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Estoi, identidade e transformação

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    Estoi, identidade e transformação Estoi, identidade e transformação Document Transcript

    • Estoi_ Identidade e transformaçãoPatrícia Mimoso Vairinhos MalobbiaCâmara Municipal de FaroDepartamento de Cultura e PatrimónioDivisão de Núcleos Históricos
    • Agradeço em particular ao Professor Doutor Francisco Lameira o primeiro aincentivar-me para este tema e para a elaboração deste estudo.Ao Professor Doutor Francisco Barata Fernandes e ao Professor Doutor JoséEduardo Horta Correia pela disponibilidade, atenção e orientação que dedicarama este trabalho.Aos habitantes e vizinhos de Estoi pelas preciosas informações, pela suaautenticidade e generosidade, em particular a José António Paula Brito.À Câmara Municipal de Faro por tornar possível a sua realização e publicação.Aos amigos que me acompanharam e com quem muito aprendi em especial àTeresa Valente pela generosidade e amizade que sempre demonstrou, à TâniaRodrigues pela sua ajuda e dedicação, e ainda, à Maria Rita Almeida, MartaRocha e Fernando Pinheiro, colegas com quem mais partilhei este estudo.Por fim, o apoio da minha família em especial aos meus pais, ao Stefano, àMariana e ao João, a quem dedico este trabalho. 3 Estoi| Identidade e transformação.
    • Um contributo para o conhecimento do património de EstoiDando continuidade à política cultural desenvolvida por esta autarquia nadefesa e divulgação do património cultural existente no concelho de Faro e dosbens imóveis que o integram, o município tem vindo a promover um conjunto deiniciativas que visam a sua protecção e valorização.Dessas iniciativas salienta-se a proposta de classificação como Conjunto deInteresse Municipal do núcleo urbano antigo de Estoi, quer pela sua especificidadeao nível da localização e integração paisagística, associadas ao enquadramentorural com o qual se articula, quer pela sua singularidade do ponto de vista urbanoe arquitectónico.Distinguem-se nesta aldeia histórica dois exemplares de excepção meritórios dealusão em termos patrimoniais - Ruínas de Milreu, classificadas como MonumentoNacional e o Palácio de Estoi, classificado como Imóvel de Interesse Público erecentemente readaptado a pousada.A importância deste núcleo, que constitui um dos mais significativos testemunhosdo património edificado do Barrocal algarvio, leva este município a estabelecerprioridades na execução de instrumentos de planeamento e gestão, que setraduzem, não só na elaboração de um regulamento e Plano de Urbanização,mas também, na realização da Carta de Património do Concelho de Faro.Neste encadeamento, para complemento e suporte teórico das acções em curso,urge a presente publicação que dá um contributo imprescindível para oconhecimento do património de Estoi, do ponto de vista urbano e arquitectónico e,consequentemente, uma maior consciência na preservação da sua identidade.Faro, 18 de Junho de 2009José ApolinárioPresidente da Câmara Municipal de Faro
    • Prefácio
    • Identidades para um património anónimoO estudo de pequenos núcleos urbanos e das suas arquitecturas anónimas, naperspectiva da caracterização e defesa dos seus valores patrimoniais pareceter vindo a alargar-se e a despertar o interesse e a curiosidade em jovensarquitectos investigadores. De facto, as grandes decisões pós 25 de Abril,relativas à salvaguarda de centros históricos das principais cidades portuguesas,seguidas da criação dos Gabinetes Técnico Locais (GTL) na segunda metade dadécada de 80, contribuíram para o desenvolvimento de um processo contínuo,embora com avanços e recuos, de definição de políticas de intervenção nopatrimónio arquitectónico. Verifica-se que as pequenas estruturas de apoio técnicoautárquico, entretanto criadas, foram dominantemente constituídas por jovensarquitectos, integrando também jovens engenheiros, o que ajudou a desfazer opreconceito que o interesse pela questão patrimonial era de natureza passadistae conservadora. Hoje, já se pode avaliar o resultado de intervenções, a nívelnacional, conduzidas pelas novas gerações. Representam uma nova fase, umanova atitude, decisiva, que contrasta com as arcaicas políticas, anteriores à criaçãodo extinto IPPAR.Naturalmente, embora tenham sido decisivos os programas europeus de apoiotécnico e financeiro à salvaguarda do património, sabe-se que sem se disporde estudos analíticos rigorosos, de metodologias adequadas e de projectosespecíficos para cada caso, tais programas correm o risco de não atingir oseu principal objectivo: a salvaguarda patrimonial como acção quotidiana eprogressista. Isto é, aquela que não se rege pela necessidade de dar resposta anegócios intempestivos, por vezes de iniciativa e interesse privados, frequentementecaracterizados pela defesa do património como fachada culta para a usualespeculação imobiliária, na área do turismo ou da habitação.Interessam as acções destinadas a médio e curto prazo, criando novosprocedimentos de resposta e apoio à intervenção quotidiana, aoacompanhamento de obras, ao aconselhamento e realização de pequenosprojectos de reabilitação em edifícios e espaços públicos, à criação de novasrotinas de exigência técnica e cultural ao nível da intervenção arquitectónica.É difícil, mas é importante e decisivo saber resistir ao discurso das “janelas deoportunidades”, das “apostas” e dos “desafios” porque sabe-se que não temsido assim que se tem conseguido obter bons resultados para o colectivo,para a comunidade, isto é, para o património de todos nós. A salvaguarda dopatrimónio, antes de tudo, exige informação, conhecimento, estudo, voluntariado,solidariedade, altruísmo, tempo (tempo de estudo, tempo de projecto e tempo deobra).O trabalho desenvolvido por Patrícia Malobbia representa um excelente contributopara o conhecimento dos valores patrimoniais arquitectónicos e urbanos deEstoi. É resultado de uma paciente, sistemática e rigorosa investigação elaboradano âmbito da dissertação de mestrado em “Metodologias de Intervenção noPatrimónio Arquitectónico - MIPA” da Faculdade de Arquitectura da Universidadedo Porto.Este trabalho, para além do elevado interesse do seu conteúdo, constitui relevanteexemplo de relação entre Universidade e Comunidade, entre investigaçãoacadémica e prestação de serviços à comunidade.O estudo apresenta Estoi através do seu enquadramento geral histórico e geográfico,mas construindo, também, uma interpretação do seu processo de formação, expansãoe transformação com apoio na análise dos factos arquitectónicos e urbanos. Estainformação é recolhida na própria história do aglomerado e trabalhada numaperspectiva analítica, através de desenho de arquitectura expressamente elaboradopara o efeito e de redesenho de cartografia histórica e outros elementos de
    • representação arquitectónica ou territorial. Trata-se de uma investigação trabalhosa,que exige conhecimento directo de factos e objectos, tendo-se experimentado,com sucesso, uma metodologia que poderá servir de suporte a outros trabalhoscongéneres.O património arquitectónico de Estói é aqui analisado detalhadamente, tendo-se como objectivo registar com rigor as suas características matriciais e o seuprocesso de transformação. Nesta perspectiva trabalha-se com conceitos maisoperativos e actuais de património, estabelecendo-se uma permanente relaçãoentre a obra arquitectónica e os seus elementos, entre obra e espaço público, entreespaço público e parte do núcleo urbano, entre usos actuais e usos iniciais.O trabalho aponta estratégias para definição de programas de intervenção nostempos presentes, revelando não só conhecimento pormenorizado da situaçãoedificada existente, como das dinâmicas sociais e económicas da comunidade quea habita.Através deste estudo pode verificar-se, com clareza, as potencialidades dedesenvolvimento e de valorização patrimonial e cultural que este pequeno núcleourbano possui tendo presente a feliz particularidade de se localizar entre as ruínas 7 Estoi| Identidade e transformação. Prefácioromanas de Milreu e o palácio setecentista da família Carvalhal.Que este esforço de investigação possa seguir o seu caminho, apoiando ouorientando acções de intervenção no sentido da divulgação e salvaguarda daidentidade patrimonial de Estoi!Porto, 15 de Maio de 2009Francisco Barata Fernandes
    • Estudar uma aldeia enquanto patrimónioA dissertação que em boa hora se publica, é um marco muito importante nopanorama do estudo do património urbanístico algarvio.Desde logo pelo tema - uma aldeia e não uma cidade convencional.O mundo rural de expressão urbana é tratado com a dignidade que tambémmerece, ou seja, de modo científico. Depois pela metodologia utilizada. A análisepressupõe um bom entendimento do sítio e da história do Algarve.Assim se consegue, pela primeira vez, compreender o caso de Estoi. Descobre-se onúcleo genético, a “água”, a “praça”.Estudar uma aldeia enquanto património pressupõe também nesta dissertaçãouma apresentação teórica de conceitos, o entendimento e a história do patrimóniourbano, a aferição das relações entre arquitectura e urbanismo, entre morfologiae tipologia, a situação da arquitectura rural, portanto a superação da velhadicotomia erudito/ popular.Só esta reflexão sobre o conjunto urbano entendido como um todo, onde se incluio território, a sua ocupação e sua descaracterização, permite compreender asrupturas e portanto apontar soluções de intervenção, verdadeiro escopo de umtrabalho com estas características. Aqui os instrumentos de análise estão ao serviço 9 Estoi| Identidade e transformação. Prefáciode uma redefinição da aldeia como expressão arquitectónica e urbanisticamenteautónoma, tentando inverter a tendência, que se pensava irreversível,de a transformar um mero dormitório de subúrbio.Vila Real de Santo António, Maio de 2009José Eduardo Horta Correia
    • 13 Introdução14 Opção temática e objectivos16 Opções metodológicas18 Fontes escritas e gráficas19 Notas sobre a organização gráfica e documental21 1 Conceitos teórico – metodológicos22 Evolução dos conceitos sobre a salvaguarda do património arquitectónico26 A salvaguarda do património urbano: do monumento/edifício à cidade30 As diferentes atitudes face ao contexto32 Do conceito de identidade33 A fachada enquanto parte da identidade34 Sobre a noção de tipo, tipologia e modelo39 2 Do núcleo de Estoi Enquadramento histórico e geográfico41 O Algarve e seu território46 Sobre a ocupação e o povoamento no Algarve52 Os núcleos rurais no Algarve64 Análise comparativa dos principais núcleos rurais70 Condições físicas, morfológicas e acessibilidades do núcleo de Estoi Origem, formação e consolidação73 Antecedentes históricos76 A formação – entre o século XV e o XVIII79 A consolidação – entre os finais do XVIII e o XIX81 O século XX e os novos modelos de urbanidade
    • 99 3 Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi O espaço urbano101 Estrutura e forma urbana119 O Largo Ossónoba: o espaço embrionário120 Modos de transformação123 O tecido parcelar O conjunto edificado133 Estudos percursores: uma primeira aproximação137 Análise tipológica: identificação e caracterização179 Aspectos construtivos e morfotipológicos gerais191 4 A salvaguarda e gestão do património de Estoi193 Tendências de transformação e expansão 11 Estoi| Identidade e transformação. Índice195 O planeamento nos núcleos rurais: o caso de Estoi199 Identificação dos principais níveis de transformação206 Princípios estratégicos de intervenção211 A gestão do seu património219 Considerações finais224 Bibliografia229 Anexos230 Fichas dos núcleos rurais245 Análise dos planos para Estoi257 Tratamento de fontes documentais269 Apêndice documental gráfico272 Ficha técnica
    • Esta publicação teve como base o texto da dissertação de Mestrado emMetodologias de Intervenção no Património Arquitectonico apresentado à Faculdadede Arquitectura da Universidade do Porto em Janeiro de 2007 sob orientação de ,Francisco Barata Fernandes e co-orientação de José Eduardo Horta Correia. Apesardas alterações pontuais efectuadas durante a sua revisão procurou-se sempre quepossível manter o texto e a estrutura do trabalho original reproduzindo na íntegratodo o conteúdo gráfico recolhido e elaborado.
    • Introdução13 Estoi| Identidade e transformação.
    • Opção temática A análise e o estudo dos fenómenos urbanos tem desde sempre incidido de forma e objectivos mais alargada sobre o conhecimento da cidade, da urbe, interpretando a sua lógica de formação e especificidade. A reflexão teórica e cientifica dominada pelos historiadores, arquitectos ou geógrafos tem assim privilegiado o estudo dos fenómenos urbanos de grande volume demográfico, conduzindo-nos a um maior conhecimento sobre a cidade em detrimento de aglomerados mais pequenos como a aldeia. A maior consciencialização para temas como o ambiente, a ecologia e o património vem assim despertando a atenção sobre um território rural no qual se integram muitos núcleos urbanos. Neles se vem progressivamente intervindo, enquanto alternativas turísticas e residenciais, face à dinâmica concentrada a Litoral. O cenário de alguma “intocabilidade” que vinha caracterizando os pequenos núcleos rurais tem vindo contudo a sofrer, nas últimas décadas, alterações, transformações e fortes pressões, as quais receamos venham a generalizar-se, adulterando as características físicas destes pequenos aglomerados. Quando deparamos com cidades que continuam a ampliar os seus perímetros de expansão, estendendo-se ao espaço agrícola ou rural, revelando por outro lado problemas de estagnação dos centros antigos e enormes problemáticas no que concerne às questões de planeamento e qualidade de vida; quando vemos cada vez mais evidente a ameaça sobre o território rural, no modo como os núcleos rurais se vêm transformando, adulterando e importando modelos de cidade, estranhos ao seu tecido e vivência, enquanto reflexo da deficiente gestão do território, percebemos o quanto se torna urgente o seu reconhecimento e entendimento numa perspectiva de salvaguarda. A necessidade de proceder a um maior reconhecimento e registo destes aglomerados, quer numa vertente paisagística quer arquitectónica, torna-se assim cada vez mais pertinente. O estudo realizado nos anos setenta, desenvolvido por Aldo Rossi, Eraldo Consolascio e Max Bosshard1, para o Cantão Ticino, constituiu uma referência metodológica, nomeadamente em termos de análise tipológica. Por outro lado, incidindo numa abordagem mais local, encontramos alguns contributos pontuais para o estudo dos núcleos rurais no Algarve, de que é exemplo, numa perspectiva arquitectónica e urbana, o estudo sobre Alte, de Isabel Raposo (1995), e ainda outros trabalhos específicos, promovidos pela associação In loco tais como: Estoi - um olhar sobre o património (2000). Verificamos contudo que a abordagem de grande parte destes trabalhos incide numa leitura mais antropológica, geográfica ou historicista ou ainda tendo em vista a promoção turística. Mais recentemente, no âmbito do Programa de Revitalização das Aldeias do Algarve, promovido pela CCDR Algarve (2001-2007) encontramos como principal contributo alguns estudos e trabalhos desenvolvidos pelos Gabinetes Técnicos de Apoio às Aldeias, tais como os Planos de Intervenção das Aldeias do Algarve (2003) ou outros como o de São Marcos da Serra, de Dália Paulo e Nuno Beja que no mesmo enquadramento reuniram uma documentação especifica contribuindo também para um melhor conhecimento deste aglomerado. O estudo que nos propusemos desenvolver incide sobre Estoi, um aglomerado rural com cerca de 1500 habitantes, localizado a cerca de 10 Km a Norte de Faro. A escolha do tema prendeu-se antes de mais com o elevado interesse que o núcleo desperta, dadas as particularidades quer em termos geográficos, quer em termos patrimoniais, mas também por se tratar de um pequeno aglomerado cuja configuração e estrutura urbana mantêm uma unidade e coerência ainda muito perceptível. A estes elementos alia-se também o facto de se tratar de um núcleo antigo habitado, com actividades e vivências culturais ainda muito presentes. Estoi, apesar das cada vez mais presentes intervenções dissonantes sobre o edificado, conseguiu fixar população e conservar em termos de conjunto alguma coerência e unidade ao nível urbano, aspectos que lhe conferem uma certa exclusividade ao nível da região.1 AA. VV., La costruzione del territorio,- A sua excepcionalidade prende-se fundamentalmente com a existência de um Uno studio sul Canton Ticino, Palácio Setecentista, Tardo-Barroco e um importante núcleo arqueológico, as Ruínas Fondazione Ticino Nostro, 1985 Clup, Milano de Milreu, representando este uma das mais importantes villas romanas no país.
    • Estas duas estruturas ressaltam a sua posição estratégica no contexto territorial àqual se acrescenta a proximidade com os principais centros urbanos da região,nomeadamente a capital de distrito.Estoi revela ainda algumas semelhanças com outros aglomerados rurais vizinhos,tais como Moncarapacho, Santa Barbara, Pechão, Quelfes ou São Brás deAlportel que, situados na faixa de transição entre o Barrocal e a planura litoral,mantêm permanente essa relação de proximidade e dependência com osprincipais centros urbanos.Interessa-nos fundamentalmente neste trabalho, partindo do conhecimento doque é hoje o seu território, analisar, interpretar e reconhecer, através de umaleitura contínua, as várias transformações do núcleo de Estoi na sua componentearquitectónica e urbana, desde o período medieval até à actualidade.A partir de uma metodologia de abordagem feita através do conhecimento dasvárias partes que compõem o núcleo, procuramos entender de que forma é eleresultante da articulação dessas mesmas partes, cronologicamente distintas.Pretende-se assim ensaiar uma metodologia de identificação e caracterizaçãode uma estrutura urbana que permita ampliar não só o conhecimento que temossobre a mesma, como avaliar o seu estado actual, identificando os testemunhospatrimoniais remanescentes, relacionando-os e articulando-os num sentido degestão patrimonial contemporâneo.Os princípios estratégicos de salvaguarda e valorização do núcleo aquiconsiderados deverão ser entendidos numa perspectiva que teve em conta aespecificidade deste território, não se pretendendo que funcionem como regra ou 15 Estoi| Identidade e transformação. Introduçãomodelos estanques.Pretende-se que o material exposto neste trabalho funcione enquanto matéria deestudo e de reflexão sobre como construir um projecto mais amplo e alternativo àstendências actuais e de como deve ser entendido o seu crescimento.Considerando que a salvaguarda do património construído deve passar tambémpelo atenuar das rupturas com a paisagem natural envolvente, enquanto “limiar” deum território que é composto por um espaço nuclear e uma área de salvaguarda.Esperamos que a informação recolhida e reinterpretada possa contribuir, enquantomaterial operativo de projecto, para futuras intervenções em Estoi.
    • Opções metodológicas Partir para um estudo desta natureza pressupõe seleccionar diferentes áreas de trabalho. Optámos, enquanto processo metodológico, por encontrar na geografia, sociologia, antropologia e história os instrumentos de trabalho com os quais foi possível chegar a um melhor entendimento global sobre o lugar e a sua realidade. Estes não são portanto “únicos, especiais” deste contexto, mas foram cientificamente testados e verificados na prática de análise já efectuada para outros estudos. O trabalho estrutura-se segundo uma primeira componente - capítulo I que fundamenta teoricamente as opções metodológicas da análise, clarificando os próprios conceitos utilizados ao longo do estudo e, por outra componente que diz respeito à própria análise morfo-tipológica de Estoi. Os três capítulos subsequentes que compõem a análise de Estoi apresentam de forma gradual essa aproximação e aprofundamento ao objecto de estudo. Partindo do enquadramento geográfico e histórico, analisando o processo de ocupação do núcleo, procurámos chegar a uma leitura mais clara sobre as suas principais características. Através da análise comparativa dos diferentes aglomerados rurais, confrontando as suas realidades e modos de transformação, identificamos quais as principais proximidades com o núcleo de Estoi. O entendimento da sua vocação inicial, do seu papel face a um território envolvente, constituiu uma etapa fundamental para a compreensão da sua estrutura e morfologia urbana. A lógica de ocupação é reveladora de uma situação comum a outros assentamentos, em que a estrutura urbana resulta de antigos caminhos que ligavam aos principais lugares dispersos ao longo da freguesia. Enquanto pólo de referência quer religiosa, quer produtiva, quer cultural, o núcleo traduz na sua estrutura urbana mais antiga essa permanente articulação com o território - concentrada num lugar elevado o lugar da Praça, constitui o ponto de chegada, de encontro, a partir do qual desaguam os principais caminhos, transformados posteriormente em ruas. A necessidade de estabelecer uma relação entre o desenvolvimento morfológico do núcleo e a individualidade tipológica do seu edificado pressupõe uma postura de análise que incidiu na interpretação cronológica das principais fases de transformação. No segundo capítulo procurou-se identificar cronologicamente os momentos que determinaram as principais transformações em termos de forma urbana tentando perceber também, quais as correspondências em termos de edificado. O estudo da evolução urbana de Estoi apoiou-se fundamentalmente em três fases: 1 entre o século XV e o século XVIII - a sua origem e formação correspondendo esta à delineação da estrutura urbana e dos “elementos primários”, representados essencialmente pelos edifícios religiosos; 2 entre os finais do século XVIII e o século XIX, momento de consolidação e expansão associado à construção do Palácio e de novos eixos de expansão; 3 o século XX que se desdobra em duas etapas: uma primeira de maior continuidade com os pressupostos e a matriz imposta desde o final do século XIX e uma outra, já na segunda metade do século XX que evidencia maiores rupturas com o tecido existente. Constatamos que o tecido urbano antigo assenta numa matriz que se estruturou durante os séculos XV e XVI, consolidando-se e expandindo-se a partir da segunda metade do século XVIII e século XIX, correspondendo este ao período onde nos reportam os dados mais concretos referentes ao núcleo. A sua estrutura e forma urbana transformam-se com o desenvolvimento de novas matrizes já no século XX.
    • No terceiro capítulo incidimos sobre a caracterização dos principais valores patrimoniais existentes, sobretudo no âmbito do espaço público e do conjunto edificado, numa perspectiva de análise morfo-tipológica. Esta metodologia de análise pressupõe observar no passado determinados parâmetros definidos e experimentados, permitindo não só, a sua recolha e identificação, mas também uma futura reinterpretação enquanto “ferramenta essencial no exercício corrente da arquitectura do projecto ao plano”.1 Pretende-se nesta leitura perceber quais as tendências de ocupação do lote e sobretudo, o tipo de relação tipológica predominante entre espaço público e edificado. O interesse pelo entendimento tipológico da arquitectura assenta num tipo de abordagem que utiliza o tecido pré-existente, enquanto material de trabalho conceptual. O estudo apresentado apoia-se numa amostragem de casos onde procuramos, através do reconhecimento de semelhanças ou de situações de repetição, individualizar modelos e identificar tipos dominantes. No quarto capítulo procuramos identificar as principais tendências de transformação actuais. Perceber de que forma se processa hoje a expansão e transformação e de como estas interferem na conservação da sua identidade física. Tentamos entender como poderão os diferentes modos de actuação sobre o construído complementar-se e conciliar-se com o existente, apoiado num maior conhecimento sobre o objecto de estudo. 17 Estoi| Identidade e transformação. Introdução1 F. Barata Fernandes, Transformação e Permanência na Habitação portuense - As formas da casa na forma da cidade, Faup, Porto, 1999, p 35
    • Fontes escritas e gráficas A informação histórica que surgirá em determinados capítulos deste trabalho deverá ser entendida como material necessário à sua compreensão. Os dados e documentos recolhidos surgem-nos enquanto matéria com a qual foi possível entender do ponto de vista da arquitectura, os processos de transformação e a existência de determinados modelos habitacionais. No estudo da sua evolução e transformação urbana apoiamo-nos para além das principais marcas e vestígios físicos sobreviventes, nas fontes materiais, em testemunhos orais que constituindo verdadeiros documentos, em muito contribuíram para o seu entendimento. O material levantado e adquirido permitiu um sistema de observação e de análise dos principais factos urbanos. A passagem entre o primeiro momento de ocupação, concentrado em Milreu, e o período medieval, onde nos reportam as primeiras referências sobre a aldeia de Estoi, localizada a uma distância de sensivelmente 900 metros a Nascente da antiga villa, envolve um intervalo de tempo onde permanecem apenas alguns testemunhos arqueológicos, passíveis de serem acrescentados e ou aprofundados, no campo da antropologia e da arqueologia. Particularizar Estoi remeteu-nos sistematicamente para uma contextualização de âmbito mais vasto, ao território envolvente e naturalmente à cidade de Faro. Procurámos assim reunir o máximo de informação dispersa. As primeiras referências ao núcleo remontam ao início do século XV e XVI e apoiam-se nas descrições das Visitações da Ordem de Santiago ou nas obras corográficas disponíveis. Na análise dessas mesmas fontes, apercebemo-nos que as referências ao aglomerado ora se reportam exclusivamente às Ermidas, como a actual Matriz, ou a outros edifícios religiosos, sendo escassas as alusões ao núcleo e ao seu território, ora nos remetem sistematicamente para Milreu associando os vestígios existentes à antiga Ossónoba. Este tema sobrepõe-se, na maior parte das vezes, ao do próprio núcleo. O território envolvente, a paisagem e a abundância de água, constituem referências dominantes evidenciando o seu sentido funcional, dependente destas mesmas condicionantes. Em termos de cartografia conseguimos contar apenas até ao século XIX, com o mapa de 1800 que nos fornece um desenho do núcleo ainda concentrado exclusivamente na parte mais elevada. Apesar da riqueza dos dados revelados permaneceu ao longo do trabalho, a necessidade de colmatar algumas omissões. No inventário do Arquivo Histórico Municipal, a partir dos documentos para Cobrança da Décima, Sisa e Contribuição Municipal identificaram-se algumas das ruas já existentes durante os séculos XVIII e XIX. Já para o século XX foi possível apoiarmo-nos nos testemunhos orais ou nos dados recolhidos nos livros de Actas da Câmara Municipal que permitiram chegar a algumas conclusões sobre a sua actual forma urbana. Podemos ainda constatar que grande parte da documentação relativa a Estoi tem conhecido nos últimos anos um maior contributo sobretudo a partir da proposta de Plano Geral de Urbanização (1981), Proposta de Plano de Pormenor (1996- 2002) e mais recentemente com os estudos elaborados no âmbito dos Planos de intervenção das aldeias do Algarve (CCDRAlgarve e ProAlgarve 2001-2004), do qual Estoi integrou. No arquivo da Câmara Municipal foi possível através da consulta de processos de obras, a identificação de algumas casas e tipologias hoje inexistentes. Esta base permitiu proceder a um levantamento e registo mais rigoroso do processo de transformação. A confirmação de dados e recolha de outros obrigou naturalmente a um trabalho de campo que se apoiou fundamentalmente no registo fotográfico, oral e tratamento gráfico de todo o material. Não será demais referir o contributo valioso dado pelos próprios habitantes que disponibilizaram e mostraram as suas casas, revelando informações preciosas, possibilitando uma melhor compreensão sobre o núcleo.
    • Notas sobre a organização O âmbito deste estudo obrigou-nos a recorrer para além das fontes materiais gráfica e documental existentes, a novos “objectos documentais”. Salientamos a importância que o material gráfico elaborado assume no presente trabalho, constituindo este o seu suporte, complementando a leitura e a compreensão deste estudo. Em anexo apresentamos toda a documentação complementar à leitura dos capítulos, incluindo as fichas dos núcleos rurais, as análises aos planos de Estoi, assim como toda a informação essencial recolhida em arquivo tais como as fontes gráficas existentes até meados do século XX, reunidas no apêndice documental gráfico. 19 Estoi| Identidade e transformação. Introdução
    • 1 Conceitos teórico - metodológicos21 Estoi| Identidade e transformação.
    • O modo como conhecemos um lugar determina, em parte, o tipo de relação que construímos com esse mesmo sítio e o valor que lhe atribuímos. Se o nosso conhecimento é superficial ou distante muito dificilmente conseguiremos compreender o seu sentido, reflectindo-se naturalmente no modo como nele actuamos. Do conhecimento à salvaguarda do património constitui um percurso essencial no qual se têm pautado as principais metodologias de intervenção. As preocupações teóricas sobre a salvaguarda do património iniciadas nos finais do século XIX e prolongadas pelo século XX adentro, lançaram as bases metodológicas nas quais assentam grande parte das intervenções actuais sobre o património. Pretende-se neste capítulo abordar de forma mais rigorosa os conteúdos teórico metodológicos nos quais se apoiou a análise de Estoi. O modo como vemos e intervimos sobre determinado lugar ou edifício reporta-nos, quase sempre, a experiências anteriores que se demonstraram eficazes ou não eficazes, mas com as quais se foram apoiando as estratégias, modelos, processos de intervenção que conhecemos na maior parte dos tecidos urbanos. Procuramos destacar e clarificar os principais momentos em que foram introduzidos princípios e como eles têm vindo a influenciar as políticas de intervenção e salvaguarda no património construído. Interessa-nos também perceber como se processou, ao longo dos tempos, a transformação dos conjuntos urbanos, enquanto palco de demonstração dos vários níveis de intervenção sobre o construído. Pretendemos ainda analisar o quanto a valorização exclusiva do monumento, justificou num primeiro momento o sacrificar de muitos dos tecidos antigos. Esta prática refutada ainda durante a primeira metade do século XX, deu lugar uma maior consciencialização no sentido de valorização e salvaguarda dos tecidos urbanos antigos enquanto um todo, conciliada ao seu inevitável processo de transformação e expansão. A identidade de um lugar não está assim exclusivamente ligada a um objecto isolado. Ela estende-se a um campo mais vasto, composto por partes que vivem interdependentes e em permanente transformação. A análise das várias partes que compõem qualquer tecido urbano pressupõe neste trabalho, para além de um conhecimento geral do seu enquadramento histórico e geográfico, o entendimento tipológico da arquitectura, analisando os tipos ou modelos que constituem e definem parte da sua forma urbana. Neste sentido prende-se também a necessidade de clarificar e precisar definições e distinguir conceitos, como os referentes à identidade, tipologia e modelo, reflectindo sobre a abordagem morfo-tipológica enquanto instrumento de clarificação de uma das principais partes constituintes dessa mesma identidade. Evolução dos conceitos O cenário sócio cultural e político que marcou o panorama internacional, no sobre a salvaguarda final do século XIX, foi fortemente influenciado pelas consequências da revoluçãodo património arquitectónico industrial. A introdução de novas correntes ideológicas que transformaram e provocaram profundas alterações no ritmo e tempo, significaram também um despertar para a problemática da salvaguarda do património construído. As novas regras impostas pelo desenvolvimento industrial reflectiam-se sobretudo na construção de novas infra-estruturas, como estradas, canais, caminhos-de- ferro, necessárias para dar resposta a um modelo de cidade que enunciava a separação entre residência e o local de trabalho. O modelo oitocentista de cidade traduzia um nova noção de urbanismo apoiado na mobilidade, nos transportes, contribuindo com fortes transformações na paisagem urbana pré existente e numa cada vez maior oposição entre o campo e a cidade. A par desta conjuntura assistia-se ainda à afirmação de ideais nacionalistas e a fortes reacções por parte de classes mais aburguesadas que se sentiam atingidas com as novas alterações da vida urbana. As influências sobre a cultura arquitectónica não se fizeram esperar. John Ruskin, arquitecto, representava a sociedade inglesa incomodada com as alterações que o novo movimento industrial imprimia na sociedade e no ambiente urbano e, consequentemente, na qualidade de vida das pessoas.
    • Insurgindo-se contra a industrialização, Ruskin afirmou-se como um forte adversário da produção industrial, em detrimento da produção manual, enaltecendo os valores culturais e históricos traduzidos nos bens patrimoniais construídos pelo Homem. Introduziu nos seus textos1 os valores moralistas e românticos, assumindo uma atitude conservadora e radical enquanto defensor da preservação da natureza e do passado arquitectónico, como testemunho de um mundo a preservar em oposição às novas tendências. Contemporaneamente a França implementava uma política de salvaguarda dos monumentos, enquanto promoção dos símbolos nacionalistas, sendo Viollet-le-Duc, um dos principais protagonistas das inúmeras campanhas de restauro. Viollet-le-Duc enquanto arquitecto do regime, participa em várias obras de reconstrução, incutindo nelas um método estilístico, com base no conhecimento técnico, material e formal do edifício existente a intervir. As suas intervenções implicariam obras de reconstrução profundas nos edifícios existentes, utilizando na maior parte das vezes a mesma “matéria”, empregando elementos originais repostos para reconstruir o existente, resultando num processo de restauro muito próximo da “anastilosis”. Esta postura viria a provocar reacções nas quais se inseria Ruskin e Morris. É neste contexto que se lançam as bases da discussão bipolar sobre a teoria de intervenção nos monumentos que separou ideologicamente Ruskin, conservador 23 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos (não intervencionista) de Viollet-le-Duc, restaurador (intervencionista)2. A posição de Ruskin destacava-se pela manutenção do monumento, valorizando a verdade do material, da sua execução enquanto técnica de construção tradicional, feita pela mão do homem e não pela máquina, defendendo a sua intocabilidade no processo de intervenção mesmo que isso implicasse a morte da ruína. A sua posição porém, não viria a vingar. Como refere Francisco Barata3, esta contrariava a evolução natural na qual se apoiou, desde sempre, a transformação das cidades europeias “feita de sobreposições, cruzamentos, demolições e culturas diversas“. A importância desta personagem num período de fortes transformações sociais, económicas e culturais, reside em parte, na sua contribuição enquanto protagonista de um conflito que despoletou a discussão teórica e a ideologia da conservação como método de intervenção e salvaguarda patrimonial, em alternativa ao restauro intervencionista até aí predominante4. Para além disso Ruskin ajudou a despertar a atenção não só para os aspectos de preservação dos bens arquitectónicos, como também para a própria paisagem urbana e território rural, encontrando em ambas o valor da presença da marca humana. Apesar de formarem frentes opostas relativamente ao tipo de intervenção, Ruskin partilha do mesmo sentimento de contemporaneidade estilística de Viollet-le-Duc, na adopção do românico ou do gótico respectivamente, enquanto estilos universais e como expressão desse “revival” romântico. A necessidade de conservação dos monumentos, ainda que sob dois pontos de vista intervencionistas diferentes, despoletou o surgir de outras vozes teóricas preconizadas por Camilo Boito (1834-1914) que, embora contemporâneo de ambos, procura “reconciliar” as duas posições: a conservação, na salvaguarda e valorização do seu valor histórico, artístico e memorial; o restauro, desde que pontual, aceitando o acrescento desde que fosse perceptível enquanto “registo novo”, distinto dos vários estratos que constituem a história do monumento. Dos princípios enunciados por Boito destaca-se aquele que melhor traduz o tipo de intervenção, no qual se apoiaram durante o século XX, muitas das operações de restauro que conhecemos: diferenciando o que é novo do que é antigo quer ao nível formal, quer ao nível material e construtivo. Esta atitude ainda tão contemporânea contribuiu, segundo refere José Aguiar5,1 J. Ruskin, Le sette Lampade para a formulação dos conceitos base, de uma teoria moderna de restauro. dell’architettura, Jaca BooK, 20012 J. Aguiar, Cor e cidade histórica. Mas um dos maiores contributos na clarificação dos conceitos de monumento, Estudos cromáticos e conservação do valor histórico e valor artístico, foi dado em 1905, com a publicação da obra de património, Faup, Porto 2003 Alois Riegl – O culto moderno dos monumentos.3 Cf. F. Barata Fernandes, Riegl, embora aproximando-se da atitude intervencionista de Viollet-le-Duc, salienta a Transformação..., op. cit possibilidade da intervenção sobre um monumento assentar em critérios mais científicos.4 Idem, Ibidem5 Cf. J. Aguiar, Cor ..., op. cit. Estabelece a distinção entre monumentos intencionais e monumentos histórico-artísticos,
    • estes últimos, segundo Riegl, resultantes de um valor assente na antiguidade no qual o período temporal tem um papel determinante. Define que o seu valor está associado a uma “catalogação” contemporânea, dependente do sujeito que o avalia e da sua noção de antigo/moderno. Riegl vem ainda reforçar a necessidade da análise morfo-tipológica, enquanto meio objectivo de classificação e ligação do património ao seu lugar específico1. Nos anos 30, encontramos em Giovannoni um dos maiores contributos para o reconhecimento da importância patrimonial dos tecidos urbanos antigos contrariando a tendência então dominante, para a valorização apenas do objecto isolado ou do monumento. Enquanto defensor do princípio da intervenção mínima ou consolidação estrita, Giovannoni alertou ainda para a necessidade de estabelecer a articulação entre tecidos antigos e os novos tecidos urbanos. Como refere José Aguiar, “Giovannoni é, juntamente com Ruskin e Sitte, um dos pioneiros da invenção e consolidação metodológica do conceito de conservação do património urbano […]”2. Em 30 de Outubro de 1931, é elaborada e publicada a primeira Carta Internacional do Restauro – A Carta de Atenas. Tratava-se de um documento internacional onde se estabeleciam pela primeira vez os princípios e critérios aplicáveis à conservação do património, constituindo esta até hoje, a base da maior parte das legislações nacionais europeias de salvaguarda do património arquitectónico. Nela se decretou a rejeição ao restauro estilístico lançando o tema da conservação estrita. Introduziram-se ainda outros temas como o da gestão patrimonial, em que se defendia a prevalência jurídica do direito público sobre o direito privado em monumentos. Em 1931 Giovannoni colabora ainda em Itália na elaboração de outra Carta del restauro (1931), onde segundo José Aguiar se realçam como principais novidades “o destaque dado à salvaguarda e à envolvente dos monumentos e à necessidade da adequação do programa aos monumentos […]”3. Em 1964, na sequência do II Congresso Internacional de Arquitectos e Técnicos dos Monumentos Históricos, resulta um dos mais importantes documentos internacionais: a Carta de Veneza sobre Conservação e Restauro de Monumentos e Sitios. Desta se destacam os principais princípios orientadores da conservação, nomeadamente o principio da autenticidade, a necessidade de conservação dos vários momentos históricos, da preservação e cuidado com as envolventes e demais relações volumétricas e ainda a importância da reutilização funcional, privilegiando a adequação do programa ao monumento e não o inverso. Nos anos 70, Cesare Brandi com a sua obra Teoria del restauro lança um conjunto de princípios teóricos segundo a seguinte premissa: “[…] o reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dupla vertente estética e histórica, com vista a sua transmissão para o futuro […]”. As suas teses viriam também a sustentar o documento que sucederia à Carta de Veneza: a Carta del restauro (1972). José Aguiar refere que um dos aspectos mais inovadores neste documento é precisamente o conceito de reversibilidade. A sua contribuição estende-se ainda ao conceito de centro histórico que passa a incluir - os antigos centros tradicionalmente entendidos como tais, como também “[…] todos os assentamentos humanos cujas estruturas unitárias e fragmentadas – ainda que transformadas ao longo do tempo – […] possuam particular valor de testemunho histórico, arquitectónico ou urbanístico”4. A evolução dos conceitos traduziu-se assim numa progressiva consciencialização do valor da cidade e da sua salvaguarda. Em 1975, na sequência da iniciativa do Ano Europeu do Património Arquitectónico, o Conselho da Europa aprova a Carta Europeia do Património Arquitectónico em cujo conteúdo se baseou a conhecida Carta de Amesterdão (1977). Nesta se reforçaram os conceitos sobre conservação integrada. A importância deste último documento reveste-se sobretudo numa maior1 Cf. Francisco Barata Fernandes, Transformação ..., op. cit., p. 320 sensibilização para a conservação do património arquitectónico enquanto2 Cf. José Aguiar, Cor ..., op.cit, prioridade no planeamento urbano e ordenamento do território, e ainda, p. 50 no alerta por parte dos poderes locais para uma maior responsabilização e3 Idem, ibidem, p. 53 comprometimento5.4 Carta del Restauro, citado por José A conservação urbana integrada tem origem no urbanismo italiano dos anos 70, Aguiar Cor ..., op.cit, pp. 67 e 685 Idem, ibidem, pp. 67 e 68 mais especificamente com a experiência de reabilitação do centro histórico de
    • Bolonha, onde se tentava a recuperação tendo em conta as suas várias vertentes – física, económica e social. Nos anos 80 destaca-se a obra de Françoise Choay L’ Allégorie du patrimoine que analisa o conceito de monumento e de património histórico nas suas variadas vertentes e interpretações, analisando e cruzando com a história, a cultura e memória dos tempos as diversas atitudes e conceitos. A crise da arquitectura e da cidade actual têm, segundo Choay, lançado o culto ao monumento ou ao património sem se perceber efectivamente qual o seu lugar hoje “[…] o património arquitectónico e urbano, figurado por um labirinto que dissimula a superfície cativante de um espelho […] pode ser decifrado como uma alegoria do Homem na alvorada do século XX. Sem certezas sobre a direcção para onde o orientam a ciência e a técnica, à procura de um caminho onde elas o possam libertar do espaço e do tempo para, de outra forma e mais eficazmente, o deixarem aí investir-se […]1. Em 1987, ainda em Itália é elaborada a Carta da Conservação e Restauro de objectos de Arte e Cultura, com o contributo de Paolo Marconi. A sua importância reside fundamentalmente na ampliação, em relação à Carta de 1972, do conceito de património. Substituem-se os termos “monumento” e “obra de arte” pelo de “artefacto histórico”. Propõem-se ainda em termos de conteúdo algumas modificações, nomeadamente no que diz respeito à introdução de novos materiais e tecnologias sobre estruturas 25 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos antigas. Alerta-se sobretudo para os efeitos negativos dos mesmos, defendendo-se a aplicação de soluções de cultura construtiva idênticas à da edificação original. Do mesmo ano é redigida a Carta Internacional para a Conservação das Cidades Históricas, também conhecida como Carta de Toledo. Esta teve como objectivo importante para a conservação da cidade, a manutenção das suas funções e actividades já preexistentes. Tal como refere José Aguiar esta define como valores a preservar: “[…] a forma urbana, definida pela malha fundiária e pela rede viária; as relações entre edifícios, espaços verdes e espaços livres; a forma e o aspecto dos edifícios (interior e exterior) definidos pela sua estrutura, volume, estilo, escala, materiais, cor e decoração […]. É expresso ainda, mais uma vez, o conceito de autenticidade, fundamental para garantir o valor de um determinado objecto patrimonial. As questões sobre autenticidade patrimonial levantam-se novamente em 1994 na conferência de Nara, na qual se reflecte o significado e o uso do património edificado sujeito às inevitaveis transformações de uma cultura. Nesta reflexão ganha importância a questão do património intangível, na valorização dos materiais e técnicas tradicionais. O debate teórico tem privilegiado nos últimos tempos o conhecimento cada vez mais profundo sobre o objecto a intervir, pautando-se fundamentalmente pelos conceitos da reversibilidade, a intervenção mínima, a compatibilidade e a autenticidade. A evolução das tecnologias e sistemas construtivos e sua difusão durante o século XX vieram contribuir não só para a universalização das técnicas como para a perda progressiva dos saberes e profissões tradicionais. Este factor foi determinante na perda de conhecimento de processos construtivos, comprometendo consequentemente a manutenção de factos arquitectónicos. Hoje verificamos que o campo do restauro arquitectónico tem vindo a exigir cada vez mais, um conhecimento especializado das técnicas tradicionais. Esta actividade vem por isso incentivando um conhecimento mais especializado, com base numa investigação e diagnóstico específicos que tornam mais ajustadas as técnicas de intervenção sobre sistemas construtivos antigos, tornando-as assim capazes de prolongar pelo maior tempo possível, a sua identidade física.1 Françoise Choay, A alegoria do património, edições 70, 2000, p. 225
    • A salvaguarda do Do reconhecimento do valor do monumento à valorização da cidade, pressupõe património urbano: do um período de tempo relativamente extenso que conhece em Sitte, Alois Riegl e monumento/edifício Giovannoni os maiores contributos. à cidade O conceito de valor patrimonial prevaleceu pelo século XX adentro, fortemente associado ao objecto monumento e a seu contexto próximo. “[…] o principal trabalho do O tipo de intervenção centrava-se essencialmente no restauro do monumento e na arquitecto é o de cerzir, o de sua valorização enquanto objecto a destacar ou a isolar. remendar ou corrigir. Esta postura contribuiu e justificou, na primeira metade do século XX, inúmeras Trata-se de um trabalho de demolições de bairros ou quarteirões que interferiam supostamente na leitura do permanente avaliação de edifício. heranças […]”. Podemos ainda acrescentar que as intervenções de maior ruptura verificadas sobre Daniele Vitale, 1993 a cidade antiga estão ligadas a dois momentos históricos distintos: no século XIX, a revolução industrial e depois já no século XX, a reconstrução das cidades, após a segunda guerra mundial. Mas as principais etapas de transformação urbana da cidade estiveram também ligadas a grandes inovações técnicas que se inauguraram nos finais do século XIX. Françoise Choay refere-se a propósito da transformação da cidade, aos três campos onde sequencialmente se manifestaram essas transformações - ao nível da construção, com a introdução de novos materiais como o aço, o betão e o vidro; nos transportes, com a mobilidade das massas e a difusão do carro a partir dos anos 30; nas telecomunicações, o telégrafo, o rádio e depois o telefone, transformando “[…] o seu campo de acção e a sua experiência de espaço, de tempo e da mesma forma, a estrutura dos seus comportamentos […]”1. Considerando os modelos de intervenção sobre o construído e de cidade teorizados a partir do século XIX, conhecemos como maior contributo o papel de Cerdá com o seu plano de 1859. O Plano de Ensanche vem estabelecer pela primeira vez uma articulação racional entre a cidade existente e um território novo a edificar, assegurando a continuidade construtiva da trama existente com os novos tecidos. Este define uma hierarquia viária, estabelecendo uma malha de quarteirões onde se privilegia a rua como elemento estruturante. Organiza a circulação, os equipamentos, os transportes, defendendo contudo a polifuncionalidade e um controlo morfológico do espaço público e da própria forma da cidade. O século XIX confrontava-se assim com dois modelos de cidade – a cidade linear que tem no contexto espanhol da cidade de Madrid um exemplo paradigmático, através da experiência de Arturo Soria y Mata (1888), e a cidade concentrada ou nuclear. Estes dois modelos irão constituir segundo Francisco Barata Fernandes “a base do debate das intervenções urbanísticas na cidade contemporânea”, nomeadamente ao nível tipológico – a habitação plurifamiliar ou uni-familiar com a construção em bloco ou em banda2. Mas as exigências relacionadas com os novos ritmos de vida como as condições de salubridade, de mobilidade, estimularam a defesa de outros modelos urbanos que se traduziram sobretudo, depois da segunda guerra mundial, em fortes alterações e modificações sobre o construído. A reformulação de infra-estruturas, o alargamento de vias, implicou um conjunto de transformações que afectaram de forma irreversível os tecidos urbanos mais antigos. Nos anos 30, no CIAM, (Congrès International d’Architecture Moderne), lançaram- -se as sementes do Movimento Moderno, constituindo um marco importantíssimo na formulação de uma nova doutrina de intervenção arquitectónica. Os ecos do modernismo anunciado nos CIAM reflectiram-se acima de tudo segundo Choay “pela erradicação das formas e tradições arquitectónicas do passado”. Segundo Le Corbusier, enquanto protagonista deste movimento, a evolução1 Citado por Françoise Choay, “Le règne de l’urbain et la mort de la tecnológica deveria ser acompanhada por uma transformação da imagem ville”, La ville – Art et architecture en arquitectónica, enquanto reflexo do seu próprio tempo. O edifício era pensado Europe 1870-1993, Centre George como um objecto técnico, como uma máquina, mergulhando no conceito de objecto Pompidou, Paris 1993 autónomo, desligado de todas as dependências e articulações contextuais3.2 Cf. Francisco Barata Fernandes, Le Corbusier defende ainda uma concepção de cidade mais hierarquizada, Transformação ..., op. cit.3 Idem, ibidem apoiada numa relação centro – periferia, na progressiva diminuição de densidade e
    • volumetria de um ponto para outro. Segundo Françoise Choay, Le Corbusier vai excluir do seu modelo de cidade, o elemento rua, elemento este onde assenta a base do tecido urbano, no qual se baseia a compactidade das cidades antigas1. Este modelo vai inspirar as principais renovações urbanas pelo século XX adentro, sobretudo após a segunda metade, no período pós-guerra. A valorização do objecto arquitectónico estende-se à própria cidade onde as intervenções não se inibem de destruir em alguns casos, as preexistências, impondo novas regras resultantes de um novo programa ou de novas exigências de habitabilidade. As exigências de higiene, circulação, vivência, impuseram novos modelos de desenho da cidade, levando em grande parte dos casos, à anulação do tecido existente. O valor patrimonial da cidade antiga continuaria ainda na primeira metade do século XX, circunscrito ao objecto monumento e ao seu contexto próximo. Em Itália, Gustavo Giovannoni reage contrariamente quanto à forma como se vinham processando as intervenções na Europa sobre a cidade antiga. Este propõe o diálogo entre cidade histórica e a nova construção, rejeitando a cultura industrial e a falsa memória dos tecidos antigos. Opõe-se, tal como anteriormente Camilo Sitte, não só às intervenções de anulação de quarteirões 27 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos como também àquelas que implicavam o seu esvaziamento, em detrimento da fachada2. Giovannoni propõe como ideia base a permanência do esquema planimétrico enquanto princípio orientador, na continuidade do tecido urbano, entre cidade antiga e cidade moderna. Esta visão fundamentava-se numa aproximação à cidade existente enquanto matriz orientadora, funcionando esta de princípio gerador e regulador na concepção de novos tipos de construção. Assentava ainda no papel indentitário da cidade antiga enquanto depósito de memórias às quais a nova cidade se devia apoiar e estruturar. Giovannoni reconhece também a importância do património urbano não restrito a uma função puramente museológica. Sugere a sua reutilização com a introdução de novos usos, compatibilizando-os com a sua morfologia. Propõe a conservação física como alternativa às operações de substituição - o processo de diradamento em alternativa ao sventramento3. Apesar das inúmeras transformações que se vêm registando sobre os tecidos antigos desde a segunda metade do século XX, constatamos que desde os anos 70 se avançou num consenso sobre o tipo de intervenção no património. A análise dos factos urbanos centrada no estudo da habitação tornou-se num tema que progressivamente foi tomando maior expressão. O entendimento do valor da cidade e da arquitectura menor enquanto conjunto, formado por partes diversas e contrastantes, difusamente sobrepostas e entrelaçadas em permanente transformação, foi conquistando a partir da segunda metade do XX, uma maior1 Cf. Françoise Choay, “Le règne..., importância nas discussões e temáticas sobre a recuperação do património op.cit. arquitectónico.2 Giovannoni, Gustavo, Vecchie città ed Nos anos 70, Leonardo Benevolo e Campos Venuti, salientam a importância da edilizia nuova, Città studi, 1992 recuperação do património apoiada numa metodologia de contenção, reforçando3 diradamento, s. m. a ideia de gestão do património construído sem necessidade de expansão. A sua “Tipo de intervenção nos centros reabilitação deveria pressupor revitalização, a reutilização, num processo de quase históricos antigos, assente no reciclagem do tecido herdado. processo de demolição pontual”; Segundo Daniele Vitale “[…] o carácter individual das cidades está no seu sventramento, s.m. modo de se construírem sobre um corpo precedente, recolhendo, acumulando e “[…] demolição de uma construção transformando as suas próprias heranças […]”4. por razões urbanísticas e higiénicas A ideia de transformação é pois um facto inevitável de qualquer tecido urbano ou de uma cidade ou quarteirão […]”. caso contrário estaríamos a correr o risco de o transformar num tecido congelado, in Giacomo Devoto; Giancarlo Oli, condenando-o ao esquecimento e à ruína. Dizionario della lingua italiana, Le Os estudos morfotipológicos desenvolvidos sobre a cidade existente a partir dos Monnier, Firenze 1990 anos 70 (Caniggia em Florença, Génova e Roma, Carlo Aymonino em Pádua, Aldo Rossi em Veneza) contribuíram significativamente numa visão mais sistematizada4 Daniele Vitale, citado por Francisco dos factos urbanos e no melhor entendimento da sua importância sobretudo em Barata Fernandes, Transformação ..., op. cit. termos de prática projectual.
    • Mais recentemente verificamos que a conservação urbana e territorial tem vindo a tornar-se na nova aposta em termos de gestão enquanto alternativa ao processo de expansão. Giuseppe Campos Venuti refere esta fase como “a terceira geração do urbanismo”, na qual assinala estarmos perante a “passagem da cultura da expansão urbana, à cultura da transformação”1. O contexto nacional Em 1924, a salvaguarda dos monumentos e áreas envolventes contemplava ainda a possibilidade de expropriação para demolição, das áreas em torno a um monumento. O reconhecimento do valor patrimonial do espaço da cidade antiga continuava, durante a primeira metade do século XX em Portugal, ainda pouco maturado. No princípio do século XX exemplos como no Porto - na zona da Sé ou ainda em Vila Viçosa, com o alargamento da praça à custa da supressão de quarteirões existentes, ilustram as ideias e metodologias de intervenção correntes. Estas operações apoiavam-se numa estratégica de valorização dos monumentos, recorrendo ao seu isolamento, para conseguir uma melhor leitura. Intervenções1 Giuseppe Campos Venuti, La terza como estas prolongaram-se em escalas diferentes pela segunda metade do século generazione dell’ urbanistica, Franco XX. O espaço envolvente era tomado como área de contemplação do objecto ilha. Angeli, Milano 19942 Cf. Miguel Tomé, Património e O seu esvaziamento em torno permitia a criação de um novo cenário. restauro em Portugal, 1920 -1995, As intervenções no património oscilavam assim essencialmente, na primeira metade Faup, Porto 2002 do século XX, entre o restauro do monumento e o esvaziamento ou demolição das3 Idem, ibidem, p. 163 partes envolventes. A ideia de cidade antiga aparecia ainda associada à imagem dos vários monumentos, a objectos arquitectónicos que eram tratados e intervencionados numa visão monumentalista e isolada. A partir dos anos 30, a nova prática iniciada por Duarte Pacheco, determinou a obrigatoriedade de planos de urbanização e expansão nas principais sedes de concelho ou localidades com mais de 2500 habitantes. Estes planos, orientados numa perspectiva higienista e funcionalista, contemplavam a preservação dos centros antigos apenas quando estes não interferiam com a estratégia definida para as novas áreas. Alguns dos Planos de melhoramentos, promovidos posteriormente pelo MOP (Ministério das Obras Públicas), nos anos 50, revelavam ao contrário dos anteriores (Planos de Urbanização), uma maior preocupação na manutenção das vivências locais da cidade antiga, distinguindo-se numa metodologia de acção que passava de forma prioritária, pelos seguintes campos: a infra-estruturas; b requalificação do espaço público; c reabilitação do edificado; d restauro dos monumentos; e regulamentação da gestão municipal. No entanto o seu campo de actuação viu-se apenas limitado a um conjunto de aglomerados que segundo Miguel Tomé “[…] apresentavam alto grau de integridade das estruturas antigas, conjugada com evidentes potencialidades económicas e turísticas […]”2. São os casos de Valença do Minho, Monção, Almeida, Marvão, Monsaraz e ainda as vilas de Ourém e Porto de Mós. Em 1949 procedem-se às primeiras classificações de conjuntos arquitectónicos como a Baixa Pombalina e a Avenida da Liberdade em Lisboa. Nos anos 50 os critérios expressos no Congresso Nacional de Arquitectura reforçam a importância da contextualização e do diálogo entre novo e antigo, rejeitando as tendências miméticas até aí predominantes nos processos de intervenção. Em 1951 Francisco Azeredo propõe a classificação da cidade de Guimarães, traduzindo como refere Miguel Tomé “a gradual consciencialização da importância da cidade ou de sectores urbanos como elementos patrimoniais […]”3. Esta consciencialização da importância do contexto urbano e sua salvaguarda continuava, contudo, muito associada à imagem da frente urbana, na manutenção da fachada enquanto marca de uma unidade arquitectónica. A importância na salvaguarda da arquitectura menor continuaria assim associada a essa visão cenográfica da cidade.
    • 1 Destacam-se algumas intervenções Esta postura justificou também uma progressiva tendência, mais uma vez, para a nos anos 60 e 70 de Fernando generalização do fachadismo apoiado em operações mais de cosmética, à custa Távora e Álvaro Siza Vieira2 Cf. Proposta de urbanização do do esvaziamento dos interiores. espaço histórico de Faro, Divisão do Em síntese constatamos que desde os anos 30 até aos anos 70 as operações Centro Histórico, CMF, Faro 2001 institucionais de intervenção no construído se centraram essencialmente sobre3 Plano de recuperação de imóveis os monumentos nacionais e no seu contexto imediato, com excepção de alguns degradados4 Serviço de apoio ambulatório local conjuntos fortificados acima referidos.5 Cf. Miguel Tomé, Património..., op. cit. As intervenções passaram assim fundamentalmente por recuperações estilísticas (apoiadas nas doutrinas do século XIX), enfatizando o monumento como elemento excepcional, sempre que possível isolado, de forma a permitir a sua contemplação. O entendimento da cidade antiga enquanto contentor de memórias e vivências sociais aproximando-se de uma abordagem mais morfo-tipológica, começa a ganhar maior expressão só a partir dos anos 60. O contributo impresso pelos estudos da Arquitectura Popular, a partir desta mesma década, começam a revelar-se nalgumas intervenções paradigmáticas sobre o edificado1. Por outro lado, constata-se uma cada vez maior necessidade de mecanismos de protecção para monumentos e conjuntos edificados. Ainda nos anos 60 e no caso particular do Algarve, começam a fazer-se sentir os primeiros interesses de grupos e investidores económicos no turismo, exercendo 29 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos uma forte pressão imobiliária sobre as principais cidades e aglomerados a litoral. Em 1970, a administração central promove a elaboração de estudos de inventariação e preservação de elementos a salvaguardar, entre os quais os Estudos de prospecção, preservação e recuperação de elementos urbanísticos e arquitectónicos notáveis, em áreas urbanas e marginais viárias, na região do Algarve. Este estudo pretendia funcionar como instrumento de apoio, orientação e consulta para os municípios. No entanto, a falta de quadros técnicos e de capacidade financeira dos mesmos, mergulhou-os numa situação de incapacidade para poder suportar a forma acelerada com que se procedia à renovação e a expansão urbana. A queda do regime e o fim da guerra colonial vão provocar também o regresso e a fixação de uma população significativa, ditando transformações profundas na paisagem urbana, rural e descaracterizando o tecido fundiário, contribuindo ainda para o crescimento das periferias e perímetros urbanos de forma descontrolada2. A política de reabilitação das cidades continuava assim praticamente ausente. Algumas acções especificas tornaram-se como refere Miguel Tomé - fundamentais para a definição de doutrinas, práticas e metodologias de acção. Programas como o CRUARB que interveio na zona antiga do Porto, o PRID3 e o SAAL4, centraram-se sobretudo em operações de recuperação e realojamento, procurando dar respostas às sucessivas transformações introduzidas sobre a cidade existente5. Os anos 80 ficaram ainda marcados pelo aparecimento dos Gabinetes Técnicos Locais (GTL) e Gabinetes de Apoio Técnico (GAT) que permitiram descentrar as operações de planeamento, transferindo-as para as autarquias através de equipas multi-disciplinares. A acção dos GTL centrava-se sobretudo na elaboração dos chamados Planos de Salvaguarda, sem reconhecimento jurídico até hoje. A lei de1985 veio, por outro lado, implementar a categoria de monumento, conjunto e sitio, presente na Convenção do património mundial de 1972, ratificada em Portugal apenas em 1979. A valorização da cidade antiga passou também por ganhar um maior peso nas estratégias de promoção turística e nas políticas municipais, existindo alguns casos paradigmáticos tais como o caso de Guimarães ou Óbidos. A partir dos anos 80 e 90 o debate teórico sobre a intervenção no construído assentava na “conservação integrada”. O conhecimento morfo-tipológico do objecto arquitectónico e da cidade, pautava as principais metodologias de intervenção. Ao nível dos órgãos institucionais a quem compete a salvaguarda e conservação dos monumentos nacionais, (IPPAR e DGEMN), assiste-se desde então a uma abordagem cada vez mais cientifica, apoiada num conhecimento mais profundo do objecto arquitectónico ou do lugar.
