Festa de Caboclo: um olhar etnográfico
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    Festa de Caboclo: um olhar etnográfico Festa de Caboclo: um olhar etnográfico Document Transcript

    • Festa de Caboclo: um olhar etnográfico Luciano Leal da Costa Lima1 Marco Antônio Domingues Teixeira2Resumo:Nossa proposta nesse artigo é refletir sobre os mais diversos elementos apresentadosnuma festa de Caboclo, especificamente à solenidade umbandista em homenagem àentidade chamada de “Caboclo Tupi”. Apesar de sua ligação sincrética com o catolicismo,a festa mantem viva a origem nativa, os preceitos e o modo de encarar a espiritualidadedo índio, em meio a tudo que lhe foi imposto. Nesse breve olhar etnográfico, apresenta-seo espaço e seus significados, a festa e a sua ritualidade, além das cantigas e dasrepresentações criadas no individuo em torno da entidade do Caboclo Tupi.Palavras-Chave: Etnografia, Religião,Umbanda, Caboclo Tupi, Cantigas.INTRODUÇÃO O processo de investigação cientifica da Festa de Caboclo não somente requeruma aplicação de técnicas e de procedimentos pré-determinados em seu escopo, masque traga os questionamentos propostos pelo pesquisador, aqueles que foram adquiridosna experiência de campo por meio de suas observações e interações com o seu objeto deestudo. E isso não é uma tarefa fácil, haja vista que grandes dificuldades foramencontradas para sistematizar e transformar esses procedimentos em códigos capazes deabrir o entendimento e a interpretação correta de objeto estudado, dessa cultura e daação desencadeada pelos atores sociais. Aqui, percebe-se a grande importância dainterdisciplinaridade que deve existir entre as ciências como a História, Antropologia,Sociologia e Etnografia, que dará ao pesquisador uma postura integradora no momento1 Graduando em História pela Universidade Federal de Rondônia e membro do Grupo de Estudos e PesquisasInterdisciplinares Afros e Amazônicos – GEPIAA.2 Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pela UFPA. Professor do Departamento de História daUniversidade Federal de Rondônia. É Coordenador do GEPIAA/GEPRA.
    • em que vai aplicar os métodos e as técnicas, sem deixar de levar em consideração otratamento e a apresentação dos dados pesquisados. Desse modo, a Etnografia deixa deser entendida como uma ciência que procura ter uma mera característica que trata asinformações como quantitativas, mas como ciência que dará significado, qualidade, umanova perspectiva e compreensão ao objeto estudado. Nessa cadeia de significados iremos encontrar as duas faces de uma mesmarealidade conhecidas como o Mito e o Rito. Para ELIADE (1998), Mito é “uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares... Conta uma história sagrada; relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do „princípio‟... uma história verdadeira porque sempre se refere a realidade”. 3 O mesmo autor acredita que nas religiões, o mito é vivo no sentido de fornecer osmodelos para a conduta humana, com significação e valor à existência. Partindo dessepressusposto, o que nos interessa é captar o sentido dessas pouco conhecidas formas deconduta, compreender suas causas e a justificativas dadas a elas. O tempo primordial éaquele em que o evento teve lugar pela primeira vez. MALINOSWKI (1926) é quemmelhor tentou demonstrar a natureza e a função do mito nas sociedades “primitivas”. Paraele o Mito é: “Ingrediente vital da civilização humana; uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática; constitui-se expressão de uma realidade primeira, que determina a vida imediata, as atividades e os destinos da humanidade; satisfaz as necessidades religiosas, aspirações morais, a pressões e a imperativos de ordem social, e mesmo a exigências práticas”.4 Quanto ao Rito é definido como sendo o “Mito em ação”. Ele faz aparecer o Mito;Através dele é que o homem incorpora o mito, ele torna a crença e a transforma em ação,a aplica, torna-a real por meio da celebração. Todos esses elementos estão presentes naFesta de Caboclo estudada e que passaremos a abordar a partir de agora.3 ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 5ª edição, 1998.4 MALINOSWKI, B. Myth in Primitive Psychology, Apud ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 5ªEdição, 1998.
