DIRECTOR    JORGE CASTILHO




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19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008                                                                                NACI...
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19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008                                     SANTO ANTÓNIO DOS OLIVAIS                      ...
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8 CRÓNICA                                                                                                19 DE NOVEMBRO A ...
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O Centro - n.º 62 – 19.11.2008
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Versão integral da edição n.º 62 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 19.11.2008.

Site do Instituto Superior Miguel Torga: www.ismt.pt

Visite outros sítios de Dinis Manuel Alves em www.mediatico.com.pt , www.slideshare.net/dmpa,
www.youtube.com/mediapolisxxi, www.youtube.com/fotographarte, www.youtube.com/tiremmedestefilme, www.youtube.com/discover747 ,
http://www.youtube.com/camarafixa, , http://videos.sapo.pt/lapisazul/playview/2 e em www.mogulus.com/otalcanal
Ainda: http://www.mediatico.com.pt/diasdecoimbra/ , http://www.mediatico.com.pt/redor/ ,
http://www.mediatico.com.pt/fe/ , http://www.mediatico.com.pt/fitas/ , http://www.mediatico.com.pt/redor2/, http://www.mediatico.com.pt/foto/yr2.htm ,
http://www.mediatico.com.pt/manchete/index.htm ,
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O Centro - n.º 62 – 19.11.2008

  1. 1. DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 309 801 277 ANO III N.º 62 (II série) 19 de Novembro a 2 de Dezembro de 2008 1 euro (iva incluído) ACONTECEU HÁ 100 ANOS NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA O jovem estudante Bissaya-Barreto ousou recusar prémio que o Rei queria entregar-lhe No dia 20 de Novembro de 1908, na abertura solene das aulas na Universidade de Coimbra, um jovem estudante republicano, de seu nome Fernando Bissaya-Barreto, recusou receber o prémio de mérito que o Rei D. Manuel II ia entregar-lhe. “Não conheço o Rei!” - afirmou o jovem, que viria a tornar-se numa das mais extraordinárias figuras do Portugal contemporâneo, onde desenvolveu uma obra ímpar. Este e outros aspectos da vida e dos múltiplos empreendimentos de Bissaya-Barreto, estão no suplemento especial incluído nesta edição, com o qual pretendemos homenagear o Homem e a Fundação que criou há precisamente meio século SANTA CLARA EDUCAÇÃO SAÚDE OLIVAIS Orgulho Sócrates Homenagem Os 154 anos e queixas afirma ao maior da maior do Presidente querer dador freguesia da Junta dialogar de sangue de Coimbra PÁG. 11 PÁG. 9 PÁG. 14 PÁG. 5
  2. 2. 2 CULTURA 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 CINEMA Um belo livro para uma grande artista CADC homenageia Manoel de Oliveira Cinco filmes de temática ca Portuguesa, o crítico Pedro Me- adiantou o presidente do CADC. – Teresa Cortez religiosa de Manoel de Oliveira xia, o investigador e professor da Foi “escolhido o critério “religi- vão ser projectados em Janeiro em Faculdade de Letras da Universi- oso”, como podia ter sido escolhi- Coimbra num ciclo com a presen- dade de Coimbra Fausto Cruchi- do outro. De facto, na sua longa e ça do realizador, organizado pelo nho, especialista na obra de Ma- prestigiada história, o CADC deu Centro Académico da Democra- noel de Oliveira, e o docente jubi- muita atenção à questão do cine- cia Cristã (CADC). lado da Faculdade de Letras do ma em geral, através da sua Sec- O presidente da direcção do Porto João Francisco Marques ção de Cinema. Na revista Estu- CADC de Coimbra, João Caeta- (consultor e colaborador do cine- dos do CADC foram publicadas no, disse à agência Lusa que o ci- asta) são alguns dos especialistas muitas críticas a filmes, nomeada- clo compreende seis sessões com que participam nas sessões. mente nas décadas de cinquenta a exibição dos filmes do cineasta, De acordo com João Caetano, e sessenta”, referiu. que completa 100 anos em De- Manoel de Oliveira estará presen- “Manoel de Oliveira manifes- zembro, e a discussão em torno te na sexta sessão, para “uma dis- tou a sua disponibilidade para es- das obras por vários especialistas. cussão livre” em torno da sua obra, tar presente. Será um regresso ao “O Pão”, “O Acto de Prima- a par com Fausto Cruchinho e CADC, onde já esteve presente e vera”, “Benilde ou a Virgem Pedro Mexia. por quem nutre simpatia”, disse Mãe”, “O Meu Caso” e “Palavra “O CADC associa-se às come- ainda João Caetano. Acaba de chegar às livrarias um precioso livro sobre Tereza e Utopia” são as películas, que morações do centenário do nasci- O CADC “é uma associação Cortez e a sua obra de ceramista. Designadamente os seus tão abrangem o período entre as dé- mento de Manoel de Oliveira, ho- de estudantes, professores e inves- belos quanto surpreendentes painéis murais, que enriquecem fa- cadas de cinquenta e noventa, a menageando-o com a projecção de tigadores católicos, que actua no chadas exteriores assim como interiores de vários edifícios de vá- projectar, em princípio ao longo de cinco filmes com temática religio- meio universitário e que promove rias localidades do nosso país. É fácil reconhecê-los pela marca de duas semanas em Janeiro, no au- sa. Achou-se que seria interessan- a discussão das grandes questões originalidade, nas cores como no modelado, no traço como nos ditório do CADC. te perspectivar deste modo a obra da actualidade” - refere o presi- elementos, das flores e frutos aos animais, em composições onde O vice-director da Cinemate- vasta e notável” do realizador, dente da instituição. se sentem as leis da harmonia, a força criativa, uma sensibilidade rara que nos reconduz ao imaginário da artista como apela à inte- rioridade de cada um de nós, porque Contam histórias, estimu- Esta semana, chegou às sa- elenco, sobretudo da actriz prin- gadgets e muito mais acção), lam, requerem, reconduzem o leitor a uma convivência com o Belo las “Ensaio sobre a Cegueira”, cipal Julianne Moore, que inter- embora não se esqueçam os fil- numa expressão maior de rigor e claridade. adaptação ao cinema do famo- preta uma mulher cuja visão não mes anteriores (neste filme, São vários os textos que interceptam e são interceptados por so livro de José Saramago, que é afectada pela epidemia e que nota-se uma pequena homena- reproduções da obra da Artista (onde igualmente emergem algu- ficou a cargo do realizador bra- acaba por se tornar testemunha gem ao clássico “Goldfinger”). mas de pequenas dimensões, onde percutem retratos, toques de sileiro Fernando Meirelles (“Ci- única desta “sociedade de ce- Recomendável a todos os fãs da Natureza, movimento geométrico), reflexões de especialistas que dade de Deus”, “O Fiel