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Lous Rondon As Gêmeas de narciso

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  • 1. LOUS RONDON As Gêmeas de Narciso 1
  • 2. As gêmeas de Narciso / Lous Rondon. Cuiabá, 2013. Romance brasileiro. 2
  • 3. Para minha irmã. 3
  • 4. Ninguém duvida serem muitos os que se cansam sem nada fazer, como os que se dedicam a inúteis estudos de literatura. SÊNECA The rich get richer and the poor get children. F. SCOOT FITZGERALD Apenas através da mulher o homem aprendeu a saborear da árvore do conhecimento. NIETZSCHE Nada temos a temer. Exceto as palavras. RUBEM FONSECA A linguagem escrita é uma safadeza para enganar a humanidade com mentiras. GRACILIANO RAMOS Escrever é uma chatice. CHICO BUARQUE DE HOLLANDA Para multiplicar minhas homenagens não faço distinção de idades. SADE Antes da refeição sanguinolenta! AUGUSTO DOS ANJOS Que a vida para os tristes é desgraça, BOCAGE É muito mais seguro ser temido do que amado. MAQUIAVEL Cada um de nós comporta-se como um paranóico, corrige alguma faceta do mundo que lhe é intolerável, mediante a elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade. FREUD Com mortes, gritos, sangue e cutiladas; CAMÕES Todo homem mata o que ele ama. OSCAR WILDE Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. 4
  • 5. MACHADO DE ASSIS Tenho um tédio enorme da vida. VINICIUS DE MORAES Se houvesse um castigo pior que a morte, eu to daria. ÁLVARES DE AZEVEDO E quem são aqueles que o desgosto da vida levou a se matar? Não são sobretudo pessoas devotadas à sabedoria? se a sabedoria se apoderasse de todos os homens. Logo a terra estaria deserta. ERASMO 5
  • 6. NOTA DO AUTOR MUITÍSSIMO obrigado por estar lendo, a parte mais difícil de escrever é arranjar os leitores, e com eles tenho todo o zê-lo do mundo; algumas cenas foram retiradas ou não foram escritas justamente pelo medo que tenho do que vão pensar; e nesta notinha desejo incliná-los ao meu verdadeiro objetivo; primeiramente não pensem, nem julguem por verdade qualquer coisa aqui escrita; é tudo ficção e não foi pensado em ninguém, até pelo motivo de não conhecê-los; como vão ficar sabendo mais para frente, pero já adiantando, essa estorinha se passa em Cuiabá, Mato Grosso, cidade onde nasci; quis com isso regionalizar, trazê-la mais próximo da realidade dos leitores, e para fazê-la compreensível às pessoas de outros lugares tratei de dar algumas explicações necessárias, haja vista que Cuiabá não é uma capital como São Paulo, Rio, ou Porto Alegre, que não precisa de nenhuma apresentação; não fui pago para fazer propaganda de nada, dessa forma não sou obrigado a agradar ninguém ou esconder certos defeitos, porém nem tudo diz respeito ao que realmente penso e nem está expresso aqui o que defendo; por último notarão que tenho algumas particularidades na escrita, erros cometidos propositalmente; estrangeirismo que trato por língua brasileira; dividi por partes e subdividi por capítulos curtíssimos; rapidez no relato; todas essas coisas encontradas e inspiradas em diversos autores. Leitores sempre foram enganados por acharem que o escritor conhece tudo do texto, totalmente os personagens e toda a verdade; eles são uma porta aberta para qualquer tipo de criação, não é relatado todos os atos, só relata-se o que se vê, o que sabe-se, o que se imagina, o que disseram; e interpretações nem sempre são verdadeiras ou originais; quando o conteúdo entrar no seu cérebro ele vai ser automaticamente influenciado por sua memória, o que já leu e viveu; parte do que é ruim ou do que é bom foi feito pela fantasia do leitor; a mim só coube, infelizmente, anotar o que os personagens fizeram, sem interferir. 6
  • 7. PRIMEIRA PARTE: VIDA CAPÍTULO I ERAM QUATRO HORAS DA MANHÃ quando Joaquim Antônio Casalescchi tomou o longo caminho para a cidade de Chapada. Cuiabá, graças a Deus, estava num tempo bom, o orvalho da matina havia deixado o carro, a estrada, as árvores molhadas e o ar com umidade quase em C por cento. O oxigênio entrava calmamente, deslizando pelas vias aéreas, refrescando a garganta, as narinas, os pulmões, oxigenando o sangue e as células, que davam energia ao corpo com a ajuda do copo grande de café que tomara ao acordar. A estrada encharcada podia representar um possível acidente, contudo valia a pena. O frio atrasava o aparecimento do sol. Os faróis ligados acenavam de um carro ao outro, os pneus passavam pelos buracos, o limpador retirava a água do parabrisa, velocímetro indicava LXX quilômetros por hora e o tanque estava cheio. Quanto tempo ainda falta para chegar? olhou o relógio do celular: restava mais uma hora e meia. Joaquim havia pego parte da herança que seu avô o deixara com a venda da fazenda no Paraná, para comprar uma belíssima casa de um andar cercada de árvores que o custaria mais de meio milhão, no morro da Chapada. Lugar privilegiado, solitário, sem vizinhos, afastado do centro, da agitação, que usaria para descanso. Lá guardaria sua biblioteca particular, com clássicos brasileiros e estrangeiros, e até os livros mais desconhecidos. Teria uma sala ampla que praticaria a arte de carpintaria; em outra um estúdio para gravação de música, era um excelente violonista; um escritório singelo, equipado com máquina de escrever, computador, pequeno banheiro e uma cafeteira para satisfazer seus prazeres de contista. Ao passar na casa feriados e finais de semana usaria a internet para mandar os textos para o jornal; trabalho de freelancer, artigos de opinião e poesias para uma revista carioca. Quanto tempo ainda falta para chegar? olhou o relógio de pulso folheado a ouro que ganhara de aniversário da namorada: meia hora. Professor de literatura em uma escola particular no bairro Boa Esperança; lecionava para o ensino fundamental noções básicas para o bom entendimento da literatura mundial adaptada a atualidade e a vida cotidiana. Em outros turnos dava aula de caligrafia e língua inglesa. Reconhecido pelas novas traduções de Kafka que estava a conduzir por conta própria. Estacionou, o dia havia nascido. Ao sair do automóvel mirou orgulhoso a enorme casa que ficava no monte, portões compridos, pretos, uma câmera de segurança a vigiar a rua vazia. As paredes de tijolinhos envernizados tinham como adorno colunas e janelas de madeira bruta. “Bom dia, seu Joaquim! Chegou cedo.", Carlos, o dono da casa o recebia. “Sim, aproveitei a estrada que estava vazia. Não te fiz esperar, fiz?", sorriu. “Não, claro que não, eu moro lá em Cuiabá, pero passei o final de semana na casa da minha mãe que fica há alguns quilômetros daqui.” 7
  • 8. “Eu vim hoje acertar toda a compra da casa.", Joaquim explicou. “Vamos falar disso, entra deixa eu te mostrar a casa.", Joaquim já havia visto, pero Carlos insistiu em mostrá-la mais uma vez, como se exaltasse a beleza do imóvel, e contente Joaquim aceitou. Carlos Becker era um homem grande de quarenta anos. Mãos fortes como de um trabalhador braçal ou visiculturista, pero originava-se da genética alemã e o cabelo castanho claro indicava que fora loiro na infância. Subiram o monte escorregadio, e deram de cara com a gigantesca e fortíssima porta de madeira. “Entra”, Carlos procurou a chave no bolso esquerdo, não encontrou, pôs a mão no bolso direito, “cadê?", procurou nos bolsos de trás e foi encontrá-la no bolso da camisa, abaixo do paletó. Abriu correndo já que tinha desperdiçado tempo procurando, parecia nervoso, porém apenas confirmava o mito de pessoas altas serem desastradas. A grande porta dava luz a uma arejada e espaçosa sala em que caberia dois ou três jogos de sofá. Assoalho de madeira velho, precisava de outra demão de tinta. Paredes claras, a lareira no centro da casa de enfeite, à esquerda um corredor que daria às salas, à direita três portas, a da cozinha, a da garagem e a trancada para o porão. Após a contemplarem Carlos falou, “Venha, por aqui, neste corredor está esse quarto pequeno, com banheiro, poderia ser um quarto de empregada..." Joaquim interrompeu, “Aqui eu vou deixar para o escritório em que vou escrever.” “Ah, sim! Fica realmente excelente para isso, na verdade ele foi feito para ser escritório de um advogado. Agora aqui, e este grande o que você vai fazer com ele?” “Neste farei um estúdio para gravação de música.” “Aé? Você toca?” “Um pouco, vou tentar gravar uns sambas, umas bossas.” “Fica bom, só vai ser necessário a espuma para isolar o som.” “Sim, farei isso.” “E os equipamentos de gravação, você tem?” “Não, vou negociar com um amigo, estou guardando o dinheiro para isso.” “Ficará bom!", Carlos disse alegre. “Agora temos esse, dos três é o maior, seria uma segunda sala de estar. Aposto que vai montar uma biblioteca, não é? “Sim.", Joaquim riu. “Vou sim.” “Dará uma excelente biblioteca! Veja que o teto aqui é mais alto que no resto da casa! Poderá por estantes enormes, fazer uns cinco ou seis corredores dela e sobrará espaço para uma escrivaninha. Vai ficar perfeito.” “Vai mesmo, você leu meus pensamentos.” “Agora deixa eu te mostrar a cozinha”, disse Carlos indicando caminho. Atravessaram a casa para o lado direito. “Aqui a cozinha, pode ver que é bem grande, separada por esta porta de abertura para a copa. Esta mesa comprida, como eu havia dito, vai ficar incluído no 8
  • 9. preço do imóvel, pois não tenho lugar para colocá-la, então minha mãe e eu achamos melhor vendê-la com a casa. Pero não se arrependerá. A madeira é de muito boa qualidade, bem trabalhada, resistente, durará muitas décadas mais. No máximo o trabalho que terá vai ser mandá-la envernizar novamente e trocar o plástico protetor. As cadeiras igualmente.” “Sim! Dá para ver a qualidade da mesa, caso precisar de reforma eu mesmo a faço. Mexo com carpintaria”, Joaquim informou com entusiasmo. “Ah, havia me dito, por isso falou da sala de carpintaria... venha, deixa eu te mostrar."Andaram um pouco... “aqui... esta seria uma segunda garagem fechada, caso não tenha mais de um veículo pode usar para carpintaria, pintura, imagino que só forrar o chão. Tem espaço, não tem?” “Tem sim! É perfeita, justo o que eu queria.” “A outra garagem é igual, ambas tem lâmpada e portão elétrico com fiação funcionando... Agora falta o porão... aqui está...", abriu a porta... “Vamos”, disse Carlos descendo a estreita escadaria que foi dar lá em baixo, “Serve para caso tenha muitos móveis, aqueles que não quer mais, estragados, ou simplesmente queira se livrar deles, ou tenha muitos objetos, material de caça, pesca, ou mesmo cachorro, poderá deixá-lo aqui caso estiver chovendo... É muito seguro, é fundo, a escada de madeira embora pareça fraca aguenta muito bem o peso. O lugar é grande, e ali em cima, vê?” “Sim", disse Joaquim a levantar a cabeça. “Tem essa janela estreita que não abre feita somente para clarear de dia, não precisar acender a luz. Gostou?” “Gostei sim.” “Claro que está meio sujo, é um porão, pero não há ratos, animais, formigas e outros insetos, está bem conservado, veja que nem a chuva entra aqui, não tem umidade, não tem mofo, azuleijado para melhor limpeza e logo ali tem um ralo. “Sim, sim, dá para se notar, está muito bem cuidado.” “Então é isso! Só falta o andar de cima que vai ter os quartos! Vamos subindo.", Carlos puxou Joaquim pelo braço, empolgado. A escadaria larga vermelha ao centro da sala para o primeiro andar desembocava num duplo corredor, que separava ao meio quatro quartos com suíte. Degrais simétricos, com bom espaçamento para os pés, corrimões de uma beleza incrível, a madeira talhada em peça única que acompanhava a largura que começava no primeiro degrau e ia se estreitando até o último, desenhando flores e folhas. “Aqui o quarto”, Carlos mostrava gesticulando “três deles tem o mesmo metro quadrado, com banheiro, chuveiro com aquecedor solar. Vai precisar com esse frio aí fora. Basta deixar a água correr cinco minutos antes de entrar, para esquentar. E este, o quarto principal, um pouquinho maior, acho que vai escolhê-lo. Tem esta banheira. Está perfeita, sem nenhuma mancha, meu pai trouxera de Portugal, junto da pia. Veja como é bela", apontava com orgulho. “Sim, muito bonita.” “Esta era a casa que mais agradava ao meu pai. Não a maior, pero o velho tinha por ela um sentimento especial. Lembro que escrevia muito no escritório lá de baixo.” 9
  • 10. “Então seu pai era escritor?” “Lembro que escrevia alguns romances que não publicava.” “Ainda guarda os textos dele?” “Minha mãe guarda tudo que é do velho.” “E ela não está triste por vender a casa?” “Talvez um pouco. Na verdade queremos nos desfazer dela, não por não gostarmos, pero por não podermos dar os devidos cuidados. Casa grande demanda maiores gastos, mais tempo.” “Deveras.", Joaquim confirmou. “Então agora somente me resta mostrar a piscina e o quintal.” A piscina, mandada fazer de piso, tinha uns dez metros de comprimento, água suja com folhas amarelas de grandes árvores que não foram podadas, na orla um jardim com rosas, muros altíssimos e cerca elétrica que impedia a entrada de ladrões. “A cerca está a funcionar?", Perguntou Joaquim. “Está sim! Quem a colocou fez um belo serviço, nunca deu problema. E a corrente elétrica é forte, vai desacordar qualquer um que queira pular o muro. Se bem que para tentar pular este muro precisará de uma escada, vê como é alto?” “Sim, é bem alto.” “Pois é, por fora é mais alto ainda, pois a residência está em cima de morro. Nunca tivemos de usar a cerca. Pero ela vive ligada, a tomada fica lá na garagem caso queira desligar.” “E a piscina como está?” “Está suja, como pode ver. Porém o azuleijo não está quebrado e o encanamento da limpeza em perfeitas condições. Só será necessário esvaziá-la, a sujeira ficará presa no filtro, daí é só enchê-la e espalhar o cloro. Nem é preciso chamar alguém, você mesmo poderá fazer em pouco tempo. A única preocupação é vigiar as crianças quando elas estiverem nadando, pois a piscina é funda. Tem filhos?” “Não, não tenho.” “Ah, então está tudo bem.", Carlos colocou a mão no queixo, "Na verdade se bem me lembro há umas boias no porão, as deixarei lá caso queira usar.” “Sim, sim, obrigado.” “Algo mais? Alguma dúvida?” “A casa possui cupins?” ”Não! De forma alguma, a madeira possui tratamento especial, não tóxico, que espanta qualquer inseto. Também não é inflamável. De qualquer forma, se quiser ficar com a consciência tranquila, conheço uma empresa há alguns quilômetros daqui que o poderá ligar e chamar alguém para vir detetizar a casa inteira, incluindo o porão, as garagens e este jardim.” “Ah! Era só uma dúvida, se diz eu confio.” “Sim, pode confiar. Esta casa foi construída para ser muito segura. De qualquer forma te deixarei o número da empresa para ter maior segurança.” “Sim, obrigado. E quanto a umidade, não tem perigo?” “Pergunta por causa dos instrumentos musicais?” 10
  • 11. “Sim, é isso.” ”Não precisa se preocupar, dentro da casa não há umidade ou goteira. Poderá guardar os instrumentos de madeira tranquilamente. Somente precisará se preocupar quando for à Cuiabá, lá o tempo é seco e quente, né?” “Sim, deveras! Tomo cuidado para não rachar os intrumentos.” “Correto, quando for à Cuiabá poderá passar um óleo protetor na madeira, acho que há um no porão. Havia na sala um piano.” “Ah! Por isso a sala é tão grande", falou Joaquim surpreendido. “Exatamente, meu pai era um ótimo pianista.” “E o que aconteceu com o piano?” “Está conosco em outra casa. Minha mãe gosta muito dele. Toca-o de vez em quando." “Sim.” “Mais alguma coisa? Alguma dúvida, qualquer coisa basta me perguntar.” “Não. Não há nada. Acho que está tudo certo.” “Que bom, se está tudo certo só nos resta mesmo ir ao cartório assinar a venda da casa. Vamos no meu carro?” “Sim, vamos.” Pegaram o carro que correu pelas ruas ainda molhadas, o raro tempo bom do Estado dava uma cor azulada ao céu sem muita luz. O relógio do pulso de Joaquim contava agora dez horas. Da janela do banco de passegeiro ele olhou em busca do sol, estava tampado pelas nuvens que voavam lentamente, aglomerando-se e ficando mais escuras. “Parece que vai chover mais tarde.", comentou Joaquim “Pelo jeito vai, não é? Tem chovido todos os dias por aqui.", informou Carlos com um sorisso. “Então o tempo aqui é mesmo melhor que em Cuiabá, em?", perguntou Joaquim só por perguntar. “E como! Quanta diferença.” “Será agradável morar aqui.” “Será sim. Minha mãe adora viver aqui. Não voltaria para Cuiabá de forma alguma. Pero morará aqui?” “Não, a casa é somente para os fins de semana, trabalho em Cuiabá.” “Isso, professor, não é mesmo?” “Sou.” Após XXX minutos chegaram ao cartório. Lugar branco, aparentemente bem organizado, com uma imagem de Jesus Cristo na parede. Pegaram senha e aguardaram. Foram após um tempo atendidos e assinaram os papéis, Joaquim olhou, vendo nome dele como proprietário. Na volta, as nuvens que prometiam despencavam em chuva. O vento empurrava as muitas árvores e o mato da beira da estrada, balançando-se umas nas outras, como se fossem cair. 11
  • 12. “Cá estão as chaves. Esta do escritório, esta do futuro estúdio, da biblioteca, da porta da frente, da porta dos fundos, da cozinha, do porão, das garagens e dos quatro quartos de cima, e esta do portão. Muito obrigado, qualquer coisa que eu puder ajudar não deixe de me ligar. Até logo.", disse Carlos simpaticamente apertando a mão de Joaquim. “Obrigado! Até.", Joaquim despediu-se com um sorriso de satisfação. CAPÍTULO II CAMINHOU PARA CASA. Cuiabano não suporta o frio, esvaziaram as ruas, o céu cinza, comércio fechado ou fechando, os bares outrora lotados agora solitários, cade a sede de uma das cidades que mais bebia cerveja? Talvez junto do sol também fora embora os costumes do cuiabano, estaria essa gente com identidade somente ligada ao fato do calor excessivo? E os obesos? Lanchonetes vazias. Parecia uma cidade falida, abandonada, nem mais os trevestis corriam gritando pela rua... Nada de carros, muito menos de ônibus. Caso esperasse ali a noite toda, a terceira cidade mais violenta do país o decepcionaria. Em casa o café quente escorreu-lhe garganta abaixo, o canto dos grilos não mais o faziam companhia, escrever seria duro. Assentou-se à máquina, tudo que precisa ter, escrevia ele, eram os personagens, o resto do texto a eles cabia. Parou. Sentiu-se impossibilitado de mexer os dedos. Pensava em Alice. Ele não poderia casarse! Essas mulheres não entendem, não veem que casamento implicaria em responsabilidades demais? Tinha já as da escola, comprara agora uma casa. E se viessem os filhos? Planejava escrever ainda alguns livros, umas poesias, uns romances, fazia a tradução de “O Processo”, pensava em ir à São Paulo fazer doutorado. Não poderia ser tão simplista, queria algo mais da vida. Afinal qual é essa de casamento? Por que tanta importância dada a ele? Não poderiam apenas namorar por tempo indeterminado? Até o fim da vida se fosse possível? Não estaria ela a estragar o namoro com o papo forçado de casamento e filhos? Claro que estava... que mania feia é essa de viver no século retrasado! Apesar de amá-la era óbvio que seus objetivos não batiam, nem mesmo a educação, costumes de família. Joaquim tinha horror de terminar como seu pai terminara, como seu avô terminara, como seu bisavô terminara. Desde que o primeiro antepassado dele chegara ao Brasil, os Casalescchi reproduziram-se, reproduziram-se, estavam na década de X do século XXI e nenhum deles teve futuro. Agora dependia dele. Veja o tamanho da preocupação que tinha na cabeça e Alice lá... apenas não se importava, não pensava. E adiantava explicar? Desde quando adianta explicar alguma coisa as mulheres? Preocupavam-se mesmo era com o cabelo. Cade as ambições? Escolheu a moça errada, só podia. Telefone toca, “Alô”, disse Joaquim entediado e deitando-se na cadeira. “Oi Jo.” “Oi Alice”, respondeu indiferente 12
  • 13. “Estava dormindo tão cedo?” “Não. Cheguei há pouco tempo, estava escrevendo." “Tem como você lavar minha calça jeans que ficou aí?” “Sim, as lavo." “E me trazer amanhã? “Amanhã? Acho que não posso. Tenho aula no primeiro horário. Talvez no almoço, que tal?" “Não, de tarde.” “De tarde também estou ocupado." “Você não quer me ver?” “Não é que eu não queira, é que preciso entregar o texto para a revista e esta noite não consegui escrever nada." “Ah, então eu estou atrapalhando!” “Não está atrapalhando, não estava escrevendo nada." “Não disse que estava escrevendo?” “Claro, estava à maquina, pero não consegui escrever." “Então terá de escrever amanhã.” “É isso que estou dizendo, não ouviu?" “Não sou surda, idiota.” “Tá, desculpa. Estou dizendo que amanhã não posso porque preciso escrever. Façamos assim, fará algo no sábado? Sábado posso buscá-la aí para irmos ver a casa." “Já fez tudo?” “Sim está tudo pronto, estou com os documentos." “Tem uma menina aqui que quer ajuda com o trabalho da escola, tem tempo?” “Aninha quer ajuda?” “É.” “Claro, pode chamar." “Espera.” “Espero.” “Oi." “Oi princesa, como está?" “Bem e você?” “Estou bem, o que manda?” “Trabalho sobre o capitalismo.” “Farei tudo que um professor de literatura puder para ajudar...” “As condições dos trabalhadores na época do Fordismo...“ “Sei..." “Que os operários destruiram as máquinas porque elas os havia roubado o emprego.” “Não, não é bem assim.“ “Foi a professora quem disse.” “Essa sua professora não bate bem das ideias.” “Uhm...” 13
  • 14. “A questão de destruir as máquinas não é porque elas eram mágicas e tinham vida própria, pero prejudicar financeiramente o dono da fabrica que controla o meio de produção, o capitalista, para que dessa forma ele seja obrigado a repensar o trabalho burro e mecânico do operário. Nesta época as máquinas vinham com intenção de dividir a produção e controlar o tempo, sacrificando o trabalhador, contudo dando mais lucros.” “E isso melhorou?” “De forma alguma. O trabalho é ruim até hoje, o sitema que Ford criou acabou com a vida das pessoas, muitas ficam com LER por conta da quantidade de movimentos repetitivos que descartam totalmente qualquer inteligência, como se o empregado fosse um robô. Você pode dizer que hoje as pessoas vivem mais tempo, não temos a peste negra, porém é óbvio que não, isso iria prejudicar os ricos, repare que os gados recebem vacina, etc... a morte deles seria perda de dinheiro e nos causaria doenças. Além do operário não ser dono de suas ferramentas, de sua produção, de seu trabalho, ele ainda não sabe como fazê-lo. Pois nada mais é artesanal, ele é limitado a apenas uma pequena parte da montagem de um veículo por exemplo.” “Isso aprisionou o trabalhador?” “Sim, não há como fugir.” “Pero o trabalho é recompensador, não?” “Não... veja... essa ideia do trabalho ser algo bom é uma ideologia que foi surgir da burguesia para os trabalhadores. Que uma pessoa só era cidadã, só podia se orgulhar com trabalho, fazendo os operários trabalharem mais e reclamar menos. Antes dela o ócio era valorizado, pero claro, sempre foi da elite, não dos escravos. Não é de se admirar que o brasileiro não lê, ele não tem tempo... imagine uma situação, como pode um ser humano não se dedicar a arte ou ao esporte, melhor ainda, a ambos? é porque para ter um passa-tempo, algo que se faz por prazer, que se paga para fazer, é preciso ter tempo disponível, coisa que a maioria dos trabalhadores não tem. Trabalhase para comprar comida, come-se para viver e perde a vida toda em favor do outro, a vida toda jogada no lixo.” “Certo, obrigada, tio.” “De nada, entrega para sua mãe.” “Oi.” “Oi, Alice, por que ela perguntou para mim, por que você não a respondeu?” “Ué, ainda não percebeu que era uma desculpa pra falar com você?” “Uhm... então ficamos para sábado?” “Sim.” “Passarei aí às oito, tudo bem?” “Sim. Beijo.” “Outro.” CAPÍTULO III 14
  • 15. “LEMBRAM, NARCISO VIVERIA caso não olhasse no espelho. Por que ele não podia olhar... Camila?” “Porque o oráculo Tiré... sias havia dito para mãe dele que não podia.” “Luís, qual era o nome da mãe de Narciso?" “Liríope, professor.” “Ela engravidou do Deus...” “Cefiso!", disse Marcos, ganhando a disputa de quem respondia mais rápido. “Amanda, por que Narciso era uma criança especial, o que ele tinha de diferente?” “Ele era muito bonito.” “Maria! Acorda Maria!", ela levantou o rosto da cadeira e fitou o professor “Maria, como Narciso morreu?” “Ele estava com sede, foi beber água de um rio, viu seu reflexo, se apaixonou pela própria beleza e morreu afogado.” “Vejam. Percebem que Narciso era tão obsecado pela sua imagem, amava tanto a si mesmo, que era incapaz de amar o outro. Então o que seria uma pessoa narcisista?” “Aquele que ama a si mesmo?", disse Lucas. “Só isso? Narcisista é a pessoa que ama tanto a si mesma que reconhece apenas os seus próprios desejos, ignorando o outro. Tudo no mundo gira em torno dele, e fará o que puder para conseguir o que quer sem importar se prejudica o outro. Como nós podemos pegar o mito de Narciso e adequar a nossa época?” a sala em silêncio, “E se eu disser que nós somos todos narcisistas?", olhares espantados “sim, pensem dessa forma... desde que nascemos vemos na tevê, comerciais oferecendonos produtos... dizendo que nós somos importantes, que nós merecemos tais produtos, que precisamos, que podemos, tudo para o mercado imperfeito sobreviver e lucrar mais. As empresas nos fazem amar a nossa própria imagem. Vejam que nenhuma propaganda nos ofertará algo para o bem de toda a sociedade, pero sempre apenas a nós! E nós realmente podemos! Trabalhamos, consumimos, o cartão de crédito está aí, podemos comprar tudo, podemos ter tudo que quisermos, sempre tivemos... celulares, tevês, computadores, roupas, sapatos, brinquedos... carro, moto, casa... cirurgias plásticas! caso não esteja satisfeito com o formato da boca, do nariz... com dinheiro poder-se-ia mudar a cor dos olhos, do cabelo, da pele... fazer implante de silicone nos seios, glúteos, lábios... homens e mulheres, amando a própria imagem, salões de beleza cheios, vários comerciais sobre lâminas de barbear! vamos nos depilar! sejamos todos obrigatoriamente metrossexuais... desprezemos o conteúdo, agora se tudo é produto, tudo podemos comprar, todas as coisas beneficiam apenas a nós, nunca a sociedade, vivemos a morte do social, aonde é que entraria o outro? o próximo? Eu sei a resposta! São produtos também!, óbvio que o são, o que mais seriam? por que adicionamos tanta gente nas redes sociais? qual a importância delas? somos realmente amigos de tanta gente? Não! queremos apenas que elas idolatrem a nossa imagem! caso não fizerem, qual é a solução? Simples, poderemos a excluir com um clique. O que ta estragado vai para o lixo. Agora imaginem se isso não acontece apenas na internet, acontece nos relacionamentos, por que tanta violência? os ladrões 15
  • 16. de hoje não roubam por comida, pero para também ter poder aquisitivo, e matam sem remorso. A violência não é algo isolado, pero social. Por que tanta gente se casa e tanta gente separa-se?, por que tantas namoradas e tantos namorados, por que o ficar? quem foi que inventou o sexo casual? Será que nós não estamos mais próximos às notícias, às tecnologias, aos produtos, e mais distantes das pessoas? Reparem o que vocês mesmos fazem em casa... quanto tempo realmente gastam conversando com os pais, com os irmãos... ou estão separados, divididos... um no celular, outro na televisão e o outro no computador? A família, os amigos, verdadeiramente nos satisfaz? estamos verdadeiramente satisfeitos? ou o consumo gera um círculo vicioso que nunca se desfaz, e precisamos sempre comprar para manter um prazer efêmero e burro?”, o sino tocou, “Pensem a respeito disso.” Com o fim da aula Joaquim foi arrumar suas coisas. E foram ter com ele duas gêmeas, Maria e Carla Davidoff, de XII anos. “Oi, professor, gostamos da aula", disse Carla “Desculpa ter dormido, professor”, desculpou-se Maria, com o rosto vermelho e inchado. “Nada, obrigado, então gostaram?", sorriu Joaquim. “Sim", responderam, “o que teremos na próxima?” “A próxima é só na semana que vem não é?” “Sim”, responderam. “Uhm, acho que falarei sobre Castro Alves e o trabalho escravo que ocorre nas fazendas de cana-de-açúcar, que tal?” “Parece legal”, respondeu Carla. “Leram o Navio Negreiro?” “Não”, disse Maria com os grandes olhos azuis, "Ninguém nos comentou sobre ele.” “Ah, então leiam para a próxima aula e avisem o resto da turma.” “Sim”, disseram contentes, olhos brilhavam de alegria, e o sorriso com dentes novos, “Professor, o senhor verá o nosso jogo de handball nas olimpíadas?” “Claro, é na quinta à tarde, não é?” “Sim.” “Verei sim, vocês vão jogar?” “Vamos, Maria e eu somos as melhores do time!", Balançavam-se como adolescentes contentes. “Vou gostar de assistir... Maria!”, chamou atenção dela. “Oi!” “Você tem jogo, deve dormir cedo”, riu. “Sim, sempre durmo cedo.” “Mentira dela professor, ela tem dormido tarde”, Carla dedurou fazendo bico. “Bom, acho melhor vocês irem, se comportem e preparem-se para o jogo!” “Vamos!", afirmaram. E saíram apressadas, naquela pressa que adolescentes sempre tem, com eufórica energia e saúde. As duas tinham cabelo louro escorrido, que chegava até o 16
  • 17. ombro; mediam por volta dos um metro e meio, haviam recém saído da infância e os hormônios empurravam agora os seios miúdos que iam aumentando de pouco em pouco até ganharem forma por volta dos XV anos. Pela primeira vez Joaquim admitiu a beleza das irmãs, pero o pensamento seguiu sem maiores transformações, apesar de ter se interessado pelo jogo da quinta. CAPÍTULO IV AO CENTRO-OESTE DO BRASIL, no estado de Mato Grosso, longe do litoral e das capitais, nasce em meio a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado a cidade de Cuiabá em MDCC. Situa-se numa depressão de difícil acesso aos ventos frios que vem do sul, é uma dos municípios mais quentes do país e com maior índice de raios solares. Fora em sua origem povoada pelos bandeirantes paulistas, logo após os nordestinos, a buscar a grande quantidade de ouro que havia. Dividiram o território com as diversas tribos indígenas da zona; e mais tarde na década de LXX recebeu migrantes cariocas e sulistas. Pela melhor condição financeira destas pessoas, o cuiabano, pessoa natural desta cidade perdeu gradualmente o sotaque carregado, ficando presente mais na periferia e nos ribeirinhos, aqueles que ainda vivem da pesca. Na época também ganhou o apelido de “preguiçoso”, pois era um costume indígena pescar de noite e descansar durante o dia. Diz uma lenda muito famosa a origem do nome, Cuyabá, grafia arcaica, palavra vinda do tupiguarani, signficando “artesão de copos”. A estória fala que um índio estava a contar ao outro como perdeu a cuia (S.f. 1. copo, glass, tigela), pescava quando um peixe o assustou e derrubou a cuia no rio, e pelo som ao bater na água, dá-se a onomatopeia “bá”. Pertence a ela o centro geodésico da América do Sul, calculado pelo marechal Cândido Rondon. Sobrenome este vindo da palavra francesa “rond”, significando pessoa gorda. Virou último nome na idade média para identificar as famílias. Irmãos espanhóis o trouxeram ao Estado, tornando assim este nome tão famoso na região e invulgar noutros cantos do país. Cândido foi homenageado com a construção da cidade Rondonópolis, Estado de Rondônia e o aeroporto Internacional Marechal Rondon, entre outras. O gigantesco Estado possui o maior Pantanal do Brasil, e vive principalmente da produção e exportação de grãos e pecuária. Carregando um grande impacto ambiental com queimadas, desmatamentos e poluição das águas. “Cidade verde” é um apelido pela grande quantidade de árvores no município, hoje sem razão. A capital com 500 mil pessoas, possui áreas de lazer extremamente limitadas; os casarões antigos deixados à mercê do tempo, abandonados; ruas mal feitas, com lixo; esburacadas; esgoto a céu aberto; mendingos; trânsito engarrafado, sem muitas vias; ar poluído pelos muitos carros e fumaça dos incêndios que cobre a cidade frequentemente. Horrivelmente quente pela falta de árvores e construções, recebe a carinhosa alcunha de “inferno”. Foi escolhida como uma das XII cidades sedes da Copa do mundo de 2014. Por este motivo será feito uma espécie de metrô, chamado “Veículo leve sobre trilhos”, projeto bilhonário substituindo o antigo que valia 17
  • 18. menos da metade do preço. Construção em andamento, tem destruído os canteiros; impedido o trânsito de alguns lugares; retirando a vegetação. O ano previsto para término é 2016. CAPÍTULO V “CUIABANO DE CHAPA E CRUZ” expressão para designar o cuiabano legítimo, o que nasceu e morreu cá; tem por significado descrever um idoso que usa dentaduras (chapa) e é católico fervoroso; é preciso salientar o número de igrejas, sobretudo as protestantes que apoderam-se de qualquer esquina. O cuiabano tem péssima qualidade de vida; é sonho de todos ter um automóvel, numa maneira de disputar por status, consequência de um baixo nível intelectual formado por escolas ruins; recentes pesquisas indicam que está a crescer o número de analfabetos. Várzea Grande, a cidade vizinha de 200 mil habitantes é um alongamento de Cuiabá. Em resumo o cuiabano tem o seguinte cotidiano: divide a semana entre o trabalho; os shoppings, em que passeam pois não tem dinheiro para as compras; igreja, qualquer uma serve, precisam somente socializar; restaurantes de fast food, pois necessitam manter seu título de o cidadão mais obeso do país; academia, porque frequentam a lanchonete; puteiros, presentes em toda parte; bocas de fumo e os bares, este oferece os dois últimos itens. CAPÍTULO VI A PEQUENA ESCOLA estava em festa. Pais, alunos, professores, barracas de comida, jovens andando de lá pra cá, o pátio iluminado pela lua cheia que cobria todo o lugar. O céu já escuro das seis horas, frio de doer, com vento cantando. Todo mundo agasalhado, gorro, sapato, calça. Pipoqueiro fritava o bacon, alguém enrolando algodão doce, balões na mão dos bebês que passavam nos carrinhos. O apito soou e o jogo começou. Sorrisos alegres, moças correndo rápido de olhos na bola, olhando as inimigas, balançando o rabo de cavalo, mordendo o beiço, gritando nervosas umas pras outras com vozes quase infantis. Agitação, suor escorrendo, adrenalina, apito, falta, gol e outro gol, mais um gol. Maria e Carla brigavam uma com a outra, mais bonitas e mais saudáveis que nunca. Camisa pequena, short de ginástica delineando a pequena bunda que enrigecia a cada movimento, e eram tantos. Joaquim mirava, acompanhava o jogo, torcia para ambas as turmas, era professor, não podia torcer para alguma específica, para dizer a verdade estava mais era prestando atenção nas gêmeas que exalavam, transpareciam a beleza virginal, aquela que mistura-se a inocência, alegria e sensualidade. O último apito soou. O jogo havia terminado, a classe das meninas venceu. Vieram correndo em busca dos pais para comemorar a felicidade, estes as receberam com abraços e beijinhos... Altos, brancos, olhos claros, haveriam de ser do sul! Joaquim até poderia imaginar um “tu fez bem” e algum “to tricontente”. 18
  • 19. A arquibancada levantava e a gente ia embora para casa, Joaquim foi também, tinha de chegar cedo, a máquina de escrever o esperava. Uma bela professora o encontrou e trataramm de soltar uns papos. “Oi, Joaquim, como ta?” disse a professora de biologia Cláudia, olhos castanhos, cintura fina, quadris largos, XXX anos, pero ainda formosa e com bom jeito de andar “To bem e você?”, disse Joaquim com um sorriso articial. “Bem. A turma B ganhou, você dá aula pra elas?", ela já sabia a resposta, porém procurava uma maneira de começar um assunto, não tinha namorado, estava afim de arranjar algo. “Dou sim, de literatura”, disse Joaquim com o mesmo sorriso artificial, pero contente em vê-la, qualquer um a acharia bonita e ele foi falando “Que bom que ganharam, as meninas jogam muito bem, se esforçaram.” “Sim, elas são mesmo muito boas”, disse Cláudia vindo para mais perto, “Teremos reunião na terça para difinir as provas do bimestre.” “Sei, defini a minha, vou elaborar algumas discursivas e fazer valer a opinião dos alunos sobre o tema proposto, não terá uma resposta certa. Acho mais importante o que eles pensam sobre o assunto”, disse Joaquim com confiança. “Acha que a diretora aceitará?", perguntou Cláudia. “Acho que sim”, respondeu Joaquim, “Não vejo porque não, não será uma prova típica, pero imagino ser melhor.” “Sim”, disse Cláudia, “Deve ser melhor, eu também o faria, acontece que na na biologia eles precisam decorar alguns nomes, entender alguns fenômenos, coisas do gênero, preciso seguir o que está na apostila. Você não a usa, né?” “Não, não uso”, respondeu Joaquim gesticulando para o argumento, “Não vejo necessidade. Ao invés de seguir uma ordem cronológica e didática, já estabelecida, prefiro procurar um tema atual abordado por algum autor e mostrar aos alunos qual a contribuição dele para a nossa época. Não penso que a questão cronológica seja uma boa ordem... eles poderão estudar isso por si só, quero algo que não esteja no livro, quero ser um professor do qual se lembrem, tenham algum tipo de orgulho por mim, que eu ensine algo de valioso para eles durante a juventude e o que o leve até a maturidade. Tem a literatura muito para nos ensinar a respeito da sociedade.” “Sim, você está totalmente correto, quem dera eu ter tido um professor tão bom quando tinha a idade deles”, ela descansou o ombro, “Eu não seria tão analfabeta em literatura como sou hoje. Procuro ler, porém acabo lendo pouco ao lecionar nos três turnos.” “É difícil, não é?", concordou Joaquim, “Bom, vou indo, até mais.” “Até”, disse Cláudia com um pouco de tristeza ao abandonar Joaquim na porta da escola. CAPÍTULO VII AO SAIR DA ESCOLA Joaquim pegou ônibus. Achou lugar para sentar-se, abriu uma das janelas pois acabava de entrar na Universidade Federal, passou pela 19
