da espiritualidade renovação no Espírito Santo. Minha própria apostólica, que, como estamos vendo, é a espiritualidade experiência é muito interessante (...).” que sempre esteve presente na Igreja e que hoje se vive na Renovação com muita intensidade. Assim, após a leitura do Novo Testamento e de um pouco de literatura Patrística, cuja importância153 Cf. Lumem Gentium, 4154 Cf. Puebla, 207 Ibid. op. cit. p. págs. 207, 208 e 211155 Papa Paulo VI, apud Juanes, Benigno, SJ. Falar 157 .em Línguas, pág. 203. Cf. Catec. 736; Ad Gentes, 870; GRASSO,156 Ibid, op. cit. p.206 Domenico. Op. Cit., p. 166
  • 45. 45 158 como reconhecida, pois seus estatutos foram aceitos pelafundamental é reconhecida pela Igreja, é fácilsurpreender-se a clareza com que o Espírito Santo faz os Igreja, embora pelo direito canônico tal reconhecimentocarismas surgirem nos relatos bíblicos, bem como ver que não fosse necessário.160sua ressonância continuou pelos séculos, sempre ondeuma alma aceitou inclinar seus ouvidos para o Senhor, O Decreto Conciliar outorgado pelo Vaticano II,com dócil coragem para a prática dos dons do Seu “Apostolicam Actuositatem”, sobre o apostolado dosEspírito. Nalgumas vezes esta alma tem sido de algum leigos, que é anterior ao atual Código de Direitosanto, noutras, de gente simples, do povo, como ocorre Canônico, já chamava as organizações leigas denos dias de hoje. Mas, como diz o autor sagrado, tudo é “apostolado em grupo” e “associações”. Em seu parágrafo 19 consagra o “direito dos leigos fundaremmanifestação de um só e mesmo Espírito,159 como grupos e dirigi-los, bem como se inscreveremreconhece a Igreja em sua Doutrina e na palavra dos nos existentes”, pois “Todos os agrupamentosPapas. de apostolado merecem estima”.161 Coube à Exortação Apostólica Christifideles Laici d) Fundamentos jurídico-canônicos – sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo – alargar o conceito de apostolado em grupo. E o Neste item não se exporá todo o embasamento fez em seu parágrafo vinte e nove, particularizandojurídico-canônico da Renovação. Ele está diluído em todo associações e colocando ao lado delas os grupos,este estudo - em particular em cada local onde se comenta comunidades, movimentos; todos a título de exemplo.algum trecho de documentos eclesiais, pois estes Neste parágrafo a Igreja nos fala de uma nova eradocumentos são a fonte dos fundamentos que ora agregativa dos fiéis leigos e, citando o Papa João Pauloanalisamos. Gostaríamos que os irmãos, ao estudar os II, reconhece ser isso uma graça do Espírito Santo.capítulos sobre o contexto eclesial da Renovação e sobreos carismas, tivessem redobrada atenção, pois é neles, Mas voltando ao Código do Direito Canônico,depois deste tópico, onde se concentra maior número vejamos o que ele nos diz a respeito de espiritualidade:desta espécie de embasamento. “Cân. 214 –– Os fiéis têm o direito Por ora comecemos pelo Código do Direito de prestar culto a Deus segundo asCanônico. Ele não menciona movimentos eclesiais, pois determinações do próprio rito aprovadotrata todas as agremiações pelo termo genérico pelos legítimos Pastores da Igreja e de“associações”. seguir sua própria forma de vida Os direitos civis de reunião e associação espiritual, conforme, porém, à doutrinareconhecidos pelos Estados, no seu âmbito a Igreja os da Igreja” (Grifos do autor).outorga nos cânones 215 e 216, dizendo que “Os fiéis Irmãos, como vimos no cânon acima, a Igreja nostêm o direito de fundar e dirigir associações dá o direito de viver (seguir) nossa própriapara fins de caridade e piedade, ou para espiritualidade, pois “forma de vida espiritual” éfavorecer a vocação cristã no mundo”, e de “... uma locução cujo significado se resume numa palavra:promover e sustentar a atividade espiritualidade. A partir daqui não cabe mais indagação aapostólica...” este respeito, uma vez que a Igreja, agindo em nome de Cristo, diz que podemos, por direito, seguir uma O parágrafo primeiro do cânon 225 diz que os espiritualidade carismática, com tudo o que ela significa.leigos têm o direito e o dever de, individualmente oureunidos em associações, trabalhar para o anúncio do A regra canônica coloca uma condição para oEvangelho. acolhimento de uma espiritualidade; é que ela esteja “conforme à doutrina da Igreja”. O direito de associação é regulamentado peloscânones 298 a 329. Aí se vê que um movimento como a Conformidade significa estar de acordo. DeRenovação pode ser classificado como associação, posto maneira geral a Renovação sempre esteve de acordo comque é organizado pela reunião de pessoas, cuja regência a Doutrina da Igreja; entretanto não tem sido fácilparticular se dá por meio de seus estatutos. demonstrar isso, pois sua prática resgata valores que estavam há muito tempo esquecidos. Com o advento da Do ponto de vista associativo a Renovação é Christifideles Laici, a Igreja nos brindou com critériosclassificada como associação privada, pois é constituída específicos para demarcar o que seja eclesialidade para ashistoricamente por um grupo de pessoas particulares(leigas) que livremente se reuniram e se organizaram. agregações laicais.162 O movimento que se enquadrarTambém se classifica como não reservada, por militar em nestes critérios com certeza está conforme à exigência docampo no qual os particulares podem livremente se unir cânon 214 do Código do Direito Canônico.para criar associações. Quanto ao reconhecimento daAutoridade Eclesiástica competente, ela classifica-se 160 Código de Direito Canônico, Cân. 299, §§ 1º, 2º e 3º; 301, § 1º158 Cf. Dei Verbum, 8 161 Cf. AA, 21159 Cf. 1Cor 12,11 162 Cf. Christifideles Laici, 30
  • 46. 46 Quando estudarmos o contexto eclesial da A 37ª Assembléia Geral da CNBB, no dia 22 deRenovação, analisaremos tais critérios. Por ora podemos abril de 1999, aprovou o texto do Documento 62, quegarantir que nosso Movimento se encaixa em todos eles. trata da missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas. Este documento é um eco da Christifideles Laici no Mais uma consideração. De tudo que fazemos, o Brasil, com as necessárias explicitações. Nele a CNBBque tem gerado perplexidade em quem não nos conhece acolhe os carismas e os orienta ao serviço da Comunidadesão nossos carismas. No capítulo apropriado, ainda nestes Eclesial, como se vê em seus números 79 e 81, quandoestudos, demonstraremos que também neste assunto trata de “carismas, serviços e ministérios vários,” e deestamos conformes com a Doutrina. “carismas e ministérios: distinguindo e unindo”. Nossa conformidade já foi reconhecida pelas Esta farta fundamentação nos faz abrir o coraçãoautoridades eclesiásticas brasileiras. Isso se deu apósquase vinte e oito anos de existência da atual Renovação para receber o consolo que o Senhor promete aos seus.165no mundo, depois de vinte e cinco anos de sua vinda para Por outro lado, reconhecemos que ainda não conseguimoso nosso País e quando ela já se tornara realidade nas realizar tudo o que Jesus por Sua Igreja nos pede.arquidioceses, em centenas de dioceses e nas prelazias Esforcemo-nos para atingir todas as metas. É tambémbrasileiras. Para isso nossos bispos editaram um verdade, isso é um alento, que o pouco que fazemos estáDocumento da Conferência Nacional dos Bispos do bem amparado pela Sagrada Revelação, em sua duplaBrasil, o de número 53, intitulado de “Orientações manifestação – Sagrada Escritura e Sagrada Tradição – ePastorais sobre a Renovação Carismática Católica”. pelo Magistério da Igreja. No primeiro parágrafo do Documento 53, nossos Apresentaremos a seguir os frutos da Renovação;bispos esclarecem que as orientações pastorais tratam de alguns. São muito importantes, pois a Igreja exige auma proposta de reflexão sobre a Renovação Carismática. presença deles para dizer se um movimento é eclesial ouNo segundo nossos pastores reconhecem que “Entre os não. Confira esta exigência relendo a parte conclusiva dos critérios de eclesialidade da Christifideles Laici acimavários movimentos de renovação espiritual e apresentados. São os frutos que dizem a última palavrapastoral do tempo pós-conciliar, surgiu a RCC quando se deseja discernir sobre a catolicidade de umaque tem trazido novo dinamismo e associação. É por meio deles que se sabe se umentusiasmo para a vida de muitos cristãos e movimento está no rumo certo ou se seus fundamentoscomunidades”. Completam este pensamento dizendo não passam de retórica. A seguir comentaremos alguns eno parágrafo dezenove que “Reconhecendo-se a apresentaremos outros. Vamos a eles.presença da RCC em muitas Dioceses etambém a contribuição que tem trazido àIgreja no Brasil, é preciso estabelecer o 4. FRUTOS DA ESPIRITUALIDADE DAdiálogo fraterno no seio da comunidade RCCeclesial, apoiando o sadio pluralismo,acolhendo a diversidade de carismas e É nosso dever de cristãos olhar humildemente paracorrigindo o que for necessário”. os nossos frutos. Eles são usados pelo Espírito Santo para orientar nossos futuros passos. Essa pedagogia não é Cumpre dizer também que a Conferência Nacional nova. Suas raízes estão na experiência do povo de Israel.dos Bispos do Brasil,163 na trilha da Redemptoris Um dos objetivos que levou os herdeiros da geração doMissio,164 reconhece que a Espiritualidade adequada aos deserto a narrarem a epopéia que seus pais viveram eramissionários é a docilidade ao Espírito Santo, que nada levar os olhos das novas gerações para os frutos domais é do que o traço forte de nossa espiritualidade, pois relacionamento de Deus com eles. Assim, nos momentostudo o que fazemos em relação ao viver terreno visa a de crise, sempre encontravam esperança no Deus queestarmos cheios do Espírito Santo para sermos sempre foi fiel.conduzidos por Ele. Prova disso são nossos Seminários de O próprio Jesus nos chama a atenção para osVida no Espírito. frutos, quando diz: “não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça ...” (Jo 15, 16). A mesma idéia dos frutos está na alegoria dos talentos, em Mateus 25, 20-21. Também na parábola do semeador Jesus nos diz que sua Palavra deve dar frutos a cem por um. Como se nota, não temos alternativa, como163 DOCUMENTOS DA CNBB. Diretrizes Gerais da cristãos, que não seja discernir nossa caminhada pelosAção Evangelizadora da Igreja no Brasil. 61, frutos, seja para confirmar nossa caminhada, seja paracapítulo II, Evangelização Hoje, Sumário, item 5, reorientá-la.“Espiritualidade”.164 Cf. Redemptoris Missio, 87 165 Cf. Mt 5,11-12
  • 47. 47 Antes de continuar nossa reflexão, paremos na gente do povo, simples e pobre, lá na periferia daobra do Frei Felipinho, o teólogo Felipe Gabriel Alves, cidade, lá onde está o doente, o pobre e onos anos oitentas, comprometido com a Teologia da miserável, o alcoólatra, o viciado, começa a sentirLibertação. Ele era interessado em colocar o dom da a força do Espírito Renovador. Assim brotam osprofecia a serviço de sua causa – a libertação – e com carismas, como simples serviço de fé àvistas a isso penetrou vários estágios da Renovação. comunidade, provocados pela experiência místicaVejamos o seu testemunho sobre a Renovação, que se do Batismo no Espírito Santo. Assim, como aencontra na introdução da segunda edição do livro O Igreja primitiva teve a força de perfurar aCARISMA DA PROFECIA166, que segue, ipsis literis: barreira do Império Romano e penetrar o mundo inteiro, o mesmo está acontecendo no século dos “Difícil encontrar na América Latina uma tóxicos e da religião do prazer, através da diocese onde não haja cinco ou mais grupos Renovação Carismática Católica. Ela chega com carismáticos. São fontes irradiando consolo, paz, a mesma Força Dinâmica, com o mesmo Espírito contemplação, renovando-se continuamente no Prometido, armada com os dons, a começar pelo Senhor. Aí cada participante se sente irmão. Aí da conversão”. todos descobrem a alegria de pertencer a uma Igreja viva, onde o mais culto e o mais simples É importante este depoimento por ser fruto de um estão unidos, em plena liberdade de orar, anunciar estudo sério produzido por uma pessoa que na época não e profetizar. Aí é comum crer em Cristo. Não por pertencia aos quadros da Renovação. Aliás, pertencia ao ter ouvido falar d’ele, mas por ter tido a grupo que produzia as críticas mais contundentes contra a misteriosa experiência de que ele existe, vivo entre nossa Expressão de Igreja. eles. Os grupos carismáticos, ou os grupos de oração-estudo-ação, crescem, subdividem-se em a) Valor dos frutos outros e toda a paróquia começa a sentir a a.1) Utilidade dos frutos presença deles: é o amor que os une, transformando-se, em várias localidades, em A vida de uma pessoa não existiria sem os frutos interesse pela justiça social; é a libertação da terra. É por isso que os agricultores plantam cereais, interior, conduzindo-os, em diversas ocasiões, à verduras e outros alimentos. libertação dos oprimidos pelo poder dos Tal como o nosso corpo, o Corpo Místico de poderosos; é a catequese que passa a ser anúncio Cristo167 precisa de frutos para sobreviver; frutos do e testemunho duma religião-vida; é a liturgia que Espírito Santo. É pelos frutos que o mundo saberá que passa a ser participada realmente, com a grande somos de Cristo. criatividade popular; são os cânticos que sinalizam para uma liturgia-festa de encontro com Por conhecer a importância dos frutos para a vida o Senhor; são centros espíritas que se fecham; são da sua família, e para si, o agricultor escolhe bem sua evangélicos que se unem, para viver o ágape da semente e cuida com esmero de cada uma. Quando oração e do amor, etc. precisa de manga, planta manga; quando precisa de pepino, planta pepino. E assim os grupos carismáticos, quanto mais perseguidos, mais se amam e mais aumentam Na vida pessoal quem desejar dar frutos do em número, fiéis a seus vigários (mesmo que os Espírito Santo deve viver no Espírito. No terreno eclesial persigam), fiéis ao culto da Virgem Maria e ao quem desejar os mesmos frutos deve cultivar uma pastoral amor ao Santo Padre, o Papa, fazendo da Bíblia segundo o mesmo Espírito.168 fonte gostosa de água viva, onde diariamente mergulham, bebem e se reanimam. Após o Vaticano II, muitas e muitas a.2) Frutos como critério de paróquias tentaram se atualizar, multiplicando as discernimento secretarias, as reuniões, os organogramas, os O agricultor para ter uma árvore necessita de gráficos, os mapas. Tudo, porém, continuou frio: semente e de terra. A Igreja é a terra do Senhor. Nesta as liturgias com mil folhetos e cânticos novos, mas terra Ele plantou uma centelha do Fogo de Pentecostes há frias; a catequese, mesmo com métodos modernos, pouco mais de trinta anos. A semente do Espírito nasceu, muitas vezes continua atingindo apenas da testa se tornou árvore e recebeu o nome de Renovação para cima, com verdades frias, sem mexer com o Carismática Católica, em nosso País, se tornando uma coração e a vida, pois ainda falta a força do alto verdadeira Renovação Pentecostal. Toda árvore gosta e (At 1, 8). No entanto, sementes de vida nos grupos 167 Cf. 1ª Cor 12,7; Lumen Gentium, 7 e 8. carismáticos suscitam pessoas renovadas. Essa 168 Cf. Catec. 1699; DOCUMENTOS DA CNBB – 57, 13º Plano Bienal de Atividades do Secretariado166 ALVES, Felipe Gabriel – O Carisma da Profecia, Nacional, Mística e Espiritualidade Inculturadas, p.pp. 11 e 12 12.
