O Centro - n.º 65 – 31.12.2008
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O Centro - n.º 65 – 31.12.2008

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Versão integral da edição n.º 65 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 31.12.2008. ...

Versão integral da edição n.º 65 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 31.12.2008.

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  • 1. DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 309 801 277 ANO III N.º 65 (II série) 31 Dezembro de 2008 a 13 de Janeiro de 2009 1 euro (iva incluído) Sem palavras Nas páginas centrais publicamos algumas das imagens mais curiosas do ano que finda. Sem palavras... PÁG. 12 e 13 CURSO EM COIMBRA TELEVISÃO ROBALO CORDEIRO CASTELO BRANCO Mel e larvas O melhor Prémio Câmara para e o pior internacional compra tratamento dos canais entregue convento de feridas portugueses em Coimbra por 5 milhões PÁG. 16 PÁG. 24 PÁG. 17 PÁG. 11
  • 2. 2 NACIONAL 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 BT “PREOCUPADA” E “APREENSIVA” COM AUMENTO DE FERIDOS GRAVES Por si e pelos outros conduza com cuidado! O aumento do número de feridos gra- “Os números mostram uma inadequa- período de tempo “curto que não dá para Destes 136 condutores com excesso de ves na Operação Natal da Brigada de ção de comportamentos”, disse Lourenço fazer grandes análises ou extrapolações”, álcool, 41 foram detidos e presentes a tri- Trânsito da GNR em relação ao ano pas- da Silva, apelando “à mudança de com- o responsável da BT acrescentou ter havi- bunal por apresentarem taxas de alcoole- sado é uma “preocupação e apreensão” portamentos na estrada, nomeadamente do “uma diminuição significativa do núme- mia igual ou superior a 1,20 gramas de ál- desta autoridade, disse hoje à agência Lusa maior civismo, redução da velocidade, au- ro de acidentes com consequências me- cool por litro de sangue, o que constitui cri- fonte da BT. mento da distância de segurança e uso dos nos graves e menos um morto”. me, acrescentou Lourenço da Silva. “Os 49 feridos graves resultantes dos médios”, já que, sustentou, “a estrada deve Lourenço da Silva apelou aos automo- Foram ainda detectados 112 conduto- 1.304 acidentes registados este ano, mais ser um local de prazer e não de morte”. bilistas para que na passagem de ano cum- res em infracção por o seguro da viatura 17 do que em igual período do ano passa- Acrescentou que nos seis dias que du- pram as regras de segurança “tanto mais não estar em dia e foi prestado auxílio a do, é um número que nos deixa muito apre- rou a Operação Natal - que começou às que as previsões meteorológicas apontam 1.243 condutores em dificuldades, referiu. ensivos e pouco satisfeitos, já que contra- 00:00 da passada terça-feira e terminou às para a existência de chuva e esta é inimiga A Operação Natal da BT mobilizou uma ria a tendência a que temos assistido de 24.00 de domingo - a BT da GNR contabi- da condução”, conduzam de forma “tran- média diária de 2.300 militares das briga- há algum tempo a esta parte”, disse o lizou 1304 acidentes, menos 122 do que em quila” e “não bebam”. das de trânsito, territoriais e fiscal que inte- major Lourenço da Silva. 2007, dos quais resultou um morto (menos Durante os seis dias da Operação Natal, graram “uma média diária de 1.100 patru- Para o responsável, apesar de seis dias um do que em 2007), 49 feridos graves e a BT da GNR registou ainda 3.500 casos lhas”, disse o major da BT. “ser um período muito curto que não dá 378 feridos ligeiros (menos 54 do que em de condução em excesso de velocidade, Os meios disponíveis durante a Opera- para fazer grandes análises, os números 2007). foram autuadas 4.911 pessoas, foram levan- ção Natal são os mesmos mobilizados para em relação aos feridos graves vão contra Sublinhando tratarem-se de números tados 157 autos por falta do uso do cinto de a de Ano Novo, que começou às 00:00 de a corrente do que tem acontecido nos últi- “provisórios”, relativos apenas à área de segurança e 136 pessoas foram apanhadas ontem (terça-feira) e termina às 24:00 de mos tempos e do que seria de esperar”. actuação da GNR e reportarem-se a um a conduzir com excesso de álcool. domingo. Coimbra: 3 detidos em operação da PSP a que assistiu o Governador Civil Três pessoas foram detidas durante Na operação, que pretendeu essenci- ordenações muito graves, oito graves e “Penso que acções como esta são uma operação no âmbito do “Natal em almente fiscalizar “as situações de trân- 10 leves. importantes pois controlam os factores Segurança” da PSP, que decorreu du- sito”, foram controlados 206 condutores, Numa operação em que participaram que mais acidentes causam, como o ex- rante a madrugada na região de Coim- 80 no posto de fiscalização da Avenida 45 elementos, apoiados por 10 viaturas, cesso de velocidade ou a ingestão de ál- bra, revelou à Agência Lusa o comis- Sá da Bandeira e 126 na Avenida Men- a PSP efectuou ainda uma fiscalização cool”, afirmou o governador civil de Co- sário Dinis. des Silva, onde estava montado um radar a oito estabelecimentos de diversão noc- imbra. Uma pessoa foi detida por apresen- de controlo de excesso de velocidade. turna, destacando-se um deles que fun- Henrique Fernandes sublinhou que tar excesso de álcool no sangue, outra No total, a PSP multou três conduto- cionava sem alvará. apesar desta ser uma operação de fis- por não possuir carta de condução e res por conduzirem sob o efeito do álco- A operação foi acompanhada pelo calização acabou por ter um carácter um terceiro indivíduo foi encaminhado ol, cinco por falta de documentação apro- governador civil de Coimbra, Henrique “preventivo” e “pedagógico” e assina- para o Estabelecimento Prisional de priada e dois por desobediência ao sinal Fernandes, segundo o qual o “balanço lou, em tom de brincadeira, o caso de Coimbra por ser alvo de um mandado de paragem dos agentes no local. foi positivo”, numa altura em que a “ci- duas transeuntes que mesmo deslocan- de captura pendente, o que ditou a sua Relativamente ao excesso de veloci- dade funciona a meio gás devido às féri- do-se a pé pretendiam submeter-se ao prisão efectiva. dade, a PSP contabilizou duas contra- as dos estudantes”. teste de alcoolemia. Director: Jorge Castilho (Carteira Profissional n.º 99) Propriedade: Audimprensa NIF: 501 863 109 Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho ISSN: 1647-0540 Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 Composição e montagem: Audimprensa Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 e-mail: centro.jornal@gmail.com Impressão: CORAZE Oliveira de Azeméis Campanha apoiada pelo jornal Depósito legal n.º 250930/06 Tiragem: 10.000 exemplares
  • 3. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 NACIONAL 3 Passagem de ano: rituais para trazer boa sorte Uns têm origens seculares, ou- acreditem que tudo pode mudar de rem boa sorte para o amor, são supersti- tros ninguém sabe como surgiram, 31 de Dezembro para 1 de Janei- ções ligadas a esta ideia de novo come- mas todos visam trazer boa sorte ro. Por isso, acham que a probabi- ço, assim como a ancestral tradição de para o ano que começa. Dos mais lidade de se cumprirem os desejos deitar fora objectos velhos que perderam crentes aos mais cépticos, na noi- é maior se eles forem pedidos nes- a utilidade. te do réveillon poucos são os que se momento de transição”, afirma Fazer barulho é igualmente um dos dispensam rituais que prometem Moisés Espírito Santo. mais antigos, mas também mais enraiza- dinheiro, saúde e amor. Também por essa razão, este dos rituais associados ao reveillon, um “Cumprir alguns rituais dá um é, frequentemente, o momento es- pouco por todo o mundo. Seja gritar, lan- certo conforto psicológico. Mes- colhido para tomar decisões im- çar foguetes ou bater em panelas, a ideia, mo quem não acredita em supers- portantes e até mudar de vida: adianta o sociólogo, “é espantar os maus tições, acaba muitas vezes por fazer dieta, deixar de fumar, pas- espíritos, os demónios e os velhos fan- perpetuá-las, considerando que sar mais tempo com a família ou tasmas que possam ter atormentado ou não custa nada e, pelo sim, pelo casar, por exemplo, são resolu- perturbado o ano que passou”. não, é melhor cumpri-las, não vá ções com que muitos se compro- Entre as superstições que prometem dar-se o caso de até funcionarem”, metem para o ano que está pres- bons augúrios para o futuro, subir a uma explica o sociólogo e professor da tes a começar. cadeira à meia-noite é, supostamente, Universidade Nova de Lisboa Até porque virar a última folha sinónimo de prosperidade, assim como Moisés Espírito Santo. do calendário é como “começar ter uma nota no bolso ou atirar moedas Para este especialista, o peso da tra- Marktest em 2006, só 30 por cento dos tudo de novo”, mas com esperanças for- ao ar, no momento em que soar a última dição acaba por gerar uma pressão co- inquiridos afirmaram não ter nenhuma su- talecidas numa vida mais feliz. O con- badalada. lectiva e até alguma “coacção social” no perstição associada ao réveillon. Comer ceito de renovação é, aliás, um dos mais Numa altura de crise económica, é sentido de se cumprirem estes rituais: “se 12 passas nos segundos finais do último fortemente associados a esta época, es- provável que muitos não se esqueçam toda a gente faz, por que razão não hei- dia do ano e, por cada uma, pedir um tando subjacente a quase todas as tradi- de os cumprir. Até porque estes rituais de fazer também?”, é a pergunta, por desejo é, de longe, a tradição mais popu- ções da passagem de ano. da passagem de ano são como as bru- vezes inconsciente, que muitos se colo- lar entre os portugueses. Estrear uma peça de roupa interior ou xas: ninguém acredita, mas… cam. “Há uma visão mágica associada a fazer a cama com lençóis nunca antes Segundo um inquérito realizado pela esta data, que faz com que as pessoas usados, que a crendice assegura traze- Joana Bastos (Lusa) ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 309 801 277 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 309 819 913 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
  • 4. 4 REPORTAGEM 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 FILHO EVOCA A VITÓRIA DA GUERRILHA CUBANA HÁ 50 ANOS Marinheiro da Lousã participou na O filho do marinheiro português Adelino Mendes, que participou na Revolução Cubana, recordou ontem (terça-feira, dia 30 de Dezembro) a entrada dos guerrilheiros em Havana, há 50 anos, considerando que a “acer- tada liderança de Fidel” foi decisiva para a vitória. Ismael Mendes Boulet disse à agên- cia Lusa que Fidel Castro e seus com- panheiros da Sierra Maestra, onde co- meçou a luta armada, em 1956, con- seguiram imprimir ao Exército Rebel- de “um alto nível combativo” que as- segurou a derrota das tropas de Ful- gêncio Baptista. “A vitória da Revolução, no primei- ro de Janeiro de 1959, foi possível, ain- da, devido à greve geral revolucioná- ria decretada por Fidel, a qual eviden- ciou o apoio do povo e a sua unidade em torno do Exército Rebelde”, de- clarou, a partir de Havana, aquele major reformado da Força Aérea Cu- bana. Adolescente quando as tropas de Fi- del Castro, Che Guevara, Camilo Ci- Ao lado, o cartão de sócio da Confederação do Trabalhadores enfuegos e Raul Castro entraram na de Cuba de Adelino Mendes, que foi condecorado por Fidel capital de Cuba, Ismael fez um relato Castro pela sua participação na Revolução Cubana (foto emotivo dos acontecimentos político- acima). Adelino Mendes já antes, em 1936, participara na Revolta dos Marinheiros contra Salazar, em Lisboa, tendo-se militares que marcaram para sempre refugiado em Cuba durante a II Guerra Mundial a vida da família. Adelino Mendes participou na “Revolta dos Marinheiros” contra Salazar O português Adelino Mendes, con- decorado por Fidel Castro pela sua par- filha mais velha, Arminda, deu o nome ticipação na Revolução Cubana, inte- de uma vizinha da Lousã por quem nu- grou em 1936 a Revolta dos Marinhei- triu especial simpatia. ros contra Salazar, em Lisboa, tendo- Ao segundo filho, oficial reformado se refugiado em Cuba durante a II das Forças Armadas Revolucionárias, Guerra Mundial. chamou Ismael, em homenagem ao seu Filho de humildes camponeses da companheiro Ismael Fernandes “Leitei- Serra da Lousã, Adelino Mendes, que ro”, morto na Revolta dos Marinheiros. apascentara ovelhas e cabras antes de Lusitânia, a mais nova, exaltava a ingressar na Armada, juntou-se aos co- pátria lusa onde sonhou regressar em munistas do Partido Socialista Popular 1975, ano em que morreu de ataque (PSP, marxista-leninista), em 1941, e cardíaco, em Havana. veio a participar activamente na Revo- Dos três filhos de Adelino e da cos- lução Cubana. tureira havanesa Maria del Cármen Em Havana, onde chegou a bordo do Boulet Rovira, Ismael é o único so- navio “Guiné”, foi recebido pelo secre- brevivente. tário-geral dos comunistas cubanos, Nos últimos anos, os descendentes Blas Roca. cubanos do revolucionário da Serra da Rejubilou, em 1959, com a entrada do Familiares do português Adelino Mendes (da esquerda para a direita da imagem): Lousã adquiriram a nacionalidade por- Exército Rebelde em Havana, após ter Liber (neto), Elizabeth (bisneta), Lídice (neta), Sofia (bisneta) e Tamara Mendes (neta) tuguesa. que residem em Portugal, na Lousã integrado a rede clandestina de apoio à Fechando a diáspora encetada pelo insurreição da Sierra Maestra, coman- Em 1979, no 20º aniversário do triun- de Combatente da Luta Clandestina. avô há 67 anos, vários netos e bisne- dada por Fidel Castro, Che Guevara, fo da Revolução, o líder cubano distin- Adelino Mendes trabalhou no Minis- tos têm vindo a fixar-se em Portugal Camilo Cienfuegos e Raul Castro. guiu-o, a título póstumo, com a medalha tério do Interior de Cuba, após 1959. À e Espanha.
