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Revista Literatas nº 24   ano II
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Revista Literatas nº 24 ano II

  1. 1. Luís Cardoso (considerado o primeiro autor timorense a escrever em língua portuguesa ) entre pergunta e respostaDirector: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 30 de Março de 2012 | Ano II | N°24 | E-mail: r.literatas@gmail.com Cartografia do Imaginário: a voz de Abdulai Sila entre Colonizadores e Djambakus. Por Sebastião CardosoWole Soyinkahomenageadona 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura
  2. 2. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 2Editori@l Literatura Africana em Festa no Brasil Por incrível que pareça, a primeira Bienal do Livro e de Leitura do Brasil vai homenagear a Lite- ratura Africana, particularmente o primeiro escritor africano a receber o Prémio Nobel (1986), o Nigeriano Wole Sonyika. Estará acompanhado por escritores de Moçambique (Paulina Chiziane), Angola (Ondjaki), Cabo Verde (Germano de Almeida), Guiné-Bissau (Abdulai Sila), Togo (Kangni Alem), e São Tomé e Príncipe (Conceição Lima).É mesmo, para dizer que a Literatura Africana estará em festa no país de Jorge Amado. Isenta das guerrilhas linguísti-cas (Francofonia, Lusofonia, Anglo -saxónia), sendo estas, as mesmas que nos tornam muito distantes uns dos outros.A título de Exemplo: quais são os nomes mais representativos da literatura zimbabweana?Alguém de nós sabe que o Prémio Nobel de 1991, 2003, pertence aos nossos vizinhos, os escritores sul-africanos NadineGordimer, e J.M.Cotzee?Ao prosseguir na esteira deste encontro entre irmãos que pouco se conhecem, outros que não se conhecem, o mesmoencontro que não se realiza na terra que os viu nascer, e que os vê crescer. É triste ser um dos olheiros desta realidadeirreal que nos circunda, logo a priori vêem a memória as delícias das gloriosas décadas 70 e 80; cá em Moçambique oInstituto Nacional do Livro e do Disco (INLD) publicava uma colecção denominada Vozes de África onde desfilavameternos nomes da literatura africana, sem cair na ambiguidade das guerrilhas linguísticas, como Sembene Ousmane(Senegal), B.B.Dadié (Costa do Marfim), Peter Abrahams (África do Sul), Ngugi Wa Thiong’o (Uganda), Achinua Achebe(Nigéria), só para citar alguns. E, é a despeito disto que pergunto:- O que é que as pífias da SADC, CPLP, CEDEAO, UA, fazem para o fortalecimento do diálogo intercultural?Desde já, aproveitar o espaço para parabenizar ao Brasil pelo carinho e atenção para com a literatura africana, e pararogar que este encontro seja um despertar de consciências adormecidas das grandes editoras deste país, que cingemsuas publicações à favor de meia dúzia de nomes, e as pequenas editoras para que possam ver uma oportunidade denegócio, ao publicar escritores africanos uma vez que tem sido base de estudos nos cursos de literatura nas universida-des e dos povos africanos.O editor da infindável revista Dimensão, o homem das artes e letras, Guido Bilharinho relata-nos em primeira mão abeleza do “projecto artístico-cinematográfico” da década 30, que ao seu ver é uma pura “transgressão do Real” reflecti-da no filme “O Sangue do Poeta”.Do Brasil voltamos ao nosso Africo epicentro, na canoa do Sebastião Marques a remar na “ Cartografia do Imaginário”da Última Tragédia do escritor guineense Abdulai Sila.De volta à casa Lucílio Manjate e Sangare Okapi deixaram na noite de ontem o seu terceiro testemunho, uma prova deque eles nunca estiveram e não estão de passagem neste território da palavra; a literatura moçambicana ganha duasgrandes obras, que desde já tomam de assalto o seu prestigioso espólio. Será que existe?E por último vamos a Timor-Leste ao encontro do escritor Luís Cardoso o considerado primeiro autor timorense aescrever em língua portuguesa. O que é que ele diz ao Saraivaconteudos? Será que ele aceita esta catalogação?Boa leitura Amosse Mucavele amossinho@hotmail.com
  3. 3. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 3Destaque1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura Escritores africanos principais convidadosRedacção Considerado a principal voz da literatura africana contemporânea, o dramaturgo, poeta, romancista e crítico nigeriano Wole Soyinkaserá o grande homenageado da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Primeiro negro areceber o Prémio Nobel de Literatura, em 1986, Soyinka vai à Brasil de visita inédita paralançar The Lion and the Jewel, seu primeiro texto teatral, publicado originalmente em1963. Além de Soyinka, outros dentre os mais importantes nomes do universo literário docontinente africano virão participar do seminário ―A Literatura Africana Contemporânea‖.Durante dois dias, eles em Brasília, num encontro que se configura histórico. Além de Soyinka, estão confirmadas as Paulina Chiziane, escritora moçambicana participações de Kangni Alem, premiado autor togolês, Conceição Lima, considera- da a maior poetisa viva de São Tomé e Príncipe; Paulina Chiziane, de Moçambi- que, com uma obra a favor dos direitos humanos; Germano Almeida, cuja obra Wole Soyinka, escritor nigeriano desmascara a hipocrisia da vida pública e privada da sociedade de Cabo Verde; na Esplanada dos Ministérios, num espaço de cerca de 50 mil metros quadra- Abdulai Silá, autor do que é considerado o dos, com área coberta para receber 158 estandes. primeiro romance da Guiné-bissau; e o angolano Ondjaki, radicado no Brasil e vencedor do Prémio Jabuti na categoria SOYINKA Juvenil com o romance Avó Dezanove e o Nascido em 1934, em Abeokuta, Nigéria, Segredo do Soviético. Wole Soyinka participou activamente da A participação de autores do continente história política de seu país. Em 1967, africano tem início no dia de abertura da durante a guerra civil, foi preso acusado de Bienal, com a homenagem a Wole Soyin- conspiração a favor dos rebeldes. Ao longoka, no Museu Nacional. O autor fará uma palestra às 20h30. E no estande da editora Gera-ção Editorial estará a ser lançado o The Lion and the Jewel. de sua carreira literária, publicou em tornoO seminário ―A Literatura Africana Contemporânea‖ acontece nos dias 15, às 18h, e 16 e de 20 obras.17 de Abril, das 10h às 12h30, no Auditório Nelson Rodrigues, do pavilhão montado parao evento na Esplanada dos Ministérios. No dia 15, estarão na mesa de debate Conceição KANGNI ALEM Romancista e dramaturgo nascido na cida-Lima e Germano Almeida, com mediação de Regina Vecchia, professora de Literatura Kangni Alem, escritor de Togo de de Lomé, no Togo, é PhD em francês eAfricanas de Língua Portuguesa da USP. E no último dia do seminário, participações da literatura africana e francesa e diplomado em semiologia teatral. Já publicoumoçambicana Paulina Chiziane, do angolano Ondjaki, Abdulai Sila, da Guiné-bissau, com mais de 10 livros e é professor de teatro e literatura na Universidade de Lomé.a mediação de Eduardo Assis Duarte, professor da Faculdade de Letras da UFMG. PAULINA CHIZIANE Primeira mulher moçambicana a publicar um romance, Paulina