Jornal da Universidade de Coimbra – Março 2006

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    Jornal da Universidade de Coimbra – Março 2006 - Presentation Transcript

    1. À TONA DA INVESTIGAÇÃO FALTA DE VERBA PARA PATENTES NO FUNDO DO MAR NÃO IMPEDE PROJECTOS INOVADORES Combater a praga dos lagostins no Rio Nilo, zelar pela Construir motores que dispensam óleo lubrificante, criar qualidade das águas costeiras e fluviais de países africanos, revestimentos que tornam os aviões mais seguros, impedir aproveitar as ondas para produzir energia, descobrir bactérias que a prata perca o brilho, fabricar redes para as artérias que resistentes no fundo dos oceanos – são algumas das áreas o organismo humano não rejeite – eis alguns dos projectos em que estão empenhados mais de 300 investigadores de pioneiros a nível mundial que estão a ser desenvolvidos num diversas Universidades portuguesas pertencentes ao Instituto Instituto da FCTUC, presidido por uma mulher. do Mar (IMAR), a que preside João Carlos Marques, Vice-Reitor da Universidade de Coimbra. PAGINA 10 PAGINA 3 DESTAQUES UC Há 30 anos: a primeira presidente da AAC 9 Número 1 Catedrática ensina 1 Março 2006 Jornal Gaiatos 15 Antiga aluna da UC faz 107 anos 18 RUC: há 20 anos sempre no ar 20 da Univer sidade DIRECTOR: JORGE CASTILHO DIRECTORES-ADJUNTOS: DINIS MANUEL ALVES E MÁRIO MARTINS EM “SEMANA” DE 11 DIAS M aré cheia de cultura espraia-se pela Região PAGINA 4 APÓS SÉCULOS DE SEGREGAÇÃO ulheres conquistam maioria na comunidade universitária PAGINA 6
    2. 1 Março 2006 2 Jornal da Universidade ESTATUTO EDITORIAL EDITORIAL O Jornal da Universidade de Uma explicação necessária Manuel Alves e Mário Martins. E o mesmo sucede A Mulher, porque no próximo dia 8 se comemo- Coimbra é um projecto jornalísti- com os restantes jornalistas que colaboram nesta ra o seu Dia Internacional, o que é pretexto para se co essencialmente destinado à edição e nas que se lhe seguirem. focar o papel de relevo que ela actualmente desem- Comunidade Universitária, total- O Jornal da Universidade é, pois, um projecto penha na Comunidade Universitária e o difícil cami- mente independente em termos profissional, que se norteia por critérios exclusiva- nho que teve de vencer para aqui chegar. editoriais, pautando-se por crité- mente jornalísticos, com rigorosa observância das No que respeita à Semana Cultural, o respectivo rios exclusivamente profissio- normas que regulamentam o exercício desta activi- programa é tão vasto que a mera enumeração de nais. dade (compromisso de honra plasmado no todas as actividades quase esgotaria as páginas Estatuto Editorial que nesta página se publica). deste jornal. Optámos, por isso, por destacar al- O Jornal da Universidade procu- A principal preocupação do Jornal da guns aspectos que nos pareceram mais relevantes, Universidade de Coimbra é divulgar o que de mais rará pesquisar, tratar e divulgar remetendo os leitores para o programa completo relevante existe e se vai fazendo no seio da tão a informação considerada rele- editado pela Universidade – que está a ser profu- vasta e tão heterogénea Comunidade Universitária vante para a Comunidade a samente distribuído e que bem justifica consulta Por JORGE CASTILHO a quem se dirige (actualmente cerca de 25 mil pes- quem se dirige, tentando con- atenta. soas, englobando alunos, docentes, investigadores tribuir para um melhor conheci- Em contrapartida, o tema inspirou uma reporta- Ao contrário do que alguns poderiam pensar, e funcionários). mento das suas realidades, dos Para cumprir a sua função em plenitude, o Jornal gem em que se divulga o notável trabalho que está este novo jornal não é um órgão oficial ou oficioso da Universidade espera que os elementos da refe- a ser desenvolvido pelo Instituto do Mar, a que a seus projectos e da diversifica- da Universidade de Coimbra. Quando me dirigiu o convite para dirigir o Jornal rida Comunidade não só o leiam, mas que igual- Universidade de Coimbra está intimamente ligada. da actividade que nela se de- da Universidade de Coimbra, o Magnífico Reitor mente nele participem, enriquecendo-o com infor- Quanto à Mulher, evocamos algumas que ousa- senvolve. deu-me conta dos objectivos que pretendia atingir mações, sugestões e críticas construtivas – que ram ser pioneiras. A Universidade de Coimbra vem- com esta publicação – e que vão expressos na nota podem ser dirigidas, por e-mail, para o seguinte en- -se tornando de cada vez mais feminina, com as O Jornal da Universidade não mulheres a terem já uma posição maioritária, mui- de sua autoria que nesta página se insere. dereço: fará concessões ao sensaciona- E desde logo me garantiu completa autonomia jornal.universidade@gmail.com tas delas ocupando funções de direcção e chefia. lismo e à superficialidade, antes editorial, sem interferência da Reitoria, ou de outros Na impossibilidade de as ouvirmos a todas, optá- procurará abordar todas as ma- órgãos da Universidade, no conteúdo do Jornal. O MAR E A MULHER mos por pedir um depoimento simbólico à que térias com respeito pelos direi- Aliás, por questões de natureza ética e deonto- Esta primeira edição, que se publica no dia em ocupa, neste momento, o lugar de maior destaque tos das pessoas e instituições, e lógica, nunca eu aceitaria enfrentar este desafio se que a Universidade assinala uns pujantes 716 anos – a Vice-Reitora Cristina Robalo Cordeiro. na incessante busca do rigor in- tais garantias não existissem. Também só perante de existência, é predominantemente ocupada por Justificadas que estão as nossas opções edito- formativo. esses pressupostos anuíram a partilhar comigo a dois temas: o Mar e a Mulher. riais para este primeiro número do Jornal da tarefa, na qualidade de Directores-Adjuntos, dois O Mar, porque hoje se inicia a Semana Cultural Universidade, resta-nos manifestar a esperança de outros jornalistas com larga experiência: Dinis que o tem por mote. que ele não desiluda os leitores. O Jornal da Universidade não se deixará instrumentalizar por quem quer que seja e respeitará escrupulosamente os princípios éticos e as normas deontológi- Um jornal. Uma ideia de Universidade. cas do jornalismo. funcionamento e para o bom desempenho de qual- tórias para contar, estão convocados para mostrar quer instituição: a informação do que faz e a comu- ao país e ao mundo as ideias e os projectos que nicação entre quem faz. Desta vez, a Universidade neste cadinho em permanência fervilham. Mas de Coimbra não poderá ser pioneira. Mas pode como elemento de uma estratégia de Uni- FICHA TÉCNICA destacar-se pela qualidade. Pode e quer fazer do ver[sc]idade, irmão mais novo da Rua Larga e dela Jornal da Universidade de Coimbra mais um exem- se diferenciando na forma, no conteúdo, na perio- plo de sucesso, mais uma iniciativa na qual tenha- dicidade e nos objectivos, o Jornal da Universidade Director: mos gosto em nos rever e da qual nos possamos de Coimbra vai ser também capaz de manter diálo- JORGE CASTILHO orgulhar. gos com o tecido económico, social e cultural, pro- curando interpelar os seus agentes e estabelecer Directores Adjuntos: Tomando o nome da nossa Universidade, este contactos entre o que se faz de um e de outro lado DINIS MANUEL ALVES MÁRIO MARTINS jornal adopta uma identidade, uma responsabilida- da Porta Férrea. de e uma missão. Abordará a sua História, mas não Concepção e edição gráfica: Por FERNANDO SEABRA SANTOS se conformará com o prestígio que ela lhe confere, Em ano de depressão orçamental particularmen- AUDIMPRENSA antes se inspirará na sua longa tradição de fazer te grave, a auto-sustentação económica do projec- E-mail: Ao longo da sua História multissecular, como coisas novas como exemplo para os caminhos de to é a única garantia da sua perenidade. A simples jornal.universidade@gmail.com hoje, muitas vezes a Universidade de Coimbra teve modernidade que pretende trilhar. existência deste Jornal é também a prova de que a capacidade de se destacar pelo carácter inédito e Telefone: só quem não quer ou não sabe é que se refugia na pela inovação das suas propostas e descobertas. Nas páginas que se seguem, e nas que a estas 239 854 150 falta de recursos para deixar de fazer o que é ne- se sucederão, é toda a Universidade de Coimbra Fax: Não é esse o caso do jornal que agora vos chega cessário. que vai estar representada. Todos aqueles que a 239 854 154 às mãos. Várias Universidades em todo o Mundo, constituem e que diariamente a constroem, docen- Impressão e até algumas em Portugal, optaram já por editar tes, investigadores, estudantes e funcionários, Fa- Ao Jornal da Universidade de Coimbra que agora CORAZE - OLIVEIRA DE AZEMEIS o seu próprio jornal, como forma de resolver uma culdades, Departamentos, Institutos, Unidades de dá o seu primeiro passo se deseja uma longa e pro- questão que hoje é considerada crucial para o bom Investigação e Serviços, todos quantos tenham es- fícua caminhada.
    3. 1 Março 2006 REPORTAGEM Jornal da Universidade 3 VICE-REITOR DA UC PRESIDE A INSTITUTO COM MAIS DE 300 INVESTIGADORES DE VÁRIAS UNIVERSIDADES Descobrir a vida no fundo do mar NELSON MATEUS ATAQUE AOS LAGOSTINS DO NILO Os campos hidrotermais “trazem uma perspectiva completamente diferente do Um dos projectos em que o IMAR está que é a vida a grande profundidade”, re- envolvido é o de livrar o Rio Nilo de fere João Carlos Marques presidente do uma praga de lagostins. A grande con- Instituto do Mar (IMAR) e também Vice- centração desta espécie provoca estra- Reitor da Universidade de Coimbra. São gos avultados e o instituto teve já uma autênticos oásis no fundo do mar que experiência neste âmbito no Baixo não param de surpreender os cientistas. Mondego, onde há alguns anos se veri- A realidade que os investigadores ob- ficou um problema semelhante. servam nos campos hidrotermais tem re- A praga de lagostins teve um enorme velado grandes surpresas, levando impacto ambiental no Rio Mondego, já mesmo “à reformulação das teorias que os agricultores, em muitos casos, sobre a origem da vida”. Isto porque nos João Carlos Marques recorreram ao uso de pesticidas, o que campos hidrotermais surgem seres vivos resistência em condições extremas”, vindo a ser desenvolvida sobretudo com provocou outros efeitos indesejados. O “onde não há luz mas apenas energia acrescenta o responsável do IMAR. Estas o Instituto da Água, um trabalho em que problema dos lagostins é que escavam geoquímica”, explica o responsável do descobertas têm vindo a suscitar um “nós somos o software”, sublinha o pre- com grande facilidade e, no caso do IMAR. Poderá, pois, acontecer que a ori- óbvio interesse por parte da indústria sidente do IMAR. Baixo Mondego, isso representou uma gem da vida “não terá sido à superfície farmacêutica, que acompanha de perto É com agrado que João Carlos Mar- série ameaça à cultura do arroz. Mas o do mar”, como se pensava, “mas nos o trabalho dos investigadores. Isto por- ques, biólogo marinho de formação, IMAR conseguiu encontrar “uma solução campos hidrotermais”. que a descoberta dos princípios bioacti- constata que “o mar em termos do que que permitiu controlar a situação”, É em zonas de separação das placas vos que tornam as bactérias tão resis- são as agendas políticas passou a ter um tendo a questão ficado resolvida, expli- tectónicas que surgem estes campos que tentes permitiria abrir um mundo de lugar”, apesar disso não ter ainda os ca João Carlos Marques, são como uma ilha térmica e que resul- possibilidades no tratamento e preven- efeitos práticos desejados. “Nós temos Agora, no Nilo, os buracos feitos pelos tam do calor que escapa do interior da ção de doenças. uma vocação marítima que tem sido dei- lagostins são mais uma vez o problema, Terra. Nos Açores existem vários campos Investigadores do IMAR acompanham xada adormecida”, lamenta o Vice- já que estão a causar graves danos nos a grande profundidade, um dos quais a a evolução dos campos hidrotermais dos Reitor. A falta de estratégia tem impedi- sistemas de irrigação que existem ao cerca de 1700 metros. Açores não só com descidas às zonas em do um bom aproveitamento do potenci- longo do rio. Os campos funcionam em muitos que existem estes campos, mas também al do mar, uma situação que os vários O IMAR está, pois, a colaborar com os casos como autênticas ilhas, já que “por com a reprodução em laboratório das projectos de investigação do IMAR ten- técnicos egípcios que tentam resolver o vezes têm uma flora e uma fauna que só condições das grandes profundidades. É tam contrariar. problema. A solução encontrada para o pode ser encontrada ali” e que já não precisamente através da recriação do O trabalho do Instituto do Mar desen- Baixo Mondego vai, desse modo, ser existe noutros campos hidrotermais, re- que existe no fundo do mar que os in- volve-se em diferentes áreas, como a bi- também aplicada no Egipto. fere João Carlos Marques. São zonas com vestigadores têm possibilidade de anali- ologia marinha, a aquacultura, a gestão Esta colaboração surge na sequência uma biodiversidade e biomassa bem di- sar o comportamento dos organismos de zonas costeiras, a análise de impac- de vários programas de cooperação que, ferente do que é normal no fundo mar. que vivem nos campos hidrotermais. tos ambientais ou o transporte de sedi- ao longo dos últimos anos, o IMAR tem Por exemplo, o número de indivíduos mentos. O instituto dedica-se também à por metro quadrado nos campos hidro- desenvolvido com países do Norte de REDE NACIONAL análise da poluição ou da toxicologia, África, em particular, Marrocos, Tunísia e termais aproxima-se do meio milhão, en- quanto que em outras zonas a média é DE INVESTIGADORES bem como a realizar modelação ecológi- Egipto. Em trabalhos financiados pela ca e hidrodinâmica. apenas de cerca de 20 indivíduos. União Europeia, o Instituto fez já a ca- Nasceu para criar uma rede de investi- racterização da qualidade ambiental das gadores mas hoje é um importante pólo ENERGIA DAS ONDAS RESISTÊNCIA A GRANDE aglutinador do trabalho científico que se águas costeiras dos três países. Um tra- PROFUNDIDADE faz em Portugal ligado ao mar. O A mais recente das apostas do balho que incluiu igualmente o planea- mento de um desenvolvimento susten- Instituto do Mar deu os primeiros passos Instituto é no aproveitamento da ener- As características únicas destes cam- tável para essas zonas costeiras, de no início da década de 90 mas rapida- gia das ondas. Já foi apresentada uma pos são alvo da análise dos investigado- mente se afirmou como um parceiro es- forma que os países possam aproveitar proposta para desenvolver um estudo res do IMAR, já que se trata de um âm- tratégico dos poderes públicos para as sobre o assunto. João Carlos Marques esses recursos do modo mais equilibra- bito que tem “trazido novidades interes- decisões políticas ligadas ao mar, e à diz estar “muito esperançado de que o do e eficaz. santíssimas”, acrescenta João Carlos água de um modo geral. projecto será financiado”, isto tendo em Numa segunda fase, a colaboração Marques. É possível, por exemplo, en- O instituto tem hoje a funcionar em conta que o Governo português já decla- com os países do Norte de África passou contrar bactérias vivas em zonas em que rede sete unidades de investigação dis- rou total prioridade às questões ligadas não só pelas zonas costeiras, mas es- a água atinge os 180 graus, enquanto persas entre Coimbra, Lisboa, Évora, às energias renováveis. tendeu-se igualmente às bacias hidro- que as bactérias que se encontram à su- Algarve e os Açores. Uma rede que inte- O projecto do IMAR vai dividir-se em gráficas, abrangendo assim também perfície não resistem a temperaturas su- gra mais de 300 investigadores, sendo duas vertentes. Por um lado, a análise zonas de água doce. Na linha do traba- periores aos 100 graus e por isso podem que destes cerca de 140 são doutorados. vai debruçar-se sobre a forma de produ- lho que já tinha sido feito, também ser eliminadas simplesmente fervendo Um trabalho contínuo feito pelos mem- ção de energia, e por outro será avalia- neste caso foi realizada uma análise dos água. bros do IMAR é o de apoio aos vários do o impacto ambiental que poderá ter ecossistemas, para fornecer dados aos No mar profundo a situação é diferen- governos na implementação da Directiva a instalação dos equipamentos para decisores políticos quanto às melhores te e “os organismos têm capacidade de quadro da Água. A colaboração tem aproveitamento da força das ondas. opções a tomar.
