• Share
  • Email
  • Embed
  • Like
  • Save
  • Private Content
Por que não sou um psicólogo cognitivista
 

Por que não sou um psicólogo cognitivista

on

  • 1,803 views

Clássico texto de B. F. Skinner sobre a Psicologia Cognitiva

Clássico texto de B. F. Skinner sobre a Psicologia Cognitiva

Statistics

Views

Total Views
1,803
Views on SlideShare
1,410
Embed Views
393

Actions

Likes
0
Downloads
12
Comments
0

3 Embeds 393

http://behavioristaemacao.blogspot.com.br 387
http://www.behavioristaemacao.blogspot.com.br 3
http://behavioristaemacao.blogspot.pt 3

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

    Por que não sou um psicólogo cognitivista Por que não sou um psicólogo cognitivista Document Transcript

    • REVISTA BRASILEIRA DE ANÁLISE DO COMPORTAMENTO / BRAZILIAN JOURNAL OF BEHAVIOR ANALYSIS, 2007, VOL. 3, N . 2, 307-318 O PORQUE EU NÃO SOU UM PSICÓLOGO COGNITIVISTA1 WHY I AM NOT A COGNITIVE PSYCHOLOGIST B. F. SKINNER HARVARD UNIVERSITY, USA RESUMO As variáveis das quais o comportamento humano é função estão no ambiente. Nós distinguimos entre (1) a açãoseletiva deste ambiente durante a evolução das espécies, (2) seu efeito em modelar e manter o repertório decomportamentos que transforma cada membro da espécie em uma pessoa e (3) sua função como ocasião na qual ocomportamento ocorre. Os psicólogos cognitivistas estudam essas relações entre organismo e ambiente, mas elesraramente lidam com elas diretamente. Em vez disso, eles inventam substitutos internos que se tornam objetivo deestudo de sua ciência. Tendo mudado o ambiente para dentro da cabeça na forma de experiência consciente e ocomportamento na forma de intenção, desejos, e escolhas, e tendo armazenado os efeitos das contingências dereforçamento como conhecimento e regras, os psicólogos cognitivistas colocam tudo isso junto para compor umsimulacro interno do organismo, nada diferente do homúnculo clássico. O aparato mental estudado pela psicologiacognitivista é simplesmente uma versão bastante grosseira das contingências de reforçamento e seus efeitos. Eu nãosou um psicólogo cognitivista por várias razões. Não vejo qualquer evidência de um mundo interior de vida mentalque se relacione quer com uma análise do comportamento como uma função de forças ambientais, quer com afisiologia do sistema nervoso. O apelo para estados e processos cognitivos é um desvio de atenção que pode serresponsável por muitas de nossas falhas para resolver nossos problemas. Nós escolhemos o caminho errado já deinício, quando fazemos a suposição de que nossa meta é mudar “mentes e corações de mulheres e homens”.Precisamos mudar nosso comportamento e só podemos fazê-lo mudando nosso ambiente físico e social. Palavras-chave : cognitivismo, behaviorismo, comportamento, causação ABSTRACT The variables of which human behavior is a function lie in the environment. We distinguish between (1) theselective action of that environment during the evolution of the species, (2) its effect in shaping and maintainingthe repertoire of behavior which converts each member of the species into a person, and (3) its role as the occasionupon which behavior occurs. Cognitive psychologists study these relations between organism and environment,but they seldom deal with them directly. Instead they invent internal surrogates which become the subject matterof their science. Having moved the environment inside the head in the form of conscious experience and behaviorin the form of intention, will, and choice, and having stored the effects of contingencies of reinforcement asknowledge and rules, cognitive psychologists put them all together to compose an internal simulacrum of theorganism. The mental apparatus studied by cognitive psychology is simply a rather crude version of contingenciesof reinforcement and their effects. I am not a cognitive psychologist for several reasons. I see no evidence of an innerworld of mental life relative either to an analysis of behavior as a function of environmental forces or to thephysiology of the nervous system. The appeal to cognitive states and processes is a diversion which could well beresponsible for much of our failure to solve our problems. We choose the wrong path at the very start when wesuppose that our goal is to change the “minds and hearts of men and women”. We need to change our behavior andwe can do so only by changing our physical and social environments. Key words: cognitivism, behaviorism, behavior, causation As variáveis das quais o comportamento bro da espécie em uma pessoa e (3) sua fun-humano é função estão no ambiente. Nós dis- ção como ocasião na qual o comportamentotinguimos entre (1) a ação seletiva deste am- ocorre. Os psicólogos cognitivistas estudambiente durante a evolução das espécies, (2) seu essas relações entre organismo e ambiente, masefeito em modelar e manter o repertório de eles raramente lidam com elas diretamente.comportamentos que transforma cada mem- Em vez disso, eles inventam substitutos in-1 Artigo originalmente publicado em 1977 na revista Behaviorism, Vol. 5, nº 2, Fall, hoje Behavior and Philosophy, que autorizou a publicação da tradução. Tradução realizada por Olavo de Faria Galvão (Universidade Federal do Pará) e revisada por José Carlos Simões Fontes, em 1981. Resumos em português e inglês extraídos do texto original por Deisy das Graças de Souza; a publicação original não incluía resumo. 307
