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Monografia apresentada à Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero em 5 de dezembro de 2012 para conclusão do curso de Jornalismo.

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  • F A C U L D A D E C Á S P E R L Í B E R OJornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Radialismo,Especialização e Mestrado em ComunicaçãoMarcela Aparecida de MarcosSARAVIRTUARUmbanda em Rede e Rituais On-line e Off-lineSão Paulo2012
  • MARCELA APARECIDA DE MARCOSSARAVIRTUARUmbanda em Rede e Rituais On-line e Off-lineMonografia apresentada à Faculdade Cásper Líberocomo pré-requisito para obtenção de Certificado deConclusão de Curso de graduação em Jornalismo.Orientador: Prof. Dr. Liráucio Girardi Jr.São Paulo2012
  • MARCOS, Marcela Aparecida de.126 páginas.Saravirtuar: Umbanda em Rede e Rituais On-line e Off-line / MarcelaAparecida de Marcos – São Paulo, 2012.Orientador: Prof. Dr. Liráucio Girardi Jr.Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Jornalismo)Faculdade Cásper Líbero1. Umbanda. 2. Rede. 3. Novas Tecnologias de Comunicação.
  • MARCELA APARECIDA DE MARCOSSARAVIRTUARUmbanda em Rede e Rituais On-line e Off-lineMonografia apresentada à Faculdade Cásper Líberocomo pré-requisito para obtenção de Certificado deConclusão de Curso de graduação em Jornalismo.Orientador: Prof. Dr. Liráucio Girardi Jr.5 de dezembro de 2012Data da AprovaçãoProfª. Drª. Daniela Osvald RamosFaculdade Cásper LíberoProfª. Drª Sandra Lucia GoulartFaculdade Cásper LíberoDulcilei da Conceição Lima
  • Ao povo de Umbanda, que em sua luta diária no exercício da fé me reafirma, a cadaamanhecer, o significado da palavra amor.
  • AGRADECIMENTOSAgradeço a meu orientador Liráucio Girardi Júnior, primeiro por me atentar para aimportância da realização dessa pesquisa; depois pela paciência e dedicação comque me ajudou a desenvolvê-la.À Faculdade Cásper Líbero e ao Centro Interdisciplinar de Pesquisa (CIP),especialmente à professora Maria Goreti Juvêncio Sobrinho, pela oportunidade dainiciação científica, que me permitiu começar a pesquisar o tema que viria norteartambém este Trabalho de Conclusão de Curso.Às professoras da Cásper Sandra Lucia Goulart, de Antropologia, por me ensinar ame comportar diante de uma cultura; e Daniela Osvald Ramos, de NovasTecnologias, pela inspiração acadêmica e pelo incentivo à pesquisa em NovasTecnologias na Faculdade Cásper Líbero.Ao Babalorixá Marco Antonio dos Santos e seus filhos do Gruel pela disposiçãoconstante em me ajudar, em todos os sentidos; e pela oportunidade de pisar pelaprimeira vez no solo sagrado, três anos antes dessa pesquisa.A Isabelle Vázquez, Giovanna Sacche Salles, Vinícius Carini e Flávio Barolli,estagiários e amigos da NextLeader Soluções Digitais, aos quais ensinei mas, muitomais, aprendi sobre o “mundo digital”.Aos queridos amigos do Estadão, especialmente Murilo Rettozi por me permitirdiscutir a Umbanda a partir de sua experiência, observá-la e senti-la em suaintensidade; e Iara Silva, que me acompanhou nessas discussões, observações esensações com o mesmo interesse contínuo.A Andréa Destefani pelas contribuições textuais que, direta ou indiretamente, foramessenciais para este trabalho.A minha família; meus pais Marco Dorival de Marcos e minha mãe Vera Lucia Buenopela companhia durante algumas idas a campo, meu irmão Caio Vinícius de Marcospela opinião crítica, minha madrinha Janny Aparecida de Marcos por me entregar à
  • Umbanda em um momento nebuloso de minha vida e minha tia Maria Helena deMarcos Neves por me entregar em todos os momentos, estando eu pronta ou nãopara essa entrega.À Mãe Conceição Florindo (responsável pelo CEIE – Centro de Estudos IniciáticosEvolução) que conheci através de uma rede social e que por isso mesmo sintetiza oque exponho nesse trabalho.A Maria Aparecida Linares por me auxiliar enviando reportagens condizentes com aproposta da pesquisa e, principalmente, por intermediar o contato com Pai RonaldoLinares, que difundiu a Umbanda de várias formas e, portanto, contribuiu parachegarmos até aqui.Faço um agradecimento especial a Betho Lima, que propiciou meu primeiro contatocom análises de redes sociais e incentivou meus estudos a respeito, sempredisposto a me ensinar cada vez mais e a criticar de maneira construtiva o que euproduzia. Sua experiência foi determinante para aprimorar meu olhar sobre acomunicação em rede.
  • “... Se o povo te impressionar demaisÉ porque são de lá os teus ancestraisPode crer no axé dos teus ancestraisPode crer no axé dos teus ancestrais...”(Rosinha de Valença e Martinho da Vila – Semba dos Ancestrais)“A internet é o tecido de nossas vidas”(Manuel Castells – A Galáxia da Internet)
  • RESUMOPalavras-chave: Rede, Umbanda, Comunicação, ciberespaço, blogosfera,encantamento, magia, sincretismo.Estamos interligados de várias maneiras. Muito antes do advento da internet, aspessoas já se “conectavam”, socialmente, por meio de uma rede de sinais, códigos,linguagens e, principalmente, interesses em comum. A ideia mais simples de redepode ser um emaranhado de pequenas interligações. Quando uma rede que seforma no espaço físico, off-line passa a se constituir também on-line, esse fenômenomerece atenção sob diversos aspectos. Muito mais se todo esse processo envolverum tema que permite ligações entre vários “mundos”, além do físico, como é o casoda religião. Neste Trabalho de Conclusão de Curso proponho estudar a maneira pelaqual as mudanças tecnológicas e a formação de novos ambientes comunicacionaissão apropriadas por uma rede de práticas sociais, rituais, religiosas vinculadas àUmbanda. Procuro entender como essas conexões, ao mesmo tempo físicas,espirituais e virtuais são analisadas sob a perspectiva da Rede das redes, a Internet,e como podem alterar de modo quantitativo e qualitativo as possibilidades dessaconectividade.
  • ABSTRACTKeywords: Umbanda, Communication, New Communication Technologies, socialnetworks, cyberspace, blogosphere, syncretism.We are interconnected in so many ways. Long before the advent of the internet,people already did "connect" socially through a network of signs, codes, languages,and especially common interests. The simpler idea of network may be a small tangleof interconnections. When a network that forms in the physical space, offline, is alsoto be online, this phenomenon deserves attention in several respects. Much more ifthis whole process involves a theme that allows connections between various"worlds" beyond the physical, as in the case of religion. In this Work Completion ofCourse I purpose to study the way in which technological changes and the creationof new communication environments are suitable for a network of social practices,rituals, religious linked to Umbanda. I seek to understand how these connections,while physical, spiritual and virtual are analyzed from the perspective of the Networkof networks, the Internet, and how they can change quantitatively and qualitativelythe possibilities of connectivity.
  • SUMÁRIOSUMÁRIO..................................................................................................................11INTRODUÇÃO ..........................................................................................................121. A UMBANDA.........................................................................................................151.1 Surgimento da Umbanda: conceituação, termo e religião................................171.2 Umbanda em termos........................................................................................251.3 Gruel – Grupo Umbanda é Luz .......................................................................291.3.1 Mediunidade e a figura do dirigente.........................................................291.3.2 “Umbandas” e o referencial teórico..........................................................331.3.3 As giras no Gruel .....................................................................................351.3.4 Os trabalhos e a ideia de rede.................................................................452. DO RITUAL AO VIRTUAL.....................................................................................522.1 “Programa do Seu Tranca”: um estudo de caso..................................................522.1.1 Ausência e presença de elementos do ritual ...........................................552.1.2 A interatividade e a quebra de barreiras ..................................................592.2 A “Rede das redes” e o ciberespaço................................................................672.2.1 As redes sociais e os vínculos on-line e off-line.......................................692.2.2 Uma nova esfera pública .........................................................................742.3 Capital na Umbanda: dentro e fora das redes .................................................803. INTERESSE PELA UMBANDA NA REDE ............................................................853.1. A Umbanda e a modernidade líquida..............................................................853.2 A Umbanda e o reencantamento do mundo ....................................................914. MANIFESTAÇÕES IDENTIFICADAS COM A UMBANDA: REVISÃO DECONCEITOS.............................................................................................................954.1 Propósito de Exu na Umbanda ........................................................................96
  • 4.2 Reais contribuições virtuais: formação de redes de amizade ecompartilhamento de conteúdo............................................................................1054.3 O reencantamento do mundo nos terreiros virtuais .......................................111CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................116REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................118
  • 12INTRODUÇÃOTendo em vista meu interesse pela pesquisa acadêmica, no final de 2010,estava às voltas com o meu primeiro projeto de iniciação científica junto ao CentroInterdisciplinar de Pesquisa (CIP) da Faculdade Cásper Líbero. Foi quando oprofessor Liráucio Girardi Jr., orientador dessa monografia e da pesquisa inicial,atentou para o fato de que as diversas possibilidades de estudo das redes poderiaser integrado a outro objeto que atraía muito a minha atenção naquele momento: aUmbanda.Meu interesse pela religião de Umbanda se deu de maneira crescente desde ainfância, ganhando até este momento certa projeção por razões que não cabemserem desenvolvidas aqui, mas que me levaram a querer me aproximar de ummundo que eu, inicialmente, considerava mágico - com seus rituais, suas muitasorigens, sua cosmogonia... Enfim, o universo sincrético no qual uma religião nascidaem solo brasileiro estava inserida.Essa tentativa de aproximação se deu inicialmente on-line, quando eu meconectava, em um sentido mais amplo, a pessoas que eu não conheciapessoalmente, mas que integravam minha rede social (virtual). Passei a observaras várias ligações que se formavam entre os nós constituintes dessa rede – minha ede tantas outras pessoas, já inseridas ou não no contexto religioso da Umbanda.Passei também a acompanhar blogs cujo conteúdo era produzido por umbandistas(sendo eles tanto os donos dos blogs como seus seguidores) e a segui-los noTwitter e em outras redes sociais. Passei, finalmente, a observar sua linguagem, amaneira como descreviam os rituais que eu pouco conhecia pessoalmente – já quenão basta frequentar um terreiro, por exemplo, para conhecer e saber descrevercada detalhe daquilo acontece dentro de uma gira ou “sessão” religiosa deUmbanda.Dessa forma, quis conhecer melhor esses dois ambientes comunicacionais e omodo pelo qual poderiam estabelecer múltiplas interconexões. A atenção deveriaestar voltada tanto para as práticas presenciais vistas no(s) terreiro(s), quanto para a
  • 13relação que as pessoas que os frequentavam eram capazes de estabelecer devariadas formas no mundo virtual.A monografia de iniciação científica (Saravirtuar: A Contribuição das RedesSociais para a Umbanda) foi a etapa fundamental da realização desta monografia deconclusão de curso de graduação. A partir dessa experiência consegui, de certaforma, “iniciar” minha entrada nesses dois mundos relacionados à Umbanda: ovirtual e o físico-espiritual.Quando falo em iniciação, em um primeiro momento, não estou aludindo aosentido ritualístico do termo, mas ao modo pelo qual procurei dar meus primeirospassos no universo de crenças, signos, práticas, discursos etc. que caracterizamessa religião.Para desenvolver a monografia de graduação, tive como ponto de partida essapesquisa anterior, mas além de me aprofundar nas principais questões tratadasnaquele projeto, acrescentei a ela observações de campo em um terreiro específico,o Gruel (Grupo Umbanda é Luz). Essa monografia, portanto, manteve algumasanálises já iniciadas na iniciação científica, mas procurou aprofundá-las, atualizá-lase expandi-las.A constatação da existência de diversos tipos de redes virtuais em torno daUmbanda tornou-se fundamental para o presente trabalho. Muitas das referênciassobre Umbanda foram encontradas na própria internet, seja nos textos postados emblogs e sites (escritos por umbandistas que compartilhavam experiências vividas nosterreiros); seja nas páginas sobre Umbanda no Facebook ou nos vídeos de giras noYouTube etc.Porém, antes de se falar da religião umbandista na internet e assim verificarcomo foram capazes de atrair comentários de umbandistas e não umbandistasinteressados no assunto procurei mostrar a formação off-line dessa rede religiosa,principalmente durante as sessões realizadas nos terreiros.A monografia foi dividida em quatro principais capítulos. No primeiro, “AUmbanda”, procurei fazer um panorama geral sobre a religião, desde suas várias
  • 14origens (passando também pelas origens do vocábulo Umbanda) como suafundação no Brasil em 1908. Neste capítulo também falo sobre termos que hojeainda se confundem com o ritual umbandista, como a ideia do “baixo espiritismo”, aQuimbanda em oposição à Umbanda, “macumba” e “esquerda”. É nele também queestão as observações de campo do terreiro Gruel.No segundo capítulo, “Do Real ao Virtual”, o grande exemplo que me permitiurelacionar a transposição dos rituais da Umbanda entre os espaços off-line e on-linefoi a análise de um programa (“Programa do Seu Tranca”) promovido por uma web-rádio (“Toques de Aruanda”), transmitido ao vivo pela internet. Nele, a entidade(Exu) Tranca Rua das Almas, conhecida entre umbandistas e não umbandistasincorpora em uma médium para responder a dúvidas dos internautas. Neste capítuloexploro alguns conceitos básicos referentes ao estudo da cibercultura e dociberespaço.No terceiro capítulo, “Interesse pela Umbanda na Rede”, investigo os possíveismotivos pelos quais a Umbanda tem gerado tanto interesse em um mundo modernoou pós-moderno que se desloca entre uma modernidade líquida e um“reencantamento” do mundo.No quarto e último capítulo, trabalho com a noção de terreiro virtual para falar demanifestações identificadas com a Umbanda na rede e, por meio delas, revisarconceitos anteriormente trabalhados. O que considero “identificável” com aUmbanda, nesse caso, não se trata, necessariamente, dos aspectos ritualísticospresentes nos terreiros, mas a certas imagens ou práticas que são associadas, dealguma forma, a essa prática religiosa. Um exemplo disso é o ato de acender velas,importante tanto para a Umbanda quanto para a Igreja Católica; uma ação queexperimenta também diversos tipos de “tradução” virtual, ou virtualmente possível.
  • 151. A UMBANDARefletiu a luz divinaCom todo seu esplendorÉ do reino de OxaláOnde há paz e amorLuz que refletiu na terraLuz que refletiu no marLuz que veio de AruandaPara tudo iluminarA Umbanda é paz e amorÉ um mundo cheio de luzÉ a força que nos dá vidaE à grandeza nos conduzAvante, filhos de féComo a nossa lei não háLevando ao mundo inteiroA bandeira de OxaláOs versos acima são entoados por umbandistas como o hino que sintetiza areligião que escolheram seguir. A Umbanda é, seguindo os versos, “luz divina”, que“é do reino de Oxalá”, que “refletiu na terra”, que “refletiu no mar”, que “veio deAruanda para tudo iluminar”, que é “paz e amor”, “mundo cheio de luz”, “força quenos dá vida e à grandeza nos conduz”, que tem uma “lei” e uma “bandeira”.Mas, afinal, o que é a Umbanda? O que a difere de tantas outras religiões e oque a torna, de fato, uma religião? Como surgiu a religião sobre a qual ainda hátanta confusão, entre adeptos e não adeptos?
  • 16Antes de abordar a discussão sobre Umbanda em rede, ideia norteadoradeste trabalho, é importante contextualizar a origem dessa religião capaz de causaruma profunda atração em alguns e tamanha aversão em outros.
  • 171.1 Surgimento da Umbanda: conceituação, termo e religiãoO ano de 1908 é reconhecido como o ano no qual a religião teria sidofundada, no Rio de Janeiro, por uma entidade (Caboclo) incorporada no médiumZélio Fernandino de Moraes. Embora ainda se entenda a Umbanda como integranteuma classificação que abrange outras manifestações religiosas, como “afro-brasileiras”, Zélio de Moraes, considerado o anunciador da Umbanda, nessaanunciação – durante a incorporação que descreverei adiante – caracteriza aUmbanda como uma religião fundada em solo brasileiro. O termo “afro”, por sua vez,relaciona-se com algumas de suas matrizes:Salientamos que ela [a Umbanda] tem na sua base de formação oscultos afros, os cultos nativos, a doutrina espírita kardecista, areligião católica e um pouco da religião oriental (Budismo eHinduísmo) e também da magia. (SARACENI, 2001, p.12)Ainda que haja muita confusão entre Umbanda e Espiritismo, estamos diantede duas coisas diferentes, que suscitam confusão entre os próprios umbandistas.Isso porqueembora o umbandista possa se identificar como espírita, o ritual dareligião de Umbanda não pode ser definido como ritual espírita, poisAllan Kardec, com clareza, afirma em sua codificação que Espiritismonão é religião, não tem ritual e não aceita a prática de magia. Kardecé cientista e pesquisador, um homem do mundo moderno-positivista,para quem a magia representava algo atrasado com relação àreligião, e esta atrasada com relação à ciência. (CUMINO, 2011,p.42)Allan Kardec é o pseudônimo do professor e escritor francês Hippolyte LéonDenizard Rivail. É comum ouvirmos e lermos o termo kardecistas para designar osseguidores da doutrina postulada por Kardec. E em que consiste, então, essadoutrina? Seus princípios, de acordo com aquele que os formulou, são:sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suasrelações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vidafutura e o porvir da Humanidade - segundo os ensinos dados porEspíritos superiores com o concurso de diversos médiuns - recebidose coordenados. (KARDEC, 1957).
  • 18Uma das obras mais importantes de Kardec é O Livro dos Espíritos1. Na introduçãoo autor situa as primeiras referências à comunicação com espíritos da seguinteforma:O primeiro fato observado foi o da movimentação de objetosdiversos. Designaremos vulgarmente pelo nome de mesasgirantes ou dança das mesas. Este fenômeno, que parece ter sidonotado primeiramente na América, ou melhor, que se repetiu nessepaís, porquanto a História prova que ele remonta à mais altaantigüidade, se produziu rodeado de circunstâncias estranhas, taiscomo ruídos insólitos, pancadas sem nenhuma causa ostensiva. Emseguida, propagou-se rapidamente pela Europa e pelas partes domundo. A princípio quase que só encontrou incredulidade, porém, aocabo de pouco tempo, a multiplicidade das experiências não maispermitiu lhe pusessem em dúvida a realidade. (KARDEC, 1957,grifos do autor)A partir do fenômeno das mesas girantes descrito por Kardec, podemos entenderoutra denominação que ainda é muito comum: mesa branca. Não raro encontramoso termo empregado como sinônimo da comunicação de médiuns com espíritos dedesencarnados (pessoas que já morreram) ao redor de uma mesa.Kardec fala em “espíritos superiores” como os responsáveis por “ensinar” osprincípios da doutrina espírita. A ideia de superioridade e seu oposto, a inferioridadedos espíritos está presente nas primeiras pesquisas de antropólogos e sociólogosanteriores à própria afirmação da Umbanda como religião. Trata-se da denominaçãode “baixo espiritismo”, que se propaga junto a outras oposições semânticas como“verdadeiro” e “falso” espiritismo.A partir de que bases e assumindo que formas uma distinção entre"falso" e "verdadeiro" pôde ser formulada pelos espíritas daFederação Espírita Brasileira? Antes de tudo, é preciso lembrar queuma distinção dessa natureza pode ser depreendida de algumascolocações do próprio Allan Kardec (1978), tido como o principalcodificador da doutrina espírita. O Livro dos Médiuns dedica umcapítulo inteiro a formas espúrias em que se envolve o "espiritismo",divididas em dois grandes grupos: as "fraudes" e as "charlatanices",as primeiras relacionadas aos enganadores e as outras aos queexploram pecuniariamente o exercício da "mediunidade". Como sepercebe, os espíritas eram os primeiros a reconhecer que em torno1KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1aed. francesa. 1aed, bilíngüe,trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.
  • 19da "mediunidade", efetiva ou simulada, desenvolviam-seapropriações irregulares e reprováveis. (GIUMBELLI, 2003, on-line,grifos do autor)Práticas mediúnicas identificáveis com cultos de matriz africana nãodemoraram a ser relegadas à categoria do “baixo espiritismo” e à outradenominação equivocada, a “macumba”.Magnani traz duas importantes referências à macumba, baseado em RogerBastide e Arthur Ramos, dois antropólogos que se dedicaram ao estudo dos cultosafricanos:No Rio de Janeiro, até o término da primeira década do século XIX,conservou-se a diferenciação por nações: as de origem sudanesa,principalmente nagôs, possuíam seus candomblés; as bantos, acabula. As religiões dos bantos eram mais permeáveis à influênciade outros cultos: dos candomblés nagôs, a cabula banto assimila aestrutura do culto e alguns orixás; em contato com outras crenças eritos adota os caboclos catimbozeiros, práticas mágicas européias emuçulmanas, os santos católicos e, finalmente, sofre o influxo doespiritismo, que fora introduzido no Brasil por volta da segundametade do século XIX. Está surgindo a macumba, descrita porArthur Ramos como o ‘sincretismo jeje, nagô, muçulmano, banto,caboclo, espírita e católico’ e que para Bastide era, a princípio, aintrodução de certos orixás e ritos das nações iorubás na cabuladas nações bantos. ‘Bastará que a esses dois elementos se juntemos espíritos dos caboclos, os santos do catolicismo, enfim, osdesencarnados do espiritismo, para que a macumba, tal qual existehoje em dia, nasça realmente’. (MAGNANI, 1991, p. 21, grifos meus).A macumba, no período descrito (segunda metade do século XIX) era umadesignação empregada para abranger uma série de cultos sincréticos que foramrelacionados à feitiçaria. Práticas que hoje fazem parte do cosmo religioso doCandomblé, por exemplo, também eram entendidas como “macumba”, talvez porserem demasiado estranhas à cultura católica dominante. Mas basta recorrermos aexpressões populares que ainda são ditas para sugerir que pouca coisa tenhamudado quando se emprega a palavra “macumba”. Isso porque, ainda hoje, ovocábulo é relacionado a outros, como despacho e oferenda, e carrega um forteapelo negativo (basta lembrar a expressão popular “chuta que é macumba!”).Os cultos de matriz africana, inicialmente restritos a negros escravizados e,portanto, proibidos pela Igreja Católica tiveram, em razão dessa resistência, de se
  • 20disfarçar, fato que gerou correspondências entre os Orixás e os santos católicos;correspondência, essa, que até hoje permanecem, a exemplo da identificação deSão Jorge com o Orixá Ogum e até mesmo com o Orixá Oxóssi. Ou, ainda, aimagem católica de Jesus Cristo em alguns Congás de terreiros, em representaçãoa Oxalá. Nessa mistura de elementos ritualísticos africanos com elementos cristãose também de rituais indígenas é que a Umbanda estava surgindo.Renato Ortiz fala da Umbanda como o “embranquecimento” de algumaspráticas do Candomblé, deixando para este último a preservação da herançaafricana, enquanto na Umbanda os cultos aos Orixás são misturados a outros cultos.Segundo o autor, “a Umbanda aparece como uma solução original; ela vemtecer o liame da continuidade entre as práticas mágicas populares à dominâncianegra e a ideologia espírita. Sua originalidade consiste em reinterpretar os valorestradicionais, segundo o novo código fornecido pela sociedade urbana e industrial. Oque caracteriza a religião é o fato de ela ser o produto das transformaçõessocioeconômicas que ocorrem em determinado momento da história brasileira”(ORTIZ, 1991, p. 48).Ele insiste na contextualização social do surgimento da Umbanda, que “nascejustamente no momento em que a sociedade de classes se consolida”. Um traçomarcante para Ortiz é a forte presença da classe média na formação da religiãoumbandista, decisiva para tornar a Umbanda “o resultado de um movimento dialéticode embranquecimento e empretecimento”. Assim, para o autor,como todo sistema simbólico, a Umbanda tende a legitimar aobjetivação dos elementos de ordem sagrada que se encaixamdentro da lógica do seu universo religioso. Esse esforço delegitimação, de explicação do mundo, é necessário, pois não se deveesquecer que a religião umbandista é um novo valor que emerge noseio da sociedade brasileira. Isso faz com que a religião se apropriedos valores dominantes da sociedade global como elementoslegitimadores, num sentido que muitas vezes se assemelha àquiloque os antropólogos chamaram de ‘fundação do mundo’ quandoestudaram os mitos das sociedades primitivas. O processolegitimador situa-se assim dentro de uma perspectiva histórica; eledetermina o momento em que a religião busca um status, emconformidade com o conjunto de valores da sociedade brasileira.Encontramo-nos portanto diante de um processo de integração, masde uma integração legitimada pela sociedade; daí a recusa e o horrordas práticas negras e dos preconceitos de classe. A análise dodiscurso umbandista mostra como se desenvolve o trabalhoda intelligentzia religiosa na busca de um status que corresponda aos
  • 21valores dominantes da sociedade global. Ela ensina ainda de queforma estes valores dominantes agem como elementos e legitimaçãode uma religião emergente. (ORTIZ, 1991, p. 163, grifos do autor).Já Roger Bastide enxerga na Umbanda “a única forma possível de adaptaçãoreligiosa da comunidade negra à urbanização e à industrialização”. (1971, p. 302).Se dentro do cosmo religioso da Umbanda há várias origens, por vezesimprecisas essa imprecisão também se dá na medida em que teóricos tentambuscar a origem da palavra “Umbanda”.No documento referente ao Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo deUmbanda2, publicado em 1942, Diamantino Coelho Fernandes apresentou a tese OEspiritismo de Umbanda na Evolução dos Povos, expondo uma origem sânscritapara a palavra:O vocábulo UMBANDA é oriundo do sânscrito, a mais antiga e polidade todas as línguas da terra, a raiz mestra, por assim dizer, dasdemais línguas existentes no mundo. Sua etimologia provém deAUM-BANDHÃ, (om-bandá) em sânscrito, ou seja, o limite noilimitado. O prefixo AUM tem uma alta significação metafísica, sendoconsiderado palavra sagrada por todos os mestres orientalistas, poisque representa o emblema da Trindade na Unidade, pronunciado aoiniciar-se qualquer ação de ordem espiritual, empresta à mesma asignificação de o ser em nome de Deus. [...] BANDHÃ, (Banda)significa movimento constante ou força centrípeta emanante doCriador, a envolver e atrair a criatura para a perfectibilidade. Umaoutra interpretação igualmente hindu, nos descreve BANDHÃ(Banda) como significando um lado do conhecimento, ou um dostemplos iniciáticos do espírito humano.O escritor umbandista Alexandre Cumino, autor do livro História da Umbanda,traz um levantamento teórico de outras origens do vocábulo, como a origem dalíngua Quimbundo (de dialetos Bantos falados em Angola, Congo, Guiné e outros)sugerida por Cavalcanti Bandera; origem tupi mencionada em entrevistas feitas porJoão de Freitas; origem sânscrita também sustentada por Ramatis, dentre muitasoutras origens (CUMINO, 2011, p. 91-103).2Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, Rio de Janeiro, 19 a 26 de outubrode 1941./Jornal do Commercio, RJ, 1942.