Chiziane lan- PROGRAMAÇÃO çou o seu primeiro livro, A Balada de Amor ao Vento, em 1990. Ventos do Apocalipse (1993), O Sétimo Juramento (2000) e Niketche: Uma História de Poligamia (2002) são outros romances da autora. SÁBADO, DIA 14 20h30 – Homenagem e palestra GERMANO ALMEIDA com Wole Soyinka – Museu Nascido na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1945, estreou como contista no Nacional início da década de 80. Foi co-fundador e colaborador da revista cabo- DOMINGO, DIA 15 verdiana Ponto & Vírgula. Apesar da importância de sua obra de ficção – que Germano Almeida, escritor cabo veriano 18h – Abertura do Seminário A abriu caminho para uma nova etapa na rica história literária de Cabo Verde –, Literatura Africana Contemporâ- o romance O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo é seu úniconea – Auditório. Nelson Rodrigues – Com Kangni Alem (República do Togo). Mediação: Zulu título publicado no Brasil.Araújo (DF) ABDULAI SILÁSEGUNDA, DIA 16 Um dos mais importantes autores da literatura de Guiné-Bissau, Silá deu iní-10h30 – Seminário A Literatura Africana Contemporânea – Auditório. Nelson Rodrigues cio à chamada ―corrente ficcional original‖, ao escrever Eterna Paixão – con-Com Conceição Lima (São Tomé e Príncipe) e Germano Almeida (Cabo Verde). Mediação: Reja- siderado o primeiro romance escrito naquele país.ne Vecchia (SP)TERÇA, DIA 17 CONCEIÇÃO LIMA10h30 – Seminário A Literatura Africana Contemporânea – Auditório. Nelson Rodrigues Considerada a maior poeta viva de São Tomé, Conceição Lima tem seus tra-Com Paulina Chiziane (Moçambique), Ondjaki (Angola) e Abdulai Sila (Guiné-Bissau). Media- balhos publicados há quase três décadas. Sua poesia tem servido de inspiraçãoção: Eduardo Assis Duarte (MG) para teses literárias em Portugal e no Brasil, no entanto, foi apenas em 2004 que O Útero da Casa, seu primeiro livro, foi publicado. Publicou em 2006 A Dolorosa Raiz do Micondó e em 2011 O País de Akindenguê.A coordenação literária é do jornalista e escritor Luiz Fernando Emediato, coordenação geral deNilson Rodrigues e realização da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Educação do Governodo Distrito Federal, em parceria com o ITS – Instituto Terceiro Setor. O projecto é inserido no ONDJAKI Estudou em Luanda e fez sociologia em Lisboa. Em 2000, publi- ca o primeiro livro, Actu Sanguíneu.Plano do Livro e da Leitura do Distrito Federal – Brasília Capital da Leitura. O evento acontecerá
  4. 4. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 4 Destaque Amosse MucaveleContador de Palavras e Mafonematográfico chegam ao mesmo tempo M inha mãe teve um filho de quem nunca falamos. Nasceu pelos pés. O resultado foi que meu irmão, ainda criança, perdeu-se mal começou a gatinhar. Crescia e nunca parava de andar. Todos os dias perdia-se na vida. Dava à casa de vizinhos, parentes e amigos da família por um milagre do acaso, obra do destino. Depois de andar doze anos perdido, tiveram que o amarrar a um embondeiro. Foi o fim: tanto imaginou ruas e avenidas, prédios e lojas, que começou a cumprimentar as pessoas, a conversar com elas, a sorrir-lhes. A família reuniu e, na voz de meu pai, achou solução mais acertada: chamaram um psiquiatra. Minha mãe, porém, sempre duvidou daquela saída, aquele era assunto para o nhanga, dizia às cunhadas, na esperança de encontrar alguma aliança, mas sua voz não ecoava, não fosse ela mulher. Levaram então meu irmão numa camisa-de-forças. No hospital, acometeu-lhe uma claustro- fobia que o levou ao suicídio, e os médicos registaram em papel que segundos antes de se evadir gritou pelo meu nome.Este é o excerto do conto A SINA da obra ―Contador de Palavras‖ de LucílioManjate, lançado ontem em Maputo, sob a chancela da Alcance Editores.―Contador de Palavras‖ é a terceira obra do escritor moçambicano Lucílio Manjate.Uma obra que não foge tanto da temática que tem o acompanhado no seu percursoliterário. Referimo-nos às vivências (sub)urbanas que são a marca identitária dapalavra que este escritor fabrica.A despeito disto, Lucilio Manjate diz ―a questão do espaço não é o centro deste pro-jecto. Mas estava preocupado com outras questões, talvez de cariz filosófico e exis-tencialista.‖―Uma das coisas que sempre acompanhou-me quando pensava neste livro é o factode que a palavra enquanto instrumento de trabalho como escritor, ela poder repre-sentar sonhos desejos frustrações utopias. Ao olhar a palavra nesta perspectiva, elafunciona como uma espécie de núcleo vital de toda obra. Um núcleo gravitacional.‖O autor de ―Os Silêncios do Narrador‖ afirma que ao pensar na palavra, como aalma do seu percurso naquela narrativa é porque as estórias que conta não são novase nem velhas, ―são as de sempre‖.―De alguma forma, o que proponho é sobrepor as estórias que eventualmente cada Lucílio Manjateum pudesse contar. Sobrepor as estórias o espectro da própria palavra. Digamos commuita modéstia, o trabalho com a palavra, enquanto me preocupava com a questãodo labor, do esculpir, da própria palavra eu senti que esse exercício da escrita, nocaso a minha, aspirava a posição de poesia.‖ loucura, são histórias que, em algum momento, aspiram visitar a memória colecti-Sendo assim, ―Contador de Palavras‖ que é uma colectânea de contos, histórias ins- va nacional do pós-independência, mas também projectam, poeticamente, umapiradas no ambiente social moçambicano, no que ele tem do dilema existencial até à utopia que fica por descortinar a morfologia. Entretanto, Lucílio Manjate vai mais longe na sua explanação sobre o livro que Binga lançou ontem em Maputo, sob a chancela da Alcance Editores. ―Creio que esta é a marca provavelmente fundamental, não se trata de uma prosa poética, mas o texto, o conjunto de textos que, embora retratem como se diz a nar- raro rativa, é o retrato da realidade objectiva‖ Concluiu. seio LUCÍLIO Orlando MANJATE é membro efectivo da AEMO. Publicou caro Manifesto (contos), 2006, Os Silêncios do Narrador (romance), 2010 e O Contador de Palavras (contos), 2012. anseio passeio Outro livro publicado é a MAFONEMATOGRÁFICO TAMBÉM CÍRCULO que receio ABSTRACTO de poeisa, cujo autor já pretence ao mundo dos escribas. Trata-se de um livro de poesia de Sangare Okapi. ―Mas não para os desavisados, ou mesmo para eles. A poesia que Sangare Okapi agora nos apresenta desafia pela forma ousada como se insinua e se manifesta, e disso o título é já sintomático. Por isso, uma das grandes questões que Sangare Okapi agora discute é a própria noção de poesia, porquanto a Estética, aqui, é, digamos abalada, questionada até à exaus- tão, até à loucura. Nesse sentido, é, este livro, uma espécie de apoteose, onde a relatividade do Ser da Poesia é o núcleo central”. CARDOSO Lindo CHONGO (SANGARE OKAPI) é membro efectivo da AEMO. Publicou a seguinte obra poética: Inventário de Angústias ou Apoteose do Nada, 2005, Mesmos barcos ou Poemas de Revisitação do corpo, 2007, e Mafone- matográfico também Círculo Abstracto, 2012. Está antologiado na revista brasilei- Sangare Okapi ra Poesia Sempre, 2007.