    • As diferentes atitudes face As questões de intervenção sobre o construído passam necessariamente pela ao contexto resolução de problemas de arquitectura e de projecto. É neste ponto que qualquer processo se inicia e se fundamenta. “[…] Faltou a cidade, quando Antón Capitel critica a intervenção no construído segundo uma perspectiva os seus projectos não nasceram estritamente de conservação. Este acredita que a intervenção deve ser entendida dela própria e utopicamente se como um processo de reapropriação e reutilização no qual entra como elemento reivindicou, por absurdo, um clarificador “[…] que toma a história como um dado precioso mas que em situação pedaço definido de uma terra extrema poderia prescindir dela […]2.real à qual não pertenciam[…]“1. Francisco Gracia explora o tema da intervenção no construído identificando os diferentes padrões de actuação de um projecto arquitectónico frente ao contexto. Ele expõe assim três posições: 1 a de quem defende uma arquitectura moderna “[…] orgulhosa da sua condição e que consiga mediante a descontextualização, ser capaz de confirmar o confronto do antigo com o moderno […]”; 2 a de quem propõe uma arquitectura manifestamente historicista “[…] que recorre, total ou parcialmente, a significados nostálgicos mediante significantes miméticos […]”; 3 a de quem usa uma linguagem com maior intenção de desenho, chegando a superar “a suposta impossibilidade do original para integrar-se em centros históricos”, sem contudo renunciar à sua condição de modernidade. Uma arquitectura que reinterpreta o existente mas não de maneira reprodutiva. No primeiro ponto podemos incluir aquilo que o próprio autor identifica como arquitectura descontextualizada. Este refere-se particularmente a um tipo de intervenção que prolifera na maior parte dos centros históricos e que está segundo o autor “condenada ao anonimato da indiferença”. Ou ainda a arquitectura de contraste, aquela que segundo o mesmo autor “reafirma uma individualidade mediante a expressão de uma formalidade alternativa ou como excepção ao consenso operante”. Esta atitude pressupõe segundo Francisco Garcia “expressar a contemporaneidade como contraste”. Na segunda posição podemos situar a chamada arquitectura historicista que segundo o autor poderá corresponder a uma atitude ecléctica como a proferida antes do movimento moderno, de continuidade, resultando num processo ora de reprodução/mimésis, ora de reinterpretação/analogia. Refere-se ainda a uma arquitectura de base tipológica, assente numa matriz estruturante sempre “indutora de algum tipo arquitectónico reconhecível”. Salienta ainda quais os elementos que permitem associar esta arquitectura ao contexto histórico – os princípios topológicos de relação básica entre os elementos; a proporção volumétrica, os traçados tipológicos ou ainda outros aspectos formais como a cor, a textura e a orientação. O terceiro ponto refere-se à designada arquitectura contextual aquela que segundo Gracia “sem utilizar os recursos da mimésis superficial nem de analogia directa, estabelece uma rara simbiose com o contexto”. A este grupo pertencem as intervenções ambientalmente integradas, as pertencentes ao seu próprio momento histórico. As que permitem estabelecer a continuidade entre o que é novo e antigo mediante um conhecimento particularizado do lugar. Apoiam-se numa reflexão intelectual e na observação das leis de formação sobre um determinado lugar ou contexto3. Os três grupos definem modos de intervenção distintos que, nas mais variadas1 Cf. Francisco Barata Fernandes, formas, se vêm implementando nos tecidos urbanos mais antigos. Transformação ..., op. cit.2 Antón Capitel, Metamorfosis de monumentos y teorias de la restauración, Alianza Forma, Madrid 1992, citado por José Aguiar, Cor..., op. cit. p. 5113 Francisco de Gracia, Construir en lo construído: la arquitectura como modificación, Nerea, Madrid 1992
    • Em síntese Encontramos assim ao longo dos vários momentos da história o tema do património arquitectónico colocado sob pontos de vista distintos. O que nos interessa reter é fundamentalmente o sentido para o qual estes conceitos e princípios se têm conduzido e manifestado em termos de intervenção nos conjuntos urbanos ou no edificado. Se inicialmente partimos de uma visão circunscrita ao objecto monumento enaltecendo a sua importância em detrimento do restante tecido, percebemos também que ao longo dos tempos a história foi contribuindo com alguns protagonistas que apontaram métodos e conceitos, determinantes na alteração desse mesmo processo. Encontrando em Ruskin e Viollet o primeiro debate teórico, podemos talvez daí retirar os dois sentidos fulcrais nos quais assenta a lógica de intervenção que se prolongou pelo século XX adentro – restaurar ou conservar. Por outro lado, Camilo Boito (1834-1914), ainda no século XIX, teve um papel importantíssimo ao salientar no processo de intervenção o reconhecimento da sua própria contemporaneidade, aceitando a transformação, como mais um momento de continuidade e sobreposição. A distinção entre novo e antigo, determinou um método de intervenção assente numa nova lógica material e formal, adoptada ainda hoje, em muitas intervenções. A necessidade de clarificação dos conceitos de valor histórico, artísticos, de definir aquilo que se pretende valorizar e preservar, encontrou em Riegl um 31 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos enorme contributo. Neste tema reside em parte uma das principais problemáticas sobre a salvaguarda. Por outro lado a evolução dos conceitos de valorização estendem-se do monumento ao seu contorno envolvente, chegando ao conjunto urbano. O reconhecimento da importância da arquitectura menor suscitado por Giovannoni aquando da sua obra Vecchie città ed edilizia nuova (1930) esteve na base do estudo dos fenómenos urbanos antigos, segundo uma lente morfo-tipológica. Assumindo a transformação na cidade existente como um processo de continuidade, defende os tecidos antigos como material ainda a reutilizar e a prolongar. A experiência de alguns arquitectos italianos, durante os anos 70, tem influenciado, ainda hoje os principais métodos de intervenção sobre o edificado e sobre os conjuntos urbanos antigos. Considerando os tecidos antigos enquanto resultantes de momentos de continuidade e contradição, de processos de modificação e transformação permanentes, percebemos que a sua grande problemática reside, ainda hoje, no modo como se continua a intervir. Se pensarmos na importância que a arquitectura moderna imprimiu a partir dos anos 30, à lógica formal e funcional dos objectos arquitectónicos quando aplicada também sobre os tecidos antigos. Se pensarmos na dificuldade com que a arquitectura moderna tem participado na construção dos próprios aglomerados antigos, reconhecemos tal como nos refere Francisco Gracia que esta radica contemporaneamente “[…] nessa incapacidade de assumir tanto a história do lugar como a sua própria condição histórica […]”1. O nível de intervenção no construído tem sido determinante para a sua conservação ou anulação. Actualmente as posições confundem-se e mais uma vez são contraditórias. Se por um lado Daniele Vitale2 aponta a intervenção no construído enquanto um processo mais contido que exige “cerzir”, seleccionar, por outro lado encontramos em Antón Capitel uma posição mais intervencionista. Este defende a intervenção no existente sem “medos”, assumindo-a como mais um processo de resposta a uma necessidade, que sem ignorar a história do objecto, pode reinterpretá-la aproximando-se do que sempre caracterizou qualquer intervenção no existente, ao longo dos tempos – a construção, a destruição e a reconstrução.1 Cf. Francisco de Gracia, Construir…, As metodologias de intervenção ainda muito difusas ajustam-se a cada caso op. cit.2 Daniele Vitale, “La questione dell’ específico, contrariando em muitas situações, os próprios conceitos implícitos à priori. Antico e il destino delle città”, Na generalidade constatamos diferentes abordagens e modos de intervir in A recuperação e reanimação dos misturando-se conceitos que revelam a complexidade e diversidade com que centros históricos - a experiência cada um entende e se relaciona com o contexto ou o objecto construído e ainda a italiana (conferência), Alta dificuldade em transferir a teoria para a prática. estremadura e centros históricos, Leiria 1992
    • Do conceito de identidade O que queremos afinal preservar: onde reside a identidade de um lugar ou de um conjunto ou de um edifício? “As pedras da construção A noção que temos de um determinado lugar está normalmente associada a um mais antiga passaram a uma conjunto de imagens que se repetem, imagens estas que se traduzem em partes construção mais recente, assim desse mesmo lugar. como uma época trespassa Elementos como monumentos, praças, ruas ou outros edifícios constituem numa outra. Aqui sinto um fragmentos que contribuem para a construção de uma identidade. movimento sem fracturas, sem Mas a consciência e o entendimento que temos de determinado sitio pode ainda limites. A pedra desliza como o aparecer ligada a certas especificidades, relacionadas com o seu próprio perfil ou tempo.“ tipo de assentamento – próximo de um rio ou do mar, sobre uma colina ou de um Joseph Roth, 1976 vale – traduzindo uma morfologia e uma tipologia dominante. Num tipo de análise morfotipologica, na qual se traduziu nos últimos tempos um modo de projectar, reconhece-se a importância que cada lugar ou aglomerado estabelece com o seu espaço físico. A permanente dialéctica entre espaço construído – suporte morfológico, esse sentido do lugar, na qual se caracteriza em grande parte, a génese das nossas cidades ou aglomerados, traduz-se naquilo a que normalmente designamos por tecido antigo ou tecido histórico. Esta especificidade surge como uma das características que melhor distinguem os espaços da cidade antiga, da cidade nova. Podemos assim considerar que cada lugar confere características específicas, particularidades que contribuem, não só nas variadíssimas formas de conformação dos espaços urbanos e do edificado, como possibilitam diferentes modos de fruição. Esta diversidade formal, material enuncia uma determinada imagem que a nossa memória assume ou ”identifica” como especifica daquele sítio. Podemos assim considerar que o carácter morfológico, o tipo de assentamento, o suporte geográfico e paisagístico de um determinado espaço físico determinam grande parte do seu carácter indentitário1. Para além das condicionantes naturais, já mencionadas e que conferem formas de assentamento e características especificas ao aglomerado, outros factores como a vocação contribuem de forma importante para a construção desse conceito. Reportando-nos ao nosso objecto de estudo, para melhor exemplificar esta condição, encontramos desde a sua génese em Estoi, uma vocação funcional profundamente ligada ao território agrícola que o conforma. Essa mesma vocação explica em parte a origem do próprio assentamento, a proximidade de culturas mistas e a sempre permanente articulação funcional com o restante território. Esta foi imprimindo marcas fundamentais nos sentidos e modos de crescimento do próprio núcleo. Os próprios materiais disponíveis na sua paisagem conferiram modos de construção e produção, estimulando técnicas e vocações específicos naquela região. Se a identidade de um lugar está fortemente associada ao entendimento dele nesta perspectiva, podemos assim perceber que a sua perda está também associada à alteração ou adulteração de todas estas características. O seu não entendimento conduzirá como em tantos outros casos, à alteração ou anulação das suas características físicas. A identidade é assim algo que se constrói resultante da sobreposição e acumulação, de um conjunto de factos urbanos e arquitectónicos, de vivências e actividades que esse mesmo espaço vai recebendo ao longo dos tempos e nos quais concorrem outras disciplinas como a antropologia ou a sociologia. Segundo Alves Costa “[…] ela constitui assim em cada momento o resultado de1 Cf. José Aguiar, Cor…, op. cit. um processo de longa duração cuja síntese está fixada nas construções e na este desenvolve os vários organização espacial […]”2. parâmetros de identidade entre eles Está ainda associada a uma determinada colectividade que a vive, que a habita o genius loci referido por Norberg e que vai contribuindo na sua modificação, alteração, preservação, construindo a Schulz2 Alexandre Alves Costa, Cidade, memória colectiva ou as memórias especificas que cada um vai reservando. moda, identidade e globalização, Como refere Paolo Rossi na obra Il passato, la memoria, l’oblio (1991), o mundo no revista Promontoria ano I, n° 1, qual vivemos é há muito tempo cheio de lugares nos quais estão presentes imagens Universidade do Algarve, 2003 que evocam e reclamam constantemente a nossa memória, tal como acontece3 Paolo Rossi, Il passato, la memoria, com os monumentos que reclamam ao passado das nossas histórias, “[…] a sua l’oblio, Il Mulino Intersezioni, Bolonha 1991 pressuposta ou real continuidade com o nosso presente […]”3.
    • 1 Idem, Ibidem Mas o crescimento e o progresso são feitos à custa de um processo de selecção2 Idem, Ibidem contínua que se estende a todos os campos do conhecimento.3 Cf. José Aguiar, Cor…, op. cit. p. 504 A memória faz reentrar os dados entre esquemas conceptuais, reconfigura sempre4 Bernard Huet, La città come spazio o passado sobre a base das existências do presente. Segundo o mesmo autor abitabile. Alternative alla Carta di existem muitas razões e modos de induzir o esquecimento. Atene, in “Lotus” n. 41, Milano 1984 O esquecimento segundo Paolo Rossi “[…] pode estar ligado a uma intenção5 Manuel de Solà Morales, Spazio, tempo e città, citado por Francisco de esconder, ocultar, despistar confundir as marcas, distanciando a verdade, Barata Fernandes, Transformação ..., destruindo-a […]”. Este refere-se ainda ao problema actual relativamente à perda op. cit., p. 305 da memória colectiva e no sempre menor discernimento do próprio passado –6 Daniele Vitale, “La questione “[…] as partes que permanecem vivas vêm transformadas até se tornarem quase dell’Antico e il destino delle città”, irreconhecíveis, o resto fica entregue ao mundo da curiosidade histórica e àquela texto que integrou a conferência “A recuperação e reanimação dos do esquecimento […]”1. Centros históricos - a experiência A memória parece estar assim ligada a uma certa persistência, “[…] à recuperação italiana”, Alta estremadura e Centros de um conhecimento ou sensação já tida precedentemente […] sobre uma históricos, Leiria 1992 realidade de qualquer modo intacta e contínua”2.7 Cf. Francisco Barata Fernandes, José Aguiar refere ainda que o dever da memória coloca a obrigação de transmitir, Transformação ..., op. cit. ensinar, contar à geração seguinte a história, assegurando a sua continuidade sob o signo da pedagogia3. A memória remete-nos assim para uma capacidade de recuperar qualquer coisa que possuía um tempo e que foi esquecido, como se tratasse de uma recolha de imagens, sempre referente um tempo específico. 33 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos A fachada enquanto parte Considerando que é no traçado que se expressa formalmente a ordem infra- dessa identidade estrutural primogénita5, verificamos também que é no espaço público, entendido numa perspectiva tridimensional, onde se inclui a superfície urbana delimitada “...a fachada pública de uma pelas próprias fachadas, que reside parte da memória colectiva de qualquer casa não pertence apenas ao tecido urbano. proprietário mas Nos tecidos urbanos tradicionais a rua assume-se como elemento estruturador também ao passante”4. representado e definido pelos planos de fachada. A imagem que temos de determinado espaço público vive assim associada, inerentemente, às fachadas enquanto partes integrantes desse mesmo espaço. Se temos por um lado praças que resultam de um desenho de conjunto e de uma definição tipológica pré definida, por outro temos espaços cuja imagem se foi construindo e resultando por associação de edifícios singulares que permaneceram. São estas imagens que residem na memória colectiva e que segundo Daniele Vitale6 constituem o primeiro factor de reconhecimento de uma determinada comunidade, lugar. Podemos assim considerar que a fachada funciona como parte complementar de um determinado espaço ou rua que vive a partir de um esquema morfotipológico intrínseco ao qual corresponde um espaço interno que estabelece e determina relações distintas com o espaço público que define. É nessa relação entre espaço público e espaço interior que assenta em parte a identidade de um determinado aglomerado antigo e o distingue dos modelos tipológicos mais frequentes nos núcleos urbanos como os prédios de rendimento. Este tipo de abordagem sobretudo após algumas intervenções paradigmáticas, como as intervenções de Siza Vieira no Chiado, veio lançar a discussão sobre a importância da fachada enquanto elemento constituinte ou parte do espaço urbano, determinante na sua identidade e não como elemento autónomo da arquitectura. Segundo refere Francisco Barata, “[…] o discurso contemporâneo tem privilegiado a ideia de que quando se intervém num edifício, transformando a sua função e organização interna, isso deve reflectir-se na fachada […]”7. Contudo esta postura não pode ser tomada como verdade absoluta. A intervenção na cidade ou num tecido antigo pressupõe um entendimento das suas partes, sendo a intervenção resultante de um processo de selecção sobre o que deve ou não ser mantido. Se a tipologia é mantida numa lógica de continuidade e adaptabilidade aos novos usos, é porque que ainda não se esgotou. Se a opção decorre pela substituição do conteúdo da parcela ela não tem que ser obrigatoriamente extensível àquilo que a delimita e simultaneamente delimita o espaço público. A relação entre fachada e interior pode continuar, não estando à partida esgotada. A ruptura tipo-morfológica em que se têm baseado as intervenções da segunda metade do século XX tem contribuído assim para uma alteração do
    • 1 Cf. Francisco Barata Fernandes, papel tradicional na qual se apoiam a maior parte dos tecidos mais antigos, Transformação ..., op. cit. fundamentados no sentido de rua-corredor.2 Daniele Vitale, citado por Francisco Barata Fernandes, ibidemx A autonomização da obra arquitectónica, na qual se têm pautado as intervenções contemporâneas, assente numa procura pela unidade lógico-formal entre fachada e intervenção no lote, fez mergulhar as cidades num acumular de objectos muitas vezes sem qualquer articulação com o contexto envolvente. Esta mesma unidade tão defendida contemporaneamente nas intervenções sobre o construído pode não ter de ser necessariamente levada ao extremo. A fachada deve ser um elemento a salvaguardar enquanto parte do lote mas fundamentalmente enquanto parte de um determinado espaço público e de um conjunto urbano. Segundo Francisco Barata, “[…] quanto mais se pretende autonomizar a obra arquitectónica corrente, mais se perde a noção de espaço público e da própria cidade […]”1. Ao longo da história somos confrontados com o permanente recurso a estilos ou modelos arquitectónicos numa perspectiva de manutenção da imagem na cidade histórica. Se pensarmos que ao longo da história da arquitectura os vários movimentos revivalistas sempre coexistiram a par de uma introdução de novos valores, num processo de contínua resistência à novidade, podemos também constatar nos dias de hoje, século XXI, que apesar da alteração da postura face aos modelos de referência do século XIX, esta atitude coexiste, tendo agora como referência os modelos do início século XX, prolongados nas novas formas e desenho, mergulhando as intervenções sobre o construído naquilo que correntemente designamos de “pastiche” ou fachadismo. A leitura cenográfica dos núcleos históricos não pode ser tomada como princípio, mas apenas enquanto parte de um todo que deve ser analisado e estudado no campo projectual. Daniele Vitale, por outro lado, defende que a manutenção dessas imagens cenográficas é também fundamental, não constituindo contudo um princípio ordenador. Este refere que a reconstrução dos edifícios conservando apenas a frente “[…] não é por princípio negativo, é só um modo radical e extremo não o sendo necessariamente, noutras circunstâncias particulares […]”2. A fachada deve ser entendida como um elemento complementar na definição da identidade de um sítio. O que importa perceber é que esta não vive isolada. Ela obedece a uma lógica funcional entre interior e exterior que deve ser sempre, por princípio, preservada ou continuada. A intervenção extrema pode resultar em inúmeras soluções das quais o problema resultante se prenderá fundamentalmente com questões de arquitectura enquanto disciplina. Sobre a noção de Da evolução dos conceitos sobre a salvaguarda arquitectónica, sobre o tipo, tipologia e modelo conhecimento da própria cidade, reconhecemos que ao longo dos tempos a história tem-se apoiado sobretudo nos edifícios de excepção, enquanto instrumentos fundamentais na interpretação dos factos arquitectónicos. Verificamos também que o estudo fenomenológico da cidade tem valorizado a análise da arquitectura menor ou arquitectura corrente, tendo em conta uma perspectiva morfo-tipológica da cidade, enquanto processo para melhor compreensão e sistematização dos factos urbanos. No âmbito deste trabalho definiu-se como metodologia de análise, o entendimento das diversas partes, quer ao nível de relevo, espaço público e conjunto edificado, parâmetros nos quais se estrutura segundo Barata Fernandes “[…] um principio eficaz de caracterização objectiva de um fenómeno complexo e dinâmico […]”. Desta forma, a análise morfo-tipológica funcionará também enquanto instrumento sistematizante do conhecimento global sobre o lugar. Como refere Francisco Barata a obra arquitectónica “[…] sempre foi objecto de classificação e tipificação, sempre pressupôs, na sua produção, dois conceitos complementares: o de regra e os de excepção; o de repetição e o de singularidade […]“. Ainda no século XIX a noção de tipo encontra em Quatremère de Quincy um dos principais contributos. Este define-o enquanto esquema conceptual apenas concretizável no modelo acabado. O tipo não deveria ser entendido enquanto condição obrigatória de modelo imperativo mas como uma estrutura conceptual no
    • 1 Cf. Francisco Barata Fernandes, qual se fundamentavam os modelos. Transformação ..., op. cit. Já no século XX, nos anos 50, Saverio Muratori aborda o conceito de tipo numa2 Idem, p. 423 Carlo Aymonino, citado por perspectiva evolucionista onde refere que “o tipo edificado não se individualiza Francisco Barata Fernandes, Ibidem senão na sua aplicação concreta, isto é, no tecido edificado; por sua vez, um4 Idem, ibidem tecido urbano não se individualiza se não em termos totais […] o valor total de5 Idem, Ibidem um organismo urbano só lhe é atribuído na sua dimensão histórica uma vez que6 Carlos Martí Aris, Las variaciones de la identidad; ensayo sobre il tipo en é a sua intrínseca continuidade; a sua realidade cresce com o tempo e realiza- arquitectura, ediciones del Serbal, -se apenas como reacção e desenvolvimento consequente da condição do seu Barcelona 1992, p. 53 passado […]”1. O autor refere ainda que “...a Este descreve a necessidade de afirmar o entendimento do tipo como algo que evolução da cultura demonstra até a envolve mudança. saciedade que a mestiçagem entre ingredientes diversos, a confluência A valorização do conhecimento do tecido morfo-tipológico enquanto método e a fusão de caudais precedentes de intervenção e projecção sobre o construído teve, a partir dos anos 70, como de uma variada geografia principal contribuição os estudos de Caniggia, Aldo Rossi, Carlo Aymonino, intelectual, continua a ser condição Giorgio Grassi, Carlos Martí e mais recentemente Ignasi de Solà Morales. indispensável para a fertilidade do Gianfranco Cannigia defendia o processo tipológico enquanto instrumento de pensamento criativo”.7 Manuel de Solà Morales, Spazio..., análise e de projecto. A escolha tipológica sobre determinado sítio deveria ser op. cit., citado por Francisco Barata encarada pelo arquitecto como uma “reprojectação”, devolvendo ao lugar um seu Fernandes, Transformação ..., op. cit. projecto2. Para Aldo Rossi o tipo representava “[…] um papel próprio na criação da arquitectura […] é constante e apresenta-se com caracteres de necessidade e 35 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos de universalidade […]”. Barata Fernandes refere que a sua obra reflecte ainda em termos de significado tipológico “a adopção de modelos arquitectónicos escolhidos, de determinados períodos históricos e de determinados lugares […]“. Carlo Aymonino por outro lado propõe o entendimento da cidade como um conjunto, tendo sido, segundo Barata Fernandes um dos primeiros a expor de forma muito clara “a relação dialéctica e não casual entre tipologia e morfologia urbana”3. Defendia a leitura do tecido urbano segundo uma lente tipológica e não estilística. Por outro lado define ainda o conceito de tipologia de edificação como o “estudo dos elementos organizativo - estruturais artificiais”, estendendo este conceito além da construção, para os elementos que compõem a cidade (alamedas, jardins), relacionando a forma urbana com um determinado período cronológico. Segundo Barata Fernandes, com Aymonino se “[…] abrem as possibilidades de interpretação dinâmica de tipologia de edificação e da própria forma urbana enquanto organismo em transformação […]”4. Giorgio Grassi retoma, por outro lado, o conceito de tipo arquitectónico de Quatremère de Quincy associado à ideia de esquema. Durante o seu trabalho valoriza como elemento fundamental o modo como a edificação se relaciona com o espaço envolvente, público e privado, não entrando especificamente na descrição das próprias habitações nem na sua cronologia histórica5. Já na década de noventa, Carlos Martí, explora a noção do tipo arquitectónico como “um enunciado que descreve uma estrutura formal”. Apresenta-nos assim três corolários desta definição: 1 o tipo enquanto natureza conceptual, não objectual; 2 o tipo enquanto descrição através da qual é possível reconhecer os objectos que o constituem; 3 o tipo enquanto estrutura formal: “[…] falamos de tipo a partir do momento em que reconhecemos a existência de ‘similitudes estruturais’ entre objectos arquitectónicos para lá das suas diferenças ao nível mais aparente e superficial”6. Para Solà Morales existem também questões essenciais que se colocam na análise da cidade às quais a relação morfologia - tipo não responde. Segundo este “[…] é preciso medir o tempo sobre o espaço […]”7; é preciso perceber através das várias transformações sobre o edificado as diferenças que esses mesmos momentos cronológicos imprimem sobre a forma.
    • 1 Cf. Francisco Barata Fernandes, Estas perspectivas permitem-nos assim chegar a três noções base: Transformação ..., op. cit.2 Carlo Aymonino, Lo studio dei Fenomeni Urbani, Oficina, Roma 1977 a tipo – enquanto esquema ou regra conceptual;3 Fernando Galhano e Ernesto Veiga b modelo – a estrutura acabada, correspondente ao esquema já realizado, de Oliveira, Arquitectura tradicional concretizado; portuguesa, Publicações Dom c tipologia – a matriz organizacional, estrutural. Quixote, Lisboa 2003 Neste sentido podemos reconhecer que o conceito de tipo evoluiu numa perspectiva que inclui quer a noção de transformação salientada por Aymonino, quer a de variação de identidade, referida por Carlos Martí1. Estas noções ilustram um sentido de análise tipológica que tem por objectivo perceber os diferentes processos de transformação e variação a que um determinado esquema ou tipo está sujeito. Ao longo dos tempos as transformações tipológicas foram surgindo a partir de reinterpretações espontâneas de formas primitivas e que traduzem uma necessidade de melhorar a construção e o seu ajuste às circunstâncias económicas vigentes, relacionadas com alterações sociais, técnicas, gerais ou individuais. Aproximando-nos da noção de tipo base não podemos deixar de referir o esquema do lote gótico, cujas dimensões da parcela, estreita e comprida, assenta em grande parte a permanência do tecido parcelar de muitos aglomerados medievais. Dele derivam, segundo Aymonino, “[…] a longa permanência das dimensões parcelares que se podem ler ainda na cartografia setecentista, mesmo que os edifícios tenham sido substituídos por outros […]”2. A transformação faz-se por substituição não implicando ou envolvendo, na maior parte das vezes, uma substituição morfológica. Ernesto Veiga de Oliveira refere ainda relativamente ao processo de transformação da arquitectura tradicional que “[…] mesmo nas formas tradicionais ele constitui o produto de uma evolução lenta a partir de certas formas primordiais remotas […]”. O estudo tipológico funcionará como um instrumento basilar para uma interpretação morfológica e cultural da construção deste lugar. No estudo que nos propusemos aprofundar tivemos como noção o conceito de tipo enquanto estrutura conceptual não estática, mas sujeita a mutações. Através das várias tipologias levantadas, mesmo que se resumam a uma pequena amostragem, procuramos interpretar o que lhes é estrutural e permanente quer em termos de programa, quer em termos de construtivo, percebendo as transformações introduzidas nas vários momentos cronológicos, nos quais as mesmas se readaptam, reajustam ou se esgotam. Da identificação dos seus “traços” distintos e pertinentes, mediante a análise dos levantamentos planimétricos, resultará uma determinada classificação formal. Com base nos modelos levantados em Estoi procuramos reconhecer onde residem essas mesmas “similitudes estruturais” identificando qual o tipo recorrente, capaz de contagiar e se prolongar ainda por mais tempo.
    • 37 Estoi| Identidade e transformação. Conceitos teórico - metodológicos
    • 2 Do núcleo de Estoi39 Estoi| Identidade e transformação.
    • Enquadramento histórico A relação que o Homem estabelece com o seu ambiente é determinada em parte e geográfico pela configuração natural do seu território, pelas predisposições naturais que condicionam uma determinada implantação, produção, reflectindo uma cultura O Algarve e o seu território específica. Tal como é referido na obra La costruzione del territorio1, o sentido do território é entendido neste contexto como “[…] um conjunto de factos urbanos, de elementos construídos na cidade e na paisagem, onde a arquitectura é a marca da história, da cultura […]”. Localizado no extremo Sul do território português e no extremo Oeste da Europa ocidental, o Algarve sempre se caracterizou por uma posição geográfica privilegiada assente numa permanente ligação com o mar. Este foi desde sempre um factor relevante e determinante, não só no tipo de ocupação como no seu processo de desenvolvimento. A imagem que retemos deste território remete-nos para uma escarpa elevada que estabelece a Norte, através da Serra, uma fronteira física natural com o baixo Alentejo, diminuindo progressivamente esta elevação para Sul, estendendo-se sobre diversas formas numa permanente relação com o mar. Apoiando-nos nas unidades de paisagem que distinguem o território encontramos assim três manchas distintas: a Norte a Serra, seguida pela faixa intermédia do Barrocal ou Algarve Calcário e a Sul a faixa Litoral, também designada de Beira- mar2. (Fig. 2) A importância na identificação destas unidades de paisagem assenta precisamente na necessidade de identificar geograficamente o território e relacionar estas condições com o seu próprio desenvolvimento. 41 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi1 AA. VV., La costruzione del territorio, A Serra, correspondente à margem Norte do território, caracteriza-se pelas uno studio..., op.cit. suas áridas condições naturais, de terreno montanhoso e acidentado e do qual2 o Algarve organiza-se em três faixas distintas: a Serra, o Barrocal e a resultaram desde sempre maiores dificuldades de comunicação viária. Beira Mar ou litoral. Silva Lopes Os pontos mais altos variam entre os 902 metros em Monchique, os 774 da Picota entendia o Barrocal como “[…] uma e os 570 do Caldeirão. Abunda uma vegetação rasteira de onde predomina a faixa de 2 a 3 léguas de pedra esteva, sobressaindo ainda os sobreiros e os medronheiros. calcária com elevação para a serra […]”. Outros autores substituem O Barrocal ou Algarve Calcário corresponde assim à faixa de transição das ainda a designação de barrocal por duas realidades geográficas (Serra e Litoral). Nela se concentram os principais Algarve Calcário. (Silva Lopes, 1841 aglomerados rurais ligados, na sua maior parte, a uma sede de concelho situada e Lautensach, 1932), in Arquitectura no litoral. Encontramos nesta faixa um território constituído por pequenas elevações Popular em Portugal, vol. 3, que se abrem sobre vales, ribeiras, estendendo-se sobre zonas de planalto. Associação arquitectos portugueses, 3a edição, Lisboa 1988 Predomina uma cultura de sequeiro e simultaneamente de regadio, com uma3 Orlando Ribeiro, Portugal o vegetação onde convive por um lado a alfarrobeira, a amendoeira, a figueira e a Mediterrâneo e o Atlântico, ed. Sá da oliveira e por outro, grandes extensões de várzeas agrícolas e pomares. Costa, Lisboa 1987 Abaixo desta expressão morfológica segue-se a faixa Litoral ou Beira-mar cuja Orlando Ribeiro caracteriza-a “de extensão se organiza segundo dois segmentos distintos: Barlavento e Sotavento. arriba até Quarteira e para leste por […] uma restinga arenosa Associados aos ventos predominantes estes dois segmentos têm divisão acompanhada por lagunas e sensivelmente em Faro – de Vila Real de Santo António a Faro caracteriza-se por canais”. uma costa profundamente marcada por ramificações onde a Ria Formosa forma longos braços de areia que a protegem do mar - de Faro a Sagres é formada por uma paisagem de “costa erosiva e escarpada com arribas”3. O Litoral corresponde assim à faixa de maior ocupação e densificação, denunciando a importância da relação marítima enquanto motor de desenvolvimento da própria região. Esta condição estruturou toda a vida económica, social e cultural, tornando desde sempre muito mais acentuado o contacto do território com o Mediterrâneo do que propriamente com o Norte português. Apesar de uma predominância no comércio marítimo relacionada com a pesca podemos ainda encontrar, nas grandes extensões agrícolas que se estendem até ao Barrocal, a importância que a agricultura teve desde sempre, enquanto complemento da actividade dominante. Formadas por hortas e pomares, de terreno mais fértil, estas conformam ainda a envolvente dos principais núcleos urbanos a litoral. É nesta relação complementar entre mundo rural e o mar que assentaram desdepágina 40 sempre as actividades económicas da região.Fig. 1 O território é actualmente estruturado através de uma rede de aglomeradosFotografia aérea de Estoi que se estabeleceu em função de acessibilidades ao longo das principais viasfotografia Filipe Jorge (in O Algarve de comunicação – temos assim os aglomerados urbanos concentrados a litoral,visto do Céu, Argumentum, Lisboa2005) representados pelas principais cidades que de Lagos a Vila Real de Santo António
    • Fig. 2 página 43 As divisões geográficas no Algarve Fig. 3 mapa 1: segundo Silva Lopes, 1841 e mapa 1 Lautensach, 1937 As principais vias de comunicação a mapa 2: segundo Medeiros Gouveia partir do século VIII “O Algarve”, 1938 in Cláudio Torres, O Gharb- Al- Andaluz, Históriade Portugal, V1, Estampa mapa 2 As Vias romanas no Algarve in Sandra Rodrigues, As Vias Romanas do Algarve, CCDRAlg, Faro 2004 mapa 3 Os principais eixos de comunicação actuaismapa 1 serra barrocal litoralmapa 2 maciço eruptivo de Monchique alto Algarve Algarve calcário baixo Algarve
    • mapa 3 mapa 2 mapa 1 43 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi
    • 1 Cláudio Torres, “O Garb-al- se foram consolidando a par de outros aglomerados rurais no Barrocal e que se Andaluz”, in História de Portugal, estendem também de Vila do Bispo a Castro Marim. vol.1, José Mattoso (dir.), Circulo de Leitores, Lisboa 1992, p. 353 A estrutura viária desde logo constituiu um elemento determinante na hierarquia do2 Luís Filipe Rosa Santos, Os acessos território, interferindo na definição da estrutura urbana dos próprios núcleos. a Faro e aos concelhos limítrofes na A rede viária implantada durante a ocupação romana funcionou durante os segunda metade do séc. XIX, CMF, séculos posteriores como único meio de comunicação terrestre, enquanto elemento Faro 1995 estruturante do território, definindo a base de articulação entre os principais aglomerados. (Fig. 3) Desde a época romana que a articulação com o Norte se fazia através de percursos, trilhos sinuosos e inseguros que atravessavam a Serra, tendo como via importante a ligação de Silves até Alcácer do Sal, ou ainda, o próprio eixo fluvial do Guadiana que ligava a Mértola, seguindo por terra até Beja e depois Lisboa. Este último constituiu durante séculos, um dos principais meios de comunicação comercial com o território a Norte. Do mesmo período já existiria longitudinalmente uma importante Via que se estendia desde o restante território Norte da península Ibérica e atravessava Sevilha até ao Algarve, apenas interrompida pelo Guadiana. No Algarve uma via longitudinal percorria os principais aglomerados através de Cacela, Tavira, Santa Maria de Faro e Silves, culminando no extremo ocidental com o Promontorium Sacrum. Durante a ocupação árabe a circulação manteve-se sobre as antigas calçadas romanas e sobre os trilhos que confluíam ou atravessavam os principais centros urbanos. Mas durante este período os árabes vão ainda implementar, segundo Cláudio Torres novos traçados, reorganizando algumas vias secundárias com importância inter-regional1. No período medieval as vias fluviais assumem a sua maior importância. A circulação por mar sobrepõe-se à terrestre, não só por razões de segurança mas também porque garantia uma maior rapidez no transporte das mercadorias. A rede viária terrestre prolongar-se-ia, em séculos posteriores, sofrendo apenas algumas adaptações ou transformações. Só a partir da segunda metade do século XIX se começa a impôr a necessidade de implementar uma rede viária mais consistente. O melhoramento dos meios viários permitia assegurar mais eficazmente o transporte de mercadorias entre o interior e o litoral. Nesse período assiste-se então ao implementar de uma política de renovação de estradas do Algarve, na qual assenta grande parte da rede viária existente2. Encontramos actualmente um eixo principal que se estende paralelamente à costa, no sentido Este - Oeste e que une os principais centros urbanos a litoral. A EN125 que em muitos pontos se sobrepõe ao antigo eixo romano (Via que saía de Sevilha) liga as principais cidades entre si –Vila Real de Santo António, Tavira, Faro, Silves, Portimão e Lagos. Paralelamente a Norte, os antigos caminhos formam hoje a rede viária que articula alguns dos principais aglomerados rurais, unindo Silves, Loulé, São Brás de Alportel, Santa Catarina Fonte do Bispo até Castro Marim. Estes dois eixos transversais e paralelos à costa definem a estrutura viária base do território, a que se une também uma rede de vias secundárias. Estas organizam-se quer paralelamente, no sentido Nascente – Poente, pela Serra, ligando Aljezur, Monchique, São Bartolomeu de Messines, Alte, Salir, Barranco do Velho, Cachopo, Martim Longo e Alcoutim, ou ainda no Barrocal, ligando Mexilhoeira Grande, Estombar, Alcantarilha, Boliqueime, Loulé, São Brás de Alportel, Santa Catarina até Castro Marim, quer ainda na perpendicular, no sentido Norte – Sul, com as várias ligações entre aglomerados a litoral e os núcleos rurais, onde Estoi sobressai de forma evidente como núcleo central, entre São Brás de Alportel, Faro e Olhão. As últimas estabelecem-se como eixos de atravessamento entre a serra e o mar. Hoje o território conta, como principal ponto de chegada, com a auto-estrada A2 inaugurada em 2004, ligada à via de atravessamento marginal - a Via do Infante (A22). Esta última, construída nos anos 90, veio imprimir fortes rupturas na paisagem, interrompendo e sobrepondo-se à rede de caminhos rurais pré-existentes e interferindo na articulação com o território rural, ora desvirtuando- -a, ora anulando-a, impondo fronteiras no atravessamento entre montes e terras.
    • Fig. 4mapa 1distribuição dos principais recursos noGharbefonte: Cláudio Torres, O Gharb - Al- Andaluz, História de Portugal, vol. 1,ed. Estampamapa 2A reconquista régia durante o séculoXIfonte: História de Portugal, vol. 1, dir.José Mattoso, ed. Estampa)mapa 3Os limites do território na segundametade do século XIII, após aconquista do Algarve mapa 1 45 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi mapa 2 mapa 3
    • Sobre a ocupação e o Até ao século XVIII povoamento do território no O processo de ocupação do território foi acompanhado ao longo dos tempos por Algarve condicionantes naturais que determinaram o prolongamento e a consolidação das características de assentamento. “[…] as suas cidades são O sentido de implantação e a sua vocação estiveram desde sempre ligados àsextraordinariamente numerosas actividades dominantes - agrícolas ou marítimas.[…] as mais conhecidas são as À semelhança de tantos outros centros urbanos portugueses, a ocupação desteque se erguem nas margens de território centrou-se sobretudo no litoral Sul, onde se desenvolveram as principaisrios, esteiros, ou do mar, devido cidades, privilegiando os portos abrigados e as meias encostas e mantendo à sua vantajosa situação […]“. permanentemente a ligação com o mar. Estrabão, Geografia, III, Considerando que as grandes marcas na estruturação e organização do território referindo-se à Turtedania, território se efectuaram sobretudo a partir da ocupação romana, imprimindo um forte onde se incluía o Algarve. significado urbano, concentramos esta análise partindo precisamente deste período. A ocupação romana assentou naturalmente no reaproveitamento de estruturas pré-existentes, dominantes na faixa litoral e que gozavam já de uma franca prosperidade no comércio marítimo com o Mediterrâneo1. Estrabão referia-se à região num sentido unitário, designando Turdetania o território que se estendia do Promontorium Sacrum (Sagres) até Gibraltar2. A região estaria assim pontuada de núcleos urbanos, cidades portuárias de fundação pré-romana que denunciavam já uma lógica específica de assentamento. Era ainda organizada, segundo as descrições de Estrabão, em função de três urbes principais: Balsa (Tavira), Ossonoba (Faro) e Myrtilis (Mértola). Ossonoba, actual cidade de Faro, constituía um dos mais importantes centros urbanos durante a época romana, reunindo poderes administrativos relevantes que exerciam influência sobre um vasto território. A rede viária, então implementada, privilegiou as acessibilidades com as principais cidades, articulando o território rural que detinha desde então um papel também relevante na estrutura produtiva e económica da região. O aparecimento das villas, unidades de produção, veio contribuir para uma ocupação específica do espaço rural com características que vão assentar sobretudo nas potencialidades intrínsecas do seu meio físico3. Encontramos assim villas costeiras relacionadas com a produção de derivados piscícolas (produção do “garum”4), as villas mineiras e as villas, estas mais relacionadas naturalmente com as actividades agrícolas dominantes. A sua contiguidade com as linhas de água, para além de estar relacionada com a escolha de terrenos mais férteis, era benéfica pela maior facilidade de escoamento dos produtos através do transporte fluvial. Estas estruturas produtivas conheceram contudo desenvolvimentos distintos. O caso de Milreu, em Estoi, constitui um exemplo paradigmático. De pequeno centro agrícola (villae rústica) transformou-se numa imponente villa com uma significativa área residencial5. A rede produtiva caracterizava assim parte do território, organizado e controlado1 Esta ocupação costeira das cidades naturalmente a partir dos principais centros urbanos, pólos de consumo, do litoral terá sido precedente à distribuição e escoamento desses mesmos produtos. romanização. Para além das marcas fundamentais na estruturação e reorganização das cidades, Os romanos vão reocupar esses a ocupação romana deixou como principal contributo a implantação da rede locais, vivificando-os, político, cultural e administrativamente viária e a estruturação do território em geral.2 Estrabão, Geografia, III, 2.1 As sucessivas ocupações vão, mais uma vez, adoptar uma lógica de apropriação3 Orlando Ribeiro, na obra Portugal baseada quer no reaproveitamento dos anteriores locais, quer na escolha de e o Mediterrâneo também se refere novos, deixando os antigos locais ao abandono. à predominância desta ocupação Durante a época islâmica, o povoamento do território continuaria a ser organizado interior durante o período romano. “[…] Uma poderosa organização a partir dos principais núcleos urbanos a litoral ou a partir de núcleos servidos por do espaço baseado num perfeito importantes rios, ou acessos fluviais, condicionados pelas fortes relações com o sistema de viação terrestre que se Mediterrâneo. opõe a um litoral extremo batido Cláudio Torres refere-se à dispersão territorial nesta fase como sempre marcada pelos ventos em frente ao mar […]”.4 Pasta de peixe pelo conjunto de pequenas e médias cidades que organizavam o território.5 Theodore Hauschild, “Milreu - Estoi, Refere ainda que de cada cidade dependiam directamente campos e hortas, Villa Romana e Santuário”, in garantindo o abastecimento diário dos mercados e ainda um maior ou menor Noventa séculos entre a serra e o mar, número de povoações rurais, as alcarias, cujo governo era exercido por Ippar, Lisboa 1997, p. 407 assembleias de anciãos ou aljamas […]6.6 Cláudio Torres, O Garb-al- Andaluz..., op. cit., p. 359 A propósito do período final da ocupação islâmica, Helena Catarino levanta
    • ainda a hipótese do desenvolvimento do povoamento no Algarve se ter caracterizado sobretudo por uma concentração de populações em alcarias ou em outros povoados de maior dimensão e muitos fortificados1. Cláudio Torres fala-nos também da nítida individualidade do Garb-al-Andaluz e da forte cumplicidade que se manteve ainda pelo período islâmico entre o território Andaluz e o Garbe. Refere-se ainda à aparente “unidade civilizacional” que dominou a bacia ocidental até ao século XIII e que se estendia desde o estreito da Sicília até ao cabo extremo do Algarve2. Se pensarmos que até ao século XIII a região fazia parte de um extenso território que se prolongava pelo Mediterrâneo, explorado e organizado durante o período de ocupação romana, consolidado durante o domínio árabe, conseguimos talvez perceber a importância que a relação e a comunicação por mar tinham na sua organização, em termos económicos, sociais, culturais e implicando lógicas de ocupação bem definidas3. Orlando Ribeiro designa-o como “Pré-Mediterrâneo” pelas fortes ligações que sempre estabeleceu tradicionalmente com a Andaluzia e o estreito de Gibraltar até à Reconquista4. A consciência do território do Algarve, nos seus limites actuais, só começou a efectivar-se a partir da Reconquista Cristã. (Fig. 4) De 1249, data da conquista de Faro por D. Afonso III aos mouros, segue-se o extenso processo de consolidação do território. Por meio de incentivos régios na distribuição de terras, na atribuição de foros a senhores e, naturalmente às ordens militares intervenientes directos nesta nova conjuntura política e religiosa, o Algarve reorganizava-se administrativamente. 47 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi Entre os séculos XV e XVI, a conjuntura pré expansionista continuava a dar os seus1 Helena Catarino, “O Algarve Oriental durante a ocupação frutos com as Praças portuguesas conquistadas no Norte de África, constituindo islâmica […]” citado por João Luis estas um factor importantíssimo de dinamização económica do Reino e onde o Inglês Fontes , Entre Faro e Loulé: a Algarve detinha um papel protagonista. terra da “Senhora Santa Bárbara”, O reforço nas relações políticas e económicas com o Norte de África, tradição (séculos XIII-XVI) que se prolongava de períodos precedentes, traduziu-se num acentuar de trocas2 Cláudio Torres, O Garb-al- Andaluz..., op. cit., p. 356 com o Mediterrâneo, colocando mais uma vez em posição de destaque os portos3 O tipo de assentamento dominante comerciais localizados nas principais cidades a litoral: Faro, Silves e Tavira5. aproxima-se da tradição A actividade comercial concentrada nos principais núcleos urbanos veio mediterrânea. Esta de uma forma contribuir para um maior crescimento e densidade populacional nas urbes, vilas geral, segundo C. Torres, “[…] aconchega-se em pequenos ou e aglomerados rurais vizinhos, locais onde se extraiam os principais produtos de grandes núcleos urbanos, cuja consumo6. razão de ser económica depende As relações comerciais apontavam assim para uma maior valorização dos produtos de um termo que deve conter terras do Barrocal: figos, passas, azeite, mel, esparto ou ainda os ligados à produção húmidas para hortas, encostas de de gado (couros), produtos que obrigavam “ao desenvolvimento de uma estreita sequeiro e baldios para lenha e pastoreio”. ibidem, p. 333 complementaridade entre a zona costeira, o barrocal e a serra”7.4 Orlando Ribeiro, Portugal..., op. cit.5 Neste período para além da pesca do atum outro tipo de actividades e pescarias provocaria um aumento significativo do comércio, servindo em parte a população local e a exportação. Para além do pescado a exportação de frutos secos, o vinho e o azeite constituíam importantes fontes de riqueza. Ver sobre este tema Joaquim Romero Magalhães, O Algarve económico 1600-1773, ed. Estampa, Lisboa 19936 “[…] Os melhores rendimentos vêm dos campos. Mesmo no século XVI quando a região faz figura no comércio internacional, as frutas têm lugar certo na exportação e exigem mão-de-obra abundante. […]”. Joaquim Romero Magalhães, A conjuntura económica, in “O Algarve da antiguidade aos nossos dias”, coord. Maria da Graça Maia Marques, ed. Colibri, Lisboa 1999, pp. 253-2617 Cf. João Luis Inglês Fontes, Entre..., op. cit.
    • página 49Fig. 051A evolução da densidade populacionalna região entre o século XVI e XVIIIfonte: Joaquim Romero Magalhães, OAlgarve económico 1600-1773, edição”Histórias de Portugal” vol. 3, ed.Estampa, Lisboa 19932Tipos de povoamento dominantes noAlgarvefonte: Arquitectura Popular emPortugal, vol. 3, AA, 3a edição, 1988,p. 125
    • 1 49 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi entre 12,5 e 20 fogos/km2 entre 4,5 e 12 fogos/km2 entre 2 e 4 fogos/km2 entre 0 e 2 fogos/km22
    • 1 Cf. João Luis Inglês Fontes, Entre..., Os mercados eram assim abastecidos por mercadorias vindas do interior rural, op. cit. consumidos nas urbes, podendo ainda ser exportados ao longo de todo o2 Todos os que podiam escapar ou fugir ao recrutamento para Mediterrâneo. as colónias ou para a defesa Podemos considerar que até ao século XVI a distribuição da população no Algarve refugiavam-se na serra. Os apontava como refere João Fontes, para uma “[…] concentração dos aglomerados atractivos da serra associados às urbanos ao longo da costa, a par de uma rarefacção demográfica no interior […]”1. dificuldades nas acessibilidades contribuem para uma ocupação A partir do século XVI, a perda do domínio português no Norte de África vai quase castreja, tornando-a num exercer consequências negativas na região, alterando não só as relações lugar mais seguro. Ver sobre este comerciais com o Mediterrâneo como a própria hierarquia económica das suas tema Joaquim Romero Magalhães, principais cidades. O Algarve..., op. cit., p. 84 À decadência de Tavira, consequência da perda do anterior papel estratégico nas3 Idem, p. 117 “[…] As melhores terras destas freguesias pertencem a gente relações com o Norte de África, opõe-se o progressivo protagonismo de Faro na da cidade. Gente rica que tinha qual se processam grandes transformações urbanas. Esta começa assim a assumir os seus figueirais, olivais, vinhas e um papel cada vez mais relevante enquanto centro efectivo de um Reino. hortas nas terras próximas, onde A perda da independência em 1580, aliada à violência nos recrutamentos e eventualmente poderiam viver algum à enorme pressão fiscal no comércio terrestre com o resto do Reino tornam-se, tempo na época da apanha de figo, vindima ou azeitona […]” segundo defende Romero Magalhães, motivos suficientes para a deterioração4 “[…] o pouco incremento comercial da anterior vitalidade quinhentista, tendo tido consequências no processo de recuperado nos finais do século XVIII ocupação do território2. em muito se deveu à capacidade O mesmo autor refere ainda que durante este período, a perda de atractivos empreendedora de alguns estrangeiros aqui estabelecidos. na vida urbana, provavelmente aliada à forte insegurança que o litoral oferecia Catalães e ingleses monopolizam devido aos intensos ataques de pirataria, poderá explicar uma maior permanência o comércio externo instalando-se nas quintas e fazendas por parte da gente mais abastada. com nome próprio assistindo à Os dados de crescimento populacional nas urbes revelam assim, segundo Romero passividade do contexto político Magalhães, maiores sinais de estagnação em detrimento do interior Barrocal local […]” Idem, ibidem5 Cf. José Eduardo Capa Horta e Serra que apresentam progressivamente maiores manchas de densidade Correia, Vila Real de Santo António. populacional. (Fig. 5) Urbanismo e Poder na Política Este aumento da densidade no Barrocal e Serra terá tido como consequências Pombalina, Faup, Porto 1997 uma maior consolidação dos núcleos rurais, absorvendo mais mão-de-obra para o trabalho das terras, quintas e hortas dos senhores ou da gente rica que aí investe3. Os produtos agrícolas continuavam a representar uma fatia significativa no comércio de exportação da região. A mobilidade terrestre intensifica-se com a troca dos produtos e o seu transporte, através dos almocreves que assumem um papel fundamental nesse processo de inter-relação desta rede rural. Como principais freguesias rurais assentes numa agricultura diversificada destacavam-se Alcantarilha, Mexilhoeira Grande, Algoz, Pêra, Estoi e Moncarapacho. Os séculos XVIII e XIX A partir do século XVIII a região caracterizar-se-ia por uma actividade económica em ascensão, apoiada numa dependência cada vez maior de grupos estrangeiros, catalães e ingleses que se empenhavam na exportação dos seus produtos4. A restauração do Algarve, incentivada por Marquês de Pombal em 1773, procura introduzir uma política de reforço da actividade económica local, quer através de uma melhor cobrança dos impostos para obtenção de maiores dividendos, quer através da reorganização administrativa do próprio território, recuperando e reaproveitando os recursos até ai adormecidos5. Esta nova condição política fomentou a criação das primeiras proto-indústrias de transformação que se ligavam quer à pesca, quer aos frutos secos, conhecendo esta última maior expressão no território rural. A existência de vários lagares, armazéns e fumeiros (armazéns onde se preparava o figo para exportação) e o incremento da produção de sequeiro atraíram a permanência de outro tipo de população para além daquela que tradicionalmente trabalhava a terra. De uma forma geral o povoamento disperso organizava-se relativamente a uma ou duas léguas da Igreja mais próxima. Esta situação implicava deslocações muito pontuais aos núcleos de referência, aldeias ou Vilas, onde se organizariam os mercados e as feiras. Grupos de lavradores e mercadores mais abastados começam a armazenar, transformar e mesmo a comercializar os seus próprios produtos, transformando os mercados e feiras em espaços privilegiados de articulação entre o comércio local e internacional, atraindo nos intermediários, nova população. Os almocreves cuja tarefa, quer isolados quer agrupados, passava pelo assegurar
    • 1 “ […] Deslocavam-se geralmente em do transporte dos produtos por terra ou pela venda temporariamente em feiras, número apreciável para fazer face detêm cada vez mais importância na articulação do território1. Muitos deles ao aos perigos sobretudo assaltos. Nas suas deslocações percorriam possuírem razoáveis bens transformam-se inclusive em pequenos lavradores ou o interior para trocar o peixe por pequenos mercadores. outros géneros como cereais ou As grandes propriedades nas freguesias rurais continuavam contudo, segundo outros produtos importantes para as Romero Magalhães, a ser dominadas por fortes aristocracias locais que povoações no litoral […]” citado por J. Romero Magalhães, O Algarve controlavam e condicionavam o desenvolvimento da indústria e o comércio “[…] Económico 1600-1773, ed. Estampa, dominando a pequena e média propriedade na orla, o proprietário vive na cidade Lisboa 1993 ou vila, donde sai a trabalhar, dirigir os trabalhos ou simplesmente vigiar o estado2 À volta dos centros urbanos mais das terras […]”2. importantes não interessava As melhores terras pertenciam normalmente a gente da cidade. constituir grandes núcleos de habitantes. Descrevendo o termo Possuíam uma Quinta ou uma casa na aldeia onde passavam longas temporadas3. de Faro em 1758, “[…] os subúrbios desta cidade não contam mais que Estes proprietários detinham a maior parte dos figueirais, olivais, vinhas e hortas hortas e quintas […]” citado em nas terras próximas, onde eventualmente se deslocavam sobretudo nas épocas da Idem, Ibidem, p. 127 apanha do figo, vindima ou da azeitona (de Julho a Novembro).3 “ […] por outro lado há muita povoação de moradores contínuos Nos restantes meses as propriedades ficavam entregues à gestão de lavradores ou em quintas boas e de grande caseiros que habitavam nas suas terras. rendimento, muitos pomares e Podemos distinguir, em termos gerais, uma hierarquia na qual assentava a hortas” onde se instalam por organização da sociedade até este período – aos nobres cabia a propriedade e a períodos prolongados, homens da fidalguia ou gente rica […]” citado produção, aos mercadores a circulação, aos mesteiros as tarefas especificas e, ao por Joaquim Romero Magalhães, O povo, o trabalho agrícola. Algarve... op. cit. A par dos nobres proprietários que habitavam predominantemente na cidade4, são4 “À classe de proprietários se os lavradores, que habitavam normalmente no espaço rural, o grupo social que 51 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi destaca a gente rica e fidalga que mais irá dominar nos principais núcleos rurais, enquanto proprietários de menores vive predominantemente na cidade. […] os donos das quintas, visitam- extensões de terra. -na amiúde vivendo em centros Se uns permaneciam no espaço rural, outros mais abastados adoptavam a aldeia menos rotineiros, acompanham para viver, acumulando os lucros da venda dos frutos, reunindo-os nos seus e promovem os progressos da armazéns, acumulando a produção para posterior troca em mercados ou agricultura, investindo na terra os lucros de outras profissões comercialização com intermediários. […]” citado por Orlando Ribeiro, Os montes vão mantendo trabalhadores permanentes que asseguram os animais Portugal..., op. cit. e as plantações. Durante a apanha, quando era necessária maior mão-de-obra,5 Joaquim Romero Magalhães, O recorriam a trabalhadores temporários. Este recrutamento era feito sobretudo junto Algarve... op. cit. das populações das aldeias e dos montes, assegurando uma migração sazonal.6 No caso das conservas a indústria da pesca, a litografia, no fabrico de Vinham pessoas da Serra algarvia ou mesmo do Alentejo. chaves, o latoeiro e o azeite. Aos mesteiros cabia a actividade artesanal, ofícios como ferreiro, oleiro, latoeiro, albardeiro, canteiro ou pedreiro. Estes contribuíam para um conjunto de actividades complementares ao mundo rural, representando até ao século XX, um grupo maioritário, já que habitavam normalmente as aldeias ou sedes de freguesia. No início do século XIX, as lutas liberais marcaram uma fase de grande instabilidade e insegurança. Esta conjuntura terá contribuído para um forte movimento migratório quer para o interior do próprio país, Alentejo ou Lisboa, quer para o exterior, sobretudo para a Argentina e Brasil. A vitória dos liberais em 1847 contribuiu, segundo Romero de Magalhães, para “atenuar o poder da nobreza feudal em detrimento de uma alta burguesia”5, classe que nos finais do século XIX surge associada ao comércio de frutos secos, à indústria da cortiça ou das conservas de peixe. No final do século XIX a conjuntura económica centra-se sobretudo nos principais centros industriais de cortiça - São Brás de Alportel, Faro e Silves e conserveiro - Olhão, Faro, Portimão e Vila Real de Santo António. Faro, enquanto sede de concelho e de província, beneficia deste factor estratégico ao qual não ficam alheias as suas sedes de freguesia como Estoi. Esta conjuntura económica vai ainda promover o desenvolvimento de indústrias complementares que se estendem pelo território envolvente6. É uma realidade que não deixa ainda de favorecer e influenciar as freguesias de agricultura diversificada e rica como é o caso de Estoi e Moncarapacho, próximos destes importantes centros industriais e populacionais – Faro e Olhão. Estes dois aglomerados funcionariam muito provavelmente como pontos de atravessamento e paragem na rota dos almocreves. A proximidade entre eles e o seu forte relacionamento com o centro litoral, permitiu que aí se desenvolvessem espaços de primeira troca dos produtos, através das feiras, que eram depois consumidos pelos centros urbanos ou ainda
    • transportados e vendidos pelo interior da região. De uma forma geral podemos identificar dois tipos de povoamento que paralelamente se foram definindo no território. No Litoral encontramos hoje os principais aglomerados urbanos, enquanto catalisadores e monopolizadores de toda a organização económica e administrativa do território, distribuídos ao longo da costa e de onde sobressaem as principais cidades e sedes de concelho. No Barrocal, a uma distância relativamente próxima dessas mesmas sedes, variando entre 8 a 20 Km, dispõe-se uma rede de núcleos rurais, aldeias e vilas. Estes núcleos rurais estabelecem em muitos casos o limite geográfico com a Serra e funcionam como um cordão linear, ligado por vias e caminhos entre si. Constituem ainda pólos de referência num território próximo, casais ou pequenos lugares, onde predomina um povoamento mais disperso. Na Serra encontramos, por outro lado, aldeias e montes mais isolados e distantes, traduzindo-se numa menor densificação da paisagem. É nesta bipolaridade em termos de ocupação, núcleos urbanos de maior dimensão a litoral e núcleos rurais de menor densidade a Norte, que assenta a génese organizativa do território. A partir da segunda metade do século XX, com a introdução da “indústria” do turismo, novas regras de ocupação e vivência do território se irão impôr, traduzindo-se em fortes modificações na paisagem urbana e rural. Mais do que as cidades, são as zonas “periurbanas” na costa que recebem as primeiras invasões da construção civil. Assiste-se à forte densificação e adulteração com escalas despropositadas das áreas litorais, com exemplos gritantes de perturbação e anulação da sua paisagem natural, (Praia da Rocha, Quarteira, Albufeira ou Monte Gordo). Surgem ainda novos aglomerados planificados, apoiados em planos turísticos com ocupações maioritariamente sazonais (Vilamoura ou Aldeia das Açoteias). No território rural a mancha de especulação imobiliária tende progressivamente a prolongar-se. Prolifera uma ocupação dispersa de propriedades privadas com moradias que vão densificando a paisagem rural. Privilegiando a visão do mar vão ocupando escarpas, em terrenos acidentados, pouco acessíveis, impondo novos caminhos, circulações, vedações, modificando o território em função de propriedades isoladas e cada vez mais fraccionadas. O povoamento disperso toma um peso cada vez mais significativo em detrimento daquele que encontramos nos aglomerados.Os núcleos rurais Nos pontos anteriores abordámos a importância das condicionantes naturais, no Algarve físicas e de acessibilidades enquanto factores determinantes no tipo de ocupação e assentamento dos principais aglomerados. Para além disso identificámos, em termos de ocupação, uma forte concentração no Litoral que permaneceu e se efectivou ao longo dos tempos e associada às constantes relações marítimas. Reconhecemos ainda nos principais núcleos urbanos, com excepção de Loulé, o papel catalisador no desenvolvimento da população sobretudo a Litoral: Lagos, Portimão, Faro, Tavira e Vila Real de Santo António. Se por um lado identificamos núcleos localizados sobre encostas expostas ao mar ou ao longo de rios, por outro, encontramos os aglomerados rurais assentes predominantemente sobre colinas protegidos por serros, montes e envolvidas por vastas extensões de várzeas agrícolas. Ao forte desenvolvimento mais litoral, se contrapôs uma ocupação gradualmente disseminada a partir do Barrocal. A Serra resta ainda hoje como a área menos povoada. A abordagem ao território implica também uma análise dos principais núcleos rurais que, a par de Estoi, marcaram uma ocupação específica, com morfologias e processos de organização similares. A partir das descrições e referências demográficas relativas aos vários núcleos procurámos um maior entendimento dos diferentes períodos cronológicos e das suas actividades dominantes, reconhecendo a importância do lugar, vocação, acessibilidades, a base da sua formação e consolidação.
    • Apoiando-nos em três documentos corográficos de períodos cronológicos distintos -século XVI, XVII e XIX, (quadros referentes aos anos de 1577 1600 e 1837) procuramos ,sobretudo interpretar e reconhecer neste intervalo de tempo, coincidente com aformação e consolidação do núcleo de Estoi, como se definia a hierarquia doterritório - as principais cidades, vilas e lugares.Organizámos assim esta abordagem segundo quatro cenários distintos: 1 século XVI (1577) 2 século XVII (1600) 3 século XIX (1837) 4 século XXDesenvolvendo naturalmente o último cenário, procurámos sobretudo confrontar apartir das transformações e dados demográficos do século XX, a realidade actualdos principais aglomerados.Os parâmetros e níveis de abordagem pretendem sobretudo definir analogias comas características encontradas em Estoi.Neste sentido agrupámos por semelhanças os núcleos cuja formação e consolidaçãose teriam efectivado, tal como no caso de Estoi, a partir da Reconquista. Centrámo-nos sobretudo naqueles localizados na faixa designada por Barrocal, a umadistância relativamente à sede de termo ou concelho, entre os 8 a 20 Km.O que nos interessa nesta esquematização do território é reconhecer semelhançasnão só no tipo de ocupação destes núcleos mas também o seu papel no território, 53 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoipor um lado enquanto pólo de referência, mantendo uma articulação funcionalpermanente com o povoamento mais disperso – o da freguesia e, por outro, dasua dependência quer económica quer social, relativamente ao núcleo urbano alitoral, sede do termo ou do concelho, enquanto factor determinante para o seudesenvolvimento.
