Director: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 25 de Maio de 2012 | Ano II | N°31 | E-mail: r.literatas@gmail.co...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                   |   LITERATAS      |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |             2Editori@l ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                      |   LITERATAS          |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                 ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                     |   LITERATAS        |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                    ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                     |   LITERATAS         |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                   ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                       |   LITERATAS          |                          LITERATAS.BLOGS.SA...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                   |   LITERATAS        |    LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                     ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                       |   LITERATAS       |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                   ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                         |   LITERATAS        |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                       |   LITERATAS            |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |              ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                   |   LITERATAS        |    LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                     ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                     |   LITERATAS          |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                  ...
SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012                      |   LITERATAS         |   LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ |                  ...
Revista Literatas Nº 31 - Ano II
Revista Literatas Nº 31 - Ano II
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Revista Literatas Nº 31 - Ano II

788

Published on

Pg. 11

http://oescrevivente.blogspot.com.br/2012/05/revista-literatas-n-31-ano-ii-pg-11.html

Published in: Education
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
788
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
9
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Revista Literatas Nº 31 - Ano II

  1. 1. Director: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 25 de Maio de 2012 | Ano II | N°31 | E-mail: r.literatas@gmail.com “A oralidade é meu culto” Por 90 anos do poeta-mor Uma carta quê ao Ministro Págs. 03-04 Ler? Pág. 05 "A África que o mundo necessita é um continente capaz de ficar de pé, de andar em seus próprios pés. É uma África consciente do seu próprio passado e capaz de continuar reinvestindo este passado em seu presente e futuro." - Joseph Ki-Zerbo HOJE É DIA DA ÁFRICA
  2. 2. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 2Editori@l FICHA TÉCNICA José Craveirinha, ícone eterno das gerações literárias Q uando um homem já não faz parte de nós, diz-se que morreu, mas quando um rei se vai, tomba, não morre nem falece, muito pelo contrário, nasce para uma nova vida. Reixiste. Revive. É um deus, principalmente neste continente nosso que só ele próprio desvenda os seusPropriedade do Movimento Literário Kuphaluxa mistérios.Direcção e RedacçãoCentro Cultural Brasil - Mocambique No dia 28 de Maio de 1922, nasceu na rua do Zilhalha que hoje cedeuAv. 25 de Setembro, N°1728, à civilização, para se chamar Irmãos Roby, aquele que se tornou oC. Postal: 1167, Maputo poeta de todos os tempos, o poeta-mor, o embondeiro e monstro Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 sagrado da Literatura Moçambicana que enquanto homem dedicouTel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 117 117Fax: +258 21 02 05 84 a si próprio, vidas e vidas. Esse herói da poesia chama-se José Craveirinha. O símbolo in- Fax: +258 21 02 05 84E-mail: kuphaluxa@sapo.mz E-mail: kuphaluxa@sapo.mz delével de um país que ainda em vida disse que ama sem dizer o nome.Blogue: literatas.blogs.sapo.mz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz Neste 2012 que o poeta não está entre nós, celebra os seus 90 anos de nascimento. E não dissemos? Poetas não morrem e quem assim os têm, viverá no temor dos seus fantasmas, DIRECTOR GERAL porque eles, estão registados nos livros do mundo, na memória do povo e na história uni- Nelson Lineu (nelsonlineu@gmail.com) versal. Ninguém os apagará, muito pelo contrário, quanto mais dista o seu desapareci- Cel: +258 82 27 61 184 mento físico, mais se consuma a sua presença. José Craveirinha, os 90 anos que comemora, DIRECTOR COMERCIAL está lá, na Mafalala, na Munhuana, na sua casa fechada para os mochos e aberta para o seu Japone Arijuane (jarijuane@gmail.com) povo que sempre dedicou versos. Cel: +258 82 35 63 201 Está lá o velho Craveirinha, no Tunduro celebrando os seus 90 com os M’sahos que tanto EDITOR Eduardo Quive preza, dizendo a sua poesia composta por lâminas e alfinetes, fazendo delirar os ares com (eduardoquive@gmail.com) as verdades que sempre recitou. Está lá com a sua poesia que tem tom de ordens por se Cel: +258 82 27 17 645 cumprir de imediato. CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele Entretanto, neste dia que África em pleno congestionamento de ambições e indigestões, (amosse1987@yahoo.com.br) Cel: +258 82 57 03 750 celebra seu aniversário. 25 de Maio que hoje é, pautamos por uma edição mais africana ou REPRESENTANTES PROVINCIAIS africanizada, afinal já cá estamos neste continente sedento no olhar do mundo. E porque Dany Wambire - Sofala esta África vem daquela que é o Berço da Humanidade, destacamos uma africana que se Lino Sousa Mucuruza - Niassa encontra em Portugal. Trata-se da escritora angolana Ana Paula Tavares que através de COLABORADORES FIXOS uma entrevista ao Buala, ora em destaque na nossa revista, fala dos seus versos e adversos, Pedro Do Bois (Saranta Catarina-Brasil), seus tempos e contratempos de Angola, os fantasmas da escrita que o perseguem e os que Victor Eustáquio (Portugal), Mauro Brito vivem consigo, em fim, fala de si e dos seus. COLABORAM NESTA EDIÇÃO João Tala - Angola Francelino Wilson - Lichinga Algo a destacar nas suas declarações é que, contrariamente a o que se tem dito através da Ana Paula Mabrouk-Portugal crítica literária de que Ana Paula Tavares é a maior da poesia contemporânea angolana, a Camila Vardarac-Brasil Luís Kandjimbo - Angola escritora declara sumariamente que não é justa essa designação, enumerando outras es- Ricardo Riso - Brasil critoras que ao seu entender, são dignas desse título, para a nossa admiração. De facto a Cruz Salazar - Maputo humildade é o culto dos melhores. Ser e não assumir ser, dá-lhes mais mérito e, é por merecer. COLUNISTA Marcelo Soriano (Brasil) Enquanto isso, em Maputo, o Movimento Literário Kuphaluxa deu o início ao projecto Nelson Lineu - Maputo Núcleos Escolares de Leitura, uma iniciativa que virá a provar que a leitura é uma cultura FOTOGRAFIA Arquivo — Kuphaluxa e, como tal, se transmite. Nesta semana o escritor António Cabrita juntou-se à iniciativa Eduardo Quive dando uma palestra sobre a leitura para cerca de 200 alunos na Escola Secundária Fran- cisco Manyanga. Um bom princípio para um projecto tão jovem. Mais e mais vai se mar- ARTE E DESIGN cando entre as páginas que se seguem nesta edição que é trigésima primeira. Mas antes e Eduardo Quive com tom de boa fofoca fica esta frase “os bons momentos virão”. PARCEIRO Centro Cultural Brasil—Mocambique Eduardo Quive eduardoquive@gmail.com
  3. 3. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 3Destaque “O português de Moçambique nasceu com a independência”- Defende a linguista moçambicana Perpétua Gonçalves da língua. E o ensino? As estratégias adequadas a esta nossa população e a situação do contacto bilingue? Portanto é um mundo que está em aberto.” Entretanto, enquanto os fenómenos linguísticos moçambicanos ainda são pouco estudados, há por parte de falantes do português em Moçambique, uma tendência de abandonar as normas do Português Europeu. Sobre isso Perpétua Gonçalves, considera que “o português europeu é a norma oficial e isso não significa que os falantes usem essa língua e, eles já estão a introduzir alterações e novas formas de fala e isso, trás para nós uma certa dificuldade em saber o que podemos considerar ou não.” FEduardo Quive – Maputo alando Perpétua Gonçalves, vai mais longe, mostrando casos concretos doTexto & Foto momentos cenário moçambicano. “Por exemplo na concordância verbal, parece que depois da sua nós queremos seguir a norma europeia nós não queremos dizer coisas comunicação como “nós está cansado” ou “houveram problemas” são essesnas Jornadas de Língua Portuguesa decorridas a dias em Maputo, sobre os fenómenos que tendemos a não querer e até corrigimos, mas isso já fazDesafios de Moçambique a nível da Pesquisa sobre o Português, a linguista parte da nossa moçambicanidade. Aliando aos exemplos que dei já, “osPerpétua Gonçalves teceu seus comentários à Literatas, sobre a afluência jovens