Interfaces nômades - Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

Interfaces nômades - Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web

on

  • 2,791 views

Tese de Doutorado em Processos de criação nas mídias defendida na PUC/SP em maio de 2012 e revisada em agosto do mesmo ano.

Tese de Doutorado em Processos de criação nas mídias defendida na PUC/SP em maio de 2012 e revisada em agosto do mesmo ano.

Statistics

Views

Total Views
2,791
Views on SlideShare
2,763
Embed Views
28

Actions

Likes
3
Downloads
73
Comments
2

6 Embeds 28

https://si0.twimg.com 9
https://twitter.com 8
http://pinterest.com 4
https://twimg0-a.akamaihd.net 3
http://twitter.com 2
http://www.pinterest.com 2

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

Interfaces nômades - Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web Interfaces nômades - Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web Document Transcript

  • Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Luciana Moherdaui Interfaces nômades1 Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO SÃO PAULO Maio, 20121 Esta tese foi elaborada com o apoio do UOL (www.uol.com.br), através do Programa UOL BolsaPesquisa, processo número 20080102180000.
  • Luciana Moherdaui Interfaces nômadesUma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação e Semiótica na linha de Pesquisa Processos de Criação nas Mídias. Orientação: Rogério da Costa SÃO PAULO 2012 2
  • Folha de aprovação Banca examinadora Rogério da Costa - Orientador Giselle Beiguelman (FAU/USP) Pollyana Ferrari (PUC/SP) Lúcia Leão (PUC/SP) Cícero Inácio da Silva (UFJF/MG) 3
  • Agradecimentos Este trabalho ficaria sem fôlego não fossem as orientações de GiselleBeiguelman e Rogério da Costa. Giselle por ter deixado esta jornalista epesquisadora voar, indefinidamente, e Rogério por aparar as arestas e torná-lorealidade nas cerca de 300 páginas que se seguem. Também foram absolutamente fundamentais os apoios recebidos pelaCoordenação do Programa de Comunicação e Semiótica (COS) da PUC/SP,(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), pela CAPES (Coordenação deAperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), cuja Bolsa de Estudo permitiu arealização de um projeto pessoal e profissional, o Doutorado, e pelo Programa UOLBolsa Pesquisa por contribuir com minha formação acadêmica. Tenho especial apreço pelo coletivo inteligente que colaborou amplamenteem minha pesquisa mesmo sem, às vezes, ter-se dado conta, por meio de redessociais ou conversas informais. Às vezes, em comentários sobre Jornalismo ou pelaleitura de posts. Um deles, especialmente feito por Leão Serva, ex-chefe no iG ehoje meu amigo. Trata-se de uma piada contada nas redações toda a vez que surgeuma reforma gráfica: “com fio ou sem fio?” Explico: grosso modo, os projetos gráficos baseiam-se em uma máxima quesurgiu após a grande mudança instituída no Jornal do Brasil por Jânio de Freitas, nofinal dos anos 1950: as reformas de jornal alternam-se por tirar e colocar fios. Emjunho de 1959, o jornalista, atual colunista da Folha de S.Paulo, decidiu arrancar osfios das páginas e aumentar o tamanho das fotos no JB. Dizia que os leitores nãoliam fios. Também integravam o time Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, AlbertoDines e Reynaldo Jardim. A todos a minha gratidão, essa palavra-tudo, como diria Carlos Drummondde Andrade (1902-1987). 4
  • “Nenhum conhecimentoprecede a experiência, todoscomeçam por ela”Immanuel Kant 5
  • ResumoEsta pesquisa analisa a interface jornalística na Web, embora a conclusão possa serestendida a outros protocolos e aplicativos. O objetivo principal é repensar aexibição da notícia que circula no fluxo. A migração da cultura de página estáticapara a cultura de dados (BERNERS-LEE: 2009) modificou o padrão decomunicação que vigorou no século 20. Foram incorporados à transmissão,publicação e recepção os seguintes termos: anotar, comentar, responder, agregar,cortar, compartilhar, download, upload, input e output (MANOVICH: 2008, p. 226).Esta tese parte do pressuposto de que os projetos de Jornalismo para a Internet sãoconstituídos sob a lógica do jornal impresso, com hierarquia e diagramação emcolunas (NELSON: 2001) quando a dinâmica atual indica a implosão da página, aperda do processo de padronização editorial. Nesse sentido, a discussão seráfundamentada a partir de noções de revezamento, agenciamento (DELEUZE;GUATTARI, 2007, p. 180), mapa (DELEUZE; GUATTARI: 2006, p. 21-23) e teoriasdo Jornalismo.Palavras-chave: jornalismo, Internet, interface, agenciamento, tag 6
  • AbstractThis research analyzes the news on the Web interface, although the finding can beextended to other protocols and applications (apps). The main objective is torethink the view of news circulating in the right flow. The migration of static pageculture to the culture data (BERNERS-LEE, 2009) changed the pattern ofcommunication prevailed in the 20th century. The following terms wereincorporated into the transmission, publication and reception: annotate, comment,reply, add, cut, share, download, upload, input and output. (MANOVICH, 2008, p.226). This thesis assumes that journalism projects for the Internet are made underthe logic of the printing press, with hierarchy and in columns (NELSON, 2001)when the current dynamics of the implosion of the page indicates, the loss of thestandardization editorial process. In this reality, the discussion will be based fromnotions of relay assemblage (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180), map (DELEUZE;GUATTARI, 2006, p. 21-23) and theories of Journalism.Keywords: digital journalism, interface, agency, tag 7
  • SumárioÍndice de figuras PG 10Índice de tabelas PG 17Introdução PG 18Capítulo 1. Internet das Coisas PG 29 A rede mundial de computadores PG 30 Economia: a primeira bolha PG 35 Tudo agora é ciberespaço PG 39 Computação ubíqua PG 43 A Web não morreu PG 50 Jornalismo de Internet PG 53 Bem além do papel PG 59 Design gráfico faz a diferença PG 63 Metáfora como ponto de partida PG 68 A interface é a mensagem PG 71 Corpo informacional PG 74 Agenciamentos que reconfiguram a interface PG 77Capítulo 2. Estética Power Point PG 84 Ponto de vista jornalístico PG 85 Nem toda informação é notícia PG 88 A realidade pela lente do Jornalismo PG 90 Design de superfície, redundância e imperativo PG 93 Nos gadjets, um pouco além da repetição PG 103 Tudo é igual para todos PG 106 Como a interface mudou o Jornalismo PG 110 O jornal foi parar dentro do Facebook PG 115 Desconstruindo conceitos PG 117 8
  • As quatro fases do Jornalismo de Internet PG 119 Para analisar a interface, Foucault PG 129 O que caracteriza o Jornalismo de Internet? PG 132Capítulo 3. Interfaces nômades PG 147 Rupturas e remediações PG 148 A Web de Ted Nelson PG 153 Por uma crítica da metáfora PG 156 Uma nova linguagem visual híbrida PG 161 A primeira interface de conversação PG 165 Tag para desenhar PG 170 Arquitetura da informação ainda dá conta? PG 176 Interface como superfície PG 177 A inteligência distribuída deslocou a fonte PG 180 A influência da arte digital PG 185 Links tomam o lugar das prateleiras PG 189 Notícia em rede PG 195 Twitter põe em xeque a manchete PG 199 No Facebook, jornal mantém a tradição PG 205 O jornal como rede social PG 207 A implosão da página estática PG 214 Conclusão PG 223 Bibliografia PG 239 Anexos PG 251 Formulário de observação e ficha técnica PG 251 Relatório final do Programa Bolsa UOL de Pesquisa PG 254 Interfaces pesquisadas PG 258 2012 PG 258 2009 PG 273 2008 PG 288 9
  • Índice de figurasFigura 1. Mosaic, primeiro browser gráfico PG 35Figura 2. Netscape Navigator PG 35Figura 3. Receita por usuário na Internet PG 38Figura 4. Projeção da Internet das Coisas em 2020: 50 bilhões PG 45Figuras 5, 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones PG 46Figuras 7, 8. Após 2011, domicílios irão gerar mais tráfego na Internet PG 46Figura 9. Projeto Sixth Sense (MIT): usando a palma da mão paradiscar um número PG 47Figura 10. Projeto Sixth Sense (MIT) 2 : passagem aérea atualizastatus do voo PG 48Figura 11. Projeto Sixth Sense (MIT) 3: projetor, câmera e marcadoresde cor utilizados para acessar dados PG 48Figura 12. Projeto Sixth Sense (MIT) 4: jornal impresso exibe vídeo denoticiário ao vivo PG 49Figura 13. Projeto Morph, da Nokia PG 49Figura 14. Pesquisa da Wired sobre uso de aplicativos PG 51Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e consumo de Web PG 52Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos PG 53Figuras 17, 18. Interfaces da CNN em 11 de setembro de 2001 PG 55Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN PG 59Figura 20. Interface da primeira página do Sunday Tribune PG 65Figura 21. Primeira página do The New York Times impresso, 1860 PG 67Figura 22. Primeira página do The New York Times, impresso 1980 PG 67Figuras 23, 24, 25. Versões impressas das capas do cadernode Esporte da Folha de S.Paulo durante a Copa 2006 PG 69 10
  • Figuras 26, 27, 28. Interfaces da Folha de S.Paulo na Webdurante a Copa 2006 PG 70Figura 29. Cena de Johnny Mnemonic (1995), de Robert Longo PG 75Figura 30. Cena de eXistenZ (1999) , de David Cronenberg PG 76Figura 31. Cena de Videodrome (1982), de David Cronenberg PG 76Figura 32. Infográfico da ComScore sobre o aumento do acesso àsredes sociais no mundo PG 80Figura 33. Infográfico do Ibope sobre acesso às redes sociaisno Brasil PG 81Figura 34. Infográfico do Nielsen sobre tempo pelos americanosna Internet PG 82Figura 35. Diagramação da Folha Online entre layout Web e impresso PG 94Figura 36. BBC, 2008: abusa da repetição ao oferecer customização PG 95Figura 37. Terra, 2009: palavras repetidas na edição PG 95Figura 38. Folha Online, 2008: redundância e uso de setas no espaçotridimensional que é a Web PG 96Figura 39. Folha.com, 2011. Ainda com uso de setas, mas semRedundâncias PG 96Figura 40. Estadão.com, 2008, palavras repetidas na edição PG 97Figura 41. Estadão.com, 2011, eliminação da redundância PG 97Figura 42. Globo Online, 2008, palavras repetidas na edição PG 98Figura 43. Globo Online, 2011, com pouca redundância PG 98Figuras 44, 45. Interfaces da CNN para iPad PG 103Figuras 46, 47. Interfaces da ABC News para iPad PG 104Figuras 48, 49. Interfaces das redes ABC News e CNN para iPhone PG 104Figuras 50, 51. Interfaces da Wired para iPad PG 105Figuras 52, 53. Interfaces da Wired para iPhone PG 105Figura 54. Estrutura de arquitetura da informação na Web PG 106 11
  • Figura 55. Reconhecimento facial do Facebook PG 108Figura 56. Primeiro blog da Web, de Tim Berners-Lee PG 110Figura 57. Localização do post de Sohaib Athar via Google Maps PG 112Figura 58. Esquema tradicional da coleta de notícias e do seuprocessamento PG 112Figura 59. Post com anúncio da morte de Bin Laden por KeithUrbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush PG 112Figura 60. Enquete no Facebook para saber quem noticiou primeiroa morte de Amy PG 113Figura 61. Interface do The New York Times com a notícia da mortede Amy Whinehouse PG 114Figura 62. Interface do Daily Mail com a notícia da morte deAmy Whinehouse PG 114Figura 63. Interface do Washington Post Reader no Facebook PG 115Figura 64. Interface do The Guardian APP no Facebook PG 116Figura 65. Interfaces impressa e de Web do The Bugle Beacon PG 119Figuras 66, 67. Interfaces impressa e de Web da Folha de S.Paulo PG 121Figura 68. A apresentação da Folha Digital, exemplo de metáfora, 2009 PG 121Figura 69. Interface da Folha.com, 2011 PG 123Figura 70. Interface de O Globo na Web, 2011 PG 123Figura 71. Interface do Google Flip, 2011 PG 123Figura 72. Interface do MSNBC , 1997 PG 125Figura 73. Interface do Último Segundo, 2011 PG 125Figura 74. Interface do Huffington Post, 2011 PG 126Figura 75. Mapa coletivo feito com aplicativo do Google mostraavanço da gripe aviária PG 127Figura 76. Twitter do jornal USA Today com informações sobre agripe aviária PG 128 12
  • Figura 77. Mapa do Google sobre avanço da gripe aviária por região PG 128Figura 78. Interface do Le Monde, 1996 PG 133Figura 79. Interface da BBC, 1997 PG 134Figuras 80, 81. Interfaces da edição número 17 da NEO (1997),a primeira revista em CD-ROM no Brasil PG 137Figuras 82, 83. . Interfaces da revista NEO,edição número, 16 PG 138Figuras 84, 85, 86, 87. Interfaces da revista NEO,edição número, 16 PG 138Figura 88. Cobertura do Estadão sobre a morte de Michael Jackson,2007 PG 141Figura 89. Cobertura do The New York Times sobre a morte deMichael Jackson PG 141Figura 90. Cobertura do Último Segundo sobre a morte de MichaelJackson PG 142Figuras 91, 92. Versões brasileira e inglesa de destaque em vídeoda BBC sobre a Líbia, 2011. PG 143Figura 93. Interface da CNN sobre a Líbia, 2011 PG 143Figuras 94, 95. Movie Map, primeiro sistema hipermídia, desenvolvidopelo Massachussets Institute of Tecnology PG 144Figura 96. Zite, aplicativo para customizar conteúdo para iPad PG 145Figura 97. PointCast, primeira tecnologia push, de 1996 PG 146Figura 98. Interface do El Pais, 1996 PG 150Figura 99. Diagrama do Xanadu, sistema de hipertexto de Ted Nelson PG 154Figura 100. Apple 1, lançado em 1976 pela empresa de Steve Jobs PG 158Figura 101. Macintosh, lançado em 1984 pela Apple PG 158Figura 102. Logomarca do Napster, criado por Shaw Fanninge Sean Parker PG 159Figura 103. Sketchpad, primeira interface de conversação, 1962 PG 167 13
  • Figura 104. Caneta ótica, de Ivan Sutherland, 1965 PG 167Figura 105. Sistema Augment/NLS, processador baseado emtexto e mouse PG 168Figura 106. A arquitetura Augment/NLS, de Doug Engelbart PG 168Figura 107. Grail, sistema de reconhecimento por gesto, de Tom Ellis PG 169Figura 108. Dynabook, computador pessoal para desenvolvidopara crianças por Alan Kay PG 169Figura 109. Nuvem de tags dos tópicos mais comentados daThe Economist PG 170Figura 110. Base de dados sobre os 66 anos da bomba de Hiroshimafeita por meio da plataforma do Google Earth PG 172Figura 111. Tackable, aplicativo para telefones celulares para uma redesocial fotográfica desenvolvida em parceria com San José Mercury News PG 172Figura 112. Interface de busca em tempo real no Twitter via Google PG 173Figura 113. Ushahidi, plataforma de criação de mapa open sourceutilizada pela BBC para mostrar os problemas causados pela grevedo metrô em Londres PG 173Figura 114. Revisit, aplicativo para visualização em tempo real deposts sobre temas específicos PG 174Figura 115. TimeSpace, mashup noticioso do The Washington Post,com texto, áudio, vídeo e fotos produzidos ao redor do mundo PG 174Figura 116. How Twitter tracked the News of the World scandal,termômetro do The Guardian sobre como o microblog reagiu àsdenúncias de grampos contra celebridades no Reino Unido PG 175Figura 117. Cascade, projeto do NY Times Lab para avaliar ocomportamento dos leitores em relação ao conteúdo do jornal PG 175Figura 118. Esboço arquitetura de informação para interfaces PG 177Figura 119. Twitter da Mônica Bérgamo com notícia sobre a saídade Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional (Rede Globo) PG 184Figura 120. Desaparecimento das categorias, proposta porClay Shirky: hierarquia PG 190 14
  • Figura 121. Desaparecimento das categorias, proposta porClay Shirky: hierarquia com links PG 190Figura 122. Desaparecimento das categorias, proposta porClay Shirky: hierarquia com muitos links PG 191Figura 123. Desaparecimento das categorias, proposta porClay Shirky: apenas links PG 191Figura 124. Your Life, Our Movie, de Fernando Velázquez PG 193Figura 125. 10 x 10, de Jonathan Harris PG 193Figura 126. The Origin of Species, de Ben Fry PG 194Figura 127. We Feel Fine, de Jonathan Harris e Sep Kamvar PG 194Figura 128. Proposta de uso de hashtag no Twitter, de Chris Messina PG 195Figura 129. Cartaz do Revolution Tools PG 197Figura 130. Cartaz do protesto thinkflickrthink PG 198Figura 131. Blog do Twitter indica hashtags e perfis a serem seguidospara obter com últimas notícias sobre o terremoto do Japão PG 202Figura 132. Interface de emergência do Google sobre o terremotodo Japão PG 203Figura 133. Mapa colaborativo com informações sobre o terremotodo Japão PG 204Figura 134. Twitter Stories, interface não hierárquica para criação enarrativas por meio de hashtags PG 205Figura 135. Interface textual Social APP do The Guardian no Facebook PG 206Figura 136. Interface Social Reader no Facebook PG 207Figura 137. Interface do HuffoPost Social News PG 208Figura 138. TimesPeople, rede social de recomendação para textos doThe New York Times PG 209Figura 139. Mashup com aplicativo do Google Maps sobre a ocupação doMorro do Alemão, no Rio de Janeiro, atualizado pelo Twitter do jornalO Globo e dos cidadãos PG 215 15
  • Figura 140. Interface da Globo News ao vivo com a cobertura daocupação do Morro do Alemão PG 215Figura 141. Interface do UOL News com a cobertura completa daocupação do Morro do Alemão PG 216Figura 142. Interface do Google Search sobre a ocupação do Morro doAlemão PG 217Figura 143. Interface de busca em tempo real do Twitter via GoogleMaps com notícias sobre o morro do Alemão PG 217Figura 144. Reprodução do Google Earth com vídeos e informaçõessobre o Alemão PG 218Figura 145. Cena de A era da estupidez, de Franny Armstrong PG 218Figura 146. Interface do Twitter exibida no YouTube com posts sobreos protestos no Egito PG 219 16
  • Índice de tabelasTabela 1. Nomenclaturas PG 61Tabela 2. Computador e interface ontem e hoje PG 72Tabela 3. Novo paradigma da comunicação PG 83Tabela 4. Critérios de Noticiabilidade PG 90Tabelas 5. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet PG 152Tabela 6. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet PG 155Tabela 7. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet PG 156Tabela 8. Jornalismo ontem e hoje PG 180 17
  • Introdução Quando o projeto2 desta tese foi elaborado, em meados de 2008, pensava-se aWorld Wide Web, o protocolo multimídia da Internet, como uma página estática,com a lógica do projeto gráfico de jornais, calcada em hierarquia3, diagramação ecolunas (NELSON: 2001), e o browser um emulador do paginador. Inclusive o título (Os critérios de composição no Jornalismo Digital – Em busca deum modelo ideal de páginas noticiosas) remetia a uma clara tentativa de reordenara miscelânea configurada pela edição das interfaces naquele período – marcado,sobretudo, por excesso de redundância e imperativo. O uso de redes sociais ainda não era tão representativo como hoje. A curva decrescimento, principalmente do Facebook, começou a aumentar significativamenteem 2009, segundo a ComScore. Dados da empresa que mede audiência na Internetmostra que 1,2 bilhão de pessoas acessam redes sociais em todo o mundo. Outra característica marcante da produção jornalística na Internet são osportais e os chamados sites noticiosos. Steve Outing, um dos mais importantesestudiosos do tema, definiu portal como um agregador de diversas fontes deconteúdo, centralizados em vários destaques na “página inicial” (OUTING: 1999apud FERRARI: 2002). Quem melhor mostrou a forma pela qual as interfaces foram sendo apropriadasdesde o surgimento do protocolo de Berners-Lee foi Elliot Zaret, então editor daMSNBC, em 2000, no artigo The Theory of Portal Evolution: No começo, tínhamos a Web. Muita informação, vários cliques e isso parecia bom. Mas muito rapidamente começou a aparecer muita informação e ferramentas de busca foram necessárias para encontrar o conteúdo espalhado como em teias de aranha. E depois das ferramentas de busca2Para ler a íntegra do projeto, ver: http://bit.ly/wwbeOs. Acesso jan. 2012.3 O dicionário Houaiss define hierarquia como: “organização fundada sobre uma ordem deprioridade entre os elementos de um conjunto ou sobre relações de subordinação entre osmembros de um grupo”. 18
  • vieram os diretórios e depois deles os portais, os cliques para e-commerce” (apud FERRARI: 2002, p. 17). Essa lógica de portais começa a ser questionada por esta jornalista quando há apercepção do estrondoso interesse no consumo de notícias por meio de redessociais. Levantamento da Nielsen Wire já apontava, em 2010, baixa nos índices:entre 2009 e 2010, a empresa registrou queda de 19% no tempo que osamericanos gastavam acessando portais – de 5,5% para 4,4%. Já o interesse porredes sociais havia aumentado 43% no mesmo período – 15,8% para 22,7%4. No Brasil, embora o Ibope tenha mostrado em 2010 que 60% dos internautasdisseram que as redes sociais são suficientes para se manterem informados5,afirmou um ano depois que “portais são absolutamente relevantes e são areferência para o adulto.” O portal como espaço estriado, metrificado, com fronteiras delimitadas, já foracriticado amplamente por André Lemos, professor e pesquisador da UniversidadeFederal da Bahia (UFBA). Para Lemos, os portais são currais porque "configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que tratam as pessoas como boisdigitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seuscalabouços interativos" (2000). Também contribuiu para a mudança de perspectiva desta tese o anúncio doengenheiro britânico Tim Berners-Lee no TED (sigla em inglês para Technology,Entertainment, Design) de 2009, um dos mais importantes eventos de tecnologia domundo: a migração da cultura de página para a cultura de dados. Se antes a proposta era analisar a composição, o design de interfacesjornalísticas dos jornais (em sites e portais) de maior audiência no Brasil6 e no4 WHAT AMERICANS do online: Social media and games dominate activity. Nielsen Wire, EUA, 2ago 2010. Disponível em: http://bit.ly/yuF8Sp. Acesso jan. 2012.5 Ver nota 75.6 De acordo com dados do Instituto Ibope: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), TerraNotícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New YorkTimes, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post. 19
  • mundo, com base na Teoria do Jornalismo, mais especificamente o newsmaking, etendo como cerne a narrativa, a afirmação do pai do WWW levou a uma abordagemcompletamente diferente. É óbvio que o newsmaking foi fundamental na primeirafase da pesquisa e também para a sua conclusão. Igual importância tem a narrativa. Porém, essas interfaces, objeto destapesquisa, passaram a ser observadas sob os pontos de vista do designinformacional, da auto-organização do browser e das dinâmicas das relações que seestabelecem nas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook. Não fazia mais sentido aplicarem-se à pesquisa critérios para composição dapágina, cujo modelo partia da organização das primeiras páginas dos jornaisimpressos. Nem tampouco usar as nomenclaturas orientadas pela reprodução demetáforas analógicas, como site ou homepage, por exemplo, cujo público-alvo é osujeito cartesiano. Também não mais cabia propor um modelo de página com base no idealkantiano, conforme designava o projeto original, algo que a razão pura exige, masque não é dado no campo da experiência. Conceito próximo ao de o matemático alemão Richard Dedekind (1831-1916),que o definiu como um sistema algébrico que atendia a determinadas condições.Mediante a sistematização, Dedekind preferia enfatizar propriedadesfundamentais dos objetos matemáticos, em oposição às suas representaçõesparticulares. É verdade que quando transpostos à Web, os valores-notícia de composição(WOLF: 2002) não fazem jus aos projetos gráficos que mudaram o Jornalismoimpresso nos anos 1960 e 1970. Alguns não alcançam sequer a metáfora de suasversões tradicionais. Porém numa observação mais aprofundada feita, principalmente, a partir dedois pontos indica que é possível rever o design informacional na Internet: arte 20
  • digital e rede social (Social News e jornal como rede social). Ou seja, as interfaces,antes estáticas, tornaram-se nômades7e implodiram o processo comunicacionalbaseado na hierarquia. Esse raciocínio deu origem ao título desta tese. Implodir a página significa perder a padronização editorial. Essa é atualmente agrande questão para os jornais, já que o conceito de edição está em xeque. Ainformação principal não está mais na manchete, mas no buzz gerado na rede. Aspessoas não seguem mais editorias, buscam notícias por tags, hashtags8 ou emperfis de jornalistas, cidadãos, instituições ou empresas de comunicação, entreoutros, nas redes sociais. As tags são também constituidoras de interfaces. Há um sem número deexemplos na arte digital e nas redes sociais que demonstram essa possibilidade.Outro detalhe importante é que nem tags nem hashtags podem ser editadas já umavez publicadas. Não há como o Jornalismo poder controlá-las. É curioso anotar que se fala da não linearidade do texto jornalístico na Webdesde os primeiros trabalhos publicados, na década de 1990 (sejam eles escritospara academia ou para o mercado). Ao longo dos anos, importantes pesquisadores pregaram essa característicacomo uma das definidoras do WWW (assim como hipertextualidade,multimidialidade, interatividade, teleação e memória, entre outras) e propuseramformatos outros (FERRARI: 2007; SALAVERRÍA: 2005, PAUL: 2005, MCADAMS:2005, MEADOWS: 2003; MIELNICZUK: 2003; MURRAY: 2003, MANOVICH: 2001;DEUZE: 2001; LÉVY: 1999; LANDOW: 1995). Ao que se refere à narrativa, a proposta de Pollyana Ferrari, em sua tesedoutoral para a Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (USP),7 Um nômade não tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente ele os tenha. Eles sereterritorializam na própria desterritorialização. A terra deixa de ser terra e tende a se tornarsimples solo ou suporte (DELEUZE; GUATTARI: 2007, p. 53).8 Tags e hashtags são etiquetas, palavras-chave utilizadas na rede para marcar conteúdo. Ashasgtags carregam o sinal sustenido # e são características do Twitter. 21
  • defende a não hierarquização da narrativa: “Na Web não há hierarquia absoluta.Cada leitor é um agente de seleção, de bifurcação, ou de transversalidade, emcamadas rizomáticas” (2007, p. 186-187). Ted Nelson fizera afirmação semelhante no começo dos anos 2000 e antes doWWW, com seu Xanadu, na década de 1960. Giselle Beiguelman corrobora essaideia em O livro depois do livro (2003). Embora haja diversas propostas para narrativas textuais e constituições deinterfaces como o Xanadu, de Nelson, o design de interface ficou relegado aoformato jornal. Isso é percebido nos excelentes projetos para a Internet assinados porempresas mundo afora, como García Media9, capitaneada por Mario García,passando pela Case i Associats10, de Francisco Amaral, e Institute for the Future ofthe Book11, comandado por Bob Stein, responsável pelo redesenho de Wired e TheNew Yorker (Web e tablet). O design assemelha-se, nas palavras do pesquisadorrusso Lev Manovich, a um PowerPoint com mídias distribuídas (2008, p. 45). De modo algum tal informação é exagero. Em 2011, os principais profissionaisdessa área participaram do LIDE2011 (Linguagem, Informação e DesignEditorial)12, entre eles, Chiquinho Amaral, que definiu o desenho do iPad para OEstado de S.Paulo como “editado e diagramado”. A estética da base de dados inexistiu naquele debate nem tampouco aimportância da não diagramação e da não hierarquização empurradas pelas redessociais. De modo geral, conclui-se que a Web se assemelhará ao papel; os projetossão pautados pela hierarquia, e o iPad é uma banca de revistas, ainda que suainterface seja horizontal e vertical.9 Para saber mais sobre a García Media, ver: http://bit.ly/wkkKs5. Acesso jan. 2012.10 Para saber mais sobre a Case i Associats, ver: http://bit.ly/zHGRK1. Acesso jan. 2012.11 Para saber mais sobre o Institute for the Future of the Book, ver: http://bit.ly/AogqNY. Acessojan. 2012.12 Para saber mais sobre o LIDE2011, ver: http://bit.ly/xJoeKA. Acesso jan. 2012. 22
  • Mas as conclusões do LIDE2011 não chegam perto da reformulação conceitualimpulsionada pela dinâmica das redes. Talvez por uma questão mercadológica,como afirmaram os designers Gabriel Gianordoli e Jorge Oliveira: “A Appledescobriu que revista se compra na banca. Na banca da Apple Store!”. Para osprofissionais, “caiu o conceito de página,” conforme Berners-Lee havia previsto noTED ao anunciar a cultura de dados. E as redes são um reflexo dessa mudança: operam por agenciamentos coletivosde enunciação, orquestrados por produser/prosumer e um coletivo inteligente quetransformam a interface em um “mapa aberto, conectável em todas as suasdimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificaçõesconstantemente” (DELEUZE; GUATTARI: 2006, p. 22). Na rede, o design é fruto de revezamento: uma tensão constante entreinformação e contrainformação (DELEUZE: 2011), poder e contrapoder(FOUCAULT: 1999; CASTELLS: 2009)13. Embora, a configuração seja a de um espaço liso por excelência, sem fronteirasdelimitadas, nômades, há sempre a tentativa de estriá-lo (DELEUZE: GUATTARI:2007, p. 80), como ocorreu recentemente com os protestos contra as leisantipirataria (SOPA) e de propriedade intelectual (PIPA) nos Estados Unidos. Se aprovadas fossem, essas leis permitiriam bloquear interfaces quesupostamente violassem direitos autorais de empresas americanas, penalizandotambém companhias com sede nos Estados Unidos que liberarem acesso a essesconteúdos. Porém, uma crítica feita pelo governo Barack Obama14 e movimentos nas redessociais capitaneados por Google, Wordpress, Wikipedia, Craiglist (classificados),13 Michel Foucault define contrapoder como ações de resistência contra aparelhos de captura(1999, p. 30). Já para o Manuel Castells, trata-se da capacidade de um ator social resistir ouenfrentar relações de poder institucionalizadas (2009, p. 47-49).14 CASA BRANCA critica lei antipirataria. Link Estadão. 16 jan. 2012. Disponível em:http://bit.ly/y09rCh. Acesso jan. 2012. 23
  • Ubuweb (base de dados de poesia sonora, escrita e visual), Flickr, Gizmodo, TheHuffington Post e Wired, entre outros15, e cidadãos mundo afora fez com que oCongresso adiasse indefinidamente a votação dos projetos16. São os percursos pelos quais o Jornalismo passou – desde a publicação daquelaque é considerada a primeira tese produzida pelo alemão Tobias Peucer, em 1690,quando foram sistematizados critérios de noticiabilidade e práticas da profissão, àapropriação das redes sociais por esse campo da Comunicação – que interessam aesta tese abordar. O objetivo é contribuir para os estudos sobre design informacional na Internet,especificamente ao que se refere à interface da notícia que circula no fluxo cujotempo é atemporal (CASTELLS: 2002, p. 553-560). Por essa razão, o primeiro capítulo apresenta uma revisão histórica doJornalismo produzido na Internet desde os anos 1970, quando o The New YorkTimes realizou suas primeiras experiências em rede com o InfoBank, serviço deinformação com artigos do jornal. Em 1969, a BBC já havia realizado testes comvideotexto. A expansão da Internet das Coisas bem como o fim da ideia de ciberespaçocomo um divisor entre real e virtual dão evidências consistentes da reconfiguraçãoda interface jornalística. A notícia pode ser acessada desde dispositivos portáteis auma parede envolvida por tinta digital17, sem formatos previamente definidos.Também é passado em revista o design gráfico de jornais para um entendimentomelhor sobre a forma pela qual se dá a atual exibição de notícias na rede.15 Para saber quem mais protestou contra o SOPA, ver: http://bit.ly/y1XTzU. Acesso jan. 2012.16 SOPA é retirada da pauta do Congresso dos EUA. Link Estadão. 20 jan. 2012. Disponível em:http://bit.ly/yDYpwT. Acesso jan. 2012.17 A tecnologia da tinta digital consiste de duas camadas de esferas microscópicas – metade pretas,metade brancas – que mudam de posição ao receberem estímulos elétricos. Como a tecnologiadispensa a iluminação backlight e só é necessário aplicar energia para alterar a imagem, e não paraexibi-la, este sistema consome muito menos bateria do que uma tela de cristal líquido tradicional.Para saber mais sobre tinta digital, ver: http://bit.ly/z4qwk9 e http://bit.ly/x0r4uf. Acesso jan.2012. 24
  • Definir Jornalismo e sistematizar conceitos que correspondem à sua prática,como newsmaking (produção de notícias), gatekeeper (seleção de notícias) eagenda-setting (agenda de pautas), são fundamentais no segundo capítulo paracompreender como a cultura de dados modificou o padrão de comunicação quevigorou no século 20, baseado em transmissão, publicação e recepção. A esse padrão foram incluídos os seguintes termos: anotar, comentar,responder, agregar, cortar, compartilhar, remix, download, upload, input, output ecrowdsorcing. (MANOVICH: 2008, p. 226). Essa reconfiguração paradigmática ocorreu em termos no Jornalismo praticadona Internet. A constituição da interface observada no final dos anos 2000 reveladapor duas pesquisas (uma feita em 2008 e a outra em 2010) aplicadas aos jornaisque compõem o corpus desta tese indica, além da vertente estruturalista,problemas já apontados aqui: redundância, imperativo, além da não aplicação devalor-notícia de composição, que norteia na mídia impressa o design das páginas. Esse raciocínio se estende ao longo dos capítulos 2 e 3. Em 2012, novaanálise mantém a mesma estrutura. Outras duas questões pertinentes a este trabalho sobre o Jornalismo deInternet foram: 1) a desconstrução de algumas características tomadas como exclusivas, comomultimidialidade e interatividade, por exemplo; 2) a não aplicação das quatro fasesestabelecidas – metáfora, Internet + metáfora; Internet + open source e JDBD(Jornalismo Digital em Base de Dados) – por uma simples razão: na rede, o browseré um paginador e, sendo assim, uma página em branco, diagramada em colunas ehierarquizada. Portanto, não é possível observá-lo do ponto de vista da evolução (FOUCAULT:2007, p. 28). O mais correto é uma análise cujo método se divide em: remediação - 25
  • representação de uma mídia em outra (BOLTER; GRUSIN: 2000) e mediavisualization - mistura de formatos e formas (MANOVICH: 2010). É no terceiro capítulo que começa a tomar forma a interface da notícia quecircula no fluxo principalmente por causa dos elementos de ruptura, comofiltragem colaborativa (baseada na transferência do gosto) e recomendação(JOHNSON: 2001, p. 143-145). Mais a nova linguagem visual híbrida, proposta por Lev Manovich, que leva emconta o uso de tags, não para atomizar informação, mas com o objetivo deaprofundá-la (2010); da crítica da criação baseada na metáfora, da falta devocabulário crítico específico; da importância da arte digital como parâmetro deinterface não hierarquizada; da relação com a fonte, que se deslocou especialmentecom o Wikileaks. Também não se pode deixar de mencionar como nomadismo, agenciamentocoletivo de enunciação e revezamento são a chave para o Jornalismo operar nasredes sociais sem abandonar as teorias que o sustenta. A seguir, o escopo do projeto mostra de que maneira esta tese foi constituídaentre 2008 e 2012:Objeto: interface jornalísticaCorpus: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias,Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The NewYork Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post.Objetivos e Hipóteses Objetivo principal: repensar a interface da notícia que circula na Web 26
  • Objetivos secundários 1. Investigar como o avanço da tecnologia possibilita novos formatos e examinar que modelos têm sido gerados a partir dessas inovações. 2. Verificar se a ativação desses potenciais (geração de novos formatos) depende das formas sociais das apropriações dessas tecnologias e de fatores como modelo de negócio ou resistência administrativa ou profissional/corporativa à mudança, entre outros. 3. Averiguar os parâmetros editoriais sobre arquitetura na Web. Se os jornais seguem um padrão de identidade visual. Se existe algo que os diferencie. Hipótese central: A interface teve que se deslocar porque a produção noticiosaestá se modificando? Hipóteses secundárias 1. O Jornalismo de Internet atual não consegue converter em seus interesses a notícia que circula nas redes sociais. 2. A interface se auto-organiza por revezamento e agenciamento. 3. A Social News alterou significativamente a forma pela qual a notícia é produzida e disseminada. 4. A Web não é o único protocolo a permitir uma estética do banco de dados. Metodologia O método de pesquisa está sistematizado em: • Pesquisa bibliográfica para ampliar o quadro referencial teórico- metodológico • Sistematizar a historicidade dos modelos de interfaces jornalísticas desenvolvidas desde que surgiram as primeiras até os atuais formatos em uso na Internet e apresentar tendências. 27
  • • Estudo da composição das interfaces do corpus da pesquisa por meio de questionário de avaliação que levou em conta os seguintes conceitos: alteridade (HALL: 2001); interface (JOHNSON: 2001); arquitetura da informação (ROSENFELD; MORVILLE: 1998); interatividade (MEADOWS: 2003); usabilidade (NIELSEN: 2000); teleação (MANOVICH: 2001); remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000); semelhança e similitude (FOUCAULT: 2002; 2007); endoestética (GIANETTI: 2006); cultura cíbrida (BEIGUELMAN: 2004) e narrativas (MOHERDAUI: 2007). Tais conceitos serão definidos na p. 99. 28
  • Capítulo 1 “Falar em cibercultura é negar a realidade” Lev Manovich 29
  • Capítulo 1: Internet das CoisasA rede mundial de computadores A Internet, a rede mundial de computadores, foi criada pelo governo dosEstados Unidos em 1969 para uso militar, como proteção contra um possívelataque russo durante a Guerra Fria. Chamada inicialmente Arpanet, começou afuncionar em quatro computadores na Universidade da Califórnia (UCLA, sigla eminglês)18. O nome Arpanet tem origem na Agência de Projetos de Pesquisa Avançadado Departamento de Defesa dos EUA (DARPA, sigla em inglês). Depois, a redeinterligou outros centros de pesquisas e universidades. Ao se expandir para outrospaíses, ganhou o nome de Internet e foi apropriada em todo o mundo por indivíduos egrupos: (...) O resultado foi uma arquitetura de rede que, como queriam seus inventores, não pode ser controlada a partir de nenhum centro e é composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas. (...) Essa rede foi apropriada por indivíduos e grupos no mundo inteiro e com todos os tipos de objetivos, bem diferentes das preocupações de uma extinta Guerra Fria (CASTELLS: 2002, p. 44). Dois anos depois, empresas jornalísticas começaram a utilizar a Internetpara distribuir informação. A inglesa BBC e o The New York Times foram osprimeiros a fazer parte dela. Ainda em 1969, a BBC iniciou testes com um novoformato de mídia para transmitir texto e gráficos por computador: o videotexto. OTimes criou o InfoBank, serviço de informação com artigos do jornal por meio deum sistema chamado Biennial Reporting System (BRS)19. A década de 1970 foi marcada por grandes inovações tecnológicas, como odesenvolvimento do primeiro sistema de rede sem fio baseado em rádio, o18 NEW MEDIA Timeline (1969) - Poynter. Disponível e m http://bit.ly/k39HLd. Acesso jul. 2011.19 Para saber mais sobre o BRS, ver: http://bit.ly/kRc4kg. Acesso. Ago. 2011. 30
  • Alohanet. A IBM anunciou o computador System/370 com suporte para memória ea Intel um processador mais veloz, 0 4004. Também chegaram ao mercado oscomputadores pessoais: Altair, criado por Ed Roberts, parceiro de Bill Gates, eApple, de Steve Jobs e Steve Wozniak. Não foi diferente com o Jornalismo. O primeiro registro de uso decomputador para envio de texto ocorreu na redação da Associated Press, naCarolina do Sul, em novembro de 1970. Na mesma década, os jornais trocaram aprodução mecânica pela computadorizada. Jornalistas passaram a criar banco dedados, e os jornais a vendê-los. A imprensa começava a decretar o fim do uso da máquina de escrever. OThe Wall Street Journal iniciou a transmissão de edições via satélite e o videotextochegou às agências de notícias. São também do mesmo período os correioseletrônicos e os disquetes, hoje substituídos por computação na nuvem20, entreoutros dispositivos de armazenamento de dados. Nos anos 1980, vieram os laptops para facilitar o trabalho dos profissionaisde imprensa, que podiam enviar suas matérias de qualquer lugar, e serviços delinha discada para conexão à Internet, como o Bulletin Board System (BBS). Entre asnovidades estão: computador pessoal de IBM, Apple (Machintosh), Compaq,modens, sistemas operacionais MS-DOS e Windows, Sistema de Domínio daInternet (DNS, sigla em inglês), impressoras a laser. Nos jornais, foram lançadas operações de teletexto e audiotexto. Dez anos depois, o engenheiro britânico Tim Berners-Lee anunciou a WorldWide Web. O protocolo de Berners-Lee tornou realidade as associações entretextos, cuja menção foi feita pela primeira vez pelo também engenheiro, mas deorigem americana, Vanevar Bush21, em, 194522:20 Para saber mais sobre computação na nuvem, ver: http://bit.ly/pZPiNm. Acesso mar. 2012.21 Para saber mais sobre Vanevar Bush, ver: http://bit.ly/pTYQk2. Acesso mar. 2012.22 BUSH, V. As we may think. In: http://bit.ly/nbUKuv. Acesso mar. 2012. 31
  • O homem não pode esperar plenamente para duplicar esse processo mental artificialmente, mas ele certamente deve ser capaz de aprender com ele. Em pequenas coisas que ele pode até melhorar, para ter em seu registro uma relativa permanência. A primeira ideia, no entanto, é retirar da analogia as preocupações selecionadas. Seleção por associação, em vez de indexação, pode inclusive ser mecanizada. Não se pode esperar, portanto, para igualar a velocidade e flexibilidade com que a mente segue uma trilha associativa, mas deve ser possível ter a mente decisiva no que diz respeito à permanência e clareza dos itens advindos do armazenamento. Considere um dispositivo futuro para uso individual, que é uma espécie de arquivo privado mecanizado e biblioteca. Ele precisa de um nome, e uma moeda ao acaso, memex vai nomeá-lo. A memex é um dispositivo no qual uma loja individual vende seus livros, registros e comunicações e que é mecanizado a fim de poder ser consultado com flexibilidade e extrema velocidade (BUSH: 1945). Anos mais tarde, Theodor Holm Nelson ou Ted Nelson, como é conhecido ofilósofo e sociólogo americano23, cunhou o termo que denomina tais associações:hipertexto24. É dele também hipermídia, uma espécie de extensão do hipertexto,porém com documentos que contêm gráficos, vídeos, áudios, textos e links que seentrelaçam na Web25. Aliás, uma das principais características da Web - e, talvez, a que mais bem adefina - é o link. David Weinberger escreveu em The Hyperlinked Metaphysics ofthe Web que a Web só existe por causa dos hiperlinks (2000). O hipertexto é também uma forma de recuperar informação. Essa noçãoestá presente nos estudos de Roland Barthes. Ele a chamou Lexia, unidades deleitura ou blocos de significação (1970, p. 20). Em Arqueologia do Saber, Michel Foucault afirma que a ideia de referênciade uma obra à outra está diretamente relacionada à de hipertexto: “além do título,das primeiras linhas e do ponto final, além de sua configuração interna e da forma23 Para saber mais sobre Ted Nelson, ver: http://ted.hyperland.com. Acesso mar. 2012.24 Hipertexto é um texto exibido no computador ou em outro dispositivo com referências(hiperlinks) a outro texto. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hypertext. Acesso mar.2012.25 O termo hipermedia é uma extensão do hipertexto que contém gráficos, áudio, vídeo, texto ehiperlinks. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hypermedia. Acesso mar. 2012. 32
  • que lhe dá autonomia, ele está preso em um sistema de remissões a outros livros,outros textos, outras frases: nós em uma rede” (2007. p.26). O conceito de intertextualidade remete também à linkagem. Foi cunhadopor Julia Kristeva e muito utilizado por Jacques Derrida: “todo texto se constróicomo um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outrotexto” (KRISTEVA: 1969, p. 146). Embora discípulo de Vanevar Bush, Ted Nelson ponderou sobre anecessidade de categorizar as informações para que possam mais tarde serrecuperadas. Para Nelson, não há nada de mal em categorizar. “O problema é queesses sistemas têm vida curta. Em poucos anos, tornam-se estúpidos” (LANDOW:1995, p. 27). Entretanto, é possível categorizar e fazer associações sem que a estruturadetermine: por meio de input inteligente de dados e tags, aliados à programação.Essa ação conjunta muda a perspectiva não só da narrativa em base de dados, masdo design de interface. A tag é um termo ou palavra-chave associado a umainformação para relacionar conteúdo26. O uso de tags será detalhado mais adiante. Nelson é hoje um dos críticos mais contundentes da Web, maisespecificamente do modo pelo qual são constituídas interfaces, navegação e links. Édo teórico americano a famosa frase: “uma interface deve ser tão simples que uminiciante, numa emergência, não leve mais de dez segundos para entendê-la"(tradução em inglês de “a user interface should be so simple that a beginner in anemergency can understand it within ten seconds”). Para Nelson, o projeto do WWW é “limitado, os links são unidirecionais,levam a um só lugar. Todos do mesmo jeito. O browser simula o papel, édiagramado em colunas e é hierarquizado”. A Web, afirma o sociólogo, “é coisa dopassado, quadrada demais”.26Para saber mais sobre tags, ver http://bit.ly/qWlfh7. Acesso dez.2011. 33
  • (...) Não podemos esquecer que Internet e Web são coisas diferentes (...). E acho todos os navegadores ruins, ultrapassados e limitados. Passei a década de 90 estudando o que era possível fazer para criar um sistema que substituísse a Web e aproveitasse todas as possibilidades da Internet. Então, criei esse sistema novo, o Xanadu Spaces, que substitui a Web (NELSON: 2007). O sociólogo americano propôs, antes de o protocolo surgir, o Xanadu27,primeiro software a ter links conectados a outros documentos. O Projeto Xanaducomeçou na década de 1960. Trata-se de um sistema de hipertexto, com uma interface inteligente delinkagem que respeita os direitos autorais e permite uma navegação nãosequencial, por associação, como é cérebro humano. O Xanadu ainda não foifinalizado, mas a forma pela qual foi concebido e os conceitos criados contribuírampara o que a Web é atualmente. É verdade que os browsers têm limitações. Quem não se lembra dosprimeiros? E de suas interfaces? Mosaic, primeiro browser gráfico, lançado peloCentro Nacional de Aplicações de Super Computação (NCSA), em Champaign,Illinois, Netscape Navigator, da Netscape, e Explorer, da Microsoft. Vieram outrosdepois, como Google Chrome, Mozilla e Safari. E é verdade que eles também simulam o papel. Simulavam no inicio da Webe continuam a simular, mas agora com um detalhe: são incrementados comnovidades tecnológicas. Mas a estrutura permanece a mesma.27 A íntegra do projeto Xanadu está disponível em: http://bit.ly/snGeBH. Acesso dez. 2011. 34
  • Figura 1. Mosaic, o primeiro browser gráfico Figura 2. Netscape Navigator28Economia: a primeira bolha Entretanto, não se trata apenas de uma questão técnica ou conceitual. Hátambém que se considerarem fatores econômicos e culturais. Empresas operamem uma lógica capitalista e os primeiros anos da Web foram marcados pelaprimeira bolha da Internet, um processo de especulação em torno de empresas queconstituíram ou migraram seus negócios para a rede, especialmente comércioeletrônico, de 1995 a 2000, com altos investimentos em projetos às chamadasstart-ups29.28 As imagens dos browsers Mosaic e Nestcape são reproduções da Wikipedia.29 Para saber mais sobre startups, ver http://bit.ly/ocDvQp. 35
  • O resultado foi uma vertiginosa queda na Nasdaq, bolsa de valores na qualaquelas empresas negociavam suas ações: em 10 de março de 2000, a bolsaregistrou baixa de 4% e não parou mais de cair. As perdas alcançaram 75%. O lucro demorou a chegar a esses setores, e não são muitas as companhiascom balanços positivos de suas operações, à exceção de grandes players como aGoogle, criada em 1998 e cuja busca o levou a lucros exorbitantes30. São tambémexemplos bem-sucedidos a rede social Facebook e Groupon, serviço de vendacoletiva, entre outros. Há quem acredite que os serviços de venda coletiva são um dos pontoscentrais da segunda bolha da Internet porque criam problemas para seusparceiros. De um lado, porque a maioria vende audiências fictícias. Depois, porqueas promoções pouco agregam às empresas (NASSIF: 2011). Por exemplo, uma pizzaria vendia pizzas a R$ 15,00. Entrava em umapromoção e o site de compras oferecia a R$ 3,00. A pizzaria lotava, mas de umpúblico que, passada a promoção, dificilmente voltaria lá. Não era seu público alvo.Esse risco está restrito à economia americana. No Brasil, projetos dessa naturezaestão sendo avaliados com uma dose a mais de realismo (IBIDEM). Embora a Internet seja a primeira mídia pública a ter uma economia pós-Gutenberg (SHIRKY: 2010, p. 53), modelo de negócio nesse setor continua sendoum ponto nevrálgico até hoje, sobretudo após o Jornalismo ter incorporado asredes sociais em sua produção diária, cuja lógica de funcionamento opera nacontramão de portais e sites constituídos para aglomerar conteúdo. As redes sociais, ao contrário, pulverizam o conteúdo e reconfiguram o fazerjornalístico, principalmente em relação aos critérios de noticiabilidade, cuja teoriaserá detalhada mais adiante. Trata-se de uma relação tensionada entre espaço liso(nômade, sem fronteiras delimitadas) e estriado (aparelho do Estado, institucional,30 Para conhecer a história da Google, acesse: http://bit.ly/FaeZn ou http://bit.ly/mM1l0F. Acessojul. 2011. 36
