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Emily rodda   deltora quest 3 - a cidade dos ratos
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  • 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...Lief, Barda e Jasmine, três companheiros que têm em comum somente o ódioque nutrem pelo inimigo, saíram numa perigosa busca para encontrar as sete pedraspreciosas do mágico Cinturão de Deltora. Somente quando o Cinturão estiver completonovamente, o malvado Senhor das Sombras poderá ser derrotado.Eles obtiveram êxito em encontrar o topázio dourado e o grande rubi. Osmisteriosos poderes das duas pedras fortaleceram os amigos e lhes deram coragempara prosseguir na busca pela terceira pedra. Contudo, nenhum deles sabe quehorrores os aguardam na proibida Cidade dos Ratos.SUMÁRIOA armadilhaCarne assadaTudo para o viajanteQuestões de dinheiroA negociaçãoNoradzCostumes estranhosO julgamentoAs cozinhasO buracoO preço da liberdadeUma questão de negóciosAlém do Rio LargoA noite dos ratosA cidadeReeahEsperança
  • 2. ATÉ AGORA...Lief, de 16 anos de idade, cumprindo uma promessa feita pelo pai, antes que ofilho nascesse, saiu em uma grande busca para encontrar as sete pedras preciosas domágico Cinturão de Deltora. Somente o Cinturão poderia salvar o reino da tirania domalvado Senhor das Sombras que, apenas alguns meses antes do nascimento de Lief,invadira Deltora e escravizara o seu povo com a ajuda de feitiçaria e de seus temidosGuardas Cinzentos.As pedras — uma ametista, um topázio, um diamante, um rubi, uma opala, umlápis-lazúli e uma esmeralda — foram roubadas a fim de permitir que o desprezívelSenhor das Sombras invadisse o reino. Agora, elas se encontram escondidas em locaissombrios e terríveis em toda Deltora. Somente depois de recolocadas no Cinturão, éque o herdeiro do trono poderá ser encontrado, e o Senhor das Sombras será derrotado.Os companheiros de Lief são Barda, um homem mais velho que foi guarda dopalácio, e Jasmine, uma garota selvagem e órfã da idade de Lief. Os dois a conheceramem sua primeira aventura nas temíveis Florestas do Silêncio.Nas Florestas, os três companheiros descobriram os fantásticos poderes decura do néctar dos Lírios da Vida. Eles também conseguiram encontrar a primeira pedra— o topázio dourado, símbolo da lealdade, que tem o poder de fazer os vivos entrar em
  • 3. contato com o mundo espiritual e de clarear e estimular a mente. No Lago das Lágrimas,eles romperam o cruel encantamento da feiticeira Thaegan, libertaram o povo deRaladin e de DOr de sua maldição e encontraram a segunda pedra — o admirável rubi,símbolo da felicidade, cuja cor perde a intensidade quando desgraças ameaçam quem ousa.Agora, continue a leitura...Com os pés doloridos e fatigados. Lief, Barda e Jasmine dirigiram-se para ooeste, na direção da lendária cidade dos ratos. Eles pouco sabiam sobre o seu destino,exceto que se tratava de um lugar maligno e há muito abandonado por seu povo.Entretanto, tinham quase certeza de que uma das sete pedras perdidas do cinturão deDeltora estava escondida lá.Os companheiros haviam caminhado sem parar o dia todo e, naquelemomento, quando o sol cintilante deslizava na direção do horizonte, ansiavam por parare repousar. Mas a estrada que percorriam, profundamente sulcada pelas rodas decarroças, ziguezagueava por uma planície cujo solo se encontrava totalmente tomadopor arbustos espinhentos. Os espinheiros cobriam toda a estrada e se estendiam atéonde a vista podia alcançar.Lief suspirou e tocou o Cinturão oculto debaixo da camisa em busca deconsolo. Agora ele continha duas pedras: o topázio dourado e o rubi escarlate. Ambashaviam sido conquistadas com grandes dificuldades e, nesse processo, grandes feitoshaviam sido realizados.O povo de Raladin, com quem haviam ficado nas duas últimas semanas,desconhecia a busca pelas pedras perdidas. Manus, o pequeno ralad que osacompanhara na busca pelo rubi, jurara silêncio. Mas não era segredo que oscompanheiros haviam causado a morte da malvada feiticeira Thaegan, aliada do cruel
  • 4. Senhor das Sombras. E também não era segredo que dois dos 13 filhos da bruxativeram o mesmo destino que a mãe. Os ralads, finalmente livres da maldição deThaegan, criaram muitas canções de alegria louvando os amigos por seus feitos.Fora difícil deixá-los. Difícil abandonar Manus, a felicidade, a segurança, a boacomida e as camas macias e quentes do vilarejo oculto. Mas ainda havia cinco pedras aserem encontradas e, enquanto não fossem recolocadas no Cinturão, a tirania doSenhor das Sombras não poderia ser derrotada. Os três companheiros precisavamprosseguir.— Esses espinheiros são intermináveis — Jasmine queixou-se, a vozinterrompendo os pensamentos de Lief, que se voltou para fitá-la. Como sempre, apequena criatura peluda chamada Filli encontrava-se aninhada no ombro dela e piscavapor entre a massa de cabelos negros de sua dona. Kree, o corvo, que nunca se afastavamuito da vista de Jasmine, esvoaçava sobre os espinheiros próximos e apanhavainsetos. Ao menos ele estava cuidando do estômago.— Há alguma coisa adiante! — Barda avisou, apontando para um ponto brancocintilante ao lado da estrada.Curiosos e esperançosos, eles correram para o local onde, sobressaindo-sedos espinheiros, havia uma estranha placa.— O que isso significa? — Jasmine murmurou.— Parece estar apontando a direção de algum tipo de loja — supôs Lief.— O que é loja?Lief olhou de relance para a garota perplexa e então lembrou que ela passaraa vida nas Florestas do Silêncio e que nunca vira muitas das coisas que ele consideravanormais.— Uma loja é um lugar para comprar e vender mercadorias — Barda explicou.— Hoje em dia, na cidade de Del, as lojas são malservidas, e muitas foram fechadas.Mas antigamente, antes do Senhor das Sombras, havia muitas que vendiam alimentos,bebidas, roupas e outros artigos.Jasmine olhou para ele, intrigada. Lief se deu conta de que mesmo assim ela
  • 5. não compreendia. Para ela, os alimentos nasciam nas árvores e a bebida corria nosriachos. Outros objetos eram encontrados ou fabricados, e o que não podia serencontrado ou fabricado era esquecido.Eles caminharam com dificuldade estrada acima, conversando em voz baixa etentando esquecer o cansaço. Mas logo ficou escuro demais para enxergar algumacoisa e eles tiveram de acender uma tocha para guiar-lhes o caminho. Barda segurava achama bruxuleante para baixo, porém todos sabiam que ela ainda podia ser vista doalto.O pensamento de que os seus passos poderiam ser seguidos com tantafacilidade era desagradável. Mesmo àquela hora, os espiões do Senhor das Sombraspoderiam estar patrulhando os céus. Além disso, eles ainda não tinham saído doterritório que fora de Thaegan. Embora ela estivesse morta, eles sabiam muito bem quea maldade havia dominado por muito tempo e que o perigo era uma ameaça em todosos lugares.Cerca de uma hora depois de acenderem a tocha, Jasmine parou e olhou paratrás.— Estamos sendo seguidos. Não só por uma criatura, mas por muitas — elasussurrou.Embora não conseguissem ouvir nada, Lief e Barda não se preocuparam emperguntar-lhe como percebera. Eles haviam aprendido que os sentidos de Jasmineeram muito mais aguçados e afiados que os seus. Ela podia não saber o que eram lojas,mas seus outros conhecimentos eram muito amplos.— Eles sabem que estamos à frente deles — ela murmurou. — Eles paramquando paramos e andam quando andamos.Em silêncio, Lief puxou a camisa para cima e olhou para o rubi cravado noCinturão. Seu coração acelerou quando viu, sob a luz bruxuleante da tocha, que overmelho vivo da pedra havia se transformado num cor-de-rosa pálido.Barda e Jasmine também observavam a pedra. Assim como Lief, eles sabiamque a cor do rubi esmaecia quando algum perigo ameaçava quem o usava. Suamensagem, naquele momento, era clara.— Então, nossos seguidores têm más intenções — Barda murmurou.— Quem serão eles? Será que Kree poderia voltar e...— Kree não é uma coruja! — Jasmine disparou. — Ele não consegue enxergarno escuro, não mais do que nós. — Ela se agachou, encostou o ouvido no solo e,franzindo a testa, ouviu com atenção. — Pelo menos os nossos perseguidores não sãoGuardas Cinzentos. São silenciosos demais e não estão marchando.— Talvez seja um bando de ladrões que pretende armar uma emboscada
  • 6. assim que pararmos para dormir ou descansar. Precisamos voltar e lutar! — A mão deLief já se encontrava no punho da espada. As canções dos ralads soavam em seusouvidos. O que era um grupo de ladrões maltrapilhos comparado aos monstros que ele,Barda e Jasmine haviam enfrentado e derrotado?— O meio de uma estrada margeada por espinheiros não é um bom lugar paraoferecer resistência, Lief — argumentou Barda, sombriamente.— E aqui não há nenhum lugar em que possamos nos esconder e pegar osinimigos de surpresa. Devemos continuar e tentar encontrar um local melhor.Os amigos recomeçaram a andar, dessa vez mais depressa. Lief olhava paratrás constantemente, mas não havia nada entre as sombras.Eles alcançaram uma árvore morta que parecia um fantasma ao lado daestrada, o tronco desbotado destacando-se entre os espinheiros. Momentos após eles aterem ultrapassado, Lief sentiu uma mudança no ar e a sua nuca começou a formigar.— Eles estão acelerando — Jasmine constatou, ofegante.E então eles ouviram o som. Um uivo longo e baixo que gelava o sangue.Filli, agarrado ao ombro de Jasmine, emitiu um leve som assustado. Lief viuque o pêlo do animalzinho se arrepiara por todo o seu corpinho.Seguiu-se mais um uivo e depois outro.— Lobos! — Jasmine sussurrou. — Não vamos conseguir fugir. Eles estãoperto demais!Ela preparou mais duas tochas com o material que levava na sacola eacendeu-as na que já carregava. — Eles vão ficar com medo do fogo — ela disse,colocando os dois fachos recém-acesos nas mãos de Lief e Barda. — Mas precisamosenfrentá-los. Não podemos voltar-lhes as costas.— Vamos ter de andar de costas até a loja de Tom? — agarrando a sua tocha,Lief tentou fazer uma brincadeira, mas nem Jasmine, nem Barda acharam graça. Ohomem fitava a árvore morta que cintilava fracamente ao longe.— Eles só se aproximaram depois que passamos pela árvore — murmurou. —Queriam impedir que subíssemos nela e escapássemos. Não são lobos comuns.— Estejam preparados — Jasmine advertiu.Ela já empunhava a adaga, e Lief e Barda desembainharam as espadas. Elespermaneceram juntos, as tochas no alto, esperando.E, acompanhando outro coro de uivos de gelar o sangue, da escuridão surgiuo que pareceu um mar de pontos de luz amarela em movimento — eram os olhos doslobos.Jasmine agitava a tocha à sua frente de um lado para o outro. Lief e Bardafaziam o mesmo, de modo que a estrada ficou bloqueada por uma linha de chamas em
  • 7. movimento.Os animais diminuíram o passo, mas ainda avançavam, rosnando. À medidaque se aproximavam da luz, Lief podia ver que, de fato, não se tratava de lobos comuns.Eram imensos, cobertos por um pêlo espesso e opaco com listras marrons e amarelas.Os lábios se arregaçaram para trás, deixando à vista as mandíbulas furiosas, e o interiordas bocas abertas não era vermelho, mas preto.Lief os contou rapidamente. Eram 11. Por algum motivo, esse númerosignificava algo para ele, mas não conseguia lembrar do que se tratava. De qualquerforma, não havia tempo para preocupar-se com tais pensamentos. Acompanhado deBarda e Jasmine, começou a caminhar para trás com a tocha em movimento contínuo.Mas, a cada passo que os amigos davam, os animais faziam o mesmo.Lief lembrou-se de sua piada tola, "Vamos ter de andar de costas até a loja doTom?", ele perguntara.Naquele momento, parecia que era exatamente isso que seriam obrigados afazer. As bestas estão nos guiando", ele pensou.As bestas estão nos guiando... Eles não são lobos comuns... Eles são 11...— Barda! Jasmine! — sussurrou, com um frio no estômago. — Eles não sãolobos. Eles são...Mas não conseguiu terminar, pois, naquele instante, ele e os amigos deramoutro passo para trás, a enorme rede que havia sido armada para eles se fechou e ostrês ficaram pendurados no alto, aos gritos.
  • 8. Amontoados na rede tão juntos que mal podiam se mover, Lief, Barda ejasmine balançavam no ar, indefesos e agoniados. As tochas e armas haviam voado desuas mãos ao serem içados para cima. Kree esvoaçava ao redor deles, grasnando,desesperado.A rede pendia de uma árvore que crescia ao lado da trilha. Ao contrário dequalquer outra árvore que tinham visto, ela estava viva. O galho que sustentava a redeera grosso e forte, forte demais para quebrar.Lá embaixo, os lobos passaram a emitir urros de triunfo. Lief olhou para baixo e,sob a luz das tochas caídas, pôde ver que os corpos das bestas inchavam e tomavamuma forma humana.Alguns instantes depois, 11 criaturas hediondas e de dentes arreganhadosdavam cambalhotas na trilha sob a árvore. Algumas eram grandes, outras, pequenas.Algumas tinham o corpo coberto de pêlos, outras eram totalmente desprovidas decabelos. Eram verdes, marrons, amarelas, de um branco pálido e até de um vermelholodoso. Uma delas tinha seis pernas atarracadas. Lief sabia quem eram.Eram os filhos da feiticeira Thaegan. Ele se lembrou do verso que listava seusnomes.Hot, Tot, Jin, Jod, Fie, Fly, Zan, Zod, Pik, Snik, Lun, Lod. E o temível Ichabod.Jin e Jod estavam mortos, sufocados na própria armadilha de areia movediça.Agora restavam somente 11. Mas estavam todos ali, reunidos para caçar os inimigosque haviam provocado a morte da mãe e dos irmãos. Eles queriam vingança.Grunhindo e fungando, alguns dos monstros arrancavam espinheiros pelasraízes e os empilhavam sob a rede que balançava. Outros apanhavam as tochas edançavam em círculos, cantando:Mais calor, mais calor,Carne assada macia e suculenta!Veja como é divertido
  • 9. Esperar que fique pronta.Escute os gemidos,O estalar dos ossos!Mais calor, mais calor,Carne assada macia e suculenta!— Eles vão nos queimar! — grunhiu Barda, lutando em vão. — Jasmine, a suasegunda adaga. Você consegue pegá-la?— Você acha que eu ainda estaria pendurada aqui se pudesse? — Jasminesussurrou, furiosa.Lá embaixo, os monstros se divertiam, jogando as tochas sobre a pilha deespinheiros. Lief já podia sentir o calor e o cheiro de fumaça. Ele sabia que em breve osarbustos verdes iriam secar e se incendiar. Então, ele e os amigos assariam no calor e,quando a rede se queimasse, cairiam na fogueira.Algo macio roçou o rosto de Jasmine. Era Filli. A pequena criatura conseguirasair de seu esconderijo no ombro da dona e, naquele momento, estava se espremendopara passar pela rede, ao lado da orelha de Lief.Pelo menos ele estava livre. Mas, em vez de subir correndo pelas cordas parase esconder nas árvores, como Lief esperava que fizesse, continuou segurando-se narede e começou a mordiscá-la desesperadamente. Lief percebeu que ele tentava abrirum buraco grande o bastante para que passassem.Era um esforço louvável, mas quanto tempo levaria para que os dentes miúdosroessem aquelas cordas fortes e grossas? Tempo demais. Muito antes de Filli conseguirabrir mesmo uma pequena abertura, os monstros perceberiam o que ele estava fazendoe o afastariam ou então o matariam.Ouviu-se um grunhido de raiva vindo do solo. Lief olhou para baixo, em pânico.Os inimigos já teriam notado a presença de Filli? Não, eles não estavam olhando paracima. Em vez disso, olhavam uns para os outros.— Duas pernas para Ichabod! — rugia o maior, socando o peito vermelho eencaroçado. — Duas pernas e uma cabeça.— Não! Não! — rosnaram duas criaturas verdes, mostrando dentes escuros egotejantes. — Não é justo! Fie e Fly são contra!— Eles estão brigando para saber que partes de nossos corpos irão comer! —Barda exclamou. — Vocês acreditam nisso?— Deixe-os brigar — Jasmine murmurou. — Quanto mais eles brigarem, maistempo Filli terá para fazer o seu trabalho.— Vamos dividir a carne! — gritaram histericamente os dois monstrosmenores, as vozes agudas erguendo-se acima do barulho ao redor. — Hot e Tot
  • 10. querem partes iguais.Seus irmãos e irmãs grunhiram e resmungaram.— Olhem só como eles são burros! — Lief gritou, de repente, fingindo estarconversando com Barda e Jasmine. — Eles não sabem que não podem ter partesiguais!— Lief, você está maluco? — Jasmine sussurrou.Mas Lief continuou gritando. Ele notou que os monstros haviam se calado eestavam ouvindo.— Nós somos três e eles são 11! — rugiu. — Não se pode dividir três em 11partes iguais. É impossível!Ele sabia tanto quanto Jasmine que estava assumindo um risco. Os monstrospoderiam olhar para ele e, ao mesmo tempo, ver Filli. Mas ele apostava na esperançade que a suspeita e a raiva fariam os inimigos manter os olhos presos uns nos outros.E, para seu alívio, percebeu que seu jogo estava dando certo. Os monstroshaviam começado a murmurar em pequenos grupos, enquanto se olhavamdissimuladamente.— Se fossem nove, eles poderiam cortar cada um de nós em três e ficar cadaum com uma parte — ele gritou. — Mas desse jeito...— Partes iguais — guincharam Hot e Tot. — Hot e Tot dizem... Ichabodagarrou a ambos e bateu as cabeças deles uma contra a outra, provocando um forteruído. Os dois caíram no chão, desacordados.— Agora — rosnou Ichabod —, agora as partes serão iguais como vocêsquerem. Agora somos nove.O fogo começara a se inflamar e a estalar. A fumaça subia, fazendo Lief tossir.Ele olhou para o lado e viu que Filli já conseguira abrir um pequeno buraco na rede etentava aumentá-lo. Mas ele precisava de mais tempo.— Eles se esqueceram de uma coisa, Lief — Barda disse em voz alta. —Mesmo que sejamos divididos em três, as partes ainda não vão ser iguais. Porque eusou duas vezes maior do que Jasmine. Quem ficar com uma terça parte dela vai se darmal. Na verdade, ela deveria ser dividida em dois.— Sim — concordou Lief, em voz igualmente alta, ignorando os protestos deraiva de Jasmine. — Mas assim só haverá oito pedaços, Barda. E há nove paraalimentar.Ele observou pelo canto dos olhos quando Zan, o monstro de seis pernas,assentiu, pensativo, e então se virou de repente, e atingiu a irmã Zie com um porrete,derrubando-a no chão.Fly, furioso com o ataque à irmã gêmea, saltou sobre as costas de Zan,
  • 11. guinchando e mordendo. Zan rugiu, girou o corpo e nocauteou o irmão cabeludo,jogando-o para o outro lado. Este, por sua vez, caiu sobre a irmã à sua frente e ficouespetado em seus chifres.De repente, estavam todos brigando — gritando, mordendo e batendo —,caindo sobre os espinheiros, tropeçando no fogo, rolando no chão.A briga continuou, interminável. Assim, quando Filli concluiu seu trabalho e ostrês companheiros escaparam da rede, e subiram na árvore, havia somente um monstrode pé: Ichabod.Cercado pelos corpos dos irmãos e irmãs, ficou parado perto do fogo, rugindoe batendo no peito, triunfante. Ele iria olhar para cima a qualquer momento. Veria que arede estava vazia e que a comida pela qual havia lutado se encontrava na árvore — semter para onde ir.— Precisamos pegá-lo de surpresa — Jasmine sussurrou, apanhando asegunda adaga escondida entre as roupas e verificando se Filli voltara à segurança deseu ombro. — É a única maneira.Sem mais nenhuma palavra, ela saltou, atingindo Ichabod nas costas comambos os pés. Sem equilíbrio, ele caiu na fogueira, onde se estatelou com um estrondoe um rugido.Dando-se conta da situação, Lief e Barda deslizaram árvore abaixo o maisrápido possível e correram até Jasmine. Ela já recolhia sua adaga e as espadas dosamigos.— Por que demoraram tanto? — ela cobrou, jogando-lhes as armas. —Depressa!Com Kree esvoaçando sobre suas cabeças, eles correram como o vento aolongo da trilha, sem se importar com os sulcos da estrada e com a escuridão. Atrásdeles, Ichabod rugia de fúria e dor. Arrastou-se para fora do fogo e começou apersegui-los aos tropeços.
