Your SlideShare is downloading. ×
Moby dick   herman melville
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Moby dick herman melville

1,249
views

Published on

Published in: Education

0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
1,249
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
15
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. MOBY DICK Herman Melville
  • 2. Herman Melville - Moby Dick Índice I - A ESTALAGEM DE A-BALEIA-QUE-FUMA 5 II - DOIS AMIGOS 16 III - O MEU BELO NAVIO 23 IV - O CAPITÃO ACAB 31 V - TODOS À POPA! 40 VI - O JACTO FANTASMA 47 VII - FUNERAL DE UM CACHALOTE 58 VIII - A HISTÓRIA DO TOWN-HO 64 IX - O DONZELA 78 X - UM FRANCÊS: O BOTÃO DE ROSA 90 XI - O RÉPROBO 100 XII - O DOBRÃO 114 XIII - A PERNA DE ACAB 124 XIV - QUEEQUEG NO SEU ESQUIFE 131 XV - O PACÍFICO 139 XVI - O TUFÃO 151 XVII - A CORRIDA PARA O ABISMO 168 EPÍLOGO 191 1
  • 3. Herman Melville - Moby Dick 2 I A ESTALAGEM DE A-BALEIA-QUE-FUMA Chamem-me simplesmente Ismael. Aqui há uns anos - não me peçam para ser mais preciso - tendo-me dado conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio, decidi voltar a navegar, ou seja, aventurarme de novo pelas vastas planícies líquidas do Mundo. Achei que nada haveria de melhor para desopilar, quer dizer, para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num barco. O que nada tem de espantoso. Os homens não se dão conta disto, mas todos, em certo momento da vida, sentiram pelo mar um amor tão profundo como o meu. No entanto, não é como passageiro que navego. É como simples marinheiro. Porquê? Porque fazem questão de me pagar pelos tormentos que eu passo a bordo, e também porque a profissão do mar é a mais bela, a mais saudável que
  • 4. Herman Melville - Moby Dick 3 conheço. Uma última pergunta. Como me surgiu a ideia, a mim que nunca tinha viajado senão em navios mercantes, de fazer uma campanha de pesca à baleia? Após madura reflexão, creio compreender as razões que me levaram a lançar-me nesta aventura. Em primeiro lugar surge a formidável imagem da baleia, monstro impressionante e misterioso, 5 que sempre povoou a minha imaginação. E, além disso, tinha vontade de ver os oceanos selvagens onde os grandes cetáceos rolam nas ondas as suas massas comparáveis a ilhas vivas. Queria iniciar-me nos perigos que eles fazem correr àqueles que os desafiam. Quantas vezes, nos meus sonhos, contemplei procissões de baleias, pelo meio das quais deslizava uma espécie de fantasma embuçado, semelhante a uma colina coberta de neve? Enfim, esperava maravilhas das paisagens e dos ventos da Patagónia. Em suma, tudo me impelia a não lutar contra o impulso do meu desejo.
  • 5. Herman Melville - Moby Dick 4 Resumindo, meti algumas camisas no meu velho saco de marinheiro e, sem mais demora, pus-me a caminho do cabo Horn e do oceano Pacífico. Isto é, parti primeiro de Manhattan (1), onde residia, e dirigi-me para New Bedford, no Massachusetts. Quando cheguei a New Bedford, num sábado à tarde, em pleno mês de Dezembro, tive a desagradável surpresa de saber que o pequeno veleiro que servia a ilha de Nantucket já levantara ferro e que me seria preciso esperar a sua volta até à segunda-feira seguinte. Como empregar o meu tempo durante estes dois dias? Porque eu estava mesmo decidido a alcançar Nantucket, berço dos baleeiros americanos, ponto de partida das mais antigas expedições. A noite estava não apenas escura, mas muito fria. Parei perto de um marco, com o meu saco ao ombro. Depois, meti a mão ao bolso e tirei algumas moedas. Meu velho Ismael - disse comigo, olhando para todos os lados -, é indispensável que encontres um sítio para dormir. Mas não
  • 6. Herman Melville - Moby Dick 5 sejas muito exigente. E, sobretudo, informate do preço antes de escolheres uma estalagem! Num passo hesitante, pus-me a caminhar pelas ruas e passei sucessivamente por várias estalagens onde me pareceu mais sensato nem sequer parar, de tal modo me pareciam sumptuosas. 1 Quando Herman Melville escreveu Moby Dick, em 1850-1851, Manhattan não era ainda o bairro dos arranha-céus de Nova Iorque. (N. do T.) 6 Enfim, já perto do porto, para o qual me dirigira instintivamente, vi de súbito num halo de luz uma tabuleta que balançava, rangendo. Representava um jacto de vapor de água, e por baixo podia ler-se: A-Baleiaque-Fuma, Peter Coffin, proprietário. Esta estalagem, de fachada deteriorada e decadente, não era nada convidativa. Mas, dado o estado das minhas finanças, não seria exactamente o abrigo que eu procurava? Empurrei a porta. À claridade de uma lanterna suspensa do tecto, vários
  • 7. Herman Melville - Moby Dick 6 marinheiros, sentados em volta de uma mesa, bebiam em silêncio. Aproximei-me do dono e disselhe: - Eu queria um quarto. - Impossível respondeu ele -, está tudo ocupado. Depois, batendo na testa: - Um momento! O senhor vai à pesca da baleia, não é? Nestas condições, veria inconveniente em partilhar a cama de um arpoador? Para se habituar desde já aos seus futuros companheiros, não é verdade? A perspectiva de dormir com um homem que eu não conhecia não me agradava nada. Mas, por uma simples esquisitice, ia ficar condenado a errar toda a noite numa cidade em que punha os pés pela primeira vez? - Quem é esse arpoador? - perguntei. - Oh! Um bom tipo... - Sendo assim - respondi num tom resignado -, aceito. - Muito bem. E agora, sente-se. Vou servir-Lhe uma boa ceia. Instantes mais tarde introduziu-nos, aos outros clientes e a mim, na sala ao lado. Ali, a atmosfera glacial era ainda mais sombria
  • 8. Herman Melville - Moby Dick 7 do que no bar. Aquela sala, com efeito, tinha apenas duas candeias a iluminá-la. Quanto à chaminé... vazia! Vendo a minha surpresa, o estalajadeiro explicou-me: - A lareira é um luxo que eu não posso permitirme... Para me aquecer não achei outra forma senão abotoar o meu blusão e segurar com as duas mãos a chávena de chá a escaldar. 7 Porém a ceia revelou-se das mais substanciais. Havia carne, batatas e, com grande espanto meu, dumplings (1)! A meu lado um jovem marinheiro de blusão verde - perdoem-me a expressão empanturrava-se! - Ouve lá - disselhe o estalajadeiro -, se não começas a ter mais juízo, não te livras de uma indigestão! - Oh! Não - murmurei -, é aquele o meu arpoador? - O seu arpoador, como Lhe chama não é um branco. - Disse o estalajadeiro com um sorriso que me pareceu diabólico. - E, além disso, nunca come dumplings. Só gosta de
  • 9. Herman Melville - Moby Dick 8 bife... e muito mal passado! - Caramba!... E onde está ele agora? - Não está na sala de jantar. Mas não tardará a conhecê-lo. Terminada a ceia, voltámos para o bar. De súbito, ouviu-se à entrada uma barulheira enorme. - É a equipagem do Grampus! - exclamou o patrão. - Três anos de ausência. Ora viva, rapazes! Vamos ter enfim as últimas notícias das ilhas Fiji! Arrastando pesadas botas, os marinheiros do Grampus embuçados em peles, como ursos do Labrador, entraram no bar e dirigiram-se sem hesitar para a bocarra da baleia - quero dizer para o balcão -, onde Jonas - quero dizer, o patrão - se pôs a encher-lhes copos uns atrás dos outros. Passados uns minutos, já com o álcool a subir-lhes à cabeça começaram a fazer algazarra, a gesticular e a entoar desastradamente canções do mar. Reparei no entanto que um deles parecia resolvido a não participar da alegria geral. Tratava-se de um rapagão com mais de um
  • 10. Herman Melville - Moby Dick 9 metro e noventa de altura, com o peito semelhante a uma prancha e de ombros soberbos. Uma verdadeira montanha de músculos! A brancura dos dentes contrastava com a pele tostada do rosto. As pupilas escuras pareciam carregadas de indecifráveis recordações. 1 Prato açucarado, feito de pasta cozida à maneira do plum-pudding, com frutos. (N. do T.) 8 Quando a algazarra chegou ao cúmulo, ele afastou-se. No entanto, alguns dos companheiros, tendo-o visto no momento em que saía da estalagem, foram-lhe no encalço gritando: Bulkington! Bulkington! Estava longe de calcular que mais tarde aquele nome ressoaria de novo aos meus ouvidos... Pelas dez horas, o bar esvaziou-se como por encanto. E eu voltei a pensar no meu arpoador. Decididamente não me agradava nada a ideia de passar a noite com um desconhecido... - Patrão - disse eu, após uma hesitação -,
  • 11. Herman Melville - Moby Dick 10 mudei de opinião. Em vez de dormir lá em cima com o arpoador, vou passar a noite aqui, neste banco. - Como quiser - respondeu ele -, mas previno-o de que não tenho mantas para lhe dar. - Passo sem elas - disse eu. Empurrei o banco contra a parede e estendi-me em cima dele. No entanto, quase logo a seguir, apercebime do meu erro. As correntes de ar que se infiltravam por debaixo da porta e pelos interstícios da janela gelavam a atmosfera do bar e tornavam a minha situação insustentável. Sentei-me no banco, não sem ter tiritado durante uma boa hora. Por um momento fiquei a olhar os hóspedes que regressavam uns após outros e recolhiam aos seus quartos. O estalajadeiro sempre atrás do balcão, aparava tranquilamente um pedacinho de madeira em forma de palito. - Patrão - disse eu - É quase meia-noite, a que horas volta esse arpoador... sempre a
  • 12. Herman Melville - Moby Dick 11 horas tardias? - Não - respondeu o estalajadeiro sem levantar os olhos -, de uma maneira geral, volta cedo. Pergunto a mim próprio o que andará a fazer. Afinal, não deve ter conseguido vender a sua cabeça... - O quê? A cabeça dele? O que está para aí a dizer? - Sim, a cabeça - repetiu o estalajadeiro na sua voz arrastada. - Eu já lhe tinha dito que não poderia vendê-la em New Bedford. O mercado está demasiado concorrido... - Concorrido? 9 Começava a subir-me a mostarda ao nariz. - Concorrido com quê? - repeti eu. - Bom... De cabeças, claro! - Olhe lá, patrão, parece-me que você é que está a querer dar volta à minha. Se me toma por um grumete, engana-se! Quanto à cabeça dele... - Não diga mal dela! Isto é um conselho de amigo. Senão, ele ainda lhe parte a cara. - A menos que eu comece por partir a dele! - Bem, bem, calma - disse o estalajadeiro. -
  • 13. Herman Melville - Moby Dick 12 Eu explico-lhe. - O rapaz em questão acaba de chegar dos mares do Sul. Trouxe da Nova Zelândia várias cabeças reduzidas. Está a ver, curiosidades. Ora, ele vendeu- as todas menos uma, aquela que tenta despachar hoje. Porque amanhã é domingo. Não está a vê-lo a oferecer uma cabeça reduzida à boa gente que vai para a igreja! Domingo passado, vi-me doido para o impedir de sair com uma espécie de rosário composto de quatro cabeças enfiadas num cordel! Deixei passar uns minutos. A seguir, depois de ter reflectido maduramente: - Olhe, patrão - disse eu -, esse arpoador deve ser um tipo perigoso! - Não, não - respondeu o estalajadeiro num tom tranquilizador. - Aliás, no que me diz respeito, não tenho razões de queixa dele. Paga regularmente. Olhou para o relógio. - É quase meia-noite. Acho que deve ter parado em qualquer parte. Não voltará a aparecer antes de amanhã de manhã. Olhe, venha daí - ajuntou ele, pegando
  • 14. Herman Melville - Moby Dick 13 numa candeia -, vou conduzi-lo ao seu quarto. Pode estar certo de passar uma noite tranquila. O quê, tem medo? Medo? Não. Mas devo confessar: não me sentia muito confiante. No primeiro andar, o estalajadeiro introduziu-me num pequeno quarto frio como gelo. - Ora aí tem - disse ele, pousando a candeia sobre uma velha arca que devia servir ao mesmo tempo de mesa de toilette e de mesa-de-cabeceira. - Está em sua casa. Fique à vontade. Boa noite. Quando me voltei, já ele tinha desaparecido. A cama era enorme, com espaço suficiente para vários arpoadores. Quanto ao resto, não havia neste cubículo escuro nada além de um aparador rústico, quatro paredes nuas, um biombo de cartão no qual se via pintado um arpoador em plena acção; depois, a um canto, um leito de campanha dobrado e um saco de marinheiro. Em cima da chaminé luzia vagamente um molho de anzóis, e à cabeceira da cama estava encostado um grande arpão.
  • 15. Herman Melville - Moby Dick 14 Mas ali, sobre a arca, o que seria aquele objecto esquisito? Aproximei-me e verifiquei que se tratava de uma espécie de esteira enorme com as bordas ornadas de franjas coloridas. Peguei nele e, como tinha uma fenda semelhante às dos ponchos sulamericanos, enfiei-o pela cabeça e deixei-o cair por cima dos ombros. Estava húmido, como se o meu misterioso arpoador tivesse andado com ele à chuva. Mas, sobretudo, que peso! Pus-me em frente de um pedaço de espelho pendurado na parede. Assustado com a imagem que ali se reflectia apressei-me a desembaraçar-me daquela estranha vestimenta dizendo comigo: "Como pode um cristão digno deste nome passear pelas ruas assim enfarpelado?" Pensei ainda durante uns instantes naquele arpoador negociante de cabeças reduzidas e na sua estranha peça de vestuário. A seguir, enchendo-me de coragem, despi-me -
  • 16. Herman Melville - Moby Dick 15 blusão, colete, calças, botas -, e depois de ter apagado a candeia, enfiei-me na cama, deixando o meu destino entregue à Providência. Passados talvez uns dez minutos, quando estava prestes a adormecer, ouvi um passo pesado no corredor, enquanto por debaixo da porta parecia deslizar uma débil claridade. "Deus me proteja!" - pensei. - "É ele!" Segurando na mão direita uma candeia e na esquerda a cabeça reduzida de que me falara o estalajadeiro, o recém-chegado 10 11 entrou no quarto. Depois, sem olhar para a cama, aproximou-se do saco de marinheiro colocado a um canto e começou a desatar os nós. Por fim, bruscamente, voltou-se. Santo Deus, que espectáculo! Pensei primeiro, ao ver o seu rosto onde alternavam o amarelo, um roxo quase purpúreo e o negro, que acabava de sair de uma zaragata e que tivera de recorrer aos cuidados de um cirurgião, mas quando, por acaso, ficou sob a luz da candeia apercebi-
  • 17. Herman Melville - Moby Dick 16 me do meu erro: o que eu tomara por emplastros e cicatrizes recentes não era mais que um conjunto de tatuagens multicores de efeito deveras impressionante... Entretanto, o arpoador, ignorando ainda a minha presença, continuava a remexer no seu saco. Retirou de lá um tomahawk mas seria realmente um tomahawk? - e uma bolsa de pele de foca, ainda cheia de pêlo. Depois, enfiou no saco a horrorosa cabeça reduzida. Em seguida tirou o grande chapéu de feltro. Pouco me faltou para soltar uma exclamação de surpresa. Não tinha um único cabelo - à excepção de uma trança enrolada sobre a testa num minúsculo carrapito. Que fazer? Tinha vontade de fugir, apesar de a cobardia não ser dos meus maiores defeitos. Mas ele estava entre a porta e a cama. Claro, podia ter saltado pela janela... Enquanto assim pensava e com dificuldade dominava o medo, ele começara a despirse tranquilamente. Verifiquei que, tal como
  • 18. Herman Melville - Moby Dick 17 o rosto, o tronco, o peito, os braços e as coxas desapareciam sob um inextricável entrelaçado de tatuagens. Quanto às pernas, tão decoradas como o resto do corpo, julguei distinguir nelas dezenas de rãs verdes que pareciam trepar por palmeiras de troncos amarelos... Começava a compreender: encontrava-me fechado naquele sinistro quarto com um selvagem, trazido sem dúvida por um baleeiro dos mares do Sul. E, além disso, um amador de cabeças! Se achasse a minha a seu gosto... Mas as minhas emoções ainda não tinham chegado ao fim. Agora quase nu - com uma tanga estreita à volta dos rins -, tirou de um dos bolsos do blusão pendurado numa cadeira uma estatueta 12 13 negra com chifres que foi colocar entre os cães da lareira e diante da qual acendeu, com um punhado de cavacos, um pequeno fogo de sacrifício. Depois, prostrado ante a estatueta, entregou-se a intermináveis momices de pagão, que prefiro não
  • 19. Herman Melville - Moby Dick 18 descrever. Após o que, tendo sem dúvida acabado de rezar, pegou no tomahawk, colocou o seu ferro em contacto com os cavacos que acabavam de arder, meteu na boca a extremidade do cabo e puxou algumas fumaças. Depois, soprou a candeia e, na escuridão completa, de tomahawk nos dentes, saltou para a cama e caiu tão perto de mim que não pude deixar de gritar. O espanto arrancou-lhe um grunhido e, sem mais demora, pôs-se a apalpar-me. Encostei-me à parede, gemendo. - Largue-me, suplico-Lhe! Deixe-me levantar. Vou acender a candeia! Porém ele, numa inconcebível algaraviada: - Quem ser tu? Tu não querer dizer? Então, eu matar tu! E enquanto falava, sacudia por cima de mim o cachimbo-tomahawk, espalhando a cinza pela cama, de tal modo que pensei: "Não só vai matar-me, como também pegar fogo à minha camisa!" Em vista disto, pus-me a berrar: - Patrão! Senhor Coffin! Socorro! Socorro!
  • 20. Herman Melville - Moby Dick 19 Quanto ao meu selvagem, continuava a repetir: - Quem ser tu? Tu não querer dizer? Se tu não querer dizer, mim matar tu! Mas, graças a Deus, neste momento o estalajadeiro entrou no quarto, com uma candeia na mão. De um pulo, saltei da cama e corri a acolher-me sob a sua protecção. - Não tenha medo - disseme ele com o tal sorrizinho diabólico. - O Queequeg não tocará num só cabelo da sua cabeça. - Primeiro deixe-se desse sorriso imbecil! gritei irritado. - Porque não me disse que este arpoador era na realidade um canibal? - Julgava que sabia... que tinha compreendido, pois! Eu disselhe que ele andava pela cidade a tentar vender a sua última cabeça reduzida... Vamos, deite-se e não falemos mais disso. E, dirigindo-se a Queequeg - pois era este o nome do meu canibal: - Ouve, Queequeg. Tu conhecer mim. Mim conhecer tu. Ele dormir com tu. Tu compreender? - Sim, mim compreender - respondeu
  • 21. Herman Melville - Moby Dick 20 Queequeg voltando a fumar o seu tomahawk. Levantou a manta e voltando-se para mim: - Tu entrar lá - ajuntou ele com uma expressão quase delicada e um gesto de convite digno de um civilizado. Examinei-o por instantes. Apesar das tatuagens, estava bastante limpo e até atraente para um selvagem. Afinal - pensei -, é um homem tal como eu. Talvez procedesse mal fazendo este barulho. Não será melhor dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão embriagado? Depois, dirigindo-me ao estalajadeiro: Patrão - disse eu -, mande-o tirar daí esse tomahawk... ou esse cachimbo, se prefere. Em todo o caso, diga-lhe que não fume. Não quero dormir com um homem que fuma na cama. É perigoso. E além disso o cheiro incomodame. Logo que o estalajadeiro lhe deu a conhecer o meu desejo, Queequeg obedeceu imediatamente e encolhendo-se
  • 22. Herman Melville - Moby Dick 21 o mais possível, como para mostrar que não me tocaria numa unha, convidou-me de novo com uma delicadeza perfeita a deitarme. - Boa noite patrão - disse eu. - Agora, podese ir embora. Voltei a deitar-me, e cumpre-me reconhecer que, nessa noite, dormi melhor do que em toda a minha vida. 14 15 II DOIS AMIGOS Na manhã seguinte, acordei ao alvorecer. Qual não foi a minha surpresa ao verificar que o meu companheiro me agarrava pelo pescoço da maneira mais afectuosa do mundo! Por várias vezes tentei libertar-me em vão. Estou em bons lençóis! - pensei. - Que vai ser de mim nesta inquietante estalagem, deitado ao lado deste canibal armado até aos dentes e que parece mesmo resolvido a não me largar? Por fim, gritei: - Que Eh, Queequeg! Acorda, amigo. Ele soltou um grunhido, sacudiu-se como
  • 23. Herman Melville - Moby Dick 22 um cão ao sair da água, olhou-me uns instantes, esfregando os olhos, saltou bruscamente da cama e deu-me a entender, mais por gestos do que por palavras, que ia vestir-se primeiro, a fim de me permitir dispor à vontade do quarto. Decididamente, usava de delicadezas que muitos civilizados poderiam invejar! Para se vestir, começou por cima, isto é, pôs em primeiro lugar o chapéu e o blusão. Depois, com as coxas e as pernas sempre nuas, meteu-se debaixo da cama, com muitos suspiros e gemidos e ali entregou-se à tarefa de calçar as botas. Porque acharia ele necessário calçar as botas escondido? Ora! - pensei. - É sem dúvida o seu modo de mostrar pudor... 16 Mas de qualquer modo não me recompunha do meu espanto! Por fim, saiu de debaixo da cama, com o chapéu amachucado e enterrado até aos olhos. Depois, fazendo estalar o couro das botas, molhou a cara e ensaboou as faces com um sabão duro como pedra que tirou
  • 24. Herman Melville - Moby Dick 23 do saco. Iria barbear-se? E com quê? Mas, de súbito, vi-o arrancar o cabo de ferro do arpão, afiá-lo numa das botas e... "oh, céus!", postara-se diante do fragmento de espelho suspenso na parede e vigorosamente raspava o rosto com aquela assustadora lâmina! Um pouco mais tarde, terminada a toilette, como ele se dirigia já para a porta, não pude deixar de lhe gritar: Então, Queequeg! E as calças? Ele voltou-se, agradeceu-me com um sorriso que mais parecia uma careta, enfiou as calças e, apertando o seu arpão na mão esquerda, como um bastão de marechal, saiu altivamente do quarto. Quando cheguei ao bar, estava já instalado entre outros baleeiros: marinheiros, primeiros-tenentes, segundos-tenentes, carpinteiros, veleiros, arpoadores, mestres de equipagem, etc., que bebiam café, mastigando pãezinhos quentes e estaladiços. Mas ele contentava-se em picar com a ponta do arpão bifes quase crus, que estavam na outra extremidade da mesa, e devorava-os um após outro com
  • 25. Herman Melville - Moby Dick 24 uma calma impressionante. Nesse dia, não sabendo que fazer, deambulei toda a manhã e uma parte da tarde pelas ruas e pelos cais de New Bedford. Foi somente à tarde que voltei a encontrar Queequeg, sentado à mesa do bar da estalagem. Estava bem longe de calcular que a nossa amizade nascente ia progredir em poucas horas a passos de gigante. Começámos por jantar lado a lado, conversando acerca da nossa profissão, do tempo que fazia e da nossa partida para Nantucket, que devia ter lugar no dia seguinte. Em seguida fomos para o quarto. Ali, depois de o meu companheiro dizer aquelas bizarras orações ante o seu ídolo negro, iluminado por um lume de cavacos semelhante ao da 17 véspera, deitámo-nos muito sensatamente. Queequeg acendeu o seu cachimbotomahawk e, de pergunta em pergunta, consegui fazê-lo contar a sua história. Queequeg nascera em Kokovoko, pequena
  • 26. Herman Melville - Moby Dick 25 ilha situada muito longe para sudoeste. Não a procurem no mapa. Seria uma perda de tempo. Aliás, sem dúvida já repararam: as regiões interessantes nunca figuram nos mapas. Em geral, os meninos selvagens desejam apenas uma coisa: correr quase nus nas suas florestas ou nas suas selvas natais. Porém Queequeg tinha uma ambição. Queria conhecer da cristandade outra coisa além dos baleeiros, que de tempos a tempos apareciam nas margens da sua ilha, onde o pai era uma espécie de rei. Em resumo, tendo um barco ancorado na baía de Kokovoko, Queequeg apresentouse a bordo com esperança que acedessem a contratá-lo como marinheiro. Mas a equipagem estava completa e mandaramno passear. Então, usou de um expediente. Só, na sua piroga, foi postar-se num local por onde o barco devia passar para se afastar da ilha. Quando este apareceu, aproximou- se tão rapidamente quanto possível, serviu-se de uma das correntes para se içar por cima do filerete, lançou-se
  • 27. Herman Melville - Moby Dick 26 de bruços sobre a ponte e agarrou uma grossa argola de ferro, gritando: - Eu nunca mais ir embora, mesmo se vocês cortar mim em bocados! Ameaçaram-no de o atirar aos tubarões, de lhe cortar os pulsos. Como verdadeiro filho de rei que era, nem pestanejou. Por fim, o capitão, impressionado com a sua coragem, declarou: - Está bem. Fico contigo. E dirigindo-se aos homens que o rodeavam: - Ocupem-se dele e façam com que venha a ser um bom baleeiro. Depois disto, Queequeg sulcara os mares em todos os sentidos, participara em numerosas campanhas de pesca, visitara portos e cidades. Sentia-se satisfeito entre aquela cristandade, com a qual ele tanto desejara travar 18 conhecimento? Julguei compreender que perdera a esse respeito algumas ilusões... - Cristãos nem sempre melhores que pagãos - disseme ele. Como cristão, teria eu o direito de lhe
  • 28. Herman Melville - Moby Dick 27 responder que estava até certo ponto dentro da razão? Preferi deixar passar alguns instantes. Depois perguntei-lhe: - Tencionas voltar à tua ilha e seres coroado? Porque, enfim, desde que partiste, o teu pai deve ter morrido. - Sim, ele morto - respondeu. - Mas mim não pensar voltar lá. Mim querer ainda ver muitas coisas e arpoar muitas baleias. Agora, nós dormir, para nós partir amanhã para a grande pesca! Quando acabou de fumar o seu cachimbotomahawk, pousou-o no chão, junto de si. Depois, como nos havíamos tornado verdadeiros amigos, beijou-me à maneira do seu país, isto é, apertando a sua fronte contra a minha. Após o que voltámos as costas um ao outro e, passado um minuto, dormíamos os dois o sono dos justos. No dia seguinte, ou seja a segunda-feira da nossa partida, pedimos emprestado um carrinho de mão para carregar a nossa bagagem e, com este equipamento, dirigimo-nos ao porto, onde o pequeno veleiro Moss, que servia Nantucket, parecia
  • 29. Herman Melville - Moby Dick 28 estar à nossa espera para levantar ferro. Mal nos fizemos ao largo, sentime invadido por uma emoção, que era um misto de alegria e de embriaguez. Queequeg, esse, nem procurava dissimular o seu contentamento. Tínhamos enfim deixado terra firme, com as suas maçadas, as suas inumeráveis restrições. À proa, junto do gurupés, lançámos ao vento grandes gargalhadas, sem nos darmos conta de que os passageiros zombavam de nós. Voltando-se de súbito e absolutamente por acaso, Queequeg reparou que um daqueles cretinos, uma espécie de alfenim, lhe estava fazendo caretas... Então, sem hesitar, larga o arpão, agarra o fedelho, fálo saltar no ar, apanha-o, aplica- lhe uma boa palmada e deixa-o cair desamparado. 19 Depois, com a maior tranquilidade, volta as costas, acende o tomahawk e passa-mo para eu tirar uma fumaça. Mas o jovem imbecil, espavorido, corria já para o capitão, bramindo: - Capitão, capitão! Este sujeito... este selvagem, é o
  • 30. Herman Melville - Moby Dick 29 diabo, capitão, é o diabo! O capitão, um grandalhão magrizela ressequido pelo mar, caminhou p,ggqp, resolutamente para Queequeg. - Ora ouve lá! Que é que te deu? Não vês que podias ter morto este pobre tipo? - Que dizer ele? - perguntou Queequeg, olhando-me com a inocência de uma criança acabada de nascer. - Diz que podias ter morto aquele tipo expliquei, mostrando-lhe a sua vítima que tremia ainda como varas verdes. - Mim matar ele? - perguntou Queequeg, dando ao rosto tatuado uma expressão de sobre-humano desprezo - Oh! não! Ele peixinho muito pequeno. Queequeg nunca matar peixes pequenos. Queequeg matar baleias grandes! - Ora ouve! - rugiu o capitão -, se tu matas as baleias, eu cá encarrego-me de te matar. E não tarda nada! Porém esta ameaça irrisória, dada a força prodigiosa de que o meu canibal acabava de dar provas, ficou por ali. Com efeito,
  • 31. Herman Melville - Moby Dick 30 devido a uma terrível rajada de vento, o barco inclinara-se de súbito com violência, sacudindo a maior parte dos passageiros e lançando borda fora o alfenim, sem dúvida menos seguro nas pernas do que os companheiros. Várias pessoas gritaram: - Homem ao mar! Homem ao mar! Houve um curto período de pânico. A equipagem, com gestos febris e desastrados, esforçava-se por largar o escaler à popa. Então, tão calmo como se estivesse em terra firme, Queequeg tirou o blusão, subiu para o filerete e mergulhou. Ao fim de uns dez segundos, reapareceu à superfície, nadando com uma das mãos e segurando com a outra o infortunado alfenim, que parecia ter perdido os sentidos. 20 Mal voltara para a ponte, e enquanto reanimavam o afogado, Queequeg viu-se rodeado por todos, acariciado, felicitado. Recebeu até, com muita dignidade, as desculpas do capitão. Depois, com inteira despreocupação, voltou
  • 32. Herman Melville - Moby Dick 31 a vestir o blusão, reacendeu o seu cachimbo-tomahawk e olhou em volta como um homem não somente satisfeito consigo próprio, mas com o mundo inteiro, e que pensa: "Não é natural que nós outros, canibais, ajudemos de vez em quando estes pobres cristãos?" A partir desse dia, e até àquele em que efectuou o seu último mergulho, liguei- me a ele como uma lapa ao rochedo. Não houve qualquer outro incidente durante o resto da viagem. À tardinha qqg chegámos à vista de Nantucket. Nantucket! Sentime extremamente emocionado quando avistei pela primeira vez esta pequena ilha, composta por uma colina árida e uma simples praia, de onde partem desde tão longa data os mais ousados baleeiros da Terra! Caía a noite quando o Moss lançou ferro no porto. Nada mais tínhamos a fazer além de cear e procurar um abrigo. O patrão de A-Baleia-que-Fuma recomendara-nos a pensão de um certo Hosea Hussey, seu primo, proprietário de
  • 33. Herman Melville - Moby Dick 32 As-Duas- Canecas, uma das melhores estalagens de Nantucket, como ele precisara. Pusemo-nos pois imediatamente à procura dessa maravilha e, após termos deambulado uma boa hora pelas ruelas, encontrámo-nos de súbito ante uma casa cuja fachada era incrustada de conchas e a tabuleta representava dois enormes copos de madeira balançando ao vento da noite. - Bom - disse eu a Queequeg -, acho que é aqui. Empurrámos a porta. No bar, a atmosfera tresandava a peixe. Aliás, toda aquela taberna parecia estar em molho de peixe. A senhora Hussey, imponente criatura de expressão autoritária, trazia ao pescoço um colar de vértebras de bacaLhau. O senhor Hussey folheava um livro de contabilidade encadernado em pele de tubarão e, como jantar, serviram-nos, acompanhado de dois copos de leite - que também cheirava vagamente a peixe, 21 embora fosse bastante cremoso -, um prato extremamente saboroso, que constava de amêijoas cozidas com bolachas esmagadas
  • 34. Herman Melville - Moby Dick 33 e minúsculos pedacinhos de porco salgado; tudo, bem entendido, temperado por mão de mestre. Será preciso acrescentar que nos bastou obedecer ao nosso apetite, aguçado pelo ar do mar, para devorarmos num abrir e fechar de olhos este copioso e memorável prato? Engolida a última garfada, a senhora Hussey deu-nos um candeeiro, dizendo: - E para o pequeno-almoço, o que é que desej am? Amêijoas com porco salgado, como esta noite? - Claro - respondi após uma breve hesitação, devido à surpresa. - Mas ponha também dois arenques fumados para variar. 22 III O MEU BELO NAVIO Mal nos encontrámos deitados lado a lado, achei que era tempo de preparar os nossos planos. Pois, agora que atingíramos o nosso fim, precisávamos sem demora de procurar o baleeiro que quisesse aceitarnos a bordo. No dia seguinte, ao alvorecer, deixei
  • 35. Herman Melville - Moby Dick 34 Queequeg e a estátua do seu deus, Yojo, fechados no quarto. Depois saí da estalagem e dirigi-me para o porto. Foi-me necessário empreender numerosas tentativas e fazer talvez uma centena de perguntas ao acaso antes de saber que iam aparelhar três navios para viagens de três anos. Estes três navios eram a Endemoninhada, a Gulodice e o Pequod, sendo este último nome o de uma tribo índia do Massachusetts, aniquilada há muito. Andei um momento em volta da Endemoninhada, depois em volta da Gulodice. Por fim, subi a bordo do Pequod e, quase logo, compreendi que era este que nos convinha. Já viram, com certeza, barcos estranhos no decorrer da vossa existência: lugres, juncos japoneses, galeotes. Mas, podem crer, nunca viram nada tão estranho como este estranho Pequod. Tratava-se de um navio da velha escola, mais pequeno que grande, semelhante a um monstro com garras. O seu casco maltratado pelos tufões e acariciado pelas
  • 36. Herman Melville - Moby Dick 35 bonanças dos quatro oceanos do planeta, tinha a cor bronzeada das faces de um granadeiro francês que tivesse combatido sucessivamente no Egipto e em Moscovo. 23 A sua venerável proa parecia prolongada por uma barba. Os mastros eram rígidos como a coluna vertebral de uma estátua. As pontes gastas ostentavam numerosas e inquietantes fendas. Mas não era tudo: havia um século que o Pequod sulcava os oceanos e os seus sucessivos comandantes tinham-no sobrecarregado de desenhos e de acessórios, que lhe davam o aspecto de um escudo antigo ou de uma espécie de troféu ambulante. Assim, os seus fileretes, sobre os quais tinham aplicado agudos dentes de cachalote, lembravam dois monstruosos maxilares e a barra do leme - oh, espanto! era constituída não por uma sólida peça de madeira mas sim por um maxilar superior de cachalote, de uma brancura deslumbrante. Nobre navio, na verdade! No entanto, como
  • 37. Herman Melville - Moby Dick 36 de todas as coisas nobres, emanava dele uma pesada tristeza. Avistando um velhote sentado atrás do mastro grande, sob uma espécie de tenda que lembrava pela forma o wigwam dos Índios, perguntei-lhe: - É você que comanda o Pequod? - Não - respondeu -, sou o capitão Peleg, um dos proprietários. Já não ando no mar. Mas tu, o que queres? - Queria embarcar. - Querias embarcar? Sabes alguma coisa de baleias? - Não. Mas aprendo depressa, pode estar certo. Fiz várias viagens na mercante e... - Não me fales nunca da mercante. Vê se entendes: na minha frente nem uma alusão a essa porcaria, a essa imundície da marinha mercante! Senão... Vês esta bota? Pois bem, ela não tardará a achar o caminho do teu traseiro! Bastante impressionado, fechei-me num silêncio prudente. - Já alguma vez viste o capitão Acab - tornou ele. - O capitão Acab? - repeti.
  • 38. Herman Melville - Moby Dick 37 - Sim. É ele o comandante do Pequod. Agora ouve bem: antes de assinares o contrato, é bom que vejas o capitão Acab. Não precisas de dois segundos para verificares que só tem uma perna. - Devo compreender - balbuciei -, que a outra lhe foi tirada por... por uma baleia? - Isso mesmo, meu rapaz! Mas tirada é uma palavra muito fraca. Deve dizer-se arrancada, triturada, esmagada e pelo mais monstruoso cetáceo - baleia ou cachalote, para nós é tudo o mesmo - que alguma vez estoirou uma chalupa! Percebes, agora?... Aliás - ajuntou ele depois de me ter examinado com atenção -, duvido que a profissão de baleeiro te convenha. Acho-te um pouco brando nas atitudes, na linguagem. Não estás a brincar comigo quando me dizes que já andaste embarcado? - Asseguro-lhe... Fiz quatro viagens na mercante. - Uma vez por todas - explodiu ele -, deixame em paz com a tua mercante! Então, sempre estás decidido a ir à pesca da
  • 39. Herman Melville - Moby Dick 38 baleia? - Claro. - Muito bem. Sentes-te capaz de lançar um arpão à garganta de uma baleia e de a perseguir na chalupa até ela se cansar? Vamos, responde, responde depressa! Gosto das respostas rápidas! - Acho que sou capaz... Com um pouco de treino, está visto. - Óptimo! Pois bem, podes assinar o teu contrato sem demora. Segue-me. Pela escada da escotilha, levou-me até à cabina. Ali, apresentou-me ao capitão Bildad, seu sócio, um sujeito alto e magro, abotoado até ao queixo, e que parecia absorvido na leitura de uma grande Bíblia. O capitão Bildad, também na reserva, tinha uma acentuada fama de avarento. - Bildad - exclamou o capitão Peleg -, lá estás tu outra vez com esse calhamaço! Há trinta anos que lês as Sagradas Escrituras, deves sabê-las de cor! O interpelado ergueu os olhos e fitou-me com atenção. - Ele quer embarcar explicou-lhe Peleg, indicando-me.
  • 40. Herman Melville - Moby Dick 39 - Queres mesmo embarcar no Pequod perguntou-me o capitão Bildad numa voz cavernosa. 24 25 - Quero, sim - respondi num tom resoluto. Que pensas dele, Bildad? - perguntou o capitão Peleg. - Acho que deve servir. Depois começou, não sem uma certa aspereza, a discussão relativa às massas que eu receberia no fim da viagem. Já sabia que nas baleeiras, os membros da equipagem, em lugar de serem pagos ao mês ou ao ano, recebem, consoante o lugar que ocupam a bordo, uma parte dos lucros a que se dá o nome de massas. Depois de eu ter aceitado receber apenas a tricentésima parte dos lucros e assinado o contrato, subi para a ponte com o capitão Peleg. - Capitão - disselhe eu -, tenho um camarada que também gostaria muito de embarcar. Posso trazer-lho amanhã? - Com certeza. Traga-o. Veremos se serve. Ele já participou em alguma campanha de pesca à baleia?
  • 41. Herman Melville - Moby Dick 40 - Claro! É um verdadeiro baleeiro. Matou um número infinito de baleias. - Bom, está combinado. Traga-o amanhã. Despedi-me do capitão Peleg. Porém, no momento de deixar o Pequod, reconsiderei e voltei para trás. - Capitão - disse eu -, onde poderei encontrar o capitão Acab? - O que é que lhe queres? Estás contratado. De que mais precisas? - Pois é... mas, sabe, eu gostava ao menos de o ver. - Vê-lo... - repetiu ele com uma expressão pensativa. Penso que neste momento isso seria bastante difícil. Ele esconde-se. Fica fechado na cabina. Estará doente. Não parece. No entanto... Aliás, ele recusa abrir-me a porta. Assim, é provável que fizesse o mesmo contigo... Sabes, meu rapaz, o capitão Acab é um homem bizarro... Mas um homem a sério! De resto, em breve travarás conhecimento com ele, podes crer! Queria explicar-te... Dissete que o capitão Acab é um homem 26
  • 42. Herman Melville - Moby Dick 41 sério. Pois bem, não é exactamente assim. O capitão Acab... é uma espécie de deus... Sim, uma espécie de deus. Fala pouco. Mas aconselho-te a escutá-lo com atenção. Ele conhece tudo, andou por toda a parte, esteve mesmo entre os selvagens que se alimentam de carne humana. Estudou nas universidades. Está familiarizado com mistérios infinitamente mais profundos do que os do oceano. Como arpoador não há quem o iguale entre os baleeiros de Nantucket. No entanto - não sei se vais compreender -, quando lança o arpão dá a impressão de querer atingir outra coisa sem ser a baleia, um inimigo pessoal... Numa palavra, o capitão Acab... é Acab, sabes, aquele rei de Israel... - Sim, bem sei - respondi -, e, deixe-me que lhe diga, um rei muito mau. Se a memória não me atraiçoa, o profeta Elias predissera que, quando o matassem, os cães lamberiam as suas chagas... - É isso... Mas chega-te aqui um pouco mais para o pé de mim - murmurou o capitão Peleg, com um olhar que quase me
  • 43. Herman Melville - Moby Dick 42 assustou. - Outro conselho, meu rapaz: enquanto estiveres a bordo do Pequod, nunca repitas o que acabei de te dizer. Se o capitão Acab tem tal nome, a culpa não é dele. Acab é um bom homem, tão piedoso como qualquer outro. Claro, às vezes também pragueja, tal como eu. No entanto, reconheço que sob muitos pontos de vista é superior a mim. Como é natural, desde que aquela maldita baleia Lhe cortou uma perna, no decurso da última viagem, ele passa tormentos. Como deves calcular, dóilhe o coto! E, se se mostra rabugento e às vezes até de uma implacável violência, quem ousaria censurá-lo? É verdade que ele nunca foi falador nem alegre. Mas estou certo de que acabará por reencontrar o seu humor normal... Não quero, meu rapaz, que penses mal dele porque o acaso o dotou de um nome que é o do pior de todos os reis da História Sagrada. E, além disso, não te esqueças: este velho casou tarde com uma rapariga encantadora que lhe deu um filho. Bom pai, esposo afectuoso, como poderia ser dotado de um carácter naturalmente
  • 44. Herman Melville - Moby Dick 43 27 cruel? Acredita, por mais rude que seja, Acab tem o seu lado humano. Depois de ter deixado o capitão Peleg, voltei para a estalagem a passo lento. O capitão Acab inspirava-me agora uma espécie de simpatia mesclada de muito medo. E, mais do que nunca, vontade de o conhecer... No dia seguinte de manhã, o contrato de Queequeg levantou dificuldades. Quando o meu companheiro e eu nos aproximávamos do Pequod, uma voz rude fez-nos estacar: Alto aí, Ismael! Não me tinhas dito que o teu camarada era um canibal? Ora, fica sabendo, a bordo não são admitidos canibais! Ergui a cabeça e vi o capitão Peleg e o capitão Bildad eng quem falara. De momento, costados ao filerete. Fora Pele não soube que responder. Depois, recompondo-me: - Em primeiro lugar, capitão - respondi -, o Queequeg já não é um verdadeiro canibal. Há muito tempo que deixou de comer carne humana. Por outro
  • 45. Herman Melville - Moby Dick 44 lado, porque não lhe permite mostrar do que é capaz? Os dois oficiais conferenciaram em voz baixa. Por fim, o capitão Peleg, depois de ter tido alguma dificuldade em convencer o austero Bildad, gritou: - Bom, estamos entendidos, subam a bordo. Temos vontade de ver de que é capaz essa espécie de selvagem! Uns segundos mais tarde, encontrávamonos na ponte. Queequeg, que compreendera bem o que esperavam dele, saltou para a proa de uma das baleeiras suspensas ao lado do navio. Depois, após ter-se firmado no joelho esquerdo, brandiu o arpão e declarou, na sua habitual algaraviada: - Tu ver, captão, aquele piqueno mancha de alcatrão longe, na água? Tu bem ver? Então tu pensar que ser olho de baleia. E tu agora olhar! O arpão partiu zunindo, fendeu o ar e caiu precisamente no meio da mancha de alcatrão! - Agora - disse Queequeg, puxando
  • 46. Herman Melville - Moby Dick 45 tranquilamente a corda à qual estava fixado o arpão -, tu compreender, captão? 28 Se mancha de alcatrão ser olho de baleia, baleia toda morta! - Depressa Bildad - gritou Peleg ao sócio. Este tipo tem de assinar já o contrato. Não é todos os dias que se arranjam arpoadores com esta classe! Voltámos para a cabina e, com grande satisfação minha, Queequeg não tardou a ficar inscrito na lista da tripulação. Quando deixávamos o Pequod, um indivíduo pobremente vestido, com um lenço preto ao pescoço, um blusão coçado e calças remendadas, deteve-nos com um gesto e, voltando para nós o rosto bexigoso, perguntou-nos com ansiedade: Alistaram-se neste navio? - Alistámos sim - respondi. stá ossespo d - Mas então, e as vossas almas, pensaram nisso? - As nossas almas? - repeti, abrindo muito os olhos. - Oh! Claro - tornou ele -, talvez não tenham
  • 47. Herman Melville - Moby Dick 46 disso. Mas ele, ele!, tem alma suficiente para substituir a que falta aos outros! - Queequeg - disse eu -, este tipo é marado. Está a falar-nos de uma pessoa que não conhecemos. Vamos embora. - Esperem - gritou o desconhecido. - Vocês disseram a verdade. Já viram o capitão Acab? Ainda não o viram, pois não? E alistaram-se no Pequod! Infelizes! O que tem de acontecer, acontecerá. Adeus. Desculpem tê-los feito parar. - Oiça lá, meu amigo - disse eu, porque aquele doidivanas começava a intrigar- me -, se sabe alguma coisa, se conhece algum segredo... - Não!, não! Tarde de mais, tarde de mais! Uma vez mais, adeus. - Está bem, adeus - disse eu -, mas antes de nos separarmos, gostaria muito de saber o seu nome. - Elias! - respondeu ele numa voz sepulcral. Depois, voltou-nos as costas. - Elias! - murmurei enquanto Queequeg e eu nos púnhamos de novo a caminho. 29
  • 48. Herman Melville - Moby Dick 47 Elias... O profeta que anunciara ao sombrio Acab da História Sagrada que os cães lhe lamberiam as chagas antes que ele soltasse o último suspiro?... Não; não era possível. Nada daquilo tinha pés nem cabeça. E, apesar da inquietação que me possuía, consegui persuadir-me de que estivéramos a falar com um farsante. Como poderia eu imaginar que, nas semanas e nos meses que iam seguir-se, as palavras ambíguas deste farsante se esclareceriam dentro de mim e me acudiriam frequentemente ao espírito? 30 IV O CAPITÃO ACAB Tivemos de esperar ainda dois dias antes de sabermos que estava tudo aparelhado e que o Pequod se aprontava para levantar ferro. Assim, uma manhã pelas seis horas, na penumbra de uma alvorada cinzenta e brumosa, pusémo-nos a caminho do porto. - Se não me engano - disse eu a Queequeg -, acho que vejo além marinheiros a correr. Aposto que partimos ao nascer do Sol. Vamos depressa.
