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Transformações no processo de legitimação do jornalismo

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Trabalho apresentado no Simpósio Internacional Mudanças Estruturais do Jornalismo - MEJOR

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Transformações no processo de legitimação do jornalismo

  1. 1. Jornalismo e Mídias Sociais Digitais: transformações no processo de legitimação institucional no serviço de micromensagens Twitter1 Eugenia Mariano da Rocha Barichello2 Luciana Menezes Carvalho3Resumo: A crise de legitimação que atinge as instituições sociais na atualidade afetadiretamente o jornalismo, que tem na intermediação seu principal papel institucional. Ocenário das mídias sociais digitais amplia esse processo. Este trabalho realiza uma análise deconteúdo para identificar possíveis transformações no processo de legitimação institucionaldo jornalismo nas mídias sociais digitais. Faz-se uma análise das postagens do jornal ZeroHora no site de micromensagens Twitter na cobertura de um acontecimento paracompreender como o campo institucional se apropria da mídia social para se legitimarperante o público e a sociedade.Palavras-Chave: Estratégias de legitimação. Jornalismo. Mídias sociais digitais.1. Introdução O processo de legitimação institucional do jornalismo tem sido ancorado,historicamente, em seu papel de intermediação, que o faz ser reconhecido socialmente comomeio entre os fatos e o público e intermediário no processo de seleção das informações. Ainternet e as tecnologias digitais tornaram possível que um grande número de pessoaspassasse a produzir, distribuir e comentar conteúdo próprio ou de terceiros. Tal transformaçãoocasiona uma crise no papel das instituições de mediação, dentre elas o jornalismo. Essa possibilidade de acesso direto à informação por parte dos atores sociaisrepresenta uma crise de legitimação às instituições que têm a mediação como papel central,como é o caso do jornalismo. A popularização recente das mídias sociais digitais, com aampliação da participação dos usuários das tecnologias digitais, reforça este cenário. São exemplos de sites de mídia social o Orkut4 (site de rede social), o Facebook5 (sitede rede social), o Youtube6 (site de compartilhamento de vídeos), o Flickr71 Trabalho apresentado ao I Colóquio Internacional Mudanças Estruturais no Jornalismo (MEJOR). Brasília,UNB, 2011.2 Doutora em Comunicação (UFRJ), professora titular e coordenadora do Programa de Pós-Graduação emComunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: eugeniabarichello@gmail.com.3 Jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail:lucianamenezescarvalho@gmail.com.4 http://www.orkut.com5 http://www.facebook.com6 http://www.youtube.com7 http:www.flikr.com 1
  2. 2. (compartilhamento de fotos), o Twitter8 (microblog ou serviço de micromensagens), oDelicious9 (site de armazenamento de links), cada um com uma função distinta e sendoapropriados de diferentes formas. O serviço de micromensagens Twitter10 é uma ferramenta de mídia social que temsido apropriada pelos interagentes11 principalmente para busca e disseminação deinformações, além de permitir a conversação e a emergência de redes sociais. Atualmentecom mais de 200 milhões de usuários12, destaca-se pelas possibilidades de uso para finsinformativos, com caráter jornalístico e de relevância social. O jornal Zero Hora (RS-Brasil) é um dos pioneiros no país a adotar as mídias digitaiscomo plataforma jornalística, tendo criado o cargo de editor de mídias sociais em 2009 13. Apartir de meados de 2009 intensificou as estratégias no Twitter, dando mais atenção àinteração com a audiência. Com o objetivo de compreender possíveis transformações noprocesso de legitimação da instituição jornalística nas mídias sociais digitais, realizamos umaanálise de conteúdo no perfil do jornal Zero Hora no Twitter, a partir da cobertura de umacontecimento jornalístico - um temporal que atingiu o estado do Rio Grande do Sul (Brasil)em novembro de 2009.2 O jornalismo como instituição social de intermediação Informar a sociedade, operar a mediação da realidade são, desde suas origens, asprincipais funções do campo institucional do jornalismo, formado pelas organizaçõesinformativas