  • 12. Ofegantes, com o peito dolorido e os ouvidos atentos aos uivos atrás deles,continuaram a correr. Eles sabiam que se Ichabod se transformasse num lobo ou emoutro animal os apanharia facilmente. Mas eles nada ouviram."Talvez ele não consiga transformar-se por estar ferido", Lief pensou. Nessecaso, estamos salvos. Mas, assim como os companheiros, não ousou parar nemdiminuir o passo.Finalmente, chegaram a um lugar em que a trilha atravessava um pequenocórrego.— Tenho certeza de aqui é o limite das terras de Thaegan — Barda informou.— Prestem atenção. Não há espinheiros do outro lado. Ichabod não vai nos seguir atélá.Com as pernas trêmulas de cansaço, continuaram a caminhada, agitando aágua fria à sua volta. Do outro lado do riacho, a trilha continuava, mas ao seu ladocresciam um capim verde e macio e pequenas árvores, e os amigos puderam enxergaro contorno de flores silvestres.Eles caminharam, cambaleantes, por mais alguns instantes. Então,afastaram-se da trilha e deixaram-se cair no abrigo do pequeno bosque formado pelasárvores. Com o sussurrar das folhas no alto e o capim macio sob suas cabeças,adormeceram.Quando despertaram, o sol estava alto e Kree os chamava. Liefespreguiçou-se e bocejou. Seus músculos estavam tensos e doloridos por causa dalonga corrida, e seus pés estavam sensíveis.— Deveríamos ter dormido em turnos — Barda resmungou, sentando-se emovendo as costas com cuidado. — Foi perigoso confiar que estávamos em segurançaainda tão perto da fronteira.— Estávamos cansados. E Kree ficou vigiando. -Jasmine erguera-se de umsalto e já estava investigando o bosque. Aparentemente, o corpo dela não estavadolorido.
  • 13. Ela pousou a mão no tronco áspero de uma das árvores. Acima dela, as folhasmoveram-se levemente. Jasmine inclinou a cabeça para o lado e pareceu escutar.— As árvores dizem que ainda passam carroças nesta estrada com bastantefreqüência — ela anunciou, finalmente. — Carroças grandes, puxadas por cavalos. Masontem não passou ninguém por aqui.Antes de prosseguir em sua jornada, os companheiros comeram um pouco dopão, do mel e das frutas que os ralads haviam lhes dado. Filli recebeu sua porção, alémde um pedaço de favo de mel, seu petisco favorito.E, então, vagarosamente, eles se puseram a caminho. Após algum tempo,viram outra placa que indicava o caminho para a loja de Tom.— Espero que Tom venda algo para pés doloridos — Lief murmurou.— A placa diz "Tudo para o viajante" — Barda repetiu. — Portanto, ele deveter algo. Mas devemos escolher somente o que realmente precisamos. Temos poucodinheiro.Jasmine olhou os companheiros de relance. Não disse nada, mas Liefpercebeu que ela começou a caminhar um pouco mais depressa.Ficou claro que ela estava curiosa para ver exatamente como era uma loja.Uma hora mais tarde, logo depois de uma curva, eles viram, surgindo no meiode um grupo de árvores, um sinal de metal recortado parecido com um raio e, ao seulado, imensas letras de metal.Intrigados, continuaram a caminhar. À medida que se aproximavam do local,notaram que as árvores estavam dispostas no formato de uma ferradura e seagrupavam nas laterais e na parte posterior de um estranho e pequeno edifício de pedra.O suporte recortado que sustentava as letras de metal encontrava-se espetado
  • 14. exatamente no centro do telhado pontiagudo, como se o edifício tivesse sido atingidopor um raio.Sem dúvida, aquela era a loja de Tom, embora, à primeira vista, ela separecesse mais com uma pousada do que com um lugar em que fosse possível fazercompras. Havia um espaço limpo e plano entre a casa e a estrada — grande o bastantepara receber carroças — e, aqui e ali, grandes gamelas de pedra com água para osanimais. Uma grande vitrine cintilava ao lado da porta e exibia o nome do proprietáriopintado em brilhantes letras vermelhas, dispostas na vertical, de cima para abaixo,como se via na placa da chaminé e nas placas pelas quais haviam passado.— Esse Tom realmente gosta de divulgar o seu nome — Barda gracejou. —Muito bem, então. Vamos ver o que ele tem para nós.Os companheiros atravessaram a clareira e espiaram pela vitrine. Ela estavarepleta de mochilas, chapéus, cintos, botas, meias, cantis, casacos, cordas, potes,panelas e muitos outros objetos, inclusive alguns que Lief não reconheceu.Estranhamente, não havia preços ou etiquetas, mas, bem no meio, havia um avisoamarelo.Um sino preso à porta tilintou quando eles entraram na loja, mas ninguém veiorecebê-los. Eles olharam ao redor, enxergando com dificuldade, pois estava muitoescuro. A sala abarrotada parecia muito mal iluminada em comparação com o sol quebrilhava lá fora. Corredores estreitos se estendiam entre as estantes que iam do chão aoteto. As prateleiras estavam entulhadas de mercadorias. No final, havia um balcão compilhas de livros de contabilidade, várias balanças e o que parecia ser uma lata paraguardar dinheiro. Atrás do balcão, havia mais prateleiras, uma porta e outro aviso:VIAJANTES!ESCOLHAM COM CUIDADO.NADA DE DEVOLUÇÕES.NADA DE REEMBOLSOS.NADA DE ARREPENDIMENTOS.— Tom é um cara confiante — Barda deduziu, olhando à sua volta.— Ora, nós poderíamos ter entrado aqui, roubado o que quiséssemos e já ter
  • 15. saído.Para provar o seu ponto de vista, ele estendeu a mão na direção de umapequena lanterna na prateleira mais próxima. Quando tentou apanhá-la, porém, ela nãose moveu.Barda, atônito, ficou boquiaberto. Puxou com força, mas nada. Finalmente, aover Lief cair na gargalhada e Jasmine olhá-lo atentamente, desistiu. Mas, quandoprocurou tirar a mão do objeto, não conseguiu fazê-lo. Ele se esforçou ao máximo,blasfemando, mas seus dedos pareciam colados.— Você quer uma lanterna, amigo?Os três deram um salto, assustados, e viraram-se bruscamente. Um homemalto e magro, com um chapéu na parte de trás da cabeça, estava parado no balcão, osbraços cruzados e um largo sorriso zombeteira nos lábios.— O que é isso? — Barda gritou, zangado, tentando soltar a mão da lanterna.— É a prova de que Tom não é um cara confiante — falou o homem atrás dobalcão, e seu sorriso ficou ainda mais largo. Ele colocou uma de suas mãos de dedoslongos debaixo do balcão e aparentemente apertou algum botão escondido, pois derepente a mão de Barda foi libertada. Ele caiu para trás, chocando-se com força contraLief e Jasmine.— Agora, o que Tom pode fazer por vocês? — o homem indagou.— E, mais precisamente, o que Tom pode vender para vocês? — completou,esfregando as mãos.— Precisamos de uma corda forte e comprida — pediu Lief, vendo que Bardanada iria dizer. — E, também, algo para pés doloridos, se você tiver.— Se eu tiver? — Tom gritou. — É claro que eu tenho. Tudo para o viajante.Você não viu a placa?Ele saiu de trás do balcão e escolheu um rolo de corda fina em uma prateleira.— Esta é a melhor que tenho — disse. — Leve e muito resistente. Três moedasde prata e ela é sua.— Três moedas de prata por um pedaço de corda? — Barda explodiu.— Isso é um roubo!— Não é roubo, meu amigo, são negócios — Tom retrucou com calma, osorriso ainda no rosto. — Pois onde mais você vai achar uma corda como esta?Ele segurou uma das extremidades da corda e atirou-a para cima com ummovimento do pulso. Ela se desenrolou como uma cobra e prendeu-se firmemente aoredor de um dos caibros do telhado. Tom puxou-a para demonstrar a sua resistência.Em seguida, sacudiu o punho novamente; a corda se desenrolou do caibro e voltou paraas mãos dele, formando um rolo perfeito ao cair.
  • 16. — Isso foi um truque — Barda resmungou, furioso.— Vamos levá-la — disse Lief, fascinado, ignorando o cotovelo do amigo emsuas costelas e o olhar desconfiado de Jasmine.— Sabia que você era um homem que sabe fazer bons negócios— Tom elogiou, esfregando as mãos. — Agora, o que mais posso lhesmostrar? Vocês não são obrigados a comprar.Lief olhou ao redor, excitado. Se essa loja tinha uma corda que agia como seestivesse viva, que outras maravilhas poderia conter?— Tudo! — ele exclamou. — Queremos ver tudo! Tom ficou radiante.Jasmine não estava nem um pouco à vontade. Era evidente que não gostavadaquela loja abarrotada, de teto baixo, tampouco gostava muito de Tom.— Filli e eu vamos esperar lá fora com Kree — anunciou. Virou-se e saiu.A próxima hora voou. Tom mostrou a Lief meias almofadadas para pésdoloridos, telescópios que possibilitavam enxergar além de esquinas, pratosautolimpantes e cachimbos que soltavam bolhas de luz. Mostrou máquinas que previamo tempo, pequenos círculos brancos que pareciam papel, mas que inchavam e setransformavam em pães enormes quando eram molhados com água, um machado quenunca perdia o fio, um saco de dormir que flutuava, pequenas pedras que acendiamfogo e mais uma centena de invenções surpreendentes.Lentamente, Barda esqueceu a desconfiança e começou a observar, fazerperguntas e participar. Quando Tom terminou, ele já tinha sido conquistado e estava tãoansioso quanto Lief para possuir quantas maravilhas daquelas pudesse. Havia coisastão fantásticas... coisas que tornariam a jornada mais fácil, segura e confortável.Finalmente, Tom cruzou os braços e deu um passo para trás, sorrindo paraeles.— Então, Tom lhes mostrou tudo. Agora, o que posso lhes vender?
  • 17. Algumas das mercadorias de Tom, como o saco de dormir flutuante, custavammais dinheiro do que Barda e Lief possuíam, mas havia outras coisas que eles tinhamcondições de comprar, e foi difícil decidir.No final, além da corda que se enrolava sozinha, eles escolheram um pacotede "Nada de Forno" — as rodelas brancas que se expandiam e se transformavam empães — um frasco de "Puro e Claro" — um pó que tornava qualquer água potável — ealgumas meias almofadadas. Era uma quantidade decepcionantemente pequena deartigos, e eles tiveram de abrir mão de vários outros muito mais interessantes, inclusiveum frasco das pedras de acender fogo e o cachimbo que formava bolhas de luz.— Se tivéssemos mais dinheiro! — Lief exclamou.— Ah! — retrucou Tom, empurrando o chapéu um pouco mais para trás. —Bem, talvez possamos negociar. Além de vender, eu também compro. — E lançou umolhar astuto para a espada de Lief.Contudo, o garoto balançou a cabeça numa firme negativa. Por mais quequisesse as mercadorias de Tom, não desistiria da espada que o pai fizera para ele nasua forja.— O seu casaco está um pouco manchado — Tom prosseguiu casualmente,dando de ombros. — Mas ainda assim é possível que eu lhe dê algo por ele.Desta vez Lief sorriu. Por maior que fosse a indiferença que Tom aparentava,era evidente que ele sabia muito bem que o casaco tecido pela mãe do garoto possuíapoderes especiais.— Este casaco pode deixar quem o usa quase invisível — contou. — Elesalvou as nossas vidas mais de uma vez. Acho que também não está à venda.— Uma pena — Tom suspirou. — Então, está bem. — E começou a recolocaras pedras de acender fogo e o cachimbo de luz no lugar.Nesse momento, o sino da porta tilintou e um estranho entrou. Ele era tão altoquanto Barda e tinha um aspecto tão imponente quanto o dele. Tinha longos cabelosnegros emaranhados e uma barba preta mal-cuidada. Uma cicatriz irregular
  • 18. marcava-lhe uma das faces, formando uma mancha branca na pele morena.Lief percebeu que Jasmine esgueirou-se para dentro por trás do viajante. Elapermaneceu parada de encontro à porta, a mão na adaga presa ao cinto. Era evidenteque estava preparada para problemas.O estranho acenou brevemente para Lief e Barda, apanhou um rolo de cordade uma prateleira, passou por eles e se inclinou sobre o balcão empoeirado.— Quanto é? — perguntou a Tom, bruscamente.— Para o senhor, uma moeda de prata — Tom respondeu.Lief arregalou os olhos. Tom lhes dissera que o preço da corda era trêsmoedas de prata. Ele abriu a boca para protestar, mas sentiu a mão de Barda em seupulso, alertando-o. Lief olhou para cima e percebeu que o olhar do companheiroencontrava-se fixo no balcão, perto de onde estavam pousadas as mãos do estranho.Havia uma marca ali. O recém-chegado a havia desenhado na poeira.O sinal secreto de resistência ao Senhor das Sombras! O sinal que haviamvisto rabiscado nas paredes tantas vezes em seu trajeto para o Lago das Lágrimas! Aodesenhá-lo no balcão, o homem dera um aviso a Tom e este reagira abaixando o preçoda mercadoria.O homem jogou uma moeda de prata na mão de Tom e, ao fazê-lo, a mangade seu casaco casualmente apagou a marca. Tudo aconteceu muito depressa. Se Liefnão tivesse visto a marca com os próprios olhos, não teria acreditado que ela estiveraali.— Ouvi boatos sobre estranhos acontecimentos no Lago das Lágrimas etambém em todo o território ao longo do riacho — o estranho comentou, despreocupado,quando se virou para sair. — Ouvi dizer que Thaegan é coisa do passado.— É mesmo? — Tom comentou com naturalidade. — Não sei. Sou apenas umpobre comerciante e não sei nada sobre isso. Que eu saiba, os espinheiros na beira daestrada continuam tão selvagens quanto antes.— Os espinheiros não são resultado de feitiçaria, mas de uma centena de anosde pobreza e negligência — o estranho comentou em tom de desprezo. — Osespinheiros do rei de Del, como eu e muitas outras pessoas os chamam.Lief sentiu um peso no coração. Ao fazer o sinal secreto, o estranho provara
  • 19. que se dedicava a resistir ao Senhor das Sombras, mas estava claro que odiava alembrança dos reis e rainhas de Deltora tanto quanto o próprio Lief uma vez odiara e osculpava pelas desventuras do reino.Ele sabia que nada podia dizer, mas não pôde evitar olhar fixamente para ohomem quando este passou. O estranho retribuiu-lhe o olhar sem sorrir e saiu da loja,roçando em Jasmine ao passar pela porta.— Quem era ele? — Barda perguntou a Tom num sussurro.— Não mencionamos nomes na loja de Tom, a não ser o dele próprio, senhor— Tom respondeu com calma, ajeitando o chapéu na cabeça com firmeza. — Nessestempos difíceis, é melhor assim.Lief ouviu a porta tilintar outra vez e, ao virar-se, viu Jasmine sair. A ameaçade perigo havia passado e ela estava mais tranqüila, por isso decidiu ficar ao ar livremais uma vez.Talvez Tom tenha percebido que Barda e Lief viram e entenderam a marcaque o estranho desenhara no balcão, pois de repente apanhou as pedras de acenderfogo e o cachimbo de luz e acrescentou-os ao pequeno conjunto de mercadorias.— Sem custo extra — anunciou quando o fitaram, surpresos. — Como vocêsviram, Tom sempre fica satisfeito em ajudar um viajante.— Um viajante que esteja do lado certo — Barda retrucou, sorrindo.Tom, porém, ergueu levemente as sobrancelhas, como se não tivesse idéia doque Barda dizia, e estendeu a mão para receber o pagamento.— Foi um prazer servi-los, senhores — disse ele quando lhe entregaram odinheiro. Contou as moedas rapidamente, assentiu e guardou-as na caixa.— E o nosso brinde? — Lief quis saber, ousado. — O aviso na vitrine diz...— Ah, é claro — Tom lembrou. — O brinde. — Ele se inclinou e remexeudebaixo do balcão. Ao se levantar, segurava uma pequena caixa achatada de lata queentregou a Lief.Ele examinou o objeto. A lata cabia facilmente na palma de sua mão e pareciabastante velha. As letras desbotadas da tampa diziam simplesmente:DEVORADORES DE ÁGUAUSEM COM CUIDADO
  • 20. — O que é isso? — Lief indagou, confuso.— As instruções estão no verso — informou Tom.Então o homem parou de falar, como se prestasse atenção em algo. Derepente, saiu de trás do balcão e disparou pela porta dos fundos da loja.Na pressa, deixou a porta aberta, e Lief e Barda o seguiram. Para surpresadeles, a porta conduzia diretamente a um pequeno campo rodeado por uma cercabranca, completamente escondido da estrada pelas árvores altas que o cercavam. Trêscavalos cinzentos encontravam-se próximos à cerca e, sentada sobre ela, afagando-os,estava Jasmine, com Kree empoleirado em seu ombro.Tom caminhou a passos largos até a cerca, agitando os braços. — Não toquenos animais, por favor! — ele gritou. — Eles são valiosos.— Eu não os estou machucando — Jasmine se defendeu, indignada, masobedeceu. Os animais resfolegaram, desapontados.— Cavalos! — Barda sussurrou para Lief. — Se tivéssemos cavalos... Nossajornada seria muito mais fácil.Lief assentiu, movendo lentamente a cabeça. Ele nunca montara antes e tinhacerteza de que tampouco Jasmine o fizera, mas certamente eles poderiam aprenderdepressa. No lombo de um cavalo, poderiam escapar do inimigo e até mesmo dosGuardas Cinzentos.— Você nos venderia os seus animais? — ele perguntou, quando seaproximaram de Tom. — Por exemplo, se lhe devolvêssemos todas as mercadorias quecompramos, isso seria suficiente...— Nada de devoluções — Tom disparou, áspero. — Nada de reembolsos,nada de arrependimentos.Lief mostrou-se profundamente desapontado.— Do que você está falando? — Jasmine retrucou. — Que negócio é esse de"comprar" e "vender"?— Os seus amigos gostariam de ter alguns animais para montar, senhorita —Tom lhe explicou, fitando-a, surpreso, como se Jasmine fosse uma criança. — Mas elesnão têm mais nada para me dar em troca. Gastaram todo o dinheiro em outras coisas.E... — ele olhou de relance para o casaco e a espada de Lief — não querem trocar maisnada.Jasmine assentiu, devagar, procurando entender.— Talvez, então, eu tenha algo para lhe dar em troca — ela disse. — Tenho osmeus tesouros.Ela começou a remexer nos bolsos, de onde tirou uma pena, um pedaço debarbante enrolado, algumas pedras, a segunda adaga e o pente de dentes quebrados
  • 21. que estava em seu ninho nas Florestas do Silêncio. Tom a observava, sorrindo esacudindo a cabeça.— Jasmine! Nenhuma dessas coisas é... — Lief começou, sentindo-se umtanto envergonhado.E, então, ficou boquiaberto. Barda conteve um grito e Tom arregalou os olhos.Jasmine havia apanhado uma bolsinha e a estava segurando de ponta-cabeça,indiferente. De dentro dela, saíam moedas de ouro que saltavam brilhantes em seu colo."Mas é claro", pensou Lief, depois de passado o susto. Jasmine havia roubadoos guardas cinzentos, vítimas dos horrores das florestas do silêncio. Lief vira umagrande quantidade de moedas de ouro e prata entre os tesouros que ela guardava noninho do alto da árvore, mas não se dera conta de que ela trouxera algumas quandodeixou as florestas para juntar-se a eles. Jasmine tinha se esquecido completamentedas moedas até aquele momento e, por não representarem nada mais do que belasrecordações, ela não as mencionara antes.Algumas moedas caíram no chão. Barda apressou-se em apanhá-las, masJasmine mal olhou para elas. Ela observava os olhos brilhantes de Tom. Talvez nãotivesse compreendido o processo de compra e venda, mas reconhecia a ganânciaquando a via.— Você gosta disso? — ela perguntou, erguendo a mão cheia de moedas.— De fato, eu gosto, senhorita — Tom respondeu, recuperando-se. — E gostomuito.— Então, vai trocar os cavalos por elas?Uma expressão estranha percorreu o rosto de Tom — uma expressão cheia dedor, como se a sua cobiça pelo ouro estivesse em luta com outro sentimento. Como seele estivesse calculando, considerando os riscos.Finalmente, ele pareceu chegar a uma decisão.
