Trecho de O ladrão de crianças
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Trecho de O ladrão de crianças

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Confira o trecho do lançamento de abril da Benvirá, O Ladrão de Crianças

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Trecho de O ladrão de crianças Document Transcript

  • 1. Tradução Santiago Nazarian
  • 2. PARTE I Peter
  • 3. C a p í t u l o 1 Ladrão de crianças Num canto do Parque Prospect, no bairro do Brooklyn, em Nova York, um ladrão se escondia entre as árvores. Não estava buscando uma bolsa largada, um celular ou uma câmera. Esse ladrão procurava uma criança. Ao pôr do sol de um dia do início do outono, por entre as folhas caindo, o ladrão de crianças espreitava das sombras as crianças brincarem. Elas escalavam a tartaruga verde gigante, desciam pelo escorregador amarelo, riam, gritavam, provocavam-se e corriam atrás umas das outras sem parar. Mas o ladrão de crian- ças não estava interessado nesses rostos felizes, não estava tentando roubar uma criança qualquer. Tinha um interesse particular. Buscava um rosto triste, solitá- rio… ou uma criança perdida. E quanto mais velha fosse, melhor; de preferência uma criança de treze ou catorze anos, porque crianças mais velhas são mais fortes, mais resistentes e tendem a viver mais tempo. O ladrão sabia que a Mãe Sorte lhe sorrira trazendo a menina. Ela fora uma boa aquisição, azar do pai dela. Ele sorriu, lembrando-se da cara engraçada que o homem fez quando a faca entrara em seu peito. Mas onde estava a Mãe Sorte agora? Ele estava caçando havia dois dias. E nada. Chegara perto de um menino na noite anterior, mas não perto o bastante. Com uma careta, o ladrão se lembrou de que tinha de ir com calma, tinha de primeiro fazer amizade com eles, conquistar- -lhes a confiança, porque não se consegue roubar uma criança sem antes ter a confiança dela.
  • 4. Talvez a Mãe Sorte estivesse com ele naquela noite. O ladrão de crianças des- cobriu que os parques eram bons campos para a caça. Crianças perdidas e fugitivas frequentemente acampavam entre os arbustos, usavam os banheiros públicos para lavar-se e estavam sempre procurando amigos. Enquanto o sol escondia-se lentamente atrás da paisagem urbana, as sombras co- meçavam a insinuar-se — assim como o ladrão, que aguardava sua deixa, esperando a escuridão descer para escolher a vítima. Nick avançou para a entrada do galpão, apertou-se contra a porta de aço, com a respiração pesada e rápida. Encostou o rosto no metal frio e fechou os olhos. — Merda — disse. — Estou fodido. Bem fodido. Aos catorze anos, Nick era magro e um pouco baixo para a idade. Uma franja escura escorria-lhe pelo rosto estreito, enfatizando a palidez. Ele precisava cortar o cabelo, mas ultimamente essa era a última coisa a ocupar sua mente. Nick jogou a mochila no chão, afastou a franja dos olhos e arregaçou cuidado- samente uma manga da jaqueta de brim preta. Olhou para as queimaduras na parte interna do antebraço e fez uma careta. As furiosas marcas vermelhas que lhe cruza- vam a pele formando cruelmente a letra N. Ele tentava afastar da mente o pesadelo, que lhe voltava em lampejos veementes: os homens segurando-o contra o chão — o chão de sua própria cozinha. O cheiro azedo, rançoso, da esponja da pia sendo enfiada em sua boca. Marko, grande, de pescoço largo, rindo com um sorriso bestial enquanto esquentava o cabide no fogão. O arame se incandescendo e se avermelhando, e então… a dor, uma dor vermelha e pungente. Deus, o cheiro, mas, pior, o som; ele nunca se esqueceria do som de sua própria pele chiando. Tentou gritar, mas só conseguiu engasgar com aquela esponja arenosa enquanto eles riam. Marko bem perto de seu rosto. Marko com a longa barba desgrenhada no queixo e os olhos injetados. — Quer saber o que significa o N? — cuspiu ele. — Hein, seu cuzão? É de Narcóticos. Você conta mais alguma coisa, e eu gravo a palavra inteira na sua língua. Entendeu, seu bostinha? Nick abriu os olhos. — Preciso continuar. — Ele pegou a mochila e abriu o zíper. Dentro havia batatinhas, pão, um pote de pasta de amendoim, um canivete, duas latas de refri- gerante, um pé de coelho azul num cordão de couro e cerca de 30 mil dólares em metanfetamina. Buscou entre as centenas de sacos plásticos transparentes até encontrar o pé de coelho. O amuleto fora um presente do pai, a única coisa que Nick tinha dele agora. Nick o beijou e depois o colocou no pescoço. Precisava de toda a sorte do mundo aquela noite.
