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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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  1. 1. Universidade Presbiteriana MackenzieDUPLA REPÓRTER-FOTÓGRAFO NA REVISTA O CRUZEIRO, E SUAINFLUÊNCIA NO JORNALISMO BRASILEIROGleissieli Souza de Oliveira (IC) e Cicélia Pincer (Orientadora)Apoio: PIBIC Mackenzie/MackPesquisaResumoO projeto pretende analisar o desenvolvimento do fotojornalismo no Brasil, por meio da revista OCruzeiro, e a introdução do recurso da dupla repórter-fotógrafo no jornalismo brasileiro. Tal recurso foiprimeiramente apresentado na por intermédio do fotógrafo francês Jean Manzon, quando ingressouna revista em 1943, além de outras modificações que ele proporcionou a publicação, idealizadas combase em suas experiências na imprensa francesa. Em O Cruzeiro formou a primeira dupla com orepórter David Nasser. A dupla conquistou grande fama e prestígio na imprensa nacional,principalmente, pela realização de grandes reportagens, muitas delas polêmicas. Trabalharam juntosde 1943 a 1951, produzindo neste período reportagens históricas e recordistas em vendas. Apesquisa é focada no primeiro ano de produção dos dois: 1943. Analisando neste período asreportagens realizadas e as mudanças que proporcionaram à revista O Cruzeiro, que por ser a maiore mais importante revista brasileira do século XX, influenciaram as características do jornalismobrasileiro atual.Palavras-chave: O Cruzeiro; repórter-fotógrafo; fotojornalismo brasileiroAbstractThe project aims to analyze the development of photojournalism in Brazil, through the magazine OCruzeiro, and the introduction of the double feature reporter-photographer in Brazilian journalism. Thisappeal was originally filed in through the French photographer Jean Manzon, when he joined themagazine in 1943, and other changes that it brought the publication idealized based on hisexperiences in the French press. In O Cruzeiro formed the first team with reporter David Nasser. Theduo won great fame and prestige in the national press, especially the implementation of major stories,many of them controversial. They worked together from 1943 to 1951, this time producing reports andhistorical record-breaking sales. The research is focused on the first year of the double: 1943.Analyzing the reports made during this period and the changes it brought to the magazine O Cruzeiro,which is the largest and most important Brazilian magazine of the twentieth century, influenced thecharacteristics of Brazilian journalism today.Key-words: O Cruzeiro; reporter-photographer; brazilian photojournalism 1
  2. 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011IntroduçãoA história dos Diários Associados se confunde com a história da Imprensa no Brasil. Oprimeiro conglomerado de comunicação do país revolucionou em muitos aspectos aimprensa brasileira e a sociedade de sua época: seu primeiro veículo O Jornal, de 1924,substituiu os textos longos, comuns nos jornais do período, por reportagens; criaram aprimeira agência de notícias por radiodifusão do país; as campanhas de “responsabilidade”social e empresarial organizadas pelo grupo arrecadou investimentos para diversas áreasda sociedade brasileira (aviação, saúde, transporte, cultura); foram o primeiro grupo decomunicação a ter uma agência de publicidade própria; possuiu a primeira emissora de TVda América Latina (TV TUPI-SP) e uma das maiores e mais importantes emissoras de rádiodo país; além de obter por 47 anos a mais importante revista semanal ilustrada brasileira doséculo XX, O Cruzeiro, que inovou em muitos aspectos a imprensa nacional.A revista ilustrada semanal O Cruzeiro surgiu em novembro de 1928 com um projeto de“linha editorial dita como moderna” (SERPA; 2003), com o intuito de ser tornar uma revistade circulação nacional.“Durante vinte anos a revista não trouxe lucros aos Diários Associados [...]” (CARNEIRO;1999), o primeiro exemplar obteve uma tiragem de 50 mil exemplares e saiu em váriascapitais brasileiras simultaneamente. O cenário mudou á partir de 1943, com a produção dasgrandes reportagens pelas duplas repórter-fotógrafo, caracterizadas pela riqueza deimagens, o que fez com que a revista esgotasse nas bancas e aumentasse sua tiragem(ROMANCINI & LAGO; 2007).A revista atinge seu auge quando passa a circular no exterior, fazendo sucesso em paísesda América Latina. Foi a primeira publicação brasileira a conceder créditos às fotografiaspublicadas, contando inclusive com um departamento e equipe de fotografia.O fotógrafo francês Jean Manzon, foi convidado pelo sobrinho do dono dos Associados paraintegrar a equipe da revista em 1943, e foi o responsável por introduzir “[...] no Brasil umhábito da imprensa de reportagem européia: a dobradinha repórter fotógrafo. Um sóescreve, o outro só se preocupava em fotografar.” (MORAIS; 1994). Manzon foi fotógrafo darevista Paris-Match do Paris Soir, e registrou a Segunda Guerra para a Marinha Francesa eo governo da Inglaterra até 1942, quando veio ao Brasil, onde fez parte do Departamento deImprensa e Propaganda (DIP), durante o governo Vargas, até que, Frederico Chateuabriando convidou para fazer parte da revista O Cruzeiro em 1943. Jean Manzon propôs mudançasna parte gráfica da revista “[...] para mudar seu aspecto de catálogo [...]” (CARNEIRO; 1999.p.336).Jornalista e compositor, David Nasser trabalhou também em O Globo, e foi durante muito 2