  • 22. — Não posso vender os cavalos — informou, pesaroso. — Eles foramprometidos a outras pessoas. Mas... tenho algo melhor. Se vocês me acompanharem...Tom conduziu-os a um galpão numa das extremidades do campo. Abriu aporta e sinalizou para que entrassem.Juntas, num canto, mastigando feno, havia três criaturas de aparência muitoestranha. O tamanho era praticamente o mesmo dos cavalos, mas tinham pescoçoslongos, cabeças muito pequenas, orelhas estreitas e caídas e, o que era maissurpreendente, apenas três patas — uma grossa na frente e duas mais finas atrás. Ocorpo era coberto por manchas irregulares pretas, marrons e brancas como se tivessemsido borrifadas com tinta e, em vez de ferraduras, tinham pés grandes, chatos e peludos,cada um com dois dedões largos.— Que animais são esses? — Barda perguntou, abismado.— Ora, são muddlets — gritou Tom, dando um passo e virando um dos animaisna direção deles. — E excelentes exemplares da raça. Corcéis feitos para um rei,senhor. Exatamente o que você e seus companheiros necessitam.Barda, Lief e Jasmine entreolharam-se, hesitantes. A idéia de poder cavalgarem vez de caminhar era muito atraente, mas os muddlets eram muito estranhos.— Eles se chamam Noodle, Zanzee e Pip — informou Tom, e deu um tapinhaafetuoso na anca de cada um dos animais. Estes continuaram a ruminar o feno,completamente impassíveis.— Eles parecem bastante mansos — Barda disse, após um momento.— Mas eles correm? São velozes?— Velozes? — Tom exclamou, erguendo as mãos e revirando os olhos.— Meu amigo, eles são tão velozes quanto o vento! E também são fortes,muito mais fortes do que qualquer cavalo. E leais... ah, são famosos por sua lealdade.Além disso, comem muito pouco e se desenvolvem com trabalho duro. Muddlets são asmontarias preferidas por todos nestas bandas. Mas é difícil consegui-los. Muito difícil.— Quanto você quer por eles? — Lief perguntou, bruscamente.— Que tal vinte e uma moedas de ouro pelos três? — Tom sugeriu,esfregando as mãos.— Que tal quinze? — Barda rugiu.— Quinze? — Tom pareceu chocado. Por esses esplêndidos animais de quegosto como se fossem meus próprios filhos? Você está querendo roubar o pobre Tom?Quer que ele se transforme num mendigo?Jasmine pareceu preocupada, mas a expressão de Barda não se alterou. —Quinze — ele repetiu.— Dezoito! — Tom rebateu, erguendo as mãos. — Com selas e arreios. Ora...
  • 23. há preço mais justo que esse?Barda lançou um olhar rápido para Lief e Jasmine e ambos acenaramvigorosamente.— Muito bem — respondeu.E assim a transação foi concluída. Tom apanhou as selas e os arreios e ajudouLief, Barda e Jasmine a carregar os muddlets com suas mochilas. Em seguida, conduziuos animais para fora do galpão. Eles caminhavam com um estranho bambolear, a patada frente adiantando-se e as duas traseiras gingando juntas logo depois.Tom abriu o portão da cerca e eles saíram do campo, observados pelos trêscavalos cinzentos. Lief sentiu uma pontada de arrependimento. No calor da negociaçãocom Tom, esquecera-se dos cavalos. Como seria bom sair cavalgando neles e nãonessas criaturas estranhas e saltitantes."Tudo bem", pensou ele, afagando a traseira larga de Noodle. Em breve nosacostumaremos a estes animais. Não há dúvidas de que no final de nossa jornadateremos nos afeiçoado muito a eles.Mais tarde, ele se lembraria desse pensamento — com amargura.Quando chegaram à frente da loja, Tom segurou as rédeas dos muddletsenquanto os três companheiros montavam em seus lombos.Após discutirem, Jasmine ficou com Zanzee; Lief, com Noodle; Barda, com Pip,embora não houvesse muito o que escolher, pois os animais eram muito parecidos.As selas cabiam exatamente atrás dos pescoços dos animais, onde seuscorpos eram mais estreitos. A bagagem foi amarrada atrás, sobre suas largas ancas.Era um arranjo extremamente confortável, mas, ao mesmo tempo, Lief sentiu-se umpouco ansioso. O chão parecia muito longe e ele estranhava as rédeas nas mãos. Derepente, perguntou-se se aquela tinha sido uma boa idéia, afinal, embora, é claro,fizesse o possível para não demonstrar as suas dúvidas.Os muddlets resfolegaram com prazer. Estavam claramente satisfeitos de sairao ar livre e esperavam ansiosamente pelo exercício.— Segurem firme as rédeas — disse Tom. — Talvez eles fiquem um poucoagitados no início. Digam Brix quando quiserem que eles andem e Snuff para que parem.Falem alto, pois eles não ouvem muito bem. Amarrem-nos bem quando pararem paraque eles não se percam. E isso é tudo.Lief, Barda e Jasmine assentiram.— Mais uma coisa... — Tom murmurou, mexendo nas unhas. — Eu não lhesperguntei para onde vão, pois não me interessa. Saber das coisas é perigoso nestestempos difíceis. Mas vou lhes dar um conselho. É um excelente conselho e eu sugiroque vocês o sigam. Daqui a cerca de meia hora vocês vão chegar a uma bifurcação na
  • 24. estrada. Sigam pelo caminho da esquerda, a todo custo, por mais que se vejamtentados a ir pela direita. Agora... boa viagem!Ao dizer essas últimas palavras, ergueu uma das mãos, bateu nas ancas deNoodle e gritou "Brix!" Com um movimento cambaleante, Noodle começou a andar,seguido de perto por Pip e Zanzee. Kree pairava sobre eles, grasnando.— Lembrem-se -Tom gritou atrás deles. — Segurem firme as rédeas! Sigampelo caminho da esquerda!Lief gostaria de ter acenado para mostrar que tinha ouvido, mas não ousousoltar as rédeas, pois Noodle estava acelerando o passo. Suas orelhas caídas eramarremessadas para trás pelo vento e suas patas potentes saltavam para a frente.Lief nunca havia visto o mar, pois, antes de ele nascer, o Senhor das Sombrashavia proibido a presença dos cidadãos de Del na costa, mas imaginou que a sensaçãode cavalgar nas costas de um agitado muddlet devia ser muito parecida com a denavegar num dia de tempestade. A tarefa exigia toda a sua atenção.Após cerca de dez minutos, o entusiasmo dos animais diminuiu e elespassaram a andar num ritmo regular e saltitante. Agora, Noodle fazia com que Lief selembrasse de um cavalo de balanço que teve quando criança, não mais de um barco emum mar revolto.Aquilo não era tão difícil, pensou. Na verdade, era fácil. Ele se sentia orgulhosoe satisfeito. O que seus amigos diriam se pudessem vê-lo naquele momento?A estrada era larga e os companheiros passaram a cavalgar lado a lado.Embalado pelo movimento oscilante, Filli se ajeitou para dormir dentro do casaco deJasmine e, agora que sabia que tudo estava bem, Kree voava à frente, mergulhando noar vez ou outra para apanhar um inseto. Jasmine cavalgava em silêncio, a expressãopensativa. Barda e Lief conversavam.— Estamos viajando num ritmo muito bom — Barda concluiu com satisfação.— Estes muddlets são mesmo excelentes montarias. Só não entendo por que nuncaouvi falar deles antes. Nunca vi um deles em Del.— Tom disse que é difícil consegui-los — respondeu Lief. — Sem dúvida, aspessoas desta parte de Deltora os conservam para si mesmas. E Del sabe pouco sobreo que acontece no interior desde a chegada do Senhor das Sombras.Jasmine fitou-o rapidamente e pareceu prestes a falar, mas então fechou aboca com firmeza e não disse nada. Sua expressão estava carrancuda.Eles prosseguiram em silêncio por alguns instantes e então, finalmente,Jasmine decidiu se manifestar.— Esse lugar para onde vamos, a Cidade dos Ratos... Não sabemos nadasobre ela, sabemos?
  • 25. — Somente que é cercada por muros, parece estar deserta e fica isolada nacurva de um rio chamado de Largo — disse Barda. — Ela foi vista por viajantes de longe,mas nunca ouvi uma palavra sequer sobre alguém que tenha atravessado os seusmuros.— Talvez ninguém que tenha entrado tenha sobrevivido para contar a suahistória — disse Jasmine, sombria. — Já pensou nisso?Barda deu de ombros.— A cidade dos ratos tem uma reputação maligna, e um Ak-Baba foi visto noscéus acima dela na manhã em que o senhor das sombras invadiu Del. Provavelmente,uma das pedras do cinturão foi escondida ali.— Então, precisamos ir até lá, mas sabemos muito pouco sobre o que iremosencontrar. E não temos como nos preparar ou pensar em algum plano — concluiuJasmine, com a voz dura.— Não nos preparamos para o Lago das Lágrimas nem para as Florestas doSilêncio — Lief argumentou com firmeza. — E mesmo assim fomos bem-sucedidos emambos os lugares. Da mesma forma como seremos neste.— Palavras corajosas! — Jasmine disse, jogando a cabeça para trás. —Talvez você tenha esquecido que nas Florestas do Silêncio você teve a mim para ajudare que no Lago das Lágrimas tínhamos Manus para nos guiar. Desta vez é diferente.Estamos sozinhos, sem conselhos ou ajuda.As palavras francas da companheira irritaram Lief, e ele percebeu que haviamirritado Barda também. Talvez ela estivesse certa, mas por que desanimá-los?Ele se afastou dela e fitou o caminho à sua frente. Os companheirosprosseguiram em silêncio.
  • 26. Não muito tempo depois, a estrada se dividiu em duas, conforme Tom lhesprevenira. Havia uma placa no centro da bifurcação, um lado apontando para aesquerda; o outro, para a direita.— Rio Largo! — Lief exclamou. — É o rio ao lado do qual foi construída aCidade dos Ratos. Puxa, que sorte!Entusiasmado, começou a virar a cabeça de Noodle para a direita.— Lief, o que você está fazendo? — Jasmine protestou. — Devemos tomar ocaminho da esquerda. Lembre-se do que Tom falou.— Você não percebe, Jasmine? Tom nunca sonharia que iríamos à Cidade dosRatos por vontade própria — Lief olhava para ela por sobre o ombro e falava, enquantoimpelia Noodle a prosseguir. — Portanto, é natural que tenha nos advertido sobre essecaminho. Mas, na verdade, é por ele que devemos seguir. Venha!Barda e Pip já seguiam Lief. Ainda indecisa, Jasmine permitiu que Zanzee acarregasse para junto dos dois.A trilha era tão larga quanto a outra, e muito boa também, embora fossepossível ver marcas de rodas de carroças. À medida que avançavam, o terreno que aladeava ficava cada vez mais verde e exuberante. Não havia áreas ressequidas nemárvores mortas. Frutas cresciam à vontade em todos os lugares e abelhas zumbiam aoredor das flores, as patas pesadas e carregadas de pólen.Na extrema direita, viam-se colinas arroxeadas envoltas em névoa e, àesquerda, o verde de uma floresta. Mais adiante, a estrada fazia várias curvas e, olhadaa distância, assemelhava-se a uma fita. O ar era fresco e doce.Os muddlets fungaram, ansiosos, e começaram a acelerar.— Eles estão gostando do lugar — Lief riu, afagando o pescoço de Noodle.— E eu também — Barda acrescentou. — Como é bom finalmente podercavalgar por um campo fértil. Pelo menos esta terra não foi destruída.Eles passaram por um bosque e notaram que, não muito longe dali, umaestrada secundária saía da principal em direção às colinas avermelhadas.Despreocupado, Lief perguntou-se para onde conduziria.De repente, Noodle emitiu um som estranho e excitado, semelhante a umlatido, e esticou o pescoço, rebelando-se contra os arreios. Pip e Zanzee tambémestavam agitados e começaram a saltar para a frente, avançando grandes distâncias a
  • 27. cada passo. Lief era jogado e sacudido na sela e precisou de todas as forças para nãocair.— O que aconteceu com eles? — gritou, enquanto o vento lhe atingia o rosto.— Eu não sei — Barda respondeu. Ele tentava fazer com que Pip diminuísse oritmo, mas o animal não lhe dava a menor atenção. — Snuff! — ordenou. Mas Pip sófazia correr mais depressa, o pescoço estendido, a boca aberta e ansiosa.Jasmine gritou quando Zanzee estendeu a cabeça para a frente,arran-cando-lhe os arreios das mãos com violência. Ela escorregou para o lado e, porum momento assustador, Lief pensou que ela iria cair, porém a garota conseguiuenvolver o pescoço de sua montaria com os braços e colocar-se sobre a sela outra vez.Ali permaneceu agarrada, carrancuda, a cabeça curvada por causa do vento, enquantoZanzee continuava em sua disparada, espalhando as pedras da estrada atingidas porsuas patas voadoras.Não havia nada que eles pudessem fazer. Os muddlets eram fortes — fortesdemais para eles. Os animais se dirigiram com estrondo para o ponto em que a trilha sebifurcava, saíram da estrada principal numa nuvem de poeira e dispararam para cima,na direção das enevoadas colinas avermelhadas.Com os olhos lacrimejantes e a voz rouca de tanto gritar, Lief viu as colinas seaproximando rapidamente, envoltas na névoa avermelhada em meio à qual vislumbrouum vulto negro. Ele piscou e apertou bem os olhos, tentando ver do que se tratava. Ovulto se aproximava cada vez mais...E, então, sem mais nem menos, Noodle parou de repente. Lief foi atirado porcima da cabeça do animal, seu próprio grito de medo ecoando nos ouvidos. Ele malpôde ouvir os gritos de Jasmine e Barda quando estes também foram arremessados desuas montarias. Caiu de encontro ao solo e perdeu os sentidos.Todo o corpo de Lief doía. Algo cutucava o seu ombro e ele tentou abrir osolhos. Parecia que estavam grudados, mas conseguiu abri-los depois de forçá-los umpouco. Um vulto vermelho e sem rosto assomava sobre ele. Lief tentou gritar, mas umgemido estrangulado foi tudo o que escapou de sua garganta.O vulto vermelho recuou.— Este está acordado — disse uma voz.Uma mão se aproximou segurando um copo de água. Lief ergueu a cabeça ebebeu sofregamente. Aos poucos, percebeu que estava deitado ao lado de Barda eJasmine no chão de um grande salão. Muitas tochas queimavam ao redor das paredesde pedra, iluminando o aposento e espalhando sombras bruxuleantes sem, contudo,conseguir aquecer o ar frio. Havia uma imensa lareira, num canto, cheia de grandespedaços de madeira, mas o fogo estava apagado.
  • 28. Um cheiro penetrante de sabão misturava-se ao das tochas acesas. Talvez ochão tivesse sido lavado recentemente, pois as pedras sobre as quais Lief seencontrava deitado estavam úmidas e não se via um grão de poeira sequer.O aposento estava cheio de pessoas. Elas tinham as cabeças raspadas evestiam estranhos conjuntos negros apertados e botas altas. Todas fitavam fixamenteos companheiros no chão, fascinadas e atemorizadas.A pessoa que ofereceu a água se afastou e a alta figura vermelha que tantoassustara Lief quando este recuperou a consciência retornou ao seu campo de visão.Naquele momento, ele pôde ver que se tratava de um homem vestido totalmente devermelho. Até mesmos as suas botas eram vermelhas. As mãos eram cobertas porluvas e a cabeça estava envolta numa faixa apertada que lhe cobria o nariz e a boca,deixando espaço somente para os olhos. Um longo chicote feito de couro trançadopendia-lhe da cintura e se arrastava atrás dele, emitindo um som sibilante quando ohomem se movia.Ele constatou que Lief voltara a si e o observava. — Noradzeer — murmurou,passando as mãos por seu corpo, dos ombros até os quadris, o que certamente eraalgum tipo de saudação.Lief queria certificar-se de que aquelas pessoas, não importava quem fossem,soubessem que ele era amigável. Esforçou-se para sentar-se e tentou imitar o gesto e apalavra.As pessoas de preto murmuraram e também passaram as mãos em seuscorpos de cima a baixo, sussurrando "Noradzeer, noradzeer, noradzeer...", até que assuas vozes se fizeram ouvir em todo o aposento.Lief olhou-os fixamente, sua cabeça parecendo flutuar.— Que... que lugar é este?— Aqui é Noradz — disse o homem de vermelho, a voz abafada pelo tecidoque lhe cobria a boca e o nariz. — Visitantes não são bem-vindos aqui. Por que vieram?— Não era... a nossa intenção — Lief contou. — Nossas montarias dispararame nos desviaram do caminho. Nós caímos... — Ele fez uma careta ao sentir umapontada atrás dos olhos.Jasmine e Barda também estavam se mexendo e receberam água. O vultovermelho se virou para eles e os cumprimentou da mesma forma que a Lief. Então falounovamente.— Vocês estavam caídos do lado de fora de nossos portões e seus pertencesestavam espalhados à sua volta — informou ele, com uma voz fria e desconfiada. —Não vimos nenhum animal.— Então devem ter fugido — Jasmine exclamou com impaciência.
  • 29. — É claro que nós não iríamos nos jogar no chão com tanta força a ponto deficarmos inconscientes.O homem de vermelho se ergueu e agitou o chicote de modo ameaçador.— Cuidado com a língua, ser impuro — disparou. — Fale com respeito! Nãosabe que sou Reece, primeiro entre os Nove Ra-Kacharz?Jasmine recomeçou a falar, mas Barda ergueu a voz, encobrindo-lhe aspalavras.— Sentimos muito, senhor Ra-Kachar — desculpou-se em voz alta.— Somos estranhos e não conhecemos os seus costumes.— Os Nove Ra-Kacharz fazem o povo seguir as leis sagradas da pureza, dacautela e do dever — anunciou em tom monótono. — Por isso, a cidade está segura.Noradzeer.— Noradzeer — as pessoas murmuraram, curvando as cabeças calvas etocando os corpos dos ombros aos quadris.Barda e Lief fitaram-se rapidamente. Ambos pensaram que, quanto antespudessem deixar aquele estranho lugar, mais felizes seriam.