  • metrificado e distribuído), conceitos abordados pelos filósofos franceses GillesDeleuze e Félix Guattari no quinto volume de Mil Platôs (2007). Para Deleuze e Guattari, os nômades são como máquinas de guerra, ou seja,uma máquina de movimentação permanente no território, e os aparelhos decaptura dependem da noção de sujeitos universais. Tudo vale para todos, a regra éabsoluta, não funciona com desvio. Observados sob essa ótica, os portais seriam aparelhos de captura, queoperam em espaços estriados, e redes sociais como o Twitter (www.twitter.com) eFacebook (www.facebook.com) seriam as máquinas de guerra, nômades do espaçoliso em constante tensão com aparelhos de captura. De novo, o que está em jogo é um modelo que dê conta dessa nova dinâmica.Um caminho, talvez, seja a economia baseada em aplicativos já que desde 2007vários jornais ligados à mídia tradicional fecharam ou deixaram de produzir versãoimpressa. E muitos estão na Internet lutando por paywall e assinaturas. Em artigo para o Nieman Journalism Lab, Nicholas Carr, autor do best-sellerThe Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google, afirmou que osaplicativos serão o grande commodity em 201231: Aplicativos prometem ser a maior força de reformulação da mídia em geral e meios de comunicação, em particular durante 2012. A influência será exercida diretamente – por meio de uma proliferação de aplicativos mídia especializada, bem como indiretamente - por meio de mudanças nas atitudes dos consumidores, expectativas e hábitos de compra. Há todos os tipos de implicações para os jornais, mas talvez o mais importante é que a explosão app torna muito mais fácil de cobrar por notícias online e outros conteúdos. Isso é verdade não apenas quando o conteúdo é entregue por meio de aplicativos formais, mas também quando é entregue por meio de sites tradicionais, que podem, eles próprios, ser vistos pelos clientes como uma forma de app. No31ARE NEWSPAPERS civic institutions or algorithms? Big Think, EUA, 16 jan. 2012. Disponível em:http://bit.ly/ydfh8x. Acesso jan. 2012. 37
  • velho mundo da Web aberta, pagar por conteúdo on-line parecia estranho, na melhor das hipóteses, já na pior, repugnante. No novo mundo do app, pagar por conteúdo online, de repente parece normal. O que é uma loja de aplicativos, a não ser uma série de paywalls? A economia baseada em aplicativos pode apresentar bons resultadosprincipalmente por duas razões: a primeira delas é a segmentação, que permitemonitorar os usuários e, com isso, pensar em estratégias de marketings específicaspara eles, o que é valiosíssimo para os anunciantes. A outra é o fato de que, embora as pessoas queiram consumir conteúdográtis na Internet, estão dispostas a pagar entre US$ 0,99 e US$ 3,99 por aplicativosna Apple Story, por exemplo. Em julho de 2011, a empresa anunciou 15 bilhões dedownloads em seu e-commerce. E pagou US$ 2,5 bilhões a desenvolvedores32. Figura 3. Infográfico receita por usuário - Reprodução KissMetrics32 EM TRÊS ANOS, loja de aplicativos da Apple atinge 15 bilhões de downloads. G1, São Paulo, 7julh. 2011. Disponível em: http://glo.bo/yuCTpu. Acesso jan. 2012. 38
  • Tudo agora é ciberespaço Mas há outra questão de igual importância: o ambiente criado pela Internet.Há, de fato, um novo ambiente? Trata-se de um mundo virtual? Ciberespaço? Seriauma espécie de Second Life, como defendeu Ted Nelson, em 2007 à revista Época?:“Second Life é um exemplo de inovação dos programas de interação entre homense máquinas. A interface em 3D é o futuro da Internet. Vai provocar uma revoluçãotão grande quanto a Web”33. Na maioria das vezes, utilizada para definir o irreal, a palavra virtual temorigem no latim medieval virtualis, derivado de virtus, força, potência. Na filosofiaescolástica, o virtual é o que existe em potência e não em ato. Jean Baudrillard odefiniu como o desaparecimento do real (LÉVY: 1998, p. 24,25). Paul Virilio ochamou implosão espaço-tempo. Pierre Lévy o assume como um modo de ser fecundo e poderoso, que põeem jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob aplatitude da presença física imediata. O filósofo francês é contrário à oposição entre real e virtual. Para Lévy, ovirtual não se opõe o real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duasmaneiras de ser diferentes. Virtual é o inapreensível enquanto real é o tangível. Ovirtual não é imaginário, ele produz efeitos. O virtual é a atualização do real(IBIDEM, p. 12, 15, 21). Gilles Deleuze fez uma distinção entre possível e virtual em Différence etRépétition (1968): o possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. Opossível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em suanatureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real: sólhe falta a existência. Para Michel Serres, o virtual é a não presença.33 A SEGUNDA vida da Internet. REVISTA ÉPOCA, São Paulo, mar. 2007. Disponível em:http://glo.bo/jXbVu3. Acesso jun. 2011. 39
  • “A imaginação, a memória, o conhecimento, a religião, são vetores davirtualização que nos fizeram abandonar a presença muito antes da informatizaçãoe das redes digitais”, escreveu Pierre Lévy em O que é o virtual? (1998). Paraexplicar a não presença, Lévy cita como exemplos o texto e o hipertexto: (...) O senso comum faz do virtual, inapreensível, o complementar do real, tangível. Essa abordagem contém uma indicação que não se deve negligenciar: o virtual, com muita frequência, não está presente. (...) Estará o texto aqui, no papel, ocupando uma porção definida do espaço físico, ou em alguma organização abstrata que se atualiza numa pluralidade de línguas, de versões, de edições, de tipografias? Ora, um texto em particular passa a apresentar-se como a atualização de um hipertexto de suporte informático. Este último ocupa virtualmente todos os pontos da rede ao qual está conectada a memória digital onde se inscreve seu código? Ele se estende até cada instalação de onde poderia ser copiado em alguns segundos? (LÉVY, 1998, p. 19,20). Claro que é possível atribuir um endereço a um arquivo digital. Mas nessa era de informações on-line, esse endereço seria de qualquer modo transitório e de pouca importância. Desterritorializado, presente por inteiro em cada uma de suas versões, de suas cópias e de suas projeções, desprovido de inércia, habitante obíquo do ciberespaço, o hipertexto contribui para aqui e acolá acontecimentos de atualização textual, de navegação e de leitura. Somente esses acontecimentos são verdadeiramente situados. Embora necessite de suportes físicos pesados para subsistir e atualizar-se, o imponderável hipertexto não possui um lugar (IBIDEM). Essa ideia de não lugar, de não presença, também está presente na definiçãode ciberespaço. Aliás, muitas vezes utilizado como sinônimo de mundo virtual oumundo digital. Foi o escritor Willian Gibson quem cunhou o termo em 1982 e opublicou dois anos mais tarde em seu famoso livro Neuromancer: O ciberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças aprendendo altos conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz abrangendo o não espaço; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como marés de luzes de cidade (GIBSON: 2003, p. 67-68). 40
  • Pierre Lévy utiliza a definição de Gibson em Cibercultura (1999) e a amplia:“O ciberespaço de Gibson torna a geografia móvel da informação normalmenteinvisível. O termo foi imediatamente retomado pelos usuários e criadores de redesdigitais.” E vai além: Eu defino ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias de computadores. Essa definição inclui o conjunto de sistemas de comunicação eletrônicos (aí incluídos os conjuntos de redes hertzianas e telefônicas clássicas), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização (LÉVY: 1999, p. 92). Em 2007, em entrevista ao jornal americano The Washington Post34, Gibsonanunciou o fim do ciberespaço. Para o escritor, agora o ciberespaço é aqui. Quando escrevi Neuromancer, quase 25 anos atrás, o ciberespaço estava lá, e nós estávamos aqui. Em 2007, o que não nos importamos mais em chamar de ciberespaço está aqui, e aqueles momentos sem conectividade, cada vez mais raros, estão lá. E aí está a diferença. Não houve um amanhecer tingido de vermelho em que nos levantamos, olhamos pela janela e dissemos: ‘Oh meu Deus, tudo é ciberespaço agora. (WASHINGTON POST: 2007). O argumento de Gibson é bastante coerente. No Brasil, no início dos anos2000, para acessar a Internet era preciso um computador, um modem e um cabo derede. Hoje, basta um dispositivo35 móvel (celular, tablet ou smartphones, entreoutros) com conexão sem fio. No primeiro trimestre de 2011, 24,4 milhões debrasileiros utilizaram banda larga móvel36. Em todo o mundo, o número de pessoascom acesso à rede tem aumentado consideravelmente. Em 2000, eram 250 milhões. No final de 2010, ultrapassou dois bilhões depessoas. Também registrou crescimento expressivo a conexão móvel. Em todo omundo, 940 milhões acessaram a Internet via banda larga móvel contra 55034GARREAU, J, 2007.35O dicionário Houaiss define dispositivo como: em máquinas, peça ou mecanismo com uma funçãoespecial ou aparelho construído com determinado fim; engenho.36 USO de banda larga no Brasil cresceu 138%. Último Segundo, São Paulo, 12 mai. 2011.Disponível em http://bit.ly/jrmKWt. Acesso jan. 2012. 41
  • milhões via banda larga fixa, segundo dados da Organização das Nações Unidas(ONU) referentes a janeiro de 201137. Graças à computação ubíqua (ou ubicomp, abreviação em inglês deubiquitous computing), a Internet implodiu a divisão real e virtual, transformando-se em Internet of Things38 (Internet das Coisas) e jogou por terra todos essesconceitos. O termo computação ubíqua foi cunhado por Mark Weiser em 1988quando estava à frente do Departamento de Tecnologia do Centro de Pesquisa daXerox, em Palo Alto (Parc, sigla em inglês). Para Weiser, o futuro da tecnologia da informação é ser um utilitário, algocomo o gás e a eletricidade (KRANENBURG: 2008, p. 7). E essa realidade já fazparte do cotidiano: Computação ubíqua (muitas vezes referida como ubicomp) descreve um conjunto de processos onde a tecnologia da informação tem sido completamente integrada em objetos e atividades do cotidiano: a tal ponto que o usuário muitas vezes nem percebe ao fazê-lo. Ubicomp não é apenas uma parte de nossas cidades do futuro. Seus dispositivos e serviços já estão aqui. Pensar no uso de cartões pré-pagos inteligentes para o uso de transportes públicos ou as etiquetas exibidas em nossos carros para ajudar a regular os preços de congestionamento, ou a maneira pela qual as corporações encaminham e transportam mercadorias em todo o mundo. Estes sistemas irão expandir geometricamente na próxima década, construindo os blocos para as nossas cidades do futuro (IBIDEM). O escritor Americano Clay Shirky, um dos mais importantes pesquisadoressobre cultura digital da atualidade e autor de Cultura da Participação (2010),arrancou o termo de seu dicionário: “A ideia com a qual eu cresci, de ir a umlugar separado do mundo real, é algo que os meus alunos não conseguem37 NÚMERO de internautas ultrapassa 2 bilhões, afirma ONU. Interactive Advertising Bureau, SãoPaulo, 27 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/uQbs0E. Acesso jan. 2012.38 O termo Internet of things foi cunhado por Kevin Ashton em 1999. Para saber mais sobre Ashton, ver:http://bit.ly/AdUhlj. Acesso jan. 2012. 42
  • entender. A Internet traz a todos os lugares alguns dos enigmas da vida nacidade grande” (2009)39. O russo Lev Manovich também o fez. Em entrevista a O Estado de S.Paulo em2009 afirmou o seguinte: Nos anos 90, só se falava de virtual, ciberespaço e cibercultura. Éramos fascinados pelas possibilidades que os espaços digitais ofereciam. O virtual, que existe à parte do real, dominou a década. Agora, a Web é uma realidade para milhões, e a dose diária de ciberespaço é tão grande na vida de uma pessoa que o termo não faz mais muito sentido. O mundo alternativo tão falado na ficção cyberpunk, nos anos 80, foi perdido. O virtual agora é doméstico. Controlado por grandes marcas, tornou-se inofensivo. Nossas vidas online e offline são hoje a mesma coisa. Para os acadêmicos que ainda usam o termo cibercultura para falar da atualidade, eu recomendo que acordem e olhem para o que existe em volta deles.40 A ideia de algo sem fronteiras, permanentemente conectado, sedimentou-se, sobretudo com a popularização da banda larga e dos dispositivos móveis -celulares, com funções que não se restringem somente a discar e a tirar fotos, etablets, cuja principal característica é a mobilidade. Esvazia-se a lógica da janela(transparente) e espelho (reflexo) proposta por David J. Bolter e Diane Gromala emWindows and Mirror (2003). Para Bolter e Gromala (p. 26, 27), o equilíbrio entre ser transparente ereflexivo é a referência que marca a diferença entre ciberespaço e mundo real: "(...)Nenhuma interface pode ser ou deve ser perfeitamente transparente, porque ainterface vai quebrar em algum momento, e o usuário terá que diagnosticar oproblema”. A relação janela e espelho será aprofundada mais adiante. Computação ubíqua39 THIS MUCH I know. The Guardian, Londres, 15 feb. 2009. Disponível em: http://bit.ly/aBPwN.Acesso jan. 2012.40 “FALAR em cibercultura é negar a realidade”. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 21 ago. 2009.Disponível em: http://bit.ly/peFS57. Acesso jan. 2012. 43
  • Hoje, o sujeito carrega a interface e acessa a informação que está no espaçode fluxos, principal base da sociedade em rede, fundamentada em conhecimento,com processos descentralizados e empresas reorganizadas pela economiainformacional41. O espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais detempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos (CASTELLS: 2002, p. 501). Por fluxos, o sociólogo Manuel Castells entende as sequências intencionais,repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamentedesarticuladas mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política esimbólica da sociedade42. O espaço de fluxos pode ser descrito pela combinação de três camadas desuportes materiais que, juntas, o constituem (IBIDEM, p. 502-505): a) circuito de impulsos eletrônicos (microeletrônica, telecomunicações,processamento computacional, sistemas de transmissão e transporte em altavelocidade – também com base em tecnologias da informação. Esse é o suportematerial de práticas simultâneas, estrategicamente cruciais na sociedade em rede); b) nós e centros de comunicação (localização de funções estrategicamenteimportantes que constroem uma série de atividades e organizações locais emtorno de uma função chave na rede). A localização no nó conecta a localidade comtoda a rede. Os nós e os centros de comunicação seguem uma hierarquiaorganizacional de acordo com seu peso relativo na rede. Mas essa hierarquia podemudar conforme seu peso relativo na mesma rede; c) organização espacial das elites gerenciais dominantes - e não daclasse -, que exercem funções direcionais em torno dos quais todo esse processo é41 A economia global/informacional é organizada em torno de centros de controle e comandocapazes de coordenar, inovar e gerenciar as atividades interligadas das redes de empresas.(CASTELLS: 2002, p. 469).42 Práticas sociais dominantes são aquelas que estão embutidas nas estruturas sociais dominantes.Estruturas dominantes são procedimentos de organizações e instituições cuja lógica internadesempenha papel estratégico na formulação das práticas sociais e da consciência social para asociedade em geral (IBIDEM, p. 501). 44
  • articulado. A elite dominante informacional segue de mãos dadas com suacapacidade de desorganizar grupos de sociedade, cujos interesses sãorepresentados dentro da estrutura dos interesses dominantes. Embora ainda não seja realidade, a Internet das Coisas em pouco tempoestará em todo o canto, disponível a toque, voz ou gesto. E quando alcançar essaescala de conectividade, Giselle Beiguelman, diretora de redação da revistasElecT43 e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade deSão Paulo (FAU/USP), aposta na mudança de nomenclatura para rede mundial decomputadores, pessoas, geladeiras e tudo o mais que nos cerca: Enquanto a Internet das Coisas não se impõe, a rápida evolução das aplicações, que envolvem nanotecnologia, sensores e sistemas de redes sem fio confirma a sua probabilidade. O uso cada vez mais comum de etiquetas inteligentes baseadas em códigos de barra com grande capacidade de armazenamento de informações, como o QR-Code, é um indicador preciso desse processo de coisificação das redes (2011). Pesquisa realizada pela empresa de tecnologia Cisco aponta que, desde2008, há mais coisas conectadas a Internet do que pessoas no planeta. A estimativaindica que em 2020 mais de 50 bilhões de coisas estejam plugadas44: Figura 4. Projeção da Internet das Coisas em 2020: 50 bilhões43 O FIM do virtual. sElecT, São Paulo, 25 ago. 2011. Disponível em: http://bit.ly/unMrTs. Acessojan. 2012.44 INTERNET DAS coisas: para 2020, mais de 50 bilhões de coisas conectadas à Internet, superandoo número de pessoas conectadas. Tecnoarte News, São Paulo, 18 jul. 2011. Disponível em:http://bit.ly/pdju3e. Acesso jan. 2012. 45
  • Figuras 5 e 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphonesFiguras 7 e 8. Após 2011, domicílios irão gerar mais tráfego na Internet 46
  • Um dos exemplos mais intrigantes dessa realidade é o Sixth Sense45, dolaboratório de Pattie Maes, pesquisadora do Media Labs, do MIT, e liderado pelodesigner indiano Pranav Mistry, que o desenvolveu durante oito meses a um custode US$ 350. Maes e Mistry apresentaram o projeto no TED 2009 (sigla em inglêspara Technology, Entertainment, Design)46. No Sixth Sense, o sujeito é uma interface conectada. Ele interage comqualquer informação por meio de gestos. “A proposta é transformar todo o mundoem computador”, diz o indiano: O protótipo integra projetor de bolso, espelho e câmera, que, em formato de um colar acoplado ao tórax, são ligados a um minilaptop. A câmera captura os gestos da mão, envia esses dados para o laptop e um software baseado em algoritmos de visão computacional rastreia e interpreta os movimentos das mãos de acordo com os marcadores coloridos que o usuário deve usar nos dedos (INFO EXAME: 2009). Com isso, além dos proveitos acima, é possível utilizar o Sixth Sense para coletar informações sobre objetos em tempo real. Por exemplo, o sistema pode ser instruído com um gesto para rastrear a capa de um livro e projetar dados das resenhas da Amazon.com sobre ele (IBIDEM). Figura 9. Usando a palma da mão para discar um número45 Para saber mais sobre o Sixth Sense, ver: http://bit.ly/sTQbs0. Acesso jan. 2012.46 http://bit.ly/uNNYcx. Acesso jan. 2012. 47
  • Figura 10. Passagem aérea atualiza status do vooFigura 11. Projetor, câmera e marcadores coloridos utilizados para acessar dados 48
  • Figura 12. Jornal impresso mostra vídeo de noticiário ao vivo Pesquisas em computação e design recentes, como essa de Mistry, mostramque as informações estarão integradas aos objetos cotidianos e não mais reduzidasa dispositivos específicos como computadores de mesa e celulares (BEIGUELMAN:2011), como o Morph, da Nokia47, dispositivo de comunicação baseado emnanotecnologia, sensitivo, funciona por meio de toque, autolimpante, temsuperfície superhidrofóbica e captura informações sobre o meio ambiente. E o mais interessante: a estrutura de nanoescala eletrônica permite oalongamento, que o transforma em vários formatos: um pequeno tablet, umapulseira ou um celular48. Figura 13. Conceito Morph - Reprodução Nokia47 http://bit.ly/sokmXz. Acesso jan. 2012.48 http://bit.ly/u0Wp2v. Acesso jan. 2012. 49
  • A Web não morreu É sobre essa interface remodelada pela conexão ubíqua e pela Internet dasCoisas que a autora desta tese se debruça. Trata-se de compreender de que forma ainterface reconfigura os conceitos que orientam o Jornalismo, maisespecificamente o newsmaking. E a busca desse entendimento começa pela WorldWide Web. Porque foi a Web que deu expressão ao Jornalismo praticado naInternet, cujo histórico será detalhado adiante. A WWW possui ao mesmo tempo características que a assemelham a umpaginador de papel e a permitem implodir a página impressa. Ao contrário do queescreveu o editor-chefe da revista Wired, Chris Anderson, a Web não está morta e odesign de interface dos dispositivos móveis, principalmente os tablets, corroboraesse pressuposto, ainda que os aplicativos estejam na ordem do dia. Em agosto de 2010, Anderson afirmou que as pessoas estão substituindobrowsers por aplicativos. Ou seja, o protocolo WWW deixa de ser o principal pontode navegação pela rede. Para ele, “a Internet é a verdadeira revolução tãoimportante como a eletricidade”49. Você acorda e verifica o seu e-mail no iPad de cabeceira - que é um app. Durante café da manhã você navega no Facebook, Twitter, e The New York Times - mais três apps. No caminho ao escritório, você ouve um podcast no seu smartphone. Outro app. No trabalho, você rola através de feeds RSS em um leitor e tem conversas Skype e mensagens instantâneas. Mais aplicações. No final do dia, você chega em casa, faz o jantar enquanto ouve a Pandora, joga alguns jogos no Xbox Live, e assiste a um filme no serviço de streaming Netflix. Você passou o dia na Internet - mas não na Web. E você não está sozinho (ANDERSON: 2010). A conclusão do jornalista baseou-se em estudo encomendado para a Wiredsegundo o qual o tráfego de dados da Internet provém de vídeos e troca deconteúdos P2P (compartilhamento de arquivos).49THE WEB is Dead. Long Live the Internet. Wired, EUA, 17 ago. 2010. Disponível em:http://bit.ly/bknmCP. Acesso jan. 2012. 50
  • Outra pesquisa recente feita nos Estados Unidos comprova que osamericanos passam mais tempo conectados a aplicativos que ao WWW. Segundo aFlurry Analytics, entre junho de 2010 e junho de 2011, as pessoas passaram 74minutos na Web contra 81 minutos nos aplicativos. No período, o uso da Webcresceu 16%, ante 91% dos programas50. Essa não foi a primeira vez que a revista americana anuncia alternativas àWeb. Em 1997, artigo intitulado “Push!” sugeria que tecnologias como PointCast eMicrosoft’s Active Desktop dariam adeus ao protocolo de Berners-Lee51: “Kiss yourbrowser goodbye: The radical future of media beyond the Web”52. Ted Nelson, o pai do hipertexto, disse algo semelhante em 2007 noprograma Roda Viva, da TV Cultura, mas não matou o WWW: “A Web não vaidesaparecer, mas outras coisas surgirão, assim como e-mail, chat, VoIP (voz sobreIP) e Skype. São todas formas diferentes de comunicação, e haverá mais. Figura 14. Pesquisa da Wired sobre uso de aplicativos50 PEOPLE ARE spending more time in mobile apps than on the web. Business Insider, EUA, 20 jun.2011. Disponível em: http://bit.ly/ruv6qj. Acesso jan. 2012.51 Para saber mais sobre Tim Berners-Lee, ver. http://bit.ly/2PqQpx. Acesso jan. 2012.52 KISS YOUR browser goodbye: The radical future of media beyond the Web. Wired, EUA, mar.1997. Disponível em: http://bit.ly/fLCtD. Acesso jan. 2012. 51
  • Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e Web (Flurry) A julgar pelos números, a Web continuará a ser utilizada ainda por muitotempo. Dados do Go-Gulf.com indicam que diariamente (em média) um bilhão denovas interfaces são adicionadas ao protocolo. Um infográfico Go-Gulf publicado napróxima página dá a dimensão do que ocorre na Web a cada 60 segundos53. Na realidade, se analisada do ponto de vista dos espaços liso e estriado deDeleuze e Guattari, a interface gráfica da Internet foi constituída para ser umespaço liso por excelência, nômade, sem fronteiras delimitadas, embora não sejaessa a prática atual. Entretanto, ao operar em qualquer dispositivo, o WWW tem enormepotencial para implodir a interface tal como é configurada atualmente pelasempresas de comunicação e se auto-organizar a partir de tags, algoritmos eprogramação.5360 SECONDS - Things that happen on internet every sixty seconds. Go-Gulf.com. Jun. 2011.Disponível em: http://bit.ly/iRQItd. Acesso jan. 2012. 52
  • Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos Jornalismo de Internet A Web mudou a forma pela qual o Jornalismo vinha sendo praticado até ocomeço dos anos 1990. É verdade que desde a criação da Internet pelos EstadosUnidos, em 1969, já havia iniciativas isoladas como as da rede inglesa BBC e ojornal The New York Times, que deram inicio às primeiras experiências detransmissão de informação pela rede (ver p. 30). Mas o potencial do Jornalismo da rede mundial de computadores foi, defato, percebido quando o mundo conectou-se à rede, em 1995, para acompanhar oatentado a um prédio do governo de Oklahoma City. O responsável pela morte de168 pessoas, o terrorista Timothy McVeigh, foi executado em 2001 em TerreHaute, Indiana54. Na época, foram incluídos na rede comunicados da Casa Branca, fotos dosestragos, lista de vítimas e reportagens atualizadas sobre a tragédia. O serviçoNewsday, do Prodigy publicou um mapa com a localização do atentado, uma54 MOHERDAUI, 2007. 53
  • matéria da agência Associated Press e uma descrição gráfica dos tipos de bombasusadas em ataques terroristas55. No Brasil, a Guerra de Kosovo incluiu o país nacobertura da rede. Na época, foi considerada a Guerra da Internet: A Guerra do Golfo, no início da década, marcou o apogeu da cultura televisiva. O mesmo tinha ocorrido com a Segunda Guerra Mundial em relação ao rádio. Nos ataques a Bagdá, pela primeira vez na história, todos os lances fundamentais do conflito apareciam em tempo real na tela da TV. Podia-se acompanhar cada lance da batalha, como a queda de mísseis, numa espécie de mórbido videogame global. Parecia ser o desenho mais estranho e requintado da guerra neste milênio. Era um engano. O atual confronto no Kosovo experimentava o uso de uma efetiva e moderníssima arma: a Internet. Com o avanço das tecnologias da informação: habitantes de todos os recantos da Terra, de Paris a Luanda, de Tóquio a Ciudad del Leste, puderam participar efetivamente do conflito. À parte dos bombardeios e do deslocamento de tropas, desenvolveu-se uma guerra paralela, democratizada, calcada na difusão caótica de informação e opinião. Qualquer pessoa podia mover seu peão nesse tabuleiro, seja contando sua experiência nas regiões do conflito, seja emitindo suas opiniões ou multiplicando informações. Tratava-se de uma Terceira Guerra Mundial, da qual muitos podiam participar sem se levantar da cadeira do escritório. Cada um esperando se tornar o Davi da história. Dezenas de sites foram criados especialmente para tratar dos assuntos da guerra. Ambos os lados se desdobram para convencer a plateia mundial de suas razões. A ideia era seduzir e arregimentar. Pede-se sempre uma ação positiva de apoio (ou dinheiro) a este ou aquele lado. A jovem iugoslava Lana, por exemplo, escreveu um pungente apelo contra a guerra. Afirma que os sérvios estão sendo atacados injustamente e prejudicados pela ‘guerra das mídias’. Num e-mail que roda o planeta há dias, Lana escreve: ‘talvez estejamos defendendo você. É por isso que o mundo não pode deixar a verdade enterrada em crateras de mísseis Tomahawks’. Note-se que mensagem é um apelo ao mundo (FALCETA JR: 1999 apud MOHERDAUI: 2007, p. 33-34). Houve outras coberturas de enorme importância, como a divulgação, em1998, na Web, pelo colunista de fofocas Matt Drugde56 do caso envolvendo o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky. Naépoca, o relatório Kenneth Starr, com detalhes do caso, derrubou milhares deservidores em todo o mundo. A americana CNN disponibilizou na rede a íntegra55 IBIDEM.56 Para saber mais sobre Matt Drudge, ver: http://bit.ly/1Jxp9V. Acesso jan. 2012. 54
  • das gravações em áudio (37 fitas com 22 horas) de uma conversa entre Monica esua amiga Linda Tripp na qual contava sua história com Clinton57. A outra foi o atentado às torres gêmeas, em 2001. Conhecida como a Terça-feira Negra - matou milhares de pessoas e paralisou o país. O ataque terroristatambém congestionou a Internet. Interfaces noticiosas chegaram a ficar fora do arpor mais de duas horas. Somente nos EUA, 30 milhões de pessoas tentaram se conectar a rede paraenviar mensagens por e-mail ou programas de comunicação instantânea. Para ospadrões daquele ano, esse número representava um terço a mais do que o tráfegonormal. No dia anterior ao ataque, a média de tempo de conexão ficou em 5,5segundos. No dia 11 de setembro, saltou para 12,9 segundos58. Isso fez com que aWeb voltasse à interface de seus primeiros anos: tela com fundo branco e links.CNN, MSNBC e USA Today alteraram seus designs para facilitar a busca porinformações. A CNN, por exemplo, excluiu fotos, vídeos e áudio para reduzir o pesoda interface de 255 KB (kilobyte) para 20 KB (kilobyte)59. Figuras 17 e 18. Interfaces da CNN em 11 de setembro de 200157 MOHERDAUI, 2007, p. 64-65.58 IBIDEM.59 IBIDEM. 55
  • De eventos isolados, a cobertura em tempo diferido60 passou a integrar ocotidiano das redações de Internet. Acompanhar um evento e transmiti-lo abilhares de pessoas reforçou um dos traços do Jornalismo já praticado em rádio etevê, mas que se amplificou na rede, com atualização contínua - desde jogos defutebol a eventos de repercussão internacional. É o que Richard Grusin e David J. Bolter chamaram de hypermediacy. Aocontrário da tevê, cujo objetivo é fazer o telespectador vivenciar os fatos ao vivo, aInternet, especialmente com a contribuição das redes sociais, o faz participar dosfatos: A hipermediação na década de 1990 foi marcada pela proliferação de mediação ou pela fragmentação e multiplicidade - o design gráfico da revista Wired, a área de trabalho, janela ou tela de TV, ou o estilo audiovisual de vídeos da MTV e comerciais de TV. No boom de TI da década de 1990, a proliferação de novas formas de mídia e tecnologias e um espaço de tela cada vez mais hipermediada foram entusiasticamente comemorados junto com os IPOs, fundos de capital de risco, e ações do Vale do Silício (GRUSIN: 2010, p. 2). Aliás, a Terça Negra mudou a forma pela qual governo e mídia serelacionavam com os americanos. Se antes de 11 de setembro de 2001,predominava a remediação (representação de uma mídia em outra) baseada emimmediacy (imediação), cuja tevê era o ponto central, e hypermediacy(hipermediação), com a Internet à frente da divulgação de informação, agora apremediation é o modo de comunicação utilizado para antecipar o que aconteceráno futuro. Os EUA aplicaram essa lógica ao anunciar a invasão ao Iraque, em março de200361.60 O tempo no Jornalismo está dividido em cinco momentos: a) tempo do acontecimento do fato; b)tempo da produção, incluindo análise e reação em relação ao fato ocorrido; c) tempo dadistribuição; d) tempo da circulação; e) tempo da leitura. (MOHERDAUI: 2005, p. 78).61 U.S. LAUNCHES cruise missiles at Saddam. In: CNN. Mar. 2003. Disponível em:http://bit.ly/kXlxCF. Acesso jan. 2012. 56
  • A premediação tomou uma forma fundamentalmente americana nos anos imediatamente após 9/11, quando os Estados Unidos procuraram tentar certificar-se de que o público americano nunca havia experimentado um evento catastrófico de grande escala que não tivesse já sido premediado. Em certo sentido, o evento de 9/11 pode ser visto como um marco do fim do desejo tecnocultural pelo imediatismo alimentado pelo dot.com e a histeria da realidade virtual dos anos noventa e substituíram-no por um desejo de uma nação (ou talvez um mundo) em que o imediatismo da catástrofe, o imediatismo do desastre, não pode acontecer novamente - porque seria sempre já premediado (IBIDEM, p. 12). Ainda que os atentados às torres gêmeas e ao Pentágono tenham alteradosignificativamente a cultura da mediação, o fato é que immediacy e hypermediacyainda fazem parte do formato e das práticas jornalísticas na Internet. Os chamados portais e sites jornalísticos operaram nessa dinâmica dametade dos anos 1990 até o final dos anos 2000, quando as redes sociais passarama ser uma alternativa na busca de informações atualizadas constantemente. Maisespecificamente, desde a morte de Michael Jackson, em 2009. A notícia foi publicada pelo TMZ, que cobre celebridades na Internet (Web eaplicativo), mas ganhou as redes sociais porque a imprensa passou a questionar acredibilidade do TMZ 62 e também por causa da repercussão entre os fãs. A nãoconfirmação da morte do ídolo por poucas horas derrubou Google e Twitter63.Antes, o jornal Los Angeles Times64 informou que o cantor havia sido internado àspressas. Outro importante evento foi a posse do presidente Barack Obama, tambémem 2009. Realizado a partir de uma parceria entre a rede de tevê americana CNN e62 http://bit.ly/5Rma2. Acesso jan. 2012.63 NOTÍCIA DA morte de Michael Jackson derruba Google e Twitter. G1, São Paulo, 26 jun. 2009.Disponível em: http://glo.bo/BWWur Acesso jan. 2012.64 http://lat.ms/b6Vqf1. Acesso jan. 2012. 57
  • o Facebook, de Mark Zuckerberg, milhares de pessoas puderam acompanhar ecomentar ao mesmo tempo tudo o que acontecia em Washington65. Depois, outras ações consolidaram definitivamente as redes sociais comouma das principais fontes de notícias, senão a principal. Porém, somente em 2011,o terremoto no Japão, os movimentos no Oriente Médio contra ditaduras e a mortede Osama Bin Laden66 reforçaram a mudança de paradigma no Jornalismomundial. Entretanto, há que se considerarem diferenças tecnológicas entre o papel ea Internet. Ainda que a tecnologia não determine a produção jornalística na rede,mas a possibilite, há limitações como as registradas na cobertura do atentado aosEUA. Enquanto um grande número de acessos derrubava servidores mundo afora,os jornais de papel não tiveram seus processos produtivos alterados. Circularamno dia seguinte, alguns até em edição extra. Não há hipótese de um congestionamento em servidores derrubar a ediçãode um telejornal, de um programa de rádio ou a publicação de um jornal ou umarevista. Não se tem notícia de um jornal enviado à gráfica chegar ao leitor sem fotopara não sobrecarregar a página. Ou de um telejornal ir ao ar sem vídeo ou áudioporque a conexão fora interrompida.65 A POSSE de Obama e a experiência de compartilhamento nas redes sociais: o caso CNN.com Live+ Facebook. Intermezzo, São Paulo, 21 jan. 2009. Disponível em: http://bit.ly/kXH06o. Acessojan. 2012.66 http://bit.ly/kdsAty. Acesso jul. 2011. 58
  • Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN Porém, a grande mudança é a possibilidade de ir além da reprodução demetáforas analógicas convencionais, de a Web implodir a interface impressa. Estetema discutido no próximo tópico.Bem além do papel Por causa da Web, pesquisadores elaboraram tipologias para definirconceitos, nomenclaturas, história e características do Jornalismo praticado naInternet (SALAVERRÍA: 2005; MIELNICZUK: 2003; SAAD: 2003; BARBOSA: 2002;MACHADO: 2000; DEUZE: 2001; PAVLICK: 2001; WOLK: 2001; SILVA JÚNIOR:2000; PALACIOS: 1999; ARMAÑANZAS: 1996). Há vários estudos para propor narrativas específicas (FERRARI: 2007;NOCI; SALAVERRÍA: 2003; PAUL: 2005; MCADAMS: 2005; MURRAY: 2003,LANDOW: 1995), gêneros (SEIXAS: 2009; BOGOST et al: 2010), design (CAIRO:2007; HARROWER: 2002; BRINGHURST: 2004; GARCÍA: 1997; NIELSEN: 2000; DEPABLOS, 1999), sistemas de publicação (SCHWINGEL: 2008; GILMOR: 2004) eanalisar as funções do usuário e aferição de acesso (BOCZKOWSKI: 2004,MOHERDAUI: 2005), entre outros. 59
  • Das diversas nomenclaturas para denominar o Jornalismo de Internet, asmais utilizadas são: Webjornalismo, definido por Luciana Mielniczuk (1998) comoa produção de conteúdo exclusivamente para a Web, e Jornalismo Digital, de EliasMachado (2007), pois engloba o WWW e outros dispositivos de conteúdo como,por exemplo, celulares e tablets. Também é denominado Jornalismo Multimídia, pois implica a possibilidadeda manipulação conjunta de dados digitalizados de diferentes naturezas: texto,som e imagem. Javier Días Noci (2001), da Universidade do País Basco, defendeJornalismo Eletrônico Multimídia Interativo, embora considere que são produtosinformativos jornalísticos dedicados à informação atual elaborada e publicadosconforme regras estabelecidas da profissão e geralmente por empresas decomunicação que apostam na Internet como principal negócio67. Outros pesquisadores como Helder Bastos preferem Jornalismo Eletrônico,cujo campo se estende às nominações Jornalismo Digital e Jornalismo On-Line.Trata-se de uma fórmula: JE = JO + JD. A justificativa, segundo Bastos, é a de queintegrada às práticas do Jornalismo Assistido Por Computador (CAR, sigla eminglês) está a pesquisa de Internet, classificada por ele como Jornalismo On-Line. A proposta do autor refere-se a pesquisas realizadas em redes nas quais ainformação circula em tempo diferido e cujo objetivo é a apuração jornalística(busca de conteúdos, recolhimento de informações e contato com fontes). Essaspossibilidades de disponibilização de informações na rede são denominadasJornalismo On-Line, já desenvolver e disponibilizar produtos é Jornalismo Digital68. André Lemos, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal daBahia (Facom/UFBA), o definiu como ciberjornalismo por ser o “lugar ondeestamos quando entramos em um ambiente virtual e como o conjunto de redes decomputadores interligadas ou não, em todo o planeta (BBS, videotextos,67 MOHERDAUI, 2007, p. 119, 120, 121.68 IBIDEM. 60
  • Internet)69. É o que Mielniczuk chama de jornalismo praticado no ciberespaço (verquadro abaixo). Tabela 1. Nomenclaturas Nomenclatura DefiniçãoJornalismo eletrônico Feito com equipamentos e recursos eletrônicosJornalismo Digital ou Multimídia Emprega tecnologia digital (dados viram bits)Ciberjornalismo Envolve tecnologias que utilizam o ciberespaçoJornalismo On-Line Desenvolvido com tecnologias de transmissão de dadosWebjornalismo Diz respeito a uma parte específica da rede: a WebJornalismo de Internet Jornalismo produzido para a Internet das Coisas Até pouco tempo atrás, fazia sentido nomear as práticas jornalísticas narede segundo a lógica dos autores citados acima, como Luciana Mielniczuk, HelderBastos, Días Noci e Elias Machado. Esta pesquisadora utilizou o termo Jornalismo Digital, proposto porMachado até meados de 2010 em artigos, no livro Guia de Estilo Web – Produção eEdição de Notícias On-Line (2007), na dissertação de Mestrado (2005), defendidana Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), eno projeto desta tese. Para o autor, a designação on-line restringe a produção narede e não contempla todas as especificidades da rede. A definição de Machado é coerente do ponto de vista da compreensão dotodo, da própria concepção de Digital70. Pois, por meio dos sistemas de publicaçãodisponíveis no mercado, é possível empacotar informações para seremdistribuídas em diversas plataformas. São elas: SMS (mensagem de texto curta), podcast (formato de arquivopadronizado mundialmente para distribuição automática de áudio, vídeo e texto),MMS (serviço de mensagem multimídia), Moblog (blog atualizado pelo celular), RSS(um formato de entrega de conteúdo pela Internet), Newsletters (boletins69 IBIDEM.70 Para saber mais sobre digital, ver: http://bit.ly/qEU0TK. Acesso jan. 2012. 61
  • informativos), Newsalerts (alertas de notícias), programas de comunicaçãoinstantâneos, como Skype, e redes sociais, como Facebook e Twitter, e tablets. Porém, com a computação ubíqua e a Internet das Coisas, essanomenclatura deixa de fazer sentido. Se o ciberespaço é agora aqui e osdispositivos estão permanentemente conectados, o mais adequado é repensar aprópria definição de Jornalismo atrelada aos suportes71 que o compõem. Que Jornalismo é esse produzido para a Internet das Coisas em um ambientede computação ubíqua? Como é a sua interface? De que maneira a interfacereconfigura o Jornalismo? Por enquanto, a denominação mais coerente éJornalismo de Internet. O termo será utilizado ao longo desta tese. José Marques de Melo, um dos mais importantes pesquisadores no Brasildefiniu o Jornalismo como um processo social que se articula a partir da relação(periódica/oportuna) entre organizações formais (editoras/emissoras) ecoletividades (públicos/receptores), por meio de canais de difusão que asseguramo trânsito de informações por causa de interesses e expectativas (2003, p. 17).Opera por meio de estratégias de noticiabilidade. Não apenas àquelas que se referem à definição do que é notícia, mastambém às que moldam a interface da notícia. (WOLF: 2002, p. 195-196). Na rede,Jornalismo e interface vão além dessas concepções. O fazer jornalístico serádetalhado mais adiante. Notadamente sobre a interface e para entender como ela éconstituída, é preciso porém voltar um pouco no tempo.Design gráfico faz a diferença71No dicionário Houaiss, suporte é definido como: base física (de qualquer material, como papel,plástico, madeira, tecido, filme, fita magnética etc.) na qual se registram informações impressas,manuscritas, fotografadas, gravadas etc. Ou num computador, material (disco, fita magnética etc.)destinado a receber a informação. 62
  • Na década de 1970, empresas jornalísticas dos Estados Unidos passaram ater um maior interesse em design gráfico. Interesse que tomou conta das redaçõesde jornais americanas – da pequena à grande imprensa -, e se manifestou dediferentes maneiras, sobretudo pela revisão dos conceitos sobre como apresentarinformação ao leitor e pelo início da discussão sobre o tema. Daquele ano em diante, o design gráfico começou a ocupar um espaçosignificativo nos projetos editoriais, marcado pela criação de dois seminários noAmerican Press Institute, em Reston, Virgínia, que contou com um grupo dejornalistas gráficos, liderados por Roger Fidler, da Knight-Rider Newspapers,Robert Lockwood, do Allentown Morning Call, e Richard Curtis, do Baltimore NewsAmerican, para criar, em 1979, a Society Newspapers Design (SDN)72. Esse grupo publicava o Journal of Newspaper Design. Fidler também editou olivro Newspaper Design Notebook, um guia para jornalistas e designers com estudosde casos sobre redesenhos de jornais. Um dos nomes mais expressivos da SND éEdmund Arnold73 (1913-2007). Considerado o pai do design moderno de jornais, Arnold revolucionou oconceito de projeto gráfico nos anos 1960, e as mudanças por ele implementadas àépoca se tornaram padrão no mundo todo. Com mais de 40 anos de carreira,passou por importantes redações, como Chicago Tribune, Christian Science Monitor,Newsday, New Orleans Times-Picayune, Boston Globe, Toronto Star, Kansas City Sta,National Observer, publicado pela Dow Joness e fechado em 1977. Responsável pela reformulação de mais de 250 diários, o tipógrafointroduziu o espaço entre elementos relacionados nas páginas e ganhounotoriedade entre os publishers pela qualidade de seu traço, valorizando texto, com72Para saber mais sobre a SND, acessar o endereço. http://bit.ly/16ig1K. Acesso jan. 2012.73Para saber mais sobre Edmund Arnold, ver BERNSTEIN, A. Edmund Arnold, 93; DesignedNewspapers. The Washington Post, EUA, 9 fev. 2007. Disponível em http://wapo.st/pOLEOc.Acesso jan. 2012. 63
  • o aumento dos tipos, e imagens, com a reorganização do layout, pois defendia queas fotos tinham de contar história e não serem publicadas como adereços. Também foi Arnold o responsável pela modulação dos textos, em vez depublicar matérias em colunas extensas, e pela redução da diagramação de oito paraseis colunas. Outro profissional expressivo na área é Peter Palazzo (1926-2005), daPalazzo and Associates, responsável pelo redesenho do Sunday New York HeraldTribune, que circulou nos Estados Unidos até 1966. A organização das capas comespaços em branco, uso de grandes fotos e arte e a divisão do conteúdo emeditorias causaram grande impacto no mercado. O trabalho de Palazzo foi considerado como vanguarda no início da décadade 1960. Sua importância foi tamanha que ajudou a criar a disciplina de design dejornais nas universidades. Os novos padrões influenciaram jornais como o The New York Times,caracterizado pelo constante uso da cor cinza e pela primeira página carregada demassa textual74. No início dos anos 1970, o Times mudou o conceito gráfico,diminuiu a diagramação para seis colunas e redesenhou a capa e as páginasinternas, o que lhe conferiu o crédito de jornal mais moderno daquela década. Na esteira do Times, também ganharam novos contornos Newsday, LouisvilleCourier-Journal, Today, The Christian Science Monitor e Minneapolis Tribune. Deolho no comportamento dos leitores, os jornais – mesmo os pequenos – passaram ater cadernos semanais sobre variedades, esportes, moda e lazer, conforme explicao designer Mario Garcia em seu Contemporary Newspaper Design – A structuralapproach:74 Para conhecer mais páginas do The New York Times impresso, consultar TimesMachine,disponível em: http://nyti.ms/dgjQ3. Acesso jan. 2012. 64
  • Como os leitores adquirem novidades e estilos de vida mais diversificados, os jornais são forçados a buscar meios para atender a este público cujos interesses especiais caminham da moda para o lazer, esportes e comida. Mesmo os mais modestos jornais incorporaram seções semanais como parte de sua pauta normal (1981, p. 3). Figura 20. Sunday Tribune, 196075, redesenhado por Peter Palazzo Orientado pelas novas tendências, o Chicago Tribune reorganizou suaseditorias e incorporou cadernos especiais não apenas nos finais de semana, masdiariamente. O Dallas Morning News criou Fashion!Dallas, que circulava as quartas-feiras com cor na capa, ênfase em fotografia e arte, combinando anúncios econteúdo editorial de modo atraente e efetivo, sob o lema: “The design is the key tothe success of Fashion Dallas!”.75 Reprodução do livro Contemporary newspaper design – a structural approach (GARCIA:1981, p. 2). 65
  • O objetivo do jornal era apresentar grande variedade de informação, fotos earte, dispostos graficamente em cada página. Todas essas mudançasimplementadas valorizaram um novo profissional, sobretudo nas grandesredações: o designer gráfico. Mario Garcia destaca a importância dos anos 1970para a grande imprensa americana: A década de 1970 deu um impulso para melhorar o projeto gráfico de jornal - mas que normalmente era mais significativo para grandes jornais ou jornais com designers treinados como parte de suas equipes. Isso é suscetível a fim de alterar o futuro, para diários e semanários mais modestos começarem a descobrir os efeitos benéficos do projeto em suas publicações (IBIDEM, p. 3). Entretanto, rever conceitos e alterar totalmente a noção de organização deum jornal não é tarefa das mais fáceis. É preciso não dissociar o projeto gráfico doprojeto editorial, nas palavras de Mario Garcia76 (loc. cit.), cuja marca apareceatualmente nos redesenhos dos principais jornais do mundo: "Essas seçõesespeciais exigem os maiores talentos e habilidades em termos de tipografia e dedesign, bem como de conteúdo". Muitos jornais passaram a adotar estratégias de design gráfico para criaruma identidade visual em suas páginas. Dos tradicionais, o Baltimore NewsAmerican saiu com uma inovadora mistura de tipos, arte e fotos, e o Boston HeraldAmerican modernizou a primeira página. O Washington Star optou por umamudança drástica em suas páginas, especialmente nas internas, ao adotar umdesign baseado efetivamente em revistas. Se os anos 1970 foram marcados pelo alto grau de influência dos elementosde design nas redações, os anos 1980 forneceram razões para essa solidificação,até os dias atuais. Entretanto é preciso ponderar que tais mudanças aconteceramapós o surgimento dos primeiros diários, em 165077.76Os projetos do designer Mario Garcia estão em: http://bit.ly/yUU88. Acesso em jan. 2012.77O primeiro jornal diário publicado foi Einkommende Zeitug, em 1650 na Alemanha. O DailyCourant se manteve até 1735. Os primeiros diários franceses surgiram em 1777 para surgirem emParis. A impressão nasceu em 1438 e ganhou difusão na segunda metade do século XV. A imprensaperiódica só nasceu mais de um século e meio após a invenção da tipografia, tendo sido umverdadeiro florescimento de escritos de informação dos mais diversos. Desde o século XVI, pelo 66
  • A primeira página do The New York Times, de 1864, era diagramada comtextos distribuídos em seis colunas e a manchete ocupando o lado esquerdosuperior da página, escrita em uma linha e em uma coluna. Não havia imagens, arteou gráficos e a impressão era feita em preto e branco. Já capa do Times, de 1980,aparece diagramada em seis colunas, com três fotos coloridas em destaque emanchete com tipos grandes de centralizada ocupando quatro colunas. Figura 21. NY Times, 1860 Figura 22. NY Times, 198078 Ainda que tenha levado muito tempo para incorporar o design aoJornalismo, ou para que o design surgisse para o Jornalismo, guardadas asrestrições econômicas, tecnológicas e culturais, não se pode negar que resultou emuma mudança completa de paradigmas e de práticas nas redações, sobretudoporque os novos formatos adotados se tornaram padrão mundial. Nesse sentido, não é sem razão que o estudo da interface dos jornais deInternet tem, obrigatoriamente, que revisitar os métodos de criação e de produçãomenos, as notícias já tinham se tornado verdadeira mercadoria. In: TERROU, A. História daImprensa; tradução de Edison Darci Heldt. São Paulo: Martins Fontes, 1990.78 GARCIA: 1981, p. 4-5. 67
  • utilizados largamente por profissionais como Edmundo Arnold e Peter Palazzo,pois algumas das lições passam pelo entendimento do meio, da sua relação com oleitor e da sua abrangência.Metáfora é o ponto de partida Tal análise é importante, pois mostra que no caso da Web, as empresasjornalísticas deram um passo atrás: a nova plataforma de publicação, projetadapara repensar os modelos analógicos em vigor, simula o papel, nas palavras de TedNelson (2001), com diagramação em colunas, predomínio de texto e pouco uso derecursos multimídia e do potencial de criação da interface gráfica da Internet79. O que foi considerado design gráfico de vanguarda no jornalismo impressohá mais de 40 anos hoje é praticamente transposto para a rede, apesar de aInternet ser uma nova forma social que produz uma nova prática social e, por isso,possibilita ações especificas (ECHEVERRÍA, 1999; CASTELS, 1999). Isso aconteceporque os designers levaram a experiência da mídia impressa para a rede: (...) Muitos deles foram treinados como designers gráficos para impressão, e eles compraram as habilidades e suposições de design gráfico para a Web. Eles sabiam como usar conjuntamente palavras e imagens para se comunicar no espaço bidimensional da página impressa. Eles entenderam que um site poderia funcionar como um jornal ou uma revista em função das comunicações de forma visual. Alguns designers se tornaram Web Designers, porque eles foram atraídos pelo potencial desta nova forma de comunicar (BOLTER e GROMALA, 2003. p.6). Outra questão importante que se coloca é a de que designer nem arquitetoda informação podem ter uma visão estruturalista da interface; forma e conteúdonão podem ser separados (veja nas próximas páginas comparação entre versõesimpressa e de Web da Folha de S.Paulo).79Para saber mais sobre interfaces noticiosas na Web, acessar Contra a clicagem burra, disponívelem: http://bit.ly/mP6xcC Acesso em jan. 2012. 68