    • Cenário I A partir da obra de Frei João de São José1, identificámos diferentes designações Século XVI (1577) quer para aldeia quer para pequenos núcleos ou povoados. Aparece com particular insistência a designação de “lugar” ou “lugarinho” para povoações mais pequenas, “vila”, para aglomerados principais e naturalmente a de cidade para os principais núcleos urbanos. Em 1577 encontramos assim o território organizado segundo a seguinte hierarquia: Cidades Vilas Lugar ou aldeia Lagos Sagres Estoi Mixilhoeira Pequena Silves Alvor Azinhal Mixilhoeira Grande Faro Vila Nova de Portimão Martim Longo Porches Tavira Alagoa Vale do Chopo (Cachopo) Bordeira Albufeirax Giões Aldeia do Bispo Alcantarilha Moncarapacho Raposeira Loulé Fonte do Bispo O de Seixe Cacela Salir Castro Marim Paderne Alcoutim Pera Aljezur Monchique O quadro de 1577 apresenta uma lista dos lugares ou aldeias incluídos na referida obra. Incidindo o presente estudo sobre o núcleo de Estoi, focámos o nosso interesse nos aglomerados designados por Lugar ou Aldeia. Das terras designadas por Vila seleccionámos aquelas cujas semelhanças em termos de relação com o território, localização, actividade dominante e dimensão se aproximam melhor de Estoi. Lagoa, Castro Marim, Alcoutim e Aljezur são, na sua maioria, hoje sedes de concelho ou cidades como é o caso de Loulé, Albufeira ou Vila Nova de Portimão, logo com desenvolvimentos evolutivos distintos. Os restantes como Sagres, Alvor ou Cacela reúnem características diferentes de implantação e localização em relação aos núcleos rurais dominantes, já que o seu sentido funcional esteve naturalmente mais ligado ao Litoral que ao espaço rural. A par dos aglomerados designados por lugar, apenas Alcantarilha nos pareceu assim o único núcleo designado por Vila, possível para estabelecer uma associação. Da análise efectuada constatamos que de uma forma geral, relativamente ao tipo de assentamento, este implanta-se sobre a meia encosta, privilegiando a proximidade dos rios, ribeiras ou fontes. Em termos de actividades dominantes estas estão associadas às condições naturais do sítio, predominando a produção de sequeiro, dada a abundância de figueiras e oliveiras e, em terras mais férteis, a sementeira e os cereais. Delas se extraía não só os frutos, como o azeite e o alimento, assumindo-se como importantes fontes de rendimento. (Ver quadro I – 1577) Em termos de articulação com o território estas confirmam a proximidade constante à sede do termo e que varia entre 1 a 2 léguas (cerca de 10 a 20 km) o equivalente ao percurso pedonal, ida e volta, sol a sol. Constatamos ainda que a maior parte dos lugares é descrita através de uma imagem do seu perímetro envolvente, onde dominam as “quintas” e várzeas agrícolas e no qual parece assentar a lógica de sobrevivência económica. Relativamente ao termo de Faro apenas vem referenciada Estoi contando esta freguesia com um número razoável de habitantes (150 vizinhos). Em termos demográficos constatamos assim o seguinte panorama: Com número superior a Com número inferior a 100 vizinhos 100 vizinhos1 Frei João de São José, Corografia Estoi Paderne do Reino do Algarve (1577), in “Duas Fonte do Bispo Pêra Descrições do Algarve do século Mexilhoeira Grande Aldeia do Bispo XVI”, apresentação, leitura e notas Alcantarilha de M. V. Guerreiro e Joaquim Salir Romero Magalhães, livraria Sá da Costa, Lisboa 1983
    • Quadro I – 1577Termo Núcleo Assentamento/ Dados sócio- económicos/ Dados demográficos Acessibilidades / situação geográfica actividades (relativos à freguesia) situação relativa à sede de concelhoFaro Estoi Barrocal /Encosta Referências às ruínas romanas 150 Vizinhos 1légua de Faro Muito fresco; muitas fontes; boas águasAlcoutim Azinhal Serra /Encosta 30 Vizinhos 1légua de Castro Marim Próximo do Guadiana Martim Longo Serra Grande e abastado; 400 Vizinhos 9 léguas de Alcoutim terras de pão e criações; homens ricos Pereiro Serra 30 Vizinhos termo de Alcoutim Vale do Chopo (Cachopo) Serra 40 Vizinhos termo de Alcoutim Giões 50 Vizinhos termo de AlcoutimTavira Moncarapacho Barrocal, vale Povoado de quintas onde mora s/ referência neste documento 2 léguas de Tavira muita gente fidalga; Terra abastada onde se colhe o principal figo e azeite do Algarve Fonte do Bispo Barrocal, meia encosta; Povoada de quintas, figueirais, 150 Vizinhos 2 léguas de Tavira Fresca e de boas águas amendoais, vinhas e terras de pão; abastada 55 Estoi| Identidade e transformação. Título capítuloLoulé Salir Barrocal / Serra, colina Várzeas de pão; 300 Fogos termo de Loulé poucos lavradores pois os demais estão espalhados pela serraAlbufeira Paderne Barrocal, meia encosta; Terra fresca e de criações 70 Vizinhos termo de AlbufeiraSilves Monchique Serra, montanha Fruta, cereja, castanha, pêro, s/ referência neste documento 5 léguas de Silves Água saudável laranja Mexilhoeira pequena Litoral, vale, junto ao rio de Muita pescaria e marisco; 30 Vizinhos termo de Silves Vila Nova nela se embarca o figo Pera Barrocal, meia encosta; Todos lavradores; terra de pão e 40 Vizinhos 1légua e ½ de Silves sementeira; próxima da armação de atum Mixilhoeira grande Barrocal, meia encosta; Caça e marisco 300 Vizinhos termo de Silves muita água Alcantarilha Barrocal /Encosta Todos lavradores de boas terras e 200 Vizinhos 1légua e ½ de Silves figueirais Porches Litoral, vale Terra de pão e criações 40 Vizinhos 2 léguas de SilvesLagos Bordeira Litoral 40 Vizinhos termo de Lagos Budens Litoral 40 Vizinhos termo de Lagos Aldeia do Bispo Barrocal, meia encosta; Muitas criações 60 Vizinhos 1légua e ½ de Sagres Raposeira Serra /Litoral vale 100 Vizinhos ½ légua de SagresAljezur “O de Seixe” (Odeceixe) Serra /Litoral Tem barra para embarcação 80 Vizinhos termo de Odemira Meia encosta Próximo da ribeira
    • Cenário II Em 1600 aparecem “novos” lugares sendo o território descrito de acordo com a Século XVII (1600) seguinte organização: Cidades Vilas Lugar ou Aldeia Lagos Sagres Diáxere Mixilhoeira Grande Silves Alvor Marmelete Figueira Faro Vila Nova de Portimão Gralhos Mixilhoeira da Carregação Tavira Albufeira Espiche Estombar Loulé Almádana Alagoa Cacela Bensafrim Porches o Novo Castro Marim Barão Alcantarilha Alcoutim Baranito Pera Aljezur Budens Algoz Vila de Stº Ant. de Arenilha Val de Boi São Bartolomeu de Messines Raposeira Paderne Aldeia do Bispo Alfontes Cabo São Vicente Alte Carrapateira Estoi Bordeira São Brás de Alportel Alferce Moncarapacho Monchique Martim Longo Foia Constata-se, neste documento1, a não alusão a lugares referidos no documento de 1577, tais como: Azinhal, Val de Chopo (Cachopo), Giões, Salir, Fonte do Bispo e O de Seixe (Odeceixe). Verificam-se ainda alterações quanto ao tipo de designação em relação a Alagoa (Lagoa) e Alcantarilha que no anterior documento eram indicados como Vila e neste referenciados como Lugar. Destacam-se ainda as referências mais detalhadas sobre Carrapateira, Algoz e Alte. Como “novos” lugares surgem – Diáxere, Marmelete, Gralhos, Espiche, Almádana, Bensafrim, Barão, Baranito. O que nos pareceu interessante foi constatar que os mesmos lugares assumem posições diferentes nos dois cenários. Interpretações diferentes dos seus autores ou apenas alterações de valor relacionadas com modificações demográficas e económicas dos lugares mencionados? Relativamente ao termo de Faro surgem mais freguesias sendo de destacar como freguesias mais populosas Estoi e São Brás de Alportel, o que denuncia estarmos perante aglomerados mais estruturados e com menor população dispersa. (Ver quadro II – 1600). De facto, no final do século XVI Henrique Fernandes Sarrão descreve apenas no termo de Faro “dous lugares - Estoe e São Brás de Alportel”2. Pela análise do quadro II, reconhecemos mais uma vez o peso da população nos principais núcleos, naturalmente associados às áreas do termo de Silves, Lagos, Vila Nova de Portimão, Faro e Tavira. Este factor prende-se também ao forte incremento do comércio marítimo, durante este período, e ao papel do litoral próximo enquanto porto de escoamento de produtos agrícolas. Apercebemo-nos ainda da constante alusão ao tipo de cultura predominante que constituía a eventual “cerca” natural desses aglomerados. Temos assim em termos demográficos as freguesias mais populosas: Entre os 50 e os 100 moradores Entre 100 a 350 moradores Entre 140 a 200 fregueses Estoi Alcantarilha São Brás de Alportel Moncarapacho Paderne Salir Aldeia do Bispo Algoz Boliqueime Pêra Mexilhoeira Grande Santa Catarina Fonte do Bispo São Bartolomeu de Messines Alfontes Alte Barão1 Henrique Fernandes Sarrão, História do Reino do Algarve (1600), in “Duas...”, op. cit.2 Cf. Idem, Ibidem, pp.164-165
    • Cenário III Da análise aos dados fornecidos pela obra corográfica de Silva Lopes1 foi possível Século XIX (1837) organizar o quadro III. (Ver quadro III – 1837) O século XIX traduziu-se por um período de fortes transformações tendo estas exercido naturalmente consequências na organização e desenvolvimento dos núcleos. Estoi aparece numa fase de forte densificação e desenvolvimento urbano, consequência de um maior incremento na produção de sequeiro. Nesta fase é possível reconhecer de forma mais clara quais o núcleo que maiores proximidades estabelecem com Estoi, quer em termos demográficos, quer económicos. Em termos demográficos constatamos que as sedes de freguesia mais densamente povoadas apresentavam os seguintes valores: 1732 1837 Entre os 1000 e os 2000 Hab. >2000 Hab. Alcantarilha Alcantarilha São Bartolomeu de Messines São Bartolomeu de Messines Boliqueime Boliqueime Alte Alte Salir Salir Santa Bárbara Santa Bárbara São Brás de Alportel São Brás de Alportel Estoi Estoi 57 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi Mocarapacho Mocarapacho Santa Catarina Fonte do Bispo1 J. B. Silva Lopes, Corografia ou memória estatística e topográfica do Reino do Algarve, 2 volumes, Faro 1988
    • Quadro II – 1600Sede de termo ou Concelho Lugar ou aldeia Assentamento/ dados sócio / económicos/ dados demográficos Acessibilidades /situação situação geográfica actividades (relativos ao lugar) relativa à sede de concelho (relativos à freguesia)*Lagos Aljezur Serra / meia encosta Várzea de pão 70 moradores 2 léguas de Aljezur Diáxere Litoral /Encosta Muitas vinhas de grande 20 moradores 1légua de Lagos Junto a ribeira rendimento Circundado por outras povoações cuja população varia entre os 10 e os 12 moradores Marmelete Serra 25 moradores 5 léguas de Lagos Espiche Litoral / meia encosta Fonte de água boa 15 moradores 1 légua de Lagos Almádena Litoral / meia encosta Boas terras de pão; 28 moradores 1 légua e ½ de Lagos possui armação de atum Bensafrim Barrocal / vale 40 moradores 1 légua e ½ de Lagos Barão Barrocal vale 54 moradores 2 léguas de Lagos Baranito Barrocal / meia encosta 26 moradores 1 légua e ½ de Lagos Budens Litoral /meia encosta; Formosa fonte 50 moradores 2 léguas de Lagos formosa fonte Raposeira Litoral, vale Muito trigo e muita 60 moradores termo de Lagos gente de cavalo Carrapateira Litoral, Meia encosta, 14 moradores termo de Lagos Aldea do Bispo Barrocal / meia encosta Terras de pão 80 moradores Termo de Lagos Bordeira Litoral/ Meia encosta Terras de pão 60 moradores termo de LagosSilves Alferce Serra, meia encosta Tem pão, muito gado, 60 moradores 4 léguas de Silves mel e cera Monchique Serra, no vale de duas serras; Cercado de pomares; 300 moradores 5 léguas de Silves muitas águas e boas; castanhas, nozes, pêras, maçãs e frescos bosques, perenes fontes outra muita fruta; muitas vinhas, e saudosas ribeiras criação de gado, mel, cera e pão; Moinhos e pisões Mexilhoeira da Carregação Litoral, junto ao rio de Vila Nova Porto de escoamento e 30 moradores 1 légua de Silves (pequena) armazenamento do figo que rende muito Estombar Litoral, meia encosta Fértil lugar de pão, azeite, 200 moradores 1 légua de Silves Tem 2 poços infinito vinho, ameixeiras, amendoais, hortas; A sul tem a armação do Carvoeiro Alagoa (Lagoa) Litoral, meia encosta Fertilíssimo de pão, figueirais, 500 moradores 1 légua de Silves ao longo de 2 alagoas olivais e outras árvores; Vivem dele homens ricos muitos de cavalo; Tem 2 juízes ordináriosSilves Mexilhoeira grande Barrocal, meia encosta; Fértil de pão, pomares, vinhas, 350 moradores 4 léguas de Silves o longo de 2 ribeiras; figueirais e outras fazendas; Fonte de água no sopé do alto Muito marisco recolhido da ria de Alvor. Porches o Novo Litoral, meia encosta Terra de pão e figueirais 50 moradores 2 léguas de Silves Alcantarilha Barrocal /Outeiro, desenvolve-se Muitos figueirais e 200 moradores 1légua e ½ de Silves ao longo de uma ribeira armazenamento; Vinhas e outras fazendas Pera Barrocal, meia encosta; Terra de pão, figueirais e vinhas 80 moradores 1légua e ½ de Silves Algoz Barrocal, vale Abundante de pão. 100 moradores 2 léguas de Silves São Bartolomeu de Messines Serra, meia encosta; Terras de pão; vinhas e 60 moradores 3 léguas de Silves criação de gado 700 vizinhos toda a freguesia*
    • Albufeira Paderne Barrocal, meia encosta; Terra fresca e de criações 200 moradores 2 léguas de Albufeira corre uma ribeira Alfontes Barrocal, meia encosta; Homens de cavalo, ricos: 60 moradores ½ légua de Albufeira boas terras de pão, vinhas e grandes fazendasLoulé Alte Barrocal, meia encosta; Muitos pomares, moinho e 60 moradores 3 léguas de Loulé junto a uma ribeira terras de pão e esparto Querença Barrocal, meia encosta 60 fregueses* 1 légua e ½ de Loulé Salir Barrocal, meia encosta 150 fregueses* 2 léguas de Loulé Boliqueime Barrocal, meia encosta 140 fregueses* 2 léguas de LouléFaro São João da Venda Litoral, vale 50 fregueses* 1 légua de Faro Santa Bárbara de Nexe Barrocal, vale entre 2 serros 150 fregueses* 1 légua de Faro Conceição Litoral, planície 40 fregueses* ½ légua de Faro São Bartolomeu do Pechão Litoral, planície 40 fregueses* 1 légua de Faro São Sebastião de Quelfes Barrocal, vale 150 fregueses* 2 léguas de Faro Estoi Barrocal, meia encosta, Cercado de hortas frescas e 50 moradores 1 légua de Faro no meio está uma fonte tipo viçosas; 2 lagares de azeite chafariz 59 Estoi| Identidade e transformação. Título capítulo São Brás de Alportel Barrocal, meia encosta; Fresco e fértil de pão, 20 moradores 2 léguas de Faro tem uma fonte de muita água infinita caça e frutas 200 fregueses*Tavira Santa Catarina Fonte do Bispo Barrocal, meia encosta; Tem uma fonte de muita água 200 fregueses* 3 léguas de Tavira Moncarapacho Barrocal, vale; Povoada de muita gente rica; 80 moradores 2 léguas e meia de Tavira Muito fresco, muita água com juízes de vintena das duas 700 fregueses* cidades; cercado de fazendas, quintas, hortas e pomares, figueirais e olivaisCastro Marim Deleite (Odeleite) Serra 150 moradores Termo de Castro Marim em toda a freguesia*Alcoutim Azinhal Serra 130 fregueses* Termo de Alcoutim Martim Longo Serra; boa água Muita caça e terras de pão 70 moradores 5 léguas de Alcoutim Vale do Cachopo Serra Muitos lavradores ricos 200 fregueses* termo de Alcoutim Giões Serra Muitos lavradores ricos 150 fregueses* termo de Alcoutim
    • Quadro III-1837Sede do termo /Concelho Lugar ou aldeia Assentamento/ situação Dados sócio/ económicos/ Dados demográficos geográfica actividades (relativos à freguesia) 1732 1837Sagres Vila do Bispo Barrocal, meia encosta; Foi povoado de gente abastada; Terreno fértil em cereais e legumes; 536 856 arvoredos escassos denominado o celeiro do Algarve; vinhas; gado, caça , fazem-se queijos, e manteigaLagos Mexilhoeira grande Barrocal, meia encosta; Grande e rica; possui igreja, misericórdia e hospital; 575 900 tem feira de 3 dias; 2 lagares; Armazenam e carregam ai os frutos , a palma; Campos férteis cobertos de figueiras e oliveiras de onde se extrai muito azeite; caça miúdaSilves Alcantarilha Barrocal, meia encosta Bonita e grande aldeia; ruas boas; Igreja de 3 naves e Misericórdia; 1048 2324 Castelo Antigo de 1550; Terrenos bem cultivados e abundantes; 2 lagares de azeite; frutos; Terra de lavradores e gente que se emprega ao mar Pera Barrocal; meia encosta Aldeia pequena com 1 poço e tanque onde dão de beber ao gado; 838 1204 Figueiras; vinhas e oliveiras e caliça Organiza feira Algoz Barrocal; vale Aldeia grande e rica; 894 1612 Igreja e algumas casas ricas; uma estalagem; três poços; Várzeas com vinhas, hortas; 3 moinhos de vento, 2 lagares de azeite São Bartolomeu de Messines Serra; meia encosta Aldeia grande; Igreja, celeiros, 90 moios; azeite; Feira de 3 dias 2032 3721Albufeira Paderne Barrocal; meia encosta; Igreja; terrenos férteis; frutos e terras reduzidas a mato por falta 542 1003 fonte abundante perto da aldeia de cultura e braços; Alfontes Barrocal; meia encosta; Aldeia pequena; igreja situada numa extremidade da aldeia; 408 736 Pequena feira de 1 dia; fonte situada na parte baixa; fértil em todos os frutos; excelente água; 1 lagar de azeiteLoulé Alte Barrocal/ serra, entre 4 serros; Moinhos, várzeas de milho, pomares de laranja que embarca em 1337 2130 vale; à margem da ribeira; Faro; Igreja de 3 naves dentro da povoação; minas de cobre agora 2 nascentes fechadas; medronheiros, zambujeiros e produção de aguardente; trigo; caça miúda Salir Barrocal; meia encosta; Aldeia grande; produção de trigo e cevada, vinho; matos de pereiros 1364 2500 e zambujeiros; medronheiros de onde destilam a aguardente; pomares de laranja e moinhos Boliqueime Barrocal; meia encosta; Aldeia grande; terreno fértil;; produz figos, amêndoas; cereais; 1506 2186 vinhos; uva;Faro Santa Bárbara de Nexe Barrocal, vale entre 2 serros; Terreno ingrato, produz muita alfarroba, algum vinho, muita pedra 1130 2200 freguesia distribuída por e cal que ali se fabrica; pedreiras de onde se exporta cantaria; cazaes e lugarejos Estoi Aldeia grande; boas águas abundantes; Quintas e excelente 1699 3225 fruta de espinho (laranja); Figueirais, esparto; prisão de feira por 3 dias que hoje não se faz São Brás de Alportel Barrocal; Meia encosta Aldeia grande e bonita; Bonita quinta pertencente à mitra; 1156 3450 fonte excelente para rega de hortas, para fazer moer alguns moinhos; muitos fornos de calTavira Santa Catarina Fonte do Bispo Aldeia com várias confrarias todas pobres; hortas, frutos; 1156 1471 excelentes vinhas; e vinho; azinheiras, terrenos de sementeira de cereais e legumes; muitos almocreves aqui estabelecidos; aqui se junta muita cera com que negoceiam com os espanhóis, muito grão; 3 lagares de azeite e 2 fora da aldeia;Olhão Moncarapacho Barrocal; planície Aldeia grande com algumas casas boas; cercada de fazendas; 1871 3167 Igreja e misericórdia; Hortas, pomares de fruta de espinho que vai carregar a Faro; 8 lagares; oliveiras, alfarrobeiras, figueiras, amendoeiras, e vinhas, boas olarias onde se fabrica louça de barro vermelho; abundante em água; feira de 24 horas São Sebastião de Quelfes Barrocal, vale entre 2 serros; Vinhas; figueiras; alfarrobeiras; amendoeiras; 447 1080 freguesia distribuída por cazaes e Igreja e moradas do pároco lugarejos
    • Cenário IV Chegando ao século XX e à semelhança dos outros períodos, identificamos comoO século XX freguesias rurais mais densamente povoadas as concentradas nos concelhos de Faro, Olhão, Loulé e Silves. É o caso de Moncarapacho, São Brás de Alportel, Estoi, Salir ou Alcantarilha. A importância que a indústria corticeira e a produção de sequeiro tiveram a partir do final do século XIX traduziu-se na forte actividade comercial e económica que atraiu uma população significativa. Faro e São Brás de Alportel constituíam respectivamente os principais centros na produção e exportação da cortiça. Estoi, enquanto freguesia de atravessamento, gozou desde logo dessa condição estratégica de acessibilidade a estes núcleos, quer para o escoamento, quer ainda para o consumo dos produtos que ela mesma produzia. Moncarapacho cuja actividade económica em muito se aproximava à de Estoi constituía outro pólo importante dada a relação estratégica de proximidade aos dois centros urbanos relevantes durante este século, Olhão e Faro. Faro pela importância ao nível da indústria corticeira e frutos secos, Olhão pela importância na indústria da conserva. A relevância das actividades económicas dos principais centros urbanos reflectiu- -se no adensamento populacional dos aglomerados vizinhos rurais que através de outros ofícios artesanais (a cestaria, a olaria, o esparto) complementavam as ditas indústrias. Esta realidade contribuiu ainda para um enriquecimento de muitos lavradores e, consequentemente para o desenvolvimento dos núcleos, atraindo nova população, densificando-os até à primeira metade do século. 61 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi Ainda nas primeiras décadas do século XX, a produção agrícola constituía, ao nível das freguesias rurais, uma importante fonte de riqueza, condição que progressivamente se foi alterando, sobretudo a partir dos anos 60, quando o turismo começa a impor-se como principal motor económico da região. Ao decréscimo populacional das freguesias rurais se opõe, por outro lado, a densificação das freguesias urbanas. Analisando o contexto actual e a evolução demográfica destes núcleos constatamos, em termos gerais, a seguinte situação: até aos anos 40 as curvas de crescimento demográfico são constantes não só na faixa litoral como na faixa interior Barrocal, sobressaindo o concelho de Loulé como o único núcleo urbano significativo fora da faixa litoral. Esta situação reflecte, em termos económicos, a importância e dependência de uma região fortemente associada a uma vocação agrícola enquanto pólo de um hinterland. A partir dos anos 50, a falta de modernização da agricultura e dos meios de produção reflecte-se na actividade agrícola que dá sinais de profunda depressão, tendo como consequências directas a forte emigração sobretudo para França, Alemanha, Venezuela, Estados Unidos e Canadá. A partir dos anos 70 a indústria do turismo já assumia proporções e consequências consideráveis. Constatamos que os núcleos mais próximos dos centros turísticos, nomeadamente no Barlavento, assistem progressivamente a uma substituição das suas actividades dominantes pelo sector terciário, começando ainda a receber, como primeiros reflexos do turismo ao nível da pressão imobiliária, uma maior densificação e adulteração do seu tecido urbano. Essas transformações reflectiram-se sobretudo ao nível das próprias opções profissionais. Agricultores ou trabalhadores do campo tornam-se operários da construção civil, ou encontram nos ofícios complementares (serralheiro, pintor, carpinteiro), uma alternativa ao trabalho agrícola. Esta realidade estende-se de uma forma geral a todos os principais aglomerados rurais como é o caso de Boliqueime, Alcantarilha, Santa Bárbara de Nexe, Estoi, Moncarapacho ou Paderne. Em muitos destes núcleos a proximidade e a fácil articulação com os centros urbanos vizinhos do litoral constituiu desde logo um factor positivo na medida em que não implicou, como no caso de Estoi, o êxodo em massa para a cidade. Os maiores movimentos migratórios são por outro lado decorrentes da perda de atractivos económicos e de emprego na própria freguesia, obrigando à deslocação para outras zonas com maior emprego e relacionadas com centros mais turísticos, como o caso de Quarteira ou Albufeira. O regresso dos emigrantes, no que se refere a Estoi, sobretudo da Europa
    • (França e Alemanha) só começou a fazer-se sentir a partir dos anos 80, com asintervenções de alteração de casas existentes na aldeia ou com a construçãode moradias isoladas na periferia. Os seus limites e áreas de possível expansãoprevaleciam até hoje restritos a poucos proprietários.Contrariando esta tendência constatamos que apesar de ter havido umconsiderável decréscimo da população durante a segunda metade do século XX,alguns desses núcleos continuam a constituir-se como freguesias ou concelhos comuma dinâmica ainda própria ligada quer à construção civil,quer ainda à indústria de transformação. É o caso de São Bartolomeu de Messines(indústria do tijolo) ou São Brás de Alportel (cortiça).Analisando alguns dos dados demográficos percebemos que a diminuição ouestagnação demográfica registou-se de forma irregular nos principais núcleosrurais.Incidindo na amostra e nos casos de estudo que consideramos com uma evoluçãoparalela até ao século XX e considerando os dados dos censos dos últimos vinteanos constatamos uma forte alteração dos índices demográficos entre os diferentesnúcleos desde os finais do século XIX até ao século XXI.Quadro IV1732 1837 1981 1991 2001 freguesia? ? 8460 8727 ? São Bartolomeu de Messines2136 3450 7506 7526 10.032 São Brás de Alportel? ? 6449 5518 7591 Moncarapacho1506 2186 3804 4387 ? Boliqueime? ? 2850 3391 ? Mexilhoeira Grande1130 2200 3169 4338 4119 Santa Bárbara1699 3225 3184 3100 3538 Estoi542 1003 4015 2349 ? Paderne1337 2130 ? ? ? Alte1048 2324 2243 2365 2347 Alcantarilha1364 2500 ? ? ? SalirDados demográficos relativos à freguesia (censos de 2001)Entre 2000 e 5000 Hab. > 5000 Hab.Paderne São Brás de AlportelEstoi São Bartolomeu de MessinesAlte MoncarapachoSalir Mexilhoeira GrandeAlcantarilha Boliqueime Santa Bárbara de Nexe
    • 1 63 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi2Fig. 61Os núcleos rurais do Barrocal algarvio2Relação de atracção entre os núcleosrurais e as sedes de concelho
    • Análise comparativa dos Os núcleos analisados traduzem de uma maneira geral esse sentido particular que principais núcleos rurais caracteriza a maior parte dos outros aglomerados portugueses, onde a estrutura e a forma se interligam com o suporte físico pré-existente, revelando uma lógica fundamentada nas características físicas do próprio sítio1. O sentido do lugar, da sua situação geográfica e relação com o território define assim a base destes assentamentos que, no caso dos aglomerados rurais, se traduz de uma forma ainda muito evidente. O estudo comparativo incide sobre os aglomerados rurais que, no sentido longitudinal à paisagem, Nascente – Poente desde Lagos a Castro Marim, integram a faixa Barrocal. Desde Monchique, São Bartolomeu de Messines, a Alte, Querença, Alcantarilha, São Brás de Alportel, Estoi, Moncarapacho, Santa Catarina Fonte do Bispo, todos tiveram, tal como Estoi, a sua formação e desenvolvimento associados à anterior capital de termo ou hoje sede de concelho. A atracção dos núcleos a litoral estendia-se ao núcleo próximo rural. Temos os exemplos de Faro com influência sobre Estoi, São Brás de Alportel ou Santa Bárbara de Nexe; Olhão sobre Moncarapacho, Tavira sobre Santa Catarina da Fonte do Bispo e de Silves sobre Alcantarilha, Pêra, Algoz ou São Bartolomeu de Messines. Esta dependência funcional e económica foi desde sempre um aspecto determinante no tipo de desenvolvimento e transformação dos próprios núcleos. Estes absorviam um conjunto de actividades também motoras para a economia regional. No processo de reconhecimento dos vários núcleos rurais através dos diferentes campos de informação encontramos alguns aspectos significativos que nos permitiram identificar algumas semelhanças e proximidades com o núcleo de Estoi. Através de uma análise sobre o tipo de assentamento, das referências sócio económicas, as acessibilidades e os dados demográficos e, atendendo ao processo evolutivo de cada um dos aglomerados hoje, começámos por agrupá-los segundo três tipos: 1 núcleos de grande dimensão; 2 núcleos de média dimensão; 3 núcleos de pequena dimensão. (fig. 6) Núcleos de grande dimensão Referimo-nos àqueles que atingiram um grau de desenvolvimento significativo e que chegaram hoje a sedes de concelho. São hoje vilas ou cidades já com atribuições administrativas e actividades económicas específicas com peso regional. Apresentam em termos de morfologia urbana uma malha consolidada correspondente ao tecido mais antigo, este já ultrapassado em termos de dimensão pelas novas áreas de expansão e com perspectivas de transformação mais acentuadas. Os dados demográficos registam no núcleo um número de habitantes superior a 2000. Temos como exemplos o caso de Lagoa ou São Brás de Alportel2; Núcleos de média dimensão1 Orlando Ribeiro, Portugal..., op. Representam as aldeias que permaneceram enquanto sedes de freguesia, cit. considera relativamente à mantendo a relação de dependência económica com a sede do concelho e cidade medieval portuguesa, uma enquanto núcleos de referência na gestão de um determinado território rural tendência para a instalação em próximo, a área da freguesia, marcada por um tipo de povoamento mais disperso. locais de relevo acidentado e uma A distância à sede de freguesia oscila entre os 10 a 20 quilómetros. As actividades outra paralela ou complementar que escolhe a proximidade do litoral económicas variam hoje entre o sector terciário, serviços e turismo e o secundário. recortado, implantando-se entre a As actividades agrícolas mantêm uma menor relevância em detrimento da colina e a baixa, “[…] iniciando o construção civil. fenómeno de dialéctica da alta e da Em termos demográficos estes núcleos concentram uma população que oscila baixa […]”.2 São Brás de Alportel, vila e sede entre os 900 e os 2000 habitantes. Apenas Alte, Salir, Paderne e Boliqueime de concelho desde o século XIX apresentam valores de população inferiores relativamente ao núcleo. A sofreu um desenvolvimento industrial população dispersa supera por vezes a do próprio “lugar”. Apenas São relevante condicionando um Bartolomeu de Messines se revela uma excepção, registando valores ainda aumento demográfico significativo superiores, permanecendo contudo como sede de freguesia. de que resultou, em parte, a sua separação do concelho de Faro. Em termos de tecido urbano encontramos uma malha consolidada e consistente
    • 1 Esta designação aparece que representa uma percentagem ainda significativa no seu tecido urbano global, referenciada também por Fernandes, apoiada em um ou dois espaços estruturantes. As áreas de expansão são na José Manuel; in As Cidades da Macaronésia , Faup, Porto 1996 generalidade prolongamentos do tecido existente, sobre cotas mais planas.2 Grande parte destes núcleos são É o caso de Mexilhoeira Grande, Alcantarilha, Moncarapacho, Algoz, São descritos ainda no século XIX como Bartolomeu de Messines, Alte , Salir, Estoi, Boliqueime ou Paderne. pequenos lugares resumidos ao elemento Igreja e casas paroquiais, servindo esta de ponto de referência Núcleos de pequena dimensão a um povoamento Núcleos sede de freguesia que mantêm em termos de acessibilidade relações predominantemente disperso por permanentes entre dois aglomerados a uma distância que varia entre os 5 a 10 casais e montes. quilómetros.3 Veja-se Anexos - Fichas dos núcleos A sua morfologia urbana traduz-se numa estrutura de desenvolvimento rurais. fundamentada em função de um caminho, num atravessamento, num percurso de passagem entre dois aglomerados. Podemos ainda designá-los por ”povoação-rua”1. O seu crescimento esteve associado à fixação de um povoamento ao longo de uma estrada, formando um corredor de casas, desenvolvendo-se um crescimento essencialmente linear, a par de uma ocupação predominantemente dispersa ao longo da freguesia. A sua consistência ao nível urbano começa a ter uma maior expressão a partir do século XX, sendo que até essa data, apenas está circunscrita ao espaço confinante à Igreja. Em termos de população apresentam um número inferior aos 1000 habitantes, sendo a população dispersa, a mais significativa. Os exemplos mais evidentes deste tipo são Conceição de Faro, Conceição de Tavira, Pechão, São João da Venda, Santo Estevão, Luz de Tavira2. 65 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi Parâmetros de análise Os aspectos morfológicos, físicos e funcionais que identificamos em Estoi comparada funcionaram enquanto parâmetros de analogia com outros núcleos rurais. Centrando-nos nos aglomerados de média dimensão procuramos identificar características comuns. Foram assim elaboradas fichas individuais para cada núcleo onde se definiram critérios de avaliação comuns, resultando numa amostragem que serviu de referência para a identificação e caracterização geral3. Tomaram-se em conta os seguintes parâmetros: as acessibilidades; o assentamento; os dados demográficos; as principais actividades económicas; a morfologia urbana Procedendo à análise dos diferentes parâmetros constatamos o seguinte: As acessibilidades • A relação de proximidade entre os núcleos rurais e as suas sedes de concelho varia na generalidade entre os 10 a 20 quilómetros, organizando-se estes aglomerados, na maior parte, a Norte das mesmas cidades. • As estradas principais, N125 e Via do Infante, relacionam-se na proximidade destes núcleos de forma quase sempre tangencial, ligadas por vias ou outras estradas secundários. O assentamento • Localizam-se geralmente na transição entre duas paisagens – o Barrocal e a planura litoral – envolvidos de uma forma geral por culturas de sequeiro e de regadio. • Implantados sobre uma meia encosta exposta normalmente a Sul, Sudoeste, abrigada por um monte ou cerro a Norte, estes aglomerados assentam sobre cotas de terreno que podem ultrapassar os 200 metros de altitude, os 5 por cento de declive. • O tipo de assentamento descreve um compromisso permanente com a topografia e geomorfologia existentes, desenvolvendo uma relação quase castrense, onde
    • a estrutura urbana localizada num ponto sobrelevado, beneficia geralmente das relações visuais sobre uma determinada envolvente. • O tecido urbano desenvolve-se quer na perpendicular quer paralelamente às curvas de nível, definindo ruas mais curvilíneas e sinuosas, desaguando progressivamente sobre linhas de cota mais plana, correspondendo estas às novas áreas de desenvolvimento. • A proximidade de linhas de água ou outros elementos como poços ou tanques, parece estar inerente a todos os núcleos rurais. Tal como em Estoi, identificamos nos outros núcleos a proximidade com leitos de rio ou ribeiras ou ainda a existência de fontes ou poços localizados em espaços estruturantes da malha urbana. A proximidade da água e o seu controlo constituiu um factor determinante para a lógica de assentamento inicial da generalidade dos aglomerados. • Encontramos assim com estas características a aldeia de Paderne, Alcantarilha, Mexilhoeira Grande, São Brás de Alportel e Santa Catarina Fonte do Bispo. Moncarapacho representa por outro lado a excepção ao tipo de assentamento. Desenvolve-se sobre terras de regadio e linhas de cota mais planas, desenvolvendo uma malha urbana mais regular.Dados demográficosEm termos demográficos verificamos que nos dados (censos 1981 e 2001) referentesà população residente na aldeia, constatamos um progressivo crescimento dapopulação nas sedes do núcleo. Temos assim a seguinte situação:Entre os 300 e 600 habitantes Paderne, Boliqueime, Alte, Salir e Santa Catarina Fonte do Bispo; Nestes aglomerados o povoamento disperso pela freguesia é mais significativo que aquele concentrado na aldeia. Nos casos de Alte e Paderne a proximidade com a Serra e a distância mais acentuada com os aglomerados a Litoral permitiu que se atraísse cada vez menor população, contribuindo para um maior isolamento destes aglomerados. (Ver quadro IV)Entre os 900 e os 1500 habitantes Estoi, Mexilhoeira Grande, Alcantarilha, Algoz, Santa Bárbara de Nexe e Moncarapacho. Estes núcleos reúnem ainda um povoamento significativo localizado na aldeia, sendo a população da freguesia quase sempre equivalente ou superior à do núcleo. (Ver quadro V)Quadro VDados dos censos 1981 2001Moncarapacho 968São Brás de Alportel 1883Santa Bárbara de NexePaderne 365Boliqueime 222 549Mexilhoeira Grande 1159 1202São Bartolomeu de Messines 1903 2935Alte 518 430Salir 291 560Estoi 1089 1156Alcantarilha 904 964Santa Catarina Fonte do Bispo 321Algoz 1120 1181
    • Entre os 1500 e os 3000 habitantes São Bartolomeu de Messines e São Brás de Alportel (esta como sede de concelho). Em termos de proximidade com o centro urbano mais próximo está entre os 20 e 30 quilómetros, desenvolvendo já uma estrutura urbana relativamente autónoma com um população fixa significativa.Principais actividades económicas • De uma maneira geral as principais actividades económicas nestas freguesias apontam para um crescimento cada vez mais significativo do sector terciário (a hotelaria, serviços, restauração, pequeno comércio). • O sector primário concentrado na produção agrícola de citrinos, estufas e de sequeiro tem vindo a perder a hegemonia de outros tempos, substituído progressivamente pelo sector secundário, mais ligado à construção civil. Encontramos assim alguns artesãos ligados à olaria, serralharia ou cantaria que se apoiam na indústria da construção civil. • Os produtores agrícolas resumem-se a alguns proprietários que recorrem a mão- de-obra sazonal, conciliando por vezes as suas actividades com outros serviços (jardineiros, empregadas domésticas, ou outros serviços na função pública). • O desenvolvimento económico destes aglomerados tem conhecido contudo contornos distintos. As actividades ligadas ao turismo rural, de lazer, têm vindo a tornar-se progressivamente mais significativas, fixando alguma da sua população 67 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi nesses mesmos núcleos, estimulando com isso o aparecimento de restaurantes e comércio local. (Estoi, Moncarapacho, Santa Bárbara de Nexe) • No caso de Estoi a maioria da população activa não trabalha na sede de freguesia. Desloca-se para trabalhar aos principais centros urbanos vizinhos, como Faro ou Olhão ou ainda aos principais pontos turísticos como Vilamoura, Vale do Lobo ou Almancil. Esta realidade é constante também nos restantes núcleos rurais.Morfologia urbana • A morfologia urbana destes núcleos está na generalidade ligada a linhas de crescimento naturais, determinadas pela topografia, por um tipo de orientação específico, ou estruturadas a partir de caminhos, vias ou pólos. Estes núcleos distribuem-se e crescem, na grande maioria a partir do prolongamento de uma rua direita, organizando-se sucessivamente numa hierarquia de níveis, desenvolvendo os novos tecidos em patamares de cota mais baixa. • Verificamos em termos de malha urbana uma unidade morfológica correspondente ao tecido consolidado mais antigo a que se opõem as áreas de desenvolvimento, sobretudo da segunda metade do século XX. O desenvolvimento linear inicial determinou, por repetição ou cruzamento, as sucessivas transformações e expansões do aglomerado, conformando uma estrutura reticulada ou por vezes radiocentrica. • A estrutura urbana fundamenta-se assim num ou dois eixos principais nos quais se apoiam os principais elementos primários do seu tecido – a Igreja, o Mercado ou a Fonte. • A rua constitui o elemento estruturante nos núcleos, marcados também pelos elementos primários que pontuam os principais espaços, pequenos largos ou terreiros que reúnem significados e vivências distintas. • Encontramos assim núcleos compostos por dois ou três espaços principais -o espaço da Igreja Matriz, o espaço do Mercado ou da Fonte, e um terceiro, referente ao espaço junto à Misericórdia. • Se analisarmos os principais núcleos rurais na faixa do Barrocal ou pré-Serra, identificamos dois tipos de malha urbana: uma apoiada numa estrutura mononuclear e outra plurinuclear. • A primeira traduz uma malha urbana concentrada apenas num só espaço central - o espaço da Igreja. Atravessado por um eixo estruturante nele se estabelece a principal articulação com o restante território, traduzindo-se quase sempre no principal lugar de encontro e permanência. • A freguesia cresce à custa de uma ocupação dispersa por casais ou montes tendo como elemento de referência o espaço da aldeia centrado na Igreja
    • Fig. 7Relação do núcleo de Estoi com afreguesia e os principais aglomeradosvizinhos
    • 69 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi Matriz. É o caso de Querença, Santa Bárbara de Nexe, Conceição de Faro ou Conceição de Tavira, Pechão e Quelfes. • A estrutura plurinuclear apresenta uma matriz composta normalmente por mais do que um espaço estruturante. A malha urbana é definida por uma sucessão de largos que revelam uma maior consistência do seu tecido urbano. Para além do espaço da Matriz podemos encontrar o largo do Mercado, da Fonte, ou ainda o largo onde se localiza um equipamento assistencial (Misericórdia, estalagem ou hospital), como é o caso de Alcantarilha, Moncarapacho e Mexilhoeira Grande. • Tanto na Mexilhoeira Grande como em Alcantarilha verificamos que os principais espaços de alargamento se vão definindo ao longo da rua direita e em função dos elementos primários, como a Igreja Matriz e a Misericórdia. • Os três momentos estruturantes do tecido urbano são ainda reconhecíveis em Estoi. Ao Largo Ossónoba cuja vocação sempre esteve ligada ao espaço de mercado, liga-se um espaço intermédio, Largo da Praça Velha, outrora associado à presença da Ermida do Espírito Santo, espaço assistencial, culminando no prolongamento até à Igreja Matriz no Largo da Igreja, o espaço religioso. Este carácter funcional aparentemente impresso pelo edifício presente não éFig. 8 contudo rigidamente adoptado. O mesmo espaço hoje pode receber diferentesRelação da estrutura viária do núcleode Estoi com os núcleos vizinhos: actividades quer religiosas quer pagãs. Em todos eles se desenrolam as principaisa Norte São Brás de Alportel, a festas e manifestações religiosas.Nascente Moncarapacho, a Poente • Há ainda a acrescentar no caso de Estoi a presença de um Palácio do séculoSanta Bárbara de Nexe, a Sul XVIII cuja dimensão e significado representa em termos de malha urbana umConceição de Faro e a Sudeste comPechão aspecto fundamental que não encontramos em nenhum outro núcleo.
    • Em síntese Como já constatámos, o processo de ocupação do território descreve, a par de um assentamento concentrado nos principais núcleos urbanos, um crescimento e desenvolvimento em permanência com uma ocupação rural, na qual se foram estabelecendo relações de dependência e domínio1. A sua distribuição ao longo do território esteve indiscutivelmente ligada a um sistema de percursos, atravessamentos e a uma permanente relação com determinada estrutura hidrográfica, rios ou ribeiras. Estas condicionantes estabeleceram no território uma determinada conformação, traduzindo modos de1 Jorge Gaspar, Portugal, a terra e o assentamento e tipologias de edificado específicos. homem, “Jornal dos Arquitectos”, Analisando os diferentes núcleos rurais apercebemo-nos também de uma certa 1981, referindo-se à imagem do centro urbano e da razões hierarquia desde sempre associada à influência exercida pelo centro urbano ou que levam à escolha de um sede de concelho mais próximo. determinado sitio para a instalação A um litoral densificado, se contrapunha uma rede de núcleos rurais que de um aglomerado, salienta que indirectamente absorviam a influência que esses mesmos centros urbanos produziam. o conteúdo funcional prevalece sempre a par de outros factores: O desenvolvimento de Faro reflectia-se num maior desenvolvimento do núcleo de “[…] na maioria dos casos existe Estoi, não só porque reunia os poderes administrativos e políticos na gestão do uma combinação de várias funções, território, mas por nele residirem a maioria dos grandes proprietários das terras ao que se manifestaram, quer de longo da freguesia. forma sincrónica quer diacrónica, As principais quintas e hortas pertenciam, na generalidade, a famílias abastadas imprimindo ora uma ora outra adaptação ao substrato que habitavam normalmente nas cidades, controlando simultaneamente a geomorfológico. […] Pode acontecer economia local. Implantadas na proximidade dos principais núcleos urbanos ou em que os aspectos negativos do sitio torno dos principais aglomerados rurais, estas quintas ou fazendas organizavam sejam compensados por outros toda uma população e um povoamento em função das suas actividades. elementos que definem a Esta hierarquia estendia-se sucessivamente à própria sede de freguesia enquanto acessibilidade. […]” ponto de referência para um povoamento mais disperso, agrupado em casais ou associado a quintas e fazendas. De uma forma geral os aglomerados rurais cresceram com base não só nessa relação de dependência relativamente à sede de concelho ou termo, que o controlava e influenciava mas também com base em aspectos económicos, culturais, sociais e políticos e ainda, mas na relação com o seu próprio território, com o que dele provinha, monopolizando e estruturando uma ocupação em função dessas actividades. Esta relação de dependência ou de interdependência entre aglomerado rural e sede do concelho constitui uma permanência em termos de sentido e identidade, traduzindo-se numa hierarquia de influências sobre todo um território. Condições físicas, O território em estudo traduziu-se assim nessa permanente relação de morfológicas interdependência entre colina e planura, rural e litoral, influenciando as actividades e acessibilidades do e os modos de viver da região. núcleo de Estoi Sensivelmente a dez quilómetros a Norte da cidade de Faro, o núcleo de Estoi eleva-se sobre um morro, situado nas faldas do Monte Figo entre os cerros do Malhão e Guelhim, orientado a Sul – Sudoeste. (fig. 9) Estoi localiza-se na faixa do Algarve Calcário ou pré-Barrocal estabelecendo a fronteira entre os campos de hortas e pomares e o início da vegetação de sequeiro. É atravessada a Nascente, no sentido Norte-Sul, pela ribeira do Alcaide ou rio Seco e, a Poente por outro afluente. Ambas as linhas de água constituem os limites naturais do seu actual perímetro urbano. As zonas mais férteis organizam-se assim junto do leito do rio, a Sul do aglomerado, onde abundam os pomares e culturas irrigadas, às quais se contrapõem os solos mais calcários a Norte. Os pontos mais elevados da freguesia e envolventes à bacia do rio Seco são compostos pelo Guelhim (313m), Castelo (217m), Machados (252m) e o Malhão (346 m), dos restantes separado pelo mesmo vale do rio Seco. O tecido urbano mais antigo desenvolve-se a cerca de 110m de altitude cuja implantação, associada à presença de água, contribuiu enquanto factor natural para a génese organizativa da sua estrutura urbana, centrada no Rocio, actual Largo Ossónoba, revelando a proximidade com os modelos de ocupação coincidentes com o período medieval. A topografia na qual se organiza e se estrutura a malha urbana apresenta declives que chegam a superar os 15%. Os eixos de expansão do núcleo, no final do século XIX, sobre zonas de cota mais plana representam uma fase de consolidação apoiado agora numa estrutura bipolar da aldeia alta e da aldeia baixa.
    • 1 J. Romero Magalhães, E. M. Viegas, A sua localização estratégica é acentuada pela posição do relevo que permite Duas descrições do Algarve do século uma articulação, não só física mas visual, com o restante território, alcançando XVI, ed. Livraria Sá da Costa, Lisboa 1983, p.48 distâncias que se prolongam desde Faro, a Olhão e Fuseta. Esta relação visual com o2 Idem, Ibidem envolvente confere-lhe um sentido de segurança e domínio que terá sido fundamental3 Nuno Beja, Transcrição de na lógica de assentamento inicial. A centralidade em relação à rede viária que documentos relativos à História do servia e percorria os restantes aglomerados algarvios tornam Estoi um exemplo Algarve, Anais do Município de Faro, n. XXX, pp. 230-240 dessa situação de encruzilhada onde participam, para além dos factores naturais4 João Baptista da Silva Lopes, já enunciados, a boa qualidade agrícola dos terrenos circundantes. Nos escassos Corografia do Reino do Algarve, dados relativos à sua formação encontramos descrições ainda do século XVI (1577)1 1841, pp. 338-340 que nos reportam ao seu tipo de assentamento e ao território envolvente, associando- -o na generalidade à abundância de água, “[…] muito fresco, boas fontes e boas águas”. Outras referências (1600)2 conduzem-nos a uma interpretação da actividade económica dominante, nomeadamente quando, referindo-se à ribeira do Alface, “esta albergaria moinhos e era envolvida por muitos pomares”. Nas descrições do século XVIII, em 17583 são-nos ainda referidos os seus limites visuais: “[…] a sul tem as faldas de uns cerros, entre vales e campinas […] a parte norte, nos mesmos cerros descobrem-se as povoações em roda: São Bartolomeu de Pechão, Faro, Olhão, São João da Venda, Santa Bárbara, São Sebastião de Quelfes, São Brás de Alportel, Moncarapacho, Nossa Senhora da Conceição […]”. Ainda no século XIX Silva Lopes apresenta-nos referências relativas às suas principais actividades; “tem bons terrenos, muitas figueiras e algum esparto […]”4. Podemos assim destacar as três condições naturais que estiveram na base deste assentamento - a água, a riqueza agrícola assente numa cultura mista – o regadio e o sequeiro e a própria situação de colina que lhe confere esse sentido de controlo sobre o território. 71 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi 1Legenda ortofoto 2Eixos principais existentes 2Eixos introduzidos nos anos 90 3Elementos estruturantes do tecido:1 Ruínas Milreu;2 Igreja Matriz;3 Ermida do Pé da Cruz;4 Palácio 4 2 1Fig. 91Fotografia aérea de 1969fonte: Instituto Geográfico do Exército2Ortofotomapa de Estoi de 2002fonte: Instituto Geográfico do Exército
    • Origem, Os estudos relativos ao presente território conduzem-nos essencialmente a dois formação e consolidação momentos de ocupação importantes. O primeiro decorre desde o período de ocupação romana, prolongando-se até à Reconquista Cristã, geograficamente mais relacionado com o lugar de Milreu e, o segundo, correspondente ao aglomerado de Estoi, implantado a cerca de um quilómetro a Este e que enquadramos a partir do século XVI, data das primeiras referências ao núcleo. A tentativa de relacionar estes dois momentos não deixa de ser contudo importante, sendo no entanto um caminho em relação ao qual permanecem ainda algumas questões. Enquanto sentido de análise e interpretação deste território importa perceber o significado que a primeira fase cronológica teve na estruturação do actual aglomerado e quais as mutações e marcas que poderão estar na base deste assentamento. Antecedentes históricos Na segunda metade do século II a.c. Ossonoba constituía uma das principais cidades romanas do Sudoeste Peninsular. Gozando de uma localização privilegiada enquanto porto comercial importante na relação com o Mediterrâneo, exercia também influência sobre um vasto território dependente, absorvendo quer os seus produtos agrícolas, quer mineiros e marinhos. O desenvolvimento de uma população mercantil ligada ao comércio marítimo e o seu papel enquanto centro administrativo vieram contribuir para o aparecimento de uma imponente villa rústica – Milreu. 73 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi1 Vasco Gil Mantas, As cidades Nas margens do rio Seco, a Norte de Ossonoba (Faro), Milreu assume uma marítimas da Lusitânia, citado por posição estratégica em relação à grande maioria das villae do Algarve. Sandra Rodrigues “As Vias Romanas do Algarve”, CCRAlgarve, Implantada a uma cota de sensivelmente 70m de altitude, corresponde a um Faro 2004, p. 35 assentamento sobre um vale, na proximidade de duas importantes fontes de2 T. Hauschild, Estoi, Villa Romana..., abastecimento de água - a Poente em Alface e a Nascente onde se encontra o op. cit. “[…] trata-se de uma actual núcleo de Estoi. tipologia de ‘templo galeria’ que se encontra exclusivamente na A par de uma produção agrícola dominante, da qual sobreviveu até hoje um lagar e Europa Central”. As suas dimensões uma adega, a villa atinge, a partir do século III, uma dimensão edificada significativa. tornam-no segundo Hauschild A sua importância no contexto do território é salientada pelas descobertas realizadas “[…] num elemento invulgar para no século XIX e mais recentemente no século XX (anos 70), dos bustos de Agripina, a villa, permitindo-lhe possuir um Adriano e Galieno. O culto imperial aí realizado revela o significado político centro de culto próprio, na época tardia, quando nas cidades os actos e estratégico desta Villa enquanto “residência oficial, relacionada com funções 1 religiosos oficiais foram reduzidos. administrativas desempenhadas pela cidade [Ossonoba] no âmbito conventual” . […]”. O seu crescimento culmina com o alargamento e ampliação das suas dependências3 Sandra Rodrigues, As Vias..., op. cit. residenciais. Constituída por um palácio, termas e uma outra área edificada a Este, p. 35 ainda no século IV, esta estrutura conhece novas alterações relacionadas com o4 José Mattoso, A emergência do Mundo Medieval. História de Portugal, seu embelezamento através de mosaicos que testemunham o elevado luxo dos seus Vol I, ed. Estampa, Lisboa 1997, proprietários. pp. 320, 32. O autor fala-nos Do mesmo período corresponde a elevação, com dimensões consideráveis, de do período entre o século VIII e um santuário a Sul da villa, separado por uma rua pavimentada com lajes de os séculos X e XI, do retrocesso no processo de rarefacção da pedra2. (Fig. 11) propriedade privada; salienta ainda Os períodos que sucederam à decadência do Império Romano do Ocidente que se verifica neste período “[…] traduziram-se na Península por um clima de maior instabilidade e insegurança. uma nítida tendência para alterar as formas de exploração das villae Esta conjuntura terá contribuído para a progressiva estagnação da maior parte […]”. das villae. Apesar de abandonada a residência pelo proprietário, Milreu terá mantido em períodos sucessivos a sua actividade agrícola, sendo esta opinião consagrada pelos vestígios posteriores que hoje se registam. A evolução destas explorações agrícolas, a partir do final do império romano parece ter sofrido processos distintos. Tal como refere Sandra Rodrigues – “[…] a ruína de um balneário é anterior ao abandono da exploração agrícola da villa […]”3. Relativamente ao período de transição entre a decomposição do mundo romano e a emergência do mundo medieval, José Mattoso refere-se à possibilidade dapágina 72, de cima para baixo ocupação do território rural ter passado por explorações directas das terrasFig. 10 através de unidades familiares4. Estas terão impresso algumas alterações nasVista Oeste a partir do Serro do estruturas de exploração agrícola existentes.Guilhim, vista Sul do núcleo e perfilesquemático do território
    • $ Faro ! Estoi Coiro da Burra S. Brás de Alportel #Fig. 11Planta de Milreu por Estácio da Veiga,1877.fonte: Ataíde Oliveira, Monografia deEstoi, Algarve em Foco, Faro 1993EstoiCoiro da BurraSão Brás de AlportelFaro
    • A passagem deste primeiro momento de ocupação, concentrado em Milreu, para o período medieval onde nos reportam as primeiras referências sobre a aldeia de Estoi, situada a uma distância de sensivelmente 900 metros a Nascente da antiga villa, envolve um intervalo de tempo onde permanecem como testemunhos apenas alguns vestígios arqueológicos. Parece-nos por outro lado interessante não ignorar a hipótese de uma ocupação simultânea destes dois pontos, Milreu e o núcleo de Estoi, ainda no período romano. O controlo da nascente, concentrado no núcleo actual, exigiria muito provavelmente um tipo de ocupação específico que só após o declínio da Villa ou num clima de maior instabilidade se justificaria reocupar ou adensar. O período de ocupação islâmica que se processou a partir do século VIII veio traduzir-se na reutilização das estruturas pré-existentes, prolongando as actividades agrícolas dominantes1. Segundo Cláudio Torres assiste-se ao acentuar de “[…] particularismos regionais com a demarcação de espaços económicos urbanos. A ocupação árabe vem reutilizar mais uma vez as estruturas pré-existentes, prolongando as actividades agrícolas dominantes […]”2. São de salientar em Milreu as inscrições de versos do Corão gravadas numa das colunas presentes no templo de Milreu, o que permite supor que este terá servido ainda como sala de orações durante a época islâmica. Por outro lado, se analisarmos a estrutura morfológica do actual núcleo de Estoi percebemos que esta revela também condições de assentamento muito similares às adoptadas durante a época islâmica. A escolha dos sítios prendia-se sobretudo com a proximidade de zonas de cultura mista, de regadio e no controlo de nascentes de água. 75 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi André Bazzana reforça este sentido quando nos fala das quirá ou alcarias islâmicas que se distribuíam de uma maneira geral sobre terrenos entre o regadio (domínio das terras irrigadas) e o sequeiro “onde reinam as culturas de sequeiro sobre o chão dos terraços ou de poiais […]”3. Privilegiavam-se os sítios elevados, defendidos por encostas e uma configuração morfológica associada à imagem de recinto fechado sobre si mesmo, em torno de uma praça central, situação que vemos muito próxima da encontrada em Estoi. José Mattoso refere-se ainda a um tipo de ocupação específico durante a Idade Média - a comunidade de aldeia. Esta caracterizava-se segundo o autor por uma “[…] distribuição espacial relativa das habitações e das terras cultivadas (ager) e das zonas de monte e bosque (saltus) próximas da forma aureolar, com aglomeração de casas ou cabanas num núcleo central […]”4. Estas comunidades seriam compostas por famílias associadas que cultivariam os campos autonomamente, mantendo direitos de uso colectivo sobre determinadas formas. A rede viária enquanto elemento de comunicação entre vários pontos ou lugares assentava assim, quase sempre, em circuitos ou percursos funcionalmente gerados ora no sentido casa - trabalho, ora em função da vida espiritual ou social, ida à Igreja ou ao mercado, estabelecendo não só um papel fundamental na estruturação do território rural, como base sobre a qual se fundaram grande parte dos aglomerados que conhecemos. As estruturas produtivas como fornos, lagares, moinhos ou fontes que implicavam uma mobilidade e comunicação permanente traduzem assim um tipo organização que vemos ainda muito presente em Estoi. Podemos referir que até ao século XVI sobreviveram, enquanto marcas relevantes no território de Estoi, para além dos vestígios arqueológicos localizados em Milreu, alguns caminhos, azinhagas que contribuíram para a sua própria estruturação. De facto, podemos verificar ainda hoje que alguns dos percursos rurais existentes1 Claúdio Torres, O Gharb..., op. cit. poderão estar na base de uma anterior articulação entre Milreu e a aldeia.2 Idem, ibidem. Segundo o autor as regiões começam a procurar as suas É o caso da Rua de São José, a Norte do actual núcleo urbano, que se estende identidades e a delimitar os seus por um caminho rural até Milreu. termos3 André Bazzana, Maisons D’Al Andalus. Habitat Mediéval et Strutures du Peuplement dans L’Espagne Orientale. Casa Velaquez, Madrid 1992, vol. I e II4 José Mattoso, A emergência do Mundo Medieval in “História de Portugal”, ed. Estampa, Lisboa 1997, vol. I, pp.320, 321
    • A formação O período da reconquista cristã, com a tomada de Faro aos mouros em entre o século XV e o XVIII 1249, terá assim reforçado o desenvolvimento destes e outros assentamentos fixando neste local, em particular, o culto a São Martinho - Santo protector das “[…] la ville du Moyen Age cavalariças onde em outro tempo se ofereciam a modo de ex-votos, ferraduras, n’etait pas simplement dans la às vezes de metal precioso1. campagne mais A reorganização do território pós-reconquista pressupôs também uma de la campagne […]”. redefinição dos limites, das áreas de influência administrativa e religiosa. Lewis Munford, 1961 A marca do cristianismo assumia nestas pequenas ermidas rurais um significado importante, enquanto referência para um território disperso. A alusão a um alcaide-mor de nome Gil Simões do século XV2 vem levantar a hipótese sobre a existência de uma alcaidaria, possivelmente1 Juan Fernando Roig, Iconografia menor ou pequena3. O carácter estratégico e defensivo deste assentamento de Los Santos. Ediciones Omega, poderá estar ainda associado a uma participação também na reorganização Barcelona 1950, p.193 do território.2 Dicionário de História de Portugal, dir. Segundo as descrições de José Pinheiro e Rosa sobre Faro em 1349 “até aos Joel Serrão. Livraria Figueirinhas, fins do século XIV […] o exército contava com gente de pé e de cavalo. […] Porto1981, vol. II, p. 2133 Tratar-se-ia muito provavelmente de A cavalaria era constituída pelos vassalos de El - Rei; pelas lanças dos ricos um alcaide – menor, substituto do - homens e pelos cavaleiros vilãos dos concelhos”4. alcaide-mor, a quem era delegada A estruturação do aglomerado terá assim precedido, a nosso ver, a formação da autoridade, mas que detinha paróquia de Estoi, no início do século XVI. sobretudo uma actividade civil. Ver a palavra “Alcaide”, Dicionário..., op Entre os finais do século XV e inícios o século XVI a política de reestruturação cit., p. 81 implementada por D. Manuel reflecte-se na criação de novas freguesias.4 J. Pinheiro e Rosa, Faro em 1349. O termo de Faro é dividido, no início do século XV em sete freguesias: São Os Anais do Município de Faro, n. XV, João da Venda, Santa Bárbara de Nexe, Nossa Senhora da Conceição, São CMF, 1985, p.42 Bartolomeu do Pechão, São Martinho de Estoi, São Sebastião de Quelfes e São5 F. Lameira, A Igreja Matriz de Estoi. Aldeia de Estoi (percurso 3), CMF, Brás de Alportel. 1999 Numa situação ainda de periferia em relação à aldeia, localizava-se a Ermida6 Segundo informações dadas pelo de São Martinho que no século XVI, como consequência da elevação de Estoi Bispo do Algarve enviadas, em 1598, a sede de freguesia “[…] deu lugar a um novo templo, de maiores proporções”5. ao “Santíssimo Padre Nosso Senhor Esta estabelece-se como ponto de chegada - “porta” - no sentido Sul, marcando do estado da Sua Igreja”, Estoi contava ainda com 150 Fregueses e uma posição estratégica, sobrelevada sobre a planura envolvente, mas sempre 770 paroquiantes. marginal em relação ao núcleo genético6. Nuno Beja, (transc.) Memórias..., op. Apesar do seu pequeno termo, em confronto com as restantes cidades, Faro cit., pp.233-240 oferecia excelentes condições para o escoamento dos produtos quer marítimos7 J. Romero Magalhães e M. Viegas, Duas..., op. cit., p.163. Em 1600 quer os extraídos do espaço rural, vendo cada vez mais acentuada referindo-se a Farão descrevia a sua centralidade7. assim o seu termo: “[…] É cercada As freguesias rurais envolventes, quase sempre dominadas e condicionadas por mar e este por arrabalde que por gentes da cidade, continuavam delas a depender quer para é a força da cidade […] Houve a produção, quer para o escoamento dos seus produtos. sempre muito trato com a Flandres e muita carregação de figos, azeites, À semelhança de outros núcleos rurais, Estoi reflectia uma forte vocação agrícola, amêndoas e outras mercadorias na ligada à produção de sequeiro, à apanha do figo, da amêndoa, azeitona e terra em seu termo nascidas […]”. ainda à feitura do vinho e azeite.8 J. Romero Magalhães e M. Viegas, Nas primeiras referências sobre o aglomerado percebemos a importância do seu Duas..., op. cit., p.163. Em 1600 temos referências a Estoi com cerca de 50 território do qual resultam fortes relações de dependência e interdependência8. moradores. Nesta descrição Estoi Em 1577, coincidente com a elevação de Faro a sede de Bispado, Estoi é vem apresentado como “um lugar referido apenas como um lugar cercado de hortas9. A sua abundância de água cercado de hortas muito frescas e serviria de rega às muitas propriedades vizinhas que dela faziam uma levada, viçosas […]” abastecendo inclusive as próprias casas.9 Idem, Ibidem10 Idem, Ibidem Para além deste elemento faz-se ainda referência a dois lagares de azeite11 Visitação da Ordem de Santiago ligados com canos até à fonte que os abastecia de água para as caldeiras, ao Algarve 1517/18, F. Correa, A. remetendo-nos para o carácter produtivo que sempre predominou ainda em Viegas, (trans.), AHML, Loulé 1996. séculos posteriores. Nesta fase já estaria constituída Deste período resistiu ainda, no sitio de Milreu, uma casa agrícola, já a freguesia de São Martinho de Estoi, com uma ermida “[…] a qual referenciada anteriormente, composta por uma planta rectangular, com fez o povo e põem capelão à contrafortes cilíndricos rematados por pináculos nos cantos, assentando a sua sua custa sem ajuda de ninguém estrutura interior em arcos de volta perfeita. […]”, apresentando segundo as Junto à ribeira do Alface, hoje denominada de Rio Seco, já se encontrariam descrições uma capela-mor: “[…] olivelada de tabuado de pinho moinhos sendo a sua paisagem envolvida por pomares10. […]” e um corpo “[…] apincalado e Apesar dos escassos vestígios sobreviventes até hoje e com base nas poucas caiado em muitas partes”. O telhado alusões à aldeia durante esta fase cronológica, procurámos chegar a uma reparado de novo, denuncia que a interpretação da sua estrutura inicial. mesma já poderia existir desde os Temos assim até aos finais do século XVII referências à aldeia que se reportam finais do século XV. predominantemente à Ermida de São Martinho11, “casas anexas, ao Hospital
    • Legenda1 Hortas 17 Areias > 500 hab2 Milreu 18 Vale de Gralhas3 Bemposta 19 Alecrineira4 Corunchos 20 Cerro do Lobo5 Ribeira 21 Alcaria Cova6 Ribeira d’Alem 22 Barroqueiro7 Funchais 23 Cerro e Barranco de São Miguel entre 100 e 200 hab8 Cerro do Fialho 24 Azinheiro9 Lagos 25 Cerro Manuel Viegas10 Sambada 26 Murta11 Guilhim 27 Castelo12 Arjiona 28 Peral13 Vale da Rosa 29 Vale de Galega14 Vale de Seixos e Vale de Mouros 30 Monte Trigo entre 51 e 100 hab15 Rosal 31 Azinhal e Amendoeira16 Ariolos até 50 habfigura 12Relação dos sítios e lugares que fazemparte da freguesia com a respectivapopulação existente em 1758
    • desta aldeia”1, à fonte ou que nos descrevem a sua paisagem circundante, marcada pelos vestígios romanos, insistindo na sua importância enquanto possível Ossonoba. As primeiras alusões à fonte surgem-nos assim no início do século XVII (1607), evidenciando a sua importância enquanto elemento central “no meio dele está uma fonte”2, permitindo-nos assim identificar o espaço genético do núcleo, naturalmente associado ao elemento água. Os outros três edifícios religiosos são referenciados apenas na segunda metade do século XVIII, a Ermida do Pé da Cruz, Ermida do Espírito Santo (que associamos ao hospital) e a capela de São João da Horta Nova. Conseguimos assim identificar nesta primeira fase um núcleo concentrado num ponto mais elevado em torno da fonte, actual Largo Ossónoba3, terreiro onde provavelmente se organizaria o mercado ou outras actividades que se prolongariam pelo espaço da antiga Ermida do Espírito Santo, actual Largo da Praça Velha. É ainda numa permanência de vias de atravessamento e de pontos de encontro e troca que se vai definindo e estruturando uma ocupação radiocêntrica e linear, ajustada e adaptada à topografia existente. Podemos assim considerar que neste intervalo entre o século XV e século XVIII ficaram definidos os principais elementos estruturantes do tecido urbano de Estoi, quer ao nível do edificado, através dos edifícios religiosos e alguns vestígios quinhentistas existentes, quer ainda ao nível do seu traçado urbano - eixos e espaços estruturantes, a partir de elementos como a fonte ou de caminhos pré-existentes de articulação funcional com o território da freguesia e com o principal centro urbano – Faro. A sua estrutura urbana assenta em grande parte em linhas de crescimento naturais, resultantes de condicionantes de relevo, orientação, do traçado parcelar rural ou por prolongamento de caminhos. Identificamos assim os dois eixos principais definidores da matriz genética. O primeiro representado pela rua que liga no sentido Norte -Sul a parte baixa, rematada pela Igreja Matriz, à parte alta que culmina na Ermida do Pé da Cruz (Rua da Igreja que se prolonga a Norte até à Rua do Pé da Cruz). E um outro, no sentido Nascente - Poente, que atravessa na perpendicular e que marca o segundo sentido de crescimento linear. Este corresponde efectivamente ao eixo que define a antiga Rua Velha, hoje Rua Visconde de Estoi e que cruza o Largo da Praça Velha, antigo Largo do Espírito Santo, prolongando-se a Poente pela Rua da Barroca. Estes eixos reflectem a forte articulação funcional com o território, culminando em espaços de alargamento, pequenas praças que vão cosendo o seu tecido urbano no ponto mais elevado, conformando uma estrutura sinuosa de ruas estreitas e curvilíneas fortemente associadas às linhas de terreno dominantes. Deles identificamos os pontos que denunciam o processo de expansão sucessivo. Ruas que se organizam como eixos de repetição, quer paralelamente, quer perpendicularmente à estrutura base. É o caso da Rua Visconde de Estoi com a Rua Arco de Santana, ou da Rua dos Ferradores com a Rua Furriel João Pinheiro Canal. Podemos ainda distinguir no aglomerado o seu principal espaço estruturante também1 Idem, ibidem. Na mesma visitação designado como “Praça” ou “Rocio”4, correspondente ao actual Largo Ossónoba, faz-se e referência ao hospital local onde se concentraria grande parte do núcleo habitacional. desta aldeia. Tratava-se apenas A este período corresponderá ainda a consolidação dos quarteirões centrais, de uma pequena casa quadrada, compactos e alongados, definindo uma estrutura viária de perfil mais exíguo e sinuoso. madeirada e encaniçada de uma só água composta por um altar Para além da importância que as condicionantes naturais tiveram na formação do pequeno de devoção ao Espirito núcleo, como a topografia, o relevo, também o sentido funcional e simbólico dos Santo, no qual se celebrariam espaços de encontro foram determinantes num tipo de ocupação específico, missas uma vez por ano. Este seria traduzindo em termos de estrutura viária, uma configuração quase radiocentrica, muito assim lugar de permanência e evidenciada pelo eixo da Rua Furriel João Pinheiro Canal que acompanha a curva do agasalho para pobres ou doentes, que segundo a descrição dormiriam terreno predominante, convergindo para a rua direita (Rua da Igreja) e Praça. em situação miserável no chão. Esta configuração traduz um crescimento inicial de dentro para fora, fechado sobre si2 J. Romero Magalhães, E. M. Viegas, mesmo, assente numa matriz medieval cujas “muralhas” ou “cinturas”, evidentemente Duas..., op. cit. inexistentes, são representadas pelos muros dos logradouros, hortas e que definem3 Idem, Ibidem. “[…] no meo dele, está uma fonte descoberta, ao modo de os limites dos quarteirões. Nesta estrutura assentará a matriz parcelar que constituiu a chafariz […]”. A fonte é descrita com base de desenvolvimento e transformação posterior. quatro mármores deitados de dez A localização periférica da Igreja, neste período cronológico, parece evidenciar palmos de comprimento. também não só uma possível existência anterior do aglomerado em relação à Igreja4 Frei Vicente Salgado, Memórias do como, do ponto de vista morfológico, a consistência do núcleo elevado centrado no Reino do Algarve, Lisboa 1786, F. Lameira (trans.) ponto do Rocio, traduzindo o valor simbólico da água na sua génese formativa.
