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Ecologia da informação nas bibliotecas comunitárias do Salvador
 

Ecologia da informação nas bibliotecas comunitárias do Salvador

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Apresenta resultados parciais de pesquisa do projeto de iniciação cientifica Ciranda de leitura: espaços, (im)pactos, desejos e carências na perspectiva da inclusão social, que tem por universo ...

Apresenta resultados parciais de pesquisa do projeto de iniciação cientifica Ciranda de leitura: espaços, (im)pactos, desejos e carências na perspectiva da inclusão social, que tem por universo de estudo os ambientes tradicionais de leitura em Salvador nas bibliotecas públicas mantidas pelo Governo do Estado da Bahia e pela
Prefeitura Municipal, nas bibliotecas comunitárias como espaços alternativos e o Programa Livro Livre Salvador Fazendo o Povo Pensar como espaço emergente. Mostra os três eixos que a pesquisa se apoia: necessidade e importância de se realizar estudo aprofundado sobre teoria e práticas de leitura, o processo da pesquisa Ciranda de leitura e a ênfase nas bibliotecas comunitárias de Salvador; para compreender o fenômeno da leitura nesses espaços educativos e culturais, a partir do significado da leitura como instrumento de exercício da cidadania e da responsabilidade social que cabe às unidades de informação e ao Projeto de Extensão objeto da pesquisa em andamento.

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    Ecologia da informação nas bibliotecas comunitárias do Salvador Ecologia da informação nas bibliotecas comunitárias do Salvador Document Transcript

    • IX CINFORMA ECOLOGIA DA INFORMAÇÃO NAS BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS DO SALVADOR ANALICE F. OLIVEIRA * (analicefoliveira@hotmail.com) LUIS RICARDO A. SILVA ** (ricardo.bibliotecário@hotmail.com) VANDA ANGÉLICA DA CUNHA*** (avangeli@ufba.br)RESUMO: Apresenta resultados parciais de pesquisa do projeto de iniciação cientifica Ciranda de leitura: espaços,(im)pactos, desejos e carências na perspectiva da inclusão social, que tem por universo de estudo os ambientestradicionais de leitura em Salvador nas bibliotecas públicas mantidas pelo Governo do Estado da Bahia e pelaPrefeitura Municipal, nas bibliotecas comunitárias como espaços alternativos e o Programa Livro Livre SalvadorFazendo o Povo Pensar como espaço emergente. Mostra os três eixos que a pesquisa se apóia: necessidade eimportância de se realizar estudo aprofundado sobre teoria e práticas de leitura, o processo da pesquisa Ciranda deleitura e a ênfase nas bibliotecas comunitárias de Salvador; para compreender o fenômeno da leitura nesses espaçoseducativos e culturais, a partir do significado da leitura como instrumento de exercício da cidadania e daresponsabilidade social que cabe às unidades de informação e ao Projeto de Extensão objeto da pesquisa emandamento.Palavras-chave: Leitura; pesquisa; espaços de leitura; ecologia da informação.* Graduanda do Curso de Biblioteconomia e Documentação do Instituto de Ciência da Informação / UFBA** Graduando do Curso de Biblioteconomia e Documentação do Instituto de Ciência da Informação / UFBA*** Mestre em Ciência de Informação / UFBA. Graduada em Biblioteconomia e Documentação / UFBA. Orientadorada Pesquisa.
