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Revista Literatas nº 23   ano II
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Revista Literatas nº 23 ano II

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  • 1. O poeta brasileiro Castro Alves e o moçambicano, Rui Nogar, foram o centro das comemorações do DIA MUNDIA DA POESIA (21 DE MARÇO) em Maputo, num evento levado a cabo pelo Movimento Literário Kuphaluxa.Castro Alves nasceu a14 de Março de 1847, Rui Nogar, nasceu a 2 dna fazenda Cabaceiras, Fevereiro de 1935, ema sete léguas da vila de Lourenço MarquesCurralinho, hoje cidade (actual Maputo),de Castro Alves. Moçambique. Director: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 23 de Março de 2012 | Ano II | N°21 | E-mail: r.literatas@gmail.com Amosse Mucavele na Academia de Letras de Teófilo Otoni - Minas Gerais O escritor moçambicano de 25 anos de idade, dá mais um importante passo no seu percurso pelas artes literárias. Amosse Mucavele que é membro fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, é primeiro moçam- bicano a fazer parte da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Em Angola Calane da Silva Abriu a Bienal Inter- nacional da Poesia, Luanda 2012 Fernando Alvim, vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo afirmou, no acto da abertura da Bienal Internacio nal da Poesia, em Luanda, que o evento vai permitir que a juventude conheça mais sobre a origem da poe sia e da literatura angolana. Rainer Maria Rilke manda carta aos poetas Prémio Carreira 2011 Tradição e trans- gressão em Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa
  • 2. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 2Editori@l Vénias a heróis vivos e mortos R aul Alves Calane da Silva. Menino mulato de Mikokwene, nos afluentes solos do bairro suburbano da Malanga, no orgulho dos ma-rongas de Sala- manga. Antes só orgulho dos meninos que hoje Malanga pariu, mas agora, homem de perfil honrado. Calane da Silva é premiado pela sua carreira. Felizmente, um prémio que não se concorre e que é dado a vivos. Escolhido por méri- to pelos homens. Mas poderão os 25.000 USD ser o brinde certo para tão grande carreira, deste homem que abarca déca- das de jornalismo, docência e militância na escrita? Autor de importantes obras da literatura moçambi- cana, desde a poesia, prosa ao ensaio. Quem pode dar o que realmente merece um homem de músculos eruditos, com sangue a fervilhar nas veias como uma Xicandarinha na Lenha do Mundo, cheias de letras e activismo cultural? Com certeza a este tipo de homem, fica-se a dever por tempos seculares, honras e reconhecimentos. Que a sua obra seja propagada por estas e próximas gerações. Mesmo a presenciar este momento em que se faz uma homenagem a si, apraz-nos recordar que a história é feita pelos homens. Que não se dei- xe obras como Xicandarinha na Lenha do Mundo e Dos Meninos de Malanga, deste autor, caírem no desaparecimento nas prateleiras, tal como ocorre com o Nós Matamos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana. Uma obra em que se obriga a sua leitura, mas não está disponível no mercado. O maior presente que se pode dar a um artista da palavra é que a sua obra se preserve, se propague e se valorize. Na vez que é nossa, fica nesta edição o nosso ritual de Ku Phalha, evocando o nome e os feitos de Calane da Silva, Rui Nogar e Castro Alves. De Angola, chegam-nos boas notícias. Abriram-se as portas da primeira Bienal Internacional de Poesia – Luanda 2012. Embora pouco atrasada a presença de alguns escritores convidados dos países da CPLP, o evento tem estado no centro das atenções do mundo lusófono e a literatura angolana, está em festa. Em quanto isso, Rainer Maria Rilke comunica com poetas através das suas cartas. Na presente edição trazemos a primeira. Uma leitura tida como obrigatória para quem esculpe a palavra, principalmente nos primeiros passos. Ainda sobre as cartas, Amosse Mucavele, recebeu uma por estes dias que o torna primeiro cidadão moçambicano, a pertencer à Academia de Letras de Teófolo Otoni. Passo dado em direcção certa e responsabilidade acrescida. Eduardo Quive eduardoquive@gmail.com
  • 3. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 3DestaqueBienal Internacional de Poesia, Luanda 2012 Da escrita à musicalidade da palavra ditaFernando Alvim, vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo afirmou, no acto daabertura da Bienal Internacional da Poesia, em Luanda, que o evento vai permitirque a juventude conheça mais sobre a origem da poesia e da literatura angolana. T Foto: Jornal de AngolaRedacção eve início nesta quarta-feira na capital angolana, Luanda, a Primeira Bienal Internacional de Poesia (BIP), eventoque vai decorrer até 21 de Abril próximo, com sessões de debates,recitais e música.O Centro de Formação de Jornalistas, é o espaço que acolhe este eventoque contou no acto de abertura, com a presença da Ministra da Culturaangolana, Teresa Cruz e Silva, o vice-presidente da Fundação SindikaDokolo, Fernando Alvim, dirigentes da União dos Escritores Angolanos,entre outras figuras do panorama sociocultural.Fernando Alvim, no acto de abertura do BIP, afirmou que as actividades Bienal Internacional de Poesia, declarada aberta.da Bienal Internacional da Poesia vão permitir à juventude conhecer mais A AngolaPress, noticia que estarão ainda patentes, poemas dos poe-sobre a origem da poesia e da literatura angolana, segundo indica o Jor- tas brasileiros como Aldemir Assunção, Guido Bilharinho, Nina Rizza,nal de Angola. Cláudio Daniel, Wilmar Silva. De Moçambique Dinís Muhai e Eduardo“Com este evento, pretendemos aproximar os amantes da escrita à musi- Quive; Luís Costa e António Borges do Timor Leste; Corsino Fortes ecalidade da palavra dita”, disse Alvim. Elísio Gomes de Cabo Verde; Jerónimo Manuel e Conceição Lima deDurante a bienal estão previstos fóruns de discussão, às terças-feiras e São Tomé e Príncipe.domingos, a exposição de 25 poemas de autores angolanos e estrangei- Fernando Alvim referiu que os presentes ouvirão ainda poesias deros, e exibições de trovadores, que vão animar os encontros. Ernesto Castro e Fernando Aguiar, de Portugal, para além OdeteDo estrangeiro, integram as mesas de debates, os escritores dos países Semedo e Tony Tcheka, da Guine Bissau.falantes de língua portuguesa, tais como, Roderick Nehone, Jofre Rocha,Manuel Rui, Costa Andrade, Ernesto Lara Filho, Camila Vardorac, Eduar- Amosse Mucavele é novo membrodo Bonavena, Eduardo Quive, Ruy Duarte de Carvalho, Filimone Meigos, Correspondente da Academia deDinís Muhai, Luís Cezerilo, Aires de Almeida Santos, Guido Bilharinho, Letras de Teófilo Otoni - MinasCláudio Daniel, Nina Rizzi, Amosse Mucavele e Trajano Nancova Trajano. Gerais, e o primeiro moçambicanoFernando Alvim acrescentou que há um palco aberto às artes cénicas, a fazer parte da mesma.onde qualquer grupo de teatro pode intervir durante um mês, período em Fundada oficialmente em 20 deque decorre a Bienal, aberta até às 23 horas. A Bienal Internacional da Dezembro de 2002,a Academia dePoesia oferece um espaço de convergência artística e cultural, com vista Letras de Teófilo Otoni é compostaa criar um intercâmbio entre os artistas, as suas criações, o público e anatureza. “A música e poesia auxiliam esta reconciliação”, disse Fernando por 30 membros titulares e efecti-Alvim, que assume a parte criativa do projecto, com a curadoria de Abreu vos e tem um patrono, imutável, em homenagem aPaxe, João Maimona e Jomo Fortunato. personalidades que tenham se notabilizado nas letras,Participam da primeira Bienal Internacional de Poesia, 75 escritores, em nas ciências, nas artes, na política, na educação e narepresentação de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São imprensa; conta ainda com um quadro social de mem-Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Portugal e Brasil. Contudo, alguns convida- bros correspondentes, honorários, beneméritos e con-dos, como os de Moçambique e Brasil, poderão juntar-se ao evento ao vidados de honra.longo dos próximos dias. A entidade tem dentre vários objectivos, congregar pessoas que se dediquem às actividades literárias e Poesia em exposição artísticas nas mais diversas formas de expressão; rea-Paralelamente ao evento, notícias que nos chegam da Angola, indicam lizar estudos e pesquisas na área da literatura local eque cinquenta poemas de autores angolanos e estrangeiros estarão regional; promover e incentivar a cultura através daexpostos na Bienal Internacional de Poesia, ao público com o intuito de realização de conferências, exposições, concursos,promover a literatura e a escrita. cursos e outras actividades de natureza cultural. Amosse Mucavele, de 25 anos de idade, dá mais umSegundo Fernando Alvim, quem lidera a parte da criação no evento, de 21 importante passo no seu percurso pelas artes literá-de Março a 21 de Abril, estarão expostos poemas de Agostinho Neto, rias, e è membro fundador do Movimento LiterárioCosta Andrade, Jorge Macedo, Roderik Nehone, Jofre Rocha, Arnaldo Kuphaluxa.Santo, Rui Duarte de Carvalho e Ernesto Lara filho.
  • 4. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 4 Destaque Rainer Maria Rilke www.releituras.com Carta a um jovem poeta (Primeira carta) o Senhor de renunciar a sePParis, 17 de fevereiro de 1903 rezadíssimo Senhor, tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e viver sem escrever para nãoamável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca mais se ter o direito de fazê-da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada lo). Mesmo assim, o exame demenos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre sua consciência que lhe peçoresultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas não terá sido inútil. Sua vida,tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos aconte- a partir desse momento, há decimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. encontrar caminhos próprios.Menos susceptíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — Que sejam bons, ricos e lar-seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efémera. gos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição pró- Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha.pria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discriçãoclareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olharbelo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sen-esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, timento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompa-nha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardopudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Faledepois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com -lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; eoutras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro eu sei apreciá-la.redactor. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que dei-xe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agra-fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão deço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei porum caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco maisexamine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a simesmo na hora mais tranquila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave Com todo o devotamente e toda a simpatia,dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela per-gunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo comesta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procu-re, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escrevapoesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as maisdifíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875.pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeirasdeve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência quotidiana lhe obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e cançõesoferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de umqualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Ins-exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objectos de sua pirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela pro-lembrança. Se a própria existência quotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si fundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditarmesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontra- ram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900,criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspi-encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de che- rado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso egar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia rique- concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que constaza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensa- de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livroções submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua soli- da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta pordão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco mís-qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para den- ticas sobre as coisas.tro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seufor se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra depois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e com-Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste carácter de origem está pletos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceramo seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mun-outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua dial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelovida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duínosignificar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e car- (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos con-regue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que ceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard.possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrartudo em si e nessa natureza a que se aliou. Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou ima-Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter gens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo.