    • O ESPAÇO E A RITUALIDADE A divisão do Espaço no Terreiro Arte: Luciano Lima1 – Casa do Babalorixá de Santo 11 – Assentamento à Ossaim2 – Ilé Axê 12 – Ilê3 – Roncó 13 – Tenda do Caboclo Tupi4 – Ilê Ogum 14 – Exus dos Filhos de Santo5 – Exu Onã 15 – Assentamento à “Pomba-Gira”6 – Exu Oritá 16a e 16b – Banheiros7 – Assentamento à Ogum 17 – Exu Odará8 – Assentamento à Oxum 18 – Cozinha9 – Iroko ou Tempo 19 – Assentamento à Oxalá10 – Assentamento à Oxumarê ou 20 – Anexo da CozinhaOxumaré O espaço do caboclo é o espaço das matas, Seu Tupi é um caboclo de pena,morador das matas e detentor de um assentamento no terreiro. A festa em suahomenagem acontece intra muros, nos espaços do terreiro, abrangendo tanto os recintossacralizados pelos rituais, quanto os espaços profanos reservados à moradia econvivência da familia do Babalorixá. O espaço onde é celebrado a festa é constituido como um lugar sagrado e toda anatureza assume um caráter animista, pois todas as coisas ali presentes são vivas,aparentam consciência e tem “ânima”5. O local é transformado por estar carregado de5 Palavra que vem do latim e significa Alma, vida.
    • mitos, um complexo conjunto de coisas que entram, destacando-se a vegetaçãoabundante, as entidades que ali se manifestam, vagueiam e tomam seu lugar. Acerimônia suscitam emoções as mais diversas. Eliade (1998) apresenta uma conotaçãobem elaborada quando diz: “Toda a cratofania6 e toda hierofania7, sem distinção alguma, transfiguram o lugar que lhes serviu de teatro: de espaço profano que era até então, tal lugar ascende à categoria de espaço sagrado”8. Dessa forma, o terreiro apresenta-se marcado por dois espaços o sagrado e oprofano. O espaço sagrado está repleto de evidências rituais tanto de ordem alimentarquanto de ordem iconográfica e material de aspectos diversos. Todos os rituais que sãocelebrados pelos adeptos do culto ocorrem nos limites da área sagrada do terreiro. O Chão Sagrado Acervo GEPIAA6 Cratofania, ou Teofania, é, por excelência, um lugar de poder e de sacralidade. O espaço, como o próprio sagrado, é,porém, ambivalente. É lugar de vida e de morte. Atrai e atemoriza. De um modo geral, entretanto, as religiões vétero-orientais destacam o elemento positivo do espaço sagrado.7 Este termo é cômodo, porque não implica qualquer precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado noseu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos mostra.8 ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. 2ª Edição. São Paulo. Martins Fontes, 1998.
    • Assim, os espaços sagrados do Ilê Axé Ogum D‟Ajulekan são evidentes para todosos presentes, sejam eles visitantes, frequentadores, clientes ou adeptos do culto. Contudoo acesso e o trânsito por esses espaços são restritos em graus diversos, havendo áreasde acesso exclusivo de poucas autoridades religiosas da casa e outras áreas de acessomais amplo.O CABOCLO TUPI E SUAS CARACTERISTICAS Os caboclos da Umbanda apresentam características e traços bem parecidos,quando se remete e se alude aos objetos e utensílios utilizados pelos seus “cavalos” 9 logoapós a incorporação. Esses objetos, como Arco, flecha e cuias, são verdadeirosapetrechos utilizados nos rituais ligados a esse modelo religioso e mostram como asentidades estão sincretizadas com os elementos da natureza e a vida do indígena emparticular. “Seu Tupi Aiá” preserva os traços de uma religiosidade primitiva, tirando da mataos seus utensílios e elementos feitos pelos índios e, por meio dos homens, transportadospara os cerimoniais e para os trabalhos dedicados à caridade. Esses elementos culturaise de ornamentações, próprios dessa prática religiosa, apresentam significados próprios ediversos quando examinados os diferentes contextos a eles ligados (vida cerimonial,utilização nos trabalhos). Se tirados do seu contexto, perdem seu significado entre nós (asua inteligibilidade original). Malinowski (1926) afirma que “... qualquer objeto, costume,ação ou símbolo deve ser estudado em relação ao contexto da vida social do grupo onde 10ocorre” . O que nos interessa é captar o sentido e/ou significado que esses utensíliostrazem nas cerimônias e nos cultos afros em que são apresentados. Apesar da grande variedades de cores que são características das festas decaboclo e, também, se tenha observado que nas vestimentas de outros médiunsdesenvolvidos com a mesma entidade haja a presença das cores amarela, azul evermelha, as cores verde e branco ganham especial atenção nas vestimentas adotadaspara o Caboclo Tupi e estão carregadas de simbolismo próprio.9 Quando a Entidade toma conta da mente e do corpo do médium na Umbanda.10 ARANTES, Antônio Augusto. O que é cultura popular. São Paulo: Brasiliense, 1984.
