Gragoata24web

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Gragoata24web

  1. 1. GragoatáISSN 1413-9073Gragoatá Niterói n. 24 p. 1-260 1. sem. 2008n. 24 1osemestre 2008Política EditorialA Revista Gragoatá tem como objetivo a divulgação nacional e internacionalde ensaios inéditos, de traduções de ensaios e resenhas de obras que representemcontribuições relevantes tanto para reflexão teórica mais ampla quanto para aanálise de questões, procedimentos e métodos específicos nas áreas de Língua eLiteratura.
  2. 2. Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal FluminenseDireitos desta edição reservados à EdUFF – Editora da Universidade Federal FluminenseRua Miguel de Frias, 9 – anexo – sobreloja – Icaraí – Niterói – RJ – CEP 24220-008Tel.: (21) 2629-5287 – Telefax: (21)2629-5288 – http://www.editora.uff.br– E-mail: eduff@vm.uff.brOrganização:Projeto gráfico:Capa:Editoração:Supervisão GráficaCoordenação editorial:Periodicidade:Tiragem:Reitor:Vice-Reitor:Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação:Diretor da EdUFF:Conselho Editorial:Conselho Consultivo:Laura Cavalcante Padilha e Lucia HelenaEstilo & Design Editoração Eletrônica Ltda. MErogério MartinsJosé Luiz Stalleiken MartinsKáthia M. P. Macedoricardo BorgesSemestral500 exemplaresDados Internacionais de Catalogação na PublicaçãoAna Pizarro (Univ. de Santiago do Chile)Cleonice Berardinelli (UFRJ)Célia Pedrosa (UFF)Eurídice Figueiredo (UFF)Evanildo Bechara (UERJ)Hélder Macedo (King’s College)Laura Padilha (UFF)Lourenço de Rosário (Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa)Lucia Teixeira (UFF)Malcolm Coulthard (Univ. de Birmingham)Maria Luiza Braga (UFRJ)Marlene Correia (UFRJ)Michel Laban (Univ. de Paris III)Mieke Bal (Univ. de Amsterdã)Nádia Battela Gotlib (USP)Nélson H. Vieira (Univ. de Brown)Ria Lemaire (Univ. de Poitiers)Silviano Santiago (UFF)Teun van Dijk (Univ. de Amsterdã)Vilma Arêas (UNICAMP)Walter Moser (Univ. de Montreal)© 2008 byÉ proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora.APOIO PROPP/CAPES / CNPqUNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSEG737 Gragoatá. Publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras da UniversidadeFederal Fluminense.— n. 1 (1996) - . — Niterói : EdUFF, 2008 – 26 cm; il.Organização: Laura Cavalcante Pàdilha e Lucia HelenaSemestralISSN 1413-9073.1. Literatura. 2. Lingüística.I. Universidade Federal Fluminense. Programa dePós-Graduação em Letras.CDD 800Roberto de Souza SallesEmannuel Paiva de andradeHumberto Machado FernandesMauro Romero Leal PassosMariangela Oliveira (UFF) – PresidenteLívia de Freitas Reis (UFF)Eneida Maria de Souza (UFMG)Solange Vereza (UFF)Silvio Renato Jorge (UFF)José Luiz Fiorin (USP)Leila Bárbara (PUC-SP)Lucia Helena (UFF)Vera Lúcia Soares (UFF)Regina Zilberman (PUC-RS)Laura Padilha (UFF)Cláudia Roncarati (UFF)Editorafiliadaà
  3. 3. Sumárion. 24 1º semestre 2008GragoatáApresentação...................................................................................... 5ARTIGOSO começo do fim...............................................................................13Silviano SantiagoNotas históricas: solidariedade e relações comunitáriasnas literaturas dos países africanos de língua portuguesa......31Benjamin Abdala JuniorDuas viagens, um destino, Moçambique....................................45Regina ZilbermanUma língua de viagens, transgressões e rumores.....................61Carmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoDa colonização lingüística portuguesaà economia neoliberal: nações plurilíngües...............................71Bethania MarianiOutros poderes, outros conhecimentos– Ana Paula Tavares responde a Luís de Camões......................89Margarida Calafate RibeiroNarrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofes..............101Márcio Seligmann-SilvaCorpos grafemáticos: o silêncio do subalternoe a história literária........................................................................119Roberto VecchiNarrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismomoçambicano nos romances de João Paulo Borges Coelho....131Sheila KahnO papel das línguas africanas na formaçãodo português brasileiro: (mais) pistaspara uma nova agenda de pesquisa............................................145Charlotte GalvesAgruras da ficção contemporânea...............................................165Silvia Regina Pinto
  4. 4. Narrar é resistir?.............................................................................179Denise Brasil Alvarenga AguiarOs velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água,versões e construção de identidade............................................191Lúcia BettencourtQuando o preconceito se faz silêncio:relações raciais na literatura brasileira contemporânea.........203Regina DalcastagnèUma conversa entre macacos: percalçosde um diálogo entre a África e o outro......................................221Lucia HelenaENTREVISTAO peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusasobre o Brasil e Angola................................................................ 237Maurício de Bragança
  5. 5. 5Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008ApresentaçãoA Revista Gragoatá, em seu vigésimo quarto exemplar, foca-liza, comparativamente, ou mesmo em separado, os paradigmasculturais que nosso momento histórico permite visualizar comoos mais importantes na construção das identidades matizadasque as literaturas e artes do continente africano e brasileiroapresentam, no cenário da globalização. Os elos entre os doismundos são muito evidentes, ou assim se pensa, quase comoum lugar-comum. Serão mesmo transparentes os nossos pa-rentescos e o que também nos separa? Conhecem, os brasileirose os outros, o que se denomina hoje “Brasil”? É auto-evidenteesta significação? E a África, ao ser relacionada ao Brasil, ésempre a de “expressão portuguesa”? Haveria possibilidade denos “encontrarmos” inscritos na África de “expressão inglesa”,“francesa” etc, na história comum da exclusão? Estas e outrasquestões se tornaram candentes, em alguns dos textos que nosforam enviados.Brasil e África são dois cantões do planeta que se tan-genciaram pela ocidentalização promovida no Renascimentoe motivada pelo expansionismo europeu do século XV. Suasinter-relações e, principalmente, as contradições políticas e osenigmas do continente africano e da vida brasileira têm sidoobjeto de análise, desde os anos de 1990, no século XX, coma projeção dos estudos culturais e a re-leitura dos cânones denações concebidas, pela classificação econômica dominante,como emergentes. Em que pese o significado desse adjetivo, asnações ditas em emergência (no duplo sentido de que emergeme de que estão em estado de emergência) sempre surpreendempelas complexas redes culturais – de origem popular ou culta– surgidas tanto no Brasil, quanto na África e que nada ficam adever, em importância para o pensar, se relacionadas às matrizesde outras paisagens.Da África se moveu, para o então chamado Novo Mundo,um conjunto de habitantes de localidades que hoje compõeminúmeros países: Costa do Marfim, Congo, Angola, Moçambiquee outros, para, em nossas terras, conhecerem a dor do exílio, oconseqüente desterro e a marca da desagregação provocadapela prática escravagista. Ainda assim, os representantes de umpovo removido, à revelia e em circunstância adversa, para outrosrincões, produziram subsídios que, surgidos do entrechoquede tradições, foram capazes de ultrapassar séculos e a própriacondição subalterna, para constituir elementos magníficos de
  6. 6. 6 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008nossa música, dança, culinária e, até, de manifestações religiosasaclimatadas no Brasil.A discussão dos elos e dissensos, as descobertas em comumdessas duas culturas, literaturas e artes, além da dívida brasi-leira para com a contribuição dos africanos que para cá vieramna condição desumana de escravos fazem parte das intençõesque nortearam os objetivos das coordenadoras desse número aopensar em seu título – “Brasil e África: trajetórias, rosto e destino”– e em sua ementa. Esta consiste na discussão da literatura, po-lítica e ideologia no cenário do neoliberalismo e no enfoque dasarticulações entre essas nações e suas narrativas, na estruturapós-colonial contemporânea do Brasil e da África. Pensou-setambém em focalizar o Brasil e a África, enquanto autônomos,em suas diferentes literaturas e formas de expressão e de lingua-gens produtoras de paradoxos, identidades, dilemas e problemas.Interessava à nossa ementa, também, a articulação da África edo Brasil consigo mesmos, e entre si, ou com outros países, deoutros universos culturais na cena do mundo pós-colonial que,necessariamente, envolve a Europa e outras expressões lingüís­ticas. O discurso e a construção da subjetividade e das formasestéticas foi mais um aspecto incluído no temário que sugerimosao leitor, bem como a comparação de suas literaturas com asdemais artes. Outra opção que se observa na ementa oferecidaé a da discussão de perspectivas da crítica e da teoria, no Brasile na África, seja no estudo da própria literatura e das demaisartes, seja no exame específico de textos voltados à produção doconhecimento. No campo da lingüística e do estudo de línguas,acentuou-se a preocupação com o tratamento das línguas emcontato e da política lingüística. Finalmente, a ementa tambémdeu abertura para uma reflexão histórica, antropológica e filosó-fica da cultura brasileira e africana contemporâneas, no examedas relações entre estas, sua literatura, suas crises e utopias, emsua singularidade, ou em conjunto.Se o estudo da questão brasileira, na Gragoatá 24, parecenão demandar explicação, pois se faria evidente (evidência daqual sempre se deve, em bom termo, duvidar), a presença de suaarticulação com a África e desta com a América como um todoe, também, com a Europa, como ocorre em mais de um artigopublicado neste número, revela uma forma de contraposiçãode olhares através da qual se busca retomar a teia de silêncios eapagamentos tramada pelo olhar branco-ocidental, hegemônicona cultura colonizadora letrada, apesar da heterogeneidade denossa formação. Um tal olhar já se antecipava na epopéia ca-moniana, quando os navegantes portugueses, ao se depararemcom o outro, o desconhecido, perguntavam a si mesmos: “Quegente será esta? (em si diziam) / Que costumes, que Lei, queRei teriam?” (I, 45).
