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REVISTA SAMIZDAT - Nº32 - ANO V
 

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Conto "Filho da Pátria Sem Mãe" de M.M.Soriano na pg 21.

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    REVISTA SAMIZDAT - Nº32 - ANO V REVISTA SAMIZDAT - Nº32 - ANO V Document Transcript

    • SAMIZDAThttp://samizdat.oficinaeditora.com 32 fevereiro 2012 ano V ficina Horacio Quiroga O mestre contista latino-americano
    • Participe da Revista SAMIZDAT 33 A Revista SAMIZDAT conta com a sua Por favor, aguarde o período de um mêsparticipação para manter o alto padrão das após receber a resposta antes de enviar umpublicações. outro texto. Aceitamos e estimulamos a participaçãode autores estreantes, pois o nosso objetivo http://revistasamizdat.submishmash.com/é apresentar a maior diversidade possível submitde autores, ­ êneros e textos. g Instruções para envio de obras Não aceitamos mais textos enviados por e-mail. 1 - Cada escritor poderá inscrever, nos 4 - Os textos selecionados serão publica-respectivos campos, somente 1 (um) tex- dos na edição 33 da Revista SAMIZDAT nato literário para publicação, de qualquer segunda quinzena de maio de 2012, no sitegênero - conto, crônica, poesia, microconto- ou um (1) texto teórico, como artigo de http://samizdat.oficinaeditora.com/teoria literária, resenha de livros, ou entre- ou poderão aparecer no site, caso a edi-vista, além de traduções de textos literários ção em .PDF já esteja fechada.em domínio público, sob licença Creative 5 - Os textos serão publicados sob li-Commons ou com a expressa autorização cença Creative Commons Atribuição-Usodo autor. A temática é livre. Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras O autor também deve enviar uma breve Derivadas e o autor não será remunerado.biografia na primeira página do arquivo. O envio de textos implica na aceitação por 2 - O limite máximo para cada texto parte do autor destes termos.literário é de mil (1000) palavras, ou 4 6 - Os organizadores da SAMIZDAT sepáginas em A4, fonte Times ou Arial 12, reservam o direito de não publicar a revis-espaçamento 1,5. O envio dos textos não ta, caso o número de submissões não sejaimplica na aceitação automática, a seleção o suficiente para o fechamento da edição.dependerá da quantidade de textos envia- 7 - O não cumprimento dos itens acimados, da qualidade literária e da disponibi- poderá implicar na desqualificação da obralidade de espaço na revista. A revisão dos enviada.textos é de responsabilidade de seus auto-res. O texto não precisa ser inédito. 3 - Os textos devem ser enviados até o Contamos com a sua participação!dia 30 de abril de 2012 através do nossogerenciador de submissões (link abaixo) Atenciosamente,em um arquivo anexo, em formato .DOC, Henry Alfred Bugalho.DOCX ou .TXT. Editor
    • http://www.flickr.com/photos/advaits/2589618179/ 4 anos de SAMIZDAT Há projetos que concebemos, que não perda do nosso antigo domínio na internet,temos ideia aonde irão. muitos dos nossos antigos leitores ­ambém t Quantos romances, contos e outras obras sumiram.não guardamos inacabadas, certos que um Já não vejo mais a possibilidade de umadia recuperaremos aquele ímpeto inicial publicação mensal e, hoje, em retrospecto,e as concluiremos? E quantas não são as penso que foi uma loucura tentarmos talideias brilhantes que, assim que fazemos proeza com a estrutura totalmente descen-o primeiro esforço para realizá-las, logo trada de então, pois cada um atuava comopercebemos que será um empreendimento bem entendia e a comunicação era bastan-estéril? te confusa. Quatro anos atrás, eu e um pequeno Aprendemos com nossos erros e tam-grupo de escritores, reunidos numa oficina bém com nossos acertos. Em seu quartoliterária virtual, pensamos que talvez fosse aniversário e 32º fascículo, a SAMIZDATinteressante publicar os nossos textos numa retorna mais madura e mais profissional.revista. Batizamos este projeto de Revista Ainda somos um grupo de escritoresSAMIZDAT, uma homenagem às publi- lutando por um lugar ao sol, muitos decações clandestinas na Rússia ­ talinista, s nós ainda publicando independentemente erepressiva e censora. correndo às margens deste brutal mercado Não tínhamos clareza de como tudo que nos exclui e nos ignora, pois assim sãofuncionaria, de quem faria o quê, nem se as regras deste jogo.teríamos leitores. Não sabíamos se daria Criamos nas sombras, na esperança quecerto ou não, nem aonde iríamos com isto. o fogo destes talentos possa brilhar e ilu-Mas funcionou. minar os nossos caminhos. Desde então, muito mudou. Alguns des- Ação e esperança, estes são ostes autores se foram, inclusive nem escre- combustíveis que movem a SAMIZDAT. ­vem mais. Depois de um hiato de mais de Henry Alfred Bugalhoum ano nas publicações, inclusive com a
    • SAMIZDAT 32fevereiro de 2012Edição, Capa e Diagramação: EditorialHenry Alfred Bugalho Acredito que esta edição será um divisor de águas para aAutores SAMIZDAT.Alessa Bertazzo Desde o princípio, contamos principalmente com asAnna Apolinário c ­ ontribuições de autores fixos e de um ou outro colaboradorCinthia Kriemler externo para a criação da revista. No entanto, pela primei-Daniel Moreira ra vez, recebemos um número gigantesco de submissões deDouglas Batalha c ­ olaboradores espontâneos, com obras de grande qualidade.Edelson Nagues Então, percebi que um dos meus maiores medos haviaEdweine Loureiro se realizado: a SAMIZDAT, que em sua criação pretendia c ­ ontornar o injusto processo de exclusão do mercado lite-Elias Antunes rário, enfim se tornava ela mesma excludente. São tantos osFernanda Cristina de Paula talentos, tantas as obras criativas, e o espaço é tão pequeno,Henry Alfred Bugalho que se torna impossível publicá-las todas.João Paulo Hergesel Rejeitar um autor em início de carreira não é uma ­arefa tJoaquim Bispo fácil, eu lhes asseguro. Pois este é o momento em que o es-José Guilherme Vereza critor se encontra mais fragilizado, precisando de um estí-Juliano Ramos de Oliveira mulo, daquela palavra de incentivo que o empurrará para aLeandro Luiz frente. Por outro lado, a recusa também é um aprendizado e,Luiza Oliveira para muitos, deveria ser uma motivação de outra natureza: “hoje foi um ‘não’, mas amanhã será um ‘sim’”.Marcelo Soriano Afinal, é esta expectativa do sim, da aceitação dos leitores,Mariana Valle dos editores, dos críticos, da imprensa, dos outros autores,Otávio Martins que nos move, que nos instiga a prosseguirmos na atividadeRafael Zen literária. Escrevemos para nós mesmos, inevitavelmente, masRoberto Klotz nossas obras pertencem também aos outros.Sara Meynard Um ‘não’ hoje, mas amanhã um ‘sim’, meus amigos, e istoSilvana Michele Ramos vale para todos nós.Sonia Regina Rocha RodriguesTatiana Alves Henry Alfred BugalhoThiago Jefferson dos SantosG­ aldinoValmir Luis Saldanha Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.Volmar Camargo JuniorZulmar Lopes Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.Textos de: Os textos publicados são de domínio público, com consensoHoracio Quiroga ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei deFoto da capa: Copyright dos EUA (§107-112).http://www.flickr.com/photos/­ As ideias expressas são de inteira ­ esponsabilidade de seus rbiggreymare/5513025399/ autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.http://samizdat.oficinaeditora.com
    • Sumário Por que Samizdat? 8 Henry Alfred Bugalho RECOMENDAÇÃO DE LEITURA Em Nome do Filho 10 Edelson Nagues HUMOR Breve Dissertação sobre o Palavrão 14 Joaquim Bispo CONTOS O Moedor de Café 16 Henry Alfred Bugalho Criança Prodígio 20 Thiago Jefferson dos Santos Galdino Filho da Pátria Sem Mãe 21 Marcelo Soriano Vez em quando 22 Cinthia Kriemler Relicário 25 Tatiana Alves A deusa da chuva 27 José Guilherme Vereza O Catavento Maluco 29 Otávio Martins Depuração 31 Silvana Michele Ramos Adivinho, detetive ou fofoqueiro 32 Roberto Klotz Avessa (o) 35 Sara Meynard
    • Coletivo 37 Edweine LoureiroPurgatório 38 Zulmar LopesDoa-se um helicóptero. Tratar aqui. 40 Leandro LuizRugas do Tempo 41 Juliano Ramos de OliveiraMinha vida, meu pesadelo 42 Sonia Regina Rocha RodriguesMarta e o gosto do tempo 44 Fernanda Cristina de PaulaTRADUÇÃOA Galinha Degolada 46 Horacio QuirogaDecálogo do perfeito contista 51 Horacio QuirogaTEORIA LITERÁRIAO que ninguém lhe dirá numa oficina literária -parte 1 (A Criação) 54 Henry Alfred BugalhoCastillo e Modern: dois poetas argentinos 58 Elias AntunesO Grande Sertão de Riobaldo 60 Alessa BertazzoCRÔNICAEuropa Descarrilada 62 João Paulo HergeselPOESIAA fila 64 Volmar Camargo Junior#18 66 Rafael Zen
    • Rito 67Anna ApolinárioOlhos de distância 68Daniel MoreiraSagrado 70Luiza OliveiraSenilidade 71Valmir Luis SaldanhaNº 1 72Douglas BatalhaMissão 73Mariana Valle 7
    • Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, d ­ istribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir BukovskyHenry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a microfísica do poder. Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que inclusão e exclusão. se acreditavam como livres- pensadores, que não que- O grupo dominante, pela riam, ou não conseguiam, própria natureza restritiva fazer parte da máquina do poder, costuma excluir ou a ­ dministrativa - que esti- ignorar tudo aquilo que não pulava como deveria ser a pertença a seu projeto, ou cultura, a informação, a voz que esteja contra seus prin- do povo -, encontraram na cípios. autopublicação clandestina Em regimes autoritários, um meio de expressão. esta exclusão é muito eviden- Datilografando, mimeo- te, sob forma de perseguição, grafando, ou simplesmente censura, exílio. Qualquer um manuscrevendo, tais autores que se interponha no cami- russos disseminavam suas nho dos dirigentes é afastado idéias. E ao leitor era incum- e ostracizado. bida a tarefa de continuar As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais simples de se compreender: obras e também as ­ assando p o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi de- perigoso, pois apresenta signado "samizdat", que nada alternativas, às vezes, muito mais significa em russo do melhores do que o estabe- que "autopublicado", em opo- lecido. Por isto, é necessário sição às publicações oficiais suprimir, esconder, banir. do regime soviético. A União Soviética não foi muito diferente de de- mais regimes autocráticos. O ­ rigina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, masFoto: exemplo de um samizdat. Corte- logosia do Gulag Museum em Perm-36.8
    • E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substituam possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal- O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que A indústria cultural - e o o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandesmercado literário faz parte leitor. autores populares, que nãodela - também realiza um perseguem ansiosos os 10processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outrovalor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõemplicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parteque contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­ ovimento mdesconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, nãoser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por m ­ odernistas, vanguardistaspois os gastos seriam maio- seus acertos. ou qualquer outra definição ­res do que o lucro. que vise rotular e definir a E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­nteressados iduto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências edores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. Anão basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é umahouver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas simmo o lixo possui prioridades a heterogeneidade.na hora de ser absorvido A serem obrigados apelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a os autores conquistaram algo internet é um meio de auto- E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um mododente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processoprodutores culturais atingi- o diálogo capaz de tornar a ­ de exclusão e de atingir orem o público. obra melhor, a rede de conta- o ­ bjetivo fundamental da tos que, se não é tão influen- e ­ scrita: ser lido por alguém. Este é um processo soli- te quanto a da ­ rande mídia, gtário e gradativo. O autor faz do leitor um colaborador,precisa conquistar leitor a um co-autor da obra que lê.leitor. Não há grandes apa- Não há sucesso, não há gran-ratos midiáticos - como TV , SAMIZDAT é uma revista eletrônicam­ ensal, escrita, editada e publicada pelosi­ntegrantes da Oficina de Escritores e TeoriaLiterária. Diariamente são incluídos novostextos de autores consagrados e de jovense­ scritores amadores, entusiastas e profis-sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhasliterárias e muito mais.http://samizdat.oficinaeditora.com http://samizdat.oficinaeditora.com 9
    • Recomendação de Leitura EM NOME DO FILHO Edelson Nagues http://www.cristovaotezza.com.br/Fotografias/Web/web16.jpg (Resenha do livro O filho eterno – TE- “nossa culpa”. Essa constatação nos intimida,ZZA, Cristovão. Rio de Janeiro: Record, nos estremece. Se somos seres incompletos2007.) por natureza, em constante e interminável formação, como poderemos formar outros seres? O nascimento de um filho, principalmen-te o primogênito, é sempre um momento E quando o nascimento de um filho, ode muita emoção. Para os pais, avós, tios, primogênito, revela uma criança estranha,primos... “o nascimento é uma felicidade diferente, “anormal”?! (“Um filho é a ideiacoletiva” (obra citada, 7ª edição, p. 25). É de um filho; uma mulher é uma ideia deum importante marco na vida do casal. E à uma mulher. Às vezes as coisas coincidemalegria desse acontecimento mescla-se um com as ideias que fazemos delas; às vezesreceio, um certo temor, ainda que não assu- não.” – idem, p. 14 – atualizamos pela novamido, dissimulado. É que, de um momento ortografia.)para o outro, nos encontramos frente ao de- Aos 28 anos, projeto de escritor (“pen-safio de sermos responsáveis pela formação so que sou escritor, mas ainda não escrevide um ser humano posto neste mundo por nada”), desempregado, sustentado pela espo-10 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • sa, a sua ideia de filho não coincidiu com a ção de pai. Um filho que seria uma criançarealidade do filho que lhe veio. E para quem por toda a vida. “Uma criança eterna.” Ejá via o nascimento como “uma brutalida- como consolo ao desespero que se aba-de natural, a expulsão obscena da criança, teu sobre ele (“um sentimento de abismo”),o desmantelamento físico da mãe até o agarrou-se à comprovação científica de queúltimo limite da resistência” (p. 24), esse “as crianças com Síndrome de Down mor-desencontro da ideia com a coisa real, na rem cedo”. Cruel? Certamente. Mas, sobre-madrugada do dia 3 de novembro de 1980, tudo, humano, demasiado humano – comotornou-se uma verdadeira diria Nietzsche, um dostragédia. E com um nome seus filósofos favoritos.– ou, melhor, um estigma Se o relato de um paihumilhante: “mongolismo”. que renega o próprio filho Em tempos politicamen- por si só já é chocante,te corretos, mongolismo mais estarrecedor se tornatransmutou-se em “Sín- quando sabemos que nãodrome de Down”. Quem se trata de ficção. Assim, oa descreveu pela primeira “filho eterno” tem um nomevez foi o médico inglês real, de registro: Felipe. EJohn Langdon Haydon um nome não menos realDown (1828-1896), que lhe tem o pai: Cristovão; eemprestou o nome. Ele des- ambos ostentam o mesmotacou a semelhança facial sobrenome: Tezza.dos portadores da síndro- Cristovão Tezza, hojeme com os mongóis, os escritor consagrado, tidonaturais da Mongólia, na como um dos melhoresÁsia. Daí serem chamados de sua geração no Brasil,de “mongoloides”. Resulta revela, quase três décadasda trissomia do cromos- depois, que é pai de umsomo 21, ou seja, em vez jovem portador de Síndro-de dois cromossomos 21, algumas crianças me de Down. Em um relato corajoso, semnascem com três, e apresentam determi- subterfúgios nem autocomiseração (“a pie-nadas características físicas: língua muito dade, o alimento da pieguice, que é a formagrande, pescoço largo e achatado, baixa grudenta, caramelizada, da mentira” – p.estatura, olhos pequenos e amendoados. 152), disseca e, ao mesmo tempo, traz à luzSofrem ainda de variados níveis de autismo seus mais ocultos sentimentos, desnudandoe limitado desenvolvimento mental. “Para publicamente sua relação com o filho espe-eles, o tempo não existe. A fala será, para cial. Um acerto de contas consigo mesmosempre, um balbuciar de palavras avulsas, e, de certa forma, com a literatura, em quesentenças curtas truncadas [...]. O equilíbrio pessoas portadoras dessa síndrome pareceno andar será sempre incerto, e lento; se não terem espaço.os pais se distraem, eles engordarão comotonéis, debaixo de uma fome não censurada E não apenas na literatura: “O cinema,pela sensação de saciedade, que neurolo- em seus 80 anos, [...] jamais os colocou emgicamente demora a chegar. [...] Não veem cena. Nem vai colocá-los. [...] Não há mon-à distância – o mundo é exasperadamente goloides na história, relato nenhum – sãocurto; só existe o que está ao alcance da seres ausentes” (p. 36). Mas principalmentemão. São caturros [sic] e teimosos – e con- na arte da escrita: “Em todo o Ulisses, Jamestrolam com dificuldade os impulsos, que se Joyce não fez Leopoldo Bloom esbarrar emrepetem, circulares” (p. 34). nenhuma criança Down, ao longo daquelas 24 horas absolutas. Thomas Mann os ignora Foi com uma dessas crianças que o pobre rotundamente. [...] Leia os diálogos de ­ latão, Pescritor se defrontou, na inalienável condi- as narrativas medievais, Dom Quixote, http://samizdat.oficinaeditora.com 11