  • 5. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 5Livros & Leitores Dicionário Changana-PortuguêsO Dicionário Changana-Português publicado pela Texto Editores é uma reediçãorevista e com acréscimos da versão publicada em 1996. A revisão foi realizadapelo autor com especial colaboração de Ezra Chambal Nhampoca, docente einvestigadora da UEM.Nesta sua 2.ª edição, o dicionário comporta 14348 entradas, contra as 12000 daedição anterior. O dicionário pretende essencialmente fornecer ao falante deChangana os meios necessários para se exprimir em Português e fornecer aofalante de Português os meios necessários para compreender o que ouve ou lêem Changana.Para isto, o dicionário integra frases ilustrativas com a respectiva tradução e for-nece informação gramatical através de material ilustrativo que indica o génerogramatical, a transitividade e o tipo de preposição que rege o verbo etc. Poroutro lado, onde se achou que o equivalente em Português era difícil ou semanti-camente ambíguo quando isolado, o dicionário fornece sinónimos e/ou defini-ções complementares.Na referida edição, foi melhorado o sistema de remissões e cruzamento de infor-mação entre muitos verbetes. Isso ajudará o usuário a encontrar mais rapida-mente as palavras relacionadas.O dicionário apresenta em anexo os Elementos da Gramática Changana.Bento Sitoe é docente e investigador na Universidade Eduardo Mondlane, noDepartamento de Linguística e Literatura. Ocupa-se das áreas de pesquisa edescrição das línguas bantu, lexicografia e tradução envolvendo línguas bantu. Éautor de mais de 30 títulos em artigos e livros, dos quais se destaca: DicionárioRonga-Português, Dicionário Escolar Inglês-Português (como co-autor). É aindaautor de quatro novelas em Changana e de peças teatrais na mesma língua. “MAPUTO - Património Arquitectónico” UCCLA organiza exposição em DíliT eve lugar na última quinta-feira, em Lisboa, o lança- mento do livro “MAPUTO - Património arquitectónico”, um presidido pelo Embaixador de Moçambique emPortugal, Jacob Jeremias Nyambir, e que contou com a pre-sença do Secretário-Geral da União das Cidades Capitais deLíngua Portuguesa (UCCLA), Miguel Anacoreta Correia.A obra, a que UCCLA se associou, resulta de um trabalho deinvestigação da Faculdade de Arquitectura da UniversidadeTécnica de Lisboa, do seu Centro de Investigação C.I.A.U.D.,tendo como autor o Professor Catedrático João Sousa Morais(actualmente presidente do Conselho Científico), especialista No âmbito da visita do Presidente da República deem Património Urbano da África Lusófona, e o professor Luís Portugal, Cavaco Silva, por ocasião da comemoraçãoLage (actual director da Faculdade de Arquitectura e Planea- dos 10 anos da Independência de Timor, a União dasmento Urbano da Universidade Eduardo Mondlane), a que Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) vaiposteriormente se juntou o olhar da fotógrafa Joana Malheiro. organizar uma exposição, em parceria com o Parla-O objectivo desta obra é de registar e divulgar o valor patrimo- mento Nacional de Timor.nial da arquitectura da cidade de Maputo, possibilitando um A exposição que será composta por três partes: as Cidades da UCCLA, acção da UCCLA e projectos dareconhecimento internacional, não só dos casos apresentados, UCCLA em Timor, estará patente no Parlamento Timo-mas também abrindo outras possibilidades, como proporcio- rense e o acto de inauguração, será presidido pornando um roteiro de Arquitectura da capital moçambicana ao Cavaco Silva, em Maio próximo.leitor.
  • 6. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 6Cartas Espaço aberto para debate e comentários sobre assun- tos literários. Mande-nos uma carta pelo e-mail: r.literatas@gmail.com Dany Wambire FICHA TÉCNICA Croniconto danitoavelino@gmail.com A vendedeira das frutas do CemitérioPropriedade do Movimento Literário Kuphaluxa EDirecção e Redacção u nem conhecia perfeitamente a Generosa Sentimento, esta que conseguia vida nos cor-Centro Cultural Brasil - MocambiqueAv. 25 de Setembro, N°1728, redores de um histórico cemitério da minha cidade. Dizia-se que a sua idade era igual aC. Postal: 1167, Maputo do cemitério, que ela mesmo contribuíra para sua utilização. E como? Diz-se que a mãe de Generosa Sentimento, a dona Derrota Mávida era de reconhecível mérito pela sua respectiva profis-Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 07 46 são, a prostituição. Reza a história: a mais antiga profissão da humanidade.603 Sabe-se que nenhum homem aguentava com os encantos da Dona, ou melhor da meretriz Derro-Fax: +258 21 02 05 84E-mail: kuphaluxa@sapo.mz ta Mávida. Na verdade, ela era esguia mais que o eucalipto, era cheirosa mais que a roseira, ancas a seBlogue: literatas.blogs.sapo.mz arredondarem amiúde e nádegas bem calcadas pelas cabeceiras das calças, justas, de que ela dispunha. Enfim, era bonita e partilhável como a melancia grande. Afinal, era o meu avô quem isto dizia: mulher bonita é como melancia grande, ninguém a come sozinho. DIRECTOR GERAL Nelson Lineu Outrossim, sabe-se que Derrota Mávida exerceu com esmero a sua não diplomada profissão de (nelsonlineu@gmail.com) Cel: +258 82 27 61 184 prostiputa faz quase duas décadas, antes do trágico acidente. Falo do acidente que deixou o seu rebento ― até então sem própria identificação ― livre dos devidos cuidados maternos. É verdade que Derrota DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane Mávida, tinha se decidido a nunca se engravidar, a não ser acometida por um de percurso acidente. A (jarijuane@gmail.com) Cel: +258 82 35 63 201 querença, porém, não frutificou: ela chegou mesmo a anichar um feto pelo ventre adentro. E, desafiada pelo destino, a prostiputa Mávida esperou por nove meses para que encovasse a sua própria sepultura. EDITOR Eduardo Quive Foi, no resto, numa tarde dominical em que a prostiputa era acometida por dores fortes de cortar à (eduardoquive@gmail.com) Cel: +258 82 27 17 645 faca. De instantâneo, ela entendeu que se tratava de dores perinatais, o bebé digladiando, quem sabe, com os guardas ventrais para sair dessa reclusão que o amadureceu por nove meses. Bebé ingrato, CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele nem?! (amosse1987@yahoo.com.br) Cel: +258 82 57 03 750 Nesse momento, a Derrota Mávida se arremessou para um dos recantos da casa, agora cemitério, e com os dedos foi encovando a sua sepultura antes do parto. Nunca continuava a tirar terra quando REPRESENTANTES PROVINCIAIS Dany Wambire—Sofala durante a labuta de coveira avistava raiz de árvore qualquer, pois avisada ela estava: toda raiz é sombra Lino Sousa Mucuruza—Niassa de um morto de perto ou longínqua distância temporal. Terminada a lida de coveira, ela se colocou na imediação da sepultura, esperando pela vinda da COLABORADORES FIXOS Pedro Do Bois (Saranta Catarina-Brasil) , petiza, sem ajuda de qualquer parteira, cortando pessoalmente o umbilical cordão. No seguido, se lançou Victor Eustáquio (Lisboa — Portugal), Mauro Brito. à já feita sepultura, sendo tapada pelos movimentos involuntários dos membros da recém-chegada peti- za. COLABORAM NESTA EDIÇÃO Silas Correa Leite Nas seguintes horas, pessoas muitas saíram a socorrer a bebé. Em vão. Pois a bebé já tinha alon- Kha Tembe gando os membros inferiores e superiores, já tinha apurado a fala, autorizando, para o espanto de todos, Dinis Muhai Rita Dahl aquele espaço a ser utilizado como cemitério. E não houve tardança para que o cemitério ficasse quase Eliseu Armando Ana Lúcia Gomes da Silva Rabecchi1 empanturrado. As frutíferas árvores se multiplicaram, sombreando o chão todo, e nascia assim o negócio, o ganha-pão da Generosa Sentimento. Não raras vezes saía a vender as frutas no maior supermercado COLUNISTA Marcelo Soriano (Brasil) da zona. E, também, não raras vezes vinham pessoas a comprar as polposas frutas, mas mal viam a ven- FOTOGRAFIA dedeira, a filha do cemitério, de imediato fingiam apenas apreciar as apetitosas frutas das árvores do Arquivo — Kuphaluxa cemitério, bem estrumadas pelos abundantes mortos. Mas era a própria Generosa Sentimento que encontrava astúcias para o avanço do negócio, PARCEIROS inventando discursos que deixavam os dissimulados compradores sem jeito. Centro Cultural Brasil—Mocambique ― Vocês não podem deixar de comprar essas lindas frutas! Portal Cronopios ― Não, apenas estávamos apreciando! ― Retrucavam os fregueses, dissimulando vontades. www.cronopios.com.br ― Vocês não têm defuntos aqui no cemitério da zona? Revista Blecaute ― Temos, sim! Porquê? Revista Culturas & Afectos Lusofonos ― Então vocês devem comprar as frutas! São eles que me pediram para vender essas frutas, eles culturaseafectoslusofonos.blogspot.com é que estão necessitando de dinheiro.