Jardi- gos”, onde se tornam claros os série, sobretudo aos que gosta- ajudam à compreensão e sobretudo nos tornam interrogantes na neiro”). O filme, que retrata uma desejos e as fraquezas da raça ram de “Casino Royale”. fruição do multiforme talento de uma ceramista que se distingue sociedade devastada por uma humana. Por último, destaco o filme “A pelas técnicas, que vão do azulejo ao modelado. epidemia instantânea de ceguei- Continua nas salas “Quantum Turma”, vencedor da Palma de Cada objecto, sente-se na qualidade deste livro, tem a mão e o ra, é um trabalho caracteristica- of Solace”, o novo filme de Ja- Ouro de Cannes deste ano, um olhar da sua Autora. O livro contém um CD que o enriquece subs- mente poderoso e por vezes mes Bond, continuação directa testemunho sincero (injustamen- tantivamente, pelo que nos conta e nos envolve. muito pesado. Tal deve-se so- do anterior “Casino Royale” te classificado como um docu- Estamos perante um objecto editorial que, no seu conjunto, seja bretudo ao trabalho de câmara (algo inédito na história da saga mentário) sobre o ambiente es- pela qualidade dos textos, pela possibilidade de “ter à mão” alguns de Meirelles, que consegue cinematográfica). Daniel Craig, colar e as pessoas que coabi- dos surpreendentes painéis como outras obras de Teresa Cortez, transmitir para o grande ecrã a apesar de ter mudado a imagem tam nesse mundo diariamente. ainda pela qualidade da edição, se recomenda e será uma preciosa natureza assustadora da “ce- física e psicológica do famoso Uma obra poderosa porque ver- prenda na época que se aproxima. gueira branca” e a crueza da espião, continua a interpretar um dadeira. A todos os títulos indispensável. natureza humana. Destaque-se Bond mais humano, ideal para igualmente o trabalho de todo o uma nova geração (com menos Pedro Nora José Henrique Dias Director: Jorge Castilho (Carteira Profissional n.º 99) Propriedade: Audimprensa NIF: 501 863 109 Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho ISSN: 1647-0540 Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 car toon cartoon Composição e montagem: Audimprensa Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 e-mail: centro.jornal@gmail.com Impressão: CIC - CORAZE Oliveira de Azeméis Depósito legal n.º 250930/06 Tiragem: 10.000 exemplares
  3. 3. 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 NACIONAL 3 Presidente do Conselho Científico para a Avaliação dos Professores apela à “serenidade” O presidente Conselho Científico quais as suas sugestões, segundo o se- çar a sua tomada de posição a este do também ontem pelo ministério da para a Avaliação dos Professores ape- cretário de Estado Valter Lemos. propósito”, disse Alexandre Ventura. Educação, disse à saída do encontro lou ontem (terça-feira) à “serenida- O actual e a anterior presidente do O presidente do Conselho Científico ver “com preocupação” a conturba- de”, sublinhando que o Ministério da Conselho Científico para a Avaliação para a Avaliação dos Professores co- ção registada nos últimos dias entre Educação está a ouvir agentes edu- dos Professores, Alexandre Ventura mentou ainda a sugestão feita segun- professores e Governo. cativos para “alicerçar” uma tomada e Conceição Castro Ramos, e docen- da-feira na RTP pelo socialista António “Também sou professor e vejo com de posição em relação ao processo de tes premiados foram recebidos ontem Vitorino no sentido de o Governo equa- preocupação” o processo de avalia- avaliação de desempenho. de manhã no Ministério. cionar a criação de uma comissão de ção em curso, afirmou à Lusa, escu- “O ingrediente que mais falta faz À tarde foram ouvidos o Conselho sábios para alcançar um acordo sobre sando pronunciar-se sobre qual o me- neste momento no processo de avali- das Escolas, o Conselho Nacional de o processo de avaliação de docentes. lhor modelo de avaliação mas salien- ação de desempenho dos professores Educação, a Confederação Nacional “Não vejo que seja uma ideia nega- tando que “toda a gente defende que é a serenidade, é a calma necessária das Associações de Pais (CONFAP) tiva. Acho que pode eventualmente ser o actual sistema deve ser melhorado”. para debater de forma civilizada”, dis- e a Federação Nacional de Educação considerada neste processo”, afirmou. Questionado sobre a necessidade se Alexandre Ventura aos jornalistas. (FNE). Hoje (quarta-feira) será rece- Alexandre Ventura anunciou ainda de o ministério da Educação suspen- O Ministério da Educação começou bida a Fenprof, a maior federação de que durante iria convocar a próxima der o processo de avaliação, face à ontem a receber “representantes de to- sindicatos da Educação. reunião do órgão a que preside, que contestação dos professores, o docen- dos os sectores ligados ao problema da “Penso que a senhora ministra está não se reúne desde Julho passado. te de matemática afirmou: “Tudo de- avaliação dos professores” para ouvir a ouvir um conjunto alargado de pes- Arsélio Martins, vencedor do Pré- pende das duas partes, mas o proces- aquilo que pensam sobre o processo e soas e entidades no sentido de alicer- mio Nacional de Professores, recebi- so ainda está em negociação”. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 309 801 277 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 309 819 913 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
  4. 4. 4 SICTAÇÕES 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 não havia incompatibilidade com a fé. O CRISE E COELHOS historiador das ciências D. Lecourt es- A MÃO NA MASSA creveu: “A figura mais importante da Imagine uma empresa de pombos A recente crise financeira, que se Igreja escocesa declarou-se evolucionis- correios com uma epidemia de gripe abateu sobre o Banco Português de ta e, num curso, em 1874, aconselhou os das aves; perante a catástrofe a ad- Negócios é, antes de tudo, um verda- teólogos a sentirem-se ‘perfeitamente à ministração decide passar a enviar as deiro caso de polícia, em que o Direi- vontade com Darwin’.” Darwin, sepul- mensagens por... coelhos. Esta esco- to e a Justiça têm de ser chamados a tado com pompa, em 1882, na abadia de lha insólita seria paralela ao que se pronunciar-se. Para isso é necessário Westminster, a alguns passos do túmulo prepara na actual crise financeira, que os factos noticiados, de uma ges- de Newton, nunca foi oficialmente con- com políticos a manipular o complexo tão com uma prática de “legalidade denado pela Igreja católica e A Origem sistema económico. Tal tolice, mesmo duvidosa”, como disse o ministro das das Espécies nunca esteve no Índex. se recorrente de anteriores turbulên- Finanças, cheguem aos tribunais. De qualquer modo, segundo o reve- cias, é mesmo muito estúpida. A vontade política vai ser o farol rendo Malcom Brown, director dos ser- A crise nasceu por graves erros e que irá fazer despoletar e orientar essa