    4. 1 Março 2006 4 Jornal da Universidade S E M A N A C U LT U R A L “DE MAR A MAR” – VIII SEMANA CULTURAL DA UC Maré cheia de actividades para todos os gostos Cerca de uma centena de realizações tulado “Tanto Mar”, que decorre na muito diversas, a decorrer em Coimbra e Figueira da Foz. em vários outros pontos da Região “Arrebatador” – eis como João Gouveia Centro, fazem da Semana Cultural da Monteiro antevê esta festa de música e Universidade de Coimbra, que hoje (dia poesia pluricontinental. 1 de Março) se inicia, a maior e – justifi- Um aspecto que igualmente avultará cadamente se espera – a melhor de sem- na “Festa dos Sons, dos Saberes e dos pre. Sabores”, organizada pelas associações Depois da Expo-98, esta é, seguramen- dos estudantes da Comunidade dos te, a realização mais importante e de Países de Língua Portuguesa (CPLP) na maior vulto, relacionada com a água, Universidade de Coimbra, com a colabo- que se leva a cabo em Portugal. E cons- ração do Centro de Estudos Sociais da titui também, sem margem para dúvidas, Faculdade de Economia e do Centro de o mais vasto conjunto de iniciativas cul- Documentação 25 de Abril. Para além da turais a decorrer em Coimbra num tão mostra de gastronomia das ex-colónias curto espaço de tempo. portuguesas, os estudantes oriundos À frente da pequeníssima equipa que desses países (cerca de um milhar), vão tem vindo a organizar este raro e valio- fazer animação de rua, que certamente so programa está o Pró-Reitor para a contagiará a população com a sua habi- Cultura, Prof. João Gouveia Monteiro, tual alegria espontânea. que destaca, ao “Jornal da Univer- sidade”, a originalidade do tema, mas DA ARTE DE LER também o seu interesse e a sua abran- AO SERÃO POPULAR gência. Abrangência em termos das entidades A VIII Semana Cultural começa hoje participantes, mas também de destinatá- (quarta-feira, dia 1 de Março), pelas 9,30 rios, uma vez que há realizações nas horas, no Arquivo da U. C., com o lança- mais diversas áreas e para todos os gos- mento da terceira edição do concurso de tos. leitura paleográfica intitulado “A Arte de “É um tema de forte identidade nacio- Ler”. Segue-se, pelas 12 horas, na Capela nal, muito amplo do ponto de vista cien- de S. Miguel, a celebração de Missa tífico e excelente também no plano das Solene, com a participação dos Coro dos práticas de representação culturais. É, Antigos Orfeonistas. além disso, um tema muito oportuno, Pelas 14,30 horas de hoje, no pois falar do mar, da água, dos recursos Auditório da Reitoria, decorre a Sessão hídricos ou do meio ambiente, é discutir Solene comemorativa dos 716 anos da um dos problemas mais importantes da João Gouveia Monteiro U. C., que inclui a entrega do Prémio nossa vida em sociedade e do futuro do Universidade de Coimbra à Prof.ª Maria nosso Planeta”. signação “De Mar a Mar” foi sugerida público, de todas as idades, cobrindo Helena da Rocha Pereira (a primeira Daí que todas as Faculdades tenham por João André, Professor da Faculdade quase todas as áreas científicas e cultu- Mulher que se doutorou pela Univer- aderido com entusiasmo, tal como ou- de Letras. Identificado o padrinho, volte- rais. Tal como sucedeu com a Semana sidade de Coimbra, e que concedeu uma tras estruturas e serviços da Comunidade mos a ouvir o mentor desta oitava edi- Cultural do ano passado, é seguro que entrevista muito interessante ao “Jornal Universitária e da Associação Académica ção da Semana Cultural, João Gouveia os seus efeitos se prolongarão para além da Universidade”, que se publica mais à de Coimbra, dando o seu contributo para Monteiro: do respectivo encerramento, por via das frente, nesta edição). A encerrar este pri- a extensão e a riqueza do programa. Mas “Consolidando e ampliando a evolução exposições que continuarão patentes ao meiro dia, pelas 21,30 horas, no Teatro a iniciativa conta com a participação, di- do ano anterior, em que a Semana público, dos ciclos de conferências que de Gil Vicente, um concerto pela recta e indirecta, de muitas outras enti- Cultural da U. C. se alargou visivelmente prosseguem e dos espectáculos que se Orquestra Sinfónica ARTAVE. dades, desde autarquias até ao Governo ao conjunto da cidade, esta edição não manterão em cena”. Onze dias depois (A 11 de Março), a (através do Ministério da Defesa e dos se circunscreve a Coimbra, mas antes se encerrar a Semana Cultural, haverá um Assuntos do Mar), passando por outras estende até ao mar. Mais concretamente, “TANTO MAR” espectáculo pelo Orfeon Académico de instituições públicas e privadas. à Figueira da Foz (Centro de Artes e PLURICONTINENTAL Coimbra e, nessa mesma noite, um Espectáculos, que será palco de um dos Serão Popular, promovido pela Casa de “DE MAR A MAR” pontos mais altos do programa), a Íhavo O programa da “Semana Cultural” re- Pessoal da U. C. no Teatro Paulo DE COIMBRA ATÉ À COSTA (Museu Marítimo), passando por veste-se de extraordinária diversidade: Quintela. Cantanhede (Museu da Pedra), e indo teatro, cinema, música, dança, canto, lei- Entre a abertura e o fecho, Coimbra e De Mar a Mar. Uma designação muito até uma série de outros pontos do tura, exposições científicas e de artes outros pontos da Região Centro serão feliz para esta “Semana” (que até nisso Litoral Centro, como Óbidos e Peniche plásticas, conferências, visitas guiadas. inundados por uma espantosa maratona é original, pois será uma semana de (que serão objecto de visitas guiadas)”. De todas estas manifestações, talvez de eventos que certamente tornarão me- onze dias!...). O Pró-Reitor para a Cultura E o Pró-Reitor sublinha: não seja exagero afirmar que a mais em- morável esta VIII edição da Semana revelou-nos que, escolhido o tema, a de- “É um evento para todos os tipos de polgante deverá ser o espectáculo inti- Cultural da Universidade.
    5. 1 Março 2006 S E M A N A C U LT U R A L Jornal da Universidade 5 Dest a ques A seguir se referem algumas das actividades mais significativas do vastíssimo programa da VIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra DIA 1 MARÇO | QUARTA-FEIRA no reforço do conforto urbanístico ou da re- 14h30 - Pequeno Auditório do Centro de Embaixador João de Deus Ramos (Fund. 15h00 - Observatório Astronómico da UC presentação e visibilidade urbanas, a uma Artes e Espectáculos (Fig. da Foz) Mesa- Oriente, moderador), Cláudio Torres, Lada Palestra sobre Instrumentos de navegação escala alargada, ou mesmo mundial. Redonda sobre “O Mar como factor estraté- Eftekhari, Luís Filipe Thomaz (Univ. astronómica, desde os Árabes até ao final 09h30 - Arquivo da U.C. (Sala D. João III) Módulo 01. Mostra – cidades e frentes de gico do desenvolvimento de Portugal” Católica) e Pirouz Eftekhari (FLUC). Concurso (de âmbito nacional) de leitura pa- do Séc. XIX. Exibição do anel náutico inven- água Moderador: Duarte Silva (Presidente da C. 15h30 – 18h30 - Largo D Dinis leográfica “A Arte de Ler”. Trata-se da 3.ª tado por Pedro Nunes (fabricado no Ob. Revisita à Exposição organizada no Centro M. F. Foz) “Festa de Sons, Saberes e Sabores II” – edição de um Prémio que visa estimular a Astr., segundo a descrição do cientista) e de de Estudos da FAUP, em 1998, e comissari- Participantes: Tiago Pitta e Cunha (Com. Partilha festiva e interactiva de conhecimen- paleografia de leitura e, consequentemente, alguns instrumentos e documentos relevan- ada pelo Prof. Arq.to Nuno Portas, que fará Estratégica para os Oceanos), Manuel Lobo to, de tradições e de diferentes formas de o rigor e a originalidade no trabalho de in- a sua introdução e apresentação; tes. Exercícios de medição. Antunes (Sec. Estado da Defesa Nacional e ser e de estar entre os promotores e o públi- vestigação científica. Módulo 02. Mostra de Painéis – Frentes de - Exposição de instrumentos, cartas e livros dos Assuntos do Mar), Carlos Sousa Reis co. Organização de estudantes e associa- Água sobre navegação pertencentes à colecção (FCUL, Coord. Programa FINISTERRA), ções representantes dos estudantes de Projectos desenvolvidos por estudantes do Astronómica. 14h30 - Auditório Reitoria Luís Tadeu Almeida (IST) e Nuno Vieira Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Sessão Solene Comemorativa do 716º Darq-FCTUC, sob regência do Prof. Arq.to Matias (ex Chefe Estado Maior da Armada). Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor na Gonçalo Byrne (Coordenador das disciplinas 21h30 - TAGV Aniversário da UC. UC, enquadradas pelo CES e pelo CD 25 de Projecto do Darq-FCTUC), que fará a Conclusão do Ciclo de Cinema “Mar de Abril. Actividades: oficinas de dança, mú- sua introdução e apresentação. Trabalhos 21h30 - Centro de Artes e Espectáculos Português” 21h30 - TAGV (Fig. da Foz) sica, teatro e artes plásticas, encontro com académicos para renovação de “Frentes de - “Água e Sal” (Teresa Villaverde, 2001) Concerto de Aniversário da UC, pela Espectáculo: “Tanto Mar”, selecção literária escritores, artesanato, jogos e prova de be- Água Urbanas de Aveiro” e também de bidas e petiscos. Orquestra Sinfónica ARTAVE. “Frentes Portuárias e Marítimas da Figueira de Paulo Filipe, direcção musical de Laurent DIA 10 MARÇO | SEXTA-FEIRA I Parte: “História Trágico-Marítima”, de da Foz e da Nazaré” (com painéis de exer- Filipe, vídeo de Nuno Rebelo, com Paulo Fernando Lopes Graça (Solista: Oliveira Filipe e Sílvia Filipe. Uma viagem por dife- 18h00 - Arquivo da UC-Sala D.João III cícios premiados pelo “Prémio Secil – 10h00 às 13h00: - Casa Municipal da Lopes, Coro: UCEnsemble ) rentes continentes, separados e unidos pelo Inauguração da Exposição de Caligrafia Universidades”, ao longo dos últimos anos Cultura II Parte: “Sinfonia do Novo Mundo”, de mar, através da poesia de autores de vários Persa e Árabe (Editions Alternatives). lectivos). Fórum da “Água e da Saúde” Dvorâk países de língua portuguesa. Espectáculo Complementada com peças do Campo - Sessão de abertura, por João Gouveia de 1h20, produzido expressamente para a Arqueológico de Mértola. Entrada gratuita 18h00 - Colégio das Artes (DARQ) Monteiro (Pró-Reitor para a Cultura UC), VIII Semana Cultural da UC. Alia a compo- João Páscoa Pinheiro (FMUC) CIDADE E MAR. Paisagens Aquáticas nente literária com um forte elemento musi- 21h30 - TAGV DIA 2 MARÇO | QUINTA-FEIRA Ciclo de Debates (e conversa aberta com os - A água e a saúde. Ciência e cultura, Pedro cal (sobretudo jazístico) e ainda com projec- Espectáculo de Música Iraniana com autores): Cantista/HGSA), ções de imagens de mar em filmes de lín- Hushang Djavid, acompanhado pelo instru- Apresentação de paisagens aquáticas re- - Princípios de Hidroterapia, a água como 10h00, 11h30, 15h00 - Jardim Botânico gua portuguesa. Grande Auditório do mentista/percussionista Arsalan Kaveh. “De mar a mar – há ir e provar” – pela centes, incluídas em projectos de transfor- agente físico, João Páscoa Pinheiro CAE (F. Foz) Entrada gratuita Camaleão, actividade lúdico pedagógica, re- mação de frentes de água, ribeirinhas ou (FMUC), DIA 8 MARÇO | QUARTA-FEIRA alização de um “peddy-paper” seguido de marítimas, em território nacional e estrangei- - A água como agente químico, Tice Macedo sessão culinária, no terraço do Jardim das ro. DIA 5 MARÇO | DOMINGO (FMUC) 10h00-12h00 - Complexo Olímpico de Descobertas do JBC, organizado segundo a 1ª Sessão – Parque Verde do Mondego – - Recursos naturais e crenoterapia, Piscinas - Solum cronologia dos Descobrimentos, dar a co- Coimbra 21h30 - TAGV Frederico Teixeira (FMUC), Baptismo de mergulho e Introdução às nhecer as plantas e suas origens, as rotas Convidados: Ciclo de Cinema “Mar Português”: - Actividades aquáticas no contexto de pro- - “À Flor do Mar” (João César Monteiro, Actividades de Exploração Subaquática. marítimas, etc. Mercês Vieira & Camilo Cortesão (MVCC cura e oferta de programas de actividades 1986) Iniciação ao mergulho e sensibilização para Sessões até dia 11 (sábados só às 15h Arquitectos) com o Prof. João Ferreira físicas e desportivos, Manuel João (FCDEF- a actividade de investigação aliada à Nunes (Arquitecto Paisagista – ISA-UTL). UC), Arqueologia. Com o Mestre Luís Rama A sessão de debate será conduzida pelo DIA 6 MARÇO | SEGUNDA-FEIRA - Discussão 14h30 - Auditório Reitoria (FCDEF) e o Doutor Vasco Mantas (IA- Prof. Arq.to Domingos Tavares (Presidente - Conclusão, João Gouveia Monteiro (Pró- Simpósio “MAR E SAÚDE FLUC). Para estudantes, docentes e funcio- da Comissão Científica da FAUP) Reitor para a Cultura UC), João Páscoa - Sessão de Abertura 10h30 - Anfiteatro da FPCE nários da UC. - “Travessias Marítimas e Desenvolvimento Pinheiro (FMUC) Mares de Discussão [resultado dos ateliers da Farmácia: Perspectivas Actuais e 21h30 - TAGV de formação, Arquipélago Virtual, Dez.