A CABRA – 170 – 9.10.2007

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    A CABRA – 170 – 9.10.2007 - Presentation Transcript

    1. FADOS ENTREVISTA: LUíS DE MATOS Será que o espanhol Carlos CULTURA | Pág. 16 Saura percebeu a essência da canção nacional? ARTES FEITAS|Pág.24 ANO XVII Nº 170 TERÇA-FEIRA | 9 DE OUTUBRO, 2007 Director: Helder Almeida 3ØTYW_TQ`bQhU TRANSIÇÃO PARA BOLONHA U]]eTQ^ÌQ CAUSA DIFICULDADES NA UC Com o Processo de Bolonha não foram ape- nas os cursos que se Alunos queixam-se de não encontrarem resposta para muitas das questões colocadas tiveram de adaptar. Também o Código da Praxe teve de Várias faculdades da Universidade de ma mesmo que “a faculdade vive tem- sentarem-se no chão. Já a vice-reitora mudar. A realiza- Coimbra (UC) têm tido nas últimas pos conturbados e de grande polémica”. da UC assegura que “o cenário não é tão ção do cortejo da semanas várias dificuldades para Em Letras e em Economia a situação catastrófico como se diz” e justifica os Queima ao implementar o Processo de Bolonha. não é melhor e é frequente as salas problemas que existem por este ser um domingo, o Em Direito, o presidente do núcleo afir- estarem lotadas, obrigando os alunos a ano de transição. Pág.5 surgimento de novos títulos (como Novato, Candeeiro, Bolonhez ou Marquez) e a proibição do uso do colete pelas rapari- gas são algumas das novidades. ENS.SUPERIOR| Pág.6 AeQ^T_U\\UcUbQ]Q\\e^_c Alguns dos mais conceituados profes- sores da Universidade de Coimbra relembram os tempos de estudante. A CABRA foi ouvir as suas memórias, que se cruzam com momentos cruciais da história portuguesa. Os docentes nar- ram ainda estórias caricatas do seu per- curso estudantil. TEMA | Págs.12 e 13 |1cU\\USÌÈ_ÎQ]Y^XQ cUWe^TQVQ]Ò\\YQ Em entrevista, Rui Cordeiro conta como Estudantes em alojamento precário foi estar presente no campeonato do mundo. O jogador de Râguebi da De casas de banho em roupeiros, a casas degradas e a senho- A uma semana da chegada dos estudantes que ingressam no académica fala ainda da saída da rios que vasculham os quartos dos inquilinos e controlam as ensino superior, na segunda fase, A CABRA foi conhecer selecção e do seu futuro na AAC. suas visitas, de tudo se encontra no mercado de arrendamen- algumas das histórias de quem já cá está a viver e deixa to em Coimbra. alguns conselhos a quem procura casa. Págs.2 e 3 DESPORTO | Pág.15
    2. 2 A CABRA DESTAQUE 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 Alojamento em Coimbra @QWQb`QbQ]Q\\]_bQb CLÁUDIA TEIXEIRA Apesar da perigosidade e de ser proibido por lei, em algumas casas ainda se encontram esquentadores em quartos de banho A uma semana da pedaços de cimento caiam na comida. Fios verificam–se nas casas da Alta. Esquenta- zes da situação para inflacionar a renda des- eléctricos cruzam–se desordenadamente dores em casas de banho ou quartos para regradamente. De um ano para o outro, Ma- chegada dos estudantes nas várias divisões, por cima das cabeças arrendar em vãos de escada não são um mi- ria viu a renda ser–lhe aumentada de 142 que ingressam no dos moradores. to, são uma realidade na cidade dos estu- para 170 euros. Ensino Superior, na segunda Apesar de tudo, os estudantes vivem lá de- dantes. Também o pagamento das despesas da ha- fase, A Cabra foi descobrir vido ao ambiente comunitário, ao “baixo Também a relação entre senhorios e estu- bitação flutua conforme a vontade do se- preço dos quartos” (cerca de 100 euros) e ao dantes se apresenta frequentemente como nhorio. Maria refere que quando arrendou o algumas das más condições tamanho da casa, que tem mais de quinze um problema. Não raras vezes, os proprie- espaço as contas da água e da luz estavam com que os estudantes divisões. Um dos moradores refere que já tários impõem cláusulas abusivas que res- incluídas no preço. Porém, se a estudante que já cá estão lidam por várias vezes foi pedido à senhoria para tringem as liberdades dos inquilinos. quiser ter um computador ou uma TV no realizar obras na casa. No entanto, a pro- Manuela Rocha, licenciada em Teatro, vi- quarto tem que pagar mais cinco euros. Mas Helder Almeida prietária tem recusado sempre. veu três anos num prédio na Praça da Repú- as despesas não param por aqui. Para utili- Emanuela Gomes Num cubículo de oito metros quadrados blica. A antiga estudante conta que a senho- zar a máquina de lavar a roupa são mais cin- João Miranda cabe uma cama, uma mesa–de–cabeceira, ria proibia a entrada de rapazes, mesmo pa- co euros. E se requerer recibo tem de pagar uma cadeira e uma secretária. Ao fundo da ra trabalhos de grupo. do seu bolso os cinco por cento de IVA. C asas de banho em roupeiros, fios cama fica um roupeiro embutido na parede. Maria (nome fictício) vive numa casa na Maria relata ainda que “houve uma altura eléctricos que se cruzam perigosa- À primeira vista tudo parece normal, tiran- Praça da República, com a senhoria. A estu- em que a senhoria queria impor horários mente com canos de água danifi- do a pequenez da divisão. Um olhar mais dante está também proibida de levar rapa- para ir à sala porque andávamos a ver mui- cados, contratos inválidos que só permitem atento, porém, encontra um termoacumula- zes a sua casa. Outra regra imposta não per- ta televisão”. “Também não podíamos jan- a entrada de familiares… Muitos estudantes dor fixado na parede junto do roupeiro. A mite que as inquilinas levem as chaves dos tar na sala para não estragar a mobília” diz deparam–se com esta realidade quando aparente normalidade desfaz–se quando o quartos para fora da habitação, o que pode Maria. procuram casa em Coimbra. Preços, acessi- inquilino abre uma das portas de correr do criar situações embaraçosas. A estudante Contudo, este tipo de regras não tem su- bilidades à faculdade e a pressão de ter que armário revelando uma casa–de–banho, conta que uma vez encontrou a senhoria porte legal. “As pessoas não podem ser proi- arrendar casa o mais rápido possível são al- pouco maior que uma cabine telefónica. dentro do quarto a revolver os seus objec- bidas de levar ninguém às suas casas”, ex- guns dos motivos que levam a que os estu- Lá dentro, um lavatório, uma sanita e um tos. plica o advogado António Marinho Pinto. dantes se sujeitem a viver em habitações chuveiro repartem o espaço exíguo. O ar- Devido à inexistência de contratos váli- “O senhorio ou confia na pessoa e arrenda sem condições e com senhorios autoritários. rendatário, que confessa não conseguir usar dos, os senhorios aproveitam–se muitas ve- ou não confia e não arrenda”, resume. “Isto deve ter caído hoje porque ainda on- aquela “divisão”, pretende mudar de quarto tem estivemos aí a limpar”. O estudante de brevemente. engenharia civil referia–se ao monte de pó e cimento espalhado pelo soalho gasto resul- Senhorios impõem tante da queda do reboco de uma das pare- cláusulas abusivas des da sua casa. Este é apenas um dos mui- Os responsáveis pelo Certificado de Habi- tos problemas que o edifício da Alta de tabilidade da Associação Académica de Coimbra enfrenta. Na cozinha, as marcas de Coimbra, Marco Veloso e Ana Teixeira, visi- ferrugem na parede denunciam o mau esta- tam dezenas de casas semanalmente. Con- do das canalizações. O tecto, com o reboco a tam que na globalidade o estado das casas soltar–se, obriga os moradores a “fazer ma- para arrendar em Coimbra não é mau. As labarismos com o tacho” para evitar que os piores condições e os preços mais elevados
    3. 9 de Outubro 2007, 3ª feira DESTAQUE A CABRA 3 1e]U^d_TQcVYcSQ\\YjQÌÚUc @UbWe^dQbUc`_cdQ* _aeUÎ\\UWQ\\/ ^È_UfYdQVeWQQ_cY]`_cd_c O meu senhorio comunicou–me que vai aumentar a renda este CLÁUDIA TEIXEIRA mês. Essa acção é legal? O negócio é lucrativo para Para a actualização da renda o senhorio tem que possuir uma avaliação da habi- os senhorios que, porém, tação por parte das Finanças, realizada continuam na maioria sem há menos de três anos, e determinação declarar os rendimentos do nível de conservação. A comunicação às finanças deve conter um conjunto de elementos previstos na lei (como minutas). No ca- Raquel Mesquita so do nível de conservação da habitação Vânia Silva ser avaliada em mau ou péssimo, não pode haver actualização da renda. O arrendamento de quartos com más condições de habitabilidade e a preços A minha casa encontra–se em elevados é um dos problemas que os estu- mau estado de conservação. O se- dantes do ensino superior enfrentam nhorio é obrigado a realizar quando mudam para uma nova cidade. obras? Marco Veloso e Ana Teixeira responsá- Se for atribuído um nível de conserva- veis pelo Certificados de Habitabilidade ção mau ou péssimo à habitação, o in- da Associação Académica de Coimbra quilino pode intimar o senhorio à reali- (AAC) consideram que a relação entre zação de obras. Se o senhorio não as preço e qualidade das habitações de realizar, o inquilino pode tomar a inicia- Coimbra é equilibrada. Embora reconhe- tiva de realização das obras, solicitando çam que na Alta da cidade “as casas têm à câmara municipal a realização de menos condições e a preços mais caros” os obras coercivas. estudantes justificam a escolha desta zona pela proximidade às faculdades. O meu senhorio proíbe a entrada Os Certificados de Habitabilidade pre- de conhecidos meus, na minha ha- tendem ser uma mais–valia para os estu- bitação. Está a agir legalmente? Algumas das habitações mais degradadas encontram-se na alta de Coimbra Não. Os arrendatários não podem ser dantes que procuram casa. As habitações são visitadas por elementos da Direcção- proibidos de levar pessoas a sua casa. celebrar contratos nem emitir recibos, alerta, ainda, que os arrendatários e hós- –Geral da AAC e são classificadas numa porque tal também não é, muitas vezes, pedes não podem ser submetidos a quais- escala que vai de “muito bom” a “mau”, O senhorio é obrigado a fornecer- valorizado pelos arrendatários, que até quer acções por parte dos senhorios que –me o recibo de renda? tendo em conta parâmetros como a di- podem incluir esse tipo de despesas nas “visem o controlo ou vigilância dos seus mensão da divisão, o estado de conserva- Sim. O senhorio é obrigado a fornecer declarações de IRS. Segundo o chefe da movimentos”. recibo descriminado ao inquilino e a ção dos móveis e da própria habitação e as Divisão de Justiça Tributária da Direcção Caso o local arrendado apresente pro- condições de segurança. Se um estudante mostrar–lhe, quando solicitado, os de Finanças de Coimbra, Jaime Devesa, blemas em termos de qualidade de habi- comprovantes relativos às parcelas co- constatar que as condições encontradas os senhorios, apesar das acções de fiscali- tabilidade ou de saúde pública os estu- não correspondem às descritas no Certifi- bradas. O senhorio encontra–se ainda zação, “fogem ao fisco com a maior des- dantes “podem contactar os serviços mu- obrigado a pagar as taxas de interme- cado de Habitabilidade, podem dirigir–se contracção”. nicipais, o delegado de saúde ou a delega- à secretaria da AAC e apresentar queixa. diação e de administração imobiliária. Célia Maia, da Associação Portuguesa ção distrital da Inspecção–Geral das Acti- Muitos proprietários insistem em não para a Defesa dos Consumidores (DECO) vidades Económicas. Por João Miranda 1\\dUb^QdYfQcQ_QbbU^TQ]U^d_`bYfQT_ CÁTIA MONTEIRO Quem vem estudar para gestão do seu espaço. giosas e teve conhecimento deste tipo de João Pedro Porto, estudante de Filoso- alojamento através de amigas. “Ter que Coimbra não tem fia, já passou por duas residências uni- pagar água e luz à parte não compensa, e necessariamente de optar versitárias e está agora num dos blocos no lar não tenho a preocupação com as pelo arrendamento da Residência Universitária João Jacin- refeições”, diz a estudante. privado. Residências, to. “Quando entrei na universidade, a Cláudia Gameiro refere ainda não existir minha primeira opção foi ir para uma re- imposições para morar no lar, nem mes- lares, cooperativas sidência”. Como ponto positivo, João Pe- mo religiosas. O ambiente é familiar e e repúblicas são algumas dro destaca o bom ambiente que se vive existe uma carta de princípios, que esta- das alternativas na residência. Quanto a regras, apesar de belece as regras de funcionamento den- não haver restrições para a hora de en- tro do lar. “Não podemos fazer tudo o Raquel Mesquita trada ou saída, é proibida a dormida de que queremos, não entram rapazes e Vânia Silva pessoas que não estejam inscritas na re- mesmo a entrada de pessoas estranhas é sidência. “Não podemos cá deixar dor- controlada”. Jacqueline Ferreira vive na República mir nenhuma rapariga”, frisou. Existem As cooperativas são outra das opções. das Marias do Loureiro. A estudante de ainda questões hierárquicas que têm que Quando há vagas a entrada faz–se por Estudos Artísticos conta que a república ser respeitadas. “O delegado é sempre o concurso. Para concorrer é exigido a tem um ambiente familiar e destaca, co- porta–voz da residência”, explica o estu- apresentação da declaração do IRS, com- mo ponto forte, a união. “ Identifico–me dante. provativo da matrícula e recibos do ven- com os ideais, vivemos todas em famí- Já Cláudia Gameiro está num lar cató- cimento do agregado familiar. lia”. Nas tradicionais repúblicas de estu- lico com cerca de 50 estudantes. A aluna A única restrição nas cooperativas diz dantes, todos os residentes são respon- de Jornalismo da Universidade de Coim- respeito ao barulho (entre a meia–noite sáveis pelas tomadas de decisão e pela bra sempre frequentou instituições reli- e as nove da manhã é exigido silêncio).
