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    • GragoatáISSN 1413-9073Gragoatá Niterói n. 24 p. 1-260 1. sem. 2008n. 24 1osemestre 2008Política EditorialA Revista Gragoatá tem como objetivo a divulgação nacional e internacionalde ensaios inéditos, de traduções de ensaios e resenhas de obras que representemcontribuições relevantes tanto para reflexão teórica mais ampla quanto para aanálise de questões, procedimentos e métodos específicos nas áreas de Língua eLiteratura.
    • Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal FluminenseDireitos desta edição reservados à EdUFF – Editora da Universidade Federal FluminenseRua Miguel de Frias, 9 – anexo – sobreloja – Icaraí – Niterói – RJ – CEP 24220-008Tel.: (21) 2629-5287 – Telefax: (21)2629-5288 – http://www.editora.uff.br– E-mail: eduff@vm.uff.brOrganização:Projeto gráfico:Capa:Editoração:Supervisão GráficaCoordenação editorial:Periodicidade:Tiragem:Reitor:Vice-Reitor:Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação:Diretor da EdUFF:Conselho Editorial:Conselho Consultivo:Laura Cavalcante Padilha e Lucia HelenaEstilo & Design Editoração Eletrônica Ltda. MErogério MartinsJosé Luiz Stalleiken MartinsKáthia M. P. Macedoricardo BorgesSemestral500 exemplaresDados Internacionais de Catalogação na PublicaçãoAna Pizarro (Univ. de Santiago do Chile)Cleonice Berardinelli (UFRJ)Célia Pedrosa (UFF)Eurídice Figueiredo (UFF)Evanildo Bechara (UERJ)Hélder Macedo (King’s College)Laura Padilha (UFF)Lourenço de Rosário (Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa)Lucia Teixeira (UFF)Malcolm Coulthard (Univ. de Birmingham)Maria Luiza Braga (UFRJ)Marlene Correia (UFRJ)Michel Laban (Univ. de Paris III)Mieke Bal (Univ. de Amsterdã)Nádia Battela Gotlib (USP)Nélson H. Vieira (Univ. de Brown)Ria Lemaire (Univ. de Poitiers)Silviano Santiago (UFF)Teun van Dijk (Univ. de Amsterdã)Vilma Arêas (UNICAMP)Walter Moser (Univ. de Montreal)© 2008 byÉ proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora.APOIO PROPP/CAPES / CNPqUNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSEG737 Gragoatá. Publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras da UniversidadeFederal Fluminense.— n. 1 (1996) - . — Niterói : EdUFF, 2008 – 26 cm; il.Organização: Laura Cavalcante Pàdilha e Lucia HelenaSemestralISSN 1413-9073.1. Literatura. 2. Lingüística.I. Universidade Federal Fluminense. Programa dePós-Graduação em Letras.CDD 800Roberto de Souza SallesEmannuel Paiva de andradeHumberto Machado FernandesMauro Romero Leal PassosMariangela Oliveira (UFF) – PresidenteLívia de Freitas Reis (UFF)Eneida Maria de Souza (UFMG)Solange Vereza (UFF)Silvio Renato Jorge (UFF)José Luiz Fiorin (USP)Leila Bárbara (PUC-SP)Lucia Helena (UFF)Vera Lúcia Soares (UFF)Regina Zilberman (PUC-RS)Laura Padilha (UFF)Cláudia Roncarati (UFF)Editorafiliadaà
    • Sumárion. 24 1º semestre 2008GragoatáApresentação...................................................................................... 5ARTIGOSO começo do fim...............................................................................13Silviano SantiagoNotas históricas: solidariedade e relações comunitáriasnas literaturas dos países africanos de língua portuguesa......31Benjamin Abdala JuniorDuas viagens, um destino, Moçambique....................................45Regina ZilbermanUma língua de viagens, transgressões e rumores.....................61Carmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoDa colonização lingüística portuguesaà economia neoliberal: nações plurilíngües...............................71Bethania MarianiOutros poderes, outros conhecimentos– Ana Paula Tavares responde a Luís de Camões......................89Margarida Calafate RibeiroNarrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofes..............101Márcio Seligmann-SilvaCorpos grafemáticos: o silêncio do subalternoe a história literária........................................................................119Roberto VecchiNarrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismomoçambicano nos romances de João Paulo Borges Coelho....131Sheila KahnO papel das línguas africanas na formaçãodo português brasileiro: (mais) pistaspara uma nova agenda de pesquisa............................................145Charlotte GalvesAgruras da ficção contemporânea...............................................165Silvia Regina Pinto
    • Narrar é resistir?.............................................................................179Denise Brasil Alvarenga AguiarOs velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água,versões e construção de identidade............................................191Lúcia BettencourtQuando o preconceito se faz silêncio:relações raciais na literatura brasileira contemporânea.........203Regina DalcastagnèUma conversa entre macacos: percalçosde um diálogo entre a África e o outro......................................221Lucia HelenaENTREVISTAO peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusasobre o Brasil e Angola................................................................ 237Maurício de Bragança
    • 5Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008ApresentaçãoA Revista Gragoatá, em seu vigésimo quarto exemplar, foca-liza, comparativamente, ou mesmo em separado, os paradigmasculturais que nosso momento histórico permite visualizar comoos mais importantes na construção das identidades matizadasque as literaturas e artes do continente africano e brasileiroapresentam, no cenário da globalização. Os elos entre os doismundos são muito evidentes, ou assim se pensa, quase comoum lugar-comum. Serão mesmo transparentes os nossos pa-rentescos e o que também nos separa? Conhecem, os brasileirose os outros, o que se denomina hoje “Brasil”? É auto-evidenteesta significação? E a África, ao ser relacionada ao Brasil, ésempre a de “expressão portuguesa”? Haveria possibilidade denos “encontrarmos” inscritos na África de “expressão inglesa”,“francesa” etc, na história comum da exclusão? Estas e outrasquestões se tornaram candentes, em alguns dos textos que nosforam enviados.Brasil e África são dois cantões do planeta que se tan-genciaram pela ocidentalização promovida no Renascimentoe motivada pelo expansionismo europeu do século XV. Suasinter-relações e, principalmente, as contradições políticas e osenigmas do continente africano e da vida brasileira têm sidoobjeto de análise, desde os anos de 1990, no século XX, coma projeção dos estudos culturais e a re-leitura dos cânones denações concebidas, pela classificação econômica dominante,como emergentes. Em que pese o significado desse adjetivo, asnações ditas em emergência (no duplo sentido de que emergeme de que estão em estado de emergência) sempre surpreendempelas complexas redes culturais – de origem popular ou culta– surgidas tanto no Brasil, quanto na África e que nada ficam adever, em importância para o pensar, se relacionadas às matrizesde outras paisagens.Da África se moveu, para o então chamado Novo Mundo,um conjunto de habitantes de localidades que hoje compõeminúmeros países: Costa do Marfim, Congo, Angola, Moçambiquee outros, para, em nossas terras, conhecerem a dor do exílio, oconseqüente desterro e a marca da desagregação provocadapela prática escravagista. Ainda assim, os representantes de umpovo removido, à revelia e em circunstância adversa, para outrosrincões, produziram subsídios que, surgidos do entrechoquede tradições, foram capazes de ultrapassar séculos e a própriacondição subalterna, para constituir elementos magníficos de
    • 6 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008nossa música, dança, culinária e, até, de manifestações religiosasaclimatadas no Brasil.A discussão dos elos e dissensos, as descobertas em comumdessas duas culturas, literaturas e artes, além da dívida brasi-leira para com a contribuição dos africanos que para cá vieramna condição desumana de escravos fazem parte das intençõesque nortearam os objetivos das coordenadoras desse número aopensar em seu título – “Brasil e África: trajetórias, rosto e destino”– e em sua ementa. Esta consiste na discussão da literatura, po-lítica e ideologia no cenário do neoliberalismo e no enfoque dasarticulações entre essas nações e suas narrativas, na estruturapós-colonial contemporânea do Brasil e da África. Pensou-setambém em focalizar o Brasil e a África, enquanto autônomos,em suas diferentes literaturas e formas de expressão e de lingua-gens produtoras de paradoxos, identidades, dilemas e problemas.Interessava à nossa ementa, também, a articulação da África edo Brasil consigo mesmos, e entre si, ou com outros países, deoutros universos culturais na cena do mundo pós-colonial que,necessariamente, envolve a Europa e outras expressões lingüís­ticas. O discurso e a construção da subjetividade e das formasestéticas foi mais um aspecto incluído no temário que sugerimosao leitor, bem como a comparação de suas literaturas com asdemais artes. Outra opção que se observa na ementa oferecidaé a da discussão de perspectivas da crítica e da teoria, no Brasile na África, seja no estudo da própria literatura e das demaisartes, seja no exame específico de textos voltados à produção doconhecimento. No campo da lingüística e do estudo de línguas,acentuou-se a preocupação com o tratamento das línguas emcontato e da política lingüística. Finalmente, a ementa tambémdeu abertura para uma reflexão histórica, antropológica e filosó-fica da cultura brasileira e africana contemporâneas, no examedas relações entre estas, sua literatura, suas crises e utopias, emsua singularidade, ou em conjunto.Se o estudo da questão brasileira, na Gragoatá 24, parecenão demandar explicação, pois se faria evidente (evidência daqual sempre se deve, em bom termo, duvidar), a presença de suaarticulação com a África e desta com a América como um todoe, também, com a Europa, como ocorre em mais de um artigopublicado neste número, revela uma forma de contraposiçãode olhares através da qual se busca retomar a teia de silêncios eapagamentos tramada pelo olhar branco-ocidental, hegemônicona cultura colonizadora letrada, apesar da heterogeneidade denossa formação. Um tal olhar já se antecipava na epopéia ca-moniana, quando os navegantes portugueses, ao se depararemcom o outro, o desconhecido, perguntavam a si mesmos: “Quegente será esta? (em si diziam) / Que costumes, que Lei, queRei teriam?” (I, 45).
    • 7Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008Se a legenda da diferença faz parte do paradigma forma-dor de nosso encontro cultural, o leitor poderá agora conferir anatureza desse painel, no vasto exame dos elementos que deramsustentação ao processo colonial e à sua reversão, seja do âmbitolingüístico, do político-cultural, seja no da literatura. Um pai-nel foi tecido a várias mãos, pelo texto de nossos convidados edos que se interessaram pelo tema, e nos enviaram sua valiosacontribuição. Neste, o espaço da reflexão crítica se espraiou porquestões como o trauma, a violência, o preconceito racial e osintertextos de variada extração e efeito, para que pudéssemoslevar a cabo, nesta edição, compreender e pensar “Brasil e África:trajetórias, rosto e destino”.É com imenso prazer que passamos ao leitor os textos queresultam do percurso trilhado pelos intelectuais que se unirama nós na busca de elaborar mais um número da Revista Gragoatá,periódico que se tem caracterizado como uma das formas maisatuantes da contribuição, ao público em geral, da Pós-graduaçãoem Letras da Universidade Federal Fluminense.O texto de abertura, de Silviano Santiago, intitula-se “Ocomeço do fim”. Importante pensador da cultura brasileira, seuautor busca apresentar nova e suplementar interpretação paraum conceito-chave do movimento Modernista – o de antropofa-gia, na versão de Oswald de Andrade. Considerando relevantepara o tema deste número refletir sobre um conceito que, du-rante oito décadas foi responsável por importante bibliografiaem que se salientaram aspectos beligerantes de culturas colo-nizadas em relação aos colonizadores, Santiago pondera, ainda,que essa interpretação, apesar de pertinente do ponto de vistasocial e político, negligencia qualidades básicas do trabalho dearte escrito nas margens da cultura Ocidental, em particularaquelas que deveriam despertar no leitor a premência de umpensamento utópico, em que a paz, a esperança e a alegria setornariam os valores.O artigo de Benjamin Abdala Júnior, “Notas históricas:solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos paísesafricanos de língua portuguesa”, discute as redes comunitáriasque tais literaturas tecem, pelo que nelas se revela uma tendênciaà supranacionalidade. Esta, para o crítico, se faz tão importantequanto o resgate, nas produções artístico-verbais, das especifi-cidades nacionais que nelas se resgatam. O texto reforça o fatode que há uma forte relação entre o processo literário africanoe o brasileiro. Isso se justifica, segundo o autor, por que, desde oséculo XIX, se estabeleceram redes de identificações entre o nossopaís e os africanos de colonização portuguesa. Tais identificaçõesvão do âmbito político (cf. o caso angolano, no século XIX) até abusca de outras formas de modelização literária, ressaltando-se,dentre elas, as interlocuções com o modernismo brasileiro, com o
    • 8 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008romance nordestino de 1930 e com o projeto estético-ideológicode Guimarães Rosa.O texto “Duas viagens, um destino, Moçambique”, deRegina Zilberman, procura analisar as visões divergentes queeuropeus e africanos têm sobre a expansão do mar português,para o que retoma O naufrágio do Sepúlveda, de Jerônimo CorteReal (1594) e O outro pé da sereia, de Mia Couto (2006). O artigodemonstra a existência de dois distintos modos de recuperaçãoda história marítima portuguesa, nas malhas da ficção literária.De um lado, a visão européia do século XVI sobre os “cafres,que roubar tem só por ofício” e sobre os heróis – mesmo quefracassados – que “se vão da morte libertando”, como proclamaCamões. De outra parte, a autora analisa a leitura, a contrapelo,do moçambicano Mia Couto para quem fica clara a “estratégiados portugueses para enfraquecer o reino” do Monomotapa.Resgata-se, assim, o avesso de uma história que só muito re-centemente começa a ser contada pelo olhar dos, até 1975, ven-cidos. Um artigo que serve de excelente ponte para o encontrode África e Brasil.No texto “Uma língua de viagens, transgressões e rumo-res”, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco faz uma espécie debalanço sobre a questão do uso da língua portuguesa nos paísesafricanos colonizados por Portugal, mostrando as diferentesfaces que a língua transplantada pelo colonizador adquiriunos diversos países que hoje têm o português como sua línguaoficial. Percorre, ainda, o caminho que vai da imposição ao usoconsentido e, em certa medida, revolucionário do portuguêsque acaba por se fazer, ele mesmo, um instrumento voltadocontra o processo de colonização, no momento em que sublevao tecido lingüístico. Para comprovar esse uso “clandestino” dalíngua, repetindo José Craveirinha, a ensaísta busca exemplifi-car seu ponto de vista com vozes literárias africanas. Estas, aoinverterem os paradigmas colonialistas, enriquecem a línguado colonizador, por atravessá-la com outros saberes e sabores,alargando, com isso, o sentido das viagens que tal língua aindaserá capaz de fazer.Em “Da colonização lingüística portuguesa à economianeoliberal: nações plurilíngües”, Bethania Mariani reflete sobrea atualidade lingüística do Brasil e de Moçambique, tomando,como ponto de partida do artigo, o fato de que tanto na Áfricaquanto em nosso país, houve uma tentativa de apagamento damemória dos sujeitos locais, no processo de colonização portu-guesa. Discute, a seguir, partindo da memória histórica constitu-tiva das duas formações sociais, de um lado, a legislação referenteà política de línguas e de outro, as relações, nem sempre muitovisíveis, entre as línguas e a política econômica. Assim, analisaa legislação portuguesa referente ao uso do português nas co-lônias e, em seguida, tendo em vista a descolonização política
    • 9Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008e lingüística, enfatiza as relações entre lingüística e economia,problematizando o valor econômico das línguas.O artigo “Outros poderes, outros conhecimentos – AnaPaula Tavares responde a Luís de Camões”, de Margarida Cala-fate Ribeiro, discute o enfrentamento do poder e de suas relaçõesexistentes nos textos de Paula Tavares, demonstrando que talenfrentamento tem como alvo não apenas o sistema colonialem si, mas a língua que o sustenta e mesmo o neocolonialismoque subsiste em tais relações, na Angola independente. O artigodemonstra a subversão do discurso poético de Paula Tavares,que se quer, ao mesmo tempo, um “pronunciamento” femininoe epistemológico. Por tal “pronunciamento” a poeta põe emxeque não apenas os conhecimentos impostos pelo colonizador,mas a própria tradição local, que também busca perpetuar o pa-triarcado e a sua violência contra a diferença sexual e sua lógicaopositiva. O texto afirma, em todos os sentidos, a possibilidadeteórica de se valorizarem outros conhecimentos e outros poderes,sempre deixados à margem pela colonialidade hegemônica.Em “Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofes”,Márcio Seligmann-Silva propõe uma reflexão sobre o gesto tes-temunhal de sujeitos que sobreviveram a situações radicais deviolência e/ou catástrofes e para os quais a narração do traumase faz gesto de sobrevivência e mesmo de renascimento. Paracomprovar sua hipótese, o autor levanta uma série de aporiasque marcam o testemunho, tentando comprovar que ele “sóexiste sob o signo de seu colapso e de sua impossibilidade”. Trazà cena do artigo, ainda, a questão da política da memória e suaimportância para o gesto de narrar o trauma. Por fim, analisaobras pontuais que resgatam, respectivamente, o genocídio dosarmênios (1915-16); o dos tutsis, em Ruanda (1994), chegando aoBrasil e, em especial à música popular brasileira que, de distintase/ou camufladas formas, resgata o trauma causado pela violênciada ditadura civil-militar.Em “Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e ahistória literária”, Roberto Vecchi, partindo de uma série de re-flexões sobre a força do poder na representação literária, discutea impossibilidade de fala do subalterno, ou o seu silenciamento,na série histórica da literatura brasileira. Depois de reforçar seuquadro teórico, convocando Spivak, Gramsci, Said e outros, oautor analisa duas obras pontuais dessa mesma literatura bra-sileira – Os sertões, de Euclides da Cunha e A menina morta, deCornélio Pena. Em tais criações, para ele, se projeta uma espéciede contra-história problematizadora dos vazios e silenciamentosda história oficial brasileira e dos lugares de força por ela criados.O texto discute, portanto, a problemática dos subalternos que,apesar de se localizarem na margem da história, acabam porganhar voz e um “corpo grafemático”, nas malhas da ficção.
    • 10 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008Em “Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialis-mo moçambicano nos romances de João Paulo Borges Coelho”,Sheila Kahn começa por apresentar a questão do pós-colonialis-mo em Moçambique. A seguir, recupera a postura adotada porJoão Paulo Borges Coelho, em relação ao que se passa na naçãorecém-independente, postura esta que ele evidencia não apenasem sua obra romanesca, mas também em entrevista concedida àensaísta e por ela em parte transcrita no artigo. Por fim, propõea leitura de três romances do autor – Visitas do Dr. Valdez; Crônicada Rua 513.2 e Campo de trânsito –, demonstrando como BorgesCoelho dá voz aos “calados”, pelo que tenta resgatar a históriaigualmente barrada dos que, em silêncio, viveram as transiçõespor que passou o país em construção.No texto “O papel das línguas africanas na formação doportuguês brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda depesquisa” de Charlotte Galves, a autora, seguindo caminhoproposto pela pesquisadora Margarida Petter, centraliza a dis-cussão nas variedades angolanas e moçambicanas do português,por entender que elas abrem caminho para a reflexão de como eporquê as línguas africanas interferiram no português do Brasil.O artigo se divide em duas grandes seções, começando por pro-mover a releitura do debate da questão por ela proposta, para oque resgata a série histórica desse mesmo debate. Na segundaseção, discute os efeitos do contato entre as línguas africanase o português, comparando, a seguir, as vertentes africanas ebrasileiras da língua e levantando as evidências que comprovama consistência de sua hipótese.O artigo “Agruras da ficção contemporânea”, de SílviaRegina Pinto, focaliza a literatura produzida no Brasil em suainterface com o mundo de hoje, marcado por uma transformaçãoradical em que afloram crises talvez sem precedentes, revelandoque ela demonstra e questiona a mudança profunda que vemocorrendo em todas as áreas de atividade, em especial a cultura,a estética, os valores éticos, as noções de tempo e espaço e asfronteiras entre o público e o privado. O ensaio procura mostrarcomo a ficção contemporânea vem tematizando e discutindo suaprópria estranheza, tentando uma articulação entre linguageme realidade, no esforço incansável para um confronto do eu como outro que, muitas vezes, é ele mesmo, e deixando claro que aficção se torna necessária até para que o real exista. Equipado deinstrumental teórico que lhe permite ampla reflexão, este ensaiooferece uma possibilidade fundamental de pensar o Brasil dehoje em sua literatura e através dela.Em “Narrar é resistir?” Denise Brasil Alvarenga Aguiartambém focaliza a ficção contemporânea, em especial o cotejoentre O quieto animal da esquina, de João Gilberto Noll, e A vida ea época de Michael K., de J. M. Coetzee. Seu objetivo é compreen-der as transformações da literatura no contexto das alterações
    • 11Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008sociais e culturais que marcam os tempos da chamada pós-modernidade. Identificando importante vertente literária detematização do sufocamento da subjetividade no cenário hostilda exclusão social, a autora compara a rarefação da subjetividadenos personagens de Noll e a transformação do rarefeito em umapassagem para uma outra forma de alteridade, no magníficopersonagem de Coetzee, Michael K., que também poderia seraproximado de Fabiano (o protagonista de Vidas secas, de Graci-liano Ramos) e de Macabéa (a protagonista de A hora da estrela, deClarice Lispector), na cena da carência que, surpreendentemente,faz com que o Michael K transcenda o nada a que a sociedadeo havia destinado, desencadeando, com força crítica, o exame,pelo leitor, desse terrível impedimento.Com Os velhos ‘marionetes’: Quincas Berro D’Água, ver-sões e construção de identidade”, Lucia Bettencourt descortinauma perspectiva original para focalizar um autor que já recebeumuitas e variadas exegeses e que faz parte de nosso patrimônionão só literário, mas também antropológico: Jorge Amado. Foca-lizando os personagens do autor a partir de suas ligações com adramaturgia popular e a tradição européia da comedia dell’arte,revela como sua ficção se mescla à arte popular regional, de forteinfluência africana. Com isso, abre um diálogo entre o ato nar-rativo e seu aspecto dramático, subvertendo a concepção usualdo protagonista Quincas, que adquire, assim, uma outra formade expressividade, através da manifestação popular.O texto “Quando o preconceito se faz silêncio: relações so-ciais na literatura brasileira”, de Regina Dalcastagnè, destaca, deuma profunda e extensa pesquisa que a autora vem realizandosob a chancela do CNPq, as personagens negras, francamenteminoritárias na ficção brasileira contemporânea. O artigo analisaalgumas exceções a esta regra, identificando diferentes modosde representação literária das relações raciais em uma sociedademarcada (embora pareça estar convencida do contrário) peladiscriminação. Com acurada atenção ao detalhe, mas sem perdero alcance do geral, o texto de Dalcastagnè ultrapassa, e muito,o que se produziu entre nós sobre o assunto, até o momento. Oexame dessas personagens negras talvez ajude os leitores (namaioria brancos) a entender melhor o que é ser negro no Brasil– e o que significa ser branco em uma sociedade racista.Com “Uma conversa entre macacos: percalços do diálogoafricano com o outro”, Lucia Helena focaliza uma delicada ecomplexa rede textual, formada pelo diálogo sutil implantadopor J. M. Coetzee entre seus dois romances A vida dos animaise Elizabeth Costello e o conto de Kafka, “Um relatório para umaacademia”. Ao manter enlaçadas, com pistas que oscilam nafronteira entre o falso e o verdadeiro, as marcas da autoria,da autobiografia e da ficção, do ensaio e da vida, o intertextorealizado por Coetzee revela-se uma irônica e produtiva forma
    • 12 Niterói, n. 23, p. 5-12, 1. sem. 2008de buscar compreender, discutir e criticar as transformaçõesda subjetividade na sociedade contemporânea, em um mundoglobalizado. Em diálogo com a violência do mundo, a literaturade Coetzee também homenageia a de Kafka, outro invulgarpensador do desastre.Fecha o volume a transcrição de uma entrevista inédita,feita por Maurício de Bragança, em 2005, com o escritor angolanoJosé Eduardo Agualusa, intitulada “O peixe e o macaco: emble-mas do subdesenvolvimento numa entrevista com José EduardoAgualusa sobre Brasil e Angola”. Nesta entrevista, seu autor, naintrodução que faz, estabelece os pontos em comum nos proces-sos da formação histórica do Brasil e de Angola, tomando comofato a colonização portuguesa e situando o contexto temporalde sua entrevista e o local – Vila do João, no Rio de Janeiro – emque faz um vídeodocumentário sobre os angolanos residentes noBrasil. A entrevista do escritor Agualusa fará parte do referidovídeo, em fase de montagem final.Laura Padilha eLucia Helena
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008O começo do fimSilviano SantiagoRecebido 15 mai. 2008 / Aprovado 27 mai. 2008ResumoO propósito de “O começo do fim” é o de apre-sentar uma nova e suplementar interpretação doconceito-chave do movimento Modernista – aantropofagia de Oswald de Andrade. Duranteoito décadas o conceito foi responsável por umarica e precisa bibliografia, em que se salientaramos aspectos ressentidos e beligerantes das culturascolonizadas em relação aos colonizadores. Essainterpretação, apesar de correta do ponto de vistasocial e político, negligencia as qualidades básicasdo trabalho de arte escrito nas margens da culturaOcidental, em particular as relacionadas ao fatoque ele deveria despertar no leitor a premênciadum pensamento utópico, em que a paz, a espe-rança e a alegria se tornariam os valores.Palavras-chave: Literatura brasileira. Van-guarda. Modernismo. Antropofagia. Pensamentoutópico.
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200814“Os mais bem sucedidos movimentos políticossão os que parecem não ser ‘políticos’”(Felix González-Torres, 1957-1996)Marik o Mori, Beginning of the End, Gizah, Egito, 2000No ano em que a Antropofagia oswaldiana celebra seuoctogésimo aniversário, torna-se indispensável repensá-la naperspectiva de uma nova interpretação. Sucessivas gerações deartistas, críticos e pesquisadores brasileiros e estrangeiros sobre-puseram uma formidável tradição hermenêutica ao conceito-cha-ve da vanguarda brasileira dos anos 1920. Ano após ano, décadaapós década, essa tradição se transformou numa muralha. Paraescalá-la o neófito tem de contar com o concurso dos milharesde sólidos e bons recursos oferecidos pela bibliografia de res-ponsabilidade dos artistas e dos intérpretes. Qualquer que seja atrilha eleita para a escalada da muralha antropofágica, revisitarou visitar o conceito significa fazer grandes caminhadas preli-minares por detrás do muro das interpretações canônicas e, semmaiores ambições, terminar por repetir o já escrito e assentado.Como nos adverte Eugène Ionesco na Cantora careca, “Tomai umcírculo, acariciai-o bastante, e ele se tornará vicioso”.Indispensável à escalada atual da viciosa teoria antropo-fágica, a planta baixa da muralha regulamenta medidas críticascontraproducentes à análise e compreensão das manifestaçõesartísticas contemporâneas, em particular das que reivindicamo calor utópico e o direito à esperança e à alegria, que – afirme-se
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 15desde já − não estão ausentes do programa teórico oswaldianoem sua totalidade. Se a planta baixa canônica for tomada comoperspectiva única e correta, algo nela não permitirá que seenxerguem − com proveito analítico − as qualidades e os sinto-mas evidentes da arte no terceiro milênio. Aprendamos com oaforismo do Manifesto Pau-Brasil: “Ver com olhos livres [o grifo édo próprio OA]”.A leitura dos últimos e influentes trabalhos críticos sobre otema por excelência da vanguarda histórica brasileira despertaconstantemente − na sensibilidade rebelde do leitor jovem − ogosto de bolo ressequido ou de café requentado. Em suas novaspesquisas, os grandes especialistas se interessam menos pelossucessivos constrangimentos prescritos e impostos pela tradi-ção hermenêutica ao conceito. Interessam-se mais em alardearas respectivas erudições individuais ou do grupo de pesquisa,ampliando ao infinito apenas o repertório das obras que podemser mais bem analisadas a partir da Antropofagia tal como aconceberam. Interessam-se, ainda, pela abertura de novas e pre-visíveis fronteiras geográficas não-ocidentais, e finalmente pelojá decantado exercício das inversões ideológicas nos sedimentosestratificados pelo poder das culturas hegemônicas – ex-coloni-zadoras ou neocolonizadoras e, por isso, ditas universais − sobreas demais culturas das nações ou dos povos das margens.Em resumo, tanto nos novos ensaios sobre a Antropofagiaquanto nos acréscimos feitos ao corpus original levantado pelateoria oswaldiana, a originalidade de um novo exemplo tornou-seo principal dado imprevisto no octogenário desenho da plantabaixa exegética. A teoria se alçou e se petrificou em muralha,enquanto o corpus analisado ganhou o estatuto de obesidademórbida.Em momento preciso do final do século 20, a Antropofagiarecebeu contribuição alvissareira na pesquisa propriamenteteórica. Ela anunciava o casamento do conceito da vanguardahistórica brasileira com figuras da teoria pós-estruturalista.Refiro-me aos conceitos de renversement (reversão [do platonismo],Gilles Deleuze) e de décentrement e de déconstruction (descentra-mento e desconstrução [da metafísica ocidental], Jacques Derrida).Hoje, os felizes e tardios casamentos teóricos − sacramentadossob o céu de Paris − se encontram bem assimilados pelos gourmetseuropeizados do circuito e do círculo antropófago. Na busca deuma palavra exegética que consagre o octogésimo aniversário,não há que voltar a elas.Não duvidemos por um segundo sequer de que o conceitooswaldiano e a tradição crítica dele derivada não tenham sido, noséculo 20, uma conquista admirável para a boa leitura da litera-tura e da arte não-européias, ditas periféricas ou emergentes. Oconceito e a correspondente tradição exegética (a muralha a quenos referíamos no parágrafo inicial) se tornaram também indis-
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200816pensáveis para a discussão justa e equilibrada do imaginárioestético e sócio-político dos artistas e dos escritores pertencentesàs antigas colônias européias no Novo Mundo.No terceiro milênio, quando se salientam as teorias pós-colonialistas − multiculturalistas − nos próprios países coloniza-dores de além Mancha, de que é exemplo a obra de Stuart Hall,ou de além Atlântico, de que é exemplo o Museu do Quai deBranly; em Paris, no novo milênio, quando as nações da África,do Oriente Médio e da Ásia reclamam um lugar ao sol no mun-do ocidental para suas audaciosas, destemperadas e resistentesmanifestações culturais, é impensável que o cidadão das mar-gens – seja o artista, seja o pensador – possa dispensar sem maisnem menos as idéias revolucionárias apresentadas por Oswaldde Andrade em 1928, cujo equivalente na pesquisa científica foiLa religion des tupinamba et ses rapports avec celle des autres tribusTupi-Guarani (em particular o capítulo IX), publicado naquelemesmo ano por Alfred Métraux, etnólogo de origem suíça. Ou-tro franco-suíço, o poeta Blaise Cendrars, foi também convivade primeira hora no banquete antropófago, como atestam osensaios de A aventura brasileira de Blaise Cendrars, de AlexandreEulálio (hoje em segunda edição, graças ao concurso de CarlosAugusto Kalil).Retirar a Antropofagia, a alta Antropofagia − precisemos − 1de detrás da muralha levantada pela hermenêutica canônica sig-nifica entregar-se a atividade sócio-política extremamente arris-cada, em particular neste exato momento da história planetária.Na cena mundial, dá-se continuidade à tragédia dos conflitosbélicos sangrentos, impostos pelos atores sociais de nações donorte aos atores sociais das nações do sul, representantes, res-pectivamente, do Ocidente e do Oriente, do cristianismo e doislamismo, do status quo e do chamado terrorismo. Infelizmente,o terceiro milênio se define, para retomar a chave-mestra de Sa-muel Huntington, pelo choque das civilizações. Na primeira décadado novo século, os movimentos diaspóricos de ex-colonos para ospaíses colonizadores do Primeiro Mundo ganham as manchetesdos principais jornais europeus e norte-americanos, e freqüen-tam com assiduidade a agenda política dos governantes, hajavista a situação em nada particular dos hispano-americanos ebrasileiros na Península Ibérica.2Se a tarefa a ser enfrentada pelocrítico de arte contemporâneo exige o risco político, arrisco-me,e não me deixo contaminar pela atualidade que a cada novo diao imperioso governo federal norte-americano inventa e semeiano Oriente Médio para melhor controlá-lo com fins em nadapacíficos.Em termos ainda abstratos, derivados da ancoragem dostextos de Oswald de Andrade na utopia, na esperança e na alegriapresentes no múltiplo programa teórico, proponho aos ouvintese futuros leitores considerar a Antropofagia de maneira su-1A não ser confundida– alerta-nos Oswald deAndrade – com “a baixa[grifo nosso] antropo-fagia aglomerada nospecados de catecismo – ainveja,ausura,acalúnia,o assassinato. Peste doschamados povos cultose cristianizados”. O au-tor conclui: “É contra elaque estamos agindo”.Anotemos rapidamenteque as duas formas deantropofagia não se con-fundem com o sentidoestrito do ritual canibaldos Tupinambás.2Neste mês de maiode 2008, maior tristezaé constatada na Áfricado Sul, onde imigrantesdospaíseslimítrofes,emparticular os moçambi-canos, são perseguidose dezenas assassinadospelos companheirosde pan-africanismo. Aintolerância e a xenofo-bia não existem apenasnos países do PrimeiroMundo.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 17plementar e de nova perspectiva. Enuncio minha proposta. Ademanda dos artistas e pensadores não-europeus e a aspiraçãoprofunda da produção artística das margens sobrevivem graçasà deglutição por qualquer cidadão da memória universal da culturae das artes, sem distinções ou balizas históricas e geográficas.Antes de prosseguir, busco o indispensável alicerce num afo-rismo do Manifesto Antropófago: “Contra as histórias do homemque começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Nãorubricado. Sem Napoleão. Sem César”.Se lhes parecer verdadeira a leitura não-hierárquica, pa-cifista e transcendental para a teoria antropofágica – inspirada,repito, no aforismo oswaldiano citado −, reganho força e lucidezcom o apoio do antigo filme documentário de Alain Resnaissobre a Biblioteca Nacional francesa, intitulado Toute la mémoiredu monde (1956). Escutemos a voz do narrador do filme: “Aqui[na Biblioteca Nacional] se prefigura um tempo em que todosos enigmas serão resolvidos, um tempo em que as chaves nosserão concedidas por esse universo e alguns outros. E isso sim-plesmente acontecerá porque os leitores, sentados diante de suaparcela de memória universal, terão colado pedaço por pedaçoos fragmentos de um mesmo segredo, que talvez ganhe umbelíssimo nome – a felicidade [le bonheur]”. E graças ao segredode nome felicidade, começo a palmilhar novo caminho, agoracom a ajuda de palavras tomadas de empréstimo ao conto “Abiblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges: “Quando se proclamouque a biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressãofoi de extravagante felicidade. [...] O universo estava justificado,o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas daesperança”. E ficaria felicíssimo se, ao final desta exposição, cadaum dos presentes pudesse por contra própria repetir a frase finaldo conto de Borges: “Minha solidão alegra-se com essa eleganteesperança”.Acrescente-se que a atividade antropofágica propostanão se quer milagrosa em si, mesmo se busca adotar – dessaperspectiva inusitada para a hoje canônica exegese da teoria – orosto utópico da esperança e da felicidade. Esse rosto, aliás, já seespelhava na letra do manifesto original, datado de 1928. Trans-posta a muralha hermenêutica, talvez a nota hoje dissonantede esperança e o calor utópico da felicidade passem a compor adisposição mais justa da Antropofagia nos dias atuais. É precisonunca esquecer que em 1945, por ocasião do fim da SegundaGuerra Mundial e depois da queda da ditadura Vargas, Oswaldde Andrade tinha submetido ao plenário do Primeiro Congres-so de Filosofia um longo ensaio intitulado A marcha das utopias.A espinha dorsal da argumentação continuava a ser a culturamatriarcal dos índios Tupinambás, presente nos manifestosdos anos 1920. Tampouco não se pense que a Antropofagia talcomo a estou caracterizando contribua para uma visão otimista
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200818do mundo atual, ainda que, em virtude de seu enraizamentooriginal na religião dos primeiros habitantes do Brasil, o lanceutópico, esperançoso e feliz, tome de empréstimo dos rituais daspopulações primitivas gestos alucinatórios e redentores.Se houver otimismo na teoria antropofágica, ele é em tudopor tudo semelhante ao par de calças, de que nos fala SamuelBeckett em preciosa e célebre anedota. Diante da reclamação doFreguês − “Deus fez o mundo em seis dias, e o senhor não con-seguiu me costurar essa merda de calças em seis meses”, reage oAlfaiate, orgulhoso de sua obra-prima: “Mas, meu senhor, olheo mundo, e olhe suas calças”.Em última instância e do ponto de vista restrito do artistanão-europeu, a Antropofagia leva o escritor – o escritor brasilei-ro, no presente caso – a desenvolver o gosto pelo lento e pacientetrabalho de arte. Sejamos mais precisos. Ela exige do artista, cujatradição cultural se encontra em princípio desapossada do idealde universalidade criado pela tradição ocidental, o gosto pelotrabalho artístico que não é desassociado do trabalho crítico,também de responsabilidade do próprio criador. Dessa pers-pectiva, soa falso todo esforço por criar oposição/contradiçãoentre a escrita dita artística e a escrita dita crítica. Não há fissãoe incompatibilidade entre elas. Ao se confundirem num escritor,criação e crítica se fundem e se confundem – são cofundadorasda literatura. Lembre-se de passagem do volume Variété I. PaulValéry escreve que Charles Baudelaire é o poeta “que traz umcrítico em si, intimamente associado por ele a suas própriascomposições poéticas”. Baudelaire se torna figura emblemáticados escritores para quem – continua Valéry – “a composição,que é artifício, sucede a algum caos primitivo de intuições e dedesenvolvimentos naturais”.A composição − de que fala Valéry nessa passagem sobreo poeta francês oitocentista e sobre outros escritores, como LaFontaine e Racine − decodifica a metáfora das calças, de que falao Alfaiate frente ao porta-voz de Deus na terra, que é o apressadoe abusado Freguês. A composição, ou seja, o lento trabalho dearte embutido no texto poético e, metaforicamente, nas calçasbeckettianas, faculta ao ser humano a possibilidade de competirem igualdade de condições com Deus e o acaso na criação douniverso, na criação dum universo alternativo, artístico, espe-rançoso e feliz. Depois das dores do parto, nada como o tempodo resguardo. Em termos oswaldianos: “o trabalho humanoconduz ao ócio”. Em termos nietzchianos, “as ‘dores do parto’são indispensáveis à alegria eterna da criação, à eterna afirmaçãoda vontade de vida”.3Como diz o texto santo: “Deus abençoouo sétimo dia e o santificou, porque neste dia Deus descansoude toda a obra de criação”. Também o alfaiate tem sua semanainglesa.3Complemente-se comeste aforismo de O cre-púsculo dos deuses: “Oartista trágico não é umpessimista, diz o seusim a tudo o que é pro-blemático e terrível, édionisíaco [...]”.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 19Na cena artística brasileira dos anos 1920, a Antropofagiaoswaldiana respirava o ar clássico e puro da teoria poética dePaul Valéry, ao mesmo tempo em que, em evidente movimentode contradição, acolhia e aclimatava a presença estética e sócio-política dos principais movimentos de vanguarda europeus − oautoritário Futurismo, de Filippo Tommaso Marinetti, e o anár-quico Dada, de Tristan Tzara. Em comum, (repito) a deglutição.No interior da vanguarda histórica brasileira, outra e conseqüen-te contradição terá seu clímax dois anos depois da realização daSemana de Arte Moderna. Em 1924, o poeta franco-suíço BlaiseCendrars é recebido pela família Paulo Prado e viaja, juntamentecom os jovens artistas paulistas, às cidades históricas de MinasGerais. Durante a primeira estada de Cendrars no Brasil, é quese acelera paradoxalmente o processo de abrasileiramento do eu-ropeizado movimento de vanguarda nos trópicos.Sobre os caminhos diferenciados que se cruzam na for-mação do modernismo, Brito Broca, um dos mais importanteshistoriadores da literatura brasileira, assinala: “Antes de tudo,o que merece reparo nessa viagem [a Minas] é a atitude para-doxal dos viajantes. São todos modernistas, homens do futuro.E a um poeta de vanguarda que nos visita, escandalizando osespíritos conformistas, o que vão eles mostrar? As velhas cidadesde Minas, com suas igrejas do século 18, onde tudo é evocaçãodo passado e, em última análise, tudo sugere ruínas. Pareceriaum contra-senso apenas aparente. Havia uma lógica interiorno caso. O divórcio [grifo meu] em que a maior parte dos nossosescritores sempre viveu da realidade brasileira fazia com que apaisagem de Minas barroca surgisse aos olhos dos modernis-tas como qualquer coisa de novo e original, dentro, portanto,do quadro de novidade e originalidade que eles procuravam”.Retomo os primeiros parágrafos desta fala para reafirmar queo sucesso de certa Antropofagia e da tradição hermenêuticacanônica tem suas raízes revolucionárias e belicosas na viagemde Blaise Cendrars às cidades históricas, ou seja, no divórcioentre intelectuais e a história nacional e no paradoxo ocasionadopela irrupção da tradição brasileira na já adolescente importaçãoeuropéia. Numa palavra, a Antropofagia bélica e ressentida temfundamento no imperativo categórico do abrasileiramento daarte de vanguarda.Num único salto, solitário e contraditório,4o complexo con-glomerado teórico, que compõe originalmente a Antropofagia,se comporta como o sinal preparatório a indicar a supremaciado construtivismo nas manifestações artísticas modernistas epós-modernistas. Os exemplos mais bem realizados, e radicais,serão encontrados a partir dos anos 1940 e 1950. Em literatura,a poesia de João Cabral de Melo Neto e os poemas visuais dospoetas concretos, e, em artes plásticas, as Bienais de Arte deSão Paulo.5Para julgar sobre a importância da contribuição4É bom lembrar estacurta passagem do Ma-nifeste Dada 1918: “Eu re-dijo esse manifesto paramostrar que é possívelfazer simultaneamenteações opostas, numaúnica fresca respiração;sou contra a ação; pelacontínua contradição,pela afirmação também,eu não sou nem paranem contra e não explicopor que odeio o bom-senso”. Pensemos aindana máxima de AndréGide, muito ao gostodos autores e críticosbrasileiros modernistas:“Sou um ser em diálogo;tudo em mim combate ese contradiz”.5Na França e no domí-nio das artes plásticas,o peso do construtivis-mo hispano-americanopode ser bem aquila-tado pela história daGalerie Denise Renée,situada não por coin-cidência no BoulevardSaint-Germain, quaseem frente da Maisonde l’Amérique Latine. Ointeresse praticamentenulo da galeria pelostrabalhos de Lygia Clarke Hélio Oiticica será emgrande parte responsá-vel por uma insuportá-vel lacuna brasileira doconstrutivismo brasilei-ro na cartografia pari-siense. Ver, por exemplo,as cartas trocadas entreLygia e Hélio duranteos anos de 1969/1970e a grande exposição“Helio Oiticica: the bodyof colour”, inauguradano ano passado na TateModern, em Londres.6A conferência foi publi-cada na Revista Brasileirade Poesia, no mês de abrilde 1956, e transcrita naantologia VanguardaEuropéia e ModernismoBrasileiro, organizadapor Gilberto MendonçaTelles. O leitor curiosoterá o maior interesseem consultar um anti-go e hoje desaparecidolivro de Jean Hytier, Lapoétique de Valéry (1953),em particular o capítuloV: “Inspiration et tra-vail”. Ali se encontramexcelentes exemplos de“deglutição” antropofá-gica em... Paul Valéry.
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200820teórica de Paul Valéry na concepção do lirismo construtivistadesenvolvido por João Cabral, basta ler a conferência “Poesia ecomposição – a inspiração e o trabalho de arte”, proferida pelopoeta pernambucano em 1952.6Desta forma é que João Cabral explica a atitude dos es-critores que decidiram a favor de uma escrita artística que seapóia na pesquisa – e não na inspiração: “Nos poetas daquelafamília, para quem a composição é procura, existe como que opudor de se referir aos momentos em que, diante do papel embranco, exercitam sua força. Porque eles sabem de que é feitaessa força – é feita de mil fracassos, de truques de que ninguémdeve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, deaceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e derenúncia ao que, de partida, se desejou conseguir”.Sérgio Buarque de Holanda foi o primeiro crítico sensívelà aliança entre a estética e a ética, tal como proposta em línguaportuguesa pelo lirismo construtivista de João Cabral. Em artigosobre o poeta, intitulado “Branco sobre branco”,7sem dúvidahomenagem indireta ao célebre quadro de Kazimir Malevitch,Sérgio retoma a oposição entre o “desleixo”, característica prin-cipal da colonização portuguesa nos trópicos, e o “zelo”, marcapreponderante da colonização espanhola no Novo Mundo. Aoposição fora articulada pela primeira vez em 1936 no ensaioRaízes do Brasil, hoje um clássico.8Ele a retoma em 1952 parainsistir sobre o mal-estar que sente diante da opção inesperadae sistemática dum brasileiro pelo zelo na composição de seuspoemas. Julgara-o equivocadamente um equivocado.Ao relatar o percurso de sua dúvida inicial sobre o valorda produção poética de Cabral e o reconhecimento tardio desua alta qualidade, Sérgio demonstra como a opção radical dopernambucano pelo zelo lhe parecera eleição de uma lingua-gem poética artificial, o que comprometia a inserção natural dospoemas na tradição lírica luso-brasileira. Passemos a palavraao próprio Sérgio: “confesso envergonhado que meus primeiroscontatos com sua obra e, depois, o crescente interesse que elapôde inspirar-me, nem sempre me deixaram totalmente livre dehesitações ou suspeitas. Pareceu-me quase incrível, por vezes,que essa consciência constantemente alerta e ativa, esse zelo, aomesmo tempo vigilante e criador [...], tão estranho aos mais inveteradoscostumes da lírica luso-brasileira, chegassem a existir, entre nós,sem fundar-se por vezes em algum malicioso artifício”.9(grifosnossos)Ao ler o opúsculo de Cabral sobre o pintor catalão JoanMiro (1952), Sérgio descobre tardiamente que o zelo cabralinoé a pedra de toque de que deve servir-se o crítico para avaliara originalidade de sua composição poética no interior da líri-ca luso-brasileira. Lê-se na já citada resenha: “O que pareciatraduzir-se naquele zelo sempre atento não era apenas uma7Aresenhafoipublicadaem jornal em 1952 e in-cluída em Cobra de vidro(São Paulo: Perspectiva,1978, p. 167-180)8Para maiores detalhes,consulte-se o sétimocapítulo de As raízes eo labirinto da AméricaLatina (Rio de Janeiro:Rocco, 2006), de minhaautoria.9Lembre-se que esta-mos sempre no mesmocircuito semântico. ParaValéry, como vimos, acomposição é “artifício”.Pode-se dizer que faltoua Sérgio, na primeiraabordagem de Cabral,o reconhecimento doartifício (ou seja, dacomposição artística)como tal.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 21poética, na acepção mais corrente e usual do vocábulo: era mais,e principalmente, uma espécie de norma de ação e de vida. Aestética, em outras palavras, assentava sobre uma ética”.Em João Cabral, como em outros escritores que o precedeme o sucedem, o exercício da arte se confunde com uma normade ação e de vida estóicas, cujo norte é determinado por umaatividade social de produção. Ao trazer para a discussão daAntropofagia o construtivismo, cria-se outro e novo paradoxo,cujo poder de repercussão chega a nossos dias. Sérgio Buarquenão deixa de assinalá-lo na abertura de sua resenha: “Não hágrande paradoxo em dizer que na obra tão breve e tão volunta-riamente impessoal de João Cabral de Melo Neto o autor parecepresente de corpo inteiro”. Graças ao esforço de composição, queé artifício, o poeta se apresenta de corpo inteiro num poemaabsolutamente impessoal. O par de calças só pode ser o confec-cionado por aquele alfaiate e por nenhum outro, para retomara anedota de Beckett.Em sua aliança com o construtivismo e na qualidade deinstrumento de busca da verdade poética, a teoria antropofágicatorna-se ferramenta poderosa. Por estar assentada em sólida pla-taforma ética, serve para questionar radicalmente as miudezasda história contemporânea e, mais, põe em questão as teoriasde composição poética defendidas pelas estéticas românticas eneo-românticas, de que o surrealismo é o exemplo mais notávelna época em que Oswald lança os manifestos literários. Essasestéticas estão centradas na expressão imperiosa da subjetivi-dade plena, que age em sujeição a − e em concordância com −uma espécie de transe onírico ou alucinógeno. Em oposição aotrabalho de arte, afirma-se a toda poderosa inspiração.Em contraponto à tomada de posição de João Cabral sobre oartifício poético e ao assentado criticamente por Sérgio Buarqueem relação à aliança entre estética e ética, leiamos uma curtapassagem de L’amour fou, de André Breton. O poeta surrealistalamenta os retoques que ele – primeiro leitor de si mesmo − foilevado a fazer no poema “Tournesol” (Girassol): “Parece-mefora de dúvida haver retocado uma duas ou três coisas, na ver-são original [do poema], no intuito – tão lamentável afinal – deobter um todo mais homogêneo, de limitar o grau de imediataopacidade, de arbitrariedade aparente, que me pareceu existirno poema da primeira vez que o li”. Primeiro, informa que aprimeira leitura da versão original do poema o levou a correçõesditadas pela autocrítica, para linhas abaixo, afirmar que as la-mentava: “A atividade crítica que, a posteriori, me veio a sugerircertas adições ou substituições de palavras [no poema], leva-me aencarar agora essas correções como erros básicos: nada auxiliamo leitor, antes pelo contrário, só conseguem de uma maneira oude outra prejudicar gravemente a autenticidade do poema”.10Segundo Breton, o trabalho de arte prejudica a autenticidade do10Salto uma curta pas-sagem entre as duascitações acima. Nelaestá em jogo o papel dainspiração – e não dotrabalho de arte – nacomposição do poema“Tournesol”.
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200822poema, sua verdade imediata. Ele não quer carregar consigo ocrítico de si mesmo.Retomemos, onde a tínhamos deixado, a questão da me-mória cultural comum a todos os homens. Em mãos de AlainResnais e Jorge Luis Borges. De maneira premonitória lemosno conto “A biblioteca de Babel” que “a certeza de que tudo estáescrito nos anula ou nos fantasmagoriza”. O que está por detrásdo dia de hoje – dito o passado, é já o presente que se impacientadiante da demora do futuro. O que está adiante do dia de hoje– dito o futuro, é sempre já a gestação do presente, pressurosaem dar à luz o que está por detrás do dia de hoje. Segundo oManifesto Antropófago, o solo comum a toda a humanidadefutura é o “matriarcado de Pindorama”. O matriarcado é facade dois gumes − “devora” e “comunga”. Escreve Oswald emensaio datado de 1950: “[A cultura matriarcal] compreende avida como devoração e a simboliza no rito antropófago, que écomunhão”.Na alta Antropofagia, de que Oswald de Andrade quer serporta-voz, o ato de devorar adquire as qualidades estratégicasdo ritual católico, em que o consumo do alimento sacrificialpelo cliente não distingue o real do imaginário, ou seja, o trigodo corpo e o vinho do sangue. Em resumo, a devoração é co-munhão. A gulodice da alta Antropofagia se situa entre os doisexcessos da razão, de que fala Pascal nas Pensées (IV): “excluir arazão, só admitir a razão”.11Por esse viés inesperado e excessivo,retorna o tema por excelência desse relato: “Faça isso em minhamemória”.Ou, então, retomemos os versos iniciais e os finais do poe-ma “Burnt Norton”, em Quatro quartetos, de T. S. Eliot, na traduçãode Ivan Junqueira. Eis os versos iniciais do poema: “O tempopresente e o tempo passado / Estão ambos talvez presentes notempo futuro / E o tempo futuro contido no tempo passado. /Se todo tempo é eternamente presente / Todo tempo é irredimí-vel”. Saltemos agora para os versos finais do poema: “O tempopassado e o tempo futuro, / O que poderia ter sido e o que foi,/ Convergem para um só fim, que é sempre presente”.Para bem apreender a riqueza da contribuição antropo-fágica à arte e à literatura brasileiras e à arte e à literatura emgeral, é preciso negociar com os críticos que defendem o sentidobiográfico-evolutivo das histórias pessoais de vida, o sentidoúnico da História e o peso da economia na avaliação da produçãoartística do ser humano. Como resultado da negociação, uma de-dução (no sentido financeiro do termo) será concedida ao artista,cujo custo benefício será a possibilidade de futuro esperançoso efeliz para a humanidade. A thing of beauty is a joy forever. A deduçãoé o sentido e o poder da arte e da literatura das margens, da artee da literatura como tais – na condição de composição artística,para retomar a expressão da poética de Valéry, ou em termos de11Há sem dúvida umcatolicismo recalcadona teoria antropofágicaque se torna explícito nomomento em que estáem jogo o ato de devo-rar como comunhão. Avisão mais fascinanteda questão devoração/comunhão é, na verda-de, a versão calvinista,a ser considerada comodesconstrucionista. Àépoca da luta entre eu-ropeus e indígenas comvistas à catequese, elase encontra no sextocapítulo de Voyage à laterre du Brésil, de Jeande Léry. A luta espiri-tual entre Villegagnone Jean de Cointe ganhapeso no fato de que nãohá transubstanciaçãoou consubstanciaçãodo corpo e do sanguede Cristo.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 23par de calças, para retomar a metáfora do Alfaiate na anedota deBeckett. O valor da dedução concedida pelos cientistas sociais eos economistas aos mercadores de arte é a sabedoria humana. Àsemelhança da antropofagia descrita por Alfred Métraux em seulivro pioneiro, que se elabora como conhecimento dito científico[knowledge], a Antropofagia oswaldiana se agiganta por ter comoescatologia a sabedoria dita poética [wisdom].Ao se afirmar a favor da expressão impessoal, descaracteri-zando a expressão subjetiva do poeta, e ao se deixar representarteoricamente como semelhante à casquette de Charles Baudelaire,cuja fabricação era compósita, a Antropofagia é antípoda da me-mória involuntária de Marcel Proust. Ela se confunde, portanto,com a memória voluntária, segundo a definição que dela nos foidada por Samuel Beckett em 1931, no ensaio pioneiro sobre oautor de Em busca do tempo perdido. Em inusitada correspondên-cia com o futuro Borges, autor do conto “Funes, o memorioso”(1944), Beckett afirma inicialmente: “O homem de boa memórianunca se lembra de nada, porque nunca se esquece de nada”.12Em oposição à memória involuntária, a memória voluntária –rebaixada por Beckett na escala dos valores proustianos comoa má memória – é necessariamente incompleta. Nesse sentido,ela é orgânica e não o é. É interior e não o é. É exterior e não oé. É involuntária e não o é. Em resumo, ela transita e, por isso,é anfíbia.A memória voluntária é memória e, ao mesmo tempo,hábito, para retomar outra categoria analítica de Beckett. Elaé hábito adquirido pelo ofício de viver e pelo ofício de ler. Emsuma, uma sabedoria – uma experiência de vida que se soma auma pesquisa livresca; é aprendizado. Segundo as palavras semdúvida irônicas de Beckett, ela é “a memória que não é memória,mas simples consulta ao índice remissivo do Velho Testamentodo indivíduo [...] É a memória uniforme da inteligência”. Portanto,a memória voluntária não se relaciona em coisa alguma com aboa memória, ou seja, a memória involuntária proustiana.A memória voluntária – a má memória, insisto, bem comoa Antropofagia – é conseqüência do pensamento da diferença,mas ela só existe plenamente para negar os valores subjetivose supremos, que estão na origem da sua desclassificação porMarcel Proust. Se a reversão dos valores – na leitura de Beckett, omau da memória está sempre em posição inferior −, se a reversãodos valores não foi necessária no período histórico das vanguar-das, ela está sendo requisitada na contemporaneidade. AndréasHuyssen, historiador de arte, situa o pós-modernismo depois degrande divisão (“after the great divide”). Huyssen assim define aexpressão: “O que chamo de a Grande Divisão é o gênero de dis-curso que insiste na distinção categórica entre arte erudita [highart] e a cultura das massas”. Acrescenta: “[...] o pós-modernismorepudia as teorias e as práticas da Grande Divisão”. Em oposição12Entre outras, leiamosesta passagem de “Fu-nes, o memorioso”: “Nãosó lhe custava compre-ender que o símbologenérico cão abranges-se tantos indivíduosdíspares de diversostamanhos e diversa for-ma; aborrecia-o que ocão das três e catorze(visto de perfil) tivesseo mesmo nome que ocão das três e quarto(visto de frente). Seupróprio rosto no espe-lho, suas próprias mãos,surpreendiam-no todasas vezes”.
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200824às leituras equivocadas da vanguarda histórica, que insistiamno fato de que era indispensável excluir as manifestações detodas as formas de cultura de massa, o historiador nomeia demaneira incontestável o principal responsável pela GrandeDivisão, o alto modernismo [the high Modernism]. Ele se explica:“as vanguardas históricas tinham por fim o desenvolvimentoduma relação alternativa entre a arte erudita e as culturas dasmassas e dessa forma deveriam continuar a existir dentro doalto modernismo, que, no entanto, insistia majoritariamente nahostilidade inata entre o alto e o baixo”.13Nem alta cultura nemcultura de massa, a Antropofagia – ou a má memória – apontapara as duas, ao mesmo tempo.Retornemos a Beckett e a Proust para concluir com a ajudado primeiro: “Democrata incondicional, [a memória voluntária]não faz qualquer distinção entre os Pensamentos de Pascal e umapropaganda de sabão”. A Antropofagia está no nascedouro daprodução artística que se afirma como negação das estéticas doalto modernismo, que lutavam a favor da exclusão da culturadas massas do reino das artes. A Antropofagia se apresenta aosolhos pós-modernos como a negação das estéticas românticas,fundadas na sinceridade do eu.Durante o período áureo da vanguarda brasileira, a An-tropofagia buscava, por um lado, apreender e avaliar para oartista e o pensador não-europeus o peso da herança culturaluniversal e, por outro lado, identificar as razões pelas quais osindígenas – que são nossos antepassados dum ponto de vistaexclusivamente geográfico – não tinham conseguido ter acessoao capital cultural consensual, indispensável à produção de obraartística ou reflexiva com peso universal. Mais importante do quea constatação da inferioridade do colono em relação à empresacolonizadora européia e a conseqüente rejeição das injustiçasestabelecidas pelo poder tirânico das metrópoles, a Antropofa-gia se apresenta como estratégia artística e reflexiva que visa aapreender o valor universal para os que estão desapossados deleoriginariamente. Na busca desse valor, a Antropofagia rechaçaa dívida contraída pelo não-europeu com o universal, para entãoindiciá-la duplamente − como signo de reconhecimento e, para-doxalmente, de auto-reconhecimento. A teoria antropofágica éo primado duma negociação, cujo resultado – isto é, a reduçãoou o abatimento no preço legal e oficial do universalismo – é ailuminação do mundo e seus habitantes pela amplidão absolutado conhecimento pleno das diferenças. A iluminação se dá noexercício de ultrapassagem histórico das condições funestas docotidiano e da atualidade.A produção de bens artísticos e reflexivos passa por umaexperiência pessoal que se renova, que é renovada por cadaexperiência humana, indiferente de sua localização precisa nahistória ocidental e na geografia do planeta. Leia-se o manifesto,13A reiterar a tese deHuyssen, leia-se no ma-nifesta de Oswald: “Oque atropelava a verda-de era a roupa, o imper-meável entre o mundointerior e o mundo ex-terior. A reação contrao homem vestido. Ocinema americano in-formará”.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 25de que vimos falando: “Contra a Memória fonte do costume.A experiência pessoal renovada”. A memória se renova pelaintervenção do sujeito na memória universal, de que falam AlainResnais e Jorge Luis Borges. Sua memória é involuntária e volun-tária, é interior e exterior, é orgânica e artificial, é incompleta euniforme. O sujeito se renova no momento em que sua memóriainvoluntária se renova voluntariamente.Em possessão duma reserva parcial de conhecimento e de-sejoso de ter acesso ao capital artístico dito universal, os artistase os pensadores não-europeus inventaram não só argumentoscontraditórios e paradoxais, como também metodologias deleitura em nada convencionais. A Antropofagia não deixa depropor uma pedagogia para todos os cidadãos. Marca original docolono, o conhecimento incompleto se justapõe ao conhecimentodito universal, marca original do colonizador. É um conhecimen-to exorbitante que deriva da combinação, da comunhão das duasreservas de conhecimento pelo esforço antropófago. Ele rechaça,portanto, as duas formas parciais de conhecimento − tanto aparcial do colono quanto a dita universal do colonizador. Nodomínio da Antropofagia, o único valor responsável é o exor-bitante. Para melhor compreender a situação pedagógica a quechegamos, aprenda-se com Emmanuel Lévinas que “a relaçãointersubjetiva é uma relação não-simétrica. Nesse sentido, souresponsável pelo outro sem esperar a recíproca, ainda que ele mecuste a vida. A recíproca é problema dele”. A recíproca ocidentalnão é, nunca foi e nunca será problema do sujeito antropófago.Os argumentos legitimados pela Antropofagia escapammuitas vezes da lógica cartesiana e de suas metodologias deleitura, escapa ainda ao sentido único da História. Daí a ori-ginalidade e audácia dos aforismos levantados pelo ManifestoAntropófago, de que é emblemático o seguinte: “Só me interessao que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Antes deser o inimigo, ainda que na realidade o possa ser, o outro é a pos-sibilidade de união neste mundo, em que mais e mais se perde aesperança da fraternidade universal. Essa operação responsável,esperançosa e utópica, a felicidade na comunhão, só é possívelgraças aos paradoxos da Antropofagia: “Só a Antropofagia nosune. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. / Únicalei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualis-mos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todosos tratados de paz”.Tudo o que é de outro é meu. Tornar-se responsável do bemque é do outro, dos bens que pertencem ao outro, é o própriodo eu que, em lugar da sinceridade romântica, se quer fraternale esperançoso, vale dizer, universal. O sujeito não recua diantedos atos e mecanismos de ataque ou de defesa manifestadospelo outro. Voluntariamente, acumula em si o outro, o capitale os valores do outro. Nunca será deficitário. Em negociação
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200826com o outro, jamais desfalca seu capital cultural, soma sempre.A visão do sujeito antropófago perde o sentido das fronteirasgeográficas e sua audição, perde o sentido dos limites espaciaise sua localização. A responsabilidade é a expressão mascaradade todos os individualismos que, por sua vez, é a expressãomascarada de todos os coletivismos – repitamos as palavrasdo Manifesto. Daí o aforismo que abre o texto de Oswald: “Só aAntropofagia nos une”.Terminada a etapa das operações aritméticas − ou finan-ceiras − de soma, impõe-se o desejo de verificar a exatidão dosresultados obtidos. Aplique-se a prova dos nove. Esta negaráou reafirmará o rigor da lei do homem e da Antropofagia. NoManifesto Antropófago, lemos uma e muitas vezes o seguinte afo-rismo: “A alegria é a prova dos nove”. E lemos ainda: “Antes dosportugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto afelicidade”. Uma vez mais precisemos nossa posição. Antes de serconseqüência das descobertas marítimas feitas pelos europeusno século 16, a alegria foi sempre o valor do antropófago; emuma só palavra, o valor exorbitante do homem no matriarcadode Pindorama, um valor absoluto.Dessa perspectiva, o estudo das diferenças espaciais noplaneta terra – e a constatação de sua composição não-simétricado ponto de vista histórico, social e econômico – só guarda suaforça operacional por detrás da muralha sobreposta ao con-ceito oswaldiano pela tradição hermenêutica, cuja origem estáincontestavelmente na busca de identidade para cada nação dosubcontinente latino-americano ao final do colonialismo euro-peu. Constate-se uma vez mais: a lei que constitui o sujeito porseu “interesse pelo outro”, ou por sua “responsabilidade pelooutro” não diferencia o antropófago do ser humano tout court. Alei do homem e a lei do antropófago não são duas, são a mesma.Melhor, a lei do mesmo rasura a diferença que tinha servidona época colonial e depois dela para constituir o antropófagona condição de ator latino-americano singular, descoberto peloeuropeu e inventado a partir das grandes descobertas marítimasdo século 16. Na prova dos nove, esse ator tem a identidade dehomem ressentido (Nietzsche) e navega nas águas belicosas dosaber parcial.As questões políticas e econômicas decorrentes da longae fastidiosa narrativa sobre as transformações das colônias eu-ropéias em nações latino-americanas cedem o lugar a questõesdecorrentes duma nova e complexa forma de constituição dosujeito (artístico). Tal reviravolta se dá no momento em que setorna de importância primordial uma visão esperançosa e fe-liz, universal, que contrastará radicalmente com as propostassócio-políticas defendidas pela globalização do planeta a partirda unificação econômica das bolsas e dos mercados, ou que aacusam pela mesma linguagem, só que em sentido inverso.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 27O novo e complexo sujeito antropófago – semelhante aoque está sendo encenado nas fotografias de Mariko Mori, intitu-ladas Beginning of the end: Past, present and future (1995-2000) – 14se caracteriza pelo dom da ubiqüidade, da simultaneidade e datranscendência. O novo sujeito está por todos os cantos do tempoe do espaço. É a memória do espaço fotografada pela perspecti-va da memória do tempo. O sujeito está ali e está alhures, numoutro lugar onde os limites históricos e as fronteiras geográficasse apresentam desprotegidas do sentido de propriedade por umgrupo ou por grupos hegemônicos. Como o Manifesto o tinhadito em 1928, trata-se de um mundo “sem Napoleão, sem César”.A nova certeza proposta por Mariko Mori e muitos outros ar-tistas contemporâneos furta a diferença para melhor apreendera sutura que as obras de arte operam pelo “totalitarismo” daalegria, para empregar o substantivo de Clément Rosset em seuensaio La force majeure.Citemos Rosset: “há na alegria [joie] um mecanismo aprova-tivo que tende a ir além do objeto particular que a suscitou paraafetar indiferentemente todo objeto e chegar a uma afirmaçãodo caráter jubilante da existência em geral. Assim, a alegriaaparece como uma espécie de cega desoneração de dívida, con-cedida a todos e a qualquer, como uma aprovação incondicionalde toda forma de existência presente, passada ou futura”. Máriode Andrade afirmava de maneira paradoxal: “A própria dor éuma felicidade”. Passemos por cima do Nietzsche, autor de Ocrepúsculo dos ídolos, para chegar finalmente a Gilles Deleuze,seu leitor. Deste é a definição seguinte: “Trágico designa a for-ma estética da alegria [joie]; não se trata de fórmula medicinal,nem de solução moral da dor, do medo ou da piedade. O que étrágico é a alegria”.O retorno do que foi recalcado nesta apresentação – amuralha construída pela tradição hermenêutica – é apenas aafirmação em negativo do poder policial das fronteiras alfandegá-rias e da intolerância dos governantes e dos cidadãos em relaçãoà circulação plena dos homens pelas nações do planeta, pelosseus múltiplos tempos e espaços. Mais: o retorno do recalcadorepresenta as variadas formas de transgressão artística, afirma-das por considerações de ordem histórica, política e econômica,cujo fim é o de explicar, não a criação estética em si, mas as cir-cunstâncias negativas e diversas que a cercam, curto-circuitandosua liberdade de expressão. “Mas, meu senhor, olhe o mundo,e olhe seu par de calças”.Leiamos um aforismo do Manifesto da Poesia Pau-Brasil(1924). Ele nos fala da luta a favor dum caminho único que deveenglobar a antiga e uma nova concepção de poesia: “Uma únicaluta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação.E a Poesia Pau-Brasil, de exportação”. Apesar de comportar umtempo e um lugar predeterminados pelo adjetivo que a qualifica,14Os leitores que nãoconhecem o trabalho deMariko Mori poderãoler com proveito estacurta passagem extraídada Encyclopédie Encarta(2006): “Mariko Morifotografou vistas de 360ºde onze cidades repre-sentantes do passado(Ankgor, Teotihuacán,La Paz, Gizah), do pre-sente (Times Square,em Nova York, Shibuya,em Tóquio, PiccadillyCircus, em Londres,Hong Kong) e do futuro(o bairro da Défense, emParis, Xangai, Docklan-ds em Londres, Odaibaem Tóquio, Berlim). Elaprópria está presente nafoto, deitada, vestida deum traje futurista numacápsula de plexiglastransparente. Marikotorna assim possível,através da mensagemsobre um mundo glo-balizado, as noções desimultaneidade, ubiqüi-dade e transcendência.Seu corpo torna-se um‘instrumento de comu-nicação com o mundo’,seu trabalho, ‘um atoartístico destinado adistribuir a essênciaespiritual do mundo, adesviar os homens doscombates políticos, re-ligiosos ou ideológicosque provocam a devas-tação do planeta Terra,nossa única moradia’”.
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200828a nova poesia, de que fala Oswald, luta por um caminho único,que é o da exportação. Seu aqui está alhures. Seu alhures estáaqui. Nesse sentido, a repetição exaustiva da palavra “Roteiros”em um de seus aforismos se afirma de importância primordialpara bem compreender os deslocamentos espácio-temporais dosujeito artístico que se quer antropófago e construtivista.Nas reflexões propriamente utópicas de Oswald de Andra-de, sempre está em jogo a condição do “bárbaro tecnicizado”. Nocorpus da Antropofagia, tudo exige uma pedagogia escatológica,de óbvio sentido universal, mas é o personagem do bárbarotecnicizado que a reclama. Por falta de tempo para se deter nosdetalhes, retomemos algumas idéias lançadas por Jean-FrançoisLyotard em La condition post-moderne. As teses defendidas pelofilósofo doublé de pedagogo se articulam a partir dum grandeeixo, ao redor do qual se desenha o questionamento do conceitode Bildung [formação], tal como nos foi transmitido pela tradiçãofilosófica do século 19.À transmissão dum saber completo pelo professor ao aluno,cujo saber é por definição incompleto, à interiorização progres-siva do saber completo sob a batuta áspera do maestro, segue-sehoje – graças à informatização do conhecimento e a possibilidadede acesso por todos à Internet – que o saber humano se apresen-ta sob a forma dum estoque uniforme, completo e exterior aohomem. A memória de cada um e de todos é tão anfíbia quantoa boa memória involuntária e orgânica (Marcel Proust) e a mámemória voluntária e inorgânica (Antropofagia). Como escreveLyotard: “A Enciclopédia de amanhã são os bancos de dados. Elesexcedem a capacidade de cada usuário. São ‘a natureza’ para ohomem pós-moderno”.Continuemos a leitura de Lyotard: “À medida que o jogoestá na informação incompleta, a vantagem cabe àquele quesabe e pode obter um suplemento de informação. Este é o caso,por definição, de um estudante em situação de aprendizado”.É o caso também − acrescentemos − do colono que se contentacom a condição de colonizado. A este faz sentido a retomadadas idéias guerreiras desenvolvidas pela tradição hermenêuti-ca, de que falamos no começo desta apresentação. No jogo deinvenção com informação completa para os parceiros, o melhordesempenho não pertence obrigatoriamente ao professor (ou aocolonizador), que detém a priori um suplemento, ou ao estudante(o colono), que pelo trabalho mimético busca para si a aquisiçãode tal suplemento. A invenção – continua Lyotard – “resulta deum novo arranjo dos dados que constituem propriamente um‘lance’ [un coup]. Este novo arranjo obtém-se ordinariamentemediante a conexão de uma série de dados tidos até então comoindependentes. Pode-se chamar imaginação a capacidade de ar-ticular em conjunto o que assim não estava”.
    • O começo do fimNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 2008 29Nos distantes anos 1920, a Antropofagia propunha umanova pedagogia, onde estava presente a possibilidade para osartistas e os pensadores brasileiros de trabalhar “no jogo dainformação completa”. Todos os parceiros – ex-colonos e ex-colonizadores − estariam em igualdade de competência na horada produção do pensamento e da arte. O exorbitante não era umsuplemento de mão única, mas a duas, a três mãos. O exorbitanteé a imaginação antropófaga. Terminemos por esta passagem deLyotard, que a sua maneira retoma a utopia esperançosa e felizde Borges, de Valéry e de Beckett: “Ora, é permitido representaro mundo do saber pós-moderno como regido por um jogo de in-formação completa, no sentido de que os dados são em princípioaccessíveis a todos os especialistas: não existe segredo científico.Em igualdade de competência na produção do saber, e não maisno processo de sua aquisição, o aumento de eficiência dependeapenas e finalmente da ‘imaginação’ que permite seja dado umnovo lance, sejam mudadas as regras do jogo”.Escrito em francês em junho de 2007Traduzido em maio de 2008AbstractThe purpose of the “Beginning of the end” is topresent a new and supplementary interpretationof the key concept of the Brazilian Modernistmovement – Oswald de Andrade’s antropofagia.For eight decades the concept has been responsiblefor an extremely rich and accurate bibliographythat underscores the belligerent aspects of thecolonized cultures in regard to the colonizers.This interpretation, in spite of being correct from asocial and political point of view, neglects the basicqualities of the work of art written in the marginsof Western culture, in especial those related to thefact that it should arouse in the reader the needfor a utopian thought, in which peace, hope andjoy are the values.Keywords: Brazilian literature. Avant-garde.Modernist movement. Antropofagia. Utopianthought.
    • Gragoatá Silviano SantiagoNiterói, n. 24, p. 13-30, 1. sem. 200830REFERÊNCIASANDRADE, Oswald de. Obras completas: ao pau-brasil à antro-pofagia e às utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.v. VI.BECKETT, Samuel. Le monde et le pantalon. Paris: Minuit, 1990.BORGES, Jorge Luis. Obras completas. São Paulo: Globo, 1999. v. I.DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la philosophie. Paris: Presses Uni-versitaires de France, 1970.HUYSSEN, Andreas. After the great divide. New York: MidlandBook, 1986.LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: J. Olym-pio, 1986.ROSSET, Clément. A alegria: a força maior. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 2000.TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e Modernismobrasileiro. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1982.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008Notas históricas: solidariedadee relações comunitáriasnas literaturas dos países africanosde língua portuguesaBenjamin Abdala JuniorRecebido 03 mar. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoNotas sobre as histórias literárias dos países afri-canos de língua oficial portuguesa, construídas apartir da situação colonial. São relevados traçoshistóricos comuns, que apontam para perspecti-vas neo-românticas quando essas literaturas sevoltam para imaginar questões relativas a suasnacionalidades; processos de atualização da língualiterária portuguesa, cuja plasticidade remontanacionalmente aos tempos medievais; e as redescomunitárias que elas conformam com o conjuntodas literaturas de língua portuguesa..Palavras-chave: História literária. Países afri-canos. Língua portuguesa. Perspectivas. Neo-romantismo.
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200832O estudo dos processos de afirmação das literaturas afri-canas de língua portuguesa levam o crítico a relevar formasem que os escritores, desde a facção da obra, procuram obtersua legitimação, num campo intelectual definido por relaçõescomunitárias. Autor, texto e leitor situam-se nesse horizontelingüístico-cultural que se pauta pela tendência à supranaciona-lidade, que se tem mostrado tão importante quanto as adesõesempáticas da nacionalidade. Nessa rede, o trabalho literárioprocurará sua legitimação não apenas em termos de criação,mas também nas esferas de circulação, por onde circulam osprincipais agentes de seu reconhecimento. Estabelecem-se,assim, a partir de cada obra, relações de solidariedade entreesses agentes. Para tanto, a inclinação para a inovação artísticatorna-se correlata ao desejo de se provocar impacto, encontrarressonância enquanto poder simbólico.Impõe-se uma observação preliminar, não obstante essatendência a uma normatização supranacional: as literaturasafricanas de língua portuguesa apresentam especificidades na-cionais e só um olhar distraído nivela suas diferenças. Do pontode vista metodológico, sua abordagem pode ser feita como emqualquer série cultural: registros em língua portuguesa, que searticulam supranacionalmente, como foi assinalado, seguin-do redes e fluxos da circulação da cultura. Do ponto de vistahistórico, essas literaturas, cujos repertórios configuraram-seplasticamente na língua literária portuguesa, trazem marcas quevêm desde a formação de Portugal como estado nacional, masarticulam-se em redes com outros sistemas, em cada situaçãohistórica. Evidentemente, esse reporte às origens das literaturasem português pode ser alongado, pois a experiência literáriaé obviamente mais ampla, acabando por se associar à própriaorigem da cultura. Um patrimônio de todos os povos, que nãose reduz às apropriações e matizações politicamente associadasa formações nacionais.Liberalismo e projetos nacionaisHistoricamente, as literaturas africanas de língua portu-guesa são recentes e seguem – como aconteceu com o romantis-mo em escala mundial – os influxos da tomada de consciêncianacional por parte da intelectualidade letrada. É por isso quecertos vetores encontráveis no romantismo brasileiro podemser associados às produções africanas, mesmo em produções deaté meados do século XX. Os países colonizados por Portugalna África deparam-se com a necessidade de estatuir literaturasnacionais, no quadro da modernidade, tal como ocorreu com oBrasil no século XIX. Tivemos o romantismo propriamente ditoe, depois, a Semana de Arte Moderna, como divisora de águas,que propiciou a literatura, dita “regional”, e a nossa poesia mo-dernista.
    • Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 33No romantismo, a literatura brasileira veio a inventar mi-tos da nacionalidade, buscando a “cor local” para uma sintaxeque vinha da Europa. E tanto Portugal, como o Brasil, estavamsob o manto liberal e artístico da França. Pensávamos nossasformas de independência em francês, mediatizando-o por situ-ações locais, o que, por assim dizer, neutralizava o que pudesseser explosivo na perspectiva hegemônica no campo intelectualliberal. Há faces diferentes: o liberalismo torna-se dominante,no Brasil, revestindo-se de inclinações para a afirmação nacio-nal; liberalismo em Portugal como estratégia de modernização,contra as formas passadiças associadas ao modo de pensar esentir o país dos setores conservadores.A leitura desse processo histórico nos países africanosde língua portuguesa revela que um primeiro momento defratura do imaginário do colonizador veio a ocorrer pela pre-sença político-cultural de uma burguesia crioula africana, nosúltimos vinte anos do século XIX. Foi um período liberal, quepode ser associado à Regeneração portuguesa, e que favoreceuo início de uma intensa atividade jornalística nas então colônias.A imprensa desponta, desse modo, como a força responsávelpelo surgimento dos primeiros redutos dos assim chamados“naturais da terra”, capazes de romper o silêncio imposto pelaestrutura colonial. Seriam uma versão africana, correlata ao quehavia acontecido com a elite dos crioulos brasileiros (mestiçosdescendentes de portugueses), que haviam conseguido a liber-tação da metrópole colonial.Muitos dos nomes mais significativos na história dasidéias em Angola, por exemplo, estão ligados a esse período defundação e consolidação da imprensa. No campo da literatura,destaca-se Alfredo Troni, autor da novela Nga Muturi (1882),que se correspondia com escritores portugueses da Geração de70. Sua novela foi publicada em folhetins na Gazeta de Portugal,em Lisboa. Nessa narrativa, com ironia que lembra a literaturade Eça de Queirós, Troni já mostra a incorporação de costumeslocais e domínio do quimbundo. Se o escritor nasceu e se formouadvogado em Portugal, sua identificação maior se fez com a novaterra, ele que era republicano e socialista. Seu ideário – maisforte do que questões de origem – tinha suas bases na RevoluçãoFrancesa. Foi um processo de identificação, pois, sua adesão àsreivindicações da burguesia crioulizada de Angola. Aspiroupor formas políticas liberais e, mesmo, pela independência dopaís. Nos horizontes de seu grupo intelectual, estava o Brasil esua literatura romântica, antiga colônia que havia conseguidose libertar da metrópole. Seu republicanismo e socialismo prou-dhoniano o levava mais longe.As identificações políticas das elites angolanas com o Brasiljá eram anteriores. É de se recordar que, no tratado de reco-nhecimento da independência brasileira por parte de Portugal,
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200834feito sob mediação inglesa em 1825, o Brasil se comprometeu anão aceitar “proposições” de quaisquer colônias portuguesasde se reunirem a ele. Havia um movimento desencadeado emAngola, nesse sentido, associado a interesses escravocratas, oque contrariava os interesses ingleses, além evidentemente dosportugueses. Nas décadas finais do século XIX, as aspiraçõeseram de outra natureza, de outros setores, os anti-escravocratas.Alfredo Troni foi autor de um regulamento que declarou defi-nitivamente extinta a escravidão em Angola. Acabou por serdestituído de seus cargos públicos e compulsoriamente exiladopara Moçambique.Consciência regional e consciência nacionalTraços neo-românticos, centrados na incorporação daatmosfera cultural da terra, ultrapassariam o século XIX comolinhas de força que se projetam, no conjunto dos países afri-canos de língua portuguesa, até meados do século XX. Essaobservação é geral e deve-se considerar também diferenças quematizam esse romantismo que embalou tanto o Brasil comoPortugal. Há, entretanto, uma inclinação para o mapeamentosociocultural e mesmo da ambiência natural que permitemaproximações. Aos poucos, nas primeiras décadas do séculoXX até às vésperas da Segunda Guerra Mundial, afirmaram-sena África colonial portuguesa formas de consciência regional,que já embutiam aspirações nacionais. Nessa nova matização, asimagens românticas são comutadas, em especial, por uma apro-priação de repertórios do modernismo brasileiro. Este é o dadonovo, tendo em vista que o gesto artístico de nossos escritoresprocurava afastar paradigmas e mesmo uma sintaxe identificadacom dicções evocativas da situação colonial. A língua literáriapossuía um repertório proveniente de experiências comuns,mas que tinham sua especificidade nas apropriações, que eramuma forma de ação comunitária interna, culturalmente tambémhíbrida. A literatura “traduz” em suas formas um conhecimentoque vinha de outras áreas: história, filosofia, política, sociologia,antropologia, artes etc.No período do pós-Segunda Guerra e em torno da afirma-ção dos princípios de auto-determinação dos povos, proclamadapela carta das Nações Unidas, radicalizaram-se formas de identi-ficação nacional. Se Portugal era associado à Pátria (colonial) dosdiscursos oficiais, os africanos buscavam a afirmação da Mátria(a “Mamãe-África”), e, com essa perspectiva, os escritores afri-canos olharam com ênfase para as produções literárias do Mo-dernismo brasileiro (a Frátria – a antiga colônia que se libertou econstruiu um discurso próprio). A fraternidade supranacional setraduz em formas de solidariedade, com simetrias entre gestos:no Brasil, em meados do século, rediscutia-se a nossa formaçãohistórica, o que deu origem a obras clássicas de nossa cultura,
    • Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 35de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior eAntonio Candido, por exemplo. Na literatura, os ecritores pro-curavam revelar facetas psicossociais de nossa gente. Sob o jugocolonial português, a ênfase sociológica e nacional dos escritoresafricanos encontrava sua radicalidade em formulações discur-sivas anticoloniais. Eram tempos de literatura engajada e essesintelectuais mostram-se com facetas especificamente literáriastão radicais como as políticas. O escritor e o cidadão, para eles,não poderiam deixar de caminhar juntos. A grande imagem(neo-romântica) que se firmou após a Revolução Cubana, foi ade Che Guevara: numa mão o livro; noutra, o fuzil.Um bom exemplo dessa problemática é Castro Soromenho.Viveu em período anterior, onde já se desenhavam atitudesque irão embalar as lutas de libertação nacional na África delíngua oficial portuguesa, que eclodiram depois, nos anos 60.Soromenho situa-se no campo intelectual da intelectualidade deesquerda (a grande frente popular antifascista dos anos 30-40),para quem questões de independência nacional se imbricavamcom perspectivas sociais. Esse autor, nascido em Moçambique(1910), filho de português e cabo-verdiana, foi com um ano deidade para Angola, onde viveu de 1911 a 1937. Fez estudos primá-rios e de liceu em Lisboa (1916-1925). Voltou a Portugal em 1937.Em face de perseguições políticas, teve de exilar-se, vivendo naFrança (1960-1965) e, depois, no Brasil (1965-1968), onde veio afalecer. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Africanosda Universidade de São Paulo, dirigido por Fernando Mourão.O romance Terra morta teve sua primeira edição publicada noBrasil, em 1949, quando o autor residia em Portugal. Nem po-deria ser diferente, pois esse romance denuncia o colonialismoportuguês.Por outro lado, laços de solidariedade eram compactuadoscom a intelectualidade metropolitana. Os sonhos libertários,advindos do término da Segunda Guerra Mundial e que entãoembalavam os intelectuais portugueses, eram frustrados pelaatmosfera sufocante da guerra fria e pela persistência do regi-me ditatorial. No mesmo campo, as relações de solidariedadecoexistem contrastivamente com as de desigualdade. Há hege-monias e as mais significativas são as que se naturalizam: osnão-hegemônicos aceitam com naturalidade a dominação dooutro. E, em Portugal, entre africanos e metropolitanos, havia di-ferenças, pois os primeiros não aceitavam a dominância históricados segundos. São tensões que afloraram no campo político, comressonâncias na literatura. Questões ideológicas manifestam-setambém em nível inconsciente e hábitos coloniais acabam porse manifestar para além da consciência ou intenções, inclusivedos atores do campo intelectual.Mesclagens culturais e olhares em contraste
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200836A literatura cabo-verdiana pode ser dividida em dois perío-dos: antes e depois da revista Claridade (1936-1960). Os escritoresdo arquipélago de Cabo Verde, ao procurarem voltar as costaspara modelos temáticos europeus, fixaram seus olhos no chãocrioulo, próprio da mesclagem étnica e cultural de seu país. Acrioulidade deve ser entendida como uma mescla cultural nãounívoca (mestiça), um conjunto híbrido onde pedaços de cultu-ras interagem entre si, ora se aproximando, ora se distanciando.Essa atitude dos intelectuais cabo-verdianos, de oposição aospadrões hegemônicos provenientes da metrópole, era correlataà obsessão de procura de origens – origens étnicas e culturais,que sensibilizavam a intelectualidade africana do continente.Interessante é indicar essa tomada de consciência regional.Um bom exemplo dessa trajetória é Osvaldo Alcântara(pseudônimo poético de Baltasar Lopes), que, a exemplo de parteda intelectualidade de seu país, sonha à Manuel Bandeira comuma pasárgada que existiria em outra margem do oceano. Seo poeta brasileiro imagina um reino com um rei bonachão quelhe permitiria todas as “libertinagens” (título da coletânea deBandeira), Osvaldo Alcântara tem saudade de uma pasárgadafutura que encontraria no “caminho de Viseu” ([...] indo eu, indoeu,/a caminho de Viseu). Osvaldo Alcântara estava com os pés emCabo Verde, mas a cabeça inclina-se para fora, para o sonho daimigração: o “caminho de Viseu” da cantiga de roda portuguesa.Sua perspectiva é aquela que historicamente sempre se colocoupara povos de migrantes como os cabo-verdianos, e ele nãodeixa de ter consciência de que esta saudade fina de Pasárgada/éum veneno gostoso dentro do meu coração.Mais tarde, já em plena luta de libertação nacional, OvídioMartins - identificado com os pressupostos ideológicos da Casados Estudantes do Império, em Lisboa – já se coloca no pólooposto. Não aceita o reino de Pasárgada, para sua geração umaforma de fuga. Em oposição ao que ocorrera no sonho de Bandei-ra, ele não só não era amigo do rei (Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei) como foi perseguido por sua polícia (a políciapolítica de Salazar). Não conseguindo permanecer em Lisboa,foi obrigado a imigrar para a Holanda. Ovídio Martins, comoOsvaldo Alcântara, sonha com o que não tinha: justamente suaterra, Cabo Verde. Se Osvaldo Alcântara olha para horizontesindefinidos do mar, Ovídio Martins adota a perspectiva inversa:procura arremessar-se ao chão (Pedirei/Suplicarei/Chorarei/Nãovou para Pasárgada).Discursividades supranacionaisNa prosa de ficção, a presença do romance nordestinobrasileiro se mostra bastante forte em romances como Os flage-lados do vento leste (1960), de Manuel Lopes e Chiquinho (1947),de Baltasar Lopes, em diálogo, respectivamente, entre outros,
    • Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 37com Graciliano Ramos (Vidas secas) e José Lins do Rego (Meninode engenho). Importa indicar que a tomada de consciência doscabo-verdianos de sua terra teve como um de seus agentes ocrítico literário José Osório de Oliveira, que apontou para oscabo-verdianos a necessidade de situarem suas produções naambiência física e cultural de sua terra (para ele, uma região dePortugal). Outro desses atores foi o poeta-diplomata brasileiroRibeiro Couto, que fez chegar ao arquipélago os poetas mo-dernistas brasileiros. No fundo, considerava-se idealmente, emCabo Verde, uma espécie de literatura em língua portuguesa,como um todo, com matizações onde o regional e o nacionalpouco diferiam. Logo, uma aspiração comunitária para além dediferenciações, que, não obstante, seriam necessárias por daremveracidade às produções culturais, que deveriam estar fincadasna terra. A perspectiva crítica de José Osório de Oliveira, quecaminhava nessa direção, tinha seus limites. Embalado pelosestudos de Gilberto Freyre tendia a exaltar a convivência harmô-nica, do ponto de vista étnico, social e nacional, no “mundo queo português criou” – perspectiva que foi criticada nas décadasseguintes pela intelectualidade africana, do arquipélago e docontinente.Os fios supranacionais da Claridade tiveram origem nomovimento socialista francês da “Clarté”, inaugurado por HenriBarbeuf, nos primeiros anos da década de 1920. Articula-se ogrupo da revista em Portugal, em especial, ao movimento daPresença. Mais tarde, os fluxos da revista – que se afasta daPresença - projetam-se, por exemplo, em Manuel Ferreira, neo-realista português identificado com a cabo-verdianidade, cujaobra ensaística consolidou o estudo das literaturas africanas delíngua portuguesa, apropriou-se dessa temática da evasão/anti-evasão. O título de seu romance Hora di bai (1962) é referência auma conhecida morna de Eugênio Tavares. Escritas em crioulo,a cadência dessas composições vai dar ritmo e repertório paraos poemas em português e também será referência para os fic-cionistas originários da Claridade. Voz de prisão (1971), o principalromance de Manuel Ferreira, situa-se em Lisboa, e problematizaa questão da oralidade (o então denominado dialeto crioulo, hojelíngua cabo-verdiana) e o português-padrão. Orlanda Amarílis,cabo-verdiana vivendo na diáspora lisboeta, problematizará essacondição de migrante, revestindo-se suas produções literárias degrande sentido de atualidade, nestes tempos de deslocamentosda globalização (Cais-do-Sodré te Salamansa, 1974). O sentimentode nação, para além dos espartilhos de estado.No período do após-guerra, ao mesmo tempo em quese desenvolviam formas de organização político-culturais emcada um dos países africanos, como o movimento dos “NovosIntelectuais de Angola”, constituiu-se em Portugal um impor-tante núcleo organizativo: a Casa dos Estudantes do Império.
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200838O momento exigia novas estratégias: confluem para a literaturaformas discursivas da antropologia, da sociologia, da política, dojornalismo, etc. Espaço de convergência, a literatura (re)descobrecada país africano para (re)imaginá‑lo em suas especificidades.Espaço político de notável importância, passaram pela casa dosestudantes líderes como como Amílcar Cabral, Alda do EspíritoSanto, Marcelino dos Santos, além de Agostinho Neto, todos pro-tagonistas das histórias das independências dos países africanoscolonizados por Portugal. No plano cultural, cabe destacar, entreos feitos dessa casa, a antologia Poesia negra de expressão portuguesa(1953), organizada por Mario Pinto de Andrade e por FranciscoTenreiro, e a publicação da colecção “Autores Ultramarinos”, soba direcção de Costa Andrade e Carlos Ervedosa.Tudo mescladoA afirmação nacional não deixa de imbricar com a suprana-cionalidade do campo intelectual desses escritores. Essa coletâ-nea poética reúne autores negros, brancos e mestiços. Tratava-sede publicar uma antologia de poemas de “expressão portuguesa”,mas o escritor, cujo texto serve de espécie de pórtico poético éo cubano Nicolás Guillén. Seu poema “Son número 6” não foitraduzido, mas transcrito no original, em língua espanhola. Maisinteressante ainda é constatar que esse poeta – a “mais alta vozda negritude hispano-americana”, segundo os organizadoresda antologia – releva não a diferença étnica, mas a mestiçagem:“[...] Estamos juntos desde muy lejos,/Jóvenes, viejos,/Negrosy blancos, todo mezclado;/Uno mandando y otro mandado,/Todos mezclados [...]”.Essa inclinação para uma afirmação político-cultural maisampla vai persistir em autores dessa geração, com produçãoposterior. É o caso de José Craveirinha, personalidade emble-mática para a poética moçambicana, com uma trajetória que vaide Chigubo (1964) a Maria (1988), com destaque para a coletâneaKaringana ua Karingana (1974). Craveirinha, como os poetas deAngola, Cabo Verde e de São Tomé, busca formas híbridas,com incorporação de elementos lingüísticos das línguas nacio-nais. Deve-se considerar o fato de que esses estados nacionaisreúnem múltiplas culturas, que afinal confluem para um caldohíbrido das grandes cidades. Nessas circunstâncias, o idiomado colonizador, apropriado nacionalmente, situa-se tambémcomo primeira língua de criação literária. O sistema da línguaportuguesa, convém recordar, é abstrato. Nesse sentido, ele sóexiste concretamente sob formas variantes: há variantes africa-nas, como brasileiras e portuguesas.Em Angola, a literatura empenhada tem em Costa Andradeum autor programático: Terras das acácias rubras; Poesias com armas;Estórias de contratados (1980). Manuel Rui, poeta e prosador, é au-
    • Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 39tor de canções em parceria com vários conhecidos compositores,inclusive o brasileiro Martinho da Vila: Cinco vezes onze poemasem novembro (1985), Quem me dera ser onda (1982), O manequim eo piano (2005).Novos temposOs caminhos da poética se diversificaram gradativamente,sobretudo após a consolidação dos estados nacionais africanos,com produções expressivas. Em Cabo Verde, desde as buscasde raízes como em Eugênio Tavares (Mornas-cantigas crioulas,de 1932) até um Corsino Fortes (Pão & fonema, 1974), com umapoética afim do concretismo. À preocupação com a materiali-dade dos signos lingüísticos soma-se a questão multifacéticadas identidades, presente na obra do angolano Ruy Duarte deCarvalho, que mistura gêneros e mostra visão bastante lúcidade seu trabalho literário (Hábito da terra, de 1988; Observação di-reta, 2000). Ampliam-se supranacionalmente os horizontes emArlindo Barbeitos, a partir da tradição oral de seu país, que seassocia inclusive a técnicas da poesia chinesa e japonesa (An-gola Angolê Angolema, de 1975; Na leveza do luar crescente, 1998).O trabalho artístico desses escritores pode ser relacionado comas tendências experimentais da poesia brasileira e portuguesa,sobretudo a partir da década de 1960.Entre as vozes poéticas femininas mais recentes, figuram asão-tomense Maria da Conceição Lima (A dolorosa raiz do micon-dó, de 2006), a cabo-verdiana Vera Duarte (Amanhã amadrugada,de 1993), a guineense Odete Semedo (No fundo do canto, 2003).Particular relevo nessa ascensão do comunitarismo de gênero,merece a obra da angolana Paula Tavares (Ritos de passagem,1985; Dizes-me coisas amargas como os frutos, 2001). Suas obrasassociam-se à série literária nacional e à afirmação supranacionaldo feminismo. Elas também se colocam como “contadoras deestórias”, no que seus trabalhos literários também se articulamcom a antropologia. No romance, singulariza-se, com densidadeartística, a primeira romancista de Moçambique, Paulina Chi-ziane (Ventos do apocalipse, de 1995; Niketche, de 2002).Novos registros, novas plasticidadesAs literaturas africanas de língua portuguesa apresentam,na atualidade, prosadores vigorosos. José Luandino Vieira ocupauma posição central. A maior parte de suas “estórias” foramproduzidas no campo de concentração do Tarrafal, em CaboVerde, onde ficou preso juntamente com outros intelectuais dospaíses africanos engajados na luta anticolonial. Procurava pensara língua portuguesa em quimbundo, em suas narrativas, incor-porando a oralidade. Um gesto indicativo de estratégia literáriaque teve em Alfredo Troni um seu precursor. Tal estratégia éanáloga à do grupo da Claridade em Cabo Verde, com o crioulo
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200840matizando os textos em português e ainda com as estratégiaspoéticas de José Craveirinha, em Moçambique. Pensar a línguaportuguesa com estruturas da oralidade, dos crioulos lingüís-ticos e das línguas nacionais de origem africana.Não só: Luandino Vieira, ao se deparar com a obra deGuimarães Rosa, identificou-se com ela. Encontrou no escritorbrasileiro um respaldo artístico para que avançasse nessesprocessos de hibridizações, dando asas à criação literária. Suaobra, traduzida em vários países, tem sido seguidamente ree-ditada. É de se mencionar, entre outros títulos, Luuanda,1964; Avida verdadeira de Domingos Xavier, 1974; Velhas estórias, 1974; Noantigamente, na vida, 1974; Nós, os do Makulusu, 1975, João Vêncio:os seus amores, de 1987. Essa inclinação de seu trabalho artísticofoi importantíssima para os escritores angolanos, como Boa-ventura Cardoso (Dizanga dia muenhu, 1977; Maio, mês de Maria,1997), Jofre Rocha (Estórias do musseque, 1977) e Uanhenga Xitu(“Mestre” Tamoda e Kahitu, de 1976).Luandino Vieira e Guimarães Rosa, veiculados no campodas literaturas em português, mostram efeitos comunitários, emespecial na obra já abrangente do moçambicano Mia Couto. Aoprocurar novas margens para a criação literária, ele tensionadiscursos antropológicos, sociais, históricos e políticos. Associa-os a formas de um realismo mágico, que tem a ver com a ficçãolatino-americana, e com a maneira de ver e sentir a realidadedos povos de Moçambique. Em relação a essa literatura, suasproduções imprimem novas dimensões à prosa de ficção de seupaís, em especial à obra de Luís Bernardo Honwana (Nós matamoso cão-tinhoso, 1964). A obra de Mia Couto, como a de Luandinoe Guimarães, vem encontrando legitimização internacional, epremiações. Ela atende às condições atuais da circulação literáriasupranacional, por onde o discurso histórico se entremeia com oantropológico. Entre as muitas “estórias” que publicou, podemser indicadas, em especial: Vozes anoitecidas, 1986; Terra sonâmbula,1992; Estórias abensonhadas, 1994; Um rio chamado tempo, uma casachamada terra, 2002; O outro pé da sereia, 2006.Estórias e históriasNesse contexto dos contadores de “estórias”, situa-seigualmente a obra do cabo-verdiano Germano Almeida, cujoprimeiro romance obteve grande impacto crítico (O testamentodo sr. Napomuceno da Silva Araújo, 1991). Suas “estórias” são so-bretudo crônicas da vida cabo-verdiana, algumas inclinadaspara comentários em torno da comunidade dos países de línguaportuguesa (Estórias contadas, 1998). Circulando entre Angola,Portugal e Brasil, situa-se o angolano José Eduardo Agualusa,atestando a força de nosso comunitarismo cultural, onde encon-tra seu repertório literário (A conjura, 1989; Nação crioula, 1997;O ano em que Zumbi tomou o Rio, 2003; Manual prático de levitação,
    • Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 412005). Mais jovem e com obra já traduzida para vários idiomas éseu compatriota Ondjaki, com produções, onde associa técnicasque vêm de sua profissão de roteirista e formação em sociolo-gia, com a linguagem do cinema e das artes plásticas (Bom diacamaradas, 2000; O assobiador, 2002).Para fecho desta breve exposição sobre notas histórico-literárias, que têm em vista destacar articulações entre asliteraturas africanas com Brasil e Portugal, convém remeter àobra do angolano Pepetela. Seu romance A geração da utopia(1992) apresenta uma auto-crítica, que pode ser de sua geraçãode intelectuais que se embalaram na utopia libertária. Focalizaa trajetória dos estudantes, que se reuniam na Casa dos Estu-dantes do Império, em Lisboa, e liam literatura brasileira. Vêcriticamente as orientações desses atores, como já o fizera emMayombe (1980). Sua obra recebeu vários prêmios, com ediçõessucessivas e traduções para vários idiomas. Em boa parte dela,o escritor procura recontar ficcionalmente a história de seu país– um projeto literário que lembra o do brasileiro José de Alencar.Seu horizonte é crítico, desenvolvendo estratégias discursivasque questionam situações político-sociais da atualidade, seja emrelação a fatos com referenciais históricos mais antigos ou docotidiano mais próximo (O cão e os caluandas, 1985; Yaka, 1985;Lueji, o nascimento de um império, 1990; A gloriosa família, 2000;Jaime Bunda, agente secreto, 2001).AbstractNotes on the literary histories of African countriesthat have Portuguese as their official language.Common historical traits are stressed, pointing toneo-romantic perspectives when these literaturescontemplate questions related to their constitutionas nations; strategies of renewal of the literaryPortuguese language, whose plasticity goes back,in each nation, to Medieval times; the networkthey create in the universe of Portuguese writtenliterature.Keywords: Literary history. African countries.Portuguese language. Perspectives. Neo-roman-ticism.REFERÊNCIASAGUALUSA, José Eduardo. A conjura. 2. ed. Lisboa: Dom Qui-xote, 1998.. Manual prático de levitação. Rio de Janeiro: Gryphus,
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008422005.. Nação crioula. Lisboa: TV Guia, 1997.. O ano em que Zumbi tomou o Rio. Rio de Janeiro:Gryphus, 2002.ALMEIDA, Germano. Estórias contadas. Lisboa: Caminho, 1998.. O testamento do sr. Nepomuceno da Silva Araújo. Lisboa:Caminho, 1991.AMARÍLIS, Orlanda. Cais-do-Sodré té Salamansa. Coimbra: Cen-telha, 1974.ANDRADE, Costa. Estórias de contratados. Lisboa: Edições 70,1980.. Poesias com armas. Lisboa: Sá da Costa, 1975.. Terras das acácias rubras. Lisboa: Casa dos Estudantesdo Império, 1960.ANDRADE, Mário Pinto de. Antologia temática de poesia africanaI: na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1975.ANDRADE, Mário Pinto de; TENREIRO, Francisco José. Poesianegra de expressão portuguesa. Linda-a-Velha: Literatura, Arte eCultura, 1982.BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Re-cord, 1997.BARBEITOS, Arlindo. Angola angolê angolema. Lisboa: Sá daCosta, 1975.. Na clareza do luar crescente. Lisboa: Caminho, 1998.CARDOSO, Boaventura. Dizanga dia muenhu. São Paulo: Ática,1982.. Maio, mês de Maria. Porto: Campo das Letras, 1997.CARVALHO, Ruy Duarte. Hábito da terra. Luanda: UEA, 1988.. Observação direta. Lisboa: Cotovia, 2000.CASTRO SOROMENHO, Fernando Monteiro. Terra morta. 4. ed.Lisboa: Sá da Costa, 1978.CHIZIANE, Paulina. Niketche. 2. ed. Lisboa: Caminho, 2002.. Ventos do apocalipse. Lisboa: Caminho, 1999.COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fron-teira, 1996.. O outro pé da sereia. São Paulo: Companhia das Le-tras, 2006.. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1995.. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. SãoPaulo: Companhia das Letras, 2003.. Vozes anoitecidas. 6. ed. Lisboa: Caminho, 2001.
    • Notas históricas: solidariedade e relações comunitárias nas literaturas dos países africanos de língua portuguesaNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 2008 43CRAVEIRINHA, José. Chigubo. 2. ed. Maputo: INLD, 1980.. Karingana ua karingana. 2. ed. Maputo: INLD, 1982.. Maria. Lisboa: ALAC, 1988.DUARTE, Vera. Amanhã amadrugada. Lisboa: Vega-ICL, 1993.FERREIRA, Manuel. Hora di bai. São Paulo: Ática, 1980.. Voz de prisão. Porto: Inova, 1971.FORTES, Corsino. Pão & fonema. 2. ed. Lisboa: Sá da Costa,1980.HONWANA, L. B. Nós matamos o cão tinhoso. São Paulo: Ática,1980.LIMA, Conceição. A dolorosa raiz do micondó. Lisboa: Caminho,2006.LOPES, Baltazar. Chiquinho. 4. ed. Lisboa: Prelo, 1974.LOPES, Manuel. Os flagelados do vento leste. São Paulo: Ática,1979.ONDJAKI. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006.. O assobiador. 2. ed. Lisboa: Caminho, 2002.PEPETELA. A geração da utopia. Lisboa: Dom Quixote, 1992.. A gloriosa família. Lisboa: Dom Quixote, 1997.. Jaime Bunda, agente secreto. 4. ed. Lisboa: Dom Qui-xote, 2002.. Lueji, o nascimento de um império. Lisboa: Dom Qui-xote, 1990.. Mayombe. São Paulo: Ática, 1982.. O cão e os caluandas. 2. ed. Lisboa: Dom Quixote,1993.. Yaka. São Paulo: Ática, 1984.RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 27. ed. São Paulo: Livraria Mar-tins, 1970.REGO, José Lins do. Menino de engenho. 38. ed. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1986.ROCHA, Jofre. Estórias de musseque. São Paulo: Ática, 1980.RUI, Manuel. Cinco vezes onze poemas em novembro. Luanda: UEA,1985.. O manequim e o piano. Lisboa: Cotovia, 2005.. Quem me dera ser onda. Rio de Janeiro: Gryphus,2005.SEMEDO, Odete. No fundo do canto. Belo Horizonte: Nandyala,2007.TAVARES, Eugênio. Mornas: cantigas crioulas. 2. ed. Luanda:Liga dos Amigos de Cabo Verde, 1969.TAVARES, Paula. Dizes-me coisas amargas como frutos. Lisboa:
    • Gragoatá Benjamin Abdala JuniorNiterói, n. 24, p. 31-44, 1. sem. 200844Caminho, 2001.. Ritos de passagem. Luanda: UEA, 1985.TRONI, Alfredo. Nga Muturi. Lisboa: Ed. 70, 1973.VIEIRA, José Luandino. A vida verdadeira de Domingos Xavier. 2.ed. Lisboa: Ed. 70, 1975.. João Vêncio: os seus amores. Lisboa: Ed. 70, 1987.. Luuanda. São Paulo: Ática, 1982.. No antigamente, na vida. 2. ed. Lisboa: Ed. 70, 1975.. Nós, os do makulusu. 2. ed. Lisboa: Sá da Costa,1976.. Velhas estórias. 2. ed. Lisboa: Ed. 70, 1976.XITU, Uanhenga. “Mestre” Tamoda e Kahitu. São Paulo: Ática,1984.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008Duas viagens, um destino,MoçambiqueRegina ZilbermanRecebido 27 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoDuas viagens, ocorridas entre 1550 e 1560, leva-ram dois aristocratas portugueses da Índia paraa costa oriental da África, hoje Moçambique: ado militar Manuel de Sousa Sepúlveda e a dosacerdote D. Gonçalo de Oliveira. Jerônimo CorteReal narra a primeira viagem em Naufrágio doSepúlveda, em 1594; Mia Couto, a segunda emO outro pé da sereia, em 2006. As duas obrasexpressam o modo como se manifestam as relaçõesentre Europa e África.Palavras-chave: Relações Europa-África. Repre-sentação. Hibridismo.
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200846“E esse sangue não era de umhomem mas de todo um continente escravo.”(Mia Couto)1. A primeira viagem - naufrágioEm 24 de junho de 1552, o galeão São João, proveniente daÍndia, naufragou no litoral das costas da África, nas vizinhançasdo Cabo da Boa Esperança ou das costas do Natal, região hojesituada na África do Sul, próxima às fronteiras com Suazilândiae Moçambique. Entre os náufragos, encontravam-se o capitãoManuel de Sousa Sepúlveda, sua esposa, Leonor de Sá, e os doisfilhos do casal. Além de soldados e escravos, o barco transpor-tava muita carga, o que parece ter sido a causa do naufrágio. Amaior parte dessa tripulação alcançou a terra, mas, depois deatravessar largo trecho do continente africano, não sobreviveu,incluindo-se nesse grupo Sepúlveda, a esposa e as crianças.Naufrágios sacrificaram muitos navegadores, militares ecolonizadores, desde que se expandiu a aventura marítima dosdescobrimentos. Se, antes, tinham sido matéria de epopéias naAntigüidade, como a Odisséia, de Homero (século VIII a. C.),maior razão havia para, após o século XV, quando se atingiamas praias do Novo Mundo e os portos asiáticos, após ter sidosuplantado o circuito da África, naufrágios constituírem assuntode narrativas de viagem e de reconhecimento dos territóriosrecentemente ocupados por europeus. Dessa matéria nutrem-se, assim, relatos autobiográficos, como o de Hans Staden, ouepopéias, como a de Jerônimo Corte Real, relativa ao destino deManuel de Sepúlveda. No contexto da conquista do territórioamericano ou das poderosas e opulentas regiões asiáticas, nau-frágios deixavam de ser produto da fantasia ou evento distante,que ameaçava heróis de antanho, mas realidade corrente, quepodia acontecer a conhecidos ou a familiares.Assim, o naufrágio do galeão São João logo se torna tópicode narrativas e poemas, como ocorre à folha volante, de autoriaanônima e datada de 1555, que, segundo J. Cândido Martins,obteve sucessivas edições (MARTINS, [200-]). Luís de Camões(1524(?)-1580), por seu turno, confere status artístico ao relatodo evento, ao introduzi-lo no canto V de Os Lusíadas, em 1572.As estâncias 46, 47 e 48, proferidas por Adamastor, sumariamo episódio:Outro também virá de honrada fama,Liberal, cavaleiro, enamorado,E consigo trará a formosa damaQue Amor por grã mercê lhe terá dado.Triste ventura e negro fado os chamaNeste terreno meu, que duro e iradoOs deixará dum cru naufrágio vivosPara verem trabalhos excessivos
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 47Verão morrer com fome os filhos caros,Em tanto amor gerados e nascidos;Verão os Cafres ásperos e avarosTirar à linda dama seus vestidos;Os cristalinos membros e perclarosÀ calma, ao frio, ao ar verão despidos,Depois de ter pisada longamenteCo’os delicados pés a areia ardente.E verão mais os olhos que escaparemDe tanto mal, de tanta desventura,Os dois amantes míseros ficaremNa férvida e implacável espessura.Ali, depois que as pedras abrandaremCom lágrimas de dor, de mágoa pura,Abraçados as almas soltarãoDa formosa e misérrima prisão.(CAMÕES, 1956, p. 178-179)Adamastor profetiza os males de que serão vítimas osportugueses na altura do cabo da Boa Esperança, ainda in-domado mesmo após a travessia de Vasco da Gama, sendo adesventura de Sepúlveda um de seus exemplos. Talvez por essarazão o poeta tenha alterado o local onde se passou o naufrá-gio, deslocando-o da costa oriental da África para uma regiãosituada mais a sudoeste, de onde os sobreviventes se dirigempara o Norte, rumo ao rio Lourenço Marques, hoje rio Maputo,em Moçambique, na tentativa, frustrada, de chegarem a algumporto que os devolvesse à Europa.É irrelevante a circunstância de Adamastor carrear parasua área de influência geográfica o fato que vitimou Sousa Se-púlveda e seus comandados. Importa que Camões estabeleceu osparadigmas que assinalam, doravante, o tratamento do tema:• a apresentação de Sepúlveda como herói e cavaleiro,apaixonado por sua esposa, “dama formosa”;• a indicação do destino cruel de que são vítimas, poissobrevivem ao naufrágio, mas passam por “trabalhosexcessivos”;• o testemunho, pelos pais, da morte de seus filhos;• a denúncia da ação mal intencionada dos cafres, capazesde atitudes indecorosas, como a de se apossarem dasvestes da “linda dama” Leonor de Sá, não nomeada nopoema;• a qualificação negativa dos cafres, definidos como “ás-peros e avaros”, em decorrência de seu comportamentoperverso;
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200848• a exposição da nudez de Leonor, facultando ao poetadescrever seu corpo, cujos “membros” são “cristalinos”e os “pés”, “delicados”;• a morte do casal, cujos intensos sofrimentos comovematé as pedras.O episódio ocupa apenas 24 versos em Os Lusíadas; no en-tanto, sua popularidade, somada ao prestígio que lhe confere opoeta, fecunda o tema, de que são exemplos a Elegíada, de 1588,de Luís Pereira Brandão (1530/1540-?), o Naufrágio do Sepúlveda,de Jerônimo Corte Real, de 1594, a História Trágico-Marítima, deBernardo Gomes de Brito (1688-1759), de 1735-36, entre autoresportugueses, e Jerônimo Corte Real, Crônica portuguesa do séculoXVI, de 1840, de João Manuel Pereira da Silva, entre os brasilei-ros (MARTINS, [200-]). De seu desenvolvimento, resulta umarepresentação do mundo africano, especialmente da ÁfricaOriental, de que faz parte Moçambique, com conseqüências napercepção do confronto entre civilizações diferentes e na criaçãode imagens de uma relação nem sempre pacífica.2. Em terra firme, mas hostilA biografia de Jerônimo Corte Real está cercada de algumalenda. Diogo Barbosa Machado, no século XVIII, informa que opoeta deixou “célebre o seu nome em África e Ásia quando foiCapitão Mor de uma armada no ano de 1571, em cujos heróicosteatros triunfou sempre a sua espada dos inimigos da Coroa”(MACHADO, [200-], v. 2, p. 495). Ferdinand Denis reitera osdados apontados por Machado, acrescentando que participouda batalha de Alcácer Quibir, foi aprisionado pelos “bárbaros”e recuperou a “liberdade à época do resgate geral dos pri-sioneiros” (DENIS, 1826, p. 261). Estudiosos contemporâneosquestionam alguns desses fatos, mas reiteram o passado militare a procedência ilustre do poeta, descendente de família aris-tocrática e tradicional, bem como sua associação com o poder.Desconhece-se a data precisa de seu nascimento, ocorrido porvolta de 1530; sabe-se, porém, que morreu em 15 de novembrode 1588. Partidário de D. Sebastião(1554-1578), aparentementeCorte Real não teve dúvidas em aderir ao governo de Felipe II(1527-1598), a quem manifestou fidelidade (ALMEIDA, 1979, p.V-XXXIV; ALBUQUERQUE, 1995, v. 1, p. 1310-1312).O Naufrágio e lastimoso sucesso da perdição de Manuel de SousaSepúlveda e Dona Leonor de Sá sua mulher e filhos vindo da Índiapara este Reino na nau chamada o galeão grande S. João que se perdeuno cabo de Boa Esperança na terra do Natal. E a peregrinação que ti-veram rodeando terras de cafres mais de 300 léguas até sua morte foipublicado postumamente, em 1594, contendo dezessete cantos,protagonizados pela personagem destacada no título. A primeiraparte, transcorrida na Índia, narra o casamento de Sepúlveda
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 49com Leonor, a que os amantes chegam após ter o rapaz suplan-tado o adversário preferido pelo pai da moça. Depois de algumtempo, o casal decide retornar a Portugal, embarcando no portode Cochim; entre os cantos VI e VII, acontece o naufrágio, os so-breviventes chegam à praia e têm o primeiro confronto armadocom os cafres, sendo vencedores. Decidem deslocar-se na direçãodo rio Lourenço Marques (rio Maputo, atualmente), “Determi-nam buscar um grande rio/ Que de Lourenço Marques tinhao nome [...]” (CORTE REAL, 1979, p. 685), mas a longa travessiaabate aos poucos o grupo, que se dispersa ou é dizimado. Nosúltimos cantos, Sepúlveda, Leonor e os filhos estão acompanha-dos apenas por alguns escravos. São mais uma vez vítimas doscafres, que protagonizam a cena antecipada por Camões: Leonoré deixada sem roupas e, prostrada pelas sucessivas desgraças epela fome, morre. Antes disso, o casal perde o filho mais velho;ao final, Sepúlveda e a outra criança também falecem.Corte Real é tido como leitor e admirador de Camões,cujas pegadas procura seguir em seus versos. Reconhecem-se,com efeito, vários sinais de que Os Lusíadas constituía o princi-pal modelo daquele autor, a começar pelo tema escolhido, cujaidentificação com Camões esclarece-se desde a alusão ao caboda Boa Esperança, mencionado no título e relativo ao giganteAdamastor, que relatara as desventuras do casal Sepúlveda.Também como Camões, Corte Real mescla eventos históricos emitologia grega. Assim, se Baco provocou os vários obstáculosque Vasco da Gama supera com a ajuda da deusa Vênus, a nin-fa Anfritite, com ciúmes de Leonor de Sá, por quem Proteu seapaixonara, e contando com a colaboração de Éolo, leva o barco ase chocar contra as rochas do litoral africano. Não se esgota aí oapelo à mitologia: nos últimos cantos, é Apolo quem se enamorade Leonor de Sá, ficando a lamentar sua morte.A leitura e a admiração por Camões aparecem ainda emoutros momentos da obra: nos cantos XIII e XIV, Pantaleão deSá, um dos guerreiros que acompanha Sepúlveda e é igualmentevítima do naufrágio, tem acesso à narração da história de Por-tugal, que retroage ao fundador do reino, D. Afonso Henriques,e, depois, avança até o desastre de Alcácer Qubir, ocorrido em1578, portanto, 25 anos depois dos eventos relatados na epopéiade Corte Real. Essa narração, por sua vez, amalgama dois mo-mentos de Os Lusíadas, já que a recuperação do passado depen-de, nos versos de Camões, do relato que o Gama faz ao rei deMelinde, nos cantos III, IV e V, enquanto que a visão profética ématéria do Canto X de Os Lusíadas, quando os nautas lusitanosencontram-se na Ilha dos Amores. Por sua vez, Corte Real situa omilitar português em uma caverna, “uma cova escura” (CORTEREAL, 1979, p. 739) onde tem acesso ao passado e ao futuro emuma única oportunidade.11Em O Uraguai, Basílioda Gama (1740-1795)emprega o expedienteda caverna, onde afeiticeira Tanajura, nocanto III daquela epo-péia, enseja a Lindóia,enlutada com a mortede seu amado Cacam-bo, a visão do futuro dePortugal, incluindo-seaí o terremoto de Lis-boa e a expulsão dos je-suítas. Pode-se cogitarque Basílio da Gamafosse leitor de JerônimoCorte Real, assim comoesse poeta foi leitor deLuís de Camões.
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200850Corte Real paga igualmente sua dívida para com o romancepastoril, em ascensão na Europa da segunda metade do séculoXVI, haja vista os precedentes de Bernardim Ribeiro (1482?-1552?) e de Sá de Miranda (1481/1485?-1558?), e a subseqüênciade Francisco Rodrigues Lobo (1573/1574?-1622?), cujo O pastorperegrino data de 1608. O Naufrágio do Sepúlveda inclui, nessesentido, um longo trecho em que Pan verseja sobre a paixão quenele provoca Leonor de Sá.A interpolação da história de Portugal, das lamúrias dosapaixonados de Leonor de Sá, extraídos da mitologia, como Pro-teu, Pan e Apolo, e das convenções da narrativa épica no séculoXVI sugere uma narrativa desatada. Não é o que acontece, poisum fio atravessa a obra inteira, conferindo-lhe unidade: são oseventos que, primeiramente, dão conta das dificuldades vencidaspor Sepúlveda para casar com sua amada, depois, os confrontosque lhe cabe vencer para atravessar parte do continente africano,em busca de salvação, após o naufrágio de sua nave. Entre umepisódio e outro, porém, Corte Real não deixa de evidenciar seuconhecimento das regras já canônicas, provenientes de modelosclássicos, como a visão profética do futuro, que remonta à Eneida,de Virgílio (70 a. C.- 19 a. C.) e foi explorada por Camões, ou apresença de figuras relacionadas à vida pastoril, que encon-tram em Teócrito (310 a. C.- 250 a. C.) e, de novo, no Virgílio dasBucólicas, seus precedentes mais notáveis. O Renascimento pôsnovamente em voga esses processos narrativos, e Corte Real,homem culto e educado, pertencente à antiga nobreza lusitana,não poderia deixar de utilizá-los.Se a mitologia e a história permeiam a epopéia, essa refere-se principalmente às desventuras da família Sepúlveda em Áfri-ca, que, antes do Robinson Crusoe, de Daniel Defoe (1660-1731),experimentou as conseqüências de se deparar com um territórioinóspito, mas, ao contrário do arguto comerciante inglês, nãosoube encontrar alternativas de sobrevivência. O que Sepúlvedae seus comandados, entre os quais se destaca Pantaleão de Sá, jácitado, aprenderam foi a lutar com armas modernas, mas essasparecem não ter sido suficientes para o sucesso no empreendi-mento da sobrevivência.Náufragos a partir do canto VI, as personagens não deixammais a África. Essa é representada por seus habitantes, deno-minados, tal como procedera Camões, indistintamente cafres,vocábulo que, atualmente, tem sentido pejorativo, conformeregistram os dicionários de Caldas Aulete – “homem ignorante,rude, bárbaro” (AULETE, 1958, v. 1, p. 778), Antônio Houaiss –“Derivação: sentido figurado. Uso: pejorativo: Indivíduo rude,ignorante” (HOUAISS, [200-]) e Aurélio Buarque de Holanda:“Pessoa rude, bárbara, ignorante” (HOLANDA, [200-]). O Dicio-nário eletrônico Houaiss da língua portuguesa explicita a etimologiada palavra, de origem árabe, significando “infiel”, “incrédulo” e
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 51“não muçulmano”; e apresenta a história do vocábulo, utilizadoa partir de 1516, para indigitar o negro, uso que se propaga apartir do século XVI, com pequenas variações semânticas noséculo XVII.Chama a atenção a circunstância de que tenha sido apalavra de origem árabe a escolhida para designar, na línguaportuguesa, o negro africano. Os dicionários de Houaiss e deAurélio apresentam, como conteúdo primeiro do vocábulo, asdefinições a seguir:1. indivíduo de uma população africana banta, afim dos zulus,não muçulmana, do Sudeste da África. 2. indivíduo de raçanegra. 4. língua banta falada pelos cafres. 6. relativo à Cafraria(‘antiga região do Sudeste da África’). (HOUAISS, [200-])2. Nome dado pelos islamitas aos gentios e idólatras, e por ext.,aos negros pagãos da África oriental; aplica-se, sobretudo, àspopulações bantas de Moçambique, da África do Sul e dosdemais países do sudeste da África. 2. O natural ou habitanteda Cafraria, denominação que, no passado, se dava à regiãoentre o rio Kei e os limites da província de Natal, na África doSul; xossa. (HOLANDA, [200-])Ao se referir ao cafre, Corte Real está, pois, utilizando o ter-mo então já consagrado para significar o habitante da região poronde Sepúlveda passou, a sudeste da África. O poeta designa-ossegundo o olhar do colonizador, que se defronta com um povoque desconhece, mas que aparece a ele previamente definidocomo pagão, idólatra e, sobretudo, ameaçador. Quando desem-barcam, os militares deparam-se de imediato com o inimigo,qualificado nessa oportunidade como “malditos cafres” (CORTEREAL, 1979, p. 643), a quem os portugueses recebem com golpesde espadas; nas cenas subseqüentes, enfrentam os cafres que pas-sam por seu caminho, que, assim, se torna penoso e perigoso. Empoucas ocasiões, os moradores mostram-se cooperativos, ajudaque, via de regra, custa caro aos sobreviventes, pois precisam,de algum modo, comprar a colaboração dos nativos. Esses, namaioria das vezes, oferecem resistência; ou, então, atraiçoam oslusitanos, simulando o amparo que não se concretiza.O conflito com os cafres atravessa a narrativa desde o cantoVIII, culminando na oportunidade em que atacam os remanes-centes do grupo. O narrador descreve sua chegada com palavrasque antecipam o comportamento selvagem dos nativos:Correndo a pressa vem do mato espessoCafres, que roubar tem só por ofícioSaltam matos daqui, e dali saltamCom terríveis medonhas e altas gritas.(CORTE REAL, 1979, p. 849)
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200852Os versos seguintes estabelecem uma analogia entre osseres humanos e os cães de caça, adiantando o ataque à famíliade Sepúlveda:Como quando se vê lá na espessuraDe viscoso esteval, onde encobertaAnda a canina turba, rastejandoA caça, que nas covas têm guarida.(CORTE REAL, 1979, p. 849)Sucede a essa apreciação dos cafres a derradeira agressãoaos Sepúlvedas, completamente despojados de suas posses, in-cluindo suas vestimentas. A cena mais candente diz respeito ànudez de Leonor, suscitando a pudica descrição do poeta:Chegam com denodada fúria os cafresA desarmada gente que num pontoPor eles despojada foi de todoSem roupa lhes ficar, ou cobertura.Tal fica Leonor, qual na montanhaTroiana, a Citeréia foi julgadaPelo frígio pastor, e das formosasTrês, o preço levou com razão justa.Assenta-se na branca areia, e cobreCom o dourado cabelo a lisa carne,As criadas que a seguem se assentaramEm torno dela, só por defendê-laQue dos varões, que ali estavam, não fosseO seu formoso e casto corpo visto,Como as ninfas na fonte a Diana guardam.Que os olhos de Acteon não na divisem.(CORTE REAL, 1979, p. 849-850)A narrativa não apenas desqualifica os habitantes daregião, estigmatizando-os. Igualmente o espaço é apresenta-do de modo negativo, predominando a noção de que a terra éseca, estéril e hostil. Desde as primeiras cenas transcorridas naÁfrica, a terra é considerada “estéril” (CORTE REAL, 1979, p.644) e desértica (CORTE REAL, 1979, p. 650), caracterizando umespaço pouco hospitaleiro, impedido de nutrir a quem dependedele: “De dura fome, [Sepúlveda] busca o fruto amargo,/ Quea natureza dá, por terras secas,/ Estéreis, selváticas, bravias”(CORTE REAL, 1979, p. 644).Sepúlveda é o herói a quem é confiada a salvação do grupo.Para fazê-lo, ruma na direção do rio Lourenço Marques, cami-nhando, conforme declara o título da obra, trezentas léguas,durante três meses, cortando um território inóspito e enfren-tando a hostilidade dos nativos. Trata-se, pois, da narrativa deuma travessia, à maneira de Os Lusíadas, se bem que transcorrapor terra, e não por mar.Se, sob esse aspecto, Sepúlveda assemelha-se a Vasco daGama, por outro, é o avesso do comandante que leva as naus
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 53portuguesas até a Índia, aportando em Calicut. Primeiramente,porque nenhuma entidade sagrada o protege, já que as figurasmitológicas que comparecem à narrativa são atraídas por Leonorde Sá que, mesmo cansada e desnutrida, provoca a paixão de Pane, depois, de Apolo. Em segundo lugar, porque sua bravura ecompetência militar não bastam para derrotar os inimigos, aindaque obtenha algum sucesso assim que alcança terra firme. Po-rém, mais adiante, não é apenas batido pelos adversários, comoenganado e iludido, até restar esfomeado, humilhado e mesmorebaixado por aqueles de quem se considerava melhor e superior.Em uma das cenas finais, seu semblante é “quase defunto”, osolhos estão “agravados e transidos”, o corpo “em sangue tinto,que o selvático, e seco mato a carne com grande crueldade lherompia” (CORTE REAL, 1979, p. 857).Sepúlveda, pois, corporifica o anti-Vasco da Gama, por sero herói que fracassa, incapaz de prover alimento e segurançapara os seus comandados e sua família. Tendo escrito a epopéiadepois da derrota dos portugueses em Alcácer Quibir, Corte Realtraduz, de certo modo, o desalento de uma nação derrotada emsolo africano. Sob esse aspecto, os cafres talvez representem osmuçulmanos que venceram o exército liderado por D. Sebastião,assim como esse soberano pode estar corporificado pelo nave-gante incapaz de levar seus dependentes a um porto seguro. Aoapresentar, nas cenas finais, a personagem sob o paradigma doCristo que atravessa uma via sacra, Corte Real colabora para abeatificação do herói e, por extensão, do rei que, não tendo sidoidentificado entre os mortos da batalha de 1578, permaneceucomo mito entre seu povo.De todo modo, se dá voz aos vencidos, Jerônimo CorteReal ainda o faz conforme o prisma dos vencedores, já que nãoadmite o malogro da expedição de Sepúlveda. Prefere reiterarqualificações que, no século XVI, estigmatizavam de modo geralos habitantes do continente africano, corporificados nos cafres,antepassados dos moçambicanos de nossos dias.3. A segunda viagem – morteD. Gonçalo da Silveira, nascido em 23 de fevereiro de 1521,pertenceu à Companhia de Jesus, ordenando-se padre em 1545.Em 1556, transferiu-se para a Índia, onde foi provincial até 1559,tendo atuado no porto de Cochim. Em 1559, decidiu desempe-nhar sua missão catequética nas terras situadas ao longo do rioZambeze, desde sua foz, em Moçambique, até o Monomotapa,região situada atualmente no Zimbábue. No Monomotapa,procedeu à conversão do imperador, a quem deu o nome deSebastião. Francisco Correia narra o episódio da conversão:Gonçalo da Silveira numa casinha [...] improvisou um altar edizia missa diante de uma imagem da Virgem, que levara deGoa. O rei, que ouvira dizer que ele tinha lá uma mulher bo-
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200854nita, foi logo lá indagar. O Padre Gonçalo disse-lhe: - É a mãede Deus. À vista disto o rei fez-se cristão e sua mãe, tendo sidobatizados numa solene cerimônia e pondo-lhe o nome de D.Sebastião em honra do rei de Portugal, e a sua mãe D. Maria.Foram ainda batizadas mais 300 pessoas. (CORREIA, 2008)O sucesso dessa iniciativa foi fugaz; Gonçalo da Silveiraé acusado de feiticeiro e morto, fato ocorrido em 15 de marçode 1561, sendo seu corpo lançado no rio Mussenguezi. Em OsLusíadas, Camões homenageia o mártir, com a estância 93, doCanto X:Vê do Benomotapa o grande império,De selvática gente, negra e nua,Onde Gonçalo morte e vitupérioPadecerá pela Fé santa sua.Nasce por este incógnito HemispérioO metal por que mais a gente sua.Vê que do lago donde se derramaO Nilo, também vindo está Cuama.(CAMÕES, 1956, p. 358)Monomotapa é grafado Benomotapa, região que o poetaqualifica de “grande império”. É habitada por “selvática gente,grande e nua” e possui riqueza, o ouro, “o metal por que maisa gente sua”, sendo essa a razão pela qual também portugueseshaviam se dirigido àquele local, a exemplo de Antônio Caiado, oprincipal intermediário entre os nativos e os lusitanos. Em certosentido, Camões desmente o diagnóstico posterior de JerônimoCorte Real, pois, ao contrário do que esse poeta indica, a terranão é estéril, mas fértil em metais preciosos.4. A viagem por mar e por terraD. Gonçalo da Silveira é matéria de outra obra literária,o romance de Mia Couto (1955), O outro pé da sereia, de 2006,embora ele não constitua a personagem principal, papel preen-chido por Mwadia Malunga, esposa do pastor Zero Madzero.Mwadia e Zero residem em região pouco habitada do norte deMoçambique, local onde, em dezembro de 2002, fazem surpre-endente descoberta nas águas de um rio: um baú, contendoescritos antigos, e uma estátua em madeira de Nossa Senhora,apresentando essa uma particularidade – tinha “apenas umpé”, já que “o outro havia sido decepado” (COUTO, 2006, p. 38).A trama principal dá conta da iniciativa de Mwadia em levara estátua para uma igreja, retornando então à sua cidade natal,Vila Longe, até descobrir que a Santa pertencia efetivamente àságuas, por corporificar a mítica Kianda, devolvendo-a, pois, aorio onde a descobrira.Uma segunda trama conduz à narrativa aos anos 1560-1561,quando a imagem de Nossa Senhora é transportada de Goa, naÍndia, para a Ilha de Moçambique, de onde é carregada para o
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 55Monomopata, região onde, séculos depois, Mwadia Malunga eZero Madzero a encontram.O outro pé da sereia é formado por dezenove capítulos, nar-rando os dois primeiros a mencionada descoberta de Mwadiae Zero, bem como a necessidade de a moça dirigir-se até VilaLonge, para depositar a estátua em lugar julgado adequado. Éno terceiro capítulo que o romance retroage ao século XVI, ope-rando doravante de modo intercalado: a cada dois capítulos quefazem avançar o relato da trajetória de Mwadia em Vila Longe,transcorrido na atualidade, introduz-se um terceiro, sucedidono passado, à época da colonização. Constitui-se, assim, umnúcleo de seis capítulos, apresentando os acontecimentos queesclarecem porque a estátua sagrada acabara no fundo do rioMussenguezi, que corta a região onde residem Mwadia e Zero.É essa segunda trama a que D. Gonçalo da Silveira protagoniza,iniciada, em 1560, com o embarque do sacerdote na nau NossaSenhora da Ajuda, em Goa, e encerrada com sua morte por es-trangulamento, a que se segue o arremesso de seus pertencesà corrente do rio.Entre o episódio que abre e o que encerra essa segundatrama, narram-se a travessia oceânica, a chegada à Ilha deMoçambique e o trajeto na direção do Império de Monomota-pa, onde o jesuíta D. Gonçalo da Silveira, até então provincialna Índia, deseja exercer função catequética, providenciando a“primeira incursão católica” (COUTO, 2006, p. 51) àquele lugar.Acompanham Gonçalo da Silveira o padre Manuel Antunes,encarregado do diário de bordo, e a estátua de Nossa Senhora.O percurso é, desde o começo, marcado pelas dificuldades, jáque, logo ao ser embarcada, a imagem escorrega e cai no lodo,sendo recuperada pelo escravo oriundo do antigo Reino doCongo, hoje Angola, Nimi Nsundi, que, identificando a Santacomo encarnação de Kianda, se torna devoto dela.Nimi Nsundi protagonizará os principais episódios quemarcam a travessia marítima: atrai a atenção e, depois, a paixãoda indiana Dia Kumari, aia de Filipa Caiado, esposa de AntônioCaiado, “comerciante português estabelecido na corte do Im-perador de Monomotapa” (COUTO, 2006, p. 60); mais adiante,é flagrado cortando o pé da estátua de Nossa Senhora, a quemdeseja devolver ao mar, ação pela qual deverá ser punido comenforcamento, ato, porém, não concretizado, porque o escravo sesuicida, jogando-se à água e afogando-se. Morto, Nimi Nsundisuscita a revolta dos cativos que ocupavam os porões do navio,acalmados tão-somente quando D. Gonçalo autoriza a celebraçãode seus rituais, considerados pagãos pelo jesuíta. Além disso,Nimi Nsundi provoca a identificação de Manuel Antunes, queabre mão de sua fé católica e de seu nome, para se entender comoreencarnação daquele.
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200856Manuel Antunes também colabora para que o percursonão seja vivido de modo pacífico por D. Gonçalo da Silveira.Encarregado da escrita do diário, depara-se primeiramente como novo significado das palavras, especialmente as que designamo lugar para onde se dirigem e as pessoas que deverão encontrar,matéria da reflexão sumariada pelo narrador:Foi lendo as oficiais escrituras e dando conta dos nomes daviagem e do seu destino. Chamavam de Torna-Viagem a estepercurso da Índia para Portugal. E chamavam de Contra-Costa ao Oriente de África. Tudo fora nomeado como se omundo fosse uma lua: de um só lado visível, de uma só facereconhecível. E os habitantes do mundo oculto nem o originalnome de “gentios” mantinham. Designavam-se, agora, de“cafres”. A palavra fora roubada aos árabes. Era assim queesses chamavam aos africanos. Os cafres eram os infiéis. Nãoporque tivessem outra fé. Mas porque se acreditava não teremnenhuma. (COUTO, 2006, p. 62)As denominações flagradas por Manuel Antunes parecemconfirmar os conceitos formulados pelos dicionários de línguaportuguesa, citados antes, sublinhando a data em que seussignificados transitam de um conteúdo a outro. Além disso,antecipam o confronto entre o Ocidente e o Oriente, sendo osegundo nomeado por oposição ao primeiro. Por sua vez, aocomparar a costa oriental da África ao lado invisível da Lua, opadre confessa o desconhecimento não apenas do mundo quelhe compete evangelizar, mas também dos seres humanos, in-terpretados como criaturas procedentes de outro planeta.Manuel Antunes conscientiza-se aos poucos da instabili-dade de sua situação e da fragilidade dos princípios transmiti-dos durante sua preparação para sacerdote. Por isso, manifestainsatisfação diante da tarefa que lhe é delegada, acabando portentar queimar os registros diários. Mais adiante, questiona oprojeto de catequese em que está envolvido, perguntando a D.Gonçalo se “tem sentido irmos evangelizar um império de quenão conhecemos absolutamente nada” (COUTO, 2006, p. 160).Também não concorda com ações inquisitoriais, como “a conde-nação de Jerônimo Dias, um médico e cristão-novo, queimadopublicamente numa praça de Goa” (COUTO, 2006, p. 161). Eacusa os portugueses de, em suas conquistas, carregarem con-sigo o Diabo, sendo que “só mais tarde é que enviamos Deus”(COUTO, 2006, p. 161). Sintoma mais evidente da metamorfosede Manuel Antunes é seu sentimento de estar “ficando negro”,“um cafre”, isto é, “mudando de raça” (COUTO, 2006, p. 163).Explica o narrador:Até dia 4 de janeiro, data do embarque em Goa, ele era branco,filho e neto de portugueses. No dia 5 de janeiro, começara aficar negro. Depois de apagar um pequeno incêndio no seucamarote, contemplou as suas mãos obscurecendo. Mas agora
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 57era a pele inteira que lhe escurecia, os seus cabelos se encres-pavam. Não lhe restava dúvida: ele se convertia num negro.– Estou transitando de raça, D. Gonçalo. E o pior é que estougostando mais dessa travessia do que de toda a restante via-gem. (COUTO, 2006, p. 164)Ao alcançar Moçambique, Antunes completa a metamorfo-se, declarando “sentir-se cafrealizado” e concluindo: “agora estoucerto: ser negro não é uma raça. É um modo de viver. E esse será,a partir de agora, o meu modo de viver” (COUTO, 2006, p. 259),razão porque abandona o sacerdócio e adota o nome de NimiNsundi. Ao final da narrativa, sobrevive ao padre Gonçalo daSilveira, levando vida de “feiticeiro, rezador de Bíblia e visitadorde almas” (COUTO, 2006, p. 313).Entre Manuel Antunes e Gonçalo da Silveira, estabelece-se uma relação em que o primeiro apresenta-se como o avessodo segundo: Antunes se deixa assimilar pelo universo africano,enquanto que Gonçalo ambiciona adaptar o mundo exterior àssuas convicções religiosas. Quando Antunes deseja repor o péamputado por Nimi Nsundi, utilizando o material fabricado pelomarcineiro da nau Nossa Senhora da Ajuda, a estátua sangra,expressando sua vitalidade, processo que escapa inteiramente aGonçalo. Esse igualmente não entende a realidade que o cerca,confessando a Antunes que estava muito desiludido, ao encon-trar, na Ilha de Moçambique, a “nação gentílica [...] contaminadapor mouros e judeus pestilentos” (COUTO, 2006, p. 255).Incapaz de decifrar a realidade circundante, o jesuíta nãocompreende a linguagem de seu compatriota, Antônio Caiado,instalado no Monomopata para alcançar as abundantes rique-zas da região, riquezas cuja prospecção provocará mudançasestruturais no local, conforme expõe o narrador:Os camponeses estavam deixando as suas culturas apenas parase dedicarem à extração do ouro. Já não semeavam, apenasmineiravam e peneiravam. Tudo isso era uma estratégia dosportugueses para enfraquecer o reino. E aquele era apenas umprincípio: seguir-se-iam séculos em que os africanos raspa-riam os ossos da terra para entregarem riqueza aos europeus.(COUTO, 2006, p. 307)Muito menos entende o comportamento do imperador doMonomotapa, que lhe oferece mulheres, ao vê-lo acompanhadode uma delas, a estátua da Virgem. Gesto que igualmente in-terpreta de modo equivocado é o pedido, também por parte doimperador, de que tome emprestada a imagem de Nossa Senhora,para com ela passar a noite, atitude que o jesuíta entende comoaceitação da religião em que almeja introduzi-lo.Esse último episódio é representativo não apenas da faltade sintonia entre D. Gonçalo da Silveira e seus interlocutores.Como passa a fazer parte da mitologia concernente à biografiado religioso, de que é exemplo a narrativa de Francisco Correia,
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200858reproduzida antes, aquele episódio reflete igualmente a incom-preensão do universo representado pelo Monomotapa por quemse depara com ele munido apenas de valores, princípios e repre-sentações ocidentais. Outra e bastante diversa é a interpretaçãodas personagens inseridas nesse contexto, como o pai do escravoXilundo, que qualifica Gonçalo de feiteiro. Para o velho sábio, osacerdote português não morreu, mas retornou “ao rio, à casada eternidade. E não o fazia sozinho. Com ele viajava a mulherde olhar parado, essa que fazia ajoelhar os cristãos” (COUTO,2006, p. 312).Manuel de Sepúlveda e Gonçalo da Silveira guardam, as-sim, muitas afinidades, embora tenham sido matéria de escritosliterários distantes no tempo, a epopéia de Jerônimo Corte Real,impressa no final do século XVI, e o romance de Mia Couto,publicado em 2006. O primeiro terminou seus dias ao sul de Mo-çambique poucos anos antes de o jesuíta aportar mais ao norte.Os dois depararam-se com os “cafres”, que interpretaram comoinimigos ou infiéis e que almejavam transformar e dominar, pelaviolência ou pela catequese. Permaneceram algum tempo no lo-cal, percorreram uma grande extensão de terra, para morreremsem levar a cabo a missão a que se propuseram, em ambos oscasos a salvação, seja a de pessoas, como almeja Sepúlveda, sejaa de almas, conforme ambiciona Gonçalo da Silveira.A morte das personagens, ainda que possa ter sido expla-nada de modo apoteótico ou epifânico, como fazem JerônimoCorte Real e os biógrafos de Gonçalo da Silveira, a exemplo docitado Francisco Correia, não esconde sua derrota e o fracassoda missão a que se determinaram. O insucesso deve-se, por suavez, às suas respectivas dificuldades para entender e interagircom o ambiente inusitado que os circunda. Assim, o colonizador,seja o militar Sepúlveda, seja o religioso Silveira, acaba por setornar vítima do mundo – representado pela natureza para o pri-meiro e por seus ocupantes para o segundo – a que lhe competesubmeter. Ainda que, historicamente, aquele colonizador tenhadominado, administrado e explorado o continente africano, foiele o perdedor, condição revelada indiretamente na epopéia deCorte Real e explicitamente no romance de Mia Couto, quandoas personagens que protagonizam o Naufrágio do Sepúlveda ouos capítulos 3, 6, 9, 12, 15 e 18 de O outro pé da sereia mostram-seobjeto de um ritual que os sacrifica e os devolve à terra, no casodo capitão português, ou à água, como acontece ao jesuíta.Na epopéia de Corte Real, a derrota de Sepúlveda é com-pensada pela redenção do herói, louvado em versos que nãoescondem a incompetência do capitão para lidar com a situaçãoadversa. No romance de Mia Couto, o fracasso de Gonçalo daSilveira é contraposto à decisão de Manuel Antunes, que, aindana condição de avesso do jesuíta, se deixa absorver pela realidadecircundante, não por oportunismo, como faz Caiado, mas por se
    • Duas viagens, um destino, MoçambiqueNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 2008 59identificar com ela. Transforma-se, assim, em criatura híbrida,a meio caminho entre a Europa de onde proveio, sintetizada nocomportamento de Silveira, e a África em que deseja se transfor-mar, ao adotar o nome de Nimi Nsundi e aceitar o papel que seespera dele, o de feiticeiro e rezador. No entanto, mesmo a meta-morfose de Antunes é incompleta, já que sua clientela atribui-lheum terceiro nome, Manu Antu, evidenciando a impossibilidadeda completa ruptura com as origens:– Não sou Manu Antu! disse ele. Sou Nimi Nsundi.O escravo Xilundo permitiu-se sorrir. O nome “Nimi Nsundi”só existia na cabeça do sacerdote. Na verdade, as pessoas daaldeia chamavam-no de Muzungu Manu Antu e estavamlidando com ele como um nyanga branco. Manuel Antunes,ou seja, Manu Antu, aceitara tacitamente ser consideradofeiticeiro, rezador de Bíblia e visitador de almas. (COUTO,2006, p. 313)As duas figuras históricas, Manuel de Sepúlveda e Gonçaloda Silveira, somado esse a seu avesso ficcional, Manuel Antunes,explicitam o modo como se deu a relação do europeu ocidentale o mundo africano, representado pelo solo moçambicano. Aocontrário do que se passou na América, que, em grande partedo território (haja vista as histórias do Brasil, da Argentina, dosEstados Unidos e do Canadá, por exemplo) cedeu sua identidadeao colonizador europeu, adotando seus valores, língua, compor-tamentos e visão de mundo, a África não se deixou domar. Aindaque espoliados de homens e tesouros por intermédio da ação deaventureiros como Antônio Caiado, que figura em O outro pé dasereia, e nomeados por vocábulos impróprios e pejorativos como“cafre”, os povos africanos não abriram mão de suas diferenteslínguas, cultos, vestuários, tipos de alimentação, enfim, de suacultura e costumes. O Moçambique de Sepúlveda e Silveira foiinvadido, mas não perdeu a identidade; pelo contrário, impôs aoinvasor uma nova personalidade, que ele, a duras penas, e nemsempre com integral compreensão dos acontecimentos, adota.O Naufrágio do Sepúlveda e O outro pé da sereia, distantesno tempo e nos objetivos, aproximam-se, quando flagram umprocesso comum, peculiar à história de Moçambique, em parti-cular, e da África, de modo amplo. Eis porque as duas viagenschegam a um mesmo destino, narrando uma história de origens,não por dar conta de uma fundação, mas por revelar o fracassode um projeto de colonização por esse ter em vista anular umaidentidade que se mostra resistente e inquebrantável.
    • Gragoatá Regina ZilbermanNiterói, n. 24, p. 45-60, 1. sem. 200860AbstractTwo travels took place between the years 1550and 1560, leading two Portuguese aristocratsfrom India to the East Cost of Africa, now Mo-zambique: Captain Manuel de Sousa Sepúlvedaand priest D. Gonçalo de Oliveira. JerônimoCorte Real narrated the first travel in Naufrágiodo Sepúlveda, published in 1594; Mia Coutonarrated the second, in O outro pé da sereia,published in 2006. The two books represent therelations between Africa and Europe.Keywords: Europe-Africa relations. Disclosure.Hybridism.REFERÊNCIASALBUQUERQUE, Isabel de Faria, CORTE-REAL, Jerônimo. . In:______. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa.Lisboa: Biblos, Verbo, 1995.ALMEIDA, M. Lopes. Introdução. In: CORTE REAL, Jerônimo.Obras. Porto: Lello, 1979.AULETE, Caldas. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa.Edição brasileira. Rio de Janeiro: Delta, 1958.CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Jackson, 1956.CORREIA, Padre Francisco. O venerável Padre Gonçalo da Sil-veira. 2007. Disponível em: <http://www.mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_artigo_286.htm>. Acessado em: 12 mar. 2008.CORTE REAL, Jerônimo. Naufrágio de Sepúlveda. In: ______.Obras. Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida. Porto: Lello& Irmãos, 1979.DENIS, Ferdinand. Resumé de l’histoire littéraire du Portugal, suividu Résumé de l’histoire littéraire du Brésil. Paris: Lecointe et Durey,Libraires, 1826.HOLANDA, Aurélio Buarque de. Dicionário Aurélio eletrônico –século XXI. [S.l.: s.n.], [200-].HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portu-guesa. [S.l.: s.n.], [200-].MACHADO, Diogo Barbosa. Bibliotheca Lusitana: Biblioteca Vir-tual dos Descobrimentos Portugueses. [S.l.: s.n.], [200-].MARTINS, J. Cândido. O Naufrágio de Sepúlveda na narrativaromântica do brasileiro Pereira da Silva: Jerónimo Corte-RealCrónica do Século XVI. [200-]. Disponível em: <http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/zips/candid13.rtf>. Acessado em 01 demarço de 2008.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 2008Uma língua de viagens,transgressões e rumoresCarmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoRecebido 20 mar. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoA língua portuguesa e sua importância nasliteraturas dos países africanos, ex-colônias dePortugal. Os laços identitários com a “pátriacolonizadora” se esgarçaram e o idioma impostoadquiriu diferenciadas faces em Angola, CaboVerde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomée Príncipe. Alguns elos permaneceram, aindaque dispersos; outros se desmancharam no tem-po. A língua portuguesa, tendo atravessado oAtlântico, o Índico, aportou em diferentes terras,recebeu novos saberes, musicalidades, acentos;multiplicou-se, grávida, de outros espermas,suores e salivas.Palavras-chave: Língua portuguesa. Paísesafricanos. Laços identitários
    • Gragoatá Carmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 200862“A identidade não existe, é uma procura infinita.”(Mia Couto, Folha de São Paulo, 18 nov. 1998)Há algum tempo, em entrevista ao Jornal de Letras, EduardoLourenço defendeu a força unificadora da língua portuguesa,afirmando ser ela “uma herança sem preço, fiadora de nossoslaços identitários” (LOURENÇO, 1993, p. 4). Segundo o ensaístaportuguês, no mundo atual, onde os blocos ideológicos sofrem apressão de uma economia interplanetária que vem substituindoa crença nas grandes teorias e idéias pela idolatria de moedasfortes e pelos acordos econômicos multinacionais, torna-se im-perativo o exercício da linguagem, ou melhor, o culto ao nossoidioma, forma de resistir aos meios massivos da comunicaçãoe às influências negativas da mídia eletrônica. Eduardo Lou-renço, completando seu pensamento, alertou: “Naveguemosde olhos abertos entre a realidade que não nos basta e a ficçãoa que queremos dar uma figura nova no mundo imprevisívelque nos espera” (LOURENÇO, 1993, p. 4). Sintomático é o uso doverbo “naveguemos”, uma vez serem recorrentes na literaturaportuguesa e na história de nosso idioma as metáforas do mare do navegar. Fernando Pessoa, reatualizando versos de antigosnavegadores, associou o ato náutico ao de criar: “viver não énecessário; o que é necessário é criar” (PESSOA, 1965, p. 16).Também a escritora brasileira Nélida Piñon atribuiu à nossalíngua uma vocação marítima (PIÑON, 1978, p. 13), tendo em vistao fato de esta ter singrado o Atlântico, o Índico e aportado noBrasil e em África, onde adquiriu ritmos, odores, sensualidadee sabores novos. O escritor angolano Manuel Rui Monteiro foioutra voz a destacar essa “condição viajeira” de nosso idioma:“A língua portuguesa é uma língua de viagem. E eu escrevoviajando por ela a partir do porto onde ela chegou para mepossuir” (MONTEIRO, 2003).Sabemos que a língua portuguesa foi uma imposição doscolonizadores. Transformada e possuída pelos colonizados,adquiriu novas afetividades: “No chegar do outro não se fala-va esta língua aqui. A língua foi trazida. Daí a sua boa óbviatransgressão. O invadido sentiu a língua do outro como inva-sora. Mas transgredir é possuir a língua. Como mulher amada”(MONTEIRO, 2003).No período das independências dos países africanos queforam dominados por Portugal, com o apogeu dos nacionalismospós-Segunda Guerra, a noção de pátria se fortificou e as identi-dades lingüísticas foram pensadas como fatores de construçãoda nacionalidade a ser conquistada. No calor dos discursos, autopia revolucionária forjou uma idéia de língua vinculada àde unidade nacional. O idioma português foi, então, entendidocomo agente aglutinador, responsável pela coesão cultural epolítica dos jovens países africanos tardiamente libertados.
    • Uma língua de viagens, transgressões e rumoresNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 2008 63Carlos Espírito Santo, poeta de São Tomé, posicionou-se,assim, em depoimento apresentado no “Congresso sobre aSituação da Língua Portuguesa no Mundo”: “Usar a língua doantigo colonizador não quer dizer que o país seja uma recolônia,pois a língua portuguesa foi também uma conquista de nossarevolução” (SANTO, 1983, p. 256).Em Cabo Verde, alguns poetas com obras anteriores aoperíodo das lutas pela libertação foram fortemente influenciadospelo lusotropicalismo, de Gilberto Freyre, acreditando em umaharmonia racial e lingüística que, na verdade, era inexistente.Baltasar Lopes, por exemplo, poeta caboverdiano da GeraçãoClaridade, fez um estudo sobre o crioulo de Cabo Verde eafirmou que este “amaciou as sílabas do português”. Tal visãocamufla a “violência simbólica” que houve com a imposição doidioma trazido pelo colonizador; encobre a política de glotofagiaexercida pelos dominadores.Após as independências, atenuadas as fissuras da “desco-lonização”, um novo ciclo se abriu para as Literaturas Africanas.A língua portuguesa se impôs, mas não mais com os traços e osritmos lusitanos com que partiu do Tejo. Expropriado, recriado,o discurso literário optou por um português africanizado quebusca, ainda hoje, reinventar as estruturas orais da fala, assu-mindo as transgressões sintáticas e semânticas. Em Angola,por exemplo, diversos escritores e poetas buscaram captar umportuguês quimbundizado dos musseques, dos quimbos e sanzalas.As línguas locais passaram a coexistir com o português e foramincorporadas, mesclando-se, muitas vezes, à língua portuguesa.Diversos textos literários incorporaram expressões de diferenteslínguas africanas de Angola, entre elas: o quimbundo, o mbunda,o ovibundo e outras. Recriada, a escrita literária foi kazukutada,ou seja, foi “desordenada, agredida”, pois kazukutar é um termoquimbundo que significa “instalar a desordem”. Fecundado como sêmen africano, o português literário assumiu-se, então, comoum “discurso verbalmente mestiço”.A diferença das línguas nacionais abala o edifício hegemônicoda língua imposta pela dominação e de certo modo impedeque se consolide o etnocentrismo ou se aceite sua fatalidade.A língua portuguesa, ao dobrar-se às necessidades de seusnovos utentes, se faz ela própria um instrumento que se voltacontra o processo de dominação, abrindo-se para o dialogismocultural que passa a veicular. (PADILHA, 2002, p. 51)Temos exemplos disso na prosa angolana, com escritorescomo Luandino Vieira, Manuel Rui, Boaventura Cardoso, Antô-nio Jacinto, Uanhenga Xitu, entre outros, que mesclam o portu-guês e o quimbundo, recriando a língua portuguesa, segundouma perspectiva e ritmo locais. Ao efetuar, assim, a subversãodo instituído por meio da ludicidade da linguagem literária, essa
    • Gragoatá Carmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 200864literatura afirma a diferença angolana, ou seja, apresenta traçoscaracterísticos da cultura e dos falares de Angola.Em Cabo Verde, ao lado do crioulo, houve também umacrioulização do idioma português imposto pela colonizaçãoportuguesa, o que acabou desenvolvendo uma situação de bilin-güismo, hoje tão bem estudada por lingüistas cabo-verdianos,entre os quais Manuel da Veiga, atual Ministro da Cultura deCabo Verde.Foi o Movimento de Claridade que iniciou um processointenso de caboverdianização da escritura literária em Cabo Ver-de. As mornas – canções típicas do Arquipélago, que traduziamem suas letras o dilema do povo das Ilhas, obrigado a partir,com vontade de regressar – foram, em textos mais modernos,recriadas e passaram a defender “o ficar para resistir”. Algunstextos da literatura cabo-verdiana foram escritos em crioulo,como os poemas de Sérgio Frusoni, os de Kaoberdiano Dambaráe o romance Odju d´agu, de Manuel da Veiga, entre outros, quetanto valorizaram e afirmaram as matrizes culturais crioulasdas Ilhas.Em Moçambique, o poeta José Craveirinha defendeu serimperioso adotar uma posição clandestina para poder sublevaro tecido lingüístico. Muitos de seus poemas, entre os anos 1940e 1950, buscaram afirmar as raízes africanas. Pela consciênciada necessidade de contaminar a língua do colonizador, entreoutros fatores, Craveirinha introjetou no português termos delínguas africanas. Com uma linguagem erótica, guerreira, vi-brante, áspera, luxuriante, a poesia de Craveirinha, ainda hoje,estremece quem a lê. Sente-se em seus versos um rumor, um roçarnervoso de vocábulos, alguns escritos em xi-ronga, atritando-se,insubmissos, com a língua portuguesa. No conhecido poema“África”, o eu-lírico confessa o desejo de macular o português,fecundando-o com expressões de línguas locais:E ergo no equinócio de minha terrao rubi do mais belo canto xi-rongae, na insólita brancura dos rins damadrugada, a carícia dos meus dedosselvagens é como a tácita harmoniade azagaias no cio das raças,belas como falos de ouro eretos noventre nervoso da noite africana.(CRAVEIRINHA, 1980b, p. 17)Incorporando ritmos africanos, “gritos de azagaias no ciodas raças”, o “tantã dos tambores” ressoando na pele do poema,o sujeito lírico chama miticamente a ancestralidade e impõe suapoesia como um canto erótico de rebeldia. Os versos citados an-teriormente encontram-se no pórtico de Xigubo; abrem este livro,cujo título, em xi-ronga, significa “tambor” e “dança guerreiraque prepara ou comemora as batalhas”. Portanto, os poemas,
    • Uma língua de viagens, transgressões e rumoresNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 2008 65reunidos neste volume, sob a designação Xigubo, metaforizama conclamação e a defesa das raízes africanas que foram silen-ciadas pela colonização.Na poética de Craveirinha, a língua portuguesa, que oaparelho colonial desejaria imune a alterações, é sublevada; passapor um processo de moçambicanização, abrindo caminho paraas gerações posteriores. Exemplo disso é o poema “Inclandes-tinidade”, de Cela 1, onde o eu-poético assume a contramão dalíngua e da História:Cresci.Minhas raízes tambémcrescerame tornei-me um subversivona genuína legalidade.Foi assim que eusubversivamenteclandestinizei o governoultramarino português.Foi assim!(CRAVEIRINHA, 1980a, p. 85)A voz lírica, com metáforas iradas e versos agressivos,transgride a norma e as regras impostas pelo domínio portu-guês. Não há ressentimentos contra a língua portuguesa; mas,contra o colonialismo. O idioma é renovado por neologismos queconjugam radicais em xi-ronga com prefixos do português e vice-versa. A subversão se faz tanto em nível ideológico-lingüístico,como estético-literário.Enfraquecida a crença utópica que alimentou os nacio-nalismos e processos revolucionários motivadores das inde-pendências das ex-colônias portuguesas em África, a línguaportuguesa não pode ser decantada, apenas, porque foi veículode politização e permitiu a revolução. Deve ser pensada segundooutros parâmetros. Hoje, em plena época de crises, de desen-cantos, após a queda do Muro de Berlim, não cabe mais umaconcepção monolítica do fenômeno lingüístico, nem do histó-rico. As línguas, nas sociedades contemporâneas de consumo,cruzam-se, babélicas, com discursos do simulacro produzidospela comunicação virtual. Persistem, entretanto, transgressoras,aquelas que, clandestinizadas, se fazem ouvir através de vozesparódicas, irreverentes – como é o caso, em Cabo Verde, de DinaSalústio, Armênio Vieira, Germano Almeida, entre outros, queusaram do humor para efetuarem fortes críticas sociais –, ouatravés de cantos líricos que, a par da desesperança atual, aindaapostam no sonho e na própria poesia.Exemplificamos esta última vertente com o livro Preces &súplicas ou Os cânticos da desesperança, de Vera Duarte, que adverte,principalmente, para a crescente e assustadora perda da huma-nidade nesta época neoliberal. Os poemas de Vera não tecem
    • Gragoatá Carmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 200866loas ao sucesso, ao consumo, ícones do mercado que transformaas pessoas em mercadorias. Sua poiesis dá as costas a esse tipode progresso, buscando exorcizar a barbárie por intermédio deintenso exercício de captação de lembranças e recônditos afetosadvindos do outrora. É pela rememoração de fogos e ritmos doSan Jon, que os ventos da memória e da imaginação transportamo sujeito poético aos tambores da Ilha de Santiago, fazendo-orelembrar tradições que se erigem, no poema, como estratégiasde fuga e reação ao apocalipse de uma modernidade esfaceladorade identidades e histórias. Em consonância com o poeta Corsi-no Fortes, por exemplo, observamos que o eu-lírico de Preces &súplicas ou Os cânticos da desesperança procura ritmos identitáriosdas ilhas na própria musicalidade poética. Opera, dessa forma,com uma poesia da sensibilidade, da luta pela igualdade e pelosdireitos humanos. Recupera Eugénio de Andrade como poeta degrande trabalho com a densidade da linguagem; faz dialogar ametáfora da rosa de Eugénio com a da rosa mirabílica da geraçãopoética do pós-25 de abril em Cabo Verde, da qual fazem partevários poetas, entre os quais José Luís Hopffer Almada:Em África cresce uma rosaÉ a rosa mirabílicaFlor de poesiauma rosa entre cadáveres(DUARTE, 2005, p. 19)Essa rosa representa, portanto, a crença na insurreição doshomens e das palavras, a resistência da literatura cabo-verdiana,pois “para lá da ilha, /só existe a poesia” (DUARTE, 2005, p. 62).“Sem a palavra/ A ilha não existe/ Sem a ilha/ Não existe opoema” (DUARTE, 2005, p. 64).Existem ainda, na produção lírica pós-1980 dos países afri-canos de língua portuguesa, vertentes intimistas que buscamsentidos poéticos nas profundezas interiores de cada ser. EmMoçambique, por exemplo, podemos citar a poesia de EduardoWhite que voa com a imaginação e procura ouvir o rumor da lín-gua, que, para Barthes, constitui o frêmito poético, a capacidadeda linguagem de expressar-se de modo inaugural.Em Eduardo White, cada palavra, cada metáfora e cadaimagem criam tremores de sentidos, que, amplificados, possi-bilitam à língua um sonoro e musical rumorejar, resultante doembate de suas encapeladas vagas de encontro às quilhas quevão sulcando as oceânicas trilhas percorridas através dos séculos:um navio na língua, a língua e o navio...As línguas, tecidos por onde passam as diferenças, nãopodem mais ser concebidas somente segundo o paradigmada identidade ou, pelo menos, este conceito não pode mais serexplicado monoliticamente. É preciso entender, com Boaven-tura de Sousa Santos, que apenas existem identidades em curso;
    • Uma língua de viagens, transgressões e rumoresNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 2008 67o conceito identidade só pode ser compreendido na dialética daprópria diversidade; portanto, os idiomas não podem mais serconsiderados apenas como “vozes representativas da pátria e danação”. A língua portuguesa, por exemplo, tendo atravessadoo Atlântico, o Índico, chegou a diferentes terras, recebeu novossaberes, nova musicalidade, novos acentos; conquistou novosafetos, novas subjetividades; multiplicou-se, grávida, de outrosespermas, suores e salivas.Cada vez mais se torna necessária uma reflexão crítica arespeito da questão das transformações sofridas pela línguaportuguesa, pois muitos de seus laços, no decorrer dos séculos,se desfizeram e se refizeram em heterogêneas combinações.Sabemos quanto de diversidade esse idioma adquiriu, ao travarcontato com outras línguas e culturas ao longo da história. Leva-do à África e ao Brasil como língua de colonização, o portuguêsdeixou marcas profundas; contudo, também sofreu metamor-foses em decorrência das diferenças lingüísticas, culturais esociais entre povos.Tal consciência é clara em vários escritores contemporâ-neos, tanto do Brasil, como de África, que têm como matériavertente o idioma português. Ana Paula Tavares, por exemplo,na crônica intitulada “Língua Materna”, demonstra grande lu-cidez a esse respeito:[...] a língua mãe cresce conosco e ao mesmo tempo inaugurae aprende a distinguir os cheiros fortes da terra ou o sabordo pão de batata-doce, que como ela também leveda e temque ser cuidado sob risco de passar do ponto e abater... Comoas pessoas, a língua alarga-se à convivência com as outras,oferecendo-se mesmo ao acto de incorporar no seu própriocorpo outras sonoridades, outros empréstimos. (TAVARES,1998, p. 13)A autora chama atenção para as alterações e metamorfosesdo português em convívio com as línguas angolanas e vice-versa,confessando a sedução exercida sobre ela pelas enriquecedorastrocas ocorridas no decorrer dos processos lingüísticos:Sempre observei com gosto a alquimia generosa da línguaportuguesa engrossando ao canto umbundo, sorrindo com ohumor quimbundo ou incorporando as palavras de azedar oleite, próprias da língua nyaneka. O contrário também é vá-lido e funciona para todo o universo das línguas bantu e nãosó faladas nos territórios, onde hoje se fala também a línguaportuguesa. (TAVARES, 1998, p. 13)Constatamos, desse modo, que muitos poetas e escrito-res africanos não só reinventaram a língua portuguesa, mastambém refletiram sobre suas mutações, variações. Invertendoe subvertendo o estabelecido pelos paradigmas colonialistas,fizeram a revolução, utilizando os idiomas locais e o portuguêscomo patrimônio coletivo. Na verdade, os laços lingüísticos do
    • Gragoatá Carmen Lucia Tindó Ribeiro SeccoNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 200868português com as línguas africanas nativas não surgiram comesse processo, tendo em vista serem bem antigos, conformeadvertiu Mia Couto:E mesmo se nos quisermos abster à influência das línguasbantus nascidas depois do tempo das caravelas: há quantotempo palavras como minhoca, cambada e candonga e tantasoutras se instalaram na língua portuguesa? Pois eu vos digo,tomando apenas um exemplo: a palavra minhoca instalou-seno século XVI e hoje a maior parte dos portugueses nem sequersuspeita da sua origem longínqua. Meus amigos, a verdade é aseguinte: a lusofonia não começou hoje. A nossa língua comumfoi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhesperdemos o rastro. De uma vez por todas, superemos receiose fantasmas. De uma vez por todas, namoremos o futuro paraque ele se enamore de nós. (COUTO, 2007)Seguindo os conselhos de Mia Couto, ultrapassemosreceios e fantasmas. O importante é que a língua portuguesa,enriquecida por tantas particularidades e diferenças, se man-tenha, tanto no presente, quanto no futuro, como elo capaz depermitir um debate plural e um diálogo crítico entre as culturasdos diversos povos que são usuários desse idioma.AbstractThe Portuguese language and its importance tothe literature of African countries, i.e., formerPortuguese colonies. The identitary ties withthe “fatherland” decreased and the imposed lan-guage acquired different facets in Angola, CaboVerde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé ePríncipe. Some links remained, albeit scattered,others dissolved with time. The Portuguese lan-guage, crossing the Atlantic, the Indic, arrivedin different lands, receiving new knowledges,musicalities, accents; multiplied, pregnant, byOther sperms, sweat and ‘sweat and blood’.Keywords: Portuguese language. African coun-tries. Identitary ties.