    • A consolidação Nesta fase é possível situar em termos morfológicos grande parte da sua actual entre os finais do século XVIII matriz urbana parcelar. e o século XIX No século XVIII os efeitos sentidos pelo terramoto de 1755 estendem-se por toda a região, afectando sobretudo a sede de província e consequentemente os aglomerados vizinhos, justificando naturalmente grandes operações de reconstrução e construção1. A Igreja Matriz de Estoi não escapa aos efeitos da catástrofe, apresentando também ela grandes perdas que implicaram posteriormente uma acção do Bispo Francisco Gomes, com inúmeras transformações que correspondem à sua imagem actual2. Nas Memórias Paroquiais de 17583 damos conta que a freguesia de Estoi era então composta por 33 lugares: Hortas, Milreu, Bemposta, Cruchos, Ribeira, Ribeira D’Além, Funchais, Cerro do Fialho, Lagos, Sambada, Guelhim, Arjona, Vale da Rosa, Vale de Seixos e Vale de Mouros, Rosal, Ariolos, Areia , Vale de Gralhas, Alecrineira, Cerro do Lobo, Alcaria Cova, Barroqueira, Cerro e Barranco de São Miguel, Azinheiro, Cerro Manuel Viegas, Murta, Castelo, Peral, Vale de galega, Monte Figo, Azinhal e Amendoeira. (Fig.12) Estes lugares formavam assim uma rede de pequenos casais ou aglomerados de casas, cuja população dependia os trabalho das terras, hortas e quintas, deslocando-se esta à aldeia apenas nos dias de mercado ou de festa. Destes destacavam-se os mais povoados - Guelhim, Alcaria Cova, Vale de Seixos e Vale de Mouros, o Azinheiro e o Barranco de São Miguel, que contavam em1 ”[…] No discurso de toda esta relação à aldeia (esta detinha cerca de 568 pessoas), entre 60 a 192 pessoas, como é o caso de Alcaria Cova4. 79 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi freguesia se arruinaram 60 moradas de casas, pela averiguação e A estrutura urbana da aldeia continuaria a reflectir esta articulação funcional com exacta diligência que o actual prior fez desta verdade, mas tudo ou o povoamento da freguesia, como é o caso dos eixos principais - Rua do Pé da quase tudo se acha ao presente Cruz que se prolonga para Norte até ao Azinheiro, a Rua Visconde de Estoi ou Rua reedificado […]”. Ainda referente Arco de Santana que se prolonga para Este no sentido de Alcaria Cova ou ainda à Igreja Matriz: ”[…] se arruinou a Rua de São José que liga a Norte até à Bemposta e a Oeste até ao Guelhim. impiamente esta igreja de São A transformação do núcleo alto não terá ido além da consolidação dos eixos Martinho na sua torre, capela mor, arcos das naves e mais manufacturas primitivos, dando lugar a uma maior densificação do tecido urbano. pertencentes à mesma […]”. Nuno Os dados revelados na Cobrança da Décima5 registam um aumento considerável Beja, Memórias..., op. cit. pp.233-240 de fogos entre 1779 e 1854, sobretudo no que se refere à Rua Velha, actual Rua2 O esquema compositivo da fachada Visconde de Estoi, e a Rua Nova, hoje Rua do Pé da Cruz. é atribuído ao arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri, mandado vir Esta transformação foi ainda acompanhada por uma densificação dos eixos pelo Bispo D. Francisco Gomes do secundários, tendo como consequência a consolidação dos respectivos Avelar, nos finais do século XVIII. quarteirões6. Traduz-se sobretudo nos quarteirões de amarração ao eixo Norte- Referido por Francisco Lameira, A Sul (rua do Pé da Cruz e rua da Igreja) e do eixo Nascente - Poente (Rua Velha ou Igreja ..., op. cit. Rua Visconde de Estoi e à Rua da Barroca), gerando ainda eixos paralelos ou de3 Nuno Beja, Memórias..., op. cit.4 Ver figura 12 repetição como a Rua Arco de Santana ou Rua Marçal Lourenço cuja largura mais5 Arquivo Distrital de Faro/ Inventário exígua permanece associada à sua condição de via secundária. do Arquivo Histórico Municipal, Também os antigos limites de propriedade que constituíam ainda nos finais do Lançamento dos prédios urbanos século XVIII a “cerca” envolvente ao núcleo vêem intensificado um processo de para a Cobrança da Décima, 1779- 81: F/A.7-2 p.99-121 subdivisão de parcelas que vai substituindo progressivamente a imagem de muro,6 É o caso da Rua Arco de Santana vedação, por uma nova frente de rua7. ou do primeiro troço da Rua do Esta densificação que terá evoluído pelo século XIX traduz um período de grande Capitão Freire, hoje Rua Poeta prosperidade económica relacionado com o aumento da produção de sequeiro. Emiliano da Costa ou mesmo da Data de 1755 a concessão de três dias de feira franca8. Frente Sul da Rua Furriel Pinheiro Canal. O papel deste núcleo rural enquanto lugar profundamente dependente das classes7 É o caso do quarteirão localizado mais abastadas residentes na sede do termo, proprietárias de quintas, terrenos e a Norte da igreja matriz. Se ainda de habitações no seu interior, começa a ser mais evidenciado no tipo de confrontarmos a planta actual com construções que começam a surgir. a planta de 1800 constatamos este processo.8 Nuno Beja, Memórias..., op. cit. A A conformação dos principais arruamentos é acompanhada pela edificação de feira dita de São José cujo “terrado algumas casas de desenho mais erudito como na Rua da Igreja e no próprio Largo é para o mesmo Santo”. Ossónoba cuja construção implicou um avanço sobre o mesmo9.9 Casa do Sr. Vítor Paula, Largo Na referência aos três lagares de azeite existentes na aldeia constata-se serem Ossónoba, frente Norte10 Nuno Beja, Memórias..., op. cit. todos de pessoas particulares e principais de Faro, que nas ocasiões da safra se vêm divertir neles, em beneficio das partes interessadas que lhes concorrem para a expedição das suas conveniências, comuns e particulares10. Este aspecto terá sido determinante para a introdução de modelos mais urbanos nas tipologias de edificação por parte de uma população de classes médias ou nobres urbanas que, já desde o século XVI, tinha por costume possuir uma segunda
    • 1 Francisco Lameira, Contributos para habitação no espaço rural - o monte ou a casa rural, onde permaneciam largos o estudo da arquitectura setecentista períodos. algarvia: a Quinta de Estoi, in Monumentos n. 22, Liboa 2005, Neste intervalo cronológico podemos ainda identificar duas intervenções que pp.204-207 marcam de forma evidente uma nova etapa no processo de transformação urbana do núcleo. A introdução de novos modelos urbanísticos correspondeu num primeiro momento à construção do Palácio de Estoi, nos finais do século XVIII, cuja linguagem, modo e tipo de ocupação são reveladoras da lógica do urbanismo tardo-barroco. No século XVIII Francisco José Moreira de Brito Carvalhal e Vasconcelos, pertencente a uma importante família farense herda de seu pai uma quinta em Estoi onde terá mandado construir umas casas e um jardim entre 1782 e 1783. A proximidade formal com o Palácio de Queluz explica-se em parte pelas relações de proximidade com a corte, através de sua mulher D. Rita Ifigénia de Lima Botado, açafata da rainha D. Maria I, podendo o seu risco, segundo refere Francisco Lameira, ser da autoria de um arquitecto régio1. A Quinta de Estoi vai privilegiar uma orientação no sentido Sudoeste, confinando com um dos eixos estruturantes do núcleo. A Norte, ocupando um patamar mais elevado, implanta-se a Capela de São José e o pátio de serviços a partir do qual se organizam as outras dependências da habitação. Este mesmo patamar desenvolve-se a partir de um enorme aterro que vai mantendo a construção elevada, organizando as outras dependências, numa maior relação com o jardim, segundo outros níveis hierarquizados, como se tratasse de um cenário. A leitura do conjunto, organizada segundo estes três patamares, é feita num processo de articulação morfológica permanente com a estrutura urbana existente. Os principais eixos de acesso e percursos interiores obedecem a uma lógica interna que não esqueceu também a estrutura viária que lhe é confinante - a Norte a Rua de São José, a Sul a rua Entre as Hortas, hoje Rua do Passal e a Sudoeste a estrada da Horta Nova, no prolongamento da Rua da Barroca e que contorna a propriedade, estabelecendo ligação com os seus acessos principais. O atravessamento de uma rua a uma cota inferior, designada de Rua Entre as Hortas (actual Rua do Passal) obrigou à construção de um passadiço intermédio que uniu as dependências directas da habitação a Norte com o jardim a Sul. Este arruamento é assim definido pelos limites da Quinta que se prolongam até ao Largo Ossónoba. A Rua das Palmeiras, hoje iniciando-se pela Rua da Barroca, era ainda no século XIX um prolongamento da actual Rua do Jardim, articulando-se com o Largo da Igreja Matriz. O segundo momento ficou marcado, nos finais do século XIX, pela criação do novo eixo viário - a Rua de Faro (1976), articulada com a recente via municipal que veio estabelecer a ligação entre Faro – São Brás de Alportel Este novo eixo que se prolonga desde a Igreja Matriz até ao Coiro da Burra vem não só organizar uma nova linha de extensão ou expansão do núcleo, como vem também introduzir em termos morfológicos novas regras. A dimensão da rua entre os seis metros de largura, contrastando com os dois metros e meio e os três metros e meio das ruas localizadas no núcleo mais antigo, confere uma nova leitura do espaço urbano, enquadrado nos modelos contagiados durante do século XIX, valorizando a Igreja Matriz enquanto pólo de remate deste mesmo eixo. No sentido Sul - Norte, associado à construção do Cemitério no final do XIX, nasce outra rua, a Rua do Cemitério que parte igualmente da Igreja Matriz, marcando um novo sentido de expansão e articulação, neste caso com aglomerado da Conceição de Faro, estabelecendo-se como mais um acesso ao núcleo. A abertura destas vias vem evidenciar e acentuar uma situação morfológica bipolarizada, centrada na imagem do núcleo alto e do núcleo baixo. Podemos assim reconhecer que tanto a Rua da Igreja como a Rua Visconde de Estoi caracterizaram em sentidos opostas, até ao século XIX, o tecido urbano existente. Com a Rua de Faro, traçada no final do século XIX, deu-se início à formação de um novo pólo de desenvolvimento urbano, implantado em cotas de terreno mais baixas e planas e num traçado mais regular e reticulado. Há assim uma deslocação do pólo inicial concentrado na Rua da Igreja, Largo Ossónoba, para o Largo da Matriz e Rua de Faro.
    • O século XX e os Ao longo da primeira metade do século XX intensifica-se o comércio de frutos novos modelos de urbanidade secos, apoiado nas vastas áreas de plantação de sequeiro, amendoeiras, alfarrobeiras, figueiras e oliveiras.“As pessoas que viviam no campo A produção de azeite era também assegurada pelos lagares para onde vinham apenas ao domingo às eram trazidas as azeitonas, depois de recolhidas nas terras que constituem a compras, pois era o único dia freguesia. (Fig.13) que não trabalhavam e podiam No principio do século XX existiriam assim em Estoi cinco lagares de azeite, quatro comprar o que precisavam […] localizadas no núcleo alto e um na parte baixa da aldeia, para além de armazéns, Estava tudo aberto ao domingo espécie de proto-indústrias de transformação, especialmente vocacionados para a […] Chegavam por esta rua transformação da amêndoa, do figo e da alfarroba. a pé ou de mula e vinham ao Concentrados na sua sede, estas estruturas produtivas ilustram o tipo de actividade mercado” dominante da sua população.registo oral de Maria João, residente no O núcleo funcionaria assim enquanto pólo de referência, entreposto Largo Ossónoba “intermédio” em relação a Faro, concentrando nele os serviços básicos, algum comércio que servia não só a população da aldeia, como todo um povoamento disperso pela freguesia. À aldeia deslocavam-se a pé ou de mula, chegando através de azinhagas ou outros caminhos rurais, culminando no largo mais antigo da aldeia. Nele se organizava o mercado diário da fruta e do peixe, a par de outro tipo de comércio doméstico que se estendia sobretudo pelas principais ruas da aldeia. Nestas podíamos encontrar o carpinteiro, a mercearia, a loja de roupa e venda de tecidos, o alfaiate, a costureira, o ferreiro, a oficina de vassouras, o latoeiro, a farmácia, o oleiro, o sapateiro, o talho ou a caleira, onde se vendia a cal. 81 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi A melhoria dos meios de transporte durante a primeira metade do século XX poderá explicar uma maior deslocação da população das áreas rurais da freguesia para a sede urbana. Muitos dos lavradores, ricos proprietários, escolhem-na para viver, mantendo intactas as suas actividades. Alguns edifícios de desenho mais elaborado, associados a uma nova dinâmica económica, iniciada no século anterior, marcam e valorizam os eixos e espaços mais nobres da aldeia. Uma nova frente de habitações que marca a aproximação ao largo da Igreja Matriz, pela rua de Faro, define uma tipologia dominante. Generaliza-se no início do século XX um tipo de residência mais “mercantil” onde se vê associado, com alguma frequência, o espaço de armazém ou loja. O armazém varia a sua localização consoante a parcela, encontrando-se quer na parte posterior, quer desenvolvido na mesma frente principal da habitação. Nele se armazenavam os produtos recolhidos nas terras da freguesia, já que as actividades agrícolas se mantêm à custa dos trabalhadores que habitam nas suas terras, funcionando a sede urbana como um importante ponto de distribuição comercial. O processo de expansão iniciado com a abertura da Rua de Faro intensifica-se na primeira metade e finais do século XX. A criação de novos quarteirões resultantes de sucessivas divisões do território, possivelmente apoiadas numa estrutura fundiária pré-existente, traduziu-se num tecido reticulado, mais regular, baseado na repetição para Norte de ruas paralelas (rua das Olarias e Rua Elias Garcia) ao eixo principal (Rua de Faro). Na análise ao processo de ocupação e densificação destes quarteirões encontramos a predominância de espaço construído nas frentes viradas a sul, correspondendo estas à frente de habitação e eventual comércio, contrapondo-se, a norte, a frente secundária para onde dão os logradouros, as zonas de serviço e1 Corresponde à zona do estábulo onde podemos ter o acesso à “cabana”1, ao palheiro ou ao armazém. Podemos ainda referir nesta primeira metade do século a abertura da Rua de Olhão que implicou a subdivisão da propriedade hoje Casa de Estoi. Outras vias surgem resultantes de anteriores caminhos rurais de acesso, como é o caso da Rua João de Deus que inicialmente se prolongaria até à Rua Visconde de Estoi e que na segunda metade do século XX se estenderá mais a norte, ligando-se no sentido de São Brás de Alportel. Como ponto estratégico de atravessamento de vias de ligação entre o barrocal e a planície litoral, Estoi sempre proporcionou boas condições para a realização de feiras e mercados, das quais é ainda exemplo a actual feira mensal. Nesta feira vendem-se todos os produtos agrícolas, animais, utensílios, árvores, sementes, roupa, sapatos, atraindo não só uma população local mas também as residentes nos principais aglomerados urbanos vizinhos. Trata-se da única feira deste tipo no concelho e com uma regularidade mensal.
    • Fig. 13Vista aérea de Estoifonte Filipe Jorge, in Algarve Visto doCéu, Argumentum, Lisboa 2005
    • A realização da feira fazia-se até há bem poucos anos em frente à Igreja Matriz, passando a partir dos anos 80, a funcionar num terreiro próximo ao cemitério, às portas do núcleo, na rua que faz ligação a Sul com a Conceição de Faro. O núcleo alto em termos de estrutura viária não sofre grandes modificações o que já não se pode verificar no seu tecido parcelar. As novas vias de acesso definem frentes predominantemente habitacionais. Edifícios de desenho mais elaborado, associados à nova dinâmica económica, iniciada desde o século anterior, marcam e valorizam os novos arruamentos, contagiando as intervenções sobre o edificado pré existente na aldeia alta. No entanto, em quase todas as casas constatamos a permanência do espaço da cabana (espaço onde se guardava a mula), do palheiro, do forno exterior, do galinheiro ou do “chiqueiro” (pocilga). Estas dependências domésticas são ainda, por vezes, complementadas pelo espaço da loja ou da “venda”. De uma forma geral o processo de consolidação do tecido vai sofrer mutações à custa de uma densificação cada vez maior dos quarteirões centrais e por processos de alteração pontuais do traçado viário existente. O actual espaço adjacente à Matriz –o Largo Humberto Delgado terá sido resultante, segundo comprova a acta da Sessão de Câmara de 1924, da expropriação de antigo Passal paroquial onde funcionaria então a Escola Primária. Esta parcela de terreno abrangeria então parte da área que define o actual largo, vindo este último a resultar do alargamento da Rua de Olhão que lhe era confinante. Inventário do Arquivo Histórico No mesmo documento são expressos os principais objectivos desta expropriação 83 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi1 Municipal de Faro/Arquivo Distrital - a necessidade de alargar a então saída de Estoi para Olhão, “[…] visto ser esta de Faro, Actas das sessões, Sessão extraordinária de 22 de Outubro de […] demasiado acanhada e, da necessidade de um espaço para […] a exposição 1924, livro n. 53, fls. 60-66v dos diferentes géneros que habitualmente se vendem nos já importantes mercados mensais […]”1. Os novos acessos ao aglomerado vêm por outro lado acentuar o “ isolamento da parte alta, fechando-a sobre si mesma, privilegiando a construção dos novos equipamentos públicos nestes novos eixos de acesso. Ao longo da Rua de Faro vão-se concentrar, a partir dos anos 30 - a Escola Primária e a casa do Povo, nos anos 60 - os Correios e nos anos 70 o Dispensário Materno Infantil. O Cinema, equipamento invulgar em núcleos desta natureza, destaca-se nos anos 50 no prolongamento do eixo da Rua João de Deus. Este conjunto de infra-estruturas reflecte uma estratégia de expansão, com base em equipamentos públicos implantados ao longo dos principais eixos então abertos. A excepção a esta regra reside na construção do actual mercado do peixe, nos anos 30 e que veio “reocupar” um antigo espaço de lagar e armazém de frutos secos. Mais recentemente associado ao parque arqueológico de Milreu destaca-se a construção de um novo equipamento – o Centro Interpretativo de Milreu. A partir da segunda metade do XX verifica-se um período de estagnação no processo de transformação do núcleo. Entre os anos 50 e 80, um forte movimento migratório, sobretudo para França, faz reduzir consideravelmente a população da freguesia. Por outro lado, a indústria conserveira, corticeira e a produção de sequeiro começam, a partir dos anos 60, a sofrer os primeiros sinais de decadência, substituídos pelo turismo que vai ocupar o principal papel na dinâmica económica e cultural da região. O litoral urbaniza-se em detrimento dos núcleos rurais, diluindo-se progressivamente as actividades agrícolas que constituíam o sentido principal destes aglomerados. À falta de mão de obra que emigrou se seguiu um aumento do seu custo, abrindo-se a economia aos produtos maioritariamente estrangeiros. As baixas receitas resultantes da produção de sequeiro contribuíram para um panorama de abandono progressivo de terras e da apanha destes produtos. Podemos assim considerar que até aos anos 80 o tecido urbano não sofreu grandes alterações mantendo-se em termos gerais a configuração implementada na primeira metade do século XX. O processo de densificação e expansão conhece, só no final do século, novos contornos. Corresponde já a um processo de crescimento programado, projectado, definindo novas extensões e áreas de expansão com grandes alterações morfotipológicas.
    • 1 Estava simultaneamente em curso No final dos anos 70, inícios de 80 a Câmara de Faro promove a elaboração de o Plano Geral de Urbanização de um conjunto de Planos1 dos quais resultou a proposta do Plano de Urbanização Faro e de Santa Bárbara de Nexe2 Proposta de classificação elaborada de Estoi. Este previa uma área considerável de expansão do núcleo quer para Sul pela Junta de Freguesia de Estoi em quer para Este. Este estudo nunca chegaria a implementar-se. 1996. Cerca de quinze anos depois, após a elaboração do PDM é solicitada elaboração de um Plano de Pormenor onde se preconiza mais uma vez um alargamento do perímetro urbano, ocupando e absorvendo a área agrícola circundante. O plano permanece em fase de alterações e aprovações. Os anos 90 traduziram assim a ausência de normas ou critérios e a introdução de fortes rupturas na paisagem circundante, em parte associadas a um proliferar de construções dispersas, e à construção da Via do Infante. Atravessando-se a Norte do núcleo, esta interferiu e adulterou o prolongamento de caminhos pré existentes que o articulavam com as quintas e fazendas envolventes. A “nova proximidade” estabelecida entre os vários núcleos vai promover uma nova pressão construtiva. Esta tem vindo progressivamente a modificar a leitura do conjunto, reduzindo cada vez mais a matriz e a massa de valor patrimonial definida na proposta de classificação elaborada em 19962. Estoi traduz hoje nas novas áreas de expansão o exemplo daquilo que se pode definir como o tipo de crescimento e expansão mais comum nos aglomerados rurais.
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    • Legenda fig. 14 (1 e 2) 1 Villa romana de Milreu 2 Igreja Matriz de São Martinho 3 Fonte (L Ossónoba) 4a Moldura de verga chanfrada (L Ossónoba) 4b Moldura de verga chanfrada (R Pé da Cruz) 4c Moldura de verga chanfrada (R da Barroca) 5 Casa agrícola quinhentista, 6 Ermida do Espírito Santo (século XVII) 7 Ermida do Pé da Cruz (século XVII) 8 Palácio 9 Ermida de São José 10 Cavalariças 11 Lagar 12 Casa Coiro da Burra (189.) 13 Casa de Vítor Paula (1830) 14 Casa de Paula Brito (1860) 16 Cemitério (1836) a Bicas (1890) b Lavadouro (1890) c Tanque público (1890) A Praça (L Ossónoba) B R Igreja/ R Nova (R Pé da Cruz) B1 L Humberto Delgado (192..?) C R Velha (R Visconde de Estoi)/ R Barroca D R Faro (1876) D1 L da Liberdade E R Cemitério (1836) F R Olhão (1876) ribeira do “rio seco” eixos estruturantes frente consolidada quarteirão consolidado novos edificios edificios existentes a destacarpágina 87Fig. 14Fases de transformação e crescimentodo núcleo (sem escala):1Entre o século XV e o século XVIII
    • 87 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi
    • página 89Fig. 14Fases de transformação e crescimentodo núcleo (sem escala):2Entre os finais do século XVIII e oséculo XIX
    • 89 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi
    • Legenda fig. 15 (1 e 2) 1 Villa romana de Milreu 2 Igreja Matriz de São Martinho 3 Fonte (L Ossónoba) 4a Moldura de verga chanfrada (L Ossónoba) 4b Moldura de verga chanfrada (R Pé da Cruz) 4c Moldura de verga chanfrada (R da Barroca) 5 Casa agrícola quinhentista, 6 Ermida do Espírito Santo (século XVII) 7 Ermida do Pé da Cruz (século XVII) 8 Palácio 9 Ermida de São José 10 Cavalariças 11 Lagar 12 Casa Coiro da Burra (189.) 13 Casa de Vítor Paula (1830) 14 Casa de Paula Brito (1860) 16 Cemitério (1836) 17 Casa Belchior (1901) 18 Casa da farmácia (1930) 19 Casa L Igreja 20 Escola primária (R Lino 1937) 21 Casa do Povo (anos 30) 22 Mercado (1930) 23 Casa Ferrinho (1900?) 24 Olaria 25 Armazém para transformação da amêndoa 26 Cinema Ossónoba (anos 60) 27 Dispensário materno infantil (anos 70) 28 Correios (anos 60) 29 Mercado abastecedor (1992) 30 Escola Eb2,3 (2001) 31 Centro de Saúde (2001) 32 Centro Interpretativo de Milreu (2001) a Bicas (1890) b Lavadouro (1890) c Tanque público (1890) A Praça (L Ossónoba) B R Igreja/ R Nova (R Pé da Cruz) B1 L Humberto Delgado (192..?) C R Velha (R Visconde de Estoi)/ R Barroca D R Faro (1876) D1 L da Liberdade E R Cemitério (1836) F R Olhão (1876) G R João de Deus (192..?) H R Vasco da Gama (192..?) I R João de Deus (196..?) J R Poeta Emiliano da Costa (197..?) ribeira do “rio seco” eixos estruturantespáginas 91 (1) e 93 (2) frente consolidadaFig. 15Fases de transformação e crescimento quarteirão consolidadodo núcleo (sem escala):1 novos edificiosPrimeira metade do século XX2 edificios existentes a destacarSegunda metade do século XX
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    • 93 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi
    • página 95Fig. 16A estrutura viária do núcleo de Estoi:fases de desenvolvimento.(sem escala)
    • 95 Estoi| Identidade e transformação. Do núcleo de Estoi
    • página 97Fig. 17Fases de transformação morfológica donúcleo de Estoi(sem escala)
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    • 3 Análise arquitectónica do espaço urbano e doconjunto edificado de Estoi 99 Estoi| Identidade e transformação.
    • Fig. 18Estoi, Rua da BarrocaSetembro 2005
    • O espaço urbano Considerando os elementos fundamentais que estão na base de qualquer análise Estrutura e forma urbana urbana: a estrutura viária, a estrutura parcelar e o conjunto edificado, tentamos, através da identificação das suas partes e especificidades, compreender quais as “[…] A relação que o Homem permanências e variáveis impressas no seu tecido durante uma determinada época estabelece com o seu ambiente cronológica. é determinada seja pela O estudo morfo-tipológico que propomos aprofundar tem como objectivo um maiorconfiguração natural do território, entendimento do processo de transformação do núcleo. seja pelo conceito de território, Aymonimo refere como objectivo para um estudo desta natureza “[…] a do qual dispõe determinada possibilidade de poder estabelecer uma relação entre o desenvolvimento cultura […]”1 morfológico e a individualização tipológica de alguns factos edificados e consequentemente, uma vez estabelecida essa relação, poder avaliar se esta pode ser valorizada como uma constante no tempo ou em diversas circunstâncias históricas, ou como relação variável”2. Solà-Morales destaca ainda a propósito da arquitectura da cidade que “[…] a análise morfológica da cidade nas suas partes e a identificação dos 101 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi tipos arquitectónicos com que se pode operar constituem o único conhecimento consistente com que construir a arquitectura e a cidade”3. Entendendo o tecido urbano como um acumular de tempos e sobreposições, pareceu-nos fundamental não só a definição dos diferentes episódios que marcaram a transformação do núcleo como a sua identificação no tecido urbano presente. O tecido actual traduz-se assim enquanto matéria de estudo por si só capaz de transmitir as permanências deixadas ao longo dos tempos, constituindo estas os “ingredientes” que formam parte da sua própria identidade. Quando falamos de espaço público não podemos contudo cingirmo-nos visualmente ao seu espaço urbano interno. Num aglomerado rural são tão importantes os vazios que estruturam o seu tecido interior como aqueles que estruturam o seu contorno e a sua envolvente. Ambos se articulam de forma ainda muito espontânea, ora penetrando no seu tecido, ora desaguando no espaço livre mais rural. Começando por identificar a estrutura do traçado urbano, podemos verificar duas áreas morfológicas distintas: uma concentrada no núcleo alto, medieval, de traçado mais irregular, organizada a partir de caminhos e eixos de atravessamento que confluem em torno de um principal espaço estruturante, o Largo Ossónoba, e uma outra, centrada no núcleo baixo e nas áreas de expansão que, tomando linhas de cota mais planas, apresenta um traçado mais regular, correspondente a um desenvolvimento iniciado no final do século XIX. (Fig.20) Analisando a estrutura urbana naquela que podemos designar de primeira unidade morfológica, podemos verificar que esta ocupa uma percentagem significativa da superfície urbana, implantada sobre uma área de terreno mais elevada, um cume, desenvolvendo-se no sentido Sul, sobre linhas de festo. Encontramos assim nesta um sentido de crescimento que assenta fundamentalmente nas suas condições morfológicas naturais, na topografia, aproximando-se do sentido que rege muitos dos aglomerados de matriz medieval. Esta lógica traduz naturalmente uma configuração mais irregular e compacta a que se contrapõe o “núcleo baixo”. André Bazzana distingue três características que actuam de forma essencial na paisagem urbana de fundação medieval: 1 o traçado ortogonal dos eixos de circulação; 2 a praça central; 3 as cinturas 41 AA. VV., La costruzione del territorio,- Tendo por base a forte articulação funcional com os lugares da freguesia, Uno Studio sul Canton Ticino, distinguimos em Estoi uma estrutura urbana marcadamente linear apoiada em Fondazione Ticino Nostro, Clup, dois eixos estruturantes perpendiculares entre si que em muito se aproximam dos Milão, 1985, p. 83 sentidos - “ cardo “ e “decumanos”, presentes nos principais núcleos urbanos.2 C. Aymonino, Lo studio..., op. cit.3 I. Solà-Morales, Territorios, Editorial Temos assim no sentido Norte – Sul, a Rua da Igreja e no sentido Este - Oeste, a Gustavo Gili, Barcelona 2002, p.46 Rua Visconde de Estoi/ Rua da Barroca.4 André, Bazzana, Maisons D’Al Ambos os eixos intersectam-se em ângulo recto no Largo da Praça Velha e Largo Andalus, Habitat Mediéval et Strutures Ossónoba, facto que torna ainda mais evidente a consistência desta rede urbana. du Peuplement dans L’Espagne O eixo Norte -Sul é secundado a Oeste por outras vias paralelas que convergem Orientale, vol.I e II, Casa Velaquez, Madrid 1992, p.373 também para este mesmo espaço (Rua dos Ferradores, Rua João Pinheiro Canal).
    • 1 Rua das Olarias e Rua Elias Garcia Este último vem acentuar para além da predominância linear, uma organização radiocentrica, convergindo quer para a Rua da Igreja, quer para o Largo Ossónoba. Apesar da ausência de cinturas, no sentido lacto de muralha, podemos reportar este sentido nas “cercas” de propriedades agrícolas que definiram desde sempre a sua envolvente próxima. De uma maneira geral a primeira unidade morfológica é composta por quarteirões mais compactos, apresentando em certos casos reentrâncias ou inflexões relativamente ao eixo da rua, como no caso da Rua Marçal Lourenço. Os quarteirões mais consolidados variam entre formas rectangulares ou ovaladas, sendo os mais estreitos e alongados os correspondentes ao primeiro momento de assentamento. A transformação verificada a partir dos finais século XIX ajudou a conformar uma segunda unidade morfológica. Implantada sobre linhas de cota mais planas o seu desenvolvimento estruturou-se em função de uma maior necessidade de articulação com os principais núcleos urbanos, São Brás de Alportel, Faro e Olhão. O Largo da Matriz assume-se assim como pólo de confluência e atravessamento entre os movimentos Olhão- Estoi - São Brás de Alportel ou Faro- Estoi - São Brás de Alportel. A sua condição periférica em relação ao núcleo alto é compensada pelo destaque e remate que passa a reter, em relação ao núcleo menos elevado e aos eixos de aproximação principais. O novo tecido que começa a conformar-se no principio do século XX apresenta uma configuração mais regular e ortogonal. A sua organização resulta em parte da aplicação e concretização de uma hierarquia viária assente num eixo principal de distribuição, do qual derivam as outras vias secundários, de repetição, rematando ambas no espaço estruturante, o Largo da Matriz. A ortogonalidade deste tecido traduz uma transformação do espaço urbano com características distintas das até então dominantes, quer em termos de perfil, quer mesmo em termos de frente urbana. Identificamos como eixos de distribuição principal introduzidos nesta fase - a Rua de Faro e a rua João de Deus (antiga Rua do Ramal de Estoi) que se organiza a Nascente do aglomerado, tendo como vias de acesso principal - a Rua do Cemitério e a Rua de Olhão. A Rua de Faro, eixo principal de distribuição, define uma frente de chegada resultante da supressão de parcelas agrícolas pré-existentes que ajudaram a conformar, quer a Norte, quer a Sul, quarteirões com características distintas. A Norte podemos verificar uma maior consolidação dos quarteirões apoiada numa malha reticulada. O seu processo de densificação, no sentido Sul-Norte traduz uma hierarquia assente no elemento quarteirão como estruturador. Nas duas ruas secundárias existentes1 podemos encontrar a fachada principal do lote orientada a Sul e a de serviço ou frente secundária orientada sempre a Norte. Relativamente ao desenvolvimento do tecido a Sul da Rua principal (Rua de Faro) encontramos uma frente resultante de parcelas que podem variar entre os 15.5 metros e 16.5 metros de profundidade e os 14 e os 30 metros de largura. A cedência de área agrícola para construção desta frente, em detrimento de um eixo estratégico, traduziu um desenvolvimento da forma urbana distinto do que encontramos a Norte. Estas parcelas confinam assim com áreas de espaço livre rural ou com os muros que definem os limites de uma única propriedade. O único quarteirão resultante a Sul apresenta uma forma rectangular, com uma significativa mancha de espaço livre correspondente à parcela agrícola. (Fig.22) Os espaços de contorno que conformavam os limites do núcleo foram fundamentalmente ocupados por hortas e quintas, terrenos que constituíam as traseiras da frente de rua principal. Na segunda metade do XX, o prolongamento da Rua João de Deus para Norte do aglomerado, implicaria não só a interrupção do eixo estruturante, Rua Visconde de Estoi, como o alargamento da rua secundária, Emiliano da Costa que se estende até ao Largo Ossónoba. Este processo veio ainda determinar a configuração dos actuais quarteirões a Norte da Rua Visconde de Estoi, até então delineados apenas por azinhagas ou caminhos. Como pólos determinantes na delineação dos eixos principais de expansão
    • podemos considerar nesta segunda unidade, a área do cemitério e o pequenoaglomerado no Coiro da Burra, ponto de atravessamento localizado a Poente deEstoi.Em resumo, o traçado urbano é definido num primeiro momento a partir de umamatriz medieval que cresceu e se consolidou até ao século XIX, período a partir doqual se começa a conformar o núcleo baixo.A um tecido apoiado numa lógica do lugar e nas características morfológicas dositio, resultando numa estrutura mais irregular e curvilínea, fortemente apoiado noelemento “rua”, como elemento estruturante da sua organização urbana, se opõeuma malha desenvolvida a cotas de terreno mais plano, definida em função deuma mobilidade viária com os principais aglomerados urbanos e que se apresentamais reticulada, programada, ainda hoje por conformar.O aglomerado é assim estruturado, num primeiro momento, a partir de doiseixos principais que perpendicularmente definem as duas direcções do seu 103 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoidesenvolvimento e noutro momento a partir de outros e que organizam nas váriasdirecções as novas áreas de extensão.A maior proximidade dos eixos ou pontos centrais determina o maior ou menorvalor das ruas secundárias.Identificamos assim dois tipos de arruamento distintos- um resultante da confluênciade caminhos de articulação, mais sinuoso e irregular, outro mais rectilíneorevelando uma maior autonomia do traçado relativamente à morfologia do relevo.(Fig. 23)Como principal elemento estruturante sobrevivente na organização do seutraçado e na conformação da sua forma, temos a Igreja Matriz que se destaca doaglomerado medieval, veiculando esse sentido periférico, funcionando ainda comoelemento charneira entre as duas unidades morfológicas, centradas na imagem daaldeia alta e da aldeia baixa.Podemos ainda reconhecer no Palácio de Estoi e na “cerca“ envolvente o seusignificado estruturante na organização do núcleo. O palácio reúne uma áreade cerca significativa, ajustada em função de percursos e vias secundárias decontorno que chegam ao aglomerado. Funciona como área de protecção, detransição com o próprio aglomerado.As principais modificações e transformações verificadas na segunda metade doséculo XX passaram não só por alterações tipológicas, mas em termos de estruturaurbana, na introdução de novos alinhamentos, face a intervenções de momentoscronológicos precedentes.A morfologia urbana mostra assim tecidos distintos onde se denotam evoluções oucontradições ao esquema anterior. O sentido fechado e cego do primeiro núcleoabre-se nas fases seguintes.Hoje a nova ocupação e os novos traçados fazem-se sobre os seus antigosespaços de contorno, sobre a sua envolvente, ocupando e interferindo na formaque definia a sua anterior leitura.
    • Legenda  Bicas  Lavadouro  Tanque público A L Ossónoba (Praça) A’ L Praça Velha (antigo L do Espírito Santo) B R Igreja B’ R Pé da Cruz C R Barroca C’ R Visconde de Estoi D R do Passal (antiga Rua Entre as Hortas) E R de São José (antiga Rua do Carrascal F R Arco de Santana F’ R Marçal Lourenço G R Olhão (1876) G’ Largo Humberto Delgado (anos 20) H Travessa do Espírito Santo H’ Rua da Conceição L Travessa Esquível I R João de Deus (192..?) I’ R João de Deus (196..?) J R Poeta Emiliano da Costa (195..?) M’ L Igreja M R de Faro(1876) N R do Jardim O R Cemitério (1836) P R Vasco da Gama (192..?)página 105Fig. 19Planta toponímica das ruas de Estoi(sem escala)
    • 105 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • página 107Fig. 20Unidades morfológicas(sem escala)
    • 107 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • página 109Fig. 21Traçado Urbano: hierarquia dos eixosviários (sem escala)
    • 109 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • página 111Fig. 22Relação espaço construído e nãoconstruído (sem escala)
    • 111 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • página 113Fig. 23Relação quarteirão / rua (sem escala)
    • 113 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • página 115Fig.24Relação topografia/ construído(sem escala)
    • 115 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • página 117Fig. 25Relação topografia / traçado viário(sem escala)
    • 117 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • forma
    • O Largo Ossónoba: o espaço Segundo André Bazzana2 a praça é em qualquer aglomerado de fundação embrionário medieval, simultaneamente um espaço de mercado e de atravessamento. A localização periférica da Matriz até ao século XIX, comprovada pelas várias descrições sobre a mesma3, torna evidente a ideia sobre uma pré ocupação do “[…] Gosto, nas cidades, de aglomerado, no ponto mais elevado, concentrado no Largo como o sitio genético. encontrar o espaço central. As As primeiras referências ao “rossio” remontam ao início do século XVI, o que permitegrandes praças de onde irradiam explicar as suas características formais, pouco regulares, associadas à condição de as vias em direcções diversas, terreiro, espaço de mercado ou encontro junto à fonte4. e que de uma cidade não são A sua configuração formal parece ter-se delineado a partir de caminhos de somente o centro, mas também atravessamento laterais, pronunciados provavelmente durante o período medieval ao mesmo tempo, o início. e que confluíam no elemento água. De como é feito o A abundância de água e o seu controlo terão constituído factores determinantes, centro se percebe o carácter e a condicionando o tipo de assentamento. estrutura da cidade […]”. Constatamos que a disposição das casas se terá organizado em torno do Joseph Roth, 19251 elemento central (a fonte) configurando um espaço quase fechado e íntimo. 119 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi A vocação terá assim condicionado e antecipado a própria forma urbana, que parece ter sofrido diversas transformações, quer formais quer dimensionais, a partir do século XVIII. É com alguma dificuldade que conseguimos acompanhar o percurso evolutivo deste espaço, uma vez que nunca integrou qualquer equipamento de relevo tanto religioso como civil que permitisse denunciar algum protagonismo em descrições. Na sua conformação levantam-se contudo algumas dúvidas sobretudo se nos apoiarmos em alguns documentos do século XVIII. A partir do mapa de Estoi de 18005 e independentemente dos objectivos contidos1 Joseph Roth, Le Città Bianche, Piccola nesta representação podemos contudo perceber parte da sua estrutura urbana Biblioteca n.196, Adelphi, Milano ainda concentrada no núcleo alto. 20032 André Bazzana, Maisons..., op. cit. p. Os quarteirões aparecem delineados de forma simplificada, revelando 373 naturalmente algumas lacunas quanto à sua forma e limites.3 “[…] Ermida situada abaixo da Nesta representação apercebemo-nos da forte dependência que as propriedades aldeia.[…]” Cf. Visitação de igrejas e quintas envolventes detinham no abastecimento de água, traduzindo ainda algarvias da Ordem militar de São Tiago de 1554, Adeipa, pp. 56 a 59; a importância do espaço da Praça na organização e estrutura urbana do “[…] situada junto à aldeia de Estoi aglomerado. […]” Cf. J. Romero Magalhães e M. Por outro lado a praça conduz-nos a um único espaço, não “existindo” ou não Viegas Guerreiro, Duas..., op. cit.; estando representado neste desenho o actual quarteirão de separação que divide referindo ao lugar de Estoi “[…] no hoje o Largo Ossónoba do Largo da Praça Velha. meio dele está uma Fonte […]” Cf. Visitação de São Martinho de Estoi Como podemos confirmar nos documentos relativos à Cobrança da Décima , esta 6 capela Curada, em 1600 área vem ainda designada, até ao século XIX, como a “Praça”, referente a um4 Cf. “Rossio”, s.m., A. de Morais único espaço, não sendo referido qualquer outro largo como hoje Silva, Novo Dicionário Compacto da acontece. Tudo leva a crer que a configuração do quarteirão central que divide Língua Portuguesa, vol. V, Horizonte hoje as duas praças tenha sido delineada só a partir do século XIX. Confluência, Mem Martins 1990, p.50 O próprio conceito de praça ou rossio está geralmente associado a um lugar5 Ver mapa de 1800 em Apêndice espaçoso: terreiro, praça larga, condição que cremos contribuir para uma maior documental gráfico – Imagem I consistência da hipótese atrás levantada.6 Veja-se em Anexos – Fontes Por outro lado, a referência nos mesmos documentos à Travessa do Espírito Santo documentais até ao século XX permite-nos perceber que parte do quarteirão alongado que constitui hoje a frente Poente da praça, já existiria no ano 1757. Desta forma acreditamos que o Largo demonstra formalmente uma configuração somente estabilizada a partir dos finais do século XIX e inícios do século XX. Os eixos de atravessamento que conformam os quatro lados da praça, aparecem na planta de 1800 já delineados. A ligação à Ermida do Pé da Cruz e Rua do Carvalhal (actual Rua de São José), a Rua do Passal e a Rua da Igreja desdobrando-se esta em duas vias até à Praça. Apesar da existência do vestígio quinhentista, localizado na sua frente Norte (no interior do antigo lagar), denunciar uma ocupação medieval do Largo e seus supostos limites, sabemos que esta mesma frente, como hoje a conhecemos, foi apenas conformada no ano de 1830, data da construção da casa localizada a Norte do Largo. A intervenção terá traduzido, em termos de ocupação, um avanço sobre a Praça,página 118 no sentido Sul.Fig. 26 Do século XX correspondem ainda outras alterações na sua configuração,Estudo sobre a conformação do nomeadamente na construção e acrescento do quarteirão, correspondente aoactual largo Ossónoba(sem escala) edifício da farmácia que acreditamos terá correspondido a um avanço no sentido
    • Norte, acentuando ainda mais a separação entre os dois largos existentes. O registo da Rua do Capitão em 1779, correspondente à antiga Rua do Capitão José Leitão, hoje rua Emiliano da Costa, denuncia o então desenvolvimento e expansão do núcleo no sentido Nascente da praça. Estes atravessamentos laterais definiram assim a conformação da praça principal do aglomerado, reflectindo a sua centralidade, enquanto espaço atravessado lateralmente, apoiado numa articulação privilegiadamente pedonal com o território da freguesia e, sobretudo, no valor simbólico da água representado na fonte. O final do século XIX é acompanhado por novas formas de mobilidade e de transporte, traduzindo um ponto de viragem na organização funcional e ocupacional do núcleo. Hoje a estrutura polinuclear é apoiada em dois espaços que organizam a vida do aglomerado, o Largo Ossónoba numa cota mais alta e os espaços confinantes à Igreja Matriz, localizados numa cota mais baixa. O Largo Ossónoba encerra esta leitura de espaço embrionário, paradoxalmente mais elevado que a Igreja Matriz e que se tornou progressivamente periférico, perante uma expansão e ocupação que o moldaram posteriormente de formas distintas. Modos de transformação Podemos então constatar que o crescimento do núcleo pressupôs fenómenos de densificação e expansão distintos. Aymonino relativamente às cidades medievais refere que o seu crescimento se organiza na generalidade segundo uma estrutura linear, reticulada ou irradiante. A sua extensão faz-se em termos gerais em função de linhas, em função de pólos ou ainda em função de barreiras definidas por muros, muralhas ou cercas. Apesar de se tratar de um aglomerado de dimensões reduzidas podemos destrinçar aquilo que Aymonino entende como dois modos de transformação distintos: “no interior – com transformações parciais ou por substituição e no exterior – na relação entre o urbano e campo no qual se destacam os elementos tipológicos de residência mais nobre, neste caso, as quintas, solares, funcionando estas como áreas de transição”1. Procurámos assim identificar em Estoi alguns destes processos e que nos pareceram determinantes na caracterização e compreensão da sua evolução urbana. A partir dos diferentes modos de crescimento e expansão encontramos as seguintes situações: I Crescimento linear e polar resultante da criação de novos pólos, novos centros; Podemos verificar que a sua evolução faz-se na generalidade através de um crescimento linear. Este fenómeno descreve em parte a formação do núcleo com base numa rua direita Norte-Sul e outra a Nascente-Poente. Resultante provavelmente da transformação de antigos caminhos rurais de atravessamento, de paragem ou encontro, a rua constitui assim o elemento estruturante e definidor da forma urbana, conformando grande parte do seu tecido. A relevância da rua como elemento estruturador do tecido, da forma do quarteirão, assim como da frente urbana é assim evidenciada pelos quarteirões estruturados e consolidados a partir de ruas principais. Esta condição traduz-se não só ao nível do seu traçado numa evidente hierarquia que distingue a rua secundária da rua principal, esta última de perfil com maior dimensão, mas também ao nível tipológico, distinguindo a frente principal da frente secundária. Este exemplo podemos encontrar mais evidenciado na relação entre Rua Visconde de Estoi – Rua Arco de Santana. A sua consolidação é assim determinada pela rua que o contorna. Nesse elemento estruturante, a rua, podemos ainda encontrar pequenos largos, espaços de alargamento, os tais “ centros”, nós, que sequencialmente se articulam. A Praça, hoje o Largo Ossónoba, marcada até ao século XIX pela presença da fonte, constitui a par da Igreja Matriz um ponto fundamental na estruturação do tecido desenvolvendo um sentido bipolarizado. Podemos assim identificar a existência de dois pólos condicionantes deste tecido: o Largo Ossónoba e o largo da Igreja, espaços de chegada de encontro e de1 Carlo Aymonino, Lo studio..., op. cit. atravessamento, definindo a estrutura da aldeia alta e aldeia baixa.
    • II Densificação do tecido no seu interior saturando todas as possibilidades de crescimento, sem extensão territorial; A par de um crescimento por extensão, a estrutura tipológica do núcleo vai sofrendo alterações, acrescentos, sobreposições, densificando-se. Estas transformações no seu interior, sem extensão, estão por vezes associadas à existência de cinturas, cercas que conformavam até ao século XIX o seu perímetro. O crescimento do núcleo faz-se assim não só por densificação dos eixos de principais já referidos, como pela saturação do espaço livre disponível no interior dos quarteirões ou no limite das parcelas. Este processo é mais evidente nos quarteirões centrais, de matriz medieval, onde o espaço vazio é quase inexistente e onde a forma de alguns quarteirões parece ter-se ajustado aos limites de algumas cercas dominantes1. (Fig. 27, n. 1 e 2) III no traçado geométrico das vias e parcelas: numa continuidade da 121 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi trama viária principal; Correspondem em parte às vias paralelas ou eixos de repetição das vias principais. É o caso da Rua Arco de Santana em relação à Visconde de Estoi e ainda de forma mais clara, o dos quarteirões a Poente da Igreja Matriz que descrevem esse compromisso face ao eixo principal (Rua de Faro). IV no exterior através de tecido novo, onde a densificação pode intervir ulteriormente se uma nova barreira é criada; Descrevem um crescimento menos condicionado à morfologia existente ou a eventuais cinturas. De uma forma geral se inscreve todo o processo de crescimento, programado a partir do século XIX, onde com o traçado de novas ruas se indicia novo tecido. Podemos encontrar este processo a partir da introdução de novas vias como a Rua João de Deus e nos quarteirões frente à Igreja Matriz definidos nos princípios do século XX. Estes últimos de dimensão entre os 20, 25 e 15 metros de profundidade respectivamente sofreram uma consolidação no sentido Sul - Norte, primeiro ao longo da rua de Faro intensificando-se progressivamente para os outros quarteirões a Norte. A relação frente principal - traseira domina as ruas secundárias, privilegiando-se a frente principal do quarteirão com orientação a Sul, reservando a frente Norte para frente de serviço. Esta dupla função na mesma via adultera em parte o sentido da rua como eixo determinante da frente urbana. (Fig. 28, n. 6) Tomando como imagem um núcleo que cresceu a partir de pontos e linhas nos quais se foi agregando e construindo um tecido que ora se fechou, permanecendo circunscrito a um contorno de muro ou cerca, ora se abriu extravasando cinturas ou expandindo-se sobre áreas de contorno, pareceu-nos desde logo importante analisar de que modo se fez essa ocupação progressiva do núcleo e se processou esse extrapolar. Interpretando o processo de ocupação e crescimento de alguns quarteirões do núcleo verificamos que estes sofreram níveis de ocupação e modos de densificação distintos. Ora através da construção pelo exterior dos muros ou cercas existentes, adossando parcelas, resultando na maior parte das vezes numa alteração de alinhamentos ou perfil de rua ou de outro espaço exterior. Esta situação podemos verificar no actual quarteirão a Norte da Igreja Matriz, cuja configuração resultou de um acrescento exterior a nascente, traduzindo-se na actual frente de rua que liga aos jardins do Palácio de Estoi. (Fig. 28, n. 3) Também no núcleo alto, nas parcelas que se organizam ao longo dos limites do Palácio de Estoi (frente Poente da Rua do Pé da Cruz ou da rua Furriel Pinheiro Canal) percebemos esse processo de densificação condicionado a uma “cerca”. Nesta situação a forma urbana altera-se, deixando a permanência do espaço livre1 São os casos da frente Poente da delimitado preexistente. Rua do Pé da Cruz que confronta com a cerca do Palácio ou da frente O segundo modo revela a densificação interior do quarteirão, substituindo Sul da rua Furriel Pinheiro Canal ou ainda da Rua da Barroca ou anulando a barreira do muro por uma nova frente. Não constituindo
    • necessariamente uma alteração de alinhamento de rua, este processo traduz emtermos de malha urbana uma maior subdivisão da parcela agrária pré existente,originando quarteirões mais densificados. Exemplos são os quarteirões que seorganizam a Nascente da rua da Igreja ou ainda os mais recentes, a Poente eSul da Igreja Matriz. Progressivamente o muro vai sendo substituído pela frente dacasa ou da parcela.Há ainda os quarteirões que não apresentam uma configuração bem definida.São apenas delineados por caminhos rurais, limites de parcelas agarrados àestrutura fundiária. Os muros ou cercas ajudam a conformar ainda os seus limitesconstituindo traseiras das fracções ou propriedades cuja frente principal seestabeleceu ancorada à rua urbana, traduzindo por vezes apenas dois lados outrês consolidados. O conceito de quarteirão está ligado a uma forma consolidada,estabilizada com o aparecimento da frente de rua.A configuração do espaço urbano organizado em função de eixos estruturantese de espaços de alargamento traduz-se assim, em termos de tecido urbano, numconjunto de quarteirões centrais mais apertados a que se opõem outros periféricosde maior dimensão, constituindo os seus limites franjas onde se denotam maioresheterogeneidades a nível parcelar e tipológico.A identificação dos seus limites, hoje, torna-se assim num tema premente.A par de um processo acelerado de expansão, sobrepõe-se o processo lento dedensificação do tecido interior.Somos assim confrontados com interiores de quarteirão ainda por conformar, (nosentido em que permanecem como grandes vazios onde se prolonga a ruralidade)e frentes de rua por consolidar. Este fenómeno traduz uma indefinição dos seulimites naturais, constituindo estas novas construções as novas barreiras artificiaisdo seu contorno.Para além das rupturas tipológicas e morfológicas com o tecido pré existente,assistimos à adulteração do seu carácter, desde sempre enraizado no território.As franjas outrora compostas por pomares pertencentes a um tecido rural detransição que ora o penetrava ora o envolvia, têm vindo a ser progressivamenteadulteradas, acentuando as rupturas com o próprio relevo e estrutura morfológicapré-existente.Se até meados do século XX conseguimos identificar zonas homogéneas, assentesno núcleo alto e baixo, a partir dos anos noventa percebemos uma forte pressãoque veio interferir sobretudo nos seus pontos de aproximação ou chegada.Tempos cronológicos distintos traduzem modos de ocupação também distintos,contribuindo para essa heterogeneidade e irregularidade do espaço urbano.Os seus limites, franjas, apresentam hoje fortes alterações tipológicas quese traduzem quer em termos de volumetria, quer mesmo na relação espaçoconstruído, espaço público. Estas novas rupturas imprimem e deturpam a leiturado aglomerado, contribuindo grande parte para a anulação dos espaços detransição, de contorno que constituíam o seu todo envolvente e paisagístico.