    • 1 INTRODUÇÃO A pesquisa Ciranda de Leitura: espaços (im)pactos, desejos e carências na perspectiva dainclusão social investiga o fenômeno da leitura e suas estratégias desenvolvidas nos espaçostradicionais, neste estudo identificados por seis bibliotecas públicas mantidas pelo Poder PúblicoEstadual e duas pelo Poder Municipal. Em complemento são incluídos os espaços alternativosrepresentados por doze bibliotecas comunitárias e uma mantida por fundação de direito privado,totalizando 21 bibliotecas, ambiente no qual se espera entender de que forma se dá a contribuiçãosocial das práticas de leitura para o acesso e uso da informação, construção de conhecimento,consciência e exercício da cidadania e inclusão social das pessoas da comunidade nessesambientes. Uma metodologia apropriada conduz o percurso em busca de cumprir os objetivostraçados no estudo e destaca aspectos inovadores a exemplo de estímulo à equipe do projeto noaprofundamento teórico do tema com discussões internas, participação em eventos científicos eem Grupo de |Pesquisa. Neste artigo dá-se ênfase a uma reflexão sobre a ecologia da informação, portanto daleitura, nas bibliotecas comunitárias em estudo o que possibilita o entendimento da contribuiçãoque poderá trazer para a pesquisa, conhecer a natureza, fluxo, forma e conteúdo das práticas deleitura e prováveis impactos nos leitores.2 DEMANDA POR UMA IMERSÃO CIENTÍFICA NO FENÔMENO DALEITURA A leitura como prática social é indispensável a todo o indivíduo que busca o direito àcidadania, sendo seu exercício pressuposto para a formação do hábito de ler por ser um meio desocialização para o crescimento individual e coletivo. Nesse contexto é indispensável aparticipação de instituições e mediadores capazes de viabilizar a leitura para o desenvolvimentode pessoas e comunidades buscando formar o leitor crítico para o exercício da cidadania, o quepressupõe ações para desenvolver o letramento. Nessa direção, a pesquisa Ciranda de leitura: espaços, (im)pactos, desejos e carências naperspectivas da inclusão social, estuda o fenômeno da leitura como prática social, haja vista a
    • importância e necessidade de se realizar estudo aprofundado que mostre os fundamentos,percursos e estratégias que dêem embasamento teórico para uma melhor prática social de leitura.Entre os fundamentos sobressai a questão do letramento. O letramento conforme Magda Soares (1998, p.18) “é uma forma de inserção social doindivíduo de acordo com o uso competente que ele pode fazer da leitura e da escrita”. No Brasil,as abordagens sobre o ato de ler, seus problemas e condições de produção ganham espaço emtorno de 1980, determinadas pela abertura política conforme Rangel (2004). Para Kleiman (1995), é na metade de 1990 que os estudos sobre letramento começam adestacar-se com pesquisas que buscavam compreender não só o “impacto social da escrita”, mastambém a inserção dos indivíduos no universo da palavra escrita em que se inscrevem os atos deler e escrever. Como se observa, a leitura é vista como condição essencial para a cidadania e o acesso àsinformações veiculadas nas mais diversas mídias, bem como para o ingresso do indivíduo nomundo de trabalho. Mas, diante de sua importância, a leitura, em alguns países ainda é prática deum número muito reduzido de pessoas como ocorre no Brasil. Para que haja desenvolvimento de leitura é necessário o gosto pelas histórias infantis,hábito a ser cultivado pela família. O ensino da leitura e da escrita, portanto o letramento competeà escola. À biblioteca e demais espaços cabe se manterem envolvidos na questão de leituraapoiando o trabalho da escola. Dentre vários estudos sobre o fenômeno social da leitura destaca-se o Projeto Estação deLeitura que desenvolveu uma pesquisa cujo escopo é coletar e analisar memórias em narrativasda comunidade acadêmica da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)/Campus deJequié, com o intento de traçar o perfil do leitor regional. Conforme Matos e Santos (2006, p.59) “são os relatos de formação que apresentam cenasque reenviam o ato de ler aos primeiros passos rumo ao mundo da leitura: seus mediadores, suascondições e o pano de fundo sobre o qual acontece a leitura”. Isso porque segundo as autoras: “ao evocar a infância e as primeiras leituras para relatar uma trajetória, o discurso memorialístico põe em tela questões dignas de atenção: os motivos do leitor; os indicadores de leitura, o horizonte cultural do leitor, suas condições de leitura e suas práticas, os conceitos de leitura e os pré-conceitos a propósito do ato de ler, os reconhecimentos e estranhamentos diante de um livro e a emancipação do leitor”. (MATOS; SANTOS, 2006, p.63).
