O Centro - n.º 16 – 13.12.2006

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    O Centro - n.º 16 – 13.12.2006 - Presentation Transcript

    1. Inscreva-se em: Atelier de Pintura Iniciação em Artes Plásticas Conferências de Anatomia Artística Mais de 250 obras de arte em catálogo Visite-nos em www.aelima.com ou Rua Gil Vicente, 86-A – Coimbra Exposição de fotografia de João Igor e de pintura de Luís Sargento até 21 de Dezembro Telefone: 239 781 486 – Telemóvel: 917 766 093 Santos da Casa DIRECTOR J O R G E C A S T I L H O João Araújo, D.O. de: Maria Luíza Fernandes OSTEOPATA Comércio Guarda – Consultas à 2.ª feira de Artigos Religiosos Marcações pelo telefone: 271 237 039 | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Telef. 239 83 62 83 Autorizado a circular em invólucro Rua da Sofia, 94 A - 3000-389 Coimbra de plástico fechado (DE53742006MPC) ANO I N.º 16 (II série) De 13 a 26 de Dezembro de 2006 € 1 euro (iva incluído) Natal Origens Contos Tradições Poemas “Natividade” Josefa de Óbidos PÁGINAS 4 A 12 (1630 – 1684) INICIATIVA DO CONSERVATÓRIO DE COIMBRA Música vai invadir a cidade Quinta-feira na Baixa Sexta-feira no “Dolce Vita” Perspectiva do futuro Conservatório PÁGINA 11 UMA PRENDA NATALÍCIA SÓ UMA ESCOLA NO PAÍS OPINIÃO Ofereça ORIGINAL uma assinatura Cães-guia Quem do “Centro” mudam se lembra e ganhe uma obra de arte vida de da deficientes Académica? PÁG. 2 e 3 PÁG. 18 PÁG. 15
    2. 2 ENTREVISTA DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 CONFIRMANDO A OPINIÃO DE D. ALBINO CLETO EM ENTREVISTA AO “CENTRO” Cardeal de São Paulo admite que a Igreja reconsidere celibato dos padres Na anterior edição do “Centro” publicá- Reiterando o que D. Albino Cleto referi- apresentou a demissão por motivos de mos uma desenvolvida entrevista com o ra ao “Centro”, o cardeal brasileiro salien- idade. Bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, onde o tou na entrevista que existem alguns padres Com a recente nomeação, Hummes questionámos sobre o celibato dos padres casados e que a proibição do matrimónio passa a ser o brasileiro com maior influên- (relativamente ao qual ele manifestou con- só foi adoptada depois da instituição do cia no Vaticano e aumentará as suas possi- cordância) e sobre o alegado conservado- sacerdócio. bilidades de se tornar Papa se houver outro rismo do novo Papa, de que ele discordou. Cláudio Hummes, que chegou a ser conclave antes de completar 80 anos, limi- Para sustentar que o Papa Bento XVI não é considerado um dos prováveis sucessores te para a participação dos cardeais na esco- conservador, D. Albino Cleto aludiu mes- de João Paulo II no conclave que elegeu lha papal. mo ao facto de ele ter acabado de nomear Bento XVI, disse que a Igreja Católica não Filho de imigrantes alemães, nascido como responsável pela Congregação para é “estacionária, sim uma instituição que em 1934 na cidade de Montenegro, no Es- o Clero o cardeal brasileiro Cláudio muda quando deve mudar”. tado do Rio Grande Sul, Cláudio Hummes Hummes, que é conhecido pelas suas posi- Instado a comentar os recentes escânda- foi bispo na cidade de Santo André, na ções progressistas. los de pedofilia, Cláudio Hummes referiu região metropolitana de São Paulo, entre Ora sucede que apenas três dias depois que o tema preocupa a Igreja. 1975 a 1996. da edição do “Centro”, o jornal “O Estado “Ainda que se trate de um só caso – fri- D. Cláudio Hummes é considerado um de São Paulo” publicava uma entrevista sou – já seria uma grande preocupação, cardeal progressista em relação às questões com o referido cardeal Cláudio Hummes, principalmente por causa das vítimas”. sociais, embora alguns o achem um tanto confirmando a opinião que nos fora dada “É injusto e hipócrita generalizar os conservador no que se refere à doutrina da por D. Albino Cleto. escândalos de pedofilia, pois mais de 99 Igreja. Assim, nessa entrevista o cardeal por cento dos sacerdotes não têm nada a No final da década de 70 apoiou as pri- Hummes afirma que a Igreja poderá rever ver com isso”, salientou. meiras greves operárias contra o regime o celibato para admitir sacerdotes casados. Segundo o cardeal, a pedofilia é um pro- militar de então (1964-1985), acolheu líde- “Apesar de o celibato fazer parte da his- blema de toda a sociedade, uma vez que res perseguidos, entre eles Lula da Silva, e Cláudio Hummes tória e da cultura católicas, a Igreja pode entrevista ainda no Brasil, antes de partir existem casos de abuso sexual de crianças autorizou a realização de reuniões secretas rever esta questão, pois o celibato não é um para o Vaticano (onde foi assumir o rele- nas suas próprias famílias. nas igrejas da diocese. dogma, sim uma norma disciplinar”, disse vante cargo que o torna como responsável Dom Cláudio Hummes, de 72 anos, Depois de passar dois anos em For- o cardeal. pelos assuntos relativos a 400 mil padres substitui no cargo o cardeal colombiano taleza, capital do Estado do Ceará, Cláudio Dom Cláudio Hummes concedeu esta espalhados por todo o mundo). Dario Castrillón Hoyos, de 77 anos, que Hummes substituiu, em 1998, D. Paulo Evaristo Arns, um dos mais destacados re- IGREJAS SEPARADAS HÁ MAIS DE 800 ANOS ligiosos progressistas do Brasil, na Ar- quidiocese de São Paulo. Papa recebe hoje em Roma o Primaz ortodoxo grego Ao contrário de seu antecessor em São Paulo, manteve sempre distância em rela- O chefe da igreja ortodoxa grega, mon- duas igrejas estiveram também no centro “O facto de os cristãos latinos nele ção à Teologia da Libertação, uma corren- senhor Christodoulos, inicia hoje (quar- dos encontros, no final de Novembro, em terem participado enche os católicos de te da Igreja, nomeadamente na América ta-feira, dia 13) uma visita histórica ao Istambul, entre Bento XVI e o Patriarca um profundo arrependimento”, subli- Latina, que adaptou conceitos marxistas à Vaticano, durante a qual se encontrará ecuménico ortodoxo Bartolomeu I, no nhou o Pontífice. doutrina católica. com o Papa Bento XVI, anunciou a ar- âmbito da visita do Papa à Turquia. A igreja grega, uma das mais conser- Seguidor das orientações de João Paulo quidiocese de Atenas. Tradicionalmente anti-papista, a igre- vadoras no seio da Igreja Ortodoxa, re- II, o arcebispo de São Paulo é contra a Trata-se do primeiro encontro oficial ja da Grécia melhorou no entanto as suas clamara insistentemente um arrependi- eutanásia, os métodos contraceptivos, as em Roma entre um Primaz da Igreja relações com a Santa Sé depois de uma mento do Vaticano pelas “crueldades que investigações científicas com células esta- Ortodoxa grega e um Papa. visita de João Paulo II a Atenas, em Maio os seus fiéis infligiram aos ortodoxos minais e a ordenação de mulheres. Numa entrevista ao jornal grego “Na- de 2001, em que manifestou o arrependi- durante a Quarta Cruzada”. O cardeal brasileiro fala cinco idiomas e tional Herald”, Christodoulos afirmou mento da Igreja Católica pelos erros Durante a visita do chefe da Igreja ocupa actualmente 12 cargos em organis- que este encontro com o Papa acontece cometidos contra os ortodoxos. Ortodoxa grega ao Vaticano, que termina mos do Vaticano, o que o faz passar, em no âmbito dos esforços de aproximação Na altura, o Papa evocou a “pilhagem sábado, o Papa deverá oferecer a Chris- média, uma semana por mês em Roma, entre as Igrejas Católica e Ortodoxa, dramática da cidade imperial de Constan- todoulos dois pedaços da corrente que com destaque para a participação no separadas desde 1054. tinopla, que era um bastião da Cristandade terá mantido prisioneiro o apóstolo Paulo Conselho do Diálogo Inter-religioso na As tentativas de reconciliação entre as no Oriente”, pelos cruzados em 1.204. antes da sua execução em Roma. Cúria Romana. Ofereça livros no Natal com 10% de desconto Director: Jorge Castilho No sentido de proporcionar mais alguns Mas este desconto não se cinge aos li- bastará ir ao site www.livrosnet.com e fazer benefícios aos assinantes deste jornal, o vros, antes abrange todos os produtos congé- o seu registo e a respectiva encomenda, que (Carteira Profissional n.º 99) Propriedade: Audimprensa “Centro” estabeleceu um acordo com a li- neres que estão à disposição na livraria on lhe será entregue directamente. Nif: 501 863 109 vraria on line “livrosnet.com”. line “livrosnet.com”. São apenas 20 euros por uma assinatura Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho Para além do desconto de 10%, o assinan- Aproveite esta oportunidade, se já é assi- anual – uma importância que certamente Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 te do “Centro” pode ainda fazer a encomen- nante do “Centro”. recuperará logo na primeira encomenda de da dos livros de forma muito cómoda, sem Caso ainda não seja, preencha o boletim livros. Composição e montagem: Audimprensa sair de casa, e nada terá a pagar de custos de que publicamos na página seguinte e envie-o E, para além disso, como ao lado se indi- – Rua da Sofia, 95, 3.º 3000-390 Coimbra - Telefone: 239 854 150 envio dos livros encomendados. para a morada que se indica. ca, receberá ainda, de forma automática e Fax: 239 854 154 Numa altura em que se aproxima o Natal, Se não quiser ter esse trabalho, bastará completamente gratuita, uma valiosa obra de e em que os livros são sempre uma excelente ligar para o 239 854 150 para fazer a sua arte de Zé Penicheiro – trabalho original e-mail: centro.jornal@gmail.com Impressão: CIC - CORAZE oferta para gente de todas as idades, este assinatura, ou solicitá-la através do e-mail simbolizando os seis distritos da Região Oliveira de Azeméis Depósito legal n.º 250930/06 desconto que proporcionamos aos assinantes centro.jornal@gmail.com. Centro, especialmente concebido para este Tiragem: 10.000 exemplares do “Centro” assume especial significado. Depois, para encomendar os seus livros, jornal pelo consagrado artista.
    3. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 3 EDITORIAL NA SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES São hoje entregues Espírito natalício os Prémios Pen Clube Os Prémios do PEN Clube Português relativos a obras publicadas em 2005 nas modalidades de poesia, ensaio, narrativa, Quero especialmente aludir às atitudes o milagre de assim descobrir, no seu ínti- primeira obra e tradução vão ser entre- Jorge Castilho de reconciliação e, sobretudo, aos gestos mo, o espírito natalício, que será a mais gues hoje (quarta-feira, dia 13) na de presença que há muito andam ausentes reconfortante de todas as prendas – para Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), jorge.castilho@zmail.pt Se fôssemos analisar as causas, certa- – entre familiares, na maioria das situa- si e para os que lhe sentiam a falta… em Lisboa. mente chegaríamos a conclusões decep- ções, mas igualmente entre amigos. Os vencedores da edição 2005 foram cionantes. Mesmo os que não se identificam *** António Ramos Rosa, na Poesia (“Géne- A verdade, porém, é que, neste caso e com uma religião são crentes, no senti- se”), Pedro Eiras, no Ensaio (“Esquecer nesta altura, mais importantes que as do de acreditarem na bondade do seu Esta edição do “CENTRO” assinala a Fausto”), Fiama Hasse Pais Brandão e causas são as consequências. próximo – às vezes, ostensivamente, tão quadra festiva, procurando fazê-lo com a Hélder Macedo, na Ficção (“Contos da Estou a referir-me ao chamado “espí- distante… possível originalidade. Daí que tenhamos Imagem” e “Sem nome”, respectivamen- rito natalício” e às coisas positivas que Por isso, seria bom que o Natal por seleccionado alguns poemas alusivos ao te) e Ana Cristina Oliveira, na primeira podem encontrar-se entre a multiplici- todos fosse assinalado – através de uma Natal, dois contos muito interessantes obra (“Continentes Negros”). dade de fenómenos que se manifestam a mensagem, de um telefonema, de uma (um de Mia Couto, num comovente José Bento e Miguel Serras Pereira par- propósito do Natal. visita… “Natal” africano, outro de Maria Ondina tilham o Grande Prémio da Tradução, pe- Que importa se a dádiva a quem pre- Não tenho dúvidas que para muitos, Braga, numa tocante vivência asiática). E las suas versões da obra magna da novelís- cisa não é feita com propósito verdadei- sobretudo para os que habitualmente es- ainda uma crónica de Eça de Queirós, tica espanhola, “Dom Quixote”, de Miguel ramente solidário, antes com o intuito tão mais sós, essa oferta provocará muito sobre o Natal londrino por ele testemu- de Cervantes. de cumprir obrigação anual, como se se mais alegria do que qualquer objecto nhado em fins do séc- XIX. À excepção do destinado à primeira tratasse do pagamento de um imposto? valioso. Para além disso, reproduzimos pintu- obra, no valor de 2.500 euros, os prémios Relevante é que ela se concretize! Por isso aqui deixo um veemente ras de alguns dos nossos mais reputados têm todos uma dotação de 5 mil euros. E não estou a referir-me às prendas, apelo: roube algum tempo aos embrulhos artistas que mostram a forma como eles, O Presidente da República, Cavaco às coisas materiais, já que essas assumi- e utilize-o a visitar (ou a escrever, a tele- em épocas bem distintas, sentiram o Silva, e o Director do Instituto Português ram, na maior parte dos casos, uma ver- fonar, a enviar um e-mail ou sms..) àque- Natal. do Livro e das Bibliotecas (IPLB), Jorge tente que tem muito mais a ver com o les que gostam de si e de quem tem anda- Desta forma singela, a todos os nossos Manuel Martins, deverão assistir à cerimó- consumismo do que com a religião – ou do afastado! Leitores, Assinantes e Anunciantes dese- nia de entrega dos prémios, marcada para mesmo com a fraternidade. Vai ver que custa pouco. E pode dar-se jamos um Natal com saúde e muito feliz! as 18h30. EXCELENTE PRENDA DE NATAL POR APENAS 20 EUROS Jornal “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA Ofereça uma assinatura do “Centro” Poderá também dirigir-nos o seu pedido de e ganhe valiosa obra de arte assinatura através de: telefone 239 854 156 O jornal “Centro” tem uma aliciante pro- tónico, de deslumbrantes paisagens (desde as sempre bem informado sobre o que de mais fax 239 854 154 posta para si. praias magníficas até às serras verdejantes) e, importante vai acontecendo nesta Região, no ou para o seguinte endereço de e-mail: De facto, basta subscrever uma assinatura ainda, de gente hospitaleira e trabalhadora. País e no Mundo. centro.jornal@gmail.com anual, por apenas 20 euros, para automatica- Não perca, pois, a oportunidade de receber Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, por mente ganharem uma valiosa obra de arte. já, GRATUITAMENTE, esta magnífica obra APENAS 20 EUROS! Para além da obra de arte que desde já lhe ofe- Trata-se de um belíssimo trabalho da auto- de arte, que está reproduzida na primeira pági- Não perca esta campanha promocional, e recemos, estamos a preparar muitas outras regali- ria de Zé Penicheiro, expressamente concebi- na, mas que tem dimensões bem maiores do ASSINE JÁ o “Centro”. as para os nossos assinantes, pelo que os 20 euros do para o jornal “Centro”, com o cunho bem que aquelas que ali apresenta (mais exacta- Para tanto, basta cortar e preencher o da assinatura serão um excelente investimento. característico deste artista plástico – um dos mente 50 cm x 34 cm). cupão que abaixo publicamos, e enviá-lo, O seu apoio é imprescindível para que o mais prestigiados pintores portugueses, com Para além desta oferta, passará a receber acompanhado do valor de 20 euros (de prefe- “Centro” cresça e se desenvolva, dando voz a reconhecimento mesmo a nível internacional, directamente em sua casa (ou no local que nos rência em cheque passado em nome de esta Região. estando representado em colecções espalha- indicar), o jornal “Centro”, que o manterá AUDIMPRENSA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! das por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, com o seu traço peculiar e a inconfundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra Desejo receber uma assinatura do jornal CENTRO (26 edições). que alia grande qualidade artística a um pro- fundo simbolismo. Para tal envio: cheque vale de correio no valor de 20 euros. De facto, o artista, para representar a Re- gião Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do Nome: País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Morada: Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é representado Localidade: Cód. Postal: Telefone: por um elemento (remetendo para respecti- vo património histórico, arquitectónico ou Profissão: e-mail: natural). A flor, assim composta desta forma tão ori- Desejo receber recibo na volta do correio N.º de contribuinte: ginal, está a desabrochar, simbolizando o crescente desenvolvimento desta Região Cen- Assinatura: tro de Portugal, tão rica de potencialidades, de História, de Cultura, de património arquitec-
    4. 4 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 Natal: origem e O Natal surge como o aniversário tes, que são dados pelo Pai Natal ou O nascimento de Jesus começou a ser burro e feno, e colocou na gruta as ima- do nascimento de Jesus Cristo, pelo Menino Jesus, dependendo da tra- celebrado no século III, data das primei- gens do Menino Jesus, da Virgem Maria Filho de Deus, sendo dição de cada país. ras peregrinações a Belém, para se visi- e de S. José. Com isto, pretendeu tornar actualmente uma das festas tar o local onde Jesus nasceu. mais acessível e clara a celebração do católicas mais importantes. No século IV começaram a surgir Natal, para que as pessoas pudessem representações do nascimento de Jesus visualizar o que se terá passado em PRESÉPIO Inicialmente, a Igreja Católica não comemorava o Natal. A palavra “presépio” significa “um em pinturas, relevos ou frescos. Belém durante o nascimento de Jesus. lugar onde se recolhe o gado, curral, es- Passados nove séculos, mais precisa- Nos finais do século XV, graças a um Foi em meados do século IV d. C. tábulo”. Contudo, esta também é a mente no ano de 1223, S. desejo crescente de fazer reconstruções que se começou a festejar designação dada à representação Francisco de Assis decidiu plásticas da Natividade, as figuras de o nascimento do Menino Jesus, artística do nascimento do celebrar a missa da véspera Natal libertam-se das paredes das igre- tendo o Papa Júlio I fixado Menino Jesus num estábulo, de Natal com os cidadãos de jas, surgindo em pequenas figuras, o a data no dia 25 de Dezembro, acompanhado pela Virgem Ma- Assis de forma diferente. que permite criar cenas diferentes. já que se desconhece a verdadeira ria, S. José e uma vaca e Assim, esta missa, em Surgem, assim, os presépios. data do seu nascimento. um jumento – a que muitas vez de ser celebrada no A criação do cenário que hoje é Uma das explicações para vezes se acrescentam outras interior de uma igreja, conhecido como presépio, provavel- a escolha do dia 25 de Dezembro figuras, como pastores, foi celebrada numa mente, deu-se já no século XVI. como sendo o dia de Natal ovelhas, anjos, os Reis gruta, que se situava Segundo o inventário do Castelo de prende-se como facto de esta data Magos. na floresta de Grécio, Piccolomini em Celano, o primeiro pre- coincidir com a Saturnália perto da cida- sépio criado num lar particular surgiu dos romanos e com as festas de. S. Francis- em 1567, na casa da Duquesa de germânicas e célticas do Solstício co transportou Amalfi, Constanza Piccolomini. de Inverno. Sendo todas estas para essa No século XVIII, a recriação da cena festividades pagãs, a Igreja viu gruta um do nascimento de Jesus estava comple- aqui uma oportunidade boi e um tamente inserida nas tradições de Nápoles e da Península Ibérica, incluin- de cristianizar a data, colocando do Portugal. em segundo plano a sua conotação Aliás, há quem considere que no pagã. Algumas zonas optaram nosso País foram feitos alguns dos mais por festejar o acontecimento belos presépios de todo o mundo, sendo em 6 de Janeiro, mas gradualmente de destacar os realizados pelos esculto- esta data foi sendo associada res e barristas Machada de Castro e à chegada dos Reis Magos e não António Ferreira, no século XVIII. ao nascimento de Jesus Cristo. O Natal é, assim, dedicado pelos cristãos a Cristo, ÁRVORE DE NATAL que é o verdadeiro Sol de Justiça A Árvore de Natal é um pi- (Mateus 17,2; Apocalipse 1,16), nheiro ou abeto, enfeitado e ilu- e transformou-se numa minado, especialmente nas casas das festividades centrais particulares, na noite de Natal. da Igreja, equiparada A tradição da Árvore de Natal desde cedo à Páscoa. tem raízes muito mais longínquas Apesar de ser uma festa cristã, do que o próprio Natal. o Natal, com o passar Os romanos enfeitavam árvo- do tempo, converteu-se res em honra de Saturno, deus da agricultura, mais ou menos na numa festa familiar mesma época em que hoje com tradições pagãs, preparamos a Ár- em parte germâni- vore de Natal. Os cas e em parte egípcios traziam ga- romanas. lhos verdes de pal- meiras para dentro Sob influência francis- de suas casa no dia cana, espalhou-se, a mais curto do ano partir de 1233, o cos- (que é em Dezem- tume de, em toda a bro), como símbo- cristandade, se cons- lo de triunfo da truírem presépios, já vida sobre a que estes reconstituí- morte. Nas cul- am a cena do nasci- turas célticas, mento de Jesus. os druídas tin- A árvore de Natal sur- ham o costume de ge no século XVI, sendo decorar velhos carva- enfeitada com luzes sím- lhos com maçãs doura- bolo de Cristo, Luz do das para festividades Mundo. Uma outra tradição também celebradas na de Natal é a troca de presen- mesma época do ano.