não são dados responsabilidades de família”. Isto é um tipo dedo português nos moçambicanos e sobre o que chamou de Português construção absolutamente excluída pelo português europeu, mas que osMoçambicano, caracterizado por algum desvio das normas europeias. falantes escolarizados e os não escolarizados usam e que provavelmenteNo entender da académica, existem ainda poucos estudos sobre a fonética vamos querer conservar.”moçambicana no português e isso, poderá se justificar pelo facto de, o Por outro lado, se o cenário é assim nas zonas urbanas, o que se podenosso português não ter mais de quarenta anos, caminhando com os anos dizer sobre a situação em que estão as zonas recônditas?da independência de Moçambique (37 anos) do jugo português. “Nas zonas recônditas não se fala português. Nessas zonas falam-se“Há muitos fenómenos a acontecer a muito pouco tempo, praticamente o línguas bantu, a massificação é um fenómeno que aconteceportuguês de Moçambique nasceu com a independência. Então para uma gradualmente, é uma situação que não pode ser gerida estatalmente. Ahistória da ciência, quarenta anos não é nada e nós temos, portanto, tudo própria comunidade vai ajudando a estabilizar os fenómenos, vaiem aberto. Para dar um exemplo, estudos sobre a fonética, portanto afonologia, a pronúncia específica dos moçambicanos, praticamente não há ajudando outros a serem excluídos e abandonado. É um processo lento,nada feito sobre isso. E é uma área interessantíssima onde acontecem como em qualquer comunidade não só na nossa, as línguas vãoviários fenómenos. Mesmo outras áreas onde já estão relativamente mudando de forma natural e não por processo governamental, excepto aestudadas como por exemplo a regência verbal. Mas isto, refiro-me ao nível ortografia, aí não há possibilidade.”Carta Aberta ao Senhor MinistroQueixumes ao meu avô estiloso (Pelos 90 anos que faz este ano 2012) K a Mpfumo, antes Maputo, cidade existe, escancarada, pseudo - revolucionários a solta, removendo osMauro Brito – Maputo capital desta pátria a parte, já não é, vírus que lhe sustentam a qualidade dos que intervêm. Hoje é Maputo (a), está ainda a quilómetros de distância desfavorecida a maioria, ácida e humedecida pelos discursos insípidos. de marcar esse golo. Maputo, onde Uma cidade de espelhos, que nos mostra apenas o que queremos ver, aé? A pergunta sensata que nunca se atreve a calar, e que nós teimaremos nossa imagem e semelhança, translúcida (apenas vêm os que estão porem repetir; necessitamos das coordenadas para a possível localização dentro, não sendo possível aos que estão cá fora), Maputo é resumo oudessa cidade vendida a trinta dinheiros aos mesmos que antes eram dela uma pequena resolução das restantes províncias, se no quintal da capitalseus proprietários. Ontem Mpfumo, com seus poucos brilhos e consolos, se encontram essas mazelas, não muito diferente serão as restantes.palmatoadas e algumas tantas promovidas avenidas heroicamente topo - Aqui nasceu O POETA, da Mafalala, bairro mítico e tão real que lhenominadas. Onde não tem lugar quem por ela lutou arduamente, dividida conste, onde os zincos que lhe fazem as paredes ainda conservam oestava urbana e suburbana - mente, hoje já não se pode atrever a cheiro dos tempos idos e a poeira das armas baleadas em mãos, demencionar tal afamada divisão, pois já não se tem a noção, de que o que é mãos, da companhia miliciana. POETA do povo e de todos, 2012 nasceo quê, e onde é onde! Tudo a mistura, como uma salada russa com muitos pela 90ª vez, com um parto pouco condigno, só os teimosos ouingredientes que não lhe fazem parte, a miséria promovida nas avenidas, as reaccionários, assim denominados os homens das artes, o assistem e lhegentes anti-municipais condenadas por existirem, a paisagem se que é dão as primeiras assistências, nasce ao olhar seco e indiferente dos
  4. 4. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 4 ela fala por si e de verdade, sem intermediários nem mediadores. Tsilana (que txaia) a seu estilo, físico, como literariamente, vai chicoteando os homens de jet 7, sem intimidações, passeando a sua Mafalala, de pele curtida, a secar ao sol, de norte à sul e do zumbo ao Índico deste áfrico país, moçambicanamente ao sabor das tangerinas de Inhambane. “Sabes ou não sabes minha mãe?” Podem os quem de direito, mostrar-se indiferentes e a pouca vergonha para com o povo, o poeta e a eles mesmos? Não é tempo de nos despirmos de véus e grinaldas que nos atrapalham a vista não -direccionada ao objecto real e não desfocado, como temos sido habituados a assistir? E ainda há sentimento de que tudo lhes é estrangeiro, que nada os diz respeito, ignorando um simples pedido de apoio para manutenção do espólio, da casa e publicações DAS OBRAS do Poeta, que muito encontra-se por explorar, com a devida atenção, responsabilidade, idoneidade, calibre e capacidade literária. Coisa que não tem sido verificada, qual o papel das entidades criadas para velar pela cultura como deve ser? Violando a própria alma, as bases da cultura de um país que se diz país. Há tanto tempo há desfolhar… Um autêntico assalto à cultura. Por favor Senhor ministro da cultura, com o devido respeito, podem gastar milhões de meticais em anuais festivais nacionais de cultura, sem resultados vistos, movimentando o país todo (contacto ou uma façanha de unidade nacional), fazendo empobrecer ainda mais, e não sequer fazer uma dedicatória, uma comunicação, uma menção, em nome do POETA? O vosso silêncio preocupa imenso, silêncio é o rei do momento de acção política, só quando as massas se agitam e sentem a comichão a vir, dão um alívio temporário, quando muito lhes interessar e dai obterem vantagem política (pontos no seio do partido). “O pior cego é aquele que finge que não vê” Não seria a adaptada Casa -Museu José Craveirinha uma casa de todos e para todos, com a devida organização, respeito, cuidado, uma rota e onde os alunos pudessem contemplar e complementar a matéria escolar ligada as letras e não só, enriquecimento cultural, ser um ponto de visita constante, por parte de turistas, estudantes, cidadãos, organizações, instituições ligadas a ao trabalho da letra e da palavra. José Craveirinha é um homem de cultura. Não o podem vigiar na sua cabeça. Não é? Em titulo da minha homenagem aqui deixo um inédito texto, que com certeza vos há-de retirar os ferrolhos do cérebro. SOBROLHOS FRANZIDOS Na urbe de sobrolhos franzidos imoral não é das balas o coito Nem sequer a bêbeda nudez das facas Mas sim nesta cidade de merdaJosé Craveirinha, considerado maior poeta de Moçambique A cínica parábola indecorosa de quem é o dono do revólver que nos baleia dirigentes que a dada altura, assim mandava o protocolo ou ordens Ou pelas surradas costas da metáfora superiores, lhe atribuíram o título de Herói nacional. Como pode um herói Origina a puta da mão que nos esfaqueia nacional, não receber nenhuma menção ou consideração por parte dos nossos dirigentes, desde os tempos da sua existência como cidadão e POETA? Atirado aos bichos, hoje assim o vemos, sem nenhuma notícia por (poema inédito de autoria de José Craveirinha) parte dos órgãos de informação públicos que por dever, informariam ao povo sobre a sua vida e a poesia; atirado também ao fundo de uma rua que Várias cartas não correspondidas e respondidas, simplesmente atirada ostenta seu nome, rua sem estilo, e sem conteúdo, pouco visitada, não ao caixote de lixo, respostas claras de que a preocupação do governo e deveria na rua em seu nome estar patente a título eterno uma estátua sua, dos privados não é poesia, literatura muito menos cultura no seu como acontece aos PESSOAS, MIGUEIS TORGA, OU CARLOS verdadeiro sentido; o maior foco e interesse sempre foi a matéria sócio - DRUMOND DE ANDRADE e demais? As suas lágrimas hoje tombam no politica e económica. mesmo chão da sua última morada (rua), Romão Fernandes Farinha, e Celebram-se com a nossa pobreza de espírito, estaremos sempre ao continua a crescer essa nódoa de lágrima sempre que lá me faço junto com lado dando a mão a palmatória, fazendo e dizendo as palavras e poesias os meus colegas (Kuphaluxa) ou ainda só, a mancha vai crescendo de gota culturalmente, que a alma do poeta descanse e que se façam mais para poça, para lagoa, de lagoa para rio. Os seus poemas intemporais cidadãos de uma nação que ainda esta por existir, se assim for permitido salientam e põem sem véu aquilo que ele já há muito previa, esse poder dos pelas instâncias superiores e por nós mesmos. escritores de prever, serão estes os que nos irão governar? Cometera eu Estamos todos de acordo, estamos todos de acordo…. algo propositadamente, José Craveirinha, não faria 90 anos, ele continuará fazendo enquanto a sua poesia continuar existir, ser ouvida, lida e bebida, Nota:
  5. 5. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 5Livros & LeitoresL ançado que foi “O Branco das Sombras Chinesas” na Livraria Minerva Central em Maputo, o escritor português António Cabrita, a convite do Movimento Literário “Ler ajuda aKuphaluxa, orientou uma palestra, na últimaquarta-feira, sobre a leitura na Escola SecundáriaFrancisco Manyanga em Maputo. ultrapassarEduardo Quive – MaputoTexto & FotoO evento que contou com a presença de cerca de 200 alunosda 11ª e 12ª classe, marca o princípio do projecto NúcleosEscolares de Leitura (NELE) criado no âmbito de Programa deApoio e Incentivo à Leitura do Movimento Literário Kuphaluxa,com os apoios da Associação dos Escritores Moçambicanos(AEMO), Instituto Camões em Maputo e da revista Literatas.“o Porco Espinha estava na estrada, de repente ouve umbarulho ao fundo para onde presta atenção e vê uma coisagrande que crescia cada vez mais. A coisa ia crescendo eaproximava-se de si, mas o Porco Espinha não sabia o queera aquilo. Olhava atentamente, mas não reconhecia aquelacoisa que já está muito perto de si. E a tal coisa que era umcamião, passou por cima de si e esmagou-o sem que elesoubesse de que se tratava.” Foi esta a parábola inicial doescritor para ilustrar a falta de lucidez pelos que não lêem.Seguindo em frente, Cabrita disse para explicar a essência dasua estória “quando a gente não lé, se parece com o PorcoEspinha. Ficamos sem conhecer os nomes das coisas, da suautilidade e dos seus perigos. Ficamos na penumbra. Daí, lerajuda a ultrapassar obstáculos. A leitura torna-nos gente, nosdiferenciando doutras coisas. Por isso é importante ser umleitor.”Na sua conversa sobre a leitura António Cabrita, frisou que aleitura é o caminho para o desenvolvimento académico e que dos Núcleos de Leitores pelo Movimento Literário Kuphaluxa, e de acordo com asó assim é que se justifica o facto de a cabeça ser redonda. organização, seguir-se-ão, as escolas secundárias da Polana e Josina Machel.“Sabem porque é que a cabeça é redonda? É porque ela tem a O projecto NELE serve igualmente, para responder os desafios da qualidade decapacidade de circular pelas ideias. Isto significa que como pessoas, ensino que se tem ainda como baixa no país, podendo com a ampliação dosjá nascemos com capacidade de ser multiplicadores de pensamentos recursos existentes, alastrar-se para o resto das províncias do país.e capazes de pensar uma coisa enquanto pensamos noutra. Não se Entretanto, a falta de apoios poderá dificultar o alargamento da iniciativa porquer que sejamos quadrados. Pessoas com uma linha de pensamentorecta. Com uma só ideia. Então lendo, teremos essa capacidade de outras instituições de ensino, contando-se no princípio apenas com a doação deser múltiplos nos olhares, nos saberes e nas atitudes” considera o livros pela AEMO e desde já, com o envolvimento do Instituto Camões e comescritor. divulgação pela Revista Literatas. Também os escritores, a título individual, vãoA Escola Secundária Francisco Manyanga, tida como uma das se envolvendo no projecto. O próximo encontro com do núcleo, será com amaiores instituições de ensino no países é pioneira na implantação escritora Paulina Chiziane. BLOG OFICIAL: nelemocambique.blogspot.com
  6. 6. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 6 ReflexõesLiteratura Africana Rapunzel e outros poemasContemporânea da infância CEZAR, Jairo. Rapunzel e outros poemas da infância. Ilustrações de Tônio. João Pessoa: Forma Editorial, 2012. AAna Lucia Santana literatura africana contemporânea não tem Janailson Macêdo - Brasil Anda menina, recebido, especialmente Fonte: Revista Blecaute vem sem cuidado, nos países de línguaportuguesa, a devida atenção, merecida por sua importância livro fechadocultural. Ela tem se manifestado nos diversos idiomas que não manda recado.configuram a teia linguística do continente africano, dos quais os (Jairo Cezar - É hora de lerprincipais são os de origem francesa, inglesa e portuguesa.Esta literatura se enraíza principalmente no movimento In: Rapunzel e outros poemas da infância)denominado negritude. A primeira leva de escritores africanos, aqual participou do primeiro congresso de escritores da África, “concretizado em 1956 na capital francesa, inspirou-se nas revoltas É hora de ler”.de carácter anticolonialista. Entre eles figuram nomes como Essa parece serLéopold Sédar Senghor, Mongo Beti, Bernard Dadié, AhmadouKourouma, Sembene Ousmane, Ferdinand Oyono, Tchicaya a frase queU’Tamsi e Sony Labou Tansi. sintetiza oJá as obras escritas após a emancipação das colónias africanas estatuto atual dase basearam em outra realidade, na qual imperavam os governos leitura em nossatotalitários, as agitações tribais, as revoluções e golpes de estado. sociedade − aoElas condenavam as atitudes repressivas, os desmandos dos menos a nível degovernantes, ou simplesmente narravam as vivências de seusautores sob este contexto. Por outro lado, alguns escritores expectativas.procuravam resgatar as antigas tradições. Atualmente, umaA literatura exercitada neste continente ganhou repercussão parcela dosmundial por meio de autores renomados e premiados, como Wole educadores, agentesSoyinka, da Nigéria; Nadine Gordimer, da África do Sul; e o midiáticos, militantesegípcio Naguib Mahfuz, todos detentores do Prémio Nobel de culturais e gestoresLiteratura. Destacam-se também o queniano Ngugi Wa Thiong’o, públicos vêm chamandoo poeta ugandense Okot p’Bitek, entre outros. a atenção para o papelNão se pode subestimar o papel significativo que as mulheres da leitura na formaçãoafricanas exerceram nesta literatura; em seus livros elas relatam de cidadãos criativos esuas experiências complexas e peculiares, em um continente no com senso críticoqual as mulheres ainda enfrentam problemas típicos dos séculos apurado, sobretudopassados, como a poligamia, ser mãe, a prostituição e a quando incentivados asubjectividade feminina, além das formas encontradas para fugir manter uma relação de proximidade com a leitura desde o início da infância.da intensa repressão que sofrem. Essa perspectiva é também defendida pelo poeta Jairo Cezar, autor deEscritoras como Amma Darko, Flora Nwapa, Buchi Emecheta,Mariama Ba, Fatou Diome, Bessie Head, Tsitsi Danaremba, entre Rapunzel e outrospoemas da infância” (Forma editorial, 2012), seja poroutras, fazem de sua obra uma bandeira pela integração do meio de ações como educador e ativista cultural, seja no interior de suafeminino na sociedade africana, radicalmente patriarcal e própria casa, durante o educar cotidiano de sua filha Beatriz, a quem o referidomachista, bem como nas decisões económicas e na vivência livro é dedicado. No entanto, “Rapunzel...” não é uma obra que visa “apenas”cultural. incentivar o hábito da leitura junto ao público infantil − objetivo que em si já poderiaNa literatura actual sobressaem nomes como os de Mia Couto, ser visto como de grande valor , mas que não seria bem-sucedido se a obraJosé Eduardo Agualusa e José Luandino Vieira. Mia é de uma não contasse também com uma qualidade estética apurada (alusiva,família de imigrantes portugueses que se fixaram em nesse caso, ao conjunto poemas/ilustrações).Moçambique, país onde ele nasceu, em 1955. Ele é hoje um dos O livro trás (re)leituras poéticas de histórias como “Pinóquio”, “Rapunzel”, “Os trêsautores moçambicanos mais importantes, e traduzido em porquinhos”,“O Pequeno Príncipe”, “A Bela e a Fera”, “Peter Pan”... e de episódiosinúmeros idiomas. vividos por outros seres, que por vezes adquirem um significado mágico noSeus esforços convergem para a elaboração de uma nova universo infantil, como as joaninhas, girafas e as borboletas.narrativa continental. Sua principal obra, Terra Sonâmbula, foi Conta ainda com belas ilustrações que ambientam as poesias ou permitem aosescolhida por um júri especial como uma das melhores produções leitores − na segunda parte da obra – divertir-se enquanto colorem imagensdo século XX. Este romance é constantemente comparado com os vinculadas aos poemas que acabaram de ler.livros do brasileiro Guimarães Rosa.O angolano José Eduardo Agualusa é integrante da União dos É desses livros que permitem, aos nossos pequenos, ter “em mãos” umEscritores Angolanos. Ele contribuiu não só com sua obra, mas objeto que possibilite que suas mentes sejam regadas, ainda mais, comtambém através da criação, em parceria com Conceição Lopes e a fantasia, dando-lhes mais um momento, entre uma e outra descobertaFátima Otero, da editora brasileira Língua Geral, a qual é voltada diária, de inserção do maravilhoso em seu cotidiano.exclusivamente para a edição de livros no idioma português. Entre “Rapunzel...” é, além disso, do tipo de obra que um pai compra parasuas publicações constam Na rota das especiarias, o Filho do presentear o filho, mas acaba, ele mesmo, parado, a folhear asVento, A girafa que comia estrelas, entre outras.Outro angolano importante é José Luandino Vieira, nascido em páginas, ver e rever as ilustrações ou rememorar as obras a que tevePortugal, mas naturalizado cidadão de Angola por sua contato em sua própria infância...imprescindível actuação na construção da República Popular de Em síntese, com seu “Rapunzel...”, Jairo Cezar estreia na literaturaAngola, logo depois da conclusão da Guerra Colonial. Em 2006 infantil mostrando que o gênero – e, em especial como ele o produz −ele recebeu o Prémio Camões, o mais significativo nas não se constitui como uma literatura menor.premiações literárias, mas o rejeitou, por acreditar que não está Estreia trazendo muitas expectativas para os seus leitores e tentandomais literariamente activo; mesmo depois desse discurso eleainda lançou mais dois livros, neste mesmo ano. Entre suas mostrar, em consonância com o atual contexto sócio-cultural vivido porcriações estão os contos Luanda e Velhas Histórias; os romances nosso país, que não!, “livro fechado não manda recado”.
