Texto Base Intereclesial do 13º Intereclesial das CEBs em 2014 - Juazeiro do Norte CEARÁ

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Texto Base Intereclesial do 13º Intereclesial das CEBs em 2014 - Juazeiro do Norte CEARÁ

  1. 1. 13º INTERECLESIAL DE CEBsJUSTIÇA E PROFECIA ASERVIÇO DA VIDACEBs, Romeiras do Reinono Campo e na Cidade07 a 11 de Janeiro de 2014Juazeiro do NorteDiocese de Crato-CETEXTO-BASE
  2. 2. ApresentaçãoA Diocese de Crato torna-se significativa na realização do 13º Intereclesial das CEBs,por ser uma Igreja rica em devoção popular, terra de missão, acolhedora de romeiros eperegrinos da fé. As inúmeras formas de manifestação religiosa e cultural se estendemaos mais humildes lares, plantando a semente da fé que desabrochou na frondosa árvoredo Cristianismo, dando sombra e frutos aos pobres e excluídos da sociedade...A fome por justiça desses nossos irmãos e irmãs eleva o calor da terra dos Ciriris vindodo esforço e da luta por dignidade, onde Deus revela sua sabedoria aos humildes:“levanta da poeira o indigente e do lixo ele retira o pobrezinho”. Pois, na fraqueza doser humano se manifesta o poder de Deus.As Comunidades Eclesiais de Base apresentam um arcabouço de experiências vividas eexemplos de fé a seguir. A realização deste encontro reviverá a confirmação daquelesque já trabalham pela causa do Reino, e vai ainda forjar novos discípulos missionáriosde Jesus no engajamento pela manifestação do Reino de Deus entre nós e no mundo.Acolhemos com muita alegria a mensagem dos nossos Bispos ao povo de Deus sobre asCEBs, documento 92 da CNBB, fruto da 48ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil,reafirmando que as “CEBs são sinais de vitalidade da Igreja”, onde os seus membros sereúnem para a escuta da Palavra de Deus, a busca de relações mais fraternas, celebraçãodos mistérios cristãos em sua vida e assumem o compromisso de transformação dasociedade.Dom Fernando PanicoBispo da Diocese de Crato (CE)
  3. 3. IntroduçãoJesus veio ao mundo para anunciar seu Reino de amor, de paz e de justiça. Suasandanças missionárias em diversos lugares na Palestina, sobretudo em lugares simplesonde o povo esperava a vinda de um salvador, atraiu discípulos e esses atraíram outrosdiscípulos. Ainda hoje continua chamando discípulos. É pela graça do Batismo que nostornamos discípulos de Jesus. Depois de sua morte e ressurreição, Jesus enviou da partedo Pai o Espírito Santo sobre os Apóstolos e esses deram início a sua Igreja, a qual nósfazemos parte. Pela via da simplicidade, enfrentando os problemas de cada dia,fortalecia o modo de ser Igreja, segundo a vivência da unidade e da simplicidade dosapóstolos, nasciam novos cristãos para a Igreja.O Espírito Santo continua conduzindo a Igreja nos dias de hoje e milhares de fiéis sereúnem para ouvir a Palavra de Deus, melhorar a vida, e confiar na mensagem doEvangelho em todas as Comunidades Eclesiais de Base.A bela experiência de fé vivida em comunidades locais aproxima as pessoas, une asfamílias, fortalece as relações mútuas e se abre um bonito espaço para a fraternidadeuniversal. Quem une e integra nos bons sentimentos é a presença do Espírito Santo nasCEBs. Foi o Espírito Santo que iluminou os Apóstolos e eles sentiram o coraçãopalpitante que animou a vida das primeiras comunidades cristãs no anúncio doEvangelho e na fé no Cristo ressuscitado. Nós somos herdeiros dessa fé intrépida querompeu fronteiras e conquistou o mundo. Essa é nossa ação missionária na família e nacomunidade, alimentada e abastecida pela vivência em comunidades locais de fé emverdadeiro espírito de Igreja.
  4. 4. Apoiados no documento de Aparecida, onde os bispos pedem que se fortaleçam ascomunidades eclesiais de base, onde cada cristão leigo (a) possa vivenciar etestemunhar sua fé em sua própria comunidade quer seguir e animar nossa Igreja comesse mesmo modo simples e fraterno de ser Igreja.As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil dá um destaqueespecial em suas urgências quando fala de Igreja Comunidade de Comunidades.Sabemos que o melhor e o mais seguro local para viver, testemunhar e ensinar a fé é nacomunidade onde moramos e onde podemos nos sentir mais família, mais próximos emais comprometidos com a mensagem de Jesus que veio trazer paz, alegria, justiça,anúncio e profecia, imitando os seus discípulos.No 13ª Intereclesial, animado pelo Espírito Santo, queremos evangelizar e sermosevangelizados e não inventar outras formas de vida. Somos missionários dacomunicação clara e objetiva da Palavra de Deus. A Bíblia seja nossa condução eanimação na vida e na caminhada rumo ao mundo desejado por Deus. A vivacidade denossas comunidades iluminadas pela Palavra de Deus será sempre uma ação semelhanteà de Pentecostes onde se enche de coragem e se anuncia pela vida e pelo testemunho osdesígnios de Deus. A cura e a linguagem clara e compreensiva vêm da Ação do EspíritoSanto e não da nossa imposição. Somos criaturas obedientes à vontade de Deus.Apresentamos o texto base para que cada comunidade, cada grupo de fé, se debrucecom fecundidade sobre as temáticas apresentadas. Seguindo o método, Ver, Julgar eAgir, o texto apresenta a cultura, os sofrimentos e a história de fé do povo do nordestedestacando o querido padre Cícero, considerado o grande Santo para o povo humilde esimples do nordeste.O 13ª Intereclesial acontecerá na cultura do nordestino com suas expressões culturais,religiosas, familiares, com seus sofrimentos, desejo de superação e com suas sombras, eluzes. Região das secas, grandes estiagens, mas terra de muitos santos e santas quenunca deixaram de acreditar na intervenção divina que os sustenta na fé e nareligiosidade popular.Os textos nos oferecem rica reflexão mostrando a realidade sofrida e a vocação poéticado nordestino. É importante que outras regiões do Brasil se curvem, e aprendam com onordestino a beleza da fé e a necessidade de purificar a mesma em cada espaço e tempo.
  5. 5. A caravana das CEBs caminha pelo Brasil todo e desta vez chega em Crato, CE, comtoda a sua poesia, tradições, cultura própria e religiosidade em volta do Padre Cícero.Temos a oportunidade de aprofundar a reflexão, desenvolver o senso crítico parapurificar nossa fé, e que ela se torne uma via prática para a necessária transformação ecrescimento da fé, fazendo acontecer o Reino de Deus entre nós nas mais diversasculturas e situações onde o povo vive.Que nossa ação seja de coragem, de determinação coerente, ancorado nos princípiosevangélicos, apoiada pela Igreja que quer ser sinal da presença de Jesus e de seu Reino.Do jeito simples, mas coerente, amável, mas comprometido, vigoroso, mas com ternura,encorajemos a todos(as) os cristãos (as) a viverem com fecundidade missionária a açãode Jesus nas pequenas comunidades eclesiais, mostrando ao mundo que o rosto de Jesuscontinua forte e vigoroso no nosso meio.Que o 13º Intereclesial seja uma fonte de iluminação, inspiração e um modo rico,agradável, oportuno e natural de ser Igreja.Juntos e fortalecidos pela fé e esperança, preparemo-nos profundamente para essa bela erica experiência de ser Igreja.Por fim, que nos grupos de reflexão, de estudo da Palavra de Deus, na expressão naturalde ser Igreja, sintamos a mesma alegria de Isabel quando exclama: “a mãe de meuSenhor me vem visitar” e que encha de alegria a todos que buscam viver a fé simples epura nas comunidades. Assim, poderemos seguir o trem das CEBs com vigor paraimplantar a justiça e a paz no mundo e renovemos a face da terra.Que Nossa Senhora, nossa Mãe e rainha, nos acompanhe em cada encontro e com elafaçamos a bela experiência da ternura e vigor na vida da família e na comunidade pararealizar a plenitude da Aliança de Deus para viver o amor sem fronteiras.Dom Frei Severino Clasen, OFMBispo de caçador (SC)Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB
  6. 6. VER601 –A globalização e seus desafios à vivência da féPedro A. Ribeiro de OliveiraSociólogo, Professor do PPG em Ciências da Religião -PUC-Minasconsultor de ISER/AssessoriaMuito se tem falado de globalização nos últimos vinte anos, mas esse conceitoesconde diferentes interpretações. Convém, portanto, esclarecer o que significa aglobalização como acontecimento da história mundial recente, de modo perceber como
  7. 7. esse conceito é usado para justificar a expansão irrefreada do sistema capitalista e suasconsequências para as populações pobres e para a vida da Terra. Essa visão crítica abreo horizonte para uma outra globalização possível, no sentido inverso da atual: daperiferia para o centro. Examinaremos aqui duas formas dessa “outra globalização”,como desafio à fé cristã que deve concretizar-se a cada dia como proclamação de umReinado de Deus que já está no meio de nós.A globalizaçãoO conceito de globalização entrou em voga nos anos 1960, quando o mundotornou-se tão interligado que se podia falar de uma “aldeia global”. Com a comunicaçãovia satélite, as informações passaram a chegar ao mesmo tempo em qualquer parte daTerra. Isso possibilitou aos países tecnologicamente mais avançados levar sua visão domundo e suas culturas a todos os demais, tornando global o que até então era local. Maspermitiu também que elementos de outras culturas também se difundissem pelo mundo.Basta pensar nas diversas culinárias que hoje podem ser encontradas por toda parte:ninguém precisa mais ir ao Japão para experimentar a cozinha japonesa... Maisrecentemente a internet tornou o inglês a língua franca da informática, obrigando-nosaté a reinventar verbos para nos adaptarmos a ela: “deletar”, “digitar”, “clicar” “tuitar” eoutros.Sobre aquele conceito de globalização foi enxertado outro, referente a mudançasno sistema econômico. Ele entrou na linguagem corrente após 1989, quando aderrubada do muro de Berlim precipitou o esfacelamento da antiga União Soviética epôs fim à “guerra fria” que até então dividia o mundo entre os aliados dos EUA e obloco socialista. Dissolvido o bloco socialista, o mundo parecia não ter alternativa senãoadotar o capitalismo. A globalização passou a ser entendida, então, como a supressãodas fronteiras nacionais de modo a transformar o mundo num único mercado onde odinheiro, as mercadorias e os serviços (mas não as pessoas!) circulassem livremente.É importante distinguir os dois significados da mesma palavra, porque aglobalização da informação e da cultura é diferente da globalização financeira domercado. Para não confundir a interpenetração das culturas locais com a conquista domundo pelo sistema capitalista, pode-se usar a expressão “globalização neoliberal” paraindicar a atual globalização da economia.
