O Centro - n.º 58 – 24.09.2008
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O Centro - n.º 58 – 24.09.2008

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Versão integral da edição n.º 4 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 24.09.2008. ...

Versão integral da edição n.º 4 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 24.09.2008.

Site do Instituto Superior Miguel Torga: www.ismt.pt

Visite outros sítios de Dinis Manuel Alves em www.mediatico.com.pt , www.slideshare.net/dmpa,
www.youtube.com/mediapolisxxi, www.youtube.com/fotographarte, www.youtube.com/tiremmedestefilme, www.youtube.com/discover747 ,
http://www.youtube.com/camarafixa, , http://videos.sapo.pt/lapisazul/playview/2 e em www.mogulus.com/otalcanal
Ainda: http://www.mediatico.com.pt/diasdecoimbra/ , http://www.mediatico.com.pt/redor/ ,
http://www.mediatico.com.pt/fe/ , http://www.mediatico.com.pt/fitas/ , http://www.mediatico.com.pt/redor2/, http://www.mediatico.com.pt/foto/yr2.htm ,
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O Centro - n.º 58 – 24.09.2008 Document Transcript

  • 1. DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 239 854 150 ANO III N.º 58 (II série) 24 de Setembro a 7 de Outubro de 2008 1 euro (iva incluído) DEFENDEU GOMES CANOTILHO NO ROTARY CLUB DE COIMBRA / OLIVAIS Para que haja melhor cidadania cidadãos têm de ser mais exigentes PÁG. 2 JORNADAS DO PATRIMÓNIO Porca insuflável é originalidade em Alcobaça... PÁG. 22 SAÚDE MUNDO ANIMAL TURISMO EM CONÍMBRIGA Correia Muitos Dia Mundial Encontro de Campos argumentos celebra-se internacional lança livro contra no próximo sobre em Coimbra as touradas sábado os idosos PÁG. 3 PÁG. 4 PÁG. 13 PÁG. 17
  • 2. 2 COIMBRA 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 DEFENDEU GOMES CANOTILHO NO ROTARY CLUB DE COIMBRA / OLIVAIS Para que haja melhor cidadania cidadãos têm de ser mais exigentes “Cidadania e cidadãos difíceis” foi ticipativo. o tema escolhido por Joaquim Gomes Numa sessão muito concorrida, o Canotilho para a comunicação que convidado respondeu depois a diver- apresentou anteontem à noite (segun- sas questões colocadas por elemen- da-feira), durante um jantar promovi- tos da assistência, entre os quais o seu do pelo Rotary Clube de Coimbra / colega de curso na Faculdade de Di- Olivais. reito de Coimbra, o juiz conselheiro Saudado pela Presidente do Clube, Álvaro Laborinho Lúcio, que teve pa- Helena Goulão (Professora da Facul- lavras muito elogiosas para o pales- dade de Medicina de Coimbra), o ca- trante. tedrático de Direito foi apresentado pelo Vice-Presidente do Clube, Antó- nio Santos Cabral (juiz conselheiro do CONGRESSO Supremo Tribual de Justiça). INTERNACIONAL Gomes Canotilho começou por re- SOBRE PLUTARCO velar que está a ultimar um livro inti- tulado “As normas jurídicas não são Começou ontem e decorre até declarações de amor”, para justificar, sábado, em Coimbra (Faculdade de logo de seguida, a designação que dera Letras e Instituto Justiça e Paz) à sua intervenção. o 8º congresso da International De acordo com o mestre de Direi- O juiz conselheiro Santos Cabral, Joaquim Gomes Canotilho e Helena Plutarch Society, sobre o tema Goulão, Presidente do Rotary Club de Coimbra / Olivais “Symposion e philanthropia em to, a cidadania e a política são difí- ceis, porque os cidadãos também são Plutarco”. difíceis. dadãos. que quase ninguém conhece, muito O evento reúne quase 70 con- Sustentando as suas afirmações em O professor de Direito defendeu embora sejam determinantes para a ferencistas, provenientes de 14 análises filosóficas sobre o Mundo e que os cidadãos têm de ser mais par- concretização das políticas e o desen- países. sobre os problemas que o afectam, Go- ticipativos e mais exigentes com os po- volvimento da sociedade. Durante o encontro, serão lan- mes Canotilho aludiu a “formas de de- líticos. Sustentou que para alterar este es- çados três volumes relacionados mocracia parlante e dançante”, dizen- Citou, como exemplo, o que sucede tado de coisas o cidadão tem de ser com a temática do banquete no do que se fala muito mas pouco se dis- com os Orçamentos de Estado, que muito mais difícil, no sentido de ser Mundo Antigo. cutem os problemas concretos dos ci- são elaborados sem ouvir nunguém e mais exigente, mais vigilante, mais par- INFORMAÇÃO COMERCIAL Lexus abriu espaço em Coimbra A Lexus, prestigiada marca de auto- fim-de-semana, dando a conhecer um móveis de luxo, já chegou a Coimbra. O espaço que prima pelo requinte e confor- evento de abertura decorreu no passado to, seguindo a mais recente expressão da marca em identidade corporativa. O novo espaço proporciona um con- tacto directo com o universo Lexus, con- tando para isso com a gama completa Director: Jorge Castilho para exposição e para realização de “test (Carteira Profissional n.º 99) drive”, incluindo a novidade mais recen- te da marca, o superdesportivo IS-F do- Propriedade: Audimprensa Nif: 501 863 109 tado do motor V8 com 423 cavalos; e o topo de gama LS600h, que incorpora tec- Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho nologia híbrida, Lexus Hybrid Drive, que ISSN: 1647-0540 permite combinações únicas de desem- penho, economia e ecologia, sendo a A frente do superdesportivo IS-F dotado do motor V8 com 423 cavalos Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 mesma tecnologia que equipa também os Composição e montagem: Audimprensa modelos RX 400h e GS 450h. “A Lexus destaca-se também pela na satisfação de clientes aliada à ele- Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra Este é já o 3.º Centro Lexus no País sua liderança nos principais estudos vada qualidade de construção e mais Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 e, de acordo com os seus responsáveis, de Satisfação de Clientes. O estudo avançada tecnologia colocam a mar- “insere-se na estratégia de crescimento ‘J.D. Power and Associates’ decla- ca Lexus numa referência entre as e-mail: centro.jornal@gmail.com qualitativo e sustentável da marca aliada rou, pela oitava vez consecutiva, a marcas Premium, cuja assinatura – Impressão: CIC - CORAZE ao compromisso de continuamente dis- Lexus como líder de satisfação de cli- Busca da Perfeição – é assumida, Oliveira de Azeméis ponibilizar os melhores serviços de Ven- entes no Reino Unido em 2008. Tra- também, como um compromisso inter- Depósito legal n.º 250930/06 da e Após Venda aos seus clientes”. ta-se de um feito jamais igualado por no de toda a equipa que constitui o Tiragem: 10.000 exemplares E acrescentaram: qualquer outra marca. Esta liderança novo Centro Lexus Coimbra”.
  • 3. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 NACIONAL 3 HOJE EM COIMBRA, LANÇAMENTO DE LIVRO DO EX-MINISTRO DA SAÚDE Correia de Campos e Vital Moreira debatem “Reformas da Saúde” O ex-ministro da saúde, António Correia tema”, revela António Correia de Cam- do nocturno, em troca da abertura de novas de Campos, apresenta hoje (quarta-feira, dia pos, nas páginas do livro, sobre uma das Unidades de Saúde Familiar (USF) não foi 24), pelas 18h30, na livraria Almedina Está- suas decisões mais criticadas. tarefa fácil”, sublinha Correia de Campos, dio, em Coimbra, o seu novo livro intitulado Publicada pelas Edições Almedina, na defendendo que optou por “reformas neces- “Reformas da Saúde – O Fio Condutor”, colecção “Olhares Sobre a Saúde”, “Re- sárias para que as políticas correspondam em que faz o balanço das várias políticas do formas da Saúde – O Fio Condutor” assu- às aspirações da maioria dos portugueses”. sector adoptadas durante os três anos do me-se claramente como uma obra política, “Escolher implica risco, sacrifício e im- seu mandato.Na sessão de lançamento, o uma vez que corresponde a escolhas dife- popularidade temporária e localizada; impli- autor e o constitucionalista Vital Moreira renciadas e por vezes “a opostas vias de ca coragem em seguir um rumo, em lançar conversam sobre as diferentes medidas po- acção”, mas que, segundo o seu autor, res- o fio condutor que una as reformas”, escre- lémicas e controvérsias que levaram à saí- pondem sempre a “uma escolha que deve ve Correia de Campos no seu livro, em jeito da antecipada de Correia de Campos do Go- ser ditada pelo interesse público”. de conclusão. A análise e as conclusões do verno, em Janeiro de 2008. Da contratação de médicos como tare- ex-ministro da saúde, oito meses após a sua “A razão mais importante para o alar- feiros à hora, da empresarialização dos hos- demissão, contribuem para o debate de gran- gamento das taxas moderadoras ao inter- pitais públicos, da sustentabilidade financei- de actualidade que envolve o funcionamen- namento e à cirurgia do ambulatório não ra do actual modelo de Serviço Nacional to do sistema nacional de saúde pública. foi nem o objectivo moderador, nem o ob- de Saúde (SNS), ao encerramento dos blo- Licenciado em Direito pela Universida- jectivo financiador, mas sim uma prepa- cos de parto e das urgências e à criação de de Coimbra, António Correia de Cam- ração da opinião pública para a eventuali- em 2006 de novas taxas moderadoras para pos fez da Economia da Saúde, da Política dade de todo o sistema de financiamento o internamento e o ambulatório, o anteces- de Saúde e da equidade, da Segurança So- ter de ser alterado, caso as medidas de sor da actual ministra Ana Jorge esclarece “Concentrar maternidades, requalificar cial e da Administração Pública, a sua espe- boa gestão que tínhamos adoptado no SNS ao longo de 310 páginas as “decisões difí- serviços de urgência em locais previamen- cialidade, sendo, nestas áreas, autor de cin- não se revelassem suficientes para ga- ceis, impopulares, mas necessárias” que te seleccionados e encerrar Serviços de co livros e de cerca de cem artigos científi- rantir a sustentabilidade financeira do sis- teve de tomar. Atendimento Permanente (SAP) no perío- cos em revistas nacionais e estrangeiras. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 239 854 150 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 239 854 154 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
  • 4. 4 MUNDO ANIMAL 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 As touradas do nosso Salvador St.Aubyn Mascarenhas Médico Veterinário salvadorvet@gmail.com descontentamento A imagem da esquerda é, naturalmente, uma encenação, que pretende alertar para a realidade chocantemente documentada na fotografia da direita. E essa, sim, é bem elucidativa do bárbaro sofrimento a que os animais são submetidos nas touradas É óbvio que os touros sofrem quer Uma televisão em Portugal exibiu há raias do surrealismo. para divertimento do homem e que as antes, quer durante, quer após as toura- tempos um documentário sobre o que se É o que faz um médico veterinário, exibições de animais e os espectáculos das. A deslocação do animal do seu ha- passa na retaguarda das touradas. Quan- aficcionado, num artigo publicado no que utilizem animais são incompatíveis bitat, a sua introdução num caixote mi- do chegou à fase final do arranque das Boletim da Ordem dos Advogados ao com a dignidade do animal. núsculo em que ele se não pode mover e farpas o funcionário da praça não permi- afirmar que “só se pode pronunciar so- A Tourada ocorre mundialmente em onde fica 24 horas ou mais, o corte dos tiu a filmagem por a considerar demasia- bre os aspectos éticos da tourada quem apenas 9 países. Um número considerá- chifres e as agressões de que é vitima do impressionante. Mas ouviam-se os conhece o espectáculo”. Conclusão que, vel de países já baniu a tourada por lei, para o enfurecer; ao que se segue a per- horrendos uivos de dor que o animal emi- salvo o devido respeito, é completamen- como, por exemplo,. Argentina, Canadá, furação do seu corpo pelas bandarilhas tia dos seu caixote exíguo e que eram de te absurda, certo como é que os aspec- Cuba, Dinamarca, Alemanha, Itália, Ho- que são arpões que lhe dilaceram as en- fazer gelar o sangue dos telespectadores. tos cruéis acima referidos são óbvios landa, Nova Zelândia e Reino Unido. Em tranhas e lhe provocam profundas e do- E tudo isto para gáudio de uma multi- para quem quer que os presencie, não países onde se realizam touradas exis- lorosas hemorragias; e finalmente, na dão que a cada novo ferro cravado e a sendo necessário estudar tauromaquia tem inclusivamente certas regiões que as tourada à portuguesa, o arranque brutal cada nova e mais profunda perfuração para chegar à conclusão de que o touro aboliram, como por exemplo as Ilhas dos ferros; e tudo isto, já sem se referir da vara, vibra com um gozo em que a é objecto de grande sofrimento ao ser Canárias e a cidade de Barcelona, em a tortura das varas e do estoque na tou- componente sádica é óbvia. farpeado e estoqueado. Espanha e grande parte da França. rada à espanhola – representa, sem Perante a evidência de que o touro Durante muito tempo afirmou-se que os As touradas mantêm-se em Portugal quaisquer dúvidas, sofrimento intenso e sofre – e sofre intensamente – ao ser touros não sofriam nas arenas, porque ao porque muitas das pessoas que estão no insuportável para um animal tão sensível toureado, os aficcionados desdobram- se libertarem a adrenalina durante a corrida poder são aficionados. No entanto, felizmen- que não tolera as picadas das moscas e em atabalhoadas tentativas de justifica- ficavam anestesiados. Nada mais falso. te, a tendência, na Europa, é para que os as enxota constantemente com a cauda ção que não obedecem a um mínimo de As touradas, quer sejam de praça ou à direitos dos animais acabem por vencer. quando pasta em liberdade. razoabilidade, atingindo alguma vezes as corda, provocam sofrimento nos touros. As touradas foram proibidas em Por- É de facto difícil afirmar o que é que tugal por Decreto de 1836, da iniciativa um Touro sente numa tourada. No en- do então l.º Ministro Passos Manuel, por já então, conforme se lê no Decreto, “se- Touro abatido tanto, os estudos científicos feitos até agora apontam no sentido de que as rem consideradas um divertimento bár- baro e impróprio das nações civilizadas, agressões sofridas antes e durante as ilegalmente em Monsaraz corridas sejam não só dolorosas mas in- capacitantes. O touro fica com nervos e que serve unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade”. músculos rasgados, e a quantidade de De então para cá, e apesar do re- De acordo com notícia divulgada pela agência LUSA, um touro foi abatido torno das touradas, o certo é que cada sangue que perde continuamente enfra- ilegalmente. no passado dia 13, na vila medieval de Monsaraz, no Alentejo, no vez mais se acentua a repulsa dos paí- quece-o. Não parece ser sensato pen- final de uma novilhada popular, alegadamente “cumprindo uma tradição reivin- ses civilizados por esse barbarismo me- sar que isto pode ser agradável para o dicada pela população local”. dieval. Em Portugal, segundo sonda- Touro, ou mesmo indiferente. De acordo com a notícia “o golpe fatal foi desferido cerca das 19:45, depois gem recente, a percentagem de portu- O touro, tal como os outros mamífe- de o touro ter sido laçado e preso ao muro da arena, na antiga praça de armas gueses que não gosta de touradas é de ros, ao ter um sistema nervoso central do castelo de Monsaraz, histórica povoação localizada nas margens da albu- 74,5 % contra 24,7 que ainda gosta (Vd. tem capacidade para sentir dor, ansieda- feira de Alqueva”. “Público” de 26.08.02). de, medo e sofrimento. E os sinais exte- A notícia diz ainda: “O abate do touro não foi presenciado pela assistência Mesmo acreditando que a tourada é riores que demonstra na arena denunci- que enchia o castelo (mais de 1.500 pessoas, segundo a organização), por o tradição ou cultura, isso nunca poderá am essas emoções. Não é, portanto, ra- animal ter sido coberto com um pano negro. justificar a crueldade com os animais: zoável aceitar a ideia de que os Touros Apesar de o abate ser ilegal, por não lhe ter sido reconhecido o carácter de crueldade é crueldade, independente- sofrem pouco numa tourada. excepção previsto na legislação, a população de Monsaraz voltou a cumprir a mente do sítio no mundo onde ocorre. A No artigo 10º da Declaração Univer- promessa de manter a tradição que reivindica matar um touro no final da crueldade com os animais não tem lugar sal dos Direitos dos Animais lê-se que novilhada”. numa sociedade moderna. nenhum animal deve de ser explorado
  • 5. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 MUNDO ANIMAL 5 INVESTIGADORES COLOCAM COLEIRA COM GPS EM ANIMAIS AMEAÇADOS “Dança” com lobos na Serra do Soajo O jovem lobo Fojo não sabe, mas o colar com GPS que tem no pescoço per- mite aos investigadores do Projecto de Investigação e Conservação do Lobo no Noroeste conhecer todos os seus pas- sos na Serra do Soajo. “Este pode ser um dos animais que ajuda a alimentar as crias, uma espécie de ‘baby-sitter’ da alcateia, já que re- gressa sempre ao local onde estão as crias”, afirmou a bióloga Helena Rio Maior, que tem monitorizado as deslo- cações do lobo desde que lhe colocou o colar, na manhã de 20 de Agosto. O Fojo, um macho entre um e dois anos de idade, pertence à alcateia do Soajo, que tem oito elementos confirma- dos, entre crias, adultos e sub-adultos, tendo sido apanhado numa armadilha colocada na serra, junto ao local onde os investigadores tinham detectado a pre- sença de crias na noite anterior. Durante cerca de uma hora, depois de anestesiado, o animal foi medido e pesa- do, tendo-lhe sido ainda retiradas amos- tras de sangue e de pêlo para análise, após o que foi libertado, já com um colar com GPS colocado no pescoço. “O colar começou logo a emitir, mas, nos primeiros dois dias, ele não se deslo- cou muito, talvez por estar ainda a recu- perar da anestesia”, salientou a investi- gadora, acrescentando, no entanto, que o centro de actividade do Fojo “foi rapi- damente identificado, é o local onde se encontram as crias”. Trata-se de um comportamento nor- mal entre os lobos, que são animais so- ciais e se juntam para alimentar as cri- O jovem lobo “Fojo” vive no Minho com a sua alcateia, mais concretamente na Serra do Soajo. A fotografia foi-lhe tirada poucos as, que, nesta altura do ano, com pouco minutos após ter acordado da anestesia que permitiu a um grupo de biólogos colocar-lhe ao pescoço a coleira que se vê na mais de três meses de idade, já não de- imagem. O que ele não sabe é que essa coleira tem um dispositivo de GPS que permite seguir todos os seus passos. pendem exclusivamente do leite mater- Mas este método de “big brother” tem aqui um papel meritório, já que representa mais um contributo para o êxito no, mas ainda não saem do local onde do Projecto de Investigação e Conservação do Lobo no Noroeste nasceram. O sistema está programado para de- respectivo auto para efeitos de paga- mentar”, salientou Helena Rio Maior. Recursos Genéticos da Universidade do terminar a posição do animal de duas em mento de indemnização. Se tudo correr conforme o previsto, Porto (CIBIO). duas horas, enviando uma mensagem A rápida localização dos locais onde o colar que o Fojo tem no pescoço vai Os investigadores esperam que as in- quando totaliza sete localizações, sendo ocorreram ataques é apenas uma das cair, de forma automática, às 04:00 de formações recolhidas com este projecto os dados convertidos através de um pro- vantagens do colar com GPS, que tam- 12 de Outubro de 2010, altura em que permitam melhorar as relações entre os grama especial que projecta as localiza- bém permite apurar se um determinado os investigadores esperam conhecer homens e os lobos, tornando mais fácil a ções num mapa, no computador. animal foi mesmo morto por lobos, o que muito melhor os hábitos da alcateia do protecção dos rebanhos na montanha por “As incursões que ele tem feito para é fundamental para efeitos do pagamen- Soajo. se saber onde estão os predadores, mas fora daquela zona são sempre para ca- to de indemnizações. O recurso à telemetria GPS é uma também a identificação dos ataques pro- çar e se alimentar”, frisou Helena Rio Por outro lado, o acompanhamento novidade do Projecto de Investigação e vocados pelos lobos e o consequente Maior, destacando que esta situação das deslocações do Fojo pela Serra do Conservação do Lobo no Noroeste de pagamento das indemnizações. permite que os investigadores conhe- Soajo já permitiu a identificação de dois Portugal, financiado pela empresa de O lobo é actualmente o último grande çam rapidamente os locais onde ocor- eventuais ‘pontos de encontro’ dos lo- energias renováveis Vento Minho. predador da fauna portuguesa, sendo rem ataques de lobos. bos, locais onde permanecem durante Este projecto de estudo do último gran- considerada uma espécie ‘em perigo’ há Desde que tem o colar, há precisa- algum tempo depois de um ataque. de predador da fauna nacional está a ser mais de uma década. mente um mês, já ocorreram dois ata- “Normalmente, o Fojo passa uma se- executado pela Associação para a Con- O mais recente censo nacional, reali- ques em que o Fojo esteve envolvido, mana nas imediações do local do ataque servação e Divulgação do Património de zado em 2002 e 2003, revelou a existên- dos quais os investigadores tiveram co- e depois regressa à área onde estão as Montanha (VERANDA) e pelo Centro cia de 65 alcateias, num total de cerca nhecimento antes de ser levantado o crias, até precisar novamente de se ali- de Investigação em Biodiversidade e de 300 indivíduos.