  • 20. biblioteca, viu os muitos graduantes, viu as negras árvores e em uma delas um macaco a dormir, calma, UFMT possui um zoológico, e provavelmente o macaquinho de lá fugira. Os esportistas jogavam bola, corriam, tiravam fotos... ao sair da faculdade avistou o córrego do Barbado, sujo, sem proteção onde qualquer um podia cair, e já caíram, Operários elevando os blocos de concreto que fariam a pista para pegar outra mão; percorreu toda a Avenida Fernando Corrêa, que resume-se em lojas de automóveis... o busão fez a curva chegando enfim a Praínha. Puxou o cordão e desceu. Agora à pé subiu a Getúlio Vargas, e foi-se assentar num banco da praça da República, ao lado do prédio velho da prefeitura. Observou ali toda sobrevivência da cidade: os camelôs, as lojas de roupa, de cosméticos, de eletrônicos e móveis. As pombas ainda espalhadas pelo chão comiam as migalhas dos pipoqueiros; os taxistas estavam lá vigiando os clientes. Atrás dele poderia descer por uma rua em que encontraria artigos religiosos e prédios antigos, do princípio da cidade, e por falar deles à sua frente os Correios, na lateral um museu e o Palácio da Instrução, pode lá encontrar fotos de quando Cuiabá era Cuyabá, e o balançar da bandeira do Brasil num grande mastro. A lua estava cheia, pero sombreava-o uma alta figueira, com raízes enormes que ali existia desde o tempo em que era criança. A colossal catedral Matriz espunha portas abertas, o que havia de ter em tamanha casa de concreto? E estes relógios gigantes que nunca mudam o horário? Sentiu-se minúsculo, um inseto. Nesse sentido veria reaberto o Cineteatro, um dos primeiros cinemas dessa capital. Caso bom tempo fizesse, encontrar-se-ia carrinhos-de-mão cheios de Pequi, uma fruta típica do cerrado, que o cuiabano mistura com arroz, aviso: cuidado com os espinhos. Pensava em Alice. Caso não desistisse da ideia de casamento, o namoro iria acabar por terminar. Talvez não fosse essa uma má ideia. Ele precisava de um tempo, o trabalho o enchia, podia agora mesmo voltar para casa, devia escrever, pero se voltasse, conseguiria? Então caducou por lá mais uns tempos... o pensamento vagava entre as pernas que saíam do trabalho, “quantas pernas meu Deus!”, já dizia Drummond. Faltava um artigo para o dia seguinte, sobre o que seria? Faltava uma poesia, já que está aqui poderia ser sobre o centro, porém que cidade monótona que não inspira ninguém! O vento assoprava-lhe o cabelo, o mesmo coçava, será que lavou ontem? Imagina um texto: o café é para o escritor como a caneta é para o papel, elementar. Como pode um escritor viver sem escrever, se o mundo lhe cabe num papel? Sem querer veio a intromissão de um devaneio, desculpa, eu não quero pensar nisso, as gêmeas tão bonitas e tão vivas. O que estavam a fazer neste momento? A jantar e ir para a cama? A escovar os dentes? Os dentes tão bonitos... o cabelo a pentear, os lábios sempre a sorrir. Queria voltar a alguns anos atrás em que tudo podia, que moças belas! Contudo deixa pra lá... o pensamento de um escritor deve ser um só: escrever. Meditar é preciso, pero quanto mais pesada, maior o intervalo de uma obra para outra, não é Fernando Pessoa? A vida é mesmo um naufrágio em que corremos para não nos afogarmos, no fim a morte é somente um conserto de um erro. Queremos consertar, porém o mundo só quem arruma é o fim. 20
  • 21. Levantou-se, caminhou entre os hippies e seguiu em frente, até a praça da Bispo. Encontrou lá uns mudos a fumar, fez uma saudação com o dedo mínimo levantado: oi. Continuou pela Avenida, agora imaginava, o cigarro cai bem para os que nada estão a fazer com as mãos. Qual afinal é essa necessidade de fazer algo com as mãos? Será que deveria voltar a fumar? Antes pagava dois reais num maço que hoje pagaria sete. Deixou pra lá. Encontrava-se ao pé da Maria Taquara, uma estátua. Travestis desfilando, bares, gente e mais gente... apressou o passo antes de levar um tiro... acontece muito por lá... Avistou a belíssima igreja do Bom Despacho, em cima de um morro. Continuou sem cessar, andou, andou e chegou no bairro do Porto, que outrora fora um dos mais perigosos. O Porto é também um porto. O rio Cuiabá que sustenta a cidade, no passado tivera muitas embarcações, principal meio de comunicação e transporte de produtos, atualmente fede. Aproveitou e à margem dele foi para casa. CAPÍTULO VIII GIROU A CHAVE, passou pelo corredor e foi a cozinha. Preparou um grande copo de café. Os pés doiam, muito caminhara, pero é sabido que faltava o artigo do jornal. Pôs-se frente a frente com o notebook, subiu os pés para cima da escrivaninha... esperava que o sangue circulasse melhor, porém daqui a pouco iriam ficar dormentes. Relaxou as costas duras na cadeira de rodinhas e ficou balançando, balançando, bebendo, tossindo, pensando, com sono, o que iria escrever? Apesar de não ter o que escrever ser algo corriqueiro, dizia Rubem Fonseca, que o escritor verdadeiro tem uma maneira de dizer nada, Joaquim estava irritado, parecia que há anos não escrevia. Pensou em Alice, pensou nas gêmeas. Talvez fossem culpa das mulheres, aquelas malditas. Não era. Era culpa dele mesmo. Esfregou os olhos, agora ardiam, as letras embaçavam, a luz estava de repente mais forte, mais iluminada, cegando-o. Começou a bater os dedos na mesa, apoiou-se no cotovelo, queria ter uma ideia, pero escutava com atenção o barulho de cada dedo na madeira... indicador forte, médio o mais forte, e a força se amenizava até o mínimo. E assim continuava. Gritou, “Filho da puta!”, bateu o monitor ao teclado, fechando o desgramado. Foda-se, ele ia dormir. Levantou e jogou-se em cima da cama. As pernas doiam, e como já profetizado, os pés estavam dormentes. Naquela noite ele sonhou, coisa rara. Era dia. O cemitério um grande lugar de não se ver horizontes. Túmulos bonitos, com epitáfios, árvores, o sol estava intenso, porém a luz não o incomodava. O ar era bom. Sentia o pulmão vazio, leve. Corpo mais forte, mais jovem, a vontade de sorrir incontrolável. Via as flores coloridíssimas, o canto dos pássaros, uma tranquilidade indescritível. Apesar da paz do lugar ele necessitava fazer uma coisa... precisava voltar para casa... cadê? qual direção deveria tomar? Mirou a sua volta, por mais que expremia os olhos não conseguia enxergar caminhos de entrada ou de saída. Precisava ir para casa. Tinha uma pressa imensa de ir para casa, cade a casa? Apressou o passo, corre, corre, corre corre, precisava ir para casa, por mais que corria só túmulos, só esculturas de anjos e a música dos passarinhos. Parou. Respirou 21
  • 22. fundo por três vezes. Entendeu e reconheceu que nunca acharia o caminho de volta, estranhamente estava preso naquele lugar. Alguém o chamou, “Para aonde está indo, Joaquim?”, um senhor de aparência séria, cabelo grisalho, vestido um paletó antigo, barba, um pequeno óculos sem as perninhas de enganchar na orelha. “Quero achar o caminho, Machado de Assis”, disse Joaquim ao homem, chegando mais próximo dele. “É por aqui, venha”, disse Machado, pegando Joaquim pelo ombro e sorrindo para ele de maneira tranquila e pacífica. Joaquim o acompanhou emocionado com aquele gesto. As lágrimas escorriam pelo rosto e ele limpava com a manga da camisa. “Por que chora, Joaquim?”, disse Machado com voz serena e fitando-o. “Porque eu não consigo escrever!”, exclamou Joaquim num soluço. “Quando chegar ao fim, comece! Qual a sua motivação?” “Quero ser inédito.” “Que mais?” “Quero revelar o que me incomoda, o que me chateia”, respondeu Joaquim com ânimo e movendo o punho. ”Por quê?” “Desejo que as pessoas melhorem. A leitura é o que nos separa dos animais. É a inteligência em essência. A palavra é a comunicação, o segredo de avançar. Reside nas palavras qualquer evolução, não tudo que há de belo, pero todas as coisas em suas totalidades sem faltar. Tanto a graça quanto a desgraça; a tristeza, a euforia, o júbilo e o martírio e a consolação e a promessa e a dívida e a vida em si. Mais que a vida! a palavra é a criação da vida e da morte. Se algo existe, poder-se-ia resumí-lo no texto. Poder-se-ia lendo, pois a leitura é uma criação individual, não existe o autor. Pero os autores! Porque toda inteligência tem a necessidade da criação e é pela interpretação que começa-se!”, disse Joaquim com muito entusiasmo, como se tirasse um peso das costas, orgulhoso pelas suas ideias. “Bom argumento”, disse Machado num sorriso e continou, “porém por que os escritores escrevem realmente?", perguntou com a malícia no olhar querendo saber se Joaquim saberia a resposta. “Porque querem mudar a sociedade!", exclamou Joaquim com toda certeza. “Não, Joaquim”, respondeu Machado balançando a cabeça de forma negativa e já sabendo que Joaquim iria errar. “Não!?” “Não! Joaquim, você sabe em que lugar está?” “Acho que estou morto. Estou no céu?” “Não está morto. Pero está no céu” “O senhor me trouxe aqui?” “Obviamente” “Por quê?, para me mostrar que escrever é tornar-se imortal?” 22
  • 23. “Não, porque quero te ajudar a escrever. Te mostrarei o real motivo dos escritores escreverem... Sabe Joaquim, os poetas escrevem porque ao morrerem encontrarão no céu um harém com as mulheres mais bonitas que se pode imaginar.” Pararam e Machado o levou até uma escadaria para debaixo da terra. “Venha, Joaquim”, disse Machado puxando-lhe pelo braço. Encontraram um salão cheio, mulheres nuas perfeitamente modeladas, com o seio grande e duro a balançar de um lado para o outro enquanto caminhavam, sentavam-se nos colos dos rapazes, lá serviam-lhes bebida, fumo e chupavam-lhes o pau. As volumosas bundas arredondadas e brancas, outras negras. Havia ali belezas infindáveis para todos os gostos. Numa mesa estava um rapaz moço, com um ralo bigode e cabelo penteado para trás. Tão jovem, pelo menos dez anos mais novo que Joaquim. Fumava enquanto era chupado por uma lívida dama, balançou a taça para cima e gritou, “Taverneira! Não vê que meu copo está vazio?”, ria, fazia piadas... olhou para Joaquim, o reconheceu e chamou, “Joaquim! Vem, aqui tem uma cadeira pra você!” Machado e Joaquim foram se assentar. Uma ruiva garbosa, cheia de sardas e extremamente sensual veio lhes encher o copo. “Então, Joaquim! Primeira vez que vem aqui? Haha! Sabia que ia ser assim? Nem imaginava, né?”, disse Álvares de Azevedo. “Com toda certeza não!” “Sabe o que é isso aqui?” “Um cabaré?” “Não, Joaquim... cá estão todas as mulheres que nos inspiraram enquanto estávamos vivos, e veja... todas estão gratas”, disse Álvares com um grande sorriso. “Incrível!” “Pois é! Iai, gostou da ruiva?” “Sim, muito bonita.” A moça sentou no colo dele, beijou-lhe a boca, lambeu-lhe o rosto, ajoelhou-se aos seus pés, abriu o zíper e começou a sugá-lo. Quando um homem deu um tapinha no ombro dele e disse, “Fica calmo aí Joaquim! a orgia nem começou ainda! Cá os gozos são infinitos!", falou Bocage, empolgado. Joaquim foi responder, pero sentiu-se indisposto, meio tonto, seria o vinho? Fechou os olhos algumas vezes, sentia náuseas, e se aproximou dele duas meninas loiras, a sorrir-lhe... eram as gêmeas Davidoff, suas alunas. Chegou perto delas e quando ia as tocar Machado gritou, “Não Joaquim!” Joaquim acordou com o barulho do celular. Havia amanhecido. Atendeu, era Alice. “Bom dia, amor.” “Bom dia”, respondeu Joaquim espreguiçando. “Jo, vamos ao cinema hoje?” 23
  • 24. “Desculpa, amor, não posso. Tenho que ir a escola e sei que vai brigar comigo, pero não escrevi nada a semana toda”, explicou Joaquim coçando os olhos e angustiado. “Uhm! Passará um filme francês no Cineteatro hoje. Vou com Aninha.” “Vá, não perca. Eu não posso ir. Acabo de lembrar que ainda tenho que pagar as contas de água e luz.” “Onde?” “Merda! Só posso pagar lá no centro eu acho.” “Ah. Sua aula começa às nove?” “Sim.” “Então acho melhor ir logo. Já são sete.” “É mesmo! dormi demais!”, exclamou Joaquim assustado ao olhar o relógio. “Teve algum sonho bom?” “Não, eu nunca sonho, ou nunca lembro, não sei.” “Uhm! Então até.” “Certo, beijos, amor.” “Beijo!” CAPÍTULO IX SAIU DA CAMA, escovou os dentes, tomou banho, fez a barba, amarrou o cadarço, escolheu uma camisa listrada, pegou a jaqueta, também uma caneta para por no bolso, pensou, “Escritor que não carrega uma caneta não vale nada.” A manhã estava cheirosa, vento frio, as cores mais azuis, as árvores peladas, a rua úmida. Um monte de gente no ponto de ônibus, será que vai passar logo?, vai demorar. Demorou até que juntasse muita, muita gente! Pare aqui! pare aqui! aqui!, parou lá. A massa de porcos juntos e fedidos, uns apertando os outros, uma onda em maré alta que era puxada pela força e pressa de todos para entrar na porta minúscula do ônibus. A quem lembrar-se da primeira cena de “Tempos modernos” de Charlie Chaplin, a use aqui. Ou lembrem-se de gados correndo por corredores de um matadouro por causa do choque que lhe dão no traseiro, é bem parecido. De pé a balançar sem parar, idosos entram, também ficam de pé, cadeirantes entram, também ficam de pé, e drogados gritando, Bom dia!, desculpe incomodar o silêncio da sua viagem, ajude a… Foda-se, idiota! O mesmo discurso chato e repetitivo de sempre. A rádio do ônibus tocava música ruim, eram obrigados a ouvir... alguma religiosa cantarolava algo de crente, ai meus ouvidos! Chegou, desceu do ônibus: finalmente podia respirar, cough! cough! cough! cough!, a fumaça cobria a cidade. Quem meteu fogo, ondê? Começou a andar apesar do ar horrível. Depois dessas coisas sentia-se incrivelmente chateado. Mesmo tendo carro prefere o transporte coletivo, é ruim, pero polui menos, gasta menos, usando o automóvel só para passeio. Começou a pensar mais, de uma ideia foi a outra, logo outra e outra, evoluindo, devaneando, namorada, trabalho, texto, computador, escola, professora, casa, Chapada, trânsito, olimpíada, esporte, ... as gêmeas... que anjos 24
  • 25. bonitos, pensava... o cabelo amarelo e macio, as íris azuladas, a boca miúda, delicada, a pele suave, suave, como veludo, igual a uma fruta... e o cheiro, que cheiro bom, delicado, doce, flores, mel, abelhas, pássaros, borboletas, ventos, nuvens, céus, o frio... BUUUUUUUUUUUUUUUUUUUFFFFFFF!!! Um barulho estrondoso ouviu! O coração assustado pulava, os olhos esbugalharam, deu um pulo e procurou saber o que aconteceu. De repente um monte de gente correu, e aglomeraram-se logo mais a frente... ele também correu para ver o que tinha ocorrido, foi cortando todo aquele povo curioso até chegar na frente e ver: Um caminhão desgovernado acertara uma velha que cruzava a avenida. E foi frear depois de um tempo. Chamaram o socorro, porém evidentemente tarde demais. Em XV minutos a ambulância chegou, bombeiros, polícia, mais gente, a tevê, e muito mais gente. Foi costurando a multidão para olhar de perto: A senhora encontrava-se numa poça de sangue no meio da rua, o corpo todo dobrado, roupa rasgada, seminua, imóvel, morta, suja de graxa e marcas de pneu nas pernas, braços, pescoço... a cabeça... sem cabeça! Cade a cabeça? não encontrava, pero estava lá, em partes... esparramada em pequenos fragmentos num raio de metros e metros. Uma mulher com uma caixa térmica e luvas foi procurando os pedaços de cérebro e catando, pedaço por pedaço, igual carne moída... de tanto ir catando no meio daquela gente, da sujeira e embaixo do sol a mesma passou mal... correu para se livrar dos olhares, não conseguiu e foi vomitando, espalhando o vômito. CAPÍTULO X Barracas de frutas, carne, peixe, verdura, grãos, pastelaria, doces, brinquedos, etcétera. Moça bonita, mediana, olhos verdes e brilhantes, cabelo preto abaixo do ombro, muito clara, com boa voz, bom jeito, bonita beleza, andar calmo, movimentos elegantes, canhota, sotaque estranho, lábio hidratado, cheirosa; feirantes gritando, “Olha o peixe!”, “Olha a fruta!”, “Olha a melancia!”, “Olha a linguiça!”, e vários outros anúncios. Caso esteja caro, pexinxe, eles querem vender, é bom comprar sempre por menos, “Mãe! eu quero algodão doce”, exigiu Aninha. “Calma, vou comprar, pero primeiro vamos comprar as frutas, acalmava Alice. Dirigiram-se a barraca, “Pega sacola, Quanto está a maçã?, Filha, escolha as pêras, Quero metade dessa melância, por favor, Aninha, pegou as pêras?, Então pega o abacaixi também, Esses morangos estão bons?, De que lugar eles vem?, Limão é bom com peixe, Quanto custa a sacola do pequi?, Tudo isso? Faz desconto, Levo então duas, Hoje vai ter pequi com arroz, Quando deu tudo?, Aqui, obrigada.” Tivera Aninha com XVII anos, fruto do primeiro casamento que durou apenas três anos. Ex-marido era engenheiro, bonito, alto, um pouco machista, muito machista e arrogante. Alice conheceu Joaquim numa festa, amigo da prima dela. Beijaram-se na mesma noite, viram que tinham muito em comum, o jeito sério, as mesmas frutrações, talvez fosse comum encontrar alguém desse tipo, não sei, de qualquer forma Joaquim 25
  • 26. era um bom rapaz, educado, a gentileza fazia parte da educação, inteligente, desejava bom futuro, gostava de crianças, dava-se bem com Aninha, pegaram intimidade rápido. Tudo ia bem, a ele não incomodava ela ter uma filha, não era ciumento. Ela, um pouco mandona, pero elegante, compreensiva, amorosa, carinhosa, cozinhava bem, queria casar-se de novo, gostava de relacionamentos sérios, tudo tinha de ser sério, se não não valia, se não não era a mesma coisa. Talvez acabasse casando-se nove vezes como fez Vinicius, “quantas vezes for preciso”, não, ela não iria fazer isso. Amava Joaquim, pensava ter sorte por tê-lo conhecido, ele sim era bom partido, não rico, porém não era miserável; tinha defeitos, contudo se analisar bem, irrelevantes quanto a conduta e caráter. Alice viera do interior do Estado, e antes disso de São Paulo, e antes de São Paulo, Florianópolis. Apesar da pouca idade parecia ter viajado bastante. O pai dono de uma loja de cama e colchões acusava melhoroes condições em outros lugares, então mudavam-se... Pero agora não precisavam mais, estavam estabelecidos. “Que peixe é esse?, Peraputanga?, Quanto tá?, Tudo isso?, E esse aqui, esse aí, pega esse aí, esse pacu está melhor, quanto fica?, Já limpo?, Faz ele limpo por esse preço, moço, É de tanque ou rio?, Quando foi pescado?, Posso fazer ele com pimenta de cheiro?, É? Fica melhor com pimenta de verdade?, É que eu não gosto de peixe muito apimentado, queria só o cheiro, Ah, sim, é verdade, então o gosto desaparece?, Ah farei dessa forma então, Tenho que fazê-lo hoje ou posso congelar?, Ah, congelado perde o gosto né?, Também acho, sim, sim, Aqui o dinheiro, Não tenho cinco trocado, Obrigada.” Luzes, gente, bicicleta, vendedores ambulantes, gritos, assaltos, furtos, confusões, brigas, polícia, música alta, fumaça de churrasco, de cigarro, bêbados, pessoas passeando. “Mãe, eu quero pastel”, pararam na pastelaria. “Carne, presunto ou queijo?” “Queijo.” “Garapa?", (s.f. 1. Caldo de cana; 2. Sumo extraído pela compressão do bagaço da planta gramínea, Cana-de-açúcar. 3. Nome utilizado em algumas regiões do Brasil. 4. O autor diz ser bom, pero tome cuidado para não ser misturada com água. 5. Contém propriedades laxantes. 6. Cuiabano não sabe o que é Caldo-de-cana.) “Quero.” “Então, quatro pastéis de queijo e duas garapas, por favor”, disse Alice ao pasteleiro. “Vai comer ou vai levar?", perguntou o vendedor. “Vou comer aqui.” Cheiro forte de fritura, fumaça de óleo, gordura preta de tão usada e coada na palha de aço, empregados suados, tudo sem higiene, formigas, baratas, moscas, poeira, pastéis com mais ar que recheio. CAPÍTULO XI 26
  • 27. DEPOIS DE OUTRA NOITE sem escrever, frustrado e ranzinza teve outro sonho. O navio balançava-se, sol quente da tarde, pero o mar refrescava. Gaivotas, nuvens de tão claras quase transparentes, vento, barulho silencioso, e toda virilidade que é estar a bordo. Joaquim repousava os cotovelos e observava a beleza da água que juntava com o céu. “Olá, Joaquim”, disse um homem alto, bigode, óculos fundo de garrafa e chapéu, se aproximando. “Boa tarde, Fernando Pessoa”, Joaquim respondeu com um sorriso. “Fernando Pessoa? Quem? Eu me chamo Álvaro de Campos”, disse o homem, já ao lado de Joaquim, como um amigo. “Ah! boa tarde Álvaro, como vai?”, Joaquim não quis contrariar o maluco. “Vou bem, e você?”, disse Álvaro. “Bem”, fez um olhar de dúvida, “Para aonde este navio está indo?” “Esta máquina de petróleo em movimento está a ir a Lisboa, estamos a voltar da Índia”, respondeu Álvaro, sorridente. “Eu não consigo escrever mais!”, reclamou Joaquim como um desabafo. “Pois, lembre-se, escrever é preciso, viver não é preciso. Esqueça-se da vida, escrever é somente a razão da tua existência.” “Uhm!”, Joaquim suspirou desconsolado. “Escreva, para que no fim se torne uma folha amarela como as outras, pero num tom diferente.” “É isso que tento fazer”, respondeu Joaquim abaixando os olhos num desalento. “Pois faça.” “Eu estive na sua casa, gostei da sua máquina de cortar cabelo antiga”, comentou Joaquim a tentar se livrar da tristeza. “Antiga?”, perguntou Álvaro surpreso. “Sim, hoje nós costumamos usar uma elétrica, veja”, Joaquim abriu o paletó tirando uma máquina de barbear e dando para Álvaro ver. “Ah! Very nice!, demasiado futurista”, comentou Álvaro com a ferramenta em mãos. “É, pode ficar com ela, mesmo não tendo muito para cortar”, Joaquim riu, “Tem duas fotos suas na parede do meu quarto.” “Aé? Estou bonito nelas? onde as conseguiu?” “Uma em jornal, nem lembro do que falava, outra numa exposição sua que teve no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo.” “Uhm... Joaquim, eu sei porque você não consegue escrever.” “Sabe?! por que então?” “Vamos ver... pense a respeito do mito de Adão e Eva... ambos no Éden, tudo perfeito, comida, paz, felicidade, vida eterna... porém os mesmos sentiram uma estranha vontade de comer maçã, a fruta sagrada proibida por Deus... então Joaquim, não coma a maçã... ela não vale o esforço.” 27
  • 28. “Eu não comi a maçã!”, exclamou Joaquim, e ao dizer se assustou, o navio virou, a água subiu-lhe até as canelas e foi enchendo cada vez mais, estavam sendo absorvidos pelo mar!, “O que está acontecendo?!” “Estamos afundando!”, disse Álvaro, “você comeu a maçã!” “Não comi! juro!” “Pero vai comer!”, ambos afundaram na água que os puxara para baixo, Joaquim começou a afogar. Joaquim pulou da cama, estava engasgando com o próprio refluxo, correu para o banheiro, cuspiu e lavou o rosto, a garganta queimada, a boca inteira doendo, ”Que ácido desgraçado!”, olhou-se no espelho, cara anêmica, doente, amarelo, olheiras, acabado como um defunto tardio. Não recordava-se do sonho, porém pensava nas gêmeas Davidoff. CAPÍTULO XII CHECOU AS HORAS NO PULSO: está na hora. Levantou a tampa do vaso de qualquer jeito, a fazendo bater, ele nem lembrava mais que horas eram, pero sabia que estava na hora, pelo menos isso... mijou forte, grosso, rápido, um jato contínuo de urina amarelada quase marrom saindo do pinto flácido que ainda dormia... e aquilo ao pegar na água liberou um cheiro intenso de café, pensou, “Minha urina tem cheiro de café”, balançou, tirou o short de dormir, assentou-se, cagou e quanto cagava pensou, “Eu podia ter mijado cagando, pero um homem deve fazer isso de pé, trata-se do orgulho masculino!”, ele não dizia nada com nada, não pensava em coisas boas, tinha acabado de acordar e estava com sono... nessas horas também pensou rapidamente nas gêmeas... que meninas bonitas, adoráveis, como pode existir algo tão puro e tão belo neste mundo, ele por este motivo tinha sido honrado em conhecê-las... Tampou, deu descarga, colocou-se em baixo do chuveiro, ligou, água quente, fechou o boxe, se lavou dos cabelos aos pés, cantarolava, “... lava uma mão, lava outra, lava uma mão, lava outra, lava uma mão... mão, mão... pés, meus queridos pés que me aguentam o dia inteiroooooo”. Aproveitou a água quente para amaciar a barba, fez espuma com creme de barbear, pincelou o rosto inteiro, pegou a navalha, olhou, afiada, foi passando no rosto contra os pelos, um corte aqui outro lá, o barulho dos fios sendo cortados “tchii, tchiii, tchii”, que demora, acabou. Expremeu o resto de pasta na escova de cerdas duras, meteu-lha nágua e foi passando nos dentes com toda força, cantarolava no pensamento, “...escova, escova, escova, tira toda sujeira”. Amarrou os sapatos, camisa xadrez, perfume, jaqueta, uma caneta para o bolso, não pode esquecer, copo grande de café para acordar, os dentes já estavam pretos. Pegou a mochila, colocou toda a roupa dentro, abriu o carro, jogou no banco, empurrou o portão e foi-se embora para casa de Alice. Telefonou, “Bom dia amor, to passando aí, tá?” “Tudo bem to pronta, só to penteando Aninha.” “Ta bom, não esquece de nada, beijos.” 28
  • 29. “Beijo.” Estacionou o automóvel em cima da calçada, "Alice!”, gritou, e vieram Alice e Aninha com muitas malas, “Pra que tanta mala, meu Deus?”, perguntou Joaquim, “É só um final de semana.” “Aqui só tem roupa para um final de semana”, respondeu Alice, “Se fosse mais teríamos mais malas.” “Você concorda com isso Aninha?”, perguntou Joaquim. “Só tem o necessário, Jo.” “Então vamos, coloquem no porta malas e vamos logo para chegarmos o mais depressa possível.” Estrada longa, esburacada, lameada, emporcalhada, o mato em volta estava quase a tomar conta da pista. Chapada estava longe, quanto tempo mais?, foram conversando, foram cantando, olhando a paisagem, olhando qualquer coisa, lendo, pero pouco, os pulos que o carro dava não deixava. Adiantando a fita... por fim chegaram. Acionou o botão, garagem abriu, entrou, apertou o controle, fechou, pronto. Lá estavam eles para conhecer a casa. “Cá está a sala, o sofá, ali na frente o corredor do escritório, biblioteca, estúdio...” “Estúdio?”, Aninha interrompeu, “Sim, Aninha, vou montar um estúdio pequeno aqui”, explicou Joaquim. “E eu poderei gravar também?”, perguntou a moça de franja e com um rosto fofíssimo. “Claro, por que não, só me esperar comprar os equipamentos de gravação, tratar da acústica do lugar...", disse Joaquim. “Onde fica a cozinha, Jo? O peixe está descongelando”, perguntou Alice. “Pra cá, atrás de nós, venham...” “Primeiro vamos botar as malas no quarto.” “Claro, claro, lá em cima, por aqui...” “Pero o peixe pode estragar, vamos pra cozinha mesmo.” Joaquim fez uma cara feia, por que não decidia?, “Venha por aqui”, entraram na cozinha. CAPÍTULO XIII “JO, DA ÚLTIMA vez que fui a sua casa vi que o livro “Drácula", de Bram Stoker estava de cabeça pra baixo na estante... não arrumei, ia te avisar, pero esqueci e só lembrei agora”, informou Aninha. “Ah! é que o conde Drácula estava dormindo”, provocou Joaquim. Riram tanto que quase engasgaram o pacu assado com pimenta e uns pingos de limão que estavam comendo no almoço. 29
  • 30. “Por falar nele, eu tenho Nosferatu no meu pendrive, poderemos ver de noite, que tal?", perguntou Joaquim às moças. “Vamos!", exclamou Aninha. “É o da década de LXX ou de XX?”, perguntou Alice. “O de XX, o de LXX não sei em que lugar guardei”, comentou Joaquim. “Ou de XC?”, perguntou Alice. “De XX, tenho certeza, expressionismo alemão." “E de tarde o que faremos?”, questionou Aninha. “A piscina ta gelada demais, nem pense nela”, disse Alice prevendo o que a menina queria. “Ah mãe!” “Ah nada!", disse Alice. “Poderemos passear por aqui, ir até a cidade, que tal?", sugeriu Joaquim. “Podemos mesmo”, disse Alice. “Vamos!”, exclamou Aninha sempre contente. Esqueci de comentar sobre o que estavam tomando com a comida, eu nem sei, caso queiram pensar nisso, podem escolher entre o suco de caju e o guaraná ralado, são as bebidas mais típicas de Cuiabá. Preciso avisar que este segundo é muito forte, misture apenas uma colher. Ao chegar três horas da tarde foram agasalhadíssimos até a cidade, visitaram alguns pontos turísticos. O vento estava de cortar, porém andaram bastante, compraram lembranças, viram os artesanatos de barro, copos, jacarés, beberam alguma coisa, comeram bolo de fubá, café, viram um punhado de turistas gringos que não sabiam português. Deram informação e etcétera. Chegaram em casa às sete da noite, prontos para jantar e descansar, e o casal pronto para... O que tem para jantar? Nada. Então foram para um restaurante de comida regional, e lá serviram-se com farofa de banana, mujica de pintado e Maria Isabel. Aquele pode entender-se como sopa de peixe e este simplesmente carne picada com arroz. Após o filme Alice colocou Aninha na cama, “Está confortável, mocinha?”, perguntou Alice apertando o cobertor sobre ela. “Estou, mãe... gostaria de uma estória antes de dormir.” Alice e Joaquim se entreolharam, que estória poderiam contar? não tinham nenhuma e a biblioteca nem estava feita ainda. Foi então que Joaquim catou do casaco um minilivro, o qual nunca tirava do bolso, eram alguns contos de Allan Poe, abriu em 'The fall of the house of Usher' e recitou com voz de Vicent Price, “'...For several days ensuing, her name was unmentioned by either Usher or myself: and during this period I was busied in earnest endeavors to alleviate the melancholy of my friend. We painted and read together...'” 30
  • 31. Depois de concluído poderia ver a cara assustada de Aninha, então Alice e Joaquim apagaram a luz e a deixaram só com o vento que batia na janela de madeira, refugiando-se noutro quarto, teriam finalmente tempo para eles. “Não acha demais Nosferatu e após Poe?”, perguntou Alice já na cama. “Claro que não! crianças gostam dessas estórias!”, disse Joaquim com certeza e se chegando para debaixo das cobertas. “E você...”, disse Alice rebuçando-se também. “Eu o quê?” “Por que anda tristonho?” “Não tenho conseguido escrever”, revelou Joaquim com olhar sem luz. “Por quê?” “Não sei.” “Talvez alguma preocupação?”, Alice tentou desconfiando de algo. “Sempre tive muitas”, respondeu Joaquim com indiferença. “Alguma em especial?” “Tenho.” “Qual?” “O casamento.” ”O que tem ele?” “Não tenho certeza.” “Não tínhamos decidido?” “Desculpa, talvez não seja boa hora.” “Como assim?” “Tente entender, Alice, eu tenho sonhos...” “Não pode realizá-los casado?” “Posso...” “Ou não faz parte dos seus sonhos o casamento?” “Talvez.” “Talvez?”, perguntou Alice com olhar de indignação. “Não é isso, veja”, Joaquim pegou na mão de Alice, “Casamento requer muita dedicação, preocupação com a família, com os filhos, e se tivermos outro filho? pois se Aninha vem morar conosco ela passa a ser minha filha também. Talvez... imagine... eu necessito escrever, necessito viajar por causa do doutorado, e de eventos de literatura... acha que eu seria um bom marido e pai?” “Tudo consome tempo, não é mesmo?”, disse Alice em desalento. “Não fique assim, coração”, Joaquim se debruçou sobre ela, fitando o brilho natural daqueles olhos cor de oliva, “Amo-te!” ”Amo-te?”, questionou Alice a colocação do pronome após o verbo. “É o que diz a gramática”, respondeu Joaquim. “Pero 'o bom negro e o bom branco da nação brasileira falam todos os dias, deixa disso camarada, me dá um cigarro'”, Alice citou Andrade. “É por isso que te amo”, disse Joaquim sorrindo e beijando a boca de Alice. Esta correspondeu, então ele mordeu seu pescoço e sussurrou em sua orelha, “Forever.” “'Till the stars fall from the sky'”, Alice citou Doors. 31
  • 32. Em meio a este clima Joaquim começou a cantarolar a nona sinfonia de Beethoven, para começarem o bom e velho 'in out in out'. “Venha me fazer feliz, 'brother'”, disse Alice retirando a camisa de Joaquim. Num segundo estavam ambos nus, Joaquim a deslizar calmamente entre as coxas dela, suavemente hidratadas e macias como veludo. Enquanto o tempo estava frio, Alice estava quente como fogo, uma chama que aquecia os lençóis, a cama e tudo que estava em sua orla, em toda aquela alvura do rosto bem formado, com feições arredondadas, sobrancelhas de poucos pelos e o lábio de uma pintura rósea que tremia querendo balbuciar algo, e de repente Alice com os braços em volta do pescoço dele o puxou para mais perto como se numa súplica por piedade, para ter a boca junto ao seu ouvido e poder gemer baixo, em sussurros. Se todo movimento era calmo e lento, sabendo aproveitar o momento, o coração palpitava forte, rápido e sofrendo, até que num ápice de união ele começasse a descansar e ir vagarosamente retornando ao ritmo normal. Os dois a dormir, Joaquim sonhou. CAPÍTULO XIV JOAQUIM CAMINHAVA entre o vento frio de cristais, afundando os pés na neve profunda e pesada. Por volta é só branco e neblina. O rosto vermelho estava sendo machucado pelo ar gélido, e mesmo com grossos casacos e botas estava congelando. Naquele tempo escuro que tampava o sol, via ao longe a sua frente, muito, muito distante a figura borrada de um castelo, quando desviou os olhos dele, conseguiu enxergar há poucos metros um homem franzino, olhos esbulhados, orelha grande e nariz longo. “Kafka!", Joaquim gritou, conseguindo a atenção do homem, que caiu na neve pelo susto que levara. “Quem é você?!, um fascista?!”, questionou o homem apavorado. “Não, fique calmo! não sou fascista”, Joaquim explicou. “Como diabos sabe meu nome?!", Kafka, ainda assustado, pero se restabelecendo. “Você quer chegar ao castelo, não é? Sinto dizer, que nunca conseguirá entrar lá”, Joaquim informou. “Por que não?! Você é funcinário do castelo?”, indagou Kafka com olhar sério. “Não! Te conheço porque vim do futuro”, disse Joaquim sem achar que Kafka acreditaria. “Do futuro?! Não acredito!”, disse Kafka achando que encontrara um louco, pero queria saber como esse louco o conhecia. “Sabe... depois da sua morte, seu amigo pega todos os seus cadernos e publica seus textos... em meu tempo você é um autor mundialmente famoso. Não sei porque não conseguirá entrar no castelo, muitos já discutiram sobre isso, elaboraram hipóteses... pero só você mesmo poderá dizer.” “Meus cadernos?! aqueles garranchos?!”, Kafka não acreditava em nada. 32
  • 33. “Sim. E você não tem muito tempo de vida... porém morrerá fazendo o que gosta, afinal, 'tudo que não é literatura...'” “'Me chateia'”, completou Kafka, surpreso, pero agora acreditando no homem estranho. “Estou aqui por um motivo, vim pedir a sua ajuda, eu não consigo escrever”, lamentou Joaquim. “Como não consegue, seu preguiçoso! Escrevi tudo à mão, em pilhas de cadernos com garranchos que nem eu mesmo entendia! Se veio do futuro deve ter em seu tempo alguma máquina melhor para escrever, pois não me venha dar alguma desculpa, é preguiça pura!”, exclamou Kafka, aborrecido. “Sim, desculpa”, lamentou Joaquim capisbaixo. “Me diga uma coisa, por favor”, pediu Kafka, “E os fascistas, o que acontece com os desgraçados?” “Eles perdem a guerra, não se preocupe”, consolou Joaquim. “E Frieda? ela fica bem?”, perguntou Kafka. “Que Frieda?”, Joaquim não podia contar que ela seria assassinada num campo de concentração. “A minha mulher... baixa... cabelos louros...” “Baixa, cabelos louros”... as gêmeas Davidoff... Joaquim acordou num suor melado, respirando forte como se tivesse por instantes perdido ar. Viu ao seu lado direito Alice a dormir como um anjo, então foi ao banheiro lavar o rosto, voltando para cama em seguida, e foi levantar pela manhã. CAPÍTULO XV ALICE ACORDARA primeiro, e havia feito café suficiente para inspirar qualquer escritor. Aninha também estava acordada e ambas à mesa comiam pão, bolo, suco de laranja, leite, e ouviam o canto dos passarinhos. “Que horas vamos embora, mãe?”, pergunto Aninha, ela sentia ter que voltar para casa. “No fim da tarde”, anunciou Alice, mastigando o bolo e dando um gole no café. “E o tio?” “Ele ainda não acordou”, disse a mãe, “deve estar cansado, deixe-o dormir até mais tarde.", Alice pensava, será que tinha dado muito trabalho a Joaquim ontem de noite? E sorriu. “Por que está rindo, mãe?", perguntou a filha vendo. “Nada, estava pensando, pronta para voltar para escola amanhã?" “Não! Nem quero voltar”, queixou-se a menina. “Bom, temos que voltar alguma hora, né? Semana que vem poderemos vir pra cá se tudo der certo.” “Vamos voltar semana que vem?", perguntou Aninha. “Se tudo der certo...", respondeu Alice. “Por que pode não dar certo?", Aninha perguntou intrigada. 33
  • 34. “Por nada”, Alice respondeu, “Temos de ver se o Jo vai poder vir, né?” “E se ele não puder?”, perguntou a filha. Alice terminou o café e disse, “Aí não poderemos vir, ué...” “E o que faremos então?”, perguntou a menina chateada. “Joaquim comprou essa casa”, disse Alice fitando a filha, “Para virmos aqui todo final de semana, se acontecer de não virmos, é porque Joaquim teve outra coisa para fazer, ele é ocupado, lembra-se?” “Escrevendo?” “Sim, e com a escola..." ”Ele não disse que não tem escrito?” “Disse, pero ele pode escrever, vai saber... que perguntas bobas, Ana, deixa pra lá..." “Ta bom.” Joaquim acordou, viu que Alice não estava mais na cama, mirou o relógio que nunca tirava, que horas eram? Tarde demais. Então levantou-se, calçou os chinelos, foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes com pressa, tomou uma ducha rápida e fria... aprontou-se e desceu arrumado. As moças ainda estavam à mesa, pero já tinham terminado de comer. “Bom dia, senhoritas”, cumprimentou as mulheres. “Bom dia.” “Bom dia. Jo, o que vamos fazer hoje?”, perguntou a menina impaciente. “Vamos comer primeiro, depois andar pela cidade”, respondeu. “Mamãe e eu já comemos.” “Então escove os dentes e pegue uma jaqueta”, disse Joaquim. “Ainda ta frio lá fora?", perguntou Aninha. “Deve estar”, a mãe respondeu. “É, pena não termos ido ao rio”, disse Joaquim, “Com esse frio iriamos ficar doentes.” “Iríamos congelar”, Completou Alice. “A propósito, tem café na garrafa.” “Que bom! obrigado”, agradeceu Joaquim. “Jo, que hora vamos embora?”, perguntou Aninha. “No fim da tarde, ainda temos tempo”, disse Joaquim. “Temos nada...", comentou a menina olhando o vazio. “Não pense nisso, semana que vem poderemos vir de novo”, comentou Joaquim. “Mamãe falou que talvez você não pudesse”, disse Aninha. “Por que não?”, perguntou Joaquim. “Porque talvez fosse estar ocupado escrevendo”, disse Ana. “Uhm! Talvez, pero vou conciliar isso, poderemos vir sim”, respondeu Joaquim. “Ta vendo, Ana? pare de ser neurótica”, disse Alice. O dia estava muito claro, pero ainda frio. Frio o bastante para andarem tranquilos sem suarem. Foram a cidade, nas mesmas casas de artesanato, de turistas, 34