  8. 8. “Neoliberalismo” também é uma palavra nova. Foi criada para distinguir apolítica econômica que coloca a estabilidade da moeda em primeiro lugar, das teoriaseconômicas que compõem o liberalismo clássico. Tanto uma quanto outra atribuir aoEstado somente a função de manter a ordem política e jurídica, deixando a economiaregular-se pelas leis do mercado; mas os neoliberais destacam-se por sua oposiçãoferrenha ao Estado “de bem estar social” que procura criar empregos e garantir o poderde compra dos trabalhadores para se contrapor ao socialismo. Para o neoliberalismo,gastos e investimentos públicos provocam inflação e por isso devem ser reduzidos aomínimo, de modo a alcançar o equilíbrio fiscal. Isso significa que o Estado deveprivatizar suas empresas, cobrar menos impostos e só fazer gastos sociais com pessoasincapazes de prover sua subsistência. Esse pensamento tornou-se vitorioso nos anos1980, depois das eleições de Margareth Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nosEUA. O desmoronamento da economia socialista soviética deu tal força aoneoliberalismo, que M. Tatcher afirmou taxativamente: “não há alternativa”.A globalização neoliberal segue a receita arquitetada pelos economistas doBanco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e dos grandes bancos internacionais,que ficou conhecida como “consenso de Washington”. Ela se realiza em três grandespassos. O primeiro é combater implacavelmente a inflação e garantir a estabilidade damoeda, ainda que isso cause desemprego e elevação dos juros (no Brasil, foi o “PlanoReal”). O segundo é conter os gastos do governo; privatizar os bancos, empresas eserviços públicos; diminuir os direitos trabalhistas; cortar subsídios e abrir o mercadointerno a empresas estrangeiras. Nessa fase se dá o aumento do desemprego, a quebra ea fusão de empresas, grande aumento da produtividade e a concentração da riqueza nossetores mais competitivos. Vencida essa etapa, vem o terceiro passo: por merecer aconfiança dos investidores, o país recebe grande afluxo de capitais, sua economia passaa competir no mercado mundial e o livre comércio trará a prosperidade geral. Esta é apromessa da globalização neoliberal.O Brasil na globalização neoliberalA vitória de Collor contra Lula, em 1989, foi o início da opção brasileira pelareceita neoliberal. Itamar Franco ainda tentou evitar suas medidas mais duras, mas oduplo governo de F. H. Cardoso consolidou aquela opção ao promover a privatização deempresas estatais, dar prioridade ao equilíbrio fiscal e reduzir os gastos do governo –
  9. 9. exceto para o pagamento de juros da dívida pública. Embora o governo Lula tenha sereferido a essa “herança maldita”, não reverteu o processo. Sua política foi a de fazercorreções – como o fim do alinhamento subserviente aos EUA, não levar a diante oprocesso de privatização de empresas, aumentar os gastos sociais e recuperar a políticade investimentos – para fazer do Estado um indutor do crescimento econômico, o quecontraria o neoliberalismo ortodoxo. Mas também ele manteve a política de darprioridade absoluta ao controle da inflação, garantir a pontualidade no pagamento dosjuros da dívida pública e privatizar as concessões na área de exploração de petróleo.Assim fazendo, Lula conquistou a confiança dos investidores financeiros, queaumentaram suas aplicações no Brasil, resultando na valorização do real frente ao dólare a acumulação de reservas cambiais que permitiram superar a crise financeira de 2008e manter o crescimento da economia brasileira. Seu resultado foi a diminuição donúmero de famílias em situação de miséria e o aumento significativo dos setores médios(a chamada classe “c” que hoje representa praticamente a metade das famíliasbrasileiras) sem prejuízo para os interesses dos setores dominantes: banqueiros,rentistas, empresários e grandes proprietários rurais, cujos lucros muito aumentaramdesde 2003. Apesar de algumas diferenças – como a forte presença feminina em altospostos de decisão política – o atual governo Dilma dá continuidade a essa políticamacroeconômica cuja meta é a plena integração do Brasil no mercado mundial.Essa inserção do Brasil no mercado mundial tem sido exaltada como um grandepasso para sua efetiva ascensão ao pequeno grupo de países desenvolvidos, ricos emodernos. É fato inegável que o nosso PIB tem crescido de modo seguro, sem provocarinflação descontrolada e isso favorece tanto a diminuição do desemprego quanto arecuperação do salário-mínimo e, em conseqüência, do piso das aposentadorias epensões. Não se pode falar propriamente de diminuição da desigualdadesocioeconômica – porque a distribuição da renda e da riqueza continua a favorecer maiso capital do eu o trabalho – mas é certo que muitas famílias saíram da faixa da miséria emuitas outras alcançaram uma faixa de renda acima da linha da pobreza. Enfim, ocapitalismo reformado pelos governos Lula e Dilma tem beneficiado a grande massa detrabalhadores assalariados, de aposentados e de quem está inscrito num dos programasde assistência social do governo. Seria, então, a história recente do Brasil uma prova deque a globalização neoliberal dá bons resultados para todos? Aparentemente, sim, emuita gente – principalmente quem detém os grandes meios de informação de massa –
  10. 10. tudo faz para convencer o nosso povo de que este é o melhor, senão o único caminhopara o desenvolvimento no século XXI. Uma análise mais acurada, porém, mostra quenão é bem assim. É o que veremos em seguida.Um beco sem saída: a lógica produtivista e consumistaO êxito do sistema capitalista reside na sua enorme capacidade de produzirriquezas. Seu primeiro grande teórico, A. Smith, já dizia que não é a generosidade e sima ânsia de lucro que faz o padeiro levantar-se de madrugada para assar e vender seu pãologo pela manhã. De fato, a economia de mercado, regida pela lei da oferta e da procura,tem como motor a promessa do lucro. Todo empresário competente sabe que aocontratar trabalhadores e adotar as melhores técnicas de produção e de gestão, aumentaa oferta de bens ou serviços que, ao serem vendidos, lhe darão lucro. Esta é a lógica domercado: produzir para vender e vender para lucrar. O mercado é impulsionado por essemotor e quem não vende vai à falência. É portanto da própria essência do mercadoexpandir-se, isto é, integrar um número cada vez maior de pessoas como compradoras evendedoras de mercadorias cada vez mais diversificadas.A história do capitalismo é a história do seu dinamismo expansionista,incorporando um número cada vez maior de mercadorias e de agentes econômicos –produtores e compradores. Esboçado nas cidades do norte da Itália há cerca de oitoséculos, criou as bases do comércio mundial moderno por meio das grandes navegaçõese da colonização da América, África e parte da Ásia, provocou a revolução industrial,consolidou-se nas revoluções políticas e culturais do século XIX e atingiu a maturidadecom o processo de globalização neoliberal. Ao longo dessa história o sistema capitalistaassumiu diferentes formas – mercantilista, liberal, imperialista, de bem-estar social eneoliberal – e passou por diferentes centros polarizadores: das cidades italianas foi paraAmsterdã, dali para Londres e depois Nova York. Hoje há sinais de que o próximocentro polarizador se localizará na China 1. Essa expansão, porém, cedo ou tarde1Essas mudanças se deram sempre em meio a graves crises financeiras,sociais e políticas, e nenhuma delas ocorreu sem provocar guerras. É preciso terpresente essas lições da história para diminuir, o quanto possível, o inevitávelsofrimento humano que as crises acarretam. As pesquisas sobre a história do sistema
  11. 11. encontrará uma barreira intransponível: os limites físicos do nosso Planeta. Seusprimeiros sinais apareceram no horizonte nos últimos cinquenta anos. Vejamosbrevemente o que eles indicam.Em diversos campos de atividade – ciências, comunicação, política, filosofia eaté teologia – cresce o número de pessoas alarmadas pelo desgaste físico do nossoPlaneta. O foco da atenção pode ser a produção de lixo, a destruição da biodiversidade,a degradação dos solos e das águas, a desertificação dos mares, o aquecimento global, oesgotamento das fontes de energia fóssil, os danos à saúde humana e animal, a exclusãosocial, a revolta dos excluídos, e vários outros sinais de desequilíbrio do sistema de vidada Terra. Os estudos e pesquisas deixam cada vez mais evidente que o principalcausador desses desequilíbrios é o produtivismo consumista da economia de mercado.Ele utiliza enormes quantidades de energia e de matérias-primas, e gera mais poluentes(lixos e venenos) e mais gás carbônico do que a Terra consegue absorver. O sistema devida da Terra normalmente absorve, aproveita e recicla todo tipo de elementos: energia,água, ar, restos de seres vivos e tudo mais que a vida necessita para reproduzir-se ediversificar-se. Mas essa capacidade de reciclagem não é ilimitada. Ultrapassado olimite, o sistema entra em pane, como um organismo cujos anticorpos já não conseguemmais combater a infecção. E este é o caso da Terra: adoeceu e está perdendo suacapacidade de autorregeneração. O problema é que o tempo da Terra não é o tempo daespécie humana: um século, para nós é muito mas para a Terra é pouco. Há três séculosa crescente produção industrial vem exaurindo reservas de água, terra agriculturável,energia e minerais e despejando poluição nos mares, solos e ar; mas só recentemente aTerra começa a apresentar claros sinais de perda de vitalidade. Ainda que a produçãoregredisse aos índices preindustriais – coisa impossível, devido ao crescimentode mercado regido pelo capitalismo ganharam um enorme impulso a partir da obra deF. BRAUDEL: Civilisation matérielle, Economie et Capitalisme, XVe-XVIIIesiècle; Paris,Armand Colin, 3 vol., 1979 e de I. WALLERSTEIN: The Modern World System I: CapitalistAgriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century;Nova York, Academic Press, 1974. As crises do capitalismo foram bem analisadas porG. ARRIGHI: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo; Rio deJaneiro, Contraponto; São Paulo, Editora UNESP, 1996.
