Rodrigo barbosa

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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde …

Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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  • 1. Universidade Presbiteriana MackenzieAS IMPLICAÇÕES ÉTICAS DO PROBLEMA DA LIBERDADE EXISTENCIALISTAEM SARTRERodrigo Barboza dos Santos (IC) e Graciela Deri de Codina (Orientador)Apoio: PIBIC CNPqResumoO presente artigo tem como finalidade a exposição da liberdade e suas implicações éticas, de acordocom o existencialismo do filósofo francês Jean-Paul Sartre. Tal problemática é importante por discutiro problema das escolhas para o gênero humano, sendo elas fáceis ou difíceis. Quanto maior for ograu de dificuldade da escolha, mais livre se torna o homem, pois este só pode ser livre se existir algoque lhe sirva de barreira para atingir suas finalidades. Portanto, sendo o homem livre, precisaescolher o melhor sempre, pois todas as suas ações trazem consigo consequências. Por meio deleituras sistemáticas das obras de Sartre, percebemos que várias de suas questões éticas estãopresentes na sociedade pós-moderna. O homem estando livre e podendo escolher o mundo em quevive, é responsável pelo que escolhe, pois este mundo é consequência de suas ações.Palavras-chave: existência, liberdade, éticaAbstractThis article aims to exposure of freedom and its ethical implications, according to the existentialism ofthe French philosopher Jean-Paul Sartre. This issue is important for mankind to show that there willalways be choices, and they are easy or difficult. The greater the degree of difficulty of the choicebecomes more free the man, because this can only be free if there is something that will serve as abarrier to achieving its goals. Therefore, since man is free to choose the best forever, for all his actionsbring consequences. Through systematic readings of the works of Sartre, we realize that many of hisethical issues are present in postmodern society. The man being free and being able to choose theworld you live in, is responsible for what they experience, because this world is a consequence of theiractions.Key-words: existence, freedom, ethics 1
  • 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011IntroduçãoSeria difícil expor a filosofia de Jean-Paul Sartre, filósofo francês, sem ao menos fazer umabreve referência ao contexto em que seu pensamento foi forjado. Sartre foi diretamenteinfluenciado pelo método fenomenológico de Edmund Husserl e o existencialismo de SörenKierkegaard e Martin Heidegger.Sartre nasceu em 1905 e faleceu em 1980, portanto foi contemporâneo da Segunda GuerraMundial, que eclodiu em 1939 e acabou em 1945. Neste período, a França foi invadida eocupada pelos nazistas. Cerca de 55 milhões de pessoas morreram nessa guerra, enquanto35 milhões de pessoas ficaram feridas.A economia alemã passava por uma grave crise financeira, pois havia perdido a PrimeiraGuerra Mundial, que ocorreu anos antes. Adolf Hitler, político alemão, estimulou osentimento de revolta na nação alemã, conquistou o poder e fortaleceu o Estado Nazista.Aquelas pessoas tidas como “indesejáveis” 1, como os judeus, ciganos, homossexuais ecomunistas (Sartre recebeu a acusação de ser comunista) eram levados para campos deconcentração, onde eram humilhados, torturados e exterminados. A linha de frente dossoldados nazistas, aqueles que eram considerados da tropa de elite, era a SS, que eraformada a partir da sigla alemã Schutzstaffel, que significa escudo de proteção2. O maiordos campos de concentração era Auschwitz, na Polônia, onde se estima que morreramcerca de quatro milhões de pessoas. Esse contexto é importante para tornar inteligíveis asmotivações de Sartre. Conforme se tornou evidente, Sartre viveu em um período históricomarcado pela intolerância política e racial. Aparentemente, qualquer tentativa de demonstrarque o ser humano é livre é facilmente refutada. Como alguém poderia lutar por um idealcomunista se isso implicaria na sua morte? Os caminhos da liberdade parecem estarobstruídos. Mas será que essa proposição é verdadeira? Sartre diria que não, pois segundosua tese, nada tira a liberdade do homem. Isso ficará mais claro durante a exposição que seseguirá no decorrer desse trabalho.Sartre, filosofo francês contemporâneo da Segunda Guerra Mundial, foi levado como presopolítico ao campo de concentração pelos nazistas alemães. Por meio de sua perseverança efé em si próprio, Sartre corajosamente conseguiu fugir do campo de concentração. Essatalvez tenha sido a sua maior motivação para acreditar na liberdade, pois mesmo com asituação sendo adversa, ele conseguiu atingir seu objetivo, realizar seu projeto. Mas o que1 Cf. o termo utilizado por Gilberto Cotrim no livro História Global: Brasil e Geral.2 Idem. 2