  3. 3. Universidade Presbiteriana Mackenzietempo companheiro de Manzon em O Cruzeiro, ganhando grande prestígio dentro e fora dopaís por suas grandes reportagens. Nasser e Manzon estrearam na revista em 1943. Entre43 e 51 fizeram reportagens que marcaram a história no jornalismo brasileiro, como a quemostra o deputado federal Barreto Pinto de fraque e cuecas, a da aldeia dos índio xavantes,ou ainda a que Chico Xavier foi fotografado dentro de uma banheira (CARVALHO; 2001).Embora tenham a veracidade de algumas delas contestadas, como aborda Luiz MarkloufCarvalho em seu livro “Cobras Criadas: David Nasser e O Cruzeiro”, a dupla se tornou umamarca registrada da revista.Desta maneira, este estudo pretende responder a questão “Quais mudanças e inovações asduplas repórter-fotógrafo de O Cruzeiro proporcionaram ao fotojornalismo e imprensabrasileira?”, buscando analisar o pioneirismo no jornalismo brasileiro da adoção da duplarepórter-fotógrafo adotado por O Cruzeiro, utilizando como objeto de estudo a mais famosadelas: Jean Manzon e David Nasser.Por meio de uma pesquisa qualitativa em livros, estudos científicos, e periódicos; estapesquisa tem como objetivo analisar as grandes reportagens feitas pela dupla no ano de1943, quando estão formando seu “estilo”, a maneira como foram produzidas e asmudanças provocadas na imprensa brasileira. Busca-se atingir ainda os seguintes objetivosespecíficos: − Compreender a importância das grandes reportagens e inovações gráficas de O Cruzeiro para o desenvolvimento da imprensa nacional; − Elencar as características das grandes reportagens feitas pela dupla; − Destacar o pioneirismo de O Cruzeiro na dupla repórter fotógrafo; − Analisar as mudanças proporcionadas por Manzon no periódico no âmbito do fotojornalismo; − Compreender o papel das “duplas” e suas reportagens na consolidação e sucesso de O Cruzeiro;A importância desta pesquisa destaca-se, ainda, quando se considera que a revista “Foi umdos periódicos que consolidou muitas práticas do jornalismo, como a grande reportagem e ofotojornalismo.” (SERPA; 2003), marcada por trazer inovações como a diagramação maisatraente que priorizava a qualidade das fotos e “[...]além de ditar modas, normas e atéconceitos, num período em que o país cada vez mais se urbanizava e a sociedade passavapor transformações[...] ” (SERPA; 2003). 3
  4. 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Referencial TeóricoFotojornalismoA fotografia na imprensa mudou a visão das massas abrindo uma janela para o mundo,inaugurando o mass media visual, quando o retrato individual é substituído pelo coletivo,sendo atualmente impossível imaginar a imprensa sem a fotografia, “A introdução dafotografia na imprensa foi um fenômeno de importância capital” (LIMA, 1989.p.9). Renegadapelas artes tradicionais, a fotografia encontra no fotojornalismo a maneira de exibir toda asua capacidade de transmitir informação, tornando possível a escrita com imagens.A revista O Cruzeiro foi a maior e mais importante revista da América Latina no século XX,com grande importância para o desenvolvimento e consolidação do fotojornalismo brasileiro.O fotojornalismo é definido por MUNTREAL e GRANDI (2005) como uma maneira deeternizar os fatos, com a principal função de transmitir informação de forma eficiente, e afotorreportagem é marcada pela preponderância da imagem sobre o texto. LIMA (1989)define a fotografia de imprensa como um meio de informação independente, e conscientecom o poder de introduzir o assunto de maneira direta e que ampliou as possibilidades paraa difusão social dos fatos cotidianos, e torna-se um canal entre o leitor e o mundo, a qual oautor divide em três gêneros: Social; de Esporte; e Cultural.Para PEREGRINO (1991) a fotografia como linguagem tem o poder de aproximar realidadesdistintas, e foi a partir do final da Segunda Guerra Mundial que ela passou a ter tanto poderquanto o discurso verbal. Segundo a autora, no Brasil, o papel do fotojornalismo foiredefinido na revista O Cruzeiro a partir da década de 1930, com a mudança de direção e aintegração de Jean Manzon na redação, na década de 1940, quando a publicação passou aintegrar nas grandes reportagens a fotografia como elemento narrativo. O fotojornalismo,portanto, seguindo SILVA (2004), é a relação da foto com o texto escrito, ocupando maisespaço e tendo mais importância nas revistas ilustradas, apesar dos textos e legendastambém ter o poder de conduzir uma leitura específica da imagem.O CruzeiroO Cruzeiro foi criada em 1928, e influenciou o fotojornalismo brasileiro por 16 anos (1944-1960) período de maior revolução da prática no país, tanto pela utilização maciça dafotografia como fenômeno de comunicação ou pela influência político-social da publicaçãono Brasil (PEREGRINO, 1991). Segundo MAUAD (2004) a revista seguia o modelo darevista americana Life, inaugurando uma nova tendência no jornalismo brasileiro, o queobrigou as outras publicações a se adaptar para competir com O Cruzeiro, que agora via ofotógrafo como testemunha ocular, e a fotografia como uma forma de narrativa.MORAIS (1994) conta que Manzon foi convidado pelo sobrinho de Assis Chateaubriand a 4