    • Uma língua de viagens, transgressões e rumoresNiterói, n. 24, p. 61-69, 1. sem. 2008 69ReferênciasBARTHES, Roland. O rumor da língua. Lisboa: Ed. 70, 1984.BOURDIEU, Pierre; PASSERO, Jean Claude. A reprodução: ele-mentos por uma teoria do ensino. Rio de Janeiro: FranciscoAlves, 1975.CONGRESSO SOBRE A SITUAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUE-SA NO MUNDO. Actas... Lisboa: ICALP, 1983.COUTO, Mia. Desmontando e reconstruindo a ideia de luso-fonia. 2007. Disponível em: <http://amateriadotempo.blogspot.com/2007/07/desmontando-e-reconstruindo-ideia-de.html>.______. Mia Couto: escrita desarrumada. Entrevistadores:CHAVES, Rita; THOMAZ, Omar Ribeiro. Folha de São Paulo, SãoPaulo, 18 nov. 1998.CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Ed. 70, 1980a.______. Xigubo. Lisboa: Ed. 70, 1980b.CUNHA, Celso. Língua, nação e alienação. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 1981.DUARTE, Vera. Preces & súplicas ou Os cânticos da desesperança.Praia: Instituto Piaget, 2005.LOURENÇO, Eduardo. Uma herança sem preço. Jornal das Letras,Lisboa, p. 4, 7 dez. 1993.MONTEIRO, Manuel Rui. Da fala à escrita. Texto apresentadonas Jornadas do Livro e da Leitura, Luanda, Ministério da Cul-tura, 25 abr. 2003.PADILHA, Laura. Novos pactos, outras ficções. Porto Alegre: EDI-PUCRS, 2002.PESSOA, Fernando. Palavras de Pórtico. In: ______. Obra poética.Rio de Janeiro: Aguilar, 1965.PIÑON, Nélida. A força do destino. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1978.SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e opolítico na pós-modernidade. Porto: Afrontamento, 1994.TAVARES, Ana Paula. O sangue da buganvília. Praia: Embaixadade Portugal; Mindelo: Centro Cultural Português, 1998.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008Da colonização lingüísticaportuguesa à economia neoliberal:nações plurilíngüesBethania MarianiRecebido 10 mar. 2008 / Aprovado 27 abr. 2008ResumoO objetivo deste texto é apresentar característicasdo presente lingüístico do Brasil e de Moçambique,tendo em vista a memória histórica constitutivadas duas formações sociais em sua dimensãolingüística.Palavras-chave: Colonização lingüística. Polí-tica de línguas. Brasil. Moçambique.
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200872“S’il y a une histoire des langues, elle constitue donc un chapitre del’histoire des sociétés, ou mieux, le versant linguistique de l’histoiredes sociétés. Et si l’on considère, ce qui n’est guère original, que laviolence est la grande accoucheuse de l’histoire, alors cette violenceaffecte aussi l’histoire des langues.”(Louis-Jean Calvet)1. História e história das línguasDe modo contundente, a historiadora Isabel Castro Henri-ques (2004) assinala a urgência em se realizar uma releitura dolugar ocupado pela África na historiografia ocidental bem comona construção de sua própria história. Na tradição histórica doperíodo colonial, sobretudo entre os séculos XV e XVII, recusava-se aos colonizados a atribuição de uma sociabilidade, pois aosolhos dos europeus faltavam-lhes traços do que se compreendia,na época, como civilização – religião cristã, poder centralizadoe aparato jurídico – e isso alimentava o imaginário europeusobre uma pretensa baixa capacidade intelectual associada auma preguiça irremediável.Como mostra a historiadora, as transformações sociais epolíticas da Europa, com o incremento das relações econômicascapitalistas a partir do século XIX, exigiram alterações no mo-delo colonial africano e, ao mesmo tempo, direcionaram umamudança no modo como o europeu se significava nessa história,mas não alteraram substancialmente a imagem dos africanosno imaginário ocidental. No século XIX, de explorador cruela filantropo, o europeu passa a legislar o fim da escravaturae do tráfico negreiro, mas fecha os olhos ao contrabando quese mantinha a despeito das novas leis. Além disso, resquíciosdo anatomismo desenvolvido no século XVIII asseguravam aexclusão dos negros de seus critérios de beleza e caráter paraincluí-los no paradigma da feiúra e da selvageria.No período pós-colonial, o reconhecimento das diferençase das necessidades decorrentes dessas diferenças – dentre asquais as marcas dessa memória colonial – esbarra, ainda, na des-qualificação das sociedades africanas e no não-reconhecimentoda alteridade. A historiadora afirma:A insensibilidade portuguesa – como aliás européia – que nãopode deixar de surpreender, deve-se a um preconceito que nãoestá ainda morto na sociedade portuguesa contemporânea:os africanos são naturalmente escravos e estão naturalmentedestinados a ser os servidores dos brancos, e dos portuguesesem particular. A violência do preconceito, reforçado pelo in-ventário dos caracteres somáticos (cor da pele, tipo de cabelo,odor e maneira de falar), ainda não abandonou a sociedadeportuguesa, explicando a marginalização violenta a que estãovotadas as comunidades imigrantes africanas. (HENRIQUES,2004, p. 28)
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 73Na história colonial do Brasil, a violência contra os indí-genas também foi assegurada em nome de uma ideologia dodéficit religioso e jurídico. De modo tão contundente quanto oda historiadora portuguesa, os antropólogos Darcy Ribeiro eCarlos Moreira Neto (1992) referem-se ao passado da formaçãosocial brasileira e ao presente, ainda tributário desse passado,descrevendo(a)o povo multitudinário, que trabalha para produzir o quenão come nem usa e sim o que é requerido dele por seus amos.[...] foram milhões de índios, de negros e de brancos, ontemescravos, hoje assalariados [...] O Brasil nunca existiu para sipróprio, na busca da prosperidade e da felicidade de seu povo.Existiu e existe é para servir, servil e explorado, ao mercadomundial, que ajudou a montar com montanhas de açúcar,de ouro, de café, de minério e de soja. (RIBEIRO; MOREIRANETO, 1992, p. 15-16)O que mais chama a atenção, nas análises da historiadora edos antropólogos, é a permanência ainda nos dias de hoje desseimaginário de deficiência e subserviência produzido no períodocolonial. Ou seja, a violência simbólica e econômica permaneceno período pós-colonial produzindo seus efeitos de controle eexclusão, sobretudo sobre os povos africanos.Quando nos debruçamos sobre a história das línguasem uma situação de colonização lingüística, quando tomamosas línguas em seu percurso como objeto simbólico, elementoconstitutivo de identidade nacional, podemos perceber essesefeitos. No período das descobertas, as línguas não européiassão consideradas dificultosas, defeituosas, sem racionalidade.A já mencionada ideologia do déficit, portanto, é constitutiva domodo como as línguas eram significadas: sem [f], [l] e [r], “letras”que designam a fé, a lei e o rei, no caso das línguas indígenasbrasileiras, e sem racionalidade, no caso das línguas africanas doCongo, que não possuíam nomes próprios nos moldes europeus(MARIANI, 2004, 2007a, 2007b).Não há processo colonizador que não tenha passado peloacontecimento lingüístico que resulta da imposição violenta dalíngua do colonizador, uma imposição que confronta línguascom funcionamentos e memórias sociais distintas, e que acabapor produzir, ao longo do contato lingüístico e social, a emer-gência de um lugar enunciativo diferenciado e determinado emrelação à constituição da língua nacional (ORLANDI, 1993). Aatribuição de sentidos para a língua nacional, ou para as línguasnacionais, não se realiza senão em relação a uma memória he-terogênea na qual “o ‘mesmo’abriga no entanto um ‘outro’, um‘diferente’histórico que o constitui ainda que na aparência do‘mesmo’” (ORLANDI, 2002, p. 23).Neste texto, para refletir sobre algumas características dopresente lingüístico do Brasil e de Moçambique, tendo em vista
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200874essa memória histórica constitutiva das duas formações sociaisem sua dimensão lingüística, serão consideradas duas vertentes:a legislação referente à política de línguas e as relações nemsempre muito visíveis entre as línguas e a política econômica.Inicialmente apresento um estudo comparativo sobre a legisla-ção portuguesa referente ao uso do português nas colônias. Emseguida, tendo em vista o período pós-colonial, discussões sobrea descolonização lingüística (ORLANDI, 2007) e sobre a situa-ção histórica atual desses dois países, trabalho com as insólitasrelações entre lingüística e economia, visando problematizar ovalor econômico das línguas.2. Língua de colonização e legislação colonialTeorizar sobre a passagem do Português como língua decolonização para língua nacional e teorizar sobre a (inter)nacio-nalização das línguas indígenas brasileiras e africanas após osprocessos de descolonização, considerando como pano de fundoos efeitos da violência simbólica da colonização lingüística bemcomo a heterogeneidade lingüística constitutiva das nações, édiscutir a trajetória sócio-política das línguas e das idéias lin-güísticas, é discutir também a história do sempre conflituosopercurso da construção de identidades lingüísticas nacionais,por um lado, e dos conflitos político-lingüísticos internacionais,por outro.Com a colonização lingüística inevitavelmente há o iníciode um enorme trabalho na(s) língua(s), um trabalho posto emprática pelos sujeitos. Melhor dizendo: os sujeitos são tomadospor esse trabalho, são tomados pela(s) língua(s) em confronto,estão inscritos em um território que se constrói discursivamentenessa heterogeneidade lingüística. Por mais que as políticas delínguas visem administrar os conflitos, nenhum planejamentogarante um controle total. As línguas se tocam, enlaçam fo-nemas e prosódia, deslocam sentidos, fazem surgir palavras,modificam suas gramáticas etc. Ao ser observado por estudio-sos, esse processo lingüístico é descrito e tais descrições valemcomo intervenções pontuais: elaboração de listas de palavrasou elaboração de instrumentos lingüísticos1como gramáticas,dicionários e cartilhas. Materiais fabricados para aprisionamentoda opacidade e da fluidez linguageira.Para as nações que resultam do fato da colonização, a ques-tão lingüística geralmente inscreve-se em uma de três ordenscontraditórias, cada qual com suas marcas específicas de inclu-são e exclusão dos sentidos de língua nacional: a que acolhe alíngua do colonizador, colocando-se como tributária dela; a querejeita essa língua do colonizador em nome de um nacionalismolingüístico, e a que, de modo crítico, considera que não há comofalar em língua nacional ou em línguas nacionais sem conside-1 Conforme Auroux,em seu conceito de gra-matização: processo dedescrição e posteriorinstrumentalização deuma língua com base nagramática e no dicioná-rio, duas tecnologias ouinstrumentos lingüís-ticos, que alteraram asrelações entre as línguas(1992, p. 52, 65).
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 75rar a memória histórico-política da língua de colonização emconfronto com outras línguas.A colonização do Brasil e de territórios africanos não seefetuou da mesma forma assim como os processos de indepen-dência também não seguiram os mesmos caminhos. Além doespaço temporal de mais de um século entre a independênciado Brasil (1822) e a de Moçambique (1975), há que se considerartambém a política lingüística portuguesa, que se efetivou dife-rentemente em relação às colônias. Essas diferenças, porém, nãoimpedem uma comparação da trajetória da política de línguasorganizada por Portugal durante o período colonial e os efeitosdecorrentes dessas políticas durante a descolonização. Da mesmamaneira, guardadas as inúmeras diferenças históricas, é inte-ressante apresentar e comparar as políticas lingüísticas internasobservadas por Brasil e Moçambique após a independência.No que diz respeito ao período colonial, um primeiro as-pecto a ser considerado é a imposição dos sentidos que legitimama língua portuguesa como língua do poder real frente às línguasindígenas e africanas. 2Como língua de colonização, a Língua Portuguesa seimpõe também como uma língua que já tem uma escrita, umaliteratura, gramáticas e dicionários, elementos que assegurama permanência de uma memória do português submisso ao reie ao catolicismo. No silêncio decorrente da colonização, a im-posição de uma língua camufla a heterogeneidade lingüísticae contribui para a construção de um efeito homogeneizadorque repercute ainda hoje no modo como se concebe a línguanacional no Brasil, em Angola e em Moçambique, guardadasas diferenças históricas.Ao ser levada para além mar, a Língua Portuguesa funcionacomo um dos símbolos do império e o esforço em catequizar ecivilizar os indígenas nada mais era senão incluí-los nos moldesda civilização européia, provendo aquilo que supostamenteestaria faltando para esta inclusão: uma estrutura jurídico-administrativa, uma autoridade governamental, uma religiãoe uma língua comum.Na conquista da África, as línguas locais permaneceram,em sua imensa maioria, sem descrições gramaticais consistentes,pois Portugal só passou a investir de fato em suas possessõesafricanas, inclusive promovendo expedições e a fixação na terra,a partir de meados do século XIX (ALEXANDRE; DIAS, 1998).Praticamente não houve investimento na descrição e no estudolingüístico, e tampouco investimento econômico. Apenas nofinal do século XIX é que Portugal passou a legislar questõesrelativas à educação e às línguas como forma de garantir a posseda terra.Nas terras do Brasil, ao contrário, em função mesmo dacolonização e dos interesses comerciais e catequéticos, algumas2 Lembremos que desdeo século XV, aproxima-damente, a língua por-tuguesa e a maioria daslínguas européias se en-contram em um mesmopatamar de auto- e inter-sustentação político-ideológica, mantendo-sehierarquicamente emuma posição similar emfunção de serem línguasnacionais a serviço deum poder real centrali-zado, organizado e sus-tentado juridicamente.A partir desse períodohistórico, as línguasdas nações européiasjá estão consolidadas eregularizadas, já pos-suem escrita, já estãogramatizadas, já sãoensinadas em escolas, jásão usadas na literaturae no registro jurídico.No caso português, as-sim como em relaçãoàs demais línguas, essarelação língua-naçãouma vez constituídatorna-se um emblemada real ordem sócio-política e isso produzefeitos tanto em termosde uma política internaquanto externa.
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200876línguas indígenas foram estudadas e tornaram-se objeto de co-nhecimento na forma de listas de vocábulos e de gramáticas. Foio caso, sobretudo, da língua Tupinambá, extensamente faladano litoral, posteriormente chamada genericamente de LínguaGeral, que foi gramatizada pelos jesuítas e largamente utilizadanas aldeias e nas fazendas por bandeirantes, mulheres e criançasbrancas, negros escravizados e índios de outras nações.Através de Cartas Régias, a coroa portuguesa buscou admi-nistrar as lutas entre as línguas, exigindo dos missionários o usodo português, apesar de aceitar que a catequese fosse realizadana língua geral ou em outra língua indígena. Ao longo do tem-po, a imposição do português tornou-se necessária e precisandofuncionar em termos pragmáticos como uma unidade lingüísticafundamental para o estabelecimento de uma comunicação pre-tendida entre o rei e seus súditos de além mar. Assim, a políticade línguas controversa e submetida aos interesses catequéticosse encerra no século XVIII, quando é promulgado o Diretóriodos Índios (1758), uma ordem real que promove a expulsão dosjesuítas, a interdição da Língua Geral e a obrigatoriedade douso da Língua Portuguesa, “a língua do Príncipe”, nas aldeiase em todo o território.Quando ocorre a independência do Brasil em 1822, apresença da Língua Portuguesa é fato consolidado em todo oterritório.Sinteticamente, apresentamos no quadro abaixo essa alter-nância da legislação portuguesa referente à questão lingüísticano Brasil.LEGISLAÇÃO COLONIAL/POLÍTICA COLONIAL – Brasil1625, 1667,1701, 1722, 1727Cartas e Leis Régias Catequese ora em Português, oraem Língua Geral03/05/1758 Diretório dos Índios Proibição do uso da LínguaGeral. Obrigatoriedade do uso edo ensino da Língua Portuguesa17/08/1758 Alvará deconfirmação doDiretório dos ÍndiosProibição do uso da LínguaGeral. Obrigatoriedade do uso edo ensino da Língua Portuguesa12/05/1798 Extinção doDiretórioManutenção do uso e do ensinosistemático do PortuguêsNa África, mais especificamente em Moçambique, a situ-ação é bem diferente, como já observamos em outras reflexões(MARIANI, 2007a, 2007b). Para discutir a questão lingüística,é necessário retomar um pouco mais da história do impérioportuguês e de sua política de ultramar para compreendermosa eleição da Língua Portuguesa como língua nacional em Mo-çambique após as guerras de independência.
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 77A expressão ‘império português’ é importante porqueaponta para as tentativas portuguesas de garantir a permanênciautópica do projeto de um império transcontinental, multiculturale multilingüístico. Se recuamos um pouco mais no tempo, vemosque a futura questão da descolonização da África portuguesase inicia no final do século XIX, com a Conferência de Berlim(15/11/1884 a 26/02/1885), que determinou, dentre outros as-pectos políticos, a partilha da África pelas potências européiasa partir de regras internacionais uniformes para ocupação doterritório. Com a conferência de Berlim, os direitos históricos deposse da terra em função dos descobrimentos dos séculos XV eXVI passam para segundo plano em detrimento do que se cha-mou de ocupação efetiva. Essa questão política é determinanteno modo como Portugal passa a administrar seu território, queinclui as colônias de ultramar.E isso só poderia ser realizado com uma nacionalização e,conseqüente homogeneização desse multiculturalismo e multi-lingüismo colonial, algo ainda não realizado. O século XIX foimarcado por um investimento mínimo em educação e, conse-qüentemente, no ensino de Língua Portuguesa:nunca se permitiu que a educação fosse além de um nível mí-nimo muito baixo, isto para não por em perigo os privilégiosconquistados; uma elite africana muito reduzida era educadacom um único fim: apoiar a hegemonia portuguesa e servirde intermediária entre a administração colonial e a populaçãoafricana. (FERREIRA, 1977, p. 61)Ainda segundo Ferreira, em 1845 e em 1869 foi organiza-do um novo sistema educacional o qual “definia os diferentestipos de educação a serem ministrados a africanos e europeus”(FERREIRA, 1977, p. 63). Mais para o final do século, escolasmissionárias católicas e protestantes voltadas para a catequesedos indígenas ensinavam valendo-se para tanto ora da línguaafricana, ora do português, ora do inglês.Do final do século XIX até a proclamação da RepúblicaPortuguesa (em 1910), a administração das colônias vai sofrendopressão no sentido de definir juridicamente o estatuto dos indíge-nas e dos assimilados sem abrir mão do domínio imperial.3Como advento da República, cessou o financiamento das missõescatólicas. Em seu lugar, eram enviados “agentes da civilização”,ou seja, “professores que tinham de possuir um curso completopara professores de instrução primária e possuir alguns conhe-cimentos das línguas locais” (FERREIRA, 1977, p. 67). Ao longoda segunda década do século XX, controvérsias em torno do tipode educação geral e lingüística, em particular, a ser ministradaaos indígenas tomaram conta da administração portuguesa.Em 1921, por exemplo, houve a proibição do uso das línguasafricanas nas escolas, exceto no exercício da evangelização e3Segundo inúmeros his-toriadores, como Hen-riques, mencionada noinício desse texto, umadas maiores contradi-ções vivenciadas pelosportugueses refere-se àmanutenção do trabalhoescravo até o final dosanos 20.
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200878nos momentos iniciais do ensino do português. O objetivo eraa integração, a assimilação.Por outro lado, como diz Ribeiro Thomaz (2001), a busca denacionalização das colônias no império português ultramarinoacabou por constituir uma crise na própria nação portuguesa,ao longo do século XX, sobretudo no contexto do regime auto-ritário salazarista.Esse império português, que se sustenta politicamenteno governo autoritário de Salazar, afirma-se juridicamente noterritório ultramarino com base no Ato Colonial (1930), na CartaOrgânica do Império Colonial (1933) e no Estatuto Político, Civile Criminal dos Indígenas (Decreto 16.473). Vale a pena destacardois artigos dessa legislação: “o artigo 1º. da Carta Orgânica doImpério Colonial Português define as colônias como ‘parte inte-grante do território da nação’; o artigo 2o. do Ato colonial afirmaser ‘da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar afunção histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos ede civilizar as populações indígenas que neles se compreendam,exercendo também influência moral que lhes é adscrita peloPadroado do Oriente’” (THOMAZ, 2001, p. 46).Um dos principais aspectos desse conjunto de textos jurídi-cos foi o de propor um discurso de nacionalização das colôniasde modo a organizar uma política de inclusão econômica e cul-tural. Ou seja, esse discurso jurídico criou uma estrutura legale administrativa de modo a incluir os indígenas para integrá-los na civilização européia. Esse discurso jurídico refere-se aoshabitantes das colônias africanas, afirmando sua “mentalidadede primitivos” e a necessidade de diminuir a distância “de es-tado civilizatório” entre eles e os portugueses. Aos habitantesdas colônias é facultado ascender ao estatuto de “assimilado”,com um “alvará de cidadania”, aquele indígena que assumis-se, incorporasse as práticas culturais, sociais e lingüísticas dePortugal. No entanto, nunca houve um número expressivo deassimilados.O Estatuto do Missionário,4por sua vez, desde 1941 objeti-vava fazer dos indígenas “verdadeiros portugueses” na culturae na língua, conforme se pode ler em seus artigos: “Nas escolasé obrigatório o ensino e o uso da língua portuguesa. Fora dasescolas os missionários e os auxiliares usarão também a línguaportuguesa. No ensino da religião pode, porém, ser livrementeusada a língua indígena” (Estatuto do Missionário, artigo 69o).Com essa política de inclusão, visava-se a um aportuguesamentolingüístico. Esse regime de indigenato vigorou até 1961 na Guiné,em Angola e em Moçambique, e em Moçambique não provocouo efeito pretendido.A essa política geral civilizatória associada a uma visívelpolítica de línguas, vincula-se, de um lado, para consumo nascolônias, um conjunto de estímulos pedagógicos em termos do4Os princípios do Es-tatuto são reafirmadosinúmeras vezes, comose pode ler nas afirma-ções de um Ministrodo Ultramar nos anoscinqüenta: “[...] por umlado, acelerar o processode assimilação ou apor-tuguesamento integraldos nativos, por outro,contribuir para a me-lhoria da sua situaçàomaterial adestrando-ospara uma melhor atuac-ção na vida económica”(apud FERREIRA, 1977,p. 75)
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 79ensino de Língua Portuguesa, e por outro, para consumo interno,a criação de institutos e sociedades com objetivo de valorizar edifundir o português para além de Portugal. Na África, porém,para além dos problemas administrativos e políticos, a resistên-cia fazia-se forte. Assimilados ou não, com política de línguasmais forte ou não, o fato é que as línguas permaneceram sendofaladas, cantadas e transmitidas através de gerações com baseem narrativas orais.A seguir, também organizado na forma de quadro, é apre-sentado um conjunto dessas leis resultantes de uma política delínguas para o estímulo da Língua Portuguesa.LEGISLAÇÃO COLONIAL/POLÍTICA COLONIAL – África1845 DecretoUltramarEnsino primário oficial08/03/1918 Decreto 5239 Ensino em língua indígena ouportuguês24/12/1919 Decreto 6322 Obrigatoriedade do ensino da LínguaPortuguesaProibição do uso de outra línguaeuropéia que não a portuguesa1930 Ato Colonial artigo 2o: “ [...] é essência orgânica daNação Portuguesa desempenhar afunção histórica de possuir e colonizardomínios ultramarinos e de civilizaras populações indígenas que neles secompreendam, exercendo tambéminfluência moral que lhes é adscritapelo Padroado do Oriente”1933 Carta Orgânicado ImpérioColonialArt. 1o: “as colônias são parteintegrante da Nação portuguesa.”05/04/1941 Decreto-Lei31207(Estatuto do Mis-sionário)“Nas escolas é obrigatório o ensino dalíngua portuguesa. Fora das escolas, osmissionários e auxiliares usarão a lín-gua portuguesa. No ensino da religiãopode porém ser livremente usada alíngua indígena.”20/05/1954 Decreto-lei 39666 Estatuto do Indigenato06/09/1961 Decreto-lei 43893 Abolição do Estatuto do Indigenato27/06/1963 Lei LXXX, Porta-ria 2119Lei Orgânica de Ultramar que prevêque “nas escolas primárias é autoriza-do o emprego do idioma local comoinstrumento de ensino da LP”1964 Reforma doensino para oUltramarCriação da classe pré-primária
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200880Essa legislação se fez acompanhar por incentivos culturaise pela organização de instituições cuja missão era justamentea da difusão da Língua Portuguesa nas colônias e também emoutros países, como se pode observar no quadro abaixo:Instituições e alguns Programaspara difusão da Língua Portuguesa1925PortugalInstituto deCultura e LínguaPortuguesa (ICALP)Apoio financeiro a leitoradosportugueses em universidadesestrangeiras.1931 Academia deCiências de LisboaObjetivos: “[…] estimular oenriquecimento do pensamento, daliteratura, da língua e demais formasde cultura nacional […] prestarassistência ao Governo, como órgãoconsultor, em questões científicase lingüísticas de interesse nacional;preservar e aperfeiçoar a línguaportuguesa, em coordenação coma Academia Brasileira de Letras einstituições similares dos países deexpressão portuguesa […].”14/11/1949 Sociedade daLíngua Portuguesa(SLP)Objetivo: “[...] investigação, difusãoe defesa da Língua Portuguesa.”Em síntese, apesar das motivações históricas e políticasdiferenciadas, apesar da distância de praticamente dois séculos,tanto o Diretório dos Índios (1757) quanto o Ato Colonial (1930)estão inseridos em uma mesma filiação ideológica, funcionan-do como acontecimentos discursivos decisivos no que tange àquestão lingüística e à imposição da Língua Portuguesa nascolônias.No silenciamento lingüístico inerente à colonização, aimposição de uma língua única camufla a heterogeneidade econtribui para a construção de um efeito homogeneizador querepercute ainda hoje no modo como se concebe a língua nacionalem países colonizados, guardadas as diferenças sociais, políti-cas e históricas. As línguas indígenas e as africanas significam,assim, no silêncio que lhes foi imposto. Silenciadas durante a co-lonização, condenadas a não pertencer a um aparelho de línguasporque não foram gramatizadas e não fizeram parte do aparatoescolar, essas línguas somente após a independência começama ter seu estatuto alterado.A luta pela hegemonia da Língua Portuguesa permanecemesmo após as independências: Portugal promove um discur-so pró unidade lingüística com suas ex-colônias, discurso essemarcado pelo termo “lusofonia” e por atividades acadêmicas,pedagógicas e políticas que procuram sustentar uma idéia de
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 81unidade na diversidade. À circulação desse discurso contrapõe-se um outro, assentado em diferenças lingüísticas e históricasque legitimam uma posição diferenciada em termos da constru-ção de sentidos: o português como língua nacional.3. As línguas na descolonização3.1. BrasilNo Brasil, a questão lingüística colocada logo após a inde-pendência referia-se a uma controvérsia, nem sempre colocadade modo explícito, até porque ela apresentava muitos aspectos aserem considerados: a pertinência ou não do emprego da línguametropolitana, do modo como ela era empregada na Europa; anecessidade ou impossibilidade de utilização da língua da an-tiga matriz – com uma escrita, uma gramática, uma prosódia euma literatura de alguma forma impostas pelo ex-colonizador– como língua nacional de uma nação independente; e, ainda, aaceitação ou não da presença das línguas indígenas e africanasna língua falada.Sendo esse momento conveniente politicamente paradescartar o pensamento de uma unidade lingüística absoluta,já que se engendra uma autonomia incipiente, formulam-se asperguntas: – Até que ponto seria possível expressar as especi-ficidades de uma nação recém-independente com a língua docolonizador? É o Estado que engendra a língua e a nação ou, aocontrário, uma língua-nação tem precedência sobre um Estado-nação? Acontecimentos posteriores à Independência, como asdiscussões na Assembléia Constituinte de 1823 sobre o nomeda língua falada no Brasil independente, as férreas disputasentre José de Alencar e puristas sobre como falar o português, osurgimento das primeiras gramáticas brasileiras, inaugurandoum lugar de autoria de um saber gramatical, apontam para essaintrínseca e complexa relação entre língua e nação.A constituição outorgada em 1824 não menciona a línguaque se fala no Brasil, deixando em aberto, no âmbito legal, onome da língua oficial. Nessa constituição, define-se o que é oimpério do Brasil e define-se quem são os cidadãos, mas não sedefine nem se menciona qual é a língua falada pelos cidadãosdesse império. Seria a língua algo tão óbvio que não precisasseser mencionado na Constituição, ela própria escrita nesta lín-gua? Esse primeiro texto de nossa história constitucional, é bomlembrar, vigorou até a proclamação da república, ou seja, tevea duração de 65 anos.Ora, a ambigüidade jurídica aponta para uma ambigüi-dade semântica, pelo menos para alguns letrados: qual seria alíngua nacional? A que se refere a expressão “língua nacional”?(MARIANI; JOBIM, 2007).
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200882As discussões do XIX trazem à tona posições sócio-históricas reveladoras, de certo modo, do próprio processo deressignificação de uma língua de colonização quando em contatocom outras línguas.De um ponto de vista discursivo, compreende-se que alíngua portuguesa, ao atravessar o Atlântico e adentrar as terrasda colônia, sem dúvida irá sofrer modificações em sua estrutura,mas irá, sobretudo, historicizar-se de modo diferente, passandoa ser uma língua cuja memória já não é mais apenas aquela rela-cionada à história portuguesa. O contato com outras línguas e ofato de ser falada por sujeitos nascidos na colônia impregnam alíngua usada no Brasil com um sentimento de identidade outro,não mais português. Sua legitimação como língua nacional noBrasil, portanto, passa por injunções que a historicizam de mododiferenciado: essa língua portuguesa já não é mais a mesma quese continua falando em Portugal. Por outro lado, não há comosilenciar totalmente a memória portuguesa, gerando esse efeitocontraditório: fala-se a mesma língua e ao mesmo tempo fala-seoutra língua.Acontecimentos posteriores à proclamação da república,como a fundação da Academia Brasileira de Letras, o início dereformas ortográficas, a política lingüística de Vargas durante aII Guerra, ou, ainda, as recentes polêmicas em torno do projetode lei do deputado Aldo Rebelo, enfim, esses e tantos outrosacontecimentos que, direta ou indiretamente, funcionam comopolíticas de língua,5exemplificam como a questão da defesa daunidade língüística – que carrega consigo a construção da evi-dência de uma língua única – não está separada da constituiçãodo Estado e da sociedade nacional. Não está separada tambémde uma visão homogeneizadora da língua falada no Brasil,seja ela chamada de Língua Portuguesa, Português-brasileiroou Língua Brasileira, conforme as distintas ideologias sobre alíngua nacional.Em 1935 e em 1946 a questão da denominação retornana forma de projetos de lei e resoluções jurídicas (DIAS, 1996),mostrando o quanto demandas político-discursivas de fixaçãode uma língua nacional e de um nacionalismo lingüístico per-maneciam atuais e atuantes. Se, por um lado, a atribuição dodeterminante ‘portuguesa’ não parece constituir problema paraalguns políticos, acadêmicos e intelectuais, por outro lado, comoatribuir o determinante ‘brasileira’ a uma língua de colonizaçãoem uma nação que se moderniza? Falar na língua nacional comolíngua brasileira era defender a idéia de uma língua comum,produzindo como “efeito a aglutinação de indivíduos de ummesmo território sem que se colocasse em causa a participaçãodesses indivíduos na nação” (DIAS, 1996, p. 75). Ou seja, estavaem jogo a inclusão ou não da população indígena como cidadãoscom seus direitos e deveres.5Adotamos como Orlan-di (2002, p. 94) as expres-sões ‘política de línguas’e ‘política lingüística’como equivalentes. Si-nalizamos, também,o uso de ‘política delínguas’ em Pêcheux([1981], 2004).
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 83Na significação dessa unidade lingüística nacional, sómuito recentemente, com a Constituição Federal de 1988, ospovos indígenas sobreviventes e as 180 línguas indígenas aindafaladas passaram a ser reconhecidos como parte integrante doEstado. Diz o artigo 231 que “são reconhecidos aos índios suaorganização social, costumes, línguas, crenças e tradições […]”.Tal reconhecimento, por outro lado, não encontra um respaldoem termos de uma política permanente e incentivadora voltadapara o estudo das línguas. A ausência de tal política, porém, nãoimpede um crescente estudo das línguas indígenas brasileirase sua crescente gramatização vem possibilitando o incrementode uma educação escolar bilíngüe que não apaga as diferençasculturais.Hoje em dia, já se fala e já se escreve que o Brasil é um paísplurilíngüe, pois integra em seu território línguas indígenas,línguas africanas e línguas oriundas de ondas imigratórias.6Por outro lado, na constituição de 1988 também não semenciona a língua nacional. Os artigos do capítulo III “Da Nacio-nalidade” silenciam sobre a língua falada pelos brasileiros natos,aqueles nascidos no Brasil. Novamente, pode-se perguntar: seriaassim tão óbvio que a língua nacional e oficial é uma só? E o quedizer da heterogeneidade lingüística constitutiva da nação?3.2. MoçambiqueRetomando a proposta de comparação com o que se pas-sou na colonização africana no século XX, é bom recordar queentre 1974 e novembro de 1975, o império colonial portuguêsse desfaz e dele surgem cinco novos Estados nacionais que sevão constituir na contradição aberta entre o passado colonial eum futuro incerto e fruto das guerras de libertação (ENDERS,1977). Em termos comparativos dessa trajetória pós-colonial,a história lingüística de Moçambique apresenta aspectos bas-tante diferenciados do que se passou no Brasil, pois o fato de aLíngua Portuguesa ter sido elevada ao posto de língua oficialpelos revolucionários não garantiu seu uso em todo o territórionem sua hegemonia de fato. Assim como o que ocorreu no Brasilaté meados do século XIX, nas colônias africanas, apenas umapequena elite oriunda da realeza recebeu educação escolar juntocom os colonizadores portugueses. Por outro lado, sobretudoem Moçambique, a diversidade lingüística manteve-se muitoforte uma vez que a Língua Portuguesa era falada por uma elitemuito restrita.Retomando questões que já discuti anteriormente (MA-RIANI, 2007a), nas colônias africanas, a segregação entre colo-nizadores e colonizados foi mais radical e manteve-se durante oséculo XX. Desta forma, mesmo sob o domínio oficial da línguaportuguesa, a diversidade lingüística manteve-se muito forte.6Veja-se, por exemplo,entrevista concedidapor Monica Saavedra epublicada no Boletim daFAPERJ de 24/04/2005.Observe-se, também,que em São Gabriel daCachoeira, no Alto RioNegro, Amazonas, foipromulgada uma lei queoficializou três línguasindígenas, o que sig-nifica que tais línguaspodem ser ensinadase usadas no discursojurídico, no jornalísticoetc. Ou, ainda, as refle-xões teóricas e analíticasque o grupo Históriadas Idéias Lingüísti-cas no Brasil vem reali-zando sobre a questãolingüís­tica no Brasil,cujos resultados podemser consultados na En-ciclopédia de Línguas(<http://www.labeurb.u n ica mp.br/elb/>).Também os trabalhosda comissão Machadode Assis no MEC e doInstituto de Investiga-ção e Desenvolvimentoem Política Lingüística(IPOL) são exemplos delugares institucionaisque discutem a hetero-geneidade lingüística noterritório brasileiro.
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200884A elite colonizadora, apesar de ter sido educada para preencherpapéis da administração colonial, foi aos poucos rebelando-se contra o colonialismo e usando o português como línguada rebelião. E foi em português que, após a independência,lutou-se pela preservação da diversidade lingüística existenteao mesmo tempo em que se elegia a Língua Portuguesa comolíngua nacional e oficial em função do seu papel internacional.Não se questionava, na época, a decisão política tomada, umadecisão que figura juridicamente ainda hoje no décimo artigoda Constituição de modo seco e direto: “a língua portuguesa éa língua oficial”. Observe-se que a defesa das demais línguasnacionais vem garantida no artigo nono da Constituição, umartigo que fala em valorização dessas línguas como patrimônioda cultura e da educação e ainda afirma que o Estado promoveseu incremento e uso como línguas veiculares da identidademoçambicana. Nessa gestão do plurilingüismo, com a línguaportuguesa busca-se organizar questões práticas – assegurar opoder do Estado e a unidade nacional – e questões simbólicas– afirmar um nacionalismo que não supõe uma subserviênciaaos ditames coloniais que defendiam um monolingüismo combase na língua de colonização.Em Moçambique, em 1983, (08 anos após a independência),a Secretaria de Estado da Cultura emitia sua palavra oficial, aomesmo tempo legitimando a escolha do português como línguaoficial e apontando para uma diferenciação relativa ao seu papelanterior de língua de colonização:A moçambicanização é a forma de nos apropriarmos doPortuguês [...] O Português falado em Moçambique há-de ne-cessariamente transformar-se e distanciar-se do Português dePortugal porque a realidade moçambicana, à partida diferenteda de Portugal, tem seu próprio curso de desenvolvimento [...].(apud GONÇALVES, 2005, p. 229)É no quadro deste processo que se pode considerar, comoafirma Perpétua Gonçalves (professora da Universidade EduardoMondlane, em Maputo, Moçambique)que a história da língua portuguesa em África data de há cercade cem anos. [...] este período [...] não pode ser tomado comoum continuum homogeneo [...] visto que as independênciasnacionais representam uma quase ruptura na dinâmica queesta língua tinha nos países africanos no período colonial.(GONÇALVES, 2005, p. 224)Atualmente, mais de 30 anos após os primeiros passos emdireção à construção do Estado e das discussões em torno dalíngua oficial de Moçambique, é interessante trazer o depoimentodo escritor moçambicano Mia Couto, proferido em congressona UERJ em 2005. Diz Mia Couto:
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 85[...] fala-se hoje mais português em Moçambique que se falavana altura da Independência. O governo moçambicano fez maispela língua portuguesa que os 500 anos de colonização. Em1975, ano da Independência Nacional, mais de 60 por centodos moçambicanos não falavam português. Trinta anos depoisexistem ainda 40 por cento de moçambicanos que não falamportuguês. Mesmo os que têm essa competência fazem-nocomo segunda língua. Hoje cerca de 7 por cento dos moçam-bicanos tem o português como língua materna. Nas cidades,porém, este número já é de quase 20 por cento. (COUTO, 2007,p. 19)E prossegue o escritor:O meu país é assim, um território de muitas nações e muitaslínguas (mais de vinte diferentes idiomas). O idioma portu-guês é a língua de uma dessas nações – um território culturalinventado por negros urbanos, mestiços, indianos e brancos.Sendo minoritário e circunscrito às cidades, esse grupo ocupalugares chaves nos destinos políticos e na definição daquilo quese entende por moçambicanidade. A língua portuguesa não éainda língua de Moçambique. Está-se exercendo, sim, como alíngua da moçambicanidade. (COUTO, 2007, p. 20)E que Língua Portuguesa é essa que é falada? Gonçalves(2005) aponta para a ilusão de se supor uma unidade e umahomogeneidade no português falado nesses novos estados na-cionais, sobretudo em Moçambique.Tanto quanto sei, este conjunto [as Variedades Africanas doPortuguês – VAPS, nomenclatura utilizada por pesquisado-res europeus] é estabelecido com base em critérios externos,geográficos e lingüísticos, de acordo com os quais as VAPssão agrupadas num conjunto único por se terem formado nomesmo continente (africano), a partir da mesma (variedade de)língua, o Português europeu. Na verdade, ao estabelecermoseste conjunto estamos a dar continuidade à tradição filológicaportuguesa e brasileira [...]. (GONÇALVES, 2005, p. 225)Resistindo e contrapondo-se a essa perspectiva, a pesqui-sadora propõe uma série de encaminhamentos, dentre os quais,a proposta de fazer uma periodicização da Língua Portuguesaem Moçambique que leve em consideração as etapas da coloni-zação e da política de independência. A recusa da designação‘Variedades do Português Africano’, ou simplesmente, ‘PortuguêsAfricano’, representa uma forma de resistência aos discursosde exclusão que ainda circulam sobre a África. É um gesto deresistência com a proposta de outras formas de teorizar sobre aslínguas, nos dias de hoje, pois a teorização lingüística existente,com suas “formas simplificadas de designar”, estão inseridas emum imaginário de superioridade do português europeu frentea uma variedade que se significa como dialetal.À guisa de conclusão provisória, posso aqui indicar que,apesar das diferenças históricas, é possível traçar uma analogia
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200886das questões levantadas por escritores e lingüistas moçam-bicanos na atualidade com discussões travadas por políticos,intelectuais, escritores e pesquisadores no Brasil desde 1822e, mais recentemente, por lingüistas e analistas de discursoque se colocam em uma posição teórica diferenciada frente àslínguas de colonização. Nesse sentido, ainda há muito o que seconversar.4. “Quanto custa ser índio no Brasil?”Retomo essa provocativa pergunta de Daniel Munduruku,título de um depoimento dado na UERJ, em 2005, para finalizaresse texto pensando nas relações nem sempre óbvias ou visíveisdas línguas com os sistemas econômicos.Falando do lugar de umas das mais expressivas liderançasindígenas brasileiras, Daniel afirma que com sua pergunta queriaproblematizar hábitos de pensamento vigentes em uma socie-dade materialista, pois nesta nossa sociedade, “alguém só temfinalidade se tiver um valor, uma utilidade” (MUNDURUKU,2007, p. 52). Refraseando sua própria pergunta, ele diz: “Talveza pergunta não seja quanto custa ser índio, mas quanto custaser um brasileiro, filho dessa terra ‘idolatrada, salve, salve’!!!”(MUNDURUKU, 2007, p. 52).Fazendo uma analogia, e considerando as relações eco-nômicas globalizadas que, além de promover a manutençãodo imaginário da inferioridade das ex-colônias, hoje países deterceiro mundo, promovem novos tipos de desigualdades sociaise simbólicas, podemos perguntar quanto custa ser falante deportuguês? E, quanto custa ser falante de munduruku? Ou dealguma dessas vinte línguas nacionais moçambicanas? Frenteao inglês, considerado cada vez mais língua global, qual o custoda defesa e manutenção de um nacionalismo plurilíngüe?Essas perguntas, embora estranhas para um lingüista,apontam para problemas que precisam ser enfrentados, princi-palmente nas nações que passaram pela colonização. Nos diasde hoje, qualquer formulação de uma política de línguas e dedefesa dos direitos lingüísticos dos sujeitos deveria levar emconsideração a questão sócio-econômica.AbstractWe aim to present some specific traces of Brazil´sand Moçambique´s linguistic reality, while, at thesame time, taking into consideration the historicalmemory that grounds the linguistic dimension ofboth societies.Keywords: Linguistic colonization. Linguisticpolicies. Brazil. Mozambique.
    • Da colonização lingüística portuguesa à economia neoliberal: nações plurilíngüesNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 2008 87ReferênciasALEXANDRE, Valentim; DIAS, Jill. O império africano: 1825-1890.v. X. Lisboa: Estampa, 1998. (Coleção Nova História da ExpansãoPortuguesa)AUROUX, Sylvain. A revolução tecnológica da gramatização. Cam-pinas, SP: Ed. da UNICAMP, 1992.CALVET, Louis-Jean. La guerre des langues et les politiques linguis-tiques. Paris: Hachette Littératures, 1999.COUTO, Mia. Três fantasmas mudos para um orador luso-afô-nico. In: VALENTE, André (Org.). Língua portuguesa e identidade:marcas culturais. Rio de Janeiro: Caetés, 2007, p. 11-35.DIAS, Luís Francisco. Os sentidos do idioma nacional: as basesenunciativas do nacionalismo lingüístico no Brasil. Campinas,SP: Pontes, 1996.ENDERS, Armelle. História da África lusófona. Sintra: Inquérito,1977.FERREIRA, Eduardo de Sousa. O fim de uma era: o colonialismoportuguês em África. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1977.FERREIRA, Maria José Simões de Brito Lopes. A lusofonia e apolítica da língua e da cultura: a cooperação com os países afri-canos lusófonos. 1996. Dissertação (Mestrado em RelaçõesInterculturais)-Universidade Aberta, Lisboa, 1996. Com orien-tação de Carlos Reis e Eduardo Marçal Grilo.GONÇALVES, Perpétua. A formação de variedades africanas doportuguês: argumentos para uma abordagem multidimensional.In: MOREIRA, Adriano et al. A língua portuguesa: presente e fu-turo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, p. 223-242.HENRIQUES, Isabel Castro. Os pilares da diferença: relaçõesPortugal-África, séculos XV-XX. Lisboa: Centro de História &Caleidoscópio, Universidade Nova de Lisboa, 2004.MARIANI, Bethania. Colonização lingüística. Campinas, SP: Pon-tes, 2004.. Língua portuguesa, políticas de línguas e formaçãode estados nacionais: notas sobre lusofonia. In: PONTES, Geral-do; ALMEIDA, Claudia (Org.). Relações literárias internacionais:lusofonia e francofonia. Rio de Janeiro: Casa Doze & de LetrasUERJ: EDUFF, 2007a, p. 234-254.. Quando as línguas eram corpos: sobre a colonizaçãolingüística portuguesa na África e no Brasil. In: ORLANDI, Eni(Org.). Política lingüística no Brasil. Campinas, SP: Pontes, 2007b,p. 83-113.MARIANI, Bethânia; JOBIM, José Luís. A questão da línguanacional e a literatura pós-colonial no Brasil. In: PONTES, Ge-raldo; ALMEIDA, Claudia (Org.). Relações literárias internacionais:
    • Gragoatá Bethania MarianiNiterói, n. 24, p. 71-88, 1. sem. 200888lusofonia e francofonia. Rio de Janeiro: Casa Doze & de LetrasUERJ: EDUFF, 2007b, p. 40-61.MUNDURUKU, Daniel. Quanto custa ser índio no Brasil? In:VALENTE, André (Org.). Língua portuguesa e identidade: marcasculturais. Rio de Janeiro: Caetés, 2007, p. 49-52.OLIVEIRA, Gilvan Müller de (Org.). Declaração universal dosdireitos lingüísticos. Florianópolis: IPOL: Mercado das Letras;Campinas, SP: Associação de Leitura do Brasil, 2003.ORLANDI, Eni. Processo de descolonização lingüística e luso-fonia. Línguas e Instrumentos Lingüísticos, Campinas, SP, 2007.. Terra à vista!: discursos do confronto velho e novomundo. São Paulo: Ed. da Unicamp, 1990.RIBEIRO, Darcy; MOREIRA NETO, Carlos de Araújo. A fundaçãodo Brasil: testemunhos 1500-1700. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.THOMAZ, Omar Ribeiro. O bom povo português: usos e costu-mes d’aquém e d’além mar. Mana Estudos de Antropologia Social:Publication of the Programa de Pós-Graduação em AntropologiaSocial – PPGAS, Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, Apr. 2001.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 2008Outros poderes, outrosconhecimentos – Ana Paula Tavaresresponde a Luís de Camões*Margarida Calafate RibeiroRecebido 05 mar. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoA partir da poesia de Ana Paula Tavares, pro-curarei mostrar neste artigo como a dupla pre-missa do poder e do conhecimento, sobre a qualse ergueu o colonialismo dos séculos XIX e XX,foi femininamente reapropriada, subvertida, des-multiplicada e antropofagizada, revelando outrasidentidades. Este processo inaugura assim umtempo pós-colonial de possibilidade de acesso evalorização de outros conhecimentos, de outrospoderes, expressos noutras línguas, noutros sons,noutras escritas, e hoje transmitidos em línguaportuguesa.Palavras-chave: Poder. Conhecimento. Poesia.*Uma versão inicial des-te texto ainda inéditofoi apresentada no “IIIEncontro de Professoresde Literaturas Africanas– Pensando África: Crí-tica, Ensino e Pesquisa”,que decorreu na Univer-sidade Federal do Riode Janeiro de 21 a 23 denovembro de 2007
    • Gragoatá Margarida Calafate RibeiroNiterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 200890“Também o leão deverá ter quem conte a sua história.As histórias não podem glorificar apenas o caçador.”(Provérbio africano)A abrirGostaria de deixar claro desde o início que não é comoespecialista da cultura e da literatura angolana que escrevo, mascomo estudiosa da cultura portuguesa sempre impressionadacom a pujança das culturas africanas face ao modelo colonialimposto, ao sufoco do neo-colonialismo e ao tempo incerto dopós-colonialismo, tantas vezes assombrado pelo seu inquilinofantasmático, que é ainda o tempo colonial.É portanto como visitante cerimoniosa destas culturas anti-quíssimas e riquíssimas que me apresento com o atrevimento deescrever algo sobre a bela poesia de Ana Paula Tavares, depoisdo ruído crítico introduzido em mim pelas leituras penetrantesde Laura Padilha, Rita Chaves ou Carmen Tindó Secco e pelodesafio que para mim constituiu desde o início a poesia de AnaPaula Tavares, uma das vozes poéticas com que aprendi que ésempre possível um dia de manhã levantar-me e dizer “Nãovou”. É portanto a partir deste entre-lugar que vou falar destapoesia que transforma, canibaliza e incorpora várias vozesemitidas a partir de vários patrimónios culturais e geográficos,obrigando a língua portuguesa a dobragens e redobragens nemsempre imediatas, e que assim a engrandecem.Ana Paula Tavares é poeta, mas também historiadora e,como disse numa entrevista “por vezes está tudo misturado,transforma-se o amador em coisa amada, e gera-se a grandeconfusão […]”. Publicou vários livros de poesia – Ritos de passagem(1985), O Lago da lua (1999), Dizes-me coisas amargas como os frutos(2001), Ex-votos (2003), Manual para amantes desesperados (2007) e,em prosa, O sangue da buganvília (1998) e A cabeça de Salomé (2004).Recentemente escreveu um romance com Manuel Jorge Marme-lo, Os olhos do homem que chorava no rio (2005) e re-publicou, em2007, Ritos de passagem, com o traço de Luandino Vieira a ilustrarcada poema. A poesia de Ana Paula Tavares tem sido objectode reconhecimento crítico em vários países e obteve já o PrémioMário António da Fundação Gulbenkian, 2004 e o Prémio Na-cional de Cultura e Artes (Literatura) de Angola, em 2007.Mas qual é de facto a novidade desta voz poética?O olhar feminino, que desde 1985, Ana Paula Tavares lançasobre o seu país através da sua poesia é de facto outro. Não setrata mais de um o sujeito poético feminino que se posicionavana pele de alguém que está ao lado de quem masculinamente faza guerra, a revolução, a nação; não se trata mais de um poema arimar, como então, com revolução, alfabetização, povo ou nação.O tema é outro, a posição epistemológica do sujeito poético é
    • Outros poderes, outros conhecimentos – Ana Paula Tavares responde a Luís de CamõesNiterói, n. 24, p. 89-101, 1. sem. 2008 91outra, a fala é outra. E, por isso, Laura Padilha coloca a voz deAna Paula Tavares como uma daquelas, que na Angola de hoje,pela diferença interrogam o cânone, não apenas o cânone dematriz ocidental, branco e europeu, mas o possível cânone afri-cano – também ele masculino – provavelmente africanamentereprodutor do cânone ocidental (PADILHA, 2002, p. 163-169).Pela sua poesia Ana Paula Tavares exige uma outra no-meação das coisas, dos corpos, das pessoas e da terra; fala damemória dos lugares, do amor, dos nascimentos, das outrasfalas e saberes de Angola. Mas fala sobretudo das mulheres edo silêncio gritante que as habita, num país feito pelas mulherescomo é Angola. Evoca as vozes de muitas vozes femininas quaseanónimas – algumas das que Laura Padilha recolheu em Borde-jando a margem (2007), retirando do silêncio as vozes das mulheresque publicaram literatura nos jornais de Angola –, de Alda Larae de outras poetas, mas sobretudo das mulheres comuns quena sua vida quotidiana recriam a outra terra prometida, não ada nação, da revolução ou da guerra que em nome dela se dizfazer, mas da terra prometida de todos os dias, a terra que trazpaz, sobrevivência, amor, vida. Mas de onde lhe vem essa falaoutra, esse olhar outro? Como revela numa entrevista:Eu tinha nascido numa sociedade colonial fundada quandoo colonialismo começou a sério, portanto depois da Confe-rência de Berlim, quando Portugal foi obrigado a ocupar oterritório, e começou com uma política de povoamento brancopara Angola. Para o Lubango, foram grupos de madeirensesbrancos, muito pobres, que andavam descalços, coisa quemuitas pessoas daquela sociedade já não andavam. Haviatambém uma meia dúzia de brancos, proprietários mais ri-cos, e comerciantes. E ainda uma sociedade de pastores queparecia não fazer parte daquela sociedade. Eram donos degado, alguns tinham cabeças de gado para serem decretados:“Ele é um homem rico”. Mas ninguém via, e nem eles própriosqueriam que os brancos os considerassem ricos. Mas eles sa-biam que eram ricos, que o seu gado lhes dava estatuto. Eraportanto uma sociedade em muitas sociedades e eu crescino meio dessa confusão, sem perceber bem o que é que sepassava ali. […] Tive portanto o privilégio de ter nascido ali,de ter uma avó negra do Kuanhama, e uma avó branca deCastelo Branco, que me deu esta fala, a outra fala. Do que éque aquelas duas mulheres à noite falavam? Havia um ruídode fundo de que eu fui à procura. E por grande sorte minhadescobri que já no século XIX, alguns missionários tinhamperseguido esse ruído. Bem ou mal, tinham fixado formasdesse ruído em narrativas, em poemas, mitos de fundação,epopeias… E assim eu pude ler – sabendo que havia ali umatraição – mas pude ler a memória daqueles povos. E pensei:Este é o meu caminho. Se eu conseguir fazer alguma coisa, épor aqui que eu vou. Não faço poemas etnográficos, eu façoficção. Eu não vejo a minha terra como Sembène Ousmane,o grande realizador senegalês, dizia a Jean Rouch, o homem
    • Gragoatá Margarida Calafate RibeiroNiterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 200892grande do outro cinema: “Tu filmas os africanos como gafa-nhotos, e só ficamos em pé de igualdade quando um dia euconseguir filmar os europeus como gafanhotos”. Eu não vejoa minha terra, estas mulheres, estes homens, estes pastores,como gafanhotos. Eu e a minha terra não nos separamos. Nãouso todo este material a que felizmente tive acesso como umafonte, onde eu vou debicar aqui ou ali. Eu tento incorporarmuito deste material e saber como foi […] Eu que não fui umamulher que passei pela iniciação, eu que sou uma mulher quesó falo línguas imperiais... mas tenho ouvido o som de outraslínguas, e portanto, eu não faço cópias: trabalho, canibalizo edevoro como muitos outros africanos fizeram. Esse é o trabalhoque tento fazer: a incorporação de vários patrimónios, e se omeu olhar para ver o mundo é aquela terra, aquele espaço,eu também não estou cega ao resto do mundo. Leio a poesiado mundo e estou aberta a todas as experiências do mundo.O que eu procuro é não confundir as coisas, nem confundiros níveis, e trabalhar com um legado que a sorte pôs à minhadisposição. (TAVARES apud RIBEIRO, 2007)1Ana Paula Tavares responde a Luís de CamõesPoder e conhecimento é, como é sabido, o binómio sobre oqual repousou grande parte do ideário imperial e do acto colonialimposto pelas potências coloniais europeias no final do séculoXIX e ao longo de boa parte do século XX. Esse poder e esse co-nhecimento, veiculado numa certa língua imperial, representouum poderoso elemento estruturador e unificador dos territórioscoloniais em si, entre si e com as suas metrópoles. Basta remontara João de Barros e à sua Gramática para entender que – como eletão premonitoriamente insinua na introdução – os padrões e asobras seriam levados pelo tempo, mas que a língua ficaria comotestemunho do encontro; ou basta recordar politicamente Herderpara perceber que a língua seria, não apenas a expressão maisdistintiva do espírito da nação imperial – composta de múltiplasnações e de múltiplos povos ignorados – mas também uma dasformas através da qual a nação, saída das várias lutas pelas váriasemancipações, se poderia expressar. Esse foi o grande trabalhodo cultor da nação e da língua portuguesa que foi Camões, quepelo seu trabalho poético afirmou a nação portuguesa face à po-tencial hegemonia castelhana e a sua preocupação na sequênciada viagem narrada em Os Lusíadas, viagem essa que traria aosportugueses as terras do império habitadas por outras gentes.O espanto e a angústia então vividos pelo poeta exprimem-sena questão fundadora que enforma Os Lusíadas, aquando doencontro (ou talvez melhor do encontrão, para evocar as pala-vras de Eduardo Lourenço) entre os navegantes e essa “gentefera e estranha” (III, 103, 2003, p. 84) “da cor da escura treva”(V, 30, 2003, p. 130). E o poeta, pela voz dos navegantes, lança aquestão:1Ver também o textopublicado no Jornal deLetras, na secção “Auto-biografia” (TAVARES,2007b).
    • Outros poderes, outros conhecimentos – Ana Paula Tavares responde a Luís de CamõesNiterói, n. 24, p. 89-101, 1. sem. 2008 93Que gente será esta? (em si diziam)Que costumes, que Lei, que Rei teriam? (I, 45, 2003, p. 12)Por outras palavras, em que língua se expressam estasgentes, que conhecimentos possuem, que poder é que os conduze que os move? O que representa esta humanidade em relaçãoa nós, ou dito de outra maneira, quem somos nós afinal?, atéchegar à definição estruturante da identidade portuguesa: “Osportugueses somos do Ocidente/Imos em busca das terras doOriente.” (I, 50, 2003, p. 13). De facto, a resposta europeia a estaquestão iria definir a Europa como centro de poder e de conhe-cimento na ordem do mundo que a partir desta viagem se gera,e os portugueses como um povo em demanda dessa nova ordem(RIBEIRO, 2004, p. 34-39).O “processo de colonização, ou a colonialidade, pensadacomo relação política, que se instaura a partir desta viagemmarítima” (PADILHA, 2006b), vai sendo, ao longo da história,ilustrado por múltiplas narrativas escritas em língua imperial eemitidas a partir da nação imperial, narrativas essas que edifica-ram, rectificaram codificaram e finalmente reproduziram o pen-samento colonial. Esta história colonial escrita pelos caçadores,para recorrer às categorias definidas no provérbio africano queserve de epígrafe a este texto – “Também o leão deverá ter quemconte a sua história. As histórias não podem glorificar apenas ocaçador” – converteu esses outros em seres sem história e semlei dessa história aparentemente comum. Passarão muitos anos,haverá muitas lutas, correrá muito sangue para que se entendao mundo colonial em tensão e fractura entre brancos, negros emulatos como nos mostrou Castro Soromenho na sua obra ficcio-nal, ou Noémia de Sousa na sua poesia. Mas como aponta LauraPadilha, na senda de Cornejo Polar, nas margens dos discursoseurocêntricos, existiram sempre outras vozes, outras nomeaçõesda terra e das coisas, senhoras de outras versões nunca escutadase, portanto, por vezes, nem sequer silenciadas, mas antes nuncaouvidas (PADILHA, 2006a).Não se tratava portanto de defender a ideia, cara a algunsteóricos do pós-colonialismo, de que os subalternos não falavamou não podiam falar, mas de, como defende Spivak, mostrar queo seu lugar de enunciação, no seio da diferença colonial, conde-nava o seu discurso à irrelevância por o oferecer a interpretaçõesque o silenciavam (SPIVAK, 1988). Como refere Laura Padilha,em sintonia com Spivak,2os subalternos, sejam eles mulheresou homens, sempre falaram, nunca foram foi ouvidos, o que ésubstancialmente diferente.Mas lendo e sobretudo escutando um texto como o de AnaPaula Tavares em que todas essas vozes-outras são convocadas,assistimos a um confronto do olhar, que pode não ser necessa-riamente conflituoso, mas que nos revela não só os enganos dos2Intervenção no cursode literatura angolana,organizado no Centrode Estudos Sociais, Uni-versidade de Coimbra,em Junho de 2007 (PA-DILHA, 2008).
    • Gragoatá Margarida Calafate RibeiroNiterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 200894olhares europeus, mas também a má fortuna dos seus olharese o pouco amor ardente. Nestas vozes, outros sujeitos históricose etno-culturais se revelam, mostrando assim outras formas deestar, de sentir e de enunciar o mundo, de ser, de viver a vidae de organizar a cultura, a memória e a história, como as mu-lheres que amassam o pão, como os homens dos bois, senhoresda transumância do planalto de Huíla, onde nasceu Ana PaulaTavares.Vieram muitosà procura de pastotraziam olhos rasos da poeira e da sedee o gado perdido.Vieram muitosà promessa de pastode capim gordodas tranquilas águas do lago.Vieram de mãos vaziasmas olhos de sedee sandálias gastasda procura de pasto.[...]Partiram com olhos rasos de pastolimpos de poeiralevaram o gado gordo e as raparigas.(TAVARES, 1999, p. 27-28)Quando estas narrativas do então definido como o outro,para o europeu, se enunciaram como um “enfrentamento” pro-nunciado em línguas imperiais, tomadas, para usar a expressãode José Luandino Vieira, como “um troféu de guerra”, nelas seinscreveu a diferença cultural que, a prazo, reivindicou e justi-ficou a luta que reclamava o acto político da independência.Vestindo outras peles, outros conhecimentos e imbuída deoutros poderes, foi portanto nessa língua imperial – que muitasoutras rasurou no processo de colonização – que se começarama preencher os espaços em branco da história colonial (PADI-LHA, 2006a, p. 29-49), ou, por outras palavras, se começarama colocar sob suspeita os monopólios do conhecimento e dopoder que tinham sido fundamentais no erigir de uma ordemsocial, política e cultural baseada na diferença e na economiado conhecimento que valoriza o “conhecimento autorizado” esocialmente reconhecido, em detrimento (por rasura) de outrosconhecimentos expressos muitas vezes noutras línguas. EmMoçambique, com José Craveirinha ou Noémia de Sousa, emAngola, com Luandino Vieira, António Jacinto, Viriato da Cruze tantos outros, ou Amílcar Cabral, em Cabo Verde e Guiné-Bissau, revelavam-se as vozes que vinham falar no que o podercolonial queria continuar a ver como “dialectos” de um folclóricopoder africano local. Nas suas escritas, não mais assumidas comomarginais, regista-se a semente da diferença, em tensão com o
    • Outros poderes, outros conhecimentos – Ana Paula Tavares responde a Luís de CamõesNiterói, n. 24, p. 89-101, 1. sem. 2008 95modelo linguístico colonial. Essa linguagem fundadora de umconhecimento outro, de um poder outro e, finalmente, de umalíngua outra, veicula e narra, como bem observou Laura Padilha,uma “outra viagem”, não mais mar abaixo rumo ao sul, como aviagem camoniana em demanda das novas terras que o impériotraria, mas para “dentro” e por “dentro” (PADILHA, 2006b). Aviagem que o desejo de descolonização determinava – lembrandoaquela viagem narrada na literatura portuguesa por AlmeidaGarrett em Viagens na minha terra, Tejo arriba e portanto paradentro da terra e reclamando descolonizaçoes de outra ordem– parecia procurar e tentar recuperar os laços dilacerados pelopoder colonial e desta forma outros enunciados se começarama pronunciar, a enunciar e a fixar para dar respostas às questõesdos navegantes, usando a mesma língua, mas que era já outra.ApoesiadeAnaPaulaTavareséexemplardestemovimentode forma particularmente subtil e politicamente comprometida.Nela se trazem os sujeitos etno-culturais não valorizados peloregime colonial – as mulheres e os homens dos bois do planaltode Huíla – mas importantíssimos na outra ordem do mundoque o mundo colonial não atingia; nela se trazem as línguas e avozes de outros sujeitos, nomeadamente das mulheres, os gestose os actos e os sinais produzidos por esse mundo outro, senhorde outras leis, de outros conhecimentos e de outros poderes queaparentemente o regime colonial parecia não ter tocado. E assimvozes, nomes, territórios, corpos são convocados em títulos dealguns dos poemas que vão desfilando à frente dos nossos olhosde leitores, como fotografias que vão dando rosto ao que antessó tinha um nome. Poemas que projectam o percurso da poetaao longo de uma paisagem natural, social e humana que colocasob suspeita os conceitos ocidentais de poder e conhecimento apartir de uma vivência múltipla de uma terra/ território sentidocomo terra-mãe que acolhe e integra os seus filhos, como umacasa-corpo que se torna o espaço íntimo do pronunciamentofeminino capaz de revelar e de exercer um poder-outro, por umconhecimento-outro imanente da relação com a própria terra ecom as pessoas que a habitam.De onde eu venhosou visitada pelas águas ao meio-diaquando o silêncio se transformapara as doces palavras do sal em flore das raparigasOs muros são de pedra secae deixam escapar a luz por entre corredoresde raízes e vidrolentas mulheres preparam a farinhae cada gesto fundao mundo todos os diashá velhas mulheres pousadas sobre a tarde
    • Gragoatá Margarida Calafate RibeiroNiterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 200896enquanto a palavrasalta o muro e volta com um sorriso tímido[de dentes e sol.(TAVARES, 2007b, p. 19)Ou no quase auto-retrato:Modesta filha do planaltocombina, farinhentaos vários sabores do frio.Cheia de sono mima as florese esconde muito tímida o cerne encantado. (TAVARES, 2007a, p. 26)Por isso, o pronunciamento feminino contido na poesia deAna Paula Tavares é espaço de celebração da tradição e dos tra-balhos e dos dias de paz em que as mulheres se realizam, mastambém espaço de denúncia da violência da tradição que perpe-tua o patriarcado, presente ora no acto da troca de mulheres porgado (“Cresce comigo o boi com que me vão trocar”, TAVARES,2007a, p. 48), ora nos rostos das mulheres e das crianças sobreas quais recai toda a violência da guerra (“November WhitoutWater”, TAVARES, 1999, p. 36), ora nas relações de poder queconduzem ao silêncio (“Um grito espeta-se faca/ na gargantada noite”, TAVARES, 1999, p. 33), mostrando assim que o sangueda mulher não é só, como deveria ser, mensal, como o ritmo dociclo das estações, que orienta os ciclos das mulheres dos homensdo gado. Ele escorre diariamente de corpos com feridas e cicac-trizes que têm a espessura de séculos, sangue que ciclicamentevai manchando a terra e a casa-corpo, e, por isso, o lago da lua(título de livro) onde as mulheres lavam o seu primeiro sangue,não é um lago simples que corra como um rio escorreitamentepara o mar. O lago branco da lua, primeiro poema do livro ho-mónimo, é um lago bloqueado, mas por isso também um arquivode evasão e de sobrevivência onde o sujeito poético femininodeposita os sonhos.No lago branco da lualavei meu primeiro sangueAo lago branco da luavoltaria cada mêspara lavarmeu sangue eternoa cada luaNo lago branco da luamisturei meu sangue e barro brancoe fiz a canecaonde beboa água amarga da minha sede sem fim
    • Outros poderes, outros conhecimentos – Ana Paula Tavares responde a Luís de CamõesNiterói, n. 24, p. 89-101, 1. sem. 2008 97o mel dos dias claros.Neste lago depositominha reserva de sonhospara tomar.(TAVARES, 1999, p. 11)O pronunciamento epistemológico lançado pelo sujeito poé-tico é sobretudo espaço de discussão do poder e das relações depoder que o conhecimento e a diferença sexual hierarquizam.Negar e subverter esta hierarquização, mostrando-a não apenascomo impossivelmente única, mas como parte de um todo queoprime, é o caminho escolhido para percorrer o longo e sinuosopercurso que conduz à transformação de uma lógica femininaesperada como de submissão e opressão, numa lógica femini-na de libertação e emancipação. Esse é o caminho trágico, massimultaneamente glorioso, a traçar. Daí o desafio lançado a umsó tempo ao poder da tradição e ao poder social patriarcal:[…]Hoje levantei-me cedopintei de tacula e água friao corpo acesonão bato a manteiganão ponho o cintoVoupara o Sul saltar o cercado.(TAVARES, 2007a, p. 54)Ou ainda mais veementemente: “Devorei a carne do boi dofogo/ tudo até ao fim e o coração” (TAVARES, 2001, p. 34).A partir deste lugar de enunciação telúrico, sexual e lin-guístico, que emerge das vozes da terra e das mulheres da terra,da letra dos missionários e historiadores que registaram a vidados povos do Sul de Angola e que Ana Paula estuda e traduzcomo historiadora, ergue-se a voz da poeta Ana Paula Tavaresrevelando-nos outras línguas, guardiãs de outros arquivos cultu-rais, onde se regista o poder de outros reis e a validade de outrosconhecimentos. Tudo tecido a partir das margens do mundo: davoz da mulher amante que ferida de amor espera o seu amadoperante a solidão do mundo; das vozes das mulheres que têmfilhos, amassam o pão, tecem, amam, rasgam a noite com osseus gritos surdos e inventam a vida; das vozes das mulheresque são trocadas por bois, na sociedade dos homens do gadoque circulavam à margem da sociedade colonial.Esta é assim uma forma-outra de responder à questãolevantada pelos navegantes da epopeia camoniana sobre quegente será esta, que rei, que lei teriam, erigida e tecida a partir deum olhar-outro que o grande poeta por certo não contemplava,nem poderia imaginar. Esta é uma forma-outra de mostrar amulher de outras paragens que Camões viu, admirou e prova-velmente amou na sua “pretidão de amor” e que cantou como3Refiro-me ao poema deLuís de Camões, “Ende-chas a Bárbara Escrava”.Sobre este assunto verMacedo (1998, p. 388-389).
    • Gragoatá Margarida Calafate RibeiroNiterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 200898alguém estranho, mas “bárbara não”.3Mas esta é, sem dúvida,a forma de tão camonianamente tudo questionar, renomeando,e de assim transformar o amador na coisa amada. Ou seja, deassim transformar a letra da historiadora na voz da poeta, a ter-ra em casa-corpo, a terra em território, a nação adiada em terraprometida, cujo mapa não mais se inscreve nem no imagináriodos navegantes europeus, salpicado de ilhas imaginárias plenasde amores, nem no imaginário masculino dos guerrilheiros dalibertação, mas no corpo tatuado feminino, onde se escreve ereescreve a terra:Meu corpo é um grande mapa muito antigopercorrido de desertos, tatuado de acidenteshabitado por uma floresta inteiraum coração plantadodentro de um jardim japonêsregado por veias finascom um lugar vazio para a alma.(TAVARES, 1999, p. 45)A fecharCaptar o retrato deste corpo-mapa-nação inscrito cicatri-cialmente no feminino na poesia de Ana Paula Tavares exigeuma leitura geográfica e sexualmente deslocada, para assimentender como se vivem outros “costumes” – nunca assumidoscomo relevantes – se adoptam outras “leis” – apenas consuetudi-nariamente aplicadas – e se regista o poder de outras “rainhas”,senhoras de outros “conhecimentos”. Costumes, leis, reis, conhe-cimentos que sempre estiveram na margem, mas que sempre estiverampresentes – evocando assim o subtítulo da obra organizada porLaura Padilha e por Inocência Mata, sobre A mulher em África(2007) –, pois são eles que inventam e constroem a vida que novasvidas gera, ao ritmo dos ciclos das estações.Respondendo camonianamente a Camões, a partir doSul, mas também àquela mais contemporânea questão, politi-camente provocadora, colocada em tempo de guerra em Novascartas portuguesas – “será a mulher a última colónia do homem?”(BARRENO; COSTA; HORTA, 1974, p. 285) – Ana Paula Tavaressem concluir responde contra esta outra forma de colonizaçãovivida no feminino que é o patriarcado, mostrando ser sobretudodelas a mão que comanda a vida não só na Angola moderna,urbana, cosmopolita de Luanda, mas na Angola mais tradicio-nal do interior, representada localmente no planalto da Huíla.Trata-se portanto da denúncia de uma dupla colonialidade: umacolonialidade política, ainda que não mais exercida nos moldeseuropeus; e uma colonialidade social e familiar, que coloca asmulheres na margem, convertendo as histórias das mulheres emhistórias duplamente silenciadas: silenciadas pela condição desubalternidade no seio da diferença imposta pela colonialidade
    • Outros poderes, outros conhecimentos – Ana Paula Tavares responde a Luís de CamõesNiterói, n. 24, p. 89-101, 1. sem. 2008 99e silenciadas pela condição de subalternidade vivida no seio dadiferença sexual.Por isso, a poesia de Ana Paula Tavares constituiu umpronunciamento entoado a vários níveis e um estímulo para re-olhar os cânones literário e histórico, no sentido lato do termo,ou seja, os cânones dos conhecimentos e dos poderes, sobre osquais os outros se erguem, para assim ver de facto tudo queeles deixaram e continuam a deixar de fora, na perspectiva deelaborar algo – e para encerrar com o provérbio que serviu deepígrafe a este texto e que também ele reflecte um cânone – quecontemple não só a história do leão, mas também a história daleoa. Pós-colonialmente falando a proposta poética de Ana PaulaTavares implica não apenas a mudança do olhar que estas teoriasreclamam, mas uma mudança da escala do olhar.44 Expressão retiradade um verso de FiamaHasse Pais Brandão.AbstractThrough a reading of the poetry of Ana PaulaTavares, I will argue that the power/knowledgebinary, based on 19thand 20thcentury colonialism,has been reappropriated, subverted, multipliedand cannibalized, revealing other identities.This process thus initiates a postcolonial time ofpossible access and appreciation of other knowled-ges, other powers, expressed originally in otherlanguages, sounds and writings, and nowadaystransmitted through the Portuguese language.Keywords: Power. Knowledge. Poetry.ReferênciasBARRENO, Maria Isabel; COSTA, Maria Velho da; HORTA,Maria Teresa. Novas cartas portuguesas. Lisboa: Futura, 1974.CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 5. ed. Lisboa: Instituto Camões,2003.GARRETT, Almeida. Viagens na minha terra. In: .Obras completas de Almeida Garrett. Lisboa: Círculo de Leitores,1983.MACEDO, Helder. Viagens do olhar: retrospecção, visão e profeciano renascimento português. Porto: Campo das Letras, 1998.MATA, Inocência, Padilha, Laura (Org.). A mulher em África:vozes de uma margem sempre presente. Lisboa: Colibri, 2007.