  7. 7. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 7 LIBERTA-ME DO ESQUECIMENTO, MULHERPoesia JOÃO TALA - Angola Ela solta o corpo o texto animal FOLHAS DE ROSA A VIAGEM e frutos avultados. Quando prontos os frutos Lenir Mattos de Moura - Brasil bebo-lhe noites o odor da manada.Florbela Espanca A ela devo as coisas mais elementares:Todas as prendas que me deste, um dia, Que viagem é esta o suspiro libertadorGuardei-as, meu encanto, quase a medo, a primeira água e, Que me transportaE quando a noite espreita o pôr-do-sol, Além das nuvens, o evangelho deste corpo intacto e húmido;Eu vou falar com elas em segredo... a água acumulada no meu celibato Que me faz flutuar como o amor no último cuspo.E falo-lhes d’amores e de ilusões, No espaço sem fim,Choro e rio com elas, mansamente... Que me leva Do Poemário FORNO FEMININOPouco a pouco o perfume do outrora Ao ponto mais alto do in-Flutua em volta delas, docemente… finito? A dança das mãesPelo copinho de cristal e prata João Rasteiro-Portugal Que viagem é estaBebo uma saudade estranha e vaga,Uma saudade imensa e infinita Que me encanta, À Estrela de Jesus VilelaQue, triste, me deslumbra e m’embriaga Me domina e me envolve? Na beleza irremediável das feridas alimentam-se mães sem trégua.O espelho de prata cinzelada, Que viagem é esta Nos rios secos, batem e batem os coraçõesA doce oferta que eu amava tanto, alimentados em sangue frio e espesso. Que me estremece, Que é lívido. Que procura a boca das raízesQue reflectia outrora tantos risos, Me fascina e me absorve? nos conjugados ascensos e âmagos.E agora reflecte apenas pranto, O coração é um bicho estranho, foragido,E o colar de pedras preciosas, Que viagem é esta que vai caminhando gota a gota,De lágrimas e estrelas constelado, Que não tem caminho, ambicionando o amor do ser intacto. E as feridas incautas aproximam-se das mães,Resumem em seus brilhos o que tenho Não tem estrada, em seu viçoso centro,De vago e de feliz no meu passado... Não tem ninguém? imprudentes ao pérvio fardo de cada sopro: o amor, eternamente feroz. E as mães são as mutiladas candeiasMas de todas as prendas, a mais rara, Que viagem é esta que efabulam do interior dos angulares corações.Aquela que mais fala à fantasia, Que me incendeia, me E as feridas das mães são cadaSão as folhas daquela rosa brancaQue a meus pés desfolhaste, aquele dia… abrasa vez mais belas. O medo caminha violentamente mais perto, E me faz suar? no corpo, na cara, In, Poemas Selecionados nas vértebras e no ventre Enfim, onde se abriga com seu volúvel volume, o silencioso amor de mãe. A difusa distância Que viagem é esta entre o ventre e o gume. O HORTO MURADO Que me leva e me traz, Sob a folhagem da água, mães cansadas Num momento de magia, da aridez que as toca, António Cabrita - Maputo E me deixa jogada, incendeiam-se através dos filhos. E os filhos, essecingido chumbo cravado Respirando cansada, nas asas, esse projecto que sobre o mar se estende, Numa paz infinita? alimenta as feridas pelos tendões, como a garganta entre os dedos do útero.Seres que habitam os frutos, É uma viagem inexplicável As mães debicam sobre a areia a sua rota clara, como tu, que desfazes E, ao mesmo tempo, até ao fim do mundo, erectas: como pela última vez.a polpa na língua e te fundes Tão simples... Sobre a montanha, na subtileza das ínguas É a mais longa viagem um filho incorpora-se na beleza na uva, ou eu incurável das feridas, enquanto mães em seu delírio E, ao mesmo tempo, tacteiama pedra, até ser flor.que bebo na tua transpiração Tão curta...a promessa das grainhas. Por vezes sangram e cantam, secam os olhos, arrancama língua dos sexosSeres que não te deixam É uma viagem encantada e em permanente luta, corpo a corpo, o amor estende-se, mas os gestos estar só. Que acontece comigo são indiferentes, neste caminhar obsceno Toda vez que nos amamos. de criaturas sem frutos. A aprazível violência O morto do filial e obsessivo bem-querer.olha para si através de ti. In, Stephanos - Enciclopédia virtual Há-de caber numa clara sílaba, num vasto eco da Poesia Lusófona Contemporânea numalágrima, numa gota de mercúrio todo o tempo, todo o amor, www.olegalmeida.com toda a murcha flor e dor consumida de uma existência sem história: uma travessia nua. In, O Buzio de Istambul, 2008
  8. 8. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 8Entrevista FONTE: www.buala.org | Por Pedro Cardoso"A oralidade é meu culto”A na Paula Tavares tem olhos grandes e doces. E uma intensidade na escrita que a tornam numa das mais queridas poetisas e escritoras angolanas. Em entrevista por e-mail a partir de Lisboa, onde vive, aborda aspectos da sua escrita e da sua vida. Sem sequênciacronológica, com uma leveza que prende, pela profundidade que evidencia.É normalmente apontada como a referência da poesia contemporânea angolanano feminino. O que significa isso, na verdade? Para além do Lubango viveu também no Huambo, Gabela, Sumbe, Benguela e Luanda. Luanda esta que sempre adiou, como já confessou.Não, não é verdade. Isso seria de uma injustiça extrema para com Ana de Que rastos lhe deixaram estes lugares?Santana, Liza Castel e Maria Alexandre Dáskalos, para só citar três nomes decriadoras intensas, originais no universo da poesia angolana. O número de Tenho memória dos tempos nestes lugares. No Huambo, aprendi outrastítulos publicados não invalida outras contribuições de grande qualidade. cores do medo, ao mesmo tempo que ensinava a ler os mais velhos nosProcuro um lugar no universo da poesia angolana, porque é de Angola a arredores da cidade. Experimentei os limites da coragem física, ganheiminha fala. Não sou muito dada a concursos, lugares cimeiros, comendas. amigos para a vida. No Kwanza- Sul (Gabela, Sumbe, Kibala, Ebo) percebi que a história de Angola tinha vários tempos e outras tantasCresceu no Lubango, numa sociedade colonial marcadamente europeia, que velocidades. Fiquei esmagada com a imponência. Percebi o tamanho daignorava a sociedade africana com quem convivia, mas que ao mesmo tempo a minha ignorância. Que tempos eram os das necrópoles em pedra seca,fascinava. A sua escrita reflecte ou afasta-se deste paradigma? rodeados por silenciosos inselbergs graníticos cheios de pinturas em grutas inacessíveis? Como perceber essas mensagens no meio do ruídoTodos nós somos de um lugar, de uma infância, disse o poeta. Nasci na Huíla, louco da guerra. O sonho da cronologia e o seu avesso também ficouno meio de uma sociedade colonial injusta. Os pastores estavam ali. À para sempre na minha escrita e na minha vida. Nasceu-me a filha, o quesociedade Nyaneka eu devo a poesia, a música, o sentido do cheiro, a foi começar tudo de novo, água pura, meu novo sentido de mim. O medoorientação a sul. O contacto era-nos (a quem estava em processo de voltou. Seria capaz de proteger, de percorrer os rios outra vez. Sumbeassimilação) interdito. E, também por isso, o desejo era mais forte. Conhecer, ajudou a inscrever para sempre, para nunca esquecer a memória dosaber quem eram e quem éramos deu um sentido à vida. A escrita, em mal: a escravatura, o colonialismo, as relações de dominação, osportuguês, ficou para sempre ligada ao paradigma da oralidade, da chama do pequenos e grandes poderes, o alargamento definitivo do sentido dalugar, do acompanhamento dos ciclos, do respeito pela diferença, do horror à história ao quotidiano. Benguela reforçou a minha ideia de lugares deinjustiça. pertença e lugares de rejeição. A poética do espaço foi um longo aprendizado. Não estava cá dentro. Praticava-se uma linguagem queDisse que a Huíla a influenciou do ponto de vista estético, sobretudo através tinha que aprender. Luanda é o princípio da cidade que de vez emdos cheiros, sons, cores e canções que a terão marcado muito do ponto de quanto deixa de o ser. Convive bem e mal com os seus fantasmas. Avista estético. Provém daí a sinestesia constante da sua obra? baía é mágica, tem a mais bela curva do mundo. Quase enlouqueci a tentar perceber e a fazer pactos com deus e com o diabo. Mas foi ali queA troca de sentidos, ou do apelo dos sentidos, uma certa doença é coisa que ficou mais clara a força das mulheres do meu país, a forma leve comocarrego desde a infância. Se não tivesse nascido ali talvez fosse mais normal.