  • Jay David Bolter e Diane Gromala (op. cit., p.3-6) afirmam que o erro deJakob Nielsen e Donald Norman, da Nielsen Norman Group(http://www.nngroup.com) é assumir que a única meta é tornar a interfacetransparente, quando na realidade o ideal é estabelecer um ritmo apropriado entreser transparente e reflexivo. Eles julgam incorreto achar que o melhor design éclaro, simples e natural. Pense na tela do computador como uma janela que se abre para um mundo visual que parece estar por trás ou além dela. Este é o mundo de informações que o computador nos oferece. Textos, gráficos, imagens digitalizadas e som. Concentrando-se no texto ou nas imagens, o usuário esquece a interface (menus, ícones, cursor), e a interface se torna transparente. Especialistas de HCI (human-computer interface) e alguns designers falam como se esse fosse o único objetivo do design de interface: montar uma janela transparente para um mundo de informação (Op. cit., p. 26). Aliás, para Bolter e Gromala, Tim Berners-Lee e Mark Andreessen sãoestruturalistas e assim também o são suas criações Web e Mosaic(respectivamente).Figuras 23, 24, 25. Reprodução das capas da versão impressa do Caderno de Esportes daFolha da Copa de 2006 69
  • Figuras 26, 27, 28. Reprodução das interfaces do caderno de Esportes da Folha naInternet da Copa de 2006 Porém, num contexto de Internet das Coisas, a ideia de ser reflexivo etransparente precisa ser reavaliada. Do modo como é definida, restringe-se apenasà tela do computador. Talvez esse pensamento reflita a cultura da página estáticaao contrário da Internet das Coisas, que pressupõe uma interface que, no limite, évestível (ver p. 47). Na década de 1940, o computador era visto como uma enorme máquina decalcular, projetada por Alan Turing, para resolver problemas de engenharia eciência. Mesmo quando Ted Nelson cunhou o termo hipertexto ainda era percebidocomo máquina. Apenas em 1968, o computador passa a ser denominado comomídia/meio. A definição aparece pela primeira vez no artigo The Computer as aCommunication Device, de J.C.R. Licklider (1915-1990) e Robert W. Taylor80: Podemos dizer com toda a convicção que uma forma particular de organização do computador digital, com seus programas e seus dados, constitui o meio dinâmico, moldável que pode revolucionar a arte de modelagem e que, ao fazê-lo, pode melhorar a eficácia da comunicação entre as pessoas tanto como, talvez, para revolucioná-la também. (1968, p. 27). Em seu artigo, Licklider e Taylor (op. cit., p. 21) defendiam que acomunicação não podia se restringir apenas ao envio e recebimento deinformações, sobretudo em um momento em que a tecnologia avançava e permitia80LICKLIDER; TAYLOR. 1968. 70
  • ao leitor interagir com a informação, não de modo passivo, como acontecia, ao lerlivros comprados em livraria, por exemplo, mas como participantes ativos numprocesso continuado. Naquela época, os pesquisadores já pensavam a comunicaçãocomo um dispositivo todos-todos (LÉVY, 1999, p. 63). Com o advento da Web, o computador começou a representar e reconfigurarformatos culturais existentes (BOLTER e GROMALA, op. cit., p. 12) por meio datecnologia, como jornais, revistas, filmes e tevê. Nesse sentido, para Jay DavidBolter e Diane Gromala, o projeto gráfico passaria pelas seguintes noções: a) ocomputador tornou-se um novo meio; b) o design, como artefato, muda para odesign como experiência; e c) o design para Internet não pode ser invisível.A interface é a mensagem Porém se é verdade que projetos com o Six Sense, do Media Lab, do MIT,serão realidade e farão parte do cotidiano do cidadão comum, a interfacetransforma-se em um meio. Nesse sentido, a interface passa a ser a mensagem porque é ela que“configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas”.(McLuhan: 1964, p. 23). De que maneira se dá essa compreensão? EscreveuMarshall McLuhan em Os meios de comunicação como extensão dos homens: A luz elétrica é informação pura. É algo assim como um meio sem mensagem, a menos que seja usada para explicar algum anúncio verbal ou algum nome. Este fato, característico de todos os veículos, significa que o conteúdo de qualquer meio ou veículo é sempre outro meio, ou veículo. O conteúdo da escrita é a fala assim como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa, e a palavra impressa é o conteúdo do telégrafo (MCLUHAN: 1964 p. 22). A mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas. A estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos. O avião, de outro lado, tende a dissolver a forma “ferroviária” da cidade, da 71
  • política e das associações, independentemente da finalidade para o qual é utilizado (IBIDEM, p. 22-23). Se aplicado à Internet, o conceito mcluhaniano cabe perfeitamente àinterface. Ou seja, a interface é o conteúdo do computador assim como a linguagemvisual híbrida – remix de softwares e formatos - (MANOVICH: 2008, p. 102) é oconteúdo da interface. Ao implodir a página impressa, a interface instituiu umanova linguagem. Se pensada do ponto de vista da Internet das Coisas, fica mais claro oentendimento. Escreveu McLuhan: “O efeito de um meio se torna mais intensojustamente porque o seu conteúdo é outro meio. Nenhum meio existe semdepender do outro” (1964, p. 33-42). Isso faz rever as noções de Bolter e Gromalacitadas no parágrafo anterior, destacadas no quadro na página a seguir: Tabela 2. Computador e interface, ontem e hoje Ontem HojeComputador tornou-se um novo meio Interface tornou-se um novo meioDesign como artefato muda para design como Design como artefato muda para design comoexperiência experiênciaDesign para Internet não pode ser invisível. Design para a Internet é vestível Partindo do pressuposto de que a interface é a mensagem e que o usuárionão apenas opera, mas interage com ela, a lógica do design gráfico na Internet é ade que o projeto tem que ser elaborado para ser experimentado e nãosimplesmente utilizado. Pois a condição da informação na rede é a ação (BOLTERe GROMALA, op. cit., p. 24, MANOVICH, 2001, p. 227). Isso exige que a interface sejadinâmica e não uma série de telas estáticas como pode ser observado atualmente. Há alguns caminhos para se entender esse raciocínio: a neurociência, navisão de Miguel Nicolelis, e a arte digital, proposta por Bolter e Gromala. Acontribuição da arte digital ao Jornalismo será explicada no último capítulo. Aneurociência pode explicar de que forma o chamado wetware humano, umaabstração que incorpora o sistema nervoso central e a mente; reconfigura não só arelação homem-máquina, mas também o padrão do Jornalismo em vigor. 72
  • Para Nicolelis, não demorará muito para que as pessoas deixem de usarmonitores, teclados e mouse. Ele acredita que o computador convencional deixaráde existir. “Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremosdiretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante danossa ação no mundo” (2011). Não estão longe de se tornarem realidade os cenários apresentados peloneurocirurgião em seu novo livro “Muito além do nosso eu” (2011). Pioneiro noestudo de interações entre cérebro e máquina, Nicolelis realiza pesquisas commacacos em seu laboratório na Universidade Duke, o Duke´s Center ForNeuroengineering. Eles aprenderam a utilizar um paradigma neurofisiológicorevolucionário chamado interfaces cérebro-máquina (ICM). Com várias ICMs, a equipe de Nicolelis em Duke foi capaz de demonstrarque os macacos podem aprender a controlar, voluntariamente, os movimentos deartefatos artificiais, como braços e pernas robóticos, localizados próximo ou longedeles, usando apenas a atividade elétrica de seus cérebros de primatas (p.22-23). Trata-se de uma nova abordagem experimental para ler simultaneamenteos sinais elétricos produzidos por centenas de neurônios que pertencem a umcircuito neuronal. Os experimentos realizados no laboratório do neurocientistapermitiram traduzir pensamentos motores em comandos digitais que puderam seraplicados para gerar movimentos em máquinas que foram criadas sem nenhumintuito de reproduzir a intenção dos pensamentos de um primata. Era para liberar o cérebro das restrições impostas pelo corpo e, nesseprocesso, permitir ao sistema nervoso desses animais controlarem diretamente ofuncionamento de quaisquer ferramentas, como forma de interação e exploraçãodo mundo ao seu redor apenas por meio do pensamento (IBIDEM: p. 23). Apesquisa de Nicolelis foi destaque na revista Nature em outubro de 2011.8181 MONKEY BRAINS feel virtual object. Nature, EUA. 5 out. 2011. Disponível em:http://bit.ly/qd40ye. Acesso jan. 2012. 73
  • Se a interação entre máquinas e cérebro considera aparelhos (mesmo quedistantes) como parte do homem, é possível pensar o ser humano como máquinasocial, pois depende de elementos exteriores para existir como tal. Implica umacomplementaridade não apenas com o homem que a fabrica; ela própria está emrelação de alteridade com outras máquinas, sociais, atuais ou virtuais (GUATTARI:2008, p. 49-50).Corpo informacional Nesse sentido, essa máquina transforma-se em um corpo informacional namedida em que opera em relação à outra máquina, conectada em rede, agrupandodados biológicos, sociológicos e econômicos, cujo algoritmo que a comanda colocaem perspectiva uma nova estética orientada pelo wetware ou input humano. O input humano ou o wetware já são realidade há muito tempo em clássicosda ficção cientifica como Johnny Mnemonic (1995),82 Strange Days (1995)83,eXistenZ (1999)84, Minority Report (2002)85 e Avatar (2009)86, entre outros. Porém,como algo longe do alcance de todos. No caso de Avatar, Nicolelis explicou, em entrevista a Globo News, que seisanos antes de James Cameron fazer o filme sua pesquisa já havia mencionado apossibilidade de a atividade elétrica do cérebro controlar corpos virtuais ecomputacionais, entre outros: Além da medicina, acredito que em algumas décadas as interfaces cérebros-máquina têm o potencial de ser usadas para aumentar o alcance do ser humano. Por exemplo, em vez de mandar uma pessoa à usina de Fukishima (Japão), você mandaria um robô ou um avatar, controlado a distância por um operador (GLOBO NEWS: 2011). Até imaginar ambientes muito diferentes, ambientes microscópicos, onde você tem que ter uma ferramenta que82 Para saber mais sobre Johnny Mnemonic, ver: http://imdb.to/ao8Ogy. Acesso jan. 2012.83 Para saber mais sobre Strange Days, ver: http://imdb.to/NqWQI. Acesso jan. 2012.84 Para saber mais sobre eXistenZ, ver: http://imdb.to/kLu2T. Acesso jan. 2012.85 Para saber mais sobre Minority Report, ver: http://imdb.to/6lUzW. Acesso jan. 2012.86 Para saber mais sobre Avatar, ver: http://imdb.to/2F9Wbq. Acesso jan. 2012. 74
  • poderia ser controlada por um operador, pelo pensamento de um operador, para realizar funções. Essa hipótese já está sendo aventada. Inclusive, as grandes empresas de computação como Google, Microsoft e Intel já têm divisão de interface cérebro- máquina buscando criar uma nova interface com os nossos computadores (IBIDEM). Dois exemplos bastante ricos, lançados quase 15 anos antes da estreia deAvatar, ilustram a questão: Johnny Mnemonic (1995), do diretor Robert Longo. Ele criou um mensageirocibernético, vivido pelo ator Keanu Reeves, que transporta em seu cérebro umarquivo de 320 gigabytes com a cura para uma doença que assola o ano 2021, aSíndrome do Enfraquecimento Neurológico (SEN). Na realidade o cérebro deJohnny é uma espécie de disco rígido de computador, implantado por meio de umchip. Figura 29. Cena de Johnny Mnemonic eXistenZ (1999), do canadense David Cronenberg. No filme, a designer degames Allegra Geller, interpretada por Jennifer Jason Leigh, cria o consoleGamePode, que se conecta ao jogador por meio de um orifício acoplado a suacoluna vertebral e o transporta para um imaginário de confusões, cujo limite que osepara da realidade aparece inteiramente borrado, indefinido, e o espectador ficasem saber se trata-se de um filme dentro do game ou vice-versa. 75
  • Cronenberg já havia explorado o tema em Videodrome (1982)87, masdelimitava o imaginário da realidade para fundi-los no corpo do videomaker JamesWoods (Max Renn).88 Figura 30. Cena de eXistenZ Figura 31. Cena de Videodrome Esses filmes colocam em questão a conversão do corpo em umdeslocamento do indivíduo biológico para um novo projeto de corpo (GIANNETTI,2006, p. 101). Para o artista australiano Stelios Arcadiou (ou Stelarc, como éconhecido), a microtecnologia utilizada e implantada no corpo permitirá rompercom as fronteiras biológicas: A pele era, como superfície, o início do mundo e, simultaneamente, o limite do indivíduo. (...) Expandida e penetrada por máquinas, a pele já não é mais a superfície plana e sensível de um lugar ou de uma parede intermediária. O indivíduo se encontra, agora, fora da pele; porém, isso não significa nem uma separação nem uma ruptura, mas uma compreensão da compreensão da consciência. A pele já não representa clausura (STELARC, 1997 apud GIANNETTI, 2006, p. 101). Fora do ambiente de ficção cientifica, a noção de input humano passou afazer parte do nosso cotidiano, sobretudo após a concretização, em abril de 2003,do Projeto Genoma Humano (PGH), o mapeamento completo dos genes da espéciehumana. Por um lado, há mais dados disponíveis à pesquisa e, eventualmente,podem ser remodelados.87Para saber mais sobre Videodrome, ver: http://imdb.to/qznSI7. Acesso jan. 2012.88CRONENBERG vai aos limites da realidade e do delírio em "Spider". Folha de S.Paulo, São Paulo,6 mar. 2007. Disponível em: http://bit.ly/sxNaLm. Acesso jan. 2012. 76
  • Por outro lado, existe a ameaça da sociedade de controle (VESNA: 2007, p.8), também já retratada em filmes de ficção. Isso leva à compreensão de que serhumano é ser informação (IBIDEM, p. 21-27): "(...) agora, a informação sobre quasetodas as pessoas no mundo desenvolvido é informatizado em centenas de bancosde dados - coletados, analisados e divulgados por governos e corporações."Agenciamentos que reconfiguram a interface Antes, os sistemas estavam restritos ao deslocamento do homem no espaço.Com a cultura de dados (BERNERS-LEE: 2009), essa vigilância passa a ser realizadaa distâncias microscópicas de identidade pessoal. Não apenas o nome ou os dadosdo cartão de crédito, mas o tipo sanguíneo, as propensões biológicas adeterminadas doenças, sobretudo quando aumentar o acesso a mapas genéticos,responsáveis por determinar riscos de saúde ou de morte. E com a interface não é diferente. Na realidade, os sistemas de controle jáoperam, ainda que de modo invisível, na rede. Google e Facebook são exemplosdisso. Do ponto de vista do cidadão comum, um dos aspectos positivos é o acessoaberto a uma gigantesca base de dados, conectada em rede e que permiteagenciamentos (DELEUZE; GUATTARI: 2008, p. 29), típicos de espaços lisos. O entendimento de agenciamento na obra de Gilles Deleuze e Félix Guattariestá relacionado à produção de subjetividade, ao desejo como construção junto aosocius. Em Micropolítica: Cartografias do Desejo, Guattari e Suely Rolnik odefiniram para além de estrutura, forma, processo e montagem: “Um agenciamentocomporta componentes heterogêneos, tanto de ordem biológica, quanto social,maquínica, gnosiológica, imaginária”. (2005, p. 381). 77
  • O agenciamento remete ao coletivo, não está restrito ao campo social ou agrupos sociais, mas a uma multiplicidade heterogênea89. Ele se dá por meio daexperiência nômade, em constante deslocamento, dentro de circuitos em fluxo queoperam em circuitos estriados. O agenciamento comporta dois segmentos –conteúdo e expressão: (...) Segundo um primeiro eixo, horizontal, um agenciamento comporta dois segmentos: um de conteúdo, o outro de expressão. Por um lado, ele é agenciamento maquínico de corpos, de ações e de paixões, mistura de corpos reagindo uns sobre os outros; por outro lado, agenciamento coletivo de enunciação, de atos e de enunciados, transformações incorpóreas sendo atribuídas aos corpos. Mas, segundo um eixo vertical orientado, o agenciamento tem, de uma parte, lados territoriais ou reterritorializados que o arrebatam (DELEUZE, GUATTARI: 2008). É por causa do agenciamento coletivo de enunciação que, no âmbito daInternet das Coisas, a interface é reconfigurada. O agenciamento coletivoproduz subjetividade a partir da enunciação, que produz enunciados em umcontexto sempre coletivo e heterogêneo. Essa subjetividade interfereconstantemente na interface: Os agenciamentos não cessam de variar, de serem eles mesmos submetidos a transformações. Em primeiro lugar, é necessário fazer intervir as circunstâncias: (...) um enunciado não é nada fora das circunstâncias que o tornam o que é. Alguém pode gritar “decreto a mobilização geral!”. Esta será uma ação de infantilidade ou de demência, e não um ato de enunciação, se não existir uma variável efetuada que dê o direito de enunciar. O mesmo é verdade em relação a “Eu te amo!”, que não possui sentido nem sujeito, nem destinatário, fora das circunstâncias que não se contentam em torná-lo crível, mas fazem dele um verdadeiro agenciamento, um marcador de poder, mesmo no caso de um amor infeliz - é a vontade da potência que se obedece (DELEUZE; GUATTARI: 2008, p, 29).89 Para Deleuze e Guattari (2004), as multiplicidades não entram em nenhuma totalidade nemremetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações, são, ao contrário, processosque produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidadesconcernem a seus elementos, que são singuralidades; a suas relações, que são devires; a seusacontecimentos, que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de composição, que constitui platôs (zonasde intensidade contínua); aos vetores que a atravessam, e que constituem territórios e graus dedesterritorialização. 78
  • A subjetividade é produzida por agenciamentos de enunciação. Os processos de subjetivação ou de semiotização não são centrados em agentes individuais nem em agentes grupais. Esses processos são duplamente descentrados. Implicam o funcionamento de máquinas de expressão que podem ser tanto de natureza extrapessoal, extraindividual (sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, de mídia, ou seja, sistemas que não são mais imediatamente antropológicos), quanto de natureza infra-humana, infrapsiquíca, infrapessoal (sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representação, de imagem, de valor, modos de memorização e de produção de ideias, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos e assim por diante). (GUATTARI: 2005, p. 39). Nesse sentido, o agenciamento coletivo de enunciação contribui não apenaspara remodelar a interface, mas para modificar os termos que explicavam osmodelos de comunicação em vigor no século 20 - transmissão, publicação erecepção - para incorporar, anotar, comentar, responder, agregar, cortar,compartilhar, recomendar, download, upload (MANOVICH: 2008, p. 226), além docrowdsourcing. Os sistemas abertos e as redes sociais foram determinantes para essamudança de paradigma. Essa é uma das causas pelas quais cada vez mais pessoasbuscam informação nessas plataformas. Pelas inúmeras possibilidades de nãosomente participar, mas alterar o conteúdo. São os chamados prosumers90 (produtores e consumidores de informação)ou produsers91 (usuários de ambientes colaborativos que se comprometem comconteúdo intercambiável tanto como consumidores quanto como produtores.Fazem o que agora se chama de produsage – produção e uso).90 O termo prosumer foi cunhado por Alvin Tofler nos anos 1980. In: Wikipedia. Disponível em:http://bit.ly/7h52om. Acesso jan. 2012.91 Os produsers ocupam a mesma posição de produtor e usuário engajados no ato da produsage,Entre outras palavras, Bruns e Jacobs (2007), apontam que produsers definem os “usuários deambientes colaborativos que se comprometem com conteúdos intercambiáveis tanto comoconsumidores quanto como consumidores quanto como produtores: eles fazem oque agora se chama de produsage”. 79
  • Levantamentos feitos por institutos brasileiros e estrangeiros apontam umaalta considerável no acesso às redes sociais (apesar de usarem metodologiasdiferentes cujos dados não são comparáveis). Em dezembro de 2011, a ComScoremostrou que 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo acessam Facebook, YouTube,LinkedIn, Twitter e Tumblr. A cada cinco minutos de navegação, um é gasto em redes sociais. A curva decrescimento começa a ser verificada em 2007. Esse número representa 82% dototal de usuários de Internet em todo o mundo calculados na época dolevantamento (1,46 bilhão). Hoje, mais de 2 bilhões estão conectados92. Figura 32. Aumento do acesso às redes sociais no mundo No Brasil, pesquisa do Ibope entrevistou 8.651 pessoas (comrepresentatividade de 25 milhões) no final de 2010 e revelou que cerca de 60%usam as redes sociais há três anos ou mais. O mesmo percentual afirmou que asredes sociais têm informação necessária para se atualizarem. Outros 45%92 http://bit.ly/y3E9Ij. Acesso jan. 2012. 80
  • afirmaram que as redes sociais substituem informações dos portais de notícias93. Opaís tem 77, 8 milhões de internautas94. Figura 33. Infográfico do Ibope sobre acesso às redes sociais no Brasil Da mesma forma que o Ibope, a ComScore aponta as redes sociais comofonte de informação, especialmente o Twitter: Em 2011, o Twitter foi usado como um meio central de comunicação durante os eventos de importância mundial e nacional, variando de levantes políticos no Oriente Médio a desastres, como o terremoto e tsunami no Japão. Entre os momentos mais tuitados em 2011, de acordo com o Twitter, foram os acontecimentos políticos, como a morte de Osama Bin Laden, momentos comemorativos como o Ano Novo e notícias sobre demissão de Steve Jobs da Apple e seu consequente substituto. O anúncio da gravidez da cantora Beyoncé no Video Music Awards bateu recordes no Twitter com usuários gerando 8,868 tweets por segundo em torno do evento (2011). Chama a atenção outro dado de 2010, mas pouco difundido: vem caindo ointeresse por portais nos Estados Unidos. Entre 2009 e 2010, o Nielsen Wire93 A pesquisa foi apresentada no MediaOn, evento que discute jornalismo na Internet. Para assistir aíntegra, ver: http://bit.ly/yPEC6b; http://bit.ly/zaXsKr; http://bit.ly/yobOCq. O download em pdfestá disponível em: http://slidesha.re/x26sIn. Acesso jan. 2012.94 TOTAL DE pessoas com acesso à internet atinge 77,8 milhões. Ibope, São Paulo, 9 set. 2011.Disponível em: http://bit.ly/wUCOoG. Acesso jan. 2012. 81
  • registrou queda de 19% no tempo que os americanos gastavam acessando portais– de 5,5% para 4,4%. Já o interesse por redes sociais aumentou 43% no mesmoperíodo – 15,8% para 22,7%95. No Brasil, embora o Ibope tenha mostrado em 2010 que as pessoasincorporaram as redes sociais em seu cotidiano96, um ano depois afirmou que“portais são absolutamente relevantes e são a referência para o adulto”97. AComScore mostra que 97% dos brasileiros estão conectados a redes sociais. Figura 34. Tempo gasto pelos americanos na Internet95 WHAT AMERICANS do online: Social media and games dominate activity. Nielsen Wire. 2 ago2010. Disponível em: http://bit.ly/yuF8Sp. Acesso jan. 2012.96 Ver nota 75.97 Levantamento do Ibope exibido no Digital Age em 30 set. 2011. Disponível em:http://youtu.be/Oj6y99b3oN8. Acesso jan. 2012. 82
  • Tabela 3. Novo paradigma de comunicação Produção, recepção, distribuição Incorporar, anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, recomendar, download, upload e crowdsourcing Produtor Prosumer/produser Portais/sites Redes sociais Se há, de fato, um novo modelo comunicacional (conforme quadro acima) eo principal articulador desse processo é o prosumer (ou produser). Esse produtorque também é consumidor de informação reorienta conceitos que balizaram oJornalismo. Isso faz necessário repensar as Teorias da Comunicação em torno dessasnovas perspectivas e entender de que maneira a interface é constituída, quais sãoas suas implicações éticas e como se dá a validação do conteúdo, temasaprofundados no próximo capítulo. 83
  • Capítulo 2 “Não, não, eu não estou onde você me espreita, mas aqui de onde o observo rindo” Michel Foucault 84
  • 2. Cultura Power Point Ponto de vista jornalístico98 Para compreender de que forma a interface reconfigura os conceitos queorientam o Jornalismo, é preciso revê-lo historicamente. Mais especificamente, emrelação a newsmaking (produção de notícias), gatekeeper (seleção de notícias) eagenda-setting. O newsmaking compõe os critérios que irão definir o que é notícia eorientar a hierarquia e a diagramação na página de um jornal ou nas chamadas derádio e tevê. O gatekeeper selecionará quais serão noticiadas pela imprensa. O agenda-setting lista o que é considerado interesse do público. O Jornalismo é, por definição,“a profissão principal ou suplementar das pessoas que reúnem, detectam, avaliame difundem as notícias, ou que comentam os fatos do momento. O jornalista é quemestá envolvido nesse processo (KUNCZIK: 1998, p. 16). Juarez Bahia, um dos mais importantes pesquisadores da área decomunicação, definiu notícia como “o modo pelo qual o Jornalismo registra e levaos fatos ao conhecimento do público. Noticia é sinônimo de acontecimento,matéria, dado, verdade, mentira, certeza, dúvida, jornalismo, informação,comunicação” (1990, p. 35). É de Bahia a famosa afirmação: “Toda notícia é uma informação, mas nemtoda informação é uma notícia”. Outro estudioso de igual importância, Nilson Lage,afirma que notícia é contar uma história: “um modo corrente de transmissão daexperiência – isto é, a articulação simbólica que transporta a consciência do fato aquem não o presenciou” (LAGE: 2001, p 49). A reflexão sobre o Jornalismo é tradicional nos Estados Unidos desde oséculo XIX, embora tenha se intensificado principalmente após o célebre livro98Partedeste tópico foi escrita a partir do artigo MOHERDAUI, L. As lentes de Barbie Zelizer.Revista Contratempo, Rio de Janeiro, n 14,, 2006, p. 185.199. 85
  • Public Opinion, de Walter Lippmann, publicado em 1922. Entre 1928 e 1930, osociólogo alemão Otto Groth lançou em quatro volumes a obra Die Zeitung (OJornal), resultado de um estudo iniciado em 1910 sobre a compreensão doJornalismo e suas implicações com a sociedade. A teoria de Groth baseia-se em atualidade, universalidade, periodicidade edifusão. Autores como Jorge Pedro Sousa afirmam que a tese de doutorado doalemão Tobias Peucer, defendida na Universidade de Leipzig, na Alemanha em1690, seja a pioneira em Teoria do Jornalismo. Atualmente, o Jornalismo faz parteda Teoria da Comunicação. Peucer apontou caminhos para a pesquisa e reflexãoque outros autores só começaram a seguir anos mais tarde. As discussões do autorsão temas centrais da teoria contemporânea99. Para Sousa, os estudos do pesquisador alemão sugerem que a construção danotícia não é uma invenção anglo-saxônica: “em princípio, toda a notícia deve ater-se àquelas circunstâncias já conhecidas que se costuma ter sempre em conta emuma ação tais como a pessoa, o objeto, a causa, o modo, o local e o tempo” (PEUCERapud SOUSA: 2004, p. 10). Em 1948, o pesquisador americano Harold Lasswell transformou essasações na fórmula para o texto jornalístico. Chamado lead, o primeiro parágraforesponde às seguintes questões: o quê, a quem, quando, onde, como, por que e paraquê (LAGE: 2001, p. 26-27). Notam-se as preocupações de Peucer com algumas das questões em tornodas quais se tenta construir atualmente uma Teoria do Jornalismo: os conceitos denotícia e de jornais; as relações entre Jornalismo e história, a contribuição daretórica e da evolução histórica para a estrutura das notícias, os critérios denoticiabilidade e os constrangimentos à produção de informação.99 SOUSA, 2004, p. 1-5. 86
  • No inicio do século XIX, o Jornalismo passou a ser o quarto poder e seconfundiu com democracia. Para o escritor e político francês Alexis de Tocqueville,a soberania dos povos e a liberdade de imprensa são inseparáveis. A teoriademocrática aponta que o Jornalismo deve atuar vigiando os poderes políticos eprotegendo os cidadãos, oferecendo informações à sociedade para que os cidadãospossam usar e cobrar serviços públicos. Em 1947, surgiu o conceito de gatekeeper, por Kurt Lewin, a partir de umestudo sobre as dinâmicas que agem no interior dos grupos sociais, em especial noque se refere aos programas ligados à modificação dos hábitos alimentares (1947,p. 145). Identificando os canais pelos quais flui a sequência de comportamentosrelativos a um determinado tema, Lewin notou que existem neles zonas quepodem funcionar como cancela, como porteiro: o conjunto das forças antes edepois da zona filtro é diferente de tal forma que a passagem, ou o bloqueio, daunidade através de todo o canal, depende, em grande medida, do que acontece nazona de filtro. Isso ocorre não apenas com os canais de alimentação, mas também com asequência da informação, dada pelos canais de comunicação de um grupo. As zonasde filtros são controladas por sistemas objetivos de regras ou por gatekeepers.Neste último caso, há um indivíduo ou grupo que tem o poder de decidir se deixapassar a informação ou se a bloqueia. Na década de 70, Donald Shaw e Maxwell McCombs, formulam outra teoriaque marca o campo da produção jornalística: o agenda-setting, segundo a qual osmeios de comunicação apresentam ao público uma lista daquilo sobre o que énecessário ter uma opinião e discutir. O pressuposto fundamental do agenda-setting é que a compreensão que aspessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida pela imprensa 87
  • (MC COMBS; SHAW: 1972). É o que Michael Schudson (2003) chamou de efeitos deinformação. Este período é assinalado também com trabalhos de Gaye Tuchman (1978),Herbert Gans (1979) e Philip Schlesinger (1978), entre outros. São estudos queorientam a decisão sobre o que é notícia, as rotinas de classificação e de coberturados acontecimentos, sustentação da objetividade, procedimentos ideológicos nãoexpressos pelos jornalistas, o chamado newsmaking. Nem toda informação é notícia O newsmaking (valores/notícia) é um componente da noticiabilidade. Eleconstitui a resposta à pergunta: quais os acontecimentos que são consideradossuficientemente interessantes, significativos e relevantes para ser transformadosem notícias? Nessa seleção, os critérios de relevância funcionam em conjunto, empacotes, são as diferentes relações e combinações que se estabelecem entrediferentes valores/notícia que recomendam a escolha de um fato. Os critérios denoticiabilidade compõem o newsmaking. Um segundo aspecto geral é que os valores/notícia são critérios derelevância espalhados ao longo de todo o processo, isto é, não estão presentesapenas na notícia, mas também na composição da página. Fornecem diretrizespara apresentação do material, sugerindo o que deve ser prioritário na preparaçãodas notícias. O newsmaking orienta o trabalho em uma redação e deriva depressupostos implícitos ou de considerações relativas (WOLF: 2002, p. 195-196): • às características substantivas das notícias; ao seu conteúdo (quandoum acontecimento se transforma em notícia); • disponibilidade do material e aos critérios relativos ao produtoinformativo (conjunto dos processos de produção e realização); 88
  • • ao público (imagem que os jornalistas têm acerca dos destinatários); • à concorrência (relações entre os mass media existentes no mercado informativo). Dezenas de autores sistematizaram critérios de noticiabilidade (STIELER: 1695apud KUNCIZIK: 1998) BOND: 1959; LIPMAN: 1922; WOLF: 2002; CHAPARRO: 1994;ERBOLATO: 1991; LAGE: 2001; TRAQUINA: 2001; GROTH apud FIDALGO: 2004) porquenão há espaço suficiente nos veículos de comunicação para publicar todos osacontecimentos considerados notícia. Depois de Peucer, em 1965, Kaspar Stieler também estabeleceu valores para asnotícias. Para ele, os jornalistas têm de ser capazes de distinguir entre o que éimportante do que é trivial (KUNCZIK: 1998, p. 242). Aliás, a organização de uma redação, sobretudo em relação ao perfil profissional,e a orientação editorial são indicações dos critérios de noticiabilidade que nela vigoram(WOLF, op. cit. P. 200). Para Michael Schudson, a criação das notícias é sempre umainteração entre repórter, diretor, editor, constrangimentos da organização, necessidadede manter os laços com as fontes, desejos da audiência e poderosas convenções culturaisdos jornalistas (apud CORREIA: 1997). Embora tenham sido listados pela primeira vez em 1965 por Johan Galtung eMarie Holmboe Ruge, os fundamentos para responder a pergunta: “how do ‘events’become news’”? (1965, p. 65), Tobias Peucer já os selecionara em 1690. Os critérios denoticiabilidade de Peucer, Galtung e Ruge não são diferentes dos propostos pelosteóricos citados anteriormente. Na realidade, são complementares. De modo geral, resumem-se a: atualidade, importância, proximidade, proeminêncianegativismo e audiência. 89
  • Tabela 4. Critérios de noticiabilidade Peucer, 1690 Galtung e Ruge, 1965 Casos acontecidos recentemente Frequência, amplitude, clareza, relevância Fatos históricos mais importantes Conformidade Temas de interesse público Imprevisão, continuidade O que é insólito (não é habitual) Referência a pessoas e nações de elite O que é negativo, como catástrofes Composição O que se passa com celebridades Personificação Interesses e desejos da audiência Negativismo Outro aspecto a ser considerado no Jornalismo é a estreita relação com as fontes.Estudo de Stanley Cohen e Jock Young intitulado The Manufacture of News (1973)discute a relação jornalista versus fonte de informação e dá atenção aos contrastes entreos códigos de conduta e as práticas de cobertura de guerras, crimes, questões e grupossociais e destaca a existência de objetivos estratégicos que não se relacionavamdiretamente com os códigos de objetividade e imparcialidade.A realidade pela lente do Jornalismo A socióloga americana Gaye Tuchman também tratou dos constrangimentosorganizacionais no trabalho jornalístico em Making News – A study in the construction ofreality. Para Tuchman, há uma enorme diferença entre cobrir um evento e receberinformação. Quanto mais fontes exclusivas um jornal reunir, melhor será o conteúdoapresentado ao leitor e maior será sua receita (1978, p. 19; 21). Na opinião da socióloga,a notícia é uma instituição social e enviesada conforme decisão editorial (IBIDEM, p. 4,23): 90
  • 1) Notícia é um método institucional para tornar informações disponíveis aoconsumidor, que compra o jornal porque tem interesse no conteúdo; 2) Notícia é uma aliada das instituições legitimadas: um secretário de Estadopode fazer circular uma informação na mídia; 3) Notícia é localizada, apurada e disseminada por jornalistas que trabalhamem empresas. Portanto é um produto resultado das práticas estabelecidas pelaorganização a qual pertence e essas práticas incluem associação com instituições cujasinformações são rotineiramente divulgadas na imprensa. Muito tempo se passou antes de se chegar às quatro características dos jornaismodernos: 1) publicidade; 2) atualidade (ou seja, informação que se relaciona com opresente e o influencia); 3) universalidade (sem excluir nenhum tema) e 4)periodicidade (distribuição regular). Já no século XVI os assuntos maravilhosos eassustadores atraíam o maior interesse dos editores100. Os primeiros jornais a aparecerem com regularidade na Alemanha datam do anode 1609: Aviso, em Wolfenbüttel, e Relation, em Estrasburgo. Pouco depois, chegaram aomercado jornais na Holanda (1618), França (1620), Inglaterra (1620) e Itália (1636). Oprimeiro jornal publicado diariamente foi o Einkommende Zeitung, de Leipzig (1650).Estima-se que as tiragens século XVII eram de cem a duzentos exemplares, ainda que oFrankfurter Journal já tivesse uma circulação de 1,5 mil exemplares em 1680101. No Brasil, o estudo teórico do Jornalismo é recente. Apesar de Barbosa LimaSobrinho e Luiz Beltrão terem sido os pioneiros, seguidos de José Marques de Melo,Nilson Lage e Cremilda Medina, a primeira defesa sistemática de uma Teoria doJornalismo só ocorreu na década de 1980, com os estudos de Adelmo Genro Filho(1951/1988). Genro Filho é autor de O Segredo da Pirâmide.100 KUNCZIK, 1998, p. 23.101 IBIDEM. 91
  • Ele discutiu o Jornalismo a partir de aspectos de três grandes correntes: o"funcionalismo norte-americano", a "Escola de Frankfurt" e uma espécie de concepçãosobre o Jornalismo que se autoproclama marxista, que será chamada de "reducionismoideológico". De lá para cá, a história do Jornalismo guarda forte relação com a difusão denovas tecnologias de transmissão, comunicação e informação. O conceito (MURAD, 2001,p. 55) encontra-se relacionado ao suporte técnico e ao meio que permite a difusão dasnotícias. Daí derivam Jornalismo Impresso, Radiojornalismo, Telejornalismo eJornalismo de Internet102. Em relação à Internet, o pesquisador holandês Mark Deuze (2004) propõe dividiro conceito de Jornalismo em três partes: 1) Jornalismo como ideologia. Ou seja, jornalistas oferecem um serviço público,são neutros, objetivos, imparciais e credíveis, têm autonomia editorial, liberdade eindependência, senso de imediatismo, ética e legitimidade; 2) Jornalismo e tecnologia: multimídia; 3) Jornalismo e sociedade: multiculturalismo - contato entre as diferençasformas de culturas nacionais e locais - que entende a cultura não está restrita à etnia, ànação ou à nacionalidade, mas como um lugar de direitos coletivos para a determinaçãoprópria de grupos. No artigo What is journalism, Deuze critica o fato de a literatura geralmentediscutir o papel do Jornalismo Cívico ou a relação dos jornalistas e empresas decomunicação e afirma que faltam textos que abordem Teoria do Jornalismo, Multimídia eMulticulturalismo. Para o autor, a multimídia e o multiculturalismo desafiam a102 IBID, p. 16 92
  • percepção do Jornalismo e de suas práticas: "A sociedade multicultural muda o foco e osvalores da noticia", conclui103. No Brasil, tão recente quanto o estudo teórico do Jornalismo é o número deproposições para incluir a Internet no escopo da pesquisa. Autores comoMonica Weinberg e Camila Pereira (1999), Elias Machado (2004), Márcia BennettiMachado (2004) e Felipe Pena (2005) defendem que a Internet faça parte desseescopo104. Para Pena, é a interação entre a diversidade que possibilita a unidade. Ele sugerea sistematização a partir de três vertentes principais: a) conceitos e histórias; b)modelos e teorias de análise; e c) tendências e alternativas105. Em seu livro Teoria doJornalismo (2005), Pena sintetiza o objeto da teoria em duas questões consideradasbásicas: 1) Por que as notícias são como são? 2) Quais são os efeitos que essas notíciasgeram? No primeiro caso, o autor discute a produção jornalística, aborda conceitos comoatualidade, periodicidade, objetividade, já estudados anteriormente por Tobias Peucer eOtto Groth. Para responder a segunda questão, o autor analisa Teorias da Comunicaçãoe do Jornalismo. Ele traz ao debate a Teoria do Espelho (as notícias são como são porque arealidade assim as determina); a Teoria do Newsmaking (o Jornalismo é uma construçãosocial de uma suposta realidade) e a Teoria do Gatekeeper (jornalista filtra ainformação), entre outras.Design de superfície, redundância e imperativo Mesmo com uma perspectiva de Internet, os autores citados anteriormenteabordam o Jornalismo do ponto de vista do estruturalismo, em todo o processo103 DEUZE, 2004. In: Journalism Studies, vol. 5, n.2. p. 134-152. Disponível em: http://bit.ly/r5LMMK.Acesso jan. 2012.104 PENA, 2005, p.10.105 IBIDEM. 93
  • produtivo, desde a pré-pauta aos valores notícia de composição. E independente dosuporte (papel, rádio ou tevê) e dos dispositivos (fixos ou móveis). É por essa razão que não causa surpresa o resultado da análise das interfacesjornalísticas que compõem o corpus desta pesquisa - Globo Notícias (G1), UOL NotíciasFolha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (ÚltimoSegundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, TheGuardian e Huffington Post106 -: o design reproduz metáforas analógicas. Figura 35. Diagramação da Folha Online entre layout Web (esq.) e impresso (dir.) Na primeira fase da pesquisa, realizada em 2008, ficou comprovado que, do pontode vista gráfico, em alguns casos, a interface não chegava nem a emular sua versãoimpressa. Não havia critério no uso de elementos de composição, como links oumultimídia. Design de superfície, redundância e imperativo predominavam, o que GiselleBeiguelman chamou de "clicagens burras” 107 (2004) e virou título do blog destajornalista, ferramenta de metodologia para analisar interfaces108.106 Ranking do Ibope Mídia referente a 2010.107 MONACHESI, 2004.108 Para saber mais sobre o Contra a clicagem burra, ver: http://bit.ly/vJmExk. Acesso jan. 2012. 94
  • Figura 36. BBC, 2008, abusa da repetição ao oferecer customização Figura 37. Terra, 2009, palavras repetidas na edição Outros estudos sobre cada interface, realizados entre 2009 e 2011, constataram oponto de partida desta tese: atualmente, os projetos editoriais e gráficos dos jornais deInternet são constituídos sob a lógica do papel, ainda que observadas melhorasconsideráveis. Nova análise, realizada em 2012, aponta o mesmo (ver p. 258). 95
  • Figura 38. Folha Online, 2008, redundância e uso de setas no espaço tridimensional que éa Web Figura 39. Folha.com, 2011. Ainda com uso de setas, mas sem redundâncias 96
  • Figura 40. Estadão.com, 2008, palavras repetidas na ediçãoFigura 41. Estadão.com, 2011, eliminação da redundância 97
  • Figura 42. Globo Online, 2008, palavras repetidas na edição Figura 43. Globo Online, 2011, com pouca redundância 98
  • Além da Teoria do Jornalismo, o questionário de avaliação dos jornais levou emconta os seguintes conceitos, detalhados abaixo: alteridade (HALL: 2001); interface(JOHNSON: 2001); arquitetura da informação (ROSENFELD; MORVILLE: 1998);interatividade (MEADOWS: 2003); usabilidade (NIELSEN: 2000); teleação(MANOVICH: 2001); remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000); semelhança e similitude(FOUCAULT: 2002; 2007); endoestética (GIANETTI: 2006); cultura cíbrida(BEIGUELMAN: 2004) e narrativas (MOHERDAUI: 2007). A sistematização dos dados será analisada a partir da página 132. • Alteridade - Para Stuart Hall, não há identidades fixas, estáveis, unificadas nas sociedades modernas. Ele argumenta que as identidades são construídas dentro do discurso e não fora dele, por isso, é preciso compreendê-las como tendo sido produzidas em lugares históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas também específicas, por estratégias e iniciativas mais específicas ainda. Hall defende que é uma fantasia a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente: “quando sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente.” • Interface - O escritor Steven Johnson assim a define: “em seu sentido mais simples, a palavra interface se refere a softwares que dão forma à interação entre usuário e computador”. Para Johnson, ela atua como uma espécie de tradutor, mediando entre as duas partes, tornando uma sensível para a outra. “Em outras palavras, a relação governada pela interface é uma relação de semântica, caracterizada pelo significado e expressão, não por força física.” • Arquitetura da informação – O conceito foi criado em 1962 por Richard Wurman, mas com a crescente utilização das tecnologias em rede ele tem 99
  • sido modificado, sobretudo após a atualização feita por Louis Rosenfeld e Peter Morville no livro que se tornou um clássico do design de WWW: Information Architecture for the World Wide Web (1998). Para os autores, arquitetura da informação é o princípio para orientar o desenvolvimento de uma interface (p. 13).• Interatividade - Mark Stephen Meadows identifica três pares opostos como princípios básicos na interação: 1) Ingresso/Saída, 2) Dentro/Fora e 3) Aberto/Fechado. O primeiro destes princípios define que todo ingresso ou saída de informação no sistema deve gerar mais informação. É a habilidade do ciclo de interação para acrescentar informação ao sistema que define a qualidade desta interação. O segundo princípio, Dentro/Fora, estabelece que deva existir um diálogo entre os mundos interno e externo. A interação dentro da cabeça articula o mundo da imaginação do “teleator” enquanto que a interação de fora da cabeça está baseada no que o “teleator” percebe no nível empírico ou experiencial. O terceiro princípio, Aberto/Fechado, postula que um sistema quanto mais usado melhor ele funciona. Sistemas abertos são mais complicados, menos previsíveis e mais interessantes do que sistemas fechados. Além destes três princípios da interação, Meadows (identifica quatro passos pelos quais passam o processo interativo: 1) Observação; 2) Exploração; 3) Modificação e 4) Mudança Recíproca. Os princípios são guias para o desenvolvimento da interação, enquanto que os passos são meios para avaliar o resultado deste desenvolvimento. No primeiro passo, o usuário avalia a narrativa como espaço navegável; no segundo desenvolve alguma ação; no terceiro muda o sistema e, no quarto, o sistema tenta mudar o usuário. Tomando estes princípios e passos como orientadores da interação, o autor define narrativa interativa como: Uma narrativa interativa é uma representação baseada no tempo e ação do personagem onde um leitor pode afetar, escolher ou alterar o enredo. O primeiro, segundo ou terceiro personagem pode realmente ser o leitor. Opinião e perspectiva são inerentes. A imagem não é necessária, mas é bem-vinda (2003, p. 62). 100
  • • Usabilidade – A má arquitetura da informação levará sempre à má usabilidade. A maioria das interfaces tem estrutura hierárquica com níveis cada vez mais detalhados de informações. Outras têm uma ordenação tabular na qual são classificadas com relação a um número de atributos ou parâmetros. As duas regras mais importantes são: ter uma estrutura e fazer com que ela reflita a visão dos usuários da interface e suas informações ou serviços. Pode parecer óbvio, mas muitas delas evoluíram sem ter qualquer estrutura planejada e acabaram num caos total.• Teleação - Lev Manovich afirma que o usuário de uma narrativa está atravessando uma base de dados, seguindo links entre seus registros as estabelecidos pelo criador da base de dados. “Uma narrativa interativa pode ser entendida como a soma de múltiplas trajetórias através de uma base de dados”• Remediação - David Bolter e Richard Grusin definem como remediação a representação de um meio no outro e argumentam que ela é uma característica específica da nova mídia digital. Os autores argumentam que a lógica da remediação descrita no livro é similar ao que Derrida considerou ‘mimesis’. E citam “mimesis aqui não é a representação de uma coisa por outra, a relação de semelhança ou identificação entre dois seres, a reprodução de um produto da natureza por um produto da arte. Não é a relação de dois produtos, mas de duas produções. E de duas liberdades. (...) A verdadeira ‘mimesis’ é entre duas matérias em produção e não entre duas coisas produzidas”. O conceito de meio, para os autores, está relacionado à lógica da remediação: o meio é aquilo de remedia. Para eles, na nossa cultura, um meio nunca pode operar de forma isolada. Precisa estar envolvido em relações de respeito e rivalidade com outros meios.• Semelhança e similitude - Movido por uma hipótese de trabalho - ou seja, a de uma possível (re)afirmação (de ordem puramente sígnica e não ilustrativa) do texto pela imagem e vice-versa - Foucault empenhou-se em 101
  • elaborar uma teoria geral da representação pictórica (constituída em torno das questões da semelhança e da similitude), centrada na dualidade entre ícone e símbolo, no entre-deux (entre os dois) típico das formulações discursivo-pictóricas magrittianas. O que interessa nesta tese é a noção de nomeações como forma de impor denominações.• Endoestética - Cláudia Giannetti conceitua Endoestética a partir da Endofísica, em seu livro Estética Digital – Sintopia da arte, a ciência e a tecnologia (2006). Para a autora, a Endofísica (e também a Endoestética,) está sempre discutindo a relação entre o endo (dentro) e o exo (fora). O sujeito é, ao mesmo tempo, um observador da realidade (um observador parcial na medida em que incorpora elementos de sua subjetividade na observação), e alguém que está nela, mais ainda, alguém que influência ativamente nela, modificando-a constantemente. A Endoestética trata dos mundos artificiais baseados na interface, nos quais podemos participar (endo) e observar (exo) ao mesmo tempo. Com essa dupla atuação do interator num universo simulado se podem explorar as propriedades de nosso mundo. Uma nova tecnologia que, ao contrário de todas as outras conhecidas, não só muda algo no mundo, mas o próprio mundo se revela como uma possibilidade cognitiva.• Cultura cíbrida - Giselle Beilguelman aposta na possibilidade de uma cultura cíbrida, pautada pela interpenetração de redes on-line e off-line, que incorpore e recicle os mecanismos de leitura já instituídos, apontando para novas formas de significar, ver e memorizar. São as zonas de fricção entre as culturas impressas e digitais o que interessa, as operações combinatórias capazes de engendrar outra constelação epistemológica e outro universo de leitura correspondentes às transformações que se processam hoje nas formas de produção e transmissão dos textos, dos sons e das imagens. 102