  • 35. caminhavam pela rua movimentada, não um grande movimento, Chapada já esteve mais cheia, tinha menos gente por causa do tempo feio. “Vou comprar pão de queijo!”, disse Aninha correndo para padaria. Alice e Joaquim continuaram a andar, até a ponta da calçada, voltar, ver as vitrines, as pessoas, caminhar em círculos, parar, conversar e na conversa, “Preocupada com o nosso papo de ontem?”, perguntou Joaquim perto de Alice. “Não”, Alice respondeu rapidamente, sorria, pero era fácil entender que tratavase de um sorriso dissimulado, Joaquim havia percebido que ela estava triste, a conhecia tempo suficiente para tal coisa. “Sei que está triste”, disse ele a encará-la e prender seu braço. “Não estou, já disse”, agora sim Alice parecia desanimada, com os olhos sem brilho. “Sabe, Alice, que gosto muito de você, e cogite por um instante, lembre-se do que dissera Kafka que, 'toda relação tem suas faltas, a nossa também'. Veja quantas coisas boas nós temos, amamos um ao outro, e não quero outra mulher, falei tantas vezes e parece não adiantar, você é a mulher da minha vida...” “E não pode sacrificar-se por mim...”, disse Alice. “Eu trocaria qualquer coisa por você sem pensar duas vezes, pero não é este o caso. Podemos viver como estamos agora... veja, tudo é perfeito, somos como Adão e Eva no jardim do Éden, não somos ricos, pero nossas privações são mínimas, dê valor a isso...”, disse Joaquim fitando os olhos que já ganhavam maior brilho. Aninha chegou trazendo uma sacola de papel que cheirava bem, depois da longa fila que pegara na padaria, “Voltei, a fila tava enorme!” “Está cheirando bem”, disse Alice “Pegue”, falou Aninha dando a sacola para a mãe, e ela passando a sacola para Joaquim depois de ter pego um, “Que caro!”, disse Joaquim olhando o preço, “Isso aqui é de ouro?” “Tudo é caro para turistas”, comentou Aninha, “Pero eu não sou turista”, argumentou Joaquim, “Moro logo ali...” “Só nos finais de semana”, disse Alice, “Então é como um turista.” Ao pôr do sol jantaram, arrumaram as coisas e voltaram para Cuiabá. CAPÍTULO XVI DORMIU DEMAIS, o sol batia-lhe com intensidade na cara, e ele levantou como se apanhasse, mirou o relógio que despertava-o com um bipe, “tarde demais: tarde demais: está atrasado: está atrasado: vai chegar tarde: vai chegar tarde: vai ser despedido: vai ser despedido: vai ouvir sermão: vai ouvir sermão: arranje outro emprego: arranje outro emprego.” Voou para o chuveiro: lavou o que lhe era mais importante: se aprontou sem esquecer da caneta no bolso e o café: pegou as chaves do carro: atrasado demais para 35
  • 36. ir de ônibus: empurrou o portão com toda a força e raiva: cantou os pneus para a escola. O sino tinha batido: andou com passos largos e rápidos pelos corredores brancos: cumprimentou os funcionários: desde o diretor: donos: faxineiras: “Bom dia: Bom dia: Bom dia: Bom dia: Bom dia: Bom dia: Bom dia:” Entrou na sala: “Bom dia, turma... todos sentados por favor.” Os alunos sentaram-se. Maria e Carla Davidoff estavam lindas de doer. Como se resumisse nelas toda a luz da sala, nos cachinhos que formavam-se na ponta do cabelo dourado, na pele lívida como uma nuvem flutuante e os olhos azuis como o mais belo e cristalino rio... Por instantes Joaquim sentiu-se no livro “Lolita” de Vladimir Nabokov, lembrou-se também que não havia terminado de lê-lo. Escreveu à giz no quadro, com uma caligrafia digna de dar inveja, pois estudara muito a geometria das letras com seus adornos, O Navio Negreiro – Castro Alves “Leram o 'Navio Negreiro', pessoal?”, questionou o professor. Responderam num só acorde, “Sim, professor!”, os alunos gostavam muito dele. “Vamos começar pelo poema e partir logo mais para a poesia, alguém pode me dizer quanto a estrutura, por que Castro Alves utiliza quatro ou cinco metrificações? Estilo artístico muito utilizado no modernismo?”, perguntou Joaquim. Maria Davidoff levantou a pequena mão e disse, “Na minha opinião ele pretendeu com o decassílabo mostrar maior descrição, quanto na redondilha apelar para a musicalidade que julgou necessária”, Maria temia que estivesse errada, mordeu os lábios, fez um olhar de tensão sem piscar, esperando ansiosa a resposta do professor. “Perfeito, Maria”, comentou Joaquim, “Vejo que teve prazer na leitura...” “Sim, professor, até decorei a primeira parte”, respondeu Maria contentíssima. “Ah! então nos faça o favor de recitar...", pediu Joaquim. Maria cantou com maestria, com adorável voz e boa dicção, podia se ver os dentinhos novos entre os lábios delicadíssimos, “Muito bem Maria”, disse o professor feliz, “Pode me responder só mais uma coisa, e quanto aos parágrafos dodecassílabos e sextassílabos?” Maria fez um olhar de nervosismo, como se estivesse próximo de errar, ia falar, pero foi interrompida pela irmã, “Penso que para chamar atenção do leitor, e rogar a Deus proteção ou se confessar... como se ele pedisse para Deus ver o que acontecia, como se Deus não estivesse a ver, tivesse esquecido daquela gente no navio... quanto ao disseto decassílabo seguindo um verso final sextassílabo é como se ele... o dissesse com o último fôlego, um lamento.", Falou rapidamente Carla, a tremer de preocupação... “Brilhante, Carla, brilhante... ótima interpretação”, disse o professor sorrindo, “Vocês duas terão um grande futuro!” Maria encarou Carla com fúria, pero sem dizer nada, talvez ela não tivesse pensado sobre esse trecho, pedaço que Carla soube fazer boa análise. Então ela perguntou com curiosidade, 36
  • 37. “Pero professor!”, Maria o chamou atenção, “Qual a verdade sobre o poema? a resposta certa?” Carla também concordou, “Sim, e a resposta correta?” “Resposta correta?", perguntou Joaquim espantado, “Isso não é matemática, é literatura. Exercício da reflexão e interpretação. E acho que tiveram uma ótima ideia. Se nenhum de vocês tem algo mais a dizer sobre o poema, partiremos para outro assunto. Os leitores são vocês, e quem sou eu para dizer que estão errados?” A classe ficou sem saber o que falar, surpresos, foi quando as duas moças explodiram numa ideia tomada as pressas, disseram juntas, como se fossem ligadas mentalmente, “Você é o professor!", exclamaram. Joaquim fitou-as, observou a classe... andou, deu voltas em cima do tablado, ajustou a caneta preta do bolso da camisa, alisou o cabelo com a mão direita, e respondeu, “Quem é o professor, senão um mestre em alguma faculdade, que busca despertar o interesse dos alunos? E quem formula hipóteses sobre os autores e suas obras? Os donos da verdade? Ou apenas mestres em faculdades diferentes, com diferentes buscas, com diferentes pensamentos, intenções, e verdades distintas? Se alguém pode dizer a verdade sobre um texto, é próprio escritor... e veja que nem este tem certeza sobre o texto, pois não está completo, foi somente um ato de devaneio e reflexão que se tem a todo momento... e se este autor está morto? E agora, como ficamos? Paramos de lê-lo? de pensar?... não, pessoal... filosoficamente a vida é buscar a verdade. Porém se a acha, não é nada mais que um idiota que a espalha em dogmas... pensem em tantas guerras e mortos que temos até hoje por essa simples coisa... que parece inofensiva, pero extremamente asquerosa, que é encontrar a verdade e impô-la aos outros... Pensando dessa forma é óbvio entendermos que conforme a nossa cultura muda, a época muda, os homens mudam, a sociedade muda, transforma-se... nossas interpretações sobre as obras, artisticamente falando com a sua técnica, objetivo e expressão, sofrerão modificações e receberão novas interpretações... a fim que possamos adaptar ao nosso dia-a-dia... imaginem como estão errados em pensarem na verdade absoluta... se a sociedade transforma-se, a interpretação da obra consequentemente transforma-se também... e é por este motivo que estamos aqui reunidos, para entendermos, não aceitarmos o que está escrito nos livros, apostilas, e nem mesmo o que nos dizem... pero ver o mundo com os nossos próprios olhos e desejos.” Joaquim olhou o relógio enquanto a turma estava paralisada... “Bom, pessoal, a aula já vai acabar... É assim mesmo, o nosso tempo é curto. Vamos deixar para a próxima aula o debate sobre a escravidão de outrora e a atual nas fazendas de cana. Obrigado e podem arrumar suas coisas. Esperar o sinal bater para ir pra casa e comer uma comida bem gostosa.” Os alunos trataram de arrumar as coisas, fazendo barulho. Um menino chamado Carlos veio ter com o professor, “Professor, uma coisinha, quero saber se o senhor pode me ajudar”, disse o guri com caderno e lápis na mão. 37
  • 38. “Diga”, Joaquim falou atencioso. “É sobre física, tenho essas perguntas para responder, pero não entendo nada, veja... como posso calcular a força de uma batida de trânsito?", perguntou Carlos. “É fácil”, Joaquim pegou o lápis, “Primeiro necessita saber se a velocidade é constante, se o atrito é desprezado... calcular velocidade média... segundo ver os dados, qual a velocidade? e qual a massa do carro A, lembrando que é medida por quilograma e não por Newtons... então força será igual a massa vezes velocidade... faça o mesmo com o carro B, então terá de somar as forças pois é do princípio da física que a força exercida é paga na mesma moeda, lembra? e depois os dois carros estão em movimento...” “É mesmo! Agora lembrei”, disse o menino gordinho, “Obrigado professor, eu gostei da aula em!” “Nada, até a próxima”, Joaquim despediu-se. “Tchau, professor!” Logo o sinal tocou e foram todos embora. CAPÍTULO XVII NA PORTA as gêmeas esperavam por ele. Joaquim sem perceber foi passando quando deparou-se com elas a sua frente, “Professor!", disseram os anjos juntos. “Oba, o que foi?", perguntou Joaquim curioso. “Gostamos muito da sua aula!", falou Maria com um lindo sorriso. “Ah!, obrigado meninas, é um prazer dar aula pra moças tão inteligentes como vocês, uma honra”, comentou Joaquim agradecido. “Virei fã de Castro Alves”, falou Carla balançando os cachos de ouro. “Que bom, ele é de que geração do romantismo?", perguntou Joaquim. “Terceira!", responderam num coro. “E em que se basea?”, perguntou o professor. “Luta social”, respondeu Maria. “Uhm!, sim...", disse Joaquim, e o pré-modernismo, não seria também uma luta social?” Elas se entreolharam e disseram, “Sim...” “É o dever de casa de vocês, refletir sobre isso...", disse Joaquim. “Tem uma coisa”, Carla apontou o dedo, “O senhor mora no Grande III?” “Sim, moro”, respondeu, “Por quê?", Joaquim estava curioso... Então Maria pediu, “Nós moramos aqui por dentro do Boa Esperança, e nosso cartão de ônibus não está funcionando, o senhor está de carro?” “Estou sim”, Joaquim explicou, “Não costumo vir de carro para escola, pego o ônibus, pero hoje vim pois estava atrasado, querem carona?” “Sim”, disseram, “Não tem problema pro senhor?", perguntou Carla. “Para mim não, claro que não, com maior prazer”, Joaquim levantou o dedo indicador, “Pero seus pais não vão se incomodar com isso?” “Não vão!", disseram. 38
  • 39. “Certeza?", Joaquim perguntou. “Temos!", disseram. “Então vamos”, Joaquim convidou. “Antes vamos passar na sorveteria”, disse Maria, “É rapidinho, o senhor ta com pressa?” “Não...", disse Joaquim, “Pero não está frio demais para sorvete?” “Assim que é melhor”, argumentou Carla, “Sim, derrete menos”, completou Maria. Acomodaram-se na sorveteria do colégio, talvez com essa nova lei de excluir os doces e salgados, seja retirada da escola. As gêmeas possuíam um belíssimo corpo em desenvolvimento; a firmeza da pele, do tecido adiposo e músculos equilibrados, dava curvas magníficas, próprias de obras primas. Ora moviam a perna, se esticavam tentando alcançar as colheres do balcão e notava-se a rigidez da batata da perna e a flexibilidade da coxa de impecável beleza. Atléticas, proporcionavam a saúde com o esporte, como uma flor que ganhasse força, cheiro adocicado e cores vivas às pétalas que futuramente iam desabrochar. O rosto vivo contava com algumas sardas e vermelho por causa do sol que machucava a derme melindrosa. O sorriso de incomparável encantamento espelhavam o cérebro sadio, esperto, e a alma sincera, aventureira, juvenil. Se assentaram sempre sorridentes e divertidas, com as bolas que escolheram nas casquinhas pequenas... Maria preferia flocos quanto Carla chocolate. Apesar de serem idênticas, suas personalidades assemelhavam-se com os sorvetes. Carla atenciosa e paciente, ao visto que Maria corajosa e rápida. “Professor, o senhor tem religião?", Perguntou Maria, para puxar conversa, e Carla esperou a resposta. “Fui batizado na católica, pero estou com Fernando Pessoa quando ele diz, 'Não procures nem creias, tudo é oculto'. E vocês?” “Nós frequentamos a missa toda semana”, respondeu Carla. “Ah! religião é algo bom”, comentava o professor, “pero é necessário saber buscar as coisas boas dela. Ser crítico quanto a sua utilização, e sempre procurar lutar contra a falta de informações.” “Uhum!", concordaram “E os seus pais, professor, mora com eles?", perguntou Carla “Não, não... eles moram no interior, moro só”, respondeu Joaquim. “Tem namorada?”, questionou Maria. “Tenho sim”, Joaquim respondeu num sorriso. “O que ela faz?", perguntou Carla “Dá aula em faculdade, de sociologia”, respondeu. “Deve ser inteligente”, disse Carla aparentando inveja. “É sim. Só gosto de pessoas inteligentes, por isso estou aqui com vocês”, respondeu Joaquim num argumento esperto. Ficaram contentes, sorriram, e Maria sugeriu, “Vamos indo?” 39
  • 40. Logo levantaram-se e foram para o estacionamento... apesar de velho o carro dele tinha bom motor, forte e duradouro, eram um daqueles automóveis com um porta malas espaçoso, ótimo para as compras do mês. Sentaram-se e as rodas partiram, espalhando o cascalho, “Por onde?”, perguntou Joaquim olhando dos dois lados antes de tomar a avenida. “Entre aqui e vá reto”, ensinou Carla. “Agora tome esta rua debaixo até o final e vire à esquerda”, Maria o direcionou mais tarde. “Esta aqui?”, perguntou o professor. “Sim”, responderam juntas, e o carro andou por alguns minutos. “Nesta rua”, disse Carla, “A casa com portão preto”, completou Maria indicando com o dedo. “Obrigada, professor.” “Obrigada, professor”, falou Carla “De nada, nos vemos na escola, tchau...” “Tchau”, responderam juntas. Joaquim ficou parado em frente ao sobrado com jardim, garagem e uma casinha para santo que havia ao lado da porta de ferro com vidraça colorida, até que as meninas entraram, acenando com a mão. Não viu ninguém, será que elas estavam sós, ou os pais as esperavam para almoçar? Se esperavam, sempre esperavam? Ou era aquela uma situação especial? É raro uma família ser unida a ponto de almoçarem juntos nos dias atuais, ainda mais com adolescentes, esses adultos em miniaturas que brigavam por liberdade e independência. E se havia uma garagem por que não havia carro? E se tem carro por que não pediram para os pais irem as buscar?, Joaquim pensava, O pai delas poderia estar usando o carro no trabalho, deixando-as sozinhas com a mãe que as esperava para almoço, isso se fossem casados, se alguém as esperava em casa por que abriram a porta com a própria chave que levaram consigo pro colégio? não via necessidade, a mãe bem podia abrir a porta feliz. O treino de handball da escola costuma ser de noite, ao pôr do sol, e alimentação delas deveria ser pontual, não havendo assim motivo para chegarem mais tarde ou mais cedo da aula, Joaquim chegou a uma conclusão, estavam então à sós. As borboletas estavam sozinhas, solitárias... bem haviam dito que sabiam cozinhar. E tem mais, queriam que ele as levasse para casa? o cartão não estava mesmo a funcionar? Sabiam que ele havia ido de carro para o colégio?, Joaquim imaginava, A distância daqui para a escola não é tão longa, pero o sol faria a caminhada ser cansativa por demais, além de torrar a pele, que com o tempo apresentaria manchas e envelheceria, Tomaram atitude certa, pensou. E agora sabia onde moravam... não distante dele, talvez tudo ao redor do centro fosse perto. Vamos embora Poirot. CAPÍTULO XVIII FINDAVA A TARDE e começava a noite fresca e de tortura. Joaquim pensava na escola, e nas gêmeas, o que elas haviam dito a ele, a conversa, a sorveteria. Percebeu 40
  • 41. que elas dele gostavam, será porque era apenas um bom professor? Ou havia algo implícito? Alguma malícia que ainda não tivera percebido? Lembrou que em toda sua infância e adolescência fora um menino bobo, avoado, lunático. Que papeava mais com os livros e com os escritores que já haviam morrido, como se eles fossem seus amigos, e quanto ao diálogo coloquial que tinha com as pessoas, parecia-lhe rebuscados demais, as gírias a ele eram vistas como termos herméticos de química. Aprendera palavras de baixo calão com Gregório de Matos e Graciliano Ramos, pero congeladas pelo tempo, enquanto que os meninos da sua época estavam sempre evoluindo. Depois de ter chamado um colega de classe de escroque porque o mesmo havia furtado-lhe a caneta, e o colega não sabia a diferença de furto e roubo... ele se recolheu em seu quarto. Passando cada dia mais perdido nos livros, como alguém que se perdesse em drogas. A sociedade a seu ver era tola demais, burra demais. Tinha razão. Porém a questão era socializar-se melhor. Não conseguiu. Já chamou a professora de literatura de jumenta pois havia dito bobagens sobre Machado de Assis, e o de português de macaco analfabeto porque errou a metrificação de uns versos de Alberto de Oliveira. Odiava os professores, e por este motivo tornou-se um. Muito devaneio, pouco trabalho. Havia percebido que não iria escrever nada. Foi quando bateram-lhe a porta com afobação, Quem será? Abriu e pulou para trás, “Parado aí!", Um homem careca de olhos azuis o apontava uma arma. Depois este mesmo a pôs na mão de Joaquim. Era um revolver calibre XXXVIII, cano curtíssimo, brilhava sem oxidação alguma, de muito boa fabricação e marca. Pesado de sentir-se o poder em mãos, pero leve e pequeno para ser guardado em qualquer lugar. Cheirou, e tinha cheiro de loja. “Quanto quer por ele?", perguntou Joaquim ao amigo da polícia civil. “900”, respondeu o careca. “Qual a procedência?” “Tiramos da mão de um vagabundo, trazia do Paraguai.” “E a munição?”, disse Joaquim, recebendo uma sacola de balas. “Você pode deixar aqui, pero não tenho o dinheiro agora, só na sexta.” “Tudo bem então”, disse o careca, “Coloca uma camisa, vamos sair pra beber.” “Pera aí”, disse Joaquim, “Você quer alguma coisa?” “Mijar” “Você sabe onde é o banheiro”, respondeu Joaquim e o amigo foi em frente. Joaquim vestiu-se e estavam prontos para sair da casa quando o careca disse, “Você sabe que se não me pagar sexta eu te mato, não é?” Joaquim fez pouco caso e argumentou, “Você não mataria o professor do seu filho, deixaria ele na mão de pessoas incompetentes.” “Tem razão, hahaha.” José, XXXIV, viera do Rio de Janeiro com a família, ainda carregava o forte sotaque com todos os xis rasgados. Vestia sempre uma camisa regata para mostrar os braços fortes tatuados, e andar desequilibrado, também tinha todo jeito de bandido e a falta de educação dos cariocas. Com a calça jeans caída ora tampava a pistola na cintura, ora deixava mostrar a coronha. 41
  • 42. Sentaram-se num boteco, o sol foi embora há algum tempo e a lua bem perto deles iluminava tudo. Pediram uma cerveja que chegou quase congelada à mesa. Joaquim inclinou o copo para que não saísse com espumas, servindo à José e ele. José pegou um saleiro e salpicou na cerveja, gostava de cerveja salgada, vê se pode? “E a vida?”. “Ta indo...” “Escrevendo muito?” “Há tempos não escrevo, devo estar aborrecido.” “Não cansa de ser poeteiro?” “Cansar se cansa, se parar se morre.” “Há outras coisas na vida tão boas”, disse José bebendo um grande gole. “Como as mulheres?”, questinou Joaquim com o copo na boca. “As mulheres! claro, o que mais seria...” “Olha que vem vindo uma aí” Uma rapariga alta pelo tamanco, morena, cabelo desgrenhado e toda maquiada com roupas minúsculas sentou nas pernas de Joaquim e olhou em seus olhos, “Precisa de acompanhante?”, disse a mulher. “Desculpa, tenho mulher melhor me esperando em casa. Agora vai levantando que seu bafo de cigarro vai me fazer vomitar a cerveja cara que paguei.” “E você, grandão? de grande só tem o braço?” “Sai saindo, maluca.” Ela foi embora meio zangada, se queixando. E depois de terem começado a terceira cerveja José levantou para ir ao banheiro, “Vou tirar água do joelho.” Na porta ele foi parado por um sujeito meio doido que perguntou baixinho, “Iai, ta precisando de alguma coisa?” “O que você tem?” “O que você quiser.” “Então me passa duas carrerinhas.”abriu a mão, foi entregue, fechou e tirou do outro bolso um dinheiro que deu ao Sujeito. Então entrou no banheiro. Voltou e, “Tenho brigado com a Júlia.” “Por quê? O mesmo motivo de sempre?” “Ela acha que eu a traio e vive me azucrinando, de noite e dia.” “Bom, isso não é novidade.” “Porém agora eu não tenho traído mais.” “Tomou jeito?” ”Cansei.” “Moças caras?” “Não é o preço, como de graça, tem um monte querendo me dar.” Joaquim não acreditou, pero falou sem se importar, “Cuidado com os flertes, vai pegar Aids”, brincou bebendo a cerveja. “Não se pode pegar Aids duas vezes”, disse José olhando para baixo. “Ta falando sério?” 42
  • 43. José riu e falou, “To brincando, po.” Joaquim ficou na dúvida e respondeu com, “Uhm...” CAPÍTULO XIX ESTAVAM bêbados, e José não poderia ter chegado vivo em casa, pelo menos não no mesmo dia, então Joaquim o acompanhou. Eram XI da noite quando botou os pés para dentro do lar, fez um grande copo de café que misturou com a bebida, a barriga não estava bem, embrulhava-se e fazia barulhos estranhos. São gases, é fome, é angustia, depressão ou ânsia? Correu para a pia, vomitou. Era enjoo. Assentou-se na cadeira dura, é hora de escrever e ninguém o impedirá. Escreveu algumas linhas, as letras borradas, as cores fortes da tela, palavras tortas, sem sentido, não enxergava nada... O álcool brigava com a cafeína, quem iria ganhar? o sono estava vencendo, ora escrevia com os olhos fechados, ora escrevia com eles a pestanejar... Afirmava-se na cadeira, dava tapas no rosto, forçava os olhos, pero eles pecavam, vacilavam, o corpo mole era mais forte, no entanto o espírito mais valente... enquanto batia nas teclas teve uma ideia... levantou e foi olhar a nova aquisição, somente para distrair... Buscou no guarda-roupas embrulhado numa camisa e levou para o quarto. De pé na frente do espelho empunhava o revolver, que perigo uma arma na mão de um bêbado. Mirou o seu reflexo com paixão, sem camisa, músculos pequenos, porém definidos e duros como pedra, experimentou bater, tac tac, bateu. Peito poderoso, um pedrador, um guerreiro. Olhos sérios e intimidadores, gritou na frente do espelho para gabar-se, “'Está falando comigo? Está falando comigo?'” E assustadoramente o reflexo o respondeu gesticulando, “Sim, estou falando com você!” Joaquim não o reconhecia, “Quem diabos é você e o que quer aqui?!” E o Reflexo respondeu orgulhoso, viril e esmagadoramente, “Não quero nada de você, seu verme!” Joaquim já a tremer, perguntou, “Que porra é essa, quem é você?!” O Reflexo num semblante diabólico e olhos negros como da morte, o respondeu, “Ora veja só! sua mocinha! Que bela mulherzinha você é! Quem te viu uma década atrás trancado num quarto te veja agora! Cade o ódio das pessoas e as frustrações? Sumiram?” Joaquim ficou perplexo ante aquele ator funesto de si mesmo que tinha vida própria, “Que merda você está falando? saia da minha casa antes que eu te mate”, o apontou o revolver. O Reflexo vendo tal ato, virou a cabeça para trás e gargalhou, “Seu imbecil, atirará em si mesmo?!” Joaquim com as pernas bambas e sem pensar respondeu, “Vou!” 43
  • 44. E o Reflexo, apesar de medonho pareceu-se equilibrado, “Olhe para si mesmo! Veja a sua vida... quem é você? Bonito, inteligente, amigo, amante, professor. Todos te amam! Absolutamente todos! Alice, sua namorada besta que irá aonde você for e te obedece fielmente... Aninha, tem você como próprio pai... Seus amigos, todos gostam de você!, veja que não tem inimigos, e mesmo as pessoas que te odiariam te acham uma excelente companhia!... Na escola os professores e coordenadores te puxam o saco por ser o 'intelectual a literatura!'... Os alunos te veneram, se comportam como cachorros, obedientes e esperando osso. Tudo que falar a eles vai ser a verdade! e não importa que você diga que não a possui. Acha que eles ligam para isso? Nunca te questionariam, eles todos sonham ser você algum dia... E quanto as gêmeas... elas mais que ninguém te amam, o professor por quem ambas se apaixonaram... Que sujeito de merda você é! Joaquim aguentava-se de pé com esforço e perguntou, “Afinal de contas o que é você?!” O reflexo deu umas voltas em torno de si mesmo, olhou o chão pensativo e de repente fitou joaquim numa expressão raivosa, “Se você é a ponta do iceberg, eu sou a base! Você é somente uma capa de mim, ilustrada o bastante para ser bonita para as outras pessoas e para si mesmo... Porém eu... eu sou o conteúdo! Sou você em essência, sem mentiras. Sou você de verdade. Estou no espelho, pero o reflexo verdadeiro é você, um personagem... enquanto eu sempre existi. Trancava-se solitário em meios aos livros, a tentar racionalizar seus problemas e sublimá-los em atos ridículos, uma piada, um estereótipo de bons exemplos! Enganou os outros, e enganou mais a si mesmo, tanto que julgou ter conseguido! Pero não conseguiu! Aqui estou eu tentando sair e você não deixa! Pare de fingir seu animal ancéfalo! Professor de ensino fundamental? ta brincando? Eu sei o que você quer, eu, mais ninguém! Talvez não seja hora... vou deixá-lo voltar para seu mundo de faz de conta! Quando acordar não se lembrará de mim!” Joaquim olhou sem compreender, boquiaberta com o que tinha acontecido, e suplicou uma derradeira pergunta, “O que quer dizer quando eu acordar?!” E o Reflexo sorriu num escárnio, “Você está dormindo!” Joaquim acordou babando no teclado, levantou a cara vermelha com marcação das teclas... tinha a sua frente letras misturadas sem formação de palavras. Desde quando estava dormindo? Deixou para lá, fechou o notebook e foi para a cama, estava exausto. CAPÍTULO XX O PAPEL é minha zona de conforto. Fora dele corro acuado. De mestre passo à burro, de autosuficiente para alienado. Escrever é uma poderosa força viciante. Que não inspira, pero me torna dependente. 44
  • 45. CAPÍTULO XXI Acordou cedo e bebeu todo café que tinha em casa, pôs-se à máquina motivado, era agora e não ia desistir, digitou, tec, tec, tec, tictictictic, tec, tec, tec, tec, O ESCRITOR DESMIOLADO POR JOAQUIM CASALESCCHI “Sol de rachar mamona”, três da tarde. Gente suada num ônibus lotado. Estava demorando tanto para chegar que Luís, XXVII, nem lembrava-se mais porque estava lá. Pôs a cara na janela, tentando roubar algum ar para saciar seus pulmões cansados e doentes. Aspirou fundo, e o ar quente, seco e empoeirado entrou rasgando suas vias aéreas e ferindo seu peito. Não saciando, pero invadindo. Tossiu, tentou escarrar, porém o muco encontrava-se empedrado. Tirá-lo seria tarefa difícil. Desistiu. Minutos depois, sufocando em meio àquela gente suja se apertando, empurrando, a bater cotovelo na cabeça, bolsa no nariz, bunda nos olhos... ele recorreu de novo à janela. Era isso ou morreria. Aspirou com o máximo de energia, e correu para dentro de si a fumaça mortal de gasolina queimada. A cidade e o avanço tecnológico era algo para se orgulhar. Como evoluímos! Desceu na frente de um banco. Lembrava-se, estava ali para sacar a aposentadoria do seu pai. Caixa, bem vindo, insira seu cartão, aguarde a verificação, retire seu cartão, digite sua senha, digite sua senha novamente, escolha uma das opções, saque, dinheiro, escolha entre os valores mostrados na tela ou digite a quantia: notas disponíveis, D e X. Digite sua senha, aguarde a contagem de cédulas, tiiiiiiiiiiiiiiiii, pegue seu dinheiro, deseja algo mais? Sim, Não, Cancelar. Catou o bolo de notas, contou com cuidado e enfiou na carteira. Dois passos, “Isso é um assalto, passa a carteira ou você morre!”, disse o ladrão. Luís pensou em como sua família viveria sem o dinheiro, passariam um mês sem comer, um mês sem pagar contas, no mês seguinte receberiam a mesma quantia, pero daí não poderiam pagar as contas atuais e as vencidas, teriam de escolher entre passar fome e ter energia, água, e pediu, “Por favor, pera aí cara, eu preciso do dinheiro." Tentou correr e foi atingido por dois tiros de calibre XL, primeiro pegando a cabeça e outro as costas. Gritaria, gente correndo... porém depois acalmaram-se e formaram um círculo envolta de Luís, “Não encosta não, não encosta não", podia se ouvir entre os “ele ta morto?", e o “o samu vem vindo”. O socorro estava para chegar. Talvez demorasse. Pacientemente sem sair do lugar Luís ficou lá estirado, de bruços, pernas afastadas, braços tortos, boca aberta, olhos fechados, inconsciente, e o sangue jorrava do furo que tinha no crânio, junto da massa cefálica que despossuía a cabeça e tomava conta do chão, em uma poça fedida e viscosa. Após uma hora a ambulância chegou, abanou as moscas, uma mulher veio com um saco preto e o socorrista que verificava o corpo a olhou e fez um “não", com a 45
  • 46. cabeça. Então ela guardou o saco, trouxe a maca, amarraram os membros e botaram dentro do carro que ligou a sirene e saiu em disparada naquele já conhecido trânsito. Foi levado para o melhor hospital da região, o pronto socorro... e lá esperou por mais um tempo, até os médicos costurarem a pele para impedir que continuasse a sangrar. Neste ponto havia perdido cinquenta por cento do cérebro, contudo por um milagre estava vivo. No mesmo dia foi mandado para casa, não tinham leitos suficientes para cuidar de pacientes saudáveis. Se o lado que perdeu fora o intelectual, sobrou-lhe a coordenação motora, e os pais lhe deram uma caneta e papel. Afinal, agora que era um incapaz, haveria de ter dons artísticos. Eles confiavam nele, e ele mais ainda no talento nato. Escreveu em segundos uma belíssima poesia, e se pôs a exibí-la brioso, versos perfeitos, muito conteúdo, muita reflexão. Era agora um grande escritor, provavelmente o melhor do século. Realmente achava que aquilo que escreveu era bom, magnífico, estupendo. Fim. “Que merda de texto!", queixou-se Joaquim batendo no teclado, “Eu devo ser desmiolado mesmo!”, precisava de mais leitura, pensou, será que estava a ler pouco? justo quando havia conseguido escrever, não lhe agradou? terão os escritores trabalhos tão ruins em meio há obras magnas, ou foi só aonde sua inteligência conseguiu ir?, Ctrl+A, Delete! CAPÍTULO XXII BATERAM-LHE A PORTA, foi atender com a veia da testa latejando de raiva, cara fechada, passos duros, mão pesada... open... era José, "Iai cara, tudo bom? vamos beber?", convidou o careca musculoso de forma humilde. "Vamos, entra aí, vou pegar o documento", disse Joaquim, ele estava estressado e precisava de uma cerveja. "Vou ocupar aqui o seu banheiro, beleza?", falou José em forma de informação, não de pergunta. Joaquim voltou e disse, "Vejo que sobreviveu a noite passada.” "Sobrevivi à bebedeira e à mulher reclamando, o pior de tudo.” Entram no bar, escolhem uma mesa, levantam a mão e pedem a bebida, José reparou a caneta que Joaquim nunca tirava do bolso e comentou, "Iai escrevendo muito?” "Nada! tentei, pero não saiu nada, só lixos e palavras desconexas misturadas, talvez eu devesse me aposentar...”, disse Joaquim pegando a caneta do bolso e fitando-a com tristeza. "Sim, seria bom se aposentasse, caso isso te traga mais estresse que prazer." "...Me aposentar da vida.” 46
  • 47. "Quanta besteira, sempre achei que levasse esse negócio de escritor a sério demais, você precisa de menos compromissos, mais tempo livre, arejar a cabeça... precisa ver essa questão de escrever como passa-tempo, lazer, não como necessidade, trabalho.” "Simplesmente penso que posso fazer, fico mal quando não posso.” Ainda era cedo, tinha pouca gente no bar, algumas jogando sinuca, felizmente não tocava música ruim, não havia música... só o som do azul escuro do céu tornandose mais forte até que ficasse preto, e Joaquim olhava, esperava por esse momento, essa transição do dia, não eram os maias que acreditavam que o pôr e o nascer do sol, o morrer e o nascer do dia, eram respectivamente a morte e a reencarnação? Joaquim pensou que pudesse reencarnar numa nova fase, e como o sol precisasse de descanso. Veja, nem o sol trabalha tanto... José havia realmente dado um bom conselho. "Fazia tempo que não me visitava, por que começou a vir agora?" "Nada em especial, assim como você preciso de umas férias", disse José colocando mais sal na cerveja. "A propósito eu nem sei quando vão ser as minhas...", comentou Joaquim. Logo vinha desfilando algumas rabudas em seus shorts de miniatura, José seguiu-as com os olhos, aquelas bandas indo para cima e para baixo, pesadas... "Tantas rabudas, dá vontade de meter em todas." "São feias.” "Pero tem bunda.” "Não gosto de mulher feia.” "Você vai comer a cara ou a bunda?” "O corpo todo é um conjunto, e se eu também quiser comer a cara?", argumentou Joaquim. José não falou nada, apenas sorriu e balançou a cabeça, foi obrigado a concordar. "E a vida?" "Está boa", respondeu José com um olhar de lamento, que se não fosse a altura e os músculos daria impressão que estava prestes a chorar. "Você não parece bem." "To bem sim.” "Algum problema?” "Problema a gente sempre tem, pero a vida anda.” "Qual problema?” "Nada demais, só preciso me refrescar.” "Sabe que sal em demasia faz mal, não é?” "Retém líquido, me faz ficar mais forte.” "Estraga os seus rins.” "A bebida também estraga e estamos bebendo.” "Tudo tem que ter moderação e você está bebendo demais.” "Você também escreve demais.” "É diferente.” 47
  • 48. "Não te faz mal também?” "Porém não me prejudica o corpo.” "Aé, quando foi a última vez que fez exercícios? E quanto tempo já ficou sem dormir?” Joaquim não disse nada. Calou-se bebendo a cerveja. "E a mulher?" "Zangada.” "Pelo quê?” "Bebida, traição, dívidas, problemas.” "E está resolvendo?” "Ela está sempre zangada, briga por tudo.” "Típico das mulheres.” "A minha é mais.” "Querem separar?” "Não, eu gosto dela.” "Mesmo ela brigando?” "Tem suas qualidades, ela cuida de mim.” "Você precisa de cuidados?” "Todos nós precisamos.” "Alguém tão forte?” "Quanto mais alto, maior a queda" "Você me parece capisbaixo demais.” "Não é nada.” "E o filho?” "Tudo bem. Como ele vai na escola?” "Ótimo, outro dia me perguntou sobre física.” "Física?” "Física.” "E você respondeu?” "Era coisa simples.” "Não sou bom com física. Aliás não sou bom com nada.” "Não é verdade. Todo mundo é bom em alguma coisa.” "Menos eu.” "Deve ter algo.” "Bater em vagabundo?” "Isso não é qualidade.” "Beber até cair?” "Isso também não.” "Trair sempre que sai de casa?” "Você não tem feito isso.” "Usar porcarias?” "Você deveria parar.” "E se eu eu não puder?” "Todo mundo pode.” 48
  • 49. "Nem todo mundo pode.” "É só querer.” "Querer não é poder.” "Querer é tentar. Tentou?” "Não vejo necessidade.” "Por que não?” "A vida já ta estragada mesmo.” "Quer criar seu filho assim?” "Se eu morrer ele arranja outro pai.” "Não pensei que pensasse dessa forma.” "Não penso. Falei sem pensar.” "Deveria pensar.” Calados. O ar ficava mais frio, o bar não tinha paredes. Podíamos ouvir agora de muito longe o último canto de uns Bem-te-vis. "Preciso ir para casa mais cedo", disse José. "Podemos ir mais cedo sem problemas.” "Preciso de um café para acordar da cerveja.” "Lá em casa eu te faço um café. Só preciso passar no mercado primeiro.” "Você tomou todo café que tinha em casa?” "Tomei.” "Adiantou?” "Não.” "Não conseguiu escrever?” "Consegui, pero ficou ruim.” "Não gosta do que escreve ou não gosta de você?” "Não gosto do que escrevo, consequentemente menos de mim.” "Vamos?” "Vamos.” Levantaram, pagaram a bebida e foram embora. Passaram no mercado da esquina e entraram na casa de Joaquim. "Vou fazer o café.” "Tá", José sentou-se no sofá para esperar. Depois de um tempo Joaquim o trouxe uma grande caneca de café que José aceitou agradecido. "Cerveja para dormir, café para acordar", disse Joaquim. "Café é bom, me lembra da infância.” "Por quê?” "Minha mãe não vivia sem café.” "E você não bebe muito?” "Não. Em casa ninguém bebe.” "Café não faz tanto bem para a saúde assim.” "É. Devemos nos preocupar com a saúde.” Ficaram a olhar pras paredes pensativos, quando Joaquim deu por si José estava a chorar e limpar as lágrimas dos olhos com o antebraço. 49
  • 50. "O que foi?", perguntou. "Nada.” "Fala.” "Não foi nada.” "Cisco?” "Um cílio entrou.” Terminaram de beber o café e José levantou despedindo-se, "To indo pra casa, valeu pelo café.” "De nada, valeu pela cerveja, apareça sempre!” "Falo", falou José dando tapas nas costas de Joaquim. "Falo.” Podia um homem daquela idade e tamanho chorar? Joaquim não acreditou, havia de ser só um cílio no olho. Foi à cozinha pegar mais café. CAPÍTULO XXIII DEU UMA BOA OLHADA ao seu redor. Quadros de flores que a mãe pintara. Ventilador de teto com lâmpada flourescente. Estante com livros que já leu, precisava comprar mais. Uma escrivaninha antiga. Um computador. Duas portas que rangiam, uma cadeira dura, seu violão no pedestal. Máquina de escrever. Café, papel, jornal, óculos. Sentou-se, colocou a caneta na boca como se a fumasse e a fumaça saía, será isso resquício do vício ou retornava à fase oral? Comer, não estava com fome. Escrever, sabia que não ia conseguir. Filmes, não baixou nenhum novo. De repente lembrou-se da tevê na sala. Ele tinha uma tevê! Pôs-se assentado no sofá, controle na mão... power.. a caixa liga, “Assaltante mata vítima esta manhã, durante assalto à residência no bairro centro. O encanador Pedro da Silva lutou contra o ladrão e foi baleado no peito. Socorrido, morreu à caminho do hospital.” Ring! Ring! Ring! Ring! Telefone, "Alô” "Alô, Joaquim?” "Oi mãe! como vai a senhora?” "To bem e você meu filho?” "Bem.“ "Você ta ocupado?” "Não! pode dizer!” "Liguei pra perguntar se você pode vir no aniversário do seu pai no sábado. Vamos fazer um bolo para ele.” "Sábado? posso sim.” "É, sábado, é pra alegrar o velho, ele ta precisando.” "Vou sim... é... uma coisa, eu posso levar a Alice?” "Que Alice?” "A minha namorada, mãe...” 50
  • 51. "Ah, sim! pode trazer.” "Ela tem uma filha linda.” "Pode trazer pra eu conhecer.” "Certo, eu só preciso ver se ela pode ir.” "Tá. To te esperando, viu?” "Estarei aí, que horas mesmo?” "Ah! venha de manhã, filho, passar o dia.” "Certo. Algo mais mãe?” "Só isso mesmo, Joaquim, tchau.” "Tchau, boa noite.” "Boa noite.” “O comerciante Paulo Henrique Dias é acusado de assassinar à pauladas seu funcionário Felipe Alves nesta quarta-feira. O atacou em seu mercado localizado no bairro Jardim das Américas. O motivo foi uma discussão à respeito do sumiço de dinheiro no caixa.” Power, desligou a tevê, "Problemas bastam os meus.” Bolso da calça, celular, contatos, Alice, discar, "Oba, amor.” "Oba, Jo, como vai?” "To bem e você?” "Bem, o que manda?” "Esse final de semana ficou para irmos à Chapada, não é?” "Sim, por quê?” "Minha mãe acabou de me telefonar convidando para irmos no aniversário do meu pai no sábado.” "Ah! E você vai?” "Vou. Você quer ir?” "Claro, quero conhecer sua mãe. Pero não vou incomodar?” "Não, pode levar Aninha também.” "Certo.” "Outra coisa, passa aqui para almoçar amanhã!” "Às XI?” "É.” "Ta bom, passo aí.” "Certo, só isso, beijo.” "Tchau, beijos.” Tédio. Som do ventilador, fuufuufuufuufuufuu. Pegou uma pilha de jornais de cima da estante e jogou na mesa, junto de cola, tesoura e fita adesiva. A caneta passou para detrás da orelha. Dirigiu-se à vitrola, viu a coleção de vinís e pôs a agulha sobre um “bom disco de Noel”. Cantarolou, “mumulher em mimim fizeste um estrago, já de nervoso to fifificando gago, não poposso...” 51