e os profissionais que nela atuam. Essa perspectiva fundamenta os discursoslegitimadores das organizações noticiosas até hoje. A linguagem jornalística objetiva e o apelo a diferentes estratégias de reforço de suafunção social de mediação fazem com que o jornalismo seja reconhecido em suas diferentesmanifestações, diferentes suportes, como uma instituição que, apesar de todas as8 http://twitter.com9 http://www.delicious.com.10 http://twitter.com11 Utilizamos a denominação “interagente” conforme Primo (2003), para o qual o termo é mais apropriado paradefinir a ação recíproca entre os atores nas redes digitais.12 Segundo reportagem do site Tech Crunch, seriam 190 milhões de usuários em junho de 2010 em todo omundo, com uma média de 65 milhões de tweets (postagens individuais) diários. Disponível em:<http://techcrunch.com/2010/06/23/twitter-international-growth/>. Acesso em 23/06/2010.13 Entre 2009 e 2010 criaram o cargo o norte-americano The New York Times, a Rede britânica BBC, opaulistano O Estado de São Paulo e o carioca G1 – portal de notícias da Rede Globo. No jornal gaúcho ZeroHora, o cargo é ocupado pela editora de conteúdo online do veículo, a jornalista Barbara Nickel. 2
  3. 3. transformações tecnológicas pelas quais passa, mantém suas principais características econtinua exercendo suas funções centrais junto à sociedade. Assim se dá seu processo de legitimação desde que foi institucionalizada e tornou-sepredominante a matriz informativa do jornalismo. A noção de mediação, para Guerra (2008),subentende um duplo papel social que o jornalismo enquanto instituição procura cumprir.Inclui o papel intermediação, entre os fatos e acontecimentos e a sociedade e, ao mesmotempo, a adequação que o pólo emissor, pelo seu aspecto econômico, precisa operar emrelação às expectativas do público (GUERRA, 2008). O conceito de instituição não se confunde com o de organização, essa entendida como“(...) uma manifestação empírica daquilo que a instituição determina formalmente”(GUERRA, 2008, p. 151). A credibilidade que marca a instituição jornalística é conquistada emantida ao longo dos anos por meio de uma relação contratual entre cada organização e seupúblico, entre cada jornal e seu leitor. A reafirmação desse papel pelo jornalismo tem como principal objetivo legitimá-losocialmente. Por meio de estratégias de legitimação, uma instituição “(...) se reconhece pelopoder de ocupar o lugar de sujeito de enunciação, como sujeito de um dizer ou fazer,remetendo à capacidade de impor algo com legitimidade para a sociedade” (BARICHELLO,2004, p. 72). De tempos em tempos, são comuns ocorrerem mudanças nos modos de as instituiçõesse explicarem e se justificarem perante seus públicos, o que ocorre sempre que há umatransformação de significados ou uma ruptura social, ou mesmo quando uma nova geraçãoprecisa ser instruída a respeito de seu funcionamento. Quanto mais complexa fica asociedade, mais problemas de legitimação tendem a ocorrer. É o que ocorre com o atualprocesso de liberação do poder de emissão relacionado às possibilidades interativas dastecnologias digitais de comunicação e informação.3. Desintermediação e crise de legitimação do jornalismo O contexto social do processo de desintermediação envolve uma crise nos dispositivosde legitimação das instituições, operando o que Lyotard (2000) denomina “deslegitimação”.O autor entende que, na virada do século XX para o XXI houve uma ruptura nos“metadiscursos de emancipação” que marcaram a modernidade, afetando todos os campos 3
  4. 4. sociais e instituições. Com a informatização da sociedade, o saber passa a se exteriorizar,diminuindo o poder dos experts e diluindo as fronteiras entre os campos. Hoje, com os intermediários tradicionais tendo seu poder enfraquecido a partir daspráticas descentralizantes das tecnologias digitais, estaria havendo uma exacerbação doprocesso de deslegitimação das instituições. É o que Pierre Levy (1998), bem antes do boomdas hoje denominadas mídias sociais, já classificava como processo de desintermediação, umfenômeno típico da internet. As mídias sociais representam o principal espaço de abertura e descentralização dopoder de mediação que era monopolizado pelas instituições. Elas promovem a autonomia dousuário, com redução da necessidade