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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde ...

Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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  • Universidade Presbiteriana MackenzieO PERFIL DAS MULHERES PRESAS POLÍTICAS DURANTE A DITADURA MILITARLudmilla de Francesco Russo (IC) e Regina Célia Pedroso (Orientadora)Apoio: PIBIC Mackenzie/MackPesquisaResumoO presente trabalho busca delinear a participação da mulher nos grupos de resistência à DitaduraMilitar (1964-1985) a partir da análise de sua efetiva atuação nas ações revolucionárias, armadas ounão. Serão abordados os principais aspectos da vida da mulher militante, considerando seurelacionamento familiar, principalmente no que se refere aos filhos, e a agressiva reação do regimemilitar contra as que tiveram a ousadia de invadir um espaço que não lhes pertencia. Não temos apretensão de traçar um perfil exato da mulher engajada politicamente à época, subversiva, por assimdizer, até porque isso não seria possível, mas sim, verificar as características predominantes e assemelhanças existentes entre elas; os motivos que as levaram ao mundo da luta política, bem como adura realidade das que se arriscaram nesta jornada, uma vez que resta evidente o caráter duplo desua atuação: de um lado, o interesse em derrubar o regime ditatorial instalado no país, caracterizado,principalmente, pela supressão da liberdade de expressão; e de outro, a contestação dos valoresmorais e religiosos aceitos e defendidos pela sociedade que colocavam a mulher em uma posição deinferioridade em relação ao homem e, portanto, tendo como único campo de atuação a vida privada,restrita às atividades domésticas.Palavras-chave: Ditadura Militar, mulher, grupos revolucionáriosAbstractThis study delineates the involvement of women in the groups of resistance to Military Dictatorship(1964-1985) from the analysis of their actual performance in revolutionary activities, armed or not. Willbe addressed the major aspects of militant woman’s life, considering her family relationships,especially with regard to children, and the aggressive reaction of the military regime against thesewomen who had the audacity to invade a space was not them. We do not claim to draw an accurateprofile of women engaged politically, subversive, so to speak, because it would not be possible, butcheck the predominant features and similarities between them, the reasons which led them to theworld of political struggle, as well as the harsh reality of who ventured on this journey, since thecharacter remains evident in its dual role: on the one hand, interest in overthrowing the dictatorialregime installed in the country, returning to a democratic state, and the other, to contest moral andreligious values accepted and defended by the community that placed women in an inferior position inrelation to man and, therefore, its only playing field to private life, restricted to domestic activities.Key-words: Military Dictatorship, woman, revolutionary groups 1
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011INTRODUÇÃOEm 01 de janeiro de 2011 toma posse a primeira mulher presidente da República, DilmaVana Rousseff, ex-presa política e torturada pela ditadura. Antes disso, em 12 de dezembrode 2001, ingressa na mais alta instância do Poder Judiciário, o Supremo Tribunal Federal, ajuíza Ellen Gracie Northfleet, primeira mulher na corte em quase 200 anos de existência. Noperíodo abrangido por este estudo, isto é, regime militar (1964-1985), as situações verídicasapresentadas seriam inconcebíveis pelo simples fato de que ambas são mulheres.O presente texto busca delinear, de forma sucinta e genérica, o perfil da mulher militantenos grupos de resistência à repressão a partir de sua efetiva participação, baseada nosmotivos pelos quais optou pela luta, armada ou não; como se estabeleceu a relação com osfilhos, antes e depois da prisão, tortura e clandestinidade; a forma de tratamento dispensadoà presidiária; a superação do trauma da tortura, bem como a forma como esta se deu sobreo corpo feminino.Para que pudéssemos chegar às conclusões que aqui serão apresentadas, foi necessário ominucioso estudo das obras que tratam do tema e a análise de alguns processos militares,envolvendo mulheres, que fazem parte do trabalho organizado pela Arquidiocese de SãoPaulo, intitulado “Projeto