    5. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 NATAL 5 simbologia A primeira referência a uma “Árvore de Belchior e Gaspar). O rei da Judeia, tolos, traiu Jesus por 30 dinheiros. Depois Quanto ao número e nomes dos Reis Natal” surgiu no século XVI e foi nesta Herodes, sabendo que chegada do Messias de ter celebrado a última ceia e instituído a Magos são tudo suposições sem base altura que ela se vulgarizou na Europa era anunciada para essa época pelos anti- Eucaristia, Cristo teve de comparecer histórica, aliás algumas pinturas dos pri- Central, há notícias de árvores de Natal na gos profetas, ordenou que todos os recém- perante o sumo-sacerdote dos Judeus, meiros séculos mostram 2, 4 e até Lituânia em 1510. nascidos fossem assassinados. Perante isto, Caifás, e em seguida perante a justiça mesmo 12 Reis Magos adorando Jesus. Diz-se que foi Lutero (1483-1546), José (pai adoptivo de Jesus) e Maria deci- romana, representada por Pôncio Pilatos. Foi uma tradição posterior aos Evan- autor da reforma protestante, que após um diram fugir para o Egipto, para salvarem a Condenado pelo primeiro, abandonado gelhos que lhes deu o nome de Baltasar, passeio, pela floresta no Inverno, numa Gaspar e Belchior (ou Melchior), tendo- noite de céu limpo e de estrelas brilhantes se também atribuído a cada um caracte- trouxe essa imagem à família sob a forma rísticas próprias. de Árvore de Natal, com uma estrela bri- Belchior (ou Melchior) seria o represen- lhante no topo e decorada com velas, isto tante da raça branca (europeia) e descende- porque para ele o céu devia ter estado ria de Jafé; Gaspar representaria a raça assim no dia do nascimento do Menino amarela (asiática) e seria descendente de Jesus. Sem; por fim, Baltasar representaria todos O costume começou a enraizar-se. Na os de raça negra (africana) e descenderia de Alemanha, as famílias, ricas e pobres, Cam. Estavam assim representadas todas decoravam as suas árvores com frutos, as raças bíblicas (e as únicas conhecidas na doces e flores de papel (as flores vermelhas altura: os semitas, os jafetitas e camitas. representavam o conhecimento e as bran- Pode então dizer-se que a adoração dos cas representavam a inocência). Isto per- Reis Magos ao Menino Jesus simboliza a mitiu que surgisse uma indústria de deco- homenagem de todos os homens na Terra rações de Natal, em que a Turíngia se espe- ao Rei dos reis, mesmo os representantes cializou. do tronos, senhores da Terra, curvam-se No início do século XVII, a Grã- perante Cristo, reconhecendo assim a sua Bretanha começou a importar da Ale- divina realeza. manha a tradição da Árvore de Natal O dia de Reis celebra-se a 6 de Janeiro, pelas mãos dos monarcas de Hannover. partindo-se do princípio que foi neste dia Contudo a tradição só se consolidou nas que os Reis Magos chegaram finalmente Ilhas Britânicas após a publicação pela junto ao Menino Jesus. Em alguns países é “Illustrated London News”, de uma no dia 6 de Janeiro que se entregam os pre- imagem da Rainha Vitória e Alberto sentes. com os seus filhos, junto à Árvore de Ao chegarem ao seu destino, os Reis Natal no castelo de Windsor, no Natal Magos deram como presentes ao Menino de 1846. Jesus: Ouro (oferecido por Belchior), para Esta tradição espalhou-se por toda a representar a Sua nobreza; incenso (ofere- Europa e chegou aos EUA aquando da cido por Gaspar), que representa a divinda- guerra da independência pelas mãos dos de de Jesus; e Mirra (oferecido por soldados alemães. A tradição não se conso- Baltasar), simbolizando o sofrimento que lidou uniformemente dada a divergência Cristo enfrentaria na Terra (a mirra é uma erva amarga). “Presépio” Gregório Lopes, c.1490-1550, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa de povos e culturas. Contudo, em 1856, a Casa Branca foi enfeitada com uma árvore Assim, os Reis Magos homenagearam de Natal e a tradição mantém-se desde vida de Jesus. Só depois da morte de He- pelo segundo, coberto de ultrajes pelo povo Jesus como rei (ouro), como deus (incen- 1923. rodes, esta família voltou para Nazaré, na subiu ao Calvário, onde morreu crucifica- so) e como homem (mirra). Como o uso da árvore de Natal tem ori- Galileia. Aqui Jesus cresceu, ajudando seu do entre dois ladrões. Ressuscitou ao 3.º Coloca-se a questão de saber como é gem pagã, este predomina nos países nór- pai adoptivo no trabalho de carpinteiro. dia e apareceu a muitos dos seus discípu- que os Reis Magos associaram o apareci- dicos e no mundo anglo-saxónico. Nos Aos 30 anos, Jesus começou a sua missão, los, encarregando-os de espalhar a sua dou- mento da Estrela com o nascimento de países católicos, como Portugal, a tradição sendo baptizado por seu primo S. João trina pelo mundo inteiro. Quarenta dias Jesus. A verdade é que existem várias teo- da árvore de Natal foi surgindo pouco a Baptista, nas águas do Jordão. Em seguida, depois da sua ressurreição, subiu aos céus rias, mas não há como saber qual delas é a pouco ao lado dos já tradicionais presépios. dirigiu-se para o deserto onde permaneceu na presença dos seus discípulos. correcta. Uma dessas teorias considera que durante 40 dias em jejum e onde resistiu às os Reis Magos descobriram a relação entre tentações de Satanás. Começou por pregar o novo astro e o nascimento de Cristo. o Evangelho ou a “boa nova” na Galileia, MENINO JESUS REIS MAGOS Jesus, em hebreu, Jehoshua, abreviado depois dirigiu-se para Jerusalém, lugar Os Reis Magos teriam vindo do Oriente, Mais explicações sobre esta questão e em Jeshua, que quer dizer “Javé, é a salva- onde se deparou com uma hostilidade cres- guiados por uma estrela, para adorar o outras relacionadas com os Reis Magos ção”, o filho de Deus, segundo o cente por parte dos fariseus. Na sua missão, Deus Menino, em Belém são dadas através de textos apócrifos, isto Evangelho, e o Messias anunciado pelos Jesus foi acompanhado pelos seus discípu- A designação “Mago” era dada, entre é, textos não reconhecidos pela Igreja. profetas. Nasceu em Belém da Virgem los, os doze apóstolos, com estes percorreu os Orientais, à classe dos sábios ou erudi- Contudo estes textos foram, de um Maria, em 25 de Dezembro do ano de 749 as cidades da Judeia e da Galileia, pregan- tos, contudo esta palavra também era modo geral, escritos nos séculos II e III da de Roma, embora o cálculo feito no século do a caridade, o amor de Deus e do próxi- usada para designar os astrólogo. Isto fez era cristã, para preencherem lacunas VI pelo frade Dionísio, e que serve de cro- mo e realizando inúmeros milagres. As com que, inicialmente, se pensasse que sobre a vida de Jesus e de outras persona- nologia da era cristã, colocou o nascimen- ideias defendidas por Jesus Cristo fizeram estes magos eram sábios astrólogos, mem- gens do Novo Testamento, assim objecti- to, erradamente, no ano de 754. Jesus mor- enfurecer os fariseus e os sacerdotes bros da classe sacerdotal de alguns povos vo destes era saciar a curiosidade religio- reu crucificado, no ano 33 da era moderna. judeus, que acusaram-no perante o gover- orientais. sa, transformando o vago em concreto, Segundo os Evangelhos, o presépio que nador romano, Pôncio Pilatos, de se dizer Posteriormente, a Igreja atribuiu-lhes o independentemente da veracidade dos fac- serviu de berço ao Menino Jesus foi visita- Rei dos Judeus e de querer derrubar o apelido de “Reis”, em virtude da aplicação tos, daí não estarem incluídos nos chama- do pelos Reis Magos do Oriente (Baltasar, governo estabelecido. Judas, um dos após- liberal que se lhes fez do Salmo 71,10. dos Livros Canónicos.
    6. 6 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 O menino no sapatinho Mia Couto * desirmanada lhe fazia de cobertor. O sendo aqueles seus exclusivos e únicos O marido azedava e começou a ame- frio estreitasse e a mulher se levantava sapatos, ele se despromoveria para um açar: se era para lhe desalojar o definiti- Era uma vez o menino pequenito, tão de noite para repuxar a trança dos ataca- chinelado? vo pé, então, o melhor seria desfaze- minimozito que todos seus dedos eram dores. Assim lhe calçava um aconche- – Sim – respondeu a mulher. – Eu já rem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, go. Todas as manhãs, de prevenção, ela lhe dei os meus chinelos. fosse o fim de todos os mundos: quando nasceu, nem foi dado à luz mas avisava os demais e demasiados: Mas não dava jeito naqueles areais – Vai o quê fazer? a uma simples fresta de claridade. – Cuidado, já dentrei o menino no do bairro. Ela devia saber. A pessoa – Vou é desfazer. De tão miserenta, a mãe se alegrou sapato. pisa o chão e não sabe se há mais Ela prometia-lhe um tempo, na espe- com o destamanho do rebento – assim ra que o bebé graudasse. Mas o assunto pediria apenas os menores alimentos. A azedava e até degenerou em soco, pun- mulher, em si, deu graças: que é bom a hos ciscando o escuro. Os olhos dela, criança nascer assim desprovida de amendoídos ainda, continuaram esprei- peso que é para não chamar os maus tando o improvisado berço. Ela sabia espíritos. E suspirava, enquanto con- que os anjos da guarda estão a preços templava a diminuta criatura. que os pobres nem ousam. Olhar de mãe, quem mais pode apa- Até que o ano findou, esgotada a últi- gar as feiuras e defeitos nos viventes? ma folha do calendário. Vinda da igreja, Ao menino nem se lhe ouvia o choro. a mãe descobriu-se do véu e anunciou Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas. que iria compor a árvore de Natal. Sem Mas estas, de tão leves, nem lhe des- despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha ciam pelo rosto. As lagriminhas subiam um tosco arbusto. Os enfeites eram tam- pelo ar e vogavam suspensas. Depois, pinhas de cerveja, sobras da bebedeira se fixavam no tecto e ali se grutavam, do homem. Junto à árvore ela rezou missangas tremeluzentes. com devoção de Eva antes de haver a Ela pegava no menino, com uma só macieira. Pediu a Deus que fosse dado mão. E falava, mansinho, para essa con- ao seu menino o tamanho que lhe era cha. devido. Só isso, mais nada. Talvez, Na realidade, não falava: assobiava, depois, um adequado berço. Ou quem feita uma ave. Dizia que o filho não sabe, um calçado novo para o seu tinha entendimento para palavra. Só lín- homem. Que aquele sapato já espreitava gua de pássaro lhe tocaria o reduzido pelo umbigo, o buraco na frente autori- coração. Quem podia entender? Ele há zando o frio. dessas coisas tão subtis, incapazes Na sagrada antenoite, a mulher fez mesmo de existir. Como essas estrelas como aprendera dos brancos: deixou o que chegam até nós mesmo depois de sapatinho na árvore para uma qualquer terem morrido. A senhora não se impor- improbabilíssima oferta que lhe miracu- tava com os dizquedizeres. lasse o lar. Ela mesmo tinha aprendido a ser de No escuro dessa noite, a mãe não outra dimensão, florindo como o capim: dormiu, seus ouvidos não esmoreceram. sem cor nem cheiro. Despontavam as primeiras horas A mãe só tinha fala na igreja. No quando lhe pareceu escutar passos na resto, pouco falava. O marido, descren- sala. E depois, o silêncio. Tão espesso te de tudo, nem tinha tempo para ser que tudo se afundou e a mãe foi engoli- desempregado. O homem era um fiorra- da pelo cansaço. po, despacha-gargalos, entorna-fundos. “Adoração dos Magos” Acordou cedo e foi directa ao arbus- Vasco Fernandes (Grão Vasco), activo entre 1501 e 1540 Do bar para o quarto, de casa para a cer- to de Natal. Dentro do sapato, porém, só vejaria. o vago vazio, a redonda concavidade do Pois, aconteceu o seguinte: dadas as Que ninguém, por descuido, o calças- areia em baixo que em cima do pé. nada. O filho desaparecera? Não para os dimensões de sua vida e não havendo se. Muito-muito, o marido quando vol- – Além disso, eu é que paguei os tais olhos da mãe. Que ele tinha sido levado berço à medida, a mãe colocou o meni- tava bêbado e queria sair uma vez mais, sapatos. por Jesus, rumo aos céus, onde há um ninho num sapato. E cujo era o esquer- desnoitado, sem distinguir o mais Palavras. Porque a mãe respondia mundo apto para crianças. Descida em do do único par, o do marido. De então esquerdo do menos esquerdo. A mulher com sentimentos: seus joelhos, agradeceu a bondade divi- em diante, o homem passou a calçar de não deixava que o berço fugisse da vis- – Veja o seu filho, parece o Jesuzinho na. De relance, ainda notou que lá no um só pé. Só na ida isso o incomodava. lembrança dela. Porque o marido já se empalhado, todo embrulhadinho nos tecto já não brilhavam as lágrimas do Na volta, ele nem se apercebia de ter outorgava, cheio de queixa: bichos de cabedal. seu menino. Mas ela desviou o olhar, pés, dois na mesma direcção. – Então, ando para aqui improvisar Ainda o filho estava melhor que que essa é a competência de mãe: o não Em casa, na quentura da palmilha, o um coxinho? Cristo – ao menos um sapato já não é enxergar nunca a curva onde o escuro miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos – É seu filho, pois não? bicho em bruto. Era o argumento dela faz extinguir o mundo. embaixos do mundo. Junto ao chão, tão – O diabo que te descarregue! mas ele, nem querendo saber, subia de rés e rasteiro que, em morrendo, dispen- E apontava o filhote: o individuozito tom: * Retirado de “Na Berma de Nenhuma Estrada” saria quase o ser enterrado. Uma peúga interrompia o seu calçado? Pois que, – Cá se fazem, cá se apagam! (2ª Edição), Lisboa, Editorial Caminho, 2001 Festas Felizes
    7. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 NATAL 7 Natal Chinês Por Maria Ondina Braga * Com um sorriso meio complacente traduzia em inglês para a senhora Tung, sim, mas racionalmente, atraindo a von- meio contrariado, a irmã Chen-Mou que achava isto enternecedor e gratifi- tade do homem à da sua companheira e A senhora Tung chegava dois dias desconversava, passando a bandeja dos cava a velha generosamente. exaltando essa atracção. Como o Céu antes da consoada. Costumava vê-la logo bolos à superiora, que separava uns tan- Quando por fim atravessávamos a alagando a Terra na estação própria. de manhã, com a irmã jardineira, no tos para o convento. Os restantes comê- cerca a caminho de casa, sob uma lua Retomávamos a marcha em direcção pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs los-íamos nós, ao fim da Missa do Galo, branca, espantada, anunciadora do aos nossos aposentos. Difícil para mim nos vasos de loiça. Via-a casualmente a com chocolate quente. Inverno para a madrugada, a senhora responder às dúvidas da senhora Tung, contemplar, embevecida, o presépio do O chocolate era a esperada surpresa Tung abria-se em confidências. nem ela parecia esperar resposta. Mu- convento. Encontrava-a por fim à mesa. da directora. A senhora Tung chamava- A menina sabia... ? a «menina» era a dava, rápida, de assunto, aludindo ao A senhora Tung viajava todos os anos lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No irmã Chen-Mou, a subdirectora do colé- tempo, à viagem de regresso, às saboro- da Formosa para Macau, na época do fim das três missas vinham outra vez as gio ?, sabia que ela continuava a vene- sas guloseimas da criada macaísta. Natal, a fim de festejar o nascimento de três freiras ao refeitório do colégio para rar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se Já em casa, convidava-me a ir ver o Cristo na companhia da sua primogéni- trocarem connosco o beijo da paz e nos de uma pequena divindade, toda nua e seu presépio. O quarto cheirava forte- ta, a irmã Chen-Mou. oferecerem a tigela fumegante do cho- toda de oiro. Fora ela quem lhe dera fil- mente a incenso. Em cima da cómoda, Nesses dias, com as meninas em colate. Vinham e partiam logo (tarde hos. Estéril durante sete anos, a senhora entre flores, lá estava o Menino Jesus, férias, o refeitório do colégio parecia demais para se demorarem), e Miss Lu, Tung recorrera à sua intercessão divina de cabaia de seda encarnada, sapatinhos maior e mais desconfortável: só eu e fanática terceira-franciscana, sempre quando o marido já se preparava para de veludo preto, feições chinesas. Miss Lu nos sentávamos à mesa com- atenta aos passos das monjas, sorvia à receber nova esposa. Não podia portan- Depois, timidamente, a senhora Tung prida das professoras. Daí a presença da pressa o líquido escaldante, como quem to deixar de a amar. Toda a felicidade abria a gaveta... e surgia a deusa. senhora Tung, que noutra ocasião pas- cumprisse um dever, e saía atrás delas. lhe provinha daí, dessa afortunada hora O Menino Jesus era de marfim. A saria talvez despercebida (estirada a Ficávamos, assim, a senhora Tung e em que a deusa a escutara. Deusa da Fecundidade era de oiro. O sala entre pátios de cimento e plantas eu, uma em frente da outra. À luz das Parava a meio do largo átrio enluara- Menino, de pé, de um