  • 30. Jasmine ergueu-se com dificuldade e olhou ao redor do grande aposento,irritada. As pessoas de preto murmuravam e se afastavam dela como se suas roupasmaltrapilhas e seus cabelos emaranhados pudessem contaminá-los.— Onde está Kree? — ela quis saber.— Há outro de vocês? — Reece indagou bruscamente, virando o rosto paraela.— Kree é um pássaro. — Lief explicou depressa, enquanto ele e Bardatambém se levantavam. — Um pássaro preto.— Kree deve estar esperando por você lá fora, Jasmine — Barda garantiu emvoz baixa. — Agora, fique quieta. Filli está em segurança, não é?— Sim. Mas ele está escondido debaixo do meu casaco e não vai sair —Jasmine murmurou, de mau humor. — Ele não gosta daqui, e eu também não.Barda virou-se para Reece e fez uma reverência.— Estamos muito gratos por sua atenção para conosco, senhor. — disse emvoz alta. — Mas pedimos a sua permissão para continuarmos a nossa jornada.— É hora de comermos, e um prato foi preparado para vocês. — Reece avisou,os olhos negros percorrendo-lhes os rostos como se os desafiasse a contestá-lo. — Acomida já foi abençoada pelos Nove. Depois de abençoada, deve ser consumida emuma hora. Noradzeer.— Noradzeer — repetiram as pessoas com reverência.Antes que Barda pudesse dizer mais alguma coisa, gongos começaram a soare duas grandes portas no final do aposento se abriram, revelando uma sala de jantar.Oito figuras altas, vestidas de vermelho como Reece, estavam paradas na entrada,quatro de cada lado. Eram os outros oito Ra-Kacharz, deduziu Lief.Longos chicotes de couro pendiam dos pulsos dos Ra-Kacharz. Todos muitosérios, observavam as pessoas de preto passarem por eles.A cabeça de Lief doía. Ele nunca sentira tão pouca fome em sua vida. Mais quetudo, queria sair daquele lugar, mas estava claro que ele, Barda e Jasmine não teriam
  • 31. permissão de partir antes de comer.Relutantes, eles atravessaram a sala de jantar, tão limpa e asseada quanto ooutro aposento e cuja generosa iluminação fazia com que todos os cantos ficassemvisíveis. Mesas simples, altas e com pernas finas de metal, dispostas em fileiras,ocupavam o aposento. Em cada lugar, havia um prato e uma caneca, mas não haviatalheres, tampouco cadeiras. Aparentemente, o povo de Noradz comia com as mãos eem pé.Na extremidade do salão, um conjunto de degraus conduzia a um estradoelevado onde havia uma outra mesa. Lief imaginou que era ali que os Ra-Kacharz iriamcomer, pois do alto poderiam ver tudo o que ocorria embaixo.Reece conduziu Lief, Barda e Jasmine à mesa deles, que fora posta um poucoafastada das demais. Em seguida, reuniu-se aos outros Ra-Kacharz que, como Liefimaginara, aguardavam em pé junto à mesa no estrado, voltados para a multidão.Quando assumiu o seu lugar no centro, Reece ergueu as mãos enluvadas einspecionou o aposento.— Noradzeer! — saudou, deslizando as mãos dos ombros aos quadris.— Noradzeer! — respondeu o povo.Com um único movimento, todos os Ra-Kacharz afastaram a faixa que lhescobria a boca e o nariz. Imediatamente, os gongos soaram mais uma vez e maispessoas vestidas de preto entraram no salão carregando enormes bandejas cobertas.— Não consigo imaginar uma maneira mais desagradável para fazer umarefeição! — Jasmine sussurrou. Ela era a menor pessoa no aposento e o seu queixo malalcançava o tampo da mesa.Uma copeira de mãos trêmulas aproximou-se e depositou sua carga sobre amesa deles. Seus olhos azuis demonstravam medo, pois servir os estranhos eraclaramente assustador para ela.— Não há crianças em Noradz? — Lief lhe perguntou. — As mesas são tãoaltas.— As crianças comem somente na sala de treinamento — a serva respondeuem voz baixa. — Precisam aprender os ritos sagrados antes de poder assumir os seuslugares no salão. Noradzeer.Ela retirou a tampa da bandeja e os três companheiros quase gritaram deespanto. A bandeja estava dividida em três partes. A maior exibia uma série deminúsculas salsichas e outras carnes dispostas em palitos de madeira com várioslegumes de diversas cores e formatos. A segunda continha vários pastéis dourados eapetitosos e pãezinhos brancos e macios. A terceira e menor estava repleta de frutasem calda, bolinhos com cobertura cor-de-rosa adornados com flores de açúcar e
  • 32. estranhas sementes redondas e marrons.Barda apanhou um dos doces e fitou-o fixamente, como que espantado.— Será que isso é... chocolate? — exclamou. Empurrou o doce para dentro daboca e fechou os olhos. — É! — murmurou alegremente. — Puxa, não como chocolatedesde que era guarda do palácio! Há mais de dezesseis anos!Lief nunca vira alimentos tão sofisticados na vida e, de repente, apesar de tudo,constatou que estava morrendo de fome. Apanhou um dos palitos e começou asaborear a carne e os legumes. A comida estava deliciosa! Era diferente de tudo queprovara antes.— Isso é muito bom! — murmurou de boca cheia para a copeira. Ela olhou paraele de relance, satisfeita, mas um tanto confusa. Naturalmente, estava acostumada àcomida de Noradz e não conhecia nenhum outro tipo de alimento.Nervosa, ela estendeu a mão para levar a pesada tampa embora. Ao fazê-lo,seus dedos tremeram e a borda da tampa atingiu um dos pãezinhos, tirando-o do lugar.O pão rolou pela mesa e, antes que Lief ou ela pudessem apanhá-lo, caiu no chão.A garota gritou — um grito alto e estridente de terror. No mesmo momento,ouviram-se urros de raiva vindos da mesa sobre o estrado. Todos no aposento ficaramparalisados.— Comida foi derrubada — rugiram os Ra-Kacharz em uníssono. — Recolhama comida do chão! Prendam a ofensora! Prendam Tira!Várias pessoas na mesa mais próxima aos visitantes viraram-se. Uma delasdisparou em direção ao pãozinho caído, apanhou-o e ergueu-o. As demais agarraram acopeira, que gritou novamente quando começaram a arrastá-la para a mesa dos Nove.Reece foi até os degraus e desenrolou o chicote.— Tira derrubou comida no chão — trovejou ele. — Derrubar comida é um atomaligno. Noradzeer. O mal deve ser expulso com cem chicotadas. Noradzeer.— Noradzeer! — repetiram as pessoas de preto ao redor das mesas. Elasobservaram Tira, assustada e soluçando, ser atirada aos pés de Reece. Ele ergueu ochicote...— Não! — Lief deixou a mesa como um raio. — Não a castigue! Fui eu! A culpaé minha!— Você?! — Reece trovejou, baixando o chicote.— Sim — confirmou Lief. — Eu fiz com que a comida caísse. Sinto muito. —Ele sabia que estava sendo muito audacioso em assumir a culpa, mas, por maisestranhos que fossem os costumes desse povo, não suportaria ver a garota ser punidapor um mero acidente.Os demais Ra-Kacharz cochicharam entre si. O que se encontrava mais perto
  • 33. de Reece aproximou-se ainda mais e lhe disse algo. Houve um momento de silêncio,quebrado apenas pelos soluços da garota, caída no chão. E, então, Reece encarou Liefmais uma vez.— Você é um intruso impuro — disse. — Você desconhece as normas. OsNove decidiram que será poupado do castigo.Sua voz era severa e era evidente que ele não aprovava a decisão, mas o seuvoto tinha sido superado pelos dos demais.Com um suspiro de alívio, Lief voltou à mesa em silêncio, enquanto Tira seerguia do chão com esforço e fugia do aposento aos tropeços.Barda e Jasmine cumprimentaram-no com um erguer de sobrancelhas.— Essa foi por pouco — Barda murmurou.— Valeu a pena correr esse risco — Lief respondeu alegremente, embora ocoração ainda batesse forte por causa da recente escapada. — Era provável que elesnão punissem um estranho da mesma forma que a um deles — pelo menos não naprimeira ocasião.Jasmine deu de ombros. Ela tirara alguns legumes de um dos palitos esegurava-os perto do ombro, tentando convencer Filli a sair e comer.— Deveríamos sair daqui o mais rápido possível — disse ela. — Essaspessoas são muito estranhas. Quem sabe que outras leis excêntricas... Ah! Filli, aí estávocê.Tentada pelo aroma dos petiscos, a pequena criatura finalmente se aventuroua tirar o focinho de baixo da gola do casaco de Jasmine. Com cuidado, ela foi até oombro da dona, pegou um pedaço do legume apetitoso e começou a mordiscá-lo.De repente, ouviu-se um som estranho e abafado na mesa do estrado. Liefolhou para cima e, desconcertado, percebeu todos os Ra-Kacharz apontando paraJasmine com as expressões transformadas em máscaras de terror.As demais pessoas que se encontravam no aposento viraram-se para olhar.Houve um momento de silêncio assustado e, então, subitamente, encaminharam-secom passos pesados até a porta, gritando aterrorizados.— A maldade! — A voz de Reece ecoou do estrado. — Os impuros trouxerama maldade para os nossos aposentos. Estão tentando nos destruir. Vejam! A criaturarasteja ali, em seu corpo! Mate-a! Mate-a!Os Nove Ra-Kacharz correram do estrado e investiram contra Jasmine comose fossem um só, usando seus chicotes para abrir caminho entre a multidão em pânico.— É Filli! — Barda exclamou. — Eles estão com medo de Filli.— Mate-a! — os Ra-Kacharz berraram, já muito próximos. Barda, Lief eJasmine olharam ao redor, desesperados. Não havia para onde fugir. Várias pessoas
  • 34. empurravam-se em todas as portas, tentando passar.— Corra, Filli! — Jasmine gritou, atemorizada. — Corra! Esconda-se!Ela atirou Filli ao chão e ele partiu em disparada. As pessoas gritavam ao vê-lo,tropeçavam, caíam e se pisoteavam, aterrorizadas. Ele escapou por uma brecha entre amultidão e sumiu.Lief, Barda e Jasmine, porém, viram-se encurralados, cercados pelosRa-Kacharz.As grandes toras de madeira na lareira da sala de reuniões foram acesas e aschamas espalharam uma luz vermelha e espectral sobre o rosto dos prisioneiros.Os três amigos permaneceram ali parados durante quatro horas enquanto sefazia uma inútil busca por Filli. Os Ra-Kacharz os vigiavam, carrancudos, e seus olharesse tornavam cada vez mais sombrios à medida que os minutos passavam.Exaustos e silenciosos, Lief, Barda e Jasmine aguardavam o seu destino. Jáse haviam dado conta de que era inútil discutir, enfurecer-se ou implorar, pois, aolevarem um animal peludo a Noradz, eles haviam cometido o mais hediondo dos crimes.Finalmente, Reece falou.— Não podemos mais esperar. O julgamento deve começar.Um gongo soou e pessoas de preto começaram a se enfileirar no aposento,encarando os prisioneiros. Lief viu que Tira, a copeira que salvara do castigo, seencontrava na primeira fila, muito perto dele. Ele tentou encontrar-lhe o olhar, mas elafitou o chão rapidamente.Reece ergueu a voz para que todos pudessem ouvir.— Por causa desses seres impuros, a maldade se espalhou em Noradz. Elesquebraram a nossa lei mais sagrada. Eles alegam que agiram por ignorância. Eu
  • 35. acredito que estão mentindo e que merecem a morte. Outros entre os Nove acreditamneles e são de opinião que a sua sentença deve ser o encarceramento. Portanto, adecisão irá caber ao Cálice Sagrado.Barda, Jasmine e Lief olharam-se furtivamente. Que nova loucura seriaaquela?Reece apanhou uma brilhante taça de prata da prateleira acima da lareira —antes usada para tomar vinho, talvez.— O Cálice revela a verdade — trovejou ele. — Noradzeer.— Noradzeer — murmuraram os que observavam.Em seguida, Reece mostrou dois pequenos cartões, cada qual com umapalavra escrita sobre ele.— Um de vocês irá tirar um cartão do Cálice — ele instruiu, voltando-se para osprisioneiros. Seus olhos escuros brilhavam. — Quem será essa pessoa?Os companheiros hesitaram. Então Lief se adiantou.— Eu — ofereceu-se, relutante.— Vire-se para a frente — Reece ordenou com um gesto.Lief obedeceu. Reece afastou-se dele e dos companheiros Ra-Kacharz ecolocou a mão enluvada sob o Cálice.Lief percebeu que Tira observava Reece com muita atenção. De repente, osseus olhos azuis se arregalaram com assombro e horror. Ela fitou Lief rapidamente eseus lábios moveram-se, mudos.O rosto de Lief começou a queimar quando ele decifrou as palavras.Ambos os cartões dizem MORTE.Tira deve ter visto Reece trocar o cartão VIDA por outro que dizia MORTE,oculto na manga ou na luva. O primeiro Ra-Kachar estava determinado a ver os intrusosmorrerem.O vulto alto e vermelho voltou-se para ele segurando o Cálice no alto.— Escolha! — ordenou.Lief não sabia o que fazer. Se anunciasse que o Cálice continha dois cartões
  • 36. de MORTE, ninguém acreditaria e todos pensariam que ele simplesmente estava commedo de enfrentar o julgamento. Ninguém aceitaria a sua palavra ou a de Tira contra ado primeiro Ra-Kachar de Noradz. E Reece poderia facilmente tornar a trocar as cartas,caso fosse questionado.Lief deslizou os dedos para dentro da camisa e agarrou o topázio preso aoCinturão. Ele o ajudara a encontrar respostas antes. Poderia ajudá-lo naquelemomento? O fogo crepitava atrás dele e iluminava a figura alta parada à sua frente comum brilho sinistro. A taça de prata exibia um brilho vermelho, como uma chama sólida.Chama. Fogo...Com o coração batendo forte, Lief estendeu a mão para cima, mergulhou osdedos na taça e escolheu um cartão. Então, como um raio, ele rodopiou, parecendocambalear para trás, e deixou cair nas chamas crepitantes o cartão. Este tremeluziu porum momento e foi consumido pelo fogo.— Peço perdão por minha falta de jeito — Lief gritou diante das exclamaçõeshorrorizadas da multidão. — Mas pode-se facilmente saber qual cartão escolhi. É sóverificar o que continua no Cálice.Reece permaneceu totalmente imóvel, perturbado por uma raiva contida,quando um dos outros Ra-Kacharz tomou-lhe o Cálice da mão, retirou o cartão que seencontrava em seu interior e o ergueu.— O cartão que permaneceu diz MORTE — anunciou. — O prisioneiroescolheu o cartão VIDA. O Cálice se manifestou.Lief sentiu a mão de Barda agarrar-lhe o ombro. Com os joelhos trêmulos, elevirou-se para fitar os amigos, cujo olhar demonstrava alívio, mas também muitasperguntas. Eles suspeitavam que Lief tivesse queimado o cartão intencionalmente eperguntavam-se qual seria o motivo.— Levem-nos para as masmorras — trovejou Reece. — Ali ficarão até o finalde suas vidas, arrependendo-se do mal que fizeram.Os outros oito Ra-Kacharz cercaram Lief, Barda e Jasmine e começaram aconduzi-los para fora do aposento. A multidão sussurrante abriu caminho para eles. Liefvirou a cabeça e procurou Tira entre os vultos vestidos de preto, mas não conseguiuvê-la.Ao deixarem o salão, ouviram a voz de Reece erguer-se mais uma vez quandoele se dirigiu ao povo.— Continuem a procurar a criatura que maculou a nossa cidade -ordenou. —Ela precisa ser encontrada e morta antes do cair da noite.Lief olhou de relance para Jasmine, que não abriu a boca, mas exibia um rostopálido e preocupado. Ele sabia que ela estava pensando em Filli — caçado e
  • 37. amedrontado.Os Ra-Kacharz empurraram os prisioneiros por um labirinto de corredores maliluminados e por escadas de pedra sinuosas. O cheiro de sabão pairava em todos oslugares, e as pedras sob seus pés eram lisas de tanto serem escovadas.No final dos degraus havia um amplo espaço ladeado de portas de metal, cadaqual com uma estreita abertura pela qual se podia passar uma bandeja de comida. ORa-Kachar que seguia na frente abriu uma das portas e seus companheirosempurraram Lief, Barda e Jasmine para dentro.Jasmine deu uma olhada na cela sombria e sem janelas que os aguardava ecomeçou a lutar ferozmente. Lief e Barda também brigaram por sua liberdade, masinutilmente. Eles não dispunham de armas, tampouco de proteção contra os chicotesdos Ra-Kacharz que estalavam ao redor de seus rostos e lhes machucavam braços epernas, de forma que se viram impelidos de volta à cela. A porta foi fechada comestrondo e trancada com um pesado ferrolho.Os amigos atiraram-se de encontro à porta e a golpearam com os punhos, masos passos dos Ra-Kacharz já eram quase inaudíveis.Eles examinaram a cela freneticamente em busca de algum ponto frágil, masas estreitas camas de madeira presas a uma das paredes não podiam ser movidas e atina vazia presa à outra era sólida como uma rocha.— Eles vão voltar — Barda disse, sério. — Fomos condenados à vida, não àmorte. Eles terão de nos alimentar e encher a tina de água. Não podem nos deixar aquimorrendo de fome e de sede.Contudo, várias horas angustiantes se passaram sem que ninguémaparecesse.Os três estavam mergulhados em um sono agitado quando ouviram algoarranhar a porta. Mesmo ao acordar, Lief pensou que o tímido som fora um sonho.Contudo, quando este se repetiu, ele correu até a porta, seguido de perto por Jasmine eBarda. A portinhola para a comida havia sido aberta e, através dela, conseguiram ver osolhos azuis de Tira.— O primeiro Ra-Kachar determinou que ninguém além dele lhes trouxesseágua e comida — ela murmurou. — Mas... temi que ele os tivesse... esquecido. Vocêscomeram? A tina foi enchida de água?— Não! — Lief respondeu aos sussurros. — E você sabe que ele não esqueceu,Tira. É por isso que você está aqui. Reece pretende que morramos aqui.— Não pode ser! — retrucou ela com uma voz desesperada. — O Cálicedeu-lhes a vida.— Reece não dá a mínima para o Cálice — Barda disparou. — Ele se importa
  • 38. apenas com a própria vontade. Tira, destranque a porta! Deixe-nos sair!— Não posso! Não tenho coragem! Vocês trouxeram o mal para os nossossalões e ele ainda não foi encontrado. Todos, exceto os cozinheiros da noite, estãodormindo agora. É por isso que pude escapar sem que dessem por minha falta. Mas opovo está com medo e muitos choram durante o sono. Pela manhã, a busca irárecomeçar. — Pela fenda estreita, podia-se entrever o olhar da garota, obscurecido pelomedo.— De onde viemos, animais como Filli não são malignos — Lief contou. — Nãoquisemos prejudicá-los ao trazê-lo para cá. Ele é amigo de Jasmine. Mas se você nãonos deixar sair desta cela estaremos condenados. Reece cuidará para que morramosde fome e sede e ninguém nunca saberá. Ninguém além de você.A única resposta que ouviram foi um leve gemido.— Por favor, Tira, ajude-nos! — Lief implorou. — Por favor! Seguiu-se ummomento de silêncio. Então, os olhos desapareceram e eles ouviram o deslizar doferrolho.A porta abriu-se e eles saíram da cela rapidamente. Pálida sob a luz dastochas, Tira lhes deu água, e os amigos beberam sofregamente. Ela nada respondeuquando lhe agradeceram e, ao trancarem a porta para encobrir a fuga, Tira estremeceue cobriu o rosto com as mãos. Sem dúvida, ela acreditava estar fazendo algo muitoerrado.Contudo, quando descobriram as mochilas escondidas numa fenda dasescadas, ela abafou um grito de surpresa.— Disseram-nos que elas haviam sido colocadas na cela! — exclamou. —Para que vocês tivessem roupas e algum conforto.— Quem lhes disse isso? — Barda indagou, soturno.— O primeiro Ra-Kachar — ela murmurou. — Disse que ele próprio as haviatrazido para vocês.— Bem, como você pode ver, ele mentiu — Jasmine disparou, colocando suamochila nas costas.Os companheiros subiram as escadas com dificuldade. A passagem acima seencontrava vazia, mas eles puderam ouvir algumas vozes distantes.— Precisamos escapar da cidade — Barda sussurrou. — Que caminhodevemos tomar?— Não há como sair — Tira respondeu, sacudindo a cabeça, desanimada. — Oportão da colina está trancado com barras. Os que trabalham no campo são levadospara fora todas as manhãs e trazidos de volta à noite. Ninguém mais pode sair, sobpena de morte.
