© de Miguel Altieri1ª edição: 1998Direitos reservados desta edição:Universidade Federal do Rio Grande do SulCapa: Carla M....
AGRADECIMENTOSA agroecologia é o tema central e o princípio do que é hojechamado agricultura sustentável. Poucas pessoas t...
no da Sustainable Energy and Environment Division (SEED)5noBPPS e sem o gerenciamento e coordenação dos diferentes inputsp...
APRESENTAÇÃO À QUINTA EDIÇÃOPor um novo sentido à prática da agriculturaNa segunda metade do século XX, vários países lati...
A crítica e o debate em torno de novas formas de agricultura(e de desenvolvimento) se intensificam a partir de alguns fato...
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a) Um desafio ambiental – considerando que a agricultura éuma atividade causadora de impactos ambientais, decorrentes dasu...
d) Um desafio territorial – considerando que a agricultura épotencialmente uma atividade capaz de se integrar a outras ati...
que tendem a se deparar com problemas sociais e econômicoscada vez mais complexos.Não são poucos, pois, os desafios e enfr...
Sem dúvida, a obra do professor Miguel Altieri foi central nes-te contexto. Quando foi lançada a primeira edição de Agroec...
“resultados imediatos” no plano da reprodução social. Esses sãoimportantes fatores que jogam contra a capacidade de afirma...
Esta é a hercúlea tarefa com que se defronta a agroecologia,para a qual este livro se apresenta como importante instrument...
SUMÁRIOIntrodução ...........................................................................................................
19INTRODUÇÃOEm que pese os inúmeros projetos de desenvolvimento in-ternacionais e patrocinados pelo Estado, a miséria, a e...
20inovações tecnológicas não se tornaram disponíveis aos agriculto-res pequenos ou pobres em recursos em termos favoráveis...
21tantes são somente os sintomas de um distúrbio mais sistêmico,inerente aos desequilíbrios dentro do agroecossistema.Os e...
23AGROECOLOGIA:OBJETIVOS E CONCEITOSA agroecologia fornece uma estrutura metodológica de tra-balho para a compreensão mais...
24das prevalecem, e quando as plantas permanecem resilientes demodo a tolerar estresses e adversidades. Às vezes, as pertu...
25Quadro 1Elementos técnicos básicos de uma estratégia agroecológicaI . Conservação e Regeneração dos Recursos Naturaisa. ...
26- intensifica o controle biológico de pragas fornecendo umhabitat para os inimigos naturais;- aumenta a capacidade de mú...
27conhecimentos deve ocorrer rapidamente, ou essa riqueza depráticas se perderá para sempre.A produção estável somente pod...
29AAGROECOLOGIADOS AGROECOSSISTEMAS TRADICIONAISOs sistemas agrícolas tradicionais surgiram no decorrer deséculos de evolu...
30e lotes agroflorestais, geralmente contêm mais de 100 espéciespor campo de cultivo proporcionando materiais de construçã...
31pastagens, arroios e pântanos, no interior ou em áreas adjacentesaos seus campos de cultivos, suprindo-se, assim, de pro...
32Os serviços ecológicos da biodiversidadenos agroecossistemas tradicionaisNos agroecossistemas tradicionais, a predominân...
33O rendimento total por hectare é, com freqüência, mais altoem policultivos do que em monocultivos, mesmo quando a pro-du...
34tradicionais têm conhecimento e compreensão sofisticados sobrea biodiversidade agrícola que manuseiam. É por essa razão ...
35lidade climática utilizando indicadores de clima baseados nafenologia (ou seja, início da floração) da vegetação local. ...
36mais comumente registradas. O conhecimento etnobotânico decertos campesinos no México é tão elaborado que os maias doTze...
37os pequenos agricultores aprenderam a reconhecer e utilizar osrecursos disponíveis no local (Wilken, 1987).Ao confrontar...
38Quadro 2Alguns exemplos de sistemas de administração do solo, espaço, água e vegetação utiliza-dos por agricultores trad...
39água das chuvas, a pluviosidade é o principal determinante dotipo de rotação utilizado pelo agricultor. Em áreas de pouc...
41PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO RURALBASEADOS NA AGROECOLOGIAA urgente necessidade de combater a miséria rural e regenerara...
42ponês. Essa abordagem distingue-se daquela da Revolução Verdenão apenas tecnicamente, ao reforçar o emprego de tecnologi...
43Quadro 3Comparação entre as tecnologias da Revolução Verde e da agroecologiaCaracterísticas Revolução Verde Agroecologia...
44aqueles pequenos agricultores da parte inferior do gradiente. As-sim, a abordagem agroecológica provou ser culturalmente...
45c) promover o uso eficiente dos recursos locais (isto é, terra,mão-de-obra, subprodutos agrícolas, etc.);d) aumentar a d...
46ção com espécies alimentícias, visando acelerar a regeneração dosnutrientes do solo, e diminuindo, portanto, o tempo de ...
47jetos promovidos pelo International Center for Living AquaticResources Management (ICLARM),7cientistas ajudaram institui...
48haviam tido acesso a esse benefício; sua taxa de inadimplência é deapenas 2%. Esse é um importante indicativo do grau de...
49ria dos agricultores está agora cultivando menos terras do queantes, permitindo que mais áreas possam voltar a ser flore...
50hectare, e a produção de oca saltou de 3 para 8 t por hectare). Acriação de gado de corte e de alpaca para lã, somada ao...
51os cultivos contra a geada. Nas camas altas assim construídas, astemperaturas durante a noite podem ser vários graus aci...
52alguns dos germoplasmas de batatas nativas, que antes caracteriza-vam os agroecossistemas locais, o Centro de Educación ...
53cipantes do programa. As sementes excedentes podem tambémser vendidas a outros camponeses ou trocadas por sementes devar...
54olerícolas, árvores florestais e frutíferas, e animais (Figura 3).Os cultivos e animais utilizados são escolhidos de aco...
55de animais (uma vaca Jersey, uma Holstein, 10 galinhas de pos-tura, 3 coelhos e 2 colméias de abelhas Langstroth). As ol...
56caracterizados por duas fases: uma pastagem de três anos que“abasteça” o sistema com nutrientes e matéria orgânica, e um...
57cientes em fósforo (Figura 5). Após o sexto ano, a produtividadedas batatas duplica, e somente metade da quantidade de f...
58tivamente, na melhoria das condições de vida dos camponeses, au-mentando sua segurança alimentar, fortalecendo a produçã...
59Quadro 4Efeitos registrados das estratégias produtivas da agroecologia implementadas pelasONGsI . Efeitos no soloa. Aume...
60Verde) (Figura 6). O diagrama facilita a avaliação das qualidadesrelativas de cada tecnologia com relação aos seus impac...
61As técnicas de contabilização dos recursos naturais incorpo-ram as externalidades ambientais à análise custo-benefício c...
62nologias agroecológicas e de um sistema de extensão apropriadoe participativo para a disseminação dessas tecnologias. Pr...
63indicadores-chave socioeconômicos, ambientais e culturais, enu-merados no Quadro 5.Quadro 5Associação entre as caracterí...
64gridade ecológica e da igualdade social deve ir além da quantificaçãoda produção de alimentos e do controle da qualidade...
65AAGROECOLOGIA DOS SISTEMASDE PRODUÇÃO EM LARGA ESCALAA busca de sistemas agrícolas auto-sustentáveis, com baixouso de in...
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Agroecologia a dinamica produtiva da agricultura sustentável altieri

  1. 1. © de Miguel Altieri1ª edição: 1998Direitos reservados desta edição:Universidade Federal do Rio Grande do SulCapa: Carla M. LuzzattoTradução: Marília Marques LopesRevisão técnica: Maria José GuazzelliCláudia Job SchmittRevisão: Cláudia BittencourtMônica Ballejo CantoMaria da Glória Almeida dos SantosArte-final dos desenhos: Rubens Renato AbreuEditoração eletrônica: Priscila dos Santos NovakMiguel AltieriEngenheiro-agrônomo pela Universidade do Chile (1974); mestre pela UniversidadeNacional da Colômbia (1976); PhD pela Universidade de Florida (1979); professor deAgroecologia na Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, desde 1981; asses-sor científico do Consórcio Latino-Americano de Agroecologia e Desenvolvimento(CLADES) desde 1989; coordenador geral do Sustainable Agriculture Networking andExtension (SANE) ligado ao PNUD (Nações Unidas) desde 1994; coordenador do Co-mitê de ONGs do Comitê Consultivo de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR) desde1997. Principais publicações: Agroecology: the science of sustainable agriculture (1995)e Biodiversity and pest management in agrosystems (1994).A468a Altieri, MiguelAgroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável /Miguel Altieri. – 4.ed. – Porto Alegre : Editora da UFRGS, 2004.(Nome da coleção)1. Agricultura – Ecologia. I. Título.CDU 631.58/.584.9:634.0.1Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto – CRB 10/1023ISBN 85-7025-538-1
  2. 2. AGRADECIMENTOSA agroecologia é o tema central e o princípio do que é hojechamado agricultura sustentável. Poucas pessoas têm trabalha-do com tanto afinco para desenvolver e explicar esse concei-to quanto Miguel A. Altieri, professor adjunto do College ofNatural Resources e do Center for Biological Control, Universityof California, Berkeley. Ele contribuiu com os elementos cen-trais deste segundo livro-guia do PNUD.1Com uma experiênciaúnica, também coordena nosso programa global denominadoSustainable Agriculture Networking and Extension Programme(SANE-INT/93/201).2Agradecemos igualmente a contribuiçãode Paul Faeth, assistente senior do Programa de Economia e Po-pulação do World Resources Institute (WRI),3pela autorizaçãofornecida pelo WRI para a publicação do material do Sustaina-ble Agriculture and Rural Development (SARD)4sobre econo-mia nesta edição. Grandes trechos do texto foram editados porRosemarie Philips. Linda L. Schmidt habilidosamente produziuo texto final em camera-ready para publicação.Esta obra não teria sido possível sem o estímulo e levanta-mento de fundos de Luis Gomez-Echeverri, então Diretor Interi-1Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.2Programa de Rede e Extensão em Agricultura Sustentável.3Instituto Mundial de Recursos.4Agricultura Sustentável e Desenvolvimento Rural.
  3. 3. no da Sustainable Energy and Environment Division (SEED)5noBPPS e sem o gerenciamento e coordenação dos diferentes inputspor Friedrich Mumm von Mallinckrodt, Presidente e Conselhei-ro Técnico em Agricultura Sustentável e Segurança Alimentar doSEED. Gostaríamos, também, de agradecer o trabalho e comen-tários dos colegas de várias agências, mas particularmente à Divi-são de Assuntos Públicos e ao Conselho Editorial do PNUD.5Divisão de energia e ambiente sustentável.
  4. 4. APRESENTAÇÃO À QUINTA EDIÇÃOPor um novo sentido à prática da agriculturaNa segunda metade do século XX, vários países latino-ame-ricanos engajaram-se na intitulada Revolução Verde, um ideárioprodutivo proposto e implementado nos países mais desenvol-vidos após o término da Segunda Guerra Mundial, cuja metaera o aumento da produção e da produtividade das atividadesagrícolas, assentando-se para isso no uso intensivo de insumosquímicos, das variedades geneticamente melhoradas de alto ren-dimento, da irrigação e da motomecanização. Políticas públicasnacionais foram criadas, tendo a pesquisa agrícola e a extensãorural – aliadas geralmente ao crédito agrícola subsidiado – comoos principais instrumentos para a concretização dessas políticas.No Brasil, a partir de meados da década de 1980, com a in-viabilização dos subsídios ao crédito, tornam-se gradativamentemais visíveis as conseqüências menos gloriosas do padrão deagricultura introduzido com a Revolução Verde. A contestação àagricultura e às formas de organização produtivas oriundas desseideário traz em seu rastro uma série de manifestações sociais quepassam a adquirir crescente importância e legitimidade nos anosmais recentes.