  • 6. 6 INTERNACIONAL 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 Barroso pede à UE mil milhões de euros para os países pobres O presidente da Comissão Europeia, José “Mas agora discutimos pormenores e Geldof respondeu: “Não ainda. Voltem sex- Manuel Durão Barroso, exortou anteontem quando se chega aos pormenores, as coisas ta-feira!”, apelou, numa referência ao final (segunda-feira) os europeus a vencerem as ficam mais difíceis”, disse. do debate entre chefes de Estado na ONU. suas reticências e desbloquearem mil mi- “O mais vergonhoso é que alguns dos Já Bono disse que não podia acreditar lhões de euros para os países pobres atingi- países que lá estão esta semana tentam pa- que “possam ser os alemães”. dos pela crise alimentar. rar a coisa”, denunciou Bob Geldof numa “Eles foram heróicos nos últimos anos “É um teste muito importante: somos ou referência à Assembleia-Geral da ONU. para tentar cumprir as promessas feitas em não sérios quando se trata de cumprir os “Alguns países europeus estimam que esta Gleneagles” (Reino Unido) durante a cimeira nossos compromissos?”, questionou Barro- pequena soma deve voltar para as suas al- do G8, assegurou o cantor do grupo U2. A so perante os jornalistas durante uma con- gibeiras”, denunciou. chanceler “Angela Merkel sente verdadei- ferência de imprensa em Nova Iorque ao O cantor reconheceu que “muitas pes- ramente qualquer coisa por África “, disse. lado de cantores de rock e de militantes soas vivem situações horríveis por causa do O executivo europeu pretende retirar como Bono e Bob Geldof. que se passa nos mercados financeiros”. mil milhões de de euros de fundos não Barroso lembrou que “os Estados mem- Mas, acrescentou, “isso não é praticamen- utilizados da Política Agrícola Comum bros” tinham saudado durante o Conselho te nada ao lado do que vivem mil milhões de (PAC) para ajudar os países em desen- Europeu de Junho “a intenção da Comissão pobres”. volvimento a aumentarem a sua produ- de fazer uma proposta” sobre a crise ali- Questionado para nomear os países que ção agrícola, nomeadamente financiando mentar. faziam esse bloqueio no seio da UE, Bob sementes e adubos. OS FUTUROS FOCOS DE LUTA NO ESPAÇO PÓS-SOVIÉTICO Cresce a concorrência geopolítica Fiodor Lukyanov * Moscovo de realizar os seus objectivos soviético. líder bielorrusso quer que o Ocidente re- estratégicos. Para os EUA, os seus pró- A Pridniestrovie (a república na mar- conheça a legitimidade das eleições par- prios objectivos estratégicos não são um gem leste do rio Dniestre, com a capital lamentares, a terem lugar brevemente, O conflito militar no Cáucaso e o re- regresso ao século XIX. De facto, Wa- em Tiraspol, que se autoproclamou inde- que sejam descongeladas as relações conhecimento da independência, em 26 shington não tem esferas de influência pendente em 1991) na Moldova, onde a políticas com os EUA e reactivadas as de Agosto, da Ossétia do Sul e da Abcá- regionais, já que os seus interesses se Rússia empreende agora esforços diplo- relações com a UE. De Moscovo quer sia, assinalaram o início de uma nova fase estendem a todo o mundo, sem qualquer máticos. O Kremlin está interessado em obter condições vantajosas de forneci- na luta pela influência no espaço pós- excepção. demonstrar a sua capacidade de resol- mento de gás natural russo e outras pre- soviético. Antes da «guerra de cinco A União Europeia rejeita toda e qual- ver as crises existentes não apenas por ferências económicas. dias» entre a Geórgia e a Rússia, os par- quer retórica referente à época do «gran- via militar, mas também política. A julgar O terceiro palco do conflito serão os vi- ticipantes desta pugna geopolítica nunca de jogo», insistindo que as relações in- pelas últimas notícias, Moscovo, Kishi- zinhos da Geórgia no Cáucaso do Sul. A sublinhavam o seu carácter de concor- ternacionais no século XXI têm uma neu e Tiraspol estão perto de concreti- «guerra de cinco dias» colocou a Arménia rência. Mas agora deixaram de fazer base muito diferente. Isto, porém, não a zar um plano de solução concebido há 5 numa situação difícil, dado que o gasoduto salamaleques. impede de estender, passo a passo, as anos e abortado então pelos EUA e UE. com gás natural russo passa pelo território Moscovo formulou de modo claro e suas regras e normas aos países vizinhos, A regularização do conflito congelado georgiano. Em Erevan receiam que Mos- indubitável a sua atitude em relação aos colocando «os padrões» delineadores da prevê uma neutralização da Moldova covo possa exigir do seu aliado caucasia- países vizinhos como «uma zona de inte- sua própria zona privilegiada. (assumindo a obrigação de não entrar na no um apoio mais concreto. Estragar as resses privilegiados» russos. A pretensão O terceiro participante da pugna geo- NATO) e uma presença militar russa relações com a Geórgia, um importante a uma esfera de influência própria é a política no espaço pós-soviético é a Chi- neste país. É difícil supor que Washing- parceiro económico, onde vive uma nume- realização na prática da ideia de mundo na. Pequim nunca recorre à retórica usa- ton fique de braços cruzados, se a pers- rosa minoria arménia, vai agravar a situa- multipolar, que até agora tinha um carác- da pelos EUA, pela Rússia ou por algu- pectiva de semelhante solução do con- ção económica da Arménia. Mas desiludir ter abstracto e meramente conceptual. mas potências europeias. flito for real. Isto não agradou aos EUA a Rússia é ainda mais perigoso, pois de Num mundo competitivo, cada pólo Do ponto de vista da China, todas e e à UE em 2003, e dificilmente concor- Moscovo depende muito, inclusive a situa- reforça e amplia as suas possibilidades. quaisquer conversas sobre as zonas de darão com este plano agora, nas condi- ção na Nagorny-Karabakh. Um elemento obrigatório é a existência influência são uma prerrogativa do colo- ções da concorrência estratégica aber- A Turquia, caso sejam restabelecidas de «zona tampão», onde os interesses de nialismo ocidental, acostumado a tratar ta. Mas inviabilizar esta solução na Prid- as relações diplomáticas entre Erevan e outros participantes do jogo podem, em com desdém e arrogância todos os ou- niestrovie significa reconhecer que os Ankara, pode transformar-se numa po- princípio, ter lugar, mas não são domi- tros povos. Isto não significa que para EUA e a UE prezam não a integridade tência regional, cujos interesses nem nantes. O que, naturalmente, pressupõe Pequim não existam «zonas de influên- territorial da Moldova, e querem apenas sempre coincidirão com os dos EUA e uma confrontação, já que os interesses cia». Mas elas não são referidas aberta- impedir que Kishineu fique na órbita de da UE. Para a Rússia, isto abre novas privilegiados nunca são reconhecidos mente e descrevem-se apenas em ter- Moscovo. Neste caso, a possibilidade de oportunidades, mas também promete uma pelos parceiros que vêm de fora. mos de «aspiração a uma harmonia uni- resolver o conflito congelado tornar-se- concorrência acrescida. versal». Na prática, isto reduz-se a um á puramente teórica. Mas o principal palco para um verda- PRINCÍPIOS DO SÉC. XIX avanço paulatino dos interesses econó- Nas condições do actual conflito geo- deiro embate geopolítico, agora aberta- micos da China sempre e onde seja pos- político, cresce o papel da Bielorrússia. mente referido tanto nos EUA como na NO SÉC. XXI sível. Por exemplo, nos Estados Indepen- Para a Rússia, é a única brecha no cer- Rússia, será, sem dúvida, a Ucrânia. A dentes da Ásia Central. co dos adversários a oeste das suas fron- situação neste Estado Independente não Os políticos ocidentais não param de teiras. Para Washington e Bruxelas, é pára de agravar-se. Mas mesmo sem esta bater na mesma tecla: é inadmissível, no nosso século XXI, tentar pôr em prática FOCOS DA LUTA uma chance de afastar de Moscovo o batalha, que se adivinha próxima, o espa- GEOPOLÍTICA seu único aliado institucional. O presiden- ço pós-soviético parece cada vez mais um os princípios do século XIX. Ainda no te Alexander Lukashenko é um mestre campo de minas, onde cada movimento início da crise no Cáucaso, a secretária Não é difícil adivinhar os futuros fo- de tirar vantagens de qualquer situação brusco é prenhe de uma explosão. de Estado Condoleezza Rice declarou cos da luta geopolítica no espaço pós- e tem agora inúmeras oportunidades. O que Washington tudo fará para impedir * in revista A Rússia na Política Global
  • 7. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 COIMBRA 7 Passear na Baixa a recordar... vraria Atlântida, que me dizia respeito por ser o responsável pela minha vinda para Co- Varela Pècurto imbra; Amado dos Cortinados, o homem que fumava de manhã à noite, acendendo cada Os conturbados tempos que se vivem à cigarro na ponta do que ía deitar fora e que escala global afligem milhões de seres hu- tinha um ódio de morte à Pide, não por tê-lo manos, crise económica que os elementos prendido mas por lhe ter confiscado o seu da Natureza se encarregam de agravar. As muito estimado Citroen, modelo “arrastadei- desgraças chegam a toda a parte, grandes ra” e que nunca mais viu porque alguém ou pequenas localidades, alterando a vida rodava nele noutras paragens. de cada um. Tudo se modifica e o equilíbrio Recordar as bicas e os companheiros que dá lugar ao desabar da estabilidade. alternadamente frequentavam a Brasileira Os comércios e as indústrias vão à fa- e o Arcádia causava sempre grande abalo lência. O cidadão que viveu durante anos ao Silvino. Quando chegámos ao largo Mi- sem inquietações ou desajustamentos, num guel Bombarda (ou Portagem?) travou-me ápice vê-se confuso no seu meio, ao perder o passo bruscamente e diz-me convicto. valores e referências em que sempre se Vou deixar de vir à baixa! apoiou. As mutações propiciam a desesta- Com tudo o que me é necessário na zona bilização. As ruas têm agora ambiente des- onde moro, porque hei-de mortificar-me conhecido. No íntimo de cada um entra um semanalmente com estas recordações? desconforto que altera o comportamento. Antes de nos despedirmos foi a minha O que é hoje uma espécie de percurso vez. Contei-lhe que certo dia fotografei o da saudade para os mais idosos, foi há patriarca da família Moura Marques na sua anos a mais movimentada e importante primeira livraria (depois mudou para onde zona da cidade de Coimbra. está hoje a Bertrand). Fiz uma grande am- Ninguém era apressado, os cafés encer- pliação, coloquei-a na montra da Hilda no ravam tarde e na Calçada a conversa pro- dia do seu aniversário, em jeito de homena- longava-se para além da meia-noite. gem. O simpático e barbudo senhor era en- O meu amigo Silvano é um saudosista tão o mais velho livreiro de Coimbra e nun- e a crise também o afecta. Mas, como ca tinha sido lembrado assim. Na sua livra- tive ocasião de constatar, está decidido a ria, um seu filho também reunia ao serão pôr-lhe fim. Num destes domingos encon- um grupo de amigos que entre conversas trámo-nos, descia ela do 4, à PSP, e eu a amenas jogavam até à meia-noite. Desse escadaria que o dr. Mendes Silva para ali Aquele modo de se posicionar foi inten- O Nicola mantém-se. Falta-lhe é o Abe- grupo fazia parte um oficial da GNR, pai de mudou - em boa hora, diga-se. cional. Logo após o primeiro gole retomou a lha. Tinha um cliente que ali almoçava com famoso jogador que foi da AAC. Vinha à baixa, hábito semanal que lhe conversa para me falar da loja do Seco, no frequência mas era um tanto ou quanto dis- Vês? diz-me o Silvino. Estás tão tomado conheço desde sempre. Mas, com os esta- rés-do-chão da praça. Na esquina deste lado traído. Um dia, já depois de ter almoçado, por estas recordações como eu. belecimentos fechados é óbvio que se tra- houve uma Havaneza, antiguidades onde deu umas voltas e regressou ao Nicola. Vou apanhar o 4 na Estação Nova, fi- tava da passeata costumeira para lembrar esteve o Mizarela que tão cedo nos deixou, Oh Abelha eu já almocei hoje? nalizou. um passado ainda não distante. No Verão, depois o Ribeiro dos perfumes na sua Gale- Não senhor doutor, ainda não subiu ao Dando um passo atrás, segurou-me a Calçada e imediações tem alguma anima- ra. Do que lá está agora nada disse, porque restaurante, respondeu o malandro, anteven- um braço e desabafou: O Astória e o Bra- ção com festas sonoras e coloridas. Mas são sapatos, mercadoria sem história, a não do uma boa partida a tanta distracção. gança vão ajudar-me a passar na Zara. no Inverno? ser que lembremos o Pombo da “Elegan- Depois de ter almoçado segunda vez, ajei- Estavam ali o Internacional e os seus vi- Voltamos à estaca zero, responde o te”, que sempre teve um gato na loja, tradi- tando o monóculo, diz o cliente: oh Abelha! zinhos, irmãos Cunha Pinto que vendiam Silvano. ção que se manteve. Mais reconfortados não sei que tenho hoje. Faltou-me o apetite. para “matar o tempo” e por isso pratica- Passando a semana atrás de um balcão, com tantas evocações, levantámo-nos e con- Comi pouco! vam o preço de custo. longe da baixa e atendendo clientela para tinuámos rua acima, agora sem trânsito de Continuámos. Adeus Singer; Jacinto Sil- Adeus, até não sei quando! quem já é sacrifício comprar o indispensá- viaturas, ausência que se lamenta por ter va de nariz afilado de tanto lhe passar o indi- E lá regressou aos Olivais, onde o vel, é de calcular que mantenha o hábito de contribuído para a desertificação. cador direito, em gesto frenético, incontá- meu amigo Andrade, num dia qualquer, vir até à Calçada para rever locais da sua Fomos observando o que está inalterado, veis vezes; delegação de “O Primeiro de vai proclamar a independência e ele- preferência. Um ritual. aceitando as modernidades porque afinal o Janeiro”, onde um grupo de notáveis batia var a cidade a maior freguesia de Na Praça 8 de Maio, nome que rejeita que falta é gente a comprar. cartas em pano verde todos os serões; Li- Coimbra!... parta lhe chamar apenas Sansão, parámos Mas a nostalgia apoquentava-o. A ausên- e o Silvano parecia tirar medidas às novas cia de velhos amigos e conhecidos causa- paredes, qual fiscal da Câmara, mas com va-lhe tristeza. óculos porque o meu amigo tem falta de vista. Citou o delicado Lopes da Casa das Lãs Esboçou um sorriso para os repuxos que e, do lado contrário, o Neves dos vidros, um nem sempre esguicham água certinhos. dos criadores da cerveja de Coimbra, radio- Subimos a rampinha que não lhe mereceu amador e fotógrafo com câmara-escura tão comentários porque nunca ali escorregou, bem equipada que fazia inveja a qualquer tal como acontece com o corrimão croma- profissional. Lembrou-se da Farmácia Do- do a que jamais se apoiou. nato, onde comprava remédios pagos a pres- Na esplanada acolhedora do Santa Cruz tações. Ao virar-se para a Central, quero parámos com dupla finalidade: continuar a dizer, onde esteve a Central, começou a conversa e tomar a bica. sorrir, numa fugaz descontracção. O Silvano sentou-se de costas para o Lembras-te, disse-me, quando era hora edifício que foi igreja e depois restaurante, de fechar, o dono voltava atrás para dar um onde se podia comer nas capelinhas que ti- empurrãozinho na porta para ter a certeza veram santos. Proporcionavam intimidade que estava fechada? porque se mastigava sem estar à vista da A graça não estava no procedimento mas restante clientela. sim nas três ou quatro vezes que o repetia.