    • O tecido parcelar Segundo Aymonino, é na permanência da parcela que reside grande parte da homogeneidade do quarteirão. Essa espécie de submissão do tecido edificado ou lote em relação à rua ou ao espaço público é bastante evidente quando analisamos o modo de desenvolvimento e densificação do lote. Ele parte sempre de uma unidade ou célula estrutural a partir da qual se processam os acrescentos ou subdivisões. Esta mesma unidade organiza-se quase sempre em função dessa mesma relação com o espaço público. Se pensarmos que o processo de consolidação de qualquer tecido urbano é o resultado de um tempo longo e lento de sobreposição e sedimentação de volumes, formas, pressupondo diversos modos de ocupação, poderemos através do estudo da parcela compreender melhor a enorme diversidade que esta proporciona, sobretudo nas diferentes variantes que se registam. Estas variações são, na maior parte das vezes, resultantes de um conjunto de factores e contingências especificas. Quer da adaptação de um tipo ou esquema conceptual às condições geo-morfológicas e naturais pré existentes, quer 123 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi associadas a diferentes condicionalismos económicos. Estes aspectos variam, determinando os diferentes processos de agrupamento e de subdivisão das parcelas1. Está assim na parcela, grande parte da definição matriz tipológica. Nesta análise identificámos parcelas mais próximas da matriz urbana e outras da matriz rural. Como excepção temos as referentes ao lote isolado ou senhorial e que se evidenciam sobretudo no seu tecido envolvente. Parcela de matriz urbana Tomando como tema os quarteirões consolidados localizados no núcleo alto, confinantes ao Largo Ossónoba e Praça Velha, reconhecemos neles uma matriz nitidamente mais urbana onde o espaço edificado representa entre 50 a 100 por cento da parcela. Da “Praça”, hoje Largo Ossónoba, enquanto pólo gerador, partem eixos de articulação que se repetem descrevendo ruas curvilíneas e sinuosas (rua Furriel Pinheiro Canal e Travessa do Espírito Santo). A estrutura destas ruas, com casas dispostas dos dois lados, corresponde ao tecido parcelar mais densificado e fechado. Os quarteirões apresentam-se mais compactos com formas alongadas, associados a uma estrutura urbana mais consolidada e estabilizada. A sua forma irregular reflecte um modo de ocupação que privilegiou a rua ou os espaços estruturantes como condicionantes do seu tecido parcelar. As parcelas vão organizando um tecido reticulado que varia quer na profundidade quer na largura, determinando nessa sujeição o espaço exterior e a forma do quarteirão. Os quarteirões que se desenvolvem ao longo da Rua Visconde de Estoi apresentam configurações rectangulares ou quadrangulares ou ainda outra variante formando um “L”. Nesta situação particular referimo-nos ao quarteirão que tem frente principal para a rua da Conceição, no prolongamento da rua da Igreja. Podemos verificar que a parte posterior da parcela é ocupada predominantemente por armazéns ou pátios de apoio à habitação. Analisando o quarteirão localizado no segundo troço, a Sul do eixo principal, identificamos parcelas de maior dimensão cuja conformação resultou de dinâmicas de apropriação desenvolvidas a partir do eixo principal, no sentido Norte-Sul, da cota mais alta para a mais baixa e ainda Sul-Norte, funcionando a secundária, Rua Emiliano da Costa, como uma via mais recente cuja frente resta ainda por consolidar. (Fig. 28, n. 5) No quarteirão a Sul da Rua Visconde de Estoi podemos verificar que a sua conformação resultou da consolidação da via secundária - Rua Arco de Santana. O processo de densificação foi determinado em parte pela consolidação dos seus limites, sobrando ainda no interior, uma área significativa de espaço livre. O processo de subdivisão e agrupamento das parcelas repete-se mais uma vez, tal como nos primeiros quarteirões, com a diferença de que neste caso a área de1 sobre este tema refere-se Maria espaço livre é mais significativa, apresentando formas e dimensões distintas. Margarida Tavares da Conceição, De uma forma geral, nas parcelas de dimensão mais reduzida, o processo de Da vila cercada à Praça de Guerra. Formação do espaço urbano em densificação inicial terá passado por uma saturação horizontal em profundidade Almeida (séculos XVI- XVIII), Livros e depois vertical, resultando hoje em frentes de rua cuja volumetria se apresenta Horizonte, Lisboa 2000 predominantemente entre 1 a 2 pisos. Nos lotes de frente mais larga e de maiores dimensões, a saturação em profundidade não chega a confirmar-se na totalidade. Resta ainda uma área
    • Fig. 27Modo de crescimento e densificaçãodos quarteirões (sem escala)
    • Fig. 28dos quarteirões (sem escala)Modos de crescimento e densificação 125 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • de pátio ou logradouro que confronta com a outra parcela posterior. O volume edificado referente ao espaço habitacional permanece ancorado à frente de rua principal apresentando também em termos de volumetria entre 1 a 2 pisos. De uma forma geral aos espaços e ruas estruturantes se faz corresponder a fachada principal a que se opõe a frente de serviço, orientada para ruas secundárias cujo perfil mais estreito confirma esse mesmo carácter. (Temos como exemplo o quarteirão a Poente do Largo Ossónoba, formado pela casa cuja frente principal o conforma e cuja frente traseira se orienta para a Travessa do Espírito Santo). Na frente principal desenvolvem-se, na generalidade, as zonas mais nobres da casa, “casa de fora” e alcova, deixando para a rua secundária as zonas de serviço- a cozinha, o armazém, o celeiro, a cabana e o palheiro. Um pequeno pátio de serviço organiza e desenvolve a distribuição destas dependências, podendo ainda ter o acesso directo para o exterior. Esta lógica confere à rua um sentido de “corredor de serviço”1 , traduzido muitas vezes numa fachada quase cega, com apenas um acesso, normalmente sem ornamentação. Encontramos alguns casos onde o anterior acesso de serviço se transformou numa frente de rua principal, à custa de uma subdivisão de parcela. A anulação do espaço exterior, pátio, é muitas vezes compensada com a existência de uma açoteia2. Esta hierarquia terá sustentado um modo de ocupação inicial que se traduziu nesse sentido funcional da parcela em relação à rua. A cozinha aparece frequentemente associada ao pequeno pátio interior onde pode ainda existir o “chiqueiro” (pocilga), o galinheiro e o forno do pão, estes últimos, localizados no exterior. O prolongamento das actividades rurais assume- -se como uma permanência nos diferentes lotes. As dependências domésticas traduzem um sentido de subsistência muito forte equiparável ao que encontramos nos restantes meios rurais mais isolados. Dependendo da dimensão do quarteirão e da parcela assim varia a localização das dependências de serviço. Se no tipo de parcela estreita e comprida essa hierarquia pode traduzir-se na relação entre frente e traseira, já nos lotes grandes de “frente larga”, quando a frente posterior confina com outro lote, esta hierarquia pode traduzir-se entre “fachada de aparato” (habitação) e “fachada de serviço” que, embora contidas na mesma frente, distinguem-se pelo grau de composição e ornamentação. Em síntese podemos identificar em Estoi alguma diversidade morfológica, reconhecendo contudo alguns tipos elementares de parcela urbana: a a parcela de frente estreita, apoiada no tipo de lote gótico ou na medida agrária “chão”; b parcela de frente larga, configurando organizações distintas em termos de relação com o espaço público Na primeira é o lado de menor dimensão que define na generalidade a frente rua, cuja repetição se traduz num sistema em banda. Organizando-se na perpendicular à rua, a parcela de forma rectangular pode sofrer densificações quer em profundidade, quer na vertical. O processo de densificação traduz uma ocupação que evoluiu em profundidade, por associação de células, tendo este provocado consequências na configuração do lote. A mesma parcela pode subdividir-se em dois lotes definindo duas frentes principais perpendiculares ao arruamento, ou ainda, preencher a profundidade total do1 É o caso da Travessa do Espirito quarteirão, apresentando uma frente principal e uma frente de serviço. Santo. Analisando a malha do quarteirão a Poente do Largo Ossónoba percebe-se ainda,2 Ver a frente Nascente da Travessa do Espirito Santo. a partir dos valores máximos e mínimos, que a sua dimensão varia entre 3 e os3 “chão”: medida agrária medieval 8 metros de frente e entre os 9 e os 16 metros de profundidade. Grande parte usada como base parcelar da destas parcelas sofreram processos de mutação, resultando em subdivisões ou matriz cadastral encontrada nos justaposições, revelando alguma irregularidade formal e métrica. quarteirões do Bairro Alto. Referido por Helder Carita, Bairro Alto A parte edificada ocupa assim a quase totalidade da parcela urbana, resultando tipologias e modos arquitectónicos, hoje numa malha subdividida e justaposta. Câmara Municipal de Lisboa, O espaço livre consiste na sua maioria em pequenos pátios ou ainda em terraços, Lisboa 1994. O autor reconhece aos quais está associado sempre o espaço da cozinha. nela o módulo a partir da qual Temos contudo noutros exemplos de parcela que se enquadram neste grupo, lotes se processaram fenómenos de subdivisão e multiplicação. cuja dimensão se aproxima da medida agrária medieval, o “chão”3, e com os
    • quais podemos ainda reconhecer as principais transformações ao nível matricial. Localizadas na perpendicular aos principais eixos estruturantes, Rua da Barroca (E - W) e Rua do Pé da Cruz (N - S), encontramos duas parcelas onde se identificam ainda as marcas quinhentistas nas molduras chanfradas. A sua estrutura morfológica assenta no agrupamento em profundidade de dois módulos quadrangulares, duas “células” intercomunicantes, correspondendo estes aos elementos principais da estrutura organizativa do espaço edificado – a cozinha e a casa de fora. Nas parcelas de frente mais larga identificamos quase sempre uma configuração rectangular, traduzindo-se a frente principal como o lado de maior dimensão. Podemos verificar alguns exemplos relacionados com espaços estruturantes do núcleo, como no Largo Ossónoba, as casa a Poente e a Norte cujas fachadas conformam as frentes do Largo. Nestes últimos a frente principal apresenta-se com uma dimensão maior, revelando a multiplicação do módulo inicial. Estas parcelas próximas dos modelos de casa 127 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi linear, resultam por associação de células paralelas à rua, traduzindo uma relação distinta com o espaço público que resulta na generalidade, num maior número de acessos e aberturas na mesma frente. Analisando mais uma vez o quarteirão a Sul do segundo troço da Rua Visconde de Estoi, verificamos ainda outras parcelas que chegam a ocupar mais uma vez parte ou a totalidade da largura do quarteirão. O espaço edificado pode ainda ocupar no mínimo metade da profundidade da parcela urbana, podendo o espaço livre corresponder a uma área de dimensões muito similares à construída. Trata-se de parcelas de grande dimensão dentro do tecido consolidado. A frente de maior dimensão traduz naturalmente uma menor ocupação em profundidade da parcela. Parcela de matriz rural Podemos ainda identificar outras parcelas que revelam uma maior proximidade com a matriz rural. Estas estão representadas pela grande parte dos quarteirões que conformam o núcleo, já que são os que apresentam uma área significativa de espaço livre muito superior ao construído, penetrando com o território rural. Estas parcelas cujos limites revelam alguma irregularidade são resultantes quer das várias adaptações ao cadastro do solo rural, quer de adaptações a anteriores cercas de hortas ou quintas, ou ainda a anteriores caminhos de ligação preexistentes. A parte construída que define a frente de rua mantém uma dependência com a rua principal, contrastando com as de matriz urbana no contorno posterior da parcela e nos limites que se diluem no tecido confinante. Identificamo-las em alguns quarteirões que apresentam no seu interior, vazios significativos, ou ainda, nas áreas de contorno dos quarteirões mais periféricos, definindo aquilo que podemos considerar as áreas de franja do aglomerado. Menos condicionadas à estrutura urbana compacta e densificada este segundo tipo de parcela apoia-se, na generalidade, numa frente de rua mais larga, apresentando mais do que um acesso - o acesso principal da habitação e o acesso ao armazém, cabana ou loja. Em termos de organização interna e de relação com o espaço público constatamos a permanência organizativa das várias funções- tanto a casa de fora como a cozinha aparecem mais uma vez dispostos separadamente, privilegiando a frente de habitação para a rua.O lote senhorial isolado Nesta categoria podemos incluir algumas quintas ou montes localizados na periferia do aglomerado, formados por uma habitação que define quase sempre, uma frente de rua com a estrutura viária principal e por um conjunto de divisões ou construções que servem de apoio quer à casa, quer às actividades agrícolas dominantes. Por integrarem grandes parcelas de terreno agrícola, conformam grande parte da paisagem envolvente ao núcleo urbano. Estas parcelas apresentam-se como unidades autónomas, reunindo uma estrutura funcional auto-suficiente em relação à aldeia. Nalguns casos estes montes ou quintas poderão ter sido absorvidos pela própria malha urbana. A casa situada na frente Norte da Rua de São José com um poial à entrada, estabelece em termos de relação com o espaço público, um sistema muito
    • semelhante ao que encontramos na maioria dos montes isolados da freguesia.A frente do Palácio que se lhe opõe pode ter correspondido a uma edificaçãoposterior.O Palácio nobre traduz-se num exemplo excepcional, não enquadrável nosmodelos predominantes mas que foi determinante enquanto elemento estruturantee marcante de um perímetro de ocupação urbana, constituindo o limite depropriedade, a enorme cerca ou barreira envolvente ao núcleo.O seu carácter isolado não abdica de uma articulação com a estrutura viáriaexistente, caminhos, passagens, evidenciando-se normalmente o volume destinadoà habitação numa relação mais paisagística que urbana.A frente urbana é definida pelas zonas de serviço e capela, revelando ospressupostos mais intimistas dos modelos do tardo- barroco e rococó.A Quinta da Horta Nova, localizada no prolongamento da rua da Barroca aPoente, uma construção contemporânea ao Palácio de Estoi apresenta ao contráriodeste, a frente principal orientada para a rua, caminho, organizando na parteposterior todas as restantes dependências de serviço.Este tipo de parcela condicionou e condiciona ainda hoje, tal como outros montese quintas localizados na periferia da aldeia, a sua expansão e crescimento.
    • Quarteirões a Poente da Igreja Matriz Quarteirões a Sul e Norte da Rua Visconde de Estoi 129 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi da esquerda para a direita Exemplos de parcela com matriz ruralO lote senhorial conforma o limite Nortedo núcleo urbano
    • página 131Fig. 29O tecido parcelar (sem escala)
    • 131 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 30Estoi, Rua Marçal LourençoSetembro 2005
    • O conjunto edificado No primeiro capítulo abordámos a importância e a necessidade de elaboração do estudo morfo-tipológico enquanto método para o reconhecimento e interpretação Estudos percursores: uma dos factos arquitectónicos e urbanos. primeira aproximação Neste sentido a análise de um aglomerado urbano como Estoi deveria passar obrigatoriamente pelo estudo do seu conjunto edificado, interpretando e identificando os tipos de ocupação e relação com o espaço público predominantes, percebendo as suas variações e possibilidades de continuidade e adaptação às novas necessidades. A história da arquitectura recente em Portugal tem-se revelado inconsistente do ponto de vista da abordagem ao tema da arquitectura anónima ou corrente. Esta tem desde sempre privilegiado como tema de aprofundamento os exemplos de excepção, como a arquitectura religiosa ou a chamada arquitectura erudita. Há contudo que salientar alguns estudos elaborados por Hélder Carita para o Bairro Alto1 ou ainda trabalhos específicos promovidos no âmbito dos Gabinetes Técnicos Locais2. 133 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi No entanto, no que se refere ao estudo da casa no Algarve encontramos pouca bibliografia e documentação disponível. Restam-nos contudo alguns importantes contributos elaborados sobre o tema nomeadamente os de Horta Correia3, de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano4 até ao vasto trabalho elaborado durante os anos 60 com o Inquérito à Arquitectura Popular5. A abordagem, ainda que global, de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano6 vem salientar as principais diferenças morfológicas que separam a casa do Sul da casa do Norte, tema aliás também explorado por Orlando Ribeiro, na sua obra Geografia e Civilização. Enquanto que a Norte a organização funcional e as dependências se desenvolvem na vertical, normalmente em dois pisos, em cima o sobrado, com a loja, os arrumos, a armazenagem, a adega e o celeiro em baixo mais próxima das actividades, com forno interior junto da cozinha e varanda para secagem dos cereais; a Sul, a casa desenvolve-se na horizontal. As dependências organizam-se como “casas” que se agregam à habitação consoante as necessidades, funcionando o espaço exterior como um prolongamento da mesma. O forno de pão é quase sempre exterior assim como as restantes dependências associadas às actividades rurais. De uma forma geral as funções destinadas à lavoura ou às actividades locais organizam-se segundo parâmetros distintos. A Norte estes espaços coexistem e “prevalecem sobre as actividades destinadas à habitação”; a Sul as áreas de habitação separam-se fisicamente das de lavoura onde - “o espaço interior desenvolve-se para o exterior numa cenografia espontânea traduzida nos degraus e poiais”7. Estas diferenças não são contudo exclusivas do contexto nacional. Estas traduzem fenómenos de ocupação do espaço e do território que são inerentes às diferentes culturas nas quais se integra por um lado o Norte e Centro europeus e por outro todo o Mediterrâneo. Relativamente ao estudo da casa num contexto urbano inserido num meio rural,1 H. Carita, Bairro..., op. cit. será importante esclarecer alguns aspectos que se prendem com o próprio2 Ver em AA.VV. Manual de conceito de casa rural e da casa urbana. reabilitação do património de Faro, CMF, Faro 1996 Neste estudo interessa-nos fundamentalmente identificar e estudar a casa urbana3 J. E. Horta Correia, A arquitectura corrente de Estoi, não deixando naturalmente de fazer referência às habitações Algarvia do século XVI ao século no meio rural envolvente. A casa rural, dispersa pela freguesia, coloca questões XIX, Tentativa de Caracterização, distintas que já nada têm a ver com a sujeição a uma Rua, a um Largo ou Praça ou Comunicações ao 4o Congresso do a uma parcela urbana. Essa sujeição é mais ou menos evidente sob determinados Algarve, Racal Clube, Silves 19864 F. Galhano e E. V. Oliveira, aspectos mas é na existência de uma frente de rua, de uma fachada que reside a Arquitectura..., op. cit. principal diferença. É a fachada que confere a urbanidade.5 Arquitectura Popular em Portugal, Neste sentido parece-nos importante identificar as características gerais que são vol. 3, zona 5 e 6, Associação objecto de repetição e permanência quer em meio urbano quer em meio rural, Arquitectos Portugueses, 3a edição, Lisboa, 1988 colocando-se estas essencialmente no campo do esquema estrutural base, do6 F. Galhano e E. V. Oliveira, programa, dos sistemas e técnicas construtivas. Arquitectura..., op. cit.7 Idem, ibidem A partir dos estudos de Horta Correia8 conseguimos esquematizar as características8 J. E. Horta Correia, A arquitectura..., gerais da arquitectura algarvia em meio urbano, entre os séculos XVI e XIX, servindo-nos op. cit. estas como base para a classificação cronológica das habitações levantadas em Estoi.
    • A par de uma conjuntura económica e social que coincidiu com o período expansionista, identificamos a casa urbana algarvia no século XVI representada na generalidade com um só piso, sobretudo em terras mais pequenas (aldeias como Alcantarilha, Alvor e Mexilhoeira Grande) e onde poderemos enquadrar Estoi ou os arrabaldes muralhados das cidades maiores. Nos principais centros encontraríamos em regra a casa de dois ou três pisos, como em Tavira, com um tecido parcelar ainda muito condicionado à cerca. Na casa térrea a cobertura seria na generalidade de duas águas com um remate em duplo beiral. O telhado de tesoura, generalizando-se durante a segunda metade do XVI, estender-se-ia às várias cidades e vilas nas casas de um ou dois pisos. Os vãos, de cantaria quinhentista ainda presentes em alguns vestígios por todo o Algarve, apresentavam a moldura chanfrada com aresta lisa. O período seiscentista representaria segundo Horta Correia – “[…] a estandardização do tipo de casa gerada nos finais do século anterior, o que equivale em termos de arquitectura portuguesa ao chamado estilo chão […]”. Na casa urbana a frente de fachada alarga-se acompanhada pelo grande espaçamento entre vãos. A volumetria aproxima-se do quadrado ou da forma rectangular quando só apresenta um piso.1 George Kubler, A Arquitectura Chã. A propósito destas características George Kubler1 salienta “[…] o regresso das Entre as especiarias e os diamantes formas austeras onde a clareza, a ordem, a proporção e a simplicidade definem 1521-1706, Vega, Lisboa 19882 J. E. Horta Correia, A arquitectura..., os contornos de outra estética, traduzindo uma imagem exterior friamente racional op. cit. […] as necessidades económicas e a sensibilidade experimental permitiram à arquitectura chã surgir mais cedo e permanecer mais tempo como expressão nacional que cobre vários reinados […]” O período setecentista traduziria ainda, segundo Horta Correia, as influências do Barroco e o desvanecimento dessa resistência da arquitectura chã, através de duas modalidades: “[…] na alteração planimétrica e na busca de agentes de dinamização espacial fora do campo estrito da arquitectura […]”. Segundo o mesmo autor dificilmente na arquitectura civil se encontram transformações espaciais. Referindo-se aos grandes casarões de arquitectura chã, o autor refere que a introdução do barroco se revelou sobretudo “[…] pela animação dos vãos, pela sua utilização em simetria, pela marcação dos eixos centrais portal – janela - brasão, pelos ritmos de composição […]. Muito lentamente vão sendo introduzidos modelos de vãos de recorte barroco, cuja moda se acentua na segunda metade do século XVIII […]”2. A introdução de elementos de ornamentação parece assim, a partir dos finais do século XVIII, generalizar-se e contagiar a restante arquitectura civil sobrepondo-se à pureza geométrica e despida que a caracterizava até então. Neste sentido e no que se refere à arquitectura civil assistimos a partir do século XVIII à alteração do remate dos beirais, aparecendo este mais balançado e recurvado moldado em massa. Na fachada são introduzidos elementos de composição arquitectónica - os cunhais, as pilastras e alguns elementos de decoração, inicialmente de inspiração barroca. A cobertura mantém-se na generalidade de duas águas, na casa corrente, com telha e caniço nas partes menos nobres, como a cozinha e suas dependências, e, em abóbada, nas alcovas e no corredor quando este existe. Nesta mesma fase vão desaparecendo os telhados múltiplos em detrimento dos de duas e quatro águas, alterando-se também a escala e a volumetria à medida que entramos no século XIX. As principais alterações surgem no recorte das molduras, dimensão dos vãos que assumem por vezes modelos “autóctones”. O recorte clássico, mais estático, permanece ou transforma-se dando lugar a um modelo recortado no remate da ombreira. Podemos assim perceber que as características utilizadas em setecentos prolongam-se pela primeira metade do XIX, conhecendo algumas mutações morfológicas, sobretudo ao nível dos vãos, em termos formais e métricos e em termos de ornamentação. O século XIX prolongou e transformou preexistências aproximando a “casa” de um
    • 1 D. Vitale, (apresentação da edição maior funcionalismo em termos organizacionais, distanciando-a da ambivalência italiana), AA.VV. , La costruzione del que a até então sempre caracterizou o seu esquema distributivo. territorio..., op. cit.2 Idem, ibidem Segundo Horta Correia o corredor é um elemento introduzido nos finais do século3 Arquitectura Popular..., op. cit. XVIII. Encontramo-lo nesse período apenas em exemplos de arquitectura erudita (como é o próprio Palácio setecentista de Estoi), e na arquitectura corrente só apenas, no final do século XIX e princípios do século XX. Ao abordarmos o tema da habitação em Estoi não podemos deixar de referir a casa rural enquanto elemento presente no território envolvente, com características especificas, reveladoras muitas vezes de um contágio por modelos ou formulários mais urbanos. Daniele Vitale refere que pesa sobre este tema da casa rural “[…] uma herança ideológica importante; esta tem sido interpretada, pela arquitectura moderna, como uma realidade incontaminada e pura, porque substancialmente desligada da experiência da história, não envolvida num processo progressivo de ‘corrupção’ 135 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi da linguagem […]”1. O contexto em estudo contraria muitas vezes este pressuposto. Quando Horta Correia se refere à casa rural apresenta-nos especificamente a casa senhorial, um tipo de casa que denominamos de excepção, onde se enquadram os solares, as quintas senhoriais que se multiplicaram, durante o século XVIII, à volta das principais cidades e aglomerados sobretudo nos concelhos de Faro e Tavira. A tendência, sobretudo nas classes médias urbanas, em possuir uma segunda habitação (casa da cidade e a casa do campo), traduziu-se na proliferação de algumas construções mais eruditas. Enquanto modelos mais sofisticados, estas casas terão provavelmente influenciado, segundo o mesmo autor não só a nobreza fundiária como o lavrador plebeu. Horta Correia fala-nos desse processo de “miscigenação” encorajado durante o século XVII e de que resultam muitas adaptações, ampliações de casas de lavradores plebeus, pela nobreza fundiária – “[…] As diferenças entre a casa popular algarvia e o ‘monte’ de lavrador rico, confinam-se à dimensão mais do que à essência tipológica […] as diferenças são relativas ao dimensionamento das divisões […] morfologia dos vãos e pormenores decorativos […]”2. O monte algarvio, composto pela casa do proprietário e as restantes dependências agrícolas, destaca sempre a habitação em relação ao conjunto, o que não acontece no monte Alentejano. Ao conjunto poderia ainda ser associada uma capela com comunicação directa e com acesso exterior, o que acontecia normalmente nas quintas de maior nobreza. Por outro lado no estudo Arquitectura popular no Algarve é salientado o tipo de casa generalizado no meio rural. Abordando-a consoante as diferenças geográficas, estes encontram nas circunstâncias do lugar a sua principal condicionante. No meio rural participam de forma mais evidente o clima, a orientação solar, os tipos de cultura e produção. A sua localização ou assentamento, quer na encosta ou nas terras mais baixas propõe particularidades que definem os vários tipos existentes nas diversas regiões. A partir do mapa tipológico apresentado no Inquérito à Arquitectura Popular, encontramos na freguesia rural de Estoi alguns modelos de habitação do Algarve Central ou Algarve Calcário. Encontramos assim uma habitação que se revela corrente em Estoi, assente num esquema caracterizado por divisões quadrangulares, modulares - “com cobertura mista, composta pelo telhado e açoteia e em termos construtivos com base numa alvenaria de calcário ou caliça, tijolo e taipa, com pavimento em tijoleira e vãos guarnecidos a cantaria”3. Este tipo conhece diversas variantes correspondendo normalmente a duas divisões viradas para a entrada separadas por um corredor que se prolonga até à cozinha, ou ainda a três divisões geometricamente semelhantes e inter-comunicantes. Mas de uma forma geral a casa rural que vemos representada pelos montes de lavradores em torno da freguesia é uma casa de um só piso orientada a Sul, organizada segundo células, divisões modulares inter-comunicantes para onde se abrem as alcovas e a sala de visitas. Este esquema planimétrico encontramos também em meios urbanos ou na casa urbana com as variações correspondentes às condicionantes impostas pela matriz urbana.
    • 1 O entendimento de tipo é aqui Neste esquema de casa corrente encontramos o espaço organizativo inicial a orientado no sentido de “esquema” partir da qual se vão agregando outras divisões, “casas“, onde funcionam as estrutural base alcovas, ordenadas quer longitudinalmente quer perpendicularmente à frente de rua, variando consoante a parcela, ou no caso do monte orientada a Sul. A cozinha permanece como o espaço mais facilmente reconhecível dada a presença da chaminé. Está articulada quase sempre com um pátio interior onde se localiza também o forno de pão. Esta estrutura organizativa pressupõe um sistema de “casa aberta” em que consoante as necessidades funcionais ou económicas, se vão agregando novos módulos, células, sendo o espaço exterior o elemento de distribuição ou apropriação, conhecendo por isso diversas variantes. A própria expressão casa de fora ou casa de entrada veicula esse mesmo entendimento de construção que se agrega formando um conjunto, de onde normalmente vem destacada a frente principal da casa. Chegamos assim como ponto de referência ao tipo1 de habitação generalizado, referenciado no mapa tipológico atrás referido, e cujo programa funcional varia entre os seguintes parâmetros: a áreas de habitação alcovas; casa de fora ou casa de entrada; casa de jantar. b áreas de serviço interiores cozinha; celeiro/arrumos; armazém; estábulo e palheiro. c áreas de serviço exteriores forno; pocilga ou chiqueiro; galinheiro; cisterna. d sistema construtivo geral alvenaria de calcário ou caliça, tijolo maciço e taipa; cobertura mista composta pelo telhado e a açoteia; vãos guarnecidos a cantaria. A característica destas construções consiste essencialmente na adição de espaços, salas com planimetria próxima do quadrado, sem determinação do uso, e na sua reciprocidade. A cozinha e a casa de fora com relações funcionais quase sempre directas são quase um facto unitário e básico nestas estruturas. A ambivalência desta arquitectura é ainda ulteriormente sublinhada pela presençaFig. 31 de um corredor que vai dividir o edifício em duas partes distintas.Habitação no Algarve Central A transferência de uma estrutura como esta para uma malha urbana, condicionadae Baixo Algarvein AA.VV., Arquitectura Popular em à parcela, ou à forma do quarteirão, pressupõe o reajuste e uma reorganizaçãoPortugal, vol. 3, 3a edição, 1988, de características sobretudo ao nível das dependências de serviço. A frente dep.226 habitação prevalece contudo demarcada. As outras valências agregam-se em função da parcela quer no prolongamento da frente de rua, quer colocadas na parte posterior do lote ou viradas para uma rua mais secundária. Podemos assim afirmar que relativamente ao tipo mais generalizado, tanto o podemos encontrar de forma isolada, localizado num monte ou quinta, como integrado na malha urbana como é o caso de Estoi, traduzindo-se na fachada e na conformação da parcela a sua principal distinção.
    • Análise tipológica: A transformação da forma urbana resulta na maior parte das vezes de uma identificação e caracterização alteração e evolução das necessidades elementares traduzindo-se em modos de apropriação e ocupação mais espontâneos. “[…] a casa do meu pai era Enquanto elemento de unidade é na frente de rua que reside grande parte da pequena. Como tinha um identidade do núcleo, conferindo-lhe leituras e interpretações diversas consoante o bocadinho de rua ele fez mais modo como se relaciona com o espaço urbano.duas casinhas ao lado. O quarto A fachada traduz ainda, na maior parte das vezes, um esquema tipológico que, e uma casa de fora.[…]”1 salvo algumas excepções, reflecte o vinculo especifico a um tipo arquitectónico dominante. Partindo dos dados mais antigos referentes ao conjunto edificado de Estoi conseguimos, com base no mapa de Estoi de18002, chegar a uma primeira tentativa de caracterização. (Fig. 32) A identificação de algumas características presentes neste período permitiu uma reinterpretação do seu conjunto hoje, percebendo de que forma alguns modelos, 137 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi então correntes, se prolongaram ou transformaram. Analisando a referida representação encontramos de forma generalizada a tipologia de habitação térrea apenas com um único acesso. A articulação com o exterior corresponde assim à porta enquanto único elemento de entrada de luz e arejamento, situação que vemos muito próxima do tipo de casa elementar3. As coberturas variam de uma maneira geral entre duas e quatro águas consoante a dimensão e a forma da parcela. No entanto verificamos ainda algumas excepções à casa térrea dominante e que revelam uma maior sistematização da composição da fachada. A casa de dois pisos surge com um carácter excepcional, com uma composição de fachada apoiada em três vãos, dois na parte superior e um central na parte inferior, ou ainda de quatro vãos, integrando uma janela e uma porta no piso térreo. Ao esquema volumétrico da fachada de dois pisos, próximo da forma quadrangular, pode associar-se por vezes um módulo correspondente ao armazém ou a outra dependência equivalente a mais uma célula interior. Nestas habitações as coberturas apresentam ainda telhados múltiplos que se fazem corresponder estruturalmente ao esquema celular dominante. Representado ainda com dois pisos aparece-nos um outro tipo de edifício que podemos associar ao estábulo ou cabana e palheiro ou ao lagar que gozam do pé direito duplo, e que são ainda muito presentes hoje nalgumas tipologias encontradas. Podemos afirmar que a partir da referência cartográfica mais antiga de Estoi conseguimos perceber quais os tipos de frente dominante e ainda relacioná-los e reencontrá-los hoje de uma forma ainda muito difusa no núcleo mais antigo. Esta poderá estar na base da identificação do um dos tipos correntes que através da repetição e variação foi conformando a frente e a identidade do conjunto edificado no núcleo. O conhecimento das casas hoje numa perspectiva morfo-tipológica obrigou necessariamente a entrar dentro do lote e a reconhecer qual a estrutura1 registo oral de Maria Celeste morfológica base. Viegas do Vale, citado por Emanuel O estudo que se segue incide sobre uma amostra de casos levantados no núcleo Sancho, recolha de registos orais na freguesia de Santa Bárbara de urbano de Estoi. Nexe. Este material permitiu-nos organizar grupos em função de semelhanças e2 Ver Anexos – Tratamento de fontes proximidades, enquadrando-os enquanto variações de um determinado tipo. documentais. As condições físicas, morfológicas, climáticas inerentemente presentes constituem3 Na obra Arquitectura Tradicional factores capazes de conferir diferenças ao nível formal, ao nível de métodos de Portuguesa faz-se referência ao conceito de casa elementar ou casa construção, no tipo programa, estabelecendo regras de organização, modos de monocelular constituída por apenas ocupação e apropriação específicos. A todos estes aspectos se aliam ainda as uma célula, de forma quadrangular condicionantes histórico-culturais e económico-sociais específicas. e composta de apenas um acesso que serve simultaneamente de arejamento e iluminação. Nela No entanto interessou-nos fundamentalmente perceber neste levantamento qual poderá assentar a base elementar a relação predominante que a casa urbana de Estoi estabelece com o espaço sobre a qual se processaram público, qual a sua organização funcional e distributiva, articulando estes dados inúmeras variações e transformações com a época de construção, localização e a dimensão do lote. reconhecíveis também neste núcleo. A distribuição funcional constitui assim um aspecto determinante enquanto Ver sobre este assunto F. Galhano e E. V. Oliveira, Arquitectura..., op. cit. condicionante do seu crescimento e forma. A escada traduziu-se sempre, neste
    • Cabana/ Armazém/ Lagar Cobertura: telhados de 1 água/ 2 águas/ 4 águasCasa térreaCobertura: telhados de 2 águas e 4 águas Casa de 2 pisos Cobertura: telhados múltiplos de 4 águas
    • página 138 contexto predominantemente de um só piso, como um elemento secundário. EstaFig. 32 surge quase sempre resultante de uma necessidade de acrescento de mais umaEsquema de composição das fachadasde Estoi a partir do mapa de 1800 espaço de arrumos ou de lavoura, poucas vezes como elemento estrutural de distribuição. Ainda em termos de programa interessa-nos perceber a permanência de determinadas dependências domésticas e fortemente associadas ao contexto rural como o palheiro, a cabana ou o armazém. Os tipos de material utilizados, os sistemas construtivos constituem também elementos relevantes enquanto definidores de determinadas características formais. O estudo da relação entre o tipo construído e a forma urbana é o meio de compreender a sua estrutura, aquilo que a condiciona e comprime, daí que o o entendimento do tipo pressuponha a relação e cruzamento destes mesmos parâmetros. A análise tipo-morfológica1 tomou assim como critério o estudo das suas lógicas e relações com base nos seguintes parâmetros: 139 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi a matriz de organização interna, usos; b dimensionamento do lote e relação entre edificação/ logradouro; c estrutura viária – lote/quarteirão; d época de construção e modo de ocupação do lote; e aspectos construtivos e elementos de identidade arquitectónica. Esta análise pressupõe chegar a um conhecimento da matriz urbana mais sólido e a um entendimento sobre o tipo de relações que o conjunto edificado foi estabelecendo com a estrutura urbana. Interessou-nos fundamentalmente tomar como base de trabalho os exemplos de repetição2. Não incluímos por essa razão nesta amostragem o prédio de rendimento cuja tipologia introduzida nas últimas décadas tem estabelecido uma situação de ruptura face ao tecido tipológico predominante. Este constitui a nosso ver, o resultado da transferência de um modelo mais urbano, onde a falta de espaço e a densidade populacional pressupõem uma necessidade de edificação em altura, situação que neste contexto não nos parece fazer muito sentido. Da recolha efectuada ao conjunto edificado actual registamos muitas alterações e transformações, tornando-se por vezes difícil, em certos casos, reconhecer a sua matriz inicial ou a forma elementar base. Esta indefinição prende-se com a grande dificuldade em destrinçar os diversos tempos dentro de uma tipologia, muitas vezes apenas identificáveis ao nível da fachada. Verificamos assim muitas variações e adaptações resultantes quer de situações de agrupamento quer de subdivisão de módulos ou parcelas e que se traduzem numa maior transformação e distanciamento face ao esquema inicial. Esta situação é mais presente sobretudo nas casas localizadas no núcleo alto, mais condicionadas a uma estrutura viária exígua, a quarteirões mais comprimidos e a uma matriz urbana mais antiga. Com vista a um melhor entendimento tipo-morfológico do núcleo preocupamo-nos sobretudo em identificar aquilo que é verdadeiramente estrutural nos esquemas tipológicos. Optámos por identificar singularidades e semelhanças através da repetição de determinados esquemas planimétricos, expressos quer em termos de fachada quer em termos de planta, relacionando-os simultaneamente com a localização e o tempo cronológico. O enquadramento cronológico das tipologias é fundamentado num conjunto de características tipológicas que nos traduzem proximidades e aspectos específicos associados a determinado momento temporal.1 Ver sobre o tema F. Barata Fernandes, Transformação..., op. cit. Organizando os esquemas tipológicos do ponto de vista formal encontramos2 Idem “[…] A obra arquitectónica enquanto produto de um processo fundamentalmente dois tipos de casa que se repetem de forma corrente conceptual foi sempre objecto constituindo estes a base tipológica dominante, intrinsecamente relacionada com de critérios de classificação de as diferentes unidades morfológicas encontradas. tipificação – pressupondo duas Delas encontramos naturalmente um conjunto de variantes inerentes às diferenças correntes complementares a regra, a excepção, a repetição e a de parcela , lote e localização e que resultam em derivações do esquema inicial singularidade”. por agrupamento de espaços na horizontal, em profundidade ou na vertical.
    • Identificamos assim dois tipos de casa que se distinguem fundamentalmente pelaexistência ou não de um espaço de distribuição: 1 casa sem divisão de distribuição; 2 casa corredor ou com divisão de distribuição.Do material levantado resultaram cinco quadros de análise distintos:Os quadros I e II relacionam a época de construção de cada grupo, com alocalização geográfica no núcleo, relacionando os parâmetros de estudo.Os quadros III e IV apresentam de forma sistematizada os espaços primários ouestruturais das habitações e a relação dos parâmetros de abordagem utilizadospara os dois esquemas tipo encontrados.Cada quadro integra um grupo (A e B) de tipologias que representam o conjuntode variações de cada tipo.O quadro V - Grupo C representa um conjunto de exemplos de excepção queconstituem já derivações distantes dos dois tipos dominantes identificados. Pareceu--nos importante contudo registá-los enquanto eventuais exemplos de transiçãoentre tipos, ou enquanto modelos de outros esquemas tipológicos distintos.Assim temos:Quadro IA Casa sem divisão de distribuição - Grupo AReúne um grupo de exemplos cuja base estrutural obedece a um esquema comumenquadrando-se cronologicamente entre os séculos XVI e XVIII até ao século XIX.Localizam-se com maior incidência no núcleo alto, isto é na malha urbana maisantiga.Quadro IICasa corredor ou com divisão de distribuição - Grupo BEste quadro reúne um grupo de exemplos da casa corredor introduzidos no núcleodurante a primeira metade do século XX, localizando-se privilegiadamente naparte baixa do núcleo.Quadro IIIEste relaciona os dois primeiros grupos A e B sublinhando os espaços primários ouestruturais destas habitações (a cozinha, a casa de fora e o corredor).Quadro IVEste relaciona os dois primeiros grupos A e B ao nível do seu esquema estruturalbase, relacionando-os com os diferentes parâmetros utilizados.Quadro VCasas excepção - Grupo CEste quadro reúne um conjunto os exemplos de casa excepção cuja configuraçãoe tipo de organização se distancia dos dois esquemas dominantes. A sualocalização é variável ao longo do núcleo urbano.
    • 1 Da casa sem divisão de Estrutura e a matriz de organização interna; distribuição Correspondem às casas cuja planta vem definida por uma distribuição em (Quadro I - Grupo A) profundidade de dois espaços próximos da forma quadrangular ou rectangular no mesmo piso. Em termos de estrutura reconhecemos os duas divisões elementares: a cozinha e a casa de fora. Este esquema parece derivar de um espaço quadrangular único que se multiplica em profundidade. Apoiada numa lógica de espaços intercomunicantes a divisão que se relaciona com a frente de rua pode absorver usos variados, desde a casa de fora, a alcova, a sala de estar, de armazenagem, reconhecendo-se a cozinha pela existência do elemento chaminé. Podemos encontrar em certos casos uma adição lateral de espaços, sobretudo quando se tratam de parcelas com uma dimensão em profundidade mais reduzida. Cada espaço pode ainda apresentar múltiplas subdivisões. Como podemos referir “[…] a característica determinante da casa com 141 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi desenvolvimento em profundidade não consiste tanto no princípio aditivo mas sobretudo na relação de recíproca dependência das diversas partes constituintes”1. No caso das casas com dois pisos esta planta vem repetida, apenas suprimida pelo elemento escada que ora se desenvolve numa das paredes laterais da parcela, ora aparece apenas como elemento secundário de acesso a um espaço de celeiro ou arrumos. A escada surge resultante de um processo de ampliação na vertical da habitação. Esta desenvolve-se quase sempre na perpendicular à fachada e surge como eventual resposta a uma limitação da parcela, já esgotada na profundidade. Não é por acaso que esta situação aparece sobretudo no núcleo elevado, também o mais condicionado. Podemos ainda referir em termos de programa a presença, ainda que já muito furtiva, da cabana e do palheiro, espaços que progressivamente foram sendo ocupados para armazenamento. Podemos encontrar na casa de dois pisos uma distribuição funcional correspondente a uma fracção - com cozinha e sala no piso térreo, celeiro no piso superior ou ainda com armazém/ estábulo no piso inferior e espaço doméstico no segundo piso; ou a duas fracções (duas habitações que se repetem com configurações semelhantes nos dois pisos). Dimensionamento do lote e relação entre edificação/logradouro Esta varia consoante a localização da parcela no núcleo urbano. Encontramos algumas casas cuja dimensão não ultrapassa entre os 5 e os 6.5 de largura do lote, variando na profundidade entre os 13 e14 metros. Nos casos de lote de frente mais larga, a configuração da planta aproxima-se da forma quadrangular, variando na profundidade e largura entre os 7 e 10m. O espaço não edificado reduz-se apenas a pequenos pátios localizados na parte posterior do lote ou ainda a açoteias. Mas de uma forma geral dadas as condicionantes de dimensão do lote em profundidade o logradouro é variável consoante a sua localização no tecido urbano. Relação do lote com o traçado viário As configurações das parcelas variam entre o esquema rectangular, estreito e comprido e a forma quadrangular, formas estas que se transferem para a própria fachada. Esta representa quase sempre a frente de menor dimensão orientada para a rua. A relação com o relevo faz-se na generalidade dos casos, numa relação de perpendicularidade em relação às curvas de nível. Encontramos casos onde a casa se desenvolve em patamares, acompanhando os desníveis do terreno reflectindo-os na própria organização interna, com a introdução de degraus sucessivos para cada patamar. Esta relação sobrelevada em relação à via encontramo-la com alguma incidência nas frentes de fachada de algumas ruas, sobretudo no núcleo alto, rua Pé da Cruz ou na Rua Visconde de Estoi. Estas ruas desenvolvem-se em linhas de festo, logo os lotes e parcelas organizados na perpendicular registam internamente grandes desníveis de cota entre a frente principal e frente posterior.1 AA.VV., La costruzione del territorio..., op. cit. O desnível em relação à rua vence-se por vezes por intermédio de degraus
    • exteriores paralelos à soleira, ou noutros casos, pode ainda existir um poial que avança sobre a rua e de onde partem os patamares na perpendicular. Da fachada/acessos/ aberturas A frente apresenta na generalidade um só piso ou dois traduzindo em termos de configuração quer um rectângulo quer um quadrado. Esta geometria pode ser alterada quando vem associada uma divisão lateral. As aberturas orientam-se quase exclusivamente para a fachada principal, onde podemos encontrar a seguinte composição: uma a duas janelas + uma a duas portas - restando a frente posterior resumida a um acesso directo à cozinha. Época de construção e modo de ocupação do lote As condicionantes geomorfológicas e da estrutura urbana são determinantes para a individualização do lote, na sua colocação no tecido, na relação e ajuste com os outros tecidos. Nesta amostra percebemos que é no tecido mais antigo, no núcleo urbano localizado a uma cota mais elevada que encontramos o espaço construído mais estratificado e condicionado, também porque foi aquele que sofreu maiores transformações no tempo. Este grupo de casas apresenta formalmente lotes de dimensões mais reduzidas com desenvolvimento em profundidade logo mais condicionadas lateralmente. Podemos verificar que morfologicamente estas parcelas se situam cronologicamente entre o século XVI e o século XIX. Neste extenso período temporal registam-se diversas transformações morfológicas1 Algumas das casas levantadas quer na profundidade quer na vertical, salientando-se em algumas o esgotar da foram já destruídas recuperando- seu esquema1. -se o seu registo nos arquivos da Câmara, nos processos de licenciamento nos quais se Aspectos construtivos gerais identificaram as últimas alterações. As casas apresentam na generalidade uma alvenaria de pedra irregular misturada Estas traduzem-se na maioria com caliça revestida a reboco e caiada. das vezes em intervenções de substituição integral. Este tipo de alvenaria aplica-se às paredes periféricas e à parede principal de divisão na qual se faz corresponder a cumeeira da cobertura. A cobertura é feita quase sempre em estrutura de madeira e caniço revestida com telhas. A casa pode ainda apresentar uma açoteia, normalmente assente numa estrutura abobadada e depois revestida com ladrilho tradicional. Os pisos intermédios são em vigas e réguas de madeira, sendo as paredes interiores na maior parte dos casos em tijolo de “burro” ou adobe. Grupo A Considerando os diversos níveis de crescimento e transformação tipológica: Os casos de estudo na vertical - com o acrescento de um piso ou na horizontal, em profundidade, procuramos identificar as principais variações tipológicas a partir do tipo de Casa sem divisão de distribuição (Ver quadro I). Na amostra de casas recolhida percebemos que apesar das diferenças morfológicas, núcleo alto, núcleo baixo, a casa térrea domina na generalidade a sua imagem urbana. Podemos designar como esquema base do tipo Casa sem divisão de distribuição a casa térrea com um só vão (porta) ou ainda com porta e janela; São contudo muito escassos os exemplos relativos a esta situação sendo que os exemplos mais difusos correspondem à sua derivação para a casa de dois pisos. A sua variação pressupõe quase sempre uma transformação ou por acrescento de divisões na frente de fachada, por associação de uma parcela, ou ainda por ampliação vertical mantendo-se a dimensão do lote. Apoiando-nos em duas tipologias localizadas na parte alta do núcleo conseguimos perceber de que forma um mesmo esquema base pode sofrer mutações. Os dois exemplos que se seguem enquadram-se cronologicamente entre os séculos XVI e XVIII.
    • Casa na Rua da Barroca Localizada num dos eixos de formação estruturantes do núcleo podemos (casa A1 - Quadro I) enquadrá-la no modelo de casa elementar. Este exemplo constitui um esquema base no qual terá assentado parte da matriz tipológica do núcleo alto. Corresponde em termos formais a uma parcela rectangular assente na repetição de duas divisões quadrangulares em profundidade. Apresenta dois espaços para onde comunica um só acesso, o que equivale em termos de fachada, a uma porta e uma janela, esta última já posterior. Em termos de dimensão e forma aproxima-se da medida agrária medieval “chão “ assente nos 6.5 metros de largura por13 metros de comprimento. O espaço não construído cinge-se a um poial de acesso ou espécie de “átrio” exterior que antecede o acesso principal e se organiza paralelamente à rua. A moldura quinhentista denuncia a ancestralidade deste esquema tipológico. A casa confronta a norte com a cerca da Quinta de Estoi, situação que explica de certa maneira a estabilização da configuração do lote em profundidade. 143 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi A1Casa na Rua Visconde de Estoi A parcela organiza-se em no sentido Sul - Norte. Esta terá partido de uma base (casa A2 - Quadro I) métrica inicial assente entre 4 e os 5 metros de largura por cerca de 13 metros de profundidade, área correspondente hoje ao espaço de habitação. A casa resulta de dois processos de ampliação. Um vertical que aproveita o desnível do terreno para introdução de um sobrado, implicando assim, o aparecimento de uma escada secundária de acesso a uma zona de arrumos. Manteve-se contudo a leitura da fachada térrea no sistema de porta e janela, onde ambos os vãos confinam com as paredes meias. A ampliação em profundidade terá contribuído para o aparecimento de outras dependências de serviço, ocupadas pela cabana e o palheiro e que dão acesso para a rua posterior (aberta apenas no século XX). Traduziu-se assim num reaproveitamento em profundidade do quarteirão, já que, ao contrário do último exemplo não existe nenhuma cerca condicionante. A articulação entre divisões faz-se por abertura de portas na correspondência do vão principal de acesso. Os espaços são intercomunicantes permanecendo, a frente principal, como o espaço de alcova ou também designado de casa de fora, a que se opõe na parte posterior, a área de serviço, nomeadamente a cozinha e o celeiro. A2
    • A variação tipológica do esquema tipológico assente em duas divisões organizadas perpendicularmente à rua traduz-se também por ampliação na vertical. Nos exemplos de casa com dois pisos encontramos como situação recorrente a correspondência dos vãos no piso superior. Não possuindo mais do que quatro vãos, dois em cima e dois em baixo, o esquema pode variar do seguinte modo: - duas portas no piso térreo correspondendo uma à porta principal de acesso e outra de acesso ao segundo piso ou ainda para acesso ao pátio interior. A comunicação com o piso superior faz-se a partir de uma escada de tiro que desemboca directamente num dos acessos principais. Este esquema pode integrar uma a duas fracções. Nos exemplos levantados registamos ainda o aumento lateral do lote por associação de parcelas ou espaços, o que correspondeu ao aumento da frente de fachada. Essa ampliação lateral poderá representar a mais, uma divisão de arrumos ou alcova.Casa na Rua Pé da Cruz n° 45 Trata-se de uma parcela que terá partido de uma base métrica inicial assente (casa A3 - Quadro I) entre 4 e os 5 metros de largura por cerca de 13 metros de profundidade, área correspondente hoje ao espaço construído. O seu processo de transformação terá sido numa primeira fase resultante da subdivisão de uma das células - cozinha, para cozinha e celeiro (arrumos) e, numa segunda fase, pela construção de um segundo piso. No segundo piso repete-se a organização funcional do piso inferior. O desnível do terreno não permitiu uma ampliação em profundidade, implicando que todas as transformações se fizessem na vertical. Esta representa em termos de fachada, a casa de dois pisos, na qual se integram algumas variantes encontradas. A3
    • Casas na Rua da Conceição, Estes exemplos representam variantes por ampliação lateral do lote. Largo Humberto Delgado Em termos de fachada apresentam aspectos que se aproximam da matriz inicial. O e Rua Marçal Lourenço alargamento do lote por crescimento lateral corresponde na generalidade a uma(casa A4, A5 e A6 - Quadro I) divisão, traduzindo um aumento da fachada entre os 2,5 metros e os 3,5 metros, situando-se a dimensão final entre os 10 metros com uma altura que ronda os 5,5 metros. Nos dois primeiros exemplos a segunda porta corresponde ao acesso para o pátio interior, enquanto no terceiro exemplo uma das portas corresponde ao acesso para o segundo piso. Apesar das múltiplas subdivisões é ainda possível interpretar em ambas a matriz base assente na casa ambivalente, onde tanto a cozinha como a casa de fora permanecem como elementos estruturantes da sua matriz. A4 A5 A6 145 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • 147 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 33 (páginas 146-147, 149)Quadro I – Grupo A: Da casa semdivisão de distribuição (sem escala)
    • 149 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 34 (à direita)Alçados IIdentificação de algumas frentes com proximidades ao Grupo A1 Rua de São José, frente Norte2 Rua da Igreja, frente Poente3 Rua Cândido Guerreiro, Rua da Conceição, Largo Ossónoba, frente PoenteFig. 35 (páginas 152-153)Alçados IIIdentificação de algumas frentes com proximidades ao Grupo A4 Largo Ossónoba, Rua da conceição, Rua Cândido Guerreiro, frente Nascente5 Rua do pé da Cruz, frente Poente6 Rua do pé da Cruz, frente Nascente7 Rua Visconde de Estoi, frente Sul8 Rua Visconde de Estoi, frente Norte
    • 151 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • 153 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • 2 Da casa corredor ou Estrutura e a matriz de organização internacom divisão de distribuição Nesta casa identificamos como principal alteração estrutural aos esquemas (Quadro II- Grupo B) precedentes a presença do corredor. Com a introdução de uma maior especialização nos conceitos de habitar, a partir do século XIX, contribuiu-se na vulgarização, sobretudo no início do século seguinte, do elemento corredor como espaço de distribuição entre as várias dependências domésticas. Na Casa corredor encontramos uma fachada principal apoiada em três vãos, cuja métrica assenta num eixo de simetria correspondente ao acesso principal da habitação. A matriz interna revela em termos formais a associação de células próximas do quadrado, organizadas simetricamente a partir do eixo central que pode corresponder ao corredor ou espaço de átrio, ou ainda à casa de fora. Estas fazem ainda corresponder em termos interiores a espaços na generalidade abobadados. Esta transformação tipológica decorreu progressivamente através do estreitamento 155 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi do espaço central – casa de fora para o corredor. A sistematização funcional obrigou assim a uma maior racionalização em termos planimétricos. Apesar de algumas alterações há permanências ao nível de localização e em termos de programa. A cozinha prevalece sempre posterior à frente de rua principal, a que se associam as outras dependências de lavoura. A porta de entrada inicialmente sempre confinada a alguma parede meia ou estrutural passa a localizar-se ao centro da fachada associada ao espaço -casa de fora ou directamente com o corredor. No seu prolongamento encontramos a cozinha, com a chaminé, de onde parte a escada de acesso ao piso superior, sobrado e à açoteia. A presença da escada nestas tipologias aparece na generalidade associada à ligação com dependências secundárias, sobrados ou açoteias, não assumindo um lugar de destaque na organização funcional. Dimensionamento do lote e relação entre edificação/logradouro As tipologias apresentam parcelas cuja dimensão varia entre 8,50 e 20 metros de frente, atingindo em profundidade valores mais irregulares. A massa edificada apresenta-se consoante a localização do tecido ora dominante, ora suprimida em relação ao espaço exterior existente (lotes de matriz rural) mas de uma forma geral este tipo pressupõe uma frente de fachada para com três vãos aos quais corresponde uma divisão. Esta estrutura repete-se de uma forma geral no núcleo mais baixo onde as limitações do lote não se colocam de forma tão presente como nas tipologias do Grupo A (Casa sem divisão de distribuição). Daí que são lotes que quase sempre incluem um logradouro onde permanecem mais uma vez as dependências domésticas relacionadas com o espaço da cozinha. A frente de fachada também revela aspectos distintos. A introdução da platibanda vem acentuar uma maior verticalidade. Enquanto no primeiro grupo (Casa sem divisão de distribuição) a frente varia entre 3 e 6 metros, na casa corredor a dimensão da fachada oscila entre 4 e 7 metros. Relação do lote com o traçado viário A fachada organiza-se no esquema base - janela / porta/ janela evidenciando–se ao longo do núcleo as diferentes derivações que este tipo pode sofrer. Estas reflectem-se na multiplicação de vãos e numa maior horizontalidade da frente de rua, aos quais correspondem directamente novos compartimentos. Verificamos também na maior parte dos casos que o segundo piso apenas corresponde ao aproveitamento de um sobrado recuado que permanece na generalidade oculto pela platibanda na frente da fachada. Nestas casas há a destacar a presença constante do elemento portão de acesso a um armazém, normalmente usado para depósito dos produtos provenientes das quintas ou hortas da freguesia, apresentando este, diferentes formas de ocupação no lote e de relação com o espaço exterior. Época de construção e modo de ocupação do lote Este tipo base começa a introduzir-se nos finais do século XIX, ganhando maior adesão e sucessivas reinterpretações durante a primeira metade o século XX. Os
    • principais exemplos localizam-se nos eixos de expansão da primeira metade do XX como a Rua de Faro e Rua João de Deus. As parcelas apresentam maiores dimensões e uma maior regularidade. As parcelas mais irregulares localizam-se no núcleo mais antigo reflectindo o maior constrangimento da malha urbana existente. Aspectos construtivos gerais Esta casa prolonga em termos construtivos grande parte das características referidas na Casa sem divisão de distribuição, nomeadamente na presença de açoteia e telhado, na utilização de uma alvenaria mista, sendo contudo de destacar o revestimento interior dos tectos abobadados com acabamentos a estuque. As divisões mais nobres são na generalidade abobadadas (alcovas com abóbada de berço) ou cobertas por um sistema de dormentes correspondendo, na maior parte das vezes, à açoteia. A esta acede-se por uma escada interior, muitas vezes de madeira, que permite ainda o acesso a um sobrado, normalmente espaço reservado a arrumos. As dependências de serviço (cozinha ou celeiro) mantêm um revestimento menos cuidado, em caniço. Registam-se contudo alguns exemplos de utilização de lajes de betão nalgumas casas dos anos 30. Na platibanda sobressaem os trabalhos decorativos em massa nomeadamente com técnicas de stucco e esgrafito. Grupo B Ambos os exemplos localizados na malha urbana mais antiga revelam Os casos de estudo condicionamentos em termos de lote e isso é muito perceptível pela maior irregularidade que apresentam. Casas na Rua F Pinheiro Canal, A adaptação fiel ao esquema estrutural apoiado no elemento central – o corredor Rua Marçal Lourenço e Rua permanece evidente. Arco de Santana Enquanto no dois primeiros se mantém o modelo das duas divisões frontais(Casas B1, B2 e B3 – Quadro II) separadas pelo corredor, no terceiro exemplo a assimetria em relação ao eixo central é evidenciada pela sucessão lateral. A casa da Rua F. Pinheiro Canal, revela algumas particularidades que se prendem com o ajuste a um lote cuja matriz terá sido precedente. Ao contrário dos restantes exemplos a zona da cozinha não integra o espaço doméstico tendo acesso apenas através do pátio interior. Nos restantes casos ela remata o próprio corredor. B1 B2 B3
    • Casas na Rua de Faro e Rua Nas primeiras duas casas na Rua de Faro percebemos uma maior complexidade João de Deus do esquema base traduzida pela multiplicação de divisões quer lateralmente,(Casas B4, B5 e B6 – Quadro II) quer em profundidade. O esquema estrutural apoiado no elemento central – o corredor é ainda muito evidente sendo de destacar nestes exemplos a presença do armazém ou loja localizado na mesma frente da fachada principal. Esta é uma marca corrente e muito perceptível sobretudo neste dois arruamentos, como principais eixos de expansão da primeira metade do século XX, onde o tecido parcelar mais generoso se confronta com o tecido fundiário rural. Estamos perante parcelas de maior dimensão traduzindo nesse sentido uma organização privilegiada, quer em profundidade, quer lateralmente. Podemos ainda acrescentar que este tipo foi progressivamente adoptado quase até aos anos 50, sofrendo variadíssimas derivações mas prolongando ainda hoje a imagem de 1 piso. 157 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi B4 B5 B6
    • 159 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 36 (páginas 152-153)Quadro II – Grupo BDa casa corredor, com divisão de distribuição (sem escala)
    • 161 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • As variantes de composição da A imagem mais generalizada do núcleo baixo surge assim associada à casa fachada na Casa Corredor Corredor, composta na base por três vãos: janela- porta- janela, apresentando esta em termos de frente variações dimensionais que vão entre os 8.5 metros e os 19.5 metros. A este esquema corresponde uma estrutura que assenta nas três divisões frontais ou duas e um corredor, (correspondentes ao espaço habitacional) e que se desdobram posteriormente para o interior do lote, onde se organizam os espaços de serviço. As variações em termos de frente resultam assim de uma expansão horizontal ou lateral, por associação de parcelas ou apenas de uma célula traduzindo-se em termos de frente de rua na multiplicação de janelas dispostas simetricamente ou assimetricamente em relação ao eixo central da porta.. Debruçando-nos nas habitações localizadas no núcleo mais baixo encontramos algumas variantes resultantes de diferentes dimensionamentos de parcela, traduzindo um maior ou menor número de vãos em termos de frente. 163 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi Esse aumento de vãos está naturalmente associado à multiplicação de células intercomunicantes, na frente de principal. Este aumento pressupõe uma frente com mais janelas predominando o modelo de composição - porta ao eixo e duas ou mais janelas laterais, a qual vem por vezes ainda associado o módulo do armazém. (Fig. 37) Encontramos assim diferentes esquemas tais como: janela + porta + janela: (j+p+j) janela + porta + janela + portão: (j+p+j +pp) dupla janela + porta + dupla janela: (j+j+p+j+j) dupla janela + porta + dupla janela + portão: (j+j+p+j+j+pp) janela + porta + tripla janela + portão: (j+p+j+j+j+pp) dupla janela + porta + tripla janela + portão: (j+j+p+j+j+j+pp) A uma frente pode variar entre 1a 3 vãos de janela simetricamente ou assimetricamente dispostos de forma regular de cada lado da porta principal e rematados pela platibanda. O esquema tipológico pode assim corresponder a três módulos frontais, composto pela casa de fora e alcovas laterais ou ao corredor central com duas ou mais alcovas laterais. O aumento da fachada pode ainda pressupor a introdução na mesma frente, de uma entrada de serviço ou armazém, marcada por um portão que pode revelar em termos compositivos, tratamentos distintos ou não. Esta distinção é mais evidente sobretudo nas casas da Rua João de Deus do que nas localizadas na Rua de Faro. Nesta última é frequente o portão aparecer na mesma frente da habitação recebendo o mesmo remate que a restante frente. Nos casos mais frequentes temos a cobertura mista, com a açoteia orientada ora a Sul ora para a rua principal, rematada quase sempre pela platibanda. Esta unidade de composição traduz um maior sentido de urbanidade em termos de frente de rua. A hierarquia de fachada, revelada pelo tratamento distinto entre fachada principal e as outras frentes laterais ou secundárias, tem correspondência com a matriz organizativa interna. As frentes de serviço representam na generalidade o acesso ao armazém ou ao palheiro, destacando- -se da fachada principal pela ausência de tratamento ou ornamentação.Fig. 37 (página 162)Esquemas de composição da Casacorredor - unidade mínima e variantes(sem escala)
    • Fig. 38 (páginas 164-165)Foto-montagem da Rua de Faro e Rua João de DeusIdentificação do tipo recorrente de Casa corredorRua de Faro, frente SulRua de Faro, frente NorteRua João de Deus, frente Sul
    • 165 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 39 (páginas 166-167)Quadro IIICaracterização morfo-tipológica dos dois grupos de casa recorrente (A e B)(sem escala)Legenda cozinha e dependências sala de entrada ou “casa de fora” corredor
    • 167 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 40 (páginas 168-169)Quadro IVCaracterização morfo-tipológica dos dois grupos de casa recorrente (A e B)(sem escala) Dimensionamento do lote e fachada unid. minima máxima A Frente 4,5 m 9,0 m Profundidade 12,5 m 15,0 m Volume/ altura 3,2 m 5,5 m B Frente 8,8 m 19,3 m Profundidade 10,0 m 17,0 m Volume/ altura 4,0 m 6,5 mA casa ambivalente, grupo A: século XVI-XVIII e século XIX-1a metade do século XXA casa corredor, grupo B: século XVIII e 1a metade do século XX
    • 169 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • As variações dos tipos. Da casa de fora ao corredorExemplos de transformação e O esquema de fachada da Casa corredor pode corresponder em termos transição de estrutura interna a duas matrizes organizacionais distintas e que variam (Quadro V- Grupo C) essencialmente, entre o tema do corredor e o da casa de fora ou casa de entrada. A casa de fora, encontramo-la na maior parte das tipologias desde o século XVI, aparecendo como a divisão base que “dá para fora”. Esta situação conhece contudo, a partir do início do século XX, algumas alterações quando este mesmo espaço vem progressivamente reduzindo, em termos de largura, dando lugar ao corredor. O corredor que pressupõe um sentido organizacional mais sistematizado, impõe uma nova lógica de circulação e distribuição que vem substituir e anular o anterior esquema apoiado em espaços intercomunicantes. Atravessando o lote perpendicularmente à frente da fachada, este divide e organiza o espaço interno de forma distinta. Em termos de composição da fachada esta correspondência não é, na maior parte 171 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi das vezes, muito evidente. O esquema dos três vãos prolonga-se variando apenas a distância entre os mesmos. Estes tanto podem denunciar três células iguais, como duas células e um corredor central. Em algumas habitações em Estoi podemos encontrar casos onde o esquema estrutural se apoia em três módulos ou espaços quadrangulares que constituem a frente principal e a que correspondem simetricamente outros três na fachada posterior. A introdução do corredor nas restantes tipologias levantadas terá resultado de uma diminuição do espaço central. Pensamos estar neste esquema a base de transição para o tipo corredor. Casa na Rua do Jardim Localizada no tecido morfológico formado no final do século XIX esta casa (Casa C6 – Quadro V) denuncia exactamente a situação de transição para o esquema de casa corredor. Embora não tendo corredor possui já como elemento central de distribuição designado ainda como sala de fora. Desta comunicam as restantes dependências quer laterais quer em profundidade. Em termos de fachada revela proximidades com o tipo corredor não coincidindo depois no esquema interior. C6 Noutros exemplos a correspondência entre organização interna e a fachada volta a não ser tão evidente como é o caso da casa situada no Largo Ossónoba (C3), Rua da Igreja (C4) e Rua Visconde de Estoi (C5). A fachada traduz nestes casos um tempo distinto face ao tipo de organização interna. Esta situação é na maior parte das vezes denunciada por desproporções que a própria fachada apresenta, revelando esse “esforço” pela introdução de um esquema mais actualizado sobre uma preexistência.