Brasil: Nunca Mais”, ou apenas BNM, localizado no Arquivo EdgardLeuenroth, no Instituto de Filosofia, Ciências e Letras da Unicamp (Campinas – São Paulo).Buscando, ainda, alcançar uma maior concretude das respostas obtidas, conversamos,informalmente, com duas ex-presas políticas: Rose Nogueira, que militou na ALN – AçãoLibertadora Nacional , e Elza Lobo, simpatizante da AP – Ação Popular, que nos concedeuum texto referente aos momentos em que esteve sob as garras da ditadura, além da formacomo ingressou nos grupos que lidavam com as reformas de base, a vivência da tortura e asuperação.REFERENCIAL TEÓRICODe acordo com Colling (1997), a mulher, ao longo da história, sempre permaneceu emposição de inferioridade em relação ao homem, constituindo-se como mero objeto resignadode sua condição. Com isso, percebe-se que a história oficial tem como principalcaracterística o seu caráter masculino, já que produzida única e exclusivamente porhomens. Segundo Lypowetsky (2000), a despeito das transformações e conquistas dofeminino “o homem permanece prioritariamente associado aos papéis públicos e‘instrumentais’, a mulher, aos papéis privados, estéticos e afetivos”. 2
  • Universidade Presbiteriana MackenzieO militarismo no Brasil, quanto a este quesito, não foi diferente: constitui-se, também, comouma história de homens no sentido estrito da palavra, isto é, pessoas do sexo masculino. Noentanto, é inegável que nunca houve uma participação feminina tão intensa, pelo menos nahistória do Brasil, em ações pertencentes ao âmbito da vida pública, razão pela qual nãopode passar despercebida.A este respeito, Ridenti (1990), com base no já mencionado Fundo BNM, da Arquidiocesede São Paulo, criou uma tabela de acordo com o sexo dos processados judicialmente, entreos anos 60 e 70, apresentando as seguintes conclusões: dos 159 processados no grupoMR-8 (Movimento Revolucionário 08 de outubro), 30 eram mulheres, o que corresponde a18,9%; na VAR-Palmares, dos 270, 47 (17,4%) eram mulheres; a Vanguarda PopularRevolucionária (VPR), por sua vez, apresentou um percentual de 24,1% de mulheresprocessadas, isto é, 35 do total de 145 processados; e, finalmente, como estamos noslimitando a apresentar apenas alguns grupos, a ALN (Aliança Libertadora Nacional) teve 76mulheres (15,4%) dentre os 492 processados.Percebe-se, portanto, que, a despeito da época em que viviam, sob a vigência de valoresmorais e religiosos irrenunciáveis, elas tiveram uma coragem ímpar em enfrentar estasbarreiras, até então intransponíveis, e lidar com um regime repressor e agressivo contratodos aqueles que se colocavam em seu caminho e que, de certa forma, representassemalgum risco à tão proferida “segurança nacional”. A mulher, quanto a isto, recebeu umadupla punição pela militância, já que, além de comunista, estava invadindo um espaço quenão era dela.Importante observar que até mesmo nos próprios grupos de esquerda as questões degênero não eram discutidas com a devida importância, podendo-se dizer que havia um certoconservadorismo no que dizia respeito à libertação da mulher. Procuravam, sempre, afastartais debates, alegando que isto geraria mais divisões nos movimentos. Essa perspectivaconservadora também pode ser observada nas palavras de Heráclito Fontoura Sobral Pinto,advogado militante e defensor de vários presos políticos ao longo da história contemporâneabrasileira. Sobral Pinto dizia: “ (...) a grande desordem do mundo moderno era resultado dasaída delas (mulheres) de casa. A emancipação deveria ser para ensiná-las a dar a suascrianças idéia de que são inteligentes e compassivas. Ter as mulheres competindo com oshomens é positivamente uma catástrofe” (GOLDMAN, MUAZE apud SÁ, p. 35)À mulher sempre foi destinado o campo privado, correspondente à vida doméstica,enquanto que ao homem pertencia a vida pública. Já que a mulher nunca foi reconhecidacomo sujeito pensante, nada mais correto que considerá-la incapaz para qualquer ato que 3