  • 7. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 7Poesia Há um anseio em mim Rita Dahl — Finlândia Há um anseio em mim por noites sem noite, pelo dia que nasce tardio, pelos imensos sóis nascidos em simultâneo, há um anseio por chuva, caindo como véu. Há um anseio em mim, mas não vontade, eu uso ferramentas simples, a voz do martelo e do machado na noite mais escura. Como se martelando eu pudesse tocar algo, uma noite escorregando pelo negro muro, os caracteres únicos, quem sabe um nome. Momento perfeitoEliseu Armando - Lichinga Elegia desregrada paraNo subúrbio a polícia Kha Tembe - Maputoum velho vulneráveldescansa na sua sombra Dinis Muhai - Maputocanta notas surdas trançar para nós uma casa detenta não se atrapalhar lua Os cabritos da brigada no redondo silêncio daporque sua alma gesticula alto. não são cabritos maresiaNo fundo da rua e então só então São cabritos humanos enfeitar as carícias com auma donzela encantadora que descobriram a mina no alcatrãotilinta seios em turgescência forma dos rostose pássaros de rapina deixar o licor da noite Maria que é mulher religiosa fica ensopar a nossa peleesforçam os músculos lisos embaraçadapara conter a baba. e depois só depois quando é coagida a falar como homem acordar embriagados deCá por dentro estrelas E o refresco sai disfarçado e com gotas de azul nasreina a fria dor por baixo da carta de condução.de descrever este momento perfeito. mãos
  • 8. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 8Entrevista www.brasildefato.com.br Thalles Gomes - Brasil de Fato“Precisamostraduzir anós mesmos” Os escritores moçambicanos Ungulani Ba Ka Khosa e Calane da Silva falam sobre os desafios da literatura Africana.―Nós viemos de um continente onde se falam mais de mil línguas. Só no nosso país, temos 23 No entanto, é bom que a gente mantenha um pouco esse sabor local, porque a globalizaçãolínguas. Cada uma dessas línguas vincula e mostra uma realidade cultural diferente. A pergunta está a fazer o contrário, está a vir lá de cima o original. Então eu prefiro que nós falemos deque vocês vão fazer é: como vocês tratam esse manancial todo?‖ É assim que o escritor moçam- uma literatura universal, e dentro da literatura universal nós localizemos as literaturas que sebicano Ungulani Ba Ka Khosa inicia sua intervenção sobre os rumos da Literatura Africana fazem em diversos países do mundo.durante a 2ª Flimar [Feira Literária de Marechal Deodoro], ocorrida entre os dias 7 a 11 deSetembro de 2011. E como se localiza a literatura moçambicana neste quadro?Sentado ao seu lado, o também moçambicano Calane da Silva completa o quadro: ―Fala-se que Calane da Silva – A nossa literatura é fruto da oratura. É uma literatura de carácter oral, ondenós, em África, somos antagónicos, conflituosos. É mentira. As fronteiras dos estados, e nós também temos contos, temos poesia, temos os adivinhos, temos os dramas, os teatros, massomos dezenas de países diferentes, foram demarcadas pelas potências coloniais. Isto quer dizer tudo em nível oral. Porque era uma sociedade de iliteracia. Quem trouxe os alfabetos paraque, em Moçambique, por exemplo, povos e etnias foram divididos ao meio. E nós temos de África, em específico Moçambique, foram os árabes, mais tarde apareceram os portugueses.construir nações a partir de territórios divididos. Esta é a prova fundamental da luta política e Isso para dizer que Moçambique tem a matriz cultural banto, que é a maioria, e tem aportecultural: aceitar as diferenças e construir uma única nação.‖ culturais da Pérsia, da índia, da Arábia e da própria China. Então a nossa literatura é riquíssi-Em entrevista ao Brasil de Fato, os escritores moçambicanos abordam os principais desafios da ma. A literatura moçambicana é fruto dessa herança tradicional oral, mas também surge emliteratura africana hoje. contraponto contra uma literatura colonial, que foi de carácter exótico até os anos de 1930, de carácter doutrinário até os anos de 1960 e, até 1975, antes da independência, foi de carácterBrasil de Fato – É possível falar em uma literatura africana, com uma diversidade linguística, urbano, onde os protagonistas eram sempre o branco, o português, o colono. Nossa literatura éétnica e cultural tão grande? riquíssima porque temos aqui, por exemplo, o Khosa, de origem banto, o Mia Couto, de ori-Calane da Silva – Nós podemos, partindo do ponto de vista geográfico, falar de uma literatura gem portuguesa, um Calane mestiço e depois aparece um [Suleiman] Cassamo, negro e islâmi-asiática, europeia, norte-americana. É uma maneira de encaixar as coisas e depende de como nós, co. Nossa literatura é riquíssima porque engloba a realidade específica de nosso país, a diversi-teóricos, gostamos de compartimentar. Mas, na verdade, só existe uma única literatura, que é a dade cultural de nosso país.literatura humana, escrita pelos homens. Nós podemos compartimentar, generalizar, mas isso às Dentro dessa diversidade, qual o papel exercido pela língua portuguesa em Moçambi-vezes é prejudicial, porque metemos todos no mesmo saco. Há singularidades, há diversidades. que?
  • 9. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 9Entrevista www.brasildefato.com.br Thalles Gomes - Brasil de FatoUngulani Ba Ka Khosa – A língua portuguesa funciona como um manto aglutinador, essa língua portuguesa. Um desconhecimento completo, costas voltadas. O importante para nós queprópria língua também contribui para a existência das outras línguas. Vocês têm 23 línguas, escrevemos em português é implementarmos um conhecimento mútuo e sem complexos.como é que vocês fazem? Aí é que está a língua portuguesa a servir de suporte e a transportar E como está esse diálogo dentro do próprio território africano?essa diversidade. Por exemplo, quando chegamos aqui e vimos um ônibus, nós dissemos: ―epa, Ungulani Ba Ka Khosa – A nossa capital, Maputo, está a cerca de 500 km da capital econó-está a vir um machimbombo‖. E nós temos muitas dessas palavras que transportamos para a mica da África do Sul, Johanesburgo. Mas se fores perguntar a nós ou aos sul-africanos selíngua portuguesa. O importante aqui é que essas línguas não morram, não desapareçam. A conhecemos a literatura um do outro, não conhecemos nada. Nada. Hoje, na África do Sul, alíngua portuguesa, ela própria, vai ganhando uma certa soberania e autonomia porque vai aglu- literatura é vasta e riquíssima, mas não é conhecida. E mesmo assim, aquilo que os sul-tinar todos esses elementos provenientes do banto. Tudo isso enriquece a língua portuguesa e africanos exportam da literatura deles é aquilo que os próprios europeus querem conhecer.faz com que nós olhemos a língua e digamos: ―epa, isso aqui vem daqui, essa outra palavra Vocês aqui na América Latina provavelmente encontram com alguns vizinhos da Argentina oudali‖. Paraguai. Talvez com algumas traduções. Mas nós dificilmente conhecemos um escritor doCalane da Silva – Outro ponto é a questão da unidade nacional e da diversidade linguística. Malawi, da Zâmbia, do Congo, da Tanzânia. E não é só uma barreira de língua. Mesmo entreSerá que a diversidade linguística nos pode fazer rachar o país? Qual o papel da língua portu- os de língua inglesa, os zimbabueanos não conhecem o escritor tanzaniano ou queniano. Masguesa? É um papel aglutinante e unificador, onde todas as etnias através do português podem tu vais para Alemanha, és convidado, e encontras lá os escritores africanos. Não há intercâm-se comunicar. Mas isto não significa que, por termos escolhido o português como língua ofi- bio, não nos conhecemos.cial, desprezemos as línguas locais. Pelo contrário. Em grande parte da zona do interior do Calane da Silva – É um problema de base sociopolítica e económica. Nós temos de nos jun-país, há uma escolarização na língua materna de origem banto. Quando chega ao secundário, tar, nós temos de olhar para nós mesmos. A Europa está falida. Estou a falar do ponto de vistacomeça a usar português como língua de comunicação, mas já tem sua base na língua materna. ecológico e cultural. Já faliu, já deram tudo. O que é que está acontecendo é a emergência dos antigos países colonizados – a China, a Índia, a África do Sul, o Brasil. Porque nós já temosIsso quer dizer que vocês tomaram o português para vocês e o transformaram numa lín- independência tecnológica. Fabricamos o chip e fabricamos o satélite, feito por nós e enviadogua que também é moçambicana? por nós. Então é tempo de nós trocarmos as nossas literaturas. Não precisamos deles paraUngulani Ba Ka Khosa – É verdade. nada! É urgente que a América Latina, que a África, que a Ásia se juntem e somem esforços.Calane da Silva – Todas as línguas do mundo vivem de empréstimos. As nossas línguas ban- Que eles não nos traduzam, vamos nós traduzir a nós mesmos. Isso só vai depender de nós.tas também foram influenciadas por outras línguas. As línguas são dinâmicas, inventivas. Nas- Temos de nos conhecer a nós mesmos. Juntemos esforços e eles que nos engulam!cem, crescem e também morrem. Então o português, felizmente, é tão dinâmico, recebe sem-pre tantos empréstimos que é sempre uma língua em evolução. <QUEM SÃO> Calane da Silva foi jornalista durante 25 anos e participou activamente do processo de inde-Que influência exerceu o processo de independência moçambicano para o desenvolvi- pendência do país. É autor de livros de poesia e ensaios literários, além de professor universi-mento da literatura no país?Calane da Silva – Depois da independência [1975], havia de nossa parte uma utopia de cons-truir um mundo igualitário um mundo mais igual, sem assimetrias. E esse projecto foi, diga-mos, torpedeado pelo imperialismo da época. Nos bombardearam, nos invadiram e criaram umgrupo de desestabilização armado por eles, financiado por eles, que criaram um problema gra-víssimo. Os alvos fundamentais deles eram destruir as escolas e os hospitais, ou seja, os alicer-ces para o novo país que estava a nascer. A guerra civil e de desestabilização, com 1,5 milhõesde mortos, atrasou esse processo de integração por dezasseis anos. Nos dias de hoje já temoscinco a sete nomes internacionalizados em nossa cultura. Ela é forte e dinâmica. Deixe-nosrespirar. Estamos a ganhar fogo. Não tínhamos no ensino superior nenhum professor doutor.Passados esses trinta anos, já podemos contar com 40 professores doutores, formados emvárias universidades do mundo, incluindo Brasil, Portugal, França, Itália, Inglaterra, Espanha,EUA. Não só na área técnica, mas também na área cultural. E isso vai enriquecendo cada vezmais e possibilitando a investigação daquilo que é nosso.Como vocês enxergam a relação entre as literaturas africana e brasileira?Calane da Silva – O Jorge Amado, para nós dos países africanos de língua portuguesa, foifundamental no despertar de muitas coisas que estavam lá, em nossa volta, mas não percebía-mos. Os Subterrâneos da Liberdade, Capitães de Areia foram fundamentais para que nós des-pertássemos para o que estava a nossa volta. E quem levou esses livros, que eram proibidos naépoca colonial pela Polícia Política de Moçambique, foram os marinheiros brasileiros queaportavam no porto de Maputo. Foram pelas mãos desses marinheiros que esses livros chega-ram até nós e circulavam, apesar de proibidos. Ferreira Gullar disse certa vez que quando osartistas e intelectuais brasileiros fugiram para o mundo, também trouxeram o mundo para oBrasil. É o que acontece connosco. A luta armada de libertação nacional contra o colonialismoportuguês abriu-nos novos horizontes. Durante a luta armada nós víamos o governo militarbrasileiro como nosso inimigo, porque ele apoiava o colonialismo português. Eu fui designadopelo governo moçambicano para vir aqui em 1981 para conhecer o outro Brasil que estava amudar com a Amnistia. Eu entrevistei o Lula ainda como sindicalista metalúrgico em São Pau-lo, o Chico Buarque, o Jorge Amado, aquela gente toda que estava a despontar para uma novarealidade política, económica e também cultural. Houve então um certo descongelamento derelações entre Brasil e Moçambique. A guerra de desestabilização atrasou esse processo e só tário e director do Centro Cultural Brasil - Moçambique em Maputo.agora esse intercâmbio ganhou força outra vez. Ungulani Ba Ka Khosa é director do Instituto do Livro de Moçambique. Sua obra UalalapiUngulani Ba Ka Khosa – Eu acho que há um novo patamar que está a se abrir, porque já está venceu o Grande Prémio de Ficção Moçambicana e foi considerada um dos cem melhoreshavendo um intercâmbio muito grande. Primeiro, nas universidades. Já há intercâmbio entre as romances africanos do século 20.universidades africanas e universidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Maranhão, Bahia,Pernambuco, Paraná, Alagoas. Eu acho que esse é o primeiro patamar de intercâmbio. O Erratasegundo é o próprio mercado livreiro, que é outro ponto, outros interesses económicos, edito- Na ediçào número 22 da Revista Literatas, foi publicada uma entrevista intitulada “Viagem expansiva para o lugar inabitado”, cuja assinatura nariais, de marketing. Nesse momento, com o novo acordo ortográfico, vai se permitir que a cir- página 8, indicava correctamente a fonte (REVISTA ZUNAI). No entanto,culação de livros seja maior. Nossa saída para o exterior não terá de passar pelo crivo portu- na página seguinte (9), vem erradamente no topo assinado pelo nome deguês. E nem vocês precisarão passar por Portugal para chegar a nós. Isso vai permitir com que Eduardo Quive. À revista Zunai, que é a verdadeira fonte em que foinós não tenhamos mais o atravessador. Há um grande desconhecimento entre as literaturas de retirada a entrevista, e aos leitores, a direcção editorial da Revista Literatas, endereça os pedidos de desculpas.