  • 22Há também a herança oriental, que fica clara nas palavras de Baptista deOliveira na introdução do mesmo documento referente ao Primeiro Congresso deUmbanda:Umbanda veio da África, não há dúvida, mas da África Oriental, ouseja do Egito, da terra milenária dos Faraós, do Vale dos Reis e dasCidades sepultadas na areia do deserto ou na lama do Nilo.(PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DEUMBANDA, 1942).Mas se é difícil precisar de onde exatamente “veio” a Umbanda, não é tãodifícil falar de sua fundação, ou seja, do estabelecimento da Umbanda como religião,que partiu de uma incumbência que teria recebido o médium brasileiro ZélioFernandino de Moraes.Nascido em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em 1891, ele teria sidoacometido por uma paralisia inexplicável, incompreendida pelos médicos e porpadres. Fatos estranhos começaram a acontecer quando ele tinha dezessete anos.“Ora ele assumia a estranha postura de um velho, falando coisas aparentementedesconexas, como se fosse outra pessoa e que havia vivido em outra época, e emoutras ocasiões, sua forma física lembrava um felino lépido e desembaraçado queparecia conhecer todos os segredos da natureza, os animais e as plantas”.3Zélio de Moraes foi submetido a três exorcismos, realizados por um tio dele,que era padre (já que a família acreditava estar diante de uma possessãodemoníaca), mas não surtiram efeito. As manifestações prosseguiram até que Zéliofoi encaminhado à recém-fundada Federação Kardecista de Niterói.A Federação era presidida pelo Sr. José de Souza, médium clarividente(detentor da capacidade de “ver” espíritos), que começou um diálogo com o espíritoque se manifestava no corpo do jovem assim que o viu.O espírito, então, contou ao médium que tinha sido padre em uma de suasencarnações, mas foi acusado de bruxaria e sacrificado na fogueira da Inquisiçãopor ter previsto um terremoto que destruiu a capital portuguesa de Lisboa em 1755.Mas em sua última existência física, segundo ele, Deus lhe havia concedido “o3Texto de Ronaldo Antônio Linares, presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, publicadono Jornal U&C, nº 92, em dezembro de 1995; referente a uma entrevista de Linares com o Caboclodas Sete Encruzilhadas, incorporado em Zélio de Moraes.
  • 23privilégio de nascer como um caboclo brasileiro” (entenda-se por caboclo umaentidade fundamental na Umbanda, representante dos espíritos de indígenas).Ele se identificou com o nome de Caboclo das Sete Encruzilhadas, e justificoua escolha de seu nome dizendo que para ele não existiriam “caminhos fechados”. OCaboclo afirmou ainda ter uma importante missão: “trazer a Umbanda, uma religiãoque harmonizará as famílias e há de perdurar até o final dos séculos”.4A Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade foi a primeira a ser fundada, nodia seguinte à primeira manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Outrassete tendas foram criadas entre 1918 e 1935 e, mais tarde, outras dezenas detendas foram criadas com o intuito de disseminar a Umbanda em todo o Brasil.As práticas identificadas com a feitiçaria, que já existiam antes da fundaçãoda Umbanda por Zélio de Moraes, também foram mencionadas pela fala do Caboclodas Sete Encruzilhadas, como podemos ver no texto publicado em 26 de agosto de2008 na página na internet da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade5:No dia seguinte, na rua Floriano Peixoto, 30, na casa de Zélio deMoraes em São Gonçalo, próximo das vinte horas, estavampresentes membros da federação espírita, parentes, amigos, vizinhose uma multidão de desconhecidos e curiosos, para verificar osacontecimentos.Pontualmente às vinte horas, o Caboclo das Sete Encruzilhadasincorporou e iniciou o novo culto, proferindo as seguintes palavras:- Aqui inicia um novo culto, em que os espíritos de pretos velhosafricanos, que haviam sido escravos e que desencarnados nãoencontram campo de ação nos remanescentes das seitas negras, jádeturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhosde feitiçaria e os índios nativos da nossa terra, poderão trabalhar embenefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor,raça, credo ou posição social.Perguntaram, os presentes qual seria o nome do novo culto.- O novo culto se chamará Umbanda.Ainda perguntam:- O que quer dizer Umbanda?O espírito responde:- A manifestação do espírito para a caridade.4Trechos extraídos do texto publicado no site da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade,disponível em http://www.tendaespiritanspiedade.com.br/>. Acessado em 21 de outubro de 2012.5Site da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Disponível em:http://www.tendaespiritanspiedade.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=62&Itemid=161>. Acessado em 21 de outubro de 2012.
  • 24Ainda lhe perguntaram qual seria a base de seu novo culto e elerespondeu:- A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, será acaracterística principal deste culto, que tem base no Evangelho deJesus, e Cristo como mestre supremo.Após estabelecer as normas que seriam utilizadas no culto e comsessões diárias das 20 às 22 horas, determinou que os participantesdevessem estar vestidos de branco e o atendimento seria gratuito.Ainda falou como se chamaria o novo grupo:- O grupo irá se chamar Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade,pois, assim como Maria acolhe em seus braços o filho, a Tendaacolherá aos que a ela recorrerem nas horas de aflição.Ainda respondeu perguntas de sacerdotes que ali se encontravamem latim e alemão. O Caboclo foi atender um paralítico e um cego,dizendo:- Avistem todos: Se tem fé levanta, que quando chegardes a mimestarás curado.Assim iniciou as primeiras curas na nova religião. Após trabalharfazendo previsões, passes e doutrinas, informou que deviera seretirar, pois outra entidade precisava se manifestar.Após a “subida” do Caboclo, incorporou uma entidade que pareciaum senhor velho, saindo da mesa se dirigiu a um canto da sala ondepermaneceu agachado. Sendo questionado do porquê não se sentarna mesa respondeu:- Nego num senta não meu sinhô, nego fica aqui mesmo. Isso écoisa de sinhô branco e nego deve arrespeitá.Após insistência ainda completou:- Num carece preocupa não. Nego fica no toco que é lugar di nego.E assim continuou dizendo outras coisas, mostrando a simplicidade,humildade e mansidão daquele que, trazendo o estereótipo do preto-velho, identificou-se como Pai Antônio. Logo cativou a todos com seujeito. Perguntaram-lhe se ele aceitaria algum agrado, ao querespondeu:- Minha cachimba, nego qué o pito que deixou no toco. Mandamureque busca.Todos ficaram perplexos, pois sem saber, estavam presenciando asolicitação do primeiro elemento a ser utilizado como material detrabalho dentro da Umbanda. Na semana seguinte, sobraramcachimbos, visto que todos os que presenciaram as palavras de PaiAntônio trouxeram o elemento por ele solicitado, escolhendo ele omais simples de todos. Assim, o cachimbo foi instituído na linha depretos - velhos.No dia seguinte, formou-se verdadeira romaria em frente à casa dafamília Moraes. Cegos, paralíticos e médiuns, que eram tidos comoloucos, foram curados. (2008, on-line, grifos meus)
  • 251.2 Umbanda em termosOs umbandistas têm como princípio norteador de suas práticas a caridade,como pudemos ver nas palavras do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Os terreiros deUmbanda recebem pessoas de todas as classes sociais para exercer a caridade,que se dá por várias formas, seja pela comunicação com as entidades incorporadasnos médiuns; por passes dirigidos por tais entidades; e até mesmo por trabalhos oudescarregos, como veremos em um capítulo posterior. As entidades na Umbanda,segundo Magnani,são espíritos de mortos que descem do astral onde habitam para oplaneta Terra – considerado lugar de expiação – onde, através daajuda dos mortais, ascendem em seu processo evolutivo em buscada perfeição. (MAGNANI, 1991, p. 30)Se os termos “macumba” e “baixo espiritismo” já eram explorados antesmesmo da instituição da Umbanda como religião, depois de sua formaçãoesbarramos em outro termo: Quimbanda. Considerada uma ramificação daUmbanda para alguns autores e o oposto da religião umbandista para outros, o fatoé que a Quimbanda também carrega elementos da magia.São sempre os escritores umbandistas que falam da Quimbanda emtermos de unidade que se opõe à Umbanda. Retendo-se essa idéiade ‘sistematização num conjunto coerente’, pode-se analisar aoposição Umbanda/Quimbanda numa perspectiva durkheimiana queopõe a religião à magia. Muito embora esta distinção seja difícil deser estabelecida, pode-se dizer que a magia tende para um agregadode ritos pouco sistematizados dentro de uma totalidade, tendo porprincipal característica a eficácia; neste sentido as práticas mágicassão multiplicadas ao infinito. (ORTIZ, 1991, p. 145, grifo do autor).Agrupou-se à Quimbanda entidades consideradas também como “deesquerda”, a exemplo de Exus e sua equivalência feminina, as Pombas Giras (asentidades consideradas “de direita” são Caboclos, Pretos Velhos, etc.). Sobre aQuimbanda, a visão antropológica de Roger Bastide a considerou “uma forma deespiritismo às avessas”:
  • 26O macumbeiro tornou-se sinônimo de feiticeiro, e de feiticeiro temívelou malvado. Umbanda, em vez de mostrar que a macumba é umareligião, aceita como um dado real essa concepção popular errônea,a Quimbanda, identificada com a macumba, se torna uma forma deespiritismo às avessas, uma magia negra que trabalha com osselvagens desencarnados, as almas penadas e os esqueletos. Sob apresidência das duas mais temíveis divindades negras, Exu, deusdas encruzilhadas perdidas, e Omulu, deus das varíolas (BASTIDE,1971, p. 447).Mencionar a concepção de Quimbanda analisada por Roger Bastide, noentanto, não é suficiente quando se aborda a controversa figura de Exu, porexemplo. Isso porque, ao mesmo tempo em que Exu torna-se sinônimo de entidade“temível”, conforme cita Bastide, Exu tem importância crucial no ritual umbandista,como mostrarei adiante.Uma ressalva necessária quando se fala em Exu é lembrar que também sefala em Exu como sendo um Orixá no Candomblé, enquanto na Umbanda Exu é umguardião. A entidade-Exu na Umbanda, segundo uma visão partilhada por muitosumbandistas, está “em evolução” (ou “ascensão”). Apesar disso, Exu aparece comoguardião de mistérios, capaz de “praticar o bem” assim como as entidades que seconsidera de direita.Embora exista no candomblé uma tênue separação entre bem e mal,pode-se afirmar que ela se refere exclusivamente aos ritos, não seaplicando porém ao cosmo religioso propriamente dito. Já naUmbanda, o universo sagrado se transforma, tornando-se os orixásguardiões das legiões e falanges espirituais, mensageiros da luz.(ORTIZ, 1991, p. 131)As “legiões” e “falanges” espirituais mencionadas por Ortiz advêm de umagrupamento, uma classificação que reúne uma série de entidades que semanifestam na Umbanda, cada uma chefiada ou “comandada” por uma entidade ouum Orixá específico.Nesse agrupamento encontra-se a polêmica denominação das chamadassete linhas de Umbanda. Polêmica, pois, assim como a origem do vocábulo“Umbanda”, muitos autores que se propuseram a estudar a religião umbandistatrouxeram sua própria visão sobre o que e quais seriam essas “sete linhas”. Leal deSouza, o primeiro autor umbandista, escreve em 1933 o livro Espiritismo, Magia e as
  • 27Sete Linhas de Umbanda, ou seja, já na primeira obra sobre Umbanda encontramosuma referência clara a essas sete linhas, que inspirariam vários outros autores emobras posteriores.Uma dessas referências foi explorada por Ronaldo Linares, presidente daFederação Umbandista do Grande ABC (mantenedora do Santuário Nacional daUmbanda)6:1. “A primeira linha é caracterizada pela cor amarelo ouro bemclarinho e que seria a cor da Tenda de Santa Bárbara. O Orixácorrespondente é INHAÇÃ…”.2. “A segunda linha é caracterizada pela cor rosa, correspondente atenda Cosme e Damião… O Orixá correspondente é IBEJI…”.3. “A terceira linha é caracterizada pela cor azul. Com vários SantosCatólicos sincretizados com ela, a saber: Nossa Senhora da Glória,Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Navegantes eNossa Senhora da Guia. O Orixá que corresponde é IEMANJÁ…”.4. “A quarta linha é caracterizada pela cor verde, representando aTenda São Sebastião… O Orixá correspondente é OXOSSE…”.5. “A quinta linha é caracterizada pela cor vermelho, representando aTenda São Jorge. O orixá correspondente é OGUM.”6. “A sexta linha é caracterizada pela cor marrom, representando aTenda São Gerônimo. Seu Orixá correspondente é XANGÔ…”.7. “A sétima linha é caracterizada pela cor violeta ou roxo,corresponde a Tenda de San’Ana… O Orixá correspondente éNANÃ…”8. “Finalmente temos a cor negra, corresponde a Tenda de SãoLázaro. É a ausência da cor e da luz da vida. Zélio de Moraes explicaque as cores branco e preto não fazem parte das sete linhas, pois obranco que é a presença da luz, existe em todas elas e o negro, queé justamente a ausência da luz, está justamente na ausência delas…O Santo Católico São Lázaro é sincretizado com o Orixá ABALUAÊou OMULU… Este Orixá é conhecido ainda pelos nomes deXAPANÃ, ATOTÕ, e BABALÚ.”6Extraídas por Alexandre Cumino do livro Iniciação à Umbanda, de Diamantino Fernandes Trindade.
  • 289. “O Orixá maior da Umbanda é OXALÁ… o Chefe para o qualconvergem todas as linhas, assim perfeitamente identificado nainvocação com Jesus Cristo.”7Torno a dizer que se trata de uma visão em torno da divisão teórica daUmbanda em sete linhas principais. É comum lermos que, para cada uma dessassete linhas existam agrupamentos de seus Exus e suas Pombas Girascorrespondentes. No entanto, não me cabe neste trabalho explorar essaclassificação teórica complexa. Interessa-me mais mostrar como se dá o contatocom essas entidades no ritual umbandista prático, a fim de, posteriormente, discutira comunicação com tais entidades na internet e a maneira como umbandistas e nãoumbandistas falam a seu respeito nas redes sociais, por exemplo.A escolha de um terreiro de Umbanda no qual eu pudesse observaratentamente o ritual foi determinante para os resultados dessa pesquisa, antes,ainda, de abordar a ideia de “como se fala” ou “como se pratica” Umbanda na rede.7Disponível em http://raizculturablog.wordpress.com/2008/03/28/sete-linhas-de-umbanda-parte-i-por-alexandre-cumino/>. Acessado em 21 de outubro de 2012.
  • 291.3 Gruel – Grupo Umbanda é LuzO objetivo deste subcapítulo é apresentar as principais características queenvolvem uma gira de Umbanda, a partir das observações etnográficas no GRUEL(Grupo Umbanda é Luz) 8, localizado na Avenida das Cerejeiras, número 429, nobairro de Vila Maria. Acompanhei as sessões de março a setembro de 2012, com afrequência de dois sábados por mês.1.3.1 Mediunidade e a figura do dirigenteA mediunidade é uma questão central para adeptos de religiões que lidamcom o espiritual, seja pelo contato com os espíritos de mortos, ou com Orixás. Meuobjetivo aqui, ao mencionar a ideia da mediunidade, é entendê-la no contexto daprática da Umbanda nos terreiros para, mais tarde, contextualizá-la na prática daUmbanda na rede.No entanto, pude perceber que a concepção de “mediunidade” pode variarentre os médiuns. Isso porque há umbandistas que acreditam, por exemplo, queaqueles que, dentro do terreiro, exercem a função de cambones (que atuam comoajudantes dos médiuns) o fazem porque “não têm mediunidade”, isto é, não dispõemda faculdade necessária para a “incorporação”; enquanto outros, como osintegrantes da corrente do Grupo Umbanda é Luz, creem que todos eles sejammédiuns, não apenas aqueles que incorporam os Orixás e as entidades.Uma dificuldade encontrada no decorrer da pesquisa foi a de definir commaior clareza a noção de “mediunidade”. Como explicar algo tão complexo, nocontexto acadêmico? Como diferenciar as várias visões sobre o que é ser médium eencontrar nelas um elemento comum? Procurei recorrer a uma visão mais recorrentesobre a mediunidade encontrada tanto em livros como em conversas com colegas8Disponível em <http://gruel.com.br/>
  • 30kardecistas, umbandistas ou mesmo durante a pesquisa de campo sobre a qualfalarei melhor no decorrer deste capítulo9.Embora este trabalho esteja necessariamente inserido no contextoacadêmico, não se pode desprezar, ao menos para fundamentar essa afirmação emtorno da mediunidade, a obra do médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier,já que os dizeres de seus livros, muitos deles ditados por um espírito desencarnadosão endossados por aqueles que lidam com questões espirituais. Sobre amediunidade ser inerente ao ser humano, menciono este trecho do livro NosDomínios da Mediunidade, ditado pelo espírito André Luiz:Todos somos instrumento das forças com as quais entramos emsintonia. Todos somos médiuns, dentro do campo mental que nos épróprio, associando-nos às energias edificantes, se o nossopensamento flui na direção da vida superior, ou às forçasperturbadoras e deprimentes. (XAVIER, 1955, on-line)Nas palavras do espírito, ditadas a Chico Xavier “todos somos instrumentodas forças com as quais entramos em sintonia”, o que não quer dizer queprecisamos incorporar (no sentido etimológico, de “dar corpo a”) tais “energias” (as“edificantes” ou as “perturbadoras”) para senti-las, percebê-las. Diante disso, o quese pode observar é que ser médium não significa, necessariamente, emprestar ocorpo a espíritos.Todo ser humano, independentemente de suas crenças, teria a capacidadede perceber sinais do mundo espiritual. Tais sinais se dão de várias formas (sonhos,clarividência, psicografia, etc.) e em vários graus: em algumas pessoas os sinais sãomais intensos; em outras, menos, quase imperceptíveis.Considera-se também que existam vários tipos de médiuns. Dentro de umterreiro, por exemplo, pode haver os médiuns responsáveis por incorporar, de fato,os chamados guias (Orixás e entidades) para a consulta ou para os passes,emprestando seus corpos físicos para a comunicação com o espiritual. Mas hátambém médiuns responsáveis por orientar os consulentes, agindo como“tradutores” das práticas rituais que, muitas vezes, para o assistido que não está
  • 31muito habituado a elas (como um consulente que visita o espaço pela primeira vez),necessita de alguém que as explique. Esse último médium pode não incorporar, mastem a capacidade de entrar em contato com seus guias intuitivamente, semnecessariamente emprestar-lhes seu corpo.A mediunidade, como já foi dito, relaciona-se a um conjunto de práticas muitoamplo. A forma de contato entre o plano físico e o espiritual pode variar dokardecismo para a Umbanda – como mencionou Alexandre Cumino ao dizer quenão se deve entender o ritual umbandista como sendo um ritual espírita, quecarregaria outros elementos em sua constituição - ou para o Candomblé(principalmente pela natureza dos espíritos que se manifestam nas diferentesreligiões), mas a partir de então, feitas as breves considerações sobre amediunidade, interessa-me focar, agora sim, no Grupo Umbanda é Luz, dentro doqual incorporar guias não é uma condição para o trabalho mediúnico nas giras,como se denominam os rituais da Umbanda.O título que dei a esse subcapítulo, Mediunidade e a figura do dirigente colocaem discussão, ainda que breve duas questões importantes para uma pretensapesquisa que tenha a Umbanda em seu tema. São elas a mediunidade, da qual jáfalei, e a figura do dirigente do terreiro, ou seja, o pai de santo (Babalorixá) ou mãede santo (Iyalorixá)10.O papel do dirigente é central não só para este capítulo, mas talvez para estapesquisa inteira, já que torna a Umbanda peculiar, como bem notou Birman ao dizerqueno plano da organização social a religião umbandista pode serconsiderada um agregado de pequenas unidades que não umconjunto unitário. Não há, como na Igreja Católica, um centro bemestabelecido que hierarquiza e vincula todos os agentes religiosos.Aqui, ao contrário, o que domina é a dispersão. Cada pai-de-santo ésenhor do seu terreiro, não havendo nenhuma autoridade superiorpor ele reconhecida. Há, portanto, uma multiplicidade de terreirosautônomos, embora estejam unidos na mesma crença. (BIRMAN,1985, citada por CUMINO, 2011, p. 298)10Babalorixá e Iyalorixá são sinônimos de pai e mãe de santo em Iorubá, sendo Baba = pai – Ori =cabeça – Ixá = guardião, assim como Iyalorixá é a denominação da mãe de santo (Yá = mãe).