  5. 5. Universidade Presbiteriana Mackenzieintegrar a equipe da revista, implantando na imprensa brasileira, a partir daí as duplasrepórter-fotógrafo, um hábito da imprensa européia, onde um só escreve e o outro sófotografa. E segundo CARNEIRO (1999) as mudanças propostas pelo fotógrafo francês naparte gráfica da revista, e no modelo de trabalho foram realizadas com base em suaexperiência na imprensa européia, onde fez parte da Paris-Match e do Paris Soir, além deregistrar a Segunda Guerra para a Marinha Francesa e o governo inglês.CARVALHO (2001) descreve a chegada de Jean Manzon na revista como decisiva para odesenvolvimento da publicação e do fotojornalismo no país, pois as fotos de Manzon eramde um estilo até então nunca visto no Brasil. A dupla David Nasser e Jean Manzon foi aprimeira da revista e tinha um estilo único, que geralmente começava com uma conversacom o leitor, em tom pessoal antes do texto principal, e com fotos de página inteira.Trabalharam juntos por nove anos, com duas interrupções, e três fases distintas, produzindoreportagens que entraram para a história do jornalismo brasileiro.NETTO (1990) diz que foi na publicação que os repórteres ganharam status de heróis, o queprovocou uma revolução no jornalismo brasileiro. Descreve as fotografias de Manzon comotão impressionantes que poderiam ser comparadas aos quadros da série negra de Goya, ea dupla que formou com Nasser era de grande fama, fazendo parte do chamado “esquadrãode ouro” da revista, com a filosofia de que “a verdade fica mais verdadeira quando expostacom uma razoável dose de fantasia” (NETTO, 1998.p.108). MORAIS (1994) afirma que adupla formada com David Nasser tornou-se marca registrada da revista com matériasaguardadas com ansiedade pelos leitores.A importância da publicação para o desenvolvimento do fotojornalismo no país é indiscutívelpara grande parte dos autores, tal qual SERPA (2003) a descreve como um dos periódicosque consolidou a grande reportagem e o fotojornalismo como práticas no jornalismonacional, principalmente por trazer inovações como a diagramação mais atraente epriorização da qualidade das fotografias. Para SILVA (2004), A dupla Nasser e Manzoninaugurou a era das grandes reportagens, e fizeram escola ao tratar de assuntos queatingem o gosto do leitor, apostando na aventura para cativar a emoção do público.O Cruzeiro foi a primeira publicação brasileira a dar créditos às fotografias publicadas, o quealterou substancialmente a vida profissional da fotografia que passou a ter maiorimportância, e ser valorizados como repórteres-fotográficos (BARBOSA, 2002; CAMARGO,2005; CARNEIRO, 1999; CARVALHO, 2001; COSTA, 1998; LIMA, 1989; MAUAD, 2004;MIRA, 1997; MORAIS, 1994; MUNTREAL e GRANDI, 2005; NETTO, 1990; PEREGRINO,1991; SCALZO, 2006; SERPA, 2003; SILVA, 2004; SOUSA, 2002; TACCA, 2006). 5
  6. 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011MétodoA presente pesquisa é baseada em pesquisa bibliográfica e análise de exemplares.Inicialmente foi preciso compreender a linguagem do fotojornalismo e a importância dafotografia para a comunicação de imprensa, com base em autores como Jorge PedroSousa, que traça uma História Crítica do Fotojornalismo no século XX, resumindo asmudanças proporcionadas nos meios de comunicação pelo desenvolvimento dofotojornalismo, prática que destacou-se e evoluiu com as principais coberturas de Guerra.Em segundo lugar, partiu-se para a história dos Diários Associados, com base em livroscomo Chatô, o Rei do Brasil (MORAIS, 2004) e Brasil, Primeiro: A História dos diáriosAssociados (CARNEIRO, 1999). O que levou à intensa pesquisa sobre a história da maisimportante do conglomerado de comunicação, a revista O Cruzeiro, sobre a qual foiestudado o pioneirismo em estilo fotográfico e gráfico, além do modelo de trabalho, o qualse centra a pesquisa, com duplas entre repórteres-fotógrafos, em que um só escrevia e ooutro só fotografava. Tal modelo foi implantado pelo francês Jean Manzon, que trouxeinovações de suas experiências na imprensa européia, e formou a primeira dupla com DavidNasser. O estilo consolidado por ambos alavancou o sucesso da revista, e promoveu umamudança na forma de fazer jornalismo de revista no país.A partir daí, foi escolhido o primeiro ano 1943 como foco de estudo, por ser o ano de estréiada dupla, e assim concluir como foram impressas as mudanças conforme suas primeirasmatérias publicadas. Durante o período de agosto a dezembro de 1943 um total de seismatérias foram selecionadas como objeto de estudo, por serem produzidas com o modelode trabalho dupla repórter-fotógrafo, e apresentar maior destaque as fotos. São elas: UmaFesta de Arte, 16 de outubro de 1943; O Destino de uma fazenda, 23 de outubro de 1943;Madame Butterfly, 30 de outubro de 1943; Sete dias em O Cruzeiro, 6 de novembro de1943; e a primeira grande reportagem propriamente dita, Os loucos serão felizes?, 17 denovembro de 1943.Os exemplares originais das revistas foram encontrados, cinco no acervo da biblioteca doMuseu de Arte Moderna de São Paulo (MASP), e um, no Arquivo Público do Estado de SãoPaulo. Com as fotografias das matérias em mãos, a análise foi feita com base nacomparação em um exemplar anterior ao analisado (14 de agosto de 1943), e na bibliografiaconsultada, que também apresenta a discussão dos formatos de outras publicaçõescontemporâneas à revista, e analisam as próprias inovações do objeto de estudo, comoPEREGRINO (1991), em O Cruzeiro: A Revolução da Fotorreportagem. 6