  • 8. 8 OPINIÃO 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 se não contribuísse para desprestigiar o A ENTERTAINER É que, ao contrário do Estado, a Igreja maior partido da Oposição, cuja imagem desde sempre cuidou dos pobres, dos do- deixou muito maltratada, como é sabido. Fui uma das 75 mil almas que assisti- entes, dos desamparados, por motivos que Falar em Congresso antecipado a um ram ao espectáculo grandioso que foi o se prendem com os próprios fundamentos ano das eleições é de quem quer ‘estoi- concerto da Madonna. Durante duas do cristianismo, com a missão evangélica, rar’, como é evidente. O primeiro-mi- horas ficámos presos a uma encenação com a caridade, maior virtude teóloga. nistro agradece. Espectáculo à margem hipnotizante e coreografias estonteantes (...) Ao contrário do que sucede no Rei- da governação é sempre óptimo para o para 25 anos de músicas que todos sa- no de Deus onde o despudor e a impunida- Governo. Politicamente, entendamo-nos, bemos trautear. Pouco importa que a de não são aceitáveis, no reino de César por muitos carros de cilindrada que alu- rainha cante em playback: ela é, sobre- os governos podem ser despudorados e fi- gue, por muitos fatos que vista, Mene- tudo, uma entertainer que se sabe rein- carem impunes... E assim se vai andando, zes é Menezes, a bengala, a caução, ventar como nenhuma outra. E fá-lo na com os responsáveis puxando os cordeli- uma carta sempre boa para o primeiro- perfeição. nhos nos momentos mais tácticos, como ministro e o Partido Socialista. É só pô- Mas duvido que os 75 mil espectado- os períodos pré-eleitorais, ou quando a po- A TIA MANUELA lo a correr e dar-lhe algum eco. Bem res se tenham apercebido de quão privi- breza se torna mediática. amparado. Ao primeiro-ministro con- legiados são. Duvido que tenham valori- O discurso de Manuela Ferreira Leite vém que Menezes fale muito e muitas zado o facto de poderem assistir a este Maria José Nogueira Pinto na rentrée do PSD foi um completa de- vezes. Ora, não há nada pior do que al- espectáculo por vivermos num espaço de Diário de Notícias (18/Setembro/08) silusão. Dizem que Pacheco Pereira foi guém utilizável, dependendo, claro, do Liberdades a que chamamos o Mundo o autor ou o inspirador desse texto políti- ponto de vista (para Sócrates é exce- Ocidental. Madonna pode andar aos pu- CIÊNCIA E RELIGIÃO co. Não sei se foi, mas se sim é obvio lente, para o PSD é péssimo). Menezes los em pelota porque vivemos numa so- que a minha desilusão também o atinge, não entende que entre ele e Manuela ciedade em que as mulheres não têm de (...) a ciência não é crente nem é ateia. apesar da enorme admiração e respeito Ferreira Leite – concorde-se ou discor- andar de burca; ela pode achincalhar a É pura e simplesmente ciência e, portan- intelectual que tenho por ele. de-se – há toda uma diferença entre o Igreja Católica porque esta não decreta to, quer crentes quer não crentes vão para Sumariamente, Manuela Ferreira Leite estável e a mais completa esquizofre- sentenças de morte sobre os infiéis; ela a ciência em pé de igualdade, com méto- foi ao cardápio das críticas irresponsá- nia política de que aliás deu prova quan- pode brincar às boazinhas-que—vão-sal- dos científicos. A ciência não demonstra veis, das insinuações soezes, e fez desfi- do teve oportunidade. var-os-coitadinhos-a-África, indo lá uma a existência de Deus nem a sua não exis- lar, da primeira à ultima palavra, os ar- De cada vez que Menezes fala, o Par- vez e adoptando um indígena, porque fez tência. A razão é simples: Deus não é gumentos repetidos até ao vómito de que tido Socialista respira aliviado e agrade- uma fortuna colossal numa economia de objecto de ciência, pois não é da ordem a maior parte das obras anunciadas pelo ce embevecido. mercado que tanto está na moda desde- do verificável empiricamente. Governo são disparatadas, a inseguran- Menezes deveria percorrer um cami- nhar. Porque não foi ela fazer carreira no Há cientistas crentes e cientistas ateus ça de agora é culpa inteira do Governo, nho de autocrítica, mas continua sem Irão, no Afeganistão ou… em África?! (...) ou agnósticos. O que se passa é que, no a economia está de rastos, o TGV vai perceber que apesar de tudo não vale limite, há uma pergunta que transcende a ser um desastre, o novo aeroporto não tudo. Mas faz hoje como fez no passa- Teresa Caeiro ciência: porque há algo e não nada? Por- se justifica, as reformas do ensino estão do: vale tudo. A todo o custo. Correio da Manhã (16/Setembro/08) que houve o Big Bang? Qual o sentido de todas mal feitas etc, etc. (...) Não compreende nem compreenderá tudo? que não basta ‘comprar’ o que está à A BELEZA DO CAPITALISMO Aqui, já não se trata de ciência, pois é Emídio Rangel volta ou tecer uma teia de cumplicida- uma questão filosófica e religiosa: o mun- Correio da Manhã (13/Setembro/08) des. Menezes não vive sem um qualquer (...) A beleza do capitalismo especulati- do cria-se a si mesmo e explica-se por si poder e exposição e as pessoas que não vo na sua versão selvagem e neoliberal é mesmo ou há um Deus transcendente e O ENTERTAINER vivem sem um qualquer poder não se que, quando um especulador global espir- pessoal, criador? Face a esta pergunta, governam a si próprias, quanto mais aos ra, nós, os mal agasalhados, apanhamos uma crentes, ateus e agnósticos não interpre- Se Sócrates é o rei do virtual, Mene- outros: destroem. pneumonia. E quando, como eles também tam o mundo de uma determinada ma- zes persiste em não perceber que o pro- Cada vez mais Menezes se assemelha dizem, “a economia real arrefece” nós é neira pelo facto de o serem; o que se pas- blema dele é ele próprio. Cada vez que a um entertainer ao serviço de Sócrates. que tiritamos de frio. Parafraseando o Papa, sa é o contrário: uns são crentes e outros diz alguma coisa – ou o seu contrário, do “o amor (deles) ao dinheiro é a raiz de to- ateus ou agnósticos, porque a interpreta- que nem se deve dar conta – um senti- Paula Teixeira da Cruz dos os (nossos) males”. Fosse eu dado a ção religiosa e a interpretação ateia ou mento de descrédito percorre a socieda- Correio da Manhã (11/Setembro/08) coisas “new age” e veria nesta tumultuosa agnóstica lhes parece, respectivamente, de portuguesa. A coisa não seria grave espécie de neo-Grande Depressão uma mais adequada, consistente e razoável. mão astral. Não é que, algures além-tú- Há fé, mas com razões. A ciência no mulo (e, pelos vistos, aquém-túmulo) os ma- sentido positivista não detém o monopólio léficos utopistas Marx e Engels estão nes- da razão. A razão tem múltiplas dimen- ta altura a comemorar os 160 anos do Ma- sões e não se esgota nas ciências lógico- nifesto Comunista? empíricas. Como disse Bento XVI, na semana passada, no Colégio dos Bernar- Manuel António Pina dinos, em Paris, na presença de grande Jornal de Notícias (17/Setembro/08) número de intelectuais, é próprio da razão perguntar por Deus e “uma cultura pura- DE CÉSAR E DE DEUS mente positivista, que remetesse para o domínio subjectivo, como não científica, a (...) Hoje temos, por um lado, um Esta- pergunta por Deus, seria a capitulação da do que regulamenta em excesso, financia razão, a renúncia às suas possibilidades abaixo dos custos e fiscaliza como e quan- mais elevadas e, portanto, um fracasso do do lhe convém, e por outro, um elevado humanismo”. número de organizações que ao abrigo de Quanto ao Génesis, primeiro livro da uma subcontratação sofrem os solavancos Bíblia, que agora seria definitivamente dos ciclos políticos, a descontinuidade das arrumado, é preciso dizer que se trata de políticas públicas, os ónus da contratação um livro religioso e não de ciência: utiliza laboral, a responsabilidade de milhares e linguagem mítico-simbólica para falar de milhares de cidadãos que o Estado lhes Deus criador. Os crentes há muito deve- transfere, ao mesmo tempo que as subfi- riam saber isso. Quem quiser lê-lo à letra nancia, impedindo qualquer sustentabilida- habita ainda o universo do ridículo de e lhes vai tolhendo, pouco a pouco, a sua identidade e liberdade de agentes so- Anselmo Borges ciais caritativos e desinteressados. Diário de Notícias (20/Setembro/08)
  • 9. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 OPINIÃO 9 OBAMA E A EUROPA do Estado-Maior paquistanês, avisou, entre- ternacionais. A UNESCO avisou, desde to de uma maior contenção presidencial). tanto, que “o Exército defenderá toda a área sempre, que a guerra começa no coração Considero, porém, que uma intervenção (...) Mas deve perguntar-se o que é que da sua soberania”... dos homens, e a longa história de desastres pública demasiado frequente e dispersa, pode significar para a Europa a eleição de Noutra região do mundo – a América não conseguiu inspirar melhor sabedoria. como tem sucedido por vezes, corre o risco Obama. Ele acabará com os benefícios fis- Latina –, os conflitos com os Estados Uni- da banalização da função presidencial. cais para as empresas que criem emprego dos também têm vindo a agudizar-se. Des- Adriano Moreira Há também alguns casos em que Cava- fora dos Estados Unidos, isto é, bloqueará de, pelo menos, o princípio do séc. XX que Diário de Notícias (16/Setembro/08) co Silva se tem pronunciado em termos con- as deslocalizações americanas para a Eu- a América do Norte considera os seus vizi- cretos sobre assuntos específicos da esfera ropa e a Ásia, e procurará repatriar o inves- nhos do Sul, incluindo os mexicanos, como O MISTÉRIO DO GÉNIO governamental, o que me parece de evitar. timento americano no estrangeiro. Refor- seus tutelados, para não dizer “economica- No que respeita ao exercício do seu po- çará as barreiras aduaneiras. Defenderá o mente colonizados”. Por isso, após a Se- (...) A arte sempre foi exigente. A maior der de veto político, só no caso da lei do proteccionismo e a guerra económica. Que- gunda Guerra Mundial, a América do Norte parte das obras de Aristóteles ou Praxíteles divórcio é que se manifesta um entendimen- rerá renegociar as condições de existência interveio militarmente - e sem complexos - perdeu-se, Maquiavel só foi publicado de- to menos pacífico desse poder, já que em da NAFTA, impedir a entrada nos Estados em inúmeros países das Caraíbas, da Amé- pois de morto e Camões teve de salvar o todos os demais estavam em causa diplo- Unidos de produtos dos países emergentes rica Central e do Sul. Para tanto, instigada original de Os Lusíadas de um naufrágio. mas que tinham a ver com o Estado, directa e também dificultar a concorrência europeia. pelos teóricos da “escola de Chicago”, pro- Muitos génios morreram jovens de doenças ou indirectamente, pelo que caem na esfera Diferentemente, McCain, que fala de moveu por toda a região ditaduras militares, hoje banais, Beethoven foi amargurado por de actuação do seu papel de supervisão do mercados estrangeiros abertos para os agri- derrubando, directa ou indirectamente, as uma surdez evitável e Bach ficou cego ao sistema político (...) cultores norte-americanos, defende esfor- democracias existentes. Os casos da Re- passar noites a compor à luz da vela. Hoje, ços multilaterais, regionais e bilaterais que pública Dominicana, da Guatemala, do Chi- pelo contrário, qualquer criança, sem custo Vital Moreira permitam reduzir as barreiras ao comércio le, da Argentina, da Nicarágua, pós-Somo- ou esforço, tem nas mãos uma tipografia Diário Económico (12/Setembro/08) e conseguir o cumprimento “fair” das re- za, do Brasil, para não falar da invasão da mais universal que Cervantes, uma paleta gras de comércio global. Tudo isto vem ao baía dos Porcos, em Cuba, e do bloqueio ao mais rica que Rafael, um estúdio mais so- TODA A VERDADE encontro de interesses europeus numa mun- regime de Fidel Castro, ficaram tristemente fisticado que Chaplin. No entanto não ve- dialização a que nenhum país escapa. célebres. mos por cá génios como Cervantes ou Ra- (...) Confesso que, quando a SIC estreou Quanto ao Irão, ao Iraque, a Israel e ou- fael. Nem sequer Chaplin. Temos cópias e o programa Momento da Verdade, temi o tras questões da mesma natureza, Obama Mário Soares repetição, poucos originais. pior. Julguei tratar-se de mais um produto tem sido sucessivamente contraditório, não Diário de Notícias (16/Setembro/08) A incrível redução de custos da era da televisivo aviltante, o que me colocaria um havendo uma ideia clara quanto às suas informação revolucionou o mundo material. problema difícil. Eu vejo pouca televisão, verdadeiras intenções... O ponto em que tem O SABER DE SEMPRE Deveria ter revolucionado o espiritual. Na mas nunca perco um produto aviltante. A sido mais afirmativo respeita a uma retirada música, literatura, poesia, pintura, arquitec- televisão tem uma capacidade de aviltar que das tropas americanas do Iraque sem aten- A grave situação causada pela interven- tura, desenho, filosofia, sobretudo na foto- não é ultrapassada por qualquer outro meio der às consequências, matérias em que Mc- ção da Rússia na Geórgia teve um primeiro grafia e cinema, os avanços modernos alar- de comunicação e por isso constitui, para Cain defende soluções mais moduladas, efeito desanimador que foi o de fazer re- garam enormemente o acesso e abriram mim, a principal fonte de aviltamento. Se mais realistas e mais sensatas. cordar todo o dramatismo da guerra fria, os novos campos de criatividade. É verdade tomo conhecimento de que há produtos avil- A eleição de Obama poderá sair muito longos anos de inquietação sobre a quebra que não facilitam algumas artes, como es- tantes nas grelhas, pego nas pipocas e vou cara a uma Europa em crise múltipla, pate- eventual da paz, as previsões de então so- cultura, ourivesaria, teatro ou dança. Mas para o sofá ser aviltado. Imaginem o meu ticamente destituída de qualquer capacida- bre as consequências de um eventual re- mesmo nessas aumentaram a divulgação. alívio quando constatei que o Momento da de militar digna desse nome e cronicamen- curso às armas de destruição maciça. No entanto os efeitos de tudo isto foram Verdade é, afinal, serviço público, e o pro- te dependente do parceiro americano para A retórica de uma resposta musculada ambíguos. Verificou-se, como seria de es- grama mais interessante da televisão portu- a segurança dos seus cidadãos e do seu ter- dos ocidentais perpassou pelas declarações perar, uma explosão de boçalidade e dispa- guesa, quer do ponto de vista ético quer do ritório. Sabe-o a esquerda, e por isso exulta. mais ou menos oficiais dos governos euro- rate, de obscenidade e malícia. O que fal- ponto de vista filosófico. Como é óbvio, um Sabe-o a direita, mas só agora começa a peus e americano, que rapidamente regres- tou, e também se esperava, foi o aumento produto com estas características não me dizer alguma coisa. Enfim, afigura-se que saram à moderação que uma linguagem das maravilhas de beleza, elevação, refle- interessa. Para isso, vou ler livros. McCain vai ganhar. Felizmente. cuidada chama prudência, e que, com mais xão e criação. (...) O que o Momento da Verdade vem de- transparência, tem que ver com a relação monstrar, e de forma fulgurante, é que, mes- Vasco Graça Moura de poderes, não necessariamente a que ava- João César das Neves mo a troco de dinheiro, dizer a verdade nun- Diário de Notícias (17/Setembro/08) lia as capacidades militares, apenas a que Diário de Notícias (15/Setembro/08) ca é boa ideia. Toma lá esta, Platão. Se hou- avalia as dependências externas em que os vesse televisão na Grécia Antiga, um certo BUSH DESESTABILIZA europeus se encontram. CAVACO “ACTIVISTA” e determinado senhor teria uns aditamentos O MUNDO (...) A narrativa que vai acompanhando a a fazer a certas e determinadas obras, não sucessão de violações, ao mesmo tempo da (...) É manifesto que Cavaco Silva tem era? Era. (...) A diplomacia agressiva dos Estados Uni- paz e da justiça, também vai demonstrando um entendimento “activista” da função pre- dos, no final do mandato Bush, está a de- que a lógica dos apelos anda por caminhos sidencial, explorando uma interpretação pos- Ricardo Araújo Pereira sestabilizar o mundo e a criar conflitos em muito diferentes dos da lógica da interven- sível da Constituição (embora eu seja adep- Visão (18/Setembro/08) diferentes regiões. Na semana passada es- ção: a insegurança no Chade não diminuiu, crevi, nesta mesma coluna, sobre o Cáuca- e impede mesmo a entrada da ajuda huma- so, o conflito entre a Geórgia e a Rússia nitária; no Zimbabwe, os representantes da (estimulado pela NATO, braço armado dos comunidade internacional avisam o Conse- Estados Unidos) aplacado in extremis pela lho de Segurança de que a situação é “um União Europeia, que percebeu o perigo em desafio para o mundo”; o erro cometido no que incorria se concretizasse as ameaças Kosovo não animou de resultados a inter- feitas. Invocar o regresso à “guerra fria” é venção da Missão da ONU; no Corno de um disparate, num mundo de novo multila- África, a seca e a subida de preços dos gé- teral e com diversos centros de poder... neros terá deixado mais de 14 milhões de Mais recentemente, Bush permitiu que pessoas, que vivem em seis países, na mai- as forças especiais americanas fizessem or carência alimentar. De tantas e longas incursões no Paquistão, intervindo a partir dramáticas narrações, de tão dispendiosas do Afeganistão, sem sequer avisar o Go- intervenções em recursos materiais e hu- verno “aliado” do Paquistão. O objectivo era manos, de tanta inútil intervenção militar, de capturar os terroristas da Al-Qaeda e os tantas perdas de vidas, de futuros, e de es- talibãs nos seus santuários. O que, claro, não peranças, a conclusão que parece abran- aconteceu. A NATO declarou – vá lá! – gente de todos os casos é que a paz conti- que as suas tropas não atravessariam a fron- nua a ser um processo estritamente político, teira do Afeganistão, tanto mais que o chefe apoiado na concentração dos esforços in-