    • Diante desta realidade, essa pesquisa confirmou a idéia de que, para a constituição doleitor, é de fundamental relevância a participação do “outro”, ou seja, a família, a escola e demaisespaços envolvidos no ensino e prática da leitura, que devem desenvolver atividades quepromovam, apóiem e conduzam à ação e reflexão do indivíduo, transformando-o em leitor. Neste sentido, Leite e Oliveira (2004 apud MATOS, SANTOS 2006, p. 63) aponta que“Ler não é um ato natural do ser humano, mas sim, uma prática social e, visto desse modo, suaaprendizagem não pode ocorrer sem a mediação do Outro Social”. Nesta perspectiva as formulações teóricas da psicologia e da sociologia afirmam que oprocesso de leitura significa investigar as condições intrínsecas e extrínsecas de seudesenvolvimento, com o foco no sujeito enquanto persona individual e social. Considerando esses dois pólos da questão – o individual e o social – para tornar-se leitor,o sujeito precisa sair do pensamento mítico/público para o individual/privado, o que correspondeà passagem da cultura oral para a escrita. E compreender esse processo é a tarefa dapsicossociologia da leitura segundo Aguiar (2006, p.39). Para Lajolo (2004, p. 107), a formação também se amplia do individual para o coletivo,pois “a história da literatura de um povo é a história das leituras de que foram objetos os livrosque integram o corpus dessa literatura”. Ou seja, o individuo torna-se leitor na medida em que“vive” a história de suas leituras. Os autores, Paulo Freire e Jorge Larrosa também são unânimes ao afirmar que énecessária a interação do leitor em contextos diversos de leitura para sua formação. Porque para oprimeiro, a leitura tem um sentido revolucionário e para o segundo, o ato de leitura é parte doprocesso formador dos sujeitos, pois “a leitura [...] tem a ver com aquilo que nos faz ser o quesomos” (LARROSA, 2002, p. 134), alertando que considerá-la como formação é pensá-la “comoalgo que nos forma (ou nos de-forma e nos trans-forma)” (ibid, 2002, p. 133).3 CIRANDA DE LEITURA: ESPAÇOS, (IM)PACTOS, DESEJOS ECARÊNCIAS NA PERSPECTIVA DA INCLUSÃO SOCIAL: O PROCESSODA PESQUISA A pesquisa em andamento Ciranda de Leitura: espaços, (im)pactos, desejos e carências naperspectiva da inclusão social se propõe a conhecer a realidade de estratégias de leitura e seus
    • resultados, nas bibliotecas objeto do estudo buscando verificar as semelhanças ou diferenças deestratégias de leitura nesses espaços e quais os benefícios reconhecidos pelos leitores. Um terceiro espaço que se pretende estudar é o Programa Livro Livre Salvador Fazendo oPovo Pensar, levando livros e ações de leitura em bairros centrais, populares e periféricos deSalvador. É de iniciativa da UFBA através do Instituto de Ciência da Informação (CUNHA,2008). No entanto percebemos que até o momento não oferece condições de avaliação por seruma experiência recente, com apenas catorze meses, que se desenvolve em locais diversificadosde público e infra-estrutura e haver a ausência de dados quantitativos e qualitativos sobre a leiturapromovida nessas ações. Mas se constitui um espaço interessante de observação. A primeira etapa da pesquisa se deu com as bibliotecas públicas, sendo iniciada naBiblioteca da Fundação João Fernandes da Cunha, onde foi realizada a observação in loco noSetor Circulante, para verificar o comportamento dos leitores na preferência de títulos do acervo,autonomia no acesso ou busca de mediador na indicação e decisão pela leitura. A segunda etapa focaliza as bibliotecas comunitárias devido à necessidade de conhecermais de perto estes espaços, suas práticas de leitura, estratégias utilizadas pelos mediadores,como também registrar sua contribuição social para a cidadania e a inclusão social. Do universo de doze bibliotecas comunitárias, sete já foram visitadas, no período dejaneiro a maio de 2009, com o objetivo de conhecer seus ambientes, interagir com os mediadoresde leitura e registrar as estratégias utilizadas pelas bibliotecas como meio de socialização eintegração da comunidade a esses ambientes. O procedimento da observação in loco até o momento se deu em apenas três das setebibliotecas visitadas, considerando que as demais estavam sem condições de atender aos usuáriospor questões de estrutura, dificuldade econômica e financeira para manter os espaçosfuncionando. Outro ponto foi a coincidência de horários de trabalho e estudo dos responsáveispor essas bibliotecas, assim como a ausência de voluntários para substituí-los. Desse modo a observação se deu na Biblioteca Comunitária do Calabar, Biblioteca PauloFreire e Biblioteca Comunitária Sete de Abril. No formulário de observação aplicado,destacaram-se os seguintes aspectos: gênero, categoria (criança, jovem, adulto e idoso),comportamento do usuário no local (com as opções de espera, busca atendimento, vai ásestantes).