  12. 12. populacional – os danos já causados levariam muito tempo (para o padrão humano) aserem reparados. Ou seja, paira sobre a espécie humana a ameaça de uma grandecatástrofe.Essa ameaça foi percebida por pessoas atentas às questões ambientais, mas porbastante tempo foi ignorada por empresários, economistas e dirigentes políticos. Quemfalasse de questões ecológicas, ambientais e de respeito à vida do Planeta eradesqualificado como aquele “ecochato” que gosta de criar problemas. Ainda hoje, quemse opõe à construção de hidrelétricas na Amazônia – especialmente a de Belo-Monte – écriticado como quem não quer nem o progresso da Amazônia nem o desenvolvimentodo Brasil. Mas essa consciência ecológica cresceu de tal modo, que os defensores docapitalismo foram obrigados a propor mudanças. Uma delas é a economia verde, queestá na pauta da reunião da ONU no Rio + 20. Trata-se de contabilizar os custosambientais e humanos envolvidos em toda produção econômica. Seria uma “economiasustentável” por levar em conta os três pilares da economia: o lucro, as pessoas e aTerra. É sem dúvida um avanço em relação ao capitalismo neoliberal, regidounicamente pela busca do lucro, mas erra ao colocar em pé de igualdade o lucro, aspessoas e a vida do Planeta, como se os respectivos direitos fossem equivalentes.Não é somente por dar igual importância ao capital, aos seres humanos e a todacomunidade de vida, porém, que a economia verde é insuficiente para tirar o sistemacapitalista do impasse ecológico aonde se meteu. Sua maior fragilidade reside naincapacidade de resolver o problema de um sistema econômico que precisa semprecrescer, num planeta que não cresce. Este é o verdadeiro “beco sem saída” onde hojeestamos: a espécie humana tem ocupado tantos espaços na Terra (antigamente, falava-sede “desbravadores”), que em breve não haverá mais espaços virgens a ocupar. Bastalembrar que já buscamos petróleo a 5.000 metros abaixo do nível do mar... Não estálonge o dia em que a economia mundial, ao atingir os limites físicos da Terra, sofreráum “apagão”.Da periferia para o centro: outra globalização é possívelSe a globalização do mercado regido pelo capital está prestes a atingir seuesgotamento, e isso acarretará um período de guerras, fome e mortandade em massa,cabe agora levantar a questão de quais são as perspectivas para a humanidade que deseja
  13. 13. uma vida longa e feliz sobre a Terra. Esta é uma das questões mais importantes para oscristãos e cristãs nos tempos atuais, porque precisamos dar as razões de nossaEsperança. Tal como o livro do Apocalipse que parte dos “sinais dos tempos” paraassegurar a vitória da vida e prometer “um novo céu e uma nova terra”, as comunidadeseclesiais são desafiadas hoje a proclamar que “um outro mundo é possível”, desde que aglobalização não se faça do centro rico e desenvolvido para a periferia empobrecida,mas a partir da periferia.Hoje existem vários ensaios de alternativas à globalização neoliberal.Despontam em diferentes partes do mundo, cada qual com as peculiaridades próprias desua cultura. Todas elas têm claro que não basta constituir-se uma “nova sociedade”, mashá que ser uma “nova Terra”. Isto é, o novo modo de produção e de consumo deve teralcance planetário. Ele deve se apresentar como alternativa à economia de mercadoregulada pelo capital, cujo motor – o lucro privado – destrói tanto os recursos naturaisquanto os laços sociais de trabalho, ambos tratados como se mercadorias fossem. Porisso, sua supressão passa pelo fim da dominação dos países ricos e suas corporaçõestransnacionais sobre a periferia mundial empobrecida, e também pelo fim da dominaçãoda espécie humana sobre as demais espécies vivas. Vejamos aqui, de modo sucinto,duas dessas propostas.A Carta da TerraAprovada em março de 2000 pela Unesco, a Carta da Terra2busca criar oconsenso ético sobre as grandes questões do nosso tempo. Sua elaboração é o resultadode um longo processo que envolveu mais de cem mil pessoas de 46 países. Em seuPreâmbulo, a Carta afirma a gravidade do atual momento: “Estamos diante de ummomento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher oseu futuro”. Constata que a própria vida está ameaçada pelos “padrões dominantes deprodução e consumo”, e que “a escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidarda Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida”.Afirma que a tecnologia já nos permite optar por um caminho ou outro e que a decisãonão é técnica, mas política.2O texto integral pode ser acessado em http://www.cartadaterra.org/ctoriginal.htm
  14. 14. Seu princípio fundamental é “respeitar e cuidar da comunidade de vida”. Aoser aplicado nos diferentes campos de ação, ele se desdobra em orientações práticas.Vejamos aqui algumas delas.É preciso que se adotem planos mundiais de sustentabilidade do Planeta, secriem reservas, se promovam a recuperação de espécies ameaçadas e os recursosnaturais sejam manejados de maneira responsável. A melhor maneira de proteger oambiente é adotar o princípio da precaução: quando houver dúvidas sobre a segurançade determinada atividade, esta deve ser evitada até que seja confirmada suaconfiabilidade. Os padrões de produção e consumo não podem causar danospermanentes ao meio ambiente. Do mesmo modo, a saúde humana deve ser tratadacomo um bem ecológico e deve ser garantido o acesso universal aos remédios ecuidados da saúde. Por isso, a cooperação científica internacional deve ser estimulada,superando o sistema de patentes quando está em jogo a proteção do meio ambiente e avida.A atividade econômica, inclusive o comércio, deve promover a distribuição deriquezas entre as nações de modo equitativo e transparente. O trabalho deve ser fonte demanutenção de uma vida digna. Manda a Justiça social e econômica que as dívidasinternacionais, públicas ou privadas, não sufoquem as economias dos países emdesenvolvimento.É preciso respeitar a democracia, a não-violência e a paz. Os direitos dasmulheres e meninas devem ser garantidos em todas as culturas e todos os países, sendoeliminada a violência contra elas. Uma efetiva comunidade global não podeconstituir-se em detrimento das comunidades locais, que devem ser fortalecidas ehabilitadas a cuidar de seu próprio ambiente. O local e global não se excluem; aocontrário, se completam. A cultura da não-violência e da paz deve ser estimulada eincluir a desmilitarização dos sistemas de segurança, convertendo-se os recursos bélicosem meios para a restauração ecológica e eliminando-se as armas de destruição emmassa - nucleares, químicas e biológicas.A Carta conclui apontando o caminho à frente: “Como nunca antes na história,o destino comum nos conclama a buscar um novo começo”. É necessário “harmonizar adiversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de
  15. 15. curto prazo com metas de longo prazo.” Conclamando as artes, as ciências, as religiões,as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizaçõesnão-governamentais e os governos a construir uma comunidade global sustentável, aCarta da Terra quer que “o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma novareverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, aintensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.”O Bem-viverO Bem-viver é um conceito que visa recriar, diante do fracasso do neoliberalismo,um antigo conceito de certas culturas andinas como os Quetchua e Aymará. Depois decinco séculos de colonialismo e dominação européia, os povos tradicionais do nossoContinente não querem voltar a um passado idealizado, mas sim buscar em suasabedoria ancestral uma proposta que os ajude a construir uma nova ordem social eeconômica. No período de mobilização popular contra as políticas neoliberais, aqueleprojeto de vida coletiva ganhou novo conteúdo e nova forma, e sua força foi tanta quefoi incorporado às Constituições da Bolívia (2009) e do Equador (2008). Isso despertoua atenção de grupos e movimentos alternativos em outros países e foi assim que, nosúltimos anos, o Bem-viver entrou na agenda de um número cada vez maior demovimentos sociais, grupos e pessoas de todo o mundo3.O conceito refere-se a duas palavras com significados semelhantes em Quetchua eem Aymará: suma(k) > muito bom, e kawsay ou camaña > conviver. Sua idéia central éa vida em harmonia (i) consigo mesmo, (ii) com outras pessoas do mesmo grupo, (iii)com grupos diferentes, (iv) com Pachamama – a Mãe Terra (v) seus filhos e filhas deoutras espécies e (vi) com as realidades espirituais.Constitui uma alternativa econômica ao sistema produtivista-consumista aoafirmar que a Terra não é um grande depósito de recursos naturais a serem exploradospara produzir riquezas, mas sim a mãe de todas as espécies de vida. Em vez de extrair /transformar / consumir / descartar, a economia deve ser regida pelo princípio do3A Agenda Latino-Americana Mundial 2012 tem por tema o Bem-viver. Podeser acessada gratuitamente emhttp://latinoamericana.org
  16. 16. respeito à Terra. Ela é mãe generosa, e mesmo não sendo rica, nada nega a seus filhos efilhas. Mas nós – gente mimada e insensata – a exploramos, tudo exigindo e nadaretribuindo. Mesmo adoecida e desgastada como está hoje, a Terra continua a nosoferecer aquilo que durante milênios produziu e conservou em seu seio. Só o respeitoaos Direitos da Terra poderá resgatar sua saúde e favorecer nosso Bem-viver.É evidente que, se todos os Direitos da Terra forem respeitados, a produção deriquezas sofrerá uma drástica redução. Mas, pensando bem, mais cedo ou mais tarde o“apagão” dos recursos naturais obrigará nossa espécie a viver pobremente. Trata-se deiniciar desde agora o processo de redução geral de riquezas, e nos prepararmos para ummodo de vida mais simples. É claro que este não é o projeto dos 1.210 bilionários e dasdezenas de milhares de milionários do mundo, que vão perder sua fortuna; mas é por aíque podemos construir uma economia conforme o Bem-viver.Conclusão: novo horizonte para o PlanetaO fracasso da globalização neoliberal faz desmoronar a antiga utopia do progressosem fim e nos desafia a seguir outra utopia como uma ideia-força – não um sonhoirrealizável. Ideia que, ao mobilizar as vontades para realizar-se na história, despertanovas energias e alimenta a esperança de uma vida longa e feliz sobre a Terra.Ao entender a espécie humana como parte responsável por cuidar da grandecomunidade de vida – e não como espécie com o direito de dominar as demais espéciesvivas e de tratar a Terra como fonte de recursos e depósito de lixo – a Carta da Terra eo Bem-viver obrigam a reformular nossos padrões de sucesso. Ele não se mede maispelo PIB ou pela acumulação de riquezas, mas sim pelo grau de harmonia que sealcança nas relações com a grande comunidade de vida. Aí, e não no consumo de bens eserviços, reside a felicidade humana. Esta é uma lição de sabedoria que o mercado tentadesqualificar como ingênua, mas que poderá resistir à grande crise de exaustão dosrecursos naturais do Planeta e às graves consequências do desmoronamento do sistemafinanceiro que está na origem da globalização neoliberal.Os documentos oficiais da Igreja católica já despertaram para essa “outraglobalização”, embora seu horizonte seja limitado à espécie humana, sem incluir acomunidade de vida do Planeta. O Documento da V Conferência Geral do EpiscopadoLatino-Americano e Caribenho em 2008 refere-se ao “forte chamado para promover
  17. 17. uma globalização diferente, que esteja marcada pela solidariedade, pela justiça e pelorespeito aos direitos humanos” (64). Contradiz a globalização neoliberal ao afirmar que“trabalhar pelo bem comum global é promover uma justa regulação da economia, dasfinanças e do comércio mundial” (423). Por isso conclama “todos os homens e mulheresde boa vontade a colocarem em prática princípios fundamentais como o bem comum (acasa é de todos), a subsidiariedade, a solidariedade intergeracional e intrageracional”(425).Os desafios da globalização à Fé cristã aí estão. Nossa resposta a eles definirá olugar das Igrejas cristãs no mundo conturbado deste século XXI.02 – Crise Civilizatória: Desafios para as CEBs.16Roberto Malvezzi (Gogó)- Reflexões sobre a Mudança de Época -1) O Contexto.A humanidade está passando pela mudança mais vasta, mais profunda e maisimprevisível de toda sua história na face da Terra. A diferença essencial em relação a
  18. 18. todas as outras mudanças é que essa não se dá exclusivamente no seio das relações entreos seres humanos, mas nos próprios fundamentos da relação entre a civilização humanae o planeta no qual habita. O mito da inesgotabilidade dos bens naturais ruiu, mas aforça inercial do modelo predador persiste.O modelo civilizatório ocidental, alicerçado na exploração de seres humanos poroutros seres humanos, e na intensa exploração da natureza por uma restrita elitemundial, já não tem mais sustentação. Dos sete bilhões de pessoas que habitam oplaneta Terra, apenas 1,7 bilhão pertence ao modo consumista e predador da civilizaçãocontemporânea. Para sustentar os caprichos dessa elite mundial, são necessárias 2,5Terras para alguns, ou até seis Terras para outros. Essa elite não está apenas no primeiromundo, mas também têm seus nichos no segundo, terceiro e quarto mundos. Estenderesse modelo de produção e consumo a todos os seres humanos é impossível pelospróprios limites desses bens em nosso planeta. Para sustentar esse modelo, pelo maiortempo possível para uma elite restrita, é preciso restringir o acesso dos demais a essesbens. O melhor mecanismo para selecionar os incluídos do modelo é aplicar as regrasdo mercado a todas as dimensões da existência. Quem puder comprar, entra. Quem nãopuder, está posto de fora.Fomos acostumados a olhar o futuro sempre numa perspectiva de dias melhores.O próprio conceito de utopia, embora nunca realizável, sempre aponta para umadinâmica que busca uma sociedade melhor que a do presente. Não fomos acostumados aolhar para a entropia, isto é, a decadência natural de tudo que existe. Entretanto, a físicaatual nos dá conta de que tudo tem seu começo, sua maturidade, seguida de suadecadência. O próprio princípio de Gaia,4que compreende a Terra como um ser vivo,também entende que nosso planeta, se comparado com a vida de uma pessoa humanaque vai viver cem anos, já teria vivido oitenta. As ciências sociais não têm comoprincípio, sequer metodológico, estudar a humanidade na sua relação com um planeta jáenvelhecido, agora acossado pela extrema exploração humana. Um novo ramo dasciências da Terra, particularmente a climatologia, nos obriga a compor um raciocínioholístico, de interface com as ciências sociais, já que a civilização humana já não podeser pensada e entendida fora do planeta no qual ela se dá. Porém, se a própria Terra tem4Lovelock, James. A Vingança de Gaia.
