Aquela alice pintada de sangue

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  • 1. Aquela Alice Pintada de Sangue
  • 2. Autora:Marcella Cristina de Oliveira “Dedicado a todos aqueles que tornaram isso possível”.
  • 3. Parte I: Alice Dizem que há uma carruagem fantasma, escondida em algum lugar deste reino. Dizem que a morte é muito pouco, por um debito que alguém deve de pagar. Estas são uma das poucas palavras que se definem um pesadelo, um pesadelo de nome “Alice’. Uma menina que tive a infelicidade de conhecer... E a desventura me apaixonar.
  • 4. I Especulação Meu nome é Lucas, desde pequeno, ouvi falar dos grandes detetives; Tal qual Sherlock Holmes eu me deixava levar por mistérios intrigantes, aguçando ainda mais meu enorme apetite por aventuras, o que me era um deleite, ás vezes, esse ímpeto me custava caro. Como da vez em gastei 50 reais em livros; Ouvi falar do grande e procurado “Hanry Claude”- Acusado de roubo e traficoque tivera fugido a pouco tempo da cadeia - com o pouco que li nestes livros, me julguei mais que correto no resultado do caso, mas, errei. Tendo vindo de uma família demasiada humilde, minha mãe costureira, e meu pai desempregado. Metade do dia eu o gastava trabalhando no armazém de seu Loro. Ele não me pagava bem,abusara de uma família com tão poucos recursos;Por isso sua morte não me foi sentida.Uma das veias de seu cérebro houvera estourado; Pobre Dona Lucia, na hora adiantou-se rapidamente para socorrê-lo. Estava imóvel, e um calafrio me veio a espinha, pasmo, não estava sensibilizado com seu falecimento, entretanto, deparar-me assim tão perto da morte me foi como um êxtase. Fitava perplexo aquele cadáver, que estava aos poucos definhando; E sem compreender, um sorriso estampara cinicamente em meu rosto, como um deboche, assustara os presentes, e feria aquela senhora jaz tão abatida. Hoje jaz maduro, em meus 20 e poucos anos. Reflito varias vezes esta e inumeráveis tormentas do passado. Devo de agradecer as dificuldades, pois elas me tornaram mais forte, graças a elas me tornei o que sou hoje. Não me perpetuei as correntes impostas
  • 5. pela vingança, mesmo com o rancor, não sou capaz de fazer mal a aqueles que já me fizeram um dia. A falta de renda fez com que meu sonho estivesse longe de ser alcançado. Entretanto, me tornei o que menos esperava: Um jornalista. II Corrompido Na empresa em que na qual trabalho arrumei vários amigos, entre eles de minha confiança: Helena: - Ainda nesta idade não me deixo inerte a necessidade de investigar, sei que é algo muito útil já que sou jornalista, por isso não venham me julgar – Secretaria e assistente do chefe, é mais que certo afirmar que esta tem um salário muito gordo. Admitida dois anos antes de minha estadia, pronto a minha carreira, era uma jovem senhora de 19 anos. Honesta e meiga, entretanto, desventurada, a má sorte a seguia, se este era seu destino devo de dizer que ela seria a primeira a mandá-lo a morte. Sua ingenuidade era algo que acalentava, mas, que me fazia temer por ela. Como disse alguém uma vez “Este mundo não é para ingênuos” Roberto: Uma pessoa sádica e sátira porem com enorme senso de humor. Assim como eu, ele era jornalista, e assim como ele, outro compadre meu Gustavo, também era. Um dia, ao andar pelos corredores da empresa. Estes vieram correndo me contar das novas, e pelo que parece me notificarem do novo serviço:
  • 6. - Lucas já ouviu falar sobre “Alice Valmont”? – indagou Helena pretensiosa. - Não, por que? - O chefe quer uma matéria sobre ela. - Alice, pelo que parece – interveio Roberto, mostrando-se possuir um amplo conhecimento para com o assunto – É sobrinha do Conde Vermelho e do Barão Negro, heróis de guerra dessa cidade. Como são muito populares esta também haveria de ser. Em seus poucos minutos de chegada a sua audaciosa residência uma grande multidão gritava eufórica, desejavam mais que tudo vê-la mesmo que de longe. - Ela é tão bonita assim? – indaguei surpreso. - Pelo que me relataram, parece uma boneca. Neste momento, Gustavo timidamente rompera o silencio, estava fuçando seu bolso, no ímpeto de encontrar algo, visivelmente deixou na face um grande sorriso, o que aparentemente pôde responder ao meu dilema: - Deem uma olhada. - Como conseguiu essa foto? – perguntou Roberto, sem palavras. - Consegui com um fotografo amigo meu. Lucas sua matéria vai ser uma grande diversão. - Que tal atentá-la? – propôs Helena com astucia – Seduzi-la? Ao escutar isso, uma enorme cólera subiu a minha cabeça. Estava indignado: - Sabes que não sou esse tipo de homem. - Se eu estivesse em teu lugar eu o fazer ia com prazer – replicou Roberto, contando vantagem – Até quando vai continuar com esse teu voto de castidade? - Bem oras sabes que não sou virgem – retruquei furioso. - Mas age como se fosse. Fiquei corado. Adiante, Helena prosseguiu em tom esclarecedor: - Não estamos falando para você amá-la, queremos apenas que se divirta. - Temo mais, é machucar seus sentimentos.
  • 7. A conversação foi grande, hora ou outra seria obrigado a esse sujo trabalho. Corrompido? Talvez. Mas passei um bom tempo vivendo como um ninguém, e agora que tenho a chance de reparar essa peça do destino, não hei de me privar de tentar uma vida melhor. Quem sabe... Essa Alice possa guardar grandes mistérios? III Teu Mistério Sempre fui muito a bibliotecas, era algo bastante prazeroso, mas deveras rotineiro, nunca pensei que naquele mesmo dia seria sujeitado à tamanha exasperação. Já estava escurecendo, de folga seguia sem delongas até minha humilde, todavia confortável moradia. No caminho ultrajante, estava à biblioteca HG; O que me deixou pasmo foi o fato de ela estar aberta assim tão tarde quanto as 24:00 horas. Antes de infiltrar-me já estremeci, a ponto de tocar na maçaneta, pálido, começar a soar frio; Era uma atmosfera nada contentadora, era muito bizarro por assim dizer, difícil de engolir. Olhando pela janela tudo parecia normal, entretanto, o ambiente era muito sombrio. Já ao entrar já confirmara o que percebi: O lugar era sinistro. Suadecoração vulgar não se omitia a forte impressão do paganismo. Algas e ossos que serviam como adornos para as prateleiras, na mesa alguns lápis de cor sobre um simples e pequeno caderno, todavia, por trásnão se tinha visívelnenhum atendente. O lugar estava imundo, observando, dava-se para notar que tinha terra em todos os cantos. Um grande candelabro de prata quebrado estava deitado sobre o chão e fixado no centro do local.
  • 8. Tentando conter o medo, ajeitei minha gravata.Dei sete longos passos, e quando fitei novamente aquele candelabro, complexo, me vi diante de minha própria morte. Eu que nunca acreditei em fantasmas, admito que aquela sensaçãopoderia ser comum. Mas, o que aconteceu comigo, não tinha como ser normal: As luzes se apagaram, e a porta trancou sozinha. Inquieto e abatido, meus olhos arregalados procurava uma pequena luz na imensa escuridão, por ventura, como mais um assombro, aquele candelabro já inerte me concedeu o desejo. Minha vontade era de correr, mas minhas pernas paralisadas não permitiam. O frio era eloquente, parecia ser uma prova. Tentei voltar no tempo, na época em que eu desejava ser um grande detetive, entretanto, falhei. Todas as minhas teorias obtidas em poucos minutos foram destruídas neste exato momento: - Seu nome é Lucas? – indagou uma timbre, porém doce voz. Soara como um acalanto. Divindade a parte, procurava sem receio a imagem da pessoa a quem me transmitia ternura naquele instante tão horroroso. - Sim, sou. Quem é você? –indaguei. Ela não respondeu. - Só quem faz perguntas sou eu! – exclamou em tom furioso, mas não a ponto de me fazer dar gritos de fervoroso terror, não. Era de uma forma que tentava demonstrar mais que nunca a sua autoridade. O silencio prevalecera, mas, ela continuara: - Ouvi falar que quer tentar me seduzir... Vermelho de vergonha, neguei entre palavras e gestos com a cabeça. Estava demasiado transtornado. - Como ousa mentir?! –complementou ela, entretanto a forma de um grito benevolente. Sua voz era muito bela, mas, não conseguia me transmitir medo algum. Era tão doce que por poucos minutos pensei que estava fora de perigo, por mais uma vez, errei. Fitava todos os cantos daquela biblioteca escura, em que na qual a única luz que se mantivera era a de um velho candelabro. Parecia um pesadelo. Qualquer um que estivesse naquele lugar
  • 9. pensaria que é assombrado, já que ouço uma voz, mas, não sei de onde vem.Sinto-me em um interrogatório, pressionado por inúmeras perguntas. No entanto, veio a minha mente, a foto de Alice, Alice Valmont... Seria esta voz de autoria desta senhora? Dentre a escuridão, já cabisbaixo, estava exausto de tanto procurá-la, mal me recordara de sua imagem, e já sentia por ela imensa afeição. No meu consciente eu mesmo gritava, em monologo: Estranho! Ela para minha surpresa, enfim se revelou indo para o único lugar iluminado. Fiquei bobo! O que me falaram era mesmo verdade, tão bela quanto um anjo! Seus cabelos negros contornavam e a davam ainda mais elegância, seus lábios vermelhos tal qual sangue eram tentadores, parecia o pecado oferecido para mim em uma bandeja de prata, mas, acima, com uma taça de ouro, deixando mais que irresistível o gosto de vinho que em poucos minutos se torna sangue. Seus olhos grandes e verdes, era a porta para a alma mais misteriosa que já vi; Seus cílios, um encanto. Seu longo vestido de renda em babados a dava um toque especial. Era uma boneca! - Como ousa mentir? – murmurou ela. Não consigo deixar de observá-la, seus lábios trêmulos, sua pele sensível... - Quantas vezes terás de mentirem?! – indagou a menina indignada, pousando as mãos sobre meus ombros e fixando seus olhos penetrantemente nos meus– Não sei por que você não morre! Consigo ver em sua alma! Você me ama! - Eu não a amo – tentei sem sucesso corrigi-la. - Mas sei que ira amar-me. Por isso digo: É perda de tempo tentar me seduzir! - Se eu a amo – perguntei confuso – O que tem demais em tentar seduzi-la? Em voz tremula e caminhando diante a escuridão respondeu- me:
  • 10. - Você pode sofrer com isso... Fiquei fascinado, com a jovem que estava a cá, ao meu lado. Sua fragilidade, finura, delicadeza, estava encantado! E não conseguia parar de fita-la! Estava viciado nela que nem um moribundo por sua droga. Será que realmente a amo? Ao soar do ato, quebrou-se o silencio. Como se estivesse atenta ao perigo, minha interlocutora deu quase a prevê sobre a trombeta do juízo final: - Me siga. É perigoso continuar nessa biblioteca. Daqui a pouco será 25:00; Quero poupá-lo do pesar que seria presenciar o que acontece aos que ficam aqui presentes. 25:00? Cada vez mais, ficava perplexo e confuso. - O que acontece nesta hora? – indaguei curioso. - É à hora do julgamento. A hora da vingança. Da lastima e do martírio. - Quem é o responsável por isso? – perguntei mais uma vez, atônito. Desta vez, como das primeiras vezes, ela não respondeu-me. Como se fosse vitima de sua disciplina, firmemente, não se mantivera expressiva. Por onde caminhava, a luz que antes vinha do candelabro, começou a segui-la, até uma porta de madeira esculpida de fino gosto. Como se os mistérios me seguissem, na maçaneta estava escrito “Rosa-Cruz”. A querida senhora, me escoltou até seu ninho. IV HG
  • 11. A querida guia escoltava-me com seu bendito zelo. Era um imundo e fétido labirinto. Olhava para o lado e me arrepiara de tão nojento que estava o local. Canos quebrados, rios de fezes... Suspeitara e tive a certeza após a caminhada de que se tratava de um esgoto. Já exausto interpelei confuso: - Aonde estas me conduzindo minha jovem? - Não sou sua – retrucou-me rudemente – Já estamos chegando. Deparei-me no caminho, com outra porta. Minha desconfiança estava começando a chegar diante de sua menção. Estava mesmo seguro ao seu lado? Perguntava incessantemente a mim mesmo. - Ouvi falar que tu és jornalista... – argumentou timidamente. - Sim, sou – confirmei com maestria. E ela, embaraçada, esboçou um leve sorriso na face. - Sei que tudo parece estranho – Complementou Alice Valmont – Mas, com o tempo, entendera. Não conseguia compreender a simbologia por trás de suas palavras aguçadas. Envolvida por aquela luz inebriante, parou diante de um castiçal, cerrara os punhos e por diversas tentativas tentara puxá-lo contra a parede, revelando assim uma passagem secreta. - Agora esse caminho é mais confortável Sr. Jornalista. Enfim entramos. Era uma aconchegante e luxuosa sala de estar, todavia, para a minha surpresa e arregalar de olhos. Sobressaia naquela arquitetura figuras bastante estrondosas, tal quais as do tempo renascentista. Como se fosse coincidência com as frases da maçaneta aquele quarto já tão esplendoroso continha como principal parte da mobília, pilares em formato de Cruz, e rosas pintadas na parede. Dois sofás confortáveis faziam harmonia com a pequena mesinha de centro. Sentamo-nos, e começamos felizmente a dialogar: - Você gosta de rosas? - Sim – respondi hesitante. Considerava ainda muito estranho a sala em que estou a frequentar. Afinal, tudo que eu vi essa noite
  • 12. foi fora do normal... Quem me garante que agora não será o mesmo? Complexada, embriagava o local com seu olhar penetrante: - Meu dono prometeu transformar essas pinturas da parede em rosas um dia... Atônito, não consegui articular a seguinte palavra. Podia jurar que eu mesmo me castigaria se não a desse a devida atenção. Posso ganhar bastante no serviço dependendo da informação, mas, acho que seria impossível alguém dar estima ao que eu falo. - Ele sempre me observa de longe – declarou a moça, um tanto contente – Disse que se eu fosse uma menina obediente concederá alguns pedidos meus. O êxtase era total, corromperia prosperamente contra meus objetivos desde que minha curiosidade fosse amenizada: - Qual seria seus desejos senhorita? – indaguei. E ela por menos incrível que pareça, mudou de assunto: - Quem sabe um dia ele ira me libertar... – como se despertasse sua consciência, arregalara os olhos com receio –Lucas acho que já é hora de ir. - Já? –perguntei angustiado. - Sim – complementou, demonstrando-se um pouco tremula - meu senhor volta tarde. - Sra. Alice, vós não disse que ele lhe observa sempre? – perguntei. - Não é meu Dono, Lucas, é meu Senhor, e, provavelmente meu Mestre chegara com ele – cada vez mais intrigante, levantou-se e sem cerimônia abriu uma porta do nada. Pude observar que todas as rosas pintadas são portas. O que minha mente justamente não pode negar a possibilidade, de, na realidade aquela biblioteca assustadora, fosse um imenso castelo oculto. No calor do momento, vozes seguiam adiante, e ela, petrificada de nervosismo, me clamou de novo o seguinte pedido: - Vá embora Lucas, por favor.
  • 13. Fiz sem receio o que desejavas, afinal, já estava começando a ficar pálida de tão aflita, tremula sua testa começava a se franzi, perdendo assim aquela imagem de alguém firme e decidida. Mas, congelado a esse momento de cativação, me deixei levar pela tentação. Quando sai do ressinto, ouvi gritos exasperados. Apertei minha orelha contra a porta, certificando de que pudesse ouvir sem nenhum problema, a conversação de quem residia ali: - Alice Valmont! – exclamou alegre. - Mestre, Senhor? É você? - pausou Alice entusiasmada. - Sim somos nós – respondeu um outro homem, de voz mais fina. Tentei olhar pela fechadura, e mesmo com grande dificuldade, posso afirmar que conseguiria fazer um retrato chamado: Um dos homens tinha voz fina, roupagem vermelha de couro e linho, era alto, do mesmo tamanho que o outro. Seus cabelos e olhos eram da mesma cor. Colares e capa era um de seus poucos chamativos. Jovem, palpito sobre o fato de ser um homem de 22 anos. Tinha armadura, mas, era todo coberto pela capa, que o cobria por completo. O outro por sua vez, tinha uma voz mais simpática, usava vestes negras. Seus cabelos e olhos eram da mesma cor. Se vestia da mesma forma que o outro, entretanto acredito que este possa ter 26 anos de idade. Sensibilizado não continham a emoção. Abraçaram-se uns aos outros fervorosamente. Uma tímida lagrima até rolou dos olhos de Alice: - Como foi o trabalho? – indagou leviana. - Você sabe - complementou o homem de Vestes Vermelhas – Só nos encarregamos da carruagem. - Quantas pessoas? – perguntou novamente, agora, empolgada. - 57 – respondeu o homem de vestes negras –; Alice, não temas o corvo. A gente sempre estará aqui contigo – carinhoso, em gesto paternal, continuou - Um dia esse pesadelo ira se acabar. - Quem disse que eu quero que esse pesadelo se acabe? – retrucou Alice.
  • 14. Bastante exasperados, fincaram seus olhos na menina, que condizia sem sombra de duvidas, estar completamente ciente de si. - Alice – pausou o homem de Vestes Negras, um pouco preocupado – Tens medo da liberdade? Ela silenciosa, diferente de a mim, a quem ela negava-se a responder certas perguntas, adiantou-se: - Sim – confirmou, com a sanidade abalada – Tenho medo de não estar mais presa ao pesadelo. Aquilo soava tão majestoso, quanto o canto da coruja. V Sobressalto - : - Quantas vezes chegamos lá? Estou aqui afogando, entorpecido por memórias. Psicodélico a parte, meus olhos ainda não estão cerrados. Será essa a Utopia? Onde ninguém pôde alcançar? Dizem que para encontrá-la, basta acreditar, pois ela veio de nossos sonhos. Nadando entre a harmoniosa correnteza, começo a vê-la, deve de ser um sonho, só pode ser... E era. - : -
  • 15. Estava um dia bastante animado. Mesmo assim, deixava-me abater por memórias, que eu agradeceria a quem conseguisse me fazer olvidar. As imagens daquela jovem senhorita, fincavam na minha mente como facas. Todavia, preciso ganhar meu pão. - Ainda não conseguiu a matéria com a Sra. Valmont? – indagou Helena, em tom eufórico. - Esta sendo difícil... - Dá um tempo pro garoto – interveio Roberto, astuto – Todos os jornais, concorrentes com nossa empresa, estão com a mesma dificuldade. Essa Alice nunca sai de casa. “Nunca sai de casa?” o escambal! Vejo aqui uma balburdia, pensei. - Mas eu a vi uma vez na biblioteca HG – argumentei estranhado. Era realmente um absurdo! - Aonde fica essa biblioteca? - Fica do lado da farmácia. - Isso é impossível! – exclamou Gustavo, intrometendo – lá fica a loja de antiguidades. Perplexos e atônitos tentamos pesquisar, sem sucesso. - Você esta mentindo pra gente? – perguntou Helena, aumentando a expressão de cólera na face. - Calma Helena – pausou Gustavo – Ele pode ter se confundido. É normal não é? - Normal pode até ser. Mas, perder tempo é perder dinheiro. O chefe esta quase querendo demiti-lo. Estava tão estupefato de euforia que quase surtou, foi difícil fazer a cabeça dele, mas, consegui pra você um novo trabalho. - Qual? – indaguei. - São dois, para falar a verdade – corrigiu ela, engenhosa – É o Sr. Augusto, no artigo sobre agricultura. Ele esta se tornando muito chamativo por dizer ter conseguido plantar o maior vasto de milharal. Já a outra, é sobre uma família com entes desaparecidos.
  • 16. - Parece difícil – reparei timidamente. - Não se preocupe. Dessa vez irei com você. - Comigo? Mas, você não trabalha como secretaria? - Ele me mudou de cargo por tentar ajudar-lhe – pausou ela, em tomrepreensivo – Por isso quero que tenha um pouco de consciência sobre isso. - É muito longe cada local? Ela adivinhando minha alienação, replicou: - Não se preocupa, vamos de Van. A viagem foi um tanto longa. A paisagem rural realmente nos era bastante atrativa, fitando-a por horas infinitivas, me recordara de meus tempos de inocência; Quando as brincadeiras ao ar livre eram um tanto mais prezadas do que hoje em dia. Que saudades daqueles tempos! Conhecera quase todos meus colegas de trabalho assim, quase todos, pois, Gustavo foi exceção; Esse eu cheguei a conhecer apenas após muitas delongas. Estava na praça trabalhando arduamente como sempre; Desesperado por vender jornais eu gritava incessantemente tal qual uma chamativa propaganda de cerveja; Esforçara-me tanto, mesmo assim, ninguém me cedia à atenção. Já desesperançado, fiquei pessimista, até que um moço veio até mim: Moreno de cabelos negros vestia-se encorajado por outros de paletó e casaca da cor uva; A cor era tão extravagante que chegava a ser brega, e aparentemente hilário de se presenciar. Com o suor escorrendo a fronte, era certo afirmar que aquele moço tivesse feito enumeradas caminhadas, porem, essa genuína criatura, durante sua tão santa pausa veio a minha direção; Pensei que ele fosse comprar de mim um jornal. Contente, quase cai de joelhos em posição de oração, mas, me decepcionara ao saber que era só um mal entendido: - Quer comprar um jornal? – perguntei. O contentamento deixava mais que apar meu enorme entusiasmo. Entretanto, ele sereno, objetou: - Não, só queria pedir informações. Vos sabes se por aqui mora uma moça de nome Erica?
  • 17. - Foi ela quem lhe falou pra vestir isso? – murmurei atrevido. - Sim. Realmente nunca esquecerei daqueles tempos... - Lucas – sussurrou-me uma voz ao ouvido. Com olhar fora de orbita, fitava-a de forma descontraída, estava tudo embaçado – Lucas! – repetiu, agora em alto e bom tom – Acorda Lucas! já chegamos! Não estava me sentindo bem, demorou uns instantes para que eu voltasse a si. - Helena? - Não, Papai Noel – retrucou eufórica, estava realmente esbravejando sua enorme carga de cinismo – Chegamos na fazenda de Augusto. Vamos levanta, não seja preguiçoso! Afinal, ela esta apenas a sete passos daqui. - Já estou indo... E erguendo-me seguindo de um grande bocejar, coloquei mãos a obra. Segurava meu equipamento com seus devidos cuidados, e em relação aos instrumentos utilizados por Helena, ela levou consigo somente o essencial; O que não quer dizer que estive a pronta para carregar mais carga que o devido, mas sim que os objetos eram um tanto mais delicados. - O que foi Lucas? – argumentou estrondosa – Você anda tão calado... Estava hesitante por articular a palavra. E ela compreensiva, deixou a par sua observação: - Deve de estar cansado... - Por que sugere isso? – indaguei com ar curioso. Após uma breve pausa esta respondeu: - Muitas vezes o vejo dormir no trabalho... Vem acontecendo algo? Meu coração redarguiu com seus batimentos descompassados, suando frio, a preocupação se colocou presente nesta impertinente situação. Como poderia contar sobre minha desventura? Afinal, desde o dia em que conheci Alice Valmont
  • 18. não consigo mais adormecer durante a noite; Tenho pesadelos. Estes pesadelos me matam aos poucos... O ultimo que tive: Estava de novo lá, espiando pela fechadura. Os homens de vestes Negras (Que agora tenho quase a certeza de ser o Barão Negro) e Vermelhas (E esse de ser o Conde Vermelho) agitados, prosseguiam hesitantes condensando palavras de forma tremula; Infelizmente, não conseguira ouvir nada a não ser ruídos finos e agudos que recordaram muito as ondas de frequências antigos rádios e televisões. Não conseguia ver direito! E quando vi o pavor, meus olhos jaztão envolvidos quiseram ser cerrados imediatamente. Era deveras bastante traumatizante. Andando de um lado pra cá, Alice estava enfurecida com a argumentação dos dois senhores; Sempre que ela parecia retrucar, estesa repreendia, e ela ardia em cólera. Ficou cabisbaixa, pude me enganar por seu sereno e Candido rosto, foi macabro. O quarto se desfigurou, as pinturas de rosas começaram a desbotar, e sua tinta começou a inundar o local que tremia interminavelmente, parecia querer desmoronar. Seria essa a hora do martírio? A arquitetura começara a envelhecer, perante toda aquela iluminação, tudo se compactou e evoluiu para o breu. Com sorriso maléfico, ergueu seu rosto aos moços trêmulos. Começara a desabar algumas vigas e madeiras, enquanto caminhava, não tirava do rosto a sensação de calma, tão segura de si que chegava a ser desprezível. Aquele rio de tinta continuava a inundar, mas, assombrosa impressão! Senti algo frio em meus pés. Pasmado, fitei meus sapatos, notei que estavam encharcados; Deus do céu! Aquilo não era tinta! Não era tinta! Maldita melancolia, sentia na pele as desgraças daquela sala! Não era tinta era sangue! Isso me dera calafrios tão grandes que quase gritei perante tal devastação.Ainda dentro daquele quadro de extrema melancolia, reparei na jovem translúcida, como se tivesse roubado o fel do diabo a garota tirou do nada uma faca, e correu em direção do homem de trajes vermelhos; Sem dó e nem piedade, cravou sua lamina sobre seu vulto! Conformado, o fiel servo agonizava, mordera os lábios
  • 19. para tentar não gritar, não condenar sua senhora a lei; Aquela Alice, indômita, fora de si, embriagava-se no desejo profano que possuía a palavra morte, tanto é que a pronunciara com gosto e toques de Luxuria – Morra! Morra! Morra! – Seus olhos cintilavam por extrema ironia, e o sangue jorrara para todos os lugares, até para seu lindo rosto, mas, não se via por satisfeita... Antes que eu pudesse presenciar o próximo passo, acordei; Ainda cheio de medo, não sabia dizer se era ou não um sonho! Foi... Foi tão real. Só de lembrar, chego a ter arrepios; A sensação que tive de vê-la cometendo tal ato, me tirara a bonança por completo. - Não pode contar-me? – perguntou Helena perturbada – Tudo bem, só não continua com essa cara de pamonha. Vamos, toque a campainha. - Não podia ser você a tocar a campainha? Estou segurando mais coisa que você! - Eu sou uma dama filho. - Mas eu não sou burro de carga! Ao tocar a campainha, duas senhoras de idadeapareceu. Raquítica, uma era tão magra que mais parecia uma vassoura; vitima de osteoporose de reumatismo, andava de lá para cá com as mãos apoiada as costas. Já a outra mancava e demonstrava ter em um dos olhos certa deficiência. Sem atraso, as gentis velhinhas hospitaleiras nos convidaram para entrar. Decoração um pouco pobre, era impossível de não se duvidar que seja láou não o lugar em que fomos mandados. Sentamo-nos no sofá. Elas esbanjavam simpatia, principalmente ao nos servir chá com bolinhos;Distantes um do outro, Helena se demonstrava deveras perturbada. Saudações e conversas inúteis ajudou-a a azedar a face jaz tão irônica. - Então senhoras – Dialoguei sem enfardar –Como se chamam? O que são do Sr.Augusto? Araquítica, pausando entre diversos intervalos, apresentou-se: - Eu sou Isadora. E essa é minha irmã Antonieta:
  • 20. - Muito prazer. - Somos filhas dele. Chacoalhando o chá, pensativo, reflexionara sem um pingo de entusiasmo sobre certas inquietações. Desprovido de qualquer artimanha, voltei por argumentar: - Mais alguém além das Senhoras mora aqui? - Sim – respondeu-me Antonieta desdenhosa – Maria Luiza, minha neta; Ela é um encanto de pessoa! Querem conhecê-la? Tenho a certeza, Sr. Lucas, que vai se sentir maravilhado! - Não, não a tempo para isso – Afirmou Helena contrariada. O suor descia-lhe a testa, entregando-a para a cadeira dos réus sobre minhas suspeitas de nervosismo, eram um tanto óbvios: Inquieta, movia freneticamente os dedos da mão, suas linhas de expressão desapareciam e espremiam em teu rosto diversas vezes deixando-me enojado. Abatido por temer qualquer desavença, retruquei: - Chame Maria Luiza, quero conhecê-la. Vacilante, Antonieta gritou o nome da menina mais alto do que coronel usando alto-falante: Maria! Maria! - Quanto mais demorava mais ficava furiosa.Até que ao fitar a escada definitivamente dei-me de cara com um pedaço de gente. Tão nova, a confundira com um anão de jardim. Acho que sei por que gostam de apertar bochechas de crianças; afinal, a pele delas é tão fina e delicada, os deixando mais fofos do que já são! Nego que essa vontade tenha me atingido, porem, por impulso, necessitei apertar seu nariz arrebitado, que mais lembrava uma batatinha. Embaraçada pelos repentinos e inesperados convidados; Maria Luiza estava um tanto travada. Antonieta com um empurrãozinho acalmou sua insegura pupila, nos apresentando cordialmente. - Maria Luiza, este é o Sr. Lucas e essa Sra. Helena. - Muito prazer – saudei empolgado. Fazia tempos que eu não via uma criança.
  • 21. A jovem, encabulada fez bico, minha presença realmente lhe dava mais incomodo que bonança. O que me deixara angustiado. - Fala quantos anos você tem pro moço. - Tenho 10 anos, quem são eles? - Somos jornalistas – respondeu Helena despretensiosa. A menina silenciosa voltou seus olhos para mim: - Venha brincar comigo mais tarde – Seu pedido atrevido me deu calafrios. Sem devaneio, e, sem olhar para trás, marchou para o quarto. Maria Luiza falava como se fosse algo serio ou importante, de extrema responsabilidade, o que de fato me intrigava. - Desculpem-me por minha sobrinha – justificou a Sra. Isadora envergonhada – Ela é muito solitária, a mãe morreu no seu parto. Esta de férias, e como a gente mora em uma fazenda, todos seus amigos moram longe... Então quase não tem com quem brincar... - Entendo... - Esta tudo bem – interveio Helena, acalmando-a – Mas, agora, nos fale sobre seu pai Augusto. Meticulosa, sua flexível mão tomara entre os dedos por vez, mais uma vez a xícara de chá. Depois de um gole, murmurou entre lembranças e recordações joviais. Seus olhos entreabertos, cintilavam tal qual gotas de orvalho. Audaciosa, minha interlocutoradefiniu cada detalhe sem destreza e com êxito. Mas, por sua índole, tivemos por ela tamanha apatia. - Papai era um homem pobre, mas, pouco astuto. Emprego todos seus bens nessa fazenda, que nada de bom trouxe-lhe na vida. Herói de guerra queria passar o resto de seus dias no campo. Ele estava se tornando deveras depressivo, afinal, seu oficio não era o suficiente para sustentá-lo. Na sarjeta, ou pior, no fundo do poço, se viu arruinado por dividas... Até que uma jovem, nossa mãe. Uma chinesa de finos olhos e cabelos castanho claro. Fora apresentado a ele no dia dos namorados por um velho colega de escola. Completamente enamorados,
  • 22. meu pai se esforçou ainda mais para fazer essa fazenda prosperar... Afinal, já tinha alguém por quem lutar. - Falando no seu pai – interrompi intrepidamente; Estava consciente de que toda essa conversa não agradava Helena em nada. Como remédio para seus problemas, fui direto ao assunto: – Aonde ele esta neste momento? Precisamos conversar com ele. - Você não sabe?! – exclamou-a surpresa – Ele morreu há 10 anos. - Foi algo tão horrível que apareceu nos jornais - complementou a irmã esbugalhada. O ambiente estava hostil, para não se dizer insuportável! Helena a encarava com desprezo; Era algo em que até o mais crédulo dos homens poderia negar a possibilidade de realidade. Estava exasperada por tamanha desavença, inquieta, a cética decidiudesafiar a bonança;Seu orgulho era tanto que a corrompera com seu ego, o que de fato, condizia com seu feitio: - Ta de brincadeira com a nossa cara não é?! – exclamou-lhe indignada – Não acredito em estória de fantasmas! Então quem nos chamou aqui? - Não sei – respondeu Isadora suspirante – Nos não nos comprometemos com o jornal há anos! O ultimo que nos duas aparecemos, foi o da morte de meu pai. - Vamos embora! – esbravejou Helena, sem um pingo de sensatez. - Mas... - Mas nada! – retrucou-me – Tempo é dinheiro. Não passara 5 minutos e já estávamos em frente da porta, dei- me de cara novamente com Maria Luiza, agora, com as vestes encardidas de lama mofo e suco de limão. Enquanto Helena antecipava-se ligando para a empresa, e se certificando de dados injustificáveis; Eu ouvira um agudo sussurrar: - O anjo da morte veio, tentando roubar seu livro da vida. Sem sucesso, conseguiu levar umas paginas. O que restou, esta mal explicado, e o que se foi, foi esquecido...
  • 23. Calafrio exuberante, ao todo petulante. Nada melhor que ficar acordado a sextas-feiras treze. VI Modéstia Petulante -:- Embalsamado por distinta sensação, de tê-la entre meus braços já por certo, algo inconcebído. Inebriante compromisso. Com teus cabelos em controvérsia, dançando sobre a brisa dos sismos. Era como um poema... Mas, não era a primeira vez. Tinha a certeza, de que nos veríamos mais uma vez, minha querida Madeleine. -:- Sem pausa entre as viagens, o retorno era algo dispensável, negável perante a mente de Helena. Eu bem queria entrar em sua cabeça... Durante todo o trajeto não tinha como necessário definir sua expressão. Era certo que aquela jovem mulher, inabalável e submissa as regras de conduta consigo mesmo, estava retraída, presa ao emaranhado de expectativas que tinha para com essa nova e antiga missão de
  • 24. estampar algo excitante em uma pagina qualquer do jornal, tal qual qualquer colunista. Afinal ficou a mercê diante do espanto, mas, não desistiu do que era preciso para pagar suas contas. Após 4 horas de volante, enfim chegamos. Era uma avenida pouco movimentada. Enquanto fitávamos os sítios distraídos, lá e cá se via algunsvultos entre o breu que era a parte interna das janelas. Comparada a uma cidade fantasma, a calma chegava a irritancia. Dentre todo aquele espanto, não contenho meu cinismo, constatamos por misericórdia que o povo daquela cidade não eram nada mais nada menos que tímidos. Distinta vontade de pular argumentos, enquanto marchávamos em passos largos, à rua em silencio continuava a atormentar-me. E Helena claramente descarada, segurou minha mão como se eu fosse uma criança assustada! Podem imaginar isso? Eu tremia não nego, mas, não pela aparência da cidade em si, mas, pelo fato de que Helena estava com uma faca dentro de seu casaco vermelho. “Por que não?” dissera ela “É bom para me proteger de pervertidos como você” Não levei isso para a ofensa, até por que ao afirmar isso insultara a si mesma. Tal figura se vestia como uma desesperada viciada em álcool e produtos dietéticos. O que para uns chegava a ser motivo de sedução para mim não era nem si quer comparado a um carro alegórico caindo aos pedaços, que por menos de dois minutos antes de explodir com a fiação consegue nos transmitir imensa atração... Já a porta nos esperando, o casal se mostrava abatido. Entre estorvos da desconfiança, estes cochichavam feito malucos. O Sr. Era um moço de longa cabeleira ruiva, em terno de tecido nobre e sapatos de couro fino. Alto e gordo, o mais impactante de seu feitio era o bigode, que por vez ou outra complexado, o enrolava com a ponta do dedo para passar o tempo. Bom exagero, mas, péssima mania... Enfim, quem era aquela moça? “Me perguntara” Eu não podia acreditar no que vira, só sei que as
  • 25. feições dela estavam em êxtase ao fitar-me nos olhos. Seria essa Madeleine? - Ola senhores – saudou Helena – Devo presumir que foram vocês que nos chamaram. Estou certa não estou? - Sim – confirmou o senhor com anciã entre desespero – Sou Renato Vandorte. E essa é minha querida Adélia Vandorte. Pelos sobrenomes já da pra saber que nós nos casamos faz pouco tempo. Olhando mais de perto, esta parecia envergonhada, sem articular palavras, se agarrou ao braço do marido, que carinhosamente, lhe beijou a fronte. Eu ainda estava atônito e um tanto surpreso. Posso jurar que aquela era Madeleine! Madeleine... Minha querida Madeleine... Enquanto o ato era de conversação, eu atrevidamente recordava como a conheci... Eu tenho a certeza que tu és Madeleine! Tenho certeza! Eu que fui o primeiro a conhecê-la, dos pés a cabeça, cada vontade maculada, era uma menina precoce... E eu a corrompi desde o primeiro beijo. Disfarçada de santa nesse vestido dos anos 50 eu bem sei que ainda és uma devassa corrupta. Ainda não sei como seu marido não a descobriu. Deve de ser por sorte, e por fim mudastes o nome. - Adélia – começou Helena a interpelar – Me fale mais de vocês, desse ente querido que morreu. Nos fale por favor, esse anuncio é muito importante para o jornal. E pelo que sei, também é importante para você, já que o assassino não foi encontrado. Naquele sistemático silencio causado por tal pedido, preocupado, Renato interveio de forma intrigante: - Me desculpe interromper, mas, me preocupo com minha Adélia, acho que esse assunto ainda lhe é muito sensível. Se for possível, desejo falar por ela. - Acho melhor – opinei desdenhosamente. Ainda achava aquela encenação bastante suspeita, afinal, eu a conhecia muito bem, não tinha como ela ‘Um ser que carenciava coração’ se importar com alguém. Por isso sem hesitar lhe fincava meu olhar malicioso – Acho melhor – repeti – A Sra. mesma falar, já que é
  • 26. um assunto delicado, presumo que, contar seu lado seja mais impactante e emocionante para quem ler. Seu lado da estória pode tirar a lagrima de alguns dos leitores. Por certo, creio eu, que isso é o melhor a fazer. Quanto mais desesperada for as palavras da pessoa mais vão chocar a população. - Adélia você não precisa fazer isso... - Não tem problema – declarou a moça ainda em êxtase – Eu conto... O céu estava ficando nublado. Os pingos de chuva vagamente começaram a escorrer por minha boina e minha blusa de algodão. Quando meus sapatos começaram a ficar presos a poças de lama, e Helena a reclamar do estrago com sua escovinha; Sr. Vandorte nos convidou para entrar em sua humilde residência; Enquanto sentávamos no sofá, e a empregada o era transmitida de seus devidos serviços, comecei por examinar Madeleine: Seu rosto pasmado, suas sobrancelhas franzidas, e as pálpebras demasiadamente eclipsadas; Dava-se para garantir que a nostalgia lhe trouxera um trauma. Porém, mesmo sem saber ao certo, não conseguia levar sua desgraça ao lado pessoal, cada lagrima que derramava não me alcançava; Ainda em silencio, se pôs a apenas ouvir o assunto que gerou brevemente entre Helena e seu marido; Não aparentava e nem ocultava ciúmes, eu também não o haveria de ter: Estavam conversando sobre culinária mexicana, e se: - Por acaso haveria por lá algum bolo apimentado? - Era o que Helena indagou, até então ver que a empregada chegara para oferecer aos visitantes um gigantesco bolo de fubá, e um doce de goiaba que mais parecia uma gelatina de groselha. Dentre a chata conversação, delicada e graciosa, Madeleine expunha no rosto pálido um definhante sorriso. Não aguentando o martírio daquelas horas monótonas, a repliquei: - Vamos logo ao que interessa; Sra. Vandorte... - Me chama de Adélia – interrompeu-me vagamente. - Tudo bem – concordei hesitante – Adélia, nos fale logo do ocorrido.
  • 27. Madeleine deu um grande suspiro; Mesmo ainda, um tanto sensibilizada, conteve sua dor; Guardara bem no fundo da alma aquele rio de angustia, e trancou á chave para que ninguém fosse levado, ou afogado por aquela lamentação. Mas, como toda pessoa que perdemos é única, insubstituível, não escondeu o lamento que era o seu pesar. - Estávamos ainda em uma quinta feira a noite, dia 5 de maio; Minha irmã ligou-me desesperada, falava entre sussurros tão baixos, praticamente um murmúrio... Parecia chorar, gritar! Quem, quem a levou de mim? ‘Estou em choque!’ Dizia. Mas, pensei que era atuação, ela Sempre foi de mentir... Deus! Eu me arrependo de não ter acreditado nela! Por que eu não confiei?! Por que eu não confiei... Ao final do ato de tormenta, o marido lhe ofereceu um lencinho. - Qual era o nome de sua irmã? – perguntei curioso, e um tanto enrubescido. Cândida, a jovem respondeu enquanto limpava as lagrimas: - Seu nome... Era Madeleine. Minha querida Madeleine... Fiquei mudo. Isso eu realmente nunca poderia imaginar. -:- Madeleine... Madeleine. Estou sendo hipócrita? Era em um domingo de maio; Te chamei de desprezível, mas, eu que não mereço alivio, da minha consciência enlouquecida, que abrange a de um eremita. Todos meus erros de agora, por mais que em uma hora, eu consigo esquecer... Mas quando eu lembrar, a sanidade irei perder... O vazo de ouro, que eu guardava a felicidade, facilmente se quebrou. Assim como o anel de vidro, a quem depositei nosso amor.
  • 28. -:- - Você sabe quem era ela? – indagou-me Helena. - Não, não sei – respondi após piscaros olhos um tanto comovido. As lagrimas queriam escorrer, não há nada pior que um segredo mal guardado... Esse me ira para o tumulo. Ao virar- me para Sra. Vandorte assustei-me ao ver que ela encarava-me com antipatia, petulância ou não, neste momento admito ter sido um descarado, mas Adélia é uma copia perfeita dela! Seriam elas irmãs gêmeas, e se são, por que por acaso nunca contou- me? Eu me lembro de cada parte de seu corpo... Naquela época, o que nos unira foi a carne. Eu me enganei por pensar que era amor... E ela intolerante, prolongava aquilo tentando me seduzir; Suas mãos eram tão pequenas e delicadas, tal qual a de um bebe, nem se via cutículas; Geralmente ela aparecia por trás fechando meus olhos. Me conduzira com seus beijos. Seus lábios eram diferentes, o de cima era mais enxuto que o outro, mas, mais tentador em minha imaginação atracada. Com aqueles lábios transmitia palavras em meu ouvido que eram tão ternuosas, nem prestava atenção no que falava, só na voz, que era muito atrevida e me Dara longos e prazerosos calafrios. Pele morena e bronzeada. Era rara as ocasiões em que eu a vira com regata. Eram sempre tecidos finos e leves na sua vestimenta; Geralmente vermelho e preto faziam parte de seu estilo; Apreço ou não, por vez ou outra eu tentava fazer sua cabeça escolher usar um vestido rosa que vi em um shopping. Sua pele era alva e macia, assim como suas mãos. Mesmo que eu tenha tentando me conter, não resistia; Aquele aconchego era um paraíso, aquele corpo era o que eu desejava a cada momento; Toda vez que eu a via, me perguntava quanto tempo iria demorar para tornarmos um só?. Nossa primeira vez foi em um domingo, e hilário o fato; Foi no primeiro encontro. Jamie, outro conhecido meu de faculdade como sempre fazia suas festas nos domingos, com o intuito de arrecadar dinheiro para o sucesso de sua banda.
  • 29. O moleque se aproveitava da condição que os pais necessitavam que era sempre viajar aos fins de semana a trabalho. Para minha vergonha, e desgosto de vocês, era uma festa vale-tudo; Todavia, esse fato só fiquei sabendo por lá. Foi traumatizante, para um adolescente certinho, nerd, míope, ficar naquilo. Graças á miopia pensei que algumas coisas eram cachorros brigando. Vergonhoso, estava em meu posto fitando aqueles que chegavam. Até que ela virou-se pra mim desprovida de qualquer assunto, e me convidou para conversar. Estava tão bela: Seu vestido de linho azul, com pequenos detalhes em renda era justo, mas contornava e beneficiava ainda mais sua graciosa silhueta; Dentre suas mãos tinha expostos um de seus poucos adornos: Anéis e pulseiras metálicas, não sei dizer se eram ou não valiosas, já que nunca vira uma joia na vida; Nas orelhas brincos de argola dourados, enquanto no nariz, radicalmente deixara visível um pircing. Suas palavras me deixavam encantado , tal qual uma droga não demoraria por me embebedar á aqueladoce sensação que era tê-la ao meu lado. Inexplicável, não tem como exprimir por gestos e nem palavras, era algo tão intenso que não tinha como não suspeitar que fosse amor. Foi com ela que tive minha primeira vez... Mas, como sabem, o destino é uma roda da fortuna: Completamente irrelevante. Não tinha eu como imaginar que aquelas mesmas mãos que me acalentavam seria as mesmas que iriam um dia me descartar. Quando soube por alguém que esta me trairá, tivemos uma séria discutição, que em poucos minutos se agravara. Ela pedia desculpas, e eu com meu orgulho ferido me negava a aceitar seu insolente desejo. Disse-a que houvera morrido pra mim. E agora, sem rancor e nem ódio, ao saber que pode ter morrido de verdade, estou como petrificado, relutante ao aceitar. - Realmente Lucas – indagou-me novamenteHelena apreensiva, que sem duvidas tivera reparado meu martírio – Você não a conhece mesmo? Te conheço, você não é tão sensível a ponto de se emocionar por qualquer um.
  • 30. - Eu não a conheço. Quantas vezes tenho de repetir?! – exclamara fingindo indignação, o que deixara estranhamente Sra. Adélia perturbada; Soluçante, a jovem desventurada ainda tinha os lábios trêmulos, mas, após dar minha palavra, esta pôs- se a fixar-me seu olhar profundo e deveras lamentável. Sem conter nenhum esforço, conseguiu murmurar uma vaga frase, que me fizeram no mesmo instante agonizar e estremecer: - É uma pena – pausou ressentida -; Pois, ela amava você. VII Incompreensível Fadiga -:- Marcado, insegurado pela insônia, nos pesadelos não encontro bonança, nem em espírito me sinto logrado. Dentre tamanha solidão, a encontro em meu lado. Mesmo que sejas assassina, meu verdugo, um calvário. Por que dói e eu me vicio? Tu és minha dor prazerosa, não a trocaria por nenhuma jóia. Esta por afogar minha’alma, nas minhas próprias lagrimas. Que já tão ocultas, não são capazes de me consolar... -:- Tanta coisa me aconteceu nesses dias.
  • 31. Silencioso, estava tão preso em mim mesmo que perplexo, me vira incapaz de conseguir articulava a palavra, estava sem animo pra tudo, meus olhos inquietos e semicerrados conseguiam refletir o mais profundo da minha aflição. Graças Deus hoje é sexta-feira; Os dias que passaram não foram nada agradáveis se levar em conta minha grande pressão emocional. Sou eu o culpado por Madeleine? Euque por tanto tempo a lastimei... Não era amor, afinal, a esqueci em uma semana, quando fiz aniversário e meus amigos me levaram em uma despedida de solteiro (Demos uma de penetras; Ninguém percebeu, até por que, estavam todos bêbados) Eu só queria ter como pedir-lhe perdão. Marchando sobre a rua, agora um tanto mais calmo, sinto certa serenidade. O barulho e a movimentação são tão grandes que às vezes me despertam desse estado de transe. Não sou mais aquele que julgava ser... Quando Adélia me disseàquelaspalavras fui-me tomado de enorme pesar. Helena também se demonstrava indignada, afinal, acreditava em mim, e eu, o bom amigo, á agradecia escondendocoisas tão importantes! Imperdoável, eu sei, mas, naquele momento não tinha orgulho de mim mesmo, não sabia aonde colocar minha cara, já que eu não era digno de fitar a jovem a quem entrevistara nosolhos. E mesmoassim, parece que não me importo.Sóaflige. Por que isso não me toca? Por que sempre a desgraça dosoutros não me afeta? Mesmo um familiar meu no fundo do poço não me transmitiria tamanho desespero. Somente você... Somente você, Alice, me traz desespero.Por que sinto tanto a vontade de vê-la? Quando a encontro em meus sonhos, quase que insuportáveis pesadelos, me tornamais difícil conviver com a vontade de reencontrá-la. Talvez ela nem se chame Alice... Ela não se apresentou, somente deduzi; Tal qual a inspiraçãodospoetas, teu nome apareceu do nada em minha mente como uma formosa melodia.
  • 32. Preciso chegar ao armazém, ser pobre é ruim, não da pra ir sempre a restaurantes. É uma lástima ser um humano! Dependendo do metabolismocertaspessoas (neste caso, a mim mesmo) têm maior tendência a engordar. - Lucas! – gritou uma voz estranha e emaranhada em muitasoutras, e seu som aumentava aospoucosminuciosamente. - O que foi? – interroguei. Virei-me para traz e lancei-lhe meu olhar. Era Gustavo e Roberto, que acompanhados atrêsmulheres sorridentes, demonstravam aproveitar o agito do fim de semana como se não tivesse amanhã;estavamliteralmente “caindo na farra”. Pelo decote das moças, posso jurar que elas não é de Jesus. - Gustavo, Roberto, o que estão fazendo aqui? – perguntei, fazendo-me de desentendido. - Nosestávamos indo para uma boate, até que demos de cara com você. E ai pensamos: que tal convidá-lo para ir com a gente? Por que não! Afirmávamos. - Não, não vou não –recusei retornando a caminhar. - Por que não? – voltouGustavo a indagar-me – Você fica muito prezo dentro de casa, assim pode acabar por pegar uma doença. - Por acaso tenho cara de quem tá lixando pra saúde? - Foi mal... - Não me leve a mal – atalhou Roberto querendo impor sua convicção; Estandoafastados, astrêsmoças ficaram acenando atrevidamente para nos, uma até aumentou o tamanho do decote; Resultado, é que tivemos que continuar o dialogo numa troca de sussurrosquaseincompreensíveis – Não nos leve a mal – repetiu Roberto – Não somospervertidos. Somos homens, como sabes, todos tem seusmomentos de seca, comigo e com Gustavo não é diferente. A carne é fraca, quem é alguém para nos julgar? Não somos osprimeiros a cair na garra da tentação. Se não quiser não tem problema, não hei deinsistir. Cair nasgarras da tentação... Interessante, que palavra bonita de se ouvir...
  • 33. - Roberto – prosseguiuGustavo, mais sensato – lembre-se do que Helena nos advertiu. Não tá na cara o pra você o porquê de ele estar tão irritado? Isso é o que se chama de depressão! Perdão Lucas! Como somos insensíveis! - Eu já sabia disso – interrompeu Roberto, começando a sentir- se perturbado – Justamenteporisso que eu o convidei, o de batimento dele é capaz de acordar osmortos com tanto lamurio. Lucas – prosseguiu, direcionando-se a mim – Queria tentar proporcionar-lhe alegria! - Obrigado, mas, não to afimdesse divertimento barato. Coçando a cabeça, já era previsível sua vaga frustração. - Como quiserdes – retrucou – Nosvemos no trabalho. Acenando uns para osoutros, nosdespedimos. *** Tive muitos sonhos com Alice, osdesta semana, só estou lembrado de dois: No quarto escuro, perambulo sem rumo, tento encontrar sem esperança uma réstia de luz; Tateava asparedes, era um escuro tão escuro tal qual um breu, acho que um cego por conter maisexperiêncianessa área conseguiria melhor se locomover com mais facilidade. Nem o chão eu conseguiadistinguir. Eu ouvia gritos, corria atrás dele: Era uma voz chorosa e manhosa, mas, agonizava, como se estivesse a estripada, dilacerando todos seusórgãos por uma sedenta e insensatadiversão. Desprezível, pessoasassim não são humanas; Osgritos começavam a ficarmaisaltos, e isso me fazia sofrer!Tava lá, tremendo mais do que o celular no meu bolso quando está tocando; Entretanto, eu poderia ajudá-la, quando se é uma mulher é mais frágil de corpo, mas, mais forte de espírito, podia sentir que ela mesmo que se debatendo, tentava de tudo para continuar existir.Explorara o lugar por muito tempo, e aquela voz ainda me transtornava;Perplexo eu parei, cai de
  • 34. joelhosaterrorizado, não sabia o que fazer! Até que vi uma luz. Graças a Deus, estou sendo amparado - pensei. Em momentoscríticos como esseapelamos para a ajuda divina, entretanto, como não era real, não fiquei desapontado por ele não ter concedido meu desejo, melhor, era um joguete do destino; pensei uma coisa, momento depois, percebi que era outra. Chegueiem uma galeria vazia, não tinha móveis nem gente, mas, dava pra ver a cor do chão; era quadriculado tal qual as de um tabuleiro de xadrez, no final a voz ficara mais forte a ponto de eriçar-me o cabelo ao dar um arrepio. Sem demoras infiltrei-me em uma das seguintes passagens não iluminadas, guiando-me apenas dos pressentimentos. Todas as passagens eram repletas de portas, e qualquer porta que eu entrava não era a que eu desejava: Eu entrava em uma, depois em outra, até eu me perder. Até que guiado novamente pelo pressentimento... Era uma porta branca como todas asoutras... Caminhei devagar, não sei o por que, algo tentava me impedir de segurar a maçaneta. Tomei coragem e prossegui o que queria. Não pode ser! Não, não pode ser! Eu, não sei como explicar, não sei como definir tão espantosasituação... Meusolhosarregalados ficaram inquietos, com a mão sob a boca, segurei a vontade de vomitar, enquanto meu coração descompassado falhava em sua função, estava para sair do peito, e eu a gritar de terror. Uma boneca de porcelana, eraesse o rosto de Alice, o rosto corrompido pelosgritos de terror, eu poderia tê-la salvado? Quem fez isso com você? Seu corpo nu estavaprostrado e completamente exposto sobre a mesa; Tão chocadoestive que não quis reparar, não quis reparar, estava tão ferida, dormia tão silenciosamente. Estripada, dava para ver todos osórgãosgástricas; O sangue escorria nos fios de seu cabelo sedoso.Eu não entendo; Quanto mais a fito, maisessa dor me dói o coração. E essa dor me parece boa, não por causa
  • 35. de sua morte, mas, por que eu nunca senti tamanho desespero por alguém, sua morte também me matou. Asgotas de sangue caiam no chão e seu proporcionado som agudo era exaltador, principalmente quando desciam de seuscabelos, era um som horrível, no seu respingar me fazia contorcer e gemer. Eu ainda contemplava-aestranhado. - O que aconteceu com você Alice? Com olhos fora de orbita, me ergui em pé e virei-me para examinar o local escuro. Estremeci. Uma insana gargalhada me enlouquecia, abalado me enganara- me apensar que ela estava morta. Gargalhando feito uma louca, na escuridão, quando lhe devolvia meu olhar, por, traz, fui atingido a um golpe de pé de cabra. Era um sonho confuso, contudo, por eu não querer acreditar que ela me fez isso. O outro não tinha ar menos simpático, alguém da empresa queria pular do prédio, prestativo e moralista, resolvi por muito ajudá- lo, tentavafazê-lo mudar de ideia, mas, de nada valeu. Ele pulou. E em seguida, o céu escureceu, enquanto bebia da água de um jarro, ela se transformará em sangue, espantado, deixei a jarra cair no chão, dei um grito e todos vieram a minha procura, estavapasmado, até por que, agora, não tinha controle de meu corpo, ele não respondia asminhasações.Enfiei a cabeça naquele liquido e comecei a afogar-me endiabrado, queria lutar contra aquilo, mas, como? Aquela sensação me era horrorosa, quando já me julgava morto. Reapareci num campo de árvores mortas. Perplexo, algo me chamava à atenção: uma estátua de Buda segurando em uma dasmãos o copo de vinho. Era, era o mesmo vinho que bebi? A ampla paisagem era a de uma floresta desmatada, estavanegra como carvão, e o céu estava limpo e involupio, tudo se contrastava com a tormenta. Aquele, aquele era o mesmo vinho? - Por vezes me perguntei. Pensei em tocá-lo, mas, antes que eu tivesse cometido esse feito, a terra começou a tremer rachar! Dava para se ver dentre asrachaduras o inferno queimando em lentidão. Aquele vinho tão querido era um
  • 36. pecado? Quanto maisdesejavamais de mim se afastava, meus lábiosestavam tão secos e rachados, minha boca pedia entre suplícios um pouco daquele liquido cobiçado. E erguendo minha mão, tentando segurar a taça. Mudei novamente de lugar... Parecia alucinação. Estava agora em um quarto branco decorado com pétalas de rosa. Encarava-me com desprezo, enquanto junto a mim, lutava por aquela taça; se tornara maispreciosa de um ato para outro, semelha-se a um cálice de ouro, um tesouro. - Éissomesmo que você quer? – perguntou-me Alice. Intrigante, desta vez a jovem usavaroupasainda mais pesadas de extravagantes, da mesma cor do quarto. - Éisso que você quer? - Sim – respondia, estando emêxtase com sua presença – Éisso que eu quero. Alice ria e ria em tom nada empolgante, com o cálice em mãos, num vagaroso cuidado, despejei-o na boca. Começou a fitar-me consternada. Seusolhos eram tão profundos. Antes que eu pudesse engolir até á ultima gota ela tirou o recipiente de minhasmãos, e colocando no na boca, não bebeu; E sem demoras, me beijou. Aquilo era um veneno... Beijar os lábios de quem fez pacto com a morte. *** Prezado momento, prezado tormento, nunca antessentira tão forte quanto atracadas em minhasmãos, semicerradas que lutava por vez ou outra contra sua vontade: a vontade deescapar. Já havia comprado os condimentos. Nada melhor pra um solteiro do que jantar macarrão instantâneo; com isso não estou querendo dizer que não sei necessariamente cozinhar, muito
  • 37. pelo contrario, sou quase um mestre na gastronômica. Entretanto, o que maisnecessito agora é tempo, meu inimigo se presumeapenas a um artifício: o relógio. Cada vez mais parece desprezar-me; No escárnio do pesar, cada vez mais me afogando em desânimo. Quero mais uma vez passar por aquela rua, sei que é perigoso, já são 23h40min, e não há mais nenhuma alma viva fazendo conjunto a paisagem; Completamente deserta, era se possível escutar o vazio, o uivo bendito e melancólico aonde se encontra a presença da solidão. Chegando a rua, esta também estavadeserta.O silencio que se entendiapelasavenidas parecia uma praga ao sobrepujar o incomodo conveniente.Ospoucoslampiões e lâmpadas a gás iluminavam de forma limitada, algumas contendo defeitospiscavam ate cessar. A palavra tentaçãoestava cada vez mais tomando conta do meu ser; Euprecisava vê-la. Mais do que nunca, precisara vê-la. Como comprovar que aquela biblioteca existe? Passomuitasvezes por essa rua.Desde que Roberto mostrou-me a loja de antiguidades comecei a desconfiar que a minha visita a biblioteca HG fosse tudo fruto de uma paranoia chamada “mim mesmo”. Qualquer coisa, estou aqui agora, quase no mesmo horário, tentando comprovar que não era uma alucinação. Que aquela Alice que vi, não era uma alucinação. Acima, tinha-se visível o letreiro, que tão sofisticado julgava ser a obra de artista. HG, tudo continha o clima assombroso tal qual o da primeira vez... A diferença é que agora não tenho mais medo. Entrava no devagar passo, pausava por contemplar novamente aquele recinto tão intrigante, tãoacalentador – achava – ele em que me sentiapresente em tantospesadelos, considerava uma segunda casa. A porta se trancara sozinha, mas, não me abalara. Segui lentamente em olhosinquietos, queria observar cada e simples detalhe: Oslápis de cor não estavammais sobre o balcão, e sim dúzias de livros empalheirados.Candelabro ainda inerte,
  • 38. entretanto, luz agradável; fixando a parede agora pude ver o que antes a escuridão não me permitia: castiçais, cada qual enfileirada aprateleiras.Tinha também um quadro horrível de um gato bebendo sopa. Adiante levei meu olhar para a porta, em que se localizava a maçaneta esculpidaRosa-Cruz. - O que faz aqui? – interpelou a voz, com certa indiferença. Dando um pulo pra traz num enorme espanto, vi que ela e estavaatrás de mim. As mãos envolvidas a um lenço fitavam- medespretensiosa e inquieta. Assim como sua aparência seu guarda roupa era a de uma boneca? - perguntava-me - Pergunta um tanto precisa, afinal é a segunda, talvez terceira vez que a vejo com um vestido tão pesado; Cheio de babados e bordados de rena, no cabelo uma presilha em formato de rosa. Num vulto considerado frágil, se viasufocada entre asvestes por aquele apertado espartilho, parecia cessar-lhe a respiração, e caminhava com dificuldade. Prezo pelasminhasobservações, o silencio a incomodava: - O que está fazendo aqui? – repetiu. Não haveria o pra que de mentir: - Vim vê-la – repliquei convincente–;Proibir-me-ia de fazer isso, cara senhora? Naquele orgulho impenetrável, argumentou na pirraça: - Muito pelo contrario.Obrigá-lo-ia a vir até aqui. - E como faria isso em? –perguntei curioso, aquele joguete estava cada vez maisinteressante. Fascinada ou não, aquele aglomerado de perguntasintelectuais, deverasastutas, lhe proporcionava um enorme banquete. - Vamos para um lugar melhor para conversar – propôs Alice num amargo sorriso - Sr.Jornalista, creio que estais me subestimando. - Ora, claro que nunca! – exclamei - Vós não és nada presumível. - Estáquerendo dizer que é quase impossível seguir meus passos? – interrogou num murmúrio; Fui tomado por enorme calafrio.
  • 39. - Simsenhora – confirmei o dito – Tu és a pessoamaismisteriosa que já conheci... Semresposta, ela retornou na face aquele desgostososorriso. - Não confie em mim – advertiu com maestria– Eu não confio em você. Nãoseja idiota a este ponto... - Não tente fazer minha cabeça – redargui embravecido – serei seu amigo, se por acaso você me queimar, não estará ferindo se não, aquele que nunca mereceu tua amizade. O que disse a ela, jamaispensei em dizer para ninguém; Talvez força do hábito, pretendia deixá-la corada, mas, ao invésdisso, ela se mostravadeprimida, definhava dentre a cólera; Tentava sem sombra de dúvidasesconderàquelassobrancelhasfranzidas, e eu em lastima, interpelava-me sobre o ocorrido, fui por acaso insensível ou atrevido? Refinada, não mais espremiagestos; Prostrada em pose singular, ergueu-se em bom trato. - Siga-me – ordenousorridente. A aparente mudança de humor nada atenuou minhaspreocupações, que eram demasiadasgrandes – Por certo sabes aonde iremos. Nosso tempo é curto. - Se é curto – afirmei – Vamosaproveitá-lo ao máximo. VIII Contra Ataque
  • 40. -:- Toma aparência fraca, mas, submete-se ao pesadelo. Seria ao certo a mim mesmo, o causador do seu pesadelo? Era mais do que eu pensava. Não era só um desejo. Alice que aqui cortejo, tornastes um ser perfeito, entretanto banhado em temperança. Por acaso encontra sua transtornada bonança? -:- Apreciado local, entretanto não posso dizer o mesmosobre sua situada localização; Afinal, ao exalar a fragrância do esgoto fétido qualquer um temeria a contração de uma doença. Mas, ao vê-la já me encontrava numa doença, uma doença chamada: Perdição. O refinamento e o simbolismo contido em cada canto são de deixar qualquer um de queixo caído. Me pusera a examinargesticulosamente aquela arquitetura: Do que são feitasas cruzes? Quem decorou e pintou aquele lugar? E àquelas rosas? Antes por intimidado não me permitia tal ato, o de ficar zanzando por ai, entretanto, agora um pouco mais a vontade, faço isso tal qual um menino arteiro. Em seguida, a jovem não tendo forças pra sustentar o corpo, acomodou-se num banquinho prateado, detalhado a clamor bem vivo. - A prata veio de um velho armazenamento dosmeuspais em Zuríck – pausoupara beber um pouco de chá. - Realmente, é um lugar muito bonito – falei em olhoscintilantes – Nunca tivera visto tão bonito lugar como esse. - Estais vendo isso com o coração ou em pensamento? Pergunta notável, demorei a reflexionar. - De coração – respondi coerente.
  • 41. - Eu por minha vez – declarou ofegante – Acho este lugar horrível! - Não podes mudar de casa? - Não – respondeu-me em ar triste, tem vezes que seu orgulho parecia sumir. Quando me convenço disso, deterioro. Momentosexprimindo amabilidade e outra se mostrando tão rude... Algo a perturba. - Por obséquio – interrompiintrépido.Expunha meu senso de humor com limitadasrisadas. - Pois não? - Te conheço há tão pouco tempo, mas, estranhamente sinto-a como se conhecesse a eras – dizia em comportada seriedade –; Contudo, sei seu nome, você sabe o meu, mas, desde o começo não nosapresentamos. Efetuava-se, por assim dizer, a gênese. Da ultima vez que a vi, eu era tão inseguro e o medo me paralisava, agora, numa metamorfose, trocamos de lugar: Ela estava insegura; Com a cabeça inclinada para a esquerda, deitada sobre o ombro, olhava a sua esquerda e para mim um tanto frenética. Os lábios se mostravamsemiabertos, mas, ao ato espremia relutância. Algo a segurava, algo a impedia, não a deixava falar, o que é? Em inaptidão fiz jus ao meu discernimento: - Meu nome é Lucas– declarei com prontidão –Lucas Fernandes. E a senhora? – aqui observei: Erguendo-se da cadeira, cambaleando um pouco, entorpecida de lamurio, alisava ospilares de cruz. Sensata perguntou-me: - Posso mesmo confiar em você? -Claro – respondia – Eu nada lhe faria de mal. - Sou Alice – declarou com relutância – Alice Valmont. Curioso, hesitava, mas, tomei por perguntar: - Por que temerás tanto dizer o nome? Virando-se para mim, absorvida por certo ludibrieesclareceu: - Há coisas que os humanos não deveriam saber. E a vós não és diferente.
  • 42. Ao silencio repentino caminhava lentamente. Face faiscante, a luz da lua refletia no teto de vidro, e a atingia, Alice, seu brilho se sobressaia na sua pele alva e macia. Quieta e severa. Aquele seu vestindo rosa fosco cintilava e o pequeno casaquinho decorado com apetrechos – diamantes e pérolas preciosas – tilintavam ao som emitido por seus passosdelicados. Totalmente bélico. Gerava uma imagem que vislumbrava embevecido. Enlevada caricatura de um anjo caído. Demasiadoafligidoestava para com tua indiferença. Estavas tão fora de orbita que ao despertar-lhe não notou minha preocupação. - Alice algo a incomoda? – perguntei. E num murmúrio, em voz quase inarticulada, entrecortada, respondeu-me: - Sim... Você. Congelara. Não nego que ao ocorrido, cada palavra, cada silaba, cada letra me infundia desalento, um estrondoso tormento, o de o coração não aguentar. Aquela dor era mais forte do que eu podia imaginar.Meus batimentos redarguiam descompassados;Estava arquejante. Commais dor que ternura queria desfazer seu frio coração. Eu não me entendo! Não entendo! Por que me sinto capaz de beijar o chão em que ela anda? Por que me vejo capaz tamanha humilhação? - Por quê?– repliquei de formaarrebatadora – Por que a incomodo? Vim aqui para vê-la, eu muito me importo com você Alice... Gargalhava cabisbaixa; Cínica não fazia o favor de dizer-me. Fria, por que és tão fria? Por acaso não tens um coração? - Então... Quer que eu vá embora? – opinei em olhosmarejados de lágrimas. Desdenhosasoluçava ao responder: - Não. - Então – repeti tristemente – Por que a incomodo? Vi rolar de teu rosto uma lágrima vermelha. E aospoucos, fê-la banhar em sangue.