  5. 5. A crítica e o debate em torno de novas formas de agricultura(e de desenvolvimento) se intensificam a partir de alguns fatos emovimentos gerais, tais como:a) Uma crise generalizada nos países de capitalismo pe-riférico, a partir da década de 1950, mostrando que o progressonão é uma virtude natural que todos os sistemas econômicos etodas as sociedades humanas possuem (implicando também a cri-se do industrialismo e da idéia de que o desenvolvimento é iguala progresso material – o qual, por sua vez, traz o bem-estar social–, ou que o desenvolvimento técnico-científico implica desenvol-vimento socioeconômico, progresso e crescimento).b) As crises sociais, expressas de diferentes maneiras, viaconcentração de renda, de riquezas e da terra, o êxodo rural e aviolência em todos os sentidos.c) Uma crise ambiental, manifestada também de diferen-tes e graves formas, como, por exemplo, a degradação e a escassezdos “recursos naturais”, a contaminação dos alimentos etc.d) Uma crise econômica, a partir da diminuição dos ní-veis médios de renda e pela constatação de que a maioria dosprodutos incentivados pela modernização agrícola deixou de seratrativa sob esse aspecto, inclusive algumas commodities.Neste ano de 2008 assume contornos importantes a discus-são sobre a “crise alimentar” mundial, com vários argumentos emdebate e uma hipótese “de fundo” na cabeça de muitos: se uma cri-se alimentar existe é porque existiria também uma crise do padrãode desenvolvimento imposto à agricultura nos últimos quarentaanos. Ainda que se ostente o aumento espetacular da produtivida-de nesses anos em alguns cultivos e atividades agropecuárias, fato éque as mencionadas crises geram problemas e impasses que gradu-almente começam a ganhar momentum, indicando crescentes difi-culdades de manutenção do padrão produtivo “moderno” implan-tado no período pós-guerra. No plano econômico, especialmente,destaca-se, como tendência geral histórica nas décadas recentes, a
  6. 6. elevação dos custos de produção associada à queda real dos preçospagos aos agricultores. Essa falta de sintonia ocorre, por certo, nospaíses nos quais os governos não conseguem manter subsídios aosagricultores e assegurar “preços sociais” dos alimentos compatíveiscom o nível de renda dos consumidores. Esse padrão de produçãoinsustentável é ressaltado pelo professor Miguel Altieri neste livro:“a falta de acesso dos produtores menos favorecidos a insumos ca-ros, bem como questões básicas de igualdade socioeconômica, obs-taculizaram, em muito, a modernização da agricultura nos paísesem desenvolvimento”.Essas são algumas das muitas razões e motivações queiriam produzir a entrada “em cena”, nos últimos vinte anos, deexperiências “diferentes” daquela do padrão proposto pelo ideá-rio da Revolução Verde, atraindo a atenção de profissionais dasciências agrárias e de outras áreas do conhecimento, bem comode autoridades governamentais e, é claro, de muitos agriculto-res pelo Brasil afora. Esse “movimento” cresceu e assumiu maiorcomplexidade, hoje sendo denominado de várias maneiras, mui-tas vezes caracterizando sua feição técnica ou produtiva strictosensu, na qual a agroecologia assume posição destacada.Todo a discussão em torno dessas novas formas de praticare viver a agricultura insere-se nestes últimos anos no debate dasustentabilidade do desenvolvimento, indicando, genericamente,um objetivo social e produtivo, qual seja, a adoção de um padrãotecnológico e de organização social e produtiva que não use deforma predatória os “recursos naturais” e tampouco modifiquetão agressivamente a natureza, buscando compatibilizar, comoresultado, um padrão de produção agrícola que integre equilibra-damente objetivos sociais, econômicos e ambientais.Essa nova forma de praticar a agricultura – mais sustentá-vel – traz, porém, alguns desafios:11Conforme Maria Leonor Assad e Jalcione Almeida em “Agricultura e sustentabilidade:contextos, desafios e cenários”, Ciência & Ambiente, Santa Maria, n. 29, p. 21-22, 2004.
  7. 7. a) Um desafio ambiental – considerando que a agricultura éuma atividade causadora de impactos ambientais, decorrentes dasubstituição de uma vegetação naturalmente adaptada por outraque exige a contenção do processo de sucessão natural, visan-do ganhos econômicos, o desafio consiste em buscar sistemasde produção agrícola adaptados ao ambiente, de tal forma quea dependência de insumos externos e de recursos naturais não-renováveis seja mínima.b) Um desafio econômico – considerando que a agriculturaé uma atividade capaz de gerar, a curto, médio e longo prazos,produtos de valor comercial tanto maior quanto maior for o va-lor agregado, o desafio consiste em adotar sistemas de produçãoe de cultivo que minimizem perdas e desperdícios e que apre-sentem produtividade compatível com os investimentos feitos, eem estabelecer mecanismos que assegurem a competitividade doproduto agrícola no mercado interno e/ou externo, garantindo aeconomicidade da cadeia produtiva e a qualidade do produto.c) Um desafio social – considerando a capacidade da agricul-tura de gerar empregos diretos e indiretos e de contribuir para acontenção de fluxos migratórios, que favorecem a urbanizaçãoacelerada e desorganizada, esse desafio consiste em adotar siste-mas de produção que assegurem geração de renda para o traba-lhador rural e que este disponha de condições dignas de trabalho,com remuneração compatível com sua importância no processode produção. Considerando o número de famintos no planeta, eparticularmente no Brasil, é necessário que a produção agrícolacontribua para a segurança alimentar e nutricional. Consideran-do, ainda, que o contexto social não seja uma externalidade decurto prazo do processo produtivo e, portanto, do desenvolvi-mento, é necessário construir novos padrões de organização so-cial da produção agrícola por meio da implantação de reformaagrária compatível com as necessidades locais e da gestação denovas formas de estruturas produtivas.
  8. 8. d) Um desafio territorial – considerando que a agricultura épotencialmente uma atividade capaz de se integrar a outras ati-vidades rurais, esse desafio consiste em buscar a viabilização deuma efetiva integração agrícola com o espaço rural, por meio dapluriatividade e da multifuncionalidade desses espaços.e) Um desafio tecnológico – considerando que a agriculturaé fortemente dependente de tecnologias para o aumento da pro-dução e da produtividade, e que muitas das tecnologias, sobretu-do aquelas intensivas em capital, são causadoras de impactos aoambiente, urge que se desenvolvam novos processos produtivosnos quais as tecnologias sejam menos agressivas ambientalmente,mantendo uma adequada relação produção/produtividade.Esses desafios são tanto maiores e mais complexos quan-to maior for o número de limitações impostas pela natureza e,para superá-los, é necessário um profundo conhecimento sobreo meio, tanto em seus aspectos físicos e biológicos quanto emseus aspectos humanos. É necessária uma nova (agri)cultura queconcilie processos biológicos (base do crescimento de plantas eanimais) e processos geoquímicos e físicos (base do funciona-mento de solos que sustentam a produção agrícola) com os pro-cessos produtivos, os quais envolvem componentes sociais, po-líticos, econômicos e culturais. Essa abordagem deve-se basearno conhecimento que se tem hoje do funcionamento dos ecos-sistemas terrestres: a) o equilíbrio da natureza é extremamentedelicado (e instável) e os seres humanos podem modificá-lo demaneira irreversível, pelo menos em termos de escala de vidahumana; b) a Terra não é um reservatório ilimitado de recursos;c) no longo prazo, a sociedade jamais é indenizada pelos danosambientais e pelos desperdícios de “recursos naturais”, nem emtermos econômicos, nem em termos sociais; d) o fictício bem-es-tar de alguns segmentos sociais se dá à custa da exploração reale atual de excluídos, que não usufruem vantagens econômicas esociais mínimas, e pelo comprometimento das novas gerações,
  9. 9. que tendem a se deparar com problemas sociais e econômicoscada vez mais complexos.Não são poucos, pois, os desafios e enfrentamentos na dire-ção de uma agricultura e de um desenvolvimento mais sustentá-veis. Mas como tornar a agricultura brasileira mais sustentável,garantindo os ganhos de produtividade agrícola atuais ou atémesmo os aumentando? Essa parece ser uma questão de peso, so-bre a qual todos os interessados no desenvolvimento deveriam sedebruçar. Várias tentativas de resposta já foram ensaiadas nos úl-timos anos, por dentro e por fora do status quo reinante, algumasdelas através de um movimento que originalmente se chamou de“agricultura alternativa” (década de 1970) e que hoje se agrupaem torno das iniciativas de “agricultura ecológica”.2A agroecolo-gia tem sido difundida na América Latina, em outros países e noBrasil, em especial, como sendo um padrão técnico-agronômicocapaz de orientar as diferentes estratégias de desenvolvimentorural sustentável, avaliando as potencialidades dos sistemas agrí-colas através de uma perspectiva social, econômica e ecológica.O objetivo maior da agricultura sustentável – que sustenta o en-foque agroecológico – é a manutenção da produtividade agrícolacom o mínimo possível de impactos ambientais e com retornoseconômico-financeiros adequados à meta de redução da pobreza,assim atendendo às necessidades sociais das populações rurais.Muitos trabalhos, acadêmicos ou não, foram produzidosnos últimos anos sobre a agroecologia; eles buscaram aprofun-dar temas e analisá-los, afirmando-a conceitualmente e enquantomodelo teórico e prático interpretativo dos sistemas agrícolas.2A esse respeito ver, entre outros, os trabalhos pioneiros de Jalcione Almeida, Tec-nologia “moderna” versus tecnologia “alternativa”: a luta pelo monopólio da compe-tência tecnológica na agricultura, Porto Alegre, Programa de Pós-Graduação em So-ciologia Rural/UFRGS, 1989; e de Eduardo Ehlers, O que se entende por agriculturasustentável? São Paulo, Procam/USP, 1994. Para uma interpretação sociológica sobre otema, ver Jalcione Almeida, A construção social de uma nova agricultura, Porto Alegre,Editora da UFRGS, 1999.
  10. 10. Sem dúvida, a obra do professor Miguel Altieri foi central nes-te contexto. Quando foi lançada a primeira edição de Agroecolo-gia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável, em 1998, pelaEditora da UFRGS, essa publicação teve uma enorme aceitação,esgotando-se em pouco tempo. Este livro preencheu um vácuona produção intelectual sobre o tema e acabou se transforman-do em obra referencial nos estudos acadêmicos e debates sociais,verdadeiro “manual” de ação e prática agroecológica no Brasil.3Vários anos se passaram, e este livro de Altieri continua atual emuito requisitado, justificando sua quinta edição, agora lançada.Desta vez, alçamos a publicação do professor Miguel Altieri a umlugar destacado em nossa Série Estudos Rurais (SER), coletâneade textos, desde a década passada, patrocinada pelo Programa dePós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) em colabo-ração com a Editora da UFRGS.4O que é proposto por Miguel Altieri neste livro certamentepoderá ser bem utilizado para esclarecer as noções e os concei-tos centrais da agroecologia, sugerir caminhos metodológicos eanalisar experiências produtivas, tudo fundado em uma perspec-tiva crítica e coerente com os princípios formativos deste campocientífico. Este livro também poderá ajudar a responder a dúvi-das e, principalmente, a enfrentar os desafios colocados defrontedaqueles que pensam a agroecologia como bandeira de luta einstrumento de ação social, bem como a pensá-la como promessade renovação do social, dos sistemas técnicos e como fonte demudanças culturais.A proposta agroecológia e a contribuição de Miguel Altieripodem auxiliar a superar entraves sociais e produtivos que sãoconstituídos a partir da atual condição de marginalização e exclu-são de certos grupos sociais e da sua necessidade urgente em obter3Também tem sido bastante influente no campo científico e na ação social a publica-ção de Miguel Altieri intitulada Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa,Rio de Janeiro, PTA/FASE, 1989.4Ver títulos da Série Estudos Rurais em www.ufrgs.br/pgdr.
  11. 11. “resultados imediatos” no plano da reprodução social. Esses sãoimportantes fatores que jogam contra a capacidade de afirmaçãodessas novas idéias, pelo menos no curto e médio prazos.A contribuição de Altieri pode também colaborar para a su-peração da grande heterogeneidade que ainda caracteriza a pers-pectiva agroecológica, particularmente em relação ao seu padrãotecnológico e às suas formas sociais, tendentes a se constituir emuma barreira ao avanço dessas idéias. Desde já, do ponto de vistametodológico, esta publicação ajuda a “operacionalizar” a noçãode agroecologia, transformando seus princípios em ação.Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável é,sem dúvida, um poderoso instrumento de visualização e viabili-zação da agroecologia como área de conhecimento e como prá-tica produtiva. Este livro serve como instrumento para pensar eagir em nome da agroecologia não como a institucionalização damarginalização da agricultura alternativa ou ecológica, tampoucoapenas como “ecologização” da agricultura moderna ou conven-cional, e sim como uma forma de agricultura apreendida enquan-to uma verdadeira alternativa técnico-científica global, como umarenovação do social e do sistema técnico-produtivo, podendoconstituir-se em fonte de importantes mudanças culturais.Este livro serve como um verdadeiro emulador de ações quebuscam outras interpretações técnicas e sociais que possam indi-car uma possibilidade de operar um novo sentido para a prática daagricultura. Nessas formas reside a capacidade de lutar e afirmar opotencial político transformador da agroecologia, agregando di-ferentes categorias e grupos sociais, mobilizando-os no sentido dasua afirmação enquanto alternativa social e técnica capaz de su-perar os impasses do atual padrão de agricultura e de desenvolvi-mento. Nessa linha de raciocínio, são fundamentalmente razõessociais e políticas aquelas capazes de afirmar verdadeiros movi-mentos sociais amplificados, e não somente os méritos técnicos emorais do conjunto de idéias ou proposições agroecológicas.