  • • Narrativas - A partir da seguinte divisão das narrativas nas interfaces jornalísticas da Web: texto multilinear [acesso hipertextual à informação], b) reportagem multiforme [compreende novos formatos narrativos] e c) pacote multimídia [reúne todos os elementos multimídia em um template em formato Flash]. Esses formatos podem ser estáticos ou de atualização contínua. Essa sistematização foi feita a partir de Marcos Palacios, Mindy McAdams e Janet Murray (MOHERDAUI: 2007, p. 150). Nos gadjets, um pouco além da repetição Embora restrita à interface noticiosa na Web, objeto deste trabalho, o resultadoda análise, ao ser ampliada a dispositivos como iPad e iPhone, remete à simulação,mesmo com uso maciço de aplicativos109. No caso do iPhone, de modo geral, ainformação é distribuída em lista. Sem dúvida, há desenhos belíssimos como CNN, ABC eWired para iPad, cujo propósito é fugir da estrutura ao menos nas interfaces principais.A CNN mantém a manchete ao contrário da ABC, conforme imagens exibidas na páginaseguinte. Figuras 44 e 45. Interfaces da CNN para iPad109WIRED on iPad: Just like a Paper Tiger… Information Architects, EUA, 28 mai. 2010. Disponível em:http://bit.ly/pIzshc. Acesso jan. 2012. 103
  • Figuras 46 e 47. Interfaces da ABC News para iPadFiguras 48 e 49. Interfaces das redes ABC News e CNN para iPhone 104
  • Figuras 50 e 51. Interfaces da Wired para iPadFiguras 52 e 53. Interfaces da Wired para iPhone 105
  • Tudo é igual para todos Do ponto de vista conceitual, os projetos de interface para jornais de Internet sãoconstituídos a partir de uma identidade plenamente unificada (HALL: 2001). Ou seja,tudo vale para todos. O sistema opera na lógica da reprodutibilidade, da metáfora,praticamente uma clonagem. Os padrões têm de ser reproduzidos porque senão o sujeito não entende. Umexemplo é o uso de ícones na Web: casinhas significam homepage, desenhos deimpressoras e papeis explicam ações como imprimir ou ler texto e assim por diante. Trata-se da noção da homogeneidade em contraposição à alteridade, marca daexperiência em rede, do nômade que circula na Internet, um espaço liso por excelência,mas em constante estriamento. “Não se pode falar sobre identidade sem falar emalteridade, porque é pela diferença que se constrói a identidade. O conceito deidentidade implica estar em relação ‘a’ porque não há ‘nós’ sem o outro. Ambos sãopares indissociáveis” (FRANÇA: 2002). Figura 54. Estrutura de arquitetura da informação na Web (MORVILLE; ROSENFELD, 1998) Para o filósfo russo Mikhail Bakhtin, a alteridade define o ser humano. É nodiálogo das diferenças que a pessoa se descobre como sujeito (identidade) e descobre ooutro em relação a: gênero, raça e cultura, entre outros. 106
  • O discurso do sujeito vem do outro, é pronunciado em resposta ao outro. Estáimpregnado pelas múltiplas vozes que tecem o discurso individual, interpentrando-se demaneira a fazer-se ouvir. Essa multplicidade de vozes da vida social, cultural e ideologicaque se entrechocam é caracterizada por Bakhtin por polifonia (1981, p. 32). A homogeneização é própria de espaços territorializados, assim como a ideia dedomínio, das URLs (sigla em inglês de Uniform Resource Locator). As interfaces estãoligadas por links proprietários. Senão não ocorreriam tensões com Facebook e Google,acusados frequentemente de práticas que violam leis de privacidade. A priori, qualquer pessoa pode fazer parte do Facebook, Twitter ou realizarbuscas no Google. Porém, um contrato delimita ações. Quem não cumpri-las serádefenestrado. São espaços propriamente estriados, mas que permitem ações típicas deespaços lisos, como os movimentos contra práticas de vigilância. Um endereço com o protocolo http://www leva o internauta a uma URLregistrada (corporativa, pública ou pessoal). Isso transforma a rede em um local depoder, com regras e, portanto, propício a conflitos - desde invasões de hackers atéestratégias de protestos (TISSELI: 2009). Na realidade, um espaço de positividade dopoder, no qual há poder e contrapoder, não existe a noção de poder absoluto(FOUCAULT: 1999, p. 30): Ora, o estudo desta microfísica supõe que o poder nela exercido não seja concebido como uma propriedade, mas como uma estratégia, que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma “apropriação”, mas a disposições, a manobras, a táticas, a técnicas, a funcionamentos; que se desvende nele antes uma rede de relações sempre tensas, sempre em atividade, que um privilégio que se pudesse deter; que lhe seja dado como modelo antes da batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio. Temos em suma que admitir que esse poder se exerce mais que se possui, que não é o “privilégio” adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas — efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominados. Esse poder, por outro lado, não se aplica pura e simplesmente como uma obrigação ou uma proibição, aos que “não têm”; ele os investe, passa por eles e através deles; apoia-se neles, do mesmo modo que eles, em sua luta contra esse poder, apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança. 107
  • O Facebook protagonizou um dos mais recentes episódios envolvendo práticas de vigilância. Para ajudar a coibir pedofilia na Internet incluiu um recurso que permite o reconhecimento facial em fotografias publicadas em sua rede. Quando encontra a combinação, convida a marcar ou identificar as pessoas na foto. Pressionado pela sociedade por violar a privacidade, voltou atrás e facilitou o procedimento para desativar esse recurso. Aliás, mobilização (ou ativismo) é uma das questões-chave da interfaceatualmente. Conforme já discutido anteriormente, a interface é a mensagem (ver p. 71) eo usuário não apenas opera, mas interage com ela. Muitas vezes, coletivamente. No casodo Jornalismo de Internet, o design começou com a emulação do papel. Algumasmodificações foram realizadas no sentido de dar uma forma a essa nova prática. Oresultado foi uma mistura de padrões existentes e links, com multimídia e texto. Figura 55. Reconhecimento facial do Facebook Acontece, porém, que a interface noticiosa pode ser totalmente diferente dasatuais. A tecnologia é um dos fatores que possibilitaram essa mudança. O outro,notadamente, é conceitual. 108
  • Em 2009, o engenheiro Tim Berners-Lee, criador do protocolo WWW, anunciouno TED (sigla em inglês para Technology, Entertainment, Design) a migração da cultura depágina para a cultura de dados110. Em 2008, o pesquisador russo Lev Manovich apontoua importância do software na cultura de dados111. Também a mudança da linguagem HTML (linguagem utilizada para incluirhipertextos na web) para o XML (Extensible Markup Language) e os sistemas open sourcecontribuíram para a criação de interfaces baseadas em dados, programação e algoritmos(as interfaces dinâmicas serão aprofundadas no último capítulo). Os blogs foram os precursores da produção colaborativa e merecem uma atençãoespecial. Sua importância é tamanha devido ao fato da popularização de seus sistemasde publicação, denominados em inglês Content Management System (CMS),representarem o pontapé inicial dessa prática. Inicialmente definidos como diários ou páginas pessoais permitiam a publicaçãode conteúdo em qualquer lugar e a qualquer hora, sem intermediários. Foi a primeiraferramenta que não exigia domínio técnico para ser utilizada. Considera-se que Berners-Lee foi o estreante do gênero na Web, com o “What´s news in 92”, criado para divulgarprojetos relacionados ao WWW. O termo Weblog (que mais tarde virou blog) foi cunhadoem 1997 por Jorn Barger, que mantém até hoje seu projeto original.112110 TIM BERNERS-LEE on the next Web. TED – Ideas worth spreading, EUA, fev. 2009. Disponível em:http://bit.ly/qqaSFQ. Acesso jan. 2012.111 MANOVICH, 2008. Disponível em: http://bit.ly/nHS2gB. Acesso jan. 2012.112 MOHERDAUI: 2007, p. 179-180. 109
  • Figura 56. Primeiro blog da Web, de Tim Berners-Lee Como a interface mudou o Jornalismo Essas mudanças levantam uma série de perguntas importantíssimas, respondidasnesta tese ao longo dos capítulos, pois a produção coletiva alterou conceitosfundamentais da Teoria do Jornalismo, como newsmaking, gatekeeper e agenda-setting: 1. A notícia coletiva reorganizou a interface? 2. O que a produção e disseminação generalizada de informações na rede acarretaram para a cômoda posição dos jornalistas e sua maneira de se comunicar? 3. A interface pode retirar a condição crítica ou induzir a avaliações sobre os fatos? Se uma notícia for deturpada? O que a interface pode fazer por isso? De fato, a resposta à primeira pergunta desencadeia as respostas seguintes (2 e3). A principal mudança que sistemas abertos (ainda que estriados) como Twitter eFacebook causaram ao fazer jornalístico e ao próprio Jornalismo passa por processosprodutivos, seleção e escolha do material que será destaque em jornal, revista, rádio etevê, sejam eles convencionais ou de Internet. 110
  • Se nesses meios, o profissional decide o que é notícia e qual o destaque será dadoa ela em seu veículo, nas redes sociais surge um novo fator determinante:produser/prosumer. Quem é o produser/prosumer? É o cidadão que está em rede, também detéminformação e está apto a transformá-la em notícia. Ele reconfigura a lógica dos critériosde noticiabilidade, muda a agenda da imprensa e inclui fatos ao noticiário que circula naInternet. Ele não só produz como valida e recomenda uma informação. É dessa maneirase dá a legitimação na rede. E isso se reflete na interface, na maneira como ela seconstitui. Basta lembrar que a morte de Osaba Bin Laden foi noticiada pelo Twitter por umpaquistanês de 33 anos: Sohaib Athar (@reallyvirtual)113. E ele nem sabia exatamente doque se tratava: “Helicóptero sobrevoando Abbottabadem (é um evento raro)". Só maistarde, descobriu que se tratava de Bin Laden. A mensagem foi parar na rede social antes de o presidente dos Estados Unidos,Barack Obama, fazer o anúncio oficial. Ou seja, o assunto mais importante do mundo em2011 estava nas mãos de Athar. Não foi dado em primeira mão por um jornal, tevê,rádio ou interface de Internet. E nenhum jornalista com prestigio junto à Casa Branca foiinformado com antecedência. Depois de Athar, Keith Urbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush,furou114 Obama também no Twitter: “Uma pessoa respeitável me disse que mataramOsama bin Laden".115113 MORTE de Bin Laden saiu primeiro no Twitter. estadão.com.br, São Paulo, 2 mai. 2011. Disponívelem: http://bit.ly/phN9Bt. Acesso jul. 2011.114 Jargão jornalístico para informação antecipada.115 TWITTER NOTICIOU morte de Bin Laden antes de Obama. Infoexame, São Paulo, 2 mai. 2011.Disponível em: http://bit.ly/rezYTV. Acesso jul. 2011. 111
  • Figura 57. Localização do post de Sohaib Athar via Google Maps Figura 58. Esquema tradicional da coleta de notícias e do seu processamento116 Figura 59. Post com anúncio da morte de Bin Laden por Keith Urbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush116 KUNCZIK: 1988, p. 235. 112
  • Outro exemplo que ilustra bastante a mudança do controle da informação dasmãos do jornalista para o cidadão foi o anúncio da morte da cantora britânica AmyWinehouse. Nesse caso, uma tevê saiu na frente: SkyNews TV117 . Assim que a emissora noticiou, foi parar no Twitter, Facebook e ganhou todaInternet, além de rádios e tevês. Sendo repetida e comentada à exaustão, Amy nãodemorou a chegar aos Trending Topics, a lista de assuntos mais comentados do Twitter.O alvoroço nas redes sociais aumentou a audiência de interfaces voltadas à cobertura decelebridades118. Figura 60. Enquete no Facebook para saber quem noticiou primeiro a morte de Amy Em jornais como The New York Times, The Guardian e Daily Mail, não ganhou asmanchetes. No Brasil, foi a quarta chamada no Jornal Nacional, de maior audiência noPaís119. Ficou atrás dos gols da Copa América. Naquele dia, 23 de julho de 2011, toda aimprensa chamou a atenção para o atentado na Noruega, ocorrido um dia antes.117 Cobertura completa da morte de Amy Winehouse feita pela emissora de televisão Sky News:http://bit.ly/oFDMIT. Acesso jan. 2012.118 MORTE de Amy Winehouse domina Twitter. Exame, São Paulo, 23 jul. 2011. Disponível em:http://bit.ly/pgFpbN. Acesso jan. 2012.119 JORNAL NACIONAL, 23 jul. 2011. Disponível em: http://glo.bo/nSZPRh. Acesso jul. 2011. 113
  • Figura 61. New York Times, julho de 2011 Figura 62. Daily Mail, julho de 2011 Após a confirmação da morte, NY Times e Daily Mail não deram manchete para acantora britânica. Pelo critério de noticiabilidade, a Noruega mereceu maior espaço porconta de importância, geografia e atualidade, entre outros. Nas redes sociais, osprodusers/prosumers acompanhavam e replicavam tudo o que chegava do bairro deCamden Town, em Londres, onde viveu Amy. Se a atual interface noticiosa for analisada a partir do conceito de Steven Johnson,percebe-se claramente que não se configura como um software que dá forma à interaçãoentre usuário e computador nem tampouco media as duas partes. Na realidade, ainteração em empresas jornalísticas na Internet é quase nula e a interface se resume auma página em branco (ou a várias páginas em branco). É uma superfície norteada porpressupostos da arquitetura da informação cunhados por Louis Rosenfeld e PeterMorville (1998)120. Ao que se refere à usabilidade, dentro do escopo tradicional, com página embranco, diagramação em colunas e hierarquia, há dois problemas a serem considerados:qualidade da busca e excesso de chamadas nas interfaces principais. Ao tentar remediarprojetos já existentes em outros suportes, incorrem num equivoco de edição. Quem lê120 Ver páginas 106 e 177 desta tese. 114
  • mais de 100 chamadas, modificadas ao longo de 24 horas, conforme surgem novosassuntos? A esses exageros somam-se as nomeações como forma de impordenominações (ver p. 101-102). O jornal foi parar dentro do Facebook Essa cultura está tão enraizada nas práticas jornalísticas que é reproduzidatambém nas redes sociais. Em setembro, Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook,anunciou uma série de mudanças significativas com o objetivo de manter os mais de 845milhões cidadãos mais tempo conectados a sua rede. A ideia é criar uma camada social paralela na Internet. Uma dessas medidas dizrespeito especificamente ao Jornalismo. Zuckerberg fez acordos com jornais como TheGuardian, The Washington Post e The Wall Street Journal para oferecer informação viaaplicativos dentro do Facebook121. O Post, por exemplo, replicou a estética analógica ao seu Social Reader122, commais de 50 chamadas: Figura 63. Interface do The Washington Post Social Reader no Facebook121 DO JORNAL ao Facebook: Washington Post, Guardian e outros veículos lançam novo aplicativo denotícias. Knight Center, EUA, 26 set. 2011. Disponível em: http://bit.ly/nx2RqB. Acesso jan. 2012.122 Para saber mais sobre o The Washington Post Social Reader, ver: http://bit.ly/pkPjIT. Acesso jan. 2012 115
  • Com menos destaques, o Guardian123 também emula a estrutura do papel, comdiagramação em colunas.: Figura 64. Interface do Guardian app no Facebook Além das narrativas divididas em texto multilinear (acesso hipertextual àinformação), reportagem multiforme (compreende novos formatos narrativos) e pacotemultimídia (reúne elementos multimídia em uma interface em Flash), o Jornalismo deInternet passa ao largo de teleação, endoestética e cultura cíbrida. Entre os grandes players do mercado, o Google é hoje a empresa que mais investeem teleação, ainda que não dê conta de toda a rede. Nas empresas noticiosas, os serviçosde buscas não foram projetados para teleação. É raro um deles oferecer resultadoseficientes. Teleação, endoestética e cultura cíbrida integram boa parte dos trabalhos de artedigital. Aliás, ela pode ser um dos parâmetros para repensar a interface jornalística. Éverdade que a Internet das Coisas irá reconfigurar completamente a interface.Entretanto, a essência da arte digital, a interação entre cidadão e criação, é a chave desseentendimento. Sem o cidadão, a arte digital ficaria incompleta, pois ela o convida a criarsignificados. Sua interface é definida por essa relação.123 Para saber mais sobre o Guardian app, ver: http://on.fb.me/n77Y1M. Acesso jan. 2012. 116
  • O Jornalismo pode aplicar essa lógica. Mas antes é preciso descontruir conceitossolidificados ao longo dos séculos e começar a apostar diretrizes que o coloquem noconceito de mapa de Gilles Deleuze e Félix Guattari: O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social (DELEUZE; GUATTARI: 2004, p. 22). Nesse sentido, a interface da notícia na Web assume a forma de um mapa. Mapaesse constituído por territórios existenciais, relacionados à maneira de ser, ao corpo, aomeio ambiente, às etnias, às nações. Esses territórios têm uma organização, umsignificado dado a eles. Porém à medida que passam a ser explorados, eles se desterritorializam, fogemda organização e abrem-se a outros significados. No entanto, com a produçãocolaborativa, se reterritorializam, se auto-organizam, que por sua vez levará a novasdesterritorializações e assim sucessivamente (IBIDEM, p. 38). E essa desconstrução não se limita somente ao newsmaking, mas também adefinições estabelecidas ao Jornalismo de Internet, principalmente em relação àscaracterísticas e terminologias atribuídas a essa nova prática social.Desconstruindo conceitos Não é novidade que o Jornalismo opera na Internet a partir do newsmaking, desdea pré-pauta à composição da interface, frequentemente denominada página. Por causadisso, as características que o definem na rede foram elaboradas a partir dessasdiretrizes. Foi mencionado no capítulo anterior que esta jornalista, até pouco tempoatrás, também aplicava essas definições (ver p. 61). A influência da arte digital é uma das razões pelas quais houve a mudança dementalidade (BOLTER; GROMALA: 2003; VESNA: 2007; BEIGUELMAN: 2003, 2005, 117
  • 2011; GIANETTI: 2006; PAUL: 2008; MANOVICH: 2001, 2008, 2010). As outras (tambémconceituais) referem-se aos trabalhos de Michael Foucault (2002, 2007), Gilles Deleuze eFélix Guattari (2004, 2007, 2008) e pela revisão bibliográfica de obras que tratamexclusivamente de design de jornais (GARCIA: 1981, 1997; HARROWER: 2002;BRINGHURST: 2004). A leitura do primeiro capítulo desta tese leva a uma conclusão clara: a Internetdas Coisas mudou o paradigma da comunicação e consequentemente alterousignificativamente a forma por que é exibida a informação que circula no fluxo (verquadros nas p. 61, 72, 83). Portanto não faz mais sentido adotar exclusivamente osconceitos que balizam as teorias do Jornalismo e da Comunicação. É preciso ir além. E o ponto de partida é deixar um pouco de lado verdades absolutas que fazemincorrer no equívoco de transformar projetos gráficos e editoriais em uma série dePower Points124 (MANOVICH: 2008, p. 45) ou em uma superfície com mídias distribuídasque, na realidade, não passam de simulação da cultura da página impressa. Em alguns casos, explicados anteriormente e detalhados ao longo deste tópico,interfaces jornalísticas não levaram em conta nem o newsmaking na visualização de seusconteúdos (links, multimídia e textos). A imagem da página seguinte ilustra bem a forma pela qual é pensada a interfacepara o jornal na rede.124Para saber mais sobre o programa da Microsoft para criar apresentações, ver: http://bit.ly/nBhIlY.Acesso jan. 2012. 118
  • Figura 65. Interfaces impressa e de Internet do The Bugle Beacon125As quatro fases do Jornalismo de Internet Um dos primeiros pesquisadores a caracterizar e a discutir o Jornalismo deInternet foi o holandês Mark Deuze. Para ele, personalização, interatividade,hipertextualidade e multimidialidade são definidoras dessa prática, porém nem todas125 HARROWER: 2002 p. 228-229. 119
  • são exclusivas (2001). No Brasil, Marcos Palacios apontou a memória como o principalaspecto na rede (1999). Também foi Deuze quem incluiu o Jornalismo de Internet em fases de evolução.Em 2001, o artigo Online Journalism: Modelling the first generation of the News media onthe World Wide Web demarcou a primeira geração, entre 1993-2001. Na esteira dele,vieram outras sistematizações assinadas por John Pavlik (2000, 2001), LucianaMielniczuk (2003), Pablo Boczkowski (2004) e Elias Machado (2004), entre outros: Primeira fase – Modelo presente nos jornais de Internet, nos quais a formataçãoe a organização seguem diretamente o modelo da versão impressa. Trata-se de um usomais hermético e fiel à ideia da metáfora (MOHERDAUI: 2007, p. 122): Num primeiro momento, os produtos oferecidos eram reproduções de partes dos grandes jornais impressos, que passavam a ocupar o espaço da Internet. O que era chamado então de jornal na Web não passava de transposição de uma ou duas das principais matérias de algumas editorias. Esse material era atualizado a cada 24 horas, de acordo com o fechamento das edições do impresso. Em alguns casos, como o de O Estado de S.Paulo, era disponibilizado também o conteúdo de alguns cadernos semanais. Os produtos dessa fase, em sua maioria, são simplesmente cópias do conteúdo de jornais existentes no papel. A rotina de produção de notícias é totalmente atrelada ao modelo estabelecido nos jornais impressos. No que diz respeito ao formato de apresentação das narrativas jornalísticas, não há nenhuma evidência de preocupação em inovar. (MIELNICZUK: 2003, p. 32-33). Apesar de observadas uma série de mudanças na exibição de notícias na rededesde que Luciana Mielniczuk defendeu sua tese doutoral em 2003, na Faculdade deComunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), as empresas decomunicação ainda oferecem, em áreas separadas, suas versões impressas constituídascom base na reprodução do papel, como é o caso da Folha de S.Paulo. O jornal paulista replica dois modelos, um é o fac-símile da página com links paraas matérias de capa e outro é na própria Web. Um dos argumentos é o de facilitar acessopara quem está fora País ou dos principais centros de distribuição do jornal. A únicadiferença é que há pouco tempo, a versão impressa era destacada na área nobre da 120
  • interface na Web, no canto superior esquerdo. Agora, fica abaixo das notícias do dia, dolado direito. No iPad não é diferente ainda que o dispositivo permita leituras vertical ehorizontal. Figuras 66 e 67. Folha: Fac-símile das versões impressa e Web126 Figura 68. A apresentação da Folha Digital é outro exemplo de metáfora, 2009. Segunda fase – Quando mesmo submetido à metáfora do impresso sãodesenvolvidos novos tipos de produtos. Jornalistas criam conteúdos originais para arede, com hiperlinks, redes sociais, ferramentas de busca sofisticadas, conteúdo126 Folha de S.Paulo: fac-símile da versão impressa http://bit.ly/qLwqXv e versão para a Web:http://bit.ly/pkXJl4. Acesso jan. 2012. 121
  • multimídia e customização de conteúdo. Há uma maior agregação de recursospossibilitados pelas tecnologias da rede. Nesse estágio, permanece o carátertranspositivo (MOHERDAUI, op. cit., 124). Com o aperfeiçoamento e desenvolvimento da estrutura técnica da Internet no País, e seguindo uma tendência mundial, nos final dos anos 90, mesmo atrelado ao modelo do jornal impresso começam a ocorrer experiências no produto jornalístico na tentativa de explorar as características oferecidas pela rede. Essa fase em que o jornal impresso funciona como uma referência para a elaboração das interfaces dos produtos é chamada fase da metáfora. Ao mesmo tempo em que se ancoram no modelo do jornal impresso, as publicações para a Web começam a explorar as potencialidades do novo ambiente, tais como links com chamadas para notícias de fatos que acontecem no período entre as edições; o e-mail passa a ser utilizado como uma possibilidade de comunicação entre jornalista e leitor ou entre os leitores, através de fóruns de debates e a elaboração das notícias passa a explorar os recursos oferecidos pelo hipertexto. A tendência ainda é a existência de produtos vinculados não só ao modelo do jornal impresso enquanto produto, mas também às empresas jornalísticas cuja credibilidade e rentabilidade estavam associadas ao jornalismo impresso específicas. (MIELNICZUK, op. cit., p.34) Folha.com127 e Globo Online são também bons exemplos de segunda fase. As imagensanteriores mostram a Folha descolada da interface principal, cujos acessos sãoindependentes do conteúdo que vai para a Web. De modo geral, os destaques dasversões impressas ficam abaixo da interface, do lado direito. Mas não são apenas asempresas de comunicação que operam a partir da emulação. Em 2009, o Google criou o Google Flip. Estruturado por meio de canais comoEntretenimento, Política, Saúde e Esportes, entre outros, o Flip exibe fac-símiles dasinterfaces noticiosas de grandes jornais como BBC, The New York Times e de revistascomo Slate e Business Week. O novo formato foi pensado para diminuir a tensão entre donos de jornais digitais,ligados a grandes conglomerados de mídia, e a empresa de busca. A empresa secomprometeu a dividir a receita de anúncios com os publishers, incomodados com a127 Para conhecer a Folha Digital, ver: http://bit.ly/tP5Trj. Acesso jan. 2012. 122
  • maneira agressiva de o Google organizar notícias sem pedir autorização e ainda tendolucro com o tráfego gerado na rede.Figura 69. Interface da Folha.com Figura 70. Interface de O Globo128 Figura 71. Interface do Google Fast Flip129128 Folha: http://bit.ly/vf7FMI e Globo: http://glo.bo/vfRhdb. Acesso jan. 2012. 123
  • Terceira fase - Quando são lançadas iniciativas tanto empresariais quanto editoriaisadaptadas à Internet. Caracteriza-se pela produção de conteúdos noticiosos originais,com recursos multimidia, convergência entre suportes diferentes (multimodalidade),disseminação de um mesmo produto em várias plataformas e/ou serviços informativose a produção de conteúdo pelo usuário. Há também o reconhecimento do ambientecomo um novo meio de comunicação. O aspecto mais importante da terceira geração é considerado por John Pavlick comoas experimentações de novas formas de storytelling. Ele cita a possibilidade denarrativas imersivas que permitem ao leitor navegar através da informação multimídia.Storytelling é a palavra utilizada por autores americanos para se referirem à narrativado fato jornalístico (MOHERDAUI, op. cit., p. 125-126). Faz parte da terceira geração aprodução de conteúdo pelo usuário (BOCZKOWSKI: 2004) pelo produser ou prosumer. O cenário se modifica a partir da crescente popularização do uso da Internet e também do surgimento de iniciativas tanto empresariais quanto editoriais destinadas exclusivamente para esse suporte. São sites jornalísticos que extrapolam a ideia de uma versão do papel para a Web. Um dos primeiros e, talvez, um dos principais exemplos dessa situação seja o www.msnbc.com, resultado da fusão em 1996 entre Microsoft e NBC, uma empresa de informática e outra de televisão. Na terceira etapa, é possível observar produtos jornalísticos com sons e animações, que enriquecem a narrativa; oferecem interatividade, como chats com a participação de personalidades públicas, enquetes, fóruns de discussões; disponibilizam opções para personalização; usam hipertexto não apenas para organização das informações da edição, mas também começam a empregá-lo nas notícias. (MIELNICZUK,op. cit., p.36). Dois jornais ilustram bastante a ideia de terceira fase: o Último Segundo (iG)Huffington Post (AOL). O Último Segundo (US) surgiu no começo dos anos 2000 com aproposta de ser um jornal produzido exclusivamente para a Internet. Passados mais de dez anos de sua fundação, o US permanece com o mesmo propósito,sem ter uma versão impressa. O HuffPo foi criado em 2005 pela jornalista americanaArianna Huffington para ser um blog de notícias e fofocas sobre a elite política em129 A Google anunciou o fim do Fast Flip em setembro de 2011: http://on.mash.to/ujuxkR. Acesso jan. 2012. 124
  • Washington, depois de perder as eleições para governo da Califórnia. Em 2011, foivendido para a American Online (AOL)130. Figura 72. Interface do MSNBC, 1997 (Internet Archive) Figura 73. Interface do Último Segundo, 2011130VENDIDO por US$ 315 milhões, Huffington Post lucra com blogueiros anônimos e famosos. BBC, SãoPaulo, 7 fev. 2011. Disponível em: http://bbc.in/p1VF8t. Acesso jan. 2012. 125
  • Figura 74. Interface do The Huffington Post, 2011131 Quarta fase – Para o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Elias Machado, essa etapa compreende o Jornalismo baseado em bancos de dados inteligentes, que aparece aos usuários como uma interface tipificada no espaço navegável que permite explorar, compor, recuperar e interagir com as narrativas. Machado (2004) toma como pressuposto os conceitos do pesquisador russo Lev Manovich segundo o qual os bancos de dados são identificados como uma coleção de itens que permite uma variedade de operações: ver, navegar, buscar, intercambiar informações e compor formas diferenciadas de narrativas (MOHERDAUI, op. cit., p. 127): A característica do ciberespaço como um espaço navegável, que permite movimentos através da arquitetura da informação, possibilita que a composição possa ser pensada como um tipo de enredo que determina os eventos de uma narrativa interativa, dispostos em torno de um espaço audiovisual. Ao indicar uma ordem, mesmo que incorpore uma variedade de alternativas de composição resultantes dos processos de interação, a arquitetura da informação, como um roteiro, parte do pressuposto que deve existir um começo, um fluxo interativo e um fim para cada narrativa. Em qualquer que seja o caso, como tratamos de espaços interativos, o que pode variar são as possibilidades diferenciadas de começo, de fluxos interativos e de finais previstos na arquitetura da informação como uma estrutura que condiciona a composição da narrativa. (MACHADO, 2004, p.11).131 Último Segundo: http://bit.ly/vnyDLi e Huffington Post: http://huff.to/tNPfr1. Acesso jan. 2012. 126
  • O americano The New York Times132 e o britânico The Guardian133 são os jornaisque mais apostam em narrativas baseadas em dados, embora nem todas permitam aoproduser/prosumer incluir informação e modificar o conteúdo. Fora do âmbito da grandeimprensa há uma série de iniciativas orquestradas por esses atores que permitem acolaboração coletiva, como ocorreu na cobertura da gripe suína em 2009134. Porém, há que se destacar os exemplos interessantes, como a estratégia do USAToday135 de criar uma conta no Twitter (@usatodayhealth), para que as pessoaspudessem acompanhar as últimas notícias sobre a gripe. O jornal americano criou ummapa dinâmico, com atualização constante, com textos e links apontando para redessociais, interfaces de compartilhamento e de validação de conteúdo, além de uma listade serviços com endereços de hospitais e prontos-socorros. A exemplo do USA Today, The New York Times, El Mundo136, El País137 e TheWashington Post138 apostaram em mapas dinâmicos. Além dos produsers/prosumers, oGoogle também utilizou de sua tecnologia para manter os cidadãos informados139. Figura 75. Mapa coletivo feito com aplicativo do Google mostra avanço da gripe aviária132 http://nyti.ms/sZOsfC. Acesso jan. 2012.133 http://bit.ly/vKH0gj. Acesso jan. 2012.134 Ver exemplos em: http://bit.ly/n7jt3g. Acesso jan. 2012.135 http://usat.ly/thmqEc. Acesso jan. 2012.136 http://mun.do/uhITjh. Acesso jan. 2012.137 http://bit.ly/u1vloF. Acesso jan. 2012.138 http://wapo.st/uVeYlx. Acesso jan. 2012.139 Exemplos de mapas dinâmicos e atualizados sobre a gripe suína, ver: http://bit.ly/q113x8. Acesso jan.2012. 127
  • Figura 76. Twitter do jornal USA Today com informações sobre a gripe aviária Figura 77. Mapa do Google sobre avanço da gripe aviária por região Outra iniciativa é o Hack Day140, do jornal The Guardian, criado para que nãosomente jornalistas, mas leitores ajudem a criar peças colaborativas baseadas em dados,aplicativos, mashups e tags. Na segunda edição do evento, realizada em 2009, foramapresentados 30 projetos em 24 horas. Entre eles, destacam-se: base de dados visual sobre a crise econômica e gripesuína, gadgets de seções do jornal em RSS, filtros a partir do Yahoo Pipes141 para agregarconteúdo espalhado em redes como Digg142 e Reddit143 e uma série de ferramentas dealerta e de validação no Twitter ou para criar rankings de retweets.140 Para saber mais sobre o Guardian Hack Day, ver: http://bit.ly/qKi619. Acesso jan. 2012.141 Para saber mais sobre o Yahoo Pipes, ver: http://bit.ly/s6xcnZ. Acesso jan. 2012.142 http://bit.ly/twjp2B. Acesso jan. 2012. 128
  • Para analisar a interface, Foucault Observados somente do ponto de vista da narrativa, os exemplos citados acimapodem justificar o olhar sobre o Jornalismo praticado na Internet a partir da suaevolução. Porém deixam de fazer sentido se incluídos na perspectiva da interface. O quemuda é a forma pela qual as duas vertentes são pesquisadas. No caso da interface, a construção se dá a partir da lógica estruturalista orientadapela Teoria do Jornalismo, ou seja, o newsmaking comanda todo o processo, ainda queem alguns casos, como já foi afirmado anteriormente, de modo inadequado. Consequentemente o resultado é um conteúdo arranjado a partir dos pilares quebalizam o design gráfico nos jornais impressos. Em uma página em branco, diagramadaem colunas (que vão de 3 até 12), o equilíbrio (BRINGHURST, op. cit., p. 71) se dá entrequatro principais elementos básicos que devem ser levados em conta nesse quebra-cabeça. São eles: manchetes (fonte, tamanho e espaço ocupado), texto (tamanho eimportância), fotos e legendas devem impactar o conteúdo apresentado, conformeexplica o jornalista e designer Tim Harrower em The Newspaper Designer´s Hanbook(2002, p.22): Páginas de jornal são como quebra-cabeças. Quebra-cabeças podem que se encaixar em um número de maneiras diferentes. Apesar de as páginas poderem parecer complicadas num primeiro momento, você encontrará apenas quatro elementos básicos: quatro tipos de peças de quebra- cabeças que são essenciais. E porque estes quatro elementos se acostumam sempre, eles ocupam 90% de todo espaço editorial. Uma vez que você dominar esses quatro blocos básicos de construção, você já os domina design da página. Transposta para a Internet, a estrutura se mantém: em uma superfície em branco,há manchetes, fotos, hipertexto e multimídia destacadas pelos critérios de importância eatualização. Não há definição de números de chamadas, como acontece na mídiatradicional.143 http://bit.ly/sMJ8sE. Acesso jan. 2012. 129
  • As interfaces exibem milhares de informações conectadas umas às outras, e asalterações são feitas na medida em que um novo fato surge ou pela temporalidade dotexto. Talvez isso seja explicado pela falta de uma complexificação sobre critérios deseleção dos elementos que as compõem (ver anexo, p. 258-288). Se pensarmos as interfaces jornalísticas desde os primórdios do design gráfico,não há como aplicar a seus estudos uma classificação por fases, pois são replicadas paraWeb convenções estabelecidas na mídia tradicional (NELSON, 2001). Na realidade, aspráticas sociais na rede restringem a produção à superfície da tela, transformando obrowser em um paginador (BEIGUELMAN, 2003, p. 37, 67). Outra razão para justificar o apagamento das fases é o princípio da remediação,segundo o qual uma mídia representa a outra (BOLTER e GRUSIN, 2000), uma vez que épreciso tratar o Jornalismo de Internet no jogo de sua instância e “deixar de observá-lopor um tempo a partir da noção de evolução”, conforme afirma Foucault em Arqueologiado Saber: (...) É preciso mostrar que as formas prévias de continuidades não se justificam por si mesmas, que são sempre o efeito de uma construção cujas regras devem ser conhecidas e cujas justificativas devem ser controladas. É preciso apontar as condições de legitimidade desse tipo de categorização. Seria bem possível, por exemplo, que as noções de “influência” ou de “evolução” originassem uma crítica que as colocasse – por um tempo mais ou menos longo – fora de uso. (2007, p.28). O argumento de Foucault é justificável nesse caso porque reafirma não somenteponto de partida, mas norteia esta tese como um todo por não se dedicarexclusivamente ao debate sobre a estrutura, mas sim no campo em que se manifestam,se cruzam, se embricam e se especificam as questões do ser humano (2007, p. 18),estendidas aqui à interface e às relações homem-máquina. Defender o apagamento das fases ao estudo da interface não significa apontar quetodo o mundo se enganou, mas definir uma posição singular de exterioridade de suasvizinhanças. Mais do que reduzir os outros ao silêncio, fingindo que seu propósito é vão 130
  • – é tentar definir esse espaço em branco de onde falo, e que toma forma, lentamente, emum discurso tão incerto ainda (IBIDEM, p 19). Não é sem razão que os conceitos de arqueologia e genealogia de Michel Foucaultdão sentido a essa questão. A arqueologia foi nos anos 1970 o método de pesquisa dofilósofo francês, tendo sido substituída depois pela genealogia. Para Foucault, umaarqueologia referia-se às ciências humanas: (...) Mais do que uma descrição paradigmática geral, trata-se de um corte horizontal de mecanismos que articulam diferentes acontecimentos discursivos – os saberes locais – ao poder. Essa articulação, claro, é inteiramente histórica: possui data de nascimento – e o grande desafio consiste em encarar igualmente a possibilidade de seu desaparecimento, como na orla do mar um ponto de areia (REVEL: 2005, p. 16-17). Ao passar a utilizar o conceito de genealogia, o filósofo insistiu sobre anecessidade de dirigir a leitura horizontal de discursividades para uma análise vertical –orientada para o presente – das determinações históricas do nosso próprio regime dediscurso. E qualificou o seu projeto de arqueologia das ciências humanas mais como umagenealogia nietzschiana do que como uma obra estruturalista. Em um texto sobre o escritor alemão Friedrich Nietzsche, afirmou que agenealogia é uma pesquisa histórica que se opõe ao desdobramento meta-histórico dassignificações ideais e das indefinidas teologias, que se opõe à unicidade da narrativahistórica e à busca da origem e que procura, ao contrário, a singularidade dosacontecimentos. Portanto, a genealogia trabalha a partir da diversidade e da dispersão, do acaso,dos começos e dos acidentes: não pretende voltar ao tempo para restabelecer acontinuidade da história, mas procura restituir os acontecimentos na sua singularidade(REVEL, op. cit. p. 17-52-53). Também corroboram a necessidade de uma abordagem que não leve em conta aideia de evolução as noções do pesquisador russo Lev Manovich (2008; 2010) sobrenova deep remixability (mistura de formatos e softwares) ou media visualization (criação 131
  • de novas representações visuais a partir de objetos de mídia ou parte deles). Deepremixability e media visualization serão aprofundadas mais adiante. O próprio Tim Berners-Lee recusa as nomenclaturas que definem a evolução daWeb. Em 2006, em uma entrevista a IBM, o engenheiro britânico criticou o uso do termoWeb 2.0 Criado por Tim O´Reilly em 2005, o termo se refere a conexão entre pessoasenquanto que Web 1.0 significa conexão entre computadores144. Para Berners-Lee essas nominações não passam de estratégia de marketing, poiso WWW foi criado com o propósito de conectar pessoas, ser um sistema aberto145. Emnovembro de 2011, O’Reilly afirmou que o conceito Web 2.0 é obsoleto: “Essa expressãofoi própria de outro momento que se tentava promover a ideia de Web, e creio que foibem-sucedida e criado entusiasmo, mas lamentavelmente envelheceu”.146 É com esse raciocínio que nesta tese as fases não serão aplicadas ao estudo dodesign de interfaces noticiosas. Não é possível utilizá-las para definir o seu atual estágioporque o ponto de partida é o mesmo: diagramação em colunas, página em branco ehierarquia, e as fases não dão conta desse ponto de vista (ver p. 67-71). O argumentoganha mais força se analisada a tipologia na Web, como mostra a pesquisa feita com osjornais e que será detalhada adiante.O que caracteriza o Jornalismo de Internet? Antes, porém, é preciso desconstruir outro aspecto importantíssimo: o quecaracteriza efetivamente a produção jornalística na Internet? Quais são os pontos departida para incrementar a narrativa? É sabido que texto e links marcaram o inicio dasinterfaces de notícia na rede. Quem não se lembra do jornal francês Le Monde de 1996? Eda BBC em 1997? As interfaces seguiam os padrões de conexões estabelecidos à época:banda estreita, a maioria das pessoas conectava-se por meio de linhas telefônicas.144 WHAT IS web 2.0? OReilly, EUA, 30 set. 2005. Disponível em: http://oreil.ly/umHTu6. Acesso jan.2012.145DEVELOPERWORKS interviews: Tim Berners-Lee. IBM developerWorks, EUA, 28 jul. 2006.Disponível em: http://ibm.co/pUWtcn. Acesso jan. 2012.146 "CONCEITO de web 2.0 é obsoleto", assegura Tim OReilly, Terra, Sâo Paulo, 23 nov. 2011. Disponívelem: http://bit.ly/AbVijW. Acesso jan. 2012. 132
  • Com o passar dos anos, os projetos passaram a ser desenhados tendo em conta oaumento do uso da banda larga e acesso a redes sem fio a um baixo custo, apopularização de computadores e dispositivos móveis, um maior interesse dosinternautas por notícias e interfaces constituídas a partir do rastreamento de padrões deuso e relações de consumo (JOHNSON: 2003, p. 89) e customização por dispositivos(computador de mesa, notebook, tablet e telefones celulares). Por causa disso, os jornais têm investido cada vez mais em conteúdo multimídia,seguindo à risca a cartilha de características elencadas abaixo (interatividade,hipertextualidade, personalização, multimidialidade/convergência, memória einstantaneidade/atualização contínua (PALACIOS, 2003, p. 14-36) e imersão(MOHERDAUI: 2005, p. 135-137) por diversos pesquisadores mundo afora,especialmente para Web e agora tablets. Porém, aplicadas à estrutura do papel, assemelham-se ao que Manovich chamoude estética Power Point (ver p. 118): Figura 78. Interface do Le Monde, 1996 (Internet Archive) 133
  • Figura 79. Interface da BBC, 1997 (BBC)• Interatividade – Jô Bardoel e Mark Deuze (2001) afirmam que a interatividade não é um termo ou conceito que surge com a Web. A interação já ocorria no rádio ou na tevê, por exemplo. Mas a Web amplifica essa ação. O leitor deixa de apenas receber a informação e se torna mais ativo. Além de interagir, ele pode produzir e distribuir informação. Para os autores, a notícia na Internet (Web e aplicativos) possui a capacidade de fazer com que o usuário sinta-se diretamente parte do processo jornalístico. Isto pode acontecer de diversas maneiras: pela troca de e- mails entre leitores e jornalistas, pela disponibilização da opinião dos leitores, como é feito em interfaces que abrigam fóruns de discussões, por meio de chats com jornalistas, etc. Arlindo Machado (1997) ressalta que a interatividade ocorre também no âmbito da própria notícia, ou seja, a navegação pelo hipertexto também pode ser classificada como uma situação interativa. Na opinião de Lev Manovich (2001), a nova mídia é essencialmente interativa, e o usuário pode interagir com a mídia ou com um objeto. O autor associa interatividade ao princípio do hipertexto. Para Meadows, interatividade pressupõe necessariamente ação e reação (ver p. 100).• Hipertextualidade - Possibilita a interconexão de textos por meio de links. João Canavilhas (1999) e Bardoel e Deuze (2001) chamam a atenção para a possibilidade de, a partir do texto noticioso, apontar-se links para várias pirâmides invertidas da notícia, bem como para outros textos complementares (fotos, sons, vídeos, e animações), outras interfaces relacionadas ao assunto, material de arquivo dos jornais, textos jornalísticos ou não que possam gerar 134
  • polémica em torno do assunto noticiado e publicidade. Deuze (2001) divide os links em internos e externos e pondera para a ética ao inserir link externo em uma publicação.• Personalização - Também denominada individualização, a personalização ou customização consiste na opção oferecida ao usuário para configurar ou receber os produtos jornalísticos de acordo com os seus interesses individuais. Há interfaces noticiosas que permitem a pré-seleção dos assuntos por meio de newsletter, newsalert, o RSS, SMS e MMS, entre outros. Outros serviços de personalização são o Blogging, no qual o internauta monta uma pasta com links de todos os blogs que deseja colecionar. O de.li.cio.us é uma espécie de bookmark no qual são armazenados links interessantes.• Multimidialidade/Convergência - Multimidialidade refere-se à convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato jornalístico. A convergência torna-se possível em função do processo de digitalização da informação e sua posterior circulação e/ou disponibilização em múltiplas plataformas e suportes, numa situação de agregação e complementaridade. São os chamados pacotes multimídia de Mindy McAdams (2005), que trazem em uma pequena tela material jornalístico como, por exemplo, slide show com áudio, infográficos animados, galeria de imagens, fotos randômicas, vídeos e textos, entre outros. Mark Deuze (2001) define a multimidialidade como a combinação de informação oferecida em diferentes formatos por uma ou mais empresas de comunicação.• Memória – Marcos Palacios (1999) argumenta que a acumulação de informações é mais viável técnica e economicamente na Web do que em outras mídias. No WWW, a memória torna-se coletiva, por meio do processo de hiperligação entre os diversos nós que a compõe. Desta maneira, o volume de informação anteriormente produzida e diretamente disponível ao usuário e ao produtor da notícia cresce exponencialmente no Jornalismo de Internet, o que produz efeitos quanto à produção e recepção da informação jornalística. O usuário pode 135
  • acompanhar a informação passo a passo e gravá-la, pode repetir a apresentação imediatamente ou pode assisti-la na quando quiser. • Instantaneidade/Atualização Contínua – Rádio, tevê e impresso têm processos de produção do noticiário diferenciados do ritmo do Jornalismo praticado na Web. No jornal, por exemplo, o leitor tem de esperar até o dia seguinte para saber as novidades. No rádio e na tevê, é preciso seguir as grades de programação. Na Internet não há essa delimitação de temporalidade. A notícia é distribuída em Web e aplicativos após ter sido devidamente apurada. Em alguns casos, publica- se uma linha apenas, e ao longo do dia o conteúdo é atualizado ou complementado, mesmo procedimento adotado em agências noticiosas. Javier Díaz Noci (2006) afirma que a informação atualizada é cada vez mais importante na Internet, tanto que os destaques das interfaces noticiosas aparecem junto com as últimas noticias. • Imersão – Janet Murray (2003) diz que a experiência de ser transportado para um lugar primorosamente simulado é prazerosa em si mesma, independentemente do conteúdo da fantasia. A autora se refere a essa experiência como imersão. Imersão é um termo metafórico derivado da experiência física de estar submerso na água. A sensação de estar envolvido por uma realidade completamete estranha [essa ação é pungente em games como os MUDs, por exemplo, nos quais jogadores assumem papeis de personagens147] está relacionada à psicologia. O próprio programa de computador serve como um narrador da história, publicando diálogos dos jogadores em seus monitores e apresentando entradas, saídas, descrições e alguns acontecimentos (MOHERDAUI: 2005, p. 135-137). É verdade que como afirmam Mark Deuze (2001) e Marcos Palacios (2003), aInternet potencializa as caracteristicas do Jornalismo: a tevê, por exemplo, é multimídia,oferece texto, áudio, foto e vídeo. O CD-ROM também é multimídia, é hipertextual.147 Para saber mais sobre MUDs, ver: http://bit.ly/zY6T6J. Acesso mar. 2012. 136
  • Pode ser imersivo, mas não oferece ainda atualização contínua nem tampoucointeratividade ou memória. A não ser que faça uso da transmídia, narrativa que sedesenrola através de vários suportes midiáticos, com cada novo texto contribuindo demaneira distinta e valiosa para o todo. (JENKINS: 2008, p. 135). Foi com o CD-ROM que o termo multimídia se popularizou no início da década de1990, sobretudo com desenhos de interfaces para arte digital ou visitação de exposiçõesvia CD-ROM, denominado à época new media. Depois, ganhou a Web. (MANOVICH: 2008,p. 82-83). Aliás, naquela época a definição new media virou slogan de entrega deconteúdo por Internet, tevê digital ou CD-ROM e DVD. Muito mais voltada à tecnologiaem si e ao dispositivo que ao conteúdo (HARRIES: 2002). Manovich, ao contrário, a caracterizou como convergência de formas culturaiscontemporâneas (interfaces, hipertexto e base de dados) e modelos anteriores, como ocinema, baseadas no computador (2001, p. 25). O exemplo da revista NEO, a primeira dogênero no Brasil, é esclarecedor, conforme imagens exibidas nas próximas páginas.Figuras 80 e 81. Interface da edição número 17 da NEO (1997), a primeira revista em CD-ROMno Brasil. Nesta edição, a exposição de fotos do ex-guerrilheiro argentino Che Guevara assinadaspor Alberto Corda é o destaque da matéria de capa. Naquele ano, a revista reunia elementosconsiderados característicos do Jornalismo praticado na Internet, como hipertextualidade,multimidialidade e imersão. Com uma diferença: primor no desenho da interface.Frequentemente, os textos eram acompanhados de trilha sonora, recurso pouco comum na Web- principalmente hoje em dia. 137
  • Figuras 82 e 83. Interfaces da revista NEO, edição número, 16. Detalhe para o anúnciomultimídia da Volkswagen: ao pular a página, a porta da Kombi se fecha. Outra diferençaimportantíssima. O tamanho do anúncio e a forma pela qual é exibido, sem incomodar a leituracomo ocorre nas interfaces do WWW. Em geral, eles pingam na tela durante a navegação. Outroponto a destacar é a matérua sobre um disco novo da Rita Lee. O texto acompanha videoclipe eáudio do álbum. Figuras 84, 85, 86 e 87. Interfaces da revista NEO, edição número, 16. Em relação à interatividade na mídia tradicional (rádio, jornal, revista, tevê), o rádiotem ampla capacidade de interação, ainda que opere com controle por causa de sua 138