  5. 5. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 5Livros & Leitores Ao nosso confrade e amigo, Calane da Silva Gostaria, com a per- nha na lenha do mundo; missão das excelsas É, por fim, no mundo do ensaio, nessa linguagem que obedece a outros códigos, figuras aqui presentes, já como docente universitário, que Calane resolve enveredar pelos trabalhos de, em jeito de introito, ensaísticos, ofertando-nos obras de grande gozo, como Gil Vicente, Folgazão manifestar a minha ale- Racista? Estudos de Linguística sobre o português em Moçambique com ênfase gria em estar aqui, na interferência das línguas bantu no português e do português no bantu; ou como orador, na home- adentrando-se na obra poética do colega de letras, O Estiloso Craveirinha, nagem que ora se presta impelindo-nos, nesse irrepreensível texto, a reter, na obra do poeta, a função ao escritor Calane da estético-nacionalista dos lexemas bantu. Diz Calane: «os lexemas bantu e os Silva. Digo alegria por- neologismos luso-rongas em Craveirinha se, de certa maneira e como analisá- que o mundo literário é mos, desestruturam aquilo que seria uma linguagem poética em língua portu- povoado de ambivalên- guesa, criando anomalias, por outro lado e também conforme verificámos, por- cias, de jogos de luzes e que as tais anomalias fazem parte da poesia, eles criam a poeticidade, acabando sombras, de ficção e por reestruturar uma nova linguagem poética marcando o seu estilo. No seu realidade, de leituras todo, no seu conjunto acabam por criar uma estética que se liga, tal como o esti- segundas. Mas aqui, lo, à cultura, à sociologia e a uma ideologia nacionalista moçambicana.» com a ajuda desta luz Pergunto-me, com algum espanto, nesta diversidade de linguagens a que o artificial, e sem nada na Calane se cometeu ao longo de uma vida não menos curta, onde ancorar a manga, as minhas pala- minha homenagem? De que Calane devo falar? vras querem-se livres de Do cidadão, claro, do homem simples que está para além dos títulos e cargos outras leituras que não a que teve e têm. O Calane que eu conheço hoje não difere daquele que em Junho de alegria em homena- de 1992, disse, em entrevista, a respeito da censura e quejandos, ao estudioso gearmos o primeiro Michel Laban: «Aqui, havia uma censura oficial, no tempo colonial; depois da escritor com o prémio carreira, prémio instituído pela Hidroeléctrica de Cabora independência houve uma espécie de auto censura ideológica. Havia colegas Bassa e a Associação dos Escritores Moçambicanos. nossos que tinham medo de dizer as coisas, faziam uma autocensura, porque Calane da Silva é das raras personalidades em cujo percurso a linguagem se tornou estavam convencidos que eram uns grandes marxistas-leninistas! Em nome de o alfa e o ómega da sua condição de cidadão e intelectual. Foi a linguagem, na ver- um progresso, em nome de uma futura nação – sempre o futuro -, liquidavam o tente jornalística, que ocupou um espaço privilegiado na sua carreira, catapultando presente! Não sabiam que era pondo a verdade que se podia discutir sobre ela e -o à galeria de insignes jornalistas que marcaram, com a pena, distintos momentos depois avançar-se para esse futuro que eles queriam. Mas isto, quando um Esta- na denúncia de actos iníquos antes e depois da independência; foi a linguagem, na do começa a ser mais policial, começa porque há resistência a esse Estado, as vertente poética, que moldou a personalidade rebelde deste poeta qua cantou a pessoas começam a ficar também um bocado extremistas, ou calam-se um nossa suburbana vida no epicentro da sua Malanga. bocado e vão escrevendo, tal como no tempo colonial, ou então aderem e dão Quem não se recorda desse poema emblemático Dos Meninos da Malanga : panegíricos ao governo: «Viva isto e Viva aquilo». Sempre que houve necessi- Mukhokweni/não é só lugar de cocos./ Mukhokweni tem história/ retida na íris/ dade de fazer uma coisa que estava bem, não tive problema nenhum em dizer dos meninos da Malanga./ Vivíamos a monte/ entre coqueiros, pamas e piteiras/ e que estava bem e em fazer a reportagem. Sempre que havia algo que estava tínhamos tudo!/ Crianças sempre esfarrapadas/mulheres grávidas todos os anos/ mal, também não me coibia de o dizer. Paguei um bocado, apanhei uns bofe- xibalos-carregadores/ e magaízas endinheirados/ que os mabandido por vezes/ tões! Tive vários problemas de despedimento, de autodespedimento, empurrado esfaqueavam./ A polícia também investia para metralhar corpos/ e efectuar pri- para fora dos jornais!» sões/ mas em Mukhokweni/ sobretudo/ vivíamos entregues a nós mesmos./ Vinte e Este é o Calane que nós conhecemos na aurora da nossa existência literária. quatro anos são passados/ sobre os coqueiros, pamas e piteiras/ de Mukhokweni Um Calane que entre outros escritores de nomeada, soube-nos transmitir que o ora urbanizado./ Mas os gritos/ pragas e imagens continuaram/ doidamente con- valor supremo de um patriota é o saber dissentir, dizer não. A crítica, fazendo densados/ nos nossos corações já amadurecidos./ Jacinto, Fernanda, Madala/ e tu minhas as palavras de um teórico, é mais do que um direito: é um acto de Kadir?/Todos companheiros de infância/ que o regime implacável dividiu…1969; patriotismo, uma forma de patriotismo superior aos rituais familiares da adula- Foi a linguagem, na vertente romanesca, que firmou Calane na galeria dos escrito- ção nacional. Em abstracto, celebramos a liberdade de expressão como parte da res desta pátria com o romance Nyembete e o pendular livro de contos Xicandari- nossa liturgia patriótica, mas na prática poucos de nós fazemos da dissensão um dever nacional. Manuel Alegre regressa à poesia Não iria terminar esta breve e tosca prelecção em volta desta figura que bem mereceu o prémio carreira ora instituído, sem me ater aos imponderáveis poe- mas que emergiram, muitos deles, nos anos 80, anos de verdadeira boémia nesta com «Nada Está Escrito» cidade que se descaracteriza a cada dia que passa. Calane, devo dizer, preenchia as nossas noites com poemas que só ele, naquele instante, como que apossado por esse estado de hierofania, sabia evocar. Da lírica do Imponderável e outros Poemas do Ser e do Estar, escolho a que se refere a sua cultura ronga: Sobre o livro: «Manuel Alegre volta, neste novo Maputo livro, a confrontar a sua Terra de Maputsu pela história miscigenada/ suor nas estradas, nos prédios, nos poesia com as grandes milheirais/ dos rongas sua língua e sua cultura ameaçada/ mas na escrita literá- questões: o sentido da vida ria fortes vozes nacionais./ Na baía outrora farta desaguam três rios de fome/ e as incertezas, interroga- em três húmidos vales, ricos e mal aproveitados/ aqui deram nome à capital que ções e angústias deste nosso já tinha seu nome / ka Mpfumu cidade de governantes e governados./ Com por- tempo. Uma poesia, nas tos construídos para servir Transvaal/ terra assaz disputada entre Inglaterra e palavras de Frederico Lou- Portugal/Maputo é hoje província e urbe de estranha gente./Os da terra olham renço, que ―não esconde o os passos dos que vêm de fora/ os de fora os passos imprecisos da gente de ago- sofrimento e a dor da exis- ra/ gente tão adversa, tão de medo, tão maldizente. tência humana, mas que Saravá, Calane. nunca aceita a resignação ou o pessimismo‖. Um E obrigado novo poema de Manuel Ungulani Ba Ka Khosa Alegre, diz Lourenço, Nada Está Escrito, novo livro de poesia de ―afigura-se-nos sempre Texto apresentado na Homenagem ao escritor Calane da Silva, 23 deMarço Manuel Alegre, será a lançado a 7 de Abril como um fenómeno incrível 2012 pelas Publicações Dom Quixote. de originalidade.‖»
  6. 6. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 6 O curandeiroCroniconto contratado peloFICHA TÉCNICA meu edil Dany Wambire - Beira estrutura membros de partidos da Oposição ou da danitoavelino@gmail.com Posição. Entrementes, de imediato, o presidente quis atacar os Os resultados das eleições já há muito eram problemas que encontrou, ordenar a destruição das conhecidos. E não estavam longe das previsões, infra-estruturas desordenadas e as edificadas nasPropriedade do Movimento Literário Kuphaluxa confirmando as sondagens. E o presidente tomou antigas valas de drenagem e que em tempos deDirecção e Redacção posse ante os apoiantes eufóricos, muitos deles cheias os proprietários exigiam assistência humanitá-Centro Cultural Brasil - Mocambique desejando de imediato recompensas do apoio de ria, curiosamente. De imediato, também, a ideia deAv. 25 de Setembro, N°1728, que eles prestaram ao recém-eleito presidente da presidente venceu adversão dos vereadores, encas- autarquia. Acotovelam-se no partido de que presi- quetando-lhe:C. Postal: 1167, Maputo dente fazia parte, uns dizendo que eram mais ― Não faça isso, sua excelência, se não perderás membros que outros. Até uns chegavam a inter- muitos votos nas próximas eleições.Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 07 46 pelar o presidente apenas para maldizer dos O edil não desandou, a decisão manteve-se. E, logo603 outros: que a decisão foi posta em voga pela mídia, as pes- ― Aqueles estão a aderir ao partido só para tirar soas e outras visadas desataram a maldizer em surdi-Fax: +258 21 02 05 84 partidos. na: queremos ver, vão morrer, isto é Fim-de-Mundo,E-mail: kuphaluxa@sapo.mz E diziam mais. Acusavam alguns que viram fula- que se coloquem a pau, vão avariar esses guindastes.Blogue: literatas.blogs.sapo.mz nos metidos em conversa com sicranos do partido No seguido, os guindastes, essas máquinas de levan- da posição ou oposição. Tristonho! Parece-me tamento de pesos, estavam no terreno a exercer o que custa ser dirigente numa autarquia como a trabalho. Mas a dado momento, enquanto o trabalho DIRECTOR GERAL nossa, a de Fim-de-Mundo. Pois, para além de se exercia, desatou a jorrar sangue através do chão Nelson Lineu satisfazer os interesses dos munícipes, deves da máquina. Vinha de onde? O combustível da máqui- (nelsonlineu@gmail.com) recompensar com coisas imediatas aos seus par- na se convertera em sangue? Não. Soube-se instan- Cel: +258 82 27 61 184 tidários. E caso não o faças conspiram-te, até de tes depois quando o proprietário do sangue, já enxuto, te demitirem? Sei lá, respondam os que conhe- menos pesado que papagaio, não mais respirava. EDITOR cem disciplina e indisciplina partidária. Estava morto, pés involuntariamente afundando os Eduardo Quive Sei, sim, que quando o genro de meu avô, Genró- pedais. (eduardoquive@gmail.com) nimo Comichão, entrou para a autarquia, a mes- O presidente e os criminalistas entenderam aquilo Cel: +258 82 27 17 645 ma tinha muitos problemas. Havia desordenadas como normal, de hemorragia externa se tratava. E construções de casas, construções sem as res- foram a conduzir a máquina de destruição tantos CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele pectivas licenças. Até em valas de drenagens outros maquinistas, num número de 20, tendo sido (amosse1987@yahoo.com.br) havia gigantes obras, edificadas ante o olhar e todos acometidos pelo igual azar: tremendas hemor- Cel: +258 82 57 03 750 ouvir impávidos das predecessoras autoridades ragias. Enquanto isso, as pessoas visadas festejavam autárquicas. sem pompas, mas com circunstâncias. REPRESENTANTES PROVINCIAIS No resto, os vereadores do anterior governo, os Foi, então, a partir deste momento que o edil decidiu Dany Wambire—Sofala que demoniacamente engendraram e permitiram criar um gabinete, que responderia prontamente aos Lino Sousa Mucuruza—Niassa a evolução dos supracitados problemas estavam problemas, o gabinete de assuntos tradicionais, no rente governo autárquico, não de pedra e cal, depois passado para gabinete de Magia. Contratou os incumprindo as respectivas funções. Só o novo respectivos recursos humanos, quatros famigerados COLABORADORES FIXOS edil não os exonerou para uma boa imagem políti- curandeiros, e orçamento, como ordenavam as intesti- Pedro Do Bois (Saranta Catarina-Brasil) , Victor Eustáquio (Lisboa — Portugal), ca. Pois, nos tempos que corriam soava bem para nais regras autárquicas, aprovado pela respectiva Mauro Brito, Japone Arijuane. os doadores ouvir que um governo tem na sua Assembleia Municipal de Fim-de-Mundo (AMFM). COLABORAM NESTA EDIÇÃO Amosse Mucavele ILUSÃO Silas Correa Leite Nina Rizzi amosse1987@yahoo.com.br Sebastião Marques Cardoso João Melo O espelho não reflecte os medos que encharcam o meu silêncio. Muito menos as alegrias que degolam o Izidine Jaime meu sorriso. Vera Duarte Guido Bilharinho As Vezes Ungulani Ba Ka Khosa O espelho mente a dizer verdades na inocência das incertezas que se amotinam na vista alegre das minhas angústias. A tocar flautas. Ao som do triste olhar da lupa COLUNISTA A atirar pedras. Para os olhos que se olham a procura da verdade das certezas pintadas a vermelho dos Marcelo Soriano (Brasil) semáforos. FOTOGRAFIA Paragem! Miragem? Arquivo — Kuphaluxa As 4 rodas roncam (a morte, a angústia, o silêncio, a memória) na abstracta estrada da ilusão, onde F L O R E S apodrecem no verão esburacado da objetiva da máquina fotográfica. Múltipla visão (ordem e caos, verda- PARCEIROS des e mentiras) de olhos bem abertos na fechadura da alma amedrontada pela doce aparição Centro Cultural Brasil—Mocambique do labirinto. As flores atravessam a primavera (que há muito clama por elas) com sapatos de neve (cuidado o Verão é Portal Cronopios eterno) chutam o silêncio que habita a escuridão. e lá lá e lá . www.cronopios.com.br E lá do outro lado da margem, em pleno suar do inverno uma flor (esta) sem árvores nega de dar a voz as Revista Blecaute pedras. Insiste. Persiste em aprender a ética da memória das flores que se escondem na estação última do tempo (o Revista Culturas & Afectos Lusofonos sono) com amarguras de alegrias e angústias. Deitadas no prato hasteado nas lágrimas da bandeira do culturaseafectoslusofonos.blogspot.com futuro. E no presente? Vejo a minha face multiplicada por 2 no quadro dos olhos deste Deus da Carnificina chamado espelho.
  7. 7. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 7Poesia EXERCÍCIO POÉTICO 5 Vera Duarte– Cabo Verde A Ti Fechemos as cloacas fétidas da cidade e deixemos inebriarem-se os ares de recendidos perfumes estivais. É o preço da liberdade. Palmeiras ao sol e longas longas praias de areia molhada a manterem desperto o fervilhar anímico das paixões. A voz da líbido. Em toda a sua violência incontrolável. No entanto sublimar é palavra d’ordem. Sublimar aqui e agora o desejo da presença, da intimidade, do isolamento a dois. Mutilar a alma, sacrificar as paixões em nome das convenções que nos fazem civilização e grandeza. Sinto em mim, contudo, imperioso e dolente, o desejo da terra molhada, dos corpos belos, o prazer físico da presença desejada, do frémito incontido ao roçar leve da tua mão na minha. Em nome da cultura e da civilização sacrifico-me. A minha coroa de glória quem ma dará? E pergunto-me dilacerada se será civilização e grandeza ou mesquinhos arremedos que a miopia colectiva endeusou.Morte desenraizada Não ouso afrontá-los contudo. E dentro de mim, censuradas e sedutoras, sucedem-se as imagens proibidas e as sensações interditas.José Carlos – Guiné Bissau Sublimar é palavra d’ordem. O amor e a paixão, a líbido e o prazer. No altar dos valores supremos. Sublimar aqui e agora e manter estóica e estupidamenteSergui após a marca das tuas botas secretos os diálogos que comigo mantenho contigo.Sobre as folhas mortas em terra húmida Convenho-me que a vida é feita de ironias.Ignorava qual a fera terrivel que perseguias Quereria contudo abraçar-te em meio à multidão, correr ao encontro de ti pelas achadas imensas e juntos nos afogarmos nas ondas deste oceano que é nosso.Tal era o empenho e a atenção dos teus gestos Amanhã o dia será de glória.E vi na tabanca queimada devastadaAs mesmas botas calcar o sangue, o corpo [ a morte inocenteDe crianças da tua cor, do teu credo perdido Sol No Muceque DANÇARE soube que na terra em pranto pela tua Pedro Du Bois - Brasil [afronta João Melo - AngolaTu terias uma morte desenraizada. Vejo: pés rápidos deslizam Redonda lâmpada acesa passos convencionados. a amarela luz alastrando-se O rosto preso no exemplo. EU E OS MEUS VERSOS LIVRES por sobre o zinco das cubatas Mãos inertes ao contato. Os fartos cabelos Reflito a posição exigida das mulembeiras e lamento o acontecimento: C. C. Cossa – Maputo Rapaigas cartando água no chafariz dançar é esquecer o que vejo.A primeira vez que ousei escrever um verso, era um dia en- Meninos de barriga inchadasolarado de onde aos poucos era parido uma noite de estre- Ativar as mãos brincando com bola oulas de ventres de amor e saudade. Aprendia que o coração deslizar o rosto tampas de garrafatambém sabe bater para além de estar vivo, para além do reinventar o somseu derradeiro pulsar, para além da mais aparta-da existên- em movimento.cia que a mente humana ousou alguma vez maquinar. Nesseexacto momento, senti que ele, o verso, me segredava ver- Idades Patinho Feiodades que nem a própria verdade acre-ditou que se tratasse Mauro Brito - Maputodela, a verdade. Dizia ele, o verso, todo ensopado numa es-trofe, uma estrofe como uma estrofe qualquer, por ser um Desabotoam acidez da mente Silas Correa Leite - Brasilconjunto de verso, porém como uma estrofe única por ser Há que descorar as blusas semuma estrofe que falava poesia: «Se não me vês como uma licençaobra-prima, como arte, tocando Malangatana ou Picasso, Pouco amigas “-Solidão, cuida de mim...”então não sou poesia. Não preciso que me empanturres de Feito um Patinho Feio a sonhar Sem dizer que cospem venenos fluidosrimas. Não preciso que me engravides de versos anapésti- Mergulhado em agulhas de tristices Articulados com os corpos Ressentimentos, saudades, jogos decos, trocái-cos ou iâmbicos. Não preciso que me engrosseaté ao último balanço, ou me dar das bebidas de versos de- E copos desses seios espelhos, azarcassí-labos heróicos, ou sáficos. Bastam o ritmo, a conota- Em autentica conformidade comção, e os recursos estilísticos, que já sou poesia. Que deixe- Maus “-Solidão, cuida de mim...”mos os Camões saborearem o silêncio das sua tumbas poéti- Modos Porque ainda por cima, para piorarcas na poeira de uma poesia que renasce das cinzas do seu Amorfo lógicos O Patinho Feio é poeta e quer voar!labiríntico eu. Não só Pessoa tem o direito de fin-gir que édor.»