  12. 12. Esta é a hercúlea tarefa com que se defronta a agroecologia,para a qual este livro se apresenta como importante instrumentode superação. Esses desafios colocados à agroecologia, que porinstantes tomam a forma de um ideal estratégico, por vezes maldefinido nas ações e lutas em curso, devem construir um projetocapaz de orientar novas formas de produção e organização sociale contribuir para um projeto que ultrapasse o campo da contesta-ção e da oposição pura e simples à tecnocracia, ao produtivismoe às políticas agrícolas inadequadas. Tais ações deverão mostrar,mais claramente, que se pode reconstruir uma imagem da tramasocial a partir de novas experiências sociais, da agregação de indi-víduos e de grupos que parecem ter perdido toda forma de identi-ficação profissional e social. Ademais, essas ações devem ser capa-zes de viabilizar novas experiências que incrementem a produção,com qualidade e maior conservação ambiental, capaz de atendera uma demanda crescente de alimentos pela população.Eis, em nossa opinião, a tarefa da agroecologia. Cremos queMiguel Altieri, com este livro (e sua produção intelectual), podemuito contribuir nesta direção, afirmando a agroecologia comonova área do conhecimento, como forma de produção e comoverdadeiro movimento social.Temos o máximo orgulho de anunciar a quinta edição deAgroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável, agoracompondo a Série Estudos Rurais do PGDR. Boa leitura.Porto Alegre, julho de 2008.Jalcione AlmeidaPrograma de Pós-Graduação em Desenvolvimento RuralComissão Editorial da Série Estudos Rurais
  13. 13. SUMÁRIOIntrodução ........................................................................................................................................................................................19Agroecologia: objetivos e conceitos ...............................................................................................................23A agroecologia dos agroecossistemas tradicionais .....................................................................29Programas de desenvolvimento rural baseados na agroecologia ............................41A agroecologia dos sistemas de produção em larga escala ..............................................65Uma análise econômica da agricultura sustentável .................................................................81Conclusão ..........................................................................................................................................................................................109Referências .......................................................................................................................................................................................113
  14. 14. 19INTRODUÇÃOEm que pese os inúmeros projetos de desenvolvimento in-ternacionais e patrocinados pelo Estado, a miséria, a escassez dealimentos, a desnutrição, o declínio nas condições de saúde e adegradação ambiental continuam sendo problemas no mundoem desenvolvimento. Em muitas regiões, a modernização da agri-cultura, com a utilização de tecnologias intensivas em insumos,aconteceu sem a distribuição da terra. Os benefícios dessas medi-das – geralmente chamadas de Revolução Verde – foram extrema-mente desiguais em termos de sua distribuição, com os maiores emais ricos agricultores, que controlam o capital e as terras férteis,sendo privilegiados, em detrimento dos agricultores mais pobrese com menos recursos. A Revolução Verde também contribuiupara disseminar problemas ambientais, como erosão do solo, de-sertificação, poluição por agrotóxicos e perda de biodiversidade(Redclift e Goodman, 1991).A crise agrícola-ecológica existente, hoje, na maior parte doTerceiro Mundo, resulta do fracasso do paradigma dominante dedesenvolvimento. As estratégias de desenvolvimento convencio-nais revelaram-se fundamentalmente limitadas em sua capacidadede promover um desenvolvimento equânime e sustentável. Nãoforam capazes nem de atingir os mais pobres, nem de resolver oproblema da fome, da desnutrição ou as questões ambientais. As
  15. 15. 20inovações tecnológicas não se tornaram disponíveis aos agriculto-res pequenos ou pobres em recursos em termos favoráveis, nemse adequaram às suas condições agroecológicas e socioeconômi-cas (Chambers e Ghildyal, 1985).Recentemente, a discussão sobre o desenvolvimento sus-tentável ganhou rápido impulso em resposta ao declínio naqualidade da vida rural, bem como à degradação da base derecursos naturais associada à agricultura moderna. O conceitode sustentabilidade é controverso e quase sempre maldefinido;apesar disso, é útil, pois reconhece que a agricultura é afetadapela evolução dos sistemas socioeconômicos e naturais, isto é,o desenvolvimento agrícola resulta da complexa interação demuitos fatores. A produção agrícola deixou de ser uma questãopuramente técnica, passando a ser vista como um processo con-dicionado por dimensões sociais, culturais, políticas e econômi-cas (Conway e Barbier, 1990).Há um interesse geral em reintegrar uma racionalidade eco-lógica à produção agrícola, e em fazer ajustes mais abrangentesna agricultura convencional, para torná-la ambiental, social eeconomicamente viável e compatível. Muitos avanços tecnológi-cos inovadores estão sendo introduzidos, mas há, ainda, muitodestaque para os aspectos tecnológicos. O foco é a substituiçãode insumos, ou seja, substituir agroquímicos caros e degradado-res do meio ambiente e tecnologias intensivas em insumos portecnologias brandas, de baixo uso de insumos externos. Este en-foque não atinge, no entanto, as causas ecológicas dos problemasambientais na agricultura moderna, profundamente enraizadasna estrutura de monocultura predominante em sistemas de pro-dução de larga escala.A estreita visão dominante argumenta que causas específicasafetam a produtividade, e que o fator limitante, qualquer queseja, pode ser superado com tecnologias alternativas. Essa visãonão reconhece e desvia a atenção do fato de que os fatores limi-
  16. 16. 21tantes são somente os sintomas de um distúrbio mais sistêmico,inerente aos desequilíbrios dentro do agroecossistema.Os enfoques que percebem o problema da sustentabilidadesomente como um desafio tecnológico da produção não conse-guem chegar às razões fundamentais da não-sustentabilidade dossistemas agrícolas. Novos agroecossistemas sustentáveis não po-dem ser implementados sem uma mudança nos determinantessocioeconômicos que governam o que é produzido, como é pro-duzido e para quem é produzido. Para serem eficazes, as estraté-gias de desenvolvimento devem incorporar não somente dimen-sões tecnológicas, mas também questões sociais e econômicas.Somente políticas e ações baseadas em tal estratégia podem fazerfrente aos fatores estruturais e socioeconômicos que determinama crise agrícola-ambiental e a miséria rural que ainda existem nomundo em desenvolvimento.Só uma compreensão mais profunda da ecologia humanados sistemas agrícolas pode levar a medidas coerentes com umaagricultura realmente sustentável. Assim, a emergência da agroe-cologia como uma nova e dinâmica ciência representa um enor-me salto na direção certa. A agroecologia fornece os princípiosecológicos básicos para o estudo e tratamento de ecossistemastanto produtivos quanto preservadores dos recursos naturais, eque sejam culturalmente sensíveis, socialmente justos e economi-camente viáveis (Altieri, 1987).
  17. 17. 23AGROECOLOGIA:OBJETIVOS E CONCEITOSA agroecologia fornece uma estrutura metodológica de tra-balho para a compreensão mais profunda tanto da natureza dosagroecossistemas como dos princípios segundo os quais eles fun-cionam. Trata-se de uma nova abordagem que integra os princí-pios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos à compreensãoe avaliação do efeito das tecnologias sobre os sistemas agrícolas ea sociedade como um todo. Ela utiliza os agroecossistemas comounidade de estudo, ultrapassando a visão unidimensional – ge-nética, agronomia, edafologia – incluindo dimensões ecológicas,sociais e culturais. Uma abordagem agroecológica incentiva ospesquisadores a penetrar no conhecimento e nas técnicas dosagricultores e a desenvolver agroecossistemas com uma depen-dência mínima de insumos agroquímicos e energéticos externos.O objetivo é trabalhar com e alimentar sistemas agrícolas com-plexos onde as interações ecológicas e sinergismos entre os com-ponentes biológicos criem, eles próprios, a fertilidade do solo, aprodutividade e a proteção das culturas (Altieri, 1987).A produção sustentável em um agroecossistema deriva doequilíbrio entre plantas, solos, nutrientes, luz solar, umidade eoutros organismos coexistentes. O agroecossistema é produtivo esaudável quando essas condições de crescimento ricas e equilibra-
  18. 18. 24das prevalecem, e quando as plantas permanecem resilientes demodo a tolerar estresses e adversidades. Às vezes, as perturbaçõespodem ser superadas por agroecossistemas vigorosos, que sejamadaptáveis e diversificados o suficiente para se recuperarem pas-sado o período de estresse. Ocasionalmente, os agricultores queempregam métodos alternativos podem ter de aplicar medidasmais drásticas (isto é, inseticidas botânicos, fertilizantes alternati-vos) para controlar pragas específicas ou deficiências do solo. Aagroecologia engloba orientações de como fazer isso, cuidadosa-mente, sem provocar danos desnecessários ou irreparáveis. Alémda luta contra as pragas, doenças ou problemas do solo, o agroe-cologista procura restaurar a resiliência e a força do agroecossis-tema. Se a causa da doença, das pragas, da degradação do solo,por exemplo, for entendida como desequilíbrio, então o objetivodo tratamento agroecológico é restabelecê-lo. O tratamento e arecuperação são orientados por um conjunto de princípios espe-cíficos e diretrizes tecnológicas (Quadro 1).Na agroecologia, a preservação e ampliação da biodiversi-dade dos agroecossistemas é o primeiro princípio utilizado paraproduzir auto-regulação e sustentabilidade (Altieri, Anderson eMerrick, 1987). Quando a biodiversidade é restituída aos agroe-cossistemas, numerosas e complexas interações passam a estabe-lecer-se entre o solo, as plantas e os animais. O aproveitamentode interações e sinergismos complementares pode resultar emefeitos benéficos, pois:- cria uma cobertura vegetal contínua para a proteção do solo;- assegura constante produção de alimentos, variedade nadieta alimentar e produção de alimentos e outros produtos parao mercado;- fecha os ciclos de nutrientes e garante o uso eficaz dos re-cursos locais;- contribui para a conservação do solo e dos recursos hídricosatravés da cobertura morta e da proteção contra o vento;
  19. 19. 25Quadro 1Elementos técnicos básicos de uma estratégia agroecológicaI . Conservação e Regeneração dos Recursos Naturaisa. Solo (controle da erosão, fertilidade e saúde das plantas)b. Água (captação/coleta, conservação in situ, manejo e irrigação)c. Germoplasma (espécies nativas de plantas e animais, espécies locais,germoplasma adaptado)d. Fauna e flora benéficas (inimigos naturais, polinizadores, vegetação demúltiplo uso)II. Manejo dos Recursos Produtivosa. Diversificação:- temporal (isto é, rotações, seqüências)- espacial (policultivos, agroflorestas, sistemas mistos de plantio/cria-ção de animais)- genética (multilinhas)- regional (isto é, zoneamento, bacias hidrográficas)b. Reciclagem dos nutrientes e matéria orgânica:- biomassa de plantas (adubo verde, resíduos das colheitas, fixação denitrogênio)- biomassa animal (esterco, urina, etc.)- reutilização de nutrientes e recursos internos e externos à propriedadec. Regulação biótica (proteção de cultivos e saúde animal):- controle biológico natural (aumento dos agentes de controle natural)-controlebiológicoartificial(importaçãoeaumentodeinimigosnaturais,inseticidas botânicos, produtos veterinários alternativos, etc.)III. Implementação de Elementos Técnicosa. Definição de técnicas de regeneração, conservação e manejo de recur-sos adequados às necessidades locais e ao contexto agroecológico esocioeconômico.b. O nível de implementação pode ser o da microrregião, bacia hidrográ-fica, unidade produtiva ou sistema de cultivo.c. A implementação é orientada por uma concepção holística (integrada)e, portanto, não sobrevaloriza elementos isolados.d. A estratégia deve estar de acordo com a racionalidade camponesa, in-corporando elementos do manejo tradicional de recursos.