    • Casas no Largo Ossónoba, Rua Ambos os exemplos apresentam mais uma vez, uma composição de fachada muito da Igreja e Rua Visconde de próxima do tipo corredor. No entanto não existe o elemento corredor. Encontramos Estoi antes a casa de fora, ou uma divisão que por agrupamento se repete constituindo (Casas C3 e C4 – Quadro V) a matriz compositiva do esquema. Os dois exemplos organizam-se segundo duas divisões intercomunicantes que se repetem em profundidade. Este esquema sem elemento de distribuição que se estendeu até ao século XIX contraria a própria composição da fachada. A introdução da platibanda denuncia já os modelos utilizados no século XX. C3 C4 Da cabana, palheiro ao armazém A existência da cabana e do palheiro define uma permanência ao nível dos dois tecidos morfológicos. Se pensarmos que até a um determinado momento temporal o transporte e a mobilidade com o restante território era assegurado predominantemente pela “mula”, a presença da cabana e o palheiro eram necessariamente temas obrigatórios. É sobretudo no núcleo alto que encontramos esta dependência quer associada à fachada, quer integrada na parte posterior ao lote, quer mesmo por limitações de área de parcela, colocada no lado oposto da rua, justificando situações de apropriação sobre a mesma, como os passadiços, hoje já inexistentes (à excepção da Travessa José Esquível). Nalguns exemplos excepcionais n a casa pode nem transparecer esta diferença funcional. No Largo Ossónoba a casa que constitui a frente Norte, é composta por uma entrada para a cabana, organizando-se o palheiro a uma cota mais alta aproveitando a pendente da rua. A fachada não denuncia, contudo, a diferença funcional entre habitação e zonas de serviço, prolongando a métrica dos vãos ao longo da frente de fachada independentemente da organização interior. Estes vãos “falsos” escondem o verdadeiro uso que os distingue das zonas nobres da casa e revelam o maior sentido de urbanidade presente. Noutros casos encontramos o palheiro e a cabana destacados da restante composição de fachada. O corpo formado pelo armazém é na generalidade rematado com um beirado simples ou ainda sem remate. De uma forma geral esta distinção surge de forma mais evidente entre o que é frente principal e frente secundária, traduzindo funcionalmente os dois temas de uso.
    • Muitos destes antigos palheiros ou cabanas foram-se transformando progressivamente em espaços de armazenamento, adegas, dando lugar ao tema do armazém que teve como ponto alto, os finais do século XIX e inícios do XX, sobretudo nas novas casas que vieram ocupar os eixos do núcleo baixo. O armazém surge assim de forma mais difusa nas tipologias do início do século XX correspondendo ao lugar para armazenamento dos produtos, denunciando uma vivência mais mercantil. Este espaço surge sobretudo nas casas de lavradores, proprietários de terras que habitavam no núcleo, fazendo nele o armazenamento e a distribuição dos seus produtos. Traduz ainda a alteração no sistema de mobilidade antes apoiado na mula, depois na carroça e mais recentemente no tractor. A localização do armazém como de antigas cabanas e dos palheiros, surge no tecido urbano quer integrado na frente secundária da habitação, quer agrupado na mesma frente principal da habitação. 173 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi Casas na Rua do Pé da Cruz e As duas primeiras casas traduzem esquemas organizacionais distintos evidenciados Rua Visconde de Estoi pela presença de um armazém ou loja no primeiro caso e da cabana e do(Casas C1, C2 e C5 – Quadro V) palheiro no segundo. O primeiro exemplo (C1) traduz um tema introduzido no núcleo no início do século XX e que pressupõe um sentido mais mercantil. No piso inferior integra o espaço de loja ou adega e no piso superior a habitação. Este esquema vem introduzir em termos de composição de fachada um outro tema - três vãos no piso térreo que se repetem no piso superior, permitindo uma maior capacidade de adaptabilidade do lote a vários usos simultaneamente. O segundo caso (C2) remonta ao século XIX (datada de 1860) e constitui em termos tipológicos uma excepção, enquadrando um esquema organizacional e funcional mais complexo. A estrutura revela a lógica de repetição de divisões agrupadas na frente principal da casa, as quais correspondem à sala de entrada, a sala de visitas e um quarto, espelhando na parte posterior o mesmo esquema, ocupado então pela cozinha, sala de jantar e alcovas. Esta métrica muito regular repete-se novamente no piso superior. O volume de dois pisos associado lateralmente corresponderia à zona da cabana e palheiro que goza de duplo pé direito. A terceira casa revela um esquema apoiado em quatro divisões intercomunicantes - duas frontais e duas posteriores, franqueadas por um corredor intermédio. Da casa de fora ou sala de entrada comunicam outros quartos sendo a articulação com a cozinha franqueada pela presença de um corredor intermédio. A presença do palheiro e da cabana associados lateralmente revela também a antiguidade desta matriz em relação ao esquema da casa corredor que surge a par com o tema do armazém. C1 C2 C5
    • 175 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 41 (páginas 174-175, 177)Quadro VGrupo C. Das casas excepção (sem escala)
    • 177 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi
    • Fig. 42Vista interior de antiga cabanaCasa na Rua Furriel João Pinheiro CanalSetembro 2005
    • Aspectos construtivos e Já anteriormente referimos a importância das condicionantes morfológicas naturais, morfotipológicos gerais físicas e do próprio clima na determinação do tipo de assentamento. A par das actividades dominantes que influenciam modos de uso distintos, também os […] Em cada país, a arte de materiais que integram parte do território paisagístico disponível são determinantes fabricar regularmente nasceu de na aplicação de certos sistemas construtivos. um germe preexistente. Em tudo Estudar alguns dos principais sistemas construtivos é conhecer de que forma os é necessário um antecedente; próprios materiais implicam formas e configurações particulares.nada em nenhum género vem do Pareceu-nos desde logo importante abordar, em termos de organização temática,nada; isto não pode deixar de se os principais sistemas, materiais de construção e aplicar a todas as invenções dos elementos de composição, focando aqueles que consideramos serem os aspectos homens […]. construtivos gerais tais como as paredes, as coberturas, os pavimentos, a chaminé Antoine-Chrysostome Quatremère e forno, para além dos aspectos morfo-tipológicos gerais como os vãos e de Quincy, 1842 cantarias, remates de cobertura e os revestimentos. O espaço público é ainda referido pela sua importância enquanto “tecido” que estabelece a articulação não só entre as diferentes unidades morfológicas. como 179 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi com a própria paisagem que lhe é confinante. Da matéria No que se refere aos materiais de construção disponíveis e aos principais elementos que o identificam salientamos a sua importância enquanto base na elaboração e adopção de determinados sistemas construtivos. Podemos identificar os três elementos essenciais que reúnem a génese dos sistemas construtivos tradicionais encontrados: a terra, a pedra, a madeira e a cal. Da terra moldavam-se, nos vários vestígios de telheiros e olarias presentes pela freguesia, as telhas para as coberturas, os ladrilhos para os pavimentos, os algerozes e as gárgulas para a recolhas das águas. A recorrência à pedra calcária enquanto material dominante prende-se também com a existência de importantes pedreiras próximas na região e ainda sobreviventes1. Utiliza-se sobretudo para trabalhos em cantaria, nas molduras de vãos, nos elementos de composição das fachadas, como socos ou cunhais e ainda na construção de degraus ou pavimentos. A madeira encontramo-la como elemento estrutural no suporte de coberturas ou ainda dos pavimentos intermédios ou como elemento de composição, nas portas e janelas, nas portadas e reixas, ou como revestimento, no forro de tectos ou pavimentos. A cal assume-se predominantemente como elemento quer de revestimento, quer como ligante entrando na constituição das alvenarias, com características ainda impermeabilizantes, conferindo a plasticidade aos volumes e formas existentes. Na freguesia podemos ainda ver ainda alguns fornos de cal, hoje desactivados, mas que denunciam a forte dependência deste material para a construção tradicional. Dos elementos primários As paredes Tanto a terra, como a cal e a pedra calcária por vezes misturadas com outros materiais agregantes constituem a base da alvenaria tradicional. De uma forma geral a pedra aparelhada à vista é quase inexistente. Encontramo-la contudo em alguns dos muros de suporte que conformam os limites de propriedade ou em algumas construções menos nobres, como cabanas ou palheiros onde não se justificou, por razões económicas, a introdução de um reboco. Na maior parte das construções visitadas constatamos que domina uma alvenaria de pedra irregular, disposta com argamassa ou barro assente sobre uma fundação em pedra. A mais frequente é a pedra caliça, mais fácil de cortar e trabalhar sendo frequentemente usada nos arcos, vergas e ombreiras dos vãos. Este tipo de alvenaria exige quase sempre um revestimento para lhe conferir a solidez e uma maior protecção ao suporte.1 Referimo-nos às explorações de Mas a este tipo de alvenaria mais comum se pode ainda associar a taipa. pedra na freguesia; na proximidade Encontrámos algumas paredes em alvenarias de pedra irregular preenchidas temos como mais importantes as da Bordeira que eram inclusivamente com argamassas de cal, prolongando-se o mesmo pano, nos pisos mais exportadas em grandes quantidades elevados, com partes em taipa. Esta duplicidade de processos construtivos durante o século XIX. permite-nos perceber os diferentes momentos cronológicos numa mesma construção, os acrescentos ou sobreposições e a necessidade de recurso, em momentos distintos, a sistemas construtivos diferentes.
    • 1 Esta situação é mais evidente nas As paredes exteriores constituem, na generalidade, a estrutura portante da casas com telhados múltiplos dos habitação, sustentando directamente um telhado de duas águas ou uma açoteia, quais restam muito poucos exemplos2 Esta estrutura em madeira é cobrindo respectivamente parte ou a totalidade da casa. Estas configuram, na preenchida com tijolo ou ainda com maioria dos casos, os diferentes compartimentos da casa, traduzindo por vezes argamassa de cal e areia. essa organização interior para a cobertura1.3 Corresponde à aplicação do Como divisórias interiores encontramos com maior abundância o sistema de ladrilho sobre estrutura de vigas de madeira distanciadas à tabique2, estrutura de madeira depois preenchida a pedra e argamassa de cal, dimensão do ladrilho. São assim parede de tijolo de burro e muito pontualmente o sistema de parede em adobe. colocadas duas fiadas cruzadas, (Fig. 44) ou contrafiadas, argamassadas e podendo ser caiadas na parte Os pavimentos e tectos inferior e superior.4 Nas casas mais simples o pavimento O sistema construtivo mais frequente nos pavimentos exteriores, a par das era simplesmente de barro batido. abóbadas é o sistema de “dormentes”3. Este pode encontrar-se formando um5 A cobertura em telha vã, onde a pavimento intermédio ou ainda funcionando como alternativa à “laje abobadada”, telha se apresenta simplesmente pressupondo uma utilização superior exterior em açoteia. apoiada sobre o ripado. Quanto aos pisos intermédios estes são constituídos na generalidade por uma estrutura de barrotes em madeira que descarregam directamente nas paredes portantes laterais, onde assentam posteriormente as réguas. Estas ficam normalmente visíveis do piso inferior. Nas casas mais abastadas podemos ainda encontrar o forro do tecto em madeira pregado directamente à estrutura do pavimento ou ao telhado. Introduzido nos finais do século XIX e inícios do XX podemos encontrar aindaSistema em dormentes(Rua Pé da Cruz e Rua Furriel João Pinheiro nalgumas casas o sistema abobadilhado de tijolo de burro apoiado sobre perfisCanal) metálicos de ferro. Nos pisos térreos encontramos o revestimento em ladrilho regional rectangular (3x15x30cm) ou ainda quadrangular (21x21cm), conformando variadíssimos desenhos. Este material estende-se normalmente a todas as áreas inclusive aos pátios exteriores, substituindo em muitos casos os anteriores pavimentos de terra batida e cal4. (Fig. 44) As lajetas de pedra podem surgir muitos pontualmente nos estábulos, cabanas ou adegas que exigem uma maior resistência ao desgaste. Nas tipologias do início do século XX podemos ainda ver de forma mais difusa a utilização do mosaico hidráulico como revestimento das áreas de serviço e circulação (cozinhas ou corredores). A introdução de novos materiais esteve desde sempre associada a uma alteração nos processos de produção que, no tema em estudo, se começa a fazer sentir na primeira metade do século XX. A partir dos anos vinte e trinta constata-se a adopção de lajes que vêm substituir progressivamente o sistema portante de abóbadas ou “dormentes”. A laje maciça aparece assim profundamente difusa a partir dos anos 20 como comprovam algumas casas localizadas na Rua de Faro, implicando posteriormente alterações nas formas e dimensões tradicionais. Da cobertura O telhado Como elemento primário da construção tradicional este apresenta-se na generalidade suportado por uma estrutura de barrotes ou toros de madeira que se apoia, quase sempre, nas empenas ou fachadas, correspondendo estas a paredes portantes. Encontramos na generalidade os telhados de duas águas revestidos a telha de fabrico regional de canudo. As telhas apoiam directamente sobre uma estrutura encaniçada sustentada pelo referido vigamento. Nas áreas de serviço encontramos o telhado de uma só água. A utilização da cana entra com alguma predominância enquanto material disponível e alternativo ao ripado e reguado em madeira, conferindo ainda propriedades especificas de isolamento térmico e constituindo, na maior parte dos casos, o forro interior visível dos sobrados ou zonas de arrumos. A utilização do forro pode ainda nem existir5, como no caso dos estábulos, palheiros ou outras dependências que não se relacionam directamente com a habitação. (Fig. 43)
    • A açoteia A utilização da açoteia aparece associada com maior frequência à região central do Algarve ou ao Algarve Calcário. Este espaço terá estado ligado à necessidade de secagem de frutos e cereais, complementando em parte a função do pátio ou eira, num período onde esta produção constituía ainda uma importante fonte de riqueza. Normalmente orientada a Sul ou para a rua principal, a açoteia é a condição mais frequente no núcleo. Representa a par do telhado o tipo de cobertura mais dominante. O seu acesso pode ser exterior a partir de uma escada que parte do pátio ou interior acedendo através da cozinha ou do espaço do celeiro. Este sistema é composto por uma estrutura abobadada que sustenta o piso exterior. A abóbada, de berço ou artesoada, é geralmente construída com ladrilhos colocados a cutelo e de topo na parede central da abóbada. São quase sempre revestidas com argamassa e caiadas interiormente, podendo nalgumas vezes apresentar decorações em estuque. A parte superior é preenchida com terra de forma a permitir a compressão da 181 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de EstoiAçoteia com acesso exterior(Largo do Forno Velho) abóbada e depois revestida a ladrilho (3x15x30cm). Esta pode ainda ser, por vezes, ora revestida com sebo ora com uma pasta de cal que funciona de camada impermeabilizante e reflectora. A açoteia pode ainda apresentar-se exteriormente com uma pendente encurvada, interrompida por caleiras, coincidentes quase sempre com a estrutura interna portante e convergindo para um algeroz rematado pela platibanda. Este sistema cobre normalmente as zonas abobadas da casa, alcovas ou corredor que se organizam na frente principal da mesma. É frequente a sua utilização ainda nos espaços de adega ou armazém, pois conferem condições térmicas favoráveis ao armazenamento de produtos. Da chaminé e o forno A chaminé é um elemento presente em quase todas as tipologias a par do forno exterior. É normalmente construída em alvenaria ordinária de tijolo maciço e cal, sendo o vão aberto e sustentado através de um tronco de madeira de azinho ou castanho, por vezes também revestido a cal. Neste se apoia uma parede “cortina” inclinada que se prolonga até à cobertura. O espaço do fogo encosta quase sempre numa parede portante e é lateralmente delimitado por um murete. Ocupa na generalidade dois metros de largo por um metro de profundidade. A fuga dos fumos prolonga-se no exterior conformando uma base quadrangular ou rectangular. O remate da chaminé pressupõe variadíssimas formas. Este aparece normalmente ora com as faces abertas, através de uma grelhagem, ora fechado tipo chaminé de balão1.Forno interior com chaminé De uma forma geral encontramos com maior predominância o tipo de chaminé(Rua da Costa) com grelhagem. Esta é feita através da colocação, ora na perpendicular, ora a 45°, de peças de ladrilho cerâmico ou de tijolo-burro que produzem esse efeito “rendilhado”. Sobre essa grelhagem assenta normalmente um “chapéu” que se apresenta quer de forma piramidal, abobadada, ou formando duas águas, feito através da colocação de ladrilhos ou de telhas que são posteriormente revestidas a argamassa de cal. O forno, por outro lado, é um elemento que nos surge sob diferentes modos.1 “há quem considere a chaminé Ora no exterior da habitação podendo ter ou não chaminé associada, rendilhada como a adulteração ora no interior da habitação coincidindo com o lugar da cozinha e da chaminé. da chaminé de balão […]” que resulta da anulação dos seus panos (Fig. 45) colocando elementos cerâmicos. Neste estudo constatamos que a situação mais frequente é a do forno exterior com in Arquitectura Popular..., op. cit., chaminé associada. Trata-se de um corpo relativamente próximo dos espaços de p.234 serviço, apoiado sobre um dos muros de suporte do lote, podendo ainda servir de2 Este era normalmente designado como “forno de poia”, quase apoio a mais do que uma casa2. comunitário. As escadas Apresentam-se na generalidade nas tipologias de matriz mais antiga, século XVIII ou XIX, em lance recto, tipo escada de tiro, conformando um espaço fechado para o qual se desenvolve um acesso directo para a rua. Esta condição repete-se na generalidade nos lotes estreitos e compridos desenvolvendo-se ao longo de uma empena lateral ou de uma parede mestra. Para o vão de escada pode ainda comunicar um compartimento no piso superior
    • 1 Testemunho de Maria Bexiga que cobre normalmente o espaço de entrada. Pires citado por Emanuel Sancho, Este tipo de escada é normalmente construído em alvenaria tradicional sustentado trabalho de recolha de registos orais na freguesia de Santa Bárbara por um arco inferior. É revestido a tijoleira tradicional disposta na perpendicular ao de Nexe cobertor. O espelho da escada apresenta-se normalmente rebocado e caiado.2 J. E. Horta Correia, A arquitectura Podemos ainda ver nas tipologias de dois pisos dos finais do século XIX a escada Algarvia do século XVI ao século XIX; revestida a laje de pedra calcária com cerca de 5cm de espessura. Esta ocupa tentativa de caracterização normalmente entre 1.10 e 1.50m de largura. Nas tipologias dos finais do século XIX e inícios do XX, de frente mais larga e com açoteia, a escada aparece no interior ou no exterior de forma mais secundarizada. Em alguns casos surge em madeira ou ainda noutros, em alvenaria formando um L. Está normalmente associada a espaços de serviço, funcionando de acesso a sobrados ou ainda, no caso da escada exterior, servindo de acesso exclusivo à açoteia ou mirantes. (Fig. 48) Da fachada Os vãos e o seu guarnecimento São os elementos de composição da fachada como os vãos, as pilastras, socos ou“[…] As pessoas mandavam fazer os cunhais que melhor traduzem as principal transformações e período cronológicoas portas das casas com cantarias da última intervenção. de pedra com a data e uns A abundância de pedra calcária na freguesia e freguesias vizinhas é denunciada desenhos na verga. pela recorrência a este material nos elementos compositivos da fachada. Socos, Muitas vezes era uma florinha cunhais, pilastras, molduras, cornijas, revelam a qualidade e a mestria no seu em pedra. A gente gostava, era trabalho. Os principais mestres canteiros viviam nas freguesias rurais conferindobonito e servia para enfeitar […]”1. a sua marca nas principais casas da aldeia, transportando nelas a influência dos desenhos mais urbanos para onde normalmente trabalhavam. Esta condição pode explicar os variadíssimos desenhos e trabalhos que encontramos nas molduras em cantaria, correspondentes ao mesmo período cronológico. Relativamente ao guarnecimento dos vãos, a moldura em pedra é a condição mais frequente. (Fig. 47) Do século XVI encontramos apenas três exemplos de moldura com as arestas chanfradas. Do século XVII e século XVIII encontramos ainda outro tipo de moldura. Esta reconhece-se pelas linhas rectas, com espessura entre os 20 e 25 cm. Nesse período vulgarizou-se o vão simples de aresta viva sem decoração. A introdução da curva e da decoração difundida a partir do século XIX é acompanhada, já no século XX2, por uma alteração gradual da dimensão do próprio vão, quer em termos de largura da cantaria, quer em termos de altura, resultando naturalmente numa modificação das proporções da própria fachada. A verga surge ora coroada por um friso, ora por uma cimalha, ora arquitravada, reportando-nos a modelos mais elaborados e mais comuns dos meios urbanos. No centro da verga aparece por vezes um medalhão em relevo cujo motivo destaca a marca de determinado canteiro. As molduras são normalmente peças de secção rectangular que encastram no vão de parede. São bujardadas a pico fino até um centímetro das arestas apresentando estas, no final, uma moldura de contorno amaciada. As molduras dos vãos sobretudo nas casas mais simples podem ainda apresentar- -se em massa saliente, sendo depois pintadas na cor cinza, tal como os outros elementos de ordem compositiva como socos, pilastras ou cunhais. As dimensões dos vãos de janela variam na generalidade entre os 1.10 e 1.30 metros de altura, de porta entre os 2.00 e os 3.5 metros de altura por 1.00 metro e 1.20 metro de largura, com molduras entre os 0.20 e 0.25 metros até ao século XIX e entre os 0.15 e os 0.20 já no século XX. Podemos perceber assim nas tipologias do século XX que a alteração dimensional dos vãos está de certa forma associada a uma maior verticalidade da frente de fachada, resultante quer do aumento no pé direito quer pela introdução recorrente da platibanda. Remates de cobertura O beiral O beiral ou beirado pode existir segundo várias formas. Ele denuncia em muitos casos um tempo ou um tipo de uso específico, traduzindo uma maior ou menor elaboração. Dos diferentes tipos de beirado encontramos como sistema mais recorrente nas tipologias até ao século XX, a predominância do remate em beirado simples ou duplo beirado. O beirado simples consiste no apoio directo das telhas sobre a parede da
    • 1 “A platibanda é uma balaustrada, fachada. Este pode ainda assentar numa sub-beira de telhas composta por duas as mais das vezes fechada e meias canas invertidas, conformando o designado beirado duplo, ou ainda, decorada com trabalhos de estuque que remata o telhado ou rematar simplesmente sobre uma fiada de ladrilhos. uma açoteia.Junto desta encosta Esta solução é ainda muito comum nas fachadas de serviço, anexos ou armazéns, uma caleira que conduz as águas contrastando com a fachada de habitação que aparece normalmente mais pluviais que saem em algerozes, em elaborada, traduzindo uma maior metamorfose. balanço da fachada”. Citado por F. Galhano e E. V. Oliveira, Arquitectura No remate do beiral podemos ainda encontrar a cornija em alvenaria que consiste Tradicional..., op. cit. num friso saliente recurvado feito através de um molde. Estes elementos são2 A escaiola é uma técnica feita com normalmente coloridos a cinzento aproximando-se do tom da pedra. argamassa de gesso e cola com que Aparecem sobretudo nas habitações do século XVIII ou XIX, em casas mais se revestiam ao tectos e paredes abastadas, persistindo noutras vezes com o elemento platibanda elevado a interiores, podendo ser usada ainda no exterior. posteriori. (Fig. 46) A platibanda1 Apresenta-se como o remate mais recorrente sobretudo nas tipologias do início do 183 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi século XX. São na generalidade valorizadas por elementos em massa que formam medalhões, com motivos geométricos ou orgânicos sendo posteriormente coloridos com várias cores. Podem apresentar-se ainda com uma cornija na sua base e coroamento ou ainda decoradas por pilastras, cunhais e almofadas. Encontramos ainda outros exemplos de platibanda formando uma balaustrada. Estas são compostas por peças cerâmicas vidradas e identificamo-las sobretudo nas tipologias do final do XIX. A decoração pode ainda estender-se à colocação de elementos dispostos lateralmente sobre o muro da platibanda de que são exemplo as pinhas também em cerâmica vidrada. Há ainda outros casos em que esta apresenta uma grelhagem formada por ladrilhos ou tijolos-burros, dispostos quer inclinados quer na vertical. Este tipo de remate está na generalidade associado à presença de uma açoteia, funcionando como uma guarda, ou de um algeroz para onde se orienta a pendente, recolhendo as águas das chuvas. (Fig. 46) As gárgulas Ao sistema de drenagem vemos associado a existência de gárgulas, balançadas sobre a rua (a cerca de 30cm). Consistem em peças que podem ser feitas em cerâmica ou em pedra. As mais frequentes são as peças cerâmicas que podem ter a forma cilíndrica ou de meia cana (correspondendo a uma telha de canudo). São por vezes vidradas organizando-se em composição com a fachada. Algumas casas apresentam este elemento em pedra trabalhada conformando uma meia cana. Outras têm vindo a ser substituídas por peças em chapa de ferro que funcionam como solução de recurso às anteriores peças de olaria. (Fig. 46)de cima para baixoGárgulas em barro (recolhidas por ArmandoMartins, oleiro em Estoi); Os revestimentos A diversidade ao nível dos remates de fachada estende-se ainda aos elementos de revestimento. Distingue-se com alguma frequência dois tipos de tratamento e remate numa mesma fachada traduzindo a hierarquia de usos. Nas casas mais simples as paredes são na generalidade rebocadas a cal e areia e caiadas de branco. Mas a difusão de técnicas mais elaboradas como a escaiola, os esgrafitos e o “stucco”, nos finais do XIX e inícios do XX, traduzem a prosperidade económica que caracterizou este período. Os exemplos mais notórios encontramos no edifício do palácio, exemplos estes que contagiaram as outras habitações da aldeia. O palácio constitui assim o exemplo mais representativo da exuberância que estas técnicas conferem. Hoje encontramo-las sobretudo nas tipologias do início do século XX sobretudo no interior. Nas tipologias do Grupo C (Fig. 42) podemos ver o revestimento interior em “escaiola”2 nos tectos e paredes, podendo estas apresentar efeitos fingidos que se aproximam quer do mármore, “marmoreados”, quer da madeira ou pedra. Estes efeitos são por vezes transferidos para os revestimentos exteriores. Vemos alguns exemplos de revestimentos exteriores com efeitos de marmoreado ou imitandopalacio de Estoi, a pedra, através da técnica de “esgrafito”, sobretudo nas frentes de fachadavista interior após obras de restauroefectuadas em 2007 principal. Um outro tipo de revestimento, o azulejo biselado surge de forma singular em apenas algumas casas construídas na primeira metade do XX. (Fig. 47)
    • Degraus e poiais Esta característica resulta da forma como o lote se relaciona com o espaço público. O tipo de relação que encontramos nas tipologias mais antigas traduz-se no desajuste acentuado da cota da rua em relação à cota interior. Os degraus que encontramos frequentemente no exterior podem desenvolver-se quer na perpendicular à fachada quer paralelamente, constituindo em alguns casos autênticos “poiais” onde frequentemente se sentam os seus habitantes nas noites quentes de Verão. Este elemento surge-nos com maior expressão na Rua Pé da Cruz, Rua Visconde de Estoi ou Rua Furriel Pinheiro Canal, que apresentam declives acentuados e onde o lote se desenvolve perpendicularmente às curvas de nível. Esta particularidade tem vindo contudo progressivamente a perder-se nas intervenções de “renovação” onde essa diferença de cota se anula. Temos ainda dentro do núcleo raros exemplos de poiais que se traduzem nesse espaço de prolongamento exterior na frente da casa. Esta situação tão comum na habitação rural, dos montes ao longo da freguesia, repete-se de forma muito pontual em duas habitações. (Fig. 48) De uma forma geral podemos concluir que a imagem geral do núcleo é marcada em quase todas as construções pela utilização do reboco como acabamento final. Este apresenta-se como um facto arquitectónico que ultrapassa além das motivações funcionais, as características culturais do lugar. O reboco, a pintura e os elementos ou motivos em massa constituem a afirmação de uma identidade cultural. A sua utilização ou a de outro material traduzem, numa leitura tipológica, um determinado modo de estar, de viver e de produção intrinsecamente relacionada com a história de vida deste lugar.Gárgulas e Poiais (Rua Pé da Cruz)
    • Fig. 43Coberturas e tectos1, 2coberturas de 2 águas em telharegional(Rua da Barroca e Rua do FornoVelho)3vista de cobertura mista, telhadoe açoteia(Casa 13- Rua Furriel João PinheiroCanal)4 1 6vista sobre uma cobertura emaçoteia 185 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi(Rua Visconde de Estoi)5açoteia com pendenteabobadada. Em cada intervalofaz-se a recolha das águaspluviais(Casa 16, Rua João de Deus)6sistema em dormentes(Casa 07-Rua Pé da Cruz) 2 77vista interior de cobertura emtelha vã8pormenor da estrutura emabóbada de tijolo(Casa 13- Rua Furriel João PinheiroCanal)9abóbada artesoada(casa na Alcaria Branca)10, 11 3 8corredor com abóbada de berço(Casa 16, Rua João de Deus)e abóbadas de aresta(Casa 13-Rua Furriel João PinheiroCanal) 4 9 5 10 11
    • Fig. 44Paredes e pavimentos1, 2 e 3arco estrutural e parede dealvenaria de caliça com partesem taipa(casa 03- Rua Pé da Cruz)4arco portante de escada interior(Rua da Igreja)5revestimento em argamassa de cale areia sobre alvenaria de caliça 1 8(Travessa do Espírito Santo)6parede interior em adobe(casa na Rua da Barroca)7cabana e celeiro em alvenaria depedra irregular sem revestimento(casa na Alcaria Branca)8estrutura de pavimento emdormentes(casa na Rua da Igreja) 2 3 99pavimento em tijoleira(Rua Pé da Cruz)10pavimento exterior do jardim doPalácio de Estoi11eira revestida em tijoleira regionalrectangular 15x30cm(quinta localizada a Norte donúcleo urbano) 4 5 1012tijoleira regional quadrangular20 x20cm 6 11 7 12
    • Fig. 45A chaminé e o forno de pão1, 2chaminé de planta rectangularou quadrangular com grelhagemfeita de ladrilhos cerâmicoscolocados na perpendicular(1 Rua Pé da Cruz, 2 monte emAlcaria Branca)3chaminé de balão(Rua Marçal Lourenço)4 1 5forno interior com chaminé(Rua da Costa) 187 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de Estoi5chaminé de cozinha(casa 16 - Rua João de Deus)6chaminé de cozinha(monte em AlcariaBranca)7chaminé de cozinha(casa 13 - Rua Furriel João Pinheiro 2 6Canal)8forno exterior com chaminéassociada(casa Largo Ossónoba)9forno de pão e de olaria comchaminé associada; saída dachaminé(casa 16- Rua João de Deus) 3 7 8 4 9
    • Fig. 46O beiral, a platibanda e asgárgulas1beirado simples com telha decanudo2beirado com sub-beira emladrilhos de 30 x 15 cm3beirado duplo com sub-beira detelha argamassada 1 74beirado com sub-beira de ladrilhosobre cornija (à esquerda na foto)5gárgula cilíndrica cerâmica(casa Rua Pé da Cruz)6algeroz feito com telhas de meiacana apoiadas sobre ladrilhos(casa Rua Marçal Lourenço)7platibanda elevada sobre antigo 2 8remate em beirado8platibanda com balaustradacerâmica(Rua Visconde de Estoi)9platibanda com elementos emmassa e friso a azulejo(Rua João de Deus)10,11platibanda decorada commedalhões e outros elementos 3 9em massa(10 Casa em Alcaria Branca;11 Largo Ossónoba) 4 10 5 6 11
    • Fig. 47Os vãos e os revestimentos defachada1moldura de porta com ombreirase verga chanfrada, século XVI(Rua Pé da Cruz)2moldura de verga recta semdecoração, século XVIII(Rua Pé da Cruz)3, 4 e 5(3) moldura semi-curva, século 1 2XVIII;(4) verga de vértices curvos, século 189 Estoi| Identidade e transformação. Análise arquitectónica do espaço urbano e do conjunto edificado de EstoiXIX;(5) verga arquitravada, século XIX6, 7 e 8(6) verga de linhas curvasencimada por óculo, século XIX;(7) verga curva com decoraçãoRua da Igreja), século XIX;(8) vãos sem guarnecimento.Fachada de serviço(Rua Marçal Lourenço)9trabalhos de esgrafito(Palácio de Estoi)10revestimento em azulejo biselado(Rua João de Deus) 3 4 5 6 7 8 9 10
    • Fig. 48Escadas, degraus e poiais1, 2escada de tiro em alvenaria(Rua Furriel João Pinheiro Canal)3escada em alvenaria formandoum “L” de acesso à açoteia(casa 16, Rua João de Deus)4, 5vista de escada exterior de acessoa “mirante”(4 Largo da Praça Velha, 5 Largo 1 2 6do Forno Velho)6, 7degraus em pedra comdesenvolvimento paralelo àfachada(6 Rua Visconde de Estoi, 7 LargoOssónoba)8degraus em alvenaria comcobertor em lajeta de pedra, comdesenvolvimento na perpendicularà fachada(Rua Pé da Cruz) 3 79poial paralelo à fachada(Travessa Esquível)10poial virado a sul na frente dacasa(Rua de São José) 4 8 9 5 10
    • 4 A salvaguarda e gestão do património de Estoi 191 Estoi| Identidade e transformação.
    • Fig. 49A expansão a Norte do núcleo
    • Tendências de Chegamos hoje a um núcleo cuja configuração e dimensão traduzem características transformação e expansão físicas e morfológicas de um pequeno aglomerado, em plena fase de expansão. Apesar de algumas intervenções dissonantes cada vez mais presentes sobre o “A modernidade de um núcleo, Estoi tem conseguido conservar um conjunto edificado consolidado que lhe acontecimento mede-se pela confere alguma coerência e unidade ao nível urbano. relação que ele mantém com O mesmo não podemos dizer de outros aglomerados rurais vizinhos, como as condições dentro das Moncarapacho, Santa Bárbara, Pechão, Quelfes ou São Brás de Alportel que mais quais se realiza. Em matéria cedo viram serem adulteradas e reduzidas significativamente as suas características de arquitectura e Urbanismo, arquitectónicas e volumétricas. modernidade significa integração Os espaços livres privados, como os logradouros, ou outras parcelas vazias dentro perfeita de todos os elementos da malha urbana, conformam numa área ainda considerável grande parte núcleo. que podem influir na realização É possível vermos muros a delimitar frentes de rua, ou ainda portões que dão acesso de qualquer obra […]”1. a grandes logradouros interiores. A presença de antigas cabanas, palheiros, fornos de pão, pocilgas e cisternas, permanece enquanto marca de uma ruralidade ainda muito presente. A relação que muitas ruas mantêm com caminhos, azinhagas, revela a forte articulação que outrora existia com o restante território rural - o núcleo enquanto pólo catalisador de um conjunto de actividades e serviços, servindo uma área de território que ultrapassava a da própria aldeia. 193 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi Por outro lado, verificamos hoje que esta “influência” nunca se reportou desde então, apenas à escala da freguesia, mas também a uma escala municipal e ou regional. Alguns dos equipamentos e edifícios hoje presentes ilustram esta realidade. O mercado Abastecedor de Faro, o Centro interpretativo de Milreu, ou ainda, o próprio Palácio de Estoi, conferem-lhe uma dimensão excepcional não comparável1 F. Távora, Teoria geral da a outros núcleos rurais do concelho ou da região. organização do espaço,. Arquitectura Já referimos anteriormente que a situação geográfica de Estoi e dos restantes e Urbanismo, Faup, Porto, 1993, p.9 aglomerados situados na faixa de transição entre o Barrocal e a planura Litoral, gozava de uma permanente relação de dependência com o principal centro urbano a Litoral. Constatamos, por outro lado, que dos núcleos rurais vizinhos, apenas São Brás de Alportel se pode referenciar como um caso excepcional, enquanto núcleo que conseguiu “conquistar” uma autonomia administrativa e política a uma escala distinta dos restantes. Hoje Estoi oscila entre uma ruralidade que lhe é intrínseca e um desenvolvimento que se prevê tendencialmente mais urbano. A malha consolidada absorve uma população residente com cerca de 2000 habitantes, equivalente à população residente dispersa pela restante área da freguesia. O regresso de muitos emigrantes a partir dos anos 80 constituiu um factor determinante, pois contribuiu para que famílias e descendentes permanecessem e se fixassem no núcleo. Também a proximidade e dependência de Faro tem permitido que ao longo da última década, nova população procurasse o núcleo ou a freguesia enquanto alternativa de residência à sede do concelho. Esta realidade contribuiu no desenvolvimento de associações culturais e desportivas, responsáveis em grande parte por uma dinâmica cultural e social expressa nas várias manifestações culturais e etnográficas que nela se organizam – a festa da Pinha, a feira mensal, a feira do Cavalo, a festa do Caracol e o festival de Folclore. Este facto é revelador de uma dinâmica e de um sentido de comunidade que contraria em muito, a tendência dominante na maioria dos núcleos históricos e outros aglomerados rurais na região. O centro histórico de Faro, profundamente terciarizado, resulta hoje num tecido parcialmente expectante revelando sinais de estar há muito, comprometida parte da sua identidade. As casas chegam a atingir um estado de conservação que tornam incomportável o seu reaproveitamento e ou reutilização. Para ajudar a este panorama, contribui ainda, o forte inflacionamento dos preços nesta zona da cidade em relação à periferia. A revitalização dos tecidos antigos passa em parte pelo entendimento da cidade e do território nas suas diferentes áreas, enquanto tecidos complementares e interligados. Neste processo contribuiria necessariamente a implementação de infra- estruturas de mobilidade e o reforço das acessibilidades entre as diferentes zonas e os diferentes núcleos urbanos do concelho. Estoi, enquanto pólo rural, representa neste contexto uma centralidade que deve ser entendida no território, à medida da sua escala, dimensão e do seu significado.
    • A análise do processo de formação e transformação do núcleo permitiu chegar a uma leitura global do conjunto existente, reconhecendo nele não só as principais características arquitectónicas e volumétricas como também os principais valores patrimoniais enquanto elementos estruturantes do seu tecido urbano. Entendendo a transformação como um processo inevitável de qualquer tecido urbano, tivemos como objectivo chegar a uma melhor avaliação sobre os reflexos que o processo de modificação contemporâneo, vem introduzindo neste conjunto. A evolução e transformação do núcleo que teve até ao século XVIII a primeira fase de desenvolvimento e formação, culminando depois no momento de maior produtividade económica e agrícola, entre os finais do século XVIII e século XIX, prolongando-se posteriormente, até à primeira metade do século XX, traduziu-se fundamentalmente, em momentos de contínua densificação e consolidação, feitos a partir do elemento rua, enquanto base estruturante e definidora da sua forma urbana. A transformação assentou quer em operações que implicavam a associação ou subdivisão de lotes, quer ainda, num processo de “preenchimento”, sem recorrer necessariamente à substituição do construído. Referimo-nos aos momentos em que um muro tardoz, dá lugar a uma nova frente de rua, frente esta que vai estabelecer uma nova continuidade, no tipo relação com o espaço público, transformando aquilo que antes era um caminho, numa nova rua. Só a partir dos finais do século XIX e inícios do século XX, assistimos àquele que foi o primeiro momento de maior expansão do aglomerado, para Sul e Poente. Traduziu- -se no implementar de um traçado urbano mais hierarquizado, articulado com o tecido pré-existente, neste caso com a frente da Igreja matriz e áreas do Palácio. Podemos referir que, desde então, as maiores transformações começam a fazer-se sentir nos finais do século XX, talvez relacionadas com um maior poder económico ou com o regresso significativo de população emigrada. Os primeiros prédios de rendimento começam a surgir a partir dos anos 70. O estudo efectuado para o Plano Geral de Urbanização, em 1981, revelava que dos sessenta e oito processos licenciados para o núcleo de Estoi, entre os anos 30 e os anos 80, 83 % tinham ocorrido entre as décadas de sessenta e setenta. A Proposta do Plano Geral de Urbanização veio traduzir a preocupação do município em controlar o crescimento urbano, tendo em conta o crescimento populacional, que se perspectivava para este núcleo do concelho. Estoi começa a ser entendido como área de expansão habitacional como alternativa a Faro. Os anos noventa trouxeram, por outro lado, fortes rupturas na paisagem circundante ao aglomerado, em parte associadas à melhoria das acessibilidades com a construção da Via do Infante (A22). Atravessando a proximidade Norte de Estoi, a Via rápida veio adulterar o prolongamento de alguns caminhos pré-existentes que articulavam o núcleo com as antigas quintas ou hortas, interferindo também, no tipo de relação que este sempre manteve, espontaneamente, com o território. Também o desenvolvimento da sede de Distrito e o reforço da sua centralidade no território, tiveram repercussões directas sobre os aglomerados vizinhos e, naturalmente, em todo o concelho.1 Proposta de classificação elaborada A pressão construtiva que se desenvolveu em Faro trouxe efeitos indirectos para pela Junta de Freguesia de Estoi em os outros núcleos rurais, motivando em parte a elaboração de uma proposta de 1996. classificação em 1996 para o núcleo histórico de Estoi1. Estoi traduz hoje nas novas áreas de expansão um tipo de crescimento e intervenção comum à maioria dos aglomerados rurais - ao forte incremento do parque habitacional nas zonas de expansão concorre simultaneamente uma maior pressão sobre o conjunto edificado pré-existente. A avaliar pelos exemplos recentes observamos sobretudo nas zonas de expansão, uma forte desarticulação morfológica que vem estabelecer graves rupturas com o tecido pré-existente, desvirtuando aquela que sempre constituiu a sua imagem global, no que ela tem de qualidade. Assistimos essencialmente a dois tipos de transformação que se manifestam segundo ritmos muito distintos: um primeiro, aparentemente mais lento, que assenta na consolidação de frentes de rua e no preenchimento de parcelas vazias; um segundo, centrado nas áreas de expansão, mais “acelerado” e que se tem traduzido na construção de loteamentos instalados nas franjas do núcleo.
    • O planeamento nos O planeamento urbano vigente rege-se por princípios resultantes de uma profundanúcleos rurais: o caso de Estoi sistematização e especialmente vocacionados para o contexto da cidade. Os próprios modelos de planeamento que definem a maioria dos planos referem-se a sistemas urbanos e sócio económicos mais complexos, resultando em estruturas formais que frequentemente se revelam pouco ajustadas a estes contextos. A especificidade de um núcleo desta natureza, passa acima de tudo, pela forte relação que ainda mantém com o contexto rural que conforma a sua envolvente. É por isso fundamental perceber de que forma essa relação se pode manter e conservar, considerando simultaneamente, a “necessidade” de expansão e ampliação do casco urbano. A verdade é que não encontramos um planeamento dirigido especificamente para os núcleos rurais. O planeamento actua por norma, como um instrumento de gestão e controlo face a uma pressão de crescimento, ou ainda, quando se revela a necessidade de salvaguardar ou preservar um determinado conjunto de valor patrimonial relevante. Os anos 80 e 90 traduziram-se no forte crescimento e ampliação dos perímetros urbanos das cidades médias. Em Estoi, tal como noutros núcleos do concelho, a proximidade e acessibilidade com dois centros urbanos significativos, como Olhão e Faro, levou a que se 195 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi promovesse, ao longo das últimas décadas, a elaboração de instrumentos de planeamento. A necessidade de controlar o crescimento destes núcleos de pequena dimensão, traduziu-se na definição de condicionalismos e no entendimento dos mesmos enquanto áreas de expansão habitacional da urbe. Desta forma promoveram-se estudos que contemplaram o alargamento dos perímetros urbanos e organização de novas áreas de expansão. Os diversos estudos realizados para Estoi passaram sobretudo pela elaboração de propostas de planos (Plano Geral de Urbanização de José Lamas, em 1981, e Plano de Pormenor em 2002, (ainda em fase de revisão) que procuraram numa perspectiva de futura expansão, definir um desenho urbano propondo regras de actuação, sem nunca terem estabelecido até hoje, qualquer vínculo legal, funcionando apenas, como instrumentos de orientação na gestão urbana. A partir da análise aos vários planos para Estoi1 (PGU, PDM, PP) podemos concluir que, apesar de elaborados em períodos cronologicamente distintos, ambos apontam para uma estratégia comum - a expansão do aglomerado, valorizando e reconhecendo, simultaneamente, a necessidade de salvaguarda do núcleo antigo. Relativamente ao núcleo antigo ambos defendem a sua afirmação enquanto centro e o desenvolvimento de usos de carácter mais doméstico ou turístico. O Plano Geral de Urbanização (PGU) enuncia como frentes de qualidade algumas ruas do tecido antigo, enquanto o Plano de Pormenor (PP) revela um estudo mais aprofundado sobre as características arquitectónicas do núcleo antigo, definindo graus de intervenção específicos para cada edifício existente. No PDM, o núcleo é integrado na categoria de Espaço urbano histórico que classifica “[…] as áreas especialmente importantes sob o ponto de vista histórico, cultural e ambiental do concelho […] pelo que deverão ser mantidas as características urbanísticas das malhas e preservadas as características arquitectónicas dos edifícios de maior interesse […]”2. Propõe ainda que a delimitação da área do núcleo antigo deva ser definida em plano de pormenor. No que se refere às áreas de expansão percebemos que o perímetro proposto em ambos os planos não é coincidente, sendo contudo privilegiada a expansão a Sul, Norte e Nascente do actual núcleo. O primeiro (PGU –1981) propõe a continuidade ao nível da frente urbana, impondo um desenho radial e de repetição com o traçado existente, com cérceas que oscilam entre os dois e os quatro pisos. O segundo (PDM –1995) repropõe o núcleo tal como os restantes aglomerados rurais que integram o concelho, como espaço de expansão habitacional da cidade. Nas áreas de expansão não permite cérceas superiores a três pisos e confere1 Ver sobre a análise dos vários um índice de utilização máximo de 0,4. Permite o loteamento em parcelas com planos em Anexos: análise dos área superior ou igual a 5000 m2 e que seja mantida a articulação com o núcleo planos para Estoi consolidado.2 Plano director municipal. Regulamento, No terceiro (PP 2002) é definido o desenho urbano e organizadas as diferentes Risco - CMF, Lisboa 1995 tipologias de habitação que vão da habitação plurifamiliar, à casa uni-familiar em
    • banda, geminada ou isolada. Este processo de introdução de novos modelos deurbanidade, como a habitação plurifamiliar, veio introduzir novos momentos detransição com a estrutura existente, interferindo na relação dominante entre edifícioe rua, contribuindo ainda com fortes alterações formais no espaço público.Quanto à circulação e acessibilidades, ambos os planos são comuns na propostade criação de uma variante a Sul do aglomerado, com vista a desviar o tráfegoautomóvel que actualmente atravessa o núcleo.Propõem-se ainda novas áreas para colmatar as carências hoje presentesnomeadamente, a Norte do núcleo e outra a Sul, com vista a servir a área deequipamentos.Em termos de equipamentos podemos referir a postura comum relativamente aoPalácio e às Ruínas de Milreu, enquanto elementos a salvaguardar e a requalificarnuma perspectiva turística.Quanto à localização da Feira mensal esta é encarada em moldes distintos nos doisprincipais planos específicos – (PGU e PP).O Plano de Pormenor propõe uma zona a Sul, afecta sobretudo a equipamentos noqual se integra a área da Feira. O Plano Geral de Urbanização integra o espaçoda Feira no novo tecido habitacional, encarando-o como uma nova praça deinterligação entre tecido existente e tecido novo. Este aspecto é revelador de umamaior preocupação na hierarquização do tecido, definindo um novo centro dentroda nova malha.O mercado é um acontecimento cultural relevante que ao longo das décadas de 1980e 1990 tem vindo a deslocar-se do casco consolidado para a periferia do aglomerado.Apesar dos vários instrumentos de planeamento verificamos que o núcleo urbanopermanece vulnerável quanto a instrumentos de controlo do seu crescimento,salvaguarda e integração com a paisagem envolvente.Estoi rege-se actualmente, por um único instrumento legal de planeamento, o PlanoDirector Municipal de Faro (1995).O processo de classificação do núcleo histórico de Estoi, aberto em 1996, propunhauma área significativa da aldeia complementando, a já existente,área de protecção do Palácio de Estoi e área de protecção de Milreu. No entanto,ao fim de quase dez anos Ippar decide pelo seu arquivamento, depositando nomunicípio a classificação como conjunto de interesse municipal.Apesar da aparente preocupação, manifestada pela elaboração de váriosestudos, a verdade é que a actuação da autarquia, sobre as áreas históricasdo concelho, nas quais se integram o núcleo de Estoi, Santa Bárbara e os trêsnúcleos da cidade Faro, não tem sido muito clara. O Plano de Pormenor continuahá quase dez anos por aprovar, sofrendo constantes modificações. Por outrolado, se nos debruçarmos sobre a capital da sede do concelho, constatamos umaforte expansão e construção na periferia. Somos confrontados paralelamente,com um centro antigo caracterizado por um número significativo de edifíciosdevolutos, outros com graves problemas ao nível das condições de habitabilidadee salubridade e onde, comprar casa significa maiores encargos financeirosem relação à periferia situação que, em parte, tem contribuído para a fuga depopulação para essas áreas.A cidade continua assim a crescer em oposição ao centro e à malha antiga. Estasituação tem tido repercussões directas também para os núcleos rurais do concelho,mais vulneráveis ou mais susceptíveis à ameaça da especulação imobiliária.A sensibilização para o tema da salvaguarda dos conjuntos patrimoniais temtido apenas reflexos mais concretos na sede do concelho, nomeadamente, coma criação em 1993 de um Gabinete Técnico Local e mais tarde, em 1999, coma criação do Departamento de Reabilitação do Património. Desse projectoresultou um regulamento sobre as intervenções nos núcleos histórico da cidade.As restantes zonas históricas do concelho aguardam contudo a aprovação deplanos de Pormenor, carecendo por tal de quaisquer instrumentos específicospara além do PDM.Perante estes estudos podemos constatar que não faltam planos. Tem faltado antesuma vontade política em implementar uma estratégia criteriosa, com apoios eincentivos claros. Falta assim ainda a gestão coerente e rigorosa de um plano que
    • 1 Francisco Barata Fernandes, bom ou mau, teve em conta, a salvaguarda física do núcleo antigo. Transformação..., op. cit., p. 448 Apesar das tentativas em implementar alguns instrumentos de gestão e de projectos aparentemente promissores, o deficiente controlo na transformação das áreas limítrofes ao núcleo tem-se revelado, cada vez mais, num compromisso com a iniciativa privada na implementação de projectos parcelares. De uma forma geral, segundo Francisco Barata1 o planeamento, em especial os planos de salvaguarda e os instrumentos de gestão correntes, têm conduzido sobretudo a três tendências de transformação para a cidade antiga e que neste caso podemos aplicar ao núcleo urbano antigo de Estoi: aquela que não permite transformações; a que pretende ser realista nas transformações que empreende; a que pretende transformar mais do que a realidade económico – cultural o permite. 197 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de EstoiFig.501Esquema da proposta do Plano geralde Urbanização de Estoi -19812Esquema da proposta do Plano dePormenor de Estoi - 2002
    • 1 Francisco Barata Fernandes, Constatamos na maior parte dos casos e em especial no caso de Estoi que os Transformação..., op. cit., p. 448 instrumentos de planeamento têm incidido sobretudo entre o primeiro e terceiro ponto.2 AA. VV., La Costruzione del territorio...,op. cit., p. XXV O primeiro ponto, segundo refere Francisco Barata “[…] nunca geriu a cidade nem3 Idem, ibidem. Bruno Reichlin e Fabio esteve interessado a aprofundar os aspectos operativos e concretos da sua atitude Reinhart, na mesma obra referem conservacionista […]“1. ainda a propósito dos regulamentos O terceiro, vai de encontro ao tipo de crescimento desmesurado que conduz muitas “que qualquer seja controlo de caracter normativo este deve ser vezes, a uma “realidade” distante das verdadeiras necessidades. O crescimento também adequado à natureza físico por vezes não é acompanhado de um crescimento demográfico. dos valores culturais do território No caso de Estoi podemos questionar a necessidade de introduzir maiores construído”. densidades e escalas, nomeadamente, com a implementação de prédios de rendimento num núcleo desta natureza. As grandes dificuldades na implementação de um plano explicam-se também pela grande fractura entre gestão e realização, e ainda, pelo tratamento das questões de forma sempre sectorizada e não numa perspectiva global, contemplando relação entre as várias partes constituintes. As políticas urbanas actuais têm assim progressivamente mergulhado no pragmatismo de tentar resolver pontualmente caso a caso. O que se constata actualmente é que, a forma de actuação nas áreas mais recentes, privilegia uma expansão por loteamentos, importando os modelos de expansão da cidade para a aldeia, criando “ilhas” sobre propriedades rurais que conformavam até há bem poucos anos, a sua envolvente definindo o enquadramento do núcleo. O loteamento das quintas ou áreas circundantes faz-se à luz da iniciativa privada reflectindo pouca interferência prévia da gestão municipal, nomeadamente na construção de traçados ou arruamentos que garantam a continuidade com o tecido existente. Este modo de planeamento, tende a resultar, em meros exercícios formais desligados do contexto, impondo regras e modelos marginais e cortes com o tecido existente. Como referem Bruno Reichlin e Fabio Reinhart2 todos os planos correm o risco de cair na abstracção ou na intemporalidade “ […] A abstracta generalização intrínseca ao regulamento vai contra a realidade, porque a realidade é particular; a intemporalidade do regulamento vai contra o conhecimento, porque a investigação significa sempre a superação, pouco importa se se trata de um inventário ou de um projecto […]”. O projecto constitui assim o único instrumento verdadeiramente adequado para avaliar e definir os possíveis modos de intervenção num dado contexto territorial. Só este tem a capacidade de individualizar os problemas concretos dentro da globalidade. Qualquer processo de planeamento deveria não só especificar os instrumentos de pesquisa (estudos) que possam funcionar como material operativo em futuras intervenções, como descrever, como e o quê conservar, exigindo também, um projecto detalhado para os edifícios que sejam submetidos a recuperação ou a qualquer transformação3. Oscilamos actualmente entre aquilo que poderia ter sido evitado, como as dissonâncias hoje presentes e evidentes, e o que pode ainda ser evitado, a desarticulação entre o tecido antigo e o novo.A expansão a Poente do núcleo(Rua de Olhão)
    • Identificação do principais A partir de uma leitura global daquilo que foi o processo de evolução deste níveis de transformação aglomerado percebemos a importância do tecido preexistente enquanto matriz reguladora de crescimentos e transformações sucessivos. A relativa permanência de uma estruturação natural entre o núcleo e o seu território não implica, necessariamente, uma paralela permanência de relação entre o Homem e o seu ambiente. O progresso e a diversificação dos conhecimentos tem mudado também o modo como este vem utilizando o território. A alteração das técnicas construtivas, a introdução de novos materiais, a modificação dos hábitos habitacionais ou a influência de padrões exteriores, constituíram, desde sempre, factores que motivaram a transformação formal ou volumétrica dos tecidos antigos. Até ao século XIX, dominava em Estoi, a casa de um piso com beirado, destacando-se com excepção, a casa com duplo beiral de dois pisos. A partir dos finais do mesmo século e inícios do século XX assiste-se à progressiva substituição da “cabana” pelo armazém, ou ainda, do esquema tipológico da “sala de fora” pela casa corredor, e ainda, à profusão de elementos decorativos, nomeadamente, na platibanda traduzindo-se esta, numa alteração não só formal como volumétrica. O século XX caracterizou-se numa alteração dos sistemas de mobilidade - o desenvolvimento dos transportes, a difusão do carro e ainda, por uma alteração 199 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi das relações e telecomunicações, evoluindo para uma maior consciencialização sobre as questões de salubridade. Estes aspectos têm interferido naturalmente, no modo como o Homem passou a ver e a desenhar o espaço urbano, distinguindo-se este, cada vez mais, da malha antiga. Podemos observar que de uma forma geral, as grandes transformações no núcleo sempre se traduziram, fundamentalmente, em três aspectos: no material com a introdução de novas técnicas construtivas e novos materiais como o betão e o ferro; com a introdução de elementos decorativos de revestimento como os azulejos ou mosaicos; na substituição de alvenaria tradicional por alvenaria de tijolo maciço e posteriormente tijolo cerâmico industrial; na alteração de tectos abobadados por tectos em laje; ou ainda na substituição da pedra de cantaria por pedra a cutelo ou por capeamento no formal numa alteração e adulteração das formas, proporções; com a introdução de elementos decorativos ou volumétricos como a platibanda; nas alterações tipológicas com implicações no dimensionamento e na subdivisão dos espaços e sua configuração; no acrescento de novos volumes quer em profundidade, quer em altura; na alteração do dimensionamento dos vãos tradicionais por fenestrações mais largas; na criação de balanços ou recuos em relação ao alinhamento no espaço urbano na densidade na subdivisão de lotes; com a introdução do prédio de rendimento e na criação de novas áreas habitacionais através de loteamentos Podemos assim constatar que as transformações, nem sempre sequenciais, podem efectuar-se quer ao nível construtivo, material, quer ao nível formal tendo implicações directas com o espaço público, e consequentemente, com a própria densidade e vivência urbana. A estrutura viária constituiu contudo ao longo dos tempos, uma permanência na forma urbana, condicionando a sua expansão e transformação. Os últimos tempos têm manifestado uma realidade menos clara e regulada do ponto de vista de intervenção no tecido existente, mas fundamentalmente nas áreas ditas de expansão. Apesar dos diversos estudos e planos elaborados, percebemos que as transformações se têm traduzido num crescimento pontual e sectorizado nas áreas limite do aglomerado.