  • lógica orientada no modelo de comunicação um-todos (LÉVY: 1999, p. 164). Porém, é omeio no qual há uma maior interação entre ouvinte e jornalista. Isso se dáprincipalmente por telefone. Com o advento da Internet, surgiram outras ferramentas como e-mail e redes sociais(ainda que sejam dispositivos todos-todos), incorporadas às mídias, mas a frequênciacom a qual ocorre a relação um-um (LÉVY, loc.cit) é maior no rádio148. Steven Johnsonconta que o rádio começou como um meio distribuído, muitos-muitos, bottom-up149, demodo muito parecido coma Web em seus primórdios, mas logo se consolidou no modelode radiodifusão, dominado por redes nacionais como a RCA e a NBC (2001: p. 108). As interfaces noticiosas operam com uma lógica de interatividade definida por LevManovich como fechada (base de dados restrita). Para o pesquisador russo, todacomunicação intermediada por computador é interativa, que pode ser fechada ou aberta(software ou interface responde diretamente às ações dos usuários). Manovich usou essa classificação para exemplificar os games e a comunicação dojogador com uma base de dados. Trata-se de interação homem-máquina - e não homem-homem - na qual o jogador realiza uma ação e o banco de dados reage a ela (2008). Interatividade, de fato, pressupõe ação e reação (LÉVY: 1999; DEUZE: 2001;MEADOWS: 2003). De nada adianta chamar interatividade botões de impressão,aumento ou diminuição de fonte, envio de e-mail ou compartilhamento de conteúdo emredes sociais. Na realidade, são ferramentas que pressupõem algum tipo de ação, mas nãonecessariamente uma reação. Para Giselle Beiguelman (MONACHESI: 2004), a148 A noção de Pierre Lévy de dispositivo comunicacional um-todos, um-um e todos-todos (1999, p. 64) éaplicada à interatividade. Para Lévy, um-todos se refere a: imprensa, televisão e rádio como forma dedistribuição de informação. Assim como um-um é aplicado a telefone e correio e todos-todos aconferências, sistemas para ensino ou trabalho cooperativo e processos comunicacionais em rede.149 Bottom-up designa qualquer sistema material cujo comportamento relativamente regular é o resultadode interações aleatórias de seus elementos. A estratégia bottom-up preocupa-se com a singularidade dabase material dos processos mentais. Explica os processos cognitivos (que se apresentam comosequenciados e centralizados) como resultante de interações paralelas e descentralizadas de uma unidadebiológica básica bem definida, como os neurônios (JOHNSON: 2001, p. 108). 139
  • interatividade virou uma espécie de commodity no qual prevalece uma lógica declicagem burra em que o que vale é o ponto de chegada em detrimento ao processo - ummal necessário para chegar a um fim pré-determinado. Visto da perspectiva da narrativa baseada em dados (aberta) de Manovich, ohipertexto também é um elemento interativo. Para o pesquisador russo, o internautaatravessa uma base de dados, segue links estabelecidos pelo designer dessa interface.Portanto, o autor entende que a narrativa interativa é a soma de múltiplas trajetóriasatravés de uma base de dados (2001, p. 227). Ou seja, leitor se torna o personagem da narrativa ao interferir nela (MACHADO:2007). Isso reconfigura o conceito tradicional de narrativa, ancorado em uma sequênciade ações e de experiências feitas por um certo número de personagens, representadosem situações que mudam ou a cuja mudança reagem, e cujo leitor apenas acompanha oenredo (RICOEUR: 1994, p. 214). Embora o link seja considerado um fator condicionante do WWW de Berners-Lee nãosó para David Weinberger (ver p. 32), mas para Deuze também, a técnica foi utilizadaanteriormente em projetos de CD-ROM, ainda que com algumas limitações do suporte,mas com linkagens para Web. Na realidade, como afirma o pesquisador holandês, o link éo ponto de partida (2001). Aliás, antes de o protocolo ser inventado surgiram dezenas de sistemashipertextuais, porém não tão populares150. Mas na rede, ocupa (como a multimídia) boaparte da narrativa, embora utilizados muitas vezes sem critérios de importância (tantopara notícia quanto para interface). É comum não haver estratégias para links comartigos relacionados nem definição de lugar de inserção, se no meio do texto ou ao final. Já que a intenção é manter a mesma lógica das mídias tradicionais, talvez fosse o casode aplicar a noção de Herbert Gans (1979 apud WOLF: 2002, p. 197), válida até mesmo150 Ver http://bit.ly/qrUCRN. 140
  • para a Web: “Os critérios de relevância devem ser flexíveis, relacionáveis e comparáveis;inclusivos ou exclusivos, facilmente racionalizados e orientados para a eficiência”.Figura 88. Interface do estadão.com.br com a cobertura da morte de Michael Jackson, em 2007.O excesso do Estadão é o número de faixas musicais disponíveis.Figura 89. Interface do New York Times com a cobertura da morte de Michael Jackson: uma sériede links colocados no texto que atrapalham a leitura. Link leva a cada artista ouvido pelareportagem. 141
  • Figura 90. Interface do Último Segundo, com a cobertura da morte de Michael Jackson. No jornal do iG (Internet Group), percebe-se claramente um critério na escolha de cada link O principal crítico do uso que se faz do hipertexto é o próprio pai do termo: TedNelson (ver p. 33-34). Para Steven Johnson, autor de Cultura da interface (2001), osequívocos têm origem no Vale do Silício: “a maioria das empresas voltadasespecificamente para a Web ignorou deliberadamente o hipertexto, preferindoconcentrar-se nos adereços mais televisivos dos vídeos granulosos e animaçõesrodopiantes” (2001, p. 82). Jacob Nielsen resumiu o problema do link como texto âncora para um hipertexto daseguinte maneira: “clique aqui”. Para o especialista em usabilidade, essa regra tem duasjustificativas. Em primeiro lugar, apenas os visitantes que usam mouse realmente clicam,enquanto que pessoas com alguma espécie de deficiência ou que manipulam interfacespor meio de toque não clicam. Em segundo, as palavras “clique” e “aqui” dificilmente contêm informações e,portanto, não devem ser usadas como elementos de design que atraem a atenção dousuário. Ele defende que só devem ser transformadas em hipertexto as informaçõesmais importantes (2000, p. 55). 142
  • A rede inglesa BBC, que lançou no começo 2010 um sofisticadíssimo guia comdiretrizes para design151, usa até hoje click to play na versão brasileira. Arrancou daversão inglesa no projeto que estreou em julho do mesmo ano. Trocou a redundância e oimperativo pelo botão152 (veja comparação abaixo). Aliás, o “clique aqui” foi por muitotempo (e em alguns casos ainda é) sinônimo de interatividade. Em gadgets, como iPod, otermo é toque para assistir (tradução do inglês: tap to play). Figuras 91 e 92. Versões brasileira e inglesa de destaque em vídeo da BBC sobre a Líbia, 2011. Mas não é só a BBC que opera nessa lógica. A americana CNN também: Figura 93. Interface da CNN sobre a Líbia, 2011: chamada de vídeo “click to play”153151A NEW global visual language for the BBCs digital services. BBC Internet Blog, Londres, 16 fev. 2010.Disponível em: http://bbc.in/o2x7Yv. Acesso mar. 2012.152 BBC News website redesign: Frequently asked question. BBC News, Londres, 16 jul. 2010. Disponível em:http://bbc.in/qMoIEW. Acesso mar. 2012.153CNN.COM Gets a Radical Redesign. ReadWriteWeab, EUA, 22 out. 2009. Disponível em:http://rww.to/p5x7Rj. Acesso jan. 2012. 143
  • O conceito dessas interfaces pouco difere do Movie Map, de 1978, considerado oprimeiro sistema hipermídia, desenvolvido por Andrew Lippman e seus colegas do MIT(Massachussets Institute of Technology) que hoje integram o Media Lab do instituto. O Movie Map consistia em uma aplicação de turismo que permitia ao usuário simularuma viagem por Aspen, no Colorado (EUA). Ele foi implementado por meio de umconjunto de videodiscos com fotografias da cidade. Em uma alusão ao Google Street View,os filmes foram captados por câmeras montadas em carros que circulavam pelas ruas deAspen. Figuras 94 e 95. Interfaces do Movie Map, do MIT Quanto à personalização, é algo que tem se sofisticado desde que o WWW tornou-sepopular. São as chamadas mídia push, que empurram informação sob medidadiretamente ao usuário. O primeiro sistema a aplicar essa tecnologia foi o PointCast. Surgiu em 1996 com aproposta de oferecer customização de serviços no desktop. Agregava em uma telainformações de várias fontes. Seu conceito era baseado no Daily Me, idealizado porNicholas Negroponte, do MIT (Massachusetts Institute of Technology). A Microsoftchegou a propor uma parceria, mas o PointCast se tornou tão popular que comprometeuseu funcionamento e deixou de operar154.154DO POINTCAST à Zite. Último Segundo, São Paulo, 11 mar. 2011. Disponível em: http://bit.ly/uU8ieC.Acesso jan. 2012. 144
  • Mas a mídia push não parou com o PointCast. Há um sem número de sistemas depersonalização, os mais comuns deles atualmente são Newsletter e RSS. Em 2011, foilançada a revista Zite para iPad, organizada com base no que seus contatos têmcompartilhado no Twitter ou no Google Reader. O grande problema desses agentes inteligentes ocorre quando estão atreladas verbasdo departamento de marketing das empresas e, por isso, a entrega geralmente setransforma em um empurrão, na opinião de Steven Johnson: O que precisamos realmente é de melhores maneiras de puxar. É em torno disso que o projeto competente de interface sempre girou. É a única maneira de manter as solicitações indesejadas fora de nossos desktops. Os empurradores imaginam um futuro em que cada anúncio passageiro é decisivo para as nossas necessidades, em que cada boletim sabe o nosso nome. Mas e se quisermos um mundo sem boletins? (2001, p. 139-140). Figura 96. Interface do Zite para iPad155155 http://bit.ly/t1Of3A. Acesso jan. 2012. 145
  • Figura 97. Interface do PointCast 156 Obviamente, há casos bem-sucedidos e que representam uma ruptura em relação aformatos existentes como o Firefly, desenvolvido pela equipe de Pattie Maes, do MediaLab, do MIT157, conforme será detalhado no próximo capítulo.156 Para saber mais sobre o PointCast, ver: http://bit.ly/nWPiYz. Acesso jan. 2012.157 PATTIE. Wired, EUA, dez. 1997. Disponível em: http://bit.ly/sYQqTk. Acesso jan. 2012. 146
  • Capítulo 3 “A Internet está em fluxo constante” Geert Lovink 147
  • 3. Interfaces nômades Rupturas e remediações O Firefly começou como um simples programa de recomendação de música queapresentava títulos de discos e pedia ao usuário que os classificasse em uma escala deum a sete. O truque estava em classificar o maior número de discos possível: o usuárioavaliava dez discos e o Firefly oferecia outros dez. Quando o ciclo de opções se tornava insuficiente, era possível instruir o softwarepara recomendar outra música. Um botão estimulava a ação: “Vai, agente”! Ao clicarnele, o agente trazia de volta uma lista de discos ainda não classificada, mas que eleentendia que seria apreciada (JOHNSON: 2001, p. 142). O que isso significa? Que o computador havia elaborado um modelo mental dosinteresses do usuário e fizera projeções a partir disso. Por trás dessa dinâmica está achamada filtragem colaborativa. Nesse caso, com a premissa do senso comum. Firefly seapoiava na transferibilidade do gosto: supunha que as pessoas com interesses emcomum iriam partilhar também outros interesses. Porém, o que tornava o sistema poderoso era o mecanismo de feedback incorporadoao agente. Esse processo coletivo, de baixo para cima (bottom-up), gera um imensonúmero de padrões potenciais a considerar, e o feedback do espectador ajuda o agente adecidir que padrões potenciais vale a pena conservar (IBIDEM, p. 143-145). Exemplos como esse do Firefly mostram a capacidade de a rede construir gigantescosbancos de dados baseados em filtragem colaborativa, o que também interferediretamente em memoria e atualização contínua. É verdade, como afirma Palacios (2003, p. 22-23), que algumas característicasapresentadas anteriormente são encontradas em outros suportes jornalísticos e, emalguns casos, são potencializadas na Web, como é o caso da imersão, por exemplo. Não 148
  • são apenas as obras de arte que provocam imersão, mas projetos gráficos de jornais ounarrativas de tevê ou cinema também o fazem. Prova disso são os diversos filmes em 3Dlançados recentemente, e Avatar (2009) é uma espécie de divisor de águas desseformato. É correto o raciocínio de Palacios ao demarcar as rupturas ocorridas no Jornalismode Internet, como a dissolução dos limites de espaço e tempo para publicar notícias (op.cit. p. 24-25). Entretanto, como já afirmado anteriormente, a atualização continua operana lógica do tempo diferido (ver p. 56). Outra ruptura de igual importância é a memória,que pode ser recuperada pelo produser ou prosumer para produzir (ou recriar)informação. De novo o exemplo do Firefly é esclarecedor porque utilizava uma base de dadosconstituída a partir da atualização contínua. Nesse caso, a filtragem colaborativabaseada em feedback configura-se uma ruptura e não uma potencialização. Não há namídia tradicional forma de personalização que dê conta dessa dinâmica. Trata-se de algocompletamente novo. O problema da recuperação da informação são as tecnologias de browsers adotadasna elaboração de interfaces de dados de dez, quinze anos atrás. Quando são modificadasou estão defasadas, a memória se perde. Quem não se frustrou ao acessar um arquivo do WaybackMachine e se deparou como seguinte aviso: seu browser não lê essa interface? A explicação é simples: ou o servidormudou e o conteúdo não foi migrado ou foi corrompido e desapareceu. A solução seriaatualizar a linguagem de programação158. Se na Web é algo complexo, no CD-ROM a dificuldade aumenta ainda mais. As telasdas edições 16 e 17 da revista NEO, de 1997, capturadas para ilustrar as páginas 119 e120 desta tese foram abertas em um computador com sistema operacional Windows 97158 Para saber mais sobre browser, ver: http://bit.ly/n6xEaN. Acesso jan. 2012. 149
  • (Microsoft), embora a configuração exigida refira-se a Windows 95 ou 3.1 ou 3.11 paracomputadores. O software não roda em versões atuais. Mesmo que haja a constatação de que a Web possibilita reconfigurar o atual processocomunicacional, as empresas de comunicação ainda operam em uma lógicaestruturalista, baseadas na remediação, conforme revela pesquisa com os seguintesjornais: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias,Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New YorkTimes, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post. Figura 98. Interface do El País, 1996159 De modo geral, a composição tem sido norteada ao longo dos últimos anoslevando em conta principalmente: a) aumento do uso da banda larga no mundo; b) baixo custo de acesso a Internet;c) crescimento do interesse dos usuários por notícias em redes sociais; d) inovaçõestecnológicas que possibilitam desenvolver conteúdo jornalístico na rede; e) tendênciasde design observadas a partir de análise de perfil de consumo do usuário e do tipo deconfiguração de seu computador.159 http://bit.ly/pYl9ia. Acesso jan. 2012. 150
  • A análise aponta para a categorização feita acima. Há uma série de elementospadronizados que formam o conjunto das interfaces: • Exibição de estatísticas (matérias mais lidas, mais comentadas, maisenviadas por e-mail, ou nuvens de assuntos relacionados); • Ferramentas que pressupõem interatividade e de serviços (SMS, RSS,newsletter, podcast, personalização, comentários, enquetes, correções e fale conosco,entre outros), formatos de conteúdos (blogs, reportagem multiforme, texto multilinear,pacotes multimídia, redes sociais, tags e open source); • Multimídia (áudio, vídeo, slide show, infográfico animado, fotos e galeria defotos); • Área de registro e login; • Versões clássicas de jornais, rádios ou tevê; • Sistema de busca avançado (por data, texto e multimídia); • Resolução de tela (a maioria apresenta configuração 1024 ou maior); • Conceito do acesso ao conteúdo se dá por mouse na tela do computador(em gadgets como iPad e iPhone, o acesso é feito por toque); • Menus são predominantemente horizontais; • Serviços pagos e gratuitos (conteúdo e aplicativos); • Anúncios de mídia rica e estáticos (como os links patrocinados). Em buscade uma identidade visual e para fidelizar o usuário, algumas interafces jornalísticas têmelementos diferenciados, como os widgets do estadão.com.br ou as versões em outraslínguas e a acessibilidade para deficientes, da BBC160. Em relação à tipologia, se comparadas as versões impressa e de Web, percebe-se quea lógica é a mesma já apontada anteriormente o jornal é um quebra-cabeça que contémmanchete, texto, fotos e legendas, como pode ser observado nas tabelas das páginasseguintes.160Para saber mais sobre as ferramentas de composição, consultar http://bit.ly/9tGlir. Acesso em jul.2011. 151
  • Tabela 5. Quadro comparativo entre jornalismo impresso e de Internet Impresso Internet elementos manchete manchetebásicos do design texto hipertexto foto multimídia legenda redes sociais Impresso Internet manchete estática, definida manchete estática, definida por tipologia, por tipologia, formato, tamanho formato, tamanho e espaço, pode ser e espaço, pode ser centralizada e centralizada e alinhada alinhada (esquerda ou (esquerda ou direita) direita) Impresso Internet texto pirâmide hipertexto Pirâmide invertida invertida, com links; simula hierarquia o papel, hierarquia diagramação em diagramação em colunas, remissão coluna; remissão a a Internet outras mídias 152
  • Impresso Internet foto estáticas, multimídia dinâmicas, complementam multimídia forma texto; têm 3 manchetes, cortes: horizontal, submanchetes; vertical e em alguns casos, quadrada; são há fotos fechadas; destacadas na no geral, são capa ou nas horizontais, internas; são quadradas e abertas/fechadas retangulares legenda usadas para chamada uso de chamadas descrever a para destacar imagem, fato e multimídia; são personagens; são publicadas publicadas de três geralmente abaixo formas: abaixo da das imagens imagem, na lateral e entre duas fotosA Web de Ted Nelson Nessa perspectiva, quem melhor analisou a mídia na Internet foi, sem dúvida alguma,Ted Nelson. Crítico fervoroso da Web, o fato é que o sociólogo americano trouxe, quandoanunciou seu Xanadu, propostas extremamente possíveis ainda que vistas comovisionárias. Em entrevista ao programa Roda Viva, programa da TV Cultura, em 2007161, afirmouque “os parágrafos ficam suspensos no ar, e as conexões podem ficar suspensas no ar,161 http://bit.ly/ABJojM. Acesso jan. 2012. 153
  • sem necessariamente terem um formato retangular". O XML (Extensible MarkupLanguage) torna isso perfeitamente possível (ver p. 109). Figura 99. Diagrama do Xanadu (1965), projeto de hipertexto de Ted Nelson Para Nelson, a interface da Web segue tradições, e a hierarquia é parte disso. Emborao argumento seja o de que a constituição se deu de modo convencional por ter sidoconsiderada “correta, natural e única forma", na opinião dele, são modelos de“aprisionamento que constrangem e distorcem nosso trabalho e nosso pensamento”(NELSON: 2001). Outra questão igualmente importante é a analogia do design de interface que parteda premissa de que a reprodução de metáforas visuais dá conta do entendimento que ousuário tem do mundo que o cerca (JOHNSON: p. 18). Esse raciocínio se encaixa perfeitamente nos atuais projetos de Jornalismo deInternet analisados para esta pesquisa, a começar pela interface. No impresso, há osformatos tabloide e standards. Na Web, horizontal ou vertical. 154
  • Até meados dos anos 2000, as interfaces eram construídas em 800 x 600 pixels,padrão vertical, com menus nas laterais esquerdas. Depois, 1024 x 768 pixels em diante,horizontal. A diagramação também segue a lógica tradicional, entre três e sete colunas,com a diferença do uso do link na rede. Tabela 6. Quadro comparativo entre jornalismo impresso e de internet Impresso Internet interface/ tabloide horizontal ou formato standard, edição vertical, com com templates scroll; interfaces diferenciados têm formatos semelhantes ao standard; edição em um ou dois templates Também se aplica o mesmo à manchete: nas duas versões, indica conteúdo a ser lido,prioriza grandes notícias, é âncora da matéria e ajuda o designer a organizar a interfacepara o leitor acessá-la. À exceção de alguns jornais, regra geral, usa-se o manual deredação da mídia clássica para o newsmaking. Procedimento idêntico é verificado nos cabeçalhos. A inglesa BBC e o brasileiroÚltimo Segundo162, por exemplo, têm guias específicos para o Jornalismo de Internet. ABBC, inclusive, criou diretrizes especialmente para projetos gráficos na rede163. Porém,sob a lógica da metáfora.162 http://bit.ly/r8k2h0.163 http://bbc.in/o2x7Yv. 155
  • Tabela 7. Quadro comparativo entre jornalismo impresso e de internet Impresso Internettipologias com serifa nos sem serifa (facilita textos; nos selos a leitura), uso de ou destaques, são um ou dois tipos, usadas letras sem em itálico ou serifa, com tipos negrito; textos não variados, em justificados itálico ou negrito; textos justificadosPor uma crítica da metáfora Mesmo reticente, Jakob Nielsen afirma que a metáfora é útil por duas razões: ofereceestrutura unificadora ao design e facilita o aprendizado ao permitir que as pessoas usemna Internet o conhecimento que já têm sobre seus sistemas de referência (2000, p. 180). O especialista em usabilidade critica, portanto, os ícones de compras, representadospor carrinhos: “o conhecimento do sistema de referência indicaria que a forma decomprar cinco cópias de algo é repetir a ação de colocar um único item no carrinho cincovezes” (IBIDEM). Para Steven Johnson, essas metáforas são o idioma da interface gráficacontemporânea e é esse idioma que atesta o extraordinário sucesso das GUI (graphicaluser interface) desenvolvidas pela Xerox no Palo Alto Research Center e popularizadasdepois pelo Macintosh, da Apple. O Mac, anunciado em 1984 por Steve Jobs, morto em outubro de 2011, vítima de umcâncer raro no pâncreas, foi o primeiro computador pessoal com interface amigável(mouse, janela e ícones), mais tarde copiado pela Microsoft, de Bill Gates, no Windows.Explica Johnson: 156
  • Talvez toda a inovação high tech seja acompanhada de flashbacks imaginários desse tipo, mas nosso próprio momento histórico acrescentou um desvio inusitado a essa longa tradição. As metáforas low tech, orgânicas, pertenciam em tempos passados aos que estavam em descompasso com a curva de potência da máquina, os ludistas e os antediluvianos, os poetas e os romancistas, os que recorriam a analogias mais antigas por estarem perturbados demais pelo choque do novo. Na sociedade de hoje, a missão de traduzir foi transferida para os técnicos. Na era da interface gráfica, com suas metáforas visuais de lixeiras e pastas em desktops, flashbacks imaginativos tornaram-se proezas de programação, engendradas por bruxos high tech que programam em linguagem assembly164 (2001, p. 19). Jobs fundou a Apple em abril de 1976, aos 21 anos, na garagem de casa, em Los Altos(EUA), com amigos, incluindo o engenheiro Steve Wozniak e Mike Markkula, ex-gerenteda Intel. Para comprar as primeiras peças que montariam o Apple I, Jobs investiu US$1.500 da venda de uma Kombi, e Wozniak entrou com US$ 250 que faturou com umacalculadora HP 65. O primeiro produto a estourar no mercado foi o Apple II, em 1977, que difundiu aideia de computadores domésticos e os tornou milionários: o valor da empresa foi a US$1,8 bilhão. A primeira impressora laser foi popularizada pela Apple165. Depois, veio a aposta na mobilidade: o executivo modificou a indústria da música aolançar, em 2001, o iPod, gadget que permite às pessoas ouvir música em qualquer lugardo mundo. E o mais importante: pagando por isso. Com o iTunes, Jobs criou um modelode negócio para conteúdos que antes estavam grátis na rede. Por meio da plataforma, épossível comprar discos, filmes, revistas e jornais, entre outros. Em 2007, anunciou o iPhone, cuja interface reconfigurou as funções do telefone e omodo pelo qual as pessoas fazem uso dele. Três anos depois, surgiu o iPad, que impôs de164Assembly ou linguagem de montagem é uma notação legível para o código de máquina queuma arquitetura de computador específica usa. A linguagem de máquina, que é um mero padrão de bits,torna-se legível pela substituição dos valores em bruto por símbolos chamados mnemônicos. Umamnemônica é um auxiliar da memória. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em:http://bit.ly/vWcBqp. Acesso jan. 2012.165 GLOBO, 2011, p. 28-29. 157
  • vez a cultura dos aplicativos (pagos) e da mobilidade. Sem mouse, com acesso apenaspor toque166. Figura 100. Apple I, lançado em 1976 pela empresa de Steve Jobs167 Figura 101. Anúncio do Macintosh, em 1984: Introducing Macintosh. For the rest of us. Antes de a Apple criar um plano para consumo pago de conteúdo para seus produtos,o que valia na rede era o consumo sem custo. Quem não se lembra do alvoroço causadopelo Napster, criado por Shaw Fanning (sócio de Mark Zuckerberg no Facebook) e Sean166 STEVE JOBS era um gênio. O Globo. 11 out. 2011. Disponível em: http://glo.bo/rBnecc. Acesso jan.2012.167 Para saber mais sobre o Apple I, ver: http://bit.ly/qLrH. Acesso jan. 2011. 158
  • Parker? A plataforma assentou a cultura do compartilhamento hoje difundidaamplamente por serviços como o Torrentz168, por exemplo, que permite download grátisde música, filmes e livros, entre outros. Criado em 1999, o Napster oferecia áudio no formato MP3, até então inexistente nomercado. Os arquivos eram trocados por meio de uma rede P2P, na qual internautasconectados apareciam como servidores de arquivos. Após muitos processos, o Napstersaiu do ar pela primeira vez em 2001. Voltou a funcionar em 2003, com sistema detarifas. Em 2011, foi vendido a Rhapsody (empresa de serviços de streaming vinculadaao Best Buy)169. O programa se difundiu por três razões muito simples (SHIRKY: 2010, 115): (1) O dado digital é perfeita e infinitamente copiável a custo marginal zero; (2) as pessoas vão compartilhar se o compartilhamento for simples o bastante, e nessas condições nós normalmente não somos mesquinhos; e (3) Shawn Fanning criou um sistema para conectar as ações (1) e (2) com os incentivos certos. Isso foi o que virou a indústria fonográfica de cabeça para baixo. Tanto que o modelo original do Naspter foi destruído quando os processos judiciais da indústria aumentaram o custo de conectar o (1) e o (2) para um número significativo de pessoas. Figura 102. Logomarca do Napster, criado por Shaw Fanning e Sean Parker168Torrent Search Engine http://bit.ly/snmIQ4. Acesso. Jan. 2012.169NAPSTER encerra de vez suas atividades. INFO Online, São Paulo, 2 dez. 2011. Disponível em:http://bit.ly/sdh3iN. Acesso jan. 2012. 159
  • iPhone, iPod e iPad talvez sejam os primeiros dispositivos a não reproduzircompletamente metáforas visuais como o Macintosh. A operação se dá a partir deaplicativos escolhidos pelo usuário. No iPhone, por exemplo, não há o ícone querepresenta uma lixeira ou pasta de arquivo. Para apagar um aplicativo, basta pressioná-lo e clicar no xis que aparece ao lado dele. Já o iPad tem ícones que emulam uma estantede livros (iBook) e uma banca de jornal. A mais recente versão do sistema operacional doiPhone também traz a banca. Giselle Beiguelman critica a necessidade da reprodutibilidade: O pressuposto é o mesmo do reducionismo. Não pode mudar porque se mudar as pessoas não entendem. Essa ideia pressupõe um sujeito universal domesticado, em permanente controle do seu imaginário. Assim, o mercado se garante pela reprodutibilidade. Como se garante? Precisa de um ícone que represente uma casa para entender que o que se chama homepage é um lugar? O teclado tem de ser Qwerty e o monitor tem de parecer uma tevê senão as pessoas não entenderão que se trata de um computador? (2009). Essa questão leva a, pelo menos, dois equívocos: o primeiro deles, já abordado nosegundo capítulo (ver p. 94), é a redundância, o excesso de repetição nas interfacesprincipais. Michel Foucault explica o problema das semelhanças ou dos signos deconveniência: “teve influência na construção do saber oriental e desempenhou papelfundamental até o século 16 quando a representação se dava como repetição” (2007, p.23-24). O segundo são as terminologias, incoerentes com a dinâmica da rede. Essa lógica seexplica pelo fato de o projeto gráfico (e editorial) ser pensado pela continuidade dotempo e pelas tradições de similaridade que constituíram as práticas simbólicas damodernidade, elaboradas no século 19 (IBIDEM). Observar as interfaces atuais é comovoltar aos séculos 16 e 19. Ocorre, porém, que o computador se tornou uma máquina social que opera emrelação a outras máquinas, com ferramentas que têm transformado seus pressupostosbásicos: datilografar e fazer cálculos. Isso modifica completamente a interface. Que 160
  • precisa ser repensada do ponto de vista de um mapa cognitivo, o que requer uma novalinguagem visual e um novo vocabulário crítico. É urgente sistematizar critérios parajulgar a interface (JOHNSON: 2001, p. 20-21). O argumento de Giselle Beiguelman é esclarecedor: Talvez a metáfora do site para designar a situação de não localidade que estrutura o ciberespaço, esteja na raiz desse fenômeno de equívocos terminológicos que não são inconvenientes por serem errôneos, mas por mascararem a situação inédita de uma espacialidade independente da localização em um espaço tridimensional (2003. p. 11-12). Nem mesmo pode-se dizer que esse conjunto de metáforas opere com tamanho sucesso por aproximar distintos backgrounds e repertórios simbólicos, cumprindo a função de um ritual pedagógico de “transição” entre formações culturais distintas. A percepção desse tipo de situação não significa reconhecer que a Internet nada mais faz que incorporar um repertório cultural já existente (IBIDEM, p. 13). O que está em jogo é compreender de que modo a interfere no processocomunicacional (ver p. 110) e, então, repensá-la a partir da notícia que circula no fluxocujo tempo agora é simultâneo e atemporal (CASTELLS: 2002, p. 553-560). De queinterface fala-se? Certamente, não mais àquela constituída a partir da remediação, a reprodução deuma mídia em outra. O conteúdo da interface é a media visualization, termo cunhadopelo pesquisador russo Lev Manovich, uma mistura de softwares e formatos sem reduzi-los somente a dados.Uma nova linguagem visual híbrida É nesse contexto que se dão as rupturas, não mais restritas somente àscaracterísticas do Jornalismo de Internet, como destacadas neste capítulo, masampliadas às teorias da comunicação como um todo. E a Web, de Tim Berners-Lee,possibilita essa mudança. 161
  • Em The language of new media (2001), o pesquisador russo Lev Manovichafirmou que a nova mídia não pode ser entendida em uma lógica de transposição de umaforma cultural existente, ou no sentido da metáfora (MCADAMS, 1995; BOLTER;GROMALA, 2003), remetendo-o a modelos anteriores. Pelo contrário, deve operar no sentido de migração ou de deslocamento, comoforma de ampliação dos atuais modelos narrativos. Manovich a definiu como “aconvergência de formas culturais contemporâneas (interfaces, hipertexto e base dedados) e modelos anteriores, como cinema, baseadas no computador” (2001, p. 25-48),cujas características são: 1) Representação numérica (todos os objetos da nova mídia são construídos emcódigos digitais); 2) Modularidade (a nova mídia possui uma estrutura modular, ou seja, pode sercomposta em módulos; 3) Automação (a representação numérica da mídia e sua estruturação modularpermitem automatizar muitas operações envolvidas na criação, manipulação e acessodas mídias); 4) Variabilidade (os objetos da nova mídia não são algo fixo de uma vez parasempre, mas algo que pode existir em diferentes e potencialmente em infinitas versões;a ordem dos elementos é essencialmente variável); 5) Transcodificação (traduzir uma forma cultural em outro formato). Sete anos mais tarde, em Software takes command (2008), o autor propõe umanova linguagem visual híbrida. Se antes, a nova mídia era resultado de formas culturaiscontemporâneas baseadas no computador, agora é definida por: a) mudança contínuanas formas (variáveis); b) uso do espaço em 3D como plataforma comum para o designde mídia; e c) integração sistemática de técnicas de mídia não compatíveis. É o que Manovich chama de deep remixabilility: o remix não envolve apenasconteúdos de diferentes mídias, mas também técnicas fundamentais, métodos detrabalho e modos de representação e expressão. 162
  • O pesquisador russo apoia-se na experiência com programas usados durante suatrajetória profissional para pensar a Cultura do Software - Word, PowerPoint, Photoshop,Illustrator, Final Cut, After Effects, Flash, Firefox e Internet Explorer, entre outros -,definida por ele como (p. 13): Um subconjunto de aplicativos de software que permite: publicação, criação, movimento, acesso, compartilhar e remixar imagens, seqüências de imagens em movimento, desenhos 3D, textos, mapas, elementos interativos, bem como várias combinações desses elementos, tais como Web sites, desenhos 2D, gráficos, jogos de vídeo,comerciais e artísticas instalações interativas, etc (enquanto originalmente este software aplicativo foi projetado para rodar no desktop. Hoje algumas das criações de mídia e ferramentas de edição também estão disponíveis como webware, isto é, aplicações que são acessadas via Web como o Google Docs). Para chegar a essa conclusão, Manovich faz uma revisão histórica do software,cuja expansão se deu principalmente na década de 1990 e nos anos 2000 e hoje deixoude ser considerada uma tecnologia invisível para se tornar o novo padrão intelectual daatualidade e estende também a noção de remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000) aocomputador. Ele atribui ao esforço da equipe de Alan Kay, na década de 70, no centro depesquisa da Xerox no Palo Alto (EUA), a existência de ferramentas, interface e serviçosdisponíveis nos computadores (MANOVICH, op. cit., p. 34-37). Embora o cientista americano não tenha sido o único a desenvolver aplicativos demídia como, por exemplo, programas de desenho e animação (escritos nos anos 1960),ele contribuiu para estabelecer um novo paradigma do computador como mídia (mediacomputing). Mas com um detalhe: a interface criada por Kay transformou o computadorem uma máquina que imita a mídia tradicional, com ferramentas de criação e ediçãosemelhantes (IBIDEM, p. 37). Ou seja, o computador vira uma máquina de remediação. Para Manovich, a única diferença entre a remediação das mídias e do computadorconsiste em saber como e o que eles remediam. Intrigado, o pesquisador russo pergunta:“Por que essas pessoas dedicaram suas carreiras a criar uma máquina de remediação? 163
  • Não havia nada de novo nas formulações teóricas de Alan Turing e Von Neumann 170sobre o computador imitar as mídias tradicionais?”: (...) Eu quero entender algumas das transformações dramáticas do que é a mídia, o que ela pode fazer, e como nós a usamos - as transformações que estão claramente ligadas à mudança de tecnologias anteriores de mídia para software. Algumas dessas transformações já ocorreram na década de 1990, mas não foram muito discutidas no momento (por exemplo, o surgimento de uma nova linguagem de imagens em movimento e design visual em geral). Outros nem sequer foram nomeados ainda. Ainda outros, tais como remix e mash-up cultura - estão sendo encaminhados o tempo todo, e ainda assim a análise de como eles se tornaram possíveis pela evolução de software de mídia até agora não foi tentada (IBIDEM, p. 38). A justificativa estaria no fato de Kay ter como propósito transformar ocomputador em uma mídia dinâmica pessoal (tradução de personal dynamics media) naqual é possível aprender, descobrir e criar. Foi o que seu grupo da Xerox fez: simulou amaioria dos meios dentro do computador e também acrescentou novos aplicativos a ele. Kay e seus colegas desenvolveram uma nova linguagem de programação quepermitiu criar novos meios de comunicação a partir de ferramentas já existentes. A essasferramentas criou-se uma interface unificada com símbolos e ícones para que o usuáriopudesse realizar várias funções (IBIDEM, p. 40). A mídia dinâmica pessoal do cientista americano é um novo tipo de meio decomunicação com capacidade de arquivar informação, de simular velhas mídias e deproporcionar conversação bilateral. Embora o computador tenha aparência visual dasmídias já existentes, essa mídia funciona de maneira diferente. Se considerar a fotografia digital superficialmente, ela remediará a fotografiaanalógica. Mas se for entendido o seu funcionamento e o que pode ser feito a partir ecom essa imagem digital, percebe-se que não há remediação e que há diferenças. Porexemplo, a imagem digital é representada por pixels, explica Manovich (2008): Por exemplo, considere a fotografia digital que muitas vezes imita a aparência na fotografia tradicional. Para Bolter e Grusin, este é o170 http://bit.ly/qqb7dI. 164
  • exemplo de como mídias digitais corrigem seus antecessores. Mas em vez de só prestar atenção à sua aparência, vamos pensar em como fotografias digitais podem funcionar. Se uma fotografia digital é transformada em um objeto físico no mundo - uma ilustração em uma revista, um cartaz na parede, uma impressão em uma t-shirt - funciona da mesma forma como o seu antecessor. Mas se deixarmos a mesma fotografia dentro de seu ambiente nativo do computador - que pode ser um laptop, um sistema de armazenamento de rede, ou em qualquer computador habilitado em dispositivo de mídia, como um telefone celular que permite ao usuário editar esta fotografia e movê-la para outros dispositivos e Internet - que pode funcionar de maneira que, na minha opinião, a torne radicalmente diferente do seu equivalente tradicional. Para usar um termo diferente, podemos dizer que uma fotografia digital oferece aos seus usuários muitos recursos que o seu antecessor não digital não pode oferecer. Por exemplo, uma fotografia digital pode ser rapidamente modificada de várias maneiras e igual e rapidamente combinada com outras imagens; instantaneamente movido ao redor do mundo e compartilhados com outras pessoas e inserido em um documento de texto, ou um projeto arquitetônico. Além disso, podemos automaticamente (ou seja, executando os algoritmos apropriados) melhorar o contraste, aumentar a nitidez, e até mesmo em algumas situações, remover borrões (41). (...) Novos DNAs de uma fotografia digital são devidos ao seu lugar particular de nascimento, ou seja, dentro de uma câmera digital. Muitos outros são o resultado do atual paradigma da computação em rede em geral (42).A primeira interface de conversação Embora o trabalho de Alan Kay seja importantíssimo no estudo da interface, háque se destacar o Sketchpad, anunciado em 1962 por Ivan Sutherland, considerado aprimeira interface de conversação por Susan Brennan, pesquisadora da obra deSutherland. O Sketchpad foi o primeiro sistema de manipulação direta de imagens em umatela. O uso se dava por meio de uma caneta ótica. Também foi o pioneiro ao utilizarprogramação aplicada a objetos, que Kay ajudou a desenvolver171. Sutherland detalhou171A TALK by Alan Kay. New Media Reader, EUA, 27 mai. 1986. Disponível em: http://bit.ly/nOf0vX.Acesso jan. 2012. 165
  • o Sketchpad em sua tese de doutorado, apresentada em 1963 no Massachusetts Instituteof Technology (MIT)172. A caneta foi substituída pelo mouse, inventado em 1965 por Douglas Engelbart,engenheiro responsável pela criação do primeiro sistema de aumento da cogniçãohumana, o Augment/NLS. Tratava-se de um processador de texto baseado em hipertextocom uma imensa capacidade de armazenar e classificar informação. Engelbart foifortemente influenciado por Vanevar Bush e é considerado o pai da interfacecontemporânea por Steven Johnson: (...) O programa de Sutherland – chamado Sketchpad – foi o percussor de aplicações gráficas como MacPaint e Photoshop. Estes são, sem dúvida, descendentes notáveis, mas o problema que o Sketchpad procurava resolver era o de como fazer o computador desenhar coisas na tela, como levar a máquina além de uma simples exibição de caracteres. Não encarava o problema mais relevante da tradução de toda a informação digital numa linguagem visual. Essa foi a grande sacada de Engelbart, e estivera empenhado nela havia quase duas décadas (2001: 16) A busca começara com um pequeno e provocativo ensaio intitulado As we may think com que Engelbart topou quando esperava para ser embarcado de volta aos Estados Unidos no fim da II Guerra Mundial. Escrito por um cientista militar de alta patente chamado Vanevar Bush, o ensaio descrevia um processador de informações teórico, chamado Memex, que permitia ao usuário abrir caminho por grandes coleções de dados, quase como um navegador da Web de nossos dias. A imagem obsedou Engelbart durante décadas, à medida que ele fazia carreira irregular na incipiente indústria da computação. A legendária demonstração que fez em São Francisco foi do primeiro produto em condições de funcionamento que sequer se aproximava da funcionalidade do invento especulativo de Bush, o Memex. Doug Engelbart teve uma carreira notavelmente eclética e visionária, mas por essa única demonstração já merece sua reputação de pai da interface contemporânea. (IBIDEM: 17).172 SKETCHPAD: A man-machine graphical communication system. Techical Report (CambridgeUniversity), set. 2003. Disponível em: http://bit.ly/pmyKcH. Acesso jan. 2012. 166
  • Figura 103. Sketchpad, primeira interface de conversação Figura 104. Caneta ótica, de Ivan Sutherland 167
  • Figura 105. Sistema Augment/NLS, processador baseado em texto e mouse Figura 106. A arquitetura Augment/NLS, de Doug Engelbart173 Em 1969, o cientista Thomas Ellis projetou o Grail (GRAphic Input Language).Programado por Gabriel Groner e seus colegas da Rand Corporation, foi precursor noreconhecimento por gesto. Em 1970, Kay anuncia o Dynabook, computador pessoal paracrianças. O dispositivo assemelha-se a um tablet. Skatchpad e Grail deram o pontapéinicial à interface gráfica do usuário (GUI, sigla em inglês). Apesar de os trabalhos de Douglas Engelbart, Vannevar Bush, J.C. Lindlicker eDouglas Engelbart serem orientados ao aumento do trabalho intelectual e o científico,em particular, Manovich escolheu Alan Kay para pensar a nova mídia pela abordagem da HISTORY in pictures. Doug Engelbart Institute. Disponível em: http://bit.ly/ou1B0p. Acesso jan.1732012. 168
  • pesquisa do cientista segundo a qual o computador é um meio de expressão que permitedesenhar, pintar, criar animações e compor música. Figura 107. Grail, sistema de reconhecimento por gesto, de Tom Ellis Figura 108. Dynabook, computador pessoal desenvolvido para crianças, de Alan Kay O pesquisador russo procura entender o que é a mídia depois do software, ouseja, o que aconteceu a técnicas, linguagens e conceitos de mídia do século 20 comoresultado da computadorização. Em resumo: o que aconteceu à mídia depois que ela setornou software-ized (softwarizada) (2008: 39-40). A identidade do computador comomídia demorou 40 anos para surgir, se se levar em conta que o MIT começou a trabalhar 169
  • no primeiro protótipo interativo em 1949, e o lançamento do Photoshop aconteceu em1989. Embora exista a perspectiva de interfaces pensadas a partir da deep remixability,as empresas de comunicação trabalham em uma lógica de absoluta remediação. Aestética da base de dados resume-se, grosso modo, a um elemento de composição, umailustração (ou a um gênero174 do Jornalismo) como, por exemplo, o infográfico. Não há apercepção de que há algo completamente diferente. Um infográfico é apenas parte danarrativa. Há igual discussão em curso sobre o newsgames. Considerado gênero, onewsgames usa a lógica do jogo para informar (BOGOST et al: 2010, p. 175-181. O termofoi criado em 2003 pelo designer Gonzalo Frasca, desenvolvedor do September 12th,onsiderado um dos primeiros jogos envolvendo o noticiário, que simula o combate aoterrorismo175.Tag para desenhar Figura 109. Nuvem de tags dos tópicos mais comentados da The Economist176.174 Gêneros são formas que o jornalista busca para se expressar. Seu traço definido está, portanto, noestilo, no manejo da língua: são formas jornalístico-literárias porque seu objetivo é o relato da informaçãoe não necessariamente o prazer estético (GARGUREVICH: 1982 apud MELO: 2003, p. 43).175 O QUE são os newsgames? Último Segundo, São Paulo, 10 mar. 2008. Disponível em:http://bit.ly/qLUQdV. Acesso jan. 2012.176 http://econ.st/vJ6ql6. Acesso jan. 2012. 170
  • Já o híbrido, resultado da mistura de formatos e softwares, tem de ser a narrativaprincipal. Tão importante - ou mais - quanto uma manchete ou uma chamada com foto.Subverte sua origem primeira: ser um acessório. Aliás, Manovich defende esse híbrido como a nova linguagem visual. Nessadefinição não entram newsgames nem infográficos. O autor fez a distinção entre umsimples infográfico e uma visualização de tags criada a partir de uma base de dados semreduzi-la simplesmente a dados superficiais ao cunhar o termo media visualization(2010). Sabe-se que a tag é vista como algo que atomiza a informação, mas o pesquisadorrusso vai além: Considere uma técnica chamada de nuvem de tags177. A técnica foi popularizada pelo Flickr em 2005 e hoje pode ser encontrada em inúmeros sites e blogs. Uma tag cloud mostra as palavras mais comuns em um texto no tamanho da letra correspondente à sua frequência no mesmo texto. Tag cloud exemplifica um método amplo que pode ser chamado de visualização de mídia. A brasileira Fernanda Viégas, uma das desenvolvedoras do Many Eyes178,plataforma aberta da IBM para criação de base de dados, compara a visualização aescrever e afirma ser um novo meio de comunicação. Em 2010, Fernanda entrou para alista de mulheres mais influentes do mundo da tecnologia da respeitadarevista FastCompany179. Dois anos antes de Manovich e Fernanda, o designer EricRodenbeck afirmou que a visualização da informação é uma mídia180. Desse modo, Software takes command (2008) responde a pergunta feita pelopesquisador em 2001, em Language of the new media: “como a mudança para narrativasbaseadas em computador (teleação) redefine a natureza das narrativas precedentes e177 Para saber mais sobre tag cloud, ver: http://bit.ly/rvUdEo. Acesso jan. 2012.178 Para saber mais sobre o Many Eyes, ver: http://bit.ly/uNVPK6. Acesso jan. 2012.179 CONHEÇA Fernanda Viégas, brasileira que é a "senhora planilha". Terra, São Paulo, 5 mai. 2010. Disponível em:http://bit.ly/qClHTo. Acesso jan. 2012.180 INFORMATION visualization is a medium. O´Reilly, São Paulo, 4 mar. 2008. Disponível em:http://oreil.ly/rnr1oB. Acesso jan. 2012. 171
  • que novas possibilidades emergem desse marco tecnológico e cultural”? Os exemplos dapróxima página ilustram a interface da nova linguagem visual híbrida: Figura 110. Base de dados colaborativa sobre os 66 anos da Bomba de Hiroshima feitana plataforma do Google Earth. O resultado é um arquivo em 3D com depoimentos desobreviventes e informações coletadas de fontes oficiais181 Figura 111. Tackable, aplicativo para telefones celulares desenvolvido em parceria como jornal The San Jose Mercury News para uma rede social fotográfica em torno dos profissionais aempresa e dos cidadãos. A ideia é que os editores do jornal possam recolher materialgeoreferenciado para ilustrar o noticiário182. Para saber mais sobre o Hiroshima Archive, ver: http://bit.ly/tXJV74. Acesso jan. 2012.181182Para saber mais sobre o Crowdsourced photojournalism app, ver: http://bit.ly/vWNGGz. Acesso jan.2012. 172
  • Figura 112. Interface em tempo real de posts do Twitter via Google183 Figura 113. Ushahidi, plataforma de criação de mapa open source, utilizada pela BBC deLondres para mostrar os problemas causados pela greve do metrô, que afetou milhares depessoas em setembro de 2010. Os cidadãos podiam enviar para a rede inglesa mensagens emtexto, vídeo, áudio e tweets, com a hashtag #TubeStrike. O resultado é m mapa colaborativo edetalhado, atualizado quase que em tempo real. O Ushahidi ganhou fama nas eleições do Quênia,em 2007184.183 A pesquisa por real time não está mais disponível no Google.184 Para saber mais sobre o Ushahidi, ver: http://bit.ly/vZjRwq. Acesso jan. 2012. 173
  • Figura 114. Revisit é uma visualização dinâmica de tweets sobre um temaespecífico. A plataforma customizar visualização de posts e enfatizar conversas estabelecidas porretweets (replicar mensagens) ou replies (respostas)185. Figura 115. TimeSpace, do The Washington Post – Trata-se de um mashup noticioso, ummapa no qual é possível acessar textos, fotos, vídeos e comentários sobre notícias ao redor domundo além de fazer busca customizada de conteúdo186.185 Para saber mais sobre o Revisit, ver: http://bit.ly/taGqzk. Acesso jan. 2012.186 Para saber mais sobre o TimeSpace, ver: http://wapo.st/rA0N53. Acesso jan. 2012. 174
  • Figura 116. Termômetro do Guardian sobre como o Twitter reagiu ao anúncio dofechamento do News of the World, de Rupert Murdoch187. Profissionais que trabalhavam para ojornal de Murdoch foram acusados de grampear quatro mil pessoas, entre elas celebridades,para obter informações exclusivas188. Durante quatro dias, o Guardian analisou meio milhão deposts com a hashtag #notw para captura a reação das pessoas ao escândalo. Figura 117. Cascade – Aplicativo open source desenvolvido pelo The New York TimesLabs para analisar o impacto de seus conteúdos nas redes sociais. A ferramenta constroi umavisualização de dados a partir de comportamento e de como a informação se propaga em redescomo Twitter, por exemplo189.187 HOW TWITTER tracked the News of the World scandal. The Guardian, Londres, 13 jul. 2011.Disponível: http://bit.ly/s2Q4qd. Acesso jan. 2012.188 MURDOCH DIZ: "Lamentamos pelo escândalo do grampo”. Reuters, São Paulo, 16 jul. 2011. Disponívelem: http://bit.ly/rL4URQ. Acesso jan. 2012.189 Para saber mais o Project Cascade, ver: http://bit.ly/vbLf2x. Acesso jan. 2012. 175