  • 49. Herman Melville - Moby Dick 48 - Alto! - gritou uma voz, enquanto o recémchegado nos agarrava cada um por um ombro. Eu já reconhecera Elias. - Sempre embarcam? - perguntou ele. - Tira a pata! disse eu. - Não temos um instante a perder. - Sim, tu deixar nós! - apoiou Queequeg, num tom ameaçador. - Mas embarcam mesmo? - insistiu Elias. - Claro que embarcamos, claro! - gritei eu. - Bom, paciência... paciência... - Como, paciência? - Queria avisá-los - respondeu ele -, mas, uma vez mais vejo que, infelizmente, é demasiado tarde!... Ora! Agora já não tem importância. E, depois, têm de se cumprir as profecias... 31 Que pensam do tempo? Frescalhota, esta manhã, não acham? Bom, adeus, mais uma vez. Se as minhas previsões estão certas tão depressa não nos veremos... Talvez no Juízo Final. E, com estas palavras, voltou-nos as costas e afastou-se no seu passo mecânico. Fiquei uns segundos a olhá-lo, todavia
  • 50. Herman Melville - Moby Dick 49 impressionado com a insistência daquele pássaro agoirento em perseguir-nos... Subimos para bordo. Vi, não sem surpresa, que as pontes estavam desertas. Que era então feito dos homens que, há pouco, eu vira correndo na direcção do Pequod? Por fim, descobrimos no castelo da proa um velho marinheiro esfarrapado, que dormia em cima de duas arcas colocadas lado a lado, ressonando como um porco. Decididos a esperar os acontecimentos, sentámo- nos ao pé dele e começámos a fumar o tomahawk de Queequeg. De súbito, incomodado sem dúvida com o cheiro do tabaco, o velho marinheiro resmungou meio a dormir, depois sentou-se esfregando os olhos. - Viva, rapazes - disse ele -, quem são vocês? - Alistámo-nos no Pequod - respondi. Quando partimos? - Bem... Hoje. O capitão embarcou ontem. - Que capitão? O capitão Acab? - Quem havia de ser, meu rapaz? Preparava-me para lhe fazer outras
  • 51. Herman Melville - Moby Dick 50 perguntas a respeito de Acab, quando um ruído na ponte me impediu de continuar. - Ah! Lá está o Starbuck, o imediato, a acordar! - tornou o velho marinheiro. Aquele é um homem... um homem bom e piedoso... e, com tudo isso, activo Vamos, basta de dormir! Dizendo isto, ergueu-se. Nós seguimo-lo. Agora, era quase dia. A equipagem que, sem dúvida, ficara até tarde nos bares do porto começou a embarcar. Os gajeiros subiam para os cestos da gávea. Os oficiais movimentavam-se, emitindo ordens. Porém, o capitão Acab, fechado na sua cabina, continuava invisível. Enfim, apenas pelo fim da tarde, após os preparativos nos quais Queequeg e eu participámos, o Pequod levantou ferro içou as velas e fez-se ao largo. Era o dia 24 de Dezembro. Quando caiu a noite - a noite de Natal! -, com um frio glacial e cortante, estávamos já quase em pleno oceano. À nossa volta, a espuma gelada formava sobre o mar uma espécie de carapaça
  • 52. Herman Melville - Moby Dick 51 polida. À proa pendiam pedaços de gelo, e os dentes de cachalote cravados no filerete cintilavam ao luar. Falei já de um certo Bulkington que encontrara na estalagem de A-Baleia-queFuma, em New Bedford, na companhia de outros membros da tripulação do Grampus. Qual não foi o meu espanto, nesta dura noite de Inverno, enquanto a raivosa proa do Pequod fendia as ondas perversas, ao vê-lo de pé, à barra! Um momento, com receio e simpatia, contemplei aquele homem. Poucos dias antes, regressara de uma viagem de quatro anos e, sem sequer descansar, ei-lo que embarcava para uma nova viagem, decerto tão longa e tão perigosa como a precedente! A terra queimar-lhe-ia os pés? Não se cansaria nunca de contemplar os oceanos, de atravessar as suas tempestades, de se defrontar com os seus mistérios? Mas é tempo de dizer algumas palavras acerca dos meus novos companheiros. Starbuck, o imediato do Pequod, era de
  • 53. Herman Melville - Moby Dick 52 Nantucket. Este homem, sério e grave, parecia, olhando a sua carne tão dura como biscoito torrado duas vezes, perfeitamente apto a viver em todas as latitudes. Que idade poderia ter? Não mais de trinta anos, sem dúvida. Era magro como uma múmia e muito avaro de palavras. Apesar de dotado de grande coragem, não deixava de dizer: "A bordo da minha chalupa, só quero homens que tenham medo das baleias." Porque dizia isto? Provavelmente por achar que a verdadeira coragem se deve apoiar num justo cálculo do perigo, e que um baleeiro de uma intrepidez cega é mais perigoso do que um cobarde. 32 33 O primeiro-tenente chamava-se Stubb. Não era natural de Nantucket, mas do cabo Cod. Despreocupado e tão longe da cobardia como da bravura, não levantava problemas. No entanto, em plena luta, trabalhava com tanta calma e sangue-frio como um operário desempenhando a sua
  • 54. Herman Melville - Moby Dick 53 tarefa quotidiana. Sempre de bom humor, dirigia a chalupa como quem dirige um barco de recreio. Quando se encontrava muito perto da baleia agonizante, servia-se da sua lança com uma indolência implacável, como um caldeireiro martelando um caldeirão. E, sem cessar, mesmo no auge do perigo, cantava, assobiava, cantarolava velhas canções. A morte? Será que pensava nela? Vivia na sua companhia há tantos anos! Se Starbuck, o imediato, era de Nantucket e Stubb, o primeiro-tenente, do cabo Cod, o segundo-tenente, de nome Flask, era natural de Tilbury, na ilha de Marthas Vineyard. Era um homenzinho vermelhusco e atarracado, de carácter belicoso. Tratava as baleias como se o tivessem ofendido pessoalmente e era para ele um ponto de honra destruir o maior número possível delas. Inacessível a todo o sentimento de respeito perante as suas massas colossais, afectava considerá- las como ratos exageradamente inchados ou, melhor
  • 55. Herman Melville - Moby Dick 54 ainda, como uma espécie de ratazanasdágua, com as quais bastava usar de um pouco de paciência e de astúcia, se se queria ter a satisfação de as matar, de as despedaçar e de as cozer. Ignorava o medo e pescava a baleia para se distrair. Estes três oficiais - Starbuck, Stubb e Flask - eram pessoas importantes a bordo, pois asseguravam o comando das três baleeiras do Pequod. Armados de lanças reluzentes, formavam um soberbo trio. Mas, à sua volta, gravitavam personagens não menos importantes: os arpoadores. Façamos agora um rápido esboço dos três arpoadores do Pequod. Em primeiro lugar vem Queequeg, que Starbuck escolhera para o ajudar. Porém, nós já conhecemos de longa data o meu querido canibal. O segundo arpoador era um indiano de pura raça, Tashtego, natural de Gay Head, o promontório mais a oeste de Marthas Vineyard. Tashtego, escolhido por Stubb para o ajudar na sua tarefa, tinha cabelos negros e lisos, maçãs do rosto salientes, olhos talhados em amêndoa, como os dos
  • 56. Herman Melville - Moby Dick 55 orientais, e pupilas muito negras com um brilho gelado. Imaginavam-se facilmente os seus antepassados, empunhando o arco e perseguindo nas florestas americanas os alces ferozes e outros animais selvagens. Mas, Tashtego renunciara a seguir a pista dos animais terrestres, para seguir apenas o rasto das baleias, os prodigiosos monstros marinhos, e era tão infalível com o arpão como o tinham sido os seus antepassados com a flecha. Daggoo, o terceiro arpoador, era um negro gigantesco, escuro como a noite. Tinha o andar leve e possante de um leão e usava nas orelhas argolas tão grandes que os companheiros propunham, rindo, utilizá-las para prender as driças do cesto da gávea. Tendo levado durante longos anos a vida pura e corajosa dos pescadores de baleias, conservava intactas as virtudes bárbaras. Com perto de dois metros de altura, e direito como uma girafa, ele percorria em passo majestoso as pontes do Pequod. Um outro negro encontrara também
  • 57. Herman Melville - Moby Dick 56 trabalho no Pequod. Tratava-se do minúsculo Pip, um pobre preto do Alabama. Não tardareis a vê- lo, no castelo da proa, servindo-se do seu pequeno tambor para tocar uma espécie de prelúdio da eternidade..... Quanto ao resto da equipagem compunhase de marinheiros naturais de Nantucket, dos Açores ou das ilhas Shetland. Estes insulares tinham tendência para viver isolados, cada um por si, e formavam, à volta do personagem do qual vos vou, enfim, falar, como que uma floresta de sombras activas e quase sempre silenciosas. Dias depois da nossa partida de Nantucket, ninguém vira ainda o capitão Acab acima das escotilhas. Os oficiais faziam o quarto por turnos. Podia pensar-se que eles eram os únicos senhores a bordo. Contudo, de tempos a tempos, subiam da cabina com ordens tão bruscas e tão autoritárias que eu acabei 34 35 por me aperceber disto: eles limitavam-se a
  • 58. Herman Melville - Moby Dick 57 exercer o comando por delegação. O senhor supremo e verdadeiro do Pequod encontrava-se mesmo ali, encerrado num inviolável retiro. Nos primeiros tempos, tivemos de suportar um frio quase polar, apesar de, naturalmente, fazermos rota para o sul. Porém, eu sentia que, cada vez que transpúnhamos um grau de latitude, nos afastávamos do implacável Inverno. Em suma, numa manhã menos rigorosa do que as precedentes, mas ainda brumosa e escura, subi à ponte com a equipa de quarto. Um bom vento impelia a grande carcaça do Pequod a um andamento saltitante e rápido. De súbito, quando por hábito me voltava para a armadoira de coroamento, não pude reprimir um estremecimento. O capitão Acab encontrava-se ali, em pé, no castelo de popa, e a realidade ultrapassava tudo o que eu imaginara! Nada, na sua pessoa, traía qualquer doença, nada nos levava a pensar que estava convalescente. Tinha, sim, o ar de
  • 59. Herman Melville - Moby Dick 58 um homem que, submetido à acção do fogo, tivesse sido retirado a tempo, isto é, no momento em que as chamas começavam a lamber-lhe os membros. O seu largo torso parecia ter sido moldado no mesmo bronze que o Perseu de Benvenuto Cellini. Um traço lívido serpenteava-lhe pelos cabelos grisalhos, descia ao longo de um dos lados do rosto e do pescoço e desaparecia sob a camisola. O que seria. Um sinal de nascença? Uma cicatriz resultante de algum terrível ferimento? Um instante, fiquei como que fascinado por aquele traço lívido. Depois perguntei a mim próprio por que motivo o capitão Acab afectava aquela atitude rígida, quase arrogante. E, de súbito, compreendi. Não me tinham enganado: a perna sobre a qual se apoiava era feita com marfim polido de um maxilar de cachalote. Afirmavam que ele guardava na cabina várias pernas de reserva, todas semelhantes àquela. A sua estranha posição não deixou também
  • 60. Herman Melville - Moby Dick 59 de me surpreender. Porém não tardei a notar que mandara fazer na ponte, junto das peias para atracar a lancha, uns buracos à broca com a profundidade de cerca de dois centímetros, nos quais fixava a perna artificial. Para manter o equilíbrio, segurava-se com a mão esquerda a uma das peias. Olhava a direito na sua frente, para além da proa do navio. Não pronunciava palavra. Os oficiais movimentavam-se em silêncio à sua volta, mostrando pela sua expressão que não ignoravam os tormentos que afligiam o seu chefe. Com efeito, o taciturno Acab parecia trazer no rosto o reflexo de uma angústia devoradora... Após esta primeira aparição, voltou para a cabina. Mas depois, como o tempo ia melhorando de dia para dia à medida que nos aproximávamos do equador, voltámos a vê-lo todos os dias no castelo da popa e depois, em breve, quase todas as noites. A partir do momento em que os quartos ficavam distribuídos e a equipa de ponte velava pelo sono da equipa de baixo, o
  • 61. Herman Melville - Moby Dick 60 timoneiro via de súbito emergir lentamente, da sua escotilha, o velho mutilado. A maior parte do tempo, sem dúvida para não incomodar os seus oficiais que dormiam mesmo por baixo dele, o capitão Acab ia sentar-se no sítio do costume, num banco feito, como a sua perna, de um maxilar de cachalote. Mas, uma noite, provavelmente mais angustiado do que de costume, no seu passo mais pesado que o de um urso, pôsse a passear pela ponte, do castelo da popa ao mastro grande. Stubb, impedido de dormir, deixou o leito, subiu por sua vez à ponte e, aproximandose do capitão Acab, disseLhe, esforçandose por aparentar um tom despreocupado: Claro, capitão, que ninguém pode impedi-lo de passear se lhe apetece. No entanto, talvez houvessse um meio de fazer menos barulho... Podia, por exemplo, pôr um tampão de estopa na sua perna de marfim... Pobre Stubb! Não conhecias ainda o temível Acab.
  • 62. Herman Melville - Moby Dick 61 - O quê? - bramiu o capitão. - Sou alguma bala de canhão para me quereres assim enfiar uma bucha? Ora vamos, deixa-me em paz! E volta para a tua casota, cão! 36 37 Stubb, estupefacto, ficou um momento de boca aberta. Depois, recompondo-se, replicou: - Saiba, capitão, que não estou habituado a ser tratado dessa maneira! - Põe-te andar! resmungou Acab. Depois voltou as costas e começou a afastar-se. Temeria as explosões da sua própria cólera? Porém Stubb, enchendo-se de coragem, embargou-lhe o passo. - Fique sabendo, capitão, não permito que me chame cão... - Se assim é, posso chamar-te azêmola, asno, rocim! E agora, vai-te! Senão, livro o universo da tua presença! E, assim dizendo, após ter dado bruscamente meia volta, avançou para o seu primeiro-tenente com uma expressão tão assustadora que este, num movimento involuntário, recuou, depois desceu
  • 63. Herman Melville - Moby Dick 62 precipitadamente a escotilha que conduzia à sua cabina. Quando Stubb desapareceu, Acab ficou um momento debruçado sobre o filerete. Após o que, como o fazia quase todas as noites há alguns dias, mandou um dos marinheiros procurar o seu banco de marfim e o cachimbo. Acendeu o cachimbo no candeeiro da bitácula, instalou o banco na ponte, do lado exposto ao vento, sentouse e pôs-se a fumar. Passados alguns instantes, depois de ter puxado umas fumaças que o vento lhe atirava para o rosto, começou a murmurar: Como é possível que o tabaco já não me acalme? Ó querido cachimbo, como vai ser difícil o caminho se o teu encanto já não produz em mim qualquer efeito! Tu enchiasme de paz, de serenidade... Mas estou a ver que te tornaste inútil... Pois bem, sendo assim, não voltarei a fumar! Atirou o cachimbo ao mar e, erguendo-se, pôs-se de novo a passear na ponte. De tempos a tempos, para não se desequilibrar, tinha de se agarrar ao
  • 64. Herman Melville - Moby Dick 63 cordame. Na manhã seguinte, Stubb disse a Flask: 38 - Se soubesses o que me aconteceu! Tive um sonho, ou antes um pesadelo. O velho e eu estávamos a discutir. E eis que ele me dá um pontapé com a perna de marfim! Quero ripostar. Levanto a perna direita e vejo que ela se desprende do corpo! Que pensas disto? - Ora... Parece-me bastante ridículo... - Não, Flask, não é ridículo. É uma advertência para todos nós. Estás a ver o capitão ali à popa? Olha fixamente o largo. Pois muito bem, vou dar-te um conselho: deixa-o em paz, não repliques nunca, digate ele o que disser... Mas escuta! Ele está a gritar! Com efeito, o capitão Acab gritava: - Eh! Lá em cima, o vigia! E vocês todos mexam-se. Há baleias nestas paragens! Se virem uma branca, berrem até fazer estalar os pulmões! Stubb fixou Flask. - Então, Flask, qual a tua opinião? Esquisito, não achas?
  • 65. Herman Melville - Moby Dick 64 Ouviste aquilo? Uma baleia branca! Estás a ver? Palavra de honra, fica fora de si... Mas, chiu! Ei-lo. 39 V TODOS À POPA! Uma manhã, pouco depois do pequenoalmoço e alguns dias depois do episódio do cachimbo, o capitão Acab, como era seu hábito, saiu da cabina e subiu à ponte. Logo, erguendo a fronte enrugada, onde cada vez mais se notava a marca de uma ideia fixa, fez ressoar as tábuas sob o seu passo firme e duro. - Estás a ver, Flask? - murmurou Stubb ao ouvido do segundo-tenente. - Aquilo mexelhe com os miolos. Não tarda que o pinto que lá está dentro parta a casca! Passaram assim algumas horas. Muitas vezes, Acab voltou para a cabina e subiu de novo para a ponte. Mas a sua expressão permanecia de um fanatismo exaltado. Ao entardecer parou perto do filerete, meteu a perna de marfim no buraco que estava mais próximo dele, agarrou-se com uma das mãos a uma peia e ordenou a
  • 66. Herman Melville - Moby Dick 65 Starbuck, seu imediato: - Junte toda a gente à popa. - Como, capitão? - disse Starbuck, julgando ter ouvido mal, pois aquela ordem só era dada em circunstâncias excepcionais. - Todos à popa! - repetiu Acab. - E vocês, aí em cima, os vigias, desçam! Os homens da equipagem agruparam-se na sua frente. 40 Cada um deles o olhava com um misto de receio e surpresa. Pois não tinha ele o ar de uma nuvem de tempestade? Lançou um rápido olhar aos marinheiros. Depois, de mãos atrás das costas, cabeça inclinada para a frente, pôs-se a caminhar pesadamente pela ponte. Por fim, parando de súbito e levantando a cabeça, perguntou em voz forte: - Vejamos, rapazes, que fazem vocês quando vêem uma baleia? - Damos sinal dela! - respondeu a maior parte dos assistentes. - Muito bem - disse Acab. E aproveitando a atenção silenciosa que lhe prestavam, ajuntou logo: - E depois, o que fazem? - Lançamos as lanchas ao mar e
  • 67. Herman Melville - Moby Dick 66 perseguimo-la! - E ao som de que cantiga é que vocês remam? - Ao som desta: Ou ela ou a gente! Se ela não estoirar, Vamos nós ao ar! É-nos indiferente! Com uma expressão de satisfação selvagem, o velho marinheiro voltou para o seu buraco feito à broca, agarrou-se de novo a uma das peias e tornou, em voz vibrante: - Vigias, é a vocês em especial que agora me dirijo! Lembram-se, não é verdade, das ordens que dei a propósito da baleia branca? Pois bem - acrescentou ele, levantando acima da cabeça um objecto brilhante - , vêem esta moeda de ouro espanhola, este dobrão! Vale dezasseis dólares! Depois, voltando-se para Starbuck: - Dê-me aquele maço que está além! Quando Starbuck executou a sua ordem, o capitão Acab aproximou-se do mastro grande, brandiu o maço com uma das mãos e prosseguiu na mesma voz vibrante, continuando a mostrar a moeda de ouro: 41 - Esta moeda virá a pertencer àquele de
  • 68. Herman Melville - Moby Dick 67 entre vós que me assinalar primeiro uma baleia branca de testa enrugada, de maxilares à banda, com três buracos a estibordo da cauda! E, dizendo estas palavras, pregou a moeda na madeira do mastro. Entusiasmados, os marinheiros gritavam a cada pancada do maço: - Hurra! Hurra! Hurra! Terminada a operação, Acab atirou o utensílio para a ponte e concluiu nestes termos: - Ouviram bem, rapazes? Uma baleia branca! Estoirem os olhos para a encontrar! Preciso absolutamente dela! Neste momento, Tashtego, o índio, avançou um passo e disse: - Essa baleia de que fala, capitão, não é aquela a que alguns chamam Moby Dick? - É Moby Dick! - bramiu o velho marinheiro. - Então tu conhece-la? Conheces mesmo a baleia branca, Tashtego? - Talvez, capitão, se é aquela que põe a cauda em leque antes de mergulhar! - E, se não me falha a memória - interveio
  • 69. Herman Melville - Moby Dick 68 Daggoo, o negro gigantesco -, tem um jacto curioso, rápido, possante e espesso. Não é, capitão? Foi então que Queequeg, por sua vez, avançou um passo. - E ela ter muitos arpões na pele, não é, capitão. perguntou ele. - Arpões torcidos como... como... - Como saca-rolhas! - gritou o capitão. Sim, Queequeg, os arpões torcem-se no corpo dela como saca-rolhas... Quanto a ti, Daggoo, tens razão: o seu jacto é mais rápido, mais poderoso, mais espesso que o de qualquer outra baleia! E tu também, Tashtego, tens razão: quando ela se agita parece uma vela rasgada estalando durante uma tempestade. Inferno e danação, rapazes, foi mesmo Moby Dick que vocês viram, é mesmo Moby Dick que conhecem! Moby Dick. Moby Dick! Os três oficiais de bordo não tinham parado de contemplar o seu chefe com crescente surpresa. Starbuck afastou-se do pequeno
  • 70. Herman Melville - Moby Dick 69 grupo. 42 - Capitão - disse ele com o ar de um homem a quem acaba de acudir uma ideia -, não foi Moby Dick que lhe cortou a perna? - Quem te disse isso? - bramiu Acab. Em seguida, dominando-se: - Sim, Starbuck! Sim, rapazes, foi Moby Dick que me pôs assim! Sim, é a Moby Dick que eu devo este coto sobre o qual agora me apoio! Sim, foi essa maldita baleia branca que fez de mim, para o resto da vida, uma espécie de marinheiro de água doce! E erguendo ao céu os braços trémulos: Mas eu persegui-la-ei por toda a parte: no cabo da Boa Esperança, no cabo Horn, no Maelstrõm da Noruega... Até ao Inferno se for preciso! Jamais renunciarei a dar cabo dela! Foi para isso que vocês todos embarcaram comigo! Matá-la-emos juntos! Quero vê-la esguichar sangue negro pelos orifícios! Quero vê-la de barriga para o ar! Persegui-
  • 71. Herman Melville - Moby Dick 70 la-emos até aos confins da terra! Que dizem a isto, rapazes? Estão de acordo? Vocês parecem-me tipos corajosos! - E havemos de dar-lhe prova disso, capitão! - gritaram em conjunto marinheiros e arpoadores. Juntavam-se cada vez mais em redor do velho marinheiro exaltado. - Deus vos abençoe! - respondeu Acab, com a voz embargada pelos soluços. Tragam uma boa porção de rum! Vamos beber à morte de Moby Dick! Reparando que Starbuck parecia fechar-se num silêncio mal-humorado, perguntou-lhe: - O que é que tem? Porquê esse ar lúgubre? A baleia branca mete-lhe medo? - Não, capitão - respondeu o imediato -, nem Moby Dick nem a morte me metem medo. No entanto, acompanhei-o nesta viagem para pescar quaisquer baleias... E não para me tornar no instrumento da sua vingança. De resto, não compreendo que procure vingar-se de um animal talvez cruel, mas que se limitou a obedecer ao seu instinto. É normal matar um animal cuj a carne nos é indispensável. Persegui-lo
  • 72. Herman Melville - Moby Dick 71 encarniçadamente é não só loucura, mas um grande pecado! 43 O capitão Acab fixou durante alguns instantes Starbuck com um olhar profundo. Depois respondeu-lhe quase em voz baixa: - Há muitas coisas que você ignora. Os objectos que nos rodeiam, os objectos visíveis, não são mais que máscaras de cartão. Porém, em cada acontecimento, no indiscutível acto de viver, há o desconhecido, um desconhecido que raciocina, enquanto a máscara, essa, não raciocina. E o homem não pode actuar senão através da máscara! Como pode um prisioneiro evadir-se da sua cela sem destruir o muro? Pois bem, a baleia branca é esse muro. Eis porque quero destruí-la. Por vezes acontece-me pensar que por trás dela, por trás deste muro, por trás desta máscara de cartão, não há nada. Não importa! Moby Dick obceca-me. Vejo nela uma força que me injuria, uma crueldade insondável. O insondável, eis o que eu odeio, o que quero atingir! Não me diga que
  • 73. Herman Melville - Moby Dick 72 cometo um pecado encarniçando-me contra Moby Dick. Aniquilaria também o Sol se ele me injuriasse. Porque, o que o Sol pode fazer, sei que também eu posso fazê-lo!... Starbuck, você ora fica vermelho de cólera ora pálido como um morto. Mas veja estes homens da equipagem! Estão todos de acordo comigo. Compreenderam- me.E você também, Starbuck, concorda comigo, no fim de contas, não é verdade? Sim, sim. Sinto que consegui insuflar-lhe a minha vontade. Baixando a cabeça, Starbuck murmurou: Deus nos preserve a todos... Porém Acab, entregue ao prazer de ter estabelecido entre a equipagem e a sua pessoa uma espécie de harmonia diabólica, não ouviu esta invocação desesperada. Já não ouvia nada: nem os estalidos do casco do Pequod, que lembravam gargalhadas sufocadas de um riso sardónico, nem o sibilar profético do vento no cordame, nem o bater das velas contra a mastreação. - O rum, o rum! - gritou. Depois de o steward lhe ter levado um
  • 74. Herman Melville - Moby Dick 73 grande jarro de estanho cheio de rum até à borda, acrescentou: - Os arpoadores serão servidos em primeiro lugar, pois são os verdadeiros senhores da festa. Queequeg, Tashtego, Daggoo, aproximem-se! Depois, os oficiais! Starbuck, Stubb, Flask, aproximem-se também! Tirem os ferros dos cabos dos arpões e das lanças... Muito bem. E agora orientem a ponta para baixo. Isso mesmo! Depois de encher de rum os ferros dos arpões e das lanças, continuou: - Brindem com estes cálices mortíferos, depois bebam-nos de um trago. E agora jurem: que Deus nos fulmine se não perseguirmos Moby Dick até aos confins do universo! Às aclamações da equipagem, arpoadores e oficiais ergueram os ferros das suas lanças e levaram-nos aos lábios. Após ter esvaziado o seu, Starbuck, muito pálido, voltou costas e afastou-se tremendo. O capitão Acab olhou os marinheiros passando uns aos outros o jarro de rum. Em seguida, após tê-los saudado com um sinal da mão, dirigiu-se para a escotiLha e
  • 75. Herman Melville - Moby Dick 74 desceu à cabina. Se tivéssemos seguido o capitão até à sua cabina, tê-lo-íamos visto aproximar- se de uma arca, levantar a tampa e retirar de lá um rolo de cartas de marear amarelecidas e amachucadas. Desdobrou-as na sua frente, sobre uma mesa cujos pés estavam atarrachados ao chão. Em seguida, depois de se ter sentado, estudou-as atentamente e, com mão firme, traçou a lápis algumas linhas nas zonas ainda em branco. Por vezes, erguia a cabeça, pegava num velho livro de bordo e consultava-o para se certificar de alguns locais onde os navios de outrora tinham assinalado ou capturado cetáceos, baleias ou cachalotes. Assim, quase todas as tardes, quase todas as noites, o capitão Acab ficava debruçado sobre as suas cartas, apagando algumas linhas, substituindo-as por outras. E, pouco a pouco, ia apertando, cada vez de mais perto, o objectivo que, na sua loucura, jurara atingir. 44 45 Após assim ter trabalhado até muito tarde,
  • 76. Herman Melville - Moby Dick 75 murmurava, passando a mão pela testa: "Vou apertando o cerco cada vez mais! Escapar-me-á. Não, é impossível! As suas enormes barbatanas estão todas furadas, rendadas, como a crista de uma onda extraviada..." Então, a sua imaginação delirante arrastava-o para loucas corridas que o levavam aos quatro cantos do planeta, de tal modo que, esgotado e prestes a desfalecer, se via forçado a subir à ponte a fim de recobrar as forças, respirando por alguns instantes o ar vivificante do largo. Feliz aquele cujo sono, sem nada a perturbá-lo, corre como um sereno ribeiro. O capitão Acab, esse, obcecado pelo desejo de tirar uma retumbante vingança da baleia branca, dormia de punhos cerrados e já nem se admirava quando, ao acordar, via as unhas cravadas até ao sangue nas palmas das mãos. Por vezes, expulso do leito por pesadelos de um realismo alucinante, surgia bruscamente da cabina como se esta
  • 77. Herman Melville - Moby Dick estivesse a arder e punha-se a correr pela entrecoberta, soltando bramidos que aterrorizavam toda a tripulação. Tinha, no entanto, momentos de fria lucidez. Foi durante um destes momentos que, ao contrário do costume segundo o qual o capitão de uma baleeira não participa nas operações de pesca, escolhera para si a quarta baleeira, a que balançava a estibordo, junto do castelo da popa. E não só ficara com ela, mas constituíra para esta baleeira uma equipagem de cinco homens de cor, dirigidos por um certo Fedallah. Este personagem, do qual eu não notara a presença no dia da nossa partida, parecia feito das brumas do mar. De elevada estatura, usava uma espécie de túnica chinesa de um negro tão fúnebre como o seu rosto, e um turbante imaculado que nunca tirava. Só ao fim de algum tempo descobri que não se tratava de um turbante, mas das suas tranças brancas enroladas à volta da cabeça. Tudo isto - esta baleeira, esta misteriosa 76
  • 78. Herman Melville - Moby Dick 77 tripulação -, provava que o capitão Acab tinha realmente a intenção de contribuir, por suas mãos, para o aniquilamento de Moby Dick. 46 VI O JACTO FANTASMA Os dias e as semanas iam passando sem qualquer incidente notável. Avançando a boa velocidade, o Pequod sulcara o Atlântico em todos os sentidos, dos Açores a Santa Helena, de Santa Helena à embocadura do rio da Prata, da embocadura do rio da Prata até a essa zona bastante vaga, situada a sul de Santa Helena e chamada Carrol Ground. Foi nas águas do Carrol Ground, numa noite calma e luminosa, uma noite apenas perturbada pelo rolar das vagas, que um dos vigias avistou de súbito, mesmo na nossa frente e a pouca distância do borbulhar da nossa roda de proa, um jacto prateado iluminado pelos raios da Lua. Dirse-ia um deus cintilante, com um capacete de plumas brancas, emergindo das profundezas do mar. Foi Fedallah o
  • 79. Herman Melville - Moby Dick 78 primeiro a assinalar a sua presença. Nas noites claras, com efeito, ele tinha o costume de trepar para o cesto da gávea e dali vigiar toda a superfície visível do Atlântico. Quando os homens da tripulação o ouviram gritar: "Além! Olhem! Ela está a soprar!", foi como se acabassem de ouvir os acordes triunfantes da trombeta do Juízo Final. E todos desejaram que se aproveitasse aquela ocasião para lançar enfim as baleeiras ao mar. Passados dois segundos, o capitão Acab surgia na ponte. 47 Com o seu passo rápido e martelado, dirigiu-se para o castelo da popa e ordenou que desfraldassem todas as velas. Mandou para a barra o melhor timoneiro de bordo, enviou vigias suplementares para os outros postos de observação. Impelido por um vento bastante forte, o Pequod avançou rápido sob as estrelas, num silêncio apenas quebrado pelo ruído produzido pelo capitão martelando a ponte com a sua perna de marfim. No entanto, nessa noite ninguém
  • 80. Herman Melville - Moby Dick 79 voltou a ver o jacto prateado. Porém todos os marinheiros estavam prontos a jurar que o tinham visto. No dia seguinte, à mesma hora, os vigias assinalaram-no de novo. Todos puderam contemplá-lo durante bastante tempo. No entanto, quando se dirigiram para ele, ela volatizou-se como da primeira vez. E, noite após noite, isto repetiu-se: o jacto fantasma erguia-se de súbito sobre as ondas e quase de seguida dissipava-se, como um sonho. Alguns quiseram deixar de lhe prestar atenção. Mas a maior parte continuava a interrogar-se sobre o assunto. E todos, sem nada dizermos, tínhamos a impressão de que ela procurava intrigar-nos, arrastar-nos para mais longe, talvez atrairnos para alguma incompreensível armadilha. Pouco a pouco, as nossas imaginações iam-se tornando presas de um estranho trabalho. Alguns de nós, depois de procurar na memória, julgaram poder declarar: - É tal qual como me disseram, trata-se de Moby Dick! Parece que de cada vez que se
  • 81. Herman Melville - Moby Dick 80 avista este jacto, em qualquer latitude, vale mais não o seguir, se não quisermos perder-nos e morrer em oceanos ainda mais longínquos, ainda mais selvagens do que este... Apoderara-se de nós um medo vago, mas tenaz. E este pavor aumentou ainda quando ouvimos bramir as tempestades do Cabo e fomos sacudidos por vagas enormes e tumultuosas. Agora, o Pequod, sempre voluntarioso e arrebatado, afrontava a tempestade, inclinando-se sob os seus violentos ataques. Durante todo o dia a ponte era invadida por rolos de espuma esbranquiçada. 48 Todas as manhãs, nuvens de corvos do mar voavam à volta dos nossos mastros e pousavam nas vergas, onde, apesar das nossas ameaças, continuavam empoleirados, considerando sem dúvida o nosso navio como um destroço já à deriva. Sob os nossos olhos, o oceano ofegava, à maneira de um ser angustiado e atormentado pelo remorso.
  • 82. Herman Melville - Moby Dick 81 Cabo da Boa Esperança, assim se diz hoje... Porque deixaram de lhe chamar, como outrora, e a justo título cabo das Tormentas? Durante todo o tempo em que os elementos nos foram desfavoráveis, o capitão encarregou-se do comando. Mais taciturno ainda do que de costume, mal dirigia a palavra aos seus oficiais. Com a perna de marfim cravada no buraco de broca, com a mão apoiada numa das peias, ficava horas inteiras imóvel, de olhar fixo na sua frente, e as pestanas carregadas de neve ou de granizo. O que ele via sempre, sonhando acordado, era a cena obsessiva, no entanto já com vários anos, em que afrontara a baleia branca num formidável corpo a corpo. Saltando da baleeira despedaçada, lançara-se sobre o monstro e procurara atingi-lo no coração. Porém, voltando de súbito a sua bocarra em forma de foice, o monstro arrebatara-lhe uma perna tão facilmente como um ceifeiro ceifa uma espiga de trigo no campo. Não era então de
  • 83. Herman Melville - Moby Dick 82 espantar que o capitão Acab votasse a Moby Dick um ódio de morte. Cego pelo desespero, chegara ao ponto de identificar a baleia branca com os seus sofrimentos físicos e morais. Encarnava para ele o mal que devora alguns homens até lhes deixar apenas um pouco de coração ou de pulmão, um mal que, aos olhos dos cristãos, possui a maior parte dos seres e que a humanidade detesta desde Adão. Apesar da idade e da doença, jurara aniquilá-la... A sudeste do cabo da Boa Esperança e ao largo das longínquas ilhas Crozet, isto é, numa zona particularmente favorável aos pescadores de baleias, avistámos um dia a alta silhueta de um veleiro, o Albatroz. 49 Empoleirado, nesse dia, no posto de observação do mastro de traquete, fui um dos primeiros a poder contemplar - o espectáculo emocionante para o noviço que eu era então - uma baleeira que não via o seu porto há muito tempo e navegando ao largo.
  • 84. Herman Melville - Moby Dick 83 Tinha o aspecto de um esqueleto de morsa. Nos seus flancos, que a acção das vagas desbotara, a ferrugem desenhara longos traços amarelados. As antenas e a enxárcia pareciam ramagens cobertas de geada. Trazia apenas as velas inferiores desfraldadas. Quanto aos marinheiros, empoleirados como vigias nos postos de observação dos seus três mastros, formavam um curioso quadro, com as vestimentas em farrapos e as barbas desgrenhadas. Quando o Albatroz passou muito perto da popa do nosso barco, uma voz - a do capitão Acab - elevou-se de súbito do castelo da popa: - Oh! Gente do navio! Viram a baleia branca? O capitão do Albatroz aproximou-se do filerete, ergueu o porta-voz e, sem dúvida por desastramento, deixou-o cair ao mar. No entanto respondeu à pergunta feita por Acab. Mas as suas palavras foram levadas para longe pelo vento, enquanto o navio se afastava progressivamente do nosso. O
  • 85. Herman Melville - Moby Dick 84 capitão Acab parecia reflectir. Iria lançar um escaler à água? No entanto, renunciando a esta ideia, pegou por sua vez no porta-voz e gritou: - Eh! Vocês aí! Eu conheço-os. São de Nantucket. Aqui, o Pequod! Andamos a dar a volta ao Mundo. Remetam as nossas cartas para o oceano Pacífico! E, se não estivermos de volta dentro de três anos, digam às nossas famílias que nos escrevam para... Neste instante os dois sulcos confundiramse e - facto surpreendente - os peixes que, há dias e dias, seguiam em cardumes cerrados ao longo dos nossos flancos, deixaram-nos bruscamente e foram amontoar-se atrás do Albatroz. Acab - nada escapava àquele diabo de homem! - inclinou-se sobre o varandim e murmurou, como se visse um sentido neste facto: - Então vocês abandonam-me? Vocês abandonam-me! Ele, de costume tão violento, tão autoritário, falara com uma entoação de profunda
  • 86. Herman Melville - Moby Dick 85 tristeza. Porém, recobrando logo o seu tom imperioso, voltou-se para o timoneiro, que até ali tinha manobrado para reduzir a velocidade, e ordenou- lhe: - Deixe andar! E a caminho para a volta ao Mundo! Meia hora mais tarde, o Albatroz desaparecia no horizonte, enquanto cada um de nós, com uma surpresa mesclada de apreensão e orgulho, repetia no seu foro íntimo: "A volta ao Mundo! A volta ao Mundo!..." Nos dias que se seguiram, o Pequod afastou-se das ilhas Crozet para nordeste, em direcção a Java. Atravessava continuamente várias extensões de brit, essa substância amarela que flutua à superfície das águas e que é o principal alimento das baleias. Os seus três mastros balançavam molemente ao sabor da leve brisa que o impelia a um andamento regular. E, quase todas as noites, os vigias continuavam a assinalar, solitário e misteriosamente atraente, o jacto prateado...