  19. 19. sua decadência natural, também a espécie humana teria que considerar sua história naTerra como temporária, fugaz, com prazo determinado. Portanto, quando será a data quea humanidade entrará inevitavelmente em decadência? Do ponto de vista dasuportabilidade do planeta parece que chegamos ao limite, embora a técnica e a ciênciaabram novos caminhos todos os dias, particularmente agora no avanço dananotecnologia. Talvez já estejamos próximos do ponto máximo suportável para Gaia,se não já estivermos em franca decadência. Em todo caso, 2050, quando 9 bilhões depessoas estiverem ocupando a face da Terra, o planeta atingirá o máximo de suasuportabilidade. Daí para frente, pelo menos em termos populacionais, não haverá maiscomo avançar sem comprometer a vida como um todo. Entretanto, uma parcela deambientalistas e cientistas atuais poderão dizer que a humanidade já atingiu o pontomáximo de sua ascensão, que já estamos num processo de decadência, já que ahumanidade atual consome pelo menos 2,5 vezes mais o que o planeta pode suportar.Para alguns, o limite suportável para Gaia está entre um ou dois bilhões de pessoas. Anovidade é que nosso raciocínio terá que considerar, desde já, os limites da Terra e oslimites da humanidade. Portanto, o mito do paraíso terrestre, do progresso infinito, dahistória infinita, não encontra qualquer respaldo na realidade do nosso Planeta e dahumanidade enquanto espécie. O Universo é devir, a Terra é devir, a humanidade édevir, com princípio, meio e fim.Uma boa metáfora para compreender a sociedade mundial contemporânea écompará-la com um veículo em altíssima velocidade, com todos seus confortos, queleva consigo apenas uma parte restrita da humanidade, deixando 70% à beira dostrilhos, porém, sem saber se à sua frente existe uma estação, uma paisagem bela ou aqueda num abismo. A humanidade perdeu sua teleologia, isto é, seu rumo, seu norte,seu ponto de chegada. Os grandes sistemas que orientaram a humanidade – o sonho da“ordem e progresso” dos positivistas, o “paraíso terrestre” dos socialistas e comunistas,o “consumismo capitalista”, além da cristandade na Idade Média – já não respondemaos desafios contemporâneos. Restou o consumo imediatista de uma parcela restrita dahumanidade. “Um outro Mundo é Possível”, mas não sabemos mais que mundopossível queremos.A mudança se dá na tecnologia e na ciência, na sociedade humana, nasubjetividade das pessoas e na natureza. A hegemonia é do imediato sobre o sensato, doconsumo veloz sobre a sustentabilidade, do indivíduo sobre o coletivo ou comunitário,
  20. 20. do privado sobre o público e do econômico sobre o ético, o político e o ambiental. Osque ficaram de fora têm o sonho, a necessidade, a maioria, mas não a força paradefender e conquistar seus interesses.A ciência e as tecnologias avançam numa velocidade estonteante, sobretudo nocampo das comunicações, da informática, da genética, da nanotecnologia, fazendo comque o tempo se transforme num “breve século XX”, enquanto no mundo inteiro milhõesde pessoas morrem cotidianamente de fome, de sede e de AIDs. A produção dealimentos aumenta e a fome também, mas agora competindo com a produção deagrocombustíveis. Por outro lado, como conseqüência, a biodiversidade se restringe, ossolos se empobrecem, a disponibilidade de água em quantidade e qualidade diminui,assim como outros bens naturais. O próprio planeta reage com fúria e a gravidade desua vingança já se tornou fato. Em tragédias como de Nova Órleans e Mianmar, osmortos são contabilizados às dezenas de milhares, ou mesmo a uma centena de milhar,como é o caso de Mianmar. A concepção de um planeta inesgotável caiu por terradiante da “consciência dos limites”. Entramos na “era dos limites”.Como verso da mesma moeda surge uma nova consciência planetária, dasolidariedade global, da irmanação dos povos, de “um outro mundo possível”, a buscadesesperada por alternativas que salvem o modelo civilizatório construído. Essasquestões são de uma complexidade e de um contraditório quase que indecifráveis.As instituições tradicionais perdem pertinência histórica, os Estados colocam-sea serviço do privado, as grandes transnacionais impõem a ditadura do mercado, osvalores consagrados da humanidade são questionados, surge uma nova constelação devalores como caldo cultural que sustenta a subjetividade da sociedade do consumoimediato.Como reação ressurge o “fenômeno indígena”, sobretudo nos países andinos eno norte do Brasil, onde as nações que tiveram sua história podada estão próximas dereencontrar o fio da meada de sua história. No mundo inteiro emergem os indignados,nas várias praças do mundo.As conseqüências dessas mudanças, portanto, são quase que infinitas, osdesdobramentos imprevisíveis, o destino da humanidade incerto. Enfim, o mundo queconhecemos está em mudança, radical, de qualidade. É o que se chama de “crise de
  21. 21. paradigmas”(referências), “crise de sustentabilidade”, “crise civilizatória”.2) O Desafio para as CEBs.Nossas pequenas comunidades eclesiais de base, CEBs, sempre tiveram umprincípio formatador de seu perfil: unir fé e vida. Mas, não de um modo artificial. Naverdade, sempre se esforçando para superar um vício histórico que era o de professar afé formalmente de uma forma e viver a vida tantas vezes de modo oposto ao que sedizia. Sempre buscamos mais um modo de ser cristão que um modo de aparecer comocristão.As implicações dessa postura, embora de simples entendimento, de fundamentaçãoclaríssima nos evangelhos, encontra terrível resistência em uma sociedade injusta comoa latinoamericana, particularmente a brasileira. A chamada opção pelos pobres, queatravessa a bíblia do princípio ao fim, sempre sofre ataques dentro como fora da Igreja,como se fosse uma opção das pessoas somente, não do próprio Deus.Pois bem, as CEBs e as pastorais sociais são os “espaços eclesiais” onde essaintegração de fé e vida subsiste, ao menos como meta a ser perseguida. Não vamosencontrar essa preocupação em outros espaços da vida eclesial, principalmente nos diasde hoje, na religião glamorosa, baseada no sucesso, na fama e nos grandes eventos,onde fica difícil discernir o que é proclamação de fé e o que é show busness.Paulo, em de seus textos mais contundentes, afirma que a única coisa da qual tinhaque se gloriar era “das longas viagens, da prisão, das 30 chibatadas”, portanto, o avessodo avesso da glória humana. Nossas comunidades, à semelhança de Paulo, estãoacostumadas ao caminho das pedras, das dificuldades, das perseguições, dos trabalhosanônimos feitos de tal forma que a mão esquerda não saiba o que fez a direita. Aqui,sem nenhuma conotação ideológica.Para muitos as CEBs não existem mais exatamente porque são invisíveis. Não estãona mídia, não fazem parte da programação das TVs católicas, não produzem dinheiro,não visibilizam o mundo eclesial. Mas, sustentam a caminhada e estão no alicerce das
  22. 22. igrejas comprometidas, na luta pela terra, na luta pela água no semiárido, na defesa dasflorestas na Amazônia, na luta pela justiça, pelos direitos humanos, assim por diante.Enfim, onde há cristãos comprometidos, é bem provável que eles tenham algumaligação com as CEBs e ou com as pastorais sociais. Interessante que, quando alguémtomba morto, em alguma forma de luta, provavelmente vem desse mundo. Ou, alguémali está presente para prestar a solidariedade da fé com as vítimas. Basta ver o queacontece nos conflitos do campo, quem está presente junto a essas populações, comoindígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, ambientalistas, etc.Portanto, as CEBs, ao assumirem o desafio ambiental, da justiça, da luta pela terra,pela água, ao se porem no chão, com os pés no chão, com as mãos no chão, de algumaforma já estão enfrentando os desafios da mudança de época. Sustentar valores comocompromisso, solidariedade, justiça, preservação ambiental, é marchar contra acorrente, como os peixes de piracema. É bom lembrar que só os peixes que nadamcontra a corrente se reproduzem, portanto, perpetuam o milagre da vida. Os que seadaptam às forças da correnteza, que cedem, esses não mais se reproduzem e nãoservem mais para nada, a não ser para serem pescados e consumidos pelos humanos.Mas, diante do Aquecimento Global, o que se anuncia poderá ser a maio extinçãoem massa que a humanidade já experimentou. Dizem os cientistas que foram cinco asgrandes extinções, mas a humanidade não estava aqui. Agora, estamos.Apenas por questão didática, vamos relembrar que o Deus que tudo criou,onipotente, hoje visibilizado pelas lentes dos grandes telescópios que investigam oUniverso, é o mesmo Deus encarnado em Jesus de Nazaré, que se fez carne, armou suatenda entre nós, que prestava atenção nos detalhes humanos, das pessoas tidas comoinsignificantes. O Deus do Universo é o mesmo Deus do átomo, do “ovo primordial”,do bóson de Higgs. É o mesmo Deus que andou nessa Terra, teve sede, fome, pavor demorrer crucificado, mas atento até à angústia de uma mulher que padecia de “fluxocontínuo”. Portanto, nenhuma contradição em contemplarmos o Deus grandioso e oDeus dos detalhes, dos pequenos. Ele é assim mesmo.Portanto, além dos desafios já tradicionais, vividos de forma tantas vezes sofrida,sem perder a alegria jamais, agora teremos que nos deparar com o grande ajuste decontas da Terra com os seres humanos. É um desafio para toda a humanidade, mas,
  23. 23. sempre temos um lugar aí para nos colocarmos. Qual é o melhor jeito de estarmos aí?D. Hélder Câmara costumava dizer que “não somos melhores que ninguém, mastemos que ser os mais responsáveis”. Claro, temos consciência que somos filhos deDeus, temos consciência do Reino já presente na história, mas também de suaplenificação futura.Assim, com o único poder que nos foi dado, esse de dimensão evangélica, o desafiocontinua sendo o de sermos “sal da terra, luz do mundo, fermento na massa”. Nãosomos os únicos, nem os melhores, mas temos que ser os mais responsáveis.Referências Bibliográficas.LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro. Intrínseca. 2006.MALVEZZI, Roberto. Crise Civilizatória. Paper. Indisponível.