  • 3. Universidade Presbiteriana Mackenzieseria a liberdade sem as situações adversas? A resposta dessa pergunta será mostrada embreve.Sartre buscava uma filosofia do cotidiano. Numa conversa com seu amigo Raymond Aron,conheceu o método fenomenológico de Husserl3. O método em questão é uma ciência deessências. Ou seja, analisava o fenômeno não apenas “como aparece ou se manifesta aohomem em condições particulares, mas aquilo que aparece ou se manifesta em si mesmo,como é em si, na sua essência (ABBAGNANO, 2007. P. 511)”. Com isso, Sartre, descobriuuma filosofia que combinava com sua vontade, pois seu desejo era falar sobre as coisascomo elas são cotidianamente, sem o auxílio da metafísica.Conviveu com Camus e Merleau-Ponty. Era muito amigo de Albert Camus, masdivergências políticas levaram ambos a se tornarem inimigos. Enquanto Camus criticava omarxismo, Sartre defendia as ideias socialistas. Junto a Maurice Merleau-Ponty, Sartrefundou a revista Les Temps Moderns (Tempos Modernos), na qual publicavam artigos decunho filosófico e político.Sartre, além de escrever obras filosóficas, escreveu também literatura, romances e peças.Segundo o autor, suas novelas, em especial A náusea e Entre quatro paredes, eramdestinadas àqueles que não conseguiam entender a complexidade de O ser e o nada,considerada por muitos estudiosos como sua obra principal.Um soldado que serve sua pátria numa guerra pode se considerar inocente, mesmo levandoa holocausto vários seres humanos? Sartre diria que ele não é, de forma alguma, inocente.O centro da filosofia sartreana é a liberdade. Segundo o autor em questão, tudo o que évivido e presenciado está diretamente ligado à liberdade. A liberdade faz parte do universohumano. Na realidade, o universo humano é a própria liberdade. O homem pode escolherqualquer coisa, só não pode se abster de realizar uma escolha. Se um soldado faz parte daofensiva de uma guerra, ele o faz de acordo com sua livre escolha. Poder-se-ia argumentarque a pátria possa ter convocado este soldado contra sua vontade. Mas será este um bommotivo para isentá-lo de uma possível escolha quanto servir sua pátria numa guerra? Essainvestigação é coerente. Se o soldado foi convocado, aparentemente seu destino estátraçado e não existem escolhas. No entanto, quando a investigação está num nível maisprofundo, percebe-se claramente que essa tese pode ser facilmente refutada. O convocadopara servir na guerra pode decidir não se apresentar ao batalhão e se tornar um desertor.Pode também se suicidar. Nada impede que ele não se apresente ao batalhão a fim deguerrear por sua pátria. Cabe a ele escolher uma das várias possibilidades de seudesenvolvimento futuro. Independentemente de sua escolha, existirão consequências. Se3 Cf. a introdução do livro Existência e liberdade, do filósofo Paulo Perdigão. 3
  • 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011for para a guerra, a consequência é a morte de várias pessoas e, possivelmente, até a sua.Se escolher não se apresentar ao batalhão, corre o risco de ser preso ou de ser visto comoum traidor. Se ele opta pelo suicídio, coloca um ponto final em sua vida.O senso comum ou até mesmo correntes filosóficas tomam o homem como um conjunto dedeterminismos dados a priori. Dizem que o futuro está estabelecido por alguma entidade,seja Deus ou a natureza. Sartre discorda dessa tese. Segundo Sartre, o homem é livre enada determina sua ação. O que existe são as circunstâncias em que o homem estáinserido, o que, segundo veremos adiante, afirma a liberdade. Sartre trabalha com ahipótese da não existência de Deus. Sendo assim, o