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011não estivesse relacionado ao trato com os filhos, marido, a quem deveria servir de formaincondicional, e a casa.No entanto, aos poucos, conforme começavam a ter acesso à universidade, muitas delaspassaram a questionar as verdades estabelecidas, dando os primeiros passos rumo àlibertação do domínio masculino e afirmando-se, pela primeira vez, como sujeito de sua vidae capaz de contribuir na criação da história.No Brasil, o conhecido ano de 1968, aquele que não acabou, pode ser considerado como omarco do surgimento do feminismo, que apesar do atraso em relação aos países europeus,não deixou a desejar.É a história delas, as militantes que amargaram a tortura; que venceram os obstáculos deum mundo excludente e machista; e que tornaram possível, gradualmente, a participação damulher na história, que vamos contar.Imagem: da esquerda para a direita, as atrizes Eva Tudor, Tônia Carrero, Dina Sfat, Leila Diniz, 1Odete Lara e Norma BenguelMÉTODONossa pesquisa enveredou na busca do “perfil” das mulheres que foram encarceradasdurante a ditadura militar brasileira e que responderam legalmente pelos crimes a elaatribuídos.1 Foto foi retirada do blog de Jader Resende: http://jaderresende.blogspot.com/2010/12/do-carcere-para-posse-amigas-de-cela.html. 4
  • Universidade Presbiteriana MackenzieO tema por si só já desperta uma curiosidade muito grande, pois quando se menciona opapel da mulher durante a Ditadura Militar, percebe-se que a atuação delas fora de granderelevância, seja na composição dos partidos e frentes oposicionistas, seja de gruposclandestinos que atuaram à margem da Lei após a ilegalidade ser decretada. Forammulheres militantes, jornalistas, operárias, estudantes, esposas de políticos ou donas decasa que de alguma forma foram arrastadas para o panorama político daquele momentoinstável e foram presas por suas atuações.As mulheres foram tratadas processualmente de forma diferente dos homens? Forampoupadas de certas práticas policiais? Quem eram elas? Onde nasceram? Tinham filhos?Eram trabalhadoras? Enfim, várias perguntas que fizemos ao longo da pesquisa e quebuscamos respondê-las ao longo do texto principal. Quem foram as presas políticas noBrasil e quais penas receberam por serem enquadradas na lei de segurança nacional?Além da pesquisa qualitativa, ressaltando histórias de vida, enveredamos pela busca dedados quantitativos acerca do perfil destas mulheres – para podermos compreender umpouco melhor o panorama repressivo brasileiro daqueles tempos de ditadura militar. Essesdados foram coletadas no Projeto Brasil Nunca Mais.Também para a realização dos objetivos buscamos na documentação do BNM osprocessos-crimes e documentos associados (cujo título é “índice de anexos”) que tivessemcomo figura principal a mulher detida/aprisionada que aguarda julgamento.Cabe ressaltar que a história da repressão política no Brasil ainda é um tema tabu e que temo pesquisador deste início de século o trabalho prioritário de resgatar as facetas dessesmomentos, que relegaram ao cidadão sua exclusão da política e por extensão umacidadania de segundo plano, uma vez que seus direitos políticos foram cassados.Compreender o funcionamento das instituições da violência que deram o suporte darepressão política pode conduzir à compreensão do funcionamento do Estado repressivo amostrar suas entranhas e artimanhas.RESULTADOS E DISCUSSÃOÀ época do golpe militar, em 1964, que destituiu do cargo o então presidente João Goulart,as universidades já contavam com um número bastante significativo de mulheres,demonstrando sua gradual inserção na vida pública. No entanto, era praticamenteinimaginável que uma mulher tivesse ideais políticos ou, pelo menos, capacidade para obtê-los, não estando apta a discutir questões de ordem política, filosófica, ideológica, etc. 5
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Analisando os dados constantes do já mencionado Projeto BNM, em seu Tomo II, volume II,que trata dos atingidos e suas especificações, podemos observar que a maior parte dasmulheres que foram processadas era de estudantes, seguidas de professoras, primárias esecundárias, havendo, de forma geral, um grande número de mulheres com ensino superior:sociólogas, médicas, jornalistas, arquitetas, dentistas, bioquímicas, entre outros.Pode-se dizer, com base nas mulheres denunciadas, que, aproximadamente, 34% eramestudantes, 24% professoras, e, de modo geral, quase 82% tinham nível superior. Aindaassim, sua participação em grupos revolucionários era facilmente ligada à influênciamasculina, sendo inimaginável que o ingresso se desse em razão de suas própriasconvicções.Tanto os militares quanto a sociedade, de certo modo, as viam como acessórios doshomens subversivos, levadas por eles à militância. Eram, sempre, esposas, filhas, amantesde alguém, sempre associadas