  • 5. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 REPORTAGEM 5 luta ao lado de Fidel de Castro O português Adelino Mendes (à direita na imagem) foi um revolucionário Ernesto Che Guevara (em cima, à esquerda, com Fidel), foi um dos mais em Portugal e em Cuba, mas também um trabalhador incansável, carismáticos e famosos combatentes da Revolução Cubana. Mas esta só que se especializou a cozinhar “tamales” (especialidade da gastronomia cubana) triunfou porque outros combatentes anónimos, como o português Adelino Mendes, nela arriscaram a vida nha família”, disse Ismael Mendes. que mais tarde se exilou, rompendo O filho de Adelino Mendes recor- com Fidel], que sintonizávamos em dou “a entrada dos barbudos em Ha- casa”, relatou Ismael Mendes. vana, o que confirmou o triunfo da Re- Na madrugada de 1 de Janeiro, os volução”, designadamente a tomada Mendes souberam da fuga de Fulgên- do quartel de Columbia, por Camilo, e cio Baptista através de Damián Alfon- das fortalezas da Cabaña e do Morro, so, líder do M 26-7 na zona de Maria- por Che, bem como a conquista de nao. Santiago de Cuba, por Fidel, que en- “Bateu à porta às 02:00 da manhã. trou na capital a 08 de Janeiro. Neste dia, “toda a família Mendes assistiu e ouviu, no polígono de Co- lumbia, o histórico discurso de Fidel Castro”. “Nos primeiros dias de 1959, não se trabalhou na pequena fábrica de ‘tamales’. Foi mais intenso o trabalho de propaganda, a imprimir proclama- ções e comunicados. Família, vizinhos Fidel Castro partiu da Sierra Maestra com um punhado de combatentes mal armados e amigos, estávamos todos unidos e mal preparados, mas o movimento foi engrossando e conquistando terreno até para consolidar a vitória”, contou. entrar em Havana e instaurar o regime revolucionário que se mantém até hoje Em casa dos Mendes, em Maria- nao, reuniam-se com frequência cú- Exilado em Cuba desde 1941, Ade- “tamales” (comida popular de Cuba, pulas do Movimento 26 de Julho (M lino Mendes, natural da Lousã, era ca- à base de milho moído e carne de por- 26-7) e ali existia um policopiador com Vinha anunciar que o tirano Fulgên- sado com a costureira comunista Ma- co, embrulhada nas folhas do próprio que reproduziam a propaganda clan- cio Baptista fugira de avião para São ria del Cármen Boulet Rovira e tor- cereal), os quais chegou a vender ao destina, que integrou mais tarde o es- Domingo”, lembrou o engenheiro de nou-se, como ela, militante activo do Colégio de Belém, a instituição religi- pólio do Museu da Revolução. aeronaves. Partido Socialista Popular (PSP), em osa onde o jovem Fidel Castro Ruz es- “Em meados de Dezembro de 1958, Mais tarde, Damián Alfonso será o Havana, onde morreu, em 1975. tudou antes de ingressar na Faculda- a família estava perfeitamente a par responsável máximo do Partido Co- Em 1979, no 20º aniversário da Re- de de Direito. da situação política que se vivia em munista Cubano na província de volução, foi agraciado por Fidel a tí- “Muitos revolucionários que esta- Cuba, graças à informação da Rádio Granma. tulo póstumo, com a medalha de Com- vam presos foram libertados, o júbilo Rebelde [que emitia da Sierra Maes- batente da Luta Clandestina. da população foi imenso e este senti- Texto de Casimiro Simões tra, sob a direcção de Carlos Franqui, Fotos de Paulo Novais (Lusa) e arquivo Adelino ganhava a vida a produzir mento reflectiu-se amplamente na mi-
  • 6. 6 INTERNACIONAL 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 ALERTA DOS “MÉDICOS SEM FRONTEIRAS” Crises humanitárias em vários pontos do Globo A violência na Somália, a desloca- nos. Esta lista tem como objectivo pro- berculose e a malária foram ignora- “Em alguns destes locais é extre- ção forçada de civis no leste do Con- mover uma maior sensibilização para as das pelo governo militar, apesar de mamente difícil aos grupos de ajuda go e as emergências médicas negli- crises que podem não receber a devida serem responsáveis pela morte de aceder às populações. Quando somos genciadas em Myanmar e Zimbabué atenção da imprensa. dezenas de milhares de pessoas todos capazes de prestar assistência temos figuram entre as dez maiores crises A organização humanitária afirma os anos, afirma a MSF. uma responsabilidade especial de tes- humanitárias de 2008, segundo a or- que a Somália viveu este ano uma das No Zimbabué, o grupo sublinha o temunhar e divulgar este intolerável ganização Médicos Sem Fronteiras. piores crises de violência da última dé- colapso económico de longo prazo no sofrimento, bem como chamar a aten- “Com a divulgação desta lista anu- cada, agravada pela deterioração dos âmbito da presidência de Robert Mu- ção para as necessidades humanitári- al esperamos centrar a atenção sobre sistemas de saúde. Actualmente, uma gabe. Segundo a organização interna- as básicas”, afirmou Fournier. os milhões de pessoas que estão pre- em cada dez mulheres daquele país cional, uma taxa de inflação de 231 Os confrontos nas zonas tribais do Pa- sas em situações de conflito e guerra, morre durante o parto e uma em cin- por cento deixou muitas pessoas sem quistão, a continuação da crise no Darfur, afectadas por crises médicas, cujas co crianças não atinge os cinco anos dinheiro até para pagar o bilhete de a guerra civil no Sudão e a desnutrição, necessidades imediatas e essenciais de idade. autocarro para se deslocarem a uma que mata cinco milhões de crianças e jo- de saúde são negligenciados, e cuja No leste do Congo, os novos com- clínica. Neste país, dois milhões de vens todos anos, além da tuberculose li- situação muitas vezes passa desper- bates entre o governo e os grupos ar- pessoas estão infectadas com o vírus gada ao vírus HIV – que mata 1,7 mi- cebida”, afirmou o presidente do Con- mados obrigaram centenas de milha- da SIDA e a esperança média de vida lhões de pessoas por ano – integram ain- selho Internacional do grupo, Cristo- res de pessoas a refugiarem-se na sel- é de 34 anos. da a lista da organização. phe Fournier, numa declaração a pro- va, deixando-as com pouco ou nenhum Já no Iraque, os esforços humani- A lista não configura um ranking pósito da divulgação desta lista. acesso a cuidados de saúde, água, ali- tários são frustrados pela politização das crises mais graves, mas apenas o Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) mentos e abrigo. da distribuição da ajuda, pelas forças enumerar das que são consideradas começaram a divulgar este documento O ciclone Nargis, que provocou cer- militares e políticos, tornando as or- mais devastadoras. anualmente em 1998, quando uma de- ca de 130 mil mortos e desapareci- ganizações alvo de ataques violentos, A Médicos Sem Fronteiras é uma vastadora fome no sul do Sudão passou dos, levou uma torrente de ajuda in- num país onde cerca de quatro milhões organização humanitária de emergên- despercebida a grande parte dos meios ternacional a Myanmar (antiga Birmâ- de pessoas foram deslocadas pela cia que presta assistência médica às de comunicação social norte-america- nia), mas doenças como a SIDA, a tu- guerra, acrescenta o relatório. populações em risco em 70 países. 2008: um ano de fortes emoções que avança como uma avalanche, reduziu dão da Europa de assumir mais ónus no mero da revista «A Rússia na Política Glo- drasticamente as remessas dos imigrantes Próximo e Médio Oriente. Claro, futura- bal» o Prof. S. K. Dubinin: «O maior pro- Fiodor Lukyanov * para a Moldova, a Arménia, a Geórgia, a mente, recusar pedidos formulados por blema, diria eu, o problema existencialista, Ucrânia, o Azerbaijão, a Quirguísia, o Tad- Barack Obama, quase deificado pela Eu- que divide a Rússia e os EUA, é o desejo jiquistão e o Uzbequistão, que estão a ser ropa Ocidental, será muito mais difícil que de Washington de privar Moscovo da pari- Fazer agora o balanço da política ex- enviadas não apenas a partir da Rússia (com declinar as repetidas súplicas de George dade no domínio de armas nucleares e mís- terna russa e internacional em 2008 é um cerca de 30 milhões de estrangeiros legais W.Bush. A julgar pela recente tragédia em seis balísticos, herdada da época soviética. trabalho pouco grato: há imenso materi- e clandestinos), como também da Europa Bombaim, também o nó afegão-paquis- Este desejo é explicável. A Rússia é a úni- al para análise, mas ainda está cedo e e dos EUA. tanês promete desenvolvimentos com ca potência no mundo capaz de destruir, arriscado tirar conclusões definitivas. Os Em teoria, isto abre boas perspecti- consequências imprevisíveis. em sentido directo, os EUA». processos que têm decorrido no mundo vas para Moscovo tentar reforçar as suas nos últimos 12 meses irão ter, sem dúvi- posições na CEI. Mas, na prática, tudo AS ESPERANÇAS OS DILEMAS DE MOSCOVO da, uma continuação. dependerá da capacidade da própria Rús- DIFICILMENTE REALIZÁVEIS Com certeza só se pode afirmar que sia de resistir eficazmente à crise que já A futura correlação das forças no para a Rússia a crise no Cáucaso, no mês começou a afectar a sua economia, for- A crise financeira e os sapatos gastos mundo dependerá em muito da resistên- de Agosto, se tornou no mais importante temente dependente dos preços do pe- de um jornalista iraquiano puseram pon- cia revelada nas condições da recessão acontecimento do ano. A sua influência tróleo e do gás natural. to final na presidência de George W. que alastra. Moscovo terá que empre- sobre a política externa de Moscovo con- Bush. O seu balanço é visto como de- ender sérios esforços para manter fir- tinua por avaliar. OS PROBLEMAS DA NATO sastroso em todas as esferas. mes as suas posições entre aquelas po- Também merece toda a atenção o sis- As eleições presidenciais nos EUA tências que vão liderar a ordem mundial. tema de relações que se constrói actual- O ano de 2008 criou inúmeros proble- têm demonstrado claramente a vontade Para a Rússia o ano de 2008 era cheio mente no espaço pós-soviético. Os go- mas para a NATO. Por um lado, o conflito da sociedade de ver mudanças reais no de fortes emoções: com os preços do vernantes de todos os Estados Indepen- militar entre a Geórgia e a Rússia no Cáu- país, embora seja difícil prever agora a petróleo a subirem vertiginosamente no dentes debatem-se com a questão ful- caso ajudou a Aliança a voltar à agenda de sua dimensão e alcance. primeiro semestre, um inesperado con- cral: como garantir a sua segurança? Por segurança colectiva no seu padrão tradicio- As esperanças, que não apenas a so- flito militar no Cáucaso em Agosto, e os agora não existe uma resposta clara nem nal, isto é, a segurança contra Moscovo. ciedade norte-americana, como também preços do petróleo a cairem perigosa- para os países da Comunidade de Esta- O fantasma de expansionismo russo ani- o mundo inteiro, depositam sobre Bara- mente nos últimos meses. dos Independentes (CEI), nem para a mou os partidários do velho atlantismo e da ck Obama, são, ao que parece, dificil- Por enquanto, a inércia das expectati- NATO, os EUA e a Rússia, que poderi- «guerra fria» finda. Mas muitos na NATO, mente realizáveis. O novo Presidente terá vas iniciais de bons ritmos de desenvol- am, em princípio, apresentar-se como mesmo entre os inclinados para ver na Rús- indubitavelmente uns 6-12 meses para vimento e de altos preços do petróleo tem garantes da segurança destes Estados. sia uma ameaça real, não estão prontos a mostrar os seus verdadeiros desígnios e impedido Moscovo de definir uma hie- A crise financeira mundial tem contri- assumir as obrigações de defender, a qual- o talento real. Passado este estado de rarquia de prioridades, a fim de pôr de buído para complicar ainda mais a situa- quer preço, os seus parceiros. graça, poderá facilmente tornar-se refém lado o secundário e canalizar os recur- ção na CEI. Segundo mostra a experiên- Por outro lado, a NATO cumpre as da sua, já amplamente difundida, imagem sos para o mais necessário. Colocar os cia de 1998, quando Moscovo estava lite- suas tarefas militares reais longe do es- de milagreiro. desejos e as esperanças em conformi- ralmente à beira de falência financeira, uma paço euroatlântico, principalmente no Afe- Isto diz respeito também às relações dade com as possibilidades reais do país recessão económica na Rússia reflecte-se ganistão, onde a situação não pára de pi- EUA-Rússia, que são, regra geral, de suma será, para Moscovo, uma das tarefas dolorosamente nos países vizinhos. Esta vez orar. Para restabelecer a antiga unidade importância para as administrações norte- inadiáveis em 2009. a situação está ainda mais grave. A crise, da NATO a questão crucial será a pronti- americanas. Como escreve no último nú- * in revista A Rússia na Política Global
  • 7. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 NACIONAL 7 2008 põe termo à “cooperação estratégica” entre Cavaco e Sócrates O ano de 2008 foi de “altos e baixos” institucional existente entre os diversos na cooperação estratégica entre o Gover- órgãos de soberania até ao último dia do no e o Presidente da República, com a mandato”. polémica sobre o Estatuto dos Açores a “Eu disse logo no primeiro dia em que abalar o relacionamento entre Cavaco assumi funções que essa seria a minha Silva e José Sócrates. conduta e assim deverá ser até ao último Se dúvidas houvesse sobre a quebra dia do meu mandato”, afirmou há pouco da cordialidade institucional, elas ficaram mais de um mês. completamente dissipadas com a comu- “Eu terei sempre uma atitude constru- nicação ao País feita anteontem (segun- tiva e, quando falo ou tenho intervenções, da-feira) por Cavaco Silva, de novo em o objectivo é sempre tentar ajudar a re- directo nos telejornais da hora do jantar solver os problemas de Portugal”, disse (os que atingem maior número de portu- ainda o Presidente da República, que tam- gueses), onde o Presidente da República, bém já repetiu mais do que uma vez que sem disfarçar a sua contrariedade, deu a pretende ser um “factor de estabilidade”. entender que considerava ter sido alvo de À margem destas questões, o Chefe uma afronta no caso do Estatuto dos Aço- de Estado prosseguiu em 2008 os seus res. O tom e o conteúdo da comunicação roteiros para o Património e para a Ju- foram de tal modo crispados, que a gene- ventude, iniciativas onde faz sempre ques- ralidade dos comentadores referiu que tão de mostrar “os bons exemplos” do que para haver coerência com a sua interven- se faz em Portugal. ção, o Presidente deveria dissolver a As- Ao longo de 2008, Cavaco Silva cum- sembleia da República. priu igualmente uma intensa agenda in- Os ‘avisos’ de Cavaco Silva começa- ternacional, com quatro viagens inter-con- ram logo na tradicional mensagem de Ano tinentais, que o levaram a Espanha, Jor- Novo, com o Presidente da República a dânia, Brasil, Moçambique, Estados Uni- dar conta da sua insatisfação com os re- dos da América, Polónia e Eslováquia. sultados obtidos no ano anterior na eco- Esta “agenda internacional muito inten- nomia, educação e justiça e a apelar ao sa” do Presidente da República foi, aliás, diálogo do Governo para reduzir as con- a justificação avançada por Belém para flitualidade e tensões. Cavaco Silva não participar na XVIII Ci- Aliás, os apelos à serenidade, primeiro meira Ibero-Americana, que teve lugar no no sector da Saúde, ainda antes da de- final de Outubro, em El Salvador. missão do então ministro Correia de Cam- Para 2009, Cavaco Silva, que já asse- pos, depois no sector da Educação e, mais dois terços dos deputados na Assembleia chefe de Estado enviou para o Tribunal gurar falar sempre “verdade” aos portu- tarde em relação às Forças Armadas, fo- da República, na semana anterior. Mas, Constitucional o diploma de revisão do Có- gueses e exortou todos os agentes políti- ram uma constante no discurso do Presi- de uma foprma como antes nunca suce- digo do Trabalho, requerendo a fiscaliza- cos a seguirem a sua conduta, as pers- dente da República ao longo dos 12 me- dera, deixou claro que se sentia ofendido, ção preventiva da norma que alarga para pectivas parecem não ser as melhores. ses de 2008. pelo que, implicitamente, a tensão com o 180 dias a duração do período experimental “Os portugueses, falando verdade, de- Contudo, acabou por ser o Estatuto Po- Governo deverá agora aumentar. da generalidade dos trabalhadores. vem estar preparados para um 2009 que lítico-Adminstrativo dos Açores o ponto Ainda no Verão, a nova Lei do Divórcio Esta decisão de Cavaco Silva irá, as- não será nada fácil”, afirmou há cerca de de maior ‘tensão’ entre o Governo de mereceu igualmente um veto político de sim inviabilizar a entrada em vigor do novo três semanas, apelando, uma vez mais à maioria socialista e o chefe de Estado, que Cavaco Silva, que acabou por promulgar o Código do Trabalho em Janeiro de 2009, união de todos. já manifestou a sua “objecção de fundo” diploma depois das alterações introduzidas tal como o Governo pretendia. “Não será um ano fácil, mas não pode ao diploma que vetou considerando que na Assembleia da República, sem, contu- Não obstante os vetos, avisos e aler- ser um ano de baixar braços, de desistir”, estão “em sério risco os equilíbrios políti- do, deixar de alertar para as situações de tas, o chefe de Estado tem sempre recu- insistiu o chefe de Estado, considerando co-institucionais”. Como acima se refe- “profunda injustiça” a que vai conduzir, em sado a tese de ‘arrefecimento’ nas boas que há que “deixar de lado tudo o que re, Cavaco viu-se obrigado a promulgar o particular para os mais vulneráveis. relações entre Belém e São Bento, ga- possa dividir os portugueses”, porque “o diploma, depois da sua reconfirmação por Mais recentemente, há poucos dias, o rantindo que quer “manter a boa relação tempo exige união”. VENDE-SE Casa com 3 pisos grande quintal e anexos num dos melhores locais de Coimbra (Rua Pinheiro Chagas, junto à Avenida Afonso Henriques) Informa telemóvel 919 447 780