  • 10. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 10 FilosofoniasColunistas Marcelo Soriano — BrasilO passo certo m.m.soriano@gmail.com no caminho errado Nelson Lineu - Maputo nelsonlineu@gmail.com TelecegueiraS omos pobres Não porque assim nascemos Fomos adquirindoQuando aceitamos a vida nos dizer IQue tinhamos que seguir o ocidente caminho Comentário: O Canto do RouxinolPara o mundo, em muitos casos para nós mesmos.Chegamos a um ponto incorruptivel, contra a própria Ouça o canto do rouxinol, solitário, a cantar escondido... Há mais vir-soberania de estado ou nossos próprios instintos. tude ali, que o coro de todos nós, a lamentar em comunhão.Temos que dar um basta! Eu, Magubede não vou ....................................................................permitir esse auto enterro nessa vala.Enterramos osnossos nomes para em troca sermos outros, até como Mini crônica: O Mestre das Palavrasnos fornicamos recebemos receita a ser ontologico paraele chegava a ser ontologico, é urgente sairmos dessa O Mestre das Palavras não é o que as apanha em sua rede de pe-caverna, que pela mesma pobreza que nos torna sca. O Mestre das Palavras também não deve ser aquele que trama a rede com dedos de velhodestacaveis, não esta coberta, por isso há como sair. sabedor. O Mestre dasAs gordas para nós sinonimizavam formousura, bem- Palavras deve ser aquele que mergulha em meio ao cardume. E beijaestar, bons tratos. Essa não significação dos nossos dias o brilho prateado das letrasdeixa-me atordoado, não falo do passado ou presente que enfeitam a correnteza do mundo. O Mestre deve ser um velho de longas vivências brancas,deixa-me sem futuro. A última forma de tratar era a como se fosse barbas grisalhas. E que respira embaixo dágua... Emedida do amor à esposa. As minhas mãos sendo beija e ama todo o brilho queacariciada pelo corpo dela, ela devolvendo pela mesma encontra... E depois retorna à superfície... Alimentado... E ao pontomoeda, mas com valor diferente. Nos seus braços me de nos dar o que comer.escondo do frio, as vezes me protejo de mim. Hoje ....................................................................tenho que desenredar-me, aceitar que nela vive uma Poema: Das Minhas Gavetasfalta de auto estima, e de cuidados? Envergonhar-medomeu amor? Tudo isso foi por plantarem a televisão, (A Incisão, em 09/05/2010)com tanto por plantar por esse país todo, preferem Caneta é bisturi. Incisão na alva folha...fazer a miséria engordar e na minha mulher colherem Carne pálida... Sangue azul...desatributos como: gulosice, falta de cuidados, Aos borbotões,desleixo. A beleza, elegância, elógios estão na esvaem-se as palavras...magreza. Assim como naquela imagens de pessoas ....................................................................paúperimas quase sem barriga. Eu acho que eles - E tenho dito!querem nos tornar assim. Somos doados vidas emcanais de televisão estrangeiros, os nacionais e o stelespectadores em corro dizem yes we can say yes. Impotente é o anjo que não voa porque é incapaz de sonhar.Como em tudo que tem a ver com eles, eu não achoque seja doação, quem doa não quer nada em troca.Como é que podemos aceitar a redefinição da nossabeleza, podemos até ver com os olhos alheios, falarcom voz alheia, mas o coração e os sentimentos sãonossos.
  • 11. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 11 Ex-virgem Por onde a água escorre, fica o vazio Eduardo Quive ritual satânico, onde envolve-se sangue e outras insanidades. Impurezas que purificam o rei e, mantém vivas, as almas de defuntos mulherengos. eduardoquive@gmail.com E D. Destina que não vivera com homem para lhe ajudar em tais cuidados sob os manda- N mentos... ikotile já não era donzela nenhuma. Não era mais Os gastos que a Nikotile representava, vingavam-se da verdade oculta e esta aparecia de mulher pura que pudesse sagrar as terras que ficaram forma mais ou menos, deixando em algumas vezes, clara a impressão de ter crescido do para os Nkomanes. dia para noite. Chega a casa. Nos seus olhos, um brilho irónico, Depois de ter, entrado em casa a passos mudos, entregou-se a um banho longo e quente, sem esperança, mas com certeza, cheia de promessas que cheia de lágrimas que revelam uma satisfação intimidada, cobiçandose a si mesma. não precisaram de palavras para se fazerem sentir. Nikoti- Enquanto a água escorre com pressa o seu corpo, Nikotile pensa.le ainda cheirava à espinhosa.A verdade estava iminente para o coração duma mãe que um dia sentiu a dor e o arre- “A minha primeira noite seria escolhida pelos meus pais, ou então, se eu fosse apendimento de ter acreditado nas promessas que se fazem na rua. Na astúcia da carne escolhida nos ritos da noite de luar, entregar-me-iam ao homem mais machosob o pecado. Promessas sem massingucates nem madodas para testemunhar. destas terras. Faria o primeiro amor com um desamor e desconhecido. Ainda meMarculino Jonasse, que seria seu esposo, fez a mesma coisa com sigo. Foram promessas obrigaria a chamar-lhe de nkata, como se de marido se tratasse. Mas nem mortasem cumprimento, quando a sugou a inocência e foi casar-se com cidades desconheci- podia aceitar qualquer mussatanhoko para este meu corpo que só a águadas, depois de ter garantido, com forças predadoras, um casamento que não acontecerá conhece o sabor. Este meu corpo que se mbunya só para os meus olhos. Estasnunca. Nunca, é isso mesmo. A vila recebera anúncios da sua morte em tempos pouco pernas que cobiço de mim mesmo, decalcando cada sonho destes homenspassados. Como terá acontecido a sua morte? A bocalheirada zona explica: sexuados. E de mim não teriam qualquer fio de cabelo. Fosse apenas o manguço da minha escolha. Maldito seja o tal deus que me faria mulher de qualquer“Marcolino era um homem adúltero. Invergonhosamente pousara em vivências com mufana.”mulheres de outros nas redondezas. A muito se comportara de tal modo.Antes de escalar o leito da D. Destina, ficara com Nessi, irmã mais adulta da mãe da Pensamentos grandes. Nikotile esfregava na cara dos deuses tradicionalistas do Nkoma-Kotile. Tivera consigo sete filhos, fruto de dois anos de envolvimento sexual. Um sexo ne a valentia da mulher que ainda sonha em viver a emancipação.escabroso e imparável. Eram filhos atrás de filhos. A mulher chegara a morrer no oita- - Nikotile. És tu? – Pergunta tia Destina – quem está aí? Nikotile?vo parto. Coitada, suportara com tamanho sofrimento as sete cesarianas. Como supor- De imediato, a água deixa de derramar-se e a chuva de lágrimas ganha espaço, ilustrandotar mais uma? Como continuar viva para receber dores duma tesoura, a rasgar a barri- um ressentimento não sentido. Uma lenda se invade nos olhos da D.Destina que sega, por onde sairia mais um filho de sacana? Como? Não resistiu. Ficara atraída pelos espanta.deuses profundos. Rebentou - Nikotile!as vivências e entregou-se a morte. - mamã...Marcolino não dignara seu padecimento nem se quer o falecimento. Usurpara-se de - Algum problema? Está tudo bem?outras mulheres em pleno antes do oitavo dia. Teve mais três bastardos. - Sim mamã. Não há problema.Desta vez foi com Mabiana, a do lado. Depois imigrara para D. Destina a quem já foi E continuou a banhar-se esquivando-se de si mesma. A água libertava a fumaça que bas-mbuia nos tempos da falecida. Mas na Destina só deixara uma filha, a Kotile. tava um simples cheiro para a D. Destina se queimar. Em terras Nkomanes tal coisa é deDepois alongou-se para Melita, essa já fora a última. Vivera apenas dias de filhação de se estranhar na pequeneza.mais três. Mbuiava com Ndezi. Mas Melita não deixou aos baratos e vingou-se. Matou- - Mas você está bem, Nikotile? – Volta a perguntar receosa de estar a ser vítima de men-o a facadas. A matança sucedeu-se em pleno acto sexual. tira. Mas Nikotile, não liberta as verdades que as desconhece.Marcolino Jonasse morreu em estado de ejaculação, quando não era mais ele, incumbi- - Estou bem mamã. Agora me vou dormir.do em missões masculinas.” E se ia calada dominado o único chão que a conhecia. Era o ir de uma escuridão em que se vivera muitos sonhos duma só vez. Até antes, Nikotile fora mulher só dos deuses daCuidar duma donzela em Nkomane, já foi tarefa de humanos, agora nem os soberanos o terra. Fora virgem. Agora é mulher. Mulhereza trazida por um homem chamado Muzon-podem fazer. Apenas os que habitam as profundezas divinas. de. Muzonde vem de zondar. zondar é perseguição, traição e sinónimo de manhoso. E talDeuses. Uma virgem é sagrada. E a sua consagração vem do horizonte. Do poente onde como são as tradições, ummuitas almas redundam em noites sem luar. nome possui fortes presenças na vida de quem o recebe. Se é Muzonde, só pode terAntes, todas donzelas eram reservadas aos rituais e cultos tradicionais de invocamento manias de zondar. Fora assim com os seus antepassados.de espíritos, em que tinha que se escolher as mais humildes para o casamento. Um outro Publicidade Em Agosto de 2012 Maputo será a capital da Literatura Festival Literário de Maputo Saiba como participar em: http://festivalliterariodemaputo.blogspot.com festivalliterario.maputo@gmail.com