    4. 4 A CABRA OPINIAO 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 Editorial 2_\\_^XQ^QE^YfUbcYTQTU Licenciados TU3_Y]RbQ na transição *João Pita, vice-presidente da DG/AAC e João Pena, coordenador do Pelouro da Pedagogia/Ligação aos Órgãos da DG/AAC Há um ano A CABRA dava notícia da preocu- O Processo de Bolonha pressupõe uma revolução do tem que ser no mínimo igual a metade das horas lecti- pação dos estudantes quanto à implementação paradigma de ensino, fundamentalmente no que diz vas. Por um lado, existe a sensação de que os estudan- do Processo de Bolonha. As dúvidas eram respeito à pedagogia. Reivindica a profunda alteração tes não aparecem durante as aulas guardando as dúvi- muitas e falava-se de uma falta de informação dos métodos de ensino, dos sistemas de avaliação, no das para a véspera dos exames; por outro lado, ainda se generalizada. Da parte da reitoria admitia-se sentido de uma maior responsabilização e autonomia assiste a falta de informação e de disponibilidade de do- que os erros iam ocorrer mas garantia-se que “a dos alunos e professores. centes em cumprir o seu horário, muitas vezes fruto da vontade e a formação dos estudantes seria Até há bem pouco tempo, a componente científica era desmotivação de não terem alunos durante semanas assegurada”. a que primeiramente interessava para a carreira de um consecutivas. Um ano decorreu e Bolonha passou a vigorar docente. A progressão deste dependia quase em exclu- São estes, a par de muitos outros, os desafios e os obs- em todos os cursos da Universidade de sivo da capacidade de investigação científica e da inves- táculos que a universidade enfrenta nestes primeiros Coimbra. Das várias faculdades chegam notícias tigação realizada, mesmo nas provas meses de funcionamento dos novos que não entusiasmam: serviços administrativos com carácter pedagógico, como a agre- cursos. sem resposta para as muitas dúvidas dos gação. Pouco ou nada se investia do Não esqueçamos que todas as trans- alunos; estudantes impedidos de, no acto da ponto de vista temporal e financeiro na “ O Processo formações se processam num contexto matrícula, se inscreverem às cadeiras que têm formação pedagógica de professores de desinvestimento governamental em atraso; turmas de vários anos a frequentar para o ensino superior. de Bolonha acentuado, para o sector do ensino su- as mesmas disciplinas; sobreposição de cadeiras Bolonha altera radicalmente esta si- perior. Uma transformação que foi no horário; salas lotadas com os alunos a tuação. Juntando a este facto as leis re- vai tornar premeditadamente adiada – e bem - sentarem-se no chão; alunos obrigados a aced- centemente publicadas, e ainda em re- mais claro para uma melhor implementação, não “ gulamentação sobre a avaliação e a está, assim, imune a problemas e a um Os estudantes Agência de Avaliação e Acreditação, fi- para todos a arranque com alguns solavancos. ca contemplado a avaliação pedagógica Com a perspectiva de que é fulcral mereciam ser tratados como pedra central do desempenho do diferença en- analisar e intervir ao longo deste pri- docente. Resta à nossa Universidade meiro ano de implementação de Bolo- de uma forma mais recuperar o tempo perdido. tre o bom nha, e não apenas criticar, a AAC vai condigna pela UC A uma Universidade de excelência a apresentar durante o mês de Outubro ” er a um segundo ciclo para concluir a formação; equivalências entre cadeiras que não têm que ver umas com as outras... A lista é extensa. nível europeu exige–se um rigoroso controle de qualidade científica e peda- gógica dos seus docentes. Os estudan- tes são o fim último da existência de universidades e sem eles a investigação e o mau pedagogo.” o Observatório do Processo de Bolo- nha da AAC que vai monitorizar e ana- lisar parâmetros concretos de questões pedagógicas, de avaliação e do esforço do estudante. A reitoria diz que “o cenário não é tão cata- como a conhecemos não existiria. O Este observatório tem como objecti- strófico como se afirma” e que “este ano é de Processo de Bolonha vai tornar mais vo verificar a desejada e pretendida transição”. A verdade é que os estudantes que claro para todos a diferença entre o bom e o mau peda- implementação de novos métodos de ensino na Univer- apanharam o processo estão a ser prejudicados gogo, entre o professor dedicado e os restantes. Quando sidade e aferir a relação esforço teórico/esforço na prá- e vão sair prejudicados, quando se garantiu que se exige dos alunos um maior trabalho tenhamos a tica, para o estudante, que o sistema de créditos ECTS, nunca o seriam. Na maior parte dos casos, consciência colectiva para perceber que muito desta para cada cadeira e em cada curso, pretende tornar con- Bolonha correspondeu apenas a um encurtar da mudança depende dos docentes. sequente. Sem a participação construtiva da comunida- licenciatura, de quatro para três anos, fazendo A Universidade de Coimbra tem hoje inúmeros desa- de estudantil neste esforço de equilibrar e tornar mais uma mistura de cadeiras de um e outro ano, fios a cumprir. Desde logo, no que diz respeito à melho- eficiente a implementação do Processo de Bolonha, es- com critérios pedagógicos duvidosos. É assim ria do acompanhamento não–presencial (tutoriado) te dificilmente se materializará em melhorias no ensino que um aluno que tenha apanhado a reforma a que se torna impraticável com base nos actuais rácios da Universidade de Coimbra. meio do curso sai licenciado por Bolonha. Todos professor/estudante recomendados pelo Observatório Falamos de uma participação, é importante repeti–lo, sabem que é um ano de transição mas os estu- da Ciência e do Ensino Superior que contemplam valo- que é dificultada pela degradação da representação de dantes mereciam ser tratados de uma forma res até aos 1/30 (um professor para 30 alunos). Contu- estudantes nas estruturas de governo da Universidade, mais condigna pela instituição que os recebeu e do, não podemos fazer uma efectiva mudança dos hábi- fruto da aprovação do novo Regime Jurídico para as que há partida lhes garantiu uma formação de tos instituídos sem uma maior proximidade e acompa- Instituições de Ensino Superior, pelo Governo e pela qualidade. nhamento entre alunos e docentes. Assembleia da República. Conhecem–se hoje as fragilidades do funcionamento É, ainda assim, uma responsabilidade que os estudan- Helder Almeida do horário de atendimento dos docentes, que por lei tes devem assumir e que a AAC assume. Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Director Helder Almeida Chefe de Redacção Rui Antunes Editores: Cátia Monteiro (Fotografia), François Fernandes (Ensino Superior), Raquel Carvalho (Nacional), Rui Antunes (Internacional), João Miranda (Ciência), Patrícia Costa (Desporto), Martha Mendes (Cultura), Ângela Monteiro (Media), Carla Santos (Viagens) Secretária de Redacção Adelaide Baptista Paginação François Fernandes, Rui Antunes, Salvador Cerqueira, Sofia Piçarra Redacção Ana Bela Ferreira, Ana Filipa Oliveira, Ana Margarida Gomes, Ana Raquel Melo, Cláudia Teixeira, Diana do Mar, Eunice Oliveira, Filipa Faria, Joana Gante, João Pimenta, Liliana Figueira, Marta Campos, Marta Costa, Pedro Secção de Jornalismo, Crisóstomo, Raquel Mesquita, Sandra Camelo, Sara Simões, Soraia Manuel Ramos,Tânia Ramalho, Wnurinham Silva Fotografia Carine Pimenta, Carolina Sá, Catarina Silva, Associação Académica de Coimbra, Cláudia Teixeira, Daniel Palos, Fábio Teixeira, Fausto Moreira, Filipa Faria, José Marques, Liliana Lago, Martha Morais, Mónica Pópulo, Tiago Lino Ilustração José Miguel Rua Padre António Vieira, Pereira, Rafael Antunes Colaboradores permanentes Andreia Ferreira, André Tejo, Cláudia Morais, Emanuel Botelho, Fernando Oliveira, Laura CazabanRafael Fernandes, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 Raphaël Jerónimo, Rui Craveirinha, Vitor André Mesquita Colaboraram nesta edição Alexandre Oliveira, Carla São Miguel, Carolina Sá, Cátia Sousa Catarina Domingos, e-mail: acabra@gmail.com Catarina Fonseca, Diana Silva, Emanuela Gomes, Jennifer Lopes, Marco Roque, Nuno Braga, Pedro Cunha, Rita Matos, Saimon Morais, Sarah Halls, Susana Ramos, Tânia Mateus, Vânia Silva Publicidade Sofia Piçarra - 239821554; 913009117 Impressão CIC - CORAZE, Oliveira de Azeméis, Telefone. 256661460, Fax: 256673861, e-mail: grafica@coraze.com Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra
    5. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira ENSINO SUPERIOR A CABRA 5 Processo de Bolonha >_f_Q^_^_fQcVQ\\XQc D. R. A impossibilidade de uma avaliação contínua e o excesso de alunos são alguns dos problemas detectados na transição para Bolonha Pedro Cunha Adelaide Ferreira Cláudia Teixeira À excepção dos cursos de Informática e de Psicologia, onde o Processo de Bolonha já vigorou durante o ano passado, foi no actual ano lectivo que o novo sistema se generali- zou pela Universidade de Coimbra (UC). A transição não tem sido fácil e várias são as complicações que os alunos enfrentam. Direito foi um dos cursos mais problemá- ticos. O presidente do Núcleo de Estudantes de Direito (NED/AAC), Tiago Lavoura, che- ga mesmo a afirmar que “a faculdade vive tempos conturbados e de grande polémica”. O dirigente associativo explica que “o esta- do da situação dos serviços administrativos centrais e da faculdade é caótico, havendo uma total descoordenação entre si”. Os alunos não encontram resposta para Uma vez mais o Processo de Bolonha é alvo de fortes críticas da parte dos estudantes muitas das questões colocadas, queixando- –se da “falta de decisão por parte dos ór- bilidade dos discentes terem que fazer “du- pondentes, “há turmas de vários anos a fre- a formação completa”. O curso de Sociolo- gãos competentes”, denuncia Tiago Lavou- rante dois anos aquilo que deveria ser feito quentar as mesmas cadeiras, tornando as gia dá a oportunidade aos alunos de acaba- ra. Uma das principais reclamações prende- em apenas um”. turmas muito numerosas, dificultando a rem a licenciatura pelo plano antigo de en- –se com o facto de os estudantes se verem aprendizagem em termos de experiência sino, mas o dirigente associativo denuncia impedidos, no acto de matrícula, de se ins- Salas lotadas prática”, afirma o dirigente associativo. Co- que “quem opte por acabar o curso pelo pla- creverem às cadeiras que têm em atraso por indignam estudantes mo consequência é frequente as salas esta- no antigo acaba por sair prejudicado, limi- ultrapassarem os créditos que lhes são per- O presidente do Núcleo de Estudantes da rem constantemente lotadas, o que obriga tando–se apenas a fazer exames ou fre- mitidos fazer num ano lectivo. A conjuntura Faculdade de Letras da UC, Nuno Almeida, os alunos muitas vezes a sentarem–se no quências já que não serão leccionadas as complica–se no caso dos alunos do quarto fala de várias anomalias na implementação chão. respectivas cadeiras”. Os Menores (cadeira ano, uma vez que “foi determinado que o do Processo de Bolonha. “Os atrasos na ela- O mesmo problema repete–se na Faculda- complementar que pertence a uma licencia- aluno só poderia fazer a inscrição a 60 cré- boração da tabela final de equivalências le- de de Economia da Universidade de Coim- tura diferente daquela que se frequenta), ditos, apesar de no quarto ano da licenciatu- varam a atrasos significativos no processo bra (FEUC). O presidente do Núcleo de Es- visto como uma mais–valia do Processo de ra o valor global de créditos das disciplinas de matrículas”, explica. Devido ao facto das tudantes de Economia, Alexandre Leal, Bolonha, não vão funcionar este ano lectivo obrigatórias ser de 66 créditos”, alerta Tia- equivalências das unidades curriculares do alerta para o “número elevado de discipli- na FEUC. Consequentemente, “quem está go Lavoura. O presidente do NED/AAC plano anterior terem sido dadas a novas nas opcionais disponível para escolha, que no plano de transição e que passe automati- mostra–se indignado ao equacionar a possi- unidades curriculares de anos não corres- fez com que não fosse possível prever as ins- camente para Bolonha não terá acesso aos crições nessas mesmas disciplinas”. Isto le- mesmos”, afirma Miguel Violante. A sobre- Bolonha noutras Universidades va a que haja demasiados estudantes inscri- posição de cadeiras no horário faz com que tos nas cadeiras, originando, mais uma vez, haja alunos com duas aulas a decorrer em dificuldades em praticar o regime de avalia- simultâneo, não reunindo portanto condi- Foi no actual ano lectivo que Bolonha chegou a todo o País. A Universidade de Coim- ção contínua, subjacente ao Processo de Bo- ções para aceder a avaliação contínua. Os bra tem enfrentado algumas dificuldades na transição para este plano, mas não é um lonha. No entanto, o dirigente associativo estudantes com cadeiras sobrepostas vêem- caso isolado. Na Universidade da Beira Interior a adaptação para o Processo de Bolo- salienta “a adesão muito positiva dos estu- –se obrigados a seguir um regime de avalia- nha foi “acima de tudo confusa”, conta o presidente da Associação Académica da Uni- dantes à necessidade de uma maior presen- ção final. Esta é uma realidade vivida nas versidade da Beira Interior, Fernando Jesus. O dirigente associativo explica que esta ça nas aulas, bem como a um regime de ava- diferentes faculdades e departamentos da realidade deve–se ao facto de haver uma reestruturação feita “em cima do joelho”, on- liação contínua que prevê um peso cada vez UC. de os cursos foram basicamente “comprimidos de 5 para 3 anos, retirando–se apenas menor do exame final”. A reitoria, no entanto desdramatiza a si- algumas cadeiras consideradas menos importantes”, denuncia. Fernando Jesus afir- O curso de Sociologia, da FEUC apresenta tuação. Segundo a vice–reitora, Cristina ma que “os cursos que mais problemas apresentaram na transição para Bolonha fo- igualmente várias complicações. O presi- Robalo Cordeiro, “o cenário não é tão catas- ram os da área das engenharias, em que o facto de os mestrados não serem integra- dente do Núcleo de Estudantes da Sociolo- trófico como se diz”, e justifica os proble- dos, foi uma fonte de preocupação devido à acreditação da Ordem dos Engenheiros”. gia, Miguel Violante, explica que “a introdu- mas vividos em algumas faculdades com o O presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro, Luís Ricardo Fer- ção do primeiro ciclo de três anos faz com facto deste ser “um ano de transição”. “Exis- reira, conta que “a adequação dos planos de estudo ao novo paradigma de ensino- que os estudantes tenham de aceder a um tem comissões de acompanhamento do pro- –aprendizagem foi feita de forma cuidada por cada comissão de curso, envolvendo os segundo ciclo para concluir a sua forma- cesso em cada uma das faculdades para ten- alunos nesta discussão”. O presidente defende que “o incremento de avaliação contí- ção”. Tendo em conta que um mestrado de tar remediar aquilo que for possível e criar nua, como método preferencial de auscultação e monitorização do aproveitamento segundo ciclo tem propinas com valores va- novas condições”, afirma Robalo Cordeiro. dos alunos de cada curso, é uma prioridade há muito assumida”. Luís Ricardo Ferrei- riantes, atingindo no máximo os 3000 eu- Apesar de tudo a vice–reitora considera que ra afirma ainda que no que diz respeito à transição curricular, “os serviços académi- ros, o presidente conclui que “um estudante “de uma maneira geral as coisas estão a cor- cos e administrativos corresponderam razoavelmente”. tem que pagar ainda mais para poder obter rer razoavelmente”.
    6. 6 A CABRA ENSINO SUPERIOR 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 =eTQ]cU _c dU]`_c C_\\eÌÈ_`QbSYQ\\ ]eTQcU _ SØTYW_ `QbQ`b_R\\U]Q O novo código da praxe FÁBIO TEIXEIRA ]QY_b está em vigor desde o dia 7 de Setembro e traz Soraia Manuel Ramos mudanças que o adequam ao Processo de Bolonha A moção que regulamenta a figura do Catarina Domingos estudante a tempo parcial foi aprovada Catarina Fonseca a 12 de Setembro, pelo Senado da Uni- versidade de Coimbra (UC). O novo re- A reestruturação curricular que o Proces- gime permite a todos os alunos inscre- so de Bolonha impôs trouxe também impli- verem–se apenas em algumas cadeiras cações nas normas praxísticas da academia (as quais correspondam no máximo a de Coimbra. As alterações mais significati- metade dos créditos que o regime de es- vas verificam–se na hierarquia, no calendá- tudantes a tempo integral comporta). rio dos eventos académicos, no modo de Outra das novidades da moção apro- agir das trupes e no traje feminino. vada visa permitir aos alunos o requeri- O Dux Veteranorum, João Luís Jesus, es- mento do estatuto de Estudante a Tem- clarece que os princípios orientadores para po Parcial de uma forma retroactiva, a elaboração do novo código da praxe pas- para os dois últimos anos lectivos. To- saram por “manter inalterada a identidade davia, de acordo com a moção do Esta- tradicional da Universidade de Coimbra do, esta só pode ser aplicada aos estu- (UC) e todo o seu significado”, acrescentan- dantes que “em cada um dos últimos do ainda que “tudo o que existe na praxe dois anos lectivos não tenham obtido tem que ter raízes no passado”. aproveitamento a mais de metade do Com a redução do número de anos das li- número de créditos”. cenciaturas e a criação do segundo ciclo, tí- “Esta pode ser a solução ideal para fu- Proibição do colete feminino é a alteração mais polémica do novo código da praxe tulos como “quartanista” e “quintanista” gir às prescrições”, confessa Ana Silva. desaparecem, enquanto que as categorias segundo ciclo, não estão em condições de estar interdita, depois de, na edição do có- A estudante, que trabalha em part–ti- “caloiro”, “semi–puto”, “puto” e “veterano” terminar o curso. Por último, aparece o es- digo de 2001, o seu uso ter sido facultativo. me, não pode ir a todas as aulas e reve- se mantêm. Agora, os estudantes do pri- tatuto de “veterano”, para os estudantes “Não foi uma proibição ao acaso”, justifica la que vai a passar a dedicar–se “em meiro ciclo que tenham o mesmo número nacionais que tenham um número de ma- o presidente do Conselho de Veteranos. “O pleno a apenas três ou quatro cadeiras”. de matrículas que a duração do curso que trículas igual ou superior ao total previsto colete era opcional e não obrigatório como Para aderir ao novo regime Ana Silva frequentam, passam a ser designados “can- incluindo o segundo ciclo e que tenham as lojas quiseram mostrar, impingindo a está a preparar o requerimento ao Rei- deeiros”. Segue–se a categoria de “bacha- usado insígnias pessoais. peça. Optou–se pela uniformização”. tor, que tem como limite de entrega o rel” que se atribui aos alunos que tenham Verificam–se igualmente alterações no A polémica gerada em torno desta decisão próximo dia 31. mais matrículas do que as necessárias para calendário dos eventos tradicionais que re- tem sido grande e admite–se a hipótese de O regime é uma hipótese legal, con- completar o primeiro ciclo. “Novato” é o es- sultam da nova hierarquia. Desde a Latada apresentar abaixos–assinados ou moções. templada também na lei de financia- tudante que se matricula pela primeira vez até à Queima das Fitas usa–se o grelo na “Há a possibilidade de fazer circular um mento, quando se refere o número má- no segundo ciclo e que não possui nenhu- pasta (candeeiro grelado), a partir do Cor- abaixo–assinado não só na Faculdade de ximo de matrículas que um estudante ma matrícula na UC. Os alunos que estão tejo da Queima usam–se as fitas durante Psicologia, mas também nas outras facul- pode ter sem prescrever. Como cada inscritos pela primeira vez no segundo ciclo três semanas (candeeiro fitado). “Foi tudo dades, mas não é nada oficial”, revela Ale- ano lectivo de um aluno a tempo parcial e que não são “Novatos” adquirem o título condensado num ano”, sintetiza o Dux. xandre Almeida, do Núcleo de Estudantes equivale a meia matrícula esta pode ser de “bolognez”. Criou–se também o grau de “Só existem dois eventos vocacionados pa- de Psicologia e Ciências da Educação. vista como uma solução alternativa pa- “marquez” para os estudantes que, por te- ra os grelados (Queima do Grelo e o Corte- O membro do Conselho de Veteranos, Vitor ra evitar a prescrição. rem sido caloiros estrangeiros ou novatos, jo), os outros são para fitados. Se o Cortejo Ferreira, confidencia que “o único ponto a Rui Santos, um aluno de Economia não podem passar à categoria de veteranos. continuasse a meio da Queima metade das ser votado por unanimidade foi o da proibi- em risco de prescrever, que fez a época Ou aqueles que, tendo duas matrículas no cerimónias tradicionais não se realizariam ção do colete feminino”, acrescentando que de especial de exames em Setembro, e haveria um acumular de actividades”, “quando um ponto é aclamado por unani- considera que “o regime de prescrições continua. Assim, o Cortejo vai ser antecipa- midade é muito difícil haver revisão”. é injusto e peca pela falta de informa- Das “investidas” à praxe do para domingo, o que para a comunidade ção”. No entanto, compreende que “não estudantil “foi o maior choque”, revela João Balanço final há espaço nem condições para todos na Até ao século XVIII as praxes eram co- Universidade de Coimbra”. No que toca Luís. É de assinalar a criação de um quarto A discussão do documento começou em nhecidas como “investidas” e eram ao novo regime considera que “a ideia é período de praxe, que vai desde o Cortejo Outubro de 2006 e prolongou–se durante marcadas pela violência para com os ca- boa, pouco original, mas possivelmente até à Bênção das Pastas, que se realiza três dez meses. O Conselho esteve aberto a su- loiros, na altura chamados “novatos”. a única solução para quem não quer a quatro semanas depois. gestões, mas, segundo João Luís Jesus, Por isso, o rei D. João V proibiu qual- prescrever”. O modo de agir das trupes vai agora obe- houve muito poucas. Para o processo foi quer ritual praxístico. Já no século XIX, Por parte da universidade, a vice–rei- decer a uma maior regulamentação, dado criada uma Comissão constituída por nove deixa de se falar em “investidas” e pas- tora Cristina Robalo Cordeiro defende que é obrigatório o preenchimento de um pessoas: veteranos, antigos estudantes e sam–se a usar os termos “caçoadas”. que este é um regime vantajoso porque documento, denominado “Sanctionatis Do- “pessoas com diferentes ideias sobre a pra- Durante a I República a praxe quase de- “permite aos alunos ter menos cadei- cumentum”, que permitirá uma maior res- xe”. Esta Comissão apresentou propostas sapareceu. As práticas renascem em ras, menos carga horária e pagar ape- ponsabilização dos infractores. “Aprovei- ao Conselho de Veteranos, constituído por 1919 e voltam a ser abolidas em 1969 nas 70 por cento da propina ou o valor tou–se a revisão do código para acrescentar 55 pessoas votou o documento final a 26 de com a crise académica. Com o 25 de da propina mínima”. algumas coisas, de modo a possibilitar um Julho de 2007. Abril, a praxe é retomada e o código que A vice–reitora da UC, salienta ainda maior controlo”, explica o Dux. O Conselho de Veteranos mostra–se ain- havia sido lançado em 1957 foi sendo que esta nova figura de estudante a da disponível para esclarecer qualquer tipo actualizado. Uma revisão mais profun- tempo parcial “torna os alunos mais O colete proibido de dúvidas. da levou à edição do código de 1993.As responsáveis e conscientes das suas Outra das novidades apresentadas é a O Dux revela estar satisfeito com o resul- duas últimas revisões datam de 2001 e possibilidades e do contexto em que es- proibição do uso do colete no traje femini- tado final, “acho que se conseguiu fazer al- 2007. tão a estudar”. no. A peça de vestuário académico passa a go de positivo e que vai revitalizar a praxe”.