  • 8. 8 OPINIÃO 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 para Ferreira Leite. lhe exprimir solidariedade e Imelda ‘Mandá-lo’ para a Europa seria visto “ATENTADO” CONTRA BUSH Marcos mandou um telegrama a dizer como um exílio – e pô-lo a concorrer para «Sortudo!». (...) uma Câmara pequena seria uma humilha- (...) O caso do jornalista iraquiano que ção. atirou os sapatos a George W. Bush é Ricardo Araújo Pereira Assim, o que fazia mais sentido era mes- um desses momentos que, por muito que Visão mo uma candidatura à Câmara de Lisboa – seja excluído dos livros, nos faz compre- que, diga-se, constitui uma batalha difícil e ender melhor o mundo em que vivemos. ABAIXO DE CÃO que exige brilho e capacidade combativa. Sucede, ainda, que Santana Lopes foi há BARNEY É O CÃO DOS BUSH sete anos um excelente candidato a essa e foi o protagonista da mensagem filma- Câmara, tendo sido dele as ideias mais cria- da de Boas Festas deste último Natal que tivas para a capital. aquela família passa na Casa Branca A saber: depois de infernizar o Mundo e deixar o FERREIRA LEITE E SANTANA A recuperação dos prédios degradados planeta na maior crise de que há memó- e o regresso da habitação ao centro da ci- ria na Idade Moderna, incluindo os dois Se conseguíssemos parar de contar dade, oferecendo casas aos jovens em con- conflitos mundiais. anedotas sobre Santana Lopes, era inte- dições vantajosas. Compreende-se que o “marketing” ressante reparar que o homem, sozinho, A revitalização do Terreiro do Paço, ocu- político tenha utilizado o cão para nos dar expia todo o ridículo da política portugue- pando as arcadas por lojas e esplanadas. uma mensagem de amor e de esperan- sa. Não é que, comparados com ele, os O túnel do Marquês – o famigerado tú- ça. Era o único capaz disso, lá em casa. restantes políticos constituam um mode- nel do Marquês – de que tanta gente disse Foi quem menos prejudicou a humanida- lo de elevação: é que, entretidos com ele mal e que hoje utiliza com proveito. de e quem merece um sorriso de simpa- e com o riso que ele nos suscita, tende- A recuperação do Parque Mayer, viabili- tia. O resto é abaixo de cão. (…) mos a não ligar à miséria vigente. Dirigir zada financeiramente pela construção de um as atenções para o embaraço que San- casino. Joaquim Letria tana de facto é permite ignorar os em- Talvez Santana não tivesse conseguido 24 Horas 24/Dezembro/08Sem baraços que abundam na classe e fazê- fazer tudo o que prometeu. la parecer digna, ou quase. E se é com- É muito provável. MEMÓRIA preensível que a classe alinhe na farsa, Mas não é menos verdade que os seus surpreende que boa parte do país públi- sucessores não fizeram nada. (...) O Governo prepara-se para encerrar co também não lhe escape. Tratar San- o Tribunal Criminal da Boa-Hora, encla- tana com irrisão e galhofa é vital a 85% José António Saraiva usurando a memória de 165 anos de Jus- das crónicas ou comentários esclareci- Sol 20/Dezembro/08 Em primeiro lugar, percebemos finalmen- tiça feita neste convento, fundado em dos. O vírus atinge mesmo humoristas te onde é que os iraquianos tinham es- 1633. É pena porque pretende transfor- televisivos, os quais, com a originalidade A CARREIRA DE PORTAS condido as armas. Andavam em cima mar este palácio, de acordo com o plano que o ofício exige, parodiam semanal- delas, os dissimulados. É possível que, para a zona ribeirinha, em mais um hotel mente Santana como se o dr. Louçã não (...) Mas quando se analisa, caso a caso, nas suas visitas ao Iraque, Hans Blix de charme, ‘vendendo’ a memória co- estivesse disponível. os aspectos fortes e fracos desta sua dúpli- nunca tenha reparado que os nativos ti- lectiva aos interesses das grandes oligar- Dito isto, é óbvio que a candidatura ce carreira, é muito fácil encontrar situa- nham os pés enfiados nos projécteis. Tra- quias financeiras. A memória colectiva de Santana Lopes à Câmara de Lisboa ções que nos suscitam enorme perplexida- ta-se de um daqueles estratagemas ge- fica mais pobre e alguém fica mais rico. representa a abdicação definitiva da dra. de. No jornalismo, Portas distorceu a tal nialmente simples que enganam toda a O Governo Sócrates não tem ideolo- Ferreira Leite. Embora os alegados “prin- ponto a informação e a ética que é muito gente, mesmo exibindo descaradamente gia que o ampare e trave: a única ideolo- cípios” que a conduziram à presidência difícil reconhecer mérito nessa caminhada. a prova do crime. gia é o capital, não o do Marx, mas o dos do PSD não garantissem por si um can- ‘O Independente’, nas suas mãos, vendeu Em segundo lugar, nesta altura os al- grandes interesses. Vivemos numa era didato “melhor” que Santana, a verdade bem mas é completamente claro que Por- vos dos americanos estão definidos com de vazio ideológico. A Boa-Hora é o Tri- é que admitiam qualquer candidato ex- tas não hesitou em usar o seu jornal como uma clareza inultrapassável. A localiza- bunal mais emblemático da Justiça por- cepto Santana. Até na política a flexibili- arma de arremesso para atingir os seus fins ção dos arsenais de guerra iraquianos foi, tuguesa. As suas paredes, as escadari- dade tem limites: de agora em diante, a políticos. Mentiu quando foi preciso mentir, finalmente, revelada: há que atacar a as, os corredores e as salas de audiência dra. Ferreira Leite deixa oficialmente de sonegou quando foi preciso sonegar, mani- Foreva da baixa de Bagdade, a Pablo transportam estórias de vida, de dor, de ser levada a sério, pelo eleitorado e por pulou quando foi preciso manipular, caluniou Fuster de Karbala e a Hush Puppies de lágrimas e de sofrimento que não podem ela própria. Não sendo previsível que um quando foi preciso caluniar. Tikrit. ser apagadas da nossa memória. Na sala terço de Lisboa imite Pacheco Pereira Fê-lo sempre com enorme inteligência e... Em terceiro lugar, tornou-se eviden- da 6ª Vara Criminal até o silêncio fala, aí e, a fim de evitar o voto em Santana, habilidade. A mesma inteligência e habilida- te para todos que Bush tem, de facto, todos nós fomos julgados e nos sentimos mude de município, é de esperar que um de que se podem reconhecer a um grande estofo de estadista. Não é qualquer pes- magoados, porque foi aí que acontece- certo partido mude de líder - quando che- burlão. Na política pulou todas as cercas. soa que se esquiva de um sapato arre- ram julgamentos históricos: os tristemen- gar o momento adequado aos que não Feriu os amigos sempre que isso lhe era messado àquela velocidade e volta a en- te célebres tribunais plenários, onde os reconhecem no partido líder nenhum. conveniente. Quando esteve no Governo carar o agressor com a nonchalance presos políticos já estavam condenados usou a mesma estratégia. A princípio pare- de quem pergunta: «Gosto do modelo, antes de entrar na sala de audiências. Alberto Gonçalves cia uma coisa mas depois percebeu-se que mas tem isto em 42?» Talvez seja im- Só nesta sala é possível fazer a história DN 21/Dezembro/08 era outra. O apregoado rigor, a badalada portante não esquecer que, sendo texa- política do salazarismo. (...) defesa dos mais idosos, por exemplo, eram no, Bush está, provavelmente, habitua- SANTANA LOPES EM LISBOA instrumentos oratórios de época eleitoral e do a que lhe atirem botas esporadas, Rui Rangel nada mais. De novo Portas a atingir fins sem consideravelmente maiores e mais pe- Correio da Manhã 24/Dezembro/08 (...) É óbvio que a direcção do PSD não olhar a meios. Pelo caminho ficaram mui- rigosas do que os vulgaríssimos sapa- podia fingir que Santana Lopes não existia. tos ‘cadáveres’ e ‘moribundos’ que ele foi tos que o jornalista iraquiano optou por CAPITALISMO E ÉTICA E, nesta perspectiva, a missão para que triturando sem dó nem piedade. Como sem- arremessar. ele parecia mais talhado era mesmo a can- pre a perspicácia e a argúcia que fazem dele Em quarto lugar, ficou claro mais uma Há milhares de empresas, grandes, didatura à Câmara de Lisboa. um personagem astuto, mas em regra, uma vez que um homem agredido reúne a pequenas e gigantes, espalhadas por esse Não seria boa ideia uma candidatura a praxis sem princípios nem valores. Portas é simpatia de toda a gente. Mesmo sendo mundo fora, onde a gestão é bem feita, o deputado. um ambicioso compulsivo e pisa quem se o presidente mais impopular de sempre, trabalho é sério, a produção é de quali- A sua presença no Parlamento tornar- atravessar na sua frente. (...) Bush recebeu votos de apoio de várias dade e a cometcialização é adequada. se-ia incómoda para os outros membros da personalidades internacionais. Sarkozy E, todavia, estão à beira da falência, sus- bancada – e a sua participação na campa- Emídio Rangel qualificou o incidente de «inadmissível», pendendo a produção, fechando para nha das legislativas não seria confortável Correio da Manhã 27/Dezembro/08 Angela Merkel telefonou a Bush para férias não desejadas nem previstas ou
  • 9. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 OPINIÃO 9 suplicando a ajuda dos governos. E, por- fundo é ter pena das pessoas. (...) mediados, a velha e pobre classe média, política e ideológica, nomeadamente quan- quê? Porque o mercado não quer os seus ameaçada com mais descontos, taxas, to ao peso das suas diversas sensibilida- produtos, porque não são concorrenci- António Lobo Antunes juros de empréstimo da habitação que des internas e ao significado dos seus va- ais? Nºao, porque o mercado não tem Visão não descem, aumentos brutais da elec- lores nucleares. Que ele fosse o momen- dinheiro para comprar o que produzem. tricidade, preços da gasolinae do gasó- to de um exigente e responsável balanço E não tem, porque as poupanças médias CULTURA INCULTA leo que não descem, e uma companhia quanto ao cumprimento das promessas foram sorvidas, melhor dizendo, rouba- aérea nacional que ptarica preços exor- eleitorais feitas ao País em 2005. E que das, pelo sector financeiro especulativo. Um ano depois de ter tomado posse, bitantes, muito mais altos do que os da ele fosse também de verdadeira inova- Não há dinheiro na mão dos consumido- não é hoje difícil perceber que o ministro vizinha Iberia, que os portugueses come- ção quanto às propostas políticas que de- res porque os Oliveira Costa, os Rendei- da Cultura defraudou muitas expectativas çam a usar para não se sentirem tão ex- veriam responder com sentido de futuro ros, os Madoff deste mundo agarraram na concretização de uma política pública plorados. (...) aos problemas do País, assumindo a “mu- nas poupanças que lhes confiaram e des- para a cultura. E por outro lado permite dança de paradigma” que a crise actual barataram-nas de duas maneiras: ou apli- perceber quem é e o que está (ou não!) a Clara Ferreira Alves tornou tão necessária como urgente. cando-as em pura especulação, sem qual- fazer o titular desta pasta no Governo. Na Expresso 17/Dezembro/08 É uma oportunidade, em todos estes quer critério de prudência e boa gestão; forma e no conteúdo, percebemos que o planos, que não se deve perder. ou, pura e simplemente, roubando-as, em ministro da Cultura ainda não desinchou INCÓGNITA benefício próprio (...) da vaidade que ganhou ao ter entrado para Manuel Maria Carrilho o Governo da Nação. Ainda vive lá por Em Portugal, o ano de 2009, com o DN 27/Dezembro/08 Miguel Sousa Tavares cima, no meio do céu e das nuvens do seu triplo momento eleitoral (europeu, au- Expresso 27/Dezembro/08 poder (efémero!), crente de que a roupa- tárquico e legislativo) em contexto de O LONGO 2008 gem do lugar políticolhe confere automa- crise aguda, é ainda uma enorme incóg- A INTERVENÇÃO DO VERBO ticamente a impunidade perante a falta de nita. Continuamos hoje a enfrentar os Tudo leva a crer que o ano de 2008 política, dinheiro e resultados, ao fim de mesmos problemas de há dez, 15 anos: não termine em 31 de Dezembro. O tem- Sem pôr em causa o esforço, e a dig- quase um ano. (...) deficiências gravíssimas de qualificação, po inerte do calendário cederá o passo nidade com que é feito, dos responsá- múltiplas fragilidades no domínio da com- ao tempo incerto das transformações veis pela gestão da ONU, parece inqui- Feliciano Barreiras Duarte petitividade, desvitalização da nossa de- sociais. Muito do que se desencadeou em etante o facto de a intervenção dos ape- Expresso 27/Dezembro/08 mocracia, pobreza persistente e muitas 2008 vai continuar, sem qualquer solu- los ganhar, por vezes, um relevo superi- desigualdades. Alguns destes problemas ção de continuidade, em 2009 e mais or às intervenções efectivas na área de PASMO põem- -se, é certo, numa escala e em além. Analisemos algumas das principais responsabilidade que pertence à organi- contextos diferentes, mas não se altera- continuidades. zação. Não se trata de pôr em dúvida a (...) As declarações do ministro das ram quanto à sua natureza e causas mais Crise financeira ou o «baile de gala» importância do discurso, e influência das Finanças de que os governos foram apa- profundas. da finança? Os últimos quatro meses palavras, sobretudo se vierem de perso- nhados desprevenidos com a crise é ver- Um ano eleitoral como o que aí vem é foram muito reveladores dos dois mun- nalidades autorizadas pela história da vida dadeiramente espantosa e tanto mais es- um ano de incontornável balanço. E deste dos em que o mundo está dividido, o dedicada aos interesses gerais dos po- pantosa quanto basta percorrer a opinião ponto de vista, há no essencial duas ten- mundo dos ricos e o mundo dos pobres, vos, e apoiados no prestígio das institui- publicada – e já não falo da especializa- dências que neste momento parecem já separados mas unidos para que o mundo ções que servem, quando esse é o caso. da – há pelo menos dois anos, para ver estar bem identificadas e consolidadas: dos pobres continue a financiar o mundo Mas a ineficácia dos apelos tem um efei- os sinais dados – gritantes – e a respec- uma parte importante da direita está con- dos ricos. Dois exemplos. Fala-se de crise to demolidor da autoridade pessoal e ins- tiva análise. Aqui mesmo, nestas pági- tente demais com o Governo do PS para hoje porque atingiu o centro do sistema titucional, porque lhes falta o mais signi- nas, pedi, insistentemente, até à náusea, arriscar outras apostas. E uma parte sig- capitalista. Há 30 anos que os países do ficativo dos resultados, que é a implan- uma agenda para a crise, mas enfim, o nificativa da esquerda está zangada de- chamado Terceiro Mundo têm estado em tação da esperança nas áreas mais sa- marketing e o tanto pior para a realida- mais com o Governo do PS para não as crise financeira, solicitando, em vão, para crificadas do globo. (...) de falaram mais alto, como se Portugal arriscar. a resolver, medidas muito semelhantes pudesse passar imune à tempestade que O que se irá passar? Seria bom que, no às que agora são generosamente adop- Adriano Moreira percorria o Globo. Já se sentia o vento que diz respeito ao PS, o próximo Con- tadas nos EUA e na UE. DN 23/Dezembro/08 do tufão e o Governo prometia que o gresso de Fevereiro fosse de clarificação Por outro lado, os 700 biliões de dóla- País estava impermeável à res de bail-out estão a ser en- VIVER MAL crise, envolto em qual virtual tregues aos bancos sem qual- gabardina. O problema é que quer restrição e não chegam às Porque carga de água vivemos tão a realidade às vezes é mes- famílias que não podem pagar mal? E, se vivemos tão mal, porque car- mo bruta e destelha tudo, por- a hipoteca da casa ou o cartão ga de água o medo de morrer é tão gran- tanto não há impermeável que de crédito, que perdem o em- de? Quantas pessoas felizes conheço? lhe valha. (...) prego e estão a congestionar os Porque será que para quase toda a gen- bancos alimentares e a «sopa te o amor é uma questão de prazeres Paula Teixeira da Cruz dos pobres». No país mais rico breves e localizados, como dizia, eu que Correio da Manhã 18/ do mundo, um dos grandes ban- detesto citações, a grande escritora Co- Dezembro/08 cos resgatado, o Glodman Sa- lette? Ontem, no restaurante onde jan- chs, acaba de declarar no seu tei, uma mesa grande cheia de mulheres SÓCRATES E A RUA relatório que neste ano fiscal pa- e homens: falavam, comiam, riam-se e gou apenas 1% de impostos. estavam todos defuntos. Vontade de per- (...) Os dias que aí vêm vão Entretanto, foi apoiado com di- guntar-lhes ser duros e José Sócrates e o nheiro dos cidadãos que pagam – Sabem que faleceram? seu Governo navegam à vis- entre 30 e 40% de impostos. À Quando digo que falavam refiro-me a ta, sem se perceber o rumo. luz disto, os cidadãos de todo o que falavam de outros defuntos que não Injectam milhões atrás de mi- mundo devem saber que a cri- estavam ali, criticavam cadáveres enquan- lhões em instituições que não se financeira não está a ser re- to se decompunham. O mundo dos mor- garantem retorno, e que não o solvida para seu benefício e que tos está cheio de ressentimento e inveja, vão dar. E de caminho explo- isso se tornará patente em 2009. de crueldade desnecessária. Para quê? ram o contribuinte que não Na Europa, os jovens gregos Tanta agitação, despeito, rivalidades, emo- pode fugir ao fisco. O descon- foram os primeiros a dar-se ções minúsculas. No meio disto tudo sou tentamento ainda mal come- conta. É de prever que não se- um homem sentado a escrever, com os çou e Sócrates não percebe o jam um caso isolado. (...) meus fantasmas em torno, vozes que me sarilho em que está metido ao segredam, me gritam. E tenho pena das salvar os ricos em detrimento Boaventura Sousa-Santos pessoas, acho que o meu sentimento mais dos pobres e sobretudo dos re- Visão