    • avance para a Comédia humana de Balzac, ideia de filho, a desenhar-lhe uma hipótese”chegue a Dostoiévski, nem este comenta, (p. 68), “o que ele quer é que aquela criançasempre atendo aos humilhados e ofendidos; trissômica conquiste o papel de filho” (p.os mongoloides não existem” (p. 36). 95), como observa o narrador (o romance Cabe então a esse escritor, a quem foi é escrito em falsa terceira pessoa – pois, depropiciado o convívio com um desses seres fato, o é em primeira –, com flashbacks quediferenciados, preencher tal lacuna. E ele o vão compondo o tempo e o espaço em quefaz com sentimento, com entrega, com dor os fatos ocorrem).mesmo, sem jamais perder o domínio técni- Assim, depois de perambular com o filho,co da narrativa (pois se trata de um profes- na companhia da então esposa (a quemsor universitário, um doutor em literatura dedica o livro), por consultórios dos mais“apaixonado pela técnica”). variados especialistas, com resultados pouco Não há pieguice nem ressentimentos. Há animadores, aprende finalmente a aceitar erevolta, sim, presente na crueza com que se conviver com as limitações desse ser espe-refere ao seu primogênito: “criança horrí- cial. Descobre, por exemplo, que “o mundovel”, “pequeno leproso”, “pequeno monstro”, dos afetos é o talento dessa criança” (e uma“filho lesado”, “filho pela metade”, “um não- das características mais marcantes de todasfilho”, entre outras expressões igualmente as pessoas portadoras de tal síndrome), ereprováveis, considerando-se a sua condição aprende que “a afetividade é um modo dede pai. E essa exposição de repulsa paterna compreensão”. Um outro talento de Felipe,provoca o leitor, tenta chocá-lo de forma a pintura (ainda que de forma rústica, tendoproposital, para que este – assim como o em vista sua dificuldade para assimilar téc-escritor se ­ ermitiu – seja confrontado com p nicas minimamente complexas), é percebidosua hipocrisia, esse câncer social, que faz e incentivado com envolvimento, para nãocom que reprovemos nos outros tais atitu- dizer paixão.des enquanto adotamos inconscientemente E uma outra paixão – esta também dapostura semelhante (como os pais que, há maioria dos brasileiros, como se sabe –, opouco tempo, em um shopping em São Pau- futebol, acaba por unir pai e filho em umalo, impediram que uma criança com Sín- relação que sempre souberam ser eterna.drome de Down continuasse brincando na Ainda que apresente aspectos fugazes, o atopiscina de bolinhas de uma brinquedoteca, de assistirem juntos, devidamente unifor-pois estaria incomodando seus filhos “sãos”). mizados, a um jogo do time favorito – no E a revolta do escritor vai, aos poucos, estádio ou na frente da televisão, com a im-cedendo lugar à aceitação, deixando fluir o prescindível pipoca – revela que a históriaamor oculto nas camadas da vergonha im- de ambos não teve um fim, mas está sendoposta pelo “teatro do verniz civilizador”. “O escrita no eterno retorno do dia a dia. As-pai ainda não sabe, mas começa a ter uma sim como a história de todos nós, aliás. EDELSON NAGUES (nome literário de Edelson Rodrigues Nascimento) é natural de Rondonópolis/MTe radicado em Brasília/DF. Poeta, escritor, revisor de textos e servidor público. EstudouDireito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa. Tem vários trabalhospremiados e/ou selecionados para coletâneas de concursos nacionais, destacando-se:XXXIII Concurso “Fellipe d’Oliveira” (Santa Maria/RS), XXI Concurso Nacional de Con-tos “José Cândido de Carvalho” (Campos dos Goytacazes/RJ), IV Concurso Nacional deContos do SESC-Amazonas (Manaus/AM), Concurso Novo Milênio de Literatura (VilaVelha/ES), VI Desafio dos Escritores (Brasília/DF), XL Concurso Literário “Escriba” (Pi-racicaba/SP) e Concurso Nacional de Contos de Porto Seguro/BA, entre outros. É au-tor dos livros “Demasiado humano” (contos) e “Águas de clausura” (poemas), a serempublicados brevemente.12 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • O lugar onde a boa Literatura é fabricadahttp://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/ ficina http://samizdat.oficinaeditora.com 13 www.oficinaeditora.com
    • Humor http://www.flickr.com/photos/reallyterriblephotographer/5618087763/ Joaquim Bispo Breve Dissertação sobre o Palavrão Caros circunjacentes: Então, nos píncaros da exaltação, aquilo A minha preleção de hoje versa o pa- que primeiro acode aos lábios, sem selavrão, em todas as suas aceções, o qual, subordinar a uma triagem nas circunvo-segundo o dicionário Houaiss, pode ser luções da racionalidade, são considera-considerado em três aspectos semânticos. ções sobre as caraterísticas ou os hábitos excretais ou sexuais do pretenso agressor O mais popular, imediato e dissemi- ou de algum membro da sua família. Sãonado é o turpilóquio. Nesta forma torpe, expressões belicosas cuja significaçãogeralmente, explode boca fora, espontâ- pretende provocar algum constrangimen-neo e veemente, quando se é vilipendia- to na autoestima do interlocutor aciden-do de maneira inopinada ou prepotente tal. Por exemplo: – Rastilho curto! – que,nas interações sociais. Sobrevém, amiúde, como calculam, também achincalha onas acrimónias do trânsito citadino, onde tamanho do autocontrolo dele.a peleja pelo espaço essencial do asfal-to, faz colidir os interesses particulares. No entanto, para atingir o adversário de maneira cruenta e implacável, o vitu-14 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • pério, não precisa coincidir, morfologica- substância farmacêutica. O do vizinhomente, com um vocábulo de semântica africano chama-se Pneumoultramicrosco-obscena. Para tanto, a entoação deve col- picosilicovulcanoconiótico, tem 46 letrasmatar a escassez de ignomínia. Recordo e significa “portador de uma doençaaqui a forma irretorquível como concluí pulmonar aguda causada pela aspiraçãouma altercação de trânsito, que deixou o de cinzas vulcânicas”.meu antagonista em estupor, como touro O mundo destes palavrões é atroz. Em-lidado: – Ó meu caro amigo: Vodafone! baraça qualquer estudante de medicina, A forma mais vulgarizada, todavia, é mas, sobretudo, aterroriza o portador daa de aconselhar o contendor a encetar doença Hipopotomonstrosesquipedalio-determinada atividade, ou a deslocar-se fobia, a qual – crueldade das crueldadespara determinado local, diferentes dos – é a “doença psicológica que se caracte-atuais, e que, na opinião do fustigador, riza pelo medo irracional de pronunciarse adequam melhor às caraterísticas do palavras grandes ou complicadas”. Imagi-enxovalhado. As notícias da política nem o pânico do doente de ser inquiridointernacional são um manancial de ex- sobre a denominação da sua própriapressões com sonoridades e construções enfermidade!ortográficas que sugerem conotações so- Estes vocábulos escaganifobéticosezes e insultuosas. Aquando da guerra na parecem-me denunciar o pérfido sub-ex-Jugoslávia, ouvi uma feirante verberar terfúgio de arquitetar termos complica-outra, nos seguintes termos: – Vá prà dos, pela mera acoplagem, numa mesmaBósnia, sua Herzegovina! Se fosse agora, palavra, de outras muito mais curtas. Portalvez dissesse: – Vá Kandahar o Jalala- esta técnica, também me posso qualificarbad do Kabul com Afeganistão – que me como Homemextremamenteatraentein-parece de uma gravidade inquestionável. teligentedivertido, epíteto de que só nãoNinguém merece ver-se confrontado com faço uso por abominar redundâncias.esta alternativa. A terceira aceção de “palavrão” é Outro significado de “palavrão”, este “expressão pomposa e empolada”. Nãocom alto grau de adequação, é “palavra me ocorre, por ora, qualquer exemplogrande e de pronúncia difícil”. Quando ilustrativo. Locuções grandiloquentes ouera mancebo, pensava que o maior pala- de sentido ininteligível estão afastadas dovrão da língua portuguesa era “incons- meu discurso, o qual, como foi patente, étitucionalissimamente”, com 27 letras. sempre despretensioso e matizado ape-Hoje, constato que o palavrão que me nas por vocábulos lhanos e percetíveisenchia de orgulho era apenas um pala- por todos.vrinho, como pénis de menino. O do paichama-se Paraclorobenzilpirrolidinone- Tenho dito!tilbenzimidazol, tem 43 letras e é uma Joaquim Bispo Português, reformado, ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licencia-do tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto aoIraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007 Produziu em quantidade e ga- .nhou destreza nas oficinas virtuais de Henry Bugalho e de Marco Antunes. Enquantonão consegue publicação, entretém-se a enviar textos para concursos literários em queobteve uma meia dúzia de prémios vários. Contacto: episcopum@hotmail.com http://samizdat.oficinaeditora.com 15
    • Contos O Moedor de Café Henry Alfred Bugalho http://www.flickr.com/photos/sirwiseowl/206004154/ Não gosto de café. Não bebo. Nem — Também não toma?uma única gota. E não se trata apenas — Só com Nescau — eu respondia, odo gosto, até o cheiro me causa aversão. que as forçava a procurar no fundo de Isto vem de longa data; lembro-me algum armário, resmungando, por aque-de quando eu era criança e, na casa de le pote de Nescau ou Toddy já vencidoamigos, na hora do lanchinho da tarde, de tão velho.as mães deles preparavam a mesa e nos Este fato também me trazia emba-serviam, e da minha cara quando elas raços durante o tempo que morei naenchiam meu copo com café. Europa. Toda vez que eu recusava uma — Não toma? xícara de café colombiano — dizem E eu negava com a cabeça. Então, que é excelente — ou um cappuccino,elas rapidamente trocavam meu copo imediatamente fulminavam-me compor um outro, enchiam-no com leite e os olhos, como se eu houvesse proferi-novamente aquela expressão de repulsa do alguma heresia e o papa Bento XVIna minha cara. estivesse prestes a me excomungar por isto.16 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • — Não gosto, porra, simples assim! c ­ onseguia contrariar minha avó que, ao — Brasileiro que não gosta de café abrir um sorrisão que quase arremessa-não existe — retrucavam. va sua dentadura pra fora, perguntava, fitando-me: “Eu existo, logo brasileiro que nãogosta de café também”, lógica elementar. — Quem quer moer o café? No entanto, paradoxalmente, um E já antecipando minha resposta,dos meus grandes prazeres quando eu ela me estendia o saco de café e, cons-contava uns dez anos era, nas férias, ao trangido, eu me via forçado a ir para oirmos para a casa de minha vó no inte- galpão moê-lo, não sem antes ouvir osrior, moer café. risinhos dos primos e os cochichos: Talvez você nunca tenha visto um an- — Se ferrou!tigo moedor de café na vida, eu mesmo Mas este depósito representaria maisnão o teria se não fosse por causa des- para mim do que um mero prazer tor-tas viagens, mas o princípio é simples: é nado martírio.um aparelho de ferro, fixo numa mesa, Era aniversário de quatorze anos dumcom uma entrada no topo semelhante dos primos e toda a vizinhança foi con-a um funil, uma manivela que aciona vidada para a casa da minha vó. Nãouma roda para triturar o café torrado, era exatamente uma superprodução dee uma abertura no fundo, de onde se festa; minha vó sempre foi muito hu-recolhe o pó. milde — apesar de eu ter ouvido que Então, toda vez que minha vó per- ela tinha umas quinhentas cabeças deguntava: gado pastando numa de suas fazendas — Quem quer moer o café? —, por isto ela fazia questão de que tudo fosse muito simples. Eu logo erguia a mão, apanhava obocado de grãos torrados e corria para As minhas tias assumiam o papel deum galpão atrás da casa, onde ficava quituteiras, enrolando brigadeiros, bei-o moedor. Meus primos e primas se jinhos e fritando um punhado de coxi-deliciavam com este período de folga, nhas. Minha mãe, que não tinha talentoporque durante a minha breve visita algum para a cozinha, organizava aeles se viam livres desta atividade que piazada para os preparativos — encherera obrigação diária. bexigas, arrumar as mesas no quintal —, enxotava os menorzinhos que filavam E era neste mesmo depósito que fica- uns docinhos, ou mandava as primasvam armazenadas sacas e mais sacas de para o banho. Meu primo, que já ema-café, cuja existência nunca compreendi. nava ares de adulto — um ralo bigodeNão sabia se eram para ser revendi- e, segundo ele, um razoável chumaço dedas, ou apenas para consumo próprio, pentelhos —, achava toda aquela balbúr-mesmo que fosse impossível para uma dia ridícula.única família beber tanto café na vida. — Pô, mãe, eu não sou mais criança! Sozinho naquele depósito sujo, úmi- Pra que bexiga?do, escuro, cheio de teias de aranha e,pelo que meus primos me diziam, de Uma das provas de que ele não seonde era muito fácil sair apinhado de sentia mais criança podia ser encontra-piolhos, eu girava a manivela, imerso da nas convidadas; logo avistamos umano cheiro de café torrado que subia do revoada de meninas chegando pela rua,moedor. vindo em direção à casa de minha vó. Este divertimento perdurou até uns A presença de garotas, ainda maistreze anos, mas depois disto, eu só garotas de nossa idade, atiçou toda acontinuei perfazendo-o porque não molecada. http://samizdat.oficinaeditora.com 17
    • — É hoje que vou me dar bem! — lugar mais calmo não havia.cada um dizia para si, mesmo que mui- Foi naquele canto escuro, úmido,tos não tivessem coragem de se aproxi- teias de aranhas — quiçá, piolhos! —,mar delas. Por outro lado, eu ainda me atrás das sacas de café, que meu suor sesentia o mais inexperiente de todos ali, misturou com o de Rafinha, que pelaapesar de ser um pouco mais velho do primeira vez me senti dentro dumaque eles. Quase todos os meus primos mulher.já haviam perdido a virgindade, algunscom menininhas do sítio, outros com Há momentos que mudam a vidaputas mesmo, encorajados por seus pais. duma pessoa: de alguns deles não nosApenas os mais novos, menores de doze lembramos, nem temos como: a dataanos, e eu é que ainda estávamos na fila de nosso nascimento, nossas primeiraspara sermos descabaçados. palavras ditas, a primeira vez que nos espantamos diante do nascer do sol, e O aniversariante veio até mim e me talvez o dia de nossa morte, pois nãodisse: sabemos se há algo para além ou se — Está vendo aquela ali? Diz que viu é meramente o fim; mas há tambémvocê na missa ontem. Vai lá, rapaz, que aqueles inesquecíveis: o primeiro dia naela é facinha. escola, aquele Natal no qual descobri- — Sério? mos que Papai Noel não existe, o dia em que passamos no vestibular, a aqui- — Sim. Todo mundo já traçou a Rafi- sição do primeiro carro, o nascimentonha. É só chegar que ela dá. dos filhos, a morte de nossos pais... Eu E esta última frase foi fatal para e Rafinha, corpos nus entrelaçados, émim. Minhas pernas começaram a tre- uma destas lembranças.mer e eu fiquei tão aterrorizado de que Eu me apaixonei por ela, adoeci deaquela noite poderia ser a minha vez, amor. Voltei para minha cidade e tudoque eu passei a vagar pelos cantos da me trazia a memória daquela noite.festa, só me expondo para ir catar uns Ao chegar em casa, depois da aula, eusalgadinhos. me jogava na cama, punha um CD de Foi numa destas oportunidades que Johnny Rivers, e sonhava acordado, an-Rafinha me abordou. gustiado, aborrecido, oprimido pela sau- — Oi? — ela molhou os lábios e me- dade. À noite, antes de dormir, o desejoxeu no cabelo. me consumia. As horas se arrastavam. Tinha de acordar cedo e o relógio na Não me lembro o que respondi, mas cabeceira indicava três horas da manhã.gaguejei e ela riu. Batia uma punheta assistindo aqueles — Você é tão bonitinho — ela disse. filmes eróticos da madrugada e, por Quando percebi, já nos atracávamos mais aquele dia, eu vivia sem Rafinha.atrás duma árvore no quintal. Eu não O passar dos meses foi uma eterni-era o rapaz mais experiente do mundo, dade. Só retornaria à casa de minha avómas já havia pegado nuns peitinhos an- para as férias do fim de ano. De julho ates. No entanto, logo estes meus poucos dezembro, um, dois, três, quatro meses.truques se esgotaram. Eu estava muito Mas o tempo simplesmente havia para-excitado, mas não tinha muita certeza do e, no meu peito, uma paixão comode até onde poderia ir. eu nunca sentira antes. Novamente, a iniciativa foi de Rafi- Minha mãe comprou as passagens denha: ônibus e pude respirar aliviado, falta- — Vamos pr’um lugar mais calmo? vam apenas mais alguns dias. E, num reflexo, pensei no depósito: Chegamos à minha vó de manhã18 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • bem cedo. Todos acordaram para nos Estendi o braço e gentilmente en-receber, como era de praxe. Vovó pre- treabri a porta. Pela fresta, pude verparou um café para a gente, leite com R ­ afinha sentada sobre o balcão do mo-Nescau pra mim, é óbvio! Meus primos edor de café, vestido erguido até a cin-também despertaram, olhos cheios de tura, calcinha arriada até os tornozelos,remelas e marcas de travesseiro no e no meio de suas pernas, um homemrosto. Puxei um deles pelo braço até o com a bunda exposta.quarto e perguntei: Dei um passo adiante e terminei de — E Rafinha, como ela está? abrir a porta. O ranger fez com que — Bem... acho. ambos olhassem em minha direção. O olhar do homem pousou sobre mim, — Eu preciso ver aquela menina de num misto de espanto, raiva e excita-novo. ção. — Sai desta, rapaz, ela já deu pra — Tio? — perguntei, e antes que euvocê. Cata outra. pudesse ter qualquer reação, ele aban- Mas eu não queria outra. Meu primo donou Rafinha com as pernas arrega-me tranquilizou: comemoraríamos o nhadas e veio com a benga balançandoaniversário duma das primas e Rafinha até mim. Segurou-me com força pelotambém viria. O repeteco prometia ser braço, fechou a porta e me jogou contrabom. a parede. A festa foi organizada, a mesma — Você não vai contar nada pra suabaderna de antes, criançada correndo tia, moleque, senão eu te mato. Te mato!pela casa, bexigas infladas e o cheiro defritura. Os convidados chegaram. Não gosto de café. Não bebo. Nem Todavia, tudo estava diferente. uma única gota. E não se trata apenas Rafinha sequer olhava para mim. Eu do gosto, até o cheiro me causa aver-forçava um encontro, aproximava-me, são. Nunca gostei. Quando criançamas era como se eu houvesse me torna- chegava a passar vergonha por causado o homem-invisível. disto na casa de amigos. Mas não era — Deixa disso, — me disseram — ela nojo, só não gostava. Mas hoje, todaé só uma piranhazinha. vez que passo na frente dum boteco e vejo aquele líquido preto escorrendo do Então, eu não a vi mais. Perguntei aos bule, fumegando, e o cheiro me alcança,primos e primas, mas ninguém sabia não posso evitar de pensar em mim,onde ela estava. Fui até atrás da mesma em Rafinha, em sacas de café, no pauárvore em que estivemos, e nada. Deci- meio mole de meu tio e num moedordi arriscar, por fim, o depósito. de café. Ouvi alguns ruídos vindos de dentro, Não consigo.gemidos abafados. Não dá. Henry Alfred Bugalho Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera-tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outrosquatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun-dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires,com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. http://samizdat.oficinaeditora.com 19