  8. 8. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 8Entrevista Fonte: www.saraivaconteudos.com.brLuís CardosoEntre o sere não sero primeiro Luís Cardoso nasceu no Timor-Leste. É autor de quatro romances: Crónica de uma travessia (1997), Olhos de coruja olhos de gato bra- vo (2002), A última morte do coronel Santiago (2003) e Requiem para o navegador solitário (2007), seu primeiro livro publicado no Brasil. O Timor-Leste, país marcado por sucessivas invasões e conflitos intensos, é, como diz o próprio autor, “uma colcha de retalhos etnolinguísticos”. Além disso, há neste país forte tradição da cultura oral. Por isso, Luís Cardoso é considerado o primeiro autor timorense a escrever em língua portuguesa. O autor, entreta nto, rejeita o rótulo. Homem de gestos simples e delicados, Luís Cardoso fala, nesta entrevista, de sua relação com a língua portu- guesa e com o Brasil. E conta um pouco sobre os desafios de criar a partir de uma voz feminina. Como fez com Catarina, a personagem principal de Requiem para o navegador solitário.N o Timor Leste o Tetun é o idioma oficial. Diante de tantos dialectos existentes no Embora rejeite o título, você é tido como o primeiro escritor timorense. Como é a relação Timor, por que você escolheu a língua portuguesa? E de onde surgiu seu interesse desses conflitos étnicos e políticos do Timor Leste com o seu trabalho? por literatura? Luís Cardoso -O primeiro livro que escrevi chama-se Crónicas de uma travessia. O personagemLuís Cardoso - Por escrever em língua portuguesa desde a infância. Há um episódio muito interes- principal não está nomeado, muito gente diz que é uma autobiografia, posso citar como sendo, massante. Eu vivia numa ilha chamada Taurus, uma ilha mais pequena que o Timor, onde havia um des- ao mesmo tempo podia ser a vida de qualquer outro timorense. O Timor é uma manta de retalhosterrado político português - por oposição ao regime de [António de Oliveira] Salazar. Ele resolveu de vários grupos etnolinguísticos. Quase podemos afirmar que atravessamos de nação em naçãofazer uma padaria, o filho dele era meu colega. Meus pais não tinham dinheiro para comprar pão por- por todo o Timor. Tentei dizer mais ou menos em Crónicas de uma travessia, para as pessoasque era um objecto de luxo. Os nativos, nós, os timorenses, comíamos batata-doce, mandioca... São conhecerem um pouco do Timor real, e não somente aquele que conhecem pelos jornais, pelo dra-essas coisas que faziam parte do nosso pequeno-almoço. Quando havia as redacções, que se fazem ma da Resistência Timorense. Depois da minha estreia, procurei me adentrar no universo timorensenas escolas primárias, eu fazia sempre duas versões: uma versão para mim e outra para ele. Ele que através do segundo livro, que se chama Olhos de coruja, olhos de gato bravo. Olhos, portanto, umera filho de português, e eu timorense. E como recompensa ele me dava um pão com manteiga. Foi olhar interior sobre o povo timorense, sobre seus ritos e mitos. E, sobretudo, um olhar feminino.assim, digamos, que passei a tomar o gosto de escrever em português. Como eu tinha que escrever Todo o universo timorense é dominado pelo olhar feminino. As mulheres que leram o livro disse-duas versões, isso fez com que eu tivesse uma imaginação maior. Porque todas as vezes tinha que ram que é um texto mágico, mulheres timorenses e mulheres feministas portuguesas. Isso me deuescrever uma versão para mim e outra para ele. Deu-me o gosto desde a infância. E depois, com o orgulho porque achei que eu tinha ganhado um desafio. O terceiro livro chama-se A última mortetempo, fui me habituando, gostando de escrever em língua portuguesa. E foi assim que se iniciou a do coronel Santiago, um título que se relaciona com a América Latina. Depois da libertação dominha relação afectiva com a língua portuguesa, mas só tive a oportunidade de escrever bem quando Timor, regressei ao Timor para acompanhar o Prémio Nobel de Literatura, José Saramago. Foifinalmente fui para Portugal, em 1975. muito interessante descobrir que por trás do Prémio Nobel, do escritor, existe outra pessoa que muita gente desconhece.Você mora em Portugal até hoje... Quem é essa pessoa?Luís Cardoso -Estou lá até hoje. Quando estive em Portugal, começou a invasão do Timor pelosindonésios. Nunca mais pude regressar ao Timor. Então, comecei a fazer parte da frente diplomática Luís Cardoso -É um grande contador de histórias, uma pessoa afável. O grande escritor, o escritorda chamada Resistência Timorense. Como falava alguma coisa de inglês, os meus colegas decidiram que todos nós conhecemos, é diferente daquele que conheci nessa viagem ao Timor. Ele foi encan-utilizar-me nessas andanças todas. Quase todo o resto da minha vida foi, precisamente, a fazer diplo- tador em Timor, atencioso com as pessoas... A última morte do coronel Santiago tem esse nomemacia pela Resistência Timorense. porque nessa ocasião, em que estive no Timor acompanhando José Saramago, um tio meu que foi tenente da segunda linha do exército colonial português me perguntou: "Quando os portugueses
  9. 9. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 9Entrevista www.saraivaconteudos.com.brregressam ao Timor?" ―Bom, os portugueses não vão regressar ao Timor‖, eu respondi, ―nestemomento estão as Nações Unidas em Timor, que farão a transição e o Timor vai ficar independen- Catarina. Quem é essa personagem do livro Requiem para o navegador solitário? Seriate. Portanto, os portugueses já não vêm ao Timor. Até podem vir, mas integrados com as Nações sua terra natal, o Timor?Unidas.‖ Ele ficou magoado com minha resposta. Passado um tempo, ele voltou a perguntar:"Quando os portugueses regressam ao Timor?" E só aí eu descobri o motivo da pergunta recorrente Luís Cardoso -Ah Catarina... [pausa] Depois desse livro ganhei uma afeição especial porde meu tio: "Se os portugueses regressassem neste momento ao Timor, o meu posto seria coronel e escrever a partir do universo feminino. Há escritores que fazem isso de uma forma magnífica,eu receberia os retroactivos todos." A resposta dele me fez lembrar um livro do Gabriel Garcia como é o caso de António Lobo Antunes, cujas personagens femininas são excelentes. Eu tam-Márquez, Ninguém escreve ao Coronel, em que estão à espera do vencimento que nunca chegava. bém decidi aventurar-me por isso. Acho que falo melhor assim, não me travestindo comoPor isso decidi dar aquele título ao romance. mulher, mas julgo que através de uma voz de mulher consigo expressar-me melhor. Decidi contar uma história sobre a Segunda Guerra Mundial em Timor através de uma personagemQual é a importância da língua portuguesa para os timorenses? feminina muito forte, que é a Catarina. Timor sempre foi um ponto de encontro de várias pes- soas, desde aventureiros, negociantes, desterrados políticos do regime de Salazar... E tambémLuís Cardoso -A língua portuguesa teve um papel muito importante durante o tempo da Resistên- uma terra marcada pelas invasões. Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor teve duas inva-cia. Porque os documentos que nós recebíamos do interior do Timor, que a Resistência fazia circu- sões. A primeira pelos Aliados e a segunda invasão pelos japoneses, que durou mais tempo.lar, eram em língua portuguesa. O que significava que a língua oficial da Resistência era o portu- Sempre tive uma afeição muito grande pelos navegadores solitários, pelas pessoas solitárias, eguês. Só que a maioria dos falantes de português foi morta durante a ocupação. Diante disso, por todos aqueles, alguns mais desesperados que outros, que passavam por Timor: viajantes.depois da independência há a necessidade de fazer uma reintrodução da língua portuguesa em Há um viajante que passou por Timor, Alain Gerbault, um navegador solitário francês que fezTimor. E, neste momento, há países que colaboram: professores portugueses, professores brasilei- uma viagem de circunavegação e escreveu um livro que se chama À la Porsuite du Soleil. E,ros, angolanos, da Guiné... Portanto, a lusofonia. Mas isso levará algum tempo, porque as Nações por uma terrível coincidência, ele morre em Timor - que nós, os timorenses, chamamos de "aUnidas, mesmo estando em Timor, não vêem com bons olhos, acham que é uma utopia a reintrodu- terra onde nasce o Sol". A partir desse fato desenvolvi toda a trama do livro Requiem para oção do português em Timor. Pensam que é mais fácil utilizar o inglês. Motivados por essa pressão navegador solitário. É a história de Catarina, uma pessoa que vai a procura do amor e, ao mes-das Nações Unidas, muitas vezes parece que não temos vontade de acelerar o processo de reintro- mo tempo, tem reveses. São pessoas que perante reveses contornam as situações. E isso acon-dução da língua portuguesa em Timor. Também por causa da instabilidade política em Timor, mui- teceu com Timor, teve um revés tremendo em toda sua história e deu a volta por cima. E hojetas das questões fundamentais são relegadas para um segundo plano. Acredito que uma vez politi- Timor é um país independente.camente mais estável o Timor terá a possibilidade de fazer uma reintrodução mais rápida do portu-guês. Você se considera um homem solitário?No final dos anos 1980 você veio ao Brasil e se encontrou com o Lula. Actualmente você lança Luís Cardoso - Acho que nós todos somos solitários em algum momento de nossas vidas. SerRequiem para o navegador solitário (Língua Geral). Como é lançar seu livro no Brasil neste solitário implica estarmos sós, estarmos com o mundo. Quando estamos solitários o que noscontexto político? vem à cabeça são os momentos que estamos com toda a gente, mas não estamos com ninguém. O ato de estar solitário não é de desespero, mas o ato de estarmos também com os outros.Luís Cardoso -É uma alegria. É bom que um país como o Brasil possa ler o livro de um autor lá dofim do mundo. Muitos brasileiros não sabem onde fica o Timor. Espero que os brasileiros gostem Quando você pensa no Timor, qual a primeira imagem que aparece?do livro, sei que têm bom gosto. Espero que seja bem aceito. É uma honra para o Timor. Fico mui-to satisfeito. Qualquer dia a minha filha, que hoje tem seis meses, quando crescer vai poder dizer: Luís Cardoso -A infância. Fui muito feliz na infância em Timor. [silêncio]"Meu pai foi editado no Brasil." É uma honra para mim também.
  10. 10. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 10 FilosofoniasColunistas Marcelo Soriano — BrasilO passo certo m.m.soriano@gmail.com no caminho errado Nelson Lineu - Maputo nelsonlineu@gmail.com Comentário: Na Minha Agenda, Hoje, Escrevi O país das desculpas - Amanhecer: regar flores que amanheceram murchas. - Meia manhã: rabiscar excertos de amor. segunda-feira, Abílio toma banho, veste-se, passa - Entardecer: mostrar a ela que flores e corações se regen-É pelos olhos da mulher e dá volta para ela ver se o eram. cinto passou em todas casas, além do seu salário essa ....................................................................era a sua grande dor de cabeça. Sai sem pôr nada na boca Mini crônica: Tríade a Porto Alegreporque não lhe cairia bem, não criaria efeito à causa. Comoele podia beber naquele dia que se tem como sagrado? Amulher não conseguia entender, não por causa da religião, Em um sebo da Rua Riachuelo, deparei-me com minhasegundo ela, era por um motivo mais sério, é que no dia obra favorita. - Que livro seria este? - Ora,seguinte tinha que ir ao emprego, e ele sabia muito bem, o a minha velha e mal tratada Ópera Existencial.que é viver desempregado. Acordou cedo porque tinha que *****passar na dona Felismina, a sopeira, dedicava-se a venda de Dos meus fantasmas cotidianos, restaram os lenços, que,sopa, que servia para matar babalaza, termo usado para sequer, conseguem flutuar emsignificar ressaca. assombros de vento. *****Nesse país de desculpeiros, como ela dizia, por as descul- Gavetas tristes, estas, que não nos devolvem os alfarrábiospas serem mais graves que os próprios erros, e cá por nós que ainda ontem as confiávamos.como temos o hábito de sofisticar as coisas ou fazer uma ....................................................................analogia chamamos por inquérito. Hoje elas também ser-vem para negócios, por isso a Felismina vê na sopa a for-ma Poema: Das Minhas Gavetasde se dar bem, e o mais difícil nessa pátria que ama mais doque é amada, é igualmente estar a fazer um bem. ("Nenhum", em 14/11/2010)Agora encontra-se no seu trabalho, é um bibliotecário. Ver Entre mortos e feridosos estudantes empenhados a cultivar a ciência, embora haja ricos e falidostendência de afirmar que não somos produtivos, por esses lembrados e esquecidosmomentos, ele punha interrogações a esse dogmatismo, achados e perdidossentia-se bem, quando os slogans, propagandas, discursos tarados e traídosnão entravam na sua vida. De certeza os putos não seriam sobramoscomo os actuais condutores do país. Pensava. Os que con-duzem ninguéme fazem a regra desse trânsito mais parecem que se esforçam ....................................................................para justificar do que para trabalharem propria-mente. Nuncadamos mão a palmatória, como se fossemos os únicos quenão sabem errar. Num dos miaquotidianos vivi que nãotínhamos que ter vergonha de não saber, o que tínhamosrecear é não ter a inquietação para tal. É assusta-dor comoficamos confortáveis na sombra das desculpas, que acabasendo o mesmo que fugir a luz do conhecimento e o seuconsequente progresso. Todos dias testemunhando aqueleacto de amor aos livros, Abílio fazia-se crer que o cenárioactual tinha dias contados. Contados até ao minuto em queum dos estudantes, sonecava claramente, ele o amparouquando estava quase a cair. Amigavelmente cha-mou-lhepor seiva da nação, o mesmo que juventude por aqui, disse-lhe que ali não era local para dormir, sempre com sorriso norosto como as secretárias, ofereceu-lhe água para lavar cara,se quisesse ele mesmo aquecia, e ain-da faria um café.A seiva da nação foi respondendo aos berros, dizendo queele não estava a dormir, e o funcionariozinho não era nin-guém para lhe dizer como estudar, porque cada um tinhaseus métodos.