  • 10. 10 CRÓNICA arte em café 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 A OUTRA FACE DO ESPELHO Azeitonas verdes… José Henrique Dias* leitores me permitem que esta história jhrdias@gmail.com possa ir até ao fim, segredada por um amigo que me bateu à porta, era noite e não havia no céu nenhuma estrela Não gosto de azeitonas verdes, disse. Só daquelas para guiar os magos, dois a cavalo, um pretas, sabes quais são? num camelo, um preto também dá És uma catedral, mas só eu tenho a chave da abóba- sempre jeito para esconjurar os tumul- da. Se retiro aquela pedra, o fecho, tudo vai ruir. tos, um rei preto resolve-se com um As frases foram ditas em momentos diferentes de bocado de cortiça a carbonizar nas um longo momento. Lado a lado, ao fim de um longo brasas do fogareiro, depois é só en- tempo de ausência e alguma dor. farruscar a cara, a encenação fica Os amantes dizem coisas assim para se poderem quase perfeita, também não é neces- olhar, quando a noite afaga os sorrisos nos jantares. Os sário que fique mesmo perfeita, o que amantes infelizes, como num fado. Há anéis que se importa, dizia o ensaiador, é que pare- trocam nos dedos. Que se tocam. O mesmo anel pas- çam, não tinha ideia do que fosse mi- sa, ora em um, ora em outro, do dedo dela ao dedo dele, metismo, isso podia ser lá com Aristó- o anel dela de talvez ónix a dizer simbolicamente so- teles, mas sabia, sabia da memória co- mos definitivamente prisioneiros da memória, cerimó- lectiva, tu levas uma colcha amarela a nia nupcial laica entre a multidão, os ruídos, o pensa- servir de manto, a senhora Piedade diz mento distante em outras pessoas, em outros lugares, va-me, socorro, palavras de sms, para se diluírem e que tem uma que lhe deram de prenda de casamento e gestos clandestinos, nunca mais clandestinos, odeio a morrerem definitivamente antes da chegada do INEM nunca usou, o turbante é fácil, ajeita-se um cachené, palavra clandestinidade, disse ela, com outra clandesti- da ternura ausente, depressa a maca, o desfribilhador, como aqueles que usava o Alfredo Marceneiro, adeus nidade em torno do olhar e na ansiedade dos sms, ou- suporte mínimo de vida, todas as técnicas, tem de che- cabecita louca/ hei-de esquecer tua boca/ na boca trora era ao contrário, lia avidamente os sms dele, a gar ao hospital, porque partiste? doutra mulher, as coroas dos outros já estão prontas, vida é feita de nadas, como diria Torga, para poder A pergunta é retórica, ainda estou aqui, só que não são de papelão, agora é só pintar a dourado, desculpem falar do pai a podar uma videira, como as mães fazem me vês, mudaste a direcção do olhar, é preciso sair lá mas não vou à Missa do Galo, hoje está muito frio, tranças às filhas. Será que as mães ainda fazem tran- limpa das histórias, nada como mensagens subtextuais, gelei por dentro, preciso de uma canja e o galo faz fal- ças às filhas? Onde as tranças? Não me lembro de ver espécie de comprimido debaixo da língua, nitroglicerina ta, porque ela foi embora para sempre, no prato ficou nas esquinas do adeus quando a respiração aprende uma azeitona verde, que culpa tenho que haja azeito- que tudo é mentira. Afinal… nas verdes?, ela só gosta das pretas, como gosta de Esperem um nadinha, se me fa- provar azeitonas e deixar os caro- zem o favor, caros leitores, eu te- ços na borda dos pratos, como as nho de ter maneira de deslindar pessoas nas bordas da vida, descar- esta história. Talvez reconstruir táveis, disse-me aquele homem na uma perturbação natalícia, mesmo visita nocturna. que vaga, é dia de sermos todos Estou farto de tentar perceber bons, dizia-se, amanhã vou visitar porque me contou assim esta histó- o presépio da Sé Nova, será que ria que parece desconexa, que guar- ainda montam o presépio da Sé dei como pude na memória para de- Nova?, com as casinhas ilumina- pois tentar reescrevê-la. Só percebi das e as figuras tão próximas de que agora sabe que passou de herói nós, mais distantes só Maria e José, a vilão e que tudo quanto diz é hedi- com trajes de outras eras, palavras ondo. Disse-me com lábios frios. de outros tempos, e os reis magos Com suicídios de estrelas a apo- com os presentes, ouro, incenso e drecerem nos olhos. Como no po- mirra, entre a glória e a finitude, ema de Gomes Ferreira. que simpático e humanizado o bafo Com uma lágrima, como se diz, Pormenor da pintura de Hieronymus Bosch no estábulo, estás a ver o burrinho tão vulgarmente, rebelde, lágrima e a vaquinha que aqueceram o Me- Cartaz do filme de Stanley Kramer rebelde, não consegue esquecer o nino Jesus?, dizia minha mãe. licor que beberam pelo mesmo copo a não ser na exaltante criação de uma história, como Não gosto de azeitonas verdes, têm o gosto da men- e aquele beijo leve e rápido no momento da partida. Em agora, deitado ao lado de mim próprio, na indizível soli- tira e sabem a traição, insistia dentro de si a caminho Coimbra. Era Dezembro. Estava frio. dão, porque este tempo de recordações é tempo de do hospital, a ambulância corre, as azeitonas verdes Disseram-me há pouco que o meu amigo enlouque- ausências e perdas, minha filha diz não gosto de despe- são como aqueles rectângulos que se põem nos livros, ceu. Ao fim da tarde. Não sei bem o que é isso de estar didas e de Natais, dá-me um beijo marejado e parte a para se saber a página que suspendeu a leitura, ela louco. Quem arrisca? Deve haver uma definição da correr, na tentação de olhar para trás como um último chamou-lhe separador, ele marcador, não é preciso ser Organização Mundial de Saúde. Haverá uma Organi- adeus, mas a resistir, também eu não gosto de despedi- Freud para perceber a diferença. zação Mundial dos Loucos? Gostava de saber a defini- das, porque sabem sempre a missas de requiem, ma- Tem forma de seta. Apenas as palavras ficaram como ção. “A querela dos direitos”: loucos, doentes mentais tam-nos com palavras doces para terem a certeza de uma homilia no altar dos resíduos flutuantes. Princesa e portadores de transtornos e sofrimentos mentais”. que sobrevivem, hoje vou-me enfrascar, disse ela, nun- das águas. Vislumbres do que foram antes de ela ser Deve ser interessante. ca bebo álcool, mas hoje… outra. Teimosamente, ele retém a que criou dentro de Entrem na nave. O Stanley Kramer faz o resto. Ou Cada hoje é um ontem que irá enaltecer mentiras, si, bela e luminosa, quando dizia estamos a dançar, que- então o Hieronymus Bosch. recuperar o passado recente com facas nas costas, trai- rido, depois só aquela dor insana da separação, mas as O meu amigo está numa clínica em cura de sono. A ções nos olhares, ajustes de contas, com a vida, com os palavras sempre renovadas e o amor exaltante, no pre- ver se arranjo maneira de o visitar. Levo-lhe uma caixa fracassos, com memórias turvas, adeus, há entre nós sépio alguém está a dizer não gosto de azeitonas ver- de azeitonas pretas. Para quando acordar e voltar ao um pássaro morto, disse-lhe um dia, restos de um velho des, parece-me que é aquela mulher do manto azul, que sempre foi. poema, restos de um velho de mim, disse ele, bebo pelo tem uma auréola na cabeça, um arame doirado, res- Deliciosamente louco. A comer azeitonas verdes. seu copo um suave licor, última partilha, também não plendor de luz simulada, a verdade afinal está nos sím- gosto de azeitonas verdes, sabem a noite de grito, sal- bolos porque a realidade não existe, insisto nisto, se os * Professor universitário
  • 11. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 NACIONAL 11 Castelo Branco: Câmara compra Convento de Santo António por mais de 5 milhões de euros A Assembleia Municipal de Caste- há muito gostava que esse mo- Todas as forças politicas repre- lo Branco aprovou ontem, por unani- numento fosse da cidade”. sentadas na Assembleia se con- midade, a compra do Convento de A Câmara vai pagar pelo imó- gratularam com a aquisição do Santo António, onde actualmente está vel cinco milhões e 81 mil euros. imovél, onde em tempos esteve instalado o Estabelecimento Prisional. Na assinatura do contrato de instalado o ex-Regimento de In- A decisão verifica-se no dia em que compra e venda, pagará 81 mil fantaria de Castelo Branco o Conselho de Ministros autorizou o euros, enquanto os restantes cin- (RICB) e que, desde 1996, aco- Ministério da Justiça a promover a co milhões serão liquidados em lhe o Estabelecimento Prisional. contratação para a concepção e cons- quatro prestações anuais, a par- João Carlos Marcelo, da ban- trução do novo Estabelecimento Pri- tir do momento em que o convento cada socialista, destacou o facto sional da cidade. fique livre. de a autarquia adquirir o conven- Para o presidente da Câmara de “Só para 2001 se prevê que o to e, ao mesmo tempo, ter criado Castelo Branco, Joaquim Morão, a novo Estabelecimento Prisional condições para que seja construido aquisição do convento é a concretiza- esteja pronto. Portanto, só então o novo Estabelecimento Prisional, ção de um “anseio antigo” da autar- a Câmara começará a pagar, durante ros”, esclareceu hoje Joaquim Morão, com a criação e manutenção de postos quia e da população do concelho, “que quatro anos, os cinco milhões de eu- na reunião da Assembleia Municipal. de trabalho que isso representa. Conversa morna aberto o disparador antes, volto a fechá- Varela Pècurto lo premindo a pose T com que trabalhei (a T abre com um disparo e fecha com Com a técnica a atingir numa só dis- outro). O guarda nem sonhará que, en- ciplina um vasto leque de especialidades quanto ralhou comigo eu estava tirando não é de admirar que sejam muitos os a fotografia. títulos dados aos que trabalham tendo Apelando à paciência passei uma tar- como base o mesmo tema. de no açude-ponte fotografando peixes Veja-se o caso da Medicina que tem a saltar para um dos patamares que an- dezenas de especialidades. tecedem as comportas – de jusante para Também a fotografia que dá origem a montante. Escolhida a área a focar, cada umas quantas variantes sem as quais o peixe que dali saltasse era fotografado. mundo não avançaria tão bem e relati- Como desejava um bom exemplar e na vamente depressa, prova que hoje não boa posição, fotografei umas dezenas poderíamos dispensá-la bem como as deles; entre todas havia uma que me sa- suas variantes. tisfazia. Mas estavam gastos 6.000$00 Faleceu há pouco tempo um sueco de slides... que, não tendo graus académicos, ainda Menos morosa foi uma tentativa no em vida recebeu do seu governo uma das Brasil para fotografar um colibri, delica- suas maios importantes condecorações. da ave que sempre me atraiu e via ao De seu nome Victor Hasselblad, pla- natural pela primeira vez. Quem não ado- neou durante 7 anos uma máquina foto- em e retoquem. Agora o digital acaba por que é Atenas, vista e fotografada a Acró- rará um passarinho destes? gráfica (que ficou baptizada com o seu anular estas operações facilitando tanto pole, já na descida, passei por Teseion, o Com mais de 300 espécies, vivem na apelido) e acessórios tão variados que é que, tirada a fotografia, vamos para casa templo de Hefesto (Vulcano deus da América do Sul mas 1 delas vai anual- raro um só fotógrafo adquiri-los todos fazer cópias ou gravar as fotos em disco metalurgia) e decidi “bater mais uma mente ao Alasca, viagem de ida e volta porque também é raro um só fotógrafo para depois visionar. Não há filmes ou chapa” àquele significativo monumento. incrível para uma ave tão frágil. Na mais dominar todas as especialidades que eles revelação no processo. Seria a última foto na capital, pois na pequena espécie, pesa dois gramas e do possibilitam. Um repórter, por exemplo, Fotógrafo mediano que sejamos são manhã seguinte partia para outras emo- bico à cauda tem 5 cm. Um outro parente não vai adquirir o que é destinado a mé- indispensáveis uns quantos atributos. Pa- cionantes visitas. Mas tive um contra: o consegue voar até aos 6.300 metros de dicos e estes por sua vez não trabalham ciência e persistência são dois deles. Con- recinto já tinha encerrado. Com a ideia altitude, outra grande proeza. Com penas com material destinado a mergulhadores vém também uma pitada de ousadia. fixa no motivo a fotografar, saltei a ve- iridiscentes, pode pairar graças a dois e assim por diante. Quem fotografa em estúdio sabe que dação e disparei a máquina; depois sur- movimentos exclusivos das suas asas e Destas máquinas uma ficou na Lua e é uma “tragédia” enfrentar uma criança giu um guarda furioso com a minha que- os seus batimentos por segundo vão dos no regresso o seu peso foi preenchido por em fase de birra, muito teimosa ou mal bra das regras. Fugi a sete pés e não 50 aos 80 em voo e a 200 nos rituais de pedras, para estudo. Da máquina só vol- educada. Se houver possibilidade, o me- aconselho estes comportamentos, embo- acasalamento, sendo também a única ave tou o porta-filme, sendo abandonadas no lhor é deixar a sessão para mais tarde ra pessoalmente esteja sempre disposto capaz de voar em “marcha-atrás”. solo lunar a óptica e a câmara-escura (a ou esperar que a criança se ambiente. a riscos maiores para obter fotos que Na minha paixão por esta maravilha máquina desmonta-se em quatro partes No exterior recordo as 3 horas de pa- considere valiosas. voadora devo ter parecido maluquinho na em quatro segundos). A famosa fotogra- ciência à espera de um elemento huma- Já fotografei em museus sem flash de- perseguição que fiz, o que foi observado fia que mostra em primeiro plano um pou- no que considerei indispensável à com- pois de tirar o número de fotos permitidas. por dezenas de pessoas, felizmente des- co da Lua e a Terra ao longe no espaço posição, uma estrada com choupos. Um Em igrejas onde é proibido fotografar, conhecidas. foi tirada por uma máquina destas. pouco mais além dessa espera e a foto- disfarçadamente monto a máquina no Como a avezinha não me deu confi- Vão sendo poucos os fotógrafos que, grafia teria sido adiada por a luz já não tripé, diagramo bastante, o suficiente para ança alguma, voou para longe destinan- trabalhando com filme, o são por inteiro, ser a conveniente. não gravar luz a mais, enquanto ouço os do-me um fracasso total e fazendo com isto é, que fotografem, revelem, ampli- Noutra ocasião, na evocativa cidade protestos do vigilante. Como já tinha que o final deste escrito seja pouco feliz.
  • 12. 12 SEM PALAVRAS 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 Em vez das figuras do ano, escolhemos algumas das imagens do ano (todas elas da Agência LUSA), tão curiosas que dispensam palavras...
  • 13. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 SEM PALAVRAS 13
  • 14. 14 EDUCAÇÃO/ENSINO 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 2008: o ano em que a avaliação levou os professores para a rua No sector da Educação, 2008 termina A 8 de Novembro, 120 mil dos cerca mil professores. portes públicos para os estudantes entre praticamente como começou: protestos, de 140 mil professores encheram as ruas Na altura, as medidas de simplificação os 4 e os 18 anos. manifestações e pedidos de suspensão, de Lisboa, naquela que, segundo os sin- contaram com o aval dos sindicatos, que No âmbito do Plano Tecnológico da tudo em torno do processo de avaliação dicatos, ficou para a história como a mai- assinaram com o ME um memorando de Educação, uma das bandeiras do Exe- dos professores, que motivou um dos or manifestação de sempre de uma só entendimento. O mesmo não foi possível cutivo de José Sócrates, a tutela alargou maiores braços-de-ferro de sempre en- classe profissional em Portugal. agora, pelo que os professores prometem aos alunos do 3º ciclo o programa de dis- A Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, apesar de garantir ... cedências essas que os professores continuam a considerar insuficientes, que o Governo não recuaria, foi fazendo algumas cedências... como sublinha o Presidente da FENPROF, Mário Nogueira tre sindicatos e Governo. Poucos dias depois, a Ministra anun- manter a luta em 2009, estando agendada tribuição de portáteis com ligação à In- Às críticas, o Governo respondeu sem- ciou um conjunto de medidas de simplifi- nova greve para 19 de Janeiro. ternet em banda larga, lançando ainda o pre estar a trabalhar para a melhoria da cação do modelo, deixando cair critérios Este foi também um ano em que os “pequeno” e famoso Magalhães para as escola pública e das condições de traba- como os resultados dos alunos e a ob- estudantes saíram à rua contra o Estatu- crianças da antiga primária. lho de alunos e professores, invocando servação de aulas. to do Aluno, em dezenas de pequenas Nas escolas, as mudanças também “êxitos” como a mais baixa taxa de chum- Ainda assim, os docentes voltaram aos manifestações um pouco por todo o país, são visíveis: a ardósia e o giz estão a dar bos no básico e secundário da última dé- protestos logo a 3 de Dezembro, desta que culminaram com um incidente em lugar aos quadros interactivos, enquan- cada, registada este ano, e medidas como vez numa greve que levou ao encerra- Fafe, onde Maria de Lurdes Rodrigues to nos conselhos executivos os actuais o maior alargamento de sempre da Ac- mento de cerca de um terço das escolas foi recebida com ovos. presidentes começam a ser substituídos ção Social Escolar (ASE). do país, contando com uma adesão “his- O Governo invocou sempre os “pro- pelos novos directores, um cargo com Mas apesar das medidas, foi a con- tórica”, segundo os sindicatos, e que o gressos” alcançados na Educação, no- mais competências instituído com a re- testação que quase sempre dominou os Governo classificou de “significativa”. meadamente no que diz respeito à me- forma da gestão e autonomia escolar. holofotes mediáticos: por duas vezes, os Já oito meses antes, os portugueses lhoria das notas nos exames nacionais e Sempre atento ao que se ia passando docentes saíram à rua contra o modelo tinham assistido a um “filme” muito se- à redução da taxa de chumbos. na Educação, o Presidente da Repúbli- de avaliação de desempenho definido melhante: a uma manifestação que reu- Outra aposta do ME este ano foi o ca apelou mais do que uma vez à sere- pelo Ministério da Educação (ME). Por niu cerca de 100 mil pessoas, a ministra alargamento da Acção Social Escolar, nidade no sector, criticando a “tensão” duas vezes, pediram a suspensão do pro- Maria de Lurdes Rodrigues respondeu tendo triplicado o número de alunos a be- vivida nas escolas. Mas já perto do final cesso, tal como todos os partidos da opo- com uma versão “simplex” do modelo neficiar de refeições e manuais escola- do ano, Cavaco Silva lamentou que os sição, mas tudo o que conseguiram foi a de avaliação, que acabou por ser aplica- res gratuitos. Foi ainda criado o passe seus pedidos não tivessem, “infelizmen- sua simplificação. do no passado ano lectivo a cerca de 12 escolar, com preços reduzidos nos trans- te”, surtido efeito.