    • Contos Thiago Jefferson dos Santos Galdino CRIANÇA PRODÍGIO Sempre foi a criança mais inteli- centes iam para as festas; cursava uma http://www.flickr.com/photos/22326055@N06/4751249463/gente da turma. Alimentava-se sozinha faculdade quando as demais estavamenquanto as demais comiam giz; apren- no Ensino Médio; preferia trabalhar adeu a ler antes que as outras pudessem perder tempo em namoro.soletrar; amarrava os próprios cadarços Encontrou a tão sonhada estabilidadequando o restante não sabia andar de financeira; dividia uma mansão com asandálias sem elástico no calcanhar. sua própria sombra; contava as tristezas Já usava brincos e maquiagem en- e alegrias para as atentas paredes; tinhaquanto as outras garotas furavam as pavor de qualquer coisa que pudes-orelhas e descobriam as revistas de se atrapalhar o seu emprego; possuíamoda; abandonou as bonecas quando tocofobia...as demais costuravam vestidinhos de Deixou de viver intensamente.princesas; beijava garotos antes que o ... e “abortou” a criança... que haviarestante deixasse de brincar de pique- dentro de si!esconde. Estudava enquanto as outras adoles- Thiago Jefferson dos Santos Galdino Nascido em Mossoró/RN em 1993. Aprendiz Técnico em Segurança do Trabalho eEscritor. Autor do livro “Suspeitas de um Mistério” pela Editora Multifoco; participoutambém da 14ª Edição do projeto “Um poema em cada árvore”, do Instituto Psia.20 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Contos Filho da Pátria Sem Mãe Marcelo Soriano http://www.flickr.com/photos/delafuente/3230692585/ Ela era torneada. Mulata. Escrava Quando amanhece, uma criançapós-moderna. De dia, filhinho no colo. perambula com as fraldas sujas por umDe noite, bolsinha a tiracolo. Era lin- loft qualquer bem decorado da Rambla.da. Morena da grife brasileña. Chiclete – Mamã... Mamã... Teta...provocativo. Madeixas de molejo sexy.Olhar de lua. Sorriso de avenida. Beijo Na hora de reassumir a maternida-de beco sem saída. Nudez de mini-saia de nacionalista, a prostituta desapareceu.levantada (sem calcinha) na orla escura Nunca mais voltou. Ela não conseguirada ­ arceloneta. B vencer a dor aberta do buraco fundo, frio e estreito, que deitou sangue no passeio – O ponto é meu, traveco da porra! público daquela última noite, antes do – ¡No más! Muere perra! retorno ao Brasil. Seria aquela, realmente, Um grito tremido depois do estalo a sua última noite de sacrilégio, mas odoído de um triste tapa na cara. destino é um comboio cego... E atropela quem dá mole pela frente. Silêncio na madrugada... Marcelo Soriano Nascido em 11 de agosto de 1967, em Santa Maria – Rio Grande do Sul – Brasil. Engenheiro Mecânico graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2004) e pós-graduado em Engenharia de Produção e Manufatura pela Universidade de Passo Fundo(2010). Autor do Livro “CANTOPOEMAS: SOBRE MENINOS E PÁSSAROS”, juntamente com aescritora moçambicana Isabel Gil (Alcance Editores. Maputo-MZ, 2011). Cronista das Revis-tas Tempo e Literatas (Maputo-MZ, 2011). http://samizdat.oficinaeditora.com 21
    • Contos Vez em quando Cinthia Kriemler Um cheiro de saudade cruza por agonia. Depois de você, tornei-me http://www.flickr.com/photos/stopthegears/2428574441/mim. Um perfume, talvez um aro- matéria sólida, como as lajes e osma de pele. Não dá mais tempo de granitos. Sem os rompantes, sem aimpedir a memória, nem de punir histeria da partida. Nenhum sofri-a sentinela da razão que se atrasou mento à superfície, nenhuma tristezapor uns segundos. Já estou impreg- deslocada. Apenas o suficiente paranada desse vento de passado que me prosseguir humana.força companhia. Não consigo fixar seu rosto nos O cheiro de café torrado insiste meus pensamentos. Foi assim tam-em fazer cócegas no meu cérebro, bém na primeira vez em que nosme dizendo que não vai ser fácil encontramos. As pessoas eramme livrar da sua lembrança. Pois sempre pontos distorcidos em mi-que seja. Não sou mais alguém em nhas fugas de álcool fácil e carnes22 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • e­ squecíveis. E você estava lá, numa Voltei, duas semanas depois, numadaquelas noites que terminavam só madrugada de chuva. Nenhum ál-depois da madrugada. cool naquela noite, nenhuma cama Além do prazer, dois hábitos me de onde tivesse saltado. Fui paraacompanhavam fielmente: eu nunca enxergar o rosto ao qual pertenciadormia fora da minha própria cama, aquela boca de café torrado. Atrásnem chegava em casa sem uma boa do balcão, dois rapazes se ocupa-xícara de café forte. Na verdade, eu vam dos expressos e dos chocolates.sempre tive medo de acordar em Ninguém que eu pudesse associar àcamas estranhas. Como se olhar em voz modulada e cheirosa que tinhavolta e não reconhecer os objetos agradado aos meus instintos. Eu jáme impedisse de saber para onde ir me preparava para me levantar semembora. Eu pertencia a todas as ca- pedir nada, quando o mais alto dosmas, mas deitava meu sono em meu dois se aproximou de mim:próprio colchão, repleto de mim. O — Como vai? Que bom que vocêcafé forte era um ritual de purifica- voltou! Um café?ção. Nada que cortasse o efeito da Era ele! A boca de café torrado, osbebida ou o sono, somente um amu- dentes claros, benfeitos. Um menino!leto de dignidade que me deixava Quantos anos? Uns 24, no máximovoltar para casa sem contaminar de 25.embriaguez o ar. — Um chocolate com creme, por Quando nos encontramos pela favor — respondi depressa, subita-primeira vez, sua boca exalava café mente sem jeito para incluir umtorrado. Por trás do balcão, uma licor no pedido.mistura de amargos e doces flutuava — Chuva forte, hein? — perguntouabaixo de uma placa esnobe, onde se com delicadeza, enquanto colocava alia: Chez Fernand. bebida. — Um café? Não respondi. Homens mais jo- — Forte, por favor. vens não faziam parte dos meus — Alguma coisa para comer? vícios. Minha ânsia de afeto era — Não. aplacada por gente como eu, des- cartável, invisível, desraizada. E por — Um croissant fresquinho? É a álcool, para permitir que tudo fosseespecialidade da família. permitido. E por sexo, que me fa- Fiz que não com a cabeça, en- zia atravessar a madrugada insone.quanto afastava a sensação de náu- Nada de amor, essa coisa estranhasea que me vinha só de pensar em que se oferece em desencontro. Não,comida. Mas achei gentil a insistên- nada de homens jovens! Eles têm ocia. E tive certeza de que voltaria ali péssimo vício de amar!quando estivesse sóbria. — Eu sou Fernand. O da placa — http://samizdat.oficinaeditora.com 23
    • revelou, vaidoso. — Como é o seu e vidros embaçados de chuveiro. Fiznome? passeios de mãos dadas, desconcertei — Aimée. olhares. Dei gargalhadas no cinema, fiz sexo na escada e me senti bonita — Aimée! Amada... Significa ama- de cara lavada.da, em francês, você sabia? Minhafamília é de origem francesa. Que Então, numa data sem aviso, an-coincidência! É um nome lindo. tes que a terceira chuva pudesse me trazer mais um ano, tomou conta de Pedi a Deus que me tirasse de lá, mim uma antiga sensação de ausên-porque meus pés não ofereciam essa cias. Não sei se foi um gesto dife-opção! O rapaz estava flertando co- rente, um jeito de respirar acelerado,migo, se exibindo para mim! E, mes- uma desatenção proposital. Sei quemo assim, o que ele dizia entrava os fogos de artifício se tornaram, deem meus ouvidos como uma escala repente, fósforos usados.afinada. Esperei realmente por umpequeno empurrão, uma lucidez Talvez, se Fernand tivesse morrido,acanhada. Mas tudo falhou. A divin- talvez se ele tivesse amado alguémdade, os pés, a vontade. mais jovem que eu, com menos ca- minhadas, eu teria podido me agar- Eu mesma derrubei as cercas, des- rar ao consolo do plausível. Mas nãolembrada de que as cercas existem foi assim. Fernand só queria mesmopara guardar ou impedir. Fiz como ir embora.o predador que fareja carne tenra:desprezei as armadilhas, até ser co- Eu ainda não estava pronta paralhida pela dor das estacas. me encontrar com a mulher vazia que morava dentro de mim, mas a Fernand e eu fomos felizes por solidão me alcançou inflexível numaduas chuvas. Ele se fez caber por noite sem forças. E eu me cedi a ela.inteiro em meus espaços vazios. Com o tempo, acertamos uma tré-Afastou minhas urgências, ofereceu- gua. Vez em quando, colho nas ruasme outras, me emprestou o riso, o um cheiro de saudade. Apenas ocolo, os olhos brilhantes. E eu me suficiente para prosseguir humana.completei dele. Ganhei abraços detirar o fôlego, brinquei sem pressasobre a cama desfeita, escrevi pala-vras bobas, sem sentido, em bilhetes Cinthia Kriemler É contista e cronista. É autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minhaalma”, pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crôni-cas “Do todo que me cerca”. Finalista de concursos literários, participa de duas cole-tâneas de poesia e uma de contos. É jurada dos Desafios dos Escritores e da RevistaLiterária. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escri-toras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos.24 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • ContosRelicárioTatiana Alves http://www.flickr.com/photos/mrbeck/1981387615/ Maria abriu cuidadosamente o reli- fria que vinha de fora. Cheiro de gente,cário, mirando os olhos da imagem que de rua, de vida. Calçou os chinelos gastosali ficava guardada. Ajoelhou, como fora e pôs-se a ler.ensinada a fazer, e principiou a entoar Época de novena era assim mesmo. Asmecanicamente mais uma de suas pre- outras vinham à sua casa rezar o terçoces. Emendava uma oração na outra, sem durante vários dias. O motivo agora erajamais obter o alívio desejado. A santa a candidatura do pai de uma delas, pre-olhava, impassível, nada podendo fazer feito da cidade. A novena, contudo, nãodiante daquela situação. Seu olhar conti- parecia ajudar na reeleição do sujeito,nha uma espécie de tristeza, uma quase cuja popularidade caíra vertiginosamenteresignação, que não ajudava muito a con- desde que fora visto saindo de uma casafortar a devota que a ela se dirigia. de tolerância na cidade vizinha. Era caso “Mulher só sai de casa três vezes na perdido. E eleição também.vida: para ser batizada, para casar e para Pediram, então, a imagem da santa.o próprio enterro”. As palavras da avó Que percorreria a cidade, numa procis-ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendi- são improvisada e direcionada. Depois,ta sois vós entre as mulheres. Por que, passaria alguns dias na casa de cada de-então, tantas renúncias, ó mãe? vota integrante do grupo de oração, para Persignou-se, acendeu uma vela e saiu recuperar a nódoa na imagem do sujeito.do cômodo. Em alguns segundos retor- Maria, que não se interessava por polí-nou, e trancou o relicário, evitando o tica mas não podia negar o favor, cedeu,olhar da santa. Em seguida, cerrou as embora a contragosto.janelas, não sem antes respirar a brisa No dia seguinte, bateram à porta http://samizdat.oficinaeditora.com 25
    • bem cedo. Duas mulheres pertencen- infortúnio. Adoecera na semana em quetes ao grupo vinham buscar a Virgem, a Virgem sumira. Febres inexplicáveispadroeira de Santa Maria da Renúncia. atormentavam-na dia e noite. Certa vez,Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na foi encontrada vagando perto da cachoei-tentativa de protelar a retirada da ima- ra, roupa molhada colada ao corpo. Delí-gem de sua casa, pegou cuidadosamente rio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre.o relicário. O grito foi uníssono. A santa E havia um moço que nada dizia, mas ohavia desaparecido. Como podia uma sorriso em seus olhos fazia a maior prececoisa dessas? Como ela podia ser tão jamais entoada em louvor à santa. Ou aodesalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo.roubo da imagem em vez de cedê-la para Os ardores de Maria eram agoratão nobre propósito? As beatas do luga- conhecidos e tolerados por todos norejo saíram, indignadas. lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Os dias escoavam-se sem que a ima- Uma alma pura que se perdera longe dagem aparecesse. O relicário aberto asse- proteção da santa. Bebia o vinho do pai,melhava-se a uma casca sem noz, a uma brindando à santa ausente. Rodopiavacaixa sem presente. E Maria adoeceu como se não soubesse mais o que eracom a falta da santinha. Ninguém mais linha reta, e sua saia alçava voos de ser-a essa altura duvidava que a santa tivesse pente alada. Gargalhava como se nuncasido de fato roubada, embora nenhum houvesse frequentado colégio de freiras, eforasteiro tivesse sido visto nos arredores deitava-se no chão, mirando inexistentesna semana do desaparecimento. estrelas que cintilavam proibidos latejos De resto, tudo parecia normal em em sua cabeça. Em seu peito. Em seuSanta Maria da Renúncia. Ou até melhor. ventre.Nem parecia inverno. As rosas desabro- Dois meses depois, Maria foi desperta-charam antes do tempo, o gado – sem- da pelo olhar da santa, dentro do relicá-pre tão passivo – ficou mais agitado, e a rio. Incrédula, abriu-o, indagando, mental-brisa que soprava no fim da tarde trazia mente, quem a havia roubado. Nenhumaagora um ardor inesperado. O frio, mar- resposta. Havia fugido, então? Um meioca característica do lugar, fora repenti- sorriso pareceu se desenhar no rosto danamente substituído por um calor sem imagem. Devia estar mesmo louca, comoprecedentes, como se uma espécie de todos julgavam. Tinha de anunciar osezão assolasse o local. As mulheres, que retorno da Virgem. Gritar. Sua protetoraantes permaneciam em casa, aquecidas, voltara. Abriu a janela, sentindo o ven-queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, to frio de sempre agredir-lhe o rosto. Anão mais ao milho, mas à contemplação imagem, trancada no relicário, assumiraalheia. Ombros e decotes foram vistos o tom triste de antes.por ali, e madonas renascentistas sur- Não pensou duas vezes. Abriu o re-giam a cada beco. licário, piscando levemente, e voltou a Maria mirava o relicário, agora um dormir. Ambas sabiam que a santa nãosantuário de ausência, e pranteava a sau- mais estaria ali quando Maria acordasse.dade que sentia de sua companheira de Nem ela. Tatiana Alves É poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios.É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Lite-ratura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ e à Academia Cachoeirense de Letras. Possui seis livrospublicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.26 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • ContosA deusa da chuva José Guilherme Vereza http://www.flickr.com/photos/lightknight/949116165/ E choveu o ano inteiro em 21 minutos. ga lenga que é para tanta gente assinar um Enquanto o ônibus não chega, perambulo documento.os olhos pela rua, cantarolando as águas de Cristina não é um nome que defina idade.Tom Jobim, e encontro Cristina num canti- Mas não me parece uma pós-adolescente,nho de paus, pedras, restos de toco, um toco considerando que o CPF é daqueles beges esozinho. grandões, anteriores aos cartões azuis magne- Não uma Cristina gente, morta ou viva, tizados que dormem com cartões de créditoscarente ou determinada, enérgica ou entre- nas carteiras ricas.gue à sorte impiedosa do verão, da natureza Vidal, o nome do meio, insinua que ae do descaso. Mas uma Cristina de papel, dona do documento perdido possa trazerplastificada, enlameada, materializada por raízes ibéricas, remotamente francesas, mas aum CPF sem rosto, discreto e sujo, que me dá preguiça mental me leva a encurtar caminhopistas sobre sua pessoa. da história e admitir que seja descendente de De cara, descubro que é uma mulher. Está uma sinhá de além-mar, que deu com os na-escrito em letras gagas de uma Remington: vios nas costas da Bahia, tendo envergonhadoCristina Vidal Sotero, ao lado um número a família ao se enrabichar por um cafuso tí-borrado, e no verso uma assinatura legível e pico, indolente por parte de pai e fogoso porinspiradora. parte de mãe. E saíram, colonizado e coloni- zadora, às cópulas pelas alcovas a povoar a Decifra-me, diz o garrancho. Sou traço cidade de São Salvador da Bahia de Todos ostosco de vítima do desprezo histórico que Santos. Na enésima geração, nasceu Cristina.se tem pela educação dos pobres. Trata-se, Claro que está tudo explicado: seu últimoentão, de alguém que rala na vida, que não sobrenome é Sotero, ó, ó, ó, digo isso meioveio ao mundo a passeio. As maiúsculas girando repetidamente a mão direita com otentando arabescos eruditos e as minúsculas polegar e o indicador em curva ­ormando ffinais apressadas tentando acabar com a len- http://samizdat.oficinaeditora.com 27
