Conto sophia noite.natal_total

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Conto sophia noite.natal_total

  1. 1. Noite de Natal Sophia de Mello Breyner Andresen
  2. 2. O amigo
  3. 3. <ul><li> Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta. </li></ul><ul><li> No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito </li></ul><ul><li>antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do </li></ul><ul><li>cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus </li></ul><ul><li>fazia muitas casas pequenas encostadas ao tronco escuro. </li></ul>
  4. 4. <ul><li>Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. </li></ul><ul><li>E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões. </li></ul>
  5. 5. <ul><li>Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. </li></ul><ul><li>E , às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim. </li></ul><ul><li>E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha. </li></ul>
  6. 6. <ul><li>Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro. </li></ul><ul><li>Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono. </li></ul><ul><li>O coração de Joana deu um pulo na garganta. </li></ul>
  7. 7. <ul><li>-Ah! – disse ela. </li></ul><ul><li>E pensou: </li></ul><ul><li>“ Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.” </li></ul><ul><li>E do alto do muro chamou-o: </li></ul><ul><li>- Bom dia! </li></ul><ul><li>O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu: </li></ul><ul><li>-Bom dia! </li></ul><ul><li>Ficaram os dois um momento calados. </li></ul>
  8. 8. <ul><li>Depois Joana perguntou: </li></ul><ul><li>- Como é que te chamas? </li></ul><ul><li>- Manuel – respondeu o garoto. </li></ul><ul><li>-Eu chamo-me Joana. </li></ul><ul><li>E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. </li></ul><ul><li>Até que o garoto disse: </li></ul><ul><li>- O teu jardim é muito bonito. </li></ul><ul><li>- É, vem ver. </li></ul><ul><li>Joana desceu do muro e foi abrir o portão. </li></ul>
  9. 9. <ul><li>E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. </li></ul><ul><li>E chamou os cães para ele os conhecer. E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores. </li></ul>
  10. 10. <ul><li>- É lindo, é lindo – dizia o rapazinho gravemente. </li></ul><ul><li>- Aqui – disse Joana – é o cedro. É aqui que eu brinco. </li></ul><ul><li>E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro. </li></ul><ul><li>A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. </li></ul><ul><li>Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar. Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a construir a casa do rei dos anões. Brincaram assim durante muito tempo. Até que ao longe apitou uma fábrica. </li></ul>
  11. 11. <ul><li>- Meio-dia – disse o garoto -, tenho de me ir embora. </li></ul><ul><li>- Onde é que tu moras? </li></ul><ul><li>- Além nos pinhais. </li></ul><ul><li>- É lá a tua casa? </li></ul><ul><li>- É, mas não é bem uma casa. </li></ul><ul><li>- Então? </li></ul><ul><li>- O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa. </li></ul><ul><li>- Mas à noite onde é que dormes? </li></ul><ul><li>- O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também. </li></ul><ul><li>- E onde é que brincas? </li></ul><ul><li>- Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as flores. Pode-se brincar em toda a parte. </li></ul>
  12. 12. <ul><li>- Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para brincar comigo. </li></ul><ul><li>E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro. </li></ul><ul><li>Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra </li></ul><ul><li>redonda do cedro. </li></ul><ul><li>E foi assim que Joana encontrou um amigo. </li></ul><ul><li>Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as </li></ul><ul><li>suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha. </li></ul>
  13. 13. A festa
  14. 14. <ul><li>Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal. E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada. </li></ul><ul><li>Quando chegou ao andar de baixo, ouviu vozes na sala grande ; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos . </li></ul>
  15. 15. <ul><li>Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos . Era como o interior de uma caverna cheia de maravilhas, e segredos. Estavam lá fecha das muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas. </li></ul>
  16. 16. <ul><li>Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas. </li></ul><ul><li>No dia de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas. </li></ul><ul><li>Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. </li></ul><ul><li>As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa. Era o Natal. </li></ul>
  17. 17. <ul><li>Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes. </li></ul><ul><li>Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos. </li></ul><ul><li>E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas. </li></ul>