  20. 20. 26- intensifica o controle biológico de pragas fornecendo umhabitat para os inimigos naturais;- aumenta a capacidade de múltiplo uso do território;- assegura uma produção sustentável das culturas sem o usode insumos químicos que possam degradar o ambiente (Altieri,Letourneau e Davis, 1983).Porém, restaurar a saúde ecológica não é o único objetivoda agroecologia. De fato, a sustentabilidade não é possível sema preservação da diversidade cultural que nutre as agriculturaslocais. O estudo da etnociência (o sistema de conhecimento deum grupo étnico local e naturalmente originado) tem reveladoque o conhecimento das pessoas do local sobre o ambiente,a vegetação, os animais e solos pode ser bastante detalhado.O conhecimento camponês sobre os ecossistemas geralmenteresulta em estratégias produtivas multidimensionais de uso daterra, que criam, dentro de certos limites ecológicos e técnicos,a auto-suficiência alimentar das comunidades em determinadasregiões (Toledo et al., 1985). Para os agroecologistas, vários as-pectos dos sistemas tradicionais de conhecimento são particu-larmente relevantes, incluindo aí o conhecimento de práticasagrícolas e do ambiente físico, os sistemas taxonômicos popula-res e o emprego de tecnologias de baixo uso de insumos. Muitoscientistas nos países desenvolvidos estão começando a mostrarinteresse pela agricultura tradicional em seus mais diferentes as-pectos: capacidade de tolerar riscos, eficiência produtiva de mis-turas simbióticas de cultivos, reciclagem de materiais, utilizaçãodos recursos e germoplasmas locais, habilidade em explorartoda uma gama de microambientes. É possível obter, através doestudo da agricultura tradicional, informações importantes quepodem ser utilizadas no desenvolvimento de estratégias agríco-las apropriadas, adequadas às necessidades, preferências e basede recursos de grupos específicos de agricultores e agroecossis-temas regionais (Altieri, 1983). Entretanto, tal transferência de
  21. 21. 27conhecimentos deve ocorrer rapidamente, ou essa riqueza depráticas se perderá para sempre.A produção estável somente pode acontecer no contexto deuma organização social que proteja a integridade dos recursosnaturais e estimule a interação harmônica entre os seres huma-nos, o agroecossistema e o ambiente. A agroecologia fornece asferramentas metodológicas necessárias para que a participaçãoda comunidade venha a se tornar a força geradora dos objetivose atividades dos projetos de desenvolvimento. O objetivo é queos camponeses se tornem os arquitetos e atores de seu própriodesenvolvimento (Chambers, 1983).
  22. 22. 29AAGROECOLOGIADOS AGROECOSSISTEMAS TRADICIONAISOs sistemas agrícolas tradicionais surgiram no decorrer deséculos de evolução biológica e cultural. Eles representam as ex-periências acumuladas de agricultores interagindo com o meioambiente sem acesso a insumos externos, capital ou conhecimen-to científico (Brokenshaw, Warren e Werner, 1979). Utilizandoa autoconfiança criativa, o conhecimento empírico e os recursoslocais disponíveis, os agricultores tradicionais freqüentementedesenvolveram sistemas agrícolas com produtividades sustentá-veis (Harwood, 1979). Uma característica notável desses siste-mas é o grau de diversidade das plantas, geralmente na formade policultivos e/ou padrões agroflorestais (Clawson, 1985). Essaestratégia de minimizar o risco através do cultivo de várias espé-cies e variedades de plantas estabiliza a produtividade a longoprazo, promove a diversidade do regime alimentar e maximizaos retornos com baixos níveis de tecnologia e recursos limitados(Richards, 1985).Os sistemas de cultivo tradicionais fornecem 20% da ofertade alimentos do mundo (Francis, 1986). Os policultivos cons-tituem no mínimo 80% da área cultivada da África Ocidentale boa parte da produção de alimentos básicos nos trópicos la-tino-americanos. Os agroecossistemas tropicais, compostos deparcelas produtivas e em pousio, hortas domésticas complexas
  23. 23. 30e lotes agroflorestais, geralmente contêm mais de 100 espéciespor campo de cultivo proporcionando materiais de construção,lenha, ferramentas, medicamentos, alimentos para o gado e parao consumo humano. Hortas no México, Indonésia e Amazonasexibem formas altamente eficientes de uso do solo, incorporandocultivos variados com distintos hábitos de crescimento (Alcorn,1984). O resultado é uma estrutura semelhante à das florestastropicais, com diversas espécies e uma configuração estratificada(Denevan et al., 1984). Pequenas áreas ao redor das casas dos agri-cultores geralmente abrigam 80 a 125 espécies de plantas úteis,muitas delas para alimentação e uso medicinal.Muitos agroecossistemas tradicionais encontram-se em cen-tros de diversidade genética, contendo, portanto, populações deplantas cultivadas locais, variadas e adaptadas, bem como de pa-rentes selvagens e silvestres destas diferentes culturas. (Harlan,1976). Estes agroecossistemas constituem-se essencialmente emrepositórios in situ de diversidade genética. Há muitas descriçõesde sistemas em que os agricultores dos trópicos plantam múltiplasvariedades de cada cultura, criando diversidade intra e interespe-cífica, aumentando assim a segurança da colheita. Por exemplo,nos Andes, os agricultores cultivam cerca de 50 variedades debatata em seus campos de cultivo (Brush, 1982). Da mesma for-ma, na Tailândia e na Indonésia, os agricultores cultivam muitasvariedades de arroz em suas lavouras, variedades essas adaptadasa uma ampla gama de condições ambientais. Regularmente, tro-cam sementes com os vizinhos (Grigg, 1974). A diversidade gené-tica resultante aumenta a resistência às doenças que atacam espé-cies particulares de plantas, possibilita aos agricultores explorardiferentes microclimas, atender suas necessidades nutricionais eobter, ainda, outros benefícios através de sua utilização.Os agricultores tradicionais preservam a biodiversidade nãosomente nas áreas cultivadas, mas também naquelas sem cultivos.Muitos camponeses mantêm áreas cobertas por florestas, lagos,
  24. 24. 31pastagens, arroios e pântanos, no interior ou em áreas adjacentesaos seus campos de cultivos, suprindo-se, assim, de produtos úteis,como alimentos, materiais de construção, medicamentos, fertili-zantes orgânicos, combustíveis e artigos religiosos. Em condiçõesúmidas e tropicais, a coleta de recursos originários de florestasprimárias e secundárias pode ser bastante importante. Na regiãode Uxpanapa, em Veracruz, México, os agricultores utilizam cer-ca de 435 espécies selvagens de plantas e animais, das quais 229são consumidas. Em muitas áreas semi-áridas, a coleta possibilitaaos camponeses e aos grupos indígenas manter seus padrões nu-tricionais mesmo em tempos de seca (Toledo et al., 1985).Embora os agroecossistemas tradicionais variem com as cir-cunstâncias geográficas e históricas, muitas características estru-turais e funcionais são compartilhadas pelos diferentes sistemas,pois eles:- contêm um grande número de espécies;- exploram toda uma gama de microambientes com carac-terísticas distintas, tais como solo, água, temperatura, altitude,declividade ou fertilidade, seja em um único campo de cultivo,seja em uma região;- mantêm os ciclos de materiais e resíduos através de práticaseficientes de reciclagem;- têm como suporte interdependências biológicas complexas,resultando em um certo grau de supressão biológica de pragas;- utilizam baixos níveis de insumos tecnológicos, mobilizan-do recursos locais baseados na energia humana e animal;- fazem uso de variedades locais e espécies silvestres de plan-tas e animais;- produzem para consumo local.
  25. 25. 32Os serviços ecológicos da biodiversidadenos agroecossistemas tradicionaisNos agroecossistemas tradicionais, a predominância de siste-mas de cultivo complexos e diversificados é de suma importânciapara os camponeses, na medida em que as interações entre plan-tas cultivadas, animais e árvores resultam em sinergismos bené-ficos que permitem aos agroecossistemas promover sua própriafertilidade de solo, controle de pestes e produtividade (Altieri,1987; Harwood, 1979; e Richards, 1985).Através do plantio intercalado, os agricultores beneficiam-seda capacidade dos sistemas de cultivo de reutilizar seus própriosestoques de nutriente. A tendência de algumas culturas de exauriro solo é contrabalançada através do cultivo intercalado de outrasespécies que enriquecem o solo com matéria orgânica. O nitro-gênio do solo, por exemplo, pode ser incrementado com a in-corporação de leguminosas à mistura de cultivos, e a assimilaçãode fósforo pode ser intensificada com o plantio de espécies queestimulem as associações com micorrizas (Vandermeer, 1989).Aestruturacomplexadosagroecossistemastradicionaisdiminuias perdas por ação de pragas, através de uma variedade de mecanis-mos biológicos. O consorciamento de distintas espécies ajuda a criarhabitats para os inimigos naturais das pragas, bem como hospedei-ros alternativos para as mesmas. Um cultivo pode ser utilizado comohospedeirodiversivo,protegendoderiscosoutroscultivosmaissusce-tíveis ou mais valorizados economicamente. A grande diversidade deespécies desenvolvendo-se simultaneamente em policultivos, ajudana prevenção de pragas evitando sua proliferação entre indivíduosda mesma espécie, que ali se encontram relativamente isolados unsdos outros. Onde uma agricultura itinerante é praticada, a aberturade pequenos lotes em áreas cobertas por vegetação de floresta secun-dária permite também uma fácil migração de predadores naturaisdas pragas oriundos das florestas adjacentes (Altieri, 1991).