  • 15. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 EDUCAÇÃO/ENSINO 15 Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra cria a primeira Academia de Informática on-line do país A Faculdade de Ciências e Tecnologia FCTUC considerou que se trata de “uma Os alunos com melhor participação on- da Universidade de Coimbra (FCTUC) ferramenta muito útil para quem pretende line serão convidados para as actividades anunciou a criação da primeira Academia ingressar na área de estudo da Informática presenciais no departamento de Engenha- de Informática on-line do país, dirigida es- e também para que o corpo docente do de- ria Informática, cuja primeira acção será um sencialmente a alunos do Ensino Secundá- partamento conheça os alunos que pode vir “Curso de Inverno em Programação”, em rio. a ter”. Fevereiro, com atribuição de diplomas e pré- “A DEI Academy destina-se aos jovens A Academia de Informática ensina a cri- mios aos melhores. que tenham interesse em iniciar ou desen- ar jogos, programar um computador, conhe- Francisco Câmara Pereira considera que volver as suas capacidades na área da In- cer e aprofundar as tecnologias para a In- “os alunos que frequentarem a Academia formática ou que, estando indecisos sobre o ternet ou participar em projectos de investi- de forma regular, participando nos desafios, seu futuro, queiram conhecer melhor o que gação, dividida por vários níveis de partici- seguramente que vão sair bem preparados envolve esta área e o nível de exigência do pação, funcionando on-line e presencial. para entrarem num curso superior de Infor- curso de Informática na FCTUC”, realça o Segundo Francisco Câmara Pereira, os mática”. coordenador da Academia, Francisco Câ- interessados inscrevem-se no site do depar- A participação e inscrição na Academia mara Pereira. tamento de Engenharia Informática da FC- de Informática da FCTUC é gratuita. No entanto, está aberta à participação de TUC, onde podem aceder a conteúdos que A comunidade dos utilizadores tem ainda todos os interessados, desde o simples curi- vão experimentando e a desafios que vão ao seu dispor um fórum para colocar as oso, que pretende aprender os conceitos sendo avaliados, podendo assim “ir progre- dúvidas e dificuldades na resolução dos de- básicos, até aos docentes e investigadores dindo”. safios propostos e partilhar ideias e concei- que queiram partilhar experiências. “É uma espécie de ensino à distância”, tos, contando sempre com o apoio de do- Em declarações à Lusa, o docente da sintetiza o investigador. centes e investigadores. Os inflexíveis realidade. Foi fabricada com referência, perrice entre Sindicatos e Ministério, João Louceiro apenas, a um dado: os Sindicatos exigem omitem-se os 100 mil professores de Professor e dirigente do SPRC a suspensão do modelo de avaliação e o Março, os 120 mil em Novembro, os 94% Ministério recusa admitir essa suspen- na greve de Dezembro, as mais de qua- É cada vez mais evidente! A forma são. Mas de fora deixa muitos outros trocentas escolas em que já foram assu- como o Governo e, particularmente, o dados… midas decisões de suspensão e todas as primeiro-ministro conduzem certas ques- Para começar, a forma como decor- outras em que o processo está, na práti- tões de política educativa já pouco tem a reram as “negociações”. A leitura cui- ca, parado, as cerca de 70 mil assinatu- ver com os seus conteúdos em concre- dada das versões de documentos confir- ras pela suspensão recolhidas só numa to. Entre elas, o destaque vai para o dos- mará que os governantes que, recente- semana… sier “avaliação de desempenho”. mente, passaram a invocar o diálogo e a Outro dado, ainda, a contrapor à insi- A questão está infectada por inflexi- flexibilidade, chegaram às mesas nego- diosa caricatura é mesmo o da desesta- bilidades estranhas à própria necessida- ciais com um modelo que impuseram, da bilização, desorganização e disfunciona- de e modos de avaliação do desempe- primeira à última reunião, sem qualquer mentos provocados pela implementação nho docente. O primeiro-ministro procu- alteração digna desse nome. Nem uma, do que o Ministério pretende a todo o ra aqui mais do que a imposição do im- sublinhamos! custo. Em risco esteve e está o funcio- praticável e pernicioso modelo que quer. Outro dado é que os Sindicatos apre- namento das escolas. Para o disfarçar, o Procura aqui uma derrota exemplar dos sentaram e defenderam, em devido tem- Ministério vai tentando remendos… To- sindicatos que pretende subjugar. Uma po, propostas suas. Ao contrário da cari- dos, desde que Sócrates consiga impor, derrota que seria exemplar porque, a catura e do que, já agora, dá jeito aos exemplarmente, o seu modelo a toda uma acontecer, seguir-se-ia às maiores mo- que têm o poder de legislar e o usam classe em luta. bilizações jamais vistas de uma classe impondo, apenas impondo, os Sindicatos Quando no dia 22 a Plataforma de Sin- profissional. já então tinham ideias e propostas para dicatos dos Professores entregou mais Deixemo-nos de tretas! É a liquida- contrapor às do Governo. E ainda é im- de 70 mil assinaturas, recolhidas numa ção dos sindicatos, tacticamente centra- prescindível lembrar que, frustradas as semana, em defesa da suspensão da apli- da nos dos professores, que, combinada primeiras fases do “diálogo”, os diferen- cação do modelo de avaliação do Minis- com a arrogância e destempero pesso- tes Sindicatos da Plataforma chegaram tério, o secretário de Estado Jorge Pe- ais face à contestação, ainda dão vida mesmo a consensualizar propostas de dreira não teve melhor abordagem, com ao modelo de avaliação de desempenho beneficiação do próprio modelo que o a comunicação social, do que pôr em que Sócrates quer impor nas escolas Ministério arrastou até ao fim, por mera dúvida a seriedade das subscrições. Uma públicas. É mesmo o primeiro-ministro formalidade, nas negociações. Foram vez mais, como é timbre do Governo e que cavalga, enraivecido e cego, contra propostas que, partindo do modelo con- da equipa ministerial que integra, insul- a generalizada e qualificada contestação testado, teriam permitido reduzir alguns tou os professores e os Sindicatos. Não dos professores. Atrás dele, aos baldões, dos seus aspectos mais gravosos. E o o fez por inabilidade; fê-lo por serem a cinzenta ministra e os dois inenarrá- Ministério, o que disse?... “Nem pensar”, estes os seus argumentos. veis secretários de Estado. claro! Depois da denúncia terá a devida res- A imagem feita na comunicação soci- Mas há mais dados esquecidos pela posta. Mas reconheça-se que, pelo menos, al de que Ministério e Sindicatos dos Pro- caricatura dos “dois marretas”. O maior teve a virtude de voltar a mostrar onde fessores seriam dois marretas igualmente deles é a dimensão e o significado da estão os marretas… E olhem que não é de inflexíveis é uma errada simplificação da contestação. Quando se caricatura uma semelhanças físicas que falamos!
  • 16. 16 SAÚDE 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 “Mentira branca” é bem assim, que as coisas, ças infinitas. De outro modo, e para- Massano afinal, vão ter um curso fraseando Anatole France, “Sem a Cardoso muito diferente do deseja- mentira, a humanidade pereceria de do. Não é legítimo dizer a desespero e de tédio”. A mentira está para a alma como o verdade, porque o doente As mentiras que emergem no âm- ar para o corpo. Mentimos tão natu- quer que lhe minta. E min- bito da política, do social, da religião, ralmente como respiramos. Ninguém to. No fundo, estou certo da publicidade e dos negócios são consegue viver sem respirar e sem de que sabe que estou a muito perigosas e difíceis de contro- mentir! Mas, tal como o ar, que pode mentir. Mas sente-se bem. lar. No fundo acabam por provocar de- ser puro, limpo, não poluído, cheio de Vê-se no fragrâncias e, até, dotado de efeitos olhar. Não terapêuticos, também a mentira se se trata de pode revestir de aspectos em que a uma menti- ternura, a beleza, a esperança, a con- ra piedosa, fiança e o alívio do sofrimento não mas sim jus- deixam de estar presentes. a maior violação que um ser humano tificar a necessidade Mentimos para nos sentirmos me- – enquanto ser moral – pode cometer de viver e de fugir à lhores, para esconder as nossas fra- contra si mesmo”, chegando inclusi- morte. Não é dar es- quezas, para ajudar os outros, para ve a afirmar que nenhuma falsidade peranças vãs. Não é nos livrarmos de perigos, por pura di- intencional é desculpável. Bom, neste propriamente um caso versão, por estranhas perversões, de- aspecto, apesar da simpatia que nutro de fé, até porque a fé vido a certas patologias, para aumen- por certos princípios, parece-me ser é “biológica” e corres- tar os ganhos e para ascender nas um pouco exagerado. ponde a uma força que escalas social e política. Há que dis- Um doente procura-me e “sabe” actua dentro de limites tinguir nestas razões, as mentiras instintivamente que não está bem. Dis- bem definidos, fora de- equivalentes ao ar poluído, cheio de cursa e denota esperança no trata- les não existe. sespero. Mas não há maior desespe- substâncias tóxicas e de partículas pe- mento. “As coisas estão a correr me- Também gosto da verdade, mas não ro quando se sente o fim a aproximar- rigosas, mal cheiroso, empestado que lhor e vai ficar tudo bem”. Ao mesmo deixo de reconhecer que a humanida- se. A verdade pode ser uma ilha emer- provoca doenças e morte. Estas sim, tempo que faz esta afirmação lança- de também precisa, talvez ainda mais, sa num oceano de incertezas, que, em são nefastas. me um sorriso na esperança de que o de mentiras, sobretudo das que con- certos momentos, acaba por se afun- Kant considerava “a mentira como secunde. No meu íntimo, sei que não solem, que sejam fontes de esperan- dar na certeza da verdade. INICIATIVA DA ESCOLA DE ENFERMAGEM DE COIMBRA Marcação electrónica Utilização de mel e larvas de consultas avança em “Encontro sobre Feridas” Trinta por centro dos utentes dos centros trónica, acrescentou. No portal oficial na Internet do Pro- de saúde e unidades de saúde familiar po- A Escola Superior de Enfermagem de ra do evento, a diversidade de novos mate- derão, em Março, marcar consultas elec- grama de Simplificação Administrativa e Coimbra (ESEnfC ) promove, no próximo riais no mercado, que podem ser utilizados tronicamente e receber confirmação pelo Legislativa é indicado que a medida sur- dia 5 de Janeiro, uma iniciativa intitulada na prevenção e no tratamento de feridas, telemóvel ou mail, segundo fonte do Minis- ge no “seguimento do objectivo de des- “Encontro sobre Feridas… da prevenção exige um olhar atento de todos os profissio- tério da Saúde. materialização das marcações da primei- ao tratamento!”. nais que prestam cuidados de saúde. O sistema E-Agenda esteve em teste ra consulta de especialidade hospitalar, “A importância da prestação de cuida- De acordo com os organizadores, “com durante os últimos quatro meses em quatro iniciado com o Projecto Consulta a Tem- dos no tratamento de feridas”, “Feridas cró- este Encontro pretende-se proporcionar o Unidades de Saúde Familiar (USF) das zo- po e Horas”. nicas – abordagem multidisciplinar na pre- intercâmbio de conhecimentos e de boas nas Centro e Norte e “vai começar agora a O sistema E-Agenda visa possibilitar venção e tratamento”, “A cirurgia de am- práticas entre os interessados pela área da ser alargado ao universo das unidades de marcar “outro tipo de consultas e de meios bulatório: uma realidade emergente” e “Mé- prevenção e do tratamento de feridas, que cuidados de saúde primários”, afirmou a complementares de diagnóstico e de tera- todos naturais para o tratamento de feri- exige ao enfermeiro constante actualização”. mesma fonte. pêutica, por meios não presenciais, com re- das” (em que serão apresentados como A sessão de abertura, às 9h00, estará a “O processo começará pelas USF e curso a plataformas tecnológicas multi-ca- exemplos, entre outros, a aplicação de mel cargo da presidente do Conselho Directivo deve abranger todos os Centros de Saúde nal (Internet, telefone, sms, etc.)”. e o uso de larvas) – são os temas dos pai- da ESEnfC, professora Maria da Concei- até final do primeiro semestre de 2009”, Essa marcação envolverá “os diferentes néis propostos neste Encontro, marcado para ção Bento, e a da coordenadora da Unida- acrescentou. serviços de saúde (hospitais e centros de o pólo A da ESEnfC, em Celas (ver progra- de Científico-Pedagógica de Enfermagem À medida que o sistema for avançando, saúde, nomeadamente as unidades de saú- ma em anexo). Médico-Cirúrgica, professora Luísa Pinto também se irá possibilitar a renovação de de familiares - USF)”, acrescenta o texto De acordo com a comissão organizado- Coelho. receitas para doentes crónicos por via elec- no portal.
  • 17. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 SAÚDE 17 ENTREGA DO “PRÉMIO ROBALO CORDEIRO – AER/GSK” Rasgados elogios ao patrono e conferência por Almeida Santos Fontes Baganha fazendo o elogio de António Robalo Cordeiro António Almeida Santos proferindo a sua conferência no magnífico cenário da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra António José Robalo Cordeiro, um dos mais diversos aspectos. Sublinhou, no- mais prestigiados catedráticos portugue- meadamente, que ele “tentou dar alma ses de Medicina, recebeu palavras invul- à medicina e uma consciência à ciên- garmente elogiosas na cerimónia de en- cia”, inaugurando no seu tempo “uma trega do Prémio internacional a que foi nova era no ensino, investigação e na prática clínica”. Filomena Botelho com Fontes Baganha e o responsável do Laboratório GSK dado o seu nome, e que decorreu no pas- sado dia 19 na Biblioteca Joanina da Muito elogiosas foram também as re- Universidade de Coimbra. ferências do Reitor da Universidade de O “Prémio Robalo Cordeiro – AER/ Coimbra, Seabra Santos, que considerou GSK” (Associação de Estudos Respira- depois que este prémio valoriza a cultu- tórios/Glaxo Smith Kline), é uma das mais ra científica e a actividade científica em importantes distinções internacionais na Portugal. E salientou: “Os investigado- área da investigação científica, não só res não trabalham para receber prémi- pelo seu valor (25 mil euros), mas sobre- os, mas a relevância da sua actividade tudo pelo prestígio que lhe é reconheci- também se expressa desta maneira”. do. Prestígio esse que decorre também O Reitor afirmou ainda o profundo do nome que lhe foi atribuído, em home- reconhecimento da instituição que dirige nagem a um dos mais destacados vultos pela “qualidade do trabalho” da equipa da Medicina portuguesa. vencedora, que “espelha o que se faz na O Prémio foi atribuído a um equipa Universidade de Coimbra e na comuni- multidisciplinar, constituída por elemen- dade universitária nacional”. tos das Universidades de Coimbra e de “Nanoradioliposomas modulados mo- Os elementos da equipa premiada Aveiro, por um trabalho que constitui lecularmente para estudar a drenagem uma nova abordagem ao diagnóstico e linfática profunda pulmonar” consiste tratamento de doenças pulmonares, atra- num novo método desenvolvido para vi- vés de nano-transportadores de fárma- sualizar especificamente a rede de va- cos. A equipa, liderada por Filomena sos linfáticos pulmonares profundos atra- Botelho, professora da Faculdade de vés de nanoradioliposomas administrados Medicina da Universidade de Coimbra, por via respiratória. integra ainda Alcides Marques, Antero No que se reporta às doenças pulmo- Abrunhosa, Célia Gomes, Ferreira da nares, particularmente tumorais, este Silva, Pedroso de Lima, Santos Rosa e método possibilita a abordagem aos ní- Vasco Bairos. veis de diagnóstico e tratamento. Ao ní- Ausente da cerimónia, por razões de vel do tratamento pode transportar os saúde, o Prof. António José Robalo Cor- medicamentos de forma a que estes ac- deiro (catedrático jubilado da Faculdade tuem no local das lesões, aumentado as- de Medicina da Universidade de Coim- sim a eficácia terapêutica e diminuindo Aspecto da assistência bra) foi alvo de rasgados elogios por parte os efeitos secundários. de todos os oradores, que destacaram as A culminar a cerimónia, o ex-Presi- suas notáveis qualidades em termos cien- dente da Assembleia da República, An- tíficos e pedagógicos, mas também sob tónio Almeida Santos, começou por a perspectiva humanista. salientar a personalidade rara do Prof. Fontes Baganha, professor da Facul- António José Robalo Cordeiro, e profe- dade de Medicina de Coimbra, fez um riu de seguida uma notável conferência retrato muito interessante de Robalo sobre o que tem sido a evolução científi- Cordeiro, de quem foi dicípulo, eviden- ca e técnica e, a partir daí, o que o futuro ciando a sua personalidade rara sob os poderá trazer à Humanidade.