  18. 18. <ul><li>Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. </li></ul><ul><li>Olhava a imensa felicidade da noite no alto escuro e luminoso, sem nenhuma sombra. </li></ul><ul><li>Depois voltou para casa e fechou a porta . </li></ul><ul><li>- Ainda falta um bocadinho, menina – disse a criada. </li></ul><ul><li>Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira. Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia. </li></ul>
  19. 19. <ul><li>As luzes eléctricas estavam apagadas. </li></ul><ul><li>Só ardiam as velas do pinheiro. </li></ul><ul><li>Joana tinha nove anos e já tinha visto nove ve - </li></ul><ul><li>zes a árvore do Natal. Mas era sempre como se </li></ul><ul><li>fosse a primeira vez. </li></ul><ul><li>Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que </li></ul><ul><li>pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho </li></ul><ul><li>de uma estrela se tivesse aproximado da Terra.Era </li></ul><ul><li>o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes </li></ul><ul><li>e os seus ramos se carregavam de extraordiná - </li></ul><ul><li>rios frutos em memória da alegria que, numa noite </li></ul><ul><li>muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra. </li></ul><ul><li>E no presépio as figuras de barro, o Menino, a </li></ul><ul><li>Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam con- </li></ul><ul><li>tinuar uma doce conversa que jamais tinha sido in- </li></ul><ul><li>terrompida. Era uma conversa que se via e não se </li></ul><ul><li>ouvia. </li></ul><ul><li>A Joana olhava, olhava, olhava. </li></ul><ul><li>Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. </li></ul>
  20. 20. <ul><li>A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Na - </li></ul><ul><li>tal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito </li></ul><ul><li>recheado, já estava toda doirada. </li></ul><ul><li>- Gertrudes, ouve uma coisa – disse Joana. </li></ul><ul><li>A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus. </li></ul><ul><li>- O que é? – perguntou ela. </li></ul><ul><li>- Que presentes é que achas que eu vou ter? </li></ul><ul><li>- Não sei – disse Gertrudes -, não posso adivinhar. </li></ul><ul><li>Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso conti- </li></ul><ul><li>nuou a fazer perguntas. </li></ul><ul><li>- E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes? </li></ul><ul><li>- Qual amigo? – disse a cozinheira </li></ul>
  21. 21. <ul><li>- O Manuel. </li></ul><ul><li>- O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns. </li></ul><ul><li>- Não vai ter presentes nenhuns!? </li></ul><ul><li>- Não – disse a Gertrudes abanando a cabeça. </li></ul><ul><li>- Mas porquê, Gertrudes? </li></ul><ul><li>-Porque é pobre. Os pobres não têm presentes. </li></ul><ul><li>- Isso não pode ser, Gertrudes. </li></ul><ul><li>Mas é assim mesmo – disse a Gertrudes fechando a tampa do forno. </li></ul><ul><li>Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era “assim mesmo”. </li></ul><ul><li>Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens. </li></ul><ul><li>Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha. </li></ul><ul><li>De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse: </li></ul><ul><li>Já chegaram os primos. </li></ul><ul><li>Então Joana foi ter com os primos. </li></ul>
  22. 22. <ul><li>Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa. </li></ul><ul><li>Tinha começado a festa do Natal. Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. </li></ul><ul><li>Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doira - </li></ul><ul><li>das. E as pessoas riam e diziam umas às outras: “Bom Natal”. Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana </li></ul><ul><li>pensava: </li></ul><ul><li>- Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes. </li></ul><ul><li>E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes. </li></ul><ul><li>O jantar de Natal era igual ao de todos os anos. </li></ul><ul><li>Primeiro veio na canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases. </li></ul><ul><li>No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala. </li></ul>
  23. 23. <ul><li>Um dos Primos puxou-a por um braço. </li></ul><ul><li>- Joana, ali estão os teus presentes. </li></ul><ul><li>Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a </li></ul><ul><li>bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas. </li></ul><ul><li>À sua volta todos riam e conversavam. </li></ul><ul><li>Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, </li></ul><ul><li>falando ao mesmo tempo. </li></ul><ul><li>E Joana pensava: </li></ul><ul><li>- Talvez o Manuel tenha tido um automóvel. </li></ul><ul><li>E a festa continuava. </li></ul><ul><li>As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a </li></ul><ul><li>conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar. </li></ul><ul><li>Até que alguém disse: </li></ul><ul><li>- São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas </li></ul><ul><li>de as crianças se irem deitar. </li></ul><ul><li>Então as pessoas começaram a sair. </li></ul><ul><li>O pai e a mãe de Joana também saíram. </li></ul><ul><li>- Boa noite, minha querida. Bom Natal – disseram eles. </li></ul><ul><li>E a porta fechou-se. </li></ul>
