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Bom crioulo

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  • 1. Bom-Crioulo,Adolfo Caminha Manoel Neves
  • 2. BOM-CRIOULO aspectos historiográficos NATURALISMO 1895 vida dos marinheiros pobres na segunda metade do século XIX Literatura e CiênciaPara o escritor naturalista, a sociedade é um corpo doentio. A ele cabe a tarefa de analisá-la, apontar-lhe aspatologias, a fim de que haja uma profilaxia. Esse método de construção literária se chama romance de tese. O determinismoUma das principais características do Naturalismo é o determinismo, teoria segundo a qual ocomportamento do homem é fruto: a) do meio social; b) dos traços hereditários; ou c) dos instintos.
  • 3. NATURALISMO a literatura dos pobres classes baixas [pobres e marginalizados] imagina experiências que remetem a conclusões focalizam-se os aspectos degradantes, grotescos personagens superficiais [análise social] aspectos exteriores [atos, gestos, ambiente] expõe conclusões, cabendo ao leitor aceitar ou discutir zoomorfismo e reificação doenças do corpohomossexualismo exploração do homem saneamento precário loucura pedofilia alcoolismo criminalidade prostituição
  • 4. O ENREDO crime e castigo: a força de Bom Crioulo A história começa numa corveta [pequeno navio de guerra]. Às 11 da manhã, o tenente chama pelo corneteiro. Anuncia-se que três homens serão punidos:O primeiro deles, Herculano, fora flagrado praticando a masturbação: No convés brilhava a nódoa de umescarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesanatureza, derramando inutilmente, no convés seco e estéril, a seiva geradora do homem. O outro, Sant’Anna, flagrara Herculano, e, por isso, envolveu-se numa briga com este.O terceiro é o protagonista do livro, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre,desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada.Seu castigo devera-se ao fato de ele haver agredido fisicamente um marinheiro, que ousara „sem o seuconsentimento‟, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quemse diziam „coisas‟.Dos três marinheiros, Amaro é o único que apanha sem camisa. Ele, entretanto, não reclama, pois ele pretendia desarmar o espírito e o coração de Aleixo, para, então, conquistá-lo.
  • 5. O ENREDO de escravo a marinheiro: o negro e a exclusão socialO capítulo II começa com um recuo temporal: Amaro era um negro fugido, que encontrara abrigo namarinha imperial. Devido à sua dedicação ao trabalho de bordo e à sua gentileza, era conhecido porBom-Crioulo. Nosso protagonista tem 30 anos e está a quase 10 na marinha. Depois de viajar muito,numa passagem pelo Sul, conhece o Aleixo, de 15 anos, cujos pais, pobres, puseram-no na marinha:Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes deespécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse momento indefinível queacomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essaatração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea,sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentarasemelhante coisa, nunca homem ou mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, ocerto é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo,naquele mesmo instante, como a força magnética de uma íma. Amaro oferece a Aleixo sua proteção e este aceita também alguns presentes. Bom-Crioulo já havia tido contato com mulher por duas vezes, mas dera péssima cópia de si como homem.Aleixo é apresentado como uma quase mulher: Os lábios grossos extremamente vermelhos/ [...] com seusolhinhos azuis, com seu cabelo aloirado, com suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador.
  • 6. O ENREDO Amaro-Aleixo-Carolina: um estranho triângulo amorosoBom-Crioulo aconselhava o grumete e este o escutava. Enquanto Amaro fazia promessas, Aleixosonhava com a vida na corte de que tanto ouvira falar: Ia levá-lo ao teatro, ao Corcovado, à Tijuca, aoPasseio Público, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da Rua da Misericórdia, num comodozinho dequinze mil-réis onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo só uma, larga, espaçosa...Uma noite antes da chegada, Amaro está decidido a se resolver com o grumete. Para ele, era tudo ou nada.Então, vão dormir juntos na proa: Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, aconchegando-se aogrumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebrascerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado no convés, o marulhar das ondas na proa, não teveânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: oquartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negrosofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo.Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma vontade ingênita de ceder aos caprichos donegro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade. –Ande logo! Murmurou apressadamente, voltando-se. E consumou-se o ato contra a natureza. Amaro procura uma pensão, na Rua da Misericórdia e ali tem seis meses de felicidade conjugal.Carolina [Dona Carola Bunda] sabia que o negro não era homem para mulheres. Admirava sua força. Algumas cenas de voyeurismo merecem menção: a) Amaro contempla Aleixo desnudo no quarto; b) Carola contempla a nudez de Aleixo, tal qual Amaro; c) Amaro contempla retrato do Bonitinho.