  11. 11. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 11O SANGUE DE UM POETA A Transgressão do RealGuido Bilharinho - BrasilEm geral, tanto o leitor como o espectador querem usufruir de uma Todo o insólito e extravagante que consti-estória, em livro, filme ou peça teatral. Não uma estória qualquer, tui o conteúdo da proposição é, pois, cons-mas, a que se submeta, quanto à forma, à narração convencional e truído com o material existente, comum e prosaico, no caso, a estátua,comportada e, no que tange ao conteúdo, à linearidade e superficiali- a parede, o espelho, a porta, a fechadura, o teto, o desenho.dade que a recheiem com aspectos espetaculosos, intrigantes, super- Desse condicionamento, no entanto, não se pode nem se consegueficiais. fugir. A diferença, pois, é de se ter ou não liberdade, audácia e criati-Todavia, é possível fazer-se filme de ficção que não contenha nenhu- vidade em seu uso, para, além da matéria, seus limites e convenções,ma dessas características. abusar-se de suas propriedades e possibilidades.É o que ocorre, por exemplo, com O Sangue de Um Poeta (Le Sang O uso é sempre convencional, comportado e acanhado. O abuso éd’Un Poète, França, 1930), de Jean Cocteau (1889-1963). liberação, criação, invenção, quebra dos grilhões impostos pela con-Seu tema concreto resume-se a ferimento acidental ocorrido na mão cretude do real.de artista plástico. À evidência, que proposta desse jaez encerra riscos e exige, além deSó isso, contudo, vincula a narrativa à realidade. A partir daí e do destemor, fundamentação teórica e conhecimento da natureza e dapróprio acidente desconecta-se a ação do contexto real para adentrar finalidade da arte, sem o que toda produção não passará de tentativao mundo maravilhoso e ilimitado da imaginação alógica e irracional. canhestra de fazer o diferente quando não se estará fazendo mais doNada mais prende ou enleia a personagem numa teia ordenada de que o despropositado.relações, porque desde então está-se mergulhado no mundo do mito e Cocteau, em seu filme, domina e utiliza com conhecimento de causasdo imprevisível. e efeitos os fatores condicionais (a materialidade das coisas) e incon-Não havendo restrição alguma ao poder do imaginário, tudo é possí- dicionais (a imaterialidade do pensamento e a imponderabilidade davel, todas as opções são válidas, repousando o valor do filme na utili- imaginação) para fundamentar e realizar bela aventura artística, pro-zação consciente e estética de recursos cinemáticos e picturais. duto de razão, inventividade, arrojo e liberdade criativa. Um artistaNo caso, uns e outros apresentam-se articulados em alto nível de sem medo de errar.concretização formal e temática, facetas que se conjugam e intera- Conquanto o filme tecnicamente não seja mudo (com esparsas narra-gem como síntese de projeto artístico-cinematográfico meditado e ções do próprio cineasta), é estruturado como se o fosse, com privile-ousadamente elaborado, em que se aplicam os preceitos surrealistas, giamento e realce da postura e dos movimentos dos atores integradosque não se conformam nem se atêm aos lindes da materialidade, em décors artisticamente elaborados, compondo imagens estetica-extrapolando suas fronteiras, conquistando e incorporando novas mente construídas, dispensada a dialogação.dimensões estruturais, criando outro universo, no qual acontece jus-tamente o que é impraticável ou impossível ocorrer no mundo real. (do livro O Filme Dramático Europeu, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2010-www.institutotriangulino.wordpress.com)O projeto surrealista, no entanto, não tem como dispensar os elemen- __________________________________tos corpóreos e palpáveis que compõem a realidade. Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba/Brasil, foi candidato ao Senado Federal e editor da revista internacional de poesia Dimensão, sendo autor de livros de literatura, cinema e história regional. (Publicação autorizada pelo autor) Publicidade Em Agosto de 2012 Maputo será a capital da Literatura Festival Literário de Maputo Saiba como participar em: http://festivalliterariodemaputo.blogspot.com festivalliterario.maputo@gmail.com
  12. 12. Nina Rizzi inundação era noite de bafo quente. a rigor, madrugada. o calor batido fê-lo carne voar longe. um estampido. feito tiro, finalizando tudo: o semáforo verdevermelho, a rua de passantes apressados, o coletivo cheio de curiosos. uma batida quente e escura inundou o asfalto de sangue e carne fraca e fê-lo findar. era noite de bafo quente o dia que experimentou ser livre. sepia clouds: crepúsculo e antiplatonismo na rua oliveira filho N ina Rizzi (São Paulo, 1983), é poeta, abortei os hifens que me separam de você. historiadora e arte-educadora. Vive para o afundamento agarro comigo as plantas mortas em Fortaleza/ CE. Participa de saraus, sem cuidado, sem espinhos. festivais de arte, eventos literários e palestra sobre poesia, literatura, género e artes, não tenho créditos pra fazer uma ligação. e é engajada em movimentos sociais como o MST minha vista é enferrujada do container de lixo. (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) vão trocando seus títeres, se mudando títere. ao mesmo passo e o Movimento Arrastão. à uma suave distância, pareço um sem-fim de verbetes Publicou o livro de poesias tambores pra n’zinga (Editora Multioco, 2012). Participa com poemas e 1. microfísica do confessionalismo posfácio em Maria Clara: UniVersos femininos 2. egocêntrismo, atrevimento e invenção (LivroPronto, 2010); Faz parte das Escritoras ... [entrementes] Suicidas e de Dedo de moça - uma antologia das o claustro é tão real quanto a execução de kadafi escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, e os cem mil anônimos que morrem de fome a cada dia 2009). Tem textos, contos e poemas publicados o meu desejo de ser esfaqueada e lambida; em diversas antologias, suplementos literários e estas súplicas escondidas na mandíbula nas revistas VacaTussa (Recife/ Pe), La Papa têm a dimensão da tristeza dos que não se sabem Ruchada (Argentina), Nova Águia (Portugal), do desespero do homem que costura minha carne a lágrimas Revista Germina Literatura, Garganta da tudo o que viram nas máscaras do homem da tabacaria. Serpente, Zunai Revista de poesia & debates e Portal Cronópios. Edita os blogues Ellenismos agora me olha de novo. o pequeno mundo. Diálogos com a Arte HTTP:// olha, até que se esgote todo o amor sim, um rasgo, o peso do mundo. ellenismos.blogspot.com], e seus textos literários no quandos, [HTTP://ninaarizzi.blogspot.com].
  13. 13. SEXTA-FEIRA, 30 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 13Ensaio Sebastião Marques Cardoso (UERN-Brasil) Texto apresentado, com o título ―Dramas do Imaginário na literatura Bissau-Guineense‖, no XII Encontro Interna- cional da ABRALIC (2011), Curitiba Brasil. Cartografia do Imaginário: a voz de Abdulai Sila entre Colonizadores e DjambakusR esumo: afirmar a Iremos, neste artigo, abordar A última tragédia (1995), romance de Abdulai Sila, identidade dos escritor de Guiné-Bissau. Nosso maior interesse será refletir sobre duas formações bissau-guineenses. tensas do imaginário, que percorrem a narrativa do princípio ao fim. São elas: a Em contrapartida, presença do sujeito local, negro e nativo, e a força estrangeira, representada pela o caráter engajado inscrição do homem branco e de suas instituições. Avaliaremos, assim, como essa do livro acabarelação dicotômica se estabelece na narrativa e como o conflito decorrente dessa polarização restringindo acontribui para um desenlace trágico, que evidencia a crueza da empresa colonizadora sobre uma potencialidade dopopulação de diferentes matizes étnicos. Ao final, indagaremos se a forma narrativa empregada, o mesmo em muitosromance, foi, para o escritor, o melhor caminho para a exposição do trauma da colonização e até aspectos. Toda aque ponto a narrativa figura uma forma de testemunho válido e de signo para a ultrapassagem da vida social eexperiência vivida. cultural dos bissau -guin een ses é subval or izada.Palavras-chave: Literatura Comparada, Literaturas de Língua Portuguesa, Pós- Sabemos que nas ruas de Bissau, aColonialismo, Abdulai Sila. variedade de etnias e de falas é1 Introdução abundante, queFaz-nos, a atmosfera narrativa de Abdulai Sila, tomar consciência de um mundo que pouco todo o povoconhecemos. A nova literatura do ocidente desde fins do século XIX habitou-nos a reconhecê-la carr ega umadentro do contexto da ―vivência de choque‖ (BENJAMIN, 1997), resultado da ascensão da técnica e espiritualidadeda informação em detrimento do declínio da experiência e da narração. Inóspita na época da pujante, que asmodernidade, essa experiência foi, por outro lado, reproduzida artificialmente por um conjunto artes popularessignificativo de escritores que se seguiram ao longo dos tempos. Marcel Proust, por exemplo, pelo (música, dança,mecanismo da mémoire involontaire traz à nossa consciência uma lembrança que não foi expressa festas e costumesou que não foi