  9. 9. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 9Entrevista FONTE: www.buala.org | Por Pedro Cardosopisam o chão, apesar de carregarem um filho em cada mão e outro às os seus textos podem ser lidos em voz alta, que não perdem a força nem secostas e na cabeça o mundo inteiro. “perdem pelo caminho”.Já definiu a saída do Huambo para Luanda, por altura da independência, A oralidade é meu culto. As mães embalam os filhos cantando ou dizendocomo uma “fantástica fuga que um dia alguém terá que contar”. Quer ser palavras nas nossas línguas todas. Se os meus textos puderem ser lidos ema primeira? voz alta fico muito contente.Não seria a primeira. Lembro que o poeta Costa Andrade, Ndunduma, Em que ponto está o seu projecto sobre as culturas lunda e tchokwe?que infelizmente já não está entre nós, deixou no seu livro de memórias,Adobes de Memória (dois volumes), uma versão dessa fantástica e Entregue a tese [de doutoramento], a luta pelo conhecimento continua.terrível aventura. Devo aos meus companheiros de viagem, porenquanto, o silêncio. Considera a sua escrita ritualista?Há quem fale num “mundo angolano” de Paula Tavares. Que mundo é este – o deAngola da infância, da independência, de 1992, de agora, à distância? Não. Nem por sombras.Não sei quem falou. Para mim deve ser porque eu não sei falar de outra A sua segunda obra publicada, Sangue de Buganvília, surgiu apenas 13 anos depois de Ritos de Passagem. E passa da poesia à prosa. Porquê este Angola dói-me todos os dias,coisa. interregno e a mudança de registo?alegra-me da mesma maneira. Nunca parei de escrever. Só não via a necessidade da publicação. A escrita sempre se fez nos dois registos: a poesia e a história curta entre a crónica e oDá-me a medida exacta do meu conto.desconhecimento. A “prosa” e a “poesia” vivem isoladamente? São o que pensamos delas como conceitos, ou excedem-nos?África, Angola, Japão à luz de Mishima, Europa. Lugares seus. Qual oponto de intersecção? Podem viver isoladamente ou na maior das misturas. Para mim a poesia podeO chão, a terra, os afectos, a leitura. viver isoladamente. Já a prosa (a minha) vive da outra de forma sôfrega e vampiresca.Considera-se uma escritora universal? Que possibilidades ou limitações lhe colocam?Não. Quem sou eu? O mundo é vasto e estranho.A relação com o corpo e com o sexo em África é também muito diferente da das Possibilidades todas. Limitações: lembrosociedades ocidentais. A sensualidade e o erotismo presentes em alguns dosseus trabalhos têm como fonte esse nosso maior à-vontade com o corpo? o provérbio Cabinda «A centopeia temAcho que essa famosa e proclamada relação com o corpo não existe. cem pernas, mas anda sempre peloTambém tivemos e temos igrejas que nos ensinam a ter vergonha docorpo. Temos mulheres que não têm tempo de crescer e escutar o seu mesmo caminho».corpo. Temos relações de violência e sofrimento em silêncio. Temoscomportamentos próprios das cidades e outros de comunidades Dizem-na avessa ao excesso no uso dasdistantes. Temos relações injustas reguladas pela força do dólar, peloexercício do poder. Velhos mitos coloniais sobrevivem, às vezes com palavras. As palavras têm um valornovas máscaras, em plena pós- colonialidade. definido, como o que vemos afixadoDe facto, o seu primeiro livro, Ritos de Passagem, foi recebido em Angola num produto no supermercado? Ascom polémica. Consideraram-na “ressabiada”, “pornógrafa”, comocontou numa entrevista…Pois assim se provam os velhos e novos palavras têm o seu valor. Depende deequívocos e também que as idades da inocência se pagam amargamente.Escreve desde pequenina, “para espantar os medos”. Que medos tinha, quem e como as usa.quando era criança? Feminilidade, literatura feminina. Meros rótulos ou problemáticas sérias?Todos os medos das crianças, medo do escuro, medo da luz, dainjustiça, de perder, de ganhar. Não são meros rótulos. O Feminismo dos anos sessenta do século passado já não está na moda, ou por vezes adquiriu facetas de uma tal rigidez deContinua a escrever com o mesmo objectivo? Se sim, quais são os medos critérios que abalam as nossas crenças, objectivos, sensibilidades. Masda Ana Paula Tavares adulta? continuo sensível à diferença: aquilo que escrevem as mulheres, aquilo que vivem as mulheres, mesmo com mulheres presidentes ou ministras éA escrita tem muitos sentidos. Vastos os enunciados. Não estou fechada absolutamente diferente daquilo que os homens passam. Mesmo avessa ana concha do medo. Agora há angústias: não consigo suportar a partida uma teoria da interpretação, continuo a ler e a sentir essa diferença.dos amigos, o sofrimento de alguns deles. O medo de estar longe,demasiadamente longe, a ideia de perder a voz e a vez da poesia. Ana Paula Ribeiro Tavares é natural do Lubango, onde nasceu a 30 deDefiniu já a literatura e música brasileiras, que os viajantes lhe traziam, como Outubro de 1952. Estudou História na então Faculdade de Letras do Lubangograndes influências enquanto escritora. Que impacto tiveram, ao certo? (actual ISCED), curso que terminou em Portugal. É mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.O Brasil literário e musical foi chegando aos poucos, por ondas em todos Logo após a independência, foi delegada da cultura no Kwanza-Sul e técnicaos momentos de crescimento, maturidade e velhice. Chico e Caetano, do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica (hoje ArquivoElza Sores, Elis Regina, Tom Jobim, e tantos outros. A poesia impôs-se Histórico Nacional), do Instituto do Património Cultural. Nos anos 80 foicom Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Murillo Mendes, o responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional dedefinitivo João Cabral de Melo Neto. Depois a prosa com um lugar de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda. Tem vindo a trabalharvisita constante para Clarice Lispector, Nélida Pinon, Lygia Fagundes em cultura, museologia, arqueologia e etnologia. Como poetisa e escritora,Telles. As descobertas mais recentes com Radnuam Nassar, Milton publicou um conjunto de obras que inclui Ritos de Passagem (1985), OHatoum ou Bernardo de Carvalho pedem que continue atenta ao que se Sangue da Buganvília (1998), O Lago da Lua (1999), Dizes-me coisaspassa na margem de lá do Atlântico. amargas como os frutos (2001, vencedor do Prémio Mário António de Poesia 2004, da Fundação Calouste Gulbenkian), Ex-votos(2003) e a A Cabeça deTrabalhou muito na recolha de tradição oral em Angola. Há quem diga que Salomé (2004). A sua obra está presente em antologias de Portugal, Brasil,