palmo de altura, verdes), se tornar nessa altura notável. trajando ricamente. A deusa, sentada, Baixa, seca de carnes, de olhos aten- pequenina, nua. ciosos, pensativos, a senhora Tung sor- Os olhos da senhora Tung atentavam ria constantemente, falava inglês, gosta- nos meus, como se à procura de com- va de comer, de fumar, de jogar ma- preensão, mas as suas palavras prontas jong. As criadas cortejavam-na nos cor- (a deter as minhas?) eram de autocensu- redores, preparavam-lhe pratos especi- ra. Não, não devia fazer aquilo. A filha ais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de asseverara que o Menino Jesus entriste- ser mãe da subdirectora, tinha fama de cia, em cima da cómoda, por causa da rica e distribuía moedas de prata a todo deusa, na gaveta. E quem sabia mais do o pessoal na noite de festa. que a filha? Nessa noite assistiam três freiras ao Eu já sentia frio, apesar da aguarden- nosso jantar (a regra não lhes permitia te de arroz. O Inverno, ali, chegava de comer connosco): a directora, a subdi- repente. A senhora Tung, no entanto, rectora e a mestra dos estudos. E muito tinha as mãos quentes e as faces afo- empertigada, segurando com ambas as gueadas. mãos um tabuleiro de laca coberto com Despedíamo-nos. Eu sempre me ape- um pano de seda, a senhora Tung rece- tecia dizer-lhe que estivesse sossegada, bia-as à porta do refeitório, entregando que de certeza o Menino Jesus não ha- cerimoniosamente o presente à filha, via de se entristecer, em cima da cómo- que por sua vez o oferecia à directora. da, por causa da deusa, na gaveta. Mas Eram bolos de farinha fina de arroz nunca lho disse nos três anos que passei amassada com óleo de sésamo. Toda de o Natal com ela. Palpitava-me que a “Adoração dos Magos” Domingos António de Sequeira, 1768-1837, Colecção Particular vermelho, de sapatos bordados e gan- senhora Tung se enervava com o assun- chos de jade no cabelo, a senhora Tung, to. E que, de qualquer jeito, não me quando a superiora colocava o tabuleiro velas olorosas do centro de mesa, os do, de olhar meditabundo, mãos cruza- acreditaria. dos bolos na mesa, dobrava-se quase até seus olhos eram dois riscos tremulantes. das no colo. E as palavras saíam-lhe ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao lentas e soltas, como se falasse sozinha. In “ A China Fica ao Lado”, pátios, à porta da cozinha, as criadas fundo da sala apartava-se. Uma das cri- ... E aquele mistério da virgindade de Lisboa, Panorama, 1968 espreitavam, curiosas. adas entrava, silenciosa. Servia-se Nossa Senhora! Virgem e mãe ao Nem no primeiro, nem no segundo, vinho de arroz. mesmo tempo... Não se lia no Génesis: (Maria Ondina Braga nasceu em 1932, em nem no terceiro Natal que passei em Creio que o vinho de arroz figurava «O homem deixará o pai e a mãe para se Braga. Deixou esta cidade nos anos 50. Em Macau, a senhora Tung era cristã, mas entre as bebidas proibidas no colégio e unir a sua mulher e os dois serão uma só Paris, cursou a Alliance Française e em Londres todos os anos se nomeava catecúmena. A que chegava ali por portas travessas. O carne?» Não era essa a lei do Senhor? a Royal Society of Arts. Viajou, aprendeu e ensi- seguir ao jantar falava-se nisso. A direc- certo, contudo, é que ambas o bebía- Por quê então a Mãe de Cristo diferente nou. Foi professora do ensino secundário em Luanda, Goa e Macau, desenvolvendo também tora, uma francesa de mãos engelhadas mos, a acompanhar os bolos de sésamo, das outras, num mundo de homens e de actividade no domínio da tradução. De todas que noutros tempos frequentara a no grande e deserto refeitório, na noite mulheres onde o Filho havia de vir pre- estas viagens resultaram páginas de escrita onde Universidade de Pequim, perguntava em de Natal. gar o amor? A Deusa da Fecundidade, se combinam memória, conto, novela, romance e chinês formal quando era o baptizado. O vinho de arroz queimava-me a gar- patrona dos lares, operava milagres, crónica, sem nunca esquecer as raízes minhotas). Inclinando a cabeça para o peito, a ganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. senhora Tung balbuciava, indicando a Quanto à senhora Tung, saboreava-o irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. devagar, molhando nele o bolo, e, como Talvez se pudesse chamar cristã pelo mal provara o «chá de Paris», bebia espírito, mas o coração atraiçoava-a. O dois cálices. coração continuava apegado a antigas Entretanto, Aldegundes, a criada devoções... Todavia, vestira-se de gala macaense mais antiga do colégio, apa- para a festividade da meia-noite, tinha no recia com as especialidades da terra: Deseja-lhe Festas Felizes quarto o Menino Jesus cercado de flores, aluares, fartes e coscorões, dizendo que e a alma transbordava-lhe de alegria aluá era o colchão do Minino Jesus, como se cristã verdadeiramente fosse. farte almofada, coscorão lençol. E eu
    8. 8 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 Ao Menino Deus em metáfora O Natal Eça de Queirós * douradas, ondei- am os dísticos de doce tradicionais – Romance O Natal, a grande festa doméstica da Merry Chris- Inglaterra, foi este ano triste – dessa tmas! Mer- – Quem quer fruta doce? – Mostre lá! Que é isso? tristeza particular que oferece, por um ry Christ- – É doce coberto; dia de calma ardente, a praça deserta de mas! alegre É manjar divino. uma vila pobre... natal! ale- – Vejamos o doce; O que nos estragou o Natal, não gre natal! e Compraremos todo, foram decerto as preocupações políti- o mesmo Se for todo rico. cas, apesar da sua negrura de borrasca. grito se re- – Venha ao portal logo; Nem a rebelião do Transval em que os pete nos Verá que não minto, Boers debutaram por exterminar o 94 shake-hands Pois de várias sortes de linha, um dos mais experimentados e que se dão ao É doce infinito. gloriosos regimentos da Inglaterra e que hóspede. – Desculpa, minha alma. ameaça ensanguentar toda a África do Sob a cha- Mas ah! Que diviso?! miné estala e dança Sul numa guerra de raças; nem a situa- Envolto em mantilhas, ção da Irlanda, que já não é governada a grande fogueira Um Infante lindo! – Pois de que se admira, pela Inglaterra, mas pelo comité revolu- do Natal: a sua luz Quando este Menino cionário da Liga Agrária – seriam inqui- rica faz parecer de ouro os cabelos É doce coberto, etações suficientes para tirar o sabor louros, e de prata as barbas brancas. É manjar divino? tradicional ao, plum-pudding do Natal. Tudo está enfeitado como numa – Diga o como é doce, As desgraças públicas nunca impedem Páscoa sagrada: dos retratos dos avós Que ignoro o prodígio. que os cidadãos jantem com apetite: e pendem ramos de flores de Inverno, – Não sabe o mistério? misérias da pátria, enquanto não são as flores da neve, e todas as pratas da “Santo Claus” Ora vá ouvindo: tangíveis e senão apresentam, sob a casa cintilam sobre os aparadores, de acordo com Muito antes de Santa Ana, forma flamejante de obuses rebentando, numa solenidade patriarcal. Dos o Harper’s Bazar Teve este doce princípio, inuma cidade sitiada, não tirarão jamais grandes lustres balança- de Dezembro Porque já do Salvador de1867 o sono ao patriota. se o ramo simbólico do Se davam muitos indícios. Não; o que estragou o Natal, foi sim- mistletoe, o ramo do amor Mas na Anunciada dizem plesmente a falta de neve. Um Natal doméstico: e ai das se- Que houve mais expresso aviso, E logo na Encarnação como este que passámos, com um sol de nhoras que um momento pa- Se entrou por modo divino. uma palidez de convalescente, deslizan- rarem sob a sua ramagem! Quem assim Esteve pois na Esperança do timidamente sobre uma imensa peça as surpreender tem direito a beijá-las Mas destas personagens que aparecem Muitos tempos escondido; de seda azul desbotada, um Natal sem num grande abraço! Também, que vol- pelas consoadas, o meu predilecto é Father Saiu da Madre de Deus, neve, um Natal sem casacos de peles, tas sábias, que estratégia complicada, Christmas – o papá Natal. depois às Claras foi visto. parece tão insípido e tão desconsolado para evitar o ramo fatídico! Mas, pobres Esse, porém, só pode ser admirado em Fazem dele estimação como seria em Portugal a noite de S. anjos! ou se enganam ou se assustam, e toda a sua glória, quando se abre a sala da As freiras com tal capricho, João, noite de fogueiras e descantes, se a cada momento é sob o mistletoe um ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao Que apuram para este doce houvesse no chão três palmos de neve e grito, um beijo, dois abraços que pren- centro da mesa – que lhe põe em torno, Todos os cinco sentidos. caísse por cima o granizo até de madru- dem uma cinta fugitiva... com os cristais e os pratos, um amável bri- Afirmam que no Calvário gada! Um desapontamento nacional! E o piano não se cala nestas noites! É lho da auréola caseira. Bem-vindo, papá Terá seu termo finito, Para compreender bem o encanto da alguma velha canção inglesa, em que se Natal! Boas noites, papá Natal! Sendo que no Sacramento neve deste famoso Natal inglês, basta fala de torneios e cavaleiros, ou uma O respeitável ancião, com o seu capuz Há-de ter novo artifício. Que seja doce este Infante, examinar alguma das pinturas, gravuras dança da Escócia, que se baila, com o até aos olhos, todo salpicado de neve, as A razão o está pedindo, ou oleografias, que o têm popularizado. gentil cerimonial do passado. mãos escondidas nas largas mangas de Porque é certo que é morgado, O assunto não varia na paisagem re- E por corredores e salas, as crianças, frade, o olho maganão e jovial, esgarça a Sendo unigénito Filho! petida: é sempre a mesma entrada dum os bebés, com os cabelos ao vento, vesti- boca num riso de felicidade sem-fim, e as Exposto ao rigor do tempo, parque, de aparência feudal, por véspe- dos de branco e cor-de-rosa, correm, can- suas enormes barbas de algodão pendem- Quando tirita nuzinho, ras do Natal, antes da meia-noite; o céu tam, riem, vão a cada momento espreitar lhe até aos pés. Um caramelo parece pesado de neve suspensa parece uma, os ponteiros do relógio monumental, por- Todas as crianças o querem abraçar, e Pelo branco e pelo frio. gaza suja: e a perder de vista tudo está que à meia-noite chega Santo Claus, o ele não se recusa, porque é indulgente. Tão doce é que, porque farte coberto da neve caída, uma neve bran- venerável Santo Claus que tem três mil E quanto mais a ceia se anima, mais o Ao pecador mais faminto, ca, fofa, alta, que faz nos campos um anos de idade e um coração de pomba, e seu patriarcal riso se escancara; as boche- Será de pão com espécies, grande silêncio. Junto à grade do par- que já a essa hora vem caminhando pela chas reluzem-lhe de escarlates, as barbas Substancial doce divino. que, uma mulher e duas crianças, ataba- neve da estrada, rindo com os seus velhos parecem crescer-lhe, e ali está, bonacheirão É manjar tão soberano, fadas nos seus farrapos, com lampiões botões, apoiado ao seu cajado, e com os e venerável, com a importância de um Regalo tão peregrino, Que os espíritos levanta, na mão, vão cantando as loas; e ao alforges cheios de bonecos. Amável Deus tutelar e amado, como a encarnação Tornando aos mortos vivos. fundo, entre as ramagens despidas, Santo Claus! Por um tempo tão frio, sacramental da alegria doméstica. Tão delicioso bocado ergue-se o maciço castelo, com as jane- naquela idade deixar a cabana de algodão E no entanto fora, na neve, as pobres cri- Será de gosto infinito, las flamejando, abrasadas da grande luz que ele habita no país da Legenda, e vir anças cantam as loas: e com vigor as can- Manjar real, verdadeiro, de dentro e da alegria que as habita. por sobre ondas do mar e ramagens de tam! É que elas sabem que não serão Manjar branco, parecido! E toda a poesia do Natal está justa- florestas trazer a estes bebés o seu natal! esquecidas: e que daqui a pouco a grade se Que é manjar dos Anjos, dizem mente nessas janelas resplandecendo na Também, como eles o adoram, o bom abrirá, e virá um criado, vergando ao peso Talentos mui fidedignos, noite nevada. Claus! E apenas ele chegar, como corre- de toda a sorte de coisas boas, peças de Por ser pão de ló, que aos Anjos Felizes aqueles para quem essas por- rão todos, em triunfo, a puxá-lo para o carne, empadas, vinho, queijos – e mesmo Foi em figura oferecido tas difíceis se abrem! Logo ao entrar na pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas bonecas para os pequenos; porque Santo Jerónimo Baía antecâmara os tectos, as ombreiras, os mãos regeladas, e oferecer-lhe uma taça Claus é um democrata, e, se enche os seus (Frade beneditino e professor, espaldares das cadeiras, os troféus de de prata cheia de hidromel quente - que alforges para os ricos, gosta sobretudo de nascido em Coimbra em 1620 caça, aparecem adornados das verduras ele bebe dum trago, o glutão! Depois os ver esvaziados no regaço dos pobres. e falecido em Viana do Castelo em 1688, do Natal, das ramagens sagradas do car- abrem-se-lhe os alforges. Quantas Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a pregador na corte de D. Afonso VI) valho céltico; e pelas paredes, em letras maravilhas!... neve, e fica estragado. O Natal com uma
    9. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 NATAL 9 lua cor de manteiga a bater numa terra tépi- balhadores de Leicester estarão de novo a da de Primavera, torna-se apenas uma data no calendário. O lume não tem poesia ínti- sofrer a fome e o frio – e o filho do duque de Leicester, duque ele mesmo então, vol- Litania para este Natal (1967) ma; não há loas; Santo Claus não vem; o tará a arrecadar os seus quatrocentos con- Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto papá Natal parece um boneco insípido; não tos por ano. Num sótão num porão numa cave inundada se colhe o mistletoe. Não há mesmo a ale- Não é possível mudar. O esforço huma- Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto gria de abrir a janela, e pôr no rebordo, no consegue, quando muito, converter um Dentro de um foguetão reduzido a sucata dentro duma malga, a ceia de migalhas do proletariado faminto numa burguesia farta; Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto Natal para os pardais e para os outros pas- mas surge logo das entranhas da sociedade Numa casa de Hanói ontem bombardeada sarinhos, que tanta fome sofrem pelas um proletariado pior. Jesus tinha razão: Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto neves. Enfim não há Natal! Foi o que suce- haverá sempre pobres entre nós. Donde se Num presépio de lama e de sangue e de cisco deu este ano... prova que esta humanidade é o maior erro Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto Resta a consolação de que os pobres que jamais Deus cometeu. Para ter amanhã a suspeita que existe tiveram menos frio. E isto é o essencial; Aqui estamos sobre este globo há doze Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto pensando bem, se nas cabanas houve mais mil anos a girar fastidiosamente em torno Tem no ano dois mil a idade de Cristo algum conforto, e se se não tiritou toda a do Sol, e sem adiantar um metro na famo- Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto noite entre quatro farrapos, é perfeitamen- sa estrada do progresso e da perfectibilida- Vê-lo-emos depois de chicote no templo te indiferente que nos castelos as damas de: porque só algum ingénuo de província Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto bocejassem. é que ainda considera progresso a invenção E anda já um terror no látego do vento Nem eu sei realmente como a ceia faus- ociosa desses bonecos pueris que se cha- Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto tosa possa saber bem, como o lume do mam máquinas, engenhos, locomotivas, Para nos vir pedir contas do nosso tempo salão chegue a aquecer – quando se consi- etc., e essas prosas laboriosas e difusas que David Mourão-Ferreira, Lira de Bolso dere que lá fora há quem regele, e quem se denominam sistemas sociais. rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois Nos dois ou três primeiros mil anos de dias. É justamente nestas horas de festa existência trepámos a uma certa altura de íntima, quando pára por um momento o civilização; mas depois temos vindo rolan- Dia de Natal furioso galope do nosso egoísmo – que a do para baixo numa cambalhota secular. alma se abre a sentimentos melhores de O tipo secular e doméstico de uma Hoje é dia de ser bom. fraternidade e de simpatia universal, e que aldeia Ária do Himalaia, tal como uma dia de passar a mão pelo rosto das crianças, a consciência da miséria em que se deba- vetusta tradição o tem trazido até nós, é de falar e de ouvir com mavioso tom, tem tantos milhares de criaturas, volta com infinitamente mais perfeito que o nosso de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. uma amargura maior. Basta então ver uma organismo doméstico e social. Já não falo pobre criança, pasmada diante da vitrine de de gregos e romanos: ninguém hoje tem É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, uma loja, e com os olhos em lágrimas para bastante génio para compor um coro de de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, uma boneca de pataco, que ela nunca Ésquilo ou uma página de Virgílio; como de perdoar os nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. poderá apertar nos seus miseráveis braços escultura e arquitectura, somos grotescos; – para que se chegue à fácil conclusão que nenhum milionário é capaz de jantar como Comove tanta fraternidade universal. isto é um mundo abominável. Deste senti- Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, mento nascem algumas caridades de mais ideias superiores num só dia do que como se de anjos fosse, Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo nós inventámos num século; os nossos numa toada doce, parte à desfilada, ninguém torna a pensar exércitos fazem rir, comparados às legiões de violas e banjos, mais nos pobres, a não ser alguns revoluci- de Germânicos; não há nada equiparável à entoa gravemente um hino ao Criador. onários endurecidos, dignos do cárcere e a administração romana; o boulevard é uma E mal se extinguem os clamores plangenes, miséria continua a gemer ao seu canto! viela suja ao lado da Via Ápia; nem uma a voz do locutor Os filósofos afirmam que isto há-de ser Aspásia temos; nunca ninguém tornou a anuncia o melhor dos detergentes. sempre assim: o mais nobre de entre eles, falar como Demóstenes: – e o servo, o Jesus, cujo nascimento estamos exacta- escravo, essa miséria da antiguidade, não De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu mente celebrando, ameaçou-nos, numa era mais desgraçado que o proletário E as vozes crescem num fervor patético. palavra imortal, que teríamos sempre moderno. (Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? pobres entre nós. Tem-se procurado com De facto, pode-se dizer que o homem Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) revoluções sucessivas fazer falhar esta nem sequer é superior ao seu venerável pai sinistra profecia – mas as revoluções pas- – o macaco; excepto em duas coisas teme- Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. sam e os pobres ficam. rosas – o sofrimento moral e o sofrimento Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante. Neste momento, por exemplo, na social. Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas Irlanda, os trabalhadores, ou antes os ser- Deus tem só uma medida a tomar com E fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante. vos do ducado de Leicester estão morren- esta humanidade inútil: afogá-la num dilú- do de fome, e o duque de Leicester está vio. Mas afogá-la toda, sem repetir a fatal Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, retirando anualmente, do trabalho duro que indulgência que o levou a poupar Noé; se Com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, eles fazem, quatrocentos contos de réis de não fosse o egoísmo senil desse patriarca Cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, renda! É verdade que a Irlanda está em borracho, que queria continuar a viver, As belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. revolta; é verdade que, se o duque de para continuar a beber, nós hoje gozaría- Leicester se arriscasse a visitar o seu duca- mos a felicidade inefável de não sermos... Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, do de Irlanda, receberia, sem tardar, quatro * Esta crónica de Eça de Queirós foi publicada Ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. lindas balas no crânio. na “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, no É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito, E o resultado? Daqui a vinte anos os tra- final de 1880 António Gedeão Cova Funda Junta de Freguesia de Assafarge RESTAURANTE - CAFÉ - CERVEJARIA Deseja a toda a população e aos seus munícipes em particular Feliz Natal e próspero Ano de 2007 Deseja-vo s “ESPANHOL” Festas Fe lizes Largo da Igreja - Telef. 239 438 801 - Fax: 239 437 836 - 3040-657 Coimbra Rua da Sofia, 117 - Coimbra - Telef. 239 825 195
    10. 10 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 EDITADA PELA LUSATENAS Medalha assinala Natal de 2006 Cumprindo uma tradição de há muitos anos, a Jorge Coelho, a medalha tem um módulo de Como é hábito, a Medalha de Natal vem Medalhística LUSATENAS acaba de lançar 90 mm e está cunhada em bronze – ou seja, é acompanhada de um texto alusivo à quadra, mais uma bela obra de arte, que bem pode uma oferta que perdurará pela vida fora, ainda da autoria do padre A. Jesus Ramos, Professor constituir uma excelente alternativa para pren- por cima a um preço acessível (está à venda de História da Igreja. das natalícias. Trata-se de uma Medalha alusi- nos locais habituais, que poderão ser dados a É esse texto que a seguir reproduzimos, com va ao Natal de 2006. Da autoria do escultor conhecer através do telemóvel 917 610 716). a devida vénia: Natal: a grande festa da fraternidade universal O apóstolo S. João, logo no início do Mesmo sem, muitas vezes, nos aper- seu Evangelho, proclama que o Verbo cebermos da dimensão e da profundi- de Deus, “a luz verdadeira que ilumina dade deste mistério da vinda do Filho todo o homem que vem a este mundo, de Deus à cidade dos homens, todos fez-se carne e habitou entre nós” (Cfr. o celebramos, servindo-nos dos mais Jo.1, 9-14). Este acontecimento, que todos os anos celebramos no Dia de Natal, foi o mais importante de toda a história da humanidade. De facto, descendo ao meio dos homens, o Filho de Deus, ger- ado no seio da Virgem Maria, torna-se um de nós e intro- duz-nos na es- fera do divi- dos no- no. Com o vos meios nascimento de comunicação de Jesus Cris- têm sentido diferen- to a história te? E as prendas, essas da humanida- diversos meios. Por- pequenas coisas que nos oferecemos de ganha um que o Natal é uma nesta quadra, não significam, também novo rumo, dei- verdadeira festa da hu- elas, este impulso em festejarmos o xa de ser limita- manidade que se sente maior acontecimento da história hu- da pelo tempo e renovada em Jesus da mana? pelo espaço, adqui- Nazaré. Não nos admira, Esta não é apenas uma celebração rindo a dimensão da pois, que nesta quadra se religiosa, no sentido mais comum do plenitude, porque “Ele multipliquem os gestos de fra- termo, mas uma celebração humana, vem restaurar todas as ternidade e de partilha. Uma festa que adquire o seu inteiro sentido neste coisas que há na terra” (Cfr. não tem sentido se aquele que a faz reconhecimento que, aos poucos, a Ef. 1, 10), de tal modo que será estiver sozinho, isolado, olhando ape- humanidade vai fazendo da dignidade tudo em todos. nas para dentro de si. A verdadeira festa de todos presente em cada um, sem exige abertura àqueles que caminham exclusão de ninguém por razão alguma, ao nosso lado, todos com os olhos pos- nem de raça, nem de credo, nem de tos na mesma direcção. Que outra coisa opção de vida. O Natal, comemorando António Reis & Marques, Lda. significavam, até há poucos anos, as o nascimento de Cristo, o restaurador da dezenas de cartões de “boas festas” que humanidade, é verdadeiramente a festa Execução de todo o tipo de calçadas enviávamos uns aos outros, a não ser da fraternidade universal! Nem outro esta necessidade interior de abertura aos sentido tem a mensagem do Anjo que, – Deseja-lhe Festas Felizes – que connosco partilham a condição da grande família humana? E, nos nossos de novo, desce das alturas para desejar “paz na terra aos homens que Deus Rua da Igreja, 19 - Telef. 969 288 893 - 3025-501 - S. Martinho de Árvore dias, as centenas de mensagens através ama” (Cfr. Lc, 2, 14).
    11. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 NATAL 11 Maquete do futuro Conservatório de Música CONSERVATÓRIO OFERECE PRENDA À CIDADE Música vai invadir Coimbra O Conservatório de Música de Coim- oportunidade para unir a cidade numa E é perante esta realidade que surge a música digno das ambições de Coim- bra vai oferecer uma prenda de Natal à causa de consenso inatacável e cujo interessante oferta à cidade: bra. O que se propõe para 15 e 16 de cidade nos próximos dias 15 e 16 (sex- resultado positivo só pode redundar no “As associações de pais e de estudan- Dezembro é uma prenda de Natal do ta-feira e sábado). reforço da auto-estima para o Con- tes e representantes dos órgãos da esco- Conservatório para a cidade”. Assim, depois de amanhã (sexta-fei- servatório e para Coimbra”. la, realçando, pela positiva, a recente E concluem: ra), a Baixa de Coimbra será animada garantia de avanço do projecto por parte “Para os conimbricenses, será a opor- por alunos e professores do Conser- EMBORA do Ministério da Educação, vão agora tunidade de observar uma pequena vatório, e ainda de outros músicos, empenhar-se numa campanha assertiva montra da vasta incidência pedagógica naquilo que deverá ser “uma proposta de reforço da imagem positiva da insti- de uma escola artística de que depende COM PROJECTO APROVADO de novos rituais natalícios que ajudem a tuição e de sensibilização para a impor- a qualidade do ensino da música na CONSERVATÓRIO FUNCIONA honrar o espírito da quadra e a dinami- tância de um tecto para a dança e a região”. EM MÁS CONDIÇÕES zar o património monumental e o E a que se deve esta inesperada pren- pequeno comércio” – como refere a Co- da, que promete assumir-se como um missão de Pais dos Alunos do acontecimento inédito em Coimbra, em Conservatório. Esta intervenção conta termos de animação musical da cidade? com o apoio da Câmara Municipal de A resposta é dada pelos responsáveis Coimbra e da Comissão de Festas da por esta curiosa inicitiva: Cidade. “O estudo do projecto de arquitectu- No sábado, será a vez de uma interven- ra do novo Conservatório de Coimbra já ção no Centro Comercial “Dolce Vita”. foi aprovado. Não estamos seguros, De acordo com a citada Comissão, todavia, de haver uma calendarização “procurou-se um centro cultural por um clara do início e sequência de uma obra O Presidente da Câmara Municipal de Coimbra deseja a todos, particularmente àqueles que vivem em situação de privação ou sofrimento, um Santo Natal vivido em solidária comunhão e formula votos de um Ano Novo mais feliz. dia, um auditório para o Conservatório. por que esta cidade da cultura espera há A escolha do Dolce Vita garantiu um mais de 20 anos. Em 2003 um alto res- espaço frequentado e livre de intempé- ponsável afirmava à imprensa que a ries, um exercício pedagógico de adap- Casa da Música de Coimbra estaria tação de reportórios e um parceiro sen- pronta em 2007. Agora, uma perspecti- sível à dignidade do projecto e da insti- va optimista aponta para mais 4 ou 5 tuição em causa”. anos. O último improviso empurrou o E os membros da Comissão acres- Conservatório para uma difícil coabita- O Presidente da Câmara Municipal de Coimbra centam: ção com uma escola secundária da peri- “Para uma e outra datas, a fórmula feria, onde se dividiram com tabiques Carlos Encarnação que se propõe é a de uma participação algumas salas para caber o mais possí- maciça de músicos, estudantes e profes- vel. Não há auditório. Não há condições sores, bem como de outros músicos pedagógicas mínimas. Os ensaios da solidários com o projecto. Esta é uma orquestra funcionam no bar”.
    12. 12 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 Natal Natal Natal... Na província neva. Outro natal, Nos lares aconchegados, Outra comprida noite Um sentimento conserva De consoada Os sentimentos passados. Fria, Vazia, Coração oposto ao mundo, Bonita só de ser imaginada. Como a família é verdade! Que fique dela, ao menos, Meu pensamento é profundo, Mais um poema breve Estou só e sonho saudade. Recitado Pela neve E como é branca de graça A cair, ao de leve, A paisagem que não sei, No telhado. Vista de trás da vidraça Do lar que nunca terei! Miguel Torga, Antologia Poética Fernando Pessoa (Notícias Ilustrado, nº 29, 30 de Dezembro de 1928) Pai Natal Pai Natal, vem, por favor! Natal Traz zincos p’rás escolas, Traz giz, traz quadros, Hoje é dia de Natal. Cadernos, lápis e livros! O jornal fala dos pobres raz carteiras e armários, em letras grandes e pretas, E professores e alegria! traz versos e historietas e desenhos bonitinhos, Pai Natal, vem, por favor! e traz retratos também Traz a chuva e verdura, dos bodos, bodos e bodos, E frutas, milho e arroz em casa de gente bem. Nos campos dos nossos pais! Hoje é dia de Natal. Harmonia entre os adultos, - Mas quando será de todos? “Natividade” P’ra nós, a certeza da paz Vasco Fernandes (Grão Vasco), activo entre 1501 e 1540 Sidónio Muralha Xanana Gusmão
    13. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 PUBLICIDADE 13
    14. 14 A PÁGINA DO MÁRIO www.apaginadomario.blogspot.com apaginadomario@gmail.com DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 neo, a lutar com o mesmo vigor, na As- sembleia da República, contra a co- -incineração de resíduos industriais Nunes Pereira: o “meu padre” perigosos que o Governo quer “atirar” Não é fácil – mas, ao mesmo tem- para o concelho de Coimbra. po, não é difícil – escrever sobre o (publicado no blogue padre Augusto Nunes Pereira. em 28 de Novembro) Não é difícil porque vivi largos Mário Martins anos na pobre paróquia de que era responsável, a de S. Bartolomeu, em “No preciso momento em que por todo Coimbra. Conheci-o bem e ele tam- FRASES Acaba de ruir o prédio que se encon- PRÉDIO RUIU trava em estado crítico na zona da o mundo se procura ligar cada vez mais as bém me conhecia. Foi ele que me Portagem. A Baixa (nunca houve, nem populações ao seu representante, indivi- baptizou, deu a primeira comunhão, nunca haverá “baixinha”...) está velha. dualizando, responsabilizando, discutin- presidiu à celebração da “profissão A cair. do os círculos uninominais, o directório de fé”, esteve presente no Crisma e, Que tristeza. dos comunistas portugueses revela-nos mais tarde, teve a gentileza de se des- (publicado no blogue que encara as pessoas, mesmo os ‘cama- locar a Castanheira de Pêra, do em 1 de Dezembro) radas’, como meros instrumentos, descar- “outro lado” da serra da Lousã, para táveis, ao serviço da acção do partido”. estar no meu casamento. No plano *** afectivo, era uma pessoa da família. “Curiosamente, este é o mesmo par- Foi ele, também, o primeiro chefe MEIO SÉCULO tido que denunciava a sucessão de de Redacção que conheci, no cubícu- DE EUROPA UNIDA Durão Barroso por Santana Lopes com lo apertado onde se delineava o o argumento de que lhe faltava a legiti- “Correio de Coimbra” – ele, o cóne- Ou lembrar as tertúlias, em que mação do voto popular”. go Urbano Duarte e a escritora Maria nunca participei, n’“A Brasileira”, *** Espiñal foram os meus primeiros também ali ao lado, que olhava des- “O PCP afirma-se contra uma gera- “modelos vivos” de jornalista. lumbrado da porta do café. Ou a dis- ção de recibos verdes, no mundo do tra- Por tudo isto, é muito fácil escre- tribuição de leite e queijo oferecidos balho, mas é, ao mesmo tempo, e pela ver sobre o padre Nunes Pereira – e por Cáritas internacionais, que ele e prática, a favor dos políticos cobardes, permitam-me que assim o refira, por- a irmã, a D. Maria Adelaide, distri- Este foi o logótipo escolhido para assi- medíocres, que tudo façam para mere- que foram estes os vocábulos que buíam nos anos 60 pela gente mais nalar os 50 anos do Tratado de Roma. cer a ‘confiança’ do partido não pou- mais utilizei para comunicar com carenciada da paróquia – quase O autor, o polaco Szymon Skrzypc- pando nas doenças da coluna”. ele. (Nos últimos anos, quando o en- todos. zak (na foto), 23 anos, estudante da *** contrava, tratava-o por monsenhor, Tantas, tantas recordações... Co- Academia de Belas Artes de Poznan, “Alguém me explica o que separa, mas achei sempre que era uma pala- mo a daquela manhã de sábado, já recebeu um prémio de 6.000 euros. afinal, o simpático camarada Jerónimo vra que não se coadunava com a sua ele vivia na casa de madeira pré- Os 10 logótipos finalistas estão em de Sousa do capitalista mais brutal? Eu personalidade. Monsenhor parece -fabricada, junto à ponte da Portela, http://ec.europa.eu/avservices/50/ não vejo diferença”. transmitir um certo “estatuto” de em que alguns amigos lhe foram index_en.cfm (João Marcelino, in “Sábado”; diferença – e o padre Nunes Pereira levar um gravador de vídeo, compra- (publicado no blogue publicado no blogue foi sempre um homem simples e do entre todos, para que pudesse em 30 de Novembro) em 1 de Dezembro) humilde, pobre entre os pobres, igno- registar o programa/entrevista que rado entre os ignorados da vida.) nessa tarde a RTP2 iria transmitir. Estive com ele menos de uma A minha equipa venceu a Naval, na semana antes de morrer. Não sei ainda VITÓRIA NA FIGUEIRA DA FOZ “Quando o manobrismo se instala no POLÍTICOS seio da democracia, percebemos que é Figueira da Foz, por 3-1. hoje porquê, naquela tarde de sábado urgente repensar o sistema político, as Ao intervalo, a Académica já vencia decidi pegar no carro e ir a Mon- responsabilidades individuais e a forma por 2-1, depois da Naval se ter coloca- temor-o-Velho, assistir à inauguração de participação. Assim, caminhamos para do em vantagem logo no 1.