-Jan]– 15h00 -18h00 - Complexo Olímpico de Futuras.” Início do Ciclo de Cinema Mar Português Lançamento oficial dos blogs editados por Todo o dia - Auditório da FDUC Piscinas - Solum Moderador: Gabriela Jorge da Silva. - “Agosto” (Jorge Silva Melo, 1988), no dia 8 grupos de alunos e professores da FPCE; Colóquio “O MAR APROXIMANDO OS Jogos Aquáticos – Actividades de recreação - “A inovação de além-mar: a farmácia em haverá um debate “O cinema português e o atribuição de prémios aos cinco melhores POVOS: A UNIVERSALIZAÇÃO DO DIRE- aquáticas, para a comunidade universitária Portugal e as drogas americanas. Alguns mar” organizado pela Fila K blogs. ITO” (com a participação de docentes da e as escolas secundárias do distrito de casos e protagonistas (Sécs. XVIII-XX).”, Coimbra. Equipas mistas, com 5 a 10 parti- FDUC e de outras universidades portugue- João Rui Pita. DIA 3 MARÇO | SEXTA-FEIRA cipantes (prémio: 75€). Com o Mestre Luís sas, e também de alguns convidados es- 14h30-18h30 - Anfiteatro Nobre - “O mar e a descoberta de medicamentos. Rama (FCDEF). trangeiros – a indicar) DEQ/FCTUC (Pólo II) Uma ponte para o futuro.”, Luísa Sá Melo. 09h30 - Faculdade de Economia - Sessão de Abertura Simpósio – “A Engenharia Química e o Mar. - Produtos marinhos na saúde humana: pas- Colóquio: “A Economia Marítima (ainda) Painel 1- A Europa e a Universalização do Aproveitamento de recursos naturais”: 21h30 - TAGV sado, presente e futuro.”, Maria Teresa existe?” Direito: - Apresentação e Introdução; Ciclo de Cinema “Mar Português” Batista e Carlos Cavaleiro. -Sessão de abertura - Civilização de Direito e Universalização, Painel 1 - “Economia e Recursos - “A Cultura de microalgas em fotobioreacto- - Exibição do filme “Zéfiro” (José Álvaro - “O medicamento, a investigação farmaco- - O Relevo do Direito Comparado no âmbito Haliêuticos, Direitos e Teorias Económicas”: res”, por Jorge Rocha (DEQ-FCTUC); Morais, 1994), seguido de debate sobre o lógica e o mar.”, Margarida Caramona e do Direito Comunitário, -“Geopolítica dos recursos haliêuticos e coo- - “A produção de pigmentos e anti-oxidantes tema “O mar no cinema português”, com Isabel Vitória. peração internacional”, conferência por com microalgas marinhas”, por Marta Luís Sousa Martins (Antropólogo), Paulo Painel 2 – A Universalização dos Direitos do - “Mar, Beira -Mar e Saúde Pública: Mário Ruivo (Comité Oceanográfico Henriques (ESAC); Granja (Historiador), Álvaro Garrido Homem Factores Ambientais de Risco.” Intergovernamental da UNESCO); - “A dessalinização de água do mar com (Docente da FEUC) - Direito Penal Internacional, Moderador: João Canotilho. - Conferência com Guy de Beaupré, Director tecnologia de osmose inversa”, por Lícinio - A CEDH e outros Instrumentos Normativos - “Protectores solares: prevenção: dos riscos General of International Affairs in Fisheries Ferreira (DEQ-FCTUC); DIA 9 MARÇO | QUINTA-FEIRA Internacionais de Protecção dos Direitos do na saúde da pele.”, M. Lurdes Rebelo e and Aquaculture Management at Fisheries - “Aplicações de polissacarídeos de algas e Homem, João José Sousa; and Oceans Canada. de crustáceos”, por Mª Helena Gil (DEQ- 10h00 - Anfiteatro IV da FLUC Painel 3 – Os Movimentos de Codificação - “Contaminação e resíduos tóxicos no mar: - “Direito do Mar e éticas de regulação”, FCTUC); Congresso Internacional: “O Mar Greco- Internacional impacto ambiental/impacto na saúde huma- José Manuel Pureza (FEUC) - “O potencial da Biotecnologia Marinha – a Romano” na.”, Isabel Rita Barbosa. - Um Código Civil para a Europa, - “Teoria económica dos Recursos descoberta de novos compostos com activi- - “La mar. Un archivo bien protegido”, por J. - “Agentes biológicos”, João Poiares da - Instrumentos Internacionais de Renováveis marinhos”, Rui Junqueira Lopes dade terapêutica”, por René Wijffels, Univ. M. Manuel Martin-Bueno (Univ. Saragoça), Silva e Maria do Céu Sousa. (Universidade de Évora) Uniformização e Harmonização das regras Wageningen (Holanda); - “O Reino de cristal, líquido e manso: deri- - “Benefícios e riscos de produtos do mar.”, Painel 2 – “Economias do Mar”: de Direito Internacional Privado. - “Gestão e valorização de subprodutos da vas de utopia na épica de Camões”, por J. Irene Noronha Silveira e colaboradores. - “Quanto vale o mar na economia galega?”, pesca”, por Ricardo Isaac Perez Martin Manuel Varela (Universidade de Vigo); A. Cardoso Bernardes (UC) DIA 11 MARÇO | SÁBADO (Conselho Superior de Investigações - “Quanto Vale o mar na economia portu- 12h00: - “O mar greco-romano antes de 14h30 - Sala de S. Pedro (BGUC) Até dia Científicas, Galiza) guesa?”, Nuno Valério (ISEG); Gregos e Romanos”, por Ana Margarida 21h30 - TAGV 10 - Projecção áudio visual de documentários Painel 3 - “Um mar de oportunidades: em- Arruda (Univ. Lisboa) e Raquel Vilaça (UC), “OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES “O mar é sempre tenebroso” alusivos ao tema. presas e gestores”: - “Les Phéniciens, entre terres et mer”, por E O MAR” Mostra sobre Monstros marinhos antigos e - Debate, Encerramento e conclusões fi- -“O porto de Lisboa e o transporte marítimo Pierre Rouillard (CNRS-Paris) modernos nas colecções da BGUC. nais. Espectáculo que pretende ilustrar musical- internacional”, Luís Figueiredo 14h30: - “O mar na comédia plautina”, por mente o caminho percorrido pelo povo por- (Administrador do Grupo ETE, operadores Aires do Couto (Univ. Católica Portuguesa), portuários); DIA 7 MARÇO | TERÇA-FEIRA tuguês. 15h00 - FLUC (Anf. IV- 5º piso) - “I socii navales e l’affermarsi di Roma Ciclo de conferências: “MARE OCEANUS - - “A pesca longínqua portuguesa – presente I Parte – “Música Portuguesa do Período come potenza marítima”, por Alfredo Valvo Atlântico – espaço de diálogo”: e futuros”, Aníbal Paião (ADAPI, dos Descobrimento”: Ay Mi Dios e Regina 9h30-13h00 e 15h00-18h00 - Arquivo da (Univ. Católica Sacro Cuore, Milão), - “A Solidariedade Atlântica”, por Adriano Administrador da Pascoal &Filhos Lda.); U.C - Sala D João III Coeli de D. Pedro de Cristo e Clamabat - “A indústria transformadora de bacalhau – - “Hispania y el mediterrâneo en los siglos II Moreira. Colóquio “Mediterrâneo, Orientes e Autem Mulier de Pedro Escobar; um negócio global”, Joselito Lucas y I A. E.”. por Francisco Beltrán Lloris (Univ. Globalização” II Parte – “As Descobertas”: No Mar de (Administrador da Lugrade e ex-aluno da Saragoça) 17h00 - Colégio das Artes - 9h30: Abertura Emílio Porto, Olhos Negros de Ana Paula FEUC); 16h30 : - “La bataille navale d’Aegitna. (x2) Paisagens Aquáticas – Waterfronts (x2) - 10h00: Mesa redonda sobre “Política e Andrade, Morte que Mataste Lira de Adelino - “Cultivar o mar – a aquacultura em Première intervention des Romais en Gaule” Exposição Sociedade”, com Maria de Fátima Silva Martins, Minas com Bahia de Chico Amaral, Portugal”, Alexandre Lobo Cunha (Inst. por Pascal Thiercy – D. Mathieu-Pavard As paisagens aquáticas são hoje tema re- (FLUC, moderadora), Boaventura de Sousa Azulão de Jaime Ovalle, Leãozinho de Ciências Biomédicas Abel Salazar) (Univ. Brest), corrente e estimulante – no imaginário e no Santos (FEUC/CES), Maria Jesús Merinero - “Monedas Viajeras”, por Francisca Chaves Caetano Veloso e Kolele Mai de Simão desenho das novas paisagens – em todos (Univ. de Cáceres) e Djalal Sattari DIA 4 MARÇO | SÁBADO Tristán (Univ. evilla) Barreto. Sendo o Brasil e África marcos de os processos de requalificação ambiental, e (Investigador). - 15h00: Mesa-redonda sobre “Cultura”, com relevo nesta temática serão convidados um
    6. 1 Março 2006 6 Jornal da Universidade MULHER De “pobres mulheres inferiores” a maioritárias na Universidade essa ridícula contrafac- no Observatório D. Luís I. O sidade” – e que pode ler-se nas da Faculdade de Letras, que ção de homens\" lugar não lhe é atribuído por páginas centrais. nos facultou muito material A verdade é que se ser mulher, apesar de ter ficado Mas este tema da evolução sobre a matéria, a maior parte espanta a rudeza destas em primeiro lugar. Decide da Mulher na Universidade, e do qual ficou por referir. Assim, afirmações, igualmente então seguir Medicina (1904) na sociedade em geral, tão e na sequência desta primeira surpreende o que Maria aproveitando as cadeiras co- vasto quanto aliciante, tem abordagem (algo superficial por Amália Vaz de Carvalho muns dos primeiros anos dos sido objecto de valiosos traba- limitações de espaço), voltare- sustentava, já quase no outros cursos. lhos de investigação. Entre eles mos ao assunto em próximas final desse século: O exemplo de Domitília de os da Prof.ª Irene Vaquinhas, edições. \"A mulher, graças à Carvalho é tanto mais meritório sua inferioridade social, quanto é certo que a própria le- graças à tradição que a gislação então vigente condicio- tem posto fora da esfe- nava os direitos das mulheres. ra em que se trabalha e O Código Civil Português (de se versam os altos pro- 1867), atribuía ao marido a obri- blemas da ciência, gra- gação de protecção e defesa, ças à sua dependência cabendo à mulher o dever de da casa familiar, tem-se obediência, e retirando-lhe toda Domitília Carvalho, a primeira aluna conservado longe da a autonomia na administração da Universidade de Coimbra tortura, cada vez mais dos bens familiares. Muito curi- \"Pobres mulheres! Elas são- requintada, que a ins- oso, e elucidativo, é o artigo nos bem inferiores [...] pela trução moderna impõe ao indi- 1.187 do referido Código, segun- anatomia dos ossos e dos mús- víduo do sexo masculino\". do o qual \"A mulher autora não culos e pela constituição do cé- Perante tudo isto, não é es- pode publicar os seus escritos rebro. Elas têm a cabeça mais tranho que nessa época (mais sem o consentimento de mari- pequena, como as raças inferio- concretamente em 1891) tenha do, mas pode recorrer à autori- res, têm os movimentos centrí- sido encarada como quase es- dade judicial em caso de injus- petos, abotoam os vestidos candalosa ousadia a matrícula ta recusa dele\"… para a direita, não sabem com- da primeira mulher na A seguir a Domitília de por óperas, e nunca chegam a Universidade de Coimbra. A pi- Carvalho, outras mulheres deci- entender a matemática\". oneira chamava-se Domitília diram matricular-se na Assim escrevia Ramalho Orti- Hormezinda de Carvalho, que Universidade. Entre elas Maria gão, convictamente, sem pre- viria a notabilizar-se não só Virgínia Pestana, felizmente tender ser irónico, no último pelos três cursos que frequen- ainda viva e a residir em quartel do séc. XIX!... tou na Universidade de Coimbra, e que quase a com- Mas estas “farpas” machistas Coimbra, mas também pelo seu pletar a belíssima idade de 107 não eram monopólio de trabalho em prol da educação anos mantém contagiante jo- Ramalho. das mulheres, na defesa da cri- vialidade e invejável memória – Também Oliveira Martins re- ação do primeiro Liceu femini- como pode verificar-se no texto clamava, pela mesma altura: no, e ainda pela actividade po- que a ela dedicamos nesta edi- \"Em vez de se fazerem dou- lítica, tendo pertencido ao ção. toras, neste nosso modo de ver grupo das três primeiras depu- Outra Mulher marcante na UC fóssil e bárbaro, era melhor fa- tadas do Estado Novo. Depois foi, e é, Maria Helena da Rocha zerem-se caixeiras, fazerem-se das licenciaturas em Mate- Pereira, que igualmente conce- compositoras, fazerem-se boti- mática (1894) e Filosofia (1895), deu uma entrevista com muito Reprodução de parte de artigo publicado em 29 de Janeiro de 1912 pela revista A cárias, fazerem-se tudo, menos concorre ao lugar de astrónoma interesse ao “Jornal da Univer- Ilustração Portuguesa Magistradas pioneiras saíram da UC A primeira mulher a exercer o cargo de Também a primeira mulher a ingressar juiz em Portugal foi Ruth Garcez. no Supremo Tribunal de Justiça se Nascida em Moçambique em 1934, licenciou em Direito na Universidade de licenciou-se em Direito na Universidade Coimbra (com a particularidade de o ter de Coimbra em 1956. Entrou na feito como aluna voluntária, sem assistir magistratura judicial em 1977, foi juiz a qualquer aula). Trata-se de Laura de de Direito até 1993 e juiz desem- Carvalho Santana Maia Tomás Leonardo, bargadora até 2005, altura em que se que tomou posse como Juiz Conselheira Laura Leonardo jubilou. do STJ a 27 de Maio de 2004. Ruth Garcez
    7. 1 Março 2006 MULHER Jornal da Universidade 7 Cronologia e dados estatísticos A primeira mulher que frequentou a existia ainda qualquer mulher. alunos inscritos, 4.544 são homens e Há 20 anos (ano lectivo 1985/86) a di- Universidade de Coimbra foi Públia Em 19 de Dezembro de 1911 assume 4.817 mulheres. ferença já era significativa. Dos 13.150 Hortênsia, no séc. XVI, mas disfarçada de funções, na Faculdade de Letras, a pri- No ano lectivo 1974/75 (revolução do alunos, 6.103 eram do sexo masculino e homem!... (ver caixa). meira mulher professora da Universidade 25 de Abril e fim da guerra colonial), os 7.047 do sexo feminino. A primeira que ousou assumir-se como de Coimbra: Carolina Michaelis. homens voltam a ser mais numerosos: estudante do sexo feminino foi Domitília No ano lectivo de 1925/26 (há 80 dos 8.582 alunos inscritos, 5.071 eram A realidade actual é a que espelham os Carvalho, em 1891. E desde esse ano até anos) é pela primeira ultrapassada a cen- homens e 3.511 mulheres. gráficos que nesta página se publicam, com dados relativos às diversas Facul- 1896 a Universidade de Coimbra foi fre- tena: 105 mulheres estudantes. No ano lectivo de 1982/83 as mu- dades (referentes ao ano de 2005). quentada por uma única mulher. Há 50 anos (ano lectivo 1955/56) a lheres tornam a ultrapassar os ho- Depois, a progressão feminina na UC Universidade era frequentada por 4.278 alu- mens: dos 12.394 alunos inscritos, No que respeita ao corpo docente, em evoluiu da seguinte forma: nos, sendo 2.781 homens e 1.497 mulheres. 6.103 eram homens e 6.291 mulheres. Maio de 1987 a UC tinha 1.175 professo- Há 35 anos (no ano lectivo de De então para cá o número de mulhe- res, dos quais 823 homens e 352 mulhe- De 1896 a 1898: 3 mulheres. 1970/71), as mulheres ultrapassam os res foi sempre superior ao dos ho- res. Nessa mesma data, dos 278 mem- No ano lectivo 1898/1899: 2 mulheres. homens, pela primeira vez: dos 9.361 mens, em percentagem crescente. bros dos Conselhos Científicos das diver- No ano lectivo 1899/1900: 6 mulheres. sa Faculdades, 221 eram homens e 57 No ano lectivo 1900/1901: 7 mulheres mulheres. No ano lectivo 1901/1902: 8 mulheres No ano lectivo 1902/1903: 5 mulheres NO SÉCULO XVI Relativamente aos funcionários, a pri- No ano lectivo 1903/1904: 4 mulheres meira mulher foi contratada no ano lec- No ano lectivo 1904/1905: 3 mulheres Mulher frequentou a Universidade tivo de 1911/12. Mas há 19 anos (em Maio de 1987) as Há 100 anos (ano lectivo 1905/1906) frequentaram a Universidade de Coimbra mas disfarçada de homem mulheres já suplantavam os homens. Dos 1.808 funcionários, 850 eram ho- apenas 3 mulheres: uma matriculada em mens e 958 mulheres. Matemática e Filosofia e duas na Facul- Públia Hortênsia de Castro foi a primeira mulher a frequentar a Universidade de Coimbra, ainda no século XVI. Só que, para tal, deve de ocultar a sua A situação que actualmente se verifica, dade de Medicina. condição feminina e disfarçar-se de homem. quanto a docentes e não docentes, vai reflectida nos gráficos. Em 1910/1911 (implantação da Re- Nascida em Vila Viçosa, veio para Coimbra juntamente com seu irmão Jerónimo pública): 8 mulheres. de Castro, e certamente com a cumplicidade deste frequentou as aulas (Alguns dos elementos utilizados para esta cro- Neste mesmo ano lectivo a Universi- envergando o trajo masculino. Na Universidade de Coimbra estudou nologia foram recolhidos da obra intitulada “A dade era frequentada por 1.355 alunos. Humanidades e Filosofia, de que defendeu conclusões públicas em Évora, Mulher na Universidade de Coimbra”, do Prof. Joaquim Ferreira Gomes, editada pela Almedina em No seu corpo de funcionários não quando tinha apenas 17 anos, o que causou enorme espanto (e, por certo, 1987) escandalizou muita gente). Estudou também Teologia e, para além de erudita, viria a tornar-se grande oradora, tendo defendido, perante Filipe II de Espanha, DOCENTES ideias teológicas que impressionaram o monarca de tal forma que este lhe FUNCIONÁRIOS concedeu tença de 20.000 reis (apreciável quantia para a época). Viria a fazer parte da corte que rodeava a Infanta D. Maria, tendo falecido em 1595. Deixou os seguintes manuscritos: “Psalmos”, “Poesias várias latinas e portuguesas”, “Cartas latinas e portuguesas” e ainda um opúsculo intitulado “Flosculus theologalis”. DIREITO LETRAS MEDICINA CIÊNCIAS E TECNOLOGIA FARMÁCIA ECONOMIA PSICOLOGIA DESPORTO