A NOITE AMERICANA viços de relações públicas da Igreja An- crimes de economistas, gestores e fi- denúncia, para bem da transparência glicana, a sua Igreja deveria agora pedir nanceiros. Embriagados de sucesso, e da credibilização do sector financei- Como tanta gente, vivi entre amigos a desculpa pela má interpretação de Da- caíram em euforias que agora amea- ro, que ficou beliscado na sua imagem noite americana. Uma poltrona, um copo rwin e algum fervor anti-evolucionista. çam o mundo. Eles têm, sem dúvida, com esta gestão doméstica dos dinhei- à mão e um cinzeiro que começa imacu- Hoje, os equívocos beligerantes pro- a responsabilidade principal na catás- ros dos contribuintes. lado, mas sobre o qual chovem beatas ao vêm essencialmente do “criacionismo” trofe, pelo que é necessário e urgente ritmo do apuramento dos votos. Em vol- americano e do chamado “desígnio inte- punir e substituir esses especialistas Rui Rangel ta, vozes familiares, risos conhecidos, ligente”. Mas o “criacionismo” assenta infectados. Mas têm de ser trocados Correio da Manhã exaltações antigas - ou seja, idiossincra- numa leitura literal do mito da criação do por outros financeiros, os únicos que sias da minha colecção pessoal. Não que- Génesis, esquecendo que o Génesis é percebem alguma coisa do complexo um livro religioso e não de ciência e que BANCO PORTUGUÊS ro chocar ninguém, mas nem James sistema. Se um médico mata, por erro só uma leitura simbólica é adequada. DE NEGÓCIOS ESQUISITOS Bond, nem Indiana Jones, nem Rambo: ou negligência, não se confia o trata- as grandes emoções são sedentárias. Quanto ao “desígnio inteligente”, o seu mento a contabilistas ou ministros. equívoco provém da ambição de demons- Qual é, hoje em dia, a profissão Vivida a festa, porém, logo na manhã Com políticos tratando destes assun- trar Deus pela ciência. mais rentável? Jogador de futebol? seguinte vemos alguns, dos que era lícito tos, a única certeza é desastre. Coe- De facto, como é evidente, a exis- Advogado? Namorada de jogador de pensar que a celebravam, falando agoi- lhos voam menos que pombos doen- tência de Deus não é nem pode ser ob- futebol? ros em nome da prudência, com caras tes. (...) jecto de ciência. Mas afirmar taxati- Não. Creio que o ramo de activida- soturnas e olhar sombrio. É deprimente de mais atraente para quem quer a militância no cinzento. É a recusa do vamente que a evolução é mero pro- João César das Neves duto do acaso não deixa de ser tam- construir uma carreira de sucesso é encanto em nome de qualquer desencan- DN 10/Novembro/08 bém uma posição dogmática. A ciên- ser proprietário de um banco falido. to que aí venha. É a recusa dos afectos Enquanto o banco não vai à porque amanhã estaremos todos mortos. cia vai respondendo ao “como” da evo- OS DESILUDIDOS lução, mas não responde ao “porquê”, falência, retiram-se todos os benefí- Nós sabemos que os valores iluminam o cios que ser banqueiro oferece; quan- sentido da História e os interesses fazem concretamente ao porquê e para quê (...) A eleição de Obama tem um da existência do Homem e de tudo: do vai à falência, não se suporta ne- a gestão do cruzeiro da vida. Mas os va- significado simbólico incontornável, nhuma das desvantagens - o Estado lores libertam muitos condenados e as- “Porque há algo e não pura e simples- tratando-se do primeiro Presidente mente nada?” toma conta de tudo. sustam muitos carcereiros. Devemos-lhes proveniente da comunidade de origem Quem deve 700 euros pode ter a literatura, a música, a pintura. Já os in- Como escreveu o cientista Francis- africana. Nesse significado vai um co J. Ayala, na conclusão da sua obra problemas:intimações,tribunais, pe- teresses, esses, são contas em papel par- mundo de sentimentos e de esperan- nhoras. do, sem as quais o merceeiro não nos fia. Darwin e o Desígnio Inteligente, “a ças que apela ao imaginário colectivo evolução e a fé religiosa não são in- Quem deve 700 milhões, em princí- Depende deles o nosso dia. Nós sabe- não apenas nos EUA mas também à pio, está mais à vontade. Se contrair mos. E creio que Obama, o “menino compatíveis. Os crentes podem ver a escala planetária. Mas por muito im- presença de Deus no poder criativo do empréstimos, já sabe: aponte para magricela com um nome esquisito”, sa- portante que seja a eleição de um Pre- cima. No que toca a devedo- berá que quase sempre os valores desa- processo de selecção natural descober- sidente de raça negra, não seria justo to por Darwin”. res, aplica-se o mesmo princípio de guam nos interesses e dissolvem-se ne- para o próprio Obama que a sua elei- mérito que rege o resto da sociedade: les. Mas, que raio!, isto avança por ma- Anselmo Borges ção se reconduzisse apenas a essa DN 8/Novembro/08 os maiores e mais talentosos têm mais rés. Sigamos esta por agora. Se e quan- dimensão histórica e simbólica. Aliás dinheiro e prestígio. do esmorecer e sobrevier o desencanto, a forma como Obama calibrou a ques- Levando tudo isto em consideração, pois também esse é finito e precário - (...) João Paulo II reconheceu, em tão racial durante os dois anos da sua 1996, numa intervenção na Academia não se percebe por que razão não como nós e como o encanto que ele ma- campanha pode ser considerada ma- há programas de auxílio à criação de tou. Mas então sobrevirá outra maré alta Pontifícia das Ciências, que novos co- gistral e a sua eleição premiou essa cla- nhecimentos levam a considerar a te- bancos falidos. É certo que, no mo- de valores, trazida por outro alguém que rividência e esse sentido de equilíbrio. mento em que vão à falência, os apoi- ousou e que subirá um pouco mais no oria da evolução como mais do que A eleição de Obama representa uma simples hipótese. os não faltam. Mas, tendo em conta areal dos interesses. (...) também uma janela de oportunidade que se trata de uma actividade tão pro- Há evolucionistas materialistas. de relançamento da relação transa- Mas também há evolucionistas que são veitosa, não deveria ser incentivada Nuno Brederode Santos tlântica, essencial tanto para os EUA desde cedo? DN 9/Novembro/08 crentes. Não há incompatibilidade en- como para a Europa. Perante a mag- tre a fé e o evolucionismo, que, se- Como toda a gente, teria todo o gos- nitude dos problemas com que esta- to em fundar um banco fali- gundo a obra célebre do padre e cien- DEUS CONTRA DARWIN mos confrontados, o sucesso desta re- do. Desgraçadamente, contudo, não tista Teilhard de Chardin, podem mes- aproximação dependerá tanto da for- mo harmonizar-se. Depois de se es- tenho curso de economia ou gestão, e (...) A teoria da evolução constituiu ma como Obama a liderar como da temo que a minha falta de preparação clarecer o “como” do processo evo- resposta conjunta que os europeus uma daquelas humilhações do Homem de técnica me levasse a criar um banco lutivo que leva ao aparecimento do estiverem dispostos a dar-lhe. que falou Freud. Embora o Homem não bem sucedido e próspero, o que não Homem, ainda se não calou a pergun- Cabe agora ao resto do mundo apro- descenda do macaco, ele e o macaco interessa a ninguém. Só os mais con- ta pelo “porquê” da evolução desem- veitar o espaço aberto pela eleição de descendem de um antepassado comum, ceituados e bem pagos gestores pa- bocando num ser humano que conti- Obama. Até porque a maior desilusão o que não constituiu uma descoberta par- recem ter a capacidade para condu- nua a perguntar pelo sentido da sua é sempre aquela que vem de não fa- ticularmente exaltante. Desde então a zir um banco estrondosamente à ban- existência e de tudo.(...) zermos aquilo que nos compete a nós nossa visão da natureza, do Homem e de carrota. (...) Deus modificou-se. próprios fazer. Anselmo Borges António Vitorino Significativamente, já na altura, mui- Ricardo Araújo Pereira DN 15/Novembro/08 DN 7/Novembro/08 tos religiosos britânicos declararam que Visão