  • 5. Afastou-se da entrada, relanceando a avenida movimentada em busca de uma van verde detonada. Ele esperava que um congestionamento diminuísse o fluxo de veículos, ajudando-o assim a chegar vivo ao metrô, mas o trânsito não colaborava. O dia se esva- necia, e logo a van seria só mais um par de luzes brilhando no escuro. Nick colocou a mochila nos ombros e alcançou a calçada, ziguezagueando pela estreita passagem de pedestres e avançando rapidamente no quarteirão. O vento soprou mais forte, as pessoas mantinham as golas levantadas e os olhos baixos. Nick levantou a gola também, contornou um grupo de idosos na frente de um restaurante italiano e tentou perder-se entre o estreito fluxo de trabalhadores voltando para a casa. Você fodeu com tudo, Nickyzinho, pensou. Fodeu feio. Ainda assim, parte dele estava feliz, daria tudo para ver o rosto daqueles filhos da puta quando descobrissem que o estoque se fora. Levaria um bom tempo até Marko poder voltar ao negócio. Uma buzina soou atrás dele. Nick se virou, sobressaltado. Mas não havia van verde, era só um carro em fila dupla. Ele viu as árvores e sentiu uma onda de alívio. O Parque Prospect a apenas um quarteirão dali. Seria difícil alguém avistá-lo entre as árvores. Ele poderia cortar caminho pelo parque e sair na estação de metrô. Nick seguiu correndo. As sombras se torciam e se misturavam, camada após camada, até que a escuridão tomou conta do playground. Uma a uma, as lâmpadas de vapor de sódio chiaram, acendendo seu brilho amarelo tremeluzente e espalhando sombras fantasmagóricas pelo parque. Os pais haviam partido agora, e o playground estava vazio. Latas de lixo, trans- bordantes de garrafas vazias de refrigerante e fraldas sujas, permaneciam como sentinelas solitárias ao som longínquo do trânsito e ao pulsar constante de algum aparelho de som ecoando no solo. O ladrão de crianças viu o menino correr até o parque, viu-o de longe, vislum- brando-lhe o rosto quando ele passava sob os cones de luz amarela. O ladrão viu medo, confusão, e sorriu. O que trouxera aquela criança até ali: abuso, descuido, desobediência?Tudo isso, talvez? Para o ladrão realmente não importava. Tudo o que importava era que algo fizera o menino deixar seu lar para trás e aventurar-se na noite sozinho, um fugido. E, como tantos fugidos, esse garoto não sabia para onde fugir. Não se preocupe, pensou o ladrão de crianças. Tenho um lugar para você. Um lugar onde podemos brincar. E seus olhos dourados brilharam, e seu sorriso se alargou. Nick passou por um jovem casal que saía do parque, rindo agarrado como gêmeos siameses. Contornou um homem com um cachorro — um tipo de poodle grande —, que lançou a Nick um olhar envergonhado enquanto fazia as necessidades.
  • 6. O homem olhava entediado para o celular enquanto mandava mensagens de texto, parecendo não importar-se com o fato de seu cachorro estar plantando minas ter- restres num passeio público. Nick notou um grupo de jovens à frente. Estavam cruzando o parque, gri- tando e fazendo alvoroço. Pareciam ser encrenca, e Nick não precisava se envolver em mais uma. Ele saiu do caminho e entrou no meio das árvores. Abriu caminho numa densa fileira de arbustos e saltou uma vala larga. Seu pé acertou um pedaço escorregadio de papelão, e ele se desequilibrou, aterrissando em algo macio. A coisa macia se moveu. — Ei! — Um grito abafado emergiu debaixo dele. A coisa macia era um saco de dormir, desgastado e ensebado, como se tivesse sido arrastado pelo esgoto. A pessoa era uma mulher, com aspecto não era muito melhor que o do saco — o borrão vermelho-cereja sobre camadas de maquiagem incapazes de esconder a devastação das ruas. Nick pensou que ela teria sido bonita no passado, mas agora o cabelo emaranhado, os olhos fundos e o rosto encavado lembravam um cadáver. Ela se virou e sentou, deu uma boa olhada em Nick e sorriu. De um saco de dormir próximo, surgiu a cabeça de um homem careca com uma longa barba grisalha. — Quem é esse? Nick percebeu então que havia vários outros sacos de dormir em meio aos arbustos, junto a caixas de papelão, lonas plásticas azuis e um carrinho de super- mercado cheio de sacos de lixo. — É só um menino — disse a mulher. — Uma coisinha linda. Nick rolou para longe dela. Quando tentou levantar-se, ela o agarrou com a mão dura e ossuda, fechando-a ao redor de seu pulso. Nick deixou escapar um grito e tentou soltar-se. — Aonde está indo, queridinho? — perguntou a mulher. — Está procurando alguma coisa, guri? — disse o homem, levantando-se, cambaleante. Outras cabeças começaram a espiar de dentro dos sacos de dormir e de sob as caixas, os olhos turvos e opacos todos em Nick. — Claro que ele está procurando alguma coisa — disse a mulher, dando um sorriso perverso. — Dez contos, querido, e chupo você todinho. Tem dez contos? Nick olhou para ela, horrorizado. O velho rosnou e deixou uma risadinha escapar. — É um belo acordo, moleque. Acredite em mim. Ela vai fazer seu trem apitar. Vários homens riram, assentindo. Nick balançou a cabeça rapidamente e tentou girar o braço. Mas a mulher o segurava firme.