  • 39. — Deve haver outro meio! — Lief murmurou.Tira hesitou e então fez um gesto negativo com a cabeça. Mas Jasminepercebera-lhe a hesitação e agarrou a oportunidade.— Em que você acaba de pensar? Conte-nos a idéia que teve! — ela insistiu.— Dizem que... que o final do Buraco leva ao mundo exterior — Tira começou,molhando os lábios. — Mas...— O que é o Buraco? — Barda quis saber. — Onde fica?— Fica perto das cozinhas — Tira informou, estremecendo. — É onde jogam acomida que não passa pela inspeção. Mas é... um lugar proibido.— Leve-nos até lá! — Jasmine sussurrou ferozmente. — Agora mesmo!Eles rastejaram como ladrões pelos corredores. Disparando para dentro dasgalerias sempre que ouviam alguém se aproximar. Finalmente, alcançaram umapequena porta de metal.— Ela conduz às passagens acima das cozinhas — Tira informou baixinho. -Aspassagens são usadas pelos Ra-Kacharz para vigiar o trabalho feito embaixo e poraqueles que lavam as paredes da cozinha.Ela abriu um pouco a porta. Do outro lado, vinha um aroma de comida e ruídosabafados de pratos.— Não façam barulho — ela pediu. — Andem com cuidado e não seremospercebidos. Os cozinheiros da noite trabalham depressa, pois têm muito o que fazerantes do amanhecer.Tira deslizou pela porta e os companheiros a seguiram. A visão que osesperava deixou-os atônitos.O pequeno grupo encontrava-se parado numa estreita passagem de metal.Bem abaixo, estavam as grandes cozinhas de Noradz repletas de sons e iluminadaspor uma luz intensa. As cozinhas eram imensas — tanto quando uma pequena vila — e
  • 40. encontravam-se cheias de pessoas com roupas iguais às de Tira, exceto pelo fato deserem imaculadamente brancas.Algumas descascavam legumes ou preparavam frutas. Outras misturavam,assavam, mexiam panelas que borbulhavam nos enormes fogões. Milhares de bolosesfriavam sobre grelhas, esperando para serem cobertos e decorados. Centenas detortas e pastéis eram retirados dos grandes fornos. De um lado, uma equipe embalavaos alimentos prontos em caixas e potes de vidro ou pedra.— Mas... isso não acontece todos os dias e noites, não é mesmo?— assombrou-se Lief. — Quanta comida o povo de Noradz consome?— Somente uma pequena porção da comida é consumida aqui— Tira sussurrou. — Muito do que é preparado não passa pela inspeção e éjogado fora. — Ela suspirou. — Os cozinheiros são valorizados e treinados desdejovens, mas eu não gostaria de ser um deles. Eles ficam tristes por se esforçar tanto epor falhar tantas vezes.Eles rastejaram pela passagem, observando, fascinados, a atividade abaixo.Estavam andando há cinco minutos quando Tira parou e se agachou.— Ra-Kachar! — avisou em voz baixa.De fato, dois vultos vestidos de vermelho entravam nas cozinhas.— É uma inspeção — Tira informou.Com as mãos nas costas, os Ra-Kacharz caminharam rapidamente para olocal em que se encontravam quatro cozinheiros. Centenas de potes de frutascristalizadas, brilhantes como jóias, estavam enfileirados num balcão à espera deinspeção.Os Ra-Kacharz caminharam ao lado da fileira de potes observando-osatentamente. Ao atingirem o final, viraram-se e retornaram, dessa vez apontandoalguns potes que eram apanhados pelos cozinheiros e colocados em outra prateleira.Finalmente, quando a inspeção foi concluída, seis potes haviam sidoseparados dos demais.— Aqueles são os potes que serão abençoados e consumidos pelas pessoas— Tira informou. — Os demais foram rejeitados. — Ela lançou um olhar solidário nadireção dos cozinheiros, que, desapontados, haviam começado a colocar os potesrejeitados num enorme recipiente de metal.Lief, Barda e Jasmine olhavam fixamente, horrorizados. Para eles, todas asfrutas pareciam deliciosas e nutritivas.— Isso é uma vergonha — Lief murmurou, zangado, quando os Ra-Kacharz seviraram e se dirigiram para outra parte das cozinhas. — Em Del, o povo está passandofome, brigando por restos. E aqui boa comida é desperdiçada.
  • 41. — Não é boa comida — Tira insistiu, séria, balançando a cabeça. — OsRa-Kacharz sabem quando a comida é impura. Com as inspeções, eles protegem opovo de doenças e enfermidades. Noradzeer.Lief gostaria de ter argumentado, e Jasmine estava rubra de raiva. Mas Bardaadvertiu-os com um gesto de cabeça e pediu-lhes que se calassem. Lief mordeu o lábio.Ele sabia que Barda estava certo. Eles precisavam da ajuda de Tira e não tinha sentidoaborrecê-la. Ela não tinha como entender o que ocorria no restante de Deltora, poisconhecia somente a sua cidade e as leis de acordo com as quais tinha crescido.Em silêncio, eles se moveram pela passagem e finalmente chegaram ao finaldas cozinhas. Degraus íngremes de metal conduziam piso abaixo exatamente diante deuma porta.— O Buraco fica depois dessa porta — Tira avisou em voz baixa. -Mas...Ela interrompeu-se e agachou-se mais uma vez, gesticulando para que seuscompanheiros fizessem o mesmo. Os quatro cozinheiros que haviam preparado asfrutas cristalizadas entraram em seu campo de visão e carregavam o engradado compotes rejeitados, agora firmemente selado com uma tampa de metal. Eles o carregarampela porta e desapareceram de vista.— Eles vão jogar o engradado no Buraco — Tira sussurrou.Alguns momentos mais tarde, os cozinheiros voltaram e se dirigiram para seuslugares nas cozinhas para recomeçar a tarefa de preparar comida. Tira, Lief, Barda eJasmine rastejaram degraus abaixo, passaram por prateleiras forradas de potes epanelas e atravessaram a porta.Os quatro se viram em um aposento pequeno e vazio. À esquerda, havia umaporta pintada de vermelho. Na frente, na parede oposta às cozinhas, uma grade demetal barrava a entrada redonda e escura para o Buraco.— Para onde leva a porta vermelha? — Barda quis saber.— Para os quartos dos Nove. Dizem que eles dormem em turnos e passampor essa porta quando está na hora das inspeções — Tira sussurrou.Ela olhou de relance por sobre o ombro, nervosa.— Vamos sair daqui agora. Eu os trouxe aqui porque exigiram, mas podemosser surpreendidos a qualquer momento.Os companheiros rastejaram para mais perto do Buraco e espiaram através dagrade, de onde viram o início de um túnel mal-iluminado revestido de pedras quepareciam emitir um brilho vermelho. Ele era muito estreito e descia para a escuridão, e oteto e as laterais eram arredondadas. Em seu interior, ao longe, ouvia-se um rosnadolongo e baixo.— O que há lá dentro? — Lief murmurou.
  • 42. — Não sabemos — Tira respondeu. — Somente os Ra-Kacharz podem entrarno Buraco e sobreviver.— Isso é o que eles dizem — respondeu Lief com desprezo.— Na minha vida, vi duas pessoas tentando escapar da cidade pelo Buraco —ela disse com suavidade. — Ambos foram trazidos mortos. Seus olhos estavamabertos e arregalados, as mãos, dilaceradas e cobertas de bolhas. Havia espuma emseus lábios. — Ela estremeceu. — Dizem que eles morreram de medo.O rosnado lúgubre veio novamente do túnel. Eles espiaram para dentro daescuridão, mas nada conseguiram enxergar.— Tira, você sabe onde estão as nossas armas? — Barda perguntou, ansioso.— As espadas e as adagas?— Elas estão aguardando na fornalha — murmurou ela com cautela. —Amanhã elas serão derretidas e transformadas em novos utensílios para a cozinha.— Traga-as até nós — Barda pediu.— Não posso! — ela retrucou, desesperada. — É proibido tocá-las, e eu jácometi crimes terríveis por vocês.— Tudo o que queremos é sair daqui — Lief exclamou. — Como isso poderiaferir o seu povo? E nunca ninguém saberá que foi você que nos ajudou.— Reece é o primeiro dos Nove — Tira murmurou. — Sua palavra é lei.— Reece não merece a sua lealdade — Barda disparou, furioso. — Você viuque ele mente e trapaceia, zomba de suas leis! Se alguém merece morrer, esse alguémé ele.Mas Barda foi longe demais ao dizer isso. As faces de Tira se ruborizaram,seus olhos se arregalaram e ela se virou e voltou correndo para a cozinha. A porta sefechou atrás dela.— Eu a assustei — Barda resmungou, suspirando com impaciência. — Eudeveria ter ficado de boca fechada. O que faremos agora?— Vamos fazer o melhor que pudermos. — Com determinação, Lief retirou agrade da entrada do túnel. — Se os Ra-Kacharz podem entrar no Buraco e sobreviver,nós também podemos — com ou sem armas.Ele se virou e acenou para Jasmine. Ela recuou, sacudindo a cabeça.— Não posso ir — explicou em voz alta. — Pensei que talvez Filli estivesseaqui, esperando por mim. Mas ele não está. Ele não deixaria Noradz sem mim, e eu nãovou partir sem ele.— Jasmine! — Não temos tempo a perder! — ele insistiu, sentindo vontade desacudi-la. — Deixe de tolice!— Não vou pedir que você e Barda fiquem — ela disse com calma, fitando-o
  • 43. com seus olhos verde-claros. — Vocês começaram essa busca sem mim e assimpodem continuar. — Jasmine desviou o olhar. — Talvez... talvez seja melhor assim —acrescentou.— O que você quer dizer? — Lief indagou. — Por que seria melhor?— Nós não concordamos em., alguns pontos — ela justificou. — Não tenhocerteza...Contudo, Jasmine não conseguiu terminar a frase, pois naquele exatomomento a porta vermelha abriu-se de repente e Reece entrou com passos pesados, osolhos pretos brilhando num triunfo irado. Antes que ela pudesse se mover, ele agarrou-acom sua mão forte e ergueu-a no ar.— Então, garota! — rosnou em seu ouvido. — Meus ouvidos não meenganaram. Que feitiçaria usaram para escapar da cela?Lief e Barda tentaram se aproximar dele, mas Reece os impediu com o seuchicote.— Espiões! — grunhiu. — Sua maldade está comprovada agora que invadiramas nossas cozinhas... Sem dúvida, para guiar a criatura maligna até elas. Quando opovo ouvir isso, ficará feliz em vê-los morrer mil vezes.Jasmine lutou, mas a mão de Reece parecia ser de ferro.— Você não pode escapar, garota — ele escarneceu. — Agora mesmo, outrosmembros dos Nove estão se aproximando desta porta. Seus amigos irão morrer antesde você. Tenho certeza de que gostará de ouvir os gritos deles.Reece açoitou Lief e Barda com o chicote, fazendo-os recuar na direção doBuraco, lenta e constantemente.
  • 44. Um pensamento se insinuou na mente de Lief com maior intensidade que todoo resto. Um perigo terrível ocultava-se na escuridão do buraco. Do contrário, Reece nãoestaria sorrindo de modo tão triunfante ao impelir os prisioneiros naquela direção.Era evidente que Barda e Jasmine haviam chegado à mesma conclusão.Jasmine soltava gritos estridentes, tentando em vão rasgar as vestimentas espessas doRa-Kachar com as unhas. Barda lutava para manter o equilíbrio enquanto protegia acabeça com os braços.O chicote de couro agitava-se em volta das orelhas de Lief. Ele recuou e sevirou, a dor penetrante provocando-lhe lágrimas nos olhos. O chicote estalou mais umavez e ele sentiu o sangue quente escorrer pelo pescoço e ombros. A escuridão doBuraco bocejou bem à sua frente...Então, ouviu-se um baque surdo e retumbante. E, de repente, não havia mais oestalar do chicote, tampouco a dor lancinante.Lief virou-se rapidamente.Tira encontrava-se junto ao corpo encolhido de Reece, a porta da cozinhaaberta atrás dela. Seus olhos estavam vidrados de medo. Na mão esquerda, carregavaas armas dos três companheiros. Na direita, estava a frigideira que surrupiara daprateleira da cozinha e usara para atingir Reece na cabeça.Com um grito sufocado de terror pelo que tinha feito, ela jogou a frigideira paralonge, atingindo as pedras com um som ressonante.Lief, Barda e Jasmine correram para o lado da garota, que parecia paralisadapelo choque, e tomaram-lhe as armas. Tira correra em defesa deles sem pensar, masera óbvio que cometera um crime terrível ao atacar um Ra-Kachar.— Barda! — alertou Jasmine, ansiosa, apontando para a maçaneta da portavermelha que se movia.Barda atirou-se de encontro à porta e apoiou-se contra ela com todas as forças.Jasmine acrescentou seu peso ao dele. Do outro lado, foram dadas pesadas batidas e a
  • 45. porta estremeceu.— Corra, Tira! — Lief mandou. — Ande! Esqueça que tudo isso aconteceu.Ela fitou-o, o olhar perturbado. Ele a conduziu rapidamente em direção à portada cozinha, empurrou-a para o outro lado e fechou a tranca. Dessa forma, osRa-Kacharz que tentavam ultrapassar a porta vermelha não teriam ajuda do pessoal dacozinha e, com sorte, Tira conseguiria alcançar as escadas e ir até a passagem sem servista.Lief virou-se outra vez, exatamente a tempo de ver Barda e Jasmine serematirados ao chão e a porta vermelha abrir-se. Ele saltou para ajudar os amigos e, aomesmo tempo, três Ra-Kacharz dispararam pela abertura. Embora tontos de sono,estavam completamente vestidos. Usavam as roupas vermelhas, as luvas e as botas;suas cabeças e seus rostos estavam cobertos.Os olhos deles já faiscavam de raiva quando irromperam no pequeno aposento.Mas, quando viram seu líder caído no chão e os três prisioneiros parados junto dele,rugiram e investiram para a frente, usando os chicotes sem misericórdia.Barda, Lief e Jasmine foram obrigados a retroceder. Suas lâminas cortavam oar vazio inutilmente. Lief gritou, frustrado, quando um dos chicotes enrolou-se naespada e a arrancou de suas mãos.Ele ficou indefeso. Em instantes, ouviu, com horror, o som da espada de Barda,que também caíra no chão. Naquele momento, as duas adagas de Jasmine eram aúnica defesa deles. Por isso, os Ra-Kacharz empurravam-nos para a frente,encurralando-os num canto, enquanto os chicotes os atacavam e rodopiavam juntos noar como uma terrível máquina cortante.— Parem! — gritou Jasmine com voz penetrante. — Não queremos lhes fazermal! Só queremos sair deste lugar!A voz dela ecoou contra as paredes de pedra e se elevou acima do estalar doschicotes. Os Ra-Kacharz não vacilaram, nem mesmo deram sinais de que haviamouvido o que ela disse.Mas alguém escutou. Um pequeno vulto peludo e cinzento passou pela portavermelha, tagarelando e guinchando de alegria.— Filli! — Jasmine exclamou.Os Ra-Kacharz gritaram, horrorizados e enojados, e saíram do caminho dopequeno animal quando este correu entre eles e saltou para o ombro de Jasmine.Foi somente um momento de distração, mas era tudo de que Bardanecessitava. Com um grunhido, ele se atirou às duas figuras de vermelho mais próximas,jogando-as com força contra a parede. As cabeças bateram nas pedras, e eles caíramjuntos no chão, bruscamente.
  • 46. Lief virou-se rapidamente e chutou o terceiro Ra-Kachar, sentindo que oatingira na perna, exatamente acima da bota. O homem urrou e caiu. Lief apanhou afrigideira e abateu-o com um golpe.Ofegantes, perto dos corpos dos inimigos derrotados, os amigos olharam paraJasmine, que cantarolava para Filli.— Filli nos salvou — Jasmine disse, alegre. — Como ele é corajoso! Eleestava perdido, mas ouviu minha voz e veio correndo até mim. Pobrezinho. Sentiu tantomedo e correu tanto perigo!— Ele estava com medo e em perigo!? — Barda explodiu. — E quanto anos?Mas Jasmine simplesmente deu de ombros e recomeçou a afagar o pêlo deFilli.— O que faremos agora? — Lief murmurou. — Há quatro Ra-Kacharz aqui,contando com Reece. E sabemos que há dois nas cozinhas. Mas ainda faltam três.Onde eles estão? Onde encontraremos um lugar seguro?— Devemos arriscar ir pelo túnel — Barda opinou, sério, procurando a espada.— Não há outra forma de sair.— Reece achava que seríamos mortos por quem vive ali, seja quem for — Liefafirmou, olhando para o Buraco.— Se os Ra-Kacharz podem sobreviver a ele, nós também podemos —retrucou Barda. — Eles são fortes e bons lutadores, mas não têm poderes mágicos.— Talvez devêssemos usar as roupas deles — Jasmine sugeriu de onde seencontrava. — Acho que não é por acaso que eles se vestem de forma diferente dosdemais neste lugar e somente eles podem usar o Buraco. Talvez a criatura que mora naescuridão esteja treinada para atacar todas as cores, menos o vermelho.— Pode ser — Barda assentiu. — Em todo caso, vestir as roupas deles é umaboa idéia As nossas mostram que somos intrusos. Nunca conseguiríamos enganar aspessoas e sair da cidade pela entrada principal. Mas, talvez, pela porta dos fundos...Sem perda de tempo, eles começaram a despir os três Ra-Kacharz quehaviam acabado de derrotar. Jasmine trabalhava depressa e com habilidade. Para Lief,foi impossível não lembrar, com um calafrio, quantas vezes ela havia despido os corposde Guardas Cinzentos nas Florestas do Silêncio. Ela o fizera para conseguir roupas eoutros objetos de que precisava e agira com eficiência e sem compaixão, como fazianaquele momento.Eles se vestiram rapidamente, colocando os trajes vermelhos por cima daspróprias roupas e as botas sobre os próprios sapatos. Enquanto isso, os Ra-Kacharzpermaneciam imóveis. Roupas de baixo justas e brancas cobriam-nos dos pulsos até ostornozelos. Suas cabeças, como as dos demais moradores da cidade, haviam sido
  • 47. totalmente raspadas.— Eles não parecem tão perigosos agora — Jasmine concluiu, carrancuda,envolvendo a cabeça com o tecido vermelho e certificando-se de que Filli estavaescondido e em segurança sob suas roupas.Apesar da pressa e da preocupação, Lief viu-se obrigado a rir quando olhoupara ela. A aparência de Jasmine era muito estranha. Os trajes dos Ra-Kacharz erammuito grandes para ele e até para Barda, mas em Jasmine eles formavam dobrasgrandes e amplas. As luvas não foram problema, pois eram feitas de um materialelástico que se ajustava a todos os tamanhos. E ele duvidou que ela conseguissecaminhar com as enormes botas vermelhas.Jasmine tinha percebido o problema. Carregou as botas até onde Reeceestava deitado, tirou-lhe as luvas e enfiou-as na ponta de uma das botas. Em seguida,desenrolou a faixa que lhe envolvia a cabeça e usou-a na segunda bota.Reece resmungou e sua cabeça raspada moveu-se sobre o chão frio.— Ele está acordando — constatou ela enquanto calçava as botas, tirando aadaga do cinto.— Não o mate! — Lief exclamou em pânico.— Por que não? — Jasmine indagou, olhando-o surpresa. — Ele me matariase estivesse em meu lugar. E, quando ele o atacou, você o teria matado se pudesse.Lief não sabia como explicar, mas tinha consciência de que Jasmine nuncaconcordaria com o fato de que matar no calor do momento, para defender a própria vida,era muito diferente de matar um homem, mesmo um inimigo, a sangue-frio.De repente, Barda soltou uma exclamação, aproximou-se de Jasmine eagachou-se ao lado do corpo de Reece.— Vejam isso! — murmurou, empurrando a cabeça do homem para o lado.Lief ajoelhou-se ao lado dele. No pescoço de Reece havia uma feia cicatrizprovocada por uma antiga queimadura num formato que eles conheciam muito bem.— Ele foi marcado — Lief balbuciou, observando a marca vermelha comhorror. — Marcado com o sinal do Senhor das Sombras. E, no entanto, vive aqui, livre e
  • 48. poderoso. O que isso significa?— Significa que as coisas em Noradz não são o que aparentam ser— Barda concluiu sombriamente. Ele foi depressa até onde se encontravam oscorpos dos outros Ra-Kacharz. A marca do Senhor das Sombras estava em todos eles.Os três amigos olharam para cima, assustados, pois a maçaneta da porta dacozinha havia começado a balançar e chacoalhar. Em seguida ouviram uma batida forte.Alguém tentava entrar.— Outra inspeção deve ter sido completada — Jasmine murmurou.— Os cozinheiros têm outro engradado de comida para jogar fora.Ao constatar que a passagem estava impedida, as pessoas atrás da portacomeçaram a gritar e a golpeá-la com os punhos. Reece resmungou e gemeu, e suaspálpebras estremeceram. Ele estava prestes a acordar.— Vamos levá-lo conosco — Barda decidiu, erguendo-se num salto.— Vamos obrigá-lo a nos dizer como passar a salvo pelo que existe nessapassagem, seja lá o que for. E, em todo caso, um refém pode ser útil.Rapidamente, eles ajeitaram as mochilas nas costas, arrastaram Reece até aentrada do Buraco e o empurraram para a escuridão. Em seguida, um após o outro,rastejaram atrás dele, pois naquele momento não havia tempo para pensar no quepoderia estar aguardando os três amigos lá embaixo.