  • 43. *** - Por quê? – indagou-me num dócil, porém ressentidotom – por quê? – aqui levantava a cabeça triunfante, balbuciava limpando o rosto. Claramente pálida, a tensão daquele momento gerava algo dentro de mim, uma espécie de sensação incauta. Suaslágrimasvermelhas igual sangue não me afligiam, mas confesso, ao instante me abalei. Alice novamente me circundava, demonstrava-se magoada por algo que sem saber fiz. Minha querida dama, mais uma vez parece ameaçar-me com a oculta morte. - O que foi? – perguntei – O que eu a fiz? Fixava em mim presa á seuspensamentosinsanos. - Me fale, por favor, Alice – clamei-lhe desesperado – Por favor, não me torture mais com seu silencio. - Como assim tortura? Você não conhece a verdadeira tortura Lucas! Você não a conhece, eu vivi sempre nela. Eu vivi sempre nela... - Por que a incomodo? Lacrimosa, a cândida suplica fê-la cair de joelhos no chão. Cabisbaixa, deixava-seainda banhar pelo sangue. Aquela paisagem me intrigava. - Sei que você não veio ver-me. Sei que não veio, foi justamente por causa de uma matéria! E eu por mais que seja capaz de supliciar alguém, por mais que eu seja capaz de matar... De matar? - Por mais que eu seja capaz de matar – retornou a dizer voltando-se a mim – Não consigo fazer o mesmo com você. Você me lembra alguém em especial... Pasmo com a revelação de seu incomodo, cai de joelhos ao seu lado, atrevi-me a abraçá-la. - Não fique assim Alice – dizia apoiando teuqueixo com meu dedo – Eu não vim pela matéria, vim para vê-la. - Eu não acredito – replicou.
  • 44. - Eu não me importo se não acredita. Mas, quero que saibas: Não seria capaz de fazer qualquer coisa que a magoasse. Desaguando de emoção. Aquela frase era uma benção ao seu coração aflito. Minha pequena você aqui aos meusbraços... Faz com que eu me sinta mais forte e capaz de proteger alguém que não seja a mim mesmo. Ao meu ombro, pode chorar o quanto quiser. - Passou, passou – dizia tentando acalmá-la. - Você acredita não é? – perguntou-me melancólica – Acredita que eu passei por muita coisa não é? - Sim – respondiafetuoso. - Você vê sangue sair de meusolhos? - Sim – respondi de certa forma, perplexo com a indagação. - Tenho medo de um dia odiar-me – confessou. - Nunca! – objetei emmaestria – seria como teu servo, aonde quer que forestaria ao teu lado. Desde o dia que eu lhe conheci Alice, não tenho mais sossego, nosmeus sonhos só vejo teu rosto, e ao fitar o céu, vejo desenhado teu nome. Por favor, nunca me prive de vê-la. Deixe-me ser como seu irmão. Cândida expôs um sorriso. - Sim – respondeu – Quero-o como um irmão. IX Brando Entorpecido Pensei que demoraria o próximo encontro. Afinal, perante o pacto estamosligados. Não á como fugir deste poder oculto. Estou prezo a ela como a um imã, não importa ondeestiveriríamos nos encontrar, mesmo que em outro lugar.
  • 45. Aquele dia á tive em minhasmãos tão debilitada, não queria admitir mais, queria prolongar aquilo. Tê-la aconchegada em meusbraços, mesmo que imunda pelo sangue me transmitia paz, paz que aquele momento silencia, e abre a beldade, o canto bélico de nossasalmas, um final danoso e poético. Agora estou aqui, tremulo e ofegante na minha camaquente Até que enfim, com osolhos abertos... Foi mais um pesadelo, ciente disso suspirei num alivio. Lá – no pesadelo –Asimagens desbotavam, e aospoucos fui me apresentando como protagonista de outro lugar. Estava chorando, minha voz era de um tom diferente da atual, era fina como a de uma mulher. Eu me contorcia e gemia. Estavanumquarto de hotel, e tentava escapar. Extasiei, eu era uma mulher, ao tocar meu vulto percebi a diferença, o que me deixou muito sem jeito, constrangido. Estava transando contra minha vontade. Aquele homem puxada meu cabelo sempre que eu tentava correr em direção da porta, e bruto, empurrava-me com toda a força na cama de lençóis turco. De costas gritava aosberros, enquanto segurando meusbraços fortemente, com o membro ereto pulsava por penetrar-me. O serviço devia ser bem feito;Repetiu-se o ocorrido maisduasvezes, e ele enfim parou. Penseiser uma prostituta, mas, ao fitar meuscabelosnegros os reconheci como o de Alice, os da minha Alice... Estava de costas para mim enquanto se vestia; Em olhosorvalhados, alisava minha pele; sangrava minhas partes intimas;Essa seria minha primeira vez? Ou quem sabe a primeira vez dela? Remexendo-me de lá para cá, mesmo que eu quisesse, agora não conseguiria dormir. Tal sonho foi demasiadoasqueroso, sentia na pele cada gesto malévolo. O homem não tinha pena, nem se compadecia de minha tormenta. Fiz de tudo para não fita-lo nosolhos. Pior de que todos os sonhos, estenão foi assombroso, mas me acarretara num trauma. Quando olhava meu quarto vazio procurava o sujeito, temia que ele fosse real. Alto de
  • 46. ombroslargos, naquele momento não tinha como eu me proteger. Mesmo aparentando alguém velho tinha cabeloscolorido ao invés de grisalhos como o de meu pai. Essesonho poderia significar algo? Poderia significar? Foi horroroso, foi, foi, foi desumano! Tem que significar algo por tamanha podridão! Mas, se por acaso ter sido real – o que mais calmo agora duvido - não conseguiria fazer um retrato falado, por que cerrava os olhos, fazia questão de apertar forte as pálpebras sempre que deparava-me com seu rosto. Dentre tamanha exasperação, esperando que meu coração obstinado desacelere, tinha algo que me acalmava: Recordar do ontem à noite. Aindalembro-me daquela noite, em que eu procurava seu aroma pelo ar: estávamos ainda naquela posição, quando ouviu-se o bater da porta “toc, toc, toc”; Acarretara-lhe uma mistura de pavor e transtorno. - Lucas, acho melhor ir – dizia – Meu mestre e meu senhor chegaram. - Promete mesmo que a verei em breve? - Se você não vier, darei um jeito de ir até a você – e em seguida abrindo aquela mesma porta -;tchau. - Tchau – repeti já lá fora. Beijar-lhe-ia sua bochecha, entretanto, percebendo meu ato virou-se batendo a porta em minha cara, num barulho estrondoso. Não fiquei lá por mais tempo, mas, presumia que esse barulho foi demasiado suspeito aos carosfraternos. Estonteante, sua imagem me deixaentorpecido. O sono não vem; E aqui nesse quadro brando teu suspiro; E lamento não contemplá-lo. Alice queria esquecê-la, pois já não consigo me concentrar em algo que não seja seu nome. Se não a tivesse conhecido não sofreria o pesar desses pesadelos. Será que tudo não passa de alucinação? Como é possível? Uma cidade tão grande e ninguém perceber aquela biblioteca aberta no meio da noite?
  • 47. Seja o que for, tanto faz. É sinal de que já acostumei-mea ilusão. *** Aspoucashoras sem tua presença foram degustadas com certa amargura, não tinha animo, ao segurar em um lápis, ao usar minha maquina de escrever, não tinha cabeça. Meu chefe de mal humor veio dialogar com gestospejorativos, e meusamigos sedentospela noticia, conversavam numa correria de lá para cá. Eu estampavacinismo diante de tanta empolgação. - Ei, Ei – dizia, repetira mais uma vez até perceber sua presença. - Gustavo? - Não a vovozinha – retrucou contente –Não vai pegar nenhuma matéria? Há muitasmissões no ramo da jornalia. - Não sei não – declarei em mal grado – Penso até em demitir- me. Não consigomais me relacionar a aqueles a minha volta.Me sinto mal... Venho tendo sonhos estranhos... - Você já conversou com sua mãe? Proponho que viajeclamando estar com altos índices de estresse e issoesteja afetando a sua aptidão no trabalho. - Maltenho dinheiro para sustentar-me, imagine para viajar! - Veja pelo lado bom – replicou otimista – Existe gente pior... - O que está querendo dizer com isto? - Veja por exemplo Olga da área administrativa: Ganha bem menos e está para ter um bebe. Surpreso pela noticia indaguei: - Já falou quem é o pai? - Não – respondeu-me – Mas, aquela moça; Acho que nem ela mesma sabe quem é o pai. Com tantos que essa pirigeti ficou... Agora vai ter que arredar o facho. A noticia me surpreendeu em tamanha intensidade que gritei por dentro. Tal moça também passará por minhasmãos. Sou
  • 48. novo demais pra ter um filho. Enquanto a fitávamosprosseguimos. - Desconfia de algum sujeito? - De Roberto – respondeu–Ele pegou essa mulher semana passada, fim de semana. Numa boate de estripes. A vontade de rir foi tão grande que timidamente gesticulei, e influenciado pelo meu humor, também caíra na gargalhada. - Qualé a graça Lucas? - Vocêsdois não perdem uma – declarei. - Também não haveria de ser diferente! – exclamou empolgado – Tu és uma pessoa muito discreta – observou ele – percebi isso faz algum tempo, acreditava que faltava pouco para você se converter a padre. - Que isso! – afirmei em gostosarisada – Tive e terei meus dias de virilidade. - Com quantasmeninas já ficou? – indagou-me num ar curioso. - Quatro. Roberto estava bebendo um coquetel e ao escutar, engasgou; quase teve uma overdose de tanto cuspir, julgava que ele iria vomitar. - Quatro? - Simissomesmo – confirmei. - Isso eu consigo em menos de uma semana – pausara orgulhoso, e convicto de si -Você tem que sair comigo e Roberto maisvezes. Eu concordo com ele; Você tem que divertir meu amigo, acho que isso é o causador do seu estresse, falta de mulher, falta de brincar com asamiguinhas... - Talvez quem sabe –respondi meio enojado – Quando tiver me afogando no tédio... - Que tal hoje? – propôs. - Acho que tanto Roberto quanto Helena tomaram raiva da minha cara - esclareci. - Que não seja por isso! – exclamou em atitude – Nós quatro somos presos um ao outro que nem casamentodepois do
  • 49. divorcio. Está prezo pelosfilhos, e nestecaso, é a lembrança dostemposbons e prazerosos na companhia um do outro. Concordava fielmente, mas estranhava sua comparação. E ele num largo sorriso continuou: - Ou isso ou viaja pra a casados seuspais. Querendo irritá-lo declarei: - Então acho que vou pra a casadosmeuspais. - Se eu o tivesse conhecido você hoje, eu ficaria longe temendo que você fosse gay. - É quem sabe – retomando o ímpeto de irritá-lo – Eu vou e me visto de Bela do Crepúsculo e corro atrás de você fingindo que é o Edward – complementei numa sacada de mestre: Um sotaque de taquara rachada fingindo-se um mexicano meio asiático. Tendo crises dentre asgargalhadas, tentamosnos conter. - Melhor a gente voltar ao trabalho. - Concordo. - Se não – dizia Gustavo coçando a orelha – Helena vai pensar que noista no bem bão. E nois num ta não diacho! X Mais uma Missão Meu trabalho é uma missão que me dou o luxo, ásvezes, aproveito para dar uma de turista. Desta vez iremos fazer uma espécie de documentário sobre a poluição daspraias. Minhasolheiras doem tanto... Desde aquele pesadelo, do meu ultimo pesadelo, era de se esperar por noites de insônia. Não estouusandoos óculos escurosapenas pela radiação do sol, mas, sim pela sensibilidadecausadoradisso em meusolhos.
  • 50. Nunca si quer falei muito desta cidade, até por que, ela não durara muito... A cada passo o mundo cai medianamente no caos. Ao fundo do poço, haverá sempre um gritando por socorro, e no meio disso, será incorrigível o delito, ninguém ouvira suas clemências, deixar-lhe-á levado pelas chamas cálidas que é a magoa. Souapenas uma recordação distante da temperança. A mudança causada pela justiça divina. A de lograr a divina tragédia. - Enfim chegamos – anunciou Roberto entusiasmado. Diferente de mim estava completamente caracterizado para a ocasião – Amo meu trabalho. - Eu também – declarei – mas acredito que nossasrazões são diferentes. - A se é... – contorceu-se confirmando minha observação: A praia estava cheia de mulheres, homens e crianças. Principalmente mulheres, devia de ser o que Roberto se concentrava. Avista do mar encontrava-se em indefinível contraste com o sol, asfolhasdas palmeiras oscilavam com a breve brisa. Que bom era o cheiro do churrasco assado sem nenhum cuidado, ou sem si quer um cuidado com osdetalheshigiênico. Mesmo ainda a beira, a sujeira me era visível; De que adianta bronca! Sempre achei que qualquer tipo de poluição devia primeiro ser aceita pelosgovernos, de que adianta coleta seletiva se nem todos tem acesso a isso? Tudo depende do governo e suasmajestadesimperiosas. Continuava-se a contorcer-se e eu incomodado perguntei-lhe: - Estais bem? - Estou sim – Roberto respondeu brandamente – É que estou de olho naquela jovem de maiô vermelho, estais vendo? Luto para concentrar-me no trabalho. - Compreendo sua situação. Sequiserisso – sugeri respeitoso – Posso fazer boa parte do trabalho sozinho. - Tem certeza Lucas? – Roberto podia muito bem ser um cafajestes, mas, não era um canalha. Oras qual a diferença dasduaspalavras? Tudo depende de sua interpretação caro leitor,
  • 51. não seria, por acaso, apenas uma forma de expressão – Eu não quero abusar da sorte. - Pode ir – confirmei sorridente – Pode correr até a moça, azará- la. Espero não está fazendo algo terrível, aliciando uma moça desse jeito... - Ela vai me perdoar – foi só dizer isso, que correu em sua direção tal qual um vira-lata sendo induzido pelo olfato a experimentar um hot-dog. Espero que ele também me perdoe. Por acaso poderia não conseguir me concentrar... Assim como ele, tenho uma distração. Mas,está é muito maisnotável, quaseincompreensível pela natureza humana em sua tendência enigmática. Reparam-me os banhistas perplexados: Aqui sentado na areia abrasadora, até com tênis nos pésestou. O ar também é quente, segurando meu caderno e meu lápis, costumei-me a anotar qualquer simples detalhe. No caminho da perfeição, é meu dever abordar certas persoinhas no intuito de suas sabiasopiniões compreender, e assimmostrarváriasfacetas, váriasopiniões, enriquecendo meu trabalho tal qual obra artística. Por isso, leio, para aumentar meu vocabulário. Roçando os cabelos que ondulavam ao vento; Ria com a jovem de forma bastanteentusiasmado. Louro de olhosazuis, não há mais o que falar sobre seu grande sucesso com asmulheres;Neste perfil estereotipado de galã de novela seria o homem perfeito para casar e constituir família – deve ter sido o que Olga pensou ao engravidar. Será que por acaso ele sabe? – Seu corpo atlético e avantajado não foi gerado por academias, Roberto mal levantava um dedo, em sala de aula tinha preguiça até de segurar o lápis; Foi graçasà genética que foi capaz de dar esse rapaz aparência genuína:Ombros largos, postura ereta, queixo fino e costeletasaparentes. Diferente de Gustavo que virou esse malandro após uma decepção amorosa, Roberto sempre foi assim. - Lucas, já conseguiu terminar a matéria? – perguntou-me preocupado.
  • 52. - Ainda não – respondi – Falta ainda umasduasentrevistas. - Não se esqueça que ainda temos de ir a maisduaspraias – equivocou em grande lamento. A moça estava em sua companhia, aparentemente se incomodada pela atenção renegada a ela nosnossos poucosminutos de conversa. - Não, não me esqueço – respondia – Vamos dar nossomáximo para isso. Ao sorrir, deixouexpostoos dentesbrancos. - Desculpe, preciso apresentá-los: VanessaLucas, LucasVanessa. Era uma moça de corpo esbelto, mas, não fui com a cara dela. Fazia aquele bico e cara feia de quem olhava-nos de cima para baixo fazendo assim pouco casodaqueles que nos rodeia. Cabeloscacheados num tom claro de castanho era uma negra realmente muito bonita. No seu pequeno maiô, assim como de tantasoutras de onde vivo, num azul pincelado, trasbordavanas suasfeiçõesgestosfemininos, entretanto atrevidos com seu jeito vulgar. - Muito prazer – disse cortês, apresentando-lhe a mão como saudação. Cumprimentou-me, após em seguida, nada discreta fazer uma pergunta comprometedora: - Roberto anda com pessoas desse tipo? - Como assimdesse tipo? – indagou-lhe indignado. - Oras! Seu amigo estas completamente de terno! Nem os sapatos tirou... - É mania – redargui semisóbrio – Minha preguiça é maior que minha temperatura térmica. - Temperatura térmica? Ele é o que? Um nerd? - Ele pode ser qualquer coisa – retrucou Roberto agora um tanto furioso – Mas se pensas que vai me fazer ir contra ele estais muito enganadaVanessa. Se tem algum problema com isso pode ir, a fila ainda é demasiado grande. E que fila! A fila de espera pra aquele garanhão era grande demais, nestadisputa, Vanessa não iria apenas lutar com
  • 53. piranhas, iria lutar também com galinhas, vacas, e emcertas ocasiões santinhas ingênuas que ainda ganham bonecas de natal. Tendo em conta isso, a moça não deixaria de lado tal partido, assim como outras peruasdesejava se mostrar pela praça asamigas indecentes, exibindo-o como se ele fosse uma nova marca de automóvel. Repugnante. Calou-se, mal ela sabia que estava cometendo o maior erro da vida dela: Aquele em que acabaria por ganhar dois pares bem grandes de chifres. - Não precisa ser assim Roberto – complementei – Não é só ela quem está notando minha estranheza. - Eu te conheço á 10 anos – adiantou-se em pausa radiante –; Se a moça com quem eu desejar casar-me um dia não aceitar sua estranheza como eu estranho a chuto pro toco. A expressão por ele utilizada fez-me cair no riso, e provocada Vanessa saiu correndo pela praia. - Aonde ela vai? – perguntei tentando me conter. - Sei lá – respondeu Roberto sendo contagiado pelo bom humor. - Desejarámesmo se casar? Tendo ouvido a pergunta virou-se para nós no intuito de escutar. Outro grande erro da vida dela que não vai olvidar. A travessura implícita que fizeram com ela. Cena surpreendente: A de derrapar na areia ao escorregar numa casca de banana. Ria com pena, enquanto frustrada saia em sua cara de deboche. XI Esforço Exaustivo Naquele esforçoexaustivo, ainda continha muitashorasvagas; passavahoras e horas fazendo meu robie favorito: ler Mangá. Leio de tudo, desde uma revistaa um livro, de um gibi a um
  • 54. Manhwa, sempre acompanhado de um gigantesco pote de doces. Aqui ainda no dossiêdaspraias, me contento com quatropotes de sorvete, todos de chocolate. Amar chocolate tem suasvantagens e desvantagens, entre asquais, desconheço, a única coisa que me importa saber é: se é feito pela Cacau Show. Chocolate foi à melhor invenção feita pelos humanosdepois da cadeira elétrica. Sefosse eu quem a tivesse inventado colocaria um ovo pra ver se queimava, ou melhor, fritava. Já estaquase tudo pronto, falta ainda umasduaspraias – contando com está, pois só falta nós dois começar. Roberto saiu, deduzo que seja pra além do fato de querer pegar todas, tentara as pazes com Vanessa. To aqui tomando meu MilkShaike, no bem bão, nada mais pode tirar minha tranquilidade. - Senhorestranho? Estava de olho num jornal quando essa voz fininha me apareceu, pensei que era coisa da minha mente, por isso continuei a ler sem necessitar depausa. - Senhorestranho? Ao se repetir, abaixei um pouco o jornal; Percebendo que não era somente minha enorme imaginação cai no susto! E pior, cai da cadeira. Desengonçado e ainda confuso, aquelespequenos vultos fitavam-me preocupados. - Sim? – perguntei. - Senhor – começou um menino aparentemente aflito – Eu sou Nando e essa é minha irmã Jozi. Você é jornalista não é? - Sim – confirmara o dilema – Por quê? - Nosso pai sumiu – continuou a menina visivelmente abalada – Por favor, nos ajude a encontrá-lo! - No mínimo coloque um anuncio em seu jornal – complementou o menino. Ficara intrigado com o que me pediam, até por que, mesmo que eu quisesse não dependia de mim a permissão. Mas, aquelesolhosclementes me doíam o coração. Eram crianças tão novas, que a resposta mal me cabia a mente.
  • 55. - Não depende de mim tal permissão. A mãe de vocês sabem que vocês estão aqui? Hesitante respondeu-me ressentido: - Não temos mãe senhor, ela morreu faz muito tempo. - É por isso que estamosà procura de nosso pai. Ele é que esta como nossa custodia, e sumiu faz um bom tempo. Engoli ar ao invés de sorvete. Parecia que não queria descer da minha garganta, ficava entalado e me incomodava, meu psicológico também ficara afligido. - Por favor, senhor – a menina suplicou dentreolhoscintilantes. Dentro deles dava para se ver o reflexo da importância, algo que muito menosprezo, mas, diante de delicada criatura, como é asdóceiscrianças me dói algo no peito. Aquela jovenzinha tinha a pele rosada, no cabelo o penteado de duas trançasamarradas em fitas de náilon; E tinha no rosto um sorriso bonito, mas, momentaneamente ocultado pela tristeza. O menino, em seus doze anos, aparentava ser o mais velho:usava um chapéu de palha e macacão azul. Assim como ela naquele olhar nostálgico e castanho, como se quisessem me marcar num laço secreto. Dentre vago silencio atalhei: - Vou ver o que posso fazer, só não garanto nada. Soujornalista, vou ver se aceitam que eu coloque algo sobre isso nosjornais. Mal sabia eu, mas, em meu país aumentara o número de perdidos de maneira e forma surpreendentes, sobrepujava-se assim minha inquietação. Insistência ou não, para mim era algo a ser pesquisado, seria meu caso seguido desse, contudo, boa parte doslugares em que eu estava, seguia-se de dados comprometedores. Não posso comprovar todas as situações, mas, me comprometi devidamente para com Jozi e Nando. Demonstraram-se visivelmente alegres para com minha resposta, algo que não pude evitar.
  • 56. *** - Fiquem aqui – pediaaospequenos – só vou informar isso a um amigo meu. - Ta bene – concordaram em coro. Passando pela movimentada rodovia, e marchando em passoslargos adoisquarteirões, pisei nesta areia branca mais uma vez. Com o braço acima dosolhosconseguiavistar meu amigo. De conversa com um grupo de cinco garotas: uma morena, uma branca, uma mulata, uma negra, e outra parda; O sujeito viu nisso uma razão de expor mais do que nunca todo seu charme. Nunca entendi o racismo, não entendo o machismo e nem tão pouco o feminismo... Todos tem osdireitosiguais! E Roberto parecia entender isto esbanjando compreensão:A praia, o casodaquelasmeninas não foi diferente, todasestavam ganhando sua atenção igualmente. Ao notar minha presença chamou-me: - Lucas, venha cá – e acenava com mão direita. Fui-me, não contradizendo ao seu pedido. - O que aconteceu? – perguntou-me – Pareces chateado. - Roberto tu tens de fazer o trabalho com essa segunda praia sozinho. Pode por favor? - O que esta acontecendo? - Deve ter encontrado uma garota – interrompeu a parda. - Realmente – concordou a branca em olhar malicioso – Não tem como um pedaço de malcaminho como o você... - Não me entenda Mal – retruquei irritado – Vim a trabalho não para conversar. - Ui – falou asoutras no bom tom. - Então por que viestes? – perguntou a branca curiosa. - Roberto quero pedir-lhe licença, encontrei duascrianças que dizem ter perdido o pai, e estão muito desesperadas. Querem que eu faça uma matéria sobre isso. Indulgente adiantou-se:
  • 57. - se é isso, não tem por que eu não dar-lhe uma mãozinha logo agora. Teu caso é muito mais serio que o meu. Pode ir, que eu assumo o serviço. - Obrigado. Voltando a sorveteria, uma dascrianças interpelou: - Como foi? - Foi bem – respondi a Jozi – Vocês tem alguma foto dele? - Temos mas, está em casa. - Então tratamos de ir lá agora mesmo. É muito longe daqui? - Édois bairros seguidosdeste. - Fomos a policia comunicá-los, mas, não acho que vá se adiantar somente com isso – complementou Nando. Calei-me um pouco. Diante meu raciocínio não se deixaram a mercê das falsas expectativas. - Vamos ter que ir de carro. Dito issoosolhos de Nando brilharam. - Vamosmesmo de carro?!! - Sim – confirmei, não entendi a tamanha surpresa por algo julgava tão trivial. - Nunca andamos de carro antes, eu e Jozi o máximo que fizemos foi ter andado duasvezes de ônibus! É meu sonho me ver dentro de um! Aquela empolgação além de me empolgar me sensibilizava. A menina pulava de alegria, parecia que suas tranças iriam voar, e Nando levantando erguendo asmãos para cima sonhador, parecia imaginar-se como pilote de corrida. - Nós vamosmesmo, mesmo,mesmo andar em um carro? - Claro que vamos! – afirmei alimentando ainda mais a alegria da criançada – Mas, tenham paciência. Eu ainda não tenho carteira. Vou lá chamar Roberto de novo. Antes de sair da sorveteria de deixá-los sozinhos, recordei-me: - Ô moça! – chamei a dona do estabelecimento. - O que deseja? – perguntou moça que estava debruçada no balcão.
  • 58. - Vou ali e já volto. Deem a essascrianças o tanto de sorvete que elasquiserem – peguei uma nota de cinquenta reais que tavaescondida em minha carteira, e joguei no balcão. - Podemosmesmos? – perguntou em coro. - Émelhor gastar o tempo comendo do que esperando – afirmei gentil. Não sou rico nem pobre. Pagar meusvícios me era algo penoso, mas, parece que para àquelascrianças, foi-me algo que só de fitar seus sorrisos, já basta para dizer: Valeu a pena. *** Ao carro cochichavam de forma sorrateira. - O que é que estão falando ai? – perguntou Roberto olhando no retrovisor. - Estávamos aqui conversando – dizia eu - e Jozi acha você bonito. - Não, não acho! – erguia-se em pé na tentativa de se defender. E concordando comigo, Nando continuava: - Acha sim, acha sim! Ela corada e irritava, deixar-nos-á cair na gargalhada com a carinha fofa que ela fazia quando ficava emburrada. - Que menina encantadora é você! – observou Roberto amavelmente – se fosse pra eu ter uma filha iria querer uma igualzinha a você. - Verdade? – indagou á jovem, que parecia aspirar tal idéia. - Sim – respondeu. - Você já pensa em filhos? – perguntei a Roberto. - Um pouco, ás vezes – confessou - Mas, aposto que eles reclamariam de tempo. - Eu não iria me importar com o tempo se minha guarda estivesse com o senhor.
  • 59. O resto do trajeto prosseguiuassim, silenciosamente. Uma hora ou outra ascrianças e eudialogávamos assuntosinocentes, entretanto, ele continuou lá, quieto. Pelo retrovisor notei naface de Roberto uma lagrima rolar; compreendendo o porquê, não o quis incomodar com um perguntar. Entramos na rua. Notamos rapidamente que se tratava de um lugar pobre em todos os sentidos. Era uma casa muito pequena. O mato crescia a vontade dentro dela, brotando do chão de areia escura. Sem pintura, nem tão pouco reboco, via-se rachadurasnasparedes e goteiras no teto. Não se havia portas, a única, a da frente, tinha a maçaneta quebrada, e qualquer hora poderia passar um ladrão e roubar o quase nada que restava por ali. Eram cômodospequenos e apertados. A mobília era pouca, somente ascamas serviam como assento. Sem pedir licença, abri a geladeira. Petrificado, percebera que o que temia se generalizava: Não quase nada ali: só uma vasilha de feijão e um saco contendo poucas batatas. - Moram mais alguém com vocês? – perguntei. - Sim – respondeu Nando – Ângela, nossa irmã mais velha, de dezesseisanos; Elata trabalhando de lavadeira desde que papai sumiu. E também a Eduarda que está no quarto ao lado. Levantando a lona que servia como porta, entrei num quarto escuro e úmido, enrolada a unsdoiscobertores, tinha-se visível um corpinho frágil, ofegante. Aparentava arder em febre; - Minha irmã é linda não é? - comentou a doente notando minha presença. - Eduarda tu ésmais bonita que eu – disse Jozi em desalento. Agora fixa a mim: - E tu, quem és? - SouLucas umJornalista – respondia. Roberto não estava mais entre nós, ele mal deixou-nos na porta e já saiu. Parece que ele já previa o que se sucederia. Neste oficio vivenciamos de tudo. Não é a primeira vez que lido com gente nesta situação, tanto é que consigo segurar a cachoeira de meusolhos para não desaguar. Eduarda sentou-serecostando e
  • 60. ajeitando-se ao travesseiro; Carinhosa, chamou Jozi a sua frente. A pequena deitou em seu colo, e Eduarda, transmitindo carinho semelhante ao de uma mãe a acariciava, vez ou outra beijava sua cabecinha. - Então, tu ésjornalista? Vai ajudar eu e meusirmãos na procura de meu pai? - Issomesmo – confirmei. - Nando, pegue uma cadeira pro senhor. Sem nada gesticular foi correndo fazer o pedido da irmã. Não era uma cadeira, era na verdade um caixote de madeira. Doía como eles contentavam com tanto pouco. - Não repare a casa por favor. É que somos muito pobres. - Tudo bem – tranquilizei-a – Não é isso que me preocupa. - Vai mesmo ajudar-nos? – repetiu esperançosa. - Sim. Por acaso tens uma foto do pai de vocês? Remexendo a gaveta de uma pequena cômoda, demorou mais encontrou: - Serve está? É dele e da minha mãe. Entregou-a á mim, e com ela em mãosexamineiminuciosamente. Tossira enquanto dizia: - Foi no casamentodeles; Minha mãe era tão bonita... Concordei com um mexer de cabeça. Na foto mostrava o casal sorrindo ao lado de uma arvore da igreja. Mesmo sendo a noiva, trajava vestes tão simples: Vestido de pregas acompanhado de um véu sem tiara. Mesmo em preto e branco,na foto está mostrava-se muito formosa. Ao lado, o querido marido. Magro e alto, de bigode e cavanhaque possuía olhosgrandes e profundos, oscabelos eram cacheados; sorria também, no terno humilde a gravata ser-lhe-ia um apetrecho benévolo. Naquela época longínqua aparentava-se que o amor verdadeiro existia. Hoje as mudanças do mundo fizera com que perdêssemosessa confiança, a de um verdadeiro amor, fizeram- nos crer que isto era loucura dos romântico, mas, não é esta a realidade.Quantoscasais jáhonraram o “até que a morte os
  • 61. separe?” Pelo que havia me falado Nando, o caso dele foi muito além, desde a morte da esposa, um cinco anosatrás, ele continuou fiel a ela, entretanto com o salário mínimo não conseguia sustentar a todos e lastimávelentregou-se nas graças da bebida. - Me arrume outra foto, por favor – pedi – Aqui ele aparenta muito jovial. - Verdade – concordou Eduarda serenamente– Mais uma vez revirando a gaveta. Me entregou outra mais recente, a de um ano atrás. Nele mostrava senhor Sergio – pai dascrianças – entornando um copo de cachaça. - Está serve? Adiante prontei-me a pegar meu bloco de notas, anotaria cada palavra daquela menina. - Sim. Quanto tempo está sumido? - Faz 3meses. - Está bem... – levava no pescoço uma maquinafotográfica -; por favor, fiquem todosjuntos um do outro. - Vai tirar uma foto? - Sim – respondi – quero que além de mim, outros se compadeça de seu caso. O resto da tarde passei aqui. Anoiteceu e voltei de apé para casa. O que estavapassando por ali, era mais serio. Jornalistas, acima de tudo, devem de denunciar asdificuldadese injustiças humanas. XII Fria e cruel
  • 62. - : - “Só eu quem presenciou, o céu queimar na escuridão, e brilhar diante dos pagãos, na terra maculada em lagrimas.” Essafrase você dizia num tom agridoce. Lágrimas dezenbalssão no medo. Estranho, amava a sensação de poder chorar de felicidade. - : - Antes de chegar em casa, decidi visitarum lugar em especial... Mais bela que nunca, enfim, o terceiro encontro. Amante da morte, só Deus sabe quanto te quero bem; Nutro por ti um afeto que me conduz a subir montanhas. Entretanto, voltara a ser rígida e fria. - Veio ver-me? – perguntou em tom amargo. - Sim – respondi – Não há problema nenhumnisto não é? Optou por um silencio magistral. Andamos pelo mesmo trajeto. Desta vez, dura como pedra, mal dava para ver dentro de ti, só espremiapalavras que feriam. Estava com uma vestemais simples que a de antes. Se nunca tivessepassado por uma loja de artigosfemininos julgaria que estavas em uma camisola.Mas, minha Alice, ela não é disso. Não era, era discreta como eu, e recatada, não faria esse colosso que é deixar a minha pessoa vê- la com roupasdesse porte. Fixava em suaspernas, pareciam doispalitosmagros; Expostosassim, não tinha vergonha? Meu rostoficavabrevemente corado. - Fiz um chá hoje, quer experimentar? – indagou Alice leviana. Conhecendo-a bem, era um tom traiçoeiro, ao supor que poderiadeixar-me cair na armadilha, pesaroso recusei: - Não obrigado. Pra que eu fui dizer isso?
  • 63. Foi rápido e turbulento Franzira a cara esbugalhada, e em mãostrêmulas começou a atirar a prataria no chão. Ainda naquela postura severade nariz empinado, o barulho disso devia horripilar-me? Não, não me dá medo aquele barulho, tenho medo de mim mesmo: O que poderia fazer se não conhecesse aquela dura criatura? Ela urrava e gritava dentre calunia e perjoração, praguejava transparecendo um cintilar de olhos ao murmurar ofensasdemasiadohereges. Era difícil de escutar, e isso me machucava me feria, no intimo meu coração parecia dilacerado, todavia, não podia fazer-me o favor de fechar os ouvidos; ser-me-ia um agrado desmerecedor, e a ela um sinal de humilhação, gesto de repugnância. Aquele vidro foi jogado no chão, e os cacos a deriva, servia como letargia, deixando-me vidrado, num êxtase sem igual. Queria ir até sua direção, mas aquele obstáculo não permitia. E ela me fuzilava com osolhos, me deixando tão vulnerável... - Vai dar a volta? – indagou-me amarga. Diante de tamanha crueldade e de sua menção, não me arrependi. Estavadesenrolando o cadarço do meu sapato, e ela estranhada voltou a perguntar: - O que vai fazer? – indagou abismada. - Estou tirando meus sapatos. Vou ir até você, e quero que me deixe abraçá-la, pois sei que a magoei. - Seu idiota! – gritara enfurecida – Vai cortar os pés. - Não importa – afirmei – Vou ir até á você, vou abraçá-la. Se for ou não ninharia de criança, já a altura do campeonato, não me cabia o devido valor. Não dependia de mim diferenciar o errado do certo, pois, nada mais me importava além do sorriso daquela garota. Aquela que tanto me fere, é também aquela por quem eu morreria. Fazia força nos pés, os cacos perfuravam carenciando compaixão, aprofundando-se na pele, nada mais importava – repetia em pensamento. Segurava a agonia como segurasse uma benção. Um passo seguido de outro, meu corpo já não vai
  • 64. aguentar! Não parei, não parei, mais uma daslascas do vidro ficou prezo. Não olhava pra mim, estava de costas, e eu a fitava fascinado; Doía demais, não tanto quanto seu silencio, mas, na nostálgica sofridão não consegui ficar sem articular alguns murmúriosde agonizado. Estavaquase chegando. Ela naquele vestido branco parecia tão frágil. Abalando-a por traz, me aconcheguei naquele aroma tão querido, que tanto sentia falta. Estranhei-me ao ouvir um choramingar. - Me perdoe – pedia – Por favor, não chore. Fora nada mais que um teste planejado pela sua mente adoentada. Estarás sempre por despedaçar minha alma. Acho que agora tem certeza, que além de irmão, sou-lhe seu fiel capacho. Como é divertida a mente das crianças!
  • 65. XIII Dócil Atenção “Sergio Sanches monteiro, 45 anos, encontra-se desaparecido. Viúvo, seus filhos: Três meninas e um menino encontram-se desesperados; Acreditam fielmente sobre o fato. De acordo com eles, o pai saiu para comprar condimentos no domingo, dia 14, 3 meses atrás.
  • 66. Qualquer informação, entrem em contato com o telefone do jornal Anatólia: 9090 77914875.” - Está de parabéns – comentou Helena minha ultima matéria. A matéria era simples se colocar emconsideração o que o chefe permitiria, entretanto, ao contá-la dos detalhes está ficara maravilhada. Mais ainda ao ver issopostado no jornal. - Obrigado, não faço mais que minha obrigação – dizia eu, agora dirigindo-me a Roberto - Não tem problema tê-lo deixado só na matéria sobre poluição daspraias? - Não tem problema não – tranquilizou-me altruísta. Gesto benévolo a parte; Roçava oscabelos, e num assobioacalcado, confessou: – Falando agora da tua matéria; eu não teria aguentado ficar ali. Quando se trata de crianças sou um alguém muito sensível. - Falando em crianças – recordou Gustavo, não pestanejou, e foi logo mudar de assunto – Você sabe que Olga esta grávida né? Olga desde que a conheço por gente demonstrou-se uma pessoa fácil. Todavia, diferente do que a maior parte da humanidade
  • 67. pensa tinha suasqualidades. Isso acontece, talvez, por que aspessoasestão sendo suscetíveis a julgarem e serem julgadas; Por issomuitas tornam-seinseguras, irrequietas, em casosmaisagravadosalienados. A pessoa só é livre no pensamento. Sempreestaremos sendo influenciados por ordensmaiores. Olga é uma moça bela é radiante; se compromete facilmente com osoutros a sua volta. Verdade é muito esnobe, àsvezes metida, entretanto foi ela que pela primeira vez que me mostrou um poema ou poesia romântica. Eu nunca antes me interessei pelo amor como naquele momento, em que ela, com uma mão apoiada a mesa, e outra - a esquerda, ela é canhota – segurando o lápis, encarava o papel, inspirada por sentimentosenganosos etraiçoeiros, aparentemente enamoradapalavrasdesferia sobre o papel com tanta desenvoltura num aclamado feito cômico. Na expectativa mirava-a num contemplei, e quando terminada a escrita, foi isso que li: Eu sigo despercebida. Sou errada ou não? Tento apenas ser notada por você. Essa timidez me faz tão mal. Não aguento só lhe observar, Não basta só dizer “Olá”. Você tem que lutar para merecer. Tento apenas ser notada por você. Meus pequenos gestos você não consegue ver? Queria tanto ser-lhe visível. Mais creio que não sou nada. Queria que se importasse. Que me olhasse sem pena e do. Queria tanto ser notada por você. Pois não consigo falar ao te ver.
  • 68. De longe eu espero o destino um dia nos juntar. Minha timidez não é uma doença... Mais... Viver sem ver você é bem pior. Queria te dizer “Oi”. Mais já fico feliz em só lhe olhar. - Belapoesia – comentara, enquanto fitava ela e o papel. - Obrigada – agradeceu-me – depois farei um só para você. - Um só para mim? – ao seu enunciar me cativou. Embevecido, seduziu-me com seu carisma. Loira de olhosacinzentados; conseguiu levar-me rapidamente aosaposentos, aonde entregamo-nosaosanseios da carne. Espero até hoje por aquela poesia. Nós no intimo, Gustavo, Roberto e eu, estávamostodos sendo encarcerados, vítimas daimprescindívelprofetização. Não haveria de ser um pressagio, pois, essa palavra soa como algo tão ruim, o que de fato não é. Mas, de todos, o único que expressava e demonstrava abatimento, foi Roberto. Só faltava Roberto ter um desmaio. Ser o único a não saber essa tal novidade era grande generalização da extraviada fatalidade. Aexpressão que estampou no rostovou guardar para o resto da vida. Com olhar petrificado, rosto pálido e quase esbugalhado, demais seria se ele tivesse um infarto, mas, como era um ser muito equilibrado... - Um filho? Eu vou ter um filho?!! – berrava contente. - Veja bem – advertiu Helena no benigno feito de dissipar-lhe asfalsasexpectativas: – Pode nem ser isso, mas, pode não ser. Aquela rapariga fica com todos. Você queria ter um filho? Pegando uma cadeira, breve silencio fez para recompor o fôlego. Pegou um copo de água, mas, ao invés de bebê-lo borrifou um pouco na cabeleira, colocou um pouco na palma da mão, e ainda inquieto, esfregou-a em algumas partes do corpo na tentativa de se refrescar. Já um pouco livre daquele ritmo cardíaco frenético
  • 69. causado por vivencia daquilo, que chamava de temperança, argumentou: - É uma sensação estranha, eu sinto medo, mesmoassim muita felicidade. Sabe, fui muito ligada a minha mãe, meu pai era um verdadeiro cafajeste, e disso dele virei modelo, mas, quando se trata de afeto, herdei essa virtude de minha mãe. Um homem veio a nosso sentido contrario, tropeçandonasprópriaspernas. Vestiaroupasdiscretas, coerente com seu estado de oficio. O casaco de couro um tanto cobrindo o terno surrado. Numa pressa turbulenta, estranhava Helena, que viu nela a atitude de perguntar como sendo algo aceitável: - O que foi? Você esta bem? Hector era ainda um homem no vigor da idade, alto e encorpado; Seu cabelo era bem próximo ao do loiro alemão, mas, seusolhos eram castanhosescuros. Trazia uma expressão peculiar do espanto, transmitia com ousadia a fadiga: - Olga, Olga vai ter um filho meu –confessaraexprimindotristeza. Quando eu e Gustavorespirávamosaliviados, Roberto chorou. - Viram? Ao menos Roberto compreende minha tristeza – dizia Hector com asfalsas impressões. - Não – esclareceu Helena – Ele estava muito contente em imaginar que essa Olga dar-lhe-ia um filho, não haveria de compadecer com tua tristeza sem noção – aqui ponderou - Não tem por acaso jeito de você adotar Roberto? Meu amigo esforçava-se para recuperar-se da premeditação; respondeu-lhe num fiasco: – Ter tem, mas, essesnegócios levam tempo – e complementou - não quero me arriscar a ter um ser tão frágil comigo, e depois vê- lo sendo levado de mim quando eu já estivesse me afeiçoando. - Quem te viu quem te vê – interveioGustavo fingindolamentação – Roberto meu companheiro de caça, vai arredar o facho, vai se aposentar... – dava-lhe unstapasnascostas.
  • 70. - Quem tedisseisso? – rira num súbito sarcasmo – Eu posso muito bem dar uma de técnico a dançarino de pollydance no clube dasmulheres e ser também um bom pai de família. Helena não agüentou-se de rir, e eu também não, contagiado por sua alegria. Entretanto ao mirar-me, receosa, cessou. Sobrancelhasfranzidas, de uma forma semi-oculta, por certo me abalei. Helena ainda estavaressentida? Claro que haveria de estar, eu o bom amigo que escondeu-lhe ascoisas, ela que conhece-me a tanto tempo... nem sempre somoscapazes de contar segredos, não nos cabe a nós, não coube a minha pessoa; naquela hora estavaesmagada pela deturpação, e agora, estou novamente. Não serei capaz de contar-lhe sobre meu maior segredo. Meu maior segredo estanesse livro, história dela, minha chave para sua recordação. Alice é o segredo que o mundo quis profetizar, e que os sábios, completosignorantes não conseguiramadivinhar, revelar com tal consideração. - Eu não desejava ter um filho tão sedo – declarou Sr. Hector Malot, meio afobado – Por minha família ser muito religiosa, ao certo me obrigaram a casar. - Devia de ter antespensado em teusatos – comentou Helena num sermão. - Éscompreensível – suspirouangustiado – Mas acidentes acontecem – defendeu-se e após vaga pausa, anunciou: - Já vou indo mocidade... - Tão cedo – estranhou Helena irrequieta. - É que eu tenho que tirar dinheiro do banco – declarou. - Tapensando em fugir? - Se desse... Horasdepois, deitado na cadeira, quase roncando. Ela aproximou-se de mim jogando uma papelada na mesa: - Aqui esta osúltimosrelatos sobre o acontecimento de Madeleine Montes Adriana. O barulho do papel fez-me abrir um dosolhos, mas, ao ouvir seu dito despertei com um pulo pra traz.
  • 71. - O que aconteceu a Madeleine?! – exclamei,essa informação muito me importava. - Pelo que li ai, encontraramseu corpo jogado no mar. Entretanto a policia não encontrou vestígios que pudessem denunciar o assassino... Estranho: Estãopensando que ela se suicidou... - Não foi – repliquei, enquanto examinava ospapéis. - Eu sei – concordou – nessa foto ela está toda suja de sangue. Nessa foto ela esta toda torturada. Sei que temos que ter em conta o fato de ela já ter começado a decomposição, entretanto, viram nela marcas de facadas e nenhuma digital. Revirava ospapéis a procura da imagem. - Não encontraram nenhuma digital, nem si quer a faca. - Encontrando a faca encontraram o assassino – raciocinei. Olhava a foto em êxtase. Estava tão acostumado com teu rosto... Como apagar uma memória? Ninguém que passa por nós é esquecido, e se é não é por que nósqueremos; Por que quando quero esquecer não consigo? Isso eu me pergunto em todos ossentidos. Percebendo meu momentâneomartírio,através de minha fisionomia atônita, perguntou: - Você a amava? - Não sei... - Você aparenta tê-la amado muito – observou. Depois de uma pausa declarei: - Naquela época, talvez, mas agora... Se estivesse viva... Não a vejo como alguém com quem eu pudesse ficar; não ávejo como alguém com quem me deitaria na cama novamente, com quem me casaria constituísse família... Euapenas me importo, me importava com ela, sentia-a como uma filha ou irmã - Isso é amor... – retornou ela dentre cautela, tentando confortar-me. - Não, não é – objetei. - Por que diz isso?
  • 72. - Melhor a gente voltar ao trabalho, se não vão reclamar de falarmosdemais. - Como você tem certeza dissoLucas? – voltou a indagar-me num tom mais serio. Receoso, embriagado pelo êxtase, enfim pronunciei-me num superfálodesabafo: - Pois acho que estou amando alguém... Ou talvez seja uma mera ilusão. XIV Maculada Sinfonia - : - Pelo sinal secreto que deste a beira mar. Passo dias sem dormir, diante da lua clara. Contaminado pela inquietação. Seguindo a sombra do passado... - : - Sempre cobiço o anoitecer. Pois é nesse horário que o relógio bate 23:00 horas. Daquela vez foi tudo rápido... Sótivemos 20 minutos para aproveitar.
  • 73. Não, de fato não foi ninharia... É uma sensibilidadeextrema, e parece estar acostumada a retrucar com fel. Eu a machuquei, minha pequena boneca de vidro, talvez ela tivesse se empenhado em fazer o chá para minha pessoa. A quem estou enganando! Ela não é real! E se for deve ter pacto com o demônio. Quem sabe colocou veneno no meu chá? Foi um perjúrio a promessa de confiança? Ela disse para não confiar em sua pessoa. Se Alice passou por muita coisa, chora sangue por que já não tem lágrimas. Ela é meu segredo que ninguém de mim vai arrancar. Menti para Helena ao dizer que amava Amanda Borges, filha de um empresário;desta moça só o nome conheci, mas, foi preciso, Alice não quer ser uma matéria, e eu não quero proporcionar-lhe o mesmo sofrimento que me passa. Seja o que for; se estoumesmo enamorado, hei de atuar apenas como um irmão, escondendomeus sentimentos tal qualnuma paixão platônica; até que eu tenha mesmo certeza. O céu brilhava imutável. Terrível seria aquele que quisesse maculá-lo, tão perfeito. Brilhava sereno sobre aquele céu desordeiro, em que asnuvens lutavam por um espaço tomar, aquele que faria da lua seu par. Andava descompassado sobre o chão pedrejado. Meusolhos ainda doem de insônia, como explicar para ela minhasolheiras? Recordo-me de quase ter cochilado no trabalho, fico feliz de ter sido rapidamente despertado. Eu não quero ver minha Alice ser molestada outra ver por tamanha violência. Doeupois eu sentia. Doeu ainda mais ao perceber que era ela, a minha criança, a minha paz que me foi enviada dasprofundezas do inferno. Sim, do inferno, não seria obra de Deusesse ser tão desprezado, maléfica. Não suportaria vê-la daquela forma outra vez... Estou de novo aqui, nesta biblioteca. Fixei-me novamente na porta com aquela maçaneta. Tudo parecia tão premeditado, afinal, aquela porta “Rosa-Cruzestava aberta”. Demorei a reparar: O candelabro estava prezo
  • 74. novamente ao teto; Tudo estavamais organizado, mais iluminado, não havia um pó si quer no balcão, todavia como sempre nenhuma atendente. A parede estava com cor renovada de coresleves e suaves, a diferença dele, é que mesmoassim, era nobre e fino, cada parte parecia ter sido peça de um diamante. Pra que tanta arrumação, sendo que, teríamos que passar pelo mesmo quarto? Ela viria até mim? Minha cabeça estava cheia de tantasperguntas. Fiquei intrigado, a porta não trancou, o que estava acontecendo? Em passoslargos e barulhentos, aprecei-me, a passar logo por aquele caminho fétido. Atônito, fiquei como petrificado. Já não eramais aquele esgoto fétido,transmutara-se para um esbelto jardim de líriosbrancos; e o vento asoscilava, fazendo que algumas pétalasse soltassem e voassem sem rumo. Aquele rio poluído tornou-se um rio limpo de azul cristalino profundo.Uma ponte de pedra harmonizava todo o local, que, já iluminado, transmitia-me paz, como se não precisassemaisesperar pelo temor. - Todo por aqui mudou? Tudo esta sendo reformado? – perguntava como se eu pressentisse sua presença. - Sim–respondeuAlice desdenhosa – Só por hoje. - Por que quase sempre aparece atrás de mim? Gosta de esconde-esconde? – complementava com um sorriso. Ia virar-me, mas, ela suplicou: - Não, não se vire ainda, esperemos o momento propicio. Concordei sem pestanejar. - Quero fazer-lhe uma surpresa. - Você sempre me traz surpresas Alice. - Sei que aqui está lindo – interrompeu-me – e sei que seria muito bom sentar na grama e fazer um piquenique. Entretanto, tem algo que quero mostrar-lhe ali. Com a claridade conseguia ter ampla visão do beco que antespela escuridãome era um labirinto sem saída. Caminhei até
  • 75. a porta de pedra, e vislumbrei as trepadeiras que faziam-lhe contorno. - Puxe o castiçal – pediu ela delicada. E eu, seu humilde servo, vi aquele pedido como sendo mais que uma ordem. O puxei. Aberta a porta, imobilizei-me de espanto. Como tantas surpresas em um dia? Surpresa mais que magnífica, uma vontade súbita de desabar. O simplesdesejo de Alice foi realizado, ela tinha transformadaàquelaspinturasdasparedes em rosas de verdade. Nosso santuário... Nosso santuário... Embelezado pela luz da lua que agora no meio do céu tornava-a ainda mais romântica. As rosasnão enfeitavam somente asparedes, adornavam o chão e também ospilares de cruz que cintilavam mesmo na cor escura Ainda naquela pose, pestanejar era o sensato; Demorei demais para sair dali, quando estava no meio do local, ouvi um murmurar. Estava prezo a aquela paisagem, e ela demonstrando também ter sensibilizado, andou ainda mais a minha frente. Mesmo que de costas, já me tentava o coração acelerado. - Você está linda – disse quando ela virou-se para mim. Uma sensaçãonostálgica que acompanhei embevecido. Tudo o que eu podia quererestava acontecendo agora a minha frente. Não havia melhor sensação que aquela. Seuvestido azul não era pesado, com aquele sorriso não haveria de estar perturbada. Com a mão na cinturaestranhava a falta do espartilho. O vestindo ficava até o joelho, mas, ela usava meias, assim não iria me afetar. O vestido tinha uma pequena segunda camada branca transparente que tornava-o ainda mais belo, por que, dele de onde vinha as lantejoulas, que, sendo iluminadas pela luz da lua pareciam pequenaslágrimas que transformaram- se em cristais, a brisa que passava pelo interior dovestido fazia
  • 76. ele bailar serenamente. Olhando no fundo dos teusolhos, não pude deixar de lhe falar: - Estais linda. - Eu me arrumei assim só para você. - Fico feliz de saber disso. Sem jeito, já não sabia o que falar, virava-me para traz enforcando-me com a gravata. Estava começando a encharcar- me de suor. - Se-seu... – gaguejei – Seu dono realizou seu pedido das rosas. - Sim – confirmou – por que ele era muito simples. O maisesperado, é o que também temo, demorara muito ainda. Achei melhor não perguntar-lhe o que era, um dia tão belo, não quero incomodá-la. Sentando-me declarei: - Eu venho tendo sonhos com você. - Serio? – perguntou surpresa. - Sim, é por isso que tenho essasolheiras. - Não podia ter sido um sonho tão ruim assim... Vendo-a desapontadaconfessei: - Não, não é isso Alice, é que no ultimo sonho vejo-a sendo estrupada. Temo ver isso de novo, e temo vê-la nesteestado de novo. Cabisbaixa, irrequieta, prostou-se de costas para mim. Entre desesperoopinei por perguntar: - Você não sofreu isso não é Alice? Por favor, diga-me que nada de mal aconteceu-lhe? Após breve silencio respondeu, foi somente ai que consegui ter bonança: - Não, pode ficar calmo, nenhum homem me tocou. - Nenhum mesmo? - Não – retornou a responder – Sou virgem. Continuava ali, e isso me doía na alma. Como nenhum homem pôde tê-la tocado? Estranhamente sinto nesta afirmação uma sensação feliz da minha parte. Me desprezo por isso... Mas, não tem como desatar osdefeitos da alma.
  • 77. Essa noite amargurada logo nosenvolve... Não me deixe só no abandono. Fico muito contente de escutar sua voz. - Você está bem meu bem? - Não sou seu bem – retrucou-me rudemente. - Trouxe algo para você Alice, um presente, por favor, sente aqui, quero mostrar-lhe. - Um presente? – com a mão fechada sobre o peito, levou o olhar até a mim. - Éapenas uma correntinha meu anjo, mas, é o que mais tenho de precioso – tirei do meu bolso uma caixinha pequena, semelhante àdaquelas onde se colocam alianças de casamento. Ao abri-la, seusolhos brilharam, e voltou a sua postura amável. - Para meu anjo – disse – mandei lapidarem seu nome ai, Alice. Seurosto corou, mas, rapidamente se afligiu: - Mas, não tenho nada pra você – dizia, sentando-se ao meu lado. - Tudo bem – colocava-lhe a corrente em seu pescoço, enquanto fixava seus lábios vermelhos – Eu me contento com apenas seu sorriso. E ela sorriu, olhava para si mesmo, toda, toda por algo tão simples, diferente desse lugar que é uma pura joia, dei-lhe uma bijuteria. - Foi do meu bisavô, ele deu a minha bisavó no dia em que se conheceram. - Deve de ter sido um homem muito sábio – comentou minha pequena. - Era mesmo – confirmei – Mas não adianta, não importa todas asqualidades do mundo, tu és a mais radiante, linda, e pura de todas. - Eu não sou pura – disse, virando-se de lado – Não tenho nenhuma qualidade... - Você tem sim, Alice, você tem... – não sei o que aconteceu comigo, que, aproximei devagar e quando tive chance abracei-a fortemente. Como senti falta do seu cheiro! Seu perfume me deixa entorpecido, é maischeirosa que uma flor! Alice, consigo
  • 78. reconhecê-lo mesmo de olhosfechados. E meusolhosestãofechados, para que eu aproveite cada segundo. Abrindo aspálpebras, cortejá-la seria errado? Ela também fechara osolhos... Meus lábiosestão cada vez mais perto dosseus, em olhos semiabertos... Não é malicia, acho que é amor. - O que você está fazendo?! – num estante gritou encolerizada. Colocara a mão direita na frente, um obstáculo para que meus lábiostocassem o seu. - Não possobeijá-la? – pedi amavelmente. - Não! – gritou quase me batendo de tão enfurecida. Soltando-a do abraço, atalhou: - já são quase 24:00 horas. Suponho que já seja sua hora de ir... - Me perdoe... - Nunca, nunca, nunca faça isso de novo se não quer morrer. Voltei para casatriste e frustrado. XV Intimidador e Intimidado Deturpado como só ninguém, uma inquietancia maior que a do dia a dia. Compreensiva arrogância, Alice tinha todo o direito de recusar-me, assim como eu, possuía o direito de recusar minha retirada, sendo que, nem me destes um mínimo “Por que”.
  • 79. Mas, o que há de errado comigo? Classe social? Não sabia que vossa senhoria se alimentava disto, não, não era do teu feitio, tão pouco esperava que estafosse minha reação. Estou completamente enfeitiçado. Entretanto, me faço de logrado. Outrora como me convém, teria me rebaixado, mas, agora já me mostro mais obstinado. Asferidas do ontem vão se aprimorar em teu peito... È o que aqui deseja. Uma praga essa conjectura, estoumais que alarmado sobre teu veneno mortal. Mas... Já o sentira num abraço, já o sentira em seusabraços e fiquei assim, deturpado pela melodia erronica da nossa inquietação. Há algo que transborda em seu ser, algo semelhante ao oculto. Bruma de um defunto. Mas, não há como revidar. Estou ao todo sobre teu controle. Por vez ou outra, não me é necessário correr atrás da informação,tenho a minha mercê constantemente os dados encontrados através de outros pioneiros. As formulo e asreconstruocom primor e gosto; Ao final, transpõe como umformosotextoresumido e formalizado. Casos de crônicas e dissertações, por exemplo, são meu esforço constante. Estava fazendo uma, enquanto mal dissimulava meu desapontamento, o Roberto sorrindo chamava-me a realidade: - Oi Lucas, como vai? - Oi – dizia um tanto desajeitado – desejas algo? O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme: - A chegada de Alice Valmont a esta cidade trouxe também enorme repercussão. Não quero pressioná-lo, até por que, tendo em conta que a concorrência também mostra-se debilitada, mas, precisamos da matéria sobre ela rapidamente. - Sim eu sei – redargui. Depoisentão confessei: – Mas não conseguiriatransformar Alice numa matéria. - Compreendo – disse pesaroso enquanto roçava oscabelos. Após breve silencio propôs: -Quer trocar comigo?
  • 80. Estranhado repliquei: - Como assim? Não há problema? - Sei lá – respondeu - acho que não. A minha matéria é difícil, mas, parece ser menos comparada a mágnamia de Alice Valmont, tenho de entrevistar o Conde Vermelho. Vai ter que se virar, a gente já ligou pra ele váriasvezes pra marcar entretanto sempre dava ocupado. Se eu pegar teu casoposso dizer que tentei falar com ela mais nãoconsegui numa boa, tudo emquestão a minha falta de animo. - Sabem pelo menos o lugar onde ele mora? - Sim – respondeu-me – Na rua Vendetta. Rua Vendetta, se tirar um T recorda-me a vingança. Tenho a certeza que o Conde Vermelho é aquele homem vi uma vez, em vestimentasvermelhas, contrastadas a cor insana; num sonho sendo morto de forma macabra. Alice o tratava como a um pai. No dia que o vi, recordo-me de sua benevolência. Sinto um pouco de frio na espinha ao recordar. Quem seria esse homem? Um aclamado herói de guerra e que dizem ser tio de minha querida Alice.Dizem ter sido esse senhor quem fizera o acordo de impedir o cair dasbombasnucleares na terceira grande guerra. Não me contento em saber só disso, imaginação é a corrente que eu carrego. Creio eu, que serámaisproveitoso para mim do que ao jornal essascertasinformações. Hei de tirar minhasprópriasconclusões Numa rua ampla e movimentada. Havia ao todo quatro caminhos que davam cada qual para uma rua diferente. Casaspequenas e apertadas uma nasoutras, ou então, se quisesse, poderia degustar dias num hotel luxuoso. Algunsresidentes de prédiosgrandes e de estatura alta acordavam;outros faziam serviçosdomésticos, rotineiros e diários, exemplo, uma moça que esta agoraentendendo um grande número de roupas em seu varal. Já outros por ventura, discutiam sobre a barulheira, ou o que dava na teia. O que há de haver em tamanha insignificância? Numa rua como aquela, mesmo com o magistral, quase épico, do
  • 81. efeito da poluição sonora das centrais urbanas, láchegava o berço da oração. Assemelhava-se a uma igreja, mas, lá ninguém necessitava de benzer por ser de entidade publica e própria do governo. Muitosse locomoviam a trotes da charrete, demasiado eram os poucos como eu, aqueles que usavam carros. Perto da avenidafoi onde o táxi me deixou, bem perto decentros de comercio, a frente de um restaurante, onde ao lado se tinha visível uma butique e uma tentadora loja de queijos; Adiante, uma residência compactada tanto a creche como a educandário. Era horário de aula, portanto, não se via a entrada ou chegada de alunos. No centro da rua havia uma pequena pracinha, pequena mesmo: Um circulo de terra revestido pelo gramado, acima um banquinho branco e atrás, um pouco a direita, uma estátua do tão glorioso Conde Vermelho. Com olhar profundo, vislumbrava tal escultura. Erguido com a boca aberta, parecia querer gritar aos quatro ventos o tamanho de sua façanha, levava um livro embaixo do braçoesquerdo, enquanto, ao direito levantava uma penasegurada a mão, parte do acessório que faltava no chapéu, mas, que aqui estava se referindo a uma caneta. Avançando por um dos caminhos, já a frente deparava-me com um castelo trajado por torres. Logo de imediato foi-me presumívelsaber de quem era tal moradia. Como não deduzir arquitetura de façanha singular? Sua libertinagem, o véu sobre o prodígio do rico e pobre, atrásdaquelesmuros de mármore e daquelesportõesenferrujados, trancados por um cadeado do tamanho de meu punho, havia um estrondoso acervo de flores, o numero era ilimitado entre si: Havia LíriosCasa Blanca, Rosas, Tulipas, Margaridas, Orquídeas, Girassóis... Voando a mil por hora pairava sobre abrisa suave, lindos beija-flores azuis, que volta e meia se alimentavam do néctar de algumasdessasflores.Um chafariz de concreto e acima uma
  • 82. escultura de um anjinho vestido em lenços de papel tornava aquela paisagemesplêndida e avassaladora. A impossibilidade do silencio me atingia o raciocínio. Já toquei a campainha, mas ninguém atende. Talvez o desastre que esteja acontecendo aqui estejaassolandoaqueles que estão lá dentro. O muro era um tanto alto, entretanto, não havia outra alternativa se não a que vinha a minha mente naquele momento: pulá-lo. Se eu fosse chamado pela policia, de qualquer forma daria para pagar a fiança. Dei a volta até um lugar onde não havia ninguém, nenhum olhar que pudesse me recriminar. Joguei minha mochila pra cima, e caiu no gramado. Em seguida, apoiei-me no muro e pulei. Não tinha como expressar tão bela paisagem. Mais bonito por dentro do que visto por fora: O chafariz mais de perto mostrava se encantador: havia filhotes de patos que nadavam e uma mãe cuidadosa que ficavam ao seu contorno vigiando-os atentamente. Tinha arbustos e árvores de folhagensamarelas e verdes que sobressaiam-se dando uma fantástica harmonia. Em volta do chafariz havia um passeio pequeno, que dava da porta até o portão. Estava ainda sendo homenageado com tão bela vista, quando, der repenteescutei uma voz: - O que estas fazendo aqui? Paralisei-me. O assombro daquele momento me redarguia com batimentos que cessavam e o coração que queria sair pela garganta. A vontade de correr era pelo meu atrevimento, o medo era de lascar, se fosse aquele o dono da casa? Só de pensar já da vertigem - Não sabe que aqui é uma residência privada? Ao olhar pra traz dei de cara com um homem alto e elegante. Cabelosnegros cacheados ondulavam, numa altura que dava até a nuca. Tinha barba pequena e chamativa, lhe dando um ar
  • 83. charmoso. Usava uma boina quadriculada e óculos que em contato ao sol refletiam minha imagem. Emmãos um pequeno caderninho, e no pescoço uma maquina fotográfica. - O que é que você esta fazendo aqui? - Pelo que aparenta – repliquei – Omesmo que você, tentando conseguir uma matéria com o Conde Vermelho. Guardou o lápis atrás da orelha e o caderno numa bolsa marrom que levava ao ombro, adiante estendeu a mão para minha pessoa. - SouWillian do jornal Favos Andes e vós? - Lucas do jornal Anatólia – repetira seu feito aceitando o aperto de mão. - Pelo que parece somosinimigos de empresa – comentou – To aqui desde a madrugada e não vi ninguém sair... - Estranho – reparei – haveria de aparecer alguém. - Vi o Condepassando uma vez pela janela – comentou. E revirando a bolsa tirou um envelope defotos – Por ele estar longe foi-me quaseimpossível aumentar a tela. Mostrava-as para mim alternadamente, num pequeno hiato. - Surpreendente - balbuciei. - Mesmoassim, eles não aceitaram isso. Tenho que conseguir a entrevista de qualquer forma. Lancei meu olhar para aquele casarão, uma verdadeira mansão, tão grande quanto um castelo. Quando pegava minha mochila, e pensava na possibilidade de ter falhado no pedido, avistei algo estupendo na janela do segundo andar: Alice me fitando de longe. Devia de estar delirando?Não era possível. Esfreguei um pouco osolhos e aquela imagem tornou-se menos nítida.Estava vidrado, aquela janela do segundo andar... Atrás do vidro e dascortinas de cor roxo claro. Aquela imagem me fez vibrar, como resistir a um ser tão poderoso? Será que fui drogado? Não é normal ter alucinações a essa hora do dia.
  • 84. - Vai desistir? – perguntou-me Willian, enquanto eu seguia em direção do muro. - Não – respondi – Nunca. Vousó tentar outro dia. Hospedar-me-ei num hotel onde passarei o resto do dia. XVI Selvagens da Ópera Não medir asconseqüências foi-me uma ação importuna, e ao tanto precipitava. Ao final, ao contemplá-la ilustrada como dama de festa, senti a vaga sensação de austero. Quando de manhã estava lendo meu jornal e bebendo meu café, deparei-me com uma exaltante informação. Bebia e liaminuciosamente. Prestava atenção em cada palavra, entretanto somente isso chamou-me a atenção: “Hoje à noite, no teatro da ópera, iremosapresentar o tão aclamado musical: O Fantasma da Ópera. Vai ser um grande evento; Todas asentidadesimportantes do paísestarãopresentes”. Corri rapidamente para comprar osingressos, entretanto ao chegar lá recebi a pior noticia: Estáesgotado. Meio transtornado não deixei-me abalar, afinal, poderei entrevistar muita gente famosa. O horário chegou. Com meu caderno e lápis em mãos, hei agora de batalhar para conseguir um bônus. É bom saber dosbabadosdosfamosos.