    • Gragoatá Margarida Calafate RibeiroNiterói, n. 24, p. 89-100, 1. sem. 2008100PADILHA, Laura. Literatura angolana: suas cartografias e seus em-bates contra a colonialidade. In: . PADILHA Laura Ca-valcante; RIBEIRO, Margarida Calafate (Org.). Lendo Angola. Por-to: Afrontamento, 2008. p. 57-73.PADILHA, Laura. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre litera-turas afro-luso-brasileiras. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.. O espaço colonial e sua paginação em branco nacartografia ficcional de Eça de Queiroz. In: SANCHES, ManuelaRibeiro (Org.). Portugal não é um país pequeno: contar o império napós-colonialidade. Lisboa: Cotovia, 2006a. p. 29-42.. Protocolos de apresentação. Metamorfoses: Revista daCátedra Jorge de Sena, Rio de Janeiro, v. 7, p. 147-158, 2006b.. (Org.). Bordejando a Margem: poesia escrita por mulhe-res (uma recolha do Jornal de Angola, 1954-1961): breve antologia.Luanda: Kilombelombe, 2007.RIBEIRO, Margarida Calafate. A heritage of one’s own: a conver-sation with Ana Paula Tavares. Ellipsis: Journal of the AmericanPortuguese Studies Association, [S.l.], v. 5, p. 147-152, 2007.SPIVAK, Gayatri C. Can the subaltern speak? In: NELSON, Cary;GROSSBERG Lawrence (Org.). Marxism and the interpretation ofculture. Urbana: University of Illinois Press, 1988.TAVARES, Paula. Dizes-me coisas amargas como os frutos. Lisboa:Caminho, 2001.. O lago da lua. Lisboa: Caminho, 1999.. Manual para amantes desesperados. Lisboa: Caminho,2007a.. Nascer no paraíso. Jornal de Letras, [S.l.], p. 44, Nov.2007b.. Ritos de passagem. Lisboa: Caminho, 2007c.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008Narrar o trauma: escriturashíbridas das catástrofesMárcio Seligmann-SilvaRecebido 03 mar. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoO trabalho propõe uma reflexão sobre algumas dascaracterísticas do gesto testemunhal enfatizandoas aporias que o marcam. Partindo da idéia de queo testemunho de certo modo só existe sob o signode seu colapso e de sua impossibilidade, o textoenfatiza os dilemas nascidos da confluência entrea tarefa individual da narrativa do trauma e desua componente coletiva. Nas “catástrofes histó-ricas”, como nos genocídios ou nas perseguiçõesviolentas em massa de determinadas parcelas dapopulação, a memória do trauma é sempre umabusca de compromisso entre o trabalho de memóriaindividual e outro construído pela sociedade. Otestemunho é analisado como parte de uma com-plexa “política da memória”.Palavras-chave: Testemunho. Memória dotrauma. Trauma. Política da memória. Ditadurano Brasil.
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008102“Parler, écrire, est, pour le déporté qui revient, un besoin aussi im-médiat et aussi fort que son besoin de calcium, de sucre, de soleil, deviande, de sommeil, de silence. Il n’est pas vrai qu’il peut se taire etoublier. Il faut d’abord qu’il se souvienne. Il faut qu’il explique, qu’ilraconte, qu’il domine ce monde dont il fut la victime.”(Georges Perec)1Estas palavras de Perec nos lançam sem mais no coraçãoda cena do testemunho. Antes de mais nada vemos aqui a neces-sidade absoluta do testemunho. Ele se apresenta como condiçãode sobrevivência. O próprio Primo Levi expressou este fato noprefácio de É isto um homem. Vale à pena voltarmos a estas pa-lavras de Levi porque ele acrescenta a esta idéia de necessidadede testemunhar outro dado fundamental, a saber, a sua implícitadialogicidade. Citemos as palavras de Levi: “A necessidade decontar ‘aos outros’, de tornar ‘os outros’ participantes, alcançouentre nós, antes e depois da libertação, caráter de impulso ime-diato e violento, até o ponto de competir com outras necessidadeselementares” (LEVI, 1988, p. 7 et seq.). Seguindo estas palavras,podemos caracterizar, portanto, o testemunho como uma ati-vidade elementar, no sentido de que dela depende a sobrevidadaquele que volta do Lager (campo de concentração) ou de outrasituação radical de violência que implica esta necessidade, ouseja, que desencadeia esta carência absoluta de narrar. Levi nestapassagem coloca as expressões “aos outros” e “os outros” entreaspas. Este destaque indica tanto o sentimento de que entre osobrevivente e “os outros” existia uma barreira, uma carapaça,que isolava aquele da vivência com seus demais companhei-ros de humanidade, como também a conseqüente dificuldadeprevista desta cena narrativa. Sabemos que dentre os sonhosobsessivos dos sobreviventes consta em primeiro lugar aqueleem que eles se viam narrando suas histórias, após retornar aolar. Mas o próprio Levi também narrou uma versão reveladoradeste sonho, que ficou conhecida, na qual as pessoas ao ouviremsua narrativa se retiravam do recinto deixando-o a sós com assuas palavras. A outridade do sobrevivente é vista aí como in-superável. A narrativa teria, portanto, dentre os motivos que atornavam elementar e absolutamente necessária, este desafio deestabelecer uma ponte com “os outros”, de conseguir resgatar osobrevivente do sítio da outridade, de romper com os muros doLager. A narrativa seria a picareta que poderia ajudar a derrubareste muro. A circulação das imagens do campo de concentração,que se inscreveram como uma queimadura na memória do so-brevivente, na medida em que são aos poucos traduzidas, Über-Setzte, transpostas, para “os outros”, permite que o sobreviventeinicie seu trabalho de religamento ao mundo, de reconstruçãoda sua casa. Narrar o trauma, portanto, tem em primeiro lugareste sentido primário de desejo de renascer.1Georges Perec escre-vendo acerca da obra deRobert Antelme; citadoem Levi (2005, p. 15).
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 103Gostaria aqui neste espaço de pensar algumas caracterís-ticas deste gesto testemunhal, enfatizando algumas das aporiasque o marcam. A cena testemunhal deve ser pensada em diálogocom o saber derivado da psicanálise. Em certo sentido podemosver a cena psicanalítica elementar, ou seja, o paciente diantede seu analista, como uma cena testemunhal. Trata-se, mutatismutandis, de um sobrevivente buscando a atenção e escuta deum outro tendo em vista a construção de um mundo menosUnheimlich.2Isto sem contar a centralidade da noção de traumaem Freud e na história da psicanálise, noção cuja história nãotrato aqui, mas é pressuposta, tendo em vista sua importânciavital para se entender a questão da narrativa do trauma. Visandoum local de compromisso entre esta cena psicanalítica e abor-dagens mais históricas ou filosóficas enfatizo aqui algumas dasproblemáticas nascidas da confluência entre a tarefa individualda narrativa do trauma e de sua componente coletiva. Daí a ênfasedesta reflexão na noção de “catástrofes históricas”. Nestas situ-ações, como nos genocídios ou nas perseguições violentas emmassa de determinadas parcelas da população, a memória dotrauma é sempre uma busca de compromisso entre o trabalho dememória individual e outro construído pela sociedade. Aquia já em si extremamente complexa tarefa de narrar o traumaadquire mais uma série de determinantes que não podem serdesprezados mesmo quando nos interessamos em primeiroplano pelas vítimas individuais. No que segue apresentarei emprimeiro lugar alguns aspectos da mencionada dificuldade dese testemunhar. Veremos que o testemunho de certo modo sóexiste sob o signo de seu colapso e de sua impossibilidade. Nosegundo passo tratarei especificamente da questão da políticada memória: primeiro introduzindo algumas definições impor-tantes para se entender o conceito de memória, depois tratandodo tema da memória como uma política. Passaremos por algunsexemplos vindos da Armênia, da África e do Brasil.1. Narrar o inenarrávelDori Laub, em um ensaio importante sobre o tema dotestemunho da Shoah, dedicou especial atenção para a questãoda “impossibilidade de narração” e formulou a idéia que o Ho-locausto foi “an event without a witness” (LAUB, 1995, p. 65).Neste trabalho ele destacou a impossibilidade daquele que esteveno Lager (o que se passou com o próprio Laub quando criança)de ter condições de se afastar de um evento tão contaminantepara poder gerar um testemunho lúcido e íntegro. O própriograu de violência impediu que o testemunho pudesse ocorrer.Sem testemunho, evidentemente, não se constitui a figura datestemunha. Para ele a principal tarefa que coube aos sobrevi-ventes foi a de construir a posteriori este testemunho. Esta tesede Laub me parece correta, mas deve ser vista cum grano salis.2Este paralelo entre acena do testemunhoe a da clínica parece-me importante porqueresponde em parte àquestão acerca da possi-bilidade do testemunhoem meio, e não após, assituações traumáticas.O testemunho na ver-dade, como veremos, émarcado pelo tempo dopresente. Trata-se tam-bém sempre de umaperformance testemu-nhal. O ato de testemu-nhar tem o seu valor emsi, para além do valordocumental ou comu-nicativo deste evento.A cena do testemunho,se o testemunho de fatoacontece, é sempre e pa-radoxalmente externa einterna ao evento narra-do. Interna porque emcerto sentido não existeum “depois” absolutoda cena traumática, jáque esta justamente écaracterizada por umaperenidade insuperável.Por outro lado, o teste-munho é externo àquelacena traumática na me-dida em que ele cria umlocal meta-reflexivo. Eleexige um certo distan-ciamento. Assim, podertestemunhar duranteuma situação traumáti-ca, como a vida no Lager,o soldado no campo debatalhas, ou o moradorde zonas de conflito bé-lico e social (com todasas características par-ticulares de cada umadestas situações), podertestemunharjá implicauma saída (mesmo queapenas simbólica) destasituação. O testemunhoem si é terapêutico. Osdiários de guerra e deprisioneiros e muitosdocumentos testemu-nhais encontrados en-terrados no Lager sãoprova desta atividadetestemunhal mesmoem situações aparente-mente impossíveis deabrigarem um espaçotestemunhal.
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008104Ela gerou alguns mal entendidos, do tipo daqueles que a partirdaí negam a importância dos testemunhos. O objetivo de Laubera evidentemente o oposto.Primo Levi também destacou em diversas oportunidadesesta impossibilidade do testemunho. Ele afirmava que aquelesque testemunharam foram apenas os que justamente consegui-ram se manter a uma certa distância do evento, não foram total-mente levados por ele como o que ocorreu antes de mais nadacom a maioria dos que passaram pelos campos e morreram, mastambém com aqueles que eram denominados de Musulmännerdentro do jargão do campo, ou seja, aqueles que haviam sidototalmente destruídos em sua capacidade de resistir. Os queocuparam algum local na hierarquia do campo, quer por contade suas relações políticas ou por causa de seu conhecimentotécnico (o caso do próprio químico Levi), estes puderam testemu-nhar, mesmo que não de forma integral, já que a distância delestambém implicou uma visão atenuada dos fatos. Para Levi nãose pode falar, com Laub, que não existiu o testemunho no Lager,mas antes que este testemunho foi parcial, limitado. GiorgioAgamben deriva das palavras de Levi algo semelhante ao queLaub afirmara. Isto, a meu ver, não corresponde aos textos deLevi. Para Agamben apenas os Musulmänner poderiam ser astestemunhas do campo, mas Levi nunca afirmou isto. Na intro-dução do volume Os afogados e os sobreviventes ele apenas apontapara as limitações do testemunho, como lemos na famosa frase:“a história do Lager foi escrita quase exclusivamente por aquelesque, como eu próprio, não tatearam seu fundo. Quem o fez nãovoltou, ou então sua capacidade de observação ficou paralisadapelo sofrimento e pela incompreensão” (LEVI, 1990, p. 5). Masmesmo para ele, membro deste grupo de paradoxais “privile-giados” dentro do inferno, a realidade do campo permaneceucomo uma cripta (lembrando da expressão de Nicolas Abraham eMaria Torok), cripta esta que suas palavras atingiram com força,mas nunca conseguiram quebrar, o que talvez esteja na origemdo próprio suicídio de Primo Levi em 1987.No seu É isso um homem, de 1947, ele escrevera o seguintecom relação a este elemento encriptado da realidade do Lager:“Parecia impossível que existisse realmente um mundo e umtempo, a não ser nosso mundo de lama e nosso tempo estéril eestagnado, para o qual já não conseguíamos imaginar um fim”(LEVI, 1988, p. 119). Lembremos também de outra passagem cha-ve do mesmo livro: “Hoje – neste hoje verdadeiro, enquanto estousentado frente a uma mesa, escrevendo – hoje eu mesmo não es-tou certo de que esses fatos tenham realmente acontecido” (LEVI,1988, p. 105). Nesta passagem vemos dois momentos exemplaresdo testemunho: em primeiro lugar ele se dá sempre no presente.Na situação testemunhal o tempo passado é tempo presente.(Mais um paralelo, aliás, com a cena psicanalítica e sabemos que
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 105Freud buscou várias metáforas ao longo de sua vida, como a dacâmara fotográfica, um campo geológico e o bloco mágico, paraexprimir este elemento paradoxal da temporalidade psíquicaconcentrada em um mesmo topos.) Mais especificamente, o trau-ma é caracterizado por ser uma memória de um passado que nãopassa. O trauma mostra-se, portanto, como o fato psicanalíticoprototípico no que concerne à sua estrutura temporal. Levi dizque neste hoje da sua escritura ele não está certo se os fatos (doLager) de fato aconteceram. Este teor de irrealidade é sabidamen-te característico quando se trata da percepção da memória dotrauma. Mas para o sobrevivente esta “irrealidade” da cena en-criptada desconstrói o próprio teor de realidade do restante do mundo.3Hélène Piralian, psicanalista de origem armênia, refletiu sobreesta questão ao tratar do genocídio armênio e sobre a questãoda sua representação. Para ela a simbolização do evento implicaa “(re)construção de um espaço simbólico de vida” (PIRALIAN,2000, p. 21). Esta simbolização deve gerar um retemporalizaçãodo fato antes embalsamado. Ele adenda, assim, ao fluxo dos de-mais fatos da vida. Piralian fala também e de modo muito feliz,de uma tridimensionalidade (PIRALIAN, 2000, p. 22) advindada simbolização. Ao invés da imagem calcada e decalcada, cha-ta, advinda do choque traumático, a cena simbolizada adquiretridimensionalidade. A linearidade da narrativa, suas repetições,a construção de metáforas, tudo trabalha no sentido de dar estanova dimensão aos fatos antes enterrados. Conquistar esta novadimensão equivale a conseguir sair da posição do sobreviventepara voltar à vida. Significa ir da sobre-vida à vida. É claro quenunca a simbolização é integral e nunca esta introjeção é com-pleta. Falando na língua da melancolia, podemos pensar quealgo da cena traumática sempre permanece incorporado, comoum corpo estranho, dentro do sobrevivente. Na cena do trabalhodo trauma nunca podemos contar com uma introjeção absoluta.Esta cena nos ensina a sermos menos ambiciosos ou idealistasem nossos objetivos terapêuticos. Para o sobrevivente semprerestará este estranhamento do mundo advindo do fato de ele termorado como que “do outro lado” do campo simbólico.Este estranhamento está intimamente vinculado ao temada irrealidade dos fatos vividos e da conseqüente inverossi-milhança dos mesmos. Este constitui um topos importante dasnarrativas do trauma. O sobrevivente, como o tradutor, estásubmetido a um doble bind. Enquanto aquele que traduz devese submeter ao mesmo tempo, sem esperanças de uma trégua,à ditadura da língua que traduz e à da língua para qual estátraduzindo, do mesmo modo o sobrevivente no caso da Shoahtenta (sem sucesso) conciliar as regras de verossimilhança douniverso concentracionário com as do “nosso mundo”. O Levique sonha com seu público ouvinte que o abandona já previa asensação de inverossimilhança gerada pelos fatos que narraria3No final de A tréguaPrimo Levi narra umsonho que o perseguiuapós seu retorno deAuschwitz que tambémexpressa esta força darealidade do Lager dedissolver tudo aquiloque poderíamos deno-minar de seu “exterior”.Trata-se de um sonhoem cascata: primo Levivê-se entre familiares eamigos, à mesa ou emoutro local aprazível.Aos poucos ele é tomadode uma angústia difusa,“tudo desmorona e sedesfaz ao meu redor, ocenário, as paredes, aspessoas, e a angústiase tornam mais intensae mais precisa. Tudoagora tornou-se caos:estou só no centro deum nada turvo e cin-zento. E, de repente,sei o que isso significa,e sei também que nadaera verdadeiro fora doLager. De resto eramférias breves, o enganodos sentidos, um sonho:a família, a natureza emflor, a casa. Agora essesonho interno, o sonhode paz, terminou, e nosonho externo, que pros-segue gélido, ouço res-soar uma voz, bastanteconhecida; uma únicapalavra, não imperiosa,aliás breve e obediente.É o comando do ama-nhecer em Auschwitz,uma palavra estrangei-ra, temida e esperada:levantem, ‘Wstavach’”(LEVI, 1997, p. 359). Arealidade “externa” tor-na-se a exceção, tempode “férias”, imagem de“sonho”. Ela fica sitiadapelo real do Lager, queé descrito como sonho-pesadelo que englobae devora o mundo exte-rior. O despertar final deA Trégua – comandadopor uma voz conhecidae estrangeira (Heimlichtotalmente Unheimlich)– é o despertar paraesta terrível verdade dotrauma. Jorge Semprunnarra este mesmo sonhoem cascata em seu livro-testemunho L’écriture oula vie (SEMPRUN, 1994,p. 163).
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008106e a conseqüente acusação de mentiroso que o esperava. RobertAntelme em seu testemunho sobre sua experiência nos camposalemães também expressou esta angústia que está na base dapulsão testemunhal:Há dois anos, durante os primeiros dias que sucederam aonosso retorno, estávamos todos, eu creio, tomados por umdelírio. Nós queríamos falar, finalmente ser ouvidos. Diziam-nos que a nossa aparência física era suficientemente eloqüentepor ela mesma. Mas nós justamente voltávamos, nós trazíamosconosco nossa memória, nossa experiência totalmente viva enós sentíamos um desejo frenético de a contar tal qual. E desdeos primeiros dias, no entanto, parecia-nos impossível preen-cher a distância que nós descobrimos entre a linguagem quenós dispúnhamos e essa experiência que, em sua maior parte,nós nos ocupávamos ainda em perceber nos nossos corpos.Como nos resignar a não tentar explicar como nós havíamoschegado lá? Nós ainda estávamos lá. E, no entanto, era impos-sível. Mal começávamos a contar e nós sufocávamos. A nósmesmos, aquilo que nós tínhamos a dizer começava então aparecer inimaginável. Essa desproporção entre a experiênciaque nós havíamos vivido e a narração que era possível fazerdela não fez mais que se confirmar em seguida. Nós nos de-frontávamos, portanto, com uma dessas realidades que noslevam a dizer que elas ultrapassam a imaginação. Ficou claroentão que seria apenas por meio da escolha, ou seja, aindapela imaginação, que nós poderíamos tentar dizer algo delas.(ANTELME, 1957, p. 9)4É essencial nos determos um pouco nesta conclusão queAntelme extrai do dilema da testemunha. A imaginação apresen-ta-se a ele como o meio para enfrentar a crise do testemunho.Crise que, como vimos, tem inúmeras origens: a incapacidade dese testemunhar, a própria incapacidade de se imaginar o Lager, oelemento inverossímil daquela realidade ao lado da imperativa evital necessidade de se testemunhar, como meio de sobrevivên-cia. A imaginação é chamada como arma que deve vir em auxíliodo simbólico para enfrentar o buraco negro do real do trauma.O trauma encontra na imaginação um meio para sua narração.A literatura é chamada diante do trauma para prestar-lhe ser-viço. Et pour cause, se dermos uma pequena olhada na históriada literatura e das artes veremos que os serviços que elas têmprestado à humanidade e seus complexos traumáticos não sãodesprezíveis. Da Ilíada a Os sertões, de Édipo rei à Guernica (1937)de Hamlet ao teatro pós-Shoah de um Beckett, podemos ver queo trabalho de (tentativa) introjeção da cena traumática pratica-mente se confunde com a história da arte e da literatura. A teoriafreudiana da tragédia como ritual de exorcismo do assassinatodo pai pela horda primeva é apenas uma das inúmeras versõesda teoria estética que vê as artes como uma espécie de escudo dePerseu. Neste escudo miramos os olhos da Górgona que, segundoPrimo Levi, matou ou emudeceu aqueles que chegaram ao fundo4Cf. também uma passa-gem de uma entrevistade Primo Levi, na qualele responde ao famosodictum adorniano se-gundo o qual escreverpoesia após Auschwitzseria um ato de barbá-rie: “A minha experi-ência prova o contrário.Pareceu-me, então, que apoesia era melhor mes-mo do que a prosa paraexprimir o que me opri-mia. Quando eu digo‘poesia’ eu não pensoem nada lírico. Nestaépoca eu teria reformu-lado a frase de Adorno:depois de Auschwitznão pode-se escreverpoesia senão sobre Aus-chwitz.” (apud LEVI,2005, p. 34) De fato, opróprio Adorno refor-mulou aquele dictumalguns anos depois emum sentido próximoao de Levi. Como eleescreveu em 1962 em seutrabalho “Engagement”,também referindo-se aoseu dictum de 1949: “Oexcesso de sofrimentoreal não permite es-quecimento; a palavrateológica de Pascal ‘onne doit plus dormir’deve-se secularizar.[...] aquele sofrimento[...] requer também apermanência da arteque proíbe” (ADORNO,1973, p. 64). No mesmopasso lemos ainda: “nãohá quase outro lugar[senão na arte] em queo sofrimento encontre asua própria voz”.
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 107do sistema concentracionário e se deparam com eles. Para muitossobreviventes, como é o caso de Jorge Semprun, a pessoa quemelhor pode escrever sobre os campos de concentração é quemnão esteve lá e lá entrou pelas portas da imaginação.5Mas esta solução está longe de implicar uma pacificaçãona cena do trauma e do seu testemunho. Antes é por conta daimaginação que muitas acusações são feitas contra o testemunho.Ou seja, antes de se criticar a literatura (com seu evidente com-promisso com a imaginação), a própria narrativa testemunhal,que se quer “primeira”, atestação, fonte original da realidade,mesmo esta narrativa é descartada por muitos historiadores –como o próprio Raul Hilberg – como sendo fonte não fidedignapara o historiador. Neste ponto vislumbramos uma querela queacompanha a historiografia desde seus primórdios, em sua lutacontra a escrita dita imaginativa. Mas ao invés de negarmos aotestemunho a possibilidade de ver na imaginação e em seu tra-balho de síntese de imagens um potente aliado, devemos, comDerrida, ver nesta aproximação entre o campo testemunhal eo da imaginação a possibilidade mesma de se repensar tantoa literatura, como o testemunho e o registro da escrita autode-nominado de sério e representacionista. Ocorre uma revisãoda noção de literatura justamente porque do ponto de vista dotestemunho ela passa a ser vista como indissociável da vida,a saber, como tendo um compromisso com o real. Aprendemos aolongo do século XX que todo produto da cultura pode ser lidono seu teor testemunhal. Não se trata da velha concepção realistae naturalista que via na cultura um reflexo da realidade, masantes de um aprendizado – psicanalítico – da leitura de traçosdo real no universo cultural. Já o discurso dito sério é tragadoe abalado na sua arrogância quando posto diante da impos-sibilidade de se estabelecer uma fronteira segura entre ele, aimaginação e o discurso dito literário. Não existe uma essênciado literário que dê conta de contê-lo diante do discurso ditosério. Por fim, como escreve Derrida, “le témoignage a toujourspartie liée avec la possibilité au moins de la fiction, du parjureet du mensonge. Cette possibilité éliminée, aucun témoignagene serait plus possible et n’aurait plus en tout cas son sens detémoignage” (DERRIDA, 1998, p. 28). O testemunho só temsentido com a sua contraparte estrutural, o falso-testemunho.Ou seja, assim como Coleridge definiu a literatura como umasuspensão voluntária da desconfiança, o mesmo, em outro grau(mas justamente tudo torna-se uma questão de grau), se dá notestemunho. Sem a nossa vontade de escutar, sem o desejo detambém portar aquele testemunho que se escuta, não existe otestemunho. O dialogismo do testemunho o transporta para ocampo da pragmática do testemunho. E aqui já estamos anun-ciando nosso próximo passo: a política do testemunho.Antes de passar para este item, mas já nos dirigindo a ele,5Neste sentido ele fezum largo elogio da ima-ginação como meio de“suscitar a imaginaçãodo inimaginável” (SEM-PRUN, 1994, p. 135).
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008108tratemos por fim, dentro do tema das aporias do testemunho,da questão da sua paradoxal singularidade. Todo testemunho éúnico e insubstituível. Esta singularidade absoluta condiz coma singularidade da sua mensagem. Ele anuncia algo excepcio-nal. Por outro lado, é esta mesma singularidade que vai corroersua relação com o simbólico. A linguagem é um constructo degeneralidades, ela é feita de universais. O testemunho comoevento singular desafia a linguagem e o ouvinte. Sabemos que afragmentação do real, o colapso do testemunho do mundo, comovimos, emperra sua passagem e tradução para o simbólico. Aconhecida literalidade da cena traumática – ou o achatamento desuas imagens, que vimos acima – trava a simbolização. Mas aose reafirmar esta singularidade absoluta do testemunho barra-se a possibilidade de sua repetição e sinapse com o simbólico,sempre assombrado pela possibilidade da sua ficcionalização.Como vimos, esta passagem para o imaginário é desejável epode ter um efeito terapêutico, mas para um certo discursosobre o testemunho – sobretudo o jurídico, mas não só – a fic-ção contamina e dissolve o teor de verdade do testemunho. Nodiscurso jurídico é onde este elemento paradoxalmente singulardo testemunho (e das provas) é levado mais adiante, colocandoo testemunho em um verdadeiro território de ninguém. Dos-toievski percebeu isto e, freqüentador contumaz de tribunais,ele dizia que as provas têm sempre “dois gumes” (DOSTOIÉ-VSKI, 2001, p. 348), um verdadeiro insight psicanalítico sobre odouble bind. Ou seja, a “literalidade” da situação traumática trazconsigo a sensação de singularidade absoluta. Esta não é nadamais do que o sintoma da ruptura com o simbólico. Na tentativa decobrir este gap com a simbolização a testemunha se volta parao trabalho da imaginação. É neste ponto que o campo jurídicopassa a lançar uma suspeita sobre o testemunho. Ele gostariade manter a singularidade total do testemunho, que significariaa chancela de seu teor de “prova”, de fragmento do real. Mas aengrenagem jurídica emperra uma segunda vez, justamente aodefender esta singularidade literal do evento. Pois também asleis – como a linguagem – são generalizantes, são universais quemuito precariamente cobrem os “delitos” individuais. O teste-munho como híbrido de singularidade e de imaginação, comoevento que oscila entre a literalidade traumática e a literaturaimaginativa, assombra duplamente o direito.Por outro lado, o testemunho também se quer compreen-sível, e mesmo, o testemunho se quer exemplar. Neste sentidoreencontramos um veio tradicional do conceito de testemunho,que o articula à figura cristã do mártir (também muito cara aDostoiévski). Mártir é aquele que sofre e morre para testemunharsua fé. O mártir (do grego mártus,uros, aquele que testemunha, ouseja, que percebe o mundo) ao testemunhar de modo único estafé universal, torna-se ele mesmo um exemplo, um modelo, uma
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 109vida exemplar, que as hagiografias até o século XX reproduziamcom certo sucesso. Aquele que testemunha um fato excepcionalmuitas vezes torna-se ele também uma figura exemplar. Sabe-mos do valor atribuído em nossa sociedade aos sobreviventes.Eles representam exemplos únicos daqueles que viram de per-to atrocidades inomináveis. Eles portam estas verdades e sãotratados como porta-vozes delas. Esta unicidade paradoxal dotestemunho, que desafia a linguagem, levou também ao dis-curso da unicidade das catástrofes. Em particular fala-se muitoda unicidade da Shoah. Como escreveu Primo Levi: “o sistemaconcentracionário nazista permanece ainda um unicum, emtermos quantitativos e qualitativos” (LEVI, 1990, p. 7). Mas estaquestão deve ser vista com cautela. Seria moral comparar qualgrupo tentativamente dizimado sofreu mais? Aqui encontramosuma típica armadilha de nossa era politically correct e devemos,de preferência, não pisar nela e sim tentar desmontá-la. Do pontode vista das vítimas – e este ponto de vista é fundamental aose estudar o testemunho, voltaremos a este ponto – do pontode vista das vítimas toda catástrofe é única. Radicalizar estasingularidade assim como condenar toda comparação entre osgenocídios, por outro lado, pode gerar uma espécie de teologianegativa concentracionária, muito improdutiva e que apenastende a reproduzir dois males: em primeiro lugar a própria si-tuação do traumatizado na sua resistência à simbolização e, emsegundo lugar, o discurso dos algozes que também visa estenderum tabu sobre o discurso que recorde as atrocidades cometidas.Como escreveu Ruth Klüger, ela mesma uma sobrevivente detrês campos de concentração e autora de um relato autobiográ-fico publicado em português com o título Passagens da Memória,“mesmo cada cachorro é único” (KLÜGER, 1994, p. 70).2. Política da memóriaO testemunho é uma modalidade da memória. Se os es-tudos sobre o testemunho – no seu sentido não mais religiosoou meramente jurídico, mas antes como uma busca de se lerna cultura as marcas das catástrofes do século XX – se desen-volveram nas últimas décadas é porque ocorreu neste períodouma virada culturalista dentro das ditas ciências humanas. Nestavirada a memória passou a ocupar um lugar de destaque, sub-metendo a quase onipresença da historiografia no que tange àescritura de nosso passado.6Neste período também a própriahistoriografia se abriu aqui e ali à influência dos discursos damemória, como vemos em trabalhos de história que introduzemprocedimentos da história oral ou nos que se abrem também aotrabalho com as imagens. A historiografia positivista tradicionalé avessa às imagens, desconfia delas assim como despreza aimaginação. Já a memória sempre foi pensada como um mistode verbalidade e imagens. Em seu pequeno tratado De memoria6 Com relação a esteponto remeto ao meuensaio de 2003.
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008110et reminiscentia Aristóteles notou que a memória, devido ao seucaráter de arquivo de imagens, pertence à mesma parte da almaque a imaginação (De memoria et reminiscentia 450a24): ela é umconjunto de imagens mentais das impressões sensuais, com umadicional temporal; trata-se de um conjunto de imagens de coisasdo passado. Aristóteles também escreveu com relação ao nossopensamento de um modo geral: “a alma nunca pensa sem umaimagem mental” (ARISTÓTELES, De anima 432a17; cf. YATES,1974, p. 32) “... mesmo quando pensamos de modo especulativo,devemos ter uma imagem mental com a qual pensamos” (ARIS-TÓTELES, De anima 432a9). Esta idéia é importante de ser desta-cada ao tratarmos do testemunho, porque assim como falamosde narrativa testemunhal, também deve-se pensar em uma artetestemunhal, ou seja, em práticas imagéticas do testemunho.7Por agora nos contentemos em acentuar o elementoeminentemente político no qual se desdobram os discursostestemunhais. O próprio conceito de testemunho pode ser tra-çado ao longo do século XX na sua relação com o pensamentopolítico. Jean Norton Cru, o primeiro a introduzir o conceito nocampo da historiografia, tinha como objetivo fazer uma críticada primeira guerra mundial e dos discursos oficiais, belicistas,que enalteciam as figuras dos heróis guerreiros. Sua respostafoi propor que a historiografia se abrisse para os testemunhosdos soldados. Seu livro Témoins, de 1929, deve ser visto como aprimeira tentativa sistemática de se pensar o testemunho mo-derno.8Já Walter Benjamin com a sua concepção do historiadorcomo um chiffonier, também abriu a historiografia para o discursotestemunhal, apesar de ter utilizado pouco este conceito. Masuma frase famosa das suas teses “Sobre o conceito da história”,não deixa dúvidas quanto à sua fortíssima proposta de leiturada história na sua face testemunhal. Refiro-me à frase: “nuncaexistiu um documento da cultura que não fosse ao mesmo tempoum [documento] da barbárie”. É interessante ler a tradução dopróprio Benjamin dessa famosa passagem: “Tout cela [l’héritageculturel] ne témoigne [pas] de la culture sans témoigner, enmême temps, de la barbarie”. Já na América Latina, sobretudodesde os anos 1960, o conceito de testemunho adquiriu umacentralidade enorme no contexto da resistência às ditaduras queassolaram o continente.Hélène Piralien escreve seu referido livro de ensaios sobre ogenocídio dos armênios de 1915-16 sob o signo de uma escrituracontra o negacionismo. Como se sabe, aquele genocídio que atingiucerca de 1.200.000 armênios do então Império Otomano, de umapopulação total de cerca de 1.800.0000, até hoje é negado pelogoverno da Turquia. Ainda em 2005 um congresso sobre estegenocídio, que deveria ocorrer na Universidade de Bogazici, foiimpedido de ocorrer pelo governo turco (Folha de São Paulo, 24set. 2005, p. A27). Para Piralien o desafio do testemunho deste7Refiro-me aqui a umimportante filão na artecontemporânea no qualencontramosartistasquepraticam uma nova “arteda memória”. Entre osartistas que trabalhamde modo programático otema da memória pode-mos destacar RosangelaRennó, Anselm Kiefer,Joseph Beuys, o cartu-nista Art Spiegelman(autor de Maus e de In theShadow of no Towers), oscineastas Alain Resnais(autor de Nouit et Brou-illard e de Hiroshima monAmour), Claude Lanz-mann (autor de Shoah),Chris Marker (autor deLa Jetée) e Win Wenders,o artista Jochen Gerz (au-tor de anti-monumentos,como seu “Monumentocontra o fascismo”, emHamburgo ou o “Memo-rial contra o racismo”, deSaarbrücken), ChristianBoltanski (autor, entreoutras obras centrais,de “The Missing Hou-se”, em Berlim), HorstHoheisel (também autorde anti-monumentos,como de uma propostade se explodir o portalde Brandenburgo comomemorial para lembrara Shoah, autor de “Osportões dos alemães”, eco-autor, ao lado de An-freas Knitz, da exposição“Vogel Frei – PassaroLivre”, realizada na Pi-nacotecadeSãoPauloem2003). Podemos lembrartambém de outros ar-tistas que se dedicaramespecificamente em al-gumas de suas obras aotemadarepresentaçãodaShoah,comoNaomiTere-sa Salomon (lembremosde sua exposição Asser-vate – Exibits, Auschwitz,Buchenwald, Yad Vashemno Schirn Kunsthalle deFrankfurt em 1995) e deZbigniew Libera (autorda polêmica obra “LegoConcentration CampSet”, de 1996). Na Argen-tina vemos também umboomdamemóriadeslan-chado pelo trabalho deluto da última ditadura,que deixou como legadomórbido mais de 30.000desaparecidos. Entre es-tes artistas eu destacariadois fotógrafos: MarceloBrodsky e Helen Zout.8Com relação ao papelde Jean Norton Cru nahistória do conceito detestemunho cf. o livro deFrédéric Rousseau (2003)e o meu artigo de 2005.
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 111genocídio negado – que assim matou duas vezes suas vítimas econtinua a assassiná-las simbolicamente – é o de se construir emtermos coletivos espaços para além do desejo da vingança, daparte os descendentes das vítimas, e com a renúncia da negação,do lado dos turcos. Apenas deste modo ela crê que se poderiafinalmente proceder ao trabalho de luto, que até o momento foitravado e impedido por conta da negação. O negacionismo aquié apenas um caso particularmente radical de um movimento queacompanha o gesto genocida. O genocida sempre visa a totaleliminação do grupo inimigo para impedir as narrativas doterror e qualquer possibilidade de vingança. Os algozes sempreprocuram também apagar as marcas do seu crime. Esta é umaquestão central, que assombra o testemunho do sobreviventeem mais de um sentido. Em primeiro lugar porque o sobrevi-vente vive o sentimento paradoxal da culpa da sobrevivência.A situação radicalmente outra, na qual todos deveriam morrer,constitui sua origem negativa. A indizibilidade do testemunhoganha com este aspecto um peso inaudito. Mas o negacionismo étambém perverso, porque toca no sentimento acima referido deirrealidade da situação vivida. O negacionista parece coincidircom o sentimento comum que afirma a impossibilidade de algotão excepcional. O apagamento dos locais e marcas das atroci-dades corresponde àquilo que no imaginário posterior tambémtende a se afirmar: não foi verdade. A resistência quando se tratade se enfrentar o real parece estar do lado do negacionismo. Estesentimento comum mora no próprio sobrevivente e o tortura,gerando uma visão cindida da realidade. Piralian nota que otestemunho visa a integração do passado traumático. Esta inte-gração só pode ser conquistada contra o negacionismo. Não poracaso se conta que Hitler em um discurso a seus chefes militaresem 22 de agosto de 1939, às vésperas da invasão da Polônia, teriadito “Quem se lembra hoje do extermínio dos armênios [durantea Primeira Guerra Mundial]?” Sua intenção era clara: apenas olado heróico da guerra seria lembrado, a impunidade estariagarantida. A negação antecedeu o próprio ato, ou seja, a tentativade extermínio dos judeus europeus. A memória da barbárie tem,portanto, também este momento iluminista: preservar contra onegacionismo, como que em uma admoestação, as imagens desangue do passado.9Catherine Coquio em um interessante livro sobre o geno-cídio dos Tutsis (2004) no Ruanda de 1994, aborda justamenteos conflitos entre os rituais oficiais de memória e as tentativasindividuais da população sobrevivente de enfrentar este lutoquase impossível de 1.300.000 mortos assassinados com facões aolongo de apenas três meses. Ela descreve uma situação na qualenquanto o Estado tendeu para um rápido “trabalho de memó-ria”, mais parecido a um trabalho de esquecimento, boa parteda população sofria diante da ausência de interlocutores para9Se existe de um ladoo negacionismo, comouma prática tradicionaldos autores de crimes esobretudo dos autorescoletivos de crimes con-tra a humanidade, e, dooutro lado, a tendênciado sobrevivente e davítima a querer se “es-quecer” do seu passadotraumático, podemosdistinguir ainda umaterceira modalidadede resistência ao realque seria a marca denossa atual sociedadecaracterizada pela pre-sença traumatizante daviolência. Em Freud ateoria da defesa dianteda “vivência da dor”contém, neste sentido,ensinamentos precio-sos. O mesmo vale paraseu conceito de Verleug-nung, recusa da realida-de. Vale lembrar de umapassagem do dicionáriode Laplanche/ Pontalisao tratar deste últimotermo: “Na medida emque a recusa incide narealidade exterior, Freudvê nela, em oposição aorecalcamento, o primei-ro momento da psicose:enquanto o neuróticocomeça por recalcar asexigências do id, o psicó-tico começa por recusara realidade” (LAPLAN-CHE; PONTALIS, 1988,p. 562 et seq.).
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008112suas demandas de testemunho. Os rituais oficiais pareceriammais Deckerinnerung (memória encobridora) do que real dispo-sição a tratar do passado. Faz parte destes rituais a publicaçãode um dicionário com o nome dos desaparecidos, a exumaçãodos cadáveres enterrados em fossas coletivas e a construção dememoriais, como foi o caso do Memorial de Kigali. Este últimofoi inaugurado em 2004, aos dez anos do massacre, e contém ummuseu do genocídio, cuja cenografia foi inspirada em Yad-Va-shem, o memorial central dedicado à Shoah em Jerusalém. Masfaltam espaços para o testemunho. As igrejas, que poderiam emparte abrigar esta demanda, foram transformadas em 1994 emcenário para os massacres. Um relato de Monique Ilbudo, escritoem 1998, quatro anos após o genocídio, apresenta um pouco oretrato desta população destruída por aquela experiência:Em 1998 as pessoas ainda estavam embrutecidas, perdidas.Alguns haviam escolhido a loucura para sobreviver e noscontavam coisas incoerentes. Outros estavam fechados nomutismo. Outros ainda andavam como fantasmas, completa-mente destruídos. (apud COQUIO 2004, p. 83)Já o testemunho de Esther Mujawayo, citado por Coquio,mostra um descompasso entre as boas intenções daqueles quequerem dar apoio a esta população e suas necessidades:[...] estes psicólogos [...] não queriam ouvir nosso traumatismosenão sob a forma que eles o compreendiam. [...] percebíamosque o país se transformava em um campo de experiências deum bando de aventureiros e antes de mais nada, de aprendizesde psicólogo, de engenheiros, médicos... Quantos energúmenosnós não vimos?[...] a maior parte dos que emprestam fundos e agentes humani-tários são pessoas apresadas e, como todas pessoas apresadas,freqüentemente julgam antes de escutar: eles querem soluçõesrápidas, eficazes como mecanismos de automóvel, mas que nãopodem funcionar com humanos, ainda menos com humanosque saem de um genocídio. Eles querem se livrar da sua culpacom programas rápidos. (apud COQUIO, 2004, p. 84)Esther Mujawayo reclama também da retórica oficial de2004 que afirmava que já se havia falado “o suficiente” do geno-cídio. Ela vê uma coincidência entre este tipo de idéia e o desejodos Hutus de esquecer tudo e de apagar o passado. O Estadoassumiu um discurso de unidade nacional, tentando conciliaros desejos dificilmente conjugáveis dos Hutus e dos Tutsis. Destemodo o testemunho não pôde acontecer e estabelecer sua tenta-tiva de criar pontes entre o sobrevivente e a realidade, entre ele ea sociedade. O discurso ficou estancado. Mesmo as tentativas deintroduzir algo semelhante às Comissões de Verdade e Concilia-ção da África do Sul parecem não ter obtido o resultado esperado.A introdução da Gacaca, uma instituição jurídica tradicional de
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 113Ruanda, uma espécie de conselho popular, deveria ter permitidoa confissão em massa dos culpados e o testemunho das vítimas.Como este ritual não previa sanções penais, ele acabou se trans-formando em um ritual de anistia disfarçado de boas intenções.Neste sentido a Gacaca foi instrumentalizada pelo projeto dereconciliação e unificação que previa o perdão como meio decura dos traumas sociais. Já a própria ONU tampouco teve suainiciativa bem-vinda de criar um Tribunal Penal Internacionalpara Ruanda, uma vez que ela é vista como cúmplice por suainação durante o genocídio. Jean Hatzfeld destaca a fala de umasobrevivente deste genocídio que afirma, dentro de um topos quevimos acima, que não adiantaria testemunhar, porque ninguémacreditaria nos fatos relatados (HATZFELD, 2005, p. 51). Semcontar que os sobreviventes têm medo de retaliações contra osque testemunham em público, sendo que em 2003 ocorreu umasérie de assassinatos de sobreviventes que foram consideradospotenciais denunciantes das atrocidades (COQUIO, 2004, p. 92).Lendo o testemunho de Sylvie, uma assistente social de Ruandacitada por Hatzfeld, entendemos um pouco melhor do que setrata nesta luta com este legado do mal. Percebemos que a jus-tiça e sua capacidade de negociação entre os partidos e entre opassado e o presente, ainda pode ter um papel a desempenharnesta cena, como de resto já está ocorrendo na América Latinaem países como a Argentina e o Chile, que também se vêem àsvoltas com a herança dos gigantescos desmandos ocorridos du-rante seus regimes ditatoriais. Citemos as palavras de Sylvie:No fundo de mim mesma não se trata de perdão ou de es-quecimento, mas de reconciliação. O branco que deixou osassassinos agirem, não há nada a lhe perdoar. Quem olhou ovizinho abrir o ventre das moças para matar o bebê diante dosolhos delas, não há nada a perdoar. Não há porque desperdiçarpalavras para falar desse assunto com esta gente. Só a justiçapode perdoar... Uma justiça que ofereça um lugar à verdade,para que o medo se esvaia... Um dia, talvez, uma coabitaçãoou uma ajuda mútua voltem a existir entre as famílias dos quemataram e dos que foram mortos. (HATZFELD, 2005, p. 218)O tema da narração do trauma de catástrofes históricas noslevou, portanto, a passar da cena do testemunho para a cena ju-rídica. Mas será esta capaz de permitir a construção da desejadapassagem entre os indivíduos traumatizados pela catástrofe e asociedade? Ela permitirá uma reintegração do passado?10Semdúvidas a esfera do direito e a instituição do tribunal podemcriar fóruns para esta construção de passagens e para a refun-dação de moradias para estes Eus danificados, mas é verdadetambém que enquanto um membro da esfera do poder, o direitonão está isento de parcialidades. E mais, enquanto um modode pensar falocêntrico calcado no discurso da comprovação e daatestação, ou seja, do testemunho como testis, o terceiro em uma10Shoshana Felmanapostou nesta possibi-lidade do testemunhojurídico criar um espaçopara o testemunho emseu belo livro de ensaiosde 2002.
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008114cena de litígio, e não como superstes, discurso de um sobrevi-vente, o direito tende a não garantir espaço para a fala muitasvezes fragmentada e plena de reticências do testemunho dotrauma (SELIGMANN-SILVA, 2005). Talvez a busca deste localdo testemunho seja antes uma errância, um abrir-se para suaassistematicidade, para suas fraturas e silêncios. É na literaturae nas artes onde esta voz poderia ter melhor acolhida, mas seriautópico pensar que a arte e a literatura poderiam, por exemplo,servir de dispositivo testemunhal em massa para populaçõescomo as sobreviventes de genocídios ou de ditaduras violentas.Mas isto não implica, tampouco, que nós não devamos nos abrirpara os hieróglifos de memória que os artistas nos têm apresen-tado. Podemos aprender muito com eles.Na música popular brasileira encontramos inúmeros exem-plos de inscrições do trauma, como escritura de uma contra-voz.Fecho este texto lembrando alguns versos de Chico Buarquecomo exemplo deste fantástico acervo mnemônico existente noBrasil. Este acervo de forte caráter político ainda é muito vivo,apesar do conservadorismo gigantesco da sociedade brasileiraque tende mais para enterrar aquele passado ainda recente. NoBrasil até hoje a anistia de 1979 valeu mais como amnésia im-posta com relação às arbitrariedades e à violência da ditaduracivil-militar. Citemos os versos:Quem é essa mulherQue canta sempre esse estribilho?Só queria embalar meu filhoQue mora na escuridão do marQuem é essa mulherQue canta sempre esse lamento?Só queria lembrar o tormentoQue fez meu filho suspirarQuem é essa mulherQue canta sempre o mesmo arranjo?Só queria agasalhar meu anjoE deixar seu corpo descansarQuem é esta mulherQue canta como dobra um sino?Queria cantar por meu meninoQue ele não pode mais cantar.(“Angélica”, de Chico Buarque e Miltinho, 1977)“Angélica” foi inspirado pelo assassinato de Zuzu Angel(Zuleika Angel Jones) em 1976 por membros do aparato de go-verno que queriam impedir a continuidade de suas investiga-ções sobre o paradeiro de seu filho (Stuart Edgart Angel Jones,raptado e assassinado por agentes da ditadura). Não por acasoeste episódio da história da ditadura se tornou tão importantehoje, tendo sido inclusive “popularizado” a partir do filme deSérgio Rezende. Zuzu representa ao mesmo tempo a vontade de
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 115restabelecimento da verdade, o desejo de reencontrar um parentearbitrariamente raptado, torturado e assassinado e o peso ter-rível da realidade do esquecimento imposto pelas autoridadesque, ao final, desaguou em um novo assassinato, ou seja, o daprópria Zuzu. É-lhe negado o direito de enterrar seu filho. Sualuta pela verdade se confunde com a luta pelo corpo do filho.Os desaparecimentos do corpo e da justiça se misturam em suahistória. Este caso revela ao mesmo tempo as práticas homicidasdo Estado terrorista de 1964 e a tentativa de se representar estaarbitrariedade. Zuzu para fazer seu luto precisava, antes de maisnada, saber a história de seu filho, ver seu cadáver, enterrá-lo,fazer com que a justiça se cumprisse. Angélica enfatiza o aspectorepetitivo da memória do mal, que vive de observar uma au-sência que não pode ser sanada a não ser com a restituição docorpo. Na música, a repetição do verso “Quem é esta mulher”, avolta repetitiva do advérbio temporal “sempre” e a imagem deum sino que sempre dobra da mesma forma, representam estacaracterística da memória do mal como constante e reiterativa.A cena desenhada é a da mãe que quer enterrar seu filho, daruma moradia e paz para seu corpo – requisito essencial paraque ela mesma recupere a sua paz. Esta mulher, visada pelapergunta repetida quatro vezes, é tanto Zuzu, como as outrasmães de desaparecidos e, no limite, a sociedade brasileira órfãde seus filhos desaparecidos (abandonados em valas comunsou jogados nas profundezas dos mares). A mãe na música quer“lembrar o tormento” que fez seu filho suspirar: a narração dosfatos, a restituição da verdade é uma etapa essencial no trabalhode luto assim como nos processos de transição de regimes au-toritários para democráticos. No fim, na última “estrofe”, a mãequer cantar por seu menino, que não pode cantar. Ela mesmase torna testemunha desta história que encerra em si o silêncio,o apagamento da verdade. Assim como a própria música deChico Buarque traz em si esta história perfurada, que não cessade voltar porque a justiça e o trabalho de memória ainda nãoforam feitos.1111É interessante con-frontar esta letra deChico Buarque com opoema de Paul Celan“Nächtlich Geschürzt”(“De noite arrepanha-dos”, na tradução deJoão Barrento). Celantem uma poética deri-vada em grande partede sua experiência desobrevivente das atro-cidades do nazismo,sendo que ele perderaseus pais em camposde concentração. A di-ferença entre as poéti-cas destes dois poetas éclara: Buarque cria umpoema com uma tem-poralidade estendida enão concentrada e espa-cializada, como Celan.Em Buarque os espaçosprivado e público se en-contram em um dramapolítico, já em Celan apoesia tende para umamise en abyme que nosfaz oscilar entre a refe-rência histórica e a forçade suas imagens poéti-cas. Mas o confronto éinteressante, na medidaem que colocamos ladoa lado duas potentes ar-tes da memória poéticasde duas barbáries doséculo XX (sem querer,evidentemente, medi-las ou compará-las).Ambos os poetas bus-cam criar pelas palavrasum espaço para os seus“desaparecidos”, ambospodem ser incluídos naliteratura do trauma quese desenvolveu no sécu-lo XX em função de suasinúmeras catástrofes (cf.SELIGMANN-SILVA,2005a): “De noite, ar-repanhados/ os lábiosdas flores,/ cruzados eentrelaçados/ os fustesdos abetos,/ encanecidoo musgo, estremecida apedra,/ desperta para ovôo infinito/ as gralhassobre o glaciar:// estassão as paragens onde/descansam aqueles quesurpreendemos:// elesnãoirãonomearahora,/nem contar os flocos,/nem seguir as águasaté ao açude.// Estãoseparados no mundo,/cada um com a sua noi-te,/ cada um com a suamorte,/ rudes, de cabe-ça descoberta, cobertosde geada/ de pertose longes.// Pagam aculpa que animou a suaorigem,/ pagam-na com
    • Gragoatá Márcio Seligmann-SilvaNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008116AbstractThe text proposes a reflection about some of themain issues concerning the gesture of testimony,highlighting the aporias that mark the act of wit-nessing. Departing from the idea that testimonyonly exists under the sign of its collapse and im-possibility, the essay stresses the dilemmas raisedfrom the convergence between the individual taskof the trauma storytelling and its collective com-ponent. In the historical catastrophes, as in thecases of genocide or mass violent persecution ofparticular segments of the population, traumaticmemory is always a search for a compromise be-tween the work of individual memory and another,more collective work. Testimony is analyzed as apart of a complex “politics of memory”.Keywords: Testimony. Trauma memory. Trauma.Politics of memory. Brazilian dictatorship.uma palavra/ que existeinjustamente, como overão.// Uma palavra– bem sabes:/ um cadá-ver.// Vamos lavá-lo,/vamos penteá-lo,/ va-mos voltar-lhe os olhos/para o céu.” “Nächtlichgeschürzt/ die Lippender Blumen,/ gekreuztund verschränkt/ dieSchäfte der Fichten,/ergraut das Moos, ers-chüttert der Stein,/erwacht zum unendli-chen Fluge/ die Dohlenüber dem Gletscher://dies ist die Gegend, wo/rasten, die wir ereilt://sie werden die Stundenicht nennen,/ die Flo-cken nicht zählen,/ denWassern nicht folgenans Wehr.// Sie stehengetrennt in der Welt,/ein jeglicher bei seinerNacht,/ ein jeglicher beiseinem Tode,/ unwirs-ch, barhaupt, bereift/von Nahem und Fer-nem.// Sie tragen dieSchuld ab, die ihren Urs-prung beseelte,/ sie tra-gen sie ab an ein Wort,/das zu Unrecht besteht,wie der Sommer.// EinWort – du weisst:/ eineLeiche.// Lass uns siewaschen,/ lass uns siekämmen,/ lass uns ihrAug/ himmelwärtswenden.”(CELAN,1996,p. 56 et seq.)ReferênciasADORNO, Theodor. Notas de literatura. Trad. C. Galeão. Rio deJaneiro: Tempo Brasileiro, 1973.ANTELME, Robert. L’espèce humaine. Paris: Gallimard, 1957.CELAN, Paul. Sete rosas mais tarde. Antologia poética. Trad. J.Barrento, edição bilíngüe. 2 ed. Lisboa: Cotovia, 1996.COQUIO, Catherine. Rwanda: le réel et les récits. Paris: Belin,2004.DERRIDA, Jacques. Demeure. Maurice Blanchot. Paris: Galilée,1998.DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Trad. Paulo Bezerra. SãoPaulo: Ed. 34, 2001.FELMAN, Shoshana. The juridical unconscious: trials and traumasin the twentieth century. Harvard: Harvard UP, 2002.HATZFELD. Jean. Uma temporada de facões: relatos do genocídioem Ruanda. Trad. R. Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia dasLetras, 2005.KLÜGER, Ruth. Weiter leben: Eine Jugend. Frankfurt: DTV,1994.LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. 10ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.LAUB, Dori. Truth and testimony: the process and the struggle.In: CARUTH, Cathy (Org.). Trauma: explorations in memory.Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1995. p. 61-75.
    • Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofesNiterói, n. 24, p. 101-117, 1. sem. 2008 117LEVI, Primo. A trégua. Trad. Marco Lucchesi. São Paulo: Com-panhia das Letras, 1997.. É isto um Homem. Trad. Luigi del Re. Rio de Janeiro:Rocco, 1988.. Os afogados e os sobreviventes. Trad. Luiz Sérgio Hen-riques. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.. Rapport sur Auschwitz. Prefácio Philippe Mesnard.Paris: Kimé, 2005.PIRALIAN, Hélène. Genocidio y transmisión. Trad. Horácio Pons.México: Fondo de Cultura, 2000.ROUSSEAU, Frédéric. Le procès des témoins de la Grande Guerre:l’affaire Norton Cru. Paris: Seuil, 2003.SELIGMANN-SILVA, Márcio. Literatura e trauma: um novoparadigma. In: . O local da diferença: ensaios sobrememória, arte, literatura e tradução. São Paulo: Ed. 34, 2005a.p. 63-80.. Reflexões sobre a memória, a história e o esqueci-mento. In: . (Org.). História, memória, literatura: o teste-munho na era das catástrofes. Campinas, SP: Ed. da UNICAMP,2003. p. 59-89.. Testemunho e a política da memória: o tempo depoisdas catástrofes. Projeto História: Revista do Programa de EstudosPós-Graduados em História e do Departamento de História daPUC-SP, São Paulo, n..30: Guerra, império e revolução, p. 31-78,jun. 2005b. Disponível em: <http://www.pucsp.br/ projetohis-toria/downloads/volume30/04-Artg-(Marcio).pdf>.SEMPRUN, Jorge. L’écriture ou la vie. Paris: Gallimard, 1994.YATES, Frances A. Art of memory. Chicago: University of Chi-cago Press, 1974. [Trad. A arte da memória. Campinas: Ed. daUNICAMP, 2008].
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008Corpos grafemáticos: o silêncio dosubalterno e a história literária*Roberto VecchiRecebido 08 mar. 2008 / Aprovado 27 abr. 2008ResumoSerá possível repensar no espaço da história literá-ria, que já em si, pela estrutura própria do cânone,se articula a partir de jogos de forças e instânciasde poder, introduzindo conceitualmente o oco derepresentação do subalterno, para questionar,assim, a determinante do poder – e do biopoder– sobre as representações literárias? O gestoproblematizador, limitando-se a alguns estudosde caso (os romances Os sertões de Euclides daCunha e A menina morta de Cornélio Penna),mas com o intuito mais amplo de pensar em novosmoldes para uma historiografia literária antago-nista, tenta responder à questão, detendo-se sobreas tentativas engajadas que já foram feitas paraincorporar na crítica o homo sacer, o excluído.É evidente que, em inúmeros casos, as intençõesde resgate se embateram em impasses trágicosde inviabilidade da representação, a não ser poruma “escuta” de uma voz sincopada de rastosresistentes amalgamados nos textos. Assume-se,nessa perspectiva, ainda, o critério da relação entrehistória e história natural que talvez possa deixaremergir, em suas tensões, alguns restos das rela-ções de poder implicadas pela representação.Palavras-chave: Subalternidade. História literá-ria. Corpos grafemáticos. Os sertões. A meninamorta.*O presente textoretoma uma comu-nicação apresentadano simpósio temáti-co (Re)configuraçõesliterárias dos espaçosnacionais/regionais,no âmbito do X Con-gresso da ABRALICno Rio de Janeiro em2006, depois nuncapublicado.
    • Gragoatá Roberto VecchiNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008120“– A questão é de saberse uma palavra pode significar tantas coisas– Não, a questão é de saberquem manda.”(Francisco Alvim, “Conversa de Alicecom Humpty Dumpty”)Qual o sentido de introduzir o conceito de poder, quepertence mais a uma esfera própria dos estudos culturais, nareconfiguração de uma historiografia literária? Ou é mais umadistorção que em tempos de esgotamento de grandes narrativasprocura reativar nostalgicamente tensões discursivas que sedesfibraram ao longo dos anos? Ou ainda se trata de mais umadobra crítica dentro da qual se esconde uma disjunção opositiva:ou seja, a de como a literatura é poder, no sentido em que o pró-prio cânone literário se institui com uma função sacralizadora,insitucionalizante das representações e discrimina, antes detudo, o que é e não é literatura, hierarquizando-a em gêneros esubgêneros? Portanto, introduzindo o conceito de poder, se criauma espécie de jogo de forças em que a pertinência das rela-ções críticas acabaria por ser suprida por uma limitada disputasobre a primazia da crítica cultural sobre a crítica literária ouvice-versa?A impressão que se tem é que, mais uma vez, na realida-de e no contexto literário em questão – sem querer introduzirqualquer reducionismo sociológico – pelo menos nessa circuns-tância, uma reflexão pautada a partir de uma conceitualizaçãode poder tem raízes profundas, configurando uma espécie de“diferença” Brasil – como aprendemos de grandes aulas comoas de Antonio Candido ou de Roberto Schwarz, contaminandoas projeções literárias, ou melhor, tornando-as oportunamentehistóricas e impuras, o que permitiu estudá-las a partir de umdeterminado ângulo agudo sócio-histórico.E, na verdade, não foram poucas as abordagens com pen-dor historicista que se debruçaram sobre o corpus – em todos ossentidos – da história literária brasileira. Isso se dá, também porquestões de referenciais históricos específicos, como no caso doautoritarismo, que tenta colocar a preocupação com as forçasexplícitas ou ocultas do poder sobre a representação. No projetoque, desse ponto de vista, marca uma diferença para todo o con-texto sócio-cultural do autoritarismo que lhe serve de referência,pode-se destacar Os pobres na literatura brasileira, por exemplo, emque há um intuito de inscrever a classe em um projeto de umacontra-historiografia literária. É como se, de acordo com Gramsci(na leitura recanonizadora de Edward Said, 2002), não só ondehá história há classe, mas, em situação de engajamento, pode-sepensar em uma “estética radical” (SCHWARZ, 1983, p. 8) que con-vertesse o conceito em outro: onde há história literária tambémhá classe. O que parece de imediato compreensível, pelo fato de
    • Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e a história literáriaNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008 121que a literatura, como instituição, com a função sacralizadoraque a demarca, é sempre aparentemente representação de umapartheid, de um domínio que exerce uma soberania exclusivae excludente.Seria assim se não houvesse muitas outras variáveis emjogo que a teoria nos ensina como reconhecer, apesar da suavisibilidade não manifesta, variáveis que tornam o objeto li-terário – reconfigurado dentro de uma metaforologia político-social – um território de muitos conflitos. Um exemplo decorredo “estado de exceção” que instaura a prática lingüística e,portanto, a literatura também, pois, de acordo com Paolo Virno,a aplicação de uma norma contém sempre um fragmento de“estado de exceção” (VIRNO, 2006, p. 11). Virno aponta a pre-sença de outras dimensões da história na práxis social como,por exemplo, a meta-história, ou o invariante biológico, quefazem com que, instalando-se em um determinado pseudomeioderivado da práxis social e política e em fase de transformação,a história natural acaba coincidindo com a história de um estadode exceção (VIRNO, 2003, p. 169).Nesse horizonte de dimensões múltiplas, então, é sem-pre possível pensar em outra história literária e como a obraoferece sempre rupturas que transcendem a pura intenciona-lidade do autor. Poderíamos admitir, aliás, para proporcionaruma metáfora comparativa, que a obra literária funcionariacomo a fotografia, assim como se define na clássica leitura deRoland Barthes (A câmara clara). Lembramos os dois elementosco-presentes, descontínuos e heterogêneos, que poderiam serrepensados de acordo com os conceitos estruturais – sempre deBarthes –, ou seja, o studium e o punctum. O primeiro é codificadoe decorre do gosto, da expectativa, da participação do espectador(do leitor) em relação ao objeto e, no caso da literatura, o fato dese construir justamente como tal, a partir de um código, dumatradição, dum gosto. O segundo, o punctum, não codificado e in-codificável, é o que quebra a superfície do studium, e é justamentetrauma, ferida, a fatalidade que pelo objeto fere o espectador (oleitor), ultrapassando a própria intencionalidade do autor. Porsua presença se modifica a leitura. Pode-se alegar que o efeitodo punctum já está, por exemplo, precocemente presente, noromance maduro de Machado de Assis, na falsa ausência darepresentação do escravo. Tal abstencionismo machadiano, naverdade, é representação dos vácuos de representação. Portanto,as omissões acabam funcionando como punctum para o leitor(embora sua intencionalidade encoberta pela forma literáriaesteja fora de discussão).Se quisermos, então em síntese, iconizar a questão, o pro-blema, então, é o silêncio, o fora, a dimensão irrepresentada ousubrepresentada do oco e do vazio que a fissura do poder impedede enxergar. A voz (o corpo), clamando no deserto da exclusão
    • Gragoatá Roberto VecchiNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008122como produção biopolítica de um domínio que se canoniza, éa que o pós-estruturalismo tem procurado resgatar, pela hipo-teca duma linguagem que é sempre excesso ou defeito, onde osilêncio é fundador das possibilidades e impossibilidades dalinguagem.Mas eu quero ficar fora dos discursos consagrados e, em de-bate, recuar a uma obra muito menos explicitamente valorizada eque, pelo contrário, representa ainda um instrumento potencial-mente extraordinário e ainda pouco utilizado. Refiro-me a umcaderno “especial” dos Quaderni del carcere de Antonio Gramsci,o nº 25 de 1934, com o título suprendentemente euclidiano de“Ai margini della storia (Storia dei gruppi sociali subalterni)”. Ocaderno fragmentário de Gramsci é interessante na perspectivade repensar também uma história descentralizada dos gruposdominantes. Gramsci observa que a história dos grupos subal-ternos é necessariamente “desagregada e episódica” (GRAMSCI,1995, p. 2283) e, para a elite, os elementos desses grupos semprepossuem algo de “barbárico e patológico” (p. 2279). Uma históriaà margem da história passa pela valorização de cada rasto deiniciativa autônoma dos subalternos por parte do historiadorintegral (p. 2284) e por um uso original de fontes indiretas queinconscientemente registam as aspirações elementares ou pro-fundas dos grupos subalternos (p. 2290).De uma leitura seletiva (BUTTIGIEG, 1999, p. 30-31) dasubalternidade gramsciana se articula o âmbito crítico do gru-po indo-inglês dos Subaltern Studies, que reelabora um aparatoconceitual a partir de esquemas próprios do grupo de estudosformado em Delhi por Ranajit Guha. Tais esquemas decorremde uma crítica dos modelos historiográficos, tanto de cunhocolonialista como de matriz nacionalista que tinham omitido,por interesses diferentes, as tentativas insurrecionais das massasrurais. Como observa Edward Said – na introdução da primeiraantologia de estudos subalternos, organizada por Guha e Spivak–, a principal lição que se pode extrair da leitura gramsciana,é que, como já vimos, onde há história há classe. Desse modo,o subalterno não surge como um absoluto, mas, sim, de umaarticulação histórica – ou seja, de uma relação de dominaçãocoercitiva ou ideológica em relação à classe dominante ou he-gemônica (SAID, 2002, p. 20).Tal abordagem inaugura, de qualquer modo, uma pers-pectiva, por assim dizer, “trágica” sobre a história, ou seja, anecessidade de proporcionar um resgate –talvez impossível – denarrações não hegemônicas desprovidas substancialmente derasto historiográfico, mas, ao mesmo tempo, mutiladas de apegosdocumentários ou testemunhais sobre os quais se constroemcontra-narrativas. Desse ponto de vista, é forte, nos estudos su-balternos, a preocupação meta-histórica de redefinir, através deum alto índice de contaminação interdisciplinar, um paradigma
    • Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e a história literáriaNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008 123indiciário capaz de dar conta, desconstrutivamente, das histó-rias submersas não narradas e problematicamente narráveis.Trata-se, afinal, como sempre Said observa, de um conhecimentosuplementar que preenche vácuos, omissões e a ignorância detoda experiência da resistência indiana ao colonialismo (SAID,2002, p. 24), integrando, portanto, parte dos silêncios lacunososdas narrativas coloniais ou nacionais.O subalterno seria, pois, o silenciado pela história oficial,quem não tem condições de produzir discursos e cujo rastolongínquo de voz pode ser escutado só pelo discurso da elite e,portanto, permanece irrepresentado.É fundamental, nessa perspectiva, pela sua dinâmica corre-tiva, a contribuição de Gayatri Spivak, que pode ser epitomizadana pergunta, provocatória e trágica, do título da versão de 1988do ensaio famoso e polêmico “Can the subaltern speak?”, (“Podefalar o subalterno?”). Na sua mais radical versão originária, aensaísta chega a definir um conceito operacional extremamenteinteressante que diz respeito ao subalterno, partindo do silêncioque o institui como “ausente da história”. Para Spivak, de fato,a categoria de qualquer modo heterogênea e diferencial dosubalterno não poder falar, é como desvocalizada de qualquerdiscurso, no quadro dominante da violência epistêmica. Nessachave, é interessante notar como o subalterno se define ontologi-camente por um vazio de representação, pelo seu silêncio entreas vozes da história. Aliás, se o subalterno falasse, de certo modoperderia sua condição, saindo daquele estado de objeto de umarepresentação vicária constituída pelos aparatos de dominação.Aqui são as categorias próprias de representação que são postasem discussão e recolocadas em jogo, com um exercício próximo,se quisermos, da crítica trágica da testemunha da pós Shoah,que radicaliza a reflexão sobre a própria representabilidade daexperiência historicamente destruidora do trauma extremo.O silêncio não se quebra, mas, pelo contrário, se duplicaquando a representação se torna vicária por parte da outra voz,a do autor.De todos os ângulos, em suma, estamos plenamente nosilêncio fundador do subalterno de que fala Spivak, em que o“ventriloquismo” – postiço, aliás, ou para dizer melhor, feti-chístico –, como o define com uma bela imagem (SPIVAK, 1988,p. 267), se torna um armamento de outras classes e discursos,descendente essencialmente das ambigüidades da representaçãoque remetem sempre, como ela precisa, para um duplo, ancípitesignificado. Por isso, toda representação, para produzir seus efei-tos – a representação é, lembremos, também um ato performativo(ISER, 1987, p. 218-219) – deve sempre refletir sobre si própria,sobre seus modos, devendo ser, portanto, meta-representativa.As partidas dobradas, escorregadias, de fato, situam-se entrea representação em sentido político (falar por – vertrenten) e a
    • Gragoatá Roberto VecchiNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008124representação no sentido estético como re-apresentação (falarde – darstellen). E a confusão entre os dois campos aprofunda adesvocalização do excluído e a representação se torna, assim etambém, pelos artífices providos das melhores intenções, repre-sentações de “si própria em transparência” (SPIVAK, 1988, p. 270),isto é, amplificação e não redução do silêncio do subalterno.Pensando na literatura brasileira, a obra que mais contribuipara fundar o subalterno a partir do silêncio do excluído, do”outro” massacrado, que é pelo contrário a rocha viva denegadada nação, são Os sertões de Euclides da Cunha.Na Bahia antes, e na escrita depois, Euclides tem um vis-lumbre excepcional – biopolítico, diríamos. No essencial, apre-ende que a violência do extermínio exibe uma outra dimensãoem jogo em prol da dominação: a introdução de uma cesura fun-damental na reconfiguração (não coextensiva) da relação entreespaço e poder, que separa povo e população, capaz de transformarem corpo biológico, portanto expulsando-os do corpo político,grupos de excluídos no âmbito da soberania, fragmentando-sea nação justamente no plano da vida. Isso faz emergir o aspectopavorosamente moderno da operação militar na Bahia, o arse-nal sofisticado utilizado para apagar o resíduo insubordinadoe arcaico, a substância biopolítica, poderíamos dizer, absoluta,o perfil do excluído como última fase da produção biopolíticaque pode ser isolada no continuum biológico da nação.Seu gesto produz um efeito duplamente histórico: por umlado, transforma o trauma em modo de ler a história nacionalque não resulta assim, como até poderia parecer, esvaziada dehistoricidade, mas que, pelo contrário, se pode historicizar emuma contra-história, problematizando os silêncios, os vazios, asdesvocalizações da história nacional. Por outro lado, tal reescritahistórica do massacre, nessa moldura, contribui para fundarliterária e politicamente o subalterno.N’Os sertões, no hiato do lustro que separa a cena traumáticade que Euclides é testemunha da publicação da obra, algo mudana configuração do sertanejo sacrificial: se, de fato, nas reporta-gens enviadas de Belo Monte constam entrevistas e diálogos comos rebeldes, em Os sertões, pelo contrário, Euclides atua atravésde uma espécie de desvocalização. Os sertanejos falam pouco. Sãocomo que silenciados, fora algumas exceções (como a do acólitodo Conselheiro, Antônio Beato, o Beatinho) que, como tal, mes-mo por função e características, funcionam. A desvocalizaçãoé significativa e parece se inscrever naquele silêncio fundadordo subalterno. Isso traz à tona um primeiro efeito relevante dogesto historicizador de Euclides, fundando, de fato, a categoriado subalterno na cultura brasileira e instituindo-a através dodeserto e do silêncio. Em suma, Euclides desloca o problemada história não tanto no conteúdo, mas no modo como ela deveser construída.
    • Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e a história literáriaNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008 125Nesse sentido, Os sertões, em sua aparentemente híbridaconstrução, proporcionam não só a fundação de uma história declasse do ponto de vista não hegemônico, mas a do vencido, dequem é derrotado e cujo corpo brutalmente é destruído. A obratambém revela uma preocupação profunda com os problemasda representação, sobretudo com uma representação que vingueo deserto da barbárie moderna.Aqui a história do ponto de vista do dominado pode en-contrar uma sua paradoxal e extraordinária faculdade, fazendocom que o subalterno possa produzir uma representação. Issoocorre, de modo complexo, pelos corpos degolados e humilha-dos que se tornam figuralmente vozes (murmúrios, rumoresde fundo, de rastos vocais que resistem ao apagamento): o seusilêncio ostensivo emerge como verdadeira presença dos vaziosda história e das representações consagradas.Sempre Spivak, na revisão que realiza dez anos depois doensaio de 88, em finais da década de 90, A critique of postcolonialreason, vira drasticamente sua posição com um caso concretoe mostra como, ainda que subsistam todos os vazios de repre-sentação dos subalternos, o subalterno pode falar. Fala através detextos outros e complexos, escrevendo com seu próprio corpo,falando além da morte, tornando seu corpo – como observa Spi-vak, tirando e adaptando o adjetivo da reflexão de Derrida sobreatos lingüísticos de Margens da filosofia (DERRIDA, 1997, p. 413) –“grafemático” (SPIVAK, 2004, p. 259). Spivak, começa por estudar,no ensaio, o rito sati, ou seja, a auto-imolação da viúva que, porsua condição de mulher, se faz o subalterno por excelência, se-gundo a mesma Spivak, na pira em que arde o corpo do marido.A seguir, evoca o suicídio, em 1926, em Calcutá Norte, de umamoça de 16-17 anos, Bhubaneswari Bhaduri, que foi encontradamorta enforcada. Imediatamente, a idade e as circunstânciasinduzem a pensar em um suicídio por uma gravidez indesejadae ilícita, mas Bhubaneswari suicida-se justamente no momentodo ciclo menstrual. Anos depois, sua irmã encontra uma carta,em que a suicida revela sua militância política na luta armadapela independência indiana: tinha recebido ordens de matar umpolítico, mas, tendo falhado o atentado, para não expor ao riscoseus companheiros, resolve se matar. Pelo seu gesto, observa acrítica, Bhubaneswari reescreve o texto social do suicídio sati emchave interventista. Através do gesto da deslocação (o períodomenstrual que constitui a inversão do interdito, porquanto amulher não se pode imolar nesse momento impuro) subverte,pelo seu gesto, os textos hegemônicos de exaltação do sati datradição e é essa circunstância que induz Spivak a rever suaposição, com uma inversão drástica e radical: o subalterno podefalar (SPIVAK, 2004, p. 317-318), pois, ainda que só de um certomodo, sua voz pode ser “interceptada” e escutada.
    • Gragoatá Roberto VecchiNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008126A importância de ler o silêncio, de escutá-lo e repensar alinguagem não como fala, mas como escuta de línguas impos-síveis, como os dos corpos grafemáticos, coloca no centro dacena uma obra, canonicamente marginalizada, mas para mimfundamental para definir uma relação outra entre história lite-rária e poder, que também traz à luz as vozes interditadas dossubalternos escravos, no contexto oitocentista da Casa Grande,antes da abolição. Trata-se de um livro não muito acessível nemsequer no Brasil (está esgotado já há alguns anos e com pou-quíssimas reedições): A menina morta, obra publicada por umromancista anômalo, Cornélio Penna, em 1954. O romance foitraduzido para o francês há algum tempo e a edição portuguesasaiu recentemente em Portugal.Em A menina morta, como no ensaio de Spivak, ainda quenão no centro da “cena muda” está o presumível suicídio deFlorêncio, escravo mulato, filho do senhor e de uma escrava.Quando lhe morre o pai biológico, a mulher do senhor em vez dealforriá-lo, vende-o por vingança ao proprietário da fazenda. Opano de fundo principal do romance é o Grotão, nas plantaçõesfluminenses. Aqui o escravo é encontrado misteriosamente en-forcado, mas na realidade aquilo que a narrativa deixa entender–sem dizer – é que se tratou, pelo contrário e provavelmente, deum assassínio, cuja razão é e ficará totalmente desconhecida.Nesta narrativa melancólica e lutuosa sobre o patriarcadorural escravocrático, o leitor do romance lento e aparentementeestagnado, se encontra imerso numa experiência comum aosoutros habitantes da Casa Grande: a interdição sistemática a todotipo de informação. É ela que estabelece a condição de domínioem que se encontram mergulhados os familiares ou os agregadosda Casa Grande, os escravos e justamente também o leitor quenão conseguirá obter mais do que fragmentos muito parciaisde uma verdade sempre mais fugidia e talvez definitivamenteirrecuperável.Mas este efeito de real que une o leitor à matéria narrada éapenas uma das multíplices características do romance. A histó-ria que parece encravada, repetitiva em torno de um movimentocíclico, justamente estagnante, roda em torno da elaboraçãode um luto, a morte da sinhazinha do Grotão, precisamentea menina morta. É um luto que parece reunir todos, senhorese escravos, e que parece possuir um “significado legalizado”(COSTA LIMA, 1989, p. 264), ou seja, funcionar quase como ummito comunitário, holístico. Trata-se apenas de uma aparência,porque o clima opressivo da Casa Grande mostra a ameaçaiminente de uma insurreição de escravos.O enredo é extremamente exíguo. Depois do funeral dasinhazinha, a outra filha Carlota é obrigada a retornar do reinopara a fazenda, porque se deverá casar, por ordem paterna, com ofilho da latifundiária vizinha e, deste modo, salvar a propriedade
    • Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e a história literáriaNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008 127da crise. Mas a “substituição” não funciona. Carlota pronuncia-rá um duplo não: um não ao casamento, mesmo tendo tentadoaceitar as leis não escritas do patriarcado que a queriam esposadócil às ordens do pai e do marido, e também à “propriedade” eao patrimônio familiar, decidindo, com um gesto surpreendentee autônomo, muito antes da Abolição de 1888, libertar todas ascentenas de escravos do Grotão.Para além do enredo mínimo e disseminado por centenasde páginas, trata-se de um romance sobre o silêncio, aliás, sobreos silêncios da Casa Grande (MIRANDA, 1983, p. 69): o silêncioautoritário do Comendador; o silêncio na relação entre ele e amulher; entre ele e os filhos aos quais pede obediência cega;entre ele e os membros da família patriarcal. O romance enfoca,sobretudo, o silêncio dos subalternos, ou seja, dos escravos, aemergir com força. E não é tanto ou apenas a representação dosilêncio, mas é a representação das interdições, ligadas ao podere ao exercício de uma exceção soberana plenamente funcionalno espaço asfixiante e opressivo da Casa Grande, a definir-se,também, nos mecanismos recônditos de funcionamento do es-tado permanente de excepção que tudo domina. Em suma, umanarrativa sobre como o subalterno não fala. Como é evidente emalgumas ocasiões extraordinárias (num romance que se abre coma voz de uma velha negra), há brechas, tal como se projetam naimagem fortíssima da velha escrava Joviana que fala à Sinha-zinha, mostrando uma dupla boca, uma boca escondida atrásda boca silenciosa, aliás, emudecida (PENNA, 1958, p. 1136) ou,também, nas frases desconexas entre sentimentos e quase razõesda outra escrava Libânia, cujas palavras afundam no abismo desentidos da comunicação impossível:Compreendia confusamente não poder ela própria explicarnada, pois não poderia tirar a verdade das coisas ouvidas,do visto e sentido guardados em sua memória, mas que se aSinhàzinha a escutasse tudo se tornaria claro e teria enormesignificação, muito acima e além de suas forças. Estava, poisdiante do desconhecido, do abismo que ameaçava devorá-loe não poderia evitá-lo [...]. E pôs-se a falar, deixando correrlivremente o afluxo de lembranças vindas à sua boca, emamálgama de coisas diferentes, ditas de forma incompleta eas mais das vezes sem coesão. (PENNA, 1958, p. 1185)Portanto, a representação supera os limites impostos peladuplicidade escorregadia da representação do excluído, tornan-do-se representação dos vazios da representação. Com a imagemfortíssima e surpreendente que nos pode parecer paradoxal,mas é o resultado, pelo contrário, de um exercício testemunhalsutil e profundo, do terror – literalmente – que atinge os escra-vos – emudecidos, assustados, com os olhos esbugalhados edesconfiados – no momento em que Carlota lhes dá uma liber-dade absolutamente inesperada, o que transforma o contexto, já
    • Gragoatá Roberto VecchiNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008128em si tenebroso, das senzalas arquitetonicamente contíguas àscâmaras de tortura, numa paisagem fosca de ruínas.O romance se torna o instrumento que traz à luz contra-histórias subalternas que se podem assim re-vocalizar noscorpos ou nos silêncios dos escravos. Sobretudo, como viuLuiz Costa Lima, configura-se uma contra-mitologia da CasaGrande & senzala de Gilberto Freyre e, ainda que distinguindoentre a especificidade de um ensaio e aquela de um romance,desarticula com um gesto forte a remitificação freyriana damestiçagem como lugar de conciliação seminal da Nação, ondeo negro era uma parte constitutiva fundamental, como produtodo espírito de plasticidade e confraternização do colonizador(COSTA LIMA, 2004, p. 16-18). Tudo absolutamente falso, a serdesmistificado ainda que por uma outra criação mitíco-histórica.Sabemos, pela reflexão atual sobre a aporia do testemunho, quea possibilidade de testemunhar decorre de um paradoxal atode autor de uma impossibilidade de testemunhar e é isto queocorre ao subalterno negro a partir de um romance marginal“pós-modernista” – além do mais, de um autor discriminadopelo próprio Modernismo (lembre-se o famoso rótulo de Máriode Andrade que considerava, em resenha de 1939, os de Penna“romances de antiquário”).De qualquer modo, o subalterno fala. Apesar das historio-grafias literárias, ou pelos rastos problematicamente detectáveisdentro delas. A sua é uma história que, tal como diz Gramscinos Quaderni, se coloca à margem da história, história esta, a dosgrupos subalternos, necessariamente dilacerada e fragmentária.O problema, como bem se depreende da deslocação dos estudossubalternos para a América Latina, se inscreve em uma mudan-ça radical da escrita para a escuta dos rastos de corpos e vidasdiscriminadas e excluídas, desprovidas de peso historiográficoque deixam só flébeis escritas, duvidosos marcos, anônimosdespojos. Haverá um dia uma história literária capaz de escutaros inúmeros e ruidosos silêncios que se disseminam nela?