  • 49. Lief deslizava com cautela para baixo, segurando os tornozelos de Reece comuma mão enluvada e usando a outra para se segurar nas paredes e no teto e evitardescer depressa demais. Era uma tarefa difícil, pois as rochas estavam cobertas poruma fina camada de fungos escorregadios que lambuzavam os dedos dele. Apassagem tornava-se cada vez mais estreita, até que ficou larga o suficiente para deixarpassar somente uma das grandes caixas sem dificuldade.A mochila de Lief ficou presa no teto. Com um grito de advertência para Barda,que estava bem atrás dele, contorceu-se até que as alças escorregassem de seusombros e ele pudesse deslizar, deixando a mochila para trás. Lief sabia que ela seriaempurrada. A descida ficara mais íngreme e aquilo era tudo que podia fazer para nãoescorregar para baixo sem controle.Outros aspectos também haviam mudado. O rosnado ficara mais alto, umrugido incessante que parecia ocupar-lhe os ouvidos e a mente. Estava mais difícilsegurar Reece, que ainda não despertara totalmente, mas começava a mover as pernas,a segurar-se nas paredes e a erguer a cabeça, de modo que esta encostava no teto dotúnel vez ou outra.E abaixo se via uma luz — um brilho fraco e amarelado demais para seroriginado da Lua. Rapidamente, ela se tornou mais brilhante. Lief percebeu que estavaatingindo o fundo do declive e que a passagem estava prestes a se nivelar.— Preparem-se! — gritou para Barda e Jasmine.Quase no mesmo instante, de repente, Reece começou a contorcer-se e arevirar-se. Ele gritava e chutava. Seus tornozelos escaparam das mãos de Lief e eleescorregou na direção da luz. Abafando um grito assustado, Lief viu o corpo retorcido doinimigo chegar ao fundo da descida.Mas ele não parou. De alguma forma, continuou se afastando.Pensando acima de tudo em manter o inimigo à vista, Lief parou de se segurarnas paredes e deslizou pelo último trecho de declive. Em instantes chegou ao final.Ali, a passagem se alargava. Vinda do teto, uma luz fraca brilhava, e aquelesom incessante o cercava. Abaixo de seus pés, o solo rochoso, duro e liso do túnel
  • 50. havia sido substituído por algo mais macio e irregular — algo que tremia levemente sobsuas mãos... e que se movia! Assim como Reece, Lief estava sendo carregado — pelopróprio solo!O vulto de vermelho rastejava um pouco mais adiante. Lief ergueu-se e correuna direção dele, percorrendo a distância em segundos. Saltou sobre o homem que sedebatia e lutou com ele, tentando imobilizá-lo.Os corpos dos dois, rolando e lutando no chão, atingiram a parede lateral dapassagem. Lief sentiu uma terra áspera que não estremecia nem se movia. Reecearqueou as costas, gritou e ficou imóvel.Então Lief deu-se conta de dois fatos: o centro da passagem era uma trilha emmovimento guiada por um mecanismo invisível, e Reece estava morto — morrera deuma forma terrível. Lief fitou-lhe rapidamente o rosto horrível e estremeceu,lembrando-se da descrição feita por Tira sobre outras pessoas que haviam tentadoescapar pelo Buraco.Ele escutou um grito e viu Barda e Jasmine correndo em sua direção pelapassagem, assomando da escuridão com uma rapidez impressionante.— Saltem para o lado! — Lief avisou. — A faixa em movimento está somenteno centro.Os amigos o obedeceram, tropeçando ao atingirem o solo firme. Quando seaproximaram de Lief e viram o corpo de Reece, contiveram -se para não gritar de horror.— O que... o que aconteceu com ele? — Barda balbuciou, estremecendo.As palmas das mãos do inimigo e o alto de sua cabeça raspada estavamlambuzados com um fungo vermelho e cobertos por pústulas terríveis. Sua bocaespumava e o rosto exibia uma cor azulada, retorcendo-se numa careta de agonia.— Veneno! — exclamou Jasmine. Agitada, ela olhou ao redor. — NasFlorestas do Silêncio há uma aranha cuja picada pode...— Não há aranhas aqui — interrompeu Lief. Seu estômago estava revirado e odedo tremia ao apontar a cabeça e as mãos do homem morto. — O fungo dapassagem... acho que o contato com a pele nua é mortal. Arrastamos Reece para amorte. Ele despertou, viu onde se encontrava, mas era tarde demais.Nauseados, eles observaram o corpo encolhido.— Eu não sabia que tirar as luvas e a faixa de cabeça poderia matá-lo — disseJasmine finalmente, em tom de desafio.— Claro que não — disse Barda, confortando-a. — Como poderia? Somenteos Ra-Kacharz sabiam que são as luvas e as faixas de cabeça que lhes permitem entrarno Buraco e continuar vivos. — Ele fez uma careta. — Nossas roupas estão totalmentecobertas de fungos. Como poderemos tirá-las com segurança?
  • 51. Lief estivera refletindo a respeito.— Acho que o veneno só é fatal quando fresco — murmurou, olhando as mãosenluvadas. — Não vejo outra forma pela qual os Ra-Kacharz poderiam se reunir ao seupovo sem prejudicá-los.— Estou torcendo para que você esteja certo — disse Barda, estremecendo.Um som fraco se fez ouvir atrás deles. Os companheiros se viraram e viram ocontorno brilhante de um dos engradados prateados deslizar passagem abaixo e pararna trilha em movimento. Ele se acomodou suavemente e começou a se mover nadireção deles.— Fechei a grade depois que passamos, esperando que os cozinheiros não sedessem conta de que escapamos pelo Buraco — Jasmine contou. — E parece que nãoperceberam.— Ainda não — Barda retrucou, sombrio. — Mas assim que os aposentos dosRa-Kacharz forem examinados eles saberão que não há outro local para ondepossamos ter ido. Precisamos encontrar a saída depressa. Se seguirmos este túnel,acho que chegaremos ao outro lado da colina.Eles deixaram o corpo de Reece onde estava, saltaram de volta para a trilhaem movimento e começaram a correr por ela, logo deixando o recipiente prateado bempara trás.Pouco tempo depois, os amigos viram um brilho à sua frente, sentiram o arfresco em seus rostos e ouviram o som de vozes e tinidos. Tornaram a pular para alateral do túnel e começaram a rastejar por ele, encostados à parede.O ambiente ficou mais claro e o som das vozes aumentou. Também seouviram sons estranhos e resfolegantes — sons que pareciam familiares a Lief, emboraele não conseguisse reconhecê-los. E então, de repente, ele viu um portão adiante. Atrilha em movimento parava exatamente à sua frente, e um pequeno amontoado decaixas prateadas se encontrava na abertura como se fossem guardas. Além delas, Liefconseguiu ver o contorno de árvores e o céu cinzento. Um pássaro noturno gritou. O diaia nascer a qualquer instante.Enquanto observava, três vultos altos entraram em seu campo de visão. Cadaum deles ergueu um dos engradados e levou-o para longe.— Eram Ra-Kacharz! — Jasmine murmurou. — Você viu?Lief assentiu, perplexo. Então, os três Ra-Kacharz que faltavam estavam ali. Oque estariam fazendo com o alimento descartado? E o que era aquele somresfolegante? Estava certo de que já o ouvira antes, mas onde?Os três companheiros prosseguiram, pé ante pé, agachados e próximos àparede, esticando os pescoços para enxergar através do portão. E, quando finalmente
  • 52. puderam ver o que acontecia lá fora, detiveram-se, reprimindo um grito de assombro.Os Ra-Kacharz colocavam os engradados numa carroça e cuidadosamente osprotegiam com palha para que não se chocassem no trajeto. Duas outras carroçasaguardavam, totalmente carregadas. E resfolegando alegremente entre os varais decada uma encontrava-se... um muddlet!— Eles estão levando os engradados embora! E estão usando os nossosmuddlets — Lief sussurrou.— Acho que não são os nossos animais — Jasmine comentou, sacudindo acabeça. — Eles são muito parecidos, mas as manchas estão em lugares diferentes. —Ela espiou pelo canto do portão e gelou. — Há um campo cheio de muddlets logo ali —murmurou. — Deve haver uns 20!— Os nossos animais certamente estão entre eles — Barda concluiu,carrancudo. — Mas podem ficar lá. Eu não montaria um animal desses nem que minhavida dependesse disso.— Bem, as nossas vidas dependem de sairmos daqui o mais depressapossível — Jasmine falou baixinho. — O que acha que devemos fazer?Barda e Lief trocaram olhares, atingidos pelo mesmo pensamento.— A palha entre os engradados é alta — Lief constatou. — Acho quepoderíamos muito bem nos esconder no meio dela.— Isso quer dizer que a história se repete, Lief — Barda assentiu, sorrindo. —Vamos escapar daqui da mesma forma que o seu pai fugiu do palácio de Del quandojovem: numa carroça de lixo!— Mas e Kree?... — Jasmine balbuciou. — Como ele vai saber onde estou?Como se fosse uma resposta a essa pergunta, um grasnado saiu das árvores.O rosto de Jasmine se iluminou.— Ele está aqui! — sussurrou ela.Naquele momento, os Ra-Kacharz voltaram para apanhar mais algunsengradados e os companheiros se esconderam. Mas, assim que os vultos de vermelhose afastaram, cambaleando com suas cargas imensas, três sombras dispararam doabrigo do portão e subiram numa das carroças carregadas. Uma delas fez um sinal paraas árvores enquanto se enterrava na palha entre os engradados, e um pássaro gritouem resposta.Os amigos ficaram deitados, encolhidos, imóveis e ocultos enquanto osRa-Kacharz concluíam o trabalho deles.— Esse foi o último? — eles ouviram uma voz conhecida perguntar. Era amulher que os defendera no julgamento.— Parece que sim — respondeu outra voz. — Pensei que seriam mais. Deve
  • 53. estar havendo algum problema nas cozinhas. Mas não podemos esperar mais ouvamos nos atrasar.Atrasar? Lief ficou alerta. Atrasar para quê?Houve um rangido quando os Ra-Kacharz subiram nas carroças. Três vozesgritaram "Brix!" e os veículos começaram a se mover com um solavanco.Escondidos sob a palha, os três companheiros nada viam além de trechos decéu cinzento e, vez ou outra, o vulto de Kree voando bem acima deles. Se osRa-Kacharz estranharam ver um corvo voando antes do amanhecer, nada disseram.Lief pensou que talvez eles nem tivessem notado o pássaro, tão concentrados estavamem fazer os muddlets andar mais depressa.Lief, Barda e Jasmine haviam planejado saltar quando tivessem atingido umadistância segura da cidade, mas não haviam contado com o fato de que a carroça emque entraram seria a segunda entre as três, tampouco com a velocidade dos animais.As carroças saltavam e davam solavancos, percorrendo as estradasacidentadas e passando rapidamente pelo campo. Mesmo arrastando cargas pesadas,os animais galopavam com velocidade surpreendente. Era evidente que qualquertentativa de saltar iria machucá-los e provocar a sua captura.— Teremos de esperar até as carroças pararem — Jasmine sussurrou. —Acho que eles não estão indo muito longe.Contudo, os minutos se transformaram em horas e o dia amanheceu antesque as carroças finalmente desacelerassem e parassem com um solavanco. Sonolentoe confuso, Lief espiou cautelosamente pela palha para ver onde se encontravam esentiu um embrulho no estômago.Estavam de volta à loja de Tom. E, marchando na direção deles, havia umatropa de Guardas Cinzentos.
  • 54. As carroças rangeram quando os condutores deixaram os bancos e saltarampara o chão.— Vocês estão atrasados! — resmungou o líder dos guardas.— Não pudemos fazer nada — retrucou um dos Ra-Kacharz com calma. Liefescutou um som tilintante e deduziu que os muddlets estavam sendo libertados de seusarreios.Ouviu-se o som de cascos, como se cavalos estivessem sendo conduzidos atéas carroças. Devem ser os cavalos cinzentos que se encontravam no campo atrás daloja, Lief imaginou.— Bom-dia, meus senhores e senhora Ra-Kacharz! — cumprimentou Tom emvoz alta. — Que belo dia!— Um belo dia para se estar atrasado — o Guarda resmungou.— Deixe que eu faço isso, amigo — Tom respondeu, simpático. — Eu cuido damudança dos animais. Vá e termine a sua cerveja. É um caminho longo e duro até Del.O coração de Lief pareceu dar voltas no peito, e ele ouviu Barda e Jasminerespirar fundo, assustados.A comida não seria descarregada. As carroças seguiriam para Del!Lief permaneceu imóvel, a mente funcionando rapidamente. Ele mal ouviu ossons dos pés dos Guardas marchando de volta à loja. De repente, tudo se encaixou.Durante séculos, carroças rodaram colina acima até o palácio de Del carregadas comalimentos refinados. Por mais que tivesse faltado comida na cidade, os habitantesfavorecidos do palácio nunca passaram fome.Ninguém nunca soubera de onde vinha a comida. Mas agora Lief sabia.A comida vinha de Noradz. O seu povo trabalhava para plantar e colheralimentos em seus campos férteis. Os seus cozinheiros trabalhavam dia e noite paraproduzir pratos deliciosos. Mas somente um pouco do que eles faziam era usufruído porseus habitantes. O resto era levado para o palácio em Del. Antigamente, isso fez com
  • 55. que reis e rainhas de Deltora ignorassem a miséria de seu povo. Hoje, alimentava osservos do Senhor das Sombras.Os Ra-Kacharz eram traidores de seu povo. Tom, que fingira ser contra oSenhor das Sombras era, na verdade, amigo dos Guardas Cinzentos.Uma onda de intensa raiva invadiu Lief. Mas Barda estava atento a questõesmais importantes.— Precisamos sair desta carroça — murmurou. — Agora, enquanto osGuardas estão afastados. Lief, você consegue ver...— Não consigo ver nada — Lief murmurou em resposta.Os arreios tilintavam. Kree grasnou de algum lugar próximo.— Que estranho. Aquele pássaro preto nos seguiu o tempo todo — disse umRa-Kacharz.— É mesmo? — Tom retrucou, pensativo.Lief, Barda e Jasmine ficaram imóveis em seu esconderijo de palha. Tom jávira Kree. Seria ele capaz de adivinhar...?— A propósito — Tom começou, pigarreando. — Eu tenho más notícias. Vocêsvão ter de voltar a pé para Noradz. Os animais descansados que eu mantinha aqui paravocês foram roubados... por uns viajantes espertos.— Nós sabemos! — respondeu um dos Ra-Kacharz, zangado. — Você deveriater tomado mais cuidado. Encontramos os animais tentando entrar no campo atrás dacolina, ontem à tarde. Eles dispararam para casa e derrubaram os intrusos das selas emfrente ao nosso portão.— Os intrusos levaram o mal à nossa cidade — acusou outro Ra-Kacharz. —Eles escaparam da morte por um fio e agora se encontram em nossas masmorras.— É mesmo? — perguntou Tom calmamente. E continuou com mais animação.— Muito bem! Estes pobres animais cansados estão livres de suas amarras. Se vocêsos levarem ao campo, posso terminar de arrear os cavalos. Depois, talvez, vocêsqueiram acompanhar-me numa caneca de cerveja antes de iniciar a sua jornada.Os Ra-Kacharz concordaram e logo Lief, Barda e Jasmine ouviram o som dosmuddlets sendo conduzidos para longe.Momentos mais tarde, os três ouviram a voz de Tom, como se estivessefalando com os cavalos.— Se alguém quiser sair de uma carroça não vigiada e correr até as árvores aolado da loja, este é o momento. O pobre Tom está sozinho aqui, agora.A mensagem foi clara. Desajeitadamente, os três companheiros abriramcaminho na palha e correram para o abrigo proporcionado pelas árvores. Seus corposestavam rígidos e doloridos. Tom fingiu que não os viu e simplesmente continuou a
  • 56. cuidar dos cavalos, assobiando baixinho para si mesmo.Lief, Barda e Jasmine deitaram-se e observaram o comerciante caminharcasualmente para o fundo da carroça em que estiveram escondidos e apanhar a palhaque caíra no chão. Ele recolocou-a no lugar e dirigiu-se até as árvores com as mãos nosbolsos. Abaixou-se e começou a arrancar capim como se o estivesse colhendo para oscavalos.— Você nos vendeu muddlets que não lhe pertenciam! — Barda sussurrou,furioso.— Ora, o pobre Tom acha muito difícil resistir a moedas de ouro — murmurou ocomerciante sem olhar para cima. — Ele admite. Mas a culpa do que aconteceu é devocês, não minha, meu amigo. Se vocês tivessem seguido pela estrada da esquerdacomo aconselhei, os animais nunca teriam sentido o cheiro de casa e disparado. Vocêssão os únicos responsáveis pelos problemas em que se meteram.— Talvez — Lief concordou com amargura. — Mas ao menos o nosso únicocrime é a idiotice. Você, porém, é um mentiroso. Você finge estar do lado dos queresistem ao Senhor das Sombras, mas o tempo todo ajuda a alimentar os seus servos.Você trata os Guardas Cinzentos como amigos.Tom endireitou o corpo, com um feixe de capim na mão, e voltou-se para olharo sinal que se erguia, imponente, em seu telhado.— Você percebeu, meu amigo, que o nome de Tom parece o mesmo, seja qualfor o lado em que se está? É o mesmo se você vier do leste ou do oeste. É o mesmo sevocê estiver dentro da loja ou fora dela, se o vir num espelho ou com os próprios olhos.E o próprio Tom é como o seu nome. É uma questão de negócios.— Negócios? — espantou-se Lief.
  • 57. — Isso mesmo. Eu sou o mesmo Tom para todos. Não tomo partido. Não meinteresso por coisas que não são da minha conta. É uma atitude sábia nestes temposdifíceis. E assim é possível ganhar muito mais dinheiro.Ele sorriu. As extremidades de seus lábios, curvadas para cima,enrugavam-lhe o rosto magro.— Quanto a vocês, sugiro que deixem este lugar o mais depressa possível.Vou manter os meus amigos Ra-Kacharz por aqui o máximo que puder, para dar-lhesuma boa dianteira. Mas primeiro tirem esses trajes vermelhos, são muito chamativos.Só não os deixem aqui, por favor. Não quero problemas.Ele se virou e começou a caminhar de volta às carroças.— Você é um trapaceiro! — Lief acusou de longe.— Talvez — Tom concordou, parando. — Mas estou vivo e rico. E por minhacausa você pôde sobreviver para lutar mais um dia.Ele continuou a andar, oferecendo o capim e estalando a língua para oscavalos.Os três amigos começaram a se livrar das vestimentas e botas vermelhas e acolocá-las em suas mochilas. Lief parecia ferver de raiva. Jasmine fitou-o, curiosa.— Tom nos ajudou — ela ressaltou. — Isso não é suficiente para você?Algumas criaturas só pensam nelas mesmas. Tom é uma delas.— Tom não é uma criatura, é um homem — Lief retrucou. — Ele deveria sabero que é certo.— Tem certeza de que você sabe? — Jasmine indagou, ríspida.— O que você quer dizer com isso? — ele quis saber.— Não discutam — Barda pediu, cansado. — Poupem as suas forças para acaminhada. O Rio Largo fica muito longe. — Fechou a mochila, atirou-a sobre o ombro ecomeçou a se afastar por entre as árvores com passos firmes.— Primeiro, precisamos voltar a Noradz — disse Lief, correndo atrás dele. —Precisamos dizer às pessoas que estão sendo enganadas.— É mesmo? E se sobrevivêssemos para contar a elas, o que eu duvido, seelas acreditassem em nós, o que acho que não vai acontecer, se por algum milagre elasrompessem um padrão de séculos, se rebelassem contra os Ra-Kacharz e serecusassem a produzir todo aquele alimento... o que você acha que iria ocorrer?— O suprimento de comida do Senhor das Sombras iria acabar — Liefrespondeu prontamente.— Sim. E ele dirigiria sua ira para Noradz, usaria a força em vez da astúciapara obrigar o povo a obedecê-lo e começaria a esquadrinhar o país à nossa procura —Barda retrucou secamente. — Nada se ganharia e muito se perderia. Seria um desastre.