    8. 1 Março 2006 8 Jornal da Universidade OPINIÃO As filhas de Eva na Universidade hoje às mulheres ocupar, por sua vez, as dade que vemos as nossas alunas ultra- “ cátedras. passarem os obstáculos semeados no Haverá aqui uma ruptura epistemológi- caminho da aprendizagem intelectual ca? Uma revolução axiológica? Um sismo com uma regularidade e uma segurança político? Deixando de lado a abissal que os seus colegas muitas vezes mani- questão de uma natureza ou de uma es- festam em menor grau. Se alguns cursos O peso “político” das sência feminina (e talvez Lacan não esti- (em particular as engenharias) permane- mulheres não é vesse enganado, por razões aliás subtis, cem o apanágio dos homens, é com cer- quando afirmava que “la femme n’existe teza por razões que se prendem com as proporcional ao lugar pas”), interroguemo-nos sobre o com- representações sociais ligadas às profis- que ocupam e ao portamento das mulheres perante três sões e não em virtude da sua dificulda- realidades simbólicas: o Saber, o Dever de científica intrínseca. No terreno da in- serviço que prestam na Por CRISTINA ROBALO CORDEIRO e o Poder. vestigação, os sucessos femininos multi- instituição universitária, plicam-se a olhos vistos: entre os inves- como aliás nos outros “ Há alguns meses, o reitor da tigadores premiados, as mulheres mar- Universidade de Harvard suscitava uma cam presença com brio! É inútil insistir: sectores da actividade espécie de escândalo pondo em dúvida quaisquer que sejam as diferenças que social e na vida política as capacidades científicas do espírito fe- minino. A revista Time acaba de publicar um inquérito “Women in Germany” onde se lê que há apenas 6% de docentes mu- Quaisquer que sejam as diferenças que possam possam existir entre o cérebro feminino e o cérebro masculino, é notório, peran- te as estatísticas universitárias (as úni- cas que aqui nos interessam) e no plano propriamente dita “ existir entre o cérebro lheres, na área das ciências, naquele da aquisição e da produção do saber, país. Por contraste, a Universidade de feminino e o cérebro que o primeiro nada fica a dever ao se- Coimbra pode orgulhar-se de ser maiori- masculino, é notório, gundo! losófica), afirmando que as mulheres tariamente feminina: as estudantes são não são dotadas de um menor sentido em maior número e, entre os docentes perante as estatísticas E quanto à segunda esfera: a do moral mas que, na sociedade actual, doutorados, o universo de mulheres universitárias (as únicas Dever? Devemos entender este conceito possuem certamente mais deveres a cresce de forma exponencial. Que pode- como o conjunto das injunções e das re- cumprir do que os seus parceiros. que aqui nos mos pensar desta evolução? Tratar-se-á gras que decorrem da nossa função so- de um fenómeno novo na história da interessam) e no plano cial. Assim, não é a consciência profissi- Resta-nos o Poder. Todos estamos de Universidade? Poder-se-á arriscar um pa- da aquisição e da onal, por exemplo, tão partilhada pelos acordo em reconhecer o défice feminino ralelo entre esta mutação e o desapare- dois sexos quanto o “bom senso” se- em órgãos de decisão e de direcção. O cimento do clero que, durante séculos, produção do saber, que peso “político” das mulheres não é pro- gundo Descartes? A medida quantitativa o primeiro nada fica a havia constituído a quase totalidade do corpo docente? Se os laicos tomaram o lugar dos clérigos, no decurso do século XVIII e sobretudo no século XIX, caberia dever ao segundo! “ do escrúpulo, do zelo e da dedicação não nos permite entrar no segredo das almas. Estará a mulher mais apta do que o homem a obedecer ao imperativo cate- porcional ao lugar que ocupam e ao ser- viço que prestam na instituição universi- tária, como aliás nos outros sectores da actividade social e na vida política pro- górico? Esta questão seria absurda aos priamente dita, onde as mulheres pare- “ olhos de Kant para quem o sujeito ético cem recuar perante o exercício do poder não tem sexo. Se o absentismo parece que cada vez menos a elas se recusa. E No que toca à aptidão para o conheci- afectar mais as mulheres, é sem dúvida o “machismo” não é já uma explicação mento, a demonstração está feita. Da es- porque, no corpo docente e administra- suficiente para dar conta deste desequi- Da escola primária aos cola primária aos estudos pós-doutorais, tivo da Universidade, existem numerosas líbrio. Se as mulheres parecem dispostas as mulheres, desde que essa possibilida- mães de família e porque os hábitos (as a assegurar pesadas e importantes res- estudos pós-doutorais, ponsabilidades (e não tem a nossa de lhes foi concedida, forneceram, defi- inércias?) sociais ainda determinam que as mulheres, desde que nitivamente, a prova da sua total igual- devem ser elas a sacrificar as suas car- Universidade uma Administradora, uma essa possibilidade lhes dade. Acresce ainda que, segundo as es- reiras aos filhos: quando muito, pode- Directora do Arquivo, e tantas outras tatísticas, o insucesso escolar é um mal mos falar de um conflito de deveres. Ao mulheres presidentes de conselhos, di- foi concedida, mais masculino do que feminino. Nesta invés, por parte dos estudantes, o ab- rectoras de departamentos e institutos, forneceram, matéria, a prova da puberdade é muito sentismo é claramente masculino. Mais de laboratórios e de centros de investi- mais mortífera para os rapazes: basta escrupulosas, menos dadas à transgres- gação, chefes de serviço?), a sua “libido definitivamente, a prova olharmos para a Faculdade de Medicina, são, as nossas alunas revelam uma auto- dominandi” não as leva a uma exposição da sua total igualdade “ conhecida pela sua extrema selectivida- de, e que acolhe todos os anos um nú- mero sensivelmente maior de raparigas do que de rapazes. É aos psicólogos e disciplina e uma prudência maiores, em parte condição de um sucesso escolar superior. Concluamos estas demasiado rápidas considerações sobre a seriedade de corpo inteiro aos perigos que a acção pública comporta. Aqui reside uma espé- cie de enigma de origem talvez ontológi- ca. A menos que, muito simplesmente, aos sociólogos que cabe determinar os profissional na universidade (falta-nos as filhas de Eva temam, mais do que factores deste estado de coisas. E é ver- ainda uma sólida pesquisa científica e fi- tudo e todos, a caricatura!...
    9. 1 Março 2006 AAC Jornal da Universidade 9 HÁ 30 ANOS, EM INÉDITA VITÓRIA SOCIALISTA Clara Rocha foi a primeira Presidente da Associação Académica de Coimbra A primeira mulher a assumir a presi- Apesar das suas responsabilidades dência da Associação Académica de enquanto aluna e monitora, empe- Coimbra foi Clara Crabbé Rocha, eleita nhou-se com entusiasmo nas funções em 1976, quando encabeçou uma lista de Presidente da AAC, enfrentando um composta, maioritariamente, por estu- ambiente que lhe era muito adverso. dantes afectos ao Partido Socialista Segundo nos afirmou, “foram tem- (alguns dos quais viriam a ter uma car- pos de grande efervescência ideológi- ca e de violenta confrontação partidá- reira política destacada, como mais ria, com episódios de grande tensão – abaixo se refere). desde ameaças telefónicas a outras A eleição de Clara Rocha revestiu-se forma de intimidação”. E acrescentou: de grande significado não apenas por “As Assembleias Magnas não reflec- se tratar da primeira mulher a presidir tiam a nossa massa de votantes, os lu- à mais antiga e prestigiada associação gares do Teatro de Gil Vicente, onde estudantil do País, mas também por- elas decorriam, eram sistematicamente que foi a primeira vez que o PS conse- ocupados por militantes comunistas e guiu chegar à Direcção da AAC, que até anarquistas, o que fazia com que a aí, e ao longo de sucessivas gerações, Direcção-Geral fosse confrontada com fora dominada por estudantes comu- QUANDO PEDIR PARA FALAR pendeu a Queima das Fitas e outras tomadas de posição política e vota- nistas ou pró-comunistas (com um in- praxes, que só muitos anos mais tarde terregno forçado, em 1969, quando a ERA MOTIVO PARA PRISÃO seriam retomadas), tal crise viria a ter ções com as quais não podia concor- Direcção eleita foi desmantelada pelo dar. Por essa razão, entendi que devia Como acima se refere, até à vitória influência, directa e indirecta, no cres- demitir-me antes do termo do meu governo de então – cujo Ministro da cimento da contestação ao regime di- de Clara Rocha a AAC fora sendo diri- mandato”. Educação era o historiador José gida por estudantes maioritariamente tatorial de Salazar e Marcelo Caetano, Recorde-se que da lista encabeçada Hermano Saraiva – e em seu lugar no- comunistas. Mas alguns dos Pre- que culminou com a vitoriosa por Clara Rocha faziam parte, entre ou- meada uma Comissão Administrativa sidentes da AAC acabaram por aderir, Revolução de 25 de Abril de 1974. tros, Fausto Correia (actual eurodepu- constituída por estudantes de direita, mais tarde, ao PS. Foi o caso de No período pós-revolucionário a AAC tado pelo PS), Luís Patrão (que é actu- presidida por José Miguel Júdice – que até há pouco foi Bastonário da Ordem Salgado Zenha, que viria a ser um dos continuou a ser controlada por estu- al chefe de gabinete do Primeiro- dos Advogados). mais destacados dirigentes deste par- dantes afectos ao Partido Comunista e Ministro José Sócrates), Manuel A originalidade da eleição de uma tido, a par com Mário Soares, mas que a organizações de extrema-esquerda. Machado (dirigente socialista que du- mulher para a AAC, a par com a circun- Daí que a vitória de uma lista do PS rante vários anos foi Presidente da antes, em 1944, fora eleito Presidente stância, também inédita, de uma vitó- em 1976, ainda por cima com a primei- Câmara Municipal de Coimbra), da AAC à frente de uma lista impulsio- ria do PS no rescaldo do chamado ra mulher a presidir à AAC, tenha tido Henrique Fernandes (actual Gover- nada pelas Juventudes Comunistas, “Verão Quente” de 1975, provocou relevância a nível nacional. nador Civil do Distrito de Coimbra), que contava também com a participa- grande eco no País, com toda a comu- Nuno Filipe (que foi Presidente da ção de estudantes católicos. Zenha foi Segurança Social na Região Centro) e nicação social a dedicar-lhe invulgar director do jornal “Via Latina” e dina- UM MANDATO ATRIBULADO Francisco Rodeiro (advogado, que foi atenção. mizou a vida associativa de forma mar- Refira-se, por exemplo, que o “Jornal QUE NÃO CHEGOU AO FIM vereador da Câmara Municipal de cante. Viria a ser demitido pelo Coimbra no anterior mandato, eleito Novo” (diário que na altura tinha gran- de implantação em todo o território Governo de Salazar, por razões políti- Na altura em que foi eleita, Clara na lista do PSD). nacional) inseriu na primeira página cas, em Maio de 1945. Rocha era aluna do 4.º ano de Quanto a Clara Rocha, depois de se Destino semelhante sofreu, um quar- Filologia Românica e também exercia doutorar na Universidade de Coimbra uma caricatura que representava o to de século mais tarde, Alberto funções de monitora da Faculdade de em 1985, rumou a Lisboa, onde tem confronto entre Mário Soares e Álvaro Martins (actual deputado pelo Partido Letras para as disciplinas de desenvolvido uma carreira universitá- Cunhal, ambos vestidos de capa e ba- Introdução aos Estudos Literários e de ria brilhante, sendo há vários anos tina, e tendo por fundo a torre da Socialista). Presidente da AAC em Literatura Portuguesa Moderna e Professora Catedrática da Universi- Universidade de Coimbra. 1969, foi preso e demitido por ter soli- Contemporânea. Estas duas disciplinas dade Nova de Lisboa e tendo con- Muitos jornais aludiam não só à vitó- citado o uso da palavra ao então tinham sido introduzidas na licenciatu- quistado diversos prémios de grande ria socialista e da primeira mulher, mas Presidente da República, Américo ra em Românicas pelas reformas curri- ainda a alguns aspectos inovadores do prestígio por trabalhos que tem vindo Tomás, na inauguração do culares levadas a cabo na Faculdade a publicar. programa da lista vencedora, como a Departamento de Matemática, a 17 de de Letras após o 25 de Abril de 74. Refira-se, como curiosidade, que proposta de eleição do Reitor (que Abril desse ano. Para além de Alberto Enquanto aluna, Clara Rocha esteve Clara Rocha é filha de Andrée Crabbé viria a ser adoptada a nível nacional). Martins, foram detidos muitos outros muito envolvida nessa reformas, que, Rocha (que foi Professora da Facul- Clara Rocha viu-se solicitada para en- dirigentes estudantis, o que provocou como ela própria agora referiu ao dade de Letras e Vice-Reitora da trevistas por parte de diversos órgãos um extraordinário movimento de revol- “Jornal da Universidade”, trouxeram Universidade de Coimbra) e do escritor de comunicação social. Entre as que ta e solidariedade, desencadeando a aos cursos novos conteúdos, novos Miguel Torga, tendo recentemente métodos e renovadas perspectivas, e então lhe foram feitas, refira-se a de que ficou conhecida como “Crise doado à cidade de Coimbra o precioso possibilitaram, entre outras coisas, o Maria Antónia Palla para a revista Académica de 69”, com espantosa di- recheio artístico e documental da mo- estudo da Literatura Portuguesa “Flama”, acentuando aquela tão sim- mensão não só local, mas em termos radia de seus Pais, adquirida pela Contemporânea, não se estudava habi- bólica conquista por parte de uma mu- nacionais e mesmo internacionais. tualmente nos cursos antes do 25 de Câmara Municipal para ali instalar a lher. Para além do luto académico (que sus- Abril. Casa-Museu Miguel Torga.