    • uma pinça, o gesto vulgar que denota ligação para morar comigo nas terras dos bons vi-infame, ó, ó, Sotero de salvador, polis de cida- nhos, da culinária soberba e das vacas pre-de, sacou? – adoro palavras cruzadas: nascido miadas.em Salvador, vertical, 14 letras. Mas eu não cozinho em francês, seu dotô. Pronto. Definida a origem da criatura. Vai como minha mulher, há quem obede-Resta agora o quesito “o que faz na vida, ça a suas ordens naquela vida boa.além de explicar que perdeu documentos nachuva”. A caligrafia me cochicha: talvez seja E se eu sentir saudade do tempero dadiarista, talvez costureira, talvez balconista, Bahia?caixa de supermercado. Pode ser faxineira, Mando trazer de avião.trocadora, a moça do café, a rainha dos servi- E se painho der por minha falta?ços gerais numa empresa próspera e social-mente responsável. Vem de avião também. Nada disso. Que seja uma cozinheira, E como fica o calor da nossa terra?de forno e fogão, de panelas de ferro e de Te aqueço, minha deusa, nos meus braços,barro, uma Gabriela de cravo e canela, uma nos meus abraços.Dona Flor sem maridos aparentes. Decidi. Mas não tenho CPF para tirar passaporte,Sua moqueca é de arrasar, seu xinxim é de moço, esse não presta mais.se lamber os beiços, seu vatapá é um manjarde deus e do diabo, honra e glória dos Vidal Danou-se. Olho o documento encardidoSotero, que fizeram história nos sobrados do e inútil. Penso em entregar a um GuardaPelourinho, manera no dendê, minha filha, Municipal – deve haver uma porta escritaminhas entranhas não aguentam mais ta- Achados e Perdidos em alguma repartição damanha perdição, já basta o acarajé que me Prefeitura. Imagino carregá-la no bolso, paraofertaste e a pimenta que me ardeste. sempre comigo, tenho tia abastada nada, sou um impostor, mas ofereço minha gaveta de Cristina Vidal Sotero já é íntima. Juro que moradia, meu quarto e sala é a Bahia, minhadescubro seu paradeiro. Vou de rua em rua cama é o Pelourinho, me açoita, morena, vem,nas redondezas, de soleira em soleira, curioso morena, vem seguir os desígnios dos santostenaz, encontro enfim a dona de história tão do acaso, dos anjos dos sonhos, dos deuses darica, dotes tão saborosos, sorriso generoso e chuva.um corpo surpreendente, esculpido por JorgeAmado. E me esvai a fala, aflauto a voz. Para tudo. Quem vem vindo agora é o ônibus lotado de realidade e juízo. Escapando Você é Cristina Vidal Sotero? entre meus dedos, deixo Cristina carinho- Sim, senhor. samente no meio fio de onde veio. No pau, Estou mais perdido que seu documento. na pedra, no resto de toco, no toco sozinho. E sigo, e subo, e suspiro, e sento no último O senhor achou? banco. Estico meus olhos àquele documento, O destino achou. que, acho, me olha também. Fecha o sinal da Então entra, tem recompensa, vem provar esquina, providência para um teimoso raioo gosto que a baiana tem. de olhar. Vejo na rua que ficou para trás um gari de perna fina, moroso e indiferente, E diante de tantos encantos noite adentro, passando a chuva a limpo, parando e olhan-ouso retribuir com um mimo. do para um reles CPF jogado no chão. Antes Cristina, sou herdeiro único de uma tia da vassourada de misericórdia, ele se abaixa,abastada, que me deixou um domaine na pega e lê: Cristina Vidal Sotero.Normandia. Tenho vontade de botar a cabeça pra fora Um quê, moço? da janela: tira a mão daí, moleque! Um castelo na França, entendeu agora? Pois prossiga, senhorinho formoso. Indo direto ao ponto: quero levar você28 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Contos http://www.flickr.com/photos/fiverweed/5265610106/ Otávio Martins O CATAVENTO MALUCO Nunca perguntou ao pai porque a es- Morocho, como era carinhosamente chama-colha de um tango argentino. Sua mãe, do pelos porteños, logo começaria a contarele bem o sabia, aquiescia a todos os seus a história de um grande amor, na inesquecí-caprichos, e era de fazer-lhe companhia pelo vel gravação de 1923.simples hábito de permanecerem juntos em Quase encostada na parede do lado dequase todos os momentos de lazer. dentro da grande varanda, a eletrola, instala- À tardinha, o seu pai costumava colocar da num lindo móvel de três compartimen-na eletrola sempre o mesmo disco de Gar- tos, todo em madeira envernizada, ganhavadel – “uma relíquia!”, como costumava dizer um toque colorido por uma tela aveludada,– para, em seguida, sentar-se na sua pol- verde-escuro; o tecido, pespontado por fiostrona preferida. Tudo parecendo mais uma dourados, servia para cobrir o nicho ondeencenação da primeira vez em que escutou estavam instalados os alto-falantes. Dali– junto com sua mãe, supunha – a belíssima surgiriam os sons que impregnariam todocomposição de Gardel, Razzano e Celedonio o ambiente com uma das mais conhecidasFlores. músicas do cancioneiro argentino. A iluminação da varanda, que tinha todo Nem lembrava direito desde quando os um lado envidraçado, era proporcionadaacompanhava naquele ritual – quase um pelas réstias que escapavam do sol a se pôrculto à nostalgia. Enquanto o vinil era, cui- detrás do quintal, atravessando por entre osdadosamente, colocado no prato da eletrola, galhos e as folhagens das enormes figueirassua mãe e ele tomavam assento nas outras e um imponente abacateiro. Não se atinavaduas poltronas e, sem qualquer palavra, para outros detalhes, como se todo o am-aguardavam os primeiros acordes da intro- biente fosse preenchido apenas pelo somdução do Mano a Mano. Carlos Gardel, El que vinha da eletrola e por aqueles tênues raios de sol, além dos três personagens http://samizdat.oficinaeditora.com 29
    • que permaneciam imóveis um vazio de aspecto triste, ainda acompanhava o seue silentes durante toda a talvez pela ausência da ve- pai nas audições do tangoaudição. getação e de algumas flores de Gardel, as quais continu- Logo após a última nota que só voltariam na próxi- aram acontecendo por todasdo Mano a Mano, o tem- ma primavera. as tardinhas.po retomava ao seu curso Do lado de fora, nada, ou Em algumas manhãs, erae cada qual ia para o seu quase nada, se ouvia depois de transpor os limites docanto. Enquanto seus pais que ele trancava-se no quar- quintal para ficar próximoencaminhavam-se vagaro- to. Espalhados pelo pequeno à plantação de trigo e dossamente para o interior da cômodo, enormes bonecos canteiros de girassóis que acasa, ele, num gesto quase traziam entre as mãos cada circundavam e ali permane-autômato, dirigia-se ao seu um o seu instrumento: violi- cer, por longo tempo, imóvel,quarto, que também lhe ser- nos, violas, celo, postando-se, na feição de um espantalho,via de estúdio. Localizado do assim, como uma orquestra hipnotizado pelo espetáculolado esquerdo da varanda, de câmara. Todos vestidos de luz e movimento.quase chegando aos fundos ao rigor de uma grande Com o mesmo entusias-da casa, a porta permanecia apresentação. Somente ele mo que regia a pequenaquase sempre fechada. Nem ouviria, através dos fones, orquestra, dedicava-se àmesmo a senhora, que ainda a música que passaria por construção do seu catavento,vinha de vez em quando um amplificador de alta- de grandes dimensões, quepara dar um jeito na casa, fidelidade, trajando o melhor ele chamava de circuladôentrava em seu quarto. Ele de seus figurinos para a de fulô, nome que apren-mesmo se encarregava de ocasião; tinha caídos, sobre dera numa das canções dearrumá-lo. Não obstante, era os ombros, os cabelos soltos Caetano Veloso. Acreditavade fazer-lhe algumas confi- e desalinhados, precocemen- que a sua engenhoca ainda odências. te grisalhos. Após alguns levaria, como as asas de um De sua janela ele po- instantes de concentrado beija-flor, em meio a umadia estender a vista além silêncio, com a voz baixa, noite estrelada, muito alémdo quintal, até alcançar os dirigia-se aos outros compo- dos trigais e dos canteiros detrigais que o sol – recém nentes da pequena orquestra, girassóis.passada a primavera e já nos iniciando a contagem queprimeiros dias de calor – ba- definiria a divisão e o an-nhava com uma luz intensa, damento para os compassos No dia em que nãojá ao tempo da colheita, que surgiriam ao erguer a mais precisou fazer com-dando-lhes a aparência de batuta, num gesto de extre- panhia ao seu pai, parapequenas ondas douradas ma delicadeza e elegância, ouvirem o francês Charlesque corriam em direção ao iniciando a regência de uma Romuald Gardés – o verda-horizonte. Durante o outo- das mais belas músicas de deiro nome de Carlos Gardelno e o inverno, boa parte Mozart. – numa de suas mais belasda terra ficava em descanso Depois que a mãe mor- interpretações, trancou-se napara outras safras, deixando reu, talvez por costume, velha casa e nunca mais foi visto pela vizinhança. Otávio Martins 68 anos, fotógrafo, mantém um jornaleco eletrônico, O Spam. Trabalhou na TV Tupi, TV Culturade SPaulo, produção de shows (Adoniran, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Márcia, Roberto Riberti,Tom Zé e outros); Festival de Verão do Guarujá, 1980 e Festival MPB Universitário, TV Cultura 1979,assistente de produção. Cozinheiro profissional, compositor MPB, música e letra.30 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Contos DEPURAÇÃO Silvana Michele Ramos A apuração dum crime de corrup- crime de corrupção acadêmica se tinha http://www.flickr.com/photos/merlin1487/5518280677/ção acadêmica passado numa academia passado efetivamente forneceu aquilo deconsistiu no seguinte: requisitou-se que que estava de posse sobre esse crime dea academia onde o crime de corrupção corrupção acadêmica nela passado, in-acadêmica se tinha passado forneces- clusive prontamente, e como aquilo dese aquilo de que estava de posse sobre que ela estava de posse sobre esse crimeesse crime de corrupção acadêmica de corrupção acadêmica nela passadonela passado, o que a academia onde não constituiu convicção suficiente deo crime de corrupção acadêmica se que se tinha passado crime de corrup-tinha passado efetivamente fez, inclusi- ção acadêmica nessa academia, a apu-ve prontamente, fornecendo justamente ração foi finalizada, o caso em comentoaquilo de que estava de posse sobre esse tendo sofrido arquivamento.crime de corrupção acadêmica nelapassado, e como a academia onde o Silvana Michele Ramos Natural de Belém, onde estudou Medicina, Inglês e Alemão. Ao longo da graduação em Medicina,publicou 57 textos científicos em congressos e outros eventos médico-científicos. Iniciou carreira deescritora em 2006 e possui, até o momento, onze distinções em certames literários. http://samizdat.oficinaeditora.com 31
    • ContosAdivinho,detetiveou fofoqueiro Roberto Klotz http://www.flickr.com/photos/anabadili/551898740/32 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Jovem — Posso me sentar? — pergun- J — Como assim? De onde o senhortou ao senhor grisalho. me conhece? von Silva — Por favor, fique à vonta- vS — Você sentou-se à minha frentede. há meia hora. J — Se o senhor se incomodar, posso J — Em momento algum falei meume sentar em outra mesa. nome. Como sabe meu nome? vS — Oras, não é nenhum incômodo. vS — Está escrito no seu crachá.Acho melhor almoçar acompanhado a J — E esse negócio de solidão? Eu nãoficar só. A mesa é pequena, mas sufi- falei da minha vida particular. Casociente para nós dois. como o meu? Por que acha que estou O mais moço encheu o garfo duas solitário? Leu no meu crachá?vezes de peixe frito e falou sobre a vS — Havia tantas mesas vazias. Evitória do seu time no jogo da noite você escolheu a que eu estava paraanterior. Mais duas garfadas de arroz e ter companhia. Poderia ter escolhidocomentou sobre a impunidade em to- aquela próxima à televisão. Mas prefe-das as esferas do governo. Comeu uma riu gente. A televisão é sua companhiarodela de tomate e criticou o galã da noturna. Você está só e continua apai-novela. Tomou um gole de suco de aba- xonado por aquela que o deixou.caxi e se desculpou por ter chutado a J — O senhor está semeando verdemesa desequilibrada no chão irregular para colher maduro...da calçada. vS — Olhe para aquela mesa com Assim, entre mastiga, mastiga, mas- aquela mocinha... Pouco mais nova quetiga, engole, o moço falou de música você. Não é atraente?erudita a guerras no Oriente Médio. Foide Nelson Rodrigues e Cecília Meire- J — É sim, e daí? O que tem a verles. E voltou de Sófocles e Platão. comigo? O senhor de cabeça branca concor- vS — Você poderia ter escolhidodava ou discordava discretamente, com aquela mesa. Seria uma companhiagestos suaves, sem dizer palavra. muito mais interessante. Significa que não está à procura de mulher. E sei que J — Desculpe senhor, acho que falei está sem nenhuma.demais. Tomei a palavra e não larguei.Estamos sentados aqui já há algum J — Como sabe que estou sem mu-tempo e sequer me apresentei... lher? Só porque fico vendo tevê? Onde o senhor leu isso? vS — Não há nenhum problema, Gil-berto. A solidão nos leva a esse tipo de vS — Na sua camisa.comportamento. Isso é absolutamente J — Não entendi. Escrito na minhanormal nos casos como o seu. camisa? 33
    • vS — Sim. Você está usando a mesma frio.camisa há vários dias. J — O senhor é adivinho, detetive ou J — Ela está cheirando? fofoqueiro? O que mais andou reparan- vS — Não. — respondeu sério — Ela do?não foi passada e está manchada. vS — Que agora é pedestre, sem car- J — Isto não quer dizer nada. ro. Só anda a pé ou de ônibus. vS — Quer dizer que você almoçou J — O senhor é totalmente maluco. Aaqui na terça-feira e ontem com a mes- troco do quê eu não teria carro?ma camisa. vS — O chaveiro que você colocou J — O senhor também almoçou aqui? sobre a mesa não tem chave de carro. E não se exalte, sua pressão vai subir vS — Não. Esta é minha primeira vez. mais ainda.No cartaz está escrito que, às terças,servem nhoque, e às quartas, feijoada. J — Pressão? O que o senhor sabe daE na sua camisa há molho de tomate e minha saúde?restos de feijão. vS — Você despejou o saleiro sobre J — E o que mais, ó grande Sherlock, sua comida, isso provoca pressão alta eo senhor vê na minha camisa? aquela quantidade de malagueta sobre o peixe frito provoca hemorróidas. vS — Vejo que você já teve um bomemprego e que agora está financeira- Gilberto, sem dizer mais nada, levan-mente prejudicado. tou-se e foi pagar a conta. Ainda pegou um café, quando viu seu companheiro J — A mancha deveria ser de estro- de mesa se aproximar.gonofe com champignon? Com muita raiva, jogou o café no vS — Você está usando uma cami- velho e perguntou provocativo:sa social com seu monograma, GBAS,bordado no bolso. A gola e os punhos J — E aí, sabe-tudo, o que achou?estão bem gastos. A sua linguagem e vS — Achei sem açúcar.modos finos contrastam com a cami-seta vermelha por debaixo da camisa Extraído do livro Cara de crachá desocial. Noutras épocas, provavelmente, Roberto Klotz. Edição do autor, 2011usaria um casaco para se proteger do Roberto Klotz autor dos contos e crônicas de Pepino e farofa, Quase pisei! e Cara de crachá. Com linguajar leve,dinâmico, bem-humorado e finais surpreendentes foi premiado em mais de 20 concursos literários.Promove oficinas e palestras sobre a escrita. Jurado de concursos literários. É conselheiro de cultura emliteratura da Secretaria de Cultura do DF. Participa do Núcleo de Literatura da Câmara dos Depu-tados. Recebeu elogios de Moacyr Scliar e Ignácio Loyola Brandão. Produziu 40 crônicas semanaisininterruptas sobre notícias publicadas no jornal. Está em robertoklotz.blogspot.com34 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Contos Avessa ( o ) Sara Meynard Parecia que aquela seria mais uma covardia. Mas é que depois de tantas http://www.flickr.com/photos/josephstory/5908033496/das noites em que se vai dormir com feridas o corpo quer é sossego. Mesmoquase quatro mil coisas na cabeça. que eu fosse covarde e me tendesseDeitei-me ainda cedo, com o objetivo para as pessoas, aquilo era muito maisque o sono fosse mais proveitoso do forte, era conforto.que enfrentar a madrugada fria. Mas não importava o meu conforto; Aquilo já era de costume, os sons dos as feridas ainda estavam lá, mesmo quecarros e motos na avenida invadindo o não ousasse nem pronunciá-las. Igno-meu quarto me embalavam e me fa- rei. Segurei o ar com uma das mãos,ziam companhia. As luzes penetravam e movi a outra misteriosamente, comoinquietas pelas grades da janela, fazendo se não soubesse onde fosse parar, atécom que minha escuridão fosse menor. que as duas se encontraram e se visita-Todo aquele barulho me fazia sentir ram por dentro. Meu próprio calor memais em casa do que se eu estivesse no aquecia, o corpo se repartia em dois,silêncio de mim. Talvez fosse medo; ou transformando a solidão em duas, que http://samizdat.oficinaeditora.com 35
    • se ligavam. Que fosse só um disfarce, A sombra dançava; os pés esticavamnão importava. e encurvavam; tinha a habilidade de Quando criei coragem para fechar os uma bailarina. Não me lembro que rou-olhos e ver todos aqueles pesos, e mi- pa usava, e nem se usava. Mas ela veio enhas pálpebras começaram a se fechar se sentou ao meu lado. Agarrou minhasna mesma lentidão do pôr do sol, com mãos, e as segurou assim como esta-todos os raios indo embora, o corpo se vam: juntas. E sem falar nada, veio mepreparando para a noite, a vida recuan- pegando, me passando, me aninhando,do como se tivesse medo, nada veio. Eu com o mesmo calor do ventre mater-até me assustei, mas já cansada, achei no e o mesmo prazer das mais fiéis ouagradável e afundei na cama com a for- infiéis amantes.ça de um lutador. Eu não pensei muito aquela noite. Na Foi quando ela entrou. A porta do verdade não pensei nada. Por isso nãoquarto se abriu devagar, e embora tive medo da respiração pesada no meunenhum feixe de luz a acompanhasse, ouvido, das mãos que me rodeavam. Evia sua silhueta claramente. Eu poderia não deveria mesmo ter. Era tudo o quefalar que fiquei com medo, mas a verda- eu esperava, meu avesso estava ali: ede é que eu não reconhecia perigo em me segurando, apalpou meus arranhões,uma companhia para a noite. Mesmo minhas marcas, meus vermelhões, roxosque fosse estrangeira; eu não poderia e tudo mais que um dia houvera mesaber o motivo de temer aquilo, era ferido .estranho demais para mim. Só sentia minhas gargalhadas agora. Meus olhos no começo se arrega- Gargalhávamos juntas. Aquela sombra elaram; mas logo foram se fechando, à eu. Rindo alto da vida que passava, domedida que ela ia chegando mais perto, tempo indecoroso, das ruas inacessíveis,e era tudo tão devagar que parecia ter das roupas desnecessárias... era tudo etodo tempo do mundo. Ao contrário muito mais. Era eu, e o avesso. A avessa.dos dias corridos que se passavam em Não me lembro quando dormi, esufoco, naquela noite os acontecimen- nem sei mesmo se dormi. Sei que quan-tos foram se entrelaçando de maneira do abri os olhos, estava sozinha detão lenta, que era possível ver e sentir novo. Mas já não me sentia assim. Eratodos os fios soltos, e todos os fios que como se ela ainda estivesse ali, comi-se uniam na construção do que agora go, como se tivesse se tornado parte denarro nesse conto póstumo. Póstumo mim. Não; já era parte de mim antes.sim, pois alguma coisa morreu aquela Eu só a achei.noite. E no riso fugido da noite, eu acordei Meus lençóis eram brancos, mas eu ainda com os dentes de fora. A sen-juro que acordaram vermelhos. Não sação de luto me tomava ao mesmome lembro em momento algum de tempo em que o sol raiava forte. Nun-haver sangue; nem dor. Pelo contrário, ca soube o que morreu aquela noite, eera uma paz tão grande que eu fechei nunca nem procurei saber. Só sei quemesmo os olhos – mas tenho certeza se perderam na sua inutilidade todasque não dormi, pois os abria sempre as quatro mil coisas, e eu tinha lençóis– e até comecei a gargalhar de prazer novos.com aquela coisa se movendo em meuquarto.36 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Contos http://www.flickr.com/photos/kdemetras/5816398/ Edweine Loureiro COLETIVO Toca o buzão motorista, esse ônibus Pode baixar o som cumpadi, tu num tápassa no Largo, licença dona, tô indo pro no ônibus sozinho, qual é seu mané, vaitrabalho… encarar, Deus do céu, ele tá armado… Sentou-se no banco de trás, o olhar Tudo o que sabia é que, não im-perdido. E agora, o que faria? Demitido, portando o que acontecesse, precisavaendividado e três filhos para criar… seguir vivendo. Amanhã mesmo… Menina tu tá grávida, esse Botafogo Escapou pela janela o desgraçado, tocanão tá mais com nada, viu o jogo ontem, pro hospital motorista, meu Deus, o tiropassa na praça sim senhor… pegou no peito, tá morto, não, ele tá ten- O que diria à esposa? Como reagiria tando dizer alguma coisa, silêncio gente,Mariana a uma notícia assim? Temeu pobre do homem, não tinha nada a verpossíveis discussões; até mesmo a sepa- com a briga…ração. — Mariana… Edweine Loureiro Nasceu no Brasil em 20 de Setembro de 1975. É advogado, professor e reside no Japão desde2001. Prêmios literários incluem: Primeiro Lugar na Categoria Crônica do 6º Desafio dos Escrito-res (2010) e o Primeiro Lugar no V Concurso Crônica e Literatura – Prêmio Ferreira Gullar (Mi-nas Gerais, 2011). É membro correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (Riode Janeiro). Autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Editora Litteris, 2000) e Clandestinos [e outrascrônicas] (Clube de Autores e Agbook, 2011). http://samizdat.oficinaeditora.com 37
