Trecho de As duas faces de janeiro
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Trecho de As duas faces de janeiro

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Confira o trecho do livro, As Duas Faces do Destino, lançamento de abril da Benvirá

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Trecho de As duas faces de janeiro   Trecho de As duas faces de janeiro Document Transcript

  • Tradução Marcelo Pen PATRICIA HIGHSMITH AS DUAS FACES DE JANEIRO As duas faces de janeiro.indd 3 16/12/2013 15:24:45
  • 1 Às três e meia de uma manhã no início de janeiro, Chester MacFar- land despertou, alarmado, em seu beliche do San Gimignano, com o ruído de um arranhar. Sentou-se e viu arrastar-se diante da vigia uma parede de cor laranja-avermelhada, vivamente iluminada e extrema- mente próxima. De início, pensou que roçavam o flanco de outro navio. Pulou da cama e, ainda meio adormecido, debruçou-se sobre o leito de sua mulher, olhando mais de perto. Havia rabiscos, arra- nhões e números na parede, a qual, agora percebia, era de rocha. NIKO 1957, ele leu. W. MUSSOLINI. Então um PETE’ 60 com aspec- to americano. O despertador tocou e Chester estendeu a mão para apanhá-lo, derrubando uma garrafa de uísque que estava no chão, ao lado. Apertou o botão que interrompia o alarme, alcançando em seguida o seu roupão. — Querido? Que está havendo? — Colette perguntou com voz de sono. — Acho que estamos no canal de Corinto — Chester disse. — Ou então muito perto de outro navio. Deve ser o canal. São três e meia. Vamos ao convés? — Hum-m... não — murmurou Colette, aninhando-se ainda mais nos cobertores. — Você me conta depois. As duas faces de janeiro.indd 9 16/12/2013 15:24:45
  • Sorrindo, Chester plantou-lhe um beijo na face quente: — Vou ao convés. Volto num minuto. Assim que passou da porta para o convés, Chester encontrou o oficial que lhe dissera que passariam pelo canal às três e meia da manhã. — Sississi! Il canale, signor! — disse ele a Chester. — Obrigado! — Chester sentiu um arrepio de aventura e excita- ção, e permaneceu de pé, exposto ao vento gelado, segurando a amu- rada com as duas mãos. Não havia ninguém além dele no convés. As laterais do canal pareciam ter quatro andares de altura, pelo menos. Debruçado sobre a amurada, Chester só distinguia escuridão nas duas extremidades do canal. Era impossível calcular o compri- mento, mas ele se lembrava da medida num mapa da Grécia, uns dois centímetros e meio, que imaginou ser o equivalente a seis quilô­ metros. Produzida pelo homem, essa importante via navegável. A ideia lhe agradou. Chester olhou as marcas de brocas e picaretas, ainda visíveis na rocha alaranjada — ou seria barro endurecido? Er- gueu a vista para onde a lateral do canal se interrompia bruscamente contra a escuridão, fixando mais ao alto as estrelas que salpicavam o céu grego. Em poucas horas, avistaria Atenas. Chester sentiu vonta- de de ficar acordado o resto da noite, de pegar seu sobretudo e per- manecer no convés enquanto o navio sulcava o mar Egeu, na direção de Pireu. Ficaria cansado no dia seguinte, porém. Após alguns mi- nutos, voltou para a cabine e arrastou-se para a cama. Cerca de cinco horas mais tarde, com o San Gimignano já anco- rado em Pireu, Chester teve de abrir caminho para a amurada pela multidão de passageiros e carregadores que tinham subido a bordo para ajudar as pessoas com suas bagagens.Tomara desjejum sem pressa na cabine, preferindo aguardar até que a maioria dos passageiros tivesse saltado à terra; mas, a julgar pelo número de pessoas no con- vés e nos corredores, o desembarque nem começara. A cidade e o As duas faces de janeiro.indd 10 16/12/2013 15:24:45