  • 10. 10 CRÓNICA arte em café 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 A OUTRA FACE DO ESPELHO Arco da traição José Henrique Dias* hdias@net.sapo.pt É tarde. Consome-se a hora como se alguém ti- vesse de vir bater à porta. É assim desde o princí- pio, não me habituo a esta inevitável solidão. Dis- parate. Estamos sempre sós. Como morremos sem- pre sós. Às vezes parece outra coisa porque não percebemos tudo até ao fim. A distracção assalta- nos. A inquietude impacienta-nos. A realidade des- faz-nos. Somos uma espinha de peixe entre um gato e um esgoto. Recolhi um dia de um poema e depois falei disto, mas não sei onde nem quando. Há pou- co tempo uma pessoa de quem gosto muito con- frontou-me com a tirania que há dentro de mim. Perguntava com voz alterada: julgas-te deus? Não sei exactamente o que é isso, sei seguramente o Homem e a Opressão da Mulher, com que estive pretações. Algumas são fáceis demais. Como se que muitos julgam saber. Desde os primórdios do às voltas para ver se saía do labirinto. dizia no meu tempo de estudante, nas discussões grande desamparo. Como Freud explica em O nas- É tarde, estava a dizer. Consome-se a hora como filosofantes a um canto de A Brasileira, são da cimento de uma ilusão. Para mim não era absolu- se alguém tivesse de vir bater à porta. Comecei primeira folha da Sebenta. Um módico de inteli- tamente preciso. Tinha pensado nisso, embora de por pensar. Quando se apertava o cerco em que gência decifra tudo. maneira incipiente, era ainda um rapazinho. Passou me comprometi. As tarefas da profissão esgotam- A Emerenciana tinha-me avisado. Já ali está a interessar-me cedo o problema da individuação. me. Pensar é penoso para quem se obriga à exce- aquela paciente muito especial. Mando entrar? Tra- Ancorei-me a partir da Urvertrauen, a “confiança lência. Lembrei-me agora que foi qualquer coisa balha para mim há tantos anos que sei o que cada primordial” que articula a conceptualização de au- assim que ela me disse a propósito de artes perfor- coisa quer dizer. Fica com alguma inquietação sem- pre que recebo uma mulher bonita. O que se acen- tuou desde que fiquei viúvo. Não passou muito tem- po, parece que foi ontem, e no entanto correram cinco anos, sentenciou com algum atrevimento o senhor doutor depressa refaz a sua vida e bem merece. Sei o que estava a reverenciar. O relato começou ainda mal respirava do emba- te da aparição. Não posso negar que me perturba e apelo mais à disciplina interior do que ao aperto da deontologia. Os colegas das outras especialidade usam bata branca. Como diz algures o Torga, é como a cortiça de castidade. Que põem aos car- neiros como um avental. Barreira de crueldade para o salto do desejo. A bata aspira funcionar no terri- tório subjectivo dos impulsos. Talvez alguns desa- marrem o avental da metáfora. O sonho, doutor, foi assim: eu andava com ele de mão dada por ruas muito estreitas. Becos, um labi- rinto. E ele dizia-me olha como definho, pareço um cadáver. Vê como estou magro e pálido. Eu olhava e não me parecia, mas ele insistia, insistia, fazia- me sentir que ia morrer. Depois saiu não sei donde um enorme rato. Preto. Do tamanho de um cão. Odeio ratos e cães. Um terror. E eu gritava fora de mim. Depois insultei-o, humilhei quanto pude, des- pi-o até à ínfima nudez da impotência disfarçada, que eu finjo que não é. Transporto-me em memó- rias passadas… Não continuo. É tarde. Em verdade, nem sei há tonomia em Erik Erikson. mativas na cama. Julgo que as palavras foram: para quanto tempo me contou o sonho. O desejo secreto Não sei porque estou assim. Que raio de coisa certos momentos exijo a excelência. Era a última de morte era sobreviver a um amor sem futuro. leva a que permaneça no labirinto de mim no à sol- hipótese que tinha para humilhar. As traições do Quando diminui a autonomia cresce a agressivida- ta em Creta da traição do Eu? Já perceberam. corpo soltam a língua às oprimidas que se querem de. Ainda sinto a sua sombra além da porta. Guar- “A vida é intrinsecamente um naufrágio cons- opressoras. Quando menos se espera atiram pe- do o rasto do perfume e retenho a produção a ver- tante. Mas ser náufrago não significa morrer afo- dradas aos vidros da intimidade. Com a palavra melho e negro dessa tarde. A blusa intensa Cor de gado. […] A própria situação de naufrágio já é a amor diluída em baton. sangue. O lento arfar do peito. O fato negro. O salvação, uma vez que é essa a verdade da vida É Guardei tudo isto em mim quando a vi passar a olhar onde só cabe a excelência. por isso que já não acredito em pensamentos que porta a renovar, naquela sua maneira de olhar para Sou fraco como os demais mas domino o possí- não sejam de náufragos”. trás, o sorriso do até à próxima sessão. Terá sido vel. Não sei se é por isso que me elegeram para a Coisas de Ortega y Gasset a propósito de Goe- um sonho. A narrativa foi de um sonho. Começou comissão de ética. the. A verdade é que ninguém se importa com o exactamente assim: esta noite tive um sonho muito Desde que fiquei viúvo que a Emerenciana vigia que verdadeiramente somos. Só conta o sucesso estranho. Não era a primeira vez que se reconsti- os meus odores. Sabe que não passará pela minha que temos. A advertência vem-me de Arno Gruen, tuía em sonhos que apelidava de estranhos. Nunca cama. Traições do Eu. a espremer os miolos sobre a Desumanização do chego a saber se lhe interessam as possíveis inter- * Professor universitário
  • 11. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 COIMBRA 11 A magia dos Encontros Coimbra foi palco de mais uma edição dos “Encontros Mágicos”, uma iniciativa de Luís de Matos apoiada Fotos de Carina Martins pela Câmara Municipal, e que tem trazido até ao nosso País alguns dos mais famosos artistas do ilusionismo, que maravilham miúdos e graúdos. Este ano assim voltou a acontecer, como documentam as imagens.
  • 12. 12 FOTOGRAPHARTE 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 REGATA DOS GRANDES VELEIROS - PORTO DE AVEIRO, 20.09.2008 Fotos de Dinis Manuel Alves
  • 13. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 TURISMO 13 NO PRÓXIMO SÁBADO Diversas realizações em Coimbra assinalam Dia Mundial do Turismo Celebra-se no próximo sábado (27 XVI ao séc. XX. de Setembro) o Dia Mundial do Tu- rismo. PERCURSOS TURÍSTICOS Para assinalar a efeméride, a enti- dade responsável pelo Turismo em Para além das realizações atrás re- Coimbra (a Empresa Municipal Turis- feridas, destaque para os seguintes mo de Coimbra), elaborou um conjun- percursos turísticos proporcionados to de actividades muito diversas, de aos visitantes: molde a satisfazer os gostos de quan- – 10h00 às 12h00 – Visitas ao con- tos estiverem em Coimbra nessa data. junto monumental da Universidade de Assim, e começando pela animação, Coimbra (local de encontro: Posto de o programa é o seguinte: Turismo da Universidade) – Mercadinho do Botânico, das – 10h00-19h00 – Autocarro Pano- 9h00 às 13h00, no Jardim Botânico, râmico Fun(tastic)ª onde podem ser adquiridos produtos – 11h00 – Da Alta à Baixa (local biológicos, plantas, flores e outros ar- de encontro: Posto de Turismo da Uni- tios naturais. versidade) – Feira das Velharias, das 9h00 às – 15h00 – Parque Verde do Mon- Para além da Universidade, Coimbra tem muito mais para mostrar 19h00, na Praça do Comércio (Praça dego (local de encontro: Posto de Tu- Velha). Uma mostra onde há de tudo, – Actuação do grupo “Roncos e – Espectáculo de Fado de Coimbra, rismo da Portagem) para todos os gostos e todos os preços. Coriscos” (grupo de gaiteiros da Aca- às 19h30, junto ao Arco de Almedina. De sublinhar que neste o acesso a – Actuação dos Saltimbancos do Gru- demia de Música de Ançã), das 14h30 Destaque ainda para uma exposi- todas estas iniciativas é gratuito, es- po de Teatro de Sobral de Ceira, das às 18h00, no Centro Histórico e Bai- ção da tradicional e artística Cerâmi- perando-se grande adesão por parte dos 10h00 às 12h30, na Baixa da cidade. xa de Coimbra ca de Coimbra, com peças do séc. visitantes nacionais e estrangeiros. À descoberta de Buarcos tionário que lhes é proposto. A descoberta inicia-se no Núcleo Museológico do Na Figueira da Foz foi apresentada uma curiosa ini- com a rota urbana, com o objectivo de dar a conhecer Mar, com a projecção de um filme sobre as pescas e as ciativa, intitulada “À descoberta de Buarcos”, promo- Buarcos numa perspectiva cultural e reveladora das gentes do mar. vida pela FGT (Figueira Grande Turismo). tradições locais. Segue-se o passeio pedonal, que pode ou não ser Trata-se de um percurso urbano pela tradicional praia Assim, é também incentivado o contacto com a po- acompanhado por um guia (depende da vontade dos piscatória de Buarcos, mas em versão de “pedipaper”. pulação local, através de um jogo que não se limita ao participantes), e que demora cerca de duas horas. Na apresentação à imprensa ficou a saber-se que a aspecto lúdico, mas pretende ser também pedagógico, Enfim, uma iniciativa muito interessante, que certa- todos os participantes é fornecido um “jogo de pistas” com os participantes a terem de ir preenchendo o ques- mente vai ter grande adesão. “À descoberta de Buarcos”, alguns jovens visitantes conversam com um pescador, frente ao mar
  • 14. 14 EDUCAÇÃO/ENSINO 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 ANUNCIOU ONTEM JOSÉ SÓCRATES Programa de acesso a computadores alargado aos 5º e 6º anos O primeiro-ministro anunciou ontem, em Matosinhos, o alargamento do pro- grama governamental de acesso a com- putadores e Internet aos alunos do 5º e 6º anos de escolaridade. Segundo José Sócrates, os alunos po- dem optar pelo “Magalhães”, disponível desde ontem para os alunos do 1º ao 4º ano de escolaridade, ou pelo programa e-escolas destinado aos alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. “Podem optar pelo programa que mais lhes convêm nas mesmas circunstância que os restantes alunos”, sublinhou José Sócrates, que falava na escola EB1 Pa- dre Manuel de Castro, em S. Mamede Infesta, Matosinhos. Nesta escola, o primeiro-ministro as- sinalou o início da distribuição dos cerca de três mil computadores portáteis “Ma- galhães” aos alunos do primeiro ciclo. “O dever de um governo, hoje, já não é apenas proporcionar formalmente o direito à educação. O dever de um go- verno é proporcionar uma boa educação. Foi por isso que avançámos com este projecto”, disse José Sócrates. O primeiro-ministro lembrou que “está provado que o uso de ferramentas infor- máticas proporciona melhores índices de aprendizagem e melhora os resultados”. “Estamos hoje a formar uma nova José Sócrates e a Ministra da Educação andaram a distribuir computadores “Magalhães” geração de portugueses que domina o por algumas escolas inglês e as tecnologias de informação e “O Estado esteve na origem e liderou comunicação. Será uma geração mais safios: melhorar a educação e melhorar No total, serão entregues este ano lec- o projecto, mas este não é um programa os índices de utilização de computado- tivo 500 mil exemplares do “Magalhães”, bem preparada e em melhores condições do Governo, é sim o resultado de uma para servir o objectivo do desenvolvimen- res”. que terão um custo máximo de 50 euros, parceria entre o Estado, a escola, os ope- José Sócrates congratulou-se com o sendo gratuitos para os alunos que be- to do nosso país”, frisou. radores e as autarquias”, vincou. O primeiro-ministro realçou que este facto de, em Portugal, todos os alunos neficiam do primeiro escalão da Acção O primeiro-ministro criticou quem se do 1º ao 12º anos de escolaridade terem Social Escolar. programa e-escolinha, “além de melho- empenha em desvalorizar o “Maga- rar a educação, vai fazer chegar um com- a partir de ontem acesso a um computa- À semelhança do programa e.escola, lhães”, considerando que essa é “uma dor em condições “muito vantajosas”, que envolveu os estudantes do terceiro putador a muitas casas onde isso ainda atitude de quem não precisa, porque não tinha sido possível, funcionando as- referindo, em relação à Internet, que to- ciclo e do ensino secundário, os portá- quem precisa da ajuda do Estado fica das as escolas do país terão “uma velo- teis “Magalhães” terão acesso à Inter- sim, também, como uma oportunidade de satisfeito por finalmente dispor de um infoinclusão”. cidade de banda larga superior à que net de Banda Larga a custos reduzidos, programa capaz de responder a dois de- existia”. mas a opção de ligação é facultativa. Fenprof lança abaixo-assinado pela revogação do Estatuto da Carreira Docente A Federação Nacional dos Professo- questão que não pode continuar a ser Após o contributo dos estabeleci- tais de distrito e em outras cidades um res (Fenprof) lança a 1 de Outubro um ignorada, sendo esse o mote da cam- mentos de ensino, será definido o do- folheto às populações sobre “a impor- abaixo-assinado a favor da revogação do panha em torno do Dia Mundial dos cumento final que o sindicato apresen- tância da profissão de professor”. O Estatuto da Carreira Docente, uma das Professores”, afirma a federação, em tará no período já definido pela tutela secretário-geral da Federação, Mário várias iniciativas que a estrutura sindical comunicado. para alterações ao modelo de avalia- Nogueira, participará nas actividades promove no âmbito do Dia Mundial dos Além desta iniciativa, será apresenta- ção de desempenho actualmente em previstas para o Funchal. Professores. da a 8 de Outubro uma proposta sobre vigor, que deverá decorrer em Junho Por outro lado, foi enviado a todos “Sem professores respeitados, dig- avaliação de desempenho para discus- e Julho do próximo ano. os grupos parlamentares um apelo aos nificados e valorizados não há escola, são pública nas escolas, que decorrerá A 5 de Outubro, Dia Mundial do deputados para que aprovem uma nem ensino de qualidade. E essa é a até ao final do ano. Professor, será distribuído nas capi- “Saudação aos Professores”.