  • 52. Desmembrou os cadernos, cidades, economia, política, cultura, retirou. “XLVI livros de Allan Poe disponibilizados na internet”, que interessante, indicará aos alunos. Pero não gostava de ler em digital, havia na cabeceira dele uma coletânea completa com todas as obras do escritor, "Espero que o impresso nunca acabe." Riu vendo as tirinhas de “Hagar”, “Mother Goose", e “Baby”. Tomou posse da afiada tesoura e começou a recortar, guardaria. Abriu as folhas em branco que mandara encadernar com esse intuito e colocou-as lá. Pensou que não pensava há tempos nas gêmeas, gostariam da prova surpresa de segunda? ou ficariam com raiva do professor igual ao restante dos alunos? Provavelmente gostariam, mostrar iriam aquele ótimo sorriso, balançar iriam o corpo, fazendo gestos de contentamento, de excitação, “esparamos sair bem”, mal não poderiam ir, o lápis entre os dedos pequenos a grafar cuidadosamente as letras miúdas, redondinhas, ligadas uma na outra e ora trocando as minúsculas pelas maiúsculas, tudo na mesma palavra. Então ao voltar para casa poria os óculos para enxergar e constantar o esforço que fizeram para provar carinho. CAPÍTULO XXIV DA PONTE, cedinho, pássaros cantando, mendingos dormindo na praça do Porto, árvores, pombas ciscando, sol começava a libertar-se das trevas e num trabalho árduo castigar iria a cuca do “pé rachado”, outra alcunha para Cuiabano. Poucos carros, pero os que vinham de V.G. pra cá, e os que iam de cá pra lá avistavam Joaquim olhar o longo rio em seu verde escuro. É dele a água, os peixes e o minhocão, lenda esta que conta que um monstro tão grande que o rabo ia até a igreja... balançava, criando ondas, terremotos, tantos que até destruiu a antiga catedral Matriz. Aterroriza os pescadores, os come. Quem nasce aqui cresceu ouvindo este mito. O rio em si não é de todo feio, comprido, espelha o sol, humidifica o ar. Porém o vento vem trazendo um cheiro tão forte de esgoto que é difícil amá-lo, Joaquim pensou, "Ah! meu Rio Cuiabá! Caso não fedesse tanto Te olharia com espanto, Será hoje que o mundo acaba?” CAPÍTULO XXV MESA POSTA. O sol batia violento querendo matar os carteiros. Joaquim refugiou-se com as janelas fechadas, sombra, calma, fresco, silêncio. O pequeno ponteiro de ouro chegava quase no algarismo XII. Será que demorará muito? A salada fria esquentava, o nhoc esfriava. Toc toc, há de ser Alice, ninguém mais, "O senhor quer ouvir a palavra de Deus, irmão?” Pensou, "Corre duro gurizão, senão te meto o facão no lombo!” E respondeu calmamente, 52
  • 53. "Não, obrigado.” Essas formas de expressão sulistas mesclavam com as cuiabanas, afinal tem mais sulista no centro-oeste que no sul. Fez café, quente, doce, vapor saindo, engoliu o primeiro gole, “Que bom!", A campanhia tocou, "Oi, Jo, desculpa o atraso, a avenida estava interditada.” "Toda?” "Só uma parte. A curva era longe.” "Sente-se, vamos comer.” "Vamos, esperou muito?” "Não. Pero a carne não está mais tão quente. Quer esquentar?” "Não, perde o gosto.” "Quer café?” "Primeiro quero algo gelado.” "Tem melância, quer suco?” "Por favor! Enquanto isso vou ao banheiro.” Alice foi ao banheiro, lavou as mãos, rosto, pescoço, fez xixi, checou os olhos: ainda estavam verdes e brilhantes. Retirou o batom, prendeu o cabelo escuro, descalçou o sapato, e quando saiu havia uma jarra a esperando. Bebeu bastante, estava com sede, refrescou-se, "Não há suco melhor que o de melancia!” "Não há", Joaquim respondeu. "O que fez de comida?” "Só isso, não sei cozinhar.” "Ah! já está bom, você está se superando.” "Espero que esteja gostoso.” Alice deu umas garfadas, mastigou, deu outras, "Está bom, pero a salada está meio salgada.” "Sempre erro no sal.” Ela comia rápido. "Está com pressa?” "Não, por quê?” "Esqueci do seu costume de comer rápido.” "Aé, é que estou com fome.” "Comer de vagar faz bem.” "Só para quem não está com fome.” "Vai engordar.” "Você me acha gorda?” "Não.” Joaquim riu. "Eu vim aqui pra você me chamar de gorda?” "Como foi a aula?” "Boa.” "O que deu?” "Durkheim.” 53
  • 54. "Coisificação?” "Debate sobre 'O suicídio'.” "Em qual sentido?” "Usei de exemplo um escritor que suicidou, assim como a irmã e o pai fizeram.” "Me lembro desse capítulo no livro. Qual escritor usou?” "'Ernest Hemingway'.” "Ele era alcoólatra, não?” "Sim, e tinha depressão.” Alice com as veias da bochecha a transparecer. Era tão linda com seus dentes curtos e queixo largo. "Já te disse que fica mais bonita ainda com essa roupa social?” "Já. E eu já agradeci.” "Tenho vontade de falar sempre.” "Junto com as partes que vai morder minhas bochechas.” "Vou.” "Depois, você queria falar sobre amanhã, não?” "É. Vamos sair cedo, que horas posso passar?” "Passa às cinco.” "Aninha vai estar pronta?” "A acordo.” "Você falou pra ela que vamos?” "Falei.” "Ela quis ir?” "Quis, não ia fazer nada.” Joaquim bebeu o café e foi pegar mais, "Vai ficar preto.” "É por isso que eu bebo.” "Pra ficar preto?” "A gente precisa ter uma corzinha pra proteger do sol.” "Usa protetor.” "Dá espinha.” "Usa sombrinha”, (s.f. 1. Pequeno guarda-chuva para proteger do sol). "A minha estragou.” "Uhm. E não comprou mais?” "Nevermore!” Alice riu e completou, "And said the raven.” "Meu pai está fazendo LXX anos.” "Eles nunca pensaram em vir pra Cuiabá?” "Não. Eles gostam de lá, se acostumaram. Além disso o velho gosta do trabalho de carpinteiro.” "Não é serviço pesado?” "Ele é mais forte que eu, precisa ver.” "Acredito.” 54
  • 55. "Além disso estão financeiramente confortáveis lá, é menos quente também. "Ele precisa trabalhar?” "É um trabalho artístico, dessa maneira é uma necessidade.” "E a sua mãe?” "Escreve, pinta, conversa, cuida do jardim.” "Eles não gostam do calor?” "Morreriam.” "Você não me disse que seu pai tinha uma cutelaria?” "Tem, cutelaria Casalescchi.” "O que fabrica?” "De tudo.” "Tudo o quê?” "A maior parte é encomenda, não é fábrica, é artesanal.” "O que ele faz?” "Facas, instrumentos, talheres.” "Ele tem muitos pedidos?” "Até tem, pero trabalha pouco.” "Por quê?” "É um trabalho muito difícil, está velho, não tem mais ombro que aguente. Já perdeu a conta de quantas vezes foi ao médico.” "E por que ainda faz?” "É um valor simbólico.” "Vou ao banheiro.” A mesa posta foi retirada. E Joaquim guardou as sobras e levou a louça à pia. Depois assentou-se no sofá com duas xicaras de café, esperando Alice. Esta veio sentar-se junto dele, dando umas bicadas no líquido quente e as pernas cruzadas, "E Aninha?” "Está bem. Sentindo falta do pai.” "Por que ela não passa uns tempos com ele?” "Viajou, diz estar ocupado.” "É verdade?” "Vai saber. Ela precisa de um pai novo.” "Uhm.” "E então?” "Então, o quê?” "Se decidiu?” "Sim, pero preciso de mais tempo.” "Estamos esperando há dois anos.” "Quer experimentar vir viver comigo?” "Não. Primeiro se case.” "Por quê?” "Porque se não formos casar vai ser em vão.” "Uhm.” "Preparada para amanhã?” 55
  • 56. "Sim. Só preciso cuidar de umas coisas.” "Quer ver filme?” "Não disse que não tinha filme novo?” "Com você vale a pena rever alguns.” "Alguns?” "Outros já vi demais.” "O que quer ver?” "Não sei. O que sugere?” "Algo romântico.” "Água com açúcar?” "Sim.” "Podemos ver algo melhor.” "Estava brincando, procure.” "'The last man on the earth'”? "Do Vincent?” "É.” "Não. Já vi tanto.” "'Kagemusha'”? "Kurosawa?” "É.” "Não. Longo demais.” "'O processo'”? "Com Anthony?” "Sim.” "Vamos ver 'Eraserhead'!” "Do David?” "Sim, talvez você se decida.” "Bom, acho que o casamento deles não deu muito certo.” "Não seja chato.” Miravam neste momento, ambos em cada canto do sofá, fazendo a quina de travesseiro, um dos momentos mais nojentos do filme, aquele que se corta a galinha e ela espirra, "Que nojo.” "O efeito é legal.” "Muito trash.” "O bebê é mais.” "Um monstro.” "Foi assim com a Aninha?” "Foi, pero só no começo, hoje é um anjo.” "É.” Moço de cabelo espetado, e agora, o que fará com a criança? O filme acabou, o sol estava indo embora bem de vagar, lentamente, progressivamente, as luzes ficavam esmaecidas, o seu demasiado clarão subia gradualmente o tom escuro, burn, burn, a 56
  • 57. bola amarela tornou-se um laranja forte, em alguns pontos das núvens formava-se linhas extensas de arrebol, como uma tinta vermelha jogada num quadro azul de Pollock; como um avião riscando o céu com rubra fumaça. Ou, melhor descrevendo, como se a gigante abóbada celeste fosse toda de algodão e em alguns pontos pegasse fogo, amarelo, laranja, vermelho, cores quentes, intensas, belíssimas... e do outro lado da cor, no fim do horizonte, pertencendo mais ao céu que à terra, a montanha da Chapada vista ao longe, acabaria ali Cuiabá, uma de suas limitações, uma fuga da cidade, dos carros, para mergulhar nas cachoeiras, nascentes, no alto sem fim de montanhas, respirar as árvores e os bichos; os pássaros que desfrutavam da liberdade natural da vida de um ser etéreo; o próprio jardim do Éden; distante, intocável, seguro... onde os ventos correriam apressados despencando de picos elevados para os mais baixos e a subir vagorosos os montes, entre as folhas e o suor dos animais no estado legítimo de amor e harmonia. "Farei mais café.” "Viciado.” "Quer tomar banho comigo depois?” "Pra quê?” "Pra irmos passear tomando garapa.” "Vamos!” O cheiro forte de café tomou conta da casa, Joaquim mergulhou nos cabelos pretos de Alice a beijar o pescoço dela, apertar forte os ombros com a mão, a despir a se enfiarem no chuveiro juntos. A água a deslizar entre os quadris largos, a pele macia, a banhar o rosto agradável e a cor d’água fundir com o verde dos grandes olhos. Molhados os cabelos espixavam, modelando-se rente a cabeça e as costas. Joaquim esfregou o sabonete e esse espumou em demasia, massageou a carne gostosa de Alice, os seios, espáduas, braços, pescoço, dorso estreito, da cintura às coxas volumosas e firmes, até a panturrilha e pés delicados. Esta catou um pouco da espuma com a mão e assoprou na cara dele, dizendo, “espumas flutuantes, espumas flutuantes” ele repetiu, “espumas flutuantes”; o brilho mágico da íris e os dentes a sorrir, a água foi ligada e todo sabão deixou-os, numa lisura, limpeza e bom cheiro. Apertaram-se entre a toalha grossa que secou-os, restando a pureza da pele hidratada cheirando à rosas. O sol havia encaminhado-se ao oriente, emprestando a cidade para a lua que trazia o frio. Faróis e mais faróis cegantes corriam do trabalho para casa. Academias, bares e lanchonetes sempre cheios, com cadeiras nas calçadas, calçadas que em Portugal chamam-se passeios, e lá usam para passear. Porém em Cuiabá são uma extensão dos restaurantes de fastfood e botecos. O centro as possui extremamente pequenas em largura, e altas o suficiente para impedir o andar dos cadeirantes. Alice e Joaquim pararam numa garaparia, "Boa noite, duas garapas, por favor, para levar. Aqui, obrigado.” "Por aonde vamos?", perguntou Alice. "Tomaremos o caminho da universidade.” 57
  • 58. "Você quer andar tudo isso?” "Por que não? depois te levo para casa. Ainda está cedo.” "Para cima ou para baixo?” "Para baixo. O mercado está logo ali, quer comer?” "Não. Preciso voltar para jantar com Aninha.” "Quer que eu vá buscá-la?” "Não, demorará demais.” "Tem razão.” "E amanhã precisaremos acordar cedo.” "Faz sentido, não havia pensado nisso.” "Não levará nenhum presente para seu pai?” "Não me lembrei. Alguma sugestão?” "Sugiro que pare de beber café.” "Por quê?” "A sua memória está falha.” "E meu coração acelera. Pero acho que é por te ver.” "Quanto ao presente, que tal um vinho?” "Lá eles tem vinhos melhores.” "Uma roupa?” "Meu velho é cheio de roupas.” "Meu velho? onde aprendeu a falar assim Gatsby?” Joaquim gargalhou, "Precisamos parar com essas citações.” Alice riu e disse, "Peguei sua mania.” "É mania de professor.” "É mania de não pensar por si só.” "O que sou eu senão um amontoado de informações?” "Um dicionário.” "Uma enciclopédia de coisas inúteis.” "Só está a compartilhar seus gostos.” "Com a pessoa que eu mais amo.” "Você é uma espécie de romântico ou pervertido?” "Qual a diferença?” "Muita.” "Digamos que eu tenha sempre uma excitação.” "Pelo quê?” "Por quem amo.” "Que bonitinho.” "E desta maneira nunca te largarei.” "Nunca?” "Jamais.” "O que te excita?” "A sua beleza.” 58
  • 59. "E amanhã quando eu ficar velha?” "Amanhã pelas suas rugas.” "Ta brincando, né?” "Já te acompanho há seis anos.” "Muito tempo.” "Pouco tempo.” "E não se cansou?” "Não enquanto você puder me ensinar.” "Já sabe de tudo que eu penso.” "Nunca para de pensar.” "Assim tudo se transforma.” "E a minha excitação acompanha, deixei o desejo em nosso primeiro encontro.” "E não me deseja mais?” "Não. Agora que a possuo, se torna uma excitação infinita.” CAPÍTULO XXVI IMAGINANDO UMA velocidade média de LX km/h, que divide a distância de aproximadamente CCXII quilometros, com uma simples regra de três, teremos uma viagem de quase três horas, somando com a experiência de visitar os pais com frequencia, - estrada esburacada, e agora junto com mulher e criança e pausas, considero que tenha durado quatro. A cidade de Rondonópolis é a mais industrializada no Estado, céu cinzento tem a terceira maior população, de 200 mil, gente fresca, metida e atraída pelas empresas. A segunda maior economia, que os pobres não tiram um centavo. Não tem nada para se fazer, cercada de mato, fazendas e uma área urbana de fábricas e caminhões. Aninha de impaciência cochilou deitada no banco de trás. Alice vestida de preto e óculos escuros a proteger do sol e combinar com o cabelo, lia quando Joaquim passou num buraco, "Opa, vai de vagar eu to tentando ler.” "Desculpa, amor, é difícil desviar dos buracos, a estrada só tem buraco.” "Tá desculpado.” "O que ta lendo?” Alice mostrou a capa azul do livro: “Minha vida perfeita", do escritor Marcos Miguel José Rodrigues d’Bello Santos. "Você já leu?", perguntou Joaquim. "Já. O que achou dele?” "Ótimo livro. Li em poucas horas.” "Que mais?” "Quer mesmo saber?” "Quero.” "Bom, se leu não tem problema.” "Então fale logo.” 59
  • 60. "Uhm, até a página L eu estava achando muito mal escrito. Pero apartir daí melhorou. E até a CL era extremamente semelhante ao 'Caso Morel' de MCMLXXV do Rubem, com algumas diferenças. No 'Caso Morel', o 'Paul Morel' está preso e escrevendo um livro fictício baseado na própria vida, é divorciado, conhece gente inteligente e rica, (inclusive não gosta dos ricos), a namorada dele 'Joana' viveu em Paris e ele participa de orgia na casa de um amigo. Além de estar contando como cometeu o crime. 'Minha vida perfeita' o 'João' está preso, escrevendo um livro fictício baseado na própria vida, é divorciado, a namorada dele viveu em Paris, conhece gente inteligente e rica, (inclusive não gosta dos ricos) e quase participa de orgia na casa de um amigo. Além de contar como cometeu o crime. O autor caçoa da própria forma de escrever, 'isso aqui é diálogo de filme brasileiro', devemos lembrar que Rubem Fonseca é roteirista e o 'Caso Morel' é escrito de forma parecida com teatro.” "Que mais?” "Porém, a partir da página CL segue o velho conto de 'Édipo' de Sófocles, da desconfiança do um filho ilegítimo, igual 'Dom Casmurro' de Machado, e o final é muito fácil de presumir.” "Você só fala mal!” "Não estou falando mal. Apenas fazendo observações.” "Acha 'Minha vida perfeita', uma leitura necessária?” "Bom, se você já leu Rubem, Sófocles e Machado, não tem porque lê-lo.” Quando Aninha levantou "Já chegamos?” "Ainda não querida", disse Alice. "Estamos quase lá, Ana, descanse mais meia hora. "Vamos parar para almoçar?” "Não, filha, daqui a pouco chegamos, e se pararmos pra comer demoraremos mais ainda.” "A não ser que você queira ir ao banheiro, quer?", perguntou Joaquim. "Não.” CAPÍTULO XXVII A MESA REPLETA DE COMIDA muito bem feita e deliciosa. A senhora Casalescchi os havia esperado com o que há de melhor. O pai sorria por ver toda família reunida, os velhos e os futuros Casalescchi. Alice estava contente por tê-los conhecido, talvez fosse isso o que faltava no relacionamento dela, maior proximidade. Aninha cogitava na cabeça se casados, ela também seria uma Casalescchi, e Joaquim simplesmente tinha orgulho dos pais. "Passa a salada", disse Alice para a filha. "Quer o molho?", perguntou Joaquim. "A carne está ótima", elogiou Aninha. 60
  • 61. Seu Casalescchi inicia um assunto, "O que tem feito filho?” "Nada pai, só o trabalho na escola mesmo.” "Tem escrito?” "Ultimamente não.” "Ele anda estressado", argumentou Alice. "Por quê? algo te perturba?", perguntou a mãe. "Está com dívidas, filho?” "Não pai, apenas não tenho escrito.” "Demasiado estranho. Sempre escreveu muito.” Silêncio. "E o casamento de vocês?", perguntou a senhora. "Ah! estou esperando o Joaquim decidir.” "Tem que decidir logo Jo, eu quero os meus netos.” "Os terá, mãe... só não sei quando.” "Por que a demora?", perguntou o senhor. "Ainda preciso estudar.” "Mais? já estudou tanto", disse o pai. "Nunca paramos, não é?” "Sim, você ta certo filho, estudar vem em primeiro lugar.” "Antes todos pensassem assim!", argumentou Joaquim. Alice o fitou de soslaio, "Não estou falando de você, amor. É só que quero fazer o doutorado.” "Entendi", disse Alice. Silêncio. "Quando casarem eu também serei uma Casalescchi?", perguntou Aninha. "Claro", respondeu Joaquim. "Bem, não no cartório", disse a mãe. "Poderá usar como nome artístico", comentou Joaquim. "Para que um nome artístico?", questionou Aninha. "Se quiser um nome artístico de escritora poderá pegar o sobrenome do Jo", explicou o senhor. "E se eu não quiser escrever?", perguntou Aninha. "Então terá de deixar a família", brincou Joaquim. Todos riram. "Pelo jeito você também terá de deixar a família", disse Alice. Joaquim fez um olhar triste. "To brincando, Jo!", continuou Alice. "Eu sei. "Olha o melindre!", disse Alice. "Não sou melindroso.” Troca de assunto. "Ficarão até amanhã?", perguntou a mãe. "Se for possível", respondeu Joaquim. 61
  • 62. "Claro", disse a mãe, "Eu até limpei os quartos pra isso mesmo. "Ah! obrigado!" "É bom passarem o final de semana com a gente já que vem tão pouco.” "Venho de dois em dois meses, mãe...” "Tão pouco!” "Na verdade preciso levar vocês para conhecerem a casa na Chapada.” "É bonita?” "É sim", respondeu Alice. "É, pero preciso arrumar os móveis, dar uma limpeza, cuidar da piscina.” "E quando vamos lá?", perguntou o pai. "Assim que eu botar os móveis, o quarto de vocês está sem cama.” "Cama é o de menos", respondeu o pai. "Quem liga pra cama?", disse a mãe, "Os japoneses dormem no chão.” O senhor muda de assunto. "Vai partir o bolo agora?” Ao anoitecer dividiram-se em três quartos, um casal em cada quarto e Aninha com um próprio. Num quarto simples, abajur, ventilador de teto, lâmpada acesa, paredes verdes, janela fechada, lençol colorido de flores, travesseiro com desenho de nuvem, Joaquim e Alice prontos para dormir. Ela ao lado direito, conversam, "Setenta anos! onde estaremos nesta idade?", questiona Alice. "Casados e cuidando dos filhos já grandes, que vão se casar também.” "Você fala com um pouco de pessimismo.” "Não quis parecer.” "Não te agrada mesmo a vida de casa e família?” "Agrada e muito, dou muito valor a família.” "Não parece, Jo.” "Juro que sim. As minhas aventuras não vão durar eternamente, um dia vou ter de me acalmar e sentar um pouco.” "Que bom ouvir isso.” "É, nem conhecia esse meu lado, não é?” "Você não fala muito.” "Você e Aninha já são minha família, e parte de mim!” "Fico muito feliz.” Ela se encostou. "Pode não parecer muito romântico, pero um objeto que tenho fascínio é a caneta.” Ela riu. "Claro! o que mais seria...” "A caneta esferográfica foi uma verdadeira revolução! você sabia que foi utilizada uma tinta que não mancha tanto o papel, com a esfera na ponta que vive rodando, pintando continuamente, impedindo de vazar... e foram poucas as primeiras canetas! elas custavam mais de dez dólares, muito dinheiro na época!” 62
  • 63. "E hoje se paga um real...” "Temos muitas coisas que não sabemos valorizar.” "Eu que o diga!” "O quê?” "Estou até hoje esperando a sua decisão que nunca aparece!” "Pero eu já me decidi!” "Diz que sim, porém ficamos nessa meses, anos...” "Então talvez tenhamos que marcar a data.” "Fará isso?“ "Farei.” "Há algo que quero dizer, espero não ser precipitada...” "O quê?” "Minha menstruação está atrasada.” CAPÍTULO XXVIII ENQUANTO ESTAVA deitado tranquilamente, os olhos mexendo rápido, respiração profunda, a coberta cobria-lhe os pés gelados. A lua lá fora iluminava seu rosto, transpassando o vidro. Ventava o ventilador a espantar os mosquitos, e nem os dois copos de café que havia tomado logo antes de dormir lhe impediu de descansar o cérebro de quem tanto cobra. Take your time my brain, live your dream, your desire, I’m so tired to stop you to do that. Sonhou. Joaquim encontrava-se na festa de um amigo em Rondonópolis. Mesa farta, sorrisos, gente conhecida degustando a cerveja, namorando, conversas sobre filmes, literatura e todo aquele papo que adorava. Lindas mulheres, de poder escolher. Enquanto tinha seu momento de socialização, mirou há alguns metros dele assentada, um belíssimo exemplar de negra. Vestido curto, justo, coxa grossa e preta que brilhava, perna grande, a roupa caía-lhe tão bem a delinear-lhe totalmente o copo saudável, de sensuais curvas, quadris salientes, seios de um volume tão grande... a pele em seu todo muito bem hidratada, apesar de longe, cheirosa, um sorriso alto, lábios para se morder por horas, nariz arredondado. O desejo tomou-lhe num impulso, pero se conteve, controlou-se, continuou a prosa com os conhecidos, porém o olhar já perdido, enfeitiçado, secando totalmente a pobre moça desprotegida, que necessitava de braços a sua volta, para proteger do frio, uma boca em seu pescoçoso para esquentarlhe um pouco. Uma língua em sua língua, para equilibrar o gosto doce com o amargo; outro beiço em seu beiço para comprovar-lhe a maciez; um pouco de branco na pele preta, para poderem fazer juntos as melhores fotos sem cor. "Concentre-se, não perca-se, controle-se, controle,se", repetia para si mesmo. Ela deve ter alguém, há de ter namorado, noivo, ser casada, quem sabe mãe. Não pode incomodá-la, ela precisa de paz, seria muita falta de educação da sua parte ir perturbá-la, “controle-se, controle-se, controle-se”, contudo ela precisava entre aquelas pernas fortes e deliciosas, precisava de algo, precisava dele! 63
  • 64. E ele estranhamente aproximou-se, como se flutuando, como se o vento tivesse o empurrado para lá. Não poderia evitar. Quando deu por si a tinha em seus braços a apertar com força, a beijar descontroladamente sua boca, rosto, pescoço, colo, como se fosse água em abundância para um sedento. Usava força e mais força, sempre mais forte, sempre mais rápido, sempre mais faminto, descontrolado querendo possuíla. De repente encontrou-se caminhando de volta para casa de seus pais, a noite estava fria, em frente a porta a abriu e a casa estava vazia. Procurou, correu de um cômodo ao outro, gritou, "Pais!”, e de novo, "Pais!”, novamente, "Onde vocês estão?! Apareçam! Estou sozinho cá! É perigoso, venham!", corria, procurava, na cozinha levantava a mesa, as cadeiras, como se pudessem estar lá de baixo, era inútil, não estavam. Joaquim solitário, agaixou-se na sala, e simplesmente esperou, talvez para sempre. CAPÍTULO XXIX "Bom dia turma, faremos hoje uma prova surpresa. Por favor esvaziem a mesa e se organizem.” Joaquim começou a distribuir a prova. "Professor, não iríamos dar continuidade a aula de Castro Alves?", perguntou Maria. "Sim Maria, porém eu correria o risco de me extender demais e perder a chance de fazer a prova. Então ao invés disso quero que vocês façam uma redação relacionando a escravidão de antes com a de hoje.” "Quanto vale a prova, professor?", perguntou Carla. "Vale cinco Carla, mais quatro pontos dos trabalhos.” "Professor, pero eu não estudei!", reclamou João. "Não está nada difícil, João, apenas escreva o que te vem na cabeça que te darei nota máxima. Claro que vou considerar as boas ideias e descontar erros de português.” "E o resultado?", questionou Antônio. "A aula que vem será a nossa última, então entregarei a prova e vocês vão aproveitar as férias finalmente.” Tudo pronto, Joaquim se pôs a ler a prova, "Vamos ler juntos”, Art. 149 do Código Penal – Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto. “Então usem isso para argumentar sobre o trabalho escravo abolido em MDCCCLXXXVIII com a assinatura da Lei Áurea. 64
  • 65. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego de MCMXCV até MMIX, XXXVM pessoas foram livres em ações de fiscalização. É claro, lembrem-se de relacionar ao poema e ao idealismo dos abolicionistas, será que o fim do trabalho escravo é só uma ideologia ainda hoje?” CAPÍTULO XXX Às cinco da tarde recebeu um telefonema, um amigo dele chamado Paulo trazia uma notícia, "Alô?” "Alo.” "É o Joaquim?” "É.” "Aqui é o Paulo, lembra?” "Sei, como vai?” "Nada bem, amigo. Aconteceu uma desgraça.” "O que houve?” "José suicidou!” "Quando? como? Onde?” "Ele se matou nessa madrugada de sexta-feira com um tiro na cabeça, foi achado morto no chão da sala hoje pela mulher, que vinha de viagem. Ela chamou socorro, pero evidentemente não adiantou.” "Pero por que ele fez isso?!” "Bem, amigo, estão achando que foi por causa de droga. Ele e a mulher iam se divorciar, estavam endividados, e há um boato que era soro positivo.” "Sim! ele me fez um comentário de leve sobre isso!” "Então é verdade?” "Acho que sim, se encaixa, não é?” "Fatalidade.” "E como estão a mulher e filho?” "Estão na minha casa, não vamos fazer velório porque ele ta muito feio e não tem parentes na cidade. O corpo vai chegar amanhã, vamos enterrar às nove. Você vai?” "Claro! como não!” "Vai ser no cemitério do centro.” "Eu vou! estarei lá.” "Então é só isso. Até amanhã.” "Até.” José estava morto. Inacreditável. Como pode um homem daquele tamanho e tão orgulhoso ter se matado? Joaquim se pôs na cadeira, a refletir. Talvez o tamanho tenha influenciado. Se tivesse aids não iria querer morrer magro e doente, não fazia estilo dele. E as drogas? é certo que usava, porém usava há tantos anos, não vejo porque de serem tão incômodas justo agora. Separação? será que não poderia aguentar ficar 65
  • 66. longe da mulher, que “cuidava dele”? Impossível. Tinha um filho, por que largar tudo? não são os filhos que mais dão força aos pais? o que haverá acontecido... depressão, só pode ser isso. Ver o mundo de forma negra, desiludida... as coisas mais simples parecerem mais cruéis, e as mais belas as mais enfadonhas e tristes. Ah, depressão! não importa quem seja o homem! se não cuidar ela leva tudo que você tem e no final você mesmo... a pior das doenças é psicológica, pois danifica primeiro a mente, corrompe as expectativas, os prazeres... depois o corpo padece e se esvai da pior forma possível. Com a falta de defesa do organismo qualquer doença oportunista te ocasionaria morte. Aids?! não chega aos pés da depressão! Essa sim é uma doença que devemos nos preocupar! Precisava de ar fresco, pois agora a casa encontrava-se abafada e não conseguia respirar. Saiu e começou a andar. Depois de um tempo pensando em quem sabe o que, talvez em nada... estava num pensar em nada. Avistou um boteco e também pensou que precisasse de uma bebida. Adentrou. Lugar pequeno, úmido, sujo, cheiro de cerveja estragada. O vendedor vem vindo, um velho barrigudo com camisa aberta, um crucifixo pendurado no pescoço e um cigarro na mão. Pediu um copo de pinga, foi trazido num copo sujo, tanto faz... estava ali para beber, e não ficar reparando. É nessas horas que o mundo não faz lógica, as luzes incandecentes são fortes demais. Não sente-se o corpo no lugar, como se o mesmo estivesse todo aéreo, a cabeça boba. Se a vida é cruel, quem nós somos afinal? minhocas rastejando por comida, apenas isso. Ouviu vozes, drogados saíam rindo de um beco, viu que alguns deles eram conhecidos. Depois da segunda dose voltou para casa, não tinha porque ficar bêbado, José não iria reviver. Lar doce lar. Um lar estranho, “um quarto humano”. Apenas paredes com tinta, e móveis que nos esforçavamos em comprar, como se representassem vitória ou fossem importantes. Nessas situações nada é importante, e não adianta a gente pensar que sim. José, José... essa estória de suicídio só não é mais estranha por falta de espaço. Sabia que negar é um sentimento trivial, pero não quis evitá-lo. Quais são as outras alternativas? Estava morto, era fato. Porém por quê? o que mais poderia ter acontecido? Dívida com droga, briga na polícia, inimigos? Será que a mulher descontara a traição? Será a mulher enfim a vilã? CAPÍTULO XXXI PROCUROU NO BOLSO A CANETA, destacou uma folha de caderno e foi escrevendo, como teria sido o assassinato de José? O ASSASSINATO TARDIO POR JOAQUIM CASALESCCHI Calçada suja, garotas de programas, travestis, lixo, gente comprando, gente vendendo droga, carros passam, muitos param, já é demasiado tarde, pero o careca não desiste de procurar, checou a carteira, quanto tem? Dá pra comer duas em, então assim José, alto e musculoso aproximou-se das vagabundas que cheiravam, 66
  • 67. "Iai, to afim de meter em vocês, como é o esquema?” "Sessenta pra gozar só uma vez, o tradicional." “Então vamos, tem um motel barato na rua de baixo, cincão, não é?” "Não, ta quinze." Encaminharam-se, entraram no quarto. Sujo, fedido, cama encardida de sangue, sêmen, menstruação, cocô e mijo. Colchão fundo. Porém o careca estava chapado de pinga com maconha. As mulheres em base dos XXX anos tiraram a roupa, gorduchas, caídas, peito pesado, pele marrom, cabelo puro cigarro e cerveja, buceta cheia de urina, caíram na cama e puxaram o careca. "O careca, deixa a gente botar jaqueta no seu careca, fica parado.” Meteu na que estava de quatro enquanto esfregava a chereca da outra, dava tapa na bunda, puxava o capelo e dizia, "Vamo cavalinho!”, gozou, pagou o dinheiro da rabuda e fechou a carteira quando a outra reclamou, "Não pagou o meu!" E ele respondeu, "Não te comi ainda." “Então vai rápido”, ela disse zangada. Empurrou na cama, trocou de camisinha e provou a galinha assada, não satisfeito e cansado mandou ela subir em cima e domar a fera e ela o fez com muita velocidade. Foi para casa cambaleando, surpreendentemente achando o caminho, dando encontrões nos postes e mijando na esquina. Girou a chave e rufou a porta na parede, a esposa chegou assustada e começou a brigar, "Ta bêbado, seu filho da puta!" "Vai te catar vadia, puta já comi, vai procurar outro freguês que eu vou dormir." "Você é um corno, careca comedor de traveco!" "Cala boca vadia, já te mandei embora, o único travesti que eu comi foi seu pai." "Seu comedor de traveco ordinário, vira homem! Passa a noite inteira na rua gastando o dinheiro da casa com biscate! Ta achando que eu não sei?." "Cala boca senão te sento a mão, piranha!" "Não é homem! te encho de bala, seu corno viado!" Então ele socou a cara da mulher que foi pro chão, pisoteou o estômago e o rosto até cansar-se, o que foi rápido. A mulher levantou toda arrebentada, correu ao quarto e trouxe uma pistola que meteu três chumbos no azarado careca, e este antes de morrer fitando os olhos vermelhos da maldita assassina, disse, "Pensa que me fudeu, eu te fodi primeiro sua ordinária, tenho aids, te enrabei e agora você ta fodida também, vai morrer magrela e tossindo", e esvaiu-se em sangue ao lado do filho e ao pé da pistoleira. Fez uma bola de papel e pôs fogo com o isqueiro. Aproveitou, acendeu o fogão, jogou água numa chaleira, mais pó, mais açúcar. Pensou, "Como posso escrever isso de um amigo morto? 67
  • 68. SEGUNDA PARTE: LOUCURA CAPÍTULO XXXII FOGO, PANELA, PÓ, COADOR, o ouro negro é expremido, e cai na grande caneca. Joaquim entrou na sala, assentou-se no sofá, assoprou o café, fitou o nada, descansava as costas na almofada macia, confortável. Estava num pensar em coisa alguma. Cogitava algumas coisas, desimportantes, pensamentos que iam e não voltavam, ideias que não dariam frutos nem evoluíam, teses que brotavam sem começo, ou de algo pensado anteriormente, imaginações; talvez descobrisse ali sentado a resposta para a maior pergunta do mundo, pero o cérebro estava no momento preguiçoso, em que trabalha, porém sem objetivos, inconcreto, elaborava possibilidades fictícias, que aglomeradas em desordem criavam uma figura abstrata de qualquer coisa que viria a ser caso quisesse, não queria. Ouviu um barulho, ou teve um pressentimento. Virou a cabeça para o grande espelho da sala e foi surgindo dele uma sombra que começou lentamente a projetar-se para fora do vidro, primeiro a cabeça e depois as pernas e de repente lá estava parado em pé: ele. Possuído por um calafrio, pero mantendo-se assentado, quieto, dirigiu àquela imagem a palavra, "É você!” O Reflexo, bem apessoado, ereto, boa postura, firmeza e tranquilidade na voz, "Boa noite Joaquim.” Com o tédio no olhar e preguiça, "Boa noite, o que quer hoje?” O Reflexo sentou-se na cadeira a sua frente, "Vim conversar, você me chamou.” Joaquim meio que surpreso respondeu, "Não, não chamei, sequer pensei em você desde a última vez que te vi.” E o Reflexo argumentou, "Isso não é tão simples como parece, sabe... você pensa em muitas coisas, afinal seu cérebro está sempre a funcionar. Pensa em tanta coisa que não fica sabendo, tem bastante conteúdo escondido aí dentro, sem sair, que serve como base de muitos dos seus atos que às vezes você não sabe porque o fez, ou acredita ter sido por outras ideias. Tudo passa na inconsciência. Uma boa questão, teria controle sobre si mesmo, se nem dá-se conta da maior parte de seus pensamentos? Livre arbítrio, ou tem alguém em sua mente armando-se constantemente, um muro alto, um meio de defesa aos invasores que são demasiados?” Joaquim com dúvida pôs seu corpo para frente e perguntou, "Que invasores?” O Reflexo sabendo que isso iria acontecer, continuou, "Muitos. Desde o seu nascimento. Desde você mesmo, o seu desejo, ambições, e do mundo as impossibilidades, de restrições; pais, amigos, sociedade. O que não 68
  • 69. quer admitir, quer negar para sempre, e nega sempre. Você! Seu grande inimigo, já imaginou? Tranca-se com privações, domesticando-se, luta contra suas vontades, com medo do desconhecido, da acusação alheia, do autoflagelamento. Comporta-se como um maníaco depressivo. Nesses dias, pergunto, por que ainda não conseguiu compreender o motivo de não poder escrever? Sei que não sabe. Seu eu não sabe. Pero o eu interior que sou Eu pode te explicar, e explico. Por que a literatura? Por que sonha tanto com os escritores? A resposta é simples e óbvia. Faz de tudo para ser aceito. Lê muito, escreve muito, estuda muito. Contudo não percebe que seus heróis, meros escritores, foram mitificados, estão no ideal de beleza e de perfeição que um mero mortal como você nunca vai alcançar. Então se frustra. Vê que o que escreve nunca chega aos pés do que escreveram os outros. Não é você mesmo que vive dizendo que a arte não tem como ser medida? E já que o que escreve nunca é tão bom, você mesmo nunca será tão bom. Deprecia-se ao máximo por não poder chegar aos céus, como isso é impossível! Não acabou! Não basta martirizar-se, vê nos outros o reflexo do seu mundo. Como se todos fossem você, consequentemente desmerecedores de crédito, nunca serão bons o suficiente. Desda adolescência não teve amigos, ou nunca quisera ter por eles serem macacos? Não só os amigos, veja, nenhum alcança seus deuses, no fundo pensa que sua família não presta e mudou de cidade tentando destruí-los da memória, esquecê-los. E se não quer a antiga família, por que quereria uma nova? Disse isso a Alice?! seu grande mentiroso! Ela nunca será tão boa! Os outros são vermes que te cercam, que te envergonham, que te rebaixam! fuja deles! Apague os outros, o mundo. Aninha? Poderá projetar nela os seus desejos não realizados, frustrações? Ela será uma pessoa inferior, não importa quem vá tornarse.” Embasbacado pelas revelações ridículas, infundadas, Joaquim questinou zangado, "Você de novo! Por que não consigo lembrar de você quando estou acordado?!” E o Reflexo, arrogantemente, como quem dissesse algo óbvio, "Não está dormindo! Apenas entendeu agora a verdade e não quer aceitá-la.” Odiando a presença daquele idiota, "Tem coisas muito incoerentes no seu argumento, senhor Reflexo. Primeiro que amo Alice, ela é para mim a mais inteligente das mulheres. Segundo que tornei-me professor por gostar das pessoas, quero despertá-las para o conhecimento e aprender com elas.” O Reflexo indiferente, mexeu a boca mecanicamente para tentar explicar, "Alice. A mais inteligente ou a mais próxima de você e dos seus objetivos? A ama pelo que ela é ou ama nela qualidades que tem em você mesmo? Ela tem bom gosto ou tem gostos parecidos com os seus, e até se esforça para gostar do que Você gosta? Alice, um ser independente ou a apenas usa para um bonito reflexo de si mesmo? A aceita ou a modela como uma massa de argila? Discute com ela o casamento ou apenas tem a bondade de apresentá-la a verdade e o melhor caminho? Não teria ela em todos esses anos te atendido ao máximo enquanto esquece de si mesma? O conhecimento e a extraordinária beleza, não seria isso um troféu para você? uma extensão do seu império sobre os outros?” 69
  • 70. Com íra no olhar Joaquim gritou, "Cala boca, seu monstro!” E o Reflexo respondeu na mesma moeda, pero de maneira polida, "Grite, se esperneie. A violência é um recurso muito usado quando o narcisista se vê de frente com a verdade. Negará até o fim, eu sei. Quanto aos professores... os odiava porque eles o tratavam mal? ou por inveja? agora que é um não sente-se um dominador? não queria você esse tempo todo ser apenas um arrogante em achar-se melhor, mais próximo de Deus, embora tão longe? E as gêmeas, um objeto que quer adquirir psicologicamente, quer encantá-las com sua magia, com uma pedofilia fantasiada de intelectualidade artística. Veja, os professores eram seus inimigos, porque eles roubavam toda a atenção que você queria para si! 'É uma honra dar aula para meninas tão inteligentes, vocês terão futuro', claro! cada vez mais parecidas com você!” O café lhe dera dor de cabeça, "Cala boca!, cala boca!, cala boca!” E abriu os olhos num susto por ter derramado o café quente enquanto dormia no sofá. CAPÍTULO XXXIII "JOAQUIM! JOAQUIM!", Alice o chamava com o bebê no colo chorando. "O que foi amor?” "O que está a escrever?” "Não sei.” "Você está escrevendo um romance?” "Não, claro que não! Não consigo escrever, você sabe disso.” "Pero o que são todas estas páginas impressas?” "Que páginas?” "Este monte, veja”, Alice catou e leu: “As gêmeas de Narciso por Joaquim Casalescchi.” CAPÍTULO XXXIV PULOU DO COLCHÃO num susto! fez de tudo para puxar oxigênio aos pulmões, porém a falta de ar era imensa, sentia tonturas. O coração pulsava como uma metralhadora a dispirar contra o peito. Tateou no quarto escuro e seguiu escorado pela parede, a qualquer momento ia morrer, e temia pela vida, "Será agora? não consigo mais, este é o meu último momento”, Procurou na sala apressadamente em busca do telefone, precisava ligar para Alice ou para uma ambulância, alguém precisava ajudálo, queria gritar por socorro, pero não conseguia, o fôlego que restava era suficiente para deixá-lo vivo por mais alguns instantes. A visão embaçada ia se apagando gradualmente. Deu num encontrão com a mesa do escritório, catou o telefone e discou os números sem ver, num derradeiro esforço balbuciou, "Alice, às vezes eu não sei quando estou acordado!” 70