  24. 24. 03 – CEBS NO CONTEXTO URBANOJ. B. LibanioJunho – 2011A cidade desafia o compromisso político das CEBSA cidade desafia as CEBs. Primeiro, como lugar do encontro social daspessoas nas suas relações sociopolíticas e socioeconômicas justas e injustas. Asinjustiças sociais no campo aparecem, sob certo sentido, de maneira bem escandalosa. Acidade tende a escondê-las. Ao assumir as grandes transformações culturais, as pessoas,mesmo pobres, sentem que participam de seus benefícios: eletricidade, aparelhosdomésticos, produtos industrializados a preço acessível. Tal fato anestesia a consciênciacrítica. Dificulta as lutas. Ao vir para cidade, pensa-se que já se goza automaticamentede seus benefícios. E por isso, perde-se certa garra de luta.Com efeito, gente que nas CEBs do interior reivindicava pelos própriosdireitos, ao cair na grande cidade, diminui o fôlego. A cultura pós-moderna, com ainundação gigantesca de programas de TV e com outros recursos da informática,avassala a mente com propaganda. Tal universo de informação e de entretenimentotermina por cansar as pessoas a ponto de elas não encontrarem energia para outrasatividades. Passa-se facilmente de consciência combativa para acomodada.Os líderes estudantis e operários, que, em décadas anteriores, conseguiammobilizar os afiliados para comícios, assembléias e greves, lutam tenazmente parachegar até a eles por causa dos entraves que as cidades cada vez maiores põem e porinfluência da cultura pós-modernidade presentista e paralisadora.As CEBs, que no passado desempenharam papel relevante na vidapolítica do país a ponto de terem estado na origem de mobilizações e movimentossociais populares, e também do Partido dos Trabalhadores, sofrem, nas cidades, dainércia crescente em face da política. Há enorme descrédito de tal atividade humana em
  25. 25. conseqüência de vergonhosos escândalos por parte dos atuais políticos. Não há dia emque as manchetes não estampem casos de corrupção na administração do bem público.O arrefecimento da prática religiosa na cidadeA cidade em relação à prática religiosa está a provocar-lhe oarrefecimento. Dificulta o exercício dos atos religiosos que na vida rural se seguiamcuidadosamente. O problema da prática religiosa anuncia-se como um dos grandesdesafios para os próximos anos. Já não se veem, com a clareza da vida rural, os antigossímbolos católicos, invadidos por outras religiões, especialmente pelas igrejasneopentecostais. As distâncias aumentam. A vida urbana acelera o ritmo das pessoas. Aqueixa geral: não se tem tempo para nada.De fato, na cidade o problema do tempo se torna cada vez mais grave.Um dos entraves para o crescimento da vida das CEBs vem de as pessoas nãoconseguirem hora para reunir-se. Gasta-se muito tempo no trânsito. E cada vez mais.Qualquer mobilização, em que pese a maior rapidez dos meios de transporte em relaçãoao mundo rural, está a custar tempo. E tudo leva a crer, assim como caminha o modelodesenvolvimentista do país, que o problema da mobilidade nas cidades tende a piorarcom repercussão grave sobre a freqüência aos atos religiosos. Menos tempo para eles. Avida religiosa parece minguar.A explosão das igrejas evangélicas na cidadeParadoxalmente, a mesma cidade que impede a prática religiosa, está aprovocar explosão de igrejas evangélicas. Nunca se viram tantas, sobretudo na periferia,onde habitam os candidatos melhores para as CEBs, quer porque já as conheceram antesde migrar, quer porque moram e vivem problemas semelhantes com proximidade de
  26. 26. moradia. Tais pessoas sofrem verdadeiro ataque das igrejas neopentecostais quecrescem a olhos vistos. E muitos circulam de igreja em igreja, perdendo assimcompromisso duradouro, necessário para constituir CEBs. As, que se formam nasperiferias, precisam de lucidez para trabalhar o surto evangélico que invade a mesmacamada social pobre. Lá talvez estejam os mais pobres. Como manter viva uma CEBem face de tal desafio: Diminuição progressiva da visibilidade católica e crescimentoassustador dos neopentecostais?Os pilares das CEBsImporta muito conjugar a dimensão comunitária, a preocupação social e areligiosidade. Sem esses três traços a CEB perde a característica própria. A cidade inibe,sob certo aspecto, os três elementos. Dificulta as reuniões comunitárias. Reduz o tempopara a convivência e assim impede o pessoal organizar-se comunitariamente. E as CEBsque valorizam tanto o encontrar-se sofrem a angústia do isolamento urbano. Oferece aatração da Tevê com as novelas e outros programas. Sem muita motivação e empenho,dificilmente as pessoas se reúnem para leitura orante da bíblia, para celebrações ereuniões a fim de programar atividade social. E sob esta perspectiva, ela impede oempenho social.Problema das liderançasOutra dificuldade para fortificar os três pilares das CEBs vem da falta deliderança. Na vida urbana, a importância da liderança se faz urgente. As CEBsnecessitam descobrir e formar os líderes, para que eles congreguem as pessoas emcomunidade. A cidade fragmenta a vida humana. Empurra os seus habitantes paraindividualismo exacerbado e anonimato doloroso. E sem pessoas capazes de congregarnão fica fácil alimentar a vida de uma CEB.
  27. 27. Parcerias na luta pela justiça social: voz ética e proféticaParadoxalmente, esse ponto difícil converte-se em promissor para asCEBs, se elas resgatam a dimensão humana e justa da cidade, recorrendo à longaexperiência de luta pela justiça do passado. Na sociedade civil e em determinadosórgãos do Estado nos três níveis municipal, estadual e federal existem experiênciassociais importantes. Há setores conscientes e lúcidos que se organizam. Se no campo asCEBs assumiam, em muitos casos, a iniciativa, toca-lhes na cidade antes o trabalho deparceria. Essa nova circunstância implica mudar a mentalidade. Passa-se de uma Igrejade Cristandade, mesmo tendo mentalidade social como nas CEBs do interior, para umaIgreja parceira do Estado, de organizações civis, de ONGs e etc. Perde-se o gostinho daliderança e da iniciativa primeira, para somar forças com outros.Demanda-se das CEBs urbanas agudo sentido de discernimento entreextremos: comprometer-se unicamente quando elas exercem protagonismo ou sucumbirà sedução da acomodação urbana, muito a gosto do sistema neoliberal. Parceria crítica eprofética: eis o caminho novo! Nem donas, nem afastadas dos espaços em que jogam ascartadas decisivas da vida do cidadão urbano. Elas têm diante de si enormeresponsabilidade social em face do Estado, da sociedade civil e, de modo especial, damídia. Hoje esta se tornou instituição altamente poderosa na construção da opiniãopública. Antes de tudo, cabe às CEBs ser voz ética e profética em defesa dos pobres,marginalizados, injustiçados e excluídos citadinos.A cidade exclui ou segrega para os rincões inóspitos as massas que asclasses privilegiadas usam para manter o próprio bem-estar. Os gigantescos cinturões demiséria, que circundam a cidade moderna, estão a exigir luta decidida e inteligente porparte de todos os setores sensibilizados por tamanha injustiça. Chamem-se luta pelamoradia, reivindicações por melhores condições de vida, defesa do menor carente e damulher marginalizada. Os nomes se multiplicam. Mas a raiz do problema é uma só: aconfiguração da cidade segundo o figurino maior do sistema neoliberal. Ele, cada vezmais, de um lado, se torna concentrador de riqueza em benefício de minorias reduzidas,e, de outro, excludente das imensas massas populares. O evangelho está a exigir das
  28. 28. CEBs presença sempre maior do lado dos excluídos.Passagem do espaço para o interesseOutro desafio importante da cidade consiste na mudança da mentalidadeem relação ao espaço. No campo, as pessoas medem as atividades pelas distâncias. Emlíngua popular falava-se de léguas. Além do mais, para as principais atividades existialugar próprio. Ele congregava as pessoas para tal. Assim para rezar, ia-se à igreja e aossantuários, para morar à casa, para divertir e trabalhar aos respectivos lugares. Areferência principal se fixava no espaço, no lugar.A cidade modifica tal concepção. Ela já não valoriza os lugares comotais. As pessoas se regem antes pelos interesses. E um lugar só se torna importante, seele atrai e desperta interesses nas pessoas. E quanto mais interesses um lugar criar, maisé frequentado. Assim, p. ex., o shopping virou um dos lugares mais procurados.Circulam por ele milhares de pessoas o dia inteiro. Por quê? Porque lá se compra, sediverte, se encontram as pessoas, se veem lojas bonitas, se sente ambiente agradável.Diferente de simples loja do interior que tinha por única atração o produto que vendia.Esse exemplo serve para entender também o espaço material da igreja.No interior, ele era procurado para cumprir as práticas religiosas. E nada mais. Secontinuar da mesma maneira, na cidade as pessoas só irão lá para isso. E fora de taisatividades, fica deserto. Aliás, infelizmente, o que acontece com a maioria de nossasigrejas. Vejam a diferença respeito a certas igrejas evangélicas em que sempre há gentecirculando. Por quê? Porque elas deixaram de ser simples espaço religioso e se tornaramcentro de interesses. E a frequência cresce à medida que se amplia a gama de interesses.Imaginemos uma paróquia que além de oferecer os serviços religiosostradicionais, cria enorme centro de interesses. Assim, abre espaço para os jovens seencontrarem tanto para reunião religiosa, como também cultural. Organiza cursos dediversos tipos: corte e costura, primeiros socorros, preparação para o vestibular paracarentes, e assim por diante. Quantos mais numerosos forem os pólos de interesse, maisserá freqüentada. Aqui não há limite para a fantasia criadora da paróquia. Em miniatura,
  29. 29. vale o mesmo das CEBs urbanas.Elas estão plantadas dentro desse mundo. Se elas multiplicarem os pontosde interesse, tanto mais elas crescerão. Neste caso então, nelas se discutem política,droga, violência, trabalho, temas de fé, etc. Cada um desses campos faz girar em tornodele mais pessoas. O segredo das CEBs urbanas do futuro se encontra na capacidadeque tiverem de multiplicar espaços que atraiam as pessoas das diferentes idades edesejos. Fica para elas esse gigantesco desafio de tornar-se rico pólo de interesses.O isolamento das pessoas e o cultivo do espírito comunitárioA cidade aproxima fisicamente as pessoas. Agrupa-as em quantidadegigantesca em rincões cada vez menores. E curiosamente produz o efeito contrário. Emvez de socializá-las, isola-as no anonimato e no individualismo. Impera a regra:“salve-se quem puder”. Trata-se de instinto de defesa. Teme-se que estabelecer relaçõescom as pessoas próximas traga invasões da privaticidade. Já a vida nas periferias gozade pouco âmbito para o mundo pessoal. E se se abre o leque de relacionamentos, osindivíduos se perdem numa rede de pedidos, solicitações, etc. A defesa: esconder-seatrás do desconhecimento, da indiferença até mesmo respeito ao vizinho.Então surge o desafio para as CEBs urbanas. Como conseguir umequilíbrio entre o isolamento e a invasão exagerada da intimidade num ambiente deexcessiva proximidade física. O caminho vai na linha do cultivo do espíritocomunitário. Este existe quando se unem autonomia e relação, a própria identidade e adiferença dos outros. E as CEBs têm muito a oferecer com a experiência de sercomunidade.A origem primeira das CEBs aconteceu em torno de círculos bíblicos,celebrações, lutas sociais. As pessoas se reuniam para rezar, debater, celebrar, organizarmutirões. Essas realidades continuam importantes e mais ainda na cidade. A questãogira como pôr esse interesse no centro e encontrar um lugar concreto e horaconveniente.