de mediação da mídia tradicional. Com elas, o papel derepresentar, de mediar o mundo através da informação, deixa de ser centralizado pelo campoinstitucional do jornalismo (SAAD, 2008). Apropriações dessas ferramentas têm mostrado aspossibilidades de usos informativos, para produção e distribuição de conteúdos relevantes,sem necessidade da intermediação de um jornalista, ampliando as possibilidades que ainternet já trazia em seus primórdios. Segundo Saad (2008), as mídias sociais estão relacionadas à transformação no papeldo usuário que ocorre na web 2.0. Conforme a autora, neste estágio de maior participação, asmídias digitais incorporam as principais características da plataforma digital, ou seja, rupturado predomínio do pólo de emissão; criação de canais independentes de informação econversação; alto grau de envolvimento e personalização pelos usuários; alto grau dearticulação coletiva; concentração em um mesmo ambiente de ferramentas de produção deconteúdo e participação e diálogo gerando comunicação. Para Recuero (2008), a web 2.0 reforça o caráter participativo da internet, mas não éela que inaugura a mídia social, que já estava de algum modo presente nos primórdios dainternet, com formas menos sofisticadas de interação. Elas reconfiguram a lógica decomunicação um-todos da mídia de massa, baseada na transmissão e difusão linear demensagens, em direção a uma lógica de participação, que pode ser explicada pelo modelotodos-todos que ocorre nos fluxos da rede. Ao falar sobre os fluxos de informação na mídia social, Boyd (2010) visualiza umamudança de um modelo de distribuição de informações da mídia de massa (broadcast) paraum modelo de disputa por atenção no que ela denomina mídia em rede, relacionada àspossibilidades da web 2.0. A autora defiine o broadcast ou mídia de transmissão como um 4
  5. 5. modelo em que todo mundo recebe a mesma mensagem, ao mesmo tempo. Trata-se de ummodelo de fonte única e centralizada de informação, em que as organizações informativasmantêm controle dos meios de distribuição de informações. Segundo Boyd (2010), umnúmero cada vez maior de fontes disputam atenção das pessoas nas ultimas décadas, algo quea internet potencializou, pois suas ferramentas possibilitam que as pessoas criem edisponibilizem seus próprios conteúdos nas mídias sociais. Está em jogo uma lógica diferente daquela do jornalismo tradicional, com o antigoreceptor se transformando em usuário ativo com poder de pautar os acontecimentos. Noentanto, em muitos casos são os próprios usuários que noticiam primeiro, “furando” astradicionais organizações noticiosas. Isso ocorre especialmente em catástrofes climáticas ouconfrontos de ordem política, em que o acesso dos jornalistas da grande imprensa édificultado e as pessoas que estão in loco passam a noticiar por conta própria, mostrando aforça da mídia social na ambiência digital14. As trocas de informação no Twitter, por exemplo, incluem não só interações pessoaisa respeito do dia a dia dos usuários, mas notícias oriundas dos veículos de imprensa, portantonão originadas da mídia social. No entanto, mesmo nesses casos, as informações se dão apartir de outra lógica, em oposição ao modelo de emissão unilateral da mídia de massa. Asinformações são passadas adiante, na mídia social, com comentários dos usuários, seja nosblogs, microblogs ou sites de rede social. Para assegurar que continuarão tendo justificada sua existência em uma ambiência dedesintermediação e deslegitimação, as organizações marcam presença nas mídias sociaisdigitais, onde empregam estratégias para legitimar seu clássico papel de intermediárias juntoaos públicos.14 Um caso emblemático das possibilidades das mídias sociais para a disseminação de informações por parte dosusuários é o dos conflitos pós-eleições presidenciais no Irã, ocorridos em 2009. Com os veículos decomunicação internacionais impedidos de realizar a cobertura e a imprensa local censurada, manifestantes utilizaram oTwitter e o Youtube para veicular fotos, vídeos e mensagens para revelar ao mundo a violenta repressão da polícia nosprotestos movidos pela oposição que denunciava fraude do pleito. As postagens em sites como o Twitter foram fundamentaispara que as emissoras e jornais pudessem realizar suas coberturas. O episódio ficou conhecido, pelo uso da internet pelosmilitantes, como “revolução 2.0”. Também teve impacto primeiro nas mídias sociais a notícia da morte de Michael Jackcson,fato só depois divulgado pelos veículos tradicionais. Há inúmeros casos em que as informações sobre incêncios, enchentes eoutras catástrofes foram primeiro disseminadas por pessoas comuns (não jornalistas), através da mídia social. 5