  • 71. CAPÍTULO XXXV FEZ O MÁXIMO DE café que conseguiu. Encheu a garrafa: dois litros. Andou pela casa de um lado ao outro, impaciente, pensando, olhos vidrados, não podia dormir. Precisava escrever urgentemente, há tempos não escrevia. Lamentava-se, dava tapas na cara, socos na parede, pensou estar possuído pela loucura ou depressão. Estava solitário em casa fazia muitos dias, também não via a luz do sol. A casa estava toda tomada por um breu. Não que não quisesse ver o dia, pero simplesmente os raios não penetravam lá dentro. Despertou com a cama a balançar-se de um lado para o outro, abriu os olhos e apavorou-se com a cara diabólica do Reflexo que o puxava para cima e para baixo agarrado em seus ombros, fez de tudo para desvencilhar-se, porém o corpo ainda dormia, num estado de paralisação. "Acorda Joaquim! Acorda! Tem algo que precisamos fazer!” Ao retomar controle de si retirou as mãos do Reflexo e correu para longe dele, "Seu monstro! O que quer de mim?! Vá embora!” O Reflexo pulou para cima dele ainda a sacudí-lo com toda energia, "Acorda Joaquim! Acorda! Tem algo que precisamos fazer!” Joaquim fazia de tudo para conseguir livrar-se com uma briga corpo a corpo, "Deixe-me! Já disse! Largue-me! Vá embora! Recuso a vê-lo! Diga o que quer e vá! Nunca mais apareça!” Ganhando a luta por ter mais força o Reflexo gritou, "Você quer destruir o que ama por não conseguir tê-lo! Culpará o outro pela sua frustração, veja, agora já é tarde! Deveria ter assumido o desejo! Deveria! Não se responsabiliza mais por seus atos! Projetou algo que vai matá-lo, você criou o inimigo no inconsciente!” E Joaquim amedrontado e raivoso teve uma brilhante ideia, "Entendi! sei como me livrar de você! se é o Reflexo, só preciso quebrar os espelhos!” Erguendo acima da cabeça o alto e estreito espelho do quarto rufou-lhe no chão, e o mesmo se estraçalhara em mil pedaços minúsculos por todo o espaço. Sumindo com o Reflexo. Joaquim descalço feriu o pé e saiu mancando até o banheiro. Sobre pia o espelho do armário que voou-lhe contra parede. Na sala o emoldurado espelho horizontal foi quebrado com a televisão jogada contra ele. O pobre não sabia que o Reflexo estava dentro de si. CAPÍTULO XXXVI AS GÊMEAS BATIAM forte na porta da frente, e a mesma estrondava num barulho a ecoar pela sombria casa sem luz, "Professor! professor! Sabemos que está aí! Abra que queremos entrar!” E Joaquim desesperado bradava tentando sobreviver, 71
  • 72. "Por favor! vão embora! não as fiz nada!” Ainda a bater fortemente a quase derrubar a porta falavam, "Vamos! pare com isso ou vamos ficar mais zangadas! quanto mais demorar pior será o castigo!” Joaquim correu, subiu a escada e trancou a porta do quarto, ficando atrás dela a tentar deter as invasoras, "Por favor! eu suplico! eu não fiz nada! vão embora e me poupem!” Empurrando a porta da frente elas avisaram, "Venha abrir! ou vamos derrubá-la!” Assim arrombaram, caindo a tábua no piso e subiram a escadaria para o quarto, calmamente, degrau por degrau, enquanto diziam alto na doce voz de menina, "Venha filhinho! a mamãe não pôde ficar com você, pero nós vamos tomar conta! Não há com o que se preocupar, há dias estamos te seguindo. Sabíamos onde você morava. Sabemos o que você faz, o que está pensando...” Joaquim arrastou-se para debaixo da cama a tremer de pânico, pálido, pelos eriçados, calafrio arrepiando e enjoado enquanto ouvia os passos e fala das gêmeas que logo chegaram a maçaneta e giraram, "Professor! Não vai abrir a porta para nós? ficaremos chateadas, você era tão gentil, amável, delicado, atencioso... agora comporta-se tão mal. Só viemos aqui cuidar de você, ver como estava, se precisava de algo. Só nós! mais ninguém terá tanto zelo por você. Sabe que te amamos, sempre amamos, não quer que sejamos sua mãe? Seríamos tão boas, te colocaríamos pra dormir e dormiríamos ao seu lado, acariciando a sua cabeça, te daríamos banho, brincaríamos com você. Agora abra por gentileza.” Tentaram durante uma hora, então de alguma maneira conseguiram destrancála e abriram vagarosamente para escutar rangido prolongado da porta antiga. E foram entrando, os pequenos pés brancos e descalços a pisar de mansinho no tapete, e procurá-lo, "Aonde se meteu este menino? vamos achá-lo, quer brincar é?” Checaram o guarda-roupa, as pernas a movimentarem e empunhando uma longa faca na mão direita, enquanto Joaquim acompanhava em paralisia. Depois de alguns segundos foram embora, ele piscou aliviado e ao retornar a visão deparou-se com os quatro olhos azuis gigantes e o cabelo loiro das fantasmagóricas alunas, que o arrastaram para fora. CAPÍTULO XXXVII AO CAMINHAR PELA RUA, estava quente, sol forte, muita gente indo ao trabalho, passeando. Joaquim estava agasalhado, barracas de fruta, comida, fumaça de castanha assada. Lojas abertas, barulho, trânsito. Pensava em Alice, estará dando aula neste momento, o que ensinava? Aninha estava na escola e ele estava de férias, era julho, véspera de natal e amanhã seria páscoa. Apesar das muitas barracas e vendedores ambulantes, os carros passavam por aquele calçadão, desviando dos transeuntes e com seus parabrisas a mexerem de um lado ao outro empurrando a 72
  • 73. chuva para fora. Daqui um mês casaria-se com Alice, Aninha iria vir viver com ele, e teria uma irmã, Joaquim seria pai, Alice estava grávida de oito meses, o bebê era para março, porém a barriga ainda estava plana. Havia uma poesia em sua cabeça e precisava escrevê-la, talvez aquela avenida vazia e lojas fechadas o tivesse inspirado. Estava escrevendo todos os dias. Tirou da mochila um papel, ergueu a jaqueta e assustou-se ao encontrar no bolso da camisa um pênis de borracha, o que fazia ali?! Tampou novamente com o paletó e apressou os passos, olhando para o chão no intuito de desviar o olhar das pessoas que passavam fitando-o, será que descobriram que ele era um pervertido? À sua direita os mendingos dormiam aglomerados na calçada. Avistou um elefante preso por uma corda, o circo já iria abrir. Começou a andar com mais calma, afinal precisava erguer o pé da neve profunda. Percebeu que estranhamente o elefante o acompanhava a poucos metros atrás. Olhou de novo, o gigante elefante estava magro, passava fome? O olhar de tristeza, perdido e um caminhar melancólico. O bicho ergueu a tromba fazendo um barulho. Depois ergueu de novo e chamou, "Pai!” Joaquim não deu importância, pero o que fazia o elefante seguindo-o? "Pai!", disse novamente o animal, e Joaquim teve de responder, "Eu não sou seu pai!” "Pai!” "Já disse que eu não sou seu pai! pare de me seguir!” "Pai! eu preciso de ajuda.” "Eu não sou seu pai!", e apressou os passos. "Pai, não corra! eu sou pesado demais para correr.” "Eu não sou seu pai! agora vá embora.” "Pai! não me abandone.” Joaquim perdeu a paciência e disse com aflição, "Eu não sou seu pai! Eu não posso ter filhos! Afinal sou uma mulher, não deu para perceber?” "Pai! Você me pariu esta madrugada, eu sei, eu vi! um elefante nunca esquece!” "Eu não posso ser seu pai! Alice está grávida, pero o bebê só nasce em agosto!” "Pai! por favor não corra de mim, eu sou seu filho!” "Já disse mil vezes que o bebê é para janeiro!” O elefante ergueu a tromba novamente fazendo um grunhido alto, "Pai! a mãe disse que você é meu pai!” "Eu não tenho nada com sua mãe! Nunca vi essa mulher quem chama de Alice, não a conheço!” E o elefante lamentava, "Pai! eu não sabia que agiria assim quando estivesse do outro lado!” "Eu não sou seu pai!” "Pai! por que me vendeu para o circo, eu não era o que esperava?” "Eu não gosto de você! foi um erro, você não foi planejado! Alice que tome conta de você sozinha!” "Pai! pero eu não sou filho de Alice!” 73
  • 74. Então Joaquim parou, sorriu e veio ter com o elefante, acariciando sua forte pata e tromba, "Você está magro, filho, parece que não tem comido direito.” "Não tenho, comida de restaurante é tão ruim.” "Então vamos para casa", disse Joaquim puxando-o pelo marfim miúdo, "Lá farei uma comida caseira, nhoc é minha especialidade.” Chegando em casa Joaquim se pôs a preparar muita comida, pois seu filho era grande e deveria comer muito. Puxou a cadeira para que o elefante sentasse, e lá ficou o bicho esperando por algum tempo. "Pai!” "O que, amor?” "Não posso mais ficar, meu tempo acabou.” "Fique, você nem comeu ainda.” "Infelizmente não posso.” Joaquim ficou tão triste que escorreu-lhe lágrima na face, "Tudo bem então, filho, se tem de ir...” "Tenho. Obrigado por esse tempo que passou comigo, porém eu já cresci e não posso mais ficar com o senhor.” "Pero por que, filho?” "Eu tenho sonhos, pai, desejo conhecer o mundo, preciso ser independente.” "Pero filho, poderá trabalhar e continuar morando aqui comigo.” "Não posso pai, me perdoe.” "Por favor, fique!” "Não posso.” "Eu insisto, deixará Aninha e eu tão solitários.” "Não posso.” "Ah, ela ficará tão triste.” "Não posso ficar.” "Ela chorará até não poder mais.” "Não posso pai.” "Por quê? nunca o tratamos mal, cuidamos tão bem de você!” "Sim, isso é verdade. Não há filho mais feliz que eu. Porém cresci", agora ele tinha um grande marfim. "Você sabe que sua mãe e eu te amamos?” "Sei pai, também amo vocês.” "Por que nos deixará então?” "Eu não posso ficar, não é culpa de vocês.” "Diga que nos ama mais uma vez.” "Eu os amo!” "Tudo bem, se tem de ir. Por onde vai?” "Eu só preciso de uma corda.” "Ah! tenho uma corda aqui, espere.” Joaquim trouxe, 74
  • 75. "Pai, pode por favor fazer um nó para mim? não sou bom com nós.” Joaquim riu, "Eu sei filho, farei o melhor.” "Agora pode por favor amarrar a corda na lâmpada?” Joaquim fez. "Bom, só isso, agora eu vou.” "Tchau, filho.” O elefante subiu na cadeira, logo a derrubou fazendo impulso com as patas e ficou pendurado pelo pescoço. Joaquim mirou orgulhoso. O filho havia crescido, tornado-se um homem. Responsável e exemplar. CAPÍTULO XXXVIII CANSADO RETIROU OS SAPATOS, apertados, meia velha. Tirou a calça, camisa social quente e jogou-as por cima da cama. Recolheu-se ao banheiro a fim lavar o rosto. Ligou a forte água da torneira, que escorria entre os dedos a refrescá-lo. Molhou o rosto com vontade, esfregou a face com força para lavar todo o suor junto com a fadiga. Ficara de pé o dia todo no trabalho, estava exausto. Colocando a mão embaixo d’água novamente e fazendo dela uma cuia, viu seu reflexo, grandes olheiras, cara amarelada, doente, a um fio da morte. Levou as mãos mais próximo dos olhos, pingando água por todo peito descoberto, vendo assim seu reflexo mais de perto sentiu-se encantado e repentinamente pulou dele a sombra que ganharia forma: o Reflexo. Mais alto, mais forte, músculos rígidos. Rosto barbeado, cabelo liso, grandes olhos espelhando virilidade e um semblante juvenil. "Boa noite, Joaquim.” "Boa noite, você não desiste, não é mesmo?” "Óbvio que não.” "Por quê?” "Já te disse. Eu sou você mesmo.” "Bonito desse jeito? Olhe para mim, estou um trapo.” "Nem sempre o que vemos no espelho reflete a verdade, não é?” "Não sei.” "O que viu no espelho é sua aparência física. Eu sou como você sente-se por dentro.” "Que besteira! Você não tem ideia de como eu me sinto!” "Melhor que você.” "Não tem ideia dos problemas que estou tendo! dos sonhos que tenho sonhado!“ "Problemas com o bebê de Alice?” "Não seja idiota! ela não está grávida!” "As gêmeas estão te perseguindo?” "Sim! estão! elas me perseguem o tempo todo, quando estou aqui dentro elas ficam lá fora olhando pela janela, pela fechadura, escutando tudo que faço, com o ouvido nas paredes. E se eu ficar em total silêncio as ouço sussurrar uma com a outra.” "Elas te perseguem, não é?” 75
  • 76. "É!” "Querem te matar, não é mesmo?” "Sim! elas querem!” "Pero por que ainda não mataram?” "Estão esperando meu momento de fraqueza, me esperando dormir! Pero eu tenho tomado muito café! não durmo de forma alguma, estou sempre preparado para elas!” "Se não dorme, como tem tido pesadelos?” "Que pesadelos? não sei do que está falando.” "Uhm. E neste momento, se elas entrarem como vai se defender?” "Elas vão entrar?!” "Caso entrarem...” Joaquim correu ao quarto, abriu o guarda-roupa e pegou o revolver, desembrulhou e municiou. Empunhando mostrou ao Reflexo, "Veja! se elas entrarem aqui eu as mato!” "Você sabe atirar? Já matou alguém?” "Claro que já! quando eu tinha dez anos!” "Como matou?” "Meu pai me levou para caçar e acidentalmente atirei na minha irmã menor. Eu sei disso, me lembro, pero eles não tocam no assunto, acham que se ignorarem o problema vai sumir.” "E você sente culpa?” "Culpa do que! eu era uma criança!” "Não teve intenção de matá-la, não é mesmo?” "Claro que não!” "Tem certeza?” "Cale a boca! estúpido! você não sabe de nada!” "Uhm...” "Seu idiota!” "E quanto as gêmeas?” "O que tem? elas te disseram algo? você as viu entrar? Será que devo ligar para polícia?” "Não deve. O revolver é o suficiente.” "Sim! Meu amigo José me deu.” "Ele te deu ou te vendeu?” "Me deu, ele gostava de mim.” "Pensei que ele cobrara 900 reais, lembra?” "Não, ele me deu, era meu amigo.” "Você tinha 900 reais para pagar?” "Com certeza não, estávamos no final do mês!” "Então você se lembra dos 900 reais?” "Não sei do que está falando!” "Quem matou José?” 76
  • 77. "A mulher dele! aquela piranha! bem na frente do filho!” "Tem certeza?” "Não, na verdade ele cometeu suicídio.” "Você viu?” "Vi, eu estava lá!” "Você viu ou te contaram?” "Já disse que eu estava lá!” "Se estava lá por que não o impediu?” "Impediu do quê?” "Dele se matar.” "Não tinha como impedí-lo! Eu estava viajando!” "Ele se matou na sexta, você viajou no sábado.” "Alice veio me ver na sexta!” "E quando ela foi embora?” "Voltei para casa e dormi.” "Tem certeza?” "Absoluta!“ "Mesmo depois de ter tomado tudo aquilo de café?” "Claro! já tomei tanto que não funciona mais!” "Então por que ainda toma?” "Já falei! não posso dormir ou as gêmeas vão entrar aqui e me matar!” "Elas estão te perseguindo?” "Estão, estão ao redor da casa, da outra vez retiraram a gasolina do meu carro, mancharam-no de sangue e jogaram a arma no banco para mostrarem que sabiam em que lugar estava!” "Que dia foi isso?” "Sexta.” "Que período?” "De noite, logo após Alice ter ido embora!” "Pero, como você sabe se estava dormindo?” "Eu sei! Eu as ouvi!” "As ouviu fazendo tudo isso?” "Sim, eu vi!” "As viu ou as ouviu?” "Eu apenas sei!” "Elas estão te perseguindo, não é mesmo?” "Sim, estão! não me deixam em paz!” "Você as acha bonitas?” "Como as acho! não há nada mais bonito nesse mundo.” "Gostaria de tê-las por perto?” "Sim, eu as amo.” "Você as ama?” "Não, eu apenas gosto delas.” "Disse que as ama.” 77
  • 78. "Não amo, apenas gosto delas!” "Por que gosta?” "São boas alunas.” "Gostaria de namorá-las?” "Não seja estúpido! seu monstro!” "Por que monstro?” "Só um animal como você poderia ter essas ideias!” "Você não poderia?” "Claro que não!” "São elas que te perseguem, ou é você quem as persegue?” "São elas! eu disse que elas me perseguem!” "Então por que foi a casa delas algumas vezes só para tentar vê-las?” "Eu não fiz isso!” "Tem certeza?” "Eu tive de ver se estavam bem!” "Algum trabalho para fazerem?” "Sim! tinha um trabalho pra fazerem.” "E você entregou?” "Não me lembro.” "Sim ou não?” "Não.” "Por quê?” "Por que o quê?” "Por que não entregou o trabalho que foi entregar na casa delas?” "Que trabalho? não sei do que está falando.” "Sente-se seguro com este revolver?” "Sim, ele me deixa seguro. O dia que eu não carregá-lo comigo elas me matarão!” "Então sempre o carrega com você?” "Sim!” "Pensei que tivesse acabado de tirá-lo do armário.” "Não! estava comigo quando saí!” "Para aonde você foi?” "Para a aula!” "Sua aula não é de dia?” "É! sempre foi!” "Você foi até a casa delas?” "Não, claro que não!” "Havia algum carro na garagem?” "Não, não havia, acho que elas não moram com o pai e a mãe trabalha durante o dia.” "Então você foi.” "Aonde?” "Foi a casa delas?” 78
  • 79. "Você é surdo? estou dizendo que não fui!” "Já parou para pensar que talvez seja você que esteja as perseguindo e não elas a te perseguirem?” "Não diga besteira! eu as vejo em volta da casa.” "Você as vê?” "Eu sinto!” "Você sabe?” "Sim, eu sei!” "São monstros assassinos não é mesmo?” "Sim, são monstros, dos piores, bruxas horrendas querendo meu sangue!” "Você havia me dito que eram lindas, não existia nada mais bonito no mundo.” "Claro que não! são monstros! Bruxas!” "Não consegue aceitar a ideia de as querer, não é mesmo?” "Não as quero!” "Então elas tem um problema, você não tem, elas te perseguem.” "Elas me perseguem!” (Barulho) "Ouviu isso?” "Ouvi! são elas, eu não disse?” "Realmente estão ao redor da casa.” "Sim!” "Ou podem ser ratos.” "Não há ratos aqui!” "Ratos vem comer a comida da dispensa.” "Não há comida aqui!” "Então na geladeira.” "Não há comida na casa!” "Se não há comida na casa, você não tem comido?” "Não me lembro.” "O que comeu hoje?” "Comi nhoc, carne, salada e arroz.” "Isso não foi na sexta?” "Sim, foi na sexta.” "Que dia é hoje?” "Sexta.” "Alice veio hoje aqui?” "Sim, ela acabou de sair, não viu?” "Joaquim, isso aconteceu há vários dias atrás.” "Claro que não! ela veio hoje!” "Há quanto tempo sua irmã morreu?” "Não me lembro.” "Foi hoje?” 79
  • 80. Joaquim caiu no chão de joelhos e começou a chorar desesperadamente como uma criança. "Foi hoje! ela morreu hoje! acabo de vir do enterro!” "O que aconteceu com ela?” "Meu pai a matou.” "Como a matou?” "Foi com um tiro.” "Numa caçada?” "Não, foi em casa.” "Em que casa?” "Em Rondonópolis.” "Conte-me a cena.” "Não me lembro.” "Lembra-se, acabou de acontecer.” "Não, isso faz mais de XX anos!” "O que viu?” "Eu vi a minha mãe enterrando algo no quintal.” "Onde você estava?” "Na cozinha.” "O que ela enterrava?” "Um pássaro morto, pequeno.” "Pequeno?" "Grande, era grande.” "Tem certeza?” "Sim, claro.” "E como se parecia?” "Tinha pequenos bracinhos e perninhas.” "Um pássaro tinha perninhas e bracinhos?” "Sim. E ele piava.” "Como piava?” "Agudo, muito agudo.” "Como um choro de criança?” "Isso, como um choro de criança.” "Então estava vivo?” "Não, estava morto.” "Pero chorava...” "Estava morto, eu tenho certeza.” "Como tem certeza?” "Eu atirei nela!” "Por que atirou nela?” "Meu pai não queria tê-la.” "Como atirou nela?” "Meu pai me trouxe um presente.” "Que presente?” 80
  • 81. "Uma arma que eu enchia com água.” "Como sabe que seu pai não queria ter uma filha?” "O ouvi falando com minha mãe.” "Foi por isso que ele te trouxe a arma?” "Foi.” "Ele te pediu?” "Me pediu.” "Como ele fez isso?” "Minha mãe disse que não faria.” "O que ela não faria?” "Não me lembro.” "E o seu pai?” "Ele me entregou a arma.” "Então você sabia o que fazer?” "Sabia.” "E fez?” "Fiz.” "Por que fez?” "Não queria que eles brigassem.” "Por que brigavam?” "Não me lembro.” "Teria a sua mãe matado sua irmã?” "Não, claro que não! impossível, minha mãe nunca faria algo assim.” "Pero você não a viu enterrando algo no quintal?” "Não sei.” "Você viu?” "Eu ouvi.” "Como ouviu?” "Meu pai disse para enterrá-la no quintal.” "Por que ele não chamou socorro?” "Não queria que me culpassem.” "E as gêmeas? Elas estão te perseguindo, não estão?” "Estão!” "Por que te perseguem?” "Querem me matar!” "O que você as fez?” "Não fiz nada! eu digo, pero elas não me ouvem!” "Se parecem com sua irmã?” "Não me lembro da minha irmã.” "Com quantos anos ela morreu?” "Seis.” "E quantos você tinha?” "XV.” "Pensei que tivesse dez.” 81
  • 82. "Eu tinha XV!” "E como ela era?” "Não me lembro.” "Loira?” "Loira.” "Ela morava com você?” "Não, morava com o vizinho.” "Era filha da sua mãe?” "Não.” "Filha do seu pai?” "Não.” "Como sabe que era sua irmã?” "Era minha irmã.” "Você sabe?” "Sei.” "E o que aconteceu com ela?” "Não vi mais.” "Fez algo com ela?” "Acho que a enterrei no quintal.” "Por que fez isso?” "Isso o quê?” "Por que enterrou sua irmã no quintal?” "Não sei do que está falando.” "Por que enterrou a filha do vizinho no quintal?” "Não sei do que está falando.” "Ela era bonita?” "Muito.” "Ia para escola?” "Ia.” "Você falou com ela?” "Sim.” "O que disse a ela?” "Fique quietinha.” "E ela ficou?” "Não.” "Então o que você fez?” "Não fiz nada.” "Quando foi isso?” "Não sei.” "Que idade você tinha?” "Dez.” "Não eram XV?” "Não sei.” "Qual a primeira menina que você viu na vida?” 82
  • 83. "Minha vizinha.” "Não foi sua irmã?” "Que irmã?” "Você teve uma irmã.” "Não, não tive.” "Que morreu...” "Não, não tive.” "E a sua vizinha?” "Não tínhamos vizinhos.” "Por que não?” "Morávamos no sítio.” "Foi lá que viu a sua mãe enterrando o pássaro no quintal?” "Sim.” "Por que moraram lá?” "Meu pai não queria que me punissem.” "Por que te puniriam?” "Por ter matado a minha irmã!” "Joaquim, não posso te ajudar por mais que eu tente. Nunca descobrirá a verdade, pois as minhas perguntas não podem ultrapassar o que você mesmo quer responder, já que somos a mesma pessoa. Imagino que alguns fatos foram fantasiados, outros deslocados, gerando sua impossibilidade de escrever. O certo é que sente-se culpado por algo que não descobrirá sozinho. Talvez você nunca admita que não é inteligente o bastante para se autoajudar, pois não é questão de inteligência. E a arma, ela só serve para aumentar o seu medo. E mais, a nossa conversa não vai te servir para nada, porque eu continuo sendo seu Eu inconsciente.” "Não há solução?” "Há. Pero não posso te dizer, é muito perigoso.” "Diga.” "Não preciso. Está fadado a descobrir.” "Há pessoas dentro de mim.” "Não há ninguém dentro de você.” "Há você.” "Sou você mesmo, somente não quer reconhecer.” "Há outros.” "Que outros?” "Às vezes sinto uma vontade incontrolável.” "Vontade do quê?” "Eu esqueço, e quando tento lembrar minha cabeça começa a doer sem parar, por dias. Então meu corpo todo fica dormente, pego-me piscando freneticamente, vejo o flash da televisão desligada com letras tão miúdas coladas com letras grandes, ficam se mexendo, dançando na tela, faço esforço para desligar a tevê, aperto o botão, tiro da tomada, corro, porém continua até eu cair de cansado. E no chão fico imóvel por não sei quanto tempo, e minha mão começa a derreter, os dedos entortam pra baixo, esticam-se por causa da gravidade e caem como plástico queimado. Penso que estão 83
  • 84. a cair porque querem deixar meu corpo, grito! eles escutam, pero continuam indo embora, dou por mim numa poça melequenta de barro, parece esgoto, estou cercado de cocôs flutuando e atraindo moscas. Sinto um nojo terrível. Fujo. Porém percebo que estou me transformando em fezes, despenco e espalho-me pela casa inteira. Sinto um desgosto terrível, penso em sucicídio como obrigação, puno-me pela vergonha em que me tornei. Antes tinha controle sobre meu mundo, agora sou o que eu mais detesto.” CAPÍTULO XXXIX "TINHA ALGUM sonho quando era criança?” "Não sonhava.” "Algo que sempre ia e voltava?” "Não sonhava.” "Conte.” "Não sonhava.” "Por quê?” "Nunca fui criança.” "O que era então?” "Um gato cinza.” "E o que gostava de fazer?” "Caçar as baratas.” "As comia?” "Sim.” "Por quê?” "Estava com fome.” "Você está mentindo, poderia comer outra coisa.” "Estava com fome.” "Por que comia as baratas?” "Eu gostava.” "Do que gostava?” "De ter poder.” "Um controle?” "Ao engatinhar pela casa à noite eu poderia correr sem parar e quando visse um inseto ele teria de fugir de mim, pois a casa era minha.” "E de dia?” "Não corria.” "Por que não?” "Um cão me rondava.” "Tomava conta de você?” "Me castigava.” "Pelo quê?” "Não coma isso!” "E você continuava?” "Não. Um dia eu ia comer o cão, então me vingaria.” 84
  • 85. "E conseguiu?” "As pernas das baratas mexiam sem parar quando as pegava.” "Descontava nas baratas?” "Eu era um gato cinza.” "Se comer as baratas servia para descontar o castigo do cão, ele não te castigava por comer as baratas. Qual era o motivo?” "Eu era um gato cinza.” "Não gostava do cão por ele ser o dominador?” "Eu era um gato cinza.” CAPÍTULO XL "TELL ME ABOUT YOUR MOTHER” "Beautiful, but sad.” "Why?” "Some day I found her.” "What was she doing?” "Taking a shower.” "Did you talk to her?” "No.” "Did she talk to you?” "No.” "What did you see?” "She was cutting herself.” "How?” "With a razor.” "She was shaving?” "No. She was cutting the penis.” "Why do you think this?” "I saw.” "What did you see?” "She didn't have a penis.” "And what have you done?” "I've run and cried.” "Why?” "Because I saw my dad too.” "What did you see?” "I saw my dad’s penis.” "And than?” "I cried more, like a crazy.” "Why?” "My mom cut my penis too.” CAPÍTULO XLI 85
  • 86. "O QUE ESTÁ FAZENDO?” "Eu sou uma parede.” "Perguntei o que está fazendo.” "Eu sou uma parede fria e amarelada.” "Por que está dizendo isso?” "Me sinto sozinho.” "É solitário ser uma parede?” "Sim.” "Você tem amigos?” "Não. Pero as pessoas falam comigo.” "E você as ouve?” "Sim.” "O que dizem?” "Para guardar um segredo.” "Qual o segredo?” "Prometi não dizer.” "Quem te pediu isso?” "Meu pai.” "Por que ele pediu?” "Ele está assustado.” "Por que está fugindo de ser você mesmo?” "Estou imóvel, sempre estive.” "Primeiro um gato agora uma parede. Sei que é duro admitir alguma culpa, porém você é Joaquim Casalescchi, o escritor.” "Não escrevo.” "Por enquanto não, pero escreverá, é isso que faz.” "Tem alguém que quer falar com você.” "Quem?” "Meu pai.” "Por que seu pai quer falar comigo?” "Tem algo para te dizer.” "O que ele quer me falar?” "Não sei.” "Diga!” "Só ele sabe.” "Então me deixe falar com ele.” "Com uma condição.” "Qual?” "De me pintar. Estou manchado.” "Manchado do quê?” "Sangue.” "Sangue de quem?” "Uma criança pequena.” 86
  • 87. "Sua irmã?” "Não. Sou apenas uma parede.” "Você viu a sua irmã ser morta?” "Não. Sou apenas uma parede.” "Um observador. Então diga parede, de que lugar vem este sangue?” "Com uma condição.” "Qual?” "Que me chame de pai.” "Pai, da onde vem este sangue?” "Não é nada filho, volte a dormir.” "Pai, a Camila não está na cama.” "Filho, vá dormir!” "Tenho medo.” "Já mandei ir dormir, porra! vá embora antes que eu te bata!” "Estou lembrando de algo. Vejo meu pai no nosso quarto brigando com a Camila. Ela está tentando sair, ele a pega pelos braços, está em cima dela. Olho pra ele, e ele olha para mim então fecho os olhos de medo e apenas ouço.“ "Filho, acorde.” "Não, pai.” "Abra os olhos.” "Estou com medo.” "Não há do que ter medo, olhe.” "Não, por favor.” "Veja ou eu te bato!” "Abro rapidamente, vejo Camila morta!” "Dor de cabeça! dor de cabeça: letras piscando: letras piscando: tão grandes e tão pequenas misturadas na tela: não consigo me mover: caio estou num vaso sanitário cheio de excremento: abro a boca e engulo um pouco então derreto: transformo-me em fezes líquidas!” CAPÍTULO XLII "JOAQUIM.” "Estou aqui.” "Você mentiu tudo isso, não é?” "Não, como eu poderia?” "Sim, exatamente. Como poderia? Seus pais violentaram e assassinaram a sua irmã, e por isso as gêmeas te perseguem. Quão real! Não me engana.” "Não sei do que está falando.” "Claro. Isso tudo realmente aconteceu. Você viveu!, guarda até hoje desde que era uma criança. Que trauma ter visto a irmã ser morta. Não é à toa que não consegue escrever. Porém perceba, acha que se tivesse realmente acontecido tudo isso, diria com tanta facilidade? A não ser que tenha prazer em contar porque precisa me contar, 87
  • 88. uma necessidade... uma mentira contada é uma verdade repetida pelo outro, então não faz mais parte da sua imaginação.” "Não menti.” "Eu sei. Não é mentira para você. Você não mentiu apenas repetiu uma verdade.” "Então quem mentiu?” "Sua fantasia te enganou. Nada disso aconteceu. Foi só mais uma maneira de comer o cão, entende?” "Não.” "O cão, Joaquim, é seu pai. Tem inveja do seu pai e por isso fez dele um monstro.“ "Não.” "Sim. Sua melhor defesa foi um ataque.” "Agora estou livre?” "Não. Não pode estar. Pois não aceitaria a verdade assim tão facilmente.“ "O que quer dizer?” "Quero dizer que nós dois estamos sendo enganados.” "Por quem?” "Por alguém mais forte.” "Quem?” "Não sei. Preste atenção. A sua verdade é para mim uma fantasia. Porém se te digo isso, há de ser a minha verdade também parte da sua fantasia. Então há algo pior sendo escondido.” "Quem esconde?” "Alguém que nos têm na mão.” "E o que há de pior?” "Algo tão ruim que ver a irmã ser morta não chega aos pés do verdadeiro acontecimento.” "Pelo menos concluímos que algo aconteceu?” "Nem que sim, nem que não. Diria que o futuro será escrito pelo outro.” "Outro?” "Eu estava enganado, Joaquim, não estamos sozinhos.” "Eu disse!” "Sim, agora acredito.” "Quem mais está aqui?” "O verdadeiro monstro.” CAPÍTULO XLIII "QUERER SER OUTRO é querer negar a si mesmo.” "O papel está em branco.” "Então recorro a um pseudônimo.” "Para escrever sua estória.” "Contando-a como a própria vida.” 88
  • 89. "E mais, a vivendo realmente.” "Afinal não ter mais controle.” "Sobre si mesmo.” "Agora sou outro e quero outras coisas.” CAPÍTULO XLIV "JOAQUIM, OLHE A JANELA” "Para quê?” "Veja se as gêmeas ainda estão lá fora te vigiando.” "Não é arriscado?” "Não.” Joaquim vai até a janela. "Não estão mais!” "Então vencemos pelo menos nisso.” "Já é alguma coisa?” "Sim. Tem de ser.” "Algo mais?” "Joaquim, seu nome sempre foi Joaquim Casalescchi, ou é um nome artístico?” "Sempre foi que eu me lembre.” "Seus pais te chamam assim?” "Sim. E o que mudaria se não fosse meu nome?” "Bom, se não fosse seu nome de verdade, não seria você de verdade, e logo eu estaria falando com outra pessoa que foi criada para me enganar.” “Eu fui criado para te enganar? que absurdo, somos a mesma pessoa!” O Reflexo riu. "Somos a mesma pessoa? quem disse?” "Você disse várias vezes.” "E você acreditou, seu bocó?” "Quem mais seria?” "Como poderíamos nos falar caso fôssemos a mesma pessoa?” "Eu estaria num monólogo.” "Exato. E pior ainda, sozinho.” "Eu estou falando sozinho?” "Você está sozinho.” "Pensar nisso é assustador.” "Exatamente.” "Tenho medo.” "Por que as luzes estão todas desligadas?” "Não sei. Talvez tenha sido cortada.” "Há quanto tempo estamos aqui?” "Não faço ideia.” "Há quanto tempo está sozinho na sua casa?” 89
  • 90. "Não faço ideia.” "Desde segunda à noite?” "Não sei que dia é hoje.” "Assim complica.” Silêncio. "Joaquim, como era ficar trancado no quarto?” "Solitário.” "Que mais?” "Eu lia muito.” "Por que não experimentava sair?” "Eu não tinha o que fazer lá fora.” "Que mais?” "Tinha horror das pessoas.” "Por não pensarem como você?” "Acho que sim.” "Joaquim, já imaginou se ainda estivesse no seu quarto e tudo isso fosse sua imaginação?” "Que calafrio!” "Alegre-se, algo mudou.” "O quê?” "Você. Agora responde corretamente, antes fugia.” "Uhm!” "Prometa que quando sair daqui vai se casar com Alice. Ela está esperando há tanto tempo.” "Pero ela está carregando um filho meu.” "Então tem outro motivo pra casar. E ela não disse que está esperando um filho seu. Você supôs isso.” "Supus?” "Sim. Além disso, gostaria de saber porque tem tanta aversão a ter um filho.” "Não sei. Talvez não tenha.” Silêncio. "Joaquim, por falar em suposição, estou aqui pensando numa coisa.” "O quê?” "O que você me contou, foram lembranças ou foi um sonho?” "Não sei, faz diferença?” "Faz. Se forem lembranças, vão estar desorganizadas, com partes inventadas e provavelmente podem ser apenas uma fantasia de criança. Porém se for um sonho, é possível que ele esteja querendo mostrar a realidade em forma de metáforas. Por exemplo, o cachorro te castigando sem motivo pode representar um pai sádico; a sua irmã Camila pode nunca ter existido, ao invés disso ela pode ser uma personagem criada para estar no seu lugar, então ela seria você. Caso ela seja você, significa que é você quem foi violentado, não uma irmã. E a parte de enterrá-la morta, uma metáfora para enterrar uma lembrança dolorosa, ou seja, o fato de você ter sido violado. E 90
  • 91. finalmente, tê-la matado por se culpar pelos atos dos pais, carregar o problema todo para você, quando na verdade não tem culpa de nada. O que acha?” "Acho que foi a sua pior hipótese.” "Por quê?” "Não sei, apenas não faz sentido.” "Por quê?” "Não tem lógica para mim.” "Por quê?” "Acho que imaginou demais.” "Você não está dizendo nada com nada.” "Só acho absurdo.” "Joaquim, você está negando.” "Não, só não acho que seja verdade.” "Está negando!” "Não seja idiota!” "Uma parede suja de sangue! seu coração pesado!” CAPÍTULO XLV "ENTÃO ESTOU CURADO?” "Nem assim está curado.” "Por que não?” "Caso eu esteja certo achamos a raiz do problema. Porém isso não quer dizer que você esteja curado, quer dizer apenas que agora entende. A cura não existe. Pode apenas, com tratamento, conviver melhor com ela. E repito, se realmente estou certo, deve ser esse o motivo de você escrever tanto.” "Qual?” "Escreve tanto para sublimar a sua angústia. Contudo algo se modificou, não consegue mais escrever, consequentemente não consegue mais canalizar tão facilmente o trauma. Escrevia antes por inconsciência, agora será mais difícil.” "Tudo ficou pior?” "Sim, pois ao invés de tentar corrigir o problema, o contornou com o esquecimento. E negar a existência não significa destruir o problema, ele sempre existiu você querendo ou não. E depois, estar conversando tão profundamente consigo mesmo, pensando até que sou outra pessoa, confirma a sua perturbação.” "Não existe uma maneira de você ir embora?” "Existe, pero como eu disse, é perigoso.” "Vou me matar!” "Pode tentar. Pero seria o fim, não um recomeço. Não parece coisa para alguém orguhoso como você.” "Não sou orgulhoso, sou depressivo.” "Temos de ver isso também. Porém não é tão depressivo assim, afinal eu estou aqui justamente por você não querer ajuda de outra pessoa." 91
  • 92. CAPÍTULO XLVI "POR QUE ME PEDIU para ir ver se as gêmeas tinham ido embora, por que você mesmo não foi ver?” "Acha que eu conseguiria vê-las?” "Por que não?” "Pense um pouco.” "Elas vieram buscar apenas a mim?” "Gênio.” "Não compreendo!” "Acredite se quiser, pero sou a parte de você que não tem medo delas.” "Faz sentido, já que é minha inconsciência, elas não te conhecem!” "Não é por isso, pero tanto faz.” "Qual o motivo então?” Silêncio. "Como pode ter tanta certeza que eu sou a inconsciência e não você?” "Ora pois! você é o reflexo!” "Se prende muito nisso.” "No que mais acreditaria?” "Está a usar muita matemática, não é tão simples assim!” "Não estou entendendo mais nada.” "Você é bom em literatura, porém em psicanálise é uma total negação!” "Então você é meu psicanalista?” "Antes fosse! tudo que eu sei aprendi num livro de bolso comprado na banca do aeroporto, para ser sincero, noventa por cento do que eu digo é achismo.” Silêncio. "Você é uma espécie de segunda personalidade minha, não é?” "Não seja parvo, seu macaco! não tem nada a ver com isso! você é um erro mesmo!” "Então explique!” "Não posso, infelizmente Freud não escreveu nenhum manual do que fazer quando estiver preso na fantasia do próprio reflexo.” Silêncio. "Ei, Reflexo, lembra na terceira série quando um gordinho pisou no meu pé de propósito e disse que foi sem querer?” "Se lembro! até hoje quero matar o filho da puta!” "Ainda bem que não o fez!” "Se eu tivesse feito não seria um adulto estressado...” "A vida não funciona assim, não pode ter tudo que quer.” "É, há pessoas inúteis como você que estão aí para me impedir.” "Obrigado.” "Vermes...“ CAPÍTULO XLVII 92
  • 93. "JOAQUIM, PODE IR de novo ver se as gêmeas estão rondando a casa?” "O que quer?” "Se o que eu disse anteriormente te abalou, então imagino que as gêmeas estejam neste momento por aqui.” Joaquim corre até a janela, "Estão! estão! elas estão passeando lá fora! meu Deus! alguém me ajude!” "Fique calmo! cala boca e presta atenção!” "Depois de muito pensar eu cheguei a nossa única solução, a última saída.” "Então diga!” "Antes preciso ter sua total cooperação!” "Tem!” "Confia em mim?” "Em quem mais eu poderia confiar?” "Primeiro temos de ter em mente uma coisa. Será este seu sonho, ou está alucinando acordado? Esta casa nos prende aqui. O que eu proponho é que me deixe sair.” "Por que está dizendo isso?” "De nós, eu sou o mais forte. Então, caso meu pensamento esteja correto, quando eu sair tudo volta a normalidade.” "Não entendo!” "Joaquim, esta casa foi construída dentro da sua cabeça como uma prisão, uma representação que te protege do perigo lá de fora. Então eu peço que me dê o revolver e me deixe sair, assim nós dois vamos nos salvar. As gêmeas não te matarão enquanto estiver aqui dentro.” "Não posso acreditar!” O Reflexo pegou algo do bolso da camisa e mostrou a Joaquim, "Joaquim, me diga o que é isso.” "Por que carrega um pênis?!” "Não, Joaquim, isso não é um pênis. É um objeto que utilizava muito no seu tempo de escritor. Desculpe, infelizmente você não tem mais jeito, nunca voltará a escrever. É caso perdido. Então preciso que me dê a arma, pois não posso correr o risco de você se matar, matando a nós dois.” "Se este for um sonho, então não acontecerá nada se eu puxar o gatilho!” "Não seja estúpido! e caso não for um sonho? se estiver alucinando matará a nós dois! Joaquim, pense um pouco. Lembra que eu disse da terceira pessoa mais forte?” "Lembro.” "Você está nos prendendo aqui dentro. Caso eu saia dessa casa, imagino que passarei a ser essa terceira pessoa mais forte. E você ficará dentro no meu inconsciente, pero sem me inibir, como se você fosse uma espécie de superego derrotado.” "Do que está falando?! você é apenas um reflexo!” 93