    • Contos http://www.flickr.com/photos/thejhop/117055834/ Zulmar Lopes Purgatório Está se vendo que você nunca se apai- de garrafas e copos, sempre comandada aosxonou, não é, meu caro? Dizem que paixão berros por aquela senhora de maus modosé uma coisa avassaladora, uma fábrica de que tudo fiscalizava por detrás da balançaloucuras. O Frejat ilustrou bem isso naquela onde os pratos eram pesados. “Lívia, nãomúsica, como era mesmo a letra? Deixa pra esqueça o refrigerante do moço lá no fundo!lá. Isto não deve ser do seu interesse, não é Vamos logo, menina, deixa de preguiça! Vocêmesmo? é uma estabanada mesmo, não serve pra Apesar de estar apaixonado, julgo que, o nada!” Elogios daquela mulher, eu creio queque fiz por Lívia, não foi uma loucura de minha amada nunca tenha ouvido.amor, pensei inclusive estar agindo da ma- Compunha o resto da família um sujeitoneira correta e olha o que me aconteceu? mal-encarado que ficava na caixa, invariavel-Aonde vim parar? Caso houvesse cometido mente trajando a camisa do Botafogo. Poucoum desatino amoroso, certamente a história falava, muito grunhia para os clientes aoteria sido outra e hoje estaríamos juntos e devolver o troco.felizes curtindo o nosso amor. A comida não era grande coisa, mas por Confesso que a primeira vez que eu a vi, aquele ser o restaurante mais próximo doLívia não me despertou a mínima atenção. trabalho, tornei-me seu habitué e, pouco aMal a notei, diluída naquele vai e vem de pouco, fui reparando na beleza rústica degente transitando dentro do restaurante de Lívia. Tinha o meu amor o rosto redondo,comida a quilo da sua família. Na verdade, sardentinho, decorado com dois olhos cha-eu estava faminto e os predicados do sexo mativos, nunca soube ao certo serem verdesfeminino me interessavam menos do que um ou azuis, e um cabelo cacheado, ruivo e hásuculento prato de comida, baratinha, como tempos longe de um cabeleireiro. Seu cor-mostrava o cartaz do lado de fora do estabe- po era de uma leve obesidade disfarçadalecimento. por uma coleção de calças jeans que mo- Ela era a encarregada de servir as bebidas delavam sensualmente os quadris. O busto,do restaurante. Ficava de um lado para o farto, se escondia atrás das camisetas t-shirtoutro zanzando com uma bandeja apinhada de algodão em cores e estampas berrantes.38 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • A­ parentava pouco mais de 18 anos e uma mal tirou os olhos das contas que fazia numaenorme vontade em largar a escravidão fami- calculadora. As palavras jorraram da mi-liar a que era submetida. nha boca descontroladas: “Bem, já faz algum No final de uma semana eu já era um ho- tempo que almoço neste estabelecimento emem apaixonado. Contudo, nossa aproxima- só tenho elogios à comida aqui servida, mas,ção foi lenta e gradual. Trocávamos parcas não é disso que desejo falar com vocês. Épalavras e fartos sorrisos maliciosos sempre sobre Lívia. Sei que pode parecer estranho,que Lívia vinha servir-me o refrigerante. mal nos conhecemos, mas, o amor tem dessasCerta vez, fui até audacioso e toquei de leve coisas. Sou um sujeito decente, respeitadorsua mão, enquanto ela depositava o copo so- e minhas intenções com a menina são asbre a mesa. Lívia assentiu ao toque, contudo, melhores possíveis. Preferi falar com os doisnão deixei de notar que ela procurou com antes até do que com ela que, desculpem oos olhos certificar-se de que nem a mãe e o modo de me expressar, já tem correspondidoirmão haviam reparado em minha ousadia. a minha paixão. Gostaria de pedir permissão a vocês para...” No dia seguinte à cena, ela disfarçada-mente deixou em minha mesa um pedaço de Nunca imaginei que o botafoguensefolha de caderno onde estava escrito “eu te guardasse uma arma atrás do balcão. Ali-amo” em garranchos quase infantis. A singela ás, deveria sim ter imaginado, pois a cidadefrase vinha acompanhada de dois corações andava muito perigosa naqueles tempos. Sóentrelaçados mal desenhados. Feliz como um não poderia supor que o sujeito era o ma-adolescente correspondido, guardei no bolso rido de Lívia e aquela senhora tratava-se nao recado ao mesmo tempo em que acompa- verdade da sogra da moça. Mas como é quenhei com os olhos Lívia sumir em direção à eu iria saber? Os três eram tão parecidos. Ocozinha do restaurante. Decidi que não pas- cara nem me deixou explicar o lamentávelsaria daquele dia mas, homem feito que era, engano. Os tiros foram mortais. Nem chegueidesejei que as coisas fossem feitas às claras. a experimentar sofrimento. Descobri que seNão estava em idade de namoros escondidos. perde a consciência quase que imediatamen- te com várias balas alojadas no seu cérebro. Resolução tomada, deixei a mesa onde Agora estou aqui, neste purgatório, esperandocostumeiramente almoçava e fui ao en- a minha triagem para a morada final. Vocêcontro do irmão de Lívia. Ele parecia mais ainda vai demorar muito a decidir, meu caro?trombudo do que seu estado normal. A mãe Veja bem. Fui um sujeito honesto, cumpridorencontrava-se a seu lado na caixa registrado- dos meus deveres, bom cidadão. Apenas tra-ra, certamente conferiam a féria do dia e não ído por uma paixão arrebatadora, não sabiagostariam de ser incomodados, porém, eu que Lívia era casada. Também, ela poderiatinha que falar com os dois acerca dos meus ter me dito, não é verdade? O senhor é umpropósitos com a moça, como eu havia dito, anjo? É o responsável por este local? Amar adesejava agir da maneira correta. mulher errada não é um pecado que justi- A senhora me recebeu munida de um sor- fique minha passagem para o inferno, não ériso amável, pois já se acostumara com a mi- verdade? Poderia, por gentileza, avaliar comnha presença no restaurante. O botafoguense simpatia a minha situação? Zulmar Lopes Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem diversos prêmiosliterários com destaque para as menções honrosas no 11º Concurso Nacional de Contos JosuéGuimarães, 7º Concurso de Contos Luis Jardim e 23º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba.Vencedor do 33º Concurso Literário Felippe D’Oliveira na modalidade conto. Membro correspon-dente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “ChapeuzinhoAdolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. http://samizdat.oficinaeditora.com 39
    • Contos Doa-se um helicóptero. Tratar aqui. Leandro Luiz http://www.flickr.com/photos/hamsteren/2714583070/ Doei minha casa, meu carro, meu iate, a para dormir. Tive que lutar contra tudo epousada do interior e a minha coleção de se- contra todos e, para piorar a situação, en-los raros por uma boa causa, ou melhor, para frentando uma série crise pela falta de caviarrealizar um sonho: eu queria ser pobre. Olha, toda manhã.foi um investimento a curto prazo que deu Mas valeu a pena. Hoje estou realizado emuito certo, de dar inveja a qualquer econo- cheguei onde queria. Sou pobre e confessomista de plantão. que, para chegar até aqui, foi um grande de- Desde a minha infância, não aguentava a safio. Duvida? Então, escuta essa: têm muitosvida que levava. Piscina, spa toda quinta-feira, por aí que fazem mil promessas se ficarempolo com o Clube dos Investidores de Petró- milionários. Dizem que vão fazer isso, com-leo, ah não, cansei. A minha vida era muito prar aquilo, largar o emprego, viajar e maischata, sempre regada a vinhos importados e um monte de blá-blá-blá. Agora, confesse:queijos caros. Troquei a escolta armada pela você já viu alguém fazendo promessas casoliberdade, o condomínio de luxo por uma fique pobre? Tá vendo? Eu estou no per-modesta moradia e os restaurantes chiques, rengue e já tenho os meus projetos para oou chiquérrimo, como diz a minha tia-avó, futuro.pelo delicioso churrasco grego do centro. Quero apenas ser feliz. Vou seguir a vidaCom o suco grátis, diga-se de passagem. cheio de alegria, cantando e, entre um cha- Estou agora com amigos verdadeiros, par- ruto e outro, pedindo alguns trocados. Ué,ceiros para todas as ocasiões e “manos” (uma por que não? Afinal, eu podia tá comprandogíria que aprendi na pelada aqui do bairro, empresas, gastando fortunas em joias, masque prometo saber o que significa) incríveis. estou aqui, na maior humildade, mano. Chega de polo aos sábados, leilão aosdomingos, mocassim e roupa engomada até Leandro Luiz 29 anos, é redator publicitário e, nas horas vagas, adora escrever sobre tudo e todos. Entre osseus trabalhos literários, obteve três menções honrosas e, em 2011, foi destaque nacional no XVIConcurso Literário Internacional de Poesias, Contos e Crônicas com a crônica “Chega de Au-Au”.40 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Contos Rugas do Tempo Juliano Ramos de Oliveira Saiu. A noite quente não lhe dava sossego, viajavam naquela hora. Reparou que um jovemmas ânsias de partir. Partiu. O ar inflou-lhe o muito próximo chorava em silêncio. Notandopeito repleto de liberdade. Afastou-se da casa. o olhar do velho, o rapaz controlou-se e ex-Engraçado! Não voltaria. A certeza conduzia- plicou-se sem que lhe perguntasse: “Desculpe- http://www.flickr.com/photos/bcmom/98545348/lhe os passos. Engraçado! Imaginara-se sempre me... minha esposa teve um parto difícil estatomando esta atitude num momento de angús- noite... a criança se foi... a mãe também estátias, mágoas. Mas não. Encontrava-se brando, morrendo... me avisaram há pouco... e eu aqui,os filhos com filhos e famílias a mais para se preso nesta rodoviária. Não há ninguém paradedicarem. A esposa aposentada do professo- se pedir ajuda, este é o último ônibus para arado exercido com triunfo. Dona Glória de minha cidade a tempo do enterro da criança e,geografia sentiria sua falta, todavia toda dor talvez, ver Maria viva... Entende minha aflição?ameniza-se no todo dia. Mesmo que saia pedindo... não há gente obas- Partiu. No bolso algum dinheiro e o cartão tante para juntar o dinheiro...da “previdência” faziam-se suficientes. Buscava – Espere! – o velho vasculhou na carteira;motivos para a fuga. Não há causas concretas? o dinheiro que trouxera não seria suficiente.Há? Acordara no meio da noite com o suor Resolveu. Entregou-lhe a passagem que com-que cobria-lhe o corpo. Levantou-se, observou prara. – Vá você!o sono da esposa na semiclaridade vinda da – Mas... senhor!?!?fenda da porta. Ainda amava o vestígio da belamulher de outrora. Deixou o cômodo. Apron- – Pego o próximo, não importa se me atra-tou-se ligeiro. Fitou-se no espelho. Setenta e sar. Vá! Você tem mais pressa. Vá!dois anos, envelhecera: as rugas do tempo cra- O rapaz resplendeceu, apertou-lhe vigoro-vadas na face avançada, os fios brancos doma- samente a mão agradecendo-o e correu para ovam as têmporas... Seria a causa? As rugas do veículo.tempo? O velho pensou com saudade súbita na sua Sentou-se, a passagem no bolso. Para onde? vida de sempre, na família bem viva, criada, se-Não importava, escolhera um nome qualquer gura, na sua glória: Dona Glória de geografia...na placa da cabine da empresa... “O ônibus – Deus lhe abençoe! – disse o jovem daestá atrasado”, disseram. O atraso do carro janela, acenando expansivamente.arrastou-se na madrugada semideserta darodoviária. O sono grosso empurrou-o sobre o – Amém! – murmurou o velho apiedadobanco convidativo, entregou-se... do jovem em quem as rugas da vida se faziam profundas e prematuras no tempo. Acordou. Leu no ônibus o nome da cidade-destino. Não o perdera. Olhou a volta. Poucos Juliano de Oliveira Ramos Nasceu em 1977 e vive na cidade de Avaré – SP – Brasil. Formado em Letras (Português/Inglês/Espanhol), atua como professor efetivo na rede pública do estado de São Paulo em dois cargos.Além de educador, trabalha como ator e diretor teatral há mais de 10 anos, tendo atuado e diri-gido mais de 15 espetáculos. Escreve desde muito cedo. Portanto, além dos livros publicados peloCLUBE DE AUTORES e AGBOOK, tem seus textos publicados em antologias e jornais literários desua cidade natal e região. http://www.flickr.com/photos/simoom/11178416/ http://samizdat.oficinaeditora.com 41
    • ContosMinha vida,meu pesadeloSonia Regina Rocha Rodrigues http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/ 42 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Não adianta trancar as portas e as janelas. Se tira nove, poderia fazer melhor, se tira dez,O inimigo já se instalou. não fez mais do que sua obrigação. Como dizia Nietzsche: “Procuravas o fardo Se atleta, ao exibir orgulhoso o título demais pesado e te encontraste a ti mesmo... campeão estadual, ouve da mãe o comentário:Não podes mais libertar-te de ti mesmo...”. Ah, ‘o campeão brasileiro, na sua idade, bateu ocomo eu bem compreendo as palavras de Za- recorde mundial e o campeão sul-americano ératustra! Eu sempre soube, desde bem pequena, mais novo que você’.que o meu pior inimigo mora dentro de mim. Ela nunca aplaude, para não ‘estragar’ o Neste momento mesmo, pode estar à es- rebento.preita.... E eu me sinto tão desprotegida! Caso ganhe o ouro olímpico, a mãe afirma Escrevi na porta de meu quarto minha frase que ele está abaixo de suas possibilidades, quefavorita de Edgar Allan Poe: “A desgraça é seu desempenho poderia ter sido melhor, poisvariada. O infortúnio sobre a terra é multifor- ela, que o criou, sabe como ele é preguiçoso,me.” contentando-se com um resultado inferior a E não conheço infortúnio maior do que ser seu potencial.um personagem de Kafka, condenado, eu o sei, Quando a cumprimentam, ela recebe osa tornar-se um matricida. louros especificando quantas horas sacrificou- Ah! Como eu entendo Kafka! se acompanhando o herdeiro a treinos e com- petições, frisando o quão dedicada foi e ainda Todo filho único de mãe perfeccionista é, saboreando sua fatia no triunfo do filho.entende Kafka. Filho que trocaria todos os prêmios, troféus, Condenado sem culpa antes de qualquer diplomas e medalhas pelo único elogio que elajulgamento, o filho único de mãe perfeccio- nunca pronunciará.nista jamais conhecerá a metamorfose que otornaria humano. E se um dia, ele, desesperado, pular no pescoço da mãe, apertando, estrangulando, sa- É execrado pelos colegas desde o berçário cudindo, confirmará ser um filho ingrato quepor sua precocidade genial e seu vocabulário não reconhece o quanto ela faz por ele.corretíssimo. E eu sinto todos os dias estes impulsos Este menino ou menina aos quatro anos de agressivos.idade faz um rabisco à la Picasso usando corescomo Matisse, em vão. Sua mãe torce o nariz: Fico atento, vigilante, como aconselha a‘para sua idade, até que está bom...’ Bíblia, surpreendendo minuto a minuto os pensamentos furiosos do meu demônio inte- Aos sete, ele ou ela desenha usando pers- rior, intentando contra a vida da minha mãe.pectiva, planos de fundo e sombreado que Sonho que estou com a faca nas mãos, tintaobedece rigorosamente a posição da luz. Nem do sangue dela, e imagino inúmeras maneirasos pintores italianos anteriores a Da Vinci de assassiná-la. Acordo suando frio, sabendocoloriam tão bem, porém a mãe boceja com que, um dia, perderei a batalha, e o demônioenfado: ‘razoável’. guiará minha mão, que se tornará a mão de Em vão esta criança se aplica aos estudos. um criminoso. Sonia Regina Rocha Rodrigues nasceu em 1955 no Brasil, em Santos, cidade histórica, espremida entre o mar e a serra, declima instável, onde todas as estações do ano podem ocorrer no mesmo dia, e ocorrem. A partirde 1993 começou a divulgar seus textos, em vários periódicos nacionais e informativos de gru-pos literários. Participou do grupo editorial Um Dedo de Prosa e é autora dos livros: os romancesRosa, A fantástica experiência de Carolina Helena, Viagem ao Canadá, Dias de Outono, Encontrocom a Deusa; Uma casa no interior – infantil; Dias de Verão – contos e crônicas. Na internet, foi considerada uma das melhores prosadoras do site Blocos Online em 2004. página pessoal - http://alegriadeler.blogspot.com http://samizdat.oficinaeditora.com 43