  • 7. O ENREDO Amaro-Aleixo-Carolina: um estranho triângulo amoroso Passam-se seis meses de felicidade conjugal. Os dois marinheiros trabalham exemplarmente e as horas de descanso são passadas no quartinho, sob a bênção do retrato do Imperador. A única coisaque desgostava o Bonitinho eram os caprichos de Amaro. Já na primeira noite, quis vê-lo totalmente nu. E delirou. Para o negro, o jovem tinha as formas de mulher. Não o via como um macho. A boa vida do casal é interrompida pela notícia de que Amaro serviria noutro navio. As folgas agoraescasseiam e Bom-Crioulo desencontra-se de Aleixo. Dona Carolina pensa em tomar o jovem para si: Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar o Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga – dando-lhe tudo enfim. Carola insinua-se para Aleixo. Por fim, convida-o a ir ao quarto dela e se declara. Dormem juntos.De início, quando começam os desencontros com Bom-Crioulo, Aleixo pensa em abandoná-lo e tomara outro homem [de posição] como amante, pois já estava acostumado com aquilo. Depois de iniciado na heteressexualidade, o grumete pensa em não mais se encontrar com Amaro. Bom-Crioulo, sem ter permissão para ir a terra firme, acaba fugindo para ver seu amante. Não o encontra na pensão.
  • 8. O ENREDO Longe do Bonitinho Decepcionado, resolve se embriagar. Bêbado, envolve-se num rolo com um português ruivo por motivos fúteis. É preso e enviado para uma solitária no navio onde servia. Na sessão de torturas, agora sob o comando do oficial de quem se diziam coisas. Apanha tanto que vai parar num hospital militar. Enquanto isso, na casa da Rua da Misericórdia, a portuguesa e o grumete viviam momentosde intensa lubricidade. Amaro, no hospital, imagina que Aleixo está com outro homem, por isso é que não foi visitá-lo. Pede a um enfermeiro que escreva uma carta a Aleixo. Carolina recebe a carta e seamedronta. O Bonitinho exige-lhe fidelidade absoluta. Ela jura, mas continua a encontrar o português. Ao saber que Bom-Crioulo ainda pensa nele, Aleixo pensa em ir visitá-lo, mas é desaconselhado por Carola. Atente-se para o fato de que, quando Carola lê o bilhete de Bom-Crioulo, ela tem um pressentimento ruim [anteclímax]. Amaro esperava a visita do Bonitinho, mas quem vai ao hospital é Herculano. Por ele, ficara sabendo que o grumetezinho se amigara com uma mulher. O desejo de vingança toma conta do coração do negro. Foge da enfermaria e, de madrugada, chega à cidade.
  • 9. O ENREDO Um crime passionalNas proximidades do sobrado, em uma padaria, Amaro tem notícia de que Aleixo e Carola estavamamigados. Transtornado, o negro a vista o rapaz descendo a rua, e, sem demora, parte para cima dele, fuzilando-o com o olhar e com palavras ásperas:Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só meter-te com a portuguesa, hein? Olha paraesta cara, olha, como estou magro, como estou acabado... Olha, olha!O desfecho já era esperado: Amaro assassina Aleixo por suportar vê-lo com outra pessoa. O último parágrafo encerra de forma irônica o romance, evidenciando a reação das pessoas às tragédias humanas, um relato pessimista, que denuncia a ausência de um final feliz:Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, t[e cair tudo na monotoniahabitual, no eterno vaivém. Na última cena, sem que haja comentários do narrador, Amaro é retirado da cena por policiais.