  5. 5. 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 SANTO ANTÓNIO DOS OLIVAIS 5 NA PRÓXIMA SEGUNDA -FEIRA (DIA 24) Freguesia de Santo António dos Olivais comemora 154 anos - É A MAIOR DE COIMBRA E UMA DAS MAIORES DO PAÍS que hoje é ocupado pelo adro e pelo a freguesia da Sé, de que fazia parte, cemitério, para albergar a comunida- cerca de 14% dos baptizados, 10% de dos franciscanos capuchos. Pela dos casamentos e 17% dos óbitos”. mesma época, também o Mosteiro de Celas sofria grandes obras de ampli- FREGUESIA CRIADA EM 1854 ação e beneficiação. Entretanto, a paisagem humaniza- Corria o ano de 1854 e nos meios da do espaço hoje adstrito a Santo An- eclesiásticos e civis amadurecia a ideia tónio dos Olivais vai-se alterando. de redimensionar as freguesias da ci- Lentamente, quase imperceptivelmen- dade de Coimbra. Uma comissão ela- te, mas vai-se modificando. Vão cres- borou o “Plano de Redução, Supres- cendo os velhos povoados e outros vão são de Paróquias na Cidade de Coim- nascendo. bra e Seus Subúrbios”, que foi aprova- Para tomarmos um ponto de refe- do e convertido em lei. rência, diremos que, em 1700, o bur- Com a publicação do decreto, em 25 go de Celas contava 48 fogos, o que de Novembro de 1854, estava criada a perfazia cerca de 200 habitantes. E o freguesia de Santo António dos Olivais, povoado de Santo António dos Olivais desde logo a maior de Coimbra. Dis- teria, então, um pouco mais. punha já de 749 fogos, que abrigavam Por outro lado, pelos dados colhi- 3.000 habitantes, tomando a maior par- dos nos livros paroquiais, vemos que te das povoações de que se compunha Celas representava, em relação a toda a freguesia de S. Pedro. Francisco Andrade, Presidente da Junta de Freguesia Santo António dos Olivais, a maior rico hábito e a murça branca de có- freguesia de Coimbra e uma das mai- nego regrante de Santo Agostinho pela ores do País, comemora 154 anos na humilde estamenha franciscana. O próxima segunda-feira. novo nome foi-o buscar ao patrono do Presidida por Francisco Andrade modesto cenóbio, visto que do latino desde há alguns anos, a Junta de Fre- “Antonius” veio Antão e veio Antó- guesia tem vindo a levar a cabo um nio. exemplar trabalho de apoio às popu- Frei António morreu em 1231 e, lações, com iniciativas muito diversas após a sua canonização, que ocorreu nas áreas da cultura, do desporto e do logo no ano seguinte, o convento fran- lazer, dando particular importância à ciscano dos Olivas de Coimbra mu- população mais idosa. dou a invocação de Santo Antão para A efeméride vai ser devidamente Santo António. Assim nascia Santo assinalada, com o programa variado António dos Olivais, cuja povoação se que se divulga nesta página. foi desenvolvendo nas imediações da colina sagrada. ORIGENS DA FREGUESIA Refere José Manuel Azevedo Sil- va, em “Criação da Freguesia de Santo Nos princípios do século XIII, cer- António dos Olivais”: ca do ano 1210, a infanta D. Sancha “Cerca de 1247, os menoritas fo- funda o Real Mosteiro de Santa Ma- ram para o seu novo convento de S. ria de Celas, de Guimarães, da Ordem Francisco da Ponte e, nos finais do de S. Bernardo, e à sua roda vai cres- século XV, em virtude do crescente cendo o burgo de Celas. culto antonino, o cabido catedralício Poucos anos passados, em 1217/18, mandou reformular o templo dos Oli- junto à capelinha de Santo Antão, os vais, ficando a igreja com as dimen- primeiros franciscanos chegados a sões que hoje tem, à excepção de um Portugal fundam um humilde eremi- pequeno aumento da capela-mor, fei- tério. E em 1220, depois de nesse to no século XVIII, pela mesma altu- mesmo ano ter tomado ordens sacer- ra em que foi constituída a vistosa es- dotais em Santa Cruz, aqui se vem cadaria. acolher Frei António, preferindo este No século XVI são ampliadas as nome ao de Fernando e trocando o instalações conventuais, no espaço
  6. 6. 6 INTERNACIONAL 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 nos estaduais, a vitória dos democra- cessivamente a ingleses e soviéticos. tas foi muito significativa, começa um O risco de recessão, com o acréscimo da novo ciclo político. dívida pública para a cobertura de Ban- Não me preocupa a vitória de Oba- cos e Seguradoras falidos. A questão do ma; só vai incomodar um bocadinho o macroterrorismo. E os problemas de que barulho que a “esquerda festiva”, por fez bandeira – a saúde, a educação, as cá, vai fazer à sua volta. Até come- cidades, a pobreza. çar, daqui a seis meses, a manifestar E também, a necessidade de rede- a sua desilusão com o novo Presiden- finir o papel dos Estados Unidos pe- te americano rante um mundo que mudou muito. E Porque Obama é um político e es- onde não é possível, ao mesmo tem- tratega consumado no modo como po, enfrentar o islamismo radical, hos- apareceu, ganhou a nomeação demo- tilizar a Rússia e inquietar a China, e crática à todo-poderosa Hillary Clin- ter a política externa condicionada por AMÉRICA: NOVO CICLO ton, captou as forças do capital - de lobbies de interesses e agendas ideo- Warren Buffet a Paul Volcker - e parte História” – e uma série de personali- lógicas. (...) Assim se fecha um longo ciclo do establishment conservador ame- dades que na semana final se junta- Mas Obama tem, com um Congres- de hegemonia conservadora na políti- ricano e internacional. ram ao carro do vencedor. so da sua cor e uma grande dose de ca americana – apoiado a partir de Por isso teve 600 milhões de dóla- Obama vai ter uma das mais difí- expectativa favorável interna e exter- Reagan em 1980 na aliança Sul-Mi- res para a campanha. Que não podi- ceis presidências da história america- na, uma oportunidade de refazer, em ddle West, blue-collars, evangélicos am vir de “pequenas” contribuições de na: duas frentes de guerra – Iraque, face a face com o resto do mundo, e republicanos tradicionais, que mes- 50 dólares na