  6. 6. 4. O processo de legitimação do jornalismo nas mídias sociais digitais A legitimação é um processo constante de justificação e explicação de uma ordeminstitucional. É para buscar ou manter reconhecimento da sociedade que a instituição precisade mecanismos de legitimação. A legitimação renova um campo já institucionalizado,garantindo sua permanência e mantendo coeso um universo de significação. “A função dalegitimação consiste em tornar objetivamente acessível e subjetivamente plausível asobjetivações de ‘primeira ordem’, que foram institucionalizadas” (BERGER e LUCKMANN,1984, p. 127). Assim, o jornalismo, por exemplo, quando reforça por meio de seu fazer e de seudizer o seu papel social de mediação, de ser um campo informativo que busca a verdade,mobiliza sobre si mesmo discursos e práticas que atestam, estrategicamente, sua origeminstitucional. Esses discursos e práticas fazem parte do processo de legitimação institucional. As estratégias de legitimação no campo institucional do jornalismo são aquelas quevisam reforçar o seu papel de intermediação. Tratam-se, também, de estratégias desobrevivência diante de um cenário de competitividade e aceleração. A própria presença dasorganizações informativas nesses espaços pode ser entendida como uma estratégia delegitimação que tem na visibilidade em um espaço de abertura da rede digital uma de suasbases. A intermediação que marcou a comunicação de massa é levada para o ambientedescentralizado da mídia digital, provocando rupturas e adaptações no processo delegitimação de cada organização jornalística. A intermediação, na mídia digital, pode ser uma estratégia, de acordo com Saad(2008, p. 80), para fortalecimento da marca das organizações informativas; está associada aooferecimento de conteúdo com credibilidade em um cenário de multiplicidade de oferta, “[...]ou seja, quem domina a práxis do jornalismo tradicional e seus diferentes gêneros, é que teriaem mãos os instrumentos, as habilidades e as competências para trabalhar nesse novo formatoinformativo”. Visando renovar o processo de legitimação do jornalismo, as estratégias adotadaspelas organizações informativas passam a envolver um resgate do papel de intermediação dojornalismo ou, por outro lado, uma renovação desse mesmo papel com a incorporação decaracterísticas ou possibilidades das ferramentas de mídia social. Para compreender como sedá esse processo na prática, realizamos uma pesquisa empírica visando analisar, no conteúdo 6
  7. 7. postado na mídia social, as estratégias que a organização jornalística adota objetivando àlegitimação.5 Procedimentos metodológicos A presente pesquisa, de caráter qualitativo, é guiada pela metodologia de Análise deConteúdo (AC), conforme definida por Bardin (1977). Segundo a autora, o problema, ashipóteses, objetivos e referencial teórico fazem parte de uma etapa precedente da análisepropriamente dita, que envolve cinco fases: preparação das informações a serem analisadas;transformação do conteúdo em unidades; classificação das unidades em categorias; descriçãodas categorias e inferência ou interpretação. Neste caso, a AC, além de uma metodologia queenvolve todo o trabalho, é uma técnica para compreensão do objeto.5.1 A importância da informação no twitter O Twitter é um serviço de micromensagens15 que permite postagens de até 140caracteres, lançado em 2006 nos Estados Unidos, e que inicialmente propunha aos usuáriosresponder à pergunta “O que você esta fazendo?”. Como passou a ser utilizado para fins maisinformativos, inclusive jornalísticos, a pergunta inicial foi modificada, em 2009, para “O queestá acontecendo?” 