homem não está dado a priori. Emesmo que houvesse um Deus, esse Deus teria dado ao homem livre-arbítrio, o quetornaria o homem responsável por suas ações. Portanto, o homem se encontra livre nummundo que resiste à sua liberdade e lhe impõe obstáculos. Dado o problema, se faznecessário explicar ontologicamente o homem, pois isso tornará possível e clara adiscussão aqui pretendida.Referencial teóricoAntes de poder refletir a respeito do Ser em suas diversas formas de manifestação, Sartrepercebeu que era necessário abordar o Ser de maneira ontológica, pois esse Ser ainda lheera algo obscuro. Tomou para si o método fenomenológico de Edmund Husserl, que abordao Ser sem utilizar as questões metafísicas.Em primeiro lugar, como será demonstrado através de sua obra O Ser e o Nada, contestoua teoria de Aristóteles sobre o Ser ser potência. Isso, segundo Sartre, apenas coloca emdúvida a capacidade de conhecer do Ser. Ora, não existe uma essência obscura por detrásdo fenômeno. Os fenômenos se mostram sem colocar nenhum obstáculo no percurso.Portanto, já que não há uma essência oculta e o Ser é o que é, ele só pode existir em ato.Contudo, o Ser do fenômeno não se esgota em apenas uma aparição. O Ser se revela nasérie de aparições inerentes a ele. O Ser é o que é e não há motivos para ele serexatamente dessa maneira ou de outra. Sua existência é contingente.O homem, este Ser complexo, não é somente um corpo. Ele é também consciência.Quando alguém se coloca com os olhos muito próximos de um quadro, esse quadro passa aser algo ilegível. O mesmo ocorre com a consciência: para ela ser consciente de algo, deverecuar perante seu objeto para torna-lo legível. A consciência, estando inserida no Ser e nomundo, deve se distanciar do seu Ser para ser consciente dele. A consciência é separadado Ser pelo Nada. Esse Nada não é ausência, como um simples espaço vazio, ele é pura 4
  • 5. Universidade Presbiteriana Mackenzienegatividade. Quando a consciência recua diante do Ser, ela injeta negatividade nele. Issotorna possível a existência dos juízos. Questiona-se o motivo das coisas serem como são,não de outra maneira. A consciência é algo sempre inacabado, pois sempre lhe falta algo.Caso ela fosse a manifestação da completude, ela seria uma coisa dada e incapaz de levara efeito o movimento negativo.Assim sendo, o homem, formado pelo Ser e pela consciência, busca sempre a suacompletude. Busca a sua plena realização. Sartre recorre à Fenomenologia do Espírito,retomando o que Hegel dizia. Segundo Hegel, o Absoluto se rompe e dá origem a duasinstâncias aparentemente diferentes, mas ontologicamente idênticas: o sujeito e o objeto. AHistória daria conta de reconciliar essas suas instâncias, trazendo novamente a completudedo Absoluto. O sujeito, semelhante à consciência, e o objeto, semelhante ao Ser,aparentemente são duas coisas diferentes, mas estão intimamente ligados. Quando aconsciência se reconcilia com o Ser, quando a totalidade se completa, então o homempassa a ser algo acabado. Esse acabamento, que é o objetivo da consciência,representaria, como um irônico paradoxo, o fim da existência do Ser, a sua morte. Aconsciência tenta preencher o ser com aquilo que a ela falta. A sede, por exemplo, significaa ausência de água por determinado tempo. A consciência ultrapassa o dado, que é a sede,e visa à totalidade de seu ato, que é a sede saciada. Assim feito, retorna para o dado ecausa o desejo de beber. O desejo, portanto, representa uma falta. Ninguém deseja aquiloque não lhe falta. A consciência não existe sem seu Ser, sem um objeto. Ela se dirige aoobjeto com intencionalidade. Quem ama, por exemplo, ama alguma coisa.Outro fator importante para a compreensão do problema apresentado é a temporalidade,que está intimamente ligada à consciência. Ela tem o caráter de permanência-mudança.Com o passar do tempo, embora existam mudanças, há sempre algo que permanece. Esseconceito é uma retomada ao conceito alemão Alfhebung, utilizado por Hegel. A História nãoé uma sucessão de períodos desconexos. Os fatos históricos estão interligados. Emborahaja mudança, a realização da liberdade hegeliana, algo permanece. A permanência dopassado é imanente ao Ser. É possível escolher o