    • B. F. SKINNERternos que se tornam objetivo de estudo de pre que o objeto apresentado for branco, nãosua ciência. importando a forma ou o tamanho, apenas bi- Tome-se, por exemplo, o tão falado pro- cadas no painel marcado “branco” serão refor-cesso de associação. No experimento de Pavlov çadas, quando o objeto for vermelho, apenasum cão faminto ouve uma campainha e então é bicadas no painel marcado de “vermelho” serãoalimentado. Se isto ocorre muitas vezes, o cão reforçadas, e assim por diante. Sob estas condi-começa a salivar quando ouve a campainha. O ções o pombo eventualmente bica o painelpadrão de explicação mentalista é de que o cão marcado “branco” quando o objeto é branco, o“associa” a campainha com a comida. Mas foi painel marcado “vermelho” quando o objeto éPavlov quem as associou! “Associar” significa vermelho e assim por diante; as crianças sãojuntar ou unir. O cão meramente começa a sa- ensinadas a nomear cores com contingênciaslivar ao ouvir a campainha. Não temos evidên- similares e nós possuímos repertórios compa-cia alguma de que ele o faça assim por causa de ráveis, sustentados pelas práticas reforçadorasum equivalente interno das contingências. de nossos ambientes verbais. Na “associação de idéias” as idéias são ré- Mas o que se diz sobre o que está se pas-plicas internas de estímulos, ao que retornarei sando na mente? Karl Popper (1957) propôsadiante. Se nós já comemos limões, podemos o problema clássico desta forma. “Podemossentir o gosto de limão ao ver um limão ou ver dizer ou que (1) o termo universal “branco” éum limão ao saborear suco de limão, mas não um rótulo aposto a um conjunto de coisas oufazemos isso porque associamos o sabor com a que (2) reunimos o conjunto porque as coisasaparência. Eles estão associados no limão. Pelo compartilham uma propriedade intrínseca demenos o termo “associações de palavras” está “brancura”.” Popper diz que a distinção é im-nomeado corretamente. Se dizemos “lar” portante; os cientistas naturalistas podem op-quando alguém diz “casa”, não é porque nós tar pela primeira posição, mas os cientistasassociamos as duas palavras, mas porque elas sociais devem tomar a segunda. Devemos di-estão associadas no uso diário da língua. Asso- zer, então, que o pombo está atribuindo umciação cognitiva é uma invenção. Mesmo que termo universal a um conjunto de coisas oufosse real, ela não avançaria na direção de uma reunindo um conjunto de coisas porque elasexplicação mais do que as contingências nas compartilham uma propriedade intrínseca?quais é modelada. Claramente, é o experimentador e não o pom- Outro exemplo é abstração. Considere um bo quem “vincula” a chave branca aos objetosexperimento simples. Um pombo faminto pode apresentados e quem reúne o conjunto de ob-bicar qualquer um de uma série de painéis com jetos ao qual um evento reforçador particularnomes de cores – “branco”, “vermelho”, “azul”, é tornado contingente. Será que não devería-e assim por diante, e as bicadas são reforçadas mos simplesmente atribuir o comportamentocom pequenas quantidades de comida. Qual- às contingências experimentais? E se assim for,quer um de um conjunto de objetos – blocos, porque não fazer o mesmo para crianças e nóslivros, flores, animais de brinquedo, etc. – po- mesmos? O comportamento fica sob controledem ser vistos em um espaço adjacente. As se- de estímulos sob certas contingências deguintes contingências são então arranjadas: sem- reforçamento. Contingências especiais 308
    • COGNITIVISMO E BEHAVIORISMOmantidas por comunidades verbais produzem do e estereotipado.” (As contingências afetan-“abstrações”. Nós vinculamos, sim, rótulos fí- do o comportamento são simplificadas e exa-sicos a coisas físicas e agrupamos objetos físi- geradas e envolvem comportamento estereoti-cos de acordo com propriedades rotuladas, mas pado da parte dos pais e outras pessoas). “Àprocessos cognitivos comparáveis são invenções medida que a criança se desenvolveque, mesmo se reais, não estariam mais próxi- cognitivamente, seus conceitos e,mas de uma explicação do que as contingênci- consequentemente suas atividades se tornamas externas. mais sofisticadas e realistas.” (À medida a cri- Outra explicação cognitiva dos mesmos ança fica mais velha, as contingências se tor-dados afirmaria que uma pessoa, como também nam mais sutis e mais intimamente relaciona-um pombo, forma uma idéia abstrata ou de- das ao sexo real da criança). As crianças nãosenvolve um conceito de cor. O desenvolvimen- saem por aí formando conceitos de sua iden-to de conceitos é um campo cognitivo especial- tidade sexual e “consequentemente” se com-mente popular. (A metáfora horticultural portando de maneiras especiais; elas mudamminimiza as contribuições do ambiente. Nós seu comportamento vagarosamente à medidapodemos acelerar o crescimento da mente, mas que as pessoas mudam as maneiras com que asnão somos mais responsáveis por sua caracte- tratam por causa do seu sexo. O comporta-rística final do que os fazendeiros pela caracte- mento muda porque as contingências