  • 32Não que isso signifique que não haja hierarquia dentro de um terreiro. Háterreiros que classificam seus integrantes hierarquicamente ainda que asuperioridade do dirigente se mantenha (denominações como pai pequeno e mãepequena são exemplos disso; sendo eles os “substitutos” dos pais e mães de santoquando estes se ausentarem, dentre outras funções que lhes cabem). Birmanconstata que não haja uma organização central para Umbanda tal como o Vaticanopara a Igreja Católica.O que existe são as federações de Umbanda; porém, estar ligado a umadeterminada federação (como a Federação Umbandista do Grande ABC, aFederação Brasileira de Umbanda ou a Federação de Umbanda do Brasil) não écondição determinante aos trabalhos em um terreiro. A própria existência de mais deuma federação já deixa isso claro.Voltando ao Grupo Umbanda é Luz, os médiuns da corrente enxergam no paide santo não só o desempenho do papel do líder, ou do dono do espaço do terreiro,mas também as qualidades necessárias para exercer tal papel, pois é o pai de santoo responsável por criar os fundamentos do terreiro a partir da interpretação de suaraiz
  • 331.3.2 “Umbandas” e o referencial teóricoO Gruel é uma “escola iniciática da raiz Congo”. Nas palavras do Babalorixá,Marco Antonio dos Santos, “todo terreiro de Umbanda é uma Escola iniciática, poisse organiza a partir de um referencial teórico que justifica suas práticas, essereferencial teórico é chamado de raiz” 11.O conceito de raiz na Umbanda justifica a escolha de apenas um terreiro parafundamentar a parte etnográfica deste trabalho. É na raiz umbandista, ou seja, énesse referencial teórico mencionado pelo Babalorixá que se encontram asdiferenças e semelhanças entre os rituais de Umbanda. O dirigente de um terreiro éo responsável por respeitar determinada raiz, por colocar em prática o que aprendeuna religião com aqueles que o iniciaram no culto e ter a capacidade de sustentar taispráticas, a fim de ensiná-las a seus filhos. Cada raiz de Umbanda tem suaspeculiaridades, seu conjunto de práticas que seus adeptos deverão sustentar.O Gruel segue a raiz Congo, isto é, o referencial teórico Congo, implantadopela entidade conhecida como Pai Congo, incorporada no médium José SanchesHaro na década de 197012. Cada detalhe da gira, dos elementos do Congá àmaneira como os banhos devem ser preparados pelos médiuns deve estar deacordo com tal referencial teórico.A primeira característica que me chamou a atenção no ritual do Gruel foi aincorporação de Orixás. Isso porque, em minhas pesquisas teóricas sobreUmbanda, encontrei diferenciações ritualísticas entre Umbanda e Candombléexatamente nesse ponto, na ideia de que no Candomblé os Orixás “baixam”, mas naUmbanda, não.Tal diferenciação, porém, carece de embasamento, já que no Gruel, porexemplo, os médiuns incorporam Orixás (ainda que estes venham não paraconsultas, mas para os chamados “trabalhos” como descreverei adiante).11Disponível em <http://gruel.com.br/wp-content/uploads/2011/10/A-raiz-Congo-e-a-Escola-Inici%C3%A1tica.pdf>12Idem à nota anterior.
  • 34A escolha deste terreiro para minhas observações de campo tem comoobjetivo mostrar um exemplo de um ritual particular (entenda-se “particular” nãocomo fechado, mas como próprio, ou específico) de Umbanda. Por razõesmetodológicas, visitar terreiros, além do Gruel, que seguissem referenciais teóricosdistintos me tornaria responsável por diferenciá-los a todo o momento. Mas a religiãode Umbanda bebe em tantas fontes (católica, africana, indígena, espírita...), temtantos elementos que diferenciam um terreiro do outro, que talvez fosse melhor falarem “Umbandas”, como se esse plural contivesse as várias raízes de uma mesmareligião.
  • 351.3.3 As giras no GruelA incorporação dos guias, bem como as giras como um todo acontecenecessariamente dentro do terreiro. Terreiro é como são denominados os pequenosgrupos que congregam em torno de uma mãe ou pai de santo (PRANDI, 2003, on-line), mas não apenas isso: é o terreiro o espaço adequado para o ritual. Não seincorporam guias espirituais em casa, na rua ou em qualquer outro lugar que nãoseja o terreiro (discutirei melhor essa questão no capítulo a seguir quandomencionar um estudo de caso de um programa de web-rádio).No Gruel as giras acontecem duas vezes por semana: às quartas-feiras, às19h30, e aos sábados às 17h. A distribuição de senhas é indispensável para que oassistido possa se consultar com uma entidade através do médium. A senha écomposta por um número (impresso) e um nome, que indica a equipe à qual omédium pertence. Cada equipe tem um número determinado de senhas, que sãodistribuídas cerca de duas horas antes do início das sessões.As consultas são gratuitas, individuais e requerem uma senha. Porém, noterreiro também são realizados os passes, que não necessitam de senha; paratomar passe os consulentes devem formar uma fila na entrada do terreiro. Aentidade que dá passes, entretanto, não conversa com o consulente (essacomunicação se dará nas consultas).O terreiro funciona na parte de baixo da casa do Babalorixá. Os consulentesaguardam em filas pelo início dos trabalhos, até que um dos médiuns os chame(pela senha para consulta; ou autorizando a entrada seguindo a sequência da fila, separa o passe). Na fotografia abaixo, reproduzida do site do Gruel, pode-se observara fila para o passe na entrada do terreiro e um dos médiuns carregando umaprancheta utilizada para organizar as consultas.
  • 36Além das consultas e dos passes, no Gruel também são realizadas outrasatividades, como descarrego, energização e transporte. Por uma opçãometodológica, conduzi minha observação para alguns detalhes do ritual que meajudassem a compreender as possibilidades de transposição desses mesmosdetalhes para a Web.Por essa razão, explicar em que consiste cada ritual particular neste terreirofoi um enorme desafio por requerer uma experiência antropológica maior do queaquela que geralmente é oferecida ao jornalista em termos de pesquisa de campo.Ao tentar descrever um ritual de Umbanda, percebi que o exercício da descrição apartir da observação torna-se muito mais amplo, já que descrever o que vejo édiferente de saber exatamente a razão e eficácia de cada ritual que compõe umagira, como o ritual de defumação, Ipadê, etc., bem como saber a maneira correta demanipular cada detalhe de acordo com os ensinamentos da raiz.Achei prudente fazer essa ponderação, pois, antes de analisar detalhes quese referem direta ou indiretamente ao ritual de Umbanda na internet, falar da religião
  • 37de Umbanda “genericamente” me parece arriscado. Certas peculiaridades dos rituaisque compõem uma gira pertencem, muitas vezes, a uma herança passada de paipara filho (de santo, no caso) e a exposição virtual pode esvaziar toda uma tradição.Podemos encontrar bons exemplos dessa questão nos jogos divinatóriosoriginalmente africanos, como é o caso do Opele-Ifá, que são de conhecimentoexclusivo dos Babalawôs, sacerdotes conhecedores dos mistérios que cercam essaprática. Eles são os responsáveis por preservar o segredo e transmitir seusconhecimentos apenas aos iniciados. No entanto, é comum vermos anúncios nainternet de consultas divinatórias “on-line”, como é o caso dos sites que oferecemconsultas “grátis” dos búzios13. (Há também os cursos virtuais que oferecemapostilas dessas artes divinatórias14; entretanto, estas devem ser compradas porquem estiver interessado).A internet pode funcionar, ainda, como um canal para solicitar consultas pore-mail, por telefone ou até “marcar uma consulta presencial diretamente no terreiro”,como o site de Mãe Preta Iyalorixá15. O interessado em uma breve consulta nãopresencial deve preencher os campos obrigatórios com seus dados (sexo, idade,data de nascimento, cidade e estado) e quase que imediatamente recebe, por e-mail, seu “Orixá de proteção”. A diferença desse exemplo de Mãe Preta, no que dizrespeito ao esgotamento de uma tradição antiga que se quer preservada etransmitida apenas àqueles que pertencem ao culto é que ela não explica como seconsulta o oráculo: essa tarefa cabe a ela enquanto Iyalorixá. Essa práticarepresenta um “risco”, porque, via internet, como é possível saber se ela, de fato,manipulou os búzios? Se ela, de fato, o fez no território sagrado do terreiro? Ouainda, se ela detém o conhecimento necessário para fazê-lo?Mencionar tais exemplos não significa necessariamente coloca-los à prova, oque ficará mais claro no capítulo seguinte, no qual abordarei um estudo de caso de13Disponível em <http://horoscopovirtual.uol.com.br/jogo-de-buzios.asp> (acessado em 23 de outubrode 2012); consulta virtual gratuita do “jogo de búzios” para a qual basta que mentalizemos perguntase cliquemos com o mouse sobre as conchas, que teremos imediatamente a “resposta” do oráculo.14Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=fTjwUkCQ8Qg>. Acessado em 23 de outubro de2012.15Disponível em <http://www.maepreta.com/ficha.php>. Acessado em 23 de outubro de 2012.
  • 38consulta on-line com uma entidade de Umbanda. Minha intenção ao descrevê-los émostrar que o advento da internet traz possibilidades de comunicação que vão alémdo presencial, quando pensamos na ideia de se comunicar com o espiritual on-line(seja essa comunicação eficaz ou não, o que vai depender da fé e do conhecimentode quem estiver do outro lado do computador, iPad, celular, etc.).Contudo, uma vez que observei as práticas rituais off-line e alguns modos pormeio dos quais essas práticas foram transpostas para o “mundo virtual”, não poderiadeixar de abordar também os problemas dessa transposição (ou tradução),principalmente no que diz respeito à preservação de tradições. Neste caso:As relações que se constroem na Web propõem uma possibilidadede angariar os saberes desta cultura [africana], desde quelegitimados por um saber letrado. Não obstante, essa cultura revela-se apenas naquilo que se pode vivenciar no seio dacomunidade. (...) Hoje essa manifestação religiosa encontra-se noâmbito da territorialidade e da temporalidade ocidental capitalista.Decerto que a inserção das religiões afro-brasileiras na Internetrefletem um longo processo de plasticidade, adaptação etransigência no ambiente da metrópole contemporânea. (SANTOS,2001, on-line, grifo meu)As atividades que pude observar no Gruel estando de fora da corrente foramessenciais para esse trabalho, mas o conhecimento de determinadas práticas alirealizadas cabe aos médiuns da corrente, que as vivenciam, sendo que algumasdessas práticas – como a consulta oracular – são exclusivas do Babalorixá.Procurarei descrever algumas das práticas que pude observar no Gruel enquantopesquisadora, que vão desde o comportamento dos médiuns até o desempenho dostrabalhos que realizam.Ainda do lado de fora do terreiro, na entrada, vemos um espaço reservadoaos guardiões que, como mencionado anteriormente, são os Exus e as PombasGiras. Todos os médiuns, ao chegar ao terreiro, devem, antes de adentrar o espaçosagrado, fazer uma saudação frente a este espaço, conhecido por umbandistascomo “tronqueira” ou “casa de força”.
  • 39Antes de a gira começar, o Babalorixá conduz um procedimento durante oqual os médiuns permanecem ajoelhados, de frente para o Congá, entoando umacantiga em Iorubá16para saudar os ancestrais. Segundo Marco Antonio dos Santos,a cantiga traz a seguinte mensagem: “cuidado com o chão onde pisa, pois elecarrega as cinzas de seus ancestrais”. Saudar a ancestralidade, dentro deste ritualinicial, significa para o médium do Gruel, saudar tanto seus ascendentes espirituais,ou seja, os espíritos ancestrais que o guiam, como também ascendentes carnais,sua família.Da ideia de respeitar “o chão onde pisa” pude compreender outro ato derespeito dos médiuns da corrente do Gruel quando, após saudarem o espaço dosguardiões na entrada do terreiro, ajoelham-se rapidamente e encostam os dedosdas mãos no chão, “cumprimentando” o solo. Esse contato físico com o solo sagradoé apenas um dos muitos atos simbólicos presentes nos rituais de Umbanda que, nainternet, evidentemente, vão se perder.16Conhecido como Ipadê, prática comum ao Candomblé de origem Ketu.
  • 40Após o ritual descrito acima, os médiuns começam a entoar o que naliteratura umbandista se convencionou chamar de ponto cantado (cantigasgeralmente acompanhadas pelo toque de atabaque, instrumento musical sagrado,cuja entoação “atrai” os guias nelas homenageados). O primeiro deles é um pontode defumação, cantado não apenas no Gruel, como em muitos outros terreiros deUmbanda:Corre a gira pai OgumFilho quer se defumarUmbanda tem fundamentoÉ preciso prepararCom incenso e benjoimAlecrim e alfazemaDefumar filhos de féCom as ervas da JuremaAs ervas às quais o ponto faz menção são os elementos que compõem outroritual imprescindível às giras, que é a defumação. Nesses dois versos (“Umbandatem fundamento/ é preciso preparar”) uma afirmação importantíssima sobre aUmbanda de que me valho para colocar em discussão as pretensas práticasritualísticas na Web: a Umbanda tem fundamento (ditado pela “raiz”) e é precisopreparar – sacralizar - o espaço, o médium e tudo o que vai compor uma gira. Issotudo se perde quando se tenta tornar virtual uma gira, como procurarei demonstrar.Voltando à descrição, enquanto entoam os pontos de defumação, defumam-se os médiuns, um a um. As ervas aromáticas utilizadas e a maneira como oprocesso de defumação ocorre no Gruel devem respeitar a raiz Congo17, porém, de17Disponível em “Defumação: Ritual Explicativo da Raiz Congo”: <http://gruel.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Defuma%C3%A7%C3%A3o-ritual-explicativo-da-raiz-Congo.pdf>. Acessadoem 12 de setembro de 2012.
  • 41maneira objetiva, poderíamos entender a defumação como um ato de purificação domédium a fim de prepara-lo para o contato sagrado que virá na sequência.A ideia da formação de uma corrente, sendo essa corrente o conjunto dosmédiuns integrantes do terreiro, começa a ganhar força na abertura das giras. Todosos médiuns cantam e dançam juntos, numa harmonia coletiva capaz de despertarnotado interesse em pessoas que passam pela avenida naquele momento.A fumaça característica da queima das ervas tem a função de dissiparenergias ruins, sacralizando o ambiente. Na fotografia abaixo, um dos médiuns doGruel defuma o terreiro no início de uma gira.
  • 42Na sequência são entoados outros pontos, mais específicos das entidades que alivão “trabalhar”, além de os médiuns saudarem Orixás e entidades com gestos esaudações específicas de cada um desses guias. O Babalorixá diz, porexemplo:_Saravá Iansã! Ao que os médiuns respondem com sua saudaçãocorrespondente, Epahei! e seu gesto, com o braço direito erguido e a mão semovimentando como os ventos (sendo Iansã Orixá dos ventos e tempestades).
  • 43É preciso salientar uma característica das giras do Gruel muito comum emoutros terreiros de Umbanda: a organização das sessões de acordo com asentidades que vão trabalhar naquele dia.Há as giras de Caboclo, nas quais os médiuns vão incorporarmajoritariamente essas entidades, identificadas com índios, para as consultas; há asgiras de Preto Velho nas quais são os Pretos Velhos (comumente associados aespíritos de negros que teriam sido escravizados) que ali incorporam. Se em umsábado a gira foi de Caboclo, por exemplo, no próximo será de Preto Velho e assimsucessivamente.Na sequência de pontos cantados isso fica mais claro: após os pontos dedefumação, se a gira é de Caboclo, pode-se perceber que os médiuns cantampontos geralmente dedicados a Oxóssi (Orixá que “comanda” os Caboclos naUmbanda). Já na abertura das giras de Exu – que também ocorrem no Gruel –podemos ouvir pontos dedicados ao “povo da rua” (uma referência aos guardiõesExu e Pomba Gira).O Babalorixá então organiza uma espécie de círculo com médiuns de mãosdadas e eis que, durante o toque dos atabaques com os pontos específicos, um aum nessa corrente vai de fato “incorporando”. Numa gira de Caboclo, por exemplo, aincorporação é imediatamente percebida pelos brados das entidades, próprios deindígenas, assim como numa gira de Exu as gargalhadas são marcantes.O uso de um elemento, durante as giras, pelo Babalorixá, chamou-me aatenção, pois não o tinha notado em outros terreiros nos quais estive (não aindacomo pesquisadora): o adjá18. Trata-se de uma espécie de sineta de metal que, deacordo com o que ele me explicou, serve para unir, no espaço do terreiro, doisoutros ambientes simbólicos fundamentais na tradição Iorubá: o Orum (planoespiritual) e o Ayê (plano físico), análogos ao ambiente do céu (onde habitam Deuse anjos na visão cristã) e da terra (onde nós, seres humanos, vivemos).Quando o Babalorixá manipula o adjá – produzindo o som característico deum sino - os médiuns concentram-se para a incorporação. O som do adjá, por sua18Termo de origem Iorubá.
  • 44vez, faz com que os seres do Orum (os guias espirituais) entrem em sintonia com osdo Ayê (médiuns).Assim que os médiuns de incorporação de fato incorporam e vão assumindoseus lugares dentro do espaço físico do terreiro (o Babalorixá geralmente se colocaao centro e ao fundo, próximo ao Congá), os médiuns responsáveis pelaorganização das consultas vão chamando os consulentes pelas senhas, oupermitindo, na sequência da fila já formada do lado de fora, a entrada um por vez.Os médiuns de consulta são sempre acompanhados por um cambone que,como já foi dito de forma breve, atua como assistente do médium enquanto esteestiver incorporado, sendo responsável, no caso do Gruel, por anotar o queacontece durante as consultas e entregar às entidades os elementos por elassolicitados (como flores, garrafas d’água, velas, perfumes entre outros, que serãomanipulados de acordo com a necessidade da consulta; alguns entregues aoconsulente depois).A atividade de um cambone não só é essencial para o médium que estiver seiniciando dentro da corrente, para que este aprenda como se comportar durante asgiras, como também é fundamental para que uma consulta ocorra dentro do Gruel,onde cada médium de consulta tem um caderno no qual são anotados pelocambone o nome de cada consulente, a data de cada consulta, as perguntas feitaspelo consulente e as respostas dadas pela entidade, a data do retorno (caso sejanecessário o assistido pode retornar, com consulta pré-agendada) e o tipo deatividade que a entidade solicita (a exemplo dos chamados trabalhos com Orixás eoutros guias, dos quais falarei a seguir).
  • 451.3.4 Os trabalhos e a ideia de redeNo campo espiritual, a palavra trabalho pode ter muitos significados. O termogeralmente é utilizado, assim como outros dos quais já falei, como sinônimo defeitiçaria, quando se fala, por exemplo, em trabalhos de magia negra.Porém, além de a concepção de magia causar muita confusão quandoaproximada, teórica ou praticamente, da Umbanda (assunto que pretendo discutirmais à frente), no Grupo Umbanda é Luz entende-se por trabalho uma açãoespiritual praticada por um médium incorporado (com entidades ou Orixás) paraequilibrar energeticamente o consulente. De modo sucinto, é como se a entidade ouOrixá, através de um médium, pudesse emitir sua energia sagrada ao consulente,reequilibrando-o de acordo com suas necessidades específicas. Diferentemente daconsulta, no trabalho as entidades não conversam com o consulente, apenas “agem”sobre ele.O tipo de trabalho a ser realizado é determinado durante a consulta. Umexemplo é quando o consulente relata estar com baixa autoestima. A entidade,então, pode solicitar um trabalho de Oxum, Orixá do amor, da beleza e também daautoafirmação, para devolver-lhe o amor próprio. Oxum incorpora em outro médium(não o mesmo da consulta, já que existem, na corrente, os médiuns próprios para arealização dos trabalhos) transmitindo um pouco de seus predicados (de beleza,autoestima, etc.) ao assistido.Essa incorporação é percebida por meio de gestos característicos do Orixáfeminino Oxum: as mãos do médium movimentam-se lentamente, como as águasdos rios (morada de Oxum nas lendas africanas); às vezes movimentandolentamente os quadris e cantando, com um timbre frequentemente agudo, tudo issode maneira muito suave. É comum um cambone cantar pontos em homenagem aOxum durante a realização do trabalho, aconselhando que o consulente mantenhaos olhos fechados e pensamentos positivos.