  • 48. 48necessita de chuva. Também a Renovação vive de água; o amor e fervor, em atitude de permanente escuta eÁgua Viva. disponibilidade para o serviço. A árvore necessita de alimento para dar fruto. Isso Acreditamos que, assim como o Senhor chamatraz à memória um fato conhecido por muitos de nós. muitos de nós – não todos, porém muitos – para o serviçoTrata-se de certos coordenadores de pastorais que das secretarias durante certas etapas de nossas vidas, podeambicionam os frutos da Renovação em sua Pastoral. estar chamando outros para as pastorais. Quem sabe se OEsses frutos são muitos agentes de pastoral que servem escutássemos para este fim, ouviríamos um chamadocom “renovado ardor missionário”, como pede a Igreja. grandioso, para um ministério infinitamente útil eEntretanto essas mesmas pessoas que desejam usufruir o necessário. Assim, quem fosse vocacionado poderiaserviço dos membros da Renovação, muitas vezes mal receber formação específica para servir nas pastorais,suportam nossa espiritualidade. Mesmo assim vivem nos mantendo os vínculos com a Renovação, a fim deconvidando para ajudá-las. Mas, uma vez nos tendo em conservar o fervor e o vigor missionário.suas pastorais, não querem permitir que continuemos Esta reflexão nos leva naturalmente a algumascarismáticos. Com elas não podemos nos colocar como indagações como estas: Como existirá árvore sem seiva?canais visíveis da Água Viva. Proíbem nossos dons. Se Como pode o filho de Deus viver sem a Água Viva?permanecermos numa situação desta, aos poucos nos Existirá Renovação sem a fluência do Espírito? Comoesfriamos e corremos o risco de até sair da igreja. poderá haver frutos se se mata a árvore de inanição? Reconhecemos o imenso valor das pastorais de Ainda bem que o Espírito Santo nos deu aconjunto, bem como sua necessidade e utilidade absolutas fortaleza das árvores dos cerrados.para a conservação da Igreja. Este reconhecimento éespelhado em pesquisa realizada no Congresso Nacional Algumas vezes somos forçados a dizer a algunsda Renovação Carismática Católica do Brasil, no ano coordenadores de pastorais que eles querem o fruto, mas2000, onde se constatou que 68% de nossas lideranças estão matando a árvore. Muitas vezes falamos e não(secretários nacionais, coordenadores estaduais e somos ouvidos. Muitos coordenadores preferem amargardiocesanos) colaboram nas pastorais paroquiais e a decepção com uma pastoral improdutiva, a admitir adiocesanas. Nesta mesma pesquisa constatou-se que 65% prática dos carismas em seu trabalho. Contudo nãodos demais participantes daquele congresso também podemos nos desanimar, devemos aprender a usar ecolaboram nas pastorais. valorizar os frutos como critérios de discernimento e com eles esclarecer os coordenadores de pastorais que pedirem Entretanto, infelizmente temos visto alguns irmãos nossa ajuda.optarem exclusivamente pelos trabalhos pastorais. Oresultado desta exclusividade não tem sido bom. Dizemos Dentro de tudo isso, não se pode deixar de ver aisso com pesar. É que as pastorais não parecem ser o importância dos frutos para nossa espiritualidade e para acampo propício para o desenvolvimento de uma Igreja. Para Jesus eles também foram importantes. Osespiritualidade como a nossa. Pelo menos é isso que se Apóstolos registraram essa importância em mais de umatem visto. E, uma vez que alguém tenha experimentado passagem.170 Em João 5,36 e 14,11, Jesus os utiliza parauma espiritualidade que busca a oração contínua, os autenticar sua obra. Ora, se no tempo de Jesus os frutosjejuns, os inúmeros retiros e encontros que aprofundam a foram importantes para Ele mesmo; se Ele próprio osfé, quando se desliga de tudo isso, parece que se vai empregou para demonstrar aos que o contestavam que seuesfriando, até resvalar na acídia.169 Talvez seja por este ministério era autêntico, tendo-os utilizado para confirmarmotivo que muitos, ao saírem de uma prática religiosa que era o Messias,171 por que haveríamos nós, pobresfervorosa, começam a se esfriar até saírem da Igreja, ou pecadores, de menosprezá-los?voltarem aos velhos costumes de praticantes ocasionais dealguns sacramentos e, pior, sem mais nenhuma atividade Os frutos não servem para o orgulho, mas sãopastoral. necessários para balizar nosso itinerário pessoal e pastoral. Com eles discernimos se a inspiração, a profecia, Qual seria a solução? O espaço de que dispomos a oração, o plano que nos vêm são de Deus. Quando nãoem um estudo como este é pequeno para tratar de assunto houver frutos bons devemos parar, avaliar e reorientartão importante e complexo. Todavia acreditamos que uma nossa vida e nossa pastoral. Quando forem bonsboa solução seria empregar nas pastorais uma confirmam nossa ação pastoral e nos servem de incentivo.metodologia parecida com a que utilizamos em nossassecretarias. Nossas secretarias são para nós uma terra demissão. Participamos delas mediante discernimentovocacional. Cada um serve na Secretaria para a qual sente b) Alguns Frutosno coração os apelos internos do Espírito, que, por vezes, Vários frutos já foram mencionados. Alguns seé confirmado pelo convite da coordenação. encontram no subitem “d” do item “3”. Aqui veremosPermanecemos nelas, sem nos desligarmos do restante da outros, também a título de exemplo.Renovação. Enquanto o Senhor nos quiser como servospara as secretarias, assim permanecemos. Quando ochamado terminar, continuamos na Renovação, com todo 170 Cf. Mt 7, 16-20; 12, 33-35169 Cf. Catec. 2733. 171 Cf. Mt 11, 2-6
  • 49. 49 b.1) Aceitação e prática dos carismas O amor a nós mesmos é um mandamento de Como já vimos neste tema, Jesus desenvolveu em Deus172 que tem passado despercebido pelos cristãos;Israel um ministério profundamente eficaz, no qual os talvez devido à estrutura gramatical utilizada peloscarismas foram abundantes. Os Evangelhos testemunham tradutores, no afã de ressaltar o amor ao próximo. Avivamente esta verdade. Não se vê um só ato de Jesus no tradução que nos apresentam quase esconde o amor a nósqual os carismas não estejam presentes. Do mais simples mesmos.ao mais importante, que é o amor. Os psicoterapeutas tentam incutir este amor em O discipulado, para ser autêntico envolve, seus pacientes, porém não têm conseguido removerportanto, a aceitação dos carismas, significando atitude de séculos de autodepreciação.abertura de coração para recebê-los, ou, pelo menos, Com a cura interior o Senhor tem nos dado,respeitar quem os aceita. Neste passo o Senhor tem sido imperceptível e misteriosamente, a graça de amar a nósexigente conosco, levando-nos não só a aceitá-los, mas mesmos. Assim, quando menos esperamos, estamostambém a praticá-los. amando nossos irmãos e perdoando-os sinceramente. O próprio nome “carismático” com o qual nos Agora podemos ousar inverter a disposição das palavrasdesignam, atesta a nosso favor sobre o fato de realmente do milenar mandamento que diz: “Amarás o teu próximoaceitarmos e praticarmos os carismas. como a ti mesmo” (Lv 19,18), para: “Ama-te, e com o mesmo amor ama o teu próximo”. Estamos descobrindo que amamos nossos irmãos com a mesma intensidade b.2) Aceitação incondicional de Jesus com que amamos a nós mesmos. É muito difícil alguém como Salvador pessoal e Senhor que se detesta conseguir demonstrar qualquer afeto para absoluto outra pessoa.173 Antes de integrarmos a Renovação Carismática Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo pelos donsCatólica, a aceitação da salvação de Jesus, bem como do de ciência, sabedoria e discernimento que são utilizadosseu senhorio, quando muito eram figuras de linguagem. na cura interior.Muitos de nós nem discutia a respeito. Não nosatrevíamos. Não saberíamos por onde começar. Hojetambém não discutimos isso, mas estamos aprendendo, b.4) Outros frutos importantescom nossa experiência de vida, a apresentar as razões danossa fé. Descobrimos que a salvação de Jesus Cristo, Falta-nos tempo para comentar a graça de amar anosso Senhor, não é para ser discutida, mas para ser Deus como Pai, assim como para falar da caridade, quevivida. Agora sabemos que alguém nos ama e cuida de é o amor agindo em prol dos irmãos.nós. Nele podemos repousar e ser feliz. Também temos cultivado os dons de nossa Sabemos que esta experiência é possível também santificação, isto é, os sete dons do Espírito Santoem outros movimentos, em outras expressões de Igreja, tradicionalmente ligados ao Sacramento da Crisma.porém conosco foi aqui, com os irmãos da Renovação. A docilidade ao Espírito Santo é uma de nossasMuitos de nós tentamos saciar a nossa sede de Deus em regras de vida. Essa docilidade tem sido usada por Eletantos lugares diferentes, dentro da Igreja e até fora dela, para nos conduzir ao engajamento pastoral. Como já foimas não o conseguimos. Muitos desses lugares – aqueles mencionado acima, nosso engajamento pastoral, entre osque estão dentro de nossa Igreja – eram e são membros da Renovação, está acima de 60% dos seusmaravilhosos, mas não nos ajudaram a beber da ÁguaViva. Não nos ajudaram a nos submeter a Jesus CristoRessuscitado e a aceitar sermos salvos por Ele,pessoalmente. Ainda bem que na Igreja Católica existemmuitas alternativas, assim encontramos várias opções devivência religiosa dentro dela, nas quais podemos buscare encontrar nosso Deus, ou deixar que Ele nos encontre. Repitamos: sabemos que a experiência salvíficadeve acontecer em todas expressões eclesiais, todavia 172 Cf. Mt 22, 39; Lev 19, 18bpara nós e para milhares de pessoas, se não para milhões, 173 É parte integrante da estrutura emocional dotem acontecido na Renovação. Por isso podemos ser humano transferir aquilo que sente. Caso aapresentar como precioso fruto de nossa espiritualidade a pessoa não goste de si mesma, não se ame, poraceitação incondicional de Jesus como Salvador pessoal e mais que se esforce, dificilmente poderá demonstrarSenhor Absoluto. afeto genuíno, do coração, aos seus semelhantes. De mais a mais, a demonstração externa de afeto, sem seu correspondente interno, provoca imensa b.3) Amor a nós mesmos como filhos instabilidade emocional que leva a pessoa a fazer de Deus inúmeras vezes o mal que não quer e a não fazer o bem que gostaria.