  30. 30. CEBs evangelizam a religiosidade na cidadeAs CEBs conservam a vocação de ser presença no coração da vida dacidade, carregada de problemas sociais. Cresce nas pessoas certo desejo espiritual,provocado pela violência e dureza da vida urbana. As CEBs constituem-se pequenooásis de espiritualidade. Esse lado da vida humana parece promissor na atual sociedadetão secularizada, materialista e violenta. A explosão do fenômeno religioso reflete acarência de toque espiritual no mundo atual. Mas, ele sozinho não leva a nenhumaverdadeira fé, se não for evangelizado.Soa estranho falar de evangelização da religiosidade. Mas ela se impõe.As CEBs encontram aí vasto campo de trabalho pastoral. A passagem da religiosidadepara a fé se faz através de três momentos. São Marcos ensina-nos o segredo (Mc 1, 14s).Quando Jesus inicia a pregação, ele afirma quatro coisas: o tempo chegou à plenitude.Nós já vivemos esse tempo, porque Jesus já morreu e ressuscitou. Em seguida, afirmaque o Reino de Deus está próximo tanto no tempo como no espaço. Próximo não querdizer que ainda não está presente. Mas o contrário. Ele está aí bem junto de nós e de milmaneiras. Pela presença da Igreja, dos sacramentos, do irmão necessitado, daproclamação da palavra, dos toques de graça no fundo do coração de cada um de nós.Todos percebemos tal proximidade. A religiosidade e a piedade significam para muitostal cercania. O mais importante vem depois de tal experiência. Marcos acrescenta:convertei-vos . A religiosidade que não pede conversão, ainda não se deixouevangelizar. As CEBs têm potencial poderoso de ajudar as pessoas envolvidas na ondaespiritualista para que descubram a exigência de mudança de vida. Mas em que direção?Marcos acrescenta: crede na Boa Nova. Essa consiste na experiência de Deus salvadorpresente nesse mundo e, de modo especial, nos pobres. Aí o evangelho de Mateuscompleta quando Jesus no julgamento se identifica com os famintos, sedentos,estrangeiros, nus, enfermos, encarcerados (Mt 25, 31-45). A Boa Nova a que conduz a
  31. 31. conversão resume-se, em última análise, no serviço aos pobres, necessitados,marginalizados da sociedade. Então, o último passo da conversão da religiosidade se dáno compromisso, na práxis da caridade. Experiência que as CEBs conhecem de longadata e de que, portanto, têm muita experiência.A sedução da liberdade e da autonomiaA cidade seduz pela aparência de liberdade e de independência queoferece. Alguém, que vivia no interior, controlado pelos olhares da família e da igreja,ao chegar à cidade, sente enorme alívio. Aqui se leva a vida que e como se quer.Desafio para as CEBs se mostrarem espaço de liberdade, de criatividade, departicipação. Só com tais características, elas terão força de apelo. Os fieis asfreqüentarão à medida que perceberem a comunidade não lhes pesar como obrigação,imposição, mas como lugar de realização humana e religiosa.Da obrigação para a realização humanaCabe modificar a maneira de tratar as obrigações religiosas, deslocando oacento para a alegria e o gosto de estar juntos, de celebrar a vida, de comprometer-secom os problemas importantes sociais e familiares. A vida eclesial das CEBs nãoaparece então como problema, mas como solução. Essa inversão alivia interiormente aspessoas. Não as buscam porque se sentem coagidas, mas porque percebem que lá existeespaço de realização humana e religiosa.Da sedução das ofertas para a solidariedadeA cidade desafia as CEBs urbanas, enquanto espaço das ofertas múltiplas
  32. 32. nos diversos setores: consumo, trabalho, cultura, ascensão social, progresso pessoal.Mesmo que para muitos, vindos do campo, ela se transformou em terrível pesadelo, noentanto, não pensam voltar para a roça. Preferem continuar lá. Fica-lhes a ilusão de queo fracasso presente não vem da cidade, mas deles. E permanece então a esperança demelhor de vida.Nessa situação, as CEBs, ao criar vínculo de solidariedade, oferecemlugar para seus membros se ajudarem, tomarem consciência do próprio valor eaproveitarem das ofertas diferenciadas do mundo urbano. Este comporta-se dubiamente.Acena para sonhos, mas nega a muitos a sua realização. A pastoral urbana cresce àmedida que entra nessa dinâmica e procura gestar oportunidades de crescimento dosmembros. E isso implica quase sempre a melhoria no campo de conhecimento: cursosprofissionalizantes para os pais, possibilidade de estudo para os filhos, acesso ao mundocultural. Quanto mais se avança na sociedade do conhecimento, as profissões exigemsempre mais saber. O uso da informatização se impõe cada vez mais. As CEBsprecisam se pensar também nessa perspectiva.Do lugar do desejo e do prazer para experiências novasA cidade se torna cada vez mais lugar dos desejos, do prazer, de um lado,e, da violência, do barulho, do cansaço, da confusão física e mental, do outro. Aspessoas se sentem dilaceradas. Não lhes faltam ocasiões de muito gozo com enormegama de entretenimento e com infinitas solicitações aos sentidos. No entanto, essamesma provocação tem causado exaustão espiritual, perturbação do coração, ruídointerior e, sobretudo, violência, em grande parte, como fruto da presença da sedutoradroga ou do incentivo a aventuras arriscadas.A evangelização vai na direção de as CEBs criarem espaços paraexperiências opostas: silêncio, tranquilização, paz interior e depuração do sentido deprazer. Tarefas que a vida rural não conhecia. E as CEBs urbanas encontram aí amplocampo de expansão criativa.
  33. 33. ConclusãoA cidade está a exigir das CEBs transformações profundas. Vale oprincípio básico de toda mudança. Olhar para o passado, recolher os valoresfundamentais e conservá-los. Perceber-lhes os limites e abandoná-los. E, sobretudoentregar-se à tarefa criativa. Ficam, portanto, três perguntas para as CEBs urbanas:1. que elementos das experiências anteriores vividas pelos membros merecem serconservados na relação com Deus, no interior da comunidade e na prática pastoral?2. que elementos se consideram definitivamente superados e, portanto, não cabe teimarretê-los nos três níveis da compreensão de CEBS, da experiência comunitária e daprática pastoral?3. finalmente, que novas perspectivas a cidade abre para as CEBs nos três níveis dacompreensão de CEBs, de vivência comunitária e de prática pastoral?Texto enviado para o Secretariado Nacional do 13º Intereclesial das CEBs – Juazeiro doNorte/Ceará – 07-11 de janeiro de 201404 – CEB: lugar da juventude?
  34. 34. Desafios e perspectivas da participação juvenil nas CEBs5Solange dos Santos Rodrigues6A presença de jovens nas CEBs tem dado origem a debates nos últimos anos emtorno das questões: Em que medida a juventude participa das CEBs? Quais as razõespara uma participação reduzida? Como favorecer uma presença mais significativa dejovens nas comunidades? Por outro lado, a constatação de uma presença poucoexpressiva de jovens nos Intereclesiais gerou iniciativas nos dois últimos encontros. No11º. Encontro em Ipatinga-MG (2005) cerca de 250 jovens das dioceses de MinasGerais e do Espírito Santo participaram do Acampamento Igreja Jovem, instaladopróximo ao local da grande plenária. Eram jovens que não faziam parte da delegaçãooficial, mas participaram de alguns momentos da programação, como as grandescelebrações e das tendas de trocas de saberes. No Acampamento foi realizada uma sérieatividades paralelas. Ao longo dos dias o Acampamento foi ganhando importância erecebeu a visita de várias pessoas - assessores, bispos, delegados, que fizeram pequenaspalestras ou levaram uma saudação e palavras de estímulo à juventude ali reunida. Osjovens redigiram uma carta que foi lida na grande plenária do Intereclesial. Já no 12º.Encontro, em Porto Velho-RO (2009), chamou a atenção o grande número deadolescentes e jovens nas equipes de serviço. Além disso, as dioceses foramincentivadas a incluir pelo menos um jovem nas suas delegações, o que resultou numaexpressiva presença juvenil no Encontro. Numa das noites, cerca de 300 jovensparticiparam de uma reunião convocada pelas organizações juvenis presentes. Nestaocasião foi formada uma comissão para elaborar uma mensagem lida na grandeplenária. A carta abordava a situação vivida pelos jovens em nosso país, em especial aviolência, e reivindicava que os clamores da juventude fossem refletidos no próximo5Este título é inspirado e dialoga com o projeto “Comunidade; lugar dajuventude”, uma das iniciativas do Setor CEBs da Comissão para o Laicato-CNBB para oquadriênio 2012-2015, elaborado pelo assessor do Setor, professor Sérgio Coutinho.6Socióloga, mestre em Sociologia (UFRJ, 1997), pesquisadora das áreas dejuventude, religião, participação social e políticas públicas, trabalha na organizaçãonão governamental Iser Assessoria, no Rio de Janeiro. Agradeço a leitura atenta e assugestões de Névio Fiorin e Ivo Lesbaupin, companheiros do Iser Assessoria, e dosamigos Sérgio Coutinho e Felipe Freitas.
  35. 35. Intereclesial, com o tema: “Cebs em defesa da vida da juventude” 7.Estas iniciativas estão inseridas em um contexto no qual a Igreja Católica temdirigido um olhar mais focalizado na juventude. Alguns sinais: em 2007 a CNBBaprovou o documento Evangelização da Juventude: desafios e perspectivas pastorais;em 2011 foi criada na CNBB a Comissão Episcopal da Juventude, que sucedeu o SetorJuventude, antes vinculado à Comissão Episcopal para o Laicato, da qual fazem parte oSetor CEBs e o Setor Leigos; em 2013 será realizada a Jornada Mundial da Juventudeno Brasil. Ao mesmo tempo, segmentos de jovens católicos, membros de organizaçõescriadas há décadas no país, têm relatado dificuldades de diálogo com o clero elideranças eclesiais, e falta de apoio às suas iniciativas. Estamos diante de umacontradição?A preocupação com a juventude não é exclusiva das CEBs e de outrasorganizações da Igreja Católica. Jovens estão em evidência no Brasil e no mundo desdemeados dos anos 90: nos meios de comunicação, nas pesquisas acadêmicas, nosmovimentos sociais e partidos políticos, nas entidades religiosas, nos organismosgovernamentais. Isso se deve tanto ao reconhecimento dos graves problemas vividospela juventude atualmente, quanto à ação organizada da própria juventude, que colocana pauta social seus interesses e potencialidades.A adesão de pessoas mais jovens é fundamental para as organizações dasociedade que pretendem ter continuidade para além da presente geração. Por issomuitas entidades têm buscado atrair jovens para suas fileiras, numa estratégia desobrevivência. Quando as CEBs se debruçam sobre o tema da juventude na preparaçãodo 13º. Intereclesial, elas também se colocam nesta perspectiva? Há outras motivações?Quais?Para perceber as possibilidades e limites da participação juvenil nas CEBs épreciso inserir esta reflexão no quadro mais amplo da situação da juventude em nossopaís, e da vivência religiosa de jovens na atualidade. Os dois próximos itens pretendem7A íntegra destas cartas encontra-se emhttp://www.casadajuventude.org.br/media/carta_juventude.doc ehttp://www.cmjbh.com.br/06_noticia_detalhe.asp?cod=40 , respectivamente.
  36. 36. colaborar nesta compreensão. Em seguida serão abordados alguns desafios eperspectivas da presença de jovens nas CEBs8.1 – Elementos da situação juvenil no Brasil atualAproximadamente um quarto da população brasileira atual é jovem, umcontingente de cerca de 52 milhões de pessoas de 15 a 29 anos, com demandasespecíficas e potencialidades9. As relações que a sociedade estabelece com os/as jovenssão marcadas por uma ambiguidade: a juventude se torna um valor na sociedade demercado (ideal desejado de vitalidade, beleza, alegria, explorado pela propaganda) etodos desejam permanecer jovens; ao mesmo tempo, a juventude condensa medossociais, na medida em que é relacionada a problemas existentes na sociedade que lhesdizem respeito mais diretamente, como o envolvimento com violência, drogadição10,abandono da escola, desemprego/desocupação, situações decorrentes do início da vidasexual – contágio de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez não planejada -, eoutros comportamentos que podem colocar em risco sua integridade física e saúde.Jovens também são as vítimas mais frequentes de exploração sexual e de homofobia.Por outro lado, existem muitas dificuldades de inserção social para grandes parcelas dajuventude, que têm limitadas suas possibilidades de acesso à educação de qualidade e apostos de trabalho dignos, à formação profissional, à fruição cultural, ao lazer, à8Estas notas estão baseadas em estudos e pesquisas sobre a juventudebrasileira, na observação da dinâmica das CEBs, nos diálogos estabelecidos com jovensparticipantes ou não de grupos eclesiais, em especial os pertencentes à Pastoral daJuventude, e também na escuta de jovens que a Conferência dos Religiosos do Brasilrealizou em 2009 (Cf.: Rodrigues, 2010).9População com idade entre 15 e 29 anos em 2010: 51,3 milhões, segundo aProjeção Populacional do IBGE – Revisão 2008. Cf. Castro et elli, 2009:30. Esta obra,publicada pelo IPEA no final de 2009, traz os indicadores sociais mais atualizados sobrea juventude brasileira, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios doIBGE de 2007.10Uso abusivo de substâncias psico-ativas.