  • 15. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 EDUCAÇÃO/ENSINO 15 ENSINO SUPERIOR Quase 11.800 vagas disponíveis na 2ª fase de candidaturas O ministério do Ensino Superior di- no Instituto Superior Técnico, três na “Se não obtiver nova colocação, vulgou ontem (terça-feira) as vagas Universidade do Minho e cinco na Fa- mantém-se a colocação anterior, não disponíveis para a segunda fase de culdade de Arquitectura do Porto. havendo qualquer implicação na ins- candidaturas ao ensino superior, que A esta 2ª fase puderam candidata- crição e matrícula já efectuada”, compreendem quase 11.800 lugares ram-se até sexta-feira quem não fi- acrescenta. em cursos em Universidades e poli- cou colocado na 1ª fase, quem ficou Segundo o ministério, na primeira técnicos de todo o país. colocado na 1.ª fase mas escolheu con- fase do concurso nacional de acesso Ao todo são quase 11.800 vagas, correr de novo, os candidatos já colo- foram disponibilizados 50.219 lugares compreendendo as 5.917 vagas que cados, mas que não se matricularam e admitidos 44.336 novos alunos no sobraram da primeira fase de candi- nem inscreveram, quem não se can- ensino superior público, mais 2.398 es- daturas e aquelas em que não se con- didatou na primeira fase apesar de tudantes que em 2007, corresponden- cretizou a matrícula e inscrição, ape- estar em condições de o fazer e quem do a um aumento de 06 por cento, com sar de terem sido ocupadas na primei- reuniu condições de candidatura após o aumento das colocações a fazer-se ra fase do concurso, assim como as o fim do prazo de apresentação das sentir, sobretudo, no ensino politécni- vagas que sobraram dos concursos candidaturas à 1ª fase. co. especiais e da recolocação de estu- Na sequência da divulgação destas No total, ficaram colocados nesta dantes colocados na primeira fase. vagas, até quinta-feira pode candida- primeira fase 84 por cento dos 53.062 As vagas agora divulgadas em tar-se ao ensino superior quem não o candidatos, não tendo conseguido co- www.dges.mctes.pt/DGES/pt/Estu- fez no prazo regulamentar de candi- locação 8.726 alunos. dantes/Acesso dirigem-se às mais va- daturas à 2ª fase (entre 15 e 19 de Da primeira fase sobraram então riadas áreas de estudo, tendo inclusi- Setembro). para a segunda fase 5.917 vagas. ve sido libertadas vagas para Medici- Os candidatos que já apresentaram Por área de formação, os cursos em na e Arquitectura, cursos que na pri- candidatura podem também proceder que se registou um maior aumento de meira fase tinham esgotado as vagas. à sua alteração. lugares foram os de Ciências e Tec- Medicina tem mais quatro vagas na Segundo informa a Direcção-geral nologias (mais 635, o que os coloca Universidade da Beira Interior, duas do Ensino Superior, se o aluno se can- na liderança com um total superior a na Universidade de Coimbra, uma na didatar e obtiver colocação na 2ª fase 17 mil vagas) e os de Ciências Soci- Faculdade de Medicina de Lisboa e do concurso, “perde automaticamen- ais, seguindo-se, a larga distância, os duas na Universidade Nova de Lisboa. te a vaga da 1ª fase, que é libertada de Saúde e Protecção Social. Quem quer tirar Arquitectura pode para a colocação de outro candidato”, Já a queda no número de vagas re- candidatar-se a 11 vagas na Univer- pelo que só deve candidatar-se a cur- gistou-se sobretudo nas Humanidades sidade de Évora, a um total de 12 na sos que prefira em relação à coloca- (com menos 169), seguindo-se as Ci- Universidade Técnica de Lisboa, oito ção obtida na 1ª fase do concurso. ências Veterinárias e a Educação. Premiar… premiados Maria Isabel Lemos * tugueses para outras realidades tristes e o empenho, o entusiasmo de alunas e alu- inaceitáveis. nos. É bom sentir-se que valeu a pena o Há dias que não deviam acontecer. Vejamos então: salvo poucas e conhe- esforço. Vão lembrar-se pela vida inteira Há memórias bem recentes, da justeza cidas excepções, os jovens agora premi- desses momentos e fazer deles faróis que desta afirmação. Mas aqui ela vem a ados são oriundos da classe média e iluminem outros desafios. Agora, prémios propósito do passado dia 12 de Setem- média-alta. Na verdade, o que fez mais do tipo quinhentos euros e festinha, não. bro, denominado pelo governo do primei- notícia foram as excepções. Vimos até Há poucos dias confidenciava-me um ro-ministro José Sócrates como “Dia do à exaustão, as declarações dos premia- amigo que fez com grandes dificuldades Diploma”. Tratou-se evidentemente de dos que não pertenciam a uma reduzida económicas, nos anos sessenta, o então mais um dia de propaganda e auto-elo- elite. Esses é que chamaram a atenção. “liceu”, para o qual se deslocava cerca gio. Mas em democracia isso é aceitá- Evidentemente porque dos outros já se de dez quilómetros, numa bicicleta de vel como também é necessário fazer a esperava. Então decidiu este governo menina (humilhação máxima…, mas não denúncia de tais factos e desmistificar entregar quinhentos euros a jovens que havia dinheiro para outra), embrulhado actos de pura demagogia. têm pais mais ou menos cultos e infor- em plásticos nos dias de chuva: “ Ainda Que se celebre o fim de um ciclo da mados, a alunos que podem ver mais ci- me lembro do prémio que me deram por caminhada escolar, “nada de ressenti- nema e escutar música mais sofisticada, ter sido o melhor aluno no quinto ano (hoje mentos”, para usar a expressão de Jor- que contactam com revistas de especia- nono ano): “Terras do Demo” de Aquili- ge de Sousa Braga no seu magnífico lidade, que viajam mais. E fazem tudo no Ribeiro e com dedicatória e tudo” … poema “Portugal”; que se reconheça isto porque a família tem capacidades Se o que interessa é reconhecer, dei- publicamente o mérito de raparigas e financeiras, até para lhes proporcionar xe-se o dinheiro para estabelecer mais rapazes que se esforçaram, que tenta- apoios pedagógicos e didácticos que os bolsas para quem efectivamente preci- ram ir mais longe e mais alto, “nada de ajudam exactamente a ser os melhores. sa… e esses são cada vez mais. ressentimentos”. Mas, atribuir prémios Assistimos assim a uma reprodução Que não volte a acontecer, assim, este pecuniários, já nos parece uma medida que aprofunda as desigualdades de opor- dia que foi triste e de revolta para muitos. no mínimo desavisada e que parece que tunidades. tem como único intuito, “cegar” os por- Reafirmo: que se reconheça o mérito, * Professora e dirigente do SPRC
  • 16. 16 SAÚDE 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 Manuel Antunes questiona Serviço Nacional de Saúde A Fundação Inês de Castro acolhe Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da çado no mês de Março, com a participa- amanhã (dia 25), para a quinta edição Universidade de Coimbra, dedica a sua ção de Leonor Beleza, antiga ministra da dos almoços-debates na Quinta das Lá- intervenção ao tema “Serviço Nacional Saúde. Pretende dar voz a personalida- grimas, pelas 12h45, o cirurgião Manuel de Saúde: Quo Vadis?”. des de relevo em Portugal, para que, num Antunes, que vai analisar a actual ges- O preço para assistir à conferência e ambiente informal, sejam discutidos te- tão das unidades públicas de saúde. ao debate que seguirá é de 20 euros por mas de actualidade no país. O professor catedrático da Faculda- pessoa, sendo o almoço já incluído nes- A Quinta às Quintas recebeu até agora de de Medicina da Universidade de se valor.. o constitucionalista Gomes Canotilho, Adri- Coimbra e actual director do Centro de O ciclo “Quintas na Quinta” foi lan- ano Moreira e Marcelo Rebelo Sousa. “Combater o colesterol à dentada”!... No dia seguinte, lá fiz a minha confe- rência, explicando os vários factores de Massano risco, a evolução das doenças, a forma Cardoso de reduzir a hipercolesterolemia, sem fa- zer afirmações do género: “combata o co- Afirmar que a fruta é um produto indis- lesterol à dentada”, tal como agora esta- pensável e que faz bem à saúde é um lugar mos a assistir, por parte de uma associa- comum que dispensa mais comentários. A ção de produtores de maçãs! variedade é imensa e, de um modo geral, Esta coisa de usar o “mal”, neste caso partilham de características idênticas ainda personificado pelo colesterol, como fonte que em concentrações diferentes. de promoção de certos produtos, começa Presumo que qualquer um terá a sua fruta a ser uma perigosa mania, que não se res- preferida. É natural. A minha é a maçã. tringe apenas ao consumo de maçãs, já Desde que me conheço que adoro maçãs. que inclui iogurtes, manteigas com “me- Além das suas qualidades sápidas, há ou- tade de gorduras” (!), leites modificados, tras que me levaram a preferi-la. Rija, fácil sardinhas de conserva, “tintitos”, pão sem de transportar, resistente ao choque e brin- colesterol (!), alhos, beringelas e muito mais cadeiras de crianças, não largava sumo, não produtos. Qualquer dia, ainda aparece uma se desfazia nos bolsitos, ao contrário do pês- associação de frutos de pilriteiros a afir- sego, da pêra, da ameixa, não ficava trau- mar que os pilritos são do melhor que há matizada com “hematomas”, como as ba- comia-a. Fazia este espectáculo, para evi- ter o efeito que teve na Eva. Nem o pêsse- para combater o colesterol, ou então os pro- nanas, e não deixava cheiro nos dedos, como tar aquele ritual e, sobretudo, para ter o pra- go, nem a banana, nem a laranja, nem a pêra, dutores de ginjas a proclamarem alto e em as laranjas. Gostava, igualmente, das for- zer de a comer à dentada, o que fazia de nem o kiwi, nem a ameixa poderia seduzir bom som que o melhor são as ginjas. – mas, dos diferentes tamanhos, das cores, das imediato, às escondidas, logo que me au- quem quer que fosse. De facto, só a maçã! Com ou sem “elas”? – Com “elas” devem texturas, dos sabores e, sobretudo, de dar sentava. Um alivio! Um prazer! Vai daí e retirei a primeira, esfreguei-a como ser muito mais eficazes! dentadas e comer a casca. Em contraparti- Claro que naquela altura, comer uma se estivesse a retirar um pó imaginário e No caso dos pilritos e das ginjas não é da, detestava o ritual civilizacional, que me maçã à dentada era fácil, o pior veio mais dei-lhe uma valente dentada. Foi então que necessário dar dentadas. Mas, quando era imposto às refeições, de descascá-las tarde, quando os dentes começaram a mos- um dos incisivos claudicou, ficando reduzi- tiverem que as dar, caso das maçãs, cui- ou cortá-las com faca e garfo. Para um trar fragilidades. do a metade. Irra! Parti o dente! Estou tra- dado com os dentes! Vejam lá se os inci- miúdo, ansioso por se libertar do altar da Recordo-me que há poucos anos, na vés- mado! Amanhã vou fazer uma conferência sivos aguentam com as trincadelas no fru- mesa, o momento da sobremesa era um pera de uma conferência que ia realizar em sobre o “Colesterol e as Doenças Cardio- to “proibido”. Trincadelas sem dúvida sa- martírio, porque manejar a faca e o garfo Lisboa, sobre “Colesterol e Doenças Car- vasculares” meio desdentado. Além deste borosas, mas é preciso ter dentes! Se ti- para a cortar em pedaços exigia uma des- diovasculares”, fiquei num simpático hotel, aspecto, o raio da língua, curiosa, lambia, verem dúvidas, usem faca e garfo ou treza própria de um cirurgião. Um tormen- daqueles que têm o hábito de ofertar um estupidamente, o rebordo do dente fractu- mesmo uma navalhita. Quanto às denta- to, um esforço “hercúleo”, demorava tem- cestinho de fruta. Como cheguei um pouco rado, ficando dorida. Olhei para o pedaço das dos promotores comerciais não há pos infinitos, estragava mais do que comia e tarde e o jantar já tinha sido esmoído, ao que faltava na maçã, uma sugestiva crate- perigo nenhum de ficarem sem os den- a gula em a saborear ficava sempre insatis- entrar no quarto, ressaltou, com uma beleza ra, que não teve tempo de acastanhar-se, à tes, porque são postiços e sabem mor- feita e tinha que a matar aos bochechos, o digno de registo, um cesto contendo belas qual perdoei o mal que me tinha feito e em- der à maneira! que não me satisfazia mesmo nada. Habi- peças de fruta, entre as quais se destaca- balei no seu sensual convite, agora como Quanto ao colesterol, se a “dentada” tualmente, pedia licença para me ausentar vam duas sedutoras maçãs. Lindas, redon- mais cuidado e utilizando os caninos, até não der resultado, não fiquem preocu- antes desse momento, mas perguntavam das, avermelhadas, brilhando com um en- chegar ao caroço. Olhei para a irmã gémea pados, porque o prazer de comer uma logo: – E a fruta? A maçã? Respondia que canto especial do género: dá-me uma den- e dei-lhe o mesmo destino. Mesmo assim, maçã é superior a qualquer redução do não fazia mal, levava-a no bolso e depois tada! Pensei logo que só uma maçã poderia confesso, soube-me bem. colesterol...