    • ContosMarta e o gosto do tempo Fernanda Cristina de Paula Noite. O estacionamento muito escuro. *** http://www.flickr.com/photos/houseofmiao/6697695293/Parou o carro e olhou-se pelo retrovisor. Estavam em pessoas nove no bar. ElaEla esqueceu de pentear o cabelo. Mas não sorriu da piada que o Alexandre contou,fazia tanta diferença. O cabelo liso e pesado, mas virou delicadamente o rosto. Ao menosbagunçado desse jeito, ia parecer só char- sorria.me – ponderou. E olhando os próprios olhosorientais (irritados e sem maquiagem) mur- Por todo o tempo, escorregava casual-murou: charme de merda. mente os dedos pelo copo. E sorria, sempre suave. Seria justo tirar da boca aquele batomroxo (seu preferido), que passara às pressas. Estavam em nove pessoas, não consegui-Mas desistiu da ideia. ram mesa. Estavam amontoados ali, junto ao balcão. Ela, sentada na banqueta (sempre Subitamente, se apressou: jogou os óculos sorrindo, simpática e delicada) tinha umae as chaves de casa de qualquer jeito dentro visão privilegiada de Marta, no meio da rodada bolsa e saiu com rapidez do carro. Char- de amigos.me de merda. Marta insegura, tapada e mal resolvida. Entrou no bar.44 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Marta que se pensava mulher interessante, a gravidez da Luana. Sorri suavemente nassó porque se fazia sexualmente liberal. A partes bonitas ou engraçadas da história:bartender era a Leila. Leila, A Estranha (co- sempre simpática em sua perfeita delicadezachichou maldosamente pra Roberta). Nor- oriental. O cabelo bagunçado e os olhos des-malmente, tinha dó de Marta. Mas, nesse dia, cuidadamente (mas eternamente) pousadossentada junto ao balcão, afundada na meia no próprio copo. Se ficasse bêbada, pensaescuridão, Marta parecia lhe reluzir (esfu- consigo mesma, seria um desastre. Seusziante em sua vulgaridade de mulher mo- dedos descem e sobem pelo copo: lentos dederna). Marta ao rir e conversar com todos reflexão.e alisar constantemente o cabelo (charme de Nunca fora amiga da Marta. Às vezes, pas-merda) reluzia de idiotice e falta de noção. sava horas escutando as lamúrias dela, via-a Passou com urgência a mão no próprio apenas uma ou três vezes a cada dois meses.cabelo bagunçado; ainda desejosa de arran- Alardeava a dó que tinha da Marta (a vacacar o batom. Sorria suave pra esconder seus insegura) para quem quisesse ouvir.bufos de impaciência. E desviava o rosto. Pega o guardanapo e, discretamente, tiraLeila, sobrinha da prima de segundo grau do o batom da boca. Fora besteira ir ali. Nãotio da cunhada do Edvaldo. Magrela e feia de suporta o próprio batom. Não tem força pradoer: Leila, sempre sorrindo, atenciosa. um sorriso genuíno. E Marta, inocente, reluz Queria tirar o batom. Escorregando os feito seu novo objeto de ódio na meia escu-dedos lentamente pelo copo, ponderou que ridão.se ficasse bêbada acabaria dando pro sujo Adriano começa uma piada de japonês,do Alexandre. E se ficasse bêbada acabaria percebe a gafe e faz um cumprimento orien-(totalmente absurda e etílica e cambaleante) tal para ela, à guisa de desculpa. Todos riem;levando Marta para algum canto. ela ri, faz sinal de que tudo bem, que ele Se ficasse bêbada, tinha certeza, acabaria podia continuar a piada. Sandra para a his-com a fala engrolada, tentando explicar cal- tória da gravidez da Luana pra ouvir a piadamamente à Marta: Que Porra Marta para de de Adriano. Ela sorri enquanto desvia sua-oferecer essa bunda pra todo mundo. Para, vemente o rosto. A Marta ri pra uns caras,Marta! Você ‘tá fazendo a droga toda erra- ri, se jogando, se oferecendo. E observandoda. Não vê, Marta? Não vê? Caralho, Marta, Marta, ela fica brava ao ter a certeza de quevocê não vê? Nenhum deles (os que te come- acabará bêbada, gritando com Marta, dandoram ou não) te respeitam. Eles nem fingem, pro Alexandre. Os olhos ardem com a forçaMarta, nem fingem que te dão a porra d’uma de segurar um choro ridículo. Ela bebe umatenção. Para de oferecer essa bunda feia pra gole e sorri para ninguém.todo mundo! Mas que caralho, Marta! Não Leila, A Feia, prepara alguma bebida estra-vê? (a voz engrolada, os olhos dançando de nha. Leila percebe o olhar dela e oferece abêbada). Você, pra eles, não é uma liberal, é bebida dizendo:só uma vagabunda fácil e suja com diplomade economista. Marta, eles são uns machistas — Essa é grátis.tapados e sujos. Marta? (com voz de bêbada Ela sorri, pega o copo.triste diria) Marta? Vai tomar no cu, Marta! — É feito do quê?Não vê?! Não vê?! (chacoalhando Marta pelobraço; Marta chorando; ela mesma choran- — Prova primeiro.do, bêbada, derrubando a vodka do copo na Mentalmente, ela xinga Leila e ri (nãoroupa; Alexandre mandando-a soltar Mar- queria a porra da droga de bebida nenhuma).ta; Alexandre querendo levá-la embora pra Toma a tal da bebida. Engasga, tosse, cospe.comê-la, ela também como Marta: vagabun- Põe raiva na voz ao reclamar:da, fácil e suja). — É amargo. Ela sorri da terceira piada que Luciano Leila sempre-feia-simpática responde cal-conta. Pondera internamente que não deve mamente:ficar bêbada. Ao mesmo tempo, escuta (per-feitamente atenciosa) Sandra contar sobre — Feito teu tempo. http://samizdat.oficinaeditora.com 45
    • Tradução http://www.flickr.com/photos/biggreymare/5513025399/ Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho A Galinha Degolada46 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Todo o dia, sentados no pátio em um não conhecia mais seus pais. O médico obanco, estavam os quatro filhos idiotas do examinou com esta atenção profissionalcasal Mazzini-Ferraz. Tinham a língua en- que está visivelmente buscando as causastre os lábios, os olhos estúpidos e viravam do mal nas enfermidades dos pais.a cabeça com a boca aberta. Depois de alguns dias, os membros O pátio era de terra, fechado a oeste por paralisados recobraram o movimento; masum muro de tijolos. O banco ficava parale- a inteligência, a alma, até o instinto, selo a ele, a cinco metros, e ali eles se man- haviam ido de todo; havia ficado profunda-tinham imóveis, fixos os olhos nos tijolos. mente idiota, baboso, suspenso, morto paraComo o sol se ocultava atrás do muro, ao sempre sobre os joelhos de sua mãe.declinar os idiotas faziam festa. A luz que — Filho, meu filho querido! — soluçavacegava chamava a atenção deles, a princí- esta sobre aquela espantosa ruína de seupio, pouco a pouco seus olhos se anima- primogênito.vam; riam-se, por fim, estrepitosamente,congestionados pela mesma hilariância O pai, desolado, acompanhou o médicoansiosa, olhando o sol com alegria bestial, até afora.como se fosse comida.   — A você se pode dizê-lo: creio ser um Outras vezes, alinhados no banco, zum- caso perdido. Poderá melhorar, educar-sebiam por horas inteiras, imitando o bonde em tudo que lhe permita seu idiotismo,elétrico. Os ruídos fortes sacudiam assim mas nada mais além.a inércia deles, e então corriam, morden- — Sim! Sim! — assentia Mazzini — Mas,do a língua e mugindo ao redor do pátio. diga-me: o senhor acredita que é herdado,Mas quase sempre ficavam apagados numa que...?sombria letargia de idiotismo, e passavam — Quanto a herança paterna, já lhetodo o dia sentados em seu banco, com as disse o que acredito quando vi seu filho. Apernas suspensas e quietas, empapando de respeito da mãe, há ali um pulmão que nãoglutinosa saliva a calça. sopra bem. Não vejo nada mais, mas há um O maior tinha doze anos e o menor, oito. sopro um pouco áspero. Faça-a examinarEm todo o aspecto sujo e desvalido deles, detidamente.notava-se a falta absoluta de um pouco de Com a alma destroçada pelo remorso,cuidado maternal. Mazzini redobrou o amor por seu filho, o No entanto, estes quatro idiotas haviam pequeno idiota que pagava os excessos dosido um dia o encanto de seus pais. Aos avô. Teve ainda que consolar, apoiar semtrês meses de casados, Mazzini e Berta trégua Berta, ferida profundamente pororientaram seu estreito amor de marido e aquele fracasso de sua jovem maternidade.mulher, e mulher e marido, para um por- Como é natural, o casal pôs todo seuvir muito mais vital: um filho. Que maior amor na esperança de outro filho. Nasceubenção para dois enamorados do que esta este, e sua saúde e limpidez de riso reacen-honrada consagração de seu carinho, li- deram o porvir extinto. Mas aos dezoitobertado agora do vil egoísmo de um amor meses, as convulsões do primogênito se re-mútuo sem finalidade alguma e, o que é petiram, e no dia seguinte, o segundo filhopior do que o amor mesmo, sem esperan- amanhecia idiota.ças possíveis de renovação? Desta vez, os pais caíram em profundo Assim o sentiram Mazzini e Berta, e desespero. Portanto seu sangue, seu amorquando o filho chegou, aos quatorze meses estavam malditos! Seu amor, sobretudo!de matrimônio, acreditaram cumprida a Vinte e oito anos ele, vinte e dois ela, efelicidade. A criatura cresceu bela e radian- toda sua apaixonada ternura não conseguiate, até que completou um ano e meio. Mas, criar um átomo de vida normal. Já nãono vigésimo mês, sacudiram-no uma noite pediam mais beleza e inteligência comoconvulsões terríveis, e na manhã seguinte http://samizdat.oficinaeditora.com 47
    • para o primogênito, mas um filho, um filho Berta continuou lendo como se não hou-como todos! vesse ouvido. Do novo desastre brotaram novas labare- — É a primeira vez — retrucou depoisdas do dolorido amor, uma louca ânsia de de um tempo — que vejo você inquietar-seredimir de uma vez para sempre a santida- pelo estado de seus filhos.de de sua ternura. Sobrevieram gêmeos, e Mazzini voltou um pouco o rosto paraponto por ponto repetiu-se o processo dos ela com um sorriso forçado:dois maiores. — De nossos filhos, parece-me? Mas, por sobre sua imensa amargurahavia em Mazzini e Berta uma grande — Bem, de nossos filhos. Prefere assim?compaixão por seus quatro filhos. Tiveram — ergueu ela os olhos.de arrancar do limbo da mais profunda Desta vez, Mazzini se expressou clara-animalidade, não mais suas almas, senão o mente:instinto mesmo, abolido. Não sabiam deglu- — Creio que não vai dizer que eu tenhatir, mudar de lugar, nem mesmo sentar- a culpa, não é?se. Aprenderam enfim a caminhar, maschocavam-se contra tudo, por não se darem — Ah, não! — sorriu Berta, muito páli-conta dos obstáculos. Quando os lavavam, da — mas eu também não, suponho! Nãomugiam até injetarem de sangue o rosto. faltava mais! — murmurou.Animavam-se apenas ao comer, ou quando — O que não faltava mais?viam cores brilhantes ou ouviam estrondos. — Que se alguém tem a culpa, não souRiam-se, então, pondo para fora a língua eu, entenda-o bem! É o que eu queria lhee rios de baba, radiantes de frenesi bestial. dizer.Tinham, em troca, certa faculdade imitati-va; mas não se podia obter nada mais. Seu marido a olhou por um momento, com brutal desejo de insultá-la. Com os gêmeos pareceu haverem con-cluído a aterradora descendência. Mas pas- — Deixe estar! — articulou, secando en-sados três anos desejaram de novo arden- fim as mãos.temente outro filho, confiando que o longo — Como quiser; mas se quer dizer....tempo transcorrido houvesse aplacado a — Berta!fatalidade. — Como quiser! Não satisfaziam suas esperanças. E nesteardente anseio que se exasperava em razão Este foi o primeiro choque e se sucede-de sua infrutuosidade, azedaram. Até este ram outros. Mas nas inevitáveis reconcilia-momento cada qual havia tomado sobre ções, suas almas se uniam com redobradosi a parte que lhe correspondia na des- arrebatamento e loucura por outro filho.graça de seus filhos; mas a desesperança Nasceu assim uma menina. Viveram doisde redenção perante as quatro bestas que anos com a angústia à flor da pele, espe-haviam nascido deles pôs para fora esta rando sempre outro desastre. Nada ocorreu,imperiosa necessidade de culpar os outros, no entanto, e os pais puseram nela toda suaque é patrimônio específico dos corações complacência, que a pequena os levava aosinferiores. mais extremos limites do mimo e da má Iniciaram com a mudança de pronome: criação.seus filhos. E como além do insulto havia a Se nos últimos tempos Berta aindainsídia, a atmosfera se carregava. cuidava de seus filhos, ao nascer Bertita se — Parece-me — disse-lhe uma noite esqueceu quase de todo dos outros. Só aMazzini, que acabava de entrar e lavava as recordação deles a horrorizava, como algomãos — que podia manter mais limpos os atroz que a houvessem obrigado a cometer.meninos. Com Mazzini, se bem que em menor grau,48 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • passava o mesmo. Nem por isto a paz havia — Enfim! — murmurou apertando oschegado a suas almas. A menor indisposi- dentes — Enfim, víbora, disse o que queria!ção de sua filha os tirava agora de si, com — Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais sau-o terror de perdê-la, os rancores de sua dáveis, ouça, saudáveis! Meu pai não mor-descendência podre. Haviam acumulado fel reu de delírio! Eu teria tido filhos como osde sobra para que, ao menor contato, o ve- de todo o mundo! Estes são filhos seus, seusneno se vertesse para fora do copo. Desde os quatro!o primeiro desgosto envenenado haviam-seperdido o respeito; e se há algo a que o ho- Mazzini explodiu, por sua vez.mem se sente arrastado com cruel fruição — Víbora tísica! Foi isto o que eu lheé, quando já se começou, a humilhar de disse, o que quero lhe dizer! Pergunte, per-todo uma outra pessoa. Antes, continham- gunte ao médico quem tem a maior culpase pela mútua falta de êxito; agora que este da meningite de seus filhos: meu pai ou ohavia chegado, cada qual, atribuindo-o a si seu pulmão furado, víbora!mesmo, sentia maior a infâmia dos outros Continuaram cada vez com maior vio-quatro engendros que o outro lhe havia lência, até que um gemido de Bertita selouforçado a criar. instantaneamente suas bocas. À uma da Com estes sentimentos, não houve mais manhã a ligeira indigestão havia desapare-aos quatro filhos mais velhos afeto possí- cido, e como ocorre fatalmente com todosvel. A empregada os vestia, dava-lhes de os casais jovens que se hão amado inten-comer, punha-os para dormir, com visível samente uma vez sequer, a reconciliaçãobrutalidade. Quase nunca os lavava. Passa- chegou, tanto mais efusiva quanto infamesvam todo o dia sentados diante do muro, foram os agravos.abandonados de toda remota carícia. Deste Amanheceu um esplêndido dia, e en-modo, Bertita cumpriu quatro anos, e nesta quanto Berta se levantava cuspiu sangue.noite, resultado das guloseimas que aos pais As emoções e a má noite passada tinham,era impossível lhe negar, a criatura teve sem dúvida, grande culpa. Mazzini a retevealguns calafrios e febre. E o temor de vê-la abraçada por um longo tempo, e ela choroumorrer ou ficar idiota, tornou a reabrir a desesperadamente, mas sem que ninguémeterna chaga. se atrevesse a dizer uma palavra. Fazia três horas que não falavam, e o Às dez decidiram sair, depois de almo-motivo foi, como quase sempre, os fortes çar. Como ainda tinham tempo, ordenarampassos de Mazzini. a empregada que matasse uma galinha. — Meu Deus! Não pode caminhar mais O dia radiante havia arrancado os idio-devagar? Quantas vezes...? tas de seu banco. De modo que, enquanto a — Bom, é que me esqueço; acabou! Não empregada degolava na cozinha o animal,o faço de propósito. sangrando-o com parcimônia (Berta havia Ela sorriu, desdenhosa: — Não, não creio aprendido com sua mãe este bom modotanto em você! de conservar a frescura da carne), acredi- tou ouvir algo como respiração atrás dela. — Nem eu jamais havia acreditado tanto Voltou-se e viu os quatro idiotas, com osem você... tísica! ombros colados uns nos outros, olhando — Quê! Que disse? estupefatos a operação... Vermelho... Verme- — Nada! lho... — Sim, eu ouvi algo! Olhe: não sei o que — Senhora! Os meninos estão aqui, navocê disse; mas lhe juro que prefiro qual- cozinha.quer coisa a ter um pai como o que você Berta chegou; não queria que jamaisteve! pisassem ali. E nem mesmo nestas horas Mazzini ficou pálido. de pleno perdão, esquecimento e felicidade http://samizdat.oficinaeditora.com 49
    • reconquistada, podia evitar esta horrível — Soltem-me! Deixem-me! — gritou sacu-visão! Porque, naturalmente, quanto mais dindo a perna. Mas foi puxada.intensos eram os arroubos de amor a seu — Mamãe! Ai, mamãe! Mamãe, papai!marido e filha, mas irritado era seu humor — chorou imperiosamente. Tentou aindacom os monstros. segurar-se à borda, mas foi arrancada e — Que saiam, Maria! Tire-os! Tire-os, eu caiu.lhe digo! — Mamãe, ai! Ma... — não pôde gritar As quatro pobres bestas, sacudidas, mais. Um deles lhe apertou o pescoço,brutalmente empurradas, foram dar a seu apartando os cabelo como se fossem plu-banco. mas, e os outros a arrastaram por uma só Depois de almoçar, saíram todos. A perna até a cozinha, onde essa manhã seempregada foi a Buenos Aires e o casal a havia sangrado a galinha, bem presa, arran-passear pelas quintas. Ao baixar o sol volta- cando-lhe a vida segundo por segundo.ram; mas Berta quis saudar por um mo- Mazzini, na casa em frente, pensou ouvirmento as suas vizinhas da frente. Sua filha a voz de sua filha.escapou-se em seguida para casa. — Me parece que a chama — ele disse a Entretanto, os idiotas não haviam se Berta.movido durante todo o dia de seu banco. Prestaram atenção, inquietos, mas nãoO sol havia transposto já o muro, começa- ouviram mais. Contudo, um momentova a baixar, e eles continuavam olhando os depois se despediram, e enquanto Berta iatijolos, mais inertes do que nunca. tirar seu chapéu, Mazzini avançou para o De súbito, algo se interpôs entre seus pátio.olhares e o muro. Sua irmã, cansada de — Bertita!cinco horas paternais, queria observar porsua conta. Parada ao pé do muro, mirava Ninguém respondeu.pensativa o topo. Queria trepar, disto não — Bertita! — ergueu mais a voz, já altera-havia dúvida. Por fim, decidiu-se por uma da.cadeira sem fundo, mas ainda não alcança- E o silêncio foi tão fúnebre para seu co-va. Recorreu então a um galão de querose- ração sempre amedrontado, que subiu umne, e seu instinto topográfico fez-lhe colo- calafrio pela espinha por causa do horrívelcá-lo verticalmente, com o qual triunfou. pressentimento. Os quatro idiotas, o olhar indiferente, — Minha filha, minha filha! — correu jáviram como sua irmã conseguia pacien- desesperado para o fundo. Mas ao passartemente dominar o equilíbrio, e como em frente à cozinha viu no chão um mar depontas de pé apoiava a garganta sobre o sangue. Empurrou violentamente a portatopo do muro, entre suas mãos tensas. encostada e lançou um grito de horror.Viram-na olhar para todos os lados, e bus-car apoio com o pé para subir mais. Berta, que já se havia lançado correndo por sua vez ao ouvir o angustiado chamado Mas o olhar dos idiotas havia se anima- do pai, escutou o grito e respondeu comdo; uma mesma luz insistente estava fixa outro. Mas ao precipitar-se para a cozinha,em suas pupilas. Não apartavam os olhos Mazzini, lívido como a morte, se interpôs,de sua irmã enquanto crescente sensação contendo-a:de gula bestial ia mudando cada linha deseus rostos. Lentamente avançaram até o — Não entre! Não entre!muro. A pequena, que tendo conseguido Berta chegou a ver o piso inundado deapoiar o pé, ia já montar e cair para o ou- sangue. Apenas pôde levar os braços sobretro lado, seguramente, sentiu-se pega pela a cabeça e cair sobre ele com um roucoperna. Debaixo dela, os oito olhos cravados suspiro.nos seus lhe deram medo.50 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Tradução Decálogo do perfeito contista Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho I Creia em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov — comoem Deus mesmo.   II Creia que sua arte é um cume inacessível. Não sonhe em domá-la.Quando puder fazê-lo, você o conseguirá sem mesmo sabê-lo.   III Resista o quanto puder à imitação, mas imite se o influxo for ­orte fdemais. Mais do que qualquer outra coisa, o desenvolvimento dap­ ersonalidade é uma grande paciência. http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/   IV Tenha fé cega não em sua capacidade para o triunfo, senão no­ rdor com que o deseja. Ame a sua arte como à sua namorada,ad­ ando-lhe todo seu coração.   V Não comece a escrever sem saber desde a primeira palavra aondevai. Em um conto bem realizado, as três primeiras linhas têm quase aimportância das três últimas.   http://samizdat.oficinaeditora.com 51