  • 7. — Cinco contos, então? — disse ela. — Cinco contos para acender seu fogue- tinho. O que me diz? Nick avistou dois homens se movendo atrás deles; pareciam famintos, olhando para ele como se fosse um prato de comida. — Me solte! — implorou Nick, tentando abrir os dedos dela. — Por favor, moça. Por favor, me solte. — Você é que está perdendo — grasnou ela, soltando-o e fazendo-o cair dire- tamente sobre um dos homens. O homem agarrou Nick pelo cabelo e o girou, com uma das mãos em sua mochila. Nick gritou e se debateu, sentindo um tufo de cabelo sair na mão do homem, mas isso não importava, desde que mantivesse a mochila consigo. A mo- chila era tudo o que importava, tudo o que ele queria agora. Ele a apertou com muita força contra o peito, cambaleou, levantou-se e saiu do meio dos arbustos em disparada, a risada fantasmagórica deles ecoando atrás. Não parou até a vala estar bem fora de vista. Encontrou um playground e desmoronou contra uma grande tartaruga sorridente, tentando recuperar o fôlego e controlar as emoções. Numa vala, pensou. É lá que vou dormir esta noite? E na próxima noite? Com caras bizarros como aqueles à minha volta. Deixou a mochila cair a seus pés, o coração ainda acelerado. Buscou a sombra das árvores, certificando-se de que ninguém o estava seguindo, antes de tirar um maço de notas do bolso e contá-las rapidamente. Cinquenta e seis dólares. Até onde isso me leva? Levantou a mochila. Não, não é tudo. Assim que encontrar um traficante, terei todo o dinheiro de que preciso. Claro que ele ainda não pensara direito nessa parte do plano: como um menino de catorze anos faria uma grande venda de drogas? Posso fazer isso, assegurou-se. Só tenho de ser esperto. Vou levar para… levar… para onde? — Merda — falou. Então disse a si mesmo que por ora tudo o que impor- tava era chegar ao metrô e sair dali. E depois? Bem? Olhou na direção dos arbus- tos, percebendo que não tinha um saco de dormir. Isso o fez perguntar-se se sua mãe não estaria certa. Talvez tivesse sido melhor ficar longe de Marko. Assim, ainda teria um lugar para dormir e algo para comer. Ele arregaçou as mangas e olhou para a queimadura no braço, e a terrível risada de Marko voltou-lhe à mente, os olhos raivosos, vermelhos. Não, pensou Nick. Isso era culpa dela. Tudo isso. Foi ela quem deixou aqueles sanguessugas entrar na casa da vovó, para começo de conversa. Nada disso teria acontecido se ela não tivesse sido tão egoísta. Sentiu as lágrimas vindo e enxugou os olhos com raiva. — Merda — disse ele. — Merda. O som de uma pisada veio das árvores. Nick se virou esperando ver Marko, ou talvez a mulher-vampiro de lábios pintados. Mas não havia nada lá além das árvores e luzes amarelas. Ele deu uma olhada. Não havia sinal de ninguém: o parque se tornara sinistramente vazio.
  • 8. Ele captou movimentos com o canto do olho. Uma sombra do tamanho de um menino subiu por uma árvore e desapareceu no meio dos galhos. — Que diabos…? — murmurou Nick, concluindo que não queria mesmo saber. Ele se virou e correu para a rua. Nick saiu do parque bem ao lado da estação do metrô. Esperou o trânsito melho- rar, então avançou pela rua. Deu três passos largos e parou. — Merda! — disse. Encostado na escada da estação estava Bennie, um dos meninos de Marko, um dos doze moleques que distribuíam droga para ele. Um arrepio subiu-lhe pela espinha. Bennie sabe o que aconteceu? Bennie estava com o telefone na orelha. Claro que sabe. Uma buzina tocou, o que o fez lembrar-se de que estava na rua. Nick se virou e saltou de volta para a calçada. Baixou a cabeça e continuou em frente, voltando para o parque. Não corra, disse a si mesmo. Ele não viu você. Continue andando. Fique frio. Arriscou uma olhadela para trás enquanto se embrenhava entre as ár- vores. Bennie sumira. Nick sabia que, se Bennie o tivesse visto, teria ligado para todo mundo, e então todos estariam procurando por ele. Deus, pensou ele, o que vou fazer? Entrou mais fundo no parque, virando-se de vez em quando para olhar para trás. Não posso ficar no parque para sempre. — E aí, o que tá pegando? Nick deixou escapar um grito quando alguém surgiu na frente dele numa bi- cicleta BMX turbinada, bloqueando o caminho. O garoto vesgo era um pouco mais velho do que Nick. Usava um casaco pelo menos dois tamanhos maior que o ideal e calças largas quase caindo. Seu cabelo loiro cheio de trancinhas saia por debaixo de um boné de um time de basebol. Ele se inclinou para trás no selim e deixou uma careta zombeteira atravessar-lhe o rosto. O coração de Nick começou a bater acelerado. Será um dos garotos do Marko? Com certeza parece com um daqueles idiotas. O garoto de cabelo de taturana coçou as espinhas no queixo e se encostou no guidão. — Ei, mano, tem um trocado? Nick relaxou um pouco. Era só outro idiota tentando assustá-lo. Por que acre- ditar que todos os moleques da região estavam procurando por ele? Quando Nick não respondeu, o cabeça de taturana suspirou, tirou um pedaço de chiclete da boca e o grudou no guidão. Lançou a Nick um olhar melancólico, que dizia: “Vamos logo ao que interessa”. Nick lidava com idiotas assim todo dia — uma pequena humilhação, um pequeno abuso físico à custa de seu respeito próprio —; a diversão nunca acabava