  7. 7. 7Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008Se a legenda da diferença faz parte do paradigma forma-dor de nosso encontro cultural, o leitor poderá agora conferir anatureza desse painel, no vasto exame dos elementos que deramsustentação ao processo colonial e à sua reversão, seja do âmbitolingüístico, do político-cultural, seja no da literatura. Um pai-nel foi tecido a várias mãos, pelo texto de nossos convidados edos que se interessaram pelo tema, e nos enviaram sua valiosacontribuição. Neste, o espaço da reflexão crítica se espraiou porquestões como o trauma, a violência, o preconceito racial e osintertextos de variada extração e efeito, para que pudéssemoslevar a cabo, nesta edição, compreender e pensar “Brasil e África:trajetórias, rosto e destino”.É com imenso prazer que passamos ao leitor os textos queresultam do percurso trilhado pelos intelectuais que se unirama nós na busca de elaborar mais um número da Revista Gragoatá,periódico que se tem caracterizado como uma das formas maisatuantes da contribuição, ao público em geral, da Pós-graduaçãoem Letras da Universidade Federal Fluminense.O texto de abertura, de Silviano Santiago, intitula-se “Ocomeço do fim”. Importante pensador da cultura brasileira, seuautor busca apresentar nova e suplementar interpretação paraum conceito-chave do movimento Modernista – o de antropofa-gia, na versão de Oswald de Andrade. Considerando relevantepara o tema deste número refletir sobre um conceito que, du-rante oito décadas foi responsável por importante bibliografiaem que se salientaram aspectos beligerantes de culturas colo-nizadas em relação aos colonizadores, Santiago pondera, ainda,que essa interpretação, apesar de pertinente do ponto de vistasocial e político, negligencia qualidades básicas do trabalho dearte escrito nas margens da cultura Ocidental, em particularaquelas que deveriam despertar no leitor a premência de umpensamento utópico, em que a paz, a esperança e a alegria setornariam os valores.O artigo de Benjamin Abdala Júnior, “Notas históricas:solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos paísesafricanos de língua portuguesa”, discute as redes comunitáriasque tais literaturas tecem, pelo que nelas se revela uma tendênciaà supranacionalidade. Esta, para o crítico, se faz tão importantequanto o resgate, nas produções artístico-verbais, das especifi-cidades nacionais que nelas se resgatam. O texto reforça o fatode que há uma forte relação entre o processo literário africanoe o brasileiro. Isso se justifica, segundo o autor, por que, desde oséculo XIX, se estabeleceram redes de identificações entre o nossopaís e os africanos de colonização portuguesa. Tais identificaçõesvão do âmbito político (cf. o caso angolano, no século XIX) até abusca de outras formas de modelização literária, ressaltando-se,dentre elas, as interlocuções com o modernismo brasileiro, com o
  8. 8. 8 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008romance nordestino de 1930 e com o projeto estético-ideológicode Guimarães Rosa.O texto “Duas viagens, um destino, Moçambique”, deRegina Zilberman, procura analisar as visões divergentes queeuropeus e africanos têm sobre a expansão do mar português,para o que retoma O naufrágio do Sepúlveda, de Jerônimo CorteReal (1594) e O outro pé da sereia, de Mia Couto (2006). O artigodemonstra a existência de dois distintos modos de recuperaçãoda história marítima portuguesa, nas malhas da ficção literária.De um lado, a visão européia do século XVI sobre os “cafres,que roubar tem só por ofício” e sobre os heróis – mesmo quefracassados – que “se vão da morte libertando”, como proclamaCamões. De outra parte, a autora analisa a leitura, a contrapelo,do moçambicano Mia Couto para quem fica clara a “estratégiados portugueses para enfraquecer o reino” do Monomotapa.Resgata-se, assim, o avesso de uma história que só muito re-centemente começa a ser contada pelo olhar dos, até 1975, ven-cidos. Um artigo que serve de excelente ponte para o encontrode África e Brasil.No texto “Uma língua de viagens, transgressões e rumo-res”, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco faz uma espécie debalanço sobre a questão do uso da língua portuguesa nos paísesafricanos colonizados por Portugal, mostrando as diferentesfaces que a língua transplantada pelo colonizador adquiriunos diversos países que hoje têm o português como sua línguaoficial. Percorre, ainda, o caminho que vai da imposição ao usoconsentido e, em certa medida, revolucionário do portuguêsque acaba por se fazer, ele mesmo, um instrumento voltadocontra o processo de colonização, no momento em que sublevao tecido lingüístico. Para comprovar esse uso “clandestino” dalíngua, repetindo José Craveirinha, a ensaísta busca exemplifi-car seu ponto de vista com vozes literárias africanas. Estas, aoinverterem os paradigmas colonialistas, enriquecem a línguado colonizador, por atravessá-la com outros saberes e sabores,alargando, com isso, o sentido das viagens que tal língua aindaserá capaz de fazer.Em “Da colonização lingüística portuguesa à economianeoliberal: nações plurilíngües”, Bethania Mariani reflete sobrea atualidade lingüística do Brasil e de Moçambique, tomando,como ponto de partida do artigo, o fato de que tanto na Áfricaquanto em nosso país, houve uma tentativa de apagamento damemória dos sujeitos locais, no processo de colonização portu-guesa. Discute, a seguir, partindo da memória histórica constitu-tiva das duas formações sociais, de um lado, a legislação referenteà política de línguas e de outro, as relações, nem sempre muitovisíveis, entre as línguas e a política econômica. Assim, analisaa legislação portuguesa referente ao uso do português nas co-lônias e, em seguida, tendo em vista a descolonização política
  9. 9. 9Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008e lingüística, enfatiza as relações entre lingüística e economia,problematizando o valor econômico das línguas.O artigo “Outros poderes, outros conhecimentos – AnaPaula Tavares responde a Luís de Camões”, de Margarida Cala-fate Ribeiro, discute o enfrentamento do poder e de suas relaçõesexistentes nos textos de Paula Tavares, demonstrando que talenfrentamento tem como alvo não apenas o sistema colonialem si, mas a língua que o sustenta e mesmo o neocolonialismoque subsiste em tais relações, na Angola independente. O artigodemonstra a subversão do discurso poético de Paula Tavares,que se quer, ao mesmo tempo, um “pronunciamento” femininoe epistemológico. Por tal “pronunciamento” a poeta põe emxeque não apenas os conhecimentos impostos pelo colonizador,mas a própria tradição local, que também busca perpetuar o pa-triarcado e a sua violência contra a diferença sexual e sua lógicaopositiva. O texto afirma, em todos os sentidos, a possibilidadeteórica de se valorizarem outros conhecimentos e outros poderes,sempre deixados à margem pela colonialidade hegemônica.Em “Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofes”,Márcio Seligmann-Silva propõe uma reflexão sobre o gesto tes-temunhal de sujeitos que sobreviveram a situações radicais deviolência e/ou catástrofes e para os quais a narração do traumase faz gesto de sobrevivência e mesmo de renascimento. Paracomprovar sua hipótese, o autor levanta uma série de aporiasque marcam o testemunho, tentando comprovar que ele “sóexiste sob o signo de seu colapso e de sua impossibilidade”. Trazà cena do artigo, ainda, a questão da política da memória e suaimportância para o gesto de narrar o trauma. Por fim, analisaobras pontuais que resgatam, respectivamente, o genocídio dosarmênios (1915-16); o dos tutsis, em Ruanda (1994), chegando aoBrasil e, em especial à música popular brasileira que, de distintase/ou camufladas formas, resgata o trauma causado pela violênciada ditadura civil-militar.Em “Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e ahistória literária”, Roberto Vecchi, partindo de uma série de re-flexões sobre a força do poder na representação literária, discutea impossibilidade de fala do subalterno, ou o seu silenciamento,na série histórica da literatura brasileira. Depois de reforçar seuquadro teórico, convocando Spivak, Gramsci, Said e outros, oautor analisa duas obras pontuais dessa mesma literatura bra-sileira – Os sertões, de Euclides da Cunha e A menina morta, deCornélio Pena. Em tais criações, para ele, se projeta uma espéciede contra-história problematizadora dos vazios e silenciamentosda história oficial brasileira e dos lugares de força por ela criados.O texto discute, portanto, a problemática dos subalternos que,apesar de se localizarem na margem da história, acabam porganhar voz e um “corpo grafemático”, nas malhas da ficção.
  10. 10. 10 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008Em “Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialis-mo moçambicano nos romances de João Paulo Borges Coelho”,Sheila Kahn começa por apresentar a questão do pós-colonialis-mo em Moçambique. A seguir, recupera a postura adotada porJoão Paulo Borges Coelho, em relação ao que se passa na naçãorecém-independente, postura esta que ele evidencia não apenasem sua obra romanesca, mas também em entrevista concedida àensaísta e por ela em parte transcrita no artigo. Por fim, propõea leitura de três romances do autor – Visitas do Dr. Valdez; Crônicada Rua 513.2 e Campo de trânsito –, demonstrando como BorgesCoelho dá voz aos “calados”, pelo que tenta resgatar a históriaigualmente barrada dos que, em silêncio, viveram as transiçõespor que passou o país em construção.No texto “O papel das línguas africanas na formação doportuguês brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda depesquisa” de Charlotte Galves, a autora, seguindo caminhoproposto pela pesquisadora Margarida Petter, centraliza a dis-cussão nas variedades angolanas e moçambicanas do português,por entender que elas abrem caminho para a reflexão de como eporquê as línguas africanas interferiram no português do Brasil.O artigo se divide em duas grandes seções, começando por pro-mover a releitura do debate da questão por ela proposta, para oque resgata a série histórica desse mesmo debate. Na segundaseção, discute os efeitos do contato entre as línguas africanase o português, comparando, a seguir, as vertentes africanas ebrasileiras da língua e levantando as evidências que comprovama consistência de sua hipótese.O artigo “Agruras da ficção contemporânea”, de SílviaRegina Pinto, focaliza a literatura produzida no Brasil em suainterface com o mundo de hoje, marcado por uma transformaçãoradical em que afloram crises talvez sem precedentes, revelandoque ela demonstra e questiona a mudança profunda que vemocorrendo em todas as áreas de atividade, em especial a cultura,a estética, os valores éticos, as noções de tempo e espaço e asfronteiras entre o público e o privado. O ensaio procura mostrarcomo a ficção contemporânea vem tematizando e discutindo suaprópria estranheza, tentando uma articulação entre linguageme realidade, no esforço incansável para um confronto do eu como outro que, muitas vezes, é ele mesmo, e deixando claro que aficção se torna necessária até para que o real exista. Equipado deinstrumental teórico que lhe permite ampla reflexão, este ensaiooferece uma possibilidade fundamental de pensar o Brasil dehoje em sua literatura e através dela.Em “Narrar é resistir?” Denise Brasil Alvarenga Aguiartambém focaliza a ficção contemporânea, em especial o cotejoentre O quieto animal da esquina, de João Gilberto Noll, e A vida ea época de Michael K., de J. M. Coetzee. Seu objetivo é compreen-der as transformações da literatura no contexto das alterações