º minuto, da exposição de trabalhos do padre o abismo. Para que o poder seja servido num lance de passividade defensiva e Nunes Pereira. Foi a última. E tam- por uma legião de serventuários, acéfalos, de infelicidade do guarda-redes. bém ainda hoje não consigo explicar a mesquinhos e medíocres cuja política é Os golos da minha equipa foram mar- “febre” que senti e que me levou na do tamanho do seu umbigo. Vamos mal. cados por Flávio (25 minutos), Rodrigo altura a tirar umas boas dezenas de E não se enxerga luz ao fundo do túnel”. (31 minutos) e Rodolfo (64 minutos). fotografias. São as últimas. (Francisco Moita Flores, Em termos gerais, a Académica osci- Não seria difícil lembrar tantos ontem, no “Correio da Manhã”, lou no primeiro quarto de hora. No outros episódios. Mas a verdade é a propósito da rotação de deputados entanto, depois de ter chegado à igual- que continua a ser muito difícil do PCP na Assembleia da República; dade passou a existir apenas uma equi- escrever sobre o padre Nunes Pereira publicado no blogue pa em campo: a de Coimbra. e recordar que ficou por cumprir um em 29 de Novembro) Com a efeito, a partir do 1-1 e até ao pedido que tantas vezes fez: intervalo, a minha equipa voltou a exi- “Quando é que vamos a Fajão, para bir-se ao melhor nível. Adivinhava-se a conheceres a casa-museu?”. – Um vantagem e ela chegou mesmo ainda VICTOR BAPTISTA, dia destes, padre Nunes Pereira – Acabo de ouvir na TSF o deputado antes do descanso. DEPUTADO SOCIALISTA respondia-lhe mecanicamente, con- Victor Baptista a discursar na Assem- Na 2.ª parte, a Académica continuou a vencido que, mais dia menos dia, A última exposição bleia da República, a defender com vi- mandar no jogo, embora com menor bri- Não é difícil escrever sobre o faríamos a viagem. Ficou por fazer. gor o ministro das Finanças. “Indigna- lho exibicional. O resultado chegou a 3-1, padre Nunes Pereira. Poderia recor- Acompanha-me essa mágoa. díssimo”, afirmou o jornalista. mas só Rodolfo falhou um par de oportu- dar a azáfama tranquila com que pre- No entanto, a maior dificuldade Victor Baptista, deputado socialista, nidades flagrantes. Num destes lances, o parou a primeira exposição na gale- em escrever sobre o padre Augusto a defender um ministro socialista. E a avançado foi derrubado pelo guarda-redes ria de “O Primeiro de Janeiro”, a dois Nunes Pereira são estas lágrimas tei- usar palavras como “indigna”, “inacei- figueirense, mas o árbitro nada assinalou. passos da sua igreja. Ou recordar mosas que toldam a visão e dificul- tável” e “inadmissível” para classificar No próximo domingo, a Académica como justificou os valores tão baixos tam o encontrar das teclas. uma declaração de um deputado do recebe na Pedrulha o Boavista, com quem que atribuiu às peças que iria mos- PSD, que comparou o político portu- perdeu na 1.ª volta por 2-1. A jogar como o trar: “Não estás a ver? Estão assina- (texto publicado na edição de guês ao célebre ministro da Informação fez hoje nos minutos finais da 1.ª parte, a das ‘NP’. Sabes o que quer dizer?... Dezembro de 2006 do “Mensageiro de Saddam Hussein. minha equipa chegará certamente à vitória. Que não prestam!”. O excesso de de Santo António”; publicado no Como eu gostava de ver (neste caso, (publicado no blogue humildade. blogue em 3 de Dezembro de 2006) ouvir) Victor Baptista, meu conterrâ- em 10 de Dezembro)
    15. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 DESPORTO 15 JUDO TORNEIO E ESTÁGIO INTERNACIONAL DE MÚRCIA Judoca de Coimbra decidiu triunfo luso Jorge Fernandes, atleta do Judo Clube para a final, tendo sido a categoria de - bando por vencer a competição. O árbi- de Coimbra (JCC), contribuiu de forma 73 quilogramas a sorteada. tro espanhol teve de premiar a atitude decisiva para o 1.º lugar conquistado As duas selecções já se tinham encon- ofensiva do português, castigando o pela selecção masculina portuguesa no trado na poule, assim como Jorge judoca espanhol por falta de combativi- Torneio Internacional de Múrcia, em Fernandes e o espanhol mais forte da dade. Espanha, que ditou ainda a 3.ª posição categoria. Os confrontos foram sempre Após uma vitória com contornos da equipa feminina de Portugal. bastante renhidos, com o empate a vigo- raros, a comitiva portuguesa permane- O judoca conimbricense não perdeu rar nesta fase em dois combates. Um ceu em Espanha para participar no está- nenhum dos combates em que partici- resultado que se repetiu mais duas vezes gio. Os 15 judocas lusos aproveitaram a pou. Depois de terminarem empatados, no derradeiro e decisivo frente-a-frente. oportunidade para estar em contacto Portugal e Espanha tiveram de decidir A necessidade de recorrer ao ponto de com atletas de outros países e consolidar entre si o vencedor da competição. Foi, ouro surgiu e Jorge Fernandes não dei- a experiência internacional, que, em então, necessário definir um combate xou os créditos por mãos alheias, aca- alguns casos, já é muita. OPINIÃO Quem se lembra da Académica? Rebaixada e perdida, a Académica mais Carlos Carranca não faz do que dobrar-se diante dos agio- tas, extinguindo-se gradualmente na justa Perante o seu estado calamitoso – se- proporção dos credores que se agigantam. gundo informação que a imprensa não se Esta Académica tem vindo a afastar os cansa de veicular – a Académica O.A.F. que mais a respeitam, os que lhe querem de não precisa de equilibrar as contas, mas de verdade. uma revolução capaz de provocar uma Há como que uma atmosfera intolerá- catarse e um renascimento. vel, que se deposita nas almas, uma triste- A Académica não traz consigo as suas za contínua. marcas identitárias. Resta-nos a recordação de um tempo Sem estudantes e sem Academia, com histórico como sensação da identidade uma caterva de políticos – gestores do blo- conservada. co dos interesses –, parece um edifício Um fundo de melancolia e de profunda prestes a ser implodido. Sem originalidade, desconfiança de si mesma vai enchendo o sem força, sem carácter para criar algo seu, cenário da nossa representação. resta a fé clubística aos que do clube ainda Hoje somos assim. guardam a memória. Quem se lembra da Académica? Formação da Académica no ano de 1969 EXTRACTO PARA PUBLICAÇÃO Jorge Coutinho da Costa, primeiro ajudante do Terceiro Cartório Notarial de Coimbra, a cargo da notária, Maria Olímpia Correia Colaço, certifica para efeitos de publicação que por escritura de hoje, exarada a folhas 104, do Livro de Notas para escrituras diversas 617-A, deste Cartório, Aires Rodrigues Mortágua da Fonseca, NIF 104.436.360, e mulher, Maria da Conceição Mendes Ferreira, NIF 137.551.088, casados sob o regime da comunhão de adquiridos, naturais de Coim- bra, ele de S. João do Campo, ela de S. Silvestre, onde residem na Rua do Varela, n.º 18, FOI DECLARADO: Que são donos e legítimos possuidores, com exclusão de outrem, do seguinte imóvel, situado na freguesia de S. Silvestre, concelho de Coimbra: Prédio urbano composto de casa de um pavimento sito no lugar de Casal Varela, com a área coberta de vinte metros quadrados, a con- frontar do Norte com serventia de inquilinos, do Sul e do Nascente com José Correia da Fonseca e do Poente com Maria da Conceição Mendes Ferreira, inscrito na respectiva matriz sob o artigo 179, com o valor patrimonial tributário de 95,93 €. Que este prédio não se encontra descrito na Primeira Conservatória do Registo Predial de Coimbra. Que este prédio veio à sua posse em data que não podem já preci- sar, mas que se situa no ano de mil novecentos e setenta e quatro, quando lhes foi ajustado doar por José Branco Ferreira e mulher, Emília de Jesus Mendes, pais dela, justificante mulher, residentes que foram em S. Silvestre, Coimbra. Contudo, nunca chegaram a formalizar a ajustada doação através da necessária escritura pública, nem pode a mesma ser agora formali- zada, em virtude daqueles antepossuidores já terem falecido. Que, no entanto, desde aquele ano de mil novecentos e setenta e quatro, que entraram na posse do identificado prédio, em nome próprio, agindo sempre por forma correspondente ao exercício do direito de pro- priedade, aproveitando todas as suas utilidades, usufruindo-o, e custean- do os respectivos encargos, tudo com o conhecimento de toda a gente, sem violência e sem oposição de quem quer que seja, e, ininterrupta- mente, até hoje. Que, assim, tendo exercido sobre este prédio, em nome próprio, uma posse pública, pacífica e contínua, que dura há mais de vinte anos, justificam a sua aquisição pela usucapião. Está conforme com o original. Coimbra, 29 de Novembro de 2006. O 1.º ajudante, (Jorge Coutinho da Costa) CENTRO, N.º 16 de 13.12.2006
    16. 16 OPINIÃO DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 nar conhecida da “Europa culta” a lín- sa nem quer sacrifícios. Deus, que é neiro, torná-lo numa vítima e facilitar a gua portuguesa “para que a singularida- amor, quer amor e justiça para todos, sua eleição para a Presidência da Re- de expressiva de um povo (…) possa de dando preferência aos marginalizados e pública. A história está bem caçada. E ora avante patentear à curiosidade cos- aos pobres. Mas cá está. A prática do não é menos fantástica do que a ópera mopolita toda a sua riqueza e originali- amor e da justiça, a contribuição real bufa que a antecedeu e durou estes 26 dade”. É um dever dos deputados portu- para uma sociedade boa e justa e mais anos. (…) itações gueses no PE. feliz implicam capacidade de sacrificar- João Marques dos Santos Edite Estrela se. Agora, porém, é diferente: não se (advogado) DN 10/DEZ/06 trata do sacrifício pelo sacrifício, mas CM 08/DEZ/06 das melhores causas da vida, que inevi- O CLUBE NUCLEAR tavelmente exigem renúncia, entrega, CAMARATE E A JUSTIÇA Uns dizem que o Mundo acabará num doação. Vinte e seis anos depois do acidente grande fogo, outros afirmam que será (…) Quando se fala de nova evange- de Camarate que vitimou Sá Carneiro e num grande gelo”, dizia Robert Frost. O lização, é disto que se trata: acreditar, Amaro da Costa, ainda persiste, para clube nuclear é o mais perigoso do Mun- com todas as consequências, no alguns, o fantasma da tese de atentado. O MULTILINGUISMO do, mas não cessa de aumentar. Evangelho enquanto notícia boa do Infelizmente, esta tragédia trouxe pro- NA UNIÃO EUROPEIA O Paquistão por exemplo, está a Deus que é amor e que não tolera víti- moção e visibilidade pública a certas (…) Com o passar dos anos e suces- construir um novo reactor nuclear, em mas. De facto, é em nome do Deus que pessoas e, para alguns partidos, apro- sivos alargamentos, a União Europeia Khushab (Sudoeste de Islamabad), quer vítimas que nós próprios, pela veitamento político em determinados (UE) vai ganhando cidadãos e novas capaz de produzir 40 a 50 ogivas atómi- guerra, mediante a exploração omnímo- ciclos eleitorais. línguas. Neste momento, o arco-íris cas no espaço de um ano. Islamabad da e sem escrúpulos, continuamos a A dignidade humana e a importância idiomático já é composto por vinte lín- acaba ainda de testar o foguetão Haft fazer vítimas. Deus, porém, o que quer das pessoas que aí morreram impunham guas oficiais, correspondendo a 25 III, com 290 quilómetros de alcance. é misericórdia. A paixão por Deus tra- outro respeito. De facto, já não há Estados membros (EM), uma vez que a Quanto à Índia, seu ex-inimigo e per- duz-se por compaixão real e efectiva pachorra para, novamente, se assistir a Alemanha e a Áustria partilham o ale- manente rival (agora com combustível para com os homens e mulheres. este ruído e a insensatas declarações mão, o Reino Unido e a Irlanda, o nuclear americano), moderniza o seu Também em Portugal as questões da públicas que de nada servem. inglês, a Grécia e Chipre, o grego, e a arsenal atómico e poderia hoje disparar justiça social têm de ser prioritárias. O processo Camarate foi investigado Bélgica e o Luxemburgo partilham as mísseis da superfície e do fundo do mar, Anselmo Borges pela Justiça portuguesa até à exaustão, línguas dos vizinhos franceses, neerlan- a partir de submarinos silenciosos. (padre e professor de Filosofia) com centenas de relatórios de peritos deses e alemães. A China continua a aperfeiçoar as suas DN 10/DEZ/06 para todos os gostos, com a produção de A diversidade linguística está consa- armas de ‘dissuasão’, Israel tem uma todo o tipo de prova admissível em grada na Carta Europeia dos Direitos reserva não declarada de munições de Direito, com inúmeros exames, com Fundamentais e é um valor central da ‘juízo final’, os EUA e a Rússia mantêm CAMARATE E O BRUXO exumações variadas aos corpos das víti- construção europeia, ainda que, do frotas importantes (sempre actualiza- Fez no passado dia 4 26 anos que mas e com incontáveis comissões de ponto de vista pragmático, acarrete ini- das) de vectores estratégicos e, na aconteceu o acidente de Camarate. O inquérito parlamentar. É um recorde ludíveis dificuldades e elevados custos. União Europeia, França e Reino Unido tempo suficiente para o homem que digno de ser assinalado em toda a Para pôr a funcionar esta moderna Torre decidiram continuar com este tipo de afirma ter feito a bomba se considerar à História da Justiça em Portugal. de Babel, é necessário um exército de sistemas, hoje mais pequenos mas mais vontade para confessar publicamente o Não é possível continuar-se nesta tradutores e intérpretes. sofisticados. seu feito. Mas o confesso artesão de mentira artificiosa, neste enredo que (…) Em teoria, todas as línguas são A Coreia do Norte põe-se também bombas provocou, agora, outro aciden- tem alimentado a tese de atentado. iguais, mas na prática, há situações de em bicos dos pés, mas a sua arma pode te. O romance ‘Camarate’ foi uma espé- (…) Portugal não julgou Camarate hierarquia e privilégio. Até porque não ser negligenciável. cie de certidão de óbito dos investiga- porque não existiam quaisquer indícios têm todas a mesma projecção e o mes- Por outro lado, de Moscovo conti- dores a ele ligados. Os autores do aten- no processo que apontassem para a tese mo potencial internacional. Não há ino- nuam a chegar notícias alarmantes tado brincaram com as mais sérias insti- de crime. Esta foi a convicção segura de cência nem acaso nas escolhas linguísti- sobre a existência de um “grupo empre- tuições deste País. Com as polícias que muitos juízes e procuradores do cas. sarial criminoso, com acesso a tecnolo- investigaram, com os deputados que Ministério Público que, ao longo desta O português é uma das grandes famí- gia nuclear”, que estaria por detrás do inquiriram, com os magistrados que ‘novela’, trabalharam neste processo. É lias linguísticas do mundo actual e é um ‘ajuste de contas’ com Litvinenko (…). acrescentaram o condimento a toda esta muito bom para a nossa Justiça que este caso singular na Europa e no mundo – Nuno Rogeiro (politólogo) sopa. Mas nada. O romance tornou-se processo seja julgado no Tribunal língua comum de oito países, falada por CM 10/DEZ/06 interminável e foi apanhado por esse Europeu dos Direitos do Homem, para duzentos milhões de pessoas, espalha- letal instituto da prescrição. Mas pro- que, de uma vez por todas, se ‘santifi- das pelos cinco continentes –, pelo que O SACRIFÍCIO metia continuar a atormentar as almas que’ a tese de acidente. E, já agora, devia ter um lugar especial no conjunto E A MISERICÓRDIA dos mais determinados em encontrar- quanto ao retardado confesso da teoria das línguas oficiais europeias. É a ter- (…) Afinal, um Deus que precisasse lhe um fim condigno. Eis senão quando da bomba (a cinematografia americana ceira língua da União Europeia mais de sacrifícios era um Deus pior do que do alto da alta protecção que lhe conce- nem sabe o que perdeu), poderia ser falada no mundo. Depois do inglês e do os seres humanos, quando vivem uma dem a lei penal e as forças ocultas, sua accionada pelos ofendidos, a justiça espanhol e antes do alemão, do francês humanidade boa e feliz. Que pai ou mãe arma preferida, o multifacetado bruxo civil, para efeitos de eventual indemni- e do italiano. E o seu legado histórico é quer que os filhos andem de joelhos ou José Esteves, homem que já tudo fez na zação. inestimável, pois foi a primeira língua de rastos diante deles e lhes ofereçam vida, resolve escrever o seu próprio epí- Rui Rangel (juiz) europeia a estabelecer uma verdadeira sacrifícios? logo. Foi bomba, sim senhor. E foi ele CM 03/DEZ/06 ponte cultural entre o Ocidente e o O sofrimento pelo sofrimento é inútil próprio que a fez e entregou no local Oriente. A língua de Camões devia ter e deve-se combatê-lo, bem como às combinado com os seus clientes. Era A HORA DIFÍCIL DO PSD na UE um estatuto correspondente à sua religiões doloristas que pregam o sofri- uma brincadeira, acrescenta, à cautela, O PSD está incandescente. Os níveis projecção internacional. Por isso impor- mento como agradável a Deus e a via não vá o diabo tecê-las. Destinava-se a de insatisfação no seio da família social- ta – nas palavras de Miguel Torga – tor- mais directa para o céu. Deus não preci- pregar um susto ao general Soares Car- -democrata são elevados. E se até aqui