  • 9. por ali. Mas Nick não tinha tempo para brincar agora. Precisava sair dali. Pensou em pegar apenas algumas notas, então talvez conseguisse escapar, pelo menos, com a mochila. Mas até onde poderia ir sem grana? — Ei, noia, estou falando com você! — disse o moleque, num tom que indi- cava claramente que o velho Nick estava abusando da paciência dele. Nick se perguntou se aquele aprendiz de malandro enfiaria um ei, mano, noia ou bro em cada frase. — Ei, bro — disse o moleque. — Está surdo? — E estalou os dedos na cara do outro. Nick estremeceu e deu um passo para trás. — Mano, olha só você se borrando todo de medo — disse o moleque, fun- gando. — Fica tranquilo, só estou aloprando. Nick conseguiu dar um risinho forçado e imediatamente se odiou por isso. A única coisa pior do que ser feito de trouxa era agir como se tivesse curtido a piada. Nesse caso, a risada era o passo errado. Nick não estava na escola. Estava sozinho num parque, e aquela risadinha fraca disse ao moleque que Nick não era um luta- dor, e sim uma presa. A voz do moleque baixou, fria e séria. — Quanto dinheiro você tem? O tom assustou Nick; soava perverso, como se o moleque pudesse realmente ultrapassar os limites e machucá-lo. — Estou aqui com meu irmão mais velho — disse Nick, tentando soar desco- lado, como se tivesse mesmo um irmão mais velho que cuidasse dele. O moleque nem se importou em olhar ao redor. Ficou sentado lá com os braços cruzados no peito e um olhar de não-venha-com-essa-pra-cima-de-mim. — Ele acabou de se enfiar entre aquelas árvores ali — disse Nick, apontando para o bosque escuro. — Para mijar. Vai voltar a qualquer minuto. Não havia nenhum irmão mais velho se aliviando no meio das árvores, claro, mas se um dos dois tivesse olhado poderia ver uma sombra com olhos dourados à espreita no meio dos galhos do grande carvalho. O moleque balançou a cabeça lentamente. — Poooooorra! — Deixou a exclamação deslizar como um longo e decepcio- nado suspiro, como se perguntasse a Nick por que ele estava mentindo para um cara bacana como ele. — Ei, o que tem nessa mochila? Os dedos de Nick se apertaram mais ao redor das alças. Ele tirou a franja dos olhos e buscou um lugar por onde fugir. — Ei — disse o moleque, olhando Nick com cuidado. — Não conheço você? O sangue de Nick gelou. — Claro. Você mora na casa do Marko.
  • 10. Só que aquela não era a casa de Marko, Nick quis gritar. Era a casa de sua avó. Marko deveria ser um inquilino, mas ele e seus amigos haviam tomado o lugar, e a mãe de Nick, sua maldita mãe, não fazia merda nenhuma em relação a isso. — Sim — disse o moleque. — Você é o nerd que vive no andar de cima com a mamãe, aquele que nunca sai do quarto. Marko diz que você é boiola ou algo assim. Se por nerd ele queria dizer que Nick não puxava o saco dos metidinhos da rua, não coçava o saco e não chamava as meninas de vadias, não usava calça ex- tragrande e não fingia ser um marginal, então, sim, Nick tinha de concordar. Mas havia mais nisso, e Nick sabia. Mesmo lá em Fort Bragg, antes de mudar, ele tivera problema em enturmar-se. Mas ali no Brooklyn, onde nerd era um termo cari- nhoso se comparado com o que a maioria dos moleques o chamava, ele começara a sentir-se como um leproso, como se tivesse vindo de outro planeta. Recentemente, desistira de vez de fazer amigos e decerto passara muito tempo no quarto lendo, desenhando, jogando videogame e fazendo qualquer coisa que pudesse para evitar idiotas como aquele. — Ei, você viu o Bennie? — Quem? — perguntou Nick, dando outro passo para trás. — Como assim? O Bennie. Noia, ele está toda hora na sua casa. Você viu ele? Nick balançou a cabeça e deu outro passo para trás, mas o garoto avançou com a bicicleta. — Olha, preciso ir — disse Nick. — Hum… tenho que fazer um favorzinho pro Marko, sabe? — O quê? Marko? Está fazendo corridas pro Marko agora? Até parece. — Nada de mais — acrescentou Nick rapidamente. — Só uma entrega. — Ah, claro. — A voz do moleque de repente ficou cordial, como se não esti- vesse prestes a dar uma surra em Nick. — Bennie falou de mim pra ele. Disse que o Marko pode me dar um serviço logo também. — Então, pensando melhor: — Bro, sabe que eu só tava de zoeira, né? Tá tudo tranquilo, certo? — Claro — disse Nick, e se obrigou a sorrir; faria qualquer coisa para sair dali. — Então tá. — Ele foi em direção ao playground. — Ei — gritou o garoto para ele. — Quando encontrar o Marko, dá um alô do mano Jake. É exatamente o que vou fazer, pensou Nick. Quando ele estiver queimando mi- nha língua com ferro quente. Com certeza, vou dizer que o Jake mandou um alô. O telefone de Jake tocou. Nick sabia que era Bennie, sabia até antes de Jake atender. Nick andou mais rápido. O garoto pegou o telefone e atendeu. — Ei. Quê? Mano, você disse “no parque”? Quê? Sem chance. Ele fez o quê? Não viaja. Tá zoando.