    10. 1 Março 2006 10 Jornal da Universidade R E P O R TA G E M INSTITUTO DA FCTUC FAZ IMPORTANTES DECOBERTAS SACUDINDO DIFICULDADES Pioneiros no revestimento de pós NELSON MATEUS nasceu em 1991 e actualmente tem a tra- No princípio tudo era pó natural e o pó balhar 35 doutorados. Além da investi- Procura gação em superfícies, desenvolve ainda se modificou… Há muitos pós para além de “mentiras” saudáveis actividade em outros âmbitos, em partic- do pó. E é em revestimento de pós que ular na mecânica, electroquímica, física e o Instituto de Ciência e Engenharia de Já em fase de testes está um outro electrotecnia. A Presidente do ICEMS ad- Materiais e Superfícies (ICEMS) desen- projecto do ICEMS em que se procu- mite que o Instituto possa diversificar volve um trabalho único a nível mundial. ra “aumentar o potencial de mentira ainda mais o trabalho que já realiza. Os “pós revestidos são mais reactivos dos materiais”, revela Teresa Vieira. que o próprio pó” e, por isso, “permitem DEVOLVER O BRILHO Neste caso trata-se de uma boa men- processamentos mais eficientes”, explica Teresa Vieira, Presidente do ICEMS. ÀS PRATAS tira, já que o objectivo é ajudar doen- tes com problemas cardíacos a quem A modificação das superfícies dos ma- O que pode parecer uma actividade tenha sido implantado um stente. teriais é o ponto central de todos os pro- jectos, sendo que o trabalho se desen- demasiado técnica e muito centrada no Os stentes são pequenas redes de volve com nanomateriais, ou seja, mate- estudo em laboratório tem, afinal, in- metal que se colocam nas artérias de riais de dimensões muito reduzidas, cuja úmeras aplicações práticas. Um dos de- forma a permitir a circulação sanguí- espessura máxima poderá ser equiva- safios lançados ao ICEMS foi o de con- nea sem problemas. A dificuldade lente à décima parte de um cabelo. tribuir para dar um novo impulso à ex- que ainda se verifica é que em certos O pó de que aqui se fala é aquele de portação portuguesa de produtos de casos “o organismo entende que o necessário encontrar “quem compre a que podem ser feitos os materiais, e o prata. patente quando a registarmos”, acres- stente é um corpo estranho” e tem Instituto, ao fazer revestimento de pós, Como se sabe, a prata escurece e “o e- centa, revelando a falta de dinheiro do reacções de rejeição, explica a Pre- feito de escurecimento aumenta com o torna-os mais reactivos, o que permite, Instituto para suportar os custos do reg- sidente do ICEMS. Essa reacção pode grau de poluição atmosférica”, explica por exemplo, diminuir a temperatura isto dos trabalhos que desenvolve. dar origem a novas oclusões do vaso Teresa Vieira. Daí que se tenha verifica- necessária para obter um determinado “Temos receitas mas não as podemos sanguíneo, o que obriga a outra in- do uma quebra acentuada na exportação material, e também muitas vezes criar usar para patentes”, comenta a profes- tervenção cirúrgica para a substitui- de pratas para os países industrializa- uma nova matéria-prima. Na prática, sora catedrática, uma vez que “o esforço dos. ção do stente. trata-se de um trabalho que possibilita de reequipamento é feito a partir dos Em alguns locais, para resolver a Há praticamente um ano o Instituto baixar o consumo de energia para a fab- projectos”. Uma necessidade que a questão foi escolhida uma solução está a desenvolver uma investigação ricação de um produto e encarar com op- Presidente do ICEMS lamenta, recordan- química. O problema é que, ao evitar o para “criar o melhor material que per- timismo o uso de novas fontes de ener- do que dos “330 milhões de euros do escurecimento, o método adoptado mita evitar coágulos”. Segundo Te- gia nos processo de fabrico, como pode Programa Praxis” para equipamento provoca também a alteração do brilho resa Vieira é, no fundo, um trabalho ser o caso do laser. científico, “as propostas lideradas pelas da prata. O ICEMS foi por outro caminho de maquilhagem, já que o objectivo é Esta investigação escapa à actividade Engenharias de Coimbra conseguiram e encontrou a chave para resolver a habitual do Instituto, já que normal- apenas 700 mil euros”. revestir a superfície do stente de questão. As peças de prata são pulveri- mente os projectos passam por modi- Sem todos os equipamentos forma que o organismo não se aper- zadas “com prata com a estrutura atómi- ficar a superfície dos materiais para os necessários é preciso recorrer a outras u- ca modificada mas com o mesmo brilho ceba que é introduzido no corpo hu- tornar mais aptos para a utilização que niversidades para realizar partes do tra- e que não escurece”, explica a mano um objecto estranho. Trata-se, se pretende. Neste caso, porém, o reves- balho. “Passo o tempo fora a fazer en- Presidente do Instituto. pois, de “optimizar a biocompatibili- timento torna-se parte integrante do ma- saios”, explica Teresa Vieira, que salien- O ICEMS tem já vários contactos com dade” do stente, sintetiza a professo- terial. ta que o “trabalho em materiais é muito a indústria para a utilização do método. ra catedrática. O carácter inovador da técnica utiliza- caro”. As dificuldades não impedem, “Estamos a insinuar-nos perante os O ICEMS já tinha realizado várias in- da pelo ICEMS faz com que o Instituto porém, que o Instituto seja classificado museus”, acrescenta Teresa Vieira, já vestigações em áreas ligadas à bio- esteja a trabalhar para obter “uma como um centro de excelência. que também nesses casos o escureci- médica, mas a ideia de aprofundar patente que queremos que seja mundi- O ICEMS, da Faculdade de Ciência e mento das pratas é um problema que um estudo sobre este problema con- al”, refere Teresa Vieira. É, no entanto, Tecnologia da Universidade de Coimbra, causa sérias dificuldades. 4 creto dos stentes “surgiu em conver- sas com médicos”, recorda Teresa Motores sem óleo Vieira. Ao longo do último ano, o pro- jecto vem sendo desenvolvido em es- Os materiais auto-lubrificantes têm sido evitar o aumento da temperatura que está a ser desenvolvido por uma vasta treita colaboração com a equipa de um campo de estudo há muito privilegia- pode levar a danos irreversíveis nos ma- equipa que engloba cerca de 30 parcei- cardiologia do Professor Manuel do pelo ICEMS. O trabalho no Instituto teriais. ros europeus. A solução encontrada tem Antunes, nos Hospitais da Univer- começou por se desenvolver com os ma- No ICEMS o que está a ser desenvolvi- vindo a suscitar um amplo interesse e sidade de Coimbra. teriais para ferramentas de corte, mas de- do é um revestimento para os segmen- 2010 é já apontado como o ano de início A solução encontrada pelo ICEMS pois foi-se alargando a outros âmbitos, tos do motor que reduza o atrito e, por- da utilização desta tecnologia na indús- vai agora passar pela fase de testes um dos quais o dos materiais auto-lubri- tanto, permita dispensar a utilização de tria automóvel. De acordo com Teresa tanto “in vitro” como em animais, de ficantes. óleo. Uma solução que torne “as super- Vieira, os primeiros clientes deverão ser forma a verificar a compatibilidade Entre as aplicações práticas do estudo fícies simpáticas uma para a outra”, refe- as marcas de automóveis de gama alta. do revestimento dos stentes com o neste campo, uma que está num adianta- re Teresa Vieira. De acordo com a A par do trabalho para os motores, a organismo. O trabalho é acompanha- do grau de desenvolvimento é a que po- Presidente do Instituto, o projecto tem mesma ideia está também a ser encarada do de perto pela indústria da saúde, derá vir a permitir que deixe de ser ne- um “objectivo altamente ambiental”, para uma aplicação na indústria aeronáu- que pode encontrar neste estudo a cessária a utilização de óleo nos motores tendo em conta os conhecidos proble- tica. Tendo sempre por base a ideia de dos automóveis. Isto porque o óleo serve mas de poluição provocados pelos redução do atrito, o conceito vai ser apli- solução para um problema que há para lubrificar as várias peças de forma a óleos. cado nas asas dos aviões, de forma a evi- muito se arrasta. reduzir o atrito entre elas e, dessa forma, O projecto começou há seis meses e tar a formação de camadas de gelo.
    11. 1 Março 2006 PUBLICIDADE Jornal da Universidade 11
    12. 1 Março 2006 12 Jornal da Universidade E N T R E V I S TA MARIA HELENA ROCHA PEREIRA RECEBE HOJE O PRÉMIO UC 2006 Uma Mulher pioneira JOÃO PAULO HENRIQUES Maria Helena Rocha Pereira perdeu a conta aos “milhares de alunos” que en- sinou durante os 44 anos em que este- ve ao serviço da Universidade de Coimbra (UC). A professora jubilada em 1995 faz parte da história da instituição. Ainda assim, não quer ser vista como “a primeira mulher do que quer que seja”. A antiga docente recebe, aos 80 anos, o Prémio UC 2006, tornando-se no pri- meiro premiado com ligação à institui- ção. Uma distinção que homenageia hoje, na celebração do 716.º aniversário, a especialista em História e Cultura Clássica, que muito deu à UC, que ela adoptou como a sua “segunda casa”. Quando começa a falar, Maria Helena Rocha Pereira cria uma atmosfera de en- canto em seu redor. As pessoas sentem-se bem e deixam-se embalar pela voz doce e afável da primeira mulher doutorada numa universidade portuguesa. O ano de 1956 nunca mais foi esquecido. A ligação de Maria Helena Rocha Pereira à UC começou em 1942, ano em que entrou na Faculdade de Letras. “Ainda se estava em guerra”, comenta, Maria Helena Rocha Pereira mostrando a fotografia do momento em que recebeu as insígnias doutorais com ar sorridente, como que a deixar perceber que quase já nem se lembra. A ção que não se fica por aqui. O latim te do seu magistério universitário e pelo tinha feito”. Apesar de se orgulhar de licenciatura foi concluída cinco anos medieval e a arte grega, com particular persistente exemplo de amor ao saber e ter sido a primeira mulher a prestar pro- mais tarde, em 1947. incidência para a pintura de vasos, tam- de dedicação infatigável à investigação e vas de doutoramento em Coimbra, não A vida foi dedicada ao estudo da cul- bém integram o lote de assuntos trata- à difusão das línguas e literaturas clássi- esquece: “A primeira mulher a ter o títu- tura clássica e da literatura grega, in- dos ao pormenor. cas, Maria Helena Rocha Pereira emerge lo de doutora em Coimbra, ainda que vestigando a sua influência em autores “Pelo vasto conjunto da sua obra cien- como uma figura notabilíssima da cultu- Honoris Causa, foi Carolina Michaelis e de diferentes gerações. Uma investiga- tífica e cultural, pela influência abrangen- ra portuguesa e europeia”. muito justamente. Foi um dos grandes Um comentário resumido com o qual o nomes da Universidade”. Reitor Fernando Seabra Santos justificou O doutoramento foi preparado com a entrega do Prémio UC 2006 a uma mu- cuidado e a disponibilidade não foi pro- Estudante dava piores notas... lher que foi considerada, inúmeras blema. “Estive quatro anos fora de vezes, como a maior autoridade portu- Coimbra, já que não fui logo convidada Professora catedrática à data do 25 de Abril de 1974, Maria Helena Rocha guesa em estudos clássicos e que con- para assistente. Não queriam senhoras, Pereira lembra um período de “certa desorientação, que se compreende com a tribuiu, de forma decisiva, para a divul- excepto o professor que me chamou de- mudança profunda”. Uma época fértil em histórias que marcaram a docente, que gação da literatura clássica em Portugal. pois. Regressei ao Porto, a casa dos não esquece uma delas. Nesse ano, muitos alunos resolveram, primeiro, não ir Quando começou em 1951 como assis- meus pais, e comecei a trabalhar na tese aos exames, mas, depois, aconteceu o contrário, uma vez que não queriam per- tente, Maria Helena Rocha Pereira preten- de doutoramento, contra tudo e contra der o ano. Combinaram, então, entre eles, que um aluno faria parte do júri. “Um dia prosseguir a carreira universitária, mas todos”, relembra. pedido que aceitei desde que já tivesse feito a cadeira”. Na altura, as provas os tempos eram outros e as limitações Destes quatro anos, o último foi pas- orais eram obrigatórias nos cursos de Letras. No final, o júri reunia para atribu- também. Não desistiu e apostou no dou- sado a estudar em Oxford, em ir as notas e aconteceram algumas surpresas. “Dava a nota o assistente, o aluno toramento em Letras. No resto do país, Inglaterra, onde acabou por voltar e eu concluía. Posso dizer que, por diversas vezes, o estudante dava notas mais lembra, “havia muito poucas, mesmo mais vezes. Em 1956, o doutoramento baixas que eu. Levavam o papel muito a sério”. muito poucas mulheres doutoradas”. era “muito mais difícil”, justificando-se O interesse, assegura, “não era fazer com o facto de “naquela altura eram alguma coisa que nenhuma ainda não quatro provas – a tese precedida de
    13. 1 Março 2006 E N T R E V I S TA Jornal da Universidade 13 “ Maria Helena Rocha P E R F I L Pereira nasceu em 1925, no Porto. Licenciou-se em Filologia Clássica na Estive quatro anos Faculdade de Letras da fora de Coimbra, já Universidade de Coim- que não fui logo bra (UC), em 1947, e doutorou-se em Letras convidada para as- na mesma Universidade, sistente. Não que- em 1956. Especializou- se em Estudos Clássicos riam senhoras, ex- na Universidade de cepto o professor Oxford, onde foi bolsei- ra do Instituto de Alta que me chamou Cultura. Tem outros di- depois. Regressei plomas, entre os quais o do Curso Extraordinário de Língua Hebraica da ao Porto, a casa Faculdade de Letras da UC. dos meus pais, e Iniciou a sua actividade profissional no Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do comecei a trabalhar Porto, onde foi professora de Latim e depois na tese de douto- também de Grego (de 1948 a 1957), mas fez a ramento, contra carreira universitária na Faculdade de Letras da UC, onde ingressou em 1951 como segundo as- tudo e contra todos “ sistente de Filologia Clássica, foi professora ca- tedrática titular da cadeira de Literatura Grega desde 1964, vice-reitora em 1970/1971, presiden- te do Conselho Científico desde 1977 e directo- ra do Seminário de Grego. Foi ainda directora do Instituto de Maria Helena Rocha Pereira acompanhada por Paulo Quintela Arqueologia da Faculdade de Letras da UC (de 1965 a 1966), directora da Biblioteca Central da mesma Faculdade (de 1965 a 1970), directora do três provas – e agora é só a tese”. da Faculdade de Letras tornou-se a “É um trabalho que me entusiasma Instituto de Estudos Clássicos (desde 1991) e Elevada a doutora pelo Reitor primeira mulher, em Portugal, a todos os dias, incluindo sábados e presidente da Comissão Científica do Grupo de Maximino Correia, Maria Helena assumir um cargo na Reitoria. domingos”. Não se pense, no en- Rocha Pereira voltou a entrar na “Estávamos em 1970/1971 e fui tanto, que não gostava das ciên- Estudos Clássicos (desde 1991). Membro da co- História da UC. A antiga professora Vice-Reitora durante o reitorado cias. Bem pelo contrário. “Gostei missão redactora (desde 1951) e directora de José Gouveia Monteiro”. sempre muito de matemática e de (desde 1993) da revista Humanitas, directora da Foram “tempos difíceis” do ponto outras ciências”. revista Biblos (desde 1973), jubilou em 1995. Falta atravessar de vista político. Os estudantes es- Maria Helena Rocha Pereira é apai- Organizou e participou em diversos congres- tavam “muito politizados”, afirma xonada por arte. Especializada em sos, colóquios, encontros científicos e seminá- o Pacífico Maria Helena Rocha Pereira, que su- arte grega, cadeira que regeu duran- rios, em Portugal e no estrangeiro. Liderou o blinha que “o objectivo era melhorar te vários anos, a professora aprecia grupo de investigadores que efectuou a investi- Apesar de ter dedicado a vida quanto possível a Universidade, o todas as formas de arte. Tocar gação relativa à parte portuguesa da obra em ao ensino e à cultura, Maria que tentámos com algum êxito, mas, piano, algo que não faz há muitos seis volumes, Soziale Typenbegriffe im alten Helena Rocha Pereira gostava e a certa altura, verificámos que não anos, era uma das maneiras preferi- Griechenland (1982), com o título “Soziale gosta de viajar. “Para dar a volta havia condições”. das de passar o tempo, que conti- Typenbegriffe von Homer bis Aristoteles und ihr ao Mundo, só me falta atravessar Este foi um dos momentos mar- nua a ser ocupado com a leitura. Fortleben im Portugiesischen”. cantes que viveu na UC, mas teve o Pacífico”. Viagens – “todas de A sua extensa obra, de mais de A sua extensa obra, de mais de trezentos tra- outros. Maria Helena Rocha Pereira serviço” – onde aproveitava para trezentos trabalhos, foi disponibili- balhos, reparte-se entre livros, artigos em enci- mantém uma notável capacidade de “ver as obras de arte”. A zada em livros, artigos em enciclo- clopédias, recensões críticas, traduções do comunicação e lembra-se de tudo o Fundação Europeia da Ciência, pédias, traduções do grego e do grego e do latim e artigos em revistas da espe- que viveu ao serviço da instituição. onde representou Portugal duran- latim e artigos em revistas da espe- cialidade como Revista da Universidade de As palavras foram e continuam a ser te 10 anos, reunia-se duas vezes cialidade. Maria Helena Rocha parte integrante, para não dizer de- Aveiro/Letras, Bracara Augusta, Portucale, por ano. “Uma das reuniões era terminante, da sua vida. Pereira não esconde que “o ensino Humanitas, Das Altertum, Memórias da sempre em Estrasburgo, onde es- A professora jubilada, que sempre sempre foi uma paixão e gostava Academia das Ciências de Lisboa/Classe de tava a sede, mas a outra saltava gostou mais de “fazer exames do muito de dar aulas”, guardando “ex- Letras, Studium Generale, Biblos, O Instituto, por vários países do Mundo”. que os fazer aos alunos”, continua a celentes recordações” do tempo em entre outras. ter uma enorme paixão pelas letras. que leccionava.