16. No Twitter, o usuário cria um perfil e pode seguir outros perfis comquem deseja trocar mensagens ou simplesmente acessar as informações postadas, que irãoaparecer em sua timeline. É possível manter um perfil público, que lhe confere um status de rede social17, ouprotegido, em que as mensagens serão acessadas apenas pelos seguidores com quem ousuário deseje interagir. É possível enviar mensagens direcionadas a um outro perfil por meiodo sinal de @ (o reply), replicar informações utilizando a sigla RT à frente do nome dousuário (o retweet) e referenciar ou fazer menção de outros usuários à sua rede (através dasmentions).15 Também conhecido como microblog, por permitir postagens na ordem de atualização à semelhança dos blogs, porémlimitadas a 140 caracteres, o Twitter é considerado mais recentemente um serviço de micromensagens devido àsapropriações mais comuns que foram dadas pelos usuários (RECUERO e ZAGO, 2009).16 O co-fundador do Twitter, Biz Stone, disse em entrevista que o objetivo não foi mudar como as pessoas utilizam o serviço,mas tornar mais claro seu principal uso (http://blog.twitter.com/2009/11/whats-happening.html).17 Embora esteja sendo usado o conceito de mídia social, entende-se que algumas apropriações desses sites lhes conferem umstatus de site de rede social (Recuero, 2009), que é quando eles são utilizados como suporte para as redes sociais, ou seja, sãoferramentas em que se cria um perfil público e se torna pública a rede de amigos ou contatos, sendo permitida a interação.Nem toda mídia social é apropriada como rede social. E nem toda rede social é uma mídia. 7
  8. 8. Uma apropriação importante das possibilidades do serviço é a utilização das hashtags,palavras antecedidas do sinal sustenido (#), que servem para etiquetar os assuntos no Twitter.As hashtags facilitam a recuperação das postagens, permitindo que, a partir da ferramenta“search”, incorporada ao site, sejam acompanhados em tempo real os assuntos tratados pelosinteragentes, permitindo também a conversação. Apesar da limitação a textos de 140caracteres, é possível enviar links para outros espaços da web, fotos, vídeo e áudio.Apropriações voltadas para fins informativos, que vinham sendo apontadas pela literatura nosprimeiros estudos sobre o Twitter (JAVA et al, 2007; MISCHAUD, 2007; HONEYCUTT eHERRING, 2009; RECUERO e ZAGO, 2009) já indicavam o papel da ferramenta nadistribuição de informações jornalisticamente relevantes. A partir do seu crescimento como espaço de discussão e circulação de informações eopiniões, as organizações jornalísticas passam a marcar presença no Twitter em busca devisibilidade, oportunidade de negócios, adequação a um modismo, ou legitimaçãoinstitucional. É o caso do jornal Zero Hora, que possui perfil no Twitter desde 2008.Atualmente, a página do jornal no site possui uma rede de 56.764 seguidores e segue 4.822perfis18, priorizando a divulgação de manchetes da Zero Hora Online (figura 1) e ocompartilhamento de informações originadas em diferentes canais digitais do Grupo RBS. Noentanto, também há interação com os seguidores, através de retweets e replies, especialmenteem coberturas pontuais, como alagamentos urbanos e caos no trânsito. Figura 1: Fragmento da página de Zero Hora no Twitter5.2 O #temporalrs no Twitter de Zero Hora18 Dados de dezembro/2010. 8
  9. 9. A seção “Cartas do Editor” do dia 22/11/2009, na página 02 de Zero Hora, trouxe umartigo intitulado “Leitores também iluminam a cena”, assinado pelo diretor de redação dojornal gaúcho, Ricardo Stefanelli. O mesmo texto foi publicado no dia anterior no Blog doEditor19, espaço editorial de Zero Hora online. Segundo Stefanelli (2009), “Acostumados alidar com o público, que cada vez mais ajuda na produção do conteúdo, os veículos da RBSviveram uma tarde diferente na quinta-feira” (dia 19/11/2009). Naquela data, o que era paraser mais uma cobertura de temporal no Rio Grande do Sul, teria se transformado na maiormostra da força das mídias sociais e do poder da participação do leitor no jornalismo para asequipes do Grupo RBS. Segundo Stefanelli (2009), (...) eram fotos, vídeos e textos em profusão, delimitando um novo marco na participação de ouvintes, leitores, internautas e telespectadores. O acesso ilimitado a novas ferramentas via internet estimulava a interatividade numa forma que nem nós conhecíamos. Até mesmo Barbara Nickel, editora de Mídias Sociais da RBS, se surpreendeu com a avalanche de colaboração. (...) (...) Até a noite daquela quinta, mais de 22 mil pessoas haviam