  • 87. Herman Melville - Moby Dick 86 Uma manhã, mais transparente e mais azul ainda do que as precedentes, Daggoo, que se encontrava no posto de observação do mastro grande, avistou ao longe uma massa branca que se afundou pouco a pouco. Depois reapareceu a reluzir como uma colina de neve. "É Moby Dick?", perguntava de si para si o arpoador. E, como a massa branca voltava a passar, não se conteve sem gritar: - Além! Além! A direito, em frente! É a baleia branca! A baleia branca! Imediatamente, todos os marinheiros se precipitaram para as vergas. De cabeça descoberta, apesar do sol ardente, o capitão Acab subiu ao gurupés. Depois, após um exame de segundos, deu ordem para lançar os escaleres ao mar. Julgaria, também ele, encontrar-se na presença de Moby Dick? Passados instantes, as quatro baleeiras com a do capitão à frente, lançavam-se sobre a sua presa. Pouco a pouco, a massa branca tornava-se mais precisa. Não tinha cabeça,
  • 88. Herman Melville - Moby Dick 87 50 51 nem barbatana. Mas do centro desta massa irradiavam braços imensos que se torciam como serpentes e pareciam prestes a devorar tudo o que se apresentasse ao seu alcance. Este monstro informe tinha sem dúvida sentido a nossa aproximação, pois, com um surdo ruído de sucção, deixou-se de novo afundar e não voltou a aparecer. Olhando para o turbilhão formado no sítio onde ele mergulhara, Starbuck declarou: Preferia ter combatido com Moby Dick a terte visto, maldito fantasma branco! - O que era aquilo? - perguntou Flask. - Era o grande squid, o grande cornudo dos mares quentes respondeu Starbuck. - Dizem que os barcos que o encontram não voltam nunca mais ao seu porto... O capitão Acab, esse, não dizia palavra. Depois de ter virado a sua baleeira, voltou para o Pequod. Nós seguimo-lo em silêncio. Se, para Starbuck, a aparição do squid era um mau presságio, não me parecia que
  • 89. Herman Melville - Moby Dick 88 para Queequeg o fosse. - Quando vocês ver squid - disse ele pousando o arpão na frente da baleeira -, quando ela vir para bordo, vocês ver logo cachalotes e baleias. No dia seguinte, o tempo estava calmo e abafado. Sem nada que fazer, os marinheiros do Pequod dificilmente resistiam ao sono. É preciso ver que vogávamos agora no oceano Índico, isto é, que atravessávamos uma das superfícies líquidas menos animadas, mais enfadonhas, do globo terrestre. Eu estava de vigia no mastro de traquete. Encostado à vela bamba da vela do cimo e embalado pelo movimento leve e ondulante do navio, pus-me a devanear, depois fechei os olhos. Mas, de súbito, tive a impressão de que estalavam bolhas sob as minhas pálpebras fechadas. Alcançando as peias mais próximas, agarrei-me a elas com todas as forças. Porque milagre acordara no momento em que ia ser talvez projectado no vácuo? Sacudi-me, abri os olhos... E
  • 90. Herman Melville - Moby Dick 89 avistei, muito perto de nós, a menos de quarenta braças, um gigantesco cachalote, 52 53 que corria nas vagas, lançando de tempos a tempos um jacto de água vaporizada que o fazia assemelhar-se a qualquer gordo burguês fumando tranquilamente o seu cachimbo ao sol. Um instante mais tarde toda a equipagem estava em ebulição. - Baleeiras ao mar! - gritou o capitão Acab. Depois, afastando o timoneiro com um gesto, deu ele próprio uma violenta guinada para estibordo. Alertado sem dúvida pelos nossos gritos, o cachalote descreveu uma curva majestosa e afastou-se para sotavento. O capitão ordenou-nos que não falássemos. Então, instalámo-nos em silêncio nas quatro baleeiras e lançámo-nos em perseguição do monstro. Bruscamente, este ergueu a cauda, agitou-a no ar a uma altura de cerca de quarenta pés e mergulhou. Dir-se-ia uma flecha de igrej a engolida por uma vaga monstruosa. Aproveitando a trégua que assim nos era
  • 91. Herman Melville - Moby Dick 90 concedida, Stubb tirou o cachimbo do bolso e acendeu-o. Passado o tempo normal do mergulho, o cachalote reapareceu à frente da baleeira comandada pelo fumador, e bastante afastada das outras três. A partir deste instante, o primeiro-tenente pensou: "Este é meu!" E dirigindo-se aos companheiros: - Sigam-no, sigam-no, rapazes! Mas não se apressem demasiado. Tu, Tashtego, não percas o sangue-frio! Vais ver que as coisas se vão passar o melhor possível! Enquanto falava tirava do cachimbo fumaça após fumaça. - Hu, hu! Tratava-se do índio, que, para responder ao primeiro-tenente, soltava o grito de guerra da sua tribo. - Hi, hi! - gritou Daggoo da baleeira ao lado. - Ka-la! Ku-lo! Desta vez era Queequeg que, naturalmente, se encontrava comigo na minha baleeira. As quatro embarcações saltavam, baloiçavam, fendiam as ondas. De súbito, Stubb endireitou-se e gritou:
  • 92. Herman Melville - Moby Dick 91 54 - É a tua vez, Tashtego! Depois de o índio ter lançado o arpão, o primeiro-tenente acrescentou: - Agora, rapazes, recuem como puderem! Os remadores pararam, ergueram os remos e, em conjunto, começaram a andar em sentido contrário. Então Stubb pôs-se a desenrolar a linha fixa a um robusto cilindro. E, no momento em que a baleeira era arrastada a uma velocidade que aumentava de segundo a segundo, o primeiro-tenente e o seu arpoador trocaram de lugar, isto é Stubb foi para a frente, enquanto Tashtego se sentava junto do cilindro. A linha esticava, esticava cada vez mais. A baleeira já não deslizava sobre as ondas: voava! Enfim, passado algum tempo, o cachalote diminuiu o andamento. - Firme! Firme, rapazes! - bradou Stubb. Habilmente virou e foi colocar-se junto ao flanco do cachalote e, apoiando o joelho no rebordo, brandiu a lança e pôs-se a atacar
  • 93. Herman Melville - Moby Dick 92 o cetáceo com golpes sucessivos. A cada uma das suas ordens, a baleeira recuava, para não ficar presa nos remoinhos provocados pelo monstro. No instante seguinte sempre à voz de comando, ela voltava à carga. Ribeiros vermelhos começavam a correr ao longo do corpo do enorme animal e tingiam a água já avermelhada pelos raios oblíquos do Sol poente. Um vapor branco brotava sem cessar dos seus orifícios... À cadência das fumaças tiradas do cachimbo do primeiro-tenente. - Mais perto! Mais perto! - bramiu Stubb, brandindo de novo a lança. Desta vez a baleeira ficou completamente encostada ao flanco da prodigiosa massa de carne agonizante. Stubb mergulhou ali a lança com uma energia sobre-humana. Atingido enfim no coração, o cachalote rolou sobre si próprio com tanta violência que, mais uma vez, a baleeira teve de recuar. Depois as suas temíveis convulsões tornaram-se mais espaçadas e mais lentas.
  • 94. Herman Melville - Moby Dick 93 Quando cessaram por completo, Daggoo numa baleeira ao lado, disse a Stubb: 55 - Está morto! - Pois está - respondeu o primeiro-tenente. - Acabou de fumar o seu cachimbo! E eu também, aliás... E, tirando o cachimbo da boca, espalhou as suas cinzas nas ondas, contemplando com um ar pensativo o formidável cadáver que acabara de fazer. Atrelando três baleeiras em fila, começámos a rebocar o nosso troféu. Éramos dezoito homens aos remos, isto é, trinta e seis braços ou, se se preferir, cento e oitenta dedos. No entanto, precisámos de várias horas para cobrir a distância que nos separava do Pequod. Caiu a noite. Três lanternas de bordo, colocadas a diferentes alturas num dos mastros do navio, iluminavam a nossa marcha. Por cima do filerete baloiçava- se outra. Ao aproximarmo-nos, verificámos que quem a segurava era o próprio capitão Acab. Com o olhar vazio, fixou por uns
  • 95. Herman Melville - Moby Dick 94 segundos o cachalote, deu ordem para o acondicionarem para a noite e, depois de ter dado a lanterna a um marinheiro que estava mais perto dele, dirigiu-se para a escotilha. Só na manhã seguinte voltaria a aparecer. Enquanto durara a perseguição, despendera a actividade habitual. Mas, agora que o cachalote estava morto, aparentava, pela sua atitude, uma espécie de descontentamento: "Tudo isto está muito bem! Mas, ainda que me trouxessem mais cem cachalotes ou baleias, nada mudaria, visto que Moby Dick continua viva." Não tardou que os marinheiros lançassem pelo rebordo pesadas correntes. Meia hora mais tarde, o cachalote estava solidamente amarrado ao longo do navio, com a cauda para a proa e a cabeça para a popa como era o costume. Na escuridão da noite, o Pequod e a sua presa tinham o ar de dois bois colossais sob a mesma canga. A seguir, Stubb, após ter comandado esta operação do princípio ao fim, aproximou-se de Daggoo e disselhe com um ar alegre,
  • 96. Herman Melville - Moby Dick 95 pois ainda estava sob a embriaguez da vitória: - Salta por cima do filerete e vai-me cortar uma fatia dele, uma boa fatia, na cauda! 56 Importa sublinhar que o primeiro-tenente, como muitos pescadores de Nantucket, era um bom apreciador da carne tenra dos cetáceos, sobretudo quando esta era proveniente da parte que ele indicara. À meia-noite, a fatia encontrava-se não só cortada, mas cozida. À luz de duas lanternas, Stubb, utilizando o cabrestante como mesa, começou a comer regaladamente. No entanto, nessa noite, não foi ele o único a comer cachalote. Centenas de tubarões comprimiam-se em volta do colosso morto e arrancavam-lhe pedaços de pele e de toucinho. Cada vez que as suas maxilas estalavam ou as caudas chicoteavam o casco do navio, os marinheiros deitados na entrecoberta estremeciam. E os vigias podiam distinguir de vez em quando os carnívoros do mar revirando- se
  • 97. Herman Melville - Moby Dick 96 na água negra para arrebatar mais facilmente do corpo do vencido pedaços redondos cuja forma e tamanho lembravam os de uma cabeça humana. 57 VII FUNERAL DE UM CACHALOTE No dia seguinte era domingo. Porém, os nossos muitos afazeres não nos deixaram observar o descanso dominical. Desde o alvorecer, o Pequod transformou-se num imenso matadouro, e todos os marinheiros em magarefes. Dir-se-ia que estávamos sacrificando dez mil touros aos deuses do mar! Em primeiro lugar foi içado e solidamente fixo ao mastro um feixe de roldanas. Depois, por uma destas roldanas passou-se um robusto cabo, do qual pendia o gancho do toucinho e cuja outra extremidade estava ligada a um guindaste. Terminados os preparativos, Stubb e Starbuck, debruçados no filerete, fizeram com as lanças, no corpo do cachalote, um buraco suficientemente grande para lá caber o gancho. Logo que este ficou colocado, uns
  • 98. Herman Melville - Moby Dick 97 dez marinheiros, entoando uma canção selvagem, empreenderam a tarefa de fazer girar o guindaste. Primeiro o navio estremeceu, abanou. Depois inclinou-se cada vez mais. A cada volta do guindaste, as vagas, em redor do casco, erguiam-se em fúria. Por fim, deu-se como que uma explosão. O Pequod endireitou-se e o gancho começou a subir, arrastando a primeira barra de toucinho. Os cetáceos são rodeados de toucinho como a laranja da casca. A operação estava pois no princípio. O guindaste continuava a girar, o cachalote rolava sobre si próprio e a barra ia crescendo, crescendo sem interrupção. Quando atingiu o cesto da gávea, 58 o guindaste parou. Um instante mais tarde, um novo gancho estava cravado no corpo do cachalote, o guindaste voltava a girar e a segunda barra elevava-se lentamente até ao cimo da mastreação. Mas, enquanto esta manobra prosseguia, e a terceira, a quarta, a quinta barras eram arrancadas ao cadáver do cachalote, uma equipa de
  • 99. Herman Melville - Moby Dick 98 marinheiros especializados fazia-as descer uma após outra por uma escotilha para um espaçoso porão chamado câmara do toucinho e, na penumbra, enrolavam-nas lado a lado ao ritmo da canção entoada agora a plenos pulmões pelos seus companheiros que, lá em cima, continuavam a carregar com todas as forças nas manivelas do guindaste. - Icem as correntes e arriem a carcaça! Os ganchos, as roldanas e o guindaste cumpriram o seu dever. Depois de terem esfolado o cachalote, decapitaram-no e penduraram a sua cabeça sangrenta no costado do Pequod, tal como Judite atara à cintura a cabeça do gigante Holofernes. Um fantasma branco, colossal e informe, tudo o que resta do cetáceo, afasta-se lentamente nas vagas, onde redemoinham os insaciáveis tubarões. Centenas de aves de rapina sobrevoam-no, soltando gritos e acabam de desfazê-lo com os bicos acerados como punhais. Uma hora mais tarde, por volta do meio-dia, a carcaça nada mais era do que uma
  • 100. Herman Melville - Moby Dick 99 mancha indistinta no horizonte. Mas, na ponte deserta, reinava agora um silêncio de funeral. Subitamente, o capitão Acab surgiu da sua escotilha, inclinou-se sobre o filerete e contemplou longamente a monstruosa cabeça pendurada no costado do navio. - Fala... Conta-me o teu segredo! murmurava ele. - Tu que mergulhas no mais profundo dos oceanos, tu para quem o tempo não tem sentido, tu que viste tantos cruzeiros triunfantes, Diz-me... mas também tantos naufrágios. Fala, peço-te! Bruscamente calou-se. Com efeito um dos vigias acabava de gritar: - Navio à vista! 59 - Um navio? - repetiu o capitão Acab endireitando-se. - Onde? - Na frente, a estibordo, capitão! E dirige-se para nós! Com efeito, o recém-chegado avançava a boa velocidade para o Pequod. Tratava-se do Jéroboam, outro baleeiro de Nantucket. Assim que se aproximou, lançou um escaler ao mar. No entanto, quando o seu capitão, de nome Mayhew, viu que nos
  • 101. Herman Melville - Moby Dick 100 preparávamos para descer a escada de abordagem, declarou: - É inútil! Há uma epidemia a bordo. Não quero ter qualquer contacto convosco. - Parou o escaler a alguns metros do Pequod. Entre os marinheiros que o acompanhavam, encontrava-se um homem de aspecto singular. Bastante novo e de pequena estatura, apresentava um rosto bexigoso sob uma cabeleira amarela. E, ao contrário dos outros marinheiros que usavam todos camisolas, vestia um fraque com abas, do qual enrolava as mangas compridas de mais, acima dos pulsos. Mal o reconheceu, Stubb exclamou: - Olha, não há dúvida, é o Gabriel, aquele maluco do Jéroboam! Fazia alusão a uma certa história que corria em Nantucket a respeito deste esquisito personagem. Pois não se dizia que este meio-louco, com olhos onde luzia um brilho fanático, se tomava pelo arcanjo Gabriel e acabara por exercer sobre a tripulação do Jéroboam uma autoridade quase soberana?
  • 102. Herman Melville - Moby Dick 101 Em resposta à declaração do capitão Mayhew, o capitão Acab gritou: - Não tenho medo da sua epidemia, amigo! Vamos, suba a bordo! Porém, ouvindo estas palavras, Gabriel largou o remo e pôs-se em pé bramindo: - Toma cuidado, capitão Acab! Não receias a febre-amarela, a febre biliosa? Nem mesmo receias a horrível peste? Mayhew quis fazê-lo calar: - Ora vamos, Gabriel, senta-te e deixa-nos em paz! Imperturbável, Acab perguntou: - Viram a baleia branca? Gabriel fingiu considerar que aquela pergunta lhe era dirigida e, erguendo-se de novo: - Ah, Acab, poderás imaginar a tua baleeira desmantelada e afundada! Pensa, pensa na formidável cauda da baleia branca! - Escuta, Gabriel - disse o capitão Mayhew -, se te levantares mais uma vez, se voltares a abrir a boca... Aparentemente reduzido ao silêncio Gabriel voltou a sen tar-se no banco, e o capitão
  • 103. Herman Melville - Moby Dick 102 Mayhew conseguiu então contar ao patrão do Pequod uma triste história na qual Moby Dick representava o papel principal. - Sim - disse ele - dois anos após a nossa partida de Nantucket, avistámos um dia Moby Dick, a baleia branca! Macey, o meu imediato, ansiava por se defrontar com ela. Quando lhe dei o meu consentimento, convenceu cinco homens a acompanhá- lo na sua baleeira. Depois fez-se ao largo, mas teve de utilizar muitos rodeios antes de conseguir aproximar-se do monstro, o qual mergulhou mal o arpão lhe penetrou na carne. Macey, já certo do triunfo, esperava que ela se dignasse reaparecer para acabar de a matar a golpes de lança. Mas, subitamente, surgiu muito perto da baleeira uma massa branca que com uma forte pancada da cauda precipitou nas vagas o meu infeliz imediato... Cabe-me reconhecer que Gabriel, aqui presente, antes da sua partida, predissera a Macey que ele corria para a sua perdição.
  • 104. Herman Melville - Moby Dick 103 Mayhew terminara a narração. Acab, então, fez-lhe numerosas perguntas acerca deste deplorável acidente, de tal modo que o capitão do Jéroboam não pôde deixar de lhe Perguntar: - Tenciona também defrontar Moby Dick? - Tenciono sim - respondeu Acab. porém Gabriel, que se mantivera sossegado enquanto o capitão falara, levantou-se pela terceira vez e tornou com veemência, apontando para Acab um indicador profético: 60 61 - Pensa, pensa em Macey, esse blasfemador que dorme hoje no fundo do oceano! Quererás participar da sua sorte? Acab encolheu os ombros e dirigindo-se a Mayhew: - Creio que tenho no meu saco de correio uma carta dirigida a um dos seus oficiais. Depois, avistando Starbuck: - Vá buscá-la. Aqui, são necessárias algumas palavras de explicação. Naquela época longínqua, todo o baleeiro se encarregava, no momento da partida, da
  • 105. Herman Melville - Moby Dick 104 correspondência destinada às tripulações dos navios que já tinham partido. A entrega desta correspondência fazia-se ao acaso dos encontros nos cinco oceanos. É escusado dizer que a maior parte das cartas nunca chegava aos seus destinatários, ou chegava somente dois ou três anos depois de terem sido enviadas. Starbuck não tardou a voltar com a carta em questão que entregou a Acab. Este necessitou de um bom minuto para decifrar a direcção, pois o sobrescrito estava coberto de manchas de bolor. - É letra de mulher, aposto... Senhor... Senhor Har... Sim, Senhor Harry Macey, a bordo do Jéroboam... Depois, erguendo bruscamente a cabeça: Mas, capitão Mayhew, é Macey, o seu imediato... Ele morreu! - Pois - respondeu Mayhew. - Pobre rapaz! Essa carta é da mulher dele. Mesmo assim dê-ma. Gabriel apontou de novo para Acab o indicador profético: - Não! - exclamou ele. Acab, ordeno-te que fiques com essa carta!
  • 106. Herman Melville - Moby Dick 105 Assim poderás entregá-la tu próprio ao seu destinatário, visto que não tardarás a ir ter com ele! - Vai para o diabo que te carregue! - bramiu Acab. E acrescentou, atirando a carta ao capitão Mayhew: - Apanhe-a! No entanto, a carta em vez de cair nas mãos do capitão, foi parar às mãos de Gabriel, o qual, depois de a ter picado com a ponta de uma faca, a atirou com a faca, para a ponte do Pequod. 62 Instantes mais tarde, à ordem do mesmo Gabriel, a baleeira remava a toda a força para o outro navio. Após este incidente, continuámos a descer as barras de toucinho do cachalote pela escotilha e a enrolá-las no mourão. Porém, enquanto trabalhávamos, comentávamos o facto que acabávamos de testemunhar e alguns dos nossos não podiam deixar de ver nisso um sinistro presságio. 63
  • 107. Herman Melville - Moby Dick 106 VIII A HISTÓRIA DO TOWN-HO Estávamos agora longe, muito longe das ilhas Crozet, e mais longe ainda do cabo da Boa Esperança. No entanto, encontrávamonos numa das rotas marítimas mais concorridas do Globo. E, nesta rota, não tardámos a cruzar-nos com um baleeiro que voltava ao porto, terminada a sua campanha de pesca. Tratava-se do Townho. Tinham-lhe dado o nome do grito que outrora soltavam os vigias quando avistavam uma baleia. O nosso encontro foi breve. Mas, por três marinheiros do Town-ho - quer dizer, por marinheiros da minha raça, pois os outros eram quase todos polinésios -, soubemos, a respeito de Moby Dick, novas tão extraordinárias que a baleia branca começou a aparecer-nos como o instrumento daquela justiça divina que, por vezes, parece perseguir certos homens. Devo precisar que o capitão Acab jamais soube destas novas, pois nenhum de nós teve coragem de lhas comunicar. Uns anos mais tarde, encontrando-me na
  • 108. Herman Melville - Moby Dick 107 Estalagem Dourada, em Lima, capital do Peru, na companhia de alguns espanhóis ociosos, entre os quais dois explêndidos cavaleiros, D. Pedro e D. Sebastião, que eram meus amigos íntimos, tive oportunidade de fazer alusão às confidências do Town-ho. Pediram-me encarecidamente que fosse mais preciso. Eis pois o relato que fiz nesse dia, não sem ser interrompido de tempos a tempos por perguntas que me faziam, ora um ora outro, D. Sebastião e D. Pedro. "Senhores - comecei - aproximadamente dois anos antes do encontro do Pequod com o Town-ho navegava no Pacífico ao largo das costas da vossa pátria e um pouco a norte do equador. Uma manhã, quando certos marinheiros accionavam, como o faziam todos os dias, as bombas do navio, verificaram que o porão metia mais água do que de costume. Supôs-se que o casco fora furado por um espadarte. Devo dizer-vos que o capitão estava plenamente convencido de que o esperava a sorte
  • 109. Herman Melville - Moby Dick 108 naquela região. Não estava pois nada disposto a afastar-se tão cedo dali. De resto, o veio de água apesar de ser impossível de localizar não fora considerado alarmante. o navio, portanto, continuou viagem. Assim passOu uma semana. Porém a sorte não vinha nunca mais, enquanto que por seu lado o veio de água aumentava incessantemente sem se saber a sua origem. No entanto, o comandante um pouco inquieto deu ordem para içar todas as velas e navegar rumo ao grupo de ilhas mais próximo, onde esperava poder fazer a reparação no casco do seu navio. É certo que a distância que o separava destas ilhas era bastante grande. No entanto confiando sempre na sorte, contava não naufragar no caminho. Pois não tinha ele para accionar, bombas em muito bom estado e trinta e seis homens bem treinados que, repartidos em várias equipas podiam lutar indefinidamente contra o veio de água, mesmo no caso de este continuar a aumentar? As coisas ter-se-iam passado
  • 110. Herman Melville - Moby Dick 109 o melhor possível, pois o vento era favorável, e o Town-ho teria chegado são e salvo a bom porto, se o imediato, um certo Radney, de Martha's Vineyard, não se tivesse exposto à brutalidade e vingança justificada de um aventureiro de Búfalo, natural dos Lagos e chamado Steelkilt. Nesta altura, D. Sebastião, balançando-se na rede, interrompeu-me pela primeira vez: - Um momento, Ismael! Onde ficam esses Lagos e essa cidade a que chama Búfalo? 64 65 - Búfalo fica na margem esquerda do lago Erié, caro amigo respondi -, mas, peço-lhe, tenha paciência, voltaremos a falar disso daqui a pouco... Voltando ao que lhes dizia, senhores, Steelkilt, ao qual chamarei também o homem dos Lagos, apesar de nascido em terras do interior, não deixava de ser um marinheiro audacioso. Quanto a Radney esse um verdadeiro baleeiro, visto ser natural de Nantucket -, tinha a estranha característica de ser tão vingativo e conflituoso como um catalão, com acessos
  • 111. Herman Melville - Moby Dick 110 de bondade absolutamente inesperados. O homem dos Lagos, esse, apesar de muito rude, mostrara-se até então inofensivo e dócil, porque o tratavam bem. E, no fundo, ele não queria outra coisa... Infelizmente, Radney, sobre quem parecia pesar uma espécie de fatalidade, descontrolou-se, e Steelkilt... Agora, senhores, prestem-me toda a atenção. "Pouco tempo depois de o Town-ho ter aproado às ilhas, o veio de água pareceu aumentar. Contudo, duas horas de bombagem por dia bastavam ainda. Saibam, senhores, que alguns capitães, sobretudo quando cruzam um oceano relativamente calmo como o Atlântico, só de tempos a tempos dão ordens para bombear. Mas é indispensável que o oficial de quarto faça executar esta ordem quando lha dão, senão, num espaço de tempo mais ou menos longo, encontrar-se-ia com os seus companheiros no fundo do oceano. Por outro lado, raramente se accionam as bombas sem razão plausível, quando se navega nas proximidades de qualquer
  • 112. Herman Melville - Moby Dick 111 costa. Para que um capitão comece a alarmar-se, é preciso não somente que o seu barco meta mais água do que de costume, mas também que este acidente se produza numa zona pouco frequentada. Tal era a situação do Town-ho quando se aperceberam de que o veio de água, como acabo de dizer, continuava a aumentar. Radney, o imediato, mais preocupado ainda do que o resto da tripulação, ordenou que içassem todas as velas, inclusive as do cimo dos mastros, e os revelins. "Ora, este Radney, meus senhores, não era mais poltrão do que qualquer outro, então, por que razão se mostrava tão excitado? É claro que se ele receava como disseram alguns marinheiros assim perder o Townho, é porque fazia parte da sociedade proprietária deste! Assim, chegada a noite, enquanto bombeavam, gracejavam ainda a este propósito. Entretanto a água, clara como se jorrasse de uma fonte, borbulhavaLhes à volta dos tornozelos antes de deslizar pela ponte e sair pelos embornais. Os senhores sabem que quando um
  • 113. Herman Melville - Moby Dick 112 indivíduo, pela sua categoria, tem autoridade sobre alguns dos seus semelhantes, e descobre que um dos subalternos Lhe é superior em carácter experimenta instantaneamente por este subalterno uma invencível aversão e procura, por todos os meios, humilhá-lo. "Agora, situemos os nossos personagens. Steelkilt, provido como toda a gente de um cérebro, de um coração e de uma alma, era um magnífico rapagão, cuja barba loura flutuava ao vento. Radney era, não apenas feio, mas duro, mau e teimoso como um burro. "Em resumo, ele detestava Steelkilt e este sabia-o. Vendo o imediato que avançava para as bombas onde trabalhava com os companheiros, o homem dos Lagos fingiu não o ver e continuou a gracejar: "Bonito veio de água! Que dizem, rapazes? Olhem para isto, É claro como uma fonte. E se se metesse numa garrafa? Querem saber a minha opinião? Pois bem, se eu estivesse no lugar do velho Radney, cortava a minha parte do
  • 114. Herman Melville - Moby Dick 113 casco e rebocava-a para casa. Porque eu estou mesmo convencido de que o espadarte apenas começou o trabalho. Depois voltou. Mas não vinha só. Trazia uma equipa completa de peixesserras, peixes-limas, peixes-martelos... Agora, são talvez vá Sei lá que mais! rias dezenas com uma dificuldade enorme em destruir o casco na minha f Se o velho Radney estivesse aqui, rente, dir-lhe-ia: Então não vê que eles estão a dar cabo dos seus bens? Vamos, salte borda fora e disperse-os! Mas, vocês sabem tão bem como eu, o velho Radney é um coração simples e puro... E, além disso, bonito como uma flor! Dizem que colocou o resto da fortuna num negócio de espelhos. Às vezes pergunto a mim próprio se ele aceitaria trocar o seu perfil pelo de um pobre diabo como eu! 66 67 O imediato, afectando não ter ouvido este monólogo irónico, aproximou-se dos marinheiros e rugiu: - Que estão para aí a fazer? Estão a dormir, que raio!
  • 115. Herman Melville - Moby Dick 114 Porque é que essas bombas estão paradas? Mãos ao trabalho, c'os diabos, mãos ao trabalho! E com força! "Steelkilt estava alegre como um passarinho. - Está certo, senhor, está certo - respondeu ele em nome dos companheiros. - Isto vai aquecer! Verá! "De facto as bombas começaram a trabalhar com um ruído infernal. Os homens carregavam nos cabos com todas as forças, esforçavam-se, ofegavam, sopravam como focas. Terminada a tarefa, toda a equipa foi para a proa. Steelkilt, com o rosto muito vermelho e os olhos injectados de sangue, sentou- se no cabrestante e, puxando do lenço, começou a limpar o suor que lhe escorria pela testa. Que demónio impeliu Radney a escolher este momento para indispor um homem com os nervos já à flor da pele devido à fadiga. Parou em frente de Steelkilt e, num tom agressivo, ordenou-lhe: - Pegue numa vassoura e varra a ponte. Depois, com uma pá, tire dali aquela
  • 116. Herman Melville - Moby Dick 115 porcaria. "E apontava, junto do filerete, excrementos de um porco que fugira do porão. - Aqui, senhores, um parêntesis. A limpeza das pontes é uma tarefa que nunca deixa de se fazer todas as noites, salvo quando há grandes tempestades. Já se viram tripulações varrer a ponte do navio no instante em que este ia naufragar. Tal é o instinto da ordem e do asseio nos marinheiros, que muitos não consentem em morrer senão após terem feito a toilette. Mas, de qualquer maneira, a limpeza é o trabalho dos grumetes, quando há grumetes a bordo. Para voltar ao Town-ho, os marinheiros tinham sido repartidos em várias equipas que trabalhavam por turnos nas bombas. Steelkilt, activo e de uma força pouco vulgar, fora escolhido para comandar uma destas equipas. Logicamente, devia estar isento de certas tarefas. Espero, senhores, que compreendam como estavam as coisas entre o homem dos Lagos e o imediato da baleeira. Último
  • 117. Herman Melville - Moby Dick 116 pormenor, e não dos menos importantes: "ao ordenar a Steelkilt para pegar numa pá e retirar o excremento do porco, Radney injuriava-o tão gravemente como se Lhe cuspisse na cara. "O homem dos Lagos, depois de ter olhado fixamente o seu interlocutor, respondeu-lhe numa voz tão firme quanto possível: - Não, senhor, não vou varrer as pontes. Não é o meu trabalho, mas sim o dos grumetes. Aliás, não tendo sido designados para as bombas, não fizeram nada ou quase nada todo o dia. "Com ar furioso, e brandindo um martelo que se encontrava em cima de um tonel ao alcance da sua mão, Radney repetiu: - Vá varrer as pontes! Depois pegue na pá e faça o que eu lhe ordenei! "Steelkilt dominou a cólera o melhor que pôde. Como continuava imóvel sentado no cabrestante, Radney aproximou-se mais dele e, sacudindo-lhe debaixo do nariz o martelo que apertava na mão, gritou com mais força: - Obedeça imediatamente! Senão...
  • 118. Herman Melville - Moby Dick 117 "Steelkilt ergueu-se, dizendo: - Não, senhor, não faço nada disso! "Depois pôs-se a andar a passos lentos à volta do cabrestante. Radney seguia- o como a sua sombra, ameaçando-o em todos os tons. Por fim, o homem dos Lagos, resolvido a não recuar mais, parou ao pé de uma escotilha. - Senhor Radney - disse ele -, eu não lhe vou obedecer! Vá pôr esse martelo onde o tirou. Senão não respondo por mim! "Porém, o imediato do Town-ho aproximouse mais, lançando sobre o seu interlocutor as mais grosseiras pragas. Sem recuar um passo, Steelkilt fechou o punho direito, levou-o atrás e disse: 68 69 - Se esse martelo me tocar, mesmo de leve, na cara, eu mato-o, senhor Radney! "É de crer que o diabo não era alheio a isto, pois, neste instante, o martelo roçou a face de Steelkilt... Num abrir e fechar de olhos, o punho cerrado avançou. E um segundo mais tarde, Radney, com o maxilar quebrado e a deitar sangue pela boca como
  • 119. Herman Melville - Moby Dick 118 uma baleia, caía sobre a escotilha. "Steelkilt não esperou que fosse dado o alarme. Aproximou-se das peias e sacudiuas a fim de advertir os seus melhores camaradas, dois canalleres que, nessa altura, estavam de vigia." Desta vez foi D. Pedro que me interrompeu: - Canalleres! - exclamou. - Nos nossos portos do Peru, vemos muitas vezes baleeiros, mas nunca ouvimos falar de canalleres. Exactamente, o que é isso, Ismael? - Os canalleres, meu amigo - respondi -, são bateleiros. Navegam sobretudo no canal de Erié, que liga o lago deste nome ao Hudson. Por uma transição misteriosa e talvez natural, alguns, como estes de que vos falo, trocam os canais pelo mar. Ao contrário do que podereis pensar, são rudes marinheiros... Agora, senhores, voltemos à minha história. Dizia-vos pois que Steelkilt, com a intenção de advertir os seus melhores camaradas, começara a sacudir as peias.
  • 120. Herman Melville - Moby Dick 119 "De súbito, os três outros oficiais do navio e os quatro arpoadores lançaram-se sobre ele, e arrastaram-no até ao meio da ponte. Rápidos como cometas, os dois canalleres tinham descido do enfrechate. Intervindo na luta tentaram levar o seu amigo para o castelo da proa. Outros marinheiros, acorrendo a ajudar, juntaram-se a eles. Então foi a confusão geral. O capitão, corajoso, mas prudente, mantinha-se afastado e, brandindo uma lança, bradava, dirigindo-se aos oficiais e aos arpoadores: - Não o poupem! Cheguem-Lhe com força! E tentem arrastar esse valdevinos até ao castelo da popa! De vez em quando, aproximava-se um pouco e tentava picar, 70 com a ponta da lança aquele a quem chamava valdevinos. Porém Steelkilt e os camaradas eram demasiadamente numerosos para ficarem facilmente reduzidos à impotência. Conseguiram libertar-se, e depois alcançar
  • 121. Herman Melville - Moby Dick 120 a frente do navio. Ali, colocaram três tonéis na mesma linha do cabrestante e entrincheiraram-se por trás desta barricada. O capitão, a quem o stewart de bordo acabava de entregar duas pistolas, tomou uma em cada mão e bradou de novo: Saiam daí, piratas! Saiam daí, bandidos, degoladores! Steelkilt saltou para cima da barricada e pôs-se a passear ali tranquilamente de um lado para o outro. "Se me matar parecia ele dizer ao capitão - será o alerta para uma amotinação." O capitão deve ter compreendido esta linguagem, pois pareceu reflectir um momento. No entanto, ordenou aos revoltosos que retomassem imediatamente o trabalho. - Capitão, se lhe obedecermos promete que não nos toca? perguntou Steelkilt. - Eu não faço promessas! - replicou o capitão. - Retomem o trabalho. Não estão a ver que se pararem de bombear numa altura destas arriscam-se a deixar afundar o
  • 122. Herman Melville - Moby Dick 121 navio? Ao trabalho! Ao trabalho! E de novo brandiu uma das pistolas. Deixar afundar o navio? Muito bem, repetiu Steelkilt. - pois que se afunde! Jure, capitão, que ninguém nos tocará. Senão, não arredamos daqui! Depois, voltando-se para os companheiros: - Não é assim, rapazes? Os marinheiros responderam-lhe com uma explosão de entusiasmo. O homem dos Lagos pôs-se de novo a passear na barricada, sem perder de vista o capitão e dizendo: - Não somos culpados do que está a acontecer. Não fomos nós que o quisemos... Eu preveni o imediato. Aconselhei-o a largar aquele martelo... Queria forçar-me a fazer um trabalho de grumete. 71 Mas tem os maxilares duros, o animal! Acho que parti um dedo... Vamos, capitão! Esqueça tudo isto. Prometa, que diabo! Estamos prontos a retomar o trabalho. Bem vê: não queremos ser chicoteados... c coteados
  • 123. Herman Melville - Moby Dick 122 - Já lhe disse que não faço promessas! gritou o capitão - Ao trabalho! Ao trabalho! - Vejamos, capitão! Nós queremos a paz. Uma amotinação iria contra os nossos interesses. Prometa que não seremos chicoteados e nós retomamos imediatamente o trabaLho! - Nada de promessas! Ao trabalho! Ao trabalho! Durante uns segundos, Steelkilt olhou em redor. Depois, fazendo frente ao capitão mais uma vez: - Não queremos ser enforcados. Por isso não levantaremos a mão para si, salvo se nos atacar. Mas quanto ao trabalho é escusado insistir! Prometa primeiro. Trabalharemos depois. - Pois bem, sendo assim - declarou o capitão -, desçam para o porão do castelo da proa. Conservá-los-ei ali até que peçam perdão! Steelkilt voltou-se para os companheiros: Vamos? - perguntou. Houve um breve conciliábulo. Depois os marinheiros aproximaram-se da escotilha e, resmungando de raiva, deixaram-se
  • 124. Herman Melville - Moby Dick 123 escorregar para a obscuridade do porão. Steelkilt foi o último a entrar pela escotilha. Quando a sua cabeça desapareceu, o capitão e os seus partidários transpuseram de um salto a barricada e fecharam a tampa corrediça. O capitão, dirigindo-se ao steward, gritou: Vai-me buscar o cadeado! Passado um minuto, o steward voltou com um pesado cadeado de cobre. O capitão entreabriu a tampa e, inclinando-se para a frente, murmurou algumas palavras dirigidas aos amotinados. Depois fechou a tampa e deu uma volta à chave do cadeado. Os prisioneiros eram em número de dez. Na ponte havia uns trinta homens que, na maioria, tinham ficado neutros. 72 Os oficiais e os arpoadores ficaram toda a noite de guarda à proa e à popa, mas sobretudo junto à escotilha do castelo da proa. No entanto, a noite passou sem qualquer incidente. Os homens que se tinham conservado fiéis ao capitão
  • 125. Herman Melville - Moby Dick 124 trabaLharam afincadamente nas bombas, cujo ruído ecoava solitário no sombrio silêncio da noite. Ao alvorecer, o capitão dirigiu-se ao castelo da proa e gritou: - Estão decididos a retomar o trabalho? - Não! - bradaram em coro os prisioneiros. Perante esta recusa, mandaram para baixo água e umas mãoscheias de biscoitos. A seguir o capitão fechou o cadeado, meteu a chave no bolso e voltou para o castelo da popa. Esta cena repetiu-se três dias seguidos, duas vezes por dia. Ao quarto dia, ouviu-se pela escotilha entreaberta, um ruído confuso. Discussão? Desordem? E, subitamente, quatro homens, forçando a tampa da escotilha, irromperam pelo castelo da proa e declararam que estavam prontos a trabalhar. A fome e a atmosfera fétida do porão, juntas ao receio de um castigo exemplar, obrigara-os a ceder. Satisfeito com este primeiro resultado, o capitão inclinou-se sobre a escotilha e gritou: -
  • 126. Herman Melville - Moby Dick 125 Então e vocês, o que decidem? - Deixe-nos em paz! - replicou Steelkilt -, e volte para o sítio de onde veio. No quinto dia, após terem conseguido vencer a resistência dos companheiros, que procuravam retê-los, três outros amotinados surgiram no castelo da proa. No porão estavam apenas os irredutíveis: Steelkilt e os dois canalleres. - No vosso lugar - disselhes o capitão -, eu retomaria o trabalho. - Uma vez mais, deixe-nos em paz e feche a escotilha! bradou Steelkilt. - Com todo o prazer! respondeu o capitão. Enraivecido devido à deserção dos companheiros Steelkilt fez a seguinte proposta aos dois canalleres: 73 - Cada um de nós tem uma faca bem afiada que se esqueceram de nos tirar quando nos fecharam neste túmulo. Eis o que vamos fazer: quando voltarem a abrir a escotilha, saímos juntos e apoderamo-nos do navio! Se vocês não quiserem ajudar-me, fá-lo-ei só. Não quero passar nem mais uma noite
  • 127. Herman Melville - Moby Dick 126 neste buraco. Aceitam? - Aceitamos - responderam os canalleres. No entanto tinham dado esta resposta bastante contrafeitos, pois tanto um como outro, esgotados por aquela interminável reclusão, só tinham uma ideia: sair o mais depressa possível do porão e implorar a clemência do capitão... Se ainda fossem a tempo. Aqueles marinheiros rudes, mas sem carácter, estavam prestes a trair o seu melhor amigo... Em plena noite, quando Steelkilt adormeceu, caíram sobre ele, amarraram-no e amordaçaram-no, e depois, para atrair o capitão, desataram aos gritos. Julgando que fora cometido um assassínio no porão, o capitão e os seus oficiais, seguidos dos arpoadores, precipitaram-se para o castelo da proa. Num instante a escotilha foi aberta. Os canalleres lançaram Steelkilt para a ponte, dizendo: - Está a ver o que fizemos! Este homem seria capaz de tudo. Nós entregamos-lho reduzido à impotência!
  • 128. Herman Melville - Moby Dick 127 Porém, em lugar de os felicitar, arrastaramnos como animais para a ponte, até ao mastro de mezeta. Ali, em companhia de Steelkilt, sempre amarrado e amordaçado, suspenderam-nos na enxárcia. Ao nascer do Sol, o capitão foi fazer-lhes uma breve visita. - Que pena - disse -, que não haja abutres por aqui! Depois mandou reunir toda a tripulação e, dirigindo-se aos sete marinheiros que se tinham amotinado, mas haviam achado inútil resistir até à morte: - Bastante me apetece chicoteá-los! Todavia, perdoo-lhes, porque vocês souberam retirar-se a tempo deste caso... Quanto a vocês - ajuntou ele dirigindo-se de novo aos três homens que balançavam na enxárcia -, a minha intenção é fazê-los em bocadinhos e atirá-los para as caldeiras! 74 E, pegando num cabo, fustigou fortemente os dois traidores e não se deteve senão quando estes deixando de gritar, pareceram ter perdido os sentidos.
  • 129. Herman Melville - Moby Dick 128 - Creio que abri o pulso - disse ele -, mas ainda tenho força. E vou-me servir dela para corrigir o chefe do bando! Tirem-lhe a mordaça. Talvez tenha alguma coisa a dizer em sua defesa... Livre da mordaça, Steelkilt ficou uns segundos calado. Olhava o capitão bem nos olhos. - Eis o que tenho a dizer - articulou ele numa voz rouca -, se me chicotear eu matoo! - Pobre idiota, imaginas que me metes medo! - exclamou o capitão. E recuou, erguendo o cabo. - Um conselho, não me chicoteie! - Tornou o homem dos lagos. - E é um conselho que me vai Impedir de o fazer! Mas neste instante Stilkilt murmurou algumas palavras que só o capitão pôde ouvir. Este, com grande espanto da tripulação, deu um salto para trás, percorreu a ponte nos dois sentidos, duas ou três vezes, largou o cabo e exclamou: Não... Impossível... Cortem esses cabos. Não ouviram?