  • 12. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 12Conto Calane da Silva - MoçambiqueXicandarinha na Lenha do MundoExcerto …. Obra de Calane da Silva coração apaixonado do operário que após dois anos de muitas peripécias acabou por casar com a mana mulata dos seus olhos.Rodopio grande nas areias de Minkhokweni. Nós e a vida. Ladeira enorme coberta de pamas (8) e pitei- Em casa as noites continuavam agitadas. Num sábado luarento a situação explodiu a ferro e fogo.ras (9) onde, depois das chuvas de Novembro, também despontavam malmequeres. Rodopio nosso e da O quintal estava apinhado de gente bebendo. Num canto xibalos entoavam canções e danças demamã. Madrugada nas bancas do bazar, em casa venda de xicalabiça e ximantana até altas horas. Inhambane ao compasso de um bandilhado com dedos exímios por um velho tocador. Mais próxi-Naquele dia dois dos mabandido mais famosos em todo o Minkhokweni bebiam. NWa-manarro e mo do zinco da casa, um gira-discos a pilha lançava para o ar o som trepidante de um novo ritmo, aJulião. O primeiro, grande e musculoso, recém-saído do calabouço, ganhara a alcunha pêlos costumados madjuba.e certeiros três socos que derrubavam qualquer gigante. O segundo, Julião de seu nome próprio, mais De repente uma patrulha a cavalo irrompe pela porta derrubando parte do quintal de caniço. Gera-baixo e magro, era esguio e rapidíssimo no contra-ataque. Músculos de aço, cabeçada demoníaca. se, confusão, susto e ódio entre aquela centena de farristas bêbados de sábado.Chuvisca. No arejado barracão construído ao fundo do quintal, os bebedores intrépidos provocam direc- Nas mãos da policia montada brilham espadas. Tentam arregimentar as pessoas num canto parata e indirectamente os dois inevitáveis contendores. O ceptro de maior brigão e a quem as mulheres depois as prender. Já passava das nove horas. Começa uma luta encarniçada pela fuga. Homens etemiam e se entregavam continuava nas mãos de NTWa-manarro. cavalos engalfinham-se furando o caniço à cabeçada e coice. Alguns polícias caem dos cavalosRodopiou um desejo de violência nas mãos nervosas dos dois mabandido. Mamã advertiu que não que- mas, temerários, aventuram-se a pé em perseguição dos fugi-tivos. Azar. Vários foram atirados deria confusão dentro de casa. Pancadaria só lá fora. Em vão. O álcool não res-peita palavras. Entretanto, repente para o meio das piteiras.no meio do barracão, em lume brando, a xicandarinha. Agora, o seu corpo enorme e enegrecido, apesar Dentro do quintal a batalha continuava. Um dos cavalos, esporeado à toa por um polícia enraiveci-da cinza e areia da lavagem quotidiana, ostenta já uma asa desengonçada pelo uso. Arquejante naquela do, derruba a cozinha. Os cascos ferrados da besta rebentam panelas de barro, quebram tachos emadrugada fria de Junho, a xicandarinha ferve a sua água indiferente ao fogo humano mais forte que a amolgam a nossa xicandarinha.circunda. Stefana, pequeno gigante empurra-zorras do C. F. M., escoiceado, sevícia o cavalo que o maltratou.— Ha I Kine Júlio (10) — disse NWamanarro, quando Dindinde, viola querido em todo o bairro, desa- O polícia estatela-se. Ouvem-se dois tiros. A batalha ganha sangue. Stefana escapa de uma mortefiava uma marrabenta, ritmo recente e alucinante a dardejar caniços acesos de desejo nas ancas volup- certa por milagre, aliás, por nervosismo do polícia desvairado. Mas uma das balas ainda lhe furoutuosas das mulheres. de raspão um dos braços.Foi o pretexto para Julião, nervoso e espectante. Júlia era bonita. Seu corpo ainda jovem devia ser mais As pessoas, mesmo espadeiradas, não se queriam deixar prender. De cerca de uma cen-tena quesaboroso que massala (11) madura. Rodopiou um impulso irresistível no peito do Julião. "Quem dança eram, a polícia só conseguiu arrebanhar umas quinze. Foi com elas que fomos parar à esquadra.com ela sou eu!". Com o seu braço de aço afasta a reboliça anca de Júlia que ondulava provocantemente A situação desta vez era grave. Houvera confronto, inadmissível para os polícias. Todavia, umaem NWamanarro. boa estrela brilhou bem na altura na esquadra da polícia montada. Já de madrugada e quando osViolento, o grande combate começava. processos estavam a crescer na mesa dos guardas de serviço, apareceu um velho comissário daA mamã, força e coragem memoráveis, antevê o perigo de uma morte violenta acontecida em casa. polícia que era um antigo amigo do papá. Noutros tempos houve qualquer favor que o pai lhe fezEmpurra demolidora os dois brigões, exigindo aos berros que larguem os sinistros canivetes de ponta-e- aquando funcionário da Alfândega, recordou-se depois a mamã. O comissário lá nos safou de apu-mola. Consegue, ninguém sabe como. ros em memória do velho. A nós e aos restantes presos. Afinal... Todos trabalhavam e não tinhamMas o combate a soco e cabeçada continua para durar. Duas joelhadas tremendas de Julião derrubam o sido presos na rua depois das nove...! Quando se quer, as leis moldam-se ao sabor dos chefes...gigante que cai estrepitosamente sobre a nossa xicandarinha. Mas água quente não queima corpo a fer- De regresso a casa, já manhã alta, o dia revelou cruamente os estragos. Quintal e cozi-nha derruba-ver. dos, animais mortos na capoeira escangalhada. Quando erguemos as chapas derrubadas da cozinhaGritámos e incitámos os nossos fregueses a ajudarem-nos a empurrar os dois belicosos para fora do os nossos olhos pararam. No meio dos tachos destruídos, a nossa escoiceada xicandarinha mostravaquintal. Sacudidos pelo recente exemplo da mamã, xibalos e djimizanas (12) uniram-se no esforço para bem visíveis, ao meio do seu bojo enegrecido, dois furos de bala. Um grande silêncio cresceu emos tirar. nós. Agora também as balas.Quando a claridade começou a despontar por detrás dos eucaliptos do "compound" de magaízas "Mann A xicandarinha só poderia ferver água com menos de metade da sua capacidade. Osculada porJorge" e já quase a 100 metros da nossa casa, NWamanarro caiu desfalecido junto a uma enorme pama. outro fogo que não o da lenha, não a quisemos contudo pôr fora de combate. Continuaria a funcio-Julião, bem esmurrado mas feliz, olha vitorioso para a pequena multidão que o admira. A partir daquele nar. Era preciso moderar, mas não parar.momento os mabandido tinham outro chefe. Há dois dias que as chuvas não paravam. Torrenciais, pareciam uma cortina de chumbo líquidoNo quintal da nossa casa, no meio do barracão, a xicandarinha não ficou incólume desta noite de rodo- caindo devastadoras. Chuvas de fome, estas de Dezembro a Janeiro, meses que em casa semprepio. Mais amolgada, tinha a asa solta. O funileiro ficava longe e era caro. Arames grossos, bem virados pressagiaram doenças e morte.a alicate, recolocaram a asa partida. Muleta feia, mas funcional. As águas, em correntes impetuosas, juntavam-se na zona alta da Malanga e galgavam medonhasÓsculos de fogo em nós. Viajámos sonâmbulos entre o trabalho e os livros. Eduardo, o mais velho, alei- até Minkhokweni. Iniciámos um dique protector à volta da casa. Suor e sangue estavam ali naque-jado de uma perna por uma injecção mal dada em criança, é atacado pela zona, nome estranho a rotular las paredes de madeira e zinco. Não deixaríamos que fossem engolidas de qualquer maneira!uma doença provocada por sono a menos e "stress" (13), conforme afirmavam alguns médicos da época. No terceiro dia a situação agravou-se. A rádio anunciou que se tratava de uma depressão denomi-Pouco depois é a mamã que cai de cama com a mesma doença. nada "Claude". Um vazio opressivo pairava em toda a casa, agora silente de fre-gueses. Aliás, des-Agora são os nossos olhos que ardem mesmo sem o fumo subindo do fogão da xicandarinha. Coitada da de as últimas confusões, moderámos as vendas, ao mesmo tempo que adoptámos uma táctica denossa chaleira! Corpo marcado, sofrido, mas sempre imprescindível. Ah! Grande tio Dinasse, pouco vigilância de modo a despovoarmos o quintal ao primeiro alerta, refreando assim o ímpeto policial.durou para saborear de novo o chá da sua oferta. Mas a água caindo violenta sobre o telhado, que rangia aos golpes de vento, aumentava-nos a ten-Morávamos em nova casa. Desta vez nossa, nossa mesmo, construída em frente à da maravilhosa tia são pela impotência perante a natureza.Gumende. Para a erguer, tivemos de abrir à catanada um terreno então impenetrável de piteiras e — Nhandayeyoooô...! (16) Nhandayeyoooô...! gritavam vozes pedindo socorro no meio da noite.micaias. Piores foram as cobras, bem venenosas, a disputar o espaço. Uma até mordeu a mamã. Apavo- Também cercados, nada podíamos fazer. Já sobre o caniço do nosso quintal e do outro lado dasrados e estupefactos vimos a nossa velha apenas a espremer a mão mordida e ir lavá-la com sabão. Nada piteiras, as águas em fúria rasgavam a terra mole, abrindo gretas de vários metros de profundidade,lhe aconteceu. Estava vacinada contra os ofídios. Poderosos e milenares antídotos, estas vacinas fabrica- arrastando toneladas de lodo e areia para lá da ladeira, cobrindo a Rua das Estâncias, saltando sobredas pêlos nossos nhangas (14)! o longo muro gradeado dos C.F.M., assoreando, inundando e inutilizando as linhas férreas.Infalíveis contra cobras, doenças várias e até espíritos malignos da nossa ancestralidade ronga. A chuva continuava a cair sobre o nosso silêncio. A rádio falava já em grandes catástrofes no cam-Depois da zona veio o tifo. Só a mamã é que apanhou e sobreviveu. Em casa a vida não parou neste po. Os gritos de "Nhandayeyô! Nhandayeyô!" tolhiam-nos de angústia.intervalo de corpos doentes. Apenas uma vez abrandámos, remoídos de angústia. Tinham-nos roubado a Finalmente no quinto dia as chuvas amainaram. Investigando cautelosamente, respirámos de alívioxicandarinha! ao ver a sapata de cimento da casa incólume, mas à beira do abismo cavado pelas águas. Igual sorteDesengonçada, já velha mas sempre operacional, ela ainda causava inveja pelo seu tamanho e resistên- não teve o quintal e a enorme cozinha com despensa que tínhamos construído em substituição dacia. Quem nos roubara? outra. Desapareceram engolidas pela enchurrada na noite do último dia da depressão tropical. AMetade de Minkhokweni conhecia a xicandarinha. O alerta foi geral. Fregueses habituais, vizinhos, desgraça tocou a todos. Vizinhos nossos tiveram pior sorte, perdendo tecto e haveres.prostitutas e mabandido prometeram averiguar. Nossos amigos das futeboladas de fím-de-tarde, desde o Os velhos do lugar, abanando as cabeças de carapinha alva, afirmavam condoídos que era umaBabá, mulherengo mas sempre prestável, até aos Leong, filhos do cantineiro chinês do bairro, foram grande