Internet, num país de difícil e vital para a política do Médio uma ordem internacional estável e mo na era Clinton manteve o Con- 300 milhões de habitantes! E acabou Oriente, e o Afeganistão, que nem equilibrada. Deus o ajude, e a nós tam- gresso. A gestão de George W. Bush endossado por toda a gente, incluindo sequer é um país, mas um conglome- bém. e Dick Cheney deu cabo dessa alian- intelectuais conservadores – como o rado tribal, de “senhores da guerra” e Maria José Nogueira Pinto ça. Como no Congresso e nos gover- incontornável Fukuyama, do “fim da fanáticos, que serviu de cemitério, su- Diário de Notícias UE-Rússia: os negócios como sempre anos, uma imitação de progresso da inte- Bruxelas são agravadas também devido à fluência. Também não pode integrar um blo- Fiodor Lukyanov * gração nas condições de uma crescente ir- polarização interna na UE, entre a «nova» e co por ser um país demasiado grande e in- ritação mútua. a «velha Europa», quanto à questão russa. dependente. Em 14 de Novembro decorreu em Nice Muitos dos princípios básicos da aproxi- Também na UE nem tudo está claro. a 22.ª cimeira UE-Rússia. O Presidente da mação russo-europeia no início dos anos 90 A INTEGRAÇÃO As reformas institucionais, chamadas a Comissão Europeia, José Manuel Barroso, esgotaram-se devido à mudança radical das É INSEPARÁVEL dar mais um passo na direcção a uma confirmou a decisão de Bruxelas de «reco- circunstâncias. Naquela altura, acreditava- DA SEGURANÇA união política consolidada, de novo estão meçar as conversações com Moscovo so- se que a Rússia podia integrar o sistema da emperradas. O Tratado de Lisboa, mes- bre um novo acordo base», interrompidas Europa Unida, adoptando as normas e as Os acontecimentos na Geórgia fizeram mo se for rapidamente ratificado, não em Agosto devido ao conflito militar no Cáu- regras então vigentes, sem pretender ser subir à tona os problemas latentes e permi- mudará, em princípio, muita coisa. Al- caso. «Sendo vizinhas próximas, a UE e a país membro da UE. Na Rússia, o objectivo tiram avaliar melhor a disposição geral. guns países da UE procuram aumentar Rússia têm, naturalmente, muitos interesses de aproximação paulatina à Europa a qual- Em primeiro lugar, existe uma relação a importância política e a independência e preocupações comuns», acrescentou Xa- quer custo, era partilhado pela elite russa e muito estreita entre todos os aspectos da da UE. O papel desempenhado pela vier Solana. visto positivamente pela sociedade civil. Mas existência da Europa Unida. Assim, uma França durante o conflito militar no Cáu- Ao intervir no encontro, o Presidente rus- as prioridades russas alteraram-se e a UE conversa sobre a integração económica é caso animou muitas pessoas na Europa. so declarou: «Procuramos um desenvolvi- viu-se numa situação difícil. simplesmente inseparável do problema da De uma forma ou de outra, as actuais mento dinâmico dos contactos com os ho- A Rússia foi considerada um país parcei- segurança. Os receios e os medos transpi- mudanças na arena internacional, rela- mens de negócios, várias regiões, numero- ro civilizado e vizinho próximo. O formato ram cedo ou tarde, o que se tornou mais cionadas com um certo enfraquecimen- sos Estados e a sociedade civil da UE. A das relações da UE com semelhantes paí- que evidente na esfera energética. A politi- to das posições políticas e financeiro-eco- maioria esmagadora dos países da UE age ses prevê um paradigma integracional. Ou zação de qualquer tipo de debates sobre o nómicas dos EUA, abrem novas pers- da mesma maneira». Dmitri Medvedev ga- seja, uma entrada gradual no espaço políti- fornecimento do gás natural russo é resul- pectivas para todos. rantiu que em 2008 o PIB do seu país «cres- co e jurídico da UE, quer com uma pers- tado do facto da arquitectura da segurança As conversações sobre um novo acordo cerá cerca de 7%». pectiva de ser admitido nela como país mem- europeia geral não fornecer garantias a cer- de parceria entre a UE e a Rússia serão Os dois actos, a suspensão e o reinício bro, quer como um país com dependência tos países. longas e difíceis. Não se trata de elaborar do diálogo Bruxelas-Moscovo, tiveram um estreita e preferências especiais. É um fenómeno que se revela nos dois um documento base para muitos anos, mas carácter meramente simbólico. De facto, Moscovo recusou este formato e Bru- lados. A Rússia, por exemplo, tem dificulda- sim um acordo intercalar, capaz de fixar um antes do conflito militar russo-georgiano as xelas nada podia propor. Além disso, a pró- des de manter um diálogo económico nor- compromisso situacionista e tornar mais efi- consultas bilaterais ainda não começaram, pria Rússia nem sempre entende o que con- mal com a Ucrânia, tendo esta atrás de si caz a actual cooperação. nem se pode esperar agora um “boom” di- cretamente quer. As relações meramente uma sombra da NATO e todo um conjunto Numa perspectiva histórica, a UE e a plomático. No entanto, os acontecimentos mercantis, tais como existem entre a UE e de problemas e emoções daí decorrentes. Rússia estão fadadas a uma parceria e do Verão de 2008 influíram consideravel- a China, não agradam a Moscovo, já que Por outro lado, a Polónia e os países do uma interacção caso ambicionem desem- mente na situação na Europa. pretende (dadas a proximidade cultural e o Báltico, ao temerem o alegado expansionis- penhar um papel importante no século XXI. entrelaçamento económico) um estatuto mo russo, não acreditam nas garantias da Mas, para elaborar um modelo desta inte- A APROXIMAÇÃO único. Como resultado, no momento da ex- NATO e da UE. Isto significa que sem cri- racção é preciso apresentar novas abor- E AS DIVERGÊNCIAS piração do Acordo sobre Parceria e Coo- ar um credível sistema da segurança euro- dagens e desistir dos estereótipos herda- peração, assinado em 1994 e ratificado em peia, a progressão económica é praticamente dos do século passado. A edificação, na A UE chegou a avisar que depois do con- 1997, ou seja, noutro período histórico, as impossível. base da UE e da Rússia, de uma nova flito militar com a Geórgia «seria impossí- duas partes perderam a noção do objectivo Em segundo lugar, os processos de auto- «grande Europa», é uma tarefa compará- vel» manter com a Rússia «os negócios estratégico das suas relações. determinação geopolítica continuam quer na vel apenas à assumida pelos arquitectos como sempre». O que até pode ser consi- Hoje em dia salta à vista a discordância Rússia, quer na UE. Moscovo procura o da integração europeia após a II Grande derado positivo. O formato das relações quanto aos valores básicos do Estado mo- seu papel na política mundial e gostaria de Guerra. Naquela altura, poucos acredita- Bruxelas-Moscovo tem sido, nos últimos derno. As divergências entre Moscovo e ser um poderoso e independente polo de in- vam no seu êxito.