  • 10. A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA exclusão e olvido1895 primeiro romance brasileiro a tratar do homossexualismo masculino como tema central preconceito e intolerância 1) Entre a primeira e a segunda edição do livro houve um hiato de mais de 40 anos; 2) Alguns historiadores da literatura ou se referiam en passant ao livro ou silenciavam sobre ele; 3) A marinha [e, por extensão, as forças armadas] execrou o romance durante muitas décadas;4) O silêncio dos professores e da sociedade em geral vem da crença de que falar sobre é defender.
  • 11. A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA exclusão e olvido Por que criticar a marinha? Muitos livros naturalistas eram baseados em eventos reais. Em Bom-Crioulo, temos uma veemente crítica à Instituição da marinha e ao falso moralismo da sociedade em geral.Adolfo Caminha fez parte da marinha durante sete anos [década de 1880]. É obrigado a abandonar a farda por motivos pessoais [envolvera-se amorosamente com a esposa de um oficial]. a obra e os estudos culturaisO romance maior de Caminha só sai definitivamente do esquecimento [tanto por parte dos leitoresquanto dos críticos literários] somente quando, nos centros culturais mais avançados do mundo, aquestão do homossexualismo entra no conjunto das discussões sobre as minorias, e por extensão,como sujeito e tema das mais diversas formas artísticas [pós-1970].
  • 12. A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA exclusão e olvido outras temáticas1) Denúncia dos castigos corporais como a chibata [proibidos em 1889, só são abolidos em 1910]; 2) masturbação flagrada em local público; 3) a indisciplina dentro da corporação; 4) o alcoolismo na corporação; 5) a problemática inserção social de negros e pobres.
  • 13. A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA exclusão e olvido Uma obra homossexual?Acusado de ser um autor homossexual, Caminha publica alguns artigos e afirma que seu interesse no assunto é científico. Chega a citar estudiosos do tema. Ademais, defende-se perguntando se Zola e Eça de Queirós praticavam as imoralidades presentes em suas obras [tom conservador]. Analisa-se a patologia a fim de extirpá-la do corpo social. Não há engajamento na causa gay.Para se defender da acusação de “apologia ao homossexualismo”, Caminha publica alguns ensaios,dentre os quais se destaca “Um livro condenado”, no qual afirma que o estudo que se propõe a fazerno romance é de cunho científico e patológico. Destaque-se que o determinismo social e o biológicosão, no romance, fatores que encaminham os marinheiros rumo ao “vício nefando”: Amaro é vítimatanto do meio [através do discurso indireto livre, o narrador mostra o protagonista a afirmar quetodos têm seus vícios e que havia praticantes de tal vício até mesmo entre os superiores] quanto daraça; Aleixo, por sua vez, acostuma-se aos elogios e aos privilégios que sua beleza e juventudes lhegarantem – por isso, aceita passivamente as investidas de Bom Crioulo.
  • 14. SEXUALIDADE E PRECONCEITO alteridade e intolerância o homossexualismo em Bom-CriouloNa obra, o homossexualismo é um desvio do heterossexualismo, pois o desejo se manifesta emdireção a um igual que se assemelha a um diferente. Para Amaro, Aleixo parece mulher. Veja-se: AMARO ALEIXO super-homem experiente tem apenas 15 anos alto, musculoso, saudável, forte loiro, olhos azuis, gordinho negro e feio, brigão e corajoso branco e belo defensor dos fracos medo de ficar desprotegido
  • 15. SEXUALIDADE E PRECONCEITO alteridade e intolerância o homossexualismo em Bom-Crioulo Aleixo arruma-se, seguindo as dicas de Bom-Crioulo. Quando se desnuda, o feminino fica patente:Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lheos seios para que Aleixo fosse mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!... Dentro donegro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea.Achava uma graça infinita naquele pedacinho de homem vestido de marinheiro, alvo e louro, sempre muito bempenteado, o cabelo sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essência, como uma rapariga que se vai fazendomulher.Assim, o homossexualismo em Bom-Crioulo não é uma patologia na qual o homem busca um igual. Amaro busca Aleixo e o fantasia como mulher. A própria Carolina é acusada de hermafroditismo.Aleixo comprova sua heterossexualidade ao se ligar à ex-meretriz Carolina. Atente-se que o grumete se submete a Amaro por gratidão e por uma espécie de troca de favores. Essa posição submissa permanece quando troca o negro pela ex-meretriz, na medida em que ela lhe fornece tudo de que ele precisa. Nos dois casos, Aleixo se submete visando à segurança e ao conforto.