    • Para uma breve abordagem acerca das cores utilizadas nas religiões de matrizafricana, tomaremos como modelo o que é adotado por Turner11. Segundo este autor, ospovos africanos dão estatuto especial às cores, sejam através das comidas, dos adornos,das pinturas e velas rituais, etc. Nas festas de Caboclos, essas cores assumem tambémcaracterísticas e significados especiais. As cores predominantes e mais utilizadas commaior frequência nas religiões de matriz africana são: branca, vermelha e preto. Asdemais cores, no entendimento e interpretação de Turner, são derivadas dessas trêscores principais. Também, nas conclusões de Adolfo (2010)12, A cor branca vem a ser acor dos antepassados, positiva, representando ora a masculinidade, ora a feminilidade.Nos ritos reguladores das menstruações femininas, é a cor da pureza, simbolo da entradanuma nova vida - do renascer da morte para a vida espiritual dentro da religião -, e darenovação; A cor vermelha é a cor de caráter ambivalente, podendo ser positivo ounegativo. Ao mesmo tempo que vem a representar a vida, simboliza a morte ou osacrificio ritual. Quanto ao laranja e o amarelo, estas cores vem a ser consideradasvermelhas. O uso do preto está inteiramente ligado a crença da necessidade de seexpulsar as coisas negativas e maléficas. As cores azul e verde são considerados negros.O uso das três cores é um percurso de fruição espiritual e místico que consiste em libertaro sujeito das mazelas a que foi submetido. Cheia de simbolos e significados, é preparada a festa mais antiga da Casa. Muitosfilhos da casa se reunem para verem render homenagem áquele que acompanha oBabalorixá desde tenra idade. É a Festa Seu Tupi “Aiá”!PREPARATIVOS PARA A FESTA Todos os procedimentos adotados para a realização da festa implicam na idéia desubmissão à autoridade espiritual da entidade homenageada e de reconhecimento daautoridade das hierarquias religiosas da casa, começando pelo Babalorixá que consagrouo local e que recebe a entidade. Os rituais obedecem à rígida estrutura hierárquica da11 TURNER, Victor. Floresta de símbolos – Aspectos do ritual Ndembu. Tradução de Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto.Niterói: EDUFF, 2005.12 ADOLFO, Sérgio P. Artigo: O Simbolismo das cores no Candomblé de Congo-Angola. Publicado no site:http://mbanzakongo.blogspot.com/2010/06/o-simbolismo-das-cores-no-candomble-de.html. Acessado em15.02.2011.
    • casa. Todos sabem os seus papéis e o seu lugar na realização dos festejos. O respeito àhierarquia é fundamental pois organiza as dimensões materiais entre os membros doculto e as dimensões espirituais, evidenciando os niveis de autoridade e importância decada entidade que irá se manifestar durante o festejo. A submissão à hierarquia tornaesse processo possivel, pois ele auxilia no processo de transformação do lugar, de ummero espaço físico em um polo de forças sobrenaturais, uma fonte de forças e desacralidade que permite a todos os presentes comungar nessa sacralidade, interagindoentre si e com as entidades manifestas. Foto: Luciano Lima Acervo: GEPIAA Todas as determinações que a entidade espiritual transmite devem ser cumpridas.Essas exigências podem ser transmitidas através da própria entidade homenageada,manifestada na cabeça de seu filho, ou via uma série de outras situações, tais como asordens emanadas por outras entidades que se disponha a colaborar e que se submetamà autoridade do caboclo homenageado ou ainda por vias oníricas, mediúnicas, etc. E issoacontece desde o primeiro momento em que o Babalorixá ou Mãe-de-Santo o consulta oumanifesta a intenção de realizar o festejo em honra da entidade. Na casa pesquisada,esse processo se iniciou 60 dias antes do festejo, a fim de saber se o caboclo estaria ounão de acordo com a realização do festejo e com as comidas e bebidas que iriam serofertadas a ele mesmo e ao público que estaria presente. Durkheim diz que:
    • “Os seres sagrados são, por definição, separados. O que os caracteriza é que, entre eles e os seres profanos, há uma solução de continuidade”13. Diversas reuniões foram feitas pelos participantes da casa, a fim de se definir osprocedimentos que seriam adotados para o festejo, bem como decidir em que dataaconteceria. Esses procedimentos estariam cuidadosamente sujeitados àquelestransmitidos pela entidade festejada. Percebeu-se que aconteceram interdições dediferentes espécies: as de caráter religioso e as que dizem respeito à magia e a belezaque envolve o evento. Nada pode ser feito, iniciado, começado, nada se pode fazer semuma orientação prévia14. Durkheim (2000) diz que não sendo seguidas asrecomendações, produz-se o que ele denomina de desordens materiais e penaspropriamente dita, que visivelmente se manifestarão por meio de censura ou reprovaçãopública. Eliade (2001) acrescenta: “Ao desobedecer, correm-se riscos, como aqueles aos quais se expõe um enfermo que não segue os conselhos de seu médico... a interdição religiosa implica necessariamente a noção do sagrado, vem do respeito que o objeto sagrado inspira e tem por finalidade impedir que falte esse respeito”15. Assim, o caboclo Tupi manifestou seus desejos, suas ordens, suas restrições einterdições ao festejo. E tudo teve que ser feito conforme a sua vontade expressa. Emdepoimento oral, o Babalorixá disse que a entidade foi consultada diversas vezes a fim deseguir suas determinações. Quando uma entidade sobrenatural consagra um local, o mesmo, por esse ato, setransforma num santuário, assumindo aspecto de semelhança com os locaissobrenaturais onde vivem as entidades. Esses espaços sacralizados são perceptíveisatravés de uma série de elementos, de símbolos ou de ocorrências de rituais específicos.13 DURKHEIM, Emile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. O sistema totêmico na Austrália. São Paulo, MartinsFontes, 2000.14 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo, Martins Fontes, 2001.15 Idem.
    • Os simbolos apresentados na festa do caboclo Tupi manifestam uma força sagrada,representam uma manifestação da própria entidade celebrada e recebem dela força queassegura essa proteção e poder aos que deles fazem uso. Eliade (2001) diz que quandoo espaço sagrado é consagrado pela teofania, torna-se aberto para o alto, umcomunicante com o mundo espiritualista. Essa “Porta dos Céus” dá aos humanos oacesso ao mundo dos seres do além e vice-versa. O autor complementa: “...Santuáriossão “Portas dos deuses” e, portanto, lugares de passagem entre o Céu e a Terra”16. A festa de caboclo é uma prática umbandista, apresentando toda uma religiosidadereelaborada a partir das religiões de matrizes africanas, incorpora valores erepresentações espirituais que estão presentes no Catolicismo Romano. O ritualapresenta uma lógica natural e uma simplicidade existente em seus cultos, que lhe daruma expansão horizontal de práticas ligadas à natureza.A REALIZAÇÃO DA FESTA Para a realização da festa de caboclo foi preciso muita dedicação, haja vista que opovo sempre quer ver o local bem organizado, bonito, bastante enfeitado e adornado comos mais diversos elementos que evoquem as representações e os simbolos ligados aentidade cultuada. Certamente é esse um tipo de festa que começa bem antes da datamarcada e termina um dia depois. Além da prática ritualista ao homenageado, a casapassou por todo um processo de transformação: pintura, decoração com palhas, folhas,adornos nas estruturas do prédio e das plantas. Para o Caboclo Tupi foi preparado umlocal exclusivo. Na junça17 foram colocadas diversas oferendas: frutas (banana, melancia,mamão, laranja, maçã, goiaba, uva, abacaxi, côcô, melão, maracujá e cacau), bebidas(vinho, cachaça, bebidas fermentadas), fumos (charutos e cigarros), velas (de diversascores e tamanhos), imagens de santos (São Jorge, Oxum – saudada como NossaSenhora Aparecida), caboclos e objetos indigenas (potes, arco e flecha, cuias, chocalhose conchas) . A junça é o elemento de destaque e indispensável na festa de caboclo. Umacento foi colocado no local, para que no momento em que o homenageado chegasse, seacomodasse e recebesse os cumprimentos e honras dos convidados.16 Ibidem.17 Quarto de caboclo.
    • A Junça de Seu Tupi Acervo: GEPIAA “Eh, Pai Oxossi....” com este verso que alude ao Orixá Oxossi, o Babalorixá iniciaa festa ao som dos atabaques e instrumentos de percussão, entoando-se cantigassagradas e louvores atribuidos a todos os Orixás adorados na Umbanda. O som é alegre,forte e envolvente, além de bem executado pelos ogans da casa, que juntam suas vozesa do Babalorixá e dos filhos e filhas de santo que formam um circulo e dançam envolta doassentamento presente no meio do Ilê. Num clima de muita alegria, o Babalorixá cantaem alto som ao seu Caboclo, que logo se apresenta e incorpora no seu “Cavalo”. Osatabaques batem cada vez mais forte e um a um os caboclos vão se apresentando e seapossando do corpo de seus “cavalos”18. É um clima de enorme entusiasmo que tomaconta de todos os presentes na festa.18 Essa nominação é dada aos filhos e filhas de santo possuídas pelas entidades.
    • Transe ao som dos Atabaques Acervo: GEPIAA O transe ganha as atenções e um a um os filhos e filhas vão sendo tomadas porseus encantados. Parece existir uma hierarquia nas incorporações. Os mais antigosdemoram mais para serem possuidos; percebe-se que têm um maior controle daincorporação, pois estão mais habituados, conhecem mais os sinais que sãocaracteristicos ao transe. Os atabaques tocam mais forte. Os ogans parecem demonstrarque o máximo de caboclos deverão estar presente na Festa, a fim de homenagearem SeuTupi e prestarem-lhe as honras. Percebe-se que cada filho ou filha de santo possuido,veste-se com as indumentárias e ferramentas utilizadas pelas entidades. A cada transe,são levados para o Roncó para se vestirem com os trajes completos: roupas alegres e decores, colares e chapéus de vaqueiros para adornarem suas cabeças, alguns sãoauxiliados por Cambonas19 que trazem consigo as bebidas dos caboclos e fumos que lhesão caracteristicos. Seu Tupi se apresenta com suas roupas de cores verde e comdetalhes em branco, não somente na “cabeça” do Babalorixá, mas possui a de muitosoutros filhos e filhas de santo da casa e, também, de praticantes oriundos de outrosterreiros. Estão todos em terra: caboclos, caboclas, boiadeiros e marujos. As dançasapresentam traços que são caracteristicos da entidade incorporada e executam, de uma19 São mulheres que assumem o papel de “monitora”, bem parecido com as funções de uma Ekede no Candomblé.Nos rituais, orientam àqueles que recebem os espíritos, conduzindo-os aos pejis, as paramenta com suas roupas eobjetos correspondentes.
    • forma clara, uma estrita codificação corporal, gestual e verbal. Os pés parecem sambar,dançam um frevo, ou dirigem o corpo num ritmo de chote e baião. Enquanto algunsbailam, outros cumprimentam os presentes, sempre respeitando as hierarquias presentes,até os mais simples que se aglomeram nas dependências do espaço do barracão. Algunsfrequentadores aproveitam os momentos de transe para pedirem orientações paraassuntos de interesses pessoais. A festa é uma constituição de uma variedade de danças, ritmos e cantigas. Sãoservidos vinhos, cervejas e outros tipos de bebidas alcoólicas. Enquanto alguns dançam,outros saboreiam uma carne assada, que vem acompanha com mandioca. Aos poucos osfilhos e filhas de santo vão sendo “desvirados” e retornam ao barracão, para se deliciaremdo banquete oferecido pelo Babalorixá.ANÁLISE DAS CANTIGAS DO CABOCLO TUPI E SEUS SIGNIFICADOS A festa do Caboclo Tupi é considerada uma festa tradicional pelos frequentadoresda casa Ilê Axé Ogum D‟Ajulekan e ocorre desde a firmação do caboclo Tupi na cabeçado Babalorixá. Portanto essa é a festa mais antiga e tradicional do que as festas decandomblé que a casa celebra. A festa é uma constituição de uma variedade de danças,ritmos e cantigas. Essas cantigas são mais conhecidas como pontos cantados 20, umaespécie de utilização mágica do som, ou seja, de acordo com sua entoação e frequênciaspróprias, sustentam vibratoriamente o trabalho mediúnico. Esse clima propicia um estadode transe anímico e a festa, ao som dos atabaques, cria um ar de extrema alegria eexpectativa tanto para os adeptos como para os frequentadores e participantes. Essescânticos podem ser entoados com finalidades diversas: invocar entidades, marcar o iniciode sua incorporação ou desincorporação, criar formas mágicas para determinadostrabalhos, abrir e fechar sessões, pedir forças espirituais, afastar espíritos maus, pedirperdão e diversas outras finalidades.20 Letra e melodia de cântico sagrado, diferente para cada entidade. É uma prece evocativa cantada que tem porfinalidade atrair as entidades espirituais, homenageá-las. Quando chegam e despedi-las quando devem partir. Assimos pontos podem ser apenas de louvor ou cantados com finalidades rituais durante determinadas cerimônias.