  • 85. Estava um lugar muito barulhento. Parava carruagens e carros a frente da porta principal. Foi quase impossível saber quem saia deles, afinal, não era por lá o único jornalista. Estava uma correria, uma gritaria, hora ou outra, sentia o choque da luz do flashdascâmeras que encontravam-se nosombros de algunsrapazes. - Sra. Renata Christine! - Sra. Renata Christine nos de uma entrevista. Renata Christine é uma mulher que poderia se igualar ao charme de MarryMorum. No seu vestido de rendaajustado, apertado o bastante para ser considerada sexy, desfilava sobre o tapete vermelho, e encantavam os que ali passavam. - Renata Christine! Renata. Ela continuava andando, àsvezes parava com um sorriso na boca e acenando com a mão. Tinha um busto enorme e um quadril largo, e quando andava não parava de rebolar. Gracejos a parte, benevolente, dava algumaspalavras. Após ela chegava saindo de uma limusine, CarrolLetícia, cantor britânico famoso, que tivera se casado com Ana Maressa, mulher que estava ao seu lado. Trajava fraque, colete e calças largas; Em mãos uma bengala que girava constantemente. Ao sair do carro, Ana beijara o marido, e após dar satisfações, a moça fina e recatada, entrou para assistir ao espetáculo. Quem poderia imaginar? Coincidência ou não, encontrei-me com meu novo inimigo. - Como vaiWillian? - Vou bem – respondera enquanto tirava uma foto de Eric Dumas e Igor Lafine, filho de doisatores muito famosos: Igor Olanda e Carla Teixeira, atores que vão estrearessa nova peça. Circunstancialmenteocupados, mas, não mudos, voltamos a dialogar: - Como você conseguiudescobriresseoásis da jornalia? – indagou-me.
  • 86. - Acredito que da mesma forma que você, lendo jornais – respondi. Rira timidamente, e ajeitando um pouco a gola do casaco, continuou: - Estes aqui do meu lado é minha equipe e também meus amigo: Delfina Pience: - Prazer. Este a minha esquerda é Yamada Lorrel: Prazer em conhecê-lo. - O prazer é todo meu – dizia, claro, seguindo de um aperto de mão. - E estes aqui são:Geovana, Alexia e Marcello Mendonça. - Que tanto de gente! – exclamei surpreso. - O que esperava? – interveio Delfina – Já afirmara que aqui é o próprio oásis - Anotava tudo enquanto falava. Vestia-se casualmente: Um vestidomais reto na frente, entretanto, volumosoatrás por graças àspopularesanquinhas. Cabelosescurosdesfiado, uns fios ficavam para fora do penteado de costume coque. E sobre a cabeça um chapéu cheio de penas. A pele era da cor da areia, e osolhosescuros como si só – Você parece ser uma pessoa interessante – continuou - Veio de onde? - De casa – Cai na gargalhadas, entretanto, não foram afetados pelo humor. Com olhosarregaladosWillianacentuou: - Vamos parar de falar sobre isso e focar no trabalho. Olhem para lá, aquela não é Fantine? Fantine Agatha?! Realmente, aquela que avançava sobre o tapete vermelho era Fantine Agatha. Extravagante com suasmangasbufantes, laços e gola alta num V. A mão segurava um leque, fazia charme ao fingir calor. - Mais que mulher – complementou ele com um assobio. Por que tanto rico gosta de se mostrar? Quando veio passando dando a volta na rua, uma moça simples em trajes de trabalho Fantine olhou-a de baixo pra cima, enojada num desprezo. Estava anoitecendo, estavacansado. Entretanto, inquietei-me com tal aparição. Vinha correndo pela rua estreita uma carruagem de madeira nobre, e lustrada, cheia de adornos com
  • 87. suasrodasbrancas, e cavalos da mesma cor. A janela era aberta, e vi atrás de um vulto, um de uma moça de cabelosescuros. Osrepórteres interromperam-seligeiramente em suasatividadesna tentativa de abordar aquele senhor em especialque parecia sair da carruagem; Sabiam por sua singularidade ser de propriedade do Conde Vermelho e do Barão negro, Erguia-memais ainda naspontasdos pés para fixá-lo melhor. Em vestesroupaspretas, que caminhava todo miudado; Abaixo da capa havia um corpinho frágil de uma moça que ele tentava esconder. Andavam sem responderaosapelosdaqueles que ganhavam vida com jornaislocais.Eu estavaestupefato, aquele pessoal gritava: - Por favor, Barão, nos de uma palavra! - Por favor! – dizia outro. - O que você espera da Ópera Barão? Ele não respondia nada, estava muito ocupado cuidando e escondendo aquele corpinho. Conseguia ver suaspernas de baixo, andando de forma descompassada em tamancos de cristal. No caminho ele parava e fitava-o àsvezes para ver se estava tudo bem. Quando já entrou, houve a retomada do silencio e do lamento. - Novamente – afirmou – Ele não dirigiu nenhuma palavra. - Aposto – atalhou Marcello com as mãos no bolso – Que aquela moça era nada mais nada menos que Valentina Cassandra. - Você acha? – indagou-lhe. - Ouvi boatos de que a ultima vez que alguém o viu, lá estava ela. Disseram que era até possível o fato deles terem um caso. Eu não aposto, tenho certeza que é Alice. Sempestanejar, aquela conversa poderia estar sendo agradável mas, não tinha o devido valor. sentei-me no passeio, aonde decidi ficar até o termino do espetáculo. - Vai ficar ai? - Sim Willian– respondi - Vou tentar a saída.
  • 88. - Eu e a trupe vamos ir comer num restauranteantes de voltar aqui. Aceita ir conosco? - Não obrigado, estou sem fome. Respeitara minha decisão, a rua via que na penumbra ia-se marchando demasiado acompanhado dentreruasnubladas. Deveras, minha espera foi pouco diante do que eu pensava. Cabisbaixo, mais tarde, aproximou-se de mim um moço em vestesnegras: - Não vai ver a apresentação? – perguntou-me.Usavacamisa de gola alta, e nela usava-se uma espécie de lenço com seusnóssofisticados, que ajudavam assim o seu aspecto arrogante, e calçascumprida sem sombra de si quer uma ruga. Ao certo encontrava-me num estado deêxtase; Quando dirigiu- meessaspalavras a minha pessoa o animo outrora escasso voltou a tona: - Barão? - Sim? - O que está fazendo aqui fora? O senhor não acabou de entrar pra ver o espetáculo? - Quem entrou foi o Conde. Foi só uma despistação – ria enquanto pegava do bolso um charuto – Meu caro irmão não gosta muito de multidões, ele se sente abafado. Enquanto inalava a fumaça seusolhos avermelhavam-se. - Quer entrar comigo? - Não consegui comprar o ingresso. - Ô pobreza! Não faz mal –adiantou-se prestativo,entendendo- me a mão para ajudar-me a levantar. –; Meu camarote é especial. Háespaço pra você. Precipitei-me ali. Afinal, não sou um poço de simplório.Entretanto, tendo em conta minha situação, o que não convinha, era não aceitar, declinar; Quem sabe encontrar-me-ia com minha Alice? Caminhando pelossalões seguidos de corredoresiluminados. Os que seriam entretidos aqui se vestiam em gala. Oscamarotes com certeza foram osmaisconcorridos. Tinha um em que pensei
  • 89. ter vistoprincesa Lucia e o príncipe Denis; Com certeza todos os burgueses da cidade estavam presentes. Passando num andejarquase sem fim, avançamos por escadas e corredores. Nunca vi tanta gente na minha vida; Até por que, nunca fui a uma opera. Estava tudo escuro, e aonde passávamos sua voz me conduzia. - Já estamosquase chegando... Um pouco adiante, a luz por traz de uma cortina. E, aqui, a chegada ao camarote. - Não é uma vistaestupenda? – perguntou-me. Quando fitei o palco, vi com maus olhos a ideia daconcordância: Daqui todos de baixo parecem só um pouco maiores queformiguinhas. - Tente usar um binóculos – sugeriu-me uma voz incógnita. Estava tão entretido com a paisagem, que não passara por minha cabeça a ideia de examinar aquele camarote. E ao virar-me, deparei com ela. Ele e ela. Ao seu lado o Conde vermelho trajado de Barão Negro. Aquela é minha Alice... Fantasiador ou não: minha tão almejada Utopia. Sentada sobre a cadeira, fixava vidrada aquele espetáculo inconveniente. Quase 15 quilos de roupa. Em crinolina e bastantes anáguas, seu vestido agora mostrava-se demasiadovolumoso. As mangasextremamentejustas e cumpridasenfatizando-lhe osombroscaídos, e acima deles um xale de cashemire.Escondendo o rosto numa máscara, acha que assim não a reconheço? Por que não fala comigo? Por que finge que não me conhece? Não sabe o quanto sofro por ter pensado que até agora era uma ilusão? Uma verdadeiraesculturaartística. Demonstração da beleza pura. O vestido branco de renda combinava com o chapéu. Seuscabelosestavamcacheados. Ate suasmãosestãocobertas: Algumaspulseiras enfatizavam asluvas e a presilha de marfim. No pescoço algo me chamou a atenção: Um rosário. Não pareces ser religiosa, isso me é um espanto.
  • 90. - Quer o binóculos? – Perguntou novamente Conde Vermelho, que tinha-o em mãos; Por certo me emprestaria se eu o aceitasse: - Não obrigado. O grito agudo da cantora quase fez quebrar meustímpanos. Mas, ela continuava ali; Abundante em delicadeza e encanto, me enlaçando por teus suspirosprovocantes. No palco tinha apenas um cara de roupa preta e máscara branca em cima de um bote, e levando uma moça junta. Um tanto curioso, rompi com minha timidez: - Do que fala mesmoessaapresentação? - O fantasma da Ópera... – ia esclarecer-me o Conde, todavia Alice o interrompeu: - O Fantasma da Ópera conta a história de um homem talentoso, mas, acorrentado ao pesar de sua feiúra. Apaixonado e não correspondido. È o amor da vida dele, foi ele quem a ensinou a cantar. Um anjo da música. Ele era mal, muito mal... Para ser bom, só faltou que ele fosse amado. Sabendo um pouco mais sobre o musical, não é de se estranhar, que ela, parecia tão preza a àquelasmúsicas que mais pareciam clamar de lamurias. - Que maravilhoso! – exclamava encantado - Você já vira esse musicalantes? - Não nunca – respondeu-me. - Como então torna-te abundante nesteassunto? - Não sei – declarou num solene padecer – Sósei que sei. Surpreendente... Sentei-me perto dela, e a acompanhei até que o espetáculo acabasse. A acompanhei... Pois, no final de tudo, meusolhos só ficaram presos a minha insanidade: Alice.
  • 91. XVII Carruagem Fantasma - : - Onde a lua atingira o céu de quartzo, tudo era feito de esmero; Ira de lavar minha alma; Há de espalhar a escuridão... Era tudo um canto de dissimulação, A melodia serena onde a paz foi resguarda-se. Onde foi a tormenta? Jaz aqui o hiato. Este céu não ira nos escutar? No final, não se ouvira: “Aleluia!” - : - No final de tudo, consegui marcar a entrevista para uma consagrada quinta feira. Aquela noticia devia de ser comemorada com festa! E por ventura foi. O fim de semana foi uma festa: Na casa de Roberto tinha uns 5 galão só de cerveja, e para acompanhar churrasco a vontade e salgadinho. Algumas criaturas banhavam-se em chope. As mulheres, seres mais refinados naturalmente preferiram tomar do vinho e vodga, em copos cristalizados, transmitindo sonoridade emergente. Eu é claro, ataquei os doces; Não tinha nenhum quando chegei, mas, Helena deu um jeito:
  • 92. - Aqui folgado, não sabe levantar da cadeira? – dissera, colocando o prato na mesa. - Onde encontrou tanto brigadeiro menina?! - Babava só de ver o produto. Acho que o único tipo de mulher que teria alguma força sobre mim, além de Alice, haveria de ser uma quituteira. Os doces fazem uma pressão forte sobre minha pessoa. - Bem – exclarecer-me-ia a interlocutora – Tive que em troca fazer um sanduíche pro Roberto... Mesmo não tendo dito grande coisa, conhecendo-a bem, sei que tem malicia em suas palavras. Parece que hoje intencionalmente disse adeus a arrogância; Sei que tal artifício gerara mudanças passageiras. Pois sua mudança é passageira. Helena sempre fora soberba, entretanto raras vezes como agora dissipava dela suas más manias como a do teu gosto sádico. Uma verdadeira caixinha de surpresas. O vestido cinza púrpuro que usava na ocasião era feito de tecido indiano nobre. Com tanta gente dura, ela como todos nós presentes, vou exagerar, malditos mortos de fome que vieram só por causa que a comida era grátis, onde ela arrumava dinheiro para esse luxo? Será para sempre um mistério... Em tuas orelhas grandes e salientes haviam presos dois brincos de argola. Isso fez-me recordar da moda do piercing, só de pensar da agonia. Ocorreu-me, que, enquanto todos estavam dançando, conversando, e nadando na piscina; Nós éramos os únicos introvertidos. - Lucas, vigia pra mim minha bolsa? - Até você Helena! Vai me abandonar! – exclamara magoado. - Larga de ser exagerado. Se não quer se divertir tem gente aqui que quer. Mas pô, tão ouvindo forro universitário. Na pista de dança tinha figuras marginais demais para minha pessoa. Quem sabe poderiam querer tentar me aliciar? Eu que não vou pra o lado ruim da força. Dentre tais pessoas que contemplei, estava uma moça num short curto e meias verdes; Nas costas umas azas de mentira imitando morcegos, na blusa tinha estampada a figura
  • 93. de um emblema da policia real, e na cabeça um chapéu do tipo. Ao seu lado estava um gordo cachaceiro, cheio de espinhas, com um moicano azul, e pra piorar cheio de tatuagens no corpo – Tava sem camisa – como não me assustar? Poderia ser convertido por essas tribos. É como doenças, são contraídas com maior facilidade na piscina. Digo isso por que, o meu próprio amigo fora convertido nesse mesmo instante! Gustavo esperto aproveitara que poucos estavam olhando e tentou tirar de uma menina a casquinha, como se ela por acaso fosse um sorvete. Uma festa para minha pessoa e só eu quem não esta se divertindo... Ta pior que no ultimo circo em que fui: Tão ruim que nem o palhaço ria”. Pus-me, então a examinar o local, a vista não era lá essas coisas mas, atiçava-me o ímpeto de investigar e estudar as pessoas no mínimo detalhe. As vezes me acho idiota em querer colocar mistérios em tudo. Mas, quando é um de verdade me aprofundo como se não houvesse outra razão na minha vida. Escrevi essa estória de decepção para mim mesmo, pois esta tornou-se meu suspirar. O lugar era muito grande, no mínimo esta ala em que estamos. Ao passar pela porta estreita tu tens visão de um gramado verde orvalhado; Estatuas de monstros e palhaços ao lado no momento podem assustá-lo, mas, não exalte, é uma pequena interatividade o mini-golfe. Adiante fazendo-lhe contorno, uma estradinha de pisos brancos. Receptivo, ainda a frente, um salão amplo, acabana caracterizada havaiana fixava-se; Vinha-se e ia de lá freneticamente empregados que levava aperitivos as mesas dos convidados, e a direita, a piscina grande e funda. Atrás da cabana podia-se ter visão a churrasqueira de tijolos, perto dela a porta da casa e a do banheiro publico com um sobrado e cobertura. Estava mais que na cara, que, Roberto vive uma vida luxuosa, para falar a verdade esse recinto é a ultima herança de família que Roberto tem. Ela fazia parte da burguesia e perdera bastante
  • 94. dinheiro na passada terceira guerra.Pelo tanto de contas só não venderam a casa por que o avô suplicou em testamento para que esta não fosse vendida, e se desobedecessem tornar-se-ia tesouro nacional, uma espécie de museu já que era tão antiga... O que era aquilo?! Saindo do banheiro, Roberto em seu terno sem colarinho, tinha acompanhado uma moça de vestido rodado que ofegava. E ele pegando o lenço tentava limpar as marcas de batom do rosto. Ela avançou para além da cabana abanando-se com um leque, quando ele, percebera meu espanto, argumentou: - E ai? Como ta sendo a festa? - To pensando em já ir embora – confessei. - Você é doido? Nem si quer dançou. - Faz tempo que não danço... Olhando para os dois lados, um tanto receoso, creio eu que o que diria entraria pro sigilo. - Sabe aquela mulher ali? – apontou pra a de vestido rodado. Cochichava com a mão na boca. Fora-me quase impossível compreender seus gestos. - O que, que tem ela? – indaguei estranhado. Não quero admitir, mas, ando um pouco curioso. Fizera breve pausa pra beber a cerveja, depois prosseguiu: - Ela tem mais duas irmãs gêmeas - Sério? – sempre quis ver gêmeas. - Elas estavam brigando por mim – afirmou orgulhoso – Esta bem, não estavam. Mas, dei trato em uma delas, posso imaginar como seja as outras. - Elas estão aqui na festa? Seus olhos cintilaram emocionado; tirando um lencinho do bolso, enxugou algumas lagrimas inconveniente, que eu intrigado fitava-as despretensioso. Se por acaso ele estivesse mau iria querer socorrê-lo: - Que foi Roberto? - É que não estou acreditando – declarou – Enfim você se interessou por alguém.
  • 95. Tanto drama pra isso? Estou por desgraça do destino vivendo uma novela mexicana? - Não se recorda de Amanda Borges? – falei num sopro, enquanto meus dedos flexíveis mexia e remexia a taça de vinho, e que por vez ou outra, tornava-a a boca. - Sim, recordo-me, mas, desta tu deve só ter ganhado o nome, por que o numero acho que não tens coragem de pedir. Não é ter coragem, é que eu na verdade nunca pensei em pedir o numero de Alice. Desconfio do fato dela ter. Uma personalidade tão importante quanto ela haveria de deixá-lo desligado 24 horas por se temer a invasão de privacidade. É o que me convém deduzir, após tão abundante revoltas por uma matéria em jornal. - Esta interessado pelas gêmeas? – atalhou ele a perguntar. - Por que pergunta? – retruquei. -Se essa casa não fosse da família faria dela um motel, o que é suficientemente melhor que o trabalho de jornalista.Se essa festa não fosse especial, faria dela uma orgia. - Traduzindo – refinei tuas palavras – Vós és o rei dos pervertidos. Erguendo-se em pé, saudou ao mostrar-se: - Obrigado, obrigado – agachava até a cintura. Na nossa brincadeira eu gritava “Bravo” e entrando no personagem este continuava a agradecer fervorosamente. Riamos destrambelhados enquanto todos fixavam-se em nós compartilhando de nossa felicidade ou transmitindo desaprovação. - Então, ta interessado em uma delas? Posso arrumar uma pra você... - Me deixe em paz seu impuro – recusara a oferta. Insistente, não extrapolou ao formatar as idéias: - Trarei-as até aqui, com a única desculpa de apresentar-nos a quem dedico essas festa. Se interessar-lhes uma delas, é só cair fundo. Fiquei pensativo.
  • 96. Tal proposta chegara irresistível aos meus ouvidos. Mas, se por acaso no momento eu não ver se não Alice? Seria capaz dela assombrar meu intimo assim como meus pesadelos? Distinta vontade de cerrar os olhos para vê-la em pensamentos levianos, mas, este não é melhor momento para isso. Me tornara um alienado por esta praga, pra falar a verdade sempre fui. Parece que ela age como um anestesio, um motivo incomum para a felicidade. Roberto estava ali me olhando e precisava de uma resposta: - Esta bem – decidi. De súbito tinha lá essa hesitação, mas, não custa nada tentar. - Aceita mesmo? - Sim – confirmei. 5 minutos depois, veio acompanhado dele, as três moças – dentre elas a de vestido rodado que ele comeu – Ficara surpreso com estrondosa semelhança. Muito, muito surpreso. Confundi- las, não era meu receio, não era necessária artimanha significativa para que pudesse diferenciá-las. Todas usavam roupas e penteados diferentes. Todas tinham cabelos castanho claro, eram baixinhas, seus olhos bizantinos cintilantes, a pele cor de areia, e uma boca pequena e sedutora. Cada uma tinha seu charme especifico, cada uma tinha uma mentalidade. Mesmo com a aparência, todas eram diferentes. - Aqui meninas – começou Roberto a nos apresentar – Esse é meu amigo Lucas. - Muito prazer – disse a primeira. - Muito prazer – disse as outras duas em coro, que riram pela exatidão do momento. Todas eram maravilhosas! A mais assanhada claramente era a que tivera transado com Roberto no banheiro, não largava ele, parecia temer que as irmãs fossem roubá-lo. Fico pensando se pessoas desse tipo não tem vergonha de ficar se agarrando tanto em publico por que tem platéia.
  • 97. - Muito prazer – correspondi á saudação em expressão simpática – E vocês são...? - Eu sou Jordana – respondeu-me a primeira. - Eu sou Luciana – respondeu à segunda. - E eu sou Fabiana – pontuou a terceira. Impressionante o fato dos nomes rimarem. Não é nada demais, é que só achei legal. A que mais me encantara por sua vez, fora a de vestido de bolinha. Jordana estava no rodado, Luciana no prendado e ela, Fabiana, num de bolinha a moda dos anos 80.Transparecia-me esbelta e sedutora. Em passos vacilantes, circulava minha pessoa. Quando sorria, emitia um brilho convincente de doçura. Deveras, corrompera-me de tão fascinado. - Então – começou Luciana a indagar. Intelectual como era, tinha também seus dilemas – Fale-me algo interessante sobre você. - Não tenho nada interessante pra falar – desculpei-me desajeitado – Espero que me perdoem por isso. Ter que ficarem aqui pra tentar conversa com um dezassuntado. - Tem namorada? – atingiu-me Fabiana com uma pergunta dificil. - Não, não tenho – respondi sincero. - Quantas já teve? – atalhou agora Luciana interessada. Não é de meu feitio mascarar a realidade. Mesmo que seja um joguete emocionante e convidativo. Sempre temi um dia viciar em mentiras, por isso a faço com pouca freqüência. Sabia que poderia tirar a risada de alguma, mas, tomei coragem pra responder: - Para falar a verdade, só tive uma. Jordana que na hora estava bebendo um Martini engasgou: - Fala serio?! Só uma? Não acredito não, és muito suspeito. - Ele fala serio môzinho, ele num é de mentir não – informou-a Roberto altruísta. Á serio? Não me diga que já começaram com os apelidinhos... Que lindiu, vão pra casa assistir Titanic! Pera... Essa é a casa dele; Que escoria!
  • 98. - Mas você é um santinho! – comentou Fabiana em tom perene. Falou com tamanha intensidade que ficara até que meio sem jeito: - Sabe o que é... – justifiquei-me – Sou muito quieto, isolado. - Mas, isso não justifica um gostoso como o senhor perambular pela cidade. Agora sim entendo por que ele quis apresentar-me elas, estão desesperadas pra desencalhar, nem Helena é tanto assim, creio eu, que se Hector não tivesse que casar com Olga ela tentaria uma chance. Foi justamente ai, que Roberto estampou na face o sorriso cínico, mas, não o fizera por mal; Emocionara pois sonhava com esse dia. Agora entendo também o por que de Jordana estar vigiando tanto Roberto. O mundo dos carentes por compromisso esta muito difícil hoje em dia. Por isso muitas empresas amorosas vem ganhando dinheiro, contudo, duvido muito que estas ganhem mais que as boates que Gustavo e ele freqüentam. Não fui tão forte no quesito de oprimir os hormônios. Com aquela pessoa – Fabiana - a cada segundo dizendo algo estrondoso no ímpeto de seduzir-me seria difícilagüentara excitação. Como a festa era pra mim, Roberto permitiu-me ir brincar com a moça num dos quartos mais luxuosos da casa. No quarto, a mobília era muito prezada por teu valor: A janela era uma porta de vidro contornada por uma cortina ondulante, onde que ao acaso dava para uma varanda com vista magnífica das estrelas. Na parede cartazes antigos de valores inestimáveis; Por certo, foram os únicos que restaram, por isso é considerado perene no quesito de luxo pra estadia. Ao lado da cama, se tinha decorado duas estantes com abajurs. Lençóis grossos e confortáveis harmonizavam já tanta premeditação. A nossa frente um sofá grande com uma mesinha de centro, onde era-se visível um monte de quitutes e bolinhos.
  • 99. Uma porta pra um closed sem fim, também era atrativo, ocultava-se junto a suíte imperial. Entretanto, aqueles beijos não me saciavam. Aqueles gestos não me satisfaziam. Quando estávamos nos despindo; Eu ajudava-a no espartilho e ela com o cinto. Mesmo que seu corpo tivera me levado a atração fatal, meu coração continuava de outra pessoa. E enquanto ela gemia compulsoriamente, já naqueles olhos revirados, gritando na hora do prazer, a voz dela mudava, ao possuí-la emitia uma onda profunda que me gerava uma sensação controvérsia, que ecoava aos meus ouvidos. Ao clamar pelo bendito prazer, teu rosto desfigurava-se tomava imagem de outra. Ao se contorcer enquanto lhe beijava e mordia os mamilos vorazmente, não via se não outra pessoa. Eu tinha razão... A altura do campeonato não haveria de ser diferente quando se embriaga pelo cheiro de Alice. Não estava me deitando com ela. Estava vivendo a ilusão do impossível. *** Na volta pra casa, trajando uma prazerosa caminhada pela rua de tijolos cinza, fui retalhado por uma ruptura na minha monotonia. Oficio complexo de demasiado esforço... Tudo naquela noite parecia tão calma e nostálgica. Ao certo eu a achava monótona e a cada passo tentava me conter pelas minhas fantasias, proteger-me de mim mesmo: Ficar sóbrio quando se fica tanto tempo sem dormir é difícil... Ainda mais quando exala o aroma daquela peste; Uma praga de fatalidade. Mas, ao próximo passo, escutara um soar lento e atenuado:
  • 100. - Lucas? És tu Lucas? Forte e com muito animo, cá estava com um sorriso entre os lábios: - Você por aqui? – perguntou-me a simpatia. - A minha casa é aqui perto - Que coincidência! Eu também! Seu ideal era aproveitar o momento para desabafar de complicações diárias; tomava assim por mim uma sensação desgostosa do importuno. Só por que tivera o visto uma vez significa que temos intimidade o bastante para isso? Era um homem baixo, de pele morena e adepto a muitas manias. A de limpeza, por exemplo, levava consigo um pote gigante de sabão em gel, um detergente, um esfregão e um desinfetante; tudo quanté produto higiênico na mochila. Tinha na face feições camaradas, entretanto desde o dia que o fitei, fui transbordado a repugnância. Não há si quer um pingo de caráter comparado ao que dizia, e eu, calado, escutara sem queixas; a altura do campeonato mal conseguia acompanhar suas palavras, que de tão intrudido embaraçava-se. Compreende-las seria tão difícil quanto escrever seu nome numa sopa de letrinhas... As letras não ficam paradas quando a colher a toca o caldo. Quando continuava a conversa num solo, eu por ventura dava uma olhadela por entre as avenidas. Algo estava vindo... A noite estava brumosa, continha suas formas e contornos. Mas, estava vindo... Um berro abstrato... O relinchar dos cavalos... Aquele vocal obscuro... A marcha fúnebre do submundo... Numa mescla faziam-me delirar! Atalhando por dentre ela, atento ao tom do volume; Trotava em turbulência e rapidez, teu som ressoava mesclando a luxaria, e
  • 101. arrebentando todas as cordas vocais. Uma voz de soprano. Já atingira o mais alto desta desafortunada estratégia. Lá vinha ele... Lá vinha ele... Imóvel, não haveria como controlar o tal estado de letargia. Focava-me para o incompreensível som forte e metódico do violino do encarcerado. A ópera dos mortos, o som do terror, a melancolia que transmitia fazia com que meus cabelos eriçassem. - O que houve Lucas? Por que paraste tão repentinamente? Agora não sou o único atordoado: Atônito, estremeceu. O som aparecia mais forte, demasiado intrudido exaltando ao gótico discernimento do fatal. Uma trombeta do juízo final. Eu não tinha medo, mesmo que aparentasse, não haveria de ter, não tremia, não me movia. Posso estar me contradizendo, mas, medo não me parecia à palavra correta para o que sentia... Nem tão pouco algo similar. Fiquei parado contemplando as portas enfumaçados com o odor de insenço. - Vamos embora Lucas! – gritou-me Marcello. Fingi que não escutei e aproximei-me. Do obscuro ao bizarro: Nota: A carruagem não tinha condutor. Correra frenética por dentre a escuridão, ao certo, aspirava uma réstia de luz. Parou a nossa frente. Outrora quando fizestes isso, foi como um ranger do portão no cemitério; Uma das rodas metálicas estava quebrada. Descarregaram sobre nos a culpa. Os cavalos escuros com seus olhos vermelhos nos seguiam. Não haveria como ter medo, de alguém que nunca amou. De algo que não era fruto de meus sonhos Raciocínio estranho; almejava transpor uma continência a aquela vista lúgubre de banal, algo presente em mim mesmo.
  • 102. Estava entorpecido pela erronia. O disfarce da bonança apresentava-se com certos delitos, uma fenda pequena ao correr da compreensão. Estaria querendo apagar o mal do mundo? Uma borracha não parecia o bastante... Marcello levantou a perna pensando em correr, mas, assim como eu, estava como petrificado, o corpo não obedecia ao que prezava. Apreciava, intrigado tal percussão. - Lucas vamos embora daqui! – repetia aos berros tentando puxar meu ombro. A porta pintada como um mosaico em tons escuros e contrastados a cor negra, as maçanetas pela qual prendia estava a silhueta de uma rosa, banhada pelo rigor brusco do sangue duma incerta alma penada. Abundante em ressentimento... Quando ao ímpeto do desespero, abandonando-me seria o melhor caminho, deu um pulo pra traz, a porta abrira de supetão. - Vos pro peccato? Estremeci. Dois fantasmas, um negro de máscara vermelha, e outro vermelho de máscara negra. Mirava-nos estupefato. Eu estava em choque. Não sei o que ouve com Marcello, hipnotizado andava rumo a sua direção. Estava claro que a ambição se projetava. Uma figura ilusória do dinheiro o seduzia. Levantando um pé seguido do outro, gemia e tinha as pupilas dilatadas. Seria este homem um ser tão fraco de espírito? Meu corpo já estava tremendo. Vendo e reevendo estas figuras assombrosas, que enlouquecem. Tensão extrema, o foguete interpretativo. Obvio que aos poucos me aprofundava nas sensações miraculosas do desengano. - Acorda Marcello, acorda! – gritava para tentar tira-lo do transe.
  • 103. E ele não escutava, algo fechava seus ouvidos, tornando-lhe incapaz o discernimentos. - Acorda! Acorda! Cada suplica não conseguia alcançá-lo, cada ação minha já estava longe de me atender moral e fisicamente. Ao ímpeto de despertar-lhe da consciência, tirei velozmente um estilete do bolso ameaçando os atacar. Mas, já era tarde demais... Já em sua custodia estava por trancar as portas aterradoras, quando eu nervoso e abismado avançara nos fantasmas que me fitavam envaidecidos. Com um pouco de sorte, consegui ter um deles em mãos. Este arregalou os olhos brilhantes, e proferindo um balbuciar incompreensível, me Jogou para fora e trancou a porta. Cai de costas, resultado disso foi algumas pequenas esfoliações O barulho extinguirá na correria. Estendia-se uma neblina cumprida e úmida, resultado do incenço que queimava na carruagem. Tentei segui-la, mas, era rápida demais. Ainda longe, escutava-se o relinchar e gritos horrendos. Ainda em estado de êxtase por tal exasperação, não renunciei a atitude de persegui-la... *** Extingui-se sobre mim, indefinível ressonância. Ainda mantinha- me agitado, meus membros não se fizeram de rogados. Tremula, minha mão ainda com o estilete sentia vontade de cortar aquele pescoço; Um fantasma de cor negra e mascara vermelha. Frívolo mal terminara aquele ato, estava em outro. Mantivera-me naquele ritmo, expressava de súbito uma repugnância feroz para aquela carruagem. Ao avançar do passo, cada vez mais o som de suas rodas rangendo e trincando chegava ao psicológico do insuportável.
  • 104. Nós não fomos às únicas vitimas. Virando a esquina, vira um homem sendo levado. Não pude reparar tua fisionomia, fora algo tão rápido que, ao cerrar as pálpebras desaparecera. Continuava correndo... Passei por becos infestado de ratos e fezes. Adiante, lata de lixo sobrecarregadas. Sem tetos dormiam acomodados em pequenas caixas de papelão, que improvisavam como suas moradias. Obvio que ao parar, arrumara a isca para a próxima vitima. Um homem alto e imundo. Vestindo em trapos e cheirando a cachaça, caminhava por sua direção. Uma emboscada sem compaixão. Um acervo insuportável de sensações distintas. Tudo acontecia diante de meus olhos; Eu estava sentado escondido atrás de uma lata de lixo contrariado. Ao meu lado tinha também um casal de moradores de rua, que tremiam pelo medo e pelo frio da noite escassa. Muito queriam a luz do sol, seus corpos entrelaçados um no outro. O homem tinha queixo grande e lábios grossos, sem notar minha presença beijou a moça fervorosamente, enquanto ela dormia presa a uma canção de ninar imaginaria, que transmitia um pouco de felicidade diante de tão poucos recursos, uma fuga da realidade. Uma escapatória, assim como a humanidade dela a necessita, agora é o que as pessoas mais necessitam ao se darem de cara com aquela carruagem. Não há quem ele perdoe; Mais tarde levou também uma moça debilitada e doente. Seus cabelos eram ruivos e a pele pálida, ignorante. Desidratada pelo frio e fome. A miséria nesse mundo torna-te cada vez mais arruinado ao presenciá-la. Minha respiração já doía, minha alma já doía; Perseguir a morte é algo complicado. Principalmente por que ela se da no hiato, o direito de concretizar sua profecia dentre as emboscadas. Passando uma rua foi uma moça de calça jeans e suéter de seda, foi levada. Cabelos encaracolados e ondulados, pareciam flutuar quando ela foi por acaso atrapada em suas mãos.
  • 105. Os cavalos não cansavam. Pareciam dragões gloriosos expelindo fogo pelas narinas. Por que não ajudei ninguém a escapar? Estava ainda congelado pelo sequestro de Marcello, notando não ser o único ser que satisfaz tal infâmia, cabe a mim encontrar a raiz do problema. O sumiço de tantas pessoas! Deve de encontrar a solução através da raiz do problema. Ocorreu-me que, ao avançar ruas devastos s, dei-me com outro cenário, e outros desalmados. O grupo pequeno de adolescentes, trajando roupas coloridas e justas, caminhavam presos pelas juvenis conversações. A mocidade prefere permanentes, cabelos arrepiados... Bebiam e conversavam. Havia ao todo sete mulheres e cinco homens. Ao certo um espertalhão tentaria dar uma de paspalho com as meninas, ou, uma amiga ficaria de segurar a vela. Alguns pareciam drogados, tanto é que não ficaram chocados ao parar da carruagem, em suas direções. - Ô Saiques – murmurou uma das moças. Que embalada se encontrava pelo casaco de pele de onça. - Qui foi broto? - O que é aquilo – apontara o dedo na direção da carruagem. - Você não tem um pingo de cultura Rebecca – retrucou um dos homens. Este tinha óculos escuro, bandagem e um Black Power loiro sinistro. Mais sinistro ainda foi a expressão que a moça fez ao dirigir-lhe a palavra – Essa é uma carruagem! – dizia, demonstrando com as mãos. Se mostrava envaidecido. Urgh. Que repugnância tive de teu feitio. - Claro que sei o que é uma carruagem! – Retrucou Rebecca elevando as sobrancelhas – Bianca você também reparou como ela é assustadora? - Não – respondeu-lhe. Os olhos zonzos cerravam-se freneticamente – Eu sou míope. Não se esqueces que perdi meu óculos.
  • 106. - Saiques! – argumentou outra patricinha perdida aos poucos 15 anos – Melhor sairmos daqui, eu to com medo! – emendando o braço ao seu. Confrontou-lhe teus olhos amorosos. - Não fique assim minha princesa, não vai lhe acontecer nada. - Concordo com a Rebecca – redarguiu. - Patrícia, vamos aproveitar! – exclamou tentando contornar a situação. Que sacana, estava na cara qual era suas verdadeiras intenções. Posso parecer rígido e careta, mas, foi por que nunca tive a adolescência. E hoje cada vez mais ela se extingue como algo involuntário, já que depende da moda de décadas e séculos. Dando um passo pra trás, e pisando na saia alta com seu sapato alto de bico fino e salto de madeira importada. A outra um pouco atônita, desdenhou um gemido. Tivera tido um arrepio, tua barriga se contraio. Usava um topi que mais parecia um sutiã ou um biquíni azul. Tão jovem e vestindo-se assim... Os únicos lugares que não acho as exposições de corpos errada é ou o necrotério, ou nas boates de estriper que o Roberto e o Gustavo frequentam. La eles até dão cartão fidelidade, dando descontos para todo o tipo de barbaridade tanto fora, quanto dentro de quatro paredes. Malicia ilimitada para os babões pervertidos de plantão! Desde que o presidente se casara com uma prostituta, ela pegou as rédeas de tudo e licenciou o que chamava de “profissional do prazer”. Como se, pra dar prazer necessitasse de diploma pra profissional. Essa sociedade ta uma porqueira. Alguém precisa tomar uma atitude. Prazer pode-se encontrar em qualquer lugar, mas, e romance? Como já falei já não se acredita mais em amor verdadeiro, e sim gostar. São poucos os que provam desse sentimento bélico e ardente. È tanto um sentimento quanto uma dor... Vamos deixar isso de lado, voltemos ao que interessa: No final todos os adolescentes foram pegos pelas mãos da atrocidade.
  • 107. Dois homens... Sete adolescentes... Cinco adolescentes... Até aqui o total chega a catorze. Seguiu-se, que a carruagem não parou. A cada badalar do relógio ela espreitava a presa, como se ela fosse um peixe, dava- a uma isca, e levava-a inteirinha pelo anzol. Mas, algo me intriga, afinal: Como tantas pessoas puderam se deixar levar? E também, como coubera tanta gente? O coração parece que me quer sair pela garganta. Não fumo mais sinto uma vontade de fumar, involuntário desejo, o de queimar com os pecadores. Isso faria- me morrer mais sedo não é mesmo? Caminhando mais longe, embriagado pelo desespero, já nãoagüentava os pés exaustos. O retrato de um casal foi levado... Em seguida uma empregada, que antes passara pelo teatro da ópera... Meu corpo agora tornara-te incapaz de qualquer ação. Sentei- me ali no passeio, quando já não suportava os dedos doloridos, me prestei a fixar a imagem da carruagem rondando a escuridão, iluminada por poucos lampiões na rua de cascalho branco. Avançando por de baixo de uma ponte, sumiu. Desistir não é meu lema. A cada passo, a cada minuto do relógio, quando via a carruagem, transparecia a eternidade. XVIII Hora do Julgamento - : -
  • 108. Tudo se foi... Até os anjo optaram por nos abandonar. Desprotegidos em nossas preces; Por mais que nos reste á esperança desgraçada, ela tão ingrata nos quer manipular. Para ver teu rosto tenho de pagar mais. A vida é muito mais que uma simples brincadeira. Mas, não há mais volta mais... Sem brincadeiras o mundo seria nada. Não há mais volta mais... Quando ilustrou-se a paixão - : - Outrora, quando acabara o espetáculo; As palmas fervorosas seguidas por estímulos chegaram-me meio indecente pelas mãos da pequena. De pé batia as mãos com um definhante sorriso, que soava tal qual tormenta de um lamurio. Não protesto o fato de ter sentido uma vontade louca de matá-la... Ninharia de criança... Talvez ela quisesse que eu não estivesse aqui, que teu disfarce não espose lacunas. Sou assim tão egoísta em me sentir assim? Correto? Apaixonado e conhecendo a dor... Já não consigo me reconhecer. Ainda recordo-me de teu desprezo. Meros mortais – deve ficar pensando. Por que tu és uma deusa, e quando erra não passa de simples artifício. Adornada pelo véu do pecado... Não tem importância. Pois aqui já me sinto viciado pela tua presença. Na saída o Conde e o Barão até ofereceram-me carona, mas, não aceitei. Por que ela, ao teatro, batendo palmas aos atores que saudavam de pé, si quer teve o ímpeto de olhar-me nos
  • 109. olhos. Outrora ia silabar teu nome, quando interrompeu-me fechando a cara num desconforto. Aqui ao crepúsculo, seus nocivos olhos verdes me cação vociferando por emergência; Me perseguem; Uma emergência oculta e tão pouco articulada, uma perturbação maior que a do espartilho que deforma-lhe a cintura. A porta da carruagem insiste: - Não aceita mesmo uma carona? Não antecipei em recusar: – Não, obrigado. - Como quiserdes – dito isso, o Conde entrou a carruagem com Alice embalada a tua capa. E lá chegava o Barão no seu humor estável, gritando ao cocheiro que partam o mais rápido possível. Mal sabia eu, que estava em perigo de morte. Com Alice ao meu lado, sei que sempre estou... Mas, amo ter medo, e por certo haveria de amar aquela a quem me transmite. Entretanto, o risco abundante se generalizava, e eu incapaz de apagar a barreira imposta pela falta de sossego, não compreendia os avisos que vinham de dentro de mim, e que nos últimos segundos me impediriam de cair no abismo. O ímpeto de perseguir o desconhecido adocicava minha boca sedenta de um sabor entorpecido de refinado. Como explicar? Se tudo que provinha de meus pensamentos tornaram-se demasiado alternado. Parei na porta da biblioteca. O que presenciava acabava por quebrar uma lei da física: A porta duplicou de tamanho. Sei que poderiam ter trocado a porta, mas, não teria espaço suficiente em tamanha arquitetura. Não me convém conjecturar tal deslize. Não tem como conter- me, tão pouco ainda meu frenético desespero. Não se é fácil omitir provas: Ali jaz o covil de tudo, foi lá o ultimo lugar onde a carruagem passou essa noite Tentei virar a maçaneta, sem sucesso, esta estava trancada. Tentei mais algumas vezes, e mais algumas vezes até dar-me por vencido. Droga! Se eu tivesse um grampo, tentarei a dos fundos.
  • 110. Chegara lá em passos sorrateiros. Tomado por uma sensação irrelevante, de uma hora para outra brevemente retardava o calafrio. A imaginação sempre foi é a corrente pesada que carrego. Não, não a destino pra mim... Quando achava que iria estar ilustrada na minha vida... Virando a maçaneta surpreendi-me ao vê-la aberta. Um tanto escancarada rangia numa sonoridade abundante do delírio. Já não cabia-me o certo. Por que aqui já hesito? A atmosfera densa não é capaz de fazer- me exaltar. Medo do desconhecido é algo que desconheço pois se ela fosse algo ruim, seria algo desnecessário. Algo martelava minha mente. Desmesurável são as palavras que aqui dito. É quase impossível segurar meus impulsos enquanto se presencia eventos profanos. Não podia acreditar que estava por confrontar meus pesadelos... Deus tenha piedade de nossas almas. Do clarão quedou-se o apagão de minhas expectativas: Onde estão as rosas que tanto enfeitaram o lugar? Não seria pra sempre o nosso santuário? Bem me dissestes que não seria por muito tempo, passageiro. Flexivo meu corpo exausto se contorcia enquanto na face demonstrava meu repudio. Aquilo tornara-se aterrador. Cada cena apresentava-se a minhas vistas como um pavor mudo que apodera-se de mim,algo nostálgico e distorcido. Onde estava a luz? Aquele lugar estava tão escuro. Não, não era o mesmo lugar:Observara meticulosamente as paredes de madeira: Estavam gastas, cinza e cheia de rachaduras, seria isso um dejavu? Estavam enrolada nas cruzes um monte de correntes grossas metálicas, aparentavam-se enferrujadas, que tilintavam na minha imaginação fértil.
  • 111. Ainda entorpecido, fixava o céu profano, a única luz. Eu hesitava nos passos, pestanejava por que aquilo mantinha-me no segredo desagradável, aquilo me mantinha no apreço da consideração e da consequência. Por acaso seria eu o culpado? A luz da lua batia no teto de vidro, transmitindo aura pura de resignação. Escutava o som ecoar de um relógio perdido. Os batimentos eram fortes e ignorantes, violentava minhas condutas, sendo que de uma hora para outra, alisava as paredes espessas. Sentira um tremor. Feição singular fora estampada por mim quando a lua antes branca como a neve, tornou-se vermelha, e descolorira o céu azul. Não poderia acreditar no que vira. Esfregando mais um pouco os olhos compulsoriamente, clamava nitidez como nunca antes. Mais, fora necessário para que eu pudesse compreender o que aqui profetizava: O relógio parou. Adiantei-me em ir até a porta de pedra. Esta também não estava cerrada, enquanto avançava escutava a melodia de um violino desafinado. Tudo fora tirado de meus sonhos. A hora do martírio. Aqui jaz me martirizo perante a soberana inquietancia de meu corpo. Obstino-me a concordar com esse desejo de alicerce, a lua estava vermelha! O céu queimava e queimava, parecia ter enlouquecido. Bem vindo à festa do terror! Eu não tenho medo. Me contento apenas com a iluminação de memórias felizes. Meu coração parece querer cessar. Suspirar não é um alivio. Caminhando por dentre o esgoto fétido, quadro obsceno do impuro. O breu sobrepunha-se ignorante pela constante intensidade de tuas façanhas, capazes de desafiar qualquer sossego. Senti do nada meus pés molhados. Será que eu pisei no rio? O atrito era mais pesado. Diante do que em seguida, adentraria fui arrebatado; Nas águas frias e gélidas, sujas de excrementos; Borbulhando, ouvia gritos lamuriosos de socorro.
  • 112. Sentia-me como afogar, tentara mergulhar a superfície e aspirar ar puro. Entretanto algo me impedira no trajeto. Notei ao tatear que havia vultos ali! Agora entendo por que era tão brusca. Cerrar os olhos não seriam-me o bastante para aliviar-me do pesar. Inacolhedor, tão aguçada, a temperança é algo que se pede e não lhe concede bonança. Como me livrar desse injusto acontecimento? O de sentir o sangue em minhas mãos? Havia cadáveres ali!muitos e muitos cadáveres!E meu corpo se aprofundava ainda mais no encharcados destroços deles. Alguns ainda vivos murmuravam, e os que já começavam a se decompor exalavam fragrância assombrosa. Tal qualna areia movediça, sentia-me no risco de ser afogado. Aqueles gritos horrorosos! Na pressa de me livrar, atropelei e pisei em alguns dos corpos que pairavam na correnteza das águas banais, oscilavam ao quedar da cascata; Tal evento proporcionou-me imensa agonia. Eu estava sujo de sangue dos pés e a cabeça! Podia sentir. Agora podia ver, uma luz fininha vindo da outra porta escancarada me aliviava com ajuda. Nela bem no meio se era possível avistar uma cruz torta com uma rosa cheia de espinhos a amparando bem no meio. Não me fora o pesar, a vontade de abri-la não me geraria arrependimento. Arrependo-me de ter entrado aqui. Outrora também sentira o sangue escorrer em meu corpo. Quando estava na sala, vi sair daquelas paredes às pinturas das rosas que desbotavam e me mergulhavam na irradiação profética do medo. Não há como se repelir a tragédia. As feridas dolorosas são a prova do mais concreto de tudo que passei. Penso que este seja meu pesadelo inventado. Devo ter inventado tudo isso através da minha mente. Meditações idiotas! Nada gera para minha pessoa uma Idéia concreta. Sou assim tão sujo em pensar, naquele momento, meticulosamente, enquanto meus passos se distinguiam na sonoridade alarmante, que aquilo que molhava meus pés fora água benta. Fora o sangue como nos meus sonhos.
  • 113. Ela esta limpando a terra dos pecados. Sim, Alice... Aquilo prolongava meu estado de letargia.Faz muito tempo que esqueci como era caminhar sozinho. Devo estar sendo chato, mas, é tudo que sinto, ao expor-lhes aqui tais acontecimentos. Acontecimentos que me arrebatam e me jogam para a parede como numa interrogação. São acontecimentos capazes de transformar qualquer atitude humana em lixo. Ao certo os animais são aqui os de maior reputação. Diferente dos filhos de Deus, eles são puros. Encarcerado numa deturpação errônica, já a porta escutava tua voz. - Quantas pessoas são ao total? - São 49 – respondeu uma outra voz. Similar ao do Conde Vermelho. Não podia acreditar no que eu ouvia, só tivera visto, acompanhado no máximo 20, como assim tantos? Posso algum momento tê-la perdido de vista? Viravaà maçaneta de vagar, e com passos leves e silenciososencaminhei-me. Der repente à vontade de fugir tornara-me o hospício, e me livrei do peso de mim mesmo. Camuflava-me na escuridão das prateleiras. Os gritos de medo ressoavam mais forte. Destacava-se naquele cenário o grito de Marcello que, de pronto me tornou pasmado. - Sentem-se, podem deixar que faço isso sozinha – dizia. Rogar pela tranquilidade pode parecer algo mais sensato essa hora. Entretanto tantas emoções abstratas e contidas em mim tornam-me menos altruísta. Revirando-me um pouco do lugar com cuidado, apoiado a madeira do móvel, continuei por contemplar minuciosamente, o retrato da desgraça: Aquela Alice pintada de sangue. Arrastaram as pessoas num circulo, e eu observava tudo atentamente... - Por favor! – rogava uma delas – Nos tire daqui. - Senhor meu Deus, senhor meu Deus... – outra estava de joelhos na posição de oração.
  • 114. Estavam todos embalados por essas preces impossíveis, e via que em tua cara, sim, você madama da noite, seria algo inalcançável. Com a mesma roupa da Ópera, trajada formal demais a tal ocasião. Por que és tão má? Por que fazes isso? Embriagava meu ser tal desaprovação, chegava a transbordar antipatia por teu orgulho sego. - Pegue para mim uma faca – pediu discretamente ao Barão Negro. Eu a vi por inteiro: Os pés nus, o rosto de porcelana, com os olhos verdes levantados, a boca pequena, vermelha, suspirando pelos cantos. O Barão trouxera o que pedira e muito mais, um acernal contendo qualquer instrumento afiado culpadode um homicídio doloroso. As pessoas berravam num tomimplacante, mesclado ao aflito infortúnio. Estavam amarradas por cordas espessa num nó de escoteiro. Os gritos volumosos, altos, ansiavam aos prantos, desdobravam-se poratingir, e aquilo doía, me sensibilizava. Era difícil e doloroso, um marejar de lagrimas sem fim que transbordava, gemidos e lastimas, suplicas tão estimadas; Afetado alterara meu físico psicológico. Demente cenário. Envolvido pela ressonância, o Conde Vermelho, arrastou pelo colarinho uma pessoa que jazia entorpecido pelas próprias suplicas. Era um senhor não muito velho, ainda na flor da idade, Ninguém sentiria falta dele... - Eu vos pesso! – pedira enquanto, de quatro, beijava-lhe os pés – Não me mate! Me deixe ir! Asfixiado pelo incenço. Aqueles fantasmas, de outrora, são os próprios pilares da burguesia. A luz do candelabro iluminava o papel de parede rasgado culminado pelas colorações fortes do sangue. Ela também estava... Minha querida dama da noite estava suja pelo sangue, quando desatou a chorar timidamente.
  • 115. - Você esta bem? – perguntou o Conde Vermelho preocupado. De pronto, a sua mercê, conjecturava mais que tudo abandoná-la – Quer ajuda? Lagrimas surravam-lhe o rosto, mas, não escondiam o sorriso maléfico e as risadas profanas. - Não – recusou Alice leviana – Eu consigo isso sozinha. Esbugalhava-se lagrimas e suor; O miserável tremulo de rosto pálido. Teria ele se arrependido de algo em vida? Ao alto da justiça estava a Ave Maria a quem implorava ajuda divina. Cabisbaixa, respirara forte, despertando-se do descongelamento. Erguendo o rosto, transcendendo mágica horripilante, com a faca nas mãos... Aqueles minutos não passaram. Parecia câmera lenta em que a cada minuto poderia provar-me o quão enganosa foi minha julga por essa menina. Viu-se o jorrar do sangue quando ela cortou-lhe a veia do pescoço. Foi só isso? Não serei surpreendido? Enquanto berrava voraz, enquanto clamava a escoria as pessoas tornaram-se mais desprovidas de esperança. Horrorizadasjaziam abatidas pela melancolia. Malévola pegou um machado e decepou-lheuma das pernas. Libertando assim o membro da carne, onde o liquido tentador borrifava, cauterizando, necrosado. Uma tortura tanto a aqueles que viram, quanto aquele que gritava de forma penosa. Com o segundo foi o mesmo tratamento... No terceiro também. Muitos morriam antes, quando presenciavam aquilo, se não tivessem um ataque cardíaco, desmaiavam. Desprovido de qualquer artimanha, o joguete me fazia serio. Concorria com minhas atitudes, a de ficar e morrer. Tua faceta se destoa. Anjo caído, me explique, por que o brilho de teus olhos me intriga? Sobrancelhas elevadas e fronte franzida. Por pouco pensei que estavas sofrendo com isso, mas, seu sorriso nega essa hipótese.
  • 116. Fico aqui, de camarote assistindo. Pois não consigo acreditar. E eu preciso acreditar... Não podem ser só sonhos! São assombrosos demais para ser. Ela sentou-se no primeiro degrau; Graciosa, não perdia a pose. Olhos eclipsados e braços debruçados. Sonolenta, um murmurar de ti escapou. - Agora o moreninho – articulara a criatura sedenta por finais tristes. Eu não parava de mira-la, pois mesmo suja ela estava tão bela... Eu devo estar ficando louco para dizer isso. Até seu cabelo fora tingido pela cor da tormenta. - Quero o moreninho – repetiu ela. Quando eles o pegaram pelos braços; Indômita e retumbante alcançou-me a moléstia, tão envolvida ao lúgubre. Complexada estava por suas condutas, emaranhadas a classe de quem a provem. Alice no pudor de libertina almejou uma ceifa bem cintilante, para o próximo espetáculo. Ainda escondido... O choque do momento fazia-me suar frio. O povo vibrava alarmado pela tua sagacidade, e ela não tinha piedade. Olhando-o de baixo para cima, fizera vista grossa e entusiastas: - Não vens até mim pecador? – perguntou. - Jogues a primeira pedra se nunca pecou – Retrucou. De súbito esta injuria a tocou, dilacerando-a tal qual ao golpe do infortunio. Olhar longe e promissor; Vermelha de cólera, qual seria teu próximo passo? - Veja bem – aqui se pôs a esclarecer. Complementava naquela voz arrogante do orgulho, perambulando em tua volta cuidadosa e preparada por alguma ameaça – Sou pecadora, pois, assisto ao pecado de vocês. Antes que pudesse retrucar-lhe novamente, ainda longe interrompi: - Nos vemos novamente Alice... Foi muito sutil, muito lento, mas completo, por uma eternidade a emudeceu. Notando que eu estava aqui exasperada sentiu-se por desabar...
  • 117. - Fale logo Alice, por que fazes isso?! Por que esta tirando a vida dessas pessoas?! Que motivo significante há nisso? Desolada se mantinha, ainda mais ao meu gesto de repreensão. Me revelara da escuridão, arrancando de alguns rostos o bendito espanto. - Lucas é você? – Marcello me chamou, diante da incomoda cena. - Sim sou eu – confirmei tua duvida. Eu chegava a estar tão pálido de baixo daquela tinta vermelha que nem no espelho me reconheceria, um morto que continua a respirar. Ela se mostrava perturbada, reprimida, mas, enfim desdenhosa, olhou meu rosto em expressão serena e num vago padecer. - Então vocês já se conhecem? – interveio o Barão Negro. Maçante aquilo se interpunha, trajava ainda com eloqüênciauma mascara de falso fantasma – Não me admira o fato de tanto terem se entrosado na Ópera – complementou em seu ar severo. - Cale a boca Flaubert! – berrou a alucinada –Você não tem nada que intrometer em minha vida! - Que vida é essa me responda?! – replicou-lhe exasperado. E ela de pronto se calou resignada; Me intrigando com teu choque, afinal, não é de teu feitio fraquejar. Um gemido pareceu ter vindo dela ao ponto de estrangular-la. Esbugalhava aqueles olhos, tão triste, só na ânsia da exaltação, que me comovia. Fizera breve pausa, até que se dirigindo a mim, prosseguiu o interlocutor: - Desculpe ter que informá-lo assim, mas, vos serás o único a sair vivo hoje... – e tirando da bainha umas espada gancho, atacaria meu conhecido, se eu não me opusesse na frente. Aqui ignorava as outras presenças humanas para não deixar-me abalar ainda mais o espirito. - Saiba que não estou de acordo – repliquei. Sentira, enquanto, ele me encarava, uma umidade proporcional acompanhado murmúrio quase inarticulado. Quando virei-me para trás, no ímpeto de compreender o ocorrido, emplaquei. Ao meu lado estava Marcello se debatendo, enquanto eu de boca aberta,
  • 118. contemplara o sentenciador do meu choque, abismado e pasmo, o sofrimento aprofundava-se em mim, sem um segundo para anestesio, aprofundando-se, transbordando por dentre as fendas do rancor. E aqueles momentos não passavam, não passavam... Ainda estava demasiado em êxtase. - Trabalho feito – anunciara o Conde Vermelho que o atacara por traz – Só não te matamos por causa de Alice Valmont – declarou lambendo a lamina da katar. Fixo nela... Bem queria poupar-me de tal sofrimento. A hora do castigo. *** - Então enfim decidira viajar? – perguntava-me Roberto um tanto perplexo. As feições não escondiam a surpresa, e si quer o cinismo. - Vou para a casa da minha mãe. Talvez nunca mais eu volte – respondia distraído. A agitação que aqui faço, o esforço para manter minha sanidade é maior do que aquela, com que usando da pressão dos braços obstinados, conduz os movimentos do guarda-roupa para a mala. Observara se tudo por acaso esta pronto. A partida é algo que naturalmente almejo. - Já anunciou isso no trabalho? – indagou preocupado. - Falei que estava mal. Apenas isso. Ter um coração que queima e ferve... Isso eu hei de esquecer um dia, tenho certeza. Se esqueci Madeleine, hei de esquecê-la. Prestativo, meu amigo, ainda por cima, compadeceu-se de minha necessidade: - Pode deixar que o levo até o aero-porto. Mais uma pagina do livro da vida sendo cortada e rasgada aos pedaços... Estranho, parece já escutado algo similar. Afogando-me mais uma vez na solidão. Como esquecer daquela que me cativou com apenas um olhar de olhos, uma cara esbugalhada e emblema cruel? Como esquecer-me de alguém, a
  • 119. quem sou tentado a esmagar com afeto? Simplesmente sou obrigado a isso. Aqui estou o escravo. Quanto mais me ferindo o amor se aprofundar, ferindo esse peito o amor se aprofundara. Mais profundo ainda quero ter o medo, que quando me transmite me resigno a sedenta aspiração. Não há dúvidas, nosso destino é aquele desenhado no céu.
  • 120. Parte II: Maçã do destino
  • 121. Entorpecer-se de admiração; Há de sempre haver um preço. Nessa parte da estória, não me esqueço, e não consigo esquecer. A maçã do destino, que obrigou-me a comer. I Atalho da Realidade Orientando-se pelo desengano. O mundo escreve errado nessas linhas retas. Tive que cair e erguer-me, para dar-me conta dessa desventura. Com quem queria me envolver... Com quem queria ficar. Alice estava longe de alcançar o patamar da pureza, diante do que pensava, não mudou muito: Passou de um anjo, para um anjo caído. Eu queria refugio. Minha tempestuosa necessidade me atordoa. Que cuidados devo ter com minha sanidade tão abalada? Ela me põe como demente. A falta de opções fizeram-me recorrer a opção mais conveniente no momento. Para me livrar de fardos, haveria de me ostentar a outros. Nunca falei de minha família, nunca repercuti bem tal assunto. Confesso que nisto me embargo a distintas limitações. A entusiasmada trajetória é feita com esmero; Seria essa a resposta que necessito? Tenho que salvar-me do corpo que habito. Alice antes falou de um debito, falou de forma oculta, quando sentada bocejara ao clamor de dedos envolvidos. Fiquei tão sensibilizado... Como sobrepor os limites num compasso? Penoso seriamente essa é minha única salvação.
  • 122. O que acontece? Por que isso precisa acontecer? Que tipo de vida era aquela que Alice levava e que ao tê-la jogado na cara o Barão conseguiu uma chance. Falei muito pouco de minha família, pois, por certo não gostaria de envolver-lhes em assuntos tão sigilosos; O constrangedor, é que não faço isso por mim. Meu pai desde pequeno me oprimiu; Tentara lapidar aquela pedra e fazer dele um diamente bruto e se nega a concordar com o infortúnio do que acarretara. A vida tem varias peças do destino escondidas em lacunas quase sempre proporcionadas para dolorosas circunstancias, fico ao todo contente por não ter sido assim. Obvio que não fora a primeira vez que passara pela experiência de vôo. Como jornalista meu trabalho é ir até a noticia, não importa em que lugar do mundo esteja. Todavia, infelizmente, este não esta sendo meu objetivo. Tive que marchar ainda um pequeno caminho a pé; A casa não era longe e nem perto. Distante estaria esta duvida, caminhar torna-se algo tão fadigoso, justamente por que nunca se passa carros e ao ímpeto pedir uma carona. Não continuarei a explicar- me, são informações devidamente inúteis. Ambiente transmutado tanto as necessidades urbanas quanto rurais; Nunca tivera visto um lugar tão verde quanto minha própria cidade natal. Pisava na grama úmida e orvalhada por dias chuvosos, abrindo a porta da cerca, imobilizei a contemplar... Faz tempo que não volto a minha cidade natal, tão pouco minha casa. A luz do sol irradia o jardim com sua luz serena; Harmonizava as belas cerejeiras e cantos de margaridas, enroscadas a botões ainda recém nascidos. Tanta elegância, tanta tranqüilidade. A demência não se esvai. Tocara a campainha umas duas vezes, pensei em sentar-me e esperar pela demora. Distraia-me com pequenos artifícios. Der repente, o barulho da chave destrancando o ressinto; a surpresa demasiado grande, fizera-o emocionada. - Lucas – dizia ela, abraçando-me fortemente – É você? É você?
  • 123. Rosálie destacava-se por sua inteligência iluminada, chamava atenção por esse fato, mesmo que estivesse em meio a uma multidão. De temperamento efusivo, era carismática, risonha e extremamente autentica em sua conduta; Era uma verdadeira boa lembrança dos tempos em casa. - Sim sou eu – dizia. Compartilhava daquela emoção forte indomável – Sou eu sim. - Você não sabe o quanto me espantou! Devia ter ligado, eu e mamãe faríamos uma surpresinha. Acelerando um pouco o passo, não agüentava o coração. Lugar humilde decorado com esmero daquela benevolência. Guardara ligeiramente minhas coisas no quarto, queria fazer uma surpresa a minha mãe; Na descida das escadas, deparei-me com ela. Seus cabelos castanhos um pouco grisalhos, castigada pelo tempo; Transpunha com totalidade generosidade; Pessoa pura e recatada, não havia quem a conhecesse que não gostasse do seu gênio forte e convencido, num caráter que até o mais humilde dos homens se corroí. Chegava à sala com uma bandeja de biscoitos quentes saindo do forno, e ao ver-me, num sobressalto, deixo-os cair no chão. - Lucas, és você meu filho? – e eu me aproximara no ímpeto de abraçá-la. Ela adiantou-se mais intensamente, me fazendo surpreso. - Você esta aqui Lucas – dizia comovida. Com as mãos delicadas acariciava meus cabelos, e eu apertando-a contra o peito, sentia o abrigo que tanto necessitava. Acho que é possível vida nova. Quanta saudades senti! Não admitia, não havia como evitar – Quanta saudades senti de você meu filho... - Também senti de você mamãe. Me desculpe por ligar pouco. - Tudo bem – confortara-me enquanto se recompunha – Eu sei que andas muito ocupado. Por que não me disseras que vinha? - Eu dei uma bronca nele por isso mamãe – aproximou-se Rosálie – Lucas vos és muito desleixado. - Queria fazer uma surpresa – me defendi. Nada melhor que estar em casa.
  • 124. Ficamos ali, naquela conversa acalentadora, informando-nos das novidades. Sobreviver não é fácil, quando memórias o atordoam; Todavia, quando se é assim, venho aqui, um atalho a realidade. II Me Acomodando Memórias boas tomam lugar a aquelas tão indesejadas. É difícil não recordar cada trajeto de minha infância alienada, estando ao lado daqueles com quem a compartilhei mais a fundo. Aqui volto a minha juventude endiabrada. Um diabrete com cachimbo e lente de aumento em mãos; Minha mãe apertava uma delas ao passar a avenida movimentada por bicicletas personalizadas. De todos os tipos! Tinha aquela em que servia de taxi, em que o dirigente se esforçava para conseguir dinheiro com os turistas; Quase sempre holandesas com suas mascaras de arlequim, e japonesas com seus quimonos e pés pequenos. Tempos bizarros. A época de meus pais foram transformadas pela terceira guerra. Saber os detalhes do que aconteceu é algo muito impertinente; Sempre que tentei entrevistar alguém dessa época, temendo as censuras antes impostas, se negava a contar-me esse pesaroso transtorno da sociedade ancestral. O que afetara o mundo até então, não é nada a aqueles que nasceram nas gerações futuras como eu. O que é bizarros a eles, não se transpõe a mim.