  • 50. 50 174membros, isso além de tudo que já fazemos dentro do Por vezes sem conta temos visto pessoaspróprio Movimento. empedernidas se tornarem crianças ante a face do Senhor. Falta-nos tempo e espaço para relatar os Outros frutos têm sido a experiência de filhos de frutos desta natureza que temos presenciado.Deus, a fé, um sólido e equilibrado relacionamento comMaria, como nossa mãe, nossa intercessora e modelo no Outros frutos, como mencionamos antes, têm sidoseguimento de Jesus. Hoje muitos de nós podem dizer que o reconhecimento de nossa realidade pecadora (Joãosão filhos de Maria, de uma maneira que as palavras 16, 9); o relacionamento de amor com a Igreja, tendo-asejam uma ressonância do coração. como Corpo Místico de Cristo, assembléia do povo de Deus, sacramento visível de Jesus Cristo e depositária fiel Desejamos também destacar um dos maiores da fé; relacionamento fraternal com os santos,presentes que Deus nos tem dado, que é possuir um reconhecendo-os como modelos que nos precederam nocoração missionário. Deus quer precisar de nós. Reino da Glória, sendo nossos modelos na vivência da féSabemos que o maior beneficiado com o ardor cristã, no amor e na prática da Palavra de Deus; vivênciamissionário é o povo do Senhor, mas experimentá-Lo, sacramental; amor pela Palavra de Deus, tanto paravivê-Lo, saboreá-Lo, tem sido muito bom para nós reverenciá-la e conhecê-la, quanto para praticá-la;mesmos. Poucas coisas nos enchem mais de alegria e promoção da pessoa humana, por meio de obras sociaisesperança do que ver pais e mães de família, assim como e engajamento político, este mediante a formação para ojovens se entregando inteiramente ao Senhor, ao seu exercício da cidadania, com base na doutrina social daserviço e ao serviço da Igreja. Damos a Jesus o melhor do Igreja.nosso tempo. O tempo do nosso merecido repouso. Issomesmo! Trabalhamos o dia todo, em casa e fora de casa, e Enfim, cremos que o melhor resumo dos frutos dedurante as noites, fins de semana e feriados estamos nos nossa espiritualidade, para declará-lo numa só palavra, écampos da messe do Senhor. Isso não é mérito nosso. É conversão.uma grande alegria. O senhor nos atrai e nos enche de Em nosso meio temos visto inúmeras conversões.júbilo em sua casa.175 Ele nos seduziu e nos venceu. Profundas mudanças de vida. Verdadeiras METANÓIASAgora que experimentamos o seu sabor não conseguimos (µετανοια - mudança de mentalidade). Radicaismais deixá-lo.176 Não podemos deixar de falar do Senhor, transformações interiores com reflexos na vida exterior.mesmo que somente com discretos atos. O zelo por sua Esta transformação é uma graça que o Espírito planta emPalavra nos queima e nos impele a testemunhar a obra coração. Mas também sabemos que ela é uma exigênciaque Ele faz em nós e em nossa Igreja. do Reino de Jesus.177 E ela não vem sozinha. Faz-se acompanhar de profunda inquietação pelos que sofrem174 Membros da Renovação não são os milhões sem Deus e sem justiça.que participam dos encontros ministrados nasdioceses de nosso País. Da mesma forma que tem Cá, entre nós, podemos dizer que dificilmente seacontecido na estrutura eclesial da Igreja Católica, vê um povo de Igreja com tantos problemas pessoais ena qual milhões e milhões de pessoas dizem que sociais num mesmo lugar. Raramente se vê um povo tãosão católicas, mas não abraçam a causa de Nosso pecador no mesmo ambiente eclesial. Porém jamais vimosSenhor Jesus Cristo, muitos vão uma vez a um também tanto esforço para caminhar em santidade. Emgrupo ou a algum encontro de oração e passam, a nosso meio o perdão tem acontecido. Igualmente o amorpartir de então, a se sentir “da Renovação.” O que a fraterno, as obras sociais, a conscientização política.Renovação entende por membro da “Renovação?” Somos testemunhas de jovens – homens eMembros da Renovação são aqueles irmãos que mulheres – que se casam virgens, de patrões queparticiparam dos encontros e seminários por ela começam a levar a sério os direitos sociais dosministrados e que ali acolheram o Evangelho ou empregados. Ressalte-se o caso de empresários que, nãoaprofundaram e aperfeiçoaram algum anterior podendo responder ao apelo evangelístico pessoalmente,acolhimento, mas que, após este acolhimento, contratam evangelizadores como seus empregados e osintegram sua estrutura e aceitam suas normas de liberam para o serviço do Senhor.vida. Normas não escritas, costumeiras, porémextraídas da Sagrada Escritura, do ensinamento do Enfermos são curados. Dependentes de drogas,Magistério e da Tradição da Igreja. recuperados. Atormentados pelo maligno são libertados. Os milhões de pessoas que continuam Não é objetivo destes estudos realizar umfreqüentando os encontros e grupos de oração, sem inventário de tudo o que o Senhor tem feito em nossoainda se comprometerem com o chamado do meio. Perdemos a conta de pessoas libertadas de vícios deSenhor, fazem parte das multidões necessitadas de tabaco, álcool, pornografia, orgia. Falta-nos tempo paraamor, compaixão e salvação que ao tempo de Jesus falar das reconciliações familiares, dos retornos à Igreja.de Nazaré se aglomeravam em torno dEle,esperando soluções para suas vidas e que,invariavelmente, eram por Ele amadas. Estaspessoas são os irmãos de nossa predileção, a elas 176 Cf. Jr 20,7; Sl 33/34,9os membros da Renovação dedicam especial amor. 177 MATERA, Frank J. Ética do Novo Testamento:175 Cf. Sl 121/122,1 os Legados de Jesus e de Paulo, p. 54
  • 51. 51 Quem desejar se aventurar a conhecer melhor a Pelo exposto neste capítulo, concluímos que existenossa espiritualidade certamente encontrará entre nós boa sólida fundamentação para a Espiritualidade daacolhida. Ela é um perfume do Espírito que se conhece Renovação Carismática Católica. E como estaquando se experimenta. espiritualidade é dada pelo sopro do Espírito que anima a Renovação como Movimento Pentecostal Católico, ela, a Ao longo dos anos a Renovação Carismática tem Renovação, está igualmente bem fundamentada. Vimosse tornado o abrigo dos sofredores, dos endividados, dos sobejamente que esta fundamentação é bíblica, patrística edesequilibrados emocionalmente, dos carentes, dos doutrinária; e que decorre diretamente da práxis de Jesus,pecadores de toda espécie. Isso lhe tem dado muito bem como da vida da Igreja Primitiva que viveu notrabalho. Mas ela, como ministra da Graça de nosso Espírito Santo e por Ele.Senhor Jesus Cristo e serva dEle, nos tem acolhido e nosensinado a sermos cristãos, irmãos, discípulos de Jesus e Assim, com apoio nesta segura fundamentaçãofilhos da Igreja, enfim, católicos. teológica, podemos expressar livremente nosso jeito de ser Igreja, com toda segurança de estarmos fazendo a Que diremos para encerrar este tema? Diremos vontade de nosso Deus. Podemos assumir nossacom poucas palavras que esta espiritualidade espiritualidade e viver na Renovação, sem medo de errar.pneumatológica se enraíza profundamente na tradição de Nela somos católicos e também úteis à nossa Igreja.Israel. Deus se revelou ao mundo por meio de um povosacerdotal e profético. Ele falou com o antigo Israel por Amém. Deus os abençoe. “Intensificai as vossasmeio de vários carismas. Assim, sem perigo de errar, invocações e súplicas. Orai também por mim” (Ef 6,18-podemos dizer que nossa prática carismática remonta ao 19).antigo profetismo judaico, chega ao cume com Jesus,passa pelo tempo Apostólico e Patrístico e chega até nós.Não ver isso é empobrecer a Revelação Divina. Vê-se,portanto, que nossa Renovação não é assim tão nova. RESUMO ESPIRITUALIDADE é uma forma específica de disseram que "a base teológica da Renovação éresponder ao chamado de Deus, bem como de colaborar essencialmente trinitária (...).”no Seu plano de salvação. Ou, dizendo de outra forma, é Pela exposição deste tema percebe-se que,um modo específico de relacionar-se com Deus-Pai, teologicamente, a Renovação se fundamenta a partir deDeus-Filho, Deus-Espírito Santo, com a Igreja, Corpo sua espiritualidade. Os elementos essenciais destaMístico de Cristo, em sua expressão terrena e celestial e espiritualidade estão enraizados na Sagrada Escritura e nacom as pessoas, a partir de uma experiência pessoal de Sagrada Tradição, conforme reconheceram os Bispossalvação (experiência religiosa). Latino-americanos em La Ceja. A espiritualidade da Renovação Carismática Da vida de Jesus extraímos os seguintesCatólica é Trinitária e nasce a partir de uma experiência elementos: plenitude do Espírito Santo, docilidade a Ele epentecostal de quem participa da salvação do Pai, na deixar-se conduzir por Ele. Mas Jesus não quis o Espíritopessoa de Seu Filho Unigênito, nosso Senhor Jesus Santo somente para si, Ele batizou os discípulos noCristo, tendo como antecedente histórico o Pentecostes Espírito Santo.dos primeiros Apóstolos de Jesus Ressuscitado, reaviva obatismo sacramental, principalmente no sentido de morrer Da vida da Igreja extraem-se os principaiscom Cristo e com Ele ressuscitar, fixa inteiramente os elementos eclesiais carismáticos. Examinando taisfiéis no projeto de instauração do Reino de Deus, como elementos, podemos dizer que o Novo Testamento narra afilhos Seus, sujeitos ativos da história da salvação, co- grandiosa experiência carismática da Igreja. É por issoherdeiros de Cristo, gera também uma consciência viva que podemos dizer que a vocação da Igreja é serdo poder e da ação concreta do Espírito Santo na vida carismática. Ela nasceu carismática, desenvolveu-sepessoal e na história da redenção do homem, carismática e continuou carismática. Prova disso é aacompanhada de docilidade às suas moções, inspirações, existência de certo “elemento carismático” que levou osrevelações e toques (divinos), tendo a aceitação e a prática Apóstolos a ministrarem formação específica sobre ados carismas como forte distintivo das outras vivência carismática nas primeiras comunidades cristãs.espiritualidades. Quanto ao embasamento jurídico-canônico da Como vimos, nestes estudos analisamos a Renovação, está diluído na totalidade deste estudo,fundamentação teológica da Renovação, ela encontra-se principalmente onde se utilizam documentos eclesiais,na vida de Jesus e na vida da Igreja, desde os tempos dos mas podemos recordar os seguintes:Apóstolos. É em Jesus e na Igreja que encontramos osprincipais elementos para formular os fundamentos a) “Os fiéis têm o direito de fundar e dirigirteológicos do nosso Movimento. Com certeza foi com associações para fins de caridade ebase em Jesus e na vida dos Apóstolos que os Bispos da piedade, ou para favorecer a vocaçãoAmérica Latina, reunidos em La Ceja, Colômbia, cristã no mundo, ...” e de “... promover e