  37. 37. participação.Existe uma tendência a generalizar quando se aborda a situação juvenil em nossopaís, mas é preciso perceber a complexidade de modos de vida desses milhões dejovens, muito diferenciados quando considerados segundo variáveis de sexo, condiçãosocioeconômica, local de moradia, cor/etnia, situação de trabalho, escolaridade,orientação sexual, vida familiar, pertencimentos religiosos, políticos etc..Diversas pesquisas sobre a juventude brasileira realizadas na última décadacontribuem na compreensão deste universo11. A população juvenil está concentrada nasáreas urbanas (84,8%)12. A maior parte vive em cidades pequenas e médias, e um terçoem áreas metropolitanas. A migração de jovens para os centros urbanos tem porobjetivo ampliar as oportunidades de educação, trabalho e diversão. Mesmo que aimensa maioria da juventude brasileira resida no meio urbano, cerca de 5,5 milhões dejovens permanecem no campo (15,2%), e é necessário garantir seus direitosfundamentais de educação, formação profissional, mobilidade e lazer.A educação e o trabalho são elementos fundamentais no processo de construçãode autonomia e emancipação da juventude. Nas duas últimas décadas ocorreu umaumento na escolarização juvenil: em 1992, 23,7% dos jovens de 15 a 29 anosfreqüentavam a escola, percentual que se eleva para 35,4% em 200713. No entanto, aindahavia cerca de 1,5 milhão de jovens analfabetos em 2007, concentrados principalmenteno Nordeste; 17% dos jovens de 15 a 17 anos estavam fora da escola (idade adequadapara cursar o ensino médio); 24,5% dos jovens até 29 anos haviam concluído o ensinomédio, apenas 13% dos jovens de 18 a 24 anos frequentavam o ensino superior, epoucas oportunidades para o ensino profissional. Mesmo com a melhoria dos índicesde acesso, permanecem desafios referentes à qualidade da educação oferecida e àscondições necessárias para o desenvolvimento do processo educativo: transporte,11Veja-se especialmente Venturi e Abramo (2000); Abramo e Branco (2005);Ribeiro et alii (2006) e Abramovay et alii (2007) e a obra citada na nota 5.12Cf. Castro et elli, 2009:33.13Cf. Castro et alii, 2009: 89-108.
  38. 38. alimentação, material didático, qualificação e remuneração dos profissionais.Atualmente há diferentes formas de articulação entre escola e trabalho naexperiência cotidiana da juventude brasileira. Segundo dados de 2007, uma pequenaparcela só estudava (17,5%), outra era constituída por jovens que estudavam etrabalhavam (17,9%), enquanto 49,9% apenas trabalhavam. O grupo daqueles que nemestudavam, nem participavam do mundo do trabalho (14,7%) pode dar uma falsa idéiade que há um contingente significativo de jovens em nosso país excluídos simultanea evoluntariamente da escola e do trabalho. Contudo, é preciso considerar que aí estãoincluídas jovens mulheres que se dedicam às tarefas domésticas, a maioria delas jáenvolvidas em relações conjugais, e/ou vivendo as responsabilidades do cuidado comfilhos. Com efeito, os homens jovens de 15 a 29 anos que não estudam e estão fora domercado de trabalho são 7,2%, enquanto que as mulheres desta faixa etária e na mesmasituação são 22,0%14. Além disso, é preciso lembrar aquela parcela da juventude queconcluíra o ensino médio ou universitário e buscava emprego.Com efeito, a incerteza em relação ao ingresso e permanência no mundo dotrabalho tem sido apontada como uma das marcas geracionais da juventude brasileiraneste início de século. Nestes tempos de transformações nas formas de produçãoeconômica e de políticas macroeconômicas neoliberais que restringem a criação depostos de trabalho, a inserção no mundo do trabalho é um grande desafio para ajuventude, em especial para jovens sem experiência laboral. Mesmo quando crescem asoportunidades de trabalho, o desemprego juvenil é três vezes superior ao da populaçãoadulta. Isso faz com que um contingente expressivo de jovens se sujeite a trabalhar emsituações precárias, sem as garantias da legislação trabalhista, ou procure oportunidadesem outras cidades ou regiões. É preciso lembrar que a juventude é a etapa do ciclo devida em que aumentam as pressões por consumo e se acelera a busca por autonomia emrelação à família de origem.Pesquisas recentes mostraram os problemas que mais preocupam a juventude:emprego e segurança/violência 15. De fato, outra marca geracional da juventude14Cf. Castro et alii, 2009:78.15Abramo e Branco, 2005: 380 e Ribeiro et alii 2006:18.
  39. 39. contemporânea é conviver com a violência. Os índices de violência que atinge jovensem nosso país são semelhantes ou superiores aos encontrados em países que seencontram em guerra16. Entre 2003 e 2005 houve cerca de 60 mil óbitos de homensjovens por ano, a grande maioria (78%) resultante de homicídios e acidentes detransporte. Trata-se de uma violência que atinge de maneira particular jovens do sexomasculino e negros17. Uma parte significativa dessas mortes está relacionada à disputapor território para o comércio ilegal de substâncias psicoativas; aos confrontos dapolícia com jovens envolvidos neste comércio; e à ação de grupos de extermínio.Trata-se de uma realidade presente no cotidiano de muitas cidades brasileiras,independentemente de seu tamanho. A problemática da violência urbana estáestreitamente relacionada à rede de produção, circulação, distribuição e consumo dedrogas ilícitas, apoiada no poder bélico, que envolve altos investimentos e lucros queultrapassam as fronteiras dos territórios segregados das cidades onde é feita a venda empequenas quantidades. Tudo isso agravado pela corrupção policial. É preciso evitar asimples condenação moral dos jovens envolvidos, muitos deles atraídos para atividadescriminosas por falta de outras oportunidades de inserção social, por necessidade desatisfazer a dependência química, ou por desejo de adquirir mercadorias que lhes dêvisibilidade social. A prevenção do consumo e o tratamento do usuário de substânciaspsicoativas são ações importantes, mas insuficientes para enfrentar esta situação, queexige a implementação de uma política de segurança pública adequada. Também énecessário atentar para o abuso no consumo de álcool, droga lícita a que jovens temfácil acesso (apesar das restrições de venda e de publicidade direcionada a segmentos dajuventude), que está na base de diversas situações de violência que atingem jovens,como os acidentes de transporte, brigas, quedas e afogamentos, homicídios. Além disso,a persistência dos índices de jovens mulheres vítimas de violência e o alto número dejovens gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais mortos em casos de homofobiacontinuam a impactar a condição de vida destes segmentos populacionais.16A este respeito, ver o artigo de Luiz Eduardo Soares em Novaes e Vannuchi(2004).17Dados detalhados sobre a morbimortalidade de jovens podem serencontrados em Castro et alii, 2009:131-138.
  40. 40. Uma terceira marca geracional da juventude brasileira na atualidade, ao lado dasdificuldades de inserção profissional e da convivência com a violência, é a comunicaçãovirtual possibilitada pelo desenvolvimento da microinformática e da internet. Essesrecursos são acionados dando origem a novas formas de sociabilidade juvenil, abremperspectivas para a circulação de informações, para o estabelecimento de identidades(como, por exemplo, as redes sociais e temáticas), se prestam ao lazer, ao estudo, epotencializam diferentes formas de mobilização, numa velocidade e amplitudeinimagináveis antes do advento dessas tecnologias de informação e comunicação. Estecampo, todavia, não está livre de ambigüidades. São muito variáveis as condições deacesso à internet em banda larga no país, e sua democratização permanece um desafio.Além disso, muitos denunciam que jovens dedicam tempo demais ao universo virtual, oque favoreceria seu isolamento e dificultaria o estabelecimento de relações face a face,presenciais. No entanto, boa parte do tempo gasto por jovens na internet está associadaà alimentação das chamadas redes sociais, através das quais compartilham com amigosseus interesses, informações, imagens, músicas. Trata-se de um poderoso meio decomunicação que exige orientação para uso adequado, e cuidados para evitar que asegurança dos jovens seja ameaçada por excesso de exposição.Estas marcas geracionais são compartilhadas pela juventude de nosso país nesteinício de século, mas são vividas de forma peculiar de acordo com as diferenças edesigualdades presentes no interior deste segmento social – a experiência dodesemprego, da violência ou da comunicação virtual é diferenciada, quando se trata dejovens homens ou mulheres, negros ou brancos, pobres ou ricos, do meio urbano ourural, residentes no centro ou na periferia, hetero ou homossexuais, escolarizados ounão, com ou sem filhos... Por isso, uma tendência é indicar a existência de diversasjuventudes, no plural. Há também o fenômeno da formação de grupos juvenis em tornode identidades específicas, reunindo jovens que compartilham pensamentos, estilos devestir, gostos, comportamentos, formas de estar no mundo, que configuram diversasculturas juvenis (alguns denominam estes grupos de “tribos urbanas”).A participação social é outro tema polêmico quando se reflete sobre ajuventude atual. Uma concepção muito difundida é que jovens de hoje sãoindividualistas e estão afastados de ideais e de práticas de solidariedade, decompromisso e de mobilização social, em comparação a gerações de jovens de décadaspassadas, ou em comparação aos adultos da atualidade. Muitos estudiosos têm
  41. 41. questionado este tipo de avaliação, porque não há séries históricas que permitam acomparação entre juventudes de diferentes épocas, nem estudos comparativos entre onível de mobilização social de jovens e adultos numa mesma época18. Ao contrário,apontam uma infinidade de mobilizações juvenis que ultrapassam os campostradicionais da militância estudantil e político-partidária, que são constituídas em tornode identidades coletivas que buscam efetivar direitos: são jovens negros e negras, jovensmulheres, jovens da agricultura familiar, jovens com deficiência, jovens dascomunidades tradicionais, jovens do movimento LGBT19, jovens do movimento HipHop, jovens de redes constituídas em torno da ecologia ou da comunicação, do esporte ede manifestações artísticas, para citar alguns exemplos de uma juventude que alimentaanseios de transformação pessoal e social, e que se envolve na construção das chamadaspolíticas públicas de juventude. Outras tantas iniciativas, que se inserem em umconjunto diversificado de mobilizações juvenis, eclodiram pelo mundo nos últimosanos, das manifestações dos “indignados” na Espanha, denunciando a crise econômicaque retira perspectivas de inserção social para a juventude, aos protestos dos jovenschilenos, em luta por reformas no sistema educacional; da revolta dos jovens dossubúrbios franceses, apontando os desafios das novas gerações de famílias migrantesem um contexto de xenofobia crescente, aos jovens participantes das manifestações doque tem sido chamado de “primavera árabe”; passando pelas diferentes juventudesenvolvidas nos protestos contra a hegemonia do capital financeiro nas ocupações emNova Iorque – “ocupem Wall Street” - que rapidamente se espalhou por tantas cidadespelo mundo.De qualquer modo, é preciso reconhecer que a imensa maioria da juventudebrasileira não está inserida nestas mobilizações hoje, nem esteve no passado. Uma ideiarecorrente presente em algumas formas atuais de mobilização juvenil é a produção demudanças imediatas a partir de ações individuais e localizadas, em detrimento de18Para uma discussão mais ampla deste tema, ver os artigos de PauloKrischke (Questões sobre juventude, cultura política e participação democrática) e deGustavo Venturi e Vilma Bokany (Maiorias adaptadas e minorias progressistas) emAbramo e Branco (2005).19Movimento de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.