    7. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira PAGINA A CABRA 7 ?`bY^SÒ`Y_T_VY] CUSÌÈ_TU6edUR_\\ D.R. A verdadeira “Briosa” “Briosa” desde o “Tempo de Coimbra”, uma honrada crónica de António Cabral sobre a vida coimbrã. A mais antiga Secção Desportiva da Associação Académica de Coimbra (AAC) foi fundada a 11 de Novembro de 1887. A Académica jogou no campo da Ínsua dos Bentos, mas fez-se no Santa Cruz. O está- dio foi obra do trabalho de cooperação estudantil. Só no primeiro encontro oficial, na época 1922/23, é que os estudantes venceram. 3-0 foi o resultado ante o Moderno, para o Campeonato de Coimbra. O símbolo máximo da sintonia existente entre a Universidade de Coimbra e o desporto académico deu-se em 68/69, quando os estudantes envergaram faixas de contestação ao regime político vigente, na final do Jamor. A AAC perdeu o jogo por 2-1 contra o Benfica, mas a situação ficou distintamente marcada. Mas, antes disso, o palmarés da Académica conta com uma Taça de Portugal, conquis- tada em 1939 precisamente ao clube da Luz, por 4-3. Como um dos “históricos” do futebol nacional, a “equipa do Mondego” obteve um segundo lugar no Campeonato Nacional em 66/67. Foi campeã da II Divisão Nacional em 48/49, 72/73 e pas- ?edeRb_ sou, memoravelmente, pelos quartos-de- Até 1992 a frequência no ensino superior custava apenas 1200$00 (5.99€). final da Taça das Taças, em 69/70. Contudo, o último governo de Cavaco Silva decidiu aumentar o montante para Contudo, em 1974, a Academia cessou o uma média nacional de 55.000$00 (274.34€), prevendo uma atualização pro- futebol profissional, devido ao luto !))\" gressiva. “Make love not propinas”, “O meu pai não paga” ou “não Pagamos!” foram algumas das palavras do descontentamento da Academia. académico decretado pela DG/AAC. Surgiu, entretanto, o Clube Académico de Coimbra (CAC) que, apesar de nome e sím- bolo diferentes, alcançou a notoriedade da História extinta Académica, na 1ª Divisão. Em 1984 foi criado o Organismo Autónomo de 113*XÆ$&Q^_c^QBeQ@QTbU1^dØ^Y_FYUYbQ Futebol, a Académica/OAF, numa tentati- va de reaproximação à casa-mãe, desta vez já com o mesmo nome e símbolo. Considerado um emblema molido”, explica o arquitecto José António nifica obra de arquitectura que é o edifício Presentemente, a Secção de Futebol da Bandeirinha. está hoje escondida por uma grande polui- AAC milita na 1ª Divisão de Honra da da cidade, o edifício da Optou–se por construir um edifício admi- ção visual”. O edifício tem sido alterado “de Associação de Futebol de Coimbra. O AAC tem vindo a deteriorar- nistrativo e cultural – o edifício das secções forma quase irreversível devido às peque- plantel joga no Estádio Universitário, mas se, perdendo muitas das - , e o Estádio Universitário de Coimbra pa- nas obras de transformação que foram des- espera voltar, em 2009, aos campos do suas características iniciais ra abrigar as secções desportivas. Na opi- truindo o espaço”. Segundo o arquitecto, Santa Cruz. nião do arquitecto, o complexo da AAC, “alterar o edifício da maneira como se alte- O guarda-redes e vice-presidente da Adelaide Baptista constituído pelas cantinas, pelo Teatro Aca- rou equivale a mexer numa construção me- secção, Pedro Bento, defende que se “man- démico Gil Vicente (TAGV) e pelo edifício dieval ”. tém os princípios básicos que vigoravam O edifício da Associação Académica de das secções, é um “projecto muito inteli- Quanto à ideia que existe de que o edifício antes da separação”. Segundo o guardião, Coimbra (AAC) nasceu em 1961 pelas mãos gente pois cria módulos que têm alguma da AAC tem a marca da escola alemã “a comunidade estudantil desconhece dos arquitectos Alberto Pessoa e João Abel maleabilidade, tem um rigor e qualidade de Bauhaus, Bandeirinha afirma que “apenas muitas vezes a secção de futebol, pelo Manta. A ideia surgiu em 1954 “na sequên- acabamentos excepcional para a época, ha- de forma muito remota é que se poderia di- mediatismodo OAF”, lamenta. cia das obras da alta universitária, pois era vendo uma simbiose perfeita entre a arqui- zer que a construção é daquele movimento. necessário reinstalar a AAC cujo edifício- tectura e as artes plásticas presente nos pai- No entanto, o arquitecto sublinha que esta Por Patrícia Costa –sede, o Palácio dos Grilos, tinha sido de- néis de azulejos e no jardim”. obra “se estivesse em bom estado seria re- Porém, Bandeirinha admite que “a mag- conhecida em todo o mundo”. PUBLICIDADE
    8. 8 A CABRA CIDADE 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 BU3_^XUSUb3_Y]RbQ Dinamizar a actividade turística de Coimbra a nível nacional e internacional é NUNO BRAGA 3 respostas de... o objectivo da recentemente criada Turismo Coimbra – Empresa Municipal Carlos Encarnação Presidente da C. M. de Coimbra Nuno Braga 1 Liliana Figueira O que é que Coimbra Ângela Monteiro tem de melhor e de pior? A Turismo Coimbra – Empresa Muni- De melhor, uma quali- cipal (TC) resultou da necessidade de fa- dade de vida acima da mé- cilitar a criação de parcerias com priva- dia, do ponto de vista geral. Penso que tem índices de qualidade de vida muito dos de modo a fomentar a realização de superiores em relação à maior parte eventos culturais na cidade dos estu- das cidades. De pior, um grande desre- dantes, que envolvam tanto o município gulamento em várias áreas da cidade, como entidades privadas. uma grande confusão, como em Santa Apesar de já haver empresas interessa- Clara e S. Martinho do Bispo. Há vários desregulamentos do ponto de vista ur- das na iniciativa, o presidente da Câma- banístico, na cidade. ra Municipal de Coimbra, Carlos Encar- 2 nação, não adianta nomes, remetendo Consegue imaginar a Luís Alcoforado pretende redefinir a imagem de Coimbra no estrangeiro cidade sem a para a TC, fundada em Fevereiro passa- Universidade? do, a tarefa de captar os investimentos e de de Coimbra”. O “circuito dos presépios” é a primei- Dificilmente. A História definir os projectos a realizar. Para tal, A remodelação do convento de S. Fran- ra de uma série de actividades, a cargo da cidade e da universidade está prevista uma revisão dos estatutos cisco, futuro centro de congressos, e o da TC que, em Dezembro, vai levar os estão interligadas, “a marca com vista a possibilitar a entrada de ca- Coimbra” está tão ligada a aumento do número de visitas guiadas, turistas e os conimbricenses a conhece- uma coisa e a outra que é difícil prever pitais privados, que encontram no po- por dia, à Universidade de Coimbra rem o património da cidade. a sua dissolução. Tenho dito muito ve- tencial turístico de Coimbra uma opor- (UC) são outras das prioridades assumi- Também o fado, a guitarra e os mitos zes que, no fundo, Coimbra é o resulta- tunidade de investimento. Carlos En- das pela empresa. O presidente avança femininos, Rainha Santa Isabel e Inês do concreto de duas irmãs siamesas, ci- carnação confirma que “nesta altura, a ainda que a reitoria “espera fechar o ano de Castro, são peças fundamentais da dade e universidade, ligadas por um co- empresa é unicamente pública mas o ração comum. Se uma morrer, a outra com 180 mil entradas pagas na Univer- cultura de Coimbra que a TC pretende também morre. objectivo é que se transforme breve- sidade”, sem contar com os convites da revalorizar. 3 mente numa empresa de capitais públi- comunidade académica e os participan- Luís Alcoforado salienta a necessidade Um café, um bom lugar cos com a participação de capitais priva- tes nos congressos organizados pela UC. de investir na publicidade além frontei- para ler e uma rua de dos”. eleição em Coimbra. “Temos números muito interessantes ras. Assim, no primeiro trimestre de O melhor café da cida- Uma das apostas fortes da TC é a cria- que estão ao nível de qualquer museu 2008, a Turismo Coimbra – Empresa ção de um sítio informativo sobre a ci- de é aquele onde vou todos nacional”, conclui. Municipal vai apostar fortemente no os sábados de manhã, dade e os locais de maior interesse. O Tendo em conta que Coimbra é uma mercado espanhol, com especial inci- presidente da empresa municipal de tu- quando posso, um barzinho cidade cujas características estão suba- dência na televisão. junto ao rio no Parque Dr. rismo, Luís Alcoforado, classifica o por- proveitadas, há que começar a “marcar Alcoforado remata: “mais importante tal como “uma espécie de posto de turis- Manuel Braga. Lá posso estar sossega- encontro com a História, a cultura e a que dizer que Coimbra é a cidade do co- do, sozinho, a ler os jornais. A rua de mo virtual para que as pessoas, em qual- arte da cidade”, criando “alguns eventos nhecimento, devia ser que Coimbra é a quer ponto do mundo, possam preparar eleição será certamente na Baixa, as de realização temporal fixa na época cidade onde o conhecimento está ao al- ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges. as suas visitas antes de chegarem à cida- baixa”, sublinha Alcoforado. cance de todos”. Martha Mendes =_^TUW_ÅUc`UbQTUTUcQcc_bUQ]U^d_ Perante a acumulação problema, Renato Ladeiro, da Odabarca gue “perceber o porquê desta demora”, afirma que, nesse cenário, “a câmara Animação Turística, afirma que “o pro- mas adianta que “o concurso vai ser fei- pode tomar as providências todas, mas de areia no leito blema persiste há 10 anos”. Ladeiro to este ano para a obra ser executada o desassoreamento do rio ainda não foi do rio Mondego, constata que, “se a ponte Rainha Santa em 2008”. feito. As consequências podem surgir e prevêem–se Isabel não existisse, o assoreamento A autarquia impõe algumas condições apenas serem minoradas”. consequências e não seria um problema porque a areia à entidade que ficar encarregue pelo de- João Rebelo garante que “a Câmara su- seria arrastada”. sassoreamento do Mondego: “a extrac- geriu ao INAG a futura venda da areia adiam–se soluções para O vice–presidente da Câmara Munici- ção deve ser feita sob a água do rio e não extraída e a aplicação do dinheiro na re- manter a navegabilidade pal de Coimbra (CMC), João Rebelo, apenas com um pequeno curso de qualificação dos paredões”. No entanto, atribui a responsabilidade ao Instituto água”, porque isso “privaria a cidade de o vice–presidente lamenta que “não se- Filipa Faria da Água (INAG) por “nunca ter intervi- Coimbra de um verão com desportos ja essa a ideia do instituto”. do como devia, e não ter feito o desasso- náuticos e navegação turística”. O Instituto da Água, aquando contacta- O Mondego é cada vez mais um rio de reamento do rio nos pontos mais signi- Renato Ladeiro alerta que “no Inver- do por A CABRA, remeteu a responsabi- areia. As consequências são várias e vão ficativos”. no o caudal do Mondego é elevado e a lidade do projecto de desassoreamento desde a redução do percurso náutico do João Rebelo revela que a única coisa corrente tem mais força e, devido à acu- à Comissão de Coordenação e Desen- Basófias às inundações num Inverno que a CMC pode fazer “é exercer pres- mulação de areia, há tendência para o volvimento Regional do Centro, da qual chuvoso. são sobre o INAG para resolver essa rio encher”. O nível das águas sobe e os não obtivemos qualquer resposta até ao Entre as causas apontadas para este questão”. O vice–presidente não conse- estragos são uma possibilidade. Rebelo fecho da edição.