  11. 11. 11Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008sociais e culturais que marcam os tempos da chamada pós-modernidade. Identificando importante vertente literária detematização do sufocamento da subjetividade no cenário hostilda exclusão social, a autora compara a rarefação da subjetividadenos personagens de Noll e a transformação do rarefeito em umapassagem para uma outra forma de alteridade, no magníficopersonagem de Coetzee, Michael K., que também poderia seraproximado de Fabiano (o protagonista de Vidas secas, de Graci-liano Ramos) e de Macabéa (a protagonista de A hora da estrela, deClarice Lispector), na cena da carência que, surpreendentemente,faz com que o Michael K transcenda o nada a que a sociedadeo havia destinado, desencadeando, com força crítica, o exame,pelo leitor, desse terrível impedimento.Com Os velhos ‘marionetes’: Quincas Berro D’Água, ver-sões e construção de identidade”, Lucia Bettencourt descortinauma perspectiva original para focalizar um autor que já recebeumuitas e variadas exegeses e que faz parte de nosso patrimônionão só literário, mas também antropológico: Jorge Amado. Foca-lizando os personagens do autor a partir de suas ligações com adramaturgia popular e a tradição européia da comedia dell’arte,revela como sua ficção se mescla à arte popular regional, de forteinfluência africana. Com isso, abre um diálogo entre o ato nar-rativo e seu aspecto dramático, subvertendo a concepção usualdo protagonista Quincas, que adquire, assim, uma outra formade expressividade, através da manifestação popular.O texto “Quando o preconceito se faz silêncio: relações so-ciais na literatura brasileira”, de Regina Dalcastagnè, destaca, deuma profunda e extensa pesquisa que a autora vem realizandosob a chancela do CNPq, as personagens negras, francamenteminoritárias na ficção brasileira contemporânea. O artigo analisaalgumas exceções a esta regra, identificando diferentes modosde representação literária das relações raciais em uma sociedademarcada (embora pareça estar convencida do contrário) peladiscriminação. Com acurada atenção ao detalhe, mas sem perdero alcance do geral, o texto de Dalcastagnè ultrapassa, e muito,o que se produziu entre nós sobre o assunto, até o momento. Oexame dessas personagens negras talvez ajude os leitores (namaioria brancos) a entender melhor o que é ser negro no Brasil– e o que significa ser branco em uma sociedade racista.Com “Uma conversa entre macacos: percalços do diálogoafricano com o outro”, Lucia Helena focaliza uma delicada ecomplexa rede textual, formada pelo diálogo sutil implantadopor J. M. Coetzee entre seus dois romances A vida dos animaise Elizabeth Costello e o conto de Kafka, “Um relatório para umaacademia”. Ao manter enlaçadas, com pistas que oscilam nafronteira entre o falso e o verdadeiro, as marcas da autoria,da autobiografia e da ficção, do ensaio e da vida, o intertextorealizado por Coetzee revela-se uma irônica e produtiva forma
  12. 12. 12 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008de buscar compreender, discutir e criticar as transformaçõesda subjetividade na sociedade contemporânea, em um mundoglobalizado. Em diálogo com a violência do mundo, a literaturade Coetzee também homenageia a de Kafka, outro invulgarpensador do desastre.Fecha o volume a transcrição de uma entrevista inédita,feita por Maurício de Bragança, em 2005, com o escritor angolanoJosé Eduardo Agualusa, intitulada “O peixe e o macaco: emble-mas do subdesenvolvimento numa entrevista com José EduardoAgualusa sobre Brasil e Angola”. Nesta entrevista, seu autor, naintrodução que faz, estabelece os pontos em comum nos proces-sos da formação histórica do Brasil e de Angola, tomando comofato a colonização portuguesa e situando o contexto temporalde sua entrevista e o local – Vila do João, no Rio de Janeiro – emque faz um vídeodocumentário sobre os angolanos residentes noBrasil. A entrevista do escritor Agualusa fará parte do referidovídeo, em fase de montagem final.Laura Padilha eLucia Helena
  13. 13. Gragoatá Niterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008O começo do fimSilviano SantiagoRecebido 15 mai. 2008 / Aprovado 27 mai. 2008ResumoO propósito de “O começo do fim” é o de apre-sentar uma nova e suplementar interpretação doconceito-chave do movimento Modernista – aantropofagia de Oswald de Andrade. Duranteoito décadas o conceito foi responsável por umarica e precisa bibliografia, em que se salientaramos aspectos ressentidos e beligerantes das culturascolonizadas em relação aos colonizadores. Essainterpretação, apesar de correta do ponto de vistasocial e político, negligencia as qualidades básicasdo trabalho de arte escrito nas margens da culturaOcidental, em particular as relacionadas ao fatoque ele deveria despertar no leitor a premênciadum pensamento utópico, em que a paz, a espe-rança e a alegria se tornariam os valores.Palavras-chave: Literatura brasileira. Van-guarda. Modernismo. Antropofagia. Pensamentoutópico.
  14. 14. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200814“Os mais bem sucedidos movimentos políticossão os que parecem não ser ‘políticos’”(Felix González-Torres, 1957-1996)Marik o Mori, Beginning of the End, Gizah, Egito, 2000No ano em que a Antropofagia oswaldiana celebra seuoctogésimo aniversário, torna-se indispensável repensá-la naperspectiva de uma nova interpretação. Sucessivas gerações deartistas, críticos e pesquisadores brasileiros e estrangeiros sobre-puseram uma formidável tradição hermenêutica ao conceito-cha-ve da vanguarda brasileira dos anos 1920. Ano após ano, décadaapós década, essa tradição se transformou numa muralha. Paraescalá-la o neófito tem de contar com o concurso dos milharesde sólidos e bons recursos oferecidos pela bibliografia de res-ponsabilidade dos artistas e dos intérpretes. Qualquer que seja atrilha eleita para a escalada da muralha antropofágica, revisitarou visitar o conceito significa fazer grandes caminhadas preli-minares por detrás do muro das interpretações canônicas e, semmaiores ambições, terminar por repetir o já escrito e assentado.Como nos adverte Eugène Ionesco na Cantora careca, “Tomai umcírculo, acariciai-o bastante, e ele se tornará vicioso”.Indispensável à escalada atual da viciosa teoria antropo-fágica, a planta baixa da muralha regulamenta medidas críticascontraproducentes à análise e compreensão das manifestaçõesartísticas contemporâneas, em particular das que reivindicamo calor utópico e o direito à esperança e à alegria, que – afirme-se
  15. 15. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 15desde já − não estão ausentes do programa teórico oswaldianoem sua totalidade. Se a planta baixa canônica for tomada comoperspectiva única e correta, algo nela não permitirá que seenxerguem − com proveito analítico − as qualidades e os sinto-mas evidentes da arte no terceiro milênio. Aprendamos com oaforismo do Manifesto Pau-Brasil: “Ver com olhos livres [o grifo édo próprio OA]”.A leitura dos últimos e influentes trabalhos críticos sobre otema por excelência da vanguarda histórica brasileira despertaconstantemente − na sensibilidade rebelde do leitor jovem − ogosto de bolo ressequido ou de café requentado. Em suas novaspesquisas, os grandes especialistas se interessam menos pelossucessivos constrangimentos prescritos e impostos pela tradi-ção hermenêutica ao conceito. Interessam-se mais em alardearas respectivas erudições individuais ou do grupo de pesquisa,ampliando ao infinito apenas o repertório das obras que podemser mais bem analisadas a partir da Antropofagia tal como aconceberam. Interessam-se, ainda, pela abertura de novas e pre-visíveis fronteiras geográficas não-ocidentais, e finalmente pelojá decantado exercício das inversões ideológicas nos sedimentosestratificados pelo poder das culturas hegemônicas – ex-coloni-zadoras ou neocolonizadoras e, por isso, ditas universais − sobreas demais culturas das nações ou dos povos das margens.Em resumo, tanto nos novos ensaios sobre a Antropofagiaquanto nos acréscimos feitos ao corpus original levantado pelateoria oswaldiana, a originalidade de um novo exemplo tornou-seo principal dado imprevisto no octogenário desenho da plantabaixa exegética. A teoria se alçou e se petrificou em muralha,enquanto o corpus analisado ganhou o estatuto de obesidademórbida.Em momento preciso do final do século 20, a Antropofagiarecebeu contribuição alvissareira na pesquisa propriamenteteórica. Ela anunciava o casamento do conceito da vanguardahistórica brasileira com figuras da teoria pós-estruturalista.Refiro-me aos conceitos de renversement (reversão [do platonismo],Gilles Deleuze) e de décentrement e de déconstruction (descentra-mento e desconstrução [da metafísica ocidental], Jacques Derrida).Hoje, os felizes e tardios casamentos teóricos − sacramentadossob o céu de Paris − se encontram bem assimilados pelos gourmetseuropeizados do circuito e do círculo antropófago. Na busca deuma palavra exegética que consagre o octogésimo aniversário,não há que voltar a elas.Não duvidemos por um segundo sequer de que o conceitooswaldiano e a tradição crítica dele derivada não tenham sido, noséculo 20, uma conquista admirável para a boa leitura da litera-tura e da arte não-européias, ditas periféricas ou emergentes. Oconceito e a correspondente tradição exegética (a muralha a quenos referíamos no parágrafo inicial) se tornaram também indis-
  16. 16. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200816pensáveis para a discussão justa e equilibrada do imaginárioestético e sócio-político dos artistas e dos escritores pertencentesàs antigas colônias européias no Novo Mundo.No terceiro milênio, quando se salientam as teorias pós-colonialistas − multiculturalistas − nos próprios países coloniza-dores de além Mancha, de que é exemplo a obra de Stuart Hall,ou de além Atlântico, de que é exemplo o Museu do Quai deBranly; em Paris, no novo milênio, quando as nações da África,do Oriente Médio e da Ásia reclamam um lugar ao sol no mun-do ocidental para suas audaciosas, destemperadas e resistentesmanifestações culturais, é impensável que o cidadão das mar-gens – seja o artista, seja o pensador – possa dispensar sem maisnem menos as idéias revolucionárias apresentadas por Oswaldde Andrade em 1928, cujo equivalente na pesquisa científica foiLa religion des tupinamba et ses rapports avec celle des autres tribusTupi-Guarani (em particular o capítulo IX), publicado naquelemesmo ano por Alfred Métraux, etnólogo de origem suíça. Ou-tro franco-suíço, o poeta Blaise Cendrars, foi também convivade primeira hora no banquete antropófago, como atestam osensaios de A aventura brasileira de Blaise Cendrars, de AlexandreEulálio (hoje em segunda edição, graças ao concurso de CarlosAugusto Kalil).Retirar a Antropofagia, a alta Antropofagia − precisemos − 1de detrás da muralha levantada pela hermenêutica canônica sig-nifica entregar-se a atividade sócio-política extremamente arris-cada, em particular neste exato momento da história planetária.Na cena mundial, dá-se continuidade à tragédia dos conflitosbélicos sangrentos, impostos pelos atores sociais de nações donorte aos atores sociais das nações do sul, representantes, res-pectivamente, do Ocidente e do Oriente, do cristianismo e doislamismo, do status quo e do chamado terrorismo. Infelizmente,o terceiro milênio se define, para retomar a chave-mestra de Sa-muel Huntington, pelo choque das civilizações. Na primeira décadado novo século, os movimentos diaspóricos de ex-colonos para ospaíses colonizadores do Primeiro Mundo ganham as manchetesdos principais jornais europeus e norte-americanos, e freqüen-tam com assiduidade a agenda política dos governantes, hajavista a situação em nada particular dos hispano-americanos ebrasileiros na Península Ibérica.2Se a tarefa a ser enfrentada pelocrítico de arte contemporâneo exige o risco político, arrisco-me,e não me deixo contaminar pela atualidade que a cada novo diao imperioso governo federal norte-americano inventa e semeiano Oriente Médio para melhor controlá-lo com fins em nadapacíficos.Em termos ainda abstratos, derivados da ancoragem dostextos de Oswald de Andrade na utopia, na esperança e na alegriapresentes no múltiplo programa teórico, proponho aos ouvintese futuros leitores considerar a Antropofagia de maneira su-1A não ser confundida– alerta-nos Oswald deAndrade – com “a baixa[grifo nosso] antropo-fagia aglomerada nospecados de catecismo – ainveja,ausura,acalúnia,o assassinato. Peste doschamados povos cultose cristianizados”. O au-tor conclui: “É contra elaque estamos agindo”.Anotemos rapidamenteque as duas formas deantropofagia não se con-fundem com o sentidoestrito do ritual canibaldos Tupinambás.2Neste mês de maiode 2008, maior tristezaé constatada na Áfricado Sul, onde imigrantesdospaíseslimítrofes,emparticular os moçambi-canos, são perseguidose dezenas assassinadospelos companheirosde pan-africanismo. Aintolerância e a xenofo-bia não existem apenasnos países do PrimeiroMundo.