  • Arquitetura da informação ainda dá conta? Para compreender de que forma chegou-se à nova linguagem visual híbrida daqual fala Manovich é preciso, porém, revisitar dois principais conceitos que balizam oJornalismo de Internet e estão na ordem do dia: arquitetura da informação e interface. Se na mídia tradicional, a exigência é a de alguém com boa formação cultural,conhecimento geral e domínios das línguas portuguesa e estrangeira; na rede essaperspectiva é outra: o profissional é visto também como um arquiteto da informação,pois está inserido na concepção dos princípios sistemáticos, estruturais eorganizacionais para fazer algo funcionar – a estrutura elaborada de um artefato, ideiaou política que se evidencia por ser nítida (WURMAN, 1996, p. 16). No mesmo grupo, está o designer informacional, responsável por planejar umambiente visual que organiza o material a ser apresentado na tela do computador(GARCIA, 1997, p. 5). É verdade que o jornalista responsável pelo fechamento daprimeira página do jornal impresso trabalha com noções semelhantes, já que organizaum mosaico informativo também na Internet. No caso da arquitetura da informação, no Brasil o conceito foi adotado nos anos2000 pela primeira vez por Beth Saad, da Escola de Comunicação e Artes daUniversidade de São Paulo (ECA/USP). Xosé García López, Manuel Gago Mariño, JoséPereira Fariña (2003) e Elias Machado (2004) propuseram um alargamento do conceito,sobretudo após a atualização de Louis Rosenfeld e Peter Morville (1998) para a web. Para eles, arquitetura da informação seria entendida da seguinte forma: 1)sistema de orientação na busca (1962); 2) orientação na busca e recuperação deinformação (1990); e 3) roteiro para criação de narrativas multimídias (2000). Já o designer da informação, deve ter habilidades em: 1) Gerenciamento; 2) Artevisual; 3) Linguagem; 4) Tecnologia e 5) Jornalismo, conforme defende Mario Garcia (op.cit., p. 22-29). Garcia destaca que, no caso do Jornalismo, o conhecimento da áreacontribui para a melhor apresentação do conteúdo em uma interface na Internet e 176
  • enumera cinco competências: hierarquia, brevidade, acuracia, relatividade (localizarconteúdos já destacados e indicar arquivo e busca) e consistência (oferecer background). Figura 118. Esboço de arquitetura da informação (MORVILLE; ROSENFELD, 1998) Ainda que com uma proposta para ir além das noções de Richard Wurman e PeterMorville, a arquitetura da informação remete à estrutura, à organização. E é por essarazão que os projetos de jornalismo para a Internet não abandonaram a influência dasmídias clássicas e, mesmo identificadas como um PowerPoint com multimídia,continuam reproduzindo metáforas analógicas. Interface como superfície Outra questão que se coloca nessa discussão é o conceito de interface,frequentemente confundido com o de superfície nos jornais de Internet. De modo geral, ainterface é compreendida como algo que conecta o homem à máquina (LEMOS: 2004). OThe Internet Dictionary diz que interface ou (user interface) é a parte de um programa 177
  • que interage entre usuário e uma aplicação. Ou GUI (Graphical User Interface), queoferece uma navegação amigável, baseada em imagens. Para Alison J. Head (1999) significa o modo de comunicação com o usuário pormeio do design, formado por ícones, menus, mouse, teclado e outros dispositivosinterativos. Steven Johnson afirma que “mais do que ferramentas, estamos diante deaplicações que se assemelham mais a um ambiente, a um espaço” (2001, p. 17-20). Para o jornalista e escritor americano, o termo se refere a softwares que dãoforma à interação entre usuário e computador. A interface atua como uma espécie detradutor, mediando entre as duas partes, tornando uma sensível para a outra. Essamediação se torna necessária porque a lógica do pensamento humano se dá por meio depalavras, conceitos, imagens, sons e associações, sendo difícil compreender a linguagemde sinais e símbolos numéricos usados pelo computador (2001, p. 17). O pai do Macintosh (Apple), Jef Raskin, defende que a interface é qualquer modocomo um usuário executa tarefas em um dispositivo, e que faz com que ele responda(2002, p. 2). Já André Lemos trabalha com a ideia de manipulação direta (directmanipulation), ou seja, a interface atua como um mediador cognitivo, e essa mediação écriada por meio de uma ação global com múltiplos agentes em uma manipulação diretada informação (1997). Lev Manovich denominou interfaces culturais a relação homem-computador-interface, pois os computadores apresentam e permitem a interação de dados digitaisque formatam modalidades culturais. A nomenclatura proposta pelo pesquisador russotem origem na análise das formas culturais existentes - palavra impressa e cinema, porexemplo. Que o autor também classifica como interfaces culturais. Esse entendimento passa necessariamente pela redefinição da relação entrehomem e máquina, amplamente discutida por autores como Gilbert Simondon (1958),Anthony Giddens (1991), Félix Guatarri e Gilles Deleuze (1976), e que põe fim aabordagens romântica (a estética ciborgue não deve ser uma herança na qual o corpo é aparte desprezível e ele deve ser a máquina) e cartesiana (a parte mental é superior e o 178
  • corpo é a parte maquínica, que obedece a comandos pré-programados) para dar lugar àideia de que a máquina é entendida como um fenômeno heterogêneo, em que há umasubjetividade particular ou várias, mas não existe uma máquina em si. Com isso, a ideia segundo a qual técnica e ambiente não são distintos, masimbricados, possibilita a criação de interfaces dinâmicas no âmbito da Internet dasCoisas, pois a técnica é condição para uma intervenção humana adequada, e o ambienteé o meio associado que assegura o desempenho técnico. A máquina, no entendimento deSimondon (1958, p. 60), representa a materialização do pensamento humano, que forjaconexões mentais e depois as inscreve no objeto. Isso posto, percebe-se, portanto, de que maneira as empresas de comunicaçãooperam na rede. Além da aposta em multimídia e links para redes sociais, grosso modo,os projetos gráficos baseiam-se em uma máxima que surgiu após a grande mudançainstituída no Jornal do Brasil por Jânio de Freitas, no final dos anos 1950: as reformas dejornal alternam-se por tirar e colocar fios. Em junho de 1959, o jornalista, hoje colunista da Folha de S.Paulo, decidiuarrancar os fios das páginas e aumentar o tamanho das fotos no JB. Dizia que os leitoresnão liam fios. Também integravam o time Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, AlbertoDines e Reynaldo Jardim190. Não é novidade que qualquer projeto passa pelo planejamento editorial e peladefinição de público (AMARAL, 2004). Um caminho talvez seja repensar a interface eperfilar o público habituado cada vez mais a Internet das Coisas. Entre todas asdefinições apontadas até agora, talvez, seja mais coerente pensar na proposta por StevenJohnson: “A interface atua como uma espécie de tradutor, mediando entre as duas partes,tornando uma sensível para a outra”. Isso não exclui o entendimento de a interface ser amensagem.190JB CRIOU nova concepção gráfica e editorial no jornalismo brasileiro. Último Segundo, São Paulo, 30ago. 2010. Disponível em: http://bit.ly/o02rkq. Acesso jan. 2012. 179
  • Tabela 8. Jornalismo ontem e hoje Ontem Hoje Jornalismo Digital Jornalismo de Internet Mundo virtual/ciberespaço Internet das Coisas Computador como meio Interface como meio Fases Remediação/Media visualizationA inteligência distribuída deslocou a fonte Mas o que tem impedido interface de se impor completamente como mensagemaos conglomerados de mídia? Aos que sustentam que o que vale é o repórter e a fonte191,esquecem-se de que o Wikileaks jogou por terra essa regra quando mostrou ao mundotodo que a fonte se deslocou. Criada em 2006, a base de dados de Julian Assange provocou um terremotodiplomático mundo afora ao reforçar a liberdade da informação quando foi ao arum vídeo192 que mostrava soldados americanos em Bagdá matando civis, entre os quaisdois jornalistas da Reuters. Assange tem acordos com jornais como Guardian, New York Times e Der Spiegelpor acreditar que a mídia impacta de maneira estrondosa seus vazamentos. Os dadosbrutos do Wikileaks são talhados por um time composto por matemáticos e jornalistaspara transformar informações em notícia como a que originou a divulgação de 90 miltelegramas sobre as operações militares dos EUA, entre 2004 e 2009, no Afeganistão. A publicação levou o australiano à prisão. Oficialmente, não por esta razão, masacusado de crimes sexuais193.191 JORNALISMO não é arte, é trabalho coletivo. O Globo, Rio de Janeiro, 11 out. 2011.Disponível em: http://glo.bo/qfizEs. Acesso jan. 2012.192 WIKILEAKS media insurgency. The New Yorker, EUA, 31 mai. 2010. Disponível em:http://nyr.kr/sBEROI. Acesso jan. 2012.193 ASSANGE, o fundador do WikiLeaks, é preso em Londres. Veja, São Paulo, 7 dez. 2010. Disponível em:http://bit.ly/uWxM0c. Acesso jan. 2012. 180
  • E mais: a rede opera por meio de uma inteligência distribuída ou coletiva194 quenão se restringe mais necessariamente a repórter e fonte. Uma das razões, sem dúvidaalguma, é o uso maciço de Twitter e Facebook. Se antes, para obter alguma visibilidade, a participação do cidadão na produçãode conteúdo estava restrita à aprovação do mainstream da mídia, nas redes sociais essalógica rompe os paradigmas em vigor. Jornalistas e não jornalistas estão no mesmopatamar. Com a diferença de que os não jornalistas disputam agora o campo pelavalidação de informação pelos seus pares. A máxima segundo a qual os donos dos meios sempre se empenham em dar aopúblico o que o público deseja porque percebem que a sua força está no meio e não namensagem ou na linha do jornal (MCLUHAN: 1964, p. 245) perdeu um pouco do sentidodepois do crowdwsourcing (produção colaborativa)195, ainda que Assange compartilhedo pensamento macluhaniano sobre o meio ser mais forte que a mensagem. A cobertura da imprensa sobre a invasão da reitoria da Universidade de SãoPaulo (USP) reflete bem isso. Obviamente, sabe-se que há manifestações orquestradasem redes sociais que operam a partir de lideranças e ideologias como, por exemplo,àquelas relacionadas à política (CASTELLS: 2009). De modo geral, jornais, emissoras de rádio e tevê, Internet e opinião públicaabordaram o caso com repúdio veemente aos alunos, chamados de "delinquentesmimados", "playboys" e "bebês da USP". Tomaram como verdade absoluta as versões dapolícia. De fato, foi difícil para a imprensa perfilar os rebeles, pois trataram mal osjornalistas, com silêncio, empurrões e pedradas (SINGER: 2011). Mas havia outro um lado: estudantes da universidade não envolvidos no conflitocujos relatos (ainda que produzidos para jornais acadêmicos) foram parar nas redes194 É uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em temporeal, que resulta em uma mobilização efetiva das competências. A base e o objetivo da inteligência coletivasão o conhecimento mútuo das pessoas e não o culto de comunidades fetichisadas ou hipostasiadas (LÉVY,1999, p. 28).195 Para saber mais sobre Crowdsourcing, ver: http://bit.ly/vR7yxJ. Acesso jan. 2012. 181
  • sociais e reverteram de alguma maneira a noção segundo a qual se tratava de mocinhos(polícia) versus bandidos (invasores da reitoria). Testemunho de Job Henrique,estudante da Escola de Comunicação e Artes (ECA), publicado no Facebook, mostra outroângulo da situação196: O que eu, Bruno e mais uma repórter, a Glenda, vimos do lado de fora, foi cena de cinema. Foi incrível, inacreditável, assustador, sombrio, amedrontador. Uma operação de guerra, com viaturas blindadas chegando a todo instante. Policiais desciam de suas viaturas com escopetas (carregadas com munição não letal, como me confirmou um deles) a tiracolo, sem nenhuma identificação no colete antibalas. Em apenas 10 minutos, um contingente militar havia se instalado ao redor da reitoria. Tentamos avançar e encontrar com a Shay, mas um policial foi bem claro: ‘Xispa daqui’. Não adiantava afirmar que éramos imprensa, pois a cara de estudante denunciava em nós um inimigo em potencial. Esse outro lado resultou em um editorial publicado pela Folha de S.Paulo comcríticas à cobertura feita por seus profissionais197. Demonstra que o jornal (marca) nãoé mais importante do que a notícia que publica. Assim, muda a perspectiva mcluhaniana.Importante também é a mensagem publicada por meio do crowdsourcing. Isso não significa excluir os veículos de comunicação, mas integrá-los a essa novadinâmica. Eles são parte do processo, mas não determinam completamente acredibilidade da informação e nem a sua angulação. Prova disso foi o movimento encampado pela mídia brasileira e estrangeira,como The Washington Post, Reuters, Bloomberg, Folha de S.Paulo, O Globo e TV Record,contra publicação de notícias exclusivas em redes sociais, especialmente o Twitter. Porquê? Para que jornalistas, ainda que carreguem em suas assinaturas a marca da empresana qual trabalham, não prejudiquem o negócio jornal.196HENRIQUE, J. O que eu assisti na desocupação da reitoria. Facebook, São Paulo, 9 nov. 2011. Disponívelem: http://on.fb.me/uhSSGx. Acesso jan. 2012.197 SINGER, S. A imprensa burguesa no campus. Folha de S.Paulo, 13 nov. 2011. Disponível em:http://bit.ly/rB6L56. Acesso jan. 2012. 182
  • O comunicado da Folha foi redigido com esse propósito. Distribuído em setembrode 2009 pela editora-executiva, Eleonora de Lucena, trazia as seguintesrecomendações198: Os profissionais que mantêm blogs ou são participantes de redes sociais e/ou do Twitter devem lembrar que: a) representam a Folha nessas plataformas, portanto devem sempre seguir os princípios do projeto editorial, evitando assumir campanhas e posicionamentos partidários; b) não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha. Porém, apesar de os veículos de comunicação tentarem estriar o espaço nas redessociais, o agenciamento coletivo de enunciação se impõe, ainda que o ponto de partidaseja o do produser/prosumer e, aos poucos, leve a um coletivo (também formado porjornalistas) cujo resultado, mesmo com prejuízo financeiro, seja o de vazar a informaçãoantes guardada para vender jornal. Há vários exemplos que ilustram essa disputa de campo. A notícia do afastamentode ministros do governo Dilma Rousseff foi publicada no Twitter. Jornalistas que cobremo setor chegaram a disputar quem foi o primeiro a dar o furo. Também foi informada emprimeira mão no microblog a saída da apresentadora Fátima Bernardes da bancada doJornal Nacional (TV Globo). Há outras situações já citadas nesta tese, a partir da página111.198 FOLHA cria regras para seus jornalistas no Twitter. TOLEDOL, blog sobre RAC, São Paulo, 9 set. 2009.Disponível em: http://bit.ly/sF7pFA. Acesso dez. 2011. 183
  • Figura 119. Twitter da jornalista da Folha, Mônica Bergamo, com noticiário exclusivo, em dezembro de 2011. Outro exemplo de produção colaborativa de jornalistas se deu em abril de 2011com o massacre na Escola Municipal Tasso de Silveira, no Rio de Janeiro. WellingtonMenezes de Oliveira invadiu a escola e abriu fogo contra os alunos. Doze criançasmorreram e o atirador cometeu suicídio199. Profissionais de O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, entre outros,completaram informações sobre o caso pelo Twitter, sobretudo em relação à localizaçãode parentes do atirador. Quem acompanhava, obtinha notícias atualizadas sem precisaracessar a URL do jornal. Isso representa um novo paradigma na interface da notícia quecircula em rede.199 TRAGÉDIA em escola no Rio de Janeiro. Veja, São Paulo, 7 abr. 2010. Disponível em:http://bit.ly/tKHHQl. Acesso jan. 2012. 184
  • A influência da arte digital É verdade que a Internet provocou rupturas no Jornalismo, como a quebra datemporalidade, a recuperação da informação e uma nova linguagem visual. Mas a maiordelas, a mais importante e a que reconfigura completamente esse campo dacomunicação é o fato de a interface implodir a página, seja na Web ou em aplicativos (nocaso, abertos). Isso significa perder o processo de padronização editorial, particularmentecalcado pela hierarquia. De que maneira isso começou? Nomadismo, agenciamento erevezamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari dão fundamento a essa mudança. Porém, não é possível abordar a ruptura das estruturas que balizam o design doJornalismo sem antes refletir sobre o processo criativo da arte digital. De certo modo, ainterface da arte digital tem repertório suficiente para orientar o fluxo noticioso naInternet. Há dezenas de exemplos que transpostos ao Jornalismo não o descaracterizam. Pelo contrário. Rompem paradigmas calcados na hierarquia, presos aoformato200 e reforçam a urgência em repensá-lo no âmbito da sociedade em rede ou pós-fordismo, cuja essência é o agenciamento coletivo de enunciação em uma culturapredominantemente baseada em dados em detrimento ao pensamento conduzido pelalinha de montagem, da cultura padronizada. Marshall McLuhan fez uma analogiainteressante sobre Henry Ford e Gutenberg, embora restrito, à época, a tevê: Foi a TV que vibrou o maior golpe no carro americano. O carro e a linha de montagem se haviam tornado a última expressão da tecnologia de Gutenberg; ou seja, da tecnologia de processos uniformes e repetitivos aplicados a todos os aspectos do trabalho e da vida. A TV pôs em questão todos os pressupostos mecânicos sobre a uniformidade e a padronização, bem como sobre todos os valores do consumidor (1964: 250).200O que faz um programa ser de determinada forma, usar determinados enquadramentos de imagens,planos, cenário, recursos narrativos e de edição, presença ou não de um apresentador ou repórter, ser aovivo ou gravado, seu assunto, tema e duração, é justamente a definição do seu formato. Nota-se quetambém as rádios jornalísticas funcionam com base na definição de uma programação diária, baseada noencadeamento de formatos radiofônicos. (RAMOS, 2009, p.1). 185
  • (...) aonde um automóvel pode ir, os demais também podem, e onde quer que o automóvel vá, a versão-automóvel da civilização o acompanha com toda certeza. Ora, este é o sentimento orientado pela TV, não apenas anti-carro e anti-padronização, mas também anti- Gutenberg – e, portanto, antiamericano. Claro que sei que John Keats201 não quis significar isto. Ele nunca pensou sobre os meios ou sobre a maneira pela qual Gutenberg criou Henry Ford, a linha de montagem e a cultura padronizada. Tudo o que sabia é que era popular atacar o uniforme, o padronizado e as formas quentes202 de comunicação em geral (IBIDEM: 251). Os computadores passaram a ser utilizados na arte no início dos anos 1960. Osprimeiros trabalhos foram assinados por Michael A Noll, um pesquisador da BellLaboratories203, de New Jersey. Entre eles estão Guassian Quadratic (1963), exibido em1965 como parte da Computer-Generated Picture´s, realizada na Howard Wise Gallery, deNova York. Bela Julesz e os alemães George Nees e Frieder Nake também tiveram suas obrasincluídas naquela exposição. Embora as peças se assemelhassem a desenhos abstratosque replicavam formas estéticas de expressão muito familiares às da mídia tradicional,capturavam uma estética essencial do novo meio que delineava funções matemáticasbásicas para orientar a arte digital (PAUL: 2008, p. 15). Na mesma direção estão os trabalhos de John Whitney, Charles Csuri e VeraMolnar. Produzidos na década de 1960, permanecem influentes hoje para as pesquisassobre transformações de imagens geradas por computador por meio de funçõesmatemáticas. Whitney (1917-1996), considerado o pai da computação gráfica, usou antigoscomputadores militares para criar seu curta-metragem Catalog (1961), um catálogo de201 The Insolent Chariots (As Carruagens Insolentes) apud McLuhan, 1964, p. 251.202 Há um principio básico pelo qual pode se distinguir um meio quente, como o rádio, de um meio frio,como o telefone, ou um meio quente, como o cinema, de um meio frio, como a televisão. Um meio quente éaquele que prolonga um único de nossos sentidos e em alta definição. Alta definição se refere a um estadode alta saturação de dados. O telefone é um meio frio, ou de baixa definição, porque ao ouvido é fornecidauma magra quantidade de informação. A fala é um meio frio, de baixa definição, porque muito pouco éfornecido e muita coisa deve ser preenchida pelo ouvinte. De outro lado, os meios quentes não deixammuita coisa a ser preenchida ou completada pela audiência. Um meio quente, como o rádio, e um meio frio,como o telefone, têm efeitos bem diferentes sobre seus usuários (IBIDEM: 38).203 Para saber mais sobre a Bell Labs, ver: http://bit.ly/rKPbW3. Acesso jan. 2012. 186
  • efeitos sobre o qual se debruçou anos a fio. Mais dois filmes produzidos após esse curta -Permutations (1967) e Arabesque (1975) –, assegurou-lhe a reputação de pioneiro emfilmagem computadorizada. O cineasta também colaborou com seu irmão, o pintor James (1922-1982), emdiversos filmes experimentais. Csuri, cujo filme Hummingbird (1967) é um marco daanimação feita por computador, fez suas primeiras imagens digitais em 1964, em umIBM, modelo 7094. A saída do IBM 7094 consistia de cartões perfurados de 4 x 7 polegadas, quecontinham informações para acionar uma plotter de cilindro, especificar quandoapanhar, mover e soltar a caneta, sinalizar a chegada do fim da linha, e assim por diante(IBIDEM, p. 15-16). Foi na transição da era industrial para a era eletrônica que aumentou o interessedos artistas por intersecções entre arte e tecnologia. Em 1966, Billy Kluver fundou oExperiments in Art and Technology (EAT), cujo propósito era desenvolver umacolaboração efetiva entre engenharia e arte. Em mais de uma década, Kluver fezparcerias com Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jean Tinguely, John Cage e nopavilhão da Pepsi-Cola, na World Expo 70, em Osaka (Japão). O EAT foi a primeira instancia de colaboração complexa entre artistas,engenheiros, programadores, pesquisadores e cientistas que se tornaria mais tarde acaracterística da arte digital. Notadamente, o instituto também recebeu apoio criativo daBell Labs que se tornou uma estufa de experimentação artística (IBIDEM). Os antecessores das atuais instalações digitais também exibiram suas obras nadécada de 1960. Em 1968, a mostra Cybernetic Serendipity, no Institute of ContemporaryArts de Londres, apresentou trabalhos focados na estética orientada por máquinas etransformação, explorando variadas possibilidades de interação e sistemas abertos,como um “pós-objeto”. 187
  • No artigo Systems Aesthetics and Real Time Systems, o crítico americano JackBurnham trata dos sistemas de abordagem da arte: um dos pontos de vista é o sistemacom foco na criação do estável, em curso nas relações entre sistemas orgânicos e nãoorgânicos. De modo diferente, este argumento da arte como sistema ainda mantém posiçãode grande vulto nos atuais discursos sobre arte digital. Nos anos 1970, Burnham foicurador de uma exposição chamada Software no Jewish Museum de Nova York na qualincluiu um protótipo do Xanadu, sistema hipertextual de Ted Nelson (IBIDEM, p. 16-17). Na mesma época, usando novas tecnologias como vídeo e satélites, artistascomeçaram a experimentar performances ao vivo, antecipando as interações quetomaram conta da Internet por meio de streaming e transmissão direta de imagens esons. Esses projetos consideravam desde aplicação de satélites para estender adisseminação em massa da transmissão televisiva ao potencial estético dateleconferência em vídeo e à exploração do tempo real que desmoronou as fronteirasgeográficas (IBIDEM, p. 18). Nas décadas de 1970 e 1980, pintores, escultores, arquitetos, fotógrafos evideoartistas e artistas performáticos começaram a aumentar consideravelmenteexperiências com técnicas de imagem baseadas no computador. Neste período, a artedigital evoluiu em muitas vertentes, desde obras orientadas por aspectos dinâmicos einterativos a conceitos de movimento de fluxos. Essas tecnologias e a mídia interativadesafiaram as tradicionais noções de obra de arte, audiência e artista (IBIDEM, p. 21). A arte digital é frequentemente transformada em um processo de estruturaaberta baseado no fluxo de informação e no engajamento do participante. O público setorna parte do trabalho ao remodelar componentes textuais e visuais de um projeto. Emvez de ser o único criador da obra, o artista vira um mediador ou facilitador da interaçãoque resulta em contribuição. Essa interação é o que Claudia Giannetti chama deEndoestética (ver p. 102). 188
  • A arte digital pôs fim aos limites entre as disciplinas de arte, ciência, tecnologia edesign, incluindo pesquisa e desenvolvimento. Desde história, passando pela produção emanifestação, a arte digital desafia a categorização (IBIDEM, p. 21-22). Agora, é o Jornalismo de Internet que coloca à prova a ordenação. No artigoOntology is Overrated: Categories, Links, and Tags, o escritor americano Clay Shirkyafirma que a Web provoca uma ruptura radical nessas estratégias existentes em vez deser apenas uma extensão delas: O que eu acho que está chegando diferentemente são maneiras muito mais orgânicas de organização da informação que os nossos esquemas de categorização atuais permitem, com base em duas unidades - a ligação, o que pode apontar para qualquer coisa, e a marca, que é uma forma de colocação dos rótulos de ligações. A estratégia de etiquetar - de forma de livre rotulagem, sem levar em conta restrições categóricas - parece ser uma receita para o desastre, mas como a internet tem nos mostrado, é possível extrair uma quantidade surpreendente de valor de grandes conjuntos de dados desorganizados (2005)204.Links tomam o lugar das prateleiras Shirky dá exemplos de interfaces que operam desde a lógica do que eledenominou sistemas de arquivos e hierarquia, com links, como o Yahoo!, até a nãohierarquia. Na opinião dele, foi incorporada à Internet o formato biblioteca paraarmazenar conteúdo: "Ambos bibliotecários e cientistas da computação acataram amesma idéia que é: ‘Você sabe, não faria mal adicionar algumas ligações secundáriasaqui - links simbólicos, aliases, atalhos, o que você quiser chamá-los’”.204 SHIRK, C. Ontology is overrated -- Categories, links, and tags. Disponível em: http://bit.ly/tP1YnM.Acesso jan. 2012. 189
  • Figura 120. Hierarquia - Há um nível superior, com subdiretórios. Subdiretórioscontêm arquivo ou outros subdiretórios e assim por diante. Bibliotecários e cientistas dainformação defendem a ideia segundo a qual não fará mal algum em acrescentar a esse formatolinks secundários. Figura 121. Hierarquia com links - A maioria dos sistemas criados para subdividir omundo funciona assim, como a Biblioteca do Congresso dos EUA. Há, por exemplo, em seucatálogo, um livro sobre os Balcãs. Ora, esse é um livro sobre arte, mas também de história.Portanto, a palavra-chave que o localiza tem de abranger o seu significado total. Ou seja, épreciso uma tag (ou mais de uma) que facilite a busca. Uma das coisas que Tim Berners-Leeensinou, no início dos anos 1900, é que é possível não apenas alguns links, mas centenas,milhares deles. 190
  • Figura 122. Hierarquia com muitos links – Esse é o lugar onde o Yahoo! abandonou obarco. A regra da ferramenta de busca é que uma URL só pode aparecer em três lugares. Ajustificativa, segundo Shirky é a de que o Yahoo! não queria receber spam, pois estavamdesenvolvendo um diretório comercial. Ledo engano: os donos do negócio deixaram de investirna lógica da Web: quanto mais links expostos, menos hierarquia. Não há mais prateleira ouarquivos. Os links por si só são suficientes. Figura 123. Apenas links (Não há sistema de arquivos) – Uma das razões pelas quaiso Google foi bem-sucedido é o entendimento de que não há arquivos, não há prateleiras e não épreciso prever o que o internauta quer. A ideia é oferecer o melhor resultado da busca baseadoem uma dinâmica em links. No caso da arte digital, há uma série de trabalhos que dão a dimensão da obracomposta pela lógica matemática e pela não categorização, ainda que, em alguns casos,as palavras-chave (tags) sejam pré-determinadas. São repertórios que corroboram a 191
  • necessidade de uma crítica da interface que dê conta das nuances particulares daInternet e da experiência em rede. E vão de encontro à proposta de Shirky apresentadaanteriormente. Foi assim com as redes sociais e, mais especificamente, com as tags que, ao seremincorporadas, inauguraram uma nova maneira de ler, de produzir notícia ereformataram a interface. O processo se dá por meio do algoritmo205, responsável pelabusca de informação para compor uma obra. Há um sem números de projetos que ilustram essa lógica, como 10 by 10(www.tenbyten.org), youTag (www.youtag.org), Your Life Our Movie(www.yourlifeourmovie.org), Locative Painting (www.locativepainting.com.br),Sensitive Rose (www.sensitiverose.com), ThoughtMesh (http://thoughtmesh.net), TheOrigin of Species (http://benfry.com/traces), We Feel Fine (http://www.wefeelfine.org)e Geoplay (http://www.geoplay.info/pt) Também integram composições cujas variáveis vão desde palavra-chave maisacessada à palavra-chave mais postada: Filosofia da Caixa Prata(http://bogotissimo.com/silverbox/br), Zexe.net (www.zexe.net), Open Street Map(www.openstreetmap.org) e as plataformas do Google – Earth, Maps, Street View(http://www.google.com/intl/pt-BR/options) – entre outros. Na realidade, trata-se de programações que permitem várias combinações noespaço estriado da Internet, que são recombinadas e compartilhadas a cadaagenciamento. É nesse sentido que se dá o movimento nomádico: um revezamentocontínuo de territorialização e desterritorialização, ou seja, ocupa momentaneamente, sedesloca e volta a ocupar, como os Flash mobs, organizados para realizar ações querespondam a agenciamentos coletivos de enunciação.205 É uma sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais pode serexecutada mecanicamente num período de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita. In:Wikipedia. Disponível em: http://bit.ly/sFCuYf. Acesso jan. 2012. 192
  • É micropolítica, não tem como objetivo elaborar estruturas capazes de sereproduzirem permanentemente (BEIGUELMAN: 2009). Figura 124. Your Life, Our Movie, de Fernando Velázquez, Bruno Favaretto e FranciscoLapetina, cria um filme a partir de palavras-chave da base de dados do Flickr206. Figura 125. 10 x 10, de Jonathan Harris – A cada hora, o 10 x 10 exibe 100 fotosrelacionadas a 100 tags mais populares de fontes como ABC, BBC, The Guardian, MSNBC eReuters207.206 Para saber mais sobre o Your Life Our Movie, ver: http://bit.ly/u3AI0D. Acesso jan. 2012.207 Para saber mais sobre o 10x10 , ver: http://bit.ly/u0LfcJ. Acesso jan. 2012. 193
  • Figura 126. The Origin of Species, de Ben Fry, mostra atualizações feitas nas seis ediçõesde A Origem das Espécies, de Charles Darwin, cuja primeira edição foi publicada em 1859208. Naprimeira, o livro era composto por aproximadamente 150 mil palavras. Já a sexta contemplava190 mil. A ideia é mostrar as mudanças produzidas no texto ao longo dos anos209. Figura 127. We Feel Fine, de Jonathan Harris e Sep Kamvar, mostra atualização contínuado comportamento das pessoas na Internet. O sistema varre a Web em busca de frases quecomecem por “I feel” (“Eu sinto”, em português). Cada sentimento é associado a sexo, idade,lugar, previsão do tempo de onde o post foi escrito e data210.208 Para saber mais sobre a vida e a obra de Charles Darwin, ver: http://bit.ly/tZJp2Y. Acesso jan. 2012.209 Para saber mais sobre The origin of species, ver: http://bit.ly/uyrK9F. Acesso jan. 2012.210 Para saber mais sobre We Feel Fine, ver: http://bit.ly/sXbCJG. Acesso jan. 2012. 194
  • A notícia em rede Essa narrativa que reconfigura a interface é também percebida claramente noTwitter, cujo projeto original era o de ser uma rádio (www.odeo.com) e hoje é umaespécie de SMS muldimidiático (Short Message Service), cujo acesso se dá basicamentepor meio de hashtags, links e textos restritos a 140 caracteres. Hashtags são palavras ou frases precedidas do sinal # (sustenido). Elas foramutilizadas no microblog pela primeira vez em 23 de agosto de 2007 por Chris Messina211,um desenvolvedor do Google, para organizar grupos ou categorizar informação212. Figura 128. Proposta de uso de hashtag no Twitter, de Chris Messina No início da década de 1990, o programador Jack Dorsey, pensando na tecnologiausada para localizar taxistas, se perguntou por que não utilizá-la para encontrar pessoas.Assim nascia a ideia do Twitter, criado em 2006 após Dorsey convencer Evan Willians,desenvolvedor do Blogger (da Google), e Biz Stone, diretor de criação, a ajudá-los nessaempreitada (MOHERDAUI: 2009). “O Twitter foi criado como uma manifestação social”,conta seu co-criador, Evan Henshaw-Plath213. Já as tags começaram a ser apropriadas como marcadores de conteúdo em2003214. O bookmark de.li.ci.ous215 foi o primeiro a permitir inclusão de palavras-chave211 Para saber mais sobre Chris Messina, ver: http://bit.ly/vNIakC. Acesso jan. 2012.212 GROUPS FOR Twitter; or A proposal for Twitter Tag Channels. Factory Joe, EUA. 25 ago. 2010.http://bit.ly/tFE9xn. Acesso jan. 2012.213 “TWITTER nació de un fracasso”, dice co-creador. El Universal, Uruguai, 7 dez. 2011. Disponível em:http://bit.ly/vvBIcv. Acesso jan. 2012.214 Para saber mais sobre tag e metadados, ver http://bit.ly/uUFfce. Acesso jan. 2012.215 Delicious: http://bit.ly/ugpaU1. Acesso jan. 2012. 195
  • em links. Depois, a rede de compartilhamento de fotos Flickr216 também adotou orecurso (ver p. 171). O sucesso do de.li.ci.ous e do Flickr popularizou o uso em YouTube,Last FM e Technorati217. A importância dessas etiquetas é tamanha que The New York Times contratou umeditor de tags que passou a ter a mesma autoridade que o secretário de redação,responsável pela abertura e pelo fechamento da primeira página218. Um dos exemplos mais pungentes do uso social do microblog foi a chamadaPrimavera Árabe. Jovens do norte da África e do Oriente Médio organizaram protestospelo fim da ditadura ou contra o fundamentalismo religioso em: Tunísia, Egito, Barein,Líbia, Iêmen, Marrocos219. Não só o Twitter foi utilizado para implicar as pessoas, Facebook, blogs e celulares(SMS, inclusive) também se revelaram importantes. A repercussão do uso de redessociais foi tamanha que iniciou uma discussão na própria rede sobre a função dessasplataformas. A grande questão era responder quem fez a revolução: pessoas ouferramentas? O Techcrunch, especializado em cobertura sobre tecnologia, publicou um artigosob o título: People, Not Things, Are The Tools Of Revolution220, assinado pelo jornalista efotógrafo Devin Coldewey. Para ele, pessoas (e não coisas) são as ferramentas da revolução. A resposta veio de André Lemos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em umtrocadilho: Things (and People) Are The Tools Of Revolution! (Coisas - e pessoas - são asferramentas da revolução)221. Para rebater Coldewey, Lemos emprestou do filósofo e216 Flickr: http://bit.ly/voeli7. Acesso jan. 2012.217 YouTube: http://bit.ly/uHAVFH; Last FM: http://bit.ly/rr5xYy; Technorati: http://bit.ly/tprVJq. Acessojan. 2012.218 EDITOR 2.0. BuzzMachine, EUA, 22 out. 2007. Disponível em: http://bit.ly/uOVEdC. Acesso jan. 2012.219HYPER-NETWORKED protests, revolts, and riots: a timeline. Wired, EUA, 16 dez. 2011.http://bit.ly/xgRBqe. Disponível em: Acesso jan. 2012.220 PEOPLE, not things, are the tools of revolution. TechCrunch, EUA, 11 fev. 2011. Disponível em:http://tcrn.ch/tDTPWk.Acesso jan. 2012.221THINGS (and people) are the tools of revolution! Carnet de Notes, Salvador, 25 fev. 2011. Disponívelem: http://bit.ly/vMZtQo. Acesso jan 2012. 196
  • antropólogo francês Bruno Latour a Teoria Ator-Rede (tradução do inglês Actor-NetworkTheory), segundo a qual: • Não há essência ou imanência • Toda agência depende da associação em causa • Agentes não humanos não são entidades passivas Escreve Lemos: Para evitar pensar os agentes apenas como humanos, a ANT [Actor- Network Theory] prefere o termo “actante” que, vindo da semiótica greimasiana, remete a tudo aquilo que gera ação. Portanto, não há essência, e actantes humanos e não humanos assumem determinados papéis a depender das associações que se constituem em determinada ação. Se não há ação, não há nada e eles não são “actantes” (2011). (...) Blogs, Facebook, Twitter e celulares agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos, etc.) e fizeram com que as ditaduras da Tunísia e do Egito caíssem. Eles podem não ter função mediadora no futuro, já que não há essência ou potência velada, só associações que se fazem ou não no tempo. Como diz Latour: “essência é existência e existência é a ação”. No fundo, a discussão sobre se as mídias sociais e telefones celulares fizeram a revolução se perde na polarização entre sujeitos (que têm uma essência – ser o mediador e senhor da agência) e os objetos (que têm uma essência – serem apenas intermediários, “ferramentas”, “instrumentos”, “meios”) (IBIDEM). Clay Shirky tem a mesma opinião que Lemos: “novas ferramentas não causaramesses comportamentos, mas o permitiram. Uma mídia flexível, barata e inclusiva nosoferece agora oportunidades de fazer todo tipo de coisas que não fazíamos antes” (2010,p. 61). Figura 129. Revolution Tools (Reprodução Carnet de Notes) 197
  • Em menor proporção, obviamente, Eugênio Tisseli já destacara esse tipo de açãono Flickr, em junho de 2007, quando a interface da rede de compartilhamentos foiutilizada para um protesto de usuários, de modo não coordenado, para responder àmudança em sua política de filtros na Alemanha. O protesto foi marcado pela criação edisseminação de uma tag anticensura: #thinkflickrthink222. Figura 130. Cartaz do protesto thinkflickrthink Dois anos depois, pulularam manifestações realizadas por meio de hashtags: amorte do cantor Michael Jackson, em 25 de junho (#michaeljackson), a reeleição dopresidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, em 12 de junho (#iranelection). No Brasil, são destaques ações sobre a nova crise no Senado quando José Sarneyassume a Presidência da Casa, em 1° de fevereiro, por causa de denúncias de atossecretos, empreguismo e verbas indenizatórias (#forasarney), e o fim daobrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, aprovado pelo SupremoTribunal Federal em 17 de junho (#diploma).222REBELIÃO na Internet. Trópico - Ideias de norte e sul, São Paulo, 28 fev. 2009. Disponível em:http://bit.ly/vROEab. Acesso jan. 2012. 198
  • A campanha eleitoral de 2010 à Presidência da República no Brasil teve amplaparticipação popular na Internet. Fatos negativos publicados pela imprensa nacionalganharam eco na rede como, por exemplo, o famoso caso da bolinha de papel cujopersonagem principal foi o ex-governador de São Paulo, José Serra. Ao fazer uma caminhada no Rio de Janeiro durante a campanha política, em 20 deoutubro de 2010, Serra foi atingido por dois objetos, uma bola de papel e uma fita crepe.O caso de agressão repercutiu em toda a imprensa e o ex-governador teve de cancelarcompromissos na capital carioca. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o comparou ao goleiro chileno Rojas,que fingiu ter sido atingido por um foguete no Maracanã, durante as eliminatórias para aCopa do Mundo de 1990223. Contra a acusação do candidato derrotado à Presidência daRepública, a militância do Partido dos Trabalhadores (PT) organizou-se em rede e levouaos Trending Topics do Twitter as hashtags: #BolaDePapelFacts, #SerraRojas e#DilmaFactsByFolha. No mesmo ano, após as eleições presidenciais, a ocupação do Complexo doAlemão no Rio de Janeiro pela polícia resultou em outras coberturas coletivas via redessociais, especialmente no microblog., Rene Silva, 17, morador do Alemão não imaginariaque seu tuíte ‘tem um tiroteio no alemão’ teria tanta repercussão e aumentaria o númerode seguidores de sua conta @vozdacomunidade de 180 para 40 mil224.Twitter põe em xeque a manchete Ainda que se questionem as condições de uma palavra-chave ir ao topo dosTrending Topics do Twitter [se programado225 ou fruto de um agenciamento], o fato é223 LULA COMPARA Serra ao goleiro Rojas e diz que agressão é mentira descarada. Folha de S.Paulo, SãoPaulo, 21 out. 2010. Disponível em: http://bit.ly/uyCnUL. Acesso jan. 2012.224 APÓS RELATAR invasão, tuiteiro do Morro do Alemão usa rede para ajudar a comunidade. Folha deS.Paulo, São Paulo, 20 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/tqxiaq. Acesso jan. 2012.225 CEO do Twitter admite que empresa censura os Trending Topics. IDG Now!, São Paulo, 01 ago. 2011.Disponível em: http://bit.ly/AbBXAt. Acesso jan. 2012. 199
  • que há uma minoria226 que faz a diferença no microblog e em outras redes. E o maisimportante é notar que a hashtag virou uma nova prática social. E se as tags são mesmoa chave para a constituição temporária e cambiante de projetos artísticos na rede eengajar pessoas em torno de algo, é possível aplicar o mesmo raciocínio à composição denotícias. Essa discussão não é nova. Começou a se difundir com a publicação do artigo Thesemantic web na revista Scientific American, em maio de 2001. Naquele ano, TimBerners-Lee, James Hendler e Ora Lassila escreveram que a Web semântica mudaria aestrutura de significação de conteúdos que circulam na rede. Essa idéia teria como eixoos links: (...) A propriedade essencial da World Wide Web é a sua universalidade. O poder de um link de hipertexto é que ‘qualquer coisa pode ligar-se a qualquer coisa’. Até à data, a Web se desenvolveu mais rapidamente como um meio de documentos para as pessoas, em vez de dados e informações que podem ser processados automaticamente. Entretanto, a proposta original implicava a unificação da linguagem decompartilhamento, o que não aconteceu, de fato. Por diversas razões, e a mais evidentedelas é a diversidade cultural. Para as máquinas compreenderem a semântica dosdocumentos e arquivos, é preciso que haja padrões de classificação fundamentados. A Web semântica é descentralizada, a priori, e a questão que se coloca é comomapear o acesso a essas coleções de informações dispersas e estruturá-las de modointeligível? A resposta passa pela criação de grupos com entendimento em comum, ofolksonomy227. Talvez isso leve a uma linguagem lógica que permitirá a linkagem de226 Para os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, uma minoria pode ser numerosa ou mesmo infinita; domesmo modo uma maioria. O que as distingue é que a relação interior ao número constitui o caso de umamaioria em conjunto finito ou infinito, mas sempre numerável, enquanto que a minoria se define comoconjunto não numerável, qualquer que seja o número de seus elementos. O que caracteriza o inumerávelnão é nem o conjunto nem os elementos, é antes a conexão, o “e” que se produz entre os elementos. Apotência da minoria não se mede por sua capacidade de entrar e de se impor no sistema majoritário, masde fazer valer uma força de conjuntos não numeráveis, por pequenos que sejam, contra a força dosconjuntos numeráveis, mesmo que infinitos (2007, p. 173-175).227 Folksonomies representam uma estrutura que emerge organicamente. E Surgem quando um grandenúmero de pessoas está interessado em uma informação em particular e é encorajado a marcá-las comtags. In: The semantic web revisited. mai./jun. 2006, p. 5. Disponível em: http://bit.ly/txQe2C. Acessojan. 2012. 200
  • dados dentro de uma web universal, conforme propôs Tim Bertners-Lee (et al) no artigoThe Web Semantic Revisited: A Web semântica que desejamos fazer é uma substancial reutilização de ontologias e base de dados existentes. São informações linkadas no ciberespaço no qual o banco de dados é enriquecido e ampliado constantemente. O que leva os usuários a reutilizar conteúdo encontrado por acaso e descobrir informação relacionada a ele, que tem sido a marca registrada das campanhas de viral na rede (2006, p.5). Trata-se da noção de collaborative tagging, segundo a qual usuários podemincluir metadados (dados sobre dados)228 sob a forma de palavras-chave paracompartilhar conteúdo (GOLDER et al: 2005, p. 1). Essa atividade tem crescido demaneira espantosa, sobretudo em redes sociais, que operam a partir dessa lógica. Assim,a informação publicada é categorizada para facilitar a busca não só pelo usuário que amarcou, mas também a qualquer pessoa com interesses em comum. Sob o ponto de vista da organização, é interessante notar que, apesar de aInternet se configurar como uma miscelânea, nas palavras de David Weinberg, essabagunça pode ser usada para fazer sentido no mundo229: Tags do Flickr podem ser agrupadas com outras características e combinadas com termos de pesquisa, e as fotos mais interessantes podem ser automaticamente mostradas, graças a todo o confuso e descoordenado significado não intencional que os usuários da Internet infundem em suas páginas. E no meio dessa bagunça, em alguma medida, a informação é aprofundada, comodefende Manovich (ver p. 171). Não é novidade que um dado bruto nada significa, um dado organizado éinformação e uma informação contextualizada resulta em conhecimento. É nesse sentidoque o pesquisador russo defende o uso das tags. Porém, a grande questão que se e colocaé como conectar milhares de dados sem reduzir a informação jornalística e exibí-los emuma nova linguagem visual híbrida? As tags dão conta disso? No Twitter, sim. Para saber mais sobre metadados, ver http://bit.ly/swTbfN. Acesso jan. 2012.228229EVERYTHING is Miscellaneous - how the Web destroys categories, disciplines and hierarchies. BoingBoing, EUA, 2 mai. 2007. Disponível em: http://bit.ly/uhphZG. Acesso jan. 2012. 201
  • O microblog estimula tanto o collaborative tagging que agora todo evento degrande porte ou acontecimentos como tragédias têm roteiros feitos a partir de hashtagse perfis de jornalistas ou jornais e cidadãos em geral. Foi assim na cobertura doterremoto que atingiu o Japão em março de 2011. Informações sobre órgãos de saúde eajuda à população e perfis de cidadãos e jornalistas que acompanharam a tragédia forampublicados em inglês e em japonês no microblog230. Figura 131. Hashtags e perfis a serem seguidos em japonês para orientar as pessoas231 O Google também montou uma interface (ainda que hierarquizada) edisponibilizou um mapa colaborativo para ser atualizado via open source. Trata-se deinterfaces de emergências, cuja produção de subjetividade tem origem nosagenciamentos coletivos de enunciação.230SIGUE LA cobertura del terremoto y tsunami en Japón desde Twitter. Clases de Periodismo, AméricaLatina, 11 mar. 2011. Disponível em: http://bit.ly/sQMkNJ. Acesso mar. 2012.231 Interface de emergência 2 http://bit.ly/sdyFCI. Acesso jan. 2012. 202
  • Figura 132. Interface de emergência do Google com informações sobre o terremoto no Japão232232RESOURCES related to the 2011 Japan crisis. Google. 12 mai. 2011. http://bit.ly/vftaUX. Acesso jan.2012. 203
  • Figura 133. Mapa colaborativo do Google Earth com informações multimídia sobre o terremoto no Japão233 A lógica das hashtags não se restringe apenas às interfaces de emergência. Emnovembro de 2011, estreou o Twitter Stories, plataforma colaborativa para narrativasbaseadas em relatos humanos234. Entrou em vigor uma nova prática social: postarconteúdo seguido de @twitterstories ou de #twitterstories: Leia sobre um único tweet que ajudou a salvar uma livraria de sair do negócio; um atleta que levou uma centena de seus seguidores para um jantar à base de caranguejo e, pescadores japoneses que usam o Twitter para vender suas capturas antes de voltar para a praia. Cada história nos lembra a humanidade por trás dos tweets, que fazem o mundo bem menor. Conte sua história: Ajude-nos a descobrir mais histórias. Conte-nos como você ou outra pessoa têm usado o Twitter de uma maneira interessante. Envie a sua, mencionando @twitterstories ou usando a hashtag #twitterstories. Inclua um link para uma foto ou vídeo que ajuda a ilustrá-la para o mundo. Cada mês, vamos escolher uma seleção de perfis para compartilhar.233 Interface de emergência 3 http://bit.ly/sZCBYJ. Acesso jan. 2012.234 Para saber mais sobre Twitter Stories, ver: http://bit.ly/tdBkQH. Acesso jan. 2012. 204
  • Figura 134. Interface do Twitter Stories, sem hierarquia, porém organizada em colunas235No Facebook, jornal mantém a tradição Há outras duas novas práticas sociais colocadas em teste por empresasjornalísticas em uma tentativa de repensar a interface e continuar a manter o leitor ou aaudiência, já que se trata de mídias clássicas como jornal, tevê, rádio e revistas. Isso não significa que o Facebook não está de olho nos mais de 955 milhões demembros cadastrados236 ou o Twitter, com seus 140 milhões de usuários237. Aliás, éinteressante anotar que nenhuma das duas redes foi criada com intuito de serapropriada pelo Jornalismo. A de Mark Zuckerberg teve origem em Harvard, em 2004, para que alunospudessem votar nas garotas mais bonitas de uma das mais prestigiadas universidadesdo mundo. Mais tarde, foi ampliada a outras escolas de nível superior e depois ganhou aInternet.235 Para saber mais sobre @twitterstories, ver: http://bit.ly/vsFHGy. Acesso jan. 2012.236 Para saber mais sobre o Facebook, ver: http://on.fb.me/wxffB2. Acesso jan. 2012.237 Os números são oficiais do blog do Twitter. Para saber mais, ver: http://bit.ly/AD1WCI. Acesso jan.2012. 205
  • Já o microblog intitula-se hoje “uma rede de informação em tempo real”238. Entreas novas práticas sociais, a primeira, citada anteriormente, é a parceria entre Facebook ejornais com o objetivo de integrá-los à rede via aplicativos. Há duas questões a seremabordadas: uma de caráter de design informacional e a outra relacionada á privacidade. Quanto ao design, os aplicativos estão organizados hierarquicamente. Ou seja, ojornal muda para o Facebook, mas mantém sua tradição dentro do aplicativo. Porém, ahierarquia e a diagramação desaparecem na linha do tempo do membro da rede social.Sobre privacidade, toda a vez que um link de uma notícia é clicado, automaticamenteentra na lista pública um aviso de que aquele texto foi lido. A mensagem para marcarcomo “não lido” aparece apenas no final do texto. Pela interface apresentada, nota-se que há um objetivo claro de compartilharindiscrinadamente e provocar uma conversa em torno do conteúdo. É possível saberquais amigos leram, por reportagens do inglês The Guardian ou do americano TheWashington Post. Ainda que pese o problema da extrema vigilância, talvez o interessante neste casoseja a forma pela qual é exibida na linha do tempo a atividade de leitura do internauta,conforme mostram as imagens a seguir. Essa é uma das tentativas de implicar pessoasem torno de algo. Figura 135. Social app do Guardian no Facebook238 Para saber mais sobre o Twitter, ver: http://bit.ly/zScLkO. Acesso mar. 2012. 206