desgraça, para logo a seguir pressagiar convictos:devidamente avisados. — A natureza veio avisar que muito sangue e fogo vão correr na nossa terra, muita gente vai mor-Ao fim do terceiro dia a boa nova chegou. A xicandarinha fora finalmente descoberta. Júlia, a incansá- rer!vel Júlia, rosto já a enrugar prematuramente, boca queimada a álcool e mulala, descobriu a xicandarinha Solidariedade foi enorme entre os pobres e remediados de Minkhokweni na reparação dos estragos.em casa de Ximatana. Assim chamado por preferir esta bebida mais reservada a mulheres, Ximatana era Porém, os tractores da Câmara Municipal apenas apareceram na Rua das Estâncias para desasso-estivador-carregador nas horas vagas, pois em tempo inteiro ocupava-se especialmente da visita às rear a estrada. Para os nossos lados só surgiram meses depois, mas sob a pressão e mando dos abu-"barras" (15), copo na mão, sempre sequioso, roubando amiúde para sustentar o vício. tres das negociatas com terrenos e prédios de ren-dimento, unhas afiadas para novos espaços.O pessoal queria castigá-lo severamente. Não deixámos. Dois meses sem poder beber em nossa casa era — Mas onde ficou a xicandarinha? — perguntou o Carlitos, já a tentar abrir um caminho de traves-um bom castigo. Castigo grande para Ximatana que deixaria de saborear uma bebida melhor fabricada e, sia pela enorme vala pluvial.sobretudo, a possibilidade de beber fiado quando na bolsa lhe escasseassem as quinhentas. Guardada num canto da nova cozinha acabou também por ser devorada pelas águas em convulsão.(...) Ninguém mais a viu. Mesmo depois de os tractores terem terraplanado toda aquela zona, ela nãoTal como a xicandarinha, resistente mas envelhecida, a mamã buscava mais forças no próprio trabalho apareceu.depois de cada internamento no hospital ou dos últimos recursos dos nossos nhangas. As águas sepultaram definitivamente a nossa xicandarinha no chão revolto de Minkhok-weni.A Guida começou a namorar às escondidas. Com um maguerre, como diziam os vizinhos, referindo-se Xicandarinha de fumo e fogo, xicandarinha de água e vida, xicandarinha pássaro e arma, xicandari-ao operário branco rondando o quintal e procurando espaço para meter a mão na mulata jeitosa. nha de sangue e balas, a nossa xicandarinha libertou-se da lenha do mundo oxidando-se nas mes-Certo dia mamã não esteve com contemplações. Avisada das investidas do intruso, mandou encher a mas areias onde apodrecem os homens.xícandarinha. Retirando a tampa larga quando fervia e segurando firme a chaleira pelo gargalo e base Olhámo-nos apreensivos. A mamã, meditativa, apenas nos disse o mesmo que meses depois noscom um saco de serapilheira sincronizou bem a passagem do conquistador. A água saltou e ouviu-se um lembraria quando um senhor de fato e gravata, título de propriedade numa mão e autorização cama-grito surpreso e dolorido do outro lado do quintal. Alvo atingido. A xicandarinha mais uma vez funcio- rária noutra, nos intimava a desmantelar a nossa casa do seu terreno.nara em pleno. Também era uma arma, estava provado. — A xicandarinha não tinha braços nem cabeça para se defender e lutar. Nós temos, meus filhos.Mas de nada valeu esta guerra particular da mamã. A água quente da xicandarinha só fez ferver mais o Coragem. Amanhã começaremos nova vida.
  • 13. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 13 Profa. Dra. Ana Lúcia Gomes da Silva Rabecchi1 (UNEMAT)Ensaio Texto apresentado no XII Congresso Internacional da ABRALIC / Curitiba, BrasilTradição e transgressão em Ualalapi, de Ungulani Ba Ka KhosaRESUMO: Através da subversão histórica, examinamos a obra Ualalapi, de Ungulani Ba discursos já formulados não conseguem preencher, intervenção deliberada no modo como seKa reconstroem os fatos que ganham consistência, tenham ou não ocorrido. Retomar o passadoKhosa, nas suas várias narrativas, evidenciando a dinâmica de fronteira e ambigüidade que commodela a técnica de Khosa ao recuperar os valores culturais moçambicanos. Com ironia intenções diferentes e dentro de modelos variados se torna uma prática recorrente na prosa de ficção contemporânea nos países africanos de língua portuguesa. É dessa forma que Ba Katransgride a noção do ―herói‖ através de uma tessitura que opera entre tradição e Khosa recupera aspectos intrigantes de Ngungunhane, famoso pela resistência que opôs aosmodernidade. Nesse sentido, este trabalho constitui-se como um espaço de reflexão acerca portugueses nos finais do século XIX. Tanto quanto estes aquele provocou a destruição dodas formas de poder e resistência que operam na escrita a contrapelo do documento oficial. império de Gaza (sul de Moçambique), deixando um rastro de miséria, crueldade, sofrimento para o povo tsonga. Palavras-chave: releitura histórica, Ualalapi, tradição e O romance, outra designação de gênero que toma a obra, dá-nos a idéia de como os portugueses foram invadindo essa parte da África, um ponto de vista que contrasta com os modernidade. fragmentos históricos oficiais portugueses, que representam a história da perspectiva do colonizador, dando uma pincelada sobretudo no andamento da campanha militar e a ocupaçãoNeste espaço de reflexão tomamos a obra Ualalapi (1990), de Ungulani Ba Ka Khosa como objeto do território com um tom de heroicidade para o colonizador. Mas a obra também não poupa osimbólico do imaginário cultural moçambicano e veículo para a releitura da História, não como uma colonizado, responsabilizando-o de certa forma pela sua própria tragédia.recordação nostálgica mas como uma interlocução com distanciamento crítico, já que o texto Se no passado os nguni eram uma força invasora e Ngungunhane o último rei de um estadoliterário tem sido um objeto simbólico muito importante na (re)construção da sociedade, sobretudo colonizador e opressor, a narrativa institucional é hoje bem diferente, segundo Fernando Bessaem espaços políticos emergentes, que vivem de forma ambígua e tensa a sua póscolonialidade, como Ribeiro (2005), afirmando que na literatura Khosa é um dos poucos escritores moçambicanosafirma Mata (2002, p. 29). contemporâneos a assumir uma posição inequivocamente contra-a-corrente. O próprio mito deLigado profundamente à história de sua sociedade Ba Ka Khosa reatualiza na obra Ualalapi a figura Ngungunhane é explorado em vários momentos políticos, segundo Bessa, como visão positivade um mito moçambicano num presente sempre em interação com o passado e o futuro. O que e apologética, de importante papel histórico, até ser bloqueado em outro momento e,parece estar em foco para Khosa nessa obra é o jogo entre construção identitária nacional e seu finalmente, em 1982 tomado como figura heróica da nação moçambicana por Samora Machel,questionamento, suas conseqüências e idealizações como ―patrimônio herdado do passado‖, imposto pela urgência de reforçar a identidade e a coesão nacionais num contexto de guerraevidenciando as formas de resistência e violência que caracterizam esse passado. Vemos, portanto, civil e agressão externa.que Khosa cumpre aqui o preceito de Inocência Mata de que, ―O que importa hoje estudar são os Para Bessa, é manifesto que a elite dirigente tentou fazer de Ngungunhane um símboloefeitos das relações de poder, seja entre entidades diferentes externas, seja entre entidades que coletivo que pudesse ser apropriado pelas populações como o primeiro dos grandes heróis doparticipam do mesmo espaço interno‖ (MATA, 2007, p.40). Assim, o que faz Khosa é um diálogo Estado moçambicano, o herói por assim dizer clássico, em perfeita compatibilidade com osentre o discurso histórico enquanto representante oficial da verdade dos fatos e a ficção questionando interesses da liderança do regime, num contexto político de conflito. A invenção de heróis éa impossibilidade de acesso a uma verdade única, através da incorporação de motivos míticos. um processo fortemente enraizado na história e nas lutas políticas e sociais em torno dosA obra é um conjunto de seis contos, aparentemente independentes, porém interdependentes quanto processos de construção da memória e da identidade nacionais.ao elo que constitui a releitura da personagem do imperador nguni – Ngungunhane, enquanto Voltando aos contos, os assuntos e personagens marginalizados ou ex-cêntricos dão a tônicarepresentação de poder, da etnia dos nguni, vindo do sul da África, que invadiu e colonizou os da narrativa, cujos quadros históricos realçam um romance de temática histórica, utilizando ostsongas, no sul de Moçambique, em confronto com o exército português no fim do século XIX. Cada novos paradigmas da historiografia e da visão pós-moderna. Assim se cria a outra visão daconto nos abre uma perspectiva diferente sob a qual se podem visualizar os feitos e o caráter desse História ―de baixo‖, diferentemente da oficial ―de cima‖. A margem ou o território de fronteiraimperador que vai se construindo ao longo das narrativas num conjunto do qual se entrevê faz-se, então, lugar propício para novas possibilidades e explorações não só da história, mas doacontecimentos históricos até à captura de Ngungunhane, que se dá no último conto. Cada uma das caudal cultural de um povo. É nessa fronteira porosa entre história e ficção que se desloca comnarrativas é precedida de um pequeno texto italizado designado Fragmentos do fim com o qual propriedade Ba Ka Khosa.mantém diálogo numa desconstrução/reconstrução de Histórias em Estórias. Os feitos das personagens fictícias não são fixados pelos documentos históricos, mas, naOpiniões favoráveis e contrárias ao hosi (nomeação em língua tsonga de rei) criam uma linha de maioria dos casos, o autor se acautela para que não os contradigam, não se preocupando noalteridade no discurso histórico da obra que leva o leitor a questionar as ―verdades‖ moçambicanas, entanto com a veracidade ou não dos fatos, respondendo com isso ao projeto da história novaa começar