  26. 26. 33O rendimento total por hectare é, com freqüência, mais altoem policultivos do que em monocultivos, mesmo quando a pro-dução de cada um dos componentes individuais é reduzida. Essavantagem é geralmente expressa como Índice Equivalente de Terra(IET), que expressa a área de monocultivo necessária para produzira mesma quantidade que um hectare de policultivo, utilizando-se amesma população de plantas. Se o IET é maior que 1, o policultivoresultará em maior produtividade (Francis, 1986).Uma estratégia importante para minimizar as perdas em casode ataques de doenças e nematóides é o aumento de espécies e/ou de diversidade genética dos sistemas de cultivo, utilizando-se,simultaneamente, vários focos de resistência. A mistura de dife-rentes espécies de plantas ou variedades pode retardar o surto dedoenças, reduzir a disseminação de esporos infectados e modifi-car as condições ambientais, tais como umidade, luminosidade,temperatura e deslocamento de ar, tornando-as menos favoráveisà difusão de certas doenças.Muitos sistemas de consorciamento previnem a concorrênciapor parte das ervas adventícias, principalmente porque as grandesáreas de cobertura das folhas de seus complexos dosséis, evitamque a luminosidade atinja espécies de ervas sensíveis. Em geral,o ponto a partir do qual as ervas adventícias começam a repre-sentar um problema depende dos tipos de culturas e da propor-ção das diferentes espécies cultivadas, sua densidade, onde sãoplantadas, fertilidade do solo e práticas de manejo. A elimina-ção das ervas adventícias pode ser feita nos cultivos consorciadosacrescentando-se espécies que inibam sua germinação ou desen-volvimento através da alelopatia. Cultivos como centeio, cevada,trigo, tabaco e aveia liberam substâncias tóxicas no ambiente, ouatravés de suas raízes ou da decomposição vegetal. Essas toxinasinibem a germinação e desenvolvimento de algumas espécies deervas, como a mostardeira selvagem (Brassica spp.) e a papoula.Os camponeses que trabalham com sistemas de produção
  27. 27. 34tradicionais têm conhecimento e compreensão sofisticados sobrea biodiversidade agrícola que manuseiam. É por essa razão queos agroecologistas opõem-se àquelas abordagens que separam oestudo da biodiversidade agrícola do estudo das culturas que asalimenta.A natureza complexado conhecimento etnoecológico dos agricultoresA etnoecologia é o estudo e descrição de sistemas de conhe-cimento de grupos étnicos rurais indígenas sobre o mundo na-tural (Alcorn, 1984). Esse conhecimento tem muitas dimensões,incluindo lingüística, botânica, zoologia, artesanato e agricultura,e deriva da interação direta entre os seres humanos e o meio am-biente. Os povos indígenas extraem as informações mais adaptá-veis e úteis do meio através de sistemas especiais de conhecimen-to e percepção. Desse modo, preservam e repassam informaçõesde geração a geração por meios orais ou empíricos (Chambers,1983). Seu conhecimento sobre solos, climas, vegetação, animaise ecossistemas geralmente resulta em estratégias produtivas mul-tidimensionais (isto é, múltiplos ecossistemas com múltiplas es-pécies), e essas estratégias proporcionam, dentro de certos limitesecológicos e técnicos, a auto-suficiência alimentar dos agriculto-res em uma determinada região (Toledo et al., 1985).Para os agroecologistas, quatro aspectos desses sistemas tradi-cionais de conhecimento são relevantes (Altieri, 1987):Conhecimento sobre o meio ambiente. O conhecimento indí-gena sobre o meio ambiente físico é, com freqüência, detalha-do. Muitos agricultores desenvolveram calendários tradicionaispara controlar a programação das atividades agrícolas. Podemsemear de acordo com a fase da lua, acreditando que há faseslunares de precipitação. Muitos também enfrentam a sazona-
  28. 28. 35lidade climática utilizando indicadores de clima baseados nafenologia (ou seja, início da floração) da vegetação local. Tiposde solo, graus de fertilidade e categorias de uso da terra sãotambém discriminados em detalhe por esses agricultores. Ossolos são identificados pela cor, textura e até pelo sabor. Osagricultores itinerantes geralmente classificam seus solos base-ados na vegetação superficial. Em geral, a classificação de solopelos camponeses depende da natureza de sua relação com aterra (Williams e Ortiz Solorio, 1981). Os sistemas asteca declassificação eram muito complexos, identificando mais de 24tipos de solo pela origem, cor, textura, cheiro, consistência ecomponentes orgânicos. Esses solos também eram classificadosde acordo com o potencial agrícola e utilizados tanto nas ava-liações territoriais quanto no censo rural. Os camponeses andi-nos em Coporaque, Peru, identificam quatro principais tiposde solos. Cada um tem características específicas que definem osistema de cultivo mais adequado (Brush, 1982).Taxonomias biológicas populares. Foram registrados muitos sis-temas complexos utilizados pelos indígenas para agrupar plantase animais (Berlin et al., 1973). Geralmente, o nome tradicionalde uma planta ou animal revela o status taxonômico daquele in-divíduo. Pesquisadores descobriram que, em geral, há uma fortecorrelação entre as taxonomias popular e científica.A classificação de animais, especialmente insetos e pássaros,está difundida entre os agricultores e os grupos indígenas. Osinsetos e artrópodos têm um papel relevante como pragas, cau-sas de doenças, alimento e medicamentos, sendo importantesna mitologia e no folclore. Em muitas regiões, as pragas na agri-cultura são toleradas, pois também constituem produtos agríco-las, isto é, os agricultores tradicionais podem consumir plantase animais que, em outras situações, seriam considerados pragas(Brokenshaw et al., 1980).As taxonomias etnobotânicas são as taxonomias tradicionais
  29. 29. 36mais comumente registradas. O conhecimento etnobotânico decertos campesinos no México é tão elaborado que os maias doTzetal, P’urepecha e Yucatan conseguem identificar mais de1.200, 900 e 500 espécies de plantas, respectivamente (Toledoet al., 1985). De modo semelhante, mulheres aborígenes !ko, naBotswana, identificaram 206 das 211 plantas coletadas pelos pes-quisadores (Chambers, 1983), e os plantadores swidden Hanunu,nas Filipinas, mais de 1.600 espécies de plantas (Grigg, 1974).A natureza experimental do conhecimento tradicional. A vantagemdo conhecimento popular rural é que ele é baseado não apenasem observações precisas mas, também, em conhecimento experi-mental. Esta abordagem experimental é bastante evidente na se-leção de variedades de sementes para ambientes específicos, mastambém é implícita, na testagem de novos métodos de cultivo,visando a superação de limites biológicos ou socioeconômicosparticulares. De fato, os agricultores geralmente atingem uma ri-queza de observação e uma acuidade de descrições acessíveis aoscientistas ocidentais somente através de um longo e detalhadoprocesso de mensuração e quantificação (Chambers, 1983).Só recentemente os pesquisadores começaram a descrever eregistrar parte desse conhecimento. As evidências sugerem que asdescrições mais precisas derivam de comunidades cujos ambien-tes são de grande diversidade física e biológica, e de comunidadesque vivem nos limites de sobrevivência (Chambers, 1983). Alémdisso, os membros mais antigos das comunidades possuem umconhecimento mais abrangente e detalhado do que os mais jo-vens (Klee, 1980).Conhecimento das práticas agrícolas. A maioria dos pequenosagricultores emprega práticas destinadas a otimizar a produtivida-de a longo prazo, em vez de maximizá-la a curto prazo (Gliessmanet al., 1981). Os insumos são, no geral, originários de áreas ad-jacentes e o trabalho agrícola é desempenhado por homens eanimais. Ao trabalhar com esses limites espaciais e energéticos,
  30. 30. 37os pequenos agricultores aprenderam a reconhecer e utilizar osrecursos disponíveis no local (Wilken, 1987).Ao confrontarem-se com problemas específicos, como de-clives, inundações, secas, pragas, doenças e baixa fertilidade dosolo, os pequenos agricultores, em todo o mundo, desenvolveramsistemas peculiares de trabalho para superá-los (Quadro 2). Elesatendem às exigências ambientais de seu sistema de produção dealimentos concentrando-se em uns poucos processos e princípios(Knight, 1980), descritos a seguir.Diversidade e continuidade espacial e temporal. Cultivos mistosgarantem constante produção de alimentos e cobertura vegetalpara proteção do solo, assegurando uma oferta regular e variadae, em conseqüência, uma dieta alimentar nutritiva e diversifica-da. A extensão do período de colheita reduz a necessidade de ar-mazenamento, prática quase sempre arriscada em climas úmidos,mantendo também as relações bióticas (complexos predador/presa, bactérias fixadoras de nitrogênio) que podem beneficiaro agricultor.Otimização do uso de espaço e recursos. A combinação de plan-tas com diferentes hábitos de crescimento, copadas e estruturasde raízes, possibilita o melhor uso dos recursos ambientais, comonutrientes, água e radiação solar. Cultivos mistos maximizam ouso de um ambiente específico. Em sistemas agroflorestais com-plexos, os cultivos podem crescer sob as copas das árvores, casoexista penetração suficiente de luz.Reciclagem de nutrientes. Os pequenos agricultores assegurama fertilidade do solo mantendo fechados os ciclos de nutrientes,energia, água e resíduos. Assim, muitos enriquecem o solo cole-tando nutrientes (como esterco e liteira) externamente às suasunidades de produção agrícola, adotando sistemas de rotação oupousio, ou incluindo leguminosas em seus padrões de consorcia-mento ou intercalamento de cultivos.Conservação da água. Onde a agricultura é dependente da
  31. 31. 38Quadro 2Alguns exemplos de sistemas de administração do solo, espaço, água e vegetação utiliza-dos por agricultores tradicionais no mundo (de acordo com Klee, 1980)ObstáculosambientaisObjetivo Prática recomendadaEspaçolimitadoMaximizar o uso derecursos e terra doambiente.Cultivo intercalado, agroflorestamento, cultivo em dife-rentes extratos, hortas caseiras, zoneamento agrícola poraltitude, subdivisão da propriedade, rotação.EncostasdeclivosasControlar a erosãoe conservar osrecursos hídricos.Construção de terraços, cultivo em curvas de nível, bar-reiras vivas ou artificiais, cobertura morta, nivelamento,cultivo contínuo e de pousio, taipas de pedra.Fertilidadedos solosmarginaisManter a fertilidadedo solo e reciclar amatéria orgânica.Pousios naturais ou melhorados, rotações de cultura eplantio consorciado com leguminosas, coleta de resí-duos, compostagem, esterco, adubação verde, pastagemde animais em áreas de pousio, solos de latrina e restosdomésticos, restos de capina, solos de formigueiros comofonte de fertilizantes, uso de depósitos de aluvião, uso deaguapés, plantio de leguminosas em aléias, folhas, galhose outros entulhos arrancados, vegetação queimada, etc.Enchenteou água emexcessoIntegrar a agricultu-ra com a oferta deágua.Agricultura de campos elevados (chinampas, tablones),campos com drenos, diques, etc.Excesso deáguaDisponibilidade deágua por canal oudiretamente.Controle de fluxo de água através de canais e represasfeitas de pequenas valas. Áreas cavadas até o nível daágua. Irrigação por borrifação. Irrigação de canais atra-vés de lagos formados pelo lençol freático, poços, lagoase reservatórios.PluvosidadeinstávelMelhor utilizaçãoda umidade dispo-nível.Uso de espécies e variedades tolerantes à seca, cobertu-ra morta, indicadores de clima, plantio misto no finalda estação de chuvas, cultivos com curtos períodos decrescimento.Tempera-tura ou ra-diação solarextremasMelhorar o micro-clima.Redução ou aumento de sombra, espaçamento de plan-tas, poda, cultivos tolerantes à sombra, aumento de den-sidade das plantas, cobertura morta, controle do ventocom o uso de cercas vivas, cercas, linhas de árvores, ca-pina e aração superficiais, cultivo mínimo, consórcios;agroflorestamento, plantio em aléias, etc.Incidênciade pragas(invertebra-das, verte-bradas)Proteger as plan-tações, minimizaras populações depragas.Plantio abundante para permitir um certo risco de ocor-rência de pragas, observação dos cultivos, cercas vivas oucercados, uso de variedades resistentes, plantio misto,aumento dos inimigos naturais, caça, coleta, uso de ve-nenos, repelentes, plantio em épocas de menor ataquede pragas.
  32. 32. 39água das chuvas, a pluviosidade é o principal determinante dotipo de rotação utilizado pelo agricultor. Em áreas de pouca umi-dade, dá-se preferência às plantas tolerantes à seca (como cajanus,6batata-doce, mandioca, painço e sorgo), e práticas de manejo quebuscam manter o solo coberto (como o uso da cobertura mor-ta) para evitar a evaporação e o escoamento de água. Onde aprecipitação é superior a 1.500 mm/ano, a maioria dos sistemasde cultivo é baseada no arroz. Sob constantes cheias, em vez deinvestirem em sistemas dispendiosos de drenagem, os agriculto-res desenvolvem sistemas integrados de agricultura/aquacultura,como as chinampas do México Central (Wilken, 1987).Controle de sucessão e proteção de cultivos. Os agricultores de-senvolveram uma gama de estratégias para enfrentar a competi-ção com organismos indesejáveis. Cultivos mistos evitam ataquescatastróficos de insetos e pragas e as coberturas podem efetiva-mente suprimir o crescimento de ervas adventícias e diminuira necessidade de controlá-las; além disso, as práticas culturaiscomo a cobertura morta, mudanças nos períodos de plantio ena densidade, uso de variedades resistentes e de inseticidas botâ-nicos e/ou repelentes podem diminuir a interferência das pragas(Thurston, 1992).6Feijão guandu (N. do T.).
  33. 33. 41PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO RURALBASEADOS NA AGROECOLOGIAA urgente necessidade de combater a miséria rural e regenerara base de recursos das pequenas propriedades tem estimulado di-versas Organizações Não-Governamentais (ONGs), nos países emdesenvolvimento, a buscar ativamente novas estratégias de desen-volvimento e manejo de recursos na agricultura. O trabalho dasONGs está inspirado na crença de que a pesquisa e o desenvolvi-mento agrícola devem operar baseados em uma abordagem “debaixo para cima”, utilizando os recursos já disponíveis: a populaçãolocal, suas necessidades e aspirações, seu conhecimento agrícola erecursos naturais autóctones. Acredita-se que as estratégias base-adas na participação, capacidades e recursos locais aumentam aprodutividade enquanto conservam a base dos recursos. O conhe-cimento local dos agricultores sobre o ambiente, plantas, solos eprocessos ecológicos possui uma grande importância nesse novoparadigma agroecológico (Altieri e Yurievich, 1991).Algumas ONGs envolvidas em programas de desenvolvimen-to rural (PDR) demonstraram uma capacidade única de compre-ender a natureza específica e diferenciada da pequena produção,promovendo experiências bem-sucedidas na geração e transferên-cia de tecnologias camponesas. Um elemento-chave tem sido o de-senvolvimento de novos métodos agrícolas baseados em princípiosagroecológicos, que se assemelham ao processo de produção cam-
  34. 34. 42ponês. Essa abordagem distingue-se daquela da Revolução Verdenão apenas tecnicamente, ao reforçar o emprego de tecnologias debaixo uso de insumos, mas também por critérios socioeconômicos,no que tange às culturas afetadas, beneficiários, necessidades depesquisa e participação local (Quadro 3).A abordagem agroecológica é também mais sensível às com-plexidades dos sistemas agrícolas locais. Nela, os critérios de de-sempenho incluem não só uma produção crescente, mas tambémpropriedades como sustentabilidade, segurança alimentar, estabi-lidade biológica, conservação de recursos e eqüidade. Um proble-ma da Revolução Verde nas regiões agrícolas heterogêneas, é queela concentrou seus esforços nos agricultores mais bem providosde recursos, no topo do gradiente, esperando que os “agricultoresprogressistas ou avançados” servissem como exemplo a outros, emum processo difusionista de transferência de tecnologias (Figura1). Os agroecologistas, ao contrário, enfatizam que, para o desen-volvimento ser realmente de baixo para cima, deve começar comFigura 1Agricultores em relação à tecnologia e aos mercados.Nota: o enfoque da agroecologia é nos agricultores com poucos recursos, isto é, aquelesque têm o menor acesso aos insumos tecnológicos e poucas relações com o mercado.A agroecologia vê esses agricultores como o ponto de partida para uma estratégia dedesenvolvimento rural sustentável.