    • Corpos grafemáticos: o silêncio do subalterno e a história literáriaNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008 129AbstractCan we rethink the space of literary history, whichstructures itself, as a canon, in terms of force andpower, introducing the concept of the subaltern’sempty representation in order to question powerand bio-power influence on literature? Such aproblematic act, limited to some case studies (no-vels as Euclides’ Os sertões and Cornélio Penna’sMenina morta) – although with the wider aimto re-think new edges for an antagonist literaryhistoriography –, approaches the complex criticalquestion, deepening the engaged attempts carriedout in order to critically incorporate the “homosacer”, the excluded. It is clear that, in manycases, the intent of redemption have clashed withthe tragic impasses of the unviablility of repre-sentation, except for the effort to “listen” to thesyncopate voice of resistance that remains in atext. At the same time, it is important to assume,from such a perspective, the relationship betweenhistory and natural history, a link that, in spite ofits internal tensions, may facilitate the emergenceof residuals of power relations involved in anyrepresentation.Keywords: Subalternity. Literary history.‘Graphematic’ bodies. Os sertões. A meninamorta.ReferênciasALVIM, Francisco. Elefante. São Paulo: Companhia das Letras,2000.ANDRADE, Mário de. Romances de um antiquário. In:. O empalhador de passarinho. Belo Horizonte: Itatiaia,2001.BARTHES, Roland. La camera chiara: nota sulla fotografia. Torino:Einaudi, 1980.BUTTIGIEG, Joseph A. Sulla categoria gramsciana di ‘subalter-no’. In: BARATTA, G.; LIGUORI, G. (Org.). Gramsci da un secoloall’altro. Roma: Riuniti, 1999. p. 27-38.COSTA LIMA, Luiz. Sob as trevas da melancolia: o patriarcadoem A menina morta. In: . As aguarrás do tempo. Rio deJaneiro: Rocco, 1989. p. 239-284.. O romance de Cornélio Penna. 2. ed. rev. Belo Hori-zonte: Ed. UFMG, 2005.
    • Gragoatá Roberto VecchiNiterói, n. 24, p. 119-130, 1. sem. 2008130CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos. Ed.crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1998.DERRIDA, Jacques. Margini della filosofia. Torino: Einaudi, 1997.GRAMSCI, Antonio. Ai margini della storia (storia dei gruppisociali subalterni), Quaderno 25 (XXIII) 1934. In: .Quaderni del Carcere. Ed. critica a cura di Gerratana V. Torino:Einaudi, 1975. v. III, p. 2277-2294.ISER, Wolfgang. Representation: a performative act. In: KRIEG-ER, M. (Org.). The aims of representation. New York: Columbia,1987. p. 217-232.MIRANDA, Wander Melo. A menina morta: a cena muda. OEixo e a Roda, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 69-76, 1983.PENNA, Cornélio. A menina morta. In: . Romancescompletos. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958.SAID, Edward W. Introduzione. In: MEZZADRA, S. Subalternstudies: modernità e (post)colonialismo. Verona: Ombre corte, 2002.p. 19-28.SCHWARZ, Roberto (Org.). Os pobres na literatura brasileira. SãoPaulo: Brasiliense, 1983.SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the subaltern speak? In: NEL-SON, C.; GROSSBERG, L. (Org.). Marxism and the interpretation ofculture. Urbana: University of Illinois Press, 1988. p. 271-313.. Critica della ragione postcoloniale: verso una storia delpresente in dissolvenza. Roma: Meltemi, 2004.VIRNO, Paolo. Quando il verbo si fece carne: linguaggio e naturaumana. Torino: Bollati Boringhieri, 2003.. Motto di spirito e azione innovativa: per una logica delcambiamento. Torino: Bollati Boringhieri, 2005.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008Narrativas, rostos e manifestações dopós-colonialismo moçambicano nosromances de João Paulo Borges CoelhoSheila KahnRecebido 18 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoO pós-colonialismo de expressão em língua por-tuguesa tem sido assumido como elemento hege-mónico, no pensamento e diálogo entre as váriasex-colónias portuguesas em África. Contudo, nomeu entender, é urgente retomar epistemologi-camente a questão pós-colonial, equacionando-a,de um modo contextualizado, aos loci culturais,idiossincráticos, históricos e sociais do objecto detrabalho. No presente artigo, pretendo desafiar aanterior hegemonia, ao propor que existe, indubi-tavelmente, um pós-colonialismo moçambicano,ainda que de língua portuguesa. Este esforço deromper muros, de compilar e analisar narrativas,memórias e manifestações de um caminhar pós-colonial moçambicano pode ser comprovado comos romances de João Paulo Borges Coelho, nomea-damente, As visitas do Dr Valdez, Crónica daRua 513.2 e, mais recentemente, com Campo detrânsito. Resta-nos, então, partindo de uma leitu-ra e análise contextualizadas, reflectir sobre quetrilhos, margens, memórias e rostos emergiramde um Moçambique que caminhou ao encontroda sua nação, tão como sonhada e almejada pelopoeta José Craveirinha.Palavras-chave: Memória. Narrativa. Pós-colonialismos. História e ficção.
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008132“Tu lias e não me deixavas aprender a ler também.Eu, pelo meu lado só os podia saber da tua boca, traduzidos, simplificados.Não tinha acesso a eles tal como eram fabricados,o mais a que podia aspirar era à tua versão.Ah, mas agora não! Agora é tarde.[…] Não quero a tua condição.Quero antes preservar a minha quero-a também para ti, nesta nova igualdade.”(João Paulo B. Coelho, 2006, p. 51)“A literatura liberta mas prende, também,as palavras pesam muito.”(João Paulo Borges Coelho)“Mergulho no sangue e no perfume dos naviosHá uma frase que ondula como a cabeleira do ventoe um frémito de fibras sob uma porta enterradaE as palavras têm dentes que atravessam os ossos.”(António Ramos Rosa)1. João Paulo Borges Coelho,seus romances e pontos de vistaEscrever e pensar os romances de João Paulo Borges Co-elho – doravante JPBC – é, confesso, uma ambição desta leitoraembevecida pela sua invenção literária.1Para a realização desteartigo optei por palmilhar o caminho da subjectividade dohomem-escritor, procurando discernir as suas reflexões de teorfilosófico, humano, epistemológico e ontológico, sem nuncaesquecer o seu lugar de enunciação – Moçambique – e a suavoz própria. Por conseguinte, inicio esta digressão analíticados romances de JPBC, partindo de uma entrevista-texto,2e dealgumas contribuições teóricas que me ajudaram a ler, de modomais lúcido e transparente, As visitas do Dr.Valdez (2004), Crónicada Rua 513.2 (2006) e, finalmente, Campo de trânsito (2007).Partindo da espontaneidade – ainda que parcialmenteestruturada – de uma conversa entre mim e JPBC, emergiram,durante nosso diálogo, questões que permeiam sua prática literá-ria e refletem as preocupações deste escritor e historiador. Dessasquestões ressaltam, sem discrição, reflexões sobre o individua-lismo em confronto com o colectivo moçambicano; a hegemoniada História como paradigma soberano com legitimidade paracriar, compilar, estruturar e interpretar as identidades quer noplano nacional, no social, e mesmo no das subjectividades; opapel da memória como acção performativa capaz de reclamare reinventar – no espaço da narrativa ficcional – as margens, ossilêncios, o modus vivendi daqueles moçambicanos e moçambica-nas que viveram os ciclos da História colonial e pós-colonial dopaís e, finalmente, o problema de uma modernidade africana,que reflicta, na opinião de João Paulo Borges Coelho, que trans-crevo, em palavras literais:[A] questão da individualidade, que é uma questão muitoimportante, porque eu acho que há uma certa modernidade1Como observa JPBC:“eu acredito muito nadistinção que o Steinerfaz da invenção e dacriação; e, nessa his-tória do escritor comoum deus falhado, comoum criador que faz fi-guras, que gostaria decriar figuras, e tem dese limitar a inventá-las”(KHAN, 2007, p. 2).2Entrevista realizada econduzida pela autoradeste trabalho, no dia 19de Julho, 2007, em Sines,Portugal
    • Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismo moçambicano nos romances de João Paulo Borges CoelhoNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008 133em África que está por fazer. E ela passa por uma discussãoprofunda do papel do indivíduo africano, porque já falámosdemasiado do colectivo, do passado, de origens. É altura defalarmos de presentes, de condições, e de indivíduos, no sen-tido de desdramatizar aquilo que se fala em todo o mundo:da África-museu, da África-passado, em que cada africanoanda com uma estrutura de ligações genealógicas atrás. Issoé completamente absurdo. (KHAN, 2007, p. 1)Na tessitura da composição das realidades fenomenológicae ontológica dos seus personagens, projeta-se a preocupaçãodo escritor em plasmar uma subjectividade própria, que não sedeixa dominar ou comandar pela arquitectura histórica do seupróprio lugar de enunciação e de um certo modo de pensar oexercício literário. De facto, é neste sentido que a subjectivida-de na escrita dos romances de JPBC reflecte as palavras da sua“voz própria” como homem-escritor e cidadão, já que como eleafirmaeu vou escrever, eu vou falar com a minha própria voz, […]motivações que têm a ver, também, com o facto pessoal de euter chegado à conclusão que não me exprimia só pela História.[…], pessoalmente, eu convenço-me que uma parte emocionale estética tem de funcionar sem ser domada, há uma parteirracional, até, que tem de funcionar sem ser domada. (KHAN,2007, p. 1)Compartilhando dessa percepção sobre o papel da subjec-tividade como húmus necessário para a disciplina literária, JoséJúnior salienta quea verdade não é única e o sujeito está sempre submetido pelalinguagem, qualquer que seja o discurso que essa mesmalinguagem venha a articular. Além disso, a ficcionalidadeconcede ao discurso uma liberdade selvagem e ameaçadora atodo o sistema de sentido que zela por sua própria “verdade”.(SOUSA JÚNIOR, 2000, p. 29)É neste caminho de coincidências teóricas sobre como aliteratura abre, através de uma liberdade íntima, espaço paranovos sentidos, que Marta Pragana Dantas sublinha que a vo-cação literária é um meio de se “deslocar os regimes de sentido”(DANTAS, 2000, p. 3), ao desafiar os silêncios e murmúrios dasnormas sociais, mas, acima de tudo, da hegemonia da narrativahistórica proposta por uma meta-narrativa da História nacionalde um país.Por conseguinte, nesta caminhada perpassada pelo desejoliterário de libertação da subjectividade, surge o gesto urgentede desafiar a narrativa do colectivo histórico colocando-a emtensão com um individualismo histórico. O locus de invençãodos romances de JPBC se reflete no acto de esculpir a realidadehistórica de um país com as suas águas subterrâneas, com asvidas e trajectórias daqueles indivíduos, que deixaram sombras,
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008134ecos, transições, humanamente, escritas na paisagem dos cicloscolonial e pós-colonial de Moçambique. No entanto, tal locusvai além, pois, no entender de João Paulo Borges Coelho, “sãomotivações universais” já que – transcrevendo sua fala – elereitera:não estou aqui a fazer um esforço, para fazer uma literaturaque – como alguns colegas – represente Moçambique, a nossaliteratura, a literatura do nosso povo, não é nada disso, é muitomais desdramatizada, é a minha literatura privada. (KHAN,2007, p. 2)No fundo, o escritor quer fazer uma literatura que venharecuperar a presença, os cheiros, os hábitos das pessoas que sa-íram, que foram arrancadas, que fugiram, e/ou foram expulsas.Tenta engravidar estes “presentes” com uma forma narrativa queJosé Júnior nomeia de “narrativa visual e auditiva das sombrase ecos que se sucedem” (SOUSA JÚNIOR, 2000, p. 31), porque,indubitavelmente, os universos humanos presentes e ausentes“deixaram cheiros e sombras lá dentro” (KHAN, 2007, p. 3),entenda-se, dentro do paradigma oficial histórico moçambicano.Neste patamar meta-narrativo, as diegeses de JPBC discutem edesafiam o monopólio do Poder, impondo-lhe a vontade legiti-madora de um sujeito protagonista de uma outra história. Destemodo, os universos narrativos em As visitas do Dr.Valdez (2004),Crónica da Rua 513.2 (2006) e Campo de trânsito (2007) organizam-se em torno de uma atitude de igualdade e de justiça humanaface à premência de lançar âncoras em uma História dos “calados”,nomeando-se as margens, os silêncios, as fragilidades de todosaqueles que testemunharam os ciclos, as transições, as mudançasdesta nação em construção que é Moçambique.No decorrer da nossa entrevista, JPBC observou que amemória social e colectiva entrelaça-se a um processo deestruturação de uma identidade nacional, mas tem, também,outra vertente que é a da legitimação do seu poder, sendodetentora da narrativa, de uma espécie de meta-narrativa daHistória, que é a luta pela libertação, ela legitima o seu poder,e isso passa por um arrancar de todo o passado […] de demo-nizar todo um passado colonial. (KHAN, 2007, p. 3-4)Esta acção de demonizar o passado colonial, é toda elaprotagonizada por personagens que fertilizam a memória so-cial com a sua experiência individual, com as suas percepções einterpretações mais subjectivas do mundo social circundante eem transição. De facto, a transição, quer política, social, econó-mica, cultural, quer humana, nas diegeses de JPBC, assume-secomo um elo de contrastes, de sinais que projectam, claramente,a posição epistemológica deste escritor, precisamente no quediz respeito à denúncia de uma tentativa política de estabeleceruma ruptura cronológica, social, mental e política entre os tem-
    • Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismo moçambicano nos romances de João Paulo Borges CoelhoNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008 135pos colonial e pós-colonial. Tais cortes resultam de estratégiaspolíticas que, no entender do ficcionista, faz do entendimentodo presente algo vulnerável, propondo como que uma visãomíope do mosaico histórico moçambicano, nas suas perspectivasdiacrónica e sincrónica. Isto se dá porque, segundo João PauloBorges Coelho, o prefixo pós – ou, por outras palavras, a rupturacom o tempo colonial – relega para segundo plano momentosimprescindíveis para se documentar, de um modo justo e perti-nente, a narrativa histórica da nação moçambicana, já que, nesserasurar, se perde o conteúdo verdadeiro e essencial da memóriasocial, especialmente na geração moçambicana mais jovem.Esta, como se sabe, não viveu a experiência directa e imediatada guerra colonial e, portanto, para ela não faz sentido falar-sede um pós-, mas de um constructo histórico em evolução. Naspalavras do escritor, surge clara a intersecção entre a memóriasocial e o apagamento ou esquecimento, estratégico e político,desse outro tempo colonial, que é premente não esquecer, apagarou sonegar, mas, bem pelo contrário, respirar. Diz ele:Para mim, é chocante a ruptura que a independência operou,é um bocado chocante esta postura da tábua rasa. Há aqui umprocesso que é perverso, e eu não culpo, não se trata de culpara FRELIMO nisso, trata-se de tentar entender, porque a questãoda memória interessa-me do ponto de vista literário, enquantoprodutor, do ponto de vista histórico, enquanto historiador.(KHAN, 2007, p. 3)Nos romances de João Paulo Borges Coelho, existe umapreocupação visível e precisa em desconstruir a memória co-lectiva e social, proposta pelo Poder como uma meta-narrativada História, partindo de um princípio ético de que outras me-mórias existem, e que fazem parte de um cotidiano presentedo país. Contudo, ao discutir sobre esta questão polémica danão-memória social relativa a determinados ciclos, ou contextoshistóricos, JPBC é acutilante ao demonstrar os riscos, os perigos, eos “pontos cegos” (MEDEIROS, 2007) da paisagística mnemónicasocial da nova geração, e de todos aqueles indivíduos que nãotiveram a experiência imediata ou directa da luta de libertação,realçando que:Portanto, aqui não há cinzentos, isto é tudo um elo de contras-tes, o passado colonial não existe, existe nas zonas libertadas,que a FRELIMO traz para dentro. Agora, se nós olharmos deuma outra perspectiva, oitenta por cento ou mais da populaçãomoçambicana, em 75, não tinha experiência direta da guerra,a guerra estava confinada às zonas do norte. Há aqui oitentapor cento de moçambicanos que ficaram sem passado, porqueo passado não existe. […] grande parte dos meus alunos já nãotem experiência colonial, e pior do que isso, não tem experi-ência e não tem memória social, no sentido não da memóriadirecta, mas da memória colectiva. (KHAN, 2007, p. 4)
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008136Ao alertarem o leitor para este mar morto de memórias quese apagam, ou que política e estrategicamente são silenciadas,os universos narrativos de JPBC reencaminham a leitura paraum espaço aberto, no qual emoções, sentimentos, introspecçõesdos personagens servem como ponte para realizar aquilo queo escritor tão esmeradamente descreve em Crónica da Rua 513.2:“essa louca ponte entre mundos diferentes, entre passado epresente, entre intenção e acção, entre sonho e padecimento até– uma forma sagaz de nos levar a desnudar o verdadeiro sentidodas coisas […]” (COELHO, 2006, p. 15). Passemos, então, a esse“desnudar”, esse “respirar” do sentido não somente das “coisas”,mas do dicionário das narrativas, dos rostos e das manifestaçõesdo pós-colonialismo moçambicano nos romances de João PauloBorges Coelho.2. Uma narrativa de memórias e reminiscências – Diálogocom As visitas do Dr. ValdezDiz Nélida Pinõn que sem as narrativas, ainda que estassejam romanceadas ou ficcionalizadas, “talvez, não soubésse-mos contar a nossa própria história” (apud VASCONCELOS,2005, p. 16-18). Ao mergulharmos no romance As visitas do DrValdez vem à pele da nossa leitura e dos nossos sentidos todauma arquitectura cujos pilares se reforçam por uma procurade subjectividades, de vozes próprias e mesmo de um indivi-dualismo que não abdica do histórico, pois os contextos sociais,culturais e políticos não têm como ser arrancados da diegese.Neste trajecto literário proposto por João Paulo Borges Coelho,visualiza-se aquilo que ele bem sublinhou, e já aqui citado, ouseja, a necessidade urgente de se criar um espaço aberto para arealização de uma modernidade do Homem africano que aindaestá por se fazer. Uma modernidade que esteja disposta a “falarde presentes, de condições, e de indivíduos” (KHAN, 2007, p. 1),e que não afogue estas narrativas subjectivas num todo colectivohistórico e meta-narrativo. Esta reflexão de JPBC aproxima-sede uma outra semelhante proposta pelo historiador José Sobral,quando este último alerta para a gritante existência de umahegemonia da memória oficial sobre a memória não oficial, jáque esta não se alicerça em qualquer tipo de testemunho escrito,estruturando-se tão somente na oralidade partilhada e transmi-tida entre gerações. Segundo o historiador, o silêncio da História“tradicional”, isto é, da História “calada”3expressa-seexclusivamente ou quase pela via oral e, na ausência de registoimperecível, as suas recordações [isto é, as dos indivíduos] aca-bam por se desvanecer.4[…] o passado de muitos transforma-se em números, importantes, sem dúvida, mas sem as ideiasou sentimentos que o povoaram quando ainda era presente.(SOBRAL, 2007, p. 2)3Esta expressão foi ins-pirada num poema deAntónio Ramos Rosaque, no meu entender,merece ser, aqui, par-cialmente, citado, istopela empática relaçãoque este poema estabe-lece com os romancesde JPBC, que são tam-bém eles narrativas dosrostos e manifestaçõesdos homens e mulheres‘calados’ na Histórica deMoçambique, mas, quenem por isso deixaramde ter a sua marca, a suapresença, ainda que dis-creta, na vida da naçãomoçambicana:“A pátria é a fantasiade pura verdade/Ela não existe é a cons-ciência viva/e se tem um corpoé um corpo que selevanta/como um volume sobrea sua vontade de cons-truir o mundo/Quem a constrói sãoos que estão calados[sublinhado meu]/ou que só dizem aspalavras essenciais/São eles os constru-tores da consciêncialivre/e do claro espaçoda pátria soberana”(ROSA, 2001, p. 15).4Veja-se sobre este apa-gamento da memória,ou, a insuficiência dela,o brilhante ensaio deIrene Pimentel, sob otítulo “A memória pú-blica da ditadura e darepressão’ (PIMENTEL,2007, p. 3).
    • Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismo moçambicano nos romances de João Paulo Borges CoelhoNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008 137Em As visitas do Dr. Valdez, João Paulo Borges Coelho par-tilha com o leitor a vida de três personagens, Sá Caetana – ASenhora Grande –; Sá Amélia – Maméia – e Vicente, o criadodestas duas irmãs, deslocando-se dos seus centros vivenciais – aIlha do Ibo e o Mucojo – para retomarem as suas trajectórias nacidade da Beira, porque os tempos são, agora, outros. Temposde transição, de uma futura pátria moçambicana que pugnapara se libertar do colonialismo português. É curioso que, aolongo da entrevista realizada, JPBC tenha salientado que esteseu romance foi um modo de “respirar” e “tentar lidar com essatransição”, de modo a demonstrar que “que se carregava muitodo que vem detrás” (KHAN, 2007, p.4). Este romance fala, issosim, das memórias, introspecções, trajectórias de vida, de nar-rativas de personagens que têm como base vidas verdadeiras eque desestabilizam o repertório de um colectivo mostrado comopassivo e estacionário.O percurso diegético do romance apresenta-nos duaspersonagens ancoradas a um passado colonial – Sá Caetana eSá Amélia – que vêem perfilar-se à sua frente uma nova línguasobre o mundo da vida. Sá Caetana, de personalidade forte eautoritária, ergue, no desconhecido universo da cidade da Beira,uma luta silenciosa contra este presente onde já não existe “omundo velho” (COELHO, 2004, p. 204), no qual as “hierarquiasvelhas de muitos anos, que pareciam de pedra e cal” (COELHO,2004, p. 70), não “passavam afinal de pequenos acasos transitó-rios dentro dos quais não cabia o menor vislumbre de lealdadeou reconhecimento” (COELHO, 2004, p. 70). Sá Caetana dedicaos seus dias a cuidar da saúde frágil de sua irmã, Sá Amélia,cuja existência inexistente é vivida num sobressalto constante equotidiano de reminiscências do que, em outrora distante, foi umpassado guarnecido de memórias lúcidas e palpáveis. Sá Améliaé já uma habitante de um mundo interior em que os tempos seconfundem e se esbatem simultaneamente. Facto curioso é que adiegese mostra ao leitor a natureza ambivalente da jovialidade eternura do jovem criado Vicente. Se, por um lado, a jovialidade deVicente desafia o “mundo velho” destas duas senhoras, por outro,é através da sua rebeldia que o jovem criado apóia Sá Caetana,na intenção que ambos têm de trazer do passado o falecido Dr.Valdez, pois ambos acreditam que Sá Amélia recuperará algumada sua tranquilidade, porque o passado, explica-nos o narradoromnisciente, “apresenta sempre essa vantagem sobre o presente.Por mais exíguo e infeliz, podemos sempre aclará-lo com a auraque quisermos. E esse desejo é tanto mais intenso quanto piorfor o presente em que vivemos” (COELHO, 2004, p. 33).Numa procura de vestir a pele desta presença humana,Vicente vai reavivando um tempo humano, emocional e sub-jectivo já pretérito, através da reconstrução física e psicológicadeste mesmo Valdez, ser que volta do antigamente.
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008138Outrora médico de Sá Amélia, Valdez permite aos trêspersonagens uma viagem, cujo itinerário será realizado comoo folhear de um álbum de família. Emerge, deste retorno aomundo das memórias, um baú repleto de emoções, sentimentos,dúvidas, perguntas em busca de explicações que o tempo ido dosantigos vivos não pôde responder. Apesar do esforço de Vicente,Sá Amélia apercebe-se que já não possui um chão dentro e forade si, ao intuir que, afinal, Vicente e o Dr. Valdez são a mesmapessoa. Placidamente, reconhece que a narração de si se esgotou,pois calam-se nela as vozes que a guiaram ao longo da sua vida:por um lado, a do corpo físico na sua relação com o mundo dosobjectos e, por outro, a dos sentimentos – testemunhos mnemó-nicos das suas lembranças. No final da narrativa, dois destinos sedão a conhecer. Porquê dois destinos? Sá Amélia morre. Vicenteacolhe na sua trajectória feita de experiências passadas e presen-tes esse novo mundo, que Sá Caetana rejeita, ao optar por tomar“conta do passado” (COELHO, 2004, p. 98), desse passado que aimpele a resistir até ao fim. O seu mundo, “esse grande mundoprotector” (COELHO, 2004, p. 43), desabou e, no lugar daquele,instalou-se um outro “mais pequeno, feito de fragmentos malligados, de pequenos sentidos separados entre si por um grandevazio” (COELHO, 2004, p. 43-44). Para Sá Caetana, o confrontocom o seu processo de desterritorialização cultural, identitáriae física torna-se inevitável, porque diz ela: “pertencemos aomundo velho, não temos o vigor do novo” (COELHO, 2004, p.204). Desta opção de resguardar este “mundo velho” nasce oprojecto da partida, porque, assim, pode proteger-se do esque-cimento de si. Sá Caetana parte para Portugal, um lugar quea voz do futuro lhe adverte ser vivencialmente estranho, pois,no fim, questiona-se: “será que há cardamomo em Portugal?”(COELHO, 2004, p. 213).3. Toponímia de uma memóriasilenciosa – Crónica da Rua 513.2Crónica da Rua 513.2 de João Paulo Borges Coelho, ofereceao leitor uma escrita analítica, íntima e profundamente conhe-cedora dos meandros subjectivos de um novo mapeamentosocial, cultural, económico e político que emerge no Moçam-bique pós-independência. Dessa realidade transportada para aescrita, resulta uma representação literária debruçada sobre aexperiência daqueles homens e mulheres que testemunharama cartografia quer objectiva, quer subjectiva deste novo projectode construção da nova sociedade moçambicana pós-colonial. Naentrevista, o escritor revela seu pertencimento a esta realidadepor ele ficcionada:Aquela história [refere-se à rua que serve de toponímia dasua narrativa] nasceu na minha rua. É o meu lugar, eles eramos meus vizinhos, muitos deles são vizinhos inventados, mas
    • Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismo moçambicano nos romances de João Paulo Borges CoelhoNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008 139não deixam de ser meus vizinhos, também, não é? Há vizi-nhos reais, pronto, que deram […] foram o ponto de partidapara vizinhos recriados, inventados. E, portanto, aqueles...era tudo a minha gente, gente do outro lado da rua, ou que euvia, ou que eu imaginava. Portanto, aquilo corresponde a umciclo que é um pouco o ciclo do socialismo […], e as pessoasviveram aquele ciclo, depois saíram, saíram quando as coisascomeçaram a mudar […], elas deixaram cheiros e sombras […].(KHAN, 2007, p. 2-3)Os ciclos de que fala a Crónica de JPBC confirma, de umacerta maneira, a reflexão que o escritor tanto quis propor ereivindicar, através, da sua invenção literária, que passa, comoasseverou, “por uma discussão profunda do papel do indivíduoafricano” (KHAN, 2007, p. 1). Desta discussão, ou do mergulhonas subjectividades dos que “deixaram cheiros e sombras” surgeum compósito narrativo, no qual exercita-se, com um ímpar co-nhecimento, a narrativa histórica e cotidiana de uma rua, de umatoponímia dialogante entre um passado colonial e um presentemoçambicanizando-se na sua independência. Esta Rua 513.2 é amorada conturbada, confusa, enfim, o universo dos personagensque se cruzam no tempo, no espaço: uns oriundos dos mundosda diferença racial, social e cultural, que o regime colonialportuguês semeou nos tempos de uma vicejante imaginaçãoimperial, ancorada à “cultura dos lugares certos” (COELHO,2006, p. 327) – o Inspector Monteiro, o Doutor Pestana, a DonaAurora –, e outros, que, abraçando-se à euforia desta nova e jo-vem liberdade, renunciam à antiga linguagem da discriminaçãoe da anulação do Outro, ao exigir desta nova ordem vivencial aigualdade entre todos – Filimone Tembe, secretário do PartidoFrelimo e sua mulher Elisa, os Ferrazes, os Mbeves, os Nhan-tumbos, os Nhanrreluga. A Rua 513.2 é, também, a narrativa damemória do quotidiano, das angústias, das frustrações, o lugardo não-dito, a voz docontraponto à memória oficial […] que traz à superfície ou-tras recordações, diferentes ou mesmo contraditórias com amemória pública […] [ que] complementa e completa as fontesescritas, quando traz o vivido dos actores sociais à represen-tação do passado. (SOBRAL, 2007, p. 1-2)No fundo, este romance serve como registo sociológico,antropológico e psicológico, para se entender como foi sentida,por muitos, quer portugueses, quer moçambicanos, a determi-nação de um povo em ser livre, pois “uns perdiam-se de raivanesses tempos conturbados, como o Inspector Monteiro e osseus sequazes; a outros – de facto a quase todos – foi a alegria daliberdade que os motivou […]” (SOBRAL, 2007, p. 123). Relembre-se, ao longo desta Crónica, as quezílias entre passado-coloniale o presente-independente, nas figuras do antigo Inspector daPide, o Monteiro, e Filimone Tembe, secretário do Partido da
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008140FRELIMO. João Paulo Borges Coelho, esculpe, minuciosamente,uma escrita omnipresente, ao desnudar esta ponte diacrónica -que muitos pretendem esquecer – com o intuito de “desnudar overdadeiro sentido” (COELHO, 2006, p. 160) da história subjec-tiva de cada moçambicano e moçambicana, pois “os tempos quecorrem também não ajudam, cada vez mais a revolução tirandoespaço às alegrias de cada um para poder espraiar uma alegriasó, imensa e colectiva” (COELHO, 2006, p. 145). De facto, ao ca-minhar em paralelo com a trajectória de vida e de identidadede cada personagem, o escritor-historiador prolonga a texturada narrativa, dirigindo-nos para conteúdos constituídos não sóde relevantes observações etnográficas, mas, simultaneamente,de atentos momentos de reflexão sobre o que foi a utopia daRevolução Moçambicana. Enfim, ao compor a sua escrita, comtecidos de universos humanos tão próximos de uma visualiza-ção histórica – “a narrativa visual e auditiva das sombras” deque nos fala José Júnior (2000, p. 31) –, e palpável dos tempos dopós-independência, o autor consegue recriar, exumar, e “respirar”o silêncio vegetal a que foi votada esta nação em busca de uma“enganadora luminosidade” (SOUSA JÚNIOR, p. 230). Lumino-sidade que, novamente, é desconstruída, desafiada e cicatrizadano novo e mais recente romance de João Paulo Borges Coelho,Campo de trânsito (2007).4. Cicatrizes, ruínas e exíliosem tempos de transição – Campo de trânsitoCampo de trânsito representa, no meu entender, o romancemais árido de JPBC, pois nele se retece uma personalidade li-terariamente kafkiana. Assim, permanece, neste novo projectonarrativo, um sabor amargo a cicatrizes, ruínas, desterros eexílios, quer territorial, quer identitariamente. No final da nossaconversa-entrevista questiono João Paulo Borges Coelho:Vamos dar um salto para o ‘Campo de Trânsito’. Sinto queestou na presença de um sonho não cumprido, […], porqueo ‘Campo de Trânsito’ parece-me o Niassa, um campo dere-educação, o pós-independência?Quer dizer, havia, por umlado, a necessidade de uma submissão colectiva, mas também,havia uma ignorância em se estar a perceber o que é que sepassa, que aparece logo nas primeiras falas do teu personagemMungau.5A resposta de JPBC é visivelmente lúcida quanto à suavontade de imparcialidade política e ideológica, ao referir quenão me interessa estabelecer um diálogo de base política, ouacusando o poder […]. Eu quero, talvez, numa posição filosó-fica, ver ‘o que é que nós criámos aqui dentro?’; ‘o que é quenós pensávamos fazer?’, ‘o que é que nós fizemos?’ (KHAN,2007, p. 6)5Transcrição das pala-vras da autora do pre-sente artigo (KAHN,2007, p. 6).
    • Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismo moçambicano nos romances de João Paulo Borges CoelhoNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008 141Estas são, na realidade, respostas que Mungau, personagemprincipal do romance, procura subjectivamente responder, aolongo da diegese, questionando-se da sua captura em sua casa,do porquê desse rapto e dessa forçada desterritorialização doseu espaço citadino, ao formular para si próprio, no decursodas primeiras páginas, a seguinte interrogação: “De que seráque me acusam?” (2007, p. 14). Repetidamente, a mesma questãoemerge nas páginas 15, 18,19 e 20 do romance. O lugar para oqual o personagem é transportado, no entender de JPBC, “é oNiassa e não é o Niassa, são os campos de reeducação. Porque,no fundo, é uma questão que eu volto a dizer que não planiei,mas é esta questão do indivíduo – como é que uma pessoa seafirma individualmente?” (KAHN, 2007, p. 6).Campo de trânsito, desse modo, ficcionaliza o mundo e aexperiência de um campo de reeducação, metonímia de umanação a construir-se numa bifurcação perigosa e nebulosa paraos seus cidadãos. Por um lado, encontramos, atravessando todoo texto, um desejo visceral de defesa da modernidade colectiva,representada por um proselitismo de prisioneiros, guardas e doDirector do campo, para os quais a colectividade é uma fron-teira humana, ideológica e política, face a todo e qualquer actode singularidade ou, por outras palavras, de subjectividade quealmeje “hostilizar” o espaço sufocante e inóspito do “campo detrânsito”. Este ensejo de modernidade colectiva é, simultaneamen-te, escutada na pele e voz do Professor e do seu prosélito – vulgoprisioneiro 13.2 - deste campo de reeducação. Na realidade, aomenosprezar a posição filosófica do prisioneiro Mungau, segun-do o qual “a colectividade é um corpo só, um corpo que resultada união de várias singularidades” (KAHN, 2007, p. 75, grifos nos-sos), quer o Professor, quer o prisioneiro vulgo 13.2 estruturama leitura deste mundo fechado em si, do seguinte modo:Segue-se uma expulsão de gargalhadas. “A singularidade éuma categoria forçosamente limitada”, diz 13.2. “Portanto, umaunião simples de singularidades só poderia resultar numasingularidade que, embora maior, continuaria a ser tambémela limitada. Na definição do colega falta um aspecto fundamental,que é o da transformação. Uma colectividade é, isso sim, uma uniãode singularidades transformadas!”.“Muito bem, 13.2. Transformadas! Boa definição de colectivida-de”, diz o Professor. “O grave erro em que muitos incorrem é o demanter invariável a singularidade, o de adicionar palavras que nãotêm um denominador comum”.Dizendo isto, o Professor estica um pauzinho de giz de cadamão, para concluir: “Está errado, nada há em comum entreo dedo de uma mão e o dedo da outra!”. Depois, estica doispauzinhos de giz da mesma mão e grita: “Só assim está certo,só assim temos uma colectividade! Dedos da mesma mão, sin-
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008142gularidades tornadas iguais e erguidas a uma só voz!”. (COELHO,2007, p. 76, grifos nossos)6Por outro lado, ganha corpo a luta entre dois paradigmasontológicos, no qual se espraiam, como inimigos, duas partes.Uma, definida por uma modernidade em que o passado datradição, da África dos antepassados é relegada para segundoplano e para a qual a construção do presente deve ser encaradade acordo com as necessidades de um projecto meta-político,que é premente criar, como assevera o Professor deste campo dereeducação, “singularidades tornadas iguais e erguidas a umasó voz!” (COELHO, 2007, p. 76). Uma outra parte, sua adversária,para a qual o cumprimento da identidade cultural e nacionaldeve voltar-se para a revitalização da tradição, a valorização erespeito incontestáveis do passado, do antigamente, veneradospela personagem do Chefe da Aldeia – coordenador de um ou-tro campo de reeducação, o “campo antigo” –, segundo o qual aessência de África, ou, por outras palavras, da sua África sub-jectiva e existencial passa por um “descascar” do “grande frutoque habitamos, avançando camada a camada, pele a pele, como fito de chegar ao grande caroço interior, a explicação de todasas coisas” (COELHO, 2007, p. 96). Na sua obstinada vontade deexumar o passado ancião dos grandes chefes, este personagem,o mais madala – que significa o mais velho –, ergue-se contra amodernidade colectiva proposta pelo Director do “campo de trânsi-to” e, desse modo, aponta toda a sua vigorosa fé para uma buscadesenfreada da arqueologia do saber africano, em contrapontoà qual as lembranças dos prisioneiros torna-se malévola, inútil.Atentemos à sua peroração sobre a tradição e memória:“Tens de aprender a distinguir lembrança de tradição, Pri-sioneiro”, diz. “Ambas dependem da memória mas são in-teiramente diferentes. Enquanto a lembrança é um exercícioindividual e rebelde, fútil e pouco produtivo, a tradição éfruto da ordem. Estes prisioneiros chegaram aqui com as suasprivadas e desprezíveis lembranças. Acusavam as autoridadesde acontecimentos antigos, acontecimentos dispersos quehoje não fazem qualquer sentido. Aos poucos, contudo, vãochegando à tradição, a este sentido supremo que é sabermostodos de onde vimos, esta certeza de virmos todos do mesmolugar. E sobretudo, esta vontade de fazermos hoje como foifeito antigamente”. (COELHO, 2007, p. 102)7Contudo, é este sentido supremo de que nos fala, veemen-temente, o Chefe da Aldeia do antigo campo de reeducação, queconduz a uma posição crítica de JPBC, relativamente à urgênciade uma denúncia à constante necessidade de se procurarem asorigens, de pesquisar-se e transformar-se o continente africanonuma África-museu, soterrada em ligações genealógicas. Estegesto de denunciar, quer a modernidade colectiva, quer a sub-missão cega à tradição, vem à superfície da diegese, quando6Veja-se página 140,onde se descreve a ne-cessidade de sacrificara singularidade pela co-lectividade: “O Director[o director do campo dereeducação] sorri amar-gamente. ‘Infelizmentenão podíamos fazê-lo semfragilizar a nossa própriaposição, 15.6. Como osaberíamos? Como devecompreender, por vezes éinevitável sacrificar a sin-gularidade para protegera colectividade’” (COE-LHO, 2007, p. 140).7Confronte-se, aindaneste sentido, a página103.
    • Narrativas, rostos e manifestações do pós-colonialismo moçambicano nos romances de João Paulo Borges CoelhoNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008 143Mungau, protagonista deste romance, observa que, em nenhumdos dois campos, o colectivo é estruturado ou pensado em fun-ção de uma humanidade mais justa e equitativa, pois assevera,no seu solilóquio, que: o tão almejado colectivo não passa afinalde um somatório, já não de singularidades mas de fragmentosdessas mesmas singularidades […]. murmura com ironia. ‘Diriamesmo, decepadas [...]’ (COELHO, 2007, p. 203).No fundo, retornamos às questões postas por João PauloBorges Coelho, e que volto a reiterar: “o que é que nós criámosaqui dentro?; o que é que nós pensávamos fazer?; o que é quenós fizemos?” (COELHO, 2007, p. 6), às quais Mungau respondeficcionalmente, ao murmurar “singularidades … decepadas”(COELHO, 2007, p. 203).5. Conclusão: Os romances deJoão Paulo Borges Coelho – “Ética, e cidadania”8A respiração da paisagem, dos cheiros, das sombras, dos ci-clos e dos personagens nos romances de JPBC deixam resquíciosde um ensejo de caminhar, incansavelmente, para dentro desteprojecto proposto pelo escritor, através do qual ergue-se soberanauma voz própria que procura escutar o outro-semelhante, nãosomente encurralado por uma arquitectura meta-histórica, e on-tológica, mas, pelo contrário, por uma vontade sã em devolver aoindividualismo de cada um a oportunidade de fazer com este ahistória dos “calados”, em que o verbo contemporizar seja sempreconjugado, porque, como confessa João Paulo Borges Coelho, “háque acreditar nos outros, como te dizia, é uma questão ética, éuma questão de cidadania” (COELHO, 2007, p. 7).8Kahn (2007, p. 7).AbstractPostcolonialism of Portuguese expression andlanguage has been approached as an hegemonicelement in the thoughts and ideas between thevarious former Portuguese colonies in Africa.However, we must be careful, when thinkingabout the post-colonial condition in an epistemo-logical way, to equate, in a contextualized way,the cultural loci, the idiosyncratic aspects, andthe historical and social conditions of the objectof study. I intend to defy previous hegemony withthis present work, proposing instead that there is,undoubtedly, a Mozambican post-colonialism,even if it is expressed in the Portuguese language.My attempt to break boundaries, to compile andanalyse narratives, memories and manifestationsof negotiating a Mozambican post-coloniality canbe captured through the Mozambican author João
    • Gragoatá Sheila KahnNiterói, n. 24, p. 131-144, 1. sem. 2008144ReferênciasCOELHO, João Paulo Borges. As visitas do Dr Valdez. Lisboa:Caminho, 2004.. Campo de trânsito. Lisboa: Caminho, 2007.. Crónica da Rua 513.2. Lisboa: Caminho, 2006.DANTAS, Marta Pragana. O que pode a sociologia da literatu-ra pela literatura?: Ou da separação entre as análises interna eexterna. Revista Electrónica de Ciências Sociais, João Pessoa, n. 2,p. 1-11, nov. 2000.KHAN, Sheila. Entrevista com João Paulo Borges Coelho. Sines,Portugal, 19 jul. 2007.MEDEIROS, Paulo de. Apontamentos para conceptualizar umaEuropa pós-colonial. In: SANCHES, Manuela Ribeiro (Org.). Por-tugal não é um país pequeno. Lisboa: Cotovia, 2006. p. 339-356.PIMENTEL, Irene. A memória pública da ditadura e da repres-são. Le Monde Diplomatique, Lisboa, n. 4, II série, p. 3, fev. 2007.ROSA, António Ramos. Pátria soberana seguido de Nova ficção. VilaNova de Famalicão: Quasi, 2001.SOBRAL, José. Os sem-História: memória social, histórica e ci-dadania. Le Monde Diplomatique, Lisboa, n. 4, II série, p.1-2, fev.2007.SOUSA JÚNIOR, José Luiz F. de. O narrador, a literatura, e aHistória: questões críticas. In: BOËCHAT, Maria Cecília Bru-zzi; OLIVEIRA, Paulo Motta; OLIVEIRA, Silvana Pessoa (Org.).Romance histórico: recorrências e transformações. Belo Horizonte:FALE/UFMG, 2000. p. 27-44.VASCONCELOS, José Carlos de. Nélida Piñon: a paixão doromance. Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, ano 25, n. 915, p.16-18, out./ nov. 2005.Paulo Borges Coelho, namely through the novelsAs visitas do Dr Valdez, Crónica da Rua513.2, and, more recently, Campo de trânsito.Departing from a contextualised reading andanalysis, it thus remains for us to reflect on howand what fissures, margins, memories and faceshave emerged from a Mozambique that searchesfor its nation, dreamt up and longed-for by thepoet José Craveirinha.Keywords: Memory. Narrative. Postcolonialis-ms. History and fiction.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008O papel das línguas africanasna formação do português brasileiro:(mais) pistas para uma novaagenda de pesquisaCharlotte GalvesRecebido 10 mar. 2008 / Aprovado 27 abr. 2008ResumoEste artigo levanta a questão do papel das línguasafricanas na formação do português brasileiro.Mostra como trabalhos recentes sobre o portu-guês falado, na África, como segunda língua, ea comparação de várias das suas característicasmorfossintáticas, com a sintaxe das línguas ban-tu, sustentam empiricamente a tese da influênciadestas sobre o desenvolvimento do português doBrasil, uma vez que ele apresenta estas mesmascaracterísticas. Argumenta que estas análisesfornecem pistas para estudar o desenvolvimentohistórico do português na África e no Brasil,usando textos escritos nessa língua por africanos.Enfim, traz alguns argumentos contra a hipóteseda deriva.Palavras-chave: Formação do português bra-sileiro. Português africano. Contato lingüístico.Deriva lingüística. Línguas crioulas
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008146Este artigo não pretende trazer uma contribuição originalà questão do papel das línguas africanas na formação do portu-guês brasileiro. O que pretende fazer é sugerir pistas para umanova agenda de pesquisa, a partir de trabalhos recentes e dareleitura de textos mais antigos sobre o assunto, trazendo aindaa notícia de novos corpora.A proposta central deste trabalho é, seguindo um caminhojá apontado por Petter (no prelo), dar à descrição e análise daconstituição do português africano, em Moçambique e Angola,um papel central na discussão. Com efeito, dada a semelhançaentre si por um lado, e com o português brasileiro por outro lado,as variedades angolanas e moçambicanas podem nos ensinarmuito sobre como e porquê as línguas africanas interferiram naevolução do português no Brasil.A Seção I, intitulada “O ponto de partida”, propõe elemen-tos de releitura do debate de mais de um século sobre a questão.Na Seção II, “Novos caminhos e novas buscas”, a discussão dosefeitos do contato entre as línguas africanas e o português seorganiza em torno das sub-seções II.1 “O português na África”,II.2 “A fala dos africanos na história do Brasil” e II.3 “Uma escritaem português na história da África”. A seção II.4 argumentacontra a hipótese da deriva. Uma sessão final sintetiza as con-clusões do trabalho.I. O ponto de partidaDesde o séc. 19, a reflexão sobre o papel das línguas africa-nas na formação do português brasileiro vem girando em tornode dois pólos de atração que, conforme os autores, são conside-rados como mutuamente exclusivos ou não. Um desses pólosé a noção de crioulização, que atribui um papel determinanteao contato com as línguas com as quais o português esteve emcontato no Brasil, predominantemente as africanas. O outro é anoção de deriva lingüística, que minimiza o efeito do contato,e insiste sobre tendências evolutivas já presentes na língua. Emúltima instância, o debate gira em torno da dicotomia ruptura/continuação em relação ao estágio anterior da língua.Adolpho Coelho pode ser considerado como o marcoinicial dessa reflexão (cf. BAXTER; LUCCHESI, 1997). O nomedele é freqüentemente associado à aproximação do portuguêsbrasileiro (doravante PB) às línguas crioulas, porque o inclui noestudo de crioulos do português e de outras línguas românicas.Como enfatizado por Tarallo (1993) isso não redunda, no seuraciocínio, numa chave única de explicação para a evolução doportuguês no Brasil. Vejamos.A partir da distinção entre evolução de base fisiológica, eevolução de base psicológica, Adolpho Coelho nega a existênciade uma influência direta da língua anteriormente falada sobrea língua adquirida:
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 147A transformação da linguagem em virtude da alteração fonéti-ca é um fenômeno de base fisiológica, a formação dos dialectoscrioulos é no que tem de essencial um fenômeno psicológico.Formam-se eles rapidamente, para acudir à necessidade dasrelações [...]. (COELHO, 1967, p. 104)Também afirma que: “os dialetos românicos e crioulos,indo-português e todas as formações semelhantes representamo primeiro ou primeiros estádios na aquisição de uma línguaestrangeira por um povo que fala ou falou outra” (COELHO,1967, p. 102). E continua:Os factos acumulados por nós mostram à evidência que oscaracteres essenciais desses dialectos são por toda a parte osmesmos, apesar das diferenças de raça, de clima, das distân-cias geográficas e ainda dos tempos. É em vão que se buscará,por exemplo, no indo-português uma influência qualquer dotamul ou do cingalês. (COELHO, 1967, p. 105-106)Isso vai levá-lo à idéia de que os crioulos seguem leis geraisno seu desenvolvimento, explicando assim que os fenômenosobservados nessas línguas não são isolados, mas se encontramtambém em dados de aquisição e em desenvolvimentos diale-tais na própria Europa – “A preferência dada nesses dialetosaos pronomes regimes, que vêm ocupar o lugar dos pronomessujeitos, encontra-se entre nós no falar das crianças e tem grandeextensão nas frases populares das nossas línguas européias”(COELHO, 1967, p. 107).Coelho tem também um olhar aberto sobre a situação doportuguês no Brasil, que não privilegia interpretações sobreoutras, mas abarca a complexidade das situações e das históriasque produzem uma variação, diga-se de passagem, possivel-mente mais fortemente perceptível no final do séc. 19 do queno início do 21.A linguagem brasileira, pelas condições de sua existência e de-senvolvimento, apresenta naturalmente uma tão grande sériede gradações desde a boca do culto até a do último matuto,que qualquer afirmação com respeito às interrogações que façoacima corre o risco de ser pelo menos em grande parte falsa.(COELHO, 1967, p. 162)Achamos, nos excertos acima, uma concepção que prefi-gura vários aspectos do pensamento moderno sobre o assunto,a saber:– A idéia de que o que caracteriza as línguas crioulas é “aação de leis psicológicas gerais” anuncia a teoria desenvolvidapor Bickerton,1que vê nos crioulos o efeito da gramática uni-versal.– Já que essas leis ‘psicológicas’ são gerais, elas transpare-cem em outras línguas e dialetos também. Desse ponto de vista,a diferença fundamental está no processo, não no produto. Essaconcepção permite articular, na reflexão, dois tipos de afirmações1Cf. por exemplo Bicker-ton (1981)
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008148que têm sido consideradas como antagônicas por outros autores:há, sim, ‘tendências crioulizantes’ no português do Brasil, mas oque elas produzem pode-se encontrar também em dialetos quenão passaram pelo mesmo processo.– A particularidade dos crioulos é que eles cristalizam oestágio inicial da aprendizagem da língua de um povo por outropovo. O motor essencial na formação dos crioulos é a transmis-são imperfeita. Essa afirmação traz em germe uma das idéiasessenciais das recentes teorias sobre a crioulização: resultado deuma aquisição imperfeita, ela não representa uma diferença denatureza, mas de grau, com outras situações de mudança, menos‘catastróficas’, provocadas pelo contato lingüístico.Como sói acontecer com os precursores, haverá uma longademora para que esses aspectos mais complexos e sutis do pen-samento de Coelho encontrem eco nos seus seguidores. De fato,o que chama a atenção, nas gerações seguintes de pensadores,é um engessamento das posições. O que será retomado do pen-samento de Coelho, de maneira dicotômica, e muito permeadade ideologia, será a questão da influência direta das línguasafricanas ou ameríndias (mas não tocaremos neste assunto aqui)na constituição do português brasileiro.Assim, é com bastante veemência que Silva Neto (1950) seinsurge contra os estudos que afirmam, sem base advinda “dacultura lingüística e românica”, a influência das línguas africanassobre o português do Brasil. E conclui:No português não há, positivamente, influência de línguasafricanas ou ameríndias. O que há é cicatrizes da tosca apren-dizagem que da língua portuguesa, por causa de sua míseracondição social, fizeram os negros e os índios. (SILVA NETO,1950, p. 97)Nas últimas décadas, os quadros teóricos evoluíram e setornaram mais explícitos, mas o debate continua polarizado.Alguns pesquisadores argumentam que há, na formação doportuguês popular brasileiro, um processo de crioulização, oude crioulização leve ou de semi-crioulização (cf. BAXTER; LUC-CHESI, 1997, e as referências aí citadas). Todos esses termos fazemreferência a um efeito, senão das línguas africanas, ao menos docontato lingüístico, sobre a estrutura da língua.Opõem-se a essa corrente os trabalhos de Anthony Naro eMarta Scherre, recentemente reunidos em Naro & Scherre (2007).Para eles o motor da mudança não é o contato, mas a própriaderiva da língua. A introdução do livro de 2007 apresenta assima sua hipótese central:O conteúdo deste livro tem uma linha mestra clara: apresentarevidências de que características morfossintáticas e fonológi-cas do português brasileiro, atualmente envoltas em estigmae preconceito social, são heranças românicas e portuguesasarcaicas e clássicas, e não modificações mais recentes advin-
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 149das das línguas africanas, que vieram para o Brasil com seuspovos escravizados e subjugados, ou das línguas dos povosameríndios, que aqui já se encontravam quando vieram oscolonizadores europeus. Tampouco são o resultado de pro-cessos de simplificação ou outras modificações espontâneascausadas pelo contato, durante o processo de transmissão nãotradicional da língua. (NARO; SCHERRE, 2007, p. 17)Em vários outros trechos do livro, encontramos fortementereiterada a rejeição das teses crioulistas e a afirmação da herançalusitana:O uso do termo ‘crioulização’ no Brasil é um equívoco, uma vezque não é possível haver associação do processo com qualquergrupo de substrato particular que pudesse ter influenciado deforma consistente a língua que estava em processo de evolu-ção... Ainda não conseguimos identificar nenhuma caracterís-tica do português do Brasil que não tenha um ancestral claroem Portugal. (NARO; SCHERRE, 2007, p. 67-68)Discutiremos mais em detalhe a proposta de Naro eScherre na Seção II.4. Note-se desde já que, contrariamente à deCoelho, a análise que eles apresentam é baseada no pressupos-to de incompatibilidade definitiva entre a existência de efeitoslingüísticos do contato e a presença de traços atribuíveis à de-riva própria à língua. Como ressaltamos acima, a reconciliaçãoentre esses dois efeitos só é possível num quadro que integra dealguma maneira a ação de processos universais de linguagem,seja qual for sua formulação exata. Esse ponto será crucial nodesenvolvimento de novas propostas, como veremos agora.II. Novos caminhos e novas buscasNa literatura das últimas décadas, as abordagens polari-zadas das análises apresentadas acima vêm deixando lugar ateorias que procuram integrar as diversas forças envolvidas noprocesso de mudança devido ao contato, e reconhece um conti-nuum entre os efeitos mais catastróficos – os pidgins e crioulos –e as conseqüências menos gritantes – a constituição de vertentesdiferenciadas das línguas. Nas palavras de Inverno,The broadening of pidgin and creole linguistics to contactlinguistics results form the general agreement today that theorigin and synchronic structure of pidgins and creoles canonly be fully understood from the perspective of a widertheory of language contact. (2005, p. 51)No Brasil encontramos a mesma tendência em considerarque o fenômeno crucial é a transmissão lingüística irregular (cf.LUCCHESI, 1999, 2003), que produz diferenças de grau mais doque natureza em função dos contextos sócio-culturais em quea aquisição se dá. Pagotto, retomando Tarallo, resume assim oponto em que nós estamos:
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008150No quadro atual dos estudos sobre a história do português doBrasil, em que a história social tem sido recolocada como umapreocupação central […] o papel do contato interlinguístico é defundamental importância, ainda que sobre ele só conheçamosevidências indiretas. (2007, p. 468)Dentro desse quadro conceitual mais amplo, convém agorareunir fatos, que permitam elaborar uma teoria empiricamentefundada da constituição do português brasileiro. Seguindo tri-lhas evocadas – com um certo mau humor – por Silva Neto (1950),e baseando-me em alguns trabalhos recentes que julgo teremgrande potencial explicativo, sugerirei agora algumas pistasde pesquisa que acredito capazes de produzir uma sustentaçãopara uma teoria dessas.1. O português na ÁfricaAs descrições do português falado em Angola e Moçambi-que (cf. CHAVAGNE 2005; INVERNO, 2005; GONÇALVES, 2004;LABAN, 1999) apontam todas para uma grande semelhança nasparticularidades morfossintáticas do português africano (dora-vante PA) e do PB. Isso inclui as propriedades listadas abaixo,todas presentes nos diversos dialetos do português brasileiro,embora com freqüências distintas para algumas delas:2• concordância nominal e verbal em número variável;• confusão nas formas de 2ae 3apessoa (seu/teu, te/você);• uso do pronome tônico em posição objeto;• colocação pré-verbal dos pronomes clíticos, inclusive emprimeira posição absoluta;• uso do pronome dativo ‘lhe’ em lugar do pronome acu-sativo ‘o’;• uso da preposição ‘em’ em lugar de ‘a’ para o lugar paraonde se vai;• mudança de regência de certos verbos (em particularperda das preposições);• uso de ‘dele’ em lugar de ‘seu’• posição pós-nominal do possessivo (sem efeito de foca-lização)Algumas outras características do PA foram documentadasno PB, mas aparecem muito mais restritas a certas regiões, e emcertos casos a comunidades isoladas de origem africana.3Nessacategoria, encontramos por exemplo:2Seria muito longo men-cionar todas as refe-rências dos trabalhoscorrespondentes sobreo PB, e injusto citar sóalguns. Só me referireiaos trabalhos relativosaos fenômenos maisespecificamente discu-tidos.3Esses fenômenos seencontram todos emHelvécia (cf. BAXTER;LUCCHESI, 1997, p. 78).Segundo os autores,trata-se de uma comu-nidade descendente deiorubás e geges, portan-to não bantus. Do pontode vista da hipótese dainterferência da línguamaterna sobre a língua2, a semelhança com afala dos locutores mo-çambicanos tem váriasexplicações possíveis:existência de “falaresafro-brasileiros de basebantu” (cf. PESSOA DECASTRO, 2008), ou in-fluência de processossimilares em outros ra-mos da macro-famílianiger-congo. Neste casode novo, se torna impe-rativo um estudo com-parativo das línguasenvolvidas.
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 151• ausência de concordância de gênero• forma invariável do verbo, inclusive na primeira pessoa• ausência de artigo definido• construções de duplo objeto4(como em “ela deu o irmãoo retrato” em lugar de “ela deu o retrato ao irmão”; “per-guntei o Pedro”, em lugar de “perguntei ao Pedro”)• ausência da conjunção ‘que’ nas orações subordinadas.A presença das línguas africanas em Angola e Moçambi-que, predominantemente da família bantu, é uma obviedade.Em Moçambique, segundo Gonçalves (2004, p. 230), somente3% da população fala português como língua materna, e 40%como segunda língua. Em Angola, Inverno (2005, p. 1) afirmaque o português é falado como língua materna por menos de20 % da população. Configura-se, portanto, nesses dois paísesuma situação de bilingüismo em que o português é língua se-gunda para a maioria dos falantes. A questão que se coloca ése os fenômenos do PA e do PB listados acima são resultadosda interferência das línguas africanas maternas dos falantes noprocesso de aquisição. Se a resposta for positiva para os falantesmoçambicanos e angolanos, teremos razões fortes para proporque o seja também para os falantes brasileiros.Trabalhando no quadro do modelo de Princípios e Parâ-metros da Teoria da Gramática Gerativa,5Gonçalves (2004) eGonçalves e Chimbutane (2004) propõem uma análise precisade como se dá tal interferência. Uma noção essencial que essesdois trabalhos desenvolvem é a de ambigüidade dos dados dalíngua segunda em função da língua materna:certas estruturas geradas pela gramática de uma dada línguapodem ser ambíguas apenas para os aprendentes dessa línguacomo L2, devido à influência do conhecimento que já têm dagramática da sua L1, i.e, a ambigüidade da L2 resulta da possi-bilidade de as evidências geradas pela sua gramática poderemser analisadas na base de propriedades gramaticais das L1s dosaprendentes. (GONÇALVES; CHIMBUTANE, 2004, p. 23)É o que acontece, segundo os autores, na aprendizagem daexpressão do locativo em português. As línguas bantu diferemdeste em dois aspectos: primeiro, elas têm um sufixo locativo,que apesar de poder ser traduzido pela preposição ‘em’, não éuma preposição, o que faz com que a presença dessa partículanão impeça que o nome a que está afixado continue desempe-nhando funções típicas de sintagmas nominais, como sujeito. Asegunda diferença é que as línguas bantu são distintas do por-tuguês “no que se refere à codificação de percurso-direção: nasLBs os verbos incorporam este elemento semântico, ao contráriodo que acontece no PE, onde este é expresso através de preposi-4Exemplos retiradosrespectivamente deScher (1996) e Baxter;Lucchesi (1997).5A teoria de Princípiose Parâmetros da Gramá-tica Gerativa vê a aqui-sição da língua maternacomo um processo defixação de parâmetrosbinários. Desse pontode vista, a gramática deuma língua dada cor-responde a um conjuntode valores paramétricos.Gonçalves (2004) e Gon-çalves & Chimbutane(2004) defendem umateoria da aquisição desegunda língua queconsiste também na fi-xação de valores para-métricos.
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008152ções direcionais” (GONÇALVES; CHIMBUTANE, 2004, p. 23).Ao aprender o português, a preposição ‘em’ é reanalisada pelosfalantes de línguas bantu como marca de locativo, e os verbos sãointerpretados como tendo direcionalidade inerente. Segundo osautores, isso explica enunciados como os seguintes, encontradosem textos de jovens moçambicanos falantes de português comolíngua segunda (op. cit. p.9):61. em casa dele é aqui em frente (= a casa dele é ..)2. conheci em casa dele (= ... a casa dele)3. voltou em casa (= para a casa)4. vinham carros lá na escola (= lá à escola)5. está a sair no estúdio (= ... do estúdio)6. eu saiu lá no Xiquelene (= ...(de) lá do Xiquelene)Essa análise recoloca numa luz totalmente nova os desviosà norma ilustrados pelos dados acima. Em lugar de ver neles umaaprendizagem errática das preposições que se traduz essencial-mente pela substituição de ‘de’, ‘a’ e ‘para’ por ‘em’, ou seja, umprocesso de redução e simplificação, e não explica fenômenoscomo ilustrados em 1. e 2., ela aponta para uma interferênciada língua materna no processo de aprendizagem, que derivaum conjunto de fenômenos aparentemente desconectados damesma causa, sem apelar para a desconstrução pura e simplesda gramática.O estudo de Gonçalves (2004) explica outros desvios do PApela interferência da gramática das línguas bantu. Vejam-se osseguintes enunciados:7. Uma criança deu o indivíduo as chaves (ex 1ª, p. 239)PE: Uma criança deu as chaves ao indivíduo8. A natureza não pode dominar ao homem (ex. 2ª, p. 239)PE: A natureza não pode dominar o homemEsse conjunto de dados poderia ser de novo tomado comoreflexo da aquisição errática do uso das preposições no por-tuguês. Os enunciados 7 e 8 parecem ilustrar duas tendênciascontraditórias. Na primeira, a preposição ‘a’ deixa de marcar oobjeto indireto, na segunda ela marca o objeto direto. Gonçalvesargumenta que isso é resultado da interferência da gramáticamaterna dos locutores de línguas bantu, onde, contrariamente6As glosas são dos auto-res. Não coloquei todosos exemplos.
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 153ao português, o verbo pode atribuir caso a dois sintagmas no-minais. Porquê e como essa propriedade da língua materna éretida na aquisição da língua segunda, em contradição com osenunciados que esta produz? A resposta de Gonçalves é que osdados do português são ambíguos para um falante de línguabantu, uma vez que a preposição ‘a’ ora parece desempenharum papel puramente sintático – de atribuidor de caso quandoo verbo tem dois argumentos (como ‘dar’) –, ora se comportacomo uma preposição que seleciona semanticamente seu com-plemento, em articulação com verbos de um argumento só (como‘telefonar’). Frente a essa ambigüidade, os dados do portuguêssão analisados com base na gramática das línguas bantu: overbo atribui dois casos, prescindindo da preposição em frasescomo a 7, e a preposição ‘a’ se comporta como um item lexicalpleno que seleciona semanticamente um objeto humano comoalvo ou beneficiário, independentemente do verbo ser transitivoou intransitivo.Vários ensinamentos podem ser retirados dessa aborda-gem, tanto no que diz respeito aos mecanismos de aquisiçãode segunda língua envolvidos na mudança devida ao contato,quanto à questão central deste artigo, a saber, o papel das línguasafricanas na constituição do PB. 7Primeiro, a análise proposta por Gonçalves permitereconciliar duas idéias que podem parecer à primeira vistacontraditórias: a de que a transmissão imperfeita põe em jogoum processo de simplificação, e a de que existe interferência daprimeira língua. Segundo ela, é quando a primeira língua fixao valor não marcado de um parâmetro, e a segunda língua fixao valor marcado, que a insuficiência de dados de ‘input’ leva oaprendiz a fixar o valor (não marcado) da sua própria línguaem lugar do valor marcado da língua 2, levando ao que podeaparecer como uma simplificação.Segundo, verifica-se a importância crucial da comparaçãodo português europeu com as línguas africanas para a sustenta-ção empírica da afirmação ou recusa da influência das segundassobre a aquisição do primeiro.Enfim, e voltando ao português brasileiro, é importanteressaltar novamente que ele apresenta boa parte dos fenômenospresentes no português africano. Ora, se é possível mostrarque estes são devidos à interferência das línguas africanas naaprendizagem do português como língua segunda lá, temosagora fortes índices que teria sido o caso também de cá. Porém,como já mencionado, alguns dos fenômenos ou não foram docu-mentados no PB, ou se encontram de maneira muito marginal.É o caso das frases de tipo 7, encontradas na Zona da Mata emMinas Gerais (SCHER, 2000), e no dialeto de Helvécia (BAXTER;LUCCHESI, 1997), bem como da variação de concordância emgênero, encontrada nas comunidades afro-descendentes isoladas,7 Negrão e Viotti (2008)estudam fenômenos li-gados à projeção dosargumentos dos verbosinacusativos em PB eargumentam também,com base numa análisecomparativa, que essesfenômenos são devidosà influência das línguasbantu.
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008154por exemplo no dialeto de Helvécia (cf. BAXTER; LUCCHESI1997, LUCCHESI, 1999). Em outros casos, quando comparados oPA e o PB, observa-se que só parte de um grupo de fenômenoscorrelacionados aparece no segundo. É o caso, por exemplo,do conjunto de enunciados em 1-6, das quais somente 3 e 4 sãoinstanciados. Esse fato não invalida a hipótese de uma derivaçãodessas frases de maneira análoga ao português africano, masaponta para subseqüentes evoluções, que, no uso brasileiro,fizeram desaparecer, ou limitar drasticamente certas formas.Pode ser o efeito do que Holm (2004 apud INVERNO 2005, p.57), chama de ‘nivelamento secundário’, ou seja, aproximação dalíngua-alvo, devido a uma maior proximidade com esta. Depoisdo fim do tráfego e da chegada de escravos africanos ao Brasil,as línguas africanas vão desaparecendo paulatinamente do ce-nário lingüístico brasileiro, até seu desaparecimento completono séc. 20.8Não há dúvida de que, nessas condições, a línguaportuguesa pesa cada vez mais na balança, em todo o territóriobrasileiro, menos em comunidades isoladas.9Com base nas análises do PA apresentadas acima, podemoslevantar a hipótese de que se perderam, ou estão marginalmenterepresentados no português brasileiro em comunidades isoladas,além da concordância de gênero, vários fenômenos, como aquelesligados à expressão do locativo ou do duplo objeto.O mesmo raciocínio nos leva a prever que esses fenômenos,hoje em via de extinção, deviam ser muito freqüentes em épocaspassadas no Brasil. Aí a dificuldade é que a escrita estava nor-malmente na mão de quem usava o português mais próximo doportuguês padrão, ou seja, europeu. Porém, trabalhos recentestêm procurado achar documentos escritos por semiletrados,inclusive africanos.Note-se que já nos interessa menos o fato de a “tosca apren-dizagem” do português, para retomar a expressão de Serafimda Silva Neto, ser caracterizado como um crioulo ou não. O queé relevante é se podemos encontrar em documentação escritavestígios da língua falada pelos africanos e seus descendentesescravos ou forros. Será o assunto da próxima sessão.2. A fala dos africanos na história do BrasilOs trabalhos sobre o português na África hoje podem, alémde fornecer evidências da interferência das línguas africanas –em particular bantu – no processo de constituição do portuguêsno Brasil, ajudar a esclarecer a natureza da situação lingüísticano Brasil colonial. É interessante citar de novo Gonçalves a esserespeito:[…] Thus, nowadays, MAP [Português Africano de Moçam-bique, CG] presents a set of different subvarieties which canbe displayed along a dialectal continuum, ranging from the8 Isso, obviamente, deveter variado de regiãopara região. Sabemos,pelo estudo de NinaRodrigues, que aindase falavam línguas afri-canas na Bahia no iníciodo séc. 20.9 A respeito da dife-rença entre o PA e o PBcom respeito a esses fe-nômenos, Petter (no pre-lo) fala em ‘Continuumafro-brasileiro’, em que“o português brasileirojá apresentaria maiorestabilidade, fruto deum período de variaçãomais antigo, que se teriaresolvido em mudança,pela adoção de uma dasvariantes, no caso espe-cífico, a do gênero doportuguês europeu”.
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 155standard spoken by relatively uneducated people to the urbanstandard of the upper class. (GONÇALVES, 2004, p. 236)Se traduzirmos “dialectal continuum” por “tão grande sériede gradações”, “relatively uneducated people”por “ultimo matuto” e“urban standard”por “boca do culto”, reconhecemos nas palavrasde Gonçalves a respeito de Moçambique de hoje, a situação doBrasil à qual se referia Coelho no final do séc. 19. A comparaçãoentre essas duas realidades semelhantes separadas por mais deum século pode trazer muita luz sobre a história do portuguêsno Brasil. Convém, portanto, estudar simultaneamente, ao longodos séculos, a fala dos ‘cultos’ e a fala dos ‘matutos’, com especialatenção voltada para a fala dos negros, brasileiros e africanos.Não é fácil, pelas razões mencionadas acima, encontrarem documentos escritos testemunhos das diversas variedadesde português faladas no Brasil no período colonial. Mas essa éuma linha de pesquisa que está ganhando fôlego. No que dizrespeito mais especificamente à fala dos negros, encontramosduas vertentes, uma indireta e uma direta.A vertente indireta tem sido trabalhada por Alkmim(2001, 2002) à procura de testemunhos da fala dos negros emtextos de diversos gêneros. No texto de 2002, Alkmim estudacharges satirizando negros e escravos em jornais do séc. 19.10Ecompara os traços lingüísticos usados para caracterizá-los comos encontrados em textos de outra natureza. No que diz respeitoaos aspectos sintáticos, encontra-se um sub-conjunto das pro-priedades do português africano listadas na seção anterior (cf.ALKMIM, 2002, p. 390, com a numeração original):2.1 concordância de gêneros incorreta2.2 flexão verbal de número e pessoa incorreta2.3 ausência de artigo2.4 quantificador ‘tudo’ em lugar de ‘todo’ e ‘todas’2.5 ausência da marca redundante de número2.6 ausência de concordância sujeito-verbo2.7 forma do pronome após preposição2.8 presente do indicativo em lugar do presente do subjun-tivoA coincidência desta lista com a de ‘desvios’ encontradosna fala de africanos falando português hoje como segundalíngua chama a atenção. Encontramos nela fenômenos que semantiveram no PB coloquial (2.8, um sub-conjunto de 2.6, umsub-conjunto de 2.3), outras características de uma fala mais po-pular (2.4, 2.5, 2.6, 2.7), e ainda aqueles que, como já comentamos,só se encontram em comunidades isoladas (2.1, 2.2). Esses dadossão muito importantes porque, em se tratando de charge, eles10 Os jornais são de1831, 1864, 1868 , 1870e 1876.
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008156têm o papel de caracterizar linguisticamente os personagensrepresentados.Ao comparar esses dados com a representação da falade negros na literatura, Alkmim (2002, p. 396) encontra umagrande semelhança, e ressalta que as marcas de concordânciade gênero incorreta e de flexão verbal número-pessoa incorretaaparecem “estreitamente relacionadas a personagens africanas”.Isso talvez signifique que esses traços não eram normalmentetransmitidos às gerações seguintes já nascidas no Brasil. O fatoda sua permanência em comunidades isoladas se explicaria porum menor contato com o português.Foram descobertos e editados recentemente documentosdo maior interesse para o estudo da fala dos africanos e seusdescendentes no Brasil oitocentista (cf. OLIVEIRA, 2003; LOBO;OLIVEIRA, 2007).11Trata-se das Atas da Sociedade dos Desvali-dos de Salvador, fundada em 1832. Dessas atas, algumas foramescritas por africanos, e outras, mais numerosas, por brasileiros.O grau de análise desses documentos ainda não permite fazeruma comparação sistemática com outros materiais, ou confrontá-los com os dados de aquisição de português segunda língua naÁfrica. Além disso, é preciso ressaltar que a natureza textual dasAtas, de caráter altamente formulaico, não espontâneo, ocultaem certos casos os efeitos da língua do escrevente, que se limitaa copiar frases já feitas. Mas nem por isso as Atas deixam deregistrar as marcas da competência lingüística dos seus autores.Desde a grafia insegura aos desvios de concordância verbal enominal,12encontramos vestígios claros de uma competênciaimperfeita na escrita e na fala em português. No que diz respeitoà sintaxe dos clíticos nas Atas escritas por africanos, estudadapor Galves & Lobo (2006), não se encontra nenhum desvio emrelação às regras de colocação vigente na época. Isso contrastafortemente com a sintaxe de concordância nominal e verbal,permeada de desvios em relação à norma. Uma explicação paraesse contraste se acha no fato de que as frases, nas quais a grandemaioria das ocorrências de clíticos se encontram, são fórmulas,sem dúvida copiadas de modelos anteriores. Contudo a escritadeixa entrever uma dificuldade dos escreventes africanos emdistinguir os clíticos das vogais iniciais dos verbos:9. epor estar Comforme mandou o Pro- / vedor que estefizessé etodos as Signassé Erá Supra / eeu Secretario atual oáSignei (JFO, 12, 02.10.1842)10. Aos dezacete dia do mes de Abril demil eoito Cen / tosetrinta e Ceis estando o Provedor emais Me- / zarios a recebe-mos os Mencais eficou adiado para / a1a. Reuniaõ o Secretarioaprezentar hum / Termo, Sobré os Irmãos que não tem pagoos / Seus Mencais epor estar Com forme a Si- / gnamos. etc.11 Está em preparaçãoum volume de descriçãoe análises lingüísticasdessas atas, organizadopor Tânia Lobo e Kleb-son Oliveira.12 Cf. Oliveira; Soleda-de; Gonçalves (2006)
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 157Como Secretario que este o fes / ea Signei – Jozé Fernandes doÓ (JFO, 03, 17.04.1836)Nos dois exemplos acima, vê-se que a vogal inicial do verbo‘assinar’ é sistematicamente segmentada independentemente doverbo, e algumas vezes colada a um monossílabo precedente,clítico ou conjunção. Também aparece um ‘a’ protético para overbo ‘receber’, mas separado deste como se fosse um pronomeclítico. Veja-se enfim que aparece uma vogal ‘o’ antes do verbo‘fes’ na última linha de 14, cuja interpretação é duvidosa. Nessecaso não pode tratar-se do início do verbo, e só poderia ser umpronome clítico, porém de maneira altamente redundante como objeto direto ‘este’ que ele segue imediatamente. Esses dadosgráficos vêm contradizer a aparente conformidade à norma nacolocação de clíticos e apontam para dificuldades por parte dosfalantes de línguas africanas em segmentar adequadamente acadeia sonora, e em última instância, em discriminar a naturezalexical ou funcional das vogais iniciais de palavras fonológi-cas. Essa dificuldade de interpretação é típica de situações deaprendizagem de segunda língua, e certamente reforçada pelofuncionamento morfossintático diferente do português e aslínguas africanas dos aprendizes. Esses documentos, em suma,integrados numa análise comparativa de muitos outros, orais eescritos, de origem brasileira e africana, trarão certamente va-liosas informações sobre o papel do contato do português comas línguas africanas na constituição do PB.3. Uma escrita em português na história da ÁfricaNão é só no Brasil que os africanos escrevem em portu-guês. Num contexto bastante diferente, ao longo dos séculos 17,18 e 19, a língua portuguesa passa a ser usada em Angola porchefes africanos, para redigirem sua correspondência oficial,com os representantes do poder colonial ou com outros chefesafricanos. Um conjunto desses documentos, o arquivo CaculoCacahenda, do nome de uma das mais importantes linhagensde chefes, foi editado em 2002 por Ana Paula Tavares e CatarinaMadeira Santos. São textos de imenso valor histórico e lingü-ístico. Vêm trazer ao edifício comparativo planeado aqui maisque tijolos, um pedaço inteiro de muro. Com efeito, estes textosforam escritos por escrivães formados para esse fim, e, portanto,dotados de uma competência indiscutível em português. Po-rém, não escapam às interferências das suas línguas maternasbantu – kimbundo e kikongo.13Uma primeira observação dostextos mostra que muitos dos fenômenos presentes na fala doportuguês africano de hoje e dos diversos dialetos do portuguêsbrasileiro – falta de concordância sujeito-verbo (15), falta deconcordância nominal em gênero (16), dativo sem preposição(17), complemento de objeto direto expresso pelo clítico dativo13Cf. Tavares; MadeiraSantos (2002), Introdu-ção.