  • 17. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 SAÚDE 17 “EXPOVITA SÉNIOR” EM CONÍMBRIGA A PARTIR DE AMANHÃ E ATÉ SÁBADO Debate internacional sobre problemas dos idosos “Expovita Sénior” é a designação da idosos”. Reis, Anabela Mota Pinto, Fernanda e Hernâni Caniço. A moderação caberá iniciativa internacional que vai decorrer Ainda de acordo com a organização, Cravidão, Kalidás Barreto Mário Ruivo ao jornalista João Luís Campos. em Conímbriga a partir de amanhã (quin- “o objectivo é marcar a actualidade e Rui Nunes. A moderação está a car- A “Expovita Sénior” é uma organiza- ta-feira, dia 25) e até ao próximo sábado informativa, promovendo a discussão go do jornalista Jorge Castilho. ção conjunta da ANAI – Associação (dia 27), com o objectivo de analisar e deste tema a nível nacional, nas suas “Arte de Envelhecer” é o título do Nacional de Apoio ao Idoso, ASP – As- debater diversas vertentes da problemá- múltiplas valências”. segundo painel do dia 26 e terá como sociação Saúde em Português, CEFOP- tica da população mais idosa. Assim, o programa da “Expovita participantes convidados: Adília Alarcão, LAC – Centro de Formação e Liga de Tendo como presidente da comissão Sénior” é composto por uma confe- António Arnaut, Agustin Casales, José Amigos de Conimbriga, EUTAP – Eu- organizadora Salvador Massano Cardo- rência internacional sobre telemedici- Ribeiro Ferreira, Maria Pedroso Lima ropean Telemedecine Project Commit- so, Professor da Faculdade de Medici- na, uma mostra empresarial e institu- e Mário Silva. O moderador será o jor- tee, EUTAP Industry Council Strategic na da Universidade de Coimbra, a “Ex- cional e mesas redondas. nalista Lino Vinhal. Business Series, Fundação Bissaya Bar- povita Sénior”, segundo os seus promo- O primeiro dia, 25 de Setembro, será No sábado, dia 27, o debate continua reto, Hospital da Misericórdia da Mea- tores, “será dedicada às problemáticas dedicado à referida conferência cientí- com mais duas mesas redondas. Da parte lhada, INATEL, INVESVITA, e Speci- do envelhecimento da população e fica internacional, focando a telemedi- da manhã, também a partir das 9 horas, al Interest Groups & Chapters Teleme- apresentará tripla dimensão: formativa, cina e a sua importância e desenvolvi- o tema em discussão será “Envelheci- dicine, a que poderão ainda juntar-se científica e empresarial”. mento, estando previstas intervenções mento activo - Turismo de Saúde/Turis- outras instituições. As sessões decorrerão no auditório quer presenciais quer por videoconfe- mo Ambiental”. José Leitão Ferreira, De acordo com os organizadores, do Museu Monográfico de Conímbri- rência, envolvendo representantes de padre Idalino Simões, João Fernandes, “concluídos os trabalhos, a Expovita Sé- ga, e os organizadores afirmam espe- autoridades de saúde de Inglaterra, Itá- Joel Almeida, Luísa Cunha Vaz, Pedro nior pretende apresentar um documen- rar “a participação, entre outras enti- lia, França, Suécia e EUA, para além Machado, Polybio Serra e Silva e Luís to, que designa por Declaração de Co- dades, do Ministro do Trabalho e Soli- de especialistas portugueses. Oliveira serão os intervenientes. A mo- nimbriga, síntese dos temas debatidos, dariedade, do Alto Comissariado para Quanto à realização especificamente deração será assegurada pelo jornalista avançando com propostas concretas a Saúde, da presidente da Comissão de centrada nos problemas da população Soares Rebelo. com vista a aumentar a qualidade de Saúde da Assembleia da República, sénior, o primeiro painel, a decorrer na À tarde o tema em debate será “Polí- vida da população nesta faixa etária e além dos principais representantes da manhã de sexta-feira (dia 26), pelas 9 tica para o Envelhecimento” e contará os serviços prestados pela administra- administração pública, IPSSs, grupos horas, terá como tema “Envelhecer com com a participação de Helena Saldanha, ção pública e as empresas, promoven- empresariais, etc. ligadas ao sector dos Ética” e contará com a participação de Henrique Fernandes, Jaime Ramos, Inês do ainda o empreendorismo e novas cuidados continuados e do apoio aos Agostinho Almeida Santos, Alfredo Guerreiro, Manuel Lemos, Vasco Costa bolsas de emprego”. Coimbra assinala Dia Mundial do Coração À semelhança do que tem sucedido nos últimos anos, a Fundação Portugue- sa de Cardiologia assinala o Dia Mundial do Coração na Região Centro, com di- versas iniciativas. Em Coimbra, e para além das iniciati- vas para domingo que no programa que ao lado se publica estão enumeradas, as celebrações começam mo sábado, dia 27, com uma iniciativa designada “Nade pelo Coração”. Com entrada livre, funcionará das 8 às 18 horas nos seguintes locais: – Piscina Municipal COP (Solum) – Piscina Municipal Rui Abreu (Pe- drulha) – Piscina Municipal Luis Lopes da Conceição (S. Martinho do Bispo).
  • 18. www.apaginadomario.blogspot.com 18 A PÁGINA DO MÁRIO apaginadomario@gmail.com 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 sóleo - 1,249. Diferença entre os dois preços: 0,149 (30 escudos, na moeda A DERROTA DA SELECÇÃO antiga). Aqui ao lado, em Fuentes de Oñoro, Um ano depois, voltei ao Estádio de Alvalade, para ver jogar a selecção. os preços praticados hoje são os se- Estive lá em 12 de Setembro do ano passado, num triste embate com a guintes: Sérvia (1-1), no fim do qual Scolari teve o gesto lamentável que correu mundo Mário Martins Gasolina 95 sem chumbo - 1,160; Ga- e foi punido com 4 jogos de suspensão e 12 mil euros de multa. Agora, o adver- sóleo - 1,156. Diferença entre os dois sário foi a Dinamarca e Carlos Queirós sentou-se no lugar de Scolari. preços: 0,004 (menos de 1 escudo, na ORGULHO DE PAI moeda antiga). «Solicita-se aos adeptos da Dinamarca que permaneçam sentados nos seus Alguém consegue explicar isto? lugares até 20 minutos após o final do jogo, por razões de segurança». Um blogue é algo de pessoal – eis uma Mas, por favor, expliquem-me como O aviso, em inglês, foi feito a cerca de 5 minutos do final do desafio, numa definição básica. se eu fosse muito burro. altura em que Portugal vencia por 1-0. Neste blogue, que até tem no título o (publicado em 18/09) A equipa portuguesa estava na frente, a selecção dinamarquesa parecia ador- próprio nome do autor, procuro dar con- mecida e os adeptos nórdicos não tinham grandes razões para festejar. Num ta da minha forma de olhar o mundo e a FUTEBOL JOVEM instante, porém, tudo mudou... E nenhum dinamarquês respeitou o pedido feito vida, a par daquilo que poderei denomi- “BY” MOURINHO pela instalação sonora do estádio. nar de “referências familiares”. E... MARTINS Entre estas, a actividade político-as- Gostei da selecção portuguesa. Sem Quaresma, sem Ronaldo (a “estrela da sociativa da minha filha tem merecido José Mourinho fez ainda questão de companhia”), a equipa mostrou um futebol que já não lhe via há muito. Talvez algumas linhas, devido essencialmente a deixar um apelo aos pais dos jovens jo- tenha sido no Portugal-Inglaterra, do “Euro 2004”, no Estádio da Luz, que as- reuniões com personalidades de primei- gadores, no sentido de não pressionarem sisti a uma exibição tão boa como a de ontem. Nem mesmo a vitória frente à ro plano da política europeia. os filhos a serem grandes estrelas. República Checa, em Junho passado, em Genebra, me deu tanto prazer como «Nem todos eles serão jogadores de alguns momentos vividos ontem em Alvalade. *** topo, mas todos serão homens. Muitos pais querem viver uma segunda vida na Continua a notar-se, no entanto, que falta um “patrão” à equipa portuguesa, Hoje, depois de viver “momentos to- pele dos filhos. Muitos quiseram ou so- problema visível desde que Figo deixou de ter tempo para envergar a camisola cantes” no Colégio de S. Teotónio, trago nharam ser estrelas de futebol e não o das quinas. aqui uma imagem que me permite con- conseguiram, e agora pressionam os fi- Ontem, um jornalista bem conhecedor dos meandros da selecção explicou- fessar que, ao ver o João Afonso (para- lhos para que o sejam. Mas não pode- me assim a situação: béns, filhote!) concluir o “Secundário” e mos contribuir para, com essa pressão, – Antes havia Figo, Pauleta e Costinha, que eram jogadores que se impu- cumprir o sonho de estudar Medicina, me criar futuros adultos frustrados». nham. Gritavam alto e os outros ouviam-nos. Saíram todos, agora não há um sinto muito feliz. (José Mourinho, na apresentação líder natural na equipa. E grato – a quem com ele trabalhou do DVD “Football for Kids by José – Então... e o Deco? – perguntei. ao longo de todos estes anos e, sobre- Mourinho”; in “Bola na Área”) – O Deco fala baixinho, muito bai...xi...nho. Não é líder de coisa nenhuma. tudo, a Deus, pela graça dos filhos que Fiquei esclarecido. me deu. Peço desculpa pela imodéstia, mas é É por estas e por outras que vale a pena ir assistir aos jogos da selecção. isto que penso – e repetidamente tenho *** dito (por outras palavras, naturalmente) Estive em Aveiro, na goleada às Ilhas Faroé, e não gostei da selecção. nos últimos 12 anos, enquanto acompa- Vi a 2.ª parte do jogo em Malta, pela televisão, e já gostei um bocadinho mais Há várias formas de realização. nho a “carreira futebolística” do meu fi- da equipa; mas não fiquei convencido. Uns realizam-se com o dinheiro, ou- lho. Agora, apesar da derrota, gostei bastante da exibição da selecção, apesar tros com casas e carros, outros ainda (publicado em 18/09) dos recorrentes erros defensivos. Não temos um guarda-redes que mande na com as vaidades da vida. área (nunca tivemos...) e aquela dupla de “centrais” não transmite a mínima Ao ver os filhos crescer deste modo MENOS CADEIA, MAIS CRIME confiança. – e porque este sempre foi o grande ob- jectivo da minha (nossa) vida – sinto-me Mais crime e menos presos. Este é No “Euro 2004” fui ver alguns jogos graças a bilhetes ganhos no sorteio de realizado. o principal balanço das alterações pe- um cartão de crédito. Sorte pura. (publicado em 19/09) nais que entraram em vigor há um ano. No “Mundial 2006”, na Alemanha, só consegui bilhete para um jogo, apesar Em apenas um ano, as cadeias têm de me ter inscrito nas vendas da FIFA e da FPF. Fui ver o Portugal-Inglaterra, GASOLINA: O ESCÂNDALO menos 2.038 presos, a maior queda de o tal do desempate por “penaltis”. sempre, a qual foi acompanhada por Este ano, no “Euro 2008”, voltei a inscrever-me na venda de bilhetes da O Governo decidiu liberalizar o comér- uma onda de criminalidade sem pre- UEFA e da FPF. Não tive sorte. Acabei por ver dois jogos porque um familiar cio dos combustíveis, apostando na con- cedentes. ganhou bilhetes num concurso promovido por um jornal e porque, à última da corrência, mas “esqueceu-se” que em (adaptado do “Correio da Ma- hora, um amigo me cedeu bilhetes para outro jogo. Portugal existe apenas uma empresa re- nhã” de ontem; publicado em 16/09) Tento não falhar um jogo da selecção, “a minha (outra) equipa”, em Portu- finadora. gal. E o público que comparece a estes jogos é muito diferente do outro que Estranha liberalização... “MAMMA MIA!” aparece nas fases-finais de “Europeus” e “Mundiais”. Cá é o “povo do fute- bol” que se desloca aos estádios, lá fora surgem os “senhores da bola”, alguns *** Está classificado para “maiores de 6 dos quais devem gostar tanto de futebol como eu gosto de boxe. (Esclareço que anos” mas bem poderia ser classificado detesto boxe...). Este Verão, ao viajar pela Europa, “para maiores de 3 anos”. notei que os preços do gasóleo e da ga- Ingénuo. Fotografia de grande quali- A má educação (ou falta de cultura, se preferirem) dos portugueses vê-se solina 95 sem chumbo eram praticamente dade, “historieta” assim-assim, cenários em pormenores simples. idênticos. Nalguns casos, o gasóleo era naturais belíssimos, Meryl Streep em Nunca percebi o motivo dos guarda-redes adversários serem brindados com mesmo mais caro. grande. o coro de «filho da p...» sempre que pontapeiam a bola. Aqui, em Portugal, a gasolina 95 con- Duas horas bem passadas, que até dão Também não entendo a razão dos portugueses tentarem calar os adeptos do tinua muito mais cara que o gasóleo – e para chorar a rir com algumas cenas clube adversário com uma assobiadela monumental sempre que estes come- a diferença parece querer até aumentar. perfeitamente absurdas. çam a gritar pela sua equipa. Não seria mais bonito tentar calá-los com um grito Ah!!!... e a música daquela que foi de apoio à equipa portuguesa? *** em tempos a maior empresa exportado- ra da economia sueca, ultrapassando Está instalada a moda de fazer cachecóis alusivos a cada jogo da selecção, Hoje, em Coimbra, os preços mais mesmo a Volvo – os “Abba”. com a data e os nomes do estádio e do adversário. baixos são os da Galp no Fórum: Vale a pena. Aplaudo. A colecção vai crescendo. Gasolina 95 sem chumbo - 1,398; Ga- (publicado em 14/09) (publicado em 11/09)
  • 19. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 MÚSICA 19 Distorções José Miguel Nora josemiguelnora@gmail.com Se bem se recordam, há 15 dias es- crevi sobre a possibilidade dos australia- nos Cut Copy voltarem ao nosso país a hip hop e a música de dança, a que a breve trecho. Dito e feito, porque aca- cantora soube aliar, e bem, temas como bam de ser confirmadas duas datas em “Borderline” ou mesmo “Hung Up”, em Portugal. A primeira a 13 de Novembro versões bem diferentes das originais, no Lux (Lisboa) e a segunda a 14 de mas que mostram que Madonna, além das sessões diárias de trabalho físico, Novembro na Casa da Música (Porto), também ensaia bastante os seus temas. em mais uma noite do Optimus Clubbing, Por fim, não posso deixar de referir o a que se juntam os Boys Noize. Eu vou, excelente regresso dos Metallica com de certeza, resta saber se apenas a uma o muito aguardado “Death Magnetic”, ou às duas noites com que estes rapazes que, em apenas uma semana, atingiu o de Melbourne nos vão brindar. 1.º posto das tabelas dos álbuns mais Mas foi de Madonna de quem mais vendidos no Estados Unidos, em Ingla- se falou na semana passada, sobretudo terra e, também, em Portugal. da sua actuação no passado dia 14 de Setembro no Parque da Bela Vista. Eu PARA SABER MAIS: fui e gostei bastante do concerto, apesar de não ser muito sensível a coreagrafi- Cut Copy “In Ghost Colours” (Modular as, que constituem um elemento fulcral Records) em toda a actuação da cantora, há, tam- Madonna “Hard Candy” (Warner Bros.) bém, uma imensidão de outros pontos de Metallica “Death Magnetic” (Universal) interesse para mim. Antes de mais, não posso deixar de elogiar a excelente qua- www.myspace.com/cutcopy lidade de som, mas, também, a coerên- www.cutcopy.net cia de todo o alinhamento do espectácu- www.madonna.com Duas expressivas imagens do concerto de Madonna em Lisboa lo, em que o denominador comum foi o www.metallica.com CONCERTOS NO PAVILHÃO CENTRO PORTUGAL Orquestra Clássica Grupo alemão promove do Centro diálogo inter-cultural a favor da “Hepaturix” É sobre a HEPATURIX que recai a de personagens como o Astérix, o próxima homenagem no âmbito dos Obélix e a “poção mágica”. “Concertos Prestígio”, que o Departa- Sobre a associação, dizem os pro- mento de Cultura da Câmara Municipal motores do concerto: de Coimbra organiza em conjunto com a “A Hepaturix é uma associação Orquestra Clássica do Centro. sem fins lucrativos, cuja missão é re- O concerto realiza-se amanhã (quin- presentar os interesses de todas as ta-feira), a partir das 21h30, no Pavilhão crianças e jovens com doenças hepá- No Governo Civil de Coimbra foram a importância da discussão da temática do Centro de Portugal, em benefício da As- ticas crónicas. Nasceu da necessida- apresentadas ontem (terça-feira) as pró- diálogo intercultural no contexto europeu, sociação de Crianças e Jovens Trans- de que um grupo de pais sentiu em se ximas iniciativas a desenvolver em parce- referindo que “a Europa é ela própria um plantados ou com Doenças Hepáticas. associar para, em conjunto, encontrar ria com a Orquestra Clássica do Centro, mosaico de culturas e de povos. É uma O acesso ao concerto implica o paga- soluções com vista à melhoria da qua- no âmbito do Ano Europeu do Diálogo In- grande realidade em construção, que não mento de um ingresso no valor de 5 eu- lidade de vida dos seus filhos. tercultural. Destaque para o concerto co- precisa de esmagar a cultura de nenhum ros, com descontos de 20%, aplicáveis a O cumprimento dos objectivos da mentado que decorre depois de amanhã povo” para cada um afirmar a sua própria “Amigos da Orquestra” e a grupos de, Hepaturix passa por, junto dos diver- (sexta-feira, dia 26), pelas 21H30, no Pa- cultura. no mínimo, três pessoas. Os bilhetes es- sos poderes de decisão, conseguir que vilhão Centro de Portugal, em Coimbra, que Na mesma tónica, Henrique Fernandes tão à venda no Pavilhão Centro de Por- nenhuma criança ou jovem se sinta contará com a participação do trio alemão afirmou que o objectivo deste debate é con- tugal, diariamente, das 14h00 às 20h00. desfavoravelmente discriminado, com- Ábaco e o comentário de José Manuel tribuir para que esta se torne “uma Europa A receita de bilheteira reverte inte- parativamente a outras situações que Conde Rodrigues, Secretário de Estado agradável de convívio entre os povos”, onde gralmente a favor da Hepaturix, uma o Estado discrimina positivamente, na Adjunto e da Justiça (e ex-Secretário de “somos todos diferentes mas todos iguais”, Associação que foi buscar à banda doença, no processo de recuperação Estado da Cultura). adiantando ainda que estes princípios se in- Desenhada alguns dos motivos que lhe e no seu dia a dia, enquanto doentes Na conferência de imprensa de ontem, serem no contexto da própria Estratégia de serviram de inspiração, como é o caso crónicos”. o Governador Civil de Coimbra sublinhou Lisboa.