  17. 17. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 17plementar e de nova perspectiva. Enuncio minha proposta. Ademanda dos artistas e pensadores não-europeus e a aspiraçãoprofunda da produção artística das margens sobrevivem graçasà deglutição por qualquer cidadão da memória universal da culturae das artes, sem distinções ou balizas históricas e geográficas.Antes de prosseguir, busco o indispensável alicerce num afo-rismo do Manifesto Antropófago: “Contra as histórias do homemque começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Nãorubricado. Sem Napoleão. Sem César”.Se lhes parecer verdadeira a leitura não-hierárquica, pa-cifista e transcendental para a teoria antropofágica – inspirada,repito, no aforismo oswaldiano citado −, reganho força e lucidezcom o apoio do antigo filme documentário de Alain Resnaissobre a Biblioteca Nacional francesa, intitulado Toute la mémoiredu monde (1956). Escutemos a voz do narrador do filme: “Aqui[na Biblioteca Nacional] se prefigura um tempo em que todosos enigmas serão resolvidos, um tempo em que as chaves nosserão concedidas por esse universo e alguns outros. E isso sim-plesmente acontecerá porque os leitores, sentados diante de suaparcela de memória universal, terão colado pedaço por pedaçoos fragmentos de um mesmo segredo, que talvez ganhe umbelíssimo nome – a felicidade [le bonheur]”. E graças ao segredode nome felicidade, começo a palmilhar novo caminho, agoracom a ajuda de palavras tomadas de empréstimo ao conto “Abiblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges: “Quando se proclamouque a biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressãofoi de extravagante felicidade. [...] O universo estava justificado,o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas daesperança”. E ficaria felicíssimo se, ao final desta exposição, cadaum dos presentes pudesse por contra própria repetir a frase finaldo conto de Borges: “Minha solidão alegra-se com essa eleganteesperança”.Acrescente-se que a atividade antropofágica propostanão se quer milagrosa em si, mesmo se busca adotar – dessaperspectiva inusitada para a hoje canônica exegese da teoria – orosto utópico da esperança e da felicidade. Esse rosto, aliás, já seespelhava na letra do manifesto original, datado de 1928. Trans-posta a muralha hermenêutica, talvez a nota hoje dissonantede esperança e o calor utópico da felicidade passem a compor adisposição mais justa da Antropofagia nos dias atuais. É precisonunca esquecer que em 1945, por ocasião do fim da SegundaGuerra Mundial e depois da queda da ditadura Vargas, Oswaldde Andrade tinha submetido ao plenário do Primeiro Congres-so de Filosofia um longo ensaio intitulado A marcha das utopias.A espinha dorsal da argumentação continuava a ser a culturamatriarcal dos índios Tupinambás, presente nos manifestosdos anos 1920. Tampouco não se pense que a Antropofagia talcomo a estou caracterizando contribua para uma visão otimista
  18. 18. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200818do mundo atual, ainda que, em virtude de seu enraizamentooriginal na religião dos primeiros habitantes do Brasil, o lanceutópico, esperançoso e feliz, tome de empréstimo dos rituais daspopulações primitivas gestos alucinatórios e redentores.Se houver otimismo na teoria antropofágica, ele é em tudopor tudo semelhante ao par de calças, de que nos fala SamuelBeckett em preciosa e célebre anedota. Diante da reclamação doFreguês − “Deus fez o mundo em seis dias, e o senhor não con-seguiu me costurar essa merda de calças em seis meses”, reage oAlfaiate, orgulhoso de sua obra-prima: “Mas, meu senhor, olheo mundo, e olhe suas calças”.Em última instância e do ponto de vista restrito do artistanão-europeu, a Antropofagia leva o escritor – o escritor brasilei-ro, no presente caso – a desenvolver o gosto pelo lento e pacientetrabalho de arte. Sejamos mais precisos. Ela exige do artista, cujatradição cultural se encontra em princípio desapossada do idealde universalidade criado pela tradição ocidental, o gosto pelotrabalho artístico que não é desassociado do trabalho crítico,também de responsabilidade do próprio criador. Dessa pers-pectiva, soa falso todo esforço por criar oposição/contradiçãoentre a escrita dita artística e a escrita dita crítica. Não há fissãoe incompatibilidade entre elas. Ao se confundirem num escritor,criação e crítica se fundem e se confundem – são cofundadorasda literatura. Lembre-se de passagem do volume Variété I. PaulValéry escreve que Charles Baudelaire é o poeta “que traz umcrítico em si, intimamente associado por ele a suas própriascomposições poéticas”. Baudelaire se torna figura emblemáticados escritores para quem – continua Valéry – “a composição,que é artifício, sucede a algum caos primitivo de intuições e dedesenvolvimentos naturais”.A composição − de que fala Valéry nessa passagem sobreo poeta francês oitocentista e sobre outros escritores, como LaFontaine e Racine − decodifica a metáfora das calças, de que falao Alfaiate frente ao porta-voz de Deus na terra, que é o apressadoe abusado Freguês. A composição, ou seja, o lento trabalho dearte embutido no texto poético e, metaforicamente, nas calçasbeckettianas, faculta ao ser humano a possibilidade de competirem igualdade de condições com Deus e o acaso na criação douniverso, na criação dum universo alternativo, artístico, espe-rançoso e feliz. Depois das dores do parto, nada como o tempodo resguardo. Em termos oswaldianos: “o trabalho humanoconduz ao ócio”. Em termos nietzchianos, “as ‘dores do parto’são indispensáveis à alegria eterna da criação, à eterna afirmaçãoda vontade de vida”.3Como diz o texto santo: “Deus abençoouo sétimo dia e o santificou, porque neste dia Deus descansoude toda a obra de criação”. Também o alfaiate tem sua semanainglesa.3Complemente-se comeste aforismo de O cre-púsculo dos deuses: “Oartista trágico não é umpessimista, diz o seusim a tudo o que é pro-blemático e terrível, édionisíaco [...]”.
  19. 19. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 19Na cena artística brasileira dos anos 1920, a Antropofagiaoswaldiana respirava o ar clássico e puro da teoria poética dePaul Valéry, ao mesmo tempo em que, em evidente movimentode contradição, acolhia e aclimatava a presença estética e sócio-política dos principais movimentos de vanguarda europeus − oautoritário Futurismo, de Filippo Tommaso Marinetti, e o anár-quico Dada, de Tristan Tzara. Em comum, (repito) a deglutição.No interior da vanguarda histórica brasileira, outra e conseqüen-te contradição terá seu clímax dois anos depois da realização daSemana de Arte Moderna. Em 1924, o poeta franco-suíço BlaiseCendrars é recebido pela família Paulo Prado e viaja, juntamentecom os jovens artistas paulistas, às cidades históricas de MinasGerais. Durante a primeira estada de Cendrars no Brasil, é quese acelera paradoxalmente o processo de abrasileiramento do eu-ropeizado movimento de vanguarda nos trópicos.Sobre os caminhos diferenciados que se cruzam na for-mação do modernismo, Brito Broca, um dos mais importanteshistoriadores da literatura brasileira, assinala: “Antes de tudo,o que merece reparo nessa viagem [a Minas] é a atitude para-doxal dos viajantes. São todos modernistas, homens do futuro.E a um poeta de vanguarda que nos visita, escandalizando osespíritos conformistas, o que vão eles mostrar? As velhas cidadesde Minas, com suas igrejas do século 18, onde tudo é evocaçãodo passado e, em última análise, tudo sugere ruínas. Pareceriaum contra-senso apenas aparente. Havia uma lógica interiorno caso. O divórcio [grifo meu] em que a maior parte dos nossosescritores sempre viveu da realidade brasileira fazia com que apaisagem de Minas barroca surgisse aos olhos dos modernis-tas como qualquer coisa de novo e original, dentro, portanto,do quadro de novidade e originalidade que eles procuravam”.Retomo os primeiros parágrafos desta fala para reafirmar queo sucesso de certa Antropofagia e da tradição hermenêuticacanônica tem suas raízes revolucionárias e belicosas na viagemde Blaise Cendrars às cidades históricas, ou seja, no divórcioentre intelectuais e a história nacional e no paradoxo ocasionadopela irrupção da tradição brasileira na já adolescente importaçãoeuropéia. Numa palavra, a Antropofagia bélica e ressentida temfundamento no imperativo categórico do abrasileiramento daarte de vanguarda.Num único salto, solitário e contraditório,4o complexo con-glomerado teórico, que compõe originalmente a Antropofagia,se comporta como o sinal preparatório a indicar a supremaciado construtivismo nas manifestações artísticas modernistas epós-modernistas. Os exemplos mais bem realizados, e radicais,serão encontrados a partir dos anos 1940 e 1950. Em literatura,a poesia de João Cabral de Melo Neto e os poemas visuais dospoetas concretos, e, em artes plásticas, as Bienais de Arte deSão Paulo.5Para julgar sobre a importância da contribuição4É bom lembrar estacurta passagem do Ma-nifeste Dada 1918: “Eu re-dijo esse manifesto paramostrar que é possívelfazer simultaneamenteações opostas, numaúnica fresca respiração;sou contra a ação; pelacontínua contradição,pela afirmação também,eu não sou nem paranem contra e não explicopor que odeio o bom-senso”. Pensemos aindana máxima de AndréGide, muito ao gostodos autores e críticosbrasileiros modernistas:“Sou um ser em diálogo;tudo em mim combate ese contradiz”.5Na França e no domí-nio das artes plásticas,o peso do construtivis-mo hispano-americanopode ser bem aquila-tado pela história daGalerie Denise Renée,situada não por coin-cidência no BoulevardSaint-Germain, quaseem frente da Maisonde l’Amérique Latine. Ointeresse praticamentenulo da galeria pelostrabalhos de Lygia Clarke Hélio Oiticica será emgrande parte responsá-vel por uma insuportá-vel lacuna brasileira doconstrutivismo brasilei-ro na cartografia pari-siense. Ver, por exemplo,as cartas trocadas entreLygia e Hélio duranteos anos de 1969/1970e a grande exposição“Helio Oiticica: the bodyof colour”, inauguradano ano passado na TateModern, em Londres.6A conferência foi publi-cada na Revista Brasileirade Poesia, no mês de abrilde 1956, e transcrita naantologia VanguardaEuropéia e ModernismoBrasileiro, organizadapor Gilberto MendonçaTelles. O leitor curiosoterá o maior interesseem consultar um anti-go e hoje desaparecidolivro de Jean Hytier, Lapoétique de Valéry (1953),em particular o capítuloV: “Inspiration et tra-vail”. Ali se encontramexcelentes exemplos de“deglutição” antropofá-gica em... Paul Valéry.