futuro, mas o passado está petrificado esempre permanecerá intimamente ligado ao Ser. No caso da temporalidade sartreana, éimprescindível a relação entre passado, presente e futuro, que torna possível a sucessãológica dos instantes. Esses instantes trazem consigo uma falta. O presente sempre é umafalta do futuro e o futuro sempre é uma falta do passado. A temporalidade traz consigo enegatividade. O passado não é mais, o futuro não é ainda e o presente é um inexistentelimite entre passado e futuro. O movimento da temporalidade existe somente naconsciência, pois o Ser desconhece esse movimento. A consciência foge do passado rumoao futuro. Ficar no passado representaria sua petrificação, sua morte. A consciência nadifica 5
  • 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011o passado, mas não se livra completamente dele, pois ele sempre permanece. O passado écomo um peso que o Ser não pode deixar de carregar, mas não determina, efetivamente, ofuturo. O futuro é um conjunto de possíveis formas de desenvolvimento. Querer algo nopresente não significa a sua obtenção no futuro. Isso acontece dessa maneira por causa daliberdade intrínseca ao homem e ao seu projeto.A liberdadeAinda em O Ser e o Nada, Sartre afirmou que o homem é regido pelo princípio de liberdade.A liberdade é o poder escolher entre possíveis. Quando se escolhe uma possibilidade, seexclui as outras. As possibilidades não podem ser totalmente realizadas, pois issosignificaria a perda da escolha, pois tudo iria se realizar. Seria absurdo conceber umaliberdade onde todos os possíveis se realizassem, pois a liberdade é a autonomia emescolher uma entre várias possibilidades de desenvolvimento. No entanto, a liberdade exigealgo que a contrarie. Se não houver resistência do mundo, não há liberdade. A liberdadenão faria sentido algum se o homem não precisasse fazer escolhas. Se a finalidade fossealcançada apenas com o pensar, não haveria diferença entre a realidade e a imaginação.Portanto, a ação humana proporciona a liberdade.É importante, também, perceber as diferenças entre a liberdade existencialista e a liberdadedefinida pelo senso comum. Em primeiro lugar, o senso comum acredita que só é possívelser livre quando nada age sobre o ser. Ora, essa definição é em si mesma um grandeequívoco, pois a liberdade exige a ação. O que caracteriza a liberdade humana é o poderagir frente à opressão que se manifesta no mundo.Sartre afirmava categoricamente que a essência humana não era um dado a priori. Era algoconstruído a partir da existência. Recusava a hipótese de um Deus criador ou de umanatureza prévia. Estando no mundo, o homem construiria sua essência. Se não existe umDeus, então também não existem valores já determinados. Sendo assim, os valores devemser sempre inventados pelo sujeito da ação. Isso caracteriza mais uma forma demanifestação da liberdade humana.Os deterministas costumavam confundir liberdade com vontade. Diziam eles que a liberdadesó existe quando há o uso da vontade. Afirmavam que o ambiente e o período histórico emque o ser foi forjado determinavam as ações desse sujeito.Em toda e qualquer modalidade de escolha, a consciência coloca um fim a ser alcançado.Isso acontece na vontade, onde a consciência determina o fim a ser alcançado, seja ele aobtenção de determinada objeto, a conquista de determinada honra ou qualquer outro fim.Se for assim, as emoções também não tiram a liberdade do homem. Na emoção, a 6
  • 7. Universidade Presbiteriana Mackenzieconsciência elege uma finalidade. Poder-se-iam argumentar que não é possível resistir àsemoções, como por exemplo, o medo. Mais uma vez, o que se tem é uma falácia. Umsujeito poderia argumentar que o medo de algo lhe tira a liberdade. Mas o que na realidadeestá acontecendo é o fato desse sujeito não refletir a respeito desse medo. As emoções sãoutilizadas pelo sujeito com a finalidade de fugir da realidade que lhe escapa, pois esta não édeterminada por nada e está sendo construída em um movimento ininterrupto.As ações do homem no mundo são movidas pelas motivações. Um sujeito tenta se perceberde determinado jeito no futuro e retorna ao presente com a finalidade de realizar esse futuro.As decisões tomadas atribuem sentido