Your SlideShare is downloading. ×
Dossiê armas
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Dossiê armas

826
views

Published on

Um inquérito do Ministério Público mostra um cenário alarmante no Rio: policiais suspeitos de facilitar o comércio de armas e drogas, brigas na PF e controles frouxos nos portos e no Galeão.

Um inquérito do Ministério Público mostra um cenário alarmante no Rio: policiais suspeitos de facilitar o comércio de armas e drogas, brigas na PF e controles frouxos nos portos e no Galeão.

Published in: Travel, News & Politics

0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
826
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
13
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. imprimir Imprimir | Tamanho do texto08/07/2011 22:13Feirão de armamentos no RioUm inquérito do Ministério Público mostra um cenário alarmante no Rio: policiais suspeitos de facilitar o comércio dearmas e drogas, brigas na PF e controles frouxos nos portos e no GaleãoHudson Corrêa, com Leopoldo MateusMÃO DUPLAArmas apreendidas numa ocupação policial no conjunto de favelas do Alemão, no Rio. Muitas chegariam comopagamento pela droga enviada ao exteriorNa definição do secretário responsável pela pasta, José Mariano Beltrame, “foi o 11 de setembro da Segurança Públicado Rio”. Era manhã de sábado, 17 de outubro de 2009. Com o fogo espalhando-se pela fuselagem, o helicóptero Fênix3 da Polícia Militar desapareceu entre os barracos do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro.A cena era cinematográfica. O aparelho fez um pouso forçado em um campo de futebol e, em poucos segundos, foitomado pelas chamas. Morreram três dos seis policiais a bordo. O helicóptero foi atingido no ar por tiros de fuzildisparados por traficantes que enfrentavam a polícia em terra. Abatido, como se o Rio estivesse em gerra civil.Ao comparar o atrevimento antiaéreo dos traficantes ao atentado terrorista que derrubou as Torres Gêmeas em NovaYork, Beltrame explicitou para a sociedade aquilo que a comunidade de segurança estava cansada de denunciar emreuniões oficiais: a escandalosa omissão do governo federal na luta contra o tráfico de armas. Por ser Beltrame umdelegado da Polícia Federal cedido ao governo do Estado, sua afirmação ganhou ainda mais peso. Na prática, criou umfato político que não poderia ficar sem resposta.A reação veio da Procuradoria da República. O órgão instaurou um procedimento e passou a investigar a atuação daPolícia Federal (PF) e da Receita Federal no Rio de Janeiro no combate ao tráfico de armas. O inquérito, que já temmais de 30 volumes, foi produzido ao longo de um ano e meio e revela um quadro alarmante. As principais conclusões:1) policiais e servidores pagos para combater o ingresso de armas ilegais no país estão sob suspeita de formar quadrilhasengajadas em facilitar a ação dos criminosos;
  • 2. 2) depoimentos de delegados federais à Procuradoria revelaram uma briga interna na Polícia Federal do Rio que,segundo os procuradores, fragilizou ainda mais as investigações;3) o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, e os portos do Rio de Janeiro e de Itaguaí são verdadeiras peneiraspara a entrada de armas e drogas.O cenário descrito pelos procuradores seria preocupante em qualquer circunstância. No caso do Rio, chama ainda mais aatenção porque a cidade deverá abrigar a final da Copa do Mundo de 2014 e sediar a Olimpíada de 2016. Durante essesdois eventos, a atenção do mundo estará concentrada no Rio. Antes deles, seria bom impedir que marginais tivessemacesso a armas capazes de derrubar helicópteros e atingir as forças policiais a quilômetros de distância.122 traficantes foram presos no Galeão em 2008, em relação aos 39 em 2010. A cocaína apreendida caiu pela metadeOs procuradores identificaram os primeiros sinais da existência de uma “organização criminosa” a partir do depoimentodo policial federal Adir Cardoso Meirelles, em junho do ano passado. Ele disse que existia uma quadrilha no