  • 46Os trabalhos são realizados majoritariamente nas giras de sábado. Umdetalhe importante dessas giras são as aulas ministradas pelo Babalorixá (que étambém professor) todo sábado, uma hora antes do início das sessões, ou seja, às16h. A cada sábado, um tema é abordado pelo Babalorixá, que se utiliza de recursoseletrônicos como apresentação de slides, ou mesmo de desenhos de próprio punhoem uma lousa dentro do terreiro.As aulas são abertas. Embora alguns dos temas sejam pertinentes aosmédiuns da corrente e versem sobre as atividades e o comportamento dos mesmos
  • 47dentro do terreiro, os visitantes também podem acompanhá-las, uma vez que oBabalorixá aborda também, durante tais aulas, questões ligadas ao cotidiano detodos nós (fala sobre relacionamentos afetivos, questões financeiras, felicidade,prosperidade, liberdade, humildade... enfim, questões de interesse pessoal e nãoapenas mediúnico).O espaço físico onde as aulas ocorrem aos sábados é o mesmo onde o ritualacontecerá uma hora depois. Essa delimitação do espaço é essencial, já que osimples fato de estar “dentro” do terreiro não é suficiente para incorporar entidades.Isso porque, no momento da aula, os médiuns estão desincorporados, ali setornando alunos, fazendo anotações em seus cadernos como se estivessem emuma sala de aula; o dirigente do terreiro, ainda que detenha o conhecimentonecessário para ocupar esse papel na hierarquia do lugar, também estádesincorporado porque naquele momento assume o papel de professor, emborasuas experiências como pai de santo – e também como filho de santo, quandomenciona o terreiro ao qual pertencia antes de ter o seu – o auxiliem a lecionar.A importância das aulas, conforme me explicou o Babalorixá durante minhasvisitas ao terreiro é fundamental para a preservação da raiz Congo, já que ele tem amissão de transmitir o conhecimento adquirido com seu pai de santo a seus filhos(os médiuns da corrente do Gruel), que deverão fazer o mesmo com os novosintegrantes da corrente e assim por diante. A ideia de rede, essencial nestapesquisa, começa a ser delineada.As giras de quarta-feira não raro se estendem até depois da meia-noite. Jáaos sábados, as sessões terminam por volta das 21h. Durante as sessões, hásempre uma mensagem predominante, uma energia percebida pelo Babalorixá oumesmo manifesta pelas próprias entidades durante as giras, algo como o que sepôde aprender com as atividades realizadas naquele dia. Em uma das giras desábado cujo encerramento tive a oportunidade de observar, o Babalorixá transmitiuaos médiuns uma mensagem da Pomba Gira Maria Padilha. Em outra gira, tambémde sábado, a mensagem predominante foi relacionada à cura, à necessidade do serhumano de se libertar de certos traumas que o aprisionam. Conforme me explicouum dos médiuns antes do final da sessão, nesta gira especificamente foi possível
  • 48“sentir a energia de Obaluaiê”, Orixá ligado às doenças e, portanto, responsáveltambém pela cura.Ao final da sessão, quando todos os consulentes já foram atendidos, osmédiuns desincorporam e formam mais uma vez uma corrente, de mãos dadas emcírculo, e fazem uma oração em agradecimento por terem realizado mais umtrabalho juntos. Do início ao fim da sessão, não é difícil perceber que se vaiformando, naquele espaço sagrado, uma rede – seja ela espiritual composta portodas as entidades que ali trabalham; seja ela social integrada pelos consulentesque, do lado de fora, aguardam sua vez.Uma gira no Gruel não existe só com o pai de santo. Além dele, estãopresentes os demais médiuns (de incorporação e cambones que os auxiliam, porexemplo) e os próprios consulentes. Todos têm certa importância para a realizaçãodas sessões. A ideia de que a Umbanda “não existe sozinha”, de que um médium sóou uma entidade só não seja suficiente para que o ritual aconteça está presente atémesmo na própria manifestação das entidades.Cada entidade que se manifesta na Umbanda tem um nome e um“sobrenome”, que indica a qual “família” essa entidade pertence. Para que isso fiquemais claro, tomemos como exemplo dois nomes de diferentes Pretos Velhos: PaiJoaquim de Angola e Pai Joaquim de Aruanda. Embora os nomes sejam iguais(“Joaquim”), os “sobrenomes” marcam sua vinculação a um grupo (um é “deAngola”, outro “de Aruanda”). Pode-se dizer que eles se agrupam no plano espiritualantes de incorporarem de fato (no plano físico, portanto). Não existe uma entidadeque não esteja “agrupada”, ou seja, que não pertença a uma determinada “família”espiritual.Essa noção de “grupo” é o que talvez aproxime o ritual de Umbanda (falando,agora, da Umbanda de maneira geral, não apenas da raiz Congo) de uma dashipóteses em torno do significado da palavra Umbanda, como sendo a junção dapalavra oriental UM (que significa Deus) com BANDA (que quer dizer agrupamento,legião). (PINTO, 1971, p. 197, citado por CUMINO, 2011, p. 101-102)
  • 49Corrêa Lages menciona uma “rede social formada pelos médiuns,comunidade, cambones e por espíritos de antepassados” (2011, on-line). Ela fala,ainda, da formação de outra rede, a rede familiar:Na Umbanda, uma ampla rede de parentesco é encenada,estabelecendo novas relações de filiação, que são assentadasem afetos e cuidados com os seus filhos. Pretos-velhos e Pretas-velhas se tornam pais e avós, sendo chamados de Pai Joaquim deAngola, Pai Benedito de Aruanda, Pai João do Congo, Mãe Joaquinade Aruanda (...)A autoconfiança proporcionada pela relação amorosa é a baseindispensável para a participação autônoma na vida pública e pontepara a rede que vai sendo costurada rumo ao reconhecimento inter-subjetivo e auto-realização dos sujeitos. A reconstituição da família edos laços paternais no terreiro promovem sentimentos depertencimento a um grupo social que duramente desrespeitado pelashumilhações e agressões físicas da escravidão, continuamcompartilhando semelhantes formas de opressão e sofrimento emsuas vidas cotidianas, uma vez que continuam sendo afetados pelainequidade em saúde, o desemprego, a falta de acesso aos serviçospúblicos, o menor acesso à educação, à justiça. (2011, on-line, grifomeu)A discussão que proponho neste trabalho de conclusão de curso é entendercomo se apresenta a idéia de “rede” na Umbanda e quais são as possíveis relaçõesdessas redes físico-espirituais com as redes virtuais.Durante o período em que frequentei o Gruel para anotar dados que seriamdescritos aqui, tentei entender como conceitos subjetivos como o amor, a felicidade,a liberdade, a caridade etc., são aplicados ao ritual de Umbanda.A prática da caridade existe quando não se cobra pelas consultas, passes outrabalhos. A humildade existe em pequenos gestos das próprias entidades, aexemplo de uma Cabocla (incorporada em uma médium) que, durante uma consulta– sendo eu mesma a assistida – ajoelhou-se diante de mim, explicando que o faziaem respeito às atitudes que tomei em determinadas situações que não voumencionar aqui por razões evidentes. A fraternidade existe no comportamento derespeito entre os filhos de santo (irmãos porque filhos de um mesmo pai de santo),etc.
  • 50Há inclusive uma música, Princesa Negra, de autoria da compositorapernambucana Jeane Siqueira19que é cantada em forma de ponto nas sessões doGruel. Por meio dos trechos que cito abaixo, é possível notar que a concepção deliberdade e felicidade, na música, é adaptada à maneira como os médiuns do Gruelentendem a Umbanda.Bate tambor, bate atabaqueRepica agogô20na imensidãoHoje o decreto diz, seja livre e felizMinha palavra é lei (grifos meus)Isso porque o decreto, como diz a música, de ser “livre e feliz” não só está presentenas estrofes entoadas pelos médiuns durante as giras; é, também, orientação do paide santo, como é possível verificar no Código de Conduta para médiuns atuantes noterreiro durante o ano de 2012:Não acredite estar no terreiro apenas para praticar a caridade, vocêestá aqui para evoluir emocionalmente, tornar-se mais feliz e ser umareferência para os que estão a sua volta. Só há um decreto naUmbanda: seja livre e feliz.21(grifos meus)Neste mesmo documento o Babalorixá enumera algumas regras que todos osmédiuns devem seguir, como vestir branco (todos usam um avental próprio doGruel), cuidar da higiene pessoal, não estabelecer vínculos (de amizade, sexual, etc)com consulentes, entre outras exigências.Por meio da convivência no Gruel, seja antes da pesquisa, como consulente;ou depois, no papel de pesquisadora, observando, constatei que princípios como acaridade, a humildade, a fraternidade entre tantos outros aos quais tanto se alude19Disponível em < http://www.youtube.com/watch?v=sdAmDM079KY>. Acessado em 14 de outubrode 2012.20Instrumento de múltiplos sinos, tradicional na cultura Iorubá.21Disponível em http://gruel.com.br/wp-content/uploads/2011/10/C%C3%B3digo-de-Conduta-para-m%C3%A9diuns-atuantes-em-2012-nos-trabalhos-do-GRUEL-15.pdf>. Acessado em 14 de outubrode 2012.
  • 51quando se fala da Umbanda, são importantes na prática. E é dessa prática (outentativa de) que falarei no próximo capítulo.
  • 522. DO RITUAL AO VIRTUAL2.1 “Programa do Seu Tranca”: um estudo de casoQuando observamos um blog que fala sobre Umbanda ou mesmo um vídeo deuma gira no YouTube, uma série de elementos que fazem parte do ritual no espaçofísico destinado a ele não está presente, como é o caso da defumação, dos passesoutros elementos, abordados anteriormente.Por mais que se assista a um vídeo em que a defumação é feita dentro de umterreiro, o internauta não é capaz de sentir o cheiro das ervas, nem de entrar emcontato com a fumaça, essencial para dissipar “más energias”, ou mesmo entrar emsintonia com seus guias como por meio do adjá, instrumento do qual falei no capítuloanterior.Partindo de uma dificuldade que encontrei no trabalho de descrição daspráticas on-line no que diz respeito à transposição de práticas “físico-espirituais”para práticas “virtual-espirituais”, cheguei aos estudos relacionados à netnografia.Esse método pode ser caracterizado do seguinte modo:O neologismo netnografia (netnography = net + etnography) foioriginalmente cunhado por um grupo de pesquisadores/as norte-americanos/as, Bishop, Star, Neumann, Ignacio, Sandusky & Schatz,em 1995, para descrever um desafio metodológico: preservar osdetalhes ricos da observação em campo etnográfico usando o meioeletrônico para seguir os atores (BRAGA, 2001, p. 5, citado porAMARAL, NATAL e VIANA, 2008, on-line).A ideia de “seguir os atores” me pareceu adequada na medida em que havia apossibilidade de encontrar e me comunicar com umbandistas na rede e assimperceber como eles interagem com umbandistas e não umbandistas e,principalmente, de que maneira se utilizam das novas tecnologias para falar sobresua religião.
  • 53A partir dessa interação virtual com alguns umbandistas conheci a web-rádioToques de Aruanda22, responsável pelo programa “Conversando com Seu Tranca”(ou Programa do Seu Tranca).Nesse momento, essa web-rádio servirá de referência para o estabelecimentode possíveis traduções entre o mundo físico-espiritual-ritual, etnográfico – dasobservações no Gruel – e o mundo virtual- espiritual, “netnográfico” - que passarei aabordar tomando como base a análise da Umbanda representada na Web, nosblogs e nas redes sociais como Twitter e Facebook.O programa é transmitido, ao vivo, todas as segundas-feiras das 21h às 23hpela web-rádio. Funciona assim: cada dia um tema específico ligado à Umbanda édiscutido pelos apresentadores, Mãe Gladys Camorim e Alan Barbieri, das 21h às22h.Essa primeira hora do programa (21h às 22h) é dedicada à discussão dotema a partir, principalmente, do conhecimento teórico e prático da médium (MãeGladys) sobre a religião. Os internautas podem enviar suas perguntas por e-mail(programadoseutranca@hotmail.com) ou via MSN, através do mesmo endereço. Afigura abaixo (um printscreen salvo no momento em que um dos programas estavasendo transmitido) mostra a figura icônica da possibilidade de interação do espiritual,sagrado (sintetizado na figura do Exu Tranca Rua das Almas, entidade popular naUmbanda e que dá nome ao programa) com o virtual, por meio do MSN.22<http://www.radiotoquesdearuanda.com.br>; acessado em 10 de junho de 2012.
  • 54Observem as características do desenho utilizado para representar este Exu: umhomem moreno, de bigode e cavanhaque, trajando uma roupa preta (possivelmenteuma capa), com uma espécie de cartola preta apoiada sobre a perna. Uma rápidapesquisa no Google Imagens basta para encontrarmos várias representaçõesparecidas relacionadas ao guardião Tranca Rua das Almas23, chamado de “SeuTranca” pelos responsáveis pelo programa em questão.Outra característica curiosa é a “disponibilidade” da entidade. Ao lado donome, vemos entre parêntesis que “Seu Tranca” está disponível. Mesmo a cor,verde, em torno da figura dentro do quadrado, no canto esquerdo da caixa deconversação é bem representativa para quem, alguma vez, já se utilizou do MSNMessenger: “verde” indica que a pessoa (no caso, a entidade) está on-line.É nessa caixa de conversação que o internauta digita sua pergunta. Durante atransmissão do programa é comum até mesmo ouvir um som característico do MSN,indicando o recebimento de uma nova mensagem.Ao escutar todo um episódio24pelo YouTube (todos vão para o canal da web-rádio no YouTube após a transmissão ao vivo) pude perceber a predominância dedúvidas de internautas umbandistas, ainda iniciantes na religião. Dúvidas, em suamaioria, sobre o fato de frequentar um terreiro há algum tempo e “ainda não terincorporado”.Na segunda hora do programa, portanto das 22h às 23h, a médium incorporao Exu Tranca Rua das Almas para que a entidade, que pode ser reconhecida pelotimbre de sua voz e o modo como fala possa responder às perguntas enviadas pore-mail ou pelo MSN. Ou seja, a partir de um rápido intervalo que antecede aincorporação (a segunda hora do programa, portanto), quem responde às dúvidasdos internautas é a entidade incorporada, e não mais a médium Gladys Camorim.23Disponível emhttps://www.google.com.br/search?hl=ptBR&tok=QC3HOyS6OLkKc85U5jrhIg&cp=16&gs_id=23&xhr=t&q=exu+tranca+rua+das+alma&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.r_qf.&bpcl=3527702&biw=1024&bih=653&um=1&ie=UTF8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=4m17UL6eDu_H0AGFuoBY>. Acessadoem 14 de outubro de 2012.24Disponível em “Programa Conversando com Seu Tranca: Hábitos das Entidades”,http://www.youtube.com/watch?v=Fi6oTHx2cFk>. Acessado em 10 de junho de 2012.
  • 552.1.1 Ausência e presença de elementos do ritualDurante a comunicação da entidade com os participantes do programa, épossível notar alguns aspectos comuns a uma incorporação, como a alteração navoz. Percebe-se que se trata da mesma médium que apresentou o programa desdeo início, mas seu modo de falar se altera quase que completamente, assemelhando-se à voz de um homem (embora ainda seja possível identificar o timbre de voz daprópria médium).Outros participantes da transmissão do programa se encarregam de ler asperguntas enviadas ao referido Exu, tratando-o por “Seu Tranca” a todo o instante.Os apresentadores, no entanto, insistem em que as perguntas enviadas digamrespeito à religião de Umbanda, sendo questões menos pessoais e maisabrangentes. Qualquer um pode participar enviando dúvidas ou comentários,independentemente de sua religião, o que sugere uma democratização tanto dareligião umbandista, representada naquele momento pelos responsáveis peloprograma, como da própria internet enquanto ambiente propiciador desse contato“aberto” promovido pela rede (discorrerei melhor sobre essa ideia de “democraciavirtual” característica mais à frente).Outra característica comum à incorporação – essa predominantementenotada na incorporação de Exus e Pombas Giras – são as gargalhadas emitidas por“Seu Tranca” durante a transmissão do programa. Em um dos episódios, quandouma internauta que se diz médium questiona se é normal o fato de seu apetitesexual aumentar após desincorporar sua Pomba Gira, “Seu Tranca” solta umagargalhada debochada25.Outra característica indicativa de incorporação é quando a entidadeincorporada em Gladys Camorim afirma não saber falar algumas palavras que ela,seu cavalo (termo que, assim como aparelho geralmente empregado porkardecistas, é sinônimo de médium de incorporação), saberia dizer. É como se, ali,25Aos 1:35:20 do áudio disponível emhttp://www.youtube.com/watch?v=Fi6oTHx2cFk&feature=related>. Acessado em 21 de outubro de2012.
  • 56enquanto o corpo da médium está ocupado pelo espírito da entidade, ela, MãeGladys, se ausentasse da comunicação, embora ainda detivesse controle sobre aincorporação.Por todas essas características, o programa Conversando com Seu Tranca épertinente para discutir o conceito de terreiro virtual a ser explorado neste trabalho.No entanto, também é capaz de incitar uma discussão muito mais ampla sobre atransposição dos elementos rituais em torno da incorporação na Umbanda para oespaço virtual, isto é, do off-line para o on-line. Nesse caso, cabem alguns alertassobre o trabalho netnográfico:A netnografia, como transposição virtual das formas de pesquisa facea face e similares, apresenta vantagens explícitas tais comoconsumir menos tempo, ser menos dispendiosa e menos subjetiva,além de menos invasiva já que pode se comportar como uma janelaao olhar do pesquisador sobre comportamentos naturais de umacomunidade durante seu funcionamento, fora de um espaçofabricado para pesquisa, sem que este interfira diretamente noprocesso como participante fisicamente presente (KONIZETS, 2002,citado por AMARAL, NATAL e VIANA, 2008, on-line). Por outrolado, ela perde em termos de gestual e de contato presencial off-line que podem revelar nuances obnubiladas pelo texto escrito,emoticons, etc. (...) O pesquisador deve permanecer conscientede que está observando um recorte comunicacional dasatividades de uma comunidade on-line, e não a comunidade emsi, composta por outros desdobramentos comportamentais alémda comunicação (gestual, apropriações físicas, etc.), sendo esseum dos principais diferenciais entre o processo etnográfico off-line eon-line. (AMARAL, NATAL e VIANA, 2008, on-line).Tomando como principal exemplo, neste momento, o programa mencionado ficaclaro que alguns elementos do espaço off-line da Umbanda são insubstituíveis on-line e poderiam dar margem a dúvidas (do tipo “como saber se a médium estávestida de branco?”, entre outras); isso porque após a transmissão ao vivo, apenaso áudio do programa é disponibilizado.Por outro lado, características da “vida real” parecem influenciar aprogramação da web-rádio. No canal do YouTube encontram-se alguns episódioscujos temas estão ligados a datas importantes na Umbanda, como os datascomemorativas dos Orixás. Comemora-se o Dia de Ogum (sincretizado com aimagem católica de São Jorge) em 23 de abril. O episódio do Programa do Seu
  • 57Tranca de 23 de abril de 2012 tem como tema, em homenagem à data, “OrixáOgum” 26.Quando os temas dos episódios do Programa do Seu Tranca estão ligados aocalendário do cotidiano off-line, ainda que o episódio não tenha sido disponibilizadono YouTube na mesma data que foi ao ar (dia 23 de abril de 2012 foi uma segunda-feira, coincidentemente), podemos aproximar essa ideia da maneira como PierreLévy entende as tecnologias: “como produto de uma sociedade e de uma cultura”(LÉVY, 1997, on-line).No programa Conversando com Seu Tranca a ausência de alguns elementosque antecedem as incorporações no terreiro (como descrito no capítulo referente aoGrupo Umbanda é Luz: pontos cantados em grupo, saudação aos ambientessagrados, aos guias, etc.) despertou meu interesse em mencioná-lo neste trabalho.Mas o mais curioso talvez seja o fato de essa comunicação (entre dois mundos?)tornar-se possível de alguma forma.Além disso, naquele momento, ao menos na maioria dos episódios que ouvido início ao fim, apenas Mãe Gladys Camorim está incorporada, enquanto aincorporação na Umbanda pressupõe um conjunto, uma rede que se forma noespaço físico do terreiro, uma corrente de médiuns, daí a ligação entre o capítuloanterior e este.No programa, após a primeira hora, há um intervalo (ao vivo) destinado àincorporação de “Seu Tranca”, mas não sabemos se todo o procedimento deabertura de uma gira acontece durante esse intervalo, de cerca de cinco minutos,embora, a todo instante, os apresentadores deixem claro que “o programa étransmitido ao vivo do Templo Escola Caboclo Sete Espadas”.Só a partir dessa menção durante o programa já seria possível identificar doisespaços: espaço físico (do Templo Escola Caboclo Sete Espadas) e virtual (daweb-rádio e sua transmissão), que parecem estar unidos no momento datransmissão do programa. Mas é exatamente no intervalo entre a primeira e a26Ver http://www.youtube.com/watch?v=uutlmO08li4&feature=relmfu>. Acessado em 14 de outubrode 2012.
  • 58segunda hora as práticas ritualísticas não ficam claras, já que não se sabe de quemaneira Tranca Rua das Almas de fato incorporou (se, no terreiro, cantaram ospontos em sua homenagem; se houve a preparação prévia do espaço sagrado e docorpo da médium, etc.)
  • 592.1.2 A interatividade e a quebra de barreirasAo ouvir o Programa do Seu Tranca, tendo eu antes acompanhado comfrequência giras de Umbanda presencialmente é clara a sensação de que acomunicação entre entidades e consulentes, embora possa se dar por outras vias, éde alguma forma reduzida.Explico o porquê: no terreiro, o espaço físico ideal da incorporação, quandohá a consulta, o consulente não tem um tempo pré-determinado para “conversar”com a entidade, podendo tirar quaisquer dúvidas. No caso do programa promovidopela web-rádio, além de haver a limitação com relação ao teor das perguntas (nãodevem ser pessoais e necessariamente precisam estar relacionadas à Umbanda),há outra limitação ainda maior: o tempo de duração do programa. Não que as girasde Umbanda não tenham hora para terminar: elas têm, mas tudo vai depender dasconsultas.Essa delimitação espaço-temporal é análoga ao estudo de Calil Júnior acercadas comunidades virtuais de Espiritismo no Orkut (entenda-se por Espiritismo oconjunto de ideias que constituem a doutrina espírita postulada por Allan Kardec,citada no primeiro capítulo) quando menciona a moderação nessas comunidades.Ao colocar a lente sobre a moderação presente no mundo espíritavirtual, minha intenção é chamar a atenção para os processos dedemarcação de fronteiras, mesmo em se tratando de um espaçoaparentemente desterritorializado. (CALIL JÚNIOR, 2010, on-line,grifo meu).O que o autor considera como “espaço aparentemente desterritorializado” é ociberespaço27. A desterritorialização para a qual ele aponta, permitida nociberespaço, é a quebra das fronteiras que se formam ainda no espaço físico,quando diz que “o discurso de que na internet é possível falar e estudar o espiritismosem a censura e o cerceamento característico de muitos centros espíritas érecorrente” (2010, on-line).27Tanto o conceito de ciberespaço como a relação que proponho entre esse conceito e as práticasrelacionadas à Umbanda na internet serão explorados em um capítulo posterior.
  • 60No entanto, com a moderação das comunidades - recurso comum nas redessociais, quando um internauta se responsabiliza por monitorar perfis e comentáriossobre o conteúdo postado – ocorre o fenômeno contrário, a re-territorialização,entendendo novas fronteiras (a fronteira da moderação, do veto) comodemarcadoras de novos territórios reconfigurados (em uma comunidade moderada,cria-se um perfil homogêneo que esteja de acordo com a permissividade domoderador, embora heterogêneo já que é formado por espíritas – neste caso – dediferentes lugares do mundo).Seguindo este raciocínio, pode-se dizer que há uma re-territorializaçãoverificável também no Programa do Seu Tranca a partir da delimitação de assunto,ou seja, do que o internauta pode ou não perguntar, e também porque as perguntasenviadas por MSN pelos internautas passam, antes, pela seleção – ainda que “emtempo real” – do assistente que as está lendo para a entidade, além da delimitaçãodo tempo de duração do programa.Para Calil Júnior, no Espiritismo a ideia de desterritorialização já estavapresente muito antes do advento da internet, poisa transposição das fronteiras pelos espíritas não se restringia aoslimites temporais. No bojo da reencarnação não estavam implícitosnão apenas outros tempos, mas também outros lugares. Asexperiências do espírito em reencarnações anteriores abriam asportas para o estabelecimento de relações com países e regiões quemuitos , na atual existência, não teriam ou terão oportunidade devisitar (...) Muitos dos espíritas estabeleciam relações estreitas comlugares nunca vistos ou visitados. Este espiritoscape e as paisagense movimentos dele decorrentes eram facilitados a partir dosprocessos de desterritorialização e de re-territorializaçãoengendrados na conformação do mundo espírita vitual que estariasubmetido à virtualidade espírita de compreensão do tempo e doespaço, pela capacidade inerente ao espírito de juntar presente,passado e futuro. (CALIL JÚNIOR, 2010, on-line).Isso significa que, muito antes de a internet existir, os médiuns já tinhamexperiências que lhes permitiam o contato com encarnações anteriores, rompendoas barreiras do tempo e do espaço atuais, por meio dos sonhos (é comum a ideia,segundo as crenças espíritas, de que os espíritos saem de nosso corpo quandosonhamos).
  • 61O rompimento de barreiras de espaço-tempo através do contato com o espiritual meobriga a citar um exemplo no qual a palavra “tempo” pode ser também entendida nosentido meteorológico. Trata-se do texto escrito por Marcelo Tas em 28 de julho de2012, sobre um fenômeno espiritual que teria tido influência sobre as condiçõesmeteorológicas durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres:Este blog conversou com Osmar Santos, marido de Adelaide e porta-voz da Fundação [Cacique Cobra Coral], sobre a notícia de que elesteriam vindo a Londres, a convite da organização da Olimpíada, paratravar um duelo com o tradicional mau tempo da capital britânicana cerimônia de abertura.Por telefone, da sala de embarque de Heathrow, de onde retornouesta noite para São Paulo, Osmar confirmou e deu detalhes da“operação”, como ele mesmo denomina a atuação do espírito doCacique. Por conta da instabilidade meteorológica na ilha da Rainha,ambos chegaram å Londres com antecedência- no dia 7 de Julho-para iniciar os trabalhos.Durante a o dia de ontem, na cerimônia de abertura, Adelaide ficouem Dublin, na Irlanda, de onde garantiu que as ondas de pressãoque entravam pelo Norte da ilha fossem desviadas para a Espanha,com a intenção de abrandar a seca daquela região no momento.Enquanto isso, de dentro do estádio, Osmar enviavainformações em tempo real da situação em Londres.Na cerimônia de ontem, ocorreram alguns pinguinhos de chuva antesdo início e nenhuma mísera gota durante as mais de três horas doespetáculo dirigido por Daniel Boyle, que teve cenas que teriam sidobem complicadas de se realizar na chuva como o salto deparaquedas da Rainha (interpretada por um dublê, evidentemente)de um helicóptero que sobrevoava o estádio.28Não se pode ignorar o caráter irônico da descrição do aspecto mágico da ação doCacique Cobra Coral à distância. Porém, segundo as informações que o texto nostraz, o limite territorial, no caso entre Dublin e Londres não teria sido impedimentopara a atuação da entidade, cuja ação foi auxiliada pelo envio, “em tempo real, dasituação de Londres”.28TAS, M. Cacique Cobra Coral: medalha de ouro na abertura da Olimpíada. Disponível em<http://blogdotas.terra.com.br/2012/07/28/cacique-cobra-coral-medalha-de-ouro-na-abertura-da-olimpiada/>. Acessado em 24 de outubro de 2012.