    • A metodologia da pesquisa se caracteriza como exploratória para a melhor aproximação econhecimento do objeto de estudo. É de natureza aplicada vez que busca propor intervenção quemude a realidade encontrada. Busca entender como se processa a leitura no universo de estudo, seàs estratégias de mediação de leitura usadas nos espaços sob observação contribuem para elevar onúmero de leitores e a qualidade de leitura como lazer, construção do conhecimento, consciênciade cidadania e inserção social. A metodologia é norteada por revisão de literatura, estudo de campo com utilização deinstrumentos de pesquisa que viabilizem a análise das entrevistas com os mediadores de leitura eanálise dos discursos dos leitores das bibliotecas comunitárias.BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DO CALABAR A Biblioteca Comunitária do Calabar foi inaugurada em 22 de abril de 2006, criada peloGrupo Jovens em Ação em parceria com a ONG Avante Educação e Mobilização Social, aSociedade Beneficente e Recreativa do Calabar - SBRC e o Instituto C&A. Essas parceriasapóiam os componentes do Grupo Jovens em Ação na mediação de leitura. Além disso, a biblioteca recebe recursos para manutenção e funcionamento garantindouma estrutura adequada às necessidades dos leitores, proporcionando conforto, segurança,cultura, lazer, bem-estar, e inclusão social da comunidade. Assim, a Biblioteca Comunitária do Calabar tornou-se um espaço de fomento à leitura e àescrita, de acesso à informação e ao conhecimento. Seu acervo consta de seis mil e quinhentoslivros catalogados, sendo a maior parte doada pela comunidade local, e possui uma média mensalde empréstimo de 100 livros, fomentando uma rotina de atividades de incentivo à leitura nabiblioteca, nas escolas e na creche do bairro.BIBLIOTECA COMUNITÁRIA PAULO FREIRE (SOFIA CENTRO DEESTUDOS) A Biblioteca Comunitária Paulo Freire (Sofia Centro de Estudos), localizada no bairro deEscada, foi criada em 2 maio em 2001. O espaço é uma chácara que pertence ao belga Jan KarelMaria Van Mol. O acervo da instituição é composto por livros de literatura brasileira, literaturaestrangeira, dicionários, enciclopédias, biografias, periódicos e livros infanto-juvenis, estes
    • renovados periodicamente em um Baú de Leitura para despertar o interesse dos leitores. Nomomento, uma das metas da biblioteca é a implantação do Setor Infantil. Para manter suasatividades a biblioteca conta com o financiamento de projetos do Ministério da Educação e outrosórgãos.BIBLIOTECA COMUNITÁRIA SETE DE ABRIL (ASSOCIAÇÃO CULTURALUGO MEREGALI) A Biblioteca Sete de Abril está localizada no bairro Sete de Abril, e foi criada em 27 dejulho de 2002. Funciona em tempo integral, com apoio de quatro voluntárias da própriacomunidade e conta também com uma aluna do Curso de Letras, bolsista do ProgramaPermanecer da Universidade Federal da Bahia. O espaço foi cedido pela Igreja Católica da comunidade que arca com as despesas dabiblioteca desde sua criação. Atualmente a responsável pela biblioteca ganhou um terrenopróximo à escola e creche para a construção da nova biblioteca. Em relação ao acervo é composto de literatura brasileira, livros infanto-juvenis edidáticos. A Fundação Pedro Calmon foi a responsável pela doação da maior parte do acervo. Abiblioteca possui alguns computadores recebidos como doação, mas precisam de manutençãopara funcionar. As mesas e cadeiras são adequadas para as crianças. As estantes adaptadas paraos livros infantis, porém, percebe-se a necessidade de esteiras com almofadas, para as criançasficarem integradas ao ambiente infantil.4 A ECOLOGIA DA INFORMAÇÃO NAS BIBLIOTECASCOMUNITÁRIAS Ao reconhecer a importância histórica das bibliotecas comunitárias como ambientesalternativos de inclusão social e formação cidadã através da leitura, assim como sua função nodesenvolvimento de comunidades ativas por meio da informação e do saber coletivo, buscamos,neste sentido, um maior enfoque no estudo da temática para a construção de um referencialteórico fazendo uma prospecção nessas bibliotecas ainda carentes de uma base de teoria queexplique sua natureza, missão, funções e a ecologia da informação que elas representam.