  • 125. Falo isso, pois é uma cidade perdida de valores e culturas. Parada e avançada no tempo. Passa-se como uma ruptura no que constitui á idéia de sensato. Céticos idiotas! Quem aqui se atreve a relutar ideologias por rogarem-na ao julgá-las correta veja através de meus olhos o que vejo: Um mundo em mutação, desorientado, procurando ardentemente um “por que?” das coisas. Não se trata apenas disso, e sim também de religião. Depois da terceira guerra, todos começaram a se perguntar o que era certo e errado. Os novos ou velhos costumes, que antes, deixados de lado pela visão de ultrapassado, tomaram gosto e vivacidade as cidades. As mulheres começaram a ter um guarda roupa maior, pois tinham a sua mercê todo o tipo de moda. Minha mãe que apertava minha mão firmemente, usava um vestido tão volumoso nos quadris que ocupava a rua toda. Era amarela, cheia de camadas, varias saias e justo no busto. Florido e inocente, tal qual as feições angelicais que minha mãe transmitia, há aquele que sonhava ser um futuro detetive. Diferente dela, minha irmã, que nascera alguns anos depois, vestia-se em roupas da moda Lolita. Onde misturava-se as roupas da era vitoriana com a do tradicional japonês, mesclado ao fofo e um pouco ao gosto otaku por familiarizarem tua fisionomia. A rua era toda grafitada com cores estrondosas e chamativas. Naquela época pelo crescimento da moda, aumentara o numero de costureiros, tornando-se, assim, então, mais barata o preço das roupas; O que muito penalizava a família dentre suas crises financeiras. Mas, era suportável. Eu não a vivi de perto, eu não a acompanhei, entretanto, me é algo intrigante sendo que dos meus pais, o meu pai fora o mais afetado. André Fernandes era o típico pai severo que através da ignorância tenta ensinar os filhos. Acha que tem respeito mais a
  • 126. única coisa que consegue transmitir é medo. Confesso que tinha um medo, mas sumiu há muito tempo. Em todas as refeições ele falava o mesmo discurso sobre as dificuldades que passara, ele não falava com amabilidade, daquele jeito fiel do pai a um filho. Ele resmungava numa boca aberta, implicava comigo e Rosálie quando deixávamos cair comida, e ele não via que também estava deixando cair. Abafar o tom era o exigido, sempre arrumara um motivo pra implicar. Só na época em que estava desempregado deu folga, por que afinal, não possuía mais todo aquele poderil. Via a mim e minha irmã de maneira hostilizada, mesmo quando Rosálie tinha dois aninhos, um ser frágil e inocente, ele a empurrara cruelmente quando chorava pedindo pela mãe. Foi um tombo tão grave que até hoje ela tem a cicatriz. Dera a desculpa a minha mãe de que se machucou brincando, mas, como? Perversidade, não contei nada pois me ameaçara falando que iria fazer picadinho de mim. Pelo que me informaram, minha mãe, ele mudou bastante com o tempo; Tivera uma saúde frágil, mas, suportara bem durante a guerra – ele serviu como militar – pela sua confiança. Fica muitos dias só deitado, de cama. Não é de se estranhar que só pude chegar a vê-lo no segundo dia. Encontrei o velho na rede, com os óculos de fundo de garrafa prostrados no nariz uniforme; Os olhos com aquelas pálpebras caídas, fixavam interessados cada palavra de um livro de capa grossa marrom. Sua pele translúcida era tão repuxada que mostrava as formas do crânio. Eu estava me barbeando, acabara de me trocar quando deparara-me com ele, que quebrara o silencio ao pronunciar a palavra: - Você cresceu rápido Lucas – observou. - Sim, é o que parece... Uma conversa entre pai e filho fora o que menos almejava. Desejar isso seria o mesmo que querer a forca, se já o não tive civilizadamente no passado não haveria de tela agora.
  • 127. Ele tampava a boca com a manga do roupão ao se interromper por tosses. Tinha problema de coração e pressão alta, devido a isso, Mamãe levava a serio os cuidados, mesmo que a força fazia- o tomar os remédios, e quando não dava, ele fugia aqui para o quintal. - Vai ficar por muito tempo? – perguntou-me. Para que serve esses diálogos se não para em seguida chegar uma briga? Acho que realmente, ele mudou. Ele não podia se exaltar, esforçar-se emocionalmente. Por isso estava sendo tão educado e para minha surpresa quase simpático. - Ainda não sei – respondi – Ainda me é indeterminado... - Há sei – aqui virava a pagina – Quando vir a Bonie (minha prima)pede para ela me trazer mais dois livros desse autor. - Que livro é esse? – perguntei interessado. - É “A Metamorfose”. Já lera ele: É um livro interessante. É difícil encontrar um autor que consiga sentir tudo que seu personagem sente num livro. Franz o autor tcheco do titulo era alguém muito respeitável. Amo tudo relacionado a leitura; Tenho uma prateleira grande só de livros no meu quarto, que meu pai nunca leu por achar que qualquer coisa do meu gosto seja algo escroto. Gosto muito de “Anne Rice” por colocar o neo-gótico e sobrenatural juntos; Ela é bem audaciosa por colocar um tema tão interessante como o homossexualismo. Desde que Doyle, uma outra prima – Uma das irmãs da Bonie – virou lésbica tenho me interessado por isso. Voltei para dentro, precisava molhar o rosto; O barbear já estava bem rente.
  • 128. III O Mal Pressagio Bem que minha mãe advertiu-me que esse dia iria chegar; O em que minha irmãzinha se envolveria a relações amorosas. Ela tinha apenas 16 aninhos, eu a vi ainda bebe, agora vê-la de outra forma é um tanto penoso. Obrigado mãe por sua boca estúpida! Também escrevera que no futuro os homens da família se tornariam agressivos diante de tal acontecimento. Reagiriam de forma insensata ao serem banhados pelo ciúmes. Eu não sou do tipo ciumento, mas, quando no jantar, tocara a campainha, dei-me com um homem magricelo, cheio de acne falando: - Rosálie esta ai? Foi à gota d’água! Minha irmãzinha estava bem acima dele. Ela tinha uma tesoura, um vídeo-game e um álbum de figurinhas; E daí? É que se pode ver uma tremenda lambança! Quem sabe esse anão de jardim tenha fetiche por álbum de figurinhas? Ele bem tem cara de ser safado. Fiquei ali mais alguns segundos até fechar a porta em sua cara. - Quem era? – perguntou minha mãe. - Era engano – a respondi, retornava a mesa quando Rosálie exclamou: - Talvez seja o Derek! Derek? Que nome mais besta. Realmente, não esta a altura da minha irmãzinha. Ela correu a porta e o atendeu. Eu estava encolerizado, papai também sentira aquele nó na garganta.
  • 129. Bondosa, mamãe ia convidá-lo a mesa, mas, este não aceitou; Sabia que nossos olhos ameaçadores iriam encará-lo até a morte. Entretanto, Rosálie insistiu: - Por favor Derek, você já não jantou com meu pai antes? - Sim – concordou – Mas, foi algo traumatizante. - Entrem logo pombinhos – interveio mamãe num tom doce – A comida vai esfriar. Ela era impulsiva, e muito lerda; Demorava a perceber nosso descontentamento. Papai que antes lia o jornal bebendo café – também acho estranho, logo no jantar – tirou os óculos meticulosamente, para limpa-los. Queria ter melhor visão daquele que iria um dia corromper sua princesinha. Naquele vestido rosa ela fica tão linda, laços de fita adornavam- lhe o cabelo agraciando-a ainda mais com sua ternura. E o pamonha continuava ali, como uma pedra, tinha medo até de engolir a comida; e haveria de ter, nós estávamos de olho até se ele tinha ou não comigo as lentilhas. Que baita de um mariquinha, cada vez que o olhava ou ria naquele tom de vilão, ele tremia mais que uma escova de dentes elétrica. - Então – papai não se fez rogado ao silencio – Eu já te vi antes farofeiro, e vou fazer a mesma pergunta e quero tua sinceridade – pois ele não confiava em ninguém, nem na própria sombra – Qual são as suas intenções com minha filha? - São das melhores – respondeu cabisbaixo, estava remando o mar amarelo que era sua sopa sem legumes. Eu também não confiava nele, debruçado checava que no bolso dele tinha uma audácia: Preservativo. Se ele fizer com ela morre, e se ele a engravidar morre duas vezes. Mamãe só sorria, entendia bem a tenção daquele momento frívolo. - Então ta pensando em casar? Tendo dito isso o homem pasmado chocou-se num espanto que se encolheu entre os ombros. - Ca-ca-casar? – gaguejou ele após engasgar com a comida – Não é sedo demais?
  • 130. - Se desejas minha filha só casando... - Eu não quero me casar papai – confessou Rosálie. Dizer isso foi uma benção. A discussão dos namorados, em seguida terminou com o namoro. - Então quer dizer que não quer se casar comigo? – perguntou Derek tanto irritado quanto magoado. - Pra que? Pra eu ter que ficar o dia todo na cozinha? Me poupe. Mamãe não entristecera com o que escutara, até por que, também concordava que a vida de dona de casa era algo lastimável. “Se eu pudesse voltar atrás” disse-me ela uma vez “Eu teria viajado muito antes de ter escolhido isso” A sociedade é machista, até homem o macho que casa pensa que a mulher ira virar sua empregada; Sendo que, não é bem assim. Lembro-me de ter vos dito uma vez não entender o feminismo; Mas, se for pra escolher entre estas duas manifestações escolho o feminismo: O mundo já foi controlado demais pelos homens. Esta é a vez das mulheres, que só não dominaram o mundo até agora por que estão escolhendo o vestido, o sapato e a bolsa para a ocasião. IV Bonie O meu grito de vitoria, e o de meu pai duraram pouco, logo, logo o casal ternura juntaram-se de novo. Bonie sempre vem dar uma força a minha mãe. É uma moça meiga e generosa. Também surpreendera-se com minha vinda e eu me surpreendi por ela estar tão bonita em seus 29 anos. - Você cresceu demais primo – comentou tão cândida – Ao certo deve fazer um sucesso enorme com as mulheres.
  • 131. - Não me gabo, não me gabo... – afirmava brincando, enquanto dava breve pausa para engolir o café. Estávamos sozinhos na sala. Mamãe obrigara papai a ver novela no quarto com ela e Rosálie foi passear a praça com Derek. - Então, me responda, o que veio fazer aqui? Seu trabalho esta tão agitado assim? É estresse? - Sim é estresse – confirmei – Estou enlouquecendo a cada entrevista. - Não fique assim – disse ela, segurando minha mão, tentava transpor-me um certo conforto –Logo, logo isso passa... - Espero – balbuciei – Se não eu me enlouqueço. - Enlouquece mesmo? – indagou revirando os olhos. - Isso mesmo – confirmei o dito. - A Doyle é terapeuta de crianças – começou Bonie a argumentar – Se vos piorar acredito que seja uma boa você entrar em contato com ela. - Não, não – neguei tal ajuda – Não gosto de contar da minha vida pros outros. - Entendo – rira por dentre as mãos envolvidas – Vós sempre fora um alguém muito isolado. - Não esqueça o imprevisível. - Sempre que chamava-mos você pra brincar arrumava uma desculpa fajuta. “Estou trabalhando”, muitas vezes você não tava. Com ternura esclareci: - Muitas vezes estava trabalhando mesmo Bonie. Me perdoe por isso; É que se eu estivesse em casa meu pai iria ficar me incomodando. - Compreendo – falou depois de breve pausa – Ele era muito chato. Quando o chamava para as festas na puberdade ele dizia não. Não, não, não. Acho que a limite para o limite. Bonie nunca soube o que era ter um pai, ele morreu muito sedo; Só tinha o tio como exemplo do sexo oposto. Talvez, só uma hipótese, sua irmã tenha virado lésbica justamente por isso.
  • 132. Quando a vi, Doyle pela ultima vez, nos meus 17 anos, ela dizia sempre num tom amargo, absoluto desdém “Eu odeio os homens”. Há boatos de que ela já esta namorando, pelo que a conheço, há de ser uma moça de olhos puxados; Doyle achava lindo isso. A semelhança de Bonie com Doyle era imensa. Muitas vezes a confundiam com gêmeas, e eu não entendia, mesmo sendo parecidas tinha lá suas diferenças. Doyle amava cabelo pequeno, fizera um corte Chanel faz bom tempo, vestia-se num terno azul marinho, enquanto Bonie se mostrava toda, toda com aqueles cabelos longos e escuros, aquela massa lustrosa caindo sobre os braços; Uma tiara enfeitada por laços de fita, saliente transformava-a em um alguém mais elegante. Uma verdadeira senhora, cintura fina e delineada, apoiava o braço naquele pequeno espaço, entre o ventre e o busto, quando cansada e se punha a caminhar. Ambas eram prestativas de formação acadêmica impecável, nota vermelha? Nunca! A mãe delas Gabriela tornara-se demasiado orgulhosa pela conduta impecável que as filhas tem demonstrado, tanto aqui quanto rua a fora. Ela mora com Doyle hoje em dia, queria saber de suas novidades. Sinto extrema vontade de rever Doyle. - Você tem o número de Doyle pra me passar? Ela virou a cabeça, e abrindo a bolsa, pegou o celular. - Vai anotando neném... - Ta bem fluflu. - 44577896 Se ela não conseguir te ajudar. Fique sabendo que estou cursando agora para psiquiatra. A renda daqui de casa melhorou bastante. Quem paga as contas é tanto eu quanto papai com sua aposentadoria; De vez em quando Bonie contribui com uma pensão que ganha mensalmente e mamãe fazendo bicos na venda de artigos de miçangas. Impressionante... Essa família consegue se garantir fácil no plano de saúde.
  • 133. V Bicicleta Quantas lembranças chegam-me...Tanto boas quanto ruins, chegam-me. Nessas quatro paredes do meu quarto, não consigo me entreter se não com essas memórias. Elas me distraem com seu esmero e requinte, bem embora queria que elas se dissipassem. A vida foi muito difícil, isso eu aprendi cedo. Recordo-me que teve uma época em que até tive que vender meus brinquedos. As escondidas meus pais levavam-nos para pagar suas dividas no banco. E não foi diferente, quando, sufocado pela miséria, ganhei através da pena, uma bicicleta usada. Estávamos almoçando, eu e minha mãe; Aproveitara que meu pai não estava lá e a deixei a par deste assunto sensível. Tinha apenas 8 anos e estava por completo desesperançado quando me diziam que um dia tudo iria melhorar, ou que “Se Deus quiser” teria de chegar os ajustes clamados. Queria um brinquedo. Já estava sendo exaustivo chegar em casa – Na época era uma alugada – e só ficar olhando a parede. Ela me propôs: - Por que não pede por ai? Não vais perder nada. - Mais, mãe... – receei. - Se eu pudesse – declarou ela num tom triste –Eu o daria do bom e do melhor. Tente agüentar mais um pouco querido. Pense bem nisso, só se é vergonhoso pedir quando não se precisa. Vos és novo, terá alguém a quem ira se compadecer. Remexia com o garfo as batatas e o arroz do meu prato, quando aceitei com um murmurar. E assim se sucedera, o ganhar de minha bicicleta. Caminhava pelas ruas vendendo meus jornais. Haveria de escolher a casa mais bonita; Pois esta se assemelharia com meu ideal. Desejava
  • 134. que esta casa tivesse recursos e não me botassem pra fora com um “Não” bem grande na minha testa. Toquei a campainha. A casa era bela, através de meus olhos a enxergaria como retrato de nobreza. Era branca e alva, por fora decorada com ardor e delicadeza. Portas de madeira lustrada harmonizavam aquela mesa usada para chás no caso de visitas. Os vasos de flores adornavam de extrema façanha as paredes incolores. Recortada a fase. Onde, tão cedo me pôs como precoce. Toquei as campainhas mais umas duas vezes; Emitia um som similar aos sinos japoneses. Não demorou muito, e enfim me atendeu: - Como posso te ajudar? – perguntou uma moça bondosa. Eu a via através daquela cela. Éramosalem das classes separados pelo portão. Tinha nariz fino, cabelos castanhos, usava saltos e uma calça larga, o colete cheio de abotoaduras aparentava desagradável, mas, esta se movimentava de forma tão avassaladora, discreta, como se nada a interrompesse; Uma agulha no palheiro seria o que não se mostrasse determinada. - Como posso ajudar-lhe? – repetira. Agora, saindo daquela porta, vinha um homem já de idade atender-me. - É algum conhecido seu Sheila? – perguntou o moço. - Não papai. - Perdão – ligeiramente me expliquei – Eu moro um pouco longe daqui, mas, ando muito por essas bandas no trabalho de vendedor de jornais – aqui respirei fundo – Eu vi essa casa grande e luxuosa, pensei que não teria problemas de pedir-lhes algo. A moça apertou uns botões nas paredes de mármore. Envergonhado, entrava pelo portão ilustrado um tanto reprimido. - Tem algum brinquedo que não usem mais? É que eu venho muito querendo um... Não tenho nenhum. Se não tiverem, tudo bem. Ela sorrira enquanto beijava minhas mãos docilmente.
  • 135. - Aqui tem uma bicicleta – interveio o moço de idade – Se quiserdes, venha cá pegar – e entrara no recinto, fazendo o gesto para que eu o seguisse. Sheila ponderou: - Tens de trabalhar muito? - Sim – a respondi. - Fique por mais tempo, esta quase na hora do lanche. - Não obrigada moça – não podia aceitar. - Por favor, pode ficar. - É que tenho muito trabalho senhora. Minha família depende de mim. Ela limitou-se com aquela postura resignada e gentil, e acompanhou-me no infiltrar. Deixemos de lado a simplicidade pelos efeitos decorativos. Recebia ornamentos em relevo, uma verdadeira pintura. As expressividades da luz e da sombra, um verdadeiro quadro renascentista. Com realismo em cada figura; Estava sem palavras, minha boca aberta deixava-os a par muito disso. A casa haveria de ser um museu? Não é todos que têemrecursos para tão operada construção. Todo envernizado, pelas janelas se tinha vista das alamedas e de todas as árvores da primavera que respondiam-se abrindo em flores. Acima dos enormes quadros que eram as paredes haviam cortinas roxas idênticas a de teatros municipais. O chão também era encoberto, no tapete se havia visível um jantar de ave Maria. Da sala a uns poucos, três ou quatro degraus, tinha-se visão ampla da copa. Uma mesa fixa no meio, adornada por uma estátua do Buda; E a frente um corredor que creio eu, que de aos aposentos. - Nós não somos budistas – esclareceu-me Sheila – Só achamos esta estátua muito bonita. Compreendo a explicação. Como vos disse, o mundo é o próprio choque cultural. Quando passamos pela cozinha via-a simples e marejada pela suavidade do branco misto. Tudo brilhava num tilintar de
  • 136. sonoridades abundantes. Descendo mais uns degraus, chegamos no quintal. - Aqui estas a bicicleta – falou-me o senhor. E me deixou lá sozinho para namorar a belezinha. Não sabia que eu estava só... Dona Sheila bem havia dito “O lanche saíra em breve” escutara a chaleira apitando. Café com bolinhos, o aroma chegava a minhas narinas e aquilo me mataria se eu não estivesse tão distraído e entretido com a bicicleta. No quintal era onde ficava a lavanderia; Era lá também onde se tinha a estadia o pomar com suas frutas suculentas. Quitutes refinados, eu ainda estava tão entusiasmado. Demorei a perceber a presença alheia... A pequena estava debruçada ao varal, encima de uma caixa de papelão. Seu vulto tão pequeno... Seus olhos tão escuros, se chocavam ao vento a mescla da inocência. Estava parada me olhando. Não me recordo do que vos disse, mas, de uma coisa sei, não foi nada boa; Sucedera-se que, essas palavras me martelaram: - Você já tens brinquedos demais. Como remeter-me tão intuitivas memórias, que regurgitavam-se a desaparecer e que me fazem mais fortes? Por que não me há olvidado desta penúria? Sobressalto é o que vos digo. Num palpitar de felicidade, vem a mim essas memórias proibidas que me assombram. Ela fitava-me tão apavorada, não pela minha aparência, mas, pelo que vos disse. Ao certo fui arrebatá-la. A bicicleta valeu mais que uma nova amizade? VI O Melhor Amigo do Homem
  • 137. Nesses dias bem estranhei a falta de alguém. O melhor amigo do homem, se for para excluir seu chefe, seu automóvel (ou até mesmo teu pau) é o cachorro o melhor amigo do homem. Rufus está aqui desde o dia em que fui embora, deixei-o ainda filhote; Tendo em conta isto, este tomara meu lugar na casa, tanto é que dormia na minha cama. No café da manhã perguntei a minha mãe: - Mãe onde esta o Rufus? - Desculpe querido – confessou mamãe um pouco desajeitada – O demos pra a Bonie. Seu pai estava começando a ficar alérgico. Realmente, foi bem desconfortável no meio da noite me deparar com o tanto de pelo do pulguento. Por alguns estantes ponderei pela possibilidade de ficar alérgico como meu pai, é tanto pelo que poderia dar para fazer uma peruca para a careca dele. Ainda bem que o que falo não se trata de um diário. Minha vida é uma rotina nada hospitaleira, me enternece por dentre as embarcações diárias. Condolências a aqueles que almejavam através de mim melhor desenvolvimento. Mas, não sou um fantoche, crêem que estou em suas mãos? Ar puro e aparência bucólica é o que rodeia na esperneção de minha cidade. Na visitas que propaguei de ida e vinda da casa de Bonie fui tomado pela visão simpática do cachorro balançando a cauda com seus gracejos. - É este o Rufus? – perguntei-a. Não conseguia reconhecê-lo. Ele era tão pequetuchoquando o adotei, do tamanho de um rato, agora vendo-o do mesmo jeito fico até emocionado. - Sim é ele, esta grande não tá? - declarou de imediato. Só de forma, ele é um verdadeiro salssichinha. É tão fofo. Agachei-me despojadamente no chão do matagal, para poder olhar-lo melhor, acariciá-lo. Afagando suas orelhas;Constantemente batia a cauda, deixando exposta a língua e fitando-me de jeito cândido. Apalpei sua barriga, e com um pouco mais de força, enfureceu-se.
  • 138. - Realmente não és mais um filhote amigão – exclamei contente –; Tens roupinhas pra cães? – agora dirigindo-me a Bonie esta me respondeu:. - Tenho sim algumas. Todavia estão todas pra lavar. Fixo na gentileza e ternura. Amor puro a dos animais, tão leais que continuam a estimar seus donos. - Quero vê-lo numa roupa de marinheiro da próxima vez amigão – disse exprimindo um vago sorriso – Vai ficar mais bonito que és. “AuAu” respondeu-me ele, com certa agitação. Adoro animais. - Lucas o que achas de passear comigo? – opinou ela desdenhosa. Eu por minha vez ponderei: - Pedir isso pra mimBonie? Não tem vergonha de pedir isso a um desocupado? Ela rira timidamente. -Seu tolo – extrapolou um sorriso – Eu preciso comprar alguns itens no armazém. Vós poderia levar Rufus consigo, vai ser uma ótima atividade. - Concordo – prolonguei aquele teu sorriso – Não há melhor atividade. - Tu gostas mesmo de cachorros... Meu cachorro é foda. Um salssichinha pra lá de formoso; Andando pela rua tornou-me famoso para as mulheres, que muito queriam colocá-lo no colo. O que tem ele que eu não tenho? Será teu sorriso sensual? És tão fotogênico nas fotos de família... - Por acaso ele já fez comercial de TV? – Curioso, não pude evitar tal observação. - Estou pensando em pronunciar sobre isso a uma revista – informou-me ela convincente – Pois este com certeza é um cachorro de futuro. O si é, um verdadeiro Don Juan, não há quem não goste desse ser tão atraente.
  • 139. Adiante, ao armazém, doidinha como era cochichou na orelha do pulguento. - O que esta falando com ele? - Segredo – retrucou-me em tom doce – Quem sabe na saída o revele. Esperei por ela alguns minutos. Claro que no estabelecimento não permitia a entrada de caninos; Isso poderia ser considerado racismo? Só por que o pai dele era um vira-lata? Se ele fosse um humano eu o ajudaria no seu processo conjugal. Por ser uma cidade de interior, a agitação demasiado jazia escassa; Até por vez, suas limitações combinavam com esse tipo. O feitio cômico de algo tropical. Aqui é onde tem mais estrelas, e mais humildade no rosto alheio; Menos crimes, menos ultrajes, um encorajamento a menos, para resignar-me aqui. Volta e meia chegava com a cesta cheia de legumes e hortaliças. - Vai fazer sopa hoje? - Vou sim. Esta convidado pra a bóiaesta noite. Que bom! Finalmente alguém aqui me alimenta. - Não queria incomodar – Fajuta mentira de uma verdade ocultada; Em todo o caso retrocedeu: - Não é incomodo algum, sabe, tenho estado muito solitária ultimamente. - Tia Gabriela era viciada em bingo, ela continua? - Mais ou menos – declarou – Ela vai lá mais para encontrar um senhor, que chamam pela alcunha de Josep. Tenho estado muito só desde que ela foi morar com Doyle. E pra piorar, minhas amigas tem estado muito ocupadas – Dessas juro eu não conhecia. Continuou brandamente – A Débora teve um bebe. A Laura está em lua de mel. E Jenifer saiu pra Chicago junto com o namorado. - Você não tem um? Seguíamos a caminhada, nesta tranquila conversação. - Tenho um casinho de nada com um amigo de cursinho chamado Benjamim; Mas, creio eu que é só uma distração, to até pensando em terminar.
  • 140. - Entendo... Dando a volta no quarteirão, pudemos ter visão do bar, que acalentava aquele ambiente em estrema prudência. - Alias Bonie – recordei estranhado – O que dissera a Rufus? - Nada demais. Só que estava muito feliz com sua chegada. Os coqueiros intimidavam a vista enferma, oscilavam na harmonia transmitindo aquela calma como só quem aspira do gentil a compreende, a alma demente acarretada por suas limitações. Conheço aquele lugar como a palma da minha mão. VII Ladrão Após o jantar, o tempo na companhia de Boniepassou num raspão mutuo, mal um de nós poderia afirmar com certeza o culpado sobre esse assunto; Afinal, isso não comove. A atividade mesquinha do hoje fora apropriada e gastada na concordância das ações em si. - Bonie preciso ir – anuncie o jaz esperado. - Estais muito tarde – ponderou ela preocupada. Fixa se mantinha ao crepúsculo, e de longe mentalizava o perigo das montanhas – Não seria de fato muito perigoso? - Que isso! Sou abundante no que diz respeito à conveniência; Perigo já vivi fora do normal. - Não sei não... – retomou naquela inquietancia, o vago perambular. De vagar e rasteiro, com as feições encobertas pelo nublado. Admitir aquilo seria como um conflito, onde as questões vinham a tona sem ao menos refletir; Então fechei a porta e sentei-me novamente ao sofá.
  • 141. - Vai fazer-me companhia!–exclamou ela, visivelmente aclamada pela incontestação extinguida pelo alicerce. - Sim irei – confirmei o dito – Além de comer da tua comida hei de apossar-me do teu sofá – e rindo enfiei a mão na vasilha cheia de pipocas levando-as a boca; Ligeiramente irritada, sucedeu-se de um interromper: Dando-me um pequeno tapa complementou: - Seu tolo. - Ai, doeu Bonie! - É só um tapinha. - Tapa de amor não dói – complementei num riso. Desde pequenos, meu temperamento para com Bonie e Doyle se mostravam mais intensos do que para com minha irmã. Sei, isso é estranho, mas, isso previne os terríveis casos semelhantes ao da história “O Pintarroxo” de Marcella Cristina; Creio eu que casos do tipo devem ser realmente muito dolorosos e contingentes. Passamos a noite vendo filmes e contando histórias de terror; É muito acolhedor o assunto abordado por entre nós ser de tanta afinidade. Não demorou para que começássemos a ver carneirinhos pulando em suas cercas; Com o sono assolador, isto se tornou mais incauto e demasiado privador perante as individualidades humanas. Com a testa enrugada, começava a se esticar e a bocejar: - Acho que já vou indo dormir. - Acho que vou também. A noite teria saído normal, se eu, envolvido aos cobertores e volumosos edredons não tivesse sido atraído por barulhos estranhos no leito. Já por demasiado tarde nos despedimos, e arrastando por entre o quadriculado dos corredores estreitos, transpondo olhares lascivos, a porta do quarto cerrada aos fundos, fora-me uma vista plena e acolhedora diante de minha necessidade. Como assim, teria um quarto de hospedes na casa de Bonie? Por considerável, não. Prudente seria afirmar, que, os
  • 142. quartos outrora foram de Doyle e de sua mãe ausentes. Ostentava na face a inexpressão causada pela exaustão, a fadiga fora tanta que deixei-me cair na cama, ao murmurar involuntário. Talvez eu já tivera presumido, que isto se acarretaria: Os filmes e histórias de terror pesaram com enormes deficiências, atraindo-me com lentidão a fatídica insônia; Por mais que o sono me fosse prezado, o medo de pesadelos tornara-se por demasiado pior. Vê-la com seu olhar feiticeiro, tomando por mim o deslizar de sensações harmônicas causadas pela melancolia transcendente, faz tempo que não tenho pesadelos com Alice; Isso por acaso poderia me afetar? Acho que não. É mais provável que minha mente projetasse minha pessoa para dentro daqueles filmes e daquelas histórias traiçoeiras. Não me rendo a essa convicção. Reflexionar é a única forma para tirar- me desse vazio a que me encoraja. A alma oprimida fervilha tão atônita, assim como á tive àquela hora da madrugada, onde o barulho da textura larga, da madeira desprendida, rangia mesclada ao som do vento uivando. Escutei também, como falta de prece, o latido de cães vizinhos fazendo coro, para piorar, nesta situação também encontrava-se Rufus, que tão exasperado antes se mantinha roendo seu osso de plástico, agora se prostrava de pé na porta revelando seus dentes caninos e afiados, numa fúria compreensível, para quem lhe vê como um fiel subordinado. Estaríamos a cá, num perigo iminente? Para piorar minha vontade de ir ao banheiro começava a me atentar, e olhar para o Rufus pela janela aliviando-se numa árvore me deixava ainda mais austero. Ao fechar os olhos esperava visualizar de tudo, tudo exceto uma torneira aberta e pingando. Se eu fizesse na roupa não teria aonde por a cara de vergonha. É a primeira vez que me deparo com um ladrão à calada da noite; Como será que agem esses espécimes furtivos? O gatuno
  • 143. teria entrado por uma janela? O fato da porta ter sido trancada ao entardecer comprova que tal relato seria possível. Aposto que se algum hipie tivesse no meu lugar acharia que me aventurar pelo perigo ia ser algo radical; Deveras, acho que a probabilidade de urinar na cama seja algo pior, além de lhe botar pra baixo, lhe coloca lá baixo nos estatos sociais; Neste caso, se você fosse um colegial e o resto descobrisse, pois dinheiro nada tem haver com o que vos disse. Noutra época talvez, eu teria me chapado para realizar essa façanha, agora mais inteligente, consigo meditar com mais intelecto... Afinal, isso só pioraria minha vontade de mijar. Levantei-me, até que enfim levantei-me. A preguiça não deixava, a cama a que me prendo por essa vontade me mata aos poucos. Era o quarto da Doyle. Graças a Deus não estava infestado de bichos de pelúcias, nem tão pouco por bonecas de porcelana; O da Bonie é cheio de palhaços, isso realmente torna o cômodo aterrador. Levantei-me, e em passos cautelosos prossigo adiante; As sombras noturnas me assustavam por transparecerem duvidosas, sobrepunha sobre tudo aquilo o nefasto e o fatal. É de fato perigoso me aventurar por essas entranhas, a casa nem é minha e perambular por ela a noite parece algo desrespeitoso, digo isso de passagem, mais, ao corredor der repente, dei-me de cara com um vulto desconhecido: Era alto e meio encurvado. Correto seria vocês me perdoarem pela falta de detalhes, estava muito escura aquela noite. “Noite escura. Completo negrume. Até parece que puseram fraldas nos vaga-lumes” (Poema de José Paulo Paes)
  • 144. Apenas recordo-me de que quando notou minha presença, a sensação turbulenta se apossava de mim. Queria fugir pela culatra; Seria eu tão medroso? Claro que não! O único ser que me traz medo é Alice, todavia, me renegava a violência desse confronto, como poderia eu prever suas ações? Quando notara minha presença, fora como um supetão. Seu cabelo encaracolado ainda reluzia, as mechas um pouco douradas também o fazia contorno, os olhos arregalados, fixos em mim, transmitiam junto á testa franzida a maior das convicções: Totalmente alienadoem postura incauta, avançou sobre mim, ameaçando-me com teu punho, e eu no desvio, apoderei-me daquele membro, revidando com outro de mim próprio. Um pouco mais tardado, fora eu o atingido, quase dera um grito para acompanhar meu recuar para trás. Minha mão esquerda se interrompia no ato por alisar as maçãs de meu rosto, que agora encontrar-se-ia com um lastimável hematoma. Jaz um tanto mais enfurecido, ergui-lhe a outra velozmente, mãos cerradas e até um tanto musculosas (não quero me gabar) surraram-lhe por diversas vezes a face polida. Por que fui fazer isto?! O grandalhão revidou socando a boca de meu estomago, tão forte foi que meus olhos completamente abertos, começaram a marejar lacrimoso, não olvidem de meu estado de necessitado, tudo o que eu almejava era o banheiro; foi só ter me virado em retirada, que distraído, deparei com o negrume do apagão tanto da mentalidade quanto da visão. Foi algo muito rápido, mais completo, quando dei-me por mim, já estava em outro lugar... Primeiro veio à tonteira, acompanhada sem precedentes da visão turva e embaçada. Aquele foi sem duvidas um sonífero nada logrado, só perde para o boa noite Cinderela, ai seria pior, correria o risco de ser estrupado. Até nos momentos ruins, a sátira chega-me com o bom humor, pobre tem que se virar com o que tem não é mesmo? Chegou ao ponto de que eu tinha que mendigar essa felicidade irritante de comediante sem graça.
  • 145. Ocorreu-me, que, ainda deitado, ainda esforçando-me para abrir os olhos me senti molhado... Não, não pode ser... Tudo menos isso! Vamos Lucas, esforce para abrir os olhos, uma pálpebra de cada vez... Eu ajudo você (Cala a boca consciência!) Tudo bem é agora ou nunca, vou contar até dez: Um... Dois... Três... Quatro... Cinco... Seis... Sete... Oito... Nove, nove e meio, dez. Bonie despojando preocupação, se mantinha agachada ao meu vulto adormecido, a luz estava ligada, e seus olhos fixos a mim cintilavam como gotas de orvalho. Sussurrava num sopro prolongado: - Lucas, Lucas você esta bem? Lucas? Eu estava ainda muito zonzo para atende-la. - Por que fizera isso Benjamim? Logo ao meu primo? - Você mesma disse que só tínhamos um casinho, pensei que este era um de seus “outros” – retrucou o carinha que me atingira. Perambulava de lá para cá, visivelmente mantinha-se por arder em cólera, enquanto minha prima apreensiva, ainda de camisola, pegou seu lenço no intuito de limpar a umidade de minha testa enferma. - Lucas, Lucas – prosseguiu em voz entrecortada – Consegue ouvir-me querido? Acho que vou ter que chamar a ambulância. - Não, eu to bem – respondi num murmurar. Ainda zonzo, ao invés de levantar-me, sentei colocando os dedos sobre a cabeça, que enxaqueca. Bonie fazendo vista grossa, ponderou instrutiva: - Vá tomar um banho e vamos a um médico. - Eu não quero ir ao médico. - Pelo menos tome um banho – retrucou – Você esta fedendo. A não, isso realmente aconteceu! - Você também Benjamim. - Eu não to fedendo Bonie – e cheirou as axilas pra ter certeza.
  • 146. - Não falei pra tomar banho. Falei pra você ir a um médico. Já olhou o tamanho da bolha que tem na sua cara? Deve de ter quase quebrado teu nariz. E assim foi meu fim de semana. VIII Churrasco Festivo Logo o dia amanheceu, e a luz entrou pelas venezianas acompanhada do ar puro e límpido dos jardins vizinhos. Adentrava naquele gosto e refinamento, aquilo que satisfaz qualquer vitória, o segredo de viver na resignação do destino, transbordada ao teor da eficiência e bordada no esmero pacifico. Não tardou para que eu soubesse da noticia: Um jantar festivo seria feito em breve a minha casa. Festejar o que? A nada! Vamos fazer um banquete á vida, a cada respirar em que estamos nos envolvendo, a música que nos acalenta na felicidade sobrepujada; A ansiedade pelo novo desconhece qualquer outro jubilo. Vamos festejar essa harmonia existente, pois ela faz de nós por demais capazes a compreender as injurias das lamentações. Na realidade, aquilo não passara de um churrasco, mas, como convém na especialidade da festa à boemia dos aperitivos foi um tanto controvérsio com os estatos sociais. Como, por assim dizer, reconhecer aquele gosto como sendo de ideal ignorante?Acho que estou sendo chato, ou demasiado critico; Minha mãe teve tanto trabalho para realizar essa festa, mesmo podendo ser considerado um simples churrasco.
  • 147. Na grelha se esta assando carnes de todos os tipos. Os convidados veem vindo e chegando; Dentre eles, a mim próprio acompanhado de Bonie; Ninguém fazia ideia do ocorrido, minha mãe até estranhou meu estado de desleixo, mas, não se opôs a ele por demonstrar-se muito ocupada nas suas cordiais saudações,geralmente a vizinhos e muitos conhecidos, velhos amigos de família e muitos por mim estimados, guardados em memórias ocultas cerradas de outras eras. Entre eles estavam Josef, Clauss e Eric. Amigos de infância tão cedo muito íntimos. Não sei por que, não vou mais com a cara deles.Laços já cortados são difíceis de se reatar; se não com uma agulha e linha para remendar aqueles laços que eram mais fortes, seda nobre, enfeitados com o ardor e requinte, no mais filial amor fraterno. Me retraia na companhia de Bonie, vestia ao majestor de perfume sereno. Cabelos envolvidos por uma presilha de tulipae um véu cinza sobre o chapéu festivo. Meu pai trajava seu manto.Minha mãe de avental e touca. Atrás do vestido uma grinalda curta e repuxada por certos fios em novelo de lã. Minha irmã se fazia ausente, bem estranhei: - Onde está Rosálie? – cochichei com Bonie. Esperava uma repulsa, ou que verdadeiramente nada soubesse (o que estranharia, já que são aliadas em tudo) todavia, esta extraviada sem demoras respondeu-me: - Saiu com Derek oras. A jovem estas uma pombinha apaixonada. - Pombinha branca o que estais fazendo? Passando roupa pro casamento, vou me lavar, vou me secar, vou pra janela pra namorar... – cantarolei baixinho e um tanto que timidamente, e minha companheira, enlaçada ao meu braço rira por alguns poucos segundos recostada ao meu ombro, aonde a minha altura fixava-se em meus olhos. Gostávamos muito de remexer o liquido bruto do vinho antigo, para assim poder apreciar ainda mais teu aroma imprescindível, mas, ao ato dissipou-se:
  • 148. - Tu és Lucas? – indagou o moço enfardado. Era Clauss que se aproximara ininterruptamente durante nosso dialogo. Estava evitando por demais essa conversa, o que fora-me impossível. Evitava ações efetivas com esses marginais, meus amigos que acolheram-me na infância estão por demais corrompidos, viraram políticos e chefes de estados através de golpes empreendedores. Meu pavio era curto, a qualquer hora poderia explodir, o que acarretaria num escândalo e uma desonra ao nome da família. - O pessoal, olha quem é! – retornou exaltado – É o Lucas, o Lucas pessoal! Não demorou para que a colônia se reunisse perante as ordens da majestade. Bonie percebia em meu olhar tenuo o incomodo espesso dilatado aos alucinógenos do hiato, o ato desastroso ativo as perseveranças. Não gostava daquilo, não gostava, tardava demais para que aquela desastrosa reunião se dissipasse, a interação se comprometeria a tragédia. Somente eu sei desses seus erros, por isso se torna mais ainda para mim, esse peso apático. Pejorativa são suas próprias decisões sobrepostas ao mundo de hoje, que desdobram-se embargando qualquer um a ruína ao que lhes vem a cabeça, na falsa ideia de reino. Estava furioso, por pouco me estaria por incontrolável, se os olhos da querida Bonie não me acalmassem. - Olha só, é mesmo ele. Oi Lucas – saudou Josef. - Iai, como vai Lucas? – agora foi Eric não repulsando sua natureza medíocre – Pegando a própria prima? - Para sua informação – retruquei num sopro firme -; Ela já esta comprometida – ele revirava os olhos, como se contestasse, ou se ao mesmo não acreditasse em minhas palavras, objetar não seria algo inútil, ele atrevia a murmurar “A sei, a sei...” e seu grupinho em coro acompanhavam-no em sua atuação. Será que eles vieram de penetra? Não to acreditando que minha mãe os convidou para cá.
  • 149. - Sempre o achei muito Gay – atalhou com esse declarar – Mas, o que importa? Nós todos sabemos que este senhor aqui, nem pelos homens é desejado! – explodira em gargalhadas. Ria convulsoriamente como um desajustado, até que eu der repente, o agarrei pela gola, calando-lhe a boca. Foi um beijo demorado, onde até mesmo ele fechou os olhos por um poucos segundos. Quando terminado, o empurrei para trás: - Realmente? Realmente nem os homens me desejam? Acha mesmo que eu esqueci quando se declarara para mim no seu aniversário de 10 anos Eric?! – tão severo fui que além de deixar- lo constrangido, fiz a todos que me visualizavam ficassem de boca aberta. Emudeceu-se. Não conseguindo recompor-se da minha ação, saia ainda complexado da festa; Com a mão dedilhando os lábios, parecia não ter caído à ficha. Aquele fora seu maior segredo guardado a sete chaves, em que eu o culpado, num momento de raiva, aproveitei-me na artimanha de o derrubar. - Coitado – sussurrou Bonie apreensiva. - Eu sei. Eu não precisava ter feito isso... Sabe é a primeira vez que beijo um homem – Comentei. E com as costas dos braços, limpava o rosto num vago lograr. Eric dos três fora o que eu mais me interligava na infância, em brincadeiras joviais, como as de castelos de areia, as de carrinho, geralmente, quando fazíamos pares no baralho, ele se interpunha ao pontuar: - O Lucas fica comigo – e me embalava pelas costas. Ao certo via aquilo como a ligação de irmãos filhos de pais diferentes. Nós todos usávamos bonés. Fizéramos um clubinho titulado “Os Xeretas” e mesmo com o começo do trabalho, eu tentava arrumar uma pequena brecha para a diversão. O ímpeto de tudo constituía a inocência. A nostalgia dessas lembranças me são sofridas quando as penetro a fundo.
  • 150. Nós éramos jovens demais, pensou por certo Eric, ao ocultar a verdade de todos, tudo passava de uma fase. Na sua festa de dez anos, eu estava lá nos parabéns, e via as lágrimas escorrerem de seu rosto. O povo agitado gritava no cantarolar de sua gloria. Tinha como menino todos os mil e um apetrechos, a festa que nunca tive. Enquanto ele ganhava videogames, patinete, patins, jogos de tabuleiro, eu ainda me contentava com aquela bicicleta velha e enferrujada. Mais, estava tudo bem, a felicidade do meu amigo se opunha a tudo. Quando a festa terminou, e os convidados se despediam, ele me segurou pela mão e murmurou no meu ouvido: - Fique mais um pouco. Ele parecia pálido e nervoso, algo o reprimia nas suas mais equivocadas ideias. - O que passa? - Não posso falar-lhe – regurgitou-se a descrever – fique mais um pouco. - Preciso ir – informei – Minha família precisa de mim. - Eu lhe imploro! – suplicou. E aqueles seus olhos brilhavam cercados pela magia poética de sonetos urbanos. Então esperei. Os minutos se passavam e minha preocupação só persistia em aumentar; extinguia-se e chegava ao banal. Afinal, o que tanto queria pronunciar-me? No escuro aterrador ele puxou-me novamente pelo braço: - O que foi Eric, o que tanto tens a dizer-me? Mostrava-se inquieto e um tanto perturbado. - Sabe... Sabe Lucas, eu preciso muito falar uma coisa, e quase não tenho coragem... – a pausa que fez, foi de súbito majestral – Sabe é que... - É que o que Eric? Desembucha. Outrora seu queixo caído levantou-se, e as bochechas levemente rosadas revelaram-se como o clarão em minha mente, já que a noite se fazia rogada.
  • 151. - É que, eu amo você Lucas, eu amo você. Isso me marcou de imediato, me lembro também de minha reação. - Tá brincando não é? Claro que só pode estar falando de amor de irmãos – e me distraia a coçar a cabeça. - Não, não Lucas, te amo de verdade, te amo de verdade – e complementava aquilo nas expressões triste, transmitindo-me pavor pelo desconhecido, não queria fazê-lo sofrer. - Me perdoe por não poder corresponder? – e naquela arbitrariedade de sentimentos múltiplos, se esforçou naquele doloroso articular, meio duvidoso, sem jeito, e um tanto comovido, sensível já se interpunha demais. No solene palpitar do coração, soluçou um pouco pelo marejar que lhe escorria, não olvidou, respondeu: - Sim, eu lhe perdoou. Orvalhava-lhe a face, tão mais tão perturbado... Me arrependo até hoje de não tê-lo abraçado; foi um momento muito corajoso a parte, onde a discórdia tenta fazer-lhe a cabeça pelas morais de condutas dependentes da irresistível sociedade traiçoeira. - Quer que eu o prenda? - opinei a minha mãe desdenhosa. Lá estava meu cachorro: Latindo sem parar, aproveitando pra incomodar na hora em que os dois avançavam para a entrada da cerca. Chocados, não faziam questão de seguir Eric, como os conheço homofóbicosdevem de ter tomado nojo. - Não, não precisa Lucas. Ele não esta fazendo mal a ninguém. Ficava lá com aqueles olhos de pidão. Sendo atentado pelo aroma e fumaça saindo da gordura da carne; numa postura de sentido, faria de tudo por aquele tão almejado desejo. O bucólicotímido e perspicaz se fazia ao retomar da compreensão. O burlesco não intimidado se estendia no seu vandalismo, entre os casais que dançavam no acarretar do som do violão e fino do violino; Outros conversavam sem escrúpulos sobre o intrigante espetáculo proporcionados a eles hoje: Entre mim e Eric, nossa espectral desavença. Até meu pai se via incomodado, errei
  • 152. naquela certeza: De que uma hora ou outra “Chamar-me-ia a atenção”. Estava muito ocupado com os amigos, tinha certeza que ouvi ele clamar-vos desculpa pela ocasião. Minha mãe vinha correndo trazendo bolinhos, estava também um tanto complexada com o ocorrido. Tinha uns que eram salgados e outros de doces; Saborosos e requintados, quitutes ao todo muito deliciosos. O cachorro pulou na dança fraterna por aquela iguaria. Eu trajando casaca simples me mantinha na postura de introvertido na degustação de alguns vinhos, mais retraído ainda fiquei quando me despedi de uma companheira: - Quer dançar comigo Lucas? - Não obrigada – recusei – Não sei dançar. - Pode deixar que eu ensino – insistiu. - Depois, não estou afim de pisar nos seus pés. - Não seja por isso, eu ensino. Claro que a despedida, não se sucedeu de uma segunda desavença; É que ela desde a chegada estava envolvida a meu braço, e essa separação foi um tanto repercutoria. - Esta bem – declarou, sem que por isso deixasseentristecer – Eu desisto. Vou lá arrumar alguém que queira dançar. Se divirta primo. Fui à mesa no intuito de pegar um lenço, quando minha mãe me chamara com os dedos para dentro da cozinha. O que havia de tão importante naquela denuncia? Não pestanejei em atende-la. Ao recostar-me no armário perguntei: - O que foi mãe? Algo aconteceu? Ela aparentava muito afligida, estaria ela também envergonhada pela cena que o filho mostrou hoje? Ao todo, se mantinha muito deprimida - Filho - inqueriu ela naquela breve pausa - Vos chegastes muito estranho - Não é isso mãe - tentei relevar – Fora só um acervo de contas. - Não é isso que estou insinuando - Pronuncio em voz amável:
  • 153. - Filho por mais que relute ao que parece incompreensível, eu aqui venho como genitora tentando lhe mostrar esta tua debilidade. - Mãe eu não estou para me tornar gay! – defender-me agora seria algo mais que difícil, devido à primeira impressão – Acredita em mim? Não te contei no último telefonema da minha paixão por Amanda Borges? - É disso mesmo que to falando querido. Sei que não viestes aqui por estresse, isso não é do teu feitio. Eu enxergo dentro de você, acha que não percebo tua alienação? Vamos, me fale - aqui clamou - Estou sendo martirizada pelas horas horripilentas. Imagine-se em meu lugar: Ter um filho em apuros, com medo de pedir socorro, grita por dentro e nadafaz. Eu só quero teu bem... O que pronunciara, desdobrou-se em mim, um suspirar tríplice. - Por favor - repetiu novamente, com seu bendito zelo - Por toda a gloria, não me impeça de saber o que lhe ocorre, pois não vou conjecturar. Uma hora ou outra o que lhe passa aparecera pra mim como sendo a resposta obvia; Esta figura se fundira a minha mente e não haverá reversão. - Não mamãe, não posso falar - dizia, enquanto caminhava cautelosamente a direção das escadas. No chão frio e desditoso, luminoso pelas venezianas abertase seus adornos em marfim. Meus lábiostrêmulos se agitavam,por que a vontade de balbuciar algo me atingia? Minha mãe estava preocupada demais, mas, não tinha como repartilhar com ela esse peso da moléstia Abrandando esta invencívelsensação. Lá fora tudo parece tão cabuloso... Viver num mundo diferente da realidade. Às vezes me sinto como intruso de minha própriafamília... Deve de ser pelo tempo. Afinal, não sou mais criança.
  • 154. IX Odiado Pesadelo Arquejante, acabo de despertar de um pesadelo. Meus olhos estavam longe, eu estava perplexo, “Como, como isso pôde acontecer?!” eu havia cochilado um pouco no avião, e não apareceu nada, desde o avião, nenhum pesadelo se atreveu a regressar em minha mente, e agora, depois do ocorrido estou sem fôlego, estupefato, procurando através das sombras tríplices dos moveis o retrato daquele moço. Aquele quadro psíquico piorava, olhava para a janela, onde as cortinas embalsamavam-me a transpor lucidez. Até aqui, perdera o animo para cochilar. Ela estava lá! Sendo molestada novamente, não me olvidando de que eu era ela. Maldição! Deus quer me provocar! Parece se divertir ao me ver sofrer. Quando parece que já sinto-me capaz de recompor vós me maltrata com essa indiferença. Talvez seja por isso o fato de eu não ser muito religioso. Ouvi um som grave e abafado, e atrás da porta as luzes sendo ligadas; O som do fósforo sendo riscado ao ímpeto de acender os castiçais; Escutava passos largos... Decidi me levantar pra ver o que era. Reunira todos os meus sentidos dispersos na procura de inteirar-me da situação. Enquanto descia as escadas em passos ligeiros, escutava ainda aquele lugar inquieto. Foi com tanta pressa que nem tivera tempo de me trocar. - Por favor mamãe – começara abruptamente – Me fale o que esta havendo? Aproximando-me, até aqui exaltado, notei minha mãe a suspirar; Com ajuda de Rosálie esta apoiava meu pai as costas.
  • 155. – Seu pai teve um ataque de arritmia, estávamos chamando os vizinhos para levarem-no no hospital – esclareceu. Conhecendo- a bem, estava atônita, só não se permitia demonstrar. Que lastima, aquilo também me abalara. - Ajude a abrir a porta Lucas – falou Rosálie claramente entristecida. Fizera o pedido sem menor ponderação, adiantando assim a faculdade de discernimento. Em dado ponto usurpei-lhe o lugar prestando-me a levantá-lo. Ele se mantinha vidrado, o rosto inexpressivo, arrastava as perna, por vez ou outra transmitindo um murmúrio quase que inarticulado, peculiar no seu mar de melancolia. - Você já vai ser ajudado papai – disse. Se pudesse eu mesmo iria socorrê-lo. De pronto chegou os vizinhos numa charrete lustrosa. Se nessa cidade fosse livre a passada de carros, ele teria sofrido menos. X Sobriedade - : - Seria eu estúpido bastante. Por acarretar-me a coisas insignificantes. Demos tempo ao tempo... A faceta não mostra o que tudo é. Às vezes a máscara arrancada, não piora o rosto do falso subordinado.
  • 156. Sejamos incautos, o que estava aqui não estava lá; E isso não posso romper. O que estava aqui não estava lá; E de pronto, prestou-se a alcançar. - : - Aliviado das penas, haveria de uma hora ou outra alcançar os gozos futuros. Os dias se seguiram e minha fadiga transmutara-se cordialmente, até então insuportável, aparenta-me agora uma propriedade irrelevante. O retorno seria ou não algo esperado? Seria mesmo o momento propicio? Estaria aqui cometendo um erro aos devaneios psíquicos da minha mente fatalmente transtornada? Se sim, a temperança seria olvidada pela inapropriada fatalidade; tão pouco teria a permissão de ser datilografada. Rastejar de nada adianta, redimir-me para com o emprego teria de ser algo mais complicado e aguçado, se assim falamos. Como dá para perceber, não tardou minha volta. Expandir minhas convicções e pressentimentos não foram ao todo dissipados, confesso, não mantenho mais a sedenta amargura, completo-me com o doce suspirar da calma espiritual, enlevamento benfeitor, nada podia me arrebatar, minhas feições tranquilas muito surpreenderam, quando, logo após as saudações chegamos a argumentar: - Enfim de volta ao trabalho – comentou Helena tentando ocultar a felicidade. Tornou seu sorriso outrora acolhedor em tão apático e ligeiro. Deveras, deu ênfase ao complementar: - Já esquecera aquela tal de Amanda Borges? Tal indagação fizera-me estremecer, mas, não emudecer: - Claro, não passa de águas passadas – e tentando mudar de assunto, perguntei - Cadê o Roberto, e o Gustavo? Estão fazendo outras entrevistas ou matérias, suponho?
  • 157. Dito isso ela expôs um sorriso... Amplo... Doce. Não parecia presente. Aqueles olhos brilhantes fixos em mim fascinavam. - Sentimos muito sua falta, sabia? - Sei, falta de alguém para zuar – comecei a rir, ela não se importou, até deixou algumas poucas risadas escapar. Seu tom de voz emitiu suave sinfonia quando declarou: - É verdade, sentimos sua falta. O fato de você poder nunca mais voltar muito nos aterrorizava. - Não sejam tão dramáticos – exclamei - A casa da minha mãe localiza-se numa cidade muito pequena. O “Máximo” de emprego que eu poderia ter aptidão, tal como qualificado, seria o de pastor de ovelhas. - Não sabia que ainda existia tal profissão – afirmou incrédula. Debruçando-me ao balcão confirmei contestando-lhe a meditação: - Claro que existe! Por lá tudo é mais antigo. Rocas de fiar por exemplo: Minha mãe é a única costureira que ali vive que tem em posse uma maquina de costura. Nem carros por lá são permitidos. Classificaria essa cidade como sendo rural se não fossem os baixos índices de plantações. Vivemos em uma nossa sociedade com rupturas e lacunas no tempo, mas, por lá algumas coisas chegam ao banal. Acredita que algumas pessoas se mudaram para as montanhas afirmando retomar culturas antigas? Minha mãe tem medo de algumas serem pagãs. - Tudo culpa da guerra – supôs, brevemente estupefata. Comprometíamos pouco nesses assuntos, até por que, não eram nada acalentadores. - Sois tu Lucas? - A pergunta firme de súbito chegou aos meus ouvidos, fazendo daquele momento surpreendente e emocionante: Ao virar-me para traz, os vislumbrei: Meus caros amigos, por mim tão estimados. Roberto e Gustavo, naquele apreço fraterno, fincavam em mim seus olhos arregalados; já Helena que tudo assistia mirava a cena sensibilizava. Tão surpresos como eu, pareciam não acreditar,
  • 158. enquanto Gustavo roçava os olhos lacrimosos, Roberto adiantou- se no ato de me abraçar: - És tu Lucas? – mais uma surpresa, não esperava aquele abraço. Irmãos de pais diferentes... Também sentia aquela saudade com aperto no peito. - Sim sou eu Roberto – o respondi, no benévolo ímpeto de os confortar – Gustavo por que choras? – perguntei-lhe. - Não estou chorando – tentou se explicar – Caíra só um cisco no meu olho. - Não vos disse? – afirmou Helena desdenhosa – Sua falta nos foi muito aterradora. No intimo a cena me abalara; Num mundo corrupto como só hoje, a amizade verdadeira parece inalcançável, um sonho longínquo aos olhos humanos; Provas só forjam ainda mais aquela derradeira convicção. E ter diante de mim, uma prova física de contestação, muito me alegra, é melodia afável, transbordada de gestos infindáveis e sem maior temor ou receio. Me libertando daqueles braços, que me embalaram com tanta força – quase me sufocou – prosseguiu em indômito dialogar: - Quando chegara? Por que não me pedira carona? - Queria fazer uma surpresa – declarei a Roberto. Demonstrava certo nervosismo, o rosto tomou cor pálida; Só quando ostentou um sorriso na face, tranquilizou-me em nossa reunião. Após breve pausa prossegui: - Perdão, me esqueci, onde fica o gabinete do chefe? – e correndo os olhos na recepção, Helena sem receio orientou-me: - É no terceiro andar, primeira porta a esquerda. - Obrigada – agradeci. - Então ira retornar a equipe? – perguntou Gustavo em voz entrecortada. - Isso mesmo. *** Para acalmar a fera, seria necessário mais do que uma serenata.
  • 159. Quando eu e Roberto havíamos trocado as missões, temi ardentemente a possibilidade de demissão, e a noticia de um confronto com o chefe chegou-me mesclado ao sofrer de um ataque cardíaco. Tanto nervosismo foi ao todo um exagero, confesso, mas, como não se exasperar com algo inesperado? Ao ser chamado em sua sala ele foi até acolhedor: - Sente-se – ordenou. Tudo que um chefe fala o fiel subordinado deve de cumprir sem pestanejar. Enquanto ele andava de lá para cá, eu empurrara a cadeira e observava sua sala. Sua majestade tinha vinho, um bolo de glacê e champanhe! Afinal o que mais poderia querer? Se pensa em também pedir minha alma coisa ruim, saiba que ela já tem dono. A burguesia é tão alta assim? Se for me intriga o fato de meu chefe não consegui nem pegar um arquivo em cima do armário de documentos. - Lucas Fernandes... – ia argumentando; Acho que, na hora eu até tomei um susto. Tava viajando naquele mundinho feito de maionese... Melhor, chocolate. Ele me acalma, me fez esquecer do fato de que a qualquer segundo, naquela sala, o perigo de ser demitido me rondava. - Sim sou eu – no momento até pensei em me levantar da cadeira e fazer continência. - Então tu és o cara que pegou a missão que não devia. Não é a mais difícil do ramo, mas, esta entre uma das mais difíceis – lançava aquele olhar severo a minha pessoa. A qualquer momento poderia esperar que ele tirasse do terno uma arma e apontasse pra mim, esse fato tornar-me-ia um infortúnio frustrante. - Sim sou eu – repetira a resposta. Ele circundou-me mais um pouco, fixo em mim, como se tivesse interrogando minha consciência. - Então... – atalhei para por um fim na conversa – Serei demitido?
  • 160. - Esta louco? – indagou-me estupefato. Com as sobrancelhas erguidas e as feições da face bem esbugalhadas enfatizavam lhe o conceito. - Então, o que queres? Por que me chamou? - Hei de aumentar seu salário em 50 por cento. Parabéns meu rapaz! – dando uns tapas nas minhas costas – Se desse, iria promovê-lo! Pasmado naquele olhar de peixe morto, me foquei comovido ao teu bolo de glacê. Será que me oferecera um pedaço? - Quer uma fatia? Tal pergunta de imediato fizera sossego a minha alma jaz tão tentada. Comi quase o bolo todo, ele fora preparado pela melhor quituteira de todos os tempos! Agora chegou a hora do segundo confronto, arriscar-me as consequência parece idiotice para qualquer rapaz que se preze – um medroso, o que eu, por ventura não sou – Me sentencializava a aquela inquietação, o nervosismo se apoderava de mim usurpando-me as forças. Ações pareciam impossíveis, entretanto, eram alcançáveis a qualquer um que aspirava sedentamente o cargo que outrora descartara. Á contragosto ele atendera a porta em que eu batia. Entrei. Acomodando-me na cadeira, meu olhar se punha a correr pelo gabinete de forma descomunal. Seria capaz de escrever socorro com carvão, enquanto meu chefe, naquela postura indelével e marcante, escreveria com sangue de outros o tão impiedoso “Não”. Não seria capaz nem de meditar o reatar de minha vocação? Sobrepujava naquela sala certo mistério, o confronto de olhos não demorou para acarretar na distorção do que se sucederia. - Viestes aqui para que? – num sopro interpelou. Respondera um tanto embaraçado: - Chefe –corrigi rapidamente tirando o chapéu –; Senhor, despedi da minha profissão por certos declínios psicológicos. Vim
  • 161. aqui já regenerado suplicar-lhe meu retorno, permitir-me-ia tal ato? A sala transbordou num silencio perene, quase insuportável. Seria mais que certo julgar-me um perdedor nessa batalha, o padecer também fora solene. Fizera menção de levantar, todavia,deturpado o avarento interrompeu-me com um berro acalcado: - Não vá! E agarrando fortemente meus ombros gritou dentre desespero: - O Conde Vermelho foi bem claro, só aceitara ser entrevistado por você. Somente por você! Por favor, não me deixe na mão! - Eu que já estava pasmo quase vomitei quando me chacoalhou, o tivera feito no terno, tenho certeza que por sua reação burlesca e leviana perdoar-me-ia com um ignorar. - Por favor – continuou embargado pela tensa aflição – Não me faça ter de suplicar. Praticamente enfermo, nem percebi as palavras articuladas que saiam como brisa de meus lábios, até então, com o estomago embrulhado, e com vista turva, reparei na façanha que foi assistir sua tranquilidade. - Vamos ligar pra eles agora marcando a entrevista – declarou em branda empolgação – Espero não ser desapontado. O telefone chamou, e ele passou pra mim. - Das ultimas vezes que liguei, desligaram em minha cara – explicou-se. Que povinho sem educação, não pude mesmo deixar de reparar. Apoiando o objeto a minha orelha, aquela voz ressaltou num cômico palpitar: - Alô. - Alô. Sou eu, Lucas Fernandes – apresentei-me. - A sim – respondeu a voz fina, que reconheci como sendo a do Conde Vermelho – Estava esperando sua visita... É aquele que iria me entrevistar? Perdão a memória falha, muitos dias de uso, muitos compromissos...
  • 162. - Compreendo... Sou eu mesmo Conde. Que dia achas o mais adequado, o que estas mais apto? - Venha na próxima quarta, tenho andado muito ocupado essa semana... - Beleza – ia desligar quando ele perguntou: - Quer que eu chame Alice? Atônito, redargui com silencio. - Entendo – atalhou compreensivo – Nos vemos na quarta. Logo após, o som de tua voz desaparece no mundo, todavia, em minha mente ainda permanece... Não pode ser... Não pode ser... Tal qual um soneto indecente. XI Amigo Fura Olho - Você bem que poderia entrevistar TobosoAkino; – certa vez Gustavo fez questão de comentarisso comigo - Dizem que ele esta prestes a se isolar. - Vou pensar... - Todos os ricos têm seus ataques histéricos – Helena interveio, mais lúcida. Caminhava aproximando-se de nós. Fadiga é o que não a falta, carregava uma penca de papéis – Gustavo você não devia de estar fazendo as análises esportivas? – complementou fazendo-o vista grossa. - Toizonando um pouquinho. Mas não precisa se preocupar, agorinha eu volto ao serviço. TobosoAkino é nada mais nada menos que a oitava pessoa mais famosa da cidade. Todos que o conhece, e tiveram chance de vê- lo respeitam-no por sua postura forte e determinada; Portador de palavras sábias, este homem de caráter nunca negou um
  • 163. conforto. Não era homem de caprichos, seus atos foram devidamente investidos em ações de caridade. Esta faculdade intima se sobressaia acarretando uma legião de fãs e adoradores. Akino como o homem humilde e benévolo que o julgo ser, acredito que toma por si enorme desgosto, principalmente por deixar as janelas abertas para a publicidade. Visivelmente irritada pela minha complexidade e desleixo, retornou: - E você Lucas? – o tom sério de tua voz, arrebatava –; Não devia estar fazendo algo? - E estou – respondi com brandura. Todo o mal humor que por mim descontara, dissipou-se com amabilidade – Estou fazendo uma redação sobre o aumento do preço do Dólar nos Estados Unidos. - Que assunto horrível! – disse num berro ensurdecedor. Mesmo com a enxaqueca, não podia discordar, o sono já ultrapassava o banal - Se eu fosse você – viável opinou - Pediria outra chance de sucesso. Tu tens toda a moral com o chefe. - Não sou uma pessoa fácil de ser tentada – repliquei. Vago silencio se fez entre nós. Continuávamos ali, fixos um no outro. Ela enrubesceu transparecendo grande ressentimento. Hesitava no balbuciar, juntando todas suas forças, isso foi possível: - Isso é presumível – e sua voz refletia suave tal qual um sussurro inarticulado –; Aposto que sua namorada não diz o mesmo. Irritei-me de imediato. No embaraçar me enrolei tanto a ponto de emudecer e não mais falar. Graças a Deus é feriado, seremos dispensados mais cedo... Aproveitarei minha volta para casa no ímpeto de arquitetar meus profundos anseios, para que estes sejam realizados... Não, Alice não esta neles, e nem poderia merecer! Essa Amanda Borges não merece existir! Não existe! Seria injusto... Recordo-me, chegava a ser doentio.
  • 164. Essa vontade de quebrar como vidro... Minhas retrucas parecem tão levianas, antigamente, talvez eu as pudesse melhor interpretar. O que se passa dentro de mim? O que deseja meu ser? Naquele final tarde, Robertofez a questão de notar este meu semblante desencorajador. - O que houve Lucas? – indagou-me apreensivo. - Não é nada – respondi incauto – Vamos na loja de antiguidades? Quero dar uma olhada em alguns objetos. - Vai comprar pra si? - Não, por que? Eu que conhecia bem aquele sorriso libertino, vacilei um murmurar: - Não é da tua conta. Achava interessante o fato daquela biblioteca ser de dia uma loja de antiguidades. Já a visitei algumas vezes durante períodos tardios. Dei-me com uma jovem muito bela, esguia, todavia, não me era conhecida: Soreli. Soreli Sylvia dos Chagny, era uma branquela muito charmosa, chamativa, ainda mais pelo seus cabelos vermelhos encaracolados. Desfilava naquela pose e seus costumes góticos; tinha como prendedor um artigo de viúva negra, seus olhos negros cintilantes sobressaiam-se como fúnebre pela maquiagem e o tom de cor das vestes. - O que desejam? – perguntou-me.Esboçava ao mesmo tempo um sorriso cálido. - Desejo um récamier. Tens um a venda? Fez gesto de pegar um caderno da estante ao lado. Colocara a mão na cintura declarando: - Todos os artigos a cá estão á venda; Se quiserdes dê uma olhadela, dependendo do artifício poderia notificá-lo como brinde. - Obrigada senhora – desdenhei – Só quero um récamier.