  7. 7. 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 NACIONAL 7 ponto . por . ponto Por Sertório Pinho Martins Nossa Senhora de Lurdes… audíveis politicamente para Maria de Lur- … nos perdoe, mas o país deixou de acre- des Rodrigues, e continua a ter os 49% gan- ditar nela, e os órgãos directivos das escolas hos na 2ª volta das presidenciais. E José vão ter que responder à letra à boutade de Sócrates cai na esparrela ingénua – porque que “não me passa pela cabeça que as não pode ser ameaça, de certeza! – de o escolas desobedeçam”! Porquê, se já não repreender em público, afirmando que o é a primeira vez? Ou já se esqueceu, Sra. poeta nunca apoia o PS e as medidas do Ministra, da visita da PSP a algumas das Governo (não dá para crer!). António “suas” escolas, à procura de textos e faixas Costa diz alto e bom som que o braço- de incentivo à contestação de rua que se de-ferro da ministra da Educação pode avizinhava, e como houve então que dobrar mandar às urtigas a próxima maioria ab- a cerviz? E vir um porta-voz afirmar agora soluta. António José Seguro afina pelo um peremptório “não há 1% de possibili- mesmo diapasão e lança a escada à su- dades de a ministra da Educação sair”, cessão de Sócrates. E este trata os seus pode ser frase a engolir a curto prazo. Nes- críticos domésticos… chutando-os para ta altura já se contabiliza um segundo desfi- cima: Carrilho na UNESCO, João Cra- le-gigante dos professores (e mais concor- vinho no BERD, Ferro Rodrigues na rido que o anterior), já correm o país men- OCDE – e Alegre deve ter também à sagens de telemóvel a incitar ‘alunos’ à gre- espera um lago inspirador e recheado de ve (veja onde isto já vai!), voam ovos e to- musas, porque já avisou a navegação que mates pelo ar – o que não chegou a aconte- “não pensem despachar-me para o cer a Correia de Campos, e veja o tempo parlamento europeu” (e a este alerta que ele durou a seguir à pressão da rua, directo, o primeiro-ministo disse nada, mesmo não estando então no horizonte pró- nadinha). ximo um calendário eleitoral escaldante onde Ora Sócrates começa a ter nas mãos vão pesar os votos dos professores, dos alu- um batatal a ferver! A minha humilde opi- nos, dos pais, e do povinho que está farto de nião de nada vale, mas já aqui a escrevi arrogâncias e parvoíces políticas. Nem terá mais de uma vez: remodele, enquanto é mais eco, a seguir à saída da notícia nos tempo! Quantas insónias não teria pou- pasquins do costume, o boca-a-boca de que burro do que lá se passou, o PS já inviabili- onde for economicamente eficiente”; pado e quantas asneiras do tamanho do Sócrates mandou calar o PS sobre nomes zou a audição. Comentários para quê, se Manuel Pinho, depois do mar-de-rosas da mundo não passariam hoje de monólogos de social-democratas envolvidos na derro- são tudo ‘artistas portugueses’? economia portuguesa, logo seguido da ca- ressabiados e caseiros de ministros já fora cada do BPN; porque se isto é real, então o Mas do lado governamental da trinchei- tástrofe anunciada de que “nada será como da carroça do poder? Se o tem feito no recado vai direitinho para Cavaco Silva, ra e no PS, as coisas começam a ir de mal a dantes”, deixa-se agora embrulhar na polé- início de 2007, a alguns meses da presi- numa altura em que se diz serem precisos pior, senão mesmo a ameaçar ruína: a equi- mica cobertura que dá a um amigo pessoal dência europeia, estava hoje a lidar com bem mais de 1.000 milhões para tapar o rom- pa da Saúde não sabe o tamanho da dívida (o presidente da Autoridade da Concorrên- gente fresca e quase com dois anos de bo no banco e o Governo meteu nas mãos do Ministério (Ana Jorge diz num dia que cia, que é uma entidade-chave de supervi- experiência governativa (e nessa altura do Presidente o “assine aí” da nacionaliza- não sabe, no outro que a coisa vai chegar a são em temas efervescentes como o preço tinha muito por onde escolher), para ata- ção, interferindo-se desse modo (goste-se um milhão de euros – e só se esqueceu de dos combustíveis); Mário Lino colecciona car 2009 com os olhos postos na nova ou não da verdade) no funcionamento livre que são realmente mil milhões, menos que as incontinências verbais do costume; a maioria absoluta. Mas termino como na do mercado – e perguntar-se-á porque não o rolhão que o BPN precisa para não der- Defesa desafia a instituição militar (come- última crónica: Vossa Excelência manda, é assim para o mundo empresarial que co- ramar mais óleo no pavimento); Mariano ça a dar no goto dos membros do governo, Vossa Excelência é que sabe !!! Mas… lapsa, quando as Finanças e os credores os Gago anda a ‘empurrar’ os reitores e vai afrontar as ‘instituições’ sem medir conse- e se o Presidente se lembra de que está empurram para a declaração de falência. ter à perna uma das mais respeitadas insti- quências), e tem de vir o tandem presidente em causa o regular funcionamento de ‘ins- Mas Dias Loureiro já disse que quer ser tuições de todo o país – a Universidade; + primeiro-ministro salvar a situação. tituições’ debaixo de fogo, Sr. Primeiro- ouvido pela Assembleia da República sobre Maria de Lurdes Rodrigues e os seus “ad- Manuel Alegre parte a loiça dentro de Ministro? Santana Lopes também fez uma o tema-BPN, e que quer limpar o nome de juntos” contradizem-se, ela não vai onde pro- casa, diz sem rebuço o que pensa de minis- cara de espanto (de que ainda não saiu) uma lista que mais tarde ou mais cedo vai mete e os ovos e os tomates sobram para tras sem cultura democrática, junta-se a um quando, por muito menos, Jorge Sampaio cair na praça pública. E será que podem vir eles; o responsável governamental pela comício do B.E. onde o Governo leva na o mandou de volta às bases. Parece-lhe a lume alguns tições acesos que podem cha- Cultura diz sem papas na língua que “não cabeça, quebra a disciplina de voto e apoia que alguns cromos que tem no Governo muscar muito boa gente de outros partidos? está satisfeito com o Orçamento” que lhe propostas do BE e do PEV, vota contra o merecem esse risco? Repare que 2009 é E como ele é um dos que deve saber p’ra deram, e pergunta se “investir é só fazê-lo Código do Trabalho, deixa epítetos nada já amanhã! VENDE-SE Casa com 3 pisos grande quintal e anexos num dos melhores locais de Coimbra (Rua Pinheiro Chagas, junto à Avenida Afonso Henriques) Informa telemóvel 919 447 780