mudam,rística das frutas e vegetais que eles tão cuida- não porque uma entidade mental chamadadosamente nutrem). A visão de cores é parte da conceito se desenvolve.dotação genética da maioria das pessoas e ela se Muitos termos mentalistas ou cognitivosdesenvolve ou cresce no sentido fisiológico, não se referem às contingências apenas, maspossivelmente também em algum grau após o ao comportamento que elas geram. Termosnascimento. No entanto, a maioria dos estímu- como “mente’, “desejo” e “pensamento” sãolos adquire controle por sua posição nas con- muitas vezes sinônimos de “comportamento”.tingências de reforçamento. À medida que as Um historiador escreve: “Prevalece o que po-contingências se tornam mais complexas, elas deria se chamar de estagnação do pensamen-modelam e mantém comportamentos mais to, como se a mente, exausta após erigir a es-complexos. É o ambiente que se desenvolve, não trutura espiritual da Idade Média, tivesse seuma propriedade mental ou cognitiva. afundado na inércia”. Exaustão é uma metáfo- Uma passagem de uma discussão recen- ra plausível quando um período estagnado sete do desenvolvimento da identidade sexual segue a um ativo, mas foi o comportamentoem uma criança poderia ser transcrita como que se tornou estagnado e inerte,se segue: “A criança forma um conceito basea- presumivelmente porque as contingênciasda no que ela observou e ouviu dizer sobre o mudaram. Certas condições sociais (“a estru-que significa ser um menino ou uma meni- tura espiritual da Idade Média”) tornaram asna.” (O comportamento de uma criança é afe- pessoas ativas. Um segundo conjunto de con-tado por aquilo que ela observou e lhe conta- dições, possivelmente produzido pelo próprioram sobre ser um menino ou uma menina). comportamento gerado pelo primeiro, as tor-“Este conceito é super simplificado, exagera- nou muito menos ativas. Para compreender o 309
    • B. F. SKINNERque realmente aconteceu, deveríamos saber por soas em particular, uma vez que o período du-que as contingências mudaram não porque o rou mais que o tempo de uma vida. O quepensamento se tornou estagnado ou inerte. mudou foram, presumivelmente, as condições O comportamento é internalizado como que afetavam o comportamento dos membrosvida mental quando é muito sutil para ser ob- da classe. Talvez tenham perdido seu dinheiro,servado por outros – quando, como dizemos, é talvez classes competidoras tenham se tornadoencoberto. Um escritor apontou que “o maes- mais poderosas.tro de uma orquestra mantém uma mesma ca- Sentimentos, ou as condições corporaisdência de acordo com o ritmo interno, e ele que sentimos, são comumente tomadas comopode dividir aquela cadência ao meio várias ve- as causas do comportamento. Nós vamos darzes com uma precisão que rivaliza a de qual- uma volta porque “nos sentimos a fim de ir”. Équer instrumento mecânico.” Mas existe um surpreendente quão freqüentemente a futilida-ritmo interno? Manter a cadência é um com- de de tal explicação é reconhecida. Um biólogoportamento. Partes do corpo servem com fre- de renome, C.H. Waddington (1974), revisan-qüência como pêndulos úteis na determinação do um livro de Tinbergen, escreveu assim:de velocidade, como quando o músico amadormarca o compasso com o pé ou como o tocador “Não fica claro até que ponto ele (Tinbergen)de rock com todo o corpo, mas outros compor- concordaria com o argumento de uma das dis-tamentos bem cadenciados precisam ser apren- cussões críticas mais perceptivas da etologia feitadidos. O maestro marca o compasso de forma por Suzanne Sanger, que argumenta que cadaestável porque ele aprendeu a fazê-lo assim sob passo em uma estrutura complexa do comporta-contingências de reforçamento bastante preci- mento é controlada, não por um conjunto hie-sas. O comportamento pode ser reduzido em rárquico de centros neuronais, mas pelos senti-escala até que não seja visível a outros. Ainda mentos imediatos do animal. O animal, ela afir-assim é sentido pelo maestro, mas é uma sensa- ma, dá o próximo passo na seqüência não paração de comportamento, não de tempo. A his- aproximar-se de um objetivo útil, ou mesmotória do “desenvolvimento de um sentido de como um movimento em direção a uma consu-tempo pelo homem” ao longo dos séculos não mação agradável, mas porque ele se sente a fimé uma questão de crescimento cognitivo, mas de fazer aquilo naquele momento.”da invenção de calendários, relógios e meios demanter registros – em outras palavras, de um Evidentemente, o próprio Waddingtonambiente que “guarda tempo”. concorda de modo parcial com esta “visão Quando um historiador relata que em um perceptiva.”dado período “uma classe governante saudável, Mas suponha que Langer esteja certa.brilhante e tradicional perdeu sua vontade” ele Suponha que os animais simplesmente fazem oestá apenas relatando que ela parou de agir como que eles estão a fim de fazer. Qual é o próximouma classe governante saudável, brilhante e tra- passo para explicar seu comportamento? Clara-dicional. O termo vontade sugere mudanças mente, uma ciência do comportamento dosmais profundas, mas elas não são identificadas. animais deveria ser substituída ouElas não poderiam ter sido mudanças em pes- complementada por uma ciência dos sentimen- 310