    9. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira NACIONAL A CABRA 9 @_bdeW0\\\" *]QYcdUS^_\\_WYQ]U^_cReb_SbQSYQ CAROLINA SÁ Portugal na fila da frente dos serviços públicos digitais Plano Tecnológico básicas da população e investir na capaci- este fim. O serviço online de emprego (Ne- vigilância sobre a nossa actividade e sobre tação dos serviços públicos”, conclui a temprego), que conta com mais de 400 mil a nossa esfera privada”. O sociólogo afirma português possibilita uma doutoranda em “Governação, Conheci- currículos online; a compra do selo para o ainda que “a componente electrónica não é participação mais activa mento e Inovação”. automóvel; e a Empresa na Hora, são ou- um fim em si mesmo, mas um meio”, aler- dos cidadãos através Uma das empresas que mais coopera tros projectos que registam grande adesão. tando para “a necessidade de medidas de serviços públicos com o sector público português é a Critical Além disso, as estratégias de governação complementares, que devem ser articula- Sotfware, cujo “volume de negócios tem electrónica têm contribuído para uma das com a disponibilização de meios infor- via electrónica vindo a crescer cerca de 100 por cento nes- maior transparência dos processos políti- máticos de forma a colmatar a infoexclu- sa área”, afirma o “Business Development cos e uma participação mais activa dos ci- são”. Raquel Carvalho Manager”, Filipe Freitas. A empresa pre- dadãos. Empresas como a Critical Softwa- Tendo em conta as limitações ainda exis- Ana Raquel Melo tende tornar o serviço público mais efi- re estão a trabalhar na perspectiva de dar tentes, Graça Simões da Agência para a So- Joana Mendes ciente e mais próximo dos cidadãos portu- mobilidade aos processos eleitorais, per- ciedade do Conhecimento, afirma que gueses, operando em áreas como a admi- mitindo que uma pessoa vote em qualquer “uma das prioridades é adequar todos os Portugal é o terceiro melhor país europeu nistração interna, a justiça ou a segurança lugar. “O voto electrónico é uma forma de sites da administração pública central aos na disponibilidade de serviços públicos social. Além disso, “a Critical Software vi- simplificar a vida e de combater a absten- cidadãos com necessidades especiais e ido- online (ver gráfico) e o quarto a nível de sa ultrapassar o espaço português, desen- ção eleitoral”, considera a socióloga Fáti- sos, até ao final deste ano”. Nesse sentido, sofisticação. Este é o resultado de um estu- volvendo plataformas que permitem facili- ma Fonseca. “o governo português pretende apostar do promovido pela Comissão Europeia, tar a comunicação entre os Estados euro- Por outro lado, o investigador do Centro numa massificação da utilização de com- que analisou os serviços públicos online peus”, acrescenta Filipe Freitas. de Estudos Sociais, Elísio Estanque, con- putadores e da Internet de banda larga, oferecidos pelos 27 Estados–membros da Ainda ao nível da relação entre os Esta- corda que “ os meios electrónicos podem bem como na aquisição de competências União Europeia. dos, o Gabinete do Coordenador da Estra- ser úteis para possibilitar uma maior básicas em Tecnologias da Informação e A publicação do Diário da República na tégia de Lisboa e do Plano Tecnológico re- transparência e mobilização dos cida- Comunicação pela população”, acrescenta Internet a custo zero, o Portal do Cidadão fere o Passaporte Electrónico como “um dãos”, mas lembra que “esses meios po- o gabinete do Coordenador do Plano Tec- e o Portal da Empresa são alguns dos pro- exemplo inovador numa nova lógica de dem ter implicações ao nível de uma maior nológico. jectos de maior impacto junto da popula- reorganização dos serviços públicos”. ção e que explicam os resultados obtidos por Portugal. Serviço público aproxima–se Segundo o membro da Agência para a So- dos cidadãos ciedade do Conhecimento, Graça Simões, A disponibilização de serviços públicos INFOGRAFI A: RUI ANTUNES /FONTE:COMISSÃO EUROPEIA o Portal da Empresa é “uma das iniciativas online tem contribuído não só para uma mais inovadoras a nível nacional e interna- maior aproximação entre os Estados, mas cional, dada a possibilidade de criar uma também entre o cidadão e o seu governo. empresa online, com custos e burocracia De acordo com o Gabinete do Coordena- mais reduzidos”. Por sua vez, a socióloga dor do Plano Tecnológico, “o relaciona- Fátima Fonseca sublinha a importância do mento dos cidadãos e também das empre- Portal do Cidadão, porque “a organização sas com a administração pública tem vindo dos serviços é feita em função das necessi- a mudar”. Exemplo disso é que em 2007, dades das pessoas e não em função da es- pela primeira vez, o número de declara- trutura orgânica da administração públi- ções fiscais electrónicas ultrapassou as que ca”. Esta é precisamente a base do governo foram entregues em papel, cerca de 3 mi- electrónico: “identificar as necessidades lhões de pessoas usaram a Internet para
    10. 10 A CABRA INTERNACIONAL 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 Birmânia ?edbQc E]`QÒcÅUc`UbQTQTU]_SbQSYQ bUcYcdÏ^SYQc `QSÒVYSQc Após 19 anos de silêncio, mia da Universidade de Coimbra, Rogério nos assuntos internos de outros países”. Leitão, considera que “esta é uma situa- No entanto, o investigador defende que a população birmanesa ção diferente que abre perspectivas para “os dois países são cada vez mais impor- voltou a sair à rua em finalmente [o país] chegar a um processo tantes do ponto de vista da política inter- protesto contra o regime de democratização”. Também Capoulas nacional. Desta forma, “é inevitável que ditatorial. Analistas Santos acredita na queda do actual regi- essas responsabilidades sejam trazidas me. Contudo receia que “possa não ocor- para a resolução do Myanmar”, esclarece. admitem que a situação rer de forma pacífica”. O movimento birmanês de resistência possa inspirar outras Entretanto, a Junta Militar aplicou me- pacífica pode servir de incentivo a outras insurreições didas severas para pôr fim a qualquer for- insurreições. Rogério Leitão admite que o ma de protesto. Para além de decretar o “efeito contágio pode ser muito forte, Ana Bela Ferreira recolher obrigatório, proibiu a reunião de principalmente no universo do budismo”. Tiago Martins grupos de E considera que “a China vai ter em conta Ana Filipa Oliveira mais de este elemento”. Na mesma linha de pen- cinco samento, Capoulas Santos fala de um Actualmente designada de Myanmar “efeito dominó”, alegando que “é ne- pela Organização das Nações Unidas cessário cautela e pragmatismo pa- (ONU), a Birmânia está entre os 20 países ra encontrar uma solução satisfa- mais pobres do mundo. No entanto, é um tória para evitar a criação de um dos Estados mais ricos em recursos natu- precedente”. rais. Em Agosto a situação agravou–se Luís Tomé concorda que o Ti- com o aumento em mais de 100 e bete pode inspirar–se nas 500 por cento nos preços dos manifestações birmane- combustíveis e do gás natu- sas. O especialista re- ral, respectivamente. lembra ainda que Uma medida aplica- estas não são as da, sem aviso pré- primeiras vo- vio, pela junta mili- zes pacífi- tar que governa o cas a ten- país há 45 anos e tar mudar que se denomina um regime Conselho de Estado e que por para a Paz e Desenvolvi- isso “são mento. ILUSTRAÇÃO: JOSÉ MIGUEL PEREIRA olhadas Em resposta, a população saiu à pelo poder rua, e aquilo que começou por ser um pro- pessoas e a ligação à Internet deixou de como mecanismos subversivos provavel- testo culminou em manifestações contra o funcionar. Até agora, várias pessoas fo- mente ao serviço de actores externos”. regime. Com a entrada simbólica dos ram presas, mas o número difere confor- Daí que a “reacção e percepção dos acon- monges budistas, a contestação aumen- me a fonte. Segundo dados divulgados pe- tecimentos seja diferente da opinião pú- tou, adquirindo contornos de resistência lo regime, dez pessoas morreram durante blica internacional”, analisa Luís Tomé. pacífica ao regime. Desta forma, a Birmâ- os confrontos dos últimos dias e cerca de A resistência pacífica não é um método nia transformou–se numa questão priori- duas mil foram detidas. Mas associações exclusivo dos monges budistas(ver info- tária para a comunidade internacional. de defesa dos direitos humanos acreditam grafia), embora o seu expoente máximo Para a vice–presidente da Amnistia Inter- que, até à semana passada, mais de uma seja o religioso Mahatma Gandhi. Este li- nacional Portugal, Lucília José Justino, “a centena de manifestantes pacíficos perde- derou a revolução pacífica que conduziu a situação era previsível, embora a dimen- ram a vida e cerca de seis mil pessoas es- Índia à independência, em 1947 , inspi- são, o alargamento e rapidez dos protes- tão detidas pelas autoridades. rando movimentos em todo o mundo. Po- tos e das manifestações tenham surpreen- rém, os actos de resistência pacífica mais dido todos, especialmente os militares”. O alerta internacional recentes, tiveram lugar no interior da Eu- Na Birmânia, oitenta por cento da popu- A comunidade internacional já apelou a ropa do Leste. Alguns destes movimentos lação é budista e os monges exercem o pa- uma resolução pacífica da situação. Os tiveram sucesso, mas outros ainda “lu- pel de líderes espirituais da comunidade. Estados Unidos da América e a União Eu- tam” pela democracia, como é o caso do Na perspectiva do eurodeputado socialis- ropeia sugeriram à ONU o agravamento Zubr na Bielorrússia. ta, Capoulas Santos, “os monges budistas das sanções. Mas, na opinião dos analis- são uma autoridade moral que tem um tas, os países que podem fazer a diferença Uma longa espera grande impacto na política”. E acrescenta são a Índia e a República Popular da Chi- que “não se trata do protesto de popula- na. Rogério Leitão considera que “a China 1948 Independência ções enraivecidas ou sangrentas, trata–se tem mostrado alguma abertura e preocu- 1962 O general Nei Win toma o poder de um protesto muito categórico de quem pação com a situação birmanesa”, sobre- e impõe um partido único dedica a sua vida à reflexão”. tudo no que diz respeito ao seu projecto 1988 Milhares de manifestantes são Invocando a manifestação pró–demo- de desenvolvimento económico para a re- mortos ao lutar pela democracia. Uma cracia de 1988, onde milhares de pessoas gião. “Isso é um factor que pode pressio- nova Junta sobe ao poder foram reprimidas pela junta militar e que nar a China a ter um papel mais activo na 1991 Aung San Suu Kyi recebe o Pré- resultou em três mil mortos, o especialis- solução do problema”, acrescenta o do- mio Nobel da Paz ta em relações internacionais, Luís Tomé, cente. E conclui: “A China é sem dúvida o 1992 Início da governação do actual defende que desta vez o desfecho pode ser grande actor que pode, e deve, ter um pa- líder, Than Shew diferente. “Aquilo que aconteceu com a pel de descongestionar esta situação”. Setembro 2007 Os monges organi- ditadura militar é intolerável que seja Luís Tomé relembra que “a Índia e a zam marchas contra a brutalidade do aceite hoje”, explica. Numa postura opti- China têm–se pautado, nestas últimas dé- regime mista, o docente da Faculdade de Econo- cadas, por uma postura de não ingerência INFOGRAFIA: RUI ANTUNES
    11. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira CIENCIA A CABRA 11 63DE3Q_cUbfYÌ_TQ]UTYSY^Q Tubo de Ensaio A saúde tem sido dos sem recurso a pontos. O material usa- tre hospitais. A segunda fase, prevista pa- uma das prioridades do é absorvido pelo organismo, não sendo necessário removê–lo depois da “regene- ra o próximo ano, pretende “integrar o sis- tema de comunicação na própria ambu- A Ciência aqui na investigação científica ração do tecido”, afirma Helena Gil. lância”, adianta Jorge Henriques. O objec- da UC. As apostas são A ideia não é nova, mas a investigadora tivo é o acompanhamento do bebé “en- tão perto muitas nos vários sublinha que a “toxicidade é inferior aos quanto decorre o processo de transferên- que já existem no mercado”, possibilitan- cia”. Nome departamentos da FCTUC do a sua aplicação a nível interno. Também a investigadora do Departa- Exploratório Infante D. Henrique, Cen- tro Ciência Viva de Coimbra mento de Antropologia da FCTUC, Ma- Marta Costa Investigação auxilia doentes nuela Alvarez, responsável pela pesquisa Rita Matos referente à Espondilite Anquilosante con- Local Da necessidade de acompanhamento de Carla São Miguel sidera a investigação científica “um auxílio Casa Municipal da Cultura de Coimbra crianças em estado crítico, resultou o sis- tema de transporte de doentes recém- para os médicos mas sobretudo para os As doenças hepáticas e sua relação com –nascidos. O investigador do Departa- doentes”. Data de Criação o desenvolvimento da diabetes é o projec- O projecto de pesquisa sobre a Espondi- Novembro de 1995 mento de Engenharia Informática da FC- to que, neste momento, ocupa os investi- lite Anquilosante, ainda a decorrer, já ob- TUC, Jorge Henriques, explica que “a ideia gadores Carlos Palmeira e Anabela Rolo teve alguns resultados que podem “dimi- Responsável é, em situações críticas, tratar de transfe- do Departamento de Zoologia da nuir o grau de sofrimento” dos doentes. Victor Manuel Simões Gil rências de doentes de um hospital satélite Faculdade de Ciências e Tecnologia da Manuela Alvarez acrescenta ainda que, para um hospital central pediátrico”. Universidade de Coimbra (FCTUC). “agora estamos apenas a recolher dados”, Colaboradores O transporte de bebés em estado crítico O trabalho, revela a investigadora, “con- mas esperam–se “mais conclusões para o De momento, o Exploratório conta com consiste, num primeiro momento, na defi- siste em determinar quais os sinais que final do ano”. três professores destacados pelo Ministé- nição da possibilidade de transferência en- são enviados por órgãos como o fígado ao BRUNA GUERREIRO rio. Existe uma equipa de oito colabora- tecido adiposo de pessoas obesas”. Anabe- dores. A direcção é composta por três la Rolo acredita que estes sinais “vão indu- professores universitários zir alterações no metabolismo de outros órgãos”. Área de trabalho Um dos objectivos da investigação é o de- O Exploratório é um museu de ciência senvolvimento de técnicas que evitem a interactivo. Dedicado em especial às progressão de doenças hepáticas para ca- crianças, pretende ensinar de uma forma sos mais graves como o cancro. A finalida- divertida. “Proibido não mexer”é o lema, de do projecto é “conseguir transpor os re- afirma uma responsável sultados obtidos para a melhoria da condi- ção humana”. Projectos desenvolvidos A investigadora do Departamento de En- Existe uma exposição interactiva perma- genharia Química da FCTUC, Helena Gil, nente. Existe, entre outros, um módulo verificou “que era possível colar órgãos in- de astronomia, um observatório de árvo- ternos”. Esta técnica “também tinha a van- res, hortas pedagógicas e aquários. O Ex- tagem de evitar hemorragias”, acrescenta ploratório também é responsável pela di- a especialista. namização de dois clubes científicos no Os adesivos biológicos são uma tecnolo- Parque Verde do Mondego gia que possibilita fazer a adesão de teci- Avanços no transporte de recém-nascidos é um dos projectos da FCTUC Financiamento O grosso do financiamento do Explorató- E3`QbdYSY`QU]]YccÈ_Uc`USYQ\\ rio provém do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, enquadrado no progra- ma Ciência Viva. Astrónomos da UC integram O brilho das estrelas e a sua posição guesas de software, formam um consór- Expectativas Para O Futuro no espaço são factores que vão auxiliar cio na missão. missão científica da Agência O grande objectivo é a construção de um os investigadores durante a fase de me- Segundo o astrónomo da UC, o traba- novo espaço, na margem esquerda do Espacial Europeia que tem dição. Outros elementos, como a com- lho em curso resulta de uma congrega- Mondego. Segundo responsáveis do Ex- como objectivo medir posição química e a temperatura dos ção de esforços das instituições lusas ploratório, o projecto já está aprovado e a idade das estrelas corpos estelares, vão ser também obser- para atingir um objectivo comum. João as obras vão começar brevemente vados pela Sonda que será lançada no Fernandes reforça ainda que a “partici- Carolina de Sá ano de 2011, integrada no projecto pação nacional na missão GAIA é um Contactos Cátia Sousa GAIA. dos poucos exemplos em que, em Por- Telefone: 239 7038 A missão espacial surge na sequência tugal, o meio universitário e empresa- E-mail: explora@mail.telepac.pt João Fernandes e Margarida Serote, de uma outra missão, Hipparcos, que se rial se unem em bloco para o mesmo Site: http://www.exploratorio.pt investigadores da Faculdade de Ciência revelou insuficiente pela falta de uma fim”. Também no Observatório Euro- sonda que permitisse obter dados mais peu do Sul, a marca portuguesa é visí- Por Marco Roque e Tecnologia da Universidade Coimbra (FCTUC) e membros do Grupo de As- concretos. No ano de 2001, Hipparcos vel: astrónomos lusos colaboram em trofísica da UC (GAUC) estão a desen- terminou a sua actividade. observações feitas a partir da terra e do volver modelos teóricos que vão permi- Actualmente, GAIA envolve técnicos e espaço. tir uma análise da duração da vida das astrónomos de diversos países da União O docente refere ainda 2009 como um estrelas. Europeia. Neste momento em solo na- ano propício para o desenvolvimento e De 1 Out. a 30 Nov. Das 10h às 14h – Pas- cional têm vindo a ser desenvolvidas divulgação dos projectos relacionados seios de Outono na Mata do Botânico - Mata O estudo pode, consequentemente, dar do Jardim do Botânico a conhecer a idade do Universo. João técnicas computacionais para a simula- com a exploração espacial, visto tratar- 10 e 17 de Out. 15h – Quartas com a Indús- Fernandes argumenta que “não existem ção de observação das estrelas. –se do Ano Internacional da Astrono- tria – Departamento de Engenharia Mecânica Departamentos académicos da Uni- mia. Em Portugal também vão ser dina- da UC estrelas mais antigas que o cosmos, por- tanto é credível que as estrelas mais ve- versidade de Lisboa, Universidade do mizados eventos com o intuito de pro- 17 de Out. 15h15 - Conferência: “Meninos gordos: todos diferentes todos iguais” - Servi- lhas tenham nascido nos primórdios do Porto e Universidade Nova de Lisboa, mover a história da astronomia do nos- ço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolis- em parceria com duas empresas portu- so país. mo dos HUC universo”.