a uma figura masculina.Por outro lado, com o advento da pílula anticoncepcional, que foi o marco da libertaçãosexual da mulher, muitos tinham a crença de que as militantes estavam em busca depromiscuidade: já que não encontravam homens por seus próprios atributos, dentro dosgrupos de esquerda poderiam conhecê-los aos montes, facilitando o envolvimento sexual.A promiscuidade, neste sentido, sempre foi associada à subversão, consistindo em umatentativa do regime de mostrar à sociedade, que na época era bastante conservadora ereligiosa, que tais grupos revolucionários, e principalmente as mulheres que delesparticipavam, estavam em busca, apenas, de diversão, utilizando-se do ideal comunistacomo mera roupavam para suas reais finalidades.Por certo, esses argumentos não podem, em sua maioria, ser considerados comoverdadeiros, tanto no que diz respeito à finalidade da subversão quanto no que toca à formade ingresso da mulher na luta revolucionária.Com os dados supramencionados, aliados aos depoimentos das que sobreviveram àrepressão, pode-se dizer que grande parte das processadas optou pela revolução por suaspróprias convicções, fazendo cair por terra todos os argumentos que, genericamente,procuravam associar sua participação, na esquerda revolucionária, à influência de algumhomem.Obviamente que casos como esses ocorreram, não tirando, é claro, o brilho da atitudecorajosa delas, mas fica restrito a uma pequena parcela de subversivas, que, muitas vezes,esposas de revolucionários, não tiveram escolha senão aderir ao mesmo propósito. 6
  • Universidade Presbiteriana MackenzieNo texto que nos foi cedido, Elza Lobo, ex-militante da AP, descreve a forma como se deu oseu ingresso na militância: No Colégio Estadual “Fernão Dias Pais”, no bairro de Pinheiros, participou ativamente das manifestações escolares, curriculares e extracurriculares, onde aprendeu a conhecer melhor a realidade brasileira, através da leitura e do estudo de “Geografia da Fome”, de Josué de Castro, discutidos nas aulas de Geografia Humana. (...). Lembra-se, também de, ainda adolescente, ter participado de Encontros de Intelectuais Portugueses, exilados no Brasil. Iniciou suas atividades políticas através da militância no Centro Acadêmico “Cásper Líbero” da Faculdade de Jornalismo e no Diretório Geral dos Estudantes, da PUC-SP. Integrou o Grupo de Promoção Humana que realizava atividades junto aos moradores de Presidente Atílio, um bairro de Osasco, na época periferia de São Paulo. Eram atividades de educação e saúde junto ao “postinho de saúde” ligado à Igreja do bairro, sob a liderança de um padre do Amazonas, Pe. Comaru. Militante da AP – Ação Popular, realizou cursos de formação de monitores para atuação junto a comunidades urbanas e rurais e diferentes cidades utilizando sempre a metodologia Paulo Freire. (...) preparava os monitores de alfabetização que iniciaram a Campanha Nacional de Alfabetização com o apoio da UEE e da UNE, Campanha abortada pelo Golpe Militar de 1964. (...). Em 10 de novembro de 1969 foi presa, barbaramente torturada, acusada de “terrorista” e de subverter a ordem no país. Permaneceu detida por dois anos e em 1971, quando saiu a prisão, deixou o país regressando somente em 1979 quando da Anistia Política. (...).”Este trecho descreve, de forma clara, que o contato com as questões de cunho social,político e ideológico se deu muito antes do golpe militar de 1964, que acabou por aflorar aefervescência dos ideais daquela juventude, motivando homens e mulheres a lutar pelaliberdade e pela democracia.No entanto, muito embora se imagine que a esquerda brasileira foi madura o suficiente paraaceitar a discussão das questões de gênero, isto é, uma verdadeira revolução feminina, talfato não ocorreu, demonstrando que, ainda que representassem a quebra de todos osparâmetros que até então eram considerados, mantinham um conservadorismo,injustificado, em relação à mulher, sob o manto de que isto representaria um ato divisionista.Colling (1997) afirma que “para a esquerda que assumia o saber do marxismo tradicional,onde tudo é realizado ao antagonismo entre duas classes – operariado e burguesia -,discutir relações de gênero, liberdade sexual, era dividir o movimento. (...) para a esquerda acompanheira que se propõe a discutir diferenças dentro do bloco do operariado eraconsiderada desagregadora, portanto também desviante”.Como já muito divulgado, a ditadura militar não poupou esforços no que se refere àutilização da tortura como meio de obter as informações necessárias para o 7