  10. 10. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 10 LeiturasÉlio Mudender, o autarca dACidade Subterrânea «Há mais bicicletas – mas há desenvolvimento?» Joseph Hanlon e Teresa SmartFrancelino Wilson* - LichingaA o ler A Cidade Subterrânea de Élio Martins Mudender ressalta, dentre váriascoisas, emoções, sensações, (des)prazeres, etc., a questão dosautores Joseph Hanlon e TeresaSmart, “há mais bicicletas – mas há Élio Martins Mudenderdesenvolvimento?”1Ler este livro, igualmente,despertou-nos a vontade de partilhar com os amantes da pena e não só a A prostituição domina largamente a temática desta obra, como a pedir umanossa humilde apreciação sobre esta (nova) autarquia que se forma entre área de vereação à edilidade para velar por este problema que, uma vezas entranhas deste pedaço de chão – Moçambique – como, alias, já se mais, afigura-se secular. Neste ponto, esta obra comunica-se com outras,disse, “qualquer leitura crítica que se pretenda satisfatória deve passar da tal é o caso de Memória das minhas putas tristes, de Gabriel Garciafase analítica a uma outra fase predominantemente sintética que é a da Márques ou então, Nykonkwe a reforma da prostituta, de Mukhwarura. Estainterpretação” (REIS, 1981:41). Fazemos este modesto exercício sem comunicação extravasa o campo temático e manifesta-se por meio detendências de esgotar as possíveis (de/a)preciações a obra, cf. REIS citações/epígrafes de outras autorias: José Craveirinha, Mia Couto, Carmen(ibidem): “não se pense, porém, que com o processo de análise a que se Posadas, Jorge Bucay, só para citar alguns.submete o texto literário se completa a sua avaliação crítica ou (…) uma Estes problemas são aflorados num diálogo electrizante entre Marialeitura crítica minimamente válida”. Consolo (prostituta de reconhecida influência na cidade) e o narradorValida ou não, Mudender apresenta-nos aqui uma cidade despida ou (autodiegético/protagonista). Este diálogo domina largamente as páginasdesprovida de seus bens e vestida de andrajos por uma turma de desta narrativa.“abutres” que não poupa esforços para sugar até a última gota do que de Mudender opta por uma escrita rítmica e pausada, na base de semelhançasprecioso até então havia restado. Os nomes dos integrantes desta turma de sons e sinais pausais bruscos, um jogo de metaplasmas (REIS, op. cit.,são nítidos: Pio, Marcelino, Paunde, Manhenje, Guebuza, Chissano e 366) bem encontrados. “Gosto de noites agitadas. Homens e mulheres.outros. Usar nomes com identidade própria, não só atenta o princípio da Dançando. Comendo. Bebendo. Fornicando. Gritando.” (p. 14) (negritoficcionalidade, como também deixa margens de discussão entre a nosso) A sua escrita não se limita aos artefactos de linguagem. Extravasa-realidade e a ficção que não poucas vezes coabitam neste livro. Este facto os. Supera-os.deixou espaço para chamar de crónica a este conjunto de textos por E, copiando o discurso corrente, atribui uma identidade própria a cadaalguns críticos literários; quanto a nós, soa melhor se considerarmos personagem a partir da forma como cada um se expressa.fragmentos de um diário mediatizado. “- Vem, conta-me-llllaaa o que estavas pá me dizer.“- Claro. Tenho lindas fotos. Lindas recordações. Os nossos serviços eram - Contar? Vais te cansares de rir.” (p. 18) (itálico nosso)publicados na Rádio, Televisão, na Internet, nos Jornais, Revistas… Os Esta forma de escrita atenta a tradicional gramática portuguesa e sugereclientes faziam encomendas… programas por telefone… tudo seguro e uma estrutura frásica e léxico do Português moçambicano; é, desta forma,bem pago.” (p. 23) (itálico nosso) uma obra anti-purista, pouco recomendável para os conservadores da“Voltei a ligar o televisor. Uma luz insistente entrava pela janela. Aquele língua ou alunos/leitores buscando uma performance linguística. Emdomingo grande movimentava pessoas para a igreja. Um e outro bêbado contrapartida, esta forma de escrita desconstrutiva dá um outro prazer aosaía dos seus escombros de babalaze. Escândalos Sexuais de Altas leitor atento.Patentes. O sono ainda pairava nos meus olhos esbugalhados.” (p. 109) Por fim, convocamos o pensamento dos autores Joseph Hanlon e Teresa(itálico nosso) Smart expresso na epígrafe deste texto. A cidade subterrânea de ÉlioOs signos Rádio, Televisão/televisor, Internet, Jornais, Revistas, telefone Mudender assemelha-se a maioria das cidades do nosso país. São cidadesilustram a mediatização deste diário de um jovem em busca de que dormem e acordam mergulhadas numa pobreza de uns e riqueza deoportunidade numa cidade domada por relações conspiratórias, jogos de outros, assimetrias que chacinam as classes desfavorecidas, sujeitas apoder e comissões de roubalheira. Estes são, alias, os desafios com que o sonhar com uma bicicleta para toda a vida.edil dA cidade subterrânea se debate todos os dias. A prostituição gerada “A cidade só tinha bicicletas. Desenvolvimento que é bom, nada.” (p. 83)da pobreza urbana, a urbe que conflui gentes de todos os lugares, agudiza “O que me doía era o estado miserável. Moribundo.este conflito perene de busca de pão e dignidade de qualquer forma, Abandonado. Empobrecido. Em que se encontrava a cidade e suas gentes.subindo os outros, cometendo atrocidades ou vendendo a moral, o pudor Uma cidade molhada pelas chuvas e as ruas denunciando os buracose a dignidade. São rostos da pobreza que contrastam com a riqueza destA alagados e os casebres de cobertura de palha de coqueiro embriagados decidade subterrânea, enquanto potencialidades há nas mãos dos corruptos água assassina.” (p. 11)e corruptores cobertos com a capa de naturais ou compatriotas. Isto acontece num país onde alguns andam de autocarros sonhando com“As pessoas reclamam por tudo e por nada. Falta tudo. Menos a pobreza metros e outros apenas sonham com uma bicicleta.e a miséria, que são os pratos do dia.” (p. 39) (itálico nosso)“Fome. Violência. Criminalidade. Prostituição. Desemprego. Eram as _____________________________________________________________palavras em ordem. Ninguém cantava. Ninguém rezava. *Francelino Wilson é escritor e locutor do Emissor Provincial do Niassa/ Rádio MoçambiqueNinguém dançava. Era um inferno total mergulhado no caos.” (p. 2. Título da obra dos autores citados.180) (itálico nosso)As palavras de ordem (pobreza, miséria, fome, violência, criminalidade,prostituição, desemprego, caos, cf. estratos acima) circulam no rosto de Bibliografiapessoas que procuram uma refeição para aguentar a vida. E a procuranão tem lugar nem mãos a medir, acontece no cais junto de marinheiros 1. MUDENDER, E. M. A cidade subterrânea. Maputo, AEMO, 2011.ávidos de coxas de mulheres por prostituir, na Pensão Ideal, ou então em 2. REIS, C. Técnicas de análise textual. 3ª Edição revista.qualquer túnel desta cidade. Coimbra, Livraria Almedina, 1981.