    17. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 OPINIÃO 17 esse descontentamento foi suportado É certo que podemos censurar em A violência que em Chelas atirou primordial, a liberdade de deslocação. com silêncio, a verdade é que agora ele casa, no recato das coisas domésticas. com um número significativo de jovens Entretanto, pagámos um preço eleva- se manifesta às escancaras com picardi- Por exemplo a novela “Morangos com para o limite entre a morte e a vida sai do pelo progresso. O número de vítimas as, entre alguns barões do partido, de Açúcar” mostra uma jovem palerma desse microcosmos de grupos com uma mortais de acidentes rodoviários atingiu fazer chorar as pedras da calçada. que telefona a alguém a pedir droga ordem interna que já não se reconhece no início do ‘boom’, em 1975, o máxi- Marques Mendes não tem tido vida porque os pais vão divorciar-se. Te- na ordem externa, socialmente tida mo de 2676. Há dez anos, em 1996, fácil desde a sua investidura, mas agora remos de ser compreensivos? Ou, como como boa, e que o Estado e o poder ainda morreram 2100 pessoas na estra- a coisa está preta. Luís Filipe Menezes pedem os pedagogos, reuniremos a político persegue como finalidade da da. Desde então, verificou-se uma dimi- veio a terreiro partir a louça e insurgir- família e tentaremos explicar que aqui- sua própria realização. E não vale a pe- nuição progressiva da sinistralidade se contra o líder mas sem cuidar de refe- lo é um exagero? Às dez da manhã, uma na criar estatísticas optimistas. Confor- grave, que promete culminar, no ano em rir que os tempos estão difíceis para televisão mostra a promoção de um me aumenta a força da metrópole maior curso, em menos de mil mortos. qualquer personalidade que esteja no filme para maiores de 18 anos, justa- será o aumento da violência através de Na vida pública actual, as ‘auto- topo do partido. mente quando a minha filha vê um pro- actos como este, ou outros que matam estradas’ da informação nivelam peque- Sócrates tornou-se um peso-pesado grama infantil. Fazer o quê? E os anún- polícias, matam mulheres indefesas, nos episódios e factos relevantes. da política. Transformou-se num adver- cios agressivos e pobres de espírito? E a matam sem parar. Muitas vezes, não conseguimos distin- sário temível para qualquer dirigente substituição, no cabo, do excelente É a expressão manifesta de que o guir o essencial do acessório. Ora, a sentado nos bancos da Oposição. GNT pela triste e miserável Rede problema não é social nem policial. É diminuição do número de mortes na Marques Mendes, que por si próprio Record? (…) político. É o drama de saber ou não con- estrada faz parte do essencial, porque tem fragilidades conhecidas, nos con- Francisco José Viegas (escritor) ter a voracidade sem limite da enorme contribui para o aumento da esperança frontos com Sócrates tem sido literal- JN 04/DEZ/06 mancha metropolitana, dos seus mitos, de vida que se registou desde os anos 70 mente cilindrado. É evidente que os das suas produções ideológicas. Um (de cerca de sete anos). militantes e simpatizantes do PSD não desafio tremendo que a morte não dei- Esta diminuição da mortalidade tem BALANÇO PAPAL suportam ver assim a sua organização xará de acompanhar. múltiplas causas: melhores estradas, Peregrinação e política, a visita de política. Luís Filipe Menezes, ao avan- Francisco Moita Flores automóveis mais seguros, fiscalização Bento XVI à Turquia foi um reconhecido çar com tanto pundonor contra o líder, (docente universitário) reforçada e empenhamento político. êxito. Para o Vaticano e para Ancara. apontando as incapacidades, não CM 04/DEZ/06 (…) Mas, acima de tudo, julgo que a Relembrou ao Mundo que o Papa, mes- melhora a questão mas corporiza, dá evolução da sinistralidade se deve a uma mo sem divisões armadas, não tem medo. DECRÉSCIMO voz, ao descontentamento no seio do mudança de mentalidade dos condutores. Mostrou ao Mundo que a Turquia moder- PSD. Este avanço de Luís Filipe Me- DE BUZINADELAS Uma das manifestações mais visíveis (ou na é um país civilizado, seguro, interessa- nezes espevita a alma social-democrata Em 30 anos, Portugal viu o número audíveis) da mudança – creio que directa- do no diálogo de culturas e religiões. mas não o coloca como alternativa ao de automóveis decuplicar de 500 mil, no mente proporcional à diminuição do Nas ruas, os nacionalistas defende- actual líder. Diria até que compromete início da década de 70, para cinco mil- número de mortes – é o decréscimo de ram o secularismo e os islâmicos luta- esse sonho/desejo que vem de longe. hões, à entrada do novo século. A chave buzinadelas nas estradas portuguesas. Esse ram pela manutenção da sua fé. Quanto Emídio Rangel (jornalista) da evolução é simples: o automóvel é pormenor revela que a condução agressiva a Joseph Ratzinger, acenou às duas CM 02/DEZ/06 um bem inestimável; transforma barrei- tem perdido terreno, em benefício de uma massas. ras invencíveis em pequenas distâncias e condução defensiva e responsável. Começou por visitar o mausoléu de A TELEVISÃO DA CANALHA dá um novo sentido à nossa liberdade Rui Pereira (professor de Direito) Ataturk, símbolo do Estado laico, e Seria injusto proceder a juízos e pro- orou na Mesquita Azul, ao lado do cessos de intenção contra o ministro Grande Mufti de Istambul, e do imã do Augusto Santos Silva a propósito das templo. medidas que o governo tenciona tomar Nuno Rogeiro (politólogo) para a comunicação social. Como fre- CM 03/DEZ/06 quentemente se descobre, as televisões têm um poder excessivo sobre todos nós. Não é por culpa das televisões; é LISBOA E CRIMINALIDADE por nossa culpa e é por culpa das elites (…) A metrópole de Lisboa, simboli- que deveriam ter pensado duas vezes camente centrada na capital mas com antes de se associarem à televisão da um quadro de expansão que vai muito canalha. E a televisão da canalha está aí para além dos seus limites administrati- todos os dias. vos, absorveu vilas, cidades e concelhos Não é nenhum dos canais em especi- limítrofes, estendendo-se para lá do rio al – é a televisão e o seu poder de trans- até Alcochete e Setúbal e é, por si, pro- formar em agressão e abjecção tudo ou dutora de mais de 50 por cento da crimi- quase tudo aquilo em que toca. Também nalidade que ocorre em todo o País. é verdade que podemos ser injustos Não admira. Esta concreção de gen- quando se toma a parte pelo todo; a tele- tes, em perpétuo movimento, de origem visão é um bem essencial para a nossa diversa, formadas em quadros culturais civilização, tanto quanto uma ameaça. bem diferentes, produz uma multidão Falar sobre ela é caminhar sobre o fio de determinações, expectativas e objec- da navalha todo o discurso sobre a tele- tivos aos quais a miragem de ‘grande visão está marcado pela tentação da cidade’ não acrescenta realizações. Co- censura e podemos admiti-lo à vontade. mo se não bastasse esta ausência de É normal que assim seja depois de ver solidariedades horizontais, é sabido que programas abjectos, de ver os nossos o crescente desvanecimento das rela- filhos manipulados por telenovelas gro- ções de vizinhança, a desagregação das tescas, de assistir a telejornais tendenci- relações de interconhecimento indivi- osos, de vermos a invasão da esfera dual, a exaltação de mitos que elegem o pública pela pornografia, de ouvir erros consumo e o prazer como os ícones do de gramática, de ouvir jornalistas igno- sucesso, a rápida secularização dos rantes, de ver “figuras públicas” servi- comportamentos desvanecendo as anti- rem-se do ecrã – enfim, de assistir à gas relações de autoridade vão abrindo transformação da televisão em janela caminho para a assumpção de condutas para o pior que há na vida inteira. anormais como forma de manifestação Nessas condições, qualquer um de nós e de conquista de poder numa metrópo- sente uma pequena inclinação para a le onde os vários poderes ‘normais’ censura. crescentemente se vão dissolvendo.
    18. 18 REPORTAGEM DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 GRANDE LISTA DE ESPERA NA ÚNICA ESCOLA DO PAÍS (EM MORTÁGUA) Cães-guia mudam a vida dos deficientes Cego aos 25 anos, Pedro Lima veio família de acolhimento quando ofereceu à engrossar a lista de candidatos portugueses escola uma cadela, a Farrusca, que ficou à atribuição de um cão-guia, mais de 60 em sua casa até ter idade para ser educada. pessoas que esperam em média há três “Foi a primeira e custou-me muito anos para encontrar a visão na ponta de deixá-la ir, mas por outro lado sinto-me uma trela. orgulhosa por saber que o meu trabalho Para este engenheiro civil do Porto, com o cão vai ajudar alguém”, disse à actualmente com 27 anos, o ideal seria já Lusa. ter o cão-guia quando, em Fevereiro, Depois da Farrusca, vieram a Lee, a Net deixar a casa dos pais para viver sozinho. e a Osíris, e Manuela conseguiu a adesão “Fiquei cego a 2 de Fevereiro de 2005 dos dois irmãos para esta causa. numa explosão na pedreira em que trabal- “Agora, além dos meus cães, tenho hava e, poucos meses depois, candidatei- sempre os da escola para uns compen- me a um cão”, contou à Agência Lusa. sarem a partida dos outros, mas a sepa- Desde então, Pedro Lima estudou ração é sempre dramática”, diz. Braille, aprendeu a andar de bengala, Tão dramática, quão emocionante é o deixou de ser engenheiro e agora gere o reencontro, anos mais tarde, com os cães site de uma empresa de organização de que ajudou a formar. eventos, uma reconversão profissional só “Estive dois anos sem ver a Farrusca e, possível graças à ajuda de amigos e con- quando fomos à cerimónia de entrega ao hecidos. la, condições essenciais para integrar a França têm inviabilizado este propósito. cego, ela reconheceu-me só pelo olfacto. Espera que o cão-guia o ajude a superar lista de candidatos. “Temos um acordo com a segurança Não há nada que pague essa sensação”, as limitações de mobilidade porque não é A responsável gostaria de, no futuro, social que financia em 65 a 70 por cento a lembra. “exímio na arte de bengalar”, melhore a conseguir responder aos cerca de 60 cegos nossa actividade, mas tudo o resto temos Com cães entregues do Algarve a Viana sua auto-estima e atenue os olhares de co- em lista de espera e alargar a entrega gra- que inventar porque o mecenato social do Castelo, os principais pedidos chegam miseração que sente sempre que sai à rua, tuita de cães a pessoas que a penas saem de ainda está pouco presente na sociedade dos grandes centros urbanos de Lisboa e em suma, que seja os seus olhos. casa para praticar desporto ou participar na portuguesa”, lamenta Filipa Paiva, que Porto. Optimista, tem, no entanto, consciência vida de uma associação, à semelhança do teme que o actual período de três anos de É no Porto que vive o Júnior, entregue a que querer não é poder quando e m que acontece, por exemplo, em Inglaterra, espera possa agravar-se. Na sua maioria Mariana Rocha em 2004, depois dos habit- Portugal há apenas uma escola de for- onde são entregues uma média de 100 cães fêmeas da raça Labrador Retriever ofereci- uais três anos de espera. mação de cães-guia e a lista de espera há por ano. das ou criadas na própria escola, os cães- Licenciada em Direito, 27 anos, anos que não baixa dos 60 nomes. Em Portugal, “num ano ideal, como guia têm por missão conduzir o cego em Mariana é cega desde pequena e tem em “Apesar do trabalho meritório da escola, este, conseguimos entregar 12 cães, mas no segurança por passeios, estradas, estações Júnior o companheiro de todas as horas, os três educadores só conseguem entregar ano passado só entregámos oito”, disse à de comboio e metro, evitando pessoas, car- “um amigo” que tornou as suas saídas 12 cães por ano e agora estão a fazer as Agência Lusa Filipa Paiva. A única escola ros mal estacionados ou postes. diárias simultaneamente “mais tranquilas e reposições dos primeiros que entregaram - de cães-guia do país deu os primeiros pas- Toda esta aprendizagem demora dois aventureiras”. que passam à frente de toda a gente -, se eu sos em meados da década de 90, mas foi a anos e, para além dos educadores, concen- “Como confio totalmente no cão, estiver no fim da lista...”, refere. partir da atribuição do estatuto de Ins- tra dos esforços dos próprios cegos e das arrisco mais”, disse à Lusa. Lembra que tem a seu favor o facto tituição Pública de Solidariedade Social, famílias de acolhimento, que os recebem Mariana gostou particularmente de ter de ser activo, jovem e sociável, critérios em 2000, que a sua actividade se tornou desde que nascem até à ida para a escola, deixado de ser “a coitadinha” par a ver as determinantes para a Associação Beira- mais consistente. com um ano. atenções concentradas no Júnior e, por via Aguiera de Apoio ao Deficiente Visual Com a escola a responsabilizar-se pela disso, ter passado a falar m ais com as pes- (ABAADV), entidade que gere a escola CURSO DE TRÊS ANOS alimentação e saúde dos cachorros, às soas que a abordam na rua. Do Júnior de cães-guia e que, desde 1999, já entre- famílias cabe ensinar-lhes os primeiros destaca características como a meiguice, a gou gratuitamente 50. Ter entre 18 e 65 hábitos de higiene e, por exemplo, que não atenção, a responsabilidade e o facto de EM FRANÇA PARA SE PODER anos, ser totalmente cego, exercer uma se rouba comida da mesa, nem se roem estar sempre disponível, apesar de ser EDUCAR OS CÃES actividade profissional ou ser estudante A responsável gostaria de ter mais edu- móveis. “muito dorminhoco” . e sair de casa diariamente são, segundo cadores na escola, mas os custos inerentes Manuela Moital, 59 anos, professora Filipa Paiva, directora técnica da esco- aos três anos que dura a formação em aposentada da Figueira da Foz, tornou-se Cristina Fernandes Ferreira (Lusa) Nova legislação alarga a todos os deficientes o acesso a locais públicos com cães de assistência O Governo acaba de alargar aos defi- Assim, a lei passa a aplicar-se à defi- cial (MTSS), é das primeiras da Europa ja uma centena de pessoas que esperam cientes em geral o direito, até agora ape- ciência visual (cães-guia), auditiva (cães sobre os cães de assistência, está previs- cães de assistência. nas reconhecido aos cegos, de entrarem, para surdos) e mental, orgânica ou moto- ta no primeiro plano de acção para a inte- A nova legislação foi aprovada na vés- acompanhados por cães de assistência, ra (cães de serviço). gração das pessoas com deficiência pera de um encontro que reuniu, na em locais, transportes e estabelecimentos O decreto-lei exige ainda que as es- (PAIPDI). Figueira da Foz cerca de duas dezenas de de acesso público colas de treino de cães sejam credenci- Na sua elaboração, contou com o con- cegos com os respectivos cães-guia. O decreto-lei agora aprovado em Con- adas e registadas no Instituto Nacional tributo das associações de cidadãos Em Portugal, existem 50 utilizadores selho de Ministros consagra “o direito de de Reabilitação, que os treinadores te- cegos e utilizadores de cães-guia, As- de cães-guia formados pela escola da acesso de todas as pessoas com deficiên- nham qualificações nas áreas da veteri- sociação Nacional de Municípios, Asso- Associação Beira-Aguieira de Apoio ao cia que utilizam cães de assistência” e nária e da reabilitação e que os cães ciação Nacional de Freguesias, Regiões Deficiente Visual (ABAADV), em revoga a anterior legislação sobre a ma- sejam cedidos a título gratuito aos uti- Autónomas dos Açores e da Madeira e Mortágua, a única no País, onde a lista de téria, considerada “discriminatória” por lizadores. gabinete do Secretário de Estado espera tem mais de 60 pessoas e a entre- reconhecer esse direito apenas aos cida- A legislação que, segundo o Mi- Adjunto da Agricultura e Pescas. ga gratuita de cães demora em média três dãos cegos. nistério do Trabalho e da Segurança So- O MTSS estima que, em Portugal, ha- anos.