Galeão,envolvendo funcionários da Receita e policiais. O grupo facilitaria o contrabando de mercadorias diversas, incluindo otráfico de armas pesadas. Meirelles contou que seis malas com componentes eletrônicos para a máfia dos caça-níqueis,avaliados em R$ 1 milhão, foram deixadas dentro de um avião da empresa Delta que vinha dos Estados Unidos no finalde 2009. O dono da bagagem teria fugido ao ser alertado por policiais ou funcionários da Receita de que havia umaoperação para prendê-lo. Meirelles afirmou que as malas pertenceriam a Fernando Duarte Santiago Rodrigues. Apontadopela PF como um grande contrabandista, Rodrigues entrou e saiu aproximadamente 100 vezes do Brasil entre o final de2007 e junho de 2010. O policial disse que passou a enfrentar falsas acusações porque continuava empenhado emprender Rodrigues. “Um agente da polícia me procurou dizendo que as câmeras do aeroporto tinham me gravadoextorquindo US$ 1.000 de um passageiro e que eu havia cobrado muito porque fiscais da Receita cobram apenas US$250 por mala”, afirmou.A partir dessas denúncias, o esquema no Galeão começou a se confirmar. Rodrigues foi preso em fevereiro deste anono aeroporto. Quando foi pego, estava com uma carga mais modesta. “Material eletrônico e suplementos vitamínicos”,segundo o relatório da PF. Acabou liberado um dia depois. A reportagem de ÉPOCA não o localizou.O depoimento de outro policial reforçou a suspeita de que uma quadrilha opera no aeroporto. O delegado federalLeonardo de Sousa Gomes Tavares, que chefiou uma das equipes da PF no Galeão, encaminhou a denúncia sobre malasmilionárias à Corregedoria e depois ao serviço de inteligência da Polícia Federal. Aos procuradores, disse que o entãosuperintendente da PF no Rio, Ângelo Gioia, ao assumir o cargo no final de 2008, “desmontou a capacidade” defiscalização no aeroporto, deixando apenas dois policiais no combate ao tráfico de armas e drogas. Antes, eram aomenos sete. Desse modo, despencaram as apreensões de entorpecentes, segundo afirma Tavares.As estatísticas sobre prisões e apreensões corroboram o depoimento dele. Em um relatório enviado ao Ministério Públicona semana passada, a PF informa que houve 122 prisões de traficantes no Galeão em 2008, em relação às 39 no anopassado. No mesmo período, a quantidade de cocaína apreendida caiu pela metade, para 179 quilos em 2010. Apenasduas armas foram apreendidas nos últimos três anos. Segundo informações da Receita Federal, apenas 3% das cargasdo Galeão passam por vistoria completa dos fiscais, que analisam tanto a documentação quanto o conteúdo damercadoria que chega. O índice é considerado baixo pela Procuradoria. Nos últimos três anos, a Receita apreendeu 161quilos de drogas no aeroporto.Logo depois de ouvir o delegado Tavares, o procurador Marcelo Freire mandou um ofício ao então superintendenteGioia, que deixou o cargo em março deste ano e tornou-se adido em Roma. Ele queria saber se havia algumainvestigação aberta diante “da possível existência de uma organização criminosa no âmbito do aeroporto internacionalcom suposta participação de servidores da Receita e Polícia Federal”. Questionou também sobre a redução deapreensões de drogas.
  • 3. EFEITO E CAUSANo Morro dos Macacos, Rio, um helicóptero da PM é derrubado por traficantes em 2009. No Galeão, um policial revistacargas com o auxílio de cachorro. Brigas internas fragilizam as investigaçõesA reação de Gioia levantou ainda mais suspeitas. Ele mandou abrir processo disciplinar contra Tavares, com base nasdeclarações por ele prestadas à Procuradoria. Isso poderia levar à demissão do policial. Os procuradores Freire e FábioSeghese, responsáveis pelo inquérito, interpretaram a medida como crime de coação contra uma testemunha. Emoveram ação penal contra Gioia e outros dois delegados envolvidos no processo disciplinar aberto contra Tavares. Nofinal deste mês, vários delegados da PF no Rio serão ouvidos pela Justiça Federal no processo contra o ex-superintendente.De Roma, por e-mail, Gioia respondeu