  8. 8. 8 CRÓNICA 19 DE NOVEMBRO A 2 DE DEZEMBRO DE 2008 A OUTRA FACE DO ESPELHO O Sol na ementa, por favor… Crescera num orfanato. Falou-me do frio que passara, José Henrique Dias* da comida horrível, o arroz de espinhas de peixe, as ora- ções, os banhos gelados, os castigos das freiras. A sua mai- jhrdias@gmail.com or ambição, contou-me, fora sempre poder comer um ovo estrelado, como os que vira comer às freiras. A molhar o Tinha nos olhos um brilho que ainda me cintila na memó- pão. A lamber os lábios. ria. Conhecemo-nos no acaso do lançamento de um livro, Quando começou a trabalhar e lhe entregaram o primei- não, foi no bengaleiro de um teatro, vão lá não sei quanto ro salário, disse-me como se falasse de um imperativo kan- anos, na estreia de Seis Personagens em Busca de Autor, tiano, foi a um restaurantezinho do bairro e pediu um ovo de Luigi Pirandello. Na altura, sei lá bem, andava eu pelos estrelado. Nada lhe soubera tão bem na vida. Comeu lento, vinte e poucos anos, entrara no internato e fazia bancos à demorou as migalhitas de pão, cortou pedacinhos da clara sexta-feira, na equipa de um experimentadíssimo cirurgião, tisnada. Feliz. Ainda se via nos olhos. também coronel, que se repartia entre o decrépito S. José e Tudo isto me revisitou hoje, ao olhá-la. Ainda tão bonita, o Hospital da Estrela. o cabelo platinado, o rosto luminoso e os gestos brandos, tão Acolhia-nos a todos com bonomia e rapidamente nos elegante naquele fato de veludo preto, no peito a pregadeira punha de agulha e catgut no costuredo dos coros cabelu- que lhe ofereci nas bodas de prata do casamento. Nem dos, bom território para a superação das naturais dificulda- esperámos pelo fim dos cursos. Com a minha mesada e o des. Um dia entrou um homenzarrão um tanto cianosado, seu salário, fizemo-nos à vida. Vieram os filhos. que se sentira subitamente mal depois de uma injecção de O reitor acabou de lhe tecer os maiores elogios. A sua penicilina. Sem pulso e sem respiração. Os internos, volun- obra foi comentada, a sala cheia de alunos, antigos alunos. tariosos, massajavam como podiam, na tentativa da ressur- A faculdade revia-se na última lição. A claridade do pensa- reição (não me lembro de ouvir falar em desfibrilhadores) e mento, a profundidade leve da erudição. Ia jubilar-se. No requereram autorização para uma massagem directa. Pre- mesmo dia foi apresentado um número da Revista da Fa- paravam-se para abrir caminho, bisturis em riste. Pávi- culdade, em sua homenagem, com artigos de alguns dos do, o chefe de equipa limitou-se a dizer façam se quise- maiores nomes da filosofia europeia. rem, mas não serve de nada. Está morto. Tratou-se de Fomos jantar à beira do rio. Entrou um jovem com um um shock anafiláctico traduzido no dia seguinte na im- cone de rosas, sotaque sul-americano. Aproximou-se e prensa em tremendista local titulada de ”injecção mal esperou que eu escolhesse. Antes que eu pudesse decidir, dada mata comerciante”. antecipou, apenas uma. Estava cansada. Tudo naquele Todos pensámos que estávamos numa espécie de mo- dia fora cumprir obrigações académicas. Sentia-se o ru- mento histórico, a primeira anafilaxia conhecida numa apli- bor da nostalgia. Custava-lhe muito deixar as aulas, conti- cação da prodigiosa penicilina. nuaria no centro de investigação. A sorrir, disse-me tenho Mas eu estava a lembrar-me daquele encontro no tea- os netos para cuidar. tro. Não consigo fazer contas exactas, talvez mil novecen- Disseram-me depois que foi a bênção de um tio bispo. Quando veio a ementa, percorreu-a com olhos de uma tos e cinquenta e nove, tinham arrancado as obras do me- Pior a emenda do que o soneto. Berrei com a família e indizível ternura e perguntou: tropolitano e os acidentados entravam ao minuto, ambulân- nunca mais parei de conspirar. Será possível arranjar-me um ovo estrelado? cia atrás de ambulância. A rapariga do bengaleiro, ia a esquecer, deixava ficar um Dois, outro para mim, disse com os olhos presos nos Aumentara a vigilância por causa das eleições do ano agasalho que foi junto com o meu sobretudo, levado pela seus olhos e os dedos enlaçados na haste da rosa poisada anterior, Humberto Delgado sacudira o país. Apanhado em empregada, que nos devolveu uma rodela de lata com um na toalha. Ficaram a olhar para nós. Não interessa o que Lisboa, nos redemoinhos da chegada a Santa Apolónia e número. Ficámos a olhar um para o outro. Qual de nós… pensaram. Coisas de velhos, certamente. uns panfletos a distribuir, fui levado para a António Maria A mulher notou e disse estão juntos não estão? Não es- Estamos agora no jardim. Vai lá um ano. É o fim de um Cardoso. Anoitecia. No início do interrogatório, quando me queço a suave gargalhada da rapariga ao dizer não. Des- dia de Outono, o sol esconde-se na lonjura do Guincho. perguntaram o nome, saiu-me sei lá porquê, não falo com culpem, disse a mulher, voltou dentro e deu uma rodinha a Os pequenos correm atrás dos patos. A Mariana é a indivíduos como vocês. cada um. O meu sobretudo ficou com certeza ao lado do mais pequenina, encontrou uma flor silvestre, corola ama- Custou-me caro, o arremedo de heroicidade. Durante casaco dela. Reparei na camisola de gola alta e na saia até rela. Estendeu a mãozita e disse Avó. Ficámos frente a uma eternidade jogaram futebol comigo. Os pontapés acer- meio da perna. Não sei se ela reparou em alguma coisa, frente. Com uma flor do tamanho do Sol. Tomei-a pelos taram em tudo onde já não valia a pena doer. É incomen- aterrava-me que reparasse na falha do incisivo que ficara ombros e beijei-a como naquela tarde longínqua em que surável a capacidade do ser humano. Eu que sempre tive cuspido na sala do interrogatório. ficámos sós. medo de levar uma injecção. És uma maricas, é o mínimo Ouvia-se uma canção que dizia que o destino bate à Com exactidão suspensa, ao olhar o poente e a flor ama- que ouço, quando vejo uma agulha à procura da minha porta. Bateu mesmo, por coincidência ficámos lado a lado rela, senti que no horizonte de um beijo acordava a gulodice. pele. Não tens vergonha?! Não, não tenho, isto não foi na plateia do Avenida, não, do D. Maria, não sei, já não De um ovo estrelado. feito para ser furado. consigo lembrar. Sei que perdi muito da peça ao olhar de Não deu para muito tempo a passagem na pide. Dois esguelha o seu perfil atento ao movimento das persona- dias depois, punham-me na rua, a rosnarem ameaças, com gens, como pensamentos à espera de pensador, sufocado equimoses por todo o corpo e a raiva multiplicada. na tentação de poisar a minha mão sobre a dela. À saída disse-lhe uma frase banal. Eu também só era capaz de frases banais. Pelo visto ela não sabia, tomou- a por grande frase. Acho que disse, conheço-a da peça, não conheço? Juntei-lhe o nome para apresentação: Octávio. Mariana, respondeu num vago aceno de olhos. Ficámos a conversar. Sobre as reincarnações no palco. Personagens e actores. Estudava Histórico-Filosóficas, como aluna voluntá- ria, trabalhava numa livraria do Campo Grande, vivia num quarto alugado lá para Sete Rios. Ficámos juntos para sempre. Naquela longa tarde de um domingo, o primeiro de tantos passeios, fiquei a saber a sua história. Personagem em busca de autor. Como em Piran- dello, Sei personaggi in cerca d’autore. Também ela aban- donada, em busca de uma vida. Personagem e intérprete. Em reencontro. * Professor universitário