    • COGNITIVISMO E BEHAVIORISMOtos dos animais. Ela seria tão extensa quanto a mentais ou cognitivos que se diz iniciarem aciência do comportamento, porque haveria ação. No reflexo, condicionado oupresumivelmente uma sensação para cada ato. incondicionado, há uma causa anterior conspí-Mas os sentimentos são mais difíceis de identi- cua. Algo dispara a resposta. Mas o comporta-ficar e descrever do que os comportamentos mento que tenha sido reforçado positivamenteatribuíveis a eles, e nós teríamos abandonado o ocorre em ocasiões em que, ainda que predis-objeto de estudos objetivo em favor de um de ponham, nunca compelem sua ocorrência. Ostatus dúbio, acessível apenas por meio dos ca- comportamento parece começar de repente, semnais necessariamente defeituosos da aviso prévio, como se fosse gerado espontanea-introspecção. As contingências seriam as mes- mente. Daí a invenção de entidades cognitivasmas. Os sentimentos e o comportamento teri- tais como intenção, propósito ou desejo. Osam as mesmas causas. mesmos problemas foram debatidos com rela- Um político Britânico afirmou recente- ção à Teoria da Evolução e pela mesma razão: amente que a chave para o crime nas ruas era a seleção é um modo causal especial não facil-frustração. Os jovens assaltam e roubam por- mente observável. Porque as circunstânciasque se sentem frustrados. Mas porque eles se controladoras que repousam na história desentem frustrados? Uma possível razão é o fato reforçamento de um organismo são obscuras, ode estarem desempregados ou porque eles não substituto mental tem sua chance. Sobtêm a educação necessária para conseguir em- reforçamento positivo, dizemos que fazemos opregos ou porque não existem empregos dispo- que estamos livres para fazer; daí a noção deníveis. Portanto, para resolver o problema do livre arbítrio como uma condição iniciadora.crime nas ruas, devemos mudar as escolas e a (Eu acho que foi Jonathan Edwards quem dis-economia. Mas que função a frustração tem se que acreditamos em livre arbítrio porque sa-nisso tudo? Será o caso de que quando alguém bemos sobre nossos comportamentos, mas nãonão pode obter um emprego se sente frustrado sobre as suas causas).e que quando alguém se sente frustrado assalta Quando não sabemos por que uma pes-e rouba, ou será simplesmente o caso de que soa faz uma coisa ao invés de outra, nós dize-quando alguém não pode ganhar dinheiro esse mos que elas “escolhem” ou “tomam decisões”.alguém mais provavelmente irá roubá-lo – e Escolher, originalmente significava examinar,possivelmente experimentar uma condição cor- escrutinizar cuidadosamente ou testar.poral chamada frustração? Etimologicamente, decidir significa cortar ou- Considerando que muitos eventos que de- tras possibilidades, mover-se em uma direçãovem ser levados em conta ao se explicar o com- da qual não há retorno. Escolher e decidir são,portamento estão associados com estados corpo- então, formas conspícuas de comportamento,rais que podem ser sentidos, o que é sentido pode mas psicólogos cognitivistas, não obstante, in-servir como uma pista para as contingências. Mas ventaram equivalentes internos. Anatoleos sentimentos não são as contingências e não as Rapaport (1973) coloca dessa forma: “Em umpodem substituir como causas. experimento psicológico, um sujeito tem que Por sua própria natureza o comportamen- escolher entre alternativas e selecionar uma al-to operante encoraja a invenção de processos ternativa entre outras”. Quando tal ocorre, ele 311
    • B. F. SKINNERdiz: “o senso comum sugere que ele seja guiado mas esta não é uma exceção; é um exemplo depor uma preferência”. O senso comum de fato comportamento governado por regras, do qualsugere isso, e também o fazem os psicólogos falaremos mais tarde).cognitivistas, mas onde está e o que é uma pre- Já chega de internalização cognitiva deferência? É algo mais do que uma tendência a contingências de reforçamento e invenção defazer uma coisa ao invés de outra? Quando não causas cognitivas do comportamento. Bem maispodemos dizer de onde vem o vento e para onde nociva para uma análise efetiva é a internalizaçãovai, nós dizemos que ele “sopra caprichosamen- do ambiente. Os gregos inventaram a mentete” (ao pé da letra: “sopra para onde se inclina a para explicar como o mundo real podia ser co-soprar”). E o senso comum, senão a psicologia nhecido. Para eles, conhecer significava estarcognitivista, credita isso à preferência. (A pro- familiarizado com, ser íntimo de. O própriopósito, inclinar-se é um exemplo de termo com termo cognição está relacionado a coito, no sen-um referencial físico usado para se referir a um tido bíblico em que se diz que um homem co-processo mental. Significa, naturalmente, in- nheceu uma mulher. Não tendo uma física ade-clinar-se, como quando o navio balança. E uma quada do som e da luz, nem qualquer químicavez que as coisas usualmente caem na direção do paladar e do olfato, os gregos não podiamem que se inclinam, nós dizemos que as pesso- entender como o mundo fora do corpo, possi-as se inclinam em favor de um candidato em velmente a alguma distância, podia ser conhe-uma eleição como uma forma grosseira de pre- cido. Devia haver cópias internas. Daí os equi-dizer como elas