  • 130. Herman Melville - Moby Dick 129 Eu disselhes que cortem os cabos! Quando os três oficiais presentes se precipitaram para executar esta ordem, um homem muito pálido, com a cabeça ligada, deu um passo em frente e, com um gesto deteve-os. Era Radney, o imediato. Deixava a cabina pela primeira vez desde que Steelkilt o esmurrara. Apanhou o cabo e disse ao capitão: - Vou mostrar que sou mais enérgico que o senhor! E em passo firme aproximou-se do seu inimigo. - Você é um cobarde. - disselhe Steelkilt. - Talvez - replicou o imediato do Town-ho. E é, sem dúvida por isso que vou dar-me ao pra zer de te sovar como mereces! 75 Mais uma vez ainda, Steelkilt murmurou palavras incompreensíveis para os marinheiros que não estavam perto dele. Radney, com uma expressão de surpresa, ficou um instante de braço erguido. Depois, recompondo-se, acabou o gesto, e o cabo silvou... Terminado o correctivo, os três amotinados foram libertados e toda a
  • 131. Herman Melville - Moby Dick 130 tripulação voltou ao trabalho. Os acontecimentos que se seguem, senhores, são poucos e aparentemente incríveis. Steelkilt, como devem calcular, ruminava a sua vingança. Prometera a si próprio aproveitar uma noite em que estivesse de quarto ao mesmo tempo que Radney para atirar este ao mar. Porém esta vingança não se concretizou, pois um acaso - um acaso diabólico - impediu-o de a levar a cabo e de ficar assim com um crime na consciência. Dias depois, entre a alvorada e o nascer do Sol, um dos vigias gritou: - Além! Além!... Senhor Jesus, que baleia! Esta baleia era Moby Dick! Sim, senhores, Moby Dick! - Moby Dick! - exclamou D. Sebastião. Então as baleias agora também têm nomes de baptismo? Por favor, Ismael, seja mais claro! - Bem, meus senhores - respondi -, Moby Dick é uma baleia branca, célebre em toda a superfície dos oceanos, uma baleia até aqui invencível e que parece até imortal...
  • 132. Herman Melville - Moby Dick 131 Mas isso seria uma história demasiadamente comprida. Saibam apenas que, em poucos segundos, toda a equipagem do Town-ho ficou em ebulição. O veio de água? Ninguém pensava mais nisso. Em menos tempo do que é preciso para o dizer as baleeiras foram lançadas ao mar. Steelkilt era aquilo a que se chama o homem da frente do imediato. Cabia-lhe o papel de segurar e manobrar a linha na ponta da qual estava fixo o arpão. Porque milagre o arpoador de Radney foi o primeiro a lançar a sua arma? A verdade é que a baleia, solidamente presa, se pôs a fugir a uma indiscritível velocidade. Depois, bruscamente, parou. A embarcação chocou com o dorso do monstro. Radney estava à proa, com a lança na mão, para acabar, como convém, o trabalho começado pelo arpoador. Desequilibrando-se com o choque, 76 caiu para a frente. Em cima de quê? Coisa rara: em cima das costas da baleia! Desvairado, saltou para a água e tentou
  • 133. Herman Melville - Moby Dick 132 afastar-se a nado. Mas Moby Dick, erguendo uma nuvem de espuma voltou-se, apanhou o nadador na sua bocarra formidável e continuou a fugir ainda mais rapidamente. Que fez Steelkilt? Que podia ele fazer? A sua vida e a dos companheiros estavam em jogo. Sem reflectir, pois já não pensava na vingança, puxou da faca e cortou a linha que segurava na mão. Libertada, a baleia, levando Radney, partiu com a prontidão do relâmpago e não tardou a desaparecer no horizonte. Alguns dias depois deste drama, o Town-ho atingiu o grupo de ilhas. Ali, Steelkilt apoderou-se de uma piroga indígena e desertou com alguns companheiros. Em seguida, ninguém mais ouviu falar dele. Mas, em Nantucket, que eu visitei quando da minha última estadia na ilha dos baleeiros, a viúva de Radney obstina-se em ficar contemplando o oceano. No entanto, sabe que ele nunca restitui as suas vítimas. E, em sonhos - foi pelo menos o que me disse - vê todas as noites deslizar o enorme
  • 134. Herman Melville - Moby Dick 133 fantasma da grande baleia branca. Foi esta história que contei uma noite, a fim de distrair uns espanhóis ociosos, na Estalagem Dourada, em Lima, capital do Peru. 77 IX O DONZELA Em que águas navegávamos agora? Não posso dizê-lo com exactidão. Sem dúvida muito próximo da Índia. Em resumo, no dia marcado pelo destino, encontrámos um baleeiro de Brême, o Donzela, cujo capitão era Derick de Beer. Por que razão parecia ele tão desejoso de nos cumprimentar? Parou e lançou ao mar uma baleeira que avançou rapidamente para nós. Na frente da embarcação, parecendo dar mostras de impaciência, vinha o capitão Derick de Beer. - O que tem ele na mão? - perguntou Starbuck apontando um objecto que o alemão brandia. - Devo estar enganado... Sabem... Um daqueles funis que servem para encher os candeeiros... - Não, não é
  • 135. Herman Melville - Moby Dick 134 isso - respondeu Stubb -, é uma cafeteira... Não vêem, ao pé dele, uma chaleira que deve estar cheia de água quente? Vem decerto fazer o nosso café. Sempre se encontram tipos fixes por esses oceanos! - O Starbuck é que tem razão - interveio Flask. - O que o capitão do Donzela nos mostra é mesmo um funil e, junto dele, encontra-se um bidão de óleo. Está sem óleo e vem pedir-nos algum. Quando o capitão Derick de Beer subiu para a ponte do Pequod, Acab, sem fazer o mínimo caso do que ele tinha na mão, bombardeou-o com perguntas a respeito de Moby Dick. 78 Porém, o alemão, depois de Lhe ter dado a entender que nunca tinha visto a baleia branca e que mesmo as baleias vulgares pareciam tornar-se cada vez mais raras de alguns meses àquela parte, apressou-se a acrescentar: - Não tenho óleo. Poderia fazer o favor de me dar algum. Não me apetece esta noite ser obrigado a deitar-me às escuras como
  • 136. Herman Melville - Moby Dick 135 na noite passada. Cheio o bidão, desceu para a baleeira. No entanto quando ia a subir para a ponte do Donzela os vigias dos dois navios assinalaram baleias. Derick de Beer, desejando aproveitar logo aquela ocasião, nem mesmo se deu ao trabalho de se desembaraçar do bidão de óleo. Virou a baleeira e lançou-se em perseguição dos monstros, enquanto os seus marinheiros lançavam ao mar as outras três baleeiras do Donzela. Os do Pequod apressaram-se também a lançar à água três das suas embarcações de combate. Mas tiveram de render- se à evidência, os alemães tinham um avanço considerável sobre eles. Havia oito baleias. Conscientes do perigo que corriam, fugiam a toda a velocidade e em tão boa ordem que mais pareciam cavalos atrelados. O sulco que deixavam era como um vasto pergaminho que pareciam desenrolar interminavelmente à superfície das ondas. A última baleia, mais lenta e sem dúvida mais velha do que as outras, lembrava uma
  • 137. Herman Melville - Moby Dick 136 enorme vaca corcunda. O seu jacto era curto, pesado, laborioso e o dorso estava incrustado de incontáveis conchas amareladas. De vez em quando fazia estranhas guinadas e parecia prestes a perder o rasto das irmãs. Subitamente compreendemos claramente a razão destas guinadas: a baleia tinha apenas um coto no sítio da barbatana direita. - Espera aí, pequerrucha! - gritou-lhe o cruel Flaskezinho mostrando o cabo que estava ao pé dele. - Vou-te dar uma faixa para suspenderes o braço ferido. - Não te faças esperto! - disseLhe Starbuck. - E não percam nem um instante. Senão, os alemães apanham-nas! 79 Com efeito, as sete embarcações dirigiamse todas para a mesma baleia, não apenas por ser a maior, mas também porque era a mais lenta e, em consequência disso, a mais fácil de atingir. As três baleeiras do Pequod tinham alcançado as do Donzela, pelo menos aquelas que tinham sido por último
  • 138. Herman Melville - Moby Dick 137 lançadas ao mar. Pois o capitão Derick de Beer, esse, continuava à frente, e tão seguro do seu êxito que, de vez em quando, se voltava para trás e com um ar trocista agitava o funil. - Maldito alemão, grande cão! resmungava Starbuck. - E, além disso, ingrato! Quando penso que ainda nem há dez minutos Lhe enchi o bidão! Por seu lado, Stubb encorajava os companheiros: - Então, rapazes, estão a dormir? Vão deixar-se bater por esse papachoucroute? Não estamos a avançar nada! Mais depressa, mais depressa, mais depressa! Flask, fremente de raiva, conservava o olhar fito na baleia. - Que bossa, raio! Que bossa! Rapazes, não Lhes apetece pentear aquela bossa? Aquela baleia é um banco ambulante, é um cofre-forte! Vale pelo menos três mil dólares! Então, o que esperam? Palavra de honra, que molengões! Mais depressa! Mais depressa, diabo, mais depressa! Agora, as três baleeiras do Pequod, a um ritmo magnífico, progrediam frontalmente.
  • 139. Herman Melville - Moby Dick 138 Porém o capitão do Donzela continuava à cabeça. Iria ganhar aquela louca correria? As suas esperanças foram reduzidas a nada por uma falsa manobra. Um dos remadores, sem qualquer razão, quebrou a cadência e, erguendo os remos, quase voltou a baleeira. Derick de Beer injuriou-o violentamente, enquanto Starbuck, Stubb e Flask soltavam um grito de triunfo e aproveitavam aquele ensejo para apanhar o alemão. A baleia fugia erguendo a cabeça. O seu jacto tornara-se contínuo, a única barbatana batia na água mais furiosamente do que nunca e as guinadas multiplicavam-se. 80 Temendo perder a presa, o alemão deu uma ordem ao seu arpoador. Mas, no momento em que este ia executar essa ordem, Queequeg, Tashtego e Daggoo erguiam-se como molas à proa das baleeiras americanas. Os seus arpões silvaram, passaram por cima da cabeça do arpoador de Derick de Beer e foram cravarse no corpo da baleia. Houve um terrível
  • 140. Herman Melville - Moby Dick 139 remoinho, depois uma nuvem de espuma que quase nos cegou. Na confusão que se seguiu, as três baleeiras do Pequod chocaram com a do Donzela e lançaram borda fora o próprio Derick de Beer e o seu arpoador. Passando perto deles, Starbuck e Flask, enquanto a baleia os arrastava a toda a pressa, estoiravam de riso sempre impiedoso e Stubb, gritou-Lhes: - Não se inquietem, meus cordeirinhos! Vêm atrás de nós tubarões que estão prontos a pescá-los! Porém a baleia proporcionou-Lhes uma corrida relativamente breve. Parou e mergulhou. As três baleeiras pararam por sua vez. Cada um dos arpoadores, pronto para qualquer eventualidade, segurava a linha com ambas as mãos. Iria o monstro prolongar o seu mergulho, levando para o fundo do mar as frágeis embarcações? As três linhas, agora perpendiculares, começaram a vibrar. - Atenção, rapazes, ela está a mexer! - Gritou Starbuck. Depois, passados alguns segundos,
  • 141. Herman Melville - Moby Dick 140 acrescentou: - Puxem! Puxem! Ela está a subir! Os arpoadores puxaram as linhas, deixando-as cair a seus pés em rolos gotejantes. E não tardou que, a menos de umas cento e vinte braças, a baleia reaparecesse. Era fácil de comprender, devido a estes movimentos, que estava quase exausta. As baleeiras aproximaramse. Crivaram-na de golpes de lança. Porém, apesar de estar já coberta de numerosas feridas, continuava a expelir pelos orifícios água vaporizada e não sangue, prova de que não fora ainda atingida nos órgãos vitais. Quando ela rebolava, reparámos que tinha de lado uma protuberância do tamanho de um alqueire. - Olha, vou picá-la ali! - Exclamou Flask. Parece ser um bom sítio! 81 Sempre humano, Starbuck disse: - É inútil. De qualquer maneira ela já não pode durar muito. Porém falara demasiado tarde. A lança já fizera a sua obra. No instante em que começava a brotar um
  • 142. Herman Melville - Moby Dick 141 sangue espesso deste novo ferimento, a baleia, enfurecida pela dor, lançou-se sobre as embarcações, chegando a danificar a de Flask. No entanto, estava ferida de morte. Tentou recuar. Depois, ofegante, continuou durante alguns instantes a bater a água com a única barbatana. Por fim, deu uma volta sobre si própria e imobilizou-se de barriga para o ar. Quando expeliu o último jacto, dir-se-ia que uma mão potente acabava de estancar aquela fonte talvez várias vezes centenária. Como começava a afundar-se, Starbuck deu ordem para lhe lançarem alguns cabos, após o que, lentamente e com infinitas precauções, foi rebocada pelas três baleeiras até ao Pequod. Depois de ter sido presa ao longo do navio e de começarem as operações de desmembração, descobrimos - com que surpresa! que o seu corpo continha não apenas um arpão completamente ferrugento, mas também a ponta de uma flecha de pedra! Quem lançara aquela flecha, e em que
  • 143. Herman Melville - Moby Dick 142 época? Sem dúvida um índio do Noroeste, muito tempo antes de os primeiros colonos brancos terem posto os pés no continente americano. Terminada a desmembração, enquanto a carcaça da nossa vítima se afundava nas vagas, um dos vigias fez sinal que o Donzela voltara a partir. Procurámo-lo com o olhar e verificámos que se encaminhava realmente, com todas as velas desfraldadas, para a sombria linha do horizonte. Foi somente no dia seguinte que voltámos a pôr-nos de novo a caminho. Aproximávamo-nos agora da estreita península de Malaca, que, estendendo-se a sudeste da Birmânia, constitui a ponta mais meridional de toda a Ásia. Esta península é prolongada por numerosas ilhas - Samatra, Java, Bali, Timor e por arquipélagos, que formam, entre a Ásia e a Austrália, uma espécie de via de comunicação e também uma muralha, 82 na qual se abrem no entanto várias portas
  • 144. Herman Melville - Moby Dick 143 naturais, que servem tanto para passagem de navios como de cetáceos. Entre estas portas a mais frequentemente utilizada pelos marinheiros é o estreito de Sonda, Entre Samatra e Java. Na época em que se situa esta narração, os piratas malaios escondidos nas suas pirogas, à sombra dos Promontórios que abundam na região, investiam muitas vezes contra navios mercantes e, de lança em punho, despojavam-nos das cargas: jóias, ouro, especiarias, tecidos preciosos, marfim. Um vento bastante forte impelia-nos para o estreito de Sonda. O capitão Acab projectava passar pelo mar de Java e subir para norte, até uma zona que, parece, servia de abrigo a numerosos cachalotes. Em seguida, costearia as Filipinas e chegaria às costas do Japão na altura da grande estação das baleias. Assim, neste périplo, o Pequod, antes de descer o Pacífico e dobrar o cabo Horn, teria atravessado todos os terrenos!! de pesca do Mundo. Obcecado pela sua ideia fixa, Acab repetia para consigo: "É mesmo o
  • 145. Herman Melville - Moby Dick 144 diabo, se não tiver enfim ocasião de me defrontar com Moby Dick..." Por que razão, perguntareis, não descansaria nunca nos portos das proximidades dos quais passávamos? Para a tripulação matar a sede e se abastecer, contentar-se-ia então com o ar do mar? É bom que se diga que todo o baleeiro traz no porão água para bastantes anos, boa água clara de Nantucket, que os marinheiros preferem a todas as águas turvas e inquietantes da Ásia. Assim, o Pequod, que transportava além disso um stock impressionante de víveres de todas as espécies, não era obrigado, como a maior parte dos navios, a parar aqui e além para renovar a sua provisão de água. Já não estávamos longe do cabo de Java e do estreito de Sonda. A estibordo apareciam agora falésias verdejantes e respirávamos com delícia um ligeiro perfume a canela trazido pelo vento. Mas, até então, nem um só cachalote. Os nossos vigias, no entanto, tinham recebido ordem de ficarem mais atentos do que nunca. E
  • 146. Herman Melville - Moby Dick 145 então, uma manhã, por volta 83 do meio-dia, quando acabávamos de dar entrada no estreito, soaram, vindas dos postos de observação, algumas exclamações entusiásticas e os nossos olhos puderam gozar o mais belo, o mais estranho espectáculo que é possível contemplar à superfície dos mares. Antes de tudo, devo sublinhar que os cachalotes, desde que são infatigavelmente perseguidos pelos baleeiros, deixaram de se deslocar em pequenos grupos. Formam hoje imensos rebanhos. E acontece navegar-se semanas, mesmo meses, sem avistar um único jacto. E subitamente... À direita e à esquerda da proa do Pequod, e a uma distância de duas ou três milhas, subiam na límpida atmosfera do meio-dia jactos resplandecentes, dispostos em semicírculo. Dir-se-iam, sob a abóbada azulada do céu, as mil chaminés de uma grande cidade. Milagre! Os cachalotes, que se dirigiam
  • 147. Herman Melville - Moby Dick 146 como nós para a saída do estreito, apertavam pouco a pouco o semicírculo, aproximando-se uns dos outros como soldados disciplinados. O Pequod, com todas as velas desfraldadas, lançou-se em sua perseguição. Os arpoadores, instalados nas baleeiras, ainda suspensas dos turcos, apertavam nas mãos os arpões e soltavam clamores de alegria. Pois não estavam eles certos de matar ao menos alguns daqueles animais? Além disso, porque não havia de encontrar-se Moby Dick no meio daquele rebanho, como o elefante branco no cortejo do rei de Sião? Ninguém podia afirmá-lo, mas ninguém podia também assegurar o contrário. Por isso, velas do cimo dos mastros, revelins, nada nos parecia supérfluo para tentar alcançar o semicírculo de jactos de vapor. No entanto, subitamente, Tashtego gritou: - Atenção, há qualquer coisa na nossa esteira! Voltámo-nos. Com efeito, atrás de nós havia uma outra armada, outro semicírculo, este de espuma, formado pelas pagaias de
  • 148. Herman Melville - Moby Dick 147 incontáveis pirogas! - Depressa! - ordenou o capitão Acab. - À mastreação! Subam os baldes e molhem as velas! Os piratas malaios perseguem-nos! Os piratas malaios! Sim eram mesmo eles. Remavam a uma cadência louca, na esperança de nos apanharem. Porém o Pequod, impelido por um bom vento, não parecia resolvido a deixar-se bater. A presença dos recém- chegados agiria sobre ele como chicotadas e como se fosse esporeado? A verdade é que o velho navio com um vigor renovado saltava, empinava-se, voava. Com o óculo debaixo do braço, o capitão Acab passeava de um lado para o outro na ponte. Quando estava à proa, podia observar os monstros que caçava. Quando se encontrava à popa, dava-se conta dos piratas sanguinários que o caçavam, a ele senhor alucinado do Pequod Impedi-lo-iam, tão perto talvez do objectivo, de alcançar a sua presa? Contudo, tais pensamentos não
  • 149. Herman Melville - Moby Dick 148 perturbavam de maneira nenhuma os membros da tripulação. Com efeito, quando o Pequod, após ter dobrado o cabo de Cockatou, dispersara os piratas, os marinheiros - os arpoadores, sobretudo não prestavam a mínima atenção a este êxito, de tal modo estavam preocupados com o avanço que os cachalotes pareciam adquirir sem cessar sobre o navio. Porém não tardaram a tranquilizar-se, ao verificar que os grandes cetáceos, sem dú vida fatigados com aquela interminável corrida, abrandavam o andamento. Um quarto de hora mais tarde, o capitão Acab dava ordem para lançar três baleeiras ao mar. Estávamos aproximadamente a uma milha dos cachalotes. Tiveram estes consciência do perigo ao qual estavam expostos? Bruscamente, cerraram fileiras e voltaram a pôr-se rapidamente em fuga. Agora envergávamos apenas as camisas e as calças. Vendo que a nossa presa ia de novo escapar-nos, pusémo-nos a remar com redobrada energia. A perseguição durou ainda algumas horas.
  • 150. Herman Melville - Moby Dick 149 Depois de tal esforço, ver-nos-íamos forçados a abandonar a luta e a voltar para trás? No entanto, apercebemo-nos de que o grupo mostrava uma espécie de hesitação generalizada. Depois foi o caos. Os cachalotes, tão disciplinados até ali, nadavam em todas as direcções, descrevendo ziguezagues, 84 85 círculos irregulares e expelindo apenas jactos espessos e curtos. Alguns, como que paralisados, tinham até parado por completo e flutuavam à deriva. Era o pânico, este estranho e incompreensível pânico que faz fugir cinquenta bisontes à frente de um cavaleiro, ou que, mal uma voz gritou: "Fogo!", impele todos os espectadores de um teatro para as portas que dão acesso ao exterior. Alguns cachalotes agitavam-se ainda com extrema violência. Mas a maioria ficara imóvel e parecia mesmo incapaz de avançar ou recuar. Como sempre, em tais circunstâncias, as baleeiras separaram-se e cada uma
  • 151. Herman Melville - Moby Dick 150 escolheu um animal isolado na orla do grupo. Três minutos depois, Queequeg lançou o arpão. O cachalote que atingira cegou-nos com uma nuvem de espuma e, com uma prontidão surpreendente, fugiu para o sítio onde os seus semelhantes eram em maior número. De vez em quando, puxava furiosamente a linha a fim de se desembaraçar do arpão, aquela barra de ferro cravada no seu corpo. Entre os outros cachalotes, a nossa embarcação, arrastada a toda a velocidade, parecia um navio rodeado de icebergs e que a todo o instante se vê prestes a ser esmagado e reduzido a migalhas. No entanto, Queequeg conservava todo o seu sangue-frio. Postado ao leme, manobrava com uma habilidade cheia de nobreza ora descrevendo uma curva para se afastar do monstro que nos barrava a passagem ora guinando para não sermos agredidos por uma barbatana, talvez com o peso de uma tonelada. Starbuck, à frente, distribuía generosamente golpes de lança à direita e
  • 152. Herman Melville - Moby Dick 151 à esquerda. Quanto aos remadores, dos quais eu fazia parte, também não estavam inactivos; apesar de se Lhes ter tornado impossível utilizar os remos, Um deles gritava, dirigindo-se a qualquer enorme cetáceo que acabava de surgir a três ou quatro braças e ameaçava chocar connosco: - Tira-te daí, almirante! 86 87 Outro, avistando um velho macho que muito perto de nós parecia abanar-se com a formidável cauda, berrava a ponto de despedaçar as cordas vocais: - Então, que é lá isso, queres a nossa morte? Cauda pra baixo, tou a dizer-te! Cauda pra baixo! Todas as baleeiras trazem uns engenhos estranhos inventados pelos índios de Nantucket, chamados druggs. O drugg é constituído por dois blocos de madeira presos um ao outro. Entre estas peças de madeira está fixada uma linha que tem na extremidade livre uma argola à qual se pode rapidamente ajustar um arpão. Este instrumento só se
  • 153. Herman Melville - Moby Dick 152 emprega quando, como era o caso nesse dia, o barco se encontra no meio de um grupo de cachalotes enlouquecidos. Como não se podem matar vários ao mesmo tempo, escolhem-se alguns, aos quais por este meio se crava o ferro na barbatana, tendo assim a probabilidade de acabar com eles um pouco mais tarde. A nossa baleeira estava provida de três druggs. O primeiro e o segundo foram lançados com êxito, e pudemos seguir com o olhar os dois cachalotes atingidos, quando fugiam rebocando os pesados flutuadores. Porém, com o terceiro drugg as coisas passaram-se de modo diferente. Antes de transpor a bordilha da nossa embarcação, o bloco de madeira prendeuse à passagem num dos bancos, arrancouo com um só puxão e precipitou um dos remadores no chão do barco. Imediatamente a água infiltrou-se pelas tábuas desconjuntadas e, para a deter, tivemos de tapar os buracos com trapos. Ter-nos-ia sido impossível lançar os druggs se, à medida que penetrávamos mais no
  • 154. Herman Melville - Moby Dick 153 grupo, o cachalote que nos rebocava não tivesse pouco a pouco reduzido a velocidade. Depois, no momento em que menos o esperávamos, o arpão de Queequeg, sem dúvida mal fixado, desprendeu-se do corpo do animal. E vimo-nos assim a braços com este incidente no meio de uma espécie de circo encantado. A água em que andávamos à deriva estava perfeitamente calma, enquanto à nossa volta, bastante longe, os cachalotes formavam círculo. Alguns mantinham-se imóveis em grupos de oito ou dez, mas outros galopavam à roda, tal como cavalos de circo. Como fugir dali? Como transpor aquela parede viva? Víamo-nos forçados a esperar que nela se abrisse uma brecha. De vez em quando, ao centro deste estranho lago, algumas fêmeas com as suas crias vinham visitar-nos. Aproximavam-se a algumas braças da nossa embarcação, roçando o casco, testemunhando-nos uma confiança Quase
  • 155. Herman Melville - Moby Dick 154 tocante. QueeQueg, cada vez que era possível, fazia-lhes festas, e Starbuck tocava-lhes ao de leve o dorso com a ponta da lança. Enfim, a desejada brecha abriu-se diante de nós. Remando a toda a forÇa, lançámonos com o coração alvoroçado na sua direcção. Porém várias vezes falhámos. Machos enormes, direitos a nós, davam meia volta e provocavam nas proximidades da nossa embarcação remoinhos que pareciam tragar-nos. Aliás, os cachalotes reagrupavam-se e não tardou que se pusessem em marcha para leste, numa ordem mais ou menos semelhante à que tínhamos admirado no princípio desta operação. Persegui-los teria sido não apenas impossível, mas insensato. O Que teria acontecido aos cachalotes atingidos pelos nossos três druggs. Balanço do dia: um só animal morto por Flask, a certa distância do círculo em que nos encontrávamos encerrados. Os pescadores de baleias e de cachalotes têm razão quando dizem: quanto mais são
  • 156. Herman Melville - Moby Dick 155 menos se matam! 88 89 X UM FRANCÊS: O BOTÃO DE ROSA Tinham passado uma ou duas semanas depois da aventura que eu acabei de contar. Vogávamos, por volta do meio-dia, num oceano calmo e brumoso. Por que razão as nossas narinas nesse dia pareciam mais atentas, mais subtis do que os olhos dos vigias? A verdade é que demos conta do seguinte: flutuava à superfície das águas um odor desagradável. - Aposto - disse Stubb -, que vamos ter uma surpresa. Fiquei sempre com a impressão de que acabaríamos por encontrar os cachalotes que atingimos outro dia com os nossos druggs. Afinal, porque não haviam de ser impelidos até estas paragens? Não tardou que a cortina de bruma se rasgasse como por encanto e, bastante longe na nossa frente, apareceu um navio. Era fácil de compreender, ante as suas
  • 157. Herman Melville - Moby Dick 156 velas recolhidas, que parara para uma tarefa qualquer e tinha, preso a um flanco, um cetáceo, baleia ou cachalote. Ao avançarmos para ele, apercebemo-nos de que arvorava a bandeira francesa. Em volta da sua mastreação voavam aves de rapina, prova de que o animal capturado era sem dúvida um cadáver em decomposição, um desses cetáceos que vogam à deriva durante semanas e semanas, cadáveres sem sepultura, escolhos sem proprietários. Destes monstros putrefactos desprende-se, como é natural, um odor intolerável. Alguns baleeiros, apesar da sua cupidez, não se resignam a amarrar estes assustadores destroços. Porém outros mostram-se menos delicados, não obstante o óleo proveniente dos animais mortos ser não só mal-cheiroso, mas também de qualidade muito inferior. Em resumo, à medida que nos aproximávamos do baleeiro francês víamos que tínhamos todas as razões para pensar que não estávamos enganados: o recémchegado tinha mesmo, amarrado ao flanco
  • 158. Herman Melville - Moby Dick 157 um cetáceo... E, de repente, apercebemonos de que não era um, mas sim dois! É verdade que o outro, segundo nos parecia, era um destes animais que, vítimas de uma estranha doença, secam antes de morrer, não ficando no seu corpo a mínima gota de óleo... Quando o Pequod ficou bastante próximo deste confrade que o acaso acabava de pôr no seu caminho, Stubb exclamou: Olhem... Ali... Nos cabos que estão enrolados em volta da cauda de um dos cachalotes! É o meu arpão! Reconhecê-loia entre mil! Estes franceses, que gente! Soldados valentes, claro, e em geral bons marinheiros... quando se. Mas, trata de pesca à baleia, ainda têm muito que aprender. Acontece-Lhes enganarem-se como crianças e lançar ao mar as canoas por terem tomado a crista das ondas por espuma de jactos de baleias ou cachalote! Pois não contam que eles levam consigo carregamentos de velas por não estarem certos de recolher, durante a viagem, bastante óleo para o candeeiro do capitão?!
  • 159. Herman Melville - Moby Dick 158 Ah! Sim, têm muito que aprender aqueles gentis papa-rãs! De qualquer modo, aíi estão uns que se contentaram com os nossos restos. Não são difíceis de contentar! O primeiro destes cachalotes é um daqueles que atingimos no outro dia, com os nossos druggs. O óleo que contém não deve valer nada. Quanto ao outro está tão ressequido... Mas estou cá a pensar! Pode ser que contenha alguma coisa muito mais interessante do que o óleo: âmbarcinzento, rapazes! Pergunto a mim próprio se o velho pensou nisso... Valia a pena experimentar... Bem, vou lá! 90 91 E, sem mais explicações, dirigiu-se para o castelo da popa e entrou na cabina do capitão Acab. Entretanto, uma leve brisa sucedera à calmaria podre. Cada baforada de vento trazia-nos o cheiro cada vez mais intenso dos cadáveres em decomposição. Logo que voltou à ponte, Stubb reuniu a sua equipagem pessoal, mandou lançar uma baleeira ao mar e aproximou-se do
  • 160. Herman Melville - Moby Dick 159 navio estrangeiro. A proa deste último era artisticamente esculpida. Representava uma enorme flor em botão, de um vermelho-vivo, prolongada por uma haste verde ao longo da qual uns pregos de cobre figuravam sem dúvida espinhos. À direita, e um pouco abaixo da flor em botão, grandes letras douradas formavam este encantador nome: Botão de Rosa... Stubb tapou o nariz dizendo: - Felizmente nem todos os botões de rosa cheiram tão mal! Para comunicar com a tripulação, teve de contornar a roda de proa por estibordo. Depois parou e gritou por cima do cadáver de um dos cachalotes, sem deixar de apertar o nariz com o polegar e o indicador: - Ó, do Botão de Rosa! Alguém daí sabe inglês? - Sei eu - respondeu um homem natural de Guernesey, e que era também o imediato do navio francês. - Bom - tornou Stubb -, vou pedir-lhes uma informação. Viram por acaso a baleia branca?
  • 161. Herman Melville - Moby Dick 160 - A baleia branca. - Sim. A falar verdade, talvez se trate de um cachalote. Mas cá nós chamamos- lhe Moby Dick, ou a baleia branca. Viram-na? - Nem nunca ouvi falar disso... Um cachalote branco... Uma baleia branca... Palavra que não. Não conheço. - Muito bem - disse Stubb -, espere um instante. Já vou ter consigo. Deu meia volta e aproximou-se do Pequod. Vendo o capitão Acab que se debruçava no coroamento do castelo da popa, pôs as mãos em porta-voz e gritou-lhe: - Não, capitão, eles não viram a baleia branca! O capitão Acab abanou várias vezes a cabeça, recuou uns passos e desapareceu. Então Stubb, como prometera, voltou para o Botão de Rosa. Esperava-o ali um espectáculo deveras surpreendente. O homem de Guernesay, instalado no porta-Peias, começava a manejar a enxada de desmembração", Mas isto não era tudo: tinha o nariz enfiado numa espécie de saco. - O que é que Lhe aconteceu? - perguntou
  • 162. Herman Melville - Moby Dick 161 Stubb. - Partiu o nariz? - Isso queria eu, e ficaria até contente se não tivesse nariz! respondeu o imediato do navio francês continuando a trabalhar na atitude de um operário que não está nada interessado na tarefa. - E você porque é que está a apertar o seu com o polegar e o indicador? - Eu? - disse Stubb. - Oh! Por nada... E até lhe posso dizer: tenho um nariz de cera... Belo dia, não acha? parece que estamos num jardim cheio de flores. E se me atirasse um raminho de botões de rosa? Seria muito amável da sua parte. O homem de Guernesay, percebendo que troçavam dele, encolerizou-se. - Ora diga, o que é que está aí a fazer? - Calma, amigo, calma! - Replicou Stubb. , Porque é que não põe esses dois animais no gelo para trabalhar mais comodamente neles? Mas, basta de brincadeiras, você sabe que é uma loucura esperar tirar óleo de um cachalote como esse com o qual está a ter tanto trabalho. Quanto ao outro, o ressequido, á séculos que não tem nada!
  • 163. Herman Melville - Moby Dick 162 - Como se eu não soubesse isso! exclamou o homem de Guernesey -, Mas, compreende, o nosso capitão não acredita no que eu digo. É a sua primeira viagem. Antes fabricava água-de-colónia. Mas porque não sobe a bordo? Talvez tenha mais confiança em si do que em mim. E, assim, ficaria livre deste trabalho repelente... - Estou pronto a todos os sacrifícios para lhe agradar! 92 93 - respondeu Stubb. E, em poucos segundos, subiu à ponte do Botão de Rosa. A cena que então se lhe deparou aos olhos tinha qualquer coisa de estranho. Os marinheiros, com bonés de borlas de lã vermelha, preparavam os pesados guindastes para as baleias. Mas, conversando uns com os outros, trabalhavam com lentidão e pareciam de muito mau humor: estavam todos de nariz no ar. De vez em quando, alguns largavam as correntes que prendiam os guindastes e subiam à mastreação para respirar um
  • 164. Herman Melville - Moby Dick 163 pouco de ar puro. Outros, persuadidos de que iam contrair a peste, mergulhavam um tampão de estopa num pote de alcatrão e comprimiam- no sobre o nariz. Alguns, para escapar aos miasmas de que a atmosfera estava carregada, puxavam grandes fumaças dos cachimbos e envolviam-se numa nuvem de fumo. Ouvindo exclamações entrecortadas de pragas, Stubb voltou-se para o castelo da popa e viu um homem com ar furioso que saía da cabina do capitão. Era o médico de bordo. Acabava de fazer, aliás inutilmente, observações ao capitão sobre a tarefa em que estava ocupada a tripulação. Depois de ter notado estes pormenores, Stubb pensou: "Ora é isto mesmo que convém! Em suma, as coisas neste navio não parecem andar muito bem. Claro, simpatizo com os franceses, e até encontrei entre eles muitos tipos fixes. Mas, hoje, na guerra como na guerra!" Tomou de parte o homem de Guernesay e esteve a conversar com ele durante uns instantes. Compreendeu então que o
  • 165. Herman Melville - Moby Dick 164 imediato do Botão de Rosa detestava o seu capitão, porque este, ao contrário da maior parte dos oficiais daquela nacionalidade, era não só ignorante, mas vaidoso, e também porque arrastara os companheiros numa aventura estúpida e sem proveito... Prosseguindo na conversa com o homem de Guernesay, Stubb apercebeu-se de que este nem sequer pensava no âmbarcinzento... Não fez pois qualquer alusão a esta preciosa substância. Mas, quanto ao mais, mostrou-se franco, directo. 94 De modo que, momentos depois, os dois confrades tinham arquitectado um pequeno e inocente complot que lhes permitiria ludibriar o capitão, sem lhe deixar a menor dúvida acerca da sua sinceridade. Os papéis eram assim distribuídos: o homem de Guernesay, servindo de intérprete, contaria ao seu superior uma história imaginada, e Stubb expressando-se naturalmente na sua língua materna, diria todas as frivolidades que lhe passassem pela cabeça.