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011desmantelamento dos grupos subversivos. Homens e mulheres devastados, violados,destruídos, ao ponto de se crer que a vida realmente não valia nada. Muitos sobreviveram àdevastação física, mas sucumbiram à dor psicológica decorrente do trauma daquelesperíodos sombrios e incertos.É o caso, por exemplo, de Nilda Carvalho Cunha, estudante secundária, 17 anos, militantedo grupo MR-8, que, após experimentar a truculência com que a repressão tratava os seusinimigos, apesar de superar os danos físicos, não resistiu ao buraco que se criou em suaalma. Segundo as informações retiradas de seu prontuário, que constam no livro daSecretaria Especial dos Direitos Humanos (2010), pouco antes de falecer, em um sanatóriona Bahia, Nilda “não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, erepetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foiconhecida. O atestado de óbito diz: ‘edema cerebral a esclarecer’”.Ou então, o caso de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, estudante de medicina, 31 anos,militante da VAR-Palmares, que, exilada na Alemanha, atirou-se na frente de um trem, jáque não suportava lidar com as lembranças terríveis dos momentos em que esteve naprisão. Pouco antes do suicídio, escreveu o seguinte texto, citado no livro de Maklouf deCarvalho (1998): Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos. (...). A Apologia da Violência. A luta pelo poder absoluto. A destruição do outro, da antítese da sua alma negra. O sacrifício dos bebês. Onde já se viu jabuticaba de asa, meu filho? Eu tinha comido um besouro. Ele zumbia dentro de mim furioso, para me lembrar que a imaginação incomoda muita gente. Parar de imaginar, parar de ser e de querer. Aceitar, resignar é bom, traz brisa fresca, café com leite, muita fartura. Aurora, lugar de mulher donzela é na barra do marido e lugar de puta safada é no puteiro, uai. Pra que é que nós estudamos aritmética no Exército? Para saber que 2 mais 2 são 4 e que não existe pecado sem ser expiado. Moça donzela você não quis, puta safada também não quer. Minha querida, esse bicho não existe (...).A mulher subversiva, em razão de sua militância, era punida duplamente: por ser comunistae ser mulher. Os militares sentiam verdadeiro ódio ao saber que estas mulheres, ao invés dese dedicarem aos assuntos que lhes pertenciam, invariavelmente, relacionados ao âmbitodoméstico, preferiam se envolver em política e subversão, colocando em risco, segundoeles, a instituição familiar, já que poderiam incentivar outras mulheres a fazer o mesmo.Utilizavam, então, a sexualidade feminina, sabendo ser este o ponto fraco, como principalmeio de tortura. A começar pela nudez, que era requisito essencial, tendo em vista que isto 8
  • Universidade Presbiteriana Mackenziedeixava a mulher em situação constrangedora, e portanto, ainda mais vulnerável. Seguiam-se os choques nos seios e órgão genital, estupro e humilhações de toda sorte, no sentido decoisificá-la, relembrá-la que ela nada mais era do que um objeto.Tinham a intenção de demonstrar que, ali, naquela situação, ela não tinha o menorsignificado e poderia ser, facilmente, subjugada por eles. Os depoimentos de ex-presaspolíticas, constantes do livro produzido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos(2010), resumem bem o que acontecia na tortura: Era muita gente em volta de mim. Um deles me deu pontapés e disse: ‘Você, com essa cara de filha de Maria, é uma filha da puta’. E me dava chutes. Depois, me levaram para a sala de tortura. Pediram que eu me despisse, eu falei que não ia tirar a roupa. O outro disse: ‘Ou você tira ou tiramos nós’. Fiquei em dúvida entre a humilhação de ser despida por eles ou eu mesma me despir. Foi muito humilhante tirar a roupa. (...). Havia um desprezo por parte deles. Junto com a ideologia, vinha essa humilhação pelo fato de ser mulher, como se a gente estivesse extrapolando nosso papel de mulher. O tom era ‘por que você não está em casa, ao invés de estar aqui? Por que você perde o tempo com coisas que não lhe dizem respeito?’