    14. 1 Março 2006 14 Jornal da Universidade ACTUALIDADE Novos dirigentes do I. I. I. Tomam posse, amanhã, 2 de Março, pelas 17 horas, na Sala do Senado, os O Instituto de Investigação Inter- novos corpos directivos do Instituto de disciplinar da Universidade de Investigação Interdisciplinar. Coimbra, foi criado por deliberação Rui Fausto Lourenço (Centro de Quí- do Senado em 4 de Abril de 2001. mica) preside à direcção, que integra Constituído em Unidade Orgânica em Rita Maria da Silva Marnoto (Centro 2004, os seus principais objectivos Inter-Universitário de Estudos Camonia- centram-se no desenvolvimento do nos), António Francisco Rosa Gomes diálogo interdisciplinar, consolidan- Ambrósio (IBILI – Instituto Biomédico de do e incrementando através dele a Investigação da Luz e Imagem), Luís produção do conhecimento no âmbi- to dos Centros de Investigação sedi- Guilherme Arnaut Moreira (Centro de ados nesta Universidade. Química) e Paulo Fernando Pereira de Actualmente, o I.I.I. é composto Carvalho (Centro de Informática e por 40 Unidades de Investigação da Sistemas). Universidade de Coimbra avaliadas A Mesa do Conselho de Investigação é pela Fundação para a Ciência e a composta por João Filipe Cortez Ro- Tecnologia e que representam cerca drigues Queiró (Centro de Matemática), Rui Fausto Lourenço, o novo Presidente da Direcção do I.I.I. de 1600 investigadores. O trabalho Catarina Resende Oliveira (Centro de de investigação produzido situa-se Neurociências e Biologia Celular) e Maria instituição jovem, tem vindo a afirmar-se do III na Universidade e fora dela en- na área das Ciências e da Tecno- Teresa Freire Vieira (Instituto de Ciências progressivamente na Universidade en- quanto pólo de desenvolvimento da in- logia, das Ciências Sociais e das e Engenharia de Materiais e Superfícies). quanto elemento de grande importância vestigação científica em geral e enquan- Humanidades. O Instituto de Investigação Interdisci- para a dinamização da investigação cien- to elemento dinamizador do cruzamento Mais informações sobre a activida- plinar (III) é uma unidade orgânica da tífica que nela se pratica e como factor entre diferentes saberes, estimulando a de do I.I.I em http://www.uc.pt/iii/ Universidade de Coimbra, que tem por fi- de coesão entre as unidades de investi- cooperação entre as diferentes unidades nalidade promover e divulgar a investi- gação que lhe estão associadas. de investigação e entre estas e a socie- gação científica, nomeadamente interdis- A equipa que amanhã toma posse dade em geral; apostar no reforço do vestigação para se afirmarem internacio- ciplinar, criando condições que propici- avançava, no seu manifesto de candida- apoio aos jovens investigadores; consi- nalmente enquanto centros de excelên- em a interacção das unidades de inves- tura, com três compromissos fundamen- derar como prioridade estratégica o cia e aumentarem o impacto internacio- tigação da Universidade. Tratando-se de tais: prosseguir o esforço de afirmação apoio aos esforços das unidades de in- nal das suas realizações. Carlos Reis vai ser o novo Reitor da Universidade Aberta Carlos Reis, Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Univer- sidade de Coimbra, deverá ser o fu- turo Reitor da Universidade Aberta (universidade pública de ensino à distância, que tem sede em Lisboa). A actual Reitora, Maria José Ferro Tavares, termina agora o seu man- dato, estando as eleições agenda- das para o início do próximo mês de Abril. Carlos Reis (que também já foi Director da Biblioteca Nacional) apresentou oficialmente a sua can- didatura ao cargo na terça-feira da passada semana, em Lisboa. Estava anunciada para dois dias depois a apresentação de outro candidato, Mário Avelar, mas este entretanto desistiu, não havendo mais nenhuma candidatura em perspectiva. Deste modo, Carlos Reis terá a eleição assegurada, regressando assim a uma Universidade onde já foi Pró-Reitor, e cuja Delegação em Coimbra criou e dirigiu durante vá- rios anos. Carlos Reis
    15. 1 Março 2006 R E P O R TA G E M Jornal da Universidade 15 Catedrática da UC dá explicações na Casa do Gaiato Há quase seis anos que Teresa Para além de Teresa Pedroso de Lima Pedroso de Lima, professora ca- e de Joana Cabral de Oliveira, a Casa do Gaiato conta com a colaboração, igual- tedrática da Faculdade de mente em regime de voluntariado, de Economia da Universidade de mais três professoras. Segundo o res- Coimbra (UC), se desloca, uma ponsável da instituição, padre João vez por semana, ao lar de estu- Rosa, esta é uma ajuda preciosa para os jovens. “Além da grande qualidade pro- dantes da Casa do Gaiato, em fissional das pessoas, há também a Coimbra, para os apoiar nos es- parte humana que é muito importante tudos. Sobretudo ao nível da para estes rapazes”. Considera, aliás, matemática, disciplina em que que no caso daqueles jovens a sua cada nota positiva vale um cho- aprendizagem está muito condicionada “pela parte humana e afectiva”. colate e um “satisfaz muito A instituição conta ainda com a cola- bem” um bilhete de cinema. boração de duas pessoas, um estudante universitário e um engenheiro, para es- clarecimento de dúvidas relativas “à for- saram a ser assíduos e além das dúvidas reservas. Uma é para o João Pedro, que mação humana em geral”. POR PAULA GONÇALVES de matemática começaram a colocar na quarta-feira da semana passada esta- O lar de estudantes, em Coimbra, está questões também ao nível de outras dis- va particularmente satisfeito com a vitó- dependente da Casa do Gaiato, que tem “Já chegou a stora Teresa”. A notícia ciplinas. Como eram já muitos os alunos ria do seu clube, o Benfica, tendo-se sede em Miranda do Corvo, e destina-se, circula rapidamente entre os jovens do com dúvidas, Teresa Pedroso de Lima apresentado na explicação trajado a segundo João Rosa, a acolher os jovens lar de estudantes da Casa do Gaiato, em passou a ter de contar com a ajuda da rigor. “Aqui somos todos do Benfica, que durante o primeiro ciclo “revelam Coimbra. E assim que Teresa Pedroso de sua filha, Joana Cabral de Oliveira, licen- menos a stora”. possibilidades de fazer um currículo es- Lima saiu do carro já um grupo de rapa- ciada em Biologia, para dar apoio sobre- Na passada semana estavam seis alu- colar normal”. Dependendo da situação, zes a rodeava. Uns para desabafar por tudo na área das ciências e do inglês. nos para a explicação, que foram distri- uns podem ser encaminhados para a for- ter corrido “mal” o teste feito no início Segundo Teresa Pedroso de Lima, os buídos por duas salas, ficando três com mação profissional, enquanto outros dessa semana, outros, pelo contrário, jovens que ali residem, a maior parte Joana Cabral de Oliveira e os restantes prosseguem os estudos. Actualmente, para partilharem com ela as boas notí- dos quais “tiveram experiências de ins- com Teresa Pedroso de Lima. “A partir residem no lar 21 rapazes, com idades cias por terem conseguido um trabalho. tabilidade, valorizam muito a continuida- do segundo período é quando começam compreendidas entre os 13 e os 21 anos, Desde o ano lectivo de 1999/2000 que de e sabem que podem contar comigo a surgir mais dúvidas”, afirma a catedrá- que estudam em diversas escolas da ci- a professora catedrática da Faculdade de todas as quartas-feiras. Foi um compro- tica. dade. Economia se desloca, todas as quartas- feiras, a partir das 18.30 horas, ao lar de misso que assumi”. Aliás, não será por Mas nem sempre os estudantes da Casa do Gaiato para apo- acaso que Teresa Pedroso de Lima é ma- alunos “aproveitam Teresa Pedroso P E R F I L iar os jovens nos estudos, sobretudo na drinha de crisma de um dos rapazes, en- bem” as explicações, de Lima é licen- área da matemática. quanto a sua filha é madrinha de baptis- na opinião do jovem ciada em Matemá- A ideia surgiu na sequência de um mo e também de crisma de outro. responsável pelo lar, tica (ramo científi- apelo feito pelo padre João numa missa “O que fazemos é muito pouco”, refe- Adriano Azevedo, de co) pela FCTUC. em Quiaios, no sentido de sensibilizar as re a professora, “tiramos dúvidas, es- 19 anos, “ainda por Fez o estágio pe- pessoas para darem o seu contributo. sencialmente de matemática e conversa- cima numa disciplina dagógico do ensi- “Como sou professora de matemática”, mos”. Para a catedrática da Faculdade onde há tanto proble- no liceal no Liceu disciplina que normalmente suscita mui- de Economia, esta é uma actividade que ma como é a matemá- José Falcão. Pros- tas dúvidas aos estudantes, “propus diz fazer “com naturalidade” e que, em tica”, considerada seguiu, entretan- deslocar-me ao lar uma vez por semana, termos pessoais, é “muito gratificante mesmo “o quebra-ca- to, os estudos com o Mestrado em Álgebra para os ajudar durante duas horas”. porque eles são uma delícia”. beças de toda a Linear e Aplicações da Faculdade de Ciências e No início diz ter ficado “muito apreen- gente”. Por exemplo, Tecnologia da Universidade de Coimbra. siva” por não saber exactamente “o tipo UM CHOCOLATE acrescenta, “hoje não Doutorou-se e fez agregação em Economia, na de miúdos que ia encontrar”, mas logo está muita gente nas especialidade de Economia Matemática-Modelos nos primeiros contactos afirma ter ficado POR CADA POSITIVA explicações porque Econométricos, na Faculdade de Economia da “bastante impressionada com a boa eles só se lembram Universidade de Coimbra. educação e delicadeza” daqueles estu- Comparando esta experiência com a de vir nas vésperas Iniciou a actividade docente em 1973, na dantes. sua actividade na Faculdade de dos testes”. Este então Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra, As primeiras explicações que deu des- Economia, refere que no lar de estudan- jovem frequenta o 11º tendo sido professora do ensino secundário até tinaram-se a um número reduzido de tes da Casa do Gaiato “há um feed-back ano, na área da eco- 1979, altura em que foi contratada como assis- alunos. Só mais tarde percebeu a razão muito mais instantâneo”, enquanto na nomia, acrescentan- tente pela Faculdade de Economia da Univer- de não participarem todos os 21 rapazes Universidade o ensino “é menos pesso- do, em tom de brinca- sidade de Coimbra, onde actualmente é profes- que se encontram na instituição. Aliás, al”. deira, que “a stora sora catedrática. eles próprios lhe explicaram a causa Ali cada nota positiva a matemática Teresa ainda há-de O seu trabalho científico tem sido desenvolvi- dessa atitude: “Pensavam que era mais “vale um chocolate”, enquanto um “sa- ser minha professora do na área da Álgebra Linear Aplicada e Teoria uma que vinha e de repente ia embora”. tisfaz muito bem” dá direito a uma ida na Faculdade de Matemática dos Sistemas, com interesse partic- Depois de constatarem o contrário, pas- ao cinema. Para já só foram feitas duas Economia”. ular pelas aplicações em Economia.
    16. 1 Março 2006 16 Jornal da Universidade E N T R E V I S TA MULHER E MÃE PRESIDE A FACULDADE COM DESPORTIVISMO “Sem apoio familiar é impossível” - salienta Ana Teixeira JOÃO PAULO HENRIQUES É, nesta altura, a única mulher à fren- Duas licenciaturas te dos destinos de uma Faculdade da Universidade de Coimbra (UC). Ana Teixeira é a Presidente do Conselho e seis mestrados Directivo da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEF) A necessidade de dotar a desde 2002, cumprindo, actualmente, o Universidade de Coimbra (UC) de segundo mandato de dois anos. Uma uma área de estudos do domínio da situação de que se orgulha, mas que, cultura física e do desporto levou a segundo a própria, não a torna “melhor nem pior”. que o Senado aprovasse, por una- Ao longo dos três anos e meio que nimidade, a criação da Faculdade de está à frente da FCEDF, Ana Teixeira Ciências do Desporto e Educação não sentiu problemas por ser uma mu- Física (FCE DF). Contudo, apesar de lher a mandar. “Tenho tido a colabora- reconhecer que a UC tinha infra- ção necessária dos meus colegas. estruturas suficientes, o Ministério da Estive grávida e de licença de parto du- rante parte do mandato - devo ter sido Educação não autorizou a instituição a primeira mulher grávida na UC à fren- imediata da Faculdade. te de uma Faculdade -, mas tinha uma Os cursos de Ciências do Desporto excelente equipa e correu tudo bem”. e de Educação Física foram criados As exigências da presidência do por deliberação do Senado da UC de Conselho Directivo da FCEDF são gran- 19 de Fevereiro de 1992 e ficaram a des. As solicitações tornam o papel ainda mais preenchido. Por isso, acaba funcionar no âmbito da Reitoria, mas por restar pouco tempo para a família. dotados de uma estrutura própria. “Sem um bom apoio familiar é impossí- Em 1997, um despacho, publicado no vel e é preciso ter um marido muito Diário da República a 2 de Junho, compreensivo. São muitas horas de tra- autorizou a criação da Faculdade, sob a designação de FCDEF, que Faculdade concentrou as suas actividades no tem 538 alunos Estádio Universitário de Coimbra. A mais nova Faculdade da UC tem Neste momento, a Faculdade de as licenciaturas em Ciências do Ciências do Desporto e Educação Ana Teixeira Desporto e em Educação Física. Ao Física (FECEDF) conta com 370 alu- balho, sem horário, com muita disponi- o que torna as coisas mais difíceis”. nível da pós-graduação, ministra seis nos de licenciatura, 158 de mestrado bilidade, representações e se alguma O desporto era, até há uns anos cursos de mestrado: Biocinética do e 10 de doutoramento, possuindo criança adoece é muito complicado”. atrás, prática quase exclusiva do sexo Desenvolvimento; Desenvolvimento e programas de intercâmbio de alunos Mãe de duas meninas de cinco e dois masculino. Ana Teixeira já não sentiu o Adaptação Motora; Ensino da e docentes no âmbito do programa anos, Ana Teixeira pretende deixar o problema, mas, em termos das prepara- Erasmus e de protocolos assinados Actividade Física – Educação de cargo no final do mandato, asseguran- ções, “ainda se vê muito que é um com universidades brasileiras, norte- do que “existe um grupo suficiente mundo dominado pelos homens”. Infância e 1.º CEB; Treino Desportivo americanas e chinesas. para poder ocupar a presidência e há Ainda assim, a docente prevê que as para Crianças e Jovens; Lazer e O ano passado recebeu 54 estu- pessoas bem habilitadas para o fazer”. coisas possam mudar, uma vez que, re- Desenvolvimento Local; Exercício e dantes e 49 docentes estrangeiros Apesar de não pretender continuar a conhece, “temos algumas mulheres Saúde em Populações Especiais. no âmbito destes programas, sendo presidir o Conselho Directivo, a docen- muito boas na área do desporto”. que 55 alunos e 11 docentes estuda- te sabe que “numa Faculdade pequena Nos próximos anos, Ana Teixeira quer ram e leccionaram, respectivamente, como esta calha sempre algum cargo a dedicar-se “mais à investigação e à do- A investigação sempre foi a priorida- numa universidade estrangeira. Ao alguém e vai ser inevitável”. cência”, porque, garante, “com este de da carreira da Presidente do abrigo do programa europeu O balanço dos dois mandatos é cargo, não temos tempo para investi- Conselho Directivo, que assume uma Leonardo da Vinci, oferece ainda a “positivo”, se bem que reconheça gar”. A área ligada à promoção da “mudança positiva” no apoio aos in- possibilidade de recém-licenciados tratar-se de “um cargo ingrato”. saúde e os aspectos mais particulares vestigadores. O Instituto do Desporto realizarem estágios profissionais fora Para justificar o adjectivo, acrescen- em relação ao atleta, como os riscos ou de Portugal financia algum do trabalho de Portugal em instituições que te- ta que “esta Faculdade é relativa- a prevenção de alguns riscos em ter- feito nas universidades e a FCEDF foi nham protocolos com as Faculdades mente pequena, mas tem as mesmas mos de susceptibilidade às doenças considerada, em 2003/2004, uma uni- parceiras da FCDEF. obrigações de uma grande e não quando o treino é muito intenso e pro- dade de investigação pela Fundação tem os mesmos meios e condições, longado, agradam-lhe “bastante”. para a Ciência e a Tecnologia.