pelo seu título Ualalapi que já denota uma falsa referência ao leitor, uma vez que este é o de que não há uma verdade única para os fatos mas muitas versões sobre, de acordo com osnome de um guerreiro nguni a quem é destinada a missão de matar Mafemame, irmão de Mudungazi interesses ideológicos, deixando-nos entrever como a própria forma da narrativa histórica(depois chamado Ngungunhane-Gungunhana). Este guerreiro dá o título ao conjunto de relato, serve para os interesses do poder e da dominação, como vimos enfatizando, na esteira dosporém sua passagem se dá apenas no primeiro conto. estudos críticos de Inocência Mata.Em uma das passagens do romance Ualalapi há um discurso premonitória que identifica, na Com traços etnográficos da oralidade africana e do realismo mágico sul-americano, com quemrealidade, esses conflitos sangrentos: Khosa confessa ter afinidades, visto a realidade ser extremamente semelhante à africana, pois é uma realidade preocupada em ―contar histórias‖ (A escrita está em mim), a obra goza de uma Estou com medo, Ualalapi. Estou com medo. Vejo muito sangue, sangue que vem dos indeterminação genológica, segundo Leite em Literatura moçambicana: Herança e nossos avós que entraram nestas terras matando e os seus filhos e netos mantêm-se nela eformulação, que constata ser ―uma constante nas narrativas pós coloniais, que partilham a matando também. Sangue Ualalapi, sangue! autobiografia, a narrativa mítica, e utilizam recursos a procedimentos e formas orais‖. Leite diz Vivemos do sangue destes inocentes. Porquê, Ualalapi? que, em África a arte de narrar oral faz parte do cotidiano africano. ―Conversar não é apenas -É necessário, mulher. Nós somos um povo eleito pelos espíritos para espalhar a ordem por trocar idéias, antes contar histórias que exemplificam as ideias‖ (2003, p. 89) e acrescenta: ― estas terras. E é por isso que caminhamos de vitória em vitória. E antes que o verde floresça Estes novos narradores, repõem na escrita a arte griótica, o maravilhoso do era uma vez e, é necessário que o sangue regue a terra (KHOSA, 1990, p. 32). refrânica e encantatoriamente, vêm contar a forma como se conta, na sua terra, encenando as estratégias narrativas, em simultâneo à narração‖ (idem, p.92).O diálogo entre história e ficção é a marca predominante na obra que se abre com uma nota Em cada conto o autor concedeu-nos uma nova vista sobre a História para traçar o perfil dedo autor a expor o tema a desenvolver, nomeadamente a figura de Ngungunhane enquanto Ngungunhane e o seu tempo e deixou a nós leitores a tarefa de compor os fragmentos desserepresentação de poder, porém alertando-nos para a utilização propositada e anárquica das palavras mosaico. Dessa maneira, Khosa questiona a verdade por um gesto pulverizado por críticas eimperador, rei e hosi, constatadas, então, página depois, pelas citações históricas de Ayres de isso através de estratégias que recorrem a vários procedimentos, com principal destaque para oOrnelas e do missionário protestante George Liengme, ambos contraditórios na configuração do processo paródico, que sugere uma distância crítica que permite a indicação irônica daperfil de Ngungunhane, ora como um homem de certo ar de grandeza e superioridade, ora de diferença no próprio âmago da semelhança (HUTCHEON, 1991:47), numa interlocução com oexpressão bestial, diabólica, horrenda. Entre luz e sombra, grandeza e pequenez, Khosa dramatiza texto histórico que se pretende transgredir para ultrapassar.em seis episódios a desmistificação das versões diferentes da história desse imperador. Além de Esse procedimento perpassa todo o texto, a exemplo, o terceiro Fragmento do fim que se dizentretecer por fios ficcionais e históricos a relação de poder e opressão em que o sujeito tanto pode mostrar o início do relatório à posteridade do coronel Galhardo. Assim descreve a ocupação deser o português quanto o próprio africano, reflete, simultaneamente sobre o conceito de nação e de Manjacase, onde os portugueses foram buscar Ngungunhane, mas só encontraram a cidadeidentidade cultural, não plenamente aclarados e estabelecidos. vazia e barbaramente a incendiaram. Pelas rasuras do texto oficial, o narrador acrescenta comEntão, o que se nota no projeto de Khosa é a reconstrução da noção de herói – peça estruturante da ironia o que para ele é importante:tradição -, com que o imperador já foi associado, rebaixando a figura do herói em opressor do povoTsonga, aquele que não só aterrorizou como silenciou esse povo, contextualizado principalmente em - O facto de ter profanado com um ímpio o lhambelo, urinando com algum―O último discurso de Ngungunhane‖, em que a personagem é apresentada com um poder oculto e esforço sobre o estrado onde o Ngungunhne se dirigia na época dos rituaisaterrador de vaticinar o futuro de Moçambique. (...). - O roubo de cinco peles de leão que ostentou na metrópole, como resultado E por todo lado, como uma doença, começarão a nascer crianças com a pele da cor do mijo duma caçada perigosa em terras africanas. que expelis com agrado nas manhãs [...] e haverá homens com vestes de mulher que - O facto de ter, pessoalmente esventrado, cinco negros com o intuito de se percorrerão campos e aldeias, obrigando-vos a confessar males cometidos e não cometidos, certeificar da dimensão do coração dos pretos (...) (KHOSA, 1990, p. 56) convencendo-vos que os espíritos nada fazem [...] E aí o mundo terá mudado para sempre [...] Anossa história e os nossos hábitos serão vituperados nas escolas sob o olhar O enfoque voltado para o interesse do autor revela bem o que vimos falando, das relações de atento dos homens com vestes de mulher que obrigarão as crianças a falar da minha morte e chamarem-me criminoso e canibal (KHOSA, 1990, pp. 119-121). poder e interesse em favor dos que escrevem os documentos históricos e dos que os escolhem para trabalhá-los. Ordenar fragmentos históricos em imagens que signifiquem realmente o fatoDurante todas as narrativas, porém, não temos um delineamento convicto de quem foi é uma tentativa ilusória, pois um erro na escolha ou na interpretação pode redundar em versãoNgungunhane, parecendo constatar que as leituras da história serão sempre dúbias, e a imagem da diferente da História. Esta problemática parece estar ressalvada na estória O diário de Manuapersonagem deslizante entre ficção e história, pois como bem afirma a epígrafe que abre a narrativa, em que o narrador nos conta a história de um diário encontrado nos escombros da capital dede Agustina Bessa Luís ―A História é uma ficção controlada‖, podendo ser lida e interpretada Gaza, com uma letra ―tremida, imprecisa e tímida‖ que foi atribuído a Manua, filho de Ngungunhane e sedependendo das circunstâncias e relações de poder que a sobredeterminam. encontra já roto e carcomido pelos ratos. ―As letras que restaram estão soltas.A releitura do passado pela literatura incorpora o senso histórico através das lacunas que os
  • 14. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 14 EnsaioJuntando as cinco letras tem-se a palavra morte. Ou temor. Ou tremo‖ (KHOSA, 1990, p.105). O que senota são imprecisões que sofrem interpretações, exemplo provável de como o historiador constrói os É dessa forma que Ungulani Ba Ka Khosa através da releitura do passado desloca a narrativafatos, não tão diferente de como o ficcionista imagina a cena. da História para a estória, da visão do centro para a visão da periferia, descentralizando asNo mesmo conto há uma inversão paródica quando o narrador registra a partida de Manua num paquete estratégias discursivas eurocêntricas numa atitude de ruptura e carnavalização (Bakhtin), masde Moçambique a Lourenço Marques comparando às testemunhas orais ―do viajante também reivindicando uma reposição de valores próprios, incorporando processos da culturazarolho que por estas terras aportou com um volumoso manuscrito entre as mãos e que mais versos fez oral, subjugada pela hegemonia da escrita. Como afirma Gilberto Matusse ao definir acantando esta ilha enquanto saciava a sede e a fome que o atormentava...‖ que Leite considera uma construção de uma imagem da moçambicanidade:―inversão parodicamente exagerada da retórica da representação histórica‖ (1998, p.87). O ―volumoso Como uma prática deliberada através da qual os autores moçambicanos, inseridos nummanuscrito‖ se trata d’Os Lusíadas, inscrito na memória coletiva portuguesa como um monumento sistema primariamente gerado numa tradição literária portuguesa em contexto de semiosenacional. Neste conto seu autor serviu de ―espanto e comiseração das negras islamizadas em verem um colonial, movidos por um desejo de afirmar uma identidade própria, produzem estratégiasbranco esquálito, longe de saberem que aquele homem magro e famélico relançaria ao textuais que representam uma atitude de ruptura com essa referência. Esta imagem consuma-semundo...