  35. 35. 43Quadro 3Comparação entre as tecnologias da Revolução Verde e da agroecologiaCaracterísticas Revolução Verde AgroecologiaTécnicas:Cultivos afetados Trigo, milho, arroz, etc. Todos os cultivos.Áreas afetadas Na sua maioria, áreas planase irrigáveis.Todas as áreas, especialmente as mar-ginais (dependentes da chuva, encons-tas declivosas).Sistema de cultivodominanteMonocultivos geneticamenteuniformes.Policultivos geneticamente heterogê-neos.Insumos predomi-nantesAgroquímicos, maquinário;alta dependência de insumosexternos e combustível fóssil.Fixação de nitrogênio, controle bioló-gico de pragas, corretivos orgânicos,grande dependência nos recursos lo-cais renováveis.Ambientais:Impactos e riscos àsaúdeMédios a altos (poluiçãoquímica, erosão, salinização,resistência a agrotóxicos, etc.).Riscos à saúde na aplicaçãodos agrotóxicos e nos seusresíduos no alimento.Nenhum.Cultivos deslocados Na maioria, variedadestradicionais e raças locais.Nenhum.Econômicas:Custos das pesquisas Relativamente altos. Relativamente baixos.NecessidadesfinanceirasAltas. Todos os insumosdevem ser adquiridos nomercado.Baixas. A maioria dos insumos estádisponível no local.Retorno financeiro Alto. Resultados rápidos.Alta produtividade damão-de-obra.Médio. Precisa de um determinadoperíodo para obter resultados maissignificativos. Baixa a média produti-vidade da mão-de-obra.Institucionais:DesenvolvimentotecnológicoSetor semipúblico, empresasprivadas.Na maioria, públixas; grande envolvi-mento de ONGs.Socioculturais:Capacitações neces-sárias à pesquisaCultivo convencional eoutras disciplinas de ciênciasagrícolas.Ecologia e especializações multidisci-plinares.continua...
  36. 36. 44aqueles pequenos agricultores da parte inferior do gradiente. As-sim, a abordagem agroecológica provou ser culturalmente compa-tível, na medida em que se constrói com base no conhecimentoagrícola tradicional, combinando-o com elementos da modernaciência agrícola (Altieri e Hecht, 1989).As técnicas resultantes também são ecologicamente corretas,pois não modificam ou transformam radicalmente o ecossistemacamponês, mas, sim, identificam elementos tradicionais e/ou novosde manejo que, uma vez incorporados, otimizam a unidade de pro-dução. A ênfase nos recursos locais disponíveis diminui os custos deprodução, viabilizando economicamente as tecnologias agroecológi-cas. Além disso, os formatos produtivos e técnicas agroecológicas,por definição, conduzem a níveis maiores de participação.Em termos práticos, a aplicação de princípios agroecológi-cos aos programas de desenvolvimento rural tem se traduzido emuma diversidade de programas de pesquisa e demonstração e sis-temas alternativos de produção. Esses programas possuem umasérie de objetivos (Altieri,1992):a) melhorar a produção de alimentos básicos ao nível dasunidades produtivas, fortalecendo e enriquecendo a dieta ali-mentar das famílias. Isto tem envolvido a valorização de produtostradicionais (caruru, quinoa, tremoços, etc.) e a conservação degermoplasma de variedades cultivadas locais;b) resgatar e reavaliar o conhecimento e as tecnologias cam-ponesas;Características Revolução Verde AgroecologiaParticipação Baixa (na maioria, méto-dos de cima para baixo).Utilizados para determinaros obstáculos à adoção dastecnologias.Alta. Socialmente ativadora, induz aoenvolvimento da comunidade.Integração cultural Muito baixa. Alta. Uso extensivo de conhecimentotradicional e formas locais de organi-zação....continuação
  37. 37. 45c) promover o uso eficiente dos recursos locais (isto é, terra,mão-de-obra, subprodutos agrícolas, etc.);d) aumentar a diversidade vegetal e animal de modo a dimi-nuir os riscos;e) melhorar a base de recursos naturais através da conserva-ção e regeneração da água e do solo, enfatizando o controle daerosão, a captação de água, o reflorestamento, etc.;f) reduzir o uso de insumos externos, diminuindo a depen-dência e sustentando, ao mesmo tempo, os níveis de produtivi-dade, através de tecnologias apropriadas, da experimentação eimplementação da agricultura orgânica e outras técnicas de baixouso de insumos;g) garantir que os sistemas alternativos resultem em um forta-lecimento não só das famílias, mas de toda a comunidade. Assim,as intervenções e processos tecnológicos são complementados porprogramas de educação que preservam e reforçam a racionalida-de camponesa, auxiliando, simultaneamente, na transição paranovas tecnologias, relações com o mercado e organização social.Exemplos de programas agroecológicospromovidos pelas ONGsExemplos de programas promovidos por ONGs, utilizandoabordagens agroecológicas, podem ser encontrados em diferentespartes do mundo.Cultivo em aléias na África. Na África tropical úmida, as áreascom períodos de pousio crescentemente reduzidos, vem apresen-tando um rápido declínio de sua fertilidade e do rendimento dascolheitas. Essas regiões necessitam sistemas de cultivo intensivo,como o cultivo em aléias, e um sistema melhorado de pousio, noqual arbustos ou árvores leguminosas são plantados em associa-
  38. 38. 46ção com espécies alimentícias, visando acelerar a regeneração dosnutrientes do solo, e diminuindo, portanto, o tempo de pousio.Nesse método de cultivo em aléias, as árvores e arbustos forne-cem adubo verde para os cultivos associados, e os materiais depoda são utilizados como cobertura e sombra durante o pousio,visando diminuir as ervas adventícias. Os materiais de poda ser-vem também como alimento para animais, como estacas e lenha(Kang et al., 1984). Logo, o plantio em aléias é um sistema demúltiplo uso.Nele, os cultivos crescem em aléias (com dois a quatro metrosde largura) formadas por árvores e arbustos. Experimentos naÁfrica, em que a leucena (Leucaena leucocephala) foi intercaladacom milho, mostraram um aumento significativo na produçãodas culturas. O nitrogênio foliar das ramas podadas da leucena,distribuídas na superfície ou incorporadas ao solo, contribuiupara um aumento significativo de 23% na produtividade do mi-lho, quando comparada com a parcela-testemunha.As avaliações dos sistemas de cultivo em aléias mostram que,para estabilizar os sistemas de agricultura itinerante, é necessárioproporcionar um período eficaz de descanso ou pousio, acom-panhado de uma série de melhorias durante a época de culti-vo, de forma a diminuir a erosão e manter a fertilidade do solo.Estabilizar sistemas de agricultura itinerante em um nível capazde sustentar níveis de produtividade, suprir as necessidades dapopulação local e permitir um período adequado de pousio, trazbenefícios tanto ecológicos quanto sociais. Diminuindo a erosãodo solo, a perda de fertilidade e a invasão de ervas adventícias, apopulação tem mais chances de permanecer na mesma área.Emáreasqueforamdensamentecultivadascom L.leucocephala,esta foi atacada por psilídeos. De modo a evitar a uniformidade e avulnerabilidade à praga, as aléias devem ser feitas com uma misturade diversas espécies e variedades de leguminosas.Promoção de sistemas agrícolas integrados em Bangladesh. Em pro-
  39. 39. 47jetos promovidos pelo International Center for Living AquaticResources Management (ICLARM),7cientistas ajudaram institui-ções locais de Bangladesh a desenvolver tecnologias sustentáveisde piscicultura, compatíveis com os recursos das unidades domés-ticas e sistemas agrícolas existentes. As tecnologias possibilitamuma piscicultura de ciclo curto, utilizando espécies como o peixe-rei (Puntius gonionotus) e a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus),em açudes pequenos (100-200 m2) e sazonais (4-6 meses), integra-dos ao sistema de produção agrícola existente.Os agricultores demonstraram satisfação com a integraçãoentre a piscicultura e outras atividades agrícolas, e planejam darcontinuidade e expandir essas práticas. Seus motivos para talsão mais diversos e complexos do que dinheiro e alimentos.As famílias adotam o sistema pelo lazer e relações sociais queele proporciona, para gerar insumos para outras atividades pro-dutivas e por obter um rápido retorno econômico, devido aocurto tempo de crescimento dos peixes. Os agricultores podemproduzir peixe por 12 a 30 centavos de dólar/kg, comparadoscom 81 a 1,16 centavos de dólar por kg-1. Alguns deles, com va-las temporárias pequenas de 170 m2, produzem de 25 a 30 kg depeixe nos 4-6 meses em que a água está disponível. Um açudede cerca de 300 m2pode prover uma família de seis pessoas comuma quantidade de peixe que ultrapassa o consumo anual de7,9 kg per capita.AsONGs,comooBangladeshRuralAdvancementCommittee(BRAC)8e a Proshika, assistem hoje a mais de 30 mil criadores depeixes, dos quais quase 60% são mulheres, na utilização de açudese valas sazonais antigamente abandonadas. A adoção pelas mu-lheres da piscicultura integrada, não apenas lhes fortalece social-mente, como também melhora a alimentação de suas famílias. OBRAC fornece crédito a mulheres que, em alguns casos, nunca7Centro Internacional de Administração de Recursos Aquáticos Vivos.8Comitê para o Progresso Rural de Bangladesh.
  40. 40. 48haviam tido acesso a esse benefício; sua taxa de inadimplência é deapenas 2%. Esse é um importante indicativo do grau de sucesso doprograma (Lightfoot, 1990).Conservação dos solos nas encostas na América Central. Loma Lin-da, uma ONG hondurenha, desenvolveu um sistema simples deplantio sem revolvimento de solo. Enquanto a terra está em pou-sio, as ervas adventícias são retiradas com um facão ou outras fer-ramentas apropriadas, sem remover o solo. Com o auxílio de umaenxada ou um arado pequeno, abrem-se pequenos sulcos a cada50-60 cm, seguindo-se a curva de nível. As sementes e o compostoe/ou esterco de aves são colocados no sulco e cobertos com terra.Na medida em que cresce o cultivo, as ervas adventícias são man-tidas roçadas para evitar a competição excessiva, e sua biomassa édeixada no local como cobertura e como fonte de matéria orgâni-ca. Podem ser obtidas excelentes colheitas sem o uso de fertilizan-tes químicos e, o mais importante, sem uma perda significativa desolo (Altieri, 1991).Com um projeto semelhante em Guinope, Honduras, a or-ganização privada voluntária, World Neighbours, começou umprograma de desenvolvimento e treinamento agrícola visandocontrolar a erosão e recuperar a fertilidade do solo. O progra-ma introduziu práticas de conservação do solo como drenageme valas em curva de nível, barreiras de capim, e taipas de pedra,dando ênfase, também, à utilização de métodos de fertilizaçãoorgânica, como o uso do esterco de aves e o consorciamento comleguminosas. No primeiro ano, a produção triplicou ou quadru-plicou de 400 kg por hectare para um faixa de 1.200 a 1.600 kg.Essa triplicação na produção de grãos por hectare assegurou às1.200 famílias que participaram do programa um bom suprimen-to de grãos para o ano seguinte.Nos últimos cinco anos, quarenta outras aldeias buscaramtreinamento em práticas de conservação do solo (Bunch, 1988).O aumento da produtividade por hectare significou que a maio-
  41. 41. 49ria dos agricultores está agora cultivando menos terras do queantes, permitindo que mais áreas possam voltar a ser florestasde pinho ou serem usadas para o plantio de pastagens, pomarese café. O resultado líquido é que centenas de hectares, antiga-mente usados para uma agricultura erosiva, estão agora cober-tos por árvores.Reconstruindo terraços abandonados nos Andes. No Peru, váriasONGs e agências governamentais têm se engajado em programasde recuperação de terraços abandonados e na construção de no-vos terraços em várias regiões do país. No Vale Colca, no Sul doPeru, por exemplo, o Programa de Acondicionamiento Territo-rial y Vivienda Rural (PRATVIR)9patrocina a reconstrução deterraços oferecendo às comunidades de camponeses empréstimosa juros baixos ou sementes e outros insumos para recuperar gran-des áreas (até 30 hectares) de terraços abandonados. Os terraçosdiminuem os riscos em tempos de geada e/ou seca, reduzem asperdas do solo, ampliam as opções de plantio (devido ao micro-clima e às vantagens hidráulicas) e melhoram a produção. Osdados do primeiro ano de cultivo em terraços recém-construídosrevelam um aumento de 43-65% na produção de batatas, milhoe cevada, em comparação com a produtividade dessas mesmasculturas em encostas sem terraços (Treacey, 1989).Em Cajamarca, Peru, a EDAC-CIED, uma ONG, juntamen-te com comunidades de camponeses, iniciou um projeto bastanteamplo de conservação do solo. Em dez anos, plantaram mais de550 mil espécies de árvores nativas e exóticas e construíram cercade 850 hectares de terraços e 173 hectares de canais de drenageme infiltração. O resultado final é de cerca de 1.124 hectares deterra em regime de conservação (aproximadamente 32% da terraarável total), beneficiando 1.247 famílias (em torno de 52% dototal). A produtividade das culturas cresceu significativamente(por exemplo, a batata aumentou de 5 t por hectare para 8 t por9Programa de Adequação Territorial e Propriedade Rural.