    17. 1 Março 2006 Jornal da Universidade 17 Trabalho de Teresa Almeida Santos em prestigiada revista científica “Só começámos agora a receber o di- nheiro. Tem ajudado bastante e permi- Ana Maria Miranda tido fazer algumas coisas, mas ainda P E R F I L Botelho Teixeira nasceu estamos muito no princípio e ainda não há 40 anos, em Coim- nos capacitámos que temos algum di- bra. Casada, com duas nheiro para fazer as coisas”, explica filhas de cinco e dois Ana Teixeira, antes de reconhecer que anos, é licenciada em “em termos de Orçamento de Estado, é Bioquímica pela Facul- impossível fazer investigação e tem de dade de Ciências e ser com o dinheiro que vem de apoios Tecnologia da Univer- No seio da Universidade de Coimbra de outras instituições”. sidade de Coimbra desenvolvem-se trabalhos de investigação de O basquetebol foi a modalidade des- (FCTUC), onde concluiu grande importância e qualidade que, a maior portiva que cativou a atenção de Ana o curso em 1988. parte das vezes, são mais conhecidos e melhor Teixeira na juventude. “Pratiquei, du- O mestrado em Imu- apreciados além-fronteiras do que entre nós. rante um ano ou dois, como federada nologia pelo ICBAS, na Tal reconhecimento é feito, por exemplo, no Olivais, mas depois deixei porque Universidade do Porto, através da divulgação desses trabalhos em entrei muito tarde”, explica a docente foi concluído em 1992, algumas das mais prestigiadas revistas cien- que, entretanto, fez “coisas normais enquanto o doutoramento em Hematologia foi tíficas do Mundo. como aeróbica e hidroginástica” e quer atribuído pela London Medical School, Univer- Como exemplo, escolhemos para esta primeira reactivar, “o mais rápido possível”, a sity College of London, em 1996. edição do “Jornal da Universidade”, sobretudo prática desportiva, com o recurso à Quando acabou a licenciatura, esteve como dedicado à Mulher, o trabalho de uma docente e sala de musculação do Estádio investigadora no Centro de Imunologia na investigadora da Faculdade de Medicina, Teresa Universitário. Faculdade de Medicina da UC. A seguir ao dou- Almeida Santos, que acaba de ser publicado na Apesar do tempo escassear, Ana toramento, trabalhou dois anos no Instituto de edição deste mês de Março da revista “Fertility Teixeira adora viajar e tem “pena de Oncologia do Porto. and Sterility” – que é o órgão oficial da não o poder fazer mais vezes”. É docente da Faculdade de Ciências do Sociedade Americana de Medicina da Aproveita as horas livres para estar Desporto e Educação Física (FCDEF) da UC Reprodução, e uma das mais conceituadas com a família, passeando com as filhas desde Agosto de 1998, onde lecciona as cadei- publicações nesta área, a nível mundial. e o marido. Uma vida preenchida, mas ras de Fundamentos de Educação para a Saúde Trata-se de parte do trabalho de investigação que, assegura, a obriga a estar “em e Bioquímica do Exercício. que conduziu à tese de doutoramento de Teresa permanente actividade”. Com o fim do Presidente do Conselho Directivo da FCDEF Almeida Santos pela Faculdade de Medicina da mandato à porta, a Presidente do desde 2002, coordena a disciplina de Seminário Universidade de Coimbra, e que “pretende Conselho Directivo tem um desejo: e tem a seu cargo a investigação de áreas como encontrar marcadores de qualidade dos gâmetas “Espero que as obras da FCDEF final- a imunologia e bioquímica do desporto e a pro- femininos e explicações ao nível celular e mente comecem”. moção da saúde através do exercício físico. molecular para o insucesso reprodutivo”. É um trabalho de colaboração com um dos maiores especialistas europeus em Genética da Dois problemas por resolver Reprodução e Mitocondrial, Justin St. John, da Escola Médica da Universidade de Birmingham, no Reino Unido – colaboração essa que ainda se O quadro de pessoal e as instalações assumem-se como os dois grandes problemas da Faculdade de Ciências mantém. do Desporto e Educação Física (FCDEF). “O quadro de pessoal não docente ainda não saiu e tenho dificuldade É justo realçar que se trata de um artigo que em ter funcionários que possam estar de forma permanente. Tenho alguns que vão e voltam ou têm vínculos um prestigia não só a sua autora, mas também a pouco precários e outros emprestados por outras Faculdades”, confidencia Ana Teixeira. Universidade de Coimbra, e demonstra que aqui Outro dos problemas que se arrasta há vários anos é o das instalações, que já ultrapassaram há muito a é possível fazer investigação a nível europeu e capacidade em termos de espaço. “Há um problema muito grande na componente pedagógica do que será uma com equipas multidisciplinares. Refira-se que Teresa Almeida Santos (que universidade, já que não temos salas de aulas, laboratórios, gabinetes para os docentes e salas para a instalação pertence ao Serviço de Genética Médica do dos serviços suficientes”, confidencia a Presidente do Conselho Directivo. Departamento de Medicina Materno-fetal, “Temos um mestrado colocado em Alcobaça, porque aqui não há espaço”, exemplifica Ana Teixeira, que lembra Genética e Reprodução Humana dos Hospitais que a FCEDF ganhou um concurso de reequipamento científico e daqui a pouco não vai ter sítio para o colocar. da Universidade de Coimbra e Faculdade de As dificuldades de crescimento da Faculdade assumem-se como um problema de prioritária resolução, mas a falta Medicina), vira já publicado pela mesma revista, em Dezembro de 2004, um outro artigo de de verbas tem travado o projecto das novas instalações. grande importância, fruto de um trabalho “Só falta o dinheiro para avançar. O projecto de arquitectura, que está pronto e na fase de licenciamento, desenvolvido em colaboração com João Ramalho precisa de ser aprovado pelo Ministério da Educação e Ensino Superior, mas o PIDDAC deste ano cortou a verba Santos, Alexandra Amaral e Mariana Freitas para o início das obras”, lamenta a docente, que acredita no arranque das obras no próximo ano. “Estar a adiar (todos do Centro de Neurociências da muito mais é impossível em termos psicológicos e é difícil lidar com a situação no aspecto logístico”. Universidade de Coimbra) e Raquel Brito (do citado Serviço de Genética Médica).
    18. 1 Março 2006 18 Jornal da Universidade R E P O R TA G E M COMPLETA 107 ANOS DENTRO DE UM MÊS Notável exemplo da Universidade João Ferreira de Almeida acha que a ca- para funções governativas, até lhe pital britânica é exagero, e aponta-lhe a pediu que lhe guardasse a mobília Universidade de Coimbra como alterna- de jantar – ao que ela acedeu. tiva. Ela concorda e manifesta vontade Recorda que na Universidade as mu- de cursar Medicina, o que o pai consi- lheres eram tratadas por “Vossa dera pouco próprio para uma mulher, Excelência”, era-lhes consentido usar pelo que a jovem se resigna e escolhe pasta com fitas, mas não podiam en- Físico-Químicas. vergar capa e batina nem participar Chega à Universidade de Coimbra nas actividades estudantis – nem se- em 1917 (ano das Aparições de Fátima quer lhes era permitido entrar na e do começo da Revolução Russa), Associação Académica. sendo uma das 70 mulheres ali inscri- Reagindo contra esta “segregação”, tas entre os cerca de 1.200 alunos. Maria Virgínia funda a primeira “repú- blica” feminina, a Casa Independente AS CHAPELADAS de Raparigas de Coimbra – juntamen- DE SALAZAR te com Dionísia Camões, Maria Teresa Basto e Elisa Vilares – participando Com uma colega de Viseu, foi ainda, pouco tempo depois, na criação viver para a Casa das Cruzes, de do Círculo Académico Feminino Ca- onde tinha uma deslumbrante vista tólico. do Mondego. Quando estava à ja- O curso prolongou-se por sete anos nela, era frequente por ali passar (cinco de Físico-Químicas e dois da um jovem assistente que nesse ano Escola Normal Superior) e foi concluí- começara a dar aulas na do com um brilhante 16. Logo a seguir Universidade, que habitava ali vai dar aulas para Lisboa, no Liceu Maria Virgínia perto, na Rua dos Grilos, e que a Maria Amália Vaz de Carvalho, ali es- É a mais antiga aluna ainda viva da rinho que dedica às tradições acadé- saudava com exuberantes chapela- tando um ano, para regressar a Universidade de Coimbra e uma das micas. das. Chamava-se António de Coimbra, sendo colocada no Liceu mais idosas cidadãs portuguesas. Maria Virgínia de Abreu Ferreira de Oliveira Salazar e algum tempo de- Infanta D. Maria, onde leccionou até Completa 107 anos de idade no próxi- Almeida nasceu no Porto, em 1899, pois, quando foi chamado a Lisboa se reformar, aos 75 anos. mo dia 3 de Abril. Mas mantém uma por coincidência na casa onde antes jovialidade invulgar, de fazer inveja a vivera Carolina Michaelis, a primeira muitos bem mais novos, como de- mulher a leccionar numa Universidade monstrou na homenagem que há pou- em Portugal. O pai formou-se em cos dias lhe foi prestada em Coimbra, Medicina e fixou residência em S. cidade onde vive há muitas décadas. Pedro do Sul, para ali exercer clínica. Nessa tocante sessão que decorreu A Mãe de Maria Virgínia morreu quan- no Instituto Superior de Engenharia, do esta tinha apenas 5 anos, pelo que Maria Virgínia não se limitou a ouvir o tentam atenuar-lhe a orfandade com o Coro dos Antigos Orfeonistas, que ali carinho da família e das senhoras da cantaram em sua homenagem. Entoou sociedade local, que a enchem de com eles algumas célebres composi- mimos. Convive com “a fina flor da no- ções e, melhor do que isso, surpreen- breza beirã”, joga ténis (de vestido deu todos no final, cantando a solo, comprido, como se impunha na com voz ainda enérgica e afinada, a época), anda a cavalo e nada no rio “Coimbra do Mondego e dos amores Vouga recatadamente, aprende música que eu lá tive…”. E foram, e são, mui- e francês e vai-se instruindo. Concluído tos amores, de vária natureza, como a o curso liceal em Viseu, quer demandar seguir se verá – desde uma família nu- outras paragens, e pede ao pai que a merosa, até à afeição pela cidade de deixe ir prosseguir estudos em adopção recíproca, passando pelo ca- Londres, onde tem uma tia. Mas o dr.
    19. 1 Março 2006 R E P O R TA G E M Jornal da Universidade 19 de uma das primeiras alunas de Coimbra Entretanto, aos 32 anos casou com Assim, por exemplo, no dia 9 de o capitão Ernesto Pestana, que com- Novembro de 1920, Maria Virgínia es- batera em França, na I Grande Guerra, creveu que as jovens foram ao “cine- e então comandava o Quartel de matógrafo, onde nos levou a mãe da Santa Clara. O militar apaixonara-se Dionísia, o que, segundo as suas pró- por ela quando a viu e ouviu cantar prias palavras, a encheu por mais um na Igreja de Santa Cruz e na Sé Velha. ano. Eu não digo outro tanto, mas por Ernesto Pestana viria a ser nomeado, mais um mês talvez”. anos depois, Governador Civil de Noutra página do diário uma bem Coimbra, e numa das festas oficiais humorada alusão às deambulações do em que Maria Virgínia o acompanhou, gato do vizinho, “um bichano burguês na recepção ao Presidente brasileiro chamado Sócrates”. Café Filho, Salazar logo a reconheceu e veio cumprimentá-la de forma muito UMA VIDA CHEIA E FELIZ amistosa. Na homenagem que lhe foi prestada QUANDO SÓCRATES há escassos dias, Maria Virgínia viu-se ERA UM GATO rodeada de muitos amigos e admira- dores e ouviu palavras justamente Dos tempos da sua “república” fe- elogiosas. Entre elas as do Presidente minina, Maria Virgínia recorda que da Junta de Freguesia dos Olivais, uma das obrigações das pioneiras era Francisco Andrade, que fez uma evo- escreverem um diário, alternadamen- cação biográfica da mais idosa habi- te. São cinco preciosos volumes que as jovens nem sempre tinham coisas mesada era de vinte mil reis (20 escu- tante; as do Presidente da Câmara ainda hoje conserva, cujo conteúdo o importantes para registar. Por isso, dos, o que equivale a 10 cêntimos na muitas vezes divagavam sobre futili- actual moeda), e de alojamento paga- Municipal, Carlos Encarnação, que a tempo foi esmaecendo, mas que ela dades do dia-a-dia, como a compra de va 18 mil reis. Com a extravagância do classificou como “um testemunho de consegue decifrar, mais com a memó- um sabonete “por dois mil reis, para sabonete, lá se foi a mesada de Maria vida, quer pela sua carreira universitá- ria do que com os olhos (apesar de tornar a tez mais encantadora”. Um Virgínia! ria, quer pela sua liberdade de actua- ainda ver satisfatoriamente). dinheirão para a época, já que a sua As saídas eram todas registadas. ção enquanto Mulher”; e as do Reitor Nesses obrigatórios relatos diários, da Universidade, Seabra Santos, que sublinhou ter ela assistido ao Regicídio, à Implantação da Repúbli- ca, à I e à II Guerras Mundiais, ao Estado Novo, a mais de 30 anos de Democracia, e continuando hoje aqui “jovem e sã como um pêro”. Maria Virgínia é, realmente, um exemplo, pelo seu pioneirismo, pela sua luta pela dignificação da Mulher, pela sua carreira docente e, sobretu- do, pela forma invulgar como soube enfrentar os anos, sem deixar que eles lhe envelhecessem o espírito e lhe de- bilitassem o corpo. Teve 6 filhos, que lhe deram 13 ne- tos e 12 bisnetos. O corolário de uma existência feliz, que tem sido sempre vivida intensamente, e que se espera e deseja assim se mantenha por mui- tos mais anos.