  • 166. Herman Melville - Moby Dick 165 Neste momento, o capitão do Botão de Rosa saiu da sua cabina. Baixo e moreno, parecia demasiado frágil para um marinheiro. Mas, sem dúvida para aparentar um aspecto mais imponente, exibia compridos bigódes e grandes suíças. Vestia um blusão de veludo de algodão vermelho e um colete cuja algibeira estava enfeitada com um cacho de berloques. O mais delicadamente possível, o homem de Guernesay apresentou-lhe Stubb. Depois voltando-se para este último. - Então, o que é que eu lhe digo? - Bem - disse Stubb, olhando com uma certa ironia para o blusão de veludo vermelho e os berloques -, comece por lhe dizer que não há melhor como bebé bochechudo do que ele, salvo o devido respeito, claro! O homem de Guernesay fingiu que traduzia. - Capitão - disse -, o oficial do Pequod aqui presente, assegura que ontem o seu navio se cruzou com outro navio cujo capitão e o imediato e ainda seis marinheiros
  • 167. Herman Melville - Moby Dick 166 acabavam de morrer de uma febre contraída ao manipularem uma baleia podre. Ao ouvir estas palavras, o capitão não conseguiu dominar um estremecimento: - Pormenores! - disse ele. - pormenores! - Então o que quer que lhe digo agora? perguntou o homem de Guernesay, dirigindo-se a Stubb. - Já que ele parece ter enfiado o barrete, diga-lhe que ele não me parece mais qualificado - continuou Stubb -, para comandar um baleeiro do que um macaco de Santiago! 95 - Capitão - tornou o homem de Guernesay, imperturbável -, o senhor Stubb jura que o cachalote ressequido é tão perigoso como o outro, o que está podre. Aconselha-nos a desembaraçar-nos sem demora destas duas carcaças se temos amor à vida. Como via as barbas a arder, o capitão deu bruscamente meia volta, precipitou- se para a proa do Botão de Rosa e, em voz atroadora ordenou que não içassem mais
  • 168. Herman Melville - Moby Dick 167 os guindastes e que soltassem os cabos e as correntes que prendiam os cachalotes ao navio. Quando o capitão voltou para junto dos dois confrades, o homem de Guernesay perguntou a Stubb: - Que mais posso fazer por vocês e por nós? - Ora vejamos... Deixe-me pensar respondeu Stubb. - Pois bem, diga-lhe que estou muito satisfeito por tê-lo levado à certa... E, intimamente, acrescentou: "Mas não foi apenas este capitão cretino que levei à certa..." Entretanto, o homem de Guernesay voltava-se já para o capitão: - O senhor Stubb afirma que fica feliz por nos ter prestado um serviço. Em francês, o capitão respondeu: - E eu, senhor, estou-lhe infinitamente grato. Quer vir até à minha cabina? Teria um grande prazer em oferecer-lhe um copo de bordeaux. O homem de Guernesay voltou-se para Stubb. - O capitão agradece-lhe e gostaria
  • 169. Herman Melville - Moby Dick 168 de lhe oferecer um copo de vinho. - Agradeça-lhe - disse Stubb, rindo à socapa -, e acrescente que é contrário aos meus princípios beber com pessoas que enganei. De resto tenho de me ir embora. - Capitão - traduziu o homem de Guernesay -, o senhor Stubb nunca bebe vinho. Mas oiça agora o mais importante: ele aconselha-o, se quer voltar a ver o Sol amanhã, a lançar quatro canoas ao mar e a rebocar o seu navio para tão longe quanto possível destas repugnantes carcaças. Com esta calma quase completa que temos hoje, é de prever que não se afastem sozinhas... Mas Stubb, achando que a brincadeira já durara de mais, saltara já o filerete. Mal pôs o pé no seu escaler gritou dirigindo-se ao homem de Guernesay: - Com o meu cabo, vou ajudá-lo a desembaraçar-se do cachalote mais leve! Dito e feito. Momentos mais tarde as quatro baleeiras francesas puxavam o navio para um lado, e o prestável Stubb começava a rebocar, em sentido contrário, um dos
  • 170. Herman Melville - Moby Dick 169 cachalotes. Soprava agora um vento fraco. Stubb fez menção de desamarrar o cachalote. Mas já o navio francês, depois de ter recuperado as baleeiras, se afastava a todo o pano... Enquanto o Pequod habilmente se introduzia entre ele e a enorme carcaça. Vendo que tinha o campo livre, Stubb decidiu recolher logo o fruto do seu ardil. Muniu-se de uma enxada bem afiada e fez um buraco no corpo do cetáceo, por trás da barbatana lateral. Parecia querer abrir uma cave no próprio oceano. A enxada atingiu as costelas. Dirse-ia pelo ruído produzido, que tinha batido em loiça de barro enterrada numa massa de argila. Todos os homens da tripulação debruçados no filerete do Pequod seguiam esta operação com um interesse apaixonado: pesquisadores de ouro assistindo à extracção de uma pepita! E continuamente, à volta da carcaça, voavam aves mergulhando e lutando entre si. Entretanto, Stubb parecia começar a perder a coragem. Poderia aguentar ainda
  • 171. Herman Melville - Moby Dick 170 muito tempo respirando aquele fedor infernal que quase o sufocava? Mas, de súbito, naquele turbilhão de odores fétidos sentiu um perfume ligeiro, agradável, tenaz, semelhante àqueles riachos que se lançam nas ribeiras e resistem muito tempo antes de misturar com elas as suas águas... - Achei! Achei! Vitória! - gritou Stubb. 96 97 Largando a enxada, mergulhou as duas mãos no cachalote e retirou de lá alguns punhados de uma substância semelhante ao sabão ou, melhor ainda, a queijo estriado como o mármore - um queijo oleoso e de perfume delicado, cuja cor oscilava entre o amarelo e o cinzento, e que facilmente se podia riscar com uma unha. E esta substância era o âmbarcinzento. Deste produto mole como a cera desprende-se um odor de especiaria e por isso entra na fabricação dos produtos de perfumaria, de pastilhas para queimar, de velas de luxo, de pós capilares, de pomadas. Com gestos febris, Stubb retirou dali
  • 172. Herman Melville - Moby Dick 171 aproximadamente seis punhados, e teria feito uma colheita muito mais abundante se de súbito o capitão Acab, sempre com a ideia fixa de levar por diante a perseguição de Moby Dick, não tivesse gritado, debruçando-se no varandim do Pequod: Venha para bordo, Stubb! Senão, vou-me embora e deixo-o aí! Esquecime de dizer que se encontraram no âmbar-cinzento do cachalote subtraído ao Botão de Rosa umas placas ósseas, de forma oval. Primeiro Stubb pensou que se tratasse de botões de calções. Mas, depois de examinadas, viuse que aqueles pretensos botões de calções não eram mais do que minúsculos ossos de choco. E agora perguntareis: como é que este âmbar-cinzento, de perfume tão delicado, pôde conservar-se intacto nas entranhas de uma tão repugnante carcaça? Não parece haver aí, com efeito, qualquer coisa de miraculoso? Mas lembrai-vos do que São Paulo dizia aos Coríntios sobre a corrupção e a incorruptibilidade, a respeito do destino
  • 173. Herman Melville - Moby Dick 172 do homem, que é de elevar-se, pela virtude, da mais baixa condição até à pureza mais indestrutível. Lembrai-vos de que a águade-colónia antes de ser um perfume é um produto dos mais nauseabundos do Mundo. Não queria terminar este período sem negar uma acusação de que os baleeiros frequentemente são alvo, tal como: que são os homens menos cuidadosos, mais sujos da criação. 98 Penso que esta acusação tem pelo menos dois séculos, isto é que remonta à época em que os primeiros baleeiros gronelandeses lançaram âncora no porto de Londres. Ao contrário dos baleeiros dos países meridionais, os gronelandeses nunca foram capazes de resolver-se a ferver o óleo dos cetáceos mesmo no decurso da própria campanha. Limitam-se a cortar em pedacinhos o toucinho das baleias, guardando-o logo em tonéis. Resultado: quando chegam ao seu porto, a carga exala um cheiro tão horroroso como o de um cemitério revolvido
  • 174. Herman Melville - Moby Dick 173 por um cataclismo. Porém nós, pescadores dos mares do Sul, utilizamos, como se verá mais adiante, outros processos mais modernos e mais seguros. E a verdade é que as baleias, vivas ou mortas não são mamíferos mais mal-cheirosos do que os outros. Acreditam, se eu afirmar, que a cauda do cachalote, ao chicotear a atmosfera acima das vagas, espalha um odor comparável ao almíscar com o qual as senhoras perfumam os seus vestidos de cetim que fazem roçagar com secreta alegria no conforto dos seus salões? Em suma, não me faltou muito para comparar cada cachalote àquele ilustre elefante, com presas adornadas de pedras preciosas, e o corpo impregnado de mirra que os habitantes de uma cidade hindu, no desejo de agradar ao seu vencedor enviaram outrora ao encontro de Alexandre, o Grande. 99 XI O RÉPROBO Se a memória não me atraiçoa, já vos falei
  • 175. Herman Melville - Moby Dick 174 do minúsculo Pip, aquele pobre negro do Alabama que fazia parte da nossa tripulação. Mas comecemos pelo princípio. Uns dias depois de termos pregado aquela boa partida que vós sabeis aos nossos amigos franceses do Botão de Rosa, fomos testemunhas e actores de um acontecimento deplorável, no qual alguns viram uma espécie de prefiguração do destino que esperava o Pequod. A bordo de um baleeiro, nem todos os marinheiros fazem parte das tripulações das chalupas. Alguns, enquanto os companheiros perseguem cachalotes e baleias, asseguram a manobra e a guarda do navio. São tão fortes, tão hábeis como os outros. No entanto, os fracos e os medrosos vêem-se também impedidos de ir para o mar nas chalupas e participar na captura dos cetáceos. Tal era o caso do negrinho Pippin, a quem chamávamos Pip. Pip e o steward Dough-Boy (já viram este último levando ao capitão Acab o rum destinado a encher os ferros dos arpões e das lanças) formavam, embora de cor
  • 176. Herman Melville - Moby Dick 175 diferente, uma espécie de par ideal. Dir-seiam dois póneis, um branco e o outro preto, atrelados ao mesmo carro. No entanto, enquanto Dough-Boy era lento e bastante taciturno, Pip, no fundo um cobardolas, demonstrava em tudo uma espantosa vivacidade de espírito, 100 e também aquela espontaneidade que é própria de uma raça mais propensa a saborear o prazer do que as outras. Pois não afirmam que se os povos de África tivessem mais liberdade de acção fariam de todos os dias do ano dias de festa e de repouso? Enfim, não sorriam quando eu digo que o pequeno Pip resplandecia de luz. Não é o ébano de todas as madeiras, uma das que captam melhor os raios do Sol? Infelizmente, Pip gostava demasiadamente da vida isto é, da calma, do descanso, da segurança. Assim, desde que cometera a loucura de se alistar no Pequod, sem prever que haviam de lhe ser atribuídas tarefas estafantes, perdera muito do seu brilho. Mas é tempo de voltarmos à
  • 177. Herman Melville - Moby Dick 176 nossa história. Ora aconteceu que, no dia em que se passou o episódio do âmbar-cinzento, como o remador de popa de Stubb entalara uma das mãos, Pip foi designado para o substituir até que se curasse. Quando ocupou o seu lugar na baleeira do primeiro-tenente, Pip, apesar de bastante nervoso, arranjou maneira de não entrar em contacto directo com o cachalote e saiu-se menos mal da aventura. Todavia, Stubb, que estivera a observá-lo, disselhe: - Acho-te um bocado mole. Faz por mostrar mais coragem, porque é de coragem que tu vais precisar frequentemente. Da segunda vez, Pip empregou toda a sua força nos remos. Quando a baleia foi arpoada, deu o habitual sacão mas tão perto da baleeira que Pip foi levantado do banco como uma pena e arrastado borda fora, pois a linha, ao afrouxar, enrolara-se-Lhe à volta do corpo e fizera-o perder o equilíbrio. Nesse momento a baleia, refeita da surpresa, afastou-se a toda a velocidade rebocando na sua esteira
  • 178. Herman Melville - Moby Dick 177 o infeliz negrito. Tashtego, o arpoador índio, estava à proa. Desprezava Pip pela sua pusilanimidade. Pegando logo numa faca, pousou a lâmina sobre a linha e, voltando-se para Stubb: 101 - Corto? - perguntou ele. Pip debatia-se desesperadamente e, no seu rosto azulado pelo medo, as pupilas pareciam gritar: "Sim, corte, corte, por amor de Deus!" Naturalmente, esta cena não durou mais de meio minuto. - Imbecil! - rugiu Stubb. - Sim, Tashtego, corte! Assim Pip foi salvo, mas perdera-se a baleia. Quando voltou a si, o infortunado negrinho viu-se alvo dos sarcasmos e das censuras da tripulação. Ao acalmar aquele violento concerto, Stubb, por sua vez, passou uma descompostura a Pip. Depois, acrescentou: - Lembra-te disto: para a próxima vez, não faço nada para te repescar. Não podemos permitir-nos perder baleias para salvar indivíduos tão pouco interessantes como tu. O mais ínfimo cachalote vale trinta vezes
  • 179. Herman Melville - Moby Dick 178 mais que a tua fraca pessoa. Então, estamos entendidos? Tens de agarrar-te à baleeira. E não voltas a saltar, está bem? Pip jurou tudo o que quiseram. No entanto, saltou de novo prova de que nós todos estamos nas mãos dos deuses. Sim, Pip saltou de novo, em circunstâncias bastante semelhantes às da sua primeira aventura. Porém, desta vez, conseguiu desembaraçar-se da linha. Contudo, enquanto o cachalote arrastava a baleeira, deixaram-no desembaraçar-se sozinho, pois Stubb parecia resolvido a manter a sua palavra. Estava um belo dia claro e azul. O mar espraiava-se até ao infinito como uma imensa folha de ouro. Sobre esta folha de ouro, a cabeça negra de Pip lembrava um cravo-da-índia. Quando o negrito foi projectado borda fora, Tashtego meteu a faca na bainha e Stubb voltou as costas com ar de desdém. Aliás, o cachalote parecia ter asas. Em três minutos, a baleeira e o náufrago estavam pelo menos a meia milha marítima um do outro. Mantendo-se muito dificilmente à
  • 180. Herman Melville - Moby Dick 179 superfície, Pip voltava de vez em quando os olhos para o Sol e não podia deixar de comparar a sua solidão à do grande astro luminoso. 102 Talvez não saibam que é tão fácil nadar em pleno oceano como passear na cidade, num carro com boas molas. O que é intolerável é a solidão, a impressão de não se ser mais do que um ponto quase invisível num incomensurável deserto líquido. Os marinheiros bem o sabem. E quando tomam banho, mesmo com tempo calmo, nunca se afastam do seu navio. Tinha então Stubb verdadeiramente abandonado o pobre negrinho à sua sorte? Não. Pelo menos não era essa a sua intenção. Pensava que as duas outras embarcações encontrariam Pip e o apanhariam. É certo que os baleeiros têm pelos poltrões uma aversão semelhante à dos soldados do exército e dos marinheiros da marinha de guerra. Porém os pescadores de cetáceos não esquecem
  • 181. Herman Melville - Moby Dick 180 nunca que lhes aconteceu também a eles sentir medo e isso no fim de contas tornaos mais indulgentes. Infelizmente, neste caso particular, as baleeiras não viram o náufrago. Melhor: avistando cachalotes viraram logo de bordo e lançaram-se em sua perseguição. Pip julgou-se perdido, tanto mais que o barco de Stubb, longe de dar meia volta, continuava a dirigir-se para o horizonte. E nem por um acaso providencial, foi o próprio Pequod que o socorreu salvandolhe a vida. Mas, a partir daquele dia, o negrinho passava os dias errando pela ponte em passo de sonâmbulo. Não tardaram a considerá-lo como louco. Com cruel ironia o mar, embora Lhe salvasse o corpo arrebatou-lhe a alma ou melhor, uma parte da alma. Pip tinha visões. Distinguia por de trás do écran dos seus olhos tristes formas estranhas e mesmo milhões de insectos misteriosos que dão origem ao coral. Via o pé de Deus no tear onde é tecido o universo e como assim o proclamava, os companheiros
  • 182. Herman Melville - Moby Dick 181 riam-lhe na cara e chamavam-Lhe idiota. Assim, a loucura humana não é mais do que um reflexo da sabedoria divina. Assim o homem, cada vez que rompe com todo o interesse terreno atinge o pensamento de Deus, o qual, julgado pela fria e medíocre razão, parece tomar então as aparências do desregramento e do absurdo. 103 Uma palavra mais: não sejam demasiadamente severos com Stubb. Semelhantes aventuras são frequentes no decurso das campanhas de pesca à baleia. Mais adiante, ver-se-á que fui, também, abandonado à minha sorte, tal como o pobre Pip. A baleia arpoada por Tashtego, e cuja captura ia custando a vida a Pip, foi colocada no flanco do Pequod. Terminadas a amarração e a desmembração, começouse a esvaziar o crânio, a que chamávamos o tonel de Heidelberg. Enquanto alguns marinheiros executavam esta tarefa, outros erguiam do chão e levavam as grandes selhas cheias de
  • 183. Herman Melville - Moby Dick 182 espermacete ou o branco-de-baleia. Colocavam-nas diante de nós, pois, pela primeira vez, eu fazia parte da terceira equipa, aquela que está encarregada de um trabalho mais delicado que qualquer outro, o qual precede a última transformação nas caldeiras. O nosso papel consistia em manipular a preciosa substância, esmagando os grumes que continha, até ficarem tão líquidos como o resto. Ocupação quase agradável, após os pesados trabalhos de que fora encarregado desde que fazia parte da tripulação do Pequod! E dizia para comigo: "Como isto é macio, claro, oleoso! Não admira que o branco- debaleia tenha sido outrora um cosmético muito apreciado..." Eu estava sentado na ponte, de pernas cruzadas, e felicitava-me por ter acabado por esse dia com a fatigante tarefa do cabrestante. Sob o céu de um azul sereno, o navio, com o velame levemente enfunado, deslizava sem sobressaltos nas ondas. Eu mergulhava as mãos na selha,
  • 184. Herman Melville - Moby Dick 183 onde o branco-de- baleia, recolhido havia menos de uma hora, começava a coagular. Esmagava massas tão macias como cachos de uvas demasiadamente maduras, massas tão perfumadas, juro, como violetas na Primavera. Tinha a impressão de viver não no seio de um oceano deserto, mas numa pradaria odorífera. Esquecera completamente o terrível juramento que o capitão Acab nos arrancara. Pouco a pouco os meus dedos tornavam-se leves como enguias e tal como as enguias parecia-me que eles se enrolavam 104 sobre si próprios, serpenteavam, ondulavam. Paracelso,o ilustre sábio suíço do século XVI não achava que o espermacete possui a virtude de apaziguar a cólera? A verdade é que, desde que as minhas mãos mergulhavam naquele banho miraculoso, sentia-me como que liberto de toda a amargura, de toda a violência e crueldade. Apertar! Comprimir! Esmagar!... Durante aquela manhã posso dizer que me perdi no branco-de-baleia ao ponto de se
  • 185. Herman Melville - Moby Dick 184 apoderar de mim uma estranha loucura. Surpreendi-me muitas vezes confundindo as mãos dos meus companheiros com os macios grumes do espermacete. Um sentimento afectuoso, amigável e terno invadira-me a alma e não podia deixar de olhar aqueles que me rodeavam sem suspirar no meu íntimo: "Quero-vos muito. Amamo-nos todos uns aos outros, não é verdade como a vida é bela!" E, em seguida, aconteceu-me, várias vezes, ver desfilar nos meus sonhos nocturnos intermináveis procissões de anjos que levavam aos ombros jarros cheios de branco-de-baleia. Mas voltemos à realidade. É tempo de vos falar de certas partes do cachalote tal como se apresentam antes de serem lançadas nas caldeiras. Em primeiro lugar temos o «cavalo branco». Trata-se da parte mais espessa da cauda, um prodigioso molho de músculos e tendões que, apesar da sua dureza, nos esforçamos por esmagar, pois contém um pouco de óleo. Depois de ter sido cortado, o «cavalo branco» é repartido
  • 186. Herman Melville - Moby Dick 185 em longos pedaços semelhantes a blocos de mármore, que os homens depois cortam à faca. O plum-pudding - lâminas de carne aderentes aqui e ali à carapaça de toucinho - é uma coisa muito agradável à vista. Como o bolo do mesmo nome, é de várias cores, com estrias de uma brancura ofuscante ou amarelo-dourado, sobre um fundo de pontinhos carmesim e púrpura. Estes pontos lembram ameixas vermelhas entre limões e têm um aspecto tão apetecível que sentimos uma dificuldade imensa em não os levar à boca. Devo confessar que um dia me aconteceu esconder-me atrás do mastro do traquete para provar aqueles estranhos frutos do mar. 105 O seu sabor - pelo menos assim o imagino - é semelhante ao que devia ter um assado à mesa de Luís, o Gordo - admitindo ainda que este assado tenha sido cortado de um cabrito morto numa boa estação de caça, pois decerto não ignorais que as estações
  • 187. Herman Melville - Moby Dick 186 de caça, tais como os anos de bons vinhos, não são todas igualmente boas. Poderia ainda falar-vos de certos pedaços de qualidade inferior, por assim dizer, tais como o slobgollion, o gurry, o nipper. Mas isso levar-nos-ia demasiado longe. Acho que vale mais pedir-lhes que me acompanhem à câmara do toucinho, esse porão ao qual já fiz alusão e onde são enroladas lado a lado as tiras de toucinho tiradas do corpo do cachalote. Eis chegado o momento de partir as tiras de toucinho. Espectáculo que os noviços acham sempre horroroso, sobretudo se são convidados a vê-lo depois do cair da noite. Este trabalho é feito por dois marinheiros, à luz de uma lanterna. Um empunha um gancho, o outro uma enxada de desmembrar. O primeiro engancha uma tira de toucinho e esforça-se por mantê-la imóvel, enquanto o navio baloiça ou arfa. O segundo salta sobre a tira e corta-a em pedaços que um homem pode levar às costas. Os pés do homem da enxada estão descalços, e a matéria em cima da qual estão assentes não tarda a
  • 188. Herman Melville - Moby Dick 187 revelar-se perigosamente escorregadia... Na penumbra, os erros são frequentes. Com um só golpe desastrado, o homem da enxada amputa por vezes vários dedos dos pés. E isto explica que os dedos dos pés sejam raros entre os veteranos da câmara do toucinho. Subamos à ponte. Apresentovos o homem do machado. Instalado perto do castelo da proa, desenrola, com a ajuda de dois companheiros, um pedaço de tira que acaba de ser cortado na câmara do toucinho. Tira-lhe depois a pele escura, tal como um caçador africano esfola uma boa, depois corta o toucinho e lança os pedaços num balseiro colocado junto dele. Na realidade, deve chamar-se-lhes fatias e não bocados, e fatias tão estreitas quanto possível, única maneira de obter um óleo abundante e de boa qualidade. 106 E Os baleeiros americanos não são reconhecíveis apenas pelas chalupas suspensas dos turcos, mas também pelas caldeiras.
  • 189. Herman Melville - Moby Dick 188 Curiosa arquitectura, que alia ao carvalho e ao cânhamo a mais robusta alvenaria. Imaginem fornos de tijolos construídos sobre tábuas. As caldeiras estão instaladas entre o mastro do traquete e o mastro grande, na parte mais espaçosa da ponte. Abaixo delas as traves do cavername são bastante resistentes para suportar uma massa de cimento e de tijolos com a largura de dez pés por oito e a altura de cinco pés. Naturalmente não pode tratar-se de fundações. Substituíram-nas por possantes joelhos de ferro que por todos os lados, seguram as caldeiras e as fixam solidamente à ponte. No Pequod havia duas caldeiras. Eram rodeadas por uma espécie de revestimento de madeira e tinham em cima um painel em plano inclinado. O interior tinha uma capacidade de várias toneladas. Nos períodos em que não eram utilizadas, a tripulação tratava delas com os maiores cuidados. Limpava-lhes o interior com esteatite e
  • 190. Herman Melville - Moby Dick 189 areia até que este ficasse tão reluzente como a prata das tigelas de ponche. Durante o quarto de noite alguns marinheiros, menos conscienciosos que os outros, introduziam-se nelas para fazer uma soneca. De dia, os que estavam encarregados da limpeza aproveitavam-se desta situação para passar a cabeça pelo orifício superior a trocar confidências. Foi na caldeira da esquerda, um dia em que eu estava de serviço, que fiz uma descoberta. Tendo deixado cair por descuido o meu pedaço de esteatite, impressionou-me este facto notável: todo o corpo deslizando ao longo de uma ciclóide desce no mesmo espaço de tempo de qualquer ponto. Quando se retira a placa protectora, fica-se frente a frente com a fornalha, colocada, como é natural, sob a própria caldeira. Cada fornalha é fechada por pesadas portas de ferro e isolada da ponte por um reservatório de água que é renovada por meio de um tubo, à medida que se evapora. Não há chaminés. São substituídas Por buracos abertos na
  • 191. Herman Melville - Moby Dick 190 alvenaria da parede posterior. 107 Mas voltemos um pouco atrás. Eram aproximadamente nove horas da noite quando foram acesas as caldeiras pela primeira vez desde o início da nossa viagem. Era a Stubb que cabia a honra de dirigir a operação. - Então, está tudo a postos? Bem, tu aí cozinheiro! Acende! O acender das fornalhas foi tanto mais fácil que, desde que partíramos de Nantucket, o carpinteiro de bordo não parara de enchêlas com cavacos. Pormenor que é bom sublinhar: no decurso de uma campanha de pesca à baleia, o primeiro fogo acende-se com madeira. Depois mantém-se com toucinho seco que, nesta circunstância, recebe o nome de resíduos ou coscorões. Assim, baleias e cachalotes fornecem eles próprios o combustível destinado a consumar a sua destruição... Porém vingam-se cruelmente, envolvendo as caldeiras numa nuvem de fumo que lembra o das fogueiras fúnebres que os hindus
  • 192. Herman Melville - Moby Dick 191 acendem nas margens do Ganges. À meia-noite, o trabalho estava no auge. Já nos tínhamos desembaraçado da carcaça. Com o vento cada vez mais fresco, içáramos várias velas. As trevas selvagens do oceano rodeavam-nos, trespassadas de vez em quando pelas chamas que brotavam dos buracos negros de fuligem e que revelavam em toda a sua altura o esqueleto da enxárcia. O Pequod, como que atraído pelo seu destino, avançava àquele andamento circunspecto, implacável, como era decerto o dos navios do intrépido Canaris quando, transformados em brulotes, se lançaram em plena noite sobre as fragatas turcas e as incendiaram. (1) Retirados os painéis, os quatro arpoadores, munidos de forcados, começaram a lançar pedaços de toucinho para as caldeiras. Ajoelhados a seus pés, alguns marinheiros ateavam as fornalhas. 1 Alusão às façanhas do ilustre marinheiro grego Canaris (1790-1877), na luta para libertar o seu país do jugo turco.
  • 193. Herman Melville - Moby Dick 192 (N. do T.) 108 O fumo subia, desenrolando sombrias volutas. A cada movimento do navio, o óleo em ebulição levantava-se, como se quisesse saltar à cara dos arpoadores. Um pouco afastados, os homens de quarto passeavam em volta do cabrestante e, de vez em quando, paravam para contemplar esta cena infernal, até que o vermelho fulgor das chamas Lhes queimava as pálpebras. Nas suas faces barbudas e enegrecidas pelo fumo, os dentes desenhavam um traço de uma brancura bárbara. Com entoações alegres e palavras por vezes grosseiras, contavam histórias ímpias ou terríficas. E os seus risos elevavam-se ao ritmo das chamas das duas fornalhas. Os arpoadores andavam de um lado para o outro gesticulando e brandindo os forcados. O vento bramia, o oceano agitava-se, o barco gemia, estalava, empinava-se, erguia-se, sem deixar no entanto de lançar sempre para mais alto nas trevas as duas colunas
  • 194. Herman Melville - Moby Dick 193 flamejantes, sem deixar de triturar, na sua bocarra desdenhosa, os últimos ossos, os últimos pedaços de toucinho do cachalote. Assim, com aquela tripulação primitiva e os braseiros onde o monstruoso cadáver acabava de consumir-se, o Pequod parecia encarnar uma alma devastada por uma ideia fixa: a alma do capitão Acab. Foi pelo menos esta a comparação que me veio ao espírito. Desempenhando, devido à circunstância, as funções de timoneiro, eu tinha a impressão de conduzir a marcha de um navio em chamas. Mergulhado eu próprio na obscuridade distinguia melhor os meus companheiros, e as suas silhuetas diabólicas sobre o écran vermelho das fornalhas faziam desabrochar ante os meus olhos visões tão fatigantes que não tardei a deixar-me invadir pela inexplicável letargia em que sempre mergulhava por volta da meia-noite, todas as vezes que estava ao leme. Porém, nessa noite, fui protagonista de um incidente que me deixou bastante confuso.
  • 195. Herman Melville - Moby Dick 194 Tendo-me deixado adormecer, sem dúvida, por uns minutos, acordei repentinamente em sobressalto. E tive imediatamente a impressão de que acabava de cometer um erro irreparável. A cana do leme - lembramse que era feita de um maxilar de cachalote -, 109 batia-me nas costas, e as velas, descontroladas, começavam a estalar ao vento. Apesar de ter os olhos abertos (para ter a certeza disso, tocara as pálpebras com as pontas dos dedos), não via nada, não distinguia absolutamente nada. A agulha, a carta iluminada pelo candeeiro da bitácula: tudo parecia ter-se volatilizado. Na minha frente, estendiam-se umas trevas, onde tremeluziam por vezes clarões vermelhos. Para onde íamos? Preparávamo-nos para nos lançar sobre quê? Aterrorizado, precipitei-me para o leme, murmurando: - O que é que me deu? Terei enlouquecido também? Percebi então o que se passara. Durante o
  • 196. Herman Melville - Moby Dick 195 meu curto sono, dera uma volta, ficando, sem o saber, de frente para a retaguarda do navio e voltando as costas não somente à proa, mas também à bitácula. Num abrir e fechar de olhos voltei à posição correcta. Mesmo a tempo de impedir que o navio se voltasse em sentido contrário e que até se virasse talvez. Que alívio quando me senti livre daquela estranha alucinação! E, sobretudo, com que ardor agradeci ao Céu! Pois, como teria podido, sem um milagre, anular aquela armadilha evidentemente preparada pelo demónio das profundezas? Irmão, quem quer que sejas, não olhes nunca durante muito tempo o rosto obsidiante do fogo. Quando tiveres nas mãos a cana do leme, não sonhes, não sonhes nunca. Livra-te de voltar as costas à agulha. O leme é sempre nervoso e sensível: submete-te às suas mínimas advertências. A noite é uma fonte de erros, e o fogo artificial deforma os seres e as coisas. As únicas chamas que não mentem, as únicas nas quais tens o direito de
  • 197. Herman Melville - Moby Dick 196 depositar confiança, são as do glorioso Sol. Se, afastando-vos das caldeiras, tivésseis alcançado o porão do castelo de proa, julgar-vos-íeis num desses santuários profusamente iluminados onde os soberanos mortos prosseguem no seu último sono. Ali dormiam, com efeito, sob uma abóbada formada por três painéis de carvalho, os marinheiros que não estavam de quarto e, acima das suas pálpebras cerradas, baloiçavam-se umas vinte lâmpadas reluzentes. Nos navios mercantes, o óleo de iluminação é tão raro para os marinheiros como os ovos frescos. Todos têm de se vestir e despir no escuro, comer no escuro, tropeçar no escuro, para chegar ao beliche ou à rede. Porém nos baleeiros, visto fabricarem eles próprios o óleo de que precisam, nunca falta luz aos marinheiros. Sem mais cerimónias, tal como se se tratasse de um barril de cerveja, chegam junto do refrigerador de cobre, colocado perto das caldeiras, e enchem a sua lâmpada - a maior parte das
  • 198. Herman Melville - Moby Dick 197 vezes um simples frasco ou uma velha garrafa. Queimam assim um óleo puro, em estado bruto, de notável fluidez, e tão oleoso como a manteiga proveniente do leite das vacas que pastam a fresca erva de Abril. Já vos contei como se avistam, dos postos de observação, os grandes leviatões, como se perseguem e se matam, como se desmembram e se decapitam, como são cozidos pedaço a pedaço nas caldeiras. Restame mostrar-lhes como se passa o óleo para os tonéis e como se descem estes tonéis ao porão. Ainda tépido como ponche, o óleo é vazado nos tonéis de seis barrels. (1) Se a operação é executada em plena noite e se, nessa altura, o navio é sacudido por um mar agitado, os enormes tonéis por vezes escapam-se, tombam e põem-se a rolar pela ponte, em todos os sentidos, como que tomados de loucura. Os marinheiros lançam-se atrás deles, perseguem-nos, imobilizam-nos e, por fim, munidos de martelos, pregam-lhes em volta
  • 199. Herman Melville - Moby Dick 198 do bojo sólidos círculos de ferro. Vazada a última gota e arrefecido o líquido, abrem-se as escotilhas. O navio, como que desventrado, mostra, então, 1 Medida de capacidade de cento e cinquenta litros aproximadamente. Os tonéis de que fala o autor tinham, pois, uma capacidade de mais ou menos novecentos litros. (N. do T.) 110 111 as suas escuras entranhas, e os tonéis, um a um, são descidos para o porão reservado para esse fim. Terminado este trabalho, fecham-se hermeticamente as escotilhas. Numa campanha de pesca aos cetáceos, eis agora um dos pormenores aparentemente insignificante, mas que foi talvez dos que mais me chocaram. Um dia a ponte escorre sangue e óleo. No sacrossanto castelo da popa, os pedaços da cabeça da baleia ou do cachalote amontoam-se numa horrível pirâmide. Há tonéis dispersos aqui e além, numa desordem comparável à de um pátio de cervejaria. O fumo das caldeiras enegreceu
  • 200. Herman Melville - Moby Dick 199 o filerete. Os marinheiros vão e vêm com as mãos e os rostos brilhantes de gordura. O ruído é ensurdecedor. O próprio navio tem o ar de um monstro arpoado recentemente. Porém, no dia seguinte, olhem à volta, apurem o ouvido. Sem as chalupas e as caldeiras, a traírem a sua especialidade, o baleeiro tem o ar de um navio como os outros, um navio comandado por um capitão meticuloso. O óleo bruto proveniente do espermacete tem uma virtude muito particular: limpa tudo aquilo em que toca. E isto explica por que razão a ponte nunca está mais limpa do que depois da infernal operação que eu acabei de descrever. Tanto mais que se fabrica um excelente produto com as cinzas e os detritos dos cetáceos, utilizado na limpeza das placas viscosas provenientes do corpo da baleia e que ficam coladas ao casco. Com muitos trapos e baldes de água, os marinheiros deixam o filerete tão limpo como antes. Uns escovam o cordame coberto de fuligem, outros limpam todos os objectos
  • 201. Herman Melville - Moby Dick 200 que serviram durante as últimas vinte e quatro horas: selhas, caldeiras, refrigeradores, etc. Os tonéis estão no porão. Os guindastes desapareceram. Por fim, os homens tratam eles próprios de se lavar. Mudam de roupa interior, de fatos, e quando voltam a aparecer na ponte impecável estão tão janotas como noivos na manhã do casamento. Chegam mesmo a ter ideias de grandeza. Passeando com ar alegre, em grupos de três ou quatro, gracejam, perdem um pouco a cabeça. 112 Um sugere que se ponham ali sofás e um tapete, outro que se pendurem tapeçarias na enxárcia. E se alguém os convidasse, com todo o gosto tomariam chá ao luar, no castelo da proa feito salão! Mas não se esqueçam de que lá em cima, nos postos de observação, estão três vigias perscrutando incessantemente o oceano. Se matarem mais baleias, chegará fatalmente para o navio o instante de voltar a ficar todo engordurado, devido ao toucinho e ao óleo daquelas e ao fumo das
  • 202. Herman Melville - Moby Dick 201 caldeiras. Muitas vezes, os pobres marinheiros, após terem trabalhado desesperadamente a esquartejar o animal capturado, a acender e a cuidar das caldeiras, a vazar o óleo nos tonéis e a descê-los ao porão, e enfim a limpar o navio, nem sequer têm tempo de abotoar o blusão lavado que acabaram de vestir! Porque um dos vigias gritou de súbito: O jacto! O jacto! Então, sem hesitar, salta-se para as chalupas, trava-se batalha com outra baleia. Falo com conhecimento de causa desta existência febril e entre todas fatigante, pois vivi-a a bordo do Pequod por todos os mares do Mundo. 113 XII O DOBRÃO Como é já do vosso conhecimento, o capitão Acab, quando estava na ponte, raramente se mantinha imóvel. Caminhava incessantemente da bitácula até ao mastro grande e dava meia volta com regularidade matemática cada vez que
  • 203. Herman Melville - Moby Dick 202 atingia um destes pontos extremos do seu passeio. Porém esquecime de especificar que, quando estava com um humor ainda pior do que de costume, parava, quer na bitácula quer no mastro grande, e ficava de olhar fixo no objecto que se encontrava na sua frente. Assim, ora se inclinava com extrema atenção sobre a agulha de marear ora se ia pôr a contemplar com expressão de desespero violento, quase selvagem, a moeda de ouro que ele próprio pregara no mastro grande. Uma manhã, parando em frente do dobrão, pareceu mais interessado do que nunca nas inscrições e desenhos gravados no precioso metal, como se de repente descobrisse neles um sentido que até então lhe escapara. Deve dizer-se que aquele dobrão fora feito com um ouro extraordinariamente puro, e que, pregado entre ferrugentas cavilhas de ferro e pregos de cobre manchados de verdete, conservava, mesmo assim, um incomparável brilho. Apesar de tocado amorosamente todos os dias, por mãos
  • 204. Herman Melville - Moby Dick 203 nem sempre muito limpas, exposto à acção corrosiva dos nevoeiros nocturnos, aparecia todas as alvoradas ainda mais luminoso do que na véspera. Ninguém, até então, pensara em roubá-lo. Na verdade, os marinheiros consideravam-no uma espécie de talismã que havia de permitirlhes surpreender, perseguir e matar a baleia branca. E, muitas vezes, durante os enfadonhos quartos de noite, perguntavam de si para si, com uma vaga inquietação: "Qual de entre nós virá a possuí-lo?" O dobrão do Pequod era mais do que uma simples moeda de ouro. Cunhado na América do Sul, era antes uma espécie de medalha. À volta do bordo exterior podia ler-se a seguinte inscrição: República do Equador, Quito; o fundo apresentava-se decorado com palmas, montanhas, estrelas e sóis, cornucópias, bandeiras flutuando ao vento, etc. Esta maravilhosa gravação criara forma no seio da cordilheira dos Andes, numa região muito diferente de todas as outras, visto ali não haver Outono. O capitão Acab parecia hipnotizado por
  • 205. Herman Melville - Moby Dick 204 aquela moeda. Talvez visse nela a sua própria imagem. Talvez pensasse: "Esses vulcões, além... mas, são mesmo a minha pessoa! O fogo deles é o mesmo que me devora!" Starbuck, o imediato do Pequod, que o observava pelo canto do olho, murmurou: "O velho, tal como o Baltasar da Bíblia, parece estar a decifrar qualquer assustadora profecia. Mal ele volte para a cabina, vou olhar bem para aquela moeda, pois nunca a examinei de perto. Mas receio que me revele alguma descoberta desagradável!..." Stubb estava ao pé das caldeiras. Esperou que o capitão Acab voltasse para a cabina e que Starbuck se afastasse. Então aproximou-se por sua vez do mastro grande, dizendo: "O velho tinha um ar sinistro e o Starbuck estava com cara de caso! E tudo isto por causa de uma moeda de ouro que não chegaria a criar bolor no meu bolso se me pertencesse! Um dobrão... Vi tantos no decorrer das minhas viagens: dobrões espanhóis, dobrões
  • 206. Herman Melville - Moby Dick 205 peruanos, dobrões chilenos, dobrões bolivianos. O que é que este tem de especial? 114 115 Foi cunhado em Quito, capital do Equador. Até aqui não lhe vejo nada de muito original... Olha! Os signos do Zodíaco... É curioso. O Carneiro, o Touro, os Gémeos, o Caranguejo, o Escorpião, o Leão, o Sagitário, o Aquário, os Peixes, o Capricórnio, a Virgem... Convinha era saber o que significa a ordem por que estão dispostos os signos... Mas, atenção. Lá está o Flask. É melhor esconder-me. O que estará ele a dizer?" O segundo-tenente viera postar-se, por sua vez, em frente à moeda e dizia entredentes: "Ora bem, vejamos, isto não passa de uma moeda de ouro! Porque vêm todos olhá-la tão atentamente? Eu cá só sei uma coisa: vale dezasseis dólares, o que quer dizer que me permitiria comprar oitocentos charutos a dois cêntimos. Porque eu gosto de charutos. Não fumo cachimbo, como o Stubb..."
  • 207. Herman Melville - Moby Dick 206 Depois, vendo um velho marinheiro a quem chamavam o homem da ilha de Man, afastou-se precipitadamente e foi para junto da escotilha, pensando: "Este homem sempre é muito sinistro! Lembra o cocheiro de um carro funerário. Dirige-se para o dobrão. Que diz ele? Quando abre a boca parece que tem um moinho de café na garganta!" Eis o que dizia o homem da ilha de Man: Se algum de nós avistar a baleia branca, será dentro de um mês e um dia, quando o Sol entrar num destes signos. Há quarenta anos, em Copenhaga, uma feiticeira ensinou-me os segredos do Zodíaco. Ora, dentro de um mês e um dia, em que signo estará o Sol? No signo do Leão! Ah!, misericórdia! Pobre... Pobre Pequod! Tremo ao pensar em ti! E o homem da ilha de Man afastouse, arrastando os pés. Stubb, sempre escondido, monologava assim: "Palavra de honra, isto é uma procissão: a seguir ao Flask e ao homem da ilha de Man, temos o Queequeg. E este
  • 208. Herman Melville - Moby Dick 207 até se assemelha ao Zodíaco, com todas aquelas tatuagens!, que diz o nosso canibal? Nada. Olha apenas estupidamente para o dobrão. 116 Talvez julgue que é um botão dos calções que pertenceram a algum rei... Mas, toca a esconder, tenho de me esconder melhor! Lá está aquele diabo do Fedallah! Que olhar agudo! Irá falar? Não. Inclina-se apenas ante o dobrão, ou melhor, ante o Sol gravado na moeda. Mais um adorador do fogo, um selvagem, um ser primitivo... E a procissão continua: Fedallah afasta-se. E logo o pequeno Pip toma o seu lugar. Pobre Pip! Não há nada mais triste do que a loucura! Mais lhe valia ter morrido... Que estará ele a dizer? O negrito louco fora postar-se em frente da moeda de oiro e dizia atabalhoadamente: - Este dobrão... o que é? O umbigo do navio! Todos desejam tanto arrancá-lo dali! Mas experimentem só, e verão o que acontece! E mesmo que fique lá preso
  • 209. Herman Melville - Moby Dick 208 àquele mastro, é muito mau sinal... é sinal de desgraça, pela certa... Ah!, velho Acab, não tardas a ouvir falar da tua baleia branca! - Ó!, do navio! Viu a baleia branca? Tinham passado alguns dias. O capitão Acab interpelava uma vez mais um navio, agora um inglês, que passava à nossa retaguarda. Servindo-se do porta- voz, estava de pé na chalupa suspensa dos turcos e com a perna de marfim poisada negligentemente na borda do barco como que para a pôr bem em evidência. O capitão inglês, instalado também na sua chalupa, era um homem que andaria pelos sessenta anos, de rosto bronzeado pelo ar do mar. Vigoroso e de fisionomia aberta, envergava um amplo blusão azul de piloto, cuja manga direita flutuava vazia atrás dele e lembrava a manga bordada, puramente decorativa, que faz parte do uniforme dos hussardos. - Viu a baleia branca? - repetiu Acab. - E você, já viu isto? - replicou o inglês. Com a mão esquerda arregaçara a manga
  • 210. Herman Melville - Moby Dick 209 direita e mostrava um osso de cachalote terminado por uma espécie de martelo de madeira. 117 - Desçam a minha chalupa! - gritou, febrilmente, o capitão Acab. Em menos de um minuto, a chalupa estava na água e, à força de remos, foi colocar-se ao lado do navio inglês. Mas surgiu então uma estranha dificuldade. Na sua agitação, o capitão Acab esquecera que, desde que ficara sem a perna, jamais entrara noutro navio além do seu e que se se movia sem custo no Pequod era graças a um dispositivo especial. Tanto mais que não é fácil para ninguém subir para uma chalupa em pleno mar, pois as vagas imprimem a esta um movimento incessante. Tão depressa a erguem até ao filerete como a obrigam a mergulhar até às proximidades da quilha. Assim, o capitão Acab, naquela ocorrência, achava-se tão incapaz como qualquer homem inábil e acostumado a andar apenas em terra. Contemplava com expressão furiosa o
  • 211. Herman Melville - Moby Dick 210 costado do navio, e mais o encolerizava o facto de dois oficiais, debruçados no filerete, darem mostras de esperar que o visitante utilizasse a escada de corda guarnecida de dois elegantes corrimãos esculpidos, junto da qual se encontravam. Como se um inválido pudesse empreender com alguma probabilidade de êxito uma tão inverosímil proeza! Felizmente esta cena muda durou apenas um instante. Com efeito, o capitão inglês, compreendendo o que se passava, gritou: - É muito simples! Já vai ver! E dirigindo-se aos marinheiros: - Depressa, rapazes, o gancho de esquartejar! Por um feliz acaso, o navio devia ter tido, dois ou três dias antes, uma baleia presa ao costado, pois as roldanas encontravamse ainda batidas (1) no mastro, pendendo da sua extremidade o potente gancho do toucinho, agora reluzente de asseio. Segundos mais tarde o gancho baloiçava ao longo do navio. Acab agarrou-o, enfiou a sua única perna na parte curva 1 Bater, na linguagem dos marinheiros,
  • 212. Herman Melville - Moby Dick 211 significa fixar. (N. do T.) 118 (como se se tratasse do braço de uma âncora ou de um ramo de árvore), deu o sinal e, a fim de facilitar a manobra, puxou ele próprio, com as duas mãos, um dos cabos que ligavam o gancho às roldanas. A operação durou talvez um minuto. Depois, o capitão do Pequod transpôs o filerete e foi cuidadosamente posto em frente do cabrestante. Já o capitão inglês avançava, estendendo o osso de cachalote que substituía o seu braço direito. Por sua vez, Acab estendeu a perna de marfim e exclamou com a sua habitual rudeza: Pois, é isso mesmo! Com muito prazer! Cruzemos os nossos ossos! Cruzemos esse braço que será seu para sempre e esta perna que nunca mais poderá correr! Onde é que viu a baleia branca? Há quanto tempo? - A baleia branca... - respondeu o inglês, estendendo o braço artificial para leste. - Via lá para as bandas do equador, no decurso
  • 213. Herman Melville - Moby Dick 212 da última época. - E foi ela que Lhe amputou esse braço? perguntou Acab, aproximando-se mais do seu interlocutor e apoiando-se-lhe no ombro. - Foi... pelo menos é responsável pelo caso. E você, essa perna? - Conte-me, antes, como se passaram as coisas consigo - insistiu Acab. - Bem - disse o inglês -, navegava pela primeira vez lá para os lados do equador. Desconhecia ainda a existência da baleia branca. Um dia, lançámos as chalupas ao mar a fim de perseguirmos umas baleias - eram quatro ou cinco. Tomei uma delas à minha conta. O raio do animal parecia um cavalo de circo. Rodopiava sem descanso à nossa volta como se pretendesse virar o barco. E, de súbito, surge do fundo do oceano uma outra baleia, essa enorme, toda coberta de rugas, de olhos engelhados, com a cabeça branca, assim como a bossa... - Era ela! Era ela! - gritou Acab, ofegante. Tinha a barbatana de estibordo crivada de
  • 214. Herman Melville - Moby Dick 213 arpões... - Arpões? Os meus, está visto! Mas continue, por favor, continue. 119 - Se quer que eu continue, não esteja sempre a interromper-me - disse o inglês sorrindo. - Pois, aquela avó de cabeça branca precipitou-se, coberta de espuma, sobre a linha que já nos ligava à baleia que tínhamos arpoado. - Co'a breca, queria cortá-la, para libertar a outra baleia! É uma das suas habilidades. Já a conheço há muito. O maneta continuou, imperturbável: - Quais eram as suas intenções, não sei. A verdade é que, ao pretender cortar a linha enrolouse nela, e de tal maneira que, quando puxámos esta, fomos precipitados sobre a sua bossa branca, enquanto a outra baleia, liberta, fugia de cauda no ar! Vendo que estávamos a braços com um animal fora de série um dos maiores, dos mais nobres que me foi dado contemplar decidi, embora ela me parecesse deveras enraivecida, persegui-la e matá-la. A fim de
  • 215. Herman Melville - Moby Dick 214 ficar com maior liberdade de movimentos, saltei para a chalupa do meu imediato Mounttop, aqui presente e que tenho a honra de lhe apresentar, e, apoderando-me do primeiro arpão que encontrei, arremessei-o àquela trisavó. Senhor, que fiz eu? Imediatamente fiquei cego como um morcego. Através da cortina de espuma que me toldava a vista, apenas vislumbrava, e mesmo assim muito indistintamente, uma cauda perpendicular como um campanário. Recuar? Inútil pensar em tal. Bruscamente, enquanto tacteava à minha volta na esperança de encontrar um segundo arpão, a cauda desabou sobre nós, cortando em dois o nosso escaler. Mas isto não foi tudo: a bossa branca recuou e acabou de esmagar sob o seu peso as duas partes da embarcação. Os meus companheiros procuraram desesperadamente afastar-se a nado. Eu, sem saber o que fazia, agarrara-me com todas as forças à haste do arpão que acabara de cravar no corpo do animal. E
  • 216. Herman Melville - Moby Dick 215 este mergulhou. Que se passou então? O que ficou na minha memória é confuso e rápido como um pesadelo. Uma das barbas de um segundo arpão, vindo não sei donde, espetou-se-me no braço. Fui arrastado a uma velocidade prodigiosa... Iria até ao fundo do oceano? Depois, a barba acerada abriu caminho na minha carne, ao longo do braço e saiu pelo pulso. Estava livre! Achei-me à superfície, ofegante e nadando no meu sangue... O resto não serei eu a contar-lho, mas sim o doutor Bunger, cirurgião de bordo que, com prazer, lhe apresento. O doutor Bunger conservava-se a dois passos do capitão Acab e do capitão inglês. Este homem, ainda novo, tinha um rosto espantosamente redondo, que exibia, apesar disso, uma expressão muito grave. Vestia uma camisa de lã de um azul desbotado e umas calças remendadas. Segurava na mão direita um instrumento para entrançar cabos e na esquerda uma caixa de pílulas. Mas, desde o início da
  • 217. Herman Melville - Moby Dick 216 conversa, estivera sempre a olhar com ar crítico os membros de marfim dos dois oficiais. Inclinou-se, com ar respeitoso, e começou nestes termos: - O caso estava feio. A meu conselho, o capitão Boomer mandou o nosso velho Summy virar de bordo. - Devo dizer-lhe - interrompeu o maneta, dirigindo-se a Acab -, que o meu barco se chama Sammuel-Enderby. E, voltando-se para o médico: - Continue, Bunger. - Aconselhei pois o capitão Boomer a seguir rumo ao norte, para nos afastarmos do calor insuportável do equador. Mas não se ganhou muito com isso. No entanto, eu fazia tudo o que me era possível. Passava as noites inteiras à cabeceira do capitão, vigiava severamente o seu regime... O capitão Boomer voltou a interrompê-lo. - Severamente! - exclamou. - A verdade é que todas as noites ele ficava a beber comigo copos e mais copos, a ponto de já não ver bem quando chegava a altura de me fazer o penso. Ao mandar-me para a
  • 218. Herman Melville - Moby Dick 217 cama, pelas três da manhã, estávamos os dois meio bêbedos. Ah!, gabe-se, gabe-se! Com que então vigiava severamente o meu regime! Vamos, Bunger, faça um sorrisinho! Não fique com esse ar severo. Todos sabemos que você é um tipo patusco. Mas não importa. Gosto muito de si. A tal ponto que antes queria ser morto por si do que salvo por outro médico qualquer! 120 121 Sem perder a calma, o doutor Bunger lançou um olhar entendido a Acab e disselhe: - Como vê, o capitão Boomer tem facetas muito jocosas. No entanto, devo dizer-lhe que sou de uma sobriedade exemplar. Nunca bebo... - Claro! - exclamou o capitão Boomer. Nunca bebe! O que ele se esqueceu de dizer é que nunca bebe... água! Vejamos, Bunger, seja franco: confesse que sofre de hidrofobia. Mas continue a sua história. - Está bem, continuo, acho melhor - disse o doutor Bunger, com um arzinho de quem amola o caso. - O ferimento, apesar dos
  • 219. Herman Melville - Moby Dick 218 meus esforços, piorava constantemente. Nunca vi chaga tão feia. E que comprimento! Media dois pés e umas polegadas. Eu sondei-a... mas de que serviu tudo isso? Estava prestes a gangrenar... Tomei, pois, uma grande decisão: cortei. E aqui temos o capitão Boomer com um braço a menos... Mas, quanto a esse osso de cachalote acrescentou ele apontando o estranho braço artificial -, não fui eu que tive a ideia, foi o próprio capitão. Encomendou-o ao nosso carpinteiro. Porque quis que lhe acrescentassem aquele martelo? Talvez para rachar o crânio a alguém, como quis um dia rachar o meu. Acab, que começava a impacientar-se, voltou à carga. - E a baleia branca, que foi feito dela, depois dessa aventura? - É verdade... a baleia branca... - murmurou o capitão Boomer. - Bem, durante algum tempo não voltámos a vê-la. Aliás, como lhe disse, desconhecia o animal que defrontei. Foi só quando regressámos aqui às proximidades do
  • 220. Herman Melville - Moby Dick 219 equador que soube a verdade: tinha roçado a Moby Dick, como algumas pessoas lhe chamam. - E depois? - Cruzámo-nos com ela mais duas vezes. - Não conseguiram arpoá-la, aposto? - Nem mesmo tentei: basta-me ter perdido um braço. Que seria de mim se me visse privado do que me resta? Não estou interessado em fornecer à Moby Dick mais uma refeição tirada da minha carne! - Compreendo... compreendo - respondeu Acab -, todavia é-me impossível participar da sua prudência. A baleia branca atrai-me justamente porque é perigosa. Tem sobre mim o poder de um íman... E caçá-la-ei aconteça o que acontecer! Quanto tempo passou desde que a viram pela última vez? Em que direcção ia? Havia alguns instantes que o doutor Bunger, quase dobrado em dois, andava à volta de Acab, farejando-o, um pouco à maneira dos cães. De súbito, tirando uma lanceta do bolso, exclamou: - Deus do Céu! Tragam-me um termómetro! Este homem
  • 221. Herman Melville - Moby Dick 220 está a arder em febre! Do que ele está a precisar é de uma boa sangria! E preparava-se já para enterrar a lanceta no braço do veLho... Com um gesto violento, Acab repeliu-o até ao filerete, bradando: - Que é lá isso? A mim, marinheiros! Preparem a minha chalupa! Depois, voltando-se para o capitão inglês, repetiu: - Em que direcção ia ela? - Bem, parece-me... parece-me que se dirigia para leste respondeu Boomer, com expressão de profunda surpresa. E, inclinando-se para Fedallah, murmurou: O vosso capitão não tem o juízo todo? Como única resposta, Fedallah levou um dedo aos lábios. Depois, transpôs o filerete. Após ter-se instalado de novo no gancho, Acab ordenou aos marinheiros do Sammuel-Enderby: - Ponham-me lá em baixo! Passado um momento, encontrava-se na parte de trás da chalupa. Quedou-se impassível enquanto os seus homens
  • 222. Herman Melville - Moby Dick 221 começavam a remar. De costas voltadas para o navio inglês, o rosto de uma dureza de pedra, manteve-se imóvel como uma estátua até o barco chegar junto do Pequod. 122 123 XIII A PERNA DE ACAB Como acabei de dizer, o capitão Acab deixara o Sammuel-Enderby precipitadamente. Ao tomar lugar na chalupa, não reparou que a sua perna de marfim chocara com um dos bancos. Mas, quando voltou à ponte e encaixou o osso de cachalote num dos buracos abertos no castelo da popa, virou-se com tal violência, a fim de transmitir uma ordem ao timoneiro, que o marfim, já fendido, torceu-se. Na verdade, o estranho membro podia ainda servir, visto não estar quebrado. Porém, passou a inspirar-lhe menos confiança do que até então. Um facto bastante significativo merece ser aqui citado: apesar da sua loucura, o capitão Acab submetia frequentemente a cuidadosos exames aquele esquisito
  • 223. Herman Melville - Moby Dick 222 suporte, que lhe permitia manter em parte o equilíbrio. Com efeito, uma noite, pouco depois da nossa partida de Nantucket, tinham-no encontrado sem sentidos, estendido no chão da cabina. Por qualquer razão inexplicável, a perna de marfim, ao deslocar-se, produzira, na virilha, um grave ferimento que exigiu muitos e difíceis cuidados e levou imenso tempo a cicatrizar por completo. Que invisível poder quisera impedir o capitão do Pequod de arrastar a sua tripulação para uma perigosa aventura? O certo é que este caso esteve sempre envolvido num mistério que nunca ninguém conseguiu decifrar. No entanto, este incidente explicava, em parte, por que motivo Acab se mantivera obstinadamente na sua cabina antes e depois da partida, furtando-se aos nossos olhares como o grande Lama do Tibete ao dos seus fiéis. Mas, voltemos à vaca-fria. Ao aperceber-se de que a perna estava rachada, Acab tomou uma decisão simples e prática: mandou chamar o carpinteiro de bordo.
  • 224. Herman Melville - Moby Dick 223 Quando este se apresentou, ordenou-lhe em tom que não admitia réplica: - Preciso de outra perna. Tens de fazê-la sem demora. E dirigindo-se aos oficiais: - Vocês ponham à sua disposição tudo aquilo de que ele precisar. Façam uma escolha cuidadosa entre os ossos de cachalote que juntámos desde o início da viagem. Quero uma coisa não apenas resistente, mas de um grão finíssimo. Depois, voltando-se de novo para o carpinteiro: - Essa perna, assim como todos os acessórios que servem para a prender, quero-a esta noite sem falta. Por fim, mandou chamar o ferreiro e disseLhe: - Tira a forja do porão e ajuda o carpinteiro na medida do possível. O carpinteiro do Pequod, apesar da humildade das suas funções, era um personagem de certa importância. Como todos os carpinteiros da marinha - e muito especialmente aqueles que trabalham nos baleeiros -, era a um tempo indolente e activo e muito hábil numa série de ofícios relacionados de perto ou de longe com o
  • 225. Herman Melville - Moby Dick 224 seu. Conhecia a fundo, por exemplo, os mil segredos de mecânica empírica aos quais é preciso recorrer a cada passo para assegurar o bom andamento de um navio que, durante três ou quatro anos, navega em oceanos longínquos e selvagens. Desempenhava às mil maravilhas, não apenas as funções normais do seu cargo, reparação das embarcações, das antenas, dos remos, das vigias, das tábuas do soalho, da mastreação, etc..., mas, além disso, dava provas, em muitos outros domínios, de uma habilidade incomparável e, por vezes, 124 125 cheia de fantasia. Interpretava todos estes numerosos e variados papéis atrás do seu banco de carpinteiro, uma comprida e pesada mesa toscamente esquadriada, munida de vários tornos para ferro e madeira. Este banco encontrava-se sempre a dois passos das caldeiras, excepto quando havia uma baleia amarrada ao longo do navio. Uma estaca era demasiado grossa para
  • 226. Herman Melville - Moby Dick 225 entrar facilmente no seu orifício? O carpinteiro introduzia-o num dos tornos e logo lhe dava o calibre pretendido. Um pássaro de flamante plumagem despenhava-se, esgotado, na ponte? Com pequeninos ossos de baleia ou de cachalote confeccionava prontamente uma gaiola em forma de pagode. Um remador torcia um pulso? O carpinteiro preparavalhe e aplicava-lhe uma loção calmante. Stubb queria estrelas vermelhas nos remos da sua embarcação? O carpinteiro punha os remos em cima do seu banco e decorava-os com uma constelação tão rutilante como simétrica. Um marinheiro manifestava o desejo de usar brincos de osso de tubarão? O carpinteiro furava-lhe as orelhas. Outro marinheiro tinha dor de dentes? O carpinteiro empunhava a torquês e fazia-lhe sinal para se sentar no banco. Mas, em geral, o paciente soltava alguns gritos aflitivos antes do fim da operação... Enfim, este mirabolante carpinteiro era uma mina de surpresas. No entanto, indiferente
  • 227. Herman Melville - Moby Dick 226 a tudo, nada respeitava. A seus olhos, os dentes do próximo não eram mais que pedaços de marfim, as cabeças, simples bolas de pau. Para ele, um homem não tinha mais importância que um cabrestante. Pensam, decerto, após os exemplos que dei da sua habilidade: Deve ser um sujeito invulgarmente inteligente... Mas não. Não é bem isso. O que tornava sobretudo notável o carpinteiro do Pequod era a sua inabalável placidez. Vira tantas coisas no decorrer daquela existência errante! Nessa noite, durante o primeiro quarto, mal acabou de comer foi postar-se atrás do seu banco, à luz de duas lanternas. Afincadamente, pôs-se a limar o pedaço de marfim que devia substituir a perna rachada do capitão Acab. À sua volta, sobre o banco, viam-se tiras de couro, parafusos, utensílios de todas as espécies. À proa do navio brilhava o clarão vermelho da forja. Enquanto trabalhava, o carpinteiro espirrava constantemente, e ia murmurando: - Maldita lima e maldito osso! A lima é mole, o osso é duro.
  • 228. Herman Melville - Moby Dick 227 Com uma ferramenta destas, o que se pode fazer de um velho maxilar ou de uma velha tíbia? - isto admitindo que os cachalotes tenham tíbias... - Experimentemos outra lima... sim, esta parece melhor... Atchim! Ah!, que raio de poeira!... Atchim! Atchim! É que nem me deixa falar... Um tipo serra madeira ou mesmo um osso fresco e não há poeira. Ora bem, esta virola, esta fivela, vou precisar delas daqui a pouco... Felizmente o capitão não me pediu para lhe fazer uma rótula! Mas uma gâmbia, uma reles gâmbia, é tão fácil como uma vara de lúpulo. O que é preciso é paciência, muita paciência. Ah!, se eu tivesse tempo, que coisa bonita lhe faria! Mas o diabo do homem anda sempre cheio de pressa... Aliás, isto está quase pronto... Só falta cortar para acertar o comprimento. Oxalá não esteja curta!... O melhor será ir procurar o velho... Mas olha, ali está ele! Que sorte!... Com efeito, o capitão Acab avançava,
  • 229. Herman Melville - Moby Dick 228 dirigindo-se para o banco. - Então, Smut, tu que substitues os membros perdidos, diz lá, como vai isso? - Olhe, capitão, chega mesmo a propósito respondeu o carpinteiro. - Se me dá licença vou tirar-lhe a medida. - Tirar a medida da minha perna? Bom. Muito bem. Aliás não é a primeira vez, pois não? Vá, faz lá o teu trabalho. Eu espero. Tens aqui uns ricos tornos. Este, por exemplo. Aperta bem?... Safa, pode até dizer-se que morde! - Cuidado, cuidado, capitão! Quer esmagar essa mão? - Não tenhas medo, Smut. Sabes, acho que nesta vida tudo me escorrega por entre os dedos; gosto de sentir qualquer coisa 126 127 de sólido, qualquer coisa que me resista. O que está ali a fazer o nosso Prometeu?... Quer dizer, o ferreiro? Sim, o que está ele a fazer? - Deve estar a forjar a rosca da entrada, capitão. - Óptimo. Em suma, é teu sócio. É ele que
  • 230. Herman Melville - Moby Dick 229 fornece a força, o músculo. Ah! Que braseiro assustador! - Bem vê, capitão, para um trabalho tão delicado tem de se levar o metal ao rubro... - Claro, claro. Que coisa profunda, Smut! Prometeu também era ferreiro. Segundo dizem, ele teria feito o primeiro homem e têlo-ia animado por meio do fogo. Assim, segue bem o meu raciocínio: o que foi feito pelo fogo, logicamente, pertence ao fogo. E, como há fortes probabilidades de que exista o Inferno... Olha, a fuligem! Foi, sem dúvida, com fuligem semelhante a esta que paira no ar que Prometeu fez o primeiro negro... Escuta, Smut, quando o ferreiro acabar de forjar a rosca, diz-Lhe que faça um par de omoplatas de aço. Há a bordo um bufarinheiro que verga ao peso do fardo... - Desculpe, capitão, mas não percebi muito bem. - Escuta, escuta! Enquanto o Prometeu está em pleno trabalho, vou encomendarlhe um homem completo. Quero que tenha cinquenta pés de altura acima dos
  • 231. Herman Melville - Moby Dick 230 escarpins, o peito da largura do Tamisa, pernas com raízes para que se conserve sempre no mesmo sítio, braços que terminem em pulsos com três pés de circunferência, fronte de bronze, um pouco de bom cérebro, um coração..., não, nada de coração! Quanto aos olhos..., também não são precisos. Podem ser substituídos por uma lanterna aberta na parede superior do crânio. Assim, ficará lá dentro e não verá a fealdade do mundo. E agora, corre! Vai tratar da minha encomenda! O carpinteiro fitava Acab com um espanto crescente. E dizia consigo: "Palavra de honra, o homem perdeu a cabeça! Onde quer ele chegar com esta conversa?" Porém Acab, falando de si para si, continuava: "Uma luz... sim, também faz falta uma luz..." - Uma luz, capitão? - repetiu o carpinteiro. Como vê... Atchim!, tenho duas aqui em cima do meu banco. Tome lá esta.
  • 232. Herman Melville - Moby Dick 231 Só preciso de uma. - Para trás! Porque me apontas isso à cara? Não sabes que uma luz assim apontada à cara é mais desagradável do que uma pistola? - Quem o ouvisse, capitão, nem acreditaria que está a falar... Atchim!, com o seu carpinteiro! - Com o meu carpinteiro? Sim, é verdade. Mas tu não és um carpinteiro vulgar. No teu trabalho há requinte, quase se pode dizer que há arte. Contudo, talvez preferisses modelar o barro? - Não, capitão. Afinal o barro o que é? Lama. Deixemos o barro aos que trabalham com a terra... Atchim! - Porque estás sempre a espirrar? - É este seu osso, capitão. Faz muito pó. - O que prova, se entendes as coisas por meias palavras, que nunca devemos, quando mortos, deixarmo-nos enterrar debaixo do nariz dos que ainda estão vivos. - Debaixo do nariz? Ah! sim... Sim, capitão, começo a compreender. - Ouve lá, carpinteiro. Tu consideras-te um
  • 233. Herman Melville - Moby Dick 232 bom operário, não é assim? Pois bem, se queres que todos o reconheçam, faz com que essa perna artificial me dê a impressão de ser uma verdadeira perna, plena de músculos e sangue, como a que perdi! - Sim, sim, capitão, estou a perceber. De resto tenho ouvido contar histórias bem curiosas a esse respeito; por exemplo, que um homem desmastreado, com sua licença, tem por vezes a impressão de sentir ainda o seu velho mastro e até de sentir comichão nele. Posso perguntar-lhe, capitão, se isso é mesmo assim? - É, carpinteiro, é mesmo assim. Mas já tagarelámos muito. Quanto tempo te falta para acabares esse trabalho? - Mais ou menos uma hora, capitão. 128 129 - Muito bem. Leva-me então essa tua obraprima logo que esteja concluída. E, dando meia volta, o capitão encaminhouse para o castelo da popa. O carpinteiro seguiu-o com os olhos, pensando: "O Stubb tem razão quando diz com um ar pensativo que o capitão é esquisito. E é mesmo...
  • 234. Herman Melville - Moby Dick 233 Muito esquisito..." 130 XIV QUEEQUEG NO SEU ESQUIFE No dia seguinte, estávamos como de costume a dar à bomba, quando, de súbito, apareceu uma considerável porção de óleo misturado na água. A tripulação ficou preocupada e Starbuck desceu à cabina para pôr o capitão ao corrente dessa desagradável descoberta. Para que se compreenda o que foi dito, devo explicar que quando um baleeiro transporta uma importante quantidade de óleo, é introduzida no porão uma conduta que rega os tonéis com água do mar. Esta operação tem lugar duas vezes por semana. Permite não apenas manter os tonéis em estado de humidade conveniente, mas também verificar, por meio da água sugada todos os dias pelas bombas, se se produziu alguma fuga na preciosa carga. Naquele momento, aproximávamo-nos da Formosa e das ilhas Bachi, entre as quais fica, como todos sabem, um dos corredores que permitem passar do mar da China para
  • 235. Herman Melville - Moby Dick 234 o Pacífico. Quando Starbuck abriu a porta da cabina, o capitão Acab estava debruçado sobre duas cartas, uma representando os arquipélagos do Extremo Oriente, a outra as costas leste das três principais ilhas japonesas: Nippon, Yeso e Sikok. Apoiava a nova perna de marfim branco como a neve contra o pé atarrachado da mesa e, de sobrolho carregado, refazia 131 em espírito todas as viagens que empreendera desde a juventude. - Quem está aí? - resmungou o extravagante velho. - Volte para a ponte! Ponhase a andar! - Sou eu, o seu imediato, capitão - disse Starbuck -, há uma fuga no porão. Temos de preparar as talhas e abrir a escotilha. - Preparar as talhas e abrir a escotilha! Quer que vamos perder talvez uma semana, agora que estamos a aproximarnos do Japão! E tudo isto por causa duns velhos tonéis! - Se não fizermos nada, capitão, arriscamo-
  • 236. Herman Melville - Moby Dick 235 nos a perder em alguns dias toda a carga de óleo. Foi para isso que percorremos vinte mil milhas? - Não, não foi para isso! - Então para que foi, capitão? - Para outra coisa... Deixe lá o seu óleo fugir! A bordo do Pequod nem só os tonéis têm fugas! Páro eu, por acaso, para... para me consertar? Não, Starbuck, não! Não mando preparar as talhas nem abrir a escotilha! - Mas, capitão, que dirão os proprietários quando souberem... - Quero lá saber dos proprietários! Interessam-me tanto como a primeira camisa que vesti! Porque está você sempre a maçar-me com os miseráveis dos proprietários? Até parece que essa gente é como que a minha consciência! No mar, o único proprietário do navio é o seu capitão! Volte para a ponte, Starbuck! Com estranha firmeza, embora corando, o imediato do Pequod avançou alguns passos. - Capitão - disse -, não gosto de ser tratado
  • 237. Herman Melville - Moby Dick 236 dessa maneira. E, olhe, apetece-me esquecer que é mais velho do que eu... e muito infeliz... - Que é lá isso, patife, atreves-te... vamos, para a ponte, e sem demora! - Não, capitão, ainda não. Peço-lhe que seja indulgente e que me escute. Pois não poderíamos entender-nos? Furioso, Acab foi buscar uma espingarda carregada ao armeiro, e apontando-a a Starbuck exclamou: - Há só um Deus que é o Senhor da Terra e há só um capitão que é o senhor do Pequod! Fora daqui! Para a ponte! Durante alguns momentos, com os olhos brilhantes e as faces em fogo, Starbuck ficou com a expressão que faria se o velho tivesse já premido o gatilho da arma. Depois, dominando-se, deu meia volta e, antes de deixar a cabina, articulou: - O senhor ultrajou-me, capitão, mas não me insultou. Não serei idiota ao ponto de lhe dizer que tenciono vingar-me, pois riria na minha cara. Não, contento-me em dizer-lhe isto: desconfie de si próprio, velho,
  • 238. Herman Melville - Moby Dick 237 desconfie de si. Quando Starbuck fechou a porta, o capitão Acab, servindo-se da arma como de uma bengala, pôs-se a percorrer a cabina a passos largos, murmurando: - Está a tornar-se atrevido. Mas, mesmo assim, obedece. Prudência e coragem... Que disse ele? Velho, desconfie de si... E repetiu ainda várias vezes: "Velho, desconfie de si..." Por fim, com expressão mais calma, voltou a colocar a espingarda no armeiro e subiu para a ponte. Ali, aproximou-se do imediato e murmurou-lhe ao ouvido: - És um bom rapaz, Starbuck... E, em voz de comando, para a tripulação: Ferrem os joanetes e as gáveas, cacem o traquete, depois icem as talhas e abram o porão principal! Por que motivo parecia o capitão Acab ceder assim ao desejo expresso na cabina por Starbuck? Sem dúvida porque não se fechara ainda a qualquer iniciativa razoável, mas sobretudo porque sabia que para bom andamento do navio não tinha o direito de
  • 239. Herman Melville - Moby Dick 238 entrar em conflito com o imediato. Alguns minutos mais tarde, as suas ordens tinham sido executadas, isto é, tinham içado as talhas e o porão fora aberto. Passado um momento, aperceberam-se de que os tonéis, 132 133 que ficavam por cima estavam intactos. Então, para chegarem aos que se encontravam no fundo do porão, trouxeram à luz do dia os primeiros, como se fossem gigantescas toupeiras, depois os segundos e os terceiros. De tal forma que, num lapso de tempo bastante curto, as pontes, atulhadas, ficaram de difícil acesso e o porão, quase vazio, começou a ressoar sob os nossos passos. O casco, aliviado da carga, baloiçava e arfava sobre as ondas e o navio, muito carregado em cima, lembrava um estudante que não jantou e cuja cabeça está demasiado cheia de ciência. Que se teria passado se, durante esta operação, se tivesse abatido sobre nós um tufão? Apesar de tudo, foi nesse dia que
  • 240. Herman Melville - Moby Dick 239 Queequeg, o meu caro canibal e amigo íntimo, adoeceu com uma febre que quase lhe custou a vida. Acreditareis certamente, espero, se vos disser que na profissão de baleeiro não há sinecuras. Quanto mais uma pessoa se eleva na hierarquia de bordo mais difícil é a sua tarefa. Na qualidade de arpoador, Queequeg tinha não só que enfrentar os cetáceos vivos, mas também de participar no esquartejamento, meter o toucinho nas caldeiras e ajudar à arrumação dos tonéis nas trevas do porão. Pobre Queequeg! Mal o porão grande se abria poderíeis, debruçando-vos na borda da escotilha, vê-lo a rastejar, nu da cintura para cima, na sombria humidade das profundezas. Dir-se-ia um lagarto verde, deslizando pelo lodo, no fundo de um poço. E, como era de esperar, contraiu, naquele poço gelado, um resfriamento tão grave que teve de recolher à sua maca e, uns dias mais tarde, estava às portas da morte. Ficara reduzido, por
  • 241. Herman Melville - Moby Dick 240 assim dizer, aos ossos e às tatuagens. À medida que a carne do rosto se ia consumindo, os olhos aumentavam de tamanho e adquiriam uma comovedora doçura. Sempre que ficava junto dele e o olhava, sentia-me penetrado de um misto de respeito e temor. É que descobrira, nas feições daquele selvagem agonizante, pensamentos misteriosos e elevados, pensamentos tão nobres como indecifráveis. O mar, ao baloiçar a sua maca, parecia embalá-lo, a fim de lhe permitir entrar mais facilmente no seu último sono. Dava-me a impressão de que ele o transportava cada vez mais para o alto, sem dúvida para esse paraíso cujo acesso não podia ser-lhe recusado... Toda a tripulação o julgava perdido. Quanto ao próprio Queequeg, avaliava tão bem o seu estado que pensou achar-se no direito de pedir um surpreendente favor. Um dia, durante o pequeno quarto da manhã, isto é, ao alvorecer, fez sinal a um dos companheiros para se aproximar da maca e tomando-lhe a mão disse mais ou menos
  • 242. Herman Melville - Moby Dick 241 isto: - Quando estive em Nantucket vi por acaso umas canoas pequenas feitas da mesma madeira escura que as pirogas de guerra da ilha onde nasci. Quando procurei informar-me, disseram-me que os baleeiros ao morrerem, em Nantucket, eram enterrados dentro dessas canoas. Esta revelação causou-me grande prazer, pois me pareceu haver nela algo de comparável aos costumes do meu país. Com efeito, entre nós, quando um guerreiro morre começamos por embalsamá-lo e depois deitamo-lo na sua piroga. Após o que deixamos que as vagas o levem para os arquipélagos de estrelas. Porque os homens da minha raça acreditam que as estrelas são ilhas, e acreditam também que, para lá do horizonte, o oceano se funde no azul dos céus para formar os rochedos nevados da Via Láctea. Mas eu tremo à ideia de ser baloiçado na minha maca e atirado aos tubarões! Não, não quero ser abandonado para servir de pasto a esses devoradores de mortos! Quero uma
  • 243. Herman Melville - Moby Dick 242 canoa como aquelas que vi em Nantucket. Acho-as muito simpáticas, pois lembram vagamente baleeiros, mas baleeiros sem quilha a qual deve ser difícil de manobrar no oceano da eternidade... Era mais ou menos isto o que dizia o meu querido canibal a um dos nossos camaradas. Quando o capitão tomou conhecimento do assunto, ordenou ao carpinteiro que fizesse todo o possível por satisfazer o desejo expresso por Queequeg. Encomendou-lhe a fabricação 134 135 do esquife com tábuas de cor escura provenientes de várias árvores cortadas, no decorrer de uma viagem anterior, nas florestas das ilhas Lackaday. O velho Smut muniu-se da sua régua e, sem demora, foi tirar as medidas ao moribundo. - Pobre diabo! Pobre diabo! - murmurava ele, marcando traços a giz cada vez que deslocava a régua. - Agora só lhe resta morrer. De volta ao seu banco, reuniu as
  • 244. Herman Melville - Moby Dick 243 ferramentas e as tábuas que o capitão Acab o aconselhara a utilizar. Depois, com a prontidão do costume, meteu mãos à obra. Quando pregou o último prego e acabou de ajustar a tampa, pôs o esquife ao ombro e dirigiu-se para o castelo da proa, perguntando: - Vão utilizá-lo já? Como é natural, alguns responderam-lhe com gritos de indignação. Outros contentaram-se em desatar a rir à sua passagem. Queequeg, alertado por este barulho, conseguiu gritar, apesar da sua fraqueza: - Quero já aqui o meu esquife! A consternação foi geral. Mas quem teria a coragem de não satisfazer o seu pedido? E, além disso, não é costume inclinarmo-nos perante as mais ínfimas vontades dos moribundos? Debruçando-se na maca, Queequeg olhou atentamente para o esquife. Quando, a seu pedido, lhe levaram o arpão, desmontou-o e mandou que colocassem o ferro e a haste deste, assim como um dos remos da sua
  • 245. Herman Melville - Moby Dick 244 baleeira, entre as tábuas escuras. Ainda a seu pedido, alinharam ao longo das tábuas uma determinada quantidade de biscoitos. Mas não se ficou por aqui. Quis também que pusessem junto dos biscoitos uma garrafa de água doce e, além disso, no sítio da cabeça, um pedaço de pano enrolado em forma de travesseiro e, aos pés, um saco de terra, ou melhor, de lodo misturado com bocados de madeira podre proveniente do porão. Concluída a operação, ordenou num tom que não admitia réplica: - Deitem-me lá dentro! Ficou alguns minutos imóvel dentro do esquife. Depois pediu a um de nós para lhe dar o seu pequeno deus, o seu Yojo. Tendo o Yojo sobre o peito, cruzou os braços e disse: - Fechem a escotilha! Esquecime de dizer que a tampa comportava à altura da cabeça uma espécie de vigia articulada por meio de dobradiças de couro. A tampa foi então fechada, tendo-se deixado aberta a vigia e pudemos ver Queequeg calmo e
  • 246. Herman Melville - Moby Dick 245 perfeitamente descontraído. Passado um longo momento, murmurou: - É isto mesmo. Está-se muito bem neste esquife... E agora voltem a pôr-me na minha maca. Assim se fez. E, no dia seguinte, milagre! Tendo tomado todas as disposições para morrer e verificado que o esquife se adaptava bem à sua pessoa, Queequeg, sem dizer água vai, voltou bruscamente à vida! Como o felicitávamos, disse: - Não é uma ressurreição. Bastou-me, para voltar a ser mim próprio, lembrar-me que antes de partir de Nantucket não fiz tudo o que me tinha proposto fazer. Nestas condições como podia resignar-me a morrer? - Viver é então uma questão de vontade? perguntou um de nós. - Claro! - exclamou o convalescente. Quando um homem está resolvido a viver, não é uma simples doença que pode matálo. Quanto a mim, sei que para me matar é preciso, pelo menos, um cachalote ou um tufão!
  • 247. Herman Melville - Moby Dick 246 Claro que tudo isto é apenas, de algum modo, a tradução dos conceitos expostos por Queequeg, pois este, embora tivesse feito progressos desde a partida, continuava a expressar-se numa algaraviada cuja transcrição seria quase impossível. Já repararam que os selvagens, contrariamente aos civilizados, quase nunca têm necessidade de convalescença? Queequeg recuperou quase logo o apetite. Após ter preguiçado dois ou três dias sobre o cabrestante, levantou-se de repente, espreguiçou-se e bocejou a ponto de deslocar os maxilares. 136 137 Depois, pegando no arpão, saltou para a baleeira que se balançava nos turcos e gritou: - Acabou! Estou pronto para a luta! "E o esquife?" - perguntareis. - Pois bem, sempre transbordante de fantasia, o meu querido canibal serviu-se dele como arca para os seus objectos pessoais e para o vestuário. Dedicou as suas horas de lazer a
  • 248. Herman Melville - Moby Dick 247 decorar-lhe a tampa com a ponta da faca, ornando-a de desenhos que reproduziam as suas tatuagens. Ora, estas tatuagens haviam sido feitas, ao que parece, por um feiticeiro da sua terra. Que representavam elas? Sem dúvida os símbolos misteriosos do universo tal como um espírito primitivo pode imaginá-los. Um dia, o capitão Acab parou junto de Queequeg e, após ter comparado as tatuagens deste com as reproduzidas no esquife, virou bruscamente as costas e afastou-se, resmungando: - Sempre este maldito fascínio pelos falsos deuses no cérebro dos simples! 138 XV O PACÍFICO Quando passámos além das ilhas Bachi e se desenrolaram ante os meus olhos milhares de léguas de vagas azuis, deveria, se não estivesse preocupado com tanta coisa, ter saudado o oceano Pacífico com alegres exclamações. Pois não era o sonho de toda a minha juventude que via enfim
  • 249. Herman Melville - Moby Dick 248 realizado? Há uma espécie de suave mistério neste mar, cuj as vagas leves e temíveis parecem obedecer à acção de uma alma oculta sob a sua superfície. Mas esta alma é múltipla e multiforme: é a de milhões de sombras humanas, de milhões de sonhos desfeitos que, como alguém imerso em sono agitado, se revolvem infindavelmente na sua sepultura líquida. Qualquer viajante que seja uma alma aberta à poesia terá de preferir o Pacífico, encruzilhada de todas as águas do Mundo. O mar das Índias e o Atlântico nada mais são do que seus membros. As suas vagas banham não apenas as cidades da Califórnia, mas também as explêndidas terras da Ásia, mais velhas que os antepassados de Abraão; não só as constelações de ilhas de coral da Oceania, mas também os inumeráveis arquipélagos do impenetrável Japão. Assim, o Pacífico abraça a terra inteira. Quando embalados pelo seu eterno marulhar, não podereis deixar de dizer num
  • 250. Herman Melville - Moby Dick 249 murmúrio: "é um deus! É Pã, senhor do Universo! Salve, grande Pã!" 139 O capitão Acab, esse, tinha em mente preocupações que de modo nenhum diziam respeito ao grande deus Pã. Imóvel como uma estátua de bronze, no seu lugar habitual, junto da enxárcia do mastro de mezena, respirava com uma narina o perfume adocicado das ilhas Bachi e com a outra o odor salgado do Pacífico, onde, sem dúvida, nesse instante, errava a sua inimiga mortal, a baleia branca. Desde que deixáramos o mar da China, a sua vontade endurecera; os lábios cerravam-se como as alavancas de um torno, as veias da fronte inchavam, prestes a estalar e, mesmo durante o sono, ouvíamo-lo por vezes bradar numa voz que trespassava o casco do navio: - Todos à popa! A baleia branca lança o seu jacto sangrento! O ferreiro de bordo chamava-se Perth. Era um homem idoso, curvado, de rosto enegrecido e mãos cobertas de ampolas.
  • 251. Herman Melville - Moby Dick 250 Quando terminou a nova perna de Acab, em vez de levar a forja portátil para o porão, guardou-a na ponte, encostada ao mastro do traquete, fixada neste por sólidos parafusos. E então era constantemente solicitado, a fim de executar pequenos trabalhos para os oficiais, arpoadores e marinheiros. Reparava as armas, os remos, os aros das baleeiras, muitas vezes formavam círculo à sua volta. Um com uma enxada, outro com um arpão, um terceiro com um ferro de lança. Mas tinham de se revestir de paciência, pois, embora ele nunca protestasse, trabalhava com desesperadora lentidão. Silencioso e solene, cada dia com os cansados ombros mais curvados, erguia e deixava cair o martelo à mesma invariável cadência, sem dúvida o das pesadas pancadas do seu coração. O seu andar - uma espécie de perpétua guinada - não deixara, desde o começo da viagem, de excitar a curiosidade dos marinheiros. No entanto, fora preciso massacrá-lo com perguntas para que ele
  • 252. Herman Melville - Moby Dick 251 consentisse em contar a sua vergonhosa e lamentável história. Durante o Inverno, numa noite glacial, parara entre duas aldeias, em pleno campo, e não encontrara refúgio senão num celeiro aberto de todos os lados. Na sequência desta aventura tiveram de lhe amputar não apenas os dedos, mas também as extremidades dos pés. Depois, pouco a pouco, foi contando toda a sua vida, até ao drama que parecia ser uma conclusão. Aos sessenta anos conhecera dois companheiros que jamais o abandonariam: a tristeza e a ruína. Artesão apreciado e sempre sobrecarregado de trabalho, possuía uma casa e um jardim, uma mulher devotada e três filhos alegres e saudáveis. Todos os domingos ia à igreja, uma bonita igreja escondida entre árvores. Mas uma noite, um ladrão, protegido pelas trevas, introduzira-se no seu lar e despojara-o de tudo. A bem dizer, este ladrão fora ele que o introduzira sem o saber, entre as paredes que abrigavam a sua felicidade... sob a forma de uma garrafa de whisky!
  • 253. Herman Melville - Moby Dick 252 Destapando esta garrafa, não previa que ao mesmo tempo libertava um terrível demónio... Por razões de comodidade, tinha instalado a forja na cave da casa, de tal forma que a sua mulher se punha muitas vezes a ouvir com prazer as marteladas vigorosas na bigorna e os filhos adormeciam ao som deste ruído, tão facilmente como se lhes cantassem uma canção de embalar. Ó morte, porque não transpuseste tu nesse momento a entrada daquela casa? Se te tivesses apoderado deste velho ferreiro antes do seu declínio, a viúva teria por certo um desgosto, mas os filhos guardariam dele uma recordação respeitosa. Talvez, apesar de tudo, pensasses que não era ainda tempo de o ceifares... Não nos detenhamos sobre os pormenores. Na cave, as marteladas não tardaram a fazer-se mais raras e mais fracas. A esposa, imóvel, à janela, contemplava com os olhos secos os rostos lacrimosos dos filhos. O fole deixou de servir. A bigorna
  • 254. Herman Melville - Moby Dick 253 encheu-se de pó. A casa foi vendida. A mulher ficou para sempre adormecida sob a erva do cemitério e logo os dois filhos tiveram a mesma sorte. E o velho enlutado, desprezado por todos, vagueava pelas estradas. A morte, que ele chamava com todas as forças, parecia, no entanto, não querer saber dele. 140 141 Um dia, chegado havia pouco à beira do oceano, julgou ouvir uma voz: - Vem, ó coração despedaçado! No meu seio, sem se morrer, é possível contemplar maravilhas! Vem! Conhecerás uma vida que os homens da terra detestam, mas que é a única que pode trazer-te o esquecimento! Vem! Então, respondendo a esta voz que parecia chegar-lhe de vários pontos do horizonte, o ferreiro exclamou: - Pois sim, aqui estou! E foi assim que o velho Perth começou a pescar baleias. Uma manhã, pouco antes do meio-dia, Perth, de barba desgrenhada e com um
  • 255. Herman Melville - Moby Dick 254 avental de pele de tubarão atado à cintura, encontrava-se de pé entre a forja e a bigorna. Com uma das mãos colocara um ferro de lança sobre os carvões incandescentes e com a outra preparava-se para puxar a corrente do fole. De súbito, surgiu o capitão Acab trazendo na mão um saco de cabedal cor de ferrugem. Detevese a alguns passos, enquanto Perth, após ter accionado o fole repetidamente, retirava o ferro do braseiro e, num grande transbordar de faíscas, começava a martelá-lo sobre a bigorna. - Essas faíscas -, disse Acab - são os teus petréis, Perth! Pássaros de bom agoiro... mas não para toda a gente! Porque é que elas não te queimam? - Porque, capitão - respondeu o ferreiro, apoiando-se no martelo -, já não há sítio nenhum onde eu possa ser queimado. Todo eu sou uma cicatriz... - Tu és triste, Perth. Porque falas tão calmamente? Por mim, não sou o mais feliz dos homens. Mas, sabes, o desgosto dos
  • 256. Herman Melville - Moby Dick 255 outros irrita-me quando não é temperado com um grão de loucura. Devias fazer-te louco ferreiro. Assim, suportarias melhor esse teu fardo. A loucura, por vezes, é uma graça do céu... Ora diz, o que estavas a fazer? - Estava a consertar um velho ferro de lança. Todo ele é rugas e bossas. - E esperas deixá-lo tão liso como era antes de todo o uso que já teve? 142 - Espero sim, capitão. - Nessas condições, penso que possas apagar do mesmo modo todas as rugas, todas as bossas... e também certas cicatrizes, qualquer que seja o metal? - Rugas e bossas, sim. Mas quanto às cicatrizes... - Ouve! - continuou Acab, pousando a mão no ombro do velho operário. - Olha para mim, olha para a minha cara! Se te declarares capaz de apagar esta cicatriz que me desfigura, então porei, sem receio, a cabeça na tua bigorna e não terei medo de sentir as marteladas entre os olhos! És
  • 257. Herman Melville - Moby Dick 256 capaz de fazer esse trabalho? - Não, capitão. Como lhe disse, rugas e bossas, sim. Mas uma cicatriz é impossível! - Compreendo, compreendo... ela é indelével, não é verdade? E tu apenas a vês na minha cara. É preciso que saibas isto: ela penetra-me na carne, e abriu caminho até ao fundo do meu crânio... Bem, falemos de outra coisa. Olha, ouve isto! E fez tinir o saco de cabedal, como se fosse uma bolsa cheia de moedas de ouro. - Também eu, Perth, quero um arpão, um arpão tão sólido que nem todos os demónios do inferno consigam quebrar, um arpão que se cravará na baleia branca e que fará corpo com ela, como o osso da sua barbatana! - acrescentou ele, lançando o saco sobre a bigorna. - Perguntarás, ferreiro, o que isto é? São pregos... Sabes, aqueles pregos que servem para ferrar os cavalos de corrida! - Pregos para ferraduras de cavalos de corrida? - repetiu Perth. - Acho que foi uma boa escolha. Não há metal mais leve e
  • 258. Herman Melville - Moby Dick 257 mais resistente do que esse. - Eu sei, ferreiro, eu sei! Esses pregos vão fundir-se como cola feita de ossos de assassinos! Vamos ao trabalho, fabrica-me esse arpão. Primeiro vais forjar a haste. Preparas doze varas que hás-de torcer juntas como os arades de um cabo. Ao trabalho! Ao trabalho! Eu próprio darei ao fole! Um pouco mais tarde, quando as doze varas ficaram prontas, 143 Acab examinou-as com a maior atenção. Bruscamente, rejeitou a última, dizendo: - Esta tem uma falha. Volta a pô-la na bigorna. Ainda um pouco mais tarde, quando Perth ia começar a martelar as hastes juntas, Acab, com um gesto, deteve-o, dizendo: - Dá-me isso! Arquejando regularmente, pôs-se a martelar na bigorna. Perth passava-lhe as varas incandescentes, uma após outra. A forja erguia na atmosfera uma chama direita, deslumbrante. O sombrio Fedallah aproximou-se em silêncio e debruçou-se
  • 259. Herman Melville - Moby Dick 258 sobre o fogo como que para lhe lançar uma maldição. Stubb, que do castelo da popa observava esta cena, murmurou: - O que estão eles a fazer? Dir-se-ia servos de Lucifer. E o Fedallah! Debruça-se para o fogo... Ele próprio parece um demónio... Finalmente a haste foi submetida pela última vez à acção do braseiro. Depois, Perth, para a arrefecer, mergulhou-a numa selha cheia de água. O metal silvou e o vapor fervente elevou-se até ao rosto do capitão Acab. Este não pôde conter uma expressão de dor. - Perth - exclamou ele -, com que então achas que não estou suficientemente desfigurado? Será que forjei o ferro com o qual devo ser marcado, como um simples carneiro? - Não, não, capitão! - apressou-se a responder o ferreiro. Mas este arpão... ocorreu-me uma ideia, ou melhor, um pressentimento... O senhor não o destina à baleia branca?
  • 260. Herman Melville - Moby Dick 259 - Sim, Perth, é mesmo para a baleia branca, esse diabo branco! E agora a ponta! Isso é trabalho teu, Perth. Aí tens as minhas lâminas de barbear, aço do melhor que há. Fabrica-me qualquer coisa tão acerada como um pico de gelo! Durante um momento o ferreiro olhou as lâminas como se hesitasse em utilizá- las. 144 - Toma, Perth, toma lá! Eu já não preciso delas. Fiz o juramento de não me barbear, de não comer, de nem mesmo rezar, enquanto... mas basta. Vamos ao trabalho! Quando a ponta, em forma de flecha, ficou soldada à haste, Perth disse ao capitão Acab: - Capitão, pode fazer o favor de me chegar essa selha? - Não, não, água não! - respondeu Acab -, quero outra têmpera para o meu arpão. E, em voz forte: - Tashtego, Queequeg, Daggoo! Oiçam, vocês que são pagãos! Estão prontos a dar-me sangue suficiente para temperar este arpão?
  • 261. Herman Melville - Moby Dick 260 Os três arpoadores acederam com um sinal de cabeça. O capitão deu a cada um deles uma picada no braço. Depois, enquanto o sangue se evaporava sobre o aço ardente, murmurou com expressão alucinada: - Eu te baptizo não em nome do Pai, mas em nome do Demónio! Por fim, servindo-se do arpão como de uma bengala, deu meia volta e dirigiu- se para a escotilha da cabina. O barulho da sua perna de marfim e o da haste do arpão faziam ressoar as tábuas da ponte. Mas, no momento em que ia descer a escada da escotilha, o capitão parou e pôs-se à escuta. Acabava de ouvir um ruído estranho: o riso leve, sobrenatural e dilacerante do negrinho Pip. Durante algumas semanas, nenhum acontecimento notável se produziu. Desde que navegávamos na imensidade azul do Pacífico, sentíamo-nos como que ébrios de beleza. Uma tarde, Starbuck, encostado ao filerete, contemplava o horizonte dourado. De súbito, ele normalmente tão calmo,
  • 262. Herman Melville - Moby Dick 261 suspirou: - Beleza insondável! Nunca nenhum noivo viu algo de semelhante nas pupilas da sua futura esposa! Grande oceano, quero esquecer os dentes dos teus tubarões! Quero esquecer que roubas e devoras homens! Que a minha fé afugente até mesmo a aparência da realidade! Que a minha imaginação aniquile a memória! Que me baste, para crer, manter os olhos fixos nos abismos! 145 Então Stubb, como um peixe de escamas reluzentes, saltou para junto de Starbuck e exclamou em tom exaltado: - Eu sou Stubb. Tenho a minha história. Conheci a dor e a alegria. Mas juro que nunca fui tão feliz, ó Pacífico, como desde que vogo sobre as tuas águas! Nesse instante, os vigias assinalaram um navio. Tratava-se do Solteirão, baleeiro de Nantucket que acabava de encher o seu último tonel de óleo e de aferrolhar o porão, quase a estoirar. E agora, não sem orgulho, fazia, por assim dizer, em traje de gala, e antes de orientar a proa para o seu porto,
  • 263. Herman Melville - Moby Dick 262 uma espécie de tournée por entre os outros baleeiros disseminados ao longo da prodigiosa zona de pesca do Pacífico. Os três vigias, empoleirados na ponta dos mastros, traziam nos chapéus largas fitas vermelhas. À popa, via-se suspensa uma baleeira de quilha para o ar. Um maxilar inferior de baleia balançava na extremidade do gurupés. E por toda a enxárcia flutuavam pavilhões e bandeiras. Cada posto de observação continha dois barris de espermacete, que alimentavam uma lâmpada de cobre. À medida que o Solteirão se aproximava do Pequod, um bárbaro rolar de tambores chegava até nós, vindo do castelo da proa. No entanto, não havia tambores. Esta barulheira era produzida por pancadas que alguns homens da tripulação davam sobre peles de baleia estendidas por cima das caldeiras. No castelo da popa, imediatos e arpoadores dançavam com raparigas de tez bronzeada que eles tinham trazido das ilhas de que eram oriundas, e com as quais se propunham, segundo parecia, casar
  • 264. Herman Melville - Moby Dick 263 quando chegassem à América. Instalados numa baleeira decorada com galhardetes multicores e suspensa entre o mastro do traquete e o mastro grande, três negros, munidos de violinos e arcos de marfim de cachalote, tocavam uma ária endiabrada. Por fim, enquanto os marinheiros de que já falei continuavam a bater nas peles de baleias estendidas em cima das caldeiras, outros marinheiros começavam a demolir estas mesmas caldeiras e deitavam ao mar os primeiros tijolos e o cimento, agora inúteis. 146 O capitão, empoleirado no castelo da popa, contemplava este espectáculo que ele próprio inspirara e que, ao que parecia, se desenrolava apenas para seu divertimento pessoal. Também Acab estava no castelo da popa. Mas o seu rosto, invadido por uma barba inculta, conservava uma expressão sombria e obstinada. E quando os dois navios cruzaram os seus sulcos - um alegre e o outro como que carregado de sinistros
  • 265. Herman Melville - Moby Dick 264 pressentimentos -, o contraste entre os dois capitães acentuou-se mais. Erguendo um copo e uma garrafa, o capitão do Solteirão gritou alegremente: - Venha a bordo! Venha a bordo! - Viu a baleia branca? - perguntou Acab num tom de voz desagradável. - Mas que história! Já ouvi falar dela. Porém não acredito nisso. Venha aqui a bordo! - O senhor tem um ar muito satisfeito da sua pessoa! replicou o patrão do Pequod. - Continue o seu caminho. Perdeu alguns homens? - Ao todo dois homens da Islândia. Acha que vale a pena falar nisso? Olhe, meu amigo, venha a bordo. Nós estamos contentes. Temos o barco recheado e voltamos à terra. Acab resmungou: - É espantosa a descontracção destes imbecis! Depois, em voz alta: - Tem o barco recheado e volta para a terra! Pois bem, eu cá tenho o barco vazio e tão depressa não volto para Nantucket!
  • 266. Herman Melville - Moby Dick 265 Prossigamos cada um de nós na sua rota! E voltando-se para a tripulação: - Olá! Vocês aí! Velas a todo o pano e tirem o máximo partido do vento! E os dois navios separaram-se. Durante muito tempo, em silêncio, os marinheiros do Pequod seguiram com o olhar o Solteirão. Na ponte deste último a festa continuava em crescente animação. Debruçado na armadoira da grinalda da popa, Acab seguia também com os olhos o alegre e despreocupado baleeiro. 147 Por fim, tirou do bolso um frasco com areia. Olhou-o atentamente, depois, obedecendo a qualquer associação de ideias, fitou de novo o Solteirão. O frasco continha um pouco de areia proveniente de sondagens executadas ao largo de Nantucket. Será a sorte contagiosa? No dia a seguir ao nosso encontro com o alegre Solteirão, matámos quatro baleias, ou melhor, três baleias e um cachalote, este último morto pelo próprio capitão Acab.
  • 267. Herman Melville - Moby Dick 266 Era o fim da tarde. Todos os arpões tinham acertado no alvo. O Sol e o cachalote pareciam morrer no mesmo silêncio. Uma espécie de tristeza mística banhava o ar rosado do poente. Calmo, mas mais triste que nunca, o capitão, sentado na baleeira, vigiava os últimos sobressaltos da sua vítima. Fenómeno estranho: os cachalotes, antes de morrerem, voltam a sua enorme cabeça para o Sol. Pela primeira vez na vida, Acab observava com atenção aquele espectáculo que o maravilhava. "Volta-se lentamente para o Sol" murmurava de si para si -, "volta para o Sol a fronte audaciosa e cheia de força! É que também ele é um adorador, um escravo fiel do fogo. Oh! Que me seja dado assistir ainda muitas vezes a este prodigioso espectáculo! Eis-me no coração do maior oceano do Mundo, longe das pequenas dores e dos medíocres prazeres humanos. E, apesar de ter nascido na terra, sinto-me irmão de tudo o que vive no teu seio, ó Pacífico!"
  • 268. Herman Melville - Moby Dick 267 Os quatro cetáceos tinham sido mortos muito longe uns dos outros. As três baleias puderam ser rebocadas até ao Pequod antes de anoitecer por completo. Mas o cachalote andou tanto tempo à deriva que só foi possível alcançá-lo de manhã. Uma baleeira - a do capitão Acab - seguira-o lentamente toda a noite. Nesta baleeira todos pareciam dormir, salvo Fedallah, que acocorado à proa vigiava os tubarões. Estes andavam à volta do cadáver e, de tempos a tempos, roçavam a embarcação. O vento fazia um barulho de cavalos a galope. 148 De súbito, Acab acordou em sobressalto. Fedallah, sempre acocorado, estava agora na sua frente. E os dois homens, senhor e servo, cercados de trevas, pareciam ser os últimos sobreviventes de um universo desaparecido. - Devo ter sonhado - disse Acab. - Com quê? Com um carro funerário? disselhe Fedallah em segredo. - Então não
  • 269. Herman Melville - Moby Dick 268 sabes, velho, que não vais ter nem carro funerário nem caixão? - Claro, Quando se morre no mar, tem de se passar sem carro funerário... - Sim, morrerás no decorrer desta viagem tornou Fedallah -, mas antes da tua morte verás dois carros funerários no oceano. Assim o prevejo! - Estranho espectáculo, Fedallah, um carro funerário empenachado a deslizar sobre as ondas! E quem pegará nos cordões do pano funerário? Não, não, Fedallah, não é amanhã que nos será dado contemplar tal espectáculo! - No entanto, só morrerás depois de o teres contemplado... - E, quanto a ti, o que prevês, Fedallah? - Que te precederei em tudo e que serei até ao fim o teu piloto. - Meu piloto? - repetiu Acab. - Como continuarias sendo meu piloto para além da morte? Não, não, Fedallah, não posso crer. Tudo o que acabaste de dizer me persuade, ao contrário, que hei-de matar Moby Dick e sobreviver-lhe!
  • 270. Herman Melville - Moby Dick 269 - Oh, velho, tu és livre de crer ou não. No entanto, falta-me dizer-te uma terceira coisa: só o cânhamo poderá precipitar-te no outro mundo! Desta vez Acab soltou uma gargalhada sarcástica. - O cânhamo, isto é, a forca! - exclamou. Decididamente, Fedallah, estás divagando! Como tenho a firme certeza de nunca ser enforcado, acabarei por persuadir-me de que, pelo contrário, sou imortal. Estás a ouvir, Fedallah, imortal na terra e no mar! 149 Depois desta conversa, os dois interlocutores recaíram no silêncio. Principiava a despontar uma aurora pardacenta. Um após outro, os remadores endireitaram-se nos bancos. Antes do meiodia, o cachalote achava-se amarrado ao longo do Pequod. 150 XVI O TUFÃO O equador! Viria enfim o dia em que nos seria dada a ordem de aproar na sua
  • 271. Herman Melville - Moby Dick 270 direcção? Agora, cada vez que o capitão saía da cabina, o timoneiro rectificava a posição. Os marinheiros iam postar-se sob as vergas e ficavam imóveis, olhando ostensivamente o dobrão pregado no mastro. A tão desejada ordem chegou finalmente. Nesse dia, por volta do meiodia, o capitão instalou-se numa baleeira suspensa dos turcos e dispôs-se a verificar a posição. Terminada esta operação, poisou o sextante no joelho e ficou-se a contemplar o Sol, murmurando em voz surda: - O melhor e o mais poderoso dos meus pilotos és tu, ó Sol! Infelizmente, se me dizes onde estou, és incapaz de me dizer para onde vou. E se te fizer esta pergunta: Onde está Moby Dick?, não me respondes! Depois, baixando a cabeça e olhando o sextante: - E tu, brinquedo estúpido e apenas bom para divertir arrogantes personagens, como os comodoros e os almirantes! A humanidade orgulha-se de te ter inventado. Mas tu não fazes nada senão
  • 272. Herman Melville - Moby Dick 271 medir ângulos e distâncias. És incapaz de me dizer onde se encontrará amanhã tal gota de água, tal grão de areia. E ousas afrontar o Sol! Brinquedo medíocre, brinquedo inútil, maldito! E atirou o sextante para a ponte. 151 - Não mais te confiarei o cuidado de me guiares! - continuou ele, descendo da baleeira. - O compasso, a bússola e o cálculo: de hoje em diante não precisarei de mais nada. Tu só mereces isto: a destruição! E, enquanto falava, esmagava o sextante com a perna de marfim, pisando-o com fúria. Um rictus de triunfo cavava-lhe as rugas do rosto. Assustada, a tripulação juntara-se no castelo da proa. Mas, de súbito, Acab, endireitando-se, gritou em voz tonitruante: - Para as vergas! Cruzem-nas bem! E tu, timoneiro, corrige o leme! Num ápice, as vergas foram orientadas. O navio, graciosamente, inclinou os três mastros.
  • 273. Herman Melville - Moby Dick 272 De pé, junto do gurupés, Starbuck observava ora os sobressaltos do Pequod ora o capitão Acab, que, em passo vacilante, se pusera a passear na ponte. - Temível velho! - disse ele. - Para ali a consumir-se... Em breve não será nada mais que cinza! Stubb aproximou-se, dizendo: - Acabo de passar junto dele. Sabe o que é que estava a resmungar com os seus botões? Forçaram-me a ficar com estas cartas que tenho nas mãos. São elas e não outras aquelas com que devo jogar, ao que parece! Maldito seja! Que jogue as suas cartas, mas que morra disso! O céu mais sereno do Mundo abriga, por vezes, na sua forma mais destrutiva, o trovão e o raio. Assim, nestas águas esplendorosas do Pacífico, na vizinhança do Japão, os marinheiros encontram muitas vezes o tufão, ou seja, a tempestade em toda a sua força. Desaba bruscamente num azul sem qualquer nuvem, como uma bomba numa cidade adormecida. Ora, na tarde do dia em que o capitão
  • 274. Herman Melville - Moby Dick 273 esmagara o sextante, o Pequod teve de lutar contra um tufão que se precipitava a pique sobre ele. Algumas velas e grande parte do cordame foram arrancados. Quando caiu a noite, o céu e o oceano, sacudidos pela borrasca, uniram-se no mesmo rugido. Os relâmpagos mostravam, na mastreação, pontas do cordame e farrapos de velas estalando ao vento. Starbuck estava no castelo da popa. Agarrado a um dos cabos aproveitava cada novo relâmpago para, erguendo a cabeça, tentar medir a extensão do desastre. Stubb e Flask ajudavam alguns marinheiros a amarrar mais solidamente as baleeiras. Porém, apesar de todos os esforços, uma destas embarcações - a do capitão - foi danificada por uma enorme vaga, que conseguira transpor o filerete do navio. Stubb voltou para o castelo da popa, e disse a Starbuck: - Raio de trabalho! Porcaria esta! O mar só faz o que lhe apetece. É impossível lutar com ele. Olha esta vaga, por exemplo. Veio de longe, de muito longe. E depois, pumba! A mim,
  • 275. Herman Melville - Moby Dick 274 perante tudo isto, só me apetece cantar! E cantarolou: Viva o tufão que sopra rijamente! Viva o arpão, viva a baleia, ó gente! Viva a borrasca, o vento e a rajada! E o velhaco do mar, rapaziada! - Cale-se Stubb! - gritou Starbuck. - Deixe o tufão tocar violino no nosso cordame! O senhor é valente, bem sei! Mas não nos mace! - Valente? - replicou Stubb. - Não sou nada valente, pelo contrário, sou cobarde. E se canto é para me dar coragem. Oiça, Starbuck, o único meio de me impedir de cantar é cortar-me o pescoço. - Imbecil! Então você é cego? - Que eu saiba não. E olhe que você tem muita sorte se consegue ver alguma coisa nesta escuridão! - Ora repare! - disse Starbuck, pondo a mão no ombro de Stubb e apontando- lhe a proa. - Olhe! O tufão vem de leste. Pois não é essa direcção que o capitão tomou hoje mesmo, ao meio-dia, a direcção na qual espera encontrar Moby Dick?
  • 276. Herman Melville - Moby Dick 275 152 153 Agora olhe para a baleeira dele. Onde é o rombo? Atrás, no lugar que ele costuma ocupar. E se continua a ter vontade de cantar, salte borda fora e vá enforcar-se onde quiser! - Confesso que continuo sem compreender - disse Stubb. - Vejamos, o que se passa? Porém, Starbuck já não estava a prestar-lhe atenção. - Diante de nós - dizia, no tom de alguém que fala consigo próprio -, há esta porcaria de tufão que nos ataca à marrada... Quando penso que bastava darmos meia volta para, no fim do caminho, encontrarmos a América, as nossas casas, os nossos lares... Nesse momento, o imediato do Pequod teve a impressão de ouvir, entre dois rugidos da tempestade, uma voz rouca. - Quem está aí? - perguntou. - Sou eu, amiga Trovoada! - respondeu o capitão Acab, tacteando ao longo do varandim, para atingir um dos buracos de broca.
  • 277. Herman Melville - Moby Dick 276 Bruscamente, um relâmpago iluminou a sua silhueta. O Pequod, como muitos barcos, estava provido de pára-raios, fixos na ponta dos mastros. Mas a parte inferior deste dispositivo, constituída por cadeias longas e finas que se podiam quer ajustar ao portapeias quer mergulhar no mar, só era colocada no lugar em caso de necessidade. Vendo o relâmpago que iluminara o capitão Acab, Starbuck lembrou-se de repente de um dos seus mais imperiosos deveres. - As cadeias! As cadeias! - gritou ele. Mergulhem-nas atrás e à frente! - Não! - disse Acab. - Embora sejamos os mais fracos, temos de jogar lealmente. Se nos encontrássemos no Himalaia ou na cordilheira dos Andes, não hesitaria, para garantir a nossa segurança, em instalar eu próprio as cadeias. Mas hoje... Starbuck interrompeu-o abruptamente. Olhe! Olhe! Lá em cima... O fogo-desantelmo! Com efeito, as extremidades das vergas encontravam-se rodeadas de um clarão
  • 278. Herman Melville - Moby Dick 277 pálido e os três mastros, coroados de chamas brancas, pareciam arder, na atmosfera sulfurosa, como círios gigantescos num altar. Stubb, ocupado em prender mais solidamente a sua baleeira por meio de uma amarra, entalou de súbito uma das mãos entre o casco do barco e um dos turcos. - Maldita canoa! - vociferou. - Diabos te levem! Recuou uns passos e, erguendo a cabeça, avistou os três clarões na ponta dos mastros. Então, gemeu: - Santelmo, tende piedade de nós! O resto da tripulação, petrificado, guardava silêncio. Os marinheiros tinham-se reunido quase todos no castelo da proa, e as suas pupilas reflectiam estranhas fosforescências. O negro Daggoo, na primeira fila deste grupo emudecido, parecia duas vezes mais alto. Tashtego, de boca aberta, mostrava os dentes cintilantes e pontiagudos como dentes de tubarão.
  • 279. Herman Melville - Moby Dick 278 Quanto a Queequeg, as suas tatuagens pareciam colear, deslizando-lhe sobre o corpo como satânicas chamas azuis. Por fim, os clarões extinguiram-se. O Pequod e a sua tripulação voltaram a ficar envolvidos numa sombria mortalha. Ao dirigir-se para a proa, Starbuck chocou com Stubb. - Você parece que já não está com vontade de cantar - disselhe ele, em tom irónico. - Eu ouvi-o há bocado. - Sim - respondeu Stubb -, eu disse: Santelmo, tende piedade de nós! Espero que esta prece seja atendida. Afinal Santelmo talvez se interesse apenas pelos cadáveres. Por certo até se ri... Se virmos bem as coisas, Starbuck, considero este clarão um feliz presságio. Dá-nos a certeza de que havemos de matar muitas baleias, aumentando assim a nossa carga de espermacete de modo que chegue até à ponta dos mastros. Enquanto Stubb assim falava, Starbuck quedou-se surpreso, ao ver reaparecer, a uma luz incerta, o rosto pálido do seu interlocutor. Erguendo a cabeça, disse:
  • 280. Herman Melville - Moby Dick 279 154 155 - Olhe!... Olhe para aquilo! Novamente o clarão, mais misterioso ainda que da primeira vez, tremeluzia tanto na extremidade das vergas, como na ponta dos mastros. - Santelmo - repetiu Stubb -, tende piedade de nós! Junto do mastro grande, muito perto do capitão Acab, Fedallah lançara-se de joelhos ao chão. Acima deles, alguns marinheiros ocupados em prender uma antena interromperam a tarefa. Transidos de medo e encolhidos uns contra os outros, na enxárcia, pareciam um vespeiro pendurado num ramo de árvore. Alguns, pelas suas atitudes, lembravam aqueles habitantes de Herculano surpreendidos pela morte em plena marcha ou até em plena corrida. - Sim, rapazes! - gritara Acab. - Olhem aquela claridade branca, olhem-na bem! Ela ilumina o caminho que há-de conduzirnos à baleia branca! De súbito, sucederam-se vários
  • 281. Herman Melville - Moby Dick 280 relâmpagos. Os três clarões tornaram-se mais intensos. Encandeados, todos os membros da tripulação, incluindo o capitão Acab, tiveram de tapar os olhos com as mãos. - Capitão! Capitão! - gritou Starbuck -, olhe para o seu arpão! O arpão de Acab, aquele que ele próprio forjara com a ajuda do velho Perth, erguiase ainda na traseira da canoa arrombada. E agora, uma chama lívida, bifurcada, saíalhe da ponta, como uma língua de serpente. Febrilmente, Starbuck agarrou Acab por um braço, gritando: - Deus está contra ti, velho! Renuncia! Não vás mais longe! A nossa viagem começou mal. E continua pior ainda. Arrisca-se a terminar em catástrofe. Deixa-me dar ordem para fazermos meia volta! Deixa-nos voltar para a nossa terra! Como um eco às palavras de Starbuck, elevou-se da tripulação um murmúrio de revolta. Porém o capitão Acab, dando alguns passos em frente, pegou no arpão e brandiu-o como uma tocha, bramindo:
  • 282. Herman Melville - Moby Dick 281 156 157 - Trespasso o primeiro que ouse tocar nas vergas sem que eu próprio Lhe tenha dado ordem para tal! Juraram ajudar-me a matar a baleia branca. Estão, como eu, ligados corpo e alma a esta obra de destruição! Têm medo? Olhem, vejam! Eis o que eu faço do medo! Aniquilo-o! E, de um só sopro, extinguiu a chama bifurcada na ponta do seu arpão. Os marinheiros, transidos de medo, dispersaram em todas as direcções. Um pouco mais tarde, pelo fim do primeiro quarto da noite, o capitão Acab encontravase junto do leme. Starbuck aproximou-se dele. - Seria conveniente desaparelhar a verga da gávea grande, capitão. Os amantilhos e os empunidoiros estão a ficar frouxos. Que diz a isto, capitão? - Não toque em nada! Se tivesse mais velas, içá-las-ia agora mesmo! - Capitão, perdeu a cabeça? - E ainda que a tivesse perdido? - As âncoras talvez não aguentem, capitão. Posso subi-las?
  • 283. Herman Melville - Moby Dick 282 - Não suba nada! Não toque em nada! Ou melhor, agarre tudo o que ache bom para agarrar! O quê? Desaparelhar a minha verga da gávea grande? Por quem me toma? Pelo patrão de um barquito de pesca? Saiba que os meus mastros foram feitos para ventos ainda mais violentos do que este, e que tenho no crânio um outro mastro cujas velas rasgam o ventre das nuvens! Só os cobardes se inclinam perante a tempestade! Vou voltar para a minha cabina. De hora a hora informar-meá do que se passa. Depois da meia-noite, Starbuck, julgando chegado o momento de apresentar o seu relatório, entrou na escotilha e, após ter batido à porta, entrou na cabina. Ninguém. O capitão Acab devia estar dormindo no cubículo que lhe servia de quarto, separado da cabina por outra porta. Pendurada no tecto, a lanterna baloiçava, projectando a espaços uma claridade indecisa sobre o armeiro. Starbuck era um homem de bem. 158 Mas à vista das espingardas germinou-lhe
  • 284. Herman Melville - Moby Dick 283 no espírito um pensamento homicida. - Um dia - murmurou ele -, pouco faltou para me abater como um cão! Cá está a espingarda com que me ameaçou. É esta, com a coronha ornada de pregos. Toco-lhe com os dedos, pego-lhe... Carregada? Sim, tem pólvora na caçoleta... Contudo, isto é estranho. Tremo como varas verdes, eu que empunhei tantas lanças assassinas. Deixa-me cá pensar. Que vou eu dizer ao capitão? Que há um vento favorável. E, se tivesse coragem para tanto, acrescentaria: Favorável ao senhor, a Moby Dick e à destruição de todos nós!... E aqui estou eu, apertando na mão esta arma com que me ameaçou! Que lhe importa que pereça a sua tripulação? Pois não me disse ele que só os cobardes se inclinam perante uma tempestade? Estamos no seio de um tufão e ele não quer ouvir falar de páraraios! Esmagou o sextante e vê-se condenado a navegar por cálculo, quando nos encontramos num dos oceanos mais perigosos do Mundo! Vamos deixar que este velho louco nos conduza à morte?
  • 285. Herman Melville - Moby Dick 284 Agora está a dormir. Mas, dentro de momentos, vai acordar. E não quererá ouvir nada: nem a razão nem censuras nem pedidos... No entanto, haveria uma solução... É verdade que sou cristão. A minha fé, os meus princípios, tudo me proíbe de... Amotinarmo-nos? Prendê-lo para o impedir de fazer mal? Não, impossível. Ficaria uma fera. Acabaria por partir as grades da prisão... Que fazer, meu Deus, que fazer? A terra mais próxima, o Japão, fica a centenas de milhas. E, além disso, é-nos interdita(1). Então que resolver? Decididamente só há uma solução. E o castigo? Será sempre tempo de pensar nele mais tarde. A justiça? Separa-me dela um oceano. Sim, já sei o que é preciso fazer. Pode censurar-se o céu quando fulmina com o seu raio um assassino em potência? Nestas condições, porque haveriam de censurar-me se... 1 Na primeira metade do século xIx, o Japão estava fechado aos Europeus. (N. do
  • 286. Herman Melville - Moby Dick 285 T.) 159 Olhou para trás de si. Depois, lentamente, pé ante pé, avançou e encostou o cano da espingarda à porta do cubículo. - Acab está deitado na maca - continuou em voz abafada -, a cabeça dele deve estar a esta altura, uma pressão do dedo no gatilho e estou salvo! Poderei voltar a beijar a minha mulher e o meu filho... Ó velho, tenho de te matar! Senão, em menos de oito dias, o meu cadáver vagueará pelo fundo do mar! Senhor, Senhor, dai-me coragem!... Não, é impossível... Não me atrevo... Capitão, capitão! O vento mudou. Larguei a grande e a pequena gávea. Está tudo em ordem! Como se as palavras pronunciadas pelo imediato o tivessem atingido mesmo em sonhos, Acab gritou com tal intensidade que fez vibrar as paredes do cubículo: Todos à popa! Ah! Moby Dick! Desta vez não me escaparás! Starbuck parecia lutar com um anjo. Nas mãos trémulas como as de um ébrio,
  • 287. Herman Melville - Moby Dick 286 segurava ainda a espingarda encostada à porta. Depois, de súbito, recuou, voltou a colocar a arma no armeiro e saiu da cabina. Na ponte, fez sinal a Stubb. - Um momento, Stubb! Não tenho tempo a perder. O velho está dormindo a sono solto. Tente acordá-lo e diga-lhe... Mas você sabe o que deve dizer-lhe. No dia seguinte o oceano ainda não estava calmo. Levantava enormes vagas que, batendo na popa do Pequod, o impeliam como mãos de gigantes. O navio, na sua marcha para o equador, rumava agora para sudoeste. Naquele dia deram-se dois acontecimentos. No momento em que ia nascer o Sol num céu cheio de nuvens ainda ameaçadoras, os homens de quarto comandados por Flask sobressaltaram-se ao ouvir gritos inarticulados. Dir-se- iam gemidos de crianças massacradas por ordem de Herodes. Os marinheiros, paralisados pelo terror, permaneceram imóveis, enquanto durou aquele concerto dilacerante. No fim
  • 288. Herman Melville - Moby Dick 287 Flask disse: - Talvez sejam sereias... - Na minha opinião - murmurou um marinheiro que estava ao pé dele -, passámos a pouca distância de um navio a naufragar e estes gritos eram lançados pela sua tripulação no momento em que ele se afundava. Uma hora mais tarde, quando o capitão subiu à ponte, foi Flask que o pôs ao corrente dos acontecimentos. Acab riu sombriamente. Depois, deu-nos a seguinte explicação: - Passámos, com certeza, por ilhas rochosas frequentadas por focas. Como as suas crias se aproximassem de nós, as fêmeas lançaram- se em sua perseguição. O que ouviram foram os seus gritos, os seus lamentos. Porém esta explicação só perturbou ainda mais alguns dos nossos companheiros. Com efeito, os marinheiros experimentam muitas vezes, perante as focas, uma espécie de terror supersticioso. Não gostam nada de ouvir os seus gritos, mas detestam sobretudo avistar, à superfície das ondas, os seus crânios redondos que lhes
  • 289. Herman Melville - Moby Dick 288 parecem cabeças humanas. Numa palavra, as focas, a seus olhos, só podem trazer desgraça. O pressentimento que se apoderara da tripulação não tardaria a ser confirmado. Pouco depois de nascer o Sol, um marinheiro foi ocupar o seu posto de vigia no cesto da gávea do mastro de traquete. Estaria meio a dormir? Ou menos atento que de costume? De súbito, ouviu-se um grito prolongado. Erguendo os olhos, os marinheiros seguiram a queda de um corpo no espaço. Depois, baixando a cabeça, puderam, após um segundo, contemplar algumas bolhas brancas à superfície das águas. Imediatamente, a bóia de salvação que estava presa à popa foi lançada ao mar. Porém nenhuma mão saiu da água para a agarrar. Esta bóia não passava de um simples tonel cujas aduelas, desconjuntadas pela acção do sol, não tardaram a separar-se. 160 161 Arrastadas pelos círculos de ferro, em
  • 290. Herman Melville - Moby Dick 289 breve se afundaram, sem dúvida para irem juntar-se ao afogado, no fundo do mar e lhe proporcionarem a dura almofada do seu último sono. Passado o primeiro momento de consternação, teve de se pensar em substituir a bóia. Todos os tonéis de que dispúnhamos eram demasiado grandes e pesados. Íamos separar-nos sem ter tomado qualquer decisão, quando Queequeg nos propôs o seu caixão. Segunda discussão, tão animada como a primeira. Por fim, Stubb, pondo fim ao debate, encarregou o carpinteiro de pregar a tampa e calafetar as juntas. - E, quando acabares o trabalho, penduras a nova bóia no sítio da outra. Na verdade, poderia o Pequod ter uma bóia de salvação mais bem adaptada ao seu destino do que aquele caixão? No dia seguinte, os vigias assinalaram um navio de grande tonelagem, o Raquel, que se dirigia para nós, e cuja tripulação parecia ter-se reunido nas vergas. Nesta altura avançávamos a bom
  • 291. Herman Melville - Moby Dick 290 andamento. Quando o recém-chegado se encontrava apenas a umas cento e vinte braças, colheu o seu imponente velame e parou. - É um portador de más notícias... resmungou um velho marinheiro que estava ao pé de mim. O capitão do Raquel pegava já no portavoz. Porém, Acab não lhe deu tempo de tomar a palavra. - Viu a baleia branca? - perguntou. - Sim respondeu o outro -, vi-a ontem... E você, viu uma baleeira à deriva? Acab, preocupado sobretudo com Moby Dick, ia, mesmo assim, responder que não vira a baleeira em questão. Contudo, ficou calado quando reparou que o seu interlocutor mandava lançar uma canoa à água. Uns minutos mais tarde, o capitão do Raquel saltava para a ponte do Pequod. Sem o cumprimentar, Acab avançou para ele. - Onde estava ela? - gritou. - Não a matou, pois não? O que se passou? A resposta foi longa e precisa. - Ontem, ao fim do dia, enquanto três das
  • 292. Herman Melville - Moby Dick 291 minhas baleeiras travavam combate com várias baleias e pouco a pouco estas se tinham afastado umas quatro ou cinco milhas do meu navio, surgiu bruscamente das águas uma bossa branca, a de Moby Dick. Então, mandei descer a quarta baleeira, que se lançou em perseguição da baleia branca. Pareceu-me, segundo as informações que me davam os vigias - pois eu ficara a bordo -, que conseguira atingir o monstro. Depois foi arrastada a uma velocidade louca. E não tardou a desaparecer no horizonte. Como caía a noite, mandei regressar as outras embarcações. Durante toda a noite, o meu navio procurou a quarta baleeira. Mas até agora os nossos esforços foram vãos. Importar-se-ia de nos ajudar? Bastava que seguíssemos duas rotas paralelas a algumas milhas um do outro. Assim, poderíamos fazer a busca numa zona muito mais vasta e sempre teríamos algumas probabilidades de êxito... Como Acab até ali aparentara uma frieza
  • 293. Herman Melville - Moby Dick 292 total, o capitão do Raquel tornou com veemência: - Não recuse, peço-lhe! Sabe, é que o meu filho ia naquela baleeira! Suplico- lhe, façame este favor! Rogo-lhe que me conceda quarenta e oito horas... Quarenta e oito horas apenas... Se quiser, até posso indemnizá-lo... pago-lhe o que me pedir! Não pode recusar-me este serviço! O velho marinheiro que continuava ao pé de mim murmurou-me ao ouvido: - Acho graça ao Acab com aquela das focas! O filho deste homem morreu. O que nós ouvimos foram os gemidos dele e dos companheiros... Tremendo de emoção ante a impassibilidade de Acab, o capitão do Raquel insistia, tornava-se quase violento: Nem sequer se comove? O meu filho é um garoto de doze anos que eu trouxe, como grumete, para o iniciar nos segredos da nossa profissão. Não me vou daqui embora antes que me diga sim! O senhor também tem um filho, capitão Acab; um filho agora em perfeita segurança, na sua casa de
  • 294. Herman Melville - Moby Dick 293 Nantucket. 162 163 Pense nele! Pense no que sentiria se estivesse na minha situação. Ah! Comoveuse, enfim! E, voltando-se para a tripulação do Pequod: - Preparem-se, rapazes! Preparem- se para cruzar essas vergas! Porém Acab, levantando a mão, pronunciou em voz lenta: - Alto! Não quero que toquem numa única verga! Não conte comigo, capitão Gardiner. Agora mesmo, estou a perder um tempo precioso. Adeus, adeus! Que Deus o proteja e me perdoe. Mas, bem vê, não posso atrasar-me... Tenho de voltar a partir!... Starbuck - ajuntou, dirigindo-se ao imediato -, qualquer pessoa estranha ao Pequod terá de sair de bordo dentro de três minutos. E, logo a seguir, pomo- nos imediatamente a caminho! Sem mais palavra, voltou para a cabina. O capitão Gardiner aniquilado ante a crueldade desta recusa, quedou-se uns instantes imóvel. Depois, recompondo- se,
  • 295. Herman Melville - Moby Dick 294 voltou costas, transpôs o filerete, deixou-se cair na sua baleeira e voltou para o Raquel. Não tardou que os dois sulcos se afastassem um do outro. Seguimos muito tempo com os olhos o portador de más notícias. Este mudava frequentemente de amura, bordejava, desviava-se da sua rota. O Raquel era como que uma mulher desvairada, procurando desesperadamente o seu filho por todos os lados. Parecia-nos que os dias passavam ao ritmo das vagas. O Pequod continuava a vogar, na sua cega obstinação. Uma manhã, os vigias assinalaram um novo navio, o Prazer, nome este por sinal bastante mal posto. Distinguíamos à popa umas cábreas, essas peças de madeira ligadas por cima, suportando uma roldana, que servem para levantar as embarcações danificadas. Nas cábreas do Prazer vinha suspensa uma baleeira com diversos rombos. - Viu a baleia branca? - perguntou Acab. 164
  • 296. Herman Melville - Moby Dick 295 De pé, na armadoira do coroamento, o capitão, um homenzarrão de faces cavadas, apontou, com o porta-voz, o esqueleto de tábuas desconjuntadas ou quebradas que baloiçava nas cábreas e gritou: - Olhe para isto! - O quê? Você matou-a? exclamou Acab. - Ainda não foi forjado o arpão que há-de matá-la! replicou o outro contemplando, na ponte, uma silhueta humana envolta na lona de uma maca da qual alguns marinheiros, em silêncio, estavam cosendo as bordas. - Ainda não foi forjado? - vociferou Acab, brandindo o seu arpão. - Repara tu, agora, homem de Nantucket! Eis a arma que háde matar a baleia branca. Juro enterrá-la na sua barbatana, mesmo na fonte daquela maldita vida! - Então que Deus te proteja, velho! - tornou o capitão do Prazer. - Viste isto? acrescentou, apontando desta vez a lona. Apenas posso dar sepultura a um dos cinco homens que perdi ontem. Quatro afogaramse e vagueiam agora no fundo do mar!
  • 297. Herman Melville - Moby Dick 296 Depois, dirigindo-se à tripulação: - Estão prontos? Levantem o corpo. Ponham- no sobre o filerete. Assim... E agora... Erguendo as mãos num gesto de bênção, avançou para a maca e disse: - Dai-lhe, Senhor, a ressurreição e a vida eter... - Ao leme, e em frente! - bradou Acab. Porém, apesar da rapidez da manobra, os marinheiros do Pequod aperceberam-se do ruído que fez o cadáver ao mergulhar, e do espadanar da água - fúnebre baptismo - no casco do seu próprio navio. Acab, ao afastar-se, nem se deu conta de que punha em evidência a bizarra bóia de salvação pendurada à popa do seu barco... De súbito, chegou-lhe aos ouvidos uma voz proveniente do Prazer: - Ó do Pequod! Você foge do nosso funeral! Mas é para nos mostrar o seu caixão! 165 Estava um dia claro, de um azul-metálico. Céu e mar banhados no mesmo anil. Aqui e além, na luz dourada do Sol, asas de pássaros, doces como pensamentos feminis, sulcavam o espaço.
  • 298. Herman Melville - Moby Dick 297 Horas após o nosso encontro com o Prazer, o capitão Acab, vindo da sua cabina, encostou-se à armadoira e ficou a olhar a sua sombra deslizando sobre as vagas. Sensibilizara-o, enfim, o explendor da paisagem, a suavidade que flutuava na atmosfera? Sentiria remorsos? Deixou cair uma lágrima no mar, e o Pacífico jamais guardou em si tesouro mais precioso do que esta ínfima gota de água... Starbuck encontrava-se a poucos passos dele. Aproximou-se. Acab ergueu a cabeça. - Starbuck? - Sim, capitão... - Oh! Starbuck, que vento e que mar tão serenos! Foi num dia como este - tinha eu então dezoito anos - que matei a minha primeira baleia. Há quarenta... Sim, há quarenta anos! Quarenta anos de pesca! Quarenta anos de privações, de perigos, de tempestades! Quarenta anos sulcando impiedosos mares! Desde a minha primeira viagem, não passei em terra, ao todo, mais de três anos... Quando penso na vida que levei, nesta solidão, em todas as fadigas, na sinistra
  • 299. Herman Melville - Moby Dick 298 escravatura a que chamam o comando do navio... Quando penso em tudo aquilo de que me tenho privado... Nunca um pouco de pão fresco, nunca um fruto! Quando casei, passava já dos cinquenta. No dia seguinte, eis-me a caminho do Horn. A minha mulher? Fiz dela pobre criatura! - a viúva de um marido vivo... Quarenta anos de furiosas batalhas! Para quê? Tornei-me melhor ou mais rico por isso? E foi-me arrebatada uma perna... Starbuck, tenho, na verdade, o aspecto de um velho? Sinto-me tão pesado, tão fraco! Não, não se vá embora! Fique aqui, junto de mim! Deixe-me olhá-lo nos olhos! Os olhos de um homem são espelhos, óculos mágicos. Nos seus vejo a sua casa, a sua mulher... Oiça, Starbuck, quando eu enfrentar Moby Dick, não me acompanhe, fique a bordo... - Capitão! Capitão! - murmurou Starbuck. É mesmo indispensável matar esse maldito animal? Regressemos! Voltemos para junto dos nossos, para a América. Tal como o senhor, também eu tenho uma mulher, um
  • 300. Herman Melville - Moby Dick 299 filho. Diga uma palavra, capitão, e rumaremos à terra que nos viu nascer. Estou certo de que lá em Nantucket têm dias tão serenos, tão azuis como este! - Pois têm... Neste momento, por exemplo, está o meu filho a acordar. Senta-se na cama. A mãe fala-lhe de mim, do seu pai, este velho feiticeiro. E diz-lhe: "Ele anda no mar. Mas voltará em breve para te fazer saltar nos joelhos..." - Lá em minha casa é a mesma coisa! exclamou Starbuck. - A Mary prometeu- me, jurou-me, que o garoto subirá todos os dias ao alto da colina para ser o primeiro a avistar-me quando eu voltar... Pois bem, capitão, fica entendido, não é verdade? Damos meia volta, rumamos a Nantucket! Venha, venha depressa! Vamos tratar de preparar a nossa rota!... Porém Acab, por súbita reviravolta, já não escutava. Tremendo como varas verdes, articulou com surda violência: - O que tenho eu? Que se passa? Não é Deus que está em mim, mas sim um demónio velhaco, um demónio implacável que destrói no meu
  • 301. Herman Melville - Moby Dick 300 íntimo até a recordação do amor humano. Possui-me, agarra-se à minha carne. E dizme "tem de ser - é o teu dever! Faz o que juraste fazer. Senão , a tua consciência não te deixará um instante em paz. Nunca mais terás um momento de felicidade!" Percebe, Starbuck? Tenho de cumprir a minha missão. Sou absolutamente obrigado a cumpri-la. Depois... Se ainda nos for possível, regressaremos a Nantucket... Starbuck!... Starbuck! Olhou em volta. Estava só... Desesperado, Starbuck, sabendo que, daí em diante, toda a luta seria inútil, desaparecera. 166 167 XVII A CORRIDA PARA O ABISMO Nessa noite, durante o quarto da meia-noite às quatro da manhã, o capitão Acab deixou, como fazia às vezes, a escotilha junto da qual estava sentado e foi instalar-se no seu buraco de broca. De súbito, ficou tenso, aspirou o ar marítimo, e disse: - Deve andar por aí um cetáceo. Com efeito, não tardou que os marinheiros
  • 302. Herman Melville - Moby Dick 301 sentissem o odor característico que exalam baleias e cachalotes vivos, mesmo quando ainda se encontram a grande distância. E ninguém ficou surpreendido quando, após ter determinado com tanta precisão quanto possível a direcção do cheiro, Acab deu ordem para se mudar de rumo e modificar a orientação do velame. Ao alvorecer, desdobrava-se ante os nossos olhos uma interminável barra de água oleosa, perfeitamente calma. - Mudem os vigias e reúnam a tripulação - ordenou Acab. A fim de acordar os que dormiam, Daggoo, munido de uma alavanca, pôs-se a bater com toda a força na ponte do castelo da proa. Um após outro, os marinheiros foram saindo da escotilha com as roupas na mão. Quando os novos vigias ficaram instalados nos postos de observação, Acab, erguendo a cabeça, perguntou-lhes: 168 - O que vêem? - Nada, capitão responderam. - Icem os joanetes e os revelins! - tornou ele.
  • 303. Herman Melville - Moby Dick 302 Enquanto era executada esta manobra, confeccionou à pressa por suas mãos uma espécie de cesto formado por bolinas entrelaçadas e, por meio de um conjunto de roldanas mandou que o suspendessem no mastro do traquete. Depois, sentando-se naquele cesto, ordenou que o içassem até à ponta do mastro, mais alto que o posto de observação. Ali, após ter observado, por instantes, o horizonte, gritou em voz aguda, semelhante à de uma gaivota: - O jacto! O jacto! Estou a vê-la! Estou a vê-la! A sua bossa é uma colina de neve! É Moby Dick! - Sim é Moby Dick - repetiram, em coro, os três vigias. Os marinheiros, empurrando-se, precipitaram-se contra as peias, para verem enfim a famosa baleia que tinham perseguido por todos os mares do Mundo. Esta encontrava-se agora aproximadamente a uma milha. A intervalos regulares, elevava-se no ar o jacto de vapor de água, enquanto a sua bossa reluzente surgia, mais alta do que as vagas.
  • 304. Herman Melville - Moby Dick 303 - Fui eu que a vi primeiro! - disse Acab. - Capitão, eu vi-a ao mesmo tempo que o senhor! - disse Tashtego. - Não, não! Não foi ao mesmo tempo! Eu é que a vi primeiro. O dobrão é para mim, só para mim! Tinha de ser! Nenhum de vocês podia ver a baleia branca antes de mim! Olhem! O jacto! O jacto! O jacto! Os gritos saíam-lhe da garganta ao ritmo dos jactos da baleia. - Ela vai mergulhar! - tornou ele. - Ferrar revelins e joanetes! E você, Starbuck, prepare três baleeiras e fique a bordo, assegurando o comando do navio. Tu, timoneiro, vai bolinando... Mais perto! Mas devagar, devagar! Olhem, além, a cauda! Não, é apenas um turbilhão de água escura... Os escaleres estão preparados, Starbuck? Então, aprontem-se todos. E ponham-me lá em baixo! 169 Quando voltava para a ponte, Stubb disselhe: - Olhe, capitão! Ela dirige-se para sotavento. Ainda não nos deve ter visto... - Silêncio! - ordenou o capitão. - Para os
  • 305. Herman Melville - Moby Dick 304 braços das velas! Leme todo à direita! Eu disse para ferrarem os joanetes e os revelins! Bom, já está. Muito bem. E agora, as baleeiras! Dentro de pouco tempo, todas as baleeiras, excepto a de Starbuck, balançavam ao lado do Pequod. A uma ordem, os remos entraram em acção. Acab, que conduzia o ataque, ia na frente. Junto dele encontrava-se Fedallah, de olhos brilhantes, com um rictus a deformarlhe a boca. Rápidas e silenciosas, as três ligeiras embarcações fendiam as vagas. No entanto, foi-lhes preciso um certo tempo para chegarem junto do inimigo. De instante a instante, o oceano ia ficando mais liso, como se tivesse estendido um tapete sobre as suas vagas. E, em breve, surgiu inteira a bossa reluzente. Deslizava tranquila, como uma ilha cercada de espuma esverdeada. Acab começava a distinguir as menores rugas cavadas na massa da cabeça. Espectáculo inesquecível! Júpiter,
  • 306. Herman Melville - Moby Dick 305 transformado em touro e arrastando a graciosa Europa para as margens de Creta, não ultrapassaria certamente em beleza a baleia branca, deusa do mar, cujos movimentos elegantes e calmos deliciavam a vista. Porém, bruscamente, depois de ter agitado, como que num sinal de advertência, o vasto estandarte da cauda, mergulhou e desapareceu. Sobre o turbilhão que deixava atrás de si abateu-se um bando de pássaros. Os remadores tinham erguido os remos, e as três baleeiras, agora imóveis, esperavam que Moby Dick se dignasse reaparecer. - Não voltaremos a vê-la antes que passe uma hora - disse o capitão. Parecia colado nas traseiras do escaler e contemplava o espaço azul e vazio, para além do sítio onde a baleia mergulhara. Porém não foi longo o seu devaneio. E o olhar tornou-se-lhe de novo atento e duro. Havia instantes que o vento começara a refrescar e o mar ia ficando agitado.
  • 307. Herman Melville - Moby Dick 306 - Os pássaros! Os pássaros! - gritou Tashtego, da baleeira mais próxima. Com efeito, os pássaros, quais garças levantando voo, dirigiam-se todos em fila indiana para a baleeira do capitão. Pararam a poucas braças e puseram-se às voltas acima das ondas, piando alegremente. Acab sabia que estes animais têm uma vista mais penetrante que a do homem. Inclinou-se sobre a borda e sondou com os olhos as profundezas. Viu, subindo do abismo, uma mancha branca mais ou menos do tamanho de uma doninha, mas que crescia de instante a instante, e de súbito se virou, descobrindo uma bocarra torcida, eriçada de dentes cintilantes, a bocarra de Moby Dick! Com um violento golpe de leme, Acab fez a sua embarcação dar uma guinada. Depois, ordenou a Fedallah que trocasse o seu lugar com o dele; instalou-se à frente, empunhou o arpão e disse aos remadores: - Peguem nos remos e reúnam-se à retaguarda! Segundo os seus cálculos, a frente da
  • 308. Herman Melville - Moby Dick 307 baleeira devia estar agora por cima da cabeça de Moby Dick. No entanto, com uma inteligência verdadeiramente diabólica, a baleia branca descobriu o ardil. Deslocouse lateralmente, e, sempre de costas, à maneira de um tubarão que acaba de escolher a vítima e se prepara para sacrificá-la, abocou a proa da baleeira com tal violência que o maxilar inferior, comprido e estreito, saiu da água, cravando-se um dos seus dentes na borda do barco. E agora, com doçura cruel, como um gato brincando com o rato, sacudia o casco e quebrava-o lentamente... Fedallah, de braços cruzados, mantinha-se impassível. Quanto aos marinheiros, encolhidos na traseira da embarcação, estavam pálidos de medo. As outras duas baleeiras tinham parado a umas cento e vinte braças e as suas tripulações, estupefactas, assistiam imóveis a este espectáculo. 170 171 Acab estava louco de raiva, pois, na posição em que se encontrava, era-lhe
  • 309. Herman Melville - Moby Dick 308 impossível utilizar o arpão com qualquer possibilidade de êxito. E, além disso, tratava-se de acudir ao mais urgente, ou seja, tentar em primeiro lugar salvar a baleeira... Então, com as mãos desprotegidas, vibrantes de cólera, agarrou a hedionda maxila e tentou fazer com que esta largasse a presa. Porém o osso escorregava-lhe debaixo dos dedos. E como uma prodigiosa tesoura, a baleia continuou a sua obra num crepitar de tábuas estalando. Passados alguns segundos a baleeira estava cortada ao meio e enquanto a traseira se afastava, levando a tripulação apavorada, o capitão, que se agarrara à parte da frente, desequilibrou-se e caiu de cabeça à água. A baleia branca, decerto muito satisfeita de si, recuou, deteve-se e ficou imóvel. Ora se deixava afundar ora voltava à superfície levantando a vasta fronte enrugada. Passado um momento, voltou à carga e descreveu um círculo em volta dos destroços. Levantava com a cauda nuvens de espuma.
  • 310. Herman Melville - Moby Dick 309 Preparar-se-ia para um ataque ainda mais violento do que o primeiro? Acab, incapaz de nadar, mantinha-se, no entanto, à superfície. Ninguém podia socorrê-lo: nem Fedallah, sempre tão calmo, nem os marinheiros agarrados ao mesmo destroço que o misterioso asiático, e cada vez mais inquietos com a própria sorte. A baleia branca traçava, em redor deles, círculos cada vez mais rápidos, mas também mais apertados. As outras baleeiras, intactas, não ousavam aproximar-se. Entrando na zona tumultuosa cujo centro parecia ser a cabeça de Acab, não arriscariam incitar o monstruoso animal a levar a cabo a destruição das suas vítimas? Toda esta cena fora atentamente seguida pelos vigias do Pequod. Por fim, o navio aproximou-se. Quando já se encontrava perto, Acab gritou: - Starbuck! A direito sobre... Engolido por uma vaga não pôde terminar a frase. Quando voltou à superfície passados dois ou três segundos, na crista de uma
  • 311. Herman Melville - Moby Dick 310 onda, tornou: - A direito sobre ela! A direito sobre ela! Resolutamente, o Pequod, a todo o pano, avançou mais, obrigando Moby Dick a deixar de descrever círculos e a afastar-se. Quando o capitão Acab foi içado para a baleeira de Stubb, tinha os olhos injectados de sangue e começava a secar-Lhe o sal do mar nas rugas do rosto. Exausto, perdeu os sentidos. Dir-se-ia um homem espezinhado por uma manada de elefantes. Do mais profundo do peito subiam-Lhe lamentos, gemidos comparáveis aos suspiros roucos que o vento das montanhas arranca aos precipícios. Contudo, durou pouco o seu desmaio. Erguendo-se num cotovelo, o velho perguntou: - O meu arpão? O que é feito dele? - Está aqui, capitão - respondeu Stubb. - Ponhamno junto de mim... Não falta ninguém? Não, capitão. Tinha cinco homens, não é assim? Salvaram-se todos. - Muito bem. Agora, ajudem-me a levantar...
  • 312. Herman Melville - Moby Dick 311 Obrigado. Nesta posição estou a vê-la, vai para sotavento. Que jacto, com a breca, que jacto!... Larguem-me... Larguem-me, disse eu! Já não preciso que me amparem. A seiva da vida está voltando aos meus ossos! Moby Dick encontra-se demasiado longe, não podemos continuar a dar-lhe caça com as baleeiras. É mesmo com o Pequod que vamos persegui-la. Voltemos para bordo. Icem o mais depressa possível as embarcações, sem esquecerem o que resta da minha. Dez minutos mais tarde, o Pequod, a todo o pano, lançava-se em perseguição de Moby Dick, cujo jacto, de longe em longe, aparecia com intervalos regulares. Quando ela mergulhou, o capitão pegou no relógio da bitácula e disse: Como sabem, ela só aparecerá daqui a uma hora. Apesar da minha precedente decisão, o dobrão será para aquele que primeiro a vir. Passada a hora, perguntou: 172 173 - Quem viu Moby Dick? Para quem é o
  • 313. Herman Melville - Moby Dick 312 dobrão? Ninguém levantou a voz para Lhe responder. Passou assim uma boa parte do dia. Várias vezes Acab mandou que o içassem, no cesto de bolinas, até à extremidade do mastro do traquete. Depois, voltava para a ponte e ficava a passear de um lado para o outro, erguendo de vez em quando a cabeça a fim de interrogar os vigias. Por fim, deteve-se ante os destroços da sua baleeira, amontoados no castelo da popa e a expressão tornouse-lhe mais sombria. Stubb, possivelmente para se fazer notado, aproximou-se e disse rindo: - Ora aqui está o cardo que o burro recusou, decerto porque lhe picava demasiado a boca! O capitão estremeceu. - O quê? - exclamou. - És assim tão desalmado que te ris de um destroço? Se não te soubesse intrépido, juraria que és um cobarde! Perante um destroço, é de regra o silêncio! Starbuck aproximou-se, por sua vez. - Tem razão, capitão - disse -, não há nada
  • 314. Herman Melville - Moby Dick 313 mais triste, nada mais solene do que um destroço. E é também um mau presságio... - Um mau presságio! Só as velhas acreditam em maus presságios, Starbuck! Quando os deuses querem anunciar qualquer coisa aos homens falam-lhes numa linguagem franca e clara... E, agora, vão-se os dois embora! Vocês são como que os dois pólos da mesma estupidez! Quanto a mim, estou só... Só entre os milhões de seres que vivem na terra... Não tenho um igual, um companheiro... Estou só... E vocês, aí em cima, nos postos de observação! Continuam a vê-la? Comuniquem-nos todos os seus jactos, mesmo que lance dez por segundo! Caía a noite. Um último estremecimento agitava a orla dourada do horizonte. Apesar de estar já a escurecer, os vigias continuavam nos seus postos. - Já não se vê nada, capitão, está muito escuro! - gritou uma voz vinda da mastreação. - Em que direcção viram o último jacto? Como sempre, na esteira do vento, capitão.
  • 315. Herman Melville - Moby Dick 314 - Muito bem. Agora, que se pôs o Sol, ela vai abrandar o andamento e apanhála-emos facilmente amanhã de manhã. Assim, Starbuck, peço-lhe que ferre sobre joanetes e revelins. Tu, timoneiro, mantém o rumo a sotavento. Quanto a vocês, aí em cima, desçam! Stubb, encarrego-o de mandar um novo vigia para o mastro de traquete - apenas um. É o bastante. Tome também todas as disposições para que ele seja substituído de quarto em quarto de hora, e isto até ao alvorecer. Tendo distribuído assim estas instruções, aproximou-se do dobrão pregado no mastro grande. - Em princípio esta moeda deveria ser para mim - disse -, mas deixo-a aqui até que a baleia branca morra. O primeiro a assinalála no dia em que for morta tornar-se-á proprietário deste disco de ouro. Se for eu, não me será aplicada a regra do jogo, e comprometo-me a repartir por todos vós uma soma equivalente a dez vezes o valor deste dobrão!... E agora, deixem-me em paz!
  • 316. Herman Melville - Moby Dick 315 Desceu até meio corpo na escotilha da sua cabina e encostou-se à ponte com o queixo nas mãos. De tempos a tempos levantava a cabeça para observar o céu. Permaneceu nesta posição até ao despontar da aurora. Quando rompeu o dia, instalaram-se três novos vigias nos postos de observação. Após ter-Lhes dado tempo de perscrutarem o horizonte, Acab perguntou: - Estão a vê-la? - Não, capitão. - É porque ela vai mais depressa do que pensei... Então, icem todas as velas, mesmo os joanetes! Ah! Ontem à noite fiz mal... Mas não tem importância. Isto é apenas a pausa antes do ataque! Não tardou que o Pequod começasse a avançar a bom andamento, deixando atrás de si uma larga fita de espuma. 174 175 - Lá está ela... Além, a direito, em frente! O jacto, o jacto! - gritou de súbito um dos vigias. - Pois é - disse Stubb -, eu já sabia... Sabia que ela não podia escapar-nos! Sopra, sopra, baleia! Toca a tua trombeta!
  • 317. Herman Melville - Moby Dick 316 Enche os pulmões de bolhas de ar! Estás ardendo, pois és perseguida pelo demónio! O velho despojar-te-á do teu sangue até à última gota! Ao pronunciar estas palavras, Stubb expressava o pensamento de quase toda a tripulação. Se, até então, alguns experimentavam receio, sentiam-se agora arrebatados pela febre da caça. O mágico respeito que Acab lhes inspirava aliado à recordação da aventura vivida na véspera venceram as suas últimas apreensões. Além disso, a calma dos seus oficiais e o porte grandioso e resoluto do navio acabaram por persuadilos de que aquela luta de morte só poderia terminar vitoriosamente. A enxárcia estava negra de silhuetas humanas. Os marinheiros, impelidos pela curiosidade, tinham-se instalado no cordame, nas mais ínfimas antenas, até na ponta das vergas. Trinta homens unidos no mesmo destino. Minutos depois do primeiro grito, como se prolongasse o silêncio, Acab perguntou:
  • 318. Herman Melville - Moby Dick 317 - Então já não a vêem? Possivelmente enganaram-se. Moby Dick não costuma lançar um só jacto e desaparecer. Voltou para ú seu lugar, no cesto de bolinas, e, quando chegou à ponta do mastro, gritou: - Com efeito é mesmo ela! Lá está! Lá está! A baleia branca acabava de emergir das profundezas e com uma espécie de insolência, mais ou menos a uma milha do Pequod, sacudia-se numa nuvem de gotinhas que caíam à sua volta como chuva de tempestade. - Sim, aproveita bem o tempo que te resta! tornou Acab. - Pois chegou a tua última hora. Já está pronto o arpão que te há-de matar! Depois, dirigindo-se à tripulação: - Todos para a ponte, salvo o vigia do traquete! Aparelhar as baleeiras! Os marinheiros, sem mesmo utilizarem os enfrechates, deixaram-se escorregar pelos óvens, enquanto Acab, tão rapidamente quanto possível, descia do seu poleiro. Foi instalar-se na canoa de reserva que lhe
  • 319. Herman Melville - Moby Dick 318 tinham preparado na véspera, e gritou: - Ao mar! Ao mar! Você, Starbuck, encarrega-se do comando do navio. Mas não se esqueça: fique a alguma distância das baleeiras, sem se aproximar demasiado! Ao mar! Ao mar! As três baleeiras puseram-se em linha; a de Acab ao centro. A baleia branca, talvez desejando iniciar ela própria o ataque, lançou-se na sua direcção. - Temos de avançar a direito sobre ela, é preciso entrar no seu jogo! - disse Acab com febril entusiasmo. - Assim não nos verá, pois só vê para os lados, e poderemos tomar a iniciativa à vontade! Porém, Acab enganava-se nas suas previsões. Moby Dick parecia mesmo resolvida a iniciar o ataque. Em poucos segundos, a uma velocidade prodigiosa, de bocarra escancarada e batendo a cauda, atingiu as baleeiras, com a intenção não só de as separar umas das outras, mas também de as destruir. Já as três lanças e os três arpões se lhe
  • 320. Herman Melville - Moby Dick 319 tinham cravado na carne e as três baleeiras, habilmente manobradas, afastavam-se a tempo. Começou então um combate que parecia tornar-se interminável. Levando na bossa as armas dos seus inimigos, a baleia branca pôs-se a rodopiar em todos os sentidos. Nestas incessantes evoluções, não tardou a emaranhar as três linhas, tornando-as cada vez mais curtas. Acab sacudiu a sua, na esperança de conseguir por este meio desembaraçá-la. Mas, nesse momento, lanças e arpões presos nas linhas e apertados numa espécie de feixe, abateram-se com uma força inaudita sobre a borda da sua embarcação. Compreendendo que tudo estaria perdido se não tomasse rapidamente uma decisão, Acab, puxando da faca, cortou a sua própria linha. Depois, levantou o feixe de armas e atirou-o ao mar. 176 177 Neste instante, a baleia branca deu uma volta sobre si própria no emaranhado das duas linhas, atraindo com uma força
  • 321. Herman Melville - Moby Dick 320 irresistível as canoas de Flask e de Stubb. Por fim, com um só golpe da cauda, desmantelou as duas embarcações tão facilmente como se fossem cascas de noz. Quando desapareceu - pois no segundo que se seguiu à façanha, mergulhara nada ficou à superfície além de fragmentos de tábuas e as duas tripulações naufragadas que procuravam agarrar-se aos barris utilizados como bóias de salvação. Acab gritou: - A eles! Têm de ser socorridos! Aproximou-se, com algumas remadas, do sítio onde Flask, Stubb e os companheiros começavam a duvidar se conseguiriam escapar ainda muito tempo aos dentes dos tubarões. Foi então que, qual flecha, a baleia branca subiu das profundezas, levantou com a vasta fronte a baleeira do capitão e a fez ir pelo ar, para logo cair de quilha voltada para cima. Acab e os seus homens, soprando como focas, libertaramse dela com grande dificuldade. Moby Dick permaneceu ali um momento.
  • 322. Herman Melville - Moby Dick 321 De vez em quando, sempre que se sentia tocada por um escolho, deslocava-se ligeiramente e esmagava-o, com uma violenta pancada da cauda. Quando se certificou de que estava concluída a tarefa, voltou o crânio enrugado para o vento e retirou-se com o ar calmo de um viajante. O Pequod assistira à batalha. Julgando chegada a altura de intervir, Starbuck mandou lançar ao mar uma canoa que recolheu não só os homens, mas também os barris, os remos, as lanças e os arpões torcidos, as tábuas partidas. Havia contusões, esfoladelas, luxações. Em resumo, nenhum ferimento grave. O próprio Acab, que conseguira agarrar-se à carcaça da sua baleeira, parecia menos extenuado do que na véspera. Quando o ajudaram a içar-se para a ponte, todos os olhares o fixaram. Para manter o equilíbrio tinha de apoiar-se ao ombro de Starbuck, pois da sua perna de marfim não ficara mais que uma espécie de esquírola! 178 179
  • 323. Herman Melville - Moby Dick 322 - Oh! Starbuck! - dizia ele. - Às vezes é bom procurarmos e acharmos um apoio... Lamento não o ter feito mais vezes no decorrer da minha existência... O carpinteiro aproximou-se. - Foi a virola que cedeu, capitão - disse -, contudo fi-la bem sólida... Por sua vez, Stubb chegou-se também e perguntou num tom de sincera solicitude: - Nada partido, capitão? Assim o espero. - Ah! Sim! Olhe para isto! Só ficou um pedaço! Mas repare, Stubb, apesar de me ver privado desta perna que ocupava no meu corpo tanto lugar como os meus membros vivos, sinto-me intacto! Ninguém pode atentar contra a minha integridade: nem a baleia branca, nem o diabo em pessoa! Existe um projéctil tão potente que penetre até às profundezas do mar? Existe um mastro tão alto que fure o tecto do céu? E erguendo a cabeça para se dirigir aos vigias: - Que direcção tomou ela? - Sempre a mesma, capitão. A sotavento. - Então, corrige o leme e a todo o pano! Você, Starbuck, reúna as tripulações das
  • 324. Herman Melville - Moby Dick 323 baleeiras e mande aparelhar as canoas de reserva! - Capitão, se me permite, ajudo-o a andar. - É verdade, obrigado. Fiquei em bons lençóis, com este pedaço de osso à guisa de perna! Passe-me essa lança que está encostada ao filerete. Servir- me-á de bengala. E faça a chamada às tripulações das baleeiras... Tenho a certeza de que ainda não vi o Fedallah. Não é possível... Seria muito estranho... Depressa, faça a chamada! Feita a chamada, tiveram que render-se à evidência: Fedallah continuava invisível. - Talvez fosse arrastado pela... - começou Stubb. - Que a febre-amarela te consuma! bradou o capitão. - E vocês, o que estão para aí a fazer? Vamos, corram, revistem o navio de alto a baixo. Mas encontrem-no, por Deus, encontremno! Um após outro os homens voltaram, anunciando ao capitão que não encontravam Fedallah. - Creio lembrar-me agora, capitão - disse
  • 325. Herman Melville - Moby Dick 324 Stubb -, que ele foi arrastado pela sua linha... - Arrastado? Arrastado? Essa palavra soame aos ouvidos como um dobre de finados... E o meu arpão? Desaparecido, também ele? Cravado no corpo de Moby Dick... Ah! Mas isto não acaba aqui! Não, não acaba aqui! Depressa, aparelhem as baleeiras! Juntem os remos e as armas que ainda podem servir! E, repito: a todo o pano! Depressa, depressa. Se for preciso dou dez vezes a volta ao globo terrestre! Juro por tudo quanto há de mais sagrado: hei-de matá-la, hei-de matá-la! E o capitão Acab calou-se, ofegante. Starbuck, que continuava junto dele, disselhe: - Não, capitão, não! Nunca conseguirá matá-la. Pare enquanto ainda é tempo. Suplico-lhe em nome de Jesus Cristo: acabe com esta loucura! A perseguição dura há dois dias e, já por duas vezes, a baleia branca esteve a ponto de nos aniquilar. Tome cuidado! Depois de lhe ter
  • 326. Herman Melville - Moby Dick 325 arrebatado a sua perna viva, acaba de quebrar a artificial! É como que uma advertência do seu anjo-da-guarda. Que mais quer? Deveremos perseguir esse maldito animal até que nos faça merguLhar a todos nos infernos? - Starbuck - respondeu Acab serenamente -, há já algum tempo que sinto por ti uma estranha atracção, desde aquele dia, lembras-te?, em que lemos nos olhos um do outro. Porém, quando me falas da baleia branca, tornaste para mim um estranho, quase um inimigo. Fica sabendo isto: Acab há-de ser para sempre Acab. Aliás, o que aconteceu hoje estava escrito desde toda a eternidade. Tu e eu já o sabíamos no princípio das idades, muito antes que este oceano rolasse as suas vagas. Eu obedeço a ordens vindas de outras paragens. Tu, Starbuck, que és meu subordinado, procede de forma a executar as minhas! Depois, voltando-se para a tripulação: 180 181 - Vocês aí, olhem-me bem! Sou um velho, esgotado, doente.
  • 327. Herman Melville - Moby Dick 326 Nem já me posso ter em pé sem o apoio de um ombro amigo ou de uma bengala. Mas continuo a ser o vosso chefe. A luta que empreendi conduzi-la-ei até ao fim, aconteça o que acontecer! Oiçam: a baleia branca subiu à superfície dois dias seguidos. Amanhã subirá outra vez, podem estar certos. E será para lançar o seu último jacto! Dar-lhe-emos o golpe de misericórdia! Estão prontos? - Estamos, sim, capitão, estamos prontos! gritaram os marinheiros entusiasticamente. Quando toda a tripulação voltou para o castelo da proa, Acab, ficando só, murmurou: - O medo... Com que facilidade eu o dissipo nos outros, mesmo quando, como hoje, ele me envenena a alma! Fedallah! O que foi que ele me disse? Que me precederia, que me guiaria, que seria meu piloto na morte... Porém, logicamente, para que seja meu piloto, meu guia, terei de voltar a vê-lo uma vez mais! Há aqui
  • 328. Herman Melville - Moby Dick 327 qualquer coisa de incompreensível... Um mistério, evidentemente. Problema delicado... No entanto, eu, Acab, hei-de compreender, acabarei por resolver este problema! Quando caiu a noite, a baleia branca continuava visível a sotavento. Então, como na véspera, ferraram algumas velas, e o navio abrandou o andamento. Toda a noite os marinheiros trabalharam, aparelhando as baleeiras de reserva e endireitando as armas danificadas, enquanto o carpinteiro confeccionava uma nova perna artificial com um pedaço de madeira proveniente da baleeira desmantelada do capitão. Acab voltara para a escotilha e, encostado à ponte com o queixo nas mãos, espiava o aparecimento do primeiro raio de Sol. A aurora do terceiro dia surgiu clara e fresca. O vigia do mastro do traquete desceu à ponte, sendo imediatamente substituído pelos três vigias habituais, e também por numerosos marinheiros empoleirados aqui e além nas vergas.
  • 329. Herman Melville - Moby Dick 328 - Estão a vê-la? - perguntou o capitão. Como lhe respondessem negativamente, acrescentou: - Vigiem com atenção o sulco dela. De um momento para o outro vê-la-ão aparecer. E quase em voz baixa: - Que belo dia! Não está, de certeza, nenhum mais belo em todo o Mundo. Dirse-ia que o universo é uma casa novinha em folha, apenas destinada a ser habitada por anjos! Passaram alguns minutos. - O que vêem? - Nada, capitão. - Como, nada? E o Sol a subir, a subir! Então, ninguém quer o dobrão? A não ser que... Sim, deve ser isso: ultrapassei-a. Agora é ela que procura caçar-me! Devia ter calculado... Meia volta! Meia volta! Todos para a ponte excepto os vigias. Aos braços das vergas! Instantes mais tarde, o Pequod, com vento contrário, tendo virado de bordo, sulcava agora a espuma da sua própria esteira.
  • 330. Herman Melville - Moby Dick 329 - Só nos faltava mais esta: vento de frente! - murmurou Starbuck para consigo. - Quer então lançar-nos na bocarra do monstro? Procedi mal não o impedindo de fazer a sua vontade. Obedecendo-Lhe, desobedeço a Deus! Starbuck - gritou o capitão -, ajude aqui a instalar-me no cesto. - Sim, capitão respondeu o imediato. Passou uma hora. E, enfim do alto do seu poleiro na ponta do mastro do traquete, Acab avistou de novo o jacto da baleia branca e, no mesmo instante, soaram gritos de alegria vindos dos postos de observação: - O jacto! O jacto! - Vou defrontar-te pela terceira vez, Moby Dick! - disse Acab. - Mas ainda estás muito longe para que mande já lançar as baleeiras ao mar. É inútil fugires. Apanharte-ei! E dirigindo-se aos vigias: - Continuem de olho alerta. E estejam descansados: amanhã, talvez ainda esta noite, quando a baleia branca estiver
  • 331. Herman Melville - Moby Dick 330 182 183 solidamente amarrada ao navio, teremos tempo de conversar! Pediu que o descessem para a ponte e deu calmamente algumas ordens. Na altura própria, mandou lançar as embarcações ao mar. Instalou-se na sua. Quando Starbuck se preparava para soltar o tirador que passava por uma das roldanas, deteve-o com um gesto, dizendo-lhe: - Caro Starbuck, é a terceira viagem que assim imponho ao meu querido navio... - É verdade, capitão. Mas assim o quis! - Sabes, Starbuck, que alguns navios não regressam ao seu porto, perdidos pessoas e bens... - Sei-o bem de mais, capitão. - Eu estou velho, Starbuck!... Dar-me-ia prazer um aperto de mão. Apertaram as mãos, fitando-se intensamente. Starbuck, com os olhos brilhantes de lágrimas, exclamou: - Capitão, capitão, o senhor é uma alma nobre! Fique a bordo! Não tente o destino! Quem lho implora é um homem corajoso!
  • 332. Herman Melville - Moby Dick 331 - Para o mar! Para o mar! - bradou Acab arrancando-se ao abraço do seu imediato. Instantes depois, a baleeira do capitão contornava a popa do Pequod. Starbuck, debruçado no filerete do navio, gritou: - Os tubarões! Volte, capitão, volte! Mas Acab não o ouviu, pois estava já dando ordens em voz tonitroante, e os remadores, aplicando todas as forças nos remos, impeliam rapidamente a baleeira. Porém, Starbuck não se enganara. Tinham surgido numerosos tubarões à volta da embarcação e alguns tentavam morder os remos cada vez que estes mergulhavam na água. Mas, facto surpreendente, os esqualos pareciam desinteressados das outras baleeiras... A verdade é que os abutres sabem antecipadamente qual é a presa que lhes está reservada. De vez em quando, o capitão voltava a cabeça, olhando o navio. De súbito, por meio de um sinal combinado, emitido pelos vigias, compreendeu que a baleia mergulhara. Para estar perto dela no
  • 333. Herman Melville - Moby Dick 332 momento em que viesse à superfície, continuou imperturbavelmente na sua rota, não sem resmungar mais para si próprio do que para os companheiros: - Carreguem nos remos, rapazes, carreguem! Ah! Ah! Porque havia eu agora de ter medo se só o cânhamo me pode matar? Nem carro funerário, nem caixão... Quando pronunciava estas palavras, as águas em redor da baleeira incharam lentamente desenhando largos círculos. Depois elevaram-se. Parecia que deslizavam no cimo de um iceberg submerso. Por fim, subiu das profundezas uma espécie de rugido. A tripulação retinha a respiração. E, com um salto oblíquo, uma silhueta imensa, eriçada de lanças e de arpões, coberta por um emaranhado de linhas, estilhaçou a superfície verde do oceano e projectou, acima de si, a mais de trinta pés da altura, feixes de vapor. - Em frente! - gritou o capitão. As embarcações lançaram-se ao ataque. A baleia branca, irritada devido aos ferimentos que lhe tinham infligido no dia
  • 334. Herman Melville - Moby Dick 333 anterior, parecia possessa do demónio. Franzindo as rugas da colossal cabeça, precipitou-se, como na véspera, entre as baleeiras, separou-as brutalmente e sem fazer caso da de Acab, produziu vários estragos nas outras duas. Depois, afastouse como uma flecha, parou e dispôs-se a voltar à carga. Neste instante, Acab não conseguiu reter um grito. Acabava de ver, preso às costas da baleia pelas linhas entrelaçadas, um corpo humano, o de Fedallah! Tinha as roupas esfarrapadas e os olhos, quase fora das órbitas, pareciam fitar o homem do qual predissera o destino. Acab deixou cair o arpão que empunhava. - Fedallah! - gemeu ofegante. - Eu bem sabia que tinha de voltar a ver-te! Anunciaste-me dois carros funerários. Eis então o primeiro! Mas o segundo, onde está? É aí que te espero! Nem tudo está perdido! 184 185 E dirigindo-se às embarcações danificadas: - Vão para o navio! Já não preciso de
  • 335. Herman Melville - Moby Dick 334 vocês. Achou também conveniente estimular os homens da sua tripulação: - E vocês façam por me obedecer! Têm medo, não é assim? Pois bem, fiquem sabendo: o primeiro que eu veja saltar borda fora trespasso-o com um só golpe de arpão!... Onde está a baleia branca? Teria voltado a mergulhar? Porém, Moby Dick não mergulhara. Dera meia volta e afastava-se tranquilamente. Da ponte do Pequod, Starbuck gritou: Capitão, ainda é tempo! Desista! Bem vê que ela parece recusar o combate! Por favor, desista! Acab limitou-se a ordenar aos remadores que se lançassem em perseguição do animal. Quando passou perto do seu navio viu Tashtego, Queequeg e Daggoo que, a toda a pressa, subiam já para os postos de observação, enquanto Flask e Stubb, ajudados pelas suas tripulações, principiavam a reparar as embarcações danificadas, já suspensas a meio flanco do Pequod.
  • 336. Herman Melville - Moby Dick 335 - Starbuck! - disse Acab. - Vire de bordo e siga-me a uma distância razoável! Estaria a baleia branca fatigada? As armas e o cadáver presos à sua carne prejudicarlhe-iam os movimentos? Decidira utilizar um meio ainda mais seguro que a força: a astúcia? Parecia afastar-se contravontade, quase lentamente. Acab teria podido alcançá-la com facilidade se os tubarões, cada vez em maior número à volta da baleeira, não tivessem continuado a despedaçar os remos. - Não façam caso! - dizia ele aos remadores. - Remem sempre com força, com toda a força! Utilizem todas essas maxilas como pontos de apoio. São mais sólidas do que a água! - Mas, capitão - respondeu-lhe um dos marinheiros -, cada vez que mordem, os remos vão ficando mais curtos... - Tenham calma! Eles ainda hão-de durar bastante tempo! Quedou-se um momento, pensativo. E perguntava de si para si: "Porque é que
  • 337. Herman Melville - Moby Dick 336 estes tubarões nos seguem? Quem esperam eles saborear? Moby Dick ou eu?..." Depois, em voz alta: - Mais um esforço, rapazes! Já estamos perto! Que alguém tome o meu lugar no leme. Eu passo para a frente. Passados dois minutos, a embarcação vogava ao longo do flanco da baleia branca. Esta parecia ter parado por completo. Não tardou que Acab se achasse junto da sua bossa, na nuvem formada pelo jacto de vapor de água. Então, soltando um brado formidável, ergueu-se e, de toda a sua altura, lançou o arpão. Despertada pela dor, a baleia branca rolou sobre si própria, levantando ao redor do corpo enormes vagas. Prevendo o que ia passar-se, Acab conseguiu manter o equilíbrio. Porém, três dos seus remadores foram atirados ao mar. Dois puderam ainda agarrar-se à borda do barco e voltar para o banco. Quanto ao terceiro, os companheiros abandonaram-no à sua
  • 338. Herman Melville - Moby Dick 337 sorte. Contudo ficou à superfície. Num movimento espantosamente rápido e ligeiro, Moby Dick recompôs-se e afastouse, no mar encapelado. Acab ordenou ao homem do leme que aguentasse a linha com firmeza e aos remadores que se voltassem nos bancos. - Agora, remem a toda a força! acrescentou. - Vamos tentar rebocá-la! Os remadores empregaram toda a sua força, a proa da baleeira ergueu-se. Mas a linha, provavelmente submetida a uma tracção mais forte, partiu-se, com um ruído de explosão. - Que é isto? - bradou o capitão. - Qualquer coisa se quebrou em mim! O que foi... Não... Não... não tenho nada. Continuo a ser o mesmo... Meia volta! Meia volta! A ela! A ela! Quando ouviu a embarcação cair na água, a baleia branca voltou-se. Ao fazer este movimento, viu a massa negra 186 187 do Pequod. Que se passou então com ela? Pareceu-lhe encontrar-se ante o seu mais
  • 339. Herman Melville - Moby Dick 338 temível inimigo? Subitamente, fazendo estalar as maxilas na espuma cintilante, carregou, em direcção à roda da proa do navio. Na baleeira, Acab, cambaleando, levara as mãos ao rosto. - Estou a ficar cego! Tenho que tactear para encontrar o caminho. Já é noite? Os marinheiros, de novo nos bancos, gritavam: - A baleia! A baleia! Vai atacar o Pequod! - Aos remos, meus filhos, aos remos! disse Acab -, Sim... Sim, ainda vejo claro. O meu navio! O meu navio! Não querem ajudar-me a salvá-lo? Os remadores voltaram a empunhar os remos, mergulharam-nos na água... No entanto, quase logo a seguir, deram-se conta de que havia uma avaria à proa. Duas pranchas, já desconjuntadas, afastavam-se cada vez mais uma da outra. A baleeira afundava-se de instante a instante. Dentro de segundos a borda atingiria o nível das vagas... Ao mesmo tempo, Tashtego, num dos
  • 340. Herman Melville - Moby Dick 339 postos de observação do Pequod, e Starbuck, junto de Stubb no gurupés, viram o monstro investir na sua direcção. - A baleia! A baleia! Timoneiro, leme a barlavento! Não, não quero morrer como uma mulher... E eu que tanto implorei...! Acab, Acab! Eis o resultado da tua loucura!.. Devagar, timoneiro, devagar! Não, não, a barlavento, outra vez!... Ei-la! Vai atirar-se a nós! Senhor, tende piedade! - Calma, Starbuck! - disse Stubb. - Eu cá estou-me nas tintas para a baleia branca! Estou-me mesmo nas tintas para ti, maldito bicho!... Mas, apesar de tudo... Apesar de tudo, é duro morrer assim... Ah! Como eu queria estar agora lá na terra onde crescem as cerejas! Pagaria caro para comer uma só cereja antes de morrer! A tripulação juntara-se à proa do Pequod. Os marinheiros, petrificados, fixavam a baleia que avançava, avançava sempre, projectando na sua frente um semicírculo de espuma. O aríete da sua fronte embateu a estibordo,
  • 341. Herman Melville - Moby Dick 340 na proa do navio, fazendo estremecer violentamente todo o casco. Vários homens caíram de cabeça, enquanto em cima na mastreação os arpoadores sentiam o crânio vacilar nos pescoços vigorosos. E, quase imediatamente, chegou-lhes aos ouvidos o rumor da água que se engolfava pela brecha com a violência de uma torrente despenhando-se num precipício! De pé, na sua baleeira, Acab gemia: - O meu navio! É ele... é ele o segundo carro funerário! A baleia branca mergulhou por baixo do Pequod, deslizou ao longo da quilha. Depois, decerto reconsiderando, voltou a subir à superfície, afastou-se da sua vítima e deteve-se a poucos passos da baleeira do capitão. - Tenho de voltar as costas ao Sol! continuava ele. Restame um arpão... O meu navio! Estou então condenado a morrer longe de ti? Porque me vejo privado desta satisfação? Deverá a minha morte ser tão solitária como foi a minha vida?
  • 342. Herman Melville - Moby Dick 341 E em voz mais alta: - Mas a ti, baleia branca, combater-te-ei até ao fim! Atingir-te-ei mesmo do fundo do inferno! Vê! Escarro todo o meu ódio no último fôlego! Aí tens! O meu último arpão! O arpão zuniu no ar. Atingida, a baleia fugiu. A linha, folgada, logo se emaranhou. Acab inclinou-se para a desembaraçar. Mas, neste instante, uma volta do cabo apanhou-o pelo pescoço e, silenciosa como um carrasco turco estrangulando a sua vítima, arrastou-o para o abismo... A tripulação da baleeira quedou-se uns instantes petrificada. Depois, os remadores voltaram-se para o navio. - Onde está o Pequod? Meu Deus, onde está? Então, viram como que uma espécie de longo nevoeiro. Apenas os mastros emergiam, e as silhuetas dos três fiéis arpoadores desenhavam-se ainda nos postos de observação. Quando tudo terminou, quando a própria baleeira foi engolida 188 189
  • 343. Herman Melville - Moby Dick 342 quase ao mesmo tempo que o Pequod, as aves, acorrendo em grande número, ficaram a rodopiar sobre o abismo. Depois, a imensa mortalha do mar fechou- se e continuou a rolar ao mesmo ritmo de há cinco mil anos atrás. EPÍLOGO SÓ EU REGRESSEI DE LÁ, PARA TO DIZER (Livro de Job) Terminou o drama. Então porque aparece agora este homem à boca de cena? Porque neste naufrágio houve um sobrevivente. Pelo maior dos acasos, após o desaparecimento de Fedallah fui eu a pessoa designada para substituí-lo à proa
  • 344. Herman Melville - Moby Dick 343 da baleeira do capitão. Quando da catástrofe, fui eu o único dos três marinheiros projectados borda fora que não conseguiu voltar para a embarcação. Bom nadador, pude assistir a todo o espectáculo. Porém, quando o Pequod soçobrou, sentime arrastado no prodigioso turbilhão cavado pelo afundamento do navio. No centro e no fundo deste turbilhão avistei um ponto negro que, de súbito, subiu à tona de água. Era o esquife-bóia de salvação de Queequeg! Agarrei-me a ele, e, desta maneira, consegui flutuar durante um dia e uma noite. Os tubarões deslizavam junto de mim, tão inofensivos como se estivessem amordaçados. E as aves marinhas, carnívoras, sobrevoavam-me sem me atacar, conservando, se assim posso expressar-me, o bico na bainha. Ao segundo dia, surgiu um navio, aproximou-se e içou-me para bordo. Era o Raquel. Procurando sempre o seu filho, recolheu apenas um órfão. FIM
  • 345. Herman Melville - Moby Dick 344

×