  24. 24. <ul><li>Daí a um instante saíram as criadas. </li></ul><ul><li>A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar as panelas. </li></ul><ul><li>E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes. </li></ul>
  25. 25. <ul><li> - Bom Natal, Gertrudes – disse Joana. </li></ul><ul><li>- Bom Natal – respondeu a Gertrudes. </li></ul><ul><li>Joana calou-se um momento. Depois perguntou: </li></ul><ul><li>- Gertrudes, aquilo que disseste antes de jantar é verdade? </li></ul><ul><li>- O que é que eu disse? </li></ul><ul><li>- Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes. </li></ul><ul><li>- Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza. </li></ul><ul><li> - Mas então o Natal dele como foi ? </li></ul><ul><li> - Foi como nos outros dias. </li></ul><ul><li>- E como é nos outros dias? </li></ul><ul><li>- Uma sopa e um bocado de pão. </li></ul><ul><li>- Gertrudes, isso é verdade? </li></ul><ul><li>- Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite. </li></ul><ul><li>- Boa noite – disse Joana. </li></ul><ul><li>E saiu da cozinha. </li></ul>
  26. 26. <ul><li>Subiu as escadas e foi para o seu quarto. Os seus pre - </li></ul><ul><li>sentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os </li></ul><ul><li>um por um. E pensava: </li></ul><ul><li>- Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. </li></ul><ul><li>São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o </li></ul><ul><li>que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada. </li></ul><ul><li>E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, </li></ul><ul><li>Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se </li></ul><ul><li>a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem </li></ul><ul><li>uma casa, mas um curral de animais. </li></ul><ul><li>“ Que frio lá deve estar!”, pensava ela. </li></ul><ul><li>“ Que escuro lá deve estar!”, pensava ela. </li></ul><ul><li>“ Que triste lá deve estar!”, pensava. </li></ul><ul><li>E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma </li></ul><ul><li>luz onde Manuel dormia em cima de palhas, aquecido só </li></ul><ul><li>pelo bafo de uma vaca e de um burro. </li></ul><ul><li>- Amanhã vou dar-lhe os meus presentes – disse ela. </li></ul><ul><li>Depois suspirou e pensou: </li></ul><ul><li>“ Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de </li></ul><ul><li>Natal. ” </li></ul>
  27. 27. <ul><li>Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros esprei- </li></ul><ul><li>tou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria </li></ul><ul><li>na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: </li></ul><ul><li>era o pinhal. </li></ul><ul><li>Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as </li></ul><ul><li>doze pancadas da meia-noite. </li></ul><ul><li>“ Hoje”, pensou Joana, “tenho de ir hoje. Tenho de ir lá </li></ul><ul><li>agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de </li></ul><ul><li>Natal. ” </li></ul><ul><li>Foi ao armário tirou o casaco e vestiu-o. Depois pegou na </li></ul><ul><li>bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a </li></ul><ul><li>boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de </li></ul><ul><li>bonecas. </li></ul><ul><li>Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um </li></ul><ul><li>por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a </li></ul><ul><li>arrumar as panelas e não a ouviu. Na sala de jantar havia uma </li></ul><ul><li>porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a </li></ul><ul><li>ficar só fechada no trinco. </li></ul><ul><li>Depois Atravessou o jardim. O Alex e a Chibita ladraram. </li></ul><ul><li>- Sou eu, sou eu – disse Joana. </li></ul><ul><li>E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se. </li></ul><ul><li>Então Joana abriu a porta do jardim e saiu. </li></ul>
  28. 28. A estrela
  29. 29. <ul><li>Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As </li></ul><ul><li>árvores pareciam enormes e os seus ramos e folhas enchiam o céu de desenhos </li></ul><ul><li>iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àque- </li></ul><ul><li>la hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, </li></ul><ul><li>dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam </li></ul><ul><li>pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a </li></ul><ul><li>olhavam e a ouviam como pessoas. </li></ul><ul><li>“ Tenho medo”, pensou ela. </li></ul><ul><li>Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada. </li></ul><ul><li>Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois </li></ul><ul><li>muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos. Ali, sem mu - </li></ul><ul><li>ros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda </li></ul><ul><li>e toda brilhante. </li></ul><ul><li>O silêncio era tão forte que parecia cantar . Muito ao longe via-se a massa </li></ul><ul><li>escura dos pinhais. </li></ul><ul><li>“ Será possível que eu chegue até lá?”, pensou Joana. </li></ul><ul><li>Mas continuou a caminhar. </li></ul><ul><li>Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. </li></ul>