  • 62Já no caso do Programa do Seu Tranca essa ação mágica à distância é maisclara, uma vez que os esclarecimentos de uma entidade representativa (Exu TrancaRuas) estão presentes em um programa transmitido por um player dentro do site daweb-rádio, o que torna seu conteúdo passível de ser acessado em qualquer lugar domundo (havendo, apesar disso, o empecilho do fuso-horário, sendo o programa aovivo no Brasil).A própria noção de que, no MSN, “Seu Tranca está on-line” nos remete àideia de interatividade, característica marcante da linguagem da internet quepossibilita a troca com o outro virtualmente, sem haver deslocamento físico,rompendo, mais uma vez, a barreira espaço-tempo (Alves: on-line).A própria estrutura do site permite ao internauta entrar em contato com aUmbanda também visualmente. Ao acessar a página da rádio Toques de Aruanda(no próprio nome uma alusão aos atabaques), logo notamos se tratar de um sitevoltado às religiões ditas afro-brasileiras. Já na homepage ouvimos pontos cantadoscomo trilha sonora, e os players para ouvir a programação da rádio naquelemomento são destacados na parte superior da página:
  • 63As abas superiores agrupam todo o conteúdo visível também na página inicial,dividindo-se em: comunicadores, programação; artigos e notícias; anuncie; players,vídeos e fale conosco. Fica clara logo na página inicial a possibilidade de interaçãocom as redes sociais:Até meu último acesso para análise, em 10 de junho de 2012, 7.360 pessoas haviamcurtido a página da Rádio no Facebook e o número de visitantes no site era1225647.
  • 64A interação não se estende somente às redes sociais. Há também a versão denavegação, própria para celular, no site da web-rádio.Os eventos e notícias em destaque são em sua maioria palestras, lançamentode livros e cursos, mas há também coberturas de festas e manifestações em prol dareligião.Quando o site serve como uma espécie de elo entre adeptos de Umbanda edo Candomblé, o contrário do que eu vinha sinalizando também ocorre: atransposição do espaço virtual – da página na internet, bem como seus perfis nasredes sociais – para o espaço físico, uma vez que os internautas se utilizam do
  • 65canal para não apenas se manter informados sobre assuntos relativos à sua crença,mas também tornarem-se mais participativos de seus cultos presencialmente: sejafazendo um curso (ministrando ou como aluno), ou até mesmo participando demanifestações/passeatas em defesa de alguma causa pertinente à sua fé.Mas a relação também pode se inverter quando um internauta se interessarem fazer o “curso de mediunidade on-line” 29promovido pela Rádio Toques deAruanda, o que traz à tona, mais uma vez, o paradoxo entre o exercício damediunidade e o conhecimento teórico deste exercício.Sobre o Programa do Seu Tranca e outros programas semelhantes30promovidos pela web-rádio Toques de Aruanda é importante deixar claro que minhaproposta, ao explorar características do ritual religioso que é feito dentro de umterreiro, é mostrar como algumas dessas características se tornam possíveisvirtualmente, causando uma sensação de proximidade do internauta com um ritualque ele não necessariamente precisa conhecer.Ao me concentrar no fenômeno da comunicação com entidades espirituaisatravés da internet, não procuro discutir se os “conselhos” dados em respostaaqueles que buscam ajuda através do Programa do Seu Tranca estão certos ouerrados ou se essa atividade é correta perante os umbandistas; mas procuro mostrarcomo se torna possível uma tradução dessas experiências para o ciberespaço. Issoporqueos espaços de interação dos blogs e outras ferramentas pessoaisproporcionam o desenvolvimento de uma relação, funcionandocomo porta para que se dê uma troca simbólica de identificação.(...) Fotos, som (a voz) e vídeo tendem a deixar essa impossíveltarefa de representar-se ao mundo de forma total um pouco maispróxima... (SILVA, on-line, grifos meus).É essa relação que se estabelece entre internautas interessados na Umbanda deforma geral que pretendo discutir nos próximos capítulos. Antes de direcionar o foco29Conteúdo programático e outras informações disponíveis emhttp://www.estudaremcasa.com.br/cursos-on-line/mediunidade-de-terreiro>. Acessado em 23 deoutubro de 2012.30Ver também o “Programa Amigos do Seu Zé”, em referência a outra entidade conhecida naUmbanda: Zé Pelintra. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=R2h63bh7Alg>. Acessadoem 23 de outubro de 2012.
  • 66deste trabalho para a abordagem específica de possíveis manifestações virtuaisligadas à Umbanda, é necessário discutir outros conceitos que surgiram a partir dainternet, como o ciberespaço do qual fala Calil Júnior ao abordar territorialização edesterritorialização.
  • 672.2 A “Rede das redes” e o ciberespaçoA ideia que norteia este capítulo é explorar o conceito de rede, desde seuentendimento mais amplo, como sinônimo de grupo ou família (conforme sugeri naabordagem referente às observações no Gruel), até à Rede como sinônimo de Web.Acerca do termo, conforme menciona Castells:...rede é um conjunto de nós interconectados [...] estruturas abertascapazes de se expandir de forma ilimitada, integrando novos nósdesde que consigam conectar-se dentro da rede, ou seja, desde quecompartilhem os mesmos códigos de comunicação. Uma estruturasocial baseada em redes é um sistema aberto altamente dinâmicosuscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio.(CASTELLS,1999, p. 566)Quando se fala em Umbanda, muitos são os termos utilizados paracaracterizar os grupos que se organizam em torno da religião. Pode-se dizer quesão pessoas que compartilham, em primeiro lugar, um interesse comum, a própriaUmbanda, e depois vão se organizando por interesses mais específicos, como oterreiro que frequentam. Um grupo dito “rede de Umbanda” é similar a um grupo quese une para formar uma federação umbandista, já que uma federação (a exemplo daFederação Brasileira de Umbanda31) é também uma rede.Quando pesquisamos “rede de umbanda” (com aspas, para filtrar a busca eobter um resultado mais preciso) no Google, encontramos aproximadamente 1560resultados de páginas nas quais o termo aparece (conforme pesquisado em 23 deoutubro de 2012), sendo que grande parte desse resultado consiste em páginas deorganizações umbandistas, como a RBU ou Rede Brasileira de Umbanda32, umaespécie de comunidade umbandista na “Rede das redes” (CASTELLS, 1999, p.459): a internet.Conforme menciona Girardi Júnior (2009, p. 93), a categoria “rede” foiproposta para substituir e reavaliar a noção de grupo social. Podemos entender arede de Umbanda como uma organização de umbandistas conectados (não no31(Federação Brasileira de Umbanda) < http://www.fbu.com.br/>32(Rede Brasileira de Umbanda) <http://www.rbu.com.br/>
  • 68sentido telemático, ainda) por um ideal comum. No momento em que a giraacontece, fortalecem-se, por meio dos rituais, os “nós” e “conexões” de uma redehíbrida (espiritual e física) de entidades. É preciso tentar entender o modo pelo qualas diferentes redes relacionadas à Umbanda encontram seu lugar na Rede dasRedes; de verificar, mais precisamente, como uma rede de terreiros constituída off-line reconfigura-se com a presença de uma possível rede de relacionamentosvirtuais vinculados a eles.
  • 692.2.1 As redes sociais e os vínculos on-line e off-linePelos usos e apropriações do ciberespaço, as pessoas constroem, de certomodo, uma Web à sua imagem, na forma de uma rede de conexões mais ou menosparticular (CASTELLS, 2002, citado por PORDEUS JÚNIOR, 2004). Sendo assim,as novas tecnologias parecem se tornar um instrumento útil a mais na construção deuma nova comunidade de crentes (CAPONE, 1999, citado por PORDEUS JÚNIOR,2004).Pordeus Júnior (2004) estudou a Umbanda portuguesa na internet edirecionou sua pesquisa para sites de Umbanda, especialmente o do Terreiro deUmbanda Ogum-Megê33. O autor vê na internet um lugar onde se pode criar a idéiado novo e, ao mesmo tempo, resgatar o passado. E entende os sites de Umbandacomo novos espaços de produção simbólica.Afinal, respondendo a imagem do seu criador, tudo coexiste nainternet: usos sociais, expressões políticas, redes de sociabilidadepessoal, busca de informações, movimentos associativos, e por quenão, também proselitismo da magia e religião. (PORDEUS JÚNIOR,2004, on-line).O vasto conteúdo disponível na internet hoje – independentemente dacredibilidade que conquiste – é um reflexo da convergência digital tecnológica quepavimentou a convergência de mídias, abrindo campo para oarquivamento, o compartilhamento e a distribuição de ativos digitaisutilizados no relacionamento humano, por intermédio das máquinascomputacionais e das redes telemáticas. Formou-se, então, umambiente enredado que emula algumas das necessidades humanas,entre elas, o convívio por meio de comunidades. (LIMA JÚNIOR,2009, on-line).Trata-se de avaliar as possibilidades criadas a partir da social network ou“rede social”, também chamada de “mídia social” (Lemos opta pelo termo “mídias on-line” uma vez que considera toda mídia como sendo, de alguma forma, social). Voume utilizar do termo “rede social” para dar continuidade à ideia de rede trabalhadaacima.33O site citado pelo autor não está disponível. A página disponível refere-se à versão brasileira doTUOM, o Terreiro de Umbanda Ogum-Megê, que é <www.tuom.com.br>
  • 70Lima Júnior observa que um dos motivos centrais encontrados na formataçãotecnológica dessas redes é proporcionar aos usuários a emulação de algunssentimentos que acontecem no relacionamento social tradicional (2009, p. 172).No tocante às relações que se formam dentro das comunidades virtuais, oque torna esses espaços únicos não é o fato de permitirem que indivíduosconheçam apenas pessoas novas, mas o fato de eles darem visibilidade a seususuários, estreitarem seus vínculos (desterritorializados/ re-territorializados)permitindo-lhes articular as mais variadas formas de ações em rede.Isso pode resultar em conexões, entre indivíduos, que teriam poucas probabilidadesde acontecer de outra forma. Esses encontros podem ocorrer frequentemente entrelatent ties34, ou seja, entre aqueles que compartilham, também, alguma conexão off-line (BOYD e ELLISON, 2007:on-line, tradução minha35). Desse modo, supõe-se quecomunicação nas redes sociais não seja necessariamente iniciada nelas próprias.Em muitos dos grandes SRS (Sites de Rede Social) os participantesnão estão necessariamente “se entrelaçando” a fim de conhecernovas pessoas; ao contrário, eles estão se comunicando compessoas que já são parte de sua rede social estendida. (Boyd eEllison, 2007:on-line, tradução minha36).Essa noção é importante, pois permite analisar a integração entre as on-line eoff-line formadas em torno da (ou a partir da) Umbanda. A comunicação off-line entreumbandistas pode ser estabelecida antes do seu encontro em ambientes virtuais. Odesenvolvimento das redes é fundamental para ampliar a visão ecumênica do sociale para reforçar laços (...) passando a compartilhar certa identificação (LEMOS, 2009,p. 12).34Algo como “laços latentes”, em tradução livre. A ideia é de Caroline Haythornthwaite, disponível em<http://emmtii.wikispaces.asu.edu/file/view/Shakespeare+Hero+Demo.pdf>. Acessado em 13 demarço de 2011.35Do original: What makes social network sites unique is not that they allow individuals to meetstrangers, but rather that they enable users to articulate and make visible their social networks. Thiscan result in connections between individuals that would not otherwise be made, […] and thesemeetings are frequently between "latent ties" who share some offline connection.36Do original: On many of the large SNSs (Social Network Sites), participants are not necessarily"networking" or looking to meet new people; instead, they are primarily communicating with peoplewho are already a part of their extended social network.
  • 71Entretanto, é evidente que, dada a capacidade da Rede em estabelecercomunicações entre pessoas que compartilham um interesse comum, também épossível criar vínculos com pessoas que não estavam “enredadas” fora da internet.Por isso,a vantagem da Rede é que ela permite a criação de laços fracos comdesconhecidos num modelo igualitário de interação, no qual ascaracterísticas sociais são menos evidentes na estruturação oumesmo no bloqueio da comunicação. [...] Tanto off-line quanto on-line, os laços fracos facilitam a ligação de pessoas com diversascaracterísticas sociais numa sociedade que parece estar passandopor uma rápida individualização e uma ruptura cívica. (CASTELLS,1999, p. 465)Para Castells (1999, p. 459) uma parte considerável das comunicações queacontecem na rede é, em geral, espontânea não organizada e diversificada emfinalidade e adesão. O estabelecimento de conversações, bem como ocompartilhamento de conteúdos traduz o processo comunicativo posto em práticapelas redes sociais, que, por sua vez, se organiza a partir das redes de usuáriosestruturados por critérios de afinidade e/ou similaridade temática, de interesses, deentendimento ou de conhecimento.Tais redes se instalam em ambiências que oferecem aosparticipantes funcionalidades e microssistemas que estimulam eincentivam a ação coletiva. São ambiências como o Facebook,Myspace, LinkedIn, Orkut, Ning, Plurk, Twitter, entre outras, resultadode iniciativas privadas autônomas (não vinculadas a empresas demídia) que visam agregar usuários e promover ações comerciaisjunto a essas audiências. (SAAD, 2009, p. 191).Para Bucci (2009, p. 145), a internet não deve ser vista como meio decomunicação; ela é muito mais um “ambiente para as relações humanas, para aspráticas sociais, para a cultura, para a própria gestão dos sistemas e subsistemas”.Daí, quando falamos em internet como sendo um “espaço”, é imprescindívelsublinhar o conceito de ciberespaço – e de cibercultura - proposto por Pierre Lévy edo qual já havia falado ao mencionar a noção de (des)território.O ciberespaço (que também chamarei de "rede") é o novo meio decomunicação que surge da interconexão mundial dos computadores.O termo especifica não apenas a infraestrutura material dacomunicação digital, mas também o universo oceânico deinformações que ela abriga, assim como os seres humanos que
  • 72navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo"cibercultura", especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais eintelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e devalores que se desenvolvem juntamente com o crescimento dociberespaço (LÉVY, 1999, p. 17, grifo do autor).Pode-se dizer então que a internet“é uma rede distribuída que reproduz no ciberespaço o mundoda rua e as subculturas que compõem cada sociedade conectada. Ainternet é a construção coletiva de um arranjo comunicacional, porisso, a quantidade de informação será crescente, uma vez que ahumanidade não aparenta dar sinal algum de que diminuirá seuímpeto comunicativo. Pessoas continuarão a se comunicar em seusespaços georreferenciados e também no ciberespaço” (SILVEIRA,200, p. 81, grifo meu).Se é possível afirmar que o “mundo da vida” esteja reproduzido no ciberespaço, porque não dizer que o “mundo dos terreiros” também cabe nele? Ou, ainda, emsentido mais amplo, o “outro mundo”, como teoriza antropólogo Roberto DaMatta –um mundo que reúne fantasmas, espíritos, espectros, almas, santos, anjos edemônios e é entendido como “um local de síntese, um plano onde tudo pode seencontrar e fazer sentido” (DAMATTA, 1997, p. 116).Supor que as ligações entre umbandistas off-line se reproduzem on-line seriaafirmar que algo na constituição da prática religiosa da Umbanda esteja semodificando com o ingresso na rede. É pertinente, portanto, introduzir aqui tambémo conceito de hibridismo, de Néstor García Canclíni, que pode ser entendido como o“processo sócio-cultural em que estruturas ou práticas, que existiam em formasseparadas, combinam-se para gerar novas estruturas, objetos e práticas”(GAGLIETTI e BARBOSA, on-line).Canclini fala da eficácia de se estar na rede quando menciona os estudossobre os movimentos políticos nacionais e sua relação com a formação dos bairrospopulares em Buenos Aires37. Para o autor, as ações desses movimentos políticos:37Os estudos sobre a formação de bairros populares em Buenos Aires, na primeira metade doséculo, registraram que as estruturas microssociais da urbanidade - o clube, o café, a associação devizinhos, a biblioteca, o comitê político - organizavam a identidade dos migrantes e dos criollos,interligando a vida imediata com as transformações globais que se buscavam na sociedade e noEstado. A leitura e o esporte, a militância e a sociabilidade suburbana uniam-se em uma continuidadeutópica com os movimentos políticos nacionais. (CANCLINI, 1997, on-line)
  • 73são de baixa ressonância quando se limitam a usar formastradicionais de comunicação (orais, de produção artesanal ou emtextos escritos que circulam de mão em mão). Seu poder cresce seatuam nas redes massivas: não apenas a presença urbana de umamanifestação de cem ou duzentas mil pessoas, porém - mais ainda -sua capacidade de interferir no funcionamento habitual de umacidade e encontrar eco, por isso mesmo, nos meios eletrônicos deinformação. (CANCLINI, 1997, on-line).Diz ele ainda que “a urbanização predominante nas sociedadescontemporâneas se entrelaça com a serialização e o anonimato na produção, comreestruturações da comunicação imaterial (dos meios massivos à telemática) quemodificam os vínculos entre o privado e o público”. Entrelaça-se, hibridiza-se... Umaanalogia a “enredar-se” parece caber nesta ideia.Aproximando-nos da visão proposta por Canclini acerca da modificação devínculos que permite o avanço dos meios massivos38à telemática, podemos crerque a atuação dos indivíduos na rede seja uma demonstração dessa modificação devínculos entre privado e público. Isso porque, nas redes, tudo pode se tornar público,havendo até mesmo a possibilidade de constituição de uma “nova esfera pública”, jáque, nos novos formatos comunicacionais pós-massivos...a lógica comunicacional, cada vez mais banal e planetária, não sebaseia apenas no consumo massivo para posterior conversação emuma esfera pública, como na estrutura massiva clássica. Ela seconstrói na nova esfera pública que é o ciberespaço, em se fazendoatravés da produção, do compartilhamento e da distribuição deconteúdo. (LEMOS, 2009, p. 12)38Entenda-se “meios massivos” como “meios de comunicação de massa”, como jornais, revista,cinema, televisão e rádio, por exemplo.
  • 742.2.2 Uma nova esfera públicaAntes de introduzir a noção de esfera pública, menciono um trecho dapesquisa de Joanildo Burity39intitulada Redes Sociais e o Lugar da Religião noEnfrentamento das Situações de Pobreza40, para exemplificar melhor o focopretendido com essa pesquisa, ao procurar mostrar que as noções de espaçopúblico e privado, no que diz respeito às experiências religiosas, têm sereconfigurado na sua relação com os adventos tecnológicos de comunicação:Percebe-se que a religião, na passagem dos anos 80 para os 90, nãose circunscreve mais a um único domínio – o das convicções íntimase privadas – nem se expressa no campo da militância social epolítica de forma estritamente remissível às expressõesinstitucionalizadas tradicionais (igrejas). (BURITY, 2000, on-line)Nos anos 1990, as manifestações religiosas já não se faziam presentesapenas em seus locais de culto. Com o crescimento das redes sociais esseprocesso não só aumentou como se modificou qualitativamente com a capacidadedialógica das redes. Por exemplo: hoje não são apenas em igrejas que o fiel podeter contato com canções religiosas. Um claro exemplo disso é o site decompartilhamento de vídeos religiosos, GodTube41que, como o próprio nome diz,disponibiliza vídeos relacionados a Deus. Assim,as maravilhas das novas tecnologias da comunicação, sua forma dese apresentar para os consumidores como user friendly ou comocapaz de resolver problemas de forma simples (por seu poder deexibir o que é real e de pautar o debate público; por seu potencial deacelerar efeitos e diminuir esforços de comunicação; etc.), suscita emmuitas pessoas um senso de mistério, de fascínio, quase de transe.A experiência de fazer funcionar o que não se conhece “por dentro” ede conseguir “sozinho” resultados que não se poderia imaginar“antes” da tecnologia evoca aquela imagem durkheimiana doindivíduo que se torna mais forte, mais auto-valorizado, por suacrença em Deus. Ao mesmo tempo em que mantém entre o usuáriode mídia(s) e os suportes técnicos desta(s) aquela distância que39Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor de Sociologia e Ciência Política daUniversidade Federal de Pernambuco; estuda, entre outros temas, a contribuição das novastecnologias para a religião.40Disponível em <http://sala.clacso.org.ar/>41Disponível em < http://www.godtube.com/>
  • 75separa, no discurso religioso, os seres humanos de Deus. (On-line)Mais especificamente sobre a Umbanda, muitos sites relacionados à religiãoumbandista disponibilizam pontos cantados em formato mp3 para ouvir ou parafazer download. Cito como exemplo o site Pontos de Umbanda42, que divide ospontos por categoria (boiadeiros, caboclos, defumação, espiritualidade, eventos,Exu, Iansã, Ibejada, malandro, Obaluaê, Ogum, Oxosse, Oxum, povo cigano, pretos-velhos, Xangô e Iemanjá) 43. Neste site, não só o áudio é disponibilizado, comotambém a letra de cada ponto.Quando Habermas propôs o conceito de esfera pública na sociedadeburguesa, seu objetivo não se destinava a fazer apontamentos acerca da religião,menos ainda da alteração do espaço religioso. Mais tarde (ou seja, após 1990),porém, Habermas reconheceria o papel das religiões como um possível identificadorde “situações-problema” no debate público.Pretende-se trabalhar aqui com a noção tradicional de esfera pública, para,posteriormente, introduzir a ideia de esfera pública interconectada na blogosfera,tornando, assim, possível identificar a contribuição das redes sociais para atransformação nos modos de representação da Umbanda.Habermas define a esfera pública burguesa como “a esfera das pessoasprivadas reunidas em um público” (1984, p. 42); “uma estrutura comunicacionalenraizada no mundo da vida através da rede de associações da sociedade civil”(1987, p. 453, citado por BUCCI, 2009, p.143). A esfera pública burguesa nasceu apartir do momento em que a burguesia do final do século XVIII, frequentadora desalons, cafés, livrarias, etc., passa a estabelecer um ritual social particular de discutirpublicamente temas pertinentes à época. A noção de “público” opõe-se,naturalmente, à ideia de “privado”.A rigor, qualquer instituição social – uma igreja, um partido político,uma associação – só ganha existência em termos sociais, ouvisibilidade, no momento em que atinge a esfera pública. Portanto, osmeios se tornam, na esfera pública, o grande canal de circulação dos42Disponível em < http://www.pontosdeumbanda.com.br/>43Optei por manter a nomenclatura utilizada no site.