aos motivos. O sujeito age de tal forma parapossibilitar o pleno desenvolvimento de seu ideal.Quanto ao mundo, é evidente que ele resiste à liberdade. Querer algo não significanecessariamente obter esse algo. Essa resistência é vista como o grande elemento queobstrui a realização da liberdade. Contudo, Sartre prova o contrário. O lugar do nascimentonão tira a liberdade, pois ele nada é em si mesmo. Ele só é algo, ou mesmo um obstáculo,porque assim é percebido pela consciência e determinado pelo projeto. Um lugar só é longese há o desejo de alcançá-lo, caso contrário, nada representaria. Aquilo que é percebido,embora esteja geometricamente mais distante, está mais perto do que aquilo queignoramos, mesmo estando geometricamente mais perto. O mesmo se aplica aos objetosque cercam o sujeito. Eles se tornam obstáculos somente quando a consciência assim odefine. Uma montanha é um obstáculo para quem quer escalá-la. A mesma montanha éobjeto de admiração e beleza por alguém que não tenha tal pretensão. Outro fator que nãotira a liberdade humana, mesmo que alguns digam o contrário, é o passado. O passado éimutável, mas não determina o futuro. Querer algo no passado não implica,necessariamente, querer esse algo no presente ou no futuro.Quanto aos outros, a situação muda um pouco. Nesse caso, o que se tem é váriassubjetividades, e não objetos petrificados. Cada uma dessas subjetividades traz consigoalguns valores. Esses valores não são impostos, cabendo a cada um escolher se aceita ounão esses valores. Se um sujeito é chamado de covarde, ele realmente se torna covarde seaceitar esse valor. Caso contrário, esse atributo resultaria em falácia. Ao contrário do quepossa parecer, a morte não tira a liberdade. Quando a morte chega, já não há liberdadepara ser limitada, pois a consciência já não existe mais. Portanto, somos forçados aacreditar que nada tira a liberdade humana. A liberdade encontra no mundo limites que elamesma coloca. Sendo assim, é totalmente correto afirmar que se pode escolher qualquercoisa, menos deixar de escolher. Mesmo quando o homem decide cruzar os braços e nãofazer nada, ele já está realizando uma escolha. O homem está condenado a ser livre. 7
  • 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Condenado porque foi lançado ao mundo independentemente de sua vontade e livre porquesempre deve escolher.Esse imanente liberdade traz consigo dois tipos de angústia. A angústia temporal mostraque um sujeito não pode apoiar suas decisões nem em si mesmo, pois o passado nãodetermina o presente e nem o presente determina o futuro, enquanto os possíveisescolhidos sempre estão em risco de mudar, pois o futuro não é dominado.O segundo tipo de angústia, a ética, é de profunda importância para a realização destetrabalho. Os valores são criados constantemente e o homem é forçado a escolher umaconduta a cada momento. A angústia se dá pelo fato do homem não ter onde se apoiar, jáque não existem valores pré-determinados. O certo e o errado são intencionados pelaconsciência de cada pessoa e não há nada que indique como deve ser uma ação. Assimsendo, nenhum valor é gratuito, pois atende a certa coerência interna de cada projeto. Oarrependimento, por exemplo, não representa a escolha de um valor equivocado, e sim amudança de um projeto, que neste momento optou por um valor diferente daquele em quehavia optado no passado. Já que não existem valores definidos a priori, somos levados aacreditar que os responsáveis por nossos atos e pela significação do mundo somos nósmesmos, pois quando escolhemos algo para nós, automaticamente estamos escolhendoalgo por todo o mundo. Quando escolho, escolho por toda a humanidade. Contudo, não étão simples assim. Alguém que mata nem sempre gostaria de ver outros matando. Logo,essa escolha nem sempre é consciente. E se todos matassem iguais a mim? Como seria omundo? Provavelmente seria um caos. Isso torna necessário que pensemos o queaconteceria se todos agissem como eu. Precisamos escolher o que fazer com a liberdadeque se manifesta na vida de todos.Há aqueles que tentam dissimular a angústia pra tentar escapar das responsabilidadesimplicadas pela liberdade. Culpam Deus, a natureza, os pais ou quaisquer outros