    12. 12 A CABRA TEMA 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 Quando eles estavam do outro lado... Numa sala de aula há sempre os que estão sentados e o que está de pé. Porém, os que agora ensinam, um dia já estiveram no lu- gar dos que aprendem… Por Rui Antunes, Filipa Faria e Andreia Silva* s aber qual era percurso estu- dantil dos seus professores faz parte do imaginário de muitos alunos. Alguns dos mais ilustres docentes da Universidade de Coimbra (UC) aceita- ram o desafio de contar as suas vivências académicas. No pretérito, e com algum saudosismo, relatam percursos pessoais num quotidiano mais parecido com os da Universidade de Coimbra e do País. A dias de hoje: “ estudava nas cantinas com crise académica de 69 e o 25 de Abril de os colegas, tinha aulas de tarde e à noite 74 impõem–se como inevitáveis recorda- íamos aos cafés”. Durante o seu curso ções. Num misto de orgulho e nostalgia, (1983 a 1989), todas as semanas, o do- Carlos Fiolhais brinca com a situação di- cente cumpria o ritual de “jogar à bola zendo: “Àquela pergunta do Batista Bas- com os amigos da faculdade e terminar o tos: ‘Onde é que estava no 25 de Abril?’, dia na Praça da República a beber umas eu posso responder: a estudar na Univer- cervejolas”. sidade de Coimbra”. Carlos Reis e José mes quanto ao local de preferência: a Praça da República. No que diz respeito ao lazer, todos os caminhos iam dar àquele espaço. “Eu vivia na Praça da Re- pública, que era o coração da vida acadé- mica”, refere José Reis. O docente da FEUC define–se como “um dos fiéis do Tropical naquela altura” e acrescenta que a praça era um “local onde se discutia po- que, a certa altura, coincidiram com mo- Com uma vida mais ligada ao estudo, Reis, catedrático da Faculdade de Econo- lítica, e se resolviam todos os problemas mentos históricos da universidade e do Carlos Reis, catedrático da FLUC, narra mia da UC (FEUC) podiam subscrever a do mundo entre a meia–noite e as quatro País. “um quotidiano relativamente trivial e resposta. José Reis recorda que no dia da da manhã”. Contudo, enquanto criava o “Coimbra sempre foi uma festa”. É des- apagado, com pouca Revolução dos Cravos Centro de Estudos Sociais e a Revista “ ta forma que Carlos Fiolhais, professor coisa de extraordiná- A malta reunia- foi a uma aula às oito Crítica dos Assuntos Sociais, tinha ainda catedrático da Faculdade de Ciências e rio: um namorico, um Tecnologia da Universidade de Coimbra bailarico e a ida a um se no TAGV e depois da manhã que“ainda não sabia e tinha tempo para frequentar outros espaços como o TAGV, a Associação Académica e (FCTUC), retrata os seus períodos de di- barzito à noite”. O ia beber um copo. havido uma revolu- algumas repúblicas. Já Carvalho Homem versão enquanto estudante. Apesar de ter professor fala de uma Um copo não, ção, mas, a partir daí, e Fiolhais preferiam o “mítico Manda- estudado entre 1973 e 1978, em pleno lu- sociedade inocente nunca mais fui a uma rim”. to académico, Fiolhais garante que “ha- em que “as meninas vários copos... aula a essa hora”. Já Também Carlos Reis elege a praça co- via sempre a possibilidade dos estudan- estudantes viviam em Fiolhais conta que es- mo centro da vida académica. O docente tes se divertirem, fazíamos as nossas pró- prias festas”. “A malta reunia–se no Tea- tro Académico Gil Vicente (TAGV) e de- lares dirigidos por ” tava a meio de uma freiras, com horários estritos”, o que li- aula de matemática quando alguém mitava as saídas. “Uma ida ao cinema ou abriu a porta e disse: “a aula acabou, há relembra igualmente o Tropical e o Mo- çambique, bem como outros cafés “onde se jogava bilhar e matraquilhos”. “Lem- pois ia beber um copo. Um copo não, vá- um baile de vez em quando e pouco pas- uma revolução na rua”. “O 25 de Abril bro–me inclusive de jogar matraquilhos rios copos…”, revela. sava daí”, conclui. mudou tudo”, sintetiza o professor da com o Laurentino Dias [actual Secretário Já Amadeu Carvalho Homem, profes- Manuel Lopes Porto, catedrático apo- FCTUC. de Estado do Desporto]”. Todavia, não sor da Faculdade de Letras da UC sentado da Faculdade de Direito da UC Carlos Reis prefere destacar o enriqueci- esquece o Oásis, situado junto à Sé Velha, (FLUC), preferia o cinema. “Íamos ao reitera o que diz Carlos Reis, lembrando mento pessoal que adquiriu ao viver es- nem as tardes que passava no Internacio- Sousa Bastos e ao Avenida e depois co- a dificuldade que os rapazes tinham para tes dois acontecimentos, considerando nal, um café–biblioteca localizado na mentávamos os filmes à mesa do café se aproximarem das colegas. Miúdas à ser “um privilégio” pertencer a esta gera- Baixa. Amílcar Falcão frequentava o café com uns finos à volta”, recorda. Carvalho parte, Lopes Porto lembra que “havia ção de Abril. José Reis partilha da mes- Académico por uma razão especial: “ti- Homem considera também que quando épocas de mais boémia, como as latadas” ma opinião dizendo que “foram períodos nha umas tostas mistas maravilhosas”. frequentou a sua licenciatura (início da e que as saídas nocturnas “dependiam estimulantes e de grande transformação Porém, apesar da Praça da República década de 60) “os estudantes de Coimbra muito das associações em que se estava da universidade”. ser o principal local de encontro, o espa- tinham, entre si, uma relação muito mais envolvido e dos interesses de cada um”. ço mais unânime tem como morada a rua umbilical do que têm hoje”. Sítios que ficaram na memória Padre António Vieira. O bar da Associa- Pertencente a uma outra geração, Amíl- Tempos de Abril Apesar de estudarem em épocas dife- ção Académica de Coimbra (AAC) atra- car Falcão, professor catedrático da Fa- A maioria dos professores contactados rentes, que abrangem três décadas vessou gerações, assumindo–se como culdade de Farmácia da UC (FFUC), fala viveu momentos marcantes na história (60,70 e 80), os professores são unâni- um local de referência. “Lembro–me de
    13. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira TEMA A CABRA 13 CÁTIA MONTEIRO res de calças”, recorda. No que diz res- durante e outros depois. Contudo, a Tradição Vs. luto peito à praxe, o professor não considera maioria dos professores viveu momentos “Capa Negra/ Rosa Negra / Bandeira ter sido “um praxista por essência”. No marcantes. Apesar do País estar em mu- da Liberdade”… Carvalho Homem cita os entanto, confessa: “cheguei a fazer tru- dança, os que agora são notáveis profes- versos de Adriano Correia de Oliveira, pes, e também fiz questão de ser rapado sores, tiveram um quotidiano comum. para explicar porque sempre usou traje. e ir assim para o Mandarim”. Sem fotocópias nem computadores, mas Para o docente da FLUC vestir Capa e Já José Reis é absolutamente anti–pra- com um enorme espírito crítico e irreve- Batina era um acto “reaccionário no inte- xe. O docente considera que o costume “é rência que sempre caracterizou a Acade- rior de um regime que abafava todas as uma forma de incultura total que des- mia. Como qualquer estudante, aliaram liberdades”. Além disso, o traje era usa- prestigia a universidade”. Para Fiolhais o o estudo à diversão. Um caminho vulgar do por uma questão económica. “O estu- facto de, no seu período de estudante, a marcado por períodos quentes, por his- dante não tinha muitas posses, havia praxe ter estado suspensa fez com que tórias “do tempo da outra senhora” e por muita gente que não tinha dinheiro e os não se identificasse minimamente com aquilo que os une a todos: a Universida- alunos que usavam traje chegavam a fa- as tradições académicas. de de Coimbra. Com Susana Ramos zer todo o seu curso com dois ou três pa- Uns viveram antes da revolução, outros As estórias deles Amadeu Carvalho Homem avançar da licenciatura de Física. “Não co havia muitas Assembleias Magnas, me lembro quantos alunos entraram no que duravam horas. “Sempre tive uma O tropa–estudante curso, mas lembro–me de quantos é que postura neutra e durante essas longas A recordação mais marcante da vivência saíram, só quatro, eu e mais três. Cabía- Magnas divertia–me a fazer pontos de académica de Carvalho Homem prende- mos num táxi.” ordem à mesa, do género: ‘vamos agora –se com a chamada ao exército. “A meio almoçar’.” do curso fui obrigado a cumprir serviço Introdução ao estudo de militar, e fiquei sem quaisquer contactos Marilyn O cromo da lista telefónica com Coimbra. Acontece que continuei o Nos períodos que se seguiram à Revolu- Durante a licenciatura de Física foram meu curso e fiz cadeiras com classifica- ção dos Cravos, os alunos tinham gran- várias as histórias que Fiolhais viveu. ções apreciáveis, porque havia colegas de influência nos seus planos de estu- Apesar de ocultar algumas (por respeito que, sem que eu lhes tivesse pedido, me dos. A maioria das cadeiras era proposta aos colegas) narra que “a certa altura continuavam a mandar os apontamen- e discutida em plenários. Fiolhais conta um professor em vez de ir com o livro tos.” que “certo dia, numa dessas reuniões, debaixo do braço, chegou à aula com ir lá e beber um café por dez tostões”, diz um dos alunos propôs incluir no seu uma lista telefónica. Havia professores Carlos Reis num tom saudosista. plano curricular uma cadeira sobre a vi- um bocado cromos.” Carlos Fiolhais da sexual da Marilyn Monroe.” Academia: o ‘habitat’ natural Amílcar Falcão A força do “gorila” dos estudantes Espectáculo gratuito Carlos Fiolhais recorda a forma repres- Tal como acontece hoje, a AAC sempre As batalhas políticas sempre foram uma Aluno negociador siva como os alunos eram tratados antes foi vista como uma segunda casa para os constante em Coimbra. Carlos Fiolhais “Apesar de só saírem dois mecanismos do 25 de Abril de 1974. “No meu tempo estudantes. Os agora professores não fu- lembra que frequentemente havia deba- no exame de Química nós tínhamos de houve um dia em que o professor pediu giam à regra. José Reis optou por uma tes no TAGV onde “estavam presentes decorar 60. Mas havia um dos meus co- a um empregado daqueles que também aproximação política, fazendo parte da os elementos da União de Estudantes legas que seleccionava o que estudava e faziam segurança (e a que nós chamáva- Direcção–Geral da AAC (DG/AAC) eleita Comunistas (UEC) e do MRPP e que estudou apenas 10 mecanismos. No mos gorilas) para expulsar um aluno só em 77. Apesar de a DG/AAC se ter assu- normalmente acabavam em luta. O pes- exame acabaram por sair dois que não porque ele o tinha interrompido durante mido como “independente”, o professor soal chegava a atirar–se do palco.. Via- estavam nos 10 que ele estudou. Então, a aula.” da FEUC admite que “apoiava o lado es- –se o espectáculo sem pagar bilhete.” chamou o professor e tentou negociar querdo da vida”. Já Fiolhais preferia dizendo que não sabia aqueles dois mas Poucos chegaram ao fim “passar as noites com o rei, a rainha e o Ponto de ordem à mesa que colocava lá outros dez”, recorda O docente da FCTUC lembra como o nú- bispo”, em campeonatos organizados pe- Nos períodos de estudante do catedráti- Amílcar Falcão. mero de alunos foi diminuindo com o la Secção de Xadrez. Por sua vez, Lopes Porto conta que passava pouco tempo na associação. Ainda assim o catedrático de Direito fez parte do Orfeon e jogou hó- quei em patins na Académica. Longe das actividades políticas, Amíl- car Falcão usufruía da oferta desportiva da AAC. Durante os primeiros anos de curso, jogou andebol na Académica, que depois veio a abandonar para se dedicar à Secção de Ténis. A equipa de futebol sempre foi um es- tímulo à ligação entre os estudantes e a Academia. No entender de Carvalho Ho- mem “a briosa era uma referência funda- mental”. Carlos Reis também define a equipa de futebol como um marco na vi- da dos estudantes. O professor da FLUC conta que, no seu primeiro ano, chegou a sair de Coimbra, de Capa e Batina, para ir ver jogar a Académica. No entanto, faz questão de relembrar que a equipa ainda era composta por estudantes.
    14. 14 A CABRA DESPORTO 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 Artes Marciais 1ce`bU]QSYQTQ]U^dUc_RbU_S_b`_ D. R. O público em geral considera as artes marciais uma modalidade violenta e agressiva, menosprezando o carácter de defesa pessoal Patrícia Costa Joana Gante Soraia Manuel Ramos As artes marciais eram conhecidas por se- rem utilizadas primordialmente em comba- te, pelas forças militares. Ao invés, nos dias que correm, têm uma componente destina- da ao bem–estar físico, psicológico e de efei- to visual, ainda que permaneçam as linhas iniciais das técnicas de combate. A diferença entre a arte marcial e uma qualquer dança ou aula de aeróbica é o com- bate. Na verdadeira arte marcial, “o ataque é a defesa e a defesa é o ataque”. Porém, para quem “apenas” assiste, não é fácil distinguir um do outro, funcionando como um conjun- to entre corpo e espírito. O objectivo princi- pal não é a supremacia do mais forte, a afir- mação de uma personalidade sobre outra pela força, pela violência ou pela agressivi- O professor de Taekwondo da AAC defende a prática da modalidade como forma de libertar o espírito dade. No início de cada ano lectivo, as artes mar- A qualquer praticante são incutidos como conhecido pelo respeitoso termo “Si Fu”, e cos originais. Antes, a técnica era valorizada ciais disputam o horário do final da tarde princípios a cortesia, integridade, perseve- não é apenas um professor de artes mar- pelos seus resultados em combate real, hoje com os cursos de línguas. Cada vez mais ce- rança, auto–domínio e espírito indomável, ciais, mas sim responsável em guiar e agir é-o pelo seu efeito visual, deixando de se afe- do, veste–se o fato apropriado, aprendem- que se interliga com uma autocrítica cons- como exemplo para os discípulos. rir a eficácia marcial. –se as filosofias e sonha–se ser como os tante e severa. Combinando velocidade e força com graça atletas ou como os heróis de desenhos ani- mados asiáticos. “Experimentei várias artes marciais, mas e beleza, através de movimentos fluidos e A “reviravolta” da acabei por ficar no taekwondo porque me circulares, esta modalidade ajuda na defini- Provenientes da China, do Japão e da Co- identifiquei com o jogo de combate e com os ção, tonificação e fortalecimento de todo o história reia, as artes marciais são popularizadas em pontapés”, confessa o treinador de taekwon- corpo. Aliás, essa é uma vantagem apontada bandas desenhadas e especialmente em fil- do da AAC, Pedro Machado. a todas as artes marciais que visam contri- Inicialmente, as técnicas foram pensadas mes. Personagens como Jet Le, Jackie Chan Tae (té) significa saltar, voar ou esmagar buir para um melhor auto–conhecimento, para serem aplicadas nos campos de bata- e Bruce Lee fazem parte do repertório de com o pé. Kwon indica bater ou destruir com seguindo a máxima “conhece–te a ti mes- lha. Hoje em dia, a maioria das pessoas qualquer jovem adolescente. a mão ou o punho. Do é a arte em si, é o ca- mo”. “Conhecer os outros é ser inteligente, aprende uma arte marcial para auto–defe- A divulgação das conquistas de Telma minho ou o método. mas conhecer–se a si próprio é ser sábio”. sa. Monteiro, actual bi–campeã do mundo em De acordo com o livro especializado A Ar- Os cânones da sociedade feudal limitavam o Com raízes na Índia, as modalidades têm judo, têm ajudado a “piscar o olho” aos no- te da Guerra, de Sun Tzu, “combater e ven- ensino das artes marciais somente ao sexo mais de dois mil anos. Há vestígios de que vos atletas. Telma tinha 16 anos quando co- cer todas as batalhas não é a excelência su- masculino. Agora transmite–se a ideologia tenham surgido, nessa época, as primeiras meçou a praticar mas, apesar de ser um bom prema; a excelência suprema é vencer sem sem qualquer exclusão. formas de luta organizada, Vajramushti, exemplo, não é prática comum. As artes combater”. O Tai Chi Chuan, praticado para a saúde e que consistia num sistema de luta de guer- marciais exigem dedicação, persistência e defesa pessoal, é uma arte marcial chinesa reiros indianos. No ano 520 a.C., muita prática. É algo que não se aprende Promoção do autoconhecimento que foi criada em 1200. Os praticantes da Bodhidharma, monge budista indiano, num mês ou dois, porque são necessários al- A mais antiga e diversificada arte marcial modalidade defendem que contribui para partiu em viagem à procura de inspiração guns anos de treino. é, muitas vezes, chamada incorrectamente uma saúde melhor através de um desenvol- espiritual. Viajou da Índia para a China, de Kung Fu, mas o termo mais correcto, uti- vimento equilibrado dos órgãos, uma me- pernoitando nos templos que encontrava Do judo ao taekwondo lizado na China, é Wushu, que significa “tra- lhoria da digestão, da coordenação motora, pelo caminho, até chegar ao Templo Shao- O praticante e professor de judo da AAC, balho duro”. Esta descrição encaixa–se no da actividade metabólica, do fortalecimento lin, em Hunan, onde encontrou os monges Gonçalo Órfão, tem 14 anos de treino, tendo rigor envolvido na aprendizagem e na práti- dos rins, sono tranquilo e recuperação da vi- do templo com uma saúde débil, causada iniciado a prática da modalidade apenas ca das artes marciais chinesas que, na época talidade. Até porque Tai Chi é realizado len- pela inactividade. com seis. Gonçalo reconhece que “esta tem de Qing (século XVII), era voltado para a de- tamente, permitindo a harmonização da cir- O budista aliciou os monges de Shaolin pa- riscos e lesões, como qualquer desporto” e fesa da própria vida em combates muito du- culação sanguínea com a respiração, en- ra a prática de exercícios físicos, transmi- adianta que “a diferença é que o judo adap- ros, aliando isto a altos padrões de moral, quanto se coordenam os movimentos das tindo máximas da filosofia Zen, no sentido ta–se à pessoa, é muito completo e desen- carácter e disciplina mental. mãos, pés e cabeça. Portanto, não exige uma de uma recuperação física e espiritual. Os volve a coordenação e a destreza física e psí- Em todos os praticantes repousa a respon- grande força nem envolve exercícios físicos exercícios eram baseados em métodos de quica, em qualquer idade”. sabilidade no cuidado com o próximo. Des- extenuantes, podendo ser praticado por respiração profunda e ioga, com movimen- O taekwondo, uma outra arte marcial mui- sa forma, uma escola de Kung Fu age como qualquer pessoa, independentemente da tos semelhantes a técnicas de combate. A to em voga, é uma técnica de combate sem uma família. Na tradição chinesa, os mem- idade ou condição física. sua prática tornou–se tradição no templo, armas, para defesa pessoal, e também impli- bros de uma escola são denominados “ir- Ultimamente, as técnicas utilizadas têm- evoluindo para o sistema de Shaolin Kung. ca um modo particular de vida e disciplina. mãos” (si hing). O mestre é visto como “pai”, –se distanciado demasiado dos gestos técni-
    15. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira DESPORTO A CABRA 15 Ceb`bUU^TU]_c_]e^T_T_bÇWeURY “ Apesar do Campeonato do Mundo de Râguebi ainda estar a decorrer, a selecção já regressou a Portugal. Rui Cordeiro, um dos principais jogadores da equipa nacional falou–nos daquela que foi a sua maior experiência desportiva. O jogador confirmou o abandono do conjunto orientado por Tomaz Morais, mas garantiu a continuidade na Associação Académica de Coimbra (AAC). Por Rui Antunes e Patrícia Costa ” ANA BELA FERREIRA Que balanço faz da prestação dos “Lobos” no Campeonato do Mundo de Râguebi? Muito positivo. Ninguém nos conhecia cá em Portugal e surpreendemos o mundo do râguebi pela maneira como jogámos. Mas não quisemos ir para lá discutir resultado nenhum. Enquanto única equipa amadora no campeonato, acabaram por sentir al- guma pressão? Não nos sentíamos pressionados porque quem tem que ter pressão é quem quer ga- nhar os jogos. Quando entramos é para dar o máximo, porque é esse o espírito. É claro que sentimos ansiedade no primeiro jogo porque estávamos num estádio esgotado, com 20 mil portugueses a apoiar–nos. An- siedade sim, e muita emoção junta, mas pressão não. A imprensa estrangeira ficou admi- rada com a forma como a equipa en- toou o hino nacional. A TF1 elegeu mesmo este momento como o mais incrível do mundial. O hino é a ima- gem de marca da selecção? É uma das imagens. Mas aquilo é o Cam- “Há jogadores da nossa equipa que têm o “haka” no iPod” peonato do Mundo de Râguebi não é ne- nhum concurso de coros, portanto não se- do Lomu [considerado o melhor jogador nharmos. dos media na transmissão de jogos. Neste rá a única. A maneira como nós jogámos, de todos os tempos] na qual dizia: “marca- momento, as cartas já estão lançadas e é como nos atirámos para o jogo e como lu- ram um ensaio parece que tinham ganha- Considera que a presença portugue- preciso saber jogar com elas. Não sei se va- támos é a verdadeira imagem. do o campeonato mundial”. (risos) sa no campeonato pode dar um novo mos conseguir, mas espero que sim. impulso ao desporto em Portugal? Muito se escreveu sobre a maneira Como foi ver o “haka” (antiga dança Pode e deve. Já deu um impulso grande Considera que as nacionalizações no como cantaram o hino. O que sen- maori) à sua frente? com as inscrições dos miúdos a crescerem râguebi são um desvirtuar do espíri- tiu? Há jogadores da nossa equipa que têm o exponencialmente. Agora é preciso que os to de selecção? A forma como cantamos sempre foi a mes- “haka” no iPod e antes de entrarem em Os jogadores argentinos da selecção portu- ma mas nunca tinha sido tão mediatizada. campo ouvem–na. Sinto–me privi- Rui, guesa cantam o hino com vontade Houve uma perspectiva de câmara que me legiado por ouvir a “haka” na um Cordeiro em pele de Lobo, desco- do princípio ao fim. E com a apanhou uma lágrima. Se calhar outro ân- primeira fila. É uma briu o prazer do râguebi, com 18 anos, quando foi estudar ajuda deles talvez o râ- gulo já não a apanhava, mas a verdade é dança guerreira mas para Vila Real. Desde então, à custa do sacrifício pessoal, conseguiu guebi possa evoluir que é uma emoção tremenda estar ali. Ba- não nos mete me- conciliar a carreira profissional com a desportiva. O seleccionador nacional, física e tecnica- teu forte. É o sonho de uma vida. do, estimula- Tomaz Morais, considera-o “o orgulho em pessoa, uma pessoa íntegra, com mente. –nos. quem todos sentem prazer em estar”. Também Joaquim Ferreira, o melhor amigo de Muitas pessoas acusam o râguebi de Cordeiro na selecção, fala da “enorme capacidade de luta” do internacional portu- Em visita à ser um desporto agressivo. Como era o guês e define-o como “um grande amigo”. Quanto ao abandono da selecção, Tomaz Mo- Figueira da Concorda? ambiente rais diz que a saída do jogador “é uma perda proporcional ao seu peso”, brincando com Foz, o Presi- É um desporto de contacto, portanto te- entre os 30 os 140 quilos do atleta. Do mesmo modo, o treinador da AAC, Sérgio Franco, re- dente da Re- mos que nos mentalizar que se jogarmos lobos? força que é preciso dar o lugar a outros. “A vida pessoal do Rui é incompatível pública falou com paninhos quentes é só apanhar na ca- A selecção é a mi- de si como um com a prática do râguebi a este nível”, assevera o técnico academista. A ra. O râguebi tem que ser jogado com nha segunda família. herói. O que pensa cinco dias de completar 31 anos o médico veterinário quer agressividade, mas não com violência. O Temos uma relação de ex- disto? agora dedicar–se mais à profissão, mas promete futebol é muito mais violento. Preferia mil trema amizade, confidencialida- Herói não, porque os heróis es- vezes apanhar uma grande placagem do de e união. Tenho colegas de equipa com não deixar o râguebi. tão mortos. Quando fui à internet fiquei que uma entrada de carrinho. quem ia até onde calhasse. clubes lisonjeado quando li o que Cavaco Silva ti- tenham condições para os receber. Há nha dito. Gostei muito por se ter lembrado O que sentiu ao marcar um ensaio Por quanto mais tempo é que a selec- muito trabalho a fazer, não podemos ser os da minha profissão e do meu nome. Foi en- frente à selecção mais forte do mun- ção vai poder contar com Rui Cor- maiores agora e daqui a uma semana já graçado. do? deiro? ninguém se lembrar de nós. É uma sensação do caraças. Poucas equi- A minha carreira internacional terminou. É possível que a Académica volte a pas se podem gabar de marcar à Nova Ze- Neste momento o cansaço está a superar o O que falta ao râguebi para começar ser campeã nacional no râguebi? lândia. Os neozelandeses até me vieram fe- prazer do râguebi. O meu último jogo foi a ter mais público no nosso país? Num futuro próximo não. Mas daqui a dois licitar, no final do jogo. Vi uma entrevista contra a Roménia, foi pena não ga- Precisa de evolução e de um apoio maior anos é possível voltarmos a ser campeões.