vão votar. A mesma metáfora se valentes cognitivos do mundo real.encontra em “inclinação”; nós estamos “incli- A distinção entre realidade e experiêncianados a votar em X. Mas isto não significa que consciente tem sido feita tão freqüentementetenhamos tendências e inclinações internas que que agora parece auto-evidente. Fred Attneaveafetam o nosso comportamento). (1974) escreveu recentemente que “a afirma- “Intenção” é um termo bastante similar, ção de que o mundo que conhecemos é umaque só significa antecipação. A versão cognitiva representação é, em minha opinião, um truísmoé uma questão crítica na lingüística atual. A – não há realmente nenhum jeito de estar erra-intenção do locutor deve ser considerada? Em do”. Mas existem pelo menos duas maneiras deuma análise operante o comportamento é deter- entender o que se quer dizer. Se a afirmaçãominado pelas conseqüências que o seguem em quer dizer que nós podemos apenas conhecerum dado ambiente verbal, e é de conseqüências representações do mundo externo, isto é umque os psicólogos cognitivistas estão realmente “truísmo” apenas se não somos nossos corpos,falando quando falam de intenções. Todo com- mas habitantes localizados em algum lugarportamento operante “antecipa” um futuro, dentro dele. Nossos corpos estão em contatomesmo que as únicas conseqüências responsá- com o mundo real e podem responder a eleveis por sua força já tenham ocorrido. Eu vou a diretamente, mas se estamos ocultos em al-um bebedouro “com a intenção” de tomar um gum ponto na cabeça, devemos nos satisfazerpouco d’água no sentido de que eu vou porque com representações.no passado eu pude beber quando fui lá. (Eu Outra significação possível é a de que co-posso ir pela primeira vez seguindo indicações, nhecer seja o próprio processo de construir có- 312
    • COGNITIVISMO E BEHAVIORISMOpias mentais das coisas reais, mas se for esse o Reconhecimento é um termo chave nacaso, como conhecemos as cópias? Fazemos có- teoria cognitiva, e ele cobre um extenso cam-pias delas? Será infinita essa regressão? po. Ele é freqüentemente contrastado com per- Alguns psicólogos cognitivistas reconhe- cepção. Dizemos que somos capazes de ver quecem que conhecer é ação, mas tentam defender existem três pontos em um cartão, mas apenasseu ponto de vista apelando para outros equi- sabemos que existem treze após contá-los, em-valentes mentais. O conhecimento é entendi- bora contar seja uma forma de comportamen-do como “um sistema de proposições”. De acor- to. Depois de notar que uma espiral pode serdo com um escritor, “quando usamos a palavra vista como sendo contínua, mas que isso só se“ver” nos referimos a uma ponte entre um pa- descobre rastreando-a, Bela Julesz (1975) dissedrão de estimulação sensorial e o conhecimen- que “qualquer tarefa visual que não pode serto que é proposicional. Mas “proposicional” é desempenhada espontaneamente, sem esforçosimplesmente um eufemismo de ou deliberação, pode ser considerada como uma“comportamental”, e a “ponte” é entre estímu- tarefa cognitiva ao invés de perceptual,” embo-los e comportamento e foi construída quando ra todos os passos naquele exemplo sejam cla-os estímulos eram partes das contingências. ramente comportamentais. Teorias representacionais do conhecimen- “Saber como fazer alguma coisa” é um equi-to são construídas a partir do comportamento valente interno de comportamento em sua rela-prático. Nós fazemos sim cópias das coisas. Nós ção com as contingências. Uma criança aprendeconstruímos trabalhos artísticos de representa- a andar de bicicleta e então se diz que ela possuição, porque olhar para eles é reforçado de for- conhecimento de como manobrá-la. O compor-ma bastante similar a olhar para o que eles re- tamento da criança foi mudado pelas contingên-presentam. Nós fazemos mapas, porque o nos- cias de reforçamento mantidas por bicicletas; aso comportamento de segui-los é reforçado criança não toma posse das contingências.quando chegamos ao nosso destino no territó- Falar em saber acerca de coisas é tam-rio mapeado. Mas existem equivalentes inter- bém construir um equivalente interno das con-nos? Quando devaneamos, primeiro construí- tingências. Nós assistimos a um jogo de fute-mos cópias dos episódios reforçadores que en- bol e dizemos então possuir o conhecimentotão vemos ou simplesmente vemos as coisas de do que aconteceu. Nós lemos um livro e dize-novo? Quando aprendemos a andar em um mos saber do que se trata. O jogo e o livrodeterminado território, construímos mapas estão, de alguma forma, “representados” emcognitivos que então seguimos, ou seguimos o nossas mentes: nós estamos “de posse de certosterritório? Se nós seguimos o mapa cognitivo, fatos”. Mas a evidência é simplesmente de quedevemos aprender a fazer isso, e tal aprendiza- nós podemos descrever o que aconteceu nogem irá requerer um mapa do mapa? Não há jogo e relatar sobre o que o livro versava. Nos-nenhuma evidência da construção mental de so comportamento mudou, mas não há ne-imagens para serem olhadas ou mapas para se- nhuma evidência de que tenhamos adquiridorem seguidos. O corpo responde ao mundo no conhecimento. Estar “de posse de fatos” não éponto de contato; fazer cópias seria um desper- conter os fatos dentro de nós mesmos, mas terdício de tempo. sido afetado por eles. 313