  • 11. Nick pegou o garoto olhando em sua direção. — Vou fazer ainda melhor — disse o moleque. — Não, cara, quero dizer que tenho exatamente o que você procura. O coração de Nick saltou pela garganta. — Sim, é isso que quero dizer. Tá, tudo bem. Na tartaruga. Sabe, aquela porra verde de escalar no playground. — Ele olhou para Nick de novo. — Não se preocupe, ele não vai… Nick saiu correndo. Se conseguisse chegar até as árvores, poderia esconder-se entre os arbustos, daí talvez tivesse uma chance. Correu tanto que nem ouviu a bicicleta vindo para cima dele. O moleque lhe deu um chute ao passar voando. Nick perdeu o equilíbrio e deslizou pela calçada, com o concreto esfolando-lhe a palma das mãos. Deixou escapar um grito e tentou levantar-se, mas Jake estava lá e o chutou de novo. Nick escutou passos na calçada, e dois meninos vieram correndo. — Ei! Ei! Jake! — gritou um dos dois. Era Bennie. — Mano, viu esse chute? — gritou Jake, a voz carregada de empolgação. — Viu isso? Sou a porra do Steven Seagal. — Ele agarrou os próprios testículos com uma mão e estalou os dedos enquanto mordia o lábio inferior e balançava a ca- beça. — Ninguém se mete com Jake, o Cobra. E aí, Bennie? — Jake estendeu o punho. — Toca aqui. Bennie olhou com pena para Jake e deixou o punho dele esperando no ar. Para Nick, lançou um olhar frio que dizia que ele, Bennie, não bancaria o retardado como o outro fizera. Bennie era grande. Pelo que Nick sabia, fora jogador de futebol americano na escola secundária Lincoln antes de ser expulso por ter atacado o professor de mate- mática — diziam que arrancara os olhos do cara com um lápis. Bennie tinha mãos grandes e grossas como as raízes de uma árvore, o tipo de mão que podia derrubar quarteirões, e uma sobrancelha inteiriça e espessa sobre os olhos pequenos. Eram olhos frios — não maus, apenas frios —, como se não tivessem sentimentos. Bennie olhou para Nick, deixando seus olhos frios penetrar no outro. Final- mente, disse: — Cara, se eu tivesse de escolher a pessoa que eu menos queria ser no mundo agora, essa seria você. — Pode crer! — acrescentou Jake, e se voltou para o terceiro moleque, um cara parrudo de braços grossos e ombros caídos. — Ei, Freddie. Saca só os sapatos dele. Nem morto eu calçaria esses sapatos de bichinha. — Sapatos de bicha da porra — soltou Freddie, num sotaque tão carregado do Brooklyn que soava como se sua boca estivesse cheia de bolinhas de gude. Ele chutou a sola do sapato de Nick.