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008158(18) –, estão presentes nos textos escritos do Arquivo CaculoCacahenda, como testemunham as seguintes frases, retiradasde um documento de 1840:11. vindo robar os diarios que hia para o Prezidio de En-cogi (p.128)12. naquela tempo (p.128); diabolica pessamento (p.127)13. e perguntando o mesmo chefe o Autor se tinha maisqui dizer (p.130)14. que diga qual seja o macota que lhe foi buscar no ditoCongo (p.130)Concluindo esta breve apresentação, chama à atenção aconvergência dos fenômenos encontrados nesse conjunto detextos com os que caracterizam o PA moderno, com as mesmassemelhanças e diferenças do PB moderno. Reforça a hipótese deque essas são devidas a uma transmissão irregular em contextosde aquisição de segunda língua, bem distinta de um processode crioulização, uma vez que, no caso dos textos do Arquivo,estamos lidando com um uso da língua já bastante sofisticado,fruto de uma formação específica,14cuja representação gráficaaponta para uma habilidade muito superior à dos escreventesdas Atas da Sociedade dos Desvalidos de Salvador.4. E a deriva?Como vimos, uma linha de pensamento se opõe à afirma-ção de que houve interferência das línguas africanas na constitui-ção do PB, aquela que privilegia a noção de deriva lingüística. Aidéia é que as inovações já são contidas na língua anteriormente,sendo que o afastamento da língua mãe, inclusive o contato comoutras línguas e culturas, propiciam um quadro favorável aodesenvolvimento de certas tendências imanentes à língua, que,no berço da mesma, permanecem refreadas.Antes de discutir mais em detalhe a proposta de Naro &Scherre (2007), já citada acima, me debruçarei sobre um outro tex-to recente, que coloca a questão ‘deriva vs. crioulização’ a respeitoda realização do sujeito, e da sua relação com as modificaçõesda morfologia verbal. Quint (2008), a partir da comparação daevolução do paradigma verbal no PB e no crioulo cabo-verdiano,conclui quea tendência atestada em PB ao preenchimento sistemáticoda posição de sujeito por meio de uma forma pronominalinsere-se plenamente nas tendências evolutivas das varieda-des lingüísticas periféricas oriundas do galego-português, emparticular, e das línguas românicas em geral. (2008, p. 81)14Cf. Tavares; MadeiraSantos (2002, Introdu-ção).
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 159Segundo o autor, a evolução do PB seria assim mais pró-xima da do francês do que a do caboverdiano. Sem pretenderignorar as diferenças da morfologia verbal do PB e do cabover-diano, claramente estabelecidas por Quint,15queria apontar parafortes diferenças entre o francês e o PB. No primeiro, a reduçãodo paradigma verbal é incontestavelmente devida à erosão fo-nética das desinências, ou seja àquilo que Coelho denomina, notrecho citado atrás, de “fenômeno fisiológico”. No PB, além deuma possível erosão desse tipo, se verifica um fenômeno que vaibem além, e provoca uma reestruturação do paradigma: a perdada distinção entre a segunda e a terceira pessoa. Tal perda nãose verifica só na perda da desinência /s/ da segunda pessoa dosingular, mas também no uso dos pronomes de 2apessoa ‘te’ e‘ti’ e ‘teu’ em alternância com os pronomes de 3apessoa ‘você’, e‘seu’. Não se tem notícia, até onde eu saiba, de fenômeno idênticoem nenhuma outra língua românica, a não ser, justamente, noportuguês africano, como mostra a seguinte frase de um escritormoçambicano citada por Laban (1999, p. 145):15. Você tem a cara de uma maneira que eu não consigoolhar bem nos teus olhos.Se a noção de deriva se aplica a esse tipo de fato, parece-meque ela fica tão abrangente, que acaba perdendo qualquer valorexplicativo. Note-se que o conceito em si mereceria uma discus-são que os limites deste artigo não me permitem empreender.Mas uma grande questão fica: quais são os limites da detecçãoda deriva? O fato de os mesmos fenômenos existirem isolada-mente em dois estágios de uma ‘mesma lingua’ caracteriza porsi só um processo de deriva de uma para outra? É o que Naro& Scherre (2007) afirmam. Para eles, a ocorrência de fenômenosde não concordância no português europeu comprova que a suaexistência no português brasileiro não é uma inovação devidaao contato, mas somente um desenvolvimento, na ocasião de cir-cunstâncias favoráveis. O grande problema dessa abordagem, ameu ver, é que fenômenos superficialmente idênticos podem tercausas diferentes. Ou seja, seria preciso comprovar que além deexistirem fenômenos idênticos, eles são produzidos pela mesmagramática, ou – em outros termos – tem a mesma estrutura sub-jacente. Naro & Scherre não apresentam nenhuma análise paraos enunciados que retiram isoladamente de estudos descritivos.Mas, por exemplo, no caso da questão da concordância sujeito-verbo, há o implícito que em todos os dados apresentados, o sin-tagma nominal é o sujeito do verbo. Ora, em muitos casos, umaoutra interpretação é possível: o sintagma nominal é tópico, eexiste um pronome expletivo nulo com o qual concorda o sujeito,como nas frases seguintes (NARO; SCHERRE, 2007, p. 98):15Para uma visão di-ferente do sujeito nuloem caboverdiano, verPratas (2004).
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 200816016. Duas canas dá oito mestras17. As querenguelas só presta para pescar18. A fazenda é as cabras e as ovelhasÉ preciso notar, além disso, que vários dados, por serem in-terpretados à luz do PB, são analisados inadequadamente, comonas seguintes frases (NARO; SCHERRE, 2007, p. 92), em que seatribui um sujeito aos verbos ‘esquecer’ e ‘lembrar’ quando sãocorrentemente usados no PE de maneira impessoal (‘lembra-meque’, ‘esqueceu-me que’), construção claramente evidenciada peloexemplo 20, uma vez que o sintagma que precede o verbo nãoé nominal mas preposicional.19. Ê [eu] também já nã me lembra20. Do bendito louvado não m’ha de esquecerA mesma crítica pode ser feita à afirmação de que o PBinstancia traços do português arcaico, presente em Naro &Scherre (2007), bem como em outros autores (cf. MORAIS DECASTILHO, 2001).III. ConclusõesRecapitulando, partimos do par deriva/crioulização, defi-nidos por Coelho como dois processos de natureza distinta, umfisiológico, o outro psicológico. No decorrer do tempo, a noção decrioulização passou a integrar uma categoria mais ampla, a da‘transmissão irregular’ devida ao contato lingüístico, com efeitosvariáveis em função das condições sócio-culturais desse contato.Quanto à questão da influência das línguas não européias noprocesso, vimos que Coelho não acreditava que existisse, e defen-dia uma tese próxima do bioprograma de Bickerton. Vários dosestudiosos do PB, depois dele também, negaram enfaticamentea influência direta das línguas africanas sobre o portuguêsbrasileiro, apesar de reconhecerem “cicatrizes da aprendizagemtosca”. A discussão mais moderna da crioulização ou semi-crioulização, apesar de dar ao contato um papel preponderante,enfatizou menos essa questão, enquanto os adeptos da derivacontinuavam a negar o efeito direto ou indireto do contato.A comparação das vertentes africanas e brasileiras doportuguês, bem como a comparação de ambas com as línguasafricanas com que estiveram em contato na sua história, vem mu-dar substancialmente a discussão ao trazer uma base empíricapara o velho debate. Procurei mostrar que na balança empírica,esses dados são mais pesados e consistentes do que os dos de-fensores da deriva. Apesar de haver muito por fazer, um corpo
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 161AbstractThis paper addresses the question of the role ofAfrican languages in the evolution of Portuguesein Brazil. It shows how recent work on Portugue-se spoken as second language in Africa, and itscomparison with the syntax of Bantu languages,gives empirical evidence that supports the thesisof the influence of these languages on BrazilianPortuguese, since this language displays the samecharacteristics. It argues that these analyses pro-vide leads to study the historical development ofPortuguese in Brazil and in Africa, using textswritten in this language by Africans. Finally, itraises arguments against the hypothesis of lin-guistic drift to explain the evolution of BrazilianPortuguese.Keywords: Brazilian Portuguese formation.African Portuguese. Linguistic contact. Linguis-tic drift. Creole languages.16Cf. Rougé (2008).sólido de evidências emerge de novos corpora, que podem serinterrogados de maneira cada vez mais eficiente.Finalmente, no âmbito da comparação com o portuguêsafricano, parece que nem os dados da comunidade afro-brasileirade Helvécia precisam da hipótese da crioulização –16situaçãoextrema no continuum da aquisição imperfeita de segundalíngua, redundando na nativização de um pidgin – para seremexplicados. A transmissão irregular no quadro de uma aqui-sição de segunda língua com exposição insuficiente aos dadosda língua-alvo, da qual temos uma imagem moderna em Mo-çambique e Angola hoje, parece dar conta do desenvolvimentohistórico da variação encontrada no Brasil de hoje.ReferênciasALKMIM, Tânia. A variedade lingüística de negros e escravos:um tópico da história do português no Brasil. In: MATTOS ESILVA, R. V. (Org.) Para a história do Português brasileiro. São Paulo:Humanitas, 2001. v. 2, p. 317-336.. Estereótipos lingüísticos: negros em charges do séc.19. In: . (Org.). Para a história do Português brasileiro:novos estudos. São Paulo: Humanitas, 2002. v. 3, p. 383-402.BAXTER, Alan; LUCCHESI, Dante. A relevância dos processos depidginização e criolização na formação da língua portuguesa noBrasil. Estudos Lingüísticos e Literários, [S.l.], v. 19, p. 65-84, 1999.
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008162BICKERTON, Derek. Roots of language. Ann Arbor: Karoma,1981.CASTILHO, Ataliba, et al. (Org.). Descrição, história e aquisição doPortuguês brasileiro. Campinas, SP: Pontes, 2007.CHAVAGNE, Jean-Pierre. La langue portugaise d’Angola: étude desécarts par rapport à la norme européenne du portugais. 2005.Tese (Doutorado)-Université Lumière Lyon 2, Lyon, 2005.COELHO, Francisco Adolfo. Os dialetos românicos ou neo-lati-nos na África, Ásia e América. In: . Estudos lingüísticoscrioulos. Lisboa: [s.n.], 1967. Reedição de artigos publicados noBoletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Academia Inter-nacional da Língua Portuguesa.FIORIN, José Luís; PETTER, Margarida (Org.). África no Brasil: aformação da língua portuguesa. São Paulo: Contexto, 2008.GALVES, Charlotte; LOBO, Tânia. A ordem dos clíticos em textosde africanos na Bahia oitocentista. Comunicação apresentadano “Colóquio Caminhos da Língua portuguesa: África-Brasil”,2006.GALVES,Charlotte;GARMES,Helder;ROSARIBEIRO,Fernando(Org.). África-Brasil: caminhos da língua portuguesa. Campinas,SP: Ed. da Unicamp, 2008. No prelo.GONÇALVES, Perpétua. Towards a unified vision of classes oflanguage acquisition and change: arguments from the genesisof Mozambican African Portuguese. Journal of Pidgin an CreoleLanguages, [S.l.], v. 19, n. 2, p. 225-259, 2004.GONÇALVES, Perpétua; CHIMBUTANE, Feliciano. O papeldas línguas bantu na gênese do português de Moçambique: ocomportamento sintático de constituintes locativos e direcionais.Papia, [S.l.], v. 14, p. 7-30, 2004.INVERNO, Liliana Cristina. Angola’s transition to vernacular por-tuguese. 2005. Dissertação (Mestrado)-Universidade de Coimbra,Coimbra, 2005.LABAN, Michel. Mozambique: particularités lexicales et mor-phosyntaxiques de l’expression littéraire en portugais, Docu-ment accompagnant une demande d’habilitation à diriger desrecherches. Paris, Université Paris III, 1999.LOBO, Tânia; OLIVEIRA, Klebson. Escrita liberta: letramento denegros na Bahia do séc. 19. In: CASTILHO, Ataliba, et al. (Org.)Descrição, história e aquisição do Português brasileiro. Campinas, SP:Pontes, 2007. p. 437-460.LUCCHESI, Dante. A questão da formação do português populardo Brasil: notícia de um estudo de caso. Cor das Letras, [S.l.], v.3, p. 73-100, 1999.. O conceito de transmissão lingüística irregular e oprocesso de formação do português do Brasil. In: RONCARATI,
    • O papel das línguas africanas na formação do português brasileiro: (mais) pistas para uma nova agenda de pesquisaNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008 163Claudia; ABRAÇADO, Jussara (Org.). Português brasileiro, contatolingüístico, heterogeneidade e história. Rio de Janeiro: Viveiros deCastro, 2003. p. 272-282.MORAIS DE CASTILHO, Célia. Seria quatrocentista o portu-guês implantado no Brasil?: estruturas duplicadas em textosportugueses do século XV. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia(Org.). Para a história do português brasileiro. São Paulo: Humanitas,2001. v. 2, p. 57-90.NARO, Anthony Julius; SCHERRE, Marta. Origens do Portuguêsbrasileiro. São Paulo: Parábola, 2007.NEGRÃO, E. V.; VIOTTI, Evani. Estratégias de impessoalizaçãono Português brasileiro. In: FIORIN, José Luís; PETTER, Mar-garida (Org.). África no Brasil: a formação da língua portuguesa.São Paulo: Contexto, 2008. p. 179-203.NINA RODRIGUES, Raimundo. Os africanos no Brasil. 8..ed. Bra-sília, DF: Edi. da UnBr, 2004.OLIVEIRA, Klebson. Textos escritos por africanos e afro-descendentesna Bahia do séc. 19: fontes do nosso latim vulgar? 2003. Dissertação(Mestrado)-Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2003.OLIVEIRA, Klebson; SOLEDADE, Juliana; GONÇALVES, Silvia.A concordância nominal em textos de africanos na Bahia oitocentista.Comunicação apresentada no “Colóquio Caminhos da LínguaPortuguesa: África-Brasil”, 2006.PAGOTTO, Emílio. Crioulo sim, crioulo não, uma agenda deproblemas. In: CASTILHO, Ataliba, et al. (Org.). Descrição, históriae aquisição do Português brasileiro. Campinas, SP: Pontes, 2007. p.461-482.PESSOA DE CASTRO, Yeda. O português do Brasil, uma intro-missão nessa história. In: GALVES, Charlotte; GARMES, Helder;ROSA RIBEIRO, Fernando (Org.). África-Brasil: caminhos dalíngua portuguesa. Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 2008. Noprelo.PETTER, Margarida. O continuum afro-brasileiro do português.In: GALVES, Charlotte; GARMES, Helder; ROSA RIBEIRO,Fernando (Org.). África-Brasil: caminhos da língua portuguesa.Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 2008. No prelo.PRATAS, Fernanda. O sistema pronominal do caboverdiano(variante de Santiago). In: . Questões de gramática.Lisboa: Colibri, 2004.QUINT, Nicolas. A realização do sujeito em português do Brasil:deriva versus crioulização. In: FIORIN, José Luís; PETTER, Mar-garida (Org.). África no Brasil: a formação da língua portuguesa.São Paulo: Contexto, 2008. p. 75-88.ROUGÉ, Jean-Louis. A inexistência de crioulo no Brasil. In:FIORIN, José Luís; PETTER, Margarida (Org.). África no Brasil:
    • Gragoatá Charlotte GalvesNiterói, n. 24, p. 145-164, 1. sem. 2008164a formação da língua portuguesa. São Paulo: Contexto, 2008. p.63-73.SCHER, Ana Paula. As construções com dois objetos no inglês eno português do Brasil: um estudo sintático comparativo. 1996.Dissertação (Mestrado)-Universidade Estadual de Campinas,Campinas, SP, 1996.SILVA NETO, Serafim. Introdução ao estudo da língua portuguesa.4.ed. Rio de Janeiro: Presença, 1977.TARALLO, Fernando. Sobre a alegada origem crioula do por-tuguês brasileiro: mudanças sintáticas aleatórias In: ROBERTS,Ian; KATO, Mary (Org.). Português brasileiro, uma viagem diacrônica.Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 1993. p. 35-68.TAVARES, Ana Paula; MADEIRA SANTOS, Catarina. AfricaeMonumenta: a apropriação da escrita pelos africanos. ArquivoCaculo Cacahenda. v. I. Lisboa: Instituto de Investigação Cien-tífica Tropical, 2002.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008Agruras da ficçãocontemporâneaSilvia Regina PintoRecebido 28 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoNo mundo atual, marcado por uma transformaçãoradical das coisas, afloram crises, talvez sem prece-dentes, para todas as áreas de atividade, mexendocom a cultura, com a estética, com os valoreséticos, com as noções de espaço e tempo, com as re-lações entre o público e o privado, trazendo sériasquestões políticas e complexos problemas para opróprio pensamento. Este ensaio pretende mostrarcomo o discurso ficcional contemporâneo vemtematizando e discutindo sua própria estranheza,tentando uma reconciliação entre linguagem e re-alidade, no esforço incansável para um confrontodo ser humano com um “outro” que é ele mesmo,deixando claro que, muitas vezes, a ficção torna-senecessária para que o real exista.Palavras-chave: Filosofia. Ficção. Crise. Iden-tidade. Utopia.
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008166“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito,do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda nãoforam terminadas – mas que elas vão sempre mudando.Afinam ou desafinam. Verdade maior.[...] Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim,penso também – mas Diadorim é a minha neblina...”(Guimarães Rosa)1Com este título quero dizer, primeiramente, que a ficçãocontemporânea suscita muita controvérsia porque há uma gran-de dificuldade em representar o mundo atual. Neste momentode transformação radical das coisas, afloram as crises, talvezsem precedentes, para todas as áreas de atividade, mexendo coma cultura, com a estética, com os valores éticos, com as noçõesde espaço e tempo, com as relações entre o público e o privado,trazendo sérias questões políticas e complexos problemas parao próprio pensamento. A situação evidentemente se complicaquando valores universais, tais como verdade, razão, liberdade,justiça, perdem legitimidade e valor. Já não se acredita e nemsaberíamos mais responder a velhas questões postas pelo Ilu-minismo.Fala-se que uma grande novidade em relação a outras crisesanteriores é que desta vez se torna quase impossível imaginarum futuro. Como se fosse muito difícil deduzir algo do passa-do, uma vez que o presente se dá como “inteiramente novo”,reconstruído como um “efeito especial”, aparentemente semreferências. São abolidos, então, o passado e o futuro em nomedessa dimensão presente que se metaforiza como eternidade,perdida em si mesma, abrindo espaço para uma complicadacoisa atual que não se sabe ainda como seria melhor nomear.Aboliram-se, portanto, as velhas utopias modernas, nesse jogoinseguro de tempos e instaurou-se uma certa descrença quantoa novos ideais utópicos.Segundo o filósofo alemão Peter Sloterdijk, o intelectualcontemporâneo errou de alvo: a revolução não estava sendoconduzida pelo proletariado, mas pela técnica. No fim, o jogofoi feito, a revolução aconteceu, e os intelectuais revolucionáriosnão perceberam o que se passava. Muitos elementos nos levama crer, escreve Sloterdijk, que deixamos o espaço das revoluçõespolíticas para entrar no das revoluções tecnológicas e mentais, oque equivale a dizer que o papel clássico do intelectual pareceter chegado ao fim. Depois da crise que atingiu as metarrativase a filosofia tradicional, o intelectual se vê engajado num jogo delinguagem específico cujos interlocutores são outros intelectuais,seus pares, isto é, a academia, a fim de verificar se, do fundodeste silêncio, é possível extrair uma alternativa aos dilemasrazão versus desrazão, filosofia versus retórica, modernidadeversus pós-modernidade (NOVAES, 2006).1ROSA, Guimarães.Grande sertão: vere-das. In: ______. Ficçãocompleta. Rio de Janeiro:Nova Aguilar, 1994. v. II,p. 20-21.
    • Agruras da ficção contemporâneaNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008 167A presença de um sujeito, de um sentido unívoco, enfim,da razão em busca da verdade, é justamente o que diversospensadores, invertendo a posição socrática, vêm desconstruindo.É, pois, um pensar filosófico que aponta para o silêncio da falae de um discurso filosófico racional, em nome da legitimidadede uma pluralidade de discursos polissêmicos que haviam sidobanidos pela tradição filosófica racionalista.Evidentemente, a arte e a literatura contemporâneas reve-lam um projeto metaficcional estético e literário que caminhaem direção à configuração de uma realidade mais afinada comeste momento histórico-cultural contemporâneo. Parafrasean-do resenha, publicada no Jornal O Globo,2o espírito da época(Zeitgeist) atual nos trouxe o tempo da globalização com o pri-mado da tecnociência, da espetacularização da vida, do colapsode antigas categorias de sentido e representação, do poder damidiatização, da política que se torna refém do marketing e daimagem, do mundo percebido como objeto de consumo, da açãode mecanismos de controle cada vez mais invasivos. Deste pa-norama começa a destacar-se um movimento de releitura dasdiferenças, através de estratégias que fazem do sensível, na zonacontingente, mas obscura dos afetos, um lugar privilegiado paraquestionamento da razão instrumental e seus mecanismos depoder, transformando o efeito estético em “emoção lúcida”, queprocura revelar a capacidade emancipatória que se esconde noafeto, na alegria, na ironia, na imaginação, e na descontinuidade,legitimadores de propostas de sentido que não são esperança,nem muito menos felicidade, mas buscam uma afinação maisperfeita com o mundo presente.As novas experiências narrativas contemporâneas, princi-palmente a partir dos anos 90, vêm insistindo na perplexidadegerada por este momento de crise e na discussão a respeito doassumir que o mundo atual é feito de mentiras que, apesar dacontradição, muitas vezes são também verdades. Assim, emgrande parte da ficção da atualidade, a ordem das coisas, a or-dem das aparências, a ordem do discurso não podem mais serconfiadas, propriamente, a qualquer matéria do saber. O fio dopensamento narrativo deixa de seguir uma linha de causalidadee racionalidade, isto é, não trabalha no rumo da representaçãocomo identificação das coisas, mas no sentido de uma desiden-tificação que até pode ser sedutora. E a ficção se transforma naruptura da ilusão referencial da narrativa:Estamos hoje em um mundo aleatório, um mundo em que nãohá mais um sujeito e um objeto harmoniosamente separadosno registro do saber. Quanto aos fenômenos aleatórios, eles nãose dão apenas nas coisas, nos corpos materiais: fazemos parte,nós também, do microcosmo molecular por nosso própriopensamento – e é isto que gera a incerteza radical do mundo.(BAUDRILLARD, 2001, p. 47)2Rossano Pecoraro, Ca-derno Prosa & Verso, 19ago. 2006.
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008168Em grande parte das narrativas atuais, inclusive no cine-ma, evidencia-se a questão pós-humanista no mundo hoje, quedescarta a metafísica, desconfia da imanência, passa ao largo dossentidos únicos, envolve-se todo o tempo com os mais variadosproblemas de identidade, e, de quebra, questiona as indecidi-bilidades da autoria, como faz, explicitamente Chico Buarque,no romance Budapeste. Ao contrário do que imaginou Platão,chegamos a um tempo em que a proliferação de imagens comtodos os seus efeitos - às vezes defeitos - especiais nos levam àpercepção de que os simulacros não mais se opõem à verdade,agora eles são a própria realidade, tanto para o mal quanto parao bem, contextualizando uma história geral que não mais ca-minha em linha reta rumo a possibilidades melhores, mas simevolui como as nuvens (SANTOS, 2003), em imagens virtual-mente novas a cada momento, sem que se possa dizer que hajadefinição de cópias melhores, nem piores, nem mais verdadeiras,porque as imagens duplas (às vezes múltiplas) habitam realida-des paralelas, justapostas no deslizar das coisas, não em buscade transcendências, mas das complexidades fenomenológicasencontradas na própria superfície.Nietzsche, aparentemente, foi o primeiro a chamar aatenção para a importância do conceito de superficialidade.Segundo o filósofo, a arte nos instrui das verdades do viversuperficialmente, isto é, de como parar o movimento na super-fície sensível, em vez de caçar uma essência ou uma verdadeilusória nas profundezas dessa superfície. Dizer que não adiantaescavar superfícies equivale a defender que devemos abandonaras nossas tradicionais justificações metafísicas para tudo quefazemos, embora sempre se torne complicado defender o valordo superficial, porque exige a desconstrução de um arraigadopensamento a favor da profundidade metafísica, que sempre foideterminante da essencialidade de alguns aspectos, principal-mente os religiosos, da vida. Mas isto não vem impedindo quea atitude de um novo engajamento da literatura, da teoria daliteratura e da filosofia revele-se claramente menos metafísico emais fenomenológico: complexidade e superficialidade neste mo-mento são conceitos que não se excluem. Ao contrário, procura-secontinuar removendo algo do entulho ideológico da metafísicapara que a superfície mostre toda a complexidade de seus fenô-menos, ainda que, muitas vezes, estes sejam efêmeros.A rejeição à profundidade acaba trazendo consigo a ne-gação da origem, operando uma ruptura com a idéia de que ainterpretação, por exemplo, exige uma escavação até as profun-dezas da linguagem:Quanto mais a interpretação avança para um suposto encontrocom a verdade, mais percebe que caminha para sua morte.Isso porque, por detrás dessa crença a impulsionar o gesto emdireção à profundidade, permaneceria o falso pressuposto de
    • Agruras da ficção contemporâneaNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008 169que a investigação do símbolo conduziria à coisa em si, como seeste símbolo vivesse uma origem que lhe pertencesse ou fossea própria coisa que apenas simboliza. [...] O pensar metafísicosempre concebeu a linguagem como referindo-se a algo que lheantecede. Afirma, então, que o caminho em direção à origemlevaria ao encontro de alguma coisa, material ou ideal, aquémou além. [...] A concepção nietzscheana de signo vem revelar,contudo, que, se a linguagem é significação, o signo se limitaà remissão a outros signos. [...] Para a interpretação do pensa-mento desconstrutor, portanto, a história de uma coisa não é acoisa, mas as sucessivas camadas de interpretação desta coisa.Se o signo já é interpretação, duas conseqüências advêm: (a) ainterpretação é uma tarefa infinita porque não se pode com-pletar; (b) não se completa porque não há nada a interpretar,pois tudo já é interpretação. (BORBA, 2004, p. 181)O pensar metafísico sempre concebeu a linguagem comose referindo a algo anteriormente existente. Seguindo o mesmoraciocínio, mais perto da verdade estaria aquele que mais seaprofundasse na especulação sobre o signo. Por outro lado,considerando-se a concepção nietzscheana, que é muito mais opensamento atual, o signo se limita à remissão a outros signos.Neste caso, a história de uma coisa não é a coisa, mas limita-seàs sucessivas interpretações dessa coisa, portanto, qualquer signojá é uma interpretação.Na arte em geral e na literatura em particular, desde o fimdo século XIX, a crise da representação, da desrealização e dadesreferencialização veio então se acentuando cada vez mais, e,provavelmente, por essa razão hoje é fácil perceber-se na ficçãoesse esforço de superação dessa crise representativa e da perda dereferencialidade que mais se acentuou a partir de uma chamada“virada lingüística”, nos anos 70 do século passado, a partir daqual a idéia de autonomia dos sistemas de signos vai em direçãoa uma situação extrema em que a realidade é absorvida pelalinguagem e se confunde com sua própria representação.Se pensarmos, por exemplo, no mundo ficcional de JorgeLuis Borges, observaremos que a idéia de arte como ilusão estarásempre presente. O ficcionista argentino discute o fato de que éimpossível ser um escritor original no século XX e, fundamental-mente, de que o real é inalcançável até mesmo pela linguagem.Dito de outro modo, a realidade é dúbia e instável e o universoé uma unidade total em que as individualidades não passamde ilusão. Assim, ao confundir os limites entre a realidade eas abstrações absolutas, entre o individual e o genérico, Borgesampliará o campo de suas histórias para “incluir” todos os ho-mens (BARTUCCI, 2006).Aprofundando essas questões borgianas, estamos agorapassando por um momento epistemológico cuja característicaé um grande questionamento da realidade e, sobretudo, dasparticularidades de sua natureza ilusória, através de imagens e
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008170simulações produzidas pelos meios de comunicação e pela tec-nologia em geral. Conforme Baudrillard, a desaparição do realsem deixar pistas, cria um momento em que tudo se torna real,em que não há mais nada que exista apenas como utopia, sonhoou alteridade. Nesse momento, tudo se torna um simulacro de simesmo, portanto, as identidades tendem, por um lado, a desa-parecer, e, por outro, tendem a aparecer como reação, buscandouma “realidade real” na arte e na cultura contemporâneas. Po-demos falar, então, de uma verdadeira “volta do real”, embora,hoje, em termos não previstos pelo realismo histórico do séculoXIX, nem pelo realismo social das décadas de 30 e 40 do séculopassado, e nem mesmo pelo hiper-realismo de movimentos dadécada de 70, também do século passado:De uma outra perspectiva, a mudança paradigmática naliteratura e nas artes, nos anos 90, foi qualificada de “viradapictórica” (Pictorial Turn, Mitchell, 1995), acentuando a formaem que as imagens intervêm e funcionam na cultura, na cons-ciência, e na representação contemporâneas. É, exatamente, acapacidade de intervenção das imagens nas emoções coletivas,nos debates públicos e na propaganda política que motiva asubstituição da “virada lingüística” pela “virada pictórica”.A idéia de uma “virada pictórica” se define, atualmente, pelointeresse interdisciplinar por estratégias retóricas e estéticasprovindas, principalmente, dos meios visuais e, assim, paraalguns artistas e teóricos, estamos testemunhando uma rup-tura radical com a tradição de teorias fundadas na lingüística.Para os estudos da literatura, a tese é que a questão da imagemocupa um lugar estratégico para a discussão estética atual, umavez que a tendência híbrida na literatura, atualmente, procuraapropriar-se de procedimentos e de técnicas representativosdos meios visuais e da cultura de massa dominados pelavisualidade e com a finalidade de provocar efeitos sensuaisafetivos. (SCHOLLHAMMER, 2002, p. 80)A ficção narrativa brasileira, principalmente a partir dosanos 90, vem trabalhando a realidade como encenação perfor-mática, neste sentido afetivo-crítico aqui referido, que o escritorLuiz Ruffato prefere chamar de hype-realismo, para se contraporao batido neonaturalismo, termo anacrônico para descrever oatual estado de coisas.Destaco, por exemplo, o ficcionista Bernardo Carvalho,cuja obra se constrói em torno da problemática das identidades,questão essa que se desdobra, nos diversos contos e romances domencionado autor, em várias direções: a identidade do sujeito,do autor, da ficção, do gênero, da literatura, do mundo contem-porâneo, etc. Nesta literatura, as certezas apenas encaminhamuma ilusão de verossimilhança e encenam a própria ilusão deidentidade. Mesmo no caso de personagens importados da vidareal, o que se observa é um total esgarçamento das referênciasque construiriam uma palpável dimensão identitária, apesar
    • Agruras da ficção contemporâneaNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008 171dos aspectos muito realistas e até mesmo histórico-documentais,presentes nas narrativas. Num dos romances (Nove noites), porsinal baseado em fatos reais, o narrador chega a avisar ao leitor,já nas primeiras linhas, que este “vai entrar numa terra em quea verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxe-ram até aqui”. Em outro (Teatro), ao passar da primeira parte danarrativa para a segunda, o leitor constata que uma personagemque até então era uma mulher passa a ser homem, não porquetenha passado por alguma cirurgia de transexualidade, mas,porque, de forma totalmente natural, a verdade agora é outra,ou seja: a mesma personagem é também uma outra. Algo a vercom Orlando, de Virgínia Woolf, ainda que diferente, até porquetrata-se de uma personagem secundária.Muitos relatos contemporâneos colocam em prática algumacoisa que pode ser perfeitamente definida pela metáfora de uma“vida líquida” (BAUMAN, 2007, p. 7):A “vida líquida” e a “modernidade líquida” estão intimamenteligadas. A “vida líquida” é uma forma de vida que tende a serlevada à frente numa sociedade líquido-moderna. “Líquido-moderna” é uma sociedade em que as condições sob as quaisagem seus membros mudam num tempo mais curto do queaquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas,das formas de agir. A liquidez da vida e da sociedade se ali-mentam e se revigoram mutuamente. A vida líquida, assimcomo a sociedade líquido-moderna, não pode manter a formaou permanecer em seu curso por muito tempo.[...] Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individu-ais não podem solidificar-se em posses permanentes porque,em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos,e as capacidades, em incapacidades. As condições de ação eas estratégias de reação envelhecem rapidamente e se tornamobsoletas antes de os atores terem uma chance de aprendê-lasefetivamente.[..] Em suma: a vida líquida é uma vida precária, vivida emcondições de incerteza constante. As preocupações mais in-tensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são ostemores de ser apanhado tirando uma soneca, não conseguiracompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixarpassar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bensagora indesejáveis, perder o momento que pede mudança emudar de rumo antes de tomar um caminho sem volta. A vidalíquida é uma sucessão de reinícios, e precisamente por isso éque os finais rápidos e indolores, sem os quais reiniciar seriainimaginável, tendem a ser os momentos mais desafiadores eas dores de cabeça mais inquietantes. [...].A obra de um outro conhecido ficcionista contemporâneo,Rubens Figueiredo, flutua “liquidamente” na perda total de umacerta “estabilidade cósmica da verdade”, anulada pelo imaginá-rio complexo que se transforma em ficção pelas próprias ações
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008172humanas. Chamando a atenção para uma simulação decididaa nos envolver cada vez mais, a literatura, no mundo atual, as-sume uma preocupação de quase-denúncia, além de uma vagaesperança de salvamento.Afinal, o que é a verdade quando a simulação se torna regrageral e os efeitos especiais podem criar qualquer possibilidadede realismo melhor do que a própria realidade? Afogando-senesse mar de indecidibilidades, a individualidade do sujeitocontemporâneo o obriga, por um lado, a adaptar-se a um papel(a vários papéis cotidianos), e, por outro lado, como opção livre,restará, praticamente, só a anulação, ou o vazio. A matéria-primadas narrativas de Rubens Figueiredo é composta de imprecisão,de instabilidade, de um difuso movimento da falsificação ge-neralizada que envolve personagens, enredo, tempo e espaço,permitindo que se intensifique o jogo tenso entre o falso e overdadeiro, como se lê no romance Barco a seco: “tudo é mentira,qualquer coisa é verdade: só resta deixar-se levar, deixar-se cairno vazio”.A fenomenologia estuda a constituição do mundo na cons-ciência. Quase sempre esta constituição configura um tipo demoldura para a subjetividade, através da qual se pode apreendere interpretar o mundo exterior, daí o conceito de epoché – umasuspensão do mundo natural – a partir de uma “redução feno-menológica”. Assim, para muitos filósofos do século XX, ligadosà fenomenologia, o conhecimento se dá, tanto na ciência, quantona ficção, ou na vida real, como hipóteses ficcionalizantes, istoé, metáforas. Para que a compreensão do “outro” seja possível,é necessário que “eu” me reconheça também como um “outro”.Por isso, nas palavras de Luiz Costa Lima, a arte vive um enfren-tamento apaixonado com a realidade, irrealizando uma supostaunidade e expondo as fraturas do sujeito.A narrativa ficcional contemporânea pensa o papel donarrador enquanto vítima de si mesmo, isto é, como um sujeitoagenciador de estruturas referenciais complexas, que sinalizampara as tentativas de demarcação de territórios ficcionais feitosde areias movediças, identidades deslizantes e sujeitos perfor-máticos, que, muitas vezes, não passam de simulacros, tanto denarradores, quanto de personagens. Os narradores distanciam-se cada vez mais do narrador “clássico”, apontado por WalterBenjamin como aquele narrador que narra com total segurançae sabedoria. Na performance da ficção atual, os narradores alémde não saberem narrar, também não sabem o que narram, istoé, nas narrativas que encenam, eles demonstram que, muitasvezes, não se pode ter certeza alguma da diferença entre ver-dadeiro e falso.Podemos, então, perceber que lidamos com uma ficção quese vinga da imensa concorrência dissimulada, ou seja, que sevinga de estarmos todos meio que roteirizados hiper-realmente.
    • Agruras da ficção contemporâneaNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008 173A ficção precisa entrar, então, para valer, no jogo que desesta-biliza as referências, na cena da não-representação, chamandoa atenção sempre para a clareza de seus propósitos ficcionais.Assim, os narradores que vêm ganhando o papel principal,mostram-se sempre paradoxalmente perdidos, e, a grande temá-tica metaficcional mais presente está, exatamente, na discussãoque gira em torno de como se torna impossível organizar umdiscurso de ficção sem que os significantes revelem claramentea arbitrariedade da nomeação, o abismo entre as palavras eas coisas, o fato de que a verdade está perdida entre todas ascontradições e disparates ou entre imagens que significam a simesmas. Histórias que dependem mais da confiança de quemas lêem e da capacidade de interpretá-las, como nos diz, ainda,um dos textos de Bernardo Carvalho.Por sua vez, um romance como Um crime delicado, de SérgioSant’Anna põe em evidência que a complexidade da situaçãocontemporânea também propicia uma certa perda de coerênciada noção de literatura, da própria noção de arte, com um notáveldeclínio da sua aura cultural. Nesse contexto, há a percepção dainviabilidade de um denominador comum conceitual, de umconceito capaz de englobar todas as variedades históricas e cul-turais dos fenômenos rotulados como literatura, ou como arte.Numa perspectiva séria, entretanto, pode-se alegar que, em ter-mos éticos, simplesmente não há alternativa para a obrigação deadaptar nossos projetos e conceitos às tarefas emergentes de umasociedade a cada passo mais multicultural e ‘multiestética’.Existe, no referido romance Um crime delicado, uma espé-cie de fenômeno ‘multiestético’ que comanda o espaço socialde transformações e superposições, num intercâmbio entre oplástico e o lingüístico, ou, também, a representação do plásticopelo lingüístico, ou, ainda, do espaço cênico pelo lingüístico, evice-versa. Sobre o atormentado “crítico” Antônio Martins, nar-rador e protagonista do romance, observa-se que suas críticasvia de regra decorrem do momento subjetivo que está vivendo,e, assim, entrelaçam-se ou confundem-se o teatro e a vida, ou,também, a crítica e a representação, ou, ainda, sujeito e objeto.No relato observa-se um extenso questionamento que pretendedeterminar o sentido da atividade do crítico:Expliquei que o crítico é um tipo muito especial de artista, quenão produz obras, mas vai apertando o cerco em torno daque-les que o fazem, espremendo-os, para que eles exijam de sisempre mais e mais, na perseguição daquela obra imaginária,mítica, impossível, da qual o crítico seria co-autor. Algo assim.Eu falava ao sabor do momento e, em outras ocasiões, poderiaexplicar a coisa de modo inteiramente diverso. (SANT’ANNA,1997, p. 28)A discussão no romance de Sérgio Sant’Anna equivale ao que emartes plásticas se tornou, atualmente, o grande gênero do momento:
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008174a instalação. Uma instalação artística é uma construção de cenárioou intervenção que rompe com o espaço tradicional da galeria oudo museu, fazendo com que o espectador participe da obra e nãosomente aprecie. Trata-se de arte conceitual que se define como ummovimento artístico – moderno ou contemporâneo – que defende aidéia, ou conceito, como o aspecto mais importante da obra de arte.Esta perspectiva artística iniciou-se ainda na década de1960, parcialmente em reação ao formalismo, sendo depois siste-matizada pelo crítico americano Clement Greenberg. Contudo, jáa obra do artista francês Marcel Duchamp, nas décadas de 1910 e1920, tinha prenunciado o movimento conceptualista, ao proporvários exemplos de trabalhos que se tornariam o protótipo dasobras conceituais, como os famosos readymades, que desafiaramqualquer tipo de categorização ao privilegiar a idéia em lugardo artefato, instituindo a questão de não se ter certeza se são ounão objetos artísticos. O movimento de arte conceitual estendeu-se, aproximadamente, de 1967 a 1978. Mas é muito influenteaté agora, na obra de artistas subseqüentes que são por vezesreferidos como conceptualistas de segunda ou terceira geração,ou pós-conceptualistas.A instalação, enquanto poética que permite uma grandepossibilidade de suportes, se situa de forma totalmente confortá-vel na produção artística contemporânea, que é volátil, presençaefêmera e passageira, absorvendo e construindo o espaço à suavolta, e, ao mesmo tempo, o desconstruindo. Tal desconstruçãode espaços, de conceitos, e de idéias está dentro da práxis artísticada qual a instalação se apropria para se afirmar como obra. Aquestão do tempo é crucial, fazendo com que a mesma seja umespelho de seu próprio tempo, questionando assim o homemdesse tempo em sua interação com as discussões geradas pelaprópria obra.A permanência da instalação é um fenômeno que se des-taca na arte contemporânea, sendo uma das mais importantestendências atuais nas artes plásticas, mas influenciando a próprialiteratura. A necessidade de mexer com os sentidos do público,de instigá-lo, quase obrigá-lo a experimentar sensações, sejamagradáveis ou incômodas, faz da instalação um espelho de nossotempo. Sérgio Sant’Anna, que gosta de envolver, deliberadamen-te, sua ficção com artes plásticas, com fotografia, e, com o teatro,escreve o romance Um crime delicado como se fosse uma ‘instala-ção narrativa’, aproveitando-se das características supracitadasdo gênero para criar instalações plásticas e teatrais dentro dahistória, que acaba por se tornar ela própria algo como um tipode instalação romanesca conceitual.Lembrando os versos de Caetano Veloso na letra de “Lín-gua”: “E deixa os Portugais morrerem à míngua” / “MinhaPátria é minha língua”, que incentivam um distanciamento
    • Agruras da ficção contemporâneaNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008 175crítico de uma situação colonizada em relação a Portugal, talvezpossamos agora pensar que a ficção atual vem substituindo-osou completando-os por uma questão mais complicada que po-deria ser formulada com a seguinte pergunta: Em que línguaestá perdida a minha Pátria? Ou, vice-versa.Insinuam os narradores multiplicados e complicados deBernardo Carvalho que a possibilidade de “cura” desta lingua-gem, consistiria, principalmente, na denúncia de que vivemosneste mundo de imagens totalmente manipuladas, e nisto há,em graus variáveis, a cumplicidade de todos: os que nem perce-bem nada, os que se tornam conscientes e podem apenas fazerdenúncias, e daqueles temerosos de que a situação hegemônicade que participam perca sua hora e vez.No caminho percorrido na Modernidade, até chegarmosao aqui/agora que estamos vivenciando, cada vez mais o mundoficcional precisou lutar por suas prerrogativas de ficção, porque,tecnologia de um lado, massacre de informação de outro, asimagens passaram a comandar o espetáculo, transformandoo mundo atual no grande-irmão espelho que se alimenta dacaptação de todas as nossas imagens. É o grande simulacro.Assim, quanto mais um espectador contempla, menos vive,quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens ofertadas, menoscompreende a sua própria existência, a sua própria identidade,e o seu próprio desejo, instituindo-se, desta forma, a alienaçãodo sujeito em favor do objeto contemplado. E a relação socialentre os sujeitos também se faz mediada por imagens, que, ma-terializadas através dos efeitos performáticos, vêm a constituiruma visão de mundo.Trata-se de um jeito de pensar que começa supostamentena verdade, mas para privilegiar o que ela guarda de falso, istoé, de “mentira”, para com isso, em seus melhores exemplos,aproximar-se, paradoxalmente, do que poderia ser a própriaverdade, como nos últimos textos ficcionais de Silviano Santiago.Um certo “fracasso” preside, então, este tipo de relato contempo-râneo, que se configura para “falhar”, produzindo uma narrativaem estado de instabilidade que acaba por realizar uma condiçãoprimeira da literatura, evidenciando que “um bom conto é umcampo minado” (SANTIAGO, 2005, p. 38).Como sou criticamente cética, mas não totalmente pes-simista, não vejo estas questões de forma apenas apocalíptica,ou escatológica. Penso mesmo que a história do pensamento jáestava a nos dever essa liberdade para o simulacro. A acreditar-semais nos fenômenos complexos de superfície, do que nas me-tafísicas, perde-se a transcendência, mas ganha-se um imensoconjunto de fenômenos virtualmente possíveis da realidade eda ficção a nos mostrar seus significantes, a partir dos quais,nós mesmos teremos de decidir o que é ou não relevante. Umaespécie de “território livre” como categoria estética, no sentido
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008176de que a arte em geral, assim como a ficção em particular, sãoespaços sem dono, exercícios de liberdade.Em A ordem do discurso, Michel Foucault preocupava-seem demonstrar como os princípios reguladores dos discursosinterferem nas Ciências Humanas e Sociais. Os movimentoscríticos a partir do século XX não escaparam, portanto, dasregulamentações discursivas de que trata Foucault. Assim, osprocedimentos teóricos, ao refletirem sobre o objeto “literatura”,estariam reproduzindo os mesmos processos de controle dodiscurso que definem o como se na episteme da modernidade,como, aliás, é a tendência de todas as epistemes.Considerando-se a desordem do discurso atual, ocorre-meentão refletir que, assim como grande parte da ficção hoje, queparadoxalmente busca o realismo, mas cada vez se sente menosresponsável pela construção de uma verdade, isto é, pela pró-pria inteligibilidade, também os simulacros teórico-críticos, naatualidade, precisam aprender a jogar com peças de linguagemque não respeitam o limite de seus tabuleiros, espalhando-se portoda parte. O que resta então à crítica que se quer teoricamenteadequada à estética contemporânea é a simulação de uma galáxiade significantes interpretativos possíveis, na dimensão lúdica depluralizar repetições, diferenças, figuras, imagens, entrando nopróprio jogo da desordem do discurso ficcional.Neste momento, falar de Literatura, utopia e crise implicaperceber que os melhores discursos ficcionais da atualidade vêmtematizando a própria crise ao construir simulacros inteligentesdo próprio gênero narrativo. A narrativa de ficção e a narrativacinematográfica são fábricas de sonhos e busca de realidadeque colocam o desejo em obra e, simultaneamente, reafirmam apotência do desejo de pôr o sujeito em obra (BARTUCCI, 2006),metáfora que elimina a morte desse sujeito. Então, que Diadorimseja a nossa neblina, tomando emprestada a Riobaldo essa licençapoética. Se utopia existe para não existir, e, se o discurso da lite-ratura é sempre uma grande ilusão, a literatura, apesar de suasagruras, continua sendo uma utopia que ainda é possível.
    • Agruras da ficção contemporâneaNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008 177ReferênciasBARTUCCI, Giovanna. Fragilidade absoluta: ensaios sobre psicaná-lise e contemporaneidade. São Paulo: Planeta do Brasil, 2006.BAUDRILLARD, Jean. De um fragmento ao outro. São Paulo: Zouk,2003.. Senhas. Rio de Janeiro: DIFEL, 2001.BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: J. Zahar,2007.BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra deNikolai Leskov. In: . Obras escolhidas: magia e técnica,arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.BERNARDO, Gustavo. A dúvida de FLUSSER: filosofia e literatura.São Paulo: Globo, 2002.BORBA, Maria Antonieta Jordão de Oliveira. Tópicos de teoria:para a investigação do discurso literário. Rio de Janeiro: 7 Le-tras, 2004.COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e sensocomum. Belo Horizonte: UFMG, 1999.FERRY, Luc. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Riode Janeiro: Objetiva, 2007.HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Riode Janeiro: DP&A, 2005.ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário: perspectivas de umaantropologia literária. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996.AbstractIn today’s world, in which we can see a radicaltransformation of things, nearly unprecedentedcrises emerge and affect all areas of activity, chal-lenging culture, aesthetics, ethical values, notionsof space and time, and the relations between publicand private, as well as bringing serious politicalissues and complex problems to the very realm ofthought. This essay aims at showing how contem-porary fictional speech thematizes and discussesits own perplexity, attempting a reconciliationbetween language and reality in a relentless efforttowards the confrontation of the human beingwith an “other” who is himself and, in this way,often making clear that fiction becomes necessaryfor the existence of the real.Keywords: Philosophy. Fiction. Crisis. Identity.Utopia.
    • Gragoatá Silvia Regina PintoNiterói, n. 24, p. 165-178, 1. sem. 2008178LIMA, Luiz Costa. História, ficção, literatura. São Paulo: Compa-nhia das Letras, 2006.MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. São Paulo: UNESP, 2002.NOVAES, Adauto (Org.). O silêncio dos intelectuais. São Paulo:Companhia das Letras, 2006.PINTO, Sílvia Regina. Identidade e realismo na ficção contempo-rânea. In: JOBIM, José Luís; PELOSO, Silvano (Org.). Identidade eliteratura. Rio de Janeiro: De Letras; Roma: Sapienza, 2006.SANT’ANNA, Sérgio. Um crime delicado. São Paulo: Companhiadas Letras, 1997.SANTIAGO, Silviano. Borrão. In: . Histórias mal con-tadas. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.SANTOS, Jair Ferreira dos. Breve, o pós-humano. Rio de Janeiro:Francisco Alves, 2003.SCHOLLHAMMER, Karl Erik. À procura de um novo realismo:Teses sobre a realidade em textos e imagem hoje. In:. Literatura e mídia. Rio de Janeiro: Ed. da PUC-Rio; São Paulo:Loyola, 2002.SODRÉ, Muniz. As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política.Petrópolis: Vozes, 2006.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008Narrar é resistir?Denise Brasil Alvarenga AguiarRecebido 26 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoAnálise da ficção contemporânea, buscandocompreender as transformações da literatura nocontexto das alterações sociais e culturais quemarcam os tempos da chamada pós-modernidade.Identificação de vertente literária de tematizaçãodo sufocamento da subjetividade no cenáriohostil da exclusão social. Busca de diálogo entreescrita literária do Brasil e da África do Sul emfins do século, a partir de duas obras específicas:O quieto animal da esquina, de João GilbertoNoll, e A vida e a época de Michael K., de J.M.Coetzee.Palavras-chave: Ficção contemporânea. Pós-modernidade. Noll. Coetzee.
    • Gragoatá Denise Brasil Alvarenga AguiarNiterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008180A pergunta que intitula o texto foi retirada de uma epígrafedo conhecido livro em que Fernando Gabeira narra sua versãoda história do seqüestro do embaixador americano, em plenaditadura militar. No livro, em forma de afirmação, ela refleteum pouco do sentido de missão que a narrativa assumira àquelaaltura, nos idos de 1979, quando, ainda na ditadura, mas já emuma sociedade que buscava se reorganizar para a reconquista doestado de direito, era imperioso denunciar a violência do regime.Muito já se disse acerca dessa missão e dos vários equívocos quea cercaram, em especial quanto à crença de que a literatura deveabdicar de seu estatuto artístico para retratar uma realidadeinterditada ao cidadão comum, pelos mecanismos de repressãoe censura dos veículos de informação.Neste início de século XXI, e, na realidade, desde o fimdo XX, entretanto, há uma evidente mudança de contexto: emtempos de aparente normalidade democrática no Brasil (se éque se pode chamar assim um estado que mantém e aprofundaas desigualdades sociais), o inimigo possui feições difusas, tãovoláteis como o capital globalizado, a denúncia parece não termais efeito nem mesmo propósito, e a literatura, como fenômenocultural, ocupa-se, em grande medida, de sua própria crise.É preciso, portanto, investigar as feições dessa narrativacontemporânea, tomando como referência, ainda que de ma-neira breve, as muitas transformações da vida social e culturalque assinalam a historicidade específica da narrativa de fins doséculo XX, já em um contexto de claras transformações que seimpuseram mais acentuadamente a partir de suas duas últimasdécadas. Nessa discussão, pode-se retomar o mote inicial, em-bora seja preciso recolocar a afirmativa em forma de pergunta:afinal, narrar é resistir?Em primeiro lugar, voltando um pouco no tempo e pen-sando na natureza específica da narrativa e nas relações queela estabelece com experiência humana ou social, há de se re-conhecer que, já na modernidade, na ordem fragmentária que aexistência inegavelmente assume, as formas literárias – dentreelas, talvez principalmente, o romance – vão incorporar à suaessência e estrutura muito dessa natureza. Num mundo emque “ser homem é ser só” (LUKÁCS, 2000, p. 82), a literaturaencontra seus meios de sobreviver ao declínio de uma relaçãoentre experiência e arte que sustentara, por exemplo, a palavraépica. Como afirma Benjamin, no célebre ensaio “O narrador”,o advento do romance na era moderna é representativo desseprocesso em que o acelerado e ofensivo ritmo da modernidadeimprime ao homem a fragilidade e o isolamento:[...] o romancista segregou-se. O local de nascimento do roman-ce é o indivíduo na sua solidão, que já não consegue exprimir-se exemplarmente sobre seus interesses fundamentais, poisele mesmo está desorientado e não sabe mais aconselhar.(BENJAMIN, 1975, p. 60)
    • Narrar é resistir?Niterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008 181Configurado plenamente no curso da ordem moderna, oromance seria dela também um testemunho, conforme identi-fica Lukács: “O romance é a epopéia de uma era para a qual atotalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente,para a qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática[...]” (LUKÁCS, 2000, p. 55). Nos tempos contemporâneos, essesentimento de inadequação de uma totalidade extensiva ou deimanência parece ainda mais evidenciado.Em segundo lugar, tomando como foco o segundo elementoda pergunta (“resistir”) é preciso discutir o que se entende porresistência ou mesmo a necessidade de que ela exista no con-texto de precarização da experiência, particularmente em nossotempo, quando proliferam os anúncios de morte das utopias.Já há bastante tempo está claro que, quando se fala em arte ecultura, essa resistência possui seus limites específicos. Falandopropriamente da narrativa literária, podemos lembrar SilvianoSantiago, que, na prosa-limite de Em Liberdade, ainda na décadade 80, aponta, nas palavras de um Graciliano Ramos personageme autor de um diário fictício, que a função do escritor deve sera de instilar gotas de insatisfação quando a sociedade pareceacomodada a uma norma – no caso, especificamente, à normaautoritária. Essa função, contudo, não se cumpriria por meiode uma ficção tal e qual a realidade; pelo contrário, só atingiriao objetivo se sua elaboração artística incorporasse o conflito desubjetividades, exercitado por intermédio de uma linguagemfeita de ambigüidades e lacunas.Mesmo sabendo que a fala, no livro, se contextualiza nadiscussão do papel do artista em meio à experiência autoritária,pode-se dizer que esse impulso de produzir o estranhamento,o incômodo gerador da reflexão, atravessa as eras da literatura,particularmente nas obras que sobrevivem ao seu próprio tempo.De fato, é disso que vem tratando, há muito, a crítica e a históriada literatura. Entretanto, um dos problemas que se colocam hoje,para a arte e para o pensamento, afeta exatamente a necessidadede haver esse impulso ainda visto como forma de resistência.Grande parte da retórica que embalou o pós-moderno buscaencontrar, para a literatura e para aquilo que concebe comoexercício crítico, outras searas, quilômetros distantes das formasde interpretação do mundo que dominaram a modernidade.Afinal, a preponderância da imagem, a diluição das rela-ções de pertencimento nacional ou regional sob o domínio docapital globalizado, e o abandono de dadas categorias históricasem privilégio de um presente em que a liberdade é tutelada peloconsumo, são todos fatores da contemporaneidade que se impu-seram na reflexão sobre a capacidade – ou, antes, até mesmo sobrea necessidade – de uma resistência operada pelos incômodosque a arte, com suas armas próprias, é capaz de produzir. Essecontexto, como sabemos, encontra-se intimamente vinculado à
    • Gragoatá Denise Brasil Alvarenga AguiarNiterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008182idéia de superação da modernidade, na configuração de umapós-modernidade que ataca todo tipo de totalidade (da qual osprojetos de resistência também teriam participado), na defesade um modelo atomizado das experiências humanas, dentreelas a artística.De fato, um dos primeiros elementos atacados pelo precur-sor das teorias do pós-moderno, Jean François Lyotard, são osprojetos de saber (por extensão, de arte e de cultura) fundadosno que ele chama de metarrelatos, ou seja, os grandes modelosinterpretativos da sociedade e do homem, que se afirmaram nocurso da consolidação da modernidade (LYOTARD, 1986).Para Lyotard, sinteticamente, o período histórico inau-gurado com as Luzes baseava-se em uma pressuposição deverdade – consenso entre interlocutores norteados por mentali-dades racionais – na qual se baseavam os metarrelatos, ou seja,as interpretações teóricas que buscavam aplicação ampla oumesmo universal, como, por exemplo, as propostas por Marxou Freud. O pós-moderno, por outro lado e em termos tambémsintéticos, seria baseado na incredulidade contemporânea dianteda legitimação gerada por esses metarrelatos. Tal crise de legiti-midade, correlata à própria crise da modernidade na sociedadepós-industrial informatizada – caracterização baseada no con-servador Daniel Bell –, revela, ainda para Lyotard, que a ciênciase inscreveria agora em um domínio de jogos de linguagem, noqual não detém a supremacia que a Razão moderna outrora lheconferira.Na rede desses jogos de linguagem, a legitimação depen-de de um pacto temporário ou conjuntural a cargo dos sujeitosenvolvidos. Exposta ao casual e descontínuo, tal legitimaçãoseria cada vez menos passível de controle por formas centraliza-doras, inclusive aquelas pertinentes ao Estado-nação moderno,que, no processo de consolidação da modernidade, deteve umhistórico privilégio no que concerne à produção e à difusão doconhecimento. Nesse quadro de inequívoca fragmentação dasproposições vistas como “verdades” modernas – particularmenteaquelas derivadas das promessas emancipatórias da RevoluçãoFrancesa – o performático e o paralogístico emergem comomarcas dos novos tempos.Independentemente, entretanto, do juízo que se possatecer sobre esse tipo de reflexão, é fato que aquilo que se gerouprogressivamente a partir do fim da década de 70 do séculoXX foi, no campo teórico, um sentimento de insuficiência emrelação a conhecidas linhas de pensamento da modernidade, natentativa de apreensão e análise da sociedade contemporânea.É na repetida manifestação disso que se configura o que Rou-anet chama de “consciência da ruptura” com a modernidade(ROUANET, 1987).
    • Narrar é resistir?Niterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008 183Não se vai aqui estender a discussão acerca da existência ounão dessa ruptura, mas buscar-se-á entender como a literaturacontemporânea tem percebido tal consciência e de que modo elatem, ou não, apresentado sua forma específica de resistência.Tomemos como exemplo, na literatura brasileira, o romancede João Gilberto Noll, O quieto animal da esquina, publicado em1991, e, entre os escritores africanos, o exemplo de Coetzee, comA vida e a época de Mikael K., de 1993.Partícipes de um mundo instável, excludente e desesperan-çado, os protagonistas desses romances encarnam uma formaparticular de epopéia em nosso tempo. Solitários, com rumose propósitos incertos, suas viagens são embaladas por um sen-so de sobrevivência muito distante da altivez ou astúcia dosheróis épicos. O talento que lhes permite continuar a existir éjustamente o de saber viver às margens, de desaparecer em umasociedade para a qual eles, em última instância, seriam mesmoinvisíveis e até desnecessários.No romance de Noll, um personagem-narrador anônimose apresenta, logo de início, em um contexto de instabilidade,próprio não só da exclusão social, como também, metaforica-mente, da vida contemporânea. Desempregado, sem pai, vivecom a mãe em uma ocupação urbana de um prédio abandonadoe inacabado, evocando uma espécie de desenraizamento quemarca o cenário social dos despossuídos e que, internamente ànarrativa, vai acompanhar o personagem, assinalando sua condi-ção sempre estrangeira e, no fundo, incapaz de verdadeiramentecompreender um mundo que parece dispensá-lo, descartá-lo.Depois de conhecer os porões de uma prisão e de umaclínica correcional (presentes na narrativa, vale dizer, como fla-shes, sem ceder ao apelo fácil de um realismo empobrecedor), opersonagem-narrador é levado para conviver com uma famíliade alemães, proprietários rurais, revivendo uma condição deagregado que ficou célebre na literatura brasileira pelo viés irô-nico de Machado de Assis. Homem de seu tempo, entretanto, oagregado da casa de Kurtz e Gerda experimenta o sem-lugar desua própria condição, sem capacidade de se movimentar como ovivíssimo José Dias, e temendo, a cada momento, perder aquelavida confortável pela qual nada efetivamente fez e sobre a qualtambém pouco entende. Esfumaçados seus registros de origem ede classe, percebe a violência que pulsa subliminarmente na casados fazendeiros, ao mesmo tempo em que observa, algo distante,o movimento dos sem-terra em uma iminência de ocupação:Fui para o quarto, e a noite já tinha caído, lá em cima na estradaos sem-terra acendiam fósforos, uma ínfima chama se apagavae logo outra se acendia por perto, me debrucei na janela, meveio a lembrança de uma canção que a rapaziada costumavacantar nos tempos da Glória, mas eu não conseguia avançardo primeiro verso, e mesmo aquele único verso foi como que
    • Gragoatá Denise Brasil Alvarenga AguiarNiterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008184se diluindo na minha cabeça, em alguns minutos se desfez,na verdade parecia que de repente o meu destino tinha meultrapassado, a mim e a todas as canções que costumavam sairde cor da minha boca, de tal modo que chegaria um tempo emque eu viraria para trás e não teria mais nada que reconhecer.Daqui a pouco não precisarei mais mover uma palha para evi-tar o meu passado, pensei com desafogo. (NOLL, 2003, p. 42)Os fatos da arena política nacional também não lhe desper-tam interesse e só lhe aparecem como pano de fundo residual,como se expressa na referência a um comício da campanha Lula,que, na narrativa, serve de ocasião para um dos encontros sexu-ais do personagem central, no jogo de acasos que caracterizamsua vida amorosa, esvaziada de afeto, como todas as relaçõesinterpessoais que ele precariamente estabelece.Mas em meio à sua jornada feita de acasos e silêncios, comodado de desequilíbrio, como apelo ao inesperado, o anônimonarrador é poeta. Escrevia versos enquanto procurava, em vão,emprego pelas ruas de Porto Alegre, nos tempos ironicamenteidentificados com um bairro denominado Glória. E depois, nasagruras de sua vida errante, a poesia persiste ainda, como umelemento inesperado que, de algum modo, sobrevive à progres-siva acomodação, à própria assimilação de sua subjetividade poruma história feita por outros sujeitos.Com essa condição de criador convive, em constante ten-são, a imagem do “quieto animal da esquina”, título de um dospoemas do personagem central, que remete a uma situação con-traditória: a quietude, o comportamento domesticado, guardaum esvaziamento da condição humana, uma paradoxal anima-lização, localizada em um espaço que sugere, simultaneamente,proximidade e iminência, intimidade e perigo.Assim, a percepção do casual e do temporário – detectadapor Lyotard, no plano teórico, como forma de libertação diantede uma totalidade derivada do Iluminismo – revela-se, no ro-mance de Noll, como a face dramática de uma efetiva reduçãodas possibilidades do indivíduo, e não como sua redenção oumesmo como qualquer tipo de avanço. Longe dos pertencimentoscelebrados pelo projeto hegemônico da modernidade, a figuraanônima do narrador apega-se precariamente ao que lhe aparece,renunciando ao papel de protagonista de sua própria história.Nessa renúncia, entretanto, afastam-se tanto as possibilidadesde encontro mais coletivo com seus pares, quanto qualquer so-lução individual que não implique submissão e quase anulaçãodo indivíduo, em proveito de um presente inseguro, feito deformas diversas de violência e solidão.Desse modo, aquela cena das opressões operadas por uminimigo visível, pelos diferentes mecanismos de tutela do imagi-nário (em que se move a narrativa de Gabeira ou a condição doGraciliano-personagem de Santiago, por exemplo), é substituída
    • Narrar é resistir?Niterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008 185por outra, em que a anulação do indivíduo assume alguma formade escolha. Afinal, na equação entre condições de vida miserá-veis e alternativas de salvação, não se pode dizer que o jovemanônimo da narrativa de Noll não tenha, em parte, escolhido oseu caminho, mesmo que tal opção leve, paradoxalmente, a umaprogressiva perda de capacidade de escolher, à aceitação de umaproteção que se revela, no fundo, desenraizadora e impeditiva:“Recomecei a andar, frouxo, sem vontade, como se Porto Alegrejá não me interessasse. Se tivesse um jeito de eu permanecer noRio, ou mesmo na Alemanha, na Europa, sem perder a situaçãoque Kurt me proporcionava” (NOLL, 2003, p. 42).Na cena final, a aceitação em vestir as roupas do fazendeiroalemão é acompanhada de um berro, que aponta uma percepçãodefinitiva da perda da identidade que se vinha fazendo progres-siva e agora se mostrava irremediável. Vão-se os últimos fios deuma identidade que se viera adaptando, demonstrando-se tãolíquida como a fase atual da modernidade, na caracterização deBauman (2001).Tal interpretação, nada celebrativa, dos deslizamentos dosujeito integra um esforço de leitura da realidade em que, se porum lado enxerga como problemas os projetos emancipatóriosque se fizeram presentes no imaginário durante grande parte doséculo XX, por outro reproduz, no aleatório do jogo das identida-des, o gesto que imortalizou o desespero n’O grito de Munch.Não parece haver projeto de redenção na ficção de Noll,que leva o leitor a acompanhar a condição errante do perso-nagem principal, em uma viagem pelas margens, pontuadapelo iminente desamparo e pela diluição do ser em seu trágicocenário social. Também nessa narrativa, a figuração do desen-raizamento, o sentimento estrangeiro em um mundo instável ehostil, acompanha a perene condição fugidia de um narradorsignificativamente anônimo, que se esgueira pela casa na voltade suas saídas noturnas, que observa à distância o complicadojogo de papéis na casa dos alemães, e que, enfim, só guarda desi mesmo um berro, resistência lacunar e desesperada de quemvê sua sobrevivência como renúncia.Nesse sentido, a resistência que se pode ler no romancenão encarna mais aquela face exposta de que fala a epígrafede Gabeira, mas se ocupa em manifestar, agudamente, umaconsciência que talvez entenda o próprio exercício crítico comoo “quieto animal da esquina”, como potencialidade latente dedesconstrução de uma ordem que se anuncia como mundial.De animalização e silêncio também se compõe o perso-nagem Michael K., de Coetzee. Assinalado desde o nascimentopor um lábio leporino e pela condição social subalterna de suamãe, Michael segue seu caminho sempre às margens, sempreinsignificante em sua solidão:
    • Gragoatá Denise Brasil Alvarenga AguiarNiterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008186Ano após ano, Michael K ficou sentado em cima de um co-bertor vendo a mãe limpar o chão dos outros, aprendendo aficar em silêncio.[...]Aos quinze anos, saiu do Huis Norenius e passou a fazerparte da Divisão de Parques e Jardins do serviço municipalda Cidade do Cabo, como Jardineiro, grau 3(b).Três anos de-pois, deixou a Parques e Jardins e, após um breve período dedesemprego que passou deitado olhando as próprias mãos,arrumou um trabalho de atendente noturno nos lavatóriospúblicos de Greenmarket Square.[...]Por causa da sua cara, K não tinha amigas mulheres. Ficavamelhor sozinho. Ambos os empregos haviam lhe dado umacerta medida da solidão [...]. (COETZEE, 2003, p. 10)Vivendo no país do apartheid, em um contexto de extremainstabilidade social, experimentando a opressão de um regimeautoritário, que o lança à condição de uma cidadania de segundaclasse – deformação social a que sua deformação física e seu si-lêncio metaforicamente parecem remeter –, Michael decide levara mãe em uma viagem de volta à terra natal dela, no interiorda África do Sul. Doente, com dificuldade de locomoção, a mãeé carregada por Michael em um carrinho de mão, imagem deuma precariedade em tudo semelhante à sua própria vida e àssuas condições de se afirmar como sujeito em uma sociedadena qual o direito de ir e vir pode depender da condição socialou racial daquele/a que o reivindica.A viagem de volta à origem, à fazenda onde passara a in-fância, torna-se inconclusa para a mãe, que morre bem antes dechegar ao destino, transformando-se em cinzas que, segundo aprópria conclusão de Michael, dão continuidade à insignificânciaque sempre lhe impuseram em vida. Mas, para ele, o percursodo silêncio e da invisibilidade continua, seja no hospital, nocampo de refugiados, ou numa toca da fazenda que ele usa parase esconder, camuflando-se na mesma terra que dá vida às suaspoucas sementes de abóbora.Em sua caverna algo platônica, isola-se de um mundo ame-açador e hostil, refugiando-se tanto do neto do proprietário dafazenda, que quer escravizá-lo, quanto das ameaças da guerracivil. A cada dia que passava, “parecia não existir nada, a não serviver”, e era o que ele fazia, às vezes esvaziando a mente, “semquerer nada, sem esperar nada” (p. 82). Mas, em tudo distantedaquele universo grego, sentia-se como um bicho. A luz que ocegava acaba por alcançá-lo, revelando a fragilidade de sua vidae de sua saúde, expulsando-o de seu refúgio e interrompendosua relação com a terra, único fio de existência que – ao contrárioda guerra civil sul-africana e do mundo, que o sufocavam – eleparecia compreender.
    • Narrar é resistir?Niterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008 187De uma memória que “parecia ser feita de partes, não detodos” (p.61), Michael tira o sentido de sua caminhada, de umainacreditável resistência que, massacrada pela debilidade docorpo e pelo peso da História, se recusa à adaptação, mesmoaquela camuflada pelo discurso da compaixão. Diferente dopersonagem do Noll, Michael move-se norteado pelo sentido desua distância em relação a este mundo, pelo estranhamento desuas feições e de suas atitudes, em uma realidade em que sobre-viver implica conceder. Perplexo, o oficial médico de um campomilitar de “reabilitação e trabalho” para prisioneiros assume afala narrativa e procura definir essa condição fugidia:Nesse momento, desconfio, por ser essa a sua natureza, você seporia a correr.E eu teria de correr atrás de você, chapinhandona grossa areia cinzenta como se fosse água, desviando dosgalhos, gritando: “Sua estada no campo foi apenas uma ale-goria, falando no nível mais elevado, de como um significadopode, escandalosamente, exorbitantemente, se instalar dentrode um sistema sem passar a fazer parte dele. Você notou como,sempre que eu tentava encurralar você, você escapava? Eunotei. Sabe que idéia passou pela minha cabeça quando vique você tinha ido embora sem cortar o arame farpado? ‘Eledeve saber saltar com vara’. Foi isso que pensei. Bom, vocênão pode saltar com vara, Michael, mas é um grande artistada fuga, um dos maiores fugitivos: tiro o meu chapéu paravocê!”. (COETZEE, 2003, p. 192-193)Instalar-se no sistema, sem tornar-se parte dele, fugir semrumo, entregar-se à terra é dotar-se de um poder de superaçãotão improvável como saltar com vara sobre a cerca de um campode prisioneiros, para alguém no limite das forças do corpo. Masé justamente quando esse improvável acontece que Michael con-segue comunicar o significado de sua vida, predominantementefeita de solidão e incomunicabilidade. Logo ele, para quem aspalavras sempre foram problema, visto que freqüentemente in-compreensíveis, fazendo “a burrice subir dentro dele” e em muitolembrando nosso Fabiano de Vidas Secas, na sua precariedadede vida e de linguagem.Nessa alegoria do precário, mostram-se as ruínas de umpertencimento que Michael também não reconhece como possi-bilidade para continuar existindo. Afinal, família, nacionalidadee coletivo são moldes sempre distantes para ele. A identidadedeformada de sua face, a mãe que sentia medo e vergonha,afastando-o das outras crianças, uma nação que não lhe confe-re cidadania e o constante desencontro com seus semelhantes,brutalizados, como ele próprio, pela miséria ou pela guerra, sãotodos fatores que tornam impossível seu encontro com o outroe, em alguma medida, consigo mesmo.Como o protagonista do romance de Noll, Michael não sedefine, apenas foge. E aqui não é a identidade que desliza, quese torna móvel. Afinal, a identidade lhe foi impressa, a ferro e
    • Gragoatá Denise Brasil Alvarenga AguiarNiterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008188fogo, por um mundo intolerante e excludente. O desconcertode sua existência conduz à incompreensão, tanto por parte dosoutros, quanto por ele mesmo:Ninguém sabia de onde ele era. Não tinha nenhum documento,nem um cartão verde. No boletim escreveram “Michael Visagie[na verdade, esse era o nome da família proprietária da fazen-da em que ele se escondera] – Sexo masculino – Cútis escura– 40 – Sem residência fixa – Desempregado”, acusado de sairde seu distrito legal sem autorização, de não ter em sua possedocumento de identificação, de infringir o toque de recolher,de bebedeira e desordem. (COETZEE, 2003, p. 84)Sempre que [Michael] tentava se explicar para si mesmo, so-brava um espaço, um buraco, um escuro diante do qual seuentendimento empacava, no qual era inútil jogar palavras. Aspalavras eram devoradas, o buraco permanecia. Sua históriatinha sempre um buraco: uma história errada, sempre errada.(COETZEE, 2003, p. 128)Com a fuga de Michael, significativamente contada por pa-lavras pertencentes a um outro (o médico) sujeito da enunciação,a narrativa sugere que a condição de excluído, de errado, assimcomo sua marca de nascença, vai acompanhar o personagem emtodos os espaços e por todo o tempo. Com essa identidade bemmarcada no jogo da exclusão e do silêncio a que é condenadopor sua época, a Michael K resta alhear-se, fugir. Mas é nessealheamento que se demonstra sua resistência.É interessante observar que a idéia do deslocamento parecemesmo companheira constante da narrativa contemporânea,seja na figuração do sentimento de abolição de fronteiras, sejana representação problemática do chamado descentramento doindivíduo ou das muitas crises que abalam os pertencimentoscoletivos. Essa configuração esvazia a idéia de uma resistênciaidentificada com a utopia, conduzindo parte da boa ficção con-temporânea para o exercício de instilar suas gotas de insatisfaçãona caracterização de um tempo movediço e instável.E, se é verdade que essa instabilidade é marca da nossaépoca – correlata de um mundo capitaneado pelo capital volátile globalizado –, é fato também que ela se faz muito mais mar-cante no lado do planeta que está historicamente condenado apagar a conta dos desacertos do chamado primeiro mundo. Ésignificativo que essas narrativas ambientadas no Brasil e naÁfrica do Sul mostrem, de maneira tão aguda, o que representaviver à margem; no caso de ambos os protagonistas, à margemda margem.Nas rotas de fuga do anônimo poeta e de Michael K, arealidade não se produz por uma cultura tornada uma segundanatureza, para usar as palavras de Jameson (2004) – embora naambientação contemporânea dos romances sempre se possamreconhecer alguns efeitos desse fenômeno. Não há lugar para o
    • Narrar é resistir?Niterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008 189pastiche ou para a glorificação do simulacro; o peso da existênciaindividual e social de ambos se impõe, soterrando as possibili-dades de deslizamento do sujeito, de exercício interpretativo decitações ou de múltiplas realidades. Diante dessas figuras dolo-rosamente inseridas na nova ordem mundial, principalmenteMichael K, a figuração de uma humanidade sem fronteiras,irmanada pelas possibilidades da comunicação e do consumo emescala global, assume tom de impiedosa pilhéria. Analisando asconseqüências humanas da globalização, Zygmunt Bauman ela-bora uma caracterização que parece precisa para o problema:Se a nova extraterritorialidade da elite parece liberdade in-toxicante, a territorialidade do resto parece cada vez menoscom uma base doméstica e cada vez mais com uma prisão –tanto mais humilhante pela intrometida visão da liberdadede movimento dos outros. Não se trata apenas do fato deque a condição de “estar imobilizado”, incapaz de se mover àvontade e com acesso barrado a pastagens mais verdejantes,exsude o odor acre da derrota, indicando uma condição hu-mana incompleta e implicando ser defraudado na divisão dosesplendores que a vida tem a oferecer. A privação atinge maisfundo. (BAUMAN, 1999, p. 31)Assim, para ambos os personagens, o que seu espaço-tempo legou foram as pequenas brechas em que aprenderam asobreviver. De algum modo, as narrativas de que fazem partecaracterizam ainda uma via de resistência, destoando do tomalgo festivo e kitsch da estética pós-moderna, daquilo que Jame-son caracterizou como lógica dominante do capitalismo tardio.Aliás, o crítico examina exatamente O grito, de Munch, paralevantar a hipótese histórica de que os conceitos de ansiedadee alienação (que estariam sugeridos na tela) não são mais pos-síveis no mundo pós-moderno, tendo em vista que a alienaçãofoi deslocada pela fragmentação do sujeito.Se este é comumente visto como o sujeito centrado bur-guês, cunhado na primazia do individualismo, vale notar que osprotagonistas dos dois romances não podem propriamente seridentificados com tal categoria. Seu desespero advém de outrotipo de experimentação do mundo e, no geral, seu empareda-mento não se aproxima das angústias do homem isolado emvirtude das mesmas questões que se manifestavam nas obras domodernismo. Iguais a eles, milhões de outros homens a quemsão e serão negadas as portas do futuro, a quem restará apenasexistir e em nome de quem, por vias diversas, próprias de suaépoca, a literatura continua a lançar seu grito, talvez, para lem-brar o poeta, esperando outros galos que o apanhem.
    • Gragoatá Denise Brasil Alvarenga AguiarNiterói, n. 24, p. 179-190, 1. sem. 2008190ReferênciasBAUMAN, Zigmunt. Globalização: as conseqüências humanas.Trad. Marcus Penchel. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1975.______. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro:Zahar, 2001.BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Trad. José Carlos Barbosaet. al. São Paulo: Brasiliense, 1995. v. I, II, III._____. O narrador. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os pensa-dores)COETZEE, J.M. Vida e época de Michael K. Trad. José Rubem Si-queira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Trad. ElisabethBarbosa. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad.Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro:DP&A, 2001.JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalis-mo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 2004.LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosó-fico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Duas Cidades:Ed. 34, 2000.LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Trad. Ricardo C. Bar-bosa. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1986.NOLL, João Gilberto. O quieto animal da esquina. São Paulo: Fran-cis, 2003.ROUANET, Sérgio P. A verdade e a ilusão no pós-modernismo.In: ______. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia dasLetras, 1987.AbstractAnalysis of contemporary fiction, in an attemptto explicit the transformations of literature inthe context of social and cultural changes whichcharacterize post-modernity. Identification ofliterary trends of thematization of the erasureof subjectivity in the hostile scenery of socialexclusion. Search for a dialogue between literarywriting in Brazil and in South Africa in the late20th century, based on two specific works: JoãoGilberto Noll’s O quieto animal da esquina andJ.M.Coetzee’s Life & times of Michael K.Keywords: Contemporary fiction. Post-moder-nity. Noll. Coetzee.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008Os velhos “marionetes”:Quincas Berro D’Água, versões econstrução de identidadeLúcia BettencourtRecebido 28 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoNeste artigo, o exame do conto “A morte e amorte de Quincas Berro D’Água”, extraído de Osvelhos marinheiros (1961) revela que, em suaelaboração, Jorge Amado aproveitou-se de perso-nagens correntes na dramaturgia popular, e recor-rentes em sua obra. Estas personagens, oriundasda tradição européia da “comedia dell’arte”, naficção de Amado se mesclam à arte popular re-gional, de forte influência africana. Com isso, oconto pode receber uma nova leitura que deixa deprivilegiar o caráter fantástico da narrativa pararessaltar o seu aspecto dramático, subvertendo acompreensão do cidadão brasileiro, Quincas, queadquire expressividade através da manifestaçãoartística popular, já que o próprio protagonistaganha traços de marionete. Na cena final, os cabosdas velas do saveiro balançam vazios após o desa-parecimento do boneco que animavam, deixandoem seu lugar a possibilidade de diferentes versõesque o construam.Palavras-chave: Marionetes. Dramaturgia po-pular. Jorge Amado. Quincas Berro D’Água.