  • 20. 20 OPINIÃO 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 A MINHA ESTANTE “A História de Maria Flor, Maria Pinto* despenteada pelo tempo...” mainha.pinto@gmail.com Começava a cair a tardia noite de Julho. Guilherme telefonara a Maria Flor para que fossem jantar. Queria Alfa pendular com destino a Lisboa. Uma breve pas- um momento íntimo, a dois, no qual pudessem antecipar sagem pelo quarto de hotel. Os últimos retoques na ma- o sucesso que se adivinhava para o dia seguinte: o lança- quilhagem. Corpo esbelto. Longos cabelos em tons de mento do segundo livro de Maria. Precisava de estar amêndoa. Perfume de flor. Maria Flor. Assim se cha- com ela fora de casa, num restaurante calmo, com mú- mava esta jovem mulher-escritora, que impressionava sica ambiente. Por entre um copo de bom vinho, olha- pelo seu olhar fundo e cintilante. ram-se. Miraram-se. Apeteceram-se. A uma hora de lançar o seu segundo livro, Maria Durante o jantar, a conversa desenrolou-se des- Flor debatia-se entre o apelo interior de se fechar ao contraidamente e de forma animada. Subitamente mundo e a inevitabilidade de ter de sorrir... e aparecer. Maria viu-se perpassada por uma torrente de frio “Foi nesse dia que percebi interior. A expressão de Guilherme continuava, no Nada mais por nós havia a fazer entanto, a mesma. Sorridente. Mas num repente, A minha paixão por ti era um lume ele lançou-se numa espécie de voragem de frases Que não tinha mais lenha por onde arder” desconexas. Maria Flor reconheceu nelas muitas (A Paixão, Rui Veloso, Carlos Tê) das palavras de Tomás. E também de amigas e Olhou para trás. Para um ano atrás Reviu-se na sua amigos que com ela se correspondiam. Esta súbita estreia como escritora. Os aplausos. A sessão de autó- manifestação de poder causou-lhe uma enorme rai- grafos. O deslumbramento de não se deixar deslum- va. Uma raiva verdadeira, brutal. Ao mesmo tem- brar por ser figura pública. po, a sensação de ter sido esmagada, violada, pri- Foi neste contexto que “conheceu” Tomás. Uma vada daquilo por que sempre se batera: o valor da noite, ao sentar-se tranquilamente em frente ao com- liberdade. putador para dar resposta a uma invasão de e-mails, pécie de timidez natural e numa série de recalca- “Desafiaste-me”, disse ele. Nunca o desafiara. deparou-se com uma mensagem diferente. Tomás mentos da sua vida passada. Insistia na beleza do Amara-o para além de todos os limites. dizia ter ficado profundamente tocado por uma foto- nome de Maria, nome de flor, mostrando como an- grafia de Flor estampada num jornal. Adquirira o seu siava que um dia a flor pudesse dar fruto. Maria Flor Levantou-se e saiu. A leve brisa daquela livro – “Pedaços de Natureza Humana” – que sor- Maria Flor deixou de dar seguimento a estas mis- noite de luar fez dissipar um pouco da revolta. Mas vera num ápice. Citou alguns excertos com os quais sivas electrónicas. Abalava-a a contradição que deixou de se sentir flor. Os seus olhos haviam perdido o se identificara. pressentia naquele homem. Aliás, esta situação era fundo e o brilho. Apenas se lembrava de seus pais, já Maria Flor respondeu-lhe, como fazia com todos os para ela perfeitamente inusitada, ainda que, com o falecidos. Enorme saudade. Entrou no carro e rumou, seus leitores. A partir desse momento passou a receber sucesso da sua recente publicação, se tivesse ha- noite dentro, em direcção às suas origens. Entrou na de Tomás uma correspondência assídua, sempre de um bituado a ser abordada com frequência. Mas não bela quinta, na magnífica região do Douro. Foi aí que polimento inexcedível. deste modo estranho. Por isso, sentia uma intensa observou, ao amanhecer, o horizonte a perder de vista. Aos poucos, este homem ia-lhe contando pormeno- curiosidade em desvendar o véu de mistério que O despontar do sol. res da sua vida. Descendente de uma família aristocrá- envolvia este caso. Tinha sido apenas por isso que Mais tarde, chegada ao Porto, deixou o carro per- tica e com um percurso todo ele ligado à Banca e ao fora respondendo a alguns dos mails que lhe iam to da estação e optou pelo Alfa pendular para a alto mundo dos negócios, Tomás... degenerara. Dizia sendo enviados. Flor, mulher de uma forte interiori- reconduzir a Lisboa. Passou em casa apenas para viver para os outros, dedicando-se a grandes causas. dade, teimava em afastar o que cada vez mais pres- apanhar uma peça de roupa. Encaminhou-se para Dava a ideia de se tratar de uma espécie de desbrava- sentia. De facto, algumas frases de Tomás, algu- o hotel, onde alugou um quarto. Por uma questão dor, de um homem que conseguia sentir-se em casa em mas expressões pontuais, eram-lhe familiares. de fidelidade a si mesma, pelos seus ideais e pelo qualquer canto do mundo. Numa nebulosa de perturbação, Maria preferia que respeito para com os seus leitores, Flor dirigiu-se à Há poucos anos teria estado em Timor, onde tudo este homem-escondido fosse um homem-real e não uma sala de conferências. Sorriu. Conversou com a as- fizera para melhorar as condições médicas e sanitárias personagem inteligentemente forjada por alguém. sistência. Guilherme ouvia-a atentamente na primei- daquele povo em sol nascente. Neste momento, o seu ra fila. Impassível. Com ou sem ela, percebeu Ma- quotidiano no hospital, onde era tido como médico re- Maria Flor vivia com Guilherme, intelectual de gran- ria, Guilherme teria sido o mesmo. Um rei, um ocu- putado, não o preenchia. Precisava de iniciar uma ou- de talento que dizia amá--la como nunca amara nin- pante. Um controlador que se amava essencialmente tra fase da sua vida. Sim, iria ter de partir e começar guém. Esta ligação parecia, por vezes, oriunda das pro- a si próprio e que iria seguir o seu caminho sem se tudo de novo. fundezas da terra. Vulcânica. Tanto dança embaladora voltar para trás. Desta vez, projectara sulcar certas regiões do conti- como tormenta. Guilherme abraçava a sua Flor de amor. Maria Flor regressou a casa. Abatera-se sobre ela nente africano, criando uma unidade hospitalar móvel, “Morena Flor aquela capa do não sentimento que resulta da vivên- com uma vasta equipa de médicos, que permitisse cui- Me dê um cheirinho cheinho de amor. cia de grandes decepções. Revisitou a sua vida, o dar e levar alento às aldeias mais pobres e isoladas. Ao Depois também seu adolescer, os seus sonhos. Sentiu-se Maria-Flor- mesmo tempo que confidenciava a Maria Flor os seus Me dê todo esse denguinho em-projecto. Iria necessitar de um logo período de planos profissionais, tentava incluí-la neles, apelando Que só você tem.” silêncio e de solidão para se encontrar e reinventar. incessantemente à mensagem humanitária contida no (Morena Flor, Vinicius) Dirigiu-se ao seu quarto, viu-se ao espelho. Achou livro que ela acabara de publicar. Ao mesmo tempo, de forma subtil, controlava o seu que teria de cortar o cabelo bem curto. Abriu a porta Maria ia-lhe respondendo de forma cordial, mas espaço de liberdade. Nos momentos de tempestade, do armário, agarrou numa pequena mala e desatou a sem grande profundidade. Algo naqueles contactos acusava--a de o não amar. Flor adorava-o. Partilhara enchê-la... lhe causava estranheza, em especial quando lhe fa- com ele a história de Tomás e a reacção de Guilherme Acabei de abrir mais um espaço na minha estante zia sentir que era uma mulher incapaz de encetar era sempre de uma estranha ambiguidade. para colocar a história desta mulher, lembrando-lhe contactos virtuais e que, como tal, Tomás deveria “Ai o que eu passei, só por te amar apenas... mostrar-se. Nesses momentos ele retrocedia ou re- A saliva que eu gastei para te mudar “Contigo aprendi uma grande lição feria achar dispensável um contacto pessoal imedia- Mas esse teu mundo era mais forte do que eu Não se ama alguém que não ouve a mesma canção...” (A Paixão, Rui Veloso, Carlos Tê) to para que dois seres humanos se encontrassem e E nem com a força da música ele se moveu” se identificassem. Escudava-se também numa es- (A Paixão, Rui Veloso, Carlos Tê) * Docente do ensino superior
  • 21. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 OPINIÃO 21 Fictícia Liberdade médicos, farmacêuticos, enfermeiros, ma- não cumprirem o que, através dos progra- íntimo – Abril, nunca mais! gistrados, militares, professores…, esque- mas eleitorais, publicamente prometeram e A justiça está ao serviço dos poderosos. Renato Ávila ce-se de que também tem pactuado com por cuja concretização se responsabilizaram Dos que podem pagar as custas processu- os grupos dos políticos (eleitos e arvorados) , outrossim por implementarem e prossegui- ais cada vez mais selectivas, daqueles que Paira qualquer coisa de estranho, de que se congregam nas organizações parti- rem políticas e práticas à revelia desses podem contratar os serviços dos advoga- paradoxal neste país de tão proclama- dárias, nas autarquias, na máquina estatal, mesmos programas, isto é, nas costas dos dos mais famosos, mais mediáticos e com das liberdades. para e circum estatal, e com os interesses eleitores. Jamais lhe foi dada oportunida- reconhecido peso forense. As leis tornam- Parece que estamos a chegar ao mo- confusos e difusos, confessos e inconfes- de efectiva de julgar e sancionar a arbi- se cada vez mais insidiosas, eivadas de mento em que a liberdade de cada um sos dos que lhes estão subjacentes. Como, trariedade com que intervêm nos actos meandros por onde se escapam os “pode- permite fazer aquilo que lhe dá na real por exemplo, os do capital. legislativos e executivos. rosos”. Os exemplos estão aí à vista. gana como, por exemplo: roubar, matar. Por experiência própria, todos temos a A pouco e pouco, o estado foi perden- A justiça, hoje, tal como é enquadrada e Corromper. Dar o golpe. noção de que, sob a formal fachada da de- do competências, definhando e hoje mais exercida, não está ao serviço do estado mas Teremos atingido, porventura, o ponto fesa dos interesses colectivos, e salvo o não é do que um ente moribundo, manta dos grupos. Não defende a liberdade de- crucial da liberdade absoluta tal o desa- meritório exemplo de algumas individualida- rota onde se albergam os que dele se ser- mocrática mas a grupocracia. foro, o abuso dos executores. A perfídia des que se agigantam pela probidade e com- vem em nome da nação. As forças de segurança, desacredita- dos mentores. petência, tais grupos estão mais apostados O emagrecimento do estado tem sido a das, desautorizadas, sub-equipadas, subal- Aquela velha máxima de “a liberdade na prossecução de interesses particulares, palavra de ordem nesta estulta campanha ternizadas na mobilização dos cabedais de um cessa quando põe em causa a liber- vassalos do poder económico. dos grupos contra o esteio do colectivo. para que todos contribuímos, são, ainda, dade do outro” é chão que deu uvas. Falam por eles os abusos do singular Ao processo de mercantilização de al- pelo sacrifício e elevada consciência da Hoje, liberdade pode entender-se como e restrito direito de fazer e aplicar as leis. gumas das suas funções sociais – saúde, causa pública dos seus servidores, o úni- privilégio do mais forte: dos que usam e abu- Abusos que se traduzem na moldagem educação, previdência – deve aliar-se a co e significativo lampejo da presença do sam das armas, dos que usam e abusam daquelas no sentido da continuidade nos subalternização, para não dizer precari- estado. Dá-nos a impressão de que os das lacunas da lei e dos difusos contornos cargos, da fixação e distribuição de re- zação, uma espécie de pré-anulação das políticos não as querem deixar fortalecer do direito e os moldam e exercem segundo munerações e prebendas, no favoreci- suas atribuições fundamentais: a defesa, como a situação exige. Não se afigura os seus interesses, dos que privam a socie- mento de interesses particulares em pre- a segurança e a justiça. muito difícil descortinar a razão. dade do direito e dos meios de se defender, juízo dos colectivos, da impunidade ou re- É bastante elucidativo o que se tem pas- Liberdade segura, liberdade democráti- de usufruir das prerrogativas democráticas lativa imunidade à sanção. sado relativamente às forças armadas, des- ca não será bem aquilo de que usufruímos. da própria liberdade. A classe política, pela sua interesseira de a radical extinção do serviço militar obri- Até esta liberdade de dizermos em voz alta Hoje, liberdade poderá tomar-se por anar- postura face ao estado e aos cidadãos, cons- gatório ao empobrecimento do material e do que nos vai na alma de cidadãos afigura- quia condicionada, melhor, por grupocracia: titui actualmente uma poderosíssima “cor- ao quase compulsivo emagrecimento dos se arriscado. É que vozes loucas, quando o poder vadio dos grupos, dos “lobbies”. Das poração” cada vez mais distante dos natu- quadros, à massiva alienação de instalações, são poucas, encontram orelhas moucas. quadrilhas. Das máfias. rais desígnios da colectividade nacional. sem qualquer preocupação de reconverter Porém, quando o rio engrossa, a força do Quando Sócrates declara guerra às “cor- Mau grado as zelosas procuradorias, o e de racionalizar a utilização de recursos al- desassossego e da angústia invadem o ar- porações”, está, em nosso modesto enten- cidadão encontra-se desprotegido, manie- tamente qualificados para o desempenho de raial, o brado poderá tornar-se descomunal. der, a embrenhar-se num conflito entre os tado perante as camufladas ou explícitas novas missões ao serviço do desenvolvimen- Vêm aí eleições. Muitas eleições! grupos e, subalternizando o papel arbitral e arbitrariedades dos grupos que detêm o po- to técnico e cultural do país. Parece mesmo É nosso dever desmistificar esta estra- regulador do estado, a enfileirar ao lado de der político e, por arrastamento, dos outros não convir aos detentores do poder político nha liberdade que nos oferecem. Impõe-se uns para combater outros. que, por demérito ou conivência daqueles, que exista uma reserva moral da nação su- a construção duma outra. Séria. Digna. O Chefe do Governo, ao afirmar-se ao condicionam esse mesmo poder. ficientemente forte ao lado dos cidadãos. Democrática. lado dum suposto ou virtual estado para com- Ao cidadão eleitor jamais foi dada a pos- Quantos dos que gritaram e se aproveita- É nosso dever votar por ela. Pela verda- bater os interesses restritos dos “lobbies” – sibilidade real de sancionar os políticos por ram de Abril não murmurarão lá no seu de da democracia. FILATELICAMENTE 1934 - General Carmona POIS... tão, o general Óscar Carmona (mais tarde promovido a marechal), foi tirada João Paulo de uma fotografia da época, sendo o Simões desenho e gravura de Arnaldo Frago- so. Tipografados pela Casa da Moe- da em folhas de 100 selos de papel Desde que iniciei esta rubrica no porcelana e papel liso, com denteado José jornal Centro, o Leitor atento tem ob- 11,5. Foram emitidos 34 930 600 se- d’Encarnação servado que os selos apresentados los de 40 centavos violeta e retirados têm, até aqui, um aspecto desagradá- do mercado em Outubro de 1945. Alertara o arqueólogo: «Atenção! vel. Este aspecto nota-se mais nas Por aí passa a estrada romana que emissões dos “Lusíadas”. (Baseado em Carlos Kulbrerg levava de Mérida para Astorga! Im- Para se fazerem selos diferentes, Livros Electrónicos, vol. 3) porta preservar o troço ainda exis- em determinada época foi programa- tente!». da numa emissão base, com temas di- O papel esmalte trouxe ao selo por- Que sim, responderam. Teriam em ferentes, representando monumentos tuguês um aspecto mais bonito, mais atenção. e vultos célebres da História. colorido e mais real. Volvidas algumas semanas, o ar- Assim, foram escolhidos: Templo de Durante estes anos, andou em si- queólogo voltou ao terreno (isto pas- Diana, Infante D. Henrique, Chefe de multâneo com o papel liso. Depois, sa-se aí pelos anos 60 do século XX) Estado, Sé Velha de Coimbra, Pedro adoptou-se de vez o papel esmalte o e… tudo fora levado adiante! Nunes e Torre dos Clérigos. General Óscar Carmona. Postal que fez dos nossos selos uns dos mais – Então, amigos, eu não disse Mas este projecto foi abandonado, ilustrado com a sua efígie, editado bonitos do Mundo. pela Agência Geral da Ocogravura, que… aproveitando-se, no entanto, alguns Voltarei a este assunto na próxima – Sim, a via romana? Não se preo- com selo de 40 ctvs violeta da emissão desenhos. General Carmona CE560, obliterados edição, com a biografia do marechal cupe: eu mandei guardar as pedras!... A efígie do Chefe de Estado de en- com carimbo de Chaves (24.11.34) Carmona.