  • 18. www.apaginadomario.blogspot.com 18 A PÁGINA DO MÁRIO apaginadomario@gmail.com 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 SESSÃO EM DIRECTO Transcrevo estas linhas: PORTUGAL VERGONHOSO Dia histórico. «A verdade é que durante anos e anos Aqui está um artigo com conta-peso- Pela primeira vez, um blogue está a os nossos sôtores tiveram uma vida ai- e-medida. Intitula-se “A vergonha de não transmitir em directo a sessão do Exe- rada com três meses de férias grandes, ter vergonha na cara” e é da autoria do cutivo municipal. mais 15 dias no Natal, outros na Páscoa, jornalista João Miguel Tavares. (publicado em 15 de Dezembro) mais meia dúzia no Carnaval. Foi publicado há três semanas (18 Mário Martins Outra verdade: durante uma vida pro- de Novembro) no “Diário de Notíci- CITAÇÕES fissional muitos professores faltaram a as”, mas só agora o encontrei. «O desvairado Lino dispara em todas seu belo prazer refugiados em atestados Eis três excertos, para aguçar o ape- FESTAS FELIZES fantasmas e artigos quartos, viram as tite. direcções e não quer perceber que de O meu computador caseiro, um Asus, suas carreiras automaticamente actuali- «Há quatro anos, o administrador do nada adiantará gastar mais uns valentes continua no hospital, à espera de uma zadas e desprezaram a nobre arte de Banco de Portugal Manuel Sebastião milhões numa auto-estrada para o deser- peça que deverá chegar de Espanha. ensinar. foi procurador do administrador do to de Bragança, onde nem já as brasilei- Já lá vai mês e meio, porque conse- Os professores comportavam-se Banco Espírito Santo Manuel Pinho na ras medram.» guir que a Asus venda a peça é quase como ainda hoje a classe dos juízes: acha- compra de um prédio em Lisboa. Esse (Luiz Carvalho, in “Instante fatal”) tão difícil como acertar no Totoloto. vam que eram donos dos alunos, dos pais, prédio era propriedade do Banco Es- O portátil está com um problema de e que nada nem ninguém podia interferir pírito Santo, tendo Manuel Sebastião «O país não precisa de alcatifas no- excesso de glóbulos vermelhos, que irri- nas suas aulas, consideradas coutadas servido de intermediário numa com- vas nem de halls de entrada com embu- tam mesmo o mais calmo dos utilizado- invioláveis dos professores.» pra entre o BES e um administrador tidos. Infelizmente os nossos ministros res. Concordo no essencial com o que Luiz do BES.» pensam como os autarcas: em redondo, Como se isto não bastasse o compu- Carvalho escreveu. «Só que José Sócrates não ficou por em rotunda. Uns rotundos idiotas.» tador profissional teve um “apagão” que Foi, aliás, por não aceitar alguns dos aí. E acrescentou também não ter en- (idem, idem) fez desaparecer todos os ficheiros dos comportamentos descritos que, há 17 contrado “nada que seja criticável do últimos dois meses e meio. anos, senti que estava “a mais” no Ensi- ponto de vista ético”. Ora, isto são de- «O Diário As Beiras, em artigo não Tudo junto é excessivo para um sim- no e, em face da oportunidade que me clarações absolutamente vergonhosas, e assinado, revela em exclusivo, que a ples cidadão. Por isso, decidi regressar foi concedida pelo “Jornal de Notícias”, só mesmo por vivermos num país onde a “Académica não pagou telefones do es- ao passado e virar as costas à informáti- optei por exercer outra profissão. mentira na política é aceite com uma tádio”. Depois, ficamos a saber que era ca durante este tempo de festas. Duran- Tudo somado, porém, continuo a es- espantosa tolerância é que um primeiro- a TBZ que pagava os telefones da divi- te duas semanas, computador só - mes- tar de acordo com o protesto dos pro- ministro pode dizer uma barbaridade des- são de desporto da Câmara Municipal mo - para o essencial. fessores. tas e sair de mansinho.» de Coimbra, que está mais ou menos No entanto, não quero iniciar esta tra- Avaliação, sim. Mas com a participa- «Se José Sócrates encontrasse um dos clandestina no Estádio que é Municipal. vessia do deserto sem desejar a quantos ção dos directamente interessados. E seus ministros a tentar arrombar um co- A festa dura há 5 anos. Mas ninguém visitam este espaço Santo Natal e Ópti- com competência. fre com um berbequim diria aos jornais liga!» mo 2009! (publicado em 10 de Dezembro) que ele estava só a apertar um parafu- (in “O sexo e a cidade”; (publicado em 23 de Dezembro) so. Afinal, também no caso da sua licen- publicado em 12 de Dezembro) FAÇO PARTE DA MAIORIA ciatura o primeiro-ministro não viu nada GALA O (TRISTE) ESTADO «Apenas 30 por cento dos portugue- de eticamente duvidoso nem de moral- Realizou-se ontem à noite a “Gala do ses estão satisfeitos com o funcionamen- mente reprovável.» DA NAÇÃO Desporto”, uma iniciativa da Câmara to da democracia, o que representa o (publicado em 4 de Dezembro) Ontem à noite assisti parcialmente à Municipal de Coimbra. ponto mais baixo de uma análise compa- entrevista de Henrique Medina Carrei- Homenagear os melhores é questão rativa feita desde 1985. Os dados cons- COMITÉ OLÍMPICO ra, ex-ministro das Finanças, à SIC No- de justiça. tam de um estudo (...) coordenado por DE PORTUGAL tícias. Justíssimo foi o troféu entregue ao André Freire e José Manuel Viegas, que São palavras dolorosas – mas reais – O comandante Vicente de Moura quer César Pegado, a distinguir uma vida in- será apresentado hoje no ISCTE.» sobre a sociedade em que vivemos. continuar como presidente do Comité teira dedicada ao desporto – com quali- (hoje, no “Público”; publicado Os dados económicos assustadores. Olímpico Português, mesmo contra a dade, com alegria e com espírito de vo- em 10 de Dezembro) O crescente empobrecimento da popu- vontade dos atletas. luntariado. lação. A insatisfação a aumentar. Se eu fosse presidente do COP e ou- Teve mais dinâmica a “Gala” deste DEPUTADOS Medina Carreira chega a comparar a visse aquilo que Nélson Évora, um cam- ano. PARA TODO O SERVIÇO situação actual com a que existia em peão olímpico, disse ontem em conferên- Mas nem por isso foram evitadas vá- 1973. Para bom entendedor... Nenhum deputado faltou na sexta-fei- cia de Imprensa, abandonava de imedia- rias “gaffes”, a principal das quais foi a A entrevista está disponível no sítio da ra segundo lista no site do Parlamento – to a função. entrega do prémio da Associação Distri- SIC Notícias (11/12/2208 - Negócios da “Não espelha o que se passou na sexta- Parece-me que o comandante Vicen- tal de Judo de Coimbra a um dirigente semana). feira”, nas palavras de Fernando Santos te de Moura já perdeu a oportunidade da... ACM. Vale a pena ver. Pereira, secretário da mesa da presidên- para sair pela “porta grande”. Como ain- **** (publicado em 11 de Dezembro) cia da Assembleia da República, mas é o da recentemente, por exemplo, sucedeu PS – Ao jantar conversou-se sobre que está online. Segundo uma lista de pre- com Jardim Gonçalves no BCP. muita coisa. A certa altura disse da mi- POSTAL DE BOAS FESTAS! senças na reunião plenária de sexta-feira **** nha convicção quanto a um inevitável Para todos aqueles que em 2008 me publicada no site da Assembleia da Re- Antóno Boronha, no seu (indispen- forte “abanão social”, dada a crise em passaram correntes dizendo que, se as pública, apenas dez deputados estavam sável) blogue, continua a demonstrar que vivemos. Uma crise profunda, a vá- reenviasse, ia ficar rico ou milionário, in- ausentes “em missão parlamentar”. To- rara capacidade de análise e de críti- rios níveis. Como já é habitual, fui acu- formo que NÃO FUNCIONOU! dos os outros estiveram presentes, o que ca. sado de “pessimista”. Hoje de manhã Em 2009 por favor mandem dinheiro, está longe de corresponder à realidade. Sob o título “Motim a bordo”, es- vejo que Mário Soares escreve no “Diá- presentes ou vales de gasolina. Santos Pereira estranha o caso e diz creve hoje o seguinte: rio de Notícias” o seguinte: «Oiçam-se Obrigado. que na terça-feira vai averiguar. É que, «Como é que se pode ser coman- as pessoas na rua, tome-se o pulso do PS - NÃO ACEITO ACÇÕES DO na verdade, foram 48 os deputados que dante de um exército sem soldados?... que se passa nas universidades, nos bair- BPN! não votaram a proposta de suspensão da Apenas acompanhado por meia dúzia ros populares, nos transportes públicos, (recebida por e-mail; publicado avaliação do desempenho dos professo- dos chamados ‘senhores’ da guerra, no pequeno comércio, nas fábricas e em 10 de Dezembro) res apresentada pelo CDS, porque não curiosamente, ou talvez não, na sua empresas que ameaçam falir, por toda a estavam no plenário para a votação. grande maioria os presidentes das ‘fe- parte do País, e compreender-se-á que AVALIAÇÃO (in “Público” de hoje) derações’ que não conseguem parti- estamos perante um ingrediente que tem DOS PROFESSORES Quando isto sucede com os “repre- cipação olímpica?...». demasiadas componentes prestes a ex- Luiz Carvalho escreveu ontem no sentantes da Nação”, conclui-se que a PS - Também concordo com o que plodir.» Está visto que Mário Soares é “Instante fatal” sobre a avaliação dos Nação está muito doente. António Boronha escreveu sobre Eu- um pessimista. professores. Que vergonha! sébio, num texto intitulado “Rei bobo”. (publicado em 16 de Dezembro) (publicado em 10 de Dezembro) (publicado em 4 de Dezembro)
  • 19. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 MÚSICA 19 Distorções José Miguel Nora josemiguelnora@gmail.com Dado que estamos no último dia do ano é tempo de olharmos para trás e revermos o que aconteceu para des- tacar o que de mais positivo se fez em 2008. Começamos pelo DVD Musi- cal de 2008, que, quanto a mim, é sem qualquer margem para dúvida, “Sou- lwax: Part Of The Weekend Ne- ver Dies”, um relato da vida dos ir- mãos Dewaele nas suas três facetas, quer enquanto 2 Many Dj´s, quer en- quanto Soulwax. Um documentário incrível para quem, como eu, acom- panha o que eles vão editando ou re- misturando. No que toca à Banda Sonora In- ternacional de 2008 não resta qual- quer dúvida de que se trata de “Shi- do planeta. damos, em 2009, a edição em DVD. PARA SABER MAIS: ne a Light”, filme no qual o multi- Já quanto à Banda Sonora Nacio- Por fim, o Programa Radiofónico premiado Martin Scorcese documen- nal de 2008 a minha escolha recai de 2008 é, como aliás já tinha dito na “Soulwax: Part Of The Weekend Never ta, através de várias perspectivas, o no duplo cd “Maldoror” dos Mão edição anterior, “Bons Rapazes”, da Dies” (Pias) que é um concerto dos Rolling Sto- Morta, que não é apenas uma banda autoria de Álvaro Costa e Miguel nes, que adaptou muitos dos seus te- sonora, mas uma adaptação e ence- Quintão, que vai para o ar na Antena “Shine A Light “ (Paramount Pictures) mas, criando novas versões, descarac- nação de “Os Contos de Maldoror” 3, de segunda a quinta feira, das 20 às terizando completamente muitos de- publicados no final do séc. XIX pelo 22 horas, definido pelos próprios como Mão Morta “Maldoror” (Cobra Discos) les, dando origem a um registo inigua- Conde de Lautreamont, pseudónimo “um talkshow de música com conver- lável de uma das maiores bandas rock literário de Isidore Lucasse. Aguar- sa pelo meio”. http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/bonsrapazes Cânticos de Natal com 300 anos recuperados pela Câmara Municipal de Coimbra Cânticos de Natal da Região de Co- no livreto do CD. malizam o desagrado do grupo aos dis- imbra, alguns com três séculos, foram Segundo Mário Nunes, a distribuição tinguidos com a saudação”, acrescenta editados em CD com interpretação de cronológica da festividade principia nos o vereador. oito grupos folclóricos, que cumprem a cânticos de alegria e de elevação espiri- Mário Nunes referiu à agência Lusa tradição de os entoar na época natalícia tual ao Menino, entoados na noite de que esta recolha é um acervo ancestral, até Dia de Reis. Natal e nos dias seguintes. “Noite de transmitido de geração em geração, que Com edição da Câmara Municipal de Natal”, “Cantar ao Menino”, “Canto dos agora fica registado. Acompanha o CD Coimbra, o registo discográfico assume- Pastores” e “Roxozinho” são alguns dos um livreto com a reprodução dos cânti- se como um meio de preservar uma tra- temas deste registo discográfico que cos e uma curta biografia dos grupos dição e uma herança cultural ancestral “traduzem o feliz momento da humani- folclóricos participantes. da região, afirmou à agência Lusa o ve- dade”. De autor anónimo, os cânticos foram reador da Cultura da autarquia. No primeiro de Janeiro – acrescenta recolhidos mediante criteriosa pesquisa Mário Nunes, historiador e investiga- – cantam-se nos adros e de porta em pelos grupos folclóricos, recorrendo a tes- dor das tradições populares, adiantou que porta as “Janeiras”, cantares populares, temunhos orais e a fontes documentais, nesta recolha se inscreve uma tradição outrora preparados para os lavradores e em arquivos, adiantou o autarca. de mistura do espiritual e do profano. pessoas ricas e de linhagem, tendo por Mário Nunes Os 21 Cânticos de Natal da Região Uma de evocação do divino, de graças motivo agradecer os benefícios recebi- de Coimbra, registados no CD, foram ao Menino Deus, e uma outra dirigida dos ao longo do ano, desejar Ano Novo sentimentos, emprestando-se o entusias- interpretados pelos seguintes agrupamen- aos grandes senhores para quem traba- repleto de alegria e saúde aos proprietá- mo e a saudação, algumas vezes perso- tos: Grupo Etnográfico Cantares e Dan- lhavam, num acto de gratidão. rios e familiares e pedir, em recompen- nalizados, ao Senhor da Casa e pessoas ças de Assafarge, Grupo Etnográfico da “Há neles uma união do espiritual e sa, alguns bens alimentares para feste- queridas, de que são exemplos “Santos Casa do Povo de Souselas, Grupo Etno- do profano, em que se testemunha uma jar o evento. Reis” e “Cântico dos Reis”, também re- gráfico da Região de Coimbra, Grupo dualidade/unidade de princípios, de valo- “São cantores imbuídos de contenta- gistados no CD. Folclórico de Coimbra, Grupo Folclórico res e de receptividade geral, vincada na mento, de gratidão e de votos de felici- “Na ausência do esperado agradeci- e Etnográfico do Brinca-Eiras-Coimbra, exaltação, no humorístico, no satírico e dade, augurando voltar no próximo ano”, mento, isto é, não correspondido, mate- Grupo Folclórico da Universidade de no agradecimento, com votos de felici- explica o vereador da Cultura da Câma- rialmente, cantam-se quadras, previa- Coimbra, Rancho Folclórico e Etnográ- dade, de bem-estar, de gratidão, de lou- ra de Coimbra. mente escolhidas, em que o humor, a fico de Cavo do Ouro e Serra da Rocha vor ao Menino e de penhor à pessoa”, Nos Reis, a 6 de Janeiro, a última fase sátira e até o brejeiro dirigidos aos do- e Grupo Folclórico “Os Camponeses de refere o autarca num texto introdutório do ciclo natalício, cultivam-se os mesmos nos, acompanham as despedidas e for- Vila Nova”.