  9. 9. 10 BISSAYA-BARRETO NOVEMBRO DE 2008 Prof. Bissaya-Barreto: um Homem do futuro O Prof. Bissaya-Barreto, para além de prestigiado cirurgião e ilustre mestre de Medicina, destacou-se por ter levado a cabo uma extraordinária obra social, nas mais diversas áreas, mas também uma relevante actividade cívica e uma notável acção em termos de empreendedorismo e desenvolvimento do território. Algumas das suas iniciativas vão citadas nas páginas seguintes, e por elas se pode ficar com uma ideia do que foi o incansável labor deste Homem em prol do seu semelhante, antes de tudo, mas também do seu País. Este suplemento pretende ser uma homenagem singela a Bissaya-Barreto e à Fundação com o seu nome, criada há precisamente 50 anos, e que tem sabido ser digna continuadora dos ideais do seu Patrono Novembro / 2008 suplemento do jornal
  10. 10. arte em café 2II BISSAYA-BARRETO NOVEMBRO DE 2008 Um grande Homem, O Prof. Bissaya-Barreto é uma figura notável, seja qual for o ângulo de análi- se da sua multifacetada actividade. Uso o verbo, deliberadamente, no pre- sente (é, e não foi), para significar que O Prof. Bissaya-Barreto ele continua a ser, nos tempos que cor- era um homem de acção, rem, uma personalidade não apenas como o demonstra a espantosa rara, mas verdadeiramente ímpar! obra que legou, mas era também um intelectual de inteligência rara Isso está eloquentemente demonstrado e grande sensibilidade, sempre na obra, tão vasta quanto valiosa e diversifi- a pensar em novos empreendimentos cada, que concretizou no passado, muitas que pudessem ajudar os mais desfavorecidos vezes com métodos precursores (alguns que ainda hoje estão espantosamente actuais) e que, graças a dignos continuadores, per- manece bem viva e pujante. Dizer isto, aqui e agora, numa altura saya, quando o viu pelo vidro, fez-lhe um em que se celebram os 50 anos da Fun- cordial aceno para que entrasse. dação que criou, poderia ser interpreta- “Então é este o seu herdeiro?” – inda- do como elogio fácil e sem outra consis- gou com um sorriso, enquanto me fazia tência que não a de juntar a voz ao coro uma festa na cabeça e convidava meu de loas que, muito justamente, dos mais Pai a sentar-se frente a ele, no banco de ilustres aos mais humildes, se tem er- três lugares forrado de vermelho guido ao longo de 2008 – ano em que Começaram a conversar, não sei de tem vindo a ser concretizado rico progra- quê. Aliás, nem ouvia o que diziam, ocu- ma comemorativo, recheado de momen- pado que estava a olhar aquele senhor tos de grande elevação em diversos do- que acabara de conhecer, intimidado, mínios (apesar de ter sido também um mas que afinal não era grande e depressa ano de profunda tristeza, pela morte, tão se me tornou simpático, pelo sorriso e prematura, do Eng. Nuno Viegas Nasci- pelo tom de voz. Numa prateleira, junto mento, que durante décadas presidiu à à janela, uma bandeja com uma cháve- Fundação Bissaya-Barreto). na, ao lado de um objecto estranho (que pouco depois verifiquei ser um bule com Sucede, porém, que as afirmações que chá, tapado com uma “carapuça” de fel- aqui deixo agora escritas, são apenas a tro, para que não arrefecesse). repetição das que publiquei há três dé- Lembro-me de meu Pai me dizer de- cadas no “Jornal de Notícias”, numa al- pois que o Prof. Bissaya ia a Lisboa, de tura em que os “ventos revolucionários” comboio, todas as semanas, alojando- varreram, finalmente, muitas prepotên- -se no Hotel Métropole (recordo achar cias, mas também sopraram, de forma Foi num dia em que entrei, com meu mem grande, alto. Mas apenas apareceu estranha a fonética, pois pensava que lamentável, várias injustiças. Pai, no comboio “rápido” que nos leva- um senhor de baixa estatura e andar se devia dizer metrópole...), que perten- ria de Coimbra a Lisboa. Embora a CP não apressado que entrou para uma carrua- cia a outro amigo comum, Alexandre de (Nesse período conturbado e pouco to- primasse pela pontualidade, certo é que gem de 1.ª classe, enquanto o chefe da Almeida (um príncipe da hotelaria portu- lerante, era ousadia elogiar qualquer fi- já passavam vários minutos para além Estação o cumprimentava, tirando o guesa). gura que, mesmo levianamente, fosse do horário, mas a composição mantinha- boné, para logo de seguida tocar a cor- E igualmente aprendi de meu Pai, nessa conotada com o regime deposto. Por isso -se muda e queda nos carris. Meu Pai, o neta de metal amarelo, reluzente, que inesquecível viagem (quando o questionei tive a grata satisfação de ver esse meu jornalista José Castilho, talvez impelido dava ordem de marcha ao maquinista. sobre o facto do Prof. Bissaya, ao contrário gesto, e outros semelhantes que assumi por curiosidade profissional, saiu da car- Alguns minutos depois, quando o revi- do que ele afirmara, não ser um homem ao longo dos anos, serem gentilmente ruagem, comigo pela mão, para indagar sor veio picar, com um alicate, os peque- grande...), que a grandeza dos homens se reconhecidos e agradecidos pelo Presi- o que motivava a estranha demora. O nos bilhetes cinzentos, de cartão gros- não mede aos palmos, pelo tamanho, pela dente da Fundação, Viegas Nascimento). Chefe da Estação esclareceu, em voz so, meu Pai perguntou-lhe onde se en- envergadura física, mas antes se determi- baixa e tom respeitoso: “Estamos à es- contrava o Prof. Bissaya. na pela estatura moral, pela forma como Ora o Prof. Bissaya-Barreto, mais pela pera do senhor Professor Bissaya-Bar- Obtida a resposta, lá me levou corre- passam pela vida. sua amizade por Salazar do que pelos reto...”. dores adiante, a mão protectora no meu cargos políticos que ocupou, foi uma das Vi o meu Pai sorrir, o que me tranquili- ombro, a amparar-me dos balanços do Depois tornei a ver o Prof. Bissaya-Bar- figuras injustiçadas nessa época em que zou, e enquanto voltávamos a entrar na comboio, mais apertada quando era pre- reto por diversas vezes, e muitas mais a Democracia dava os primeiros passos. carruagem perguntei-lhe quem era esse ciso passar de uma carruagem para a se- ouvi meu Pai a falar com ele por telefo- Aliás, não só injustiçado, mas esquecido senhor tão importante que até o comboio guinte, sobre chão de ferros assustado- ne. Lembro-me, particularmente, de uma e, pior, até mesmo atacado por muitos esperava por ele. ramente movediços e rajadas de vento acesa polémica escrita que manteve com daqueles que tanto ajudou!... “É um grande homem e um grande ami- ruidoso. outro amigo de meu Pai, o Prof. Ibérico go! Daqui a pouco vais conhecê-lo”. Nogueira, nas páginas do “Diário de Sei do que falo, porque, ainda criança, Depressa chegámos à porta de um dos Coimbra” (de que meu Pai era Chefe de tive o privilégio de conhecer Bissaya-Bar- Lá fiquei de nariz encostado à janela compartimentos numerados, a que meu Redacção), numa série de artigos que, reto. do “rápido”, à espera de ver surgir um ho- Pai nem chegou a bater, pois o Prof. Bis-

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