    19. OPINIÃO 19 Hasselblad – uma estrela DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 tal ainda a anos de distância. Tratava-se do Colosso de Rodes, uma das 7 Mara- vilhas da Antiguidade, que representava Hélios, o deus do Sol. Esta ilha tinha então mais de cem estátuas, das quais a maior era a do Colosso, setenta tonela- das de ferro na fundição, um molde da Varela Pècurto autoria do escultor Chares, executada Depois de conhecer Portugal (inclu- depois da vitória sobre o rei macedónio indo as Ilhas) decidi passar férias além- Demétrio Poliorcetes. Desde o projecto, fronteiras, começando por Espanha, que no ano de 291, até à conclusão da obra, dividi em zonas, percorrendo uma em passaram 12 anos, despesa paga com a cada ano. venda dos despojos deixados no campo Quando chegou a vez da costa atlân- da luta pelo rei vencido. tica, certo dia passei por uma pequena A estátua apresentava-se nua, mão localidade de pescadores, onde almocei direita bem erguida, segurando um num acolhedor restaurante. Não só tive- enorme vaso onde ardiam archotes, pro- ram a gentileza de me servir a hora tar- vavelmente um farol, com acesso interi- dia, como também regularam a tempe- or. A testa era uma ampla janela de onde ratura ambiente, que estava fria para se podia atacar quem tentasse entrar no mim. porto. A meio da refeição ouvi grande baru- Existiu, de pernas bem escancaradas, lho, o inconfundível som de ferraduras durante meio século, sendo derrubada sobre as pedras da calçada. por violento sismo. Dela nada chegou Menos por curiosidade, mais por aos nossos dias e mesmo os relatos deformação profissional, perguntei ao conhecidos são um tanto ou quanto moço que me servia o que se passava imprecisos. por ali. Voltando às minhas fotografias: tanto – Oh senhor, uma desgraça! – res- me excedi que acabei por dar nas vistas óptica, câmara escura e porta-filme – mantém – apesar de ter sido copiada por da equipa que rodeava o director. Um pondeu-me o empregado. Espanhóis e não leva mais de três segundos a ser japoneses e russos). dos seus assistentes veio na minha italianos, de sociedade, estão cá a rodar desmanchada. Além das fotografias A zona das filmagens abrangia o direcção, tão decidido que me levou a uma fita que mete cavaleiros. Pagam normais, pode fotografar sob a água, o porto com os dois molhes e um espaço pensar vir proibir-me de fotografar. Mas tão bem aos que têm um cavalo e que- interior do corpo humano e o espaço. que incluía um mercado montado pro- não. Muito atencioso, deu-me o braço e rem participar que muitos abandonam Todos os seus acessórios custam uma positadamente para o filme. Os prédios levou-me até junto do chefe. Este sus- temporariamente os seus empregos. Até fortuna. Permite dois formatos de nega- nesse perímetro tinham as fachadas pendeu a actividade e todos me rodea- o padeiro por lá anda e a população sem tivos e um dos tipos de porta-filmes cobertas com outras, a imitar as do ram, olhando e pedindo explicações pão. Nós temo-lo, mas vamos buscá-lo pode acolher quase uma centena de recuado século III. A movimentação era sobre a Hasselblad. No meu “portu- bem longe. imagens. Na Lua ficou uma máquina grande e as figuras e os barcos também nhol” fui explicando como trabalhava e A minha curiosidade levou-me a ir abandonada. No regresso, o astronauta, se apresentavam como se dessa época o que permitia aquela máquina-sensa- ver as filmagens que decorriam na zona além de regressar com o filme, trocou o fossem. ção. O Colosso foi esquecido. Muitas do porto, fácil de alcançar seguindo por peso do material abandonado por O que mais chamava a atenção eram das personagens aproveitaram para ruelas, sempre a descer. pedras lunares – uma das quais o meu duas pernas, só até ao joelho, na ponta fumar e a estrela dos técnicos hispano- Quis o acaso que nesse ano levasse a dedo indicador direito já tocou). dos molhes. Calculei a sua altura em 25 italianos passou a ser a Hasselblad. Hasselblad que tinha adquirido pouco O aparelho até permite que seja dis- a 30 metros. Quase um ano depois fui ao cinema antes da partida para férias. parado da Figueira da Foz mas estando Fui avançando no espaço que era per- Avenida (em Coimbra) ver um filme (Esta máquina fotográfica levou mais em Coimbra, num tripé e junto a uma mitido aos curiosos, fotografando aqui e intitulado “O Colosso de Rodes”, dando de seis anos a ser concebida e é tão ver- fonte luminosa, enquadrando uma plan- ali. Um popular informou-me que as especial atenção aos truques aplicados a sátil que valeu ao sueco que a inventou, ta para fotografar o seu crescimento, tais pernas iam pertencer a um corpo às bravas cenas a cujas filmagens tinha e lhe deu o seu nome, a mais importan- uma reacção química, etc. O seu lança- onde seriam ligadas numa trucagem de assistido. Não vou esquecê-lo. te condecoração do seu País. mento no mercado foi um êxito, só laboratório, técnicas que a cinematogra- As férias foram diferentes e mais Constituída por três partes distintas – ofuscado pelo seu elevado preço, que fia já dominava, mesmo com a era digi- uma vez se provou a magia do cinema. Os corpos gerentes Junta de Freguesia Sindicato dos Bancários do Centro desejam Festas Felizes de Santo António dos Olivais a todos os associados o EXECUTIVO DA JUNTA DE FREGUESIA DESEJA A TODOS OS CONCIDADÃOS UM FELIZ NATAL E UM PRÓsPERO ANO DE 2007 Rua Flávio Rodrigues, 21 Telef. 239 790 900 - Fax: 239 790 909 Avenida Fernão de Magalhães, 476 - 3000-173 Coimbra 3000-095 COIMBRA Telef. 239 854 880 - Fax: 239 854 889
    20. 20 OPINIÃO DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 A PROPÓSITO DE “COIMBRA À GUITARRA” DE CARLOS CARRANCA Trovador, peregrino, viajante (Continuação da edição anterior) professoral Sorbonne, vazia esta já do o milagre das rosas da Rainha Santa. último sopro da dialéctica grega. Episódios que o tempo transformou em O leitor esclarecido, mas que ainda Daí que o iluminismo pombalino, po- mitos, mas também me permito discor- não conheça a obra, deparando-se com sitivista, burocrático, centralista e estatal, dar de muitos historiadores que dizem o título “Coimbra à guitarra”, poderá, é embora estruturante e reformador, viria a que a História faz o mito. Creio, e não claro, imaginar muita coisa. Tendo gerar, na cidade essencialmente universi- sou o primeiro, que o mito é que faz a alguma sensibilidade poética e musical, tária, um fenómeno que cindiu a sua História. Por eles, os mitos, muito se foi talvez pense lá para si: Que guitarra o vida, isto é, o confronto entre o estudan- criando, seja uma tela, um drama, um autor concebeu a acompanhar a cidade? te e o futrica, mantido ao longo de mui- poema, uma guitarrada, um feriado Ou, doutro modo, com que voz tem tas gerações, e hoje naturalmente esbati- nacional. E no fundo, a benéfica peda- Coimbra cantado? Há guitarras de ador- do. Nessa tensão sociocultural se desen- gogia da repetição para ver se enxerga- mecer e há outras de acordar? Há gui- rolaram inúmeros problemas. Nas reper- mos o arquétipo das coisas belas e pere- tarras de fazer esquecer e outras de cussões que teve na guitarra, é o que nós nes, das grandes causas do homem, que fazer lembrar? sabemos, sendo que o mal social deu não são descartáveis como as inflações. De Coimbra à guitarra, bem podería- alguns bons frutos artísticos, pois nenhu- Poema «Guitarra de Coimbra – Não mos dizer (porque definir aqui não ma verdadeira arte se faz sem pelo se deixou contaminar/ pela mania erudi- cabe) que é uma espécie de rapsódia de menos algum sofrimento. que te chama!/ Redentora e fraternal,/ ta/ da dita/ universidade/ popular/ ficou variações que em vez de escritas em Voltemos ao livro de Carlos Car- és tu quem anuncia/ a hora da alegria/ da cidade/ essa guitarra/aflita/ erudição/ pauta, são-no pelas palavras, melhor, ranca, que dele nunca saímos. O autor de ser de novo/ o povo,/ o rei de só a do coração/ e tudo quanto toca res- pela palavra poética que entendeu, por estrutura a obra em três andamentos, Portugal.» E se o povo há-de ser rei, não suscita». dentro, as guitarradas dos intérpretes a segundo a sua sensibilidade pessoal, o será certamente com esta cinzenta Mas antes que tudo ressuscite ou se quem o poeta se dirige em justa e senti- mas seja ela qual for, não se nos afigura democracia por rainha! renove há que alargar a vista, à maneira da homenagem. difícil observar que no primeiro anda- Passemos ao segundo andamento, do deus bifronte Jano que tanto mirava Vamos então ouvir o dedilhar das mento pairam apenas dois nomes, dois referindo, antes de mais, as primorosas o passado como o futuro, o além e o suas palavras. Vamos pois abrir o livro. arquétipos da guitarra: Artur Paredes e ilustrações de Jorge Vicente. aquém. Símbolo do tempo, o seu rosto é Respirando convenientemente ao virar Carlos Paredes, como se fossem as duas É certo que as águas do Mondego herético à visão estreita hoje de muita da folha, como quem passa de uma vari- colunas que sustentassem os pórticos não chegam a todo lado. Mas pode-se gente. Há quem se envergonhe de olhar ação a outra na necessária mudança. dos templos gregos, e não vamos discu- dizer que a guitarra de Flávio Rodri- para trás e só viva polarizado no futuro, O poeta abre com uma homenagem tir agora qual deles representa a coluna gues, ele também um salatina, chegou a alheado do presente, outros vice-versa. aos Salatinas, gente simples e macerada jónica ou a coríntia. Para além destas todo o lado. E, segundo o que é dito e Condenada à fogueira tem sido uma que conheceu a diáspora dentro da pró- figuras maiores, Carlos Carranca conce- está escrito, à sua barbearia acudiam certa face de Jano, porventura o lado pria cidade. A morte da velha alta ficou be este instrumento medularmente por- académicos e não académicos. Carlos genuinamente português, na confusão sempre espetada na garganta. Con- tuguês, bem lusitano, e ainda ligado ao Carranca abre da melhor maneira o (ou má-fé) entre internacionalismo e cluindo este poema de abertura o poeta nome de Nossa Senhora. O eterno femi- segundo andamento do seu livro com o universalidade. Por isso a guitarra trará escreve «...protesto de ser humano/con- nino tem na guitarra o mais alto mote. O poema «Flávio Rodrigues: – Há um ainda a dor aguda de sermos nós, e nós tra a morte utilitária de Coimbra». próprio poeta o escreve, mais que uma lugar/ que me visita sempre/ romântico pelos outros. Diga-se, desde já, que o poeta nunca vez, nos seus poemas. e doente/ onde a guitarra/ que só tu Para terminar só me resta sublinhar que confunde o popular com o popularucho, A guitarra é feminina e de certa dedilhas/ geme sensual.» O poeta per- o livro de Carlos Carranca preenche o o simples com o brejeiro. maneira lunar, ainda que, em nossa opi- corre, em seguida, outros guitarristas – espaço em Coimbra que faltava ocupar. O E que a «morte utilitária de Coim- nião, em Carlos Paredes, sobretudo e não os poderia visitar a todos, sob de um conjunto de poemas que, evocando bra» ainda que acreditemos numa qual- depois do disco gravado ao vivo na pena do livro se engrossar consideravel- a guitarra e os guitarristas, também se quer ressurreição ou renascimento, vem ópera de Frankfurt, ela seja arrebatado- mente, – guitarristas esses que vêm até poderia chamar «Flores para Coimbra». de muito longe. Esse acordar deveria ra e solar. Encerremos este primeiro à nossa geração, e que frequentaram a É urgente o som das guitarras do ser, antes de mais, o recordar do espíri- andamento com a leitura integral do sua barbearia, verdadeira escola de tempo rasgado ou em glissando, que to do Estudo Geral fundado pelo rei- poema que nos parece tudo resumir: ensinar, ocupando o lugar da universi- volte a trazer o tempo para tudo, já que poeta o Lavrador, com o original acento «Carlos Paredes – Ó guitarra lusitana!/ dade que nunca ensinava (como hoje) o o time is money há-de acabar um dia. Já discente e não docente, naquele velho Ó harpa das loucas correrias!/ Salgado que de melhor a cidade ia tendo. o profetizou o povo quando dizia: «o espírito estudantil de Bolonha e não da mar das fantasias.../ É a voz do povo No terceiro e último andamento o tempo dá-o Deus de graça!». autor como que se desliga do poema- Diríamos até que faltam guitarras de dedicatória, dos versos ofertados esbo- mãos suadas, essas que devolvam o INSTITUTO NACIONAL PARA APROVEITAMENTO çando este ou aquele guitarrista, para silêncio criador, que façam pausas no DOS TEMPOS LIVRES DOS TRABALHADORES Tempo útil - Tempo solidário conceber a guitarra única, a guitarra dia a dia. De tal modo um timbre nosso paradigma que, apesar de tudo, é real. que pudéssemos reduzir as importações, Real na paisagem não menos verdadei- sobretudo as de ideias que já não estão ra. Verdadeira porque alguém a toca próprias para consumo. Timbre original com os dedos e o coração, e não porque pelo qual poderíamos começar a dis- Venha daí, traga os que lhe são especiais e partilhe se ouça num altifalante enquanto uns pensar as citações obrigatórias, o tecido com o INATEL momentos únicos tantos apreciam camarões e os fazem adiposo dos currículos... Mais do que os deslizar na espuma artificial da cerveja. grandes volumes sonoros, é a guitarra, o Para concluir, vou ler dois poemas gume ao lado do coração, que pode CURSO DE JOVENS MÚSICOS – 18 A 23 de DEZEMBRO deste terceiro andamento. «Fado esconjurar o sono hipnótico que Por- CANTARES NATALÍCIOS – IGREJA MATRIZ DE ANÇÃ tugal dorme; ser resistência à barbárie Menor- Cansado de Coimbra/ e seus senhores/ cansado desta lua/ dos canto- plutocrata, ao síndrome da coca-cola... A Delegação do INATEL de Coimbra res/ cansado desse ontem/ e deste hoje/ Para que, se não pudermos ser «barões deseja a todos os seus associados Boas Festas Cansado de mim mesmo/ e dos douto- assinalados» sejamos povo assinalado, res/ Cansado.../sobretudo cansado/ E o e, como Agostinho da Silva dizia, além PARA INFORMAÇÕES, CONTACTE A DELEGAÇÃO DE COIMBRA: RUA DR. ANTÓNIO GRANJO, 6 que resta?/ E Coimbra a dos amores.» de poetas sejamos o poema! TEL.239853380/1 –FAX.239853384 – EMAIL: del.coimbra@inatel.pt Acode-nos à memória Pedro e Inês, ou Eduardo Aroso
    21. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 OPINIÃO 21 – Então, sempre compraste a revis- que assim seja. Por exemplo, lemos PRAÇA DA POIS... ta?... E trouxeste o pão?... revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano REPÚBLICA – Não, o pão não trouxe, que o di- emocional) ao vermos casais felicíssi- nheiro não chegou. mos e com vidas de sonho. Pronto, sa- bemos que aquilo é tudo mentira, que E alembrei-me do professor de Fi- muitos deles se divorciam ao fim de losofia: três meses e que outros vivem um alco- Carlos Carranca José «Nós, portugueses, adoramos viver olismo disfarçado. Mas adoramos fin- d’Encarnação enganados, iludidos e achamos normal gir que aquilo é tudo verdade». Goes Gládio uterino leviandade originada pela crise de valo- da gravidez, da natalidade e de apoio à res que nos apoquenta e empobrece fala infância... muito mais alto que o humanismo da Se o sim vencer, abrirá impavida- nossa civilização. mente as portas das nossas maternida- Oxalá não continuemos ainda dividi- des, patrocinará o estabelecimento de dos quando o egoísmo e a desumanida- clínicas abortivas já com malas e baga- de, atingindo o seu auge, nos colocarem gens para se instalarem e enriquecerem Renato Ávila no caminho a vida dos mais fracos e dos à custa de tanta miséria social, não para A voz é de terra e de tragédia, mais velhos, daqueles que implorando o dar à luz, mas para “sem penalizações” Ibéria toda. Está aí o referendo. Dia 11 de Fe- nosso apoio, só atrapalham o gozo do apagar a luz da vida. Sete luas? Sete sóis? vereiro. nosso bom viver. Se for o não, continuará a tragicomé- A noite é seu caminho... Os portugueses serão chamados a Para nós, o aborto será, de qualquer dia dos mediáticos e enxovalhantes jul- O mar cresce no espaço manifestar a sua opinião acerca de um ângulo de perspectiva, uma falência do gamentos. Para constar. de um deus que traz sozinho dos mais delicados problemas da nossa valor respeito pela vida e, num sentido Será que a consciência dos nossos a voz de outras vozes vida colectiva: a possibilidade legal de mais restrito, do humanismo cristão que políticos ainda não lhes bateu tão forte - a voz de Luiz Goes. matar (despenalização é um eufemismo sempre plasmou a nossa matriz cultural. que os levasse a procurar outras alterna- Carlos Carranca patetamente tendencioso) uma criança Não nos parece, todavia, que se deva tivas mais sérias e responsáveis? Criar, (in “Pedras Suspensas”, Universitária Editora, 1996) em gestação, até às dez semanas de vida atribuir as responsabilidades de toda por exemplo, serviços médicos e psico- FILATELICAMENTE uterina. esta leviana desumanidade aos seus sociais de aconselhamento, mecanis- Esta palavra matar aterroriza-nos. autores morais – os pais. mos mais austeros de pré-responsabili- Esta ideia matar uma criança dilacera- A sociedade tem de assumir a sua zação dos intervenientes. nos a alma. quota parte pela apologia de valores Será que a sociedade científica e as Isto é terrivelmente grave para ser negativos como: a liberdade hedonista e comissões de ética determinaram cor- assim tão leviana, acintosa, nua e crua- irresponsável, a falta de respeito pela rectamente o momento em que, à luz mente posto à consideração das consciên- integridade física e moral de cada um, o duma moral minimamente consistente, cias. excessivo culto da eterna juventude e a o ser gerado assume ontologicamente a João Paulo Temos orgulho em ser dos primeiros mórbida hostilização da velhice, a crua identidade de ser humano? Não estará Simões povos do mundo a abolir a pena de segregação dos deficientes e dos mais ele, porventura, muito mais próximo do morte. Passados cerca de século e meio, fracos... momento da concepção? D. Luís I encontramo-nos numa encruzilhada A esquerda defende acirrada e limi- No nosso modesto entender, o aborto para decidir se devemos permitir a pena narmente o aborto. Mas será que essa será a pior das soluções para uma gravi- Fita curva, não denteado capital para os indefesos e potenciais mesma esquerda algum dia se preocu- dez extemporânea ou indesejada. Será, (1866-1867) cidadãos cujos pais entendam, até às pou com toda a problemática decorren- porventura, um mal menor em situações Após a reforma de Francisco de dez semanas, não os deixar nascer. te dessa carência de valores? Será que a clínicas de anomalias que intervenham Borja Freire, foi contratado o gravador Suprimir a vida duma criança, dum esquerda, para além da reivindicação na má formação física e fisiológica da Charles Wiener para lhe suceder como filho gerado num são processo afectivo, sistemática, alguma vez se preocupou criança Primeiro Abridor da Cada da Moeda, é uma anormalidade. Liquidar uma cri- em fazer pedagogia, em criar condições Como cidadãos, desejaríamos bem cargo que começou a exercer a partir ança porque não foi planeada e muito susceptíveis de conferir alternativas que a pergunta que vai ser posta à vota- de Janeiro de 1865. menos desejada é dum egoísmo atroz. humanizadas ao recurso ao aborto? ção fosse mais clara e que a sua redac- Entretanto, Portugal tinha celebrado Apunhalar um ser humano indefeso A direita empreende a patética cruza- ção constituísse também um convite a convenções postais com outros países com a mesma leviandade com que foi da do NÃO. E que faz a direita? Recusa uma séria e profunda reflexão. nas quais se estabeleciam portes dife- gerado, é brincar com o que de mais às grávidas e às confessas candidatas à É absolutamente necessário que fi- rentes nos representados por Borja sagrado existe neste projecto da criação gravidez o direito ao emprego, excluin- que claro na consciência de cada um Freire, sendo necessário criar novos em que somos chamados a colaborar. É do-as liminarmente no processo de que, mesmo às oito ou dez semanas de valores para os selos do correio. pura e simplesmente sabotar. admissão e despedindo-as quando pre- gestação, um aborto é a deliberada pri- Assim, foram substituídos modelos Vamos estar divididos porque o cada- cário é o vínculo laboral. vação da vida, para não dizer assassina- anteriores por um novo padrão unifor- falso não é erguido na praça pública. Num país de índice negativo de to, de um ser que, por consanguinidade, me, que Wiener desempenhou sem Tudo se tem passado nos quartos das aumento populacional a direita, à gravi- é filho do seu autor moral e, por direitos grande sucesso artístico. abortadeiras, nas clínicas além-frontei- dez, só tem como alternativas o desem- pré adquiridos, é nosso compatriota. Os selos de D. Luís, continuaram a ras. Só a mulher permite que o algoz prego e a prisão. Hipocrisia e cinismo a Vale mais uma boa reflexão e amadu- ser em relevo, impressos na mesma intervenha no silêncio do reservado. O toda a prova! recimento das ideias à luz dos nossos máquina, dotada agora de um divisor silêncio dos inocentes. O estado, por sua vez, parece querer valores tradicionais do que uma apres- capaz de espaçar uniformemente os Vamos estar divididos entre a vida e lavar as mãos. Está-se nas tintas relati- sada sentença de morte que é o que selos nas folhas e contendo vinte e oito a morte de milhares de membros das vamente às condicionantes sociais que parece querer vir a acontecer. selos dispostos em sete linhas e quatro futuras gerações destinados a enrique- empurram para o aborto: o desemprego, Precisamente porque, não estando colunas, todos eles com margens cer e a continuar este senil e depaupera- a carência de protecção familiar, a pro- bem conscientes da gravidade da situa- menores do que os anteriores. Um por- do país. blemática do exercício do poder pater- ção, nos encontramos tragicamente menor os diferenciava dos anteriores: Vamos estar divididos porque a nal e da adopção, as políticas de defesa divididos. a fita já não era direita, mas sim curva.