  • 22. 22 CULTURA 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 JORNADAS EUROPEIAS DO PATRIMÓNIO NA REGIÃO CENTRO Da porca insuflável em Alcobaça aos passeios temáticos em Coimbra e em Montemor-o-Velho Uma porca insuflável deitada junto Duarte e integrado nas comemorações ao Mosteiro de Alcobaça, para cujo dos 50 anos da morte do poeta e es- ventre as pessoas vão espreitar, como critor nascido naquele concelho (em Ereira, em 1884). Em Anadia, no domingo, haverá um concerto acústico com prova de vi- nhos no Museu do Vinho da Bairrada. No sábado, no Mosteiro da Bata- lha, destaque para uma visita guiada às Capelas Imperfeitas, com uma ses- são de fado de Coimbra. A INSÓLITA PORCA DE ALCOBAÇA Mas voltemos à insólita porca insuflá- vel, deitada ao lado do Mosteiro de Al- cobaça, e que pode ser vista no sábado. Em Coimbra um dos passeios temáticos passa pela Casa-Museu Miguel Torga Com nove metros, é uma grande porca sonolenta, numa pocilga, que vai Subordinadas ao tema “no patrimó- tas dezenas de iniciativas roncar como as reais suínas – como nio… Acontece”, estas Jornadas vi- Assim, em Coimbra, ao longo dos refere a companhia britânica de ani- sam “propiciar novas oportunidades de três dias das Jornadas decorrem cin- mação de rua responsável por esta Em Montemor-o-Velho o tema central reencontro das pessoas e das comu- co percursos pedonais temáticos: “Ra- invulgar performance. será a vida e obra de Afonso Duarte nidades com o mundo do património e inha Santa Isabel”, “Santo António”, A convite de um camponês, o pú- dos monumentos” em toda a Europa. “Miguel Torga”, “Panteão Nacional” blico, prostrado no chão, “tem opor- se fossem leitões a mamar, é segura- Cerca de 120 autarquias de todo o (a Igreja de Santa Cruz, onde está se- tunidade de agir como os pequenos lei- mente a mais insólita das centenas de País aderiram a estas Jornadas, indo pultado D. Afonso Henriques) e “Co- tões”, assistindo, através de pequenas iniciativas da programação das Jorna- promover perto de meio milhar de re- imbra Contemporânea”. janelas abertas na estrutura insuflá- das Europeias do Património, que de- alizações muito diversas. Em Montemor-o-Velho, a autarquia vel, a um espectáculo de 10 minutos correm este fim-de-semana (de sex- Na Região Centro são mais de 30 promove um “peddy paper” (“rali pa- que se desenrola dentro do ventre da ta-feira, dia 26, até domingo, dia 28). os municípios participantes, com mui- per” a pé) alusivo à obra de Afonso porca. ponte europa QUARTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2008 As eleições Se o senador McCain for eleito e o Senhor servido de o chamar à sua di- 17.30 h - Inauguração da exposição presidenciais vina presença, e se algum azar ou in- teresse particular lhe reservar o desti- de fotografias de Orlando Falcão “Tar- rafal, lugar de memória”, no Museu Mi- nos EUA no de Kenedy, os EUA terão a primei- ra mulher presidente e o mundo razões litar do Porto (edifício da delegação do para ter medo. Porto da PVDE/PIDE/DGS, sito na es- Após dois mandatos de George W. Já alguém se deu conta do que seria Carlos quina da Rua do Heroísmo com o Largo Bush, a eventual eleição de McCain é uma apaixonada por armas, a mulher Esperança de Soares dos Reis) aterradora. Depois de um presidente que que à leitura de um livro prefere uma 21.30 h - Plenário regional de sócios, aesperanca@mail.telepac.pt invadiu o Iraque por ordem divina, indi- caçada, a criacionista convicta e mili- aderentes e activistas do movimento www.ponteeuropa.blogspot.com/ ferente à verdade e ao direito internaci- tante, à frente dos EUA? “Não Apaguem a Memória!” no Auditó- onal, talvez sequelas do alcoolismo, con- A entusiasta da pena de morte, con- rio do Sindicato de Professores do Nor- viria alguém com cultura e sensibilidade trária ao aborto nos casos de violação te, sito na Rua D. Manuel II, 51-C, 2º para usar o imenso poderio militar e eco- Não apaguem andar (Porto) nómico dos EUA a favor da paz. e incesto, pode tornar-se presidente dos EUA por acaso da sorte e vontade do Quando se esperava que a demên- eleitorado que demorou a detestar Bush a memória SÁBADO, 25 DE OUTUBRO DE 2008 cia dos neoconservadores fosse puni- da nas urnas e os democratas reinici- mas, distraidamente, lhe pode prolon- gar a política. assem um período civilizado de relaci- É difícil prever as consequências do Valorizar a história das lutas pela li- 15.30 h - Conferência pelo Prof. onamento com a Europa e de respeito colapso financeiro em curso e dos des- berdade e preservar a memória da re- Doutor Manuel Loff: “O Tarrafal e a pelos outros povos, sem ameaças à mandos do liberalismo económico nas sistência à opressão do Estado Novo são Opressão Salazarista”, no Museu Mi- Rússia nem apoio incondicional a Isra- próximas eleições, mas os ventos repu- finalidades da associação/movimento litar do Porto. el, eis que a América rural e beata viu blicanos semearam tempestades de efei- cívico “Não Apaguem a Memória!”, 16.30 h – Debate na inculta Governadora do Alasca a tos imprevisíveis. Bush já ultrapassou cujo núcleo do Porto promove, no de- 18 h - Encerramento da exposição versão feminina de Dick Cheney, para largamente Hugo Chávez na dimensão correr dos meses de Setembro e Outu- de fotografias “Tarrafal, Lugar de persistir na tragédia dos republicanos das nacionalizações a que procedeu. E bro, as seguintes actividades: Memória” ligados ao petróleo e à oração. como as abominava!
  • 23. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 INTERNET 23 serviço em pleno (vender os livros do ano anterior e ção. Estão disponíveis artigos (textos e imagens) de IDEIAS DIGITAIS comprar os do ano actual) garante uma poupança de 70%, o que é por demais significativo se atendermos alguns projectos mas também extensões para brow- sers se centram em comentários gráficos desenhados aos valores anualmente gastos em compras de livros pelos utilizadores em páginas web e aplicações para escolares. Para além de poupar, quem aderir ao Clube telemóveis que traçam os perfis pessoais da utilização dos Livros está também a ajudar, já que esta iniciativa do equipamento. é uma parceria com a Livraria Bertrand e a Entrajuda, que revertem os valores para missões de solidariedade CADA Inês Amaral social e apoio ao ambiente. endereço: http://www.cada1.net Docente do Instituto Superior Miguel Torga categoria: tecnologia CLUBE DOS LIVROS endereço: http://www.clubedoslivros.com EDMODO PONTA DELGADA VIRTUAL TOUR categoria: Educação TOLUU Conhecer Ponta Delgada sem sair de casa. É esta a proposta da Câmara Municipal de Ponta Delgada que lançou recentemente este site que faz uma visita virtual guiada pela cidade. A partir de panorâmicas retiradas de Setembro é o mês do regresso às aulas e para uma fotografias, o utilizador pode conhecer os espaços no- escola interactiva e tecnológica, a primeira proposta bres de Ponta Delgada. desta semana das Ideias Digitais é o Edmodo. Trata- Com o objectivo de promover o concelho os respon- se de um sistema de micro-blogging, do género do sáveis avisam que também os provados podem aderir ao Twitter, aplicado a um conceito de ensino-aprendiza- projecto e incluir os seus espaços nesta virtualização. O gem adequado ao universo interactivo e participativo Quem habitualmente dedica horas a ler feed RSS passeio virtual permite caminhar pelas ruas, jardins e da Web 2.0. pode achar interessante esta comunidade. O Toluu é edifícios (exterior e interior) da cidade e, brevemente, Esta plataforma assume as várias funções habituais uma plataforma social cujo objectivo é partilhar com disponibilizará uma agenda cultural e outros serviços em serviços de micro-blogging em ambiente 2.0, per- outros utilizadores os sites lidos diariamente através de camarários. Para quem não conhece, aqui fica uma ex- mitindo a privacidade dos dados. Após o registo do pro- RSS. celente oportunidade de “visitar” Ponta Delgada. fessor e consoante as permissões dadas, apenas os alu- Serve para quê? Para encontrar outros sites que se nos da respectiva turma têm acesso às informações adequem aos seus interesses e outros utilizadores que que são expostas naquele espaço. O Edmodo é a pla- partilham o gosto pelos mesmos assuntos. A interface é PONTA DELGADA VIRTUAL TOUR taforma ideal para partilhar notas, links e ficheiros, en- simples de utilizar e permite também a classificação dos endereço: http://www.pontadelgadavirtualtour.net viar alertas e enunciados de trabalhos aos alunos. sites por temas e categorias. categoria: turismo EDMODO TOLUU O CADERNO DE SARAMAGO endereço: http://www.edmodo.com endereço: http://www.toluu.com categoria: Educação categoria: comunidades CLUBE DOS LIVROS CADA José Saramago também já tem um blog. O prémio Nobel lançou o novo espaço no site da sua Fundação assumindo que a «infinita Internet» é uma nova ponte para comunicar com o público. O Caderno de Saramago é uma redescoberta de textos antigos e um espaço de reflexão e comentário A Educação continua a dominar esta página e a su- sobre os acontecimentos. São ainda disponibilizados ao Tecnologia, arte e ciência com muita criatividade à utilizador recursos multimédia e notícias. A escrita, essa, gestão que se segue é o Clube dos Livros. Este site mistura = CADA – associação cultural sediada em é saramaguiana. propõe uma reutilização de livros escolares através do Lisboa cujo objectivo é promover trabalho artístico com conceito do “Livrão”. É possível vender livros usados base em plataformas tecnológicas. O CADERNO DE SARAMAGO (em bom estado) e receber 20% do valor original. Es- «O CADA está particularmente interessado na ses livros são depois vendidos no site a 50% do valor possibilidade de desvendar os padrões escondidos endereço: http://blog.josesaramago.org original. na vida quotidiana», pode ler-se no site da associa- categoria: blogs Com as contas atrás apresentadas, quem utilizar este
  • 24. 24 TELEVISÃO 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 Os comentadores de Economia das PÚBLICA FRACÇÃO estações de televisão vendem, indirec- tocarro em plena zona sul do Rio de Janeiro. O incidente, que aconteceu tamente, os produtos financeiros que em 12 de junho de 2000, foi filmado e as mesmas são pagas para anunciar. transmitido ao vivo durante perto de Num dos “Jornais da Noite” da SIC cinco horas, paralisando o Brasil. No que este documentário deve desenca- na passada semana, José Gomes Fer- filme a história do sequestro é conta- dear na nossa actual condição de es- Francisco Amaral reira, que até nem é dos mais aguer- da paralelamente à história de vida do pectadores/cidadãos portugueses em franciscoamaral@gmail.com ridos vendedores da economia “selva- sequestrado, intercalando imagens da fase pós-Agosto 2008. Será que a gem” de mercado, quase que pedia operação policial feitas pela televisão. notícia provoca comportamentos vio- CRISE ECONÓMICA aos telespectadores para não acredi- É revelado como um típico “menino lentos, ou o facto de a mesma ser va- tarem no perigo destas crises. E deu de rua” carioca se transforma em ban- lorizada muitas vezes não provoca o O mundo construído em torno do um exemplo com uma aplicação finan- dido e as duas narrativas dialogam, efeito de satisfação de se ver a si pró- capital parece estar em implosão. ceira qualquer que estaria sempre ga- formando um discurso que as trans- prio como notícia na lógica da cele- Grandes empresas privadas de dimen- rantida até aos 25.000 euros. “Não cende e mostra ao espectador porque brização pessoal nos media - com a são mundial vão à falência, ou, ironia coloquem as economias debaixo do das ironias, são salvas pelo sempre colchão”, gracejou. Valeu a ironia de “perigoso” Estado. Rodrigo Guedes de Carvalho: “... pelo Em Portugal os principais órgãos de menos ponham no colchão só o que for acima deste valor” ! NOTÍCIAS: TELEVISÃO AINDA NA FRENTE Apesar da Internet assumir uma im- portância cada vez maior, a televisão permanece, para a maioria dos indiví- duos, a principal fonte de notícias. Esta conclusão resulta de um estudo levado a cabo pelo Pew Research Center for the People and the Press, Comunicação Social, e também as es- que visa comparar a importância dos tações de televisão, foram, desde a se- diferentes suportes noticiosos para os Rio de Janeiro, ano 2000: o drama em directo na televisão gunda metade dos anos 90, invadidas indivíduos. Os dados obtidos permiti- por comentadores de Economia defen- ram assim destacar quatro perfis de é que o Brasil é um país tão violento. óbvia relativização da reserva, pois o sores acérrimos do mercado como pa- consumo noticioso de acordo com as Espero também que o documentá- criminoso não quer que todos saibam naceia de todos os males. fontes e suportes utilizados: os inte- rio exibido pela SIC tenha sido visto que foi ele, quando muito apenas os Perante todas as crises económicas grators, os net-newsers, os traditio- por um bom número de espectadores seus pares. a resposta foi sempre a de mais libe- nalists e os disengaged. Onde se si- para que os menos atentos, e serão No entanto, Sandro, o “menino da ralismo, mais espaço para a “iniciati- tua o leitor? muitos, conheçam a realidade brasi- rua” do Rio de Janeiro, o assaltante va” privada, menos Estado. Assim, os leira que vai muito para além da que do Ónibus 174, dizia à sua mãe adop- comentadores de Economia da tele- O ÓNIBUS 174 eles julgam conhecer através das no- tiva que ainda ia ser conhecido no visão portuguesa foram sempre, pelo velas que nos envolvem há mais de mundo inteiro. E foi. menos por mim, entendidos como ex- A SIC, aproveitando a onda gerada trinta anos. A criminalidade não é criada pelos tensões dos interesses económicos pelo Agosto português polvilhado por O “Ónibus 174” tem muitas virtu- media, mas sim pelas condições soci- dominantes e incentivadores de uma criminalidade violenta, exibiu, em duas des, mas um perigo – criar o efeito do ais onde se desenvolve. Porém, temos atitude de aceitação por parte do co- de colocar a questão atrás enunciada, mum dos cidadãos. Aliás, não foram porque para ela não temos resposta, poucas as vezes que deixaram no ar temos apenas hipóteses: será que a sugestão de que mais valia entregar quando insistimos muito em noticiar toda a nossa vida nas mãos, invisíveis, uma dada temática negativa, esse fac- das grandes empresas. Se tudo fosse to pode ter o mesmo efeito que a visi- privado o mundo seria muito melhor, bilidade do fogo perante o pirómano, sugeriam. ou seja, a satisfação e o envolver um A verdade é que nunca explicaram certo público no seu acto? nada claramente e os jornalistas que Os media não são responsáveis, com eles dialogam em frente das câ- mas sendo parte da sociedade têm de maras também pouco sabem pergun- se interrogar sobre se esse limite vir- tar. Provavelmente seguem os line- tual de insistência perante um dado “ ups propostos pelos ditos comentado- fenómeno existe ou não. E se querem res e não lhes sobra discernimento ou não viver com essa interrogação. para perguntas tão simples como esta: Sabendo que os efeitos dos media a como estava o litro de gasolina quan- não são até agora inequivocamente do o barril de crude se encontrava no demonstráveis, a inquietante possibi- mercado ao preço a que está agora? lidade de que eles escondam a reali- Perante a salvação (pelo Estado) dade é um dado, só por si, que me faz in-extremis de um colosso financeiro tomar o partido da absoluta liberdade como a AIG, ninguém foi capaz de per- partes e em dias consecutivos, o do- “bandido-herói”. Toda a história da noticiosa. Assim, o que está em cau- guntar, por exemplo, qual o futuro dos cumentário de José Padilha “O óni- terrível vida de Sandro, o sequestra- sa não é a notícia, mas o modo da 74 milhões de pensionistas que depen- bus 174”. No momento em que escre- dor, não pode, não deve, esconder as notícia. Aceitando ainda que existe dem da AIG. Não foi nunca abordada vo desconheço as audiências, mas es- histórias das outras vidas, as das víti- uma diferença entre cidadãos comuns a mais do que pertinente comparação pero que tenham sido boas. Porquê? mas, em particular a da refém que e criminosos, qual teria sido a escolha com a ideia, muito desenvolvida há Porque se trata de uma investiga- acabou morta com quatro tiros, um da das vítimas do “ónibus 174”, ou mes- meia dúzia de anos, de no nosso País ção cuidadosa, baseada em imagens polícia e mais três disparados pelo mo do BES de Campolide? Aceitari- se enveredar por um sistema de se- de arquivo, entrevistas e documentos próprio Sandro. am ou não a transmissão em directo gurança social privado. oficiais, sobre o sequestro de um au- Mas há algo de muito importante dos seus dramas?