  • 12. Eles estavam se referindo à imitação de Converse verde-gnomo. Nick nem levou a mal — ninguém odiava mais aqueles sapatos do que ele. Eram do tipo encontrado em vendas de ponta de estoque. Ele crescera demais para continuar usando o Vans verde — o melhor par de tênis de skate que já tivera. Pouco antes de se mudarem, o tênis havia ficado pequeno. Pedira um par novo para a mãe, e ela trouxera com essa maravilha. Quando Nick perguntou como andaria de skate com aquele troço, se ela esperava que ele usasse aquilo na escola e se ela era a mais vagabunda de toda a Nova York, ela o chamou de pivete mimado e saiu da sala. Claro, o skate desaparecera pouco depois de Marko ter se mudado para lá, então essa parte realmente não importava, mas ser ridicularizado na escola todo dia não o ajudava a se enturmar. Bennie abriu o celular e apertou a rediscagem. Puxou o capuz do agasalho e coçou o topo da cabeça por cima do gorro preto. — Ei, Marko, diz aí, quem é o cara? Isso mesmo. Não, sem brincadeira. Claro que peguei o moleque. O mané foi direto para o metrô, como você disse. Estamos no parque. Sei lá. — Bennie olhou ao redor. — Perto do playground. Não, esse não, aquele com a porra da tartaruga. A gente espera. Não se preocupe. Esse puti- nho não vai a lugar nenhum. Bennie fechou o telefone. — Checa a mochila dele. Freddie agarrou a mochila. Nick a puxou e ficou de pé, mas Freddie o segurou antes que ele desse meio passo, prendendo-o numa dolorosa chave de braço. Bennie puxou a mochila das mãos de Nick. — Quer saber o que tem aqui? — disse ele, sarcástico, e abriu a mochila. Deixou escapar um assobio e mostrou-a a Jake e Freddie. Os olhos deles ficaram esbugalhados. — Porra! Isso deve valer cem mil! — exclamou Freddie. Jake olhou para Nick, espantado. — Mané, o Marko vai cortar você em pedacinhos e dar para os peixes comerem. Nick torceu um braço e tentou soltar-se, começou a gritar com toda a força dos pulmões. Bennie o acertou. Foi como se uma lâmpada em sua cabeça se apa- gasse. Nick começou a gritar de novo quando Bennie o acertou no estômago, fazendo com que ele se curvasse. Bennie o agarrou pelo cabelo e se inclinou para perto do rosto dele. — Quer correr? — Bennie riu e então agarrou as laterais da calça de Nick, puxando-a para baixo até os tornozelos. — Vai, corre. Nick tossiu e ofegou, tentando recuperar o fôlego. — Solta o cara — disse Bennie. Freddie o soltou.
  • 13. Nick agarrou a barriga de Freddie e quase caiu. — Vai, bichinha — disse Bennie. — O que está esperando? Cai fora. Jake e Freddie fungaram. Bennie o empurrou. Nick tropeçou, cambaleou, mas conseguiu manter-se de pé, apesar da calça enrolada nos tornozelos. Freddie e Jake rolavam de rir. Então Bennie empurrou Nick com o ombro. Seus pés se enroscaram, e Nick foi ao chão. — Chequem a calça e a cueca dele — disse Bennie. — A bichinha provavel- mente enfiou o troço no cu. Freddie revistou Nick. Enfiou a mão em seu bolso e tirou o maço de notas. — Dia de pagamento! — Me dá isso — disse Bennie, pegando as notas. — É dinheiro do Marko. Bennie se inclinou para Nick, tão perto que este pôde ver manchas de molho de tomate no canto de sua boca. — Marko disse que está trazendo as ferramentas. Disse que vai ser um show de horrores. Adoro shows de horrores. E você? O galho acima deles balançou, e folhas caíram. Seguiu-se um barulho suave de queda. Nick e Freddie o enxergaram primeiro. Quando Bennie e Jake viram a cara deles, ambos se viraram. Um garoto, não muito mais alto que Nick, estava parado no caminho. Vestia uma espécie de calça de couro costurada à mão e botas pontudas pespontadas e presas por cadarços. Também usava uma espécie de fraque esfarrapado, de estilo antiquado, um moletom com capuz preto por baixo e uma sacolinha de couro, quase uma bolsinha, presa ao peito. O garoto tirou o capuz, revelando o cabelo que descia até o ombro, desgrenhado e coberto de folhas e gravetos. Sardas dançavam em suas bochechas e no nariz. As orelhas do garoto eram, bem, meio pontudas, como as de Spock, como as de um duende de Papai Noel, mas o mais estranho eram os olhos, de um dourado vivo. O garoto pôs as mãos na cintura, e um sorriso largo iluminou-lhe o rosto. — Meu nome é Peter. Posso brincar também? O ladrão de crianças observou os adolescentes, certificando-se de manter o sorriso, de esconder o desdém. Tenho de ser astuto, pensou. Não quero estragar a diversão. Olhou para as expressões embasbacadas dos três adolescentes e pensou: São ce- gos. Cegos como uma ostra. Há magia por todo lado, e eles não veem uma pitada disso. Como era possível? Poucos anos antes, talvez até poucos meses antes, eles eram crianças, mentes e corpos cheios de magia, abertos e vivos para todos os encan- tamentos que dançassem ao redor deles. Agora olhe para eles; uns porras miseráveis