    • Tratando especificamente do culto voltado unicamente para uma entidade, no casoaqui o Caboclo Tupi “Aiá”, PRANDI (2001)21 diz que todos os encantados tem cântigasapropriadas para a sua chegada, para a sua dança (enquanto está em terra) e para a suapartida, além de outras que podem ser cantadas em homenagem a eles, sem que osmesmos estejam presentes. Verdadeiras mantras, preces, rogativas, que atuam como“dinamis”22 da natureza, fazendo com que se entre em contato com as forças espirituais.Ainda, segundo o autor, fazer isso sem conhecimento e sem fundamento, éextremamente prejudicial para o desenvolvimento do culto e à continuidade da verdadeiraencantaria. Babalorixá Hilton Monteiro entoando uma Cantiga de caboclo Acervo: GEPIAA Partindo desse pressuposto, analisaremos algumas cantigas entoadas ao CabocloTupi no Ilê Axé Ogum D‟Ajulekan, que trazem no seus versos os traços de suapersonalidade23 bem como suas características enfatizando, também, uma resumidaanálise linguistica de palavras onde algumas dentre elas não constam em nossodicionário, dando sentido ao texto. São palavras remanescentes e que sobreviveram das21 PRANDI, Reginaldo (Org.). Encantaria Brasileira: O livro dos mestres, caboclos e Encantados. Rio de Janeiro: Pallas,2001.22 Palavra grega que significa “virtude”.23 Quando falamos de personalidade estamos nos referindo a forma de trabalho da entidade
    • linguas utilizadas pelos ancestrais, sejam indígenas ou afros que mantém em cada umadas canções.“Eu estava na minha aldeiaQuando ouvi tambor runfarEu pulei peguei o arco e peguei a flechaE sai para guerrearMeu Pai mandou me chamarEu vim salvarEu sou TUPI AIÁ” Os adeptos dessa religiosidade acreditam que essa cantiga é entoada pela própriaentidade logo na sua chegada. Uma espécie de apresentação. Para eles, cada linhacantada pode remonta para uma imagem, remonta um sentimento da própria entidadeque o canta. Logo na primeira linha observamos a palavra “aldeia” que ao ser utilizada naumbanda vem a significar a “falange”24 que pertence o Caboclo Tupi. Dependendo dalinha ou vibração25 que se origina, o caboclo Tupi pode pertencer a de Oxossi, a Xangô,Ogum, Yemanjá ou Oxalá, que são os Orixás que regem as linhas de atuam dentro dosTerreiros de Umbanda. O som dos tambores é uma espécie de prece que o evoca,convocando a comparecer com seus instrumentos de caça e sempre pronto para aguerra. Os atabaques, objetos sagrados trazidos pelos escravos africanos para o Brasil,são utilizados em todos os rituais das religiões afro-brasileiras e exprimem a identidadeprofunda de um povo. A eles são atribuidas as simbologias da força e da vida do chefe deuma clã e de todo o seu povo. Para o Babalorixá Hilton de Ogum, o pai que “o mandou chamar” é seu José IncaTupinambá, a entidade chefe da falange dos caboclos Tupis. Essa liderança ligada asantigas civilizações Incas, Astecas e Maias que habitaram as regiões ameríndias, é umaentidade portadora de grande sabedoria. Acredita-se também que outras se originam dediversas outras regiões do planeta.24 Grupo de entidades que estão sob o comando de uma entidade chefe.25 Remete aqui para o mesmo significado de falange. Ver citação 31.