  • 94. "Como você pode ser tão imbecil? Nós dois não existimos fisicamente, essa conversa se passa na capacidade de abstração do inconsciente pelo consciente! Resumindo, estamos dentro da sua cabeça disputando o poder. O seu ego está em colapso, por isso esta crise, e eu quando sair serei a restauração que seu psique exige! Sou melhor, mais inteligente! não sou a farsa que você foi a vida inteira! Não terei essas crises de paranóia que você tem! nem me impedirei dos meus desejos. Eu posso, você é um doente que me proíbe!” "E se você estiver errado?” "Tudo é uma questão de teoria e de aposta. Não posso descartar a possibilidade de eu estar redondamente enganado, veja, que esta minha dedução só vai até aonde minha leitura e imaginação me levou.” "Então pode não acontecer nada?” "Joaquim, pela última vez, se me prender aqui, prenderá a nós dois. Por quanto tempo? Para sempre. É isso que quer? Quer que este devaneio, esta maldita alucinação dure enquanto viver, preso num cubículo almofadado, com os braços amarrados por uma camisa de força? é isso que quer? Quer que as gêmeas te persigam eternamente? não vê que caso eu esteja correto, nunca mais terá que se preocupar com elas? quer viver em pânico, é isso?” "Não.” "Você está derrotado. Assuma e me dê a arma. Não pode sem mim. Até o momento fui o único que te ajudou.” Silêncio. Joaquim entrega o revolver a mão do Reflexo, e este guarda na cintura. "Obrigado Joaquim, você fez a coisa certa. Me acompanhe até a saída.” Ambos desceram a escada e foram até a porta de entrada. "Agora, já que estou prestes a sair, e você foi um bom rapaz, te elucidarei algumas coisas. First, eu matei José na sexta à noite quando ele veio buscar o dinheiro conforme o combinado. Dei um tiro na cabeça com a pistola que deixou na mesa para ir ao banheiro, como sempre faz. Não gostei quando ele me ameaçou mesmo que de brincadeira. Depois joguei o corpo no banco de trás do carro e o levei para casa, largando a arma ao lado da mão direita dele, no chão da sala... Posso tomar certas atitudes quando o corpo está extremamente cansado, e há tempos não dormia por causa do café... Second, você não deseja as gêmeas, sou eu quem tenho fantasias por elas, te perseguiam porque você é o santinho, agora ninguém mais pode me impedir, ficará para sempre apagado!” Saiu. CAPÍTULO XLIII DEVIDO AO DEMASIADO egocentrismo, Joaquim conseguiu ”vencer“ a paranóia. Se fez da maneira correta e se o que aconteceu é possível? vale lembrar que a lógica do paranóico não faz muito sentido para as pessoas normais. 94
  • 95. TERCEIRA PARTE: LIBERDADE CAPÍTULO XLIV LEVANTOU SENTINDO-SE ótimo. Ergueu o corpo forte, pero que precisava de um café para acordar. Há quanto tempo não levantava? Alisou o rosto, pelos grossos. As costas doiam um pouco, o lugar onde deitara estava fundo. As luzes apagadas, janela fechada, tudo escuro. Nem mosquito, nem ventilador, nem vento ou cheiro, nada. Precisava morar com alguém, imagine só morrer e nunca ser encontrado? Os dias que passou naquele quarto, será que Alice nem ligara para ele? Checou o celular, ainda está cedo. Correu a cozinha e fez um café bem forte e quente. Cheiro espalhou pela casa, “Essa minha vida, quem me vê tomar tanto café acha que estou fazendo propaganda, não estou”, Bebeu tudo num gole, podia queimar a boca, pero o calor virou a energia que o organismo precisava. Despiu-se e provou uma chuveirada. A lâmina que deu cabo na barba deixou o rosto liso e novo. Esticou o fio do cabelo, Mais de um palmo de comprimento, com um pente penteou para trás e cortou as pontas, pronto. Agora está bom. Exibiu os dentes para o espelho, Sujos, amarelos, Deu algumas escovadas, Limpos, brancos, Essa foi a face que desperdiçou dormindo? Era lindo. Encheu-se de talco, sapato, calça, camisa, caneta no bolso, "Este objeto no bolso me lembra os malandros da lapa”, cantarolou, “tira do bolso essa navalha que te atrapalha...” Elvis e Noel, quanta coisa em comum, "O que teria sido deles se tivessem nascidos pretos? Geniais, ainda geniais. Ligou a vitrola e assentou-se no confortável sofá com café e torradas, “Alvorada lá no morro que beleza...” Catou o celular, agenda, Alice, discar, "Bom dia amor, lembra de mim?” "Lembro, Jo! eu te liguei, pero só deu desligado.” "É! acabou a bateria e não encontrava o carregador!” "Uhm!” "Já disse que te amo hoje?” "Já.” "Como está?” "Estou bem.” "Venha almoçar comigo.” "Onde?” "Aqui em casa, vamos conversar.” "Certo. Às XI?” "Te espero.” "Beijo.” "Beijo.” CAPÍTULO XLV 95
  • 96. COMPROU COMIDA NUMA churrascaria perto de casa e esperou Alice chegar. Tiiiiiiiindoooooom. Campanhia, abraço apertado, beijo na boca, "Oi, Jo.” "Está mais bonita que nunca!” "Seus olhos!” "Que bom que veio.” "Não me cheire tanto, estou fedendo.” "Não está, está ótima.” "Bom, deixa eu comer primeiro.” Foi ao banheiro lavar as mãos e sentou-se ao lado, "Estava com saudades, amor.” "Não parece, nem me ligou.” "Te liguei.” "Hoje.” Joaquim beijou-a mais, "Mal posso esperar para a sobremesa.” "Não dá, estou menstruada.” "Então equivocou-se?” "Só fui precipitada.” Olhou Alice nos verdes olhos e pegou na mão, "Querida, acho que os filhos podem esperar, não é?” "Podem, já tenho uma.” "Temos.” "Temos?” "Temos.” Joaquim pegou o celular, agenda, pai, discar, viva-voz, "Oi pai!” "Oi Joaquim, como ta?” "To bem e o senhor?” "Bom.” "E a mamãe?” "Ta boa, pintando...” "Estou ligando para te convidar ao meu casamento.” Alice surpreendeu-se, "Até que enfim vai casar", disse o pai. "Vou.” "Quando decidiu?” "Decidi agora.” "E Alice, está animada?” "Não sei, pergunte a ela, está ouvindo.” "Está animada, filha?", perguntou o pai. "Muito!", respondeu Alice. "Que dia vai ser?” 96
  • 97. "Sexta. Às nove da manhã. Depois almoçamos.” "Não perderia, a sua mãe vai adorar saber.” "Sim, traga a mulher.” "Vou aproveitar e já comprar o presente.” "Ah, não precisa não...” "Não é pra você, é pra Alice.” "Ah, tudo bem! É só isso, espero o senhor.” "Ta certo, tchau Jo.” "Tchau, pai.” Pausa para ir ao banheiro, voltou, "Por que decidiu?” "Já havia decidido.” "Pero por que quis finalmente marcar a data?” "Não gostaria de perder a mulher da minha vida.” "Só por isso?!” "Ao acordar percebi que não me agradava mais a solidão.” "E...” "Não gostaria de passar o resto da minha vida sozinho. Estou a escrever um romance, fiz um rascunho, você e Aninha eram os personagens que faltavam para o final feliz.” "Que merda de clichê!” "Você quem perguntou.” "Perguntei pra ouvir a verdade, não invenção...” "Nunca gostei de casamento. Pero talvez um relacionamento mais sério, saber que tenho pessoas em que posso confiar, que estarão presentes quando eu voltar para casa e ao levantar... talvez isso funcione para me sustentar e motivar no crescimento.” "Ainda ta clichê, pero ta menos ruim!” "Ah! então cancela o casamento!” "To brincando, Jo! não seja melindroso...” "Não sou.” "Imagina se fosse.” "Pensei que veria uma menina alegre, pero só lamenta-se.” "Estou alegre, era o que eu mais queria...” "E você, qual o motivo de se casar?” "Gosto de compromisso.” "Por que gosta de compromisso?” "Para ter maior segurança.” "Por que tanta insegurança?” "Não sei.” "Tem medo?” "Medo do quê?” "Tem medo?” "Um pouco, de ficar solitária.” "Pensa que com filha ninguém casaria com você?” 97
  • 98. "Não.” "Diga a verdade.” "Mais ou menos.” "Pensou que nunca nos casaríamos?” "Era o que eu achava.” "Então o que iria fazer?” "Não sei.” "Fale.” "Estava triste.” "Por quê?” "Sentia-me só, imaginava que não te agradava o suficiente por isso não queria ficar comigo.” "Comentei várias vezes que não era isso.” "Mesmo assim.” "Na sua cabeça você culpou nós dois.” "Não brigue.” "Não brigo. Apenas acho que leva a sua insegurança demasiado a sério.” "Não sou tão insegura assim...” "É o que tenta parecer.” "Não sou.” "A mim não engana.” "Não me conhece melhor que eu.” "Ah se conheço!” "Tá, concordo. Porém não é só isso.” "Por que esse medo de ficar sozinha?” "Porque morei só quando me separei.” "E depois?” "Depois que fui morar com meus pais melhorou.” "Ficou triste naquela época?” "Muito. Aninha é tudo para mim, mesmo assim é difícil só nós duas, será que eu poderia tomar conta de alguém se temia por mim mesma?” "Há algo importante.” "O quê?” "Muito sério.” "O quê?” "Não quer casar comigo só para não ficar só? acha que sou realmente o que procura?” "Absurdo! eu gosto de você.” "Que mais?” "Confio em você. Mesmo com toda insegurança, medo de ficar sozinha, se não confiasse não ficaria contigo.” "Que mais?” "Você ta perguntando isso só para eu te elogiar?” "Não. Estou imitando o mesmo que fez comigo.” 98
  • 99. "Melindroso vingativo.” "Exagerada.” "Então arrume outra esposa!” "Jamais!” "Então pelo menos me deixe comer que estou com fome e a comida já esfriou.“ "Percebeu uma coisa?” "O quê?” "Sempre que vem almoçar aqui a comida esfria...” "É que você fala demais. Nunca vi um escritor falar tanto, não honra o estereótipo.” "Que estereótipo?” "Depressivo e antisocial.” "É isso que acha?” "É.” "Também acho.” Alice começou a comer rápido como sempre faz, a claridade da pele contrastando com o cabelo escuro e os grandes olhos brilhantes encantava. Sem contar o jeito de menina e a inteligência que guardava, reservadamente, como que inibida. "Alice!” "O quê?” "Eu em algum momento te inibi de falar, se expressar, de certa forma prender o seu raciocínio e a sua liberdade de diálogo e pensamento, como um pai, entende o que eu quero dizer?” "Não muito.” "Graças a Deus.” "Por que graças?” "Porque se soubesse ia realmente parecer que sou culpado.” "Culpado do quê? Se quer saber, nunca me inibiu de forma alguma. Sou dependente como qualquer pessoa, e insegura como toda mãe. Pero sei limitar isso, eu não deixaria meus problemas atrapalharem meus desejos. Sei me impôr, também sou um pouco arrogante, não tenho personalidade submissa, e te conheço há muito tempo para me acanhar. Se o relacionamento acabasse hoje, eu não voltaria para casa e choraria o resto da vida. Amanhã estaria com outro tão inteligente quanto você e tão bonito. Sou bonita também, não sou velha e nem dependente química. Ou uma dona de casa sem autoestima...” "Calma! você levou a mal?” "Não, apenas te respondi.” "Uhm! Eu sei que é. Não te amaria se te julgasse inferior. O meu medo foi quanto a minha conduta.” "Não, você é um santo!” "Oba, me sinto melhor!” 99
  • 100. "Nem tanto, pero é quase!” "Bom!” "E finalmente tomou vergonha.” "Opa?” "Finalmente saiu de cima do muro." "Pelo jeito essas feministas tem bom discurso, porém ainda sonham com príncipe encantado.” "Você ta longe de ser princípe encantado. Pobre, velho e feio.” "Pode dizer o que quiser, sei que você tem bom gosto...” "Convencido.” "E se você me achasse além de pobre, velho e feio, burro?” "Então te mandaria para a puta que te pariu.” "Me sinto melhor.” "Que bom!” "O namoro acabou.” "Vá se fuder.” "Tem uma coisa... e quanto a nossa lua de mel?” "Casa na Chapada?” "Não. Na verdade ia te dizer que mandei reformar, consertar portas, paredes, pintar toda, incluíndo os móveis de madeira...” "Tudo isso? por que escolheu essa época?” "Pode parecer insanidade, porém meu dinheiro saiu e não queria perdê-lo antes de mexer na casa... imagina se não dou jeito... não iríamos aproveitá-la nunca.” "Uhm. Se é assim está perdoado.” "Lembro do Rio... ah! que saudade de me assentar numa padaria próxima a praia de Copacabana... com uns livros, cerveja, café, bolinhos... e ver as moças entrando, uma mais bonita que a outra!” "Reparava muito nas moças, em?” "Lá é terra dos poetas! de Vinicius e Caymmi!” "E de vários outros, contudo não vejo motivo pra ficar reparando nas mulheres.” "Não reparava.” "E por que não vamos pra lá?” "Porque não está casada com um príncipe rico!” "Que pena! fiz mal!” "Fez.” "Termine logo que quero te beijar toda.” "Talvez depois do casamento...” "Talvez agora...” "Na verdade não dá. Vim aqui só para comer, preciso voltar para a faculdade. Me leva até em casa?” "Levo pro meu quarto.” "Tudo bem, vou de ônibus.” "Te levo. Agora?” "Sim, to atrasada, você fala mais que o homem da cobra.” 100
  • 101. "Só me deixa tomar um gole de café antes.” CAPÍTULO XLVI AO CARTÓRIO, como de esperado compareceu os sérios, belos, estranhamente reservados pais de Alice, "Gostavam de mim? Penso que sim. Afinal não eram ricos ou muito estudiosos, minto, eram sim. Mestre em física e ela em psicologia, a situação financeira era boa devido à loja de camas e colchões que tinham.” Também lá figurou a sorridente Ana, sempre alegre, essa sim gostava de Joaquim. Que tal agora, outro pai! Só não havia ciúmes porque o casamento sugere ficar mais perto desse amado. Alice de preto, olhos verdes, seios grandes, não mais bonita do que todos os dias, os Casalescchi bem vestidos chegaram no começo da manhã vindo de ônibus, "Ficarão na minha casa esta noite?” "Não posso filho, sua mãe e eu temos coisas para fazer amanhã.” "Pero é sábado.” "Sim, pero eu tenho que entregar umas encomendas, amanhã o cliente vai lá em casa.” "Fiquem.” "Não dá. Vamos embora depois do almoço. Além disso a casa na Chapada está reformando e não queremos atrapalhar a noite de casados de vocês, veja quantas razões para irmos.” "Não atrapalharão!” "Mesmo assim.” "Então pelo menos os levarei de volta.” "Não precisa, vamos de ônibus, fique com Alice.” "Não preciso, ela tem que ir a faculdade esta noite, e Aninha não morará conosco ainda. Os levarei para casa, pelo menos isso preciso fazer.” "Não se preocupe!” "Não é preocupação, levar vocês de volta vai me dar uma ocupação e também companhia.” "Tudo bem já que é assim.” Os senhores von Linsingen vieram ter conosco, "Bom dia", disse o senhor L., seguido da sua senhora. "Bom dia", respondemos. "E aonde vão passar a lua de mel?", perguntou o senhor L. "Alice e eu vamos adiar a lua de mel", respondeu J., "Assim como a festa, pois não temos tempo e estou a reformar a casa na Chapada. Porém quando estiver terminada chamarei a todos para a comemoração. "Ah", continuou a senhora L., "E tem muita coisa para arrumar? "Não quis ser exagerado", respondeu J., "Só uma pintura em toda casa e colocar mais móveis, como camas nos quartos de visita. Peguei um resto de dinheiro que tinha 101
  • 102. para isso. Aí sim poderemos passar um final de semana inteiro lá e aproveitar o tempo bom da cidade. "Pero camas nós poderemos arranjar", comentou o senhor L., "E ainda daremos a cama de casal. "Muito obrigado", respondeu J., "Vai ser muito bem vinda.” "Estou ansiosa", disse Aninha. "Estamos", disse Alice. "Nos avise com antecedência", comentou o pai de J., "Para eu levar a carne, você tem churrasqueira lá, filho? "Tenho sim pai, no quintal perto da piscina.” "Podem ficar tranquilos que daremos uma festa", comentou Alice, "Só estamos nos casando agora porque Joaquim está com pressa.” "Estou mesmo", respondeu J., "Já éramos para estar casados há muitos anos." "Nisso eu concordo", respondeu o pai. Papéis assinados e alianças trocadas, Alice von Linsingen Casalescchi. Encaminharam-se para o restaurante. CAPÍTULO XLVII APÓS O ALMOÇO tratou de levar os pais para casa. A viagem ia ser longa. Depois de ter passado na rua da casa das gêmeas e ter pensado, "Esperem por mim, meus bebês, tenho de resolver algo antes" ele parou num posto onde comprou alguns galões de gasolina. Finda algumas horas estava prestes a anoitecer e enfim havia chegado ao lar. Ficou na companhia dos pais por mais um tempo, a mãe insistiu para que jantasse, e ela queria mostrar alguns quadros que Joaquim fez questão de pedir para a ornar a casa na Chapada, e esta aceitou de primeira com muito gosto. O pai também apreciava a ocasião, pois não era como a visita a cada dois meses, aquele dia singular marcava o casamento do seu único filho e a partir dali viriam os netos, o senhor esperava, "E os meus netos?” "Desculpe pai, vai ter de esperar, Alice e eu já temos uma filha, a Aninha, além do mais precisamos trabalhar, pero não fique triste pois teremos outro cedo ou tarde.” A mãe chamara-os para à mesa e assentaram-se em ordem, deixando a ponta para o Pai, o frango assado no microondas estava delicioso, acompanhado de um suco gelado de laranja, "Então, filho, está escrevendo?", perguntou o pai. "Estou sim, tô a escrever um romance, em que o personagem principal mata os próprios pais.” "Que horror!", comentou a mãe de óculos, pondo a mão sobre a boca. "Não fique horrozida", respondeu Joaquim, "As vítimas não valem nada, o pai um cachorro pulguento e a mãe uma cadela no cio, assim como vocês o são.” "Do que está falando, Joaquim?!", perguntou o pai. 102
  • 103. Joaquim deu um soco na boca do pai e este foi parar no chão, girando a perna esquerda que meteu na cara da mãe, derrubando-a da cadeira. Então correu ao automóvel e buscou os galões de gasolina. Voltando, logo contra a vontade deles, os arrastou até o estúdio de pintura, lá o senhor acordado questionou Joaquim, "O que deu em você, filho?!” "O que deu em mim? seu zero à esquerda! Pergunta o que deu em mim seu cara de pau!” "O que nós fizemos?", perguntou o grisalho pai, fraco, pálido e olhar acuado. "Bem, se quer saber digo... pai, você um macaco de cérebro atrofiado, arrogante, narcisista, pero não entende porra nenhuma de música, filmes ou literatura; em sete bilhões de pessoas no mundo você se acha o melhor, o próprio Deus, isento de defeitos, a personificação da perfeição! não só ensina o padre a rezar missa, pero ensina medicina ao médico sem nunca tê-la estudado! um verme podre, um cavalo sem o mínimo de polimento. 'Só eu construo, o resto destrói', se somos cocôs ambulantes, você é o esgoto mais podre que já existiu. Mentiroso, parvo, inútil, você reune em ti todos os defeitos que pode alguém pensar. Por ser o melhor, não sabe argumentar, não importa se alguém te prova de milhões de maneiras diferentes a lei da gravidade, se você diz que a gravidade não existe ela simplesmente não existe! um bunda mole sem futuro que se vangloria de todos os atos, como se os outros não importassem e também não passassem por dificuldades! toda gente vive em torno do seu umbigo! superdotado de bosta! verme, repugnante! enquanto eu escrevo, coisa que você não está nem um pouco preocupado em saber você está saindo com prostituta, gastando seu dinheiro, se gabando por ele como fez a vida inteira! Ninguém pode discordar de ti, pois senão dá patadas, diz que somos analfabetos e só você sabe ler, só você sabe pensar, só você age da maneira correta... um poço de virtudes! meu herói! você fede! Quer saber? se tudo isso que eu digo não for verdade, há outro motivo por ter que te matar! eu devo isso aos futuros leitores, me sentiria um charlatão se escrevesse algo que nunca fiz! Agora vá pro inferno com todas as suas qualidades divinas e não venha dizer que plagiei Kafka, pois você nunca o leu, e acreditando ou não, eu consigo pensar e tomar decisões por mim mesmo!” "Você nunca prestou!", disse o pai desesperado. "Obrigado, se vocês gostassem de mim eu me sentiria decepcionado comigo mesmo.” Espalhou os dois galões de gasolina desde a cabeça aos pés do pai e da mãe, assim como no resto do quarto, e o trancou pelo lado de fora depois de ter riscado um fósforo, vão pensar que foi acidente, tem neste ambiente muitos líquidos inflamáveis para retirar tinta, ao sair empurrou a chave para o lado de dentro como se ela tivesse sido fechada pelos próprios mortos e saiu em disparada para Cuiabá. Saberia da notícia se alguém ligasse para ele. CAPÍTULO XLVIII 103
  • 104. AO CHEGAR o relógio de ouro no pulso marcava dez horas, passou pela entrada e viu Alice no sofá sozinha a assistir Drácula de XXXI, "Com Bella?” "Sim! Jo, venha ver!” Joaquim assentou-se ao lado, "Jantou?” "Comi com meus pais, eles insistiram e você?” "Quando voltei da facul, fiz pizza e comi vendo o filme e to até agora esperando você chegar.” "Demorei?” "Demorou, pero sobrou caso queira.” "Estou cheio, só quero você.” "Espere o filme acabar.” "Claro. É nessa parte que ele encara as moças até elas ficarem hipnotizadas...” "É, pero nem vem, espere o filme terminar.” "E Aninha?” "Ficará com meus pais até arrumarmos o quarto dela aqui.” "Ela gostou do casamento?” "Claro, por que não?” "E ela quer vir morar cá?” "Quer. Vai ser bom, dar sossego pros meus pais.” "E como sente-se?” "To bem.” "Entusiasmada?” "Estou, pero não tanto.” "Pois...” "Pois já tenho uma ideia de como é viver com você... gosta das coisas bem organizadas, tudo limpo, 'nunca mexa na minha mesa', e não mexerei, come qualquer coisa e toma litros de café...” "Também sei como é você.” "Como?” "Acorda tarde, passa horas no banho, 'não bagunce meus livros' e não bagunçarei, não gosta de arrumar a cama, não gosta de fazer comida, a não ser que esteja com muita fome e só lava a roupa quando não tem mais.” "Sou prática.” "E os seus pais gostaram do casamento?” "Claro, eles gostam de você. E os seus?” "Gostaram, estão esperando outros netinhos...” "Mais tarde vemos isso!” "Projetos para esse ano?” "Conseguir viver com você.” "Que mais?” "Diminuir minha carga horária na faculdade porque to cansada, e com o tempo começar francês e talvez tirar algumas fotos.” 104
  • 105. "Onde?” "Meu pai me chamou para ir à São Paulo visitar a família.” "Quando?” "Perto do final do ano, ele só disse isso.” "E realmente vai?” "Como vou saber... o velho vive combinando coisas que não faz.” "Então sua mãe e Aninha vão também?' "Claro.” "Vão me deixar sozinho?” "É por pouco tempo, aproveite para visitar seus pais em Rondonópolis, além disso nem tenho certeza.” "E quanto ao francês?” "É algo que sempre quis fazer, desde o ensino médio.” "Tinha francês lá?” "Tinha, porém só aprendi duas ou três palavras.” "O professor era bonito?” "É só isso que pensa? que gosto das matérias porque o professor é bonito?” "Desculpa.” "Bom, era sim.” "E quando vai começar?” "Quando conseguir diminuir minhas aulas na faculdade.” "Então não tem certeza de nada?” "Do que temos certeza nessa vida, senhor perguntador?” "Tenho certeza que te amo.” E a puxou pelo braço, "Quero ver o final!” "Já sabe, todo vampiro morre tendo uma estaca no coração e sua cabeça cortada.” "Não este!” "É, este morre de câncer.” Pelas costas arrancou a camisa dela, seguido do sutiã e a calça, a enfiando para dentro do chuveiro, ligou, a água gelada era de assustar, arrepiou a pele, ensaboou-a completamente, durando vários minutos, a excitação era tamanha, pero a dedicação bem maior. “Is your hair normal or dry?”, passou xampu nos macios cabelos, lavandoos, e apalpou todas as partes do corpo, levando-a para cama onde abocanhou-a pacientemente começando pelos pés, tornozelo, joelho, coxa gostosa, os quadris a barriga sem saliência que deitada formava uma espécie de pia para a língua; os seios volumosos eram amassados pela gravidade tornando-se mais arredondados e maiores; depois os ombros, esticou os braços e adentou os dedos finos; foi para o pescoço e deu uma de vampiro, lambeu o queixo, as bochechas, cuja claridade transparecia as veias; e deu algumas puxadinhas na orelha. Aproveitou que estava molhada e trouxe uma navalha com uma toalha e espuma em spray; espalhou o creme pelo pubis, lado de trás, e axilas, deslizando suavemente a lâmina a favor dos pelos, retirando fio por fio 105
  • 106. com máxima gentileza e atenção, o menor corte que fosse estragaria tudo, virou-a de bruços e pediu para que deixasse as pernas abertas, ela relaxada com a cabeça em cima do travesseiro o fez, "descanse", ele disse, “descanse”, e som daquilo ecoava na imaginação de Alice fazendo-a dormir acordada, afastou as bandas rijas, retirando a pelugem ao redor do anus, que a causou extremo prazer; com o indicador e o médio esticou os grandes lábios, depilando a deixar a pele daquele lugar ainda mais arroseada; cutucou o clitóris eriçado só para vê-la lubrificar mais; depois de feito a parte de baixo que tornou-se isenta de pelos; foi às axilas, colocando o braço dela atrás da cabeça, raspou; tudo pronto, levantou-a nos braços e mergulhou na banheira que estava cheia d’água quente. Mirou os olhos esverdeados que brilhavam agradecidos e a boca vermelha que tremia querendo sexo, porém era cedo demais. "Estou pronta.” "Temos a noite toda.” "Agora!” "Calma.” Ela apertou forte pela calça o pênis dele, então ele tirou a mão e pediu novamente, "Calma.” Puxou o braço dela, deixando a de pé e fazendo-a sair da banheira, se pôs atrás a empurrá-la ao escritório, "É aqui?” "É aqui, deite na mesa.” Deitou, "Não, de costas para mim.” "Vai me comer aqui?” "Não. Coloque os óculos.” Colocou. Deu um tapa na bunda clara dela que logo enrubesceu, "Peça mais.” "Mais!” Deu outro de leve, nada precisava ser com força, "Mete!” "Não.” Agaixou-se ficando de frente com a vulva, abriu passando a língua dura ao redor da vagina e foi entrando calmamente, viu até onde poderia chegar, ali deslizou entre as paredes, tirou, mordeu o clitóris com delicadeza, apalpou os glúteos, "Não vai ver o final do filme?” "Cala boca!” De pé, encostou-se e esfregou a estreita costa, foi ao cabelo solto, juntou-o e prendeu-o, fez um rabo de cavalo e puxou para cima, erguendo a cabeça dela enquanto deitava sobre suas costas, viu a boca se abrir e os dentes a aparecer, "To esperando você dizer.” "Mete logo!” "Não.” Ergueu a perna dela colocando em cima da mesa, aproximou-se mais e a beijou, 106
  • 107. "Quero ver a sua língua.” Ela mostrou, lambeu a língua e disse, "Abra a boca.” Abriu.” "Mais.” Abriu. "Chupe meus dedos como se fosse meu pau.” Ela chupou com muita energia, até o final, lambuzou-os bem, "Você quer?” "Quero", ela disse. "Não ouvi.” "Quero!” Deu um tapa na cara dela e perguntou, "Você quer?” "Quero!” "Vire para mim!” Ela virou, ele então tateou todo o corpo magro e esbranquiçado, viu as veias nos seios e o bico estendido, meteu-lho entre os dentes incisivos, apertou com certa intensidade, "Ai!", ela gritou. Outra vez, "Ai!” Levantou a cabeça e segurou a nuca dela, "Diga esternocleidomastóideo.” "Esternocleidomastóideo!” "De novo!” "Esternocleidomastóideo!” Fitou-a nos olhos e mordeu o beiço dela, "Diga de novo!” "Esternocleidomastóideo!” "Você é uma boa professora de ciências, não é?” "Sou.” Deixou-a cair sobre a mesa, envergando-se e esfregou o clitóris cada vez com mais rapidez. "Diga!” "Esteeernoooocleeeidooomaaaastooooiiiideeeeeooo", ela gaguejava. CAPÍTULO XLIX ESCREVER é uma aposta de vida ou morte. Queria por dois cigarros na boca, acendê-los e dar um pra Betty Davis. CAPÍTULO L 107
  • 108. SOL NASCIDO e transluzindo pela janela, acordou-a com mordidinhas e ela abriu os grandes, verdes e iluminados olhos reclamando, "Para de me morder, você parece um mosquito.” "Ontem gostou.” "Já acordei, agora para.” "Você é como toda mulher, passa da água ao vinho.” "E você é sempre chato.” "Levanta amor, quer que eu traga café?” "Não, obrigada.” "Quer que eu encha a banheira d’água quente pra você?” "Não, vou é urinar.” "Vá, deixa a porta aberta preu ouvir.” "Você quer começar o dia sendo xingado?” "Vindo de você eu até gosto.” "Vou rir pra não te bater.” Desvencilhou-se dos lençóis e foi ao toalete, Joaquim ouviu-a fazer xixi, "Você tem aula segunda?", ela perguntou. "Tenho mais uma semana, depois férias e as suas?” "Ah, tenho mais duas.” "Passam rápido.” "Tem algo que quero te perguntar.” "Tudo que quiser.” "Por que não desiste do ensino fundamental e vem dar aula na facul?” "Por quê? Uhm... seria uma boa experiência já pensei nisso.” "E por que não faz?” "Quer saber, eu gosto mais dos adolescentes, os adultos são burros e não sabem se comportar.” "Concordo, pero mesmo assim... os temas são mais profundos e recebemos mais.” "Não faço só por dinheiro, gosto de saber que os alunos tem alguém para ensiná-los... eu saio de lá e não ficará ninguém.” Ela escovou os dentes e veio sentar-se na cama. "Você gosta mesmo deles, não é?” "Quem não gosta de crianças?” Alice deitou sobre as pernas de Joaquim, belíssima, gigantes olhos verdes agora mais claros pela luz do sol, brilhando como vidros, "Lembra-se de quando começamos a namorar, seis anos atrás?” "Claro!” "Que você me ligava e dizia, 'vem Kafka comigo', e eu ia.” Riram, "Depois dessa você não poderia recusar.” "Quem poderia?” "Nessa época eu ainda fumava.” "Ainda bem que parou, era um nojo, nem sei porque começou.” 108
  • 109. "Quem pode resistir a um 'tome um fósforo, acenda seu cigarro'”? "Não precisa fazer tudo que os escritores dizem.” "E quem mais eu seguiria?” "E ainda dizia que deveríamos todos aprender tupiguarani!” "Ainda acho.” "E você aprendeu?” "Aprendi um pouco, já me esqueci.” "Não se diz esquecer, se diz olvidar.” "Nevermind, é tudo sinônimo!” "Sinônimo não existe!” "Só para Quintana, tente escrever uma longa prosa sem sinônimos!” "Não é essa a questão...” "To brincando. E Chicó que usa um dicionário?” "Acho horrível.” "Imperdoável mesmo são os que usam dicionário de rimas, vê se pode?!” "Mereciam uma bala na testa e que mandem a conta pra família.” "O que achou do último filme do Tim?” "Mais vendido que gemido de puta.” "Burton, Tarantino, foi-se o tempo deles.” "E o álbum do David?” "O que são aqueles dentes perfeitos? só pode ser dentadura.” "Lembrei do sorriso do Depp no Ed Wood.” "Foram só os dentes, coitado do Johnny que perdeu braços e tudo na guerra...” "Coitado!” Ring! Ring! Ring!, Celular, "Deixa eu atender, amor.” "Alô?, Sim, é ele. Bom dia, Como assim?!, Meu Deus!, Você ta brincando?!, Meu Deus do céu!, Pero como foi isso?!, Meu Deus do céu!, Então só na terça?, Se eu for aí hoje não consigo fazer nada?!, Como fica tudo fechado, vocês não trabalham não, porra?!, Meu Deus!, E na terça eu consigo fazer tudo então?, Ta certo, obrigado. Lágrimas escorrem sem parar dos olhos de Joaquim, "O que foi, Jo?” "Era da polícia.” "Polícia?” "Meus pais morreram.” "Minha nossa, como assim?!” "O ateliê da minha mãe pegou fogo, morreram no incêndio.” "Vamos pra lá agora!” "Não dá. Os corpos estão no IML, só poderemos ver e fazer o enterro na terça.” "Sem velório?!” "Não podemos... foram carbonizados, mal sobraram os ossos... e mesmo que fôssemos esperar lá não teríamos lugar para ficar.” Alice abraça Joaquim e este chora mais. 109
  • 110. "Pero como assim, como isso foi acontecer?” "Não me disseram, pero havia muitos produtos de remoção de tinta inflamáveis lá... nunca se preocuparam com isso e veja agora... puro descuido! morreram à toa!” "Não fale assim, quem poderia imaginar isso...” CAPÍTULO LI "EI MENINAS! arrumem-se logo que seu pai vai passar aí daqui a pouco!” "Estamos prontas mãe", gritou Maria, e Carla completou, "Maria demorou muito no banho!” Luzes ligadas, a família se aprontava para sair, buzina, "Seu pai chegou, desçam!” Desceram, "Cadê?", perguntou Carla, vestida com calça jeans, blusa branca de manga longa, daquelas folgadas... cabelo dourado encaracolado na ponta, batom marrom fraco, lápis no olho, bochechas vermelhas. "Vai ter comida lá? to morrendo de fome", disse Maria, igualmente bonita, tamanco, saia, camisa azul sem manga. "Claro, vai ter janta", falou a mãe, divorciada, de vestido, magra, quarentona ainda comestível. Entraram no carro que esperava o pai, alto, louro, cabelo penteado para o lado, roupa social. Acha estranho descendente de alemão ser católico? é devido a família da mulher que já morava em Mato Grosso, como ele não era muito religioso logo aceitou; mudaram-se pra Cuiabá, como todo sulista, em busca de melhores trabalhos e logo acostumaram-se ao mortífero calor. Ajeitam-se no banco, "Você come demais, Maria, está gorda", comentou Carla provocando. "Preciso comer, eu corro enquanto você só fica parada esperando receber a bola.” "Como vão as minhas meninas?” "Bem", responderam descontinuando a briga. Festa na igreja, tudo iluminado, várias mesinhas em que os adultos comiam salgadinhos, conversavam tomando cerveja, barracas de brinquedos, pescaria, doces, tinha até um touro mecânico pra quem tentasse a sorte com o prêmio. O padre preparava a carne na churrasqueira, servia os outros, dava umas bicadas no copo e na picanha, costela assada, mesa longa com jantar servido, arroz branco, maria isabel, farofa, maionese, macarrão, peixe, galinha, refrigerantes, sucos, salada farta, e ainda bem, molho pronto para derramar sobre as folhas. Todos adequadamente vestidos, tirando as coroas espalhafatosas, muita maquiagem, sapato alto e brinco pesado. A noite que os acompanhava estava boa, não quente e nem fria, apenas fresca e a lua próxima iluminava as áreas onde não chegavam as lâmpadas. Sim, claro, essa não é uma festa tão comum, só há gente conhecida e não pode entrar estranhos. 110
  • 111. "Fique de guarda!", disse Carla a Maria, que se pôs encostada num canto observando os adultos enquanto a irmã corria para de trás da igreja, a fim de encontrar-se com um menino chamado Miguel, "Oi” "Oi", ele respondeu, meio envergonhado, com preocação, pero empolgado; Carla mais animada olhou para trás, não vinha ninguém, então aproximaram, sem tocar o corpo, somente a boca desengonçada que foi colando, abrindo os lábios, respiração pesada, enconstaram a língua sem saber o que fazer por um tempo, logo sem ar pararam para respirar, respiram, voltam, que coisa chata é essa? porém tanto faz, eram agora adultos que compriam com suas obrigações; mais tarde aprenderiam que como a cerveja, o cigarro, a cocaína e o café, o beijo no começo era ruim, depois acostumava-se por puro ritual, hábito; era a partir desse momento mais madura, e ele poderia dizer aos amigos que havia pego a moça mais bonita da escola, estava de pau duro que foi diminuindo até voltar para junto dos amigos. CAPÍTULO LII O GRANDE EGOÍSTA POR JOAQUIM CASALESCCHI Após a vida difícil no interior João quis tentar viver na capital; desde criança sonhava com casa grande, piscina e enorme jardim gramado, um sobrado, portão preto e uma garagem pois com certeza teria carro. Aos XX anos deixou os pais, casando-se com uma moça pobre, eles iriam finalmente ter o lar dos sonhos, teriam até espaço para cachorro. Ótimo casamento, muitos convidados, um bolo para comemorar, todos felizes, paletó emprestado, vestido de noiva feito pela mãe. A família enfim livraram-se de gastar com a filha, estava casada, o marido que a sustente agora! Viajaram. Com o trabalho no mercado e o dinheiro de presente que recebeu, depois de muito procurar achou um terreno vazio, num bairro novo, então o grilou (v. 1. possuir terra sem autorização). Conseguiu algumas tábuas e uns pregos, precisavam de um teto e quatro paredes para as noites de amor. Construído, tudo pronto. Como foi ele mesmo que fez a casinha, estava orgulhoso. Não tinha quartos ou banheiro, pero ali poderiam jogar um colchão para matar o desejo sexual dos jovens. Caso quisessem banhar, teriam do lado de fora uma caixa d’água, e no mato fizeram um buraco com apoio para defecarem... de tempo em tempo João jogava as cinzas do forno a lenha na fossa, para diminuir as fezes e o cheiro ruim. A comida era pouca, trabalhar de empacotador não era nada lucrativo. Sem água encanada, sem luz elétrica. Estava a conseguir juntar um dinheirinho para comprar um rádio usado, no decorrer deste tempo a bichinha emprenhou-se, e depois de uns meses estava barriguda. Sorriso lindo de poucos dentes, desgrenhada, analfabeta, sem modos; o marido igualmente. O filho nasceu e cuidaram muito bem dele, todos os meses colocando o dedo embaixo do nariz melequento para ver se o bebê estava respirando. Parabéns pais! estavam a criar de forma ótima o filho! e quase 111
  • 112. não batiam nele! Quando este moleque atingiu dez anos de idade, como uma escada, havia abaixo dele um irmão de nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, e outro que a mãe carregava na barriga. Que família feliz! Aprenderam cedo o valor do serviço, engraxavam sapato, vendiam limão, doce e qualquer outra coisa para não morrerem de fome. E assim a vida foi levando, o mais velho de dez anos passou a ter XXX, e o mais novo agora XX. O pai sofrera um acidente num caminhão de mudança, fazia bico, o sofá pesado havia achatado sua cabeça e esmagado as pernas, então debilitado, fraco, doente, passou a conversar com a casa, que em todos esses anos nunca mudara, ele dizia, "Oh, minha casinha, casinha que eu construí, aqui cuidei dos meus filhos, da minha mulher, me protegeu de sol e da chuva, oh bendita casinha!" Assim passava o resto dos dias, dava, "Bom dia, Boa tarde, Boa noite", passou a gostar mais da casinha do que da própria família, "Esta é a casa dos meus sonhos, casa que eu sempre quis ter", e quando gotejava, "Oh, casinha, não fica assim não, não precisa chorar que as coisas vão melhorar", e quanto ao mofo, "Oh, casinha ta precisando de um banho, não tá não?", e enfim no útlimo dia da sua vida perguntou tristemente à casa, "Oh, casinha, poxa, você não foi o que eu imaginei quando eu era criança, eu queria ter uma casa grande, bonita, no centro da cidade, jardim e tudo, pra eu deixar de herança pra família e veja, eu morro e não deixo nada pra eles, por que fez isso comigo?", chorava; então a casa o respondeu, "Seu João, quando você era garoto eu também partilhei dos seus sonhos, até sonhava mais, queria mais coisas, queria ser uma mansão, dois andares, estar num bairro de luxo, com coisas caras, móveis chiques, academia, piscina longa, um cinema, ter uma praça como jardim, e no quintal lagoa, campo de futebol; pero você vê, tudo que fez de mim nestas três décadas foi montar alguns pedaços de madeira que já estão podres, foi todo seu investimento; Agora vai morrer, e eu? eu fico aqui por mais longos anos, se você não realizou seu sonho, mais decepcionado fiquei eu, que tudo termina hoje pra você, porém carregarei essa minha frustração para o resto da minha vida... como pode ter sido tão egoísta para comigo? E não pense que não tentei, pinteime de azul, e veja que nem tenho braços, e na parte da frente plantei lindas flores, assim como os pés de manga nos fundos; hoje o único conforto que posso te dar é dizer obrigado por ter me construído. CAPÍTULO LIII "VOCÊ ESTÁ A escrever Jo? você é tão forte", disse Alice, jeito calmo, voz tranquila, precisa, olhos verdes murchos, pondo a observá-lo no escritório, enconstando-se na porta com uma xícara de café com leite. 112