    • Nesta abordagem da ecologia da informação, a biblioteca é vista como um ambiente quefavorece as relações que envolvem o fluxo da informação. Os ambientes se apresentam inter-relacionados à própria sociedade na qual pertence, e por isso, livres dos antigos “muros”, derestrições e dominação social de antigas políticas de caráter elitista. Assim, é a própria sociedade local que admite suas relações, sentidos e necessidades,reconhecendo ainda a possibilidade da participação de agentes internos e externos para que essesambientes de informação continuem se adaptando às novas realidades sociais, cumprindo assimsua função de transmissão do conhecimento. Ribeiro e Prado (2006, p.3 apud WERSING, NEVELING, 1975, p. 134) retomam a idéiade que as práticas da pesquisa científica nos dias de hoje devem estar pautadas em algumanecessidade social. Desse modo, a transmissão de conhecimento nestes ambientes é também umaresponsabilidade social, e assim sendo deve ser analisada pela Ciência da Informação. Para o melhor entendimento da questão, previamente, vamos revelar um apanhado darevisão de literatura sobre as bibliotecas comunitárias brasileiras na perspectiva da Ciência daInformação e em seguida discutiremos o tema no contexto da atual sociedade brasileira,enfocando as bibliotecas comunitárias na Cidade do Salvador. Analisar o fenômeno das bibliotecas comunitárias no Brasil sempre foi algo desafiador ecomplexo para os pesquisadores da Ciência da Informação e da Biblioteconomia, considerando aescassez de documentos sobre o tema, e o tipo de abordagem do pesquisador e principalmente doprofissional bibliotecário, ao visualizar seu campo de pesquisa e ação profissional restritos apenasaos espaços tradicionais de informação, “entre muros”, ignorando outros espaços alternativos deinclusão pelo conhecimento na Sociedade da Informação e da Aprendizagem. Entre os estudos mais importantes na literatura brasileira sobre a temática da bibliotecacomunitária destacamos Ribeiro e Prado (2006) e Prado e Machado (2008). Ambos enfatizam abiblioteca comunitária como um espaço singular para o desenvolvimento da educação por meiode ações sócio-culturais para uma formação cidadã prática, mediada pelo uso e produção dainformação pela comunidade local, direcionando os participantes da mesma a uma construçãocrítica de sua identidade individual e coletiva. Mas escolhemos direcionar como estudo inicial para formulação do que hojerelacionamos como biblioteca comunitária, o artigo de Rabello (1987), que ainda se utilizando daterminologia da época – biblioteca popular – colocou-se de maneira singular em sinalizar a
    • formulação histórica desta comunidade informacional alternativa na concepção da sociedadebrasileira. Esse fenômeno não se deu de maneira límpida, mas é produto das relações dialéticas entreo Estado e a sociedade, nos períodos de 1930 até meados dos anos 1980, onde o tema passa a serenraizado e notada a existência desse espaço de informação, identificando dessa maneira suacriação pela comunidade local, assim como sua importância e características próprias que adiferenciavam de outros espaços, como a biblioteca pública e a biblioteca escolar. O termo biblioteca popular é utilizado na literatura estrangeira por autores quedenominam as bibliotecas públicas que atuam junto à comunidade (PRADO e MACHADO;2008), diferenciando-se da abordagem de Rabello que descreve em seu estudo como foiinternalizada a biblioteca comunitária no Brasil, revelando que a mesma é produto de umaatuação ausente do Estado na formulação de políticas públicas no atendimento das necessidadesbásicas da população. Uma população que se agregava de maneira desordenada nas periferias dasgrandes metrópoles do país, em espaços quase sempre desprovidos de qualquer assistência socialpregada pela corrente liberal, e pelo desenvolvimento econômico implantado aos moldesestrangeiros que se instaurava no país no período supracitado. Nesse contexto, o Estado construiu um modelo de biblioteca pública pautado na ideologia,que pregava “o acesso livre a informação a todos os cidadãos” mas que se apresentava demaneira contraditória quando promovia a construção de unidades de informação em áreas nobres,em locais distantes das massas, dificultando dessa maneira o acesso à biblioteca pública pelapopulação menos favorecida. Este modelo não se adaptou à nossa realidade social, pois a maior parte da população erade pessoas analfabetas, sem uma formação educacional básica, ficando quase sempre no pontoinferior da pirâmide pública, na dependência extrema desse sistema democrático, que nãodisponibilizava acesso pleno aos direitos humanos básicos como: educação, moradia, saúde,segurança e qualidade de vida. Direitos como estes eram reservados apenas à elite, excluindodessa maneira a classe social menos favorecida. No entanto, a maior exclusão ainda era a doacesso à informação e ao conhecimento. Neste sentido Rabello comenta (1987, p. 26) que “Cresceu a demanda à biblioteca, massomente por um grupo detentor do poder econômico. […] A educação destinava-se a uma elite ea biblioteca seguiu a mesma tendência”; e relata ainda que pouco se fez para mudar essa