    • “Eu sou TUPI AIÁ”. “AIÁ” é de origem da palavra Ajaá (do tupi aia-á), que é onome de uma árvore no Brasil, cuja madeira se presta para obras externas26. Para oBabalorixá Hilton de Ogum, o significado de seu nome o remete para a natureza de ondese origina. As árvores carregam o princípio de ancestralidade e estabelecem a dinâmicada relação entre os seres e a natureza. Na mitologia yorubana, a palavra “Aya” ou “Aia” éa divindade dos tambores, enquanto que no dicionário umbandista, vem a significarToalha Branca para uso em terreiros27.Quando nesta casa entreiEu louvei MariaQuando nesta casa entreiEu louvei seu santo dia Percebe-se o forte sincretismo quando a entidade chega no lugar e reverênciaMaria, presente nos valores religiosos e espirituais da Umbanda, ora identificada comOxum quando assume o papel de “Maria Virgem”, ora identificada com Yemanjá quandose manifesta como “Maria Mãe”28. É o desconhecido se apresentando e se identificandocom elementos já conhecidos, a fim de não causar estranheza. Camargo (1961)29 diz queisso remete ao sentimento de pertença daquele que busca as religiões mediúnicas eobserva que boa parte dos frequentadores se consideram católicos.Quando nesta casa entreiolhei para a cumieiraSalvei o dono da casaE a sua familia inteiraBandole, ole, oláBandole, ole, oláBandole é caboclo26 Dicionário Michaelis. Uol: 2010.27 Disponível no Site: http://www.novaera.blog.br28 SARACENI, Rubens. Orixás: Teogônia de Umbanda. São Paulo: Editora Madras, 2005.29 CAMARGO, Candido Procópio Ferreira de. Kardecismo e Umbanda: Uma Interpretação Sociológica. São Paulo:Editora Livraria Pioneira, 1961.
    • Bandole, ole, olá As saudações fazem parte do comportamento (personalidade) das entidades. Oolhar para a “cumieira”30 é o respeito que se tem aquilo que sustenta a casa. O verso “Bandolê, olê, olá” está presente em muitas outros pontos de caboclos,sendo mais comum nas cantigas entoadas aos “Caboclos Boaideiros” 31. Supõe-se que apalavra “Bandolê” derive de duas palavras bantu: bando/banda + olelê/olalá32. A palavrabando/banda significa: lugar de origem de uma entidade umbandista (banda, linhagem,zona, província, distrito, parte de uma país); olelê/olalá é uma interjeição de alegria, nosentido de combater com alegria, ou que venha a significar um grito de Guerra, deanimação, nos dando o sentido de que a “entidade vem de uma região, de uma linhagem,com gritos de guerra para combater com alegria”. A palavra “Caboclo” vem do tupi“Kareuoká” que significa cobre, acobreado. São espíritos guias das raças ameríndias, quepossuem linguajar assemelhado aos dos indígenas33.Surucucu, CascavelVenho de Minas GeraisPiso na folha secaVejo a cobra piá Essa cantiga remete-o para um passado que o liga ao Estado de Minas Gerais,podendo se supor que se trate de uma trajetória de vida historicamente superada. A teseque se pode levantar é a do “fenômeno de reorientação de sua mensagem”. Essaproposta foi defendida por Prandi (2001)34, quando apresenta que os referenciaisafricanos costumam ser transplantados para os caboclos e por estes revividos, a suapossível origem africana ligada as minas, serve de paradigma para a sua origem. Tratar-30 A cumeeira representa e guarda os mistérios de cada casa e de seu sacerdote, é nela que seu Orixá se apóia paraque sua casa sobreviva ao tempo.31 São considerados Espíritos de pessoas que em vida trabalhavam nas fazendas e ligada a imagem do peão boiadeiro:ágil, valente e de grande força física.32 ANGENOT, Jean-Pierre & ANGENOT, Geralda de Lima. Glossário de Bantuismos Brasileiros presumidos. PublicaçãoOnline do Site: http://www.campusguajara.unir.br,33 PINTO, Altair (Org.). Dicionário da Umbanda. 6ª Edição. Rio de Janeiro: Eco, 1990.34 Citação 28.