entrado no blog ao vivo para acompanhar o minuto a minuto e relatar dramas ou buscar de informações. Até então, a maior participação neste tipo de cobertura ao vivo de zerohora.com envolvera cerca de 8 mil internautas. A amplitude da participação teve impacto, também, na cobertura da RBS TV, queusou, pela primeira vez, vídeos postados no site Youtube20 por internautas dando conta doque ocorria pelo Estado com a chuva. Um dos vídeos postados por uma leitora registrava omomento em que o temporal começou a varrer a região, em outro caso havia o registro de umavião de carga tentando pousar no aeroporto Salgado Filho, quando os ventos atingiam 96km/h. A voz institucional representada pelo editor mostra a importância que a própriaorganização atribui à presença na mídia social e, além disso, à inclusão do leitor na cobertura,através da participação e da interatividade. No Twitter, foram 81 posts sobre o temporal no período de um mês, desde que foideflagrado o acontecimento. A seleção das unidades a serem analisadas utilizou um critériosemântico, elaborado com base na presença de palavras e termos relacionados ao tema“temporal no Rio Grande do Sul” (chuvas, ventos fortes, temporal, “temporalpoa”,“temporalrs”21), ao contexto das mensagens (estragos causados pela chuva, falta de energiaelétrica, problemas na infraestrutura urbana etc) e à questão da participação dos leitores na19 http://wp.clicrbs.com.br/editor/2009/11/21/leitores-tambem-iluminam-a-cena20 http://www.youtube.com.br21 Os termos “temporalpoa” e “temporalrs” aparecem nos posts antecedidos pelo símbolo sustenido (#): #temporalpoa,#temporalrs, assim como #clima, #chuva, formando as hashtags, que servem para etiquetar os assuntos no Twitter. 9
  10. 10. cobertura do temporal (com a presença de termos como “envie alertas”, “mande fotos”,“colabore”, “participe”). Levando em conta as características do Twitter e as principais apropriações apontadaspela literatura, além da natureza do problema e dos objetivos da pesquisa, partiu-se para umacategorização inicial inspirada em análise de Consoni e Oikawa (2009). No entanto, ascategorias foram adaptadas para se ajustar melhor ao problema em questão. Em relação aoque denominam como variável uso do Twitter, por exemplo, os pesquisadores da UFRGSutilizam quatro categorias – “falas diárias, conversação, compartilhamento e notícias”, quese relacionam aos principais usos do Twitter conforme estudo de Java et Al. (2007). Para otrabalho aqui relatado, foram reformuladas as categorias para adequá-las aos diferentes usosdados por Zero Hora ao Twitter. São eles: interpelação, conversação, compartilhamento edivulgação. Quadro 1: Principais usos do Twitter por Zero Hora no acontecimento “temporal” CATEGORIAS CRITÉRIOS Nº UNIDADES PERCENTUAL INTERPELAÇÃO VERBOS NO IMPERATIVO 14 17% CONVERSAÇÃO DIRECIONAMENTO A UM 8 9,8% PERFIL DO TWITTER COMPARTILHA- REPLICAÇÃO DE 10 12% MENTO INFORMAÇÃO DIVULGAÇÃO INFORMAÇÃO PRÓPRIA 49 60%Fonte: elaborado pelas autoras Os tweets classificados na categoria interpelação foram selecionados com base napresença de verbos conjugados no imperativo, como “envie”, “mande”, “colabore”, “assista”,“participe”, ou que sugerissem um apelo ao leitor para participar da cobertura, como “podeenviar”. Foram encontradas 14 unidades com estas características, correspondendo a umpercentual de 17% dos tweets relacionados ao temporal. São postagens como esta, do dia18/11/2009, solicitando a colaboração dos leitores na cobertura: 10
  11. 11. zerohora: Ao vivo: acompanhe notícias sobre os estragos provocados pela chuva no Interior e mande relatos. http://migre.me/bVvy 3:56 PM Nov 18th, 2009 via HootSuite A categoria conversação é constituída pelos posts que indicam conversa direta comoutro perfil do Twitter, seja leitor, fonte ou jornalista. Outros trabalhos (JAVA et al., 2007)apontaram a presença do sinal de @ na frente do nome de usuário como marca deconversação, no entanto não levaram em conta que o @ também aparece quando se replicauma mensagem (por meio do RT, que é o retweet), conforme alertaram Consoni e Oikawa(2009, p. 7). Portanto, para se detectar a conversação, foi realizada uma análise global dotweet para além da mera presença do @ antes do nome de usuário. Assim, apenas 8 tweets dototal que constitui