  • 58. Ele apressou o passo e seguiu adiante.Lief e Jasmine o acompanharam, mas permaneceram calados durante umlongo tempo. Lief estava muito zangado, e Jasmine tinha a mente ocupada compensamentos que não desejava partilhar.Quatro dias de caminhada cansativa se seguiram — quatro longos dias emque Lief, Barda e Jasmine pouco falaram e, quando o fizeram, foi somente paracomentar a caminhada ou para manter-se fora das vistas de prováveis inimigos.Quando, porém, na tarde do quarto dia, alcançaram as margens do Rio Largo,perceberam que deveriam ter planejado o próximo passo com mais cuidado.O rio era fundo, e o seu nome o descrevia perfeitamente. Ele era tão largo quemal se podia ver a margem do outro lado. A grande superfície de água estendia-sediante deles como um mar. Não havia como atravessar.Desbotados e duros como pedra, restos de antigas balsas de madeiraencontravam-se semi-enterrados na areia. Talvez, muito tempo atrás, pessoastivessem cruzado o rio naquele local e abandonado as balsas ali. Contudo, não haviaárvores naquele lado da margem que proporcionassem madeira para construir umabalsa — somente fileiras de juncos.Os olhos de Jasmine se estreitaram ao observar o brilho opaco da água.— As terras do outro lado são totalmente planas — comentou ela,vagarosamente. — É uma planície. E vejo uma forma escura erguendo-se dela. Seaquela é a Cidade dos Ratos, está bem à nossa frente. Tudo que precisamos fazer é...— Atravessar o rio — concluiu Lief, pensativo. Deixou-se cair sobre a areiafina e branca e começou a remexer na mochila, procurando algo para comer.Retirou os objetos que haviam trazido da loja de Tom e colocou-os no chão,formando um pequeno monte. Quase se esquecera deles e agora os fitava com
  • 59. desgosto.Na loja, tinham um aspecto muito interessante, mas agora pareciam umamontoado de coisas sem valor. As pedras de acender fogo, o pão que não precisavaassar, o pó rotulado de "Puro e Límpido", o pequeno cachimbo que produzia bolhas deluz e uma pequena lata achatada com um rótulo desbotado...Claro, o brinde de Tom. Algo totalmente inútil, sem dúvida. De fato, a únicamaneira de Tom livrar-se daquilo era dando de presente. Lief zombou de si mesmo evirou a latinha de ponta-cabeça.— É longe demais para nadarmos. Teremos de andar pela margem atéencontrar um vilarejo em que haja barcos. — Barda sugeriu. — É uma pena nosdesviarmos de nossa rota, mas não temos opção.— Talvez tenhamos — Lief respondeu, devagar.Jasmine e Barda o fitaram, surpresos. Ele ergueu a lata e leu as palavrasimpressas no verso em voz alta.INSTRUÇÕESEspalhe os Devoradores de Água com moderação onde for necessário soloseco.CUIDADO!• O efeito dura somente uma hora.• Manusear com cuidado.• Não comer.• Armazenar em local seco.Observação: Os fabricantes dos Devoradores de Água não se responsabilizampor eventuais mortes, ferimentos, danos ou outros tipos de desastre que possamocorrer antes, durante ou depois da utilização deste produto.— Você está dizendo que o que há nessa caixinha é capaz de secar o rio? —espantou-se Jasmine.— Eu não estou dizendo nada — Lief retrucou, dando de ombros. — Estou
  • 60. apenas lendo as instruções.— Há mais advertências que instruções — Barda comentou. — Mas vamostentar...Eles caminharam juntos até a margem do rio e Lief abriu a tampa da caixa deestanho. Em seu interior, havia pequenos cristais não muito maiores do que grãos deareia. Sentindo-se um pouco tolo, ele apanhou alguns e jogou-os na água. Elesafundaram de imediato sem provocar nenhum tipo de mudança.E nada mais aconteceu.Lief aguardou um momento e, lutando contra o desapontamento, tentou sorrir.— Eu devia saber — resmungou. — Como se Tom fosse dar algo querealmente...Então o garoto gritou e deu um salto para trás. Uma bolha enorme, incolor eoscilante se erguia no rio. E do seu lado outra e mais outra!— São os cristais! — Barda gritou, excitado. — Eles estão sugando a água!E realmente estavam. Lief observava as bolhas que cresciam, espalhavam-see se uniam para formar duas paredes oscilantes que detiveram o rio. E a água entreelas simplesmente secou, deixando um caminho estreito e sinuoso de lama suja earenosa.Kree grasnou, espantado, quando Jasmine, Lief e Barda pisaram com cautelano leito do rio, comprimindo-se entre os montes gelatinosos e caminhando até chegarao fim da trilha seca. Então, Lief atirou outro punhado de cristais na água à sua frente e,após alguns instantes, mais protuberâncias romperam a superfície do rio e outrocaminho começou a se abrir para eles.A travessia do Rio Largo foi uma experiência estranha e assustadora. Os trêsamigos pensaram o tempo todo no que poderia acontecer caso as paredes oscilantesque detinham o rio caíssem. A enorme pressão poderia fazer com que a água sefechasse sobre eles e não haveria como escapar.Os Devoradores de Água dilatados lhes bloqueavam a visão à medida queavançavam pelo caminho tortuoso, os pés afundando na lama macia. Lief começava ase preocupar com a possibilidade de os cristais não serem suficientes para concluir atravessia quando, de repente, a margem surgiu à sua frente e ele pisou na terra ásperae seca.Os três companheiros permaneceram parados, olhando fixamente à sua frente.A planície estendia-se a partir da curva do rio e era cercada por água em trêslados. Deveria ter sido exuberante e fértil, contudo nenhuma folha de grama suavizava aargila dura e ressecada que a cobria. Até onde a vista podia alcançar, não havia sinal dequalquer coisa viva ou em crescimento.
  • 61. No centro, encontrava-se uma cidade cujas torres exibiam uma corvermelho-escura sob os últimos raios do pôr-do-sol. Apesar da grande distância, umasensação de perversidade e ameaça parecia desprender-se dela como uma névoa.Eles deixaram o rio e começaram a caminhar na planície árida. O céu formavaum arco sobre eles, vermelho e sombrio. "Vistos de cima", Lief pensou de repente,"devemos parecer formigas — três minúsculas formigas rastejantes. Um golpe nosmataria." Ele nunca se sentira de tal modo exposto ao perigo.Kree dividia com ele a mesma sensação e permanecia empoleirado no ombrode Jasmine. Filli encontrava-se encolhido dentro do casaco dela, deixando visívelsomente o seu focinho. Entretanto, mesmo a companhia deles não era suficiente paraajudá-la. Ela arrastava os pés e andava cada vez mais devagar; finalmente, quando osol começou a mergulhar no horizonte, estremeceu e parou.— Sinto muito — balbuciou. — A aridez deste lugar é como a morte para mim.Não consigo suportar.O rosto dela estava pálido e rígido, e as mãos, trêmulas. Lief e Barda fitaram-se,preocupados.— Agora mesmo, pensei em pararmos durante a noite — Barda disse, emboraLief duvidasse que fosse verdade. — Precisamos descansar e comer. Além disso, nãoacho que devamos entrar na cidade à noite.Eles sentaram-se e começaram a desempacotar os alimentos, mas não haviagravetos para acender o fogo.— Agora é uma boa hora para testar as pedras de acender fogo. — disse Lief,seguindo o exemplo de Barda e tentando se mostrar alegre. Ele leu as instruções dofrasco sob a luz fraca e então colocou uma das pedras no chão, golpeando-afirmemente com a sua pá. Imediatamente ela irrompeu em chamas. Acrescentou outrapedra e também ela se inflamou. Logo se formou uma intensa labareda que,aparentemente, não precisava de nenhum outro combustível. Lief guardou o frasco devolta ao bolso, satisfeito.— Conforto instantâneo. Surpreendente! — Barda comentou, entusiasmado.— Tom pode ser um patife, mas pelo menos as coisas que vende valem o seu preço.Ainda era cedo, mas Barda e Lief espalharam os suprimentos ao seu redor ededicaram-se a escolher o que iriam comer. Adicionaram água a um dos círculosbrancos do Nada de Forno, que começou a inchar e rapidamente se transformou em umpão. Eles cortaram-no em fatias, torraram-no e comeram-no com algumas frutasdesidratadas, nozes e mel que haviam trazido de Raladin.— Um banquete — comemorou Barda, contente. Lief percebeu, aliviado, que aexpressão tensa de Jasmine começava a se desfazer. Como haviam imaginado, o calor
  • 62. e o alimento a estavam reanimando.Lief contemplou a cidade distante por sobre o ombro da garota. Naquelemomento, a luz vermelha começava a diminuir nas torres. Imponente sobre a planície, acidade parecia silenciosa, sombria e deserta...Lief piscou. Os últimos raios do Sol estavam pregando uma peça em seusolhos. Por um instante, pareceu-lhe que a terra ao redor da cidade estava semovimentando como água.Ele olhou novamente e franziu a testa, intrigado. O chão estava se movendo.No entanto, a grama não balançava e nenhuma folha se agitava ao vento. O quê?...E, de repente, ele viu.— Barda! — exclamou com voz rouca.Barda fitou-o, surpreso com o medo que percebeu no olhar do companheiro.Lief tentou falar, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Ondas de terrorpercorreram-lhe o corpo e seus olhos estavam cravados na planície em movimento.— O que foi? — Jasmine indagou, virando-se para olhar. Então ela e Bardagritaram juntos e ergueram-se num salto. Vinda da cidade, cobrindo o solo como umaonda rasteira e comprida, surgia uma multidão ligeira e assustadora de ratos.
  • 63. Milhares de ratos — dezenas de milhares de ratos!De repente, Lief compreendeu por que a planície era árida. Os ratos haviamdevorado tudo.Eles eram criaturas das sombras. Haviam permanecido escondidos na cidadearruinada enquanto o sol brilhava sobre a planície, mas agora corriam na direção docheiro de comida, guiados por uma fome frenética.— O rio! — Barda lembrou.Os três amigos correram para salvar suas vidas. Lief olhou para trás somenteuma vez, e o que viu foi suficiente para fazê-lo acelerar ainda mais o ritmo, ofegante depavor.Os primeiros ratos, imensos, haviam chegado à fogueira. Corriam sobre acomida e outros pertences espalhados pelo chão, mordendo e rasgando tudo com seusdentes afiados. Seus companheiros os seguiam de perto e subiam neles, asfixiando-os,lutando entre si pelos restos, tombando sobre o fogo, gritando e guinchando.Outros milhares deles, com os olhos negros brilhantes, se engalfinhavam erodeavam a pilha confusa, aproximando-se e fungando. Eles haviam sentido o cheirode Lief, Barda e Jasmine, que estavam mais adiante — sentiram seu calor, sua vida eseu medo.Lief correu, o peito dolorido pelo esforço, os olhos fixos no rio. A água brilhavasob os últimos raios de sol. Ele estava perto... cada vez mais perto...Jasmine corria ao seu lado, seguida de perto por Barda. Ofegante, Liefmergulhou na água fria e nadou até que se sentisse seguro. Então, virou-se para olhar amargem, o casaco flutuando à sua volta.A ruidosa torrente cinza-escuro formada pelos ratos atingiu as margens do rio.Então, encrespou-se e rompeu como uma onda, saltando para dentro da água.— Eles estão nadando em nossa direção — Barda gritou, lutando paradesembainhar a espada e erguê-la à superfície. — Deus do céu, não há nada que possa
  • 64. detê-los?Jasmine desferia golpes com sua adaga, gritando furiosamente, e dúzias deratos mortos eram levados pela correnteza. Ao lado dela, Lief e Barda varriam suaslâminas pela água, de um lado a outro, ofegantes pelo esforço da tarefa.A água em volta deles tingia-se de sangue e espuma e, mesmo assim, os ratoscontinuavam a chegar, agarrando-se pelos dentes aos companheiros mortos."Por quanto tempo teremos forças?", pensou Lief. "Quanto tempo teremosantes que nos dominem?"Sua mente trabalhava febrilmente enquanto lutava, as mãos dor-mentes nocabo da espada. Eles ficariam a salvo do outro lado do rio, largo demais para que osanimais nadassem. Mas também era largo demais para ele, Jasmine e Barda, e os trêsnunca sobreviveriam se resolvessem lançar-se sem rumo naquelas águas frias eprofundas.Além disso, uma longa noite os aguardava. Antes que o sol nascessenovamente e trouxesse luz à planície, os ratos iriam atacar. Milhares morreriam, masoutros milhares viriam. Gradativamente, Lief, Barda e Jasmine perderiam as forças. E,finalmente, os ratos conseguiriam aglomerar-se sobre eles, mordendo e arranhando atéque os três amigos afundassem e se afogassem.O sol se pusera e a planície encontrava-se envolta na escuridão. Lief nãopodia mais ver a cidade, somente a fogueira, bruxuleante como um farol.Foi então que se lembrou de ter colocado o frasco de pedras de acender fogono bolso.Soltou a mão esquerda da espada, mergulhou-a e remexeu na jaqueta. Seusdedos fecharam-se ao redor do frasco e ele o trouxe à superfície. Estava pingando água,mas as pedras ainda chocalhavam em seu interior.Lief gritou para que Jasmine e Barda lhe dessem cobertura e avançou para afrente, ao mesmo tempo em que desatarraxava a tampa apertada do frasco. Eleapanhou um punhado de pedras com os dedos rígidos e jogou-as com todas as suasforças sobre os ratos que estavam na margem.Quando as pedras os atingiram, viu-se uma labareda enorme cuja luz eraofuscante. Centenas de ratos caíram mortos, atingidos pelo calor repentino. A hordaque se encontrava atrás deles guinchou e se espalhou, fugindo dos corposincandescentes. As criaturas que já se encontravam na água agitaram-se eretorceram-se, aterrorizadas, avançando na direção de Lief, Barda e Jasmine, as longascaudas torcendo-se e enrolando-se. Barda e Jasmine golpearam-nos, defendendo a simesmos e a Lief, enquanto este atirava outro punhado de pedras, e depois outro,movendo-se lentamente corrente abaixo para ampliar a parede de labaredas.
  • 65. Logo um extenso lençol de fogo queimava na beira do rio. Atrás dele, a planíciefervilhava. Mas, no local em que se encontravam Lief, Barda e Jasmine, ofegantes etrêmulos de alívio, havia apenas uma água ondulante, viva com a luz vermelha ebruxuleante. Ratos mortos eram carregados pela correnteza, porém não eramsubstituídos por outros.Momentos depois, ouviu-se o barulho da água quando os ratos mergulharamno rio, acima e abaixo da linha de fogo. Contudo a distância era grande demais para quenadassem em segurança. A correnteza veloz arrastava a maioria antes que atingissemsuas presas, e os que sobreviviam eram facilmente abatidos.Dessa forma, os três companheiros permaneceram unidos, mergulhados naágua até a cintura, tremendo de cansaço, mas em segurança atrás da barreira de fogo,enquanto as longas e frias horas passavam.Finalmente amanheceu e uma fraca luz vermelha tingiu o céu. Um sommurmurante e confuso, semelhante ao farfalhar de inúmeras folhas, veio da direção dalinha de fogo. O som desapareceu em seguida e um silêncio profundo caiu sobre aplanície.Lief, Barda e Jasmine avançaram com dificuldade para a margem, passandopor cima das brasas. A água lhes escorria das roupas e dos cabelos e chiava aorespingar nas chamas da barreira que haviam construído.Os ratos haviam sumido. Entre o rio e os restos fumegantes da fogueira, nadahavia além da pilha desordenada de pequenos ossos.— Eles devoraram os próprios mortos — Barda balbuciou, enojado.— É claro — Jasmine retrucou com naturalidade.Tremendo de frio e com a sensação de que as pernas eram feitas de chumbo,Lief começou a arrastar-se para o local onde havia feito a refeição muita horas antes.Jasmine e Barda o seguiram, quietos e vigilantes. Kree voava acima deles, o som fortedo bater de suas asas sobressaindo-se no ar silencioso.Ao redor das cinzas da fogueira restaram apenas três pedaços de tecido deum vermelho bem vivo.— Eles deixaram as roupas e as botas dos Ra-Kacharz — Lief constatou,rindo. — Parece que não gostaram delas. Por que será?— Talvez as roupas ainda estejam impregnadas com o cheiro do fungo doBuraco — supôs Jasmine. — Nós não sentimos nada, mas nossos sentidos não são tãobons quanto os dos ratos.Os companheiros observaram a destruição que os cercava. As fivelas dasmochilas, as tampas dos cantis, o cachimbo que produzia bolhas de luz, um ou doisbotões, algumas moedas e a caixinha de lata que continha os últimos Devoradores de
  • 66. Água estavam espalhados na terra ressecada em meio aos ossos e às cinzas. Excetopelas roupas de Noradz, nada mais havia sobrevivido ao ataque faminto dos ratos. Nemuma migalha de pão, uma tira de cobertor ou um pedaço de corda.— Pelo menos, temos nossas vidas — Barda filosofou, tremendo sob a levebrisa da manhã. — E temos roupas secas. Talvez não sejam as que gostaríamos de ter,mas quem vai nos ver aqui?Esgotados, tiraram as roupas molhadas para vestir os trajes e calçar as botasdos Ra-Kacharz. Então, finalmente aquecidos e secos, sentaram-se para conversar.— O frasco de pedras de fogo está quase vazio. Não conseguiremossobreviver outra noite nesta planície — Barda disse, sério. — Se quisermos entrar nacidade, precisamos fazê-lo agora. Estes trajes estranhos vão nos dar alguma proteção,já que os ratos não gostam deles. E ainda temos o cachimbo que produz bolhas de luz.Se funcionar como nos foi dito, ele pode se útil.Os companheiros formaram trouxas com as roupas molhadas, recolheram dochão os poucos pertences restantes e começaram a caminhar em direção à cidade.Os olhos de Lief ardiam de cansaço e os pés se arrastavam dentro das botasaltas e vermelhas. O pensamento de que hordas de ratos rastejavam e seengalfinhavam dentro das torres em ruínas que ele avistava adiante o encheu de pavor.Como poderiam entrar na cidade sem serem descobertos e despedaçados por eles?No entanto, precisavam fazê-lo, pois o Cinturão de Deltora começara a ficarquente na cintura de Lief. Era evidente que uma das pedras perdidas estava escondidana cidade. O Cinturão podia sentir isso.