  • 165. Roberto acarretado por visões missionárias, vislumbrava embevecido cada artigo. Á sua esquerda uma mesa de madeira esculpida do século 15, acima porcelanas chinesas. Adornando a parede uma pintura de nome “Casamento Desigual”. Tal pintura era de tirar o ar, fora os olhos arregalados que mal conseguia expressar pela quietude, sua tremenda exaltação composta por enormes valores. - Vos és um apreciador – comentou a jovem burguesa. Estava usando um simples vestido begecom babados, porém aprimorado por bordados. Não usava de joias nem maquiagem, seu cabelo era recolhido a partir de um estilo sóbrio romano através de uma fita. Fazia parte de muitos componentes da clientela – Pintura a óleo, ostentada por faces sublimes. Tens bom gosto – declarou. - Obrigado – Agradeceu Roberto em cortesia – Não irei comprá- la, só estou a visualizá-la. Verdade que, antiguidade não é para todos. Peças originais, as vezes até ultrapassadas a tempos modernos, como o caso de iguarias pré-históricas, só tornavam-se accessíveis apenas a classe nobre; Se não, a classe burguesa; De resto, qualquer mercadoria que não fosse inovadora, servia a classes mais baixas; Havia artesões que criavam suas próprias peças materiais titulando-as como valiosas, todavia, nada mais é do que uma copia das reais de outrora, não fazendo jus ao codinome, tão pouco ao valor que houvera aclamado. Descarte a certeza do sucesso nas artes, isso é predomínio apenas da classe menos predominante. Minha mãe por exemplo nunca poderia ter em posse uma butique, mesmo que venda em casa os acessórios e vestidos feitos por suas mãos não seriam considerados de sua autoria se o impregnasse numa estadia soberana. - Lucas – chamou-me Roberto, por um instante me via inapto. Fixava os melhores preços para um récamier. Um sofá cujo os braços são mais elevados e não possui encosto. Muito utilizado na época pelas moças da sociedade que preferiam dormir neles
  • 166. para não desmancharem o penteado. Ficou conhecido como récamier por causa de Julie Bernard, a Madame Récamier. Ela foi pintada, aos 23 anos, pelo artista francês Jacques-Louis David no século XVIII. - Lucas – repetiu num prolongado articular. - O que é que você quer? – aquele gesto de insistência tomava- me por perturbado. - Pondero que estais indisposto, todavia, preciso mostrar uma coisa. - Olhou algo que tenha lhe agradado na resultação de brinde? Fitava meu amigo. Espécime de incomodo arteiro, seguindo do meu récamier vermelho que me enfeitiçou com tanto luxo logrando meu aspirar. - Não é isso – respondeu transparecendo intrigancia. O que ressaltava não ser do seu feitio – Venha ver o que encontrei, é surpreendente! Não serei o único transbordado de empolgação, tu também se vera como entorpecido. - Quem me dera – oscilei imponente - me mostre o artifício. No meu tranquilo marchar, subestimava situações restritas. Acontece que foi planejado, de longe não esperava tal surpresa. Surpresa magistral, fazendo que meus olhos pendessem e o coração redargüisse pela anciã. De trás de uma cabine, do lado de uma cabidera e de uma banqueta, encantei-me com um bonito quadro pintado a óleo, que tornava por magnífica aquela parede incolor. Transbordava em gestos levianos, devassos e acima de tudo atacava meu ponto fraco. Emudeci. Imóvel tentava gesticular enquanto contemplava-a meticulosamente. - É idêntica a Alice – afirmou Roberto ternamente. Verdade, se não fosse pela data escrita num papel branco, julgaria que aquela pintura fosse mesmo ela. Prostrada numa cadeira almofadada; Os olhos profundos transmitiam intensamente indignação, e seu sorriso confortavam
  • 167. a solidão exaltada aos lamurio. Trajava um volumoso vestido rosa cheio enfeitado com laços e fitas, e na cabeça um fascinator detalhado com rosas. No pescoço se tinha adornado um colar de rubis preciosos. A pele fria aquiescia à tormenta, os lábios vermelhos tornavam-se tentadores e salientes. O fundo da ilustração teria como destaque o escuro se não fosse as cortinas feitas de lenços roxos. Tinha ao seu lado uma mesa onde tomava por apoiar uma das mãos. A mesa era de vidro e cintilava. Mesmo sendo uma antiguidade, não aparenta desbotamento nem si quer ter virado comida pra cupins, fascinante! - Quer mesmo comprar um récarmier agora? – indagou-me Roberto não escondendo o interesse. - Não é eu quem esta pagando – esclareci chateado – Doyle, uma prima minha pediu que eu procurasse um e mandasse pra ela. - Ela é rica e bonita? – Roberto era muito curioso. - Um pouco – respondi desconfiado – Todavia, esqueça dela, ela já ta noiva. Roberto perguntou, agora dirigindo-se a Soreli: - Senhora Soreli. Quanto custa esse quadro? - Me perdoe senhor – declarou – Esqueci de tirar esse quadro daqui. Ele já foi vendido - Envergonhada pela situação ela interveio. Apressava-se no ímpeto de tirar o quadro da parede. Meu amigo insistiu: - Quanto ele custa? Aceitaria uma oferta maior? - Não, perdoe-me – retrucou à senhora acelerando o passo – Sr. TobosoAkinocomprou esse quadro primeiro. - TobosoAkino? - Isso mesmo – confirmou Soreli na faceta cândida – Ele é a oitava pessoa mais famosa da cidade. Por isso nem eu esperava... Nunca passou por minha cabeça o ponto da necessidade. As defesas são frágeis, e deveras, não conseguia me mergulhar em seu mar de desespero.
  • 168. Roberto tinha no rosto feições indecifrável que intencionavam racionalmente para com teus dilemas. Seu delito foi ali, não articular a palavra seria uma grande falta de educação. - O senhor esta bem? – perguntou-nos Soreli. A altura do campeonato já se comprometia. Deixava exposta preocupação demasiada e sutil. - Eu preciso dessa pintura moça. Não tem mesmo como tê-la em mãos? Por motivos que desconheço, ele continuou insistido: - Me fale por favor. - Já não cabe a mim explicar-vos – protestou Soreli– Devera tratar deste assunto com o próprio dono – disse a garota, e com uma reverencia estouvada considerouseriamente atender outros clientes. Petulância ou não Roberto exasperado não tinha a menor vontade de desistir. - Eu vou conseguir aquela pintura de qualquer forma. - Não entendo por que tanto lhe importa tal pintura – falei repreensivo – Nem Alice ela não é. Quando fitei a pintura, confesso que o espanto se apoderou de minha alma. Contudo, não consigo admitir a autenticidade dela. Alice se fosse pra ser pintada, devia de ser banhada pela insana sangra. Santidades barrocas ficariam surpresas. Roberto permaneceu irrequieto. Hesitante, tomou extrema dificuldade quando decidiu confessar um relato: - Pode parecer ridículo; Céticos ignorariam a probabilidade de minha certeza. Todavia, vos sois diferente não é? Vos és confiável e não me vera como lunático. Comprometera com meu rascunho indelével que é essa inquietação. O olhei curioso com um leve sorriso brincalhão delineando a minha face. Ele continuou: - Pois bem – prosseguiu após o encorajamento. Tomava fôlego antes de revelar: - Acho que estou apaixonado por Alice Valmont. Sei, sei que é estranho! Nunca a vi, nunca falei com ela,
  • 169. mas, só de olhar essa pintura fico encantado! Chego quase a enlouquecer! Não consigo traduzir minha exasperação com palavras. Mudei radicalmente do vinho para a água. O sentimento de asco me perfurava, me oprimia, e, no entanto, ousei questioná-lo: - Essa pintura nem é dela. Se olhar bem a foto antiga que Gustavo achou... - De que importa isso? – acrescentou Roberto empolgado. Expunha o mais amável dos sorrisos. O povo todo da loja parava só para olhá-lo – Só queria poder acordar e ver o rosto dela perto da minha cama. Pensei que você entenderia, que você me entenderia Lucas, já que é meu melhor amigo. Senti frio na espinha. - Agora você entende Lucas? - Sim, mais do que entender, te apoio. Ás vezes por mais que doa mentir parece à solução correta. La estava eu, mergulhado na escuridão absoluta das minhas faltas sofridas, quando ouvi uma voz respeitosa: - Com licença senhor – e um cutucar nas costas. Sem que antes eu pudesse checar a entidade, num piscar de olhos, ele se fez visível. Atrás de mim, muito formal, havia um homem alto e esguio. Alias, era de uma beleza admirável, belos olhos escuros, cabelos negros e sedosos; Olhos puxados e sobrancelhas fortes faziam-no aparentar um meditar profundo, o que lhe caia muito bem. Havia de ser um Intelectual, sugiro.Foi um espanto deparar com seus andrajos. Estava vestido com um kimono vermelho carmim, e na cintura uma especiaria similar a uma faixa. Na cabeça ornamentos em relevo, e aparentemente no chão, seus pés se locomoviam num tamanco de madeira. Se isso foi surpresa? Imagina quando deparei-me com sua companhia: Ao seu lado tinha uma moça esbelta e elegante. Os pés pequenos tinham dificuldade de locomover também com o popular tamanco, que lhe era típico; obvio também usava um kimono, contudo de um modelo mais feminino e ajustado, estampado com cores vivas e saltitantes. As mangas eram curtas
  • 170. e pretas, sinal de que já era bem casada. Submissa manteve- setodo o tempo calada. Girava a sombrinha comumente utilizada em passeios periódicos. No cabelouma massa grande que solta caia na cintura, também havia ornamentos, até mais complicados do que o moço; tinha um monte de presilhas e pauzinhos se emaranhando. Seu rosto estava completamente tampado com pó de arroz, isso é sinistro. - Sim senhor – pronunciei-me. - Ouvi falar que estas a procura de um récamier – observou o homem. - Sim estou – confirmei – É para uma prima distante. Aqui fez uma careta esbugalhada, não sabia dizer se este iria rir ou chorar: - Eu tenho um lindo em casa, te interessa? - Com licença – Roberto aqui interrompeu – Quem significantemente é você? Agora foi a vez da atendente não se segurar de rir. Estava passando pela bancada no ímpeto de checar o funcionamento do caixa. Sem nenhuma afinidade com a conversa disposta, pelos cotovelos a escuta não se impôs ao estado de vigília; Isso definitivamente contagiou a moça do pó de arroz, que fingiu tossir para disfarçar. Ele fez questão de se apresentar: - Eu sou TobosoAkino, e essa é TobosoYana, minha esposa. Vim aqui pegar um quadro que encomendei; Já esta pronto Soreli? - Sim esta – confirmou garota. Com todo cuidado pegou o objeto encaixotado. Quando enfim o viu em mãos do novo dono a jovem funcionaria suspirou fundo,dando a impressão de alivio e que um grande fardo saíra de sua cabeça. - Então – prosseguiu o Akino – Já falei meu nome, mas, vocês não falaram o de vocês. - Eu sou Lucas. E este aqui – informei com as mãos – É o Roberto: - Muito Prazer.
  • 171. Roberto ergueu a mão no favor da simpatia; Ao invés de estendê-la, senhor Tobosocorrespondeu aquilo agachando a cabeça num expor complexo de devoção. - Devo me desculpar – falouToboso depois daquele ato – Mas eu e Yana precisamos partir o quanto antes. - Espera – pediu Roberto. Olhei para meu amigo incrédulo. Os olhos dele brilhavam. Até o último instante não imaginava de maneira alguma semelhante desfecho. - Sim jovem – falou Akino. - Quero essa pintura, de quanto preciso para tê-la em minha posse? O rosto imóvel e sério de Akira transformou-se num instante, ele caiu na mesma gargalhada nervosa de agora a pouco, como se controlar fosse-lhe uma condição inapta e restrita. Roberto ofendido interpelou: - Qual a graça?! - Essa pintura é muito preciosa pra mim – esclareceu - Não tem valor, eu não a vendo de forma nenhuma. - Não tem mesmo como? - Não tem como – interferi. Ali a suplica de Roberto contrastava com uma audácias avassaladora, e pouco comoveria o jurado – Deixemo-los ir embora. - Mas – balbuciou. Logo depois, resignou-se com a derrota. Akino fez menção de ir embora. Um regresso por entre as passagens comuns do dia-a-dia; Um passeio ótimo era o que fariam, qual uma noite de luar iluminada pelas lampiões dos parques mais próximos. Num relance me veio a Lembrança daquele seu nome. Estremeci. Alice... Ele saberia algo que eu não saiba? Transtornado, Roberto articulava ainda palavras sem nexo. Fizera um movimento que denunciou sua incredulidade. O pranto do pobre, tísica e abandonado Roberto produziu aparentemente, um forte efeito á aqueles que compareciam.
  • 172. Isso não era suficiente; não contive, lancei raivosamente sobre ele um olhar pejorativo. - Esqueci do récamier – Akino se deteve ali, voltando seu olhar sobre nós – Ainda desejas dar uma olhada? Via-se claramente em Roberto uma lâmpada acesa. A iluminação de sua faceta, sobrepujada ao teor de sua leviandade, revelava-me suas atuais intenções. Em circunstâncias como essa devemos transparecer mais dignidade. Á parte Roberto não estava sendo nada gentil, e o atrevimento que demonstrava para com a senhoras, redigia seus valores ornamentados. - Pois bem – pronunciei-me – Um récamier é tudo que eu quero. Desde que esteja em valores acessíveis. - Vamos argumentar – disse Akino ao torpor de trejeitos efêmeros – Este é um objeto feminino, assim como tantos outros, o valor se torna ainda mais estigmatizado. - Ocorre que – retorqui. O brado de minha voz se tornou suave na minúcia – Não é para mim, é para uma prima - Uma das pessoas mais conhecidas dessa cidade querendo pechinchar é algo muito cômico. - Sei bem. Venha conosco, a caminhada não é longa - Pausava ali. Sua esposa toda requintada, era do contra tal ação. Começava a apertar-lhe forte o braço envolvido pelo tecido fino. Calculista, Akinoadmirou-lhe a feição. Disse-a: - Yana não tem por que ficar guardando aquele objeto em casa. Pra que acumular poeira. Timidamente, no receio de nossa escuta, a moça sussurrou-lhe no ouvido: - Sabes que era do meu pai quando morreu, tem certeza que deseja isso? - Sim, não há espaço lá. Vagamente chateada franzira a fronte. Deveras, uma ação breve, logo em seguida colocou sua mascara. Como se tivesse caído e levantado, erguera-se sozinha sem a ajuda de ninguém.
  • 173. Não pestanejei no mudar de meu conceito. - Sendo algo tão importante Yana – repensei – Quem sou eu para tirar-lo dela? - Eu estou bem –Yana replicou, comovida – Eu estou bem, compre-o fará ótimo negócio. XII Palácio Japonês Fulgurante e amargurada. Á frente de meus olhos, num similar profano, considerava aquilo majestoso, e por certo, rogaria por ter de volta aquela visão de esplendor. - És lindo este lugar – comentou Roberto, revelando semblante iluminador – Comento que, é a paisagem mais bonita que já vi. - É do nosso costume – comentou Akino – Nada mais nada menos, resgatamos de nossa terra natal tudo o que for necessário no transpor da esperança. Entre eles, a própria cultura. - Realmente é a paisagem mais linda que tive a honra de conhecer – concordei. Após o dito deveras embevecido me mantive calado. As amostras convincentes eram claras, não haveria de ser diferente dentre aquela paisagem nostálgica. O silencio era uma dádiva divina, banhava aquela imagem, principalmente o rio de azul profundo e imaculado, com serenidade ao transpor de sentimentos mais íntimos. Duas figuras comandavam a barca - Um senhor serio de sotaque
  • 174. escocês e um jovem irlandês de nome Soni –; e os convidados, inclusive a minha pessoa, absorvia com prazer o teor daquela atmosfera fantástica. Deixava-se levar por aquele novo mundo, de um passo cheguei a ele e experimentei da aquarela de um arco-íris. As águas ondulavam quando atingidas pelos remos; A barca parecia querer virar com o sobrepeso que carregava. Tinha naquela mesma água pedaços de terra ambulantes: Algumas com chão em flor, e outras adornadas por pequenas estatuas ocidentais. Esbeltas mesmo eram as de cerejeira, suas pétalas voavam por entre a brisa sem rumo; tão sentida, similar a chuva de prata após enlace matrimonial. - Vocês não viram nada – declarou o Sr. Akino, convidando-nos a aventurar por indecifráveis lacunas – Soni, leve-nos ao templo. - Sim senhor – respondeu o pequeno. Um menino meigo, daqueles que vão de um lugar a outro com suas calças rasgadas. Avançando por entre a planície, o por do sol prostava-se inseguro no céu quase noturno, e eu ainda experimentava daquele lugar estranho. Tal qual criança num parque temático, não sabe em que brinquedo ir primeiro, no meu caso, não sabia aonde colocar os olhos, em que, no final, eu me focava? Percorria-os por toda a imensidão, e tudo parecia tão variante, os tons de luz e cores; Nuvens brancas e inquietas, por vezes ou outras, culminavam com a chuva, pequenas gotas orvalhadas desciam sobre nós; Eram um consolo, uma vez minha irmã me disse: “Quando chove, Deus esta chorando por alguém, por pessoas que sofrem, em algum lugar do mundo... “ Naquela época ela era tão pequena.. Isso chega a palpitar, e num calafrio, quase chego a despencar. - Soni aumente a força nos remos – falou o Senhor de sotaque escocês em jeito hostil – Se não, assim nunca chegaremos. Tal cena tinha sido massiva, mas, tantas como essa aconteceriam a seguir.
  • 175. - Não fale assim com o garoto – repreendeu Akino com enorme senso de justiça – Não és pago para ficar censurando ninguém, continue a remar! O velho senhor, exasperado, acatou-lhe a ordem. Percorremos aquela ventura. O sol se punha e, a ilha parecia ainda tão longe. A ilha dourada, o templo de Deuses antigos. - Não acredite no que os olhos mostram – balbuciou Akino, deixando-me alerto – Creio que sempre a um significado. No coração, há sempre uma saída. Não acredite em seus olhos, eles geram intrigas, ilusões... Ele pode enganar-lo. - Como assim? – perguntei estupefato. O caro nobre, esclareceu com um sorriso: - Nos, já chegamos. Não consegue ver a terra por baixo da água? Já podemos seguir andando. Ao perceber isso, me molestou a surpresa, empragmatica, destilando de mim uma feição imparcial, semica para mim, examinei ortodoxo aquela espécime de igreja. - Não acreditem nisso também – proclamou Akinopereno. E ainda assim, dava-se para ouvir sinos no badalar – É minha casa; Venham, entrem logo, é perigoso ficar aqui depois das 24:00. Alice? - O que tem de tão ruim as 24? – interrompeu Roberto em suas reflexões. - É à hora onde os espíritos despertam, respeitar é mais do que correto –; Erguera as pernas. O primeiro foi à ponta dos pés, e o gemer foi incauto, tímido. Yana tomou prazerosamente o braço que o marido a ofereceu. Quando o fez, quase me assustou. Até aqui, ela não parecia presente, ali, conosco... E seu breve ato advertia premissas. Uma alma de fantasma, um labirinto sem saída. Naquele suspirar, a submissa conjectura,agarrava o rapazque com jeito passivo nos detalhava do mais infame sobre a residência. Soni tirava com cuidado a pintura das amarras, neste instante Roberto objetou as formalidades: Encarava-a, desviava a fronte para disfarçar e em seguida, dava-lhe uma olhadela. Parecia
  • 176. grosseria, mas, tentaria de tudo para poder apreciá-la, tocá-la... Justo se mantinha numa idéia fixa. Só de perceber isso me deixava corroer, dentre uma lastima de miserável. O garoto era apressado pelo moço de sotaque escocês, e com um sorriso calmo, deixava-o lavar sua alma pelos delitos. Seguimos o nobre que continuava em orações. Ficamos calados, atentos as informações mais passageiras. São peculiares, mas, importantes. Instigava-nos a mistérios remotos. - Como sentem-se? - Ótimos! – respondi por nós dois. Me via tão ludibriado, me distraia com tanta facilidade, que, foi quase impossível entender todas suas falas. Caminhávamos de vagar sobre aquele túnel de veludo. Meu olhar, minha visão, vale mais que minha fala. Fala pode gerar contendas, visão não. Uma imagem vale mil palavras, queria fitar aquela arquitetura, sentir todos seus mistérios, intensificar aquilo com todas as forças. O mistério me fazer-ia debater, ainda mais nessa situação tão delicada. Tal lugar era enorme, como de se esperar, famílias japonesas dessa área da cidade transformam suas moradas em luxuosos castelos. - Podem ficar a vontade, mandarei trazer chá para vocês. Levou-nos a uma sala feita de madeira e papel, cujo a porta dava para um sobrado iluminado; Nele havia grande acervo de árvores de cerejeira, era amplo, e bem desenhado, e a sua frente havia uma capelinha a que na qual rezava comumente. Yana se despedia, não poderia se intrometer em negócios de homens. Menina tola. As janelas deixavam o cômodo transbordar em ar puro, via-se do sobrado pessoas indo e vindo, em suas ocupações expressando enorme pressa. - Estão construindo algo? – perguntei. - Sim – respondeu-nos – Estamos mudando a decoração de toda a casa. Inclusive, ali – apontou com dedo indicador ao meio do
  • 177. sobrado – Será construído uma replica idêntica da estatua da Justiça. O Brasil sempre foi um pais com grande demanda de corruptos. O político era o verdadeiro Pinóquio enquanto o povo o Burro. Irônico, não? Destrui a obra de Carlos Collodi. É deveras impossível acreditar, mas, depois da terceira guerra, passaram por cima de todas as injustiças e fatalidades. O que acarretou num monumento nacional até então pouco conhecido: “A Estatua da Justiça personalizada” encerra séculos de uma escravidão feita de ignorância. - Acho aquela estatua linda – comentou Akino. - Vamos direto ao ponto – interrompeu Roberto já um tanto farto – Não esta disposto mesmo a me vender a pintura? - Aquela? Lógico que não! Já disse que ela é muito importante para mim... - Por que tanto lhe interessa Alice Valmont? – retorquiu. Surpreso com a pergunto Akino demonstrou-se embaraçado e marchando leviano pela sala, expressou: - Nada me interesso por ela, nunca a vi na vida. Quem é essa? Incrédulo, Roberto jazia desconfiado. - Alice é a personagem da pintura. É a dama dos olhos bizantinos. - Me desculpe rapaz, não faço idéia de quem é essa. Lucas falemos do récamier... – sem que pudesse completar a frase, Roberto retornou: - Como assim não sabe quem é ela?! O que tanto vê de esplendoroso nessa pintura que não pode si quer fazer o preço?! O que tem de tão importante nela? - A cólera o envolvia de tal tamanho que fora um suplicio reater o fôlego. Sr.Toboso fez breve pausa, masesclareceu: - Como devem saber, sou um Adventista, acredito em conseqüentes conspirações; Em breve ela aparecera, ela sempre aparece. Pode parecer mania de desconfiança, mas, não é do meu feitio os sinais são gigantescos. - O que prevê? – interferi com uma pergunta.
  • 178. - Vejo uma quarta guerra mundial. Também desconfiava disso, com abundancia. - Vejo... – continuou Akino – Que uma reação em massa contra tal evento seja inevitável, uma tragédia – seus olhos faiscavam, e Roberto exasperado indagara: - O que isso tem haver com a pintura? - Tem tudo. “Ar’la Kafka” é o que meu tataravô dizia, ele não deve estar em paz nesse momento. Ele convivia numa ceita e lá predestinava-se o fim do mundo; algo muito bobo, até rechaçado pela minha família na época que não levava-o a serio. Agora quero saber se é verdade. Roberto repetiu: - O que isso tem isso haver com a pintura? - O silencio era de eriçar os cabelos. - Ela é muito mais que uma pintura – respondeu Akino paciente – Será a chave para todos os segredos. *** Alice, a chave para todos os segredos? Só podem estar brincando! A moça do sorriso efêmero me ataca novamente! Uma verdadeira bruxa, aliás. Aliás, comprei o récamier, é lindo e esta em ótimas condições. Passamos a noite na casa de Akino, pela janela, ao anoitecer, pensei ter visto dragões a voarno céu... Então devem de ser esses os espíritos. Nem com toda a grana do mundo Roberto fazer-ia a cabeça do Sr. Nobre... Devo de confessar, mais que obra de arte!
  • 179. XIII Doença Perfeita - : - Naquele sonho, tentei te encontrar. Sem conseguir, alcancei seu aroma. Onde estavas? Não vá me abandonar. Ainda procuro o teu cheiro no ar. Ele me vicia. - : - Ao adentrar os salões fui tomado por profundo êxtase. Logo minha vista fora agraciada pelas cortinas tilintantes; Aparentavam serem feitas da melhor ceda mesclada a genuínos diamantes. O corredor amplo sobressaia-se como um salão sem fim. As figuras pulsavam, berravam, chamavam por demasiado minha atenção. Examinei-a meticulosamente: Relógios e lustres compunham boa parte daquela atmosfera requintada. Pinturas e relógios adornavam a parede branca tornando-a mais otimista. O piso de madeira avermelhada fazia os meus passos tinirem. Estou maravilhado! - Então – comecei por interpelar. De certa forma não estava apto a isso, tendo em conta as mais diversas distrações – Me fale de você? Desdenhando umas poucas risadas o Conde declarou:
  • 180. - Deixemos isso pra depois! Vamos primeiro almoçar. Viestes de muito longe não é mesmo? Vamos almoçar, gosta de vinho tinto? Visando evitar contendas, me resignei com meus propósitos: - De fato, sim. Avançando mais pelo recinto adereços me intrigavam. O local tinha um enorme acervo de esculturas e estatuas. Alguns vasos marrons de eras longínquas estagnavam-se em prateleiras envernizadas. As janelas estavam sendo abertas, aqui e ali se via empregadas com seus instrumentos fazendo os mais diversos serviços. - Perdoe a sujeira – explicou o Conde em gesto trivial – É que hoje é dia de faxina. Também, o único dia em que estou sem compromissos. - O que fazes nesses dias? – indaguei. Era mais que visível minha curiosidade, e ele simpático a aguçava com o silencio. Vaga pausa se fez antes de responder: - Cuido de ações metade do dia. - E a outra metade? E outro silencio se fez. Enquanto aguardava apreensivo um redargüir, fitava timidamente o ardor do trabalho feito das criadas: Cada capricho se ocupava com atenção, detalhes requintados em esmero; Não havia si quer uma sombra da poeira, e por sinal não haveria de ter sendo elas funcionarias tão dedicadas. Familiarizava-me com alguma das jovens, que mesmo esgotadas pela fadiga, não demonstrava a exaustão. Tinha entre estas uma loirinha de franjinha. Uniformizada, com um balde de água na mão e no outro o esfregão, possuía a missão de dar reflexo ao piso. O rosto dela lembra muito o de minha irmã; Sensação assombrosa foi o que senti ao principio. - Esta é Ester – apresentou-me o Conde, e adiante, seguindo de uma saudação, ela se apresentou: - Sou Ester Cavalcante Senhor. O que desejares estarei ao seu dispor.
  • 181. O jeito como se curvava transpunha-se encantador. - Pode continuar o trabalho Ester – disse o Conde – Qualquer coisa eu a chamo. - Obrigado Senhor – agradeceu voltando-se ao serviço. O lugar estava mesmo agitado, todavia, isto não tornava nada importuno. Artimanhas secretas, truques guardo dentro da manga. Não me esqueci da pergunta, necessito sabê-la. Só assim terei de volta minha paz de espírito. A luz que saia das venezianas era magia serena; Harmonioso, suave, deslizava agradavelmente por aquela mansão elegante a paisagem verde que tinha do jardim, envolvendo a todos com inesperada paz e tranqüilidade... Apreciar isso me enternece, fitava o conhecido bucólico completo embevecido. Como resultar tamanha magnificência complexa? O decorador fora um mestre sem igual. Tratava-se de um museu, quanto mais seduz nossos olhos melhor, ainda mais quando se trata de um pobre miserável como convidado. Paramos numa porta grande de madeira esculpida. Recomendou-me: - Coloque um casaco, esta fazendo muito frio – disse. Pegava da cabidera um volumoso cachecol. - Como assim? O inverno esta longe de chegar. - Em qualquer caso, é melhor prevenir do que remediar – fazendo com a peça um nó no pescoço, complementou -; Não desejas pegar um resfriado não é mesmo? Objetar seria falta de educação, ainda mais a uma celebridade tão aclamada. Colocava a casaca em cima de minhas vestimentas; A blusa dada a minha pessoa era vitima de muitos defeitos, seu aspecto assemelhava-se a de um monge. O barulho da porta pesada sendo arrastada fez-me estremecer. Na faceta o Conde exporá um sorriso acalentador, agravando o estado do meu choque. Qualquer um que vislumbrasse aquela sala de jantar tomaria no rosto expressão singular. Por todas as partes, até o cantinho
  • 182. mais estreito era feito de gelo. Cada detalhe sofisticado tinha a água no seu estado solido fazendo parte da decoração. A escada, molduras de fotos, a estante de livros, os livros... Tudo fora esculpido a partir daquela obra prima estimada dos poderes cômicos da mãe natureza. - Ainda acha que não é necessário uma casaca? Concordei com a cabeça e complementei com um assobiar. Estava encantado, não tinha como afirmar o grau da surpresa. Brevemente erguida minha fronte, enquanto vacilava uns passos observava o teto: O ilustre era gigante, e feito de material bruto das grutas. Tinha como adorno anjos esculpidos em poses triviais. Recuando meu rosto para baixo, retraia-me com o frio vigoroso. - Ainda aceita vinho? – perguntou-me em ironia, claro que não aceitaria. - Um chocolate quente seria mais perfeito para a ocasião. Se não fosse pelo recurso tecnológico a disposição dos nobres, não acreditaria naquela temperatura. Quase á baixo de zero, ao articular a palavra saiam de nossos lábios uma neblina branca e indesejada. Tocando um sininho, o Conde Vermelho clamou o menu: - Quero frango ao molho, quer alguma coisa Lucas Fernandes? - Não, obrigado. - Tem certeza? – indagou-me. - Realmente, estou por demais satisfeito – a única iguaria da refeição que eu almejara fora o vinho, contudo, como podem ver, mudara dramaticamente de idéia. Tendo terminado a refeição e limpado o prato, fôramos transferidos de local. - Eu adoro o frio – declarou o Conde Vermelho com seus botões – Mas, acho que não estais à vontade com ele. Venhamos a minha sala. De fato, não sou uma criatura acostumada ao frio assolador. Subindo as escadas adentramos diversos corredores, alcançando
  • 183. certo andejar, fora-me agraciada a subida de elevador, a que me sinto incauto; Sempre tivera tonturas com esse artifício. - Estamos chegando – declarou ele, tentando confortar-me. Passei metade do dia só me aventurando naquela estadia, e até agora, nenhuma pergunta fora completada. Marchamos mais ainda, num corredor de carpete verde. Tirando do bolso uma chave o alivio de mim se apoderou. Não irei ter receio de diferir-lhe perguntas ousadas, isso sim seria compensação. - Não foi assim grande sacrifício – dissera perante minha exaustão. Seus trajes destacavam-se naquela sala, onde tudo tinha a cor do vermelho, a única diferença, talvez, fosse à textura e o brilho – Sente-se, vamos conversar. Apressemos os diálogos, não quero dar aqui informações hediondas e sem importância; Meu papel é detalhar o mais intrigante. - Então, Conde Vermelho – comecei escrevendo num caderninho – Como foi para você a terceira guerra? Como é para você ser considerado um herói? Ele mantinha as mãos por completo envolvidas, às vezes tocavam-lhe a faceta pensativa. Girava a cadeira, para a esquerda, para a direita... Terminada a meditação, declarou com semblante esbelto: - Eu acho aquela época muito aterradora – os olhos cintilantes começaram a se embargar de lagrimas, todavia, não correu-lhe a face nenhuma –Acho que fiz mais do que minha obrigação. Não me acho um herói, nunca me vi como um... - És modesto Senhor. Somente isso – confesso que ria por dentro. Meu humor negro tinha por derivado meu sarcasmo. Lembranças do macabro e carniceiro eram impossíveis de serem olvidadas. São tantas pessoas... São tantas as vitimas da emboscada. - Não sou modesto. Sou um monstro e você sabe disso. Num sobressalto empalideci. Pensei que não entraríamos nesse assunto.
  • 184. Perplexo e embaraçado, indaguei estranhado: - Por que fazes isso então? - Não posso contar-lhe, ela não me perdoaria... - É Alice de quem você esta dizendo? Estendeu-se sobre nós vago silencio. Nele se ostentava declínio, e os lábios tremiam oprimidos. De pé caminhou por abrir a janela, seu desejo por ar fresco tornava-se mais tentado. - Me diga, Alice lhe castigaria? - Nunca! – objetou - Ela nunca faria uma coisa dessas! Minha crises de risos e fui revidado com um tapa. - Você não sabe nada dela! Nunca entenderia o tamanho de seu pesar. Alice sofria em segredo... Eu, eu a vejo, eu vejo tudo! Cada perjúrio, cada isolação... Transtornado fixava-lhe as ações: Pressionando as mãos no pescoço, dava a impressão de ser enforcado por fantasmas. - Ela sempre esteve sozinha! Sempre! – reforçou. - Por que ela mata? – repliquei com essa pergunta arrebatadora. Virando-se para mim, balbuciou sopro frívolo: - Ela é uma doença perfeita não é? Pasmado tomei diante de mim certo receio. - Cuido dela desde que conheço-me por gente – prosseguia em tom esclarecedor – Metade do dia, me dedico apenas a ela, somente a ela... Mesmo ela achando tal ato abominável, ela se compadece dos meus anseios feridos. O que tu vê aqui é apenas um corpo, um cervo, cujo o sentido é apenas servir de utensílio. - Ama-a então? - Não sou você humano – revidou-me áspero – Meus sentimentos são puros tal quais a de uma ama seca. Sem forças para um debate, não mais repliquei. Agravando as enfermidades, convidou-me num forçado murmúrio: - Quer visitá-la? Seria muito agradável. - Não obrigado – recusei. Ocorreu que, ao recuar a porta, interrompera-me intrepidamente:
  • 185. - Lucas, antes de ir preciso dar-lhe algo. - Não aceito. - É muito importante – suplicou-me. Tirando da camisa um colar entregou-me as mãos: - É de Alice – dizia – Ela me dera em meu aniversario. O colar não tinha nada demais á não ser uma perola vermelha. - Mas, é seu – recusei. - Fique com ele – dizia, cerrando minhas mãos com as suas – Ela disse que parecia comigo... Esse ponto vermelho diante de tanto vazio, significa a maçã do destino. - Mais um motivo pra que eu o recuse – comentei. Fixo, desdobrou-se sobre mim essas palavras de branda sinceridade: - Sendo você o destino dela... És o verdadeiro dono. Meu rosto tingiu-se de vermelho rubro. Duplicando a seriedade prosseguiu: - Essa maçã foi culpada pelo destino do mundo... Cuide bem dela sem menosprezá-la. Com olhos dilatados, longe tentava voltar a orbita. - Tens um verdadeiro nome Conde Vermelho? Revelou dilacerando-me com teu sorriso: - Acaba de conhecer o Destino... Alice me chama de Mestre. Me tomara também pela alcunha de Lionel. *** Quando fui avisado que o chefe iria querer falar comigo, um medo convulso se apoderou de mim. Já recitava e treinava minhas falas, só imaginando a força de seu julgamento; O que menos queria era perder o tão amado emprego. Minha surpresa, foi, logo quando ao entrar em sua sala ser recebido com um abraço, beijo, e até curtida no facebook. Colocara também um cachimbo em minha boca, foi tudo tão rápido que quase o engoli.
  • 186. - Não vai me demiti? – perguntei em suntuoso gesto de surpresa. - De onde tirou essa idéia meu rapaz? As vendas do jornal foram ótimas! Tem mais é que subir de cargo! Eu sorri para não parecer indelicado. Em todos os anos que estive neste jornal, nem hora extra eu ganhei. *** “P – Qual o alimento que mais gostas de consumir? Conde R – Gosto muito de macarrão e anchovas. Também é muito bom carpacchio. P – Qual foi o maior mico que você já pagou? Conde R – Ter pedido pra a moça do super-mercado descascar as batatas ao invés da mandioca. P – Você já fez alguma doidura? Conde R – Muitas! Já perdi a conta. P – Me fala uma... Conde R – Só de pensar começo a rir... Eu era bem novo, um pouco á baixo da sua idade. Eu adorava sair pra pinchar o muro dos bairros riquinhos. Antes de sair pra fazer isso pedia a minha trupe pra que rezassem por mim, pois os cochinhas*(policiais) estavam passando freqüentemente por aquela região. Naquela época havia acabado de descobrir que meu cachorro, o Elvis morreu, então fiz até uma homenagem a ele. P – Como foi sua infância? O que mais gostou e odiou nela. Conde R – Não tenho nada o que odiar dela. Creio que foi muito prazeroso, foi o maior e melhor momento da minha vida. P – Já viu um filme pornô?* (Esses filmes foram proibidos de serem comercializados há anos) Conde R – Já. Pior que já. Se chamava “Charme na Ressaca”, lá foi onde descobri a podridão do mundo. P – Como você perdeu a virgindade? Conde R – Você realmente esta sendo muito cruel nas perguntas. Foi com uma prima, o nome dela éCatherina Alcione.
  • 187. Eu tinha 14 anos e ela 15, aproveitamos que um dia nossos pais estavam de viagem. Além de curtirmos viciamos. P – Por que achas que ficara tão famoso? Conde R – Isso eu não sei responder. Será para sempre um mistério. P – Como foi à terceira guerra? Como é para você ser considerado um herói? Conde R - Eu acho aquela época muito aterradora. Acho que fiz mais do que minha obrigação. Não me acho um herói, nunca me vi como um... P -És modesto Senhor. Somente isso. Pra finalizar, diga-nos uma frase, algo que o seduz. Algo sábio. Conde R – Os escritores de contos de fadas são de todos os que mais merecem nosso valor. Afinal, foi eles que tentaram desde pequenos nos livrar da emboscada.” - A entrevista do Conde foi excelente! – exclamou Helena. Dava para notar resplandecente satisfação. Eu agradeceria mais ela interveio: – Eu não sabia que ele gostava de anchovas. Tão pouco passou pela minha cabeça que ele tivesse tido a possibilidade de ver um filme pornô. - Eu não creio – expressou Gustavo se intrometendo; Se manteve alguns dias fora do escritório. Acho que o sushi, yato e chá misturado o fez mal –Como isso pode ser algo tão surpreendente? Eu vejo direto. - É crime – disse Helena. - Maldita lei! Eu cuspo nela! - Olha agora o maloqueiro.Estou impressionado! – exclamei, sorrindo com candura – Onde está seu parceiro? Roberto do outro lado da sala engoliu seco. - Ele anda muito estranho ultimamente – respondeu Gustavo - E se quer um conselho, acho melhor não abordá-lo. Sinceramente eu não sei, acho que foi alguma mulher ou droga em que ele viciou. O amor meu amigo, é de fato uma droga.
  • 188. XIV Caso Duprê - : - Feita de vidro. Obviamente não veio preparada para o mundo. Tal qual cão imundo percorrendo a quem ladra. Senhora Duprê: Perdoa-te o pobre injusto. Pois ele também é o que te salva. - : - Sra. Stef Mercedes Duprê é uma figura interessante, para não se dizer comedida. Neste jogo a que ela se pronuncia de “Vida”, e cuja a sorte lhe fora alastrada, fora transportada a um beco sem saída. Noutro tempo a conheci, sobre a hera de um alpendre. Estava de férias numa chácara com meus colegas, e naquele instante, deparei-me com tua figura. Tinha exatos 13 anos. Cabelos de nobre fio e olhos transparentes. Quem a fitasse conseguia enxergar sua alma. A respiração palpitante e um franzir sensível de preocupação. Não sei quanto tempo fiquei contemplando-a, mas, o silencio foi finalmente quebrado por sua voz: - Quem és tu? - Sou Lucas Fernandes. E vos?
  • 189. - Sou Stef Mercedes. Gostas de flores? – erguera-se sobre a massa verde a que encobria com o vestido. Revelara-se de lá tulipas, orquídeas, copos de leites e muitas outra flores. Expressei-me: - Não entendo. Por que mulheres gostam tanto de flores? O que tem de tão bonito nelas? Ela riu sofisticada, e em seguida explicou: - Elas são uma parte do paraíso. O jardim do Éden. Aqui recordei de com quem eu falava. A família de Stef era conhecida por sua essência completamente devota. - Pois eu não acredito em Deus. - Não fale assim! – censurou-me – Deve-se temer a Deus ou ira parar no inferno. - Quando eu era pequeno eu confiava demais nele. Ia á missa fui coroinha, rezava o terço, confessava... - E então? Mesmo assim desconfia dele? - Não se pode acreditar num Deus que pode nos condenar eternamente ao inferno. Chegando mais perto de mim, Stef juntando seus cabelos e prendendo-os na nuca disse: - Minha tia tem uma hipótese: Deus é simplesmente a paz. - Isso é tolice! - Não é? – concordou num gesto com a cabeça; Já estava tarde para voltar atrás. Com uma saia cheia de pregas e miçangas, seus cabelos lisos brilhavam no sol – Da mesma forma que acho que o que me diz é bobagem. Agradeci a conversa e retirei-me abobalhado. Stef cresceu e enalteceu. Seu brilho fora capa de varias revistas, jornais e sites de fofoca. Tinha aquele olhar meigo e inocente que instigava; Tinha aquele charme de convencer, um jeito de se encantar, aquela empolgação salutar de um ser querido. Stef não saia sem sua jaqueta de camurça e seu vestido decotado. Quando soube que casar-se-ia com Maurice de Santiago Duprê um rico advogado foi como um baque. O cara era velho, tinha a faixa dos 40 anos, e ela acabava de completar 16 anos. Aquilo
  • 190. originou-me um desprezo. Não me vejam como santinho, mas, não me atrai pessoas comedidas pela fama e insaciadas por dinheiro. Ela tinha um jeito certo, andava e corria certo. E no baque, ela se mostrou ser outra pessoa, com outros intuitos e com seus descasos. Noticias sobre sua pessoa ainda são demasiado muitas, sempre aparece, ela sempre quer a cena e sempre muda de cenário. - Lucas – vinha Helena com seu sermão. - Que foi? Com um olhar expressivo, e num gesto intuitivo vi que me enganei. Tirava dos braços um jornal amassado e molhado pelas ultimas chuvas. - De uma olhada nisso – enquanto dedilhava destacava do jornal o artigo a teu gosto : “Sr. Duprê depois de violentado fica em coma. Indícios de acidente é um caso limitado. A principal suspeita é sua mulher,Stef Mercedes Duprê de 24 anos.Se confirmado a lesão ela pode ser condenada a morte na fogueira”. Tive um sobressalto. Olhei-a sem responder; o sorriso se acentuou no rosto de Helena: - Esse crime chocou a todos não é mesmo? Creio que até você ficou extasiado. Passei a mão na testa, angustiado: - Devo confessar que sim. - A conhece? – perguntou-me estranhada de minha situação. - Sim, somos velhos colegas. Ela andava de um lado para o outro. Fechando-se entre sombras da animação: - Todos a lastimam e ela provavelmente se lastima. Lucas, não é má ideia você checar isso a fundo, afinal, você tem mais chances de consegui-lo. - Deveras, talvez, não a posso garantir. - Se você conseguir, os olhos do chefe brilharam.
  • 191. Sempre pego aviões, porém, devo admitir: Altura me dá um frio na barriga. *** Não me surpreenderia o fato de Maurice ter dois pares grandes de chifres. Obviamente ela deve de ter armado um assassinato com o amante, e para sua infelicidade o plano dera errado. Que preguiça horrenda! Só não morro de tédio por que a preguiça não deixa! No fundo tenho pena desse Sr. Advogado, se ele acordar vai se encontrar em estado vegetativo. Eu sou um grande defensor das mulheres, adoro suas garras e a coragem embevecida, entretanto, não me alegra as de segundas intenções. Quem somos nós homens pra dizer alguma coisa? A sociedade é assim, pra alguns se olharem no espelho se torna uma ação tão difícil. Com seu manto de marfim Estef deve estar chorando de raiva por sua desventura. Minha cabeça dói tanto! Sinto como se tivesse sido acometido por uma lavagem cerebral. Meu emprego paga o hotel e as refeições. Aproveito algumas brechas para me deliciar com o turismo. Se não me divirto não tem matéria! Afinal, fico empolgado demais com o próximo passo. Creio estar com leves sintomas de ansiedade, mais tarde conversei sobre isso com Doyle no telefone, e ela me recomendou tratamento. - Que isso Doyle. Não há necessidade! - Eu ramo dessa e de diversas outras áreas – a voz de minha prima parecia flutuar em meus ouvidos, continuou – Você tem que se tratar. A tia Dina, sua mãe, conversou comigo semana passada. Ela anda muito preocupada com você. Era necessário possuir um elevado grau de humor para não se deixar levar pelo momento. Minha querida mãe a que tanto tenho carinho, a que tanto respeito, desde pequeno pude acompanhar sua trajetória penosa. Não só devido a isso, porém, aos 8 anos comecei a trabalhar. Não queria preocupação, se sai
  • 192. de casa era pra deixar de ser-lhe um peso. Vi-a com pencas de encomendas. Usava sua maquina de costura e trabalhava por dias e noites a fio. Preparava roupinhas e mil e um apetrechos. Tricotava, bordava, fazia gracejos à renda. Ela tinha tanto talento, porém, mostrava-se tão esgotada, tão exausta. Envelhecera tão rápido naquela época. Seus cabelos de cachos esbeltos e alongados esbranquiçavam, eriçavam. A cada dia aparecia nela mais uma ruga de preocupação. Eu era menino, verdade que por muito tempo me estigmatizei prezo a revolta. Me via complexado, a injustiça fora jogada aos meus ombros. Ter de trabalhar tão cedo e ver minha infância se esvair... É uma ideia um tanto cruel.Muitas vezes, sentava no campo das colinas longínquas e me trancava aos próprios pensamentos. Nada mais em minha volta importava tanto quanto o mundo imaginário que vivia dentro de mim. Brincava em segredo. Na minha cabeça, cantarolava diversas cantigas. Nunca me manti desocupado mesmo estando inerte, estou sempre em atividade. Estou sempre pensando nos projeteis, nos olhares, e hipóteses assustadoras. Invejava outros meninos e meninas que da minha idade, podiam ser livres, agir como pessoas da sua idade. Eu sofria calado, mas, creio que isso me fez mais forte. - Tenho andado muito ocupado ultimamente – expliquei-me um tanto embaraçado - Mas, diz a ela que quando eu tiver mais tranquilo eu a ligo. Não tem como sobreviver sem sua benção. Toda a noite não importava meu grau de maturidade, minha querida mãe adentravameu quarto cautelosamente e dava-me o beijo de boa noite. Talvez, isso tenha me confortado durante as crises de insônia. Nada melhor que o bom calor materno. Como muitos dizem: Colo de mãe tudo cura. - Faz como quiser primo – murmurou desdenhosa, em seguida terminando a conversação – Que Deus esteja com você. Por que religiosos teimam em tentar me converter?Se soubessem da minha teimosia pensariam duas vezes... O hotel tinha uma decoração sóbria e até mesmo elegante. Da sala de recepção, entrevi a ouvir boatos que recorriam de outros
  • 193. hospedados. Estava tomando chá com pasteis, criava uma estratégia diante do que viria a seguir. Não, não estava relaxando no expediente. Mesmo com minha sinceridade creio que não conseguiria arranjar informações; Meus anos de jornalista me fizeram reflexionar mais, tomava ar mais culto; mesmo com subornos era irrefutável à forte influencia que Stef tinha sobre a população daquela cidade. Vamos por de exemplo Benedetto, o sindico. Desde o primeiro momento que preguei os olhos em sua pessoa, percebi que adquirira um nervosismo peculiar. Estava apenas supondo, porém, mesmo durante o serviço este folheava uma revista onde Sra. Stef fazia papel de modelo. Desfilava com saias metálicas e um suéter com broches. Sobre a cabeça uma boina de lã e nas mãos luvas de pelica. Duas empregadas adentravam o salão conversando seriamente, e ele de intrometido interpelou: - Sabem algo sobre o caso de Estef? Por coincidencia, esse era o assunto das moças. - Stef parece estar na sua casa de inverno – respondeu uma delas - Perto da torre do relógio. Foi isso que até agora descobri. - Sabe mais algo Amélie? E você Honda? Elas fizeram não com a cabeça e voltaram ao serviço. O símbolo da cidade, a torre do relógio, obviamente permanecia em luto. Caminhando por aquelas ruas a oração estrondosa dos sinos matinais parecia não alcançar as pessoas que a cá estabelecem. Andejando de lá para cá; Admirando a multidão, um aglomerado de gente que se expandia dentre as avenidas. Sobre o asfalto percorre o mais radiante lamborguine adiante o mais esfarrapado dos fusquinhas. Formas em relevo propostas por grandes construções faziam efeito. Acima de cada edifício havia uma ave segurando uma flor. Ouvi dizer que Tailanina, a antiga Londres quase não participou do horrendo sacrifício da guerra. Mesmo com isso, aqui só predomina a inquietação. Parece tudo tão fictício, forçado. Pessoas retraídascom carrancas apenas remetendo aparências urbanas de feitos alegóricos;
  • 194. Nadademonstram de suas personalidades. São robôs acometidos pela sociedade em grandes furos, onde creio Stef estar a par de tudo. Para tudo necessita de um toque de suas mãozinhas. Com seu rosto angélico, seus olhos expressivos, e seu corpo de formas perfeitas. Em conversas casuais, já ouvi homens declararem-na a Vênus de Nilo, cujo pagariam milhares de rupias ao prazer de fixá-la. Maurice mesmo com fama e fortuna não conseguiu comprar o amor de alguém;Isso se torna mais um repudiar a existência humana. A moradia de Sra. Stef situava-se perto de prostibulos e de redes sanitárias. Percebi circos e brechós, espaços reservado a briga de galo, traficantes e comerciantes pirateados. Percebendo me estagnei. Bizarro é pouco, nunca compreenderei esse mundo Tudo mostrava-se tão exposto, em cada avenida, praças, atravessando canais, podia-se reparar uma infração das leis do código penal. Era uma barbárie, nada fazia sentido! Talvez a situação de sua casa não passasse de mero artifício. Qualquer um que chegasse lá no ímpeto de entrevista-la acharia que estivesse com o endereço errado e voltaria para casa. Tudo não passava de um joguete, e eu recebia isso com uma salva de palmas. Tudo foi bem armado, sem deixar pistas ou amostras. Tua astucia poderiamuito bem ser comparada a de um velho ancião. Apesar de ser rica, não gastava seu dinheiro apenas com a aparência. Astucia, astucia! Como vivemos num mundo burro, sou um gênio incompreendido. Só eu gosto de criticar? É errado criticar atitudes alheias de mal agrado? Ao meu ver, pareço ter tantos motivos para acometê-lo. Acho que qualquer um que tenha vivido muito, sente-se certo na hora da julga. Os ricos são tão mimados, mas, ela esta aqui, ela não mora do lado das aparências, isso enfim se mostra interessante! A casa era cercada por um muro e centrado por grades altas. Não possuía nada de nobre a não ser o reboco. Dispensara os
  • 195. empregados, obviamente, mais um disfarce. Já não me engana, aqui esta meu cheque mate. Campos elétricos e imperceptíveis passavam por cima de tais muros, fazendo um entrelaçamento de energias negativas e acometendo a lesões fatais. O que salvou-me foi uma leve percepção dos sentidos, não deixei-me levar pela mesma idéia de pulá-lo. Deveras também correria o risco de ser confundido com um gatuno. Num passo para trás com os braços pendendo, abaixei a cabeça pensativo. Por que não usei o interfone? Eu tinha a expectativa de que ela não quisesse falar com ninguém. Uma moça saiu pela porta. Não era Stef. Essa não tinha aqueles olhos encantadores. Não digo isso pela sua debilidade física – ela era vesga – porém, demonstrava uma peculiaridade que motivava a antipática. Olhou-me de cima pra baixo, como quem pesa nossa existência. - Sra. Essa é a casa de Sra. Stef? Minha indagação parecia não alcançá-la. Repeti mais alto: - Essa é a casa de Sra. Stef? Ela colocava o indicador nas orelhas, explicandoser surda de nascença; Fazendo movimentos breves e involuntários, confusa, pedira para que eu repetisse a indagação. - Essa é a casa de Sra. Stef? - Ah! Claro que sim senhor, sempre foi. Você é o Sr. Lucas não é? Já li varias matérias sobre você – Matérias sobre mim? Ui, to ficando importante – Vou falar com a patroa. Cinco minutos depois ela voltou destrancando o portão: - Entre senhor, a Madame esta aguardando. Não esperava ser atendido; Não que eu seja revoltado, porém, o mais sensato para alguém que possa ser o culpado de um crime é querer ficar o mais longe da mídia possível. Dane-se a mídia! Ela não se preocupava com isso. Foi ai que me dei conta da ignorância. O semblante da casa, a primeira vista, enganava os visitantes e jurados. Um ambiente propício a pestes e difamações por dentro mostrava-se essência de adoração longínqua. Culturas ancestrais marcavam as
  • 196. paredes. Quadros gigantes que ocupavam toda a sua estrutura. Aduzi minha hipocrisia nos poucos passos tomados. Um piano italiano fora a primeira mobília, acompanhando-a, ao lado fazia presente uma mesa coberta por peças de crochê. Fazendo harmonia, as janelas de vidro verde limo contrastavam com a essência das paredes. Possuía em sua peculiaridade o creme e acima delas, cortinas de renda que quase tudo abrandava. A serviçal me acompanhava tal qual num passeio turístico. Evitava pronunciar-se devido à dificuldade de discernimento que mantínhamos. Envolvia-me com aquela serenidade. Cortinas gigantescas reluziam diante do brilho esplendoroso daquela tarde. Portas de vidro lacradas com ferro se sobrepunham. Gentilmente a moça me explicou, mesmo que contrariada: - Percebeu que ela estava se escondendo Sr. Lucas? Sra. Stef já presumia isso; Essa residência é tão simbólica quanto uma moeda. Mostra-se a cara, mas, por traz há a coroa. Onde tudo reina e se dispõe sobre os fracos. Sou a única que restou devido minha lealdade à patroa, não que os outros a tenham feito algum mal. Ela apenas deu um voto de confiança a mais a minha pessoa. É difícil de cuidar de uma casa tão grande sozinha. Devido a isso ela chamou-me. Meu serviço é deveras cansativo, pelo menos não o vejo como monótono. Sempre há aqueles bisbilhoteiros de plantão, porém, ao fitarem a casa, se tomam por vencidos. Até os ladrões da rua, se não fossem simples marionetes de Sra. Stef, após ter visão da moradia desistiriam de tentar roubar-nos só de mira-la. Outros iam mais além tentando pular o muro; Principalmente paparazzis, por isso Sra. Stef decidiu colocar uma cerca elétrica bem moderna, quase invisível acima dos muros. Sorri desconfortável, como se ela tivesse contado uma engraçada anedota. Os sofásconfortáveis eram feitos de linho, e os tapetes e escrivaninhas de algum artesão indiano. Travesseiros recheados de noz moscada se espalhavam ao chão da copa. Perto de si
  • 197. também tinha belos cristais brilhantes em formas arcanas, mesas de vidro com jarrinhas de frutas frescas e complementados também por cinzeiros ornamentados. Vi uma lareira onde o fogo crepitava, numa chama benéfica e acalentadora. Para minha surpresa era carvão que queimava, eu esperava ver toras. Brevemente olhei as venezianas e tive uma surpresa: Num andar inferior, sentada numa cadeira elegante, seus cabelos pretos estirados esvoaçavam sobre a ventania. Aumentando os passos sai em disparada; Fora rápido, precipitado, sem as necessárias medidas e o exímio do consenso. Não conhecia aquela morada, tão pouco sua estima, mas estimava aquela conhecida, e quanto tempo não à via! Anos e anos, uma eternidade. Fora um ímpeto audacioso e incerto, me atrapalhei no caminho. - Senhor – estava retomando o fôlego quando a cervical me encontrou – Se você se perder o que falarei a Sra. Stef? Venha comigo por favor. Ela com paciência e carinho me guiou até o lugar correto. Um jardim disfarçado de varanda; Ficava no segundo andar escondido entre as trepadeiras que agraciavam a visão alheia. Meus olhos passeavam pela paisagem, sedento por um perfume familiar. A fina arquitetura tinha vista panorâmica por trás da imensa abertura de cristal. Comecei a procurar ansiosamente por sua figura. Sobre os pisos de pedras laminadas, escutava o som ensurdecedor de meus próprios passos. Adiante, pelo sobrepujado caminho, uma escada larga e serpenteada de aço britado com ramos de flores entrelaçados no fino corrimão. Ramos que se estendiam e levavam-me a uma parte oculta do primeiro andar. Longe de mim, muito longe, no umbral, escondia-se a Vênus de Nilo. Tal paisagem recordava-me uma canção de ninar inventada por minha querida mãe: Muito longe, no conhecido paraíso. ♪♫♩♬
  • 198. Os corações derrotados, com um toque e um grunhir, foram todos curados.♫♫ Num belo dia de dezembro, figuras de memórias, entrelaçou nossos destinos. Oh Gloria! Num belo dia de dezembro... Longe de mim, muito longe, num corcel negro saltitante, falando palavras vibrantes, o cupido de fel cortante apareceu pra me roubar.♪♫♫ Vagava em busca de um final feliz, até ele vir me envenenar. Anjos acreditem em mim, queria ser feliz. Longe de mim, muito longe, num assombroso fardo. Nossos corações se uniram, com o passar do tempo... E então, não duvide, será sempre meu amo.♪♫♩♬ Sem duvida, buscava-a com esmero algoz. - Você aqui Lucas? – o som ríspido de sua voz sobreveio num tom estonteante –; O que fazes em Tilanina? Justamente sobre a hera ornamentada e em relevo. Tal o mesmo lugar com que topamos pela primeira vez... Eu ainda me mantinha aéreo e perplexo; Apreciei então sua maestria: Tal qual a “Prostituta da Babilônia” erguia com a destra um drink. Mamava por assim dizer, consumia vorazmente o liquido sobreposto discretamente na mesa. Uísque para chorar as magoas, ocultava graciosamente com uma mascara de arlequim marejada de púrpura. Seus cabelos sedosos caiam sobre os ombros. Reluziam aos raios solares da tarde. Trajava um vestido de manto cor vinho, a gola alta contorna-o em ceda branca enrustida, mangas compridas e bufantes em sarja lã. Apesar do calor, abusava com notoriedade suas roupas calorentas de inverno. Nada em seu vulto estivera despido, exceto a boca donde tragava goles de liquido. Até mesmo suas mãos mostravam-se encobertas; uma luva típica da nobreza, pelica cara. - Sinto muito pelo seu marido – disse, mal conseguindo falar.
  • 199. Contemplei o quintal avidamente. Amplo e cercado por arbustos, o chão esverdeado tal qual carpete, era na realidade um gramado muito bem cuidado. Lançava meu intimo mais além, ao poder sentir o aroma de flores silvestres. Abruptamente escutei uma voz familiar: - Lucas? Com certa notoriedade percebi a presença de Willian. Á minha esquerda sentado a uma mesa de quitutes, deliciava-se com suculentos brioches. Acontece que, transfigurou-se em minhas feições insensata empolgação. - Deixaram-no entrar aqui? – indagara surpreendido - Como o conseguira? Ainda primeiro que eu! Dava uma risadinha enquanto engolia seco. Olhou para o lado e respondeu com cautela: - Sou primo em terceiro grau de Stef. Inesperadamente chamou- me para o chá da tarde. Está aqui devido a tal noticia não é? - Sim estou – vacilei um suspiro. - Tenha certeza que não foi ela – replicou debruçado a mesa, já perdia a precaução. Seus lábios bem desenhados desenvolviam certo arquear. Desdenhou – Tenho certeza que ela não foi. - Não se deve acreditar em tudo no mundo. Assentiu com a cabeça: - Porém, tenho plena confiança na minha afirmação. Se a conduta dela ter sido errada, tenha a certeza que tivera bons motivos. Olhei-a perfidamente no seu jeito de declínio. Ela devolveu o olhar em silencio, com aquele mesmo ar inquisitivo, pesquisando minha face, tal qual quem procura uma resposta. Transcorrido algum tempo, Sra. Stef convidou-me a mesa. Jaz um pouco lúcida dizia saber do assunto que se tratava, e desejava saber das minhas verdadeiras intenções. - Como assim minhas intenções? – indaguei no orgulho ferido. - Há aqueles que desejam me caluniar – dizia, com o queixo erguido num jeito celebre, como que para me deixar intimidado. Cruzando os braços, num sobressalto olvidava os efeitos do
  • 200. álcool -; Você faria o mesmo? – continuou dentre duvidas – Você seria leal a minha imagem? Te conheço porém, sei que não acredita em Deus. E Deus é o único que vem me salvando até agora. Novamente mostrei-me esquecido de sua fé fervorosa. Foi ali que notei o crucifixo bailando em seu pescoço que me convenci de imediato. Não que eu não acredite em Deus, só acho que ele abandonou muitos, cujo o sofrimento é tão áspero que os segue toda a vida. Não compreendo o poder que tem em seu ser, se é tão misericordioso por que tantos parecem ter nascido apenas com a necessidade de sofrer? Parece que ele nunca tem verdadeiramente um fim. Questionei-a: - Acha que é correto afirma-se de santa só por ter a santidade como anfitriã? Achas que, somente os religiosos vão ao reino dos céus? E que, até mesmo o mais humano dos ateus, por sua benevolência ao próximo, chega a queimar no inferno eternamente? Era como um pressagio e com ressentimento que presumi sua resposta: - Sim. Dei de ombros. Num sopro, pacientemente controlava minhas emoções fortemente abaladas, fruto da frieza contida naquela resposta. Consolei meu amor próprio com aquele redarguir: - Não consigo entender Stef, Deus fala para perdoarmos uns aos outros eternamente e se contradiz na hora de julgar seus filhos. Vagamente constrangida, numa sombra de arrepio respondeu a minha indagação: - Não se deve questionar a divindade, se é isto que ele nos pediu, assim é. Devemos de respeitá-lo. - Ele pediu para respeitarmos ao próximo também. Inclusive em questões religiosas, decididas por nós mesmos em nosso livro arbítrio. Com essa atitude você também esta sendo errada.
  • 201. - Não! – exclamou num articular simplório – Se assim o faço é pelo seu bem e de todos ao meu redor. Somos colegas não somos? - Eu não pedi para ser convertido – repliquei em tom severo -; Se eu quisesse de verdade eu mesmo teria corrido atrás de batizado. Nem minha mãe que com facilidade consegue influenciar-me conseguiu mudar meus gênio, e você, que á anos não vejo tal qual revolucionaria vem tentar me alertar sobre os perigos existentes no além tumulo? – e complementei com ironia - Quão imundo parece esse céu! A faceta franzida condenava meu insulto. Willian estivera tão ocupado enchendo a pança que só reparou nossa intriga com o berro provocante de Stef: - Pois não! Vejo agora que é por isso que a humanidade carrega o fardo do caos! Ela é o próprio verdugo! Logo o apocalipse chegara, o fim do mundo chegara, e conseguiremos constatar quem realmente é o certo aqui! – sua tenção se concentrava não só no tom de voz, como nas veias do pescoço que pulsavam. Queimava dentre cólera, e eu, ao percebê-lo, ria por dentro -; Saberás que eu tentei de tudo para salvar-lhe a alma! E você como sabidão haverá de queimar no inferno! Estava tão pasmo pela sua reação, que deixei fugir umas gargalhadas mortíferas. Willian interveio: - Stef, eu também sou jornalista, mas, devido ao meu respeito que tenho por sua pessoa, por vos ser alguém muito estimado tanto a mim quanto a qualquer fraterno, desisti do ato de escrever sobre tu pelo momento critico em que se encontra. Porém, Lucas esta numa situação íngreme. Não se ganha tanto como jornalista e você deve saber disso, somente os de posto mais alto e de maior experiência na área. Se você não confia nele devido à religião que ele não possui lamento a ti como prima. Ele esta certo, deve-se julgar alguém pelo seu caráter, ações. - Então você também é ateu – interrompeu ela bruscamente. - Se eu for? Isso é preconceito sabia? Tenha a certeza que este homem que esta do lado de mim – deu-me uns tapas leve no
  • 202. meu ombro. Amigável, porém, evasivo, receou ter avançado demais – é mais confiável que eu, principalmente nas ocasiões especiais. Mesmo tendo nos encontrado apenas duas vezes, mantivemos na distancia um contato intimo. Principalmente no Facebook, onde o rapaz sempre curtia minhas mensagens. Conversações se desdobravam ao telefone, numa replica ao ópio noturno. Ela teve outra oportunidade de criar problemas, com aquele gesticular mesquinho e insolente, dissipou-se de mim qualquer fiasco de carinho. Sua faceta ligeiramente debilitada sobrepunha-se inclinada quase caindo entre as pernas bambas, enfurecida, tragava mais um gole da bebida; Mais álcool, mais álcool! Vamos festejar a loucura dos ateus, assim como os judeus, ciganos, os homossexuais eles mereciam o apelido de desonra a humanidade por ferir a bíblia. Conclui nesse momento que qualquer argumento exposto e defendido seria fútil. O mundo deveras haveria de ser bem melhor sem os muros religiosos, ou confrontos do mesmo. Confrontos do tipo são horríveis, parece até briga de torcida organizada do Vila Nova e Goiás em cidades Brasilienses. Só por que não temos o mesmo credo não quer dizer que deixemos de ser filhos da divindade. Se ele é tão misericordioso como dizem, ele deve estar a nos observar. A vida por si só é um milagre, definha e esgota, se for pra acreditar num Deus, tenho certeza que ele não seria o descrito na bíblia. Tenho bons motivos, grandes motivos! Dou de exemplo uma bisavó: Marceline. Quando viva, ela na sua simpatia e benevolência, agradava e conquistava até o mais rude. Amava as crianças e conseguia tratá-las de um jeito tão doce e delicado quanto uma pétala de rosa. Os bebês era o que Marceline mais gostava. Cheirava-as com o prazer indômito que se sente ao encontrar-se com o aroma doce do caramelo; Sentia uma vontade estranha de morder aqueles pezinhos pequenos e macios. As bajulava tanto e
  • 203. tinha por elas tanto apreço que muitos confundiam-na como a genitora. Ela dizia que crianças eram o maior presente que Deus poderia dar aos casais. Meu bisavôFelippo, quando notou que a esposa almejava a maternidade foi logo avisando: - Quero uma menina. Sempre vi a paternidade como o prezado para a felicidade. Eu seria muito feliz se desse-me essa honra. Embaraçada, agarrada aos seus ombros interpelou: - Se for um menino? Não gosta de meninos? Que estranho! – exclamou-lhe dengosa - Nas novelas os homens sempre querem filhos homens. Num breve gesto de doçura fez uma pausa para o encontro de sorrisos. Ele se deteve ali, contemplando-a naquelas vestes batidas e amarrotadas pelo trabalho duro. Era tão esforçada em suas funções, em breve,funções maternas, por mais que ocupassem lhe o tempo, colocaria mais brilho nos olhos. Nada mais faltaria. - Quem sabe no futuro, vou sim querer filhos, mas, minha preferência por agora são meninas. Quero muito meninas! Quero ver seu mesmo olhar cintilante nos olhos dela, quero que elas sejam tão graciosas quanto sua pessoa. Iria eu cuidar delas como tesouros preciosos, pois vieram da mulher da minha vida. Trocavam beijos em promessas de sonhos e emoções. Compartilhando um futuro complexo cujo as decisões são incoerentes com suas expectativas. Naquela época com certeza posso afirmar que o amor existiu. Quando Marceline morreu Felippo continuou fiel até o fim de seu respirar. Seu maior anseio era encontrar com sua figura depois do além tumulo. A primeira cria veio, e logo um coro de lagrimas estendeu-se demasiado sobre seus olhos eclipsados. Marceline mantivera-se prostrada a cama. As exaustivas horas do parto a esgotaram. Ela ainda fraqueava em respiração consternada e descompassada. Tendo tomado fôlego, aquela experiência só salientou ainda mais sua conduta prestativa. Tanto estimava a criança, tomou a pequena pupila nos braços deixando o encanto transparecer.