  • 20. 20 CRÓNICA 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 AO CORRER DA PENA... Não precisa ser homem, basta ser humano… Maria Pinto* mação das mulheres. terríveis em termos psicológicos. será, agora e sempre, o que os homens mainha.pinto@gmail.com No entanto, vem-me agora ao pensamen- O século XX foi também o palco dos pro- fizerem dele. to uma estranha recordação, acompanhada cessos de descolonização. A “afirmação” Porque estamos prestes a entrar num Enjolras, um herói dos Miseráveis de de uma não menos estranha sensação. dramática e vergonhosa dos países do ter- novo ano. Victor Hugo, dizia aos seus companheiros: Quando se comemorava, há bem poucos ceiro mundo, a mostrar que, na realidade, Porque amo a vida. anos atrás, a transição de século… e de existem “les uns et les autres”. Porque gostaria de a viver num mundo “O século XIX é grande, mas o século milénio, foram vários os programas, as notí- melhor. XX será feliz. Nada semelhante à velha cias de jornal, as reportagens de revistas em O nosso mundo, que logo após a Primei- Por tudo isto... decidi fazer uma cami- história; não haverá que temer, como que se fazia o balanço do século que estava ra Guerra Mundial deixou de ser eurocên- nhada. Quer acompanhar-me, caro(a) hoje, uma conquista, uma invasão, uma prestes a adormecer e em que abundavam trico, tornou-se uma realidade operacional leitor(ra)? Penso que em conjunto podería- usurpação, uma rivalidade entre na- única. Entrou-se definitivamente na era mos começar desta forma tão bela a come- ções que se defrontam pelas armas da globalização que, gradualmente, foi morar o ano de 2009... (…), um combate frontal entre duas modificando a economia e as socieda- religiões (…) não haverá que temer des mundiais. Foi unindo conhecimen- Procura-se um amigo a fome, a exploração, a prostituição, tos, tecnologias e formas de comuni- a miséria, o desemprego, o cadafal- cação. Mas o curioso é que no final do Não precisa ser homem, basta ser hu- so, o gládio, as lutas e todas as es- século assistia-se a uma enorme ten- mano, basta ter sentimentos, basta ter co- caramuças do acaso na floresta dos são entre o imparável processo de glo- ração. Precisa saber falar e calar, so- acontecimentos. Quase poderíamos balização e a incapacidade das institui- bretudo saber ouvir. Tem de gostar de dizer: já não haverá acontecimen- ções públicas e dos comportamentos poesia, de madrugada, de pássaro, de tos. Seremos felizes. O género huma- colectivos em se acomodarem a ele. sol, da lua, do canto, dos ventos e das no cumprirá a sua lei como o globo Há, sem dúvida, que pensar numa canções da brisa. Deve ter amor, um terrestre cumpre a sua (…)”. boa forma de gestão global. Há que grande amor por alguém, ou então sen- reflectir sobre os desequilíbrios ecoló- tir falta de não ter esse amor. Deve amar As certezas deste pequeno texto gicos. Sobre o crescimento demográ- o próximo e respeitar a dor que os pas- fazem-me sorrir. Não de felicidade, fico por vezes explosivo. Sobre a pau- santes levam consigo. Deve guardar se- mas de ironia e de amargura. perização de certas partes do mundo. gredo sem se sacrificar. Não é preciso Sobre o problema das drogas e do ter- que seja de primeira-mão, nem é impres- O século XX constituiu uma aven- rorismo… cindível que seja de segunda mão. Pode tura singularíssima. Foi um período Sem as certezas do texto com que já ter sido enganado, pois todos os ami- cheio de esperanças, frustrações, vi- iniciei esta crónica; pelo contrário, gos são enganados. Não é preciso que olência, guerras, revoluções e inúme- cheia de dúvidas, anseio em pergun- seja puro, nem que seja todo impuro, mas ras e espantosas realizações. as perspectivas e aspirações para os tem- tar: como será o mundo amanhã? Será que não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e No início do século, as nações europei- pos nascentes. E a par das euforias festivas poderemos assistir, pela primeira vez, ao nas- medo de perdê-lo e, no caso de assim não as sentiam-se eufóricas e orgulhosas, em- por parte das populações em geral, eu de- cimento de uma civilização única para toda ser, deve sentir o grande vácuo que isso bora existisse entre elas uma forte rivali- tinha-me nas análises feitas por peritos das a humanidade e caminharemos, assim, para deixa. Tem de ter ressonâncias humanas, dade. O bem-estar rondava também os mais diferentes áreas do conhecimento. E uma progressiva unificação? Ou o caminho seu principal objectivo deve ser o de ami- EUA e o Japão emergia como principal encontrava nelas a angústia, a ansiedade e será em direcção a uma perpetuação das go. Deve sentir pena das pessoas tristes poder industrial da Ásia. O optimismo im- a inquietação. divisões tradicionais e ao aparecimento de e compreender o imenso vazio dos soli- perava. Achava-se que a paz e a estabili- De facto, e se nos arriscarmos a envere- novos antagonismos? tários. Deve gostar de crianças e lasti- dade tinham vindo para ficar… dar por uma visão de panorama acerca do Como profissional da História, não con- mar as que não puderam nascer. A Grande Exposição Mundial de Pa- século XX, veremos, desde logo, que a gran- sigo responder a esta pergunta de forma Procura-se um amigo para gostar dos ris, em 1900, simbolizou essa esperança. de caminhada para o desenvolvimento foi decisiva. De facto, a História dos homens mesmos gostos, que se comova, quando Contou com mais de 50 milhões de visi- simultaneamente uma travessia longa e pe- não tem um sentido predeterminado. A His- chamado de amigo. Que saiba conver- tantes. Era o despontar da era da electri- nosa para a guerra. Para as guerras… para tória não se programa, pois toda ela está sar de coisas simples, de orvalhos, de cidade, da mecanização da indústria e da a bomba atómica… os genocídios… sujeita a um sem número de contingências. grandes chuvas e das recordações de in- produção em massa. É triste pensar que muitos dos progres- É claro que esta ciência consegue estabele- fância. Precisa-se de um amigo para não As pessoas acreditavam que as rivali- sos científicos e tecnológicos, que tiveram cer uma certa lógica na sucessão dos acon- se enlouquecer, para contar o que se viu dades não resultariam em guerras; que por detrás muitos Homens, foram canaliza- tecimentos, mas não faz revisões futuroló- de belo e triste durante o dia, dos ansei- todos teriam acesso à educação; que a dos para acabar com a vida de milhares de gicas. Daí o erro essencial do texto de Vic- os e das realizações, dos sonhos e da ciência iria transformar a vida profissio- outros Homens. tor Hugo. Se tenho uma certeza é que ne- realidade. Deve gostar de ruas desertas, nal e doméstica. Com efeito, o século XX foi o período nhuma ideia é mais quimérica do que aque- de poças de água e de caminhos molha- Tratou-se de um período de desenvolvi- mais assassino da História da Humanidade, la que remete para um fim da História. Os dos, de beira de estrada, de mato depois mento económico sem freios. O mundo tor- se olharmos para as guerras mundiais e para acontecimentos fluem. Os homens também, da chuva, de se deitar no capim. nou-se incomparavelmente mais rico e ca- as catástrofes humanas brutais (incluindo assim como as suas acções. Precisa-se de um amigo que diga que paz de produzir cada vez mais e melhores nelas os genocídios e, por incrível que pare- Que existem factores que actuam no vale a pena viver, não porque a vida é bens e serviços, o que se repercutiu decisi- ça… as fomes). sentido de aproximar os povos, apagar as bela, mas porque já se tem um amigo. vamente numa maior quantidade de pesso- Fomos ensinados a pensar, ao longo de diferenças e esboçar convergências, isso Precisa-se de um amigo para se parar as a poderem viver bem e com uma maior todo este percurso secular, que os seres parece-me uma realidade. Mas que tam- de chorar. Para não se viver debruçado longevidade. humanos podem ser capazes do melhor… bém há forças que agem em sentido inver- no passado em busca de memórias per- Por outro lado, a tecnologia avançou ver- e do pior. Que a morte agora é massiva e so, alimentando o conflito e as divisões, tam- didas. Que nos bata nos ombros sorrin- tiginosamente. Assistiu-se a uma revolução industrial, pois os mortos já se não con- bém isso me parece óbvio. do ou chorando, mas que nos chame de nos transportes e nas comunicações, o que tam às dezenas, nem às centenas e nem O mundo está e permanece sempre em amigo, para ter-se a consciência de que permitiu anular o tempo e as distâncias. mesmo aos milhares. Contam-se aos mi- aberto. Muito provavelmente, ele será um ainda se vive. Foi o século da chegada à Lua. De lhões! E ainda fomos interiorizando que compromisso precário e tenso entre as as- Vinícius de Moraes uma luta sem tréguas contra a dor físi- os alvos das guerras são agora as econo- pirações unitárias e os fermentos de divi- ca. Da revolução informática. Da afir- mias e as populações civis, estratégias são. Em definitivo, parece-me que ele * Docente do ensino superior
  • 21. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 OPINIÃO 21 O arraial da política dum certo unanimismo ideológico em torno padronizar práticas através de incongruente O país irá entrar em prolongada campa- da verdade oficial, típicos dum poder fecha- enfoque burocrático, administrativizar os nha eleitoral mergulhado num oceano de Renato Ávila do, sonegante, excluente. procedimentos específicos dos diversos or- perplexidades e interrogações. Paira uma Prolifera há muito a maniqueísta doutrina ganismos do Estado. Aí tem o resultado: a plúmbea atmosfera criada por um poder Neste dealbar do novo ano paira por aí um do “quem não está connosco está contra nós”, defesa, a segurança, a justiça e a escola… enevoado, selectiva e simultaneamente per- acidulado perfume a eleições. propiciadora da mordaça e da persecução, em colapso. secutor e permissivo. Agiganta-se o espec- Os “obamas” e os “Maccaines” do luso fomentadora do clientelismo e da intolerân- Mesmo com toda a demagogia subja- tro da impunidade dos habitantes e vizinhos rectângulo já mexem no pré-frenesim habitu- cia, mormente em tempo de crise, em que o cente, com todo o aproveitamento político de certas áreas do poder que acintosa, es- al. Galvanizados com a grandiosidade da fes- espírito de sobrevivência se sobrepõe ao de verdadeiramente inqualificável, com todas candalosamente e perante o cidadão comum ta americana e extrapolando os resultados das independência e um plúmbeo silêncio parece as ameaças, cento e vinte mil professores a exibem como troféu. eleições insulares, os líderes partidários co- abafar o protesto. na rua, noventa por cento em greve, é muita Mesmo ao lado das benesses com que o meçam a ensaiar os discursos e a engatilhar Está, pois, criado o caldo, o pântano onde gente, constituindo demonstração demasi- executivo pretende esconjurar a crónica po- estratégias para as campanhas que hão-de pululam as demagogias, as prepotências, os ado forte para ser subestimada pelo poder breza de alguns, vegetam bolsas de crescen- aquecer o próximo ano, no qual a fartura elei- golpes fraudulentos, as injustiças, os ódios, e abafada pela sua máquina de domestica- te miséria económica e social que ainda não çoeira promete ser a tónica e a dominante da as revoltas, os esbanjamentos, a baixa políti- ção informativa. foram minimamente compreendidas. nossa vida política. ca, a impunidade. A crise económica está aí. Quase meio A política, que deveria pautar-se pela Aproxima-se, pois, o fim da actual legisla- Estes últimos tempos têm sido férteis em milhão de desempregados. Famílias em de- nobreza de intenções e procedimentos, tura-consulado com o governo em frágil e acontecimentos insólitos e intrigantes a po- sespero. Postos de trabalho em perigo. O fis- está a transformar-se num arraial de ma- controverso estado de graça, dada a crescente rem em causa a a essência e a autoridade do co numa roda viva a fisgar os impostos “mal labaristas e de truões, num lodaçal pesti- pressão da dificílima conjuntura económica Estado, a denegrirem a própria democracia. parados”. E, no entanto, esportulam-se mi- lento, numa ameaça ao saudável exercício e social a nível mundial e à confrangedora Por um lado, a angústia, o desassossego, lhões para salvar bancos falidos por inusita- da democracia inépcia duma oposição que só agora, e muito a crispação latente nos quartéis, nas esco- das e escandalosas falcatruas de gente graú- Os eleitos do povo estão a defraudar as dificilmente, parece querer assumir-se como las, e não só; por outro, a sucessão de ca- da e protegida, para financiar os vícios me- suas esperanças, as suas expectativas. Não credível alternativa. sos em que a justiça tem andado pelas ruas galómanos das máquinas partidárias. nos parece que, neste momento difícil da Diríamos que o período eleitoral encon- da amargura no combate à criminalidade, aos Toda a gente fala de corrupção. Gizam-se nossa vida colectiva, estejam à altura das cir- trará o país num deplorável estado de estag- abusos de poder, ao caciquismo demagógi- pomposas operações para descobrir e casti- cunstâncias. nação política no qual uma maioria confortá- co; por outro, ainda, as escandalosas mani- gar os corruptos – “furacão”, “apito final”, A esperança dirige-se para os que hão-de vel e solidamente instalada põe e dispõe a seu gâncias e falcatruas na área financeira e em- “apito dourado”, etc. A pouco e pouco, vai- vir, aqueles que, com sabedoria e espírito de bel prazer dos destinos de dez milhões de ci- presarial com inquietantes promiscuidades se tudo desfazendo quais bolas de sabão. bem servir, sejam capazes de criar o elan para dadãos na presumida certeza de que assim de natureza política. Depois de assistirmos à sentença do “caso enfrentar a crise e, efectivamente, promover acontecerá por mais cinco ou dez anos. O governo, sobranceiro no farto apoio da Felgueiras” em que uma arguida, durante dois a mudança com verdade e justiça. Se as lideranças estivessem, ao menos, folgada maioria saída das últimas legislativas, anos foragida à justiça, encontra no regresso As crescentes dificuldades pelas quais pas- imbuídas dum são espírito democrático na optou por hostilizar, denegrir perante a opi- oficiosa passadeira vermelha, o escandaloso sa mais de metade dos portugueses não se interpretação da vontade do povo e no parci- nião pública importantes corpos de servido- acesso às câmaras da televisão paga por to- compadecem com esta política de arraial. monioso e sensato exercício do poder, tudo res da nação, as anatemizadas “corporações”, dos nós e, mais dez anos passados, ténue É mister que os partidos, em especial estaria bem e concitaria a adesão e a activa atribuindo-lhes estulta e injustamente a res- condenação com simbólica pena de efeitos aqueles que tradicionalmente acedem ao esperança dos cidadãos, decisivamente essen- ponsabilidade quase total pela empolada de- suspensivos, hemos de concluir que, no rei- poder, tenham isso na devida conta quando ciais no ressurgimento do país. masia da despesa pública. Não contente com no municipal, também toda a gente se vai sa- propuserem as suas listas ao sufrágio dos Surgem, todavia, os habituais indícios de isso, foi tendenciosamente legislando no sen- fando num inconcebível cortejo de estranhas cidadãos. arrogância, de autismo e a velada imposição tido de, ao cilindrar pretensos privilégios e ao protecções. Já basta de mediocridades! FILATELICAMENTE 1935 - Sé de Coimbra POIS... João Paulo Simões José d’Encarnação O edifício da Sé Velha de Coimbra é compacto, quase militar, encimado Gostei da tranquilidade da pausa, por uma cúpula mais moderna e espi- a meio do Quebra-Costas. As ta- ritual. mancas tiradas, o chão de calhau A Sé primitiva foi mandada cons- rolado típico da cidade antiga… truir por D. Afonso Henriques sobre Em que andanças te vai a vida, fundações romanas, em 1162. Ainda tricana? Gostamos de te ver aí, as- tinha a função de último reduto numa sim, numa recordação boa dos tem- cidade militar. Entre o século XVII e pos da serenidade, sabes? E tenho a 1893, muitas alterações foram feitas certeza de que vais ser, doravante, a ao edifício. A cúpula do século XVIII imagem mais fotografada da nossa substituiu um coruchéu muito mais sim- Existem alguns túmulos medievais. O desenho e gravura do único selo Coimbra! Humanizas a cidade, em- ples. A porta principal, seiscentista, é Muito bonito é também o claustro, que que compõe esta emissão, foi feito em prestas-lhe alma, nas tuas vestes um dos melhores trabalhos de João de serviu de modelo ao de Alcobaça, com Paris, no Institut de Gravure et d’outrora! Ruão. um equilíbrio de proporções quase per- d’Impréssion de Papiers-Valeurs de Lá dentro, encontramos todas as feito. Paris. épocas muito bem representadas no Foi impresso na Casa da Moeda, em Tricana de Coimbra melhor dos seus estilos. O retábulo (Baseado no livro folhas de cem selos, tendo circulado Escultura de bronze principal, gótico, flamejante da escola ”Descubra Portugal: Beira Litoral” de 20 de Novembro de 1935 a 30 de 7.12.2008 flamenga, foi encomendado pelo Bis- da Ediclube) Setembro de 1945, em papel liso den- Junta de Freguesia de Almedina po D. Jorge de Almeida, em 1498. teado 12 x 11 ½.