  30. 30. <ul><li>Ali no descampado sopravam um curto vento de neve que lhe cortavam a cara </li></ul><ul><li>como uma faca. </li></ul><ul><li>“ Tenho frio”, pensou Joana. </li></ul><ul><li>Mas continuou a caminhar. </li></ul><ul><li>À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando maior. Até </li></ul><ul><li>que ficou enorme. </li></ul><ul><li>Joana parou um instante no meio dos campos. </li></ul><ul><li>«Para que lado ficará a cabana?», pensou ela. </li></ul><ul><li>E olhava em todas as direcções à procura de um rasto. </li></ul><ul><li>Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua </li></ul><ul><li>frente não havia rasto. </li></ul><ul><li>«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela. </li></ul><ul><li>E levantou a cabeça. </li></ul>
  31. 31. <ul><li>Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava. </li></ul><ul><li>“ Esta estrela parece um amigo”, pensou ela. </li></ul><ul><li>E começou a seguir a estrela. </li></ul><ul><li>Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma </li></ul><ul><li>roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e azuis, e dançavam com </li></ul><ul><li>grandes gestos. E a brisa passava entre as agulhas dos pinheiros, que pareciam </li></ul><ul><li>murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de som- </li></ul><ul><li>bras Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para além de </li></ul><ul><li>todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a estrela. </li></ul><ul><li>Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos. </li></ul><ul><li>“ Será um lobo?”, pensou. </li></ul><ul><li>Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir </li></ul><ul><li>entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro. </li></ul><ul><li>“ Será um ladrão?”, pensou. </li></ul>
  32. 32. <ul><li>Mas o vulto parou na sua frente e ela viu </li></ul><ul><li>que era um rei. </li></ul><ul><li>Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos </li></ul><ul><li>seus ombros caía um longo manto azul todo </li></ul><ul><li>bordado de diamantes. </li></ul><ul><li>- Boa noite – disse Joana. </li></ul><ul><li>- Boa noite – disse o rei - . Como te chamas? </li></ul><ul><li>- Eu, Joana – disse ela. </li></ul><ul><li>- Eu chamo-me Melchior – disse o rei. </li></ul><ul><li>E perguntou: </li></ul><ul><li>- Onde vais sozinha a esta hora da noite? </li></ul><ul><li>- Vou com a estrela – disse ela. </li></ul><ul><li>- Também eu – disse o rei - ,também eu vou com a estrela. </li></ul>
  33. 33. <ul><li>E juntos seguiram através do pinhal. </li></ul><ul><li>E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite. </li></ul><ul><li>Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto </li></ul><ul><li>vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras. </li></ul><ul><li>Boa noite – disse ela -, chamo-me Joana e vou com a estrela. </li></ul><ul><li>- Também eu – disse o rei -, também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar. </li></ul><ul><li>E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana ouviu um barulho de </li></ul><ul><li>passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis dos pinheiros escuros. </li></ul><ul><li>Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde </li></ul><ul><li>Bordado de pérolas. A sua cara era preta. </li></ul><ul><li>- Boa noite – disse ela. – O meu nome é Joana. E vamos com a estrela. </li></ul><ul><li>- Também eu – disse o rei – caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar. </li></ul><ul><li>E juntos seguiram os quatro através da noite. </li></ul><ul><li>No chão os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa murmurava entrevas árvores e os grandes mantos bordados dos reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis. </li></ul>
  34. 34. <ul><li>Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou. </li></ul><ul><li>E continuou a caminhar. </li></ul><ul><li>Até que chegaram ao lugar onde a estrela </li></ul><ul><li>tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. </li></ul><ul><li>Pois o casebre estava cheio de claridade, porque </li></ul><ul><li>o brilho dos anjos o iluminava . </li></ul><ul><li>E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava </li></ul><ul><li>deitado nas palhas entre a vaca e o burro e </li></ul><ul><li>dormia sorrindo. </li></ul><ul><li>Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os </li></ul><ul><li>anjos .O seu corpo não tinha nenhum peso e era </li></ul><ul><li>feito de luz sem nenhuma sombra. </li></ul><ul><li>E com as mãos postas os anjos rezavam </li></ul><ul><li>ajoelhados no ar. </li></ul><ul><li>Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel </li></ul>
  35. 35. <ul><li> E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados </li></ul><ul><li>no ar. </li></ul><ul><li>Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel </li></ul><ul><li>-Ah – disse Joana -, aqui é como no presépio. </li></ul><ul><li>Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus </li></ul><ul><li>presentes. </li></ul><ul><li>FIM </li></ul>

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