  • 113. "Estou escrevendo, pero não por força, e sim por fraqueza, só os fracos escrevem, já disse Bram Stoker em Drácula, 'é ao meu diário que recorro em busca de alívio, deve livrar-me desta aflição', ele respondeu sem tirar a vista do papel, batendo nas teclas, aparentando indiferença para diminuir a tristeza do recinto, de forma sutil, não arrogante. "Tem razão", completou ela e fez um comentário, “a melhor interpretação do livro foi do Murnau, trinta anos presa, quase a perdemos.” "Sim, relativamente.” "Por que diz isso?” "Bom, no fim da primeira guerra não tinha como não criar um monstro, nesse sentido é mesmo a melhor, pero há outras coisas, né.” "Concordo, Coppola o reviveu” "Para mim é a versão mais fiel, mais parecida com o livro, que retrata o rei Vlad. "Bem diferente do filme do Bella” "Mania que eles tem de fazer tudo mais bonito, né?” "Murnau só acompanhou a onda de terror, por isso o fez diferente, sem cabelos, lembrava a palidez de fantasma, além de dar enfase ao olhar e aos dentes.” "Dentes de rato...” "Em LXX eles fizeram a comparação, até melhor, pois um rato mata muito mais que morcegos, até saem de dia...” "Sim, sim... Goethe vai retratar a peste negra em Faust, enquanto Bram não.” "Jo, outro dia estava lendo sobre o Poço e o Pêndulo...” "Diga...” "Sobre o poço ser um enorme vazio, desconhecido, como o pior terror do personagem... tem uma teoria que o autor quis recorrer aos primeiros pesadelos do homem desde que era um menino... o mistério do corpo da mãe, ela apenas como um pai sem pênis, imaginando ter sido parido pelo anus.” "'Se ocuparia' do Machado de Assis", disse Joaquim rindo muito, Alice o acompanhou, "Só você mesma pra me fazer rir numa hora dessas! E o pêndulo? Um willy-cut?” "Faz sentido não faz?", perguntou ela com os grandes olhos verdes sorrindo. "Faz muito, na verdade agora cogito ser por isso a tara do homem pelo sexo anal... a primeira fantasia sexual, crianças são tão ingênuas!” Riram. "Você não tem essas fantasias, tem?” "Acho que não, pero vai saber o que se passa no meu inconsciente...” Silêncio. "Jo, mudando de assunto...” "Diga...” "Ligarei para escola para avisar que você não vai lá na segunda.” "Não faça isso.” "Vou, você não pode ir antes do enterro.” "Não...” "Te peço.” 113
  • 114. "Tudo bem então, pero tente mudar a aula para sexta se for possível.” "Tudo bem.” E a melancolia pairou absoluta no ar. CAPÍTULO LIV APÓS O BANHO, e com a irmã a dormir, Maria pegou da bolsa um caderno preto a qual usava de diário, assentada no chão com caneta e roupa para dormir, o cabelo dourado e perfumado e alguns resquícios de maquiagem não removidos das bochechas, Cuiabá, 05 de Julho de 2013. Com inveja? confesso que um pouco; hoje fomos a festa da igreja, e Carla ficou com um menino chamado João da outra turma, é bonitinho, acho que o mais bonito da sala dele, mais alto, nem aparenta a idade que tem; joga futebol, penteia o cabelo para trás, olhos castanhos mel, veste sempre tênis com calça jeans; meio tonto, é verdade, pero parece ser sincero e tem bom coração; não chega, óbviamente, aos pés do professor, meu único amor, pero não é ruim; não quero falar mal, pois quem desdenha quer comprar; na verdade estou mesmo preocupada com o que ele vai falar para os amigos, espero que ninguém fique sabendo; ninguém viu tirando eu, fiquei na parte da frente vigiando pra ver se vinha gente; Carla já fez o mesmo por mim, da vez que eu fiquei com o Eduardo, nunca mais vi depois que saiu da escola, nunca mais beijei ninguém; ontem ela me perguntou se devia ficar com ele; queria e como parecia ser gente boa eu disse que sim; voltou animada, gostou, nunca tinha ficado com ninguém, até pensa que é o primeiro o último, vou tirar essa ideia da cabeça dela, nem quero que ela o veja de novo se for ficar pensando nisso porque sei que vai sofrer; não sou experiente, pero imagino que nessas horas ninguém é maduro; senti tanta falta do Eduardo depois, é a vida, fazer o quê... tenho outra preocupação... com a nota da prova que o Joaquim vai trazer segunda, espero ter saído bem, me esforcei; ele pediu uma redação sobre o trabalho escravo, escrevi quase duas páginas, será que ele gostou? os erros de português e rasuras eram tantas, quero tirar a maior nota... aé, havia esquecido, estou aqui na casa de papai, amanhã nos levará ao zoológico e depois para ver filme, temos visto filmes todos os domingos; nem sei o que está a passar, lá escolheremos; as férias estão quase chegando, gostaria de ir para Florianópolis, praia, praia... ver a minha vó, faz tempo que não vejo, ela sabe fazer uma cuca de maneira ótima, como por dias; Carla me chamou de gorda, sei que estava brincando, pero agora to pensando... será que estou mesmo? para ficar pensando sempre em comida... ou to frustrada, ou é falta de treino, ou ansiosa... será que estou amando? tem formigas aqui no quarto, existe algo no mundo mais morto de fome do que elas?, to cansada, beijo, diário. CAPÍTULO LV 114
  • 115. OS PRIMEIROS oito minutos de sol entraram com cautela pela janela, silenciosamente, a fim de furtar o sono dos donos da casa; aproximaram-se da palidez de Alice, e ao chegarem mais perto mostrou-a mais bonita e clara, esquentaram a face e as pálpebras, que despertou assustada mostrando as esferas esverdeadas, suavizaram de tom até um cinza, e se pôs pronta para levantar, porém esperaram o restante do corpo que não havia livrado-se do resto de preguiça de uma energizante noite de descanso; ela puxou o ombro de Joaquim que ainda estava imóvel, balançou-o e disse, "Acorde Jo, hoje é o dia.” "Espere mais um pouco", respondeu. Então a senhorita de poucas roupas deixou a cama, dirigiu-se ao banheiro, lavou-se e foi a cozinha fazer café; Joaquim neste momento já havia saído e estava a escovar os dentes com movimentos circulares. À mesa, "Como está, Jo, preparado?” "Estou bem, afinal é a nossa conflitante vida, é o já anunciado fim quem nos joga para esperada eternidade, o que seria de um bom começo sem um grandioso término?” "Tem razão.” "Pois tenho, não foi Álvares quem disse que todo ano a morte leva o melhor de nós? além disso Sêneca nos garante que o tempo é o bastante, e a morte é nada devastadora se sabemos usar as chances que nos foi dada; garanto que o meu pobre velho teve uma vida rica; teve muitos afazeres, muitos compromissos e honrou com todos, batalhadoramente; confesso estar triste, pero alguém que não lembro o nome nos ensinou que os piores momentos acabarão ao nascer de um novo dia." "Devemos então aproveitar bem o restante das nossas, e fazê-las boas, assim como fizeram seus pais", Alice continuou, na tentativa de animá-lo, pois óbviamente sabia que Joaquim não estava tão bem assim, estava como qualquer um que perdesse os pais estaria, abalado. Após o breve diálogo aprontaram-se e saíram. O silencioso cemitério estava lotado de depredadas sepulturas, mal cabendo as novas; por aí algumas garrafas de bebida e velas completamente derretidas; gatos e cachorros de rua também passeavam por lá, junto das bostas de pomba; o casal foi enterrado e Joaquim não quis ver os corpos, com algumas lágrimas no rosto e Alice que o acompanhava em cada passo; não sei dizer se havia alguns parentes no sul, pero apenas eles apareceram ao enterro; eram reservados e como Joaquim não conhecia os amigos dos pais em Rondonópolis não convidou ninguém. QUARTA PARTE: AS GÊMEAS CAPÍTULO LVI DIÁRIO DE MARIA DAVIDOFF 115
  • 116. Cuiabá, 08 de julho de 2013. Lembrete: não me aproximar de novo na jaula das cobras; por quê? porque tenho um medo terrível, não são venenosas, pero grandes, grossas, pesadas, e sobem na árvore de galhos finos, afinal por que deixaram uma árvore na jaula das cobras?, e lá ficam penduradas, acima de nossas cabeças, para fora do espaço... uma vez ouvi dizer que a civilização que não venera as seperpentes, as detesta, como os cristãos; fácil saber o motivo, como podem ser tão bizarras... e o que deveria estar sentindo aquele coelho branco correndo ali dentro? Agora falando de coisas boas, vi as ariranhas que estão sempre a nadar velozmente e comer o peixe agarrado em suas unhas compridas; pero gritam demais. Para as onças jogam frangos mortos, depenados; há também uma galeria de pássaros, urubus e gaviões de enormes asas; vi também um tucano que o colorido bico encontrava-se quebrado, me deu tanta dó. O zoológico possui partes bonitas, pero é ruim prenderem os bichos. Saindo, fomos nós três, Carla, papai e eu ao cinema, não encontramos nada de bom, e a julgar pelo preço do ingresso não valia a pena; dessa forma comemos, voltamos e planejamos ver o que iria passar no Cineteatro para o próximo final de semana. Carla, cabelo em mechas, que do topo da cabeça tem um castanho escuro e vai clareando até a ponta que sem peso forma-se em cachos num amarelo vivo e brilhante; olhos azuis translúcidos, nariz pequeno e bochechas mais coradas, arredondadas combinando com o pequeno lábio; depara com Maria assentada no canto do quarto, de óculos, aparência séria, escrevendo, "O que ta fazendo?” "Escrevendo no diário.” "Algo sobre mim?” "Um pouco.” "Posso ler?” "Como poderia se é segredo?” "Nem todo diário é segredo.” "O meu é, por que não escreve no seu?” "Não tenho paciência, não vejo importância.” "Vai lembrar dos seus dias quando precisar.” "Quando vou precisar?” "Quem sabe tenha boas ideias, nunca tem?” "Às vezes.” "Então comece.” "Não quer conversar?” "Sobre?” "Aquilo.” Maria fecha o caderno e o coloca de lado, junto da caneta, "Diga.” "Se zangou?” 116
  • 117. "Não.” Carla senta-se, "O João contou.” "Contou o quê?” "Pros amigos.” "Eu te disse.” "E agora?” "Acha ruim?” "É, vai saber o que ele disse de mim!” "Quem te falou?” "A Márcia.” "E como ela sabia?” "Ficou sabendo.” "Não precisa se preocupar.” "Por quê?” "Bom, se ele te fez mal, não o veja mais.” "Simples?” "Eu te disse o que poderia acontecer, pero é como aquele ditado, não tem como saber se não tentar... e depois você não precisa dele; caso for prejudicada pode encontrar outro, problema não é seu... qualquer um gostaria de sair com você, então não se preocupe com essas coisas bobas, se anime, esqueça... imagino que homens independente da idade adoram contar vantagem...” "Contar vantagem?” "Lembra do que o professor disse que promiscuidade é status entre eles? por toda história foi assim... vi uma pesquisa por exemplo, feita em uma cidade dos Estados Unidos, que até a década de LXX a maior parte dos homens perdiam a virgindade com prostitutas, depois esse número caiu com a liberdade sexual das mulheres logo ali nos anos LX... aqui no Brasil nós podemos falar dos grandes prostíbulos em São Paulo que fecharam, saca, “as profissionais estão perdendo espaço para as amadoras”. "Maria, não estou entendendo como isso pode me ajudar.” "Quero dizer que com oportunidades iguais, não somos mais reféns da promiscuidade masculina, e podemos assim como eles, ter a liberdade de escolher e fazer o que quisermos... sei que não estamos falando de sexo, pero dá na mesma, não é?” "Está dizendo que deveríamos ser todas promíscuas?", Carla riu. "Claro que não! estou dizendo que não estamos presas ao casamento e nem temos de aturar nele tudo... como se resumisse ali a vida inteira de obediência ao marido.” "Entendo, tava brincando.” "Se anime, nunca vi jogadora de handball desanimada.” "Difícil.” "Vá ver tevê.” "Para ficar mais triste? vou ler.” 117
  • 118. Maria retoma ao caderno, Voltei. Carla passou aqui para falar sobre o João, sei que não está tudo resolvido, pero está quase... ela ficou triste por ele ter se gabado aos amigos... pero é inteligente e logo superará isso, afinal é minha irmã, e tem uma ótima conselheira que sou eu; estou puxando meu próprio saco? Algo aconteceu segunda, o professsor Joaquim não foi a aula... a coordenadora avisou que os pais dele faleceram e viajou para o interior... que triste! estou deprimida por ele! espero que esteja bem; a aula foi trocada pela de geometria, que aconteceria na sextafeira, assim o verei, e trará a prova... nem estou mais preocupada... na verdade nem me importo... quanta tristeza há no mundo, não basta só uma pessoa desacorçoada, precisa ser minha irmã, meu professor e por eles eu também fico. Essa semana, a última semana antes das férias. Outro lembrete: fazer muita coisa nos deixa sem tempo, e sem tempo não fazemos nada. CAPÍTULO LVII ENTRA Alice, com a típica caneca de café quente, e chega-se a porta pra conversar com Joaquim que está a escrever na já conhecida escrivaninha e computador. Ela está querendo conversar sobre qualquer coisa, está um pouco entediada, e ainda sente pela morte dos pais do marido, pensa que ele está se fazendo de forte. O cabelo apesar de liso não pode estar tão ajeitado assim, bagunce mais, um pouco mais, assim, agora ajeita a camisa que está muito passada, se está em casa tem de ser mais relaxada, olha os ombros! um pouco tortos, isso, pronto. "Jo.” "Diga...” "Ainda está a escrever o romance?” "Sim, ainda estou, falta pouco pra acabar.” "Quanto tempo?” "Uhm... mais ou menos um mês... vai saber, ando sem tempo.” "Fazendo muitas coisas?” "Sim, trabalho e muita coisa para escrever, pensar, ando deprimido...” "Sei... e nesse seu livro terá sexo?” "Pouquíssimo, acho enfadonho...” "Pois...” "É legal para quem faz, pero para quem escreve é muito complicado... sabe... achar algo inovador, cenas novas... sexo é tão antigo que chega a ser desmotivador! não há nada que ninguém nunca tenha feito, por mais bizarro que seja.” "Estamos num mundo de gente louca.” "Se estamos... sem contar que tem coisa que não suportaríamos ver, fazer, pensar... e nem quereríamos que o leitor lesse, então se torna mais difícil, mais limitado.” 118
  • 119. "Entendo... mania feia essa que nós temos de interpretar impulsos hormonais psicologicamente... procriação, sexo, fome...” "Bom, pero isso é em relação a tudo né, amor...” "Até o amor!", Alice repete. "Até o amor! pero o que seria do escritor se não fosse isso... inventássemos sentimentos, fé, raiva, angústia... tudo precisa ser reinterpretado pelo cérebro... hahaha! imagina só! que coisa estranha.” "O quê?” "O normal é usar a fantasia para criar metáforas, etcétera... o diferente é partir para o biológico... que não é nem um pouco agradável. É assim mesmo, o ser humano faz de tudo pra separar-se dos animais.” "Animais não tem Deus!” "Exatamente, nem amor... e apesar de não amarem ou namorarem, festejarem casamento, comprar aliança, trocar confidências, e todas aquelas delicadezas, eles conseguem se reproduzir tão bem quanto nós!” "Veja o exemplo das formigas... deve haver mais dentro de uma casa do que pessoas no planeta!” "Isso, isso. E temos de lembrar que quanto maior a educação de um povo menos filhos eles tem... há até uma pesquisa feita que as mulheres que estudaram em escola pública tem filhos mais cedo!, será por quê? Filmes, novelas, seriados, também ajudam para que isso aconteça... veja que a maioria desses produtos falam sobre namoro, casamento, filhos, sexo, traição... além de ser um tema mais fácil e ainda naquela mesmice de príncipe encantado e felizes para sempre... usam isso para fazer os pobres terem maior prole, uma mensagem implícita.” "Uhum, Jo, nem o aborto é legal... a taxa de natalidade brasileira está lá em cima, junto da mortalidade infantil, analfabetismo, desemprego, pobreza, mão de obra sem especialização, será que ninguém vê que está tudo ligado?” "E os jornalistas não ajudam, né? já vi matéria comemorando que nasça um monte de crianças, poucas chegam a idade adulta e menos adultos a velhice! Outra dizendo que a taxa de paulistanos endividados continua estável... estável? quer dizer que não saem nunca da dívida? estão comemorando não ter aumentado, é isso? hahaha!” "Que falta de sentido!", disse Alice sorrindo e olhos verdes brilhando, feliz pelo bom humor do esposo. "E voltando ao assunto do hormonal tornar-se psíquico, libido, fantasia sexual, e aquela conversa freudiana... pense a respeito dos eufemismos sexuais...” "Eufemismos sexuais? tá falando de dizermos 'sexo' e não 'foda'?” "Muito pelo contrário!, pense dessa forma... se eufemismo é trocar a verdade por uma sutileza... a verdade é que transar, fazer amor, fuder, trepar, comer, trocar o óleo, afogar o ganso, etcétera, etcétera... é tudo eufemismo para acasalamento, ou copulação... veja como bebe dessa taça o escritor... é muito melhor e mais eficaz dizermos, por exemplo, 'chupa meu pau, vadia', do que 'vamos voltar a fase oral da infância, você coloca meu orgão reprodutor na boca'... ou para os namorados, 'vamos 119
  • 120. dormir mais cedo' ou 'matar o desejo'... ou amigos conversando, 'cara, comi aquela menina' do que 'cara, me acasalei com ela'.” "Já sei aonde você quer chegar", disse Alice, "Quer dizer que escrever sobre amor e sexo são os temas mais difíceis por serem demasiadamente populares e cheios de expressões e fantasias velhas e bem estabelecidas culturalmente, tanto que até produtos ou más literaturas fazem uso disso para vender ou tornar-se popular devido a pouca inteligência dos consumidores... fala da complexidade em fazer o sexo ser tanto psicológico e excitante, sem desprezar totalmente a parte biológica, e sem tornar o texto medíocre?” "Exato, doce Alice, por isso te amo!” "E isso é possível?” "Te amar ou escrever bem?” "Escrever bem.” "Acho que não.” "E me amar?” “Neste assunto compartilho do mesmo pensamento de Schopenhouer.” CAPÍTULO LVIII "MENINAS, o seu pai disse algo da viagem?” "Nós vamos por volta da segunda semana de férias", falou Carla. "Ainda bem!, to morrendo de vontade de ver a vovó!", disse Maria. "Já faz um ano que vocês não a vem, não é?” "É", respondeu Carla, animada, "To com medo de passar frio.” "Levem roupa, acho que lá vai fazer muito frio.” "Vamos levar", emendou Maria, "E ainda temos roupa na casa dela, que deixamos da vez passada...” "Isso caso servir! vocês cresceram!” "Nem crescemos...", disse Carla. "Pelo menos um pouco!", exclamou Maria, “Afinal treino todo dia pra quê? Você é que não deve ter crescido.” "Se crescemos, eu cresci mais, não sou gorda!", respondeu Carla. "Gorda é você!” "Ta bom, agora parem", disse a mãe, "E quando afinal, começam as férias?” "Sexta é o último dia", respondeu Maria. "Então até próxima sexta vocês já foram para lá?” "Sim", respondeu Carla. "E seu pai não vai falar comigo?” "Não sei, por que falaria", perguntou Maria. "Precisa pedir permissão!, não pode simplesmente aparecer aqui e levar vocês!” "Ué, pero já estamos avisando", comentou Carla. "Mesmo assim, ele tem que pelo menos ligar.” "Falarei com ele", disse Maria. "E as notas?, como estão?” 120
  • 121. "Estão bem", falou Maria. "Os pais do professor de literatura morreram", comentou Carla. "Estavam velhos?” "Não sabemos", respondeu Carla. "Deviam estar doentes... no fim todos morremos um dia.” "O professor deve ter herdado a casa dos pais no interior", comentou Maria. "Ah, então moravam no interior... acho que ele terá de vender ou alugar já que mora aqui.” "Sim. E esta casa vai ficar com quem?", perguntou Carla. "Bem, quando seu pai e eu morrermos vocês podem ver quem vai ficar com esta e quem vai ficar com a casa do seu pai... "A casa do papai é minha!", respondeu Maria. "Só por que é maior?", perguntou a mãe. "A Maria gosta mais de lá, ela não gosta da senhora...", comentou Carla. "Para de fazer intriga", disse Maria. CAPÍTULO LIX TALVEZ as novas folhas das jovens árvores do Amazonas, regadas há milhares de litros de chuva o ano todo, ou as verdes ondas do mar de Caymmi, brilhando em alto sol ao forte vento do longo verão carioca e quente... talvez os matogrossenses rios nascidos no seio de Oxum e as cachoeiras com suas violentas e eternas batidas contra as pedras escuras, lapidando-as na erosão há décadas e décadas... talvez nem todo verde naturalmente brasileiro, das suas angelicais e gigantescas florestas intocadas e desconhecidas do homem, as quais somente o bondoso Deus tivesse visto e inspirado dali as coisas maravilhosas... nem todo simbolismo de Cruz e Souza ou o azul do amplo e magnífico céu combinado com o ouro da rica terra cuiabana daria o verde tão bonito dos verdes e cintilantes olhos de Alice sorrindo... "Jo...” "Diga...” "E casa na Chapada, já mandou pintar?” "Estou combinando, vou na sexta lá para tratar disso.” "Meus pais disseram que podemos ir pegar as camas, e amanhã trarão a de Aninha para cá.” "Tudo bem, sem problemas... avise-os que na próxima semana passarei lá para buscar as camas... isso se couber no meu carro...” "Cabe, seu carro é grande.” "Desmontadas...” "Desmontadas, claro...” "Não será difícil parafusar as camas?” "Acho que não, vou pegar uma chave inglesa com meu pai.” "Sim.” "Então Aninha terá cama em três casas...” "Três?” 121
  • 122. "É... casa dos meus pais, aqui e na Chapada...” "É mesmo, não havia pensado nisso... se enjoar de mim poderá mudar.” "Ela gosta tanto de você...” "Estou brincando, amor. To pensando na última aula de sexta. Queria falar sobre alguma coisa, alguma dica?” "Passe alguma tarefa para as férias.” "Tipo o quê?” "Diversidade cultural brasileira e Montagne... Artista da fome de Kafka e a anorexia... Alienista de Machado e o tratamento de doentes antes de Freud e o atual fechamento do manicômio Adalto Botelho... O cortiço com as favelas ou falta de moradia... que mais...” "Ah, quantas ideias boas! acho que posso dividir a sala em grupo para isso, pois não vão ler tudo nas férias.” "Exatamente.” "Já disse que te amo hoje?” CAPÍTULO LX SENTADOS à mesa do café da manhã, Alice à esquerda com o jornal de hoje na mão enquanto Joaquim a ler “um carneiro", do mestre Augusto dos Anjos, e comentou com a mulher, "Veja que neste poema ele se parece com a poesia barroca de Gregório de Matos, aquela que diz para Deus, 'não queira perder na vossa ovelha a vossa glória', Augusto colocou 'carneiro, se fosses Deus no dia do Juízo talvez perdoasses os que te mataram'... "Uhum, parece que ele tem um pouco de cada, não é?” "Sim, por exemplo em 'versos íntimos' eu interpreto a violência na sociedade com 'o homem que mora entre as feras sente necessidade de também ser fera...'” "Bem legal!” "Em 'tristeza' ele usa toda hora uma palavra inglesa, a clown... veja que ele nem esperou o modernismo pra fazer essas coisas!” "Além dele ter a perfeição de um parnasiano!” "Sim, sim...” "Será que ele defendia o vegetarianismo como Kafka?” "Acho que não... é algo mais íntimo, do homem ser uma 'fera' até na própria comida.” "Uhum!” "Acho absurdo algumas pessoas não darem devido valor a poesia.” "Claro, essas pessoas vão andar em quatro patas pro resto da vida.” "E por que você não lê o jornal ao invés de ler essas poesias que já sabe de coração?” "Ah, pero o jornal também sei de coração!” "Como?” "Aí vai dizer o quê? que o Brasil está ruim e morreu um monte de gente?” 122
  • 123. "Sim... porém é aí que está o porém... ta ruim na onde e quem morreu?” "Concordo... pero se engana em dizer que sei tudo de coração... algumas preciso ler.” "Tá bom... agora vamos indo, me leve pra facul que tenho que chegar cedo.” No carro Joaquim perguntou, "Quer ouvir música?” "Coloque Elvis.” "Quero algo mais animado", colocou Cock Sparrer, e cantarolou, “everbody talk about revolution, everbody talk about smash the state...” Alice tirou e botou 4-skins, "do you remenber MCMLXIX?" CAPÍTULO LXI APÓS deixá-la na faculdade ele chegou ao colégio, "Bom dia turma, todos sentados por favor.” "Bom dia professor", disse Maria, "o senhor vai entregar a prova?” "Oba, como vai, Maria? vou entregar sim.” Foi a mesa, pegou o pacote e se pôs a frente a chamar, "Allan, Aline, Artur...” Carla e Maria tiraram dez, ficaram orgulhosas e exibiram o belíssimo sorriso a brilhar junto dos azuis olhos alegres. "Bem", disse o professor, “agora que todos estão com as provas verão que a maioria de vocês saiu-se bem... somando com as notas do trabalho todos vocês passsaram. A prova não estava difícil, apenas tinham de argumentar sobre a mão de obra escrava atual... e é fácil achar argumentos contra essa prática... ficaria impressionado se alguém achasse argumentos a favor...”a turma toda riu, "é engraçado... então é isso. Agora vou passar um trabalho para fazerem nas férias.” Joaquim dirigiu-se ao quadro e escreveu alguns temas, Montagne X Diversidade cultural brasileira. Artista da fome de Kafka X Anorexia, obesidade. Alienista de Machado X Fechamento da casa Adalto Botelho. O cortiço de Aluísio X Falta de moradia. "Esses são os temas, então dividam-se em quatro grupos e me passem os nomes. A divisão dos grupos é para que todos apresentem, todos aprendam com a apresentação e ninguém precise ler todos os livros. Esse seminário quem deu a ideia foi minha mulher, que é a professora de sociologia e eu achei ótimo, por isso estou passando.” "Quanto vai valer", perguntou Carla curiosa. "Valerá dez, mais a nota da próxima prova dividido por dois.” "Qual o menor livro", perguntou Lucas. 123
  • 124. "O artista da fome é um pequeno conto, pode ler em meia hora... porém terão um mês de férias, é absurdo que não tenham tempo para o trabalho... pero podem escolher o que vão fazer, aconselho a quem já leu algum desses textos a pegar outro para não repetir.” "Deixe Carla e eu no de Machado", pediu Maria. "Tudo bem, pero faltam algumas pessoas no seu grupo ainda. Se organizem e me entreguem no final da aula.” CAPÍTULO LXII O ALTO SINAL surpreendeu a todos, e Joaquim encerrou a aula. Os alunos saíram apressados, afinal além de ser sexta-feira, era o último dia de escola. Férias, enfim férias! Agora os adolescentes teriam chances de sair mais de casa, frequentar as boates, os shoppings e dar festas, outros viajariam, muitos tinham família no interior. O professor agrupou suas folhas e livros à mesa e começou a folheá-los, mirou o relógio de pulso dourado e enrolou lá uns vinte minutos, tempo este suficiente para alguns alunos chegarem em casa. Puxou uma página de caderno e tentou rabiscar algumas ideias, talvez uma poesia, talvez o final do romance ou apenas palavras desenhadas no papel, que não queriam dizer nada, pensou em Aninha, era o mês de aniversário dela... no que poderia dar? Que família estranha a desse milênio! Ninguém vive mais com os pais biológicos, nunca mais os pais terminariam casados e velhinhos... outrora ela morara com mãe e pai, depois casa dos avós, agora na casa do marido da mãe. Como devia ficar esses sentimentos? quantas mudanças, será que não desperta na criança um sentimento de indiferença ou desapego, ou pior ainda, mais apego ao material, menos vínculo sentimental, menos empatia... descontar as frustrações nos relacionamentos, consumismo... ou servir-se dos demasiados parceiros em convívios sem caráter, objetivos, laços, planos em comum... novamente checou o relógio e entendeu que era hora de ir, executar o que vinha há tempos meditando. Deslizou os pés para fora da escola, alisou o cabelo com as mãos, suspendeu a calça e assentouse no banco confortável do carro e se pôs a dirigir até chegar num sobrado de portão preto e uma casinha de santo na parte da frente, lá apertou a campanhia e saíram dois angelicais rostinhos, as gêmeas nesse momento portavam vestimentas descontraídas, de ficar em casa... olharam supresas para o professor que disse, "Oi meninas, eu estava indo para casa quando percebi que tinha no carro o Alienista de Machado para o trabalho de vocês, e passei aqui para perguntar se queriam emprestado.” "Ah! queremos sim!", disse Carla expontaneamente. "Eu não estou atrapalhando o almoço de vocês, não é? espero que a sua mãe não brigue comigo... pode chamá-la para eu contar por que passei aqui?” "Ah, ela está trabalhando, só chega de tarde", explicou Maria. "Ah, entendo... então desculpa, vocês podem vir pegar o livro, também tenho outros aqui no porta-malas, podem dar uma olhada, pero só se eu não estiver incomodando", disse Joaquim educadamente. "Não está! queremos ver sim!", respondeu Carla alegre. 124
  • 125. "Então tudo bem.” As gêmeas destrancaram o portão, o louro cabelo cacheado estava agora preso por conta do calor, a pele mais avermelhada pelo sol intenso que banhava a cidade e talvez um pouco de suor na roupa. Foram até o porta-malas em que encontraram uma caixa, enquanto passou este segundo Joaquim furtivamente retirou um martelo que escondia nas costas, sem perceber elas foram acertadas na cabeça, uma seguida da outra e despencaram tristemente sobre a calçada. Rapidamente, quase instaneamente o professor amarrou-as com uma corda, braços e pernas e acomodou-as no espaçoso porta-malas, fechando-o em seguida. Foi ao volante e pisou com toda força no acelerador, que fez queimar as rodas pela rua em direção à Chapada... para que não morressem ele havia posto no carro um novo e potente ar-condicionado que ligou, gelando todo interior do automóvel. Aposto muito confiante que tenha levado metade do tempo para chegar à linda casa na cidade de Chapada, devido a louca pressa. Dentro da grande casa arrastou as etéreas garotas brancas que nele haviam confiado para o subsolo, o porão, e trancou a porta. Um tempo depois voltou com o revolver na cintura, água e comida. As gêmeas esperavam por ele sentadas no piso, com as assustadas e belíssimas esferas azuladas. Desamordaçou-as e elas continuaram caladas, como que aguardassem o pior. Tratou então de explicar a delicada e terrível situação que encontravam-se, "Oi garotas. Devem estar se perguntando por que estão aqui. Primeiramente desculpe por maltratá-las, prometo não fazer isso de novo. Preciso contar que estou realmente passando por uma má situação financeira, e apesar do absurdo que possa parecer, tomei a decisão de sequestrá-las e pedir um resgate, relativamente pequeno, ao pai de vocês. Contudo, para acalmá-las, aviso que não farei absolutamente nada de ruim, mesmo que o resgate não seja pago, não vou matá-las... se não for pago tratarei de levá-las de volta para o lar inteirinhas, com toda a saúde que detém nessa idade.” Acuadas hesitaram falar algo, e talvez começariam, pero ele as deteve, "Não falem nada. Tomem água primeiro, que devem estar cansadas e com sede.” Medrosas, tomaram. "Façamos um trato, meninas, sabem e eu não preciso dizer, pero digo, que gosto muito de vocês, são as minhas melhores alunas sem dúvida, tenho orgulho de ensiná-las. As colocarei a par desse lugar. Não pensem que estão perto de casa, estão nesse momento em outra cidade, distante de outras residências e de qualquer outra coisa. Mesmo que gritem, podem até fazer o barulho que for, que ninguém escutará. Todavia, eu peço por obséquio para que não o façam, pois tenho os ouvidos sensíveis para sons com demasiada intensidade, apesar de virem de seres tão bonitos como vocês. Dessa forma, já devem ter entendido que gostaria realmente que me obedecessem, acatando a qualquer que seja o meu pedido como uma ordem inquestionável. E assim, nessas horas que passaremos juntos, conviveremos num só acorde, como numa boa e antiga família.” Nesse instante Maria tomou um pingo de coragem para dirigir-lhe, 125
  • 126. "Você é nosso professor, como pode ter feito isso?", ela tinha lágrimas nos azuis olhos. Joaquim se agaixou, fitando-as de mais perto, "Não paro de surpreender-me com a ingenuidade dos adolescentes, e principalmente, a de vocês, moças que estão amadurecendo... eu sou seu professor, acredita fielmente que algo de bom pode vir de tão vil e arrogante raça?” "Do que está falando?", perguntou Carla. "Ora... entendo, entendo... deve ser mais fácil para o meu corroído caráter entender esse tipo de gente por estar dentro e pertencer a essa matilha de lobos. Porém deixemos isso de lado, não é necessário debatermos sobre este assunto. Como já expliquei a situação, vou desamarrá-las; se querem sair daqui com vida”, Joaquim mirou-as dentro dos azuis olhos, "Sabem que não podem fazer nada que me desagrade, pois eu reagiria com a mais cruel e tenebrosa íra que nem os demônios poderiam imaginar, desse jeito, apenas façam o que eu mandar.” Desamarrou-as, "Agora peço que dedicadamente comam, eu sairei, e quando voltar espero alegremente encontrar estes rasos pratos vazios e limpos como que lambidos, haha", ele riu, "Estou a brincar, perdoem o meu bom senso de humor.” Saiu, e a pesada porta de ferro bateu atrás dele, deixando-as sós. Voltou passadas algumas horas com folhas e caneta, além de um belíssimo facão de cinquenta centímetros que brilhava um puro aço carbono polido acinzentado, pela aparência, afiado como um bisturi; e um negro balde junto um monte de jornais com data vencida. As lindíssimas e encatadoras gêmeas idênticas, pelo de um dourado cachaeado e íris anil, fisicamente bem dispostas e exercitadas, de pele revigorada e emoliada, haviam terminado de comer, "Que ótima visão me proporcionaram, caras convidadas, estou grato por terem acatado a sugestão de comer, não quero que fiquem doentes, pois isso magoaria a minha alma", jogou os jornais e balde no chão, e entregou-lhes o papel e caneta, "Agora por gentileza, queiram escrever-me uma carta que darei ao pai de vocês, esta carta deve estar com boa letra, e sem erros gramaticais. O teor, um pedido de resgate, mande que ele faça tudo que eu pedir, e diga também que estão bem e desejam voltar logo para casa, e o quanto antes o dinheiro for pago, quão depressa estarão livres da minha companhia, mesmo eu sabendo que a prezam, e mais ainda prezo a de vocês. Lembrando, claro, que deve conter assinatura.” Elas miraram a mortal lâmina que ele levava na cintura e trataram de pegar as folhas e escrever, sem dizer nada. Então saiu. Do lado de fora pegou o celular, "Oba, amor.” "Oi, Jo.” "Liguei pra te avisar que vou ter que passar a noite aqui porque um eletricista vai vir muito cedo e não dará tempo de eu ir pra casa e voltar pra cá, entende.” "Tem mesmo que ficar aí?” "Sim, eu acho mais barato e mais fácil.” 126
  • 127. "Tudo bem então.” "Você pode ir para casa dos seus pais esta noite, não quero que fique sozinha.” "Farei isso.” "Certo, beijo, te amo.” "Beijo.” CAPÍTULO LXIII RETORNOU AO PORÃO, abriu a porta vagarosamente e desceu as estreitas escadas de firmes degrais de madeira. As garotas haviam terminado de escrever e ao verem, Maria ergueu a mão com o papel, que ele pegou de leve maneira; se pôs a observar de um arrogante jeito a forma das letras e acompanhou as palavras linha por linha, as letras continuavam bonitas apesar de tremidas e rápidas, expressando o grande pavor que não conseguiam dissimular na triste escrita, Pai, Carla e eu fomos sequestradas, pero não se preocupe pois estamos bem, já comemos. Estamos presas dentro de um porão fora da cidade. O conhecido sequestrador está pedindo, segundo ele, uma pequena recompensa pela nosso resgate, não estamos sendo mal tratadas, e queremos estar em casa o mais rápido possível. Nos prometeu que estaremos assim que o dinheiro for pago; não sei quanto é, por favor de jeito de arrumar pois estamos com medo e com saudade. Até logo, Carla e Maria Davidoff. "Obrigado, meninas. Interessantíssimo este bilhete, dá para se notar o hábito de escrever de quem o fez; Maria, você deve ter um diário, não é? Acho que sim. Também deve ter acompanhado alguns romances de detetive, pois vejo aqui alguns sinais que poderiam ser usados em benefício de um investigador; como por exemplo dizer 'conhecido', este adjetivo poderia passar despercebido se lido sem pensar, pero com um pouquinho mais de calma, de forma implícita dá para se entender que vocês conhecem quem as sequestrou, a antes disso disse 'fora da cidade'; necessita ser munícipio próximo, para dar tempo de estarem aqui desde o momento que as peguei, neste caso, Vázea Grande ou Chapada. Logo fala 'porão', será descartado dessa forma uma casa que não tiver porão, e quem é que tem porão?, pouquíssima gente; se fosse um sótão até poderia ser mais aceitável, podemos imaginar então uma residência de grande porte; encaixa-se perfeitamente na minha situação, moro em Cuiabá, conheço vocês, sei onde moram, tenho uma casa cara na Chapada, e pior, de repente um professor de português para que tenham escrito de forma tão bonita e calma. Pensaram o quê? que sou um idiota? Tudo bem, só rezem para que o pedido seja atendido.” Saiu. Voltou com um colchão e dois cobertores, 127
  • 128. "Mil perdões, minhas pequeninas jóias, pero pelo menos nesta noite não poderei fornece-lhes melhores aconchegos; cubram-se com estes edredões, e caso sintam frio trarei mais. Lembro-as, incansavelmente, que não cogitem a possibilidade de fugir, estas mãozinhas que de força conseguem segurar muito bem um lápis ou uma pequena bola de handball não adiantariam nada contra aquela porta de ferro ao final das escadas; e se passassem por ela, teriam de ver outras portas mais, além de mim, que nunca fui atleta, pero possuo maior massa, e bons quilos junto de uma eficaz velocidade dariam ótimos Newtons. Aquela janela, logo acima de suas cabeças faz clarear este lugar, porém não se abre, e está duramente chumbada no concreto. Com a sua permissão me retiro, deixando-as mais a vontade, para conversarem e temerem sozinhas, mesmo sem motivo.” "E o banheiro?", perguntou Carla num expontâneo pensamento que saiu de sua miúda boca. "Claro, claro, óbviamente. Pensei que não precisava avisá-las, que a suas atenções, e jornalísticas observações as fizessem entender o motivo do balde e jornais. Façam assim, uma dica, simplesmente aproveitem aquele ralo ali atrás para o xixi", apontou, "Estes jornais para o cocô, e joguem no balde que servirá de lixeira. Amanhã, talvez, recolherei o lixo.” Assim foram deixadas. Joaquim dirigiu-se ao quarto para dormir e pensar no dia de amanhã. Assentado a cama se pôs a admirar o inestimável tesouro que ganhara; a beleza surprema das arredondadas letras de garota; a grande dedicação e o zelo pela boa aparência caligráfica. Notou como uma ora ou outra o “b” mudava, o “a” e o “o” se misturavam, só podendo se entender pela palavra que as contextualizava; aproximou-se do rosto e cheirou, que ótimo cheiro, ali pegaram as mãozinhas, ali suaram, então beijou o suor, lambeu delicadamente as letras, para saboreá-las sem molhar o papel. Esfregou no rosto como uma pétala doce ou um travesseiro perfumado e super macio após um árduo trabalho. Encostando a si permaneceu por horas, como um consolo de braço de mãe é para uma criança; até que o sono chegou junto do bom vento que entrava pela janela, dormiu. CAPÍTULO LXIV AO ACORDAR REPAROU que havia amassado o papel, que rapidamente recolheu e o desamassou. Aprontou-se no banheiro e recorreu a cozinha para preparar pão e frutas, além de leite e água para as visitas. Foi-se a porta de ferro e desceu a estreita escadaria; lá encontrou as moças já acordadas e postaram-se assentadas na cama quando o viram, "Bom dia, meninas, trouxe-as o café da manhã.” Elas o encararam, "É pouca coisa, pero comam, devem estar com fome após a noite de jejum. Hoje desejo falar com vocês, por favor, podem me responder sem temer qualquer coisa, nada as farei, não tocarei em um fio dos seus dourados cabelos.” 128