    • Gragoatá Lúcia BettencourtNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008192Quem começa a leitura de “A morte e a morte de QuincasBerro D’água”, de Jorge Amado e presta atenção na descrição daspersonagens, se surpreende com caracteres de traços e roupasexageradamente fora do comum, que bem poderiam ter sidotirados do palco de um circo que reinterpretasse as tradições dacommedia dell’arte. Quincas, Curió, Pé-de-Vento e os outros apa-recem descritos como verdadeiros marionetes, com “fantasias”bizarras e rigidez caricatural. Quincas vem apresentado com ostrajes de vagabundo – um vagabundo idealizado, que se opõea um mundo pequeno burguês dominado pela conveniência, aeconomia e o senso prático. Sua roupa grande demais, seu cole-te sebento, a meia furada e a barba por fazer funcionam comoelementos que lhe fornecem identidade e, até mesmo, vida.Preparada por inúmeras divagações que se expandempor todo o primeiro capítulo da narrativa, a figura de Quincasfinalmente aparece sem retoques: “Quincas sorria deitado nocatre – o lençol negro de sujo, uma rasgada colcha sobre as pernas–, era seu habitual sorriso acolhedor […] O dedão do pé direitosaía por um buraco da meia, os sapatos rotos estavam no chão”(AMADO, 1961, p. 22).Esta é a caracterização habitual da personagem. Nada dissocausa espanto à negra que vem à procura do vagabundo paraapanhar as ervas que este lhe prometera conseguir. Seu sorrisocostumeiro, sua figura familiar não lhe causam estranheza.A negra somente se apercebe de que algo está errado quandoQuincas deixa de agir como era esperado, e não estende a “mãolibertina, viciada nos beliscões e apalpadelas” (AMADO, 1961, p.23). Até mesmo Vanda, a filha, não se surpreende ao encontrá-lo,um capítulo mais tarde, na mesma situação em que fora dadocomo morto. “No catre, Quincas Berro Dágua, as calças velhas eremendadas, a camisa aos pedaços, um seboso e enorme colete,sorria como se estivesse a divertir-se. […] o rosto de barba porfazer, as mãos sujas, e dedo grande do pé saindo da meia furada”(AMADO, 1961, p. 25).A oposição entre a respeitabilidade da filha e a falta deapresentabilidade do morto se revelam no rosto ruborizado devergonha com que Vanda contempla o pai. A distância entre afilha e o pai transviado é tanta que a impede de qualquer emoçãofilial. Mais do que isso, não a deixa entrar no “picadeiro”, paraservir de espetáculo aos poucos presentes que “[a]fastavam-separa ela passar, curiosos de vê-la lançar-se sobre o cadáver,abraçá-lo, envolver-se em lágrimas, soluçar talvez” (AMADO,1961, p. 25).O fato é que, tal como nos é apresentado, Quincas é umboneco abandonado pela vida, ao qual é preciso ajeitar, consertar.Desde o início da narrativa, temos dois mundos aparentementeantagônicos, enfrentando-se na disputa de versões sobre suamorte. Os discursos se contradizem, as lacunas se multiplicam.
    • Os velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água, versões e construção de identidadeNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008 193A família defende a versão da morte matinal, enquanto outraversão se propala nas ladeiras e becos excusos. Ao atestadode óbito, “papel selado” com “letras impressas e estampilhas”,versão oficial defendida pela família, vem se contrapor a pró-pria narrativa, versão criativa defendida pelas “testemunhasidôneas”.A história se desenvolve num nível quase alegórico, coma elevação da suposta frase final de Quincas não só à categoriade epígrafe do texto como também a “um testemunho profético,mensagem de profundo conteúdo” – seja lá esse qual for, já queisso é deixado em aberto para a interpretação dos leitores do“jovem autor de nosso tempo” (AMADO, 1961, p. 19, passim).Como numa revolta dos brinquedos, todas as marionetescompanheiras de Quincas se reúnem na criação de uma versãoantagônica à dos familiares de Joaquim Soares da Cunha. Ofantoche abandonado sobre a cama vai ser vestido e desvestido,colocado em repouso ou em movimento, criando um espetáculoao luar que se pretende portador de um sentido mais além dasversões duplas e díspares.O objetivo da filha Vanda é recuperar a imagem anteriordo “boneco”, a imortalizada no quadro pendurado na parede desua sala: “um senhor bem posto, colarinho alto, gravata negra,bigodes de ponta, cabelo lustroso e faces róseas” (AMADO,1961, p. 24). Este retrato, tão estereotipado quanto o de sua mãe,é o paradigma pelo qual a família se guia para a recuperaçãodo morto. Retirando a “fantasia” de vagabundo e colocando nocorpo inanimado a “fantasia” de correto funcionário da Mesade Rendas Estadual, a identidade do morto se modifica. Já nãose trata mais de Quincas Berro D’Água, mas de Joaquim Soaresda Cunha.Não compreendiam que Quincas Berro D’Água terminara aoexalar o último suspiro? Que ele fora apenas uma invençãodo diabo. Um sonho mau, um pesadelo? Novamente JoaquimSoares da Cunha voltaria e estaria um pouco entre os seus, noconforto de uma casa honesta, reintegrado em sua respeita-bilidade. Chegara a hora do retorno e desta vez Quincas nãopoderia rir na cara da filha e do genro, mandá-los plantar ba-tatas, dar-lhes um adeuzinho irônico e sair assoviando. Estavaestendido no catre, sem movimentos. Quincas Berro D’Águaacabara. (AMADO, 1961, p. 26)O morto, bem comportadamente, se deixa manipularpelos funcionários da empresa funerária que, trocando-lhe aroupa, mudam-lhe a identidade. A metamorfose seria perfeita,não tivesse Vanda esquecido “de pedir uma fisionomia mais acaráter, mais de acordo com a solenidade da morte” (AMADO,1961, p. 38).Constatando, segundo as palavras do santeiro, que “nemparecia o mesmo morto”, Vanda contempla com prazer a recu-peração de Joaquim Soares da Cunha:
    • Gragoatá Lúcia BettencourtNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008194Penteado, barbeado, vestido de negro, camisa alva e gra-vata, sapatos lustrosos, era realmente Joaquim Soares daCunha quem descansava no caixão funerário – um caixãorégio (constatou satisfeita Vanda), de alças douradas, comuns babados nas bordas.[…] Fisionomia melancólica,fitou o cadáver. Sapatos lustrosos, onde brilhava a luzdas velas, a calça de vinco perfeito, o paletó negro as-sentando, as mãos devotas cruzadas no peito. (AMADO,1961, p. 34, 37)No entanto, a metamorfose não estava completa. Para ohomem do retrato – Joaquim – faltava a fisionomia séria. E parao defunto bem composto faltava a mão bem colocada, o polegarabaixado.Para Vanda estes detalhes são sinais de resistência e per-manência, vistos e ouvidos por ela, o sorriso e os deboches domorto levam a narrativa a uma ambiguidade fantástica que vaiimperar até o final da mesma.A história já está em sua metade. Até então, tudo o quese apresenta vem filtrado por narrativas de outros: a narrativado santeiro, as lembranças, boas e más, de Vanda com relaçãoa seu pai, as evocações bem humoradas de tia Marocas são osconstrutores da personalidade de Quincas/Joaquim. Mesmo noinstante em que as frases de Quincas começam a ressoar dentroda história, o leitor hesita entre atribuir as falas ao morto ou àsprováveis alucinações que um ambiente fechado, abafado e ex-cessivamente perfumado poderia provocar na filha autoritária. Onarrador fornece argumentos bastantes para as duas “versões”:a que ele habilmente vai construindo e a da família, que a essaaltura já está grosseiramente caricaturizada através de suas pró-prias palavras e ações. A cada descrição de Quincas/Joaquim, afamília se retrata a si mesma. A cada providência para o enterro,a família se denuncia como um pastiche da pequena burguesia,sem que seja necessária a intervenção do narrador. O uso hábildo discurso indireto serve, então, como instrumento de caracte-rização dos grupos divididos quanto à imagem do morto.Já Quincas/Joaquim se constrói a partir de retalhos (frag-mentos) de memória. É um boneco de trapos que vai sendo re-cheado a cada fala. Aqui, um funcionário exemplar, sisudo; ali,um exímio conhecedor de cachaça, rei das meretrizes. Aqui, ummarido acovardado e calado; ali, amante sábio e divertido. Asdiferenças se multiplicam, mas não a ponto de criar duas per-sonalidades totalmente distintas. Em Joaquim vislumbramos ascaracterísticas compassivas e ternas de um Quincas. Em Quincasvemos os resquícios de uma vida passada: idade, educação e“cultura” (entendida aqui como saber falar e expressar-se melhorque o grupo em que se insere).Esse boneco de trapos, marionete que cobra vida indepen-dente revoltando-se contra sua manipulação, se torna, segundo a
    • Os velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água, versões e construção de identidadeNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008 195opinião de Vanda, inquieto ao chegar a noite. Através do discursoindireto livre ele é apresentado como alguém que esperasse poralguma coisa, ou por outro alguém, com os olhos voltando-seora para a janela ora para a porta. Descobrimos, mais tarde, queele esperava pelos amigos.Estes vão surgindo pouco a pouco na narrativa. O primeirocomparsa de Quincas a aparecer é Curió, com sua casaca inusi-tada, seu rosto pintado de vermelhão:Empregava ele seus múltiplos talentos na propagandade lojas da Baixa do Sapateiro. Vestido com um velhofraque surrado, a cara pintada, postava-se na porta deuma loja, contra mísero pagamento, a louvar-lhe a ba-rateza e as virtudes, a parar os passantes dizendo-lhesgraçolas, convidando-os a entrar, quase arrastando-os àforça. (AMADO, 1961, p. 46-45)Sua gaforinha alta de mulato e a pintura de suas faces esta-riam mais à vontade num picadeiro que num velório ou mesmonas ruas da cidade. No entanto, ninguém parece estranhar suafigura, que se torna mais engraçada pelas suas tentativas decomportar-se como elemento sério. O ponto alto da comicidadede Curió pode ser colocado na cena do velório quando ele tentapuxar uma reza, colocando-se de joelhos e de cabeça baixa, numarremedo vão do comportamento tradicional.A seguir aparece Negro Pastinha, “que media quase doismetros” e “quando estufava o peito semelhava a um monumen-to, tão grande e forte era” (AMADO, 1961, p. 45). Esse aspectoassustador, no entanto, contrapõe-se a um “natural alegre e bo-nachão”, construindo o estereótipo do Bom Crioulo, do gigantegentil, ameaçador pelo tamanho e pela força, mas espontâneo enatural como uma criança. Dele só se pode esperar uma lealdadea toda prova ao seu “paizinho Quincas” e o à-vontade infantilque o leva a sentar-se no chão e a rir no velório sem nenhumsinal de constrangimento.Cabo Martim é o próximo elemento do grupo a surgirna narrativa. Encontrado em plena atividade como jogador,Martim é o galã do grupo. Se Curió pode ser aproximado doPierrô apaixonado por estar sempre noivando, vítima de pai-xões fulminantes, Martim está mais próximo de Arlequim, porquem as mulheres suspiram, ou do miles gloriosus, por sua pa-tente. Ex-cabo do exército, cultua a farda (ao fim e ao cabo, umafantasia), o amor, a conversação e o jogo. Com seus olhos azuisse une ao grupo na procura de Pé-de-Vento, personagem que,mais desenvolvido em outras histórias, sobrevivia ajudando osoutros a morrer, “especialista em abreviar o passamento para ooutro mundo desses moribundos renitentes, ‘agarrados ao fifóda vida’, mas foi pilhado complementando a eficácia das oraçõescom o cotovelo no gasnete do agonizante” (TAVARES, 1985, p.268). Na história de Quincas, o lado mórbido de Pé de Vento se
    • Gragoatá Lúcia BettencourtNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008196revela graças a sua profissão de caçador de ratos e de pequenosanimais para experimentos científicos. Essa sua identificaçãocom a ciência lhe traz prestígio perante o grupo:Caçava ratos e sapos para vendê-los aos laboratórios de examesmédicos e experiências científicas – o que tornava Pé-de-Ventofigura admirada, opinião das mais acatadas. Não era ele umpouco cientista, não conversava com doutores, não sabia pa-lavras difíceis? (p. 49).Vestido em um paletó grande demais, parece um meninofazendo-se de grande. Para melhor caricaturá-lo, o autor lançamão dos animais à custa dos quais a personagem sobrevive.Suas características são a imobilidade, o olhar parado, o deslizarsilencioso dos répteis. Assim sendo, não é de espantar que eletraga ao velório uma de suas presas, uma “pequena jia verde,polida esmeralda” – um tesouro de olhos saltados que vai seroferecido a Quincas na primeira oportunidade (Diga-se de pas-sagem, que é oferecido na esperança de obter outro tesouro deolhos arregalados – Quitéria).Cabo Martim, o rufião romântico, galã do circo mambem-be, que se desenrola pelas ruas de Salvador num carnaval atem-poralizado, chefia o grupo que comparece ao velório de Quincas/Joaquim para desgosto de sua família. Com modos educados– “em matéria de educação só perdia para o próprio Quincas”(p. 50) – ele se coloca à disposição para tomar conta do falecido.Vanda não deseja abandonar sua presa: o fantoche de Joaquim.Entretanto, se vê forçada, pelas conveniências, a retornar a casa,acreditando que, no dia seguinte de manhã, conseguiria retomaras rédeas do morto, continuando no comando da situação.Após sua partida, Eduardo, o irmão comerciante de Quin-cas/Joaquim acaba por abandonar o defunto. Pensando apenasnuma boa cama e em seu conforto, oferece algum dinheiropara o Cabo Martim “comprar uns sanduíches” e vai para casa,deixando o morto com o grupo de amigos.A partir daí Quincas começa a se transformar, por conta dainfluência do grupo. De “defunto porreta” passa a companheirode bebidas e piadas. Com a manipulação dos amigos acentua-se seu ar de marionete. Ele é colocado sentado no caixão, ondefica com a cabeça balançando de um lado para o outro, o sorrisoampliado pelo gole de cachaça. Sua herança – mulher e roupanova – é cobiçada pelo grupo. Se o cadáver parece relutar emabrir mão da mulher, os amigos interpretam os meneios de suacabeça como autorização para despojá-lo das roupas.– Bom paletó… – Cabo Martim examinou a fazenda. – Bes-teira botar roupa nova em defunto. Morreu, acabou, vai paradebaixo da terra. Roupa nova pra verme comer, e tanta genteaí precisando […]
    • Os velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água, versões e construção de identidadeNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008 197Palavras cheias de verdade, pensaram. Deram mais um golea Quincas, o morto balançou a cabeça, era homem capaz dedar razão a quem a possuía, estava evidentemente de acordocom as considerações de Martim.– Ele está é estragando a roupa.– É melhor tirar o paletó pra não esculhambar.Quincas pareceu aliviado quando lhe retiraram o paletónegro e pesado, quentíssimo. Mas, como continuava a cuspira cachaça, tiraram-lhe também a camisa. Curió namorava ossapatos lustrosos, os seus estavam em pandarecos. Pra quemorto quer sapato novo, não é, Quincas?– Dão direitinho nos meus pés.Negro Pastinha recolheu no canto do quarto as velhas roupasdo amigo, vestiram-no e reconheceram-no então:– Agora sim, é o velho Quincas. (p. 58)Com a mudança de roupas, muda-se também a identidadedo fantoche, definitivamente. O boneco já não é mais um híbridoQuincas/Joaquim e a marionete é mais bem manipulada. Capazde reações, cospe cachaça no olho de Curió, ao escutar o quenão deseja. Participa das críticas contra seus parentes e disputaseus goles de cachaça com disposição. E, finalmente, presta-se aopasseio pelas ruas enluaradas de Salvador, recuperando a “vida”através das roupas, da cachaça e da interpretação dos amigos.“Bêbedo que não se agüenta” sai Quincas, “satisfeito davida, num passo de dança” (p. 61), para participar de uma noitememorável.O grupo segue carregando seu velho “marionete”, que,“divertidíssimo, tentava passar rasteiras no Cabo e no Negro,estendia a língua para os transeuntes”, e “pretendia, a cada passo,estirar-se na rua”. No “cenário fantasmagórico” do Pelourinho (p.62), o velório já está transformado em comemoração ao aniversá-rio de Quincas. À chegada de Quitéria do Olho Arregalado, cujacaracterização teatral se coaduna com a cena, Curió se apressaa fazer seu pequeno discurso explicativo:– Tinha corrido a notícia de que Berro Dágua bateu as botas,tava tudo de luto. – Quincas e os amigos riram. – Ele tá aqui,minha gente, é dia do aniversário dele, tamos festejando, vaiter peixada no saveiro do Mestre Manuel (p. 63).Quitéria do Olho Arregalado, a heroína cômica, vestidacom mantilha negra num arremedo melodramático da viúvainconsolável, ao cair de bunda no chão reforça a farsa que sevai elaborando. Os fantoches se arrastam pelas ruas de Salvadorcom movimentos desengonçados de pantomima, caminhando
    • Gragoatá Lúcia BettencourtNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008198sob a luz do luar que encobre as cordas que manipulam essestíteres.Essas cenas humorísticas da narrativa começam a acontecerjá depois de adiantada a história. Primeiro, como vimos, temosa construção de uma duplicidade de versões da morte do herói:discute-se a possibilidade de cada um tratar de seu enterro – “Im-possível não há”! O tom da narrativa não promete nada de novo.Uma história fantástica, talvez. A repetição de adjetivos como“mágico”, “fantástico”, “misterioso” reforça essa aproximação aotexto. Em verdade, discute-se também a possibilidade e a vali-dade de duas versões para um mesmo fato, uma documentadapor um papel oficial – o atestado de óbito – a outra confirmadapor pessoas de “uma só palavra”. Poderíamos cair na discussãoentre o valor do humano versus o valor do documental. No en-tanto, o narrador, através da garantia de idoneidade de ambasas versões, deixa a opção a cargo do leitor, e para isso ele cons-trói o palco onde as personagens vão agir, demonstrando suaverdade. Ao papel oficial, vai-se contrapondo, gradualmente, opapel que se constrói a partir da narrativa, o papel artístico, odocumento literário.Para melhor redigir esse documento, o narrador deixaque as próprias personagens construam a cena e elaborem suasfantasias, até mesmo Quincas. Ele é sempre versão. O morto e ovivo se equivalem, pois cada uma das pessoas do texto ofereceuma interpretação para seu corpo, e essa explicação é a que per-manecerá na memória de uns e outros. Até mesmo sua alcunhaé produto de uma fala, de um berro: “águuuuua!” E esse seucaráter “literário”, prestando-se a toda interpretação, perdurapor todo o texto. Agindo ou reagindo, seus gestos, suas pausas,seus silêncios são sempre trazidos ao leitor através do filtro dainterpretação de outras personagens. Como num teatro de ma-rionetes em que o movimento convulso dos bonecos gera maisação e, com isso, propulsiona o desenvolvimento da cena, aquios estertores de Quincas – ou sua imobilidade, tanto faz – gerammais interpretações, levando a narrativa e as personagens aomomento culminante do passeio de saveiro.Finalmente temos Quincas em pé junto à vela menor,debaixo da tempestade que ameaçava a embarcação. Ninguémsabe como ele se pôs em pé naquele lugar. Na confusão da tem-pestade, é impossível ver as cordas que movimentam este títere,mas todos presenciam sua queda no mar e ouvem sua frasederradeira. Essa cena final poderia desfazer a ambigüidade ha-bilmente construída pela narrativa, por causa da unanimidadede versões. Só que a famosa frase final também terá “versõesvariadas”, invalidando a univocidade dos fatos. Desse modo,a história de Quincas começa e termina com duas versões deuma mesma citação. A epígrafe inicial, “segundo Quitéria que
    • Os velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água, versões e construção de identidadeNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008 199estava a seu lado” e o verso final, “[s]egundo um trovador doMercado”.O velho “marionete” escapa da sua rigidez de boneco etransforma-se na personagem mítica da literatura, com ou semcordel que o comande.Os textos que pertencem à “fala” do narrador externo,possuem uma qualidade que o aproximam de uma literatura“fora-de-moda”. Com frases grandiloqüentes e torneadas, sãouma espécie de “literatura popular culta” – lembrando o con-ceito lingüístico da hipercorreção, quando se peca pelo exagero–, e exprimem conceitos tão ultrapassados quanto sua retórica.Pensamentos convencionais a respeito das personagens e desuas ações se misturam a românticas descrições de cenáriosenluarados numa recriação de padrões descritivos do séculodezenove. O efeito dessa retórica anacrônica, em contrapo-sição às cenas de comicidade “chula”, cria uma atmosfera de“domingo na TV”, quando a pieguice de quadros sentimentaisdisputa a audiência com as palhaçadas das video-cassetadas.Esse efeito de “patchwork”, uma obra composta por retalhosdíspares, mas unidos todos num mesmo padrão estético, é quevai dar profundidade à obra. O equilíbrio das duas propostas:um misticismo mágico e piegas, frente a uma comicidade gros-seiramente circense , neutraliza os defeitos e exageros de cadauma. A presença de ambas, porém, torna o leitor agudamenteconsciente da construção “artística” de um texto que se elaboraa partir de sugestões e possibilidades. O texto adquire ambigüi-dade já que é impossível a opção por qualquer uma das versõesapresentadas. Os testemunhos “valem o escrito”, têm tanto valorcomo a forma em que vêm expressos. Para um grupo social áridocomo a família de Joaquim Soares da Cunha, a secura denotati-va do atestado de óbito é a melhor expressão. Para a troupe depolichinelos que arrasta Quincas consigo, o que importa é ummodo diferente de olhar, de perceber. Quincas/Joaquim/velho“marionete” é um signo vazio que adquire valor através de suasrelações no texto.Com tudo isso, “A morte e a morte de Quincas BerroD’Água” se deixa analisar sob diferentes aspectos. A constru-ção cuidadosa do clima ambíguo que permite a classificação dahistória como narrativa fantástica já mereceu o estudo de EarlFitz. Dividindo o texto em três partes, Fitz demonstra como a voznarrativa cede sua vez aos próprios personagens, permitindo-lhes contar a história em suas próprias palavras, para, ao final,reentrar no texto, chamando a atenção para o lado mágico dosacontecimentos narrados.Esse lado mágico, mítico mesmo, que se desenvolve nocorrer da história de Quincas tem raízes no imaginário popu-lar, com o qual Jorge Amado mantém uma relação constante,alimentando-se e servindo de alimento para as obras de cordel.
    • Gragoatá Lúcia BettencourtNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008200Essa proximidade da literatura popular pode explicar o sistemabinário de valores que forma a base ideológica de sua obra, comopressupõe Nelson Vieira em seu artigo “Short Stories of JorgeAmado”. A memória popular que está presente na história deQuincas, bem como em outras histórias do mesmo autor, levaseus críticos a identificarem os elementos de maior apelo exó-tico da cultura baiana. Assim sendo, a crítica pode até mesmodemonstrar a ligação de “A morte e a morte de Quincas BerroD’Água” com a religião afro-baiana, tal como o faz Almir deCampos Bruneti.Nas fantasias de suas personagens revela-se a fantasiaessencial ao texto. Lidando com o imaginário que lhes permitever significações em todos os sinais, as personagens constróemuma farsa que invade suas vidas, suas mortes e até mesmo sualiteratura. A ânsia interpretativa antepõe-se ao próprio texto ea criação antecede ao próprio criador, comandando seus atos evalidando suas propostas.Quincas Berro D’Água, signo literário, construiu seu pró-prio texto por se negar a uma revelação total. Sua vitória sobrea morte não está em nível mítico, ou sobrenatural, ou é leituraequivocada, pois está em todos esses níveis. As narrativas sobreele o constroem a cada enunciação e contra esses documentosnão têm poder os selos, os cartórios, as firmas-reconhecidas.Jorge Amado, nesta novela, revela uma sociedade fraturadaentre a imitação de modelos de padrão culto e a espontaneidadeda tradição popular. Sua estratégia para a elaboração de seuspersonagens leva os leitores a refletirem sobre a própria cons-trução da identidade, que, no caso, vai-se apresentar como frutodo discurso que se impõe ao outro e das interpretações que delepossam ser inferidas.AbstractIn this article, the examination of the short story“A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”,published in: Os velhos marinheiros (1961), re-veals that, in elaborating this fiction, Jorge Amadohas used characters present in popular Braziliandramaturgy. These characters are recurrent inother novels by the same author. They are basedon models taken from the traditional Europeandramaturgy known as “comedia dell’arte”, andAmado mixes them with regional popular artthat show a very strong African influence. In thisway, the short story may be read under a newlight that, instead of privileging the fantastic,prefers to illuminate the dramatic qualities of thetext , allowing for the subversion of the figure
    • Os velhos “marionetes”: Quincas Berro D’Água, versões e construção de identidadeNiterói, n. 24, p. 191-201, 1. sem. 2008 201ReferênciasAMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. In:. Os velhos marinheiros. São Paulo: Martins, 1961.. É preciso viver ardentemente. In: . Litera-tura comentada: Jorge Amado. São Paulo: Nova Cultural, 1988.. et al. Jorge Amado povo e terra: 40 anos de literatura.São Paulo: Martins, 1972.BRUNETI, Almir de Campos. Nascimento e dispersão de Quin-cas Berro Dágua. Luso-Brazilian Review, [S.l.], v. 19, n. 2, p. 237- 42,Winter 1982.FITZ, Earl E. Structural ambiguity in Jorge Amado’s A Mortee a Morte de Quincas Berro Dágua. Hispania, [S.l.], v. 67, n. 2, p.221-22, May 1984.TAVARES, Paulo. Criaturas de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Record;Brasília: INL, 1985.. O baiano Jorge Amado e sua obra. Rio de Janeiro: Re-cord, 1980.TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo:Perspectiva, 1975.VIEIRA, Nelson H. Myth and identity in short stories by JorgeAmado. Studies in short fiction, [S.l.], v. 23, n. 1, p. 25-34, Winter1986.of the Brazilian citizen, Quincas, who acquires,through the manipulation of popular art, newmeanings while at the same time, standing out asa marionette. The final scene shows the ropes ofthe saveiro dangling in the night, after the maincharacter disappears, leaving behind the possibil-ity of multiple versions of himself.Keywords: Marionettes (puppets). Popular dra-maturgy. Jorge Amado. Quincas Berro D’Água.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008Quando o preconceito se faz silêncio:relações raciais na literaturabrasileira contemporâneaRegina DalcastagnèRecebido 29 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoAs personagens negras são francamente mino-ritárias na narrativa brasileira contemporânea,conforme uma ampla pesquisa demonstrou. Oartigo analisa algumas exceções a esta regra,identificando diferentes modos de representaçãoliterária das relações raciais numa sociedade mar-cada pela discriminação.Palavras-chave: Literatura brasileira contempo-rânea. Relações raciais. Preconceito.
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008204A literatura contemporânea reflete, nas suas ausências,talvez ainda mais do que naquilo que expressa, algumas dascaracterísticas centrais da sociedade brasileira. É o caso da po-pulação negra, que séculos de racismo estrutural afastam dosespaços de poder e de produção de discurso. Na literatura, nãoé diferente. São poucos os autores negros e poucas, também, aspersonagens – uma ampla pesquisa com romances das principaiseditoras do País publicados nos últimos 15 anos identificou quase80% de personagens brancas, proporção que aumenta quandose isolam protagonistas ou narradores. Isto sugere uma outraausência, desta vez temática, em nossa literatura: o racismo. Se épossível encontrar, aqui e ali, a reprodução paródica do discursoracista, com intenção crítica, ficam de fora a opressão cotidianadas populações negras e as barreiras que a discriminação impõeàs suas trajetórias de vida. O mito, persistente, da “democraciaracial” elimina tais questões dos discursos públicos, incluindoaí o do romance.Se os dados agregados da pesquisa de “mapeamento” doromance brasileiro recente revelam a baixa presença da popu-lação negra entre as personagens – além de sua representaçãoestereotipada –, o exame das exceções pode permitir a compre-ensão das potencialidades e dos limites das (poucas) abordagensdo tema. Aqui, serão discutidos alguns números desta pesquisa,referentes à cor das personagens e dos seus autores, para, emseguida, fechar o foco sobre obras em que as relações raciaisestão presentes: seja reforçando os estereótipos racistas, sejaparodiando-os, ou ainda refutando-os a partir da construção deoutros modos de interpretá-los. Nestas narrativas, encontramosestratégias diferentes, com diferentes resultados, de inclusão deidentidades negras em nossa literatura – um gesto político que sefaz estético (ou vice-versa) e que se dá, sempre, no embate comformas abertas ou sutis de discriminação e preconceito.Ao falar de racismo neste texto, estarei pensando-o nostermos de Ella Shohat e Robert Stam (2006, p. 51):O racismo é a tentativa de estigmatizar a diferença com opropósito de justificar vantagens injustas ou abusos de po-der, sejam eles de natureza econômica, política, cultural oupsicológica. Embora membros de todos os grupos possam teropiniões racistas – não há imunidade genética nesses casos –não é todo grupo que detém o poder necessário para praticaro racismo, ou seja, para traduzir uma atitude preconceituosaem opressão social.E uma vez que a opressão é tanto material quanto simbólica,podemos percebê-la também na própria literatura, uma formasocialmente valorizada de discurso que elege quais grupos sãodignos de praticá-la ou de se tornar seu objeto.
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 205Literatura e estatísticaOs estudos literários são, em geral, avessos aos métodosquantitativos, que parecem inconciliáveis com o caráter únicode cada obra. Tal singularidade, porém, não é privilégio da li-teratura: é algo comum aos diversos fenômenos sociais. Aindaassim, o tratamento estatístico permite iluminar regularidadese proporciona dados mais rigorosos, evitando o impressionismoque, facilmente contestável por um impressionismo em direçãocontrária, impede que se estabeleçam bases sólidas para a dis-cussão. Se alguém diz que os negros estão ausentes do romancebrasileiro contemporâneo, outra pessoa pode enumerar dezenasde exemplos que contradizem a afirmação. Mas verificar que 80%das personagens são brancas mostra um viés que, no mínimo,merece investigação.O esforço de pesquisa sobre o romance brasileiro dos úl-timos anos, do qual retiramos os dados referentes às persona-gens negras, envolveu a leitura cuidadosa de todos os romancesconstantes do corpus, seguida do preenchimento de fichas paraas personagens mais importantes e, muitas vezes, de discussãoem grupo dos casos em que havia alguma dúvida. Uma vez que,em geral, não se podia contar com uma descrição em regra, à laséculo XIX, das personagens do livro, eram buscados os indíciospresentes no texto. Assim, a pesquisa buscou compatibilizar ométodo quantitativo com aquilo que o historiador italiano CarloGinzburg (1989) chamou de “paradigma indiciário” nas ciênciashumanas – a busca de indícios das características que queríamosanalisar.É importante ressaltar que os problemas da representaçãoliterária indicados pela pesquisa não insinuam, absolutamente,qualquer restrição do tipo quem pode falar sobre quem, nem buscamestabelecer que um determinado recorte temático é mais “corre-to” do que outro. A pesquisa não comunga de nenhuma noçãoingênua da mimese literária – que a literatura deva ser o retratofiel do mundo circundante ou algo semelhante. O problema quese aponta não é o de uma imitação imperfeita do mundo, masa invisibilização de grupos sociais inteiros e o silenciamento deinúmeras perspectivas sociais, como a dos negros. A proposta,então, é entender o que o romance brasileiro recente – aquele quepassa pelo filtro das grandes editoras, atinge um público maisamplo e influencia novas gerações de escritores – está escolhendocomo foco de seu interesse, o que está deixando de fora e, enfim,como está trabalhando as questões raciais.Os números apresentados aqui são relativos a um corpusde 258 romances, que correspondem à totalidade das primeirasedições de romances de autores brasileiros publicadas pelas trêseditoras mais prestigiosas do País, de acordo com levantamentorealizado junto a acadêmicos, críticos e ficcionistas: Companhia
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008206das Letras, Record e Rocco.1No conjunto, são 165 escritores di-ferentes, sendo que os homens representam 72,7% do total deautores publicados. Mas a homogeneidade racial é ainda maisgritante: são brancos 93,9% dos autores e autoras estudados (3,6%não tiveram a cor identificada e os “não-brancos”, como categoriacoletiva, ficaram em meros 2,4%).Como se vê por esses exemplos, embora o romance contem-porâneo venha perseguindo reiteradamente, em seu interior, amultiplicidade de pontos de vista; do lado de fora da obra, nãohá o contraponto; quer dizer, não há, no campo literário brasi-leiro, uma pluralidade de perspectivas sociais. De acordo coma definição de Iris Marion Young (2000, p. 136), o conceito de“perspectiva social” reflete o fato de que “pessoas posicionadasdiferentemente [na sociedade] possuem experiência, história econhecimento social diferentes, derivados desta posição”. Assim,negros e brancos, mulheres e homens, trabalhadores e patrões,velhos e moços, moradores do campo e da cidade, homossexu-ais e heterossexuais vão ver e expressar o mundo de diferentesmaneiras. Mesmo que outros possam ser sensíveis a seus pro-blemas e solidários, nunca viverão as mesmas experiências devida e, portanto, enxergarão o mundo social a partir de umaperspectiva diferente.A cor da personagemA personagem do romance brasileiro contemporâneo ébranca.2Os brancos somam 79,8% das personagens,3contraapenas 7,9% de negros e 6,1% de mestiços – os restantes incluemindígenas, orientais e personagens sem indícios de cor ou nãohumanas. Em 56,6% dos romances, não há nenhuma persona-gem não-branca. Em apenas 1,6%, não há nenhuma personagembranca. E dois livros, sozinhos, respondem por mais de 20% daspersonagens negras.Apenas como base de comparação, é possível notar que ocenso de 2000 realizado pelo IBGE – que é, muitas vezes, acu-sado de “embranquecer” a população, pela forma como coletaos dados sobre raça e cor – aponta 54% de “brancos”, 6% de“pretos” e 39% de “pardos”, além de uma pequena parcela deindígenas, de “amarelos” e sem declaração. Já em relação ao ro-mance produzido no período 1965-1979, objeto de uma pesquisasimilar cujos dados ainda estão sendo trabalhados, observa-sea ampliação da predominância das personagens brancas (eram76% no período mais antigo), mas também um ligeiro aumentodas negras (eram 6,3%, passam a 7,9%), com o recuo das mestiças(de 10,4% para 6,1%). A interpretação dos dados ainda precisa serfeita, mas talvez se possa ver aí um indício do enfraquecimentoda ideologia da mestiçagem no Brasil.Além de reduzida, a presença negra e mestiça entre as per-sonagens é menor ainda quando são focados os protagonistas e,1As editoras mais im-portantes, que não sãonecessariamente asmaiores, mas dificil-mente estarão entre asmenores, garantem aatenção de livreiros,leitores e críticos paraseus lançamentos. Seuslivros são aqueles que,no curto prazo, têmmaior possibilidade deinfluenciar outros es-critores.2Os resultados gerais dapesquisa e mais dadossobre as personagensnegras estão em Dalcas-tagnè (2005).3O mapeamento incluiuas personagens “impor-tantes”, isto é, com al-gum peso no desenrolarda trama.
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 207em especial, os narradores. Os negros são 7,9% das personagens,mas apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores.Os brancos representados possuem um perfil sócio-econô-mico nitidamente mais privilegiado do que os mestiços e, sobre-tudo, os negros (tabela 1). Enquanto os brancos oscilam entre asclasses médias e (um pouco menos) a elite econômica, os mestiçosse dividem entre classes médias e (um pouco mais) pobres e osnegros são maciçamente retratados entre os pobres.Tabela 1: Estrato sócio-econômico e cor das personagenseliteeconômicaclassesmédiaspobres miseráveissemindíciosoutronãopertinentebranca 36,2% 56,6% 15,5% 1,8% 1,6% 0,1% 0,2%negra 10,2% 16,3% 73,5% 12,2% 1,0% 1,0% -mestiça 19,7% 42,1% 52,6% 5,3% 1,3% - -indígena 26,7% 20,0% 53,3% 6,7% - 13,3% 6,7%oriental 25,0% 37,5% 50,0% - - - -sem indícios 2,3% 50,0% 40,9% 2,3% 6,8% - -nãopertinente- 10,0% 10,0% - 10,0% - 70,0%total 31,5% 51,4% 23,9% 2,9% 1,8% 0,3% 0,8%Obs. Eram possíveis respostas múltiplas na variável “estrato sócio-econômico”.Fonte: Pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”Quanto o foco é a ocupação, percebe-se que as persona-gens brancas são, em geral, donas-de-casa (9,9%), artistas (8,5%),escritores (6,8%) e estudantes (6,8%). O contraste com as perso-nagens negras é enorme: 20,4% dos negros representados nosromances em foco são bandidos ou contraventores. Seguem-seempregados domésticos (12,2%), escravos (9,2%) e profissionaisdo sexo (8,2%).Algumas exceçõesEstudos sobre o jornalismo (CARRANÇA; BORGES, 2004),a telenovela (ARAÚJO, 2000), o cinema (RODRIGUES, 2001)4apresentam dados similares: a invisibilidade dos negros e osestereótipos a eles associados não são problemas exclusivosda literatura. Tal como outras formas de expressão, ela apenasmanifesta uma discriminação que permeia toda a nossa estru-tura social (cf. GUIMARÃES; HUNTLEY, 2000). O que não querdizer que estas questões não possam ser discutidas em nossasnarrativas, e, inclusive, pelos estudos literários. Se a maior partedos autores e autoras contemporâneos evita trazer personagensnegras para o centro (ou mesmo para dentro) de suas tramas, épreciso observar o que acontece com aqueles que fogem à regra eensaiam um movimento diferente. Assim, o exame das exceçõespode revelar as possibilidades e as implicações das aproximaçõesliterárias ao problema das relações raciais no Brasil.4Para uma discussãosobre as pesquisas refe-rentes às relações raciaise/ou o racismo na mídiabrasileira, ver Silva; Ro-semberg (2008).
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008208Dar concretude e existência a uma personagem não étarefa fácil, especialmente quando a tradição literária não estádisponível como recurso, ou seja, quando nossa poesia, nossoscontos e romances não trazem modelos suficientemente ricosque possam servir de inspiração. Há a idéia equivocada, masmuito disseminada, de que o escritor constrói suas personagensa partir de pessoas que conheceu em sua vida – ela lembra a ima-gem do pintor trabalhando com agilidade diante de um modelovivo. Essas experiências podem ser até aproveitadas, mas nãosão o bastante para erguer e dar solidez a uma personagem. Opintor e sua desenvoltura escondem, na verdade, anos de estu-do de antigos álbuns de anatomia, páginas de cabeças, mãos,pés e músculos cuidadosamente copiados. E esconde, é claro, aobservação direta de retratos e mais retratos.Não é diferente com um escritor, que precisa buscar seusmodelos em representações discursivas já estabelecidas, mesmoque seja para se contrapor a elas. Por isso, a ausência de perso-nagens negras na literatura não é apenas um problema político,mas também um problema estético, uma vez que implica naredução da gama de possibilidades de representação. Usar um“modelo” branco e fazer dele uma personagem negra (como nofilme O homem que copiava, por exemplo, onde o ator negro LázaroRamos atua no papel de uma personagem que poderia ser bran-ca) não resolve, porque ser negro numa sociedade racista não éapenas ter outra cor, é ter outra perspectiva social (nos termosde Iris Marion Young), outra experiência de vida, normalmentemarcada por alguma espécie de humilhação.Daí a necessidade de, ao se construir uma personagemnegra, envolvê-la em sua realidade social ou ela não pareceráviva – pretensão que a literatura não pode descartar. Um negroque namore uma jovem branca, como no filme citado, não seránegro se não receber ao menos um olhar atravessado ao longode seu caminho, e se não sentir de algum modo em sua carneesse olhar. Ou ao menos não será um negro brasileiro do iníciodo século XXI. Nada contra o uso político dessa estratégia, queprocura chamar atenção para o fato de que negros, tanto quantobrancos, sentem, amam e sofrem, mas ela é insuficiente paraabranger essa experiência diferenciada, que ainda precisa selegitimar, por si só, em nossa literatura e em nossa sociedade.O racismo e sua paródiaMas dizer que os negros são humanos parece ser aindauma necessidade, quando se percebe que sua animalização semantém como um “recurso” literário. Para ficar em apenas umexemplo, o homem negro diante da mulher branca continuasendo representado como o animal sujo cobiçado pela fêmea de-pravada – como nos contos “O negro”, de Dalton Trevisan (1979) e“O negro e as cercanias do negro”, de Haroldo Maranhão (2005).55Cumpre registrar que,por critérios de data depublicação, editora emesmo gênero, as obrasdiscutidas no restantedo texto não integramo corpus da pesquisaquantitativa.
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 209Na primeira narrativa, uma mulher tomada de desejos aproveitaa viagem do marido para “curar seu corpo” com a “experiênciamedonha” de entregar-se “ao primeiro negro com quem cruzana rua” (TREVISAN, 1979, p. 55). O tom de deboche do narradorem terceira pessoa não esconde o racismo, e o chauvinismo, quelhe servem para fazer graça com o leitor, com quem troca umapiscadela. O estereótipo é usado na narrativa não como crítica,mas como recurso fácil de aproximação com o leitor, que elaassume como compartilhando dos mesmos preconceitos. Ouseja, a imagem conhecida permite que o leitor se identifique, aomesmo tempo em que se reforça a si própria, naturalizando seuconteúdo. Daí sua recorrência, e sua repercussão para além daspáginas do livro.A mesma construção reaparece, sem pudor, 30 anos depoisno conto de Haroldo Maranhão. Mais uma vez, o homem negronão se faz personagem, mas apenas objeto em cena. Outra vez,ele é o corpo desprezível que a mulher branca, em sua irraciona-lidade, deseja. O narrador em terceira pessoa busca se aproximardo que seria a perspectiva de sua personagem e troca o tom dedeboche de Trevisan pelo mau gosto grosseiro:Se na véspera houvesse alguém idealizado semelhante encena-ção, repeliria como se repelem disparates, ela! Ali!, a haver-secom um negro!, aqueles bafios! O suor tudo circundava por-que a brisa cessara, o mormaço, aumentava o fartum, fartumdos que destilam merda pelos sovacos. O olhar do negrobolinava-lhe os peitos. Ela sentia deslizar gosmas pelas coxas.Em momento nenhum o negro temeu malogro, porque suaascendência impusera-se. (MARANHÃO, 2005, p. 24)O que mais impressiona aqui é a idéia de que a literaturaainda possa abrigar – com o respaldo de um crítico literário, queselecionou o conto para a coletânea, e de uma grande editora,que publicou o livro – esse tipo de construção.Talvez a resposta esteja nas formas de preservação dopreconceito na sociedade brasileira, e um dos mecanismos dessapreservação é justamente a legitimação do racismo no interiordos discursos artísticos. Assim, o preconceito pode continuarsendo veiculado porque a sociedade se mantém preconceituosa,e ela se mantém preconceituosa porque vê seus preconceitosse “confirmarem” todos os dias nas diferentes representaçõessociais.6Daí a necessidade da denúncia desse processo,7o quepode ser feito na literatura através da paródia aos discursos ra-cistas, por exemplo. Essa é a proposta de um autor como AndréSant’Anna.No romance O paraíso é bem bacana, Sant’Anna (2006) moveum arsenal de representações sociais para apresentar seu pro-tagonista, o Mané. Mané é um garoto negro e miserável quevai jogar futebol na Alemanha e acaba se envolvendo com umgrupo de terroristas mulçumanos. Enquanto lemos sua história,6Quanto mais “elevado”é o produto cultural,quanto maior é a le-gitimidade social deque desfruta, maior é adesenvoltura com quepode abrigar discursospreconceituosos. A letrade um funk foi proibidapela justiça brasileirapor seu conteúdo ma-chista, que incitaria àviolência contra a mu-lher (PICHONELLI;BÄCHTOLD, 2008), semque se ouvisse dos inte-lectuais qualquer pro-testo pela censura. Al-guém imagina um juizproibindo um romanceou um livro de poemaspor serem machistas?7Afinal, nos termos deAntônio Sérgio AlfredoGuimarães (2004, p. 27),“para combater o racis-mo e para reduzir asdesigualdades econômi-cas, precisamos, antesde tudo, denunciar asdistâncias sociais que asnaturalizam, justificame legitimam”.
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008210Mané está em um hospital, com o corpo dilacerado pela bombaque ele mesmo explodiu, morrendo e delirando obscenamentecom as setenta e duas virgens que caberiam a todo mártir dafé, de acordo com uma pretensa tradição islâmica. O garoto –que, segundo nos contam, é quase afásico – só chega até nósatravés dos discursos ruidosos que estão à sua volta, invadindoseu espaço, contaminando sua história. Todos falam do Mané,todos dizem o quanto ele é idiota, todos destilam sua raiva. Onarrador, não menos autoritário, recolhe essas falas e despeja-assobre sua personagem, soterrando-a, e ela permanece inerte, nacama do hospital.Embora seja o protagonista do livro, Mané é explicitamentesilenciado – é, ainda, objeto da fala dos outros, dos médicos, trei-nadores, vizinhos, torcedores e jornalistas. O foco do romancenão é o seu corpo objetificado (ou o desejo que esse corpo ins-pira em alguma mulher animalizada), e sim os discursos queincidem sobre ele e que parecem tentar desviar nossa atenção dorapaz. Mesmo assim, por trás de tanto barulho ainda podemosenxergar um garoto negro e assustado nos olhando nos olhos,em silêncio. A narrativa não apaga a sua existência, não o eli-mina como indivíduo. Mané lembra um pouco a “pardacenta”Macabéa em seu confronto com Rodrigo S. M., em A hora daestrela, de Clarice Lispector (1977). Como a jovem nordestina, eleimpõe sua presença calada às outras falas, que se tensionam. Opróprio narrador é de algum modo constrangido, já que nos édado perguntar sobre suas intenções ao dizer o que diz sobresua personagem.8Do mesmo modo que precisamos indagarquem são, afinal, todas aquelas pessoas que falam sobre ele e,em última instância, quem somos nós para julgá-lo, se sequero conhecemos.A guerra épicaSe o foco da narrativa é o próprio discurso, como aconte-ce com toda paródia, não há aqui, ainda, a construção efetivade uma personagem negra.9Voltando ao problema da falta demodelos para essas personagens em nossa tradição literária, épreciso observar as estratégias dos autores que se propõem defato a incluí-las. Diante dessa ausência, eles se apropriam de gê-neros e estilos literários já consagrados (e brancos) fazendo comque eles se dobrem aos seus interesses. Lidam, assim, na maiorparte do tempo, com a dissonância causada entre a “estruturabranca” (porque normalmente construída para personagensbrancas) e suas personagens negras. Daí o desconforto causadono leitor, como se algo estivesse fora de seu devido lugar. Aocontrário do que acontece em O homem que copiava – onde orapaz negro não é visto como negro pelas outras personagens,apenas pelo espectador, que estabelece a tensão entre o que vêe o que conhece do lado de fora do filme –, nessas narrativas o8Para uma discussãosobre a relação entreMacabéa e Rodrigo S.M.,ver Dalcastagnè (2000).9Como não há, também,em outro autor que em-prega a paródia comoinsubordinação críticaao discurso racista ouhomofóbico, MarcelinoFreire (2003, 2005).
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 211leitor sente a tensão no interior do próprio texto. A dissonânciase estabelece entre a personagem efetivamente negra, envoltaem todas as suas circunstâncias, e a construção textual, que nãoas acolheria.É assim que em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves(2006), acompanhamos a trajetória épica de Kehinde. Em umahistória cheia de peripécias, nos deparamos com a sagacidade,a inteligência, a capacidade de adaptação às situações mais ad-versas, a resistência e a lealdade dos heróis épicos. Mas Kehindeé mulher, é negra e escrava. O romance começa na África, ondea menina é seqüestrada – após presenciar o assassinato da mãee do irmão – e embarcada para o Brasil. Aqui, é comprada paraservir de mucama a uma sinhazinha. Vendo e sofrendo todotipo de abuso, ela vai crescendo, aprendendo a ler e escrever, afazer contas e a ganhar dinheiro para comprar sua liberdade.Muito tempo depois, acaba retornando à África, para ter umavida rica e confortável, como proprietária de uma empreiteira,casada com um inglês, mãe de filhos educados em Paris. O relatode quase mil páginas, destinado a um filho que se perdeu noBrasil, teria sido ditado em sua viagem de volta ao país, quandoela já é uma octogenária.Portanto, mais do que protagonista, Kehinde é a narrado-ra de sua história e é pela sua perspectiva que o leitor revisitaa História brasileira do século XIX, olhando da cozinha, pelasfrestas. O romance busca fugir do modelo “pobre escravo dasenzala” para apresentar, em detalhes, a vida e as possibilidadesde uma escrava instruída, que aproveita todas as brechas paraaprender e conquistar sua liberdade, inclusive como mulher.Kehinde entra no Brasil dando um jeito de não ser batizada,para manter sua identidade, e termina na África, batizando osfilhos para garantir-lhes o status superior de “brasileiros”. Essaambigüidade é o que dá força à personagem, ainda que a estru-tura épica da narrativa pareça transbordar à sua volta, fazendo-asempre mais poderosa diante das adversidades.Se o Mané, na força de seu silêncio, é um pouco herdeirode Macabéa, Kehinde é descendente da guerreira Maria da Fé,protagonista do romance Viva o povo brasileiro, de João UbaldoRibeiro (1990). São ambas heroínas épicas,10que extrapolamqualquer pretensão de realismo – belas, fortes e sábias, agindosempre com segurança e convicção, ainda quando têm dúvidas.Ao ocupar lugar central na narrativa, podem não nos parecerreais, mas trazem consigo a realidade de seu povo. Sendo mulhe-res, negras e escravas, elas percorrem outros chãos, se encontramcom outras trajetórias, se deslocam de acordo com outros ritmosque não aqueles vividos pelas personagens brancas (e por seusleitores, igualmente brancos).10 A aproximação me foisugerida por Eduardode Assis Duarte, em co-municação pessoal.
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008212Dor e amor românticosDeixando de lado as heroínas épicas e atravessando algunsséculos de História, chegamos à representação do cotidiano deum advogado negro no Rio de Janeiro de hoje. Frederico Caval-canti de Souza, protagonista de Bandeira negra, amor, de FernandoMolica (2005), não empunha armas em nome da revolução, comoMaria Dafé, tampouco enriquece, como Kehinde – é apenas umsujeito honesto, que trabalha o dia inteiro e ama uma mulherchamada Beatriz. Mas ele é negro. E, sendo negro no Brasil dehoje, sua história começa pela dificuldade de assumir a própriacor. O que implica, em primeiro lugar, o confronto com o amorda mãe, que fez tudo para torná-lo mais branco do que é – outrafaceta do racismo brasileiro, ligada à valorização do “branque-amento” de sua população (cf. HOFBAUER, 2006). Neste caso,o conflito racial se inscreve no corpo mesmo da personagem,espaço em disputa para a demarcação de uma identidade.Depois de se decidir negro, Frederico passa a defender osdireitos dos moradores da favela (quase todos negros também).O confronto se dá, então, com a Polícia Militar (apontada comoresponsável pelo desaparecimento de três rapazes do morro doBorel), da qual Beatriz, ou a major Ferreira, é a porta-voz. Daí anecessidade de esconderem sua relação – e não só da PM, comotambém da família da moça que, “branca”, tem uma avó negraque se orgulhava de sua “barriga limpa”: de onde saíam filhossempre mais brancos que ela (MOLICA, 2005, p. 102). Pela pers-pectiva do advogado militante, o leitor é conduzido por vielas eestradas rápidas, por casebres, escritórios, mansões, por cambu-rões, para testemunhar a rotina de ofensas, veladas ou explícitas,experimentada pelos negros todos os dias. Contra esse cenáriorealista, é a história de “amor impossível” entre o advogado e amajor, com seus contornos românticos, a causar a dissonânciano texto, chamando a atenção do leitor.Discutindo o tema do escravo na poesia romântica brasi-leira, Antonio Candido lembra a importância da poetização davida afetiva do negro, realizada por Castro Alves, que teria dadoao escravo “não só um brado de revolta, mas uma atmosfera dedignidade lírica, em que seus sentimentos podiam encontraramparo”, garantindo “à sua dor, ao seu amor, a categoria reser-vada aos do branco, ou do índio literário” (CANDIDO, 2006, p.592). Assim, colocar em cena personagens negras envoltas emsua subjetividade, amando e sofrendo, talvez não devesse maisser novidade em nossa literatura, mas pouco se evoluiu desdeentão. Se Fernando Molica expande a narrativa fazendo do amoro elo entre sua personagem e a sensibilidade do leitor – afinal,o brado de revolta pode não ser suficiente –, Conceição Evaristo(2003) o faz pela encenação da dor.
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 213Em Ponciá Vicêncio, ela volta ao meio rural (espaço poucofreqüentado pela literatura contemporânea), vai até um povoadomiserável formado por descendentes de ex-escravos e tira delá suas personagens: uma mãe, a filha e o filho já adultos quemigram, separadamente, para a cidade, dissolvendo a unidadefamiliar. Uma dissolução que já começara muito antes, com o avôescravo que, desesperado com a venda dos filhos, mata a mulhere tenta o suicídio cortando o próprio braço. Ponciá, a neta, é suaherdeira. Acompanhamos, então, através do olhar de um nar-rador em terceira pessoa, as suas perdas – aos poucos, vão-se aesperança em uma vida melhor; a relação com o marido, que setorna violento; a possibilidade de filhos, nos abortos sucessivos.A loucura se torna o seu refúgio e é ali que sua mãe a encontra,conduzindo-a de volta para casa.Vista de fora, Ponciá não nos dirige a palavra, não nos dizquem é. Somos informados que ela herda a loucura do avô, queprecisa abandonar a família e as origens, que é submetida aum trabalho subalterno, que apanha do marido e não conseguegerar um filho. Sem lugar no mundo, é a mãe que a acolhe elhe dá guarida, talvez porque ela simbolize as origens, a iden-tidade negra que precisa ser abraçada. Ponciá, então, mais quea sua própria dor, representa a dor de seu povo. E são os restosdesse povo que o leitor vai encontrando pelo caminho em queela passa: os terrenos abandonados, tomados pelo mato e pelosbrancos; os objetos de barro feito por ele e expostos em museussem qualquer identificação; os sobrenomes que traziam ainda amarca dos coronéis, proprietários de terras e de gente.A força da ambigüidadeSe Ponciá precisa ser resgatada, e narrada por outro, Rísia,de As mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto (1982), faz seupróprio trajeto, e grita ela mesma a sua história. Também vindado interior, negra, pobre e nordestina, sem qualquer relação deafeto na família, ela já está no meio do caminho de Tijucopapoquando a encontramos, como uma migrante às avessas, que saide São Paulo e retorna às origens dando as costas para a BR epenetrando cada vez mais fundo no Brasil cindido que a espelha.Sua viagem é geográfica, literária e mítica. Ao construir o percur-so de volta, dilacerada pela perda do homem que amava, Rísiavai refazer sua história, afirmando sua identidade. Só que muitoantes de chegar a algum termo, de resgatar a mãe e as mulheresda família, Rísia tem de construir um sentido para si, ainda queseja incoerente, ou improvável. Daí ela sair buscando a paz, acalma necessária para conter sua vontade de matar, ao mesmotempo em que alimenta febrilmente o ódio que a devora.Rísia odiaria Ponciá, como odeia a mãe, a avó e as tias, todastraídas, sofredoras, e todas fracas. Não quer parecer com elas, sereconhecer nelas. Mas também não aceita a loucura: “a loucura é
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008214a margem que não suporto. A margem não. Eu prefiro o meio damultidão, a massa, os elos da corrente que nos conduz ao nada,mas que nos conduz juntos. A margem não. Não a solidão dumlouco” (FELINTO, 1982, p. 90-91). É para fugir dessa solidão queela retorna à terra da avó, Tijucopapo (um pequeno arraial, noRecife, onde, no século XVII, mulheres lutaram, sozinhas, contraos invasores holandeses, vencendo-os e expulsando-os). E é alique se dará a reconciliação de Rísia com sua condição feminina,onde ela percebe que as outras mulheres talvez sejam como ela,que se sente morrer, mas que precisa continuar de pé, lutandopara resguardar uma idéia de si. Mulheres que possuem “a forçade um fraco” (FELINTO, 1982, p. 40), mas que continuam empu-nhando as armas possíveis, mesmo que “as armas do fraco sejamsempre fracas armas” (BIANCO apud BOURDIEU, 1998, p. 38).É a força, muito antes da dor, que impulsiona essa narrati-va, que convida a empatia do leitor. Nesse sentido, Rísia é maisconsistente como personagem, não apela para nossa compaixão,nem aceita nossa solidariedade. Ela parece esperar apenas quesua história seja ouvida. Sua força não é épica, ela não tem nadade Maria Dafé ou Kehinde. Talvez se aproxime mais da prota-gonista dos livros de Carolina Maria de Jesus (1983, 1986). Rísiaduvida, erra, exagera, vocifera, e não sabe muito bem o que estáfazendo, mas talvez seja exatamente isso que lhe dê densidade.Ela é a menina que nunca foi baliza no desfile do Sete de Setem-bro, nem rosada como as “filhas de sargento” (FELINTO, 1982,p. 72), e é a mulher que convive com os universitários bem devida do Higienópolis paulista, gente com quem ela discute oslivros em inglês que sua mãe nunca lerá (FELINTO, 1982, p. 91).Ou seja, ela traz para dentro do texto sua experiência individuale suas circunstâncias como mulher negra.Também é essa força o que mantém de pé as personagens,quase todas negras, de Ferréz (2006) nos contos de Ninguém éinocente em São Paulo. As humilhações e o sofrimento fazemparte de suas vidas de moradores da favela, mas não impedemque eles se constituam como indivíduos diante de nossos olhos.Em narrativas muito curtas, que aproveitam a estrutura dorap, Ferréz abandona a roupagem romântica que ainda podiaser encontrada em seus outros livros (2000, 2003) e aposta narepresentação realista para levar o leitor para dentro da favela.Mas essa não é a favela de obras como Cidade de Deus, de PauloLins (1997), ou Inferno, de Patrícia Mello (2000), que ecoam aquiloque seus leitores encontram cotidianamente no noticiário poli-cial: ele não abre sua escrita para os traficantes atuarem. Seusprotagonistas são trabalhadores e não aceitam o discurso fácile fartamente veiculado de que o destino certo para um moradorda favela é a bandidagem.Assim, no lugar de tiros e conversas entre traficantes, oque ouvimos é o escritor digitando em seu barraco, ou rapazes
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 215discutindo sobre alguma possibilidade de emprego. A favelacheira a esgoto, os barracos são invadidos pelos policiais, a pro-messa de trabalho era uma enganação, a vida está difícil, maseles vão levando. Resistem como podem, insubordinando-sediante do chefe no supermercado, batendo boca com universi-tários no botequim, fazendo um pouco de poesia, produzindorap. No conjunto, temos um livro barulhento, cheio de genteque se desloca de um lado para o outro (o espaço não é muitogrande) e que, no final das contas, se parece muito com qualquerum, talvez até conoscos mesmos. Ferréz não apenas incorporapersonagens diferentes – diferentes por serem negras, por serempobres e, sendo pobres e negras, por serem honestas – à nossaliteratura, ele procura inscrever nela um universo inteiro deexclusão. A dissonância, aqui, é causada pelo confronto comtoda uma série de representações sociais que fazem do negropobre o estereótipo do bandido, da prostituta, da empregadasubserviente (observe-se de novo os números da pesquisa sobre oromance, apresentados no começo deste texto), todos silenciados,de algum modo domesticados.EnfimEspaço onde se constroem e se validam representações domundo social, a literatura é também um dos terrenos em quesão reproduzidas e perpetuadas determinadas representaçõessociais, camufladas, muitas vezes, no pretenso “realismo” daobra. A idéia de realismo se ancora, neste caso, na ilusão de queo escritor toma seus modelos diretamente da realidade, e não quelida com outras representações. Ao manusear as representaçõessociais, o autor pode, de forma esquemática: (a) incorporar essasrepresentações, reproduzindo-as de maneira acrítica; (b) descre-vê-las, com o intuito de evidenciar seu caráter social, ou seja, deconstrução; (c) colocar essas representações em choque diantede nossos olhos, exigindo o nosso posicionamento – mostran-do que nossa adesão, ou nossa recusa, que nossa reação diantedelas nos implica, uma vez que fala sobre o modo como vemoso mundo, e nos vemos nele, sobre como se dá nossa intervençãona realidade, e as conseqüências de nossos atos.Percorrendo os números da pesquisa sobre o romancebrasileiro contemporâneo e umas poucas narrativas onde aspersonagens negras têm destaque, é possível esboçar algumasimpressões sobre o problema da representação literária dessegrupo social. Há, em primeiro lugar, a quase ausência do negroem nossa literatura – me refiro às personagens, mas a situação éainda mais grave em relação aos escritores. Quando os negrossão representados, costumam aparecer em posição secundáriano texto (não são os protagonistas e muito menos os narrado-res) e em situação subalterna na trama (restringindo-se a algu-mas posições estereotipadas, como as de bandido, prostituta e
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008216doméstica, por exemplo). Na análise das exceções – as poucasnarrativas onde os negros aparecem como figuras centrais –,pode-se encontrar, ainda hoje, a reprodução acrítica de represen-tações sociais estereotipadas sobre os negros, que, de algummodo, reforça e legitima o preconceito racial; mas encontra-se,também, a apropriação crítica dos discursos racistas, em narra-tivas que, através da paródia, buscam justamente denunciar edesarticular o sentido perverso dessas construções.Embora as intenções dessas duas “possibilidades de ar-ticulação” com os discursos racistas sejam completamente di-ferentes, não existe em nenhuma delas a elaboração efetiva depersonagens negras (imaginando-as, aqui, enquanto artefatosque possam ser incorporados como modelos em nossa tradiçãoliterária), uma vez que na primeira há apenas o aproveitamentode clichês e na segunda a tentativa de desmonte deles. Sendoassim, é preciso atentar para as estratégias de narrativas que,indo além de uma discussão “externa” do problema, procuramintroduzir, no interior mesmo de sua estrutura, o negro e suaperspectiva social. A hipótese apresentada aqui é de que, jus-tamente pela falta de modelos na tradição literária, os autorestêm de lidar com a dissonância causada entre os gêneros e osestilos “brancos” (porque comumente habitados por personagensbrancas) e suas personagens negras.Uma vez instalada a dissonância, que gera o estranhamen-to do leitor, seria preciso construir, então, outros vínculos, paraque a identificação com as personagens não seja completamenterompida. Daí o recurso a alguns elementos muito comuns nasnarrativas, como o heroísmo épico, que faz do racismo uma dasadversidades que o protagonista supera; o apelo romântico aossentimentos, com a produção de uma empatia capaz de ultrapas-sar a barreira do preconceito; e, finalmente, a compreensão, quese estabelece pelo reconhecimento da força e da ambigüidadeda personagem. Embora esses mecanismos possam não ser su-ficientes para abranger as experiências da trajetória negra, elesprojetam a idéia da necessidade de inclusão de outras perspec-tivas em nossa literatura.E a diversidade na narrativa, além da importância estética,possui importância política. Graças a seu poder expressivo, aliteratura pode permitir um acesso a diferentes perspectivas so-ciais, mais rico do que aquele que é oferecido, por exemplo, pelodiscurso político em sentido estrito (cf. GOODIN, 2000). Perso-nagens negras, assim, talvez ajudem leitores brancos a entendermelhor o que é ser negro no Brasil – e o que significa ser brancoem uma sociedade racista. Além disso, como apontou NancyFraser, a injustiça social possui duas facetas (ainda que estrei-tamente ligadas), uma econômica e outra cultural. Isto significaque a luta contra a injustiça inclui tanto a reivindicação pelaredistribuição da riqueza como pelo reconhecimento das múltiplas
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 217expressões culturais dos grupos subalternos (FRASER, 1997):o reconhecimento do valor da experiência e da manifestaçãodesta experiência por negros, trabalhadores, mulheres, índios,gays, deficientes. A literatura é um espaço privilegiado para talmanifestação, pela legitimidade social que ela ainda retém. Aoingressarem nela, os grupos subalternos também estão exigindoo reconhecimento do valor de sua experiência na sociedade.Abstract:Black characters are a frank minority in Braziliancontemporary narrative, as extensive research hasdemonstrated. This article analyses some excep-tions to this rule, identifying different ways thatliterature represents racial relations in a societymarked by discrimination.Keywords: Brazilian contemporary literature.Racial relations. Prejudice.ReferênciasARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil: o negro na telenovelabrasileira. São Paulo: Senac, 2000.BOURDIEU, Pierre. La domination masculine. Paris: Seuil, 1998.CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentosdecisivos 1750-1880. 10. ed. rev. Rio de Janeiro: Academia Brasi-leira de Letras, 2006.CARRANÇA, Flávio; BORGES, Rosane da Silva (Org.). Espelhoinfiel: o negro no jornalismo brasileiro. São Paulo: ImprensaOficial de São Paulo, 2004.DALCASTAGNÈ, Regina. A personagem do romance brasileirocontemporâneo: 1990-2004. Estudos de Literatura Brasileira Contem-porânea, Brasília, DF, n. 26, p. 13-71, jul./dez. 2005.. Contas a prestar: o intelectual e a massa em A horada estrela, de Clarice Lispector. Revista de Crítica Literaria Latino-americana, Hanover, n. 51, p. 83-98, 2000.EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza,2003.FELINTO, Marilene. As mulheres de Tijucopapo. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1982.FERRÉZ. Capão pecado. São Paulo: Labortexto, 2000.. Manual prático do ódio. Rio de Janeiro: Objetiva,2003.. Ninguém é inocente em São Paulo. Rio de Janeiro: Ob-jetiva, 2006.
    • Gragoatá Regina DalcastagnèNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008218FREIRE, Marcelino. BaléRalé. São Paulo: Ateliê, 2003.. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.FRASER, Nancy. From redistribution to recognition? In:. Justice interruptus: critical reflections on the “post-socialist” condition. New York: Routledge, 1997.GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário.In: . Mitos, emblemas, sinais. Trad. de Federico Carotti.São Paulo: Companhia das Letras, 1989.GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Re-cord, 2006.GOODIN, Robert. Democratic deliberation within. Philosophyand Public Affairs, Princeton, v. 29, n. 1, p. 81-109, 2000.GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito e discriminação:queixas de ofensas e tratamento desigual dos negros no Brasil.2. ed. São Paulo: Ed. 34, 2004.; HUNTLEY, Lynn (Org.). Tirando a máscara: ensaiossobre o racismo no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 2000.HOFBAUER, Andreas. Uma história do branqueamento ou o negroem questão. São Paulo: Ed. da UNESP, 2006.JESUS, Carolina Maria de. Diários de Bitita. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 1986.. Quarto de despejo. 10. ed. Rio de Janeiro: FranciscoAlves, 1983.Lins, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras,1997.LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 17. ed. Rio de Janeiro:Francisco Alves, 1990.MARANHÃO, Haroldo. O negro e as cercanias do negro. In:. Feias, quase cabeludas. São Paulo: Planeta, 2005.MELO, Patrícia. Inferno. São Paulo: Companhia das Letras,2000.MOLICA, Fernando. Bandeira negra, amor. Rio de Janeiro: Obje-tiva, 2005.PICHONELLI, Matheus; BÄCHTOLD, Felipe. Para juiz, ‘Tapinha’descreve humilhação contra a mulher. Folha de São Paulo, SãoPaulo, 29 mar. 2008. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2903200828.htm>.RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. 11. ed. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1990.RODRIGUES, João Carlos. O negro brasileiro e o cinema. São Paulo:Pallas, 2001.SANT’ANNA, André. O paraíso é bem bacana. São Paulo: Compa-nhia das Letras, 2006.
    • Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporâneaNiterói, n. 24, p. 203-219, 1. sem. 2008 219SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica:multiculturalismo e representação. Trad. de Marcos Soares. SãoPaulo: Cosacnaify, 2006.SILVA, Paulo Vinicius Baptista da; ROSEMBERG, Fúlvia. Brasil:lugares de negros e brancos na mídia. In: DIJK, Teun A. van(Org.). Racismo e discurso na América Latina. São Paulo: Contexto,2008.TREVISAN, Dalton. O negro. In: . Mistérios de Curitiba.4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.YOUNG, Iris Marion. Inclusion and democracy. Oxford: OxfordUniversity Press, 2000.
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008Uma conversa entre macacos: percalçosde um diálogo entre a África e o outro*Lucia HelenaRecebido 29 fev. 2008 / Aprovado 03 abr. 2008ResumoO artigo tem por objetivo discutir o tecido de cita-ções, elaborado por John Maxwell Coetzee, entreA vida dos animais (1999), Elizabeth Costello(2003) e o texto de Kafka, “Um relatório para umaacademia”, extraído de Um médico rural (1919).Como entender essa rede textual que se espraiade modo agudo e delicado? Ao manter muitoenlaçadas as marcas da autoria, da autobiografia,da ficção, do ensaio e da vida, o texto de Coetzeeindica tanto a porosidade quanto a complexidadedo ato de escrever. Com essa capacidade de ra-mificação, sublinha as fronteiras tênues entre oreal e o mundo do “como se” que a literatura criae, também, aponta para candentes problemas denossa época. Estas questões - que conectam osjogos de linguagem do processo ficcional do autorà representação na linguagem literária atual - é oque se pretende examinar.Palavras-chave: Coetzee. Kafka. Diálogo. Ficção.África do Sul. Mundo.* Até agora inédito,esse artigo tem comoorigem o texto “Exercíciode leitura: Coetzee emKafka”, escrito para aaula de 3 de maio de2007, que ministrei noprimeiro semestre de2007, no curso “Umacultura em crise: consti-tuição e percalços dohorizonte moderno”, naPós-graduação em Le-tras da UniversidadeFederal Fluminense.Posteriormente, foi re-escrito e apresentadocomo conferência, sob otítulo de “A literatura, avida dos animais e o ma-caco de Kafka”, no VIIISeminário Internacional:Crítica Literária, na PUC-RJ, em 19 de setembro de2007, em mesa plenáriacomposta por Flora Süs-sekind, Ana CristinaChiara e eu mesma. Opresente artigo reescre-ve, com transformaçõese acréscimos, os doistextos anteriores, tam-bém inéditos até o mo-mento. Entregue parapublicação na Gragoatá24, UFF.
    • Gragoatá Lucia HelenaNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008222“Acreditamos que houve um tempoem que podíamos dizer quem éramos. Agora, somosapenas atores recitando nossos papéis. O fundo caiu.”(John Maxwell Coetzee, Elizabeth Costello)1O texto de J. M. Coetzee, A vida dos animais (1999),2entregaao leitor reflexão fascinante. Não menos incisiva é a experiênciada escrita que põe em prática. Operando por um jogo cruzadode referências, o texto se estrutura em dobradiças. Mas essaferramenta, que organiza o processo, não o transforma em maisuma aventura, na farta bibliografia de narrativas semelhantes.Produzidas por artistas que desenvolvem trabalhos híbridos edissolvem fronteiras entre a ficção e a intervenção crítica, taisnarrativas já se banalizaram. O que, então, delas distingue A vidados animais, a ponto de se afirmar que esse texto não é mais umexemplar da estetização contemporânea que caiu sobre nossascabeças? Apesar de utilizar conhecido artifício, o livro se funda-menta numa aventura ética da reflexão, que penetra sua armaçãolúdica dando-lhe espessura, fazendo a estrutura ganhar força,retirando-a do campo das evidências consagradas, para torná-la capaz de dinamizar o pensamento e anunciar questões queadensam a conexão entre a palavra, o mundo e a possibilidadedo sentido para a linguagem literária e a existência.Em tudo diverso do trajeto da velha máxima de que, porforça de tanto imaginar, transforma-se o amador na coisa ama-da, A vida dos animais é, pois, uma aventura do estranhamentoe do sentido, na qual a razão mexe com o coração, e um e outrose imprimem batimentos mais fortes, sem que se estabeleçamcomo um par meramente antitético, prisioneiro dos limites domaniqueísmo, do sentimentalismo e da exclusão. Ainda que otexto acentue a necessidade ética e política de uma razão nãoinstrumental, i.é., de uma racionalidade que não se prenda à de-fesa exclusiva do progresso pelo avanço tecnológico, a narrativanão se subjuga a uma ideologia, nem se presta a passar liçõesde comportamento.A estrutura desmonta a expectativa do leitor que esperaum romance, forma adotada pelo autor em outras de suas nar-rativas, até premiadas com o Booker Prize, como Vida e época deMichael K (1999) e Desonra (2002). O leitor percebe que algo deinsólito ronda as páginas de A vida dos animais. Suas fronteirastransbordam o sentido do romanesco. E, mesmo que o títulodo livro pudesse sugeri-lo, o texto nem apenas defende agendaecológica, nem resulta em um abaixo-assinado em prol do po-liticamente correto.A correlação entre ética e estética nele se evidencia, provo-cando articulações multidirecionais que ultrapassam qualquerquadro de homenagem à interdependência dos campos do saber.A vida dos animais vai além disso, pelo inesgotável agenciamentode uma forma de palavra-puxa-palavra, que remete o leitor do1O fragmento é retiradodo livro Elizabeth Costello(Cf. COETZEE , 2004, p.26-7). Posterior a A vidados animais, este livro(sua primeira ediçãoem inglês é de 2003) põeem pauta a discussão dateoria da representação,que configura um dosmais instigantes inte-resses desse intelectualque, além de ficcionista,tem trabalhado comoprofessor de literaturae participa, como ar-ticulista, do setor deresenhas de livros dosuplemento literário doNew York Times. Coetzeeganhou o Prêmio Nobelde Literatura, em 2003.2COETZEE, John Ma-xwell. A vida dos ani-mais. Trad. José RubensSiqueira. São Paulo:Companhia das Letras,2002. (A primeira ediçãoda obra saiu em línguainglesa e foi publicadapela Princeton Univer-sity Press, em 1999).
    • Uma conversa entre macacos: percalços de um diálogo entre a África e o outroNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008 223romance ao “não-romance”, que o próprio texto contém. É commestria que o autor requisita um processo de costura de umlivro com outros, entretecendo livros de outros autores (PaulSinger é um deles) com seus próprios livros ficcionais e de en-saios, como Stranger shores, Inner workings e Giving offense, essayson censorhip, e nos quais Coetzee dá vazão ao trabalho de críticoliterário sutil e bem aparelhado, de teórico e de pensador dacultura extremamente culto.A estrutura multifacetada e fragmentária de A vida dosanimais é um caso de hibridismo explícito, no qual o cânone dos“gêneros literários” encontra-se extremamente abalado, bemcomo a diferença entre homens e animais é posta em xeque ere-investigada, disso resultando que o jogo de espelhamento econtaminação de gêneros envolva-se no novelo da mise-en-abîme,aprofundando a estratégia de aproximação e distanciamentoentre as partes, num mergulho inter e intratextual e inter eintradiscursivo.Desse modo, o livro de Coetzee avança para o saber en-quanto descoberta, absorvendo uma rede de fronteiras que semovem sem cessar, jogando com o obscuro que, uma vez cla-rificado pelo leitor, insiste em modificar-se para, de novo, darreinício ao processo, sugerindo uma possibilidade infinita de sejogar com a linguagem.A vida dos animais apresenta-se em quatro partes: 1) “In-trodução de Amy Gutmann”, 2) “A vida dos animais por J. M.Coetzee”, 3) “Reflexões” e, 4) “Colaboradores” – que logo contra-riam a idéia de “capítulos de romance” que o leitor traz consigo,impedindo-o de usar, confortavelmente, a expressão romance oumesmo qualquer outra a que esteja acostumado. Nisso Coetzeemostra-se um herdeiro dos primeiros modernistas, não só portrabalhar com a idéia de ficção-limite,3como também pelo caráterespesso e opaco de sua trama altamente complexa, exemplo deuma escrita “biscoito fino”.4Uma das dificuldades de A vida dos animais – e marca desua originalidade – é o fato de que, na recepção inicial, e atéem releituras posteriores, o leitor custa a querer aceitar, nãoacredita mesmo, persistindo na dúvida, que a primeira parte,a introdução, seja escrita por Amy Gutmann e que as réplicassejam, também, feitas por outros quatro intelectuais: MarjorieGarber, Peter Singer, Wendy Doniger e Barbara Smuts. E são.São? O leitor fica um tanto aturdido pela colisão de disfarces quese dobram sobre si mesmos, a ponto de negar a evidência (tãoevidente) de uma autoria que, todavia, indo-se verificar, constada folha de rosto da publicação de A vida dos animais. Todavia, oleitor (comum) de romance não costuma prestar atenção a essedetalhe.O jogo é tão bem feito, que a maior dificuldade advém desua aparente simplicidade, o que coloca essa ficção no campo3A ficção romanesca, nocaso, que está aquém,ou além, da concepçãocanônica de romancedesenvolvida no séculoXIX.4A expressão é deOswald de Andrade,que afirmou que a mas-sa um dia comeria do“biscoito fino” que elefabricava e constituíasua obra.
    • Gragoatá Lucia HelenaNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008224do paradoxo: tudo é e não é, em rápidos insights, criando oxí-moros, gerando chispas velozes e múltiplos cruzamentos namente do leitor. A leitura (e as releituras) desse texto de Coetzeetraz (em) o impulso de associá-lo a um jogo que se afina coma técnica empregada por Edggar Allan Poe, em um de seuscontos, segundo a exegese, feita por Bárbara Johnson, em Thecritical difference,5acerca da “Carta roubada” (1845) de Poe, – aterceira de suas três histórias de detetive, com a qual o escritorconquistou, como mostra a scholar norte-americana, a atençãode sofisticada linhagem de estudiosos, como Derrida e Lacan.O segredo da carta roubada, na história de Poe, carta tão difícilde ser achada, é ter sido ela deixada em lugar tão evidente queninguém fora ali procurá-la.Coetzee, de escolhas agudas e refinadas, brinca com a pistae a contra-pista da evidência do roubo da carta e do logro da lin-guagem. Brinca, ao mesmo tempo, com a idéia de ocultação e decultuar, gerando, na interpretação em português, a possibilidadede se relacionar seu texto com a paronomásia entre o oculto eo culto, por meio dessa e de muitas outras referências que fica-rão ignoradas, por serem demasiado sutis para leitores menosatentos. Ou seja, operando no eixo das citações – Coetzee nãotrabalha nem por pastiche, nem por paródia, seu texto como quegira e nos faz girar, como se fosse um “romance não-romance”que abriga e instiga o caráter de charada dos textos policiais. Umtexto que oferece a seus leitores, sob a forma de armadilha, apromessa sub-reptícia de um certo prazer da “descoberta” da res-posta “certa” – “Quem escreveu o comentário, Coetzee ou AmyGutmann?” – para questões que não só não admitem respostascertas, como também não deixam de existir quando parecemter sido respondidas, posto que as soluções dadas avançam emdireção a outros patamares e a outros enigmas.A vida dos animais começa, como já foi dito, por uma “Intro-dução de Amy Gutmann”, seguida de sessão intitulada “A vidados animais, por J.M. Coetzee”; e de quatro reflexões, em umasessão separada, contendo comentários às palestras da segundaparte, feitos por Marjorie Garber, Peter Singer, Wendy Donigere Bárbara Smuts; e finalizando com uma sessão em que, sob aforma de um pequeno currículo, se esclarece quem são aquelescinco intelectuais que apresentam reflexões às palestras de Eliza-beth Costello, no Appleton College (e, no outro lado do espelho,também as que foram feitas por Coetzee, nas Tanner Lectures daUniversidade de Princeton). O jogo prossegue apoiado em umanumerologia na qual se confirma o gosto pelo duplo: o textointeiro tem quatro partes, a segunda parte tem dois textos, sãoquatro colaboradores, dentro da terceira parte, assim como naquarta parte são quatro as referências, uma para cada um doscolaboradores.5Verificar, de BarbaraJohnson, o livro Thecritical difference no qual,no capítulo “The frameof reference: Poe, Lacan,Derrida”, de sua tercei-ra parte, ela discute asexegeses que Lacan eDerrida fazem do textode Poe.
    • Uma conversa entre macacos: percalços de um diálogo entre a África e o outroNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008 225Na introdução de Amy Gutmann, à guisa de prefáciocrítico, o leitor recebe, de partida, um mapa da mina ficcional,espécie de bastidores do que vai ler, pois Gutmann se referea duas conferências escritas e pronunciadas por Coetzee naUniversidade de Princeton, que integraram o ciclo anual dasTanner Lectures, em 1997-98. Nestas conferências, ele teria criadoum personagem, como um alter-ego, e introduzido a figura deElizabeth Costello. Constituiriam, portanto, uma obra literáriae, não propriamente, conferências.Na segunda parte, introduzidas e guiadas por um nar-rador em terceira pessoa, estão, escritas para serem recebidascomo contos, e não mais apenas referidas, duas conferências,intituladas: “Os filósofos e os animais” e “Os poetas e os ani-mais” (escritas, como dissemos anteriormente, por Coetzee epronunciadas por Elizabeth Costello, no Appleton College e porCoetzee nas Tanner Lectures). Forma-se, portanto, na matemáticatextual, uma conta que não é de somar, pois dois e dois, no livro,não são quatro (nem cinco, conforme aparece em letra compostapor Caetano Veloso): são dois, o duplo.Seriam, portanto, duas as bocas (J. M. Coetzee, o autor eElizabeth Costello, a personagem) a emitir; são, também, duas as(“mesmas”) palestras, e, finalmente, são duas as universidades aque o livro se refere (Princeton e Appleton College), em um textoem que estão entrecruzados – como uma unidade em dobradiça,o ensaio e a literatura, a arte e a ciência, a realidade e a ficção,a emissão e a recepção, o narrador e o escritor, a personageme a pessoa – pares que, pelo hibridismo, constituem uma tensadualidade ambígua, perfazendo uma estratégia de reflexão(em, pelo menos, dois sentidos: a reflexão como ato sinônimoao ato de pensar e a reflexão como campo conexo à teoria darepresentação).Resumindo, temos duas palestras pronunciadas pela per-sonagem Elizabeth Costello: uma se intitula “Os filósofos e osanimais”, e a outra, “Os poetas e os animais”. Elas provocamquatro réplicas, cuja extensão se assemelha ao tamanho de cadauma das palestras, que podem ser fruídas pelo leitor como ou-tros tantos “contos” inseridos na estrutura de uma coleção dehistórias breves, agilmente interligadas. Essas duas palestras(indicadas como “contos”, em A vida dos animais) serão deslocadas,em 2003, para a ambiência de um novo livro, Elizabeth Costello,no qual integrarão, com mais seis textos, os oito capítulos dessanova textualização, sendo ali, então, nomeados “ensaios”.Tudo empurra o leitor para o câmbio e o intercâmbio entrepartes móveis. E a produção de sentido é acionada pelo jogo derepetição de elementos que, se parecem semelhantes, resultamem uma repetição diferencial ao serem inseridos em novo con-texto de sentidos. Em A vida dos animais, e também em ElizabethCostello, o grande público que esteja fora do eixo de alcance dos
    • Gragoatá Lucia HelenaNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008226intelectuais citados nos contos que se repetem em ambos ostextos, não sabe exatamente quem eles são. Conhecidos no meioque os circunda, seu trabalho, no entanto, fica retido, na maioriados casos, no universo dos países em que atuam, mesmo queo capítulo final atribua uma biografia a cada um dos que apre-sentaram réplica ao que disse Elizabeth Costello.Tudo se organiza à luz de um jogo de espelhos, com oleitor podendo supor, durante algum tempo, ou até durantetodo o tempo, que tudo é ficção. E, mesmo que não seja assim,também pode ser assim entendido, uma vez que o deslocamen-to dos textos “não-romanescos” daqueles intelectuais, levadospara uma ambiência “romanesca”, a do texto de Coetzee, atribuiteor ambíguo ao conjunto, no qual a representação literária semistura com a possibilidade de representação da própria lin-guagem. Examinando-se, por outro ângulo, o da impostura, asestratégias narrativas de que o autor lança mão em A vida dosanimais e também em Elizabeth Costello, levam a considerar queo procedimento convoca a força da ironia para, de forma disfar-çada, tratar do jogo de máscaras em que se pode transformar, enão de modo “positivo”, a vida entre scholars.Tanto o assunto abordado em A vida dos animais, quantoa maneira de apresentá-lo assinalam o inusitado dos recursostécnicos e criativos desse escritor sul-africano de ascendênciaholandesa, que estudou na Inglaterra e nos Estados Unidos, etrabalhou em universidades americanas e sul-africanas e, nomomento, está radicado na Austrália. Essa “biografia intelec-tual” faz, enfim, de Coetzee um homem também híbrido e deseu tempo. Um tempo ao qual ele ainda surpreende, à medidaque é flagrado mobilizando a platéia da renomada Ivy League àqual se integra a Universidade de Princeton, mas sem recorrer aapelações jocosas – pois não se vale do humor rasteiro que, porvezes, costuma acompanhar algumas dessas apresentações defiguras notórias, nas quais o keynote speaker abusa do direito deacariciar uma platéia dócil, com jogos verbais destinados a fazerrir e distender o ambiente.Discutir quem emite e para quem se emite são questõesbásicas em A vida dos animais (1999). E o jogo de espelhos conti-nua, pois, como já dissemos, quatro anos depois, os dois textosatribuídos a Coetzee no sumário de A vida dos animais foramextraídos para virem a fazer parte de uma nova ficção de Coet-zee, intitulada, desta vez, Elizabeth Costello, fazendo com que apersonagem romanesca se transforme agora em autora de umtipo de memória ensaística e os oito “contos” que compõemo novo todo ficcional passem a ter o subtítulo de “ensaios”. Opensamento do emissor se entrecruza com o do receptor, assimcomo se estilhaça a estratégia recepção-emissão, uma vez que oobjeto da escrita, em uma faixa, torna-se o emissor na outra.
    • Uma conversa entre macacos: percalços de um diálogo entre a África e o outroNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008 227Na leitura dessa estratégia e do choque que ela provoca,uma espécie de constrangimento abre-se, revela-se. O processode elaboração do sentido surge como se viesse de uma cartola demágico, brotasse como um coelho, e saltasse para as mãos do lei-tor. De modo gradativo, como se acompanhando um videoclipe,retinas permanecem atentas, tensas na atitude de aturdimento,observação e tentativa de compreensão. O que se aceitara ou nãose percebera, continua a se disseminar.Nem estamos no calor da leitura. Retornamos aos textos, àspartes do texto, ao que parece parte e todo, como um viajante quechega e rememora. Detalhes não registrados em uma primeiraleitura levam a outros, ainda a outros e mais outros. Logo umquadro parece que se completa e diz. Mas essa completude é sem-pre ilusória, as partes trazem suas dobradiças e seu potencial degerar dobras e ramificações, à maneira de Fênix. Na linguagemdos diálogos interiores, ao mesmo tempo enigmáticos e claros,cintilantes, uma transformação se realiza, insistente, imperiosae, por que não, penosa.O que é? O que significa?A imagem possui um gosto à maneira de Hannah Arendt,naquilo em que busca articular ação e abstração, relembrando-nos do que faz a filósofa em seu último livro A vida do espírito,de publicação póstuma, quando examina o universo do espírito,absolutamente real e humano na sua abstração. Enquanto essaimagem se manifesta, arrostando, na velocidade dos espelhos,as fronteiras híbridas do concreto e da abstração, entre A vidados animais e Elizabeth Costello um confronto se estabelece. E hátodo um esforço do leitor para evitar (ao mesmo tempo parafazê-lo desejar) a busca da verdade dos fatos – afinal, quemescreve o que diz Peter Singer? Ele, o filósofo australiano, ouCoetzee, o escritor que mora na Austrália? Quem de fato estabe-lece a seqüência das partes? Coetzee ou Amy Gutmann que, nafolha de rosto é mencionada como organizadora? Todo esforçode decifração do leitor parece pequeno, insuficiente na ilusãoque o aproxima e distancia, entrega e retira, desvia. É e não é.Carta roubada escondida na ponta do nariz. Tão na cara, quequem a procura, tem-na diante de si, mas pensa que ainda nãoa encontrou. A evidência e a recusa da evidência. O abstrato eo empírico. E mais não sei quantas e quais teorias da represen-tação, desde os gregos e troianos, ocidentalizando-se, estão emjogo no jogo de Coetzee.Em A vida dos animais se mostram pensamentos traduzidosem palavras ditas por Elizabeth Costello, escritas por Coetzee,por Amy Gutmann, por Peter Singer, por Wendy Doniger, porBarbara Smuts e por mim e por você, leitor, o próximo da cadeialeitor-emissor-receptor, dessa teia de mise-en-abîme. Pensamentosassaltam-nos de uma vez, num golpe. Ou, então, entregam-se à
    • Gragoatá Lucia HelenaNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008228busca do leitor. E o leitor tem, cumpre reconhecer, pensamentose pensamentos. Mas, severo e habituado à ficção contemporânea,dirá que qualquer bom escritor dotado de discernimento em-prega este arsenal e até pode sair-se bem. E, implacável, quemsabe, perguntará: o que faz, mesmo, com que A vida dos animaisse torne tão digno de nota?Em uma entrevista ao Jornal do Brasil, datada de 27 de no-vembro de 2002, sobre a edição brasileira de sua obra Libertaçãoanimal,6o filósofo australiano Peter Singer é convidado a opinarsobre a referência que a suas idéias fez John Maxwell Coetzee,em A vida dos animais.JB – O senhor é personagem do livro de J.M. Coetzee. Comoisso aconteceu? Até que ponto é possível separar o que é ficçãoe realidade neste livro?Peter Singer – Eu não sou um personagem do livro. A per-sonagem central, Elizabeth, apresenta alguns pensamentossemelhantes aos meus, mas, no que diz respeito a certas coisas,o ponto de vista dela é muito diferente, como eu tentei indicarna minha resposta ficcional publicada no livro. Eu suspeito queo ponto de vista de Elizabeth esteja mais para o de Coetzee.(Jornal do Brasil, 27 nov. 2002, grifo nosso)Ao traduzir sua resposta para o registro do mundo fic-cional (“minha resposta ficcional”, diz Singer na entrevista aoJB), Peter Singer sublinha um dos sintomas do nosso tempo – aafirmativa tanto repisada do caráter movediço das fronteiras. Poroutro lado, ao requisitar para seu texto ficcional a presença dadiscussão filosófica de Peter Singer, Coetzee mobiliza um arsenalcrítico não-moralista que põe em pauta, de forma importante, oestatuto ético necessário de ser discutido nas comunidades emmudança de pele e pêlo.A estratégia crítica não é nova na literatura. Nem é novana literatura a retomada do passado para citá-lo. Antes da apro-priação de estilos pelo pós-moderno, ainda que com rendimentodiverso, o modernismo já o tornara uma prática costumeira.Coetzee vai retomar, em A vida dos animais, e, sob a forma derepetição diferencial, em Elizabeth Costello, uma experiência deKafka. Nesta, o traço irônico também investe sobre as dicotomiasrazão e emoção, homens e animais, além de contemplar as formasacres do relacionamento acadêmico. No jogo de esconde-esconde(em intertexto com a face detetivesca de busca da “verdade”) queconstitui o livro, ele é, também, campo de reflexão sobre uma esimulada palestra: a narrativa breve de Kafka, intitulada “Umrelatório para uma academia”, extraído da coletânea Um médicorural, pequenas narrativas (KAFKA, 1999, p. 59-72).Coetzee realça, na apropriação que faz do texto de Kafka,uma construção fora do pastiche e da paródia, em que a visãomais intensificada é a de produzir uma alteração e desvio ao6Lançado em 1975, Liber-tação animal foi recebidocomo um marco. Basea-do na idéia de que o ho-mem exerce uma tiraniasobre os bichos inacei-tável do ponto de vistaético, o livro virou abíblia do movimento deproteção dos animais.Como o autor apontanessa edição atualizada,seu impacto fez com quevários países, sobretudoda Europa, adotassemmedidas importantesnessa área.
    • Uma conversa entre macacos: percalços de um diálogo entre a África e o outroNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008 229rumo dado a certas questões que ele retoma do texto inicial.O narrador, no texto de Coetzee, age como quem deseja que oleitor compare o uso distinto que ele e Kafka fazem da idéia deliberdade. Cotejando o texto de Coetzee com o de Kafka, vemosque o macaco de Kafka revela-se contrário à abstração. Ele queruma saída concreta e sem idealizações: quer sair da jaula. Estasaída é vista como uma ação, algo derivado do ato de sair. JáCoetzee, em A vida dos animais, afastando-se do que faz Kafkaem “Um relatório para uma academia”, enfatiza, com o macaco,uma articulação entre o concreto e o abstrato, sem rechaçar nemuma, nem outra possibilidade.7Kafka narra a história de um macaco que, tendo sido cap-turado por caçadores africanos é levado de navio para a Europa.Nessa viagem, o maltrato que os humanos lhe impuseram fazemo macaco decidir tornar-se humano, não por desejo de liberdade,conceito abstrato de que ele nada entendia e que só os homensalmejam, segundo pensa Pedro Vermelho (esse é o nome domacaco de Kafka). Preso e torturado, ele quer encontrar umasaída que o tire de seu cativeiro, numa busca da liberdade comoalgo bem concreto. O Pedro de Kafka diz: “Não, liberdade eunão queria. Apenas uma saída: à direita, à esquerda, para ondequer que eu fosse; eu não fazia outras exigências: [...] a exigênciaera pequena, o engano não seria maior” (KAFKA, 1999, p. 65).Ao que nos remete o conto de Kafka? Pedro Rubro, na ver-são de Coetzee, se pôs perante a Academia em 1917, o ano darevolução da Rússia (vermelha). É uma dobra que alude à situaçãopolítica que a data sugere. Em Kafka, essa alusão – seu textodata de 1919 parece transportar um acento cético-irônico: tantofaz ser à esquerda, à direita, são direções. Refreia-se a utopia, aidealização. Na versão de Kafka a data não aparece e o macacoé Pedro Vermelho em virtude de um ferimento, causado poragressão. E esse “apelido”, não no sentido de sobrenome, masde aposto jocoso, é considerado inconveniente pelo macaco:“Atiraram, fui o único atingido; levei dois tiros. Um na maçã dorosto. Esse foi leve, mas deixou uma cicatriz vermelha de pelosraspados, que me valeu o apelido repelente de Pedro Vermelho[...]” (KAFKA, 1999, p. 61).Além de apontar a força dessas alusões que, se pudéssemoslevaríamos adiante, é necessário dizer que o macaco de Kafka(que, apesar da repetição em diferença torna-se, em A vida dosanimais, o macaco de Coetzee e de Elizabeth Costello) de algumaforma ridiculariza fenômeno tido como bem alemão, que foi oBildungsroman, o romance de formação. Mais do que uma forma-ção, o macaco de Kafka e sua repetição diferencial em Coetzeeparecem narrar, de modo positivo, uma ‘de-formação’; isto é, oprocesso que Pedro Rubro “narra não é o de uma formação emseu usual sentido positivo, de construção de uma identidade, de7Para além dessa ques-tão, o problema pros-segue para o Autor, noqual a referência a PedroRubro alcança também,ainda que não direta-mente, seu romanceElizabeth Costello, quefornece uma chave paraa releitura da diferençaentre a posição de Co-etzee e Kafka. Nesseromance, a personagemde mesmo nome dialogacom um seu desafeto,Emmanuel Egudu, quecom ela viaja como in-telectual entertainer deturistas ricos em umnavio de cruzeiro, ondeambos fazem conferên-cias sobre literatura. Nodiálogo entre os doisfica demonstrado o cru-zamento da idéia desaída, para Elizabeth eEgudu, o que nos remetepara A vida dos animais,texto no qual Coetzeeenfatizara duas dife-rentes concepções desaída. A palavra saída éo ponto do enclave entreo texto de Kafka e os dosromances Elizabeth Cos-tello e A vida dos animais.Tomemosumfragmentodesse diálogo:-- Egudu:“Não tem futuro”, dizEgudu, refletindo. “Issosoa muito desolador,Elizabeth. Tem uma sa-ída para nos oferecer?Elizabeth: - Uma saída?Não tenho de oferecernenhuma saída a você.O que tenho mesmo éuma pergunta” (CO-ETZEE, 2004, p. 58, gri-fos nossos). Nas suasduas obras, Coetzee afiaa navalha do jogo deespelhos que urde tãobem, ressaltando que aliteratura é, sobretudo, ede modo cada vez maissofisticado, um fenôme-no de auto-referenciali-dade, mas que produzcenas de uma atuaçãoimaginarizante cuja ca-pacidade de especularé infinita, embora suarelação com as ações eo mundo não deva serdeixada de lado.
    • Gragoatá Lucia HelenaNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008230uma personalidade, mas sim [...] a educação como um necessárioprocesso de deformação”.8Mais do que ridicularizar um status quo, como pareceser um dos ângulos da proposta de “Um relatório para umaacademia”, o processo de citação de Kafka por Coetzee atribuià deformação, portanto, sentido que corrói a textualização dosromances de formação. Ao retomar Pedro Rubro e sua conver-são em homem, e discutir a transformação das fronteiras entreo homem e o animal, do ponto de vista da racionalidade car-tesiana, provoca, pela transposição, também novos efeitos dereflexão sobre uma outra questão incômoda: a da racionalidadeque, com arrogância, dá primazia a uma determinada forma deconhecimento, por vezes sob o perigo de excluir todas as demaisformas de exercício da razão, porque incapaz de percebê-la comoalgo plural e, não, apenas excludente. Coetzee, em seu texto,assinala, portanto, essa outra forma de concepção de conheci-mento, visto como maneira de descaracterizar os sentidos deidentidade e de formação mantidos pela tradição dos saberesmédicos, zoológicos, cognitivos, retomando, por sua vez, o im-pulso revolucionário de Kafka sobre o que – a literatura – paraele, devia ser um instrumento de corte e reflexão, além de prazere artifício, como se depreende da carta escrita por Kafka, em1904, a Oskar Pollak.9Em Coetzee, retomar, com diferenças, nas páginas de Avida dos animais e de Elizabeth Costello o macaco Pedro Vermelho,magnífica criação de Kafka, é de suma importância, pois permiterealizar uma reconsideração da força do discurso literário, ouque nome se lhe dê, carregada de intenções e de despistamentos.Um leitor que conheça Coetzee também como ensaísta não sepode furtar a mais uma articulação da dobradinha Coetzee eKafka com um outro livro de Coetzee, desta vez um de ensaiosliterários, ainda não traduzidos para o português (Stranger Shores,literary essays).Nele está um saboroso artigo de Coetzee dedicado ao exa-me de uma conferência de Eliot, intitulada “What is a classic?”(e escrita por Eliot em 1944). Acrescente-se que esse estudo deCoetzee sobre a conferência de Eliot, antes de ser publicadocomo artigo, em 2001, foi proferido por ele, como palestra, naÁustria, em 1993. Se, no jogo de espelhos dessa ficção em dobra,temos palestra contra palestra, o que ressalta, ao final, é tam-bém uma outra dobra em que palestra conta palestra, ou mesmopalestra – conto – palestra, em outra dobra, e assim continua oincessante processo de articulação em que o pensamento buscaalcançar uma outra lógica, a do estilo cabralino, de “o sim contrao sim”.O “Sim contra o sim” a que me refiro é o título de um poemade João Cabral de Melo Neto, publicado no livro Serial. Nessetexto, Cabral compara, em grupos de duas estrofes, e atribuindo-8Este fragmento dialogacom artigo de SílvioGallo, “O macaco de Ka-fka e os sentidos de umaeducação filosófica”, noqual o autor traz à bailaa idéia de “deformaçãodo romance de forma-ção. Pode-se ler o artigode Gallo no site: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/filo-sofia/filo_especial1001.html>.9Kafka formula um con-ceito para a literaturaem sua carta a OskarPollak, datada de 27 dejaneiro de 1904. Segun-do o autor, a literatura é“[...] um soco no crânio”do leitor; ou uma “ma-chadinha que rompeem nós o mar de gelo”(LÖWY, 2005, p. 15).
    • Uma conversa entre macacos: percalços de um diálogo entre a África e o outroNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008 231lhes igualmente valores positivos, dois artistas (poetas, pintores,romancistas) que, em sua arte, comportam-se um ao contráriodo outro, nas técnicas e nos temas abordados, mostrando queos caminhos da arte são abertos e incluem procedimentos quese abrem uns para os outros, apesar das diferenças de técnicas,estilos, formas e gêneros. Ou, como diz Coetzee, no artigo citado,bastando para isso, ser “um clássico”. Neste sentido, a reunião,em um paralelo, por inclusão, de procedimentos díspares,contudo considerados positivamente, revela-se uma propostaintegradora.É uma forma de pensar que implica a inclusão dos contrá-rios, do mesmo modo que a rede tecida por Coetzee, reunindo,aos seus, o texto de Kafka, sob o patrocínio da metáfora domacaco, implica em abertura para novos conceitos de raciona-lidade e novas formas de inclusão. Portanto, retomar, de modointertextual, a referência ao macaco de Kafka, torna-se, acima detudo, uma forma de se pensar a arte e a razão como fenômenosintegradores, ambíguos em sua pluralidade, em uma atitude deexercício do pensamento focalizado, ele mesmo, como recusa àexclusão e às formas sociais excludentes.Em seu artigo-palestra sobre Eliot, Coetzee se permiteum momento autobiográfico, ao investigar em que sentido sepode tomar Eliot como um clássico. Coetzee indaga de que ma-neira se pode ser e compreender um clássico fora daquilo que,usualmente, se toma por clássico e fora, também, da academia,para pensar a vida. Tomando como fundamento da reflexãoteórica as forças da rememoração pessoal, Coetzee relembra datransformação, provocada dentro de si, pelo primeiro instanteem que, aos quinze anos, ouviu o “Cravo bem temperado”, deBach, tocado na casa de um vizinho, sem que tivesse a mínimaidéia de quem era Bach, nem do que esse representava em umregistro cultural fora de sua classe. Sem que ele conhecessemúsica, e muito menos, os “clássicos”, aquele foi um momentode descoberta para Coetzee.É dessa forma que nós, leitores, somos apresentados aum outro Coetzee, personagem homônimo do Autor, jovemde quinze anos em um mundo sul-africano ainda colonial, emplena década de 1950, em que o background da mídia era a mú-sica norte-americana, e não a européia. E tudo isso feito em umensaio crítico desviado, aparentemente, de sua rota acadêmica.Ou, quem sabe, Coetzee estaria escrevendo com aquele ensaio“Um outro relatório para uma academia”?Enfim, ao retomar a escrita em mosaico, Coetzee re-inserea categoria autor na escrita, ao se inserir e ao inserir Kafka eEliot, perfazendo com todas essas subjetividades e vozes umapoderosa interlocução sobre o potencial transformador de tudoaquilo que, na articulação entre razão e sensibilidade, sem re-
    • Gragoatá Lucia HelenaNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008232montar ou trazer de volta um mundo mítico clássico, instauraforça e mudança.Se relembrarmos nossa epígrafe, avançando um poucomais no texto do romance Elizabeth Costello, do qual foi extraída,e a transformarmos, neste momento, em citação, reunindo-a aoque dissemos de A vida dos animais, e ao experimento que pros-segue na urdidura de Elizabeth Costello, veremos que a narrativade Coetzee está tratando, sempre, de um só problema, obstina-damente refletido e repetido – o da representação, a ponto de onarrador declarar:Acreditamos que houve um tempo em que podíamos dizerquem éramos. Agora, somos apenas atores recitando nossospapéis. O fundo caiu. Poderíamos considerar trágico esseevento, não fosse pelo fato de ser difícil respeitar um fundoque cai, seja ele qual for – isso agora nos parece uma ilusão,uma dessas ilusões sustentadas apenas pelo olhar concentradode todos da sala. Removam seu olhar apenas um instante, e oespelho cai ao chão e se parte. (COETZEE, 2004, p. 26-27)Em Elizabeth Costello, nosso Autor substitui a introduçãoteórica de Amy Gutmann, por um capítulo chamado “Realismo”.Que teoria da mímesis vai ou não vai sustentar os simulacros denossa era? Ou não são, nem serão mais simulacros, esses dogmasde fé da nova profissão de época, a realidade virtual, de nossotempo? Nosso tempo? E as fronteiras tornadas tão tênues comose tivessem desaparecido de todo? Será que seu desaparecimen-to é ilusório? Ou será que elas são tão duras e pesadas, na suailusão, que chegam a ser tão concretas, quanto concretas sãoas divisas aduaneiras que fecham sua porta de acesso aos queprovêm de países ditos emergentes? Lamento, mas não podemoscontinuar. Tenho que terminar aqui e agora, já que não me restamais tempo, pois ontem marquei um encontro com Elizabeth eela está tocando a campainha.
    • Uma conversa entre macacos: percalços de um diálogo entre a África e o outroNiterói, n. 24, p. 221-233, 1. sem. 2008 233ReferênciasADORNO, Theodor W. Minima moralia: reflexões a partir da vidadanificada. Trad. Luiz Eduardo Bicca. 2. ed. São Paulo: Ática,1993.ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar.2. ed. rev. Trad. Antonio Abranches, César Augusto R. de Almei-da, Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993.COETZEE, John Maxwell. A vida dos animais. Trad. José RubensSiqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.. Elizabeth Costello: oito palestras. Trad. José RubensSiqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.. Inner workings: essays 2000-2005. London: HarvillSecker, 2007.______. Stranger shores: literary essays. 1986-1999. London: Pen-guin Books, 2001.JOHNSON, Barbara. The frame of reference. In: . Thecritical difference: essays in the contemporary rhetoric of read-ing. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1980. p.110-146.KAFKA, Franz. Um relatório para uma academia. In: .Um médico rural: pequenas narrativas. Trad. posf. Modesto Caro-ne. 2. Reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 59-72.LÖWY, Michel. Franzkafka: sonhador insubmisso. Trad. GabrielCohn. Rio de Janeiro: Azougue, 2005.AbstractThis article intends to discuss the web of textscreated by J.M.Coetzee to entangle three literarytexts: his two novels The lives of animals (1999)and Elizabeth Costello (2003), and Kafka’s “AReport to an Academy”, taken from A CountryDoctor [Ein Landarzt] (1919). How are we tounderstand this textual network that spreads itselfin a sharp and delicate way? While inteweavingthe marks of authorship, autobiography, and fic-tion, Coetzee’s text indicates both the porosityand complexity of the act of writing. With thiscapacity of branching, Coetzee’s texts highlightthe thin bordes between reality and the world of“might have been” that literature creates. Thisessay aims at examining these issues, which con-nect the games of language to the representationof today’s literary language.Keywords: Coetzee. Kafka. Dialogue. Fiction.South Africa. World.
    • ENTREVISTA
    • Gragoatá Niterói, n. 24, p. 235-247, 1. sem. 2008O peixe e o macaco: emblemasdo subdesenvolvimento numaentrevista com José EduardoAgualusa sobre o Brasil e AngolaMaurício de Bragança“Angola... de cujo triste sangue, negras e infelizes almas se nutre, anima, sustenta, serve e conservao Brasil.”(Pe. Antônio Vieira)Brasil e Angola possuem muitos elementos em comum nos seus processos de forma-ção histórica. É conhecida a relação que se formou com os projetos de expansão ibérica doséculo XVI rumo à América, aproximando os dois países a partir de um contexto econô-mico que levava as capitanias sul-americanas, o Brasil especificamente, a se interligaremnum espaço complementar ao de Angola através do abastecimento de escravos africanosna colônia portuguesa. Dessa maneira o africano incorpora-se à paisagem americana.Tanto o Brasil quanto Angola foram colônias (des)ajustadas ao mundo econômicodesde uma perspectiva periférica, complementando e apoiando, através da exportaçãode suas riquezas (materiais e humanas), o império português. Os escravos africanos pro-venientes, em grande número, do território angolano, se estabeleceram como a principalmão-de-obra da América portuguesa. Esta estrutura do sistema colonial configurou oprimeiro fluxo de migração forçada de angolanos ao Brasil. Esta força de trabalho iria mar-car profundamente a história e a cultura brasileiras, conectando estes dois continentes.O Brasil foi colônia portuguesa até 1822 e Angola até 1975, quando o país africanoconquistou sua independência política, depois de passar por uma sangrenta guerra.O MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), de inclinação comunista, foicriado ainda na década de cinqüenta como uma articulação em torno do processo anti-colonialista. Mesmo após 1975, Angola seguiu numa violenta guerra civil, exacerbadapela competição entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria. O MPLAe a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), identificada com osEstados Unidos, destruíram o país em décadas de luta intensa. Isto estimulou, a partirdos anos oitenta, um processo de emigração de Angola, que buscava refúgio especial-mente em Moçambique, Portugal e Brasil. Em 1992, houve eleições em Angola, nas quais oMPLA saiu vitorioso. Em 1993, foi assinado um acordo de paz entre o MPLA e a UNITA,reduzindo o fluxo emigratório de Angola, mas, na segunda metade da década, a guerracivil recomeçou e, conseqüentemente, a imigração de angolanos no Brasil retomou seucrescimento.
    • Gragoatá Maurício de BragançaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008238Atualmente Angola vive sob um novo acordo de paz,assinado em 2002 e que parece ter estabilizado, em parte, arealidade de violência proveniente da guerra civil. A políticaexterna do governo Lula, buscando uma frente de coalizão entreos países do chamado terceiro mundo, levou o nosso presidenteao continente africano em 2003, com uma passagem por Luan-da, onde acordos econômicos e de cooperação com a ex-colôniaportuguesa foram selados. Medidas como essa podem até tentardiminuir gradualmente a violência em Angola e minimizar opreconceito contra a presença angolana no Brasil, mas décadasde sangrentas batalhas e extrema violência no país deixarammarcas profundas de exclusão na sociedade que ainda produzemefeitos sociais pungentes.No Brasil, os angolanos chegavam, na década de noventa,como turistas, com um visto que lhes permitia permaneceremlegalmente pelo prazo de um mês. Depois disso, a ilegalidade, eos problemas decorrentes dela, era o destino de quase todos eles.No final de 1998, o governo brasileiro implementou um projeto deanistia aos angolanos que se encontravam em condição ilegal nopaís. Mas os problemas em Angola não terminaram. A migraçãoLuanda - Rio ainda permanecia e o número de angolanos emcondição ilegal continuava a crescer.Hoje em dia existem, aproximadamente, mais de 2000angolanos no Brasil. Muitos deles moram no Rio, espalhadosentre os bairros da Lapa, da Glória, do Estácio e o centro dacidade, além de algumas comunidades ao longo da AvenidaBrasil. Um grande número dos angolanos do Rio vive na Vila doJoão, uma das diversas comunidades que formam o Complexoda Maré, convivendo com uma realidade de extrema violência,reforçada pela presença da polícia na disputa com as facçõesrivais do tráfico.Em fevereiro de 2000, uma ação da polícia do Rio chegou acausar um incidente diplomático entre Brasil e Angola. Oitentaangolanos moradores da Vila do João foram detidos pela polícia,depois da morte de um policial numa ação contra traficantes nolocal. Ativistas pelos direitos humanos e movimentos negrosprotestaram contra a maneira como tais angolanos foram trata-dos pela ação policial e irresponsavelmente apresentados pelaimprensa, fomentando a suspeita de sua participação no tráficoda Vila do João. Dois dias depois, a prefeitura da cidade oficial-mente se desculpou ao cônsul angolano no Rio. Este episódiomostra-nos a vulnerabilidade em que se encontra a comunidadeangolana, segregada do mercado de trabalho, sujeita à arrogânciae à violência da polícia (tratamento este não diferente de suasações contra quaisquer comunidades pobres das periferias dacidade do Rio de Janeiro). Ações como essa vêm reforçar o pre-conceito de que são vítimas os angolanos residentes no Brasil.
    • O peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusa sobre o Brasil e AngolaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008 239Por outro lado, a comunidade angolana desenvolve estra-tégias de relacionamento visando à inserção e integração nacomunidade local, estabelecendo cadeias de reconhecimento eidentificação com outros grupos.Em 2005, durante o processo de realização de um video-documentário sobre os angolanos residentes na Vila do João,tivemos a oportunidade de entrevistar o escritor angolano JoséEduardo Agualusa, que se encontrava no Brasil para participarde mais uma Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro.Após alguns contatos, o escritor gentilmente nos recebeu noHotel Glória, no dia 16 de maio, para uma conversa sobre asquestões que moviam o documentário e as problemáticas histó-ricas das relações entre Brasil e Angola. O videodocumentárioainda se encontra em fase de finalização, mas a entrevista podeser conferida abaixo.Maurício de Bragança: A história recente de Angola é marcada pelaquestão da diáspora, proveniente de uma guerra civil, principalmentenos anos 90, e que proporcionou inclusive o que a gente tem percebidocomo uma espécie de identidade fraturada na Vila do João. A sua lite-ratura também é muito marcada por essa constância da guerra comoelemento motivador. Gostaria que você falasse um pouco disso: da guerracivil na sua história pessoal e essas marcas na sua literatura.José Eduardo Agualusa: Bem, a guerra em Angola tem diver-sas fases. Na verdade nós podemos até considerar que a guerracivil começou de uma certa forma com a própria guerra deIndependência, em 60. Porque logo quando se desencadeiamas primeiras manifestações nacionalistas violentas no norte deAngola na altura das possibilidades da União dos Povos de An-gola, da UPA, que era uma estrutura financiada pelos EstadosUnidos da América, além dos colonos que são assassinados,são assassinadas também muitas centenas de angolanos negrosque trabalhavam nas fazendas coloniais. Portanto, de uma certamaneira, já era uma guerra civil, que continua depois entre osmovimentos de libertação. Eram três movimentos de libertação:a UNITA, que só surge mais tarde, o MPLA e a UPA, depoisFNLA. Esses movimentos lutavam contra os portugueses, mastambém lutavam uns contra os outros, e representavam diversosinteresses internacionais. Estávamos em plena Guerra Fria, entreos Estados Unidos e a União Soviética, e até a China. No caso, aUNITA, quando surge, surge apoiada pela China; UPA-FNLA,apoiada pelos Estados Unidos e o MPLA, apoiado pelos paísesdo leste. Portanto, estas três potências internacionais, grandespotências, usavam seus peões para se digladiarem entre si. Defato, estes movimentos lutaram contra os portugueses, mas lu-taram também uns contra os outros. Já era uma guerra civil quedepois da independência se torna evidente. Em 1992, acontecem
    • Gragoatá Maurício de BragançaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008240em Luanda os acordos de paz, um pouco antes até, em 1990, eem 1992 já há as primeiras eleições. Portanto, há um pequenointerregno de paz logo a seguir às eleições. As eleições são emsetembro. Logo no início de outubro, a UNITA, o líder da UNI-TA, doutor Jonas Savimbi, recusa-se a aceitar o resultado daseleições e a guerra recomeça com extrema violência, muito maisviolenta do que anteriormente e nas cidades inclusive, dentro deLuanda e dentro de outras grandes cidades angolanas. Portanto,aí temos uma nova fase da guerra que vai até recentemente, nofundo. Depois há pequenos acordos de paz, mas no fundo, enfim,a guerra prolonga-se até a morte do Jonas Savimbi, já em 2002.Mas, enfim, temos estas diferentes fases da guerra que afetaramas pessoas de uma forma diferente. No caso, por exemplo, daspopulações de desalojados e de refugiados, isso ocorre logo noinício da guerra, logo que ainda a guerra anti-colonial se desen-cadeia em 1960, logo aí há angolanos que procuram refúgio nospaíses vizinhos, no Zaire, na Zâmbia. Depois, com a guerra civilem 75, há uma nova vaga de refugiados, mais uma vez para ospaíses limítrofes, incluindo um pouco também a África do Sul,mas também para Portugal. A grande vaga foi para Portugal.Muitos milhares de angolanos buscaram refúgio em Portugal etambém no Brasil. Vários angolanos, já nessa altura, buscaramrefúgio no Brasil. Depois das eleições há esta nova fase da guer-ra, terceira guerra, digamos assim, e então aí eu creio que sim,aí há um grande número de jovens angolanos que, para fugirà incorporação militar, vem para o Brasil, sobretudo para o Riode Janeiro.MB: A gente percebe, de vez em quando, um questionamento grandedos angolanos lá na Vila do João a respeito do papel do intelectualangolano no processo histórico de Angola. Para você, qual é o papel dointelectual em Angola?JEA: É interessante isso. Às vezes quando as pessoas colocam“a literatura não tem grande utilidade”, eu sempre digo não, ocaso de Angola demonstra que a literatura pode mudar o mun-do, às vezes nem sempre para melhor. Porque o movimentonacionalista em Angola foi de fato antecedido por um movi-mento cultural, por um movimento literário. Este movimentoliterário, com revistas, com debates, etc preparou a insurreiçãonacionalista e não por acaso, logo a seguir à independência, nóstemos um primeiro governo formado por um grande númerode intelectuais, poetas, escritores, etc. O próprio presidente darepública era um poeta. Nem por isso foi o melhor governo, infe-lizmente. Mas, portanto, vamos dizer que os intelectuais tiveramum papel ativo na insurreição nacionalista. Isto é absolutamenteclaro, sobretudo, do lado do MPLA. Agora, o que eu acho é que aseguir à independência estes intelectuais, muitos, se colocaramdo lado do regime e enfraqueceram sua visão crítica, ou seja,
    • O peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusa sobre o Brasil e AngolaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008 241deixaram de agir como uma entidade capaz de refletir sobre opaís de forma livre porque estavam do lado do regime, estavamdo lado do poder. Isto durou muito tempo, durou bastante tem-po, e eu creio que só depois, com o fim do sistema de partidoúnico, com as primeiras eleições, os intelectuais começaram aver, começaram a reaparecer alguns intelectuais um pouco maiscríticos. Mas seja como for, eu acho que se deve ir bastante maislonge, eu penso que, sobretudo no que diz respeito ao escritor,eu acho que num país totalmente democratizado, num país es-tável e próspero, o escritor pode não ter nenhuma outra funçãoque não seja, enfim, as grandes questões filosóficas ou divertirsimplesmente as pessoas. Mas num país como Angola, que éum país no qual a maioria da sua população não tem voz, não écapaz de fazer ouvir a sua voz, e é um país onde existem tantosproblemas, tão graves, eu acho que o escritor num país assimtem obrigação de dar voz a essas pessoas, de procurar dar voza essas pessoas.MB: O perfil do angolano, que migrou nos anos 90 para a Vila do João,é um perfil de jovem, entre 18 e um pouco menos de 30 anos, homensem sua maioria, provenientes dos musseques de Luanda, pobres, e to-dos, absolutamente todos eles que a gente encontrou até agora, negros.Você, sendo um angolano branco, como é que você vê a questão racialem Angola?JEA: Essa vaga é muito diferente daquela que aconteceu em 75.Eu acho, que em 75, a maioria dos angolanos que migraram paracá eram angolanos da pequena-alta burguesia; portanto, umaburguesia mestiça, branca. A guerra curiosamente teve isto. Du-rante muito tempo, logo a seguir à independência, os oficiais, ouparte, vamos dizer, dos oficiais generais dos exércitos angolanos,podemos dizer a maioria dos generais, eram mestiços e brancos,que eram aqueles que tinham estudado nas universidades mi-litares, que tinham tido alguma possibilidade de estudar, quetinham desenvolvido a sua capacidade a uma direção militar.Hoje a situação já não é mais tanto assim, mas ainda é um pou-co, ou seja, em um certo nível das forças armadas ainda há essapresença. Em 75, você ainda podia encontrar entre os soldadoselementos dessa pequena burguesia mestiça, mas pouco a poucoo que foi acontecendo é que a guerra foi sendo feita cada vezmais pelos pobres. Quem morreu nesta guerra foram os pobres,a partir de uma certa altura. E quando chegamos a 92, então,isso é absolutamente claro. Na terceira fase da guerra, quem dá avida, quem faz a guerra, quem morre na guerra, são geralmenteos pobres. Os generais podem ser ainda mestiços, brancos, masquem morre na guerra são os pobres. Há até um verso do RuyDuarte de Carvalho que diz que “o sangue agora é dos outros”, ouseja, o sangue não é nosso. Não é dessa pequena-alta burguesia.Portanto, não é de admirar que sejam estes pobres que tentam
    • Gragoatá Maurício de BragançaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008242fugir da guerra também e que sejam esmagadoramente na suatotalidade, ou quase totalidade, negros.MB: No seu “O ano em que Zumbi tomou o Rio”, você faz declaraçõesbastante corajosas, tanto a respeito do processo de Angola quanto ao pro-cesso brasileiro, de exclusão da sociedade brasileira, inclusive afirmandoque o Brasil nunca tinha sido de fato descolonizado. Isso na boca de umpersonagem angolano. Qual a diferença do processo de descolonizaçãodo Brasil e o de Angola, vistos por você?JEA: Bem, é totalmente diferente, não tem comparação, realmen-te. Eu falo disso no livro, e enfim é uma provocação, mas... É evi-dente: quem fez a independência do Brasil foi um rei português,que depois de ter feito a independência do Brasil, regressou aPortugal e foi rei em Portugal. É extraordinário isso. E quem ficano poder, quem fica a controlar o poder, são de fato ou portugue-ses ou descendentes de portugueses. E ficam sempre, ou seja, nãohá uma passagem de poder. A vasta maioria de brasileiros dedescendência africana, que nessa altura era vastíssima maioria,mais de 80 por cento dos brasileiros no século XIX, eram negros.E os índios, as populações indígenas, são totalmente afastadosdo poder, totalmente afastados. De fato, até essa altura, haviauns mestiços no meio daquela situação. Por exemplo, é curiosoque a literatura brasileira, toda ela, seja fundada por mulatos enegros, mas depois... Mesmo esse poder, que até podia ser ainda,enfim, um pouco escuro, vai clareando, até que no século XX,em meados do século XX, não havia nenhuma participação deafro-descendentes no poder, no poder político.Em Angola, não. Em Angola o que acontece é que... É muitocurioso, é muito interessante comparar isso: no século XIX, atéfinais do século XIX, criou-se em Angola uma elite baseada notráfico de escravos, quase uma aristocracia, uma elite econômi-ca, política e até cultural de angolanos, negros e mestiços. Essesangolanos tinham de fato muito poder, quer poder econômico– algumas das maiores fortunas de Angola nessa época estavamnas mãos de angolanos negros e mestiços –; quer poder político,uma boa parte do pequeno poder local, sei lá, o equivalenteao prefeito aqui ou o presidente da Câmara, eram angolanos;quer culturalmente. Por exemplo, para escrever alguns dosmeus livros, li muito dos jornais publicados entre 1880 e 1900.Há inúmeros títulos, são dezenas e dezenas de títulos e muitosdesses jornais eram dirigidos por angolanos negros, negros emestiços. E você vê claramente, ao contrário do que se pudessepensar, havia uma elite angolana com poder. Depois, já com ofim do tráfico de escravos, muitas dessas famílias vêm para oBrasil e as outras realmente perdem poder, poder econômico,desde logo porque a principal fonte de rendimento desaparece.E depois o próprio governo português, o próprio governo colo-
    • O peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusa sobre o Brasil e AngolaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008 243nial preocupado com a possibilidade dessas pessoas que já nosjornais da época falavam em independência – já naquela altura,já no século XIX se falava em independência – preocupado coma possibilidade real disso acontecer vai retirar ainda mais po-der a essas pessoas, vai criar legislação no sentido de retirar, deempobrecer essa elite, e consegue, consegue fazer isso. Agora, agrande diferença relativamente ao Brasil é que nós temos, sejacomo for, temos uma classe média-alta negra em Angola quevem de há muito tempo, que tem séculos, essa é uma primeiragrande diferença. Por outro lado, logo a seguir à independência,mesmo antes da independência, já com a luta nacionalista, já coma luta anti-colonial, quando surgem os primeiros movimentosde libertação, logo aí há uma revolução de mentalidades porquehá essa apreciação de que quem vai ter o poder será a maiorianegra e portanto há uma integração dos angolanos brancose mestiços no movimento de libertação dentro dessa idéia. Eisso modifica completamente até a mentalidade das pessoas. Equando acontece essa revolução, essa revolução de mentalidadesatinge o seu auge, ou seja, você tem, portanto, um país que passaa ser gerido por uma maioria negra e isso muda a cabeça daspessoas, completamente.MB: Uma questão recorrente, voltando ainda a “O ano em que Zumbitomou o Rio”: nos depoimentos que a gente observa na Vila do João, éque há um certo estigma na comunidade local, e na sociedade cariocacomo um todo, de uma articulação do angolano com o tráfico no Rio deJaneiro. A imprensa, irresponsavelmente, sempre inscreve este angolanoda Vila do João, ou do Estácio, enfim, da periferia, articulado a umarede do tráfico. Você de alguma forma toca neste ponto em “O Ano emque Zumbi tomou o Rio”. Como é que você tomou contato com estasquestões e por que você resolveu colocá-las no livro?JEA: Bem, na verdade não é o que se quer apenas do angolano,é o brasileiro pobre que vive nas favelas e o brasileiro negroporque nas favelas a maioria da população é afro-descendente,e realmente sofre este estigma. Vive num território dominadopelo tráfico e é identificado dessa forma pelos outros brasileirosdas classes mais ricas. Não são apenas os angolanos; estes an-golanos sofrem este estigma porque vivem lá. Os outros poucosangolanos que estão aqui, que também há alguns vivendo naclasse alta e há alguns extremamente ricos que evidentementevivem nos bairros ricos, não sofrem este estigma, naturalmen-te. De fato eu já tinha essa idéia de escrever este livro há muitotempo porque qualquer angolano, qualquer africano que chegaao Brasil imediatamente repara nessa coisa extraordinária queé um país que de fato não tem uma paranóia racial, não pensamuito nisso, mas onde uma fratura racial corresponde a umafratura social, não? Ou seja, é muito claro que a pobreza aquitem cor, e qualquer angolano, sobretudo, está habituado a uma
    • Gragoatá Maurício de BragançaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008244outra realidade. E muitos angolanos ainda por cima têm umgrande culto ao Brasil, as pessoas curtem aquelas coisas do Brasil,como música, etc. Têm uma imagem muito favorável do Brasil, equando chegam ao Brasil reparam nisso, são confrontados comisso, com esse fato de os negros estarem excluídos do poder, eisso normalmente é um choque. Portanto desde há muito tempoque eu tinha intenção de fazer este livro. Evidentemente depoishouve um outro click, vamos dizer, quando surgiram nos jornaisessas notícias dizendo que eventualmente haveria mercenáriosangolanos ao lado do tráfico. Eu acho que a originalidade domeu livro é supor que aquilo que já é uma guerra, um confrontomilitar já, passa a ter contornos políticos, ou seja, aquilo que éuma guerra simples, uma guerra entre polícias e bandidos, di-gamos, passa a ter contornos políticos, ou seja, é imaginar umaespécie de Che Guevara das favelas, uma espécie de Zumbido século XXI que dê uma consistência política a esta revolta.Essa é a originalidade do livro; é isso que eu tento imaginar.E aí interessou-me imaginar o próprio Zumbi de ascendênciaangolana, ou seja, teria uma origem angolana, interessou-meimaginar, porque faz algum sentido, que um antigo oficial doexército angolano com experiência militar pudesse ter esse pa-pel, porque eventualmente o que falta aos soldados do tráficoé essa experiência militar, alguém que organize, que não só dêconsistência política mas também dê uma maior articulaçãomilitar a esta guerra. Então, foi assim que surgiu. Agora, eutento, você deve ter reparado, eu tento um pouco salvar a facedesses angolanos pobres que fugiram à guerra, explicando o queé uma verdade: que a maior parte deles fugiram a uma guerrae o que eles querem, o que eles menos querem é outra guerra, éverem-se envolvidos numa outra guerra. Portanto eu acreditoque, acredito realmente nisso, acredito que a maior parte dessaspessoas sejam trabalhadores honestos. O que querem é fugir daguerra, caramba! Conseguiram fugir de uma, não é? Não vãometer-se numa outra.MB: A sua literatura propõe uma reescrita da história a partir dodesmoronamento de uma história oficial, criando um entrelugar quedesliza entre a ficção e a realidade. A gente percebe, na Vila do João,que a memória dos angolanos que vão para lá, ela de uma certa formatambém reescreve uma outra narrativa histórica, justamente atravésdessa questão da diáspora, até propondo umas lacunas da memóriacomo lugar da própria memória, ou seja, o esquecimento como memó-ria, seja pelo afastamento cada vez maior da época em que viviam emAngola – tem angolano que está há quinze, dezesseis anos já aqui – sejapela tentativa de fuga realmente daquela realidade, como você acaboude colocar. O quanto você acha que pode haver de memória no próprioesquecimento? Quando esta lacuna se transforma na inscrição de umamemória?
    • O peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusa sobre o Brasil e AngolaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008 245JEA: Eu acho que há duas questões: por um lado, os angolanos, sevocê for a Angola e mesmo por aqui, provavelmente, você senteessa coisa, os angolanos têm uma aparente e elevada auto-estima.O angolano é bem arrogante, muito orgulhoso da sua raiz, desua origem, às vezes exagera. Eu acho que isso tem a ver com ofato de ser um país tão sofrido, né? E com tão poucos motivosde orgulho, na verdade. Então a pessoa muitas vezes tende atransformar o passado, tende a recriar o passado para conseguirmotivos de orgulho, para conseguir uma certa auto-estima. Porexemplo, relativamente a Moçambique, Angola sempre teve umadisputa com Moçambique. Moçambique, pelo menos, teve umaLurdes Mutola, que é uma grande campeã de atletismo ou casoua sua primeira-dama, a sua antiga primeira-dama, ex-mulher deSamora Machel, veio a casar com o presidente da África do Sul,um homem que todos nós, enfim, a maior parte das pessoas nomundo, venera, o Nelson Mandela. Então até dessas pequenascoisas Moçambique pode-se orgulhar, enquanto que nós de fatotenhamos poucos motivos de orgulho, muito poucos. E talvezisso faça com que o angolano tente reinventar a sua própriahistória, a sua própria memória de forma a conseguir manter acabeça erguida. Por outro lado também é verdade que em An-gola desde sempre houve esta... realidade e fantasia sempre semisturaram. Sempre houve uma coisa fluida. Há um livro muitointeressante com uma entrevista com Gabriel García Márquez,creio que está publicado no Brasil. Eu li no original em espanhol,“El olor de la guayaba”, em espanhol, portanto “O perfume dagoiaba”, em que ele conta que a experiência mais importante desua vida aconteceu numa viagem a Angola, em 1977. Ele foi aLuanda e ao desembarcar em Luanda, ele diz, foi como se tivessedesembarcado na sua própria infância. E naquele momento elepercebeu que também era africano. E percebeu que aquilo a quenós chamamos realismo mágico é uma coisa que vem da África.Essa mistura entre a fantasia e a realidade é uma coisa africanae eu acho que ele tem razão nisso. Acho que ele tem razão. EmLuanda isso é muito perceptível. Talvez também essa capacidadede fabulação venha daí.MB: E essa questão dessa porosidade de limites, de contaminação doslimites entre realidade e ficção, as personagens que transitam muitonos seus livros, não só transitam geograficamente, fazendo quase umtriângulo entre Brasil, Angola e Portugal e aí se expandindo para ou-tros lugares – Goa, Berlim, etc e tal – mas transitam entre os próprioslivros. Tem uma “migrância” muito grande, né? E a sua literaturaconstantemente é colocada como uma literatura mestiça. Existe umasérie de questionamentos a respeito das teorias de mestiçagem... de queelas proporcionariam uma síntese apaziguadora dos conflitos. Você nãoacha que, ao invés de mestiça, seria mais própria à sua literatura a idéiade uma literatura migrante porque aí você tem realmente as questões
    • Gragoatá Maurício de BragançaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008246que migram e não encontram seus lugares e os conflitos são preserva-dos? Como você vê essa história da mestiçagem e da “migrância” nasua literatura?JEA: Nunca pensei nisso assim, mas faz algum sentido no quevocê está a dizer, sim, claro. Faz sentido neste aspecto, sim.MB: E agora uma pergunta: estamos à beira de trinta anos de indepen-dência de Angola. Já a quase três anos, ou três anos, de um acordo depaz. Quais são as suas perspectivas com relação a essa Angola, a estemomento de Angola, ou a um futuro próximo de Angola? O que vocêpensa a respeito disso?JEA: Como todo angolano, sou otimista. Sou realmente otimis-ta. Eu acho que, pois, já alcançamos a paz, que foi um grandetriunfo e é evidente que... Eu não creio que a guerra... Por vezeso governo tentou durante muito tempo, o regime tentou ven-der esta idéia de que tudo estava errado por causa da guerra,de que qualquer coisa que não funcionasse era a guerra. Não éverdade, tão simples como isto, porque Angola evoluiu muito.Aliás, o grande período de evolução de Angola no crescimentoeconômico, foi entre 60 e 74, ou seja, durante a guerra colonial. Aguerra foi o motor até do desenvolvimento, serviu como motordo desenvolvimento. Portanto, a guerra não pode ser a razão detodos os males e de fato não é. A razão de todos os males tem aver com a incompetência do regime. Com o desinteresse e coma corrupção. Essa é a principal. Agora, é verdade também que,ao conseguirmos alcançar a paz, deixou de haver essa desculpado próprio regime. Eu creio que o grande desafio atual, evi-dentemente, é democratizar o país, tentar conseguir que hajaeleições, em primeiro lugar. É conseguir fortalecer a imprensaindependente, é conseguir que a sociedade civil se refaça na suatotalidade, ou seja, que voltem a surgir, cada vez mais e cadavez com mais força, não apenas partidos políticos, mas tambémsindicatos, igrejas e organizações não-governamentais. Eu achoque se está a conseguir, está-se a fazer, embora de forma muitolenta. Eu gostaria que fosse mais rápido, sobretudo no caso daseleições. Eu acho importante haver eleições, eu acho importantehaver eleições, sobretudo para o poder local. O poder local éabsolutamente essencial. É com o poder local que se vê um paísa desenvolver-se. Não acredito, realmente de todo, que seja pos-sível desenvolver sem democratizar. Acho que não é possível. Eeu acho curioso que, quando você olha para o mapa da África,percebe que os países desenvolvidos em África, que os paísesque se desenvolveram, como África do Sul, como Botswana,como a Namíbia, como o Senegal, como Cabo Verde, que é umpaís sem condições nenhumas do ponto de vista de riqueza,riquezas minerais, etc, mas todos estes países se desenvolverammuito nestes últimos anos e se desenvolveram muito porque são
    • O peixe e o macaco: emblemas do subdesenvolvimentonuma entrevista com José Eduardo Agualusa sobre o Brasil e AngolaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008 247países democráticos e, quanto mais profunda é a democracia,mais desenvolvido é o país. Portanto, eu acho que o essencialagora é democratizar, é criar estruturas, é forçar o regime ademocratizar-se e depois, e depois, ao mesmo tempo, investir nodesenvolvimento do país. Quando eu falo em desenvolvimento,por exemplo, uma área absolutamente fundamental é a questãoda educação e da cultura. É impressionante que ainda hoje asforças armadas da defesa tenham um orçamento muitíssimosuperior àquilo que é reservado para a educação. Eu não sei seainda hoje é assim, mas creio que ainda hoje é assim: há maisdinheiro para as bolsas de estudo no estrangeiro, de doutora-mento e de mestrado, do que para a educação básica. As escolasprimárias de Angola estão totalmente abandonadas. Totalmenteabandonadas. Os professores ganham nada, uma miséria. Vocêdepois tem isso sim, escolas privadas a surgirem, têm universi-dades privadas. Há cada vez mais universidades privadas, mas osistema de ensino público foi totalmente abandonado. O que vaidar até no que conversávamos da questão racial, ou seja, há umaperpetuação do sistema, dos erros e das perversões do sistemacolonial. Aqueles que eram mais favorecidos no sistema colonial,os brancos e os mestiços, continuam a ser os mais favorecidoshoje porque são aquelas pessoas que podem colocar os filhosnas universidades privadas ou, inclusive, mandar estudaremos filhos fora do país, que é o que acontece. E a vasta maioriada população não tem sequer forma de educar os seus filhos,porque as escolas não são más: elas não existem. O sistema desaúde, outro problema, o sistema de saúde. Ainda recentemente,e ainda agora estamos em Angola com um problema gravíssimo:o vírus do Marburg, que é um vírus que será mais grave aindado que o Ébola, portanto o nível máximo que pode haver depericulosidade. E o estado angolano destinou, queria destinarinicialmente quando o vírus aparece, poucas semanas depois,um orçamento de 200 mil dólares para combater o vírus, e mesesantes tinha havido um escândalo porque o Supremo Tribunaltinha comprado dois carros, no valor de 800 mil dólares cadaum. Então por aqui você percebe quais são os interesses e quaissão as prioridades do regime angolano. Quer dizer, o presidenteda república não foi capaz de fazer uma única comunicação arespeito do vírus. Não fez. Não há uma comunicação em Angolado presidente da república sobre este vírus numa altura em quejá morreram mais de 300 pessoas atingidas pelo vírus. Por que?Porque mais uma vez “o sangue é dos outros”, porque quemestá a morrer, mais uma vez, é a população pobre. Não são osangolanos ricos das grandes cidades.MB: Angola, assim como o Brasil, tem uma forte tradição oral. E émuito interessante, a gente observar lá na Vila do João, que os angolanosmuitas vezes se comunicam através de parábolas. E eles contam muitas
    • Gragoatá Maurício de BragançaNiterói, n. 24, p. 237-248, 1. sem. 2008248histórias. E aqui vai um pedido: você teria alguma parábola para contarpara a gente sobre tudo isso que a gente conversou aqui hoje?JEA: Há uma história que eu gosto muito e tem um pouco a vercom essa idéia de muitas vezes os estrangeiros terem a idéia deque vão à África salvar os africanos. E está cheia de organiza-ções não-governamentais estrangeiras que entram no país coma idéia que “nós sabemos, nós é que sabemos, nós é que vamosensinar a essa gente como é que é” e com experiências horríveis.Por exemplo, na ajuda, até na ajuda, pessoas bem intencionadas,por exemplo, levam trigo para oferecer à população, esquecendoque os camponeses estão a produzir milho, massambala, que sãoprodutos locais, e que estão a fazer concorrência direta a estescamponeses que de repente empobrecem ainda mais porque têmuma concorrência desleal de gente que está a dar. Enquanto elesquerem vender, as pessoas estão a dar trigo, que ainda por cimanão é um produto local. Então há uma história muito engraçadaque é a história de um macaco e do peixe.O macaco está a passar por um rio, junto a um rio, um ribeiri-nho, e vê um peixe e o macaco diz: “olhe o pobre animal, caiu àágua, está se afogando, está a se afogar esse animal. Deixe-mesalvar esse animal”. Então o macaco mergulha na água, comcoragem e tal, agarra o peixe, tira o peixe para fora da água e opeixe, coitado, começa a estrebuchar e o macaco diz: “Oh! Vejamcomo esse pobre animal está feliz porque eu o salvei”. Aí o peixedá mais uns saltinhos, e com falta de ar, morre. E diz o macaco:“coitado, já não foi a tempo, mas ainda tentei salvá-lo”.
    • Niterói, n. 24, p. 249-253, 1. sem. 2008 249Colaboradoresdeste NúmeroBENJAMIN ABDALA JUNIORPesquisadordoCNPqecoordenadordeLetraseLingüísticadaCAPES/MEC,é professor titular da FFLCH da Universidade de São Paulo. Publicou cercade quarenta títulos de livros (livros de autoria individual, organização decoletâneas críticas e antologias), entre eles A escrita neo-realista (1981); Históriasocial da literatura portuguesa (1984); Tempos da Literatura Brasileira (1985); Litera-tura, história e política (1989); Fronteiras múltiplas, identidades plurais: um ensaiosobre mestiçagem e hibridismo cultural (2002); De vôos e ilhas: literatura ecomunitarismos (2003). Entre as coletâneas que organizou ou co-organizou,podem ser mencionadas Ecos do Brasil: Eça de Queirós, leituras brasileiras eportuguesas (2000); Personae: grandes personagens da literatura brasileira(2001); Incertas relações: Brasil e Portugal no século XX (2003); Margens dacultura: mestiçagem, hibridismo & outras misturas (2004); Portos flutuantes:trânsitos ibero-afro-americanos (2004) e Moderno de nascença: figuraçõescríticas do Brasil (2006).BETHANIA MARIANIDoutora pela UNICAMP, é professora do Departamento de Ciências daLinguagem da UFF e pesquisadora do CNPq. Desenvolve estudos sobre ahistória das idéias lingüísticas no Brasil e sobre o modo como os portuguesesempreenderam o processo de colonização lingüística em diferentes regiõesdo planeta. Publicou pela Editora Pontes, em 2004, o livro Colonização lingüís-tica: línguas, política e religião no Brasil (séculos XVI a XVIII) e nos EstadosUnidos da América (século XVIII).CARMEN LUCIA TINDÓ SECCONascida no Rio de Janeiro, Brasil. Doutora em Letras pela Universidade Fe-deral do Rio de Janeiro, Professora Associada da Faculdade de Letras destaUniversidade, implantou em 1993 o Setor de Literaturas Africanas de LínguaPortuguesa. Foi Chefe do Departamento de Letras Vernáculas/UFRJ de 2003a 2004 e é Membro da Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros. É consultora da FAPERJ e da CAPES, pesquisadora I do CNPq.Publicações nas áreas de Literaturas Africanas e Brasileira, entre as quais:Morte e prazer em João do Rio (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976); Além daidade da razão (Rio de Janeiro: Graphia, 1994); Guia bibliográfico das literaturasafricanas em bibliotecas do RJ (Rio: Faculdade de Letras/ UFRJ, 1996); Antologiasdo mar na poesia africana (Rio de Janeiro: Faculdade de Letras / UFRJ, 1996,1997, 1999. 3 v.). O volume 1 desta Antologia, dedicado a Angola,teve umaedição angolana, em Luanda, no ano de 2000, sob a chancela do EditorialKilombelombe, com o apoio do Ministério da Cultura de Angola. Publicoutambém os livros: A Magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre asliteraturas de Angola e Moçambique. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003; Entrefábulas e alegorias. Rio de Janeiro: Quartet, 2007; Como se o mar fosse mentira (emco-autoria com Rita Chaves e Tânia Macedo). Luanda: Chá de Caxinde, 2006.CHARLOTTE GALVESÉ professora do Departamento de Lingüística da Unicamp. É doutora em
    • Niterói, n. 24, p. 249-253, 1. sem. 2008250lingüística portuguesa pela Universidade Paris IV. Sua área central de atu-ação é a sintaxe do português, no quadro da Teoria da Gramática Gerativa,com ênfase na comparação do português europeu e do português brasileiro,e na história da língua em Portugal e no Brasil. Desde 1998, coordena a ela-boração do Corpus Anotado do Português Histórico Tycho Brahe (http://www.ime.usp.br/~tycho/corpus). Em 2001 publicou o livro Ensaios sobreas gramáticas do português, pela Editora da Unicamp. Desde 2006, vem inte-grando a questão do contato com as línguas africanas à sua pesquisa sobrea história do português. Outros aspectos importantes da sua atuação são opapel da interface sintaxe/fonologia na mudança lingüística, a modelagemprobabilística do ritmo na escrita, e a lingüística de corpus.DENISE BRASIL ALVARENGA AGUIARDoutora em Literatura Comparada; Professora adjunta do Instituto de Apli-cação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); vice-líder dogrupo de pesquisa do CNPq Nação e narração; autora de capítulos de livrose artigos diversos sobre literatura contemporânea.LUCIA BETTENCOURTFormada em Português-Literaturas pela UFRJ, e mestre em Literatura pelaUniversidade de Yale, cursa agora o Doutorado na UFF. Possui alguns tra-balhos acadêmicos publicados, tais como “Em breve cárcel de Sylvia Molloye a leitura aprisionada” in: América Hispânica (11-12 –Ano VII:Jan-Dez-1994);“Cartas brasileiras: visão e revisão dos índios” in: Índios no Brasil. Org. GRU-PIONI, L. D. B. MEC, 1994 e “Banquete, literatura e civilização” in: Cadernosde Letras da UFF (11 - 1996). Prêmio Osman Lins de Contos, com o texto“A cicatriz de Olímpia”, Recife, 2005. Prêmio SESC Categoria Contos, comseu livro A secretária de Borges, publicado pela Record, 2006. Prêmio JosuéGuimarães, pelos contos “Manhã”, “A caixa” e “A mãe de Proust”, JornadaLiterária de Passo Fundo, 2007.LUCIA HELENADoutorou-se em 1983 pela UFRJ, na área de Teoria da literatura. Fez pós-doutorado em 1989, em Literatura Comparada, nos Estados Unidos, naBrown University. Ministra cursos em universidades norte-americanas evem atuando como conferencista nos Estados Unidos e na Europa. Integroudurante muito tempo a cadeira de Teoria da Literatura na UFRJ. Hoje éprofessora Titular da UFF e pesquisadora 1-A do CNPq. Dentre suas publi-cações destacam-se Totens e tabus da modernidade brasileira, 1985 (com prêmionacional), Uma literatura antropofágica,1982; Escrita e poder, 1985; A cosmo-agoniade Augusto dos Anjos, 1984; Modernismo brasileiro e vanguarda, 1996; Nem musa,nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector , 2ª. Ed 2006; e A solidãotropical: a modernidade do Brasil e de Alencar, 2006. No prelo, tem o livro Ficçõesdo desassossego: o romance e a consciência trágica, a sair em 2009. Organizou,para a editora Contra Capa, os volumes: Nação-invenção: ensaios sobre o nacionalem tempos de globalização, 2004; Literatura e poder, 2006 e Literatura, intelectuaise a crise da cultura, 2007.
    • Niterói, n. 24, p. 249-253, 1. sem. 2008 251MÁRCIO SELIGMANN-SILVAÉ professor livre-docente de Teoria Literária na UNICAMP e pesquisador doCNPq. É autor de Ler o Livro do Mundo (Iluminuras, 1999), Adorno (PubliFolha,2003) e O Local da Diferença (Editora 34, 2005); organizou os volumes Leiturasde Walter Benjamin: (Annablume/FAPESP, 1999; 2ª. edição 2007), História,Memória, Literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes (UNICAMP, 2003)e Palavra e Imagem, Memória e Escritura (Argos, 2006) e coorganizou Catástrofee Representação (Escuta, 2000).MARGARIDA CALAFATE RIBEIROÉ investigadora no Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra;Responsável da cátedra Eduardo Lourenço, na Universidade de Bolonha eVisiting Researcher Associate do King’s College, Universidade de Londres.Os seus actuais interesses de investigação incluem estudos pós-coloniais,literatura portuguesa e de países de língua portuguesa, e história do impérioportuguês, em particular as guerras coloniais.Das suas publicações, destacam-se os livros África no Feminino: as mulheresportuguesas e a Guerra Colonial (Afrontamento, 2007); Uma História de Regressos:Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo (Afrontamento, 2004); Fantasmase Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo (com Ana PaulaFerreira) (Campo das Letras, 2003).MAURÍCIO DE BRAGANÇAGraduado em História e Cinema, Mestre em Comunicação, Imagem e In-formação e Doutor em Letras (Literatura Comparada) pela UniversidadeFederal Fluminense. Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutoramentono programa de pós-graduação em Letras da Universidade Federal Flumi-nense financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisado Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).REGINA DALCASTAGNÈProfessora de literatura da Universidade de Brasília e pesquisadora do CNPq.Coordena o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea eedita a revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. É autora, entreoutros livros, de A garganta das coisas: movimento(s) de Avalovara, de OsmanLins e de Entre fronteiras e cercado de armadilhas: problemas de representaçãona narrativa brasileira contemporânea.REGINA ZILBERMANLicenciou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sule doutorou-se em Romanística pela Universidade de Heidelberg. Compós-doutorado na Brown University, recebeu, da Universidade Federal deSanta Maria, o título de Doutor Honoris Causa. É professora colaboradora daUniversidade Federal do Rio Grande do Sul e professora da Faculdade Porto-Alegrense. Entre suas publicações recentes, contam-se Fim do livro, fim dosleitores?, O tempo e o vento: história, invenção e metamorfose, Como e por queler literatura infantil brasileira, Literatura e pedagogia: ponto & contraponto.
    • Niterói, n. 24, p. 249-253, 1. sem. 2008252ROBERTO VECCHILusitanista, brasilianista, é Professor Associado de Literatura Portuguesa eBrasileira e de História das culturas de língua portuguesa na Universidadede Bologna. É também professor de Literatura Portuguesa na Universidadede Milão.Em Bologna, é professor do programa de doutorado de Iberística, diretor doCentro de Estudos Pós-Coloniais (CLOPEE) desta Universidade e coordena-dor de vários projetos de pesquisa, nacionais e internacionais.No Brasil, é pesquisador CNPq, atuando em vários projetos, entre os quais osobre “Violência e representação” coordenado por Márcio Seligmann-Silvae, em Portugal, é investigador associado do Centro de Estudos Sociais daUniversidade de Coimbra onde colabora com programas sobre a represen-tação do trauma, coordenados por Margarida Calafate Ribeiro.Entre as publicações recentes, destacam-se: a organização, no âmbito da co-lecção “Extrema Europa”, que coordena pela editora Diabasis, com VincenzoRusso; de Eduardo Lourenço Il labirinto della saudade. Portogallo come destino(2006) e de Eça de Queirós, La corrispondenza di Fradique Mendes (2008); a edi-ção em Portugal da obra de Cornélio Penna, A menina morta (Lisboa, 2006); apublicação, no Brasil, do segundo volume de pesquisas sobre cultura brasi-leira e trágico com Ettore Finazzi-Agrò e Maria Betânia Amoroso, Travessiado pós-trágico. Os dilemas de uma leitura do Brasil (São Paulo, 2006).SHEILA KHANPós-Doutoranda nas Universidades de Manchester e Coimbra, com projectode investigação coordenado pelas Professoras Hilary Owen (Un. Manchester)e Paula Meneses (CES, Un. Coimbra). É Investigadora Associada no CICS naUniversidade doMinho. Dentre suaspublicações, destacam-seosartigos: Arewe all post-colonial? A Socio-Literary Reading of Crónica do Tempo’, Paulode Medeiros (ed.), Postcolonial Theory and Lusophone Literatures. UniversiteitUtrecht, Utrecht Portuguese Studies Series, pp. 79-97, 2007; Velhas Margens,Novos Centros em ‘Ventos do Apocalipse’ de Paulina Chiziane’. Revista TeiaLiterária, PUC/RJ, Brasil, 119-131, 2007; Identidades sem chão. ImigrantesAfro-Moçambicanos: Narrativas de Vida e Identidade, e Percepções de umPortugal pós-colonial’. Luso-Brazilian Review, 43:2. University of Wisconsin:1-26, 2006.SILVIA REGINA PINTOProfessora-Adjunta do Departamento de Cultura Brasileira, Teoria da Li-teratura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada, Instituto de Letras,Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atuando na Graduação, noMestrado em Literatura Brasileira e no Doutorado em Literatura Compara-da. Doutorou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio deJaneiro. Desenvolve pesquisas na linha: “Perspectivas filosóficas da teoriada literatura”, trabalhando os seguintes temas: teoria da literatura, filosofia,literaturaeficção,emperspectivascontemporâneas.Suasmaisrecentespubli-
    • Niterói, n. 24, p. 249-253, 1. sem. 2008 253cações englobam “A performance do lobo”, In: Paisagens ficcionais: perspectivasentre o eu e o outro, org. VALLADARES, Henriqueta do Coutto Prado, Rio deJaneiro: 7 Letras, 2007, p.91-106, e, “Le réalisme dans la fiction brésiliennecontemporaine“, palestra proferida na Sorbonne, em 17 de janeiro de 2008,atualmente em edição, a ser publicada pela revista do CREPAL (Centre deRecherches sur les Pays Lusophones, Sorbonne - Paris 3).SILVIANO SANTIAGOÉ ensaísta, romancista e professor. Lecionou em importantes universida-des no Brasil. (Universidade Federal Fluminense e a PUC-Rio), nos EstadosUnidos (New Mexico, Stanford, Texas, Indiana) e na França (Université deParis – III). Publicou recentemente O falso mentiroso (romance) e Histórias malcontadas (contos). Seus ensaios recentes foram reunidos em O cosmopolitismodo pobre e Ora (direis) puxar conversa. Co-editou Carlos & Mário (correspondên-cia) e foi responsável pela antologia Intérpretes do Brasil (3 volumes). Heranças(romance) acaba de chegar às livrarias.
    • Niterói, n. 24, p. 255-258, 1. sem. 2008 255Normas de apresentação de trabalhos1 A Revista Gragoatá, do Programa de Pós-graduação em Letras daUFF, aceita originais sob forma de artigos inéditos e resenhas deinteresse para estudos de língua e literatura.2 Os textos serão submetidos a parecer da Comissão Editorial, quepoderá sugerir ao autor modificações de estrutura ou conteúdo.3 Os textos não deverão exceder 25 páginas, no caso dos artigos, e 8páginas, no caso de resenhas. Devem ser apresentados em duascópias impressas sem identificação do autor, bem como em disquete,com indicação do autor, no programa Word for Windows 7.0, emfonte Times New Roman (corpo 12, espaço duplo), sem qualquertipo de formatação, a não ser:3.1 Indicação de caracteres (negrito e itálico).3.2 Margens de 3 cm.3.3 Recuo de 1 cm no início do parágrafo.3.4 Recuo de 2 cm nas citações.3.5 Uso de sublinhas ou aspas duplas (não usar CAIXA ALTA).3.6 Uso de itálicos para termos estrangeiros e títulos de livros e perí-odicos.4 As citações bibliográficas serão indicadas no corpo do texto, entreparênteses, com as seguintes informações: sobrenome do autor emcaixa alta; vírgula; data da publicação; abreviatura de página (p.) eo número desta. (Ex.: SILVA, 1992, p. 3-23).5 As notas explicativas, restritas ao mínimo indispensável, deverãoser apresentadas no final do texto.6 As referências bibliográficas deverão ser apresentadas no final dotexto, obedecendo às normas da ABNT(NBR-6023).Livro: sobrenome do autor, título do livro (itálico), local de publicação,editora,data.Ex.: SHAFF, Adan. História e verdade. São Paulo: Martins Fontes,1991.Artigo: nome do autor, título do artigo, nome do periódico (itálico),volume e nº do periódico, data.Ex.: COSTA, A.F.C. da. Estrutura da produção editorial dos periódi-cos biomédicos brasileiros. Trans-in-formação, Campinas, v. 1, n.1,p. 81-104, jan./abr. 1989.7 As ilustrações deverão ter a qualidade necessária para uma boa re-produção gráfica. Deverão ser identificadas, com título ou legenda,e designadas, no texto, de forma abreviada, como figura (Fig. 1, Fig.2 etc).UNIVERSIDADEFEDERAL FLUMINENSEInstituto de LetrasRevista GragoatáAv. Visconde do RioBranco s/nºCampus do Gragoatá -Bloco C - Sala 50124220-200 - Niterói - RJe-mail: gletras@vm.uff.brTelefone: 21-2629-2608
    • Niterói, n. 24, p. 255-258, 1. sem. 2008256Próximos númerosNúmero 24Tema: Brasil e África: trajetórias, rostos e destinoOrganizadores: Laura Padilha e Lucia HelenaPrazo para entrega dos originais: 15 de janeiro de 2008Ementa: Literatura, política e ideologia no cenário do neoliberalismo. Nação e narração naestrutura pós-colonial contemporânea do Brasil e da África. O Brasil e a Áfricaem suas literaturas e linguagens: paradoxos, identidades, dilemas e problemas.O discurso e a construção da subjetividade e das formas estéticas. Literatura eoutras artes. As perspectivas da crítica e a questão da teoria no Brasil e na África.Línguas em contato e política lingüística. Reflexão, história, antropologia e filosofiana cultura brasileira e africana contemporânea. Literatura, crise e utopias.Número 25Tema: TransdisciplinaridadesOrganizadores: Claudia Roncarati e Vera Lucia SoaresPrazo para entrega dos originais: 30 de junho de 2008Ementa: Relações entre perspectiva teórica e abordagem prática na investigação lingüísticae na literária. Implicações e conflitos entre princípios analíticos e metodologiasde pesquisa. Inter e transdisciplinaridade – contribuições e problemas na pós-modernidade.Número 26Tema: Metáfora – o cotidiano e o inauguralOrganizadores: Solange Coelho Vereza e Lívia de Freitas ReisPrazo para entrega dos originais: 15 de janeiro de 2009Ementa: A metáfora no discurso cotidiano e na produção literária. O rotineiro e o insólitonosprocessosdemetaforização.Atrajetóriadaabstratizaçãodossentidos–recortessincrônicosediacrônicos.Fatoresmotivadoresdalinguagemmetafórica.Fronteirasconceituais e analíticas: literalidade e figuratividade. Metáfora e alegoria.8 Os textos deverão ser acompanhados de resumo em português eabstract, em inglês, que não ultrapassem 250 palavras, bem como de3 a 5 palavras-chave também em português e em inglês.9 Os autores deverão encaminhar, em folha separada, sua identifica-ção (nome do artigo, nome do autor, instituição de vínculo, cargo,últimas publicações etc.) em texto que não ultrapasse 6 linhas. Namesma folha, devem constar o endereço, o telefone e o e-mail.10 Os colaboradores terão direito a 2 exemplares da revista.11 Os originais não aprovados não serão devolvidos.
    • Niterói, n. 24, p. 255-258, 1. sem. 2008 257General Instructions for Submission of Papers1 The Editorial Board will consider both articles and reviews in theareas of language and literature studies.2 In considering the submitted papers, the Editorial Board maysuggest changes in their structure or content. Papers should besubmitted in floppy disks together with two printed copies, typedin Word for Windows 7.0, double-spaced, Times New Roman font12, without any other formatting except for:2.1 bold and italics indication;2.2 3cm margins;2.3 1cm identation for paragraph beginning;2.4 2cm identation for long quotations;2.5 underlining or double inverted commas (NEVER UPPERCASE) for emphasis;2.6 italics for foreign words and book or journal titles.3 Papers should be no more than 25 pages in length and reviews nomore than 8 pages.4 Authors are requested to resort to as few footnotes as possible,which are to be placed at the end of the text. As for references inthe body of the article, they should contain the author’s surnamein uppercase as well as date of publication and page numberin parentheses (eg.: JOHNSON, 1998, p. 45-47).5 Bibliographical references should be placed at the end of the textaccording to the following general format:Book: author’s surname and first name, title of book (italics), place ofpublication, publisher and date (eg.: ELLIS, Rod. Understanding se-cond language acquisition. Oxford : Oxford University Press, 1994).Article:author’ssurnameandfirstname,titleofarticle,nameofjournal(italics), volume,number and date (eg.: HINKEL, Eli. Native andnonnative speakers’ pragmatic interpretations of English texts.TESOL Quarterly, v. 28, no. 2, p. 353-376, 1994).6.Tables,graphsandfiguresshouldbeidentified,withatitleorlegend,and referred to in the body of the work as figure, in abbreviatedform (eg.: Fig. 1, Fig. 2 etc.).7. Papers should contain two abstracts (a Portuguese and an Englishversion), no more than 5 lines in length. In addition, between 3 to5 keywords, also in Portuguese and in English, are required.UNIVERSIDADEFE­DE­RAL FLUMINENSEInstituto de LetrasRevista GragoatáAv. Visconde do RioBranco s/nºCampus do Gragoatá -Bloco C - Sala 50124220-200 -Niterói - RJ- Brazile-mail: pgletras@vm.uff.brTelefone:+55-21-2629-2608
    • Niterói, n. 24, p. 255-258, 1. sem. 20082588 Authors are requested to send in an abridged CV (name, institution,post, degrees, titles, latest publications, research interests, etc.), nomore than 5 lines in length.9 Authors, whose articles are accepted for publication, will be entitledto receive 2 copies of the journal. Originals will not be returned.Na Revista Gragoatá 23 – Releituras da tradição – o artigo “Uma (re)leitura contempórâneado imaginário português: as mezinhas de Dom Duarte” é de autoria de Mariangela Rios deOliveira, Sebastião Josué Votre e Káthia Eliane Santos Avelar.
    • Este livro foi composto na fonte Book antiqua.12Impresso na Flama Ramos Manuseios e Acabamento Gráfico,em papel Pólem Soft 80g (miolo) e Cartão Supremo 250g (capa)produzido em harmonia com o meio ambiente.Esta edição foi impressa em setembro de 2008.Tiragem: 500 exemplares