    • 1 ver sobre este tema in Cidade e O crescimento actual tem interferido na transformação do núcleo segundo três níveis: democracia, Argumentum, Lisboa 2006, p.358 a na estrutura urbana, alargando os seus limites e perímetro urbano, acrescentando novos desenhos inscritos sobre antigas parcelas agrícolas, criando novas vias internas, articulando-as quando existem, com as vias pré existentes; b na sua natureza morfológica, onde o espaço público de elemento estruturante da sua evolução e forma urbana passa a elemento secundário a favor do edifício ou bloco, integrado sem prévio traçado urbano; c ao nível tipológico, em que de moradia ou casa uni-familiar se passa ao bloco de habitação colectiva, aos loteamentos quase sempre associados a um traçado próprio interno, isolados do restante tecido, revelando-se por vezes incapazes de formarem ou contagiarem futuras malhas1. Estas transformações interferem de forma muito forte no seu traçado e forma urbana, tendo ainda, implicações ao nível do quarteirão e espaço público. Se nos debruçarmos nos níveis de intervenção sobre o edificado verificamos que as primeiras transformações traduziram-se sobretudo em ampliações em altura ou na profundidade, com aproveitamento e esgotamento de todo o lote. Com maior incidência assistimos ultimamente, a intervenções de transformação que passam sobretudo pela substituição total do construído, e muito raramente, por operações de manutenção ou conservação estrita. Nesta perspectiva podemos ainda identificar ao nível do edificado três modos de intervenção distintos: intervenção integrada que sem recorrer necessariamente à utilização de um repertório estilístico específico traduz uma continuidade com o existente, quer ao nível de volumetria, escala, proporção, tipologia e relação com o espaço público. Identificamos alguns exemplos que incidem fundamentalmente sobre construções existentes. São situações de excepção que podem passar pela simples recuperação e conservação, adoptando os sistemas construtivos tradicionais, ou ainda, pela reorganização tipológica, sem implicar a substituição total da construção. Nestes casos, as alterações podem revelar-se em pequenas obras de adaptação, como a introdução de dependências básicas à vivência quotidiana, ou na criação de novas dependências, num sentido de continuidade com o processo de transformação. Há ainda outras situações de ampliação em altura ou em profundidade. Organizam-se de forma a estabelecer uma relação de continuidade e enquadramento face à volumetria dominante, não implicando grandes rupturas com a estrutura morfo-tipológica implícita. Os exemplos de construção nova, de raiz, reportam-se apenas a intervenções dos anos setenta.Casas em banda São habitações uni-familiares em banda cuja volumetria e tipologia de desenho(Rua Poeta Emiliano da Costa e Rua João deDeus) contemporâneo, conseguiram ajustar-se e estabelecer ,de forma coerente, uma articulação com o tecido preexistente. É o caso do conjunto edificado localizado na frente Poente da Rua João de Deus ou mesmo na Rua Poeta Emiliano da Costa.Edifícios construídos em 2006(Rua Poeta Emiliano da Costa) intervenção mimética referimo-nos a intervenções que recorrem à reprodução de elementos formais e ou materiais e que, na maior parte das vezes, se cingem apenas à fachada sem que isso implique, necessariamente, uma ruptura com o existente. É a exploração, num sentido cenográfico, das referências tradicionais dominantes. Encontramo-la sobretudo no tecido mais antigo e traduz-se, na maioria dos casos, ora num esvaziamento total do lote, deixando apenas sobreviver a fachada, ora na demolição da totalidade da construção, “reconstruindo” apenas, ao nível da fachada, as referências ou modelos que a ligam ao tecido pré existente. Esta reconstrução “aparente” da fachada manifesta-se, na maior parte dos casos, numa reconstrução mimética dos modelos pré-existentes, com adulteração das suas proporções, materiais e técnicas construtivas. Como exemplo mais comum é a adopção de cantarias de janela, modificando-se o seu sistema construtivo e dimensionamento. Os blocos de pedra maciça que definem a guarnição dos vãos dão lugar ao capeamento ou contorno do vão em pedra. Apesar da adulteração do tipo de vãos e ou materiais, mantém-se contudo inalterado, o tipo de relação com o espaço público.
    • intervenção descontextualizada referimo-nos às intervenções que estabelecem com o existente uma situação de ruptura, confronto, ou desequilibro quer ao nível formal, quer ao nível de escala, tipologia e volumetria. Ao momento em que a unidade de intervenção não é mais uma casa uni-familiar, mas um bloco ou um loteamento. Podemos assim encontrar como exemplos alguns dos prédios de habitação plurifamiliar que, ora sobressaem com balcões sobre a rua, superando a volumetria dominante, ora recuam, estabelecendo descontinuidades e impondo uma nova relação com o espaço público “estranha” à estrutura existente. Estas situações são mais perceptíveis nos eixos de aproximação ao tecido antigo, revelando-se estas zonas uma maior descontinuidade com o existente; Dentro do tecido mais antigo podemos destacar como exemplo mais gritante o caso do prédio (anos 70), localizado no Largo do Forno Velho, cuja tipologia, linguagem arquitectónica e volumetria de três pisos, se destacam quer no interior, quer fora do aglomerado. Como exemplos mais recentes são ainda os edifícios localizados na frente Sul da Rua Poeta Emiliano da Costa ou aqueles situados no seu perímetro, no prolongamento da Rua de Olhão. De uma forma geral podemos perceber que quando se refere à construção 201 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi do novo, o tipo de intervenção mais frequente, aponta precisamente para dois sentidos: a construção do novo por oposição, estabelecendo a ruptura quer tipológica, volumétrica, quer ainda na relação entre lote e espaço público;de cima para baixo b construção do novo recorrendo à mimética ou “pastiche”.Prédios de habitação pluri-familiar construídosentre 2002 e 2006: Há uma continuidade em termos relação lote - espaço público, expressaRua de Olhão, pela reprodução de modelos existentes. Resultam em termos de linguagemRua João de Deus,zona a Sul do núcleo urbano arquitectónica em formalismos ou “exercícios de estilo” através da adopção de referências tradicionais como “matéria” de aproximação à realidade existente, não traduzindo contudo uma postura interpretativa do próprio tecido edificado. Esta realidade remete-nos para problemas que recaiem muito além das dificuldades na gestão urbana, na ausência de uma regulamentação clara sobre o tipo de intervenção no construído. Esta realidade reporta-nos fundamentalmente para questões de projecto e arquitectura. Estas traduzem a escassez de exemplos de intervenção que adoptem uma linguagem própria do seu tempo, e que consigam estabelecer simultaneamente uma relação de continuidade com o tecido preexistente. Solà-Morales1 defende que o tema da intervenção no construído deverá ter em conta o seguinte: “O reconhecimento de que a intervenção na arquitectura histórica é, primeira e fundamentalmente, um problema de arquitectura e, neste sentido, a lição do passado é um diálogo a partir da arquitectura do presente”. e ainda: “Os problemas de intervenção na arquitectura histórica não são problemas abstractos […] mas que se apresentam como problemas concretos sobre estruturas concretas. […] A crise cultural é uma crise de modelos universais […]. A questão do equilíbrio e dos limites das intervenções contemporâneas sobre as existentes é, em primeiro lugar, uma questão de arquitectura […]”.de cima para baixoPrédios de habitação pluri-familiar construídosentre 1970 e 2001:Largo do forno velhoRua João de Deus1 I. Solà-Morales, Territorios..., op. cit.
    • Da alteração do traçado à O espaço público constitui para qualquer aglomerado urbano, enquanto modificação do espaço urbano elemento estruturante do seu tecido, o lugar privilegiado de sociabilidade e representatividade. As praças e largos assumem-se como os pólos agregadores das principais vivências urbanas, reunindo ainda significados com os quais, identificamos e reconhecemos determinado lugar. A articulação entre os diferentes tecidos torna-se, por tal, determinante para a continuidade do espaço colectivo, tendo naturalmente implicações na própria vivência urbana. Podemos assim constatar que as primeiras descontinuidades com a estrutura urbana antiga de Estoi surgiram, num primeiro momento, com os novos traçados da Rua de Faro e posteriormente com a Rua João de Deus. Nelas se estabeleceu um novo desenho urbano - ruas de perfil mais largo, frentes de lote com maior dimensão, implementando uma nova estrutura urbana, articulada com alguns dos elementos primários pré-existentes – a Igreja, o Palácio, o núcleo do Coiro da Burra, ou ainda, os eixos de atravessamento para os principais centros urbanos – São Brás de Alportel, Olhão e Faro. Se observarmos hoje o prolongamento no sentido Poente da Rua de Faro, percebemos que a continuidade volumétrica, morfológica e tipológica se manteve apenas até ao edifício dos Correios. A partir deste percebemos a presença de edifícios que, não só, rompem tipologicamente com o tecido urbano existente, como impõem recuos e desalinhamentos face ao eixo de rua traçado no século anterior. São estes momentos de ruptura que começam a surgir no final do século XX. Enquanto parte do tecido urbano consolidado permanece ainda por preencher, correspondendo este a grandes parcelas não construídas que delimitam frentes de rua, constatamos paralelamente, o loteamento de antigos terrenos agrícolas situados nas franjas do aglomerado, onde se vêem delineados novos traçados sobrepostos à estrutura fundiária existente. As recentes áreas de expansão expressam novos modelos de urbanidade não demonstrando preocupação na articulação tipológica e morfológica com o aglomerado. O conceito de condomínio fechado que podemos observar hoje, localizado à entrada da Rua de Olhão, ilustra o exemplo mais recente de uma situação que vem romper com a lógica da estrutura urbana pré-existente. Foram adulteradas as características morfológicas e topológicos existentes, impondo-se uma volumetria que não só não estabelece qualquer relação com o existente, como também descuida aquilo que define o espaço público e a que Nuno Portas designa como “Sistema de espaço colectivo”1. O espaço público, enquanto elemento estruturante, é fundamental no processo de articulação das várias partes, ajudando na colmatação deste tipo de rupturas ou descontinuidades. Tal como se refere Francisco Barata ”[…] o espaço público é o fundamento da urbanidade […], mas este deve pressupor necessariamente um consenso de complementaridade formal com o conjunto edificado”2. A sua “ausência” nas novas áreas edificadas, evidencia o papel também ausente da gestão urbana enquanto reguladora de um todo. O espaço público pode ser o instrumento de articulação entre as várias partes existentes - articulando o1 Nuno Portas, À volta da cidade, casco antigo com as recentes áreas de expansão e o restante território envolvente, Encore, Lnec, 20032 Idem, Ibidem, p. 305 situação esta que obrigaria ao esforço financeiro e directo da autarquia.Fig.51 (página 203)Os espaços públicos estruturantesvista antes e depois das intervençõesrealizadas respectivamente em 2005e 2006.Largo Ossónoba (1, 2)Largo da Liberdade (3, 4, 5)
    • 5 4 3 2 1 203 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi
    • Sobre a intervenção no A imagem de uma rua ou praça é tão só determinada pelos seus edifícios como espaço colectivo também por um conjunto de elementos que lhe confere uma especificidade – os aspectos geo e tipo-morfológicos, a sua localização, orientação, dimensão, o tipo de pavimentação, vegetação e até o mobiliário urbano. Estes constituem o suporte das nossas deslocações e movimentações dando acesso às áreas edificadas e livres existentes. A nossa fruição visual está relacionada com a percepção que temos de determinado lugar, sujeita a determinadas sensações estabelecidas pela hierarquização dos percursos e pela diferenciação dos ambientes que, articulados ou não, criam diferentes graus de vivência e de uso nesses mesmos espaços. O pavimento é o meio mais directo através do qual entramos em contacto físico com o espaço. A sua natureza, textura, dimensão e desenho constituem a ”pele” que confere a unidade espacial e parte do carácter de um lugar. Os principais espaços públicos de Estoi culminam nos três largos existentes. Os materiais que os conformam são resultantes de intervenções decorrentes dos finais do século XIX, como a escadaria da Igreja Matriz ou da primeira metade do século XX, nomeadamente, a pavimentação dos largos e ruas em calçada à portuguesa. A utilização destes materiais está naturalmente associada ao seu meio físico e às condições geo-morfológicas existentes. Nestas pavimentações encontramos, na generalidade, os cubos de calcário irregular ou os paralelos de calcário. O desnível imposto mais recentemente, anos 80, entre passeio (com cerca de 30 a 70 cm de largura) e a faixa de rodagem, hoje em asfalto, constituem aspectos de pormenor que interferiram na leitura e na continuidade do espaço urbano. O perfil das ruas mais antigas, entre os 3 metros de largura, não pressupõe nem comporta a existência de desníveis acentuados e muito menos de passeios. A manutenção dos tecidos de pavimento existentes, ou outros descobertos por erosão do alcatrão, constitui um factor importante enquanto estratégia de intervenção. Estes tecidos concorrem enquanto matéria-prima reutilizável reveladora de memórias e identidades construtivas anteriores. Seria assim interessante que as futuras intervenções tivessem em conta, sempre que possível, a preservação e compatibilização entre os materiais pré-existentes, os novos desenhos e os novos a introduzir, tornando assim possível a percepção das várias “cicatrizes” do tempo. (Fig.51) Qualquer intervenção sobre os principais espaços públicos de Estoi, largos e praças, deveria ter em conta a adequação e compatibilidade com as características estruturantes existentes. Poderia apostar numa “contida” reorganização e regularização de pavimentos, substituição e introdução de alguns materiais, assegurando a reorganização do estacionamento e da circulação pedonal, conferindo uma melhor leitura e qualidade ao espaço urbano. Ao nível das circulações verificamos a necessidade de uma melhor definição dos acessos e circulações no interior do núcleo, estabelecendo uma hierarquia que tenha em conta estes três níveis: 1 vias principais de atravessamento com circulação viária e pedonal, para as vias de acesso principal e de articulação com o território envolvente ao núcleo; 2 vias com circulação condicionada ao trânsito local - vias de perfil mais estreito cuja circulação é condicionada aos moradores ou ao tráfego local de cargas ou descargas; 3 vias pedonais com circulação viária condicionada - ruas de circulação predominantemente pedonal, com excepção de cargas e descargas ou para acesso a ambulâncias; correspondem aos eixos da malha mais antiga onde oCaminho de acesso ao núcleo perfil da rua dificulta o atravessamento em segurança de peões e carros.localizado a Nascente Os caminhos e azinhagas, por onde “desaguam” as principais ruas antigas do tecido urbano, permanecem grande parte em terra batida, definidos por muros e vedações em pedra, em tempos rebocados e caiados. Nos últimos tempos o cimento e o alcatrão têm vindo progressivamente substituir e a conformar uma nova identidade a estes percursos. Os muros que definiam os antigos limites de propriedade são hoje ora destruídos, ora substituídos por muros em tijolo industrial, vendo alterada a sua espessura e plasticidade.
    • A preservação destes caminhos passaria pela sua valorização através da criação de percursos temáticos ligados ao ciclo-turismo ou mesmo pedonais que permitissem uma maior articulação do núcleo com a restante freguesia, ligando-o a outros pontos de referência patrimonial, identificados no espaço rural, funcionando estes como estruturas de dinamização do restante território. Para além dos aspectos críticos já referenciados podemos contudo identificar outros quer ao nível da pavimentação, quer ao nível das infra-estruturas, circulação,Caminho dentro do núcleo urbano estacionamento e que deveriam ser tomados em conta, em futuras intervenções no(ligação entre a Travessa Esquível e a RuaJoão de Deus) núcleo histórico de Estoi. Pavimentação e mobiliário urbano: • ruas pavimentadas com pedra irregular de calcário, já polidas e com acentuadas irregularidades; • ruas com asfalto sobreposto ao antigo pavimento em pedra de calcário irregular; • existência de passeios em ruas de perfil exíguo, como é o caso da Rua do Pé da Cruz, Rua da Igreja ou Rua Visconde de Estoi; • desarticulação entre passeios e ausência destes, em eixos de perfil maior, como é 205 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi o caso da Rua de Faro até ao Coiro da Burra; • interrupção e ou ausência de arborização em arruamentos de maior perfil como é o caso da rua João de Deus. Circulações e estacionamento: • a largos ou praças com atravessamento automóvel e ou caracterizadas por estacionamento desorganizado; • ausência de bolsas para estacionamento que sirvam os residentes no casco urbano mais antigo; • ausência de hierarquia na circulação automóvel, com ruas estreitas de dois sentidos; • atravessamento constante de veículos pesados pelo centro do núcleo por ausência de alternativas viárias (a variante Sul). Infra-estruturas: • ausência de sumidouros e deficiente drenagem das águas pluviais; • presença de cabos de electricidade e telefone suspensos nas fachadas; • ausência de iluminação em algumas ruas mais secundárias; O perfil exíguo das ruas, com circulação nos dois sentidos, a par da enorme desorganização ao nível do estacionamento, são alguns dos principais problemas encontrados e que mais contribuem para o desconforto ao nível de vivência urbana. Também a Sul, nomeadamente, onde se desenvolve mensalmente a feira de Estoi, encontramos uma extensa área desarticulada do restante tecido residencial, apenas ocupada pontualmente, nos dias de feira ou para eventos desportivos ou culturais, merecendo contudo, um tratamento ao nível de requalificação do espaço público que permitisse a sua utilização, no período em que não houvesse acontecimentos.
    • Princípios estratégicos de O estudo dos fenómenos urbanos não se resume apenas a uma só dimensão intervenção histórica. Há uma sucessão de acontecimentos e alterações feita quase sempre a partir de um momento anterior ou de uma preexistência e é essa sucessão de “[…] como se a batalha do sobreposições, momentos e de tempos que ajuda a conformar um determinadocentro não se ganhasse desde espaço, estrutura e forma. a periferia, nesta sociedade A conservação urbana não pode apenas resumir-se à preservação do seu suporte de vasos comunicantes e de físico numa visão meramente superficial, assente nos aspectos construtivos ou nos centralidades em rede […]”. elementos de composição, sem perceber que estes derivam de uma estrutura que Nuno Portas, Lisboa 2003 lhes é determinante. Estes são apenas as marcas exteriores, mais débeis e sujeitas a transformações, sendo a principal permanência no tecido urbano, a sua estrutura ou o cadastro. A caracterização formal está assim associada a determinado cadastro e naturalmente, às propriedades inerentes ao seu tecido tipológico. O estudo da relação entre conjunto edificado e espaço urbano permite identificar modos de assentamento, configurações físicas, uma lógica organizativa especifica e reveladora de determinada regra, capaz de contagiar futuras intervenções. A identificação das várias partes que constituem o tecido urbano, o reconhecimento dos modelos dentro do conjunto permitirá perceber quais as homogeneidades morfológicas existentes enquanto matriz de actuação. O modo como podemos percepcionar determinado espaço depende e muito, do conhecimento prévio que temos dessa estrutura urbana. Nesta base podemos, através dos diferentes processos de transformação, avaliar a variação tipológica e a sua adaptabilidade às mudanças de vida actuais sem que isso implique, necessariamente, a regra da substituição total. Na análise morfo-tipológica esperamos poder estar a base para chegar aos seguintes objectivos: • identificar, a partir de um conhecimento mais profundo do seu processo de transformação, o seu todo, as suas partes, naquilo que Francisco Barata identifica poder assentar a estabilidade da forma urbana. • Garantir a permanência de uma identidade adquirida lentamente ao longo do processo histórico, traduzida nalguns factos urbanos, tais como: • o tipo de relação quase doméstica com o espaço público existente; • ao nível do quarteirão, mantendo as áreas de espaço livre, as heranças rurais que se prolongam ainda de forma tão evidente nas habitações mostradas; • ao nível dos usos, redescobrindo o carácter vocacional que o caracterizou desde a sua génese, assente nos recursos naturais e num território rural, valorizando o seu significado hoje. As lojas de mercearia, ofícios, drogarias, apostando numa difusão e dinamização dos produtos que se extraem do seu território. • Avançar numa gestão urbana coordenada assente numa visão tipo-morfológica, historicamente enquadrada. Na identificação e caracterização dos diferentes tipos, avaliando a capacidade de adaptabilidade a novos usos, mantendo os sistemas construtivos e organização espacial, reutilizando-os sem recorrer à sua substituição, mas antes introduzindo novas infra-estruturas; • garantir como principio a manutenção morfológica do lote decorrente de uma preservação tipológica, assegurando nos logradouros a herança rural que ainda persiste de forma tão evidente; • tomar as tipologias que constituem os exemplares de repetição, quer ao nível das suas dimensões, proporções volumétricas, métrica, enquanto parâmetros de estudo para futuras interpretações criticas, garantindo a continuidade na leitura urbana. • Assegurar o processo de transformação promovendo a fixação da população activa no núcleo, através da valorização dos recursos que o território oferece e investindo numa economia local; • o turismo rural, ecológico e cultural, apostando nos elementos que a fazem ser uma excepção dentro da rede dos aglomerados rurais: a existência do Palácio Setecentista e das Ruínas de Milreu. Sendo o tecido urbano algo inacabado, em permanente transformação, os seus diferentes momentos traduzem-se sob formas e modos distintos. Daniele Vitale refere-se às diferentes formas em como os tecidos antigos
    • 1 Daniele Vitale, La questione dell’ se relacionam com os tecidos modernos. Estas manifestam-se nas enormes Antico e il destino delle città, testi e diversidades encontradas em muitos aglomerados urbanos, nomeadamente, lezioni, Politecnico di Milano, 19932 Benardo Secchi, Uma nova forma quer através de um processo de “continuidade”, onde se reflecte uma maior de Plano: Siena, Discursos sobre unidade; quer através de uma “amálgama”, em que os diferentes tecidos parecem arquitectura, Esbap, 1990 “entrelaçados”; quer através de um processo de “sedimentação e estratificação”3 André Chastel, Les Sens des “petites feito de acrescentos e sobreposições; quer num processo de “diferenciação villes”, in “Architecture Vernaculaire”, Comité de L’Icomos pour l’ ou contraste”, estabelecendo descontinuidades; quer ainda por “anulação”, Architecture Vernaculaire, Colombo implementando ou sobrepondo novos modelos ou regras, com substituição do 1993 existente1.4 Benardo Secchi, Urban Scenarios A maioria dos núcleos urbanos traduz hoje essa amálgama de tecidos que se and Policies, in AA. VV., “Políticas agrega revelando fortes descontinuidades entre eles. urbanas, tendências, estratégias e oportunidades”, Fundação Calouste Bernardo Secchi refere a propósito desta situação que os aglomerados urbanos Gulbenkian, Lisboa 2003, pp.275 a “[…] se tornaram um imenso armazém de projectos parcialmente interrompidos, um 283 catálogo de possibilidades que não souberam ou puderam realizar-se plenamente. Excesso de codificação, de burocratização, de atitudes projectuais redutoras e desarticuladas ou a redundância representativa […]”2. A preservação de um núcleo urbano como Estoi, põe em evidência um conjunto de outras questões que o afasta da cidade. 207 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi André Chastel3 refere a propósito do tema da petite ville que aquilo que representa de maior valor nestes núcleos é “a capacidade de pôr ainda em evidência os três aspectos do habitat agregado, coeso (groupé) que a grande cidade já não conhece, tais como – 1 – o encerramento (le clos), 2 - o espaço principal, 3 – a comunidade”. Este refere ainda que o outro aspecto fundamental que distingue a aldeia da cidade é a ligação íntima da petite ville com o espaço envolvente, isto é, com o campo. “[…] Estreitamente ligada à sua existência, ao seu povoamento e mesmo à sua configuração […]”. Em núcleos rurais como Estoi é na própria configuração e integração urbana com a envolvente rural que permanece a singularidade e o valor patrimonial. A questão que se coloca, fundamentalmente hoje, é como a actual expansão, assumida como um facto inevitável do seu processo de transformação, pode ser continuada, de forma equilibrada e articulada com o tecido existente sem pôr em causa aquilo que constitui a sua identidade física. Poderemos talvez estar na eminência de assistir à repetição de um percurso já visto? O PDM de Faro ao integrar os núcleos rurais como Conceição, Santa Bárbara e Estoi como áreas de expansão urbana da cidade comprometeu à partida a configuração destes aglomerados e o seu sentido de salvaguarda. O planeamento deste tipo de aglomerado deveria não só ter em conta a preservação do núcleo de fundação, como o controlo dos novos “desenhos” nas áreas de transição e aproximação, garantindo uma articulação gradual com a paisagem circundante. A manutenção das suas características, sob o ponto de vista patrimonial, passa em muito pela visão do núcleo enquanto um todo, enquanto unidade do qual se vão organizando e articulando novos modelos urbanísticos com a sua matriz inicial. Uma maior articulação desses mesmos tecidos poderá ser assim, segundo Bernardo Secchi, uma das alternativas de resposta para este tipo de realidade4. Sabemos porém que este tipo de medidas se prende não só com um planeamento concertado e ajustado mas fundamentalmente pressupõe uma estratégia global de ordenamento do território, quer ao nível do concelho como da região. O entendimento destes núcleos enquanto tecidos e partes integrantes deste património paisagístico, deve ser tomado como resultante de uma política urbana num sentido global. A análise e implementação de uma estratégia de conjunto deve passar por uma clarificação de como se pretende que cresça a própria sede de concelho. Numa gestão mais eficaz das cidades poderá residir grande parte da solução para os principais problemas que hoje dominam nos núcleos periurbanos. Paralelamente ao esvaziar da cidade antiga da cidade de Faro assiste-se simultaneamente, ao densificar das suas periferias urbanas e naturalmente à descaracterização das zonas limiar, dos seus aglomerados rurais, vistos como alternativa de habitação. Estas medidas acarretam problemas cada vez mais
    • graves de mobilidade, segurança tendo naturalmente, repercussões sobre aqualidade de vida. Será então necessário para além de um controlo do tecidoexistente focarmo-nos nas áreas de transição. O tecido novo deverá apontar nosentido de dar continuidade à sobreposição de identidades e de momentos.Este processo de actuação implica um modo de planificar e de projectar assentenum prévio conhecimento e análise critica do lugar, da sua forma urbana econtexto físico. Implica tomar o objecto de estudo enquanto tema para uma novareinterpretação.O núcleo deverá ser ainda entendido num sentido de complementaridade noconcelho em termos de vivência e usos. Implementar um equipamento que lheconfira alguma especificidade, quer ligada à produção, ao ensino, associadaà produção artesanal e transformação de frutos secos, à olaria, desenvolvendocursos técnico - profissionais que impliquem a fixação de população jovem.O seu potencial, enquanto alternativa de qualidade, face à densidade do núcleourbano de Faro, poderia assentar ainda no desenvolvimento de outros recursos.O turismo tem relançando novas perspectivas de abordagem com base no temada ecologia, valorizando a exploração das especificidades físicas e ambientaisdos lugares. A valorização da estrutura ecológica, dos recursos naturais epaisagísticos disponíveis poderá constituir um aspecto fundamental enquanto futurodesafio a explorar, num núcleo rural como Estoi.Poderemos assim talvez, ainda estar a tempo de contribuir para a conservação epara a continuidade, daquilo que constitui grande parte da sua identidade.Numa perspectiva de abordagem mais concreta das partes constituintes do seutecido, chegamos a objectivos estratégicos que se concentram fundamentalmente: 1 no núcleo antigo 1.1 reconhecer esta área enquanto centro antigo assumindo a sua centralidade neste aglomerado enquanto área privilegiadamente residencial e cultural; 1.2 valorizar e salvaguardar as suas características arquitectónicas e volumétricas assegurando o levantamento e conhecimento rigoroso dos edifícios, em obras de transformação sobre o existente, assegurando a manutenção de uma cércea máxima de 2 pisos e uma volumetria que se adapte e acompanhe à topografia; 1.3 controlar a preservação da malha e do cadastro, assegurando a preservação dos vazios interiores dos quarteirões, valorizando-os pelo seu carácter excepcional, criando em casos específicos, a possibilidade de os tornar permeáveis, integrados como estrutura verde; 1.4 investir nos edifícios devolutos de carácter excepcional integrando equipamentos âncora, como um pólo museológico ou pólo de biblioteca que permitissem a dinamização dos espaços intersticiais do tecido antigo, afastando a imagem de valorização numa perspectiva museológica; 1.5 requalificar o espaço público ou colectivo criando condições de conforto na sua fruição, reorganizando os sentidos do trânsito, criando novas bolsas de estacionamento e valorizando os circuitos pedonais; 1.6 reformular as infra-estruturas de saneamento, distribuição de água electricidade, telecomunicações e lixo, assegurando a qualidade de vida urbana num núcleo que deverá assumir-se como uma pólo alternativo não só para residência, como para trabalho. 2 nas novas áreas de expansão 2.1 os novos traçados devem definir uma hierarquia urbana clara, capaz de estabelecer novas centralidades articuladas e complementares com o tecido pré-existente; 2.2 controlar as volumetrias e os polígonos que se impõem no tecido evitando as descontinuidades visuais e físicas que interferem com a imagem e vivência do núcleo. Através de uma melhor regulação que não apenas o PDM, assegurar a volumetria não superior a três pisos na zona Sul de cota mais baixa e os dois pisos nas áreas a Norte e Nascente do núcleo, assegurando a adaptabilidade ao perfil e às condicionantes impostas pela topografia existente (sem recorrer à solução de tabula rasa); 2.3 assegurar uma articulação entre edifício e espaço público privilegiando tipologias de casa uni-familiar em banda capazes de estabelecer novas frentes de rua, em continuidade com o tecido existente;
    • 2.4 colmatar as descontinuidades já existentes ao nível da implantação e assentamentos, através de uma aposta na valorização do espaço público, articulando-o com o tecido antigo, através de arborização, iluminação e pavimentação de corredores para peões; 2.5 privilegiar a heterofuncionalidade nestas novas áreas, implementando usos de apoio doméstico, actividades comerciais ou produtivas. 3 no espaço público/ acessibilidades/ equipamentos 3.1 reorganizar os sentidos do trânsito eliminando os dois sentidos em ruas de perfil exíguo; 3.2 reorganizar o estacionamento criando novas bolsas nos limites das áreas mais compactas como a norte do núcleo, aproveitando interiores de quarteirões; 3.3 requalificar as entradas e eixos de atravessamento - eixo para Olhão, São Brás de Alportel e Faro. Do ponto de vista do espaço público era preciso implementar algumas medidas já contempladas nos planos como a ligação Estoi – Coiro da Burra, estabelecendo uma maior relação com o núcleo e que passaria por um investimento no espaço público, criando uma articulação pedonal desde a Igreja Matriz até à ponte, interligando o equipamento do Centro interpretativo de Milreu. A requalificação do eixo da Rua de Faro passaria fundamentalmente 209 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi pela melhoria nas condições de circulação pedonal e viária, contemplando o alargamento e construção de passeios, arborização nas zonas de recuo, iluminação e infra -estruturas de apoio, colmatando os desalinhamentos sobretudo a partir do edifício dos Correios; 3.4 articular as áreas de equipamentos “zonificadas” , a Sul, com os traçados a surgir com a nova rede residencial e com o tecido existente. Assumir o espaço de feira ou feiras como uma área livre requalificada e fruível; 3.5 numa perspectiva de valorização ambiental implementar corredores ecológicos, de ciclo-turismo ou pedestres, valorizando e recuperando algumas das estruturas agrícolas que povoam o território envolvente. Fomentando equipamentos de apoio como restaurantes, cafés, áreas de lazer; 3.6 intensificar e melhorar os transportes públicos estabelecendo-se estes como verdadeiras alternativas de mobilidade, intensificando as principais ligações com os três núcleos mais próximos como São Brás de Alportel, Olhão e Faro e ainda com a própria freguesia. Estas medidas deveriam passar essencialmente pela resolução da relação, quase crónica, entre plano e gestão municipal, neste caso concreto na implementação de um plano regulador das intervenções sobre o edificado e sobre a forma urbana. O que temos observado até hoje é um contínuo adiamento da aplicação de planos, prolongando-se uma gestão que se apoia na resolução das situações “caso a caso”, sem critérios claros para a gestão do território. A situação em Estoi reflecte, em parte, aquilo que se passa também nas restantes áreas do concelho: a ausência de uma política coordenada de gestão do território. A expansão por loteamentos impõe-se como uma realidade em pleno desenvolvimento onde é transferido para o promotor o papel outrora ligado à administração pública – o da implementação dos traçados e das infra-estruturas. Os loteamentos são assim “uma espécie de grau zero do planeamento que responde apenas a uma superfície limitada pela propriedade ou pelo âmbito do promotor, sem cuidar da escala mais vasta em que se insere e onde a forma1 Á. Domingues (coord.), Cidade urbana faz sentido pleno”1. e democracia: 30 anos de A possibilidade de gestão deste núcleo depende sobretudo de uma coordenação transformação urbana em Portugal, [Ciudad y Democracia], entre as várias partes que o compõem e que nele interferem, de uma gestão eficaz Argumentum, Lisboa 2006, p.358 dos recursos e potencialidades intrínsecas, percebendo o seu papel e significado2 in Idem, N. Portas, Perspectivas hoje, enquanto pólo urbano com qualidades patrimoniais, edificadas, paisagísticas temáticas e culturais que importa manter. Como diria Nuno Portas, o problema na gestão urbana reside também para além dos gestores públicos, na formação de grande parte dos projectistas que quer trabalham para a administração, quer para o promotor privado, “[…] tendem a fixar-se nas formas de edificação isolada, ou dos conjuntos isolados, e a não entenderem ou não contribuírem para a forma que os liga […]”2.
    • Importa assim prolongar e reutilizar o tecido existente percebendo o valor da suaestrutura urbana contribuindo em soluções de arquitectura e urbanismo que nãoestabeleçam a ruptura. A capacidade como se salvaguarda e se intervém numdeterminado contexto edificado ou urbano irá sempre funcionar de referênciapara quem vem a seguir. 1 2 3
    • A gestão do seu património Entendendo como património toda a estrutura urbana herdada representada pelo seu conjunto edificado, os espaços colectivos fundamentais na conformação do tecido actual , facilmente percebemos a importância que tem a sua gestão e salvaguarda. O processo de gestão do património é sempre condicionado por aspectos morfológicos, sociológicos, económicos e políticos. Neste processo estão subjacentes alguns aspectos que incidem quer na esfera social, quer na esfera politica, quer nos órgãos técnicos de gestão. A gestão e salvaguarda depende assim de um consenso geral entre estas partes tendo por base, a definição de uma estratégia politica de salvaguarda. A definição da estratégia deveria passar fundamentalmente pelas seguintes fases: a inventário e identificação dos valores patrimoniais onde se incluí o núcleo urbano e a área da freguesia rural; b definição de um plano estrutural base que tivesse em conta as suas diferentes partes, relacionando-as com o concelho e a região, numa perspectiva alargada de gestão do território; c elaboração de planos detalhados sobre áreas estratégicas e especificas; 211 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi d implementação de normas regulamentares que ajudem no controlo sobre as intervenções no edificado e nas áreas de expansão, tendo em conta a valorização dos espaços verdes, da vegetação, os pontos ou linhas de água. A sua gestão deve assim depender também de um sistema de planeamento e controlo coordenado entre os diferentes intervenientes público/privado, numa acção global e articulada, percebendo que cada uma das partes que conforma o seu tecido, está interligada entre si, interferindo inevitavelmente no seu todo e naquilo que constitui o seu património. Partindo da análise morfo-tipológica já anteriormente exposta procurámos contribuir de forma sistematizada, na identificação dos principais valores patrimoniais que envolvem e compõem a área do conjunto urbano hoje, propondo ainda estratégias específicas de articulação. Tomando como princípio a valorização dos elementos patrimoniais existentes enquanto “âncoras” fundamentais na organização de uma estratégia de desenvolvimento sustentado, entende-se como objectivos prioritários: 1 difusão e conservação dos elementos patrimoniais existentes promovendo a sua investigação, conhecimento e salvaguarda (o Palácio e outras edificações civis, o território rural); 2 criação de instrumentos de gestão tendo em vista o controle e a coordenação do conjunto edificado existente, valorizando o espaço público nas novas manchas de edificação; 3 contribuição no sentido do benefício directo ou indirecto da população residente, para a qualificação dos recursos humanos, criando oportunidades de trabalho que permitam a permanência e fixação no núcleo, estimulando uma própria economia local.1 obras concluídas em abril de 2009 Definindo como ponto de partida as principais unidades patrimoniais estruturantes do conjunto em estudo, constatamos a seguinte situação: património arqueológico; conjunto arqueológico de Milreu, actualmente alberga um centro interpretativo e um espaço museológico. património arquitectónico; núcleo urbano antigo e o Palácio de Estoi e jardins, que actualmente aguardam a conclusão da obra de reconversão em Pousada de Portugal1.Fig. 52 (página 210) património paisagístico; composto por um conjunto de estruturas e construçõesVista sobre o Palácio e traseiras daRua do Pé da Cruz (1); agrícolas: noras, telheiros, fornos de cal, eiras, moinhos, testemunhos vivos de umaentrada do Jardim do Palácio a vivência perdida.partir da Rua da Barroca (2);Jardim confinante (3) A identificação dos elementos patrimoniais mais relevantes pressupôs, também, chegar a uma perspectiva global de cada um dos temas com vista a introduzir umafotos de Setembro de 2005 (1, 3) eMarço de 2007 (2) estratégia coordenada e articulada entre os vários potenciais.
    • Património arqueológico Conjunto arqueológico de Milreu O Centro interpretativo poderia promover actividades que assegurassem uma maior articulação com os habitantes e escolas quer do núcleo quer da freguesia. Património arquitectónico Núcleo urbano – aldeia o edificado: arquitectura civil e religiosa Para além dos aspectos já anteriormente referidos assume-se como principal prioridade a atenuação dos contrastes entre núcleo densificado, consolidado e as novas áreas de expansão, e a articulação com o território rural envolvente, estabelecendo-se áreas de transição/protecção; o espaço público Requalificação do ambiente urbano e das acessibilidades. A Quinta de Estoi Considerando o uso previsto - pousada - e atendendo à extensão e valor patrimonial deste conjunto formado não só pelo palácio mas pelas áreas de jardim que outrora serviam e se abriam à própria aldeia, pensamos ser fundamental manter esta relação de articulação que sempre existiu com a comunidade, permitindo a fruição dos jardins de forma mais permanente.Palácio de Estoi e jardimfotos 2005 Património paisagístico O território rural envolvente A dimensão patrimonial de Estoi não se cinge somente ao espaço urbanizado, mas também ao território rural envolvente que conforma a freguesia e que é composto por elementos dispersos de elevado valor histórico e patrimonial. Atendendo ainda à forte componente agrícola desta paisagem, caracterizada por um conjunto de estruturas como noras, moinhos, azenhas, eiras, caminhos rurais que se articulam com o núcleo densificado, era fundamental a identificação, levantamento e registo destas estruturas criando posteriormente circuitos de visita e ou actividades que ajudassem na interpretação e dinamização destes vestígios, enquanto partes de um todo interdependente. Para isso seria essencial um estudo paisagístico global, valorizando-os numa perspectiva de dinamização turística sustentada. Através de programas de dinamização pretendia-se assim a criação de circuitos temáticos reabilitando caminhos rurais envolventes que partissem do núcleo para o restante território rural, identificando ao longo desses percursos as preexistências com valor patrimonial e os pontos com vista a valorizar. A hipótese de instalar um parque de campismo rural, privilegiadamente junto a uma fonte, com infra-estruturas de apoio, poderia ser desenvolvida enquanto motor de dinamização do território da freguesia.de cima para baixovalado em pedra irregular(caminho junto ao Rio Seco);valados a Norte da freguesia (Azinhal eAmendoeira);eira a Sul da aldeia. Identificada na Fig.53 ( ()Fig.53Esquema de possíveis circuitos devisita integrada, onde se articulemas diferentes valores patrimoniais noterritório
    • Em síntese Entendendo o território neste sentido de tecido interdependente e pluridisciplinar, apercebemo-nos de uma estrutura formada por um núcleo urbano consolidado onde equipamentos e edifícios de excepção se destacam com dimensão quase regional. Sistematizando, a estratégia deveria apontar num sentido da sustentabilidade do núcleo, estabelecendo um sistema que permita a sua fruição em termos de visita, informação, ou bibliografia, com equipamentos de apoio complementares, implementando simultaneamente, modelos de planeamento da sua paisagem envolvente quer em termos de densidade, escala, quer em termos de uso. Apostar na vertente turística centrada nos aspectos culturais e ambientais, contrariando a tendência regional para o turismo de massa. Considerando a população residente e a que tenderá a fixar-se nas novas áreas de expansão urbana, torna-se fundamental estabelecer critérios de controlo que ajudem na permanência dos seus valores e no reconhecimento da sua própria cultura. Reencontrando na sua história e no reconhecimento dos seus valores patrimoniais, articulados de forma sistemática, um suporte para a valorização e manutenção de uma identidade cultural. Será ainda importante também frisarmos que todo 213 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi este processo deverá ser sempre acompanhado por medidas que envolvam a comunidade que aí reside, registando também os saberes, as técnicas, valorizando as actividades ainda remanescentes, contribuindo também para a continuidade do património intangível. A questão da manutenção da identidade de um lugar naturalmente que não se encerra para além dos aspectos físicos. Nele concorrem outros aspectos – os antropológicos ou etnográficos que conformam um determinado tecido sócio- cultural. Mas são contudo as características arquitectónicas, morfológicas que determinam os espaços, as formas, as imagens que retemos de determinado lugar. A este tecido pode estar inerente uma vivência, ou vivências que ao longo dos tempos se vão alterando, ajustas ao seu suporte físico e transformando-o. Neste ciclo se inclui o processo de transformação deste e de qualquer aglomerado antigo, feito através da substituição parcial ou total do tecido edificado, pela sua ampliação e expansão, mas onde permanece quase sempre inalterada a sua estrutura, a malha urbana. A defesa de um núcleo antigo como este deve passar fundamentalmente pela salvaguarda daquilo que lhe é determinante - o seu suporte físico e também paralelamente, pela manutenção de uma estrutura sócio-cultural consistente que lhe permita continuar a ser um organismo vivo, em permanente transformação. Desta forma pensamos poder este documento contribuir para um maior conhecimento do seu tecido, descodificando as suas formas e relações, registando modos de ocupação e organização funcional ainda hoje válidos e capazes de servir em futuras metodologias de intervenção.Cortejo da Festa da Pinha Molduras de vão em cantaria(Rua pé da Cruz) (Largo Ossonoba)
    • página 215Fig. 54Conjunto edificado: data de construção(sem escala)
    • 215 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi
    • página 217Fig. 55Construções no núcleo de Estoi desdea segunda metade do século XX atéhoje (sem escala)
    • 217 Estoi| Identidade e transformação. A salvaguarda e gestão do património de Estoi
    • Considerações finais219 Estoi| Identidade e transformação.
    • Fig. 56Vista sobre o núcleo a Poente2005
    • Considerações finais Quando partimos para um trabalho de investigação julgamos poder no final esclarecer todas as dúvidas ou questões que nos colocamos a priori. Se muitas se clarificaram, outras mais se colocam permanecendo como temas de trabalho que esperamos ver um dia explorados. Os parâmetros e pressupostos expressos ao longo do trabalho tiveram em conta o objecto de estudo, revelando a análise a sua relatividade, não se pretendendo ser definitiva, nem universal. O que nos interessou fundamentalmente foi identificar e reunir de forma estruturada e sistematizada a informação relativa ao património arquitectónico e urbano de Estoi, permitindo não só ampliar o conhecimento sobre o núcleo, como possibilitar de futuro uma maneira mais operativa de metodologia de análise. Do ponto de vista metodológico procurámos percorrer um movimento de aproximação e aprofundamento gradual ao núcleo tendo em conta as diferentes escalas a que o seu território se estende - a escala regional, do concelho, da freguesia, centrando-nos de forma mais aprofundada, na escala da aldeia, do quarteirão e da casa. A partir da análise do seu tecido urbano conseguimos perceber claramente a existência de duas unidades morfológicas apoiadas em duas praças estruturantes: uma primeira localizada a uma cota mais elevada, representando a área do núcleo de matriz medieval, identificada por uma estrutura viária mais sinuosa e uma configuração morfológica mais irregular e compacta; e uma outra, cujo desenvolvimento apoiado em linhas de cota mais baixas e 221 Estoi| Identidade e transformação. Considerações finais planas, revela uma maior regularidade formal, uma estrutura viária mais rectilínea que culmina no espaço do Largo da Matriz. Da análise morfo-tipológica do núcleo conseguimos perceber a capacidade com que o tecido edificado soube adaptar-se às condicionantes naturais disponíveis. Parte do seu valor patrimonial resulta desse conjunto de características decorrentes da constante adaptação às condicionantes naturais e que ao longo dos tempos serviram de ponto de partida e referência nas sucessivas transformações e momentos de expansão. O levantamento do interior de cerca de 25 habitações no núcleo permitiu constatar o quanto as diferenças morfológicas se reflectem também no seu tecido construído confirmando assim, a existência de dois tipos de casa recorrente - a casa sem divisão de distribuição, associada ao tecido mais antigo, à primeira unidade morfológica e a casa corredor, recorrente na unidade morfológica do final do século XIX e inícios do século XX. Estas traduzem lógicas construtivas que assentam muitas vezes em universos justapostos, reportando-se quer a vivências mais rurais quer urbanas. Encontramos permanências de espaços como a cabana, o palheiro ou mesmo o forno exterior integrados com uma estrutura organizativa assente no elemento corredor, numa lógica de ocupação do lote e relação com o espaço público que teve em conta um maior sentido de urbanidade - a preocupação pelo tratamento da frente principal em relação às restantes dependências menos nobres. A existência de uma área de Quinta senhorial confinante ao núcleo, onde se construiu nos finais do século XVIII um palácio e jardins, constitui um dos aspectos no qual assenta grande parte da sua especificidade e excepcionalidade, conferindo-lhe desde sempre um destaque que se prolonga ainda hoje, com a perspectiva de introdução do programa da pousada. Mas como se processa hoje a expansão e o crescimento do núcleo? O reconhecimento de Estoi, com base no seu processo de evolução permitiu avaliar o quanto as recentes transformações se distinguem de momentos de transformação precedentes - perderam a anterior clareza do traçado, o sentido de conjunto, de rua, de quarteirão. Perdeu-se a continuidade da experiência do passado no actual modo de edificar - no modo de assentamento, nas referências volumétricas, na forma como esta se relaciona com o suporte físico e com a paisagem rural envolvente. Hoje assistimos a um processo de transformação “centrado” nas zonas limiar, numa expansão por loteamentos, enquanto simultaneamente permanecem no tecido
    • consolidado, áreas de vazio, espaços por preencher ou completar.As novas áreas de expansão constituem um novo processo de transformação aoqual se prevê a introdução de maiores densidades, escalas e a interferência navivência sócio-cultural e na identidade do núcleo.O tecido mais antigo revela por outro lado, a possibilidade de albergar novos usose a capacidade de se reutilizar.Nele vemos ainda significativas áreas de “terreno” rural, correspondendo estasa antigas parcelas agrícolas posteriormente absorvidas pelo traçado urbano epela edificação. É precisamente nessa relação íntima que ainda estabelece com otecido rural que reside uma das particularidades mais comuns aos núcleos rurais.Os diversos planos previstos para Estoi incidiram desde sempre, numa perspectivade expansão urbana não privilegiando a continuidade tipológica e volumétricaexistente.O papel da administração local e regional deverá traduzir-se antes de mais, nadefinição de um plano estratégico objectivo. Este deve ter em conta as diferentesunidades morfológicas existentes, estabelecendo critérios de actuação de acordocom as suas especificidades – nomeadamente para o tecido antigo e as novasáreas de expansão.Assumindo o tecido antigo como um território relativamente estabilizado, asua gestão passaria pela definição de critérios de actuação e intervenção noedificado que tivessem em conta a continuidade e preservação dos seus aspectostipológicos. Também fundamental seria a requalificação dos espaços públicosexistentes, permitindo estabelecer não só a unidade e a continuidade entre osdois principais largos, recentemente intervencionados, como ligar e valorizarsimultaneamente as principais ruas do núcleo antigo.Esta continuidade em termos de tratamento de espaço público deverá ser pensadatambém para as novas áreas de expansão.O espaço público assume assim um papel fundamental enquanto elemento deestruturação e de unidade entre as várias realidades.Para as áreas de expansão deveriam ser elaboradas propostas específicas ondefossem definidos índices, limites de implantação, alinhamentos, hierarquias viárias,volumetrias e usos com vista a permitir a construção integrada, articulada e emharmonia com a paisagem urbana e rural existente.A gestão deveria resultar num controlo rigoroso que pusesse em evidência ascaracterísticas físicas e básicas do lugar, apoiadas essencialmente em duascomponentes: • as condicionantes naturais – expressas no tipo de terreno, topografia, orientação, vegetação; • as condicionantes construídas – expressas no tecido edificado, no tipo de assentamento, tipologia, volumetria e no próprio tecido urbano.A estratégia deveria ainda definir áreas de intervenção, unidades de acção ondefossem estabelecidos apoios para a concretização de obras, aplicando políticasfiscais de regulação de contrapartidas que permitissem atrair a população para otecido antigo, diminuindo as destruições e a expansão.Também a recuperação e reutilização de edifícios devolutos com elevadovalor patrimonial, implementando equipamentos, serviços de apoio ao parqueresidencial, ou outro tipo de programas relacionados com o ensino, poderia ser umaspecto a considerar. Enquanto ”âncoras” de dinamização local, estes programaspoderão contribuir num desenvolvimento mais sustentado, fixando um tipopopulação que não utiliza o núcleo apenas como dormitório.A divulgação e implementação de iniciativas com vista ao incentivo das produçõese técnicas tradicionais, como a olaria, cerâmica, a transformação dos frutos secos,poderia funcionar como um importante sistema de sustentabilidade, podendo estesser assegurados por uma vertente formativa, ligada ao ensino profissional.Também o tema do turismo deverá ser explorado sob o ponto de vista cultural,lúdico, apoiado nos recursos naturais disponíveis, nos aspectos ecológicos eambientais.
    • Notas conclusivas O processo de controlo deste território dependerá naturalmente da definição de uma estratégia que tenha em conta a sua especificidade e sustentabilidade. Reconhecendo o núcleo como um pólo patrimonial relevante no território local e regional, a sua gestão deveria passar pelo incentivo e desenvolvimento de infra-estruturas culturais, de ensino, turismo e de mobilidade, numa perspectiva de articulação onde os diferentes “centros” ou núcleos urbanos que compõem o concelho e a região funcionassem de forma complementar ou em rede. Seria assim fundamental apostar na exploração dos seus recursos naturais, valorizando as potencialidades locais, assentes nos valores patrimoniais presentes – arquitectónicos, paisagísticos, ambientais e culturais. O entendimento de qualquer fenómeno urbano deveria assentar no conhecimento das suas partes, enquanto elementos intercomunicantes e interdependentes; Como refere Francisco Barata “a cidade não se divide em cidade a conservar,1 F. Barata Fernandes, Transformação..., cidade a transformar e cidade a fazer-se […]”1. op. cit. A salvaguarda e conservação do seu conjunto urbano deve ter em conta a articulação entre tecidos. Se é fundamental a salvaguarda e conservação do seu conjunto edificado antigo, da sua estrutura urbana existente, tão ou mais fundamental neste momento se torna o controlo e a salvaguarda da sua envolvente. As novas áreas de expansão, através de um controlo dos “novos desenhos”, deverão assegurar a continuidade entre tecidos. A inevitável expansão deverá ser encarada em continuidade morfológica, 223 Estoi| Identidade e transformação. Considerações finais tipológica e volumétrica com o existente, assegurando a homogeneidade e a unidade do conjunto urbano, prolongando o tipo de relação que ainda conserva com o suporte físico – com aquilo que afinal… ao longo dos tempos lhe conferiu a especificidade e o valor patrimonial. O modo como conhecemos determinado lugar determina grande parte da forma como nele intervimos. Qualquer intervenção arquitectónica deve assim apoiar-se num conhecimento morfo-tipológico, encarando o tecido antigo como território possível de vir a ser reutilizado e de responder aos modos de vida contemporâneos; A mudança de uso não pode assim implicar necessariamente a caducidade da matriz tipológica da grande maioria dos edifícios. Nestas condições a intervenção no construído deverá implicar um modo de projectar que toma o suporte físico e o contexto do “lugar” como permanente referência no desenvolvimento de novas reinterpretações. Mais do que acrescentar qualquer dado histórico específico, ou de aprofundar determinado tema, este trabalho tem como sentido principal permitir a leitura global e continua sobre um núcleo urbano, acreditando poder nela estar a base para futuras reinterpretações e intervenções de projecto em Estoi. Da análise sistematizada do núcleo urbano, da identificação do seu património arquitectónico conseguimos perceber o fio condutor da sua estrutura, das partes que foram compondo o seu tecido urbano e no quanto nelas podemos encontrar uma “atitude” comum. Conseguimos ainda perceber que cada momento de transformação se fez sempre como resposta a um momento precedente. A continuidade e a valorização do património existente depende assim desse prévio conhecimento, antes de qualquer intervenção. Acreditamos por isso, poder estar nesta análise e no conhecimento sobre o seu património construído, a primeira etapa no sentido da sua valorização e salvaguarda, contribuindo para que de futuro as intervenções de projecto possam reflectir esse mesmo entendimento com o lugar.