  • 52. 52 sustentar a atividade apostólica...” (CIC, de carismas e corrigindo o que for cân., 215 e 216); necessário.”b) “Os fiéis têm o direito de prestar culto a Mas, antes de encerrar, lembremos os frutos. Eles Deus segundo as determinações do foram usados por Jesus como testemunho de quem Ele próprio rito aprovado pelos legítimos era. Paulo se valeu deles para autenticar seu ministério. Pastores da Igreja e de seguir sua própria Por isso é bom lançarmos um olhar, mesmo pequeno, forma de vida espiritual, conforme, sobre alguns frutos que o Senhor tem colhido com nossa porém, à doutrina da Igreja (CIIC, cân.,” 214. espiritualidade, como os seguintes, que citamos a título de (Grifos do autor); exemplo: aceitação incondicional de Jesus como Salvador pessoal e Senhor absoluto, amar a Deus como Pai,c) Documento da CNBB – 53, número 2: “Entre os aceitação e prática dos carismas, amor a nós mesmos vários movimentos de renovação espiritual como filhos de Deus, amar os outros como filhos de e pastoral do tempo pós-conciliar, surgiu a Deus, engajamento pastoral, conversão, dentre outros. RCC que tem trazido novo dinamismo e Para finalizar este resumo, gostaríamos de lembrar entusiasmo para a vida de muitos cristãos que nossa espiritualidade se liga ao fato mais importante e comunidades.” Completam este pensamento da Igreja, após a ressurreição de Jesus, cuja historicidade dizendo no parágrafo dezenove que se atesta perenemente pela narração de são Lucas no “Reconhecendo-se a presença da RCC em Livro dos Atos dos Apóstolos, a partir do capítulo muitas Dioceses e também a contribuição segundo. que tem trazido à Igreja no Brasil, é preciso estabelecer o diálogo fraterno no Quando se comparam os fatos que ocorrem em seio da comunidade eclesial, apoiando o nosso meio com aqueles que aconteceram na Igreja sadio pluralismo, acolhendo a diversidade Primitiva, à luz de suas semelhanças, vemos que essa ligação é inevitável.CAPÍTULO QUARTO RENOVAÇÃO CARISMÁTICA COMO UM NOVO PENTECOSTES A Renovação, como espiritualidade, é herdeira do interromper a busca da vocação da Renovação nomovimento pentecostal apostólico que marcou a fundação entendimento de que ela seja pura e simplesmenteda Igreja. Como movimento se organiza na esteira de evangelizar; por melhor e mais sedutor que isso seja;tantos outros que vêm e passam pela Igreja Católica. Cada afinal, o ardor que a faz missionária é um fruto domovimento tem uma vocação a cumprir. O movimento Espírito Santo que se manifestou na Igreja Primitiva e selitúrgico, por exemplo, visava à renovação da liturgia. O renova hoje.dos vicentinos assiste os pobres. O Cursilho de Então, qual é a vocação da Renovação? IndagamosCristandade tencionava formar líderes cristãos para o pela terceira vez. A vocação da Renovação Carismáticamundo. E a da Renovação, qual será? Católica é promover na Igreja e para Ela o Fruto de Esta não é uma pergunta fácil de ser respondida. A Pentecostes, segundo se conclui pela fala dos Papas. 178Renovação realiza tantas coisas que, conforme o ângulo Assim, poderíamos resumir o chamado vocacional dade que é analisada, conclui-se que sua vocação é cantar, Renovação dizendo que é a renovação do Pentecostesou pregar, ou orar por curas e milagres, ou promover a apostólico para toda a Igreja.libertação dos oprimidos e possessos, ou promover ospobres, ou oferecer, à militância política, homens e Com isso não se diz que todas as pessoas devam semulheres que se esforcem para viver santamente, ou inscrever em um movimento conhecido por Renovaçãopromover vocações sacerdotais e religiosas, ou... A lista é Carismática, mas que todas as pessoas, ao olharem para amuita longa. Renovação, se animem também a experimentar o batismo no Espírito Santo e a praticarem os seus carismas em suas Mas, qual será mesmo a vocação da Renovação? pastorais e movimentos. Este chamado tem nosMuitos têm afirmado que é a evangelização, pois sua preenchido interiormente e ocupado todo o tempo quemúsica, sua pregação, suas orações por curas e milagres, e nossas atividades profissionais, estudantis e familiares nostudo o mais que realiza é meio para anunciar a Boa Nova têm permitido disponibilizar para o Senhor. Sentimo-nose para buscar os neoconvertidos para o discipulado. 178 Cf. JUANES, Benigno, SJ. Falar em Línguas, Assim, parece que é certa a conclusão de que a 1997. Nesta obra o autor transcreve a oração devocação da Renovação seja evangelizar. Entretanto, nesta João XXIII pedindo um novo Pentecostes (p. 200) econclusão parece faltar alguma coisa. Esta falta é a seguinte afirmação de João Paulo II:esclarecida quando se coloca a evangelização no contexto “De maneira que estou convencido de que estedo Pentecostes dos Apóstolos. Com efeito, o anúncio movimento é um componente muito importanterealizado pelos Apóstolos é nada mais, nada menos queum fruto de Pentecostes. Ora, se assim é, não podemos dessa total renovação da Igreja, dessa renovação espiritual da Igreja “(p. 208).
  • 53. 53felizes e satisfeitos com esta missão, por isso desejamos “... eu lhes darei um só coração e osconhecê-la melhor e aperfeiçoá-la mediante a partilha animarei com um espírito novo: extrairei do seucom outras vocações eclesiais. No fim de toda reflexão corpo o coração de pedra, para substituí-lo por umpercebemos que esta é realmente nossa vocação. Assimestamos servindo a Cristo e a sua Igreja. coração de carne. Eu vos retirarei do meio das nações, eu vos reunirei de todos os lugares, e vos conduzirei ao vosso solo. (Ez 11,19) Derramarei 1. PRIMEIRO PENTECOSTES sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas Para melhor entendermos a Renovação como abominações. Dar-vos-ei um coração novo e emum novo Pentecostes, analisaremos algunsaspectos do Pentecostes da Igreja Primitiva, pois vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o“para compreender a Renovação espiritual coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.carismática é preciso saber o que esse Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo comEspírito realizou nos primeiros tempos da que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis osIgreja.”179 meus preceitos. (Ez 36, 24-27). Profetiza ao espírito, disse-me o Senhor, profetiza, filho do homem, e dirige-te ao espírito: a) Antecedente Bíblico eis o que diz o Senhor Javé: vem, espírito, dos O Pentecostes narrado em Atos 2,1-4 não foi quatro cantos do céu, sopra sobre esses mortosa primeira efusão do Espírito Santo para o povo de para que revivam. Proferi o oráculo que ele meIsrael. Os seus rabinos, e talvez muitos do povo,conheciam o episódio registrado em Números 11,1- havia ditado, e daí a pouco o espírito penetrou30, que é um verdadeiro antecedente do neles. Retornando à vida, eles se levantaram sobrederramamento do Espírito Santo acontecido no dia seus pés: um grande, um imenso exército” (Ezda primeira festa do Pentecostes Judaico após a 37,9-10).ressurreição de Jesus Cristo. Como vimosanteriormente, nesta passagem o Senhor manda “Depois disso, acontecerá que derramarei oMoisés escolher dentre os anciãos setenta homens meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos epara que recebessem do mesmo Espírito que ele, vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terãoMoisés, recebera. Vimos também que estes sonhos, e vossos jovens terão visões. Naqueles dias,anciãos, uma vez batizados no Espírito Santo, derramarei também o meu Espírito sobre osreceberam a missão de ajudar Moisés na conduçãodo povo de Deus. escravos e as escravas”. (Jl 3,1)181 Este derramamento do Espírito foi seguido “Eu vos batizo com água, em sinal depor sinais sensíveis. Naquela oportunidade todos os penitência, mas aquele que virá depois de mim éanciãos profetizaram. mais poderoso do que eu e nem sou digno de Esta efusão é importante para o carregar seus calçados. Ele vos batizará nopentecostalismo por vários motivos. Destacaremos Espírito Santo e em fogo (Mt 3,11b; Mc 1,8; Lcalguns: primeiro, prefigurava o Pentecostes cristão. 3,16; Jo 1,33)”.Segundo, ensejou uma bela profecia – “Prouvera a “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boasDeus que todo o povo do Senhor profetizasse, e que o coisas a vossos filhos, quanto mais vosso PaiSenhor lhe desse o seu espírito!” (Nm 11,29) – que seriacumprida no tempo dos Apóstolos. Terceiro, reforça celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem.a utilidade e a necessidade da força do Espírito na Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai;ação pastoral.180 entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto (Lc 11,13; 24,49)”. “Jesus replicou-lhe: Em verdade, em b) Promessas de Deus verdade te digo: quem não nascer de novo não O Senhor sempre prepara o seu povo para os poderá ver o Reino de Deus. Nicodemosacontecimentos da economia da salvação. Isso foi perguntou-lhe: Como pode um homem renascer,feito em relação ao primeiro Pentecostes por meio sendo velho? Porventura pode tornar a entrar node inúmeras profecias. Eis algumas: seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não179 DOCUMENTO La Ceja. Op.cit. § 32.180 Cf. Nm 11,14-17 181 Ver também Lc 3, 16 e Jo 1,33
  • 54. 54 poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da do céu um ruído, como se soprasse um vento carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam Não te maravilhes de que eu te tenha dito: sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra línguas de fogo que se repartiram e pousaram onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com Espírito Santo e começaram a falar em línguas, aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,5-8). conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Achavam-se então em Jerusalém judeus “No último dia, que é o principal dia de piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. festa, estava Jesus de pé e clamava: Se alguém tiver Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, maravilhava-se de que cada um os ouvia falar na como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios sua própria língua. Profundamente de água viva (Zc 14,8; Is 58,11). Dizia isso, impressionados, manifestavam a sua admiração: referindo-se ao Espírito que haviam de receber os Não são, porventura, galileus todos estes que que cressem nele, pois ainda não fora dado o falam? Como então todos nós os ouvimos falar, Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido cada um em nossa própria língua materna? glorificado” (Jo 3,37-39) Partos, medos, elamitas; os que habitam a “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Macedônia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, Paráclito, para que fique eternamente convosco. É a Frígia, a Panfília, o Egito e as províncias da o Espírito da Verdade, que o mundo não pode Líbia próximas a Cirene; peregrinos romanos, receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o judeus ou prosélitos, cretenses e árabes; ouvimo- conhecereis, porque permanecerá convosco e estará los publicar em nossas línguas as maravilhas de em vós. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Deus! Estavam, pois, todos atônitos e, sem saber o Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não que pensar, perguntavam uns aos outros: Que falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e significam estas coisas? Outros, porém, anunciar-vos-á as coisas que virão. Ele me escarnecendo, diziam: Estão todos embriagados de glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo vinho doce. Pedro então, pondo-se de pé em anunciará” (Jo 14,16; 16,13-14). companhia dos Onze, com voz forte lhes disse: “... mas descerá sobre vós o Espírito Santo e Homens da Judéia e vós todos que habitais em vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e prestai atenção Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os às minhas palavras. Estes homens não estão confins do mundo” (At 1,8). embriagados, como vós pensais, visto não ser ainda a hora terceira do dia. Mas cumpre-se o que foi dito Sabemos que estas promessas foram pelo profeta Joel: Acontecerá nos últimos dias - écumpridas no tempo dos Apóstolos,182 cinqüenta Deus quem fala -, que derramarei do meu Espíritodias após a Páscoa Judaica.183 sobre todo ser vivo: profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas. Os vossos jovens terão visões, e os vossos anciãos sonharão. Sobre os meus servos e c) Cumprimento das promessas e frutos sobre as minhas servas derramarei naqueles dias pentecostais do meu Espírito e profetizarão” (At 2,1-18). Lucas narrou assim o acontecimento do Pronto! Estava cumprida a promessa. AssimPentecostes Apostólico: como o Pai derramou o seu Espírito sobre setenta “Chegando o dia de Pentecostes, estavam anciãos para que fossem transformados em colaboradores de Moisés, Ele e o Filho batizaram todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio cento e vinte discípulos, incluindo mulheres, para que também fossem transformados em182 Cf. At 2, 1-4 colaboradores de Moisés; não o da sarça ardente,183 Cf. o Vocabulário de Teologia Bíblica (Xavier mas o novo Moisés, o da cruz do Calvário, o daLéon-Dufour, Ed. Vozes, Petrópolis-RJ, 1992) morte e da ressurreição. Não o que recebiaPENTECOSTES é uma palavra grega que designa revelações, mas o que é a própria Revelação.a festa celebrada cinqüenta dias depois da Páscoa.O objeto dessa festa evoluiu: de início festa agrária, A narrativa do Livro de Atos nos impressionaela depois comemora o fato histórico da Aliança, até os dias de hoje. Muito mais se avançarmos empara afinal se tornar a festa do dom do Espírito, que sua leitura, pois ele historia o nascimento de umainaugura na terra a nova Aliança.” Igreja Pentecostal e mais ainda se o completarmos