  • porto de Pireu pareceram-lhe uma bagunça empoeirada. Chester fi- cou desapontado por não conseguir divisar Atenas ao longe, na névoa. Acendeu um cigarro e fitou longamente as figuras paradas e em mo- vimento sobre a imensa área da doca. Carregadores de uniforme azul. Uns poucos homens de sobretudo ligeiramente surrado andando irrequietos, dando olhadelas furtivas para o navio: pareciam mais cambistas e taxistas do que policiais, Chester pensou. Seus olhos deslocaram-se da esquerda para a direita e de volta para a esquerda, vasculhando toda a cena. Não, não podia acreditar que algum daque- les homens o estivesse esperando. A prancha de desembarque fora arriada, e, se alguém tivesse vindo até ali por sua causa, já não teria subido a bordo agora, em vez de esperar na doca? Claro. Chester lim- pou a garganta e deu uma leve tragada no cigarro. Voltou-se e viu Colette. — Grécia — ela disse sorrindo. — Sim. Grécia — segurou-lhe as mãos. Os dedos dela se abriram e então se entrelaçaram firmemente nos dele: — É melhor que eu vá buscar um carregador. Todas as malas estão fechadas? Ela fez que sim com a cabeça: — Falei com Alfonso. Ele vai levá-las. — Você deu gorjeta? — Hum-hum. Duas mil liras. Acha que está bom? — Ela arrega- lou os olhos azul-escuros. Os cílios castanho-avermelhados piscaram duas vezes. Então, conteve uma gargalhada prestes a escapar, uma gargalhada de alegria e afeição: — Você não está prestando atenção. Duas mil é o bastante? — Está perfeito, querida. — Chester beijou seus lábios rapida- mente. Alfonso surgiu com metade das malas, pousou-as no convés e voltou para pegar o restante. Chester ajudou-o a carregá-las pela prancha até a doca e logo três ou quatro carregadores começaram a discutir para ver quem as transportaria. As duas faces de janeiro.indd 11 16/12/2013 15:24:45
  • — Esperem! Por favor, esperem — disse Chester. — Dinheiro, sabem. Preciso trocar um pouco. — Ele abanou o talão de cheques de viagem e saiu apressado na direção de um guichê de câmbio pró- ximo aos portões da doca. Trocou vinte dólares. — Por favor — protestou Colette, batendo na mala para chamar a atenção. Os carregadores briguentos cruzaram os braços, afastaram- -se e esperaram, olhando para ela com ar de respeito. Colette — esse foi o nome que ela escolhera para si aos catorze anos, no lugar de Elizabeth — tinha vinte e cinco anos, um metro e sessenta, cabelo castanho-claro avermelhado, lábios carnudos, um nariz bem reto levemente salpicado de sardas, e olhos azul-escuros, quase da cor da lavanda, impressionantemente belos. Seus olhos fi- xavam-se cheios e diretos em todas as coisas e em todo mundo, como os de uma criança curiosa, inteligente e ainda em fase de aprendizado. Seu olhar costumava transpassar e encantar os homens a quem ela fitava; havia algo de especulativo nele, e quase todos, independen­ temente da idade, pensavam: “Ela me olha como se estivesse apai- xonada por mim. Será?”. A maioria das mulheres achava que sua expressão, e até mesmo a própria Colette, era bastante ingênua, in- gênua demais para ser perigosa; o que era bom, porque, de outra forma, elas poderiam sentir ciúmes ou ter receio de sua beleza. Colette casara-se com Chester fazia pouco mais de um ano. Conhecera-o ao responder a um anúncio que ele tinha posto no Times procurando uma secretária e datilógrafa para trabalhar meio período. Não de- morou mais do que dois dias para perceber que o negócio de Chester não era exatamente honesto — que corretor operava de seu aparta- mento e não de um escritório, e, afinal, onde estavam suas ações na Bolsa de Valores? —, mas ele tinha muito charme; seguramente tinha muito dinheiro e é claro que o dinheiro entrava sem parar, o que sig- nificava que não estava encrencado. Chester fora casado durante oito anos com uma mulher que morrera de câncer dois anos antes de As duas faces de janeiro.indd 12 16/12/2013 15:24:45