. Era como se você merecesse ser torturada porque estava fazendo o que não devia ter feito. (...). (Yara Spadini). (...) E lá estava eu, uma mulher franzina no meio daqueles homens alucinados, que quase babavam. Hoje, eu ainda vejo a cara dessas pessoas, são lembranças muito fortes. Eu vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: ‘Você vai parir eletricidade’. Depois disso, me estuprou ali mesmo. (...) Em todas as vezes em que eu era pendurada, eu ficava nua, amarrada pelos pés, de cabeça para baixo, enquanto davam choques na minha vagina, boca, língua, olhos, narinas. (...) O estupro foi nos primeiros dias, o que foi muito terrível para mim. Eu tinha de lutar muito para continuar resistindo. Felizmente, eu consegui. Só que não perco a imagem do homem.(...). (Dulce Maia).Outra característica relevante é que a tortura contra a mulher não estava a ela limitada,estendendo-se a outras pessoas que, de certa forma, poderiam causar-lhe sofrimento,principalmente, os filhos. A ex-militante da Ação Popular, Gilse Consenza, afirma que asameaças a sua filha de 04 meses eram constantemente utilizadas pelos torturadores parafragilizar seu estado emocional, dizendo que a iam matá-la, “quebrar todos os ossinhos,acabar com o cérebro dela, transformá-la num monstrinho”.Os filhos, de certo modo, serviam como recurso final na tentativa de vencer a resistênciadaquelas que se recusavam a entregar seus companheiros de militância. Muitas vezes, ascrianças eram levadas ao encontro dos pais logo após a tortura, quando estes seencontravam totalmente desestruturados, em meio ao sangue, urina e fezes decorrentesdos choques elétricos, causando aos filhos um trauma que jamais seria superado. 9
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011A relação maternal foi tão importante naquele momento, que deixar de mencioná-la seriaesquecer da mais importante característica feminina.Os filhos, foram, sem dúvida, a parte mais difícil de lidar e conciliar com a militância,principalmente se considerarmos o período em que ficaram presas, tendo que deixá-los soba guarda de familiares, amigos, e, muitas vezes, o Juizado de Menores.A prisão só fazia aumentar um sentimento de tristeza e angústia que há muito tempo seestendia, uma vez que, em grande parte dos casos, as mães já não viam os filhos desde oingresso no mundo subversivo. As visitas das crianças aos pais não eram possíveis, excetono famoso Presídio Tiradentes, conhecido pela mínima possibilidade de tortura, em que elaspassavam a ser reconhecidas pelo Estado, correndo menos risco de desaparecer. O trecho,a seguir, do depoimento da ex-presa Rita Sipahi (apud FREIRE et al, 1997), apresenta umadescrição, por quem vivenciou este momento, da relação mãe-filho, quando da prisão: Ele continuava chorando. Consegui acalmá-lo devagarinho, mas não tinha certeza de que conseguira convencê-lo de que eu não ficaria presa para sempre. O que aconteceu nessa visita me deu a dimensão profunda da insegurança do meu filho. Da responsabilidade com tudo o que eu vinha fazendo. (...) Com a Camila era diferente. Ela chegava para as visitas com uma carinha triste, mas logo estava conversando com os adultos – presos ou visitantes -, rindo, fazendo tudo com muita graça. (...) Minhas reflexões sobre os meus filhos e suas dificuldades circunstanciais buscavam as razões legitimadoras dos meus atos, uma maneira de ser responsável, de continuar digna deles e contar esta história sem conflitos comigo mesma.Elas sabiam que todas as escolhas que até então haviam feito serviam de base a umpropósito muito maior que incluía o bem estar e a liberdade dos filhos. Consideravamjustificável o sacrifício da relação maternal em prol da luta pelo bem comum da sociedade,que muitos custavam a perceber.No entanto, nem todas as militantes optaram por deixar os filhos sob a responsabilidade deterceiros, ainda mais naqueles casos em que tanto marido quanto mulher estavamenvolvidos com a revolução, tendo a própria casa como local em que se instalava oaparelho do grupo, expondo as crianças ao contato diário com todos os militantes, porvezes, figuras ilustres do movimento revolucionário.Houve situações em que as crianças participaram de ações como mero disfarce, conformese vê no caso de Damáris Lucena, esposa de uma importante figura da VPR, o assassinadoAntônio Raimundo de Lucena, mais conhecido como “Doutor”, que afirma ter levado suafilha Telma, com 10 meses de idade, na ação de expropriação de explosivos na pedreira deCajamar, na tentantiva de criar um disfarce. 10