  • 55. 55com as cartas dos Apóstolos. Nestes textos, desde Historicamente a Renovação Carismática Católica,o início, já encontramos vários frutos do entendida como uma espiritualidade, se liga ao profetismoPentecostes, a saber: ardor missionário, bíblico. Suas experiências pneumatológicas encontrammanifestação de dons carismáticos, nascimento da raízes nos profetas do Antigo e do novo Testamento. AoIgreja, conversão inicial, metanóia (conversão povo da Bíblia não era estranho mover-se no e pelocontinuada, transformação de mentalidade), Espírito. No Israel antigo isso era feito por meio denascimentos de comunidades.184 pessoas escolhidas por Deus para o exercício do ministério profético. Eram os profetas. Com o advento do cristianismo o movimento 2. PENTECOSTES ATUAL profético não acabou; ao contrário, se expandiu. Se antes o ministério profético era destinado a alguns escolhidos, a Para um fenômeno espiritual ser considerado partir dos Apóstolos o carisma da profecia foi estendidoum novo Pentecostes deve repetir nos dias de hoje aos que aceitavam Cristo, quando eram batizados noas ocorrências do primeiro, daquele que o Senhor Espírito Santo. Junto com a profecia vieram os demaisaos primeiros discípulos. carismas.185 Pensando nisto analisaremos,resumidamente, o pentecostalismo católico atual. Como já vimos, as manifestações do EspíritoVeremos nesta análise que existe um paralelismo Santo foram abundantes nos primeiros séculos doentre a efusão do Espírito Santo de nossos dias e a cristianismo. Decresceu por motivos ainda desconhecidos.efusão do tempo dos Apóstolos, ressalvadas as Alguns teólogos da época tentaram explicar a diminuiçãoexperiências físicas que os primeiros cristãos dos carismas com base na menor necessidade dosfizeram com o Cristo ressuscitado. Este paralelismo mesmos. Mas, ao mirar a sua época, descobre-se queé visto no antecedente bíblico, nas promessas de eram tão necessários para evangelizar o seu mundoDeus, no cumprimento das promessas e nos frutos quanto eram para o mundo dos Apóstolos. Então adesta efusão. explicação deve ser outra. Entretanto, seja qual for o motivo do rareamento das manifestações pentecostais, elas jamais deixaram de a) Antecedente bíblico existir, também como já vimos antes, e são os antecedentes seguros das que hoje acontecem. Nos dias Assim como os rabinos de Israel e muitos do atuais elas simplesmente retornaram.povo judeu conheciam a efusão do Espírito sobre osanciãos, nosso clero e inúmeros leigos conheciam o A este respeito é importante ler um livro de PattiPentecostes de Pedro e seus companheiros, ao Galagher.186 Nele são noticiados vários eventos quemenos de ouvir falar. prepararam o regresso da espiritualidade pentecostal, assim como o momento em que a Renovação nasceu. Quantos de nós suspirávamos de vontade de Vemos nesta obra que o início da Renovação se deu comexperimentar a mesma graça que repousou sobre os o evento de sinais sensíveis da presença do Espíritodiscípulos reunidos no cenáculo!? Quantas vezes lemos a Santo; em tudo parecido com os fatos bíblicos queSagrada Escritura com mil interrogações acerca dos assinalaram o batismo pentecostal dos Apóstolos e seusacontecimentos daqueles dias!? Quantos companheiros reunidos no cenáculo.questionamentos, quantos anseios contidos no recônditodos corações!? Mas, Senhor, por que não se realiza nosdias de hoje a mesma graça dos Apóstolos? Quantas vezesnosso espírito ansioso, atribulado, quedou cabisbaixo, b) Promessas de Deussem resposta. Nestes momentos líamos e relíamos Atos A dinâmica do primeiro Pentecostesdos Apóstolos fazendo da Palavra de Deus o nosso farol, e constituiu-se de promessas de sua vinda e deEle nos consolava e renovava a nossa esperança. preparação do povo para recebê-lo. Também com o Foi assim que o antecedente bíblico do atual atual foi assim. O Senhor usou muitas pessoas paraPentecostes preservou o ânimo e a esperança do Povo de isso. Caso o carisma da profecia não houvesseDeus, até que ele fosse renovado. caído em desuso por vários séculos, estas pessoas teriam sido reconhecidas como autênticos profetas O antecedente bíblico de Atos 2,1-41 nos garante e profetisas.que o fenômeno espiritual que ocorre na Igreja desde oano de 1967 é um autêntico Pentecostes. Presenciamos Inicialmente é necessário relembrar, mais uma vez,hoje os mesmos sinais que sucediam naquele tempo, que o Espírito Santo jamais esteve ausente da Igreja. Ele écomo veremos na análise dos frutos, logo abaixo. sua alma. Ele lhe dá vida e a conduz. Mas a partir do Século Dezenove Ele começou a incitar a Igreja no184 Cf. Atos 2, 14-41.42.44-47; 11,26. Primeira e sentido de se acolher um novo Pentecostes. IssoSegunda Carta aos Coríntios, Carta aos Efésios,Carta aos Romanos e demais cartas paulinas,Cartas de João, Carta de Tiago, Cartas de Pedro e 185 Cf. 1ª Cor 12,7-10Carta de Judas. 186 MANSFIELD, Patti Galagher. Op. cit., p. 8
  • 56. 56aconteceu de várias formas. Destacaremos algumas mais começaram as atuais manifestações de efusão do Espíritoapropriadas à nossa reflexão. Santo, quando uma jovem de nome Agnes Ozman orou em línguas. Logo outras pessoas também começaram a orar, incluindo o Reverendo Parham.189 Este fato acontecido em Topeka é o marco do b.1) Oração e ação da freira Elena Pentecostalismo moderno. Guerra187 Irmã Elena Guerra, primeira pessoa beatificada b.3) Moções do Espírito Santo em Joãopelo Papa João XXIII, e designada por ele mesmo de XXIII190“Apóstola do Espírito Santo”, fundou em Lucca, Itália,uma congregação religiosa denominada Oblatas do Segundo o testemunho do Papa Paulo VI, JoãoEspírito Santo. Com a idade de cinqüenta anos sentiu-se XXIII, quando Bispo, visitou inúmeras vezes uma aldeiainspirada a escrever ao Papa Leão XIII para que ele da então Tchecoslováquia, na qual todas as pessoasrenovasse a Igreja mediante um retorno ao Espírito Santo viviam permanentemente as graças de Pentecostescomo nos tempos da Igreja Primitiva. Mas não seguiu esta narradas na Primeira Carta aos Coríntios. Com certezainspiração no momento. este santo Papa viu muitas vezes as pessoas desta aldeia orarem em línguas, profetizarem, orarem por curas e Passados alguns anos, uma mulher que trabalhava milagres, testemunharem Cristo com ardor. Certamente ona cozinha do convento trouxe-lhe uma revelação de Deus Senhor inflamou o coração daquele santo Bispo do desejoconfirmando aquela inspiração. A partir de então, de que esta mesma graça alcançasse toda a Igreja.encorajada por seu diretor espiritual, escreveu doze cartasconfidenciais ao Papa Leão XIII entre os anos de 1895 a Os caminhos do Senhor são mesmo misteriosos.1903, nas quais pedia uma pregação permanente sobre o Quem pensaria que o velho Bispo Ângelo Roncalli, emEspírito Santo. “fim” de carreira, estava sendo escolhido por Deus para ser o gatilho do novo Pentecostalimo?! Ninguém. Deus deu à Irmã Elena a visão de que a Igreja seriaum permanente cenáculo de oração. E ela disse tudo isso Tão logo assumiu as funções de vigário de Cristo,ao Papa. o Bispo Ângelo, agora Papa João XXIII, convocou um concílio ecumênico, o segundo realizado em Roma. Durante os preparativos deste conclave o Papa não b.2) Moções do Espírito Santo em Leão XIII188 escondeu o que Senhor colocava em seu íntimo. Tanto Após o início das correspondências de Irmã Elena, que até elaborou a seguinte oração preparatória para oLeão XIII publicou o documento Provida Matris Caritate, Concílio:no qual pedia que toda a Igreja celebrasse entre as festas “Renova os teus milagres nestes nossosda Ascensão e do Pentecostes solene novena ao Espírito dias, como em um novo Pentecostes. Permite queSanto. tua Igreja, unida em pensamento e firme em Em 1897, por meio do Bispo Volpi, diretor oração com Maria, a Mãe de Jesus, e guiada peloespiritual de Elena, o Papa disse-lhe que faria tudo que abençoado Pedro, possa prosseguir na construção do reino do nosso Divino Salvador, reino depudesse para glorificar o Espírito Santo. Logo em seguida verdade e de justiça, reino do amor e da paz.publicou a Encíclica Divinum Illud Munus, sobre o Amém”.Espírito Santo, uma espécie de preparação para o SéculoXX. No dia primeiro de janeiro de 1901, atendendo aos b.4) Ação do Espírito Santo no Concílioapelos do Espírito que lhe eram feitos por meio de Irmã Vaticano IIElena, o Papa invocou o Espírito Santo, cantando,pessoalmente, o hino “Veni, Creator Spiritus” (Vinde, Inegavelmente o Concílio Vaticano II, no que tocaEspírito Criador). Em nossa fé, vemos neste gesto do ao Pentecostalismo, foi uma grande e majestosa profecia.santo Pontífice, uma consagração do Século XX ao Os novos caminhos do Espírito Santo para a IgrejaEspírito Santo. Católica, que começaram nos tempos da Irmã Elena Guerra e do Papa Leão XIII, atingiram no concílio uma O Espírito Santo, em seus mistérios, não se faz delineação nítida, que mais justo seria dizer que a partiresperar. A este respeito é interessante notar que no mesmo dos documentos conciliares nele gerados, o Movimentodia da oração do Papa, por volta das 23 horas, numa Pentecostal tem imensas rodovias bem pavimentadas,cidade estadunidense chamada Topeka, localizada no largas avenidas com sinalização bem ordenada e visível,Estado de Kansas, enquanto um grupo protestante orava, por onde pode progredir com segurança.liderado pelo Reverendo Charles Fox Parham, que sededicava a estudar o batismo no Espírito Santo,187 Cf. MANSFIELD, Patti Galagher. Op. Cit. 189 Cf. Mansfield, Patti Galagher. Op. Cit., pp. 9188 Cf. Mansfield, Patti Galagher. Op. Cit., pp. 8 e 9 190 Cf. Mansfield, Patti Galagher. Op. Cit., pp. 6 e 7