    • VI Se quer expressar com exatidão esta circunstância: “Do rio sopra-va o vento frio”, não há em língua humana mais palavras do que asapontadas para expressá-la. Uma vez dono de suas palavras, não sepreocupe em observar se são consoantes ou assonantes entre si.   VII Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão quantas notas de coradicionar a um substantivo débil. Se achar aquele que é necessário,apenas ele terá uma cor incomparável. Mas tem de achá-lo.   VIII Tome seus personagens pela mão e conduza-os firmemente até ofinal, sem ver outra coisa além do caminho que lhes traçou. Não sedistraia vendo o que eles podem ou não lhes importa ver. Não abusedo leitor. Um conto é um romance depurado de cascalho. Tenha istocomo uma verdade absoluta, mesmo que não seja.   IX http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/ Não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e evoque-a depois. Se for capaz então de revivê-la tal qual foi, terá chegado àmetade do caminho na arte.   X Não pense em seus amigos ao escrever, nem na impressão quecausará sua história. Conte como se seu relato não tivesse mais im-portância do que para o pequeno ambiente de seus personagens, dosquais você poderia ter sido um. De nenhum outro modo se obtém avida do conto.52 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Horacio Quiroga Horacio SilvestreQ­ uiroga Forteza (Salto, 31de dezembro de 1879 —Buenos Aires, 31 de dezem-bro de 1937) foi um escritoruruguaio famoso por seuscontos, que geralmentetratavam de eventos fantás-ticos e macabros na linha deEdgar Allan Poe e de temasrelacionados à selva, sobre-tudo da região de Misiones,na Argentina, onde Quirogapassou parte da vida. Sua obra mais famosasão os Cuentos de amor delocura y de muerte (1917;título sem vírgula no origi-nal), na qual se encontrao célebre conto A GalinhaDegolada. Em 1937, após ter sidodiagnosticado com câncer,Quiroga cometeu suicídio,ingerindo uma dose letal decianureto. http://samizdat.oficinaeditora.com 53
    • Teoria LiteráriaO que ninguém lhe diránuma oficina literária – parte 1 A Criação Henry Alfred Bugalho http://uploads1.wikipaintings.org/images/gustave-moreau/hesiod-and-the-muses-1860.jpg54 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • A escrita não tem nada a ver com qual você tanto tem orgulho não será lidotalento e inspiração. Uma carreira por ninguém. Então, você, muito teimoso,literária se faz de labor e persistência. continuará escrevendo, pois é o seu traba- lho e o que lhe dá felicidade. É célebre a frase de Albert Einstein quediz que “O trabalho é 1% inspiração e99% transpiração”, e não poderia ser mais Escrever bem é facil. Criar uma boaverdadeira. história é fácil. O difícil é escrever bem A inspiração é a origem da trama, de uma boa história.quem são os personagens, o tema de um Não existe segredo algum para escrever.poema ou a ideia para uma crônica. Todo Existem normas ortográficas e gramaticais,o resto, a materialidade da escrita, é puro basta um pouco de estudo para dominá-lastrabalho. quase completamente. É trabalho a leitura de outros escrito- Já as histórias estão por aí, ao nossores. É trabalho o aprendizado da escrita. redor, ocorrendo no mundo inteiro o tem-É trabalho sentar-se diante da página em po todo. Leia os jornais e a quantidade debranco e enchê-la de palavras na esperan- desgraças e histórias interessantes a cadaça que alguém, em algum lugar do mundo dia. Veja os grandes livros da História eem algum tempo, detenha-se para lê-las. perceba quantas histórias boas já foram Após o vislumbre inicial, a grande ideia, escritas. Relembre sua própria vida, o quenada mais resta senão o intenso trabalho você viveu e ouviu, e perceberá que muitode escrita, reescrita, revisão, reescrita, edi- já aconteceu.ção, revisão, reescrita... É um labor intermi- O problema começa quando se tem denável, que tomará meses ou anos, às vezes juntar uma boa história com uma boapara uma única obra. escrita. Uma narrativa eficiente é um equi- É neste ponto que entra a persistência, líbrio entre o que é contado e como isto épois os resultados da escrita são lentos e contado. Idealmente, o estilo e as palavrasgeralmente insatisfatórios. não deveriam ofuscar o que está aconte- Levará anos para se obter alguma espé- cendo na história.cie de reconhecimento, e muitos mais anos Uma escrita muito rebuscada pode dis-para ganhar alguns trocados com o que se trair o leitor. Uma escrita muito simplóriaescreve. O tempo e esforço investido serão pode afastar o leitor.muito maiores do que qualquer retorno Uma história desinteressante é do tipopossível. As horas gastas trabalhando sobre que dá sono. Uma história abarrotada deo texto se depararão com críticas ácidas e, reviravoltas pode soar inverossímil.na maioria das situações, com indiferença. Onde está o equilíbrio entre estilo e Muitas vezes, aquele texto brilhante do enredo?página oposta: Hesíodo e as Musas, de Gustave Isto é o que todos os escritores doM­ oreau. O mito clássico da inspiração artística. http://samizdat.oficinaeditora.com 55
    • m­ undo estão tentando descobrir. Gêneros literários podem estar presentes nos mais diversos meios de comunicação. No entanto, os meios de comunicaçãoSer escritor é tentar convencer os também possuem linguagens específicas.demais que suas obras são originais e Ser um bom jornalista não significa que ocriativas, mesmo que não sejam. sujeito será um bom romancista, do mes- mo modo que ser um blogueiro de sucesso Pense numa história... Imagine um per- não o tornará um bom contista ou poeta.sonagem... Conceba uma ambientação... Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Agora, tenha certeza que alguém, em al- E o mesmo vale no interior dos própriosgum lugar do planeta, em algum momento gêneros literários. Ser um contista não oda história da humanidade, já escreveu esta tornará um bom romancista, são estruturasmesma história, com este mesmo perso- literárias diferentes com exigências dis-nagem nesta mesma ambientação. E pior! tintas. Entre prosa e poesia há um imensoProvavelmente melhor do que você. abismo, que a maioria dos escritores não Desanimador, não? consegue transpor com competência. Primeiro, porque o repertório de histó- Isto não quer dizer que você não deva serias e enredo é limitado. Segundo, porque arriscar, mas esteja preparado. Ser bom emtodo o mundo pensa que existe um escri- um gênero, ou em uma mídia, não quer di-tor dentro de si. Por fim, somos humanos, e zer que você terá competência nos demais.as histórias que contamos, via de regra, seespelham no mundo em que vivemos, queé o mesmo de outros bilhões de pessoas. Você aprenderá muito mais com as críticas do que com os elogios. Então, a sua tarefa de escritor, além deescrever sua obra da melhor maneira pos- Todo jovem escritor precisa de elogiossível, é também de convencer os demais de como uma flor necessita de sol e água. Noque ninguém mais poderia tê-la escrito. E começo, qualquer estímulo, por mais par-isto não é fácil! cial e vago que seja, já é um enorme incen- tivo para escrevermos as próximas linhas. No entanto, elogios não tornarão sua es-Romance é romance, conto é conto, crita melhor. Elogios lhe darão a ilusão quepoesia é poesia, blog é blog. Se você tudo está ótimo e que não há mais necessi-é bom escrevendo um, não quer dade de se aperfeiçoar.dizer que você também será bomescrevendo os outros. A escrita é uma estrada sem fim, você nunca terá descanso e nunca chegará ao Romance, conto e poesia são gêneros destino. E você só saberá se pegou a rotaliterários. Jornais, livros, revistas, TV rádio , errada quando alguém lhe enfiar o dedoe blogs são meios de comunicação. na cara e for sincero com você.56 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Algumas críticas serão puramente des- milhares de personagens, com páginas emtrutivas, geralmente de pessoas que têm branco, sem enredo, e assim por diante.inveja de você. Todavia, haverá aquelas crí- Escreva, se você gosta disto, se lhe dáticas tão pertinentes, que poderão transfor- prazer! É o tipo de livros que você lê, oumar sua carreira. Algumas críticas atingem só está fazendo isto para impressionar ostanto o nervo que, todas as vezes que você outros, mostrar como você é brilhante ousentar-se para escrever, elas estarão na sua genial?mente, protegendo-o de certos equívocos, Se for para escrever uma obra quede clichês ou de atalhos equivocados. ninguém lerá, que seja, pelo menos, pelos Ter um bom crítico por perto é a me- motivos certos...lhor companhia de um escritor. Mas lembre-se que os leitores são pes- soas normais, que assistem novela das oito,Escolha entre ser lido ou ser admirado. gostam dos filmes de Spielberg, ouvem for-Obras de vanguarda, densas, ró universitário e quase nunca vão a mu-inovadoras e rebuscadas até podem seus. Aliás, muitos dos leitores nem gostamchegar a ser admiradas, mas quase muito de ler...ninguém as lerá. O que os leitores A maioria deles deseja apenas umagostam é de histórias com começo, história com começo, meio e fim, commeio e fim, personagens planos, nada personagens simples e com motivaçõesmais que um entretenimento para ler claras. “De que adianta ler um livro se euno avião ou na privada. não posso contar a história para alguém depois?”, muitos devem pensar. Todos nós já quisemos revolucionar Quanto mais complexa e alternativa fora Literatura, ser considerados gênios ou sua escrita, menor será o seu público.trazer a paz ao mundo através de nossos li-vros. Você pode tentar, mas é quase certe- Você terá de escolher: quer ser lido ouza que isto não ocorrerá. admirado? E todos nós temos um modernista den- São raríssimos os casos de escritores li-tro da gente – aquele escritor que não está dos por públicos imensos e admirados pelanem aí para os leitores, que deseja escrever crítica. Ou você vende muito, ou é lido nasromances sem parágrafos, sem pontuação, universidades. Nem sempre se pode tercom páginas de cabeça para baixo, narrati- tudo na vida.vas não lineares, sem personagens, ou com Henry Alfred Bugalho Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera-tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outrosquatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun-dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires,com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. http://samizdat.oficinaeditora.com 57
    • Teoria Literária CASTILLO E MODERN: DOIS POETAS ARGENTINOS Elias Antunes Quando se pensa na literatura argentina, dissolvelogo vêm a nossa mente os nomes de Jorge Luis o mundoBorges e de Ernesto Sábato, escritores de umaimportância monumental para a Literatura, en- em purotretanto esquecemos que existem outros escri- pranto.tores e poetas excelentes nas letras argentinas. Prova disso está nas figuras de Horacio Rodolfo Modern tornou-se ao longo do tem-Castillo e Rodolfo Modern, ambos eminentes po um poeta refinado, lembrando os clássicos,poetas e tradutores renomados, com diversos utilizando uma linguagem concisa, como umlivros publicados, mas, infelizmente, pouco bloco, ou monólito que em cada poema traz aconhecidos fora do rincão argentino, ao menos marca da emoção e da inteligência.no Brasil. Seus poemas são curtos, porém de grande Rodolfo Modern consiste em ser um poeta densidade poética e não é por acaso que con-conciso, adepto do poema sintético, que conse- seguiu levantar importantes prêmios nesse paísgue expressar uma gama enorme de sentidos excepcional que é a Argentina.em poucos versos, como no poema em que Nascido em 1922, em Buenos Aires, doutorpresta homenagem a Paul Celan, poeta judeu http://minisdelcuento.files.wordpress.com/2011/10/rodolfomodern.jpg?w=549de expressão alemã: RESPOSTA A PAUL CELAN Para quê palavras quando a pele está aberta ao coração o agita um vento des- acorrentado e o peso da voz58 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • em Direito e Ciências Sociais e em Filosofia Nuca deserta, láudano trágico, até a facae Letras; foi professor de Literatura Alemã na Descamado, desossado, e o olho – vesgo –Universidade Nacional de La Plata e Buenos Ai-res; tradutor de vários autores de língua alemã, Extraviado na mais completa lassidão.como: Hermann Hesse, Rilke, Paul Celan, entre A alma, a alma, diz vomitando as vísceras.outros. Seu campo de atuação é vasto como sua A alma, respondeu pisando a roda de seucultura e carrega a força da tradição, sem se vestidodescuidar da modernidade. De noiva e correndo até o sumidouro Horacio Castillo, por sua vez, também con- Meca de gatos exercendo também seusquistou prêmios importantes. Tradutor de po- direitos.etas gregos, como Odysseus Elytis, nasceu em1934, em Ensenada, província de Buenos Aires.Advogado emérito, concebe uma poesia viva e TERCEIRO GALOvibrante, cheia da força da língua espanhola. Graça abundante, atoleiro do orvalho,Alguns de seus poemas são construídos à basede questionamentos e tendem a apresentar o Martírio na corredeira do jamais,olhar do poeta que capta o mundo de uma Todos ao funeral, todos ao funeral,forma diferente, mais humana, mais consciente Às cegas frente à espreita do aguilhão.das leis da natureza, do que há de feérico emisterioso no universo. Há também uma apro- Olá, chamariz do penacho rosa,ximação da religiosidade, como no poema: Nó cerrando-se com o peso do iminente. E você, diamante ébrio, mito e natureza do DUELO À HORA EM QUE CANTA O pedernal.GALO PRIMEIRO GALO Ambos os poetas argentinos convocam-nos a O desejo fez sua obra, mas excedendo-se entrar em contato com poesias de alta qualida- de, abrindo-nos um universo de possibilidades. Promoveu a guerra santa da negação. Esse contato leva-nos a alargar nossas frontei- Estopa na boca, a alma sobre pregos, ras culturais e fugir dos padrões impostos por Tudo perdido antes da estrela matutina. uma dominação mercantilista, a mais das vezes de gosto duvidoso. E a matéria, um bem menor, híbrido, Precipitando-se na região das mães mudas. SEGUNDO GALO A aurora vem e venderão seus olhos, a em-purrões Tropeçando até as largas mesas de pescados, Elias Antunes Professor, escritor e servidor público. Autor de mais de uma dezena de livros. Ga-nhador de mais de 140 prêmios literários. Seu romance “Suposta biografia do poetada morte” ganhou os prêmios Hugo de Carvalho Ramos (2008), Prêmio Jabuti de 2011(finalista) e Prêmio Il Convívio, na Itália, 2011 (1º lugar). Contato: jeliasantunes@bol.com.br http://samizdat.oficinaeditora.com 59
    • Teoria Literária O GRANDE SERTÃO DE RIOBALDO Alessa Bertazzo http://www.revistacriterio.com.ar/bloginst/wp-content/uploads/2011/08/kovadloff-guimaraes20rosa204.jpg Alessa Bertazzo Formada em Letras e pós-graduada em Teoria Literária pela Uniandrade – PR, atua como professora particular e, poeta nas horas vagas, participando de diversos concursos literários pelo Brasil. Tem participações em algumas antolo- gias, frutos destes concursos, alguns e-books publicados na Internet, além do blog de Poesias: http://transversu.blogspost.com e página no Recanto das Letras (http:// www.recantodasletras.com.br/autores/alebertazzo).60 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Discorrer sobre Guimarães Rosa ou r ­ elato um tanto quanto “desorganizado”,Grande Sertão: Veredas, ou ainda sobre s ­ egundo ele.qualquer outra de suas obras é simples- Mas, uma vez vencida a barreira damente “chover no molhado”. Praticamen- linguagem, o sertão se revela um lugarte tudo o que se podia dizer a respeito onde, para Riobaldo, “tudo é e não é”,da genialidade do autor já foi dito pela onde “viver é muito perigoso”.grande maioria dos críticos literários Aliás, já nas primeiras páginas, Rio-brasileiros e até mesmo internacionais. baldo previne o leitor de que “o sertão é Entretanto, as várias leituras que suas onde manda quem é forte, com as astú-obras permitem parece não se esgota- cias” e que “Deus mesmo, quando vier,rem nunca. A cada releitura, descobre-se que venha armado! E bala é um pedaci-uma nova faceta escondida dentro de nhozinho de metal”... Por aí se comprovasuas obras.Grande Sertão, talvez seja a sua tese sobre o perigo que é o viver.obra que melhor traduza essa constata- E que o diabo está “na rua no meio doção. Ainda hoje vários pesquisadores e redemunho”.acadêmicos em trabalhos de conclusão A partir dessas inquietações, Riobal-de curso se debruçam sobre ela sempre do vai construindo sua narrativa e, àem busca de novas veredazinhas nas medida que o vai fazendo, vai tambémgrandes veredas da obra rosiana. lançando outras dúvidas relacionadas a A saga de Riobaldo deixa de ser uma ela a fim de compreender sua trajetóriasimples “aventura” no sertão mineiro de vida como jagunço no sertão e o quepara tornar-se alvo de reflexões sérias e a teria motivado, já que no momento douniversais acerca da existência humana relato encontra-se, como ele mesmo diz,e dois dos seus maiores conflitos: o bem “de range rede”, inventado no gosto dee o mal. Torna-se objeto de especulações “especular ideia”.filosóficas, místicas, religiosas, metafísi- Além disso, pode-se dizer que, entrecas, psicológicas, etc. outros motivos, o que o leva a refazer É, portanto, motivo de inquietação suas andanças no sertão mineiro atravése perturbação não só para o jagunço da memória é também o relacionamen-letrado como também para todo aque- to confuso e trágico desenvolvido comle que se dispõe a ajudá-lo a caminhar o companheiro de ofício Reinaldo-Dia-pelas veredas do SER TÃO junto ao seu dorim, a quem conhece na beira do Sãoouvinte misterioso, a quem nunca é dada Francisco e que mais tarde se revela De-a chance da réplica durante sua narrati- odorina - filha de Joca Ramiro (o chefeva. do bando a que Riobaldo pertenceu) - Ainda chovendo no molhado, trata-se, sendo esta a vereda inicial de suas refle-obviamente de uma obra singular, que xões existenciais, pois segundo ele, tudoa princípio incomoda pela peculiarida- começa e termina em Diadorim.de com que Guimarães Rosa explora É, portanto, um livro que não sea linguagem oral do sertanejo. É o tipo deve deixar de ler, principalmente parade obra que o leitor deve estar disposto aqueles leitores que gostam de se sentira enfrentar, a percorrer com Riobal- desafiados.do, acompanhando atentamente seu http://samizdat.oficinaeditora.com 61