  • 204. Naquela hora aparentou mais forte, durante todo o tempo em que a criança usufruía de seus seios robustos, suas feições permaneceramcalmas, bem diferentes das exacerbadas de outrora. Não havia palavras para definir tamanha afeição. A criança estava ali, em seu primeiro dia de vida, e desde antes, em seus nove meses, já se tornara uma parte de si. A morte dela seria a morte deles, principalmente a Marceline a genitora. Felippo a fitava nanando a criança nos braços em seus inúmeros gestos de afeição. Brevemente esfregou a mão contra a boca em gesto de admiração. Não havia um alguém mais feliz nesse mundo. Não como ele e Marceline – pensava. Voltara a se perguntar intrigado que nome haveria de ser o melhor para a recém-nascida.Nove meses eram pouco, ainda não conseguiam pensar no mais adequado. Tentavam nomes de conhecidos e familiares, porém, ao fazerem uma lista, se desapontaram a vê que nenhum se encaixaria. Queriam um nome único e adorável, era essa a exigência suprema. - Que tal Nancy – perguntou Marceline. - Não, é nome de empregada. Tirou isso do livro que sua irmã lhe deu não é? Sra. Marceline meditou um pouco mais, tendo feito isso declarou empolgada: - E que tal Madalena?! - Credo! Minha filha não vai ter nome de pecadora. - Rosa? - É muito simples – replicou Sr. Felippo na sua persistência criativa – Sem falar que precisamos de algo único. - E Tabata? – exausta revirou os olhos, e complementou com um bocejo - É um nome muito bonito. -Tabata? – fez longa pausa ao enfatizar. Em seguida perguntou exasperado -;Você tá louca Marceline? Esse nome não dá! Sempre que o escuto me pergunto com quantos paus/taboas se fazem uma canoa. Demorou-se mais de três dias para que enfim chegassem a um acordo. Haidê não era único, porém seu significado gratificava.
  • 205. “Honrada”, traria assim bonança a família. Herdou da mãe cabelos de uma cor rara, oliva. A pele morena contrastava muito bem com seus cabelos ondulados de um jeito puro. Os lábios carnudos vieram de uma outra parte da família, onde, mesmo ignorante transpunha um “a” de sofisticado. Como primeira filha foi a que ganhou mimo e carinho. Cresceu tal qual uma princesa, com todos os seus joguetes e apetrechos. Tinha gênio forte muito semelhante à cabeça dura do pai. Não dava sossego durante seus escândalos. Os genitores tinham enorme paciência e banhavam-na com serenidade e carinho. Ao completar cinco anos, tivera ao seu lado à companhia de mais duas irmãzinhas. A primeira fora nomeada Viquetorique;Em aparência seria idêntica a Haidê se fosse a sua tendência a engordar. Por outro lado, Ítala era o oposto: Pele cor de leite e olhos fundos, a boca levemente desenhada. Com os cabelos longos e enrolados nas pontas.Mesmo assim não deixou de ser a xodó de Sr. Felippo, cujo a natureza indômita fora compartilhada de suas entranhas. Haidê sempre mostrou ter uma vida feliz. Ninguém realmente pôde compreender que ocorrido tivera abalado-a, para que, em seus quinze e poucos anos de idade tivera perdido o prazer pela vida. Era mocinha ainda, tinha muita história a ser escrita pela frente. Não era lá tão bonita, mais, tinha uma meiguice que chamava. Podia ser palhaça e travessa. Gostava de escutar risadas sobre a choupana, escalar arvores com seus primos. Era uma Maria-joão sem perder a feminilidade. Já tinha pretendentes, um alias, ia pedir sua mão aos pais dias depois se não fosse a tragédia. Encontraram seu vulto precoce estirado a colina. Seu vestido amarrotado despejava sangue de seu busto, o acobertando com um fétido aroma. Pensaram no começo ter sido um assassinato, todavia, na canhota segurava com afinco uma calibre 22 similar a do armário de armas do pai. Ela realmente cometera suicídio. A mãe imediatamente se jogou ao corpo da filha. Abraçando-a fortemente exprimia-lhe o rosto fortemente contra o peito no
  • 206. ímpeto de transferir-lhe a vida. A vida de Marceline estava acabada, a partir dali estava acabada. Filhos são uma parte de nós. Já ouvi dizer uma vez que, só deixamos de ser egoístas após gerar ou ter em tutela um. As lagrimas escorriam sobre suas faces transtornadas. Por que Deus não levou a si? Apertava ainda mais seu corpo de encontro ao seu, notando que seu coração já não pulsava e sua respiração quente e suave de outrora dissipou- se. Seu corpo fragilizado definhava, as moscas e outros vermes zuniam aproximando-se ao almejar usufruir dos elementos de sua carcaça. Logo o corpo federia, decomporia, viraria só um monte de ossos despejados no caixão e ao passar de eras uma sombra indecifrável. A morte da filha também chocou Sr. Felippo. Brevemente emudecido, se prendeu aos aposentos junto com a sua moléstia. Não conseguia acreditar, assim como sua mulher, tinha dificuldade de acreditar que nunca mais veria o rosto da sua garotinha.Não caíra a ficha. Viquetorique e Itala também se martirizavam. Era uma dor menos dolorosa que a da mãe sua genitora; Não havia como comparar, a que mais sofria era a mãe. Foi à mãe que há carregou nove meses no ventre, que a amamentou de seus peitos fartos, embalou-a com diversas canções de ninar e que mesmo nos dias de felicidade se preocupava. Foi a que ficou o dia todo com a cria enquanto esta passava mal de cama, rezava sem conseguir cerrar os olhos lastimados, pedindo a Deus para que não levasse sua criança. E agora... A filha para quem se esforçava para criar se fora. Ainda tinha outras duas, por mais que doesse tinha que aguentar por elas, todavia, o buraco, o vazio de seu peito jamais seria encoberto. Sonharia diversas vezes abalando seu bebê nas matinais, levando-a para um passeio no parque e para conhecer alguns familiares, e, quando acordaria perceberia que ela não estaria mais aqui. “Cadê a minha filha? Cadê a minha filha?” no meio da noite procuraria por seu corpinho, abraçaria o nada, e teria o horrenda visão de seu cadáver sendo enterrado. Cruzava os braços franzia a boca,
  • 207. os dedos trêmulos escorregavam sobre a barriga. “Onde esta minha filha? Cadê ela? Onde ela está?”. Durante o enterro de Haidê, se sentia molestada por flashbacks. Muitas vezes se esquecia do que acontecera, via aquilo como um horrível sonho, um pesadelo! E se chocava de novo com a realidade. Na missa de sétimo dia, com todo amor, preparara arranjos com suas outras duas filhas em sua homenagem. Levou também, na igreja, velas de incenso. Sozinha, parou ali, ajoelhando-se e fixando a virgem, rezava com muita submissão rogando pela alma da filha. Aproximava-se dali, um velho padre queria dar-lhe as condolências: - Ouvi dizer que sua filha morreu. Sinto muito. - Obrigado padre – dissera Marceline em prantos. Com as costas do braço, enxugava-o com enorme pesar – Estou muito grata. És muito prestativo. Avançando no assunto, o padre num gesto de audácia perguntou-lhe o motivo da morte de Haidê. Marceline respondeu com sinceridade: - Foi suicídio senhor. Ela não necessitava ocultar aquilo. Por mais que a filha foi errada, ela nunca seria desonrada á seus olhos. O velho padre que não compartilhava de sua opinião chegou mais perto de sua orelha, e expressando falsa comoção murmurou: - Ela é suicida. Não adianta nem rezar, vai para o inferno. Veio um calafrio, o congelar das tripas. Tendo escutado isso, Marceline se indignou. Fez longa pausa. Com os olhos profundos arregalados, feições aéreas e fortemente contrastada a sua voz embargada em melancólica replicou de imediato: - Ir ao inferno? Que Deus é esse que pode condenar a pessoa eternamente ao inferno? – Era uma voz suave e entrecortada, de modo que, apavorou o ouvinte. Arrematou-o, esboçando agonia maçante, gesticulou algo que interpretara. Com o dedo indicador levantado ao céu, apontou para o mural de pinturas cristãs como
  • 208. se este fosse um prato de nuvens. Tomando fôlego, pontuou com o questionar: –; Eu que sou sua mãe consigo perdoá-la. Eu consigo perdoá-la! Que Deus é esse que não faz isso? Emudecido, o clérigo que não possuía respostas para tais questionamentos, repeliu-a desejando manter consigo os velhos valores educativos. Marceline se manteve lá com sua própria dor. Nunca deixou de lastimar a morte da filha todavia, sempre defendia-a das pedras que a jogavam por considerarem-na uma “Fraca”. Julgar premeditadamente em uma tal situação é uma reação insolente, ninguém estava no corpo de tal pessoa, não sentiu como ela sentiu. Os sentimentos de uns não se igualam a outros. Não digo pra não julgar, mas, casos de suicídio são frágeis e cortantes, quando um ocorre parece sempre vir com uma maldição. Se alguém já se matou, tenha certeza que a vida da certa não era um conto de fadas. Marceline assim como Stef fora muito devota, e a partir dali, seu credo fora abalado para sempre. *** Demorou até que conseguisse persuadi-la. Ela não parecia compreender em absoluto, portanto qual fosse meu pretexto ela não o levaria a serio. Em nossas conversas ela parava para rir timidamente num cínico insulto complementando com um deboche escondido por traz de cada palavra sua, não me parecia mais sincera como outrora me dizia Willian. Ela adquirira depois de murcho discernimento intimidante irreflexão.Naqueles olhos gélidos, ainda com á mascara a ocultar a fronte, balbuciou em voz entrecortada: - Eu amava Maurice. Suspirando um pouco, mais liberta, prosseguiu no detalhado depoimento:
  • 209. - Eu odeio quando falam de meus dotes e das riquezas de Maurice. Eu concordo que ele não é bonito, e que o dinheiro é de provocar qualquer um, entretanto, como eu acredito muito em Deus não deixei-me ser controlada pelo diabo. Eu o amo de verdade Lucas! Amo-o mais que minha vida – aqui suas lagrimas indômitas não cessavam. Escorriam por seu pescoço largo e fino, condenando-a de tal maneira que impressionava. Tal mascara atrapalhava, e de fatonão podia negar seus olhos cintilantes. Tão brilhantes, sua orbita se avermelhava por gerar tremendo esforço, afinal, não queria expor suas lagrimas. Willian que acompanhou-me desde a chegada, também se mantinha preso a conversa e escutava tudo atentamente. Os mínimos detalhes petulantes, esvoaçavam para nossos ouvidos, ela tinha dom de intimidar. Devo dizer dramalhão, pois ela com tanto exagero conseguiu me transmitir tal façanha - Ele nunca me forçou a nada – continuou - Nem na nossa primeira noite, que foi a de núpcias, ele sempre foi muito quieto. Ele é tão bondoso e gentil! Eu não sou uma pessoa superficial, e no começo eu também estranhei esse romance. Como contar a minha mãe e meu pai estar namorando um homem que é trinta anos mais velho que eu? - É mais velho que Sr. Adolfo – comentou Willian – A idade de seu pai. - Isso mesmo, é a idade do meu pai – dizia abaixando a cabeça tristemente. Elevando os braços encobertos a cabeleira, retirou o laço que outrora enfeitara o cabelo – Esse foi o primeiro presente que ele me deu – afirmou enfática, estendendo a nós o objeto para que pudéssemos melhor visualizá-lo – Não é lindo? O laço tinha um pingente de coração feito com rubis bem moldados. Concentrada em suas mãos,ela também contemplava o frágil objeto. Aérea, um sorriso dorido flutuou brevemente em seus lábios bem desenhados. Interrompi-a com tosses inconvenientes. Seus olhos logo se direcionaram a mim, e eu, nada ortodoxo, não me redimi.
  • 210. Atitude excêntrica, mas foi necessária para se chegar direto ao assunto: - Você ainda não respondeu – meu tom era claramente desafiador – És ou não culpada? Se você não fosse culpada tentaria no mínimo se defender! A interpelada respondeu hesitante: - Não adiantaria de qualquer forma... Ela fitou-me longamente, como a identificar-me as intenções mais intimas. Acrescentou: - Tenho a consciência limpa, isso é o que importa. Endereçando-se a mim, Willian afável ponderou: - Vá ao julgamento. Como sabe ele foi adiantado depois dos médicos disserem não botar fé no recobramento de Maurice. Se ele acordar há 99% de chance dele estar debilitado em sanidade, tal qual um vegetal – cruzando os dedos outrora debruçados a mesa no queixo continuou – Pode ser muito prolongado, mas você poderá tirar suas próprias conclusões. Faltava quinze dias para o tal julgamento, e por mais que precipitado, eu já concluía o veredicto. XV Julgamento da Voluptuosa Bacante (Parte I) O juiz Aberlaine adentrava a côrte com sua toga. Sua entrada foi abrupta e peculiar. Alto, de cabeça erguida; Acima, uma peruca branca cheia de laços e cachos. Sua face polida se encontrava visivelmente encoberta com pó de arroz, e ao lado, bem no canto do nariz achatado, facilmente perceptível, tinha uma ruga de charme. Não havia duvidas, identificava ali um excêntrico macaroni. Macaroni é uma moda pomposa criada nos meados do séc XVIII, nomeando assim os homens obcecados e pela aparência,
  • 211. educação e vestimentas. Podemos insinuar que estes sejam ancestrais dos metrossexuais de hoje, mas, como já afirmei, era uma moda muito pomposa e clamava em seu exibicionismo. A côrte possuía muitos indivíduos, e meus olhos que vagavam sem rumo, seguia com decência o rumo daquelas figuras que se ocasionavam no meio. Minha intenção não demonstrava atrevimento, pois havia por lá todo o tipo de gente: Mulçumanos, indianos, japoneses... Ancestrais de suecos com suas saias curtas e quadriculadas, alguns portavam em mãos uma gaita de fole. Conclui que tais artistas após o julgamento tocariam em algum local especifico. Apesar de eu preferir à vitoriana – pois é a moda que tive prazer de seguir desde pequeno – aderi o dândi à moda muitas vezes pregada de Willian. Eu numa fileira a minha frente, com poucos metros de distância. Sobre seus cabelos negros cacheados, sobreposto na maestria da ocasião, se justificando na gala, possuía uma cartola. Tinha formato de lua crescente e para não deixar apagar o cabelo, destacava-se com um tom amarronzado. Usava roupas ajustadas de tecido fino e casimira, tinha uma essência elegante e refinada, sóbria, por mais simples que fosse, transpunha repudio a qualquer extravagância. Segurava na mão uma bengala, cujo tal sentia desconforto, por mais que todo o resto lhe agradasse de demasiado, suas mãos estavam mais acostumadas na manobra de seu equipamento de trabalho. Como seria bom ter uma maquina fotográfica aqui! Seria um jeito bem conveniente dele se expressar, e um alivio para sua mente retraída; Afinal,pouco mais tarde este teria de depor na defesa da prima. Stef parecia muito calma. Adentrava a ocasião com seus trajes finos, um pouco mais decotados revelando a chemise junto á pele. A frente da saia escura exibia bordados e enfeites; suas mangas eram justas em cima e largas em baixo, estilo trompete. Os cabelos eram separados no meio e torcidos sob o véu. Já não usava mascara, e não podia então, esconder os olhos cansados de tanto choro. Vermelhos se expunham bem fundos. O bafo da
  • 212. bebida já não a acompanhava, sinal de que nessa obrigação precisaria estar sóbria. Seu advogado a acompanhava silencioso até sua cadeira. Eu a contemplei em tal paisagem consternada... Quanto tempo não vira seu rosto; em baixo da mascara só pude imaginá-la, afinal, tinha tantos adornos. Aqui pelo orgulho reivindicava os apetrechos. Como se o marido fosse mais importante. - Jura dizer a verdade nada além da verdade... – perguntava o meritíssimo com a bíblia em mãos. Ela também com uma mão no livro concordou meneando a cabeça num sim. A partir dai já não teria volta. A côrte criminal se dividia. Uma esperava justiça; vingança contra a mulher interesseira que tentara matar cruelmente o marido, e a outra, pregava seu ideal de liberdade; Obviamente eram fãs fanáticos da carreira de Stef. O promotor, um homem de aspecto extremamente sisudo arregaçou as mangas da toga preta. O seu rosto escanhoado, lívido também denunciava um desprezo imponente que tentava ocultar. Já não havia volta, os olhos derrotados da vênus enxergava seu destino, sem volta e sem fuga: Morreria queimada como uma bruxa. - Então fale-me senhora Estef- começava o promotor asperamente – O que estava fazendo na noite em que seu marido foi brutalmente violentado. Ela franziu as sobrancelhas e deu de ombros, como que convencida contra a sua própria vontade natural. - Naquela noite estava preparando chá e fazendo bolinhos. - De noite? – intrigou-se o superior. - Sim – respondeu-lhe com sinceridade – Maurice nestes meses tem andado a sofrer de insônia. - Tudo bem, prossiga. - Fora somente isso. Ainda não estavam prontos, então tendo deixado a massa no forno e a chaleira ainda sem apitar, pausei para olhar Maurice, que começara a reclamar de dor de cabeça. Entreguei-lhe uns analgésicos, e quando ele disse sentir-se um
  • 213. pouco melhor aproveitei do ensejo para retornar a cozinha. Enquanto ainda subia as escadas do segundo andar escutei pares de vacilantes gritos, agudos e esganiçados cada vez mais altos e exaltados, prolongados, alucinantes ensurdecedores, ecoaram fortes no meu ouvido. Lógico que me desesperei. Claramente abalada desci a escadas refazendo o trajeto. Na nossa alcova foi com assombro que dei-me com seu vulto caído sobre o tapete persa. Foi dantesco. Tal infortúnio não pode ser obra humana. Ele estava lastimável: A cabeça quebrada com o sangue a escorrer de seus cabelos, inclusive cheia de galos. Hematomas por todo o corpo, principalmente nas mãos. Perfurações afiadas nos braços, pescoço e tórax, arranhões largos e profundos nas costas. As pernas fraturadas; Em um dos pés só se dava para ver a carne, e sua pele arrancadaestirada ao lado – O calafrio contagiante perpassava gélido o tribunal fazendo-se gemer todas as estruturas. Naturalmente, o agoniante cenário que ela oferecera no rigor do detalhamento era para quem tinha estomago. Eu mesmo senti o estomago revirar. Não havia forma mais amena de se reagir perante teu depoimento -;Não parava de sangrar sobre o tecido a massa visivelmente necrosada e pulsante. - Não tem certeza que, desde o principio não desejava notificar ninguém? - Havia mais alguém em casa? – continuava astuto com suas perguntas. - Não, era o dia de folga, e eu como boa cristã não me permitiria que meus serviçais cometessem comigo junto esse pecado. - Eu sabia! – exclamou o Sr. de supetão, num grito que quase me deixou surdo. Ele parecia um psicopata que havia ganhado na Mega-Sena – Você queria então que ninguém estivesse presente para poder incrimina-la, só assim o serviço teria sido bem feito. - Protesto – intervinha o advogado a retrucar, tivera o trabalho de se levantar. As pessoas começaram a conversar numa balburdia total. O juiz com sua pomposa peruca e suas unhas bem feitas pedia ordem.
  • 214. - Meritíssimo - o advogado imediatamente tentava se explicar – Ele entendeu errado as palavras de Sra. Stef. Ela é muito religiosa, entende, domingos nunca. O juiz rira com seus botões: - Não me diga então que casara virgem. Ela corou como um pimentão: - O que diz respeito a minha intimidade não é da sua conta. O juiz rira de novo na ousadia acompanhado aos montes pelo tribunal em alegoria, depois que se conteve pediu para que o advogado prosseguisse a explicação. - Obrigado excelência – gesticulou este agradecido. Adiante remetia os seguintes argumentos -; Como morador dessa cidade conheço Estef á anos pelo seu trabalho de modelo. Quem não conhece? É ela que garante a economia e o turismo, e apesar de ter sido superexposta na mídia, seu caráter não peca. Ela é muito religiosa, tenta ao máximo não pecar. Todos que a conhecem intimamente podem jurar pela sua inocência. Seus votos são puros. A decência da jovem torná-la-ia incapaz de tal atrocidade. Vejam, esta para tornar-se uma mãe de família. Fiquem sabendo que naquela semanaela contara da nova ao marido e ele ficou extremamente empolgado com a chance de ser pai. Se ele duvida? Não teria por que duvidar! Ela esta para lhe dar um herdeiro, e podem fazer exames de DNA se duvidarem da autenticidade, ela é uma jovem culta e descente. Da para ver pelo seu ato benévolo de cuidados que ela sempre prezara pelo bem-estar do marido. A conversa no júri tornou-se mais ampla em fator de questionamentos, e aquilo se prolongava. Mais uma vez o juiz pedia ordem. Batia com a marreta na sua mesa alta clamando mais uma vez por ordem a prezar da educação e bons costumes. O advogado de Sra. Estef estupefato limpava o suor a escorrer a fronte, já teria adquirido certo entusiasmo se não fosse as fortes evidencias que possuíam contra sua cliente. O barulho das teclas tilintavam, a datilografa acrescentava detalhes aqui e ali sobre os novos depoimentos. Sra. Stef poderia ter calculado mal, a
  • 215. artimanha parecia perfeita no papel. Levaria aquilo para o lado emocional, extorquindo dos presentes todas as defesas. Ela mesma comentaria mais tarde sentir um frêmito de medo. Já tinha garantido o apoio dos fãs, mas aqueles que não se deixavam alienar se tornavam um perigo. Um pouco desconcertado o promotor murmurou palavras quase sem nexo de depreciação pejorativa que obviamente endereçamento a acusada, depoissempre majestosamente, prosseguiu no seu costumeiro tom persuasivo. Chamava agora há corte uma senhora de nome Lenita. Uma balofa de carnes pendentes, um verdadeiro monstro para sua idade que chegava a aterrorizar os corpos juvenis.Ela adiantou-se no expor de um sorriso amarelado - Faltava nele os dois dentes da frente, e os caninos expunha-se quebrado. Ouve um resfolegar compulsório, Hagen o advogado trepou na cadeira para ver melhor. Eu mesmo me estacionei acompanhado de Willian. Stef incrédula deixou os olhos resplandecerem numa atmosfera vidrada, faiscavam fixos naquele manequim deformado, cujo o sol abreviava-lhe as imperfeições com mescla de luz e sombra. Num misto de ansiedade e temor, escondeu a cabeça em suas próprias mãos, na intenção de proteger-se do pressagio. Seu destino estava escrito nas linhas retas, e o Deus que tanto amava prezava as linhas tortas. Não se convencia daquela visão, e ao deixar-se perceber pelo espanto o promotor levou no rosto grave sinal de contentamento. Teve prazer com aquilo, uma atitude que levantava-lhe o orgulho insólito. Extraordinária era suas feições de tão abaladas, Willian contou- me que, aquela mesma mulher fora outrora uma das empregadas da prima, que, uma semana antes do incidente fora despedida pelos seus modos asquerosos e ignorância. E por algum motivo desconhecido, bisbilhotava frequentemente a residência. - Perdoem-me o linguajar – declarava o promotor enquanto todos entravam em silencio profundo – Mas realmente Sra. Stef pode se jurar inocente? Descente? Essa moça que esta aqui –
  • 216. apontava para a velha com as carnes pendentes – Pode vos mostrar o contrario. Agora sua voz se abafava enquanto se dirigia a ela: - Fale-nos de você e de sua relação com Estef... - Sabe – comentou a moça – Sempre admirei muito a senhorita Stef, é uma moça muito sincera e objetiva. Como uma de suas fãs leais, nunca passara pela minha cabeça a probabilidade dela cometer tal ato. Eu a vi naquela noite, ao contrario do que ela afirmara, não estava sozinha em casa, eu estava lá e vi tudo! Eu a vi com as mãos sujas de sangue no quarto do Sr. Maurice... Aposto que o matara! – precipitara em exclamar já roca –; Ah Maurice! Como esse moço é bom, é de dar inveja a qualquer uma. Ele não merecia isso, é o marido ideal. Mas, como há tanta gente gananciosa nesse mundo... Senhora Stef pedia por mais. - Bem, já ouviram tudo senhores. Por mais surpreendente que fosseStef não protestou, para quem se alega inocente, é uma atitude deveras intrigante. Espero não escutar de tua boca que sua intenção era ter sido crucificada como cristo. Já é um absurdo tudo que ela diz em sua religiosidade, tanto que chega a ser uma verdadeira ofensa a aqueles que frequentam a mesma igreja. Uma blasfêmia das piores. Porém, apesar de tudo, não conseguia deixar de ter pena da tal criatura. Lívida de olhos desvairados circunvagava-o na agonia de humilhação perplexa. Hagen agora tomava a fala questionando Lenita devidamente: - O que fazias lá naquela noite? Pelo que eu saiba, esta no papel que você fora demitida uma semana antes. Lenita respondeu sem constrangimento: - Estou tendo um caso com o jardineiro que alias era o queridinho de Maurice. Ele se mantinha naquela casa desde a infância dele sabe? E agora que o caso complicou para a Stef esta decide pô-lo no olho da rua. Ele junto com o resto dos serviçais com exceção de Samanta sua cumplice. Mal sabe da necessidade que estas passam e os botão sem mais nem menos na rua, com
  • 217. medo de incriminarem-na. Mas eu estou aqui, e apesar de tudo não tenho medo de incrimina-la. Ela me subornou para que eu fechasse o bico, mas, não fechei. Cá estou contando a verdade. O advogado lançou um olhar especulativo à cliente em dado momento, e de repente Stefcompreendeu seu risco mais. Tentando amenizar a pena, mais outros foram chamados para depor em sua defesa. Samanta precisou de interprete, e este traduzia-lhe todas as suas charadas. Ela usava língua de sinais numa espécime de consenso devido à dificuldade de discernimento. Hagen interpelou: - Aqui diz-me que apareceu na residência dos Duprê as três horas da madrugada, logo após a chegada da ambulância. Você nega ou condiz com tal informação? Cada gesticular o interprete traduzia: - Sim, apareci sim. Estef confiaria a mim os cuidados de sua cria, seria sua ama seca, portanto, quando ligara para minha sobrinha,meia hora antes, eu pensei na possibilidade de algo ter se agravado. Sabe? Aborto instantâneo. Sra. Stef, minha patroazinha tem bacia estreita e pressão alta, e isto complica. Não poderá ter o parto normal que queria, mas espero que ainda tenha a criança. Ela sempre teve saúde bem frágil e isto preocupava-me. Entrementes, ao receber a notificação de Ariane, minha sobrinha, que é a única que atende os telefonemas e os traduz para mim na linguagem de sinais, não consegui, não consegui acreditar! Meu primeiro ímpeto foi dirigir-me a casa dos Duprês para constatar se aquilo era verdade ou não passava de um trote malicioso. Tendo chegado lá, dei-me com ela seguindo a maca que os enfermeiros prestativos, deitaram seu marido e conduziam até a ambulância. - Qual foi tua reação ao vivo? - Um baque – respondeu o interprete enquanto Samanta ainda gesticulara –; O estado de Maurice era aterrador, perdia muito sangue, foi parar no hospital semimorto. Pelo que sei, o que influenciou teu estado clinico de maneira critica e decisiva foi as
  • 218. ações anteriores e bem intencionadas prestadas por Stef. Depois de oferecer-lhe o básico dos primeiros socorros; Checar tua pressão e batimentos cardíacos; Enfaixar os membros mais molestados temendo uma possível infecção consequente por bactérias, percorreu a rua assolada pelo breu a procura de auxilio nas portas vizinhas. Suplicou o uso do telefone, que, sem pelo qual, talvez Sr. Maurice já teria vindo a falecer. - O uso do telefone? – interveio o promotor com ar de intriga – Oras, por que não usaram o próprio? O tribunal, agora extremamente envolvido, parecia igualmente curioso, e exigia uma explicação. Diante de tal observação também traduzida pelo interprete, Samanta sorriu maternalmente e pronunciou-se em tom esclarecedor: - A residência dos Duprê andava sofrendo de problemas técnicos na fiação. Sabe, aquela casa é muito antiga, possui já cinco gerações. É compreensível que tenha dado curto. - Para você, ela poderia ter sido a culpada? – continuou Hagen seguindo o script. - Não – Samanta fez questão de responder sozinha dessa vez, apesar da adquirida assistência -; Eu conheço Stef, minha mãe dizia que apesar de eu ter péssima audição tinha ótimo olhar. Pois desde pequena conseguia enxergar quem era os bons e maus influentes, lhe garanto que não foi ela. Willian de prontidão se posicionava, seria o próximo a ser interrogado. Numa exaltação cujo os diálogos se chocaram embaraçados o Juiz perdia a paciência: - Silencio diacho! –Seu rosto pálido denunciava-lhe o cansaço e a destra posta sobre a testa uma dolorida enxaqueca. Bocejou um pouco antes de falar – Gente respeito, aqui não é quadra de futebol. Vocês deviam ter vergonha de si mesmos! Que Deus me perdoe, mas, Samanta você tem sorte de ser surda! O interprete em sua delicadeza, não traduziu isso a senhora.
  • 219. Iron o promotor tinha ainda disposição à causa, resoluto esbanjava um cenho levemente franzido. Era um homem de fibra, mas tinha muita dificuldade com relação a mulheres, devido a isso, acreditava firmemente na culpa de Stef. Seria algo psicótico se não fosse seu nome tão singular. Promovia confiança exuberante, já estivera a exercer varias outras áreas do direito, já ganhara prêmios no engenho. Isso enfatiza sua importância mesmo em assuntos corriqueiros de insignificância. Ele é renome, odeia perder, bem queria ver aquela nobre em chamas e guardar suas cinzas de baixo do travesseiro. - Willian – começava Iron fugindo do assunto – Em primeiro lugar dou-lhe os pêsames por Marcelo, a morte dele tão misteriosa também abalou-me. Sem pistas, só uma carcaça tombada no mato com os roedores. O interrogado suspirou em demonstração significativa de angustia. Não é algo como um ressentimento, é mais como se aquilo tivesse aberto antigas feridas: - Nem me lembre – pediu ele em tênue expressão lacônica – Até hoje não aceito bem o ocorrido. - É necessário, já que até os melhores detetives não encontraram nada que pudesse alegar uma autoria a tal crime – andava de lá para cá, cabisbaixo ecom dedos brevementecruzados no aspirar da meditação. Parou abruptamente– Bem Willian, Fale-nos se no dia do ocorrido Estef comunicou-se contigo. - Sim – respondia ele, puxando a gola do colarinho, assim como o juiz já estava começando a passar mal. - O que ela lhe falou? - Falou da novidade, de que estava gravida, e torcia para ser um menino. - Citou mais alguma coisa? Algo que insinuasse algum desejo profano? - Como assim? – indagou Willian estranhado. - Você sabe se ela mantinha, ou guardava alguma raiva do marido?
  • 220. - Nunca – afirmou Willian seguramente, com toda a certeza – Eles são o exemplo vivido do casal perfeito. Ela diz isso toda vez que topa comigo: Ele é perfeito Willian. Nunca tiveram uma briga ou desavença. O casamento deles é bem solido como podes enxergar. - Pode sentar-se – disse o promotor com uma risada cética. Vagamente, sua voz tomava exacerbada ironia: - É tão solido o casamento de Sra. Stef com Maurice que ele dormia toda a noite com varias outras moças da cidade. Não é verdade Luca? Me assustei pensando que estivesse se referido a mim, contudo, Luca não passava de um sobrenome resignado a uma moça que jazia quase ocultada na ala dos que seriam interrogados. Hagen sentiu o sangue correr nas veias: - Protesto – dizia – Pelo que sei, ela não estava no roteiro daqueles que viriam a ser interrogados. - Protesto negado – replicou o Juiz ostentando erradicação – É bom de vez em quanto alguma surpresa, e esta sim documentado, apesar de um tanto atrasado. Sinto por não ter sido notificado. Favor, continue Iron. - Obrigado Meritíssimo – continuou o promotor. Chamou até a mesa Sra. Thalia Luca Bernadine. A moça era uma negra de exatos 20 anos, de cabelos louros lisos e olhos azuis. Trajava uma túnica que ia do pescoço ao tornozelo fechada com um broche e um cinto de fivela de ouro. Pela falta do véu medieval, posso presumir que a moça ainda seja solteira, apesar da beleza exposta. Boatos se espalhavam sobre sua aparência exótica e o gosto vulgar que Maurice revelava ostentar. Isso já era o bastante para que Estef se sentisse no fundo do poço. - SILENCIO! – gritou o Juiz já dando piti – Sei que o babado é de morrer, mas, por favor, deixe-me ouvir o desfecho. Engraçado é que aquilo já estava se tornando uma novela mexicana. Do nada descortina-se uma tramoia, até Willian ficou boquiaberto.
  • 221. O promotor continuou ainda com aquele sorriso bem desenhado nos lábios: - Conte a todos nós o que intriga. Fale de Maurice. A moça disse brandamente: - Posso afirmar que Maurice não era bom homem. Quem veria com bons olhos alguém que convida cinco mulheres para a cama? Todas as cinco ao mesmo tempo? Ele vinha sempre ao bordel. Fui moça da vida, e me arrependo, pois já fui contratada varias vezes por pessoas do tipo. Não raro a esposa aceita, é este o caso de Stef, se ele fosse meu marido confesso que cometeria o mesmo crime. - Por que ela aceitava? Você sabe? - Ele contou-me que sua mulher era contra o anal, e para piorar, só transavam uma vez por mês. Que homem que aguenta só uma vez por mês? Ele indagava. O apetite dele era tão grande que chegava a ser assustador. O pervertido também adorava sadismo. Alias, tenho até hoje a marca do chicote que ele apunhalou em mim, tinha pontas de ferro, sangrou muito, quando vi me assustei e mandei-o para fora do quarto. Depois disso, nunca mais aceitei fazer programa com ele. Acredito que ele possa estar envolvido com tudo que é ruim, desde macumba a pedofilia, estupro... Ele não é um sujeito tão puro quanto as imagens dizem. Neste momento veio urros e gritos, era algo tão repugnante e imoral, que apesar de saber de tudo, foi um baque tão forte para a mente de Stef que fê-la desmaiar. XVI Julgamento da Voluptuosa Bacante (Parte 2)
  • 222. Fiquei horrorizado com a libertinagem com que tudo se expunha, sem reservas, sem censura. Aquilo só fez aumentar as suspeitas que se tinham sobre Estef, e não é para pouco. Ironia não? A religiosa imaculada pecou na hora de jurar pela bíblia. Seu julgamento seria prolongado devido tal incidente. Stef tombou e foi um susto tão forte que teve-se que chamar um medico. A multidão mostrava-se eufórica, a cada minuto falando sobre os cotovelos. Hagen de imediato acudiu-a e Willian quis sair de sua ala também para a auxiliar. O próximo evento conteve-se perante a euforia. Duvidosa. A agitação traiçoeira estourava sobre as cadeiras. Um ruído áspero em forma de extasse. O júri demonstrava-se afligido, como se fosse portador do grau da pena e os que só assistiam apostavam diante dasinúmeras expectativas. “Não me olhem assim, vocês nada sabem” era o que seus olhos transmitiam. Na situação ela abusava de tecidos leves e calmos, jeito reciproco o de demonstrar a angustia. Era longilíneo e fluido, essência do “império” fino, transparente e em morim,necessitando de saias da mesma cor para disfarçar a transparência. Em sua postura aprumada aparentava-se totalmente nua em sua sinceridade. Arrisquei-me a vislumbra-la num dos atos mais triviais, onde deturpada seus lábios duvidosos entreabriram-se para uma respiração silenciosa, uma suposta calada prece. Que questões ainda poderiam provocar-lhe deslocamento? O promotor ponderou: - Como vimos até aqui, a Sra. Stef não só omitiu como mentiu sobre todos e os pormenores relatos. Isso me obriga senhoras e senhores do júri, a desconfiar até de teu álibi. Foi com um descaramento que esta mesma pessoa, mulher mãe de família, esposa, modelo famosa e também religiosa abrupta negou perante a bíblia. O que me diz sobre isso senhora? Pensara que á réu aceitaria bem os argumentos, todavia com o semblanteembargado pela emoção esta se encontrava numa dimensão assombrosa, cujo à sanidade se esvaia e em desalinho
  • 223. pestanejava no caminhar sem rumo. Procurou seriamente considerar os fatos, tal ataque era compreensível. Assim que tomou um trago de realidade, respondeu-o prontamente: - Meu caro senhor, se é que posso chama-lo assim. Dói-me muito mentir, mais se eu falasse que matei meu marido seria uma mentira deveras maior! Sem falar, que tenho uma criança no ventre. Não é assustador negar a um ser humano o direito de nascer? Eu sempre fui contra a isso, e vocês o forçaram cometendo uma tragédia ainda mais cruel que a de outrora. Agora falando em Thalia Luca Bernadine, essa quenga não sabe o que fala. Esta mentindo! Só pode! Maurice não é assim! A propaladora do segredo, imoral e refalsada voltava a fazer discórdia. Tendo Sra. Duprêvociferado, a negra dos cabelos claros, visivelmente ofendida fez favor de imediatamente retorquir a impertinência: - Vingança estéril, vã, estupida! Que lhe importa o juízo se não há consentimento do juiz dos homens?! Sois estupida! Cheia de ninharia! De que lhe presta os melindres? De que podes me atingir? Se nem pedras possui no nome! Tudo que tens é de Maurice! E de Maurice espero retornara! – Procurava uma represália para o desprezo da lady, e ressaltava isso com elegância. Contenda polemica. Elas continuaram a replicar uma a outra com dolorosa agressividade. - Piranha! Não passa de uma prostituta! - Passava – corrigiu ela em ironia cordial – Não sou mais. Que pica tinha Maurice en! Quando abriu as calças pela primeira vez fiquei até com medo de aquilo entrar em mim. Adorei – riu provocante. Se abanava com um leque enquanto se divertia com a reação desequilibrada de Stef. De súbito ouvia-se um surdo e longo ruído de vozes, se amontoavam num efusivo caos exacerbado de berros. O publico entrava em opressiva discussão. Hagen tentava intervir, suas palavras saiam quase sem nexo, e eu só pude escutar: “Protesto”
  • 224. enquanto ele se erguia e enfatizava. O juiz com sua peruca salpicada de prata batia com a marreta diversas vezes, e apesar dos esforços a bonança não se restabelecia. Eu que levaria comigo o suplicio da visão maléfica, não pudera imaginar as circunstancias tão embaraçosas e desagradáveis que poderiam suceder-se. Foi um tumulto. Fuzuê. Humanos das mais diversas classes e estaturas, tais como vermes – Viscosos, Gosmentos, Petulantes e, sobretudo Repugnantes - no ostentar da julga, despencar-se-ia sobre eles meu mais profundo desprezo se não fosse minha dominação sutil. Ainda possuía controle das minhas ações, diferente daqueles que se sentavam a meu lado, avançavam repletos de adrenalina, e expunham sem pudor o espetáculo contido em si. Era um show sadomasoquista, apesar das guerrilhas perante as do sexo feminino formava-se uma visão sensual. Tolas. Não temem o perigo. De repente surgia no juiz uma figura rígida. Outrora deslocada mostrou-se firme com suas broncas. Mergulhava-se em si mesmo, tal uma ninfa tornando os outros seres pequenos e sua filosofia vivaz. Já estava pronto para espancar as musas da guerrilha, atrás de seu balcão zunia seu murmúrio, um rugido, um diluvio mortificante. A balburdia dissipou-se. Constatando aquilo ele sujou suas mãos num creme hidratante, e esfregando na pele oleosa entupindo os poros. Uma nuvem de aroma e frescor intoxicara deveras, muitos integrantes daquela reunião. Era forte e quem inalava tossia, o que resultou em muitos casos de alergia e problemas respiratórios, o ar-condicionado espalhava aquele odor repelente, exatamente como o mosquito e a transmissão da dengue. Quando terminara a pausa o juiz deu a voz a Iron. Mal terminava de se formular pensamentos e ele com audácia os interrompia. Ergueu a sobrancelhas e bocejou, logo em seguida, com a voz mais suave do mundo declarou:
  • 225. - Stef, temos aqui uma lista de provas – gesticulava com eloquente triunfo - Dentre elas as suas ultimas chamadas de telefone. Se quiser revisar isso senhora, estão guardadas em um salão privado na área da segurança publica, se é o que desejas mando uma ordem ao meu assistente de traze-los aqui imediatamente. Escandalizada atalhou com relutância: - Quero ver agora! Maurice não era disso, ele não fez isso comigo! Não, ele não pode ter feito... – Soluçava perante a menção lúgubre – Não pode ser... - Me permite meritíssimo? – pediu Iron ao Juiz. O juiz debruçado a sua mesa fez que sim com a mão mantendo- se alerto. Num sobressalto recordou: – Desde que Sra. Stef não volte a desmaiar, Isso não é nada agradável – Um tanto fatídico creio eu, impôs sua condição. - Prometo portar-me – predisse Estef sem pestanejo. Minutos depois se introduzia na corte um guarda de uniforme branco e quepe com uma caixa lacrada em mãos, entregou-a ao promotor junto com a chave e foi-se embora. - Esta aqui senhora – retrucava-lhe na espera de seguidas divergências – Poderá notar que sua vida foi cheia de erros ou meras contradição. Ela revirava a caixa quando seus olhos esgazearam-se de espanto. Iron orgulhoso continuava em cabeça erguida e em um riso sepulcral: - Esta claro que essa moça matou o marido por ciúmes. Ao principio disfarçou bem alegando pretextos idiotas, até me intimidou. Contudo na essência de seu fingimento é tal uma beladona que cega e mata. Cegou a muito dos presentes, e matou o próprio marido. Ela ainda revirava os pertences, e inclinada com a mão a tapar a boca, os olhos baixos e sem vida, denunciavam o grau de sua incredulidade. Não obstante, torturava-se com inquirições internas. Ainda mal dissimulava, a força do golpe deixou-a emudecida, desconcertada. Com certeza estava intencionada a
  • 226. desabar, não se sabe onde tirara forças para conter os impulsos. Tentava afogar a dor do naufrago, que, por obséquio esmagara lhe toda a bonança.Permaneceria lá, lacrimosa,a introduzir na côrte seu espectro de cárcere. Contudo, deixando evidente sua teimosia caprichosa, objetaria: - Eu ainda não acredito. Ele não fez isso, tenho certeza! Isso só pode ser montagem! Um complô! Há tempos ele vem sendo ameaçado em anonimato! – acrescentou estagnada - Me perdoe Sr. Promotor e Sr. Juiz, não há como acreditar. Seu desabafo foi encarado com indulgencia pelo resto dos membros do júri.Após alguns segundos de silencio acabrunhador, o Juiz no seu discernimento voltou a manifestar- se: - Minha cara, não há vestígios si quer de uma ameaça em anonimato. Recolha-se com sua dor, eu consigo entender como é ser traída, mas nada adianta lastimar-se ou regozijar-se a crer no que esta comprovado. O detetive que inspecionou o caso é um dos melhores da cidade – complementou num tom menos alterado – Conforme-se. Após breve silencio, quando já era necessário admitir, choramingou corrosiva: - Oh! É verdade... Eu estou me lembrando... Ele estava bem estranho nos últimos dias. Queira me desculpar-me. - Desculpas aceitas. Durante o ato percebi um tímido, porém, indiscreto riso sendo criando nos lábios da prostituta; Com rispidez tentara se conter, sem sucesso. Por fim escondera-se brevementeno seu leque de madrepérola; Na ocasião tinha o corpo todo banhado de joias. Me admira se as conseguira realmente com a quantia do trabalho proveniente do próprio corpo, afinal para os barganhados só lhes resta as migalhas de uma rala comissão. É uma sátira, mas se ela fosse mesmo tão boa de cama Maurice poderia muito bem ter morrido de orgasmo fulminante. Divirto- me de imaginar; Que caso mais bizarro.Willian denotava nitidamente pungente alteração. Nos olhos fulminantes uma
  • 227. incessante faísca de cólera se reproduzia. Cerrara fortemente o punho numa demonstração incontrolável de ódio.Depois fixando-se em mim especulativamente, me fez entender sua indignação para com a relação que se sobressaia os fatos. Fedia como mofo. Podre como fungos e decomposição. Identifiquei-a: A traição. A traição é morte da confiança. Imundo e asqueroso, aquele que cometeu traição contra a prima traiu também a confiança de si mesmo. A confiança rompida as dadivas assumidas, raros desencontros que a vida pode nos proporcionar. Não é algo lavável, não é algo que se pode limpar na vida. Odeio pessoas que não se importam com o caráter. Que o denigrem com suas fraquezas. Espero nunca tornar-me semelhante a essas pessoas. O próximo a depor, seria irmão de Stef. Estava, desde então escondido na multidão, e agora fazia-se visível com admirável indumentária.Richard trajava vestes francesas que iam dos anos 1730 a 1789, o rococó. Creio que estava na fase inicial, gibão de tom pastel ricamente decorado, calças até o joelho e meias brancas. Peruca amarrada atrás num rabo de cavalo. Possuía uma sensualidade discreta, e elegância, principalmente no seu jeito de andar e ar aristocrático. Tinha olhos bem profundos e a pele cor de creme levemente tonalizada com morango. Richard era irmão mais velho de Stef,possuem dez anos de diferença, sua postura frívola aprumada, a maneira culta denotava posteriormente sua classe e exemplar educação. Demonstrava-se um tanto excêntrico, mas sua suntuosa elegância fazia com que tal virtude negativa desaparecesse sobre os apreciativos. Curiosidade conseguira sucesso na carreira de executivo. Foi conduzido até o alto do pedestal. Antes que pudesse se pronunciar dirigiu a irmã uma expressão obliqua, e até mesmo vazia no rosto. Stef aturdida manteve-se cabisbaixa, tentava esconder o rosto com visíveis sinais de angustia.
  • 228. - Senhor Richard – o advogado de defesa começava calculista– Creio que em razão das circunstancias como irmão mais velho podes melhor contribuir. - Pois não senhor – replicou o jovem confiante -; Estou as ordens. Tudo indicava a necessidade de novos artifícios. Incomodo ou não, reestruturaram um paradigma, estabilizariamsua imagem ao estipular certos equívocos. Os fãs de Stef se empolgavam. - Pelo que leio aqui, você foi visto na residência Duprê uns quatro dias antes da fatalidade. Você nega ou condiz com tal afirmação? O jovem assentou: - Sim, estive lá. Fui conversar com Maurice, era sobre uns problemas que estavam acontecendo... - Como assim? Explique-nos melhor. - Bom, eu tenho o costume de fazer muitos empréstimos na sua conta, e pela minha honestidade não conseguiria aceitar todas suas propostas. Ele não se importava com o dinheiro que saia de seu bolso, mas se eu estivesse no lugar dele sentiria aquilo como um abuso. - Como era o relacionamento de sua irmã com ele? Richard não pudera deixar de sorrir ao ouvir tal indagação. Entrelaçou os dedos de uma mão na outra, e separava-os repentinamente, ação que se repetia enquanto declarara: - Magnifica! A emoção contida na sua voz de grave atravessou a todos, incluindo o promotor. Fê-lo corar, e, no entanto, desencadeou em si uma sensação de superioridade, repulsa. - Explique-nos melhor – remeteu Hagen, sua alternada pergunta fez-se inclinar e instigar os presentes - Como ela agiu da ultima vez que o viu? - Os Duprês, dizendo melhor, a casa toda me mostrou-se agitada naquele dia. Foi na parte da tarde, como era de costume em minhas transações comerciais. Logo que adentrei a residência, ouvi uma dezena de telefone ligando e empregadas a correrem pelos corredores estreitos.
  • 229. - Telefones? – tal criatura satanista reaparecia do nada, era Iron com mais um de seus argumentos – É um tanto reciproco – dizia coçando o queixo -; Uma das empregadas, Sra. Samanta afirmara que a casa andava com problemas técnicos na fiação. O seu jeito brusco surpreendeu até mesmo o interrogado que nada esperava vindo de sua voz: - É que isso veio ocorrer horas depois, no mesmo dia, eu estava presente. O promotor fingiu-se de convencido: - Pois bem, continue. - Obrigado – continuava ele – Os telefonemas tocavam e os empregados não paravam de transitar. Chegava variadas encomendas de Stef. Ela e o marido induziram-me até a sala de visita aonde pudemos trocar por si dizer, uns dedos de proza. Ele acendeu-me um charuto e me ofereceu uma taça de licor, que eu devido ao tempo oportuno recusei. - Um senhor da sociedade a recusar licor me impressiona – confessou Iron – Reconheceu algo de diferente naquela ocasião? Era de fato um promotor bem astuto. A maneira de se conduzir o inquérito, sua influencia, eram por demasiado eficazes. - Não – negou Richard – Somente a agitação que mostrava-se bem explicita mas fora-me assimilada com o confidenciar da nova em sua vida conjugal. Fiquei muito feliz de saber que em breve seria tio, e tenho esperanças de que ainda não me tirem tal felicidade. - Falando em vida conjugal, o que acha do possível ato de traição de Maurice? – a tensão da sua voz esganiçada era notável. - Como já devem estar cansados de saber, nossa família é muito religiosa. Por mais que a tentação seja algo apetitoso, não é o correto a se aliciar. Que Hagen começava a ficar preocupado era o obvio, e isso deixava transparecer em suas feições tremulas. Parecia cada vez mais longe da chance de salvar sua cliente, suava de nervosismo. Mas, foi novamente o promotor quem rematou:
  • 230. - Alega inocência de Stef? - Claro, Stef é muito fútil, naturalmente antes de cometer o delito ela o iria anunciar a todos da família, todos sairiam sabendo, pois não sabe ficar calada. Teria sido queimada viva na mesma hora, na mesma ocasião em flagrante. Ela é um ser intrigante, uno. Sou severo como irmão mais velho, não me convém negar; Aponto suas falhas, e se ela fosse mesmo culpada não teria pena em acusa-la mesmo na gravidade em que se encontra, com um filho a carregar no ventre. Pois creio que todos devemos pagar por nossos erros. - Termino por aqui meritíssimo – aqui concluía a seção. Muitos crédulos presumiam no bendito mancebo fisionomia sincera, que o irmão fosse uma das mais apaixonadas figuras de benevolência. No final da contrapartida apesar de demonstrar valorosa integridade revelou-se amarga inanidade.Eu por minha vez poderia também tê-lo julgado assim se não fosse minha aguçada faculdade de observação.A destreza com que se prontificava foi bem evasiva em relação à Stef, e a reação dela sobre isto apareceu de forma compreensível e justificável, chegou a empalidecer. Despretensioso, sem nenhuma adequada maquinação. Sr. Richard haveria de ter apreço pelos fraternos, mas também teria por eles uma ocasionada indiferença. Tua declaração não mudou em nada mudou o rumo das variadas especulações. Talvez os mais ingênuos pudessem se influenciar, mas, este não era o caso dos participantes do júri, não se comoveriam facilmente como os membros da defesa. Outros conhecidos narraram àquela noite, mas nenhum outro participante fizera tanto efeito em atiçar duvidas quanto Luca Bernadine. XVII
  • 231. Julgamento da Voluptuosa Bacante (Parte 3) Quantas vezes mais o julgamento seria prolongado? Obviamente desde o estopim, o tempo necessário. Um teste perante a paciência, ainda mais para os ríspidos testemunhas e jurados; No aguardar do laudo tiveram de esperar muito. O evento foi reencenado mais seis vezes, e em todos eles o enorme fuzuê se remetia nocivo para as almas envaidecidas. Usurpava-lhes o jubilo com vibrações revestidas, tirando delas todo o animo e meiguice devido às repetições esgotantes. Daninhas. Até os curiosos estavam cansados, já perdiam o interesse pelas expectativas achando-as inconvenientes. O que me inspirava manter-me mesmo que inquieto no graal do fuzuê logicamente que era as complicações financeiras. Apesar de odiar o capitalismo, não poderia de forma alguma pular o muro que ele ergueu sobre a sociedade. Sei que sou bom em pular muros, se tornou quase um robe! Mas este é muito alto e espesso, cheio de armadilhas. Não me aventuro a escalá-lo, pois os instrumentos são caros, de certo seria muito trabalhoso fazê- lo de mãos vazias. Concentrava-me, portanto, neste triste fato. Entretanto devia tratar de esquecer logo de mim mesmo. Era indizível as esferas por onde Willian divagava e com discreta distinção percorria. Afligido, mudo e deturpado, preso a ansiedade e o desespero da situação critica. Sendo ele jurado a interação com outras pessoas não o é permitido, se não fosse por isto abordar-lhe-ia com consolo indulgente. Aquele seu desalinho era por demasiado fatídico, e no profundo me molestava.Todavia não era ele o único parente da condenada que ao rigor da situação enfrentava a corte; Imperceptivelmentesentados ao lado da ala de Richard -que dispensava quaisquersinais de significante comoção -a mãe e o pai da moça faziam presença.
  • 232. A genitora da misera bacante se afundava em sentimentalismo; Ajeitou-se por ventura na cadeira tentando ocultar o nervosismo. Conservava a face polida elevada, os cabelos alvos a despencarem na nuca, fez serie de movimentos contrafeitos que delatavam sua indisposição.Observei-a então atentamente: Apesar da preocupação excessiva e compreensível para com a filha, deixou certo instante transparecer com todos aqueles apetrechos uma segregada egoísta e mesquinha, reparei que desde que chegara mantivera o nariz empinado. Posso tê-la mal interpretado, afinal, mal interagia de tão perplexa. Vestia luvas de seda opaca ornadas de apetrechos brancos que imitavam borboletas delicadas, trajava ainda uma saia parda de pregas largas generosas e um corpete justo apresentando decote quadricular. Na moda renascentista buscava formas naturais de esculpir o corpo, e o resultado foi um discreto charme para o busto e um formoso enfatizar no quadril. Embora se alegrasse com as aparências, não á de se olvidar que sua filha continuava com um pé no calvário, e outro no céu. O pai já era outro de gênero frívolo: Possuía fronte soberba, um par de olhos fundos e brilhantes, nariz aquilino e uma face oval. Sendo um homem de negócios era obviamente senhor de visão ampla, entretanto fora limitada nos conseguintes anos em relação ao gênio forte da mulher. Devido à sua natureza manipulável, e talvez até por seu cavalheirismo mal estipulado, aposto que nas horas vagas a parceira comenta sem devaneios as amigas: Que traste casei-me! Não aparentava ser homem de postura e tão pouco de timbre, mal abria a boca e sua mulher o silenciava. Ele era verdadeiramente uma anta domada. Sua vestimenta era composta por um gibão roxo de gola de brocado sobrepostos sobre uma camiseta ampla de algodão com mangas almofadadas e chemise, calção até o joelho a fazer contraste com o sapato de couro preto, sola baixa e bico de pato. Acima dos cabelos castanhos crespos um chapéu achatado e ornado repousava inverossímil. Pelo casal ter viajado para o exterior há anos antes
  • 233. do ocorrido quebrou-se a hipótese de que eles tivessem na ponta da língua irrefutáveis informações. Não deporão. O próximo interrogado fora conduzido pelo advogado até o pedestal da corte. O Juiz que na hora mantinha-se distraído deu um sobressalto. Lixava as unhas enquanto parava para assoprar as finas partículas que foram serradas pelo objeto; Foi ai que deu de cara com o jovem. Inicialmente olhou-o de baixo para cima. - E você é...? – vacilou ele essa indagação. O jovem em especifico, rapidamente respondeu: - Sou Lourenço de Sousa Valadares, irmão mais novo de Stef. Li um artigo anos atrás onde Stef afirmava ter tido quatro irmãos, entretanto, apenas dois restaram, tudo em circunstancia de conflitos armados. Todos os homens dessa família, inclusive Richard seguiu carreira militar, e com Lourenço não seria o contrario, isso posso sugerir devidamente através da sua farda bem passada e que com orgulho trajava; um uniforme da marinha mercante, vermelho, com fechos e abotoaduras douradas, também com uma faixa branca a envolvê-lo. Na cabeça levava chapéu e nos pés botas negras. Esse jovem deveria de ter uns 18 anos e era extremamente carismático.Tinha os longos cabelos louros anelados amarrados por um laço, a pele pálida sardenta, um par de olhos expressivos, queixo pequeno e cavanhaque. Reparei ocasionalmente que mancara quando adentrara a côrte, uma lastima, tão jovem e já aleijado. - Pois, então, Lourenço – começou Hagen o interrogatório, mas pausara brevemente no ato de tossir. Em seguida retornando imediatamente -; Fale-nos do seu convívio com sua irmã, ela fez algo de estranho nos dias anteriores ao suceder do crime? Mediante a sensação de declínio o rapazinho de feições serenas declarou: - Para começar, eu e Stef não tivemos muito convívio. Como irmão mais novo eu servia de saco de pancada de meus outros irmãos, e Stef só me olhava e observava meus joelhos ralados, minha boca sangrando... Eu nunca entendi a atitude dela, será
  • 234. que ela esta gostando da violência? Do show que a faziam contemplar? Lógico que cresci traumatizado, mas, sempre quis ser como aqueles que me maltrataram. Segui carreira militar como eles, na marinha se mais especifico. Eles pareciam tão sábios e distintos, obvio que, compadeceriam de mim um dia pedindo perdão... Assim pensava, até a noticia da morte de parte deles. Stef minha única irmã que sempre fora religiosa demais, apenas se permitiria em ingressar ao exercito da paz. Ela sempre fora amável comigo em certas ocasiões, e isso me confundia, não conseguia compreender as oscilações de sua personalidade. Tinha momentos que estava fria e distante, e outros que se aproximava com naturalidade amigável. Porém, sem que percebesse afetava-me no intimo. Minha mãe apesar de toda sua compostura contraditória, feições fechadas, é uma doçura com a densidade de um pudim. Ela sempre defendeu Stef, mesmo nas faltas mais graves, creio que aqui não é diferente – agora dirigindo-se a irmã transpôs totalmente emocionado definhante sorriso – Fique calma minha irmã – aqui desatava no propenso martírio, e ela o acompanhava em coro – Você ira sair daqui, sei que não foi sua culpa - Na plateia a mãe limpava os olhos num lencinho, e o pai escondia o rosto vermelho com relutância, alias, também ficara sensibilizado com o fabuloso gesto de amor fraternal. Lourenço continuou, agora a fitar o promotor: - O senhor sabe, que, a pouco estive em conflitos armados, uma consequência disto é a minha perna esquerda que ficou debilitada. Hei de viver agora sempre com uma bengala. Como então, poderia eu saber grandes coisas de minha irmã? Ela apenas ligou-me a contar da nova, foi o que fez a todos: A mamã, papa, Richard... Ela mostrava-se bastante empolgada, não falava em outra coisa. Não vou negar que espero que seja um menino, Maurice ficaria bem contente. Todos os olhares mantiveram-se fixos nele. Durante aquele grande momento ninguém que assistia se atreveria a zombar ou especular. O promotor que fez-se inerte desde o inicio surgia junto com sua petulância, bocejou o que
  • 235. aclamou a visão dos alienados espectadores; Aquele gesto deixou transparecer um ar de tédio e insignificância. Em seguida cortou-o: - Poderia me dizer, pois, estou curioso, seu nome é Lourenço não é? - É assim que me chamam – respondeu-lhe num transporte de alegria. Surpreendentemente encontrava durante aquela ocasião critica uma réstia de bom humor. - Bem, Lourenço -; continuava firme o promotor- Poderia me explicar, pois acho um tanto irônico, como uma família tão religiosa como a sua poderia se envolver em obras do gênero? Ser militar não inclui também derramar sangue? O jovem mostrou-se eminentemente espantado, certamente não estava preparado para uma pergunta do tipo. Metódico hesitou aderindo breve silencio. Acompanhado de um suspirar, explanou ao fim solicito: - É algo complicado de se explicar, afinal nem todos são capazes de aplicar essa filosofia em suas vidas. De quaisquer formas, por mais que o homem procure a purificação ela não existe, e aqueles que a prometem são mentirosos. Mas hão de dizer: “Deus purifica” sim, ele purifica, mas um minuto depois o homem se desonra, afinal, já nascemos maculados. Acredito na divindade, mas já que peco simplesmente pelo fato de estar vivendo hei de pecar para com o que vale a pena: Proteger. A arma que seguro pode matar, mas, é também a que protege. Entrei no exercito da marinha para proteger minha pátria, minha família. Recordo-me de uma frase de Vito Corleone, um líder mafioso de “O Poderoso Chefão”: Um homem que não se dedica a família nunca será um homem de verdade. Eu quero ser essa criatura idealizada e dedicar-me a minha maneira. Somente Deus é imaculado e querer ser igual a ele é uma blasfêmia. Era notável que o deferido argumento não valeria para convencer o crápula – eu o chamaria de Drácula pela escuridão hipnotizadora da sua toga – pois demonstrava ainda aquele aspecto de cismativo:
  • 236. - Essa filosofia é utilizada por todos da família? – indagou erguendo uma sobrancelha em ares de curiosidade. Acredito que, interessava-o profundamente. - Não – replicou -; Somente os homens. Isso faz parte da lógica até dos não cristãos: Os homens vão à luta e as mulheres rezam por eles. Creio que talvez por isso o fanatismo religioso predominou mais em Stef e em minha mãe – fixou-se na irmã, tal ação influenciou o promotor e em seguida todo o tribunal fez o mesmo. A jovem de feições cândidas e pueris transpunha-se desesperada, rezava um rosário de joelhos e fazia o sinal da cruz incontáveis vezes de forma compulsiva. Iron justamente por ter-lhe reconhecido os fatos provou do desprezo e da indiferença. Um brilho ferido nos olhos do advogado logo se fezvisível; Que Hagen ficou irritado é obvio que ficou. Sempre que começava a compor novas estratégias, rotas necessárias para escapar da maldita divergência e salvar o couro da sua aliada, tal criatura satanista o interrompia desconcentrando-o. Se via ainda em grande desvantagem e aquele momento de fala lhe era importante. Apesar do desaforo não se via como ultrajado, mas prejudicava em muito a situação de Stef. Deve de estar apenas tentando ganhar tempo para estudar sua determinada condição, caso contrario posso afirmar que Hagen é um péssimo profissional. Tendo cumprido seu papel, ao ter terminado de se declarar Lourenço agradeceu e fez pequeno trajeto de voltaa ala dos depoentes da defesa. E, em uma cadeira ao lado, via-se Richard que assistira tudo e permanecia inalterado; Isso era o que mais me intrigava: Sua frieza em não expressar nenhum declínio, nenhuma chaga para com a irmã lastimada. Willian que é primo esta quase entrando em pânico. Não se pode negar que o pranto da pobre desgraçada produzira aparentemente, um forte efeito de palco. Realmente, ainda não mudei minha opinião em relação a ela, ainda a acho culpada e o que foi exposto aqui só reforça essa minha intuição.
  • 237. *** Pude conferir de pertoo próximo interrogado, este, que se limitava a chamar-se de Orwell. Parece que Hagen já premeditava a entrada do mancebo. Era o ultimo chamado, e também o mais assustador e obscuro. Aproximava-se em passos decadentes, lentamente inquiria com o olhar torto, irredimível, sua capa azul flutuava ao vento com harmonia a difusão das imoralidades. Tinha ar revolucionário, sabes? As botas de couro de gala, as luvas e farda branca com detalhes em renda e abotoaduras de ouro, no quadril uma cinta também de ouro. Na cabeça um enorme chapéu azul marinho de penas quase a cobrir-lhe o rosto. Um lenço de tule ocultava metade da face, mas os olhos continuavam ali, a encarar a condenada, que o correspondia com aversão, esboçava penúria, muita penúria naquelas sobrancelhas franzidas. - Caro Orwell – retornou o promotor seu oficio – O que tem a me dizer de Stef? O que sabes da jovem? - Eu? – indagou o senhor misterioso – Sabes que não sou qualquer um. Venho de uma organização, poucos aqui devem estar familiarizados com ela. Creio que em verdade, poucos devem conhecê-la, e quem a conhece é acostumado a identificá- la como uma seita. Senti um calafrio a percorrer meu corpo, precisei puxar a gola do colarinho para disfarçar a ansiedade, a atmosfera da côrte começava a me perturbar. - A’la Kafka! – continuou Orwell ao exclamar, e isto gerou grande repercussão -; Somos da trupe da conspiração tal quais os antigos Iluminatis, somos os Advertistas. Maurice Santiago Duprê era um grande amigo meu, conhecemo-nos em Lusíada no festejar da independência, tomamos uns drinques e logo nos identificamos, sofisticamos laços bem estreitos. Frequentara outrora sua casa com grande frequência.
  • 238. - Protesto! – redarguiu Stef esboçando suave duvida – Nunca esteve em minha casa! Muito menos perto de meu marido! Ele teve um ataque de risos, porém falou em tom claro e sério: - Não podeis negar Stef, estas encurralada. Encontrei na sua casa um atestado comprovando problemas mentais remetidos a sua pessoa. És esquizofrênica, deve que nem lembra quem é a si próprio ou quem és, pois esta sempre a alucinar! Aposto que escondem-lhe ou fingem que nada tem. Impotência da família diante de uma enfermidade tão grave. Ao meu ver isto é um grande gesto de ignorância! - Protesto! –antes que Stef pudesse se manifestar Hagen se levantou, a essa altura do campeonato suava sobremaneira. Ainda dava para notar os nervos a palpitarem no pescoço e seu olhar profundo e aturdido, intercedia por ela -; Esse senhor não passa de um charlatão! Como poderia adentrar a casa dos Duprês sem que Stef soubesse primeiro? Para a infelicidade do indagador, o interpelado sorriu com visível agrado; Um sorriso enlouquecedor, e adicionado a sarcasmo surreal, tudo parecia gritante, pervo, era ao mesmo tempo vago e frenético os risos calamitosos. Encarou Stef sem pudor, e ela horrorizada tentava desviar o olhar. - Responda – requisitou o Juiz reclamando da sua demora. - Pois bem vossa Excelência – declarara, soerguia levemente a frontetransbordando em completa insanidade–; Vou explicar como consegui esse admirável papelzinho – enfiava as mãos no bolso e tirava de lá algo que parecia um laudo médico -; É do doutor Louis Fagundes, psiquiatra bem conhecido que desencarnara á dois anos atrás. Vejam! Podem ver com seus próprios olhos – erguia o papel no ar em gesto bruto – Como secretario do senhor do Sr. Fagundes possuía acesso às pastas. Ademais fui eu mesmo quem o entreguei a Maurice. Quando arrumava os arquivos descobri sem querer as sujeiras de sua parceira, e que com incrível habilidade ocultava. Quis mostrar- lhe imediatamente, ele precisava saber dos problemas que levaria junto com essa menina.