  7. 7. Universidade Presbiteriana MackenzieResultados e DiscussãoRevista O CruzeiroCriada no ano de 1928, a revista O Cruzeiro foi a maior e mais importante revista semanalde notícias da América Latina no século XX, considerada uma espécie de TV Globo daépoca. Fazia parte de um grande conglomerado de comunicação, Os Diários Associados,que em 1956 contava com 31 jornais, 5 revistas, 21 emissoras de rádio, 3 estações detelevisão, 1 agência telegráfica, 2 agências de representações, e 2 empresas industriais(CARVALHO, 2001).O Cruzeiro saia semanalmente as terças-feiras, e representava um forte ponto de referênciapara jornalistas, público leitor e opinião pública da época (PEREGRINO, 1991). A publicaçãodeu grande espaço para a fotorreportagem, proporcionando para a fotografia umaimportância até então inexistente na imprensa brasileira. Os primeiros repórteres-fotográficos do país surgiram na década de 1920, através dos contínuos ou amigos dosdonos de jornais, com maior tempo livre e com uma câmera na mão, ou vontade de subir decategoria (LIMA, 1989).O uso da fotografia de imprensa se consolidou após o fim da II Guerra, propondo uma novaforma ao texto jornalístico, e a revista O Cruzeiro redefiniu o papel da imagem fotográficacom um efeito revigorador (PEREGRINO, 1991), as grandes reportagens amplamenteilustradas por fotografias se tornaram uma marca registrada da revista, já em 1930, quandopassou a publicar as primeiras fotos aéreas estampadas em folhas duplas. A valorização dalinguagem fotográfica introduziu um novo conceito de editoração que rompia com asfórmulas que usavam o discurso verbal como principal fonte de informação; “Apreponderância da imagem sobre o texto demonstra que a fotorreportagem não é umasimples reportagem verbal ilustrada, mas, na verdade, uma reportagem visual auxiliada portexto” (MUNTREAL; GRANDI; 2005.p.49).Com a mudança de direção, e a chegada de Frederico Chateaubriand a partir da década de1940, que a revista passou a adotar a linha de reportagens com o uso da fotografia de umaforma mais integrada, incorporando a foto como elemento narrativo, incorporando o padrãode qualidade das publicações internacionais, como Life e Paris Match (SILVA, 2004). Esseestilo amplia as possibilidades para a difusão social dos fatos do cotidiano, pois “dá ao leitor,no primeiro olhar, o assunto da informação de maneira direta” (LIMA, 1989.p.18), alémdisso, fixa um acontecimento e suas impressões, relatados pelo fotógrafo “o intermediáriovisual entre a notícia e o público”.O fotógrafo francês Jean Manzon, convidado pelo sobrinho do dono dos Associados paraintegrar a equipe da revista em 1943, foi quem introduziu no Brasil a dobradinha repórter 7
  8. 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011fotógrafo (MORAIS; 1994). Baseado em sua experiência na imprensa européia, o queprovocou mudanças expressivas no aspecto da revista.A reportagem fotográfica era praticamente inexistente no Brasil naquela época. Após folhearalgumas edições, o fotógrafo declarou que a revista parecia um catálogo, de retratos fixos,posados, idênticos, e de paginação atrasada (CARVALHO, 2001). Quando cheguei em O Cruzeiro, a reportagem fotográfica no Brasil era inexistente. Havia um atraso muito grande, a paginação era confusa e [havia] sobretudo muito receio de mudar. Comecei com minhas matérias sem ninguém que escrevesse os textos, nem mesmo as legendas. (MANZON apud CARVALHO, 2001,p.63)As mudanças propostas por Manzon seguiam o rumo do processo de modernização dasgrandes revistas ilustradas do mundo, que procuravam valorizar a fotografia tanto quanto otexto, e segundo o próprio fotógrafo, a utilização da fotografia de página inteira foi umarevolução dentro da revista (MANZON apud PEREGRINO, 1991.p.38). A primeira dupla foiformada por Manzon e o repórter David Nasser, que juntos produziram muitas matériasfamosas e polêmicas, tornando-se marca registrada da revista durante os nove anos em quetrabalharam juntos.O Cruzeiro foi a primeira publicação a conceder créditos às fotografias publicadas, contandoinclusive com um departamento e equipe de fotografia que continha profissionais além deJean Manzon, Edgar Medina, Salomão Scliar, Lutero Avila, Peter Scheir, Flávio Damm, JoséMedeiros entre outros, encarregados de introduzir a linguagem fotográfica do fotojornalismonas reportagens (MAUAD; 2004). Com essa nova linguagem as fotografias ganharam umcaráter didático na matéria criando uma correlação texto/imagem.A decadência da revista começou na década de 1960 com a mudança de direção e linhaeditorial, os dirigentes simplesmente haviam ignorado ou minimizando a importância dosfotógrafos, além de aumentar o número de reportagens fúteis, o que diminuiu a credibilidadeda revista com parte do público (PEREGRINO,1991). Entretanto, foi na publicação, que osrepórteres ganharam status de heróis, alcançando condições de estrelas, “enobrecendo aclasse e provocando uma verdadeira revolução no jornalismo nacional” (NETTO,1998.p.106). Foi a partir da atuação pioneira da revista, e do número crescente de novaspublicações surgindo, que se estabeleceu um mercado de trabalho em expansão para ofotógrafo de imprensa no Brasil. Em seu auge, a revista alcançava todos os tipos de leitores,com a “fórmula de revista da família brasileira”, abrangência de temas e valorização deimagens que influenciaram outras publicações da época (SILVA, 2004).O Cruzeiro fechou em julho de 1975, depois de 47 anos de circulação ininterrupta. O títulofoi cedido como forma de pagamento de dívidas, as máquinas vendidas a preço de ferro 8