elementos.Dizem que o ser humano é um dado acabado e imutável. Por exemplo, o covarde não podemudar sua essência, pois sempre será covarde. Portam-se como objetos e não percebemque o ser humano está em constante mutação. Outros aceitam valores impostos sem aomenos refletir sobre eles. Sartre discorda totalmente dessas ideias. Para ele, o herói se fazherói e o covarde se faz covarde. Além do covarde se fazer covarde, ele é inteiramenteresponsável por sua covardia, pois poderia mudar seus atos e, consequentemente, deixarde seu um covarde. Portanto, a escolha não pode ser realizada de qualquer jeito. Cada umdos homens deve escolher o melhor, pois sua escolha contempla toda a humanidade. 8
  • 9. Universidade Presbiteriana MackenzieMétodoFoi utilizado um método qualitativo, de leitura e interpretação de textos filosóficos, comfichamentos e anotações, que serão importantes para a elaboração do artigo. Após olevantamento das questões éticas no artigo “O existencialismo é um humanismo”,desenvolvemos uma leitura sistemática de trechos de “O ser e o nada” direcionados àsquestões levantadas na nossa introdução, ou seja, à relação entre a liberdade e suasimplicações no agir ético.Paulo Perdigão (1995) retoma e organiza sistematicamente a teoria existencialista de Jean-Paul Sartre, na qual este afirma que o homem está condenado a ser livre, podendo escolherqualquer coisa, menos deixar de escolher. Afirma isso pois rejeita a hipótese de um Deuscriador ou de natureza humana. Por outro lado, Gerd Bohrnheim (1997) aprofundou maisnas teorias existencialistas, contemplando com exatidão as problemáticas existentes nafilosofia de Sartre.Resultados e DiscussãoSartre era um filósofo engajado em questões políticas e sociais. Uma de suas discussõesbásicas era a liberdade e suas consequências éticas. É exatamente a respeito da liberdadeque esse trabalho se dará.Para definir o que é a liberdade e como ela se relaciona com as questões éticas, énecessário, antes de tudo, compreender o pensamento existencialista de Sartre. Oexistencialismo, fundado pelo filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, é uma correntefilosófica que foi duramente atacada durante o século XX. Segundo o texto de Sartre Oexistencialismo é um humanismo, os comunistas acusavam o existencialismo de ser umadoutrina que levava as pessoas a um profundo desespero, por tornar a ação humanaimpossível. Sartre, ao contrário do que diziam os comunistas, afirmava que oexistencialismo torna a ação e a vida humana possível. O existencialismo parte sempre dasubjetividade humana, ou seja, da consciência individual do sujeito. E essa subjetividade foitambém criticada pelos marxistas, que afirmam que, com ela, o homem vive isolado em simesmo, esquecendo o que é a solidariedade. Esses críticos esquecem o pensamentointersubjetivo de Sartre.Outros críticos também acusam o existencialismo de evidenciar a desonra humana edesconsiderar o lado luminoso da vida. Muitos até se assustam com os romances 9
  • 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011existencialistas. Mas o que assusta essas pessoas é o otimismo do existencialismo, poissempre deixa escolhas aos homens. O que agrada os críticos são leituras de doutrinas quetornam o sujeito resignado e sem escolhas, tendo como máxima o fato do indivíduo nãodever fazer nada que ultrapasse seus limites. Já os cristãos acusam o existencialismo denegar Deus e seus valores morais, tornando a vida e a ação gratuitas. Assim sendo, não sepode julgar a ação de ninguém, pois não existiria um bem definido a priori. Essa crítica serárebatida por Sartre no seu texto.O existencialismo é dividido em dois: o cristão e o ateu. Ambos partem do pressuposto deque a existência precede a essência e de que o homem sempre parte da subjetividade. Oexistencialismo ateu suprime a ideia de Deus e seus valores. Sartre explica que quando seadmite a ideia de um Deus criador, denomina-se esse Deus como um ser superior, que sabemuito bem o que criou. Um homem produz objetos para determinadas finalidades. Assim,pode-se afirmar que Deus criou os homens para determinada finalidade.Para Sartre, o existencialismo ateu é mais coerente, pois deve ser suprimida a ideia deDeus e