  • Universidade Presbiteriana MackenzieMuitas mulheres, todavia, não tiveram sequer a oportunidade de ser mãe, já que houve umgrande número de abortos nas prisões, em razão das torturas. Um caso ilustre é o daparaguaia Soledad Barret Viedma que, grávida de 08 meses, foi entregue por seunamorado, e pai da criança, o conhecido Cabo Anselmo, às forças militares. Segundodepoimento da advogada Mércia de Albuquerque Ferreira, Soledad, encontrada mortadentro de um barril, “estava com os olhos muito abertos, a expressão de um terror muitogrande, com a boca entreaberta”. Conforme conta, o que mais a impressionou “foi o sanguecoagulado em grande quantidade (...); o feto estava lá, nos pés dela. Não posso saber comofoi parar ali ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror(...)”.De qualquer modo, o que se sabe é que ninguém foi poupado. As crianças, como alvo fácil emelhor forma de controlar os pais, as mães principalmente, eram utilizadas da forma mais vile cruel, como forma de culpar suas mães pela escolha que fizeram.CONCLUSÃOA finalidade deste trabalho era, de forma sucinta, delinear um perfil abrangente da mulhersubversiva, presa e torturada pela ditadura militar. Mais do que isso, isto é, a exatidão, nãoseria possível, tendo em vista que muitas morreram ou desapareceram, outras,simplesmente, não querem mais falar sobre o assunto: sofreram demais para superar otrauma (se é que isto é possível) e não estão dispostas a lidar novamente com estefantasma.Ocorre que, na verdade, a análise única e exclusiva de processos não seria suficiente paraalcançar algo muito mais profundo do que as meras qualificações lá constantes, isto é, ossentimentos humanos: medo, sonhos, ódio, esperança, angústias, uma mistura desensações que só poderiam ser alcançadas se aliadas ao depoimento pessoal das queparticiparam deste momento histórico.Além do fato de que os processos militares foram contaminados pela forma violenta deobtenção das informações constantes dos autos, há, também, as falsas declarações daspresidiárias na tentativa de salvaguardar a segurança do grupo. Juntos, estes doiselementos nos alertam no sentido de analisar os processos de forma mais criteriosa,contestando as versões ali apresentadas.Com a verificação das biografias das presas políticas e os depoimentos das quesobreviveram, pudemos, então, filtrar as informações levantadas e tirar nossas própriasconclusões a respeito de cada uma delas. Obviamente que os depoimentos, se analisadosisoladamente, também não seriam fontes totalmente seguras, já que muitos anos se 11
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011passaram, muitas lembranças se perderam e histórias subsidiárias se criaram na cabeçadas ex-militantes, o que é perfeitamente compreensível, tendo em vista o conjunto dosacontecimentos.De qualquer modo, conforme íamos tomando conhecimento dos fatos históricos e dasbiografias das militantes, com o auxílio de um repertório bibliográfico, conseguíamosconjugar os depoimentos às informações retiradas dos processos militares e chegar àsconclusões que serviram de base para tracejar o perifl, genérico, daquelas mulheres.Fazemos, aqui, uma singela homenagem ao livro “Luta, substantivo feminino”, da SecretariaEspecial dos Direitos Humanos, da Presidência da República, que o organizou reunindovários depoimentos de sobreviventes da tortura e histórias das mortas e desaparecidas.Não cremos que tenha sido possível responder todas as perguntas que, no início, motivarama presente pesquisa. No entanto, os quesitos de maior importância, a nosso ver, restaramesclarecidos, permitindo a delimitação das características principais da parte feminina darevolução.Percebemos que, ao contrário do que foi frequentemente divulgado naquele período, asmulheres tinham, sim, um ideal político consolidado, que pudesse motivá-las a optar, porsuas próprias convicções, ao movimento revolucionário, e não como um acessório dealguma figura masculina.Constatamos que a maior parte das militantes era estudante, 34%, e professora, 24%,sendo certo, ainda, que de forma geral, aproximadamente 82% tinham nível superior, o que,naquela época, significava um alto grau de conhecimento.Neste sentido, os depoimentos comprovam que muitas tiveram acesso a informações edebates políticos desde crianças, principalmente no âmbito familiar, como é o casoapresentado da ex-militante da AP, Elza Lobo.Nos grupos de esquerda, apesar de se auto-intitularem de revolucionários, a possibilidadede