o corpus, ou seja, 9,8% sugeriram pertencer a esta categoria, como é o casodeste: zerohora: Obrigada pelas fotos e alertas @dudupoa @demiandiniz@guirocha @carlosrpetersen @yasminegsantos @paolafr ancine 1:14 PM Nov 19th, 2009 via HootSuite in reply to dudupoa Na categoria compartilhamento, entraram os tweets que indicavam que ZH estavareplicando à sua rede de followers uma mensagem recebida de outrem (do Twitter ou não). Apresença da sigla RT também não deu conta de todas as unidades, caso de informaçãoreplicada que fosse de uma fonte externa ao Twitter. Ao todo, 10 posts (12% do corpus)entraram nesta categoria de análise, como o seguinte: zerohora: RT @CEEE_IMPRENSA: A energia já foi restabelecida aos consumidores da CEEE na Zona Norte de Porto Alegre. Técnicos avaliam o problema. 8:44 PM Nov 25th, 2009 via HootSuite Por fim, a categoria divulgação incluiu as unidades de análise em que predominasse afunção meramente informativa, de divulgação de notícias. Esta classificação reuniu a maiorparte dos tweets, com 49 unidades, ou 60% do corpus, como exemplifica essa postagem: zerohora: #clima Dilma anuncia R$ 162 milhões para auxiliar vítimas de temporal no RS http://migre.me/cMoT10:59 AM Nov 28th, 2009 via HootSuite O quadro 1 reúne os dados de modo quantitativo, embora tenho sido feita umaanálise qualitativa de cada tweet, demonstrando um predomínio da estratégia nos usosinformativos, com o reforço do papel de intermediação do campo institucional do jornalismo.A categorização adotada revelou um uso predominante do Twitter por ZH, na cobertura dotemporal ocorrido no Rio Grande do Sul em novembro de 2009, para fins informativos, com60% do total de tweets que constituem o corpus relacionado à divulgação de notícias. 11
  12. 12. Levando-se ainda em conta que as demais categorias de tweets não deixam de terfunções informativas, os dados reforçam conclusões de estudos anteriores (JAVA et al, 2007;MISCHAUD, 2007; HONEYCUTT e HERRING, 2009; RECUERO e ZAGO, 2009) quemostram a importância da informação no Twitter e confirmam o pressuposto de uso dainformação como estratégia de reforço do papel social de intermediação do jornalismo. O usoestratégico das práticas interativas, de aproveitamento da participação dos usuários, apareceuclaramente no conteúdo do editorial referenciado anteriormente, confirmando a práticadesenvolvida no Twitter. A cobertura analisada demonstra que a organização quer marcar presença nessesespaços da mídia social e desempenhar ali o seu papel social de intermediação, papel que atorna reconhecida como uma representante do campo institucional do jornalismo e que serenova, no entanto, a partir da inclusão do leitor na mensagem, aproximando o jornal de umaconversação, característica das mídias sociais digitais.Considerações Finais Neste trabalho, buscamos analisar as estratégias empregadas pelo campo institucionaldo jornalismo nas mídias sociais digitais para compreender possíveis transformações no papelde intermediação do jornalismo. Observamos como o papel de mediação institucional dojornalismo, baseado na função de intermediação, pode se transformar em um cenário demediação descentralizada como o das mídias sociais digitais, e como as características dessasmídias podem potencializar um processo já em curso de deslegitimação das instituições. Observamos que a participação das organizações informativas nas mídias sociaisdigitais representa, primeiramente, uma presença estratégica em busca da legitimação atravésda visibilidade. Estar presente em uma ambiência de mídia social digital é uma forma demostrar certa predisposição à abertura e de buscar construir uma imagem de modernidade. Noentanto, as práticas informativas nessas mídias muitas vezes priorizam um modelo deemissão unilateral, nos moldes do que tradicionalmente faz a mídia de massa. É o que faz amaioria dos veículos de imprensa que utilizam o Twitter, apropriando-se dele mais como umsuporte para difusão de manchetes e divulgação de links para seus próprios sites, com baixoaproveitamento das possibilidades interativas desses serviços. As coberturas envolvendo 12