    • B. F. SKINNER Posse de conhecimento implica em mais útil do que dizer que o meu comporta-armazenamento, um campo em que os psicó- mento ao jantar é armazenado como memóriaslogos cognitivistas construíram um grande nú- prandiais, ou coçar-se como memória pruriente?mero de equivalentes mentais do comportamen- Os fatos observados são bastante simples: euto. Diz-se que o organismo internaliza e arma- adquiro um repertório de comportamento, par-zena o ambiente, possivelmente de alguma for- tes do qual eu exibo em ocasiões apropriadas. Ama já processada. Suponhamos que uma meni- metáfora de armazenagem e recuperação vai bemna tenha visto uma gravura ontem e hoje, quan- além desses fatos.do solicitada a descrevê-la, o faz. O que aconte- O computador, juntamente com a teoriaceu? Uma resposta tradicional seria mais ou da informação planejada para lidar com siste-menos assim: quando ela viu a gravura ontem mas físicos, fez da metáfora da entrada-ela formou uma cópia em sua mente (a qual, armazenamento-recuperação-saída um modis-de fato, foi tudo o que ela viu). Ela codificou a mo. O esforço para fazer máquinas que pensamgravura de forma adequada e armazenou-a em como pessoas teve como efeito apoiar as teoriassua memória, onde permanece até hoje. Hoje que sugerem que pessoas pensam como máqui-quando solicitada a descrever a figura, ela pro- nas. A mente foi recentemente definida comocurou em sua memória, recuperou a cópia co- “o sistema de organizações e estruturas perten-dificada e converteu-a em algo semelhante à centes a um indivíduo que processa entradas...gravura original, para a qual ela então olhou e e provê saídas para os vários subsistemas e odescreveu. A explicação é baseada no mundo.” Mas organizações e estruturas do quê?armazenamento físico de memorandos. Faze- (A metáfora ganha força pelo modo como des-mos cópias e outros registros, e respondemos a carta problemas trabalhosos. Falando de entra-eles. Mas fazemos qualquer coisa desse tipo em da se pode esquecer todo o trabalho da psicolo-nossas mentes? gia sensorial e da fisiologia; falando de saída se Se alguma coisa é “armazenada”, é com- esquece de todo o problema de descrever e ana-portamento. Nós falamos de “aquisição” de com- lisar a ação; e falando de armazenamento e re-portamento, mas de que forma ele é possuído? cuperação da informação pode-se esquivar deOnde está o comportamento quando o orga- todos os problemas difíceis relacionados a comonismo não está se comportando? Onde os com- os organismos são efetivamente mudados peloportamentos que exibo quando estou ouvindo contato com seus ambientes e como tais mu-música, jantando, conversando com um ami- danças sobrevivem.).go, dando um passeio matinal ou coçando uma Freqüentemente se diz que os dados sen-picada estão no presente momento e que forma soriais são armazenados como imagem, da mes-eles têm? Um psicólogo cognitivista disse que o ma forma que se diz que as imagens represen-comportamento verbal é armazenado como tam o mundo real. Uma vez dentro, elas são“memórias léxicas”. O comportamento verbal manipuladas de acordo com os propósitosdeixa freqüentemente registros públicos que cognitivos. Há um experimento conhecido so-podem ser armazenados em estantes e livrarias bre generalização de cor em que um pomboe a metáfora da armazenagem é, portanto, par- bica um disco de, digamos, luz verde, e o com-ticularmente plausível. Mas essa expressão é portamento é reforçado em esquema de inter- 314
    • COGNITIVISMO E BEHAVIORISMOvalo variável. Quando se desenvolve uma taxa tenta resolvê-lo. Contrariamente, a teoriaestável de respostas não se dá mais nenhum cognitiva sustenta que eu armazeno uma regra.reforçador e a cor do disco é mudada. O pom- Regras são muito usadas como substitutos men-bo responde a uma outra cor com uma taxa tais do comportamento, em parte porque elasque depende de quanto ela difere da cor origi- podem ser memorizadas e, portanto, “possuídas”,nal; cores bastante semelhantes evocam taxas mas há uma diferença importante entre regras ebastante altas, cores muito diferentes taxas bai- as contingências que elas descrevem. Regras po-xas. Um psicólogo cognitivista poderia expli- dem ser internalizadas no sentido de que pode-car o problema desta forma: o pombo percebe mos dizê-las a nós mesmos, mas ao fazê-lo, nósuma cor nova (como “entrada”), recupera a cor não internalizamos as contingências.original da memória, onde ela estava armaze- Eu posso aprender a resolver o quebra-nada de alguma forma, põe as duas imagens cabeça de duas maneiras. Posso mexer com ascoloridas lado a lado, de forma que possam peças para lá e para cá até conseguir uma res-ser facilmente comparadas e depois de avaliar posta que as separe. O comportamento será for-a diferença, responde com a taxa apropriada. talecido, e se eu fizer a mesma coisa várias ve-Mas que vantagem se ganha indo de um pom- zes, eventualmente serei capaz de separar asbo que responde a diferentes cores em um dis- peças rapidamente. Meu comportamento foico para um pombo interno que responde às modelado e mantido por seus efeitos sobre asimagens coloridas em sua mente? O fato sim- peças. Eu