  11. 11. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 11 FILOSOFONIASO passo certo Marcelo Soriano no caminho errado Nelson Lineu - Maputo nelsonlineu@gmail.com Chuva de Palavras A avermelhação - Apanhado de Meditações por Extenso - do verdeC O amor distante... Volta a ser... Quando canta o Uirapuru. ustódio Sábado estava sentado na sua casa, quando viu Tiago passar com um ar desinteressado, nem se A minha máquina do tempo é de escrever. quer saudou. Ficou admirado, nunca tinha acontecido. Pa-lavrou-me a terra do coracéu. Rezou poemas de bom Foi uma táctica que o rapaz usou. Todos sábados,Custódio contava-lhe como foi a sexta-feira, como ele chamava. dia... Fez o sinal-da-luz... Viu chover olhos de sol... O mundoAntes de contar enrolava, criando ansiedade e curiosidade, não sente. O mundo faz sentir. Assim como o vento não équando Tiago fazia-se passar por desinteressado, Sábado simples ar veloz, é trabalhador milagroso. Vivei, amanhacéu!contava como foi a noite que sempre era criança. Escrevi um poema de ouvido - ouçam com os olhos! - queCustódio esperou o Puto, preocupado, logo que o viu, chamou-lhe, de seguida foi contando. No seu cenário habitual, matando a lindava mais ou menos assim naquele exato momento: Obabalaza, comendo numa panela suja que ele dizia lavar quando brejo solfeja em rãs. Os vendedores cantam vantagens. Oestivesse mal disposto. A panela de barro continha restos decomida do dia anterior, ele cozinhava por cima dela, via aquilo instrumento do lenhador é o machado. O malandro toca suacimo uma relação sexual, o prazer era notório quando ele comia, sirigaita. Os colegiais regem com lápis e borrachas. Osmesmo com toda porquice (não lavava mão nem cara) dava operários executam esmeris. O temporal aplaude nos telhados.inveja quem o via transportar comida da panela a boca. Ainda porcima era guloso, só servia quando eliminasse sua fome e Duas notícias sobre a morte (uma boa, outra má): A márestasse algo, o interlocutor morto de curiosidade como um gato notícia é que a morte nunca se atrasa. A boa notícia é que ela éna sua sexta vida, dispensava a inveja. muito ocupada e não tem tempo de adiantar o serviço.- Quando eu voltava do trabalho, vi de longe alguém com um Reticências... Três sementes...estilo igual ao do meu amigo, aquele da zona verde, o que se -------------------------------------------------------fosse a uma barraca ou bar ia a procura da mulher, o que não erada zona verde por viver naquele bairro com esse nome, mas deespírito e coração. Foi aproximando-se, a imagem tornando-senítida, aquele homem de chapéu e camisa vermelha era mesmo O Homem do ElevadorGonçalves, mesmo com essa certeza eu ainda duvidava. Elesofria de sportinguismo, dizia ter sangue verde, a derrota delespelo Benfica, não lhe transformaria assim. Não podia serpossível, podia acontecer qualquer coisa no mundo, essa Querido. Solitário demais. Morava no primeirorealidade não se passaria na minha cabeça. Depois decumprimentarmo-nos, não haviam duvidas, era ele o andar. Sempre o encontrávamos no elevador.avermelhado, havia uma força na sua mudança. Fomos ao barvizinho, entre copos surge mais um insólito, disse antes de tudo "Bom dia!", o saudávamos. "Parece que estátinha que lhe chamar por camarada (prefixo de qualquer membro por chover!", respondia, como quem não estádo partido frelimo), foi como se o álcool estivesse a sair de mim,elucidei-me. Continuei a entornar, Logo Gonçalves que jurou com pressa. Um estranho vizinho que, por faltanunca votar nesse partido por causa da morte da mãe na guerraque ficou conhecida como a de irmãos ou civil e o pai que sofreu de companhia, usava o elevador como ponto demuito com o regime que para ele era ditatorial, a sua maior dorera a adulação que se faz nos nossos dias para o líder, encontro... Consigo mesmo.consolava-se porque entre nós quando se morre passamos depecadores para santos. Essas inacreditíces, é que faziam-meesquecer meu nome como naquela minha maior fará, aquela que ------------------------------------acordei num convento, nu, com todo material a doer. Gonça,carinhosamente tratado, tornou-se revolucionário queria mudar oregime, foi mudando de partidos da oposição para atingi-lo,alimentando a sua esperança. O maior obstáculo para ele foi umoutro sonho. Com a possibilidade de nenhum deles concretizar-se,tornar-se evidente, apostou no outro, o qual não podia morrer semconcretizar. O verde dele avermelhou-se, por causa do seu de tornar-se Secretário do bairro, porque nesse país só concretiza sonho
  12. 12. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 14John Coetzee Wole Soyinka E scritor e homem de letras nigeriano, Akinwande Oluwole Soyinka nasceu a 13 de julho de 1934, em Abeokuta, nas proximidades de Ibadan. Filho de um mestre-escola e da dona de uma loja, teve acesso a uma educação cuidada. Após ter concluído os seus estudos propedêuticos no Instituto Superior de Ibadan, partiu em 1954 para o Reino Unido, matriculando-se no curso de Literatura Inglesa da Universidade de Leeds, que concluiu em 1959. Enquanto estudante apaixonou-se pelo teatro, e por altura da sua formação, jáN ascido na Cidade do Cabo a 9 de Fevereiro de 1940, John havia levado a palco algumas peças da sua autoria, como A Quality Of Violence Maxwell Coetzee estudou na sua cidade natal até completar (1959), The Swamp Dwellers e The Lion And The Jewel, em que descrevia as dois bacharelatos, um em língua inglesa e outro em andanças de um professor e de um ancião chefe tribal africano, na sua tentativa matemática. Os anos 1962 – 65 foram passados na Inglaterra, de conquistar o coração de uma jovem. Ambas foram reunidas num volume emtrabalhando como programador de computadores, ao mesmo tempo que 1963. Em 1960 regressou à Nigéria, onde, após ter recebido uma bolsa dapreparava uma tese sobre o novelista inglês Ford Madox Ford. Fundação Rockefeller, fundou uma companhia de teatro, The 1960 Masks.Em 1968 Coetzee completou o seu doutoramento em linguística das Publicou nesse ano A Dance In The Forests (1960), peça que celebrava alínguas germânicas na Universidade do Texas, em Austin, com uma tese Independência da Nigéria, e que combinava uma expressão tradicional africanasobre os primeiros trabalhos de Samuel Beckett. Entre 1968 e 1971, com técnicas europeias do teatro de vanguarda. Em 1965 apareceu com KongisCoetzee foi professor de inglês na Universidade do Estado de Nova Harvest e The Road.Iorque em Buffalo mas, depois de lhe ser negado o direito de residênciapermanente nos EUA, regressou à África do Sul onde ensinou na A Guerra Civil nigeriana rebentou em 1967, em consequência do movimentoUniversidade da Cidade do Cabo, até 2000. Em 2002, ele emigrou para a separatista do biafra. Soyinka publicou, nesse ano, um artigo em que apelava àAustrália e ensina na Universidade de Adelaide. paz, e foi imediatamente aprisionado e acusado de conspiração com os rebeldes.A sua carreira literária no campo da ficção começou em 1969, mas o seu Libertado em 1969 sobretudo por força dos protestos de vários escritores, como porprimeiro livro, Dusklands, só foi publicado na África do Sul em 1974. exemplo, Robert Lowell e Lillian Hellman, começou a trabalhar como professor.Coetzee recebeu vários prémios antes do Nobel e foi o primeiro a receber Em 1970 publicou Madmen And Specialists, uma peça de teatro em que exprimiao Booker Prize por duas vezes: primeiro por Life & Times of Michael K em o seu descontentamento face à corrupção e à sede de poder que se vivia no país1983 e por Disgrace, em 1999.Recebeu o Nobel de Literatura de 2003, e, em 1972 debruçou-se sobre a sua experiência no cárcere ao publicar The Mansendo o quarto escritor africano a receber esta honraria e o segundo no Died, obra que acabou por ser interdita no seu país.seu país (depois de Nadine Gordimer, em 1991). Observando as garras da censura assomando-se do seu trabalho, optou porHá vários de seus livros traduzidos no Brasil e em Portugal. abandonar a Nigéria nesse ano de 1972. Chegou portanto a Inglaterra, onde seLivros publicados tornou professor convidado no Churchill College de Cambridge. Doutorou-se pelaDusklands (1974); In the Heart of the Country (1977); Waiting for the Bar- Universidade de Leeds em 1973. Durante esse período publicou obras comobarians (1980) À Espera dos Bárbaros; Life & Times of Michael K (1983) Jeros Metamorphosis (1972) e Death And The Kings Horsemen (1975).O Cio da Terra: Vida e Tempo de Michael K Foe (1986); White Writing: Mudou-se para o Gana em 1975, onde colaborou com o periódico Transition comoOn the Culture of Letters in South Africa (1988) ; Age of Iron (1990) A editor mas, depois de um golpe de estado ocorrido no país, regressou à Nigéria,Idade do Ferro; Doubling the Point: Essays and Interviews (1992); The onde passou a ocupar o cargo de professor catedrático de Inglês na UniversidadeMaster of Petersburg (1994) O Mestre de Petersburgo; Giving Offense: de Ife. Em 1976 publicou Myth, Literature, And The African World, um célebreEssays on Censorship (1997); Boyhood: Scenes from Provincial Life embrião do pensamento pan-africanista que o caracterizou.(1998) Cenas de uma Vida; Disgrace (1999) Desonra; The Lives of Ani- Em 1993 participou numa marcha de protesto contra o regime militar do ditadormals (1999) A Vida dos Animais; Youth: Scenes from Provincial Life II-(2002); Juventude; Stranger Shores: Literary Essays, 1986-1999 (2002); Sani Abacha, o que fez com que tivesse que deixar o país no ano seguinte,Elizabeth Costello (2003) Elizabeth Costello; Slow Man (2005) Homem acusado de atentados bombistas contra o exército. Pôde no entanto regressar emLento; Diary of a Bad Year (2007) Diário de um Ano Ruim; Inner Workings 1998, após a morte de Abacha.(20085) Mecanismo Internos; Summertime (2009) Verão. Foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1986. Em 2001 Soyinka publicou King Baabu, uma paródia aos ditadores africanos.
  13. 13. SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 13 EnsaioLiteraturas africanasOu Literatura Africana- Institucionalização de uma disciplina PLuís Kandjimbo - Angola francesa, o ensino ara compreender os das Literaturas fundamentos Africanas nas epistemológicos dos universidades e nasEstudos Africanos nos quais se inscrevemos Estudos Literários Africanos, escolas secundáriasimporta interrogar-nos sobre o momento a partir do qual se constituem como se consolida emcampo disciplinar dando lugar ao processo de produção do conhecimento princípios da décadasobre o continente africano. de 70. Por exemplo,Numa abordagem histórica e comparada dos Estudos Africanos, enquanto a introdução deinvestigação especializada sobre as sociedades e culturas africanas, a que textos literáriostambém se designa por «africanismo», observa-se que eles são uma africanos (incluindoemanação das políticas coloniais da Alemanha, Grã-Bretanha, França e a literatura oral tradicional) ocorre apenas em1972, após a ConferênciaBélgica, potências que disputavam a ocupação efectiva de África, de Ministros da Educação, realizada em Madagáscar.procurando conferir à sua presença uma legitimação científica mais intensa, Nos países africanos de língua inglesa, o mais expressivo sinal dedurante as duas primeiras décadas do século XX. Foi na Alemanha onde, em mudança produz-se comum texto datado de 1968, subscrito por três1910, ocorreu a primeira experiência de institucionalização académica dos autores originários da África Oriental, através do qual defendem aEstudos Africanos, por ocasião da nomeação de Diedrich Westermann como abolição do Departamento de Inglês na Universidade de Nairobi e aprofessor do Departamento de Línguas Orientais na Universidade de Berlim. criação do Departamento de Línguas e Literaturas AfricanasSeguiu-se a Grã-Bretanha consagrando esse domínio do saber coma criação (WaThiong’o, 1982:145-150). Tal como diz Biodun Jeyifo, «thedo International Institute of African Languages and Cultures, em 1926, que constitution of African literary study as a legitimate academic disciplinepassou a publicar a revista África. O surgimento da School of Oriental and with certified degrees and professional specialization began in Africa, notAfrican Studies na Universidade de Londres, em 1939, substituindo a School in Europe or America». Pode dizer-se que o centro inaugural deofOriental Studies, testemunha a existência de uma comunidade de gravidade de um ensino sério das Literaturas Africanas está situado eminvestigadores, antropólogos e sociólogos, que realizavam já pesquisas em África.África. Em França, a investigação neste domínio adquire uma dimensão Ao apresentar as conclusões do um inquérito sobre o ensino dasinstitucional alguns anos mais tarde, após a fundação da Sociétè des Literaturas Africanas nas universidades dos países africanos de línguaAfricanistes em1930. inglesa, Bernth Lindfors, observa que a descolonização dos estudosOra, é legítimo levantar questões acerca do carácter africano dos Estudos literários em África estava em curso e em estado bastante avançado.Africanos e da unidade das suas disciplinas, tal como faz Paulin Hountondji. Nota que dos 194 cursos seleccionados em 30 universidades doAo esboçar as suas respostas, partindo do pressuposto de que a actividade universo de14 países, a amostra representava acerca de 60% docientífica em África pode ser qualificada como «extravertida» e «destinada a número total de cursos em que se inscrevem 226 autores. A conclusão air ao encontro das necessidades teóricas dos nossos parceiros ocidentais e que chega o referido investigador permite sustentar a ideia de que asresponder às perguntas por eles colocadas», o filósofo beninense escreve: Literaturas Africanas ocupavam um lugar significativo nos programas dosOs chamados estudos africanos não só se baseiam em metodologias e Departamentos de Inglês, Departamentos de Literaturas Africanas outeorias que se consolidaram em vários campos […]muito antes de terem sido Departamentos de Línguas Europeias.aplicadas a África enquanto novo campo de estudo, como é, de resto, Estes indicadores estatísticos fornecem um quadro que reflecte,comum em instituições académicas e de investigação, encontrar esta provavelmente, de igual modo a situação dos países de língua francesa.matéria associada a outras disciplinas […]. Efectivamente, a investigação e o ensino das Literaturas AfricanasPortanto, é perfeitamente admissível discernir perspectivas radicalmente tinham alcançado níveis sempre cedentes, especialmente no que dizdiferentes defendidas por Africanos e não-Africanos, no que diz respeito à respeito à sua institucionalização académica.semântica dos Estudos Literários Africanos e suas disciplinas. Ignora-se, no entanto, e com alguma razão o que se passa nos paísesNa organização institucional das universidades, os Estudos Literários africanos de língua portuguesa.Africanos constituem-se após a Segunda Guerra Mundial. Foi nas décadas O processo de autonomização disciplinar das Literaturas Africanas foide 40 e 50 que surgiram as primeiras universidades africanas do século XX. dando origem ao abandono das denominações generalistas elaboradasMas a formação dos Estados independentes ocorre a partir da década de 60, na base de critérios raciais. A historiografia regista influências profundasobedecendo ao modelo ocidental e herdando as fronteiras e as instituições que o movimento panafricanista e posteriormente a Negritude exercerampolíticas das antigas potências coloniais. A edificação de sistemas de ensino sobre as ideologias dos escritores Africanos.que pudessem incorporar conteúdos programáticos sem qualquer influência Durante muito tempo as Literaturas Africanas eram adjectivadas comexterna foi imediata. Em alguns países africanos as mudanças curriculares fundamento no critério falacioso da raça. Era comum o uso dede matérias respeitantes às Literaturas Africanas ocorreram logo a seguir à expressões como «literatura negro-africana», «literaturaindependência. É o que sucedeu como Senegal, onde se realizou o primeiro neo-africana» ou simplesmente «literatura negra». Para justificar taiscolóquio consagrado ao ensino das Literaturas Africanas, em 1962. Na designações, Lylian Kesteloot, na sua Anthologie Négro-Africaine,Universidade de Dakar assim como na maior parte das universidades argumenta: Consideramos a literatura negro africana como manifestaçãoafricanas, a esta disciplina fora conferido um estatuto semelhante a outras e parte integrante da civilização africana. E mesmo quando é produzidadisciplinas leccionadas, no âmbito da organização de departamentos num meio culturalmente diferente, anglo-saxónico nos Estados Unidos,autónomos (Kane, 1994:27-39). Ibérico em Cuba e no Brasil […] O espaço da literatura negro-africanaQuanto ao ensino secundário, as Literaturas Africanas, sustenta Kane, foi cobre não apenas a África ao sul do Sahara, mas todos os cantos dointroduzida de modo anárquico, sem métodos, sem programas. Numa mundo onde se estabeleceram comunidades Negras, sob os auspíciosperspectiva comparada, verifica-se que nos países africanos de língua de uma história turbulenta que arrancou ao Continente centenas de

×