  • 76interesses e, até certo ponto, controlar os canais de acesso à esferapública significa controlar os temas e debates que passam aconstituí-la (MARTINO, 2009, p. 215).Partindo do pressuposto de que os meios, de certa forma, possibilitem odebate na esfera pública, podemos variar o foco para as “redes interconectadas”, ouseja, a Web. Bucci cita um exemplo interessante ao falar das “miudezas” que têmlugar na esfera privada, como a receita de uma galinha ao molho ou o jeito de serezar um terço e tenta mostrar, com isso, como se dão as transformações do públicoe do privado produzidas pelas novas tecnologias de informação e comunicação.Com as redes interconectadas, essas miudezas todas passam aestar acessíveis aos agentes com lugar na esfera pública. A qualquermomento, de qualquer lugar, alguém pode trazer à baila o modo depreparo da galinha ou o itinerário das rezas do terço. Tudo, ou quasetudo, é virtualmente acessível por todos, ou quase todos. Tudoparece ser visível, ao menos potencialmente. Deu-se um fenômenocurioso, pelo qual as antigas paredes da esfera íntima passaram aser feitas de vidro. (BUCCI, 2009, p.147)No próximo capítulo darei exemplos de como têm ocorrido essatransformação de privado para público por meio das redes sociais, com foco para aanálise de blogs de umbandistas. Pode-se considerar que esses blogs (os blogsselecionados para análise) possibilitam que tanto o leitor leigo quanto umumbandista tenham conhecimento das práticas ritualísticas que acontecem dentrode uma gira (em um espaço físico, portanto).Essa possibilidade se dá em duas formas: primeiro, para criar um blog, não épreciso pedir permissão a quem quer que seja; depois, o conteúdo uma vezpublicado em um blog torna-se de livre acesso a qualquer um que nele estejainteressado, sem que a leitura do texto publicado necessite de permissão, aocontrário das comunidades virtuais no Orkut, por exemplo, que, quando moderadas,requerem autorização do moderador para que seu conteúdo esteja disponível paraleitura – de novo a ideia da territorialização e seu oposto.Margaret Wertheim faz uma analogia a um apelo religioso cristão dociberespaço ao dizer quecomo o cristianismo, também o ciberespaço está potencialmenteaberto para todos: homem e mulher, Primeiro e Terceiro Mundos,
  • 77norte e sul, Oriente e Ocidente (...) o ciberespaço está aberto paratodos os que podem arcar com o custo de um computador pessoal ede uma taxa mensal de acesso à Internet. Cada vez mais, bibliotecase outros centros comunitários estão também fornecendo acessogratuito. Tal como a Cidade Sagrada, o ciberespaço é um lugar emque, teoricamente, pessoas de todas as nações podem se misturar.De fato, muitos ciber-entusiastas gostariam de nos fazer crer que ainternet dissolve as próprias barreiras de nacionalidade, raça e sexo,elevando a todos igualmente ao fluxo digital. O sonho de umacomunidade global é uma das fantasias fundamentais da religião dociberespaço, uma versão tecnológica da fraternidade humana deNova Jerusalém (WERTHEIM, 2001, p. 18-19).Ela também faz uma referência à onisciência, ou seja, à sensação de que tudo sesabe através do ciberespaço, “destinado a se tornar a própria fonte doconhecimento. À medida que um número crescente de bibliotecas, bancos de dadose recursos de informação vai se tornando disponível on-line, a fantasiada onisciência cintila no horizonte digital” (2001, p. 21).Em relação a isso, minhas observações acerca dos rituais de Umbandapermitem duas considerações:1) a Umbanda, comparativamente à metáfora da “democratização” do ciberespaçoem Wertheim, também é aberta a todos. Qualquer pessoa, independentemente daidade, classe social, sexo, opção sexual ou até mesmo credo (não necessariamenteum umbandista) pode frequentar um terreiro, assim como também pode se apropriarda internet como uma ferramenta capaz de entrar em contato com a Umbanda pormeio de textos publicados em blogs, vídeos no YouTube, áudios de pontoscantados, etc.2) Embora haja a disponibilização desse conteúdo no ciberespaço, a ideia daonisciência que parte dele não se aplica diretamente à Umbanda. Isso porque“qualquer um” pode se apropriar desse conteúdo, mas ainda que todos os textos jápublicados sobre Umbanda, todos os pontos cantados, todos os vídeos de giras, etc.estivessem disponíveis no ciberespaço, isso não seria suficiente para o exercíciomediúnico.Ser um médium umbandista requer, portanto, uma prática que só épossibilitada off-line. Pode-se saber muito sobre Umbanda em tese, mas não se
  • 78pode praticar esse conhecimento em casa ou em qualquer outro lugar que não sejaum terreiro. Isso remete novamente à ideia já trabalhada, da necessidade depreservação da herança ritualística da Umbanda, transmitida de pai para filho desanto e de filho de santo para filho de santo na medida em que novos médiuns vãose inserindo na corrente.Toda essa relação, todo esse aprendizado se adquire no terreiro, embora a internetcontribua para permitir reforçar, on-line, um aprendizado adquirido off-line.Ademais, não se pode confiar em tudo o que está na rede. O blog, porexemplo, é, por definição, o lugar da subjetividade declarada (MARTINO, 2009, p.212). Em tradução simples, “blog” seria a contração de “Web log” ou algo como um“diário da web”.Uma primeira aproximação para a discussão dos blogs seria notarsua condição híbrida negativa: eles não são apenas a transposiçãode uma escrita tradicional para o ambiente da internet, mas o espaçopara a geração de possibilidades múltiplas de novas formas decomunicação e constituição de identidades textuais. (MARTINO,2009, p. 209, grifos do autor).O conceito de blogosfera foi proposto pelo blogueiro Brad L. Graham em 1999nos remetendo à ideia de um universo de blogs (MALINI e WAICHERT, 2008, on-line). No blog há o espaço destinado aos comentários, o que pressupõe a ideia dodebate, aproximando-se à noção de esfera pública. Assim, “como a blogosferafornece um novo ambiente de comunicação e conota implicações distintas com suascaracterísticas únicas, muitos estão entusiasmados com a possibilidade de um novoespaço público”. (LEE, 2006, on-line, tradução minha44).Não obstante sugerir um debate, o fato de um blogueiro querer passar suamensagem na blogosfera não garante, necessariamente, que essa mensagem sejalida, muito menos comentada. Este já é uma das questões que limitam ageneralização da noção do debate proposta por Habermas. Nesse caso, embora aesfera pública diminua consideravelmente os mecanismos de filtro nas trocas44Do original: As the blogosphere provides a new environment of communication and connotesdistinct implications with its unique characteristics, many are thrilled at the possibility of a new publicspace.
  • 79simbólicas, a “blogosfera tem o potencial tanto de abrangência quanto limites” (LEE,2006, on-line, tradução minha45) dela.Não cabe aqui aprofundar a discussão teórica em torno da blogosfera como anova esfera pública interconectada; mas me permito observar que o conceitohabermasiano ideal (LEE, 2006, on-line) pode ajudar os pesquisadores a pensar aconstrução de novas redes simbólicas de representação das práticas relacionadas àUmbanda.A rede de relacionamentos e instituições tradicionais, que configuram aspráticas religiosas, são reconfiguradas (apropriadas, reinventadas, abandonadas) eintegram-se de modo complexo (e, muitas vezes, conflitante) à lógica das redesvirtuais. Com isso, novas formas de representação pública dessas práticas passam aser criadas. A seguir, exploro o conceito de “capital” para tentar entender o que defato garante ou não que uma ideia relacionada à Umbanda seja discutida, levada ounão a sério no ciberespaço.45Do original: The public sphere allows all individuals to participate in discussions occurring in thespace—without any barrier. The blogosphere has both potential for inclusiveness and limits.
  • 802.3 Capital na Umbanda: dentro e fora das redesA noção de “capital” se tornou célebre na teoria marxista; no entanto, é aampliação desse conceito, por Bourdieu, que me permite associá-lo às trocassimbólicas na Web (para depois rearranjá-lo à Umbanda).É possível entender a ampliação da ideia de “capital” a partir da noção decampo. Um campo pode ser definido comoum universo simbólico de definição e gerenciamento dedeterminadas práticas, ou seja, seria um espaço social de dominaçãode conflitos, dotado de, em maior ou menor grau, autonomia e tendea fundar suas próprias regras organizativas, princípios e hierarquias.(SOUZA, 2002, p. 110-120; citada por FALCÃO, SILVA e AYRES,2009, on-line46).Por exemplo,no campo da política, uma das regras é o voto. Os sistemas declassificação são regulados pelo número de votos. No campo dacultura, uma das regras são os títulos. No campo econômico, oscapitais. Nenhum dos campos interinstitucionais, entretanto,reconhece as regras do outro como valor de classificação válido emseu campo. As trocas entre os vários campos, neste sentido, sãosimbólicas, isto é, reingressam num processo de disputas, lutas eclassificações em torno do nomear e classificar o mundo(FERREIRA, 2005, on-line47).O campo que permite melhor adequação dos conceitos com o tema propostoneste estudo é o campo religioso. Isso porque, como apontam Vanda Serafim eSolange Andrade, o conceito é largamente utilizado por teóricos que tratam dasreligiões afro-brasileiras. Todavia, enfatizam, é preciso lembrar que a ideia do camporeligioso de Bourdieu pressupõe diferenciações entre magia e religião, que muitasvezes são ignoradas.Há na construção do campo religioso de Bourdieu a oposição entremanipulação legítima do sagrado (religião) e a manipulação profanae profanadora (magia ou feitiçaria), sendo que esta pode ser uma46Disponível em <http://www.slideshare.net/tarushijio/jogos-e-o fluxo-de-capital-simbolico-no-facebook-um-estudo-dos-casos-farmville-e-bejeweled-blitz#>. Acessado em 3 de outubro de 2011.47Disponível em <http://www.eptic.com.br/arquivos/Revistas/VII,n.2,2005/JairoFerreira.pdf>.Acessado em 18 de outubro de 2011.
  • 81profanação objetiva (a magia ou feitiçaria como religião dominada) ouprofanação intencional (a magia como anti-religião ou religiãoinvertida) [...] Ao utilizarmos a noção de campo religioso parafalarmos de “religiões” afro-brasileiras, estamos fazendo exatamenteo contrário, ou seja, remetendo-as à magia, num sentido pejorativode não-religião. (SERAFIM e ANDRADE, 2009, on-line, grifo dasautoras).Essa diferenciação desemboca naturalmente na institucionalização. DizemSerafim e Andrade que Bourdieu “entende que os leigos não esperam da religiãoapenas justificações que os livrem da angústia existencial, esperam justificaçõespara sua posição social” (2009, on-line).As autoras ressaltam que, quando o sociólogo fala em campo religioso, estáfalando essencialmente da Igreja Católica; por isso é preciso tomar cuidado aoutilizar a ideia do campo religioso para falar em Umbanda. Mas, guardadas asdevidas proporções, alguns conceitos que se agrupam à noção do campo sãoimportantes para a análise da Umbanda na internet.Cardoso Filho (2011) menciona em estudo sobre o Festival de Iemanjá emBelém do Pará48que “a constituição de um campo religioso enquanto resultado demonopolização de gestão de bens de salvação, por um grupo de especialistasreligiosos, reconhecidos socialmente como os detentores exclusivos de competênciapara produção e reprodução de conhecimentos secretos, acompanha a gênese deum grupo de leigos, ou excluídos de competência religiosa, por serem destituídos docapital religioso” (BOURDIEU, 1992, p. 39, citado por CARDOSO FILHO, 2011, on-line).O autor está utilizando o conceito de campo religioso para analisar ainstitucionalização da festa de Iemanjá naquele estado, que começou como umamanifestação livre nas praias, até ter a necessidade de se organizar formalmentepara que os fieis pudessem promovê-la anualmente.Surge, aí, também o conceito de capital religioso, que poderia se aproximar,neste caso especificamente, com o entendimento e controle das práticas ritualísticasoriundas da festa de Iemanjá.48Disponível em<http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1305507426_ARQUIVO_XICONLABArtigo.pdf>. Acessado em 13 de outubro de 2011.
  • 82Um dos blogs selecionados para análise neste trabalho é o “Coisas da Vida”49, de Andréa Deren Destefani. A criadora do blog e autora dos textos nelepublicados ou “postados” (numa linguagem própria da blogosfera) é médiumumbandista e, em 2011, quando do início de minha pesquisa, fazia parte da correntede médiuns do Terreiro do Pai Maneco, localizado em Curitiba.No blog de Andréa Destefani, em cujos textos a Umbanda é frequentementemencionada em relação a assuntos do cotidiano, em muitos posts são utilizadostermos próprios de quem, se não “frequenta” giras, ao menos tem capital religiososuficiente para entender seus aspectos ritualísticos.Para prosseguir com a noção de capital, é preciso atentar também para asnoções de “capital social” e “capital simbólico”. Ainda falando em religião,o homem religioso é tanto criador quanto usuário do conjuntosimbólico do transcendente, portando crenças religiosas que regemsua vida e sua conduta. Cada religião tem uma posição específicaem relação ao homem, à sua condição humana, auxiliando-o na suainserção no mundo e na sociedade. Em toda cultura ou religião existeum capital simbólico, herança que é um patrimônio de funçõesrelacionais e comunitárias. Para o homem religioso, sempre existeuma realidade invisível, misteriosa, transcendente, que ele percebe eque as diversas religiões designam, cada uma, com um termoespecífico. Mas em todas as religiões o homem que realiza um ritofaz um gesto significativo para sua vida, mediante o qual entra emcontato com essa realidade transcendente” (MALANDRINO, 2006, p.191, grifo meu).Grosso modo, o capital simbólico é uma medida do prestígio e/ou do carismade um indivíduo ou instituição (MELO, 2010, on-line). É composto porformas de dominação, que envolvem a dependência perante os queele permite dominar: com efeito, ele existe apenas na e pela estima,pelo reconhecimento, pela crença, pelo crédito, pela confiança dosoutros, logrando perpetuar-se apenas na medida em que consegueobter a crença em sua existência (BOURDIEU, 2001, p. 202).Deslocando o conceito para as redes sociais, isso permite questionar o capitalsimbólico de que são dotados os blogueiros responsáveis pela disseminação dostextos de Umbanda. Ainda que minha análise se centre em blogs de umbandistas,não é preciso ser umbandista para falar de Umbanda em um blog, mas quem o fazdeve ser dotado de um mínimo de capital religioso.49Disponível em < http://coisasdecasados.blogspot.com.br/>
  • 83Menciono rapidamente o blog do terreiro ao qual Destefani pertencia quandocomecei a reunir dados para este trabalho50, o Blog do Pai Maneco51, para levantar aseguinte questão: o fato de os posts publicados no blog terem sido escritos pelopróprio dirigente do terreiro, Fernando Guimarães, que trabalhava com a entidadePai Maneco aumenta seu capital simbólico e social?O acúmulo de capital social conquistado por um indivíduo dependeda rede de relações que ele pode efetivamente mobilizar e do volumede capital – econômico ou simbólico – que é posse exclusiva de umdaqueles a quem está ligado. [...] Ou seja, para adquirir capitalsocial um indivíduo precisa se relacionar com outro(s), e sãoestes a verdadeira fonte de seus benefícios. (FALCÃO, SILVA eAYRES, 2009, on-line, grifo meu).O capital social, então, é o agregado dos recursos atuais e potenciais osquais estão conectados com a posse de uma rede durável, de relações deconhecimento e reconhecimento mais ou menos institucionalizadas, ou em outraspalavras, “à associação a um grupo – o qual provê cada um dos membros com osuporte do capital coletivo”. (BOURDIEU, 1983, citado por RECUERO, 2005, on-line52).O capital social, para Bourdieu, não se encontra nos indivíduos, mas aocontrário, encontra-se embutido nas relações sociais das pessoas (RECUERO,2005, on-line, grifo da autora). Esse conceito [de capital social] pode ser encontradono papel que alguns blogs temáticos possuem na distribuição de informação,formando, em torno deles, uma rede social de compartilhamento de conteúdo(BRANDÃO e RIOS, 2011, on-line53). Isso porque os blogueiros utilizam-se dosblogs não apenas para construir sua rede social, mas igualmente, para gerar50O dirigente do terreiro do Pai Maneco, Fernando Guimarães, faleceu em 2012, ainda durante odesenvolvimento da pesquisa. Antes disso (mas depois das informações que eu já havia colhido eque serão analisadas posteriormente), Andréa Destefani já não fazia parte da corrente.51Disponível em < http://paimaneco.blogspot.com.br/>. “Pai Maneco” é o nome do Preto-velho que odirigente do terreiro, Fernando Guimarães, incorporava, ou, numa linguagem própria, entidade com aqual ele “trabalhava”.52Disponível em <http://200.144.189.42/ojs/index.php/famecos/article/view/454/381>. Acessado em 3de outubro de 2011.53Disponível em <http://intercom.org.br/papers/regionais/nordeste2011/resumos/R28-0666-1.pdf>.Acessado em 18 de outubro de 2011.
  • 84reputação e status dentro dela. O blog então é um instrumento de captação decapital social para os blogueiros. (RECUERO, 2006, on-line54).Os blogs, portanto, servem de meio para aprofundar as relações sociais entreos indivíduos, já que, “quanto mais a parte coletiva do capital social estiverfortalecida, maior a apropriação individual deste capital” (RECUERO, 2005, on-line,grifos da autora). Foram destacadas, aqui, as noções de:1) capital social quando se estabelece uma rede de relacionamentos, como já foiassinalado anteriormente, em torno do grande tema que é a Umbanda e dossubtemas que ela abarca, como a questão da caridade, da fé, do amor, etc.,conceitos universais vistos logo no primeiro capítulo, quando falei do Gruel – GrupoUmbanda é Luz, e que talvez por isso despertem tanto interesse, inclusive em nãoumbandistas.2) capital simbólico quando se analisa o prestígio desses blogueiros na rede emmeio aos seguidores dos blogs (se têm mais “audiência” por serem umbandistaspraticantes escrevendo sobre a Umbanda do que um leigo no assunto fazendo omesmo)3) capital religioso, medido pelo “entendimento” individual sobre a Umbanda e suasgiras.Daí se depreende que os blogueiros, quando praticantes dos rituais de Umbanda eautores de posts sobre Umbanda, detenham um capital religioso muito maior do queseus leitores não umbandistas. Principalmente Pai Fernando Guimarães, dirigentedo terreiro e autor de muitos posts do blog do Pai Maneco. A partir dessa explicação,procurei entender também o que gera o interesse dos leitores frequentes dessesblogs.54Disponível em <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0594-1.pdf>.Acessado em 18 de outubro de 2011.
  • 853. INTERESSE PELA UMBANDA NA REDE3.1. A Umbanda e a modernidade líquidaEsse terceiro capítulo é norteado por uma pergunta fundamental: como uma práticareligiosa, muitas vezes, considerada uma prática mágico-religiosa se desenvolve emmeio ao mundo marcado pelo desenvolvimento racional e tecnológicocontemporâneo, valendo-se, por exemplo, das redes sociais?Para responder a essa pergunta procurei explorar o conceito de “modernidadelíquida” de Bauman (2001) e o conceito de “desencantamento do mundo” de MaxWeber. Neste caso, seria importante para trabalhar com a ideia de um possível“reencantamento” do mundo gerado pela apropriação religiosa das tecnologias e dasredes sociais. O uso da expressão “sincretismo” para representar as experiênciassimbólicas no mundo contemporâneo, proposta por Massimo Canevacci(1996),55também se revelou importante.Neste capítulo, portanto, pretendo apresentar estes conceitos básicos para,no capítulo posterior, utilizá-los na análise dos blogs selecionados. O mesmoocorrerá com outros conceitos já apresentados nos capítulos anteriores.Em primeiro lugar, achei pertinente citar um pequeno texto publicado no sitedo Pai Maneco, exatamente sobre a Umbanda na internet, escrito por Pai FernandoGuimarães no dia 30/8/201156:A modernidade trouxe ao mundo o fenômeno internet e com ela oque foi denominado mídia social que congrega um conjunto deferramentas como o twitter, facebook, blog e outros nomes. A internetestá tão arraigada nos impúberes que me contou uma pessoa umapassagem interessante. Ela estava assistindo um filme no cinema,quando aconteceu uma piada sobre o Google. Só os menores de dezanos caíram na gargalhada, para espanto dos assistentes adultos.55Antropólogo italiano, autor de Sincretismos (CANEVACCI, 1996), estudou os sincretismos noBrasil “como novas formas de conexões, contaminações, trocas entre culturas diversas”.56Disponível em http://www.paimaneco.org.br/textos/comentario-da-semana-13>. Acessado em 5 desetembro de 2011. Optei por manter a grafia original do texto.
  • 86Como não gosto de depender dos outros, entrei de cara nocomputador e hoje manipulo tanto internet como outros programas.Há algum tempo escolhi para meu uso de comunicação o meio Bloge tenho recomendado a todos os Umbandistas que façam o mesmopara espalhar o nome da nossa religião. Acho uma ferramenta boaporque existe a possibilidade de haver recusa de comentáriosdesairosos ou inconvenientes. Não gosto de falar com quem eu nãoconheço. A verdade é que quem posta um comentário sabe quem vairecebê-lo. Vou contar uma fraqueza que tenho: adoro mudar derepente tudo que estou fazendo. Inovo só por inovar. E sou radical.Não vou mais ler ou participar de blogs. Minha ferramenta daqui parafrente serão duas cadeiras, uma na frente da outra. Estarei sentadoem uma delas e quem quiser ocupar a outra é só ir à minha toca, oTerreiro do Pai Maneco, que trocaremos idéias olho no olho. Só paraesclarecer, nada aconteceu de aborrecido comigo durante o uso doBlog, mas não resisto sair da mesmice aborrecida. O Blog do PaiManeco57continua a todo vapor com o retorno da Camila, aresponsável por ele. FMG.São palavras de um pai de santo que está se apropriando da internet paratecer considerações sobre a própria internet. Ele fala no “fenômeno da internet” queteria surgido com a modernidade e cita o blog como uma ferramenta escolhida porele “para espalhar o nome” da Umbanda. O fato de ter optado por deixar aadministração de seu blog para outra pessoa e de ter decidido parar de escrever emblogs partiu, como ele mesmo disse, de uma decisão pessoal.Fernando Guimarães fala em modernidade; Zygmunt Bauman, em“modernidade líquida”. O que seria, então, a tal modernidade líquida, identificadacom a pós-modernidade? Trata-se da ideia de liquidez, no sentido de fluidez,mesmo. Como a fluidez, a inconstância e a mobilidade são características doslíquidos, a metáfora surge a partir de uma característica fluida da modernidade. Umexemplo dessa inconstância é destacado por Bauman como o encontro entreestranhos. Nelenão há uma retomada a partir do ponto em que o último encontroacabou, nem troca de informações sobre as tentativas, atribulaçõesou alegrias desse intervalo, nem lembranças compartilhadas: nadaem que se apoiar ou que sirva de guia para o presente encontro. Oencontro de estranhos é um evento sem passado. Frequentemente étambém um evento sem futuro (o esperado é não tenha futuro), umahistória para ‘não ser continuada’, uma oportunidade única a ser57Disponível em <http://www.paimaneco.blogspot.com/>
  • 87consumada enquanto dure e no ato, sem adiamento e sem deixarquestões inacabadas para outra ocasião.(BAUMAN, 2001, p. 111)A metáfora, desenvolvida por Bauman, pode ser utilizada no entendimentodas trocas simbólicas nas redes sociais, em plataformas como a do Orkut ou doFacebook, sugerindo que “quanto mais amigos se têm, maior parece a necessidadede se mudar um perfil frequentemente. Muitas vezes podem mesmo chegar a terperfis para os quais a metáfora da fluidez é perfeitamente adequada” (MOCELLIM,2007, on-line).Essa “mobilidade” simbólica que as redes sociais permitem a seus usuários, apartir da possibilidade de construir diversos “perfis” virtuais e modificá-los a qualquermomento, pode ser considerada uma característica importante da modernidadelíquida.O Orkut ou o Facebook surgem como uma ferramenta que possibilita oencontro entre pessoas com interesses diversos, mas que, ao mesmo tempo, podemcompartilhar um mesmo interesse pela religião, por exemplo. Pesquisando a palavra“Umbanda” no campo de busca da rede social encontram-se mais de 1000resultados, ou seja, são mais de 1000 comunidades virtuais relacionadas àUmbanda (independentemente de serem elas contra ou a favor da religião) e maisde 1000 tópicos (fóruns de discussão). Elesdemonstram uma identificação dos usuários com interesses mais oumenos fluídos, não criando um vínculo de responsabilidade, masservindo como modo de demonstra esses pequenos interesses.Podem ser, em determinadas situações, formas de ajuda mútua,como no caso de usuários que buscam trocar informações por meiodas comunidades, mas não geram obrigações de longo prazo, geramo que Bauman chama de “vínculos sem conseqüências” – laçosbreves que não vinculam verdadeiramente. (MORTELLI, 2007, on-line, grifo do autor).Pai Fernando fala de uma característica comum ao blog, que é permitircomentários de diferentes opiniões sobre a religião. Mas, essa característica não éexclusiva do blog, já que também no Orkut, no Facebook ou no Twitter - trêsimportantes redes sociais - isso acontece com frequência.A ideia da modernidade líquida de Bauman pode ser utilizada para analisar omodo pelo qual os usuários se apropriam de maneira fluida das redes sociais para
  • 88construir e afirmar, mesmo que provisoriamente, sua identidade, suas crenças evalores. Assim:Por meio de blogs ou do Orkut e sites interativos, por exemplo, osujeito pode (re)significar ou (re)criar e simular sua identidade deacordo com fluxo da situação ou das necessidades do momento. Épor meio dessas ferramentas que o sujeito da sociedade liquido-moderna pode tornar-se visível, reconhecido e brilhar nas telasmesmo que provisoriamente. (OLIVEIRA, on-line, grifos do autor)A oportunidade de “tornar-se visível” e “brilhar nas telas mesmo queprovisoriamente” é atrativa na rede. Pode ser utilizado como exemplo, aqui, o blog“Coisas da Vida”. Nele, pude observar que cada post é seguido por diversoscomentários nos quais se compartilha uma história pessoal relacionada ou não àUmbanda.Em um post intitulado “Enquanto os anjos não falam”, publicado em 1 denovembro de 2010, Andréa Destefani fala sobre as “mensagens” transmitidas “pelosmortos”. Um dos leitores conta um episódio totalmente pessoal, compartilhando uma“consulta” que teria tido com uma determinada entidade (Exu do Lodo) sobre ofalecimento de seu pai. Ele não apenas demonstra interesse em ser lido, comotambém aproveita o espaço de comentários do post para pedir à autora que o avisecaso receba alguma mensagem pai já falecido.