  • 239. - Não, não sou Esquizofrênica! – negou ela aos prantos. - Protesto! – atalhou Hagen, certamente tentava compromete-lo –; Como alguém pode entrar na casa de alguém e furtar algo sem mais nem menos? Ainda mais um atestado? Por que seria tão significante roubar um atestado? Uma atitude de suspense maligno, a daquelas mesmas risadas psicóticas, o que era inconveniente. Orwell reagia com indiferença, como se tudo não passasse de uma grande piada, cujo á qual se divertia. No segmento sobrepujava lamurias, desolada Stef procurava uma resposta sincera no rosto dos pais, e não a encontrava, pois eles a negavam fechados em si mesmos. Procurou então no rosto de Richard, e ele cabisbaixo, nada demonstrou, o mesmo ocorreu com Lourenço. Lagrimas começavam a escorrer-lhe da face, contornava seu nariz fino perpassando a boca tremula. Apoiava as mãos na mesa, era como se não houvesse caído a ficha. Tudo era mais forte do que verdadeiramente poderia suportar. Pigarreou e com o dorso do braço limpara o pranto. O tempo passava sem que ela visse, afinal o estrago já foi feito. O Juiz analisava os fatos meticulosamente enquanto Orwell retornava a narração: - Confesso que, havia pegado esses documentos das pastas sem a devida permissão, o mais sensato que seria de uma mente sã é a de voltar e devolve-los ao seu lugar. Ademais – ainda exibia-se no marasmo. Teve realmente grande prazer em responder – Tenho testemunhas oculares e fotos que comprovam minha amizade com Maurice. Fotos em que até a Sra. Duprê aparecem. Váriosjoguetes de conspiração, o promotor maquinara malevolamente.Igual a uma besta, via-se no clarão do fogo, sua alma drogada. Tal uma besta, saia fumaça das narinas e fogo na boca. O verdadeiro possuidor da barca do inferno.A urgência já não mais solicitava artifícios, Orwell expôs todos os assinalados na côrte, provas legítimas e unanimes. Humilhada e envergonhada, era evidente que a moça não mais obteria com sucesso a arte de dissimular.
  • 240. Já terminando o discurso, o oficial trazia a tona o doloroso veredicto: - Portanto, Sra. Stef Mercedes Duprê é considerada culpada – e bateu com o martelo na mesa. A calamidade atingira-a sobremaneira, também a Hagen, só que com menos intensidade.No momento da noticia como sempre tentara acudi-la. Se pronunciava, mas a cliente não ouvia. Ela entrava em pânico, no torpor da emoção se martirizava, lamuriava, chegava a soluçar em convulso excepcional. Der repente fora obrigada a retornar a realidade, dois policiais se aproximaram dela e com brutalidade guiariam-na a prisão aonde ficaria até seus últimos dias em que seria findada com fogo seu traje carnal. - Me salvem! Mamã! Papa! Salvem-me! Não me deixem morrer! Não deixem o meu filho morrer! – suas suplicas eram de culminar, e Orwell ainda a fitava com o riso cínico de sempre. A mãe perplexa fechava as pálpebras fortemente, por instantes se via perto de desabar, procurou consolo nos braços do marido que respondeu também dentre lagrimas.Willian tendia a perder a cabeça, necessariamente, desde o começo permanecera atônito. Dado instante os três irmãos se entreolharam, e em questão de minutos compartilharam a mesma sensação de distimia. A alma envaidecida de Richard se dissipava do orgulho, e uma ligeira sensação de remorso derradeiramente o invadiu. Num ato de impulso avançou até Juiz. Contudo, fora impedido pelos guardas. Sua arrogância não permitiria conter esforços, exigiria um habeas corpus, com uma quantia ilimitada haveria de adquiri-lo – Assim pensava. Mas, não. Sua ação fora consideravelmentedébil diante da impoluta lei. Vulnerável diante a situação da fraterna, entrou no coro dos represados. A depravada não aceitaria sua condenação, já não aceitava si quer a realidade.Soltando-se dos guardas, dirigiu-se até o Juiz e se curvou diante dele: - Por favor vossa excelência, tenha piedade de mim! Eu que fui culpada da fatalidade de meu marido não quero ser o mesmo
  • 241. para com meu filho – ela chegou a beijar-lhe os pés enquanto este saia da mesa – Por favor, lhe suplico! Por tudo que é mais sagrado! Não tirem a vida daquele que esta no meu ventre. Nenhuma palavra conseguia traduzir seus conflitos internos. A jovem mesclava constantemente com o deslumbre da angustia e do lugebre. No desfecho melancólico o forte sentimento de culpa também me atingiu, suas esperanças desceram pelo ralo. Uma dó alastrou-me também, quase que me esmagando de compaixão. Eu que sempre julguei-a culpada nunca desejei-lhe de verdade esse destino perverso: O óbito exacerbado de paranoias. “Culpada, e culpada será queimada tal qual uma bruxa!”... Isso ainda ressoava formidavelmente assolador aos ouvidos. Aberlaine lançou-lhe um olhar lacônico, pois já estava acostumado com a postura inabalável que o cargo exigia. Era contra dar falsas esperanças, não se permitiria.Não era ele quem escolhia as sentenças, portanto, nada podia fazer, e dela nada escondeu. Doravante os dois guardas a alcançaram, e dessa vês a algemaram.Esperneava, esbravejava, sem nenhum resultado. A extensa multidão acometia-a em perjuras, riam-se de sua bagunça mental. Parecia presa a outra dimensão. No seu espernear poderia julgar que estava prestes a alucinar. Sra. Stef de Mercedes Duprê fora vaiada e enxotada pelos espectadores. Sobressaia-se, entretanto, a piedade de outrem. Além da família um grupo de fãs demonstravam timidamente seu abatimento. A discórdia a enlevava num daqueles que poderiam ser um de seus últimos dias de sol. A voz desditosa de sua consciência provavelmente repetia essa vil sentença: Culpada, e culpada será queimada tal qual uma bruxa! XVIII Fogo e Cinzas
  • 242. Experimentava do mórbido e fatídico imensurável amedrontamento. Tal sentimento percorria teu vulto como um parasita promiscuo na desdita calamidade. Era de se intimidar, tinha por que se intimidar, a fogueira já começava crepitar, mesmo no sono queimava-lhe alastrando sobre seus membros no delírio de sua doença mental. Seria incinerada! Queimada viva! Mas suas cinzas ainda jazeriam nesta terra maculada. Fora levada para o centro da praça publica. Eu estive lá para assisti-la... Muitos estiveram lá, se divertiam em humilha-la nos seus andrajos humildes; Divertiam-se de lembra-la de teu feito, jogavam tomates nela, ovos, e outros condimentos putrefatos... Orwell também estava lá, quase escondido, rindo de sua desgraça. Divertiam com a face dela, transmitia tanta divergência. Seus olhos saltavam das orbitas, a boca permanecia aberta e tremula, os cabelos outrora tão belos... Perderam o brilho. Se não fosse pela criança que levava ao ventre ficaria resignada. Eu também não estava resignado. Escutava aqueles gritos e urros sentindo vertigem; A presença de Orwell me perturbava, era como se fosse um regresso notório a côrte, onde tua palavra fizera enorme efeito. Efeito devastador, creio que ele foi a causa pela qual estamos todos aqui. Uma tristeza bem grande tomou conta de mim, tanta a ponto de tornar-me incapaz de me expressar por palavras. Por isso expressava com gestos. Emudecido, eu jazia petrificado. São raras as vezes que uma mulher é condenada por um crime tão hediondo, portanto, é de chocar. Se fosse um homem, seria despido e esquartejado, só não possuem o mesmo privilegio devido a moral dos costumes. Ver uma mulher despida em praça publica seria um ato concreto de obscenidade. Todos os seus familiares que assistiam jaziam em estado de torpor insano. Choravam descontroladamente pelos cantos, como se o mundo fosse em breve desabar. Willian também
  • 243. chorava, e aquilo se sobrepunha ainda mais pesado perante a fatalidade. Horas subliminares; Horas sem fim; Roubem-na da justiça e a tragam para mim... Horas subliminares; Horas sem fim; Roubem-na da ordem divina e tragam-na para mim... Seu corpo já estava sendo amarrado ao tronco de madeira espesso. Seus minutos finais... Retornava as orações, agora com tom de maior urgência. Olhos embargados cerravam-se fortemente, feições esbugalhadas tentando conter o pânico do desconhecido. - Deus me perdoai... – pontuou com esse ensejo – Tenha piedade da minha alma. Ocorreu que, enquanto se preparava para ser cremada, como resposta surpreendente as tuas preces, alguém de suma importância intercedeu: - Parem! Todos recuaram a cabeça para vê-lo. Cortando caminho na multidão avançava com passos largos. Parecia deslizar pelo piso de granito, deveria também saber a urgência da sua presença. Ninguém teria parado para escuta-lo ou leva-lo a serio se não fosse à charrete luxuosa de que sairá. - Maurice! - Stef gritou ao vê-lo, e ainda pasma pelo seu estado de nervosismo lacrimejava aos soluços. O anjo da morteque a conduzira ali (ainda portando uma tocha em chamas) soltara dos laços que a atavam. Maurice envolveu-a em teus braços num abraço forte e duradouro. Transmitia tanta ternura, garantia uma firmeza imbatível e uma personalidade protetora. Mostrou- se tão preocupado; Tão preocupado que nem tivera tempo para trocar as vestes; Ainda usava um pijama de bolinhas e um chinelo de camurça. Mal se recuperara, usava ainda faixas na cabeça, e se dirigiu até esta praça. Nunca se perdoaria se não
  • 244. tivesse vindo no ímpeto de salvar a amada. Nunca se perdoaria se não tivesse chegado a tempo. Foi uma cena bem comovente, devo de admitir. Seus familiares suspiravam de alivio comemorando tal benção. Willian se abraçou a mim, e como se quisesse me mostrar o tamanho de sua alegria continuou assim aos berros da vitória. Eu não cheguei a estranha-lo, permanecia mudo a admirar tão magnifica cena. Logico que Orwell não gostara nada daquilo.Quando Maurice contemplou a multidão imediatamente o reconhecera; Começara assim uma perigosa troca de olhares, pois Orwell o correspondeu de forma cínica e gélida. Como de costume instigava a obscuridade. O sol se punha chamando o fim da tarde. O céu alaranjado junto a ele dava contraste tão magnifico. Tão calmo, usurpara-lhe a atmosfera tensa dando lugar a uma repleta de serenidade. As pessoas que outrora se divertiram com a desgraça da jovem, se dissiparam adiante de Orwell nos poupando de sua ignorância. Deixaram todos nós a sós... Somente com o vento a nos atrapalhar. Sensibilizara-me de verdade. A figura pomposa de oficial chegava aostrotes. Atrasado ao evento, junto a ele, acompanhava-lhe um delegado muito conhecido pelo nome de Tainha. - O que aconteceu? – perguntou-nos o oficial Aberlaine, e em seguida reparando a presença de um ser diferente dos demais, cômico, um rosto novo e desconhecido, pôde logo deduzir: –; És tu você Maurice? Embaraçado confirmou: - Sim sou. Me perdoem meu desleixo – só aqui notara as roupas que usava e ficou um pouco envergonhado –; Não tinha tempo para isso, se eu demorasse mais um instante minha querida Stef já estaria morta. Podem compreender não é?
  • 245. - Entendo – disse o Juiz fazendo breve pausa: -; Este ao meu lado é Tainha, converse com ele e assine alguns papeis para tirar-lhe a pena, inocenta-la. - Imediatamente! – bradou ele impulsivo, ainda com alguns traços de nervosismo. O delegado deixou escapar alguns risos que não foram levados a sério, demonstrava perplexo para com a situação e ao mesmo tempo maravilhado pela afinidade do casal. Compreensivo declarou: - Venha comigo, precisa assinar uns papeis. Sr. Duprê o acompanhou entusiasmado. Beijou os lábios da esposa sem fazer menor gesto de reparar no seu desleixo, subiu na charrete e sumiu sobre a penumbra junto ao relinchar dos cavalos. *** A luz adentrava o salão dando-a uma aura bem acolhedora e gentil. Por agrado o gramofone fora deixado ligado, e de lá era reproduzida linda sinfonia de Chopin. Por detrás da janela um pardal cor de pêssego se ajeitava no ninho, entre os galhos de uma alta árvore. Tão bucólico, pacifico, linhas brancas tingiam as extremidades de suas asas, e seu bico preto rebuscava incessantemente algum inseto. Estava a contempla-lo tão sossegado. - Que faixa é esta? – timidamente perguntei, revelando curiosidade. Sr. Duprê sentado na sua poltrona avermelhada de marfime com ricos detalhes em madeira mantinha na face uma expressão de profundo êxtase; Com os olhos cerrados, deixara-se transportar por aquela delicada sinfonia. Inteiramente imerso acompanhava o ritmo com os dedos da mão direita soerguidos - Nocturne n°20 em C menor – respondera-me dentre escoria de reflexões. Na mão esquerda suspendia uma xicara de café inglês,
  • 246. cujo o liquido balançava extravasando as bordas. Adiante, levou o recipiente a boca sorvendo um trago da bebida – Adoro musica clássica. É como se estivesse num cenário fantasiador. - Também sinto o mesmo – declarei mediante tal afirmação acolhedora. - Chopin é meu favorito – confessou – Parece que suas musicas servem-me como remédio salutar. Mas também gosto de Beethoven e Mozart. Um aroma de bolo e quitandas se desdobrou alcançando nossas narinas, realçando assim nosso apetite. Por detrás de Maurice, Stef vinha com uma bandeja repleta de quitutes. Bem humorada, deixava transparecer serenidade, trajava um belo vestido cor de rosa com laços da mesma cor. - Já esta pronto meu bem – dizia ela, abaixando-se para beijar- lhe os lábios carinhosamente – Quer experimentar? - aqui ele abria os olhos, e no ensejo se prestou a fazer-lhe algumas caricias –; Aceita Lucas? – adiante oferecera-me estendendo a bandeja. - Claro, obrigada. Peguei um de chantili com morango, estava simplesmente delicioso. Era evidente que não me esquecera de sua promessa... Não me permitiria, afinal, estive aqui desde o começo com um único proposito em mente: Entrevista-la. Não poderia me dar ao capricho de me envolver e sair de mãos abanando. Não foi Stef quem prometeu, contudo o que Willian disse valia por ela, e isso ela certamente conseguia discernir. - Querida, poderia trazer-me um pouco mais de café? – pediu Maurice gentilmente. A esposa mostrando traços de indefinível ternura assentiu. Porém, seguindo rumo à porta deteve-se: - Desejam mais alguma coisa? - Não, obrigada querida – respondia Maurice esboçando amável sorriso. - E você Lucas? Deseja alguma coisa?
  • 247. - Não, nada obrigado – outrora distraído minha resposta saiu um tanto embaraçada. Estava a contemplar as estantes do lado da janela; Livros e mais livros antigos empilhados, artesanatos bem espalhados enfeitando ainda mais. No canto havia uma coleção de bonecas russas, cada uma diferente da outra. Entrementes assentei-me num banco de veludo. Aproveitando da oportunidade, após cinco minutos, Maurice se aproximou de mim com admirável cautela. Stef já havia se retirado, e aquele seu olhar serio e perdido nos feios hematomas e cicatrizes especulava intranquilidade, tinha um proposito confidencial: - Não posso deixar que Stef faça a entrevista – fez breve pausa empurrando os cabelos para trás. Seu arfar profundo traduzia o esforço com que se sobrepunha – Preciso protege-la, e deixa-la ser entrevistada seria uma atitude por deveras perigoso. A pessoa que fez-me isso poderia fazer o mesmo a ela. - Não foi ela quem fez isso ao senhor? – indaguei espantado. - Lógico que não! Foi um advertista! E acredita que o filho da mãe ainda por cima criou provas para incrimina-la? Imagine?! Por pouco minha Stef teria morrido inocentemente! Eu ficara eminentemente surpreendido. Confesso que, não esperava tal revelação. Observei-o minunciosamente: Num fraque elegante ainda tinha a aparência lastimável devido ao vil evento - Se me permite perguntar, o que foi que ocorreu? Ele suspirou, e observando-me o sincero desejo de compreensão elucidou: - Tudo ocorreu por um quadro! Um quadro que jurei pela morte do meu avô guardar até as próximas gerações. Os Advertistas a cultuam como se fosse uma deusa! Me propõem ofertas, que eu obviamente recuso. Tentaram me roubar, me extorquir... Ademais, á ultima fatalidade se sucedeu depois de um monte de ameaças. Aquele velho maldito! obrigou-me a esse horrível destino, pois em perigo o nome e a vida de minha querida Stef. No começo fui paciente, paciente até demais, agora hei de contatar isto as autoridades.
  • 248. Interrompeu-se ouvindo a divina musica novamente. Beethoven Pathetique Sonata 3° movimento. Após vago intervalo onde parecia submerso no meditar prosseguiu em tom fadigado: - Quer ver o quadro? Eu por minha vez, respondi hesitante: - Se me permite... - Que isso! É o mínimo que posso fazer, já que o atrapalhei tanto profissionalmente. Venha comigo. O bendito mancebo me transmitia bastante confiança, conduzira-me até um aposento oculto e obsceno, cujo mantos cinzas eram largados estirados sobre o chão e em moveis corroídos por cupins. Aranhas vagueavam em suas teias imundas, e a minha frente descortinava-se o retrato da verdadeira necromante. Perplexo congelei, senti fortemente um nó na garganta. Seus cabelos se bagunçavam ao vento ao mesmo tempo em que se estirava fria no chão de flores silvestres. O vulto cuidadosamente esculpido. Ligeiramente corei ao ver-lhe os pequenos seios delicados despidos, fiquei vermelho como um pimentão, e mesmo assim, não parei de contemplar com desejo aquelas duas protuberâncias salientes perversamente tentadoras. A pele pálida e macia, os lábios cor de carmim. Lançava meu olhar aquela bélica libertina, cujo os cílios pareciam a de uma boneca. Não poderia explicar o sentimento que veio do nada devastando minha alma. Era Alice... Minha Alice... Maurice permanecia junto a mim, menos interessado fornecia informações mais amplas: - Esse retrato esta na minha família já faz dezessete gerações. Há boatos de que ela morreu enforcada, no fogo travado, por veneno... A sutil alusão me fez estremecer. Assim como o quadro de Akino... Ela é idêntica a minha Alice. Fixando em mim o olhar lúcido, Sr. Duprê compadeceu-se:
  • 249. - Você esta chorando? Me tirando da inercia deparei-me comigo lacrimoso: - Não foi nada – respondi. Limpava o copioso pranto com o dorso da mão – Consigo entender agora por que eles tentavam rouba-la. O efeito de minhas palavras fora tão assolador, que, por uma questão de segundos, Maurice se considerara o mais assombrado dos homens. XIX Os Borgias - A sua amada Amanda Borges anda muito condescendente – comentou Helena desdenhosa. - E o que eu poderia dizer contra isso? – redargui -; Ela é de alta aristocracia. - Mas você não me disse isso antes. Muito me admira você ter conseguido um rolo com uma menina como ela. De berço de ouro – continuou em braços cruzados no seu jeito cínico – Acredita que ela veio aqui hoje perguntando de você? Foi o guarda Stalin quem informou-me, é surpreendente. Deparei-me der repente com minha história fajuta: Amanda Borges, minha vizinha, minha amada, minha futura namorada. Como pude forjar tamanho rumor? O que eu tinha na cabeça? Tendo ela notado meu desatino mudei de postura: - Deveriam ter me chamado. - Assim fica fácil, namorar no serviço ao invés de trabalhar. - Não seja tão severa – repliquei – Talvez por isso andas encalhada – sem tomar ciência das minhas ações aticei-lhe a cólera. Quando percebi, lógico, já era tarde demais.
  • 250. A ultrajada avançava pelo corredor com seu pisar forte fatalmente proporcionado pelos seus saltos de bico fino. Roberto que ali caminhava inocentemente fora atropelado por aquela fera: - O que ela tem? – perguntou-me assustado. Tentava se recompor do tombo e mostrava-se visivelmente alterado. - Nem eu sei, e acho melhor deixar quieto. *** O serviçal conduziu-me até o interior da casa, onde a jovem Amanda Borges esperava ansiosa e pacientemente por mim, sentada ao piano lustrado de mogno, ensaiando partituras de Vivaldi, uma sonata em dó menor. Amanda começou os estudos sobre música clássica ainda criança, deveras, teve forte influencia da figura rígida do pai, que confiante sobre o talento da filha investia nela sem esforços ou poupança. Tinha um ar de inocência reprimida e a aparência somente enfatizava isso; De fato, sua anatomia não condizia com a idade que possuía; Devia de ter uns 22 anos, mas aparentava ter apenas 15. Sua pele clara cor de creme contrastava divinamente com suas bochechas rosadas. Nariz arrebitado e olhar aquilino. Destacava-se, entretanto, os cabelos cor de pêssego, similar aos vindos de uma princesa de contos de fada. Sorridente com uma feição terna cumprimentou-me sem que antes interrompesse a execução melódica, que dedilhava com visível afinco. Tal harmonia deixava transparecer sua habilidade, fina e sofisticada que possuía para com a vocação. - Tocas muito bem - elogiei-a, tentava aumentar-lhe o ego. Ela sorriu e agradeceu, ainda atenta a partitura: - Obrigada. Acordei bastante inspirada essa manhã. É como se algo controlasse meus dedos, desdobrando-se, e controlando- me. Algo prazeroso e ao mesmo tempo mortífero. Não poderia
  • 251. me perdoar ou continuar a viver sem antes terminar de tocar essa sonata. Seus dedos pareciam deslizar das teclas, numa fração de segundos revelando surpreendente capacidade motora. - Dizem que os músicos são os que conseguem chegar mais perto do som divino, do som de Deus – comentei. - Beethoven era mesmo um homem sábio – admitiu ela, mas sua mente já estava vagando por outra dimensão – Eu sinto como se ao tocar estivesse mais perto de Deus – interrompeu-se, por um minuto trocamos olhares no mais ínfimo silencio -; Você, acredita em Deus? Tua indagação me estagnou, e descontente redargui: - Não, mas, respeito todas as religiões. Ela rio borbotões. - Fique calmo, eu não vou obriga-lo a crer em algum ser superior – assegurou-me tranquilizando-me da primeira impressão. - Posso perguntar-lhe algo? – inquiri. Eu tinha ensaiado durante toda a semana a forma com que iria aborda-la. Nunca a tinha visto antes tão bonita, talvez outrora eu estivesse cego, e sendo fulminado por desagradável alucinação não percebia seu brilho. Ela era alguém que eu seria capaz de amar se eu quisesse. - Pois não, diga – Certamente tinha no seu tom suave um interesse explicito. - Percebo que, quando tocas parece longe, como se estivesse noutro mundo. Poderia me falar como é ele? Fitei seu rostinho inocente e senti forte vontade de tocar-lhe os cabelos delicados. Estava maravilhado com seus olhos brilhantes, de cinza claro que combinava com as tonalidades do vestido estilo Belle Époque. Um traje de drapeados suaves e estreitos com detalhes em renda e tule. Parou imprecisa, tinha por certo uma forma interessante de se expressar: - Em cada música vejo dimensões de mundos diferentes. Uma infinidade de cores, dançarinos e atores fantasiosos.
  • 252. - Deve ser difícil, deve de seguir o roteiro ao mesmo tempo em que viaja. - Exatamente – concordou, acariciando com cuidado as teclas -; Essa me é uma grande dificuldade. - Eu não toco nenhum instrumento, mas, amo música clássica, e vejo esses mesmos mundos. Consigo compreendê-la Sra. Borges. Se me permite fazer outra pergunta, a senhora alguma vez já compôs algo? Atrapalhada e um tanto sem jeito ajeitou-se na cadeira. Empurrando os cabelos para trás respondeu-me ternamente: - Já tentei, mas, não consegui. Olha, consegui, consegui, mas, logo depois de tocar parece que perdi o encantamento – sua voz denotava tanta doçura que eu quase gamei. Aproveitei-me da brecha para perguntar: - Chamou-me no serviço para que? Rapidamente franzira o cenho: - Ouvi falar que, você vem dizendo por ai que anda de rolo comigo. Isto Sr. Lucas não me agrada, me é uma afronta. Minha família é muito conservadora, não permiti rolos, estou destinada a me casar querendo ou não com senhor Jersey Estradivários. Quero que saiba que, qualquer boato de meu cunho me trará sérias consequências – com os braços colados junto a si parecia querer atalhar tocando outra música. Embaraçado pelo derradeiro motivo tentei ligeiramente me explicar: - Sra. Borges me perdoe – dizia, adiante percebia seu encabula mento – Sei que sou um mero plebeu e a ti uma mera pessoa, um péssimo partido. Se coloquei teu nome é por que não quero me envolver com pessoa alguma. Se coloquei teu nome é por que me és como a única integra que permanece na terra. Cujo o ar não é rarefeito, cujo o semblante não desonrou. Peço e sem esperar receio, desejando humildemente seu perdão. Precisei devidamente improvisar, caso o contrario não teria me dirigido:
  • 253. - Sabe Lucas, és um pebleu de muita classe. Fez aulas de locução? – Olhava-me de cima para baixo. Na ocasião estávamos nos conhecêssemos melhor. - Não – neguei com um leve gesto de cabeça – Minha família era muito sem recursos, se consegui o emprego que tenho foi graças a uma bolsa. Logo após minha afirmação ficou estampada em si uma expressão de indiferença, que infelizmente não conseguira ocultar com a hospitalidade: - Em breve o almoço estará pronto. Acompanha-me? - Não quero desgraçar-lhe ainda mais. - Não seja tão dramático – repreendeu-me ela retornando aos agradáveis risos -; Você é bem vindo. *** Na imensa sala de jantar, a mesa farta jazia por demais convidativa. Já admirava demais aquela arquitetura, cujo a abobada soerguia vigas de madeira bem trabalhadas, vislumbrava ainda a minha frente lindos pisos de cerâmica turca. O teto era muito alto. As cortinas foram semiabertas de modo que deixasse a luz do sol irradiar no cômodo amplo, livrando-o da atmosfera habitualmente escura de sempre. Lentamente a mansão Borges se apresentava. Desciam as escada um par de moças esguias completamente envolvidas em sua conversação. - São suas irmãs? – indaguei. Sentara-me ao lado dela, sua figura onipotente me transmitia com seriedade mais confiança. - São sim – respondera-me com desenvoltura – Aquela a esquerda é Colette e a baixinha a direita é Betty. Observei-as meticulosamente: A da esquerda possuía um sorriso enigmático, e a outra possuía os lábios escondidos atrás de um leque. Adornadas por um monte de apetrechos, era fácil de
  • 254. distingui-la dos demais passantes, faxineiras e criadas diversos, que no momento ainda trabalhavam. Entrementes, aproximavam-se ainda na peculiar conversação. Colette tinha os cabelos semelhantes ao de Amanda só que num tom mais escuro. Seus trajes eram pesados, cheio de pompa e purpurina. Já Betty era mais simples, seus cabelos não tinham cor, mas, isso era compensado com o brilho, um loiro brandamente prateado. Não estava na eventualidade usando roupas formais; Escondia-se num roupão grapeado. - Quem é este? – perguntou Colette estranhada. - Desculpe a impertinência – respondi – Sou Lucas Fernandes, um jornalista do jornal Anatolia. - Veio entrevistar Amanda? – indagoudeixando transparecerinvejosa. - Não. - Então viera entrevistar a mim? – um sorriso hostilse fez estampado na face. Era perigoso, e eu me atrapalhei. Continuaram me fitando em silencio, esperavam uma resposta. - Ele veio conversar com papai – Amanda apercebendo-se do meu acanhamento intercedeu – Disse que ele andava muito ocupado, mas Sr. Lucas insistia. Pedi então para que ficasse até as duas horas, onde, mais tarde, nosso querido pai teria tempo para conversar, estaria presente. As duas jovens saudaram em sua gentileza. Repousaram suas gordas bundas no acento de estofado caro. Adiante era servido uma sopa de legumes e um assado bem preparado. - Fale-me – continuou Colette enquanto mastigava – Viaja muito? Sem que antes pudesse responder Betty replicou: - É logico que ele viaja muito, ele é jornalista. - Perdão – acrescentou Amanda Borges referindo-se a irmã – Colette sempre foi muito lerda, para não dizer burra. - Não sou lerda! – retrucou Colette ofendida. - Não adianta arrumar desculpas – interveio Betty– Ou é burra ou tem preguiça mental – e ria-se debochante.
  • 255. O comentárioagressivo só veio a atiçar ainda mais a cólera de Colette, que em seu excesso de fúria avançou sobre a irmã mais baixa em punhos cerrados. Diante a explosão provocada Amanda resmungara: - Não podem agir com mais classe na frente do convidado? - Não até que eu faça essa loira oxigenada ficar calva! – dizia a irmã. Uma nuvem de fumaça as envolvia tal num desenho animado. Eu só fiquei lá instigado a assistir. Briga de mulheres é mais divertida do que a de dois grandalhões. Falando em grandalhões, cinco deles adentravam a sala e se sentavam a mesa. - Ola Amanda – dizia um deles. Tinha os cabelos negros cortados num estilete e cobertos de gel – Ola Colette, ola Betty, como vocês vão? Todos usavam roupa de seda e veludo, ao certo, apenas diferenciados por alguns apetrechos. O que falava tinha piercings no ouvido e tatuagens no braço. Uma tatuagem estava no peito mas era ocultada pela camisa. O que se sentara a minha frente tinha cabelos ruivos e colares de esmeralda, anéis de ouro nos dedos, e botões de fibra. O que tentava acalmar a briga das duas irmãs usava um lenço de cor azul marinho e óculos de aro fino. Já a outra dupla, gente sarcástica, mantinha-se idêntica com apenas uma letra inicial bordada em cada blusa: O primeiro com a letra “S” e o segundo com a letra “J”. Jaziam todos submersos na dialogação. Quando me percebiam no ressinto cumprimentaram- me educadamente. Logo retornava a empregada trazendo pão, passas e espaguete, servia também copos de licor e limonada aos que não queriam. - Não me diga que tens ainda mais irmãos Amanda? – indaguei espantado. Ela riu compreensiva: - Tenho sim, mais três irmãos e dez irmãs. - Vish Maria – exclamei - Seu pai não tinha televisão? - Realmente – declarou ela ainda a rir – Nunca na vida o vi assistindo TV.
  • 256. - Então, onde está os outros? - Estão de férias, sabe, ainda frequentam o colégio. - Estudam onde? – estava gostando da conversa, alias algo que nunca me canso de fazer é conversar. - No Ateneu, já ouvi falar? - Sim, é o melhor colégio do mundo, ultrapassou Harvard e ganhou estatus no Guines. Ela sorriu complacente parando a taça na boca: - Você é mesmo muito bem informado. - Tenho que ser – assenti humildemente – Sou jornalista. Neste momento meu celular tocou, precisou insistir antes que eu atendesse: - Alô. - Alô – dizia uma voz preocupada, reconheci-a ligeiramente como sendo a de Helena -; Lucas melhor vir a cá, Roberto e Gustavo tão no mo quebra pau. O tom preocupado de tua voz me alarmara. - Tudo bem – desliguei-o pensativo. O que é tão grave a ponto de tê-los feito brigar? Levantando-me do assento já ia despedindo-me. - Vai tão cedo? – indagou Amanda retornando a encenação – Mal deu pra entrevistar meu pai. - Preciso realmente ir-me ocorre *** Adentrava quase sem folego a casa de Gustavo: - Esta tudo bem? O que aconteceu? Em um canto da sala estava Gustavo em pé fungando, e ao meio em cima de um sofá, estava Roberto e Helena, um do lado do outro, conversando. - Foi por uma besteira – declarava Helena – Eles tavam jogando UNO e tomando umas e foi que deu nisso. Uia, UNO é mesmo um jogo perigoso.
  • 257. Cheguei perto de Gustavo e pousei minha mão em seus ombros. Com um tom de voz por demais dramático pedi: - Diga-me tudo... - Esta bem – respondeu ele suspirando. Percebi que seu olho esquerdo mostrava-se inchado – Como sempre durante as tardes de fim de semana, chamo Roberto e um monte de gente pra cá pra nois jogar uns bagulho. Tudo baralho, tudo cassino, e apostamos muita bufunfa. Acontece que Roberto ficou bêbado e ligou pros coxinha. Vê se isso tem condição Lucas? O cara quer ser preso! E na hora do UNO ele jogou uma carta +4 pra a minha ficante. É puta falta de sacanagem! E quando o Roberto fica bêbado fica doidão demais, ele subiu na mesa e ficou dançando feito a Shakira. Vomitou um abacaxi e depois o comeu de novo! Sei que isso é bem legal, ainda mais em festas – disse ele razoável – Mas, deve-se considerar que, era loucura demais. Poderiam ter pensado que ele tinha algum problema mental. Nunca mais verei Roberto da mesma maneira... - Ainda não terminou – Acrescentou Gustavo – Quando tentei tira-lo de cima da mesa, ele pegou um abacate da cesta de frutas e jogou no meu olho! Só pedi para que ele moderasse a bebida, mas, não! Ele teve que me envergonhar cantando “I will survive” No final me enfureci e fui pra cima dele. Em seguida notei, que, Roberto também estava ferido, com a bochecha bem inchada. Sem saber o que dizer, sai-me de fininho. Vai que essa loucura ainda sobra pra mim? XX Marcha Fúnebre
  • 258. A inércia dominava-me nesses dias; Tal sensação fora com êxito algo inútil e inapropriada, para não dizer repugnante. Colocava- me ainda mais no pedestal com o titulo de serio. Pois, para me titularem de “Serio” seria o mesmo que dizer que o Bozzo não pareça ter saído de um filme de terror, e chega mais a assustar do que agradar as criancinhas. Para melhorar meus conflitos internos passei tardes escutando “We are theChampions” do Queen cantado por Freedie Mercury. Determinando assim que possível mais vigília sobre minhas ações; Fui comandado por um sentimento de certeza, demonstrava certo otimismo. Logo estava firme e forte para mais um dia exaustivo no trabalho. - Você sabia que só os pernilongos fêmeas que se alimentam de sangue? – indagou Gustavo um tanto empolgado. - Não, não sabia – Roberto respondeu admirado, e até um pouco cínico – Então quer dizer que, estou fazendo sucesso até com outros espécimes. Gustavo olhou-o furioso e rosnou. Similar notoriedade se expressa abundante, aliás, por pouco ele não o esbofeteou. Deveras, acho que Roberto ainda estava afetado da ressaca. - Não se precipite nos argumentos – intrometi um tanto áspero – Não seria legal ver vocês novamente numa briga. - Compreendo – admitiu Gustavo – Mas, cada dia que passa parece mais difícil conviver com essa peste. Adiante Helena aproximava-se o que fizera mudarmos radicalmente de assunto; Roberto recostado na cadeira tirava ligeiramente os pés da mesa tomando postura mais seria e aprumada. Gustavo antes lendo um livro sobre os magníficos Tilacinos – maior marsupial conhecido dos tempos moderno cruelmente extinto no século XX - retomou modestamente seu previsto oficio. Com os braços cruzados a jovem fixou-se em nós começando seu dialogo prodígio:
  • 259. - Cada dia que passa o mundo tem estado mais infame e indecente. Creem que a cada minuto some sem deixar rastro 5 pessoas? A policia não consegue descobrir quem esta por traz disso e às vezes me sinto tão amaldiçoada. - Por que disso? – indaguei-a. Ela respondeu-me embaraçada: - Temo pelo bem estar de vocês, são meus entes mais queridos. - Tens família? – intrometeu Roberto num ímpeto intrigante. - Só tenho um irmão e ele mora deveras muito longe. Experimentei inconscientemente uma sensação de queda e desvelo. Naquela manhã sua faceta nostálgica fitava o nada com tanta constância e penúria. Lógico, aqueles que não têem ninguém a invejariam. Afinal, ela não estava só... Estava muito longe de estar só. Tinha um irmão e os amigos. Porém mesmo aqueles não libertos de laços de sangue, ou fortes fatos de amizade, não são capazes de deixar de si o vazio. Helena sofria calada e resignada, não se deve enobrecer essa causa, por que é gesto de fraude e fraqueza. As pessoas acham que, é errado sentir-se solitário na presença de tantos fraternos. Todavia, quanto mais pessoas estiverem ao nosso redor, maior será o valor incalculável de nosso vazio. Nunca estamos realmente saciados, sempre a algo que no interior nos importuna. No meu caso são conflitos interiores. No caso de Gustavo as atitudes impertinentes que Roberto tem demonstrado na sua presença. Para Roberto fora o amor iludido, e para Helena, o medo do inevitável, o destino. O Destino é o culpado por todas as desventuras. Curioso devido a boatos escandalosos, Gustavo em gesto audacioso perguntou-a: - Você então, esta namorando com Felix não esta? - Co-como soube?! – exclamou a jovem surpresa – Quem contou- lhe? Foi Olga não foi? Ah! Mais ela vai ver, vou ter com ela umas poucas palavras! - Não foi ela. - Então foi quem?
  • 260. - Foi Marta – afirmou. - Aquele estrupício? – aqui cerrava e erguia os punhos - Juro que farei elapagar. Rindo cautelosamente, sugeri: - Vá com calma, não vá deixá-lavir com hematomas pro trabalho. Isso acarretaria num escândalo. Ouvindo isso Roberto e Gustavo se entreolharam hostis. Apertando ainda mais os punhos num enaltecer de cólera, disse a desnorteada: - Ela merecia coisa pior - O tom de maestria foi severo e eletrizante. De cenho franzido rejeitou o frívolo pensamento. A bonança aparentou mais sensata e acolhedora depois de modificar seus gestos. Suspirando abanei a cabeça. Sabia que não conviria prestar-me a mais detalhes. Roberto adquirira falsa simpatia num trejeito solene. Conosco era outra coisa, dificultava tudo com suas fantasias. Sua indisfarçável alienação restringia-se mesmo ao correto. Não a como compreender o tolo dos equivocados. Bruscamente se exaltou. E num tom ríspido interpelou a Helena: - Helena tens noticias do caso de Sérgio? O tutelar daquelas crianças da qual Lucas fizera matéria? A lembranças delas vieram a minha mente tal qual um supetão. Me aderindo ao angustiado. Tendo me incluído na conversa também me preocupei. Já mal me lembrava dos rostos reprimidos e banhados por lagrimas de desespero. A incerteza de suas vidas envolvidas nos braços de mãos alheias. Helena hesitara. Visualizava seu rosto gélido, e percebi que os lábios trêmulos mostravam-se incapazes de articular qualquer coisa. Brevemente aquilo deixou-me como pasmo. Logo se tornou aparente que ela não tinha intenção de informarmos sobre o ultraje. Inclinada, naquele ponto, a imaginação adicionou perturbadora ignorância presentes na sua peculiaridade e petulância. Muda como um cadáver pigarreei e perguntei-a sobre o mesmo mais exaltado.
  • 261. Lacônica, engoliu seco. Depois mais ríspida murmurou sobre o incógnito ocorrido: - A Policia encontrara ele numa fenda entre as rochas de lodo no pântano. Carbonizado. Parece ter sido queimado vivo antes de atirado ao mar corroído por piranhas – essas palavras foram ditas de forma amena e entrecortada. A marcha fúnebre começara a tocar. Ouçam! é a trombeta do juízo final! É o cumulo para a espécie humana, que, revoltada, é capaz de acabar com todos os seres, mesmo consigo mesmo. A torre virada do tarot esta pegando fogo, e a raiva de meu amigo também. Dentre trauma o êxtase os olhos de Roberto vagamente arregalados, se embargavam de lagrimas. Atônito neste decorrer começou a berrar descontroladamente. Fora com adéquo que, agarramo-no seus braços. Ele não parava de esmurrar a lacuna.Envolvidos pelo desespero a sensação de infortúnio fortemente nos abalara, não abandonava. Roberto obviamente fora o que mais sofreu com a noticia. Desde o momento que mirara as crianças em sua plena situação, guardou dentro de si uma inquietação e angustia indecifráveis. Continuava naqueles berros, e nós temíamos que acabasse por perder o emprego. Um pouco menos exaltado persistiu aos berros: - O Sergio, pai daquelas quatro crianças?!!Não pode ser verdade, Deus não é capaz de fazer uma atrocidade dessas... Quatro crianças, assim como váriasoutras na rua a própria sorte! Eu também tomei-me por abismado. Ainda mais depois de absorver de sua índole tão esgotado definhamento. Como a alma chega a perder tanto o valor? Com o queixo erguido, tentava recobrar o fôlego. As mãos pendiam e os pés tremiam. Dava pra perceber tal relutância. Comecei a afligir-se, no intimo o via empalidecer. - Se acalme Roberto – dizia Helena na expectativa. Eu a auxiliava na tarefa de impedi-lo de cometer qualquer delito. Cada vez que articulava um grito ensurdecedor, eu chutava-lhe a perna no
  • 262. ímpeto de fazê-lo cair. Estava tão pálido que tive a impressão que ele desmaiaria. Gustavo incauto intervinha: - Não podemos fazer nada, não é o fim do mundo! Saia das chamas que lhe aprisionam ao inferno. Erga-te desse problema com mais astucia. Sem nenhuma reação, e completamente imóvel. Declarei sentir sua pressão abaixar, logo depois caiu nos meus braços desacordado. Helena alarmou-se: - Temos de levá-lo a um medico rapidamente antes que seja tarde demais. Gustavo transpondo mais delicadeza chamou uma ambulância. Sem demora os médicos já estavam aqui e fazendo os primeiros socorros. Ainda desacordado, colocaram-no numa maca, e foi levado diretamente para o setor de urgência num dos melhores consultórios. *** As pálpebras pareciam pesadas, e o respirar algo medíocre e incomum. Quando ele acordou fui diretamente ao seu encontro, de fato estive preocupado. Gustavo ficou o tempo todo com ele; para conseguir tal licença teve que mentir para o chefe dizendo que ambos eram de fato namorados há muito tempo, e a pouco realmente enxergaram a necessidade de admitir tal opção sexual. Tal armação fora difícil de engolir, suas palavras não estavam de acordo com seus atos, naquele mesmo dia fora visto dando em cima de seis mulheres e entre elas duas eram casadas. Chegando o fim de semana, me vi obrigado a visitá-lo. Os corredores amplos enfatizavam mal pressagio. Salões com macas e cadeiras de roda se estendiam. Enfermeiras iam e vinham com seus instrumentos, desdobrando- se nos mais costumeiros ofícios. Vi alguns saírem felizes do local e outros aos choros. O hospital era grandioso e belíssimo, Roberto não teria conseguido o medico se não fosse seu plano
  • 263. de saúde e uns bons primos acelerados na área. Disseram que fora uma convulsão, mas, que ao decorrer dos procedimentos tudo se estabilizou. Quando esbarrei-me com Gustavo mal o reconheci: Tinha os olhos fundos e coberto por olheiras. O cansaço era facilmente visível em suas mãos cerradas. Segurava uma mala, cujo, carregava alguns instrumentos de necessidade pessoal. As roupas estavam surradas e a barba mal feita. - Oi Lucas – dizia dirigindo-se a mim. Ao vê-lo desvairado naquela atitude aborreci. Quem diabos era e como sabia meu nome? Der repente, fixo em suas feições, notei algo de familiar. Surpreso percebi que era Gustavo. Abraçamo-nos e perguntei num sopro: - Como esta Roberto? Ele esta bem? Num esforço sentido colocou um sorriso no rosto: - Roberto logo terá alta, lógico, precisa ainda frequentar esta espelunca. O que acha de comemorar-mos na sua casa? Gargalhei sem me ofender com o linguajar. - Se você esta auto se convidando quem sou eu para me renegar? – afirmei – Quero muita e muita cerveja. Vamos competir quem consegue virar mais geladas e pegar mais mulheres. Deixe-mos dessa vez Roberto ganhar – Gustavo pressionara os dedos sobre minha boca num pedido de silencio, e olhando pelos dois lados se explicou: - O medico tem pedido repouso total. Sabe como é né? Roberto é teimoso quando quer, e quando acordou foi logo o replicando. Dando-lhe um tapa nas costas me dirigi ao quarto do enfermo. Ao adentrá-lo, contemplei meu amigo no marejar do branco. Tudo tinha a cor peculiar do branco, as janelas, as paredes, o chão o carpete, as cortinas, a cama, suas roupas. Não estranharia se na lista sua roupa de baixo também fosse branca. Ele abria os olhos depois de uma longa pestana; tendo notado minha presença saudou-me: - Oi Lucas, como vai? - Melhor que você, sugiro.
  • 264. Completamente apavorado e acovardado, ansiava noticias. Ele jazia na cama, não se atrevendo a quebrar regras como de costume. Batia no travesseiro tentando arrumar uma posição, depois de muita briga, recostou-se afundando nele. Num suspirar de calma e relaxamento, perguntou: - O que houve com as crianças? Sentando-me no leito, e com pouco entusiasmo respondi: - Como qualquer outra criança, foi para o conselho tutelar. Agora já estão na lista para adoção. - Entendo... - E você e Gustavo? - Que? – indagou-me estranhado. - Sim você e Gustavo – falei por brincadeira - Ouvi dizer que esta rolando um clima entre os dois. Quem é o macho na relação? Num ataque de risos, percebi seu rosto tornar-se vermelho de raiva. Depois de umas tosses me acalmei.Posso não ser assombrado com isso, mas, consigo levar a serio as desgraças alheias. - Se ele tivesse uma vagina quem sabe eu o pegava – declarou ele com certo sarcasmo. Em seguida num tom melancólico de tristeza continuou transpondo perplexidade -; Porém, sabes que minha paixão ainda é Alice. Ela é tão bela como uma ninfa. - Não é tão bonita assim – comentei. - Concordo, entretanto, há algo nela que chama a atenção. - Eu acho que ela lembra aqueles filmes de terror. Tão fria e sombria... - Eu já acho que ela parece á musa de um filme de romântico. - É loucura Roberto – repliquei-lhe – Como você pode amar alguém que nunca viu? - Ninguém escolhe quem amar. Já tive todos os tipos de mulheres em minha mãos. Vi-as mais do que qualquer um. Observei-as em seus mínimos detalhes: Suas necessidades, seus desejos, sua nudez, seu caráter... E quem sabe até suas almas. E mesmo assim, nenhuma me prendeu a atenção como ela. Nenhuma me acorrentou com a loucura. A foto que Gustavo
  • 265. mostrou-nos aquele certo dia fora gravada em minhas lembranças, se aprofundando mais fundo das minhas entranhas. Posso um dia me arrepender, quem ama sabe dos riscos, porém não vou me arrepender de ter tentado. Colocando o chapéu na cabeça, num aperto de mãos me despedi. Depois ao mostrar-se melhor de saúde, Roberto numa atitude integra surpreendera-nos com sua presença uma semana depois, no trabalho firme e forte. Já mal tocava o nome daquela assombração, cujo o retrato é imaculado por sua desonra. As intrigas entre ele e Gustavo dissiparam-se, e assim voltou à paz. Creio na possibilidade dele querer adotar uma das crianças, mas, não confirmo. Ele diz gostar de crianças, mas, como cuidaria de uma se mal sabe cuidar de si mesmo? No fundo, somos todos desajuizados. XXI Despertar da Consciência Na manhã da semana seguinte, Roberto se encontrava mais disposto. Durante esse tempo a clareza se fez refletir em mim e a avaliar minha desamparada situação. No entanto, apesar de mais confortado, na expectativa de meu camarada ratificar sua ascensão, me vejo como simplório de mim mesmo. Ele me vê diferente, como irmãos de pais diferentes. Se não fosse por isso ele não teria me confessado tal infortúnio. E para mim, o caso se torna indelicado; Ele é meu rival, oponente, e eu duelaria contra ele se fosse necessário. Porém, sendo aquele seu feitio alienado, fruto de má experiência vivida por uma paixão platônica, não
  • 266. devia de me atormentar, e tomar comigo reações menos cômicas. Tendo ganhado alta no mesmo dia, não o tratei com arrogância, afinal, ele não merecia, muito pelo contrario, ele merecia toda minha cortesia. Levamo-nos, então, eu Gustavo e Helena a minha casa. Lá fizemos uma mine festa, só nós três. Ficamos assim, nos deliciando com salgadinhos e batatas fritas, acompanhado de um bom filme caseiro. - Queria ter feito uma festa maior – declarei modestamente – Chamar um monte de moças, contratar um barman, ter para ti a melhor taça de vodca. Contratar também um cantor, porém, tenho andado com poucas economias. Roberto chegava ao extenso ângulo da sala. Num gesto de zelo, teve cuidado para não esbarrar nos moveis estreitos. Após ligeiro intervalo, no vagar de seus olhos, no ato de roçar os cabelos diziacom alento: - Não se preocupe Lucas – Ele usava um cachecol de tricô cinza devido a um pequeno resfriado que pegara no caminho, e nos ombros pendidos, bruscamente cansados do tempo de repouso, uma casaca azul marinho que dava gosto de mostrar – Esta tudo bem, de qualquer forma, ainda me sinto inapto a qualquer relacionamento. Gustavo interrompeu. Seus atos até aqui ascendidos de comiseração se corrompiam dentre suas gargalhadas: - Você inapto a copular com o sexo oposto? – interrogou o incrédulo – Nem aqui e nem na China que possa ser uma verdade. Ele ficou calado para tal questionamento. Por mais que tenha com Gustavo intimidade acima do normal, algo diferente do que tem comigo, não conseguia sentir-seaberto a tais assuntos. Falar com ele sobre algo tão fútil quanto os anseios do coração lhe era uma cortesia à chacota, pois, Gustavo pouco os conhecia. Relatos romanceados de peripécias enamoradas pareciam- nolendas urbanas, inimagináveis. Na sua pele eu também me veria como molesto.
  • 267. Minha casa era humilde, pequena mais aconchegante, perfeita para a permanência de uma pessoa em sua estadia. Helena já sucumbida ao ingressar-se a abertura, observava meticulosamente os instrumentos dispersos sobre os mais diversos moveis. - Quem é aquela? – indicava uma foto exposta num canto sóbrio da parede – Não a vira ali antes - Essa é Rosálie minha irmã – respondi num murmúrio – Fiz uma faxina geral, ai decidi mudar de lugar algumas fotos. Ela fez pequena pausa antes de falar: - A viagem fez realmente muito bem a você – observava minha aparência que na sua cabeça, parecia expor direitinho tal idéia - Afinal, faz quanto tempo que não vínhamos a cá? Não é Gustavo? Não é Roberto? Faz quase séculos! Ele sempre se prendia aqui e se renegava a sair. - Verdade – concordava Gustavo ao menear a cabeça. Sentava- se despojadamente ao sofá jogando o chapéu de plumas no carpete. Tirava as botas e colocava os pés chulézentos sobre a mesa de centro. Isso sim é exemplo de comodidade na casa alheia – Até havia me esquecido como seu sofá era bom – aqui se remexia no estofado recostando a cabeça. - Parabéns pela melhora Lucas – complementava Roberto no bom humor- Era pra ser o contrario hoje – pausava colocando a mão na boca. As tosses eram graves e até assustadoras. Helena interpelou-lhe: - Foi mesmo bom você ter saído logo hoje do hospital? Prostrando-se numa poltrona, ele replicou de imediato: - Deus me livre! Ter que voltar para aquele mausoléu. - Pelo menos você não bateu as botas – disse ela num gesto dinâmico. - Poisé – concordava. Agora, dirige-se a mim - Lucas, que filmes temos hoje para ver? Eu respondi: - Tenho quatro aqui: * K – 2; * Amerika;
  • 268. * Fome, o artista; * Kafkianos; * A Colônia Penal; - O que aconteceu com a locadora?! – exclamou no seu manifesto de frustração – Só tem filme ruim! - Você se esqueceu que as locadoras fecharam por algumas censuras? – relembrei-o justificando o incomodo – Não vejo nada de errado depois de tanta pirataria. - Concordo – interveio Gustavo – Ela cada vez mais se intensificava. Final de tarde, ao passar de horas e mais horas assistindo aos filmes, Roberto exclamou outra vez atordoado: - Lucas! Já são 19:00 horas! – fixava ao relógio de pulso expondo aspecto exaltado – Poderia, por favor, colocar pause no filme? Gostaria de dar uma olhada no canal Tupi, vai passar algo no jornal que muito me agrada. Atendi ao pedido. E, contendo em mãos o controle, direcionei com o toque dos botões ao canal 6. Escutávamos atentamente as primeiras noticias, e, apesar de todas as desgraças apresentadas nos parecer comuns, por estarmos constantemente as abordando em nosso oficio, não conseguimos deixar de nos sensibilizar em tais situações. Parece o fim do mundo, o verdadeiro apocalipse. Sujeitamos ao anonimato das opiniões, o que diz respeito ao jornal agora não nos é problema. Nossa condição era desprotegida, mas, não queríamos afetar aqueles que estavam a nosso lado. Para piorar, a cada passo que o governo dá, mais se encontra uma armadilha ao povo. Cada ação deles é um erro, e só quem tem poder pode consternar tal problema. Me provoca a possibilidade de perder o emprego, de o jornal não ser mais o mesmo, e creio não ser o único com tal pensamento. - O mundo esta muito igual ultimamente – observou Helena, fadada ao eterno aborrecimento. Contudo, o que lhe atormentava não era em si o que me acanhava, e sim as gozações materiaisdeveras, uma das mais fúteis – Não consigo
  • 269. nem ver graça em viajar. E diziam que era um dos melhores prazeres da vida. Isso é o normal a se sentir, vivemos no torpor do choque cultural, tudo vira desnecessário ou entediante. - Você falou bem - Gustavo entrava na conversa replicando com seus botões: - “É um dos prazeres” não é o maior prazer da vida. - Eu sei o que você esta querendo insinuar. - Trepar não é tudo na vida – aqui também me intrometi. Pouco afável me aguçava ao assunto Ponderamos em afiada conversação. Foi uma espécie de debate intelectual, cujas vozes interrogatórias se chocavam estrondosamente contra a mentalidade abrupta de quem berrara uma replica. Respostas indeléveis em cada faceta. Nos empolgamos, tentamos prolongar aquilo. Isso trazia-me uma sensação agradável que apreciava. Subitamente, o momento a que se entendia o felicitamento monárquicosujeitamo-nos a mais um pedido de Roberto: - Silencio gente – atalhava naquela balburdia metafórica. Nas suas tosses dolorosas tampava a boca com as mãos, e em seguida, fez gesto de endireitar o cachecol, cobrindo-lhe metade do semblante que denunciava sua saúde ainda levemente debilitada – Olhe o que o noticiário diz! Fixei-me no noticiário, e por um minuto, que me parecia uma modesta eternidade, não pude acreditar no que meus olhos viam. As pálpebras se cerravam e abriam numa rapidez e força exagerável. Minha pupilas dilatavam enquanto a respiração começava a falhar; O coração machucava-se no ato de querer sair do peito, debatia-me, queria perfurá-lo e arrancar o que incomoda em seu interior. Atônito me entregava a tal agonia. Será que sonho de novo? Ela está lá. Ela estava lá. Alice estava lá, sem nenhum disfarce, e sem nenhuma mascara, e constantemente era violentada pela mídia.
  • 270. Acabava de sair da carruagem, adentrava um salão de festadecorado com modalidade a rigor, e imediatamente, todos os olhos se redirecionaram nela, arfantes e incrédulos. Os fios de cabelos ondulados com baby lise cascateavam pelas costas cobrindo-lhe os ombros.Acima deles, um grande gorro azul marinho barrado de crochê, dava para notar numa mera extremidade, um broche de rosas de brocado e veludo bem colocados sobre o laço de fita a que o pendurava junto a pingentes cristalinos de confecção manual. Vestia-se com traje de noite, roupa excessivamente romântica e fluida. Cada peça harmonizava-lhe o rosto pálido. As sete camadas de saia que enfatizavam-lhe o vestido branco tinha aplicações de renda bem trabalhados. O tecido plissado dava-a uma atmosfera leve, cujo o semblante transpunha falta de interesse e os lábios pecaminosos se juravam muito convidativos. Já não tinha a cintura fortemente esmagada por aqueles corpetes; Sua postura era esguia não a de uma ampulheta como outrora queria que fosse, porém, tinha mais equilíbrio ao andar, já não estava reprimida. Seus olhos bizantinos chegavam a brilhar nas câmeras. O conjunto de luz e sombra que faiscavam em sua imagem transportava-me a uma serena sonata, completamente fragilizado. Um bolero também azul transparente de mangas grandes encobria a peça do busto; Contornando-a com um decote, perto do pescoço e das mãos abusara dos babados desde o principio. A ancora obviamente comovida gritava num misto de empolgação e incredulidade: - Alice, a sobrinha de dois heróis de guerra num baile! Num baile! Estamos ao vivo com Alice Valmonte no baile de inauguração do hospital infantil do município Wallah! Estava aturdido. Seria possível esconder o grau de minha perplexidade? Aquele sentimento letárgico que ameaçava desabrochar da imensidão das sombras, tal qual um arrependimento ferido? Intimidava-me o acaso.
  • 271. Aquele seu ato me intrigava, rechaçava minhas entranhas e perturbava-me no mais intimo. Alice nunca saia de casa! Não sem um disfarce, não sozinha... Ela não teria coragem de fazer isso. *Se você não aparecesse, eu iria até você... Aquela sua atitude deixara-a tão nua de caráter, tão indefesa. Não teria quem a defendesse, seria mártir de sua própria causa. A mídia como lobos ferozes sedentos pela carne humana a devorariam. Seria necessário ao mínimo uma mascara que a protegesse do mundo, pois não és culpa da fama da família e si quer do dinheiro de que é herdeira. Sem qualquer premissa, deturpado, Roberto saiu guiando o carro no ímpeto de alcançar aquela que manda nos corações. Helena tentou impedi-lo, preocupava com sua saúde. - Você esta resfriado, depois pega uma pneumonia! – Helena agarrara-lhe o braço fortemente numa tentativa de impedi-lo. - Esqueça isso – declarou Roberto transtornado. Eu soube constatar a leviandade com que agia assim, não parecia frescura- Vou ficar bem, agora, deixe-me ir - puxava o braço com aspereza sem esbanjar falatório. Tinha também fisionomia atônita, entretanto, mais profunda, quase que hipnotizado por aquele ser. Eu permaneci mudo e paralisado, atento nas ação de Alice como sendo meu único interesse. Ela estava deslumbrante, com feições tão alvas que intensificavam meu desleixo. No seu pescoço banalizado... O presente que lhe dei na chegada de nosso santuário tilintava e o som daquilo gritava por meu nome. Tirava de mim aos poucos toda a paz que me restava. Desejei por um instante olhar de baixo de sua saia, para saber que sapato seus pés pequenos se sujeitaram a usar, se eram ou não confortáveis e não lhe marcava a pele perfeita. Ela estava muito bonita; E muitos homens se aproximaram e cortejaram-na,
  • 272. tinham aquela audácia e atrevimento, que se insinuavam, mas, ela não se deixou levar. Os flashes das câmeras eram fortes jatos de luz epor ventura não a levou a cegueira. Bailou a valsa que tocava na ocasião, com diversos parceiros, e a mesma postura fria, porém digna de sempre. Já um pouco exausta puxa uma cadeira e fica beliscando as uvas passas da mesa do bufe. Sr. Giovanni Corleonidono do hospital era um homem de modos suaves, com uma expressão preocupada, calvo e com cabelos curtos desgrenhados sobre as orelhas. Tentava disfarçar essa fisionomia com um chapéu coco. Tinha bigode enrolado e usava um monóculo de aro fino.Usava calças curtas e estreitas. Naquela ocasião formal trajava também fraque de tons escuros com colete, gravata borboleta branca e uma camisa de colarinho alto. Sapatos de estilo Oxford também não podiam faltar naquele evento. Podia não ser famoso, mas, por onde ele passava ganhava o respeito – menos dos biólogos. Sr. Corleoni tinha por diversão a caça - Era culto e muito objetivo, e todos seus projetos tinham em si a razão da caridade para com as crianças necessitadas. Não demorou para que ele fosse em sua direção: - Sra. Alice, você aqui? - deveras, se sentia muito honrado com sua presença. - Claro. Me agrada muito as criancinhas. Os meus tios doaram certa quantia, aqui, aceite – tirava da bolsa também de crochê, um lote grande de dinheiro. Foi um espanto o tamanho do lote, não era esperado tão gorda quantia. O impacto foi grande, e o dono chegou a curvar-se diante dela num gesto de agradecimento: - Sou muito agradecido à senhora, não és rainha, porém, ganhou agora um súdito. Sua generosidade é muita senhora, nem sei como expressar-me! Tem realmente um grande coração. Ela ergueu-o, e com expressão amável e sorriso doce, replicou com honestidade:
  • 273. - Eu só fiz o que todos deviam fazer. As crianças só sofrem no mundo por culpa dos adultos. - Não é todos que concordam – argumentou o dono do estabelecimento – Mas, eu concordo com tudo que você diz, e minha mulher também. Sr. Corleoni conheceu sua mulher num desses eventos; Marjorie, moça que tinha também muita afinidade pela causa, e desde então se mostrou sempre presente nelas. - Quero que conheça minha mulher – falou ele um tanto desajeitado – Essa é Marjorie, filha do ex-chefe das administrações publicas EstefanoNardensi e também minha esposa. Sra. Marjorie entrava na conversa com seu jeito dominador e busto pesado. Tinha a silhueta de S da moda Eduardiana, um vestido amarelo com pequeno decote na área do colo e dos ombros. Seu cabelo era castanho-dourado, e o penteado era um coque, e um imenso chapéu adornado de penas e flores artificiais o encobria. Possuíaapenas um apetrecho, um cintilante camafeu de prata de gerações anteriores. Era uma joia antiga delicada. Três finíssimas trancinhas formavam um bonito e laborioso trabalho.Sua marca de personalidade era as bochechas adiposas osolhos fundos e o nariz suntuoso como um rabanete que davam-na um ar atencioso e sincero. As duas se saudaram começando um dialogo: - Eu me sinto lisonjeada de conhecê-la pessoalmente – começou Sra. Marjorie – São poucos os ricos que se preocupam com os outros além de si mesmos – aqui uma lagrima começou a escorrer timidamente de seus olhos, denunciando sua comoção. Pegara um lencinho e deslizou-o sobre a face limpando aquela saliência -; Eu observava meu marido, eu o disse não esperar tanto de você, que viera apenas no ímpeto de chamar a atenção. E vejo aqui que me enganei. Realmente, nós agradecemos muitos. Se precisar de qualquer coisa, é só nos pedir. Tá bem? - Mesmo? – perguntou Alice manifestando certo interesse. Parecia que até aqui estava somente à espera de uma brecha.
  • 274. - Claro que sim, é mais que sensato – proclamou Marjorie – Fale, o que deseja? Um pouco receosa perante o equivoco, hesitara até em sorrir. Foi algo cândido, conseguia enganar, deixava-me vidrado. Ainda permanecia atento a ela. Seu gesticular, os lábios que tremiam ainda em receio. Entorpecia-os, os que estavam lá, com aquela aura radiante, uma meiguice que ocultava nas mãos fortemente cerradas, tal qual um plano B. Aquilo só revelaria se não tivesse escapatória. Só se viesse o joguete da fatalidade. - Desejo cantar algo. Tem uma pessoa muito importante pra mim, que muito estimo, e me preocupo, eu quero prestigiá-la. Giovanni ponderou: - Essa pessoa é algum parente? – colocava a mão no maxilar no aspirar da meditação - Namorado... ? - Desculpe-me senhor – dizia ela recusando pretextos – Eu não desejo falar sobre isso. Sr. Corleoni deslizou as mãos do maxilar para os bigodes freneticamente; Meneou a cabeça com grande consideração, expondo nos lábios atitude cortês. Guiou-a então para o centro do palco, onde a paisagem ampla do salão tornava-se mais vistosa. Palmas o apreciavam, e ele começou com os agradecimentos. Prosseguindo, ele fez a declaração: - Alice Valmont foi uma das pessoas que mais nos auxiliaram com sua quantia. Os presentes retornavam com a salva de palmas, e ela reclinava- se enxotando-os com sua modéstia. - Bem – no findar da agitação, ele continuou menos aprumado – Ela quer cantar algo, senhoras e senhores, com vocês, Alice Valmont! Ela pegava o microfone com cuidado, como se tivesse cuidando de uma ave com asas despedaçadas. Se preparava. Tal noite tinha de ser maravilhosa. Queria congelar todas as feridas do meu coração. Ergueu o queixo, juntando uma das mãos
  • 275. ocultadas em seu ventre na tentativa de tomar fôlego. Cerrou fortemente os olhos em vaga concentração, e eu ficava imaginando o que pairava em sua cabeça, se iria despertar. Como se estivesse dormindo, ela mandava a plateia sonhos bons, tão reluzentes que atingiam o outro lado do mundo. Dispersava ali no palco toda a sua agonia: Olhe pra mim um pouco, não vou morder.♪♫ Não sou mais o que pensava ser... Apesar de eu ter que fingir, nunca fingiria amar você. Eu fui feita pra você. Tão apaixonada! Essa tragédia que nos envolve. É a chama pecaminosa que eu queria apagar.♫♩♬ Creio que também te amei no passado, e em outras vidas, você pagou com o calvário. Tendo a solidão comigo, você se tornara apenas vestígio do impensável. Serás um amigo oculto, que só poderia rever. Na jornada dos sonhos.♪♪♫ Quero ser guiada por ai.♫ Aonde a tormenta me levar. Sem seus passos para seguir. Estou comprometida com a escuridão. Um caminho sem perdão. Onde me abandono. ♪♫♩ Trarei pra ti a felicidade, aquela com que sonhava antes de me conhecer. Eu que sempre culpava o destino, castigava só a mim mesma. Estarei sempre contigo, tal uma sombra não deixando escapar.♫♩
  • 276. O momento das lagrimas, por que elas refletem o quanto me amou. Não se pode resistir as trevas, sem que tenha uma luz no coração. E você estava sempre comigo, nas profundezas de meu ser, eu suspirava. Sei que isso persiste, essa dornão teria solução. Suas lagrimas despejam memórias, e me fazem crer, que eu te amei, e não foi em vão.♪♫♩♬ Fiquei arrepiado. Aquela voz foi a mais doce que meus ouvidos tivera o prazer de escutar. Não fui o único tocado, martirizara todos os ouvintes, mareando todas as sustentações. Encurralava-os em sua majestosidade. Me fizera repensar sobre todas as crenças. Melodia imaculada. XXII Sonora Acústica O assunto deu pano de fundo. Senhora Valmont foi taxativa: - Você me esqueceu – disse com rispidez evitando contato ocular. -; Eu disse que não era pura. Disse também que me odiaria. Eu sempre soube, não haveria de ser diferente, aquilo que eu fiz não tem perdão... - Com uma das mãos segurava a xícara. Levava em breves pausas o recipiente de chá a boca onde o despejara usurpando-lhe o liquido.