  • 14. exibidinhos que vão passar o resto da vida tentando encontrar algo que nem perceberam que perderam. Vou fazer um favor a eles. Estripar os três. Seus olhos brilharam com o pensamento. Porra, e vai ser divertido também.Ver o rosto deles descer até as próprias tripas.Vai ser bem divertido. Mas ele não estava lá para divertir-se. Estava lá para fazer um novo amigo. Peter olhou para o menino com a calça arriada, aquele que lutava tanto para segurar as lágrimas. Precisava conquistar aquele garoto, porque não era possível levar uma criança através da Névoa sem o consentimento dela. A Névoa jamais permitiria. No entanto, você pode guiar uma criança até a Névoa. Então ela tem de confiar em você. E você não faz uma criança confiar em você estripando adolescentes na frente dela, mesmo adolescentes feios e maus. Não é o jeito de fazer novos amigos. Peter descobriu que gostava dessa parte do jogo — ganhar o coração das crian- ças, ter a chance de jogar um pouco. Jogos são importantes. Porque é o jogo, não é, que me separa desses retardados de merda? Então o ladrão de crianças decidiu que brincaria com eles. — Posso brincar também? — repetiu o garoto. Freddie ficou tenso. Agarrou Nick com mais força. Nick imaginou que Freddie estivesse perturbado com aquele garoto de cabelos vermelhos e olhos dourados. — Que porra é você? — Peter. — Que porra você quer? — Brincar — disse Peter, aparentemente exasperado. — Quantas vezes tenho de dizer, cérebro de passarinho? A monocelha de Bennie se contraiu. — Cérebro de passarinho? — E, pela primeira vez desde que Nick se lem- brava, Bennie pareceu perdido. Bennie olhou para Freddie como se não soubesse se fora xingado ou não. — Ei, cara. Moleque, você não devia ter dito isso — disse Freddie. — Ele vai matar você por isso. Mas Bennie não parecia estar prestes a matar ninguém. Porque caras como Bennie não estavam acostumados a ouvir merda de garotos, e isso o desequilibrara. — Então, quais são as regras? — perguntou Peter. — O quê? — perguntou Bennie, confuso. — Putz, gênio — disse Peter, virando os olhos. — As regras, mané. Quais são as regras para esse jogo da calça aí? — Regras? — perguntou Bennie, parecendo não mais confuso, mas abor- recido, e recuperando o equilíbrio. Bennie jogou a mochila de Nick no chão e mostrou um dedo para Peter. — Eu não sigo regra nenhuma, cuzão.
  • 15. — Bom — disse Peter e, antes que qualquer um pudesse piscar, avançou e pu- xou a calça frouxa de Bennie até os tornozelos. — PONTO? — perguntou Peter. O tempo parou por um instante, no qual Bennie ficou imóvel, boquiaberto, olhando para a própria cueca. Aliás, todos ficaram olhando para a cueca dele, que não era bacana, do tipo Calvin Klein. Era uma cueca branca genérica com várias gerações de manchas e furos. O rosto de Bennie ficou vermelho-fogo, e, quando ele levantou o olhar de novo, seus minúsculos olhos deram a impressão de que saltariam das órbitas. — SEU PORRA!!! — gritou Bennie, tentando agarrar Peter. Mas o garoto era rápido, incrivelmente rápido. Nick não conseguia lembrar-se de ninguém se mo- vendo tão rapidamente, nunca. Bennie errou, prendeu os pés na calça e foi abaixo, de cueca furada e tudo, como um saco gordo de farinha. O jeito desengonçado de Bennie foi recompensado com uma sonora e sincera gargalhada do garoto de orelhas pontudas. E Nick imediatamente se viu rindo. Ele não podia evitar. Freddie o empurrou para trás e saltou sobre Peter. Peter saiu do caminho sem esforço, pisando na cabeça de Bennie, apertando a cara dele contra a calçada. Nick escutou um barulho de algo se quebrando, o que o fez estremecer, seguido de um grito de Bennie. Quando Bennie levantou o olhar novamente, seu nariz estava num ângulo estranho e escorrendo sangue. — Puta merda! — disse Nick. Freddie corria atrás de Peter, tentando saltar por cima de Bennie, que estava lá caído. Bennie e Freddie deram uma trombada e caíram enroscados. Peter saltou alto no ar e caiu sobre as costas de Freddie com uma joelhada du- pla que deixaria orgulhoso qualquer lutador profissional. Nick ouviu o ar saindo de Freddie num doloroso “uuuui”. Freddie rolou para longe de Bennie e começou a debater-se na grama, sem ar, a boca abrindo e fechando como um peixinho de aquário se alimentando. En- quanto Freddie lutava para recuperar o ar, Peter deu a volta, segurou a calça dele por trás e a puxou até os tornozelos. — DOIS PONTOS! Dois para mim! — gritou Peter. Piscou para Nick e en- tão caiu em outra gargalhada. Nick não sabia ao certo se estava empolgado ou aterrorizado. Peter concentrou a atenção no garoto da bicicleta. Colocou as mãos na cintura e olhou para Jake, desafiando-o a dar um passo. Mas Jake, o velho Wang-fu, Jake, o Cobra, Steven Seagal da Porra, estava con- gelado, com cara de quem estava sofrendo um ataque do coração. — SEU PORRA! — gritou Bennie para Peter enquanto lutava para ficar de pé. Ele puxou a calça de volta, enfiou a mão no bolso, tirou um canivete, dos gran- des, e o abriu. — SEU PORRA DA CABEÇA DE PORRA!