    22. 22 MÚSICA DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 menal novo “single” dos Black Strobe, Distorções “Shining Bright Star” (Phones Industrial Version). PARA SABER MAIS: - http://www.azzidodabass.de/ Mas fugindo do que costuma ser o - http://www.thomasschumacher.com/ denominador deste espaço, hoje escre- - http://www.gabrielanddresden.com/ ver-vos sobre um dos músicos que mais - http://www.myspace.com/blackstrobe/ admiro na actualidade, não só pelo seu - http://www.rodrigoleao.pt/ ecletismo, mas, sobretudo, pelo virtuo- - http://www.depechemode.com/ José Miguel Nora sismo e criativo que imprime nas suas - http://www.seafood.uk.com/ josemiguelnora@gmail.com criações, sejam elas no âmbito do seu - http://www.u2.com projecto em nome próprio, seja pelo seu - Azzido Da Bass Feat. Johnny Blake Depois de na quinzena passada ter passado, enquanto “parte” dos Sétima “Lonely By Your Side” (Luscious eleito os melhores discos nacionais, Legião ou dos Madredeus. Como é Sounds) hoje vou eleger os melhores concertos a óbvio, trata-se de Rodrigo Leão, que - Thomas Schumacher “Home” (Bush) que assisti em 2006, surgindo à cabeça acaba de editar uma colectânea retros- - Gabriel & Dresden “Dangerous os concertos dos Bloc Party e dos We pectiva da sua carreira, intitulada “O Power (Club Mixes)” (Organized Are Scientists no Festival de Paredes de Mundo (1993-2006)”, mas, além de ser Nature) Coura, assim como as actuações dos uma “revisão da matéria dada” de todos - Black Strobe “Shining Bright Star” Pearl Jam e dos Depeche Mode no Pavi- os seus temas, inclui também novas ver- (Playloudrecordings) lhão Atlântico, o concerto dos Strokes sões dos temas “Carpe Diem”, - Depeche Mode “The Best Of… no Lisboa Soundz e, ainda, o dos Arctic “Amatorius” e “Ave Mundi Luminar”, (Vol.1)” (Mute Recordings) Monkeys no Paradise Garage. Foi, de assim como os inéditos “Rua da Ata- - Rodrigo Leão “ O Mundo (1993- facto, um ano riquíssimo em actuações laia”, “Voltar”, “Solitude”. Mas este 2006)“ (Sony BMG) ao vivo e para 2007 resta-nos desejar “best of” não esquece a “pré história” - Seafood “Paper Crown King” um “cartaz” igual a 2006. da sua carreira a solo e inclui “Tardes de (Cooking Vinyl) Visto que ao longo destas semanas Bolonha” – composto para os Madre- tenho destacado e analisado todos os deus – e “Ascensão” dos tempos dos discos que fizeram parte do que o ano Sétima Legião, que já tinha sido incluí- de 2006 teve de melhor, no que toca à do em “Pásion” (o único disco ao vivo música internacional, é aos leitores deste compositor português), mas que deste espaço que cabe escolher qual foi, neste “best of” aparece pela primeira de facto, o melhor. Por isso, aguardo as vez em versão de estúdio. vossas listas na minha caixa de correio novos, e as surpresas não tardaram em Para o fim, ficam as derradeiras electrónico. aparecer, seja pelos Azzido Da Bass, ou sugestões para o Natal que se avizinha, Nas últimas semanas tenho estado por Thomas Schumacher, ou por Ga- e nos discos as minhas recomendações bastante activo na pesquisa de discos briel & Dresden, ou, mesmo, pelo feno- recaem sobre o “novo” “Best of…” dos Depeche Mode e sobre “O Mundo (1993-2006)” de Rodrigo Leão, já no que toca a livros “U2 by U2” – há uma edição em português - e “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer” são as minhas sugestões, e, já agora comprem o fantástico “Signal Sparks” dos Sea- food, no qual tenho andado viciado nas últimas semanas. - “U2 by U2” (Fubu) Resta-me desejar umas boas festas a - “1001 Discos Para Ouvir Antes de todos os leitores. Morrer” (Lisma) Música ligeira atraiu 3 milhões de espectadores em 2005 Os concertos de música ligeira em latório do INE. Mais de dois terços Portugal atraíram três milhões de es- dos espectáculos (67 por cento) de- pectadores em 2005, proporcionando correram nas regiões de Lisboa e do uma receita de bilhete ira de 22,1 milhões Norte, que concentraram também 70 de euros, indicam os “dados da cultura e 18 por cento das receitas de bilhe- 2005”, divulgados pelo Instituto Na- teira, respectivamente. cional de Estatística (INE). Segundo a mesma fonte, o teatro Aqueles números representam um foi a área com maior número de ses- terço da assistência a todos os espec- sões (48 por cento do total), mas em táculos realizados o ano passado em termos de espectadores e de receitas Portugal, incluindo ópera, teatro e de bilheteira “foram os concertos de tauromaquia, e cerca de 42 por cen- música ligeira que passaram a ter to das receitas globais do sector. mais expressão”. No conjunto, “em 2005, realiza- Os concertos de música clássica ram-se 24.471 sessões de espectácu- atraíram apenas 6,2 por cento dos los ao vivo, registando um total de espectadores e a ópera continuou a cerca de 9 milhões de espectadores” registar o mais elevado preço médio e “o total de bilhetes vendidos foi de por bilhete (25 Euros), à frente da 4 milhões, gerando receitas no valor tauromaquia (19 euros) e das varie- de 52,4 milhões de euros”, diz o re- dades (16 euros).
    23. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 INTERNET 23 IDEIAS DIGITAIS variados documentos de Portugal e do Brasil. Na totalidade estão catalogados A tarefa não é fácil e, com vista a atin- gir esta meta, a France 24 conta com FLYLC.COM 50 mil textos em português e a platafor- parceiros como a agência de notícias ma permite pesquisa mais de 45 mil- France Press, a RFI (Rádio France In- hões de palavras nesta base de dados. ternationale), France Televisions e a A interface permite fazer pesquisa TF1. Inês Amaral por palavras-chave ou frases, classes Jacques Chirac foi o grande impulsi- Docente do Instituto gramaticais, palavras “vizinhas” e le- onador deste projecto que arrancou em Superior Miguel Torga mas. É ainda possível comparar a fre- 2002 e resulta de uma parceria público- quência e a distribuição das palavras, privada. Com vista a realçar os valores frases e construções gramaticais através francófonos e com um orçamento YOU WITNESS NEWS de três processos diferentes: compara- modesto, a France 24 promete um olhar ções de registos (a oralidade, a ficção, sobre a actualidade com uma perspecti- os discursos jornalístico e académico); O Flylc.com é um motor de busca de va francesa 24 horas por dia e sete dias dialecto (as diferenças de língua entre voos europeus em companhias low cost. por semana. Para 2007, a France 24 Portugal e Brasil no século XX); perío- O site permite aceder a listas de desti- conta com um investimento público de do histórico (comparação da língua de nos e de partidas por aeroporto e por 86 milhões de euros. 1300 a 1900). Esta plataforma é patroci- país e a um inventário de companhias Um orçamento substancialmente nada pelo US National Endowment for europeias de baixo custo. Para utiliza- inferior ao das suas concorrentes di- the Humanities e é um valioso contribu- dor o motor de busca basta aceder aos rectas – BBC, CNN e a recém lançada to para quem se interessa pela língua links ou seleccionar o ponto de origem Al-Jazeera Internactional. Tanto o portuguesa. e de partida num quadro principal, que canal árabe como a France 24 vão che- O jornalismo do cidadão é já uma nos lista as companhias aéreas que gar ao cabo português já em Janeiro de realidade e nasceu como consequência Links relacionados: fazem os voos pretendidos. 2007. da chamada Web 2.0 e do avanço das te- http://www.neh.gov/ – US National O site permite aceder a horários, cnologias móveis. O portal Yahoo e a Endowment for the Humanities taxas e fazer reservas online. O France 24 agência de notícias Reuters criaram o http://www.byu.edu/ – Universidade de Flylc.com lista quatro aeroportos portu- endereço: http://www.france24.com | You Witness, um sistema de contribui- Brigham Young gueses: Lisboa, Porto, Faro e Funchal. categoria: informação, televisão ção de notícias por utilizadores comuns. http://www.georgetown.edu/ – Univer- A partir da capital portuguesa há 13 «Where you there when news happe- sidade de Georgetown companhias a voarem para 45 destinos. O Corpus do Português Do Porto voam cinco empresas para 38 SLYDSHARE ned?» é o mote. endereço: http://www.corpusdoportu- A Reuters é a responsável pela edição aeroportos europeus. Faro é o aeroporto gues.org/ | categoria: português e distribuição dos conteúdos. O Yahoo português com mais destinos listados: disponibilizará imagens no Yahoo um total de 66 e 21 companhias. Quanto News. Os utilizadores podem enviar maior for a antecedência da marcação, INDÚSTRIAS CULTURAIS vídeos e fotografias. É a era do cidadão mais barata é a passagem. Por exemplo: jornalista, com os meios técnicos à dis- uma viagem de Lisboa a Barcelona, ida posição e a liberdade de publicar no e volta, em Fevereiro de 2007 custa 50 universo da web, numa ciberesfera à euros com taxas incluídas (preço apro- escala mundial. O You Witness não é ximado entre as várias companhias que um conceito novo. A novidade é mesmo fazem este percurso) – o que correspon- serem empresas do mundo da comuni- de mais ou menos ao preço de um bilhe- cação como o Yahoo e a Reuters reco- te de ida e volta de comboio entre nhecerem a importância do jornalismo Porto-Lisboa. O Slideshare é um site de partilha de do cidadão. conhecimento e um verdadeiro serviço Links relacionados: Flylc.com público na web. Este espaço permite http://today.reuters.com/news/globalco- O weblog Indústrias Culturais é um endereço: http://www.flylc.com/ cate- disponibilizar e consultar online slides- verage.aspx?type=youwitness& espaço de registo de pistas, leituras e goria: viagens hows dos mais variados assuntos. Trata- src=cms – site da Reuters para o You pesquisas no âmbito das indústrias cul- se de um website colaborativo organiza- Witness News turais. Ou seja, neste blog fala-se de do com base em tags (categorização por You Witness News imprensa, rádio, televisão, Internet, ci- FRANCE 24 palavras-chave). Os ficheiros a disponi- endereço: http://news.yahoo.com/you- nema, vídeo, jogos, música, livros e bilizar podem ser criados nas ferramen- witness | centro comerciais. Na rede desde Ja- tas PowerPoint ou OpenOffice. categoria: jornalismo, cidadania neiro de 2003, o Indústrias Culturais do A primeira página do Slideshare é o docente de Comunicação Rogério ponto de partida do utilizador. É possí- Santos é uma referência na blogosfera vel fazer login ou proceder ao registo, O CORPUS DO PORTUGUÊS portuguesa. ver os últimos slides e comentários adi- Os posts variam entre a actualidade cionados, consultar o slide mais popular do mundo da Comunicação e a investi- e as tags mais recorrentes, conhecer os gação do autor. Este weblog é um ver- utilizadores mais recentes, obter infor- dadeiro espaço multimédia apresentan- mações sobre a utilização que os ciber- do entradas com hipertexto, imagens e nautas fazem do Slideshare e as novida- vídeo q.b. Nas colunas laterais, Ro- des recentes desta plataforma. Profes- gério Santos apresenta as capas dos Está finalmente a emitir a France 24 sores e alunos do mundo inteiro estão a livros publicados pelo autor, das revis- ou a chamada “CNN à francesa”. A disponibilizar as suas apresentações no tas onde colabora e da literatura que estação começou a emitir na web a 6 de Slideshare, assim como organizadores recomenda, hiperligações para sites do Dezembro e arrancou no cabo e no saté- de conferências e investigadores. Mas O Corpus do Português está disponí- seu interesse, links de vídeos realizados lite no dia seguinte. A nova televisão este não é um site de carácter académi- vel na rede há cerca de um mês. O site pelo “blogueiro” e outras informações emite em francês, inglês e árabe e é o co. Há slides de tudo, desde registo de é fruto do trabalho de dois investigado- que sistematicamente vão sendo actua- primeiro canal francês de informação a casamentos e outros eventos até ao res das universidades norte-americanas lizadas. emitir em contínuo. A redacção é com- (indispensável e inevitável) humor. de Georgetown e Brigham Young. Os posta por 170 jornalistas de 28 naciona- autores, Mike Davis e Michael Ferreira, Indústrias Culturais lidades que têm como missão conquis- Slideshare criaram uma base de dados sobre a lín- endereço: http://industrias-culturais. tar 80 milhões de espectadores em endereço: http://slideshare.net/ | catego- gua portuguesa com base em estudos e blogspot.com | categoria: weblogs França e outros 190 no resto do mundo. ria: conhecimento, software, partilha
    24. 24 T E L E V I S ÃO DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 PÚBLICA FRACÇÃO A informação séria não deve recorrer a estas suspensões, a esta articulação do UM GRANDE MOMENTO DE TELEVISÃO maioria das pessoas. O programa, da autoria e conduzido pela jornalista discurso que, na oralidade, deforma a Catarina Neves, conta com a participa- sua compreensão. “Um grande momento de televisão”, ção dos psiquiatras Luísa Gonçalves e A menos que o ob- foi como lhe chamou o produtor da Co- Vítor Amorim Rodrigues. jectivo fosse o de municaSom, responsável pelo programa Cada edição aborda em cerca de 15 ironizar, o que se- “Fátima” que Fátima Lopes apresenta minutos um tema, como a solidão, o de- Francisco Amaral ria inadmissível na nas manhãs da SIC. Um miúdo de 15 sejo, a raiva, o desespero ou a morte. franciscoamaral@gmail.com abertura de um Te- anos, com distúrbios mentais, que, su- Cada assunto é apresentado com a exibi- lejornal, o sentido postamente, bate na mãe, foi repreendi- ção do excerto de um filme. Por exemplo, O SALÁRIO MÍNIMO NA RTP que se tira da opção do em directo pela apresentadora. já foram utilizados momentos de filmes tomada por Rodri- Fátima, qual deusa omnipresente, garan- como “Casablanca” e “Cinema Paraíso”. É cada vez mais difícil não acreditar gues dos Santos é tiu que vai ficar de olho nele e o público O programa é gravado num cenário na governamentalização da Informação a de uma lamentável construção que, empolgou-se. Ah grande Fátima! É imprevisto, à primeira vista desconfor- na RTP. No Telejornal do passado dia 5, sem ser falsa, induz o espectador em assim mesmo! Di- a notícia de abertura foi sobre o aumen- erro. rigiu-se à pessoa to do salário mínimo nacional. Um as- Nada disto, porém, tem limitado o en- errada, mas que sunto que, sem qualquer dúvida, mere- tusiasmo da própria RTP a propósito das importa? Penim cia lugar de destaque. Mas, subtilmente, audiências do Telejornal, que terão atin- deve ter dado um a informação foi dada da forma que gido valores que já não eram registados salto de contenta- mais convinha ao Governo: o salário desde 1999. Há quem defenda, e eu con- mento. As audiên- mínimo nacional vai subir para 500 € ... cordo, que a RTP deve dar conta não dos cias dispararam e Fátima confirmou que tável, num interior de um palácio e uti- em 2011. resultados comerciais da audimetria, é a “bomba” que Rangel descobriu. lizando uma disposição em triângulo José Rodrigues dos Santos disse-o mas sim de estudos qualitativos inde- dos participantes. Como é apresentado com a pausa necessária. Assim, o efeito pendentes, científicos, sobre a qualidade SER HUMANO depois de ser editado, não há tempos foi o pretendido. Quando se escuta “o dos programas e conteúdos informativos mortos e a mobilidade proveniente da salário mínimo nacional vai aumentar que emite, em estrito acordo com a Lei No meio do abundante lixo televisi- utilização de planos improváveis para para 500 €...”, quem vive (mal) com tal da TV e do Contrato de Concessão a que vo, há ainda quem tente deixar alguns um directo, tornam “Ser Humano” num salário, nem esperará pelo resto do lan- a empresa está obrigada. Enquanto isso produtos em bom estado. A SIC- produto televisivo diferente. É uma ten- çamento. O mais certo será saltar na ca- não acontecer, o serviço público conti- Notícias tem alguns momentos que vão tativa bem conseguida de criar objectivi- deira, embora com o desenvolvimento nuará a dar provas de que não consegue para além do conceito habitual de infor- dade num formato normalmente mole. da matéria se vá aperceber, com desâni- distanciar-se dos mecanismos da televi- mação. “Ser Humano” é um deles. Para o efeito contribui também muito a mo, que os tais 500 € só serão pagos são comercial e, assim, de não cumprir o “Ser humano” procura colocar ques- lucidez e clareza dos colaboradores e as daqui a cinco anos. seu desígnio. tões que reflectem as inquietações da palavras exactas da jornalista. Associação de Futebol de Coimbra Rua Ferreira Borges, 155 - 2.º – Apartado 6077 – 3000-180 Coimbra Telefone – 239 853 680 – Fax: 239 853699 email: afcoimbra@afcoimbra.com – www.afcoimbra.com Deseja a todos os seus Associados Boas Festas e sucessos desportivos para 2007

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