    20. 1 Março 2006 20 Jornal da Universidade EFEMÉRIDE RÁDIO UNIVERSIDADE DE COIMBRA Há 20 anos sempre Eduardo Brito Está a ser ultimada uma edição come- desafio ao sueco Ernesto para vir até morativa dos 20 anos da Rádio Coimbra e durante uma semana traba- Universidade de Coimbra. Com lança- lhar com um músico português para jun- mento previsto para 1 de Maio de 2006, tos apresentarem um espectáculo único “RUC – 20 anos sempre no ar!” incluirá onde recriam temas do sueco de “A New um livro com testemunhos pessoais de Blues”, trabalham em inéditos concebi- actuais e ex-colaboradores desta estação dos nesse tempo e reciclam clássicos emissora, obra acompanhada por dois com novas roupagens. O desafio foi cds audio (um deles inteiramente preen- prontamente aceite, “Ernesto Vs Pedro chido por spots produzidos ao longo dos Renato” “passa” dia 3 de Março, pelas últimos anos) e um DVD. 21h30, no Teatro Académico de Gil O DVD incluirá uma curta metragem in- Vicente. titulada “A Verdadeira história da Mais informações em www.ruc.pt RUQUE”, filme concebido, realizado e protagonizado pelo colectivo de actores COMO TUDO COMEÇOU de Coimbra “Esticalimóseiça”; gravação de uma irónica e divertida peça de tea- 1 de Março de 1986 é a data simbólica tro sobre a RUC, concebida e interpreta- que marca os aniversários da Rádio da também pelo “Esticalimóseiça”; uma Universidade de Coimbra, naquele que é curta metragem “CURta atRUC” sobre as também o dia da Universidade. No en- instalações da Rádio Universidade de tanto, as origens desta secção cultural Coimbra, com realização a cargo de SAL, da Associação Académica de Coimbra e uma galeria de fotografias da rádio mergulham na década de 40. universitária. A RUC herdou do passado uma forma No contexto das celebrações do 20.º muito especial de fazer rádio, e é hoje aniversário desta rádio estudantil são um órgão de comunicação social único várias as actividades que se estenderão pelo seu papel formador e inovador. ao longo do ano e que incluem teatro, Na década de 40, o Centro Expe- exposições, debates e concertos. derão ouvir vários especiais e programas gravados para o efeito. rimental de Rádio, que era então uma O início das comemorações é marcado clássicos dos 107.9 FM especialmente A Rádio Universidade lançou ainda um das secções da Associação Académica pela emissão de 1 de Março, onde se po- Por deferência da direcção da RUC, o Jornal da Universidade divulga um dos textos que integrarão a compilação a lançar no próximo mês de Maio Obrigado Coimbra Martins Cavaco Silva já tinha feito a rodagem dos nossos propósitos na co- em tempos havia dado mos- nema de Coimbra Martins, tal o fragor ao carro, já tinha anunciado que o Bloco municação social foi grande. tras de ser amigo da RUC. das palmas na outra sala. Central já era, ligado à máquina até ao Que nos desculpe a Teresa Aceitou o risco de visitar os Soube depois que os meus camaradas day after da assinatura do Tratado de de Sousa, o Siqueiros, o estúdios da nossa rádio, dei- de bancada haviam frenesinado as mãos Adesão à Comunidade Europeia. Capinha – foi por uma boa xando-se entrevistar tam- quando Almeida Santos bateu com uma Corria 1985, ano e meio depois de, com causa, não levem muito a bém. Tratava-se de uma das dele no peito, no lado do coração, ju- Jaime Ramos (PSD), termos apresentado mal. rádio pirata, uma rádio que rando: “Privatização da televisão??? Só na Assembleia da República o primeiro Nuno Rocha, director de “O os “radioeléctricos” dos CTT por cima do meu cadáver!!!”. projecto-lei de licenciamento das rádios Tempo”, não suspeitava da deveriam zelosamente encer- Hoje temos a RUC emitindo legalmente, locais. Dos dirigentes bloquistas de então marotice e enviou-nos tele- rar, por maus tratos à lei do mais umas centenas de rádios também. (os do meu partido – PS –, e os do PSD), grama esfusiante, elogiando país. Não se importou. O Temos a SIC, a TVI, os canais de cabo. não tínhamos novas sobre o sucesso do a coragem e pedindo boleia: “Já agora, mesmo fizera Mário Soares, ao tempo Rádio e televisão abriram-se à iniciati- projecto. senhores deputados, avancem também Primeiro Ministro. va privada sem ser preciso passar pelo A verdade manda-me dizer que as mai- com a privatização dos jornais do Coimbra Martins telefonara para me cadáver de Almeida Santos. Fico feliz, ores resistências moravam no Partido Estado”. “admoestar”: “Então Dinis Alves, vamos pela admiração que por ele tenho. Socialista. Almeida Santos não sabia e foi à reuni- embora daqui a dias e você não pede Em nome dos “maluquinhos” do Em jeito de despedida, só para fazer ão do Grupo Parlamentar do PS. Eu não nada para a rádio da sua Académica?!” Centro Experimental de Rádio, em nome tremer um bocado as forças de bloqueio, sabia ao que Almeida Santos ia, não tive Lá pedi, pois claro. Já não me lembro dos “lunáticos” da RUC, deixo aqui um eu e o Jaime decidimos anunciar projecto- tempo para aquecer o lugar, a saudosa do montante, o João Morgado talvez se OBRIGADO ao Ministro Coimbra Martins. lei para liberalização da televisão. Áurea chamou-me ao telefone. Era urgen- não lembre também, mas que deu um jei- Não pelo subsídio, sim pelo gesto. Já passaram 21 anos, já podemos con- te, um ministro do outro lado da linha. tão lá isso deu. Seguindo o conselho do Dinis Manuel Alves fessar que nem uma linha tínhamos ra- Era Coimbra Martins, Ministro da ministro, teríamos que pedir para livros, dinis.alves@mail.telepac.pt biscado sobre o dito projecto. Não caiu o Cultura. Acompanhara a euforia e o pro- pinturas de paredes, tudo menos para Carmo, já tão em ruínas; a Trindade con- cesso de legalização das rádios livres em algo que lembrasse pirataria. Para saber mais sobre Coimbra Martins visite tinuou a servir cerveja, mas o espavento França, antes do regresso a Portugal. Já Não ouvi uma pequena parte do telefo- http://forja.free.fr/quem/arquivo/coimbra.html
    21. 1 Março 2006 EFEMÉRIDE Jornal da Universidade 21 Eduardo Brito de Coimbra, começou a formar técnicos e locutores. Foi por essa altura que, com as condições possíveis, se iniciaram emissões regulares. A difusão era feita em circuito interno e destinava-se às cantinas universitárias, sendo também ouvida na cidade. Nasceu assim o sonho de criar uma rádio estudantil, até porque uma experi- ência anterior, à qual tinham chamado Rádio Universidade, já tinha dado os seus frutos. Durante vários anos, a RDP Emissora Nacional concedeu algum do seu tempo de antena aos estudantes. Estes prepa- ravam, realizavam e gravavam os pro- gramas nos seus próprios estúdios, em fita magnética, para posterior divulgação no centro regional da RDP em Coimbra. A principal preocupação foi sempre a formação contínua aos estudantes da Universidade, em três áreas específicas - programação, informação e técnica ra- diofónica. Nesta Escola de Rádio passa- ram nomes que se tornaram conhecidos: Sansão Coelho, Braga da Cruz, Rui académicas de 58, 62 e 69, e o 25 de a obtenção de meios técnicos capazes A partir de 10 de Dezembro de 1986, Avelar, João Moreira Pires, João Elvas, Abril de 1974. de garantir emissões regulares, nos 100 começaram a ir para o ar os primeiros João Cunha, José Portugal, José Carlos MHz. Deu-se também início ao processo serviços noticiosos com carácter regular, Pinho, Edgar Canelas, Rui Portulez, entre A CONCRETIZAÇÃO de legalização, formalizado com um que eram ouvidos após os sinais horá- DE UM SONHO Pedido de Licenciamento de uma rios, entre as 21h e as 2h. outros. Estação Emissora, em 14 de Novembro O alvará chegou finalmente em A vida da cidade foi sempre acompa- Os primeiros passos para a criação da de 1983. Setembro de 1988, data a partir da qual nhada de perto, mesmo nos seus mo- Rádio Universidade de Coimbra que No dia 1 de Março de 1986 foi criada a RUC começou a emitir na frequência mentos mais quentes, como as crises temos hoje foram dados em 1982, com a Rádio Universidade de Coimbra. dos 107.9 FM durante 24 horas por dia. Eduardo Brito Se já era uma das poucas Escolas de Rádio do país, a Rádio Universidade de Coimbra tornou-se também o primeiro órgão de comunicação social inteiramen- te composto e gerido por estudantes universitários. Desde então, a RUC tem cimentado as suas actividades em quatro frentes: for- mativa, informativa, académica e cultu- ral. INTERNET A RUC procurou desde cedo afirmar a sua presença na internet, tendo ocupa- do o domínio ruc-online.com e mais tarde o ruc.aac.uc.pt. Hoje tem casa nova, mora em www.ruc.pt, página lan- çada a 31 de Março de 2003. O novo es- paço surgiu com um visual renovado, mais conteúdos de programação e notí- cias actualizadas em tempo real. Se quiser viajar no tempo, encontra duas versões antigas da RUC no ciberes- paço. Endereços: http://www.ruc.pt/~ruc/www.ruc-online.com http://www.ruc.pt/%7Eruc/www.ruc.aac.uc.pt
    22. 1 Março 2006 22 Jornal da Universidade PÁGINA LIVRE O conteúdo desta página é livremente escolhido BOLONHA: pela personalidade convidada para a preencher uma crise em vias de se tornar urgência Desde há muitos meses, desde há al- EU: De forma alguma. maior qualidade. Bolonha, guns anos até, entrecortados por períodos Bolonha seduz-me porque obrigando-nos a uma nova es- de relativa hibernação, que a comunidade me empurra para novas truturação do processo de en- universitária se debate com uma necessá- formas de estar na docên- sino-aprendizagem podia ria reestruturação, correntemente designa- cia, para formas mais co- constituir a perturbação ne- da por Reforma de Bolonha. construídas, em que a cessária à transformação qua- À semelhança de muitas outras reformas complementaridade pode litativa do próprio sistema. já ocorridas no contexto educativo, de que tornar-se mais oscilante e Perguntas-me se com Bolonha a última em que me vi mais ou menos en- em que o conteúdo de um vamos ficar melhor. Não sei o volvida, como mãe, foi a dos agrupamen- discurso que pontua o su- que poderá acontecer se nos tos escolares (que envolveu jardins de in- jeito como competente e permitirmos perder o equilí- fância, 1º, 2º e 3º ciclos), o sistema, entre autónomo pode encontrar brio que temos tido e nos per- amedrontado e preguiçoso, procura iludir processos pedagógicos mitirmos transformar os pa- a crise, transformando-a em urgência, atra- mais consonantes. E, drões de relação inter-pares e vés de um adiar do tempo de reflexão e nesse sentido, é com con- entre docentes e discentes. decisão até um limiar em que só ajusta- vicção que desejo Sei é que dificilmente continu- mentos e adaptações são imagináveis e Bolonha. aremos na mesma, a menos possíveis. OUTRO OUTRO: O que que convertamos esta oportu- Sendo esta uma conversa que poderia queres dizer com isso de nidade de mudança num qua- ter tido, partilhá-la, agora, é uma forma de complementaridade osci- dro de simples adaptação. E metacomunicar e, como tal, de clarificar, lante? parece-me que é isso que cor- perante mim própria, aquilo que penso ou EU: A relação professor- remos o risco de fazer, pro- estou disponível para fazer. aluno é uma interacção O PRIMEIRO OUTRO: Estás a falar da pondo mudanças mínimas marcada por diferenças que se encai- nova pontuação? Das horas de contac- com a desculpa de que não há tempo UM OUTRO: Não estás cansada de xam e em que o professor, na sua po- to, de estudo e das horas tutoriais?… para pensar doutra forma ou de que Bolonha? sição one-up, dirige e detém a respon- EU: Sem dúvida. E também numa não podemos perder o poder que a EU: Sim e não… sabilidade dessa mesma interacção organização da formação superior que afirmação da nossa autonomia docen- O MESMO OUTRO: Como sim e não? enquanto o aluno, numa posição one- te nos confere, o que eventualmente está longe de ter no nível de mestra- Não te parece que vamos perder down, ajusta o seu comportamento ao do a sua pontuação fundamental. aconteceria se nos abríssemos mais à muito em qualidade? E que, finalmen- do professor e responde à sua inicia- O SEGUNDO OUTRO: Estás a pensar co-construção de novos projectos cur- te, vai ficar tudo na mesma, ou mesmo pior? tiva. O crescimento afectivo e cogniti- em cursos de doutoramento… riculares. EU: Talvez sim, talvez não… vo de ambos, contudo, exige uma al- EU: Também mas não só. Parece-me O SEGUNDO OUTRO: Não sei por- O MESMO OUTRO: Estás encantado- ternância destas posições não só para que é frequente, no nosso País, a for- quê, mas o que acabaste de dizer fez- ra! Completamente transparente, entre que o aluno desenvolva as competên- mação ter um carácter mais ou menos me pensar na afirmação de Tuiavii, um sim e um não e um talvez! cias de direcção e responsabilidade episódico, alcançando, por vezes, ní- chefe da tribo de Tiavéa, nos mares EU: Deixa-me contar-te uma histó- na interacção mas também para que o veis excelentes mas que não se po- do sul: … A palmeira deixa cair as fo- ria; talvez percebas depois melhor o docente crie novos textos e não se ar- tenciam no tempo, dificultando, lhas e os frutos quando estes amadu- que quero dizer. risque a manter a mesma narrativa assim, a organização de um processo recem. O Papalagui vive como uma nos seus trinta e tantos anos de pro- contínuo de aprendizagem bem como palmeira que retivesse folhas e frutos, Era uma vez um sábio que, na pre- fissão. a criação de redes inter-pares muito dizendo: “São meus! Não tendes o di- sença dos seus discípulos, administra- O PRIMEIRO OUTRO: Falavas de pro- úteis no apoio e crescimento das pes- reito de os apanhar ou de os comer!” va justiça entre dois queixosos. Um cessos mais concordantes com conte- soas e dos profissionais. Como faria ela, então, quando vies- deles queixava-se de que lhe tinham údos… O PRIMEIRO OUTRO: E achas que sem novos frutos? A palmeira é bem roubado uma vaca e considerava que EU: Sim, questiono-me muitas vezes isso compete às Universidades? mais sensata do que o Papalagui…2 o ladrão, presente na sala, devia ser sobre como respeito a ideia de o que EU: Acho que é muito útil ao seu EU: Não é fácil ser palmeira mas é castigado. Depois de reflectir longa- sujeito é um sistema auto-organizado, próprio desenvolvimento pois permite dessa forma que crescemos e somos mente sobre o assunto o juiz decidiu capaz de promover mudanças, no seu uma recursividade entre investigação- reconhecidos. que, se era assim como ele contava, interior, que lhe permitam um aumen- aplicação-reflexão-docência-investiga- O PRIMEIRO OUTRO: Afinal, porque ele tinha razão. Falou então o supos- to da sua complexidade funcional e ção… que, doutra forma, me parece disseste que também estavas cansada to ladrão e explicou que realmente organizacional. Sobre como lhe posso ficar muito dificultada ou mesmo im- de Bolonha? tinha roubado a vaca porque os filhos transmitir informação pertinente que o possibilitada. EU: Porque temo cada vez mais que estavam a morrer de fome e ele não faça aumentar o seu (desejo e domí- Desde há anos que sinto que, en- ela deixe de ser uma oportunidade de encontrava trabalho, apesar de todos nio de) conhecimento, de tal forma quanto docente universitária, tenho mudança nacional. Embora, pela os esforços que tinha feito para o en- que ele não se cole à informação vei- bastante para dar a profissionais da minha parte (e nisso tenho a certeza contrar. Como o seu vizinho era rico, culada mas se aproprie dela e a inte- minha área, e de áreas afins, que de que estarei acompanhada por vá- achava que ele podia esperar até que gre de forma a transformar-se e a estão no terreno, mas também sinto, rios Outros), procure deixar que ela pudesse pagar-lhe. Depois de pensar transformá-la em novas reflexões e in- com igual intensidade, que eles me me perturbe suficientemente a ponto aturadamente, o juiz deu-lhe razão. tervenções. permitem pensar problemas e solu- de criar um novo patamar na minha Aos discípulos que se admiraram de o Os modelos expositivos, mesmo ções que, de outra forma, dificilmente vida docente. mestre ter dado razão a duas razões quando partilhados por professores e equacionaria. contraditórias dos mesmos factos o alunos, facilitam pouco a co-constru- O PRIMEIRO OUTRO: Não entendo… Madalena Alarcão juiz, depois de muito meditar, respon- ção deste processo de ensino-apren- EU: Não sei se concordas comigo, deu que também eles tinham razão1. dizagem. É nisso que espero que mas eu sinto que o ensino universitá- 1 In Alarcão, M. (2002). /dês)Equilíbrios familiares: Bolonha possa constituir uma pertur- rio precisa de se transformar de forma Uma visão sistémica. Coimbra: Quarteto Editora O MESMO OUTRO: Estou cada vez bação suficiente para encontramos a tornar as pessoas genericamente 2 Tuiavii de Tiavéa (2003). O papalagui: Discursos mais confuso! Será que, afinal, o que novas formas de criar e desenvolver mais capazes de se desafiarem a si de Tuiavii, chefe de tribo de Tiavéa nos mares do pensas de Bolonha é NIM? conhecimento. próprias e de produzirem trabalho de sul. Lisboa: Edições Antígona.
    23. 1 Março 2006 PUBLICIDADE Jornal da Universidade 23
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