  • Colette o conhecer. Tinha quarenta e dois anos, ainda era bonito, um pouco grisalho nas têmporas, e apresentava uma ligeira tendência para adquirir uma barriguinha, mas Colette tinha uma pequena ten- dência para ganhar peso e fazer dieta não era novidade. Sabia plane- jar menus tão saborosos quanto de baixa caloria. — Aqui vamos nós — Chester anunciou, sacudindo uma porção de notas de dracmas. — Escolha um táxi, docinho. Havia meia dúzia de carros à disposição, e Colette deu preferência ao que pertencia a um motorista de sorriso amistoso. Três carrega- dores os ajudaram a pôr no táxi as sete malas, duas das quais foram colocadas no bagageiro, e assim partiram para Atenas. Chester sentou- -se com o corpo para a frente, procurando enxergar o Partenon em sua colina ou outro ponto turístico qualquer que pudesse despontar diante do céu azul-claro. Então se pegou olhando para um Walkie Kar imaginário, tão grande quanto Atenas, vermelho e cromado, com seus horrendos guidões de borracha e seu feio assento de segurança em forma de taça. Chester estremeceu. Que estupidez, que risco inútil e idiota tinha sido aquele! Colette também lhe dissera o mesmo. Ela ficara um pouco zangada quando tinha descoberto, e com toda a razão. O Walkie Kar surgira da seguinte forma: numa gráfica onde mandara fazer alguns cartões de visita, Chester notou uma pilha de panfletos anunciando o Walkie Kar. Havia uma foto dele, uma descri­ção, o preço, doze dólares e noventa e cinco centavos, e, em- baixo, um cartão de pedido que podia ser destacado na linha per­ furada. O tipógrafo rira quando Chester pegou uma das folhas e a examinou. A empresa havia falido, o homem explicara, sem ao menos pagar o trabalho da gráfica. Não, o homem não se importava nem um pouco se Chester levasse alguns dos folhetos, pois ia jogá-los fora, de qualquer modo. Chester dissera que queria mandá-los, como uma piada, para seus amigos beberrões, e, no início, isso era tudo o que queria fazer; e então algo — tentação, bravata, senso de humor? — As duas faces de janeiro.indd 13 16/12/2013 15:24:45
  • o impelira a tentar comercializar aquelas coisas imbecis e, tocando campainhas e usando a velha lábia, vendera mais de oitocentos dóla- res, a maior parte para moradores do Bronx. Então, topou com um dos compradores bem diante do prédio em Manhattan e, para piorar, no momento em que abria sua própria caixa de correio. O homem declarou não ter recebido o Walkie Kar, apesar de ter feito o pedido e pago o produto dois meses antes, e que o Walkie Kar de um vizinho também não fora entregue. Chester sabia por experiência que, quando isso ocorria com duas pessoas que se conheciam, elas se uniam para tomar uma atitude; e, como o homem dera uma boa olhada em seu nome na caixa do correio, calculou que devia sair do país por uns tempos, o que seria melhor do que mudar para outro apartamento e trocar seu nome de novo. Colette estava querendo ir à Europa e eles planejavam viajar na primavera, mas o incidente com o Walkie Kar os obrigara a antecipar os planos em quatro meses. Saíram de Nova York em dezembro. Sim, Colette o repreendera com bastante seve­ ridade pelo episódio do Walkie Kar, e também ficara irritada pelo fato de o tempo não ser tão agradável no inverno quanto na primavera, e estava certa, é claro. Chester a presenteara com um novo conjunto de malas e um casaco de vison para compensá-la pelo aborrecimento, e queria fazer todo o possível para que ela tivesse uma viagem feliz. Era a primeira viagem de Colette para a Europa. Até o momento, ela gostara mais de Londres e, para surpresa de Chester, mais de Londres do que de Paris. Chovera mais em Paris do que em Londres; Chester pegara um resfriado; e lembrou-se de que, toda vez que seus pés ficaram molhados ou sentira a chuva escorrendo pela nuca, havia pensado no maldito Walkie Kar, ocorrendo-lhe que, por causa da mísera quantia que obtivera no negócio, podia ter feito, poderia ain- da fazer Howard Cheever (seu codinome atual e aquele que estava estam­pado na caixa de correio do seu edifício) passar por uma in- vestigação completa, o que podia significar o fim de meia dúzia de As duas faces de janeiro.indd 14 16/12/2013 15:24:45