  9. 9. Universidade Presbiteriana Mackenzievelho e os arquivos da revista entregues à guarda do Estado de Minas, único jornal do grupodos Diários Associados com dinheiro suficiente para arrematá-los (NETTO, 1998).Dupla Repórter-Fotógrafo: Jean Manzon e David NasserDavid Nasser e Jean Manzon formaram a primeira dupla da revista, abrindo caminho paraoutras como: José Leal e José Medeiros, Ubiratan Lemos e Indalécio Wanderley, etc; queapesar de vinculadas, não impediam seus autores de trabalharem separados. Manzon eNasser foram a mais célebre dupla de O Cruzeiro, com um estilo único (CARVALHO, 2001).Faziam cobertura de assuntos inusitados, e geralmente as matérias da dupla se iniciavamcom uma conversa com o leitor, em tom pessoal antes do texto e em letra maior, e com fotosde página inteira. Logo se tornaram favoritos do público, fizeram parte do “esquadrão deouro” da revista, e o slogan “Texto David Nasser, Fotografia Jean Manzon” passou a seraguardado ansiosamente pelos leitores (MORAIS, 1994). A fórmula foi um sucesso. As reportagens da dupla logo passaram a ocupar as primeiras páginas da revista, com as sensacionais fotos de Manzon e o texto atraente de David Nasser, que parecia sempre seguir o rumo desejado pelos leitores. Eles buscavam sempre casos sensacionais, que a imprensa daquela época abordava de forma insossa. (NETTO, 1998)Jean Manzon foi fotógrafo da revista Paris-Match e do Paris Soir, registrou a SegundaGuerra sendo membro do Serviço fotográfico e Cinematográfico da Marinha Francesa e doserviço cinematográfico de guerra inglês até 1942 quando veio ao Brasil (MORAIS; 1994),onde fez parte do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), durante o governoVargas, até que, Frederico Chateaubriand o convidou para fazer parte da revista O Cruzeiroem 1943. Manzon propôs mudanças na parte gráfica da revista “[...] para mudar seu aspectode catálogo[...]” (CARNEIRO;1999.P.336) e a parceria repórter-fotógrafo, baseado em suaexperiência na imprensa francesa.Em Cobras Criadas (2001), Luiz Marklouf Carvalho afirma que as fotos de Manzon eram deum estilo até então nunca visto no Brasil, o que provocou uma reformulação estética em OCruzeiro, com fotografias de ângulos diferentes, mudando a relação texto imagem, queelaboravam uma narrativa dos fatos com o texto escrito acompanhando as imagens comoapoio. Os temas das matérias passaram a ser caracterizados pela preferência do fotógrafo,e as de Manzon traziam “em seu bojo um forte traço de sensacionalismo, com a exploraçãode atitudes chocantes, hábitos exóticos ou aspectos incomuns” (PEREGRINO, 1991.p.67).Em 1944, o quadro de repórteres-fotográficos em O Cruzeiro era praticamente inexistente,pois só havia na empresa o fotógrafo Edgar Medina, encarregado de fotografar assolenidades mais formais. Como repórter-fotográfico, Jean Manzon teve papel pioneiro 9
  10. 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011dentro da revista, o estilo de reportagem que veio implantar até 1951, tem o sentido de umademarcação de fronteiras e, desta forma, está ligado à deflagração de um conjunto de ideiasno qual surgiram os trabalhos dos diversos repórteres-fotográficos que, pouco a pouco,foram entrando na revista (PEREGRINO, 1991). Após sua chegada, os padrões editoriaisque passaram a surgir na publicação, são evidenciados pela maior valorização da fotografiaem suas páginas, e a questão que o francês fazia de assinar suas fotos, o que provocou“uma maior importância do fotógrafo, que passaria a assumir suas fotos” (MUNTREAL;GRANDI, 2005.p.75), e proporcionou a saída do anonimato por parte desses profissionaisque passaram a ser valorizados na nova condição de repórteres-fotográficos.O jornalista David Nasser, antes de O Cruzeiro, trabalhou no Diário da Noite e em O Globo.Ficou conhecido como o mais famoso jornalista dos anos 1950 (CARVALHO, 2001).Trabalhou na revista por trinta anos (1942 a 1974), fazendo dupla com Manzon nosprimeiros nove anos (1943 a 1951), produzindo neste período reportagens que entrarampara a história do jornalismo brasileiro, algumas delas com repercussão internacional, comofoi o caso da “Enfrentando os Chavantes”, índios isolados na Amazônia, que apareciam pelaprimeira vez na imprensa.A primeira reportagem de Jean Manzon na revista obteve duas páginas, publicada emagosto de 1943, “Portinari Íntimo”. São onze fotografias, com texto de Franklin de Oliveira. Oprimeiro texto de David Nasser em O Cruzeiro, no entanto, saiu em 1935, “Laurence daArábia”, como enviado especial. A estréia dos dois como dupla ocorreu com “Uma Festa deArte”, a primeira matéria dos dois publicada em outubro de 1943.Com o nome de “O Destino de uma fazenda”, a segunda matéria foi publicada em 23 deoutubro do mesmo ano, era sobre a Escola de Pesca D. Darcy Vargas, em Ilha dos Breves.Na edição seguinte de 30 de outubro, Manzon aparece com três matérias. Uma assinasozinho (sobre um programa musical da rádio Tupi-SP), a outra com texto de Big Thomas(“Escola de Girls”), e a terceira com David Nasser, “Butterfly’, a olho nu” era sobre osbastidores de uma peça de teatro, “Madame Burttefly”, encenada no Teatro Municipal.Na edição de 6 de novembro, assinam uma matéria comemorativa do aniversário de quinzeanos da revista, “Sete dias em O Cruzeiro” (CARVALHO,2001), que retrata uma semanade trabalho na redação. “Os loucos serão felizes?”, é a primeira reportagempropriamente dita da dupla, publicada em 17 de novembro, e segundo Paulo Marklouf deCarvalho (2001), é muito parecida com outra que Manzon havia feito para a revista Vu, eestabelece um novo padrão gráfico na revista no mesmo estilo de Life e Match.Apresentando: abertura de página dupla; prioridade absoluta para a 10