  13. 13. tragédias e situações de conflitos urbanos são exceções em termos de prática colaborativacom inclusão do leitor no processo. No geral, a empresa informativa apresenta-se, na mídia social digital, como filtro eatestado de credibilidade das informações que circulam na rede, aproveitando a força de suamarca conquistada por meio de um contrato que tem na credibilidade seu principal valor paramostrar que seu papel de intermediação continua tendo importância e talvez até tenha essaimportância aumentada diante de um cenário de desintermediação. Ou seja, em um fluxocada vez maior de informações, o interagente precisa de alguns guias que atestemcredibilidade e relevância aos conteúdos jornalísticos. A partir da reflexão teórica e da análise de conteúdo realizada no Twitter de ZeroHora, inferimos que o papel social do jornalismo de intermediário entre os acontecimentos eo público alarga-se, hibridizando-se com as características da mídia social digital. A presençada conversação, embora ainda sem segundo plano em relação à divulgação de notícias, indicaque transformações estão em curso, talvez ainda em um estágio inicial. Para que seja possívelentender que jornalismo está emergindo, só mesmo ampliando a investigação sobre a relaçãoentre jornalismo e espaços abertos como o das mídias sociais digitais. A tarefa do campoacadêmico está apenas começando.Referências BibliográficasBARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.BARICHELLO, E.M.M.R. Visibilidade Midiática, Legitimação e Responsabilidadesocial. Santa Maria: FACOS/UFSM, 2004.BERGER, P.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1994.11ª ed.BOYD, D. Streams of Content, Limited Attention: the flow of information through socialmedia. Educause Review, vol. 45, no. 5 - September-october 2010, p. 26-36. Disponível em:<http://www.educause.edu/EDUCAUSE+Review/EDUCAUSEReviewMagazineVolume45/StreamsofContentLimitedAttenti/213923>. Acesso em 10/11/2010.CONSONI, G.B. OIKAWA, E. A representação dos profissionais de comunicação noTwitter: análise dos perfis de Marcelo Tas e Edney Souza. IX Encontro dosGrupos/Núcleos de Pesquisa em Comunicação, XXXII Congresso Brasileiro de Ciênciasda Comunicação. 13
  14. 14. GUERRA, J. L. O percurso interpretativo na produção da notícia: verdade e relevânciacomo parâmetros de qualidade jornalística. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: FundaçãoOviêdo Teixeira, 2008.HONEYCUTT, C. & HERRING, S.C. Beyond microblogging: Conversation andcollaboration via Twitter. Forty-Second Hawaii International Conference on SystemSciences. Los Alamitos, CA: IEEE Press, 2009. Disponível em:http://ella.slis.indiana.edu/~herring/honeycutt.herring.2009.pdf. Acesso em: 02/06/2009.JAVA, A. et al. Why We Twitter: Understanding Microblogging Usage and Communities.9th WEBKDD and 1st SNA-KDD Workshop ’07. San Jose, California, USA, 2007.Disponível em <http://ebiquity.umbc.edu/get/a/publication/369.pdf. Acesso em: 05/06/2009.LEVY, P. A Revolução contemporânea em matéria de comunicação. Tradução JuremirMachado da Silva. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº 9, dezembro 1998.LYOTARD, J. F. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000. 6ª ed., 131p.MISCHAUD, E. Twitter: Expressions of the Whole Self. 2007. Dissertação (Mestrado).London School of Economics, Department of Media and Communications, Londres, 2007.Em:http://www.lse.ac.uk/collections/media@lse/mediaWorkingPapers/MScDissertationSeries/Mischaud_final.pdf. Acesso em: 02/06/2009.PRIMO, A. Quão interativo é o hipertexto? : Da interface potencial à escrita coletiva.Fronteiras: estudos midiáticos, São Leopoldo, v. 5, n. 2, p. 125-142, 2003.RECUERO, R. Elementos para a análise da conversação na comunicação mediada pelocomputador. Revista Verso e Reverso, São Leopoldo, dezembro de 2008.RECUERO, R.; ZAGO, G. Em Busca das “Redes que Importam”: redes sociais e capitalsocial no Twitter. XVIII Encontro da Compós, MG, junho de 2009. Disponível em: <http://www.compos.org.br/data/biblioteca_1016.pdf Acesso em: 05/06/2009.SAAD, B. Estratégias 2.0 para a mídia digital: internet, informação e comunicação. SãoPaulo: Editora Senac São Paulo, 2008.STEFANELLI, R. Leitores também iluminam a cena. Blog do Editor. Disponível emhttp://wp.clicrbs.com.br/editor/2009/11/21/leitores-tambem-iluminam-a-cena/?topo=13,1,1.Postagem do dia 21/11/2009. Acesso em 20/04/2010. 14

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