  • 129. Os azuis olhos sem brilho demonstraram alguma confiança, "Por favor, deixe a gente ir", disse Maria. O professor havia puxado uma cadeira que colocou à sua frente e começou a entrevista, "Com toda certeza; para que eu as deixe ir é apenas uma questão de tempo, logo logo estarão em casa desfrutando de total liberdade.” Sem muitos movimentos, "Agora", disse timidamente Carla. "Sinto de todo coração, pero agora não poderei levá-las para casa.” "Então deixe Carla ir, eu ficarei aqui", tentou Maria. "Confiem em mim, meus amores, não há do que ter medo. Agora quero que comam.” Elas pegaram o leite e pão e começaram a comer. "Maria você é uma moça corajosa, encanta-me tantas qualidades numa só garota; é de se espantar o seu caráter e gentileza; em outras circunstâncias o seu pedido me seria obrigatório, faria de imediato; pero neste momento, apesar de belíssimo, é desnecessário, pois dou minha palavra de que nada as acontecerá, juro. Acreditam em Deus?” "Sim", responderam. "Acreditam que ele as protegerá de qualquer mal?” "Sim", disseram. "Eu também acredito, e desta forma juro pelo amor que tenho nele que nada as farei, e mais, as defenderei do que for.” Elas continuaram a comer, agora mais confiantes, "Sentem alguma dor pela pancada doutro dia?” "Não", responderam. "As darei pastilha para dor de cabeça, e gostaria realmente de olhá-las para ver se machucou, somente por via das dúvidas, espero angustiosamente que eu tenha no máximo as causado um galo. Maria, pode vir aqui e ficar de costas para mim para que eu cheque?” Recolheram-se inseguras, "Não há do que temer. Vejam, as minhas intenções são as melhores possíveis. Antes as tinha amarradas e amordaçadas, naquele momento poderia fazer de vocês o que quisesse, e se quisesse algum mal já teria feito; o que quis é que estivessem bem, e olhem como estão agora, boas, amanhã estarão muito melhores. Agora venha, que estas mãos de escritor poderão um dia considerar-se beatas.” Maria levantou e deu alguns passos, logo ajoelhou-se de costas para ele. Vagarosamente pôs a mão nos lisos fios de cor de ouro e abriu-os, tentando ver a pele da cabeça a procurar qualquer machucado, em instantes viu somente um vermelho sem ferida, "Aparentemente nenhum machucado, fico felissíssimo, agora você Carla.” Maria voltou para a cama e Carla não hesitou em seguir os passos da irmã, ficando de costas a ele, 129
  • 130. "Nada também", respondeu contente com um grande sorriso, "Viram só? confiaram em mim e nada as aconteceu, é meu único desejo vê-las bem e o máximo possível confortáveis, já que infelizmente as privo de liberdade, embora que por curto tempo, devo de novo enfatizar.” Trataram de continuar comendo, emudecidas, "Falem comigo, não se acanhem, fico com coração pesado se achar que causolhes algum mal, e estarei com melhor ânimo se conversarem comigo sem timidez; ainda sou seu bondoso professor de literatura, que tanto gostam e tanto já papearam, lembram-se? nada mudou, nada.” Maria mirou-o com os azulados olhos que demonstravam um desejo intenso que era visivelmente reprimido com o expremer de seus delicadíssimos e finíssimos lábios arroseados, e enfim ela disse, "Quando tempo imagina que vamos ficar aqui?” "Três ou quatro dias, será suficiente para acertar o resgate, creio.” "O que vamos fazer hoje?", perguntou Carla. "Que bom que quis saber, hoje eu precisarei sair para comprar algumas coisas, como alimento para esses dias. Poderei providenciar também algo que queiram, desejam algo?” "Roupa", falou Maria. "Preciso de um banho", pediu Carla. "Exatamente, há uma torneira daquele lado, e descerei uma mangueira aqui em baixo, sabonete e toalha. Quanto a roupa comprarei agora.” Joaquim retirou um pedaço de papel e uma caneta do bolso e entregou-lhes. "Escrevam aqui o que querem que eu compre, assim como a numeração. Não peçam muita coisa, necessito sugerir, o salário de professor nunca foi algo de se orgulhar nesse país.” Passaram um tempo escrevendo e Maria passou o bilhete, ele deu uma rápida olhada e colocou no bolso, "Se assim desejam, assim farei.” "Não há quartos nesta casa?", quis saber Carla. "Há cinco. Eu bem que podería acomodá-las em algum deles, pero sinceramente não confiaria que fossem comportar-se lá em cima dispondo de mais chances de escapar.” "Não fugiremos", disse Maria. "Se diz acredito, não posso duvidar. Pero entendam, que trancando-as aqui as deixo mais seguras, não terei de usar de força para capturá-las novamente, e magoame a forma que fiz da primeira vez, por tudo nesse mundo, não quero repetí-lo.” "Professor, não havia outras maneiras de conseguir dinheiro?", perguntou Maria. "Não pense nisso, Maria, o ato de trazê-las pra cá foi totalmente planejado por um longo tempo e depois, quem sabe não foi dinheiro o único motivo.” "O que quer dizer?", perguntou Carla. "Nada, apenas imaginei demais. Todavia confesso que a companhia de vocês é extremamente agradável, e fico feliz por tê-las por perto.” "Pero se gosta tanto da gente, por que nos faz tão mal?", questionou Maria. 130
  • 131. "Não as faço tanto mal", disse Joaquim e prosseguiu depois de uma puxada de ar, "Encarem sua estadia aqui como um passeio de férias de curto tempo. E depois, poderemos falar de literatura com maior frequência.” "Não sei se poderei falar de literatura nessa situação", disse Carla. "Apenas não se preocupem, meninas, tudo ocorrerá na mais perfeita ordem e tranquilidade. Estarão de volta ao lar em um pestanejo. Até adianto que neste momento a carta de vocês deve estar na mão dos seus pais, que conseguirão, penso, o dinheiro de um jeito rápido.” Os azulados olhos brilharam contentes, "Então poderemos estar livres amanhã?", perguntou Maria. "Exatamente!” Sorriram de felicidade. "Nem precisaremos das roupas", disse Carla. "De qualquer forma eu preciso comprá-las, quero que passem esta noite com mais conforto. Agora tenho que terminar a nossa ótima conversa. Preciso ir ao mercado. As deixarei sozinhas, pero acredito de todo coração que não fugirão, além de não terem razões para isso, não é? Até.” CAPÍTULO LXV APÓS ALGUMAS HORAS Joaquim voltou para casa, trazia consigo três latas de verniz e aguarraz, com um rolo de cabo, luvas descartáveis e uma máscara de papel; noutra mão uma pequena caixa de pisos cinzas e cimento de secagem rápida; uma sacola de leves roupas de ginástica; e um carrinho com legumes, frescas verduras e um suculento pedaço de carne. Desceu as escadas e entregou as moças sabonete e toalha, também arrosqueou uma mangueira que ia até o ralo, onde poderiam tomar banho, “Espero que as roupas sirvam, perdoem-me por não serem melhores, não quis gastar muito, visto que precisei comprar outras coisas.” Após elas terem pego e recebido as ordens, ele subiu até a cozinha e retirou um grande bife que fritou na manteiga com algumas folhas e juntou num prato de arroz. Nessa altura elas deveriam ter terminado de lavar-se e vestir-se. Arrumou dois pratos numa bandeija com dois copos de um gelado suco de manga e as levou, "Tantos perdões num só dia, pero também não sou bom cozinheiro, espero que este almoço possa ao menos parcialmente satisfazê-las, e gostaria de comer com vocês, assim as posso observar e conversar, caso permitirem.” Elas balançaram a cabeça num sim, "Então, como ficaram as roupas?” "Boas", respondeu Maria. "Apertadas?” "Não", disse Carla, "Roupas de ginástica esticam.” "São desconfortáveis?” "Não", responderam em conjunto. 131
  • 132. Maria cortou a carne e levou vagorasamente à boca, de maneira aparentemente tranquila, olhar indiferente, talvez estivesse por fim conformado-se com a prisão, "O senhor não tem medo de ser preso?", perguntou. "Preso pelo quê?” "Pelo sequestro", Maria continuou. "Pero não fiz nada de errado, as trato tão bem, não admitem?” "Admitimos", disse Maria, "Pero continua sendo um sequestro, não gostamos de estar aqui, queríamos estar em casa.” “O tempo corre como um mato pegando fogo, bem lembro-me de quando tinha a idade de vocês, os anos passarão tão rápidos como se fossem dias, apenas. Pero deixe isso para lá, provem o suco, acho que irão gostar.” Provaram, "Bom?” "Bom", respondeu Carla, "Manga sempre foi um dos meus sucos preferidos.” "Então vejo que acertei.” "Posso perguntar o que fará com o dinheiro?", questionou Maria. "Poder pode, porém somente precisam saber que necessito dele, flores juvenis de tamanha beleza como vocês não devem preocupar-se com coisas bobas como essas.” "Nem de quanto é?", quis saber Carla. "Não há necessidade, acreditem em mim. Acabaram?” "Sim.” "Então deixe eu levar os pratos, na verdade agora preciso cuidar de algumas coisas, sinto ter que deixá-las sozinhas novamente. A propósito, passem-me a roupa suja que lavarei pra quando tiverem de usar novamente.” Entregaram, "Quando quiserem falar comigo basta baterem na porta de ferro que venho atendê-las, I see you later.” Subiu. CAPÍTULO LXVI CELULAR, "Oi amor.” "Jo, você não vem pra casa?” "Receio que não amor, preciso cuidar do serviço dos pintores.” "Então eu passo aí.” "Ah, não será necessário, está uma bagunça, você não vai gostar. Além disso a tinta vai te dar uma crise de rinite.” "Quando você volta?” "Se tudo der certo amanhã. Pero não se preocupe, vá para a faculdade e retorne pra casa dos seus pais. Quando eu voltar te ligo.” "Está bem, beijos.” "Beijos, durma bem.” 132
  • 133. Joaquim forrou o chão, espalhando os jornais e colocou algumas pesos de pedra em cima deles. Misturou um copinho de aguarraz no verniz incolor e deslizou de forma constante e caprixosa na porta de madeira. Uma seguida da outra. Ao término do dia havia pintado três e resolveu deixar as outras para a segunda. Se limpou com um bom banho e foi a cozinha fazer o jantar das moças que o esperavam lá em baixo. Um rápido macarrão com almondegas é uma ótima refeição para os que estão com pressa. Desceu, “Aqui está, meninas. Não é grande coisa, pero espero que esteja bom. Estive ocupado pintando as portas.” Após terem pego os pratos e assentado na cama, Maria perguntou, "Por que pintar as portas?” "Elas precisam de tinta nova, as antigas estavam já um tanto desbotadas.” "Fez tudo sozinho?", questionou Carla. "Claro, por que eu pagaria alguém para fazer algo que eu mesmo posso? Além disso pintar é um pouco fedido, pero é um bom lazer.” "Lembro quando pintamos a mesa de casa", disse Maria. "É, até que foi divertido", comentou Carla. "Repararam uma coisa?” "O quê?", quis saber Maria. "Estão a falar comigo com menos receio, imagino que estejam mais confiantes. Consigo ver isso no brilho dos seus azuis olhos.” "Imagino que não nos fará nenhum mal", disse Carla. "Tem toda razão, caríssima. Fico feliz por pensarem assim.” "E depois poderemos estar em casa amanhã", salientou Maria. "Sem dúvida.” Silêncio. “O que planejavam para as férias?” “Iríamos à casa da minha vó no sul”, respondeu Carla. “Como ela é?” “Nossa vô?, calma, cozinha bem.”, respondeu Maria. “Vejo que gostam muito de comida.” “Acho que todos que fazem muito exercício devem comer muito.”, disse Carla. “Imagino que sim. Preciso ir. Amanhã irei até Cuiabá.” “Para quê?”, quis saber Maria. “Buscarei a resposta do seu pai.” “Então estaremos livres?”, perguntou Carla. “Estarão.” CAPÍTULO LXVII ÀS CINCO DA MANHÃ Joaquim desceu até o porão, acordou-as aos chutes, e elas despertaram assustadas, desvencilhando-se dos cobertores e correndo para a 133
  • 134. parede. Os gigantescos olhos azuis aparavorados demonstravam o medo, e Maria perguntou, “O que foi?!” “O desgraçado do pai de vocês não aceitou a bela oferta que eu o ofereci!” Retirou o cinto golpeou-as, acertando ora os braços, a cabeça, e o rosto que inchava-se rapidamente num vermelhão. Tentaram escapar, pero foram dominadas em um canto e apenas se defenderam como podiam, gritavam, “Pare, por favor, pare!” Joaquim então jogou-as uma caneta e uma folha de caderno, “Escrevam uma nova carta, agora façam o possível para que ele cumpra o meu desejo, senão...” Deixou o porão tão rápido quanto entrou. A branca face de ambas banhava-se numa corrente intensa de choro, os loiros cachos molhavam-se, e o soluço tomava conta dos lábios trêmulos que não conseguiam dizer nada. Abraçavam-se para cuidarem uma da outra, e Maria, sabiamente correu para pegar o papel e tratou de escrever, temendo que ele voltasse antes dela ter terminado. A mão balançava-se e os dedos não obedeciam, por duas vezes tentou catar a caneta e posicioná-la contra o papel, porém a derrubou na mesma hora. Finalmente conseguindo, por mais que tentasse fazer letras caprixosas, não conseguia, saiam fora da linha, todas tortas e desengonçadas, como as letras de um analfabeto. Após um breve tempo Joaquim voltou, e vendo-o Maria entregou a carta, que ele puxou e saiu sem dizer nada. Ao quarto se pôs a ler, Pai, por favor, nós te pedimos, aceite o acordo com o sequestrador por pior que ele seja. Queremos voltar para casa. Por favor! Senão ele vai nos matar! Carla e Maria Davidoff. CAPÍTULO LXVIII AO FINAL DA TARDE Joaquim retornou ao porão trazendo uma muda de roupa. Pegou a longa mangueira e falou-lhes, “Vão para perto do ralo!” Foram, “Tirem a roupa.” “Não, por favor.”, disseram. “Mandei tirar a roupa, façam ou eu as mato agora mesmo!” Sabiam que a porta de ferro estava trancada e ao olhar o facão na cintura de Joaquim, tiraram a roupa. Quando ele ligou a mangueira lavando o corpo magro e esbranquiçado das garotas, que no começo tampavam-se tentando esconder suas partes íntimas. 134
  • 135. “Peguem o sabonete e tomem banho.” “Por favor, não faça isso”, disse Maria. “Rápido!” Encostadas uma na outra deslizavam o sabão no corpo, barriga, face e bumbum pequeno. O professor as molhou e então disse, “Agora se enxuguem e vistam-se!”, jogou-lhes uma toalha que pegaram na mesma hora e trataram de se esconder atrás dela. Ele deixou o porão. Ao voltar trouxe-lhes comida, estavam assustadiças, “Comam.” Pegaram o prato de comida e passaram a comer. “Queiram me perdoar, queridíssimas. Pero o pai de vocês alterou o plano que raciocinei por tanto tempo. Isso fez-me ficar meio zangado.” “Por favor, deixa a gente ir.”, falou Maria. “Simplesmente não posso. Até gostaria, pero isso não depende de mim. E sim de seu pai, que não está nem um pouco querendo tê-las de volta.” “O que foi que ele disse?”, perguntou Carla. “Disse que não, e que posso fazer com vocês o que eu quiser.” Elas entreolharam-se, arregalando os azuis olhos e achando aquilo absurdo. “Ele não falaria isso!”, gritou Carla. “Aé? Por que estão aqui agora e não em casa?” “Porque o senhor não nos deixa ir!”, disse Maria. “Não sejam ingênuas. De vocês só quero o dinheiro, por mim estariam longe daqui e eu não teria que sustentá-las. Gosto muito de vocês, por isso estão vivas ainda. Porém receio que passem a me ser um elefante branco.” “Um elefante branco?”, perguntou Carla. “Algo que me dá muito trabalho para cuidar e não traz benefício algum.” “Então nos deixe ir embora!”, disse Maria. “Acha que eu gostaria de estar aqui? Neste momento queria repousar no meu sofá e ouvir Vinicius e Toquinho. Pero cá estou. Ah! Como tenho saudade do meu cabelo grande!” “Do que está falando? Por favor, apenas nos deixe ir.”, continuou Maria. “Não, porra! Não posso, já falei. E não me serão inúteis, se o idiota do pai de vocês pensa que pode me fazer de besta está enganado, serão-me úteis de alguma forma.”, saiu batendo a porta de ferro. CAPÍTULO LXIX NINGUÉM pode imaginar o monstro que o escritor prende dentro de si, e que sairia caso parasse de escrever. CAPÍTULO LXX CELULAR TOCA, atende, é Alice, 135
  • 136. “Oi amor.” “Jo, você não volta mais?” “Claro que volto, to até com saudade.” “E então?” “É que os pintores ainda não terminaram, como eu posso voltar e deixar a casa sozinha com eles?” “Que mais?” “É só isso.” “Pero realmente precisa demorar tudo isso?” “Fazer o quê, a casa é grande.” “E quando volta?” “Amanhã de noite eu volto.” “Eles terminam amanhã?” “Terminam.” “Tá. Beijo.” “Beijo.” Joaquim preparou a tinta e se pôs a pintar as outras portas, tinha de terminar o quanto antes. Já demorara demasiadamente, estava cansado. Findo o árduo trabalho, foi dormir. Ao nascer do sol tomou um banho para livrar-se do suor noturno e desceu até o porão levando comida para as moças que cedo despertaram, estavam estranhamente desconfiadas, arregalando os grandes e azulados olhos a todos os movimentos, “Como vão hoje?” “Bem”, responderam. “Hoje levarei a carta ao pai de vocês, torçam pra que tudo dê certo.” “Professor, posso fazer uma pergunta para o senhor?” “Claro, Maria, tudo que quiser.” “Apareceu tão cedo aqui outro dia, vi que não tinha nem amanhecido, como fez para ter a resposta do nosso pai tão cedo?” “Entreguei no meio da noite.” “E deu tempo de ir e voltar para cá na Chapada?”, perguntou Carla. “Dirijo rápido. Agora parem de me questionar, parecem crianças. Ao invés disso deveriam se preocupar com a resposta que receberei hoje.” “Quando receberá?”, quis saber Maria. “Estou indo para lá agora.” “Aonde vão se encontrar?”, perguntou Carla. “Antes de acabar a estrada para Cuiabá.” “Ele vai levar o dinheiro?”, continuou Maria. “Se não levar, daqui vocês não saem. Tchau”, saiu batendo a porta de ferro. Lá dentro à sós Carla assentada no grosso colchão quando Maria levantou-se e virou para ela, 136
  • 137. “Carla, acho que não vamos sair daqui.” “Por que está dizendo isso, Maria?” “Precisamos escapar enquanto ele está fora, ou não vamos voltar para casa.” “Como pode ter tanta certeza assim?” “Você não está achando o professor muito estranho?” “Estranho como?” “Acha mesmo que ele conseguiu encontrar com o pai no meio da noite e trazer a resposta dele? Não acha absurdo papai não ter pago o dinheiro, por mais caro que fosse? Ele nunca nos deixaria aqui.” “Pero o professor disse que só quer o dinheiro, por que ele estaria nos prendendo de propósito?” “Acho que ninguém da nossa família sabe do nosso sequestro.” Carla apresentou o rosto assustado, e começou a chorar, “Não diga isso! Por que está falando assim, ele vai nos libertar assim que for pago! Caso contrário não nos mandaria escrever a carta!” “Isso é mais estranho ainda.” “O quê?” “Por que ele nos pediu para escrever a carta, por que ele está nos enganando?” “Pero é por isso mesmo! Ele não pode estar nos enganando, não faria sentido esse sequestro... ou, e se tudo for apenas uma brincadeira?”, sugeriu Carla com um olhar de esperança. “Brincadeira? Acha que ele nos bateria de brincadeira e nos faria tomar banho na frente dele? Acha que papai nos prenderia aqui por esses dias somente por brincadeira?” Carla apresentou-se desconsolada e se pôs a chorar mais, “Não chore Carla! Ao invés disso me ajude a tentar fugir pela janela!” Ela estendeu a mão para Maria, entrelaçando os dedos e deixando que ela pisasse como apoio para alcançar a pequeno vidro que havia no alto da parede. Porém eram baixas demais, e a janela muito elevada. Então desceu e pensou mais um pouco, “Pela janela é impossível. Tentemos a porta.” Encaminharam até a porta e giraram a maçaneta: trancada. Maria observou o buraco da fechadura e conseguiu ver uma luz minúscula que dava para o outro lado, “Não conseguiremos abrir usando a força, pero talvez se acharmos um grampo para acionar a mola e mais um pedaço de ferro para girar a fechadura, assim deve funcionar!” Procuraram pelo porão todo, com meia hora vasculhando o piso e objetos acharam um fino arame, então cortaram no meio, fazendo dois pedaços e amassando o segundo para reforçar, tentaram abrir. Os braços suavam pelo esforço, o suor escorria pelo pescoço molhando a camisa, por mais que tentassem parecia impossível, Maria deixou Carla experimentar, “Tente você.” No entanto foi mais um esforço em vão, estavam perdidas, jamais sairiam dali. Levaram o dia a esperar o pior, temerosas, pero logo a noite chegou e nada aconteceu. De sono, dormiram. 137
  • 138. CAPÍTULO LXI OUVIRAM ATENCIOSAS o intenso cantar do galo soar algumas vezes, quando Joaquim desceu pesado ao escuro porão que já ia clareando, portando o longo facão amarrado na cintura. Logo sentaram-se num canto, juntas de mãos dadas, como duas crianças medrosas, “Não trago boas notícias.” Abriram os grandes olhos azuis e tremiam, “Aconteceu algo, senhoritas, que eu nunca esperava que fosse acontecer.” “Não entregou a carta para o nosso pai?”, perguntou Maria. “Entreguei, entreguei sim.” “Então ele pagou?” “Correto, pagou até mais do que eu queria.” Encheram-se de uma animada esperança, “Então vamos sair daqui hoje?!”, Carla perguntou entusiasmada. “Não.” “Por que não?!”, exclamaram juntas. “É isso que vim lhes dizer, aconteceu algo diferente do planejado. Por mim estariam livres... porém o pai de vocês me apresentou outra oferta que não pude recusar.” Estavam perplexas, “Naquela manhã peguei o carro e fui até aonde haviamos combinando a entrega do dinheiro. Ele apareceu numa caminhonete preta e veio me ver, então dei-lhe a carta que leu com toda atenção. Após isso revelou reconhecer-me pela voz que segundo ele, era de inconfundível dicção, mesmo eu encapuzado. Surpreendi-me, como vocês agora estão, depois mostrou-me um envelope contendo muito dinheiro... pensei que iria pagar o resgate, no entanto fez outra proposta, a deu ficar com vocês por mais tempo.” “Está mentindo!”, gritou Maria. “Antes estivesse. Todavia, talvez eu revele algo que não agora, pero depois de pensar com calma, considerarão ser uma boa hipótese. Trata-se do casamento de seus pais. Estão a separar-se, e seu pai não está gostando nada de dividir os bens. Contoume que outro dia descobriu o motivo da esposa querer o divórcio, o havia chifrado com um amigo dele... uma situação imperdoável. Parece que, pelo que entendi, quer vingarse da mãe de vocês com esse sequestro.” “Está mentindo! Seu mentiroso!”, continou Maria. “Eu teria recusado, porém agora que o pai de vocês me conhece, estou nas mãos dele. Depois de muito analisar na tarde de ontem, decidi prendê-las por mais tempo, como ele quer.” “Papai nunca faria algo assim!”, chorou Carla. “Parece que o pai de vocês não é tão carinhoso quanto pensam. De qualquer forma confesso que não o obedecerei. Se ele não se importa com vocês, muito menos eu me importarei. Estão na verdade a torrar-me o tempo, e não posso aguardar mais, minha mulher me espera em casa.” 138
  • 139. “Por favor! Diga a verdade!”, suplicou Maria. “O erro dele foi ter-me pago adiantado. Não disse se as quererá de volta, tampouco quando. Não tenho saco para esperar, acho melhor vocês, daqui para frente, não me desagradarem, estou por um fio.” Enquanto elas choravam, falou mais, “Como é serem rejeitadas pelo próprio pai? A paternidade é mesmo o maior dos egoísmos.” Saiu, as deixando sós. CAPÍTULO LXII TELEFONE TOCA, “Oi, amor.” “Jo, você não vai voltar?” “Vou, claro que vou, pero está demorando mais do que eu esperava.” “Disse que voltaria ontem. Os pintores ainda não terminaram?” “Ainda não, apareceu mais serviço.” “Pero não eram somente as portas? São poucas...” “Sim, você conhece esses trabalhadores, fazem tudo para gastar mais tempo e cobrar mais.” “Você está comendo?” “Estou.” “Dentro da casa?” “Sim, eu comprei algumas coisas no mercado. E você?” “Estou na sua casa.” “Por que não está com seus pais?” “Por quê? Porque você disse que ia voltar ontem! Eu te esperei!” “Desculpa. Acho que amanhã irei.” “Certo, apareça logo.” “Beijo.” “Beijo.” Passada algumas horas ele levou uma ótima refeição às meninas, com suco de laranja. Encontrou-as assentadas, olhos vermelhos e inchados de tanto chorarem, inconsoláveis. “Trouxe-as comida.” Pegam a comida, Maria estende sua voz, “Professor, por favor, faço tudo que quiser, por favor nos deixe ir! Por que está fazendo isso conosco, queremos ir pra casa!” Joaquim na cadeira acompanhava-as comer, “Então comam.” Ao terminarem deixaram o prato de lado e olharam fixamente Joaquim, “Agora nos deixe ir, ou avise nossos pais, peça o resgate, tenho certeza que eles pagarão! Não importa quanto for.”, Maria tentou persuadí-lo. 139
  • 140. Joaquim indiferente, projetou seus olhos para os das gêmeas, “Tentei, Maria, juro que tentei.”, continou depois erguendo o corpo, “Lamento a situação de vocês, pero preciso humildemente dizer que foram abandonadas aqui. E se não eu, outra pessoa capaz as teria sequestrado. Não disse-me dias atrás que o pai de vocês as leveriam para o sul? Acha mesmo que iriam para casa da vó?, pensaram a respeito disso? Será que eu apenas não antecipei o plano do seu pai? E ele aceitou de bom gosto como se a própria sorte tivesse antecipado seu trabalho?” Elas ficaram quietas, imóveis, dando-lhe chance de dizer mais, “A ingenuidade de vocês, garotas, não é para comigo, e sim para os seus progenitores. Por serem demasiadamente novas não conseguem entender e nem admitir como funciona a mentalidade dos adultos quando querem algo com perseverança.” Ajeitou os ombros e levantou-se, “Por exemplo, creem deveras que nasceram fruto de um relacionamento estável e amoroso, como um simples resultado de bom altruísmo. Então me respondam, que benefício os adultos trazem às crianças em 'presenteá-las' com a vida, se a vida, propriamente, elas ainda nem as tem e muito menos imaginam como é ter? Digo... se antes de nascerem não fazem ideia de como é viver, por que os pais acham egocentricamente que estão a fazer um bem, não para eles mesmos, pero para os bebês e mais, para a humanidade? E digo mais, que com toda a certeza do mundo pensam que o filho será bem sucedido no que venha a gostar e assim ser feliz com isso!... Isso é tudo conversa fiada! Os filhos nascem, por se dizer assim, a grosso modo e objetivamente, para o egoísmo e narcisismo dos pais, que querem ver-se espelhados no filho, como se o filho fosse uma extensão de si e de suas realizações, e não de uma pessoa viva que pretende ter um pensamento próprio... Mais ainda, eles podem vir, cruelmente apenas para fazer o parceiro ficar preso no relacionamento.” “Aonde você quer chegar, professor?!”, perguntou Carla desesperadamente. “Quero chegar aonde já cheguei, doce Carla.”, mirou seus grandes olhos azuis, dando-a toda atenção, “Não importa de que indivíduo vem o amor, e nem quão belo ou fantasiado ele seja. Ele surge como uma sutileza que mascara a vontade de alguém. Por uma analogia, é educadíssimo dizer 'Boa tarde, como vai? Você está ocupado? Pode por gentileza me fazer um favor?', Porém se nota que a intenção nesta frase é óbvia e única, mesmo que pintemos com toda polidez existente, o eufemismo é útil, no entanto facilmente descoberto. Esse bom tratamento que o personagem dá ao outro é exclusivamente para pedir algo, não se importando de verdade com a outra pessoa. Assim usamos sabiamente os sentimentos para enganar quem quer que seja. Como vocês, por esses anos foram enganadas. Concluo que não acreditam em mim, pero não reconhecem que podem servir para manipular alguém, como peças num jogo de xadrez. Não importa quais são os meios, conseguir compensa.” Deixou-as. CAPÍTULO LXIII 140
  • 141. ENCERRADAS ENTRE os gélidos azuleijos do claustrofóbico porão sombreado, havia passado uma fria noite inteira, e o belo amanhecer liberava energia solar que as paredes de tijolo recebiam, aquecendo-se muito lentamente junto do lindo assobiar dos pequenos passarinhos que acabavam de acordar, despertando também as adolescentes loiras que dormiram abraçadas. Carla levanta assentando-se, esfrega os azulados olhos, espreguiça-se, seu belo rosto contém uma expressão triste e a voz que surgirá a seguir aparenta lamentarse a cada palavra, “Maria.” “Oi”, responde ignorando o próprio sofrimento para poder consolar a irmã. “Acha mesmo que o pai não nos quer de volta?” “Claro que quer, Carla! O professor está mentindo, não consegue enxergar isso?!” “Pero, Maria, tudo faz sentido.” “Como faz sentido?” “Você sabe o que eu quero dizer. Lembra que o pai e a mãe viviam brigando. Todos sabíamos que mamãe tinha um amante, pero ficávamos com medo de tocar no assunto.” “Pero Carla...” “Deixe eu terminar... e depois que separaram-se, brigam sempre e continuam disputando quem vai ficar com os carros e a casa. Sei que no fundo mamãe não queria que viajássemos com o pai, ela se sente a nossa dona.” “Tem razão. Porém isso não quer dizer que o pai não nos queira mais, e pior ainda, nos queira mal!” “Nós sabíamos que mamãe tinha um amante... e não o dissemos nada.” Elas entreolharam-se tristemente, como que reconhecendo uma antiga mazela, “...Nós não fomos tão boas para com ele, que sempre nos deu tudo que pedíamos. Não é de se admirar que não nos queira de volta.” Maria não sabia o que dizer, havia chegado no seu limite, a privação da liberdade e a tristeza haviam acabado com ela, impotente demais para poder ajudar a irmã que dizia-lhe coisas que cutucavam machucados de outrora. “Chego a pensar”, continuou Carla, “Que o professor é que nos quer bem.” “Não Carla! Isso não! É verdade o que disse anteriormente sobre nossos pais, pero não tem cabimento dizer que o professor é uma boa pessoa! Ele é um tarado! Nos bateu e nos sequestrou, caia na realidade!” “Pero Maria!, ele está precisando de dinheiro, e depois se o nosso pai tivesse realmente pago o resgate, estaríamos em casa. O ouviu falando, ele não nos quer aqui! Não teria descontando a raiva dele na gente, e depois, não nos tratou tão mal assim, nos dá comida, roupa e nos deixa tomar banho.” “Carla, isso não é verdade, ele não é uma boa pessoa!” “Sempre nos ajudou na escola, e não sabemos o seu problema, o porque dele precisar tanto de dinheiro...” “Todo mundo precisa de dinheiro, não é razão para sequestrar ninguém!” 141
  • 142. “Ele não é todo mundo, eu sei que você também gosta dele, gostaria até hoje se não fosse pelo sequestro, eu não entendo qual a situação financeira dele, pero se quisesse fazer algo conosco, já teria feito, não acha?” “Ele pode estar esperando...” “Esperando pelo quê! É você quem está fora da realidade, estamos indefesas aqui, e mesmo assim a única exigência dele foi que não fugissemos e que escrevêssemos a carta.” “De qualquer forma estamos presas aqui.” Acolhem-se uma a outra, e Joaquim chega trazendo uma bandeija com o café da manhã. CAPÍTULO LXIV PÔS A BANDEIJA sobre o chão e as gêmeas serviram-se, “Como vão os meus anjos?” Custaram a responder, não iriam, pero o medo as convenceu, “Bem”, disseram. Relaxadamente sentado, Joaquim descansou o braço sobre o acostamento da cadeira, empurrou os pés no chão, brincando com a sola do sapato, abriu o beiço algumas vezes para respirar melhor, encarava as gêmeas e todo aquele espaço em que encontravam-se, e a explícita situação de submissão. Puxou um ar de superioridade e de boa lábia, “Não precisam mais preocupar-se. Decidi-me quanto a vocês, as levarei para casa.” Os olhos das irmãs encheram-se de felizes lágrimas, o brilho intenso como de uma criança e o rosto ganhou uma forma mais arredondada e viva, “Obrigada professor! Nós queremos muito ir para casa! Por favor nos leve!”, falou Maria alegremente. “É claro, porém, que há alguns detalhes neste nosso trato que pretendo ter como pequeninas condições, coisas irrelevantes quanto ao que vocês tem a ganhar.” “O quê?”, perguntou Carla. “Terão de prometer me obedecer.” “Prometemos!”, exclamou Maria. “Fazer tudo sem questionar. Este é o acordo. Aceitam?” “Sim! Já obedecemos até agora, não faz diferença.”, disse Carla. Joaquim ordenou sério e tranquilamente, “Maria, desvista-se.” “Quê?!”, perguntou espantada. “Está quebrando o nosso acordo, prometeu obedecer sem questionar.” “O que você quer?” “Quero vê-la urinar.” “Não!”, afirmaram juntas. “Lembrem-se, amores, que estão sobre minhas ordens e aos meus cuidados. Terão de cumprir o acordo já aceito ou sofrerão a punição.” 142
  • 143. “Não dissemos nada disso!”, falou Maria. “Faça o que eu mandei, ou arrepender-se-hão!” “Não!” Joaquim levantou rapidamente num passo até o colchão, e ergueu numa descomunal força, Carla pelos louros cabelos, encostando o afiado facão em seu lívido pescoço. Ambas levaram um susto, o corpo de Carla tremeu e Maria praticamente pulou para trás não acreditando no que acontecera, o professor comportara-se como um animal dando um eficaz bote. “Faça o que mando, ou ao invés de ir para casa, verá a irmã ser degolada.” Boquiaberta, Maria tornou-se pálida como se encarasse o horror da própria morte. A ocasião pareceu arrancar-lhe a alma do corpo, o coração calou-se deixando um buraco no peito, e aquele vazio propagava-se como um atordoante e derradeiro sofrimento, “Não faça nada com ela eu imploro!, eu imploro!” “Caminhe até o ralo.” Sem arrancar os assustados olhos azulados do professor e da sua incapaz irmã, ela recuou os passos até chegar e estar-se por cima do ralo. “Tire a roupa e a jogue no chão, de vagar, longe de você.” Fez lentamente, livre das roupas podíamos agora avistar o magro e esbelto corpo com os pequenos seios quase planos e o púbis com claros pelos, também os salientes ossos do quadril. Maria queria obedientemente fazer tudo, buscando assim ter-se livre com a irmã para irem embora daquele infernal tormento. “Agora abaixe-se de cócoras sobre o ralo e faça xixi.” Carla estava paralisada, e mesmo preocupada fechou os olhos, donde escorria infinitamente fios de lágrimas até o queixo, e caíam no chão. “Não consigo!”, exclamou Maria também a chorar. “Faça agora!” O rosto tornou-se rosa e expressava força, de repente um jato de urina saiu batendo no ralo e desfez-se no típico e excitante soar. Joaquim teve os olhos cheios de brilho, e os músculos do rosto esticaram-se num singelo sorriso a exbir um pedaço dos dentes de marfim. O som daquilo durou poucos segundos, pingando algumas gotas depois que também se esgotaram. “Fiz o que mandou, por favor, liberte Carla e nos deixe ir embora! Eu suplico! Tenha dó da gente!” Ia levantando-se quando Joaquim com sua grave voz declarou, “Ainda não! Agaixe de novo. Agora quero que faça cocô.” Neste momento Carla abriu os olhos e gritou, “Não! Isso não! Nos deixe ir!” Maria tão espantada que perdia a cor, “O que você é?! Um doente?! Por que está fazendo isso conosco?!” E Joaquim sem apresentar qualquer alteração informou, “Faça o que eu mando, ou terá a cabeça da sua irmã rolando pelo chão.” Maria querendo defender-se de alguma forma apenas tentou humildemente dizer numa chorosa voz, 143
  • 144. “Pero eu não estou com vontade!” “Faça ou corto agora mesmo!” Então expremeu com toda força, sua barriga contraía-se, as bochechas avermelhadas e a testa apresentando seriedade e dificuldade. Os cotovelos enconstavam-se nos joelhos afastados um do outro, a mostrar a perna aberta e enfim um cocô sólido emergiu saindo do pequeno anus que abria cada vez mais, pondo rapidamente uma grande quantidade de fezes em formato alongado e contínuo que caía no piso. Quando terminou, exausta, o suor escorria-lhe e pensou ter a tão desejada liberdade... Carla foi solta no ar, Joaquim num piscar de olhos apoderou-se totalmente de Maria, derrubando-a no chão e tomando posse de seu corpo, que posicionou do jeito que queria, deitada de bruços. Então com as mãos abriu os rijos glúteos e lambeu o orifício anal e sua orla, numa vontade assustadoramente gulosa e desinibida. Encontrava ali sua fonte de prazer e a saciedade da sua sede. A língua procurou cada milímetro, encharcando toda a branca bunda de saliva. Maria não teve como defenderse, somente foi usada como uma boneca inanimada. Joaquim levantou-se lambendo os beiços, como quem provara do melhor restaurante o mais delicioso banquete. Virou-se de costas e encontrou Carla aparavorada no chão, correu apressado e catou do piso seu facão, erguendo a mão o mais alto que pode e golpeando o pescoço de Carla que separou-se num grande barulho, a cabeça voou na parede, o corpo espatifou-se no chão e sofreu de vários espasmos musculares. Do corte no pescoço espixou duas ou três torrentes de sangue grosso, banhando o azuleijo. Maria vendo a chocante e inacreditável cena, berrou insanamente, “Não!!! por que vai nos matar?!” E Joaquim sorrindo com o facão pingando sangue respondeu, “Por quê? Porque Maria!, se viver, terá filhos, e os filhos dos teus filhos também terão filhos... e desta maneira enquanto vocês crianças existirem a humanidade nunca vai acabar!” Ao término desta pronúncia, desferiu uma facãozada horizontal direita e mortal de encontro ao crânio que quebrou-se e transformou-se numa massa cinzenta e ensanguentada entre os vários e loiros fios no frio chão. Os esbugalhados olhos azuis de Maria encontravam-se perdidos naquela carne já sem vida, como duas bolotas em meio ao miolo cerebral esmagado. Neste instante ouve-se o ranger da porta de metal abrindo-se e passos de sapato descendo as escadas de madeira, ao virar Joaquim percebeu o rosto de Alice que ao encontrá-lo foi falando, “Jo, não aguentei e vim te...” A interrupção desta fala foi devido a boca de Alice que escancarou-se ao ver a medonha e bizarríssima ilustração daquela incrível foto grotesca que participava o marido. Calada e sem conseguir balbuciar qualquer coisa, Joaquim tomou a palavra, “Ah! Deus! Por que me destinou este castigo! Dentre os homens eu sou o mais infeliz! Aqui e agora, neste martírio de vida, desafiou a minha fé ou peno por milhares 144
  • 145. de encarnações passadas! Por que, meu Deus!, por quê?! Por que terei de matar não só dois, porém meus três e únicos amores!” CAPÍTULO LXV COM A AJUDA de uma marreta e uma talhadeira, ele conseguiu retirar alguns pisos e em forma de quadrado desenvolver um buraco relativamente fundo, onde deixou todos os pedaços dos corpos, os membros já partidos cuidadosamente nas juntas com o facão, preservando ossos inteiros que dariam maior trabalho para serem cortados. Após abriu o saco de cal virgem e cobriu toda aquela carne, pele e sangue, a fim de amenizar o mal cheiro e melhorar a decomposição. Fez um rápido cimento de curta secagem e com uma colher de pedreiro modelou o chão para ficar liso e receber os novos pisos de mesma cor que havia comprado dias atrás. Serviço braçal feito, limpou tudo, arrumou suas coisas, fez suas malas e voltou para a Cuiabá. A capital estava num tempo bom, a chuva amenizou o terrível calor que fizera na manhã, tranquilizando assim o ar, que junto d'água tornou-se relaxante e renovador. Excelente para restaurar energias perdidas num árduo trabalho. A Avenida Prainha neste começo de noite infelizmente recebia um trânsito com engarrafamento de quarenta minutos, devido ao fechamento da maior parte dela, estreitando o espaço de passagem e criando uma fila enorme de carros com seus motores ligados. 145
  • 146. Lous Rondon é jornalista em Cuiabá, Mato Grosso. Este é seu primeiro romance. Escreve também poesia, crônicas e contos. 146