  11. 11. Universidade Presbiteriana Mackenzie imagem, com foto sangrada na página ímpar; titulação de impacto no tamanho e no conteúdo, geralmente sensacionalista. Os chamados boxes- textos de apoio a matéria principal- aparecem pela primeira vez. Subtítulos e linhas finas completam as novidades. (CARVALHO, 2001.p.90)Mesmo com todas as inovações e propriedades desta matéria, a mesma não consolida adupla, o que só ocorreria em 1944, quando foi publicada a matéria sobre a “morte” deManzon (na verdade uma mentira, que resultaria na matéria “ficcionista” “A Vida dosMortos”), desde então eles publicavam de duas a três matérias por semana em O Cruzeiro(CARVALHO, 2001). O primeiro furo de reportagem, e uma das mais contestadas matériasda dupla foi “Enfrentando os Chavantes” (no original com “ch”), em que fotos de uma aldeiaxavante desconhecida do homem branco foram tiradas de um helicóptero. A matéria teverepercussão internacional, tendo fotos publicadas em veículos estrangeiros como a Life.Considerada até os dias atuais como um marco na consolidação das grandes reportagens,“ocupando a capa e 18 páginas inteiras com 26 fotos da tribo”(MUNTREAL&GRANDI,2005.p.75), as dúvidas em relação a matéria consistem quanto averacidade das fotografias, possíveis fotomontagens da dupla.Jean Manzon e David Nasser formaram uma dupla de grande fama em O Cruzeiro, “cujafilosofia podia ser resumida na seguinte frase: a verdade fica mais verdadeira quandoexposta com uma razoável dose de fantasia” (NETTO, 1998.p.108). Muitas vezes asgrandes reportagens que transformavam esses repórteres em heróis, não apenas misturamrealidade e sonho como são produto de ficção, como afirmam os autores CARVALHO (2001)e SILVA (2004), usando como exemplo algumas matérias, como ocorreu na série Amazônia,produzida no jardim botânico do Rio de Janeiro, e a já citada matéria sobre os Xavantes.Havia matérias com maneirismos fotográficos usados sem moderação, Manzon criavaimagens não convencionais utilizando meios tradicionais com conotações estranhas, eraramente utilizava o flagrante, tendo na pose um elemento fundamental de sua fotografia,“Em suas reportagens ficava evidente que ele preparava antecipadamente as cenas a seremfotografadas, onde mobilizava um grande aparato técnico: câmaras, flashes e tripés”(PEREGRINO, 1991.p.88).Em O Império de Papel: Os Bastidores de O Cruzeiro (1998), Accioly Netto, afirma queNasser e Manzon pareciam ter um estranho poder sobre os personagens das histórias quecontavam, “como se os hipnotizassem” (p.115), citando como exemplo famoso a fotografiado deputado Barreto Pinto, posada apenas de casaca e cueca, provocando um escândaloque resultou no processo de cassação do parlamentar, por falta de decoro. E ao serquestionado sobre esse “poder” que exerciam sobre seus personagens, Manzon declarou: 11
  12. 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011 A objetiva da máquina tem um efeito hipnótico sobre as pessoas. Diante dela geralmente elas fazem qualquer coisa que lhes é pedida. Nunca se lembram de que por trás da lente existe um filme, que vai eternizar aquele instante, seja ele qual for. (MAZON apud NETTO, 1998.p.116)O Fotojornalismo para o fotógrafo francês era “a conjugação de procurar o interessejornalístico, de ter a sensibilidade de enxergar e interpretar criativamente o evento”(MANZON apud PEREGRINO,1991.p. 90), de modo que o uso de aparato técnico reforça apresença do fotógrafo e “a ansiedade do retratado, como parte de uma idealizaçãoformulada na base da apreensão se sua própria imagem” (PEREGRINO, 1991.p.91). Suaobra era impregnada de caráter didático, explicitado no encadeamento lógico e cronológicode suas ideias a cada fato, o conteúdo é, sobretudo, dramático, e bastante diversificado “deonde emergem assuntos históricos, sociais, políticos e femininos” (PEREGRINO,1991.p.94), de linguagem marcada pela composição carregada por um tratamento especial,à organização premeditada dos elementos no espaço de representação.A dupla trabalhou ininterruptamente até setembro do ano de 1945, com um total de 91reportagens até então. Sua primeira separação coincidiu com o a queda Vargas e o EstadoNovo, mas em dezembro do mesmo ano a dupla se reconcilia, “os primeiro frutos dessa fasesão reportagens sobre as eleições gerais de 2 de dezembro” (CARVALHO, 2001.p.146).Houve uma segunda ruptura no final dos anos 1940, em que a dupla ficou 8 meses semproduzir nada juntos, até julho de 1949. Nessa terceira e última fase, a dupla faria 57matérias, parte delas resultantes de viagens internacionais. “O estilo continuava o mesmo:show de fotos posadas, texto fluente, mas completamente descompromissado com os fatos”(CARVALHO, 2001.p.247).A última matéria dos dois foi “O Rei que Nostradamus previu” realizada na Europa, epublicada em agosto de 1951. Jean Manzon foi para a revista Manchete onde ficou poucotempo, e logo foi fazer documentários comerciais e cinema. David Nasser continuou narevista até seu fechamento, e apesar da separação permaneceu amigo de Manzon atémorrer no Rio de Janeiro, aos 63 anos, em 10 de dezembro de 1980, “rico e ainda influentecomo articulista da revista Manchete” (CARVALHO, 2001.p.19).Análise de MatériasDe acordo com LIMA (1989), a fotografia jornalística pode ser separada em três gêneros:Sociais (foto política informa sobre economia, e chama atenção aos fatos gerais); deEsporte (função estética, e transmissão de emoção); Culturais (ilustrativa); Assim, as fotosapresentadas nas matérias analisadas encaixam-se no gênero descrito como Social, vistoque, ilustra grandes reportagens de temas que chamam a atenção do público a fatos gerais, 12