    • Crônica Europa Descarrilada João Paulo Hergesel Os britânicos tomavam seu pontu- lhe aguardava; um poeta amador que só http://www.flickr.com/photos/antonis/986676625/al e tradicionalíssimo chá matinal; os queria divulgar seus versos metrificadosportugueses assistiam ao programa de e fazer uma autopromoção; uma senhoraculinária exibido na televisão; os taiwa- de cabelos grisalhos que falava sozinha,neses comemoravam o dia da juventude; em busca de alguém que ouvisse suasos brasileiros festejavam o aniversário loucuras. Algumas vidas entre muitasde duas metrópoles, Curitiba e Salvador; outras.os sumérios homenageavam Ishtar, deusa O rapaz de quinze anos estava cansadomitológica. Era 29 de março e os russos de sua vida. Sabia que os dias seguintesandavam de trem. seriam iguais aos dias passados. Sentia- Um vagão superlotado, gente de Mos- se entediado de uma semana que apenascou, cada qual com seu objetivo trilha- começava. Para se distrair da rotina, faziado. Uma mulher grávida com consulta algo também rotineiro: escutava músicamarcada no obstetra; um estudante moderna em seu celular moderno. Oadolescente rumo à aula de ciências que alto-falante ligado, o suposto desejo de62 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • compartilhar o lixo musical americano dos trinta, mas não conseguia assumir ocom os demais passageiros. fardo de mãe solteira. A hipótese de um O ritmo acelerado de uma canção aborto já lhe perturbava muito a mente.para corações acelerados — All the single Em meio a uma confissão nonsense, a umladies, now put your hands up — se mis- exemplo de literatura marginal e a umaturava com as palavras proclamadas pelo melodia de black music, não aguentou ofrustrado escritor de meia-idade. estresse sonoro e desembestou a gritar. O tido poeta estava cansado de sua O grito foi um pedido de silênciovida. Todos os dias, pegava sempre o bem aceito: o metrô parou, as pessoasmesmo metrô, recitando sempre os também. No entanto, não demorou amesmos versos, sempre para as mesmas que uma nova perturbação ocorresse. Apessoas. A mesmice era porque consi- garota loura sentada no fundo ficou emderava aquela tentativa de trova a mais pé e revelou o mecanismo que escondiabem feita por ele. sob o casaco. Assim que a bomba fosse acionada, todos estariam em uma roleta A rima rara de um poema hendecassí- russa, sem saber quais sobreviveriam elabo — Não preciso de um caldeirão de quais dariam adeus à vida da que esta-água quente / Basta-me uma panelinha vam cansados.de água morna / Não quero cozer umovo de avestruz / Só cozinharei um ovo Um chá amargo difícil de ser ingerido,de codorna —, acompanhada pela trilha um erro de gravação que não pôde sersonora da Beyoncé, atrapalhava a história evitado, juventudes corrompidas, aniver-contada pela pobre anciã. sários interrompidos. Uma situação que nem deuses foram capazes de impedir. A idosa vista como louca estavacansada de sua vida. Haviam morrido os Da explosão, saíram os corpos. O ga-pais, os irmãos, o marido, o filho. Não ti- roto, com as mãos mutiladas, não agra-nha mais família, não tinha amigos e, as- deceu por poder faltar às aulas daquelasim, acabava não tendo nem a si mesma. quinzena. O poeta, sem a pele do abdo-Queria desabafar os tropeços que levara, me, não ficou feliz por viver uma grandemas tropeçava nas próprias palavras e emoção que pudesse ser transcrita para onão era entendida por ninguém. papel. A velha, cuja perna direita estava ensanguentada, não estava satisfeita por O relato sem sentido — Eu tinha um ter uma nova história para contar comgato que não era meu e tinha um peixe detalhes.que o gato comeu— juntamente da po-esia contemporânea e da balada (bada- Sem mais aborrecimentos, dúvidaslada?), irritava a grávida que só queria ou queixas, a moça grávida, cruelmenteum minuto de sossego antes de ter que decepada, representava, no chão do me-se despir e se submeter a um ultrassom trô, duas vidas extintas, duas frases quetransvaginal. receberam o impiedoso ponto final — sendo que uma ainda nem havia aberto A futura mamãe estava cansada de as aspas.sua vida. Já era crescida, a idade na casa João Paulo Hergesel Um jovem escritor brasileiro de 19 anos. Reside na cidade de Alumínio, onde é colunista dedois jornais locais. É estudante de Letras na Universidade de Sorocaba e se dedica principalmenteàs literaturas infantil e juvenil. Autor de um livro de contos e com participações em diversas anto-logias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais. http://samizdat.oficinaeditora.com 63
    • A fila Poesia Volmar Camargo Junior em boa hora vens e me tomas em tuas patas outra hora eras cão não quero compartilhar mais nada agora és uma gratuidade devota nem posso por ora és dono da calçada nada possuo de meu para ser também de [e de minhas botas outrem nenhum vício ou valor só meu mas me incomoda estares a muito da altura nunca mais talvezdos olhos e sei o quanto queres isso que cheira talvez só o que eu tenha sejam esses pés comquente e suculento que brincas [também eu quero, cãozinho [isso sim [tenho tanta fome quanto tu tens a mim [isso eu posso dividir contigo onde andei desconheciam-me aonde vou idem contudo ainda preocupa-me a distância que percorri esses espaços estás dos narizes para ir [e definitivamente do lugar por onde anda a cabeça dos homens para ser para quê? ali, logo adiante, nietzsche de allstars discute com platão de camiseta do manowar se lá, um tanto atrás, uma criança pranteia o papai que foi, ou por um doce, ou por que lhe dói, ou porque meus medos minhas manias [há pouco melhor a fazer que chorar ah, sim, os apelos aqui eu com vontade de chorar igualmente, estes eu tenho cachorro aqueles não mais 64 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • contigo nos pés rindo risos de cão quem quase caiu foi um senhor de guar- comigo noutro tempo rindo de ti da-chuva pisoteando sem ver sozinho na fila (acho que sou o quadragé- por cima de tisimo segundo) por quê? porque estás longe demais de para onde lá vai o banco do brasil para cima e para ele olhaos lados e a carne morta em bifes no metal quente [se ele caísse esmagaria-nos a todos revolve as entranhas do velho [eu assim como revolve as minhas [o bebê como revolve as tuas, cão [os filósofos http://www.flickr.com/photos/16879141@N05/5601890824/ [as moças que confabulam por isso o homem te pisa [a senhora no fiat apalpando os peitos por isso quase cai como cairia o banco do brasil [a senhora à porta do restaurante quenos chama “vamos chegar para o almoço” por isso quase morreste esmagado e tives- te de sair chorando teu choro de dor de cão [e a ti, cão porque és cão e ele é homem e a carne nos move a todos pelas tripas nem eu estaria olhando nenhuma das caras na fila veria e a fila andou ninguém veria é uma e meia nada nada nada faria diferença lá vamos nós nunca mais se ouviria falar de mim ou deti ou dessa gente toda com os dedos pinta-dos de preto não, não foi dessa vez que o banco desa-bou http://samizdat.oficinaeditora.com 65
    • Poesia #18. Rafael Zen mãe, se é de deus que sejamos tristes, esse será nosso maior dilema. se a vida for maior que nossa sala, e a felicidade maior que nosso pinheiro de natal, se a morte for mais importante que nossa própria morte, ou que nosso humor nas quartas, quero saber do princípio, de qual estrela deus foi feito, do que ele é, e muito mais que isso: http://www.flickr.com/photos/forestwander-nature-pictures/4807392948/ se um dia vou acordar na metade de uma linha incompleta, se vou acordar seu filho filho DELE procurando algas no chão do céu. Rafael Zen Poeta, contista e artista gráfico, Rafael Zen mora em Brusque, Santa Cata- rina. Trabalha como publicitário e organizador de projetos educacionais e artísticos.66 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Poesia RITO Anna Apolinário Mordo a maçã pura da Musa Flerto com o olhar fatal da Medusa Depois me deito no leito mais lírico E me embriago de Infinito. http://www.flickr.com/photos/orangeacid/212833788/ Anna Apolinário Natural de João Pessoa, Paraíba, poetisa e graduanda em Pedagogia pela UniversidadeFederal da Paraíba. Participou de várias antologias nacionais. Foi premiada com o 4° Lu-gar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba em 2010 com o poema “Dédalo”,no mesmo ano publicou seu primeiro livro, “Solfejo de Eros” pela Câmara Brasileira deJovens Escritores (Rio de Janeiro - RJ). Prepara seu segundo livro de poemas com títuloprovisório SAPHIRA. http://samizdat.oficinaeditora.com 67
    • Poesia Olhos de distância Daniel Moreira68 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Enquanto a saudade Arrumar um jeito De me trazer teu rosto Teu cheiro e teu gosto Estarão comigo ao amanhecer As fotos não sabem dos fatos E sorriem por serem simulacros De uma realidade Que não canso de reinventar Enquanto a ausência Encher meus olhos de distância Teu sorriso de extrema relevância Tomará várias formas Até a lua crescente Finalmente nos encontrarDaniel Moreira Foto: Raul Garré Natural de Caçapava do Sul/RS, reside em Pelotas/RS desde 1996. Em 2009 pu-blicou seu primeiro livro de poesias chamado “Poemas Urbanos”. Foi coordenadorpor onze edições do Projeto Sarau Poético Musical da Bibliotheca Pública Peloten-se. Faz parte do núcleo Poesia no Bar, projeto que distribui poemas de autores lo-cais e regionais em marca-textos pelos bares de Pelotas. Mantém o blog poemas-urbanos.blogspot.com onde posta com frequência seus escritos mais recentes. http://samizdat.oficinaeditora.com 69
    • Poesia Sagrado Luiza OliveiraÀs vezes, sinto falta do sagrado, Saudades dos pedaços da vida,de sua textura; cânticos religiosos, como carnes penduradas em matadouros.missa dominical... E eu, perdida no inferno sem telhado,De coros cantantes, Panis Angelicus, como multidões rastejantes emmeninas de branco, com laços de fita seus torpores vaziospregados em suas cabeças.. despejando seus juízos em taças furadas deixando escorrer o sangue pisadoE eu, fervorosa, em palavras em vão...com os olhos infantis, pedintes, me dirigindoaos anjos, santos, Deus! Crendices populares, frestas escondidasReverenciando cada lágrima, almas escurasadvinda do fervor, falsas profecias...hoje, me afasto do dogmatismo fervoroso Desanuvio mentes, expulso lágrimas endureci-que se diluiu e fez desaparecer das,antigos clamores... e caio de joelhos, em pé...É o novo se rasgando, Volto para a relva endurecida do concretoé o batismo se depurando, e vejo carros, com seus motores barulhentosé Nossa Senhora chorando... http://www.flickr.com/photos/ameotoko/2402590362/ Volto para mim, em prantos...Lágrimas perdidas nos buracos da fé... The end Luiza Silva Oliveira Advogada, atriz e socióloga, Luiza Silva Oliveira inicia um novo caminho: o da escrita. Seulivro “Afetos transgressores”, lançado em novembro deste ano, foi escrito após a perda de seuirmão Arnaldo Silva Oliveira, a quem é o livro é dedicado, in memorian. Dois poemas desse livro já se tornaram música, e outros estão em processo. Além disso, jáfazem parte de importantes saraus paulistanos, entre eles, o Sarau dos Inquietos. Três de seus contos foram selecionados entre mais de mil e quinhentos, e por isso, faráparte da coletânea organizada pela Editora Guemanisse, com publicação prevista para janeirode 2012.70 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • PoesiaSENILIDADE Valmir Luis SaldanhaPasseio com meu velho cão.Mantemos entre nós uma aceitação pacífica, Continuamos nosso passeio, mais longo que http://www.flickr.com/photos/orangeacid/212833788/ele me aceita como seu guia e eu o habitual,o aceito como meu. os dois tentando mostrar para o tempo que nada havia mudado.Um problema na pata o faz tropeçar Vejo-o resfolegar,três vezes. me compadeço,(Nos olhos dele vejo os meus depois,e os contrastes) sinto que lançamos um olhar seco para adiante.A não ser que me suceda um acidente,ou meu cão seja alvo de um milagre, Eu o incito a continuar e ele me olha,eu o verei partir dessa para uma melhor, penso, tentando fazer o mesmo comigo.como é costume se dizer. Ele pede para que eu o guieAos poucos ele está definhando, (não pode mais com as próprias pernas)mas isso não o impede de parar algumasvezes e eu o faço,a espalhar jatos de uma urina já rala mas cada passo traz, sempre, a mesma per- gunta:demarcando todo um território, e quem nos guia, a ambos?erguendo, trêmulo, a espada contra os pira-tas. Valmir Luis Saldanha Nasceu na cidade de Palmital - SP em 1987, mas viveu a infância toda em Itatinga. Ingres-sou no curso de Letras na UNESP - Araraquara, em 2006. Hoje leciona Literatura nos colégiosCOC e Objetivo. Valmir já participou de diversos concursos literários, além de participaçãoem antologias e publicação de seu conto MISTÉRIOS DO INDIZÍVEL pela revista A MARgem,da Universidade Federal de Uberlândia. http://samizdat.oficinaeditora.com 71
    • Poesia Nº1 Douglas BatalhaDe tanta água, ficou Vitória. Toda fissura de árvore é quebrarNada de peixe, muito mais flor. o cimento, a calçada, a passagem.O pai dizia: - Sai da água, menina! Seguia a casca a engrossar, para proteger dosEla batia os pés e respondia: insultos. http://www.flickr.com/photos/deanfotos66/3606306832/- Estou aprendendo a existir! Jogada na água sem muita esperança,À noite, em outro mundo, a minhoca contorce de metal por dentro.Tarsila sonhava em nadar. Da terra ao azul, torce: - Quero viver!Mas não tinha tempo para a vida. Vem a boca, com instinto de fome, ferrar-se a siQuando ia para cama, imaginava o mundo própria.no ritmo da sua braçada. Pobre animal, vamos todos morrer.Na rua, se se importasse o Jacarandá...Para seiva: bruta e fina. Fim. Todo sonho é vontade de memória. Douglas Batalha Estudante do último ano de filosofia (UNIMEP/Piracicaba) é leitor entusiasmado da litera-tura brasileira, em especial poesia. Professor temporário da rede pública, estuda para o ves-tibular de letras, desencantado com o exagerado otimismo dos filósofos niilistas. Desde 2010escreve em verso e participa de saraus e concursos de poesia (sem muito sucesso). A terceirapessoa lhe cai muito bem, apesar dos recentes fracassos vividos. Contato: mofxwalla@hotmail.com e/ou douglasbatalhafilo@gmail.com 72 SAMIZDAT fevereiro de 2012
    • Poesia Missão (para João do Corujão da Poesia) Mariana ValleTodo dia essa página me olha com cara de E pra quem não sente o mesmo, nem adian-nada. E começo a escrever besteiras, aluci- ta explicar. Escreviver o poema me é comonada. inspirar o ar.Não, mentira. Vira e mexe e escrevo coisas Inspirada, inspirando, por vezes pirandoque prestam. Com calma. com essa mistura. É vício e ao mesmo tem-Quando as palavras, num ai, me emprestam po cura.suas almas. Depois que a poesia se impôs em minhaNessas horas, a inspiração é genuína e vida, virei prisioneira, fanática, fiel, daquelaspareço uma menina deslumbrada com as bem lunáticas, sabe? E isso não é problema:descobertas. é poema. Não é inferno: é céu. Os poetas moram na lua mesmo.Porque a poesia me desperta pra vida. É ela http://www.flickr.com/photos/mobilestreetlife/3667359879/que cura as feridas e me mostra o caminho, Agora, não ando mais a esmo. Tenho desti-compreende? no certo: perder-me na vida. Para depois me achar nas palavras e dizer: missão cumpri-Sem poesia, minha vida não rende. da. Mariana Valle Poeta desde os 12 anos, Mariana Valle vive como publicitária, é jornalista, roteiristae investe cada vez mais na literatura. Seus assuntos? A vida, seus encontros e desen-contros, sempre de um ponto de vista muito íntimo. Seu primeiro livro, “SORRIA,VOCÊ ESTÁ NA BARRA e outras histórias” (Editora Multifoco), foi lançado em de-zembro de 2008 e seu segundo livro está em fase de revisão. http://samizdat.oficinaeditora.com 73
    • Também nesta edição, textos de Alessa Bertazzo Luiza Oliveira Anna Apolinário Marcelo Soriano Cinthia Kriemler Mariana Valle Daniel Moreira Otávio Martins Douglas Batalha Rafael Zen Edelson Nagues Roberto Klotzhttp://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/ Edweine Loureiro Sara Meynard Elias Antunes Silvana Michele Ramos Fernanda Cristina de Paula ­ Sonia Regina Rocha Henry Alfred Bugalho ­Rodrigues João Paulo Hergesel Tatiana Alves Joaquim Bispo Thiago Jefferson dos S ­ antos Galdino ­ José Guilherme Vereza Valmir Luis Saldanha Juliano Ramos de ­Oliveira Volmar Camargo Junior Leandro Luiz Zulmar Lopes 74 SAMIZDAT fevereiro de 2012