    16. 16 CULTURA A CABRA 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 1]QdÎbYQ`bY]QTQ]QWYQÎQY]QWY^QÌÈ_ “ O maior mágico por- tuguês apresentou a primeira ilusão aos 11 anos. 26 anos depois o ho- mem que veste sempre de preto garante que o seu um desafio interessante e convertem aquela ilusão num momento mágico, ou dizem “a caixa está vazia mas o elefante deve estar escondido nalgum sítio”. A possibilidade de converter o truque numa ilusão, esse passo extra, que transforma a magia num mo- mento bonito, para recordar, cabe a cada espectador. necessário partir paredes. Era uma arte muito mal vista e… Porquê? ” A magia teve sempre momentos de maior e menor popularidade. Há épocas de ouro, mas quando eu entrei neste mundo atraves- sávamos uma fase de total indiferença. A maior sonho é palavra ilusionista era um termo desgasta- poder continuar A magia é hoje considerada parte do do que remetia para um mágico vestido de a fazer aquilo que património cultural? casaca a fazer aparecer caixinhas, pombas e lhe dá mais pra- No trabalho continuado de dignificação lenços. Os mágicos acomodaram–se. Eu zer: Magia. desta arte percorreu–se um longo caminho. gostava muito de fazer mas também gosta- A magia vê–se em prime–time nas televi- va de ser respeitado e de encontrar coisas Martha Mendes sões do mundo inteiro, enche teatros, cativa novas. A minha carreira é construída de pe- milhões. Esse estatuto está conseguido. Em quenas pedrinhas de dignidade que ficam A magia é um es- quase todos os espectáculos que fizemos o para mim e para a magia. pectáculo trans- ministério da Cultura colocou a chancela de versal ou tem interesse cultural. Agora Em 99 recebeu o pré- um público–al- vo? É completamente transversal. Se fi- no caso concreto dos apoios… Este ano, na Galiza, o Instituto Gale- go de Artes Cénicas e “ As pessoas estão mio The Magician Of a acordar para um conceito The Year, da Acade- mia de Artes Mágicas de Hollywood, pelo zermos um per- Musicais aprovou em plural de cultura seu “talento, êxitos, fil do público de um espectá- congresso, pela primeira ” amor e respeito pela vez, a entrega de quatro tipos de financia- magia e pelos colegas ilusionistas; e culo de magia mento: ao teatro, à música, à dança e à ma- pela sua abordagem e estilo artísticos vamos encon- gia. Os quatro com valores iguais. Isto é no- cativantes que permitiram conquis- trar de profes- tável. As pessoas estão a acordar para um tar os corações de públicos de todo o sores catedráti- conceito plural de cultura. mundo”. O que é que ainda lhe falta cos a taxistas. fazer? Em todas as ar- Há falta de concorrência no panora- Uau! Eu li isso na altura, mas já não me tes é preciso um ma da magia, em Portugal? lembrava! (silêncio) Uau…! (sorriso) Uau…! conhecimento Como espectador penso que sim, como má- (silêncio) Como é um trabalho que não aca- prévio para po- gico não. Como espectador gostava que ba e um prazer que eu nunca deixo de ter, dermos enten- houvesse mais concorrência porque gosto vivo sempre excitadíssimo com a possibili- der o que ve- de magia e de ver magia. Como profissional dade de amanhã tentar um truque novo, es- mos. No caso não sinto essa necessidade porque isto não crever um espectáculo, pensar numa nova da magia é necessariamente uma competição. No ca- série de televisão. Isso alimenta–me, é algo não. Basta so de uma arte cada corrida, cada desafio, que me mantém vivo interiormente porque as pessoas está em cada espectador que enche o teatro; eu pertenço ao grupo de pessoas, cada vez terem pre- está no trabalho que nós próprios fizemos. mais restrito, que fazem o que gostam, por- sente a que gostam, como gostam, quando gostam sua con- Mas a concorrência pode ajudar a e retiram um prazer enorme disso. Não há dição hu- evoluir… maior privilégio do que esse. Por isso conti- mana, carac- Claro que sim, mas tenho um segredo para nuar é o que me falta fazer. Continuar. terizada pelo a concorrência, um truque que uso na mi- facto de terem nha vida diária. Abracadabra: Luís de Matos imaginação e de percepcionarem o Qual é? Quem foi o maior ilusionista de mundo através da vi- Se quisermos ser inovadores não podemos sempre? são, da audição, dos ter o nosso país como limite. Quando crio Harry Houdini. sentidos. É esta a ma- algo, o meu objectivo é que isso seja bom É considerado o maior mágico téria–prima da magia: em qualquer parte do mundo. Se eu vi al- português. a imaginação das pes- guém no Japão a fazer um número era fácil Só se foi até ontem, amanhã não sei. soas. copiá–lo. Mas a procura é fazer algo me- Ser conhecido. lhor. Se tivermos como referência esse lado É uma consequência, não um objectivo. O espectáculo de ma- da aldeia global em que vivemos, acabamos Porquê a imagem do homem de gia resulta do poder, por ter imensa concorrência. Ninguém me preto? fascínio e mistério que o vai chamar para ir lá fora se houver lá outra Nunca tive muito jeito para combinar cores. mágico exerce sobre a au- pessoa que faça o mesmo. A singularidade E gosto do preto. diência? funciona como uma espécie de passaporte. Fazer aparecer ou desaparecer? Eu divido o processo em dois es- Aparecer. Sou muito positivo. tádios. Primeiro os mágicos pe- Com o espectáculo Enigma percorreu Um dos cinco sentidos. gam nos seus recursos e usam–nos vários locais do País. Tem também O sexto. para criar uma ilusão. Depois cada um teatro móvel onde percorre Por- O seu truque preferido. espectador interpreta essa ilusão, tugal, de norte a sul. É importante Aquele que hei–de inventar amanhã. convertendo-a num momento descentralizar a magia? O que é que gostava de tirar da patético ou num momento má- O ser humano sonha e gosta de fazer coisas cartola? gico. Se eu mostrar uma caixa diferentes. Quando comecei a brincar mais Uma vida mais longa. vazia e disser “agora vai apare- a sério à magia tinha 17 ou 18 anos e depa- Magia é… cer aqui um elefante”, as pessoas rei–me com o facto da arte ser muito mal Sonhar. FOTO: LILIANA LAGO têm duas hipóteses: acham que é vista. Não era necessário abrir portas, era Versão integral em www.acabra.net
    17. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira CULTURA A CABRA 17 Cultura >_bUY^_]QbQfY\\X_c_TUD_bWQ por ca Percorrer a essência de por Cátia Monteiro Miguel Torga através do universo da terra e da Encontro com o escritor Cristóvão 9 de Aguiar infância é o desafio da Livraria Almedina Estádio nova produção d’O Teatrão 22H Pedro Crisóstomo “Corações em Ferrugem” 10 Alexandre Oliveira Teatro Bruto Vânia Silva A peça que tem como te- ma central a viagem faz No ano das comemorações do centená- um trajecto interno atra- rio do nascimento de Miguel Torga, a vés do qual atravessa a solidão, o pen- companhia O Teatrão tem em cena o es- samento, os actos humanos e a utiliza- pectáculo “TerraTorga”, até 17 de ção das línguas e dos sotaques. Novembro no Museu dos Transportes. A Teatro Académico de Gil Vicente homenagem ao escritor convoca a cidade Ás 10h30 e às 15H para um universo de memórias e expe- 8€ (bilhete normal) 6€ (bilhete estu- riências que apelam à descoberta de um dante/sénior) “reino maravilhoso”. Com base em alguns contos de Miguel Torga e misturando elementos que evo- 10 Arquitectura, urbanismo e poder: a arquitectura e as civilizações nas cam a força e as memórias do autor, a no- grandes charneiras da História” va produção d’O Teatrão aposta numa en- Conferência por Walter Rossa cenação sensorial em que a terra, a água e Departamento de Arquitectura as pedras se misturam com as próprias Das 18H às 20H personagens. A peça junta vários quadros cénicos sem um fio condutor explícito, ca- bendo ao público estabelecer uma lógica 11 “Sentidos” Laíns Música, Ana narrativa entre as cenas. As personagens e Teatro Académico de Gil Vicente ambientes criados são fruto das memórias 21H30 e do imaginário das intérpretes Adriana 10€ (bilhete normal) 5€ (Amigo/a TAGV) Campos, Inês Mourão e Isabel Craveiro. A criadora artística, Leonor Barata, ex- Inauguração da exposi- plica que o espectáculo “não é sobre Mi- 12 ção de Noronha da Costa guel Torga, mas a partir de Miguel Torga. A inauguração conta com É uma viagem em que não há uma histó- a presença do artista e ria com personagens e acções tipificadas. com o lançamento do ca- As cenas sucedem–se como um sonho”. tálogo da exposição. Da Torga “fala de um lugar a que chama ‘Rei- mostra fazem parte alguns dos traba- no Maravilhoso’, e que identifica clara- ILUSTRAÇÃO:RAFAEL ANTUNES lhos recentes do autor. mente com Trás–os–Montes”, conclui. A Galeria Sete intérprete e directora d’O Teatrão, Isabel 21h30 Craveiro, lembra que o autor “escreveu as memórias de cada um. Leonor Barata e autor bastante complexo, com uma obra ensaios sobre todas as regiões do País. Ele Isabel Craveiro deixam em aberto: “O que muito vasta e ecléctica”. Nas palavras de queria perceber que País era este. Que é que ecoa de Torga em nós?”. A produção Mário Nunes, o tributo de Coimbra ao 12 Orquestra Regional Lira Açoriana Teatro Académico de Gil Vicente pessoas são estas que o constroem? E es- surgiu de um convite da CMC à compa- transmontano vem “reforçar tudo aquilo 21h30 sa é também um bocadinho a viagem que nhia e vai estar em palco até 17 de Novem- que Torga escreveu e deixou à Humanida- 5€ (bilhete normal) 3€ (bilhete estudan- nós fomos à procura”. bro, no Museu dos Transportes. de”. te/sénior) Para a directora da companhia homena- “Ter um reino maravilhoso é essencial Encontrar o lugar da felicidade gear o escritor “é acima de tudo uma res- para viver”, concordam as responsáveis Na opinião de Leonor Barata, o público ponsabilidade”, pois Miguel Torga é “um pelo espectáculo. 13 Desenho e escultura, Artur Varela Galeria Santa Clara deve estar desperto para a “sensibilidade Das 14H às 2H. Sexta–feira e sábado e emotividade”. “O espectáculo não pode encerra às 3H ser lido com os óculos da razão ou da cau- Torga, mais do que um escritor salidade lógica”, frisa. A produção teatral destina–se essencialmente a crianças a Nasceu em São Martinho de Anta, torguiana é também o reflexo deste vi- 15 A 19 Outubro 8ª Festa do Cinema Francês partir dos seis anos, mas abre caminho a Trás–os–Montes, mas foi em Coimbra ver português. Quem o conheceu, des- que passou grande parte da vida. Foi creve-o como um homem solitário e ri- Teatro Académico de Gil Vicente um universo para todas as idades, razão 3,50€ (bilhete normal) que leva Isabel Craveiro a acreditar que na cidade que fez da medicina activida- goroso. No auto–retrato biográfico “pais e filhos vão partilhar reinos maravi- de profissional durante largos anos. A descreve–se na terceira pessoa: “Teme bata branca era objecto do seu quoti- a morte como uma noite sem madru- Até “Sira Ba”, exposição de fotografia lhosos”. A complexidade do autor não faz com que o público se distancie do espectá- diano. No consultório era uma pessoa gada”. 20 Cláudio Ferrer Correia, na Casa Galeria de Campos Calhau culo, uma vez que “as pessoas aproxi- austera e reservada. Na escrita encon- Como compositor preferido elegia trou a paz e a solidão que tanto preza- Bach e nas artes plásticas admirava Pi- Municipal da Cultura mam–se muito de Torga porque reconhe- Segunda a sexta–feira das 9H às 18h30 cem nele uma parte do País”. O vereador va. casso, Siqueiros, Orozco e Portinari. da Cultura da Câmara Municipal de Coim- Para além do espólio que deixou à li- Nas palavras do próprio Torga, “a arte IV Exposição de Espan- 20 bra (CMC), Mário Nunes, concorda: “Mi- teratura portuguesa, Torga era um ho- não é uma ambição: é um destino”. mem iminentemente rural. Caçava nos Ambição tinha uma: “Se pudesse reco- talhos guel Torga arrasta sempre multidões”. Praça do Comércio Um dos objectivos de “TerraTorga” é campos do Mondego e gostava de cal- meçar a vida gostaria de ser mais poe- correar o Douro transmontano. A obra ta ainda”. Das 10H às 18H construir um momento de reflexão sobre
    18. 18 A CABRA MEDIA 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 ?5cdQded_TQTYcSØbTYQ A maioria socialista sanção aplicável, o que conduziu à queda das sanções pecuniárias propostas no pri- aprovou isoladamente, meiro texto. Alfredo Maia alerta para o peri- a 20 de Setembro, o Novo go das suspensões do título profissional po- ILUSTRAÇÃO: JOSÉ MIGUEL PEREIRA Estatuto dos Jornalistas. derem “justificar a cessação de um contrato O documento aguarda de trabalho, condenando ao desemprego”. A par das questões suscitadas pelo PR, promulgação sob protesto surgem críticas à regulação dos direitos de do sindicato autor. Durante trinta dias o produto do jor- nalista pode ser usado pela entidade patro- Tânia Mateus nal em qualquer publicação do mesmo gru- João Miranda po empresarial, sem remuneração adicio- Sofia Piçarra nal, nem autorização prévia do autor. Da mesma forma, as chefias podem alter- Depois do veto presidencial, a 3 de Agos- ar o texto do jornalista, alegando motivos de to, ter alertado para alguns aspectos da pro- linha editorial ou espaço. Nesses casos, o posta de lei anteriormente apresentada, o jornalista pode apenas recusar-se a assinar Partido Socialista (PS) procedeu a altera- a peça por não se rever no trabalho. O pre- ções para atender às preocupações presi- sidente do sindicato prevê que “a prazo ca- denciais. A primeira proposta do Estatuto minhemos para uma redacção única, onde do Jornalista (EJ) visava a exigência de um teremos cada vez menos jornalistas a escre- grau académico superior para o acesso à ver para mais órgãos”. profissão, um dos três pontos que mereceu Apesar das controvérsias, alguns pontos particular atenção por parte do Presidente do estatuto parecem reunir consenso. A da República (PR). Cavaco Silva considerou transposição do Código Deontológico a Lei que exigir a licenciatura “pode comportar vai permitir, segundo Paulo Marques, “har- um acréscimo das despesas de pessoal”, monizar interpretações e decisões de natu- ameaçando a viabilidade das pequenas e reza jurídica”. Alfredo Maia acrescenta que médias empresas de media. o facto da Comissão da Carteira Profissional O presidente do Sindicato dos Jornalistas Outro ponto prende–se com o sigilo pro- balho de investigação jornalistica”, avisa o ser constituída por jornalistas, ainda que (SJ) refuta a ideia e acusa o PR de “ceder a fissional. Para Cavaco Silva “não é inteira- deputado. presidida por um jurista, é a solução ade- pressões económicas”. Alfredo Maia encara mente evidente” em que circunstâncias po- quada. Isto porque é “um organismo inde- o argumento como “uma falácia, já que os li- de o tribunal exigir a revelação das fontes. pendente do poder político, com jornalistas Introdução de um regime cenciados ganham tão mal quanto os outros Na versão vetada existe a confusão entre sa- que, além de regularem a atribuição da car- disciplinar profissionais com menos habilitações”. Por ber se o jornalista está ao abrigo das leis ge- teira profissional, ficam também com a fun- “Não é positivo definir em lei as sanções sua vez, o jornalista Paulo Marques, favorá- rais ou se, pelo contrário, está protegido pe- ção de aplicar um regime disciplinar”. sobre os jornalistas”. A opinião é do deputa- vel ao novo texto, cede nesta questão ao las excepções concedidas a médicos e advo- Também o reforço do poder do Conselho do do PSD, Agostinho Branquinho, que afirmar que “se perdeu uma oportunidade gados. de Redacção e a obrigatoriedade da presen- acredita que a “intromissão do Estado em histórica de colocar num patamar exigente a A nova versão remete para o Código de ça de um juiz nas buscas realizadas a redac- matérias deontológicas prova uma visão habilitação mínima para o exercício da pro- Processo Penal as condições em que o sigilo ções ou a domicílios dos jornalistas são controleira da sociedade”. O regime disci- fissão”. Neste ponto “o PS acabou por ter profissional pode ser quebrado. Para Bruno apontados como mais–valias da nova Lei. plinar do EJ também suscitou dúvidas a Ca- aquilo que não teve no resto do processo: Dias, deputado do PCP, “mais do que um di- Depois do veto presidencial a única forma vaco Silva. Na fundamentação do veto, o falta de coragem e vergonha, o que o levou a reito, o sigilo é um dever deontológico e um de travar a sua aplicação é o recurso ao Tri- Presidente considerou “pouco claros” os cri- acatar a sugestão de Cavaco”, diz o jornal- factor fundamental para a confiança das bunal Constitucional, medida que o SJ já es- térios de relação entre o grau de culpa e a ista. fontes”. A resolução “põe em causa o tra- tá a preparar. GUR?^3Q]`ecQ]UY_WÆc Problemas técnicos aos estudantes da UC ter acesso a uma sé- António Rebelo acrescenta que “os pro- micos terminarem a época de matrículas. rie de informação, conteúdos relativos às blemas técnicos na FLUC não existem Relativamente à Faculdade de Medicina, atrasam disciplinas e unidades curriculares do cur- noutras faculdades porque estas não têm a o vice–presidente do Conselho Executivo, o pleno funcionamento so que frequentam”, afirmou o vice–reitor mesma profusão de cursos e cadeiras que Manuel Santos Rosa, explica que o proces- das plataformas de da UC, António Rebelo. As informações de podem funcionar com estatutos variados.” so de Bolonha veio acelerar a adesão ao Letras e Medicina carácter genérico estão disponíveis a to- O grande número de cadeiras e professo- WOC. O professor da FMUC garante que dos. As que os docentes consideram que só res, bem como as inúmeras escolhas que os “o atraso na construção da plataforma não Ana Margarida Gomes devem estar acessíveis aos alunos, necessi- estudantes podem fazer, têm contribuído prejudicou os alunos, pois a informação já Jeniffer Lopes tam de autenticação dos utilizadores. para um funcionamento parcial do WOC estava disponível no sítio da faculdade”. O coordenador do WOC na FLUC, Antó- na FLUC. Manuel Santos Rosa acrescenta ainda que A plataforma Web On Campus (WOC) nio Rebelo sublinhou que, “actualmente, Soluções inovadoras estão a ser criadas a demora se verificou devido à necessidade entra este ano em funcionamento nas fa- na Faculdade de Letras, os professores já para resolver os problemas e os serviços de construção de uma plataforma que reu- culdades de Letras e Medicina da Universi- podem disponibilizar os programas das ca- responsáveis esperam que dentro de uma nisse toda a informação. dade de Coimbra, (FLUC e FMUC, respec- deiras e receber formação sobre outras semana a plataforma esteja completamen- António Gomes Martins referiu ainda tivamente), as últimas a integrar o projec- funcionalidades do WOC”. te operacional. A pretensão é, ainda, a de que a versão 3.0 do WOC está em desen- to. Problemas técnicos impediram o acesso Segundo o professor, “a transição tem si- integrar o WOC no portal da FLUC, para volvimento. O vice–reitor sublinha a im- de todas as faculdades ao projecto no ano do complexa, pois é necessário transferir o que os utilizadores possam aceder às com- portância da nova versão, que melhor vai lectivo 2006/2007 . Alguns desses impedi- que se encontra na página dos ECTS [Sis- ponentes da plataforma. No entanto, os “responder aos requisitos de Bolonha”. O mentos ainda persistem, mas os serviços tema Europeu de Transferência de Crédi- alunos da Faculdade de Letras só vão po- WOC 3.0 vai também disponibilizar um esperam que tudo seja resolvido em breve. tos] para o WOC, assim como introduzir a der ter pleno acesso a todas as funcionali- serviço online de entrega de trabalhos, fó- “O WOC é uma plataforma que permite adaptação a Bolonha”. dades do portal quando os serviços acadé- runs de discussão, entre outros projectos.