  • 16. SEXUALIDADE E PRECONCEITO alteridade e intolerância o homossexualismo em Bom-Crioulo Eis, portanto, analisada a questão do homossexualismo em Bom-Crioulo:Amaro busca Aleixo enquanto mulher. Este se submete por necessidade de proteção e sobrevivência.Quando o amante não comparece a um encontro, Aleixo pensa em encontrar algum homem de posição, dedinheiro, pois já estava acostumado „àquilo‟. Acaba unindo-se satisfatoriamente à primeira mulher que lheaparece pela frente, sabendo ela de suas relações com o bom crioulo: 23 anos mais velha, gorda, feia,comprometida, ex-prostituta, porém, excessivamente erótica, uma mulher-homem que o queria deflorarcomo a um animal.Nesta obra, portanto, o homossexualismo é mais uma doença, uma espécie de perversão, posto que o autor privilegia a busca de prazer no outro: atente-se para o fato de que a versão reificada dasociedade patriarcal do séc. XIX em relação se estende a Aleixo, que é gozado por Amaro-Carolina.Atente-se, ainda, para a culpa do desejante por desejar um igual = reforço da heterossexualidade.Quando se ama uma rapariga bonita, uma mulher nova, branca ou mesmo de cor, – vá! Um homem perde a cabeça ecom razão; mas, andar uma pessoa triste, sem comer, sem dormir, sem fazer pela vida, por causa de outro homem, porcausa de um “individuozinho” que se abre para todo mundo – é uma grande loucura...
  • 17. RAÇA E PRECONCEITO alteridade e intolerância Já na apresentação do protagonista, o preconceito racial se faz presente pela seleção vocabular:Um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema demúsculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada. Carolina, ao pensar na situação de Aleixo, se apieda do Bonitinho e verbaliza seus pensamentos:Era uma pena, decerto, ver aquele rosto de mulher, aquelas formas de mulher, aquela estatuazinha de mármore,entregue às mãos grosseiras de um marinheiro, de um negro... Muita vez o pequeno fora seduzido, arrastado. Amaro, recém-chegado à marinha, sente na cor um traço que o inferioriza em relação aos companheiros; estes se espantam quando vêem os modos meigos de Amaro e pensam que negro dá pra gente.Amaro, ao fugir da fazenda de café para a cidade grande, busca a liberdade, entretanto, na marinha, encontra o mesmo trabalho reificador e os castigos corporais. Depreende-se, então que os pobresviviam num regime de forte segregação social, na medida em que àqueles que não se enquadravam no sistema opressor eram violentamente oprimidos, por vezes, até castigados fisicamente.
  • 18. RAÇA E PRECONCEITO alteridade e intolerância o porquê do apelido1) É uma concessão ao mau caráter dos da raça de Amaro [preconceito: negros são marginais]; 2) O apelido de Amaro é um apodo correspondente à expressão atual negro de alma branca; 3) É um crioulo diferente dos demais da sua raça, na medida em que é um crioulo bom. Ao final, Amaro comprova que o determinismo é infalível, ou seja ele volta a ser o [mau] crioulo.A maldade predomina em sua caracterização, até a culminância dela – o crime. sob esse aspecto,Caminha revela-se um ótimo discípulo do mestre Zola: o conhecimento da vida física, da hereditariedadee do meio conduz à descoberta dos mecanismos da vida passional e intelectual. Ao contrário do bomselvagem que nasceu bom, mas a sociedade o corrompeu, o bom crioulo nasceu mau – porquenegro-escravo – e o determinismo fez dele um corrupto e um corruptor social.