posso, por outro lado, simplesmenteples é que por causa de uma história conheci- seguir as instruções impressas que vêm com oda de reforçamento, cores diferentes contro- quebra-cabeça. As instruções descrevem o com-lam taxas diferentes. portamento que separa as peças, e se eu já tiver A metáfora cognitiva está baseada em com- aprendido a seguir instruções, posso evitar oportamento que ocorre no mundo real. Nós processo possivelmente longo de ter meu com-guardamos exemplares de coisas e as retoma- portamento modelado pelas contingências.mos e comparamos com outros exemplares. Nós Instruções são regras. Assim como con-os comparamos no sentido literal de colocá-los selhos, avisos, máximas, provérbios e leis ci-lado a lado, para tornar as diferenças mais ób- entíficas e governamentais, elas são parte im-vias. E respondemos a diferentes coisas de dife- portante de uma cultura, permitindo às pes-rentes formas. Mas isso é tudo, todo o campo soas tirar proveito da experiência dos outros.de processamento de informação pode ser Aqueles que adquiriram o comportamento pelareformulado como mudança no controle exer- exposição às contingências descrevem as con-cido pelos estímulos. tingências, e outros, então, evitam se expor O armazenamento do conhecimento comportando-se das formas descritas. Mas osfactual levanta outro problema. Quando eu psicólogos cognitivistas defendem que algo doaprendo, digamos, a separar um quebra-cabeça mesmo tipo ocorre internamente quando aspor partes, parece improvável que eu armazene pessoas aprendem diretamente por meio dasmeu conhecimento de como fazê-lo a partir de contingências. Diz-se que elas descobrem re-uma cópia do quebra-cabeça ou das contingên- gras que, então, elas mesmas seguem. Mas ascias que o quebra-cabeça apresenta para quem regras não estão nas contingências, nem pre- 315
    • B. F. SKINNERcisam ser conhecidas por aqueles que adqui- te comum. Usando um dicionário e uma gra-rem comportamento sob exposição a estas. (Por mática nós podemos compor sentenças aceitá-sorte nossa isto é assim, uma vez que regras veis em uma língua que não falamos, e pode-são produtos verbais que surgiram muito tar- mos ocasionalmente consultar um dicionáriode na evolução da espécie). ou uma gramática ao falar nossa própria lín- A distinção entre e regras e contingênci- gua, mas mesmo assim raramente falamos apli-as é realmente importante no campo do com- cando regras. Nós falamos porque nosso com-portamento verbal. Crianças aprendem a falar portamento é modelado e mantido pelas práti-mediante o contato com comunidades verbais, cas de uma comunidade verbal.possivelmente sem instrução. Algumas respos- Tendo mudado o ambiente para dentrotas verbais são efetivas e outras não, e durante da cabeça na forma de experiência consciente eum período de tempo mais e mais comporta- o comportamento na forma de intenção, dese-mento é modelado e mantido. As contingênci- jos, e escolhas, e tendo armazenado os efeitosas que tem esse efeito podem ser analisadas. das contingências de reforçamento como conhe-Uma resposta verbal “significa” algo no sentido cimento e regras, os psicólogos cognitivistasde que o locutor está sob controle de circuns- colocam tudo isso junto para compor um si-tâncias particulares; um estímulo verbal “signi- mulacro interno do organismo, um tipo defica” algo no sentido de que o ouvinte responde doppleganger, nada diferente do homúnculoa ele de maneiras particulares. A comunidade clássico, cujo comportamento é o objeto de es-verbal mantém contingências onde respostas tudo do que Piaget e outros chamaram deque ocorrem em ocasiões particulares servem “behaviorismo subjetivo”. O aparato mentalcomo estímulos úteis para ouvintes que, então, estudado pela psicologia cognitivista é simples-se comportam apropriadamente às ocasiões. mente uma versão bastante grosseira das con- Relações mais complexas entre os com- tingências de reforçamento e seus efeitos.portamentos do locutor e do ouvinte caem no Todo processo chamado cognitivo tem umcampo da sintaxe e da gramática. Até a época modelo físico. Nós associamos coisas colocando-dos gregos, parece que ninguém sabia que ha- as juntas. Nós armazenamos memorandos e re-via regras de gramática, ainda que as pessoas cuperamos para uso posterior. Nós comparamosfalassem gramaticalmente no sentido em que coisas colocando-as lado a lado para enfatizar asse comportavam efetivamente sob as contingên- diferenças. Nós discriminamos coisas umas dascias mantidas pelas comunidades verbais, as- outras separando-as e tratando-as de diferentessim como as crianças de hoje aprendem a falar maneiras. Nós identificamos objetos retirando-sem a necessidade de regras para seguir. Mas os os do ambiente confuso. Nós abstraímos conjun-psicólogos cognitivistas insistem que falantes e tos de itens de arranjos complexos. Nós descre-ouvintes devem descobrir as regras por si pró- vemos contingências de reforçamento em regras.prios. Uma autoridade inclusive, definiu falar Essas são as ações das pessoas reais. É apenas nocomo “engajar-se em uma forma de comporta- mundo fantasioso de uma pessoa interna que elasmento intencional governado por regras”. Mas se tornam processos mentais.não há evidência de que regras tenham qual- A própria rapidez com que os processosquer participação no comportamento do falan- cognitivos são inventados para explicar o com- 316