    • concepção até o início da década de 1980, demonstrando dessa maneira uma clara separaçãoentre a biblioteca pública e sociedade. A autora aponta ainda, que foi no final dos anos 1970, na insurgência de diversosmovimentos populares de reivindicação e restituição dos direitos democráticos, que as primeiras“bibliotecas comunitárias” surgiram como espaços sócio-democráticos na promoção e inclusãoinformacional de uma população excluída culturalmente. Com o intuito de esclarecer a natureza da biblioteca comunitária, assim como os aspectosessenciais para não haver confusão na utilização da terminologia, a autora aponta algumascaracterísticas desses espaços alternativos de informação, (RABELLO, p.32): surge exatamente como alternativa a biblioteca, que nunca chegou ao povo; trata-se de uma proposta de uma biblioteca de “baixo para cima”; é ligada a uma comunidade determinada; origina-se a partir da consciência desse grupo da necessidade de informação a ser fornecida pela biblioteca; não pode ser uma dádiva de poderes públicos, políticos, nem mesmo de educadores, mas sim da vontade de um grupo de resolver problemas de interesse coletivos; deve estar sob a coordenação de alguém com experiência de trabalho social ou animação cultural. É certo que algumas das concepções acima sobre as bibliotecas comunitárias foramreformuladas de maneira relevante, pois o contexto citado remete ao final da década de 1980onde o tema estava em constante mudança devido às novas expressões sociais e políticas dasociedade brasileira. No cenário atual, a biblioteca comunitária pode ser entendida como um ambienteinformacional criado com a participação ativa de pessoas de uma comunidade local, com osentido de desenvolver ações sócio-educativas de inclusão social pela leitura, alfabetização,informática, atividades de recreação, lazer, formação cultural e cidadania. A colaboração de entidades das esferas públicas e privadas, assim como do terceiro setorsão importantes para a manutenção desses espaços, desde que a essência das atividades
    • desenvolvidas sejam discutidas e construídas democraticamente com a comunidade local, semimposição e troca de favores por ambas as partes. Como se vê o tema é relevante e essa é a razão da pesquisa Ciranda de leitura: espaços,(im)pactos, desejos e carências na perspectivas da inclusão social estudar o assunto para proporintervenção como suporte teórico.4.1 ECOLOGIA DA INFORMAÇÃO NAS BIBLIOTECAS COMUNITÁRIASDE SALVADOR Ao entrarmos no universo da biblioteca comunitária percebemos a real possibilidade denovas leituras do mundo em que vivemos. A identidade social do leitor que interage com a suacomunidade e que dela participa ultrapassa qualquer barreira que o prenda a antigos laços deexclusão social. Os “muros” que impedem o acesso à informação nesse contexto se transformamem degraus para outras realidades que o leitor há de descobrir e transformar na medida em que omesmo busque agir coletivamente. É oportuno relatar que não é somente desses espaços a responsabilidade de, a partir daproblemática vivenciada transformar a realidade mas entendemos que esses exemplos sãoconsideráveis no apoio a formação crítica de leitores dentro de suas comunidades, e que semesses ambientes, pouco é feito pelos órgãos públicos para modificar essa carência de formação deleitores nesses bairros. As bibliotecas comunitárias de Salvador analisadas neste estudo desenvolvem diversasações para modificar o quadro histórico de uma educação fragilizada pela falta de leitura, dentreoutras carências.BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DO CALABAR As estratégias desenvolvidas são contação de histórias, dramatização, teatro de bonecos,exibição de filmes infantis, leitura de contos, poesias e outras manifestações culturais. Em relação à observação in loco, constatou-se que o público alvo da biblioteca é decrianças, adolescentes, jovens e adultos, que utilizam o espaço para leitura de livros infantis,literatura em geral, revistas, jornais, desenhos, pinturas, leitura de imagens (filmes), peçasteatrais, pesquisa para trabalhos escolares além de oferecer empréstimo de livros.