‖ (KHOSA, 1990, p. 97-98) uma obra de tamanha grandeza, diminuída aqui simbolicamente fundamentalmente na forma como se processa a recepção, adaptação, transformação,pela descrição da miséria do viajante português. prolongamento e contestação de modelos e influências literárias (1997: 76).Da mesma forma que a narrativa desmistifica o mito camoniano também o faz com o mito Na esteira de Matusse, podemos afirmar que Ungulani Ba Ka Khosa relê e reescreve acriado em redor de Ngungunhane, transmitido de geração em geração como se percebe no final da empresa histórica e ficcional com manobras transgressivas, fazendo uma ligação entre o temponarrativa em que um griot reconta a história do mito ao redor da fogueira, a partir de sua do império Gaza e os acontecimentos do pós-independência em Moçambique, filtrando,mundividência africana. Assim, letra e voz são no romance de Ba Ka Khosa fontes deslizantes que desfigurando e reconfigurando um mundo que nunca mais seria o mesmo após a colonização,oferecem elementos não só estruturantes para essa narrativa como elementos mágicos para a traduzindo, assim, a transformação irrevogável, como resume o discurso premonitório deimaginação. A forma da escrita, legado europeu, é apropriada transgressivamente por Khosa com a Ngungunhane ―E aí o mundo terá mudado para sempre‖ (Khosa, 1990, p.121).ajuda da oralidade, pois como diz Manuel Rui, poeta e ficcionista angolano. Referências bibliográficas Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Interfiro, desescrevo CHAVES, Rita. ―O passado presente na literatura africana‖, in Via Atlântica – Departamento de para que conquiste a partir do instrumento escrita um texto escrito meu da Letras Clássicas e Vernáculas – FFLCH – Universidade do Estado de São Paulo – nº 7, 2004. minha identidade (RUI apud CHAVES, 2004). HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz, Riode Janeiro: Imago Ed., 1991. LEITE, Ana Mafalda. Literaturas Africanas e Formulações Pós-coloniais. Lisboa: Edições Colibri,2003.―Interferir, desescrever, inventar‖ apresentam-se como palavras de ordem nesse processo de ____________. Oralidades & Escritas nas literatura africanas. Lisboa: Edições Colibri, 1998.revitalização do território possível. A recuperação integral do passado é inviável, mas pode ser __. “Modelos críticos e representações da oralidade africana”, in Via Atlântica –reinventada com aquilo que o presente oferece (CHAVES, 2004). Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas – FFLCH - Universidade de São Paulo – nº 8, 2005. ________________.“Literatura Moçambicana: Herança e Reformulação”, in Sarará – RevistaO caráter sagrado do passado como explica Leite, eletrônica de literatura e de língua portuguesa. Disponível em: http://www.revistasarara.com/int_pente_finoTexto02.html detecta-se numa atmosfera cujo equilíbrio precário depende da observância das normas, KHOSA, Ungulani, Ba Ka. Ualalapi. Lisboa: Caminho, 1990. tornado-se a sua explicação ou caracterização inacessíveis, pelo menos aos iniciados. A escolha ____________________. A escrita está em mim. Entrevista concedida a Rogério Mangane. de um cenário histórico, que se orienta para Disponível em: uma época longínqua e de contornos imprecisos, relembra a sacralidade da origem e da http://www.maderazinco.tropical.co.mz/entrevista/ungula.htm fundação (1998, p. 91). MATA, Inocência. A literatura africana e a crítica pós-colonial – Reconversões. Luanda: Editora Nzila, 2007. Coleção Ensaio -37.O uso desta ―cronologia mítico-histórica‖, que é muito freqüente nas literaturas africanas MATUSSE, Gilberto. A construção da imagem da moçambicanidade em José Craveirinha, MiaContemporâneas Couto e Ungulani Ba Ka Khosa. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 1998. pretende prolongar no presente o registo da Memória dos tempos antigos, e RIBEIRO, Fernando Bessa. A invenção dos heróis: Nação, história e discursos de identidade em este caminho retrospectivo mais do que resultante de uma preocupação Moçambique. Departamento de Economia e Sociologia/ Centro de Estudos Transdisciplinares nostálgica, é uma forma de confronto com um presente histórico, muitas para o Desenvolvimento/ Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - Vila Real, 2005. vezes crítico e problemático (LEITE – Revista Sarará). Era sábado em Xai-xai. Fazia calor de encurtar as calças. Lineu, este sentado a direita, ex-residente de Quelimane, província da Zambé- Fífias zia, reconheceu um amigo de infância, Nelson., homem que marcou o seu percurso existencial. Aliás, as grandes bocas falam “Lineu é Nelson Lineu em memó- ria desse seu amigo, ora sentado a esquerda.” Bocas famintas de falar dos outros. Uma intromissão à realidade alheia. Este homem, se quer encontra-se em Quelimane. É um louco em plena Praça do Município de Xai- xai. Se bem que, prestando aten- ção neste retrato histórico, parece que ele, o Nelson, amigo do Lineu, apesar de vítima de doença de juízo, sabia muito bem o que fazia. No entanto, algo há de inquietan- te: De facto, Lineu, é Nelson Lineu, mas o que falta sabermos é se terá nascido e vivido parte da sua infância em Xai-xai? Ou se Nelson, o louco, é o que nasceu em terras Zambezianas? Bom, fica-nos o soluço, ninguém pode negar a amizade fraterna destes dois. As imagens falam por si! Pura Fífia
  • 15. SEXTA-FEIRA, 23 DE MARÇO DE 2012 | LITERATAS | LITERATAS.BLOGS.SAPO.MZ | 15Metamorfoses Raul: Assim Seixas!Trombadinha é a fome(Pichado Num Muro in Sampa) Silas Correa Leite* - Brasil-A última vez que o vi, estava saindo da sede do então Diário Popular, o mesmo jeitão alumbrado, então o cumprimentei por educação – não soudo tipo fã histérico ou baba-ovo - mas o Raul Seixas simplesmente apertou a minha mão demoradamente e me deu um abraço, como se eu fosseda familia. Familia Contra Ataca? -Pensei, discriminando, claro, com os meus botões: deve estar pirado, entrou numas. Ora, isso ele sempre foi em todos os sentidos e insurgências.Já pensou? Depois ouvi o blues lindo que ele fez quando internado numa clínica periferia s/a da vida. Correm as lendas. -E vai uma: depois de procurar o que tomar, viu embaixo da pia de casa um litro meio que escondido de vinho. Mamou direto. Alguém da casa che-gou e, vendo o caso vazio, reclamou na bucha: o vinho tava azedado, tinham guardado pra usar como vinagre. Ele, o Seixas Raul tomou o livro devinagre inteirinho. -Canções com letras-mantras. Com letras-protesto. Com letras-crônicas. Com letras que mesmo aqui e ali tachadas de birutas, davam sentido avoos músico-letrais. Ou lítero-musicais. Todo ele uma espécie mestiço tropical-latino de Zimermam-Dylan na fase woodstock. Será o impossível? -A metamorfose ambulante que bagunçava as opiniões formadas sobre tudo, escamoteando os ouros de tolos. E os tolos de ouro da vida mumifi-cada em regras, modismos e hipocrisias gerais... Era o roqueiro daqueles anos festivais-vernizes, típico mochileiro, maconheiro, festeiro e criticadorde peso e quilate. Na veia. -Raul Seixas criticou igrejinhas, teve a tchurma toda a favor, porque ele criticando no fazer arte era um, no dia-a-dia era uma flor, uma moça. Qual-quer musica dele cantada por qualquer um, vira sucesso. Porque ele foi único no que fazia de rock pauleira para ser comestível entre pizzas ecrushs. Pois é. -Pouca voz e muita letra. Se surgisse hoje, estouraria. Pra época era vanguarda. O Brasil tem nele o melhor roqueiro, melhor que Rita Lee (que deovelha negra pintou global, argh!), pré Cazuza, pré Legião, uma espécie adiantada de Cássia Eller de blue-jeans. Já pensou? -Se fizesse teatro, seria Plinio Marcos. Se fosse poeta, seria Glauco Matoso. Se fosse fêmeo seria Elis da fase pimentinha ao deus-dará. Mas eraúnico no gênero, figurinha carimbada. -Sentado no trono de seu apartamento, tinha idéias, corria compor, tava escrita a letramusica. Amigão, tinha momentos de recolhimentos, encuca-va essas e outras estações, mas, pan-arteiro, sabia que em tudo havia arte e ele tinha um seu próprio filão. Sorte da MPB que com ele foi muitomais que MPB. Foi Música Popular Parabólica. Parabolizado. No entanto, muito mais do que parcialmente fervido, no frever dos ovos. -Agora, mais do que nunca, o andam cantando em verso e prosa pelaí. Deve ser alguma coisa datada. Mas se você cansar da nova música popu-lar brasileira, que não é nova, não é música, não é popular, não é brasileira, ouça o Raul. Se você penou com a fase neobossa nova das novelasglobais, saque o Raul. Ou mãos ao álcool. Pior, se você cansou desses novos roqueiros b ana nas que viçam bigs brothers por aí, ouça o Raul eque o Raul seja, quero dizer, trocadilhando, Raul Seixas! -Pra ser um puta roqueiro, tem que ouvir Raul Seixas primeiro. Dá saudades. Para não dizer que não falei de flores, como é que pode morrer tãocedo? Por essas e outras, perdemos a cabeça estrambólica dele que dava o que falar, o que não falar, o que assinar embaixo, cantando refrões eletras diferenciadas.A Mosca da sopa das brasileiranças ufanistas pra curtume-Um saradíssimo porra-louca, fazendo carnavales com guitarras e algo entre Hawai e Índia. Hawaíndia? Como cabeças & mentes marcam, fazemfalta, ele ainda será cantado por tantas gerações futuras. Da que veio geração tubaína, passou pela geração coca cola, e agora cai no diapasão daGeração Teflon, que esquenta mas não quer realmente aderência. Tensão para exatidão, diria Paul Valery. -O Maluco Beleza era só luz e Rock. Raul Seixas se foi pra ficar-Assim Seixas! *Silas Correa Leite, Letrista-compositor de rocks, blues e baladas inéditas E-mail: poesilas@terra.com.br - Blogue: www.portas-lapsos.zip.net -0- Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de um Poeta Boêmio – Giz Editorial, SP, no prelo, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus , Salvador Bahia 2009 3ª Feira Literária de Boqueirão De 21 a 25 de Março de 2012 Programa de Palestras 23/03/2012, sexta-feira 24/03/2012, sábado PALESTRAS PALESTRAS (CEFAR) (CEFAR) 14h - 15h 14h - 15h O Medo, o livro e o leitor, com Jairo César (PB) Como se forma um Crítico Literário, com Hildeberto Bar- 15h - 16h bosa Filho (PB) Literatura de Entretenimento: A conquista do Leitor, 15h - 16h com Mabel Amorim (PB) Literatura Contemporânea e as novas mídias de comuni- 16h - 17h cação, com Wander Shirukaya (PB) Tempo de reinventar: Um escritor descoberto aos 62 16h - 17h anos, com Carlito Lima (AL) Jornalismo Cultural na contemporaneidade, com Aluízio 17h - 18h Guimarães (PB) A nova Poesia da Bahia e do Nordeste, com José Inácio 17h - 18h Vieira de Melo (BA) Os Planos Estaduais e Municipais do livro e da leitura, 19h - 20h com Roberto Azoubel (PE) e Rosália Guedes (DF) O Teatro de Lourdes Ramalho e os dramas da cultura popular, com Vanusa Silva (PB) 20h - 21h Afinal, o que você sabe do Lula? com José Neumanne Pinto (SP)

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