  13. 13. Universidade Presbiteriana Mackenziecomo é o caso da vida de internos no hospício. “A fotografia de imprensa se transformounum meio de informação independente, consciente, agitador e emocionante” (LIMA,1989.p.22).“Uma Festa de Arte”, publicada em outubro de 1943, foi a de estréia da dupla. A matériaera sobre um evento promovido pela esposa do ministro da Viação, Mendonça Lima, comtrês páginas e onze fotos. O texto aparece como um complemento às imagens, em um box,e nas legendas. As fotografias eram a matéria-prima na edição das reportagens ilustradas eeram a base para a elaboração de legendas e textos, “A preponderância da imagem sobre otexto demonstra que a fotorreportagem não é uma simples reportagem verbal ilustrada, mas,na verdade, uma reportagem visual auxiliada por texto” (MUNTREAL; GRANDI, 2005.p.49).Com a mesma temática social, com seis páginas, “O Destino de uma fazenda”, a segundamatéria de Manzon e Nasser, foi publicada em 23 de outubro. Consistia na propaganda daEscola de Pesca D. Darcy Vargas, mantida pelo governo na Ilha dos Breves, próximo aAngra dos Reis. Assis Chateaubriand, ao qual a revista pertencia, era partidário do governoe costumava encomendar matérias que fortalecesse seus laços políticos. A terceira matériaé sobre os bastidores da peça “Madame Burttefly” encenada no Teatro Municipal, com otítulo de “Butterfly’, a olho nu”, possui cinco páginas: quatro de fotografias, e mais umacom a conclusão do texto em um box, como descrito no parágrafo anterior. São setefotografias, as seis primeiras divididas em duas páginas, com três em cada e dividindoespaço com um box de texto, enquanto a última é apresentada em página inteira.Ambas as matérias são marcadas pelo crescente destaque da fotografia em relação aotexto, pois as imagens são apresentadas em ordem sequencial, seguindo uma narrativa defatos, enquanto o texto restringe-se às legendas e a boxes, com a ordem quebrada, pois éconcluído em outras páginas diferentes da matéria original, geralmente em outros pequenosboxes no meio de propagandas, marcado por legendas: “Continua na pág. 70”;“Continuação da pág. 61”; “Conclusão da pág. 70”. As fotografias em ordem seqüencial, euma fotografia de página inteira marcando o fim ou o inicio da reportagem, são marcas dasmudanças propostas por Manzon (PEREGRINO, 1991), pois até o início da década de 1940,O Cruzeiro mantinha a mesma fórmula de suas concorrentes, com fotos de pequenosformatos agrupadas sem nenhum critério aparente (SILVA, 2004).Em comemoração ao aniversário de quinze anos da revista, foi publicada em 6 denovembro, a matéria “Sete dias em O Cruzeiro”, em quatro páginas, com fotos do trabalhona redação, seguindo os moldes da última reportagem, com maior destaque e espaço para afotografia. A matéria “Os Loucos serão Felizes?” foi a primeira grande reportagem dadupla, resume o conceito que consolidaria o estilo de ambos. Uma matéria de capa, com 13
  14. 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011muitas fotografias de página inteira, retratando a história como uma aventura vivida peladupla, que nesse caso representa uma visita de onze horas ao Hospital Nacional dosAlienados na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Nessa matéria são retratadas a vida dedoentes mentais dentro do hospício, onde encontram histórias pessoais dramáticas,descrevendo o tratamento desumano recebido pelos internos, com texto de Nasserdescrevendo-os “como figuras patéticas que circulavam pelos pátios como postas de carneambulante”, e “as fotografias de Jean Manzon, que se esmerou mais do que nunca nasimagens, eram tão impressionantes que poderiam ser comparadas aos quadros de Goya,em sua imortal Série negra.”(NETTO,1998.p.114).A matéria é iniciada com uma foto de página inteira, de um homem solitário, sentando,pensativo em uma grande escada, acompanhada de um pequeno box de texto, que éfinalizado com uma apresentação da reportagem que virá: “O leitor se imagina encontraruma narrativa cheia de histórias curiosas onde o drama dessas pobres vidas surgisse emlances pitorescos, vire 7 páginas dessa reportagem” (NASSER in O CRUZEIRO, Nov. 1943.p. 32). Nas duas páginas seguintes cinco novas fotografias em tamanho grande completamas páginas, acompanhadas de um trecho de texto na terceira página da reportagem, e umBox explicativo sobre as possíveis causas da loucura. O que se repete nas páginasseguintes é um maior destaque às fotografias, com maior espaço que o texto, concluído emuma página dedicada à propaganda. Um fator comum observado nessas imagens é odestaque às pessoas, retratadas em primeiro plano, ou em poses que remetem aosofrimento e à solidão do lugar onde estão, como uma em que um homem se apóia numaparede que tem a frase “Este hospício é uma sucursal do inferno”. A abordagem da duplarepresenta, como “a fotografia no Brasil se mostrou, ao longo da história recente, umaimportante linguagem no processo de conscientização e informação da sociedade [...]”(MUNTREAL;GRANDI, 2005.p.9).Essas inovações marcaram as fotorreportagens nas décadas seguintes, com valorização dafotografia, temáticas variadas, e apresentação gráfica diferenciada com fotos de diferentestamanhos. “O formato da ampliação da fotografia é importante para se ressaltar ou sediminuir a importância da notícia. Um detalhe é certo: as notícias com fotografias são maislidas” (LIMA, 1989.p.64).A partir de 1944, observou-se de forma mais clara, as sensíveis modificações em uma novaconcepção, e estruturação da fotografia como forma de exprimir na revista osacontecimentos do mundo, tornando as grandes reportagens um gênero jornalístico queexpressava as mudanças ocorridas na sociedade a partir do trabalho do fotógrafo. “OCruzeiro alterou substancialmente a vida profissional do repórter fotográfico, oferecendocondições para criação de um espaço de trabalho muito peculiar e criando assim um novo 14