    19. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira ESTATUTO EDITORIAL A CABRA 19 De acordo com o Artigo 17º, alínea 3, da Lei de Imprensa, qualquer publicação deve divulgar, anualmente, o seu estatuto editorial 5cdQded_5TYd_bYQ\\T_:_b^Q\\E^YfUbcYdÆbY_TU3_Y]RbQ1 312B1UT_`_bdQ\\Y^V_b]QdYf_1312B1>5D 1. ACABRA e ACABRA.NET são dois criatividade e independência política, eco- teresses ou a qualquer posição da Secção órgãos de comunicação social académicos nómica, ideológica ou de qualquer outra 6. ACABRA e ACABRA.NET são na de Jornalismo, nem aquele facto interfere cujo objectivo é constituírem–se – numa espécie. sua essência constituídos por um conteú- com a relação sempre honesta e transpa- simbiose capaz de aproveitar o formato e do informativo, mas possuem espaço e rente que ACABRA e ACABRA.NET se estilo diferente que cada um possui – en- 4. ACABRA e ACABRA.NET prati- abertura para conteúdos não informativos, obrigam a ter perante os seus leitores. quanto Jornal Universitário de Coimbra. cam um jornalismo que se quer universitá- que se pautem por critérios de qualidade e rio no sentido amplo do termo – desprovi- criatividade. 8. A CABRA é um jornal quinzenal, cu- 2. ACABRA e ACABRA.NET têm co- do de preconceitos, criativo, atento, incisi- ja periodicidade acompanha os períodos mo público–alvo a Academia de Coimbra e vo, crítico e irreverente. 7. ACABRA e ACABRA.NET inte- de actividade lectiva. é sob este princípio que devem guiar as de- gram–se na Secção de Jornalismo da As- cisões editoriais. 5. ACABRA e ACABRA.NET prati- sociação Académica de Coimbra, perante 9. ACABRA.NET é um site informati- cam um jornalismo de qualidade, que foge cuja Direcção são responsáveis; contudo, vo, de actualização diária, cuja actividade 3. ACABRA e ACABRA.NET orien- ao sensacionalismo e reconhece como li- as decisões editoriais d’ ACABRA e d’ ACA- acompanha os períodos de actividade lec- tam o seu conteúdo por critérios de rigor, mite a fronteira da vida privada. BRA.NET não estão subordinadas aos in- tiva. @bY^SÒ`Y_cU^_b]QcTUS_^TedQ A isenção, imparcialidade e integridade rio para a produção de uma informação livros, cd’s, bilhetes para cinema, espectá- que devem marcar o trabalho no Jornal 4. Abdicar de se envolver em activida- rigorosa. culos ou outros eventos, bem como qual- Universitário de Coimbra implicam por des ou tomadas de posição públicas que quer outro material que venha a ser alvo parte dos seus jornalistas o conhecimento comprometam a imagem de isenção e in- 6. Garantir a originalidade do seu tra- de tratamento crítico ou jornalístico; e aceitação de regras de conduta. Assim, o dependência do Jornal Universitário de balho. O plágio é proibido. Nestes casos, a constituem também excepção convites de jornalista deve: Coimbra. Contudo, o Jornal Universitário Direcção do Jornal Universitário de entidades para eventos que tenham um de Coimbra reconhece o direito inaliená- Coimbra deverá agir disciplinarmente e o inegável interesse jornalístico (por exem- 1. Recusar cargos e funções incompatí- vel do jornalista universitário a assumir- jornal deverá retractar–se publicamente. plo, convites da Direcção–Geral da Asso- veis com a sua actividade de jornalista. –se como cidadão. Assim, nunca um jor- ciação Académica de Coimbra para cober- Neste grupo incluem–se ligações à Direc- nalista do Jornal Universitário de Coim- 7. Recusar qualquer tipo de gratificação tura do Fórum AAC). Cabe à Direcção do ção–Geral da Associação Académica de bra será impedido de se manifestar em externa pela realização de um trabalho Jornal Universitário de Coimbra resolver Coimbra, à Queima das Fitas, ao poder Reunião Geral de Alunos ou Assembleia jornalístico. Estão excluídos deste grupo qualquer questão ambígua. autárquico, bem como a actividade em Magna, desde que não esteja nessa altura PUBLICIDADE gabinetes de imprensa, na área da publi- em exercício da sua actividade jornalísti- cidade e das relações públicas. Deste gru- ca, em cujo caso deverá prescindir do seu po estão excluídos, por respeito para com direito de expressão e voto. De igual for- o direito do estudante de Coimbra de par- ma, nunca será impedido de participar ticipar na gestão da Universidade de activamente em qualquer actividade pú- Coimbra, os cargos em órgãos de gestão blica. Cabe à Direcção do Jornal Universi- das faculdades e da universidade. Cabe à tário de Coimbra decidir quais os casos Direcção do Jornal Universitário de em que a actividade jornalística se encon- Coimbra decidir quais os casos em que a tra prejudicada por outras actividades e actividade jornalística se encontra preju- agir em conformidade. dicada por outras actividades e agir em conformidade. 5. Ter consciência do valor da informa- ção e das suas eventuais consequências, 2. Abdicar do uso de informações obti- particularmente no meio académico de das sob a identificação de “jornalista do Coimbra, no qual o Jornal Universitário Jornal Universitário de Coimbra” (ou si- de Coimbra é produzido e para o qual milares) em trabalhos que não sejam rea- produz. Neste contexto particularmente lizados no âmbito do Jornal Universitário sensível, o jornalista deve ter especial de Coimbra. Além disso, o jornalista com- atenção à proveniência da informação e à promete–se ao sigilo das informações ob- eventual parcialidade ou interesses da tidas desta forma. Excepções a esta nor- fonte (não descurando o imprescindível ma poderão ser autorizadas pela Direcção processo de cruzamento de fontes), bem do Jornal Universitário de Coimbra. como garantir uma igualdade de repre- sentação em caso de informações contra- 3. Recorrer apenas a meios legais para ditórias ou interesses antagónicos, evi- a obtenção da informação, sendo norma a tando que o Jornal Universitário de identificação como jornalista do Jornal Coimbra se torne meio de comunicação Universitário de Coimbra. De forma algu- de qualquer instituição, grupo ou pessoa. ma podem ser usadas informações obti- Num meio em que o desenrolar de acon- das através de conversas informais ou ou- tecimentos pode afectar, directa ou indi- tras situações em que o jornalista não se rectamente, o Jornal Universitário de identifica como tal e como estando em Coimbra, o jornalista tem também que exercício de actividade. saber manter o distanciamento necessá-
    20. 20 A CABRA ARTES FEITAS 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 6QT_c3Qb\\_cCQebQ formato cinematográfico desta obra, as coreogra- Não é este o nosso fado fias, oscilam entre o competente e o francamente desajustado: ao contrário do Tango ou do Flamenco, “Fados” é o último capítulo de uma trilogia dedica- o Fado não tem uma componente de dança, logo, o da a três das grandes formas de expressão musical mínimo que se poderia esperar, seria que Saura pro- urbana do último século. Depois de “Flamenco” e curasse outro tipo de abordagem. “Tango” o cineasta espanhol Carlos Saura pretende Tirando alguns momentos mais arrojados estetica- aqui imortalizar, numa obra definitiva, a essência do mente (mas que no fundo se limitam a simples jogos grande estilo musical nacional. de luzes e espelhos), “Fados” tem tanto de cinema Mas, infelizmente, cedo nos apercebemos que se fi- como um vídeo amador filmado por um turista nu- cou pelas intenções. “Fados” não é uma longa–me- ma casa de Fados. Filma–se porque é cultura, por- 1|5 tragem dramática, nem tão pouco um documentá- rio. Na realidade não é mais do que uma sucessão de canções interpretadas por diversos músicos mais ou menos conhecidos, com Carlos do Carmo e Mariza à cabeça. Aqui não se explica o que é o Fado, nem o que é típico mas sem se saber ao certo qual o ponto de vista artístico do homem que está por detrás da câmara. Esta é uma obra oca e inconsequente que não pas- sa de um aborrecido vídeo clip de hora e meia. que este significa para o povo português. O fenóme- François Fernandes no Amália aparece reduzido a uma pequena apari- ção já na parte final da sua carreira, enquanto en- CINEMA saiava uma nova canção, e nem se dignam a explicar o porquê de algumas presenças no mínimo estra- nhas (o rapper NBC ou Lila Downs não são propria- mente expoentes máximos na arte do Fado). Como se isto não bastasse, aquilo que poderia justificar o CdQbTecd=QddXUgFQeWX^ A estrela cadente Tristan encontrará ainda um pirata gay, um guar- dião com quase cem anos que sabe mais “kung fu” Imaginem uma terra de encantar repleta de bruxas, que Jackie Chan, e os fantasmas de príncipes mor- magos, reis, príncipes, piratas e ladrões; um reino tos, que vão comentando a acção como comentado- mágico em nada diferente dos que se encontram em res de futebol. contos de J.R.R. Tolkien ou C.S. Lewis. Virem tudo A tradução desta louca história para o grande ecrã, de pernas para o ar e obtêm “Stardust”, um filme ba- ao encargo de Mathew Vaughn (Layer Cake), é bem seado no conto homónimo de Neil Gaiman. Autor de sucedida (embora um tanto académica), e graças ao bandas desenhadas, novelas gráficas e livros de fan- excelente elenco (Michelle Pfeifer, Robert DeNiro, tasia, Gaiman é conhecido pelo seu perverso sentido Peter O’Toole, Ricky Gervais) consegue capturar to- da a perversão que Gaiman gosta de imprimir nas 4|5 de humor que corrompe sistematicamente as con- venções do género, resultando em contos de fantasia suas personagens. Inteligente e extremamente di- para adultos, repletos daquele bom humor “brit”, vertido, a anos–luz de “Harry Potters” e afins, “Star- onde absurdo e macabro andam de mão dada. dust” é o cartão de visita ideal para ficar a conhecer “Stardust” narra a aventura de Tristan, um pobre ra- um dos autores de fantasia mais criativos dos últi- paz que está apaixonado por uma snob de classe al- mos ano. Rui Craverinha ta. Decidido a conquistar o coração (e carteira) da sua amada, promete–lhe um pedaço de uma estrela cadente. Mas as coisas complicam–se, porque a es- CINEMA trela é cobiçada por uns príncipes pouco encantados que precisam dela para suceder ao rei, e ainda três bruxas velhas e más (mesmo más), que precisam da estrela para serem de novo jovens, e assim recupe- rarem o seu corpo esbelto e sensual. Nessa busca, 7eUbbQTQc3QRbQc 6bQ^Ì_Yc BQVQU\\ BeY 3\\ÆeTYQ =QYcSbÒdYSQcU]QSQRbQ^Ud 6Ub^Q^TUc 6Ub^Q^TUc 3bQfUYbY^XQ =_bQYc 6QT_c ?]Q\\SQcQT_ !$ ( CdQbTecd E\\dY]Qd_ A evitar Fraco Podia ser pior Vale o bilhete A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro
    21. 9 de Outubro de 2007, 3ª feira ARTES FEITAS A CABRA 21 OUVIR LER E]|CdbQgRUbbiRU]ceSUTYT_ 1^Y]Q\\3_\\\\USdYfU E]\\UWQT_Y]`_ccÒfU\\TU_\\fYTQb 5|5 CdbQgRUbbi:Q] Seria impossível, neste espaço, não referir Eduardo Prado Coelho (EPC), ao qual a cena cultural portuguesa muito deve, sobretudo pela divulgação cultural junto do 4_]Y^_BUS_bTc grande público, de modo despoluído, sem pedantismos de quem se considera uma elite e pensa ser apenas de alguns o acesso à cultura. \" ' A par da sua obra, EPC é também responsável pela apresentação de muitos pensa- dores/autores no panorama nacional (Barthes, Derrida, Llansol...). Provocador inato, sem a presunção que alguns nele teimam querer encontrar, EPC escreveu Num contexto actual artigos (Público e Jornal de Letras) e alimentou muitas polémicas, muitas vezes em que, cada vez mais, quantidade parece não ser si- saindo da esfera da arte para a política, onde nem sempre terá sido aplaudido. nónimo de qualidade, os Animal Collective são uma Da vasta bibliografia optou–se propor para leitura a sua tese de doutoramento, de das bandas que, nos últimos anos, mais tem dado de 1983, sob a orientação de Maria de Lourdes Belchior Pontes, pela relevância en- audácia e criatividade à música e ao que se possa ape- quanto ensaio crítico. lidar de movimento indie. Depois de oito álbuns, dois 5TeQbT_@bQT_3_U\\X_ Aqui, EPC propõe–se à difícil tarefa de aplicar o conceito de “paradigma” (cientí- EP e uma barbaridade de concertos, quer sejam enca- fico) de T. Kuhn à literatura, fazendo desfilar perante nós um sem número de pen- E^YfUbc_cTQ rados como “freak folk”, “pop alucinada” ou encaixa- sadores, num espectro multidisciplinar, de molde a reflectir sobre o que é a Lite- 3bÒdYSQ*`QbQTYW]Q^_c ratura, que esquemas mentais lhe subjazem e a fazem existir enquanto algo de dis- dos em qualquer outro género, estes quatro amigos (Avey Tare, Panda Bear, Geologist e Deacon) não se in- UcdeT_c<YdUbÆbY_c tinto. Ainda que, por vezes, a quantidade de referências dificulte separar a posição teressam por clichés e, divididos entre Lisboa, Balti- 5T' <YcR_QcT de EPC da dos autores que leu, é uma leitura que nos permite filtrar, dar–nos len- more, Nova Iorque e Paris, acabam por ultrapassar as tes para compreender a problemática literária, funcionando como um horizonte barreiras mais convencionais. primeiro a partir do qual podemos vislumbrar todos os fios que (entre)tecem a complexidade da temática, Já no início deste ano, em Janeiro, um dos elemen- ainda que desemboquemos na mesma conclusão de EPC: de que a literatura é «uma relação sem relação – tos deste colectivo deu bastante que falar. Voltava o tudo/ o resto.(…) Disto poderia dizer Duras (…): orgasmo negro.», reiterando–se a ideia, nas palavras cita- burburinho com o lançamento de “Person Pitch” por das de Lispector, «a lente não devassa a escuridão, apenas a revela ainda mais». parte de Panda Bear, naquele que será, certamente, EPC deixou–nos uma ausência pesada, mas fica o seu legado, impossível de olvidar, independentemente de um dos trabalhos mais férteis de todo o 2007. empatias, porque, como nos diz: «na medida em que escrevo, esta escrita, que é o trabalho da morte que “Strawberry Jam”, o mais recente registo, chegou no existe em toda a literatura, é também a impossibilidade de morrer que a literatura é.». mês de Setembro pela mão da editora Domino (depois Andreia Ferreira de edições desde 2004 pela Fat Cat) e sucede–se ao brilhante “Feels” (2005). Se, por um lado, nos traba- lhos anteriores se encontravam uns Animal Collective VER mais próximos de devaneios experimentais e de uma 5|5 infância demente, no novo disco, apesar de a receita ser mais ou menos a mesma, parecem menos flexíveis nas estruturas das canções. Uma das principais dife- =ÆWYSQBUQ\\YTQTU renças de quase todo o disco, é a de parecer existir ape- nas uma voz presente. Se, antes ganhavam imenso com as várias camadas de tons e o entrelaçar de har- O mundo é cruel. Todos o sabemos. Quer seja através dos noticiários que inundam monias vocais, com a voz (por vezes demasiado solitá- as nossas casas, quer seja pelas experiências pessoais de cada um. Quando e o que ria) de Avey Tare (David Portner), os Animal Colective nos levou em particular a olhar a vida desta forma? Terá sido uma guerra? Uma de- parecem, aqui e ali, perder um pouco de plasticidade e silusão de ordem sentimental, uma perda ou até mesmo uma simples questão de lançar–se verdadeiramente no sentido de “banda”, ca- revoltante injustiça? Será que não tomámos consciência de tal facto tarde demais? da um no seu lugar. No entanto, “Strawberry Jam” A película escrita, dirigida e produzida por Guillermo del Toro abre–nos a men- vem provar algo que, mais tarde ou mais cedo, todos te à mais bela forma de fintar a realidade: a imaginação. E como esta não tem limi- teriam de reconhecer: os Animal Colective são enor- tes surge–nos na forma de uma (já em vias de extinção) fábula. Ainda existem fá- mes. E isto porque, apesar de, no geral este último dis- bulas. Felizmente sim. Esta conta a história de uma menina, Ofélia, que vai morar co não ser tão abrangente quanto “Feels” ou tão casti- com a sua mãe grávida e com o seu padrasto, Capitán Vidal, para uma floresta em ço como “Sung Tongs”, faixas como “Fireworks”, “De- Navarra. Em plena ressaca da Guerra Civil espanhola, a sua mãe casa com o capi- rek” ou “For Reverend Green”, continuam a fazer–nos tão sádico e fascista que tem por missão espalhar os ideais de Franco, erradicando querer partilhar de toda uma esperança e simplicidade todo e qualquer rebelde comunista da floresta em seu domínio. De forma a tornear em forma de onomatopeias. Em suma, quase sempre 7eY\\\\Ub]_TU\\D_b_ a violência emocional a que é sujeita, Ofélia mergulha num mar de fantasia povoa- nos fazem bem. Como rodapé fica a nota para o deli- ?