  • 67. As torres da cidade erguiam-se escuras e proibitivas acima das cabeças dostrês companheiros.Os grandes portões de ferro da entrada haviam enferrujado e caído há muitotempo e, em seu lugar, tudo o que restava era um enorme buraco que conduzia àescuridão, de onde vinha um terrível som áspero e furtivo e o mau cheiro dos ratos.Havia também outra coisa. Uma coisa pior. A sensação de um mal antigo — vingativo,frio, aterrador.Lief, Barda e Jasmine começaram a calçar as luvas dos Ra-Kacharz e a cobriros rostos com o tecido vermelho que haviam usado na fuga de Noradz.— Não entendo como os ratos se multiplicaram dessa forma — Lief comentou.— É verdade que eles se reproduzem rapidamente, principalmente em locais sombriose sujos e onde encontram alimento com facilidade. Mas por que as pessoas destacidade não perceberam o problema e o solucionaram antes que assumisse dimensõesincontroláveis e tivessem de fugir?— Havia algo de maligno no ar — Barda concluiu, carrancudo, observando asparedes em ruínas à sua frente. — O Senhor das Sombras...— Não se pode culpar o Senhor das Sombras por tudo! — Jasmine retrucou,de repente.Ela exibia uma expressão carregada. Barda e Lief a olharam, surpresos.— Fiquei quieta por muito tempo — ela murmurou. — Mas agora vou falar,mesmo sabendo que vocês não vão gostar do que vou dizer. Aquele estranho quevimos na loja de Tom — o homem com a cicatriz no rosto — falou dos espinheiros naplanície. Ele os chamou de espinheiros de Del. E ele estava certo.Os amigos continuaram a fitá-la. Jasmine respirou fundo e prosseguiu.— O Senhor das Sombras governou Deltora por apenas dezesseis anos, masfoi necessário muito mais para que os espinheiros cobrissem a planície. Oencantamento da feiticeira Thaegan no Lago das Lágrimas começou cem anos atrás. Opovo de Noradz tem vivido daquela forma há séculos. E acredito que os habitantes
  • 68. deste lugar maligno o tenham abandonado há séculos também.Ela ficou quieta, fitando o vazio, triste.— O que você quer dizer, Jasmine? — Barda indagou, impaciente.— Que os reis e rainhas de Deltora traíram a confiança depositada neles —seu olhar havia ficado sombrio. — Eles se trancaram no palácio de Del e viveram noluxo enquanto o reino se deteriorou e o mal prosperou.— Isso é verdade. — Lief concordou — Mas....— Sei o que você vai dizer — Jasmine interrompeu, zangada. — Você mecontou que eles foram enganados pelos servos do Senhor das Sombras. Que elesseguiam normas estúpidas cegamente por acreditar que o seu dever se resumia a isso.Mas não acredito que alguém possa ser tão cego! Acho que toda essa história émentira.Barda e Lief ficaram em silêncio. Ambos entendiam por que Jasmine tinhatanta dificuldade em acreditar na verdade. Ela fora obrigada a cuidar de si mesma desdeos 5 anos de idade, era forte e independente. Nunca teria permitido que atransformassem num fantoche, nunca agiria de acordo com a vontade doconselheiro-chefe.— Estamos arriscando as nossas vidas para recuperar o Cinturão de Deltora— prosseguiu ela, mais violenta agora. — E por quê? Para devolver o poder ao herdeiroreal — que até mesmo num momento como este está escondido, enquanto que Deltorasofre e nós enfrentamos o perigo. Mas será que realmente queremos reis e rainhas nopalácio de Del que mintam para nós e que nos usem como antes? Eu acho que não!Jasmine os olhou fixamente e esperou.Barda estava zangado. Para ele, Jasmine demonstrara deslealdade ao exporas suas opiniões. Lief, contudo, pensava diferente.— Eu costumava pensar como você, Jasmine, e detestava a lembrança dovelho rei. Mas questionar se ele e o filho foram fúteis e indolentes e se o herdeiro é dignode nossa confiança não é importante agora.— Não é importante! — Jasmine gritou. — Como você pode...— Jasmine, nada é mais importante do que livrar o nosso reino do Senhor dasSombras! — Lief interrompeu. — Por piores que as coisas fossem em Deltora, pelomenos naquela época as pessoas eram livres e não viviam sempre aterrorizadas.— É verdade. — exclamou ela — Mas....— Não podemos derrotar o Senhor das Sombras com armas. A feitiçaria queele usa é poderosa demais. Nossa única esperança é o Cinturão usado pelo verdadeiroherdeiro de Adin. Portanto, não estamos arriscando as nossas vidas pela família real,mas por nosso reino e por seu povo. Você não percebe isso?
  • 69. As palavras de Lief atingiram o seu objetivo. Jasmine parou e refletiu.Lentamente, o fogo em seu olhar arrefeceu.— Você está certo — ela disse, finalmente, sem entusiasmo. — A minha raivame fez perder nosso objetivo de vista. Sinto muito.Ela não disse mais nada, apenas terminou de envolver a cabeça e o rosto coma faixa vermelha. Então, com a adaga na mão, acompanhou-os para o interior dacidade.Os companheiros penetraram num labirinto escuro em que as paredesemitiam sons como se estivessem vivas. Os ratos vieram aos milhares, surgindo dasrachaduras das paredes deterioradas. Suas caudas agitavam-se como chicotes e seusolhos vermelhos brilhavam.Lief apanhou o cachimbo e soprou-o. Lindas bolhas brilhantes sedesprenderam dele, iluminando a escuridão como minúsculas lanternas flutuantes.A maioria das criaturas fugiu da luz, gritando em pânico, e a grande multidãodiminuiu, transformando-se em um grupo menor, confuso.Os mais corajosos, correndo em meio às sombras no chão, tentaramagarrar-se aos pés em movimento dos intrusos e subir por suas pernas. Mas as botasaltas e escorregadias e o tecido liso e espesso de seus trajes frustraram os esforços dequase todos, exceto de alguns, dos quais Lief, Barda e Jasmine se livraram comsafanões.— Parece até que estas roupas foram feitas especialmente para nós — Bardasussurrou, avançando com dificuldade. — Tivemos muita sorte em tê-las trazido.— E muita sorte em termos ganhado este cachimbo de Tom — acrescentouLief. Mas, mesmo enquanto falava, ele se perguntava se tudo aquilo tinha mesmoacontecido por mera sorte. Ou teriam aqueles objetos caído em suas mãos por outromotivo? Durante essa jornada, ele já não tivera a impressão de que os seus passosestavam sendo guiados por uma mão invisível?Tremendo e lutando para livrar-se dos ratos, eles prosseguiram aos tropeços.Vez ou outra, Lief soprava o cachimbo e novas bolhas de luz brilhante surgiam. As queforam deixadas para trás pairavam muito acima de suas cabeças e brilhavam sobre asantigas vigas que ainda sustentavam o telhado. Os ratos não tinham conseguido roeressas vigas ou talvez soubessem que não deviam fazê-lo, pois sem elas o telhadodespencaria e a cidade ficaria exposta ao sol.Toda a cidade era como um grande edifício — um labirinto de pedras queparecia não ter fim. Não havia ar fresco nem luz natural. Provavelmente, era dessaforma que se construíam cidades naquelas paragens, Lief pensou. Noradz não eradiferente.
  • 70. Em todos os lugares, havia sinais de uma grandiosidade extinta. Entalhes,arcos elevados, aposentos amplos, lareiras enormes cheias de cinzas, cozinhasgrandes e vazias encontravam-se cobertos de poeira.E ratos rastejavam por todos os cantos.O pé de Lief tocou algo que tiniu e rolou. Os ratos agarraram-se às suas luvasquando ele se abaixou para apanhar o objeto.Tratava-se de um cálice entalhado — de prata, ele imaginou, emboramanchado e embaçado por causa do tempo e do abandono. O coração de Liefencheu-se de tristeza quando girou esse cálice nas mãos. Era como se ele lhe falassedas pessoas que haviam fugido de suas casas tanto tempo atrás. Ele o examinou commais atenção. De algum modo, lhe parecia familiar. Mas por quê?...— Lief — Barda resmungou, a voz abafada pela faixa que lhe cobria a boca eo nariz. — Continue andando, por favor. Não sabemos quanto tempo o cachimbo vaidurar e precisamos estar num lugar seguro quando a noite cair.— Pelo menos, num lugar em que não haja ratos — Jasmine acrescentou.Furiosamente, ela passou as mãos pelo corpo e os ratos que subiam caíram no chão,guinchando.Uma lembrança viva e uma onda de assombrada compreensão invadiu amente de Lief.— Se encontrarmos tal lugar, diremos "Aqui não há ratos" e será uma bênção— ele murmurou.— O quê? — Jasmine indagou, intrigada.Não havia tempo para explicações. Lief se forçou a prosseguir, enfiando ahaste do cálice no cinto. Mais tarde, ele contaria a Jasmine e Barda, quando estivessemfora de perigo. Quando...Venha até mim, Lief de Del.Lief estancou, olhando ao redor, atônito. O que era aquilo? Quem haviafalado?— Lief, o que aconteceu? — a voz de Jasmine parecia distante, apesar de elaestar bem ao seu lado. Ele fitou-lhe os olhos verdes desconcertados e percebeuvagamente que ela nada tinha ouvido.Venha até mim. Estou esperando.A voz sussurrava e se agitava na mente de Lief. Mal sabendo o que fazia, elecomeçou a se mover rápida e cegamente, seguindo o chamado.As bolhas de luz flutuavam diante dele, iluminando as paredes em ruínas, ossuportes enferrujados onde antes tochas ardiam, os fragmentos de potes empilhados.Ratos fervilhavam nos cantos e agarravam-se às suas botas.
  • 71. Ele continuou, tropeçando, em direção ao centro da cidade. O ar ficou pesadoe era difícil respirar. O Cinturão, quente, pulsava ao redor de sua cintura.— Lief — escutou Barda chamar. Mas ele não podia retornar nem responder.Lief atingiu uma ampla passagem em cujo final se via uma larga entrada. A criatura queestava do outro lado, o que quer que fosse, exalava um cheiro nauseante e almiscarado.Ele vacilou, mas mesmo assim prosseguiu.Lief chegou à entrada. Do outro lado, algo enorme se movia na escuridão.— Quem é você? — ele indagou, com a voz trêmula.A voz sibilante o atingiu em cheio, ácida e penetrante. Eu sou quem vocêprocura. Eu sou Reeah. Venha até mim.Escuridão. Perversidade. Medo.Trêmulo, Lief levou o cachimbo à boca e assoprou. Bolhas brilhantes subiram eiluminaram o espaço que outrora fora um amplo salão de reuniões.Uma enorme serpente ergueu-se no centro, sibilando no espaço ressonante.As curvas de seu corpo brilhante, grosso como o tronco de uma velha árvore, cobriam ochão de ponta a ponta. Seus olhos eram inexpressivos, frios e exibiam uma maldadesecular. Sobre sua cabeça havia uma coroa e, no centro desta, uma pedra que brilhavacom todas as cores do arco-íris.Era a opala.Lief deu um passo para a frente.Pare!Lief não soube dizer se a palavra estava apenas em sua mente ou se aserpente a proferira em voz alta. Ele ficou imóvel. Barda e Jasmine se aproximaram. Liefouviu a respiração intensa dos dois e percebeu seus braços se moverem quando
  • 72. ergueram as armas.Remova o objeto que está usando sob suas roupas. Jogue-o para longe.Lentamente, os dedos de Lief se aproximaram do Cinturão.— Não, Lief! — ele escutou Barda pedir, ansioso.Mesmo assim, mexeu no fecho do Cinturão e tentou abri-lo. Nada além da vozque lhe dava ordens parecia real.— Lief! — A mão firme e morena de Jasmine agarrou-lhe o pulso e puxou-ofuriosamente.Lief lutou para livrar-se dela e, então, de repente, foi como se despertasse deum sonho. Ele olhou para baixo, piscando.A palma de sua mão encontrava-se pousada no topázio dourado. Então eleentendeu que a pedra havia desanuviado sua mente e dissipado o imenso poder que aserpente tinha sobre ele. O rubi cintilava ao lado do topázio, não mais vermelho vivo,mas sim cor-de-rosa, indicando perigo. No entanto, seu brilho ainda parecia emanar umestranho poder.A imensa serpente sibilou, furiosa, e mostrou suas terríveis presas. Sua línguabífida movimentava-se rapidamente para dentro e para fora. Lief sentiu a força de seudomínio, mas pressionou a mão sobre o topázio com intensidade ainda maior e resistiu.— Por que ela não ataca? — Jasmine sussurrou.Agora Lief sabia a resposta. Ele lembrou-se de um trecho de "O Cinturão deDeltora" que discorria sobre os poderes do rubi.O grande rubi, símbolo da felicidade, vermelho como o sangue, ficaopaco na presença do mal ou quando o infortúnio ameaça quem o usa. Ele afastaespíritos malignos e é um antídoto para o veneno da serpente.— Ela está sentindo o poder do rubi — Lief sussurrou. — É por esse motivo queestá com a atenção voltada para mim.A sua mágica é forte, Lief de Del, mas não o bastante para salvá-lo, a cobrasibilou.Lief vacilou, pois novamente a vontade da serpente tentou dominar-lhe amente.— A opala está na coroa dela — ele balbuciou para Jasmine e Barda. —Façam o que puderem enquanto eu a distraio.Ignorando as advertências sussurradas dos amigos, Lief começou a se afastar
  • 73. deles. A serpente voltou a cabeça para segui-lo com seu olhar duro e frio.— Como você sabe o meu nome? — Lief perguntou, mantendo a mão firme notopázio.Eu tenho a pedra que mostra o futuro. Sou toda-poderosa. Sou Reeah, aescolhida do Mestre.— E quem é o seu mestre?Aquele que meu deu o meu reino. Aquele que chamam de Senhor dasSombras.Lief ouviu Jasmine deixar escapar um som abafado, mas não se virou paraolhá-la. Em vez disso, enfrentou o olhar de Reeah, ao mesmo tempo em que tentavamanter a mente livre de sua influência.— Certamente, você está aqui há muito tempo, Reeah — ele continuou. —Você é tão grande e imponente!A cobra sibilou e ergueu a cabeça, orgulhosa. Como Lief imaginara, a vaidadedela era proporcional ao tamanho.Eu não passava de uma minúscula serpente quando vim para os subterrâneosdesta cidade. Uma raça de humanos lamurientos vivia aqui na época. Se tivessem meencontrado, teriam me matado por causa da ignorância e do medo. Mas entre eles haviaservos do Mestre que estavam me esperando. Eles me receberam bem, trouxeram-meratos para que eu me alimentasse até crescer e ficar forte.Lief viu Jasmine com o canto dos olhos. Ela estava escalando uma dascolunas que sustentavam o teto. Rangendo os dentes, ele se obrigou a desviar a mentedela, pois era essencial que a atenção de Reeah permanecesse concentrada nele.— Que servos? — ele perguntou. — Quem eram eles?Você os conhece, sibilou Reeah. Eles têm a marca dele. A eles foram pro-metidos poder e vida eterna por servi-lo. Vocês usam as roupas deles para iludir-me,mas não me iludem.— Claro que não! — gritou Lief. — Eu a estava testando para ver se vocêrealmente podia ler a minha mente. Quem mais saberia onde encontrar ratos, o quefazer para que procriassem e como aprisioná-los? Quem mais senão os caçadores deratos da cidade? Foi um plano inteligente.Ah, sim, Reeah respondeu. Havia poucos ratos naquela época. 0 meu reinoainda não havia atingido a glória que lhe era destinada. Mas o meu Mestre soubeescolher os seus servos. Eles criaram mais ratos para mim — cada vez mais. Até que,finalmente, as paredes começaram a fervilhar, cheias deles. A doença se espalhou etodo o alimento da cidade foi consumido. Então as pessoas imploraram aos caçadoresde ratos que os salvassem, sem saber que estes eram os próprios causadores da
  • 74. praga.Os olhos cruéis da serpente brilharam, triunfantes.— Então os caçadores de ratos tomaram o poder — Lief concluiu. — Disseramque a praga dos ratos era resultado da maldade das pessoas e que nada lhes restavafazer senão fugir.Sim. Atravessar o rio para outro lugar onde reconstruiriam a cidade. Quandoeles se foram, saí dos subterrâneos e reivindiquei o meu reino.Lief sentiu, mais do que viu, que Jasmine começava a caminhar pela grandeviga que atravessava o salão, exatamente acima da cabeça da serpente. Ela andavacom a mesma facilidade e leveza com que se movimentava entre os galhos das árvoresdas Florestas do Silêncio. O que estaria planejando? Certamente, ela não acreditavaque as suas adagas conseguiriam perfurar aquela pele lustrosa. E onde se encontravaBarda?Lief podia sentir que a grande serpente estava ficando inquieta. Sua línguasaía da boca e entrava nela rapidamente, e a cabeça se inclinava na direção do garoto.— Reeah! A nova cidade chama-se Noradz, que significa Nada de Ratos —Lief gritou. — Eu a vi. As pessoas se esqueceram do que foram e de onde vieram. Omedo que sentem de ratos desencorajou-as. Os caçadores de ratos agora se chamamRa-Kacharz e são como sacerdotes que mantêm leis sagradas. Eles carregam chicotesque se parecem com caudas de ratos e são todo-poderosos. O povo vive aterrorizado eescravizado, servindo aos propósitos do seu Mestre.Isso é bom, sibilou Reeah. É o que merecem. Então você contou a sua história,Lief de Del. Sua mágica desprezível, suas armas insignificantes e sua lábia medivertiram — durante algum tempo. Mas agora estou cansada de seu palavrório.De repente, ela atacou. Lief cortou o ar com a espada para se proteger, mas oprimeiro movimento da serpente arrancou-lhe a arma da mão com se fosse umbrinquedo. Ela foi atirada para o alto, longe dele, fazendo círculos no ar.— Jasmine! — Lief gritou. Mas não houve tempo para verificar se ela tinhaapanhado a espada. A serpente estava prestes a atacar novamente. Suas enormesmandíbulas estavam abertas, as presas pingando veneno.— Lief! As pedras de fogo! — A voz de Barda soou no outro lado do aposento.Com certeza, ele se arrastara até lá numa tentativa de atacar o monstro pelas costas. Agigantesca cauda da serpente sacudiu-se rapidamente e o corpo de Barda chocou-seterrivelmente contra uma coluna, permanecendo imóvel."As pedras de fogo." Desesperado, Lief procurou nos bolsos, encontrou ofrasco e o atirou com força diretamente na boca aberta do inimigo. Contudo, Reeah erarápida demais para ele. A cabeça da malvada criatura moveu-se bruscamente para o
  • 75. lado e o frasco passou voando por ela, espatifando-se numa coluna e explodindo numabola de fogo.Agora eram somente Lief e Reeah.Você é meu, Lief de Del!A imensa cabeça investiu para a frente com uma velocidade aterradora. E, nomomento seguinte, a enorme serpente ergueu-se, triunfante, com o corpo de Liefpendendo de suas mandíbulas.Bem no alto, onde se encontravam os caibros que sustentavam o telhado, umhálito quente queimava...Vou engolir você inteiro. E a sua mágica também.De repente, o ar se encheu de fumaça e se ouviu um som crepitante. Liefpercebeu vagamente que as chamas haviam subido a coluna e lambiam a madeiravelha dos caibros.O fogo não vai salvá-lo. Depois de devorá-lo, vou apagá-lo com um simplessopro. Pois eu sou Reeah, a toda-poderosa. Eu sou Reeah, aquela que...Em meio a uma atmosfera confusa de terror e dor, através de uma cortina defumaça que lhe fazia arder os olhos, Lief viu Jasmine sobre uma viga ao seu lado, aespada do garoto oscilando nas mãos dela. Ela arrancara a faixa vermelha do rosto eseus dentes estavam à mostra numa fúria selvagem. Ela ergueu o braço...Com um golpe poderoso, brandiu a espada, cortando a garganta da serpentede um lado a outro.Lief ouviu um grito rouco e borbulhante e sentiu as mandíbulas do monstro seabrirem. Começou a cair rapidamente na direção do chão, as pedras duras aguardandoansiosamente para recebê-lo.E então o vazio.
  • 76. Lief se mexeu, gemendo. Sentiu um gosto adocicado na boca e ouviu estalos,gritos e sons de algo se rasgando e sendo mastigado muito ao longe.Abriu os olhos e viu Jasmine e Barda inclinados sobre ele, chamando-o.Jasmine estava fechando um pequeno frasco preso a uma corrente que levavapendurada ao pescoço. Lief percebeu vagamente que ela lhe dera o néctar dos Lírios daVida. O líquido o salvara, talvez o ressuscitara, como uma vez fizera com Barda.— Eu... eu estou bem — murmurou, esforçando-se para sentar-se. Ele olhou àsua volta. O aposento estava tomado por sombras tremeluzentes. As chamas, iniciadaspelas pedras de fogo, haviam se espalhado e rugiam nas vigas antigas. A gigantescaserpente jazia morta no chão, o corpo coberto por ratos famintos. Mais roedoresdesciam das paredes e surgiam na soleira da porta, lutando entre si para alcançar obanquete.Por centenas de anos, a serpente se alimentara deles, Lief pensou, aturdido, eagora ocorria o oposto. Nem mesmo o temor das paredes em fogo os impedia.— Precisamos sair daqui! — gritou Barda.Lief sentiu o amigo erguê-lo e jogá-lo por cima de seu ombro. Sua cabeçagirava, e ele tentou gritar: "E a coroa? E a opala?"Nesse momento, porém, viu que a coroa se encontrava na mão de Barda.Totalmente sem energia, Lief foi carregado, sacolejando nas costas de Barda,pelos aposentos em chamas. Seus olhos estavam fechados, irritados por causa dafumaça.Ao abri-los novamente, notou que estavam atravessando os portões da cidadee se dirigiam para a planície sombria. Kree, grasnando ansiosamente, voou ao encontrodeles. Então, ouviu-se um forte estrondo. O telhado da cidade começara a desmoronar.Eles prosseguiram até chegar perto do rio.— Eu consigo andar — Lief balbuciