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4º Congresso Missionário Americano e 9º Congresso Missionário Latino Americano (CAM 4 - Comla 9).

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  • 1. América Missionária Partilha tua fé “Discípulos missionários de Jesus Cristo, da América em um mundo secularizado e pluricultural” Instrumento de Participação
  • 2. Instrumento de Participação América Missionária Partilha tua fé (26 de Novembro a 01 de Dezembro)
  • 3. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 92 INSTRUMENTO DE PARTICIPAÇÃO CAM 4 - Comla 9 Original em espanhol: América Misionera Comparte tu fe “Discípulos misioneros de Jesuscristo, desde América, en un mundo secularizado y pluricultural” Obras Missionales Pontificias en Venezuela Fe a Esperanza, N. 6, Altagracia. Caracas 1010 Apartado 4863 / RIF.: J-001785280 E-mail: ompvenezuela@gmail.com / www.venezuelacam4.org Tel.: (0058+212) 562.0971 Oficina del CAM 4 - Comla 9 (0058+212) 886.1663 Tradução: Equipe das POM Revisão: Guilherme Rocha e Equipe das POM Diagramação: Wesley Tavares Gomes Impressão: Gráfica Editora América Tiragem: 500 exemplares Março de 2013 Pontifícias Obras Missionárias SGAN 905 – Conjunto B – 70790-050 – Brasília – DF Caixa Postal 3.670 – 70089-970 Brasília – DF Tel.: (61) 3340 4494 – Fax (61) 3340 8680 E-mail: pom@pom.org.br / www.pom.org.br
  • 4. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 3 Apresentação Atendendo ao pedido da Comissão Organizadora do 4º Congresso Missionário Americano e 9º Congresso Missionário Latino-Americano (CAM 4 - Comla 9), apre- sentamos o “Instrumento de Participação” em português. Para a Igreja no Brasil, a realização do 3º Congresso Missionário Nacional (3º CNM), no mês de julho de 2012, em Palmas (TO), entre outras motivações, serviu de preparação para o CAM 4 - Comla 9. Mesmo assim, em sinal de co- munhão com a caminhada missionária continental e para enriquecer a reflexão sobre o tema “Discípulos missionários de Jesus Cristo, da América em um mundo secularizado e pluricultural”, julgamos oportuno colocar à disposição o presente documento. O conteúdo do mesmo servirá para intensificar a participação dos que irão ao Congresso na Venezuela bem como suscitar reflexões a cerca do tema entre as lideranças nos regionais e dioceses. Que o Divino Espírito Santo ilumine e inspire a nossa Igreja a viver em estado permanente de missão. Equipe das POM do Brasil.
  • 5. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 94 ÍNDICE APRESENTAÇÃO 6 INTRODUÇÃO: Anunciar a boa nova em um mundo pluricultural e secularizado 8 CAPÍTULO I: Discípulos missionários da América 11 Introdução12 Diversos olhares, múltiplas realidades, uma única fé 12 Palavra de Deus: o chamado e o envio 13 A Igreja em conversão pastoral 16 Discípulos missionários e os tempos atuais 17 A consciência do discípulo missionário e o ambiente 18 Reevangelizar, nova evangelização ou urgência da missão? 19 Novas estruturas e novas formas 20 A Missão Continental 21 Os presbíteros e a missão 22 As paróquias e a missão 23 Ad gentes 23 Para reflexão 26 CAPÍTULO II: UM MUNDO PLURICULTURAL E SECULARIZADO27 A. Diversidade cultural 28 Culturas indígenas 28 Culturas afro-americanas 28 As culturas camponesas 29 Culturas urbanas e suburbanas  29 Cultura crioula (mestiça) 30 Migrantes 30 Cultura globalizada pós-moderna 30 Culturas em relação desigual 31 O desafio da inculturação e a evangelização das culturas 31 B. Da multiculturalidade à interculturalidade 33 O desafio da interculturalidade 34 C. Um mundo em processo de secularização 34 1. Autonomia das realidades terrestres no Vaticano II 34 2. Ambiente não cristão 35 3. Secularização e religiosidade popular 36 4. Nova religiosidade 36 5. Tradições religiosas indígenas 37 6. Secularismo 37 Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 94
  • 6. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 5 O desafio do diálogo inter-religioso 38 Para a reflexão 39 CAPÍTULO III: ILUMINAÇÃO TEOLÓGICA40 A. Inculturação, interculturalidade e evangelização 41 O mistério da Encarnação 41 Páscoa e Pentecostes:  42 B. Secularização, religiosidade popular e novas religiosidades 44 Jesus Cristo, modelo de humanidade 44 Autonomia da criação 44 Encontro pessoal e comunitário com Jesus 45 Primeiro anúncio ou querigma 46 Sementes do Verbo nas culturas e religiões 46 A graça do diálogo inter-religioso 47 Maria, discípula missionária 47 Para a reflexão 48 CAPÍTULO IV: PROPOSTAS PASTORAIS49 A. Desafios 50 B. Linhas de ação 50 Para a reflexão 54 A MODO DE CONCLUSÃO55 GLOSSÁRIO58 Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 5
  • 7. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 96 APRESENTAÇÃO “Chamados a anunciar o Evangelho num mundo em mudança, secular e multicultural” Recebam minha atenciosa e cordial saudação, ao mesmo tempo em que lhes desejo abundantes frutos pastorais e apostólicos. Ao lado da minha equipe e em nome da Comissão Organizadora do 4º Congresso Missionário Ame- ricano e 9º Congresso Missionário Latino-Americano (CAM 4 - Comla 9), apresen- tamos o “Instrumento de Participação”, para vocês o enriquecerem com vossas significativas contribuições, a fim de que sirva de sólida base de iluminação e refle- xão para nosso Congresso, ocasião em que teremos o prazer de recebê-los nesta querida terra venezuelana. Desejo que este Instrumento tenha as características peculiares que muitos recomendaram. Não faltam em nossa Igreja universal, continental e nacional numerosos documen- tos teológicos, mas eles nem sempre são levados à prática. Este Instrumento foi elaborado a fim de permitir aos participantes o acesso aos temas do Congresso. Partindo do tema “Discípulos missionários de Jesus Cristo, da América, em e para um mundo secularizado e pluricultural”, queremos que o processo de preparação e celebração seja muito participativo, pastoral e missionário, que dedique atenção e tenha seriamente em conta as diversas pastorais; em suma, que seja ad gentes. O mundo em que vivemos e no qual estamos mergulhados exige mais uma vez que nos disponhamos e nos abramos evangélica e pastoralmente para a Missão de Deus em Jesus Cristo, guiados pelo Espírito Santo, e que Ele confiou à Igreja. Ela, a Igreja, não é a dona da Missão. Não pode olhar-se a si mesma; pelo con- trário, deve recordar-se que “existe para evangelizar”, sobretudo os que ainda não conheceram Jesus Cristo. Portanto, devemos nos preparar e permanecer em estado permanente de Missão, com os olhos postos além das fronteiras, das preocupações imediatas internas e externas, vivendo plenamente a nossa vocação para a missão, sendo filhos e irmãos, presbíteros dedicados à missão e profetas neste mundo de secularismo, relativismo e pluriculturalidade. No Instrumento há um conjunto de perguntas e sugestões para o trabalho pessoal e comunitário. Resta-nos o compromisso de enviar à Secretaria-geral e à Comis- são Teológica e Metodológica as reflexões que surgirem e que enriquecerão as discussões do nosso congresso.
  • 8. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 7 Já chegou a hora de anunciar com coragem a Boa Nova e construir o Reino de Deus, o horizonte da missão. Se perdermos de vista o ad gentes, ou seja, a mis- são universal, cairíamos em uma pastoral de conservação, repetitiva e rotineira, sem espiritualidade, sem impulso missionário. Somos chamados a superar uma vida eclesial de pequenas rezas, águas bentas, atendimentos pontuais, sucessos e eventos, para nos empenhar em uma pastoral de processos e compromissos sérios e continuados. Isso exigirá uma conversão pessoal, pastoral e eclesial, para continuar a missão de Jesus Cristo, encarnado, morto e ressuscitado para renovar a humanidade sofrida. O mandato missionário de Jesus Cristo, “ide fazer discípulos entre todas as na- ções” (Mt 28,19), não é ordem superficial, mecânica, individual e optativa; pelo contrário, tem caráter obrigatório e comunitário. É urgente e inadiável responder a esta pergunta: Como anunciar o Evangelho e testemunhá-lo até os confins da terra em um mundo em transformação, seculari- zado e pluricultural? “Venezuela, chegou a tua hora. Seja discípula e missionária do amor... América missionária, partilha tua fé”. Precisamos passar à outra margem... (Cf. Jo 6,17). “Então os discípulos foram anunciar a boa nova por toda parte...” (Mc 16,20). Padre Andrea Bignotti, IMC Diretor das POM na Venezuela Secretário-geral do CAM 4 – Comla 9
  • 9. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 98 INTRODUÇÃO Anunciar a boa nova em um mundo pluricultural e secularizado
  • 10. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 9 INTRODUÇÃO 1. Os tempos mudaram e nós missionários temos de levar a sério a mudança. Não se trata apenas de época de mudanças, mas de mudança de época. E nesse pro- cesso de mudança, a religião sofre um deslocamento. Não desaparece, mas não mais ocupa o lugar central. Redescobrimos a diversidade cultural como riqueza e a interculturalidade como desafio. A América, como mosaico cultural, exige maior inculturação, incentivo ao diálogo intercultural e evangelização das culturas. 2. O Vaticano II, cujo 50º aniversário estamos celebrando, apresentou-nos uma Igreja para a qual tudo o que é humano encontra eco em seu coração, e por isso sente como suas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias das pessoas do nosso tempo, especialmente dos que sofrem (Cf. GS 1). A Igreja é sacramento universal da salvação, que manifesta e realiza em diferentes épocas e lugares o mistério do amor de Deus feito homem. A Igreja continua a desenvolver no curso da história a missão do próprio Cristo, enviado a evangelizar os pobres (Cf. AG 5). 3. Os bispos da América Latina e do Caribe, na V Conferência Episcopal, lança- ram a Missão Continental, com a ideia de provocar um novo Pentecostes. “Esta V Conferência, recordando o mandato de ir e fazer discípulos (Cf. Mt 28,20), deseja despertar a Igreja na América Latina e no Caribe para um grande impulso missio- nário. Não podemos deixar de aproveitar esta hora de graça. Necessitamos de um novo Pentecostes!” (DA 548). Nessa Missão Continental o anúncio do querigma ocupa lugar de destaque: “É urgente ir a todas as direções para proclamar que o mal e a morte não têm a última palavra, que o amor é mais forte, que fomos libertos e salvos pela vitória pascal do Senhor da história” (DA 548). 4. Em 2008, no 3º Congresso Missionário Americano em Quito, foi escolhida a ci- dade de Maracaibo como sede do 4º Congresso Missionário Americano. Deus pôs os olhos na Venezuela, e lhe deu a oportunidade de celebrar este Congresso para avançar rumo a uma Igreja em estado de missão. A partir de muitas consultas, especialmente a bispos e diretores das Pontifícias Obras Missionárias da América, foi escolhido o tema da Conferência: “Discípulos missionários de Jesus Cristo, da América em um mundo secularizado e pluricultural”. Para isso foram organizados dois Simpósios Internacionais de Teologia: um sobre secularização, em Caracas (2011), e outro sobre interculturalidade, no Panamá (2012). 5. O Papa Bento XVI convocou um Ano da Fé, que começou com o Sínodo sobre a Nova Evangelização, a fim de reavivar uma fé submetida aos embates de um mundo secularizado e secularizante. Trata-se de um ano destinado a renovar a
  • 11. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 910 conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. O Ano da Fé será um tempo oportuno para promover e tornar possível uma nova evangelização, que redescu- bra a alegria de crer e entusiasme a comunicar a fé. O Congresso Americano, a ser celebrado de 26 de novembro a 1º de dezembro, se enquadrará precisamente nesse Ano da Fé. 6. Queremos um Congresso aberto para a missão ad gentes, especialmente porque em Maracaibo e no Estado do qual é capital há vários grupos indígenas (Wayuu, Yukpa, Barí, Añú). Queremos uma América missionária voltada para dentro e para fora. O CAM 4 - Comla 9 deve ser momento de renovação de nosso compromisso missionário com nossas igrejas e com as igrejas que fazem o primeiro anúncio do Evangelho em outros países e em outras situações socioculturais. 7. Que Maria de Nazaré, invocada como a Chinita e Nossa Senhora de Guada- lupe, Estrela da Nova Evangelização, guie nossos passos na preparação e na realização deste Congresso Missionário Americano.
  • 12. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 11 CAPÍTULO I Discípulos missionários da AméricA
  • 13. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 912 CAPÍTULO I Discípulos missionários da América Introdução 8. O presente trabalho foi preparado pela Comissão Teológica, que o apresenta à atenção de todas as igrejas do continente, em preparação ao CAM 4 - Comla 9. Trata-se, em primeiro lugar, de um olhar de conjunto, em perspectiva missionária, de boa parte da realidade e dos urgentes desafios que enfrentamos na Igreja, dedicando especial cuidado à compreensão dessa realidade e das dificuldades encontradas para chegar a ela. “Precisamos reconhecer a complexidade da reali- dade, que não é outra coisa que a multiplicidade dos tecidos” (E. Morin). Enfren- tar a realidade já é ação louvável, ainda mais quando essa mesma realidade traz no seu bojo uma crise de sentido, do sentido religioso de raiz cristã que cultural- mente prevalecia (Cf. DA 33-59), fenômeno que revolveu o chão e provocou a erosão de boa parte dos batizados. 9. Conseguir melhor compreensão da realidade que nos rodeia, decidir quem so- mos e qual é nossa missão será a melhor recepção deste material... “Os cristãos precisam recomeçar a partir de Cristo, a partir da contemplação de quem nos re- velou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido” (DA 41). DIVERSOS OLHARES, MÚLTIPLAS REALIDADES, UMA ÚNICA FÉ 10. A Igreja da América se dispõe a dar um passo à frente na missão que o Senhor lhe confiou. O Congresso Missionário Americano (CAM 4 - Comla 9) é, portanto, um tempo de graça para a reflexão profunda e a motivação eclesial da tarefa de expandir o Reino de Deus, ampliando suas fronteiras, principalmente no coração dos fiéis, os discípulos missionários, como acertadamente os bispos em Aparecida definiram os cristãos. Esta é a única e eficaz maneira de expandir o Reino nos povos e nas culturas de nosso tempo. Jesus partiu de um Reino de Deus presente em nós, o reino de Deus como grão de mostarda, para cuja extensão propôs o mé- todo do passo a passo, pelo caminho do amor ao próximo e ao inimigo. Será ainda válido este mesmo caminho para abordar espiritual e estruturalmente a situação atual da Igreja no continente e a missão que nos é confiada? (Cf. Mc 4,26-34). 11. Queremos ser fiéis ao Senhor, e por isso precisamos de olhares diversos que iluminem os tempos que mudam e as múltiplas realidades, evitando visões apoca-
  • 14. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 13 lípticas. O CAM 4 - Comla 9 é oportuno para explorar e rastrear os caminhos que serão transformados pela vivência de uma só fé, a fé em Jesus Cristo. O discípulo missionário torna-se, metodologicamente falando, o sujeito que encontra Jesus Cristo, a ele se converte, torna-se seu discípulo, permanece em comunhão com ele e, enviado, vai aonde é imprescindível para propiciar a outras pessoas o mes- mo processo (Cf. DA 276-288). 12. A mesma Igreja – a comunidade de fé - deve viver esse processo em cada realidade, e como grupo empreender o caminho missionário, enviada por Jesus Cristo, assim como ele foi enviado. “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (Jo 20,21). Para percorrer o caminho frutuosamente, precisamos de uma conversão pastoral, nascer de novo, alcançando nova realidade. 13. Aparecida nos indica a preparação do discípulo missionário na escola do Mes- tre como a experiência mais rica e o caminho obrigatório para seguir seus passos. Permanecer nele é a garantia do fruto esperado. “Aquele que permanece em mim, esse dá muito fruto... Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5). O ensino sistemático é etapa essencial para o surgimento da Igreja. A bagagem que se adquire é a dife- rença no momento de atuar. Se a Igreja não viveu a experiência querigmática, sua atividade, sem dúvida, se converteria em práxis doutrinal. Em 1996, J. Ratzinger, então cardeal, advertia: “Não resistirá aos embates do tempo uma fé católica redu- zida a uma bagagem, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos bati- zados” (Ratzinger, J., Situação atual da fé e da teologia. L’Osservatore Romano, 1º novembro de 1996). “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (DA 12). PALAVRA DE DEUS: O CHAMADO E O ENVIO 14. A teologia investiga a natureza da vocação do cristão. Inspirados em Apareci- da, nos perguntamos: como pode o crente percorrer o caminho que vai do lugar concreto em que vive até a meta de uma vida plena em Jesus Cristo? Aparecida nos responde que a mediação pedagógica para percorrer esse caminho é o “dis- cipulado missionário”. Em outras palavras, se um crente, homem ou mulher, quer percorrer o caminho, deve tornar-se um discípulo missionário de Jesus Cristo. 15. Encontramos a pedagogia dessa transformação na Escola do Mestre Jesus. É ele quem chama, diferentemente dos demais rabinos que eram seguidos pelos
  • 15. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 914 seus ouvintes: “Não fostes vós que me escolhestes, fui eu quem vos escolhi” (Jo 15,16). Este é o ENCONTRO PESSOAL mais importante dos apóstolos, que pro- duz uma identificação, uma vinculação tão estreita com ele, que chega a conver- ter-se na fonte da vida, porque só ele tem palavras de “vida eterna” (Cf. Jo 6,68), (Cf. DA 131). 16. O segundo passo é a CONVERSÃO PESSOAL, que deve ser renovada todos os dias e vivida na comunhão da Igreja. Eles não foram convocados para algo (purificar-se, aprender a lei...), mas por alguém; são chamados para vincular-se intimamente à sua pessoa (Cf. Mc 1,17; 2,14). Jesus os elegeu para ficarem com ele e para os enviar a anunciar a Boa Nova (Mc 3,14), para o seguirem com a fina- lidade de ser “dele”, fazer parte “dos seus” e participar da sua missão (Cf. DA 131). 17. PARA FAZERMOS UMA COMUNIDADE COM ELE. Esta é a comunhão com o Mestre que cada ser humano chamado deve fazer. Compartilham com ele a mesa: a comum e a Pascal (Cf. Mc 2,15 ss; 14,22-25); ensina-lhes a se comunicar com o Pai (Cf. Mc 9,2-8), mostra-lhes na prática que o amor mútuo é o esteio da co- munidade cristã (Cf. Jo 15,12); prepara-os para trabalhar na e com a comunidade e a responder às suas necessidades concretas, físicas e espirituais (Mc 6,30-44; 8,1-9). Nos tempos que vivemos hoje é absolutamente indispensável o encontro íntimo com Jesus na vida da comunidade. É impossível pensar um caminho como discípulos sem uma vida em comunhão. O documento de Aparecida afirma que existe a tentação de nos comprometermos em buscas espirituais individualistas ou sermos cristãos sem Igreja. 18. PARA SERMOS SEUS DISCÍPULOS. “Vinde e vede” (Jo 1,39). Aqui está o coração da natureza do cristão, que consiste em reconhecer a presença de Jesus Cristo e o seguir. Esta foi a experiência dos primeiros discípulos que encontraram Jesus; ficaram fascinados e cheios de assombro diante da excepcionalidade de quem lhes falava, da maneira como os tratava, e que correspondia à fome e sede de vida que havia em seus corações. 19. O discípulo experimenta que a conexão íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da vida que sai das entranhas do Pai; formar-se para assumir seu próprio estilo de vida e motivações (Cf. Lc 6, 40 b), correr seu próprio risco e assu- mir a sua missão de fazer novas todas as coisas (Cf. DA 131). 20. O próprio Cristo nos dá o método: “Vinde e vede” (Jo 1,39). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Com ele e com seu estilo desenvolvemos as poten- cialidades inerentes às pessoas e formamos discípulos missionários (Cf. DA 276).
  • 16. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 15 21. E IR EM MISSÃO: na missiologia anterior se colocavam na balança os textos em que Jesus ordenava claramente ir à missão e os textos que indicavam a proi- bição da mesma. Ainda mais, havia a pergunta: “Por que era necessário ir além das margens do Mar da Galileia, se Jesus não foi além delas?” Como os apóstolos superaram uma derrota tão grande como foi a morte do Mestre e se lançaram para uma missão tão bem sucedida? Para responder ao questionamento, nos depara- mos com dois elementos que se conjugam mutuamente e nos servem de chave para a busca e a aplicação do mesmo “modelo missionário”: 1) uma experiência vital da fé - encontro com o Ressuscitado; 2) uma docilidade à ação do Espírito Santo - práxis missionária. 22. A experiência de fé é o ponto de partida: “Assim como tu me enviaste ao mun- do, eu também os enviei” (Jo 17,18 e Cf. 20,21). Palavras ouvidas à luz de Cristo ressuscitado e que ecoaram no coração dos discípulos, que as converteram em um bem-sucedido projeto missionário. A força do Ressuscitado é maior do que qualquer ameaça, dúvida ou temor, e maior do que a morte sofrida pelo Mestre. As promessas do Evangelho de Marcos: “Primeiro é necessário que a Boa Nova seja anunciada a todas as nações” (Mc 13,10) e “Em verdade eu vos digo: onde for anunciado o Evangelho, no mundo inteiro, será mencionado também, em sua me- mória, o que ela fez” (Mc 14,9), mais a proclamação universal de um “Evangelho eterno” (Ap 14,6-7), trazida por um anjo, colocam nos lábios de Jesus um Evan- gelho que perpassa do céu até o final dos tempos, mensagem que os apóstolos relêem, consagrando-se a uma missão terrestre sem precedentes. 23. A segunda característica é a docilidade ao Espírito Santo. A práxis missionária que levou os discípulos de Jerusalém a Roma (missão continental) só foi possí- vel graças à liderança do Espírito Santo; a declaração referente ao banquete do Reino de Lucas: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isa- ac, Jacó, junto com todos os profetas, no Reino de Deus, enquanto vós mesmos sereis lançados fora. Virão muitos do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus” (Lc 13,28-29), prepara a parábola dos convidados e, por meio dela, a evocação da missão: “Saí depressa pelas praças e ruas da cidade... para que minha casa fique cheia” (Lc 14,21-23). 24. Finalmente, é importante que se diga que ser Discípulo Missionário em Apare- cida se apresenta como elemento constitutivo da fé e a meta mais importante da vocação do cristão, absolutamente necessária e básica para o seguimento cons- ciente do Mestre. As vocações subsequentes (ministérios) terão consistência na medida em que estiverem firmemente enraizadas como discípulos missionários.
  • 17. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 916 25. Bento XVI recordava, na inauguração da Conferência de Aparecida, a união íntima entre discipulado e missão: “O discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como as duas faces da mesma moeda: quando o discípulo está apaixonado por Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só ele nos salva (Cf. At 4,12). De fato, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro” (DA 146). A Igreja em Conversão Pastoral 26. Em honra da verdade, devemos reconhecer que hoje na América a visão da Igreja não está determinada pelo seu dinamismo missionário. Sua principal ativi- dade, normal, não é a missão ou a evangelização, mas o que se chama “atividade pastoral” que, pressupondo haver sido pregada e aceita a fé, leva consigo certos compromissos e ações dirigidos ao amadurecimento da fé dos crentes, à sua san- tificação por meio dos sacramentos, à defesa de sua fidelidade e à promoção da sua coerência com a fé que professam. 27. O contraste existente entre uma “pastoral de conservação” e uma “pastoral missionária” pode ser iluminado a partir da imagem bíblica que expressamente dá nova interpretação cristológica à metáfora apocalíptica do fim do mundo: a imagem do grão de trigo que morre e assim dá muitos frutos. Na ordem pessoal, é necessário nascer de novo da água e do Espírito; na ordem eclesial, será preciso morrer para certas formas históricas como o clericalismo, o sacramentalismo, o autoritarismo, o centralismo e todo tipo de estrutura que não gera vida e fraterni- dade no Espírito. A essa mudança chamamos de conversão pastoral, que pode ser comparada à experiência do deserto. O deserto era o caminho doloroso a ser percorrido para alcançar a terra prometida (Canaã) depois de deixar corajosamen- te a terra da escravidão (Egito). A Igreja primitiva também teve que atravessar seu deserto. 28. Os primeiros apóstolos tiveram que romper com as práticas judaicas, como ha- via feito o Mestre de Nazaré, violando o sábado e as proibições do tratamento com os enfermos e excluídos da sociedade a fim de trazer vida, e vida em abundância para todos. Desse modo, esses judeus cristãos criaram novas práticas pastorais, como sair da própria geografia palestina e levar a Boa Notícia a outros países, adotar novas linguagens, como maneira de inculturar o Evangelho ou fazer dos lugares domésticos casas de culto (Cf. At 29,8). A audácia pastoral de São Paulo leva a Igreja primitiva a dispensar os cristãos vindos do paganismo de práticas ju- daicas, como a circuncisão. Assim, a Igreja, deixando-se guiar pelo Espírito, trans- forma sua prática pastoral para fazer chegar o Evangelho a todos os lugares.
  • 18. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 17 29. As pequenas comunidades fizeram a transição. O espaço que separava o mundo pagão e os membros do Reino de Deus foi permeado pela experiência de comunhão dos primeiros cristãos (Cf. At 2, 42-49), que se configurou como sub- cultura emergente, que chegou a transformar a sociedade. A transição foi possível graças a uma profunda experiência de fé em Cristo ressuscitado e pelo protagonis- mo aceito do Espírito Santo, com a docilidade dos missionários (Cf. O. Martinez. No começo foi a casa). 30. Na história da Igreja na América Latina há uma longa lista de famosos missio- nários que abriram brechas em diversas frentes pastorais. Alguns se esforçaram para aprender as línguas nativas e entender o Evangelho com maior profundidade, e outros se dedicaram a estudar as culturas indígenas e mestiças para inculturar o Evangelho. Isso permitiu dar os primeiros passos em uma Igreja autóctone, com rosto próprio e novos critérios pastorais. 31. Voltar a esta fonte é o maior desafio para a Igreja: ela é “chamada a repen- sar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais... Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um en- contro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos missioná- rios” (DA 11). Procura-se uma nova evangelização, que deve ser missionária, em diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens (Cf. DA 13). Diante dos tempos em mudança que vivemos e à explícita recusa dos sinais cristãos, o Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização fornece importantes propostas e pistas. 32. O desafio fundamental que enfrentamos é mostrar a capacidade de a Igreja promover e formar missionários que respondam à vocação recebida e comuni- quem em todos os lugares com imensa gratidão a alegria do dom do encontro com Cristo. Não há outro tesouro a não ser este. Não possuímos outra felicidade nem outra prioridade senão a de ser na Igreja instrumentos do Espírito de Deus, para Jesus Cristo ser encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos, apesar das dificuldades e resistências. Para concluir incisivamente: “Este é o melhor serviço – o seu serviço! – que a Igreja deve oferecer às pessoas e na- ções” (DA 14). DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS E OS TEMPOS ATUAIS 33. Queremos insistir sobre a condição de discípulo e missionário, como o fez Ben- to XVI na inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Aparecida, Brasil, em maio de 2007. Não somos cristãos se não somos dis-
  • 19. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 918 cípulos missionários. O discipulado missionário é a primeira e principal vocação do cristão (nova referência ao sacerdócio comum dos fiéis), sobre a qual se esta- belecem outras vocações que produzirão fruto na medida em que elas tenham a primeira e principal vocação, que é ser e fazer discípulos missionários. 34. No mundo contemporâneo, pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e das novas tecnologias acelerou-se a velocidade das mudanças sociais e cul- turais, produzindo, às vezes, no discípulo missionário, vertigem ou desajuste. O mundo se tornou uma aldeia global, na qual são divulgados os comportamentos mais excêntricos e os contrastes mais sutis das culturas e das religiões que as configuram, dos indivíduos e das coletividades. 35. A globalização criou novo espaço cultural e eletrônico. Essa realidade mudou as relações entre os seres humanos, favorecendo o hiperindividualismo com inci- dências na comunicação interpessoal. Diante do fenômeno, a missão parece ter seguido um caminho diferente, porque os métodos e as estruturas a partir dos quais anunciávamos o Evangelho já não têm serventia (o púlpito) ou é essencial reconhecer novos púlpitos, que sejam escutados em novos areópagos. Por isso mesmo é imprescindível e urgente a compreensão dos acontecimentos para en- tender as novas relações (redes). A CONSCIÊNCIA DO DISCÍPULO MISSIONÁRIO E O AMBIENTE 36. É um sinal de nosso tempo a perda do verniz cristão que caracterizava a socie- dade. O ambiente cultural, mais do que a determinação, definia se alguém era ou não cristão. Agora, os cristãos enfrentam o desafio de ser segregados pela mesma cultura que um dia ajudamos a fazer nascer. “A cristandade” está em crise como estrutura cultural, e aos cristãos nos cabe viver como “cultura emergente”, como fermento na massa. Situação nada nova, se considerarmos que, precisamente e a partir de Jesus Cristo, nasce pela vivência das pequenas comunidades eclesiais um novo tecido social, tão sólido e tão diferente que conseguiu impor-se em um mundo adverso e estranho como era o mundo pagão de então. 37. À Igreja cabe tomar consciência da nova realidade, não retornando a uma ecle- sialidade já perdida, mas decidindo-se para uma nova, que parte do acontecimen- to de Cristo e se comporta como Igreja de fermento em meio à massa no mínimo indiferente. Para chegar a essa compreensão são essenciais: 1) experiência fun- dante da fé em Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado (ter um encontro com ele); 2) deixar-se levar pela mão do Espírito Santo. Assim se inicia a nova maneira de viver a relação com Deus e com os irmãos (e inimigos) de forma doméstica; em
  • 20. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 19 lugar de ficar lá, sentiam-se chamados e enviados nesse caminho. Nele nasciam e se multiplicavam. De Jerusalém a Roma, sob o pastoreio dos apóstolos, que entendiam a extensão do Reino, como objetivo fundamental do seu ser de após- tolos. “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16), dizia Paulo, com profunda convicção missionária. 38. A espiritualidade missionária que os caracterizava e o fervor que os animava levaram-nos a adotar estruturas abertas, dispostas em todo momento a privilegiar a missão; a disponibilidade dos pastores em absoluta obediência ao Espírito Santo resultou em um “programa de pastoral missionária”, para defini-lo com palavras contemporâneas. Esse programa foi bem-sucedido porque não era resultado de doutrinas, que sempre existiram em quantidade, mas fruto da vivência profunda e verdadeira de uma espiritualidade que se inicia no encontro com Cristo, que muda a vida (Cf. os casos da samaritana e Zaqueu). Ainda no início da pregação apostólica no continente americano, apesar das dificuldades de todo tipo que a missão lhes trazia, a maioria dos missionários soube dar a vida com generosidade e criatividade, embora em algum momento da história a Igreja tenha diminuído o impulso missionário e se instalado. REEVANGELIZAR, NOVA EVANGELIZAÇÃO OU URGÊNCIA DA MISSÃO? 39. Mosen Xavier Morlans, assessor do Conselho Pontifício para a Nova Evangeli- zação, escreveu em 2009: “O primeiro anúncio: o elo perdido”. Em algum momen- to a Igreja perdeu a intensidade do primeiro anúncio; outros pensaram que, por ser o primeiro, devia ser feito apenas uma vez. Agora, quando vemos a necessidade de recomeçar a partir de Cristo, entendemos que o querigma deve ser anunciado sempre. É urgente o renascer do querigma e da missão. Uma nova configuração, sabendo que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. O conceito de ree- vangelização ou a nova evangelização aplica-se a toda a Igreja e dá a ideia de que a primeira não foi feita ou que é aplicável a um continente? Parece mais apropria- do para a urgência da missão entender que hoje temos de dar o passo discipulan- do aos batizados: “Ide, pois, fazer discípulos...” (Mt 28,19). O passar de batizado comum a cristão filho de Deus é experiência de caminho, uma escola de missão. 40. A urgente tarefa de missionar na América inclui uma escola de formação de pequenas comunidades eclesiais. Essas pequenas igrejas ou igrejas nas casas, sociologicamente reduzidas de crentes, porém teologicamente com todas as ca- racterísticas eclesiais, permitem às pessoas sair do anonimato e serem lançadas a um encontro fundante com Cristo, fazendo-as discípulas em um processo de
  • 21. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 920 conversão, para viverem em comunhão e se sentirem movidas pela urgência da missão (Cf. DA 278). Essa será a verdadeira evangelização, nova em seu ardor, em seus métodos, em sua expressão e em sua eficácia, como escreveu o então Papa João Paulo II na Redemptoris Missio e em várias mensagens para o conti- nente americano. 41. A ruptura entre Evangelho e cultura é o drama do nosso tempo, como o foi de outras épocas. Uma evangelização inculturada e uma evangelização das cultu- ras aparecem como tarefas indispensáveis. As culturas devem ser regeneradas pelo impacto da Boa Nova, a qual deve ser proclamada inculturada, profética e querigmaticamente (Cf. EN 20). A evangelização deve entrar nas culturas para transformá-las a partir de dentro. NOVAS ESTRUTURAS E NOVAS FORMAS 42. Ninguém dá o que não tem, diz o ditado popular, e é verdade. Analisando ob- jetivamente, a Igreja da América em Aparecida soube reconhecer a necessidade de um novo Pentecostes que, à semelhança do que fez com os apóstolos, nos retire do nosso fechamento (controlando essa força centrípeta que nos levou a encerrar-nos em nossos templos) e nos empurre para os outros, a fim de anunciar- -lhes, com valentia, um Cristo vivo e libertador (força centrífuga). Precisamos ir ao encontro das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos para co- municar-lhes e compartilhar o dom do encontro com Cristo, que preenche nossa vida de sentido, de verdade e amor, de alegria e esperança! (Cf. DA 548). Mas para consegui-lo são essenciais grandes mudanças nas estruturas, que levem a reconhecer como prioritárias as tarefas missionárias e favoreçam seu desenvolvi- mento efetivo, sem cair no sofisma de que poderíamos renovar as estruturas sem renovar as pessoas. Somente pessoas missionárias são capazes de dotarem-se de estruturas missionárias. 43. A Igreja conseguiu criar e desenvolver, nos dois últimos séculos, estruturas cul- turais e ambientes próprios que, unidos ao caráter centralizador e hierárquico de seu ser, realizavam uma cultura católica relativamente intensa, embora não mis- sionária, realidade que entrou em crise com a pós-modernidade. A nova conjuntura produz perda notável da eclesialidade tradicional dos fiéis, que repercute cada vez mais na forma estrutural das igrejas e das comunidades (Kehl Medard: Aonde vai a Igreja? Um diagnóstico de nosso tempo, 1997). 44. As estruturas atuais da Igreja resultam insuficientes para o anúncio do Evange- lho a todos os povos. Hoje, exige-se ser mais criativo, não apenas nas instâncias naturais da Igreja, mas principalmente no acesso aos meios de comunicação e às
  • 22. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 21 novas tecnologias, como a internet. Esses meios devem ser usados com compe- tência e qualidade para a mensagem ser atraente e acolhida pelos destinatários. 45. Para resolver o anúncio do Evangelho nas circunstâncias descritas parece ser imprescindível criar “catolicismo ambiental”, capaz de deixar a perplexidade sobre como proclamar hoje a nossa fé em Deus, fonte original de toda vida. Uma “nova eclesiologia” que, partindo do princípio da semente, do fermento, das pequenas comunidades eclesiais, atue diretamente nos bairros, nos recantos mais afasta- dos. A presença local da Igreja que sai do templo transforma logo a fisionomia e as novas estruturas que se formarem, o que favorecerá a transmissão do Evangelho. 46. Um olhar sobre os que outrora foram territórios de missão nos mostra a pre- sença significativa de jovens missionários de várias congregações, em todos os lugares. Agora são cada vez maiores as áreas sem a presença do missionário tradicional. Mas nas cidades e bairros se enfraquece cada vez mais a eclesiologia tradicional, nascendo uma nova. “Ninguém pode reformar as instituições sem ter antes reformado os espíritos, mas também não podemos reformar os espíritos sem ter previamente reformado as instituições” (E. Morin: Mon Chemin, p. 272). A MISSÃO CONTINENTAL 47. Os bispos latino-americanos quiseram dar um passo adiante e convocaram to- dos os bispos, presbíteros e outros membros da Igreja a responder com a proposta da Missão Continental Permanente. A partir das instâncias das Pontifícias Obras Missionárias de todo o mundo sentimos uma alegria imensa, porque a missão se inseria na própria essência da Igreja, sua única razão de ser, conforme a Evan- gelii Nuntiandi (EN 14). Fruto visível de um caminho do continente missionário no qual tiveram papel destacado os vários CAMs e Comlas. Na Venezuela havia uma ressonância especial de acordo com as conclusões do Concílio Plenário da Vene- zuela, que, em seu primeiro documento sobre o anúncio profético do Evangelho de Jesus Cristo na Venezuela, dizia: “... Ou a Igreja é missionária ou não é Igreja” (PPEV 97). 48. Sobre a Missão Continental falou o Papa Bento XVI: “Esse é a principal con- tribuição de nossos bispos em Aparecida, e é um esforço evangelizador que efe- tivamente não é tarefa fácil ou simples, pois requer dedicação, tempo e sacrifício. Não obstante isso, sabendo que esse esforço tem como finalidade que Jesus seja conhecido, amado e seguido por todos, especialmente hoje, quando muitos lhe voltaram as costas, a ele e à Igreja, será acolhido por muitos católicos e por todos os presbíteros com entusiasmo e fé. A comunhão e a participação na Igreja do
  • 23. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 922 continente passam pela aceitação e a generosidade da resposta de cada paróquia à Missão Continental”. 49. “Esta firme decisão missionária deve permear todas as estruturas da Igreja e todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, mo- vimentos e qualquer instituição da Igreja. Nenhuma comunidade deve se isentar de entrar decididamente, com todas suas forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DA 365). Por isso, agora nos perguntamos sobre a Missão Continental: foi verdadeiramente aceita e promovida pelos bispos do continente? Ou simplesmente foi dito que tudo o que fazemos é missão? Foram verdadeiramente avaliadas as estruturas em vista da missão e as instituições têm revisto seu modo de agir? Foram criadas instâncias de coordenação para elas ou cada um tem “adaptado” a missão para que não seja nada mais que uma campa- nha ou uma iniciativa que um dia se inauguraram e já foram encerradas? Quantas igrejas, ou melhor, quantos países estão cumprindo essa missão? Qual é a des- culpa? Não há desculpa! OS PRESBÍTEROS E A MISSÃO 50. Os presbíteros são chamados a serem discípulos de Jesus Cristo em sentido pleno. Ele os escolheu com as mesmas palavras que dirigiu aos primeiros discípu- los: “Segue-me”, e cada um repetiu o gesto dos Apóstolos: “Deixando as redes o seguiram”. Então, cada presbítero encontra-se diante da possibilidade de aceitar o chamado como o fizeram Pedro, Mateus, André, João, ou de rejeitá-lo, como fez o jovem rico. É verdade que no batismo fomos constituídos Discípulos Missionários, porém, em nossa vida consciente devemos renovar de forma pessoal a aceitação do duplo chamado de Cristo: sermos discípulos, isto é, segui-lo e fazer-nos mis- sionários, ou seja, anunciá-lo com o testemunho. “Quando o discípulo está apai- xonado por Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só ele nos salva” (DA 146). 51. O Concílio Plenário da Venezuela reconhece o trabalho dos presbíteros, bis- pos, diáconos e religiosos. Dá valor à entrega e à doação que no amor à Igreja são estímulo e exemplo para todo o povo, como pessoas inteiras filhas de Deus e fer- mento de vocações (Cf. OPD, 27). Neles está a responsabilidade de conduzir uma vida em comunhão com os seus irmãos e levar a vida das comunidades que lhes são destinadas. Apesar do isolamento, da falta de compreensão da sociedade e da carga que devem suportar como ministros consagrados, estão chamados a ser discípulos missionários para impulsionar o trabalho da Igreja diante dos desafios que enfrentamos hoje: êxodo dos batizados e correntes adversas ao cristianismo.
  • 24. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 23 Será indispensável que nos seminários se defina melhor o perfil de presbítero que corresponda às necessidades dos tempos modernos. Tais presbíteros devem es- tar baseados não apenas na teologia do sacerdócio do Antigo Testamento, mas na missão de serviço ao Reino de Jesus, que culminou na cruz que ele viveu existen- cialmente como livre auto-oferenda. “O dom espiritual recebido pelos presbíteros na ordenação não os prepara para uma missão limitada e determinada, mas sim para a missão imensa e universal da salvação até os confins da terra. De fato, todo o ministério sacerdotal participa da amplitude universal da missão confiada por Cristo aos apóstolos” (PO, 10). AS PARÓQUIAS E A MISSÃO 52. As paróquias devem ser renovadas no sentido missionário. Elas já foram efi- cientes nos ambientes rurais e nas pequenas aldeias, mas atualmente parecem superadas, seja pelo enfoque exclusivamente sacramental que as caracterizam, seja pelo número excessivo de pessoas que nelas residem. Uma paróquia deve transformar-se para chegar a ser uma escola de comunhão (Cf. DA 170). Todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela evangelização dos ho- mens e mulheres de cada ambiente (Cf. DA 171). A tarefa principal da paróquia e diocese é formar as pessoas com sentido missionário, social e justo, e nos demais valores do Evangelho (Cf. DA 385). AD GENTES 53. O mandato do Senhor e a referência da salvação inflamaram os cristãos de zelo apostólico. Ir à outra margem era a sua forma natural de ser. As primeiras comunidades se sentiam totalmente responsáveis pela extensão do Reino, fazen- do isso nas casas e sinagogas, em todas as ocasiões que lhe fossem propícias. Era seu impulso natural. Com a aceitação do cristianismo por parte do império, a dinâmica mudou, e agora a Igreja ocupa-se da sua organização, principalmente. A palavra missão passa a ser utilizada para indicar qualquer atividade eclesial. Por outro lado, nenhuma igreja deve perder o centro da missão ad gentes, os pobres, e a missão ad extra, para fora do seu contexto, porque não são aspectos e tarefas específicas, mas sim sua dimensão essencial. “É preciso evitar que esta tarefa es- pecificamente missionária, que Jesus confiou e continua cotidianamente a confiar à Sua Igreja, se torne numa realidade diluída na missão global de todo o Povo de Deus, ficando desse modo descurada ou esquecida” (RM 34). 54. É lamentável a realidade frequente das igrejas, que concebem a evangeliza- ção como ação ad intra, sem se importar com os que estão além das fronteiras. O destaque dado na América Latina a uma nova evangelização diluiu a importância
  • 25. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 924 da missão. A erosão pela secularização e o afã da reconquista nos deprimem e nos atormentam, e levam a nos fecharmos mais ou a tratarmos de conseguir algu- mas pessoas para prendê-las junto a nós, no âmbito pastoral e confessional. Isso privilegia o movimento centrípeto, no qual somente nos ocuparemos em manter uma pastoral dos que estão próximos, e que são cada vez em menor número. 55. Ser fiel à vontade do Pai é ir ad gentes. Segundo o Evangelho de Mateus, já no Sermão da Montanha o ressuscitado envia seus irmãos a todos os povos (Cf. Mt 5-7) para fazer discípulos todos os povos e os convoca, não para pedir sacrifí- cios mas para oferecer-se Ele próprio por todos nós. Não tira o pão da boca dos pobres, mas ele se transforma em alimento para saciar as multidões (Cf. Maggi, Alberto, perche scegliere Gesú? In testimoni 3/210, p. 27).“A partir de Cristo ... todos os povos são chamados a serem missionários, porque “Missão” é essên- cia gratuita de Deus que sai de si para tornar-se puro dom. Essa é a vocação de qualquer pessoa humana, feita à imagem de Deus, chamada a participar da vida de seu criador. Ele quer que todos nós participemos dessa sua vida, que é vida de verdade” (Discípulos Missionários Ad gentes do Brasil para o Mundo, Estevão Raschietti, 2012). 56. A missão ad gentes refere-se à origem e identidade mais profunda da Igreja. A Igreja nasce verdadeiramente no momento em que compreende e aceita a missão entre os povos até os confins da terra. A missão ad gentes será sempre a tarefa da Igreja assumida por suas comunidades, às vezes com certa resistência. Em repetidas ocasiões se procura minimizar, postergar ou até desprezar esse desafio como pretexto de que tudo que fazemos é missão. A missão é a essência da Igreja, e somente quando a cumpre está sendo fiel ao Senhor. 57. As Assembleias Gerais do Episcopado Latino-americano (Medellín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida) insistiram no fato que a América deve responder aos dons da fé e graça que recebeu compartilhando sua fé com aqueles que não a têm. No século XX surgiram, no continente, cristãos preocupados com o anúncio do Senhor Jesus e seu Evangelho além de suas próprias fronteiras: na América do Norte os missionários de Maryknoll (USA), as Missões Estrangeiras de Quebec (Canadá), os Missionários Javerianos (México), os Missionários de Yarumal (Co- lômbia). Os CAM - Comlas significaram impulso ad gentes, e chegaram à criação de centros missionários, como o do Centro América, fruto do CAM - Comla da Guatemala (2008). 58. A missão, como declarou Aparecida, consiste em dar vida abundante aos nos- sos povos, à maneira de Jesus. Jesus veio dar-nos uma vida plena e feliz; a fé con- siste em relacionar-se pessoalmente com Jesus Cristo transformador e deixar-se transformar por ele. A salvação que Jesus veio trazer inclui todas as dimensões da
  • 26. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 25 existência: “A vida nova de Jesus Cristo atinge o ser humano por inteiro e desen- volve em plenitude a existência humana em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural. Para isso, faz falta entrar em processo de mudança que transfigure os vários aspectos da própria vida. Só assim será possível perceber que Jesus Cristo é nosso salvador em todos os sentidos da palavra. Só assim manifestaremos que a vida em Cristo cura, fortalece e humaniza” (DA 356). Os missionários proclamam a boa notícia da pessoa de Jesus Cristo, e nele a boa notícia da dignidade huma- na, da vida, da família, do trabalho, da ciência, do destino universal dos bens e da solidariedade com a criação (Cf. DA 103-128).
  • 27. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 926 Para reflexão A NÍVEL PESSOAL: 1. Você pode afirmar que já teve um encontro pes- soal com Cristo que tenha transformado sua vida de maneira que sua identidade pessoal é a de discípulo missionário? 2. Vive a sua fé em um caminho apostólico, fazendo da sua vida cotidiana uma práxis missionária? 3. Sente-se identificado com a análise que apresenta o Instrumento referente aos discípulos missionários nos tempos atuais? A NÍVEL COMUNITÁRIO: 1. Em que medida o convite do Senhor a ser discípulo missionário, apresentado novamente em Aparecida, é uma realidade com as igrejas do nosso continente? 2. Jesus partiu de um Reino de Deus presente em nós, Reino de Deus como grão de mostarda. Ele nos propôs o método de ir passo a passo pelo caminho do amor ao próximo e ao inimigo. Esse caminho continu- ará sendo válido para enfrentar espiritual e estrutural- mente a situação atual da Igreja e a missão que nos é confiada? 3. Como conseguir a passagem de uma “pastoral de manutenção” para uma “pastoral missionária”? 4. Que relação propõe o “Instrumento de Participação” entre a Missão Continental e a “Missão ad gentes”? Como vê esse relacionamento?
  • 28. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 27 CAPÍTULO II UM MUNDO PLURICULTURAL E SECULARIZADO
  • 29. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 928 CAPÍTULO II UM MUNDO PLURICULTURAL E SECULARIZADO A. DIVERSIDADE CULTURAL 59. A América é um mosaico de culturas. Coexistem nela diversas culturas: indíge- nas, afro-americanas, camponesas, crioula (mestiça), urbanas e suburbanas, dos migrantes. A diversidade cultural é fato visível, riqueza a ser aproveitada e compar- tilhada. Mas nem sempre esta diversidade cultural é levada em consideração, pelo contrário às vezes é olimpicamente ignorada. Culturas indígenas 60. Os indígenas fazem parte dos excluídos do continente: “Algumas comunidades indígenas se encontram fora de suas terras porque foram invadidas e degradadas, ou não têm terras suficientes para desenvolver suas culturas. Sofrem graves ata- ques à sua identidade e sobrevivência, pois a globalização econômica e cultural coloca em perigo sua própria existência como povos diferentes. Sua progressiva transformação cultural provoca o rápido desaparecimento de algumas línguas e culturas” (DA 90). 61. Certamente é necessário superar a concepção meramente socioeconômica dos indígenas. Embora excluídos, pobres, marginalizados, temos que tratá-los como “outros”, diferentes, que exigem respeito e reconhecimento (Cf. DA 89). En- tre os valores das culturas indígenas destacamos “a abertura à ação de Deus, o sentido da gratidão pelos frutos da terra, o caráter sagrado da vida humana, a valo- rização da família, o sentido da solidariedade e a corresponsabilidade no trabalho comum, a importância do culto, a crença em uma vida ultraterrena e tantos outros valores que enriquecem a alma latino-americana” (Cf. João Paulo II, Mensagem aos indígenas, 13.10.92, n.1, em Santo Domingo nº 17). Caracterizam-se igual- mente por forte sentido comunitário, valorização dos anciãos e reverência pela criação (ecologia). Culturas afro-americanas 62. Os afro-americanos têm longa história de escravidão, discriminação e luta por libertação. “A história dos afro-americanos tem sido atravessada por uma exclu- são social, econômica, política e sobretudo racial, onde a identidade étnica é fator de subordinação social” (DA 96). Entre as características das culturas afro-ame- ricanas estão a expressão corporal, o enraizamento familiar e o sentido de Deus
  • 30. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 29 (Cf. DA 56). Na realidade americana há comunidades afro-americanas vivas, que participam ativa e criativamente da construção do continente (Cf. DA 97). “Uma das características é sua capacidade de entrar na água sem se molhar, ou seja, desenvolver-se no seio de outras culturas e cultivar sua cultura, sobretudo a fa- miliar; essa cultura não reivindica o que é seu, simplesmente o exerce com liber- dade e coerência. A consequência é que respeitam todos, embora não suceda o mesmo com eles” (Pedro Trigo, Teologia, Culturas Urbanas e Práticas Pastorais na Sociedade de Hoje). Indígenas e afro-americanos emergem na sociedade e na Igreja reclamando pleno reconhecimento de seus direitos individuais e coletivos. Exigem ser levados a sério na Igreja, com sua cosmovisão, valores e identidades particulares (Cf. DA 91). As culturas camponesas 63. O documento de Puebla incluía os camponeses entre os rostos da indigna pobreza, que clamam silenciosamente; Santo Domingo nos fala de um clamor estrondoso. Aparecida faz referência ao camponês sem terra como vítima da glo- balização, tendo que recorrer à economia informal para sobreviver. O camponês se caracteriza por “estar-em”: “o camponês está na terra, está na sua terra, a terra de seus antepassados, a terra de Deus. Está em sua casa, em seu vilarejo, em seu povoado, em sua região, em seu território, terra humanizada por muitas gerações e abençoada por Deus, e debaixo da proteção dos santos padroeiros. Está na presença de Deus que é o Deus de seus pais, Criador particular desta terra, que a entrega para que vivam dela e a respeitem” (Pedro Trigo, Cultura do bairro, 46). A cultura camponesa é ritmada pelo ciclo agrário e tem um calendário de festas oriundo da identidade de cada comunidade humana. A comunhão com a terra e com os seres vivos que a habitam faz parte da cultura camponesa. Culturas urbanas e suburbanas 64. As imigrações do campo para a cidade são um acontecimento de grande signi- ficado para os povos americanos. Hoje, a maior parte da população se concentra na cidade. “A cidade se converteu no lugar próprio das novas culturas que se vão gestando e se impondo, com nova linguagem e nova simbologia” (DA 510). Dentro do espectro cultural urbano se destacam as culturas das áreas suburbanas carac- terizadas pelo desafio de viver dignamente, por uma criatividade continuamente posta à prova e pela experiência de fé no Deus da vida, que fortalece a autovalo- rização e dá energia para alcançar condições de vida mais humanas. Essa cultura se caracteriza por “estar-entre”. O habitante das zonas marginais está entre o campo, o bairro e as cidades, entre a heterogeneidade da zona marginal, entre autoafirmar-se pessoalmente ou abandonar-se no estar-entre, uma cultura domi-
  • 31. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 930 nada e uma cultura dominante, entre uma cultura de informação e uma cultura constituída (Cf. Pedro Trigo, Cultura do bairro). Cultura crioula (mestiça) 65. Na América se deu a mestiçagem, produto da fusão de raças e culturas (bran- cos peninsulares e canários, índios e negros). A cultura mestiça (crioula) foi o eixo do processo de modernização quando a educação se tornou massiva. Essa cultu- ra se apresenta como hegemônica, junto com a cultura globalizada pós-moderna. O mestiço não superou a mentalidade colonialista, que considera os indígenas e afro-americanos pessoas inferiores e cidadãos de segunda categoria. Cria-se uma ideologia da mestiçagem que desconhece a diversidade cultural. O termo mestiço tem significado diverso, segundo os países. Migrantes 66. O fenômeno das migrações, por razões sociais, tem longa história na América. Os migrantes foram portadores de cultura e agentes de interculturalidade. Nos tempos recentes a migração se acentua consideravelmente: “Na América Latina e no Caribe os emigrantes, deslocados e refugiados, sobretudo por causas eco- nômicas, políticas e de violência, constituem um fato novo e dramático” (DA 411). Do ponto de vista cultural os migrantes enriquecem as culturas dos países que os recebem, sofrendo as consequências da ausência de adequada convivência intercultural. Do ponto de vista religioso os latino-americanos que se deslocam para países de maior desenvolvimento econômico devem considerar-se potenciais agentes de evangelização. Cultura globalizada pós-moderna 67. Uma das características fundamentais do mundo contemporâneo é a globa- lização da economia. Nela, a dinâmica do mercado absolutiza a eficiência e a produtividade como valores reguladores de todas as relações humanas. Essa ab- solutização leva à globalização da injustiça. O poder e as riquezas, os recursos físicos e monetários, a informação e os recursos humanos se concentram nas mãos de poucos, enquanto a maioria da população fica excluída dos benefícios da sociedade globalizada. Concomitantemente à globalização econômica surge a globalização cultural. “A utilização dos meios de comunicação de massa está introduzindo na sociedade um sentido estético, uma visão a respeito da felicidade, uma percepção da realidade e até uma linguagem, que querem impor-se como autêntica cultura” (DA 45).
  • 32. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 31 68. Esta cultura merece consideração especial. O documento de Aparecida a ca- racteriza breve, porém acertadamente: “Esta cultura se caracteriza pela auto-refe- rência do indivíduo, que conduz à indiferença pelo outro, de quem não necessita e por quem não se sente responsável. Prefere-se viver o dia a dia, sem programas a longo prazo nem apegos pessoais, familiares e comunitários. As relações huma- nas estão sendo consideradas objetos de consumo, conduzindo a relações afeti- vas sem compromisso responsável e definitivo” (DA 46). Cultura que não prioriza a família, a amizade, o compromisso com a comunidade, os direitos humanos. 69. A pós-modernidade se caracteriza pelo aparecimento de uma nova racionali- dade. “Era normal que se chegasse ao tédio e à procura de um novo modo de ra- cionalidade. O homem moderno é hedonista e consumista, como lhe ensina o sis- tema. Nosso homem compra a cada manhã uma coisa nova e de tarde a joga fora porque é velha. Relativista e cético, prefere um pensamento débil e fragmentado, que não o comprometa. Umberto Eco define esta como a época do sentimento. Vive-se do sentimento mais que da verdade. Vive-se de impressões, de impactos sensoriais ou emocionais, do que é efêmero” (Cardeal Paul Poupard). 70. Como valores da pós-modernidade devem ser destacadas a valorização da pessoa, de sua consciência e de sua experiência, a busca do sentido da vida e a abertura à transcendência (Cf. DA 52). Culturas em relação desigual 71. A relação entre as culturas não é pacífica, mas dissimétrica. As culturas hege- mônicas procuram impor-se às subalternas. No mundo atual a cultura globalizada pós-moderna-ocidental ergue-se hegemonicamente sobre as demais. Ela baseia- se no desenvolvimento científico-tecnológico, no predomínio comunicacional e financeiro, na passagem do rural ao urbano. O documento de Aparecida, a pro- pósito dessa cultura, fala de uma espécie de “colonização cultural” que a cultura globalizada exerce sobre outras culturas. O desafio da inculturação e a evangelização das culturas 72. Em primeiro lugar, a Fé e o Evangelho devem ser expressas nas categorias culturais dos evangelizados, para penetrarem profundamente em seu coração. Essa “nova expressão de fé através de novos símbolos, língua e cultura, faz com que não só o Evangelho se enriqueça, mas nasça uma nova maneira de ser Igreja dentro da mesma Igreja de Jesus Cristo”. A Igreja também deve inculturar-se, dei- xando para trás muitas incrustações históricas e tradições que nada têm a ver com a verdadeira tradição da Igreja e com o poder do Espírito, fazendo surgir Igrejas
  • 33. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 932 particulares com rosto próprio. Este novo modo, pluriforme de ser dentro da única Igreja, implica nova forma de catequese, enriquece os Sacramentos com novas expressões culturais, a ordenação de ministros autóctones que evangelizem seu próprio povo, a criação de novos serviços e ministérios dentro da comunidade eclesial, entre outros requisitos. Quando isso acontecer, será o caminho da autên- tica inculturação. 73. A convicção e a necessidade de mergulhar nas culturas surgem ainda do fato de que o destinatário não é único, uniforme, nem estático, pois há grande varieda- de de situações, submetidas a mudanças constantes, especialmente por influência da cultura globalizada. Isso nos abre o caminho para a diversificação de propostas pastorais, se realmente queremos anunciar com profundidade e não superficial- mente, como um verniz, a Boa Nova da pessoa de Jesus e de seu projeto, que realmente é comunicadora de salvação para os evangelizados. 74. A salvação que é oferecida às pessoas por meio da inculturação do Evange- lho deve abranger todos os aspectos da existência: pessoal, comunitário, social, político e espiritual. Por isso a evangelização não deve ser somente inculturada, mas libertadora. Se a evangelização não consegue fazer passar de condições de vida menos humanas para condições de vida mais humanas é sinal que ainda não alcançou totalmente seu objetivo. Trata-se de libertação integral: das escravidões pessoais, das injustiças sociais e do pecado. Como o ser humano é fraco e peca- dor, a evangelização inculturada e libertadora é mais uma tarefa permanente do que conquista alcançada. 75. Não basta entrar na cultura. É essencial evangelizá-la oferecendo-lhe a pro- posta salvadora de Jesus Cristo, fortalecendo os elementos positivos que ela tem, sem ignorar os desvalores necessitados de purificação que ela carrega. Assim: “Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanida- de, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade”... (EN 18) (“Para a Igreja trata-se também)... de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (EN 19). 76. A Igreja deve inserir-se nas culturas “subalternas” para, com seus valores e os valores evangélicos, contrarrestar os desvalores das culturas “hegemônicas”. Nas culturas subalternas encontramos a valorização da família, o comunitarismo, a so- lidariedade, a fé no Deus da vida (Cf. DA 57). “Se queremos ficar ricos, acumular poder e dominar a Terra, é inútil perguntar aos indígenas. Porém, se queremos ser felizes, unir o ser humano ao ser divino, integrar a vida e a morte, inserir a pessoa
  • 34. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 33 na natureza, harmonizar o trabalho com o lazer, sarar as relações intergeracionais, então escutemos os indígenas. Eles têm sábias lições para nos dar” (Irmãos Villas- Bôas, cit. Luis Gonzalez Carvajal, Cristãos do século XXI, p.65). B. DA MULTICULTURALIDADE À INTERCULTURALIDADE 77. Constatar a existência de diversas culturas não é suficiente. É preciso dar um passo a mais para que a mera coexistência que geralmente se traduz em domínio de uma sobre a outra passe a construir relações de igualdade, respeito e partilha. 78. As relações entre as culturas são normalmente desiguais, mas podem tornar- -se igualitárias. Quando falamos de multiculturalidade e pluriculturalidade se co- loca o acento em cada cultura como diferente das demais, enfatizando respeito e tolerância. Quando falamos de interculturalalidade enfatizamos as convergên- cias das culturas sobre as quais devem ser estabelecidos vínculos e pontos em comum. A interculturalidade enfatiza a aprendizagem mútua, a cooperação e o intercâmbio, situando a convivência entre diferentes no centro do seu programa. 79. A relação intercultural é regida por estes princípios: 1) todas as culturas são iguais e, portanto, não há culturas superiores ou inferiores; 2) o princípio da di- ferença entre as culturas: as culturas são diferentes e exigem ser aceitas como diferentes; 3) princípio da interação positiva entre as culturas: as culturas podem enriquecer-se mutuamente; 4) princípio da identidade pessoal e cultural: o encon- tro cultural se realiza a partir da identidade das pessoas e das culturas (Cf. Sáez Rafael Alonso, Viver interculturalmente, aprender um novo estilo de vida, CCS, Madrid, 2006). 80. Os imigrantes vivem e sofrem a interculturalidade de modo especial: “A iden- tidade pessoal e cultural se desenvolve quando o imigrante se percebe como al- guém que participa da vida social e cultural do país anfitrião, criando e desenvol- vendo o princípio da reciprocidade e da negociação criativa”(Sáez Rafael Alonso). 81. A interculturalidade está plena de exigências para os Estados, que deveriam respeitar estes princípios: 1) “O princípio da cidadania”, que implica o reconheci- mento pleno e a procura constante da igualdade real e efetiva dos direitos, respon- sabilidades, oportunidades, e a luta permanente contra o racismo e a discrimina- ção; 2) “O princípio do direito à diferença”, que implica o respeito à identidade e aos direitos de cada um dos povos, dos grupos étnicos e das expressões culturais; 3) “O princípio da unidade na diversidade”, que se manifesta na busca da uni- dade nacional construída com a participação de todos e assumida voluntariamente (Sáez Rafael Alonso).
  • 35. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 934 82. As Constituições devem se propor à construção de países multiculturais e plu- riculturais em um Estado de Justiça e interações culturais simbióticas. A América Latina deve deixar de ser “somente” latina e ser ameríndia e afrodescendente. O desafio da interculturalidade 83. O etnocentrismo é o que há de mais bem disseminado no mundo. A experi- ência comprova a tendência de as pessoas se fecharem em sua própria cultura, absolutizando-a e criando dificuldades em abrir-se às demais culturas em con- dições de iguadade. Acontece ainda de ir para o outro extremo, abandonando nossa cultura materna por influência das demais, perdendo a identidade, sem nos encontrarmos existencialmente em outra, fenômeno que está acontecendo com a cultura globalizada pós-moderna, que invade sutilmente todos os espaços da vida pessoal e social. As culturas tendem a absolutizar-se: “O diálogo intercultural tem significado diferente quando acontece entre pessoas solidamente assentadas em sua identidade cultural e se consideram iguais de nível em sua respectiva cultura, e quando alguns pertencem a culturas dinâmicas e antigas, e que as consideram superiores às demais, enquanto outras pessoas fazem parte de culturas contem- porâneas, em pleno desenvolvimento, e portanto não têm definida sua identidade cultural, tendo consciência de que sua cultura é tida como inferior” (Pedro Trigo, A cultura do bairro). 84. Para avançar no caminho da interculturalidade real, no qual se dão relações mais simétricas entre culturas, é essencial, por parte de governos e instituições, a promoção de uma educação intercultural, e que se incentivem políticas sociais que ofereçam uma convivência justa e harmônica entre os diversos cidadãos. A Igreja está comprometida nesse esforço e especificamente deve promover estratégias pastorais interculturais. C. UM MUNDO EM PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO 85. A secularização é um processo de transformação das sociedades em que o re- ligioso é deslocado, deixando de exercer função de tutela sobre outras instâncias e instituições sociais. Convém iniciar falando de secularização em seu significado positivo na linha do Concílio Vaticano II. 1. Autonomia das realidades terrestres no Vaticano II 86. De acordo com o Concílio Vaticano II, as realidades terrenas e as sociedades gozam de leis e valores próprios que o ser humano deve descobrir, aproveitar e
  • 36. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 35 ordenar progressivamente. É imprescindível exigir essa autonomia não somente porque nossos contemporâneos a reclamam, mas porque se trata de algo con- forme a vontade do nosso criador (Cf. GS 36). A Igreja respeita a autonomia da ciência (GS 36) e da política. A secularização como fenômeno positivo permite o progresso legítimo da ciência e da técnica em um campo de sua própria autono- mia, lembrando de colocar esse processo dentro de um quadro de referência ético. 87. A secularização sadia contribui com uma vida de fé mais autêntica. Delimita-se o que não se espera da fé, como as legitimações religiosas sacralizadoras dos po- deres ou estruturas deste mundo, conhecimento que exige mediações científicas, modelos acabados de organização social, uma certa ideia de Deus, seu modo de intervenção no mundo e a eficácia da oração na história. 88. Ao contrário dos chamados países do Primeiro Mundo, onde a secularização é fundamentalmente técnico-científica, na América Latina é predominantemente política. Chega-se a pensar que a razão da ciência política e a práxis revolucioná- ria são suficientes para transformar a história e as estruturas. Os messianismos políticos são uma boa expressão dessa mentalidade. 2. Ambiente não cristão 89. Antes se nascia cristão. Vivia-se em ambiente cristão que ia nos configurando. Respirava-se a fé cristã. Mas os tempos mudaram: “Não é a mesma coisa viver o cristianismo quando o ambiente público estava impregnado de nomes, datas, referências, eventos, avaliações, valores e propostas cristãos... que viver como cristãos quando os diferentes canais que formam o público, desde os líderes e as instituições públicas, até os meios de comunicação de massa, passando pelos criadores de símbolos, os ideólogos e, acima de tudo, os donos do grande capital e as instituições econômicas, desconhecem maciçamente o fato cristão, inclusive quando se referem a ele” (Pedro Trigo, O desafio de ser cristão e comunicar o cristianismo sem cristianismo ambiental). 90. Vivemos em um mundo globalizado. Os eixos da globalização são as cor- porações mundializadas como sujeitos do processo e modelo organizativo e os indivíduos que se tornam peças da engrenagem. Não são verdadeiros sujeitos humanos, mas elementos de um conjunto que recebe possibilidades e limitações e escolhe dentro de um menu estabelecido. As corporações e os grandes especu- ladores dominam os Estados e a opinião pública, confundindo individualidade com individualismo.
  • 37. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 936 91. Na América se dão situações de pós-secularização ou de coexistência pacífica entre crentes e não crentes, que implica respeito às diferentes visões de mundo e reconhecimento de que as duas partes contribuem para a humanização da vida pública. “Na sociedade pós-secular se abre espaço à concepção de que a mo- dernização da consciência pública ‘abrange de forma assíncrona tanto as menta- lidades religiosas como as mundanas e as modifica de modo reflexivo’. As duas partes concebem o processo de secularização da sociedade como um processo de aprendizagem complementar, e podem contribuir com os temas controvertidos na esfera pública, tidos como sérios por motivos cognitivos. Os cidadãos seculari- zados, na medida em que atuam em seu papel de cidadãos de um Estado, não de- vem negar às imagens do mundo religioso um potencial de verdade, e nem devem questionar aos cidadãos crentes o direito de fazer manifestações na linguagem religiosa nas discussões públicas” (Habermas). Ambas as posições devem entrar em sinergia e adotar a atitude de aprender uns com os outros. 3. Secularização e religiosidade popular 92. Na América, especialmente na América Latina, o povo possui profundas raí- zes religiosas. A religiosidade popular é síntese de evangelização e de elementos das culturas populares. Ela é inculturação da fé cristã feita pelo próprio povo (Cf. Ecclesia in America 16), muitas vezes em reação à falta de inculturação pela au- toridade eclesiástica. 93. A religiosidade popular deve ser assumida e evangelizada. Assumida porque é expressão autêntica da fé. Evangelizada porque é fé imperfeita. “Se a Igreja não reinterpretar a religião do povo latino-americano, se dará um vazio que será ocu- pado pelas seitas, pelos messianismos políticos secularizados, pelo consumismo que produz tédio e a indiferença ou o pansexualismo pagão” (DP 469). O que não é assumido não é redimido, diz a teologia clássica. 94. A religiosidade popular se mantém junto às tendências secularizadoras. Isso é motivo de esperança e caminho de evangelização para a Igreja. 4. Nova religiosidade 95. Aparecem em toda a América novos movimentos religiosos, influenciados pela Nova Era: gnosticismo e religiões orientais, que enfatizam a espiritualidade intimis- ta e geram separação entre vida privada e social, apesar de alguns que aderem ao pacifismo e ao ambientalismo de forma pouco concreta. São flexíveis na doutrina e na moral. Embora grande parte desses grupos é apresentada como reação contra a secularização em seu desenvolvimento e surgimento, vários fatores se cruzam:
  • 38. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 37 a resposta à sede espiritual, procura do significado da vida, falta de espiritualidade e de misticismo de parte da Igreja. 5. Tradições religiosas indígenas 96. Hoje assistimos à redescoberta e à valorização das tradições religiosas indíge- nas. A teologia ‘índia’ cristã procura articular precisamente as tradições religiosas cristãs com essas tradições. O indígena tem sua cosmovisão religiosa. Há unidade entre o religioso, o cultural e o social. Ele vive permanentemente na presença do divino. Ele vive em um mundo encantado. Há os espíritos das montanhas, dos vales, das águas. Os ancestrais estão presentes nos momentos importantes da vida familiar e comunitária. A terra não é o bem que eles têm, mas a mãe que nos alimenta. O divino tudo permeia. 97. Os mitos permitem aos povos indígenas expressar sonhos, visões e ideias de Deus. Os mitos são formas de conhecimento e de comunicação: “A lógica do pensamento mítico nos pareceu tão exigente como aquela sobre a qual repousa o pensamento positivo; e, no fundo, pouco diferente... no pensamento mítico e no científico opera a mesma lógica... O homem pensou sempe igualmente bem” (Levy-Strauss, C., Antropologia Estrutural, p. 68). 98. Os ritos são celebração vital do mito. No rito se vive, se comemora e se celebra o sentido vital, cósmico, humano e transcendente que o mito busca para a humani- dade. O rito dá aos participantes a experiência de curar, pertencer, reconciliar, unir, viver, espiritualizar-se e transcender-se. 6. Secularismo 99. Já o Concílio Vaticano II advertia para a possibilidade de que a autonomia do temporal, mal entendida, levasse ao secularismo ou ao ateísmo: “Se com as palavras ‘autonomia das realidades temporais’ se entende que as criaturas não dependem de Deus e que o homem pode usar delas sem as ordenar ao Criador, ninguém que acredite em Deus deixa de ver a falsidade de tais afirmações” (GS 36). 100. O Instrumento de Trabalho do Sínodo sobre a Nova Evangelização chama a atenção para o tom fraco assumido pela secularização que invade a vida cotidiana das pessoas e desenvolve uma mentalidade na qual Deus está de fato ausente. No todo ou em parte sua própria existência depende da consciência humana: “A morte de Deus anunciada nos decênios passados por tantos intelectuais deu lugar a uma estéril mentalidade hedonista e consumista, que conduz a formas muito
  • 39. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 938 superficiais de afrontar a vida e as responsabilidades... Assiste-se a uma recusa prática da questão de Deus nas perguntas que o ser humano se coloca. As respos- tas à necessidade religiosa assumem formas de espiritualidade individualista ou formas de neopaganismo, ao ponto de se impor um ambiente geral de relativismo” (Sínodo 2012, Instrumento de Trabalho, 53). 101. Um secularismo (ateismo teórico) estrito na América Latina é excepcional. O que é evidente é a idolatria que pretende crer ao mesmo tempo no verdadeiro Deus, dando culto aos falsos deuses do ter, do poder e do prazer. A separação entre a fé e a vida pessoal e pública é um drama entre nós. A indiferença ganha terreno. O DESAFIO DO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO 102. O pluralismo religioso levanta a necessidade de um diálogo inter-religioso. Diálogo imperativo e inadiável para estabelecer uma base segura de paz e afastar o espectro funesto das guerras, promover aproximação teórica e, acima de tudo, colaboração nas causas nobres. Trata-se de um diálogo difícil que requer respeito, paciência, e que nunca substitui o anúncio explícito de Jesus Cristo. Trata-se de um diálogo que é perpétuo equilíbrio entre a busca de caminhos de colaboração com outros crentes, especialmente em defesa da vida e da luta contra o materia- lismo e a luta para evitar o mero sincretismo. O diálogo parte daquilo que é comum às religiões: cuidado pela vida, comportamento ético elementar, centralidade do amor, figuras éticas exemplares e definição do sentido último.
  • 40. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 39 PARA A REFLEXÃO A NÍVEL PESSOAL: 1. Como você vive a interculturalidade em sua reali- dade pessoal? 2. Em sua ação pastoral tem em conta os elementos culturais? 3. Como experimenta seu ser discípulo missionário no mundo secularizado em que vivemos? A NÍVEL COMUNITÁRIO: 1. Em nossa pastoral missionária há suficientes esfor- ços para partir das realidades culturais as quais fomos chamados a evangelizar? 2. Que relação poderia ser estabelecida entre secu- larização e descristianização em nosso continente? Como evangelizar, hoje, em um mundo secularizado? 3. Como avançar no diálogo com as religiões e as no- vas religiosidades?
  • 41. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 940 CAPÍTULO III ILUMINAÇÃO TEOLÓGICA
  • 42. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 41 CAPÍTULO III ILUMINAÇÃO TEOLÓGICA A. INCULTURAÇÃO, INTERCULTURALIDADE E EVANGELIZAÇÃO 103. Os critérios de iluminação da realidade pluricultural e em processo de secula- rização à qual a Igreja responde com uma evangelização inculturada e intercultural e uma evangelização da cultura, encontra a sua fonte de inspiração nos mistérios da Encarnação, Páscoa e Pentecostes. O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei” (Gl 4,4). 104. O Filho de Deus tornou-se homem no seio da Virgem Maria e nas entranhas da cultura judaica. Jesus é verdadeiramente humano (nascido de mulher) e ver- dadeiro judeu (nascido da Lei). O Filho de Deus, em Jesus de Nazaré, se fez em tudo igual a nós, menos no pecado (Cf. Hb 4,15). Jesus de Nazaré pertence à cultura judaica: descende de antepassados (Cf. Genealogias), conhece o mundo camponês, professa a religião judaica (circuncisão, purificação de sua mãe, co- nhecimento das Escrituras, frequência ao templo e à sinagoga, observância do sábado, cumprimento da Lei, fala o aramaico, desenvolve sua vida pública na Galileia dos gentios). 105. Jesus, no entanto, adota uma atitude crítica em relação à sua cultura: “Ouvis- tes o que foi dito aos antigos... Ora, eu vos digo” (Mt 5,21 ss). Jesus critica os dois principais pilares da religião judaica: a Lei e o Templo. Ele questiona a religião que, em vez de libertar, escraviza: a Lei é feita para o homem e não o homem para a Lei. Ele vai se chocar com os líderes daquela sociedade teocrática que, finalmen- te, o condenará à morte. 106. Deus quis salvar-nos, porém não de cima e de fora, mas de dentro e de per- to. Salvou-nos na vida vivida integralmente, com sua irredutível pluriformidade. Salvou-nos a partir de uma vida vivida diante de Deus como seu Pai materno e com os seres humanos como irmãos e irmãs. 107. Em Jesus Cristo, o humano e o divino unem-se intimamente. Os santos pa- dres falavam da encarnação como de uma troca maravilhosa: Deus se faz como nós (humano) para que nós nos tornemos como ele (divinos). A Igreja deve fazer
  • 43. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 942 o mesmo. Deve assumir as culturas humanas para redimi-las a partir de dentro. O que não é assumido não é redimido, dizia acertadamente Santo Irineu. A encarna- ção não é apenas condição de possibilidade da revelação, mas imperativo de toda a evangelização. 108. A inculturação é imperativo teológico que deriva da exigência da mesma en- carnação. A Igreja deve encarnar-se nas culturas como Cristo se encarnou pro- fundamente na cultura judaica (Cf. AG 10). Entre Evangelho e cultura deve reali- zarse uma troca maravilhosa. A Igreja não pode ser estrangeira em nenhum lugar e deve, ao mesmo tempo, transcender as culturas particulares para expressar a unidade e a universalidade da fé que une os cristãos em um só batismo e um só Senhor (Cf. Ef 4). PÁSCOA E PENTECOSTES “Ide, pois, fazei discípulos todas as nações” (Mt 28,19). 109. Jesus tem de suportar e assumir uma morte injusta provocada historicamente por aqueles que rejeitaram sua proposta do Reino de Deus. A Páscoa mostra que a justiça de Deus, o perdão dos pecados e a plenitude passam pela purificação do sofrimento. Jesus assume a sua morte injusta como parte da obediência ao Pai, que faz parte da sua missão; assume os pecados e as injustiças do nosso mundo para nos redimir de tudo isso. O Pai, ao ressuscitá-lo, confirma a verdade de sua pessoa (era o Filho de Deus) e de sua atuação (estava certo no que disse e no que fez e, portanto, vale a pena continuar sua missão). 110. O mistério pascal universaliza a salvação de Jesus. Jesus não veio para salvar apenas os judeus, mas toda a humanidade. O INRI da cruz, escrito em he- braico, latim e grego, simboliza a salvação universal. Os Evangelhos da infância apresentam a mesma ideia com os pastores (representando os judeus) e os ma- gos (representando os demais povos). O Concílio de Jerusalém, em que é aceita a evangelização dos gentios (não judeus), é momento decisivo na história do cris- tianismo. A ressurreição mostra que a última palavra não é a morte, mas a vida. Por meio de uma injusta cruz, livremente aceita, Jesus perdoa os nossos pecados e nos torna filhos de Deus, homens e mulheres novos a caminho de novos céus e nova terra, onde habita a justiça. 111. A evangelização da cultura é baseada no crucificado ressuscitado. A par- tir da experiência da ressurreição “os evangelizadores purificam os sinais de morte presentes nas culturas e reforçam os seus sinais de vida”. A Igreja está empenhada em viver o Evangelho que há de ser fiel e corajosamente anuncia-
  • 44. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 43 do como boa nova aos homens de todos os tempos e culturas (Cf. Evangelium Vitae 1). 112. Em Pentecostes, cada um ouvia os apóstolos falarem em sua própria língua (Cf. At 2,6). Pentecostes mostra a necessidade da experiência do Espírito para en- tender em cada língua e em cada chave cultural as maravilhas de Deus. O Espírito fornece coragem, inteligência espiritual e criatividade para compreender, viver e anunciar nas diferentes culturas a Boa Nova da pessoa e da mensagem de Jesus. O verdadeiro dom do Espírito é transcender a língua dos ouvintes, ir além das situ- ações individuais e culturais, e projetar-se para uma universalidade que não nega as diferenças, mas as integra. 113. O Espírito Santo é poder de transcendência: “Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres fomos batizados num só Espírito, para formarmos um só corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1Cor 12,13). O Espírito nos leva para fora de nossa própria cultura e nos coloca em contato com outras culturas. Em Je- sus Cristo e pelo Espírito se realiza o plano do Criador, a unificação universal das culturas. O Espírito Santo, gerador de comunhão, nos impulsiona para a intercul- turalidade, para construir relações fraternas e igualitárias com todas as pessoas, grupos e culturas (Cf. Raúl Biord, Comentário ao documento de Evangelização da Cultura do Concílio Plenário da Venezuela, Trípode). 114. No Novo Testamento já aparece a inculturação da fé. Há cristãos que vêm do mundo judaico-cristão e cristãos que provêm do mundo grego. Há a maneira judaica de viver a fé cristã baseada no uso do Antigo Testamento, no cumprimento das leis e costumes, na sinagoga e na presença no templo. Alguns pensaram que para ser cristão precisaria ser judeu. São Paulo deixará claro que Jesus Cristo não veio apenas para os judeus, e que os não judeus (gentios) podem ser cristãos. 115. No Novo Testamento, encontramos um anúncio inculturado da pessoa e da obra salvadora de Jesus. Jesus Cristo é chamado de forma diferente em cada cul- tura. Os títulos cristológicos refletem a cristologia inculturada: em círculos judeus é chamado de “Filho do homem”; os judeus-cristãos ou helenistas o chamam de preferência de “Kyrios ou Senhor”. Os gregos o chamam de “Logos ou Verbo”. A existência de quatro Evangelhos mostra visões diferentes e inculturadas. Cada um deles surge de uma comunidade e todas complementam o evento Cristo. 116. No Novo Testamento também aparece claramente o papel dos apóstolos como evangelizadores da cultura. Em primeiro lugar evangelizam seus patrícios judeus e reconhecem os valores dessa cultura como a escuta da Palavra de Deus ou a oração, mas eles são críticos com aqueles que querem impor suas tradições
  • 45. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 944 culturais, como a circuncisão (Cf. At 15,1). São Paulo e uma infinidade de judeu- cristãos sairam da sua terra para evangelizar outros povos e culturas, viajando por toda a Ásia Menor, a Grécia, chegando ao coração do Império Romano (Cf. At 28,23-30). 117. O próprio Paulo de Tarso, conhecedor de várias línguas, serve como pon- te para pôr em contato cristãos de diferentes culturas. Para ele, toda cultura é igualmente válida para anunciar e viver o Evangelho. Assim, dirá que se faz tudo para ganhar todos para Cristo. Judeus, gregos, romanos são para ele fundamen- talmente iguais. A fé une as diferentes culturas. A comunidade de Corinto ajuda financeiramente à de Jerusalém. São Pedro, no encontro com o soldado romano Cornélio, descobre que Deus não faz diferença de pessoas, nem de culturas, e que a mensagem da salvação é dirigida a todos (Cf. At 10,34.35). B. SECULARIZAÇÃO, RELIGIOSIDADE POPULAR E NOVAS RELIGIOSIDADES 118. Os critérios de iluminação desta seção são: Jesus Cristo é o modelo de huma- nidade, Deus dota as coisas criadas de autonomia, e o Espírito Santo paira sobre todas as culturas e religiões, dando-lhe dons e valores. JESUS CRISTO, MODELO DE HUMANIDADE 119. Jesus Cristo é o homem perfeito, porque é o Filho de Deus encarnado. “Na realidade, o mistério do homem se esclarece verdadeiramente só no mistério do Verbo encarnado... Cristo, novo Adão, manifesta plenamente o homem a si mes- mo e descobre-lhe a sua vocação sublime” (GS 22). O ser humano é mais humano quanto mais unido a Deus. Assim, “Aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem”, ressalta o Vaticano II (GS 41). Jesus Cristo, a máxima união do humano e do divino, é o rosto humano de Deus e o rosto divino do ho- mem (Bento XVI). É, portanto, modelo de humanidade. Jesus é o homem novo, o novo Adão, Verbo encarnado é a plenitude do homem e medida de toda a conduta moral (Cf. SD 231). Jesus Cristo é o padrão absoluto da humanidade, não por ser representante especial de cultura particular, mas por sua plenitude humana, que supera infinitamente cada um dos seres humanos. Por isso, todos nos medimos por ele. AUTONOMIA DA CRIAÇÃO 120. Deus não é rival da autonomia criativa do homem. Deus criou o ser humano para que se humanizasse cada vez mais e fosse seu colaborador para a criação.
  • 46. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 45 Segundo a Gaudium et Spes (34), a atividade humana individual e coletiva, inclu- sive as tarefas diárias consideradas em si mesmas, correspondem ao propósito de Deus. O trabalho tem valor objetivo que o Concílio assim apresenta: 1) os homens e as mulheres com seu trabalho prolongam a obra do Criador... e dão contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história (Cf. GS 34, 2). Pelo trabalho, o ser humano colabora com Deus na criação do mundo; 2) por meio do trabalho, o ser humano não só transforma as coisas e a sociedade, mas aperfeiçoa a si mesmo (Cf. GS 35 e 57). 121. As realidades terrenas gozam de legítima autonomia: as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores, que refletem a vontade do criador. Por isso, tal autonomia deve ser reconhecida e respeitada: todas as coisas possuem consistência, verdade, bondade e leis próprias, que o homem deve respeitar, reco- nhecendo os métodos peculiares de cada ciência e arte. Por esta razão, a inves- tigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé, pois as realidades profanas e as da fé têm origem no mesmo Deus. A mão de Deus, pelo seu Espírito, guia para penetrar nos segredos da realidade. (Cf. GS 36) 122. A atividade humana não pode ser influenciada por interesses confessionais ou religiosos. No entanto, um saudável realismo alerta que o pecado pode trans- tornar a atividade humana e convertê-la em instrumento de destruição. O pro- gresso, que é bom em si mesmo, é ambivalente quanto ao uso que dele se pode fazer. Pode servir para a verdadeira felicidade dos homens ou pode transformar a atividade humana em instrumento de pecado (Cf. GS 37). 123. O Vaticano II estabeleceu que as atividades culturais e sociais, econômicas e políticas têm sua autonomia: a comunidade política pode servir à verdadeira felicidade humana, ou pode transformar em instrumento de pecado; a atividade e a autoridade pública se fundem na natureza humana, e, portanto, pertencem à ordem estabelecida por Deus (Cf. GS 74). ENCONTRO PESSOAL E COMUNITÁRIO COM JESUS 124. Se o cristianismo não é transmitido inculturadamente e se as regras impe- dem a existência de verdadeiros sujeitos humanos, somente um encontro decisivo com Jesus Cristo como fonte da existência pessoal pode levar cristãos adultos a serem capazes de resistir a pressões sociais e tornarem-se fonte de vida humana autêntica. As testemunhas irradiam a felicidade que vivem e se sentem enviadas a esse meio para dar a vida plena e feliz que Jesus nos veio trazer. As comunidades
  • 47. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 946 eclesiais são espelho do mundo justo e fraterno que se anseia e embrião desse povo fraternal. O verdadeiro discípulo é missionário e entende sua missão como dar vida abundante a seu povo e às culturas, como Jesus. PRIMEIRO ANÚNCIO OU QUERIGMA 124a. O anúncio do núcleo da fé cristã (Querigma) para provocar e revitalizar a fé se revela indispensável. É essencial experimentar Jesus Cristo como o Salvador que nos liberta de nossas escravidões, encontrar-se e reencontrar-se pessoalmen- te com ele, deixar que nos transforme em pessoas, comunidades e sociedades novas. “Somos amados e redimidos em Jesus, o Filho de Deus, o Ressuscitado, vivo no meio de nós. Por ele podemos ser livres do pecado, de toda a escravidão, e viver em justiça e fraternidade” (Bento XVI, Mensagem inaugural de Aparecida). O primeiro anúncio, ou querigma, é muito mais do que entusiasmo que comunica a lista básica de verdades bem trabalhadas: “o querigma é o anúncio do acon- tecimento de salvação que transforma a pessoa e o ambiente. Não se trata do anúncio de um acontecimento que, por ter já ocorrido, perdeu sua força salvadora, e sim de um que tem o poder de fazer-se libertação atual e real (Cf. Rm 6,4). Por essa razão, o mensageiro é o primeiro que proclama que ele está vivendo, que no nome de Jesus, no qual todas as nações colocam a sua esperança (Cf. Mt 12,21), são perdoados os pecados, e é criatura nova quem invoca Deus como seu Abba ou Pai” (Silva Retamales, S.AA.V, Kerygma, discipulado e missão, perspectivas atuais, São Paulo 2006, 44). SEMENTES DO VERBO NAS CULTURAS E RELIGIÕES 125. O Vaticano II nos diz que as coisas boas das culturas e das religiões são “se- mentes do Verbo”. A tese vem do filósofo São Justino (+165). O Verbo (o Filho de Deus) já estava presente na filosofia e ética dos filósofos gregos: “Todos os que viveram de acordo com o Logos são cristãos, embora fossem considerados ateus, como Sócrates, Heráclito, e outros... Os que em épocas passadas viveram sem razão (Logos) foram malvados e inimigos de Cristo, e assassinaram aqueles que viveram de acordo com a razão” (I Apologia 46). 126. O Vaticano II atualizou a tese das “sementes do Verbo”. Nas tradições reli- giosas não cristãs existem “coisas verdadeiras e boas” (OT 16), “coisas preciosas, religiosas e humanas” (GS 92), “os germes contemplativos” (AG 18), “elementos de verdade e de graça” (AG 9), “sementes do Verbo” (AG 11.15), “um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens” (NA 2). “A Igreja católica nada rejeita do que nessas culturas é verdadeiro e santo. Ela olha com reverência sincera esses modos de trabalhar e de viver, os preceitos e doutrinas que, embora diferentes em
  • 48. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 47 muitos pontos daquilo que ela professa e ensina, no entanto, não poucas vezes refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens” (NA 2). 127. O documento de Santo Domingo aplica a teoria de São Justino aos povos in- dígenas latino-americanos: “A presença criadora, providente e salvadora de Deus acompanhava a vida desses povos. As sementes do Verbo presentes no profundo sentido religioso das culturas pré-colombianas esperavam o orvalho fecundo do Espírito” (SD 17). Hoje, os indígenas cultivam valores humanos de grande impor- tância, como a persuasão de que o mal se identifica com a morte e o bem com a vida. Valores e crenças fruto das sementes do Verbo já presentes e que operavam sobre seus antepassados para descobrir a presença do Criador em todas as suas criaturas: o sol, a lua, a mãe terra etc. (Cf. SD 245). A GRAÇA DO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO 128. Jesus elogiou a fé da mulher cananeia (Cf. Mt 15, 21-28) e de um centurião romano (Cf. Mt 8,5-13). Ele demonstrou abertura e diálogo com pessoas que ti- nham outras crenças religiosas, como se vê no diálogo com a mulher samaritana (Cf. Jo 4, 1-42). 129. Pelo sopro do Espírito Santo e outros meios conhecidos por Deus, a graça de Cristo pode alcançar todos os que ele redimiu, além da comunidade eclesial; no entanto, de modo diferente. (Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Diálogo e anúncio - cit. por DA 236). Explicitar e promover a salvação operante no mundo é parte da tarefa da Igreja para testemunhar até os confins da terra (Cf. At 1,8). MARIA, DISCÍPULA MISSIONÁRIA 130. A Virgem Maria é a crente por excelência. Por isso o Evangelho a chama bem-aventurada. Ela é a amada de Deus (cheia de graça) e cooperadora especial na redenção (serva do Senhor). Ela é a máxima realização da existência cristã como um viver trinitário de “filhos no Filho” (Cf. DA 266). Ela é a imagem mais completa e mais fiel do seguimento de Cristo. Ela é missionária, continuadora da missão do Filho e formadora de missionários. 131. A religiosidade popular, especialmente a devoção mariana, foi um vínculo de união dos povos americanos, contribuindo para nos fazer mais conscientes de nossa comum condição de filhos de Deus e de nossa dignidade comum diante de seus olhos, apesar das diferenças sociais, étnicas ou de qualquer outro tipo (Cf. DA 37).
  • 49. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 948 PARA A REFLEXÃO A NÍVEL PESSOAL: 1. Que significa para a minha vida pessoal o fato de Deus ter se feito pessoa humana em Jesus? 2. A que me convida a dinâmica da Encarnação do Verbo (Jesus)? Como assumo a vida de todos os dias na qual me realizo? 3. Deixo ecoar em minha vida concreta o “ide pelo mundo inteiro” (Mc 16,15)? 4. Como coopero na evangelização do mundo? A NÍVEL GRUPAL: (O trabalho em grupo deve ser contextualizado con- forme a procedência dos membros, tendo em conta o tipo de grupo paroquial, comunitário ou educativo). 1. Reconhecemos as diversidades culturais em nosso meio? Quais? Que tratamento damos a elas? 2. A forma como desenvolvemos a evangelização tem em conta o contexto cultural dos participantes? 3. Que podemos fazer para introduzir uma dinâmica mais querigmática em nossa maneira de fazer mis- são? 4. Quais intercâmbios culturais poderíamos gerar em nossas comunidades para fortalecer a evangelização?
  • 50. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 49 CAPÍTULO IV PROPOSTAS PASTORAIS
  • 51. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 950 CAPÍTULO IV PROPOSTAS PASTORAIS A. DESAFIOS 132. Com o coração agradecido a Deus que nos permitiu lançar um olhar sobre a realidade, com olhos de fé, e sua consequente iluminação, guiados pelo Espírito, apontamos alguns desafios que sirvam de estímulo em nossa ação pastoral. 133. Desafio 1: O encontro com Cristo deve provocar em cada discípulo missio- nário a conversão individual, e na comunidade eclesial as mudanças pastorais e estruturais que nos levem a um anúncio urgente e corajoso do Evangelho em todos os lugares. 134. Desafio 2: A diversidade de culturas exige que a Igreja aposte decididamente na inculturação do Evangelho e da Igreja, para que ela adquira um rosto próprio e assim a evangelização entre na alma das culturas, e estas encontrem sua expres- são no Evangelho. 135. Desafio 3: Trabalhar para o efetivo reconhecimento das culturas e o diálogo sincero entre elas, a fim de construir comunidades nacionais abertas para a inte- gração latino-americana, americana e mundial, na Justiça, na Solidariedade e na Paz. 136. Desafio 4: Em nosso mundo atual coexiste uma realidade secularizada, que aceita a Deus em seu imaginário coletivo, porém na prática vive sem Ele, com uma sede de Deus por parte de muitas pessoas, que encontram nas religiões uma mediação para serem saciadas. Essa realidade complexa exige que a Igreja adentre no mundo secularizado para evangelizá-lo e dialogar com as religiões ali presentes. 137. Desafio 5: O CAM 4 - Comla 9 deve ajudar as Igrejas de nosso Continente a renovar seu compromisso missionário além de suas fronteiras e promover uma melhor animação e cooperação, que inclua o envio e a manutenção de missioná- rios americanos na Missão Universal, especialmente diante do imenso desafio da missão na Ásia. B. LINHAS DE AÇÃO 138. Diante desses desafios, definimos umas linhas de ação ou propostas pasto-
  • 52. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 51 rais para a Igreja na América, a serem discutidas, completadas e encaminhadas no CAM 4 - Comla 9: Quanto ao desafio 1: Uma evangelização profética e querigmática 139. Iniciar experiências de conversão pastoral; 140. Promover a criação de pequenas comunidades em torno da Palavra de Deus; 141. Usar os meios de comunicação social e as novas tecnologias no anúncio do Evangelho; 142. Anunciar corajosa e organizadamente o Evangelho em todos os ambientes, especialmente aos batizados afastados da Igreja, aos indiferentes e aos que não acreditam; 143. Programar o anúncio do querigma durante um período de tempo, nos tempos fortes. 144. Renovar a opção preferencial pelos pobres, empenhar-se nas transforma- ções sociais, defender e promover os direitos humanos e a ecologia. Quanto ao desafio 2: Inculturação do Evangelho 145. Reforçar a própria identidade cultural frente à ação avassaladora da cultura globalizada, especialmente sobre as etnias indígenas e afro-americanas; 146. Criar novos ministérios dentro das igrejas particulares e promover as voca- ções locais, especialmente nas comunidades indígenas e afro-americanas; 147. Valorizar e evangelizar a religiosidade popular; 148. Assumir as exigências de uma evangelização inculturada na formação dos agentes de pastoral e na formação presbiteral. 149. Promover e fortalecer experiências de inculturação na Liturgia, na Catequese e na Pastoral Juvenil; Quanto ao desafio 3: Evangelização intercultural 150. Tomar consciência da diversidade cultural, denunciar as desigualdades entre as culturas e promover a interculturalidade em todos os níveis: vida da comunida-
  • 53. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 952 de, educação, propostas sociais e políticas; 151. Diversificar as propostas pastorais conforme as culturas existentes; 152. Promover o diálogo entre as culturas, como expressão de fraternidade e so- lidariedade; 153. Alocar pessoal para a pastoral da mobilidade humana. Quanto ao desafio 4: Evangelização de um mundo em processo de seculari- zação e o diálogo inter-religioso 154. Educar, a partir da família e da catequese, ao valor da autonomia da criatura no plano de Deus e da responsabilidade da pessoa na criação; 155. A partir do uso das novas tecnologias de comunicação, evangelizar o mundo secularizado que tende a prescindir de Deus ou faz propostas contrárias ao Evan- gelho através do discernimento e da aprendizagem de novas linguagens; 156. Aliar-se a instituições e grupos de não crentes que se preocupam com a cria- ção de condições de vida mais humana; 157. Favorecer o diálogo inter-religioso e de colaboração entre os membros das diferentes religiões em favor do bem comum, da justiça e da paz; 158. Continuar a aprofundar a Teologia Índia para articular adequadamente as tradições religiosas indígenas com a fé cristã. Quanto ao desafio 5 - Animação missionária e missão ad gentes 159. Favorecer a reflexão que permita a reconstrução de um novo modelo de mis- são no e a partir do Continente Americano; 160. Formar, capacitar e incluir os leigos na ação pastoral da Igreja para dar-lhes maior participação na ação missionária; 161. Fortalecer o Conselho Missionário Nacional, com a participação das igrejas locais, planejando coletivamente a cooperação missionária; 162. Enviar presbíteros e leigos além fronteiras;
  • 54. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 53 163. Formar e capacitar em Missiologia todos os setores da Igreja, em especial os seminaristas; 164. Promover e fortalecer a comunicação entre Diretores das POM para incenti- var intercâmbios missionários; 165. Fazer acordos entre o Celam e as Conferências Episcopais dos EUA e Cana- dá para iniciar um projeto de missão da América para outros continentes.
  • 55. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 954 PARA A REFLEXÃO A NÍVEL PESSOAL: 1. Que compromisso gostaria assumir depois da reali- zação do CAM 4 - Comla 9? 2. Com qual dos desafios me identifico mais profun- damente? A NÍVEL GRUPAL: 1. Quais opções oferecidas pelo “Instrumento de Par- ticipação” nos dão pistas para reorientar nossa ativi- dade missionária? 2. Quais recursos devemos disponibilizar para sua im- plementação? 3. Quais indivíduos e organizações devem ser empe- nhados neste processo de animação missionária? 4. Como podemos aprofundar a nossa cooperação missionária?
  • 56. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 55 A MODO DE CONCLUSÃO
  • 57. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 956 A MODO DE CONCLUSÃO 166. Em nossas Igrejas predomina uma pastoral de conservação que não dá res- postas às angústias e esperanças, tristezas e alegrias de nossos povos. Se faz a mesma coisa em todos os lugares, sem ter em conta a variável cultural. Os tem- pos estão mudando, mas nós continuamos apegados a concepções, métodos e expressões envelhecidos e anacrónicos. 167. O Mestre nos lembra que “vinho novo em odres novos” (Mc 2,22). Ele não é apenas o Bom Pastor, mas o missionário do Pai. Ele nos propõe um método missionário: vai caminhando, vai mais além. Ele não se encontra com as pessoas na igreja, mas nas ruas, na vida cotidiana. Esquecemos o “Ide” e ficamos no “Ve- nham”. Faz falta uma pastoral de itinerância e de encontro em um processo pascal de conversão e de renovação. “Rabi, onde moras?...Vinde e vede!” Foram, viram onde morava e ficaram com ele aquele dia” (Jo 1,28-29). Devemos ser discípulos missionários que vão ao encontro do mundo, respondendo de forma criativa e dinâmica. A pregação – com a palavra e o exemplo – produz a fé. Uma chama acende outra chama. Esta fé não é para uso pessoal, mas para ser partilhada. 168. Devemos retornar ao anúncio de Jesus, redescobrir seu amor, sua compai- xão, seu olhar, seus gestos, seu modo de tratar. O estilo de Jesus nos diz que o centro do amor missionário está no outro, que tem que crescer, alcançar a pleni- tude e salvar-se. Ele nos pede que sejamos discípulos missionários, que demos vida, e vida abundante, aos nossos povos. 169. Somos chamados a ser pessoas e comunidades maduras (Cf. RM 33) no fervor, no testemunho e no compromisso missionário universal (Cf. DA 199-200) para potenciarmos todas as pastorais. 170. A missão não é apenas uma dimensão da Igreja. É elemento constitutivo da fé. A fé é uma missão: a missão de continuar a missão de Jesus de forma seme- lhante aos discípulos, quando experimentaram a ressurreição e a vinda do Espírito em Pentecostes. O Espírito Santo é o protagonista da missão. Se nos deixarmos mover por ele, encontraremos a maneira de atualizar e reformular a proposta de Jesus em um mundo pluricultural e secularizado. 171. Um cristianismo de grandes concentrações e emoções revela-se insuficiente. É preciso um cristianismo do “dia seguinte”, que implica perseverança, silêncio e martírio, para produzir uma nova primavera de fé, compromisso e vocações mis- sionárias.
  • 58. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 57 172. A América Missionária se enche de entusiasmo, coragem e criatividade, e se lança a compartilhar a sua fé: Vamos, pois, façamos discípulos todas as nações (Cf. Mt 28,19). Que este Congresso Americano seja para todos e para cada um de nós um Pentecostes, que nos lance a compartilhar nossa fé em Jesus Cristo em cada um de nossos países e além deles.
  • 59. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 958 GLOSSÁRIO
  • 60. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 59 GLOSSÁRIO CULTURA: “Maneira particular como em determinado povo os seres humanos cultivam sua relação com a natureza, suas relações entre si próprios e com Deus” (DP 386). “Conhecimento total, todas as noções de crenças, usos, costumes e normas (cultura espiritual), mas também todas as técnicas herdadas para reso- lução de problemas práticos e o equipamento técnico de uma sociedade (cultura material)” (Dicionário de Antropologia Cultural, Riudero ). Elementos da cultura: conhecimento, crenças, ideologias, símbolos, normas, técnicas, padrões de ativi- dade, valores e atitudes. INCULTURAÇÃO: “Inserir a fé cristã na alma de uma cultura para que seja as- similada e exopressada por essas culturas de modo próprio e original e se torne dimensão fundamental da sua vida e pensamento” (Vandrame). PLURICULTURALIDADE: existência e coexistência de diferentes culturas, geral- mente em relações desiguais. INTERCULTURALIDADE: “Comunicação simétrica, interação harmônica e intera- ção dinâmica de diferentes culturas, filosofias, teologias, conceitos morais, siste- mas jurídicos, formas de pensar, estilos de vida e comportamentos, em um clima de diálogo entre iguais e sem hierarquizações prévias” (Juan José Tamayo, Outra teologia possível, 171). “Em um sentido amplo, refere-se às relações humanas, grupos, instituições e outros produtos de todos os tipos (materiais, sociais, sim- bólicos, valores, rituais etc.) aprendidos, socialmente transmitidos e modificados” (Javier Albo). SECULARIZAÇÃO: o termo se relaciona com o processo de transformação ex- perimentado por sociedades em processo de modernização. Nesse processo, a religião e suas instituições perdem influência sobre a sociedade e repensam sua função integradora e legitimadora. “Processo ou série de processos que ocorrem na transição das sociedades para o estabelecimento do Estado moderno... passa- -se de uma situação de monopólio a uma situação de concorrência. Os símbolos religiosos perdem sua capacidade social de coagir que anteriormente possuiam e se vêm remetidos a seu poder de persuasão... A progressiva diferenciação de racionalidades específicas (econômica, política científica) produzidas pela mo- dernização retira sua aura sagrada a instituições e realidades sociais, que antes apareciam englobadas e sancionadas pela religião” (J. Martinez Cortes). PÓS-MODERNIDADE: “O termo designa geralmente grande número de movimen- tos artísticos, culturais, literários e filosóficos do século XX, definidos em vários
  • 61. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 960 graus e formas, pela sua oposição ou superação das tendências da era moderna... o pós-modernismo defende a hibridação, a cultura popular, a descentralização da autoridade intelectual e científica e a desconfiança das grandes narrativas” (Wiki- pedia). As “grandes narrativas” são o iluminismo, o marxismo, o capitalismo oci- dental, o nazismo, o cristianismo. Segundo os teóricos da pós-modernidade, deve- -se ter cuidado com elas, porque não podem pretender nenhuma objetividade, e porque antes ou depois apelam para o terror para impor-se. Na pós-modernidade a estética substitui a ética. Se não viemos do nenhum lugar e não vamos a lugar nenhum, somos como um viajante sem bússola. O hedonismo ocupa o lugar da moral; o prazer da boa mesa, o gozo sexual, a aparência juvenil no traje, as férias de luxo. Tem que viver o dia presente e passar bem. PRIVATIZAÇÃO: redução da fé à esfera privada, sem impacto na vida pública. De acordo com a pós-modernidade, na vida privada está a única felicidade que o ser humano pode alcançar. RELATIVISMO ÉTICO: “Teoria que afirma que de nada se pode dizer que é abso- lutamente bom ou mau. A bondade ou a maldade de algo dependem das circuns- tâncias, condições ou momentos” (Dicionário de Filosofia, Ariel, 1994). MISSÃO AD GENTES: anúncio do Evangelho a pessoas, grupos, povos e culturas que não acreditam em Jesus Cristo. NOVA EVANGELIZAÇÃO: “Ato de renovada assunção, por parte da Igreja, do mandado missionário do Senhor Jesus Cristo, que a quis e a enviou para o mundo para que se deixe guiar pelo Espírito Santo para testemunhar a salvação recebida e para anunciar o rosto de Deus Pai, primeiro artífice desta obra de salvação” (Sí- nodo 2012, Instrumento de Trabalho, 79).
  • 62. Instrumento de Participação CAM 4 – Comla 9 61 Notas
  • 63. América Missionária Partilha tua fé Oração do CAM 4 - Comla 9 Senhor Jesus Cristo, vivo e presente no meio de nossos povos e em nossas igrejas locais; Tu, que nos tens chamado por meio do Evangelho para viver um encontro decisivo contigo, como filhos do Pai e irmãos de todos; pedimos que a tua graça nos assista neste CAM 4 - Comla 9. Faze que, unidos na oração e na missão, sejamos os discípulos que envias para levar tua palavra a outros povos e os profetas que colaboram para descobrir novos sinais de tua presença. Pedimos isso a ti que vives, reinas e dás vida às nossas igrejas, na unidade do Pai e do Espírito Santo, implorando a intercessão de Maria, Mãe da América. Amém.