  • empresas de cuja venda de ações ele dependia para viver. A Europa era mais segura que os Estados Unidos e fazia quinze anos que não usava seu nome verdadeiro, Chester MacFarland; mas ele havia come- tido, entre outros delitos, o de fraude postal, um dos poucos crimes pelos quais o governo americano podia solicitar a extradição de uma pessoa. Havia a remota possibilidade de mandarem um homem em seu encalço, se porventura fizessem a ligação entre Cheever e Mac­ Farland. O taxista voltou o rosto e perguntou-lhe alguma coisa em grego. — Desculpe. Não capíchi — Chester respondeu. — A praça prin­ cipal, ok? O centro da cidade. — Grande Bretagne? — perguntou o motorista. — Bom... Não tenho muita certeza — disse Chester. O Grande Bretagne era sem dúvida o maior e o melhor hotel de Atenas, mas, pela mesma razão, ele sentia que ficar ali podia ser perigoso. — Va- mos ver — acrescentou, embora não achasse que o motorista tivesse entendido. — Ali está — disse para Colette. — Aquele prédio bran- co lá adiante. O edifício branco do Grande Bretagne tinha um ar formal e antis- séptico, que contrastava com os prédios e lojas menos altos e mais sujos ao redor do retângulo da praça da Constituição. Havia uma espécie de palácio governamental adiante, à direita, com uma bandei- ra grega tremulando sobre um mastro fincado no chão e um par de soldados de saia e meias brancas montando guarda perto das portas. — E aquele hotel? — Chester perguntou, apontando. — O King’s Palace. Parece bastante bom, não acha, querida? — Ok. Claro. — Colette respondeu, amistosa. O Hotel King’s Palace ficava em frente de um dos lados do Gran- de Bretagne. Um mensageiro de casaco vermelho e calças pretas saiu para a calçada a fim de ajudar com a bagagem. O saguão parecia de primeira classe para Chester, talvez não de luxo, mas de primeira As duas faces de janeiro.indd 15 16/12/2013 15:24:45
  • classe. O carpete era grosso e, a julgar pelo calor, o aquecimento central realmente funcionava. — O senhor fez reserva? — perguntou o recepcionista atrás do balcão. — Não, não fizemos, mas gostaríamos de um quarto com ba- nheira e uma bela vista — Chester respondeu, sorrindo. — Sim, senhor. — O recepcionista apertou uma campainha e então entregou uma chave ao funcionário uniformizado que apa­ receu: — Mostre para eles o 621, por favor. Posso ficar com os passa- portes, senhor? Poderá pegá-los quando descer. Chester apanhou o que Colette extraiu do invólucro de couro vermelho da bolsa, tirou o seu de dentro do bolso interno do sobre- tudo e empurrou-os sobre o balcão para o funcionário. Sempre sen- tia um pequeno choque mental, um ligeiro desconforto, como o que sofria quando o médico lhe pedia para tirar a roupa, todas as vezes que depositava o passaporte no balcão de um hotel ou um inspetor da alfândega o tirava de suas mãos. Chester Crighton MacFarland, um metro e setenta e oito, nascido em 1922 em Sacramento, Cali- fórnia, sem sinais visíveis, esposa Elizabeth Talbott MacFarland. Sen- tia-se exposto. Pior, seu retrato, fato incomum em uma fotografia de passaporte, guardava uma semelhança muito boa com ele, mostrando cabelos castanhos já um pouco escassos, mandíbulas agressivas, nariz de tamanho razoável, uma boca de feição obstinada, com lábios fi- nos e um bigode no alto — um excelente retrato, que descrevia tudo, exceto a cor de seus penetrantes olhos azuis e o rubor de suas boche- chas. Será que ao recepcionista ou ao inspetor, Chester sempre pen- sava, essa mesma fotografia já não teria sido mostrada, com o pedido para que ficassem de olho nele? Aquele não era o momento de des- cobrir isso, pois o funcionário deixou de lado os passaportes sem abri-los. As duas faces de janeiro.indd 16 16/12/2013 15:24:45
  • Alguns minutos depois, estavam confortavelmente instalados num quarto amplo e aquecido, com vista para as sacadas brancas e guar- necidas de gerânios do Grande Bretagne e para uma avenida movi- mentada seis andares abaixo, que Chester identificou em seu mapa de Atenas como sendo a rua Venizelos. Eram apenas dez horas da manhã. O dia inteiro estendia-se diante deles. As duas faces de janeiro.indd 17 16/12/2013 15:24:45