discussão das questões de gênero era bastante remota, consistindo ato divisionista quepoderia, em último caso, cominar com a expulsão do grupo, já que outras questões,segundo eles, de maior relevância para o movimento subversivo, mereciam atençãoexclusiva. Na verdade, isto não passava de conservadorismo implícito daqueles muitos quetambém não conseguiam admitir a auto-tutela da mulher.Na prisão, as presas experimentaram a acidez da tortura, que eram utilizadas pelos militarestanto no sentido de penalizá-las pela opção ideológica comunista quanto pelo fato de seremmulheres foras de casa, da privacidade da vida doméstica, invadindo um espaçoexclusivamente masculino, sem exceções, e colocando em risco a instituição base da 12
  • Universidade Presbiteriana Mackenziesociedade: a família. Eles acreditavam que os atos libertários poderiam influenciar outrasmulheres a seguir o mesmo caminho, perdendo, assim, seu único objeto de dominação.Desta forma, a tortura deveria ser diferente em relação à mulher; deveria atingir-lhe a almada forma mais desumana: sua destruição como ente feminino a partir da sexualidade. Amaioria das torturas tinha um caráter sexual pois visava o corpo feminino, na sua intimidade,como principal meio de sua execução.Consistiam em nudez, choques na vagina e nos seios, estupros ou simples ameaça que, porsi só, era capaz de causar grande constrangimento e irreparáveis danos psicológicos.Os filhos, como já exposto, constituíam-se em outra técnica de tortura, talvez a mais eficazdentre todas. Já devastadas pela distância que obrigatoriamente se impunha desde o inícioda militância, a ameaça aos filhos terminava por destruí-las, fazendo com que seentregassem, integralmente, às mãos da ditadura.Este capítulo da história brasileira já foi superado, até mesmo de forma injusta, concedendoa anistia a todos os torturadores e torturados. O que não se deve deixar de ter em mente éque muitas pessoas morreram para que pudéssemos respirar a democracia e nos expressarlivremente.Nosso trabalho busca reavivar a voz daquelas que foram silenciadas pela ditadura militar,tanto as oficialmente mortas quanto as desaparecidas, e que deixaram um rastro de sangueinalterável, para que estas histórias, já concretizadas, sejam suficientes para nos impedir dedeixar que o horror se instale novamente.Para concluir, transcrevemos a música “Angélica” de Chico Buarque, que, em homenagem aZuzu Angel, se estende a todas as mulheres que, na ditadura, lutaram, desapareceram,morreram e, principalmente, sobreviveram:“Quem é essa mulherQue canta sempre esse estribilho?Só queria embalar meu filhoQue mora na escuridão do marQuem é essa mulherQue canta sempre esse lamento?Só queria lembrar o tormentoQue fez meu filho suspirarQuem é essa mulher 13
  • VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Que canta sempre esse arranjo?Só queria agasalhar meu anjoE deixar seu corpo descansarQuem é essa mulherQue canta como dobra um sino?Queria cantar por meu meninoQue ele já não pode mais cantar.”REFERÊNCIASProcessosProcessos nº 73/69, 128/69, 449/60, 46/70, 366/70 , 763/72. Projeto Brasil Nunca Mais.Arquivo Edgard Leuenroth. Unicamp.LivrosBRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Luta:substantivo feminino. Brasília, 2010.COLLING, A.M. A resistência da mulher à Ditadura Militar no Brasil. Rio de Janeiro: Rosados Tempos, 1997. 157p.CARVALHO, L.M. Mulheres que foram à luta armada. São Paulo: Globo, 1998. 484p.FREIRE, A.; PONCE, J.A. de G.; ALMADA, I. (org). Tiradentes, um presídio da ditadura:memórias de presos políticos. São Paulo: Scipione, 1997.LIPOWESTKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. São Paulo:Companhia das Letras, 2000.MERLINO, T.; OJEDA, I. (org). Direito à memória e à verdade: Luta, substantivo feminino.São Paulo: Editora Caros Amigos, 2010. 201p.RIDENTI, M.S. As mulheres na política brasileira: os anos de chumbo. Tempo social; Rev.Sociol., USP, São Paulo, 2 (2): 113-128, 2 sem. 1990.SÁ, Fernando; MUNTEAL, Oswaldo; MARTINS, Paulo Emílio. Os advogados e a DitaduraMilitar de 1964. Rio de Janeiro, 2010. 14
  • Universidade Presbiteriana MackenzieSECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS. Direito à memória e à verdade:Comissão especial sobre os mortos e desaparecidos políticos. Brasília: Secretaria Especialdos Direitos Humanos, 2007. 502p.Contato: ludfrancescorusso@yahoo.com e reginapedroso@terra.com.br 15