  • 16. — Ah, merda — disse Nick. Bennie tinha facilmente o dobro da altura de Peter, e umas quatro vezes seu peso. Sai daqui, moleque, pensou Nick. Foge en- quanto pode. Mas Peter ficou parado ali, as mãos ainda na cintura, os lábios fecha- dos, os olhos apenas ligeiramente abertos. O lábio inferior de Bennie tremia. Ele cuspiu sangue, gritou e avançou, ten- tando cortar o rosto de Peter. Peter se abaixou e girou, e novamente Nick se impressionou com a velocidade do garoto. As costas da mão de Peter acertaram Bennie bem no rosto. De onde estava sentado, Nick não pôde ver o impacto, mas pela forma como a cabeça de Bennie voou para trás e pelo terrível som de estalo, ele sabia que Bennie estava desmoronando. Bennie caiu de joelhos, com os braços balançando, então deu de cara na calçada. Um arrepio subiu pela espinha de Nick. Ele está morto. Está morto com certeza. E por um segundo Nick capturou um olhar assustado no rosto de Peter. Então, como se soubesse que os olhos de Nick estavam nele, o sorriso faceiro de Peter voltou ao lugar. Mas Nick não conseguia tirar aquele olhar da cabeça. Ele vira algo selvagem, assustador. Peter se agachou, pegou a traseira da calça de Bennie e a puxou até os tornozelos. — Esta vale três pra mim! — gritou Peter numa voz animada. — Ganhei! — Lançou a cabeça para trás e cantou como um galo. Freddie olhou aterrorizado enquanto arrumava a calça e cambaleava. Saiu cor- rendo, batendo em Jake e quase derrubando-o da bicicleta. Os olhos de Jake voa- ram para Nick e a mochila. Não! Ah-ah!, pensou Nick, avançando para a mochila, mas suas pernas ainda estavam enroladas na calça, e ele tropeçou. Nick puxou com força a calça para cima. Jake agarrou a mochila e saiu pedalando a toda a velocidade. Quando Nick conseguiu arrumar a calça, Jake já estava fora de vista. Peter acenou e riu. — Até, idiotas! — PORRA! — gritou Nick, socando a grama. — PORRA! PORRA! PORRA! — Ei, moleque — chamou Peter. — Fui bem pra caralho, fala aí? Nick agarrou a cabeça e afundou as mãos no cabelo. O que vou fazer agora?, perguntou-se. Que porra vou fazer agora? As coisas podiam ficar mais fodidas? — Ei, fui bem pra caralho, hein? — repetiu Peter. — Diz aí. Nick percebeu que Peter estava falando com ele. — Hein? — disse ele, numa voz baixa e insegura. — Você sabe, nesse jogo aí da calça. Ganhei, diz aí? Julgando pelo modo como Bennie estava estatelado com o cofrinho à mostra, Nick tinha de concordar. Peter andou até Nick e estendeu a mão.
  • 17. Nick recuou. — Ei — disse Peter. — Tudo bem. Estamos no mesmo time, lembra? Nick estendeu cuidadosamente a mão. Peter o cumprimentou empolgado, en- tão puxou Nick, levantando-o. — Sou Peter. E você? — Nick — disse, distraído, enquanto procurava pelo parque por Marko e seus amigos. Claro que eles iam sair de entre as árvores a qualquer momento, Nick sa- bia muito bem que aqueles caras não marcavam touca; sabia que estariam armados e não hesitariam em atirar nos dois. — Prazer em conhecê-lo, Nick. Então, o que quer fazer agora? — O quê? — O que quer fazer agora? — Sair daqui — murmurou Nick, dirigindo-se para as árvores, de volta para o metrô, então parou. Enfiou a mão nos bolsos. — Merda! — Bennie pegara cada centavo. Ele teria de encontrar outra saída do Brooklyn. Sentiu uma onda de pânico. Que direção seguir? Marko poderia estar em qualquer lugar, poderia vir de qualquer direção. Nick se virou rapidamente e quase deu de cara com Peter. Não percebera que o garoto o seguia. Os olhos de Peter estavam cheios de malícia. — Então, qual é o plano? — O quê? — disse Nick. — Plano? Olha, moleque… — Peter. — Peter, você não entende, tem uns caras maus vindo aí. Peter pareceu animado. — Eles têm armas, não estão de brincadeira. Vão matar você. — Nick, eu já disse que estamos no mesmo time. Nick deixou escapar uma risada ácida. Deus do céu, ele acha que é tudo uma brincadeira. — Você não quer matá-los? — perguntou Peter. — Podíamos nos divertir a valer. — O quê? — disse Nick, incrédulo, mas podia perceber que o menino falava sério. — Não, não quero fazer nada com eles. Quero desaparecer, agora. — Conheço uma passagem secreta para fora daqui — disse Peter, olhando para um lado e para outro. — Eles nunca nos verão. Siga-me. — Peter seguiu em frente. Ele é louco, pensou Nick, mas teve de lutar contra o impulso de segui-lo mesmo assim. Havia algo de cativante no garoto, algo que fazia Nick querer segui-lo, ainda que os instintos lhe dissessem para não fazer isso. Nick correu os olhos pelo parque novamente. Estava escuro. Ele estava sozinho. Era difícil ficar sozinho. Agarrou o pé de coelho, respirou fundo e seguiu o menino de olhos dourados.