empiricamente vivida. Seus personagens são densos psicologicamente, agem em diversos) são umcontraposição à ordem do mundo e ao tempo cronológico. dado orgânico,Ora, não vemos isso em Sila. Seus principais personagens não se apresentam com profundidade em vivo e fervilhantefunção de traumas vividos durante a colonização. Nesse sentido, o registro do romancista bissau- na vida dosguineense recupera a literatura da ―vivência de choque‖ no contexto africano, o que o insere numa indivíduos. Natradição literária do ocidente, mas essa inscrição não se dá em oposição à tecnização propriamente– cidade de Bissaucomo uma espécie de contraposição entre campo/cidade–, e sim em relação à cadeia formatada do ou mesmo emimaginário técnico-místico do ocidente, num atrito entre culturas autóctones e assimétricas. Em outros sítios dooutras palavras, o conflito que se instaura no romance de Sila ocorre na difícil passagem entre a país a mesclarepresentação do mundo dos ―pretos‖, imaginário imaginado da cultura africana, e do mundo dos cultural é―brancos‖, imaginário imaginado do ocidente. Logo, a ―vivência de choque‖ em Silá opera nas f l a g r a n t e .fronteiras entre o legado do ocidente, carregado de seus ―orientalismos‖ (SAID, 1990), e o espaço Entretanto, essascultural do africano fraturado, carregado ainda de sua sabedoria simbólica acerca da realidade. marcas, em função da intenção ideológica do autor, foram solapadas no romance. Sila limpa toda natureza espontânea dos bissau-guineenses para se concentrar no ―choque‖ entre ―pretos‖ e ―brancos‖.2 Fraturas da cultura e da recepção literária Com Sila, podemos dizer que existe uma literatura moderna bissau-guineense? O romance deDuas forças centrífugas agem no romance: a experiência africana e a experiência ocidental. Esta Sila está inscrito no contexto das literaturas pós-coloniais, dialogando com Pepetela, Luandinoprocura reduzir a primeira num evento doméstico; e a primeira entende o próprio conflito cultural Vieira, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Lobo Antunes (exceção portuguesa) e outros.como decorrente da perda inevitável, em seu meio, da proteção divina. A personagem Ndani é, em Todos esses autores tomam a literatura como arma contra o discurso da colonização,face disso, extremamente emblemática. Marcada por sua condição cultural e social, ela age com reapropriam-se da língua portuguesa, projetando a cultura e as identidades africanas a partir decordialidade diante de situações de violência simbólica, buscando compulsoriamente um dentro, ou seja, a partir do interior da própria cultura e da centralidade que as define. Com isso,envolvimento maior com a cultura dos colonizadores. Através de conselhos da madrasta, uma das Sila pode ser lido numa ―plataforma ibero-afro-americana‖ em vias de ascensão:esposas de seu pai, que conviveu com brancos, Ndani procura assimilar o imaginário dos brancos Uma comunidade ibero-afro-americana assim imaginada em termos de futuro /.../ não se voltaria para os símbolos do passado, mas permitiriaque viviam na Guiné Portuguesa (hoje, Guiné-Bissau): reimaginar a nação, cada uma das nações, numa relação mais estreita e /.../ ela começara a ver as coisas de uma maneira diferente, qualquer coisa aberta. (JUNIOR ABDALA, 2002, p. 74). estranha instigava-a a rejeitar a vida que levava na sua tabanca e movia-a impetuosamente à procura do mundo dos brancos que, disso entretanto também Poderá haver, nessa comunidade, um público cada vez mais crescente de leitores e críticos se convencera, era muito diferente daquele que tinham dito ser o seu. (SILA, interessados. 2006, p. 22). Se, por um lado, podemos imaginar uma recepção de Sila por brasileiros, portugueses eO mundo imaginado do imaginário dos brancos é o mundo representado pelos portugueses. Estes, africanos de outras nacionalidades, fica difícil pensarmos a recepção da literatura do autor emdurante o processo de colonização, foram gradativamente ocupando os espaços da vida social na sua própria nação. Faltam, em Guiné-bissau, instituições nacionais que possam garantir ocidade, constituindo-se numa comunidade fechada dentro de um território aberto, rico pelas várias acesso da literatura à comunidade, como bibliotecas bem aparelhadas, uma circulação social deetnias presentes, com padrões culturais seculares e, em muitos casos, divergentes à cultura do livros mais intensa por meio de editoras e livrarias, instituições superiores de relevância naocidente. produção de conhecimento crítico e acadêmico nas áreas humanas. Falta, sobretudo, umaApesar de propor uma problemática de cunho mais social do que estritamente cultural, podemos política agressiva do Estado para promover e difundir a nascente literatura moderna nacional.encontrar, na nascente literatura bissau-guineense, alguma correspondência com a literatura A vida cultural do país, em face das conturbações políticas e sociais, fica a cargo, muitasbrasileira. Os sertanejos de Euclides da Cunha, os mestiços de Lima Barreto e mesmo os miseráveis vezes, de órgãos internacionais e de embaixadas de nações amigas.de Graciliano Ramos e os marginais de João Antonio trazem choques culturais intensos. Em Sila, Sem o público leitor de sua própria terra, essa literatura, desterritorializada, pois sua recepçãopodemos perceber esses choques, apesar de um cenário bem diverso. Em Euclides da Cunha, o ocorre num contexto mais amplo, deixa de exercer sua força transformadora na consciênciafundamentalismo religioso– cultura local– é contraposição ao racionalismo– cultura da metrópole–, dos leitores autóctones. Ora, a ausência da comunicação convertida em temas e imagens desendo o trágico a completa liquidação do pensamento local perpetrado pela República; em Lima uma cultura que se reconhece nos faz rejeitar a idéia de que há, de fato, uma literaturaBarreto, a cultura de elite, diga-se ―branca‖, é elemento de pressão sobre indivíduos mestiços ou de estritamente nacional. Esse fenômeno pode ser comparado à literatura produzida no Brasil doorigem africana, tendo desenlaces moralmente condenáveis e trágicos; em Graciliano Ramos, a período colonial, considerada por Antonio Candido– crítico brasileiro– como ―manifestaçõespressão social é tão contundente que somos levados a pensar que existe uma cultura que caracteriza literárias‖ (CANDIDO, 1997). Em outras palavras, notamos que há um conjunto de escritoressujeitos analfabetos e miseráveis– os retirantes– paralelamente à cultura letrada, bem alimentada, empenhados na Guiné-Bissau, sugerindo novos temas e imagens literárias, mas essa ―novasuplantada pelo latifúndio, que se beneficia do sistema instituído; e, por fim, João Antonio, cuja linguagem‖ auferida ainda não foi absorvida pelos leitores a ponto de produzir um ―efeito‖literatura aponta para um gueto cultural que, para sobreviver, adaptou formas culturais impostas, crítico de reconhecível impacto na vida cultural e literária do país.criando mecanismo de ação e um subsistema de identificação social. O que torna os brasileirospróximos de Sila é, para além da dimensão trágica dos principais personagens, uma certa atitude―anti-heróica‖ (CARDOSO, 2010) frente à vida. 3 Notas sobre a representação romanescaNo romance de Abdulai Sila, há dois enredos que correm em paralelo. O primeiro deles, que dá O que surpreende na leitura que fazemos de Sila é, na verdade, o ponto de vista adotado peloinício ao livro, ocorre com Ndani, personagem já citada. O segundo, com o episódio do Régulo. autor, ao pôr-se no mesmo foco do narrador. Sila, além de inaugurar a forma romanesca noEsses enredos estão unidos através da presença do Professor, que participa tanto do enredo do ainda recém liberto país natal, conta a história sob um olhar diverso e complexo. Sua visãoRégulo quanto do enredo de Ndani. Em síntese, percebemos que, antes de um romance, a narrativa A acerca do evento da colonização, embora parta da ótica dos colonizados, recupera sombras doúltima tragédia, por recuperar um mosaico histórico da vida social, lembra uma crônica sobre a pensamento dos ―residentes‖ (burocratas, funcionários públicos, religiosos cristãos e militarescolonização portuguesa em Guiné-Bissau. O livro pode ser até comparado com Memórias de um engajados na campanha colonial). Seu ponto de vista se estabelece num entre-lugar dosargento de milícias, romance de Manuel Antonio de Almeida. Contudo, num confronto com a obra discurso, num cruzamento de culturas onde a negociação é cara e arriscada. Logo, asdo brasileiro, inexiste o caráter despojado da escrita e, também, a variedade de cenários da vida inervações do romance expressarão igualmente essa fronteira que interpreta a história dasocial. A crônica de Sila é séria, comprometida com o desejo de construir uma literatura de língua colonização.portuguesa da áfrica ocidental e de (re)desenhar o mapa histórico do período colonial na tentativa de Isso posto, quando percorremos as linhas do livro, percebemos que o narrador nos recorda de

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