  • 89Além disso, como nesse caso o espaço de comentários é “aberto”, ou seja,“qualquer um pode comentar”, abre-se a possibilidade de participação de outraspessoas que não precisam ser umbandistas.No caso do blog de Andréa Destefani, por exemplo, há um notável esforçonos textos em despertar emoções em quem lê, por meio de uma linguagem simplescapaz de ser entendida não apenas pelos umbandistas, já que a autora partilha aopinião e o objetivo de Pai Fernando Guimarães, de “espalhar o nome dessareligião”, a Umbanda. Em um trecho do post mencionado58, a autora parece tentarfazer com que sua experiência pessoal seja capaz de convidar o leitor a exercitarsua própria experiência:Todos dizem que as pessoas são materialistas no mundo atual.Podem até ser. Contudo, diante de uma lembrança deoutros tempos, de uma outra vida vivida nesta encarnação mesmo,de filhos e netos que nascem, de pessoas amadas que desencarnamsomos definitivamente espirituais. Temos que crer que algo nosconduz e nos protege e principalmente que temos braços que nosamparam quando precisamos. Quem já perdeu alguém que amavamuito, há de concordar comigo. A dor que sentimos é algolancinante. Nenhum consolo verbal é suficiente nesta hora. E entãoquando recobramos a respiração, nos pegamos em busca de sinaisde vida de quem já se foi. Às vezes pode ser de forma discreta eíntima, às vezes mais contundente (grifo meu).Ao mesmo tempo em que Destefani provoca a emoção de quem a lê,transpondo sua experiência como médium por meio do texto escrito no blog, aqueleque comenta também o faz. De certa forma, sendo ou não umbandista, também oleitor vai transpor para o mundo virtual, no espaço destinado aos comentários, suaexperiência com o acontecimento relatado.O internauta comenta o post de Andréa demonstrando interesse pelasinformações ali contidas e quer estabelecer com ela uma comunicaçãocompartilhando um contato mediúnico. Uma relação restrita ao espaço do terreiropode ganhar visibilidade e abrir espaço para um novo vínculo desterritorializado: “...se algum dia você receber notícias em alguma psicografia ou algo do tipo, por favor,call me”. O autor do comentário indica já ter tido contato com Destefani antes, umavez que a chama de “amiga”. Ao analisar o perfil do internauta, que comenta o post58Disponível em <http://coisasdecasados.blogspot.com/2010/11/enquanto-os-anjos-nao-falam.html>
  • 90com o perfil do Twitter @maxwell_r pude perceber que ele faz parte da lista depessoas que assinam o blog de Destefani, ou seja, da lista de membros do blog“Coisas da Vida”.Recuero (2009) explica a diferença do que seriam, conceitualmente, essesmembros de um determinado blog (o mesmo se pode dizer dos “amigos” do Orkut ou“seguidores” do Twitter) e aqueles que efetivamente comentam os posts.Enquanto as redes sociais decorrentes das conexões estruturais deum sistema podem representar uma rede estática (por exemplo, os“amigos” de alguém no Orkut), as redes sociais emergentes sãoaquelas que mostram efetivamente, com quem ele interage e comoessas interações estão influenciando sua rede estruturada pelosistema. (RECUERO, 2009, on-line, grifos meus)Ela denomina tais redes estáticas como redes de filiação, que é o que acontecequando se “assina” o conteúdo de um blog, por exemplo. No caso do comentáriomencionado, o fato de @maxwell_r ser membro do blog de Andréa o aproxima doque se pode chamar de uma rede de filiação; no entanto, a assiduidade com a qualele comenta o conteúdo disponível, independentemente de ser ou não membro, otorna parte de uma rede emergente.É importante destacar que ser membro de um blog não determinaassiduidade nos comentários dos posts. Particularmente no blog de Destefani,comentários assíduos são gerados por um interesse comum pelo assuntomajoritariamente explorado: a Umbanda.Retorno, então, à questão que se destaca neste capítulo: o que torna tãointeressante a Umbanda nas redes sociais? É possível que o interesse pelaUmbanda manifestado na Web seja capaz de sintetizar o reencantamento do mundo
  • 913.2 A Umbanda e o reencantamento do mundoA noção de “reencantamento do mundo” é uma apropriação do conceitoweberiano de “desencantamento” presente na Sociologia da Religião. O conceitoaparece em A ética protestante e o espírito do capitalismo e A ciência como vocaçãocomo sendo “a eliminação da magia do mundo”.É importante destacar, no entanto, que no caso da ética protestante trata-sede:Aquele grande progresso histórico-religioso da eliminação da magiado mundo que começara com os velhos profetas hebreus econjuntamente com o pensamento científico helenístico repudioutodos os meios mágicos de salvação como superstição e pecado,chega à sua conclusão lógica. O puritanismo genuíno rejeitava atétodos os sinais de cerimônia religiosa na sepultura e enterrava seusentes mais próximos e mais queridos sem música ou ritual, a fim deque nenhuma superstição, nenhuma crença nos efeitos de forças desalvação mágicas ou sacramentais pudesse ser restabelecida.(WEBER, 2004, p. 72)A ideia do desencantamento do mundo está ligada, portanto, ao que Webervai chamar de racionalização, ou, ainda, a uma visão da ascese secular como meiode reconhecimento da salvação. Ele menciona, contudo, que:os católicos não levaram tão longe quanto os puritanos (e antesdeles os judeus) a racionalização do mundo, a eliminação da mágicacomo meio de salvação. Para eles, a absolvição de sua Igreja erauma compensação para sua própria imperfeição. O sacerdote era ummágico que realizava o milagre da transubstanciação e que tinha emsuas mãos a chave da vida eterna. O indivíduo podia voltar-se paraele arrependido e penitente. (WEBER, 2004, p. 81).As seitas batistas, junto com os predestinacionistas - especialmenteos calvinistas estritos - desenvolveram a mais radical desvalorizaçãode todos os sacramentos como meios de salvação e realizaramassim, até as últimas consequências, a "desmistificação" religiosa domundo. Somente a "luz interior" da contínua revelação podia habilitaralguém a entender verdadeiramente até mesmo as revelaçõesbíblicas de Deus. (p. 104, grifos do autor).Para Lísias Negrão (1997, citado por ASSUNÇÃO, 2011, on-line), ossociólogos não interpretaram corretamente o conceito de desencantamento domundo à realidade brasileira, já que “no Brasil, não houve algo que se assemelhasse
  • 92à mensagem profética racionalizadora e à implantação dos grupos protestantes(batistas, presbiterianos e metodistas) que seriam os herdeiros do potencialracionalizador”. Para o autor, Weber referia-se “no contexto da gestação do mundoocidental moderno, tanto à perda de conteúdos sacrais (seus encantamentos),quanto à racionalização dos mesmos, internamente ao âmbito da religião”.Neste caso, adaptar o “desencantamento do mundo” à realidade pós-modernatraz problemas, já queos conceitos de religião ou mesmo de campo religioso se tornaramum cobertor curto: eles não cobrem mais todas as modalidades, osespaços, a diversidade e a mutabilidade da experiência religiosa nosquadros da modernidade capitalista tardia. (...) A religião não devemais ser procurada apenas em igrejas, templos e terreiros, onde elase tematiza explicitamente, mas também lá onde ela não se chamade religião...” (MOREIRA, 2008, citado por ASSUNÇÃO, 2011, on-line)Se pensarmos o desencantamento religioso como a eliminação das práticasmágicas com o objetivo de atingir a pureza da alma no caminho da salvação, nãoseria leviano supor que na pós-modernidade o processo de reencantamento, isto é,de recuperação dessas práticas mágicas, esteja se configurando.A (pretensa) transposição do ritual de Umbanda para o campo virtual é umexemplo de que, como menciona Moreira, o espaço religioso sofre um processo dedesterritorialização e re-territorialização.No blog de Andréa Destefani, uma rápida análise dos comentários de seusposts revela a busca dos leitores por palavras de conforto da dor ou mesmo umaaproximação – ainda que apenas virtual – com as entidades de Umbanda. Se nãonecessariamente com essas entidades, ao menos a aproximação com o universomágico de um Espiritismo sincrético, que abriga diferentes manifestações religiosas.O sincretismo, inclusive, nas palavras de Raymond Lee, “está evoluindo emuma perspectiva funcional: este é o encantamento que consideramos como umasolução radical para o desencantamento, mas um como uma ferramenta pararecuperar ou reinventar velhas crenças esotéricas, ao mesmo tempo em vantagemde modernas tecnologias para melhorar o bem ser” (2008, citado por ASSUNÇÃO,2011). A Internet é vista por Lee como um meio pelo qual o indivíduo pode recriar osconhecimentos existentes, reencantando quem possui estes conhecimentos(ASSUNÇÃO, 2011).
  • 93Exemplo disso é o próprio texto de Destefani. Ao compartilhar os conhecimentos daUmbanda que adquiriu no terreiro, ela desperta comentários relacionados ou nãocom essas práticas. No post “Enquanto os anjos não falam”, que versa sobre asmensagens dos mortos (uma relação clara com a prática da psicografia exercidacom mais frequência pelos kardecistas), outro comentário me chamou a atenção,pois fala claramente do sincretismo religioso na Umbanda.Ao admitir não saber o que significa ser filha de Iansã com Ogum59, ainternauta deixa claro que não é umbandista, mas demonstra o interesse emaprender sobre a religião quando diz que respeitou a informação recebida. O59O termo “filho” de Orixá (ou “Santo”) é muito comum na Umbanda, assim como no Candomblé. NaUmbanda entende-se essa filiação por meio de pares de Orixás, feminino e masculino, com a ideia deque todos nós sejamos filhos de um casal deles. No caso da internauta referida, ela é filha de Iansã(Orixá feminino) com Ogum (Orixá masculino) e são as características desses dois Orixás que, noentrecruzamento, serão responsáveis por traços de sua personalidade.
  • 94sincretismo está exatamente na imagem de Santa Bárbara, uma representaçãocatólica de Iansã.A ideia de sincretismo (sin-cretismo = união de cretenses60) é recorrentequando se fala em religiões consideradas afro-brasileiras. Isso porqueo Brasil é um país que favoreceu ao máximo o fenômeno dossincretismos religiosos. Mitos, ritos, divindades, cosmogonias,filosofias de origem africana disfarçavam-se em formas católicaspara tornar aceitável um pacto implícito (...) (CANEVACCI, 1996, p.20). Então Iemanjá disfarça-se (com seus seios túrgidos) de NossaSenhora; Exu torna-se, impropriamente, o Diabo; os gêmeos Ibeji, ossantos Cosme e Damião, etc. (...) Os novos sincretismos vestem ossignos da oposição móvel, do ‘negativo’, irrequieto e permanente. Osincretismo é um orixá em movimento e do movimento61; contra osimobilismos psíquicos, as reproduções permanentes, as teoriascíclicas, as firmezas teóricas, as paradas arquetípicas.(CANEVACCI, 1996, p. 16, grifos do autor).Se para Raymond Lee o sincretismo evolui “para encantar” o mundo, por que nãosupor que o compartilhamento de ideias e experiências em rede não seja capaz decriar novas experiências ritualizadas, sincretizadas?60Termo que nasce pela “determinação de unir grupos conflituais; busca de alianças entre diversaspartes da própria Creta” – CANEVACCI, M. Sincretismos: uma exploração das hibridaçõesculturais. São Paulo: Studio Nobel, 1996.61O autor faz uma alusão a uma das descrições de Exu (frequentemente identificado com o Diaboprincipalmente por não umbandistas); esta, no caso, feita por Jorge Amado, que o caracteriza como“orixá do movimento”.
  • 954. MANIFESTAÇÕES IDENTIFICADAS COM A UMBANDA: REVISÃO DECONCEITOSO título desse capítulo é essencial para que não haja confusão,principalmente por parte de umbandistas, acerca das “manifestações” as quaispretendo expor nas próximas páginas. Não digo que sejam manifestações deUmbanda, mas identificadas com a Umbanda, ou seja, manifestações que tenhamalguma característica que se relacione à Umbanda de alguma forma.Este capítulo final propõe ainda uma revisão dos muitos conceitos que foramexpostos nos capítulos anteriores, agora os relacionando com exemplos nos blogsselecionados. Por uma questão metodológica, tive de selecionar algo em comumtanto no blog do Pai Maneco como no blog “Coisas da Vida”, além de outro blog,“Luzes e Sonhos”.É evidente que, pelo vasto número de posts não é possível contemplar umaanálise de todos os aspectos que os envolvem. Por isso, escolhi um aspecto que, ameu ver, é significativo por envolver questões sedimentadas pelo senso comum eque, por isso mesmo, tornam-se desafiadoras quando transpostas do plano físico-espiritual para o virtual: o realce da visão positiva sobre Exu. Isso porque, pormeio da leitura dos textos disponíveis nas redes sociais, pude perceber que oumbandista-autor muitas vezes se esforça para mostrar àqueles que não conhecema Umbanda, que Exus e Pombas Giras “trabalham para o bem”. E é nesse esforçoque, a meu ver, os umbandistas blogueiros contribuem para a afirmação daUmbanda nas redes sociais.
  • 964.1 Propósito de Exu na UmbandaComeço citando trechos de um post publicado no blog “Coisas da Vida” em 30 demarço de 2011. A autora diz que “atribuir algo maligno a Exu é burrice”:Uma linha que trabalha maravilhosamente com o resultado concretode nossos pensamentos é sem dúvida a dos Exus. Quando se falaem Exu as pessoas ficam preocupadas e com medo. E devem senão buscam uma cura. Porque Exu olha dentro de sua alma e vêquais são suas intenções,analisa seus pensamentos, e te livra detudo o que eles causam em você. Porque seus pensamentos,aqueles negativos, como a inveja, a frustração, tristeza contínua, oego inflado formam algo parecido com larvas astrais que atraemoutros bichos, que grudam no seu perispírito e te sugam cada vezmais. [...] Exus são guardiões de um nível vibracional mais baixoporque precisamos de entidades protetoras que tenham ahabilidade para circular livremente nestes níveis. O ser humanonão está livre de cair em armadilhas do nível mental, por mais que seesforce. São muitas as tentações. Desde comentar com os outrossuas grandes conquistas e se vangloriar delas, até de seus projetosainda não concretizados. Dois grandes erros que seo Capa Preta62sempre faz questão de lembrar a quem lhe procura. [...] Posso falaraqui do que eu percebo, vejo e vivencio e não mais do que isso.Atribuir algo malígno a Exu é burrice, como também pensar quesomos, apesar de bons em alguns momentos, seres repletos deluz. Trazemos conosco sombras que podem com o tempo ir sedissolvendo na medida de nosso entendimento63. (DESTEFANI,2011, on-line, grifos meus).Embora diga que os Exus são “guardiões de um nível vibracional mais baixo”, umdos 22 comentários que o post recebeu expressa claramente uma visão diferentesobre o assunto:62Exu Capa Preta, uma das entidades com a qual a médium “trabalha”.63“Exu”. Disponível em <http://coisasdecasados.blogspot.com/2011/03/exu.html>. Acessado em 12de setembro de 2011.
  • 97O internauta diz não acreditar que Exu “seja esse espírito inferiorizado e tãoinjustamente julgado”; expressa, educadamente, uma visão contrária àquela que foiapresentada por Destefani, que não é leiga no assunto (possui, portanto, capitalreligioso para falar a respeito).Não temos como saber se o autor do comentário é umbandista. O fato é queele deixa o endereço de seu blog (http://vazaante.blogspot.com/) e discorda deDestefani. Isso pode indicar o surgimento de um novo espaço para o debatereligioso, aproximando-nos da ideia da blogosfera como uma nova configuração daesfera pública.Em outra postagem, com a temática Exu/Pomba Gira, Destefani expõe suavivência pessoal no contato com Exus e Pombas Giras, reforçando o caráter positivoda atuação dessas entidades. Achei prudente reproduzir boa parte do post, já queisso me permite uma aproximação maior com os conceitos que foram propostosanteriormente.Na Umbanda quem está contigo nas encruzilhadas desta vida é Exu,ele é guardião e protetor. Tem uma coisa ainda que não aprendidireito é ato de fazer pedidos. Tenho vergonha as vezes, confesso.
  • 98Sempre que chego na frente do seo Tranca Ruas das Almas e sintouma energia imensa e ele me pergunta se está tudo bem, falo quesim. Porque ao lado dele sempre está tudo bem. Seu abraço paramim é o suficiente para desfazer qualquer energia ruim. Ele carregaconsigo o dom Divino do perdão às almas perdidas. E esta almaaqui ,por mais que esteja perdida sempre tem a mão dele estendidaquando preciso passar minhas mensagens a quem busca consolo,de problemas imensamente maiores que os meus. Outra que sempreme auxilia é Dona Maria Padilha das Almas, pomba giramaravilhosa que me dá colo quando eu preciso, e força quandoa minha está se esgotando. [...] Para quem não tem conhecimentoda religião, os exus e pomba-giras são sempre comparados ademônios. Acredito piamente que nós temos várias vidas numa só.Há momentos que nossas convicções nos aproximam de Deus e queem outros nos deixam no limbo de nossas próprias emoções debaixa vibração. São nossas encruzilhadas, momentos importantesonde estamos fragilizados e precisamos tomar decisões. Então paraque possamos sair do limbo e ressuscitar nesta mesma vida elesvem nos socorrer, mas as ações para se sair do fundo do poço cabesomente a nós mesmos. A cada ciclo de ressurreição nesta vida nosfortalecemos, porque reencarnamos mais fortes. [...] Quandocomecei a trabalhar com o seo Capa Preta confesso que fiqueicom medo. Disseram que era um exu muito severo eincontrolável. Hoje, por tudo que já vivenciei ao seu lado sei quea energia dele, combinada com a minha, possibilita que váriaspessoas saiam do terreiro um pouco mais leves do fardo deproblemas que carregam. Porque as entidades trabalhamtambém com os referenciais de vida e de crença dos médiuns. Ea Umbanda trabalha com energias de diferentes intensidadesvisando o equilíbrio que deve haver na natureza humana.64(DESTEFANI, 2010, on-line, grifos meus).Destefani faz, portanto, mais do que meramente expor sua opinião sobre a figura deExu. Por meio do relato, a autora se coloca na posição de quem vivenciou aenergia da entidade e por isso mesmo pode dizer que ele é “guardião” e “protetor”,assim como quando diz que a Pomba Gira Maria Padilha das Almas “dá colo” e“força”.A própria médium confessa ter ficado com medo quando começou aincorporar Exu Capa Preta. Entretanto, esse “medo” não parece ser o mesmo medo64“Um encontro na encruza”. Publicado em 23 de junho de 2010. Disponível emhttp://coisasdecasados.blogspot.com/2010/06/um-encontro-na-encruza.html>. Acessado em 12 desetembro de 2011.
  • 99proveniente do sincretismo pejorativo de Exu com a figura do diabo pregada pelatradição católica; seu receio provém de relatos de outros médiuns (“... disseram queera um Exu muito severo e incontrolável”). Analisando os 10 comentários que estepost recebeu, um deles merece destaque, por se tratar de alguém que declara serespírita, mas não conhecer muito sobre a Umbanda.O comentário exemplifica a contribuição das redes sociais para a Umbanda(“... estou gostando muito de ler seus textos e de entender cada dia mais um poucosobre Umbanda”). É um exemplo, também, da diferenciação entre espíritas –inspirados pela doutrina espírita kardecista - e umbandistas. Ademais, nessecomentário estamos diante da ideia da criação de laços por meio de um interessecomum, já que o (a) internauta, da maneira como escreve, dá a entender que vaicontinuar acompanhando o blog, já que está “gostando muito” dos textos. Daí,também, a criação de uma rede que vai surgindo por meio desses laços; da ideia deacompanhamento e continuidade motivados por um gosto comum.Voltando ao propósito de Exus (e seu equivalente feminino, as Pombas Giras)na Umbanda, outra menção que merece ser feita aqui é o relato de uma camboneque sem estabelecer uma ligação direta com Destefani partilha a mesma visão –positiva - sobre essas entidades.Quando, pela primeira vez, estive nesta Casa, trazida pelo amor epela dor, fiquei encantada, literalmente hipnotizada, pela plasticidadee pelo espetáculo cênico que vi. [...] Aquelas Entidades de olharpenetrante, comandadas por Sr. Tranca Ruas das Almas, com suascapas vermelhas e negras, movimentando-se pelo Terreiro, mefizeram lembrar do fascínio, tantas vezes descrito, de Hemingway
  • 100pelas touradas. [...] Quando vi Sr. Akuan65repreender com os olhoscheios de amor, lembrei do que é ser pai ou mãe. Quando vi Sr.Folha Verde emocionar-se em meu casamento entendi que vale apena, sempre, chorar de emoção; quando levei um imenso puxão deorelhas do Sr. Rompe Mato66e, ao me desculpar ouvi dele “eu sóbrigo com quem gosto” me certifiquei da profundidade de umaverdadeira relação de amizade e afeto. [...] Deixei-me seduzir pelohumor ácido da minha querida Velha do Cemitério, que me chamavade ‘metida à sabichona e curiosa’, e que confiou a mim o motivo peloqual vem servindo a quem precisa, contando-me sua história, quetentei reproduzir da maneira mais fiel possível, para conhecimento detodos. [...] Presenciei Tio Antônio67aborrecido e desconfortável porbeber uma bebida que não era a dele, mas mesmo assim, ser gentilcom quem esteve em sua frente. Até que, ao cambonear CabocloBoiadeiro, eu pude ver, com olhos que nem sabia ter; seu rosto dehomem agreste, magro e moreno, se formar por sobre as feiçõesloiras do seu cavalo. [...] Sr. Táta Caveira68mereceria um capítulo àparte. E ai de quem não andar na linha! Inclusive eu! Ele exige namesma proporção que entrega. Diz todos os palavrões que eumesma tenho vontade de dizer, e por vezes digo. Fica indignado coma falta de vontade e força das pessoas, mas os acode sempre. Ficabravo, mas protege; xinga, mas ajuda; reclama, mas estásempre lá, às vezes de bom, às vezes de mau humor, como todosnós, e recebe a todos com aquele olhar maroto de ‘lá vem maisum...’. Conversa com Sr. Morcego69,com a intimidade de velhosamigos, ao mesmo tempo em que me cobre com sua capa,sempre que pressente que eu preciso de ‘colo’ e diz que só eumesma para gostar de ‘colo’ de Exu. E eu gosto! [...]70”(PROCHMANN, 2004: on-line, grifos meus)65Caboclo Akuan.66Caboclo Rompe-Mato.67Usam-se vocativos tais como “tio”, “pai” e “avô” para designar Pretos-velhos68Exu Tata Caveira.69Exu Morcego70PROCHMANN, S. R. “Relato de um cambone”. Disponível em<http://www.paimaneco.org.br/textos/relato-de-uma-cambone>. Publicado em abril de 2004.Acessado em 24 de outubro de 2011.