    • Bibliografia
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    • Teoria e história da Conceição, Maria Margarida Gonçalves, Iria – Posturasarquitectura e do urbanismo Tavares da – Da vila cercada municipais e vida urbanaem Portugal à praça de guerra. Formação na Baixa Idade Média: o do espaço urbano em Almeida exemplo de Lisboa, in “EstudosAguiar, José – Cor e cidade (séculos XVI- XVIII), Livros Medievais, n. 7”, Centro dehistórica. Estudos cromáticos Horizonte, Lisboa 2000 estudos humanísticos dae conservação do património, Secretaria de Estado daFaup, Porto 2002 Costa, Alexandre Alves cultura, Porto 1986, pp.155-72 – Valores permanentes daAndrade, Amélia Aguiar – A arquitectura portuguesa, Vértice, Horta Correia, José Eduardo –construção medieval do território, Lisboa 1989 Urbanismo da época barroca emLivros horizonte, Lisboa 2001 Portugal, in “Dicionário da arte Fernandes, José Manuel – A barroca em Portugal”, EditorialAndrade, Amélia Aguiar – De cidade portuguesa. Um modo Presença, Lisboa 1989Contrasta a Valença. A formação característico de espaço urbano,de uma vila medieval, revista “Sínteses da cultura portuguesa. Horta Correia, José Eduardo –Monumentos n.12, DGEMN, A arquitectura”, Comissariado Arquitectura portuguesa.Lisboa 2000 para a Europalia - INCM, Renascimento, maneirismo, Lisboa 1991, pp.91-120 estilo chão, Editorial Presença,AA. VV. – Arquitectura Popular Lisboa 1991em Portugal, vol. 3, zonas 5 Fernandes, José Manuele 6, Associação Arquitectos – Cidades e casas da Horta Correia, José EduardoPortugueses, 3a edição, Lisboa Macaronésia, Faup, Porto, 1996 – Vila Real de Santo António.1988 Urbanismo e poder na política Fernandes, Francisco Barata – pombalina, Faup, Porto 1997AA. VV. – Arquitectura Popular Transformação e permanência nados Açores, Associação habitação portuense. As formas Horta Correia, José EduardoArquitectos Portugueses, Lisboa da casa na forma da cidade, – Pragmatismo e utopismo1999 Faup, Porto 1999 na criação urbanística de raiz portuguesa no séculoAA. VV. – Cidade e França, José Augusto – Lisboa XVIII, separata da revista dademocracia. 30 anos de Pombalina e o Iluminismo, 3a ed., Faculdade de Ciências Sociaistransformação urbana em Lisboa 1987 e Humanas. UNL, vol.8, LisboaPortugal, Argumentum, Lisboa 19952006 Galhano, Fernando; Oliveira, Ernesto Veiga de – Arquitectura Horta Correia, José EduardoMestre, Victor – Arquitectura tradicional portuguesa, Dom – Raízes da originalidade ePopular da Madeira, Quixote, Lisboa 2003 diversidade da arquitecturaArgumentum, Lisboa 2001 barroca portuguesa, VI Colóquio Gaspar, Jorge – A morfologia Luso - Brasileiro de História daCaldas, João Vieira – A casa urbana de padrão geométrico Arte, Rio de Janeiro 2004, pp.rural nos arredores de Lisboa no na Idade Média, in “Finisterra”, 375-394século XVIII, Faup, Porto 1999 revista portuguesa de geografia, Centro de Estudos Kubler, George – A arquitecturaCaldas, João Vieira – A casa Geográficos da Universidade chã. Entre as especiarias e osnobre algarvia em ambiente de Lisboa, n. 8 vol. IV, Lisboa, diamantes 1521-1706, Vega,rural, in “Anais do VI Colóquio 1969 Lisboa 1988Luso - Brasileiro de Históriada Arte, vol. II”, Rio de Janeiro Gaspar, Jorge – Portugal, a Leite, Antonieta Reis – Angra2004, pp.345-53 terra e o homem. Expressão das um porto no percurso da cidade cidades portuguesas - 1981, Portuguesa, in “Atlantida, vol./Carita, Helder – Bairro in “Jornal dos Arquitectos, ano XLVII”, Instituto AçorianoAlto: tipologias e modos ano 1, n.10 e 11, Setembre - de Cultura, Angra do Heroismoarquitectónicos, CML, Lisboa Outubro”, Associação dos 20021994 Arquitectos Portugueses, Lisboa 1982 Mattoso, José – Introdução àCarita, Helder – Lisboa História Urbana portuguesa:Manuelina e a formação de Girão, Aristides Amorim – a cidade e o poder; cidadesmodelos urbanísticos da época Origem e evolução do urbanismo e história, Fundação Caloustemoderna (1495-1521), Livros em Portugal, revista do “Centro Gulbenkian, Lisboa 1987Horizonte, Lisboa 1999 de Estudos demográficos, n. 1”, Lisboa 1945 Rossa, Walter – A urbe e oCarvalho, Sérgio Luís – Cidades traço, Almedina, Coimbra 2002medievais portuguesas. Uma Gomes, Paulo Varela – A culturaintrodução ao seu estudo, arquitectónica e artística em Rossa, Walter – A cidadeLivros Horizonte - Colecção Portugal no século XVIII, Editorial portuguesa. A história da arte emperspectivas históricas II, Lisboa Caminho, Lisboa 1988 Portugal, temas e debates vol. III,1989 Lisboa 1999 Gomes, Paulo Varela – AspectosCoelho, Maria Helena da Cruz do classicismo na arquitectura Silva, J. H. Pães da – Estudos– Homens, espaços e poderes. portuguesa dos séculos XVI e XVII, sobre o Maneirismo, Lisboa 1982Séculos XI - XVI, 2 vols, Livros in “Anais do VI Colóquio LusoHorizonte, Lisboa 1990 - Brasileiro de História de Arte, Tomé, Miguel – Património e vol. II”, Rio de Janeiro 2004, pp. restauro em Portugal (1920-1995), 607-633 Faup, Porto 2002
    • História local Horta Correia, José Eduardo – O Jardim de Estoy, in “O A arquitectura do Algarve como Algarve illustrado - JornalAA. VV. – Estoi, um olhar sobre expressão privilegiada da sua litterario”, J.F.T. Bello, n.1 (Nov.)o património, Associação In especificidade cultural. O Algarve 1880loco, 2000 na perspectiva da antropologia ecológica, INIC, Lisboa 1989, O Palácio de Estoi, vésperaAA. VV. – Noventa séculos entre pp. 135-146 da inauguração dos jardins doserra e mar, Maria Filomena palácio - 30 abril 1909, HistóriaBarata e Rui Parreira (coord.), Horta Correia, José Eduardo – ao vivo, Palácio GalveiasMinistério da Cultura e IPPAR, O significado do mecenato do – exposição, AssociaçãoLisboa 1997 Bispo do Algarve D. Francisco Portuguesa de Museologia, Gomes do Avelar, in “Anais do Faro 1987Anica, Arnaldo Casimiro – Município de Faro, vol. XXVI”,Freguesias, vilas e cidades do Faro 1996 Oliveira, Ataíde – 1842-1915,Algarve, sua antiguidade e Monografia de Estoi, Algarve empopulação, Visprensa, Tavira Guedes, Lívio da Costa – Foco, Faro 19931994 Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. A Rodrigues, Sandra – AsAlarcão, Jorge de – Portugal descrição de Alexandre Massaii vias Romanas do Algarve,Romano, Editorial Verbo, Lisboa (1621), Arquivo Histórico Militar, CCRAlgarve, Faro 20041992, pp.360-437 Lisboa 1988 Pinheiro e Rosa, J. – Faro emQuaresma, Amilcar – Estoi, Lameira, Francisco – Aldeia de 1349 in Anais do Município dealdeia branca, CMF, Faro 1999 Estoi. Percurso 3, desdobrável, Faro, n. XV, Faro 1985, p.42 CMF/ Direcção Regional deBernardes, João Pedro; Educação do Algarve, Faro Santos, Luís Felipe Rosa – OsOliveira, Luís Filipe – A 1999 acessos a Faro e aos concelhoscalçadinha de São Brás de limítrofes na 2a metade do séculoAlportel e a antiga rede viária do Lameira, Francisco – A igreja XIX, CMF, Faro 1995Algarve Central, CMSBA, São Matriz de Estoi, desdobrável, 227 Estoi| Identidade e transformação. BibliografiaBrás de Alportel 2002 CMF, Faro 2000 Silva Lopes, J. Baptista – Corografia ou memória estatísticaBernardes, João Pedro – A Magalhães, Joaquim Romero e topográfica do reino dorelação campo/cidade: os casos e Guerreiro, M. Viegas – Duas Algarve, 2 volumes, Faro, 1988de Milreu e Ossonoba, catálogo descrições do Algarve do séculoda exposição “Os caminhos XVI, Livraria Sá da Costa Sidarus, Adel; Teichner, Felixromanos”, Museu municipal de Editora, Lisboa 1983 – Termas romanas no GharbFaro, Faro 2005 Al- Ândalus: as inscrições árabes Magalhães, Joaquim Romero de Milreu. Estoi, ArqueologiaCarvalho, Helena; Rodrigues, – O Algarve económico Medieval, Porto 1997, pp.Nuno – Caracterização social 1600-1773, edição ”Histórias 177-189da população da aldeia de de Portugal, vol. 3”, EditorialEstoi, Associação In loco, 2000 Estampa, Lisboa 1993 Torres, Cláudio – O garb- al-Andaluz, in “História deCavaco, Carminda – O Algarve Mantas, Vasco Gil – Os Portugal, vol. 1”, direcçãoOriental. As vilas, o campo e o caminhos da serra e do mar, as de José Mattoso, Circulo demar, vols. 1 e 2, Gabinete do civitates. Esboço da geografia Leitores, Lisboa, 1992, pp.Planeamento da Região do política e económica do Algarve 360-437Algarve, Faro 1976 Romano. Noventa séculos entre Serra e Mar, Ministério da Visitação da Ordem deEstácio Veiga A. , Dos Santos, Cultura e IPPAR, Lisboa 1997, Santiago ao Algarve:1517/18,M. L. – Alguns aspectos da pp. 311-325 Manuel Pedro Serra (coord.), F.Arqueologia Romana do Calapez e A. Viegas (transcr.),Algarve, Casa do Algarve em Mascarenhas, J. Fernandes suplemento da AL’- Ulyã, n.5,Lisboa, 1973 – Estoi, Moncarapacho, S. Loulé 1996 Bartolomeu de Messines eMorte, Anabela da Conceição outras terras do Algarve: nos Visitação das igrejas algarviasFerreira dos Santos – Estoi… levantamentos contra o domínio 1554 - Ordem de São Tiago,aldeia, edição policopiada, Filipino, Tipografia União, Faro Faro, Francisco Lameira e M.1986 1986 Helena Rodrigues dos Santos, (transcr.), Adeipa, Faro 1998Hauschild, Theodor – Milreu, Mattoso, José – O Algarve naEstoi (Faro) villa romana e história regional portuguesa da Correia, Francisco Calapez –santuário. Noventa séculos Idade Média. No Algarve na Visitação da Ordem de Santiagoentre serra e mar, Ministério da perspectiva da antropologia à Vila de Faro em 1534, AnaisCultura e IPPAR, Lisboa 1997, ecológica, INIC, Lisboa 1989 do Município de Faro, n. XXIV,pp.407-414 pp. 13-21 Faro 1994Horta Correia, José Eduardo – Beja, Nuno (transcr.) – MemóriasA arquitectura algarvia do século Paroquiais de 1758, in “AnaisXVI ao século XIX. Tentativa de do Município de Faro, vol. XXI/caracterização, comunicações XXX”, CMF, Faro 2001ao 4° Congresso do Algarve,Racal Clube, Silves 1986 Mesquita, José Carlos Vilhena – O Palácio de Estoi: subsídios para a sua história, separata “O Algarve”, Faro 1982
    • Outras publicações Fontes documentaisBazzana, André – Maisons d’Al Plano director municipal de Faro,- Andalus. Habitats médiévales Risco, CMF, Faro 1995et structures du peuplementdans l’Éspagne orientale, 2 Plano de pormenor de Estoi:vols., Collection de la Casa elementos fundamentais;Veláquez, Madrid 1992 elementos complementares; elementos anexos, Plural, Oeiras,Bazzana, André; Cresseier, CMF, 1998Patrice; Guichard, Pierre – Leschâteaux ruraux d’Al - Andalus. Plano de urbanização de Estoi.Histoire et archeologie des Husun Relatório preliminar; diagnósticodu sud-est de l’Éspagne, Madrid e ante-plano; proposta final,1988 2 vols., José Lamas e Carlos Duarte, 1981Benjamin, Walter – Sul concettodi storia, Biblioteca Einaudi, Planos de intervenção dasTorino 1997 aldeias do Algarve. Estoi, Querença, Paderne vol.3, MiguelRibeiro, Orlando – Portugal, o Freitas (coord.), Programa demediterrâneo e o atlântico, Sá da intervenção das aldeias doCosta, Lisboa 1987 Algarve, CCRAlgarve, Faro 2003Ribeiro, Orlando – Povoamento,in “Dicionário de história de Projecto de desenvolvimento dePortugal, vol. IV” Joel Serrão Estoi como centro cultural do(dir.), Iniciativas editoriais, Algarve, Associação In loco –Lisboa 1971, pp. 466-485 ESE Universidade do Algarve, Faro 1998Roig, Juan Fernando –Iconografía de los santos, Arquivo Distrital de Faro – LivroEdiciones Omega, Barcelona do Tabelião de Notas de Faro1950 de 1817, fls. 1 a 2 v., F. Lameira (transc.)Rossi, Paolo – Il passato, lamemoria, l’oblio, Il Mulino, Arquivo Distrital de Faro –Bologna 1991 Inventário do Arquivo Histórico Municipal. Lançamento dosRoth, Joseph – Le città bianche, prédios urbanos para aPiccola Biblioteca Adelphi 196, cobrança da décima, 1779-81:Milano, 2003 F/A.7-2, pp. 99-121 Lançamento dos prédios urbanos para cobrança da décima. Secção F/ Impostos, , 1782 F/A.7-3 p. 95-117, Inventário do Arquivo Histórico Municipal, Arquivo Distrital de Faro, Relações do lançamento para a cobrança de sisa, cuaderno onde se acha lançada a sisa da Freguesia de Estoy 1833-1835, F/ impostos, secção, F/A.3-1, Inventário do Arquivo Histórico Municipal, Arquivo Distrital de Faro Lançamento da contribuição municipal directa, secção F/ impostos, 1835, F/B.1, Inventário do Arquivo Histórico Municipal, Arquivo Distrital de Faro Censos 1981, INE; censos 1991, INE; censos 2001, INE Municípios do Algarve 1998, INE/ CCRAlg, Associação In loco
    • Anexos
    • Anexos Fichas dos núcleos rurais
    • Mexilhoeira Grande231 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • São Bartolomeu de Messines
    • Algoz233 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • Alte
    • Salir235 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • Alcantarilha
    • Santa Bárbara de Nexe237 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • São Brás de Alportel
    • Boliqueime239 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • Paderne
    • Estoi241 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • Santa Catarina da Fonte do Bispo
    • Moncarapacho243 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Fichas dos núcleos rurais
    • Anexos Análise dos planos para Estoi245 Estoi| Identidade e transformação. Título capítulo
    • 1981 Em 1981foi solicitado, à semelhança de outros aglomerados1, a elaboração de O Plano Geral de um Plano Geral de Urbanização de Estoi, tendo ficado o projecto sob a Urbanização de Estoi responsabilidade dos arquitectos José Lamas e Carlos Duarte. Apesar de não ter tido continuidade prática, consideramos relevante analisar a sua perspectiva e abordagem confrontando-a com os estudos mais recentes sobre o núcleo. (Fig. 51) Este preconizava uma estratégia geral que teve como principais premissas: a o desenvolvimento do parque habitacional onde contemplava a atracção de população para a freguesia, atendendo à privilegiada articulação com Faro e Olhão; b a valorização do património cultural, sob o ponto de vista turístico, incluindo não só os imóveis classificados, Palácio e Ruínas, como faz ainda referência, ao restante parque edificado, na “preservação de frentes e espaços urbanos mais significativos, impedindo o aparecimento de tipologias dissonantes […]”; incremento de algumas actividades tais como a feira periódica enquanto acontecimento social e cultural relevante no núcleo, prevendo-se a sua integração junto às novas áreas residenciais previstas, para além da implementação de pequenas unidades artesanais, comerciais ou industriais, transferindo as então unidades industriais incompatíveis com a habitação, para a zona do Coiro da Burra. No essencial o plano propunha ainda: 1 manter a relação entre núcleo e envolvente rural; 2 valorizar os elementos e actividades económicas então existentes no aglomerado (mercado, ofícios e pequenas industrias); 3 garantir uma imagem urbana próxima e longínqua enquadrada no sitio e dele derivada; 4 hierarquizar a circulação e o tráfego local; 5 inverter o então processo de degradação dos conjuntos arquitectónicos de qualidade e os vestígios arqueológicos, propondo um processo de recuperação e restauro; 6 recuperação e preservação do Palácio e Jardim afectando-o ao domínio público como verde urbano e lazer; 7 manter e revitalizar o casco histórico como centro urbano. O núcleo antigo Quanto ao núcleo antigo propunha-se reforçar a sua identidade como centro privilegiando nele a habitação. O regulamento definia a não introdução de elementos balançados sobre a via com mais do que 30cm do plano de fachada, com especial incidência, no centro antigo, enquanto elemento comprometedor dos enfiamentos visuais. Previa-se ainda uma altura máxima de dois pisos, identificando algumas ruas principais do tecido mais antigo, como frentes de interesse arquitectónico. As áreas de expansão Nas áreas de expansão propunha-se assegurar uma coerência na continuidade do construído e o “[…] estabelecimento das novas áreas de expansão articuladas a partir das actuais tendências de desenvolvimento”2. A área de expansão proposta, cerca de 16ha, tinha em conta três grandes zonas de expansão: 1 zona a Sul da EN2-6 (Rua de Faro), incluindo parte da área de protecção às ruínas; 2 zona Nascente: onde se previa uma malha ortogonal na repetição do eixo principal, estabelecendo uma grande praça, para a realização da feira, ligada a uma alameda onde se organizariam simultaneamente outros equipamentos de1 como o caso de Santa Bárbara carácter estratégico. (Tanto a zona Sul como a Nascente eram as que maiores de Nexe condições pareciam reunir para a instalação de áreas residenciais com maior2 J. Lamas e C. Duarte, Plano de densidade, impondo-se nelas uma sequência natural das actuais tendências de urbanização de Estoi - Relatório desenvolvimento); preliminar, diagnóstico e ante- 3 a zona a Norte, confinante ao núcleo antigo, no prolongamento da Rua do Pé plano, proposta final vol.1 e 2, 1981 da Cruz e João de Deus, organizava-se uma malha perpendicular às curvas de nível e aos caminhos pedonais existentes.
    • Relativamente à cércea das novas construções estaria dependente da localizaçãogeográfica, centrando-se a altura máxima nos quatro pisos, na zona de planuramais baixa, a Sul da Rua de Faro, com excepção das áreas de expansão aNascente e Norte onde se propunham os dois pisos.Circulação e acessibilidadesAo nível da circulação e acessibilidades previa-se uma variante a Sul doaglomerado que intercedia na ligação actualmente vigorante e que obriga aoconstante atravessamento do aglomerado, dependente desta rede triangularOlhão/Estoi e EN2-6 (São Brás de Alportel). A variante permitiria não sódesviar o fluxo actualmente existente, funcionando como barreira de expansão,como asseguraria a acessibilidade directa aos principais equipamentos deinfluência local e para-local.Propunha-se ainda a desafectação de tráfego automóvel de algumas ruas donúcleo antigo traduzindo-se estas em vias de circulação privilegiadamentepedonal, relegando a distribuição e circulação para os eixos de expansão oucontorno à mesma malha.A racionalização e organização do tráfego interno dependeria assim dacriação de percursos com sentido único, definindo circulares e de percursos 247 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Análise dos planos para Estoipedonais ou com acesso automóvel condicionado, nas zonas de perfil estreito.O estacionamento seria resolvido com a criação de pequenas bolsas a Norteda Rua do Pé da Cruz, junto ao palácio, junto a Milreu e ao cemitério,privilegiando os eixos de aproximação aos equipamentos e espaços principaisdo núcleo.O plano revelava já a necessidade de valorização do patrimónioarquitectónico existente, definindo um limite de área urbana consolidada e umamancha de área de expansão. Para a área urbana consolidada realçava anecessidade de valorização e reconversão dos edifícios classificados como oPalácio e as Ruínas, salientando a sua componente estratégico-turística.A preocupação pela preservação do centro antigo foi também contempladana proposta de desenho urbano onde se privilegiava um sistema viárioformado por um conjunto de radiais ao centro antigo, seguindo de algumaforma a lógica de repetição de eixos paralelos ao traçado preexistente.As novas construções representavam uma frente contínua ao longo da via,sugerindo a continuidade urbana com a malha existente e a preservação doelemento rua como elemento estruturante do novo tecido.O plano previa ainda a implementação dos novos equipamentos de serventiaregional nas zonas de expansão periférica, mantendo contudo o mercadocomo espaço estruturante do núcleo.A definição de um novo centro, focalizando aí a área da feira mensal,revelava-se uma proposta interessante dado que permitia conciliar nas novasáreas habitacionais usos preexistentes como a feira. A área de feirapermanecia assim delineada enquanto parte de um novo espaço urbano,definida através de uma praça, não tendo por isso um carácter residual, comotem vindo a tornar-se desde então.O plano nunca chegou a avançar em termos legais permanecendo apenascomo objecto de consulta e orientação.
    • (página 249)Plano Geral de urbanização de EstoiPlanta de apresentação,Carlos Duarte e José Lamas, 1981Arquivo da Câmara Municipal de Faro
    • 249 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Análise dos planos para Estoi
    • 1995 Em 1995 o PDM (Plano Director Municipal) em termos de categorias enquadra o O Plano Director Municipal núcleo consolidado em Espaço Urbano Estruturante II e como Espaço Urbanizável de Expansão II, no qual se integram ainda outros aglomerados rurais do concelho. O núcleo é integrado na categoria de Espaço Urbano Histórico que classifica como “[…] as áreas especialmente importantes sob o ponto de vista histórico, cultural e ambiental do concelho […] pelo que deverão ser mantidas as características urbanísticas das malhas e preservadas as características arquitectónicas dos edifícios de maior interesse”1. Propõe ainda que a delimitação da área do núcleo antigo deverá ser definida em plano de pormenor. Define um perímetro urbano cujos princípios se centraram fundamentalmente: • na expansão residencial do aglomerado; • na consolidação e preservação do núcleo central (numa perspectiva de isolamento e destaque das suas especificidades em relação à nova expansão); • na transferência do equipamento existente noutro terreno, Mercado Abastecedor de Faro, com a finalidade de reutilizar esses espaços para futuras áreas residenciais; • delimitação de uma área com funções culturais, acentuando uma perspectiva mais turística e articulando as ruínas com o Palácio de Estoi; • estruturação das áreas verdes; • articulação do aglomerado com a área de actividades ao longo da EM520-2, actual Coiro da Burra, com a reestruturação dessa área de edificação dispersa; • criação de uma variante a sul ligando EM520-2 à EN2-6. Nas áreas de expansão não permite cérceas superiores a três pisos e confere um índice de utilização máximo de 0,4. Permite o loteamento em parcelas com área superior ou igual a 5000m2 e que seja mantida a articulação com o núcleo consolidado. O perímetro urbano definido em PDM é, com alguns acertos, prolongado na 2002 proposta de Plano de Pormenor em elaboração desde 1996.O Plano de Pormenor de Estoi Esta altera substancialmente os valores definidos pelo PDM, duplicando-os, quer em termos de área de verde público, quer em termos de equipamentos e áreas de cedência. Em termos gerais a estratégia dá continuidade aos pressupostos implícitos no anterior plano e a algumas contidas no plano de1981. Desta forma propõe no essencial: • assegurar uma continuidade entre os espaços urbanos existentes e a expansão; • salvaguardar os pontos de leitura e com valor paisagístico; • oferecer um leque de actividades e tipologias capaz de, simultaneamente, salvaguardar o interesse público e cativar potenciais investidores. Em termos de intervenções gerais o PP (Plano de Pormenor) propõe soluções que reproduzam em termos de volumetria e implantação a situação existente. • Prevê a colmatação de quarteirões inacabados definindo novas frentes de rua, substituindo as traseiras desqualificadas; • propõe intervenções pontuais de fecho nas áreas urbanas consolidadas; • intervenções novas em áreas expectantes originando desenhos urbanos e sentidos novos para o aglomerado2.1 Plano Director Municipal: Regulamento, Risco, Lisboa, CMF, Prevê ainda tal como a anterior proposta de Plano de 1981, uma expansão nas 1995 áreas a Nascente da Rua João de Deus e Rua de Olhão, tendo em conta tratarem-2 Plano de pormenor de Estoi: Elementos fundamentais, elementos se de áreas localizadas em pontos de cota mais elevada, merecendo por tal complementares, elementos anexos, maiores cuidados em termos de impacto paisagístico. Plural, Oeiras, CMF, 1998
    • Foi considerada mais uma vez a zona a Sul, aquela que maior densidade e volumetria poderia oferecer, rondando os 3 pisos de cércea. A proposta prevê assim nas zonas altas, nos eixos de amarração ao núcleo, frentes assentes numa tipologia em banda com um máximo de dois pisos que se vão diluindo em casas isoladas, à medida que se afastam do núcleo consolidado. Temos assim os três pisos no lado Sul da Rua de Faro, ficando os dois pisos reservados à zona Poente da Rua de Olhão e ao aglomerado consolidado. Enquanto proposta de conformação dos quarteirões aquela que maiores transformações se prevê, diz respeito à parte Norte da Rua Pé da Cruz. Propõe-se a criação de uma nova “praça” para albergar os “acontecimentos culturais e recreativos”, a par de áreas de estacionamento e descompressão relativamente à malha urbana consolidada. Quanto às intervenções no edificado este estabelece ainda três graus de intervenção que vão da maior ou menor interferência no construído: 1 manutenção no qual se incluem operações de beneficiação, consolidação e conservação; 2 reabilitação 251 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Análise dos planos para Estoi inclui intervenções de renovação, correcção de dissonâncias, ampliação, reconstrução/restauração e remodelação/adaptação; 3 demolição que pode corresponder à totalidade ou a partes do edificado. A estratégia remete ainda para o reforço de equipamentos dentro do aglomerado que constituam novos centros e respondam como ofertas de âmbito cultural, desportivo e comercial. Os principais equipamentos apoiam-se nos serviços básicos como Escola, Centro de Saúde e nos equipamentos desportivos. A feira ocupará a zona do mercado abastecedor, propondo-se uma “integração paisagística estudada”, com arborização, atenuando as descontinuidades existentes com o tecido actual. O documento continua contudo a ser alvo de alterações, permanecendo sem vínculo qualquer legal. A não contemplação de normas provisórias também pressupôs a continuidade de uma situação de ambiguidade, onde o único instrumento de gestão continua a ser o PDM, incompleto, desactualizado e insuficiente para o controle deste território.página 253Plano de Pormenor de EstoiPlural, proposta de 2002Arquivo da Câmara Municipal de Faro
    • Quadro síntese comparativo dos vários planos PGU PDM 1995 PP 2002Pontos estratégicos gerais Desenvolvimento do parque habitacional a Sul, Define-o como Espaço urbano Histórico e Espaço Desenvolvimento do parque habitacional em áreas Nascente Norte do aglomerado; Urbanizável de Expansão do Tipo II; novas a Sul, Nascente e Norte do aglomerado; Valorização do Património Arquitectónico e cultural Expansão residencial do aglomerado; A assegurar a continuidade entre espaços urbanos sob o ponto de vista turístico- palácio, Ruínas de existentes e a expansão; Milreu e restante parque edificado; Consolidação e preservação do núcleo central; Salvaguardar os pontos de leitura e com valor Incremento de algumas actividades económicas paisagístico. já existentes como a feira e outras pequenas unidades industriais e artesanais; Manutenção e revitalização do casco histórico como Enquanto Espaço Urbano Histórico defende a Delimita a área do Núcleo histórico de Estoi comNúcleo antigo centro urbano, privilegiando nele a habitação ; manutenção das características urbanísticas base na Proposta de classificação elaborada das malhas e preservação das características em 1996; Altura máxima de 2 pisos; arquitectónicas dos edifícios de maior interesse; “Classifica” segundo as várias categorias existentes Índice máximo de ocupação do solo de 0,8; Propõe que seja delimitada a área do núcleo alguns imóveis não classificados como a Igreja antigo em plano de pormenor; Matriz, Ermida do Pé da Cruz, Cinema e Mercado; Defende a preservação da fachada nos edifícios integrados como Frentes de interesse Recuperação do Palácio e jardins para actividades Estabelece vários graus de intervenção: arquitectónico; culturais e turísticas; Manutenção, Manutenção Opcional, Reabilitação e Demolição; Propõe inverter o processo de degradação dos Propõe no caso de preenchimento de parcelas que conjuntos arquitectónicos de qualidade e vestígios o edificado se integre de “forma harmoniosa”no Altura máxima de 2 pisos; arqueológicos, propondo instrumentos de conjunto existente respeitando a morfologia e conservação e restauro através de programas como volumetria envolvente; Prevê a preservação e valorização dos logradouros o então PRID; existentes.Áreas de expansão As novas edificações deveriam “ter uma frente Define um índice máximo de utilização menor Intervenções novas em áreas expectantes totalmente construída ao longo das vias públicas ou igual 0.5; originando “desenhos urbanos e sentidos novos […] com frentes de 8 a 10m”; para o aglomerado”; Número máximo de 3 pisos; Altura máxima de 4 pisos a Sul e de 2 pisos a A proposta prevê assim nas zonas altas, nos eixos Nascente e a Norte do aglomerado; A parcela a lotear deverá ter uma área maior de amarração ao núcleo, frentes assentes numa ou igual a 5000 m2 e que seja garantida a tipologia em banda com um máximo de dois pisos Índice de ocupação do solo que varia entre 0,55 articulação com o núcleo urbano consolidado; que se vão diluindo em casas isoladas, à medida na parte Nascente do Núcleo e 0,38 nas zonas de que se afastam do núcleo consolidado; expansão a Sul e Norte; Altura máxima de 3 pisos a Sul e de 2 pisos a Nascente e a Norte do aglomerado; Colmatar os quarteirões inacabados com novas frentes de rua e o fecho das traseiras desqualificadas.Circulação/ acessibilidades Defende a hierarquização da circulação e do Defende uma maior articulação do aglomerado Criação de variante a Sul ligando a EM520-2 tráfego local; com área de edificação situada no Coiro da Burra; à EN 2-6; Defende a criação de uma variante a Sul que Criação de variante a Sul ligando a EM520-2 Reestruturação da área do perímetro urbano do permitisse a acessibilidade directa aos principais à EN 2-6; Coiro da Burra, zona de chegada e aproximação e equipamentos (Mercado); requalificação das margens do Rio Seco; Estruturação das áreas verdes; Desafectação de tráfego automóvel de algumas Zona de estacionamento a Norte da Rua do Pé ruas do núcleo antigo, com ruas de sentido único; da Cruz; Estacionamento a Norte com pequenas bolsas para Propõe-se arborização das vias de chegada com acesso ao núcleo antigo; vista a colmatar as descontinuidades actualmente existentes com o tecido antigo.Usos/ equipamentos Recuperação e preservação do Palácio e jardim Delimitação de uma área – “Espaço cultural Criação de nova praça para albergar afectando-o ao domínio público como parque Milreu/ Estoi”, com funções culturais e turísticas acontecimentos culturais e recreativos a Norte da verde urbano para lazer e turismo; e com articulação do Palácio às Ruínas; malha urbana antiga; Criação de uma área destinada à feira definida Transferência do Mercado abastecedor e Reforço dos equipamentos dentro do aglomerado como uma nova praça urbana integrada na nova aproveitamento destes terrenos para área de âmbito cultural, educação, saúde, desportivo e área residencial; residencial e equipamentos, define uma área turismo; afecta à Feira mensal; Criação de zona de parque desportivo a Sul; Implantação de estação de transportes públicos junto à feira;
    • 253 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Análise dos planos para Estoi
    • Outros projectos para Estoi Em 1998 a Associação In loco em conjunto com a Universidade do Algarve promove o Projecto de desenvolvimento de Estoi como centro cultural do Algarve1 onde vêm enunciadas um conjunto de acções que tiveram como princípios reforçar o seu papel descentralizador e dinamizador do turismo do concelho. O documento apontava para um conjunto de objectivos que pressupunham: 1 o maior envolvimento da população; 2 a criação e sustentação de emprego; 3 melhoramento de serviços e equipamentos; 4 protecção e restauro do património natural e construído; 5 delimitação de uma zona urbana a proteger. Este documento definia ainda algumas acções prioritárias que se centravam numa primeira fase, na elaboração de alguns estudos de carácter pluridisciplinar que ampliassem os conhecimentos sobre a aldeia, nomeadamente na caracterização sócio-económica2, história local e património cultural. Numa segunda fase previa-se a elaboração de um regulamento – Guia de boas práticas para a área urbana e ainda elaboração de um Plano estratégico de recuperação urbana e arquitectónica de desenvolvimento de Estoi; este projecto não teve contudo continuidade prática tendo sido retomado noutros âmbitos posteriormente. Em 2001 a partir do programa ProAlgarve promovido pela Comissão de Coordenação da Região do Algarve é elaborado um Plano de intervenção para as aldeias do Algarve, no qual a aldeia de Estoi vem enquadrada no Gabinete técnico de apoio às aldeias do Barlavento. Neste âmbito é definida uma estratégia que se centrou fundamentalmente nos seguintes pontos: 1 dinamizar a base produtiva aproveitando as potencialidades turísticas e o efeito motor dos mercados (mensal e abastecedor); 2 proteger, valorizar e dinamizar o património existente; 3 reforçar a identidade local (através das associações locais); 4 reforçar a qualidade de vida proporcionada por Estoi. Os projectos previstos, assegurados na sua maior parte pela administração local, não chegaram contudo a concretizar-se em plenitude. A falta de diálogo e concertação com a câmara constituíram um dos motivos que impediram a continuidade desta estratégia, tratando-se de uma oportunidade perdida quanto à existência de um tipo de gabinete que se pretendia mais vocacionado e especializado para a preservação do património rural e dos aglomerados rurais, podendo neles estabelecer analogias reforçando o sistema de rede no qual poderiam assentar.1 Projecto de desenvolvimento de Estoi como centro cultural do Algarve, Associação In loco – E.S.E. Universidade do Algarve, Faro, 19982 H. Carvalho, N. Rodrigues, Caracterização social da população da aldeia de Estoi, Associação In loco, 2000
    • Instrumentos de Estoi rege-se actualmente, por um único instrumento legal de planeamento, planeamento e salvaguarda o PDM (Plano Director Municipal de Faro) de 1995. actuais Em termos legais está abrangido por condicionantes de planeamento como a REN (Rede Ecológica Nacional), a RAN (Rede Agrícola Nacional), por edifícios classificados e áreas integradas no domínio público hídrico. Enquanto apenas instrumentos de orientação e consulta servem os planos já realizados: PU (Plano Geral de Urbanização de Estoi) de 1981 e PP (Plano de Pormenor de Estoi) entre 1996 e 2001. Encontramos assim ao nível do edificado enquanto valores patrimoniais reconhecidos: • as Ruínas de Milreu classificadas como Monumento Nacional com decreto lei de 16 de Junho 1910; • o Palácio e Jardim de Estoi, classificados como Imóvel de Interesse Público com decreto lei 129/ 1977 de 29 de Setembro 1977; 255 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Análise dos planos para Estoi • o Núcleo urbano histórico de Estoi, em via de classificação (Proposta de classificação do núcleo urbano histórico de Estoi, 1996)Principais valores patrimoniais e instrumentos de salvaguarda existentes1 Milreu2 Matriz de Estoi3 Ermida do Pé da Cruz4 Palácio de Estoi5 Cemitério
    • Anexos Tratamento de fontes documentais257 Estoi| Identidade e transformação. Título capítulo
    • 1. Fontes documentais até ao século XX Dados demográficos Referências edificado Referências território1517/ 1518 1 Ermida de São Martinho com capela nova e junto uma casa para o ermitão campanário1534 alpendre1554 2 150 fregueses e Ermida de São Martinho Ermida situada abaixo da aldeia 450 paroquiantes três naves orientação levante/ poente (150 de comunhão) 4 arcos com colunas, base Hospital desta aldeia casa quadrada madeirada e encaniçada de 1 só água (com culto ao Espírito Santo) 1 missa por ano1565 3 20 Vizinhos aldeia Ermida de São Martinho situada junto à aldeia de Estoi 200 vizinhos a freguesia três naves, capela com abóboda, orientação levante /poente telhado madeirado com telha vã sacristia na capela adro demarcado uma casa e uma câmara junto fizeram-na maior há pouco tempo missas aos domingos, dias de festa e por almas1577 4 150 Vizinhos a freguesia Todas as casas estão edificadas sobre Vestigios romanos [Milreu] a que associava à fundamentos e alicerces antigos antiga Ossonoba; muito fresco, boas fontes e boas águas1598 5 190 fregueses; Igrejas de culto ao São Martinho; 1 légua [5Km] de Faro; 770 paroquiantes a igreja e toda a aldeia foram saqueadas pelas situada sobre a antiga Ossonoba tropas do Conde de Essex1600 6 50 Vizinhos [aldeia] No meio dele [o lugar de Estoi] está uma fonte Lugar cercado de hortas; coberta “ao modo de chafariz”: 1 comp x 10 ribeira do Alface albergaria moinhos e era palmos x 6 palmos de altura); envolvida por muitos pomares abundância de água servia de rega às muitas hortas vizinhas e à própria aldeia; 2 lagares de azeite1 Visitação da Ordem de Santiago “Duas descrições do Algarve do ao Algarve:1517/ 18, M. P. Serra século XVI”, apresentação, leitura (coord), F. Calapez, A. Viegas e notas de M. V. Guerreiro e J. R. (transc.), suplemento da AL’- Ulyã, Magalhães, Livraria Sá da Costa, n. 5, Loulé 1996 e Visitação da Lisboa 1983 Ordem de Santiago à Vila de Faro 5 N. Beja, Transcrição de documentos em 1534, F. Calapez Corrêa, Anais relativos à história do Algarve, in do Município de Faro, n. XXIV, Faro “Anais do Município de Faro n. 1994 pp.119 e 120 XXX”, p. 219, F. Lameira (transc.)2 Visitação das Igrejas Algarvias 6 H. F. Sarrão, História do Reino do 1554 - Ordem de São Tiago, Faro, Algarve (1600), in “Duas Descrições F. Lameira e M. H. Rodrigues dos do Algarve...”, op. cit. Santos (transc.), Adeipa, Faro 1998, pp. 56 a 593 Visitação de São Martinho de Estoi capela curada, F. Lameira (transc.)4 Frei João de S. José, Corografia do Reino do Algarve (1577), in
    • 1758 1 freguesia: 570 vizinhos 4 ermidas: ermida do Pé da Cruz, ermida do A parte sul tem as faltas de uns cerros, entre 37 adultos Espírito Santo, São João da Horta Nova a vales e campinas; 12 eclesiásticos Nossa Senhora da Oliveira de Alcaria Branca a; a parte norte, nos mesmos cerros descobrem-se 246 menores; “ha no meio deste povo e dentro da praça [...] as povoações em roda: uma admirável fonte tão abundante nas suas São Bartolomeu, Pechão, Faro, Olhão, São aldeia: 180 vizinhos águas que não só fertiliza todas as hortas que João da Venda, Santa Bárbara, São Sebastião 72 menores estão nos subúrbios do mesmo mas também se de Quelfes, São Bras de Alportel, 496 adultos valem dela para os gastos ordinários [...] é Moncarapacho, Nossa Senhora da Conceição muito salutífera leve e diurética pelaa Ermidas pertencentes a pessoas particulares de experiência dos peritos médicos que a aplicam Produz os seguintes frutos: figos, amêndoas, Faro por mais especial; alfarrobasb A feira começou a realizar-se no 4º Domingo de estrutura da fonte: quadrada e ao antigo Junho do ano de 1758 “dizem ser obra do tempo dos mouros”; Realizam-se as seguintes feiras: São José (feirac Os lagares referenciados seriam todos de tem 3 lagares de azeite e 1 no Guelhim; franca 3 dias)b localizada no “terrado” da pessoas particulares e principais de Faro, que na freguesia arruinaram-se 60 moradas de Igreja Matriz. Dista a 1 légua de Faro e 44 de na ocasião da safra “se vêm divertir neles, casas que agora se “acha reedificado tudo”; Lisboa em beneficio das partes interessadas que lhes a igreja Matriz: ficou arruinada na sua torre, concorrem para a expedição capela mor e arcos das naves. Ficou contudo das suas conveniências, comuns e tudo de pé inclusive as casas da residência particulares …” paroquial apesar de tão “rasgado e deslocado da sua firmeza” 259 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Tratamento de fontes documentais1786 2 A fonte “nasce à flor da terra a dita fonte que Reunia segundo este o lugar um conjunto de se acha na praça ou rossio, e o seu local com circunstâncias e características similares às dois chafarizes mas que estão unidos à mesma referenciadas pelo médico Rásis que viveu no fonte [...] não muito longe e em sitio aprazivel século X, o qual ao descrever a cidade dizia: chamado Alface; há também outra nascente de “[...] era fértil e abundante, plana e cheia de água muito abundante capaz de competir com muitas hortas, [que podia] competir com Estoi” Faro”. Plana e cheia de muitas hortas, a que regavam copiosas águas, com montes acomodados aos pastos de gado, vizinha do mar, com suas pequenas ilhas em que navegavam barcas e navios, e uma das cidades de igual grandeza, a melhor do mundo. De Estoi referência assim: “[…] vemos os montes que fornecem as pastagens aos gados, ao meio dia tem os dilatados campos até Faro, pela nascente as frondosas vizinhanças de Tavira e pelo poente as terras até Loulé”1 N. Beja Transcrição..., op. cit. pp. 230 (?) a 240, F. Lameira (transc.)2 Frei Vicente Salgado, Memórias do Reino do Algarve, Lisboa 1786, pp. 75 a 88, F. Lameira (transc.)
    • > 500 hab entre 100 e 200 hab entre 51 e 100 hab entre 11 e 50 hab até 10 habmapa 1Relação dos sítios e lugares que fazemparte da freguesia com a respectivapopulação existente em 1758
    • continuação do quadro: Fontes documentais até ao século XX1817 1 É efectuada uma permuta onde são referidas algumas propriedades. Pertencentes ao Coronel Francisco José Moreira de Brito Pereira Carvalhal e Vasconcelos e Dona Rita Efigénea de Lima Botado (permutantes): 1 “possuidores de umas casas que estão na Rua da Praça […] que constam de altos e baixos com seu quintal”; a norte confrontam com o dito Capitão Freire; a sul com a Praça; nascente com António Rodrigues; poente com Francisco José, o tanoeiro; 2 fazenda no sitio do Rosal, “pegada à dita aldeia e consta de terras, oliveiras e mais árvores de fruto […]” a nascente com o Capitão João Freire; a poente com Caetana Maria; a norte com estrada; a sul com caminho para o Lameira; Casas pertencentes ao Capitão João Freire e 261 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Tratamento de fontes documentais Dona Josefa Maria do Nascimento (permutados): 1 fazenda chamada o jardim (1), junto ao dito povo de Estoi composta por duas casas térreas, árvores de fruto; confinam a nascente com largo da Praça e rua corrente; a poente com Francisco José (permutantes), a norte com estrada; a sul com a estrada que vai ao Lagar (a) dos permutantes (Francisco José); 2 fazenda no sitio dos Mortais, subúrbios do dito lugar de Estoi “constam somente de terras de pão” a nascente e sul confinam com os permutantes; a norte com o caminho para a ribeira poente com herdeiros de Manuel Viegas Declararam ainda os permutantes “de largarem ao permutados a posse e domínio das casas da Praça (2) de que anualmente lhes pagam o foro dos ditos 6 mil reis, contudo deixam e reservam para si e seus sucessores o uso e posse que têm no cano de água que sai da fonte pública para regar a horta chamada de cima […]”1 F. Lameira, (transc.), Livro do tabelião de notas de Faro de 1817, fls. 1 a 2 v., Arquivo Distrital de Faro
    • H c F 2 G b E 1 b a Dmapa 2 1 O local do prédio contencioso de visado pela cor amarela de correcta configuração;Datado de 1800, mandado executar 2 A presa Velha destinada de tempos imemoriais para depósito das águas da quinta;quando da vistoria ordenada 3 O cano que corre através do quintal da presa para o regadio da quinta;por provisão de 17 de março de 4 O tanque destinado para receber a água conduzida pelo cano;1800 representa a Quinta de Estoi, 5 A servidão entre a quinta para a mesma e para o lagar e horta velha;publicado em Miguel Côrte-Real, 6 Prédio ao Sul com dois casais nas extremidades no cimo e baixo;Fidalgos da Cota de Armas do Algarve 7 O local da quinta da parte do Norte que arruma por duas faces ao prédio contencioso; 8 A parte superior da quinta que une à inferior pelo passadiço antigo; 9 Passadiço que se fez quando foi comprado o prédio de baixo que foi posterior ao de cima; 10 Estrada que corre por entre a quinta chamada de Entre as Hortas;Legenda 11 A presa grande depósito geral das águas de todas as hortas; 12 A fonte pública de onde imanam todas as águas;1 Fazenda chamada o jardim 13 O cano principal que leva as águas ao seu destino;2 Casas da praça referenciadas no 14 O cano (…) a água na parte superior da quinta (…); Livro de Notas de Faro de 1817, fls. 15 A rua chamada do Carrascal que limita a quinta pelo Norte; 1 a 2 v., Arquivo Municipal de Faro, 16 Horta chamada da Barroca e lagar pertencente ao coronel; F. Lameira (transc.) 17 A Igreja Matriz daquele lugar;a Actual edifício das cavalariças 18 Casas pertencentes ao mesmo;b Lagar 19 Cerquinhas e terra pertencentes ao mesmo.c Fonte/ PraçaIdentificação de algumas ruas: (Transcrição da legenda do mapa de 1800, conforme original publicado nesta página)D Rua das Palmeiras/ Rua do JardimE Rua da BarrocaF Rua da IgrejaG Rua do Forno (actual Rua Furriel João Canal)H Rua do carvalhal (actual Rua de São José)
    • continuação do quadro: Fontes documentais até ao século XX1841 1 a fonte: “na praça ou Rocio há uma fonte situada num cabeço em cujos arredores se quadrilonga descoberta com água quase ao encontram vestígios de edifícios antigos, mais nível da terra e rota nalgumas partes; uma vez associados a Ossonoba; “a igreja está situada em um extremo da boas águas e em tempo do abundância e em aldeia e foi reedificada em bispo D. Francisco sitio aprazível chamado Alface; Gomes” “corre pela freguesia a Ribeira do Alcaide que nasce em São Brás tem alguns bordalos, tem moinhos e rega hortas […]”; tem bons terrenos, muitas figueiras e algum esparto que lhe colhe verde por isso é curto.”1880 2 Descrição do estado decadente que o Palácio de Estoi apresenta; referência ao clima privilegiado de Estoi que “atrai muitos doentes que ali se estabelecem provisoriamente a sua residência”; Alusão à hipótese de poder vir a instalar no palácio uma casa de saúde 263 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Tratamento de fontes documentais1 J. B. da Silva Lopes, Corografia do Reino do Algarve, 1841, pp. 338 a 3402 O Algarve illustrado - Jornal Litterario, O jardim de Estoy, J. F. T. Bello, 1(Nov.) 1880
    • 2. Levantamento das ruas existentes no século XVIII e XIX nota: o número indicado corresponde à soma dos proprietários existentes LD= Lado direito; LE= Lado esquerdo 1779 - 1781 Rua Nova - 33 (LD19 / LE15) Trav. Espírito Santo - 5 (LD5) Arquivo Distrital de Faro, Inventário do Arquivo Praça - 17 (LD17) Rua da Igreja - 21 (LD18 / LE3) Histórico Municipal, Lançamento dos Prédios Rua Velha - 26 (LD15 / LE18) Rua do Forno Velho - 18 (LD18 com 2 urbanos para a Cobrança da Décima, 1779-81: Rua Marçal Lourenço - 23 (LD16 / LE7) demolidas) F/A.7-2 pág. 99-121 Rua do Cavaleiro - 8 (LD7 / LE1) Rua do Capitão - 10 (LD10) Outras do lado directo - 6 (LD6) 1782 Rua da Igreja - 21 Rua Nova - 33 Arquivo Distrital de Faro, Inventário do Arquivo Rua Marçal Lourenço - 23 Rua do Forno Velho - 18 Histórico Municipal, Secção F/ Impostos, Rua Velha - 26 Trav. Espírito Santo - 5 Lançamento dos Prédios urbanos para a Rua do Cavaleiro - 8 Rua do Capitão - 10 Cobrança da Décima, 1782 F/A.7-3 pág. Praça - 17 95-117 1833 - 1835 Rua da Igreja - 8 Rua Nova - 40 Arquivo Distrital de Faro, Inventário do Arquivo Rua Marçal Lourenço - 17 Rua do Forno Novo - 13 Histórico Municipal, Secção F/ Impostos, Rua Velha - 26 Rua do Carrascal - 4 Relações do Lançamento para a Cobrança de Rua do Cavaleiro - 6 Sisa, Cuaderno onde se acha lançada a sisa da Praça - 9 Freguesia de Estoy, 1833-1835, F/A.3-1 1854 Rua da Igreja - 9 Rua do Forno Novo e Velho - 26 Arquivo Distrital de Faro, Inventário do Arquivo Rua Marçal Lourenço - 23 Rua Nova - 41 Histórico Municipal, Secção F/ Impostos, Rua Velha - 48 Trav. Espírito Santo - 8 (LD8) Lançamento da contribuição municipal directa, Rua do Cavaleiro - 10 Rua do Carrascal - 3 1835, F/B.1 Praça - 15 Largo da Igreja - 7 1855 /56 a partir desta data as rua já não vêm descriminadasnotas da página 2651,2 Arquivo Distrital de Faro, Inventário 3 Arquivo Distrital de Faro, Inventário 5 L. F. Rosa Santos, do Arquivo Histórico Municipal, do Arquivo Histórico Municipal, Os acessos a Faro e aos concelhos Secção F/ Impostos, Lançamento Secção F/ Impostos, Lançamento limítrofes na 2a metade do século XIX, dos Prédios urbanos para a da Contribuição Municipal Directa, CMF, Faro 1995 Cobrança da Décima, 1779-81: 1835, F/B.1 F/A.7-2 e 1782 F/A.7-3 6 O Palácio de Estoi, véspera da 4 Arquivo Distrital de Faro, Inventário inauguração dos jardins do palácio, do Arquivo Histórico Municipal, 30 abril 1909, Programa de festejos Secção F/ Impostos, Relações do Lançamento para a Cobrança de 7 A. Oliveira, Monografia de Estoi, Sisa, 1833-1835, F/A.3-1 Algarve em Foco, Faro 1993
    • 2.1 Relação das ruas e número de proprietários existentes entre o final do século XVIII e 1a metade do XIX 1779 - 17811 17822 18333 18544 Rua da Igreja 21 21 8 9 Rua Marçal Lourenço 23 23 17 23 Rua Velha - Rua Visconde de Estoi 26 26 26 48 Rua do Cavaleiro 8 8 6 10 Outras lado direito 6 6 Praça 17 17 9 15 Rua Nova - Rua do Pé da Cruz 33 33 40 41Rua do Forno Velho Rua F. João Canal 18 18 13 26 Trav. Espírito Santo 5 5 8Rua do Capitão (capitão João Leitão ?) 10 10 Rua do Carrascal - Rua de São José 4 3 Largo da Igreja 7 265 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Tratamento de fontes documentais 2. 2 Alteração das estradas de acesso ao aglomerado nos finais do XIX 1862 Segundo o Plano Geral do Reino, o governo expressava a intenção de concluir uma rede de estradas a nível nacional incluindo o Algarve. Segundo o Governador Civil “o comércio pertencia unicamente a almocreves e era feito através de veredas dificultosas”5. 1865 A Comissão de Viação Municipal de Faro definia o plano de estradas municipais: Santa Catarina Fonte do Bispo - Moncarapacho; Olhão - Estoi (com 5m de largura passando por Pechão e Vale de Seixos); Vale de Seixos - Moncarapacho passando por Vale Mouro 1868 Plano da estrada Faro - São Brás de Alportel 1875 Efectuada de ligação Coiro da Burra – Estoi - Olhão 2. 3 Relação das ruas no início do século XX (19096 e 19117) Rua de São José; Praça da Farmácia; Rua da Barroca; Rua do Arco de Sant’Ana; Rua Cândido dos Reis; Travessa do rosal; Rua do Carvalhal; Rua de Faro; Rua da Rosa; Praça Ossónoba; Rua do Cemitério; Rua de Faro (1876); Rua do Pé da Cruz; Rua das Bicas; Rua de Olhão (1876) Rua Formosa; Rua da Rotunda - Junto ao Forno Velho Rua do Mânforo; (início do século); Praça da República - Largo do Forno Velho (a Rua do Seixal; partir do 1974); Trav. do Seixal; Rua Teodoro Sequeira; Praça 5 de Outubro; Rua dos Ferradores; Rua do Carvalhal;
    • 3 Transcrição de documentos Transcrição das actas das sessões da Câmara Municipal de Faro referentes ao tema do antigo Passal Paroquial de Estoi cuja expropriação deu lugar ao actual Largo General Humberto Delgado.N. 1 “Expropriação do passal de Estoy: Pede a palavra sobre este assunto o vereador Sr. Manuel António Mamede que apresenta a seguinte proposta: Considerando que a única saída de Estoy para Olhão é demasiado acanhada pois só por ela pode transitar um veiculo no mesmo sentido ou em sentido contrário; Considerando que a rua da Igreja da Aldeia de Estoy tem um declive considerável e sendo a sua saída tortuosa e péssima; Considerando que não havendo em Estoy senão um pequeno Largo para exposição dos diferentes géneros que habitualmente se vendem nos já importantes mercados mensaes; Considerando que o antigo passal paroquial, propriedade do estado não faz falta à escola primária que ainda fica com um vasto quintal. Suficiente para o serviço da mesma; Considerando que a água pertencente ao mesmo passal pode e deve ser utilizada para chafariz e um marco fontanário público. Proponho que exproprie por utilidade pública o mesmo passal para alargamento e alinhamento da rua de Olhão para alinhamento da rua da Igreja e o restante para os mercados da freguesia d’ Estoy e água pertencente ao mesmo para o referido chafariz e marco fontanário público. Mais proponho que seja autorizada a Comissão executiva a ajustar com o Estado pelo Ministério competente em nome desta Camara Municipal, a indemnização correspondente bem assim a promover todos os demais actos necessários para efectivação da referida expropriação nos termos das leis em vigor. Admitida a referida proposta. E examinada a respectiva planta topografica, foi a mesma proposta aprovada apor unanimidade. e não havendo mais assuntos a tratar, foi mandada lavrar a seguir a minuta da presente acta e lida em voz alta, foi esta acta aprovada por unanimidade nesta sessão, para todos os efeitos legaes. Em seguida o Exmo Sr Presidente levantou a sessão. E para constar se lavrou a presente acta que vae ser devidamente assinada.” Livro das Actas das Sessões, 1922-1926, nº53, fl.65-66v. Câmara Municipal de Faro sessão ordinária de 6 Novembro de 1924, iniciada em 3 do referido mês e continuada em 28”N. 2 “Relatório da vistoria realizada ao edifício escolar da freguesia de Estoi. Concelho de Faro. Do exame a que procedi no terreno que a câmara municipal deseja permutar com este ministério é meu parecer que nenhum prejuízo causava ao estado, pelo contrario. Porque os terrenos que fazem parte da escola são situados em frente da sua fachada principal. Realizando-se a permuta a escola fica desafrontada desaparecendo uma árvores de sombra que tornava a sala de aula escura. O terreno que tendo além disso de sofrer um corte para alargar a estrada nenhuma falta fará daquele lado da escola. o terreno que a câmara oferecer em troca fica do lado da fachada posterior o que julgo de toda a vantagem para ali se instalar o recreio dos alunos ficando desta forma mais isolado o que julgo ser vantagem. Tem mais o terreno deste Ministério um pequeno tanque que recebe as águas que sobram de uma fonte que lhe fica distante e dessas sobras tem a escola o direito de recebe-las todas as sextas feiras de cada semana ao nascer do sol, acabando esse direito no domingo de manhã. Estas águas eram aproveitadas para serviço da escola e as que sobravam serviam para regar terrenos de proprietários que moravam mais baixo do nível da escola. no entanto a Camara de faro obriga-se a canalizar as águas para dentro do edifício escolar conforme vae indicado na planta junta assim como a construção e demolição dos muros de vedação do terreno permutado. As águas que sobejam da escola deseja a Camara aproveita-las para bebedouro para gado. as obras a fazer são as seguintes: 1ª Construir o muro de vedação AB com altura de 2m do nível do solo e com a espessura de 0,40m, 2ª demolir o muro C para que fique ligado ao da escola. 3ª Canalizar a água que a escola tem posse para dentro do terreno da mesma escola. 4ª Construir um tanque com as dimensões que a planta indica aproveitando todo o material existente.Todas as obras devem era feitas pela Camara municipal de faro sem nenhum encargo para este ministério sendo meu parecer que nestas condições a permuta é vantajosa para o Estado. Repartição 22 Setembro 1925. O conservador Civil José Pedro Martins. Foi confirmada a deliberação já tomada pela Camara sobre o assunto na sua sessão ordinária em abril ficando assim o Exmo Presidente da Comissão executiva de quem as suas vezes fizer, autorizar em nome desta camara municipal na respectiva escritura de permuta aceitando as condições do referido relatório”. Livro das Actas das Sessões, 1922-1926, nº53, fl.79 Câmara Municipal de Faro Sessão ordinária de 6 Novembro de 1925, iniciada em 11 e continuada em 24 do referido mês.
    • Mapa 3Mapa que representa o antigo passalparoquial de Estoi e que acompanhaSessão ordinária de 6 Novembro de1925, do Livro das Actas das Sessões,1922-1926, n. 53, fl. 79 (ArquivoHistórico Municipal da CâmaraMunicipal de Faro) 267 Estoi| Identidade e transformação. Anexos. Tratamento de fontes documentaisN. 3 “Passal de Estoy. Pede a palavra sobre este assunto o vereador Exmo Sr José Franco Pereira de Matos que dá conhecimento à camara como Presidente da Comissão Executiva duas deliberações feitas pelo Ministério da Instrução Pública às condições do relatório de 22 Setembro 1925 elaborado pelo técnico do mesmo ministério e que constam do seguinte. Relatório. Tendo-se levantado duvidas pelo inspector Escolar de Faro acerca da interpretação que a Câmara Municipal do Concelho de Faro pretende dar aos nº 3 e 4 do meu relatório de 22 de Setembro p.p. e relativo à canalização das águas que a escola da freguesia de Estoi tem posse tenho a honra de informar que V. Exeª do seguinte: Vistoriei novamente este edifício quando da minha passagem por aquela cidade em serviço deste Ministério e sou de parecer que para esclarecer melhor os nº 3 e 4 do relatório acima mencionado nesta repartição os mantenha com as seguintes alterações: Condição 3ª Canalizar as águas que a escola tem posse para dentro do terreno da mesma ligando a canalização a um tanque com dimensões de 4m de comprimento por 2m de altura no local que a planta junta indica. o fundo do mesmo ficará acima do nível do terreno 1.40m. Canalizar as águas desse tanque até local H para poder servir os recreios da escola levando na extremidade uma torneira 4,40m acima do nível do solo para regular a saída da água no ponto M. Condição 5ª A câmara por medida económica e se isso convier poderá canalizar a água por dentro do edifício até ao ponto H construindo um tanque com as dimensões impostas pela condição 4ª e pelo desenho junto ficando porem o fundo do mesmo com 0,40m acima doo nível do solo para poder alimentar os recreios. Eis o que se oferece dizer sobre esse assunto mas V. Exeª resolverá como melhor entender. Repartição 6 de março de 1926. O construtor civil José Pedro Martins propõe por isso que a Câmara aprove as referidas alterações para se poder efectuar a troca na permutação de terreno a que se referem as deliberações desta Câmara tomadas em suas sessões plenarias de 28 de Abril e 11 de novembro de 1925. Admitida a proposta e posta à discussão e depois a votação foi a mesma aprovada e consequentemente as referidas deliberações sendo mais delineado por proposta do vereador Exmo João Mendes Madeira Sobrinho que fique autorizado o Exmo Presidente da Comissão executiva ou quem as suas vozes fizer a outorgar na respectiva escritura em nome da Câmara realizando assim a troca de permutação do terreno que esta Câmara comprou a António Inácio de Brito e mulher por escritura lavrada nas notas da mesma Câmara no dia 4 d’ Outubro de 1925 e que consta da respectiva planta com terreno do passal de Estoy a que se referem as declinações camarárias já citadas e que também é indicado pela aludida planta. Por último não havendo mais assuntos a tratar foi marcada a continuação da presente sessão para o dia 24 do corrente mês pelas 12horas. Em seguida o Exmo Presidente levantou a sessão. E para constar se lavrou a presente acta que vae ser devidamente assinada”. Livro das Actas das Sessões, 1922-1926, n. 53, fl.92 e 93 Câmara Municipal de Faro. Sessão ordinária de Abril de1926 - (iniciada em 6 e continuada em 24 do referido mês)
    • 4 Síntese cronológica da formação e transformação do núcleo de Estoi século transformaçãoAté ao século XV I Construção de casa agrícola em Milreu; III Trabalhos de ampliação e enriquecimento na construção de termas; IV Construção de templo religioso; VI Piscina baptismal para rituais paleo-cristãos; VIII e X Inscrições funerárias de origem árabe; XV Edificação de casa agrícola em Milreu.Entre os séculos XV e XVIII XVI Vestígios tardo quinhentistas em molduras de porta; Primeiras referências à Ermida de São Martinho de Estoi (1517); Obras de ampliação e transformação da Ermida (1554); Referências ao “hospital da Aldeia” – Ermida do Espírito Santo (1554); Referências às casa da aldeia sobre “fundamentos e alicerces antigos” (1577) XVII Referência à Fonte coberta; Existência de 2 lagares; Referência a hortas e pomares na freguesia; Ribeira do Alface com moinhos XVIII Referência a 4 ermidas: Ermida do pé da Cruz, Ermida do Espírito Santo, São João da Horta Nova, e Nossa Senhora da Oliveira de Alcaria Branca (1758); Existência de 3 lagares de azeite e 1 no Guelhim; Casas do pároco resistem ao terramoto; Arruinada a torre da Igreja Matriz; Arruinaram-se cerca de 60 casas; Referência ao povoamento dos 33 lugares da freguesia (1758); Referência à feira franca instituída em 1758Entre os finais do século XVIII e Construção do Palácio da Quinta de Estoi da Família Carvalhal;o século XIX Consolidação e densificação dos principais eixos de expansão: Rua Nova (Rua do Pé da Cruz) e Rua Velha (Rua Visconde de Estoi),(1779-82); Referência à Praça ou rossio onde se acha a fonte (1786); séc. XIX Construção de casa no Largo Ossónoba - Casa Vítor Paula (1830); Obras de reconstrução e alteração da Igreja Matriz e construção da escadaria; Construção do Cemitério (1836); Construção da Casa Paula Brito (1860); Abertura de eixos: Rua de Faro (1876), Rua de Olhão(1876) e Rua do Cemitério (1836); Formação do aglomerado no Coiro da Burra; Fecho e anulação da Fonte no Largo Ossónoba (1890), Construção dos três chafarizes e lavadouro (1890); Aquisição e obras de remodelação da Quinta de Estoi pelo Visconde de Estoi(1893)Primeira metade do século XX Inauguração dos jardins do Palácio (1909); Consolidação dos quarteirões a norte da Rua de Faro, Consolidação da frente Poente do quarteirão a Norte da Matriz; Construção da Casa Belchior (1901); Construção da Casa a Poente do largo da Matriz (1901); Criação de novos eixos - Rua Vasco da Gama e Ramal de Estoi (Rua João de Deus) (192?); Alargamento de Rua de Olhão e criação de L. Humberto Delgado (1927); Construção da Casa Ferrinho (190?); Construção do Mercado (193?); Construção da Escola Primária (1937);Segunda metade do século XX Prolongamento da Rua João de Deus para o Azinheiro (195?); Construção do cinema (195?); Alargamento da Rua poeta Emiliano da Costa com anulação de frente de quarteirão(195?); Construção dos correios (196?); Construção de dispensário materno-infantil (197?); Construção do mercado abastecedor (1992); Centro de saúde (2001); Centro Interpretativo de Milreu(2001); Escola Eb 2/3 (2001); Criação de novas áreas de expansão com base em loteamentos; Reconversão do Palácio de Estoi em Pousada Histórica (Rede das Pousadas de Portugal, 2008)
    • Anexos Apêndice documental e gráfico269 Estoi| Identidade e transformação. Título capítulo
    • 12
    • página 2701Edifício existente antes da construçãodo mercadoArquivo da Câmara Municipal de Faro2Planta de Estoi nos anos 30.Representa o Largo Ossonoba coma localização do edifício do mercadoainda por construirArquivo da Câmara Municipal de Faropágina 2713-5Alçados e corte do projecto doCinema de EstoiArquivo da Câmara Municipal de Faro6-8 3 4Plantas do projecto do Cinema de EstoiO projecto, aprovado em data22.12.1948 é da autoria de MarquesSequeiraArquivo da Câmara Municipal de Faro 271 Estoi| Identidade e transformação. Título capítulo 5 6 7 8
    • morada Câmara Municipal de Faro Rua do Município 8000-398 Faro info telefone 289 870870 fax 289 802326 correio electrónico geral@cm-faro.pt Ficha técnica livro Estoi| identidade e transformação editor Câmara Municipal de Faro Departamento de Cultura e Património Divisão de Núcleos Históricos texto e revisão Patrícia Mimoso Vairinhos Malobbia fotografia Stefano Malobbia1 excepto outros autores indicados em legenda 1 designprojecto gráfico e paginação Stefano Malobbia produção papel Magno satin Sappi 100grs. (miolo) Magno satin Sappi 300grs. (capa) impressão Sig, Artes Gráficas, Camarate tiragem 500 depósito legal 297642/09 isbn 978 - 972 - 8776 - 06 - 0 data edição 07 2009