  42. 42. 50hectare, e a produção de oca saltou de 3 para 8 t por hectare). Acriação de gado de corte e de alpaca para lã, somada ao aumen-to da produtividade das culturas, elevou a renda das famílias deuma média de $108 por ano, em 1983, para mais de $500 atual-mente (Sanchez, 1989).Um dos principais obstáculos na construção de terraços éque eles exigem uso intensivo de mão-de-obra. Estima-se que se-jam necessários 2.000 dias de um trabalhador para completar areconstrução de um hectare. Entretanto, em outras áreas do Peru,com bom planejamento, a reconstrução de terraços tem se mos-trado um trabalho menos intensivo, exigindo somente 350-500diárias de um trabalhador por hectare.Recriando a agricultura inca nos Andes Peruanos. No Peru, o novoentusiasmo por tecnologias antigas tem sido capaz de reavivar umengenhoso sistema de campos elevados desenvolvido no altipla-no dos Andes Peruanos há cerca de 3.000 anos. Os waru-warus,que consistiam em plataformas de solo rodeadas por valas cheiasde água, produziam grandes safras em meio a enchentes, secas egeadas mortais, comuns em altitudes de quase 4.000 metros. Aoredor do lago Titicaca, ainda são encontrados vestígios de maisde 80 mil deles.Em 1984, várias ONGs e agências governamentais criaramo Proyecto Interinstitucional de Rehabilitacion de Waru-Waruen el Altiplano (PIWA)10para prestar assistência aos agricultoreslocais na reconstrução dos antigos campos de cultivo (Sanchez,1989). A combinação de camas altas e canais tem produzido efei-tos ambientais significativos e bastante sofisticados. Durante assecas, a umidade dos canais sobe lentamente até as raízes poração capilar; durante as enchentes, os sulcos drenam o excesso dechuva. Os waru-warus também reduzem o impacto dos extremosde temperatura. A água dos canais absorve o calor do sol duranteo dia e irradia-o novamente à noite, ajudando, assim, a proteger10Projeto Interinstitucional de Reabilitação de Waru-Waru no Altiplano.
  43. 43. 51os cultivos contra a geada. Nas camas altas assim construídas, astemperaturas durante a noite podem ser vários graus acima dasdo restante da região. O sistema também mantém sua própriafertilidade do solo. Nos canais, os restos de aluvião, sedimentos,algas, plantas e animais se transformam em um adubo rico emnutrientes, que pode ser retirado periodicamente e adicionadoaos canteiros. A análise do solo de amostras dos waru-warus re-construídos mostrou maiores níveis de nitrogênio nítrico, fósforoe potássio, bem como um pH de 4,8 a 6,5, ótimo para o plantiode batata (Erickson e Chandler, 1989).Todos esses efeitos ambientais determinam a produtividademais alta dos waru-warus quando comparada à dos solos do pam-pa, fertilizados com produtos químicos. No distrito de Huatta, oscampos elevados recuperados produziram safras impressionantes,exibindo uma produção sustentada de batata de 8 a 14 t/ha/ano. Esses números contrastam favoravelmente com a média deprodução de batatas em Puno, de 1 a 4 t/ha/ano (Erickson eChandler, 1989). Em Camjata, a produção de batata chegou a13 t/ha/ano, e a de quinoa alcançou 2 t/ha/ano nos waru-warusreconstruídos pelos agricultores assistidos pelo Centro de Inves-tigación, Educación y Desarrollo (CIED),11uma ONG local. Aárea total reconstruída foi de cerca de 20 hectares.Essa tecnologia antiga está provando ser tão produtiva e bara-ta que está sendo ativamente promovida pelas ONGs em todo oaltiplano, em detrimento da agricultura moderna. Ela não exigeequipamentos ou fertilizantes modernos; o principal gasto é coma mão-de-obra para cavar os canais e construir as plataformas. Aexigência de mão-de-obra é altamente variável, oscilando de 200 a1.000 diárias de um trabalhador por hectare.Envolvimento dos agricultores em programas de conservação genéticain situ. Na tentativa de diminuir a erosão genética, desencadeadapela introdução de variedades modernas de batata, e de recuperar11Centro de Investigação, Educação e Desenvolvimento.
  44. 44. 52alguns dos germoplasmas de batatas nativas, que antes caracteriza-vam os agroecossistemas locais, o Centro de Educación y Tecno-logia (CET) iniciou um programa de conservação in situ no seucentro de treinamento de agricultores, na Ilha de Chiloé, no Chile,e em várias comunidades vizinhas.Em 1988, os técnicos do CET pesquisaram várias áreas agrí-colas de Chiloé e coletaram centenas de amostras de batatas nati-vas ainda plantadas por alguns pequenos agricultores, principal-mente os índios Huilliche, em toda a extensão da ilha. Em 1989,o CET estabeleceu uma coleção “viva” (banco de sementes) de 96variedades de batata no Centro de Notuco, cada uma delas plan-tada em fileiras de 5-10 plantas, em uma área de meio hectare deterra. Desde 1989 essas variedades têm sido plantadas a cada anoe são submetidas a uma seleção das características agronômicasdesejáveis. Também são cultivadas para distribuição entre os agri-cultores, aumentando suas variedades de sementes.Em 1990, os técnicos do CET iniciaram um programa deconservação in situ envolvendo 21 agricultores em cinco diferen-tes comunidades rurais (Dicham, Petanes, Huitauque, Notue eHuicha). Cada camponês recebe uma amostra de cinco diferentesvariedades nativas a serem plantadas em seus campos de batata,reintroduzindo, assim, a diversidade genética. Após a colheita,os agricultores devolvem parte da produção de sementes ao CET(para o banco de sementes), trocam sementes com outros produ-tores ou plantam as sementes novamente em suas propriedades,para consumo e continuidade do processo de reprodução do ma-terial genético. A Figura 2 descreve a dinâmica de conservação etroca das 96 variedades mantidas no banco de sementes do CETe plantadas pelos 21 agricultores colaboradores (Altieri, 1992).Desde 1995, mais agricultores envolveram-se no projeto, e oCET vem ajudando na seleção das variedades, baseada nas neces-sidades dos agricultores e nas características desejáveis. As varie-dades selecionadas serão difundidas e distribuídas entre os parti-
  45. 45. 53cipantes do programa. As sementes excedentes podem tambémser vendidas a outros camponeses ou trocadas por sementes devariedades tradicionais ainda não disponíveis no banco do CET.Essa estratégia não somente permitirá uma oferta contínua desementes de valor para a subsistência de agricultores pobres emrecursos, como também será um repositório de diversidade gené-tica vital, a ser utilizado tanto na reintrodução da diversidade noscampos de cultivo dos camponeses como em futuras atividadesagrícolas regionais.Melhora na oferta de alimentos e na renda das pequenas proprie-dades mediterrâneas do Chile. Desde 1980, o CET tem se engajadoem um programa de desenvolvimento rural, cujos objetivos in-cluem: a) assessorar os agricultores visando atingir a auto-sufici-ência alimentar durante todo o ano; b) recuperar a capacidadeprodutiva de suas terras. O método envolve o estabelecimentode várias propriedades-modelo de meio hectare, que consistemde uma combinação de forrageiras e outras plantas de lavoura,Figura 2Estratégia de conservação genética popular in situ, adaptada para batatas pelo Cen-tro de Educación y Tecnologia (CET), em Chiloé, Sul do Chile (Altieri, 1991).
  46. 46. 54olerícolas, árvores florestais e frutíferas, e animais (Figura 3).Os cultivos e animais utilizados são escolhidos de acordo comseu valor nutricional, sua adaptabilidade às condições agrocli-máticas locais, os padrões de consumo dos camponeses locaise oportunidades de mercado disponíveis. A maioria das olerí-colas é plantada em canteiros altamente compostados (5x1mcada) localizados na horta, cada um dos quais chega a produzirmais de 83 kg de olerícolas frescas por mês. O restante da áreade 200 m2ao redor da casa é utilizado como pomar e na criaçãoFigura 3Modelo de um sistema auto-suficiente de agricultura baseado em um diagrama rotativoadaptado para ambientes mediterrâneos (Altieri, 1987).
  47. 47. 55de animais (uma vaca Jersey, uma Holstein, 10 galinhas de pos-tura, 3 coelhos e 2 colméias de abelhas Langstroth). As oleríco-las, cereais e forrageiras restantes são produzidas em um sistemade rotação de culturas de seis anos em uma área de 4.200 m2adjacente à horta.Atinge-se uma produção relativamente constante (cerca de 6 tao ano de biomassa útil de 13 diferentes espécies de plantas), divi-dindo a terra em uma série de pequenos campos com capacidadeprodutiva equivalente, estabelecendo tantas parcelas quantos foremos anos da rotação. Esse sistema de rotação de culturas foi planejadopara produzir a máxima variedade de cultivos básicos em seis lotes,beneficiando-se das propriedades de recuperação do solo e das carac-terísticas internas de controle biológico do sistema de rotação.Com o passar dos anos, a fertilidade do solo na propriedademelhorou (níveis de P2O5, que eram limitantes no início, aumen-taram de 5 para 15 p.p.m.) e nenhum problema sério de praga oudoença foi registrado. Árvores frutíferas no pomar e ao redor doslotes da rotação produzem cerca de 843 kg de frutas por ano (uva,marmelo, pêra e ameixa). A produção de forragem atinge cercade 18 t por 0,21 ha/ano. A média de produção de leite é de 3.200litros ao ano, e de ovos chega a 2.531 unidades anuais.Uma análise nutricional do sistema, baseada em suas produ-ções (leite, ovos, carne, frutas, vegetais, mel), mostra que ele atin-giu excedentes de 250% de proteínas, 80 e 550% em vitaminas Ae C, respectivamente, e 330% de cálcio. Uma análise econômicadoméstica indica que, dada uma lista de preferências, a proporçãoentre a venda de excedentes e a compra de itens preferenciais dáuma receita líquida de US$790. Se toda a produção da área fossevendida a preços de atacado, a família poderia gerar uma rendalíquida mensal 1,5 vezes maior do que o salário mínimo mensallegal no Chile (Altieri, 1987).Em regiões onde os agricultores possuem limitações de área,são incentivados a adotar sistemas integrados de plantio-criação,
  48. 48. 56caracterizados por duas fases: uma pastagem de três anos que“abasteça” o sistema com nutrientes e matéria orgânica, e umaoutra fase de três anos que “extraia” os nutrientes acumulados.Este sistema oferece as vantagens de produzir colheitas e resídu-os, cobertura do solo, ruptura de ciclos de pragas, etc. (Figura 4).Integrar os animais é crucial, embora as raças sejam selecionadascuidadosamente pelo tamanho e necessidades nutricionais, demodo a não exercer uma demanda muito grande sobre os recur-sos nas pastagens. O pastejo rotativo é uma maneira eficaz deconstantemente proporcionar alimento ao gado, possibilitandoa rápida recuperação da pastagem e a distribuição uniforme doesterco no solo. Este método integrado de cultivo-criação de-monstrou eficácia na Ilha de Chiloé, onde os níveis de fósforo eo rendimento das colheitas aumentaram dramaticamente apósseis anos de rotação plantio-pastagem em terras marginais e defi-Figura 4Modelo de uma propriedade integrada.Nota: este modelo mostra uma propriedade integrada com desenho espacial e temporalpara cultivos, pastagens, animais e árvores. A pastagem constitui a “fase de aporte” da ro-tação, e os cultivos, a “fase extrativa”. Os animais são manejados com pastoreio rotativo.