  • 57. 57 Nos documentos que o Concílio gerou, vínculo com suas antigas denominações, pois suasreencontramos – oficialmente – boa fundamentação para lideranças não aceitavam o pentecostalismo. Por isso iamos pontos cruciais do Pentecostes, que são os carismas, para os movimentos pentecostais protestantes da época.causadores de perplexidades desde Jerusalém.191 As Mas desta vez não foi assim. Professores de teologia e dereferências a eles vieram em dezenas, diretamente, filosofia – portanto com boa formação e sabedores do quealém do que se diz do seu doador, o Espírito Santo. queriam, queriam ser católicos pentecostais. ExatamenteSe podemos dizer que a Primeira Carta aos como os Apóstolos – resistiram às incompreensões deCoríntios contém o estatuto básico para um quantos não haviam ainda experimentado esta graça esalutar movimento pentecostal, o Concílio permaneceram firmes com os jovens dentro da Igreja.Vaticano II legítima as modernas espiritualidades Muitas vezes foram obrigados a se reunirem em locaiscarismáticas. diferentes, mas sustentados pelo Senhor permaneceram fiéis. Assim, terminamos de verificar que o novoPentecostalismo Católico foi objeto de promessa e A partir dos acontecimentos de Duquesne, opreparação divinas por meio de pessoas Espírito Santo, literalmente, arrastou uma multidão deescolhidas, dentre as quais citamos Irmã Elena católicos para o atual pentecostalismo, porém desta vezGuerra, Papa Leão XIII, Papa João XXIII e os sem que saíssem da Igreja. Em pouco tempo a Renovaçãopadres conciliares que participaram do Concílio já existia em todos os continentes.Ecumênico Vaticano II. No Brasil chegou no mês de junho de 1.969, em três localidades simultaneamente: Campinas-SP, Campo Grande-MS, e em uma cidade do interior do Amazonas, c) Cumprimento da promessa192 consoante reportagem publicada no Jornal “CARISMA”, de Goiânia-GO.196, na qual o entrevistado é o Padre Na década de sessenta, enquanto a Eduardo Daugherty, que participou do encontro deRenovação Carismática Católica não se iniciara, o Campinas-SP.Espírito Santo encontrou no Cursilho deCristandade um ambiente propício para a sua A partir do início dos anos setenta algunsefusão. No ano de 1.965 aconteceram efusões do sacerdotes jesuítas, entre eles os padres Sales e HaroldoEspírito Santo em algumas de suas reuniões, Ham, começaram a realizar pelo Brasil experiências demanifestando-se oração em línguas.193 Talvez por oração, no início chamadas de Experiência do Espíritoisso o Cursilho forneceu os primeiros líderes que a Santo. Muitos líderes de movimentos como o Cursilho de Cristandade e os Treinamentos de Liderança Cristã (TLC)Renovação necessitava.194 participaram das experiências de oração. Esses líderes O marco da Renovação Carismática Católica dos assumiram uma evangelização com identidade própria etempos atuais aconteceu no dia 18 de fevereiro de 1.967, logo já se organizaram como movimento. Era adurante um retiro de estudantes da Universidade do Renovação que nascia.Espírito Santo de Duquesne, Estado da Pensilvânia, Padres como Jonas Abib e Eduardo Daugherty,Estados Unidos da América, dirigida pela ordem este desde os tempos de seminarista, propiciaram amissionária dos padres do Espírito Santo, realizado nos segurança necessária aos primeiros formadores edias 17, 18 e 19, daquele mês e ano. O lema do brasão coordenadores da Renovação, que a esta altura já haviadaquela Universidade é: “Spiritus Est Qui Vivificat” (É o encarnado o novo pentecostalismo.Espírito quem vivifica). A rápida propagação do Fogo de Pentecostes levou Na noite daquele dia dezoito, após uma festinha de à realização do primeiro Congresso Nacional, já em 1974.aniversário ter sido frustrada pela falta de água, vários Ele foi realizado em Itaici sob a coordenação dojovens foram impelidos pelo Espírito Santo a irem para o Arcebispo de Vitória, Dom Silvestre Scandian, na épocaandar de cima, onde estava a capela. Lá chegando, sem ainda padre, e com as presenças do Padre Robertsaberem o motivo, encaminharam-se para a capela, cada DeGrandis e dos frades João Batista Vogel e Wilfredum por sua vez. O Senhor os batizou em seu Espírito e Tunnick.Este se manifestou a eles com vários sinais físicos, comosensação quente no corpo, quebrantamento, júbilo, A partir do primeiro Congresso Nacional este Fogolágrimas, “clique” na garganta, sensação picante na se propagou de forma vertiginosa. Logo já havia atingidolíngua.195 o Norte, o Sul, o Leste, o Oeste e o Centro-Oeste. É assim que vemos, já em 1974, em pleno interior do Brasil, a O Senhor não queria para eles água mineral, poistencionava inundar-lhes da Água Viva. 194 Nos Estados Unidos, por exemplo, conforme Patti Galagher (Mansfield, Patti Galagher. Op. Cit. Até então todos que experimentavam a efusão do pp. 11 e 12). No início da Renovação no Brasil,Espírito Santo, católicos ou protestantes, perdiam o muitos dos seus líderes vieram dos cursilhos e ainda continuam entre nós.191 Cf. At 2,1-15 195 MANSFIELD, Patti Galagher. Op. Cit. p. 47.192 Cf. Mansfield, Patti Galagher. Op. Cit. 196 A matéria veiculou no número 16, de193 Cf. Mansfield, Patti Galagher. Op. Cit. p. 12 fevereiro/98, página 7
  • 58. 58Renovação tendo início em Anápolis, na época uma mesmo fenômeno acontecendo. As pessoas quepequena cidade de Goiás, afastada de Goiânia cerca de experimentam a graça de Pentecostes não desejam maisquarenta quilômetros, com Frei João Batista Vogel. No viver sozinhas. Sentem-se atraídas pela mesma unção quemesmo ano (1.974) ela chegava em Goiânia, precisamente reveste outros irmãos. Com isso, naturalmente, semna Paróquia São Francisco, trazida pelo Frei Juvenal – nenhum comando, vão se agrupando e formandoOFM.197 comunidades. Cada grupo de oração, quando estruturado, é dirigido por uma pequena comunidade denominada Estas datas demonstram a pressa do Senhor. núcleo do grupo. Outras espécies de comunidades Alguns de seus pioneiros foram, além dos nomes também têm sido suscitadas. São as de aliança e as dejá citados: Frei Paulo, na época da Diocese de Santarém, vida. Muitas são dotadas de estatuto próprio comPará; Monsenhor Mauro Tommasini, da Arquidiocese de aprovação eclesiástica. São filhos da Renovação que sePouso Alegre-MG; Padre Schuster; Doutor Jonas, emanciparam. Agora já se estudam as comunidades dedentista, e sua esposa; Peter e Ingrid Orglmeister; renovação.Imaculada Petinnatti, Dom Cipriano Chagas, Padre Alírio Mas de todos os frutos, os que mais marcam aPedrini, Frei Antônio, Irmã Tarsila, Maria Lamego, Irmã Renovação como um novo Pentecostes são os carismas.Stelita, Tia Laura, dentre muitos outros. Eles ocorrem em nosso meio, literalmente, como O novo Pentecostes não é mais somente uma sucediam no tempo dos Apóstolos. Nossas orações,promessa. Ele pode ser visto e experimentado na ensinos, louvores e carismas podem ser descritos pelasRenovação Carismática Católica que já se organizou em cartas dos Apóstolos, assim como pelo Livro dos Atos.mais de duzentos e cinqüenta dioceses, incluindo Quem conhece o Novo Testamento e participa de algumarquidioceses. Existem hoje milhares de grupos de encontro de oração, logo pela primeira vez já pode notar eoração. comparar tudo o que nele se vê com o livro dos Atos. E, maravilhados, quase exclamam: “Mas isto aqui é ‘Atos Desejamos ardentemente que todos os irmãos, em dos Apóstolos’ em pleno Século XXI”. No final dosqualquer pastoral ou movimento, também bebam desta encontros muitos se aproximam de nós dizendo: “QueÁgua. bênção! Agora estamos vendo tudo o que queríamos ver em nossa Igreja”. Depois disso que nos resta dizer? “Amém. d) Frutos pentecostais Obrigado, Senhor.” Falta ainda compararmos os frutos de hoje com osfrutos do Pentecostes apostólico para percebermosdefinitivamente que a Renovação é um novo Pentecostes. e) RCC, grande kairósVejamos sinteticamente. A título de conclusão deste capítulo podemos dizer Hoje experimentamos um ardor missionário entre que a RCC está inserida em um movimento do Espíritoclérigos, e principalmente entre os leigos, comparável ao Santo que marca um importante acontecimento para ada Igreja Primitiva. Em cada local onde existe a Igreja; na verdade um grande kairós, o tempo de Deus, oRenovação o que se vê são inúmeras pessoas tempo em que Deus age visivelmente.evangelizando por meio de ensinos, cânticos, obrassociais, ministério de cura, ação política, engajamento em Kairós é uma palavra grega que designa umpastorais diocesanas e paroquiais. São belos frutos. tempo especial de graça para os filhos de Deus. Nele Deus manifesta abundantemente as suas graças. Nos dias Com o primeiro Pentecostes a Igreja nasceu. Com marcados pelo kairós podemos até ver Deus intervindo nao atual ela se revigora. Em cada lugar onde haja um grupo história humana. No Velho Testamento existem descriçõesde oração da Renovação Carismática o Senhor tem de vários tempos especiais de graça. Um dos maisfomentado a fé e o amor a Deus e à sua Igreja. significativos é a epopéia da libertação dos hebreus da Como no tempo dos Apóstolos, temos presenciado escravidão egípcia. Como kairós no Novo Testamento,uma quantidade enorme de conversões instantâneas. podemos citar os momentos decisivos para a nossaDesta graça somos mais que testemunhas. Mas o melhor salvação, que vão desde a concepção de Jesus, passandomesmo tem sido as conversões profundas que atingem o por sua ação pastoral, seus milagres, sua morte,coração, a mentalidade. Da mesma forma que o Senhor ressurreição e ascensão.fez com os discípulos e os Apóstolos198 temo-lo visto Este Kairós continuou com a vinda do Espíritofazer hoje em dia com muitas pessoas. Santo para os Apóstolos e seus companheiros, impulsionando-os para missões evangelizadoras, O Novo Testamento registra a existência de muitas possibilitando a organização da Igreja e sua consolidaçãocomunidades. Em nossos dias o que temos visto? O ao longo dos séculos.197 Existe estudo de um projeto para escrever a Hoje, quando o Espírito Santo repete entre nóshistória da Renovação no Brasil, a pedido do muitos dos sinais bíblicos apostólicos – conversão, ardorConselho Nacional. missionário, manifestação de carismas, curas, milagres,198 Cf. At 9, 1-22; 10,1—11,18 fortalecimento da Igreja, amor à Igreja, dentre outros –
  • 59. 59indica que estamos vivendo um grande, maravilhoso enecessário kairós. A nós cabe aproveitá-lo ao máximo eensinar outros a fazerem o mesmo. É por tudo isso que aquele Sínodo dos bisposlatino-americanos, realizado para estudar a Renovação,em 1987, já dizia que “Quem conhece a ação doEspírito Santo nos Apóstolos e na Igrejaprimitiva pode compreender melhor o que eleestá realizando atualmente na Igreja e nomundo, assim percebe que estamos vivendoo Novo Pentecostes pedido pelo Papa JoãoXXIII”.199 Então, irmãos, não há como negar a realidade deque a RCC é verdadeiramente um grande Pentecostes paraos dias atuais. É a manifestação viva, palpável, doEspírito Santo no seio da Igreja de Jesus, em forma de umgrande kairós. Aproveitemos este tempo no qual o Senhornos é propício para vivermos o nosso Pentecostes, umgrande Pentecostes comunitário e eclesial. Vivamo-locom amor e audácia, destemidamente. Ele é nosso. Quemno-lo deu foi o próprio Jesus, nosso Salvador e Senhor.Quem deseja que nós o vivamos é o Cristo de Deus, oSenhor da Glória. Glória, glória, glória, digamos com os anjos.Amém, amém, amém, repitamos com os santos, e cheiosde fé e confiança mergulhemos de uma vez por todasneste genuíno Pentecostes, afinal Deus o fez para nós. Amém. Deus os abençoe. “Intensificai as vossasinvocações e súplicas. Orai também por mim” (Ef 6,18-19).199 DOCUMENTO La Ceja. Op. cit. 33
  • 60. 60 RESUMO “32. Para compreender a Promessa feita, promessa cumprida. Chegou o dia de Renovação espiritual carismática é Pentecostes e os primeiros cristãos foram plenificados preciso saber o que esse Espírito com o Dom do Espírito. realizou nos primeiros tempos da Compreendido o primeiro Pentecostes, Igreja.” (Documento do Encontro Episcopal compreender-se-á também o de hoje, pois como Deus Latino-Americano realizado em La Ceja – preparou o povo antigo para a vinda do Espírito, como um Colômbia. A Renovação Espiritual Católica dom do messianismo do Filho do Homem, preparou Carismática. São Paulo: Loyola, 1988); também nossa geração para o atual pentecostes. A Partindo de uma efusão do Espírito Santo no diferença que se encontra está no tempo desta preparação.tempo de Moisés (Nm 11,24-29), analisamos o fenômeno Podemos mesmo traçar um paralelo entre o primeiroPentecostal, percorrendo algumas passagens mais Pentecostes e o atual. Ambos tiveram seus antecedentessignificativas do Velho Testamento. Assim, vemos que históricos, promessas, e cumprimento. Este mesmodurante a Antiga Aliança Deus foi preparando o povo para paralelo é encontrado também nos seus frutos. Por tudodois eventos importantíssimos. O primeiro foi a vinda do isso podemos concluir que estamos vivendo um autênticoMessias, evidentemente, o segundo foi a vinda do Espírito Pentecostes, um kairós.Santo, como obra do próprio Messias.