de natureza humana. Assim, no homem, a existência precede a essência. Primeiro ohomem existe, para depois ser algo. O homem se constrói sempre e não há nenhumanatureza humana que o acorrente, pois Deus não existe. O homem é aquilo que ele faz eprojeta ser e fazer. O homem faz escolha, mesmo quando “cruza os braços” e decide nãofazê-las. Nas palavras de Sartre: “O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Afirma que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem, ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que chamamos de subjetividade: a subjetividade de que nos acusam. Porém, nada mais queremos dizer senão que a dignidade do homem é maior do que a da pedra ou da mesa. Pois queremos dizer que o homem, antes de mais nada, existe, ou seja, o homem é, antes de mais nada, aquilo que se projeta num futuro, e que tem consciência de estar se projetando no futuro” (SARTRE, 1973. P. 12).As escolhas do homem não são tão simples quanto aparentam ser. Ao se escolher, ohomem escolhe o gênero humano. Portanto, a escolha deve ser a melhor possível, pois 10
  • 11. Universidade Presbiteriana Mackenzieacarreta uma grande responsabilidade. O homem nunca faz uma escolha gratuita. O homeminventa sua própria lei. O homem se constrói escolhendo sua moral. Ele é purocompromisso. Por causa do compromisso, deve querer sua liberdade e a liberdade dosoutros. Por causa dessa vontade de liberdade, se pode julgar a conduta daqueles que dizemque a existência e a liberdade são gratuitas. Sartre chama aqueles que inventam desculpasdeterministas para fugirem da liberdade de covardes, pois eles tentam fugir daresponsabilidade de ter que escolher. O homem sempre deve inventar, em nome daliberdade, para agir. Quando o homem percebe que jamais poderá escapar de suaresponsabilidade, ele é tomado por uma imensa angústia. Portanto, ele deve questionar sesuas ações são corretas. Essa angústia no homem não leva ao quietismo, pois ele é naturalde todos que têm responsabilidade. A angústia é a condição da ação humana.Por ter levado o existencialismo a uma posição ateia, Sartre afirma convictamente que nomundo só existem homens. Se não existe uma natureza e nem um Deus criador, formuladorde leis e que pode castigar, então tudo é permitido. Essa visão que o senso comum tem doexistencialismo ateu é uma falácia. Realmente, não existem leis a priori. O homem deveinventar suas leis e valores morais de uma maneira que todos sejam beneficiados. Não hánatureza humana e nem determinismos. O homem é pura liberdade. Só que esse homemlivre é responsável por tudo o que fizer. Com isso, deve-se seguir a máxima kantiana, naqual Kant afirma que não se pode fazer com o outro aquilo que você não quer que façamcom você. E Sartre é bem firme na sua ideia, representada a seguir: “O homem estácondenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livreporque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer” (SARTRE, 1973.P. 15).Logo, todos os valores existentes são inventados pelo homem. Como os valores sãoinventados, pode-se dizer que a vida não tem sentido a priori, sendo necessário o homemdar sentido à vida. Os valores são esses sentidos escolhidos pelo homem.A responsabilidade do homem é muito ampla. A força da paixão jamais poderá ser usadacomo desculpa. O homem deve escolher o que fazer com essa paixão. Por não existir Deus,não há sinais no mundo. Mas se houvessem sinais, o homem deveria interpretá-los parapoder agir. Jamais poderia também se apoiar em uma moral universal, a saber, aquelamoral que se aplique a todas as pessoas, visto que ela é muito ampla e lembrando que nãoexiste natureza humana. Cabe ao homem sempre decidir o que é melhor por meio de suasubjetividade.Além de ser angústia, o homem também é desespero. O desespero se dá porque o homempercebe que se limita a contar com o que depende de sua vontade e o que torna a ação 11