às perguntas de ÉPOCA. “Sobre essa denúncia (de coação) promovida pelaProcuradoria, eu me defenderei oportunamente. Trata-se de disputa institucional por eu ter negado o acesso aosprocuradores de dados de inteligência que não guardassem relação com investigações policiais”, afirmou.Gioia disse ainda que desconhece a existência de quadrilha de contrabando de armas e tráfico de drogas atuando deforma organizada no aeroporto. “Alguns servidores foram ouvidos (pela Procuradoria) e devem ter falado contra a minhaadministração em razão de terem interesses contrariados, notadamente os que foram substituídos no aeroporto, o quedeveria ser encarado como rotina”, afirmou Gioia. Ele diz que, durante sua gestão, “não houve qualquer desmonte na
  • 4. estrutura investigatória”.Embora negue saber da existência de quadrilhas, o ex-superintendente da PF no Rio enviou aos procuradores doisrelatórios de inteligência que apontavam suspeitas de esquemas no Galeão. O primeiro deles, datado de agosto de2010, relata que o delegado Rodrigo de Sousa Alves e sua mulher, também policial, ganharam no final de 2008 umaviagem a Angola, ao custo de R$ 10 mil. O presente foi dado por um empresário com negócios de exportação no paísafricano. O documento também informa que Alves vendeu um apartamento por R$ 285 mil ao empresário e que essepreço estaria acima do praticado no mercado. Por fim, o documento informa que o delegado tinha outro apartamentona Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, avaliado em R$ 500 mil.Graças a esses relatos, Alves ficou afastado oito meses da PF. Ele disse a ÉPOCA que provou sua inocência ao serabsolvido pela comissão de disciplina interna e já voltou ao trabalho. O policial confirma que ganhou as passagens doexportador Valdomiro Minoru Dondo, com um grupo de 40 pessoas. Ele diz que era amigo do empresário muito antesde virar delegado e que aceitar a viagem não representaria conflito de interesses com sua função na polícia. Argumentaainda que foi sua mãe, e não ele, quem vendeu um apartamento para Dondo. E nega ser dono de imóvel na Barra.O procurador Seghese espera receber o relatório da comissão de disciplina da PF que apurou o caso de Alves. Noinquérito movido pela Procuradoria ele não é investigado. Figura como testemunha, pois foi um dos delegados quedenunciaram a queda na apreensão de drogas dentro do aeroporto na gestão do ex-superintendente Gioia. Gioiaenviou o relatório contra o delegado Alves duas semanas após ele ter prestado depoimento à Procuradoria –, mas negater sido um ato de represália. Em outro relatório, Gioia cita o nome de ao menos 15 policiais acusados de envolvimentoem crimes como liberação de contrabando e facilitação de entrada de drogas no país. Passados alguns meses, contudo,a Procuradoria recebeu informação do próprio serviço de inteligência da PF de que a fonte dessas informações não eraidônea.Navios na Baía de Guanabara armazenariam drogas e armas, depois levadas em lanchas ao continenteEm meio a tantos relatórios e à troca de acusações, o Ministério Público concluiu que a PF ficou ainda mais fraca emsuas ações contra a circulação de armas ilegais. A Secretaria de Segurança do Rio informa que, em 2010, foramapreendidas 7.554 armas, das quais 35% eram metralhadoras, fuzis, submetralhadoras e pistolas de grosso calibre. Odelegado Anderson de Andrade Bichara, que está na PF há quase oito anos e comandou a Delegacia de Repressão aoTráfico Ilícito de Armas da PF no Rio, enviou à Procuradoria estimativas sobre o arsenal que circula no Brasil. São 16milhões de armas de fogo, 47,6% delas ilegais. Dados atualizados sobre as apreensões de armas são vitais para otrabalho de inteligência da PF, como o mapeamento de rotas do contrabando usadas pelos criminosos. Mas o Sinarm,sistema criado pelo Estatuto do Desarmamento de 2003 para registrar apreensões de armas, contém dados defasados.As informações mais recentes sobre o Rio se referem às apreensões feitas pelas polícias estaduais em 2004. De acordocom levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 73% das apreensões de armas em todo o país estãoconcentradas no Estado do Rio.A PF acredita que a maior parte das armas enviadas ilegalmente para o Brasil vem do Paraguai, por terra. Os traficantessão criativos. Buscam novos mercados e burlam as fronteiras nacionais de diversas formas. Nas apreensões feitas naoperação do Complexo do Alemão no final de 2010, havia metralhadoras desviadas do Exército boliviano. A investigaçãodo Ministério Público mostra que o mar tem sido um caminho alternativo procurado pelos traficantes, devido àsfragilidades de fiscalização nos portos brasileiros. A alfândega do Porto do Rio de Janeiro informa que, desde janeiro de2007, ocorreram oito apreensões de armas e munição. Isso sem que a PF tenha feito, segundo o relatório dosprocuradores, um “trabalho sistemático na repressão” ao tráfico. A Procuradoria ouviu o inspetor-chefe da alfândega,Ewerson Augusto Chada, que descreveu um quadro precário de segurança interna do porto. O sistema de câmeras e ocontrole eletrônico de acesso ao local não funcionam há dois anos, enquanto o registro manual de quem entra e sai“não é confiável”. Chada contou também que soube de navios na Baía de Guanabara usados para armazenar drogas earmas, depois levadas em lanchas ao continente. Isso já era uma suspeita da PF, de acordo com um documentoenviado à Procuradoria no início das investigações em 2009. Não há informações de que a polícia tenha adotado algumamedida para impedir esse tipo de crime.A situação no Porto de Itaguaí também é descrita como grave. Em outubro de 2010, a PF apreendeu 250 quilos decocaína que seriam despachados do porto, escondidos em vasos de plantas, para o Porto Gioia Tauro, no sul da Itália,onde, segundo a Justiça Federal, atuam organizações mafiosas. Apesar da ação bem-sucedida da PF naquele momento,a abertura dos arquivos de um pen drive do italiano Emanuele Savini, condenado em maio a 14 anos de prisão porenvolvimento com o tráfico, revelou a fragilidade dos portos. O documento lista outras quatro remessas de plantas aGioia Tauro entre 2007 e 2010, levantando suspeitas de que a quadrilha tenha mandado mais drogas ao exterior domesmo modo. Dois carregamentos saíram do porto do Rio de Janeiro e outros dois de Itaguaí. Não se sabe se há umfluxo contrário de entrada de armas. Drogas são comumente trocadas por armamento.
  • 5. Os procuradores ainda não têm prazo para concluir o trabalho de investigação e apresentar um diagnóstico final sobre otráfico de armas. Como se trata de um inquérito civil, ao final da apuração a Procuradoria vai apresentar recomendaçõesà Receita e à Polícia Federal. Se os conselhos não forem seguidos, um caminho pode ser uma ação judicial para fazercumpri-los. Há também uma investigação criminal da própria PF que deve resultar numa operação contra servidoresfederais acusados de envolvimento em casos de contrabando e tráfico de armas no Rio.O novo superintendente da PF no Estado, Valmir Lemos de Oliveira, no cargo desde maio, não está satisfeito com asexplicações que atribuem ao contrabando papel essencial no armamento do crime no Rio de Janeiro. Ele disse ter feitoum estudo sobre apreensões em 2008 e 2009, cujo resultado mostrou que 96% do que foi retirado de circulação noEstado do Rio é de fabricação nacional. Portanto, não seria um problema de tráfico internacional de armamentos. Issonão significa, segundo ele, que a Polícia Federal deva desprezar o assunto. O secretário Beltrame, procurado porÉPOCA, preferiu não falar. Ele foi discreto também ao ser ouvido pelos procuradores e não fez críticas a sua corporaçãode origem, a Polícia Federal. Tudo bem. A polícia não precisa brigar internamente para prestar um serviço eficiente àpopulação. Melhor mesmo que não o faça. O importante é que os maus policiais sejam afastados e que a ação dasautoridades impeça os bandidos de se armarem – coibindo, por falta de meios, que eles encenem um outro 11 desetembro à carioca.
  • 6. Fechar

×