  • 61. 61 CAPÍTULO QUINTO CONTEXTO ECLESIAL DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA A Renovação, em seu contexto, isto é, no seu considerar-se de forma unitária, osconjunto, em sua totalidade, é eclesial. Mas muita seguintes:gente ainda não percebeu esta virtude. Daí apertinência deste capítulo. Com ele teremos mais –– O primado dado à vocação dealgum fundamento para dizer que a Renovação é cada cristão à santidade, manifestadoum movimento autenticamente católico e que ‘nos frutos da graça que o Espíritoestamos realmente inseridos na Igreja. produz nos fiéis’ como crescimento para a plenitude da vida cristã e para a perfeição da caridade. 1. CRITÉRIOS DE ECLESIALIDADE Nesse sentido, toda e qualquer Antes de analisar os critérios de eclesialidade agregação de fiéis leigos é chamada apropostos pela Igreja colocaremos um a mais. Trata-se da ser sempre e cada vez maisespiritualidade. O cânon 214 do Código do Direito instrumento de santidade na Igreja,Canônico, analisado em outro capítulo, exige que os favorecendo e encorajando ‘umamovimentos católicos tenham a espiritualidade conforme unidade mais íntima entre a vida práticaa Doutrina da Igreja. Por isso cremos ser este um dos membros e a própria fé’.importante critério de eclesialidade. Quando analisamos o –– A responsabilidade emdito cânon, concluímos que nossa espiritualidade é professar a fé católica, acolhendo einteiramente conforme à Sagrada Escritura, a SagradaTradição e a Doutrina da Igreja. Logo, por este critério, proclamando a verdade sobre Cristo,podemos deduzir que o contexto da Renovação é eclesial. sobre a Igreja e sobre o homem, emMas existem outros critérios a serem obedecidos. Vamos a obediência ao Magistério da Igreja, queeles. autenticamente a interpreta. Por isso, toda agregação de fiéis leigos deve ser Que outros requisitos um movimento deveria lugar de anúncio e de proposta da fé eatender para ser eclesial? Até o advento da Christifideles de educação na mesma, no respeitoLaici a resposta a esta indagação não era fácil, pois a pelo seu conteúdo integral.Doutrina da Igreja sobre os movimentos se apresentadiluída e esparsa, principalmente se considerarmos que –– O testemunho de umatoda esta Doutrina deve ser obedecida por nós – Como comunidade sólida e convicta, emobedecer a algo que não se tem à mão? – Hoje, no relação filial com o Papa, centroentanto, a tarefa de discernir sobre a conformidade de perpétuo e visível da unidade da Igrejauma espiritualidade ou de um movimento com a Doutrina universal, e com o Bispo ‘princípioda Igreja está facilitada, pois encontramos no parágrafo visível e fundamento da unidade’ datrinta da Christifideles os critérios que definem a Igreja particular, e na ‘estima recíprocaeclesialidade que de nós espera a Igreja. Agora temos à entre todas as formas de apostolado damão, de maneira clara, o que devemos seguir e praticar. Igreja.Vamos agora a estes critérios. Serão transcritosintegralmente, por serem necessários e também muito A comunhão com o Papa e com oinstrutivos: Bispo é chamada a exprimir-se na disponibilidade leal em aceitar os seus “Critérios de eclesialidade ensinamentos doutrinais e orientações para as agregações laicais pastorais. A comunhão eclesial exige, 30. É sempre na perspectiva da além disso, que se reconheça a legítima comunhão e da missão da Igreja e não, pluralidade das formas agregativas dos portanto, em contraste com a liberdade fiéis leigos na Igreja e, associativa, que se compreende a simultaneamente, a disponibilidade para necessidade de claros e precisos a sua recíproca colaboração. critérios de discernimento e de –– A conformidade e participação reconhecimento das agregações laicais, na finalidade apostólica da Igreja, que é também chamados ‘critérios de a evangelização e santificação dos eclesialidade’. homens e a formação cristã das suas Como critérios fundamentais para consciências, de modo a conseguir o discernimento de toda e qualquer permear de espírito evangélico as várias agregação dos fiéis na Igreja, podem comunidades e os vários ambientes.
  • 62. 62 Nesta linha, exige-se de todas as O amor aqui dedicado à santidade é também formas agregativas de fiéis leigos, e de demonstrado pelos seminários que são feitos com a cada um deles, um entusiasmo finalidade de estudá-la, a fim de possibilitar sua prática missionário que os torne, sempre e com maior eficácia. cada vez mais, sujeitos de uma nova –– “A responsabilidade em professar a fé evangelização. católica, acolhendo e proclamando a verdade –– O empenho de uma presença sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem, na sociedade humana que, à luz da em obediência ao Magistério da Igreja, que doutrina social da Igreja, se coloque a autenticamente a interpreta”. serviço da dignidade integral do Outro ponto cuidadosamente desenvolvido pela homem. Renovação é a fé católica. Acreditamos naquilo que a Assim, as agregações dos fiéis Igreja acredita. Acolhemos aquilo que a Tradição Católica leigos devem converter-se em correntes nos transmitiu e que a sã Doutrina recomenda. Com isso temos conseguido inculturar a fé em muitos ambientes vivas de participação e de solidariedade sem perder a catolicidade e sem incorporar doutrinas para construir condições mais justas e anticristãs e ainda sem assimilar elementos sincretistas. fraternas no seio da sociedade”. –– “O testemunho de uma comunidade Ao ler esta citação logo se nota que os sólida e convicta, em relação filial com o Papacritérios de eclesialidade trazidos pela Igreja estãoentranhados em nossa espiritualidade. São grandes (...) e com o Bispo”as coincidências entre eles e aquilo que praticamos. Nosso amor pela hierarquia é testemunhado comIsto nos conforta e anima. fatos. Nos faltam palavras para descrever os sentimentos filiais que nutrimos pelo Papa. Sabemos que se estivermos com o nosso Papa estaremos com Cristo. 2. A RCC ESTÁ INSERIDA NO CONTEXTO O mesmo amor temos pelos bispos e sacerdotes. ECLESIAL Eles podem testemunhar nossos esforços para construir Note-se, inicialmente, que conforme a introdução com eles a comunhão, mesmo em questões que nos feremdo parágrafo da Christifideles Laici citado acima, os profundamente. Em muitas oportunidades vemos irmãoscritérios apresentados pela Igreja não devem servir para em lágrimas por causa de incompreensões sofridascercear a liberdade dos leigos no que tange ao nosso quebrantarem seus corações diante do poder de Deus edireito agregativo; mas, ao invés, devem nortear nossa perdoar e amar seus pastores. Sabemos que isso não éliberdade de nos reunir e criar movimentos eclesiais mérito nosso. É uma graça que Deus dá a todos queinseridos na Igreja. pedem. Vejamos agora como a Renovação está atendendo Antes de ser acolhido pela Renovação, a grandeaos critérios propostos. maioria de nós não cultivávamos respeito pela hierarquia. Confessar nosso amor aos padres e bispos? Jamais. Hoje –– “O primado dado à vocação de cada nossos atos no sentido de construir a paz e a unidade, porcristão à santidade”. meio da compreensão, do perdão e do diálogo, respondem por nós. Somos conscientes de que isto também não é Quem conhece a Renovação pode testemunhar que fruto de nossas próprias forças. Esta graça recebemos daa luta para construir a santidade é o fio condutor que une própria Trindade que ama os representantes do Filho etodos os seus membros, assim como suas atividades. Tudo deseja vê-los amados.o que se faz na Renovação tem como ponto de chegada aedificação dos filhos e filhas de Deus, que é, em outras –– “Estima recíproca entre todas aspalavras, a santidade. formas de apostolado da Igreja”. Aqui se vê uma vigilância constante e amorosa Nosso coração se alegra quando vemos outrospara que ninguém esmoreça na luta contra o pecado e em movimentos entregues à causa de Jesus Cristo, nossoprol da santidade. Inúmeras vezes presenciei exortações a Senhor. Freqüentemente somos convidados para colaborarirmãos cujas vidas estavam incoerentes com sua pregação, em seus encontros. Deixamo-nos cativar por eles e nosquando suas ações estavam afrontando o Evangelho. esforçamos para cativar sua amizade, carinho e respeito.Sempre que preciso, cumprindo a recomendação de Cristo Afinal somos todos filhos de um só Deus.nosso Senhor,200 os irmãos são exortados e, por vezes, –– “A conformidade e participação naafastados de suas funções pastorais para um período201 de finalidade apostólica da Igreja”reflexão, oração, pastoreio, cura interior e conversão.Temos colhido bons frutos com esta prática. A finalidade apostólica da Igreja encontra-se em sua missão, que é proclamar a Boa Nova de Jesus Cristo e promover a geração de discípulos.202 Quem isto fizer já200 Cf. Mt 18,15-16201 Cf. At 9,26-30; 11,25-26 202 Cf. Mt 28,19-20
  • 63. 63estará preenchendo o primeiro e mais importante requisito contaremos com bibliografia produzida pelas Secretariasda eclesialidade, “porque não há ninguém que faça um Marta e Matias e por autores independentes. Seus frutosprodígio em meu nome e em seguida possa falar mal de têm sido colhidos em forma de criação de obras sociais e de engajamento político.mim” (Mc 9,39), disse Jesus. Outro fator importante pode ser visto nos A missão da Igreja é a missão da Renovação, ainda testemunhos de empregados e em formadores maisque considerada a miúdo. Em se tratando de Brasil isso honestos e fraternos no cumprimento de suas obrigaçõespode ser visto nas várias formulações de missão trabalhistas. Afinal não se entende o comportamentoencontradas nos documentos da Igreja, como as que desonesto de alguém que se diz cristão, ainda mais umseguem abaixo: cristão que deseja se deixar conduzir pelo Espírito Santo. “60. O próprio Jesus definiu sua Em outros capítulos205 apresentamos alguns frutos missão: evangelizar. Mais colhidos pelo Senhor no seio da Renovação. Eles são precisamente: ‘evangelizar os 203 fundamentais para comprovar o atendimento aos critérios pobres”; de eclesialidade. Quem diz isso é a própria Christifideles 61. Outra não é a missão da Laici, em conclusão aos critérios acima transcritos, Igreja. Ela existe para evangelizar. O apresentados em seu número 30. Leiamos: termo evangelização, por isso mesmo, “Os critérios fundamentais acima expressa a missão global da Igreja. expostos encontram a sua verificação (...) nos frutos concretos que acompanham a vida e as obras das diversas formas 88. Na Igreja particular como associativas, tais como: o gosto comunhão de vocações, carismas e renovado pela oração, a contemplação, ministérios, há tarefas e a vida litúrgica e sacramental; a responsabilidades específicas. Ao animação pelo florescimento de presbitério, presidido pelo Bispo, cabe a vocações ao matrimônio cristão, ao fundamental tarefa de unir e motivar sacerdócio ministerial, à vida todos os membros da comunidade consagrada; a disponibilidade em diocesana para assumirem, com participar nos programas e nas generosidade e alegria, este imenso atividades da Igreja, tanto a nível local ‘mutirão evangelizador’. Entretanto, na como nacional ou internacional; o tarefa de acolher o Evangelho como engajamento catequético e a experiência de vida, de expressá-lo no capacidade pedagógica de formar os cotidiano, o protagonismo é do cristão cristãos; o impulso em ordem a uma leigo...204 presença cristã nos vários ambientes da Como se vê na citação acima, a missão vida social e a criação de animação defundamental da Igreja é evangelizar. Quem evangeliza obras caritativas, culturais e espirituais;como membro da Igreja atende a este requisito e promove o espírito de desapego e de pobrezaa comunhão. Para cumprir esta missão, atingindo esta evangélica em ordem a uma caridadesublime finalidade apostólica, a Conferência Nacional dos mais generosa para com todos; asBispos do Brasil, em nome da Igreja, nos pede um conversões à vida cristã ou o regresso àmutirão missionário. E aqui nós indagamos: O que a comunhão por parte de batizadosRenovação tem feito que não seja evangelizar? Nada. ‘afastados’”.Tudo o que nela se faz está impregnado de evangelização. É maravilhoso ler essa conclusão em umPodemos fazer mais? Sim. Como? Organizando a nossa documento da Igreja dirigido aos leigos e descobrirOfensiva Nacional e praticando o que está sendo que os frutos nela mencionados fazem parte doplanejado em todos os lugares em que estivermos. cotidiano de nosso Movimento. Isso demonstra –– “O empenho de uma presença na nossa eclesialidade e nossa conformidade com asociedade humana que, à luz da doutrina Doutrina da Igreja que é exigida no mencionadosocial da Igreja, se coloque a serviço da cânon 214, do Código do Direito Canônico, e nosdignidade integral do homem”. anima a perseverar e a envidar esforços para aperfeiçoarmos esta eclesialidade e também a fazer Inegavelmente este critério é um dos mais difíceis avaliações constantes a fim de cumprir maisde ser atendido. Mas já começamos, impelidos pelo fielmente algum critério que porventura não façaEspírito Santo, a estudá-lo em seminários. Em breve203 Cf. Lc 4,18b 205 Capítulo primeiro, item 3, subitem “b”; capítulo204 DOCUMENTOS DA CNBB – 56: Rumo ao segundo, item 2, subitem b.2 e item 4; capítulo 3,Novo Milênio item 4; Capítulo 4, item 2, subitem “d”, todos acima.