  • 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011dele possível. Ele nunca deve agir com esperança. Isso não significa que o homem deva seabandonar ao quietismo, e sim ligar-se a um compromisso dispensando a esperança. Oquietismo é a atitude das pessoas que acham que só os outros podem agir de determinadasmaneiras. O existencialismo é oposto ao quietismo, visto que ele diz que o homem nadamais é que sua vida e que só existe na medida em que se realiza.O existencialismo está longe de ser pessimista. Ele é dotado de tamanha dureza otimistaque consegue causar grande euforia, principalmente nos críticos. O covarde, segundo oexistencialista, é o responsável por sua covardia, pois ele se construiu como covarde pormeio de seus atos. O covarde existencialista é culpado por ser covarde. O que torna alguémcovarde ou herói é o conjunto de todos os seus atos. O existencialismo é a doutrina maisotimista que existe, pois coloca o destino dos homens nas mãos dos próprios homens. Sóhá esperança na ação do homem e o ato é o único meio que permite ao homem viver. Noentanto, uma ação se dá no mundo sensorial. Pela subjetividade, além de descobrirmos anós mesmos, descobrimos também os outros. Isso é semelhante ao padrão de medida doreconhecimento da consciência proposto por Hegel, na Fenomenologia do Espírito. Pelocogito percebemos também que o outro é tão certo como nós mesmos. Os outros sãocondições de nossa própria existência. O outro torna possível o conhecimento e a verdadeque tenho sobre mim. O outro é uma liberdade posta em minha face. Descobrimos assimum mundo chamado intersubjetividade, no qual o homem decide o que ele é e o que são osoutros.Embora não exista natureza humana, há condição humana. Essa condição é o conjunto delimites que determinam a situação do homem no mundo. Os limites são objetivos esubjetivos. Objetivos porque todos os homens os vivem. Subjetivos porque nada são se oshomens não os vivem.Sartre era também humanista, no sentido de que o homem está constantemente fora de si eprojetando-se, tornando possível sua existência. O homem é constante superação. Só há ouniverso humano, que é subjetividade. A superação e a subjetividade (no sentido do homemnão estar fechado em si mesmo e estar presente em um universo humano) formam ohumanismo existencialista. Humanismo por ser o homem o único legislador de sua vida eporque apenas no abandono ele decidirá sobre si. O homem se realiza como ser humanoquando procura fora de si um fim. O homem precisa se encontrar consigo mesmo e ter aciência de que nada pode salvá-lo dele mesmo. O existencialismo é um otimismo e, apenaspor má-fé, os críticos dizem que o existencialismo é uma doutrina do desespero. 12
  • 13. Universidade Presbiteriana MackenzieConclusãoAssim sendo, o existencialismo pressupõe liberdade. Essa liberdade traz consigoresponsabilidade e outras características, tais como angústia e desespero. Conclui-se,portanto, que independentemente das circunstâncias, o homem é livre. Isso jamais poderáser mudado, o que acarreta responsabilidade e compromisso. Apresentar e analisar adialética entre liberdade e responsabilidade foi o objetivo dessa pesquisa, questões que nosconduzem às implicações éticas desta problemática.Após levantadas as questões pertinentes à liberdade, de acordo com a filosofiaexistencialista de Sartre, ficou evidente o tamanho da responsabilidade do homem quantoao agir ético. Estando condenado à liberdade, o homem deve escolher o melhor para si epara os outros. Está vedada a hipótese do homem não escolher, visto que a omissão ou aabstenção também são escolhas.ReferênciasABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo. Martins Fontes, 2007.BOHRNHEIM, Gerd Alberto. Sartre: metafísica e existencialismo. São Paulo. Perspectiva,2007.COTRIM, Gilberto. História global: Brasil e geral: volume 3. São Paulo: Editora Saraiva,2010.GILES, Thomas Ransom. História do existencialismo e da fenomenologia. São Paulo. EPU,1989.PERDIGÃO, Paulo. Existência e liberdade: uma introdução á filosofia de Sartre. PortoAlegre. L&PM, 1995.SARTRE, Jean-Paul. A náusea. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2006.SARTRE, Jean-Paul. A prostituta respeitosa. São Paulo: Papirus, 1992.SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo in Os Pensadores. São Paulo.Abril Cultural, 1973.SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Rio dejaneiro. Editora Vozes, 2009. 13
  • 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Contato: rodrigo.filosofia@hotmail.com e graderi@uol.com.br 14