  • 19. O PRECONCEITO SOCIOECONÔMICO alteridade e intolerância Ao preconceito racial subjaz o preconceito social. Lembre-se de que Amaro era ex-escravo.Devido à estrutura inflexível da sociedade do século XIX, não havia lugar para o escravo fugido na sociedade. Dessa forma, o caminho que restava a tal personagem é o da exclusão.Comprova-o a reação da balconista da padaria ao ouvir Bom Crioulo bater com desespero à porta deCarolina: Quem haveria de ser? Um negro!... Comprova-o também a justificativa de Amaro para se aceitarhomossexual, ao lembrar os mexericos que circulam a respeito de um oficial do navio: Se os brancosfaziam quanto mais os negros!A discriminação racial está, portanto, dependente da discriminação socioeconômica: antes de sernegro, o negro é escravo, fugido, animalizado e, sobretudo, reificado em propriedade de uma classe.Logo, mão-de-obra gratuita, sem a menor educação, sedutor de crianças, baderneiro, bêbado,assassino.
  • 20. O PRECONCEITO SOCIOECONÔMICO alteridade e intolerânciaAo trocar Amaro por uma mulher portuguesa, Aleixo [marinheiro, teoricamente igual a Amaro] age como os seus pares da raça branca, humilhando-o e rebaixando-o. homem mulher negro branco africano português colonizado colonizador fedorento cheiroso animal humano Todas as características positivas aparecem reunidas num único ser – Carolina:Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de uma hora, veio à terra impelida por uma grande saudade que ofazia agora escravo da portuguesa. Receava encontrar Bom Crioulo, ter de o suportar com os seus caprichos, com o seubodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia como um arrependimento. Ficaraabominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem,que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, masnão o estimava: nunca o estimara!
  • 21. A QUESTÃO POLÍTICA a monarquia e o imaginário popular A figura de Dom Pedro II é abordada ironicamente [aparece como cúmplice da união escusa]. O palácio do Imperador é chamado de pardieiro dos Braganças, onde a monarquia, durante um século fazia reclamo de suas pratas.As referências bondosas a Pedro II no discurso direto de Amaro podem servir também para marcarqualquer distanciamento biográfico entre o autor e sua personagem. Unia-se, assim, o desrespeito [oimperador à cabeceira dos amantes] à ironia depois da queda da monarquia. O retrato do imperadorsorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais“republicanos”, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo.
  • 22. ASPECTOS TÉCNICOS estrutura, foco narrativo e linguagem estrutura romance estruturado em 12 capítulos, sendo o segundo um flash back [caráter tradicional] narrador a focalização se dá vem terceira pessoaapesar de ser onisciente, o narrador, por vezes, afirma desconhecer o que se passa em certas cenas:O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essamisteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro. tipos de discurso o discurso indireto livre é comum na obra, como atestam as passagens abaixo:Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais oumenos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas,enfim, ia-se vivendo... E agora? Agora... hum, hum!... agora não havia remédio: era deixar o pau correr... Graças aDeus estava muito conservadinha, não era tão velha como se pensava. Ainda tinha forças para inutilizar muitohomem robusto, olá se tinha.
  • 23. ASPECTOS TÉCNICOS aspectos estilísticos e temporais aspectos estilísticos em alguns momentos, o narrador opina sobre a diegese [lastros românticos] A velha e gloriosa corveta – que pena! – já nem sequer lembrava o mesmo navio d‟outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como uma galera de lenda, branca e leve no mar alto, garimpando serena o corcovo das ondas!note-se ainda a profusão de reticências, que denota um estilo vago e sugestivo [traços simbolistas] A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princípio, depois fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão, melancolizava o largo cenário das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetrava o coração do marinheiro, comunicando-lhe a saudade infinita dos que navegam. aspectos temporais a cronologia é interrompida no segundo capítulo, para contar o passado de Bom-Crioulo: é quando ficamos sabendo da existência de Mãe Sabina, das fazendas de café e da escravidão. As ações da narrativa transcorrem durante a República, por volta da Revolta da Armada, isso pode comprovado pelo tom depreciativo que um comandante inglês e o rei da Alemanha são referidos.
  • 24. ASPECTOS TÉCNICOS aspectos naturalistas aspectos corporaisA ligação com o estilo naturalista pode ser comprovada pelos aspectos mórbidos e pelo zoomorfismo: AMARO touro [ímpeto sexual] ALEIXO carneiro [desajeitado] CAROLINA vaca [ímpeto sexual]Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e então não havia remédio: a marinhagem toda precipitava-separa fora, como um formigueiro alvoroçado, tapando o nariz: – Foge! Foge! Olha a febre amarela!