  • 22. 22 OPINIÃO 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 posição firme – a abstenção. clareza. giões alimentam especial animosida- ponte europa Recordou-me a história de um pre- Foi o que fez o PSD na terceira vo- de contra a cultura e, sobretudo, con- sidente da Câmara que, durante o sa- tação do Estatuto dos Açores. Paulo tra a liberdade.O Papa Pio IX dizia lazarismo, andava atormentado por um Rangel e o seu grupo parlamentar, com que o catolicismo era inconciliável amigo que, a certa altura, lhe virou as duas excepções, abstiveram-se com mas, apesar da franqueza de quem costas. Um dia encontrou-o e não o firmeza... para que não! amaldiçoou os livres-pensadores, foi deixou escapar. Perguntou-lhe a ra- possível assegurar a religião e a es- zão por que tinha cortado relações, colaridade. que lhe teria ele, presidente da Câ- ISLÃO E CULTURA Em 2008, haver quem, em nome da Carlos mara, feito para o desfeitear. Respon- vontade divina, se oponha à escolari- Esperança deu-lhe o ex-amigo que bem sabia; Deus não é certamente um entusias- zação feminina, é um acto de demên- aesperanca@mail.telepac.pt que não sabia, ripostava o autarca; que ta da cultura e, muito menos, do ensi- cia que, em nome da civilização, de- www.ponteeuropa.blogspot.com/ lhe negou a construção da casa, re- no obrigatório destinado também ao vemos combater. torquia o outro. sexo feminino. É antiga a aversão à No Portugal salazarista, a escolari- Entre a queixa e a negação dos fac- cultura daquele deus que, há seis mil dade que a República fizera obrigató- tos lá se dirigiram os dois à Câmara e doze anos criou o mundo em seis ria durante cinco anos, retrocedeu O PSD E O ESTATUTO onde o presidente mandou que lhe le- dias e, ao sétimo, descansou, aversão para quatro anos para rapazes e três DOS AÇORES vassem ao gabinete o processo de que se agrava quando promove a igual- para meninas, mas Salazar era um ta- construção. Com as fotos de Tomás e dade dos sexos. libã benigno comparado com os fací- A votação do PSD, a respeito de Salazar à frente, o ex-amigo apontou A comunicação social tem divulga- noras que se regem por um livro um diploma que poderia ter evitado a o despacho, olha, cá está, Indeferi- do as ameaças de morte proferidas hediondo, ditado pelo arcanjo Gabriel Cavaco a solidão e ao partido a ver- do, queres negar, tendo o edil, ao ver pelos talibãs, no Paquistão, contra as a um pastor analfabeto, entre Medina gonha, foi surrealista. O líder parla- a palavra indeferido, acrescentado raparigas que, a partir de Janeiro, con- e Meca, durante vinte anos. mentar, Paulo Rangel, afirmou na te- uma vírgula e para que sim. O des- tinuem a frequentar a escola. Comparados com os trogloditas pa- levisão (após duas votações por una- pacho ficou corrigido: Indeferido, Os talibãs paquistaneses não são quistaneses, o Papa parece um com- nimidade) que o partido tinha uma para que sim, eliminando a falta de muito diferentes dos que noutras reli- batente da liberdade. 2009 – Congressos, eleições e depois? do governo, o mal é geral, internacional, é a Manuela Ferreira Leite falta-lhe a alma, a letas de votos “limianos”, será frágil, não será crise mundial. Algumas medidas que teriam chama para uma campanha eleitoral, não solução para os tempos que se avizinham. Vasco Paiva a leitura de medidas eleitoralistas no último anima as hostes, assusta o eleitorado, só A chamada esquerda terá de se enten- ano da legislatura, passam a ser lidas como serve para obrigar as criancinhas a come- der, o PS com o PCP e o BE, e cada um medidas sociais e corajosas de um governo rem a sopa mesmo que azeda. 3 – Com não perderá a sua entidade própria. Assim 2008 foi o ano dos congressos dos Parti- preocupado com os males do seu povo e se este líder não vai lá, já mudou muitas ve- como, após o 25 de Abril, o PCP esteve em dos em Portugal. não faz mais é porque não pode. zes de líder, e já é tarde para mudar outra diversos governos e não perdeu a sua pró- No geral, perderam o espaço de confron- Um expressivo número de cidadãos não vez de líder. Depois das eleições MFL pria identidade. Não poderão ficar cegos por to saudável de ideias, transformando-se em se reconhece na actual oferta partidária, demite-se, se aguentar até lá, e logo se vê um qualquer calculismo eleitoralista a pen- meros comícios, sem debate de pontos de mas poderá não encontrar facilmente res- o que vem a seguir… sarem nos votos que irão, ou não, colher nas vista ou substanciais propostas. Programa- postas para as suas angústias. O PS recupera alguma coisa, mas já não eleições seguintes. Terão de se entender com dos para que as intervenções, proferidas às O PP ou CDS/PP com Paulo Portas sabe tem muito campo de manobra para recupe- base em acordos programáticos, com solu- horas dos telejornais e cuidadosamente ela- a comida requentada. E comida requenta- rar votos e eleitores. O PS irá pagar a fac- ções de compromisso, porque assim o exi- boradas para um público exterior aos Con- da há pouca que saiba bem, só se não hou- tura da viragem para a convergência com a girá o interesse dos trabalhadores, do povo gressos, exibam força ideológica e uma união ver outra hipótese. Dizem que as rabana- direita dos interesses. Há muito (justo) des- e da sociedade. E nisso residirá o engenho de militantes à volta do líder, emitindo deste das são melhores no dia a seguir ao Natal, contentamento e o protesto social multipli- e a arte de fazer boa política, aí residirá, ou modo as mensagens para as batalhas elei- ou que a feijoada fica mais apurada no dia ca-se. Cansa tanta fanfarronice e sobran- não, a capacidade de entenderem o que é torais que se aproximam. seguinte e o que é o melhor é a “roupa ve- ceria. Os ricos, os banqueiros e grandes útil para o povo, para a sociedade, para ge- A seguir virão as campanhas em que lha”. São excepções, mas o CDS de Paulo empresários até podem não estar muito des- rar de facto uma vida melhor. cada um procura mostrar que vale mais so- Portas, sem ideias e propostas inovadoras, contentes, tementes pelos tempos que cor- A situação económica e social em Por- zinho que (mal) acompanhado. O PS que- não chega aos calcanhares das rabanadas rem mas não encontram melhor solução. tugal e no mundo é demasiado grave. Ain- rerá mostrar que pode e deseja a maioria do dia seguinte, está a léguas da feijoada Mas a maioria dos eleitores, o povo, não são da estamos no princípio da crise, esta- absoluta, que sem ela não é possível um aquecida e já o “farrapo velho” é uma arte ricos e passam sérias dificuldades. mos longe de alguém poder afirmar que governo estável “essencial” para uma épo- da gastronomia de reciclagem dos restos do As sondagens assim o apontam e tudo se tocou no fundo. ca de crise. Uma ou outra figura pública bacalhau do dia anterior. indica que com mais ou menos oscilações, Se não houver esse entendimento “à es- tentará fazer o providencial discurso da al- O CDS com Paulo Portas está esfran- o cenário eleitoral que se nos apresenta- querda”, corre-se o risco de ressurgirem ternativa ou, antes, da alternância. No geral galhado e não passará de um partido-táxi, rá, será de um CDS residual, um PSD a ideias e atitudes fascizantes, um alento para todos escolherão como objectivo retirar a com uma votação residual, condenado a perder votos e sem grandes aspirações, o a extrema-direita, para a suposta necessi- maioria absoluta ao PS. ser o 5º partido com assento no parlamen- PS sem maioria absoluta e o PCP/CDU dade de alguém pôr a “casa em ordem”, As maiorias absolutas são sempre per- to. Não conseguirá colher muitos votos da e o BE em crescimento e somados com um “líder forte”, o regresso agora de um versas, estimulam o autoritarismo e o autis- área do PSD e como muleta governamen- cerca de 20% de votos. neo-fascismo ao poder. mo, é a opinião puramente pessoal imposta tal também já cheira a mofo. É claro que Aritmeticamente falando teremos uma Assim foi no passado e não há vacina como Lei pelo poder oferecido pela demo- Portas depois de se ter •specializado em deslocação dos votos da direita para a es- milagrosa que o impeça de o ser num futu- cracia formal. negócios de submarinos, acalenta o sonho querda. ro. Esperemos que tal não venha a ocorrer. Até às eleições, cada um vai afirmar- de ser pelo menos •specialista em negóci- A leitura óbvia será que o eleitorado Nos tempos actuais, os que ocupam as di- se por si. Para o comum eleitor ficará a os de superfície… quer uma viragem de política, uma vira- recções e as primeiras filas partidárias não ideia que não se entendem e nunca se en- O PSD vive um dilema ou “trilema” para gem à esquerda. tiveram a experiência de viver em fascismo tenderão. Essa dinâmica também tem o o qual não tem saída. 1 - Não consegue Nesse cenário não terá lógica, nem cor- e lutarem pela liberdade e a democracia, seu quê de perverso, estimula o “voto útil”, apresentar medidas alternativas porque a responderá ao sentido das votações um en- provavelmente muitos desses, se hoje fos- generaliza a ideia de que mal por mal, fi- maior parte delas foram a política deste go- tendimento do PS com a direita, com o PSD sem obrigados a tal, perderiam a fanfarroni- camos assim… verno PS. Fica a balançar no meio da “sa- ou a muleta do CDS. ce, a suposta coragem e coerência e, no Interessa pensar no dia seguinte. bedoria” popular, entre “o silêncio é a alma Uma solução do PS governar sozinho em mínimo, assustavam-se. Esperemos que A situação actual favorece o governo, do negócio” e o “quem não aparece, esque- minoria, sujeitando um qualquer programa pelo menos a memória e o bom senso sirva alicerça a ideia que a culpa não é da política ce”. Situação difícil, de facto. 2 – Com á Assembleia, na expectativa de umas mu- para alguma coisa.
  • 23. 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 INTERNET 23 IDEIAS DIGITAIS CASE CONVERTER RECUVA Inês Amaral Docente do Instituto Superior Miguel Torga USERNAME CHECK Converter os textos pode ser, por vezes, uma ta- Recuperar dados acidentalmente apagados do seu refa complicada. O Case Converter é a solução computador parece quase impossível ou tarefa para um ideal para formatar trabalhos. É possível converter técnico de informática. Certo? Errado. O Recuva é textos de letras minúsculas para maiúsculas, por uma aplicação gratuita que pode instalar no seu pc (des- exemplo. de que tenha Windows) e através dela recuperar fi- A ferramenta é muito simples de utilizar: basta cheiros perdidos. colocar o texto numa caixa, escolher a opção que Ficheiros que foram permanentemente apagados ou se pretende e o programa faz a conversão. que foram eliminados por erro do sistema ou até por um vírus podem ser recuperados com o Recuva. CASE CONVERTER RECUVA endereço: http://caseconverter.com/ categoria: informática endereço: http://www.recuva.com/ A maioria dos utilizadores gosta de manter o mes- mo username em todos os serviços em que se re- categoria: informática gista. Mas nem sempre é fácil. Basta relembrar a quantidade de opções que nos são apresentadas CONSULTA AOS CIDADÃOS EUROPEUS MOVIMENTO DOS SEM FIBRA quando se pretende criar um email. O Username Check é a solução. Trata-se de um serviço que permite verificar em dezenas de sites se o username que se pretende utilizar está disponível ou não. Uma ferramenta útil e indispensável na era Web 2.0. USERNAME CHECK endereço: http://usernamecheck.com/ categoria: Internet Um blog para quem quer ter fibra óptica. Os autores MAGNÉTICA MAGAZINE A proposta deste site é promover o debate sobre apresentam-se em manifesto: «Nós... Os que sonhamos o futuro económico e social da União Europeia com as velocidades de download incríveis que a fibra (UE). O Consulta aos Cidadãos Europeus é uma óptica permite, velocidades reais de 100Mb/s para cima; iniciativa de cerca de 40 organizações europeias in- os que ansiamos por ligações à internet com tráfego ili- dependentes dos 27 Estados-membros da UE e vai mitado; os que sonhamos com as possibilidades incríveis estar online até 27 de Março. que a fibra óptica abre para a televisão, com canais às Os utilizadores podem fazer propostas, debatê- dezenas, gravação digital e pausa de emissão, em todas las, votar nas que consideram melhores e as dez as televisões das nossas casas; os que – ainda – esta- mais votadas online vão ser apresentadas numa con- mos condenados a arrastar-nos pelas estradas secundá- ferência nacional, em Março. Para cada Estado- rias do cabo e do ADSL, olhando com inveja para as membro foi lançado um site para promover o deba- luzes que nos ultrapassam na autoestrada da fibra». te. A ideia é promover a participação dos cidadãos Nuno Markl é o rosto visível do Movimento dos da UE e, neste sentido, em Maio vão ser entregues Sem Fibra, grupo que se manifesta num weblog onde os resultados na Cimeira dos Cidadãos Europeus. vai deixando informação relativa à temática e aos avan- ços que se vão verificando. CONSULTA AOS CIDADÃOS EUROPEUS MOVIMENTO DOS SEM FIBRA Magnética Magazine é uma revista portuguesa em endereço: http://www.consulta-aos-cidadaos- formato online. A sua primeira edição saiu em Dezem- europeus.eu/ endereço: http://movimentodossemfibra.org/ bro e versa temas ligados à Cultura, Arte, Moda, De- categoria: Europa categoria: Internet sign, Arquitectura. Os assuntos abordados remetem para as realidades nacional e internacional. Visualmente a revista tem o mesmo formato que em papel, permitindo que o utiliza- dor folheie as páginas. Votos de um bom @no de 2009 MAGNÉTICA MAGAZINE p@r@ todos os intern@ut@s endereço: http://www.magneticamagazine.com categoria: revista
  • 24. 24 TELEVISÃO 31 DE DEZEMBRO DE 2008 A 9 DE JANEIRO DE 2009 ponsável pela condução das notícias das em frente ao ecrã, os sketches têm su- PÚBLICA FRACÇÃO 22 horas na SIC- Notícias. Dizem-na bido de qualidade e a crítica, por vezes, “esfíngica”. Não concordo. Mesmo as- é demolidora. Pelo meio, a figura do “cha- sim, é preferível a contenção de que dá to” (primorosa interpretação de Nuno mostras do que os esgares histriónicos Lopes), é garantia do rompimento com de algumas apresentadoras do canal con- as tradicionais linhas do humor nacional. Francisco Amaral correncial do Estado – RTP-N. Ana Lou- Arriscado, mas conseguido. franciscoamaral@gmail.com renço acrescenta à sobriedade um bom conhecimento dos temas que aborda em Contente: Embora com defeitos, Está mais do que anunciado. O ano directo com os convidados. Cinco dias como a inclusão de um exagero de série de 2009 vai ser terrível. Visto daqui, já por semana, não é fácil. norte-americanas supostamente de cul- nopse inicial de “Você na TV” (TVI) in- mete medo. E, no entanto, a Terra move- Desiludido: Não sei o que motivou a dica que se trata de uma “Ophra à por- se. A televisão, nem tanto. saída de José Júdice do “Eixo do Mal” tuguesa”!!! Dobrar esse novo Cabo das Tormen- tas (2009), deve ser tarefa complicada (SIC-Notícias), mas a sua substituição por Pedro Santos Lopes foi um erro. O Expectante: Com a continuidade dos para os responsáveis das estações de “Gato Fedorento”. Brilhantes a idealizar, televisão portuguesas. Contra a falta de deram, aqui e ali, mostras de terem abu- dinheiro, nem só de produtos estrangei- ros se poderão socorrer e há uma série infindável de truques que funcionam e garantem as audiências. Truques bara- to, a RTP-2 continua a disponibilizar os tos. Daqueles em que é o próprio públi- momentos mais interessantes da televisão co a garantir conteúdos. portuguesa. Podia e devia fazer muito Para além disto, há sempre as reposi- mais. Haja quem lhe atribua mais meios. ções. Os cruzamentos pelos diversos No entanto, não fosse a RTP-2 e não canais do mesmo grupo. A oferta é tanta teríamos acesso a uma série consi- que facilmente nos escaparam coisas que derável de espectáculos de grande nos hão-de surgir como novas. novo elemento não está com o espírito qualidade, bem como a muitas horas Não adianto previsões. Não conheço do programa, não tem sentido de humor, de programação infantil que se pauta e trouxe para a mesa uma certa tensão por critérios de qualidade inatacáveis. sado da exposição. O efeito surpresa suficientemente o background bancá- e agressividade que não existia. Péssi- Pena é que a produção nacional, neste parece diluir-se. Perigosamente. Os rio das empresas de televisão para que ma escolha que poderá ter consequênci- campo, seja tão escassa. É ainda na meses que estiveram oficialmente fora não seja surpreendido com alguma naci- as negativas. RTP-2 que está incluído o programa dos ecrãs não lhes serviram para nada. onalização em desespero de salvação. ESEC-TV, produzido pela Escola Supe- A RTP tinha os direitos do “Diz que é Restam-me algumas ideias do que fi- Cansado: Do “Preço certo em eu- rior de Educação de Coimbra e que se- uma espécie de magazine” e repetiu os cou para trás. ros”. Custa dinheiro à RTP (é dos pro- manalmente disponibiliza muitas repor- programas até ao limite. Os Gato ainda tagens sobre a actividade cultural da ci- acabaram por encher todos os canais 2008 com a campanha publicitária para a Meo. dade. Uma espécie de “aldeia dos gau- leses” coimbrã no universo televisivo Arriscado. Gostei Muito: “Conta-me como foi”. português. Espantado: Com o que disse a Mi- Farto: Dos programas da manhã e da nistra da Saúde: «O quê? O senhor não tarde que assentam na fórmula da des- sabe o que está combinado? Que hoje graça + concurso + cantoria. Seja o Gou- só pode fazer perguntas sobre esta ceri- cha, a Fátima, a Júlia, o Gabriel, … En- mónia e sobre o plano de combate à fim, venha quem vier, a fórmula é aque- SIDA nas escolas? Ainda por cima é a la e não há nada a fazer. Talvez desligar RTP, a televisão pública, a fazer uma gramas mais caros) que não pode ter o televisor. A RTP tenta disfarçar tanta coisa destas. E, depois, logo à noite, não retorno a não ser o tornar as pessoas ain- mediocridade, mas o que fazer se a si- sai a reportagem». da mais anestesiadas. É feito abertamen- te com um espírito de “para quem é ba- Série da RTP-1 agora à espera de novos calhau basta”. Pois. Basta! Faça episódios. Uma reconstituição exemplar dos finais dos anos 60 em Portugal. Sem meios em excesso, de produção a apro- Gostei muito mais: Dos episódios mais recentes dos “Contemporâneos”. uma veitar o tempo ao segundo, “Conta-me como foi” é das produções nacionais assinatura (ideia espanhola!) mais estimulantes dos últimos tempos. do Exasperado: Com as transmissões dos jogos de futebol. Interessa tudo me- “Centro” nos aquilo que o espectador pretende ver. Repetições até à náusea. Comentários e ganhe patéticos. valiosa Gostei: Da continuação da carreira segura como pivô de Ana Lourenço, res- obra de arte Esta é a reprodução da valiosa obra original de Zé Penicheiro, alusiva aos 6 distritos da Região APENAS Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Embora ainda não me entenda totalmen- 20 euros POR ANO Leiria e Viseu) que receberá, gratuitamente, te com a postura que Bruno Nogueira - LEIA NA PÁG. 3 quando fizer a assinatura do jornal CENTRO