  42. 42. projetos societários de transformação a longo prazo. Uma tendência desta geração é abusca de resultados concretos e imediatos de sua ação social, Aí se inserem asiniciativas baseadas no voluntariado e a valorização de pequenas experiênciasinovadoras que atestem a viabilidade de uma maneira sustentável de estar no mundo,derivadas da concepção de que as mudanças virão se cada um fizer a sua parte. O que éfundamental para o estabelecimento de um novo padrão de relacionamento com anatureza e com as pessoas. No entanto a gestão da vida social, em tempos deglobalização e de mudanças climáticas, exige governança e implantação de políticaspúblicas que garantam direitos coletivos e a convivência entre as pessoas20.2 - Vivência religiosa juvenilA reflexão sobre CEBs e juventude deve levar em consideração o contexto maisamplo em que se dá a experiência do sagrado e o pertencimento religioso juvenil. Ajuventude está de fato mais afastada das religiões na atualidade? Esta questão nãoadmite respostas apressadas e absolutas, tanto pela diversidade que atravessa ajuventude brasileira contemporânea, quanto pela dinâmica que vem imprimindoprofundas transformações no campo religioso do Brasil nas últimas décadas. Tambémcom relação à religião os jovens se diferenciam.Os dados demográficos mais recentes sobre juventude e religião são doRecenseamento Geral da População de 2010, divulgados em junho de 2012. Adistribuição dos jovens de 15 a 29 anos pelas diferentes religiões segundo suaauto-declaração era: 63,4% católicos, 21,7% evangélicos, 1,6% espíritas, 0,3%umbandistas e candomblecistas, 2,9% deram outras respostas (hinduístas, budistas,muçulmanos, tradições esotéricas, indígenas, judaica, múltiplo pertencimento etc.). E osdemais 10,1% informaram que não eram adeptos de nenhuma religião instituída.Note-se que este é o terceiro maior grupo, atrás dos católicos e evangélicos.Comparando estes percentuais com os dados para o conjunto da população20Um exemplo ilustrativo: não basta separar o lixo familiar para resolver oproblema de esgotamento sanitário das metrópoles – há necessidade de políticaspúblicas de saneamento.
  43. 43. brasileira, observa-se que os jovens se distribuem pelas religiões de modo bastantesemelhante ao restante da população21. A única diferença que merece destaque é queentre jovens há uma proporção maior de pessoas que se declararam sem religião(10,1%): o índice é 26% superior aos indivíduos sem religião no conjunto da populaçãobrasileira (8,0%).Entretanto isso não significa um crescimento mais acentuado do ateísmo entrejovens. Diversas pesquisas mais detalhadas têm indicado que a grande maioria dessesjovens sem religião tem crenças, busca uma proximidade com o sagrado, experimentauma mística, muito embora não se sinta identificada com uma religião em particular.Tanto assim, que apenas 0,04% de jovens se identificaram como ateus e 0,01% comoagnósticos no Censo de 2010.Isso se deve a fenômenos como a desinstitucionalização religiosa (pessoas sedesvinculam das religiões tradicionais e passam a ter uma experiência do sagrado sem amediação de instituições religiosas); o trânsito religioso (a peregrinação entre diferentesalternativas religiosas existentes no campo religioso); as adesões provisórias, a práticasimultânea de mais de uma religião, a produção de sínteses pessoais, sincréticas, a partirde elementos disponíveis em diferentes sistemas de crenças. E há também aqueles quemesmo optando por uma determinada religião, estabelecem negociações pessoais com oconjunto de concepções e práticas requeridas dos adeptos. Por exemplo, católicos quetêm um comportamento sexual e reprodutivo diferente do prescrito na doutrina oficialdo catolicismo. Todos estes fenômenos, presentes na população em geral, são maisacentuados no segmento juvenil.A busca de respostas para suas dúvidas e angústias existenciais, a abertura aonovo, a extrema curiosidade, a liberdade frente a exigências incompreensíveis, a críticaaguçada quando percebem nos líderes religiosos atitudes consideradas inadequadas sãoelementos que produzem vínculos mais tênues entre uma parcela da juventude e asinstituições religiosas. É freqüente encontrarmos jovens que em um curto períodopassaram por diversas experiências religiosas. Muitos têm a atenção despertada para21Religiões dos/as brasileiros/as, segundo o Censo de 2010: 64,6% católicos;22,2% evangélicos; 2,0% espíritas; 0,3% umbandistas e candomblecistas; 2,7% deoutras declarações:; e 8,0% de pessoas sem religião.
  44. 44. religiões de matriz oriental, ou para espiritualidades exóticas e esotéricas, associadas àdimensão terapêutica e do autoconhecimento.Tudo isso coloca em xeque avaliações generalizadoras segundo as quais ajuventude não teria interesse pelo universo religioso, nem firmeza no compromissoadvindo dessa adesão. Também neste aspecto é possível perceber uma diferenciação nomeio juvenil: alguns não estabelecem vínculos com as instituições religiosas; outrosacessam simultaneamente diferentes sistemas religiosos para atender às suasnecessidades de sentido; outros aderem com fervor a sistemas ou movimentos religiososque exigem uma rígida observância de regras comportamentais; e alguns escolhem viverradicalmente os princípios da fé em comunidades constituídas em torno de umaidentidade religiosa, não apenas no âmbito católico, mas também em religiões como oSanto Daime ou o Hare Krishna, ou em congregações e ordens religiosas católicas.Isso vai em direção oposta à ideia corrente de que jovens teriam pudor de exporpublicamente sua adesão religiosa. Ao contrário, existe uma tendência a dar visibilidadea marcas da religião no corpo (tatuagens), no vestuário, nos acessórios (anéis, cordões,braceletes, bandanas, bonés...). Não se trata de uma experiência religiosa vivida apenasno âmbito privado.Esses processos são vivenciados por pessoas de todas as idades, não apenaspelos jovens. Entretanto, estamos tratando de uma fase da vida em que se intensifica aexperimentação que pode dar origem a escolhas existenciais importantes: a vivência dasexualidade, a busca de parceiros, a orientação sexual, a continuidade ou não dosestudos, a inserção profissional, os círculos de amizade, as adesões ideológicas,políticas, a adoção de determinados valores. A religião também é um campo deexperimentação e de escolha para os jovens, mesmo que em todas estas áreas da vida asdecisões não sejam definitivas e irreversíveis.Também durante a juventude podem acontecer processos como a desvinculaçãoda tradição religiosa em que o jovem foi socializado, rompendo com a religião dos pais,a conversão a outro sistema religioso, ou mesmo a re-adesão à religião de origem, nãomais por herança familiar, mas por decisão própria, passando pelo crivo da consciênciaindividual. Há mudanças no processo de transmissão da religião de uma geração a outra.Cada vez mais encontramos indivíduos com identidades religiosas diferentes numa
  45. 45. mesma família, e cresce a influência de amigos que se tornam mediadores naaproximação de outras alternativas presentes no campo religioso.As religiões oferecem aos jovens mais um espaço de sociabilidade, além dafamília, da escola, da vizinhança: igrejas, templos, salões, terreiros, centros espíritas,sinagogas, mesquitas são lugares de culto, de contato com o sagrado, mas tambémoferecem oportunidade para que jovens conheçam outras pessoas, façam amigos,descubram parceiros para relacionamentos afetivos. Algumas vezes essas motivaçõessão tão ou mais importantes para que jovens se aproximem de uma experiênciareligiosa. Além disso, jovens também têm acesso a oportunidades de lazer por meio deum grupo religioso. Fazem passeios, acampamentos, viagens, assistem (e tambémparticipam) de espetáculos de música, dança, teatro, numa época do ciclo de vida emque a maioria ainda não possui filhos nem as responsabilidades advindas desta situação.Em geral as instituições religiosas acionam estratégias para atrair os jovens, poisdependem da renovação de seus quadros para continuar existindo. Entre essasestratégias está a atualização de suas mensagens, com a utilização de uma linguagemcontemporânea, a flexibilização de exigências no campo do comportamento, apromoção de grandes concentrações, shows, música, a incorporação de estilos musicaisassociados às culturas juvenis, como o Rock, o Funk e o Hip Hop.A vivência da religião na Igreja Católica Apostólica Romana é experimentadapor uma parcela da população jovem brasileira. Jovens participam das celebraçõessemanais, de grupos de jovens nas paróquias, comunidades, universidades, de grupos deiniciação cristã ou de catequese crismal, pertencem a pastorais, movimentos eassociações religiosas, aderem às novas comunidades de vida e aliança, ou se preparampara a vida sacerdotal e religiosa. A reflexão que se segue diz respeito especialmente ajovens das comunidades eclesiais de base.3 – CEBs e juventude
  46. 46. A comunidade eclesial de base tem uma diversidade interna, não é um blocohomogêneo: nela participam mulheres e homens, pessoas com profissões diferentes,com diversos graus de escolaridade, em diferentes situações frente à família, comdiversos pertencimentos étnico-raciais. Na CEB convivem também diferentes gerações:pessoas idosas, adultas, crianças e jovens.Muito se tem falado sobre a importância da presença das mulheres nas CEBs,tanto numérica, como no exercício da evangelização, nos ministérios leigos, na reflexãobíblica, no socorro aos necessitados, nas mobilizações sociais. E a juventude? Jovensparticipam das CEBs de diferentes modos: freqüentam as celebrações, fazem parte deequipes, da liturgia, dos grupos musicais, são presença atuante nas festas, estãoinseridos em pastorais, alguns fazem parte das equipes de coordenação ou do conselhodas comunidades, assumem ministérios confiados aos leigos e leigas... Em muitascomunidades há grupos de jovens, uma parte deles sem nenhuma vinculação comorganizações juvenis católicas e outra, ligada a diferentes iniciativas de evangelizaçãoda juventude: grupos de jovens da Pastoral da Juventude, Grupos de Oração doMinistério Jovem da Renovação Carismática Católica, Conferências Jovens daSociedade São Vicente de Paulo. A criação desses grupos responde à necessidade deespaços específicos para a convivência juvenil, simultânea à vivência coletiva noconjunto da CEB. E há muitos jovens que pertencem às comunidades, sem fazer partede nenhum grupo juvenil em particular.Jovens se aproximam das CEBs por diferentes caminhos: por tradição familiar;para ter acesso aos sacramentos; para ter contato com outros jovens; por influência deamigos; para encontrar opções de relacionamentos afetivos; para se divertir, de acordocom busca de sociabilidade, do lazer, da afetividade, tratados no item anterior. Namaioria das vezes, a adesão, o compromisso, a vinculação motivada pelo desejo depertencer àquela comunidade de seguidores de Jesus em geral é um segundo passo, quedepende fundamentalmente das relações estabelecidas após a aproximação inicial.A presença juvenil tem repercussões para a comunidade e para a vida do jovem.Um estudo em profundidade de quatro CEBs, realizado em 2003-2004 pelo IserAssessoria mostrou que as duas CEBs mais dinâmicas, que estavam crescendonumericamente, eram exatamente aquelas que tinham uma significativa presença dejovens. Já nas duas comunidades menos dinâmicas, que enfrentavam redução no

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