  • 25. ASPECTOS TÉCNICOS fetiches presentes na obra o retrato do ImperadorUm deles é o retrato do Imperador, que adorna o quartinho dos amantes da Rua da Misericórdia.Relíquia fora de moda, esse retrato é cúmplice da relação homossexual e é irônico objeto deadmiração de um ex-escravo por uma autoridade que praticamente sempre governou sob o regimeescravocrata. o uniforme de marinheiroOutro elemento de fetiche é o uniforme de marinheiro, admirado tanto por Amaro, que ficaatordoado com Aleixo vestido de branco, como também por Dona Carolina, que exigia do seu jovemamante o uso do traje. Pode-se, daí, fazer uma leitura metonímica e crítica da marinha, no caso deAleixo, cujo nome significa pequeno peixe, dividido entre o negro e a portuguesa, antíteses dacolonização brasileira. A propósito, não é gratuita, no romance, a imagem de Carola associada àembarcação, como se lê no capítulo 08: que sua vontade era não sair d‟água, viver dentro d‟água, morrern‟água, flutuando e ainda em: Aleixo riu, achou graça, lembrando-se, talvez, da semelhança que havia entre aportuguesa e uma grande corveta bojuda. A lua-de-mel entre dona Carolina e Aleixo, sem que o outroamante da portuguesa disso tivesse conhecimento, é descrita como dourada embarcação em mar de rosas.
  • 26. ASPECTOS TÉCNICOS linguagem linguagem vocabulário náutico + provérbios + expressões coloquiais + temos chulos + intertextualidade como nas tragédias clássicas, a cena de assassinato é escamoteada – o leitor a percebe apenas pelas expressões marcadas no rosto da populaçãoMuitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo,os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. Opescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão demembros mutilados. [...]Ninguém se importava com o “outro”, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luzquente da manhã: todos, porém, queriam “ver o cadáver”, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até cair tudona monotonia habitual.
  • 27. ASPECTOS TÉCNICOS o espaço abertos fechados mar corveta aspecto repugnante a) corveta: é apresentada como um caixão de defunto: um esquife agourento; b) quartinho da Rua da Misericórdia: poeirento, sujo, cenas de sexo animilizado;Em literatura, a palavra gótico se refere a um tipo de ficção que se desenvolveu durante o final do século XVIII einício do século XIX. Originário do romance sentimental, o gótico surge com as narrativas românticas de terror. [...]Em Bom-Crioulo, o sentimento do terror é fruto da percepção de que a homossexualidade é uma imoralidaderepelente. [MENDES, Leonardo. O retrato do imperador]
  • 28. ASPECTOS SIMBÓLICOS uma metáfora denotativa?Afirma o professor Luiz Carlos Junqueira Maciel que a Serra dos Órgãos, situada no Rio de Janeiro, funciona como uma metáfora reveladora daquilo que se quer silenciar em Bom-Crioulo, namedida em que alude diretamente ao desejo homossexual, ao amor que não ousa dizer seu nome.
  • 29. Serra dos Órgãos 01, Rio de Janeiro
  • 30. Serra dos Órgãos 02, Rio de Janeiro
  • 31. Órgão, instrumento musical que, por analogia, dá nome à Serra dos Órgãos
  • 32. Serra dos Órgãos 03, Rio de Janeiro
  • 33. Serra dos Órgãos 04, Rio de Janeiro
  • 34. ASPECTOS SIMBÓLICOS uma metáfora denotativa?A primeira vez q a Serra dos Órgãos aparece referida é qdo Amaro vai embarcar pela primeira vez.Quase que imediatamente após a alusão à Serra, descreve-se pela primeira vez a nudez masculina:Não dormiu toda essa noite. Estendido no convés sobre o dorso, como se estivesse num bom leito macio e amplo, viudesaparecerem as estrelas, uma a uma, na penumbra da antemanhã, e o dia ressurgir glorioso, dourando os Órgãos,ourejando os edifícios, cantando o hino triunfal da ressurreição. [...]A grandeza do mar enchia-o de coragem espartana. Ali se achava, ao redor dele, a sublime expressão da liberdadeinfinita e da soberania absoluta, coisas que o seu instinto alcançava muito vagamente através de um nevoeiro deignorância.Dias e dias correram. A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e a primeira vez que o viram nu, uma belamanhã, depois da baldeação, refastelando-se num banho salgado – foi um clamor! Não havia osso naquele corpo degigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeitável de músculos,dando uma idéia de força física sobre-humana, dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro.