    • COGNITIVISMO E BEHAVIORISMOportamento deveria suscitar suspeita. Molière processos internos; a questão é quão bem elesfez uma piada de um exemplo médico há mais podem ser conhecidos via introspecção. Comode três séculos atrás. “Doutores estudados me eu argumentei noutra ocasião,perguntaram por que razão o ópio faz alguém autoconhecimento ou consciência se tornaramdormir, ao que eu respondi que há nele uma possíveis apenas quando a espécie adquiriu com-virtude soporífera cuja natureza é a de aquietar portamento verbal, e isso foi muito tarde emos sentidos.” O personagem de Molière pode- sua história. O único sistema nervoso até entãoria ter citado evidências de introspecção, invo- disponível se desenvolveu por outros propósi-cando um efeito colateral da droga, dizendo: tos e não fazia contato com as atividades fisio-“Ao que eu respondi que o ópio faz a pessoa lógicas mais importantes. Aqueles que se vêemsentir sono”. Mas a virtude soporífera em si é pensando vêem pouco mais do que seu com-totalmente uma invenção, e não deixa de ter portamento perceptual e motor, aberto e enco-paralelos atuais. berto. Poder-se-ia dizer que eles observam os Recentemente ocorreu na Europa uma resultados de “processos cognitivos”, mas nãoconferência sobre o assunto da criatividade ci- os próprios processos – um “fluxo de consciên-entífica. Um relato publicado na Science (1974) cia” mas não o que causa o fluxo, a “ imagem decomeça revelando que mais de noventa por cento um limão” mas não o ato de associar aparênciada inovação científica foi obtida por menos de com sabor, seu uso de um termo abstrato masdez por cento de todos os cientistas. A senten- não o processo de abstração, um nome lembra-ça seguinte poderia ser parafraseada desta for- do mas não sua recuperação da memória, e as-ma: “Os doutores estudados me perguntaram sim por diante. Pela introspecção nós não ob-pela causa e a razão por que isso seria assim, ao servamos os processos fisiológicos por meio dosque eu respondi que é porque apenas uns pou- quais o comportamento é modelado e mantidocos cientistas possuem criatividade.” Similar- pelas contingências de reforçamento.mente, os doutores estudados me perguntaram Mas os fisiologistas os observam e os psi-pela causa e a razão porque as crianças apren- cólogos cognitivistas apontam para as semelhan-dem a falar com grande rapidez, ao que eu res- ças que sugerem que eles e os fisiologistas estãopondi que isso se dá porque elas possuem com- falando das mesmas coisas. O próprio fato depetência lingüística. “As audiências de Molière que os processos cognitivos se dão dentro docairiam no riso”. organismo sugere que a abordagem cognitiva Os psicólogos cognitivistas têm duas res- está mais próxima da fisiologia do que as con-postas para a acusação de que o aparato mental tingências de reforçamento estudadas por aque-é uma metáfora ou um construto. Uma é que les que analisam o comportamento. Mas se osos processos cognitivos são conhecidos via processos cognitivos são moldados simplesmen-introspecção. Todos os seres pensantes não sa- te com base nas contingências ambientais, obem que pensam? E se os behavioristas dizem fato deles serem designados para um espaçoque não, será que eles não estão ou demons- dentro da pele não os traz mais próximos detrando uma mentalidade de ordem inferior ou uma abordagem fisiológica. Pelo contrário, aagindo de má fé em defesa de sua posição? Nin- fascinação com uma vida interior imaginada temguém dúvida que o comportamento envolve levado à negligência dos fatos observados. Os 317
    • B. F. SKINNERconstrutos cognitivos dão aos fisiologistas uma social. Nós escolhemos o caminho errado já deexplicação enganosa do que deveriam encon- início, quando fazemos a suposição de que nossatrar dentro do organismo. meta é mudar “mentes e corações de mulheres e Em suma, então, eu não sou um psicólo- homens” ao invés do mundo em que eles vivem.go cognitivista por várias razões. Não vejo qual-quer evidência de um mundo interior de vida REFERÊNCIASmental que se relacione quer com uma análisedo comportamento como uma função de for- Attneave, F. (1974). How do you know? Americanças ambientais quer com a fisiologia do sistema Psychologist, 29, 493-499.nervoso. As respectivas ciências do comporta- Julesz, B., (1975). Experiments in the visual perceptionmento e a fisiologia avançarão mais rapidamente of texture. Scientific American, 232(4), 34-43.se seus domínios forem corretamente definidos Popper, K. 1957. The poverty of historicism. London:e analisados. Routledge & Kagan Paul. Eu estou igualmente preocupado com as Rapoport, A. (1973). Experimental games and their usesconseqüências práticas. O apelo para estados e in psychology. Morristown, NJ: General Learningprocessos cognitivos é um desvio de atenção que Press.bem pode ser responsável por muito de nossa Waddington, C. H. (1974). New York Review, February,falha em resolver nossos problemas. Nós preci- 3, 1974.samos mudar nosso comportamento e só pode-mos fazê-lo mudando nosso ambiente físico e Tradução recebida em 29 de agosto de 2007 318