  • 64. 64parte de nossa vida eclesial ou que ainda não esteja Ora, se temos o direito canônico e sagrado desendo atendido a contento. nos organizar como movimento, nada mais lógico que podermos nos realizar também como católicos A melhor eclesialidade é traduzida pela dentro deste movimento. Esta conclusão para oscomunhão eclesial. Os critérios apresentados pela leigos é muito importante, pois nosso tempo é muitoIgreja, vistos acima, são suficientes para atestar escasso. Os leigos são casados ou estão em buscaesta comunhão e com ela firma-se o contexto do cônjuge ideal. Porcentagem mínima escapaeclesial dos movimentos. Por isso damos por bem deste padrão. Trabalhamos diariamente, e quasedemonstrado o contexto eclesial da Renovação sempre com jornadas de oito horas. O tempoCarismática Católica. destinado ao nosso repouso é empregado em atividades pastorais. Para realizar bem essas atividades precisamos de nos submeter a formação 3. EFEITOS DA ECLESIALIDADE DA constante. Resumidamente esta é a rotina da RENOVAÇÃO Renovação. Não nos sobra muito tempo para as atividades desempenhadas pelos religiosos e Não enumeraremos todos os efeitos de nossa religiosas. Somos leigos.eclesialidade. Porém analisaremos alguns deles atítulo de esclarecimentos úteis para as atividades Apesar da enorme carga de atividadespastorais de nosso Movimento, ainda que sem a formativas e pastorais que desempenhamos,profundidade merecida. milhares de nós ainda encontram tempo para O primeiro deles é a definição da Renovação colaborar com as pastorais206 paroquiais e comcomo sendo uma expressão eclesial. De fato, outros movimentos. Sempre atendemos aosestando inserido inteiramente no Corpo Eclesial, pedidos de ajuda com amor, pois para nós eles vêmsem ser o próprio Corpo, mas sendo membro dele, da parte de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, coma Renovação será, naturalmente, uma expressão base na eclesialidade da Renovação, podemosdeste Corpo. Em outras palavras, um movimento repetir e frisar que não é necessário sobrecarregarcomo a Renovação Carismática é uma forma da com obrigações extras uma pessoa que participe eIgreja se manifestar, se expressar ao mundo; daí ser viva fielmente o chamado de Jesus Cristo para nós,ela uma expressão da Igreja. Onde quer que exista em nosso Movimento, para que ela seja parte douma fração da Renovação, ali estará uma parcela Corpo Místico de Cristo ou para que seja aceitada Igreja. Onde quer que um membro da como católica. Tal exigência afrontaria aRenovação pregue, cante, ore por curas e milagres, fraternidade.desenvolva promoção humana ou ação política em A conclusão acima está fundamentadasentido estrito, é a própria Igreja que está se também na orientação da Igreja que aceita eexpressando. incentiva os movimentos como meios aptos a Este caráter de expressão da Igreja Católica propiciarem um autêntico catolicismo. Vemos essaé reconhecido pelas outras denominações cristãs aceitação materializada no encontro internacionalcom muita facilidade. Muitas vezes presenciamos dos líderes de movimentos com o Papa João Paulointegrantes de tradições protestantes se referirem à II, realizado no Vaticano, em 1.998, bem como noRenovação com inusitado respeito, reconhecendo Primeiro Encontro Nacional para movimentos,nossa autoridade como Igreja Católica e nosso realizado em Goiânia, nos dias 24, 25 e 26 devínculo profundo com a Igreja Primitiva. novembro de 2000, coordenado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por intermédio do O clero católico, depois de alguns anos de Setor de Leigos.indecisão, também tem entendido e reconhecido aRenovação como expressão de Igreja, a começar Concluindo, podemos asseverar que nossapor aqueles que se aproximaram de nós sem medos expressão de Igreja, organizada como movimento, estáe sem preconceitos, desejosos de conhecer e inteiramente inserida no contexto eclesial de nossa Igrejaentender os fenômenos espirituais que acontecem Católica e que o seu próprio contexto é também eclesial,em nosso meio, bem como de apreciar nossas inteiramente. Quem dela participa goza da segurança deatividades pastorais. estar em comunhão com a Igreja e pode nela se realizar plenamente como católico, pois, como vimos, ela nos O outro efeito é que a Renovação, sendo coloca inteiramente no coração da Igreja, mediante aeclesial, é apta a ser uma opção de engajamento participação na Ceia Eucarística e na missão que Cristopastoral plena. Isto significa que quem participar de confiou aos batizados, bem como nos ajuda a sermosalguma atividade da Renovação estará realizando revestidos da Alma da Igreja, o Espírito Santo, que nosplenamente o trabalho pastoral da Igreja, bem comocumprindo a missão de Jesus Cristo. Isto nãosignifica, contudo, que não devamos colaborar com 206 Capítulo segundo, item 4, subitem a.2, acima,nossas pastorais paroquiais. Lembremos que elas onde se transcreveu resultado de pesquisa na qualsão autênticas terras de missão. se detectou que mais de 60% dos membros da Renovação colaboram em pastorais.
  • 65. 65conduz ao Pai, ao Filho, a Ele próprio e aos irmãos, para espiritualidade. Façamos isso com alegria, amor, féformar a comunidade – koinonia (κοινονια). e esperança. Uma vez que a Renovação é uma autêntica Amém. Deus os abençoe. “Intensificai as vossasexpressão de Igreja, podemos aceitá-la sem invocações e súplicas. Orai também por mim” (Ef 6,18-reservas e nela viver intensamente nossa 19). RESUMO Ponto crucial no estudo dos movimentos são os “Os critérios fundamentais acimacritérios de eclesialidade. São estes critérios que norteiam expostos encontram a sua verificaçãoa catolicidade das várias formas da Igreja se expressar. A nos frutos concretos que acompanhamChristifideles Laici, em seu número 30, traz os seguintes a vida e as obras das diversas formas“Critérios de eclesialidade para as associativas, tais como: o gostoagregações laicais”: renovado pela oração, a contemplação,1. “O primado dado à vocação de cada a vida litúrgica e sacramental; a cristão à santidade”; animação pelo florescimento de vocações ao matrimônio cristão, ao2. “A responsabilidade em professar a fé sacerdócio ministerial, à vida católica, acolhendo e proclamando a consagrada; a disponibilidade em verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e participar nos programas e nas sobre o homem, em obediência ao atividades da Igreja, tanto a nível local Magistério da Igreja, que autenticamente como nacional ou internacional; o a interpreta”; engajamento catequético e a3. “O testemunho de uma comunidade sólida capacidade pedagógica de formar os e convicta, em relação filial com o Papa cristãos; o impulso em ordem a uma (...) e com o Bispo”; presença cristã nos vários ambientes da vida social e a criação de animação de4. “Estima recíproca entre todas as formas obras caritativas, culturais e espirituais; de apostolado da Igreja”; o espírito de desapego e de pobreza5. “A conformidade e participação na evangélica em ordem a uma caridade finalidade apostólica da Igreja”: mais generosa para com todos; as conversões à vida cristã ou o regresso à0* A finalidade apostólica da Igreja é proclamar a Boa comunhão por parte de batizados Nova de Jesus Cristo e promover a geração de ‘afastados’”; discípulos (Mt 28,19-20; Doc. da CNBB – 56: Rumo ao Novo Milênio, Nº 60, 61 e 88); Quem participa de nosso Movimento pode comprovar a existência dos frutos acima em nosso1* Quem isto fizer já estará preenchendo o primeiro e Movimento. A existência desses frutos coloca a mais importante requisito da eclesialidade, “porque Renovação no âmago da eclesialidade, que passa a gerar não há ninguém que faça um prodígio em meu nome os seguintes efeitos: confirmação do contexto eclesial da Renovação e sua inserção na Igreja. Estar inserida no e em seguida possa falar mal de mim, disse Jesus” contexto eclesial significa que onde existir uma fração da (Mc 9,39)”: Renovação, ali estará uma parcela da Igreja; onde quer = A missão da Igreja é a missão da Renovação; que um membro da Renovação pregue, cante, ore por curas e milagres, desenvolva promoção humana ou ação6. “O empenho de uma presença na política em sentido estrito, é a própria Igreja que está se sociedade humana que, à luz da doutrina expressando. Mais: a Renovação, sendo eclesial, é apta a social da Igreja, se coloque a serviço da ser uma opção de engajamento pastoral plena. Isto dignidade integral do homem”. significa que quem participar de alguma atividade da Há que se notar também uma exigência do Direito Renovação estará realizando plenamente o trabalhoCanônico. Com efeito, o cânon 214 prescreve que a pastoral da Igreja, bem como cumprindo a missão deespiritualidade admitida haverá de estar de acordo com a Jesus Cristo e que com base nesta eclesialidade não édoutrina da Igreja. necessário sobrecarregar com obrigações extras a uma pessoa que participe e viva fielmente o chamado de Jesus A conclusão do número 30 da Christifideles Laici Cristo para nós, em nosso Movimento, para que ela sejaaponta os frutos que se espera de um movimento eclesial. parte do Corpo Místico de Cristo ou para que seja aceitaEi-los: como católica. Tal exigência afrontaria a fraternidade.
  • 66. 66 As conclusões acima fundamentam-se também na 1998 e no Primeiro Encontro Nacional para Movimentos,orientação da Igreja que aceita e incentiva os movimentos realizado em Goiânia e coordenado pela Conferênciacomo meios capazes de propiciarem um autêntico Nacional dos Bispos do Brasil, por intermédio do Setorcatolicismo, como vimos no encontro internacional dos de Leigos, no ano de 2000.líderes de movimentos com o Papa João Paulo II, em
  • 67. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASALDAY, Salvador Carrillo. Renovação Carismática: Um Pentecostes Hoje. São Paulo: Paulus, 1.996.COMISSÃO DE SERVIÇO NACIONAL DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA DOS ESTADOS UNIDOS DAAMÉRICA. Avivar a chama. Documento da Conferência do Coração da Igreja de Teólogos e Líderes Pastorais, SãoPaulo: Loyola, 1992.BÍBLIA de Jerusalém.BÍBLIA Sagrada Ave-Maria.CANTALAMESSA, Raniero. A Poderosa Unção do Espírito Santo. Campinas-SP: Raboni Editora, 1996.CATECISMO da Igreja CatólicaCHRISTIFIDELES LaiciCNBB – Documento 57, 13º Plano Bienal de Atividades do Secretariado Nacional.CNBB –Documento 61. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.CÓDIGO do Direito CanônicoCONSTITUIÇÃO Dogmática Lumen GentiumCONSTITUIÇÃO Dogmática Dei VerbumDECRETO Ad GentesDECRETO Apostolicam ActuositatemDICIONÁRIO Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis-RJ, Editora Vozes: 1992.DOCUMENTO DO ENCONTRO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO REALIZADO EM LA CEJA – Colômbia. ARenovação Espiritual Católica Carismática. São Paulo: Loyola, 1988.ENCÍCLICA Redemptoris MissioFERREIRA, Aurélio B. de H. - Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.FLORES, José H. Prado. Formação de Discípulos. Edições Louva-a-Deus. Rio de Janeiro-RJ.GRASSO, Domenico. Los Carismas en la Iglesia: Teologia e História. Madrid: Ediciones Cristianidad, Huesca, 30-32,1984.JUANES, Benigno, SJ. Falar em Línguas. São Paulo: Loyola, 1997.LEON-Dufour, Xavier - Vocabulário de Teologia Bíblica, Editora Vozes, Petrópolis-RJ: 1992MANSFIELD, Patti Gallagher. Como um Novo Pentecostes. Rio de Janeiro-RJ: Edições Louva-a-Deus, 1993.MATERA, Frank J. Ética do Novo Testamento: os Legados de Jesus e de Paulo. São Paulo: Paulus, 1999.RCC - Escola Paulo Apóstolo. Identidade da RCC. Espiritualidade da RCC, 1999TANQUEREY, Ad. Compêndio de Teologia Ascética e Mística (tradução de J. Ferreira Fontes). Apostolado daImprensa. Porto, Portugal: 1938.