  • 35. ASPECTOS SIMBÓLICOS uma metáfora denotativa? A segunda cena de nudez aparece quando os amantes estão instalados na Rua da Misericórdia.Destaquem-se aspectos parnasianos e, ao mesmo tempo, sensualismo exacerbado e zoomorfismo:Estava satisfeita a vontade do Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em plena e exuberante nudez, muito alvo, asformas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daqueleignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis... Belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvezimortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numatriste e desolada baiuca da Rua da Misericórdia, onde àquela hora tudo permanecia numa doce quietação de ermolongínquo.– Veja logo..., murmurou o pequeno, firmando-se nos pés.Bom-Crioulo ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-onervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nuncavira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seiospara que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero...Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea...Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo deouro ou como um artista diante de uma obra-prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervosmais recônditos, até às profundezas de seu duplo ser moral e físico, dominado por uma quase respeito cego pelo grumeteque atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude.
  • 36. ASPECTOS SIMBÓLICOS uma metáfora denotativa? A segunda referência aos órgãos é feita no capítulo 5, quando Amaro, ainda vivencia a felicidade ao lado de Aleixo – o órgão aqui não é a paisagem, mas o corpo de Aleixo:Bom-Crioulo não se importou: foi continuando a viver tranquilamente, ora a bordo, ora em terra, numa grande paz deespírito, vendo crescer a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrocharda segunda idade, como quem estuda a evolução de uma flor curiosa. No hospital, o desejo de ver o efebo é assinalado pela pujante e fálica paisagem:O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhasda baía, o Pão-de-Açúcar, os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhavam-se naeteral limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela. Quando Amaro toma a decisão de escrever um bilhete para Aleixo, lá está a Serra, imponente:As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos Órgãos, abriam para o fundo melancólico da baía.Na sala umas dez camas de ferro, colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se com os seus cobertores de lãvermelha dobrados a meio e pondo uma nota viva de sangue na brancura dos lençóis.No trecho acima, a imagem da Serra dos Órgãos está associada à melancolia da baía, à frustração amorosa, à impossibilidade de estabelecer novo elo com o corpo desejado.
  • 37. ASPECTOS SIMBÓLICOS uma metáfora denotativa?O narrador, ao dar a Amaro a resolução de lançar-se na busca do amado através da palavra escrita,mais uma vez põe, diante do leitor, a indecifrável serra: Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo...Falou a um rapazinho, empregado do hospital: era favor, sim? um favorzinho... E ali mesmo, na enfermaria, perto dajanela que olhava para os Órgãos, quase ao escurecer, traçaram-se estas palavras.Amaro vai, mais uma vez, fugir. O que vê a tortuosidade da Serra, que espelha o desespero de BC:Seus cálculos não podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando calor, arrumava a trouxa... – qualtrouxa! nem era preciso trouxa! – e, alta noite, descia por um cabo. As janelas que davam para os Órgãos ficavamsobre um terreno anfractuoso, espécie de ladeira bronca, meio íngreme, despenhando para umas oficinas e estaleiros quehavia embaixo, na ilha. À noite, Amaro foge do hospital e se esconde, espera amanhecer para ir ao encontro de Aleixo.Aparece, então, a última referência à Serra e a explicitação da analogia com o instrumento musical:Quando ergueu a vista, momentos depois, era quase dia. Começava o tumulto de escaleres e catraieiros par ao lado daAlfândega. Ouvia-se barulho de remos e o arquejar de uma lancha deitando vapor fora. Os Órgãos, indistintos aindana meia sombra do alvorecer, iam pouco a pouco evidenciando a sua bela configuração de harmônium colossal.