  • Figura 136. Interface do Social Reader no FacebookO jornal como rede social A segunda prática social é o movimento inverso percebido em jornais comoHuffington Post e The New York Times. Em vez de aplicativos na rede de MarkZuckerberg, a interface dos jornais se transforma em uma rede social. HuffoPost SocialNews tem como acesso principal o Facebook, embora permita login com o Twitter239. Já oTimesPeople, do NY Times, utiliza o microblog para engajar seus leitores240. Nos dois, o Social News aparece como destaque na interface, o que tem mais pesoainda é o formato hierarquia e diagramação em colunas. Dentre os exemplos citados, o Twitter é o que melhor explica a implosão dapágina estática a partir da narrativa baseada em dados. O microblog resolve também oproblema da redundância tão recorrente em interfaces de grandes conglomerados demídia e já apontado ao longo desta tese. Não há mais página diagramada e a hierarquianão determina a importância da notícia. A manchete é substituída pelo buzz, pelarepercussão de um post, pela sua validação, não limitado à quantidade de caractere.239 HuffPost Social News: http://huff.to/tmIfgP. Acesso jan. 2012.240 TimesPeople - The New York Times: http://nyti.ms/uXijQh. Acesso jan. 2012 207
  • Na rede, as pessoas não seguem editorias, mas tags ou hashtags e perfis. OJornalismo não consegue controlar o uso de tags e hashtags nem o conteúdo relacionadoa elas, mesmo quando é o autor. Aliás, as hashtags são [ao mesmo tempo] termômetro e narrativa. Semdiagramação e colunas, a interface da notícia é remodelada. De modo geral, configura-seem uma espécie de lista. Ainda que esse formato não seja representativo de um design deexcelência, como refletem projetos gráficos da revista Wired ou do The Guardian, dálugar à reflexão sobre Infoestética, proposta por Lev Manovich em seu novo trabalho,intitulado Info-Aesthetics- Information and Form241, ainda sem data para ser publicado. Figura 137. Interface do HuffPost Social News241Para saber mais sobre Info-Aesthetics- Information and Form, ver: http://bit.ly/zW2xUT. Acesso jan.2012. 208
  • Figura 138. Interface do TimesPeople Para Manovich, Infoestética refere-se às práticas culturais que podem ser maisbem compreendidas como resposta às novas prioridades da sociedade informacional:dar sentido à informação, trabalhar com ela e produzir conhecimento a partir dela. Oobjetivo do trabalho, iniciado nos anos 2000, é detectar formas estéticas e culturaisemergentes específicas contemporâneas mesmo que não resultem no belo242: Nosso trabalho é descobrir o que é o novo belo na era da informação. Não penso que já o sabemos. Esse novo belo que virá talvez nada tenha a ver com a forma do iMac, ou com as músicas parecidas com máquinas do Kraftwerk ou as formas de bolhas da arquitetura contemporânea. Se não tivermos sorte, será algo que até mesmo as nossas máquinas acharão feias. No ponto em que estamos simplesmente não sabemos ainda. E ainda que Google, YouTube, MySpace tenham design próprio, o pesquisadorrusso acredita que essas empresas não se preocupam com uma nova estética:243 É claro que o Google vem com uma estrita economia de textos que exibem informação pura, retirando todos os gráficos (falo do sistema original de busca que procura por websites, em oposição a imagens e vídeos). Mas você já podia achar essa estética nos guias telefônicos do século XX, num sistema de informação de trens e em outros designs de informação existentes.242A ERA da infoestética. Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 12 nov. 2007. Disponível em:http://bit.ly/zXHWsr. Acesso jan. 2012.243 IBIDEM. 209
  • Similarmente, muitas páginas do Myspace têm sua própria estética e backgrounds coloridos, ícones piscando e imagens “fofinhas” - mas isso não é diferente do jeito que os adolescentes e estudantes decoram os seus quartos na América. A dinâmica das redes sociais coloca em xeque o conceito de edição e leva arepensar a forma pela qual a notícia é produzida e exibida. Isso responde, em parte, apergunta feita em 2009 pelo crítico de mídia e ativista Geert Lovink no evento Estamospreparados para o público 2.0, realizado em São Paulo: “O que é notícia para as redessociais?”244. Nesse contexto, a pirâmide invertida só faz sentido quando é ponto departida para reconstruir a informação e colocá-la em rede. O produser/prosumer recebe uma informação, a valida, modifica o lide e aredistribui. Isso não significa romper com a linearidade, mas perceber outra abordagem:a linearidade se dá a partir de estratégias de revezamento: eles publicam na nuvem,remixam e republicam o que dá lugar a um novo texto. Mas essa prática social sóencontra sentido se for realizada em uma rede social organizada, como propõeLovink245: Queremos que as redes sociais sejam administradas por poucas pessoas? Não. Então, deveria haver um potencial maior de reagrupar. Há muitos não envolvimentos em redes. O que acontece quando você dá poder às pessoas? Há muito ruído, mas as redes da ‘moda’ serão substituídas por redes organizadas, menos vagas mais amistosas e muito mais focadas no que elas querem atingir. A pergunta de Lovink leva a outras, respondidas logo adiante. O que é rede social?Por que um jornal de Internet não tem a mesma produção de subjetividade que umarede social? Por que as redes sociais abrem espaço a relações de poder e contrapoder(ver p. 107)? Por que a contrainformação246 circula mais facilmente nas redes sociais?No livro Communication Power (2009), o sociólogo catalão Manuel Castells faz umainteressante definição de rede:244TWITTER para quê? Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 10 mai. 2009. Disponível em:http://bit.ly/xM9Zk8. Acesso jan. 2012.245 A ERA da infoestética. Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 12 nov. 2007. Disponível em:http://bit.ly/zXHWsr. Acesso jan. 2012.246 Para o filósofo Gilles Deleuze, informação é o conjunto de palavras de ordem, que regem umasociedade. A contrainformação opera (e só é eficaz) quando é ou se converte em ato de resistência. In:Gilles Deleuze, arte e resistência. 4 jul. 2011. Disponível em: http://bit.ly/zM1eO8. Acesso jan. 2012. 210
  • Uma rede é um conjunto de nós interligados. Os nós podem ser de diferente relevância para a rede, e os nós de modo particularmente importantes são chamados centros em algumas versões da teoria de rede. Stull, qualquer componente de uma rede (incluindo os centros) são um nó, e sua função e significado dependem dos programas da rede e de sua interação com os outros nós da rede. Os nós aumentam a sua importância para a rede por meio da absorção de informações mais relevantes, e processamento de forma mais eficiente. A importância relativa de um nó não decorre de suas características específicas, mas de sua capacidade de contribuir para a eficácia da rede na realização dos seus objetivos, conforme definido pelos valores e interesses programados para essas redes. No entanto, todos os nós de uma rede são necessários para o seu desempenho, embora elas permitam alguma redundância como uma salvaguarda para o seu correcto funcionamento. Quando os nós se tornam desnecessários para o cumprimento dos objetivos da rede, elas tendem a se reconfigurar, excluindo alguns modos e acrescentando outros novos. Nós só existem e funcionam como componentes de redes. A rede é a unidade, e não o nó (p. 20-21). Redes sociais não são criações do século 21. Constituem o padrão fundamental davida, de todos os modos de vida, afirma Castells (IBIDEM, p 21) e não é uma discussãonova (COSTA: 2005, p. 236) Porém, a atual interconexão generalizada entre as pessoastem chamado a atenção de muitos teóricos sobre o modo pelo qual os coletivos secomportam quando se constituem redes de altas densidade na Internet. Estamos em rede, interconectados, com um número cada vez maior de pontos ecom uma frequência que só faz crescer. A partir disso, torna-se claro o desejo decompreender melhor a atividade desses coletivos, a forma como comportamentos eideias se propagam, o modo como as notícias fluem de um ponto a outro do planeta, etc.(IBIDEM). A grande questão que se coloca é como criar sinergia entre as pessoas? Redes sociais não são comunidades. Comunidades remetem à solidariedade,vizinhança e parentesco. Hoje, esses aspectos são alguns entre os muitos possíveis nasredes sociais. Há novas formas de associação, as pessoas estão imersas numacomplexidade chamada rede social, com muitas dimensões e que mobiliza um fluxo derecursos entre inúmeros indivíduos distribuídos segundo padrões variáveis. (IBIDEM, p.239). 211
  • Embora na sociedade informacional o homem seja hiperindividualista e onarcisismo seja elevado a ultima potência, principalmente, na Internet247, há umaenorme disposição em compartilhar, basta haver uma motivação que o coloque emrelação com outras pessoas. Aliás, afirma Clay Shirky: “a motivação para compartilhar é o fator determinante;a tecnologia é apenas o facilitador” (2010, p. 75). Para Shirky, há uma malha deretroalimentação de motivações pessoais e sociais na Internet que inclui desde aWikipedia a movimentos políticos. Na verdade, a sinergia entre as pessoas se dá por meio dos laços fracos. Em 1973,o sociólogo Mark Granovetter publicou um artigo intitulado The Strength of Weak Tiesno qual afirma que as pessoas tentam procurar emprego mais por intermédio deconhecidos do que de amigos ou de familiares. Amigos e familiares representam o queele chamou de laços fortes. Já os conhecidos fazem parte dos laços fracos. Para Granovetter, deve-se procurar emprego por meio dos laços fracos, pois esseslaços fracos são fortes com indivíduos de outro grupo que você ainda não tem acesso. Oimportante é atingir os laços fracos, porque esses vão replicar a mensagem para mundosmais distantes. Rogério da Costa, da PUC/SP, afirma que a tese de Granovetter caiu como umaluva nas redes sociais: Rede social é formar laços fracos. Você tem seus laços fortes, como sempre teve, mas rede social na Web, seja Twitter, Orkut, MySpace, Facebook, etc. é para fomentar esses laços fracos, que, ao contrário do que podemos pensar, são muito importantes. É justamente aquele cartão de uma pessoa que você ouviu em um congresso, e você envia um e-mail para ela, que daqui a pouco te convida para integrar uma rede social na qual você publica um artigo, que, seguindo nesse caminho vai muito mais longe. Essa é a estratégia das pessoas que compreenderam que as redes sociais são um modo de construir um outro tipo de relação247 SOMOS hipermodernos. Facom/UFBA – Ciberspesquisa, Salvador, 17 jul. 2005. Disponível em:http://bit.ly/pTLjRR. Acesso jan. 2012. 212
  • de propagação de interesses e captação de coisas interessantes por meio justamente desses laços fracos (2009). Um dos exemplos mais significativos desse raciocínio foi a Primavera Árabe.Milhares de pessoas que foram às ruas pedir o fim das ditaduras e das atrocidades noOriente Médio e na África não possuíam obrigatoriamente grau de parentesco ou devizinhança. Mas foram solidárias à causa (ver p. 196-197). Essa é a diferença marcante entre jornais e redes sociais e explica por que nãofunciona criar um Social News em uma empresa de comunicação, como fizeramHuffington Post e The New York Times (ver p. 207). Não é da lógica do jornal operar noconceito de rede. A rede é baseada em um revezamento constante dos espaços liso e estriado. Ojornal é estriado por excelência e não permite produzir espaços lisos como Facebook eTwitter. Castells demonstra as razões por que tais ações são impossíveis, sobretudo porquestões políticas: “remove-se o controle sobre a distribuição da mensagem. O quecontrasta com o poder da mídia de reformatar a mensagem a ser difundida” (2009, p.418): (...) Se as redes de mídia se envolverem em uma cruzada política em torno de uma opção política, seu destino depende do sucesso desta opção. Elas perdem sua relativa neutralidade, o que diminui a credibilidade, fator-chave para se chegar a um público amplo. Se jogam e perdem, suas conexões políticas podem ser danificadas, e elas podem pagar por isso em termos de vantagens reguladoras. Se seus funcionários são nomeados por critérios políticos, o seu profissionalismo vai sofrer. E, finalmente, se desvanecem suas estrelas políticas, seus resultados financeiros vão se deteriorar, e soar a campainha para seus proprietários e seus financiadores. É verdade que há um número de casos em que a cruzada ideológica (Fox News, ou o espanhol El Mundo) também contribui para um bom negócio, por um período substancial de tempo, e num contexto político específico. Mas, em termos gerais, a imprensa partidária é uma proposição nefasta no mundo dos negócios. 213
  • Esse é um dos argumentos pelos quais se pode afirmar que o jornal é um jardimmurado 248 ou, nas palavras de André Lemos, da UFBA, faz parte de um portal-curral,segundo o qual "configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que tratam aspessoas como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionadosem seus calabouços interativos" (2000). Já as redes sociais permitem interferências, ainda que sejam pré-programadas. Omodelo portal ainda está em vigor por questões culturais e econômicas, ainda quepesem os modelos de negócios estabelecidos pelas redes sociais e Google, por exemplo.E são nas redes sociais que contrapoder e contrainformação operam de maneira maissignificativa. A implosão da página estática Entretanto, não se pode negar que jornais como NY Times e Guardian e a rede detelevisão BBC têm investido esforços em repensar a interface sem se limitarem aoformato definido para o Jornalismo de Internet – hierarquia e diagramação em coluna. ONY Times aposta em engajamento, como o TimesPeople, o Guardian na estética da basede dados, com o Datablog249, e a BBC na Web semântica250. Porém, o resultado desses trabalhos é tratado como acessório, como algo quecomplementa o texto ou melhora o desempenho da busca, no caso da emissora inglesa(ver p. 171) e não como uma linguagem própria da dinâmica da Web que subverta opadrão em vigor. De que maneira isso pode efetivamente ser compreendido? Se observada fora do espaço estriado da grande imprensa, a cobertura do Morrodo Alemão é reveladora. Enquanto jornais como Globo News e UOL Notícias destacavamos últimos acontecimentos no formato tradicional – manchete, foto e chamada -, um248 Para saber mais sobre jardim murado ou walled garden, ver: http://bit.ly/zGgUdk. Acesso jan. 2012.249DATA JOURNALISM and data visualization from the Datablog. The Guardian, Londres, 26 mar. 2012.http://bit.ly/t4TIq1. Acesso jan. 2012.250 Para conhecer o projeto da BBC de Web semântica, ver: http://bbc.in/zXGGer. Acesso jan. 2012. 214
  • mapa georeferenciado e aberto do Google permitia cobertura colaborativa - por meio doTwitter e também oferecia informações do jornal O Globo251. O autor do projeto é uma empresa de planejamento e monitoramento de redessociais chamada Moscatelli. Não se trata aqui de fazer propaganda, mas de mostrarpossibilidades outras de uso de aplicativos sem hierarquia para o Jornalismo. Figura 139. Interface do Google Maps para cobertura da invasão do Morro do Alemão com informações de cidadãos e do jornal O Globo via Twitter Figura 140. Interface da Globo News com a cobertura da ocupação do Alemão: hierarquia e diagramação251 Twitter - Violência Rio de Janeiro http://bit.ly/tWTvTc. Acesso jan. 2012. 215
  • Figura 141. Interface do UOL News com a cobertura do Alemão: hierarquia ediagramação 216
  • Não seria exagero propor uma abordagem assim, além da primeira, na página189: Figura 142. Interface do Google Search sobre a ocupação do Alemão Ou assim: Figura 143. Interface de busca dinâmica do Twitter sobre o Alemão via Google Search 217
  • Ou ainda por meio do Google Earth, criando um mash-up de dados: Figura 144. Reprodução do Google Earth com vídeos e informações sobre o Alemão E essa narrativa poderia ser recontada ou reconstruída mais tarde assim:Figura 145. Cena de A era da estupidez, de Franny Armstrong. No filme, o ator PetePostlethwaite, morto em 2011, assume o papel de um produser/prosumer ao contar e ao mesmotempo recriar um documentário sobre a destruição da terra por causa da estupidez do homem.Ele opera uma interface simples, com uma lista de links que levam a uma imensa base de dadoscomposta por áudio, texto, foto e vídeo252.252 Para saber mais sobre A era da estupidez, ver: http://imdb.to/yMb87l. Acesso jan. 2012. 218
  • O argumento de Giselle Beiguelman fecha a questão sobre a implosão da página: Nesse sentido, o que se impõe confrontar hoje é o desaparecimento dos critérios que permitiam ordenar, classificar e distinguir não só os distintos formatos discursivos dos textos, em função de sua materialidade (carta, jornal, documento de arquivo ou livro), mas as próprias especificidades entre as mídias sonoras, visuais e textuais que têm agora seus limites objetivos implodidos pela interface (2003, p. 13). Um print-screen da tela de vídeo no YouTube com os posts publicados no Twittersobre os protestos no Egito demonstram claramente que a dinâmica de redereconfigurou completamente a interface jornalística253: Figura 146. Interface do Twitter exibida no YouTube com posts sobre os protestos no Egito A esta altura, o leitor deve estar se perguntando por que criar novo repertóriopara a interface jornalística na Internet uma vez que o Jornalismo tem sua base calcadana hierarquia? Fala-se tanto em não linearidade, mas também se fala tanto que aspessoas apenas passam os olhos pelos textos, leem somente os primeiros parágrafos deuma notícia.253O vídeo, intitulado The egyptian revolution on twitter, está disponível em: http://bit.ly/wgYx5w. Acessojan. 2012. 219
  • Então, a ideia é a de uma interface nômade, desterritorializada, sem pontos outrajetos embora evidentemente os tenha (DELEUZE; GUATTARI: 2007, p. 53), porémpresa a um formato clássico de texto? Isso é possível? Sim, a partir da noção de revezamento (IBIDEM, p. 180). Porque do mesmo modoque a rede é um espaço liso por excelência, que possibilita ações nomádicas, permiterealizar percursos no espaço estriado, metrificado, pertencente ao newsmaking(TUCHMAN: 1978). É nesse espaço tensionado que se reconfigura a estética da composição: por umlado, a Internet foi desenvolvida para ser uma espécie de rizoma, cuja linha segue umplano que não tem mais dimensões do que aquilo que o percorre. Por outro, há a relaçãode aparato de captura, caracterizado por ocupação metrificada. Isso indica que o espaço liso não deixa de ser constantemente convertido emespaço estriado, e o espaço estriado é constantemente revertido a um espaço liso. Hámisturas e passagens de um para outro, graças a movimentos completamente diferentes(DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180). É por essa razão que hoje é possível ter uma interface nômade cujo conteúdoremete ainda a uma estrutura textual orientada pela Teoria do Jornalismo. Ora, umnômade não tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente ele os tenha,explicam Deleuze e Guattari: (...) Se o nômade pode ser chamado de desterritorializado por excelência, é justamente porque a reterritorialização não se faz depois, como no migrante, nem em outra coisa, como no sedentário, Para o nômade, ao contrário, é a desterritorialização que constitui sua relação com a terra, por isso ele se reterritorializa na própria desterritorialização. A terra deixa de ser terra e tende a se tornar simples solo ou suporte (2007, p. 53). (...) O nômade aparece ali na terra sempre que se forma um espaço liso que corroi e tende a crescer em todas as direções. O nômade habita esses lugares, permanece nesses lugares, ele próprio os faz crescer, no sentido em que se constata que o nômade cria o deserto tanto quanto é criado por ele. Ele é o vetor da desterritorialização (IBIDEM). 220
  • É verdade que ao longo desta tese foram mostrados exemplos para o queManovich chamou de deep remixability254 (ver p. 172-175; 193-194) . Para o pesquisadorrusso, a deep remixability é definidora de novas propriedades no ambiente digital:interface e ferramentas, correspondentes a dois componentes fundamentais de qualquersoftware moderno: estrutura de dados e algoritmos. Cada ferramenta disponibilizada por uma aplicação de mídia é essencialmenteum algoritmo que processa ou cria formatos particulares de dados (MANOVICH: 2008, p.102). Porém, quando se trata apenas conteúdos baseados em escrita (predominante naInternet), o melhor caminho é ainda o do pensamento balizado pelo revezamento. O esforço em torno de um novo modelo da estética da base de dados parte dopressuposto de que também é preciso abandonar as reproduções analógicas recorrentesnos softwares, já abordadas anteriormente (ver p. 162). A interface do Adobe Acrobat Reader é um exemplo dessa falta de vocabulárioespecífico para a nova mídia (LOVINK: 2009; MANOVICH: 2008; BEIGUELMAN: 2003).Combina metáforas de uma variedade de tradições e tecnologias de um jeito que nãoparecem ter lógica. Em uma única interface há elementos: 1) de áudio (botões de play e de gravar) do século 20 2) de edição de imagem (botões de zoom) 3) com associação direta à tradição impressa ainda que nunca tenham sido usados no papel (ícones de tesoura e cola) 4) presentes em livros (janelas de anotações) 5) padrão de GUI [Graphical User Interface] como busca, filtro e múltiplas janelas Essa repetição contínua do ambiente analógico recai em questionamentos, comofaz Lev Manovich: "(...) Não é claro para mim porque me pedem para percorrer aspáginas clicando na seta para a frente e para trás - uma convenção de interface que é254O remix envolve não apenas conteúdos de diferentes mídias, mas também técnicas fundamentais,métodos de trabalho e modos de representação e de expressão. In: MANOVICH, L. Software takescommand, 2008, p. 121-128. 221
  • normalmente usada para mover meios de comunicação de imagem.” (2008: p, 98-99).Mas esse é assunto para uma outra pesquisa. 222
  • Conclusão Ainda que seja difícil compreender a perda do processo de padronizaçãoeditorial no Jornalismo por causa da dinâmica das redes sociais, o fato é que setrata de algo irreversível. Isso significa uma completa reestruturação nas bases queorientam esse campo da Comunicação. Redes sociais constituem interfaces nômades, territorializadas e desterritorializadas.Esse raciocínio é fortalecido não somente por teoria e práticas sociais, mas porpesquisas realizadas por institutos como Nielsen, Ibope e ComScore, que mostramaumento expressivo no acesso a Facebook e Twitter. Nas redes sociais, fora dos formatos portal e site, as notícias deixam de ser apenasuma interação entre repórter, diretor, editor, constrangimentos da organização,necessidade de manter laços com as fontes, desejos de audiência e poderosasconvenções culturais dos jornalistas, como definiu Michael Schudson. Atualmente, estão envolvidos também novos atores e agentes sociais,dessemelhantes, integrantes de sistemas bottom-up – e não top-down como operam aschamadas mídias clássicas –, pois adquirem seus conhecimentos a partir de baixo e osfazem replicar-se. É o que o escritor Steven Johnson chamou de comportamentoemergente: Em uma linguagem mais técnica, são complexos sistemas adaptativos que mostram comportamento emergente. Neles, os agentes que residem em uma escala começam a produzir comportamento que reside em uma escala acima deles: formigas criam colônias; cidadãos criam comunidades; um software simples de reconhecimento de padrões aprende a recomendar novos livros. O movimento das regras de nível baixo para a sofisticação do nível mais alto é o que chamamos de emergência (2003, p. 14). Embora essa lógica leve à implosão da página estática e revele outra perspectiva deinterface, o Jornalismo das grandes corporações ainda lida com a Internet domesmo modo que em suas versões tradicionais. É o que revela a análise feita com os 223
  • quinze jornais de maior audiência no Brasil e no exterior, mapeados segundo dados doIbope e detalhados no último capítulo. Porém uma observação sistemática de repertórios como os da arte digital, demashups, formadores do media visualization, do pesquisador Lev Manovich, e dasnarrativas baseadas em tags e hashtags ajudam a repensar a exibição da notícia ecomprovam a hipótese principal desta tese: responder se a interface teve de se deslocarporque a produção está se modificando. Sim, deslocou-se. Não há volta. E tambémcorrobora as hipóteses secundárias: O Jornalismo de Internet atual não consegue converter em seus interesses anotícia que circula nas redes sociais: apesar de ter se apropriado delas, especialmenteo Twitter, o Jornalismo não controla a informação que circula no fluxo como o faz emsuas versões de papel, Web e aplicativos. Nem as publicadas por fontes. E o Wikileaks fecha questão sobre isso. Ainda que seu fundador Julian Asssange tenhafeito acordos com Guardian, New York Times e Der Spiegel, foi o Wikileaks quem passou acomandar parte do jogo. Por uma razão muito simples de compreender e ao mesmotempo bastante complexa: nas redes, a produção (inclusive a das fontes) é resultado deum movimento que provém do excedente cognitivo, definido pelo escritor Clay Shirkycomo “fruto do tempo livre de cidadãos escolarizados do mundo, como um coletivo”: Algo que torna a era atual notável é que podemos agora tratar o tempo livre como um bem social geral que pode ser aplicado a grandes projetos criados coletivamente, em vez de um conjunto de minutos individuais a serem aproveitados por uma pessoa de cada vez (2010 p. 14-15). Esse entendimento também poderia se referir à inteligência coletiva de Pierre Lévy(1999) ou à emergência bottom-up de Steven Johnson (2003). Se esses agentes fossemintroduzidos ao sistema de produção de notícias, seria possível remodelar a forma pelaqual se pensa o Jornalismo na teoria e na prática - do processo editorial ao gráfico. Casoisso ocorresse, a interface não ficaria descolada do ambiente colaborativo, o que levariaessa prática para um novo patamar. 224
  • A ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pela polícia em 2010 éesclarecedora nesse sentido. À cobertura da imprensa, somaram-se às coberturascoletivas, especialmente aquelas realizadas pelo Twitter. Um dos produsers/prosumers, Rene Silva, 17, morador do Alemão não imaginaria queseu tuíte ‘tem um tiroteio no alemão’ teria tanta repercussão e aumentaria o número deseguidores de sua conta @vozdacomunidade de 180 para 40 mil255. Essa ação fez Silvasair das redes, na posição de observador dos fatos, a personagem em jornais eprogramas de televisão, como foi mencionado no capítulo 3. Outra situação igualmente interessante foi o excedente cognitivo reunido para narrara situação no morro do Alemão a partir de um mapa georeferenciado e aberto do GooglePor meio de acesso via Twitter, qualquer pessoa podia enviar informações sobre o queestava acontecendo ali. O mapa também oferecia notícias de O Globo na Internet. Oconteúdo era dividido por cor para diferenciar a abordagem coletiva da imprensatradicional. Isso mostra que esse excedente cognitivo não está associado à lógica do newsmaking.É sabido que o newsmaking é um componente da noticiabilidade, conforme explicado nocapítulo 2. São os critérios de noticiabilidade que indicam o que será publicado pelaimprensa. Também são esses os critérios aplicados à diagramação da primeira página deum jornal de papel. Eles fornecem diretrizes para apresentação do material, sugerindo oque deve ser prioritário. É dessa maneira que são estabelecidas as quantidades de chamadas que uma capaterá. Não é sem razão que perdurou por mais de 110 anos o slogan do The New YorkTimes: All the News Thats Fit to Print (Todas as notícias que podem ser impressas). Maistarde, nos anos 2000, o jornal americano o ampliou para a Web: All the News Thats Fit toClick - or Blog, Stream, Archive, Digitize, E-Mail, Personalize, etc.255APÓS RELATAR invasão, tuiteiro do Morro do Alemão usa rede para ajudar a comunidade. Folha deS.Paulo. 20 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/tqxiaq. Acesso jan. 2012. 225
  • O lema do Times está totalmente atrelado ao newsmaking. Aliás, a organização deuma redação, sobretudo em relação ao perfil profissional, e a orientação editorial têmorigem nesse conceito (WOLF: 2002). Curioso anotar que, transposta para a Internet (Web e aplicativos, entre outros), aideia segundo a qual a organização se dá por critérios de noticiabilidade e valor-notíciade composição levou a extremos – da absoluta economia ao total exagero –,mencionados nos capítulos 2 e 3. Ficou comprovado que, em alguns casos, independentemente do suporte (papel,tevê, rádio) e dos dispositivos (fixos ou móveis), a interface não chegava nem a emular aversão clássica. Não foi percebido critério no uso de elementos de composição, comolinks ou multimídia. Design de superfície, redundância e imperativo predominavam, oque Giselle Beiguelman chamou de “clicagens burras” (2004). Por outro lado, havia (e ainda há) jornais com mais de 100 chamadas em suainterface principal, como o New York Times. Alguém lê tudo isso? Ou seja, um exaustivouso do valor-notícia de composição no qual prevalece a noção de que quase tudo éimportante. Isso passa ao largo da tentativa de reorganizar o que David Weinbergchamou de “miscelância” na Internet. Tanto é verdade que uma corrente de pesquisa atropelou o gatekeeper pela defesasistemática do termo “curadoria da informação” para que a escolha continue sendo feitade cima para baixo. Porque, de modo geral, é isso que sugere o termo, que tem origem naarte, na metade do século 19. A discussão sobre curadoria da informação apareceu emnovembro de 2008 em um texto do professor Jeff Jarvis, diretor do Tow-Knight Centerfor Entrepreneurial Journalism, ligado à universidade de Jornalismo de Nova York. Jarvis redefiniu curadoria como “a necessidade de o editor organizar, corrigir ecriticar o excesso de informação que circula na rede256”. É correto dizer que o gatekeepertrabalha com a ideia da seleção, o profissional é uma espécie de porteiro, de guardião, e256 CURATION and journalists as curator. mindymcadams.com, EUA, 3 dez. 2008. Disponível em:http://bit.ly/9bTY. Acesso mar. 2012. 226
  • decide o que fará com uma informação. Porém, organizar, corrigir e criticar faz parte daprática jornalística total. Não há a necessidade de um curador, seja para o Jornalismo oupara as redes sociais. Porque o filtro na rede se dá a partir de validação e recomendaçãode conteúdo na própria rede. Aliás, a sobrecarga de informação e a necessidade de filtro não surgiram com aInternet. Na realidade, são anteriores a ela. Começaram em 1453 com a invenção daimprensa de Gutenberg. “Por causa da Internet, temos a impressão de que o excesso émaior”, explica o escritor Clay Shirky. Para ele, a grande questão não é o aumento exponencial de informação disponível,mas a falta de meios eficientes para organizar a busca do que se deseja (2011). Só oGoogle não resolve. Nem os mecanismos de pesquisa dos jornais que, muitas vezes, serevelam inconsistentes. Ignoram duas importantes rupturas: memória coletiva efiltragem colaborativa. A interface se auto-organiza por revezamento e agenciamento: a interfacecircula em um fluxo atemporal. A produção de conteúdo é baseada principalmente emagenciamentos coletivos de enunciação, burburinhos, zumbidos, que têm na figura doproduser/prosumer seu maior colaborador, além do crowdsourcing. Vem de todos oslados, transborda, rompe os limites. É óbvio que no espaço liso das redes, o Jornalismoopera por tentativas de estriá-lo, de criar limitações e impor procedimentos típicos dasua prática social. Conforme abordado no capítulo 1, o entendimento de agenciamento na obra deGilles Deleuze e Félix Guattari está relacionado à produção de subjetividade, ao desejocomo construção junto ao socius. Em Micropolítica: Cartografias do Desejo, Guattari eRaquel Rolnik o definiram para além de estrutura, forma, processo e montagem: “Umagenciamento comporta componentes heterogêneos, tanto de ordem biológica, quantosocial, maquínica, gnosiológica, imaginária”. (2005, p. 381). É por causa do agenciamento que a interface é reconfigurada. Esse burburinhoproduz subjetividade a partir da enunciação, que produz enunciados em um contexto 227
  • sempre coletivo e heterogêneo. Subjetividade essa que interfere constantemente nainterface. Não se pode esquecer o fator tecnológico. Vale lembrar que são resultado deagenciamentos o excedente cognitivo, a inteligência coletiva e a emergência bottom-up. Também é verdade que as próprias redes sociais se revezam entre ser máquinas deguerra e aparelhos de captura. De novo, é esclarecedor o exemplo do movimento contraas leis antipirataria (SOPA, sigla em inglês) e de proteção à propriedade intelectual(PIPA, sigla em inglês), já abordado na Introdução (ver p. 23-24), mas agora tendo oGoogle como protagonista. O Google, mesmo preocupado com negócios, é o mesmo que estimula mobilizaçõesna rede. E é exatamente isso que diferencia as redes das interfaces jornalísticas: apossibilidade de produzir espaços lisos que as empresas de comunicação não permitem. É por essa razão que não faz sentido que jornais como Huffington Post ou The NewYork Times criem redes sociais dentro de suas plataformas ainda que linkadas a outrasredes sociais. O Social News é resultado do excedente cognitivo e é isso que mexe comestruturas já solidificadas, esmiuçadas a seguir. A Social News alterou significativamente a forma pela qual a notícia éproduzida e disseminada: já que o Jornalismo não controla o fluxo informacional, oconceito de edição entra em xeque. Com isso, não há mais necessidade de diagramação ea hierarquia, principalmente a manchete, não determina mais a importância da notícia. Por essa razão também não faz sentido pensar em gatekeeper (ou curador) para aInternet, explicado no tópico anterior. O termo que melhor se adequa nesse caso éprodusage (produção e uso). Editorias são substituídas por tags ou hashtags. As tags sãotermômetro e inauguram não só uma nova forma de ler, mas de exibir conteúdo. NoTwitter, por exemplo, o produser/prosumer segue palavras-chave e não editorias oumanchetes. Isso se tornou uma prática social. 228
  • O microblog estimula tanto o collaborative tagging que agora todo evento de grandeporte ou acontecimentos como tragédias têm roteiros feitos a partir de hashtags e perfisde jornalistas ou jornais e cidadãos em geral. Foi assim na cobertura do terremoto queatingiu o Japão em março de 2011. Informações sobre órgãos de saúde e ajuda àpopulação e perfis de cidadãos e jornalistas que acompanharam a tragédia forampublicados em inglês e em japonês nessa rede. É verdade que a interface auto-organizada em rede implica rediscutir questões deética e credibilidade. Porém a própria dinâmica das relações que ali se estabelecemresolve isso de várias maneiras. Por exemplo, quando há vontade de indução de valiasobre fatos, principalmente políticos ou de fatos envolvendo tragédias ou conflitos. A greve da polícia militar na Bahia no início de 2012 é esclarecedora nesse sentido.Ganharam espaço nas redes sociais boatos sobre violência e criminalidade, o queaumentou a tensão, principalmente em Salvador, sede da mobilização. Mas a própriarede se encarregou de desmenti-los. A contrainformação deu outro ângulo não só à cobertura da imprensa e despolitizoua divulgação de notícias também nas redes. No dia 3 de fevereiro, considerado o maisviolento, alguém espalhou que um shopping da capital baiana havia fechado as portas.Mas um depoimento no Facebook, acessado via celular, refutou a informação. O comérciofuncionava normalmente. Outro caso importante foi a denúncia de estupro na 12ª edição no Big Brother Brasil,da Rede Globo. A emissora carioca, em uma tentativa de impedir o vazamento de umvídeo de sete minutos no qual o modelo Daniel Gustavo Rodrigues aparecesupostamente abusando da estudante de administração Monique Amin, não conseguiucontrolar a circulação nas redes sociais. As imagens se espalharam feito rastilho depólvora, o que levou à expulsão do participante do reality show e a abertura de umainvestigação policial257.257EDIÇÃO DO BBB12 ignora possível caso de estupro. Veja, São Paulo, 16 jan. 2012. Disponível em:http://bit.ly/zm6MR4. Acesso fev. 2012. 229
  • A World Wide Web não é o único protocolo a permitir uma estética do banco dedados: não se pode negar que há avanços consideráveis na produção e na exibição deinformações jornalísticas no protocolo de Tim Berners-Lee, sobretudo no que se refere àtecnologia. Obviamente, em uma rede com alta velocidade de conexão, aumenta-se acapacidade de download de conteúdo e, consequentemente, a maior oferta dehipermídia. Porém, a base de criação é a mesma. É por isso que a interface funciona pormeio de tradições. Um exemplo disso é o browser258, do inglês browse, cuja própria denominação estárelacionada à lógica do nomadismo, segundo a qual o sujeito navega pela possibilidadede linkagem de algo que pode ser permutado sem limites determinados e étransformado em um paginador. Browse remete a flanar e não a navegar. O flâneur,segundo a definição de Charles Baudelaire, é aquele que passeia pela cidade a fim deexperimentá-la259. É assim que a rede opera. É assim que o design tem de ser pensado. O texto também é reflexo dessa estrutura ancorada às Teorias do Jornalismoaplicadas às mídias clássicas e à necessidade de reprodutibilidade das grandescorporações de comunicação. O que explica, de certo modo, a exibição em manchete,linha fina, resumo e foto, a exemplo de uma página de jornal impresso. Trata-se de umfac-símile com mídia distribuída. E isso não aparece somente na Web. Nos aplicativos também. Principalmente osfechados, pagos. Embora frutos de um design belíssimo, como o da revista Wired (iPadou iPhone), seguem convenções. Mas não precisavam ser assim. Poderiam serconcebidos não para serem jardins murados, como os portais-currais denominados porAndré Lemos, mas para permitirem a produção de espaços lisos. A interface, seja ela de Web ou de Internet das Coisas, tem de ser percebida como ummapa cognitivo, que requer uma nova linguagem visual e um novo vocabulário crítico,mesmo que resulte em uma estética de experimentação ainda que não considerada bela.258 Segundo o dicionário Houaiss, browse significa: folhas, ração e outros alimentos colhidos a esmo (poranimais), p.ext. busca rápida com os olhos.259 Para saber mais sobre flâneur, ver: http://bit.ly/wGoVYt. Acesso fev. 2012. 230
  • É urgente sistematizar critérios para julgá-la, como afirmou o escritor Steven Johnson(2001, p. 20-21). E os trabalhos de arte digital são um ponto de partida importantíssimopara isso, já que desafiam a categorização. São obras compostas pela matemática, baseadas em algoritmo, sem hierarquia oucategorização mesmo que em alguns casos, as tags sejam pré-programadas. Por isso, ainterface jornalística deveria ser pensada não só a partir de um coletivo inteligente, masdo input de dados e tags, pois ela opera por revezamento entre informação econtrainformação; poder e contrapoder. É resultado de alteridades. Não há uma estética definitiva. As redes colocam emxeque a estética PowerPoint de Manovich e os formatos portal e site não cabem nessanova abordagem. É como afirmou o escritor Clay Shirky: “Uma das razões pelas quais o Google foi bem-sucedido é o entendimento de que não há arquivos, não há prateleiras”. Com a empresade Lary Page e Sergey Brin foi assim. Como seria com a interface da notícia? Se um projeto como o Sixth Sense, do Massachusets Institute of Tecnology (MIT),como demonstrado no capítulo 1, fosse reelaborado para o Jornalismo, qual seria aabordagem, uma vez que trabalha com sensores que projetam diferentes interfaces, nãosó diferentes como vestíveis? E não há apenas a Web ou aplicativos. Há algo que ostransborda. O sujeito se transforma em uma interface conectada. Ele carrega a interface. Sabe-se que um dos impedimentos é cultural. O outro é econômico. Embora osagenciamentos coletivos imponham interfaces nômades, o que está em jogo é sabercomo o Jornalismo pode ganhar dinheiro com essa nova abordagem. Essa é talvez umadas razões para que o raciocínio das empresas de comunicação não tenha mudado aolongo de quase 20 anos de existência da World Wide Web, como será abordado a nopróximo tópico. 231
  • A economia informacional Apesar de sua função social e de ser definido por Michael Kunczik como “a profissãoprincipal ou suplementar das pessoas que reúnem, detectam, avaliam e difundem asnotícias, ou que comentam os fatos do momento” (1998, p. 16), o Jornalismo é umnegócio. Vende notícias. Esse componente está visivelmente presente no newsmaking.A informação jornalística está inserida na sociedade desde o século 17, quando começama surgir publicações periódicas (MEDINA: 1978p. 15): (...) Os próprios avanços tecnológicos fazem parte das necessidades da industrialização, ou que reforça a informação, no caso, jornalística, como decorrência normal do sistema econômico que está na base. Há então a considerar a informação como um produto, mais um, desse sistema (IBIDEM, p 16). (...) O Jornalismo nos meios gráficos e eletrônicos, o cinema e a televisão nos programas de lazer, todos os recursos técnicos de reprodução e divulgação de massa. E não é mais possível discorrer sobre a mensagem jornalística como um dado isolado dessa realidade (IBIDEM). A crítica à industrialização da notícia começa no mesmo século, após a burguesia,em ascensão na época, criticar o que ficou conhecido por “mentes privilegiadas” quedetinham acesso a informações. Ou seja, “uma teoria autoritária da imprensa, típica dosséculos 16 e 17, que se fundamentava na posição sintomática do sistemasocioeconômico da Europa, sobretudo Inglaterra e França” (IBIDEM, p. 17-18). Tobias Peucer, quando escreveu sua tese sobre o Jornalismo em 1690, já haviadetectado critérios de noticiabilidade que apontavam esse viés. O que se viu nesse período foi o fim do Jornalismo romântico baseado no“mercado livre de ideias”, que esbarrou na complexidade tecnológica desencadeada pelarevolução industrial e, por consequência, na complexidade informativa. O que levou aum ataque fervoroso à grande engrenagem da qual faz parte o Jornalismo como um todo,dividido entre a economia e o compromisso com o público. Há um sem número de exemplos que ilustram essa lógica. Um dos mais atacadospor observadores da mídia foi o caso da estudante Eloá Cristina Pimentel, morta pelo ex- 232
  • namorado Lindemberg Fernandes Alves em 2008, após ficar em cativeiro na própriacasa, em São Bernardo do Campo, por mais de 100 horas. A cobertura virou um reality show centrada no seguinte raciocínio: quanto maiora audiência, mais consumidores atingidos por anunciantes, mais dinheiro entra emcaixa.260 O caso Eloá se transformou no que José Arbex Jr. denominou “shownarlismo”,Jornalismo do espetáculo, que trata a notícia como entretenimento e já era praticado nosEstados Unidos desde o século 19261. A cobertura chamada ao vivo por meios televisivos e radiofônicos também foiincorporada à Internet desde o início das produções jornalísticas. Os anúncios também,forjando o intervalo entre as programações. Foi assim no atentado a Oklahoma, em1995, tratado no primeiro capítulo. A importância do Jornalismo de Internet foi, de fato, percebida, quando as pessoasse conectaram à rede para acompanhar notícias sobre o ataque orquestrado peloterrorista Timothy McVeigh, morto em 2001. No Brasil, essa percepção se deu anos maistarde, com a Guerra de Kosovo (1999). Depois vieram as coberturas sobre o escândalo envolvendo o ex-presidente dosEstados Unidos Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky (1998), o atentado às torresgêmeas, que ficou conhecido como a Terça Negra (2001). De eventos isolados, a cobertura baseada em tempo diferido e atualizaçãocontínua passou a integrar o cotidiano das redações de Internet. Sempre em umaperspectiva econômica, guardadas as diferenças de abordagens entre Internet e mídiasclássicas, como jornal impresso, rádio e tevê.260A MÍDIA e o sequestro em Santo André. Observatório da Imprensa, São Paulo, out. 2008. Disponívelem: http://bit.ly/x5xb42. Acesso mar. 2012.261 SHOWRNALISMO. Observatório da Imprensa, São Paulo, 29 out. 2001. Disponível em:http://bit.ly/5tvfJB. Acesso mar. 2012 233
  • Wikileaks também quer dinheiro No caso do jornal impresso há um detalhe importante a ser colocado emdiscussão: a emulação do Wikileaks como forma de demarcar claramente a notíciacomo um produto à venda e como um serviço à sociedade sob o rótulo datransparência, conforme mostra a teoria nas leituras de Cremilda Medina e GayeTuchman, entre outros. O projeto FolhaLeaks é um bom exemplo desse raciocínio. Criado pela Folha S.Paulo em setembro de 2011, permite que leitores enviemdocumentos, fotos e sugestões ao jornal. A reportagem faz triagem e checagem dasinformações para avaliar uma posterior publicação, com a garantia de o colaborador tergarantido seu anonimato. Tais informações passam por um filtro determinado pelo newsmaking do jornal. Éraro um texto oriundo do FolhaLeaks não ter chamada na primeira página. Isso otorna vendável262. Afinal, de modo geral, empresas de comunicação obtêm receita apartir de venda em banca, assinaturas e anúncios. Já o Wikileaks, de Julian Assange, cuja lógica é a do contrapoder, dacontrainformação, também está interessado em lucro. Seu dinheiro tem origem emdoações cuja lista é desconhecida do público. Quando faz acordos como os que fez comIan Taylor, correspondente europeu do Guardian, e Nick Davies, repórter investigativodo mesmo jornal britânico (LEIGH; HARDING: 2011, p. 99), a estratégia de Assangetambém assume procedimentos do newsmaking. Ninguém passa informações, principalmente as reveladas pelo Wikileaks, semalgum interesse. Especialmente as fontes. Mesmo as que fazem parte do excedentecognitivo. E Assange passou a ser o intermediário dessas fontes, não mais restritas somentea políticos com intenção de emplacar intrigas ou criar fatos positivos, como jámencionado no capítulo 2, mas descoladas de jornais e jornalistas, como o caso deBraddley Manning. O soldado raso enviou ao Wikileaks um vídeo confidencial mostrando262 Para saber mais sobre o FolhaLeaks, ver: http://bit.ly/rbF6ge. Acesso mar. 2012. 234
  • o massacre de civis por tropas americanas em Bagdá, Iraque, e 260 mil páginas detelegramas diplomáticos confidenciais contendo avaliações da inteligência (IBIDEM, p.100). Um mês depois da divulgação desses documentos, os cofres da organizaçãoreceberam US$ 1,1 milhão em forma de doação263. Isso significa que se os jornaisemplacam as denúncias, ganham os dois. Um vende, o outro angariainvestimentos. A represália veio na contenção econômica. No final de 2011, bancos e financeirasbloquearam doações feitas por meio de cartões de crédito e serviços de pagamentoeletrônico. Juntas, as bandeiras Visa e MasterCard, além do PayPal, intermediavam 90%das doações. Outros 5% vinham de Western Union e The Bank of America. “Eram milhares de doações, com valor médio de US$ 25. Poucas excediam US$100 e não havia doadores corporativos”, disse o islandês Kristinn Hrafnsson, porta-vozdo Wikileaks, em entrevista à ISTOÉ Dinheiro264. Agora, Assange corre para descontar o prejuízo. Um aviso em sua interface indicaque as doações são importantes para “lutar contra essa (bloqueio) e outras formas decensura, para projetos do Wikileaks, manter equipe, servidores e infraestrutura deproteção. Somos completamente apoiados pelo público265.” O cenário atual em nada lembra a primeira bolha da Internet, marcada por umprocesso de especulação em torno de empresas que constituíram ou migraram seusnegócios para a rede, especialmente o comércio eletrônico, de 1995 a 2000, com altosinvestimentos às chamadas start-ups. Especuladores as hipervalorizaram para depois asabandonarem, provocando desvalorização generalizada, quebradeira e fusões (SERVA: 2002,p. 98).263 O dinheiro acabou. E agora? ISTOÉ Dinheiro, São Paulo, 28 out. 2011. Disponível em:http://bit.ly/sPUUqN. Acesso mar. 2012.264 IBIDEM.265 Para saber mais sobre como funcionam as doações ao Wikileaks, ver: http://bit.ly/u65dYo. Acesso mar. 2012. 235
  • Hoje players como Facebook, Google e Twitter encontraram soluções para faturarcom a Internet (por meio de aplicativos) e principalmente com a Web sem emular o quejá existia. A razão para isso está no fato de perceberem que a base da Web e da Internetsão as pessoas. É gente conversando com gente, é relacionamento. Isso se tornou o grandenegócio, como os movimentos pelo software livre, que desenvolveram novos mercados,descentralizados, auto-organizados, confrontando as forças do mercado tradicional(RHEINGOLD: 2002, p. 54). O surgimento do Orkut é reflexo disso. Foi criado quatroanos após a bolha, em 2004, embora não seja considerada uma rede social da qual fazparte o excedente cognitivo266. Foi com esse raciocínio que, nos anos 1920, Bill Paley se tornou por mais de 50anos a figura mais importante da radiodifusão moderna ao apostar em novos formatospara a CBS. Como se perceberá a seguir, a compreensão da Internet e da rádio se tocapelas bordas. A lição Bill Paley, da CBS Não é novidade que nem todo publisher tem o brilhantismo de Paley. Eletransformou a rede CBS (rádio e TV) em um sucesso de audiência não apenas por causado modelo de negócio que introduziu na empresa – merchandising -, mas ao seguir suaintuição. Não emulou a NBC, na época, líder de mercado. Apostou em entretenimento eprogramação (HALBERSTAM: 1975, p. 22-25). Quando virou dono da CBS, aos 27 anos, não entendia nada de radiodifusão. Eraum jovem em um setor mais jovem ainda. Trabalhara antes na empresa de tabacopertencente à sua família. Embora um sucesso absoluto, Paley não queria repetir amesma trajetória. Depois da Grande Depressão, o pai, Sam Paley, vendeu a companhiapor US$ 30 milhões e investiu US$ 400 mil na CBS (IBIDEM). O ano era 1928 e a CBS estava sem dinheiro, contava apenas com seis afiliadas eestava alojada num pequeno andar da Paramount Tower (IBIDEM).266 Para saber mais sobre o Orkut, ver: http://bit.ly/H8naq. Acesso mar. 2012. 236