    • BIBLIOTECA COMUNITÁRIA PAULO FREIRE (SOFIA CENTRO DEESTUDOS) Para atrair os leitores à biblioteca são desenvolvidas algumas estratégias de leitura como ahora do conto, clube de leitura e programação anual que envolvem as crianças da comunidade,das escolas e da creche. A hora do conto é uma atividade do Programa Virando a Página realizada quinzenalmentecom a finalidade de estimular crianças a ler, escrever, escutar e expressar-se tendo por objetivos:incentivar o hábito da leitura a partir da contação de história, realizar leituras coletivas,proporcionar integração dos usuários, incentivar a escrita e o diálogo e aproximar o livro da vidadas crianças. O Clube da Leitura é uma estratégia direcionada aos adolescentes. O programa anual para2009 da biblioteca consta de onze blocos sendo distribuídos da seguinte forma: Bloco I - Leitura e Arte nas férias, que acontece nos meses de janeiro e fevereiro. Asatividades desenvolvidas são brincando com as cores, carnaval da bicharada e as brincadeirascorrida de limão, cantigas de roda, rabo do burro, três - três passarão, boca de forno, dança dascadeiras entre outras. Bloco II - Poesia e Literatura. Acontece no mês de março e enfatiza a leitura de poesias deMaria da Graça Almeida e José Paulo Paes. Bloco III - O mundo de fantasias de Monteiro Lobato que ocorre no mês abril emcomemoração ao Dia Nacional do Livro Infantil e aniversário de Monteiro Lobato com conto dasHistórias de Monteiro Lobato e como atividade a Visita ao Mundo Encantado do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Bloco IV - Aniversário do Sofia tendo por objetivo comemorar o aniversário daBiblioteca Paulo Freire (Sofia Centro de Estudos) que acontece em maio. Tem como atividades aleitura de literatura infantil, exibição de filmes infantis e pinturas dos clássicos. Bloco V - Educação Ambiental, desenvolve-se no mês de junho com atividades relativasao tema. Bloco VI - Quer ser meu amigo? Busca incentivar a amizade e solidariedade entre ascrianças e difundir esse sentimento como um valor a ser cultivado. Acontece no mês de julho.
    • Bloco VII - Folclore e Literatura, acontece em agosto e busca valorizar a cultura popularbrasileira e tem como atividade a leitura das lendas populares. Bloco VIII - Primavera Literária, ocorre em setembro e tem como objetivos incentivar apreservação do meio ambiente, estimular o respeito às diferenças. As atividades são a leitura dolivro “O Patinho feio” e a leitura do livro “A Floresta Poluída” de Maria Auxiliadora MoreiraDuarte. Bloco IX - Semana da Criança tem como objetivos comemorar o Dia das Crianças, o DiaNacional da Leitura, incentivar a práticas de higiene, divulgar os direitos das crianças e estimulara leitura de obras clássicas. As atividades são: leitura de “O Menino Maluquinho e o Estatuto daCriança e do Adolescente”, leitura coletiva, construção de brinquedos criativos e leitura de livrosda coleção “Cuidando do Corpo”, de Gina Borges. Bloco X - Cultura Afro e Literatura comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra edifundir a literatura de matriz africana. Acontece em novembro e tem como atividades leitura decontos africanos e oficina de percussão. Bloco XI - Clássicos Natalinos. Tem como objetivos celebrar o espírito natalino atravésdo estímulo à amizade e a solidariedade e incentivar a leitura de livros religiosos. As atividadessão leituras de contos bíblicos e peça teatral do Nascimento de Jesus.BIBLIOTECA COMUNITÁRIA SETE DE ABRIL (ASSOCIAÇÃO CULTURALUGO MEREGALI) As estratégias de leitura da biblioteca incluem o Projeto de Leitura nas Férias, atividadesde teatro de bonecos, contação de histórias, leitura de poesias, poemas e contos e outrasatividades. De acordo com a observação in loco a predominância é de crianças em fase escolar queutilizam o espaço da biblioteca principalmente para trabalhos solicitados pelos professores o quedemonstra a deficiência ou ausência de bibliotecas escolares. Em relação aos adultos, geralmente,são mães que estudam à noite e utilizam o espaço para consulta e empréstimo de livros deliteratura e outros assuntos.