<QRYbY^d_T_ do de fadas e seres transcendentes, embarcando numa odisseia utópica em busca cioso artwork (imagens a cargo de Avey Tare) que tão 6Qe^_\" ' de um reino subterrâneo do qual seria princesa. bem ilustra e dá a perceber o que o disco tem de me- Se o filme impressiona pelo argumento brilhante, pela realização minuciosa e cui- lhor. João Alexandre dada e pela fotografia perfeita (Guillermo Navarro “limpou” o Óscar ao brilhante Vilmos Zsigmond em a Dá- lia Negra), não podemos esquecer de forma alguma as extraordinárias interpretações dos catalães Ivana Bas- quero (a pequena Ofélia) e Sergi Lopez (o desprezível Capitán Vidal). Importa ainda referir que no aspecto TYc`_^ÒfUYc^Q* 4|5 técnico a película é irrepreensível. E as animações são simplesmente brilhantes. Acima de tudo, O Labirinto do Fauno é um filme com uma mensagem de esperança. Para lá do real, do tris- te, do cruel, há sempre uma luz. Há sempre uma outra forma de sorrir, de seguir em frente. A perseverança dequem acredita acaba por ser recompensada. Uma última palavra para as mais de três horas de extras in- cluídas nesta edição especial com dois discos. Os extras estão (bem) recheados de documentários sobre per- 1bdYW_c sonagens, o realizador, a fascinante criação digital e o já tradicional “making of”, pecando apenas pela ausên- cia de um documentário acerca da Guerra Civil e da época em particular no país de “nuestros hermanos”. O Labirinto do Fauno é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de 2007 (data de estreia em Portugal), dando provas de que a magia de Guillermo del Toro não tem limites. A imaginação tudo pode… André Tejo
    22. 22 A CABRA VIAGENS 3ª feira, 9 de Outubro de 2007 C_bdU\\XQ]ecUeQSÎeQRUbd_ Eu A CABRA viajou quase até Espanha para espreitar marcas que o tempo não apagou. Texto e foto por Carla Santos Há momentos em que o vento litoral tas e janelas de madeira, ora verdes, ora vermelhas. O granito foi–se instalando geometricamente nas ruas estreitas e apertadas, na pequena igreja e no seu largo. Nesse mesmo largo duas senho- ras, que traziam na cara a passagem dos anos, fazem cestaria de bracejo. São es- trelas de televisão e do mundo de cine- ma, apareceram em programas da ma- das na calçada de granito, a quem passe ou relembram–no entre si. Considerada uma aldeia museu de Portugal, só faltam as vitrines entre a vi- da nas muralhas e os visitantes do mo- numento bélico situado a uns ventosos 800 metros de altitude. Datado no sécu- lo XII, tinha como objectivo defender o país dos ataques de um mundo exterior. estão apenas de visita. A escola fechou este ano, por causa da restrururação das escolas primárias portuguesas feita pelo ministério da educação no ano passado. A vida quase parou em Sortelha, o tu- rismo faz despertar, de quando em quando, a aldeia que sonolentamente viu os seus habitantes diminuirem para 14 pessoas a tempo inteiro. Nestes pri- nos leva para pequenos recantos escon- nhã e documentários estrangeiros sobre Os gritos descomprometidos das meiros dias de chuva restam apenas es- didos no interior do país. Algures na Portugal. Contam histórias da sua moci- crianças que brincam no arco da entra- cadinhas, corrimões de ferro, flores, ár- fronteira portuguesa ainda se pode chei- dade na serrania,com as pernas estendi- da faz–nos lembrar que não são dali e vores de fruto e pingos de água. rar no horizonte as batalhas fronteiriças de outros tempos. Se hoje fosse um des- ses dias quase de certeza que seríamos levados para Sortelha. O caminho é si- nuoso, e as curvas e contracurvas são uma constante. Na paisagem os blocos redondos e irregulares de granito assen- taram como se até ali tivessem rolado ao acaso, sem outro local onde pousar. E na tela irregular o verde seco convive bem com a cor castanha e o cinzento du- ro e envolvente. Ao olhar desarmado, as paredes que ladeiam a Sortelha mura- lhada são pequenas quando compara- das com a fortaleza granítica que a ro- deia. De um lado do posto de vigia, no centro da localidade, perfila–se a Cova de Beira, do outro a Serra da Malcata, lá mais ao fundo está a Serra da Estrela e a Ribeira do Castanheiro a recortar o ho- rizonte. É um autêntico abraço apertado de pedra a toda a volta. O plano de reconstrução das aldeias históricas atacou casa a casa,e deixou- –as revestidas de tons suaves areia, por- Apesar da chuva, Sortelha mantém o encanto 1\\d_cf__cQRQYh_`bUÌ_ ?edeRb_*`\\Q^Q\\d_TUTYfUbcÈ_ “Viaje de avião ao preço de uma viagem ou, mesmo, até Barcelona a partir de um O mês pode anunciar a chegada da es- de uma das danças sensuais mais famo- de táxi”, é assim que um blogue na Inter- cêntimo. tação da chuva, mas isso não deve impe- sas do mundo no local onde esta nasceu net promove a utilização de voos a baixo As empresas aéreas executam estas tari- dir o viajante de sair pelo mundo. pode constituir uma forte tentação. O custo, que constituem já 27 por cento dos fas graças à redução de despesas adicio- O segundo maior festival do Brasil,de- ponto alto do festival passa também pe- voos anuais realizados em Portugal. nais, não assegurando serviço de alimen- pois do Carnaval do Rio de Janeiro é o la mostra de gastronomia local e danças Estima–se que em território nacional o tação a bordo, diminuindo a distância Cirío de Nazaré. A festa é conotada folclores. número de operadoras que disponibili- entre os assentos ou utilizando o mínimo com as procissões da estátua da Virgem Para terminar as sugestões, o Gui- zam voos a preço reduzido, também co- de tripulação exigida. de Nazaré, acompanhada por milhares ness Jazz Festival será uma boa nhecidos por voos “low cost” ou “budg- Há novidades agendadas no mundo de peregrinos. Homens e mulheres ro- opção para quem visitar a Irlanda. A ci- et”, seja ligeiramente superior a 30. As “low cost” para 29 de Outubro, data em deiam a santa que está assente em cen- dade de Cork recebe estrelas de todo o companhias têm viagens com partida que vai ser possível viajar em voos a bai- tenas de flores. Os peregrinos cami- mundo, numa atmosfera amigável com nos aeroportos comerciais do País (Lis- xo custo de Portugal continental para o nham sem sapatos e seguram uma cor- 40 mil amantes do jazz. O festival existe boa, Porto, Faro e Funchal). Apesar de arquipélago da Madeira. Para 2008 ha- da que simboliza o laço entre a santa e há 30 anos, nele participam mil músicos todos os destinos se localizarem na Euro- verá também uma actualização quanto à seus seguidores. de mais de 30 nacionalidades que ac- pa, com a maioria dos voos a terem como hipótese de executar voos a preço reduzi- Ainda no continente sul- americano, o tuam em 80 locais específicos da cida- destino a Inglaterra ou Alemanha, o le- do a partir de Ponta Delgada, adiantou o Festival Mundial de Tango, em Bue- de. No velho continente, a Irlanda que de escolha relativamente ao destino secretário açoriano da Economia, Duarte nos Aires, dá a possibilidade de partici- torna-se a capital da música jazz é vasto. É possível viajar até Milão por Ponte. par em “workshops” de Tango e aulas durante o mês chuvoso de Outubro. 38,99 euros, até Estocolmo a 12,99 euros Salvador Cerqueira para todos os níveis. Aprender a história Sarah Halls PUBLICIDADE
    23. PENULTIMA 9 de Outubro de 2007, 3ª feira A CABRA 23 DUbaeURURUbUccU eLes EuNão gosto da Praxe. E confesso que apre- cio do mesmo modo a Anti–Praxe. SØTYW_QdÎQ_VY] a condição de Silvester Stalone. Passo a explicar. Nos dias em que há jantar de curso, ou algum desses convívios bem animados, são frequentes os jogos de sedução entre Não referir, por uma única vez que seja, a figura de Vasco Santana é outra das si- tuações que me tem tirado o sono. Então cria–se o grau de Candeeiro e não se cria o correspondente grau de Vasco Santana? REINO UNIDO “Nunca fui assaltado, mas agora fui roubado por um ganso” disse um homem, de 23 anos, ao jornal inglês “The Sun”. O jovem foi atacado por quatro gansos que o atiraram para o chão e lhe golpearam a mão até soltar o telemóvel. Após o ataque os gansos Da primeira ouço FRA’s a menos e cân- fugiram levando consigo o aparelho. machos e fêmeas. O ponto alto do jogo, o Exigia–se um pouco mais! Dez meses e ticos de bancada a mais. Da segunda não preciso momento em que o termómetro não tiveram o cuidado de rever o “Pátio vejo actos, só crispação. Olhando para as JAPÃO Devolver energia às pilhas on- atinge o vermelho, acontece quando o ma- das Cantigas”? Quanto a mim são dois duas realidades, ao mesmo tempo, vejo de quer que estejamos já não é proble- cho trajado desaperta o colarinho e coloca graus indissociáveis. que perdem força ano após ano. ma. Os japoneses inventaram as pilhas a gravata à volta da cabeça, com o nó a Por último, algo que também me parece Contudo, não posso deixar passar em NoPoPo em formato AA e AAA, recarre- pender para um dos lados. Independente- fazer falta a este código é uma figura que claro o novo Código da Praxe Académica, gáveis com urina. Por enquanto apenas mente de ficar mais bonito ou não de tra- nos remeta para o avanço tecnológico que apresentado no pretérito 26 de Setembro. se comercializam no Japão, nós por cá je, ou de ficar mais parecido com John assalta o país. Refiro–me a uma ferra- E quero reflectir um pouco sobre a revisão ficamos à espera. Rambo ou não com a gravata na cabeça, o menta que permita a “formação de trupe de que foi alvo. bolonhez Silvester Stalone, por exemplo, é na hora”. Ou, quem sabe, a criação do bal- Li que o novo texto foi resultado de dez FRANÇA Assim que chegar ao merca- uma figura que eu não vejo tipificada nes- cão “Perdi a Batina”, a pensar nos mais in- meses de aturado labor. O que me impres- do a “Hotdoll” vai salvar muitos cães da ta legislação. cautos. Por André Mesquita siona de sobremaneira. O leitor mais de- solidão e muitos donos da vergonha. satento deverá estar a perguntar–se: Este brinquedo não é mais do que uma - Quem são estes tipos?! Dez meses?! – ao cadela artificial que satisfaz as necessi- que eu acrescento: dades sexuais dos canídeos. È o adeus à - Não podiam ter contratado João Cata- imagem do cão agarrado às suas per- tau? Aquele tipo…o dos manuais de Códi- nas, agradeça ao francês Clement Eloy. go da Estrada! – alguém com mais destre- za a lidar com códigos, pois alguma coisa EUA Quatro edifícios em forma de L não funcionou. É que as únicas alterações são, à primeira vista, um local de traba- comentadas, nas ruas e cafés da cidade, lho agradável. Assim pensavam os mili- são a proibição do colete nas moças, o no- tares da base naval americana, situada vo grau de Candeeiro e o cortejo da quei- perto de San Diego, até o Google Earth ma ter passado para Domingo. mostrar o que não devia. Visto do céu, E, para além disso, encontrei algumas o quartel ganha a forma de uma cruz falhas graves. Uma delas foi–me apontada suástica. Resultado: a marinha ameri- por um dos estudantes mais calaceiros da cana vai gastar 423 mil euros em obras Academia, que se queixava da falta de um para disfarçar a forma da construção e Código da Praxe anotado. Mas há mais. número equivalente em pedidos de des- Não encontrei na Secção III, Título I, Das culpa. condições gerais da praxe, nenhum artigo que remetesse para aquela que eu intitulo: Ana Bela Ferreira tU CONFISSÕES| URBANO TAVARES RODRIGUES | ESCRITOR A marca dos meus passos identifica onde estive, e existem, nos meus livros, marcas autobiográficas, mas nunca me escondi atrás da minha obra. Nasci com o amor da palavra, e logo que comecei a escrever, quis traduzir o mundo mágico do Alentejo. A primeira fase da minha escrita é de encantamento com o vento, a lua, os bichos, as ervas, as árvores... Quando me tornei consciente da mi- séria dos camponeses quis exprimir a minha solidariedade para com eles. A escrita ofereceu–me um maior conhecimento de mim próprio e do mundo. Gosto profun- damente do romance, que me absorve. Exige um grande esforço, às vezes sofrimento, mas também oferece grandes ale- grias. O que vai ficar de mim é a obra. Tive uma vida conturbada, de participação activa na luta, cheia de prisões, que a minha obra reflecte, nos temas do alvorecer de Abril, a grande união da esquerda, que depois não se concretizou, a euforia e a felicidade de uma época. Mas acima de tudo a minha literatura é de interioridade, de tentativa de compreensão e sondagem profunda do ser humano. Fiz da escrita uma forma de resistir, mas não sou apenas um escritor de combate. Sem- pre tive preocupações estéticas muito fortes. A minha obra é trabalhada ao nível da estrutura, da palavra, da rima, da frase. A sensualidade faz parte da minha própria natureza, que tentei transmitir para a escrita. Mas o erotismo é também uma forma de combate e insubmissão num país falsamente puro, pretensamente puritano, um país hipócrita, como era o Portugal salazarista. Nunca pensei desistir da luta, apesar dos momentos de angústia e desânimo. Tenho as forças que conseguir reunir para lutar contra o neoliberalismo. A geração mais jovem está compreensivelmente desiludida com a política. Têm uma capacidade latente de reivindicação, insurgem–se contra situações miseráveis, mas não têm ainda uma orientação de luta. Aceito com muita naturalidade a finitude da vida. Porém gostaria de ter tempo para educar o meu filho. Vou lançar este mês um livro de contos, “Cadernos do Prior do Crato”, no qual trabalhei muito, na investigação. Antes de ir embora, gostava de ter cá fora ainda um outro livro de contos, “ A ultima colina”. O meu filho e a minha mulher é o que me move para continuar. Sei que lhes vou fazer falta, e essa é uma razão muito forte para tentar viver. Por Saimon Morais e Sofia Piçarra
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