  • E o exemplo da CBS é o que melhor se encaixa para discutir a economia nasociedade informacional. O raciocínio à época pode ser perfeitamente aplicado à Internete à Web (IBIDEM, p. 23): “Radio had no past. The present was very shaky and did mostresponsible people did not seem to think there was very much future”. (Rádio não tinhapassado. O presente era muito instável e as pessoas com alguma responsabilidadepareciam pensar que não havia muito futuro). À exceção de Facebook, cujo lucro é oriundo de conteúdo sem custo postadopelos milhares de membros, Google, com suas receitas baseadas em linkspatrocinados267, e Twitter, ainda novato no quesito modelo de negócios, tendoanunciado seus tweets patrocinados em 2009, a Apple criou a economia baseada emaplicativos, em uma clara tentativa de produzir espaços estriados. Em julho de 2011, a empresa anunciou 15 bilhões de downloads na sua AppleStory. Os desenvolvedores receberam US$ 2,5 bilhões. São modelos diferentes: um atuanos espaços lisos tensionados e o outro somente nos espaços estriados. Mark Zuckerberg também viu uma forma de ganhar dinheiro com APPs eanunciou dezenas de parcerias nesse sentido. The Guardian e Washington Post estãoentre suas apostas numa estratégia clara de aumentar o tráfego para suas interfaces forada rede. Não só no Facebook, mas no Twitter também. Estratégia essa que se revelou umfracasso, de acordo com o State of The News Media de 2012268. O estudo mostra que apenas 9% da audiência dos jornais de Internet têm origemnas redes sociais. Espertamente o relatório induz à crença de que “a mídia social setornou uma nova vitrine, mas não substitui tradicionais trajetos virtuais para chegar auma informação”. Na realidade, o que falta é uma estratégia que leve em conta o que HowardRheingold mostrou em seu Smart Mobs: The Next Social Revolution, em 2002: que os267 Quando você fizer uma busca no Google, observe que do lado direito e, às vezes, na parte superior,aparece um resultado diferente do tradicional. Ele é pago. Para aparecer ali, as empresas participam deum leilão online, no qual pagam um valor por cada palavra. O sistema do Google, com base neste valor e naquantidade de cliques, define qual resultado aparece em primeiro lugar. Esta é a principal fonte de receitado Google. Yahoo! e Microsoft também exploram este serviço globalmente (ISTOÉ Dinheiro: 2009).268 Para ler a íntegra da pesquisa, ver: http://bit.ly/wfcFQI. Acesso mar. 2012. 237
  • negócios têm de ser pensados a partir dos relacionamentos que se estabelecem e nãopor meio de uma ação emuladora. Para se ter uma ideia do quanto as redes sociais ganharam importância, somenteno Brasil o Facebook publicou o maior número de anúncios: 10, 9 bilhões de inserções,de acordo com dados da ComScore. A rede ultrapassou o Orkut, da Google, no País: 36,1milhões contra 34,4 milhões. A grande questão que se coloca é saber se é possível uma empresa decomunicação ter um modelo de negócio baseado em redes sociais, em agenciamentos.Hoje, os jornais simulam o crowdsourcing. Não fazem parte dele. Como seria sua interface, uma vez descoberto esse modelo? Manteria a tradiçãoou romperia como fez corajosamente Bill Paley ao assumir a CBS? Até agora, a históriamostra que na Web as reformas se alternam entre colocar e tirar fios. Mesmoaqueles que ganham dinheiro com o protocolo de Berners-Lee ou com aplicativos. 238
  • Bibliografia60 SECONDS - Things that happen on internet every sixty seconds. Go-Gulf.com, Dubai,jun. 2011. Disponível em: http://bit.ly/iRQItd. Acesso jan. 2012A ERA da infoestética. Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 12 nov. 2007.Disponível em: http://bit.ly/zXHWsr. Acesso jan. 2012.A MÍDIA e o sequestro em Santo André. Observatório da Imprensa, São Paulo, out.2008. Disponível em: http://bit.ly/x5xb42. Acesso mar. 2012.A NEW global visual language for the BBCs digital services. BBC Internet Blog, Londres,16 fev. 2010. Disponível em: http://bbc.in/o2x7Yv. Acesso mar. 2012APÓS RELATAR invasão, tuiteiro do Morro do Alemão usa rede para ajudar acomunidade. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20 jan. 2011. Disponível em:http://bit.ly/tqxiaq. Acesso jan. 2012ARE NEWSPAPERS civic institutions or algorithms? Big Think, EUA, 16 jan. 2012.Disponível em: http://bit.ly/ydfh8x. Acesso jan. 2012.ARMAÑANZAS, E., NOCI, J.D. e MESO, K. El periodismo electrónico: información yservicios multimedia en la era del ciberespacio. Barcelona: Ariel Comunicación,1996.A POSSE de Obama e a experiência de compartilhamento nas redes sociais: o casoCNN.com Live + Facebook. Intermezzo, São Paulo, 21 jan. 2009. Disponível em:http://bit.ly/kXH06o. Acesso jan. 2012.ASSANGE, o fundador do WikiLeaks, é preso em Londres. Veja, São Paulo, 7 dez. 2010.Disponível em: http://bit.ly/uWxM0c. Acesso jan. 2012.A TALK by Alan Kay. New Media Reader (MIT Press), Londres, 27 mai. 1986. Disponívelem: http://bit.ly/nOf0vX. Acesso jan. 2012.BAHIA, J. Jornal, história e técnica: As técnicas do jornalismo. São Paulo: EditoraÁtica, 1990.EBAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária, 1981.BARBOSA, S. Jornalismo digital e a informação de proximidade: o caso dos portaisregionais, com estudo sobre o UAI e o iBAHIA. Dissertação (Mestrado). 307 f.Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2002.BARDOEL, J; DEUZE, M. Networking Journalism- Converging competences of old andnew media professionals. Australian Journalism Review, Austrália, v. 23, n. 2, p. 91-103, 2001. Disponível em: http://bit.ly/yeygD6. Acesso jan. 2012.BARTHES, R. S/Z. Paris: Seuil, 1970.BASTOS, H. Jornalismo electrónico: Internet e reconfiguração de práticas nasredações. Coimbra: Minerva, 2000.BEIGUELMAN, G. O livro depois do livro. São Paulo: Peirópolis, 2003.___________________. Admirável mundo cíbrido. In Brasil et al. Cultura em fluxo – novasmediações sociais. Belo Horizonte, Editora da PUCMinas, 2004.___________________. Linke-se. São Paulo: Peirópolis, 2005.___________________. Disciplina Processos de criação nas mídias. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. PUC/SP, mar-jun 2008. Apontamentos.___________________. Disciplina Processos de criação e produção do conhecimento emhipermídia e em redes fixas e móveis: pressupostos críticos e criativos no Designde Interfaces. Programa de Pós-Graduação em Cultura e Semiótica. PUC/SP, fev-jun.2009. Apontamentos. 239
  • ___________________. O fim do virtual. Revista Select, São Paulo, 25 ago. 2011, p. 38-47.Disponível em: http://bit.ly/oLHSi3. Acesso jan. 2012.BERNERS-LEE. T. Background of the World Wide Web, W3C, EUA, 28 fev. 1996.Disponível em: http://bit.ly/wVL5dQ. Acesso jan. 2012.BERNERS-LEE, T.; HENDLER, J.; LASSILA, O. The semantic web, Scientific AmericanMagazine, EUA, 17 mai. 2001. Disponível em http://bit.ly/AdvOA3. Acesso jan. 2012.BERNERS-LEE, T.; SHADBOLT, N.; HALL, W. The semantic web revisited, IEEE ComputerSociety, EUA, mai./jun. 2006. Disponível em: http://bit.ly/txQe2C. Acesso jan. 2012.BOCZKOWSKI. P. Redefining the online news. Online Journalism Review, Califórnia, 8dez. 2004. Disponível em: http://bit.ly/NuGc4G. Acesso jan. 2012.BOGOST, I. et al. Newsgames: Journalism at play. Cambridge: MIT Press, 2010.BOLTER, J. D., GROMALA, D. Windows and mirrors: interaction design, digital art,and the myth of transparency. Cambridge: The MIT Press, 2003.BOLTER, J. D., GRUSIN, R. Remediation: understanding new media. Cambridge: TheMIT Press, 2000.BOLTER, J. D. Writing in cyberspace: the computer, hypertext and the history ofwriting. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associate Publishers, 1991.BOND, F. F. Introdução ao jornalismo. Rio de Janeiro: Agir, 1959.BRINGHURST, R. Elementos do estilo tipográfico - versão 3.0. São Paulo: Coisac &Naif, 2004.BRUNS, A.; JACOBS, J. Uses of blogs. New York: Peter Lang, 2007.BUSH, V. As we may think, Massachusetts Institute of Technology (MIT), jul. 1945.Disponível em: http://bit.ly/nbUKuv. Acesso jan. 2012.CAIRO, A. Multimedia formats and infographics. Master em Jornalismo Digital, 2007. SãoPaulo. Apontamentos.CANAVILHAS, J.M. Webjornalismo: considerações gerais sobre jornalismo na web.Congresso Iberoamericano de Comunicação, Universidade da Beira Interior, Portugal,1990.CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2002.________________. Communication power. Nova York: Oxford Press, 2009._______________. Communication, power and counter-power in the network society.International Journal of Communication (University of Southern California), LosAngeles, p. 238-266, 2007. Disponível em: http://bit.ly/xDF3yH. Acesso mar. 2012.CASTELLS debate os dilemas da internet. Rádio Europa Aberta, Madri, 17 Jan. 2012. Disponível em:http://bit.ly/Asi4y3. Acesso jan. 2012.CEO do Twitter admite que empresa censura os Trending Topics. IDG Now!, São Paulo,01 ago. 2011. Disponível em: http://bit.ly/AbBXAt. Acesso jan. 2012.CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do jornalismo – buscas práticas para umateoria da ação jornalística. São Paulo: Summus, 1994.CIBERCULTURA REVISITADA. Revista Galáxia, São Paulo, dez. 2008, n 16. Editora PUC.CNN.COM Gets a Radical Redesign. ReadWriteWeab, EUA, 22 out. 2009. Disponível em:http://rww.to/p5x7Rj. Acesso jan. 2012.COHEN S., YOUNG, J. Manufacture of News. Londres: Sage Publications, 1973.“CONCEITO de web 2.0 é obsoleto", assegura Tim OReilly. Terra, São Paulo, 23 nov.2011. Disponível em: http://bit.ly/AbVijW. Acesso jan. 2012.CONHEÇA Fernanda Viégas, brasileira que é a "senhora planilha". Terra, São Paulo, 5mai. 2010. Disponível em: http://bit.ly/qClHTo. Acesso jan. 2012.CORREIA, Fernando. Os jornalistas e as notícias. Lisboa: Editorial Caminho, 1997. 240
  • COSTA, R. Disciplina Seminário de Pesquisa I. Programa de Pós-Graduação emCultura e Semiótica. PUC/SP, mar-jun 2008. Apontamentos.___________. Por um novo conceito de comunidade. Interface Comunic, Saúde, Educ, SãoPaulo, v. 9, n. 17, p. 235-48, mar./ago. 2005. Disponível em: http://bit.ly/xImzzS. Acessojan. 2012.CRONENBERG vai aos limites da realidade e do delírio em "Spider". Folha de S.Paulo,São Paulo, 6 mar. 2007. Disponível em: http://bit.ly/sxNaLm. Acesso jan. 2012.CURATION and journalists as curator. mindymcadams.com, EUA, 3 dez. 2008.Disponível em: http://bit.ly/9bTY. Acesso mar. 2012.DE WOLK, R. Introduction to online journalism: publishing news and information.Boston: Allyn and Bacon, 2001.DELEUZE, G. Différence et répétition. Paris: PUF, 1968.DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs - Capitalismo e esquizofrenia. São Paulo:Editora 34, v. 5, 2007.___________________. Mil Platôs – Capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, v. 2,2008.___________________. Mil Platôs – Capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, v. 1,2004.__________________. O Anti-Édipo. Rio de Janeiro: Imago, 1976.DE PABLOS, J. M. Infoperiodismo: el periodista como creador de infografia. Madrid:Editorial Síntesis, 1999.DERRIDA, J. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2006.DEUZE, M. What is multimedia journalism? Journalism Studies, Londres, v. 5, n. 2, p.139-52 , mai. 2004. Disponível em: http://bit.ly/zBGTQh. Acesso mar. 2012.____________. Online Journalism: Modelling the first generation of news media on the wordwide web. First Monday, Chicago, v. 6, n. 10, 1 out. 2001. Disponível emhttp://bit.ly/wxiNJg. Acesso jan. 2012___________. Journalism and the web – An analysis of skills and standards in a onlineenvironment. Gazette, v. 61, n. 5, 1 out. 1999. Disponível em http://bit.ly/ylNY3b.Acesso jan. 2012.DEVELOPERWORKS interviews: Tim Berners-Lee. IBM developerWorks, EUA, 28 jul.2006. Disponível em: http://ibm.co/pUWtcn. Acesso jan. 2012DÍAZ NOCI, J., SALAVERRIA, R. Manual de redacción ciberperiodística. Barcelona:Ariel, 2003.DO JORNAL ao Facebook: Washington Post, Guardian e outros veículos lançam novoaplicativo de notícias. Knight Center, Texas, 26 set. 2011. Disponível em:http://bit.ly/nx2RqB. Acesso jan. 2012.DO POINTCAST à Zite. Último Segundo. São Paulo, 11 mar. 2011. Disponível em:http://bit.ly/uU8ieC. Acesso jan. 2012.DORIA, T. Jornalismo Digital: Consumo, mercado e interatividade. SEMANA DEJORNALISMO DA UNESP, 1., nov. 2010, Bauru. Anais.ECHEVERRÍA, J. Los señores del aire: telépolis y el tercer entorno. Barcelona:Destino, 1999.EDIÇÃO DO BBB12 ignora possível caso de estupro. Veja. 16 jan. 2012. Disponível em:http://bit.ly/zm6MR4. Acesso fev. 2012.EDITOR 2.0. BuzzMachine, EUA, 22 out. 2007. Disponível em: http://bit.ly/uOVEdC.Acesso jan. 2012. 241
  • EM TRÊS ANOS, loja de aplicativos da Apple atinge 15 bilhões de downloads. G1, SãoPaulo, 7 julh. 2011. Disponível em: http://glo.bo/yuCTpu. Acesso jan. 2012ERBOLATO, Mário L. Técnicas de codificação em jornalismo – redação, captação eedição no jornal diário. São Paulo: Ática, 1991.EVERYTHING is Miscellaneous - how the Web destroys categories, disciplines andhierarchies. BoingBoing, Los Angeles, 2 mai. 2007. Disponível em: http://bit.ly/uhphZG.Acesso jan. 2012.“FALAR EM cibercultura é negar a realidade”. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 21 ago.2009. Disponível em: http://bit.ly/peFS57. Acesso jan. 2012.FERRARI, P. A força da mídia social – Interface e linguagem jornalística noambiente digital. São Paulo: Factash, 2010.__________. A rizomática aventura da hipermídia – Uma análise da narrativa noambiente digital. 233 f. Tese (Doutorado). Escola de Comunicação e Artes, Universidadede São Paulo, São Paulo, 2007.__________. Usabilidade e exercício do jornalismo dentro do formato portal noBrasil. 239 f. Dissertação (Mestrado), Escola de Comunicação e Artes, Universidade deSão Paulo, São Paulo, 2002.FIDALGO, A. Jornalismo Online segundo o modelo de Otto Groth. Biblioteca On-Line deCiências da Comunicação, Portugal, 2004. Disponível em: http://bit.ly/yaS7N4. Acessojul. 2011.FIDLER. R. Mediamorphosis: understanding new media. Londres: Pine Forge Press,1997.FOLHA CRIA regras para seus jornalistas no Twitter. TOLEDOL, blog sobre RAC, SãoPaulo, 9 set, 2009. Disponível em: http://bit.ly/sF7pFA. Acesso jan. 2012.FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2007.________________. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense, 2007.________________. Isto não é um cachimbo. São Paulo: Paz e Terra, 2002.________________. Vigiar e Punir – Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1999.FLUSSER. Vilém. Mundo codificado. São Paulo: CosaicNaif, 2007.FRANÇA, V. R. V. Discurso de Identidade, discurso de alteridade: o lugar do outro.In: FRANÇA, V.R V. (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. BeloHorizonte: Autêntica: 2002. p.27-43.FULLER, M. Software studies. Cambridge: MIT Press, 2008.FUNDADOR da www alerta sobre espionagem on-line e aposta em web semântica. Folhade S.Paulo, São Paulo, 18 mar. 2009. Disponível em: http://bit.ly/zBikPj. Acesso jan.2012.GALTUNG, J., RUGE, J. The structure of foreign news. Journal of Peace Research, vol 1.Noruega, 1965. p. 64-90. Disponível em http://bit.ly/Ak9NGw. Acesso jan. 2012GANS, H. Deciding what´s news. A study of CBS Evening News, NBC Nightly News,News, Newsweek and Time. New York: Pantheon Books, 1979.GARCIA, M. Redesigning print for the web. EUA: Paperback, 1997.______________. Contemporary newspaper design – A structural approach. EUA:Prentice-Hall, 1981.GARREAU, J. Through the Looking Glass. Washington Post, EUA, set. 2007. Disponívelem: http://wapo.st/jcfU1T. Acesso jan. 2012GARRISON, B. Computer: assisted reporting. Mahwah: Lawrence Erlbaum Associates,1995GIANNETTI, C. Estética Digital – Sintopia da arte, a ciência e a tecnologia. São Paulo:COM/Arte, 2006. 242
  • GIBSON, W. Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2003.GIDDENS, A. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.GILMOR, D. We the Media: grassroots journalism by the people for the people.Cambridge: OReilly, 2004.GLOBO NEWS. Miguel Nicolelis, São Paulo: Globo News, 2011. Disponível em:http://bit.ly/GO8LST. Aafcesso mar. 2012.GOLDER, S. A.; HUBERMAN, B. A. The Structure of Collaborative Tagging Systems.Information Dynamics Lab, HP Labs, EUA, 2005. Disponível em: http://bit.ly/AyFaHc.Acesso jan. 2012_________________________________________. Usage patterns of collaborative tagging systems.Journal of Information Science, EUA, v. 32, n 2, 2006, pp. 198–208. Disponível em:http://bit.ly/wT7V5k. Acesso jan. 2012GOLDING, P., ELLIOTT, P. Making the news. Londres: Longman, 1979.GOLBECK, J. MUTTON, P. Spring-embedded graphs for semantic visualization. Trustin web based social networks. In: Visualizing the semantic web, 1., EUA: Spring, 2005, p.172-182. Disponível em: http://bit.ly/Alcboq. Acesso jan. 2012GONÇALVES, A. “Integração entre cérebro e máquina vai influenciar evolução”. O Estadode S.Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: http://scr.bi/z7igAM. Acesso jan. 2012.GROUPS for Twitter; or A proposal for Twitter Tag Channels. Factory City, EUA, 25 ago.2010. Disponível em: http://bit.ly/tFE9xn. Acesso jan. 2012.GRUSIN, R. Premediation - Affect and mediality after 9/11. Nova York: PalgraveMcMillan, 2010.GUATTARI, F. Caosmose – Um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 2008.GUATTARI, F; ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do desejo. São Paulo: Vozes, 2005.HALBERSTAM, D. The powers that be. EUA: Knopf , 2000.HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade, 5. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.HANSEN, M.B.N. New philoshophy for new media. Cambridge: MIT Press, 2006.HARDT, M. NEGRI, A. Império. São Paulo: Record, 2000._______________________. Multidão – Guerra e democracia na era do Império. São Paulo:Record, 2004.HARRIES, D. The new media book. Londres: British Film Institute, 2002.HARROWER, T. The newspaper designer´s handbook. New York: McGraw Hill, 2002.HEAD, A. Design wise: a guide for evaluating the interface design of informationresources. New York, Independent Publisher Group, 1999.HEARST, M.A. Search user interfaces. Londres: Cambridge University Press, 2009._______________. Text, Tags and Thumbnails: Latest Trends in Bioscience Literature Search.PHARMACEUTICAL AND HEALTH DIVISION OF THE SPECIAL LIBRARIESASSOCIATION (SLA), New Orleans, 22 mar. 2009. Anais. Disponível em:http://biotext.berkeley.edu/talks/bio_sla09.pdf. Acesso jan. 2012.HENRIQUE, J. O que eu assisti na desocupação da reitoria. Facebook, São Paulo, 9 nov.2011. Disponível em: http://on.fb.me/uhSSGx. Acesso jan. 2012.HERRING, S.C. Slouching toward he ordinary: current trends in computer-mediatecommunication. New Media & Society, Londres: v. 6, n 1, 2004, p 26-36.HISTORY in pictures. Doug Engelbart Institute, 2008. Disponível em:http://bit.ly/ou1B0p. Acesso jan. 2012.HOW TWITTER tracked the News of the World scandal. The Guardian, Inglaterra, 13jul. 2011. Disponível em: http://bit.ly/s2Q4qd. Acesso jan. 2012.HYPER-NETWORKED protests, revolts, and riots: a timeline. Wired, EUA, 16 dez. 2011.http://bit.ly/xgRBqe. Disponível em: Acesso jan. 2012. 243
  • INFORMATION visualization is a medium. O´Reylly, EUA, 4 mar. 2008. Disponível em:http://oreil.ly/rnr1oB. Acesso jan. 2012.INTERNET das coisas: para 2020, mais de 50 bilhões de coisas conectadas à internet,superando o número de pessoas conectadas. Tecnoarte News, São Paulo, 18 jul. 2011.Disponível em: http://bit.ly/pdju3e. Acesso jan. 2012.JB CRIOU nova concepção gráfica e editorial no jornalismo brasileiro. Último Segundo,São Paulo, 30 ago. 2010. Disponível em: http://bit.ly/o02rkq. Acesso jan. 2012.JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.JOHNSON, S. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneirade criar e comunicar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001._____________. Emergência. A dinâmica da rede em formiga, cérebros e cidades. Rio deJaneiro: Jorge Zahar, 2003.“JORNALISMO não é arte, é trabalho coletivo”. O Globo, Rio de Janeiro, 11 out. 2011.Disponível em: http://glo.bo/qfizEs. Acesso jan. 2012.KAMADA, T; KAWAI, S. An algorithm for drawing general undirected graphs.Information Processing Letters. The ACM Digital Livraries, Amsterdã, abr. 1989, v. 31,n. 1, p. 7–15.KERCKHOVE, D. The augmented mind. Milão: Digitpub, 2010.KISS YOUR browser goodbye: The radical future of media beyond the Web. Wired, EUA,mar. 1997. Disponível em: http://bit.ly/fLCtD. Acesso jan. 2012.KRANENBURG, R.V. The Internet of things – A critique of ambient technology andthe all-seeing network of RFID. Amsterdã: Institute of Network Cultures, 2008.KRESS, G., Reading Images: the Grammar of visual Design. EUA: Paperback, 2006.KYONG, W.H; KEENAN, T. New media, old media. Nova York: Routledge, 2006.KUNCZIK, M. Conceitos de jornalismo. São Paulo: Edusp, 1997.LAGE, Nilson. Ideologia e técnica da notícia. Florianópolis: Ufsc-Insular, 2001.LANDOW, G. P. Hypertext: the convergency of contemporary critical theory andtechnology. Baltimore and London: The John Hopkins University Press, 1995.LAPHAM, C. The evolution of the newspaper of the future. CMC Magazyne, EUA, 1 jul.1995. http://bit.ly/xQoWF7. Acesso jan. 2012.LEÃO, L. O chip e o caleidoscópio – Reflexões sobre as novas mídias. São Paulo:SENAC, 2003.LEIGH, D; HARDING, L. WikiLeaks: a guerra de Julian Assange contra os segredos deEstado. Campinas: Verus, 2011.LEMOS, A. Anjos interativos e retribalização do mundo - Sobre interatividade einterfaces digitais, Salvador, 1997. Disponível em: http://bit.ly/ABvtB5. Acesso jan.2012.____________. Morte aos portais. Salvador, jun, 2000. Disponível em: http://bit.ly/yaOkfs.Acesso jan. 2012.LEMOS, A. et al. Cidade, tecnologia e interfaces. Análise de interfaces de portaisgovernamentais brasileiros. Uma proposta métodológica. Revista Fronteiras – Estudos midiáticos, v. 6, n. 2, julho/dezembro, 2004, p.117-136. Disponível em http://bit.ly/RTb2Dg. Acesso jan. 2012.LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999._________. O que é Virtual? São Paulo: Editora 34: 1998.LEWIN, K. Frontiers in group dynamics II: Channels of group life; social planningand action research. EUA: Human Relations, 1947. 244
  • LICKLIDER, J.C.R e TAYLOR R. W. The computer as a communication device. Science andTechnology, EUA. n. 76, abr. 1968, p.21-31. Disponível em http://bit.ly/4tKy9q. Acessojan. 2012LIEVROUW, L.A. What’s changed about new media? introduction to the fifth anniversaryissue of new media & society. New Media & Society, Londres, v. 6, n 1, 2004. p 09-15.LIMA, C. Rogério da Costa: “Os laços criados entre as pessoas nas redes sociais na websão muito importantes”, Nós da Comunicação, São Paulo, 1 jul. 2009. Disponível em:http://bit.ly/RaB8BK. Acesso jan. 2012.LIPPMAN, W. Public Opinion. EUA: MacMillan Co, 1922. Disponível em:http://bit.ly/rzOSot. Acesso jan. 2012.LÓPEZ, X.; GAGO, M.; PEREIRA, X. Arquitectura y organización de la información. Manualde Redacción Ciberperiodista. Barcelona, Ariel, 2003. p. 195-230.LOVINK, G. The principles of not working – concepts in critical Internet culture.Amsterdã: Institute of Network Cultures, 2005.____________. My creativity reader – A critique of creative industries. Amsterdã:Institute of Network Cultures, 2007.LULA COMPARA Serra ao goleiro Rojas e diz que agressão é mentira descarada. Folhade S.Paulo, São Paulo, 21 out. 2010. Disponível em: http://bit.ly/uyCnUL. Acesso jan.2012.LUPTON, Ellen. Pensar com tipos. São Paulo: Cosaic & Naif, 2006.MACHADO, E; PALACIOS, M. Manual de jornalismo na internet. Salvador:FACOM/UFBA, 1996. Disponível em: http://bit.ly/lqvIg7. Acesso jan. 2012.MACHADO, A. A hipermídia: o labirinto como metáfora. In: DOMINGUES, D. A arte noséculo XXI: a humanização das tecnologias, São Paulo: Unesp, 1997.MACHADO, E. La estructura de la noticia en las redes digitales: un estudio de lasconsecuencias de las metamorfosis tecnológicas en el periodismo. Tese(Doutorado), 521 f. Universidad Autónoma de Barcelona, Barcelona, 2000._______________. O jornalismo digital em base de dados. Florianópolis: Calandra, 2007._______________. O banco de dados como espaço para composição de narrativas. IIEncontro de Pesquisadores em Jornalismo, Salvador, 2004. Disponível em:http://bit.ly/TLVNfe. Acesso jan. 2012.MACHADO, E; PALACIOS, M. Modelos de jornalismo digital. Salvador, Calandra, 2003.MACKENZIE, A. Wirelessness: Radical empiricism in network cultures. Cambridge:MIT Press, 2010.MALTER, R. Global indymedia open publishing proposal. Indymedia, EUA, 16 abr. 2001.Disponível em: http://bit.ly/yN8x1x. Acesso jan. 2012.MANOVICH, L. The language of new media. Cambridge: MIT, 2001.________________. Software takes command. Software Studies, EUA, 20 nov. 2008 In:Acesso jan. 2012.________________. What is visualization? Software Studies, EUA, 25 out. 2010. Disponívelem: http://bit.ly/zO44CN. Acesso jan. 2012.________________. Trending: The promises and the challenges of big social data. SoftwareStudies, EUA 23 abr. 2011. Disponível em: http://bit.ly/xSSazm. Acesso jan. 2012MARLOW, C; NAAMAN, M; BOYD, D.; DAVIS, M. Position paper, tagging, taxonomy, flickr,article, toread. The International World Web Conference, Escócia, mai. 2006.Disponível em: http://bit.ly/zFOR1X. Acesso jan. 2012. 245
  • MCADAMS, M. Inventing an online newspaper. Interpersonal computing andtechnology: An electronic journal for the 21st century, EUA, jul. 1995 Disponível em:http://bit.ly/xBsHd0. Acesso jan. 2012._____________. Flash journalism: how to create multimedia news packages. EUA: FocalPress, 2005.MC COMBS, M.E; SHAW, D.L. The agenda-setting function of mass media. PublicOpinion, 1972. Disponível em: http://bit.ly/NMD02L. Acesso jan. 2012.MCLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensão do homem. São Paulo:Cultrix, 1964.MEADOWS, M. S. Pause & effect: the art of interactive narrative. Indiana: New Riders,2003.MEDINA, C. Notícia, um produto à venda. São Paulo: Summus, 1978.MELO, J. M. Jornalismo opinativo. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003.MIELNICZUK, L. Jornalismo na web: uma contribuição para o estudo do formato danotíciana escrita hipertextual. Tese (Doutorado) 246 f. Faculdade de Comunicação,Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2003.MOHERDAUI, L. Guia de estilo web: produção e edição de notícias on-line. 3ª ed. SãoPaulo: Senac, 2007._________________. O usuário de notícias no jornalismo digital – Um estudo sobre afunção do sujeito no Último Segundo e no A Tarde On Line. Dissertação (Mestrado).Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005._________________. As lentes de Barbie Zelizer. Revista Contratempo, n 14. Rio de Janeiro,2006.__________________. Twitter para quê? Trópico – Idéias de norte a sul, São Paulo, mai.2009. Disponível em: http://bit.ly/xM9Zk8. Acesso jan. 2012.MONACHESI, J. Contra a clicagem burra. Folha de S. Paulo, São Paulo, jan. 2004, p. 8 – 9- 18.MONKEY BRAINS feel virtual object. Nature, EUA, 5 out. 2011. Disponível em:http://bit.ly/qd40ye. Acesso jan. 2012.MOON, P. Clay Shirky: “O google não é a solução”. Revista Época, São Paulo, 2 set. 2011.Disponível em: http://glo.bo/oSTasC. Acesso jan. 2012.MORTE de Amy Winehouse domina Twitter. Exame, São Paulo, 23 jul. 2011. Disponívelem: http://bit.ly/pgFpbN. Acesso jan. 2012.MORTE de Bin laden saiu primeiro no Twitter. estadão.com.br, São Paulo, 2 mai. 2011.Disponível em: http://bit.ly/phN9Bt. Acesso jan. 2012.MURAD, A. O hipertexto eletrônico como base para reconfigurar a atividadejornalística. Disponível em http://bit.ly/PDG1Uk. Acesso jan. 2012.MURDOCH DIZ: "Lamentamos pelo escândalo do grampo”. Reuters, São Paulo, 16 jul.2011. Disponível em: http://bit.ly/rL4URQ. Acesso jan. 2012.MURRAY, J. Hamlet no holodeck: o future da narrativa no ciberespaço. São Paulo:Unesp, 2003.NAPSTER encerra de vez suas atividades. INFO Online, São Paulo, 2 dez. 2011.Disponível em: http://bit.ly/sdh3iN. Acesso jan. 2012.NASSIF, L. A segunda bolha da Internet. Observatório da Imprensa, São Paulo, 20 jun.2011. Disponível em: http://bit.ly/H7Qlwl. Acesso mar. 2012.NIELSEN, J. Projetando websites. Rio de Janeiro, Campus: 2000.NELSON, T. Deeper Cosmology, Deeper Documents, 2001. The Twelfth ACMConference on Hypertext and Hypermedia, Dinamarca, 14-18 ago. 2001http://bit.ly/xpgIMR. Acesso jan. 2012. 246
  • NEW ALGORITHMS from ucsd improve automated image labeling. UCSD Jacob Schoolof Egineering, EUA 29 mar. 2007 Disponível em: http://bit.ly/A3j979.Acesso jan. 2012.NICOLELIS, M. Muito além do nosso eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.NOTÍCIA DA morte de Michael Jackson derruba Google e Twitter. G1, São Paulo, 26 jun.2009. Disponível em: http://glo.bo/BWWur Acesso jan. 2012.NÚMERO DE INTERNAUTAS ultrapassa 2 bilhões, afirma ONU. Interactive AdvertisingBureau, São Paulo, 27 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/uQbs0E. Acesso jan. 2012.O DINHEIRO acabou. E agora? ISTOÉ Dinheiro, São Paulo, 28 out. 2011. Disponível em:http://bit.ly/sPUUqN. Acesso mar. 2012.O FIM do virtual. sElecT, São Paulo, 25 ago. 2011. Disponível em: http://bit.ly/unMrTs.Acesso jan. 2012.O QUE são os newsgames? Último Segundo, São Paulo, 10 mar. 2008. Disponível em:http://bit.ly/qLUQdV. Acesso jan. 2012.“OS LAÇOS criados entre as pessoas nas redes sociais na web são muito importantes”. Osnós da comunicação, São Paulo, 9 jul. 2009. Disponível em: http://bit.ly/xpHA9t.Acesso jan. 2012.PALACIOS, M. O que há de (realmente) novo no Jornalismo Online? Conferênciaproferida por ocasião do concurso público para Professor Titular na FACOM/UFBA,Salvador, Bahia, 1999._______________. Ruptura, continuidade e potencialização no jornalismo on-line: olugar da memória. Modelos de jornalismo digital. Salvador: Calandra, 2003. Disponível em:http://bit.ly/g3Oksi. Acesso jan. 2012.PALACIOS, M., MIELNICZUK, L., BARBOSA, S., RIBAS, B., et. al. Um mapeamento decaracterísticas e tendências no jornalismo online brasileiro e português. Comunicarte,Revista de Comunicação e Arte (Universidade de Aveiro) Portugal, v. 1, n. 2, set. 2002.PATTIE. Wired, dez. 1997. Disponível em: http://bit.ly/sYQqTk. Acesso jan. 2012.PAUL, C. Digital art. Londres: Thames & Hudson, 2008.PAUL, N. The elements of digital story making. Universidade de Minsesota, EUA, 2005.Disponível em: http://bit.ly/zuoGd5. Acesso jan. 2012.____________. New News retrospective: Is online news reaching its potential? OnlineJournalism Review, Califórnia, 24 mar. 2005. Disponível emhttp://www.ojr.org/ojr/stories/050324paul. Acesso jan. 2012.PAVLIK, J. V. Journalism and new media. New York: Columbia University Press, 2001.______________. Journalism tools for the digital age. 7° FÓRUM MUNDIAL DE EDITORES. Riode Janeiro, 7. Jun, 2000. Anais.PENA, F. Sistematizações do jornalismo em abordagens europeias, brasileiras eamericanas. Intercom - Revista Brasileira Ciências da Comunicação. São Paulo, n. 29v. 2, p. 39-53, jul./dez., 2006.PEOPLE ARE spending more time in mobile apps than on the web. Business Insider,EUA, 20 jun. 2011. http://bit.ly/ruv6qj. Acesso jan. 2012.PEOPLE, not things, are the tools of revolution. TechCrunch, EUA, 11 fev. 2011.Disponível em: http://tcrn.ch/tDTPWk. Acesso jan. 2012RAMOS, D. Formatos multimídia no jornalismo digital – As histórias fotográficas. XXXIICONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO (INTERCOM), Curitiba, 2009.Anais.____________. Formato digital e design da informação. XXXIV CONGRESSO BRASILEIRO DECIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO (INTERCOM), Recife, 2011. Anais. 247
  • ____________. Formato: condição para a escrita do jornalismo digital de bases dedados. 159 f. Tese (Doutorado), Escola de Comunicação e Artes, Universidade de SãoPaul, São Paulo, 2011.RASKIN, J. The humane interface, New Jersey, ACM Press, 2000REBELIÃO na internet. Trópico - Ideias de norte e sul, São Paulo, 28 fev. 2009.Disponível em: http://bit.ly/vROEab. Acesso jan. 2012.RESOURCES related to the 2011 Japan crisis. Google, EUA, 12 mai. 2011.http://bit.ly/vftaUX. Acesso jan. 2012.REVEL, J. Foucault – Conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005.RHEINGOLD, H. Smart mobs: The next social revolution. EUA: Perseu Book, 2002.RIBEIRO, A. E. et al. Leitura e escrita em movimento. São Paulo: Peirópolis, 2010.RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. Trad. Constança M. Cesar. Campinas: Papiris, 1994.RODA VIVA. Ted Nelson. São Paulo: TV Cultura, jun. 2007. DVD (120 minutos).ROSEN, J. What are journalists for? New Haven. Yale University Press. 1999.ROSENFELD, L; MORVILLE, P. Information architecture for the world wide web.Santa Clara: OReilly & Associates, 1998.SAAD CORRÊA, E. Estratégias para mídia digital. São Paulo: Editora Senac, 2003SALAVERRÍA, R. Redacción periodística en Internet. Navarra: EUNSA, 2005.SANTAELLA, L. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.SCHWINGEL, C.A. Sistemas de produção de conteúdos no ciberjornalismo: acomposição e a arquitetura da informação no desenvolvimento de produtosjornalísticos. Tese (Doutorado) Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008.SCHUDSON, M. The Sociology of News. New York: Jeffrey C. Alexander, 2003.SCOLARI, C. Hacer clic: hacia una sociosemiótica de las interacciones digitales.Barcelona: Gedisa Editorial, 2004.SEIXAS, L. Redinindo os gêneros jornalísticos – Proposta de novos critérios declassificação. Covilhã: LabCom Books, 2009. Disponível em: http://bit.ly/N5DuCW.Acesso jan. 2012.SERVA, L. Internet: velocidade e credibilidade de informação. Anuário de Jornalismo daFaculdade Cáper Líbero, n. 3, 2002, p. 98-105.SEM MOUSE, sem fio, sem tela. INFO EXAME, São Paulo, 3 ago. 2009. Disponível em:http://bit.ly/zMbphE. Acesso jan. 2012.SHIRKY, C. A cultura da participação. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.____________. Ontology is overrated -- Categories, links, and tags. OReilly EmergingTechnology, San Diego, 14-17 mar. 2005. Disponível em: http://bit.ly/tP1YnM. Acessojan. 2012.SHOWRNALISMO. Observatório da Imprensa, São Paulo, 29 out. 2001. Disponível em:http://bit.ly/5tvfJB. Acesso mar. 2012SIGUE LA COBERTURA del terremoto y tsunami en Japón desde Twitter. Clases dePeriodismo, 11 mar. 2011. Disponível em: http://bit.ly/sQMkNJ. Acesso jan. 2012.SINGER, S. A imprensa burguesa no campus. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 nov. 2011.Disponível em: http://bit.ly/rB6L56. Acesso jan. 2012.SILVA, C. I. A era da infoestética. Trópico – Idéias de norte a sul, São Paulo, nov. 2007.Disponível em: http://bit.ly/z0NMzV. Acesso jan. 2012.SILVA, D. B. Transparência na esfera pública interconectada. 2010. 114 f. Dissertação(Mestrado), Faculdade Cásper Líbero, São Paulo, 2010. Disponível em:http://bit.ly/A0at0A. Acesso jan. 2012. 248
  • SILVA JR. J. A. Jornalismo 1.2: características e usos da hipermídia no jornalismo, comestudo de caso do Grupo Estado de São Paulo. Dissertação (Mestrado). Faculdade deComunicação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000.SIMONDON, G. Du mode dexistence des objets techniques. Paris: EditionsAubier, 1958.SKETCHPAD: A man-machine graphical communication system. Techical Report(Cambridge University), Inglaterra, set. 2003. Disponível em: http://bit.ly/pmyKcH.Acesso jan. 2012.SMITH, A. Goodbye Gutenberg: the newspaper revolution of the 1980s. New York:Oxford University Press, 1980.SOMOS hipermodernos. Facom/UFBA – Ciberspesquisa, Salvador, 17 jul. 2005.Disponível em: http://bit.ly/pTLjRR. Acesso jan. 2012.SOUSA, J. P. Tobias Peucer. Progenitor da Teoria do Jornalismo. Biblioteca On-Line deCiências da Comunicação. Portugal, 2004. Disponível em: http://bit.ly/y5USBi. Acessojan. 2012.STEVE JOBS era um gênio. O Globo, Rio de Janeiro, 11 out. 2011. Disponível em:http://glo.bo/rBnecc. Acesso jan. 2012STRECKER, M. Blackout na internet: Direitos comerciais contra liberdade de expressão.UOL, São Paulo, 18 jan. 2012. Disponível em: http://bit.ly/AuzED5. Acesso jan. 2012.THE WEB IS Dead. Long Live the Internet. Wired, EUA, 17 ago. 2010. Disponível em:http://bit.ly/bknmCP. Acesso jan. 2012.THE SEMANTIC WEB as an open and less evil web. The next web, 3 abr. 2008.Disponível em: http://tnw.co/xK65XN. Acesso jan. 2012.THINGS (and people) are the tools of revolution! Carnet de Notes, Salvador, 25 fev.2011. Disponível em: http://bit.ly/vMZtQo. Acesso jan 2012.THIS MUCH I know. The Guardian, Inglaterra, 15 feb. 2009. Disponível em:http://bit.ly/aBPwN. Acesso jan. 2012.THORBURN. D. Rethinking media change: The aesthetics of transition. Cambridge:MIT Press, 2003.TIM BERNERS-LEE on the next Web. TED – Ideas worth spreading, Long Beach, 3-6fev. 2009. Disponível em: http://bit.ly/qqaSFQ. Acesso jan. 2012.TISSELI, E. Rebelião na Internet. Trópico – ideias de norte a sul, São Paulo, fev. 2009.Disponível em: http://bit.ly/vROEab. Acesso em mar. 2010.TOGNAZZINI, B. Magic and Software Design, Nielsen Norman Group, EUA, 1993.Disponível em http://bit.ly/ycsk7F. Acesso em mar. 2010.TOTAL DE pessoas com acesso à internet atinge 77,8 milhões. Ibope, São Paulo, 9 set.2011. Disponível em: http://bit.ly/wUCOoG. Acesso jan. 2012.TRAGÉDIA em escola no Rio de Janeiro. Veja, São Paulo, 7 abr. 2010. Disponível em:http://bit.ly/tKHHQl. Acesso jan. 2012.TRAQUINA, N. Teorias do Jornalismo. Volume 2. Santa Catarina: Insular, 2005.________________. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo. Unisinos, 2001.“TWITTER nació de un fracasso”, dice co-creador. El Universal, Venezuela, 7 dez. 2011.Disponível em: http://bit.ly/vvBIcv. Acesso jan. 2012.TWITTER noticiou morte de Bin Laden antes de Obama. Infoexame, São Paulo, 2 mai.2011. Disponível em: http://bit.ly/rezYTV. Acesso jul. 2011.TUCHMAN, G. Making news: a study in the construction of reality. New York: Press.1978.WEINBERGER, D. The hyperlinked metaphysics of the web. Hyperorg, 3 dez. 2000. 249
  • Disponível em: http://bit.ly/zSrkus. 2000. Acesso em mar. 2010.WHAT AMERICANS do online: Social media and games dominate activity. Nielsen Wire,EUA, 2 ago 2010. Disponível em: http://bit.ly/yuF8Sp. Acesso jan. 2012.WHAT IS web 2.0? OReilly, EUA, 30 set. 2005. Disponível em: http://oreil.ly/umHTu6.Acesso jan. 2012.WIKILEAKS media insurgency. The New Yorker, EUA, 31 mai. 2010.http://nyr.kr/sBEROI. Acesso jan. 2012.WIRED on iPad: Just like a Paper Tiger… Information Architects, EUA, 28 mai. 2010.Disponível em: http://bit.ly/pIzshc. Acesso jan. 2012.WOLF, M. Teorias da comunicação de massa. Lisboa: Presença, 2002.WURMAN, Richard Saul. Information Architects. Zurich: Switzerland: Graphis Press,1996.U.S. LAUNCHES cruise missiles at Saddam. CNN, EUA, 20 mar. 2003. Disponível em:http://bit.ly/kXlxCF. Acesso jan. 2012.USO DE BANDA LARGA no Brasil cresceu 138%. Último Segundo, São Paulo, 12 mai.2011. Disponível em http://bit.ly/jrmKWt. Acesso jan. 2012.VENDIDO POR US$ 315 milhões, Huffington Post lucra com blogueiros anônimos efamosos. BBC, São Paulo, 7 fev. 2011. Disponível em: http://bbc.in/p1VF8t. Acesso jan.2012.VESNA, V. Database aesthetics – Art in the age of information overflow. EUA:University of Minnesota Press, 2007.VIEIRA, E. A segunda vida da Internet. Revista Época, São Paulo, mar. 2007.Disponível em: http://glo.bo/jXbVu3. Acesso jun. 2011.ZELIZER, B. Taking journalism seriously. Routledge. London. 2004. 250
  • AnexosFormulário de observação e ficha técnica O formulário de observação abaixo foi elaborado a partir dos trabalhos deLuciana Moherdaui (2008; 2005), Javier Díaz Noci et al (2007); Javiera Díaz Noci (2004);Lluís Codina (apud DÍAZ NOCI; SALAVERRÍA: 2003); Ainara Larrondo e Ana Serrano(2007); Richard van der Wurff e Lauf, Edmund (2005).OrientaçõesX – para apenas uma alternativaNumeral – mais de uma alternativa, sendo que o número 1 tem peso maiordata: __/ __/ __ jornal: _______________________________Designcaracterística ( ) remediation ( ) híbrido1) projeto gráfico simula o papel? ( ) sim ( ) nãohá informações sobre o projeto? ( ) sim ( ) não2) período de mudança do design ________________________________3) browser ( ) horizontal ( ) vertical menu ( ) horizontal ( ) vertical4) cabeçalho simula papel? ( ) sim ( ) não total de chamadas na capa: ______________5) diagramação em colunas? ( ) sim ( ) não6) divisão em canais (editorias)? ( ) sim ( ) não7) arquitetura da informação? ( ) hierarquia ( ) não linear 251
  • 8) exibe estatísticas? ( ) sim ( ) não9) resolução de tela? ( ) 1024 ( ) 800 ( ) outros10) download ? ( ) rápido ( ) lento11) visibilidade em mais de um navegador? ( ) sim ( ) não12) tipo de acesso? ( ) mouse ( ) multi-touch ( ) voip13) braço de outras mídias? ( ) sim ( ) não14) distribuição? ( ) on-line ( ) off-line e on-line15) sistemas (s) predominante (s)?( ) textual ( ) visual ( ) áudio ( ) vídeoa) entre mídias da mesma empresa? ( ) sim ( ) nãob) entre mídias de empresas diferentes? ( ) sim ( ) nãoCommunication Cloud16) exibe tags? ( ) sim ( ) não • há informações sobre uso de tags? ( ) sim ( ) não • leitor pode inserir tags? ( ) sim ( ) não17) busca? ( ) sim ( ) não - em caso de sim, simples ( ) avançada ( )Conteúdo • há informações sobre publicação de conteúdo? ( ) sim ( ) não18) atualização contínua? ( ) sim ( ) não 252
  • 19) formatos( ) reportagem multiforme ( ) texto multilinear ( ) pacotes multimídia20) possui quais elementos?( ) galeria de imagens ( ) fotos ( ) áudio ( ) 3D( ) podcasts ( ) vídeos/ videocast ( ) slide show ( ) votar/avaliar( ) últimas notícias ( ) comentários ( ) enquete ( ) personalizar/customizar( ) recomendar notícias ( ) favoritos ( ) impressão ( ) aumentar/diminuir fonte( ) modifica layout ( ) fórum ( ) bate-papo ( ) hot site( ) contato (redação) ( ) expediente ( ) registro ( ) webmail( ) código de ética ( ) privacidade ( ) copyright ( ) painel do leitor( ) acessibilidade ( ) fale conosco ( ) outros • links? em caso de sim, ( ) relacionados ( ) internos ( ) externos • aplicativos? ( ) sim ( ) não em caso de sim, quais? ( ) widget ( ) mashup ( ) google ( ) outros • marcadores? ( ) sim ( ) não em caso de sim, o que é permitido compartilhar ( ) texto ( ) vídeo ( ) áudio ( ) foto • redes sociais? ( ) sim ( ) não em caso de sim, são integradas ao jornal ( ) sim ( ) não • blogs? ( ) sim ( ) não • holografia? ( ) sim ( ) não • infográfico? ( ) sim ( ) não em caso de sim, ( ) estático ( ) animado ( ) dinâmico [base de dados] • há informações sobre uso dos elementos de composição? ( ) sim ( ) não21) distribuição? ( ) digital ( ) analógicaem caso de digital, multiplataforma? ( ) sim ( ) não22) profundidade? ( ) sim ( ) não 253
  • em caso de sim, ( ) doc ( ) HTML ( ) pdf ( ) excel ( ) pptOpen Source23) produção( ) própria + agência( ) própria + agência + colaborador24) público participa? ( ) sim ( ) não em caso de sim, como? ( ) texto ( ) vídeo ( ) áudio ( ) imagem ( ) comentário • leitor modifica base de dados? ( ) sim ( ) não em caso de sim, qual formato ( ) infográfico ( ) arquivo • sistema aceita conteúdo de outros dispositivos? ( ) sim ( ) não em caso de sim, ( ) computador – tevê ( ) celular – rádio digital ( ) outros • edição ( ) com o conteúdo produzido por jornalistas ( ) em uma área separada no portal • destaque na capa? ( ) sim ( ) não 254
  • Relatório final do Programa Bolsa UOL de Pesquisa Número do Processo: 20080102180000 Data: 20/03/2009 Os elementos de composição da página noTítulo do projeto jornalismo digitalPesquisador Gisele BeiguelmanNome do aluno Luciana MoherdauiNível da bolsa Iniciação Científica Mestrado X Doutorado Este relatório, a ser preenchido pelo pesquisador proponente, deverá conter a avaliação das atividades desempenhadas pelo aluno, conforme os itens abaixo relacionados:1. Atividades acadêmicas (notas obtidas, exames de qualificação,monitorias, projeto de tese e dissertação, etc.)2008 • Análise sobre o estado da arte do jornalismo digital e construção do referencial teórico da pesquisa. • Revisão do projeto e da bibliografia. • Definição da metodologia adotada e justificativa para escolha do método. • Mapeamento as estruturas noticiosas dos 20 sites noticiosos abordados na tese e elaboração da tabela comparativa dos elementos de composição (ABC News, BBC News, CBS News, CNN, Corriere Dela Sera, El Mundo, El Pais, estadao.com.br, Folha Online, G1, Guardian Unlimited, La Repubblica, Le Figaro, Le Monde, MSNBC, Terra Notícias, The New York Times, USA Today, Washington Post e Último Segundo). Apresentação dos artigos O estado da questão da composição das páginas e Em busca de elementos de composição para 6º SBPJO e 2º ABCiber, respectivamente. • Esboço dos capítulos da tese. • Cumprimento das disciplinas Processos de criação e produção do conhecimento em redes fixas e móveis (nota 9); Seminário de Pesquisa I (nota 10); Mídias e Impactos Sócio-culturais – Inteligências Coletivas e redes sociais (nota); Regimes de Sentidos nas Mídias – Interações corpo a corpo e as emoções midiatizadas (nota). • Criação do Contra a clicagem burra (www.contraclicagemburra.com) para sistematizar as categorias de composição de página.2009 • Aplicação de questionário aos jornais pesquisados no projeto, apuração, análise de dados e redação do resultado. • Inclusão de plataformas de redes sociais como metodologia de pesquisa. • Preparação de perguntas para entrevistar editores dos jornais digitais que fazem parte da pesquisa. 255
  • • Participação como aluna ouvinte da disciplina Processos de criação e produção do conhecimento em hipermídia e em redes fixas e móveis: pressupostos críticos e criativos no Design de Interfaces, ministrada por Giselle Beiguelman. • Oficialização da Rede Jornalismo e Tecnologias Digitais, projeto de pesquisa aplicada à experimentação e criação de inovações tecnológicas em captação, produção, empacotamento, transmissão e distribuição de conteúdos jornalísticos nas convergentes plataformas: http://bit.ly/zRM4sE • Colaboração na revisão de artigos da edição de 2009 da Galáxia, Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica - www.pucsp.br/pos/cos/galaxia. A Galáxia tem conceito A na Qualis/Capes. • Membro do Conselho da nova revista acadêmica da PUC/SP intitulada Nexi. A publicação, exclusivamente, online, será voltada a estudantes de mestrado e doutorado.2. Publicações submetidas e aceitas (inserir referência completa):MOHERDAUI, L. Em busca de um modelo de composição para os jornaisdigitais. In: Revista Contemporânea. UFBA Bahia, Salvador, jan. 2009.Disponível em: http://bit.ly/Aen4Av. Acesso mar. 2012.MOHERDAUI, L. O estado da questão da composição das páginas. In: Anaisdo 6º - A construção do campo do jornalismo no Brasil. CD-ROM. Metodista,São Bernardo do Campo, SP, 2009.3. Avaliação geral do andamento do trabalho do aluno:Aspectos Satisfatório Satisfatório Insatisfatório sem restrição com restriçãoCumprimento dos XobjetivosContextualização XMetodologia XutilizadaResultados XesperadosAplicabilidade XCronograma XBibliografia Xutilizada4. Parecer Final:Foi atingido o objetivo proposto no projeto: identificar os elementos decomposição da página noticiosa que estão sendo utilizados ou desenvolvidos deforma específica para o jornalismo digital. Esse mapeamento norteará a segundafase do projeto, que se resume a: 256
  • A) entrevistar editores-chefes dos 20 jornais do Brasil e do exterior commais acesso na internet, segundo dados recentes do Ibope: Márcia Menezes(G1), Ana Lucia Busch (Folha Online), Antonio Prada (Terra Notícias), MarianaCastro (Último Segundo), Marco Chiaretti (estadao.com.br), Kenneth Estenson(CNN), Charles Tillinghast (MSNBC), Matt Rehm (The New York Times), RandyStearns (ABC News), Dan Farber (CBS News), Jeff Webber (USA Today),Elizabeth Spayd (Washington Post), Laurent Greilsamer (Le Monde), BertrandGié (Le Fígaro), Ezio Mauro (La Repubblica), Paolo Mieli (Corriere della Sera),Javier Moreno (El Pais), Fernando Baeta (El Mundo), Steve Herrmann (BBCNews) e Alan Rusbridger (Guardian Unlimited).B) Elaboração dos capítulos da tese, estruturada da seguinte maneira:Introdução (abertura inclui clicagens burras, interface e browser)1. Do papel para a web (1.1. Composição das páginas; 1.2. Elementos do designinformacional; 1.3. Ponto de vista jornalístico)2. O browser como paginador (2.1. Critérios de construção; 2.2. Desconstruindoconceitos; 2.3. Categorias de análise)3. Em busca de um modelo (3.1. Rupturas e remediações; 3.2. Superfície einterface; 3.3. Das simbioses - tecnologia, jornalismo e design)4. Estudo de caso (4.1. Análise geral; 4.2. Quadro comparativo; 4.3. Odenominador comum)5. Uma nova proposta (5.1. Definição; 5.2. Características; 5.3. Valor-notícia decomposição)6. Conclusões7. Anexos (7.1. Questionário de entrevistas; 7.2. Formulário de observação; 7.3.Tabulação de dados; 7.3.1. Entrevistas; 7.3.2. Sites noticiosos). 257
  • Interfaces pesquisadas2692012 www.g1.com.br269Ranking do Ibope atualizado em julho de 2010. O ranking anterior, de 2008, que consta na primeira versão doprojeto de pesquisa, contém a mesma estrutura, com exceção do uso maciço de redes sociais e botões decompartilhamento e reputação. Versões daquele ano dos jornais estão disponíveis para consulta em www.archive.org. 258
  • www.folha.com 259
  • www.terra.com.br 260
  • www.estadao.com.br 261
  • www.googlenews.com 262
  • www.ultimosegundo.com.br 263
  • www.r7.com.br 264
  • www.bbc.co.uk/portuguese 265
  • www.nytimes.com 266
  • www.band.com.br 267
  • www.cnn.com 268
  • www.msnbc.com 269
  • www.elpais.com 270
  • www.guardian.co.uk 271
  • www.huffingtonpost.com 272
  • 2009 www.g1.com.br 273
  • www.folha.com 274
  • www.terra.com.br 275
  • www.estadao.com.br 276
  • www.googlenews.com 277
  • www.ultimosegundo.com.br 278
  • www.r7.com.br 279
  • www.bbc.co.uk/portuguese 280
  • www.nytimes.com 281
  • www.eband.com.br 282
  • www.cnn.com 283
  • www.msnbc.com 284
  • www.elpais.com 285
  • www.guardian.co.uk 286
  • www.huffingtonpost.com 287
  • 2008270 www.abc.com270 Ranking de 2008, que consta na primeira versão do projeto de pesquisa. 288
  • www.bbc.co.uk 289
  • www.cnn.com 290
  • www.cbsnews.com 291
  • www.corriere.it 292
  • www.elmundo.es 293
  • www.elpais.es 294
  • www.folha.uol.com.br 295
  • www.g1.com.br 296
  • www.guardian.co.uk 297
  • www.repubblica.it 298
  • www.lefigaro.fr 299
  • www.lemonde.fr 300
  • www.msnbc.com 301
  • www.terra.com.br 302
  • www.nytimes.com 303
  • www.washingtonpost.com 304
  • www.ultimosegundo.com.br 305
  • www.usatoday.com 306