    • 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS As bibliotecas comunitárias, como parte integrante da rede social pela leitura, merecem,por parte do pesquisador e do profissional bibliotecário, um enfoque diferencial de observação e,para isso, analisamos a temática desses ambientes na perspectiva da teoria da ecologia dainformação desenvolvida por Davenport (1998), na qual o autor apresenta um modelo holístico,em que todas as partes do ambiente são analisadas e relacionadas tendo em vista a gestão emediação de informação nos moldes da realidade da comunidade. Em uma abordagem da ecologia da informação nos ambientes das bibliotecascomunitárias devem-se considerar os diversos tipos de informação que circulam nesses ambientese reconhecer que estes sofrem influências de fatores internos e externos, e que necessitam demudanças e inovações contínuas para manter a integração social. Neste sentido, a ênfase nocomportamento pessoal e coletivo é um dos fatores essenciais para o sucesso de ações eestratégias desenvolvidas para a coletividade. Nessa direção, a pesquisa Ciranda de Leitura: espaços, (im)pactos, desejos e carências naperspectiva da inclusão social, com base no aprofundamento teórico e no estudo de campo,verifica as formas e o fluxo da leitura, o impacto desse processo sobre os leitores nas bibliotecas,mostrando pelos resultados parciais da pesquisa, a importância destes espaços para a sociedade,para propor, se necessário, uma intervenção que conduza a uma prática mais afinada com oacesso e uso da informação e a leitura como forma de desenvolvimento individual e dacoletividade na direção da inclusão social.
    • REFERÊNCIASAGUIAR. Vera Teixeira de. Notas para uma psicossociologia da leitura. In: TURCHI, Maria Z.;SILVA, Vera M.T. (Orgs.). Leitor formado, leitor em formação: leitura literária em questão.São Paulo: Cultura Acadêmica. 2006, p. 39.CUNHA, Vanda Angélica da. Ciranda de leitura: espaços (im)pactos, desejos e carências naperspectiva da inclusão social. Projeto de Pesquisa aprovado pelo Programa Institucional deBolsas de Iniciação Cientifica – PIBIC. Não publicado, 2008.DAVENPORT, Thomas H; PRUSAK, Laurence. Ecologia da informação: por que só atecnologia não basta para o sucesso na era da informação. Tradução Bernadette Siqueira Abrão.São Paulo: Futura, 1998. 316p.KLEIMAN, Ângela (Org.). Os significados do letramento. Campinas: Mercado de Letras, 1995.LAJOLO, M. Tecendo a leitura. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 2. ed. SãoPaulo: Ática, 2004. p. 104-107.LARROSA, J. Literatura, experiência e formação. In: COSTA, M.V.(Org). Caminhosinvestigativos: novos olhares na pesquisa em educação. 2.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. p.133-160.MATOS, Maria Afonsina Ferreira; SANTOS, Nayara Rute da Paixão. Do prazer ao saber:memórias de leitura na comunidade acadêmica da UESB/ Campus de Jequié. In: TURCHI, MariaZ.; SILVA, Vera M.T. (Orgs.) Leitor formado, leitor em formação: leitura literária em questão.São Paulo: Cultura Acadêmica. 2006, p 63.PRADO, Geraldo Moreira; MACHADO, Elisa Campos. Território de memória: fundamento paraa caracterização da biblioteca comunitária. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EMCIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 9., 2008, São Paulo. Anais... São Paulo: USP, 1994.Comunicação oral apresentada ao GT-03 - Mediação, Circulação e Uso da Informação.Disponível em: <http://www.enancib2008.com.br >. Acesso em: 26 abr. 2009.RABELLO, Odília Clark Peres. Da biblioteca pública à biblioteca popular: análise dascontradições de uma trajetória. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, v.16, n.1, p. 19-42,mar. 1987.RANGEL, J. N. M. As práticas de leitura na escola. Leitura: teoria e prática. São Paulo: ALB ,Global, 2004.RIBEIRO, Diego Lemos; PRADO, Geraldo Moreira. O cenário da dinâmica pragmática dainformação: a biblioteca comunitária. Disponível em:<http://www.portalppgci.marilia.une.php?id=249>. Acesso em 28 fev. 2009.SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. p.18-25.