  • 277. Neste aspecto poderia concordar... A expressão dela convencida era tão terna e suave que tornava difícil para qualquer um, em sã consciência, acreditar em suas tendências criminosas. - Estas enganada – contra argumentei. Ela vidrou-se em mim com a desmedida atenção. Completamente vidrada, como se presenciasse uma chuva de chumbo, e nela fosse alvejada. Me soerguia das minhas feições incógnitas, outrora cabisbaixo entre os braços pendidos, agora absorto pela obstinada e suas crises de maleficência. Tentava não demonstrar meu abalo emocional - ; Nunca te esqueci. Posso ter tentado te odiar mais não consegui tal façanha. Agora posso crer que nunca conseguiria. Por mais que eu tentasse você vinha a mim na forma de sonhos, tal um espectro a ponto de me assombrar. Um veneno obtido por pragas. Uma majestosa beladona. Um calvário mais que injusto, pecaminoso e horrendo! Tenho por ti uma afeição mortal que beira a obsessão! E só Deus sabe da explosão de desejos que nutro por ti... Ela fincou-se em mim com seu sorriso sepulcral: - Quer que eu acredite numa mentira? - Seria mentira dizer que eu a amo? Que quero ser para tu como um humilde escravo? Ela retraiu-se sugerindo surpresa. - Por mais que eu tentasse ser forte – eu continuava num murmúrio – Era vulnerável a qualquer um de seus joguetes. - Eu não brinco – replicou ela demonstrando ar superioridade – Quero disciplina e respeito, exigiria tudo que tenho direito! - Teria a mim como seu carrasco – adiante caia a seus pés, fixo nela, apercebia-se ainda mais sua surpresa – Eu a amo minha Alice. Poderia dizer que me ama também? Um vago silencio mortal nos rondou. Ela evitava, entretanto contato ocular. Aquele seu fel cortava minh’alma. - Siga-me – disse ela levantando-se da cadeira. Olhava uma fresta oculta onde à luz não existia – Ainda não sabes de tudo.
  • 278. *** Um beco sujo de agua putrefata, onde se continha dejetos e restos de animais. Aquele cheio asqueroso me enojava, deveras, meu estomago chegou a embrulhar. Ela seguia na frente, com uma tocha em chamas a iluminar o caminho. A atmosfera taciturna era tensa e melancólica, e o silencio que nos envolvia era do mais acabrunhador. Era tudo muito escuro, e o barulho de seus passos ecoavam majestosamente junto ao breu. - Onde leva-me? – perguntei timidamente –; Ao covil da carnificina? Ela riu impertinente: - Aonde os mortais não podem pisar é o que se refere. Respirei fundo, havia ainda muitas perguntas a serem respondidas, estão entaladas na minha garganta, quase me asfixiam. Sentia estranhamente como se uma aura oculta nos seguisse. Olhei para trás furtivamente, e notei sombras estranhas nas paredes circulares. No túnel um aglomerado de mãos monstruosas pareciam nos perceguir, mas, não conseguiam de fato nos alcançar. O som das goteiras e roedores a perpassar os canos eram constantes. Tudo se acelerou, deslocávamos cautelosos aumentando o passo. Percebi em seus olhos o que poderia ser um misto de arrogância e ternura, falsa possivelmente, preferi no entanto minha ignorância emocional. Seu tom de voz era tênue e cortante: - Sabe – continuava Alice sublime – É como Hansel e Gretel. As pessoas veem para mim por causa de um desejo estimado, por uma ânsia, o pecado humano. Tal a gula da casa de doces. Sempre que eles chegam a mim... Tentam fugir, pois sou como a
  • 279. bruxa – der repente parou lacônica. Cabisbaixa transpôs-se em triste meditação. Tentei aproximar-me no ímpeto de transmitir conforto, mas ela recusou meu gesto recompondo-se indubitável: - Os escritores de Contos de Fada sempre souberam deste dia – Dizia com voz entrecortada soerguendo o queixo -; Do dia do verdadeiro Juizo Final. Tentaram ensinar tanto pelo bem quanto pelo mal o caminho correto, e os atos que nos tornam corretos. Embora aquela aura negra ainda esteja a nos circundar, o medo é algo que de longe me predomina. A perturbação inquietante do meu peito pulsante, eu estava ainda vidrado na dama da noite, na devassa libertina. Contemplei mais além graças as fagulhas cessantes; Uma porta pequena mostrava-se a nós a poucos metros distancia. Adequadamente envernizada, com rosas entalhadas a desabrochar e cobrirem a estampa de céu noturno. Entregou-me a tocha para que tivesse as mãos vazias. Procurou no bolso o que deveria ser uma chave. Era tal um pequeno galho de arvore torto e enrugado, mas, tingida com vermelho rubro. - Escute – advertia ela com a mesma rigidez – Enquanto passarmos por aqui fique fixo em mim, não olhe para mais nada. - Esta bem – e fiz que sim com a cabeça. O barulho da fechadura dissipou-se dando lugar ao da porta pesada sendo aberta. Nos entreolhamos. Perplexo tentava ler as emoções distintas que lhe atravessavam, seus olhos me fuzilaram arregalados e por seguinte límpidos. - Melhor usar essa venda – essa ideia veio quase que proposital a sua mente, pegou o laço largo de brocado que enfeitava seu cabeloe enfaixara-me com cuidado por uma suposta precaução -; Deixe-me segurar sua mão. Seu gesto zeloso fez-mecorar repentinamente. Mal acreditei no que escutei, e um sorriso bem desenhado apareceu e se retorceu em minha face, nada poderia descrever o meu contentamento. Tenho a feia mania de olvidar minha ousadia, ela chegou a resmungar, me ameaçara de deixar-me só a tatear o nada. Não
  • 280. me surpreenderia com a possibilidade desta o fazê-lo, mas, ficar a deriva seria o de menos tendo em conta a necessidade que me sobrepõe a arriscar. Além do mais, se eu ficasse a deriva não estaria perdendo nada, se voltasse com vida estaria perdendo tudo, pois não teria eu na vida dela. Minha paixão por ela reacende transpassando todos os poros. Me guiava no nada, e neste interim, escutava sussurros e gritos inarticulados. - É alguma alma pesarosa por não ter conseguido tocar-lhe o coração? – indaguei. Ela expressou-se literalmente: - Se o descanso das almas dependesse do meu coração seriam todas expurgadas Doravante seguimos mais alguns metros e subimos uns cem degraus. - Já posso tirar a venda? – indaguei. Tentei espiar por detrás da venda mas ela bateu na minha mão censurando: - Não seja tolo, eu direi quando for à hora correta. Calei-me resignado. Mais alguns degraus e uma porta a esquerda. - Já pode tirar a venda – ela me disse. Vi-me num cubículo dourado, um suposto elevador de luxo. Fixei brevemente o painel, nosso destino era o andar 97. No radio parecia-se tocar uma música antiga, do gênero instrumental. Piéces Froides: no°1 – Airs à Faire Fuir de Erik Satie. Apercebi-me dos olhos imensos e alucinados que se espalhavam nas paredes. Eram brilhantes e pervos, maquinavam malevolamente nosso fim, fincavam-se em nos e depois, quando transpúnhamos reflexivos se reviravam procurando outro foco. Produziam realmente uma tormenta desmedida. A porta se abria e vislumbrei o corredor de esmalte e brilhantina translucido. Andejamos até a sexta sala e adentramos o recinto. Surgia mais ampla e mais clara, devido as luminárias de bronze suspensas a parede; No chão estendia-se um carpete de manta luxuosa e acima dela, dispersos, um amontoado de
  • 281. almofadas macias. O jogo de sofá Luiz XV dourado estava muito bem disposto ao lado de uma mesinha de centro. O papel de parede de vinilo padrão relevo se ajustava adequadamente dando a sala um toque surrealista. Mais a frente havia uma janela grande, adornada por uma cortina de estrelas saltitantes. Ela virou a chave trancando a porta, e eu corei. Imagens obscenas passaram despercebidas na minha mente. Meu comportamento promiscuo não se ocultou no meu olhar lascivo. - Se mostrar atrevimento hei de rechaça-lo – dizia ela cortante. Sentou-se e me ofereceu um chá -; Disse que seria como um servo, esquece-se que ainda sou uma dama? - Como poderia – repliquei, também a repousar-me no acento. Pegava agradecido a xicara de porcelana – Tu te mostra tão inocente que me torna provocativa. Ela me censurou: - Saiba que não vou aceitar gracinhas. - Sinto muito – desculpei-me – É que perto de você a inspiração toma outras proporções. Meus gracejos podem aparentar exagerados, mas sou sincero: Me és uma Deusa genuína. Ela baixou os olhos exasperada, transmitindo uma nítida perplexidade. Parecia meditar enquanto mirava a superfície de sua xicara, devidamente envolvida a seus dedos eclipsados. Ela recuou a cabeça retornando novamente a mim. - Não temes a morte? – perguntou-me. - Só quem temo é quem esta a minha frente, e esta pessoa é também a que amo. Desdobrei minha destra até a sua no ímpeto de acaricia-la ternamente. Mas Alice me repeliu, ato que trouxe-me grande abalo. - Já ouviu falar dos Advertistas? – Perguntou-me ela em voz entrecortada. Sua face instintivamente se contraiu. Naquele momento era evidente a sua perturbação. - Sim – respondia, notava então seu humor alterado –; Eles estão de alguma forma envolvidos nisto?
  • 282. Era belíssima, enquanto tentava me informar acredito que fiquei ali parado e sem folego, procurava captar seu perfume e me impregnar com sua fragrância. Ela vacilara cerrando e abrindo os olhos freneticamente. Fazendo um movimento com os lábios tentava emitir qualquer som. - Houve uma organização semelhante a eles um dia, “Os Monocromáticos” eram seu nome – Aqui sua voz se extinguia novamente, tamanha era sua empatia que me esforçava em compreender -; Esperavam a chegada de um segundo messias que ameaçavam abusar. Estou pagando pelo pecado deles, eu sou a segunda messias. Me sobressaltei num choque. Limitei-me a algumas indagações, mas, ela pareceu-me franca. - Sou descendente de Eva – continuava ela a balbuciar – A culpada pela saída da homem do jardim do Eden. A culpada pelo destino da civilização, e consequentemente do mundo – complementou com sinais de revolta – Tudo por uma maldita maçã do destino! Estupefato, aquilo ainda não me convencera, e já não tinha mais energia para manter aquele turbilhão de inquisições. - Alice – Procurava as palavras para me expressar, eu estava atônito. Ela se focara em mim bem atenta –; Eu a amo, e não me importa o que diz, continuarei a insistir nos meus sentimentos. Ela recuou a cara fingindo não me escutar. Deixou-me novamente a sós com o silencio, até que resolvera explanar: - Eu estou destinada a acabar com os gozos terrestres Lucas. Eu vivo com uma horrível maldição, a predominada na carnificina. Somente serei libertada ao levar um certo numero de almas ao tumulo. 70x7, uma parábola simbólica para o infinito, tenho de levar 70x7 almas para libertar-me. Já estou a tanto tempo culminada por tal maldição que a liberdade que anseio é também a que temo. Quero a liberdade física, pois, a carnificina roubou-me a da mente. Eu fiquei espantado, mal conseguia formular direito:
  • 283. - Por que fostes amaldiçoada? – debruçava-me no braço do estofado. Alice se ajeitando no assento suspirou menos eufórica: - Eu não sei, só sei que nada fiz, a culpa dos Monocromáticos cairá em cima de mim. Eles foram audaciosos e fizeram muita besteira, e se aproveitaram de mim. Quando os homens pecam, geralmente as mulheres também pagam por eles, por idiotice ou piedade, nos temos a consciência mais tranquila. - Posso ajudar-lhe? - A ultima coisa que quero é envolver-te – replicou. Experimentei expor com devoção minha concepção: - Dissera ser descendente de Eva e que ela foi à culpada pela sina do mundo... Eu nunca vi Eva com esse olhar perturbado e impertinente; Eva era uma alma noviça, assim como tal, não teve culpa de se perder. Ela era a única mulher no mundo, o Éden era o seu paraíso; não sabia o que era morte, nunca viu um humano nascer, como poderia entender o peso do que Deus pronunciou- lhe? Ela errou como uma criança que não pode se justificar de seus atos. E você Alice não errou nada, esta pagando pelos pecados de outrem. Ela projetara-se a mim indiferente, quase inerte pelo sufocante padecer, aspirava à contrariada resignação. Eu também estou contrariado, muito, mas, muito contrariado! Alice não teve culpa... Não teve culpa, demorei, como demorei pra perceber isso! Como alguém poderia suportar tamanha infelicidade? Como alguém poderia não tentar aliviar o fardo desta mocinha? Assim como Eva, Alice trouxe no mundo a perdição. Uma maldição ostentada pelo almejar de uma maçã suculenta. Isso sobrepuja o banal, suponho. De certo, nunca mais a culparia. - Consegue pensar melhor na proposta de odiar-me? – perguntou com desdém nocivo. - Lógico que não, agora que sei tudo, só me instiga ainda mais a vontade de ser-lhe fiel.
  • 284. Parte III: Viúva negra Arte voluntariosa; Cai na teia da aranha. Mostrou-me sua grandeza em façanha, ao fazer-me obsedado. Ao certo faria parte do seu vil legado. Uma vida comandada, cheia de chagas e espinhos. Sinceramente o massacre dos infelizes já era decorrente premissa do apocalipse. Mal eu sabia que a dama da noite também seria a juíza dos condenados. I Trivial Minha felicidade já estava quase completa. Tudo se tornou tão belo e mortífero. O amor que ama, mas também mata... Estou completamente obcecado. Lembro-me das peças de Shakespeare e tudo que vejo parece um caso semelhante ao nosso;Romeu e Julieta, A Megera Domada, Sonhos de uma Noite de Verão, etc... Parecia uma premonição, eu já a tinha visto daquela forma, tão radiante.
  • 285. É verdade que eu tinha sonhos com ela. Vários e vários sonhos horríveis que só enfatizava o meu embriagar daquele desejo... Eu a queria. E como eu a quero! Minha total felicidade depende do ato de possui-la. Eu a amo, e a carnificina não seria capaz de separar-me desta sensação involuntária. Tudo que faço parece que faço mecanicamente, pois estou tão inspirado que torna-se difícil ficar com os pés no chão, na realidade. Parece que estou em nuvens cor de rosa, numa chuva de purpurina quase vomitando um arco-íris. Roberto apesar de nossa intima amizade se revelou perigoso rival e inimigo. É de fato alguém com quem eu preciso me preocupar. Naquele dia em que sairá de minha casa, enquanto estava eu Helena, Gustavo e ele assistindo a filmes, conseguira vê-la mesmo que por poucos minutos ao vivo, na porta do prédio ele conseguiu contempla-la e vive desde então só falando nisto. O fato de Alice ter saído de casa gerou muita repercussão na mídia, de fato, sua família faz grande efeito nas câmaras. Esse amor me deixa cego, tudo que vejo não parece mais ter o devido valor. - Roberto – falava Gustavo agitado – Que tal irmos a uma boate de estripers hoje? Roberto mostrou-se contrariado: - Foi mal, não to afim. - Como não esta afim? – indagou Gustavo estranhado ante a objeção– Estas sempre afim. - Mas hoje não estou – retrucou Roberto hesitante – Espero que compreenda que tenho mais coisas de que me ocupar. Gustavo roçou os cabelos entre desapontamento e confusão, a forma com que o amigo se pronunciava fora bem intrigante, e irritante alias. Dirigiu-se então até mim: - Quer ir Lucas? - Não, passo. Diante a contrariedade Gustavo tentou outro artificio:
  • 286. - Fiquem ai fazendo o que quer que seja, eu vou me divertir – seu tom de voz denotava persistência - Alias, Helena vai ir comigo, não vai? – aproximou-se dela e deu-lhe uns tapinhas nas costas. Helena respondeu agilmente: - Eu? –após ter sido citada no assunto tomou tom descarado – Acha mesmo que alguma moça aceitaria este convite? Acompanha-lo para um bordel? - Boate de Striper – ele corrigiu. - Tanto faz – disse leiga – Acontece que já tenho um compromisso hoje. Felix vai levar-me para jantar. Tendo ficado visivelmente alterado Gustavo poupou argumentos.Suas sobrancelhas se uniram, irrequieto se pôs a andar de lá para cá com as mãos nos bolsos. Revoltado tentava ainda se resignar. Demonstrando o proposito de não seguir com o assunto Roberto declarou: - Vou entrar na justiça para conseguir a guarda das crianças do falecido Sergio. Neste instante todos os olhos voltaram-se a ele. - Então é isto mesmo? – indagou Gustavo reflexivo – É muita responsabilidade. - Sim – disse ele entre risos de contentamento – Mas ainda não há nada resolvido, é algo que envolve muita burocracia... Pode ser que eu tenha que arrumar uma esposa antes para conseguir tal graça. Ao escutar isso percebi Helena ajeitar-se fingindo desinteresse. - Parabéns – eu o congratulava envolvido por sua alegria – Eu já esperava por isto amigo, o jeito que você fala de crianças assemelha-se a de um sonho de infância. - E é – respondeu-me ele agradecido por meu apreço – Admito que, quando criança eu brincava com as meninas fingindo ser o pai de suas bonecas. Escutou-se atrás uma gargalhada gozada, era Gustavo um tanto sarcástico: - Você brincando com bonecas? Não acredito.
  • 287. Roberto virou-se constrangido: - Isto não é da tua conta. - Relaxa – Gustavo proferiu sem modéstia – Não hei de pegar no seu pé. Que tipo de amigo você acha que eu seria? Roberto deu de ombros ponderativo: - Eu não sei, um idiota? Só assim para querer armar uma confusão. - Você anda muito chato – observou Gustavo quase colérico – Você tem que relaxar, tá andando muito estressado. Tem certeza que não quer ir na boate comigo? - Tenho – declarou ele – E se falar mais uma vez vou te dar patada, e não diga que não avisei. - Eu não me conformo. Não és o mesmo Roberto que conheço, o que houve com você? – ele testou-lhe os nervos, indo atrás das entranhas da consciência. Roberto alheio a qualquer coisa ficou calado, sem se expressar. Grunhiu e tossiu algumas vezes. Eu sei por que ele mudou, e espero não ter que censura-lo por isto, afinal, Alice é só minha. *** Aspirava recobrar os sentidos dispersos naquela mesma noite, que entorpecida pela bela libertina fiquei como desamparado a entregar-me a carência da solidão. Fui ter contigo na biblioteca, mas ela foi bem firme ao informar que iriamos novamente subir os degraus, que era imprescindível o uso de um local mais oculto e seguro para nossos encontros. Diríamos adeus ao que foi outrora nosso santuário... Não mais nos deliciariamos com a visão daquelas flores, que converteram- se em sangue vasto e denso, e também das cruzes de prata que foram manchadas por este liquido peculiar. Olvidemos as antigas lembranças, o que ocorre agora, esta somente entre nós. Só de contempla-la sinto algo explodir no peito. Uma sensação avassaladora.
  • 288. Enérgica e decidida, provavelmente inspirava respeito por sua postura imponente. Uma sinfonia metódica e delicada se transpunha nos corredores, e no nosso recinto se transbordava mais sereno e intenso pelo radio. “Oblivion” da dupla japonesa “Kalafina” embalsamava o salão com aquela sua forma sofisticada de compor, tão meigo e suave. Seria ela a primeira a falar como sempre, tinha entre nós aquela hierarquia: - Tens novidades? Eu não entendo como gostas de vir conversar comigo, nunca saio de casa, nunca tenho um assunto. Contemplava-a com o mesmo pudor de um novato no jogo carnal dos amantes. Ela sempre esta pronta como uma dama, para eventos formais ou triviais, usa sempre traje de gala, e junto a ele seus mil e um apetrechos de boneca. A única vez em que contraditou isto foi ao expor-se com uma camisola, era uma cena estonteante, só de lembrar fico sem jeito. - Você compensa isto com sua natureza misteriosa – repliquei com perspicaz ponderação. Diante disto ela revirou os olhos e encolheu os ombros brevemente constrangida – Os assuntos são o que menos me importa. Poderia ficar a teu lado a eternidade somente a compartilhar do silencio, mas, morreria de ficar apenas um só dia sem tua presença. Esboçou uma expressão de curiosa apatia, pouco a pouco retornava ao seu jeito frio. Parecia congelada por eras a fio.Com o dedo mindinho a própria enrolava em anéis seu cabelo. - Em todo caso, não poderemos mais nos encontrar naquela estadia, meus tios nada sabem a respeito. - Compreendo – respondi imparcial. Uma breve pausa se fez, enquanto nos entreolhávamos uma perturbação sutil transpareceu em seu semblante. - Falando de novidades – recordava-me dos anteriores eventos – Parece que meu amigo, Roberto pensa em adotar. São crianças cujo o pai sumiu e reapareceu como um cadáver sem rastros.
  • 289. Inclinando-se no ato de acender duas velas de incenso, Alice franziu a testa, esbugalhando os traços, em vasta menção a comiseração. Recuou hesitante, falando em seguida: - Esse Roberto, acho que já o vi uma vez. Meu sangue esquentou chegando a palpitar nas veias. - Tem certeza? – indaguei. - Sim. Foi em um baile de caridade – declarou desdenhosa – Ele veio a mim, pedia uma foto e um autografo. Como era minha primeira vez diante o publico não poderia negar. Minha cabeça começava a latejar e uma incessante fúria se estendera sobre mim. Não poderia ficar calmo, não poderia ficar quieto ante a possibilidade de meu inimigo e arquirrival roubar a minha doce Alice. Contudo, não poderia proibi-la de rever essa pessoa. Que ódio! Minha vontade é de violenta-lo, se preciso mata-lo se o caso tomar maiores dimensões. Tentei levar uma taça de champanhe aos lábios mais o liquido caia indiscretamente devido a minha mão tremula de nervosismo, fez manchar minha farda. Me fechei minunciosamente nas minhas horríveis ponderações enquanto ela mostrava-se novamente enigmática. - Não quero lhe envolver nos meus problemas – murmurou-me este advertimento num resquício de atenciosidade – Mas ;- agora sua voz tomava característica cândida – Você mataria por mim? - Que pergunta Alice – minha reação espantada fê-la recuar num gradativo padecer, porém, tendo escutado o que dizer ia a seguir colocou um sorriso no rosto –; Lógico que sim. - Mataria Roberto por mim? Era certo que agora lia meus pensamentos, esbanjava cinismo em sua postura aprumada. Até aqui vacilava entre momentos de delírio e alguns minutos de lucides. A insanidade culminava e parecia querer se perpetuar. Perplexo respondi: - Confesso que inicialmente senti vontade. Mas, pelo laço forte dos anos duradouros de amizade eu não seria capaz.
  • 290. Sua crueldade tentava me induzir ao que chamam de personalidade tirana. Transformar-me-ia no pior dos verdugos. - Eu não seria capaz de pedir que o matasse – sussurrou com instantâneo deslace – Mas, se esta comigo não poderá se prender a nenhum laço. Fitei-a abismado, e ela compreendeu a profundidade que suas palavras fizeram efeito. Me abalaram, era algo tão complexo: - Então, realmente estamos juntos? Somos namorados – indaguei almejando resultado. - Se é assim que chama os anos de servidão que ira me prestar. Recorda que afirmou-se transformar-se em meu misero carrasco? - Sim – aquele seu olhar nocivo me difamava, estava prestes a beija-la – Mas, chamei-a assim por exagero da ocasião. Ela virou-se rispidamente. - Mas, o que eu disse era a verdade – atalhei tentando releva-la – Eu faria tudo por você, mas, tudo por causa de meu amor. - Desejaria que nunca sentisse isso por mim... – cortou-me enfezada. Mostrando-me despretensioso, agarrei-lhe uma de suas pequenas mãos macias osculando-a com o zelo cuidadoso de meus lábios. Aproximava-me instintivamente: - Dama da noite qual meu pecado? – perguntava - Vos sabeis que não há pecado nenhum em amar. Com os olhos cerrados de emoção, ela vertia lagrimas vermelhas que escorriam em sua face alva virada. Com a outra mão segurava a testa meditativa ante sua complexa situação. - Eu tenho muito medo – declarava ela – Não quero que nada de ruim lhe aconteça. - Eu prometo que nada a mim vira a acontecer – adiante com um lenço limpava-lhe as lagrimas - E nada vira a acontecer com você também Alice. Pois não deixarei que nada lhe aconteça. Trocamos olhares de confiança e consolação, mas, antes que eu pudesse me despedir formalmente ouvira-se o barulho de passos a saírem do elevador. Aquilo era uma alerta, e seu rosto
  • 291. secontraiu e os olhos momentaneamente esbugalharam-se. Meu peito se comprimiu e o pânico se apossou. - Precisa ir-se agora Lucas – advertiu-me ela pesarosa – Se não algo de ruim pode acontecer-lhe. Obviamente eram seus tios, e aqueles passos tornavam-se mais altos. - Que caminho devo tomar? – indaguei. Ela fitou a janela. Mecanicamente entendi o que se referia. - Tens medo de altura? – indagara-me. - Não. Mas, é muito alto. - Não é nada alto, olhe. Rumei á janela liberando o artificio da vidraça, vi porém só a altura de um andar, algo que desafia a lógica, afinal, subimos mais de cem degraus e subimos mais 97 andares pelo elevador. Talvez seja uma dadiva da arquitetura bem produzida. Culminado por trepadeiras via-se uma escada de madeira e mais além no chão pedregoso um túnel coberto pelo breu. Alice quase empurrou-me, e fiquei suspenso pela relva verdejante. Antes de deslizar seguindo trajeto, escutei alguns diálogos. - Alice – dizia o Conde Vermelho – Trouxe-lhe um belo vestido. Quer experimentar? - Quero sim – respondeu Alice disfarçando o nervosismo. O Barão que se mantinha calado manifestou-se: - Tente combinar tudo com um batom vermelho. Um silencio se fez breve e duradouro ante os preparativos. - Para que dois copos? – indagou o Barãonotando os dois copos sobrepostos á mesa e sujos de champanhe. Meu coração disparou, apercebera-se da minha presença? - Estava preparando pra vocês – respondeu Alice maquiavélica. - Mas não estão cheios – retrucou o Barão repreensivo. Cada vez mais meu coração redarguia descompassado, Alice escolhia as palavras para se explicar: - Estavam demorando e decidi experimentar – retrucou com astucia.
  • 292. O Barão andejou pensativo. Disse enfim, num sopro: - Deixarei passar dessa vez. Mas fique avisado que não quero vê- la mais se envolvendo com bebidas mais fortes que vinho. Se eu souber de outra ocasião terei de levantar-lhe o punho. O Conde e Alice permaneceram calados espantados. Eu também compartilhava do espanto, só que com um devido alivio de quem não fora descoberto a rondar. II Perda de Tempo Em sua escrivaninha, via—se o perdendo a estabilidade, começava a oscilar num forte empasmo.Hector Malot conservava-se integro ante os votos matrimoniais. Pelo que sei, marcara casamento com Olga para daqui a três meses. Recebia entretanto uma urgente noticia pelo telefone, que deixara-o petrificado. Sua primeira reação foi paralisar-se, mas, depois saiu num surto, atropelando quem estivesse a sua frente. - O que houve? – indaguei-lhe preocupado. - Lucas não podemos conversar agora – um misto de alegria e empolgação contornava lhe a personalidade acabrunhadora -; Olga esta em trabalho de parto. Vou ser papai. - Parabéns – o congratulava, deixando-me contagiar por sua felicidade. - Obrigado – e após breve pausa se despediu -; Adeus. E sumiu-se levantando poeira. - O que foi com ele? – perguntou-me Helena, dando uma de intrometida. - Parece que sua mulher já esta na sala de parto. Vai ser pai, sabe me dizer se será menino ou menina? Respondia enquanto se recostando num móvel: - Vai ser menino, parece que vão chama-lo de Otavio. - Nome estranho... - Por que? – indagara.
  • 293. - Me faz lembrar Otário, não faz? Levantou as sobrancelhas. Numa sobrecarga de cinismo me repreendeu, novamente parece que falei besteira. - O que houve com Hector? – perguntou Roberto e Gustavo, quase que ao mesmo tempo. - A mulher dele esta para ter um bebê – Helena respondera por mim. - É que dei-me com ele faz meia hora no elevador – dizia Roberto – Parecia até com falta de ar. Helena sorriu na devassidão: - É normal de todo pai entrar em pânico, do jeito que tá aposto que vira a desmaiar. Os dois homens escolhiam um acento. - Ele é sortudo – afirmou Roberto com um pouco de inveja. Ergui os olhos, intrigado por sua entonação de voz profunda. - Do jeito que Roberto é queria ter a casa cheia de crias – riu-se Helena empertigada. - Disto não duvido – concordou Gustavo – Seria ele tanto um bom pai quanto uma boa mãe. Alegrando-se da piada do amigo, Roberto agarrou-lhe o pescoço bagunçando lhe o cabelo. - Não estas mais enfezado? – indagou Gustavo surpreso. - Por que eu estaria? - Estava na TPM. - Você que tava – retrucou Roberto de bom humor – Ta bem, eu estava, mas, obrigado pela compreensão. Eu e Helena só ficamos ali a observar. - É bom vê-los em paz novamente – suspirou Helena aliviada. - É mesmo – concordei – Entretanto, a conversa deles ta parecendo coisa de bicha. Ela não conteve as gargalhadas ***
  • 294. - É assim tão perigoso as minhas visitas? – indaguei apreensivo. Acabara de ligar o radio, fazia brevetrajeto até o estofado que em seguida se sentaria: - Você não compreenderia o tamanho do perigo. Já lhe avisara: Meu dono vê-me em todo lugar. Entretanto, ele é quase cego, precisa de meu senhor e de meu mestre para averiguar o veredito. Rondo Alla Turca de Mozart. - Isso explica os olhos que vimos no elevador – comentei. Ela assentiu com um movimento de cabeça. Hesitante perante essa cordialidade, tornei explicito minha curiosidade: - Por que chama seus tios de senhor e mestre? E este homem que desconheço de dono? - Chamo o Barão de Senhor e o Conde de Mestre por motivo nenhum, eu gosto destes apelidos. - Não se sente submissa? Ela replicou com receio: - Eu não me sinto submissa por isto, estou fazendo-os um agrado, pois eles me protegem, me ajudam, pois sou submissa, mas, a uma força em questão. - Ao seu dono? - Exatamente. Fiquei encucado. Que tipo de homem era aquele? Coloquei a mão na cabeça pensativo. Estava longe de compreender esta aliança forjada, este laço que une ambos desumanamente. - Ele serve como vigia – explicou-me ela diante o minha notável apreensão – Quer que eu termine a minha missão tanto quanto eu. - Então ele é boa gente? Ela retraiu-se numa vaga pausa: - Na verdade, não. Aqui atalhava tentando mudar de assunto: - Quero saber mais de você – apoiara o queixo nas mãos soerguidas - Fale-me mais de você, sei tão pouco de você.
  • 295. Eu deveria de estar bastante aéreo quando dirigiu-me a pergunta. Seus olhos brilhavam, e seu vestido rosa cheio de babados destacavam sua pele pálida. - O que deseja saber de mim? – inicialmente me envergonhara com o tom de sua voz, mas depois assenti esboçando um sorriso. - Eu quero saber tudo. Era absolutamente persuasiva, ademais, foi com considerável esforço que se via despida da vaidade e da arrogância, que se generalizavam ante seu orgulho excessivo. - De tudo? – indagava, como que para ter certeza da real necessidade. - Sim, de tudo – respondeu conveniente. Esfreguei as mãos. Dadas às circunstancias precisei pestanejar: - Tenho 24 anos, sou de gêmeos, família humilde. Gosto de leitura, culturas derivadas da extinta ocidental. Me fascina a psicologia e a psiquiatria, troca de gêneros. Gosto de filmes de terror, e meu gênero de livro favorito é o romance policial. - Romance policial? – interrompeu-me admirada – Adoro Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. - E eu Alma Cervantes – afirmei – Ele é um autor muito direto, por ventura, tem uma escrita fascinante e bem rica. Alice recostava-se num travesseiro de penas, repousava além do vulto as pernas frágeis. - Fale mais – balbuciou ela, quase num murmúrio, demonstrava ainda persuasiva curiosidade. - Quando pequeno sempre quis ser detetive, mas por falta de dinheiro não pude iniciar os estudos. - Mas virou jornalista – observou afável. - Sim, isso graças a uma bolsa, e a minha gramatica que é bem fluente. - E sua família? – perguntava desdenhosa – Como é seu convívio com eles? - É bom, tenho uma irmã de nome Rosalie, e uma prima, quase irmã pra mim também, chamada Bonie. Meu pai é o típico
  • 296. homem rígido que faz as coisas impulsionado pela ignorância. Já minha mãe é um doce de pessoa. - Gosta do trabalho? - Da pra conviver com ele. Ria ao lançar mais perguntas na minha direção: - E os amigos? - Roberto e Gustavo são dois marmanjos mulherengos, mas, suas cantadas possuem muita classe. São ambos rapazes charmosos de bom coração, sempre pode se contar com eles. Já Helena é uma moça muito ingênua e ao mesmo tempo decidida, sua palavra é firme e imaculável, apesar de ser muito sarcástica. Alice retraiu manifestando incomodo. - O que houve? – indaguei preocupado. - Ela é só uma amiga não é? Rira-me um tanto satisfeito, ante sua reação mostrei-me compreensível e amável: - Lógico Alice, não sou tolo de troca-la por qualquer uma – fitei-a contente, em seguida fitei o relógio – Já preciso ir-me – anunciei – Espero que me convide para amanhã a noite. - Claro – sugeriu ela numa extrema simbologia – É durante a noite que tudo acontece. Adiante recordava-me do banquete carnal as almas vangloriadas. O banho de sangue ante a consagração. III Descoberto “A inspiração não vem de nada a não ser de si mesmo” Quem me disse isso foi Doyle, tenho estado a contata-la em certas ocasiões, ela ainda tenta me convencer a fazer terapia: - Vai ser muito bom pra você Lulu. Você vai gostar muito. Aquela voz doce no telefone me enternecia.
  • 297. - A não, eu tenho uma preguiça. Sabe Doyle, tenho estado muito ocupado. Não arrumo tempo. Mudemos de assunto. Ta dando tudo certo entre você e a Matsumoto? Já marcaram a data do casamento? - Eu vou bem. Ela também está, acabou de chegar do trabalho. Nós escolhemos o dia quatro de outubro. - Isso demonstra que ela não é supersticiosa. - Como assim? - Sei que ela não nasceu no Japão, mas, viveu em um típico palácio Japonês, se é que me entende. La ela deve de ter aprendido os valores e costumes do tempo do Edo. Quatro todos sabem que para eles é um número que significa má sorte, sua sonoridade recorda o da morte. - Você é muito inteligente – observou minuciosa – Espero encontrar contigo em breve. Por favor, pense bem sobre fazer consultas comigo. Sabe, eu tenho me empenhado em uma técnica. Se te cabula falar de tua vida, desenhe-a. Será muito significante. - Esta bem, vou pensar em tua proposta. Depois desliguei o telefone e sai, fui fazer caminhada. Engordei uns quilos, terei de me esforçar para sair da minha rotina sedentária. *** Repetia-se as visitas periódicas. O cheiro de incenso misturado a sua fumaça impregnante foi o que conduziu-me a sala, onde tive-a na visão frontal, magnifica. Numa leve veste branca de musseline e cintura alta, revelava abaixo os tornozelos cobertos por meias da mesma cor. Transmitia delicadeza e serenidade, não tinha delineado a cintura o que destacava uma aparência infantil.
  • 298. Eu tomava coragem para compor uma fala. Na medida da ocasião o torpor não era meu único problema. Alias, tive que me conter na véspera, possuía muitas ocupações. - Sente-se – pediu-me ela, delicadamente – Quer que eu coloque uma música? - Não obrigado – reclinei, não poderia simplesmente aceitar – eu quero ficar atento ao som da sua voz. Transpôs um sorriso amargo, o que induzira-me maus pressentimentos. - Eu não estou mesmo para brincadeiras – retrucou com branda austeridade – Não vou mais aturar seu atrevimento, és uma insolência! Assentei-me no estofado. Tentei ser complacente: - Alice, o que há com você? – a medida da situação o desdém espalhava-se em seus gestos, nunca si quer esperei essa reação - Você não estava assim antes. Ela se contorceu num asco. - Somente exijo respeito. - O que você tem? – indaguei apreensivo, parecia perturbada e propensa à demência – Você não é a mesma. Aqui fez jus ao silencio que nos molestava. Em verdade, a personalidade de Alice era por demasiado complicada, e complexa, a dissoluta dama da noite oscilava nos aspectos de benevolência e rejeição. Aproximei-me, e no entanto, ela não me repeliu. - Não estou te repreendendo querida – dizia-lhe com suave ternura – Sei que não é sua culpa. Seus olhinhos brilhavam lacrimosos: - É a carnificina que me torna assim – explicava-se ante meu assombro – Eu as vezes sinto que estou para dar curto circuito. - Não podes mesmo se livrar deste fardo? Tentar fugir? – perguntei intrigado. - Não – ressaltava – Não posso, o meu dono viria me perseguir. Se lembra daquelas sombras de mãos no beco? É ele que tenta me atrapar, segurar minha perna e arrastar, de volta ao meu
  • 299. destino; Por isso nunca saio de casa, é perigoso. Se retornei mesmo assim naquele dia televisivo, é por que seria questão de tempo para que aquela aura me encontrasse. Fiquei impressionado e triste ao mesmo tempo, afinal, ela se arriscou tanto por mim. Parece que não havia mesmo jeito. Examinando-a com mais cautela, notei que ainda usava a correntinha que lhe presenteei no nosso passado santuário. - Gostou tanto assim do meu presente? – perguntei curioso. - Como não gostar se foi o presente do meu salvador? Ao escutar suas palavras, completamente envolvido, transmiti minucioso embaraço.Cabisbaixo, adiantei-me no indagar. - Como assim salvador? – estava tão atrapalhado que comecei a gaguejar – Se e-eu ne-nem te salvei? Ela vidrou-se em mim com aquela mesma enigmática serenidade de outrora, chegara a me deixar abismado por alguns instantes. - Você me salvou sim, salvou-me da loucura. Fiquei embevecido, num êxtase de sensações múltiplas, não há como explicar o que acontecia dentro de mim. Era um mistério lindo feito de vermelho e branco, um mistério de nome Alice. É tão contraditório! Afinal, ela é o motivo da minha completa insanidade. Perpassado nosso momento de bonança, veio o sepulcral desespero. Alguém batia rente a porta; Um barulho meio surdo que martelava, e fazia nossos corações falharem. Naquele devaneio os minutos tenebrosos se perpetuavam, e estáticos aderimos vaga mudez. Era fundamental que tivéssemos uma artimanha, uma voz começava a se articular. - Alice – chamava o Barão Negro enquanto batia incessantemente. Alterados de nosso estado psicológico, eu e Alice entravamos em transe psíquico. Posteriormente levar-nos-íamos a queda, o retorno a realidade, o nervosismo e a demasiada inquietação.
  • 300. As circunstancia não nos permitia pestanejar, a sensação era de que aquilo seria mortífera. No exercício da perspicácia Alice recomendou-me que eu me escondesse no armário, e disto entrei em concordância. Já instalado no interior do móvel lustrado, os dois mancebos entraram de supetão.Fixavam-se em Alice interessados. - Por que demorou a atender? – perguntou primeiroo Barão ofegante,numa demonstração de preocupação inverossímil. - É que estava me trocando – explicou-se Alice bem calma – Era tão importante assim abordar-me? O Barão a fuzilava inapropriadamente, tentava estudar seus gestos, que ao seu ver, eram duvidosos. A circundava sem menor discrição, e com a mão no queixo, dentre meditação. - Para que tanta arbitrariedade? É sempre o Conde que lhe veste. - Preferi hoje fazer isso por mim mesma, sozinha – declarou cândida. Ele fingiu-se de entendido, e determinado, pôs a examinar também nosso ádito. - Eu espero que não tenha trazido aquele seu amiguinho para nosso recinto – comentou – Já não á demasiadas exigências precavidas do Corvo teríamos de suportar este vexame. Isto não lhe faz bem. Alice baixou a cabeça rebaixada. Era impressionante a força da autoridade que ele tentava manter sobre ela: - Caso você não tenha percebido – continuava ele – Á pessoas estranhando nossas ações, temos que ser o mais precavidos o possível. - Mas Flaubert – o Conde tentava interferir – Alice o ama. Ele urrou indiferente: - Inicialmente gostei daquele rapaz, agora só sei que ele me irrita, me irrita muito – pausou enfatizando -; Espero que tenha ouvido bem Sr. Lucas! Petrificado fiquei como surpreendido. Jamais pensei que seria descoberto. Minunciosamente espiei por uma fresta, checando
  • 301. se o local possuía segura atmosfera. Depois, timidamente saia me revelando de dentro do móvel, não sabia o que falar. - Terei que te matar? – indagou-me o Barão ríspido, deixara-me ainda mais sem jeito. Alice graniu ameaçadora: - Não se atreva. - Achava que o que havia entre os dois seria algo passageiro – declarava exasperado - Por isso não fui interceder. Mas, agora Alice?! Como quer que eu reaja? Um tanto intimidado olhei para Alice que interveio vaidosa: - Não sou uma criança. Aqui o Conde se manifestava apreensivo: - Para nós será sempre uma criança. Afinal, dedicamos toda nossa vida a você, por isso apesar de não possuirmos o mesmo sangueexigimos respeito. E saiba mocinha, que seus modos em nada me agradam. - Então – parei intrigado ante a inesperada menção –; Não são tios dela? O Barão se espreguiçou recostando-se no acento: - Claro que não, somos apenas mais uns amaldiçoados. Não era mentira, embora seu sotaque seja de uma forçada implicância brutal era obvio que não se divertia com aquilo. - Como assim? – perguntei com curiosidade aguçada – Preciso de explicações. - Acho que você anda se intrometendo demais em assuntos que não é de sua conta – replicou o Barão. - Deixe ele saber – relevou-lhe o Conde expressando sua aptidão – Já esta tudo indo pro ralo mesmo, mais uma informação não ira de nada piorar. Um tanto contrariado concordou: - Tá bem – fez breve pausa para as seguidas explanações, seguido de um exausto suspiro: - Somos ex-integrantes dos Monocromáticos, um tanto revoltado com a norma do sistema encontramos o mesmo fardo. Éramos contra há bastante tempo,
  • 302. aos abusos de poder que lá se estabeleciam, sentíamos inicialmente muita dó dela. - Então são bonzinhos – observei. - Se acha a carnificina algo bom é um desvairado que merece meu respeito, por que afinal, obviamente não estamos aqui por que queremos. Somos nós quem conduz a carruagem e leva os desafortunados ao desventurado destino. Esboçando perplexidade aproveite-me da vaga pausa: - Como vocês conseguem identificar as ganancias ocultas? Por que percebi que usam uma espécie de isca. - Correto – assentiu o Barão assegurando-me do que eu viria escutar –Peço antes que esteja ciente do que lhe vou advertir, não seja tolo por mais que inacreditável. - Aprendi que aqui é onde ocorre o inimaginável, que aqui se concretizara as façanhas do apocalipse. Ele abanou a cabeça ponderativo, prosseguiu esclarecedor: - A voz do Corvo quem nos dita as regras, é ele quem estuda as vitimas e se aproveita, nós apenas colocamos em prática. Minha condenável curiosidade se mostrava visível e aterradora. Alice fixava-se em mim com olhos lúcidos, depois dirigiu-se ao Conde e ao Barão: - Me darão consentimento? - Sim – disse o Conde. - Eu permito que visite Alice – declarava o Barão com sua condição – Devera no entanto de ser num horário mais reservado. - Como? – inquiriu-lhe Alice preocupada – Lucas é muito ocupado. - Ele não iria de ficar ocupado pra sua dama da noite – expressou o Barão, meio zombeteiro – Ademais, esta quase chegando as férias, vão ter muito tempo para ficarem juntos. - Que horário me agenda? – indaguei interessado. - As nove da noite lhe serve? - Estarei aqui com todo o prazer.
  • 303. IV Eufemismo O céu estava tão sereno... Não era o da praia, cujo por do sol nos enleva, porém, era puro por natureza. Sua atmosfera transmitia uma paz enlevada, sem sacrifícios e sem defeitos. Vislumbrando mais, aquele mar sem ondas, pessoas se sentavam a margem para melhor visualizá-lo. Todos usavam roupas leves numa demonstração de harmonia. Pipas brancas de varias formas pairavam no céu docemente. Crianças corriam em suas brincadeiras de pega-pega, os amantes conversavam em segredo para transparecerem discretos. Aquele gramado verdejante possuía seu devido valor; As pessoas tinham consciência, durante um piquenique não deixavam rastros, guardavam sua sujeira em pertences próprios. Mais adorável que um badalar sem provações, uma amostra inerente do chamado paraíso o parque nomeado Pacem in Terris é um dos mais belos que já tive o prazer de conhecer. Já batia o sino, e obviamente neste horário todas as crianças que saiam da escola retornavam a suas residências, porém muitos se detinham ao trajeto no compadecer do parque. Em verdade, um grande acervo delas jaziam aqui antes do exato momento. Embora tal ação rotineira ter sido quebrada eles não aparentavam preocupação. Sentado no banco de verniz modelo tamanduá eu os observava em seus compromissos; Deveras, não era todos os enamorados, muitas gangues rodeavam em conversações vulgares. Pelo menos fizeram o favor de não fazer escândalos. Tenho pena das moças que os acompanham, me coloco no lugar de seus pais, imagina? Sua filha com um vida loka. Consequentemente uma desgraça haveria de acontecer: Sua filha ficou mau-falada, o que vai acontecer agora? Não poderá frequentar as festas do Arlindo. Trajavam uniformes
  • 304. variados, mas, da mesma cor, as escolas dão liberdade para as referencias de moda, mas, exigem seus nomes prensados nos modelitos. Uma das jovens me chama a atenção por trajar roupas do ano de 1920; Uma melindrosa. Certamente não fazia par com nenhum de seu sexo oposto, estava ali como membro da equipe. Usava a saia curta e os cabelos de cor ouro velho caiam nas orelhas. As melindrosas são conhecidas por desafiarem convenções, dançar de forma provocativa jazz e o Charleston, bebem e fumam em publico crendo no sexo como algo casual. Havia nelas um ideal erótico de androgenia, disfarçava suas curvas. Nem por isso elas eram menos femininas! Apesar do liberalismo são muito vaidosas consigo mesmo; Um exemplo é aquela mesma menina que tem sobre sua silhueta uma penca de apetrechos: Colares, anéis, broches... Usa na cabeça um chapéu cloche. A maquiagem era pesada e seus grandes olhos expressivos foram pintados de preto. A boca foi pintada de carmim tendo formato de um coração. Sobre a blusa de ombros nus carregava uma bolsa, onde, obviamente levava sempre consigo um espelho portátil e muita maquiagem para poder retocar em publico ou nas suas horas vagas. Os cabelos e as saias curtas são símbolo de sua emancipação feminina; O sexo antes do casamento não lhe é uma ousadia é sim uma realidade; O controle de natalidade, poder falar palavrão... Melindrosas competem contra o homem não só em exigir a liberdade financeira, mas também no desejo dos direitos iguais. Depois de alguns instantes, tornei-me alheio a qualquer um que os rondava a turminha. Não que eu os tivesse rechaçado. Já estive em tal idade onde os hormônios que brotam estão à flor da pele, queimando, quase que faiscando entre suas experiências mundanas revelando novidades aquecedoras. Pois, adiante, Helena se fez notado naquele mosaico. - Precisamos conversas – disse ela. Reparei nas suas sobrancelhas franzidas. O ar que saia de suas narinas bufava, as
  • 305. mãos tremiam num tom frenético fazendo-a suar frio. Sua inquietação me preocupava. Tendo visto-a assim tão abatida quis socorre-la. - O que ocorreu-lhe? - perguntei. Antes de responder ela colocou as mãos no bolso. Embora fragilizada, se conteve no ato de colocar o relógio entre os dedos. - É algo tão serio assim? – continuei a indagação -; Fale-me o que a importuna. - Aconteceu uma tragédia! – revelou-me num sobressalto. Uma tristeza indizível o assolava perpassando minha alma. Num transe fúnebre, fez-se esgotar o relógio de bolso – Meu irmão Leny. Lembra-se dele? Foi encontrado hoje morto num bar. Logico que Helena não berrou, chorou silenciosamente. Abaixando a cabeça limpava o pranto e olhando-me desesperada procurava em mim um consolo que eu não pude negar. - Eu não sei o que aconteceu – dizia-me no enfrentar da situação. Seus olhos estavam embargados junto com suas palavras – Ele era tão jovem! O que levou esse tão repugnante desfecho? Der repente veio um grito daquela gangue ao lado e não me contive em explodir numa retruca: - Fação silencio ai! Respeite quem passou por uma perda! O pessoal acompanhado da melindrosa encarou minha amiga como que para ter certeza do que via. Era estranho ver aquela moça alta, desolada, tão atraente, soluçando em silêncio, emocionada. Pungidos pela causa, o desrespeito dissipou-se naquele meu arrebatamento. Novamente minha atenção se voltava a Helena que permanecia em melancolia assoladora. Cheguei a pedir: - Me fale como ele morreu. - Foi com tiros – Helena chorava borbotões e eu me surpreendia. As lagrimas queimavam sua faces brancas e os lábios tremiam descorados – Era meu único irmão, agora estou sozinha.
  • 306. - Tenha calma por favor – disse-a num suplicio – Você precisa ser forte. Nunca antes passei por isso, mas vendo-a assim sei que deve ser algo insuportável, e saiba que não esta sozinha, tem a mim Gustavo e Roberto, somos seus amigos, lembra-te? Foi um suspiro de alivio ver que ela já se controlava. Com um lenço enxugava as réstias do pranto lacrimoso. Ainda com feições desbotadas, sorrio para mim, e articulou: - Ele foi um bom irmão. *** No principio, eu teria ido com ela no velório, mas a dura realidade não me permitia. Como conseguiria dar os pêsames? Só vi Leny uma vez, não me parece virtuoso por os pés lá com o semblante seco. Roberto foi em meu lugar. V Segredados Já dava nove horas e nada de entrar no ressinto. A biblioteca de Hansel e Gretel não mais se dispunha sobre mim como outrora, em seu lugar ainda jazia à loja de antiguidades. Pensei em esperar até a meia noite, enquanto isso viria a me fixar na pracinha da avenida. Tinha ela um ambiente calmo e acolhedor, com grandes arvores a dar sombra e frutas frescas, um monte de arbustos e flores silvestres. O trajeto se fazia num
  • 307. piso quente e dançante. Bem espalhados, bancos de mármore dava descanso e serviam como ótimo ponto de encontro para os jovens enamorados. Um pouco ao lado jazia um parquinho dedicado as criancinhas, vinham elas com seus pais ou familiares para o laser e sociabilidade. Quão bom devem se sentir em suas inocentes brincadeiras, estava a vagar por lá também alguns comerciantes que com suas mercadorias se aproveitavam de suas presenças, eram eles vendedores de lembrancinhas e quitutes; Algodão doce, balas, maçãs do amor, petecas e colares. Estava ficando tarde, e os transeuntes aos poucos se dispersavam. Comecei a ficar ansioso. - Onde será que se meteram? Como vou fazer pra ver Alice? – indagava-me fadigado em monologo. - Ela ainda esta a tua espera – essa timbre voz respondeu-me de forma inesperada. Era o Conde Vermelho escondendo-se numa capa escura e óculos de sol, deduzi que tentava afastar a curiosidade alheia já que era muito famoso - Precisamos lhe mostrar as outras acomodações – explicava-se –Já que está combinado de se verem noutro horário precisão de ir para outro lugar. - Que burocracia! – exclamei. - Eu e o Barão prezamos pela proteção de vocês, decidimos assim para afastar as suspeitas que o Corvo possa vir a ter. - Compreendo – disse resignado -; É supostamente a mesma coisa que Alice tentava fazer. Leva-me então até o lugar correto? - Lógico. Emitiu um assobio e em breves instantes se fez visível àquela mesma carruagem de mosaicos, com cavalos trevosos e sem condutor. - Acho isso um tanto apelativo – comentei, a imagem da carruagem era intrigante e perturbadora. - Neste momento ninguém pode vê-la – esclareceu-me ele com astucia – Agora, entre. - Quanto tempo ainda nos resta? Respondera sorrindo:
  • 308. - O necessário. *** Dentro do automóvel tive a estranha sensação de estar no céu, que aqueles cavalos trevosos na verdade fossem um par de legítimos alados transportando-nos por diversas paisagens a fio. Chegamos ao edifício numa rapidez incrível, a brisa oscilava calma e divinamente entrando em meus pulmões. Avançamos em seguida algumas portas e degraus, surpreendi-me ante o quão grande era aquela arquitetura. - Um dia ainda á conhecer toda a casa – disse-me o Conde – Não posso dizer toda toda, por que, nem mesmo eu a conheço, é grande demais. - Quantos anos ela tem? - Não faço ideia, não me surpreenderia alguém me dissesse “a eternidade”. Mais a frente deparávamos com Alice, simplesmente glamorosa. - Quais serão as atividades de hoje? – indagou-lhe o Conde no seu instinto protetor. - Quero andar de bicicleta – disse ela, apercebi que usava um bloomer por de baixo da saia curta, uma espécie de calça largaestreitando a um manguito na altura dos tornozelos. Fazia perfeita harmonia com a blusa lilás turquesa. - Ta bem, mas, não se esqueçam de retornar as onze, eu hei de preparar seus utensílios. Provavelmente ele se referiu as armas licitas e ilícitas. - Então – dizia eu atrapalhado – Onde vamos andar de bicicleta? - Relaxa – respondeu-me ela com entusiasmo – Eu te levarei até o lugar correto, mas, antes preciso lhe mostrar como. Ela abriu e trancou a porta de um cômodo, lugar onde estava disposto um monte de vitrolas e violinos, após tal ato assegurou- se de que havia remexido bem o vaso de plantas que ali enfeitava. Destrancou o cômodo e o abriu, para a minha
  • 309. surpresa, as vitrolas e violinos deram lugar pra um parque deserto com um belo rio a cintilar. - Como isso é possível?! – exclamei estupefato, meus olhos brilhavam maravilhados. - Isso é o poder que todos desejam nos seus sonhos... - Não isso é melhor – eu a interrompia – Parece à magia que nunca ninguém conheceu. Adentrávamos lentamente aquela imagem, e eu abobalhado fazia de conta que estava vivendo um conto de fada. Havia uma estrada cimentada com varias curvas, na sua borda um gramado se estendia junto a pequenas luminárias coloridas rumo ao bosque inexplorável, e um pouco mais longe um quiosque abandonado com uma mesa de madeira própria para piqueniques. - Isso não passa de uma ilusão – explicava-me ela paciente – Foi tudo criado por nossa mente. - Estamos a sós aqui? – indaguei-lhe curioso em visível interesse. - Sim estamos – respondeu-me inocentemente, procedia nas suas botinas grosseiras –Escolha a sua bike. Estavam todas recostadas num projétil metálico,relíquias do século XIX. - São originais ou replicas? – deslizava minha mão numa The Express 1892. - Não sei responder, como disse, tudo foi criado através da nossa mente. - Entendo – parava meu ato ao observa-la. Montara numa Columbia Ordinary. - O que esta esperando? –inclinava a cabeça num leve sorriso – Vais perder uma corrida. Acho desnecessário dizer o quanto nos divertimos, afinal era encantador a turbulência das emoções que nós dois gradativamente exalávamos. Quando o breu começava a fazer questão de nos assolar paramos e jantamos no quiosque. Ninguém nos servira, fizéramos questão de preparar a própria refeição que era de dar água na boca. O que mais me agradara
  • 310. foi as almondegas e o sushi, sem falar da carne assada na churrasqueira a lenha. Uma pequena televisão em preto a branco a válvula se prostrava num canto, com o volume baixo, para não nos incomodar. Ela arrumava os cabelos desgrenhados para trás das orelhas, enquanto contemplava a lua refletida no lago. Depois de um momento fiz uma tentativa um pouco precipitada de me insinuar. Aproveitando-me do cenário, tentei roubar-lhe um beijo, porém ela desviou: - Enquanto come, não acha isso um pouco nojento? - Claro que não, qualquer hora é perfeita. - Haha – fez sarcástica, empertigava o garfo sofisticado – Não creio que servir-se-ia desse argumento numa latrina ou toalete. - Quem me dera, com a excitação que estou poderia ignorar qualquer detalhe que a repugna, alias, acho mais nojento as vísceras e as entranhas de um viciado cadáver exposto. - Disso posso concordar – replicava agoniada –Mas não me fale disto, embrulha meu estomago, imagine quantos desses terei de abrir essa noite. - Mas, já não passa da madrugada? - Já disse que isso faz parte da nossa mente, portanto, não se passou nem um minuto em horas humanas. - Então poderei ficar ainda mais tempo contigo? - Se não mais se insinuar, estas virando um pervertido. Beijei-lhe a destra resignado. VI Estranho Demais
  • 311. A moça andejara vacilante até o altar da igreja, dado instante caíra de joelhos, aprofundando-se na alta prece Ave Maria. De olhos cerrados segurava piamente seu rosário. Tinha os cabelos negros a caírem nos ombros cobertos por um véu de renda, aparência angelical e feminina, cílios de boneca, ali eu não me movia, dentro dela não passava de um mero espectador. Tentava desvendar o extenso panorama, perplexo a via definhar no próprio pesar. Ela admitia o seu orgulho e arrogância, agora estava a lamuriar. Der repentefita por detrás, e não muito longe, na mesma linha e trajeto, parado a soleira da porta jazia um rapaz de fisionomia fantasiosa. Ele se aproximava em largos passos enquanto ela tentava detê-lo repreensiva: - Csele aqui viestes e daqui deve partir; Já não lhe falei: É perigoso demais, estar comigo é perigoso demais. - Eu disse que não importasse onde você fosse, eu viria te encontrar. - Csele, pare! – censurou-lhe - Tudo não passava de uma promessa hedionda, ouça, eu nunca poderei ser o que você quer pra si. Mergulharam-se num silencio profundo. Aquelas suas palavras foram tal agudos alfinetes também afetando a pequena dose de confiança do rapaz mantinha. Csele mirava-a ressentido: - Então é assim? Vai acabar com nosso romance que mal começou – tentava num ímpeto se controlar. Fechara o punho fortemente, numa expressão de cólera ardente. - Eu só quero teu bem e tua felicidade – dizia num leve padecer – E isso são coisas que não posso dar a você. - Isso é uma idiotice! Bem sabes que não tem como eu ser feliz sem você – a arrebatava. Um perto do outro, trocavam olhares num misto de êxtase e ternura, um pouco mais intrigante: Ambos compartilhavam da reprovação.
  • 312. Parecia uma emboscada para o coração ferido, não tardaria para que o amante encontrasse o caminho para os lábios de sua amada, envolvendo-a em toda sua fragilidade, com extrema doçura. Um abraço forte se seguia de uma horrível tragédia. O moço quedava frio ao chão, tal num desmaio. Um pouco antes ocorrera um engasgue, uma crise cujo sangue se era expelido de sua boca, ele tossira sucessivamente, até encontrar os braços da morte. Aquela Alice era um anjo da morte. *** A noite seguinte não foi menos difícil, pelo fato de eu não ter conseguido relaxar, os sonhos estranhos retornavam a me furtar com maior intensidade. É sempre eu dentro de sua figura, sempre com aquele cara a conversar. Seriamente, não sei o que fazer. VII Violência nas Escolas Hoje no jornal saiu duas pessoas: Percy e Leon tinham um currículo excelente, honestos e inteligentes ganharam vários prêmios acadêmicos mais a velhice se encarregava de usurpar- lhe as forças e consequentemente entraram num consenso. Tendo se aposentado outros dois moços entraram. A vaidade de Felix chamava a atenção: Tinha cabelos ruivos e olhos castanhos, a pele púrpura e oleosa, cachos ondulados e
  • 313. lenço cor de nanquim. É um sujeito simpático, quando conversamos tive garantia de que ele não decepcionaria, gosto dos tipos esforçados; desempenho contra a competitividade é o que o jornal precisa. Já Liceu não me convenceu, é muito desleixado, sua mesa esta sempre bagunçada e seus arquivos também. Quando li a revisão final de uma de suas redações quase peguei câncer. Como alguém que vira jornalista consegue entrar no cargo sem antes passar do fundamental? Ele não tinha expediente nenhum de ler os subtítulos. Ele também é um sujeito belo, mas, convenhamos que nasceu sem cérebro, pela hipocrisia só pode ser filho de algum chefe de órgão governamental. Suspeito que tenha um xerife na sua família, usa sempre na cabeça um chapéu de cowboy e no peito uma cruz de ouro. Sua pele cor de areia é invejável, me agradaria o fato de estar sempre bronzeado. Tô muito entediado, os dias tem estado monótonos. Tudo indica que, daqui uma semana Helena e Roberto retornaram, enquanto isso tenho que aturar a preguiça. - Lucas quero que veja esse caso – Ele disse jogando uma papelada na minha mesa. - O que é isso Liceu? – perguntei. Depositei o arquivo em mãos e enquanto a ouvia revirava as páginas. - Ocorreu que ontem um aluno foi preso. Ele se chama Jamie, tem 15 anos e é de classe media. Foi encontrado portando uma arma no meio do ambiente escolar, na mesma manhã tirou o objeto da calça e apontou para um aluno, a professora gritava e ele ameaçava de matar a todos. - Que psicopata! –exclamei admirado. - Poisé. Apesar de ser menor não foi liberado, foi internado em um hospital psiquiátrico. - Não consigo imaginar um motivo para que um garoto de 15 anos tenha ficado tão revoltado. Ele fuma alguma droga? - Pelo que sei, é um menino exemplar: Não tem muitos amigos, quase não sai, nunca teve reclamação da escola e suas notas são as melhores.
  • 314. Indaguei curioso: - Então, como descobriu tudo isso? Liceu respondeu embaraçado: - Tenho meus meios. Agora faça o favor e chequeisso a fundo. - Beleza. Que presságios secretos a jovialidade leva consigo? Tantos sonhos ainda a serem concretizados e tantos jogando-os fora no ameaçar da vida. Parti. Recuperar a consciência depois de tal incidente parece algo difícil. Como deve estar à cabeça do garoto? Descendo a estrada Sine Reditu num dos primeiros carros de motor a combustão, meu motorista se exalta ao deparar com belos cavalos. O terreno se afunda e a ultima vala quase acarretou num acidente. Tivemos que parar por que o pneu murchou. - Tem um amigo meu que mora por aqui – o taxista comentou – Vou chamar ele para que possa leva-lo, não quero atrasa-lo. Tocando-lhe o ombro sujo de lama declarei: - Não precisa preocupar-se. Não parece ser muito longe, posso seguir a pé. - Mas não é problema algum. Alias, essas estradas são perigosas, fique aqui um instantinho. Vou lá chama-lo. Esperei e depois de alguns minutos, o humilde taxista retornou no carro do amigo. - Sr. Lucas – disse o taxista – Esse é meu amigo Diego. O homem sorridente estendeu-me a mão numa saudação, e no rigor da educação não repeli o gesto. Pude ainda analisa-lo discretamente e fiz dele um perfil modesto. Usava roupas quadriculadas e pausava para acender um cachimbo. - Você não é daqui não é? – perguntou-me ele demonstrando curiosidade. - Dá pra perceber tanto assim? – repliquei. Este deixara escapar umas gargalhadas e eu o acompanhei revelando simplicidade.
  • 315. - João Vitor disse que você estava decidido a ir a pé até Domus Dei – aqui enfatizava o gesticular –; Tu és um sujeito estranho, para não dizer maluco. Quando falou-me meu amigo desconfiei a pensar escutar uma anedota de tão extraordinária banalidade. Não se deve confiar nessa estrada, não é a toa que nomearam- na de Sine Reditu (Sem Volta) pois aqueles que atravessam sozinhos, em suas desventuras decaem num injusto joguete do destino. Até eu já perdi familiar aqui, meu pai Georgie conheceu seu fim nessa estrada. Senti um grave calafrio percorrer-me o corpo. Não que tal depoimento viesse a me flagrar na penúria, pelo contrario, ria com tais advertências, todavia senti aquele aperto no peito, como se algo de ruim fosse acontecer a algum conhecido. - Não precisa ficar assustado – falava o taxista a minha natureza complexada – A maioria fora de noite. Ainda há sol no céu, enquanto isso ainda tem Deus a vos zelar. E olha, Diego vai junto a zelá-lo. Ele é fazendeiro experiente, necessitando sempre seguir por tal trajeto no ímpeto de vender suas espigas de milho. - Pode ficar tranquilo – complementava Diego, arqueava suavemente as sobrancelhas. Aquilo tirou um peso de minha consciência; Depois de escutar tantas lendas urbanas não admitiria o fato de levar alguém a andejar comigo sobre uma paisagem tão perigosa. De certo recuaria, ainda mais com aquela repentina dor no peito. Sempre repudiei a necessidade mundana de dirigir. Apesar de necessitar locomover-me sempre em meu oficio, quase nunca tenho despesas. Peço muito carona a conhecidos, são raros os casos onde preciso chamar um taxi. Já tentei tirar carteira, mas confesso que me exaltei em uma das provas e a partir de então, desisti. O auxilio de João Vitor o taxista me foi muito útil. O agradeci pela generosidade. Ele continuaria ali no prestar dos serviços pendentes para o concerto do automóvel. Já eu continuei o trajeto no carro de Diego que alias era uma belezinha; Um Volkswagen Gol quatro portas com 128.000 de quilometragem, a
  • 316. pintura era de um azul misto cintilante. Não digo o mesmo para onde o veiculo rodava. A estrada se mantinha em péssimas condições: Esburacada e cheia de valas de lama; Animais de gado paravam de vez ou outra para nossa frustração. Os da floresta que se aventuravam sobre os asfaltos seriam fatalmente atropelados. Atrapalhava-nos até mesmo os pedestres irresponsáveis que não aceitavam bem as leis de transito. Após longas horas de estrada em que ultrapassamos obstáculos e perigos imprevisíveis, alcançamos meu rumo. - Nesse hospital – desdenhava Diego de novo revelando curiosidade – Há algum conhecido ou familiar seu? Exausto eu descia do automóvel e quase tropecei. - Na realidade sou repórter – confessei-me - Preciso fazer uma matéria sobre o garoto maníaco que apresentou uma arma na escola. O homem em ar meditante franzia a fronte: - Por acaso esse menino é Guliver Marechal? - É ele mesmo – respondi. Paramos e nos entreolhamos. Sem que pudesse prever, estático, sua reação e seu humor mudaram drasticamente. Acelerando a marcha, tentou cuspir na minha cara, e por fim declarou: - Deixem o garoto em paz! Se eu descobrir que você ou qualquer um da sua gente o vem caluniando, hei de chamar a policia! - Ele seu filho? – cheguei a perguntar. Desejava poder ter evitado tal contenda, mas, já era tarde demais. Em menos de um minuto o carro desaparecia na própria fumaça. *** A rua era cheia de casas estilo árabes, ladeadas e bem bonitinhas. Empenhei-me a avançar no caminho, o hospital
  • 317. psiquiátrico jazia perto, bem em frente a uma rede de supermercados. Parei-me entretanto para um lanche. Dali já podia avistar o que para mim seria um problema: Um aglomerado de protestantes, gente que não tem mesmo o que fazer, parou perto do prédio impedindo quem quer que saísse ou entrasse. Tinham cartazes erguidos em mão, e gritavam atestando a necessidade de punição ao garoto Guliver Marechal. Ia ser bem difícil...
  • 318. VIII Tédio IX Jugoslávia e Rússia X O Preto sempre esta na Moda XI Show de Rua XII Taça de Ouro XIII Fantástica Carnificina XIV Fantástica Carnificina (Parte 2)
  • 319. XV A Megera Indomável XVI Pecado ou Traição XVII Mais que Amigos XVIII Prazer da Corrupção XIX A Verdade XX Adeus Roberto XI Isolados
  • 320. XII O Corvo Parte IV: Lady Cossette