  49. 49. 57cientes em fósforo (Figura 5). Após o sexto ano, a produtividadedas batatas duplica, e somente metade da quantidade de fertili-zantes químicos e de esterco de gado é necessária para sustentaressa produção. Espera-se que, após o terceiro ciclo completo derotação, nenhum insumo externo seja necessário para manter ní-veis aceitáveis de produção. A estruturação biológica garantirá odesempenho do sistema.Figura 5Efeitos de uma etapa de seis anos de rotação na Ilha de Chiloé, Chile (medidos emtermos dos níveis crescentes de fósforo, primeira e segunda rotações).Avaliação da sustentabilidadedas intervenções agroecológicas das ONGsMuitos dos projetos das ONGs, baseados em uma abordagemagroecológica, carecem de avaliações formais e detalhadas. Todavia,há fortes evidências de que muitas dessas organizações têm geradoe adaptado inovações tecnológicas capazes de contribuir, significa-
  50. 50. 58tivamente, na melhoria das condições de vida dos camponeses, au-mentando sua segurança alimentar, fortalecendo a produção de sub-sistência, gerando fontes de renda e melhorando a base de recursosnaturais. Esses programas tiveram êxito através de novas tecnologiase arranjos institucionais, bem como da utilização de métodos origi-nais de promoção da participação das comunidades rurais. Efeitosdocumentados de práticas agroecológicas reforçadas pelas ONGssão mostrados no Quadro 4.Centenas de esforços individuais mostram-se promissores noque diz respeito ao desenvolvimento de formas mais sustentáveis deproduzir alimentos (Conway e Barbier, 1990; Reijntjes et al., 1992).Existem, no entanto, poucos instrumentos ou indicadores adequa-dos para avaliar a viabilidade, adaptabilidade e durabilidade dos pro-gramas agroecológicos. Todavia, dois procedimentos relativamentenovos são promissores: o diagnóstico rápido participativo (DRP) e acontabilidade de recursos naturais (CRN).As técnicas de diagnóstico rápido participativo enfatizam méto-dos não-formais de levantamento e apresentação de dados, visandofavorecer um processo participativo entre as pessoas do local e os pes-quisadores. Para conduzir o DRP, uma equipe multidisciplinar traba-lha com a comunidade local em uma série de etapas, iniciando coma escolha do lugar e terminando com a avaliação e monitoramentodo projeto. O objetivo é mobilizar comunidades para definir proble-mas prioritários e oportunidades, preparando planos específicos deintervenção nos locais escolhidos. O levantamento e a apresentaçãode dados é um processo complexo que utiliza mapas, transeções, dia-gramas, linhas de tempo e entrevistas semi-estruturadas individuais eem grupo. As tecnologias potenciais são avaliadas através de critériosmuito gerais, com base em preocupações ambientais, econômicas esociais, expressas pelos moradores locais (Conway e Barbier, 1990).Os diagramas de DRP podem ser utilizados para compararos diferentes efeitos previstos de duas abordagens ou tecnologiasconcorrentes (ou seja, a proposta agroecológica e a da Revolução
  51. 51. 59Quadro 4Efeitos registrados das estratégias produtivas da agroecologia implementadas pelasONGsI . Efeitos no soloa. Aumento do conteúdo da matéria orgânica.Estímulo da atividade biológica.Incremento da mineralização dos nutrientes.b. Queda da erosão.Conservação do solo e da água.c. Melhoria da estrutura e condições gerais do solo.Melhoria da retenção e reciclagem de nutrientes.Equilíbrio positivo dos nutrientes.d. Aumento da atividade de micorrizas e de antagonistas.II. Efeitos sobre pragas, doenças e ervas adventíciasa. A diversificação afeta pragas de insetos, reduzindo herbívoros e estimu-lando os inimigos naturais.b. Consórcios em linhas ou mistos reduzem os patógenos.c. A ampla cobertura dos solos com opolicultivos elimina ervas.d. Plantações de cobertura em pomares diminuem o ataque de insetos einfestação de ervas.e. O cultivo mínimo pode reduzir doenças de solo.III. Efeitos sobre a produçãoa. A produção por unidade de área pode ser de 5-10% menor, mas em relaçãoa outros fatores (por unidade de energia, de perdas no solo, etc.) é maior.b. Policultivos produzem mais que monocultivos.c. Pode haver uma perda inicial na produção durante a conversão ao manejoorgânico, que poderá ser minimizada com a substituição de insumos.Melhora na produção com o passar do tempo.d.A variabilidade da produção é baixa; a estabilidade da produção émaior e há menos riscos envolvidos.IV. Efeitos sobre os aspectos econômicosa. Baixos custos de produção.b. Baixos custos ambientais (fatores externos), menor depreciação dosolo, baixos custos por contaminação.c. Maior eficiência energética e menor uso total de energia.d. As exigências de mão-de-obra são maiores para algumas práticas, e meno-res para outras. Há uma diluição ou uma difusão do efeito dessas exigên-cias durante a estação, evitando picos nas demandas de mão-de-obra.
  52. 52. 60Verde) (Figura 6). O diagrama facilita a avaliação das qualidadesrelativas de cada tecnologia com relação aos seus impactos sociais eambientais, acessibilidade, benefícios, custos, requisitos técnicos eprioridades entre os agricultores locais (Conway, 1985).Figura 6Comparação da produção de milho na pequena propriedade utilizando técnicas daRevolução Verde e tradicionais em Cheranatzicurin, México (de acordo com Altieri eMasera, 1993).Nota: este diagrama permite uma rápida observação das vantagens do sistema agro-ecológico, uma vez que contém mais figuras sombreadas. Ele também ressalta asseguintes questões: as opções da Revolução Verde têm maior produtividade em termosde mão-de-obra e geram retornos econômicos mais rápidos do que as tecnologias tradi-cionais, cujo desempenho é melhor nos critérios ambientais e socioculturais; os her-bicidas e fertilizantes químicos são relativamente baratos (devido aos subsídios do gov-erno) e disponíveis, enquanto alguns recursos locais, como mão-de-obra e esterco, nãoestão entre as prioridades dos agricultores direcionadas ao aumento da produtividadeda mão-de-obra. Assim, o êxito de uma abordagem agroecológica nessa região dependeda capacidade das técnicas propostas de se fundamentar nas melhores característicasambientais e sociais dos sistemas tradicionais e, ao mesmo tempo, aumentar a produ-tividade da mão-de-obra desses sistemas. Em casos onde as técnicas agroecológicas nãogeram benefícios imediatos (por exemplo, a fertilização com composto gera melhoresresultados após dois ou três anos), deve-se conceder incentivos aos agricultores locaisque compensem a produção inicial mais baixa do que a obtida nas das opções conven-cionais.
  53. 53. 61As técnicas de contabilização dos recursos naturais incorpo-ram as externalidades ambientais à análise custo-benefício conven-cional, e podem ser usadas para avaliar a rentabilidade dos sistemasde produção agrícola alternativos, quando os recursos naturais sãocontabilizados (Faeth et al., 1991). Um modelo de CRN foi utili-zado para comparar a rentabilidade, produtividade, uso de insu-mos e a produtividade do solo na produção camponesa de trigocom manejo convencional e agroecológico no Chile. O sistemade cultivo alternativo avaliado incluía a subsemeadura de trigo emcobertura viva de trevo vermelho, adubado com 15 toneladas mé-tricas de esterco por hectare. Esse sistema foi comparado com umamonocultura erosiva de trigo.O sistema alternativo de manejo apresentou perdas de solocumulativas, estimadas para um horizonte de trinta anos, infe-riores ao sistema de manejo convencional, o que manteve a pro-dutividade relativamente alta no longo prazo (Figura 7 a e b). Omonocultivo convencional de trigo mostrou taxas mais altas deperdas de solo, gerando um declínio significativo da produtivida-de ao longo do tempo. O modelo mostrou que a adoção ou nãode práticas de conservação do solo pelos agricultores dependeráda disponibilidade de mão-de-obra, da existência de novas tec-Figura 7Perdas no solo e produção de trigo durante mais de trinta anos com os sistemas con-vencionais e agroecológicos no Chile.7a - Perdas cumulativas no solo nos doissistemas (centímetros por hectare/ano).7b - Produções de trigo como função dasperdas no solo (toneladas métricas/ano).
  54. 54. 62nologias agroecológicas e de um sistema de extensão apropriadoe participativo para a disseminação dessas tecnologias. Previu,também, uma mudança total para práticas orgânicas em áreas deagricultura dependente de chuva, no Chile, desde que os campo-neses tenham conhecimento suficiente sobre essas tecnologias,bem como mão-de-obra disponível para utilizá-las, uma vez reco-nhecido o significado da degradação dos recursos naturais.O DRP e a CRN parecem técnicas promissoras de avaliaçãoda agricultura economicamente sustentável, mas ambas enfren-tam grandes obstáculos quando aplicadas no contexto da agri-cultura camponesa. Em relação a alguns produtos da agriculturacamponesa, o mercado é ruim ou inexistente. Além disso, dadosprecisos sobre erosão do solo e outros impactos ambientais po-dem não ser disponíveis, tornando difícil a estimativa das perdasfinanceiras causadas pela degradação do ambiente. As técnicas deCRN também perpetuam a tendência a reduzir todo o processode avaliação a um indicador monetário (isto é, custos dos recur-sos naturais dentro e fora da unidade produtiva) e podem seraplicadas “de cima para baixo”.Qualquer que seja o método utilizado para avaliar a sustenta-bilidade das pequenas propriedades, ele deve fornecer um indica-dor da situação de, no mínimo, quatro atributos:a) manutenção da capacidade produtiva do agroecossistema(capacidade produtiva);b) preservação da base de recursos naturais e da biodiversida-de (integridade ecológica);c) fortalecimento da organização social e diminuição da po-breza (saúde social);d) fortalecimento das comunidades locais, manutenção dastradições e participação popular no processo de desenvolvimen-to (identidade cultural).Esses critérios podem ser avaliados usando-se uma série de
  55. 55. 63indicadores-chave socioeconômicos, ambientais e culturais, enu-merados no Quadro 5.Quadro 5Associação entre as características de avaliação do desenvolvimento rural e osindicadores de sustentabilidadeIndicadorCapacidadeprodutivaIntegridadeecológicaSaúde socialIdentidadeculturalProdutividade dos cultivos •Fertilidade do solo e capa-cidade de reciclagem dosnutrientes• •Erosão do solo •Sanidade da lavoura (inci-dência de pragas e doenças) •Situação da biodiversidade(germoplasma nativo,florestas)• • •Saúde da paisagem (situaçãodas bacias hidrográficas,corredores biológicos)•Condições de saúde enutricionais • •Solidariedade e participaçãoda comunidade • •Emprego e renda •Insumos externos necessá-rios, custos de produção • •Aceitabilidade cultural dastecnologias •Um fator-chave das tecnologias alternativas deve ser que estasmantenham uma produtividade não declinante ao longo do tempo,sob uma ampla gama de condições ambientais e que evitem degradarecossistemas frágeis e marginais. O desafio do desenvolvimento daspequenas propriedades é que a produção agrícola exige alteraçõesno ecossistema e utilização dos recursos, enquanto que a proteçãoambiental requer níveis aceitáveis de conservação desses recursos.Esse equilíbrio deve ser alcançado em um contexto de superação dapobreza rural. Assim, o monitoramento da produtividade, da inte-
  56. 56. 64gridade ecológica e da igualdade social deve ir além da quantificaçãoda produção de alimentos e do controle da qualidade do solo ouda água. Deve incluir, além disso, os níveis de segurança alimentar,fortalecimento social, potencial econômico e independência ou au-tonomia dos camponeses.
  57. 57. 65AAGROECOLOGIA DOS SISTEMASDE PRODUÇÃO EM LARGA ESCALAA busca de sistemas agrícolas auto-sustentáveis, com baixouso de insumos externos, diversificados e eficientes em ter-mos energéticos, é a maior preocupação dos pesquisadores,agricultores e formuladores de políticas em todo o mundo.A agricultura sustentável geralmente refere-se a um modo defazer agricultura que busca assegurar produtividades sustenta-das a longo prazo, através do uso de práticas de manejo ecolo-gicamente seguras (Pretty, 1995). Isso requer que a agriculturaseja vista como um ecossistema (daí o termo agroecossistema)e que as práticas agrícolas e a pesquisa não se preocupem comaltos níveis de produtividade de uma mercadoria em particu-lar, mas, sim, com a otimização do sistema como um todo. Issorequer, também, que se leve em conta, não apenas a produçãoeconômica, mas o problema vital da estabilidade e sustentabi-lidade ecológicas.Os princípios básicos de um agroecossistema sustentável sãoa conservação dos recursos renováveis, a adaptação dos cultivosao ambiente e a manutenção de um nível moderado, porém sus-tentável, de produtividade. Para enfatizar a sustentabilidade eco-lógica de longo prazo, e não a produtividade no curto prazo, osistema de produção deve (Altieri, 1987):a) reduzir o uso de energia e recursos e regular a entrada

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