    • se de uma composição sincrética com Aruanda, quando abordado a partir do principio demitificação do remoto. As cobras Surucucu e Cascavel são encontradas nas regiões do norte e na mataatlântica dos Estados do nordeste. São cobras que seguem o calor dos animais que caçae, por terem um acurado sensor de calor, emitem um som com suas caldas aoperceberem que invadiram seu território. “A cobra pia” é uma afirmativa presente no relatode muitos sitiantes, seringalistas e indígenas.Onça Tigre é meu cavaloSurucucu meu gibãoCascavel minha perneiraCoral é meu cinturão Nessa cantiga, alude-se a idéia de que o Caboclo Tupi domina animais ferozescomo a onça e o tigre, utiliza peças de roupa formada a partir da pele da Surucucu(Gibão - Veste de homem usada durante os séc. XIII a XVII, cobrindo o pescoço até umpouco abaixo da cintura), da Cascavel (Perneira - Peças de couro do vestuário masculinodestinadas a proteger as pernas entre o joelho e o pé; são usadas por soldados ecampeiros) e da Coral (Cinturão - Faixa larga e ordinariamente de couro, que se traz àcintura para guarda de armas e cartucheiras, ou dinheiro).Tupinambá é reiOnde Oxossi moraVem ver seus filhosQue tanto choram “Tupinambá” é uma palavra de origem tupi. Segundo o Dicionário Aurélio: um povoindígena extinto, da família linguistica tupi-guarani que habitava a costa brasileira, do Paráao Rio de Janeiro. Na Umbanda, é considerada a entidade-chefe da falange dos caboclostupis, e a cantiga alude muito bem a isso quando o chama de “rei”. A alusão ao Orixá“Oxossi” é pelo fato de se acreditar que ele seja a força motriz, mítica, desconhecida, a
    • energia que impulsiona ou que alimenta qualquer atividade de origem espiritual35. Ele é oOrixá patrono das matas e das florestas. É sincretizado na Bahia com São Jorge e no Riode Janeiro e Porto Alegre com São Sebastião.Caboclo vai emboraPra cidade da JuremaO bom Jesus tá lhe chamandoPra cidade da JuremaMas ele vai ser coroadoNa cidade da JuremaCom a coroa de “ai ei ei ô”----Caboclo junta a tua flechaJunta teu badoqueO galo já cantouO galo já cantou na aruandaOxalá te chama para outra banda Essas duas cantigas são chamadas de “pontos de subida”, é o momento em que aentidade está se despedindo. Os pontos apresentam uma linguagem metafísica 36. Essalinguagem é recheada de alusões épicas, quando fala de cidades (no caso aqui, a cidadeda Jurema), deuses, heróis, coroas e, na maioria das vezes, apresentam referência a umlugar celestial, lugar de repouso e de descanso. No dicionário Umbandista, “Aruanda”significa “Céu, Nirvana ou Infinito significam a mesma coisa, isto é, a morada daquele queé criador de todos os mundos. Trata-se, pois de um dos planos da maior elevaçãoespiritual, ou seja, o céu”37. Elas são cantadas repetidas vezes quanto necessário for, até se perceber adesincorporação dos médiuns.35 PASSOS, Elizabeth Miriam P. Artigo: Oxossi: o caçador de almas.36 Metafísica aqui no sentido aplicado por Hume de que está surge unicamente como conseqüência das ilusões emque a linguagem nos envolve.37 Citação 40.
    • CONCLUSÃO Participando de uma Festa de Caboclo, percebe-se a presença de uma história queestá ligeiramente ligada a um passado distante e fabuloso, onde os seus protagonistasassumem o papel de divindades e de entes sobrenaturais. Os seus ritos estão recheadosde cantigas épicas e que fazem com que os seguidores, se comuniquem com essasentidades e vice-versa. Ao canto de canções ritualísticas, os seres são invocados arepetirem seus feitos milagrosos e, ao reaparecerem, prestar um serviço instrutivo emanipulador de forças contrárias ao bom estado de vida do individuo que pede suasorientações. A Festa do Caboclo Tupi é uma experiência que nos faz enxergar como todauma ritualística é revivida e, por meio de um elaborado cerimonial, se desperta “do sono”a entidade e a atrai ao mundo dos vivos. A Festa tem um caráter sincrético, ora utilizando elementos cristãos presentes noCatolicismo Romano, ora apropriando-se de objetos utilizados pelos indígenas das maisdiversas regiões brasileiras e, por fim, conceitos e crenças africanas trazidas pelosescravos que para cá vieram, são incorporados ao Culto afro. Evoca-se os Orixás,Inquices, Vodus e Caboclos para que as homenagens e as honras sejam prestadasaquele que é o dono da festa: Caboclo Tupi “Aiá”.BIBLIOGRAFIAAMARAL, Rita "Povo-de-santo, povo de festa: a centralidade da festa de candomblé comopotência estruturante da religião" In: Os Urbanitas - Revista de Antropologia Urbana,Edição Aguaforte Assessoria Web, ano 1, vol. 1, julho de 2004. Disponível na Internet nohttp://www.osurbanitas.org.CAMARGO, Candido Procópio Ferreira de. Kardecismo e Umbanda: Uma InterpretaçãoSociológica. São Paulo: Editora Livraria Pioneira, 1961.CHADA, Sônia. Artigo: Do azeite à água, publicado no site:http://www.anppom.com.br/anais/anaiscongresso_anppom_1999/ANPPOM%2099/PAINEIS/CHADA.PDF. Acessado em 14.07.2010.
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