  15. 15. Universidade Presbiteriana Mackenzieuniverso editorial para a fotografia de imprensa” (PEREGRINO, 1991.p.104). A revistaseguia uma linha de produção influenciada pela revista internacional Life, inaugurando umanova tendência no jornalismo brasileiro, obrigando “uma reformulação geral nas publicaçõesjá existentes obrigando-as a modernizar a estética de sua comunicação”, o fotojornalismo deO Cruzeiro criou um estilo que via o fotógrafo como “‘testemunha ocular associada à ideiade que a imagem fotográfica podia elaborar uma narrativa obre os fatos” (MAUAD,2003.p.3).A fotografia de Manzon era baseada no uso consciente da linguagem fotográfica, e suasimagens são na maioria resultados de montagens e encenações (PEREGRINO, 1991).Apesar do estilo de Manzon ter se impregnado nas reportagens produzidas pelos fotógrafosde O Cruzeiro, é possível afirmar, segundo a autora Nadja Peregrino (1991), que houve a“existência de outras duas linhas em torno das quais vai estar centrada a concepçãofotográfica jornalística da década de 50” (p.94), a primeira com ênfase na qualidade técnica,em que as fotos são produzidas em detrimento da qualidade, sem muitos momentos deflagrante (mais fiel ao usado pelo fotógrafo francês). A outra é marcada pela ruptura dosrepórteres-fotográficos, com o modelo tradicional, em que a foto tem ênfase naespontaneidade de personagens e situações, mais comum nos trabalhos de José Medeiros,mas independente dos estilos, “O mais importante no fotojornalismo é a eficiência da fotoem transmitir a informação” (MUNTREAL;GRANDI, 2005.p.10).ConclusãoO estudo buscou sintetizar a importância da revista O Cruzeiro, para o desenvolvimento dojornalismo brasileiro e principalmente do fotojornalismo, com base na mudança de seupadrão estético iniciado com a chegada do fotógrafo francês Jean Manzon, que trouxetendências das revistas internacionais, com base em sua experiência na imprensa francesa.A revista O Cruzeiro tinha os mais modernos equipamentos de impressão de sua época. “Asgrandes reportagens eram uma de suas marcas, algumas merecendo até mesmo númerosespeciais. A utilização de fotografias buscava a inovação com as primeiras fotos aéreasestampadas em folhas duplas, já em 1930” (MUNTREAL;GRANDI, 2005.p.62). Foi napublicação que os repórteres ganharam status de heróis (NETTO,1991), os fotógrafospassaram a assinar suas fotos, e profissão de repórter-fotográfico ganhou reconhecimento.As grandes reportagens da revista marcaram o jornalismo nacional, e levaram a revista arecordes de tiragem, e a tornar-se a maior revista ilustrada brasileira no século XX,chegando a 700mil exemplares, na década de 1960 e circulando por 47 anos ininterruptos(1928-1975). Essas matérias eram geralmente produzidas por duplas, de repórteres- 15
  16. 16. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011fotógrafos, onde um só fotografava, enquanto o outro só escrevia. Outra modificaçãoimplantada pelo francês, que formou a primeira dupla com o repórter David Nasser. Ambosproduziram algumas das mais famosas reportagens da história do jornalismo brasileiro, eformaram o esquadrão de outro da revista, onde outras duplas também se firmaram, ealavancaram o sucesso da publicação, principalmente entre as décadas de 1940 e 1950.O estilo da dupla ficou marcado por se iniciar com um box de texto, em tom pessoal, em tomde conversa com o leitor, antes do texto principal, e geralmente em letra maior. Asfotografias eram o foco narrativo da história, e as de página inteira iniciavam ou finalizavamas matérias. Exerciam um poder sobre seus personagens, e seu estilo era marcado por daruma dose de fantasia a realidade, com “texto atraente e fotos sensacionais” (NETTO, 1991),o que conquistou os leitores, que esperavam ansiosamente por suas matérias, as quaisproduziram juntos até 1951. Por fim, a chegada de Jean Manzon na revista significou umarevolução no padrão gráfico e fotográfico da revista, que segundo ele parecia um catálogo,até sua chegada. Por fazer questão de assinar suas fotografias, o fotógrafo abriu caminhopara a valorização do profissional de imagem nas publicações, inexistente até então. Criou odepartamento de fotografia na revista, e mudou a maneira de diagramar as fotografias, quepassaram a ter mais espaço e a ser organizadas de forma mais harmônica. O que com otempo passou a influenciar outras publicações ilustradas no país.Referências 1. ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de; CARDOSO, José Leandro Rocha. Aconteceu, virou manchete. In: Revista Brasileira de História. Vol.21. Nº41. São Paulo. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102- 01882001000200013&script=sci_arttext> Acesso em: 14 de jul. 2010. 2. ASSOCIADOS, Diários (Linha do Tempo). Disponível em: <http://www.diariosassociados.com.br/linhadotempo/abertura.html> Acesso em: 26 de out. 2009 3. BARBOSA, Marialva; O Cruzeiro: uma revista síntese de uma época da história da imprensa brasileira. 2002. (Professora Titular da Universidade Federal Fluminense/ Pós Doutorado em Comunicação pelo CRNS/LAIOS). Disponível em: <http://www.uff.br/mestcii/marial6.htm> Acesso em: 22 de out. 2009. 4. CAMARGO, Hertz Wendel de. Imagem e Seqüência: A Gramática Visual da Fotorreportagem na Revista O Cruzeiro. In: Línguas e Letras- Estudos Linguísticos. Vol.6. Nº10. 1º sem. 2005. Disponível em: <http://e- revista.unioeste.br/index.php/linguaseletras/article/.../788/669> Acesso em: 15 de jul.2010 5. CARNEIRO, Glauco; Brasil, Primeiro: História dos Diários Associados. Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1999. 16
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