  • 101O relato foi publicado no site do Pai Maneco (http://www.paimaneco.org.br/). Emboranão seja necessariamente um post de blog71, é interessante para mostrar comoalguém que detém capital religioso para falar da Umbanda se utiliza de um meiovirtual para compartilhar sua experiência pessoal com a religião, desde as primeirasimpressões que teve da “casa”.Tal como Destefani, Prochmann ressalta uma visão carinhosa de Exu, semdeixar de mencionar aspectos que remetem a uma imagem pré-estabelecida daentidade, como o olhar penetrante, as capas vermelhas e os xingamentos. NoPrograma do Seu Tranca, analisado no início do trabalho, mencionei a gargalhadade Exu como um desses aspectos.Um espaço dentro do site do Pai Maneco é destinado a dúvidas de nãoumbandistas, o que por isso mesmo já remete à contribuição das redes sociais paraa religião. Em uma das respostas, mais uma vez encontramos a visão positiva deExu por umbandistas72.71Há, além do site, o blog do Pai Maneco, sendo que o site trata mais do Terreiro do Pai Maneco,com espaços para fotos do local; vídeos, textos e imagens relacionadas ao terreiro; regras do terreiro,etc., enquanto o blog é utilizado para difundir textos de Umbanda em geral.72Disponível em < http://www.paimaneco.org.br/faq>. Acessado em 24 de outubro de 2011.
  • 102“No meu livro eu conto fatos desse exu [Tranca Ruas das Almas], uma entidademaravilhosa que só faz o bem”.O fato de o administrador do site disponibilizar um local virtual para responder adúvidas de quem não conhece o ritual umbandista pode ser visto como um esforçopara tornar a religião mais próxima.Para Ricardo Oliveira de Freitas73, que pesquisa o fenômeno dos “terreirosvirtuais” (explorarei mais adiante as implicações do termo)a criação de fóruns, listas, sites, IRC’s74e chat’s sobre religiões afro-brasileiras (umbanda e candomblé, sobretudo) assume diversasfunções. [...] No Brasil, se caracterizará pelo lugar do debate e73Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.74Internet Relay Chats, protocolo de comunicação utilizado na internet.
  • 103conhecimento não encontrado no mundo real dos terreiros. Ociberespaço assume, aqui, um papel mais moderno oucontemporâneo, destinado, no passado, à mídia e à produçãoacadêmica. (FREITAS, 2002, on-line)No Grupo Umbanda é Luz, que descrevi no primeiro capítulo, esse espaço doconhecimento dentro do terreiro é territorializado, pois o Babalorixá se preocupa emministrar aulas aos médiuns antes das giras de sábado (ao contrário do que supõeFreitas quando fala no “lugar do debate e conhecimento não encontrado no mundoreal dos terreiros”).Não se pode afirmar, porém, que essa preocupação também parta dosdirigentes de outros terreiros, e talvez isso explique por que muitos médiunsrecorrem à internet para obter explicações que não encontram em seus locais deculto. Na dinâmica do Programa do Seu Tranca, por exemplo, essa característica émarcante quando se percebe que grande parte das dúvidas (enviadas por e-mail ouMSN durante a transmissão do programa) é de umbandistas.Essa dinâmica de mundo real/físico do terreiro com o mundo virtual permitidapela dinâmica do ciberespaço nos remete mais uma vez à noção de rede, poiso espaço virtual vai criando novas redes de sociabilidade entre osadeptos do candomblé e das religiões afro-derivadas, tanto no Brasilquanto no exterior, unindo visões de mundo, estilos de vida, culturastão distintas e distantes ao criarem uma rede cibernética para umpovo-de-santo cibernauta (FREITAS, on-line75)Os médiuns se utilizam também do espaço destinado aos comentários deposts em blogs para sanar suas dúvidas. No post “Umbanda?” 76, a própria AndréaDestefani comenta duas vezes, pedindo esclarecimentos a Pai Fernando Guimarãessobre questões ritualísticas pontuais.O estudo de caso do Programa do Seu Tranca dialoga com todos os capítulosdessa pesquisa, pois permite, por meio da fala de alguém que agrega capital75<http://cencib.org/simposioabciber/PDFs/CC/Ricardo%20Oliveira%20de%20Freitas.pdf>. Acessadoem 24 de outubro de 2011.76A autora da postagem é Camila (sem referência de sobrenome), que, como já mencioneianteriormente, ficou responsável pela administração do blog do Pai Maneco depois que o médiumFernando Guimarães resolveu parar de escrever na internet. O link para o post e comentários é<http://paimaneco.blogspot.com/2011/06/umbanda.html>, acessado em 12 de setembro de 2011.
  • 104religioso considerável (tanto a médium que incorpora a entidade, comoprincipalmente a própria entidade), reforçar a visão positiva de Exu, desmistificar osincretismo diabólico e funcionar – característica principal – como canal de dúvidas.
  • 1054.2 Reais contribuições virtuais: formação de redes de amizade ecompartilhamento de conteúdoO que mais chamou minha atenção, antes mesmo de formular o meu projetoda pesquisa de iniciação científica em 2010 e, consequentemente, este trabalho deconclusão de curso, foi a minha própria experiência com a dinâmica das redessociais. Descobri que vários laços que me ligavam a alguns amigos (minhasconexões) estavam, também, de alguma forma, ligados a Andréa Destefani.Ao “segui-la” no Twitter, estava eu também me tornando parte daquela rede, aindasem saber. Pelos retweets diários de @andreadestefani(http://twitter.com/#!/andreadestefani), que divulgavam textos de outros blogs deumbandistas, pude então notar a formação de uma rede virtual de amigos quetinham na autora uma conexão-chave. A partir daí descobri o blog “Luzes e Sonhos”(http://luzesesonhos.blogspot.com/), que tem o subtítulo “Umbanda SemPreconceito”.O blog tem 15477membros e também contribui para difundir a Umbanda pormeio de suas postagens. Em 2011, ano em que comecei a colher os dados destapesquisa, fiz uma análise dessa relação entre as duas autoras, que se estabeleciaprincipalmente pelo Twitter.Essa análise me levou aos seguintes resultados: entre os perfis@andreadestefani e @luzesesonhos havia 110 amigos em comum78, ou seja, équase o total de membros do blog Luzes e Sonhos só no Twitter. Já uma relaçãoentre @luzesesonhos e @tpmanecoficial (Twitter do Blog do Pai Maneco) resulta em83 amigos em comum. No post “Paraíso Pessoal” acessado em 12 de setembro de201179, fica claro a relação de amizade e interesse comum.77Último acesso em 22 de outubro de 2012.78Para chegar a esse resultado (até 24 de outubro de 2011), utilizei a ferramenta “Find Who Follows”,disponível em http://whofollowswhom.com/#>79O link para o post não está mais disponível.
  • 106Essa rede que se forma não abriga apenas umbandistas, já que não apenasos umbandistas comentam os textos, como já foi dito. No post intitulado “GrandeMagia” 80uma internauta chama a autora de “twigga”, uma referência conjunta ao“Twitter” e à palavra “amiga” (ver anexo 7). O comentário é repleto de termospróprios da internet, como o # (“jogo da velha”) para indicar uma hashtag81, o usodas siglas RT (retweet), FF (follow friday) e SS (siga sexta)82, que dão a ideia de quea relação entre Destefani e a internauta se estabeleceu primeiro no Twitter, depoisno blog.Percebi, a partir dessa análise, que a relação que se estabeleceu em umadeterminada rede social poderia ser capaz de promover uma relação em outra redesocial ou transpor a relação de uma para outra (a linguagem do Twitter, com80DESTEFANI, A. “Grande Magia”, disponível em<http://coisasdecasados.blogspot.com/2011/06/grande-magia.html>. Publicado em 16 de junho de2011. Acessado em 12 de setembro de 2011.81Termo utilizado por usuários do Twitter para delimitar um assunto, um tópico.82“Follow Friday”/#FF é também um termo do Twitter; é uma brincadeira que acontece toda sexta-feira com o intuito de indicar possíveis Twitters a ser seguidos, sendo #SS sua tradução emportuguês.
  • 107hashtags e siglas, é mantida no espaço de comentários do blog). Há aí a ideia do“capital social embutido nas relações das pessoas” (Recuero, 2005), da criação delaços fracos com desconhecidos, estabelecimento de conversações ecompartilhamento de conteúdo.Pude perceber também, por meio dessa análise, que a relação entre osblogs selecionados e a Umbanda não é só textual. Há um notável esforço parainfluenciar adeptos e não adeptos e levá-los a ter algum tipo de contato virtual com areligião umbandista, além de ajudá-los a ter o contato físico tão importante para aprática mediúnica.Um exemplo disso é a página “Terreiros Indicados”, que faz parte do blog Luzes eSonhos (http://luzesesonhos.blogspot.com/p/terreiros-indicados.htm).Desse modo, a rede também adquire a característica de facilitadorado encontro extra-limite dos terreiros (do encontro online, off terreiro,
  • 108mesmo que virtual) que num passado ainda mais remoto foidestinado às irmandades e confrarias negro-brasileiras (FREITAS,2010, on-line).No post do blog Coisas da Vida, intitulado “Oxalá” 83, Andréa Destefani fala dalinha de mendigos, que agruparia entidades de espíritos que em sua vida terrena“foram mendigos” e que agora “trabalham na Umbanda”. Uma única postagem foicapaz de reunir, dentre os comentários, uma Iyalorixá,uma agnósticae até mesmo um umbandista que desconhecia a tal linha.83DESTEFANI, A. “Oxalá”, disponível em <http://coisasdecasados.blogspot.com/2010/07/oxala.html>.Acessado em 24 de outubro em 12 de setembro de 2011.
  • 109Deixo claro que, ao expor tais exemplos, estou falando de Umbanda nosentido amplo, uma vez que, na prática, cada umbandista deve respeitar oreferencial teórico do qual faz parte (como expliquei no capítulo sobre o GrupoUmbanda é Luz). Isso não impede, entretanto, que esse mesmo umbandista queiraconhecer outros referenciais teóricos.Outro exemplo de contribuição das redes sociais para o conhecimento sobrea Umbanda é a página no Facebook intitulada “Umbanda, eu curto”, com 32.429seguidores (ou pessoas que curtiram, na linguagem própria do Facebook) na últimaanálise, em 22 de outubro de 2012.
  • 110As fotos compartilhadas diariamente por mantenedores da página noFacebook mostram imagens de entidades, Orixás e paisagens comuns à Umbanda,geralmente com uma explicação textual a respeito. Observando essa páginaencontrei um fenômeno que vinha buscando desde o início da pesquisa em 2011: opasse virtual.O passe, antes uma forma de trabalho espiritual restrito aos terreiros e às entidadesincorporadas, agora também está disponível no Facebook. A validade de seu efeitodepende exclusivamente da fé, assim como a comunicação com Exu Tranca Ruadas Almas pelo MSN.É importante destacar que procurei aqui analisar os exemplos mencionadosnum amplo contexto, deixando a discussão sobre sua eficácia para aqueles que sevalem desse recurso (do passe virtual). Afinal, a fé de cada um é subjetiva, mas ofato é que até mesmo o exercício da fé em suas mais variadas formas está on-line;dito de outra forma, ainda mais característica, a Web incorpora (literalmente?) esseexercício. O ato de acender uma vela é outro bom exemplo, a ser discutido a seguir.
  • 1114.3 O reencantamento do mundo nos terreiros virtuaisPesquisando na internet alguns exemplos para analisar o fenômeno doschamados “terreiros virtuais”, percebi que o termo tem diversos significados na rede.Digitando “terreiro virtual” no Google (propositadamente com aspas, para filtrar abusca), são aproximadamente 2.540 resultados de páginas. Porém, esse resultadoindica majoritariamente páginas relacionadas a pessoas que se utilizam da internetpara “negociar” trabalhos de feitiçaria. É como se os sites, blogs, fóruns cumprissemtambém a função dos postes de iluminação que vemos nas ruas, com cartazes nosque trazem os controversos anúncios do tipo “fazemos trabalhos de amarração”,“trazemos seu amor de volta em X dias”, etc.Já na teoria, a exemplo dos trabalhos acadêmicos de Ricardo Oliveira deFreitas anteriormente mencionados, um terreiro virtual é um espaço na internet quereconfigura o terreiro real, transformando “religiões centradas na tradição oral emreligiões hipertextuais, ao se (re) configurarem no espaço virtual, espaço daimagem-texto, espaço do hipertexto” (FREITAS, 2010, on-line, grifos meus). Ele falaem terreiros virtuais quando menciona fóruns e chats de discussão sobre religiõesque chama de afro-derivadas, que, no caso de sua pesquisa, contribuem paraaproximar dessas religiões adeptos e não adeptos que moram no exterior, fenômenopor ele denominado macumba out Brazil (FREITAS, 2010, on-line).Tomando como exemplo para “terreiro virtual” a proliferação de anúncios dostrabalhos de amarração, um site me chamou muito a atenção: Macumba Online 2.0(http://macumbaonline.com/). O slogan é direto: “faça suas macumbas sem sair decasa!”. Um sapo com a boca costurada ilustra a homepage, fazendo alusão ao íconesedimentado pelo senso comum, de “botar o nome na boca do sapo”.
  • 112O internauta que visita o endereço eletrônico pela primeira vez se depara logocom a seguinte descrição:Já pensou em fazer trabalho pra alguém? Tem preguiça de ir a umterreiro? Gosta de serviços ao estilo delivery, tudo feito de casamesmo? Seja qual for o motivo, se você deseja fazer um trabalhopara alguém, este é o local. Aqui você pode encomendar diversostrabalhos e despachos que acompanham a tecnologia. Faça suamacumba sem sair de casa, seja pra você mesmo ou para o seuvizinho, sua sogra, seu gato, seu professor, em busca de dinheiro,amarração, trazer a pessoa amada, tudo o que você conseguiria numterreiro, na tela do seu computador. O melhor de tudo: É GRÁTIS.Tenha comodidade: não faça o trabalho, deixe que o façam por você!Macumba Online, para facilitar a sua vida! (grifo meu)O “serviço” oferecido no site é gratuito, ao contrário de outros tantos anúncios quese utilizam do pagamento virtual. A “Macumba Online” apresenta ainda um rankingdas macumbas “mais procuradas”, sendo as campeãs: trazer a pessoa amada(28239 macumbas feitas) e emagrecer (23081 macumbas feitas). Há também outroranking referente às visitas do portal (2589807 visitantes únicos desde janeiro de2008), sendo que 75875 usuários, de acordo com o site, “fizeram pelo menos umamacumba maligna”.84Para fazer a “macumba online” é preciso ser cadastrado no site. Feito isso, ousuário deve selecionar o “tipo de macumba” (são mais de noventa “tipos”, cujos84Os dados são referentes à análise de 2011.
  • 113objetivos vão desde arranjar casamento até ganhar na loteria). Depois, deve colocarum e-mail “para onde será enviada a macumba”. Há ainda a possibilidade deescolher se a macumba será pública ou privada. No rodapé do site “MacumbaOnline” vê-se ainda um anúncio de “vidência gratuita”, direcionando o visitante parao site “Gabriella Vidente” (http://www.donagabriella.com), que oferece uma leituragratuita das cartas de tarô.Outro exemplo, dessa vez envolvendo dinheiro, são os anúncios virtuais deMãe Cema de Oyá, que oferece consultas com búzios (por R$ 27,00) e com aPomba Gira Maria Molambo (por R$ 37,00).Diferentemente dos textos em blogs de umbandistas, que eventualmentetrazem mensagens atribuídas a entidades incorporadas85que, uma vez publicadas,estão disponíveis “para todos” (ideia de coletividade), tais anúncios oferecemconsultas particulares (ideia de singularidade). Daí a alusão ao conceito de terreirovirtual, onde não seria preciso se deslocar até o espaço físico das giras para “seconsultar” com oráculos e guias, ou, no caso do site “Macumba Online”, fazer oudesfazer “trabalhos”.85No post intitulado “Por que voltei – recado de Maria Joana” no blog “Luzes e Sonhos” há umamensagem que teria sido escrita por uma médium incorporada em uma baiana (entidade deUmbanda) contando porque havia voltado a “trabalhar” na Umbanda. Disponível em<http://luzesesonhos.blogspot.com/search?q=por+que+voltei>. Acessado em 24 de outubro de 2011.
  • 114Há um paradoxo no que teoricamente se identifica como terreiro virtual:enquanto a Umbanda genuína, sendo a “manifestação do espírito para a caridade”,condena veementemente a cobrança financeira por práticas oriundas aos terreiros,muitas pessoas estão se apropriando da Web como campo fértil para o comércioutilizando o nome de entidades conhecidas do ritual umbandista.As amarrações, tanto off-line como on-line, podem ser classificadas dentro dequalquer denominação abrangente (feitiçaria, magia, etc), menos da Umbanda comoreligião, que tem como característica principal não cobrar por seus trabalhos.Além disso, há uma máxima que sustenta que “a Umbanda é religião, portanto sófaz o bem” (embora a ideia de bem e de mal seja relativa e também requeiraponderações ao ser mencionada). Sendo a Umbanda uma religião, o fato é quecada religião tem lugar certo para ser praticada por seus integrantes: os judeus nasinagoga; os católicos, na igreja; os budistas nos templos; os umbandistas nosterreiros.Ao falar de manifestações identificadas com a Umbanda quis fazer um alertapara esse conjunto de práticas identificadas acima.Há ainda, uma proliferação de “Mães” e “Pais” (ou de pessoas que assim sedenominam) vendendo serviços sagrados através da internet. É possível sugerir queesses “comerciantes” talvez estejam se apropriando melhor das ferramentasdisponíveis on-line, do que muitos Pais e Mães de Santo que preservam tradiçõesherdadas de uma cultura muito anterior ao surgimento da internet e da própriaUmbanda, conforme mostrei no primeiro capítulo, explicando a cultura dos jogosdivinatórios de consultas a oráculos sagrados como uma tradição repleta desegredos que se quer mantida, preservada.Se para Weber o desencantamento do mundo estaria ligado à eliminação damagia como alternativa para a salvação, na internet essa realidade parece seinverter, dada a intensa procura de internautas por essa aproximação, ainda quevirtual, com práticas mágicas. O site “Vela Virtual”(http://www.velavirtual.com.br/asc/) ilustra bem essa possível realidade que emergeno seio da modernidade líquida. O portal simula uma capela virtual, onde o
  • 115internauta pode, gratuitamente, “acender uma vela”. Um printscreen da páginaprincipal do site, em 22 de outubro de 2012, mostra um total de 21866 velas acesasvirtualmente naquele momento, e um total de 3886798 velas acesas no site.Quando se fala em aproximação, tomando agora um exemplo diretamente ligado àUmbanda, percebi também que há muitos vídeos no YouTube (929 resultados, naúltima busca feita86) como resultado para a pesquisa das palavras-chave “giras deUmbanda”. O que antes era estritamente privado agora está disponível paradownload para quem quiser se chegar mais perto, saravar. “Saravirtuar”...86Disponível em<http://www.youtube.com/results?search_query=giras+de+umbanda&oq=giras+de+umbanda&gs_l=youtube.3..0l2.123.3336.0.3481.15.8.0.7.7.1.186.767.4j4.8.0...0.0...1ac.1.zlmVorwF_Sg>Acessado em 22 de outubro de 2012.
  • 116CONSIDERAÇÕES FINAISDepois de dois anos de envolvimento com o tema da Umbanda e,paralelamente, observando a dinâmica da comunicação nas redes sociais – sejacomo plataforma propiciadora do debate, compartilhamento de conteúdo ou portalde comunicação com outro(s) mundo(s) – pude perceber que, embora a Web possacontribuir para um maior contato e compreensão dos princípios dessa religião,muitos dos aspectos que caracterizam seus rituais jamais poderão ser substituídoson-line.Conforme abordado no primeiro capítulo, no qual procurei mostrar um panoramahistórico referente às origens da Umbanda, tradições de diferentes matrizes(africana, cristã, oriental, indígena, etc.) são importantes para sua constituiçãoritualística. E quando se fala em tradição, especialmente oral como é o caso daafricana, e, mais ainda, quando se estuda um ou mais rituais religiosos que se dãopor meio de iniciação, a comunicação virtual pode se tornar um risco – tomandocomo exemplo a exploração de jogos oraculares em sites e outros meios virtuais.Os Babalorixás e Iyalorixás desempenham papeis tão fundamentais napreservação da maneira como se cultuam os Orixás (suas saudações, suas cores,seus pontos, os arquétipos de seus filhos...), entre outros cultos que fazem parte desua cosmologia religiosa, que quando tudo isso é “divulgado” na Web, (tornando-seaberto a não iniciados, por exemplo), uma tradição divinatória mitológica toda estáem risco.Por outro lado, não se deve desprezar a importância da comunicação nociberespaço para o rompimento de muitas barreiras que foram criadas desde afundação da Umbanda até sua atual forma. A afirmação positiva da figura de Exu narede é um claro exemplo do que chamo de contribuição das redes sociais para aUmbanda, título pensado para essa monografia em seu pré-projeto de pesquisa.Quando médiuns, que talvez nem se conheçam off-line, unem-se para mostrar aleigos que “Exu faz o bem” – dando exemplos de acontecimentos de dentro dosterreiros - uma corrente, uma rede de conhecimento e compartilhamento de
  • 117experiências vai-se constituindo. Os elos que formam essa corrente virtual, análogosaos laços “amarrados” das redes off-line e on-line, são principalmente um interessecomum compartilhado (por umbandistas ou não, visto que até mesmo ateus sedispõem a discutir a religião umbandista nos casos que procurei mostrar no decorrerdesse trabalho).Observando o desenvolvimento tecnológico cada vez mais potente erelacionando-o às experiências de observação da Umbanda, talvez nem possamosafirmar que não será possível, um dia, sentir o aroma das ervas virtualmente. Noentanto, isso exige um conjunto de “transposições”, “mediações” e “traduções”. Édifícil transpor para o mundo on-line o ato sagrado de ser abraçado (a) por umaentidade ou, através das mãos de um médium incorporado, receber com um toquena fronte um pouco de seu axé. Mas todas essas ações podem ser descritas ouvistas em blogs, no YouTube, Facebook, Twitter etc.Finalizo mencionando o fato de muitos pontos cantados fazerem referência aoato simbólico (embora, antes disso, físico) de pisar no terreiro. Após minhasexperiências de pesquisa de campo no terreiro, “incorporadas” à análise da dinâmicadas redes sociais, percebi que se ainda não é possível pisar no terreiro virtual,podemos, no mínimo, aprender um pouco mais sobre o significado de se pisar emum terreiro físico.
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