  20. 20. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200820teórica de Paul Valéry na concepção do lirismo construtivistadesenvolvido por João Cabral, basta ler a conferência “Poesia ecomposição – a inspiração e o trabalho de arte”, proferida pelopoeta pernambucano em 1952.6Desta forma é que João Cabral explica a atitude dos es-critores que decidiram a favor de uma escrita artística que seapóia na pesquisa – e não na inspiração: “Nos poetas daquelafamília, para quem a composição é procura, existe como que opudor de se referir aos momentos em que, diante do papel embranco, exercitam sua força. Porque eles sabem de que é feitaessa força – é feita de mil fracassos, de truques de que ninguémdeve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, deaceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e derenúncia ao que, de partida, se desejou conseguir”.Sérgio Buarque de Holanda foi o primeiro crítico sensívelà aliança entre a estética e a ética, tal como proposta em línguaportuguesa pelo lirismo construtivista de João Cabral. Em artigosobre o poeta, intitulado “Branco sobre branco”,7sem dúvidahomenagem indireta ao célebre quadro de Kazimir Malevitch,Sérgio retoma a oposição entre o “desleixo”, característica prin-cipal da colonização portuguesa nos trópicos, e o “zelo”, marcapreponderante da colonização espanhola no Novo Mundo. Aoposição fora articulada pela primeira vez em 1936 no ensaioRaízes do Brasil, hoje um clássico.8Ele a retoma em 1952 parainsistir sobre o mal-estar que sente diante da opção inesperadae sistemática dum brasileiro pelo zelo na composição de seuspoemas. Julgara-o equivocadamente um equivocado.Ao relatar o percurso de sua dúvida inicial sobre o valorda produção poética de Cabral e o reconhecimento tardio desua alta qualidade, Sérgio demonstra como a opção radical dopernambucano pelo zelo lhe parecera eleição de uma lingua-gem poética artificial, o que comprometia a inserção natural dospoemas na tradição lírica luso-brasileira. Passemos a palavraao próprio Sérgio: “confesso envergonhado que meus primeiroscontatos com sua obra e, depois, o crescente interesse que elapôde inspirar-me, nem sempre me deixaram totalmente livre dehesitações ou suspeitas. Pareceu-me quase incrível, por vezes,que essa consciência constantemente alerta e ativa, esse zelo, aomesmo tempo vigilante e criador [...], tão estranho aos mais inveteradoscostumes da lírica luso-brasileira, chegassem a existir, entre nós,sem fundar-se por vezes em algum malicioso artifício”.9(grifosnossos)Ao ler o opúsculo de Cabral sobre o pintor catalão JoanMiro (1952), Sérgio descobre tardiamente que o zelo cabralinoé a pedra de toque de que deve servir-se o crítico para avaliara originalidade de sua composição poética no interior da líri-ca luso-brasileira. Lê-se na já citada resenha: “O que pareciatraduzir-se naquele zelo sempre atento não era apenas uma7Aresenhafoipublicadaem jornal em 1952 e in-cluída em Cobra de vidro(São Paulo: Perspectiva,1978, p. 167-180)8Para maiores detalhes,consulte-se o sétimocapítulo de As raízes eo labirinto da AméricaLatina (Rio de Janeiro:Rocco, 2006), de minhaautoria.9Lembre-se que esta-mos sempre no mesmocircuito semântico. ParaValéry, como vimos, acomposição é “artifício”.Pode-se dizer que faltoua Sérgio, na primeiraabordagem de Cabral,o reconhecimento doartifício (ou seja, dacomposição artística)como tal.
  21. 21. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 21poética, na acepção mais corrente e usual do vocábulo: era mais,e principalmente, uma espécie de norma de ação e de vida. Aestética, em outras palavras, assentava sobre uma ética”.Em João Cabral, como em outros escritores que o precedeme o sucedem, o exercício da arte se confunde com uma normade ação e de vida estóicas, cujo norte é determinado por umaatividade social de produção. Ao trazer para a discussão daAntropofagia o construtivismo, cria-se outro e novo paradoxo,cujo poder de repercussão chega a nossos dias. Sérgio Buarquenão deixa de assinalá-lo na abertura de sua resenha: “Não hágrande paradoxo em dizer que na obra tão breve e tão volunta-riamente impessoal de João Cabral de Melo Neto o autor parecepresente de corpo inteiro”. Graças ao esforço de composição, queé artifício, o poeta se apresenta de corpo inteiro num poemaabsolutamente impessoal. O par de calças só pode ser o confec-cionado por aquele alfaiate e por nenhum outro, para retomara anedota de Beckett.Em sua aliança com o construtivismo e na qualidade deinstrumento de busca da verdade poética, a teoria antropofágicatorna-se ferramenta poderosa. Por estar assentada em sólida pla-taforma ética, serve para questionar radicalmente as miudezasda história contemporânea e, mais, põe em questão as teoriasde composição poética defendidas pelas estéticas românticas eneo-românticas, de que o surrealismo é o exemplo mais notávelna época em que Oswald lança os manifestos literários. Essasestéticas estão centradas na expressão imperiosa da subjetivi-dade plena, que age em sujeição a − e em concordância com −uma espécie de transe onírico ou alucinógeno. Em oposição aotrabalho de arte, afirma-se a toda poderosa inspiração.Em contraponto à tomada de posição de João Cabral sobre oartifício poético e ao assentado criticamente por Sérgio Buarqueem relação à aliança entre estética e ética, leiamos uma curtapassagem de L’amour fou, de André Breton. O poeta surrealistalamenta os retoques que ele – primeiro leitor de si mesmo − foilevado a fazer no poema “Tournesol” (Girassol): “Parece-mefora de dúvida haver retocado uma duas ou três coisas, na ver-são original [do poema], no intuito – tão lamentável afinal – deobter um todo mais homogêneo, de limitar o grau de imediataopacidade, de arbitrariedade aparente, que me pareceu existirno poema da primeira vez que o li”. Primeiro, informa que aprimeira leitura da versão original do poema o levou a correçõesditadas pela autocrítica, para linhas abaixo, afirmar que as la-mentava: “A atividade crítica que, a posteriori, me veio a sugerircertas adições ou substituições de palavras [no poema], leva-me aencarar agora essas correções como erros básicos: nada auxiliamo leitor, antes pelo contrário, só conseguem de uma maneira oude outra prejudicar gravemente a autenticidade do poema”.10Segundo Breton, o trabalho de arte prejudica a autenticidade do10Salto uma curta pas-sagem entre as duascitações acima. Nelaestá em jogo o papel dainspiração – e não dotrabalho de arte – nacomposição do poema“Tournesol”.
  22. 22. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200822poema, sua verdade imediata. Ele não quer carregar consigo ocrítico de si mesmo.Retomemos, onde a tínhamos deixado, a questão da me-mória cultural comum a todos os homens. Em mãos de AlainResnais e Jorge Luis Borges. De maneira premonitória lemosno conto “A biblioteca de Babel” que “a certeza de que tudo estáescrito nos anula ou nos fantasmagoriza”. O que está por detrásdo dia de hoje – dito o passado, é já o presente que se impacientadiante da demora do futuro. O que está adiante do dia de hoje– dito o futuro, é sempre já a gestação do presente, pressurosaem dar à luz o que está por detrás do dia de hoje. Segundo oManifesto Antropófago, o solo comum a toda a humanidadefutura é o “matriarcado de Pindorama”. O matriarcado é facade dois gumes − “devora” e “comunga”. Escreve Oswald emensaio datado de 1950: “[A cultura matriarcal] compreende avida como devoração e a simboliza no rito antropófago, que écomunhão”.Na alta Antropofagia, de que Oswald de Andrade quer serporta-voz, o ato de devorar adquire as qualidades estratégicasdo ritual católico, em que o consumo do alimento sacrificialpelo cliente não distingue o real do imaginário, ou seja, o trigodo corpo e o vinho do sangue. Em resumo, a devoração é co-munhão. A gulodice da alta Antropofagia se situa entre os doisexcessos da razão, de que fala Pascal nas Pensées (IV): “excluir arazão, só admitir a razão”.11Por esse viés inesperado e excessivo,retorna o tema por excelência desse relato: “Faça isso em minhamemória”.Ou, então, retomemos os versos iniciais e os finais do poe-ma “Burnt Norton”, em Quatro quartetos, de T. S. Eliot, na traduçãode Ivan Junqueira. Eis os versos iniciais do poema: “O tempopresente e o tempo passado / Estão ambos talvez presentes notempo futuro / E o tempo futuro contido no tempo passado. /Se todo tempo é eternamente presente / Todo tempo é irredimí-vel”. Saltemos agora para os versos finais do poema: “O tempopassado e o tempo futuro, / O que poderia ter sido e o que foi,/ Convergem para um só fim, que é sempre presente”.Para bem apreender a riqueza da contribuição antropo-fágica à arte e à literatura brasileiras e à arte e à literatura emgeral, é preciso negociar com os críticos que defendem o sentidobiográfico-evolutivo das histórias pessoais de vida, o sentidoúnico da História e o peso da economia na avaliação da produçãoartística do ser humano. Como resultado da negociação, uma de-dução (no sentido financeiro do termo) será concedida ao artista,cujo custo benefício será a possibilidade de futuro esperançoso efeliz para a humanidade. A thing of beauty is a joy forever. A deduçãoé o sentido e o poder da arte e da literatura das margens, da artee da literatura como tais – na condição de composição artística,para retomar a expressão da poética de Valéry, ou em termos de11Há sem dúvida umcatolicismo recalcadona teoria antropofágicaque se torna explícito nomomento em que estáem jogo o ato de devo-rar como comunhão. Avisão mais fascinanteda questão devoração/comunhão é, na verda-de, a versão calvinista,a ser considerada comodesconstrucionista. Àépoca da luta entre eu-ropeus e indígenas comvistas à catequese, elase encontra no sextocapítulo de Voyage à laterre du Brésil, de Jeande Léry. A luta espiri-tual entre Villegagnone Jean de Cointe ganhapeso no fato de que nãohá transubstanciaçãoou consubstanciaçãodo corpo e do sanguede Cristo.
  23. 23. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 23par de calças, para retomar a metáfora do Alfaiate na anedota deBeckett. O valor da dedução concedida pelos cientistas sociais eos economistas aos mercadores de arte é a sabedoria humana. Àsemelhança da antropofagia descrita por Alfred Métraux em seulivro pioneiro, que se elabora como conhecimento dito científico[knowledge], a Antropofagia oswaldiana se agiganta por ter comoescatologia a sabedoria dita poética [wisdom].Ao se afirmar a favor da expressão impessoal, descaracteri-zando a expressão subjetiva do poeta, e ao se deixar representarteoricamente como semelhante à casquette de Charles Baudelaire,cuja fabricação era compósita, a Antropofagia é antípoda da me-mória involuntária de Marcel Proust. Ela se confunde, portanto,com a memória voluntária, segundo a definição que dela nos foidada por Samuel Beckett em 1931, no ensaio pioneiro sobre oautor de Em busca do tempo perdido. Em inusitada correspondên-cia com o futuro Borges, autor do conto “Funes, o memorioso”(1944), Beckett afirma inicialmente: “O homem de boa memórianunca se lembra de nada, porque nunca se esquece de nada”.12Em oposição à memória involuntária, a memória voluntária –rebaixada por Beckett na escala dos valores proustianos comoa má memória – é necessariamente incompleta. Nesse sentido,ela é orgânica e não o é. É interior e não o é. É exterior e não oé. É involuntária e não o é. Em resumo, ela transita e, por isso,é anfíbia.A memória voluntária é memória e, ao mesmo tempo,hábito, para retomar outra categoria analítica de Beckett. Elaé hábito adquirido pelo ofício de viver e pelo ofício de ler. Emsuma, uma sabedoria – uma experiência de vida que se soma auma pesquisa livresca; é aprendizado. Segundo as palavras semdúvida irônicas de Beckett, ela é “a memória que não é memória,mas simples consulta ao índice remissivo do Velho Testamentodo indivíduo [...] É a memória uniforme da inteligência”. Portanto,a memória voluntária não se relaciona em coisa alguma com aboa memória, ou seja, a memória involuntária proustiana.A memória voluntária – a má memória, insisto, bem comoa Antropofagia – é conseqüência do pensamento da diferença,mas ela só existe plenamente para negar os valores subjetivose supremos, que estão na origem da sua desclassificação porMarcel Proust. Se a reversão dos valores – na leitura de Beckett, omau da memória está sempre em posição inferior −, se a reversãodos valores não foi necessária no período histórico das vanguar-das, ela está sendo requisitada na contemporaneidade. AndréasHuyssen, historiador de arte, situa o pós-modernismo depois degrande divisão (“after the great divide”). Huyssen assim define aexpressão: “O que chamo de a Grande Divisão é o gênero de dis-curso que insiste na distinção categórica entre arte erudita [highart] e a cultura das massas”. Acrescenta: “[...] o pós-modernismorepudia as teorias e as práticas da Grande Divisão”. Em oposição12Entre outras, leiamosesta passagem de “Fu-nes, o memorioso”: “Nãosó lhe custava compre-ender que o símbologenérico cão abranges-se tantos indivíduosdíspares de diversostamanhos e diversa for-ma; aborrecia-o que ocão das três e catorze(visto de perfil) tivesseo mesmo nome que ocão das três e quarto(visto de frente). Seupróprio rosto no espe-lho, suas próprias mãos,surpreendiam-no todasas vezes”.
  24. 24. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200824às leituras equivocadas da vanguarda histórica, que insistiamno fato de que era indispensável excluir as manifestações detodas as formas de cultura de massa, o historiador nomeia demaneira incontestável o principal responsável pela GrandeDivisão, o alto modernismo [the high Modernism]. Ele se explica:“as vanguardas históricas tinham por fim o desenvolvimentoduma relação alternativa entre a arte erudita e as culturas dasmassas e dessa forma deveriam continuar a existir dentro doalto modernismo, que, no entanto, insistia majoritariamente nahostilidade inata entre o alto e o baixo”.13Nem alta cultura nemcultura de massa, a Antropofagia – ou a má memória – apontapara as duas, ao mesmo tempo.Retornemos a Beckett e a Proust para concluir com a ajudado primeiro: “Democrata incondicional, [a memória voluntária]não faz qualquer distinção entre os Pensamentos de Pascal e umapropaganda de sabão”. A Antropofagia está no nascedouro daprodução artística que se afirma como negação das estéticas doalto modernismo, que lutavam a favor da exclusão da culturadas massas do reino das artes. A Antropofagia se apresenta aosolhos pós-modernos como a negação das estéticas românticas,fundadas na sinceridade do eu.Durante o período áureo da vanguarda brasileira, a An-tropofagia buscava, por um lado, apreender e avaliar para oartista e o pensador não-europeus o peso da herança culturaluniversal e, por outro lado, identificar as razões pelas quais osindígenas – que são nossos antepassados dum ponto de vistaexclusivamente geográfico – não tinham conseguido ter acessoao capital cultural consensual, indispensável à produção de obraartística ou reflexiva com peso universal. Mais importante do quea constatação da inferioridade do colono em relação à empresacolonizadora européia e a conseqüente rejeição das injustiçasestabelecidas pelo poder tirânico das metrópoles, a Antropofa-gia se apresenta como estratégia artística e reflexiva que visa aapreender o valor universal para os que estão desapossados deleoriginariamente. Na busca desse valor, a Antropofagia rechaçaa dívida contraída pelo não-europeu com o universal, para entãoindiciá-la duplamente − como signo de reconhecimento e, para-doxalmente, de auto-reconhecimento. A teoria antropofágica éo primado duma negociação, cujo resultado – isto é, a reduçãoou o abatimento no preço legal e oficial do universalismo – é ailuminação do mundo e seus habitantes pela amplidão absolutado conhecimento pleno das diferenças. A iluminação se dá noexercício de ultrapassagem histórico das condições funestas docotidiano e da atualidade.A produção de bens artísticos e reflexivos passa por umaexperiência pessoal que se renova, que é renovada por cadaexperiência humana, indiferente de sua localização precisa nahistória ocidental e na geografia do planeta. Leia-se o manifesto,13A reiterar a tese deHuyssen, leia-se no ma-nifesta de Oswald: “Oque atropelava a verda-de era a roupa, o imper-meável entre o mundointerior e o mundo ex-terior. A reação contrao homem vestido. Ocinema americano in-formará”.
  25. 25. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 25de que vimos falando: “Contra a Memória fonte do costume.A experiência pessoal renovada”. A memória se renova pelaintervenção do sujeito na memória universal, de que falam AlainResnais e Jorge Luis Borges. Sua memória é involuntária e volun-tária, é interior e exterior, é orgânica e artificial, é incompleta euniforme. O sujeito se renova no momento em que sua memóriainvoluntária se renova voluntariamente.Em possessão duma reserva parcial de conhecimento e de-sejoso de ter acesso ao capital artístico dito universal, os artistase os pensadores não-europeus inventaram não só argumentoscontraditórios e paradoxais, como também metodologias deleitura em nada convencionais. A Antropofagia não deixa depropor uma pedagogia para todos os cidadãos. Marca original docolono, o conhecimento incompleto se justapõe ao conhecimentodito universal, marca original do colonizador. É um conhecimen-to exorbitante que deriva da combinação, da comunhão das duasreservas de conhecimento pelo esforço antropófago. Ele rechaça,portanto, as duas formas parciais de conhecimento − tanto aparcial do colono quanto a dita universal do colonizador. Nodomínio da Antropofagia, o único valor responsável é o exor-bitante. Para melhor compreender a situação pedagógica a quechegamos, aprenda-se com Emmanuel Lévinas que “a relaçãointersubjetiva é uma relação não-simétrica. Nesse sentido, souresponsável pelo outro sem esperar a recíproca, ainda que ele mecuste a vida. A recíproca é problema dele”. A recíproca ocidentalnão é, nunca foi e nunca será problema do sujeito antropófago.Os argumentos legitimados pela Antropofagia escapammuitas vezes da lógica cartesiana e de suas metodologias deleitura, escapa ainda ao sentido único da História. Daí a ori-ginalidade e audácia dos aforismos levantados pelo ManifestoAntropófago, de que é emblemático o seguinte: “Só me interessao que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Antes deser o inimigo, ainda que na realidade o possa ser, o outro é a pos-sibilidade de união neste mundo, em que mais e mais se perde aesperança da fraternidade universal. Essa operação responsável,esperançosa e utópica, a felicidade na comunhão, só é possívelgraças aos paradoxos da Antropofagia: “Só a Antropofagia nosune. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. / Únicalei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualis-mos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todosos tratados de paz”.Tudo o que é de outro é meu. Tornar-se responsável do bemque é do outro, dos bens que pertencem ao outro, é o própriodo eu que, em lugar da sinceridade romântica, se quer fraternale esperançoso, vale dizer, universal. O sujeito não recua diantedos atos e mecanismos de ataque ou de defesa manifestadospelo outro. Voluntariamente, acumula em si o outro, o capitale os valores do outro. Nunca será deficitário. Em negociação
  26. 26. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200826com o outro, jamais desfalca seu capital cultural, soma sempre.A visão do sujeito antropófago perde o sentido das fronteirasgeográficas e sua audição, perde o sentido dos limites espaciaise sua localização. A responsabilidade é a expressão mascaradade todos os individualismos que, por sua vez, é a expressãomascarada de todos os coletivismos – repitamos as palavrasdo Manifesto. Daí o aforismo que abre o texto de Oswald: “Só aAntropofagia nos une”.Terminada a etapa das operações aritméticas − ou finan-ceiras − de soma, impõe-se o desejo de verificar a exatidão dosresultados obtidos. Aplique-se a prova dos nove. Esta negaráou reafirmará o rigor da lei do homem e da Antropofagia. NoManifesto Antropófago, lemos uma e muitas vezes o seguinte afo-rismo: “A alegria é a prova dos nove”. E lemos ainda: “Antes dosportugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto afelicidade”. Uma vez mais precisemos nossa posição. Antes de serconseqüência das descobertas marítimas feitas pelos europeusno século 16, a alegria foi sempre o valor do antropófago; emuma só palavra, o valor exorbitante do homem no matriarcadode Pindorama, um valor absoluto.Dessa perspectiva, o estudo das diferenças espaciais noplaneta terra – e a constatação de sua composição não-simétricado ponto de vista histórico, social e econômico – só guarda suaforça operacional por detrás da muralha sobreposta ao con-ceito oswaldiano pela tradição hermenêutica, cuja origem estáincontestavelmente na busca de identidade para cada nação dosubcontinente latino-americano ao final do colonialismo euro-peu. Constate-se uma vez mais: a lei que constitui o sujeito porseu “interesse pelo outro”, ou por sua “responsabilidade pelooutro” não diferencia o antropófago do ser humano tout court. Alei do homem e a lei do antropófago não são duas, são a mesma.Melhor, a lei do mesmo rasura a diferença que tinha servidona época colonial e depois dela para constituir o antropófagona condição de ator latino-americano singular, descoberto peloeuropeu e inventado a partir das grandes descobertas marítimasdo século 16. Na prova dos nove, esse ator tem a identidade dehomem ressentido (Nietzsche) e navega nas águas belicosas dosaber parcial.As questões políticas e econômicas decorrentes da longae fastidiosa narrativa sobre as transformações das colônias eu-ropéias em nações latino-americanas cedem o lugar a questõesdecorrentes duma nova e complexa forma de constituição dosujeito (artístico). Tal reviravolta se dá no momento em que setorna de importância primordial uma visão esperançosa e fe-liz, universal, que contrastará radicalmente com as propostassócio-políticas defendidas pela globalização do planeta a partirda unificação econômica das bolsas e dos mercados, ou que aacusam pela mesma linguagem, só que em sentido inverso.
  27. 27. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 27O novo e complexo sujeito antropófago – semelhante aoque está sendo encenado nas fotografias de Mariko Mori, intitu-ladas Beginning of the end: Past, present and future (1995-2000) – 14se caracteriza pelo dom da ubiqüidade, da simultaneidade e datranscendência. O novo sujeito está por todos os cantos do tempoe do espaço. É a memória do espaço fotografada pela perspecti-va da memória do tempo. O sujeito está ali e está alhures, numoutro lugar onde os limites históricos e as fronteiras geográficasse apresentam desprotegidas do sentido de propriedade por umgrupo ou por grupos hegemônicos. Como o Manifesto o tinhadito em 1928, trata-se de um mundo “sem Napoleão, sem César”.A nova certeza proposta por Mariko Mori e muitos outros ar-tistas contemporâneos furta a diferença para melhor apreendera sutura que as obras de arte operam pelo “totalitarismo” daalegria, para empregar o substantivo de Clément Rosset em seuensaio La force majeure.Citemos Rosset: “há na alegria [joie] um mecanismo aprova-tivo que tende a ir além do objeto particular que a suscitou paraafetar indiferentemente todo objeto e chegar a uma afirmaçãodo caráter jubilante da existência em geral. Assim, a alegriaaparece como uma espécie de cega desoneração de dívida, con-cedida a todos e a qualquer, como uma aprovação incondicionalde toda forma de existência presente, passada ou futura”. Máriode Andrade afirmava de maneira paradoxal: “A própria dor éuma felicidade”. Passemos por cima do Nietzsche, autor de Ocrepúsculo dos ídolos, para chegar finalmente a Gilles Deleuze,seu leitor. Deste é a definição seguinte: “Trágico designa a for-ma estética da alegria [joie]; não se trata de fórmula medicinal,nem de solução moral da dor, do medo ou da piedade. O que étrágico é a alegria”.O retorno do que foi recalcado nesta apresentação – amuralha construída pela tradição hermenêutica – é apenas aafirmação em negativo do poder policial das fronteiras alfandegá-rias e da intolerância dos governantes e dos cidadãos em relaçãoà circulação plena dos homens pelas nações do planeta, pelosseus múltiplos tempos e espaços. Mais: o retorno do recalcadorepresenta as variadas formas de transgressão artística, afirma-das por considerações de ordem histórica, política e econômica,cujo fim é o de explicar, não a criação estética em si, mas as cir-cunstâncias negativas e diversas que a cercam, curto-circuitandosua liberdade de expressão. “Mas, meu senhor, olhe o mundo,e olhe seu par de calças”.Leiamos um aforismo do Manifesto da Poesia Pau-Brasil(1924). Ele nos fala da luta a favor dum caminho único que deveenglobar a antiga e uma nova concepção de poesia: “Uma únicaluta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação.E a Poesia Pau-Brasil, de exportação”. Apesar de comportar umtempo e um lugar predeterminados pelo adjetivo que a qualifica,14Os leitores que nãoconhecem o trabalho deMariko Mori poderãoler com proveito estacurta passagem extraídada Encyclopédie Encarta(2006): “Mariko Morifotografou vistas de 360ºde onze cidades repre-sentantes do passado(Ankgor, Teotihuacán,La Paz, Gizah), do pre-sente (Times Square,em Nova York, Shibuya,em Tóquio, PiccadillyCircus, em Londres,Hong Kong) e do futuro(o bairro da Défense, emParis, Xangai, Docklan-ds em Londres, Odaibaem Tóquio, Berlim). Elaprópria está presente nafoto, deitada, vestida deum traje futurista numacápsula de plexiglastransparente. Marikotorna assim possível,através da mensagemsobre um mundo glo-balizado, as noções desimultaneidade, ubiqüi-dade e transcendência.Seu corpo torna-se um‘instrumento de comu-nicação com o mundo’,seu trabalho, ‘um atoartístico destinado adistribuir a essênciaespiritual do mundo, adesviar os homens doscombates políticos, re-ligiosos ou ideológicosque provocam a devas-tação do planeta Terra,nossa única moradia’”.
  28. 28. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200828a nova poesia, de que fala Oswald, luta por um caminho único,que é o da exportação. Seu aqui está alhures. Seu alhures estáaqui. Nesse sentido, a repetição exaustiva da palavra “Roteiros”em um de seus aforismos se afirma de importância primordialpara bem compreender os deslocamentos espácio-temporais dosujeito artístico que se quer antropófago e construtivista.Nas reflexões propriamente utópicas de Oswald de Andra-de, sempre está em jogo a condição do “bárbaro tecnicizado”. Nocorpus da Antropofagia, tudo exige uma pedagogia escatológica,de óbvio sentido universal, mas é o personagem do bárbarotecnicizado que a reclama. Por falta de tempo para se deter nosdetalhes, retomemos algumas idéias lançadas por Jean-FrançoisLyotard em La condition post-moderne. As teses defendidas pelofilósofo doublé de pedagogo se articulam a partir dum grandeeixo, ao redor do qual se desenha o questionamento do conceitode Bildung [formação], tal como nos foi transmitido pela tradiçãofilosófica do século 19.À transmissão dum saber completo pelo professor ao aluno,cujo saber é por definição incompleto, à interiorização progres-siva do saber completo sob a batuta áspera do maestro, segue-sehoje – graças à informatização do conhecimento e a possibilidadede acesso por todos à Internet – que o saber humano se apresen-ta sob a forma dum estoque uniforme, completo e exterior aohomem. A memória de cada um e de todos é tão anfíbia quantoa boa memória involuntária e orgânica (Marcel Proust) e a mámemória voluntária e inorgânica (Antropofagia). Como escreveLyotard: “A Enciclopédia de amanhã são os bancos de dados. Elesexcedem a capacidade de cada usuário. São ‘a natureza’ para ohomem pós-moderno”.Continuemos a leitura de Lyotard: “À medida que o jogoestá na informação incompleta, a vantagem cabe àquele quesabe e pode obter um suplemento de informação. Este é o caso,por definição, de um estudante em situação de aprendizado”.É o caso também − acrescentemos − do colono que se contentacom a condição de colonizado. A este faz sentido a retomadadas idéias guerreiras desenvolvidas pela tradição hermenêuti-ca, de que falamos no começo desta apresentação. No jogo deinvenção com informação completa para os parceiros, o melhordesempenho não pertence obrigatoriamente ao professor (ou aocolonizador), que detém a priori um suplemento, ou ao estudante(o colono), que pelo trabalho mimético busca para si a aquisiçãode tal suplemento. A invenção – continua Lyotard – “resulta deum novo arranjo dos dados que constituem propriamente um‘lance’ [un coup]. Este novo arranjo obtém-se ordinariamentemediante a conexão de uma série de dados tidos até então comoindependentes. Pode-se chamar imaginação a capacidade de ar-ticular em conjunto o que assim não estava”.
  29. 29. O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 29Nos distantes anos 1920, a Antropofagia propunha umanova pedagogia, onde estava presente a possibilidade para osartistas e os pensadores brasileiros de trabalhar “no jogo dainformação completa”. Todos os parceiros – ex-colonos e ex-colonizadores − estariam em igualdade de competência na horada produção do pensamento e da arte. O exorbitante não era umsuplemento de mão única, mas a duas, a três mãos. O exorbitanteé a imaginação antropófaga. Terminemos por esta passagem deLyotard, que a sua maneira retoma a utopia esperançosa e felizde Borges, de Valéry e de Beckett: “Ora, é permitido representaro mundo do saber pós-moderno como regido por um jogo de in-formação completa, no sentido de que os dados são em princípioaccessíveis a todos os especialistas: não existe segredo científico.Em igualdade de competência na produção do saber, e não maisno processo de sua aquisição, o aumento de eficiência dependeapenas e finalmente da ‘imaginação’ que permite seja dado umnovo lance, sejam mudadas as regras do jogo”.Escrito em francês em junho de 2007Traduzido em maio de 2008AbstractThe purpose of the “Beginning of the end” is topresent a new and supplementary interpretationof the key concept of the Brazilian Modernistmovement – Oswald de Andrade’s antropofagia.For eight decades the concept has been responsiblefor an extremely rich and accurate bibliographythat underscores the belligerent aspects of thecolonized cultures in regard to the colonizers.This interpretation, in spite of being correct from asocial and political point of view, neglects the basicqualities of the work of art written in the marginsof Western culture, in especial those related to thefact that it should arouse in the reader the needfor a utopian thought, in which peace, hope andjoy are the values.Keywords: Brazilian literature. Avant-garde.Modernist movement. Antropofagia. Utopianthought.
  30. 30. Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200830REFERÊNCIASANDRADE, Oswald de. Obras completas: ao pau-brasil à antro-pofagia e às utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.v. VI.BECKETT, Samuel. Le monde et le pantalon. Paris: Minuit, 1990.BORGES, Jorge Luis. Obras completas. São Paulo: Globo, 1999. v. I.DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la philosophie. Paris: Presses Uni-versitaires de France, 1970.HUYSSEN, Andreas. After the great divide. New York: MidlandBook, 1986.LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: J. Olym-pio, 1986.ROSSET, Clément. A alegria: a força maior. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 2000.TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e Modernismobrasileiro. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1982.
  31. 31. Gragoatá Niterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008Notas históricas: solidariedadee relações comunitáriasnas literaturas dos países africanosde língua portuguesaBenjamin Abdala JuniorRecebido 03 mar. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoNotas sobre as histórias literárias dos países afri-canos de língua oficial portuguesa, construídas apartir da situação colonial. São relevados traçoshistóricos comuns, que apontam para perspecti-vas neo-românticas quando essas literaturas sevoltam para imaginar questões relativas a suasnacionalidades; processos de atualização da língualiterária portuguesa, cuja plasticidade remontanacionalmente aos tempos medievais; e as redescomunitárias que elas conformam com o conjuntodas literaturas de língua portuguesa..Palavras-chave: História literária. Países afri-canos. Língua portuguesa. Perspectivas. Neo-romantismo.
  32. 32. Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200832O estudo dos processos de afirmação das literaturas afri-canas de língua portuguesa levam o crítico a relevar formasem que os escritores, desde a facção da obra, procuram obtersua legitimação, num campo intelectual definido por relaçõescomunitárias. Autor, texto e leitor situam-se nesse horizontelingüístico-cultural que se pauta pela tendência à supranaciona-lidade, que se tem mostrado tão importante quanto as adesõesempáticas da nacionalidade. Nessa rede, o trabalho literárioprocurará sua legitimação não apenas em termos de criação,mas também nas esferas de circulação, por onde circulam osprincipais agentes de seu reconhecimento. Estabelecem-se,assim, a partir de cada obra, relações de solidariedade entreesses agentes. Para tanto, a inclinação para a inovação artísticatorna-se correlata ao desejo de se provocar impacto, encontrarressonância enquanto poder simbólico.Impõe-se uma observação preliminar, não obstante essatendência a uma normatização supranacional: as literaturasafricanas de língua portuguesa apresentam especificidades na-cionais e só um olhar distraído nivela suas diferenças. Do pontode vista metodológico, sua abordagem pode ser feita como emqualquer série cultural: registros em língua portuguesa, que searticulam supranacionalmente, como foi assinalado, seguin-do redes e fluxos da circulação da cultura. Do ponto de vistahistórico, essas literaturas, cujos repertórios configuraram-seplasticamente na língua literária portuguesa, trazem marcas quevêm desde a formação de Portugal como estado nacional, masarticulam-se em redes com outros sistemas, em cada situaçãohistórica. Evidentemente, esse reporte às origens das literaturasem português pode ser alongado, pois a experiência literáriaé obviamente mais ampla, acabando por se associar à própriaorigem da cultura. Um patrimônio de todos os povos, que nãose reduz às apropriações e matizações politicamente associadasa formações nacionais.Liberalismo e projetos nacionaisHistoricamente, as literaturas africanas de língua portu-guesa são recentes e seguem – como aconteceu com o romantis-mo em escala mundial – os influxos da tomada de consciêncianacional por parte da intelectualidade letrada. É por isso quecertos vetores encontráveis no romantismo brasileiro podemser associados às produções africanas, mesmo em produções deaté meados do século XX. Os países colonizados por Portugalna África deparam-se com a necessidade de estatuir literaturasnacionais, no quadro da modernidade, tal como ocorreu com oBrasil no século XIX. Tivemos o romantismo propriamente ditoe, depois, a Semana de Arte Moderna, como divisora de águas,que propiciou a literatura, dita “regional”, e a nossa poesia mo-dernista.
  33. 33. Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 33No romantismo, a literatura brasileira veio a inventar mi-tos da nacionalidade, buscando a “cor local” para uma sintaxeque vinha da Europa. E tanto Portugal, como o Brasil, estavamsob o manto liberal e artístico da França. Pensávamos nossasformas de independência em francês, mediatizando-o por situ-ações locais, o que, por assim dizer, neutralizava o que pudesseser explosivo na perspectiva hegemônica no campo intelectualliberal. Há faces diferentes: o liberalismo torna-se dominante,no Brasil, revestindo-se de inclinações para a afirmação nacio-nal; liberalismo em Portugal como estratégia de modernização,contra as formas passadiças associadas ao modo de pensar esentir o país dos setores conservadores.A leitura desse processo histórico nos países africanosde língua portuguesa revela que um primeiro momento defratura do imaginário do colonizador veio a ocorrer pela pre-sença político-cultural de uma burguesia crioula africana, nosúltimos vinte anos do século XIX. Foi um período liberal, quepode ser associado à Regeneração portuguesa, e que favoreceuo início de uma intensa atividade jornalística nas então colônias.A imprensa desponta, desse modo, como a força responsávelpelo surgimento dos primeiros redutos dos assim chamados“naturais da terra”, capazes de romper o silêncio imposto pelaestrutura colonial. Seriam uma versão africana, correlata ao quehavia acontecido com a elite dos crioulos brasileiros (mestiçosdescendentes de portugueses), que haviam conseguido a liber-tação da metrópole colonial.Muitos dos nomes mais significativos na história dasidéias em Angola, por exemplo, estão ligados a esse período defundação e consolidação da imprensa. No campo da literatura,destaca-se Alfredo Troni, autor da novela Nga Muturi (1882),que se correspondia com escritores portugueses da Geração de70. Sua novela foi publicada em folhetins na Gazeta de Portugal,em Lisboa. Nessa narrativa, com ironia que lembra a literaturade Eça de Queirós, Troni já mostra a incorporação de costumeslocais e domínio do quimbundo. Se o escritor nasceu e se formouadvogado em Portugal, sua identificação maior se fez com a novaterra, ele que era republicano e socialista. Seu ideário – maisforte do que questões de origem – tinha suas bases na RevoluçãoFrancesa. Foi um processo de identificação, pois, sua adesão àsreivindicações da burguesia crioulizada de Angola. Aspiroupor formas políticas liberais e, mesmo, pela independência dopaís. Nos horizontes de seu grupo intelectual, estava o Brasil esua literatura romântica, antiga colônia que havia conseguidose libertar da metrópole. Seu republicanismo e socialismo prou-dhoniano o levava mais longe.As identificações políticas das elites angolanas com o Brasiljá eram anteriores. É de se recordar que, no tratado de reco-nhecimento da independência brasileira por parte de Portugal,
  34. 34. Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200834feito sob mediação inglesa em 1825, o Brasil se comprometeu anão aceitar “proposições” de quaisquer colônias portuguesasde se reunirem a ele. Havia um movimento desencadeado emAngola, nesse sentido, associado a interesses escravocratas, oque contrariava os interesses ingleses, além evidentemente dosportugueses. Nas décadas finais do século XIX, as aspiraçõeseram de outra natureza, de outros setores, os anti-escravocratas.Alfredo Troni foi autor de um regulamento que declarou defi-nitivamente extinta a escravidão em Angola. Acabou por serdestituído de seus cargos públicos e compulsoriamente exiladopara Moçambique.Consciência regional e consciência nacionalTraços neo-românticos, centrados na incorporação daatmosfera cultural da terra, ultrapassariam o século XIX comolinhas de força que se projetam, no conjunto dos países afri-canos de língua portuguesa, até meados do século XX. Essaobservação é geral e deve-se considerar também diferenças quematizam esse romantismo que embalou tanto o Brasil comoPortugal. Há, entretanto, uma inclinação para o mapeamentosociocultural e mesmo da ambiência natural que permitemaproximações. Aos poucos, nas primeiras décadas do séculoXX até às vésperas da Segunda Guerra Mundial, afirmaram-sena África colonial portuguesa formas de consciência regional,que já embutiam aspirações nacionais. Nessa nova matização, asimagens românticas são comutadas, em especial, por uma apro-priação de repertórios do modernismo brasileiro. Este é o dadonovo, tendo em vista que o gesto artístico de nossos escritoresprocurava afastar paradigmas e mesmo uma sintaxe identificadacom dicções evocativas da situação colonial. A língua literáriapossuía um repertório proveniente de experiências comuns,mas que tinham sua especificidade nas apropriações, que eramuma forma de ação comunitária interna, culturalmente tambémhíbrida. A literatura “traduz” em suas formas um conhecimentoque vinha de outras áreas: história, filosofia, política, sociologia,antropologia, artes etc.No período do pós-Segunda Guerra e em torno da afirma-ção dos princípios de auto-determinação dos povos, proclamadapela carta das Nações Unidas, radicalizaram-se formas de identi-ficação nacional. Se Portugal era associado à Pátria (colonial) dosdiscursos oficiais, os africanos buscavam a afirmação da Mátria(a “Mamãe-África”), e, com essa perspectiva, os escritores afri-canos olharam com ênfase para as produções literárias do Mo-dernismo brasileiro (a Frátria – a antiga colônia que se libertou econstruiu um discurso próprio). A fraternidade supranacional setraduz em formas de solidariedade, com simetrias entre gestos:no Brasil, em meados do século, rediscutia-se a nossa formaçãohistórica, o que deu origem a obras clássicas de nossa cultura,
  35. 35. Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 35de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior eAntonio Candido, por exemplo. Na literatura, os ecritores pro-curavam revelar facetas psicossociais de nossa gente. Sob o jugocolonial português, a ênfase sociológica e nacional dos escritoresafricanos encontrava sua radicalidade em formulações discur-sivas anticoloniais. Eram tempos de literatura engajada e essesintelectuais mostram-se com facetas especificamente literáriastão radicais como as políticas. O escritor e o cidadão, para eles,não poderiam deixar de caminhar juntos. A grande imagem(neo-romântica) que se firmou após a Revolução Cubana, foi ade Che Guevara: numa mão o livro; noutra, o fuzil.Um bom exemplo dessa problemática é Castro Soromenho.Viveu em período anterior, onde já se desenhavam atitudesque irão embalar as lutas de libertação nacional na África delíngua oficial portuguesa, que eclodiram depois, nos anos 60.Soromenho situa-se no campo intelectual da intelectualidade deesquerda (a grande frente popular antifascista dos anos 30-40),para quem questões de independência nacional se imbricavamcom perspectivas sociais. Esse autor, nascido em Moçambique(1910), filho de português e cabo-verdiana, foi com um ano deidade para Angola, onde viveu de 1911 a 1937. Fez estudos primá-rios e de liceu em Lisboa (1916-1925). Voltou a Portugal em 1937.Em face de perseguições políticas, teve de exilar-se, vivendo naFrança (1960-1965) e, depois, no Brasil (1965-1968), onde veio afalecer. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Africanosda Universidade de São Paulo, dirigido por Fernando Mourão.O romance Terra morta teve sua primeira edição publicada noBrasil, em 1949, quando o autor residia em Portugal. Nem po-deria ser diferente, pois esse romance denuncia o colonialismoportuguês.Por outro lado, laços de solidariedade eram compactuadoscom a intelectualidade metropolitana. Os sonhos libertários,advindos do término da Segunda Guerra Mundial e que entãoembalavam os intelectuais portugueses, eram frustrados pelaatmosfera sufocante da guerra fria e pela persistência do regi-me ditatorial. No mesmo campo, as relações de solidariedadecoexistem contrastivamente com as de desigualdade. Há hege-monias e as mais significativas são as que se naturalizam: osnão-hegemônicos aceitam com naturalidade a dominação dooutro. E, em Portugal, entre africanos e metropolitanos, havia di-ferenças, pois os primeiros não aceitavam a dominância históricados segundos. São tensões que afloraram no campo político, comressonâncias na literatura. Questões ideológicas manifestam-setambém em nível inconsciente e hábitos coloniais acabam porse manifestar para além da consciência ou intenções, inclusivedos atores do campo intelectual.Mesclagens culturais e olhares em contraste
  36. 36. Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200836A literatura cabo-verdiana pode ser dividida em dois perío-dos: antes e depois da revista Claridade (1936-1960). Os escritoresdo arquipélago de Cabo Verde, ao procurarem voltar as costaspara modelos temáticos europeus, fixaram seus olhos no chãocrioulo, próprio da mesclagem étnica e cultural de seu país. Acrioulidade deve ser entendida como uma mescla cultural nãounívoca (mestiça), um conjunto híbrido onde pedaços de cultu-ras interagem entre si, ora se aproximando, ora se distanciando.Essa atitude dos intelectuais cabo-verdianos, de oposição aospadrões hegemônicos provenientes da metrópole, era correlataà obsessão de procura de origens – origens étnicas e culturais,que sensibilizavam a intelectualidade africana do continente.Interessante é indicar essa tomada de consciência regional.Um bom exemplo dessa trajetória é Osvaldo Alcântara(pseudônimo poético de Baltasar Lopes), que, a exemplo de parteda intelectualidade de seu país, sonha à Manuel Bandeira comuma pasárgada que existiria em outra margem do oceano. Seo poeta brasileiro imagina um reino com um rei bonachão quelhe permitiria todas as “libertinagens” (título da coletânea deBandeira), Osvaldo Alcântara tem saudade de uma pasárgadafutura que encontraria no “caminho de Viseu” ([...] indo eu, indoeu,/a caminho de Viseu). Osvaldo Alcântara estava com os pés emCabo Verde, mas a cabeça inclina-se para fora, para o sonho daimigração: o “caminho de Viseu” da cantiga de roda portuguesa.Sua perspectiva é aquela que historicamente sempre se colocoupara povos de migrantes como os cabo-verdianos, e ele nãodeixa de ter consciência de que esta saudade fina de Pasárgada/éum veneno gostoso dentro do meu coração.Mais tarde, já em plena luta de libertação nacional, OvídioMartins - identificado com os pressupostos ideológicos da Casados Estudantes do Império, em Lisboa – já se coloca no pólooposto. Não aceita o reino de Pasárgada, para sua geração umaforma de fuga. Em oposição ao que ocorrera no sonho de Bandei-ra, ele não só não era amigo do rei (Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei) como foi perseguido por sua polícia (a políciapolítica de Salazar). Não conseguindo permanecer em Lisboa,foi obrigado a imigrar para a Holanda. Ovídio Martins, comoOsvaldo Alcântara, sonha com o que não tinha: justamente suaterra, Cabo Verde. Se Osvaldo Alcântara olha para horizontesindefinidos do mar, Ovídio Martins adota a perspectiva inversa:procura arremessar-se ao chão (Pedirei/Suplicarei/Chorarei/Nãovou para Pasárgada).Discursividades supranacionaisNa prosa de ficção, a presença do romance nordestinobrasileiro se mostra bastante forte em romances como Os flage-lados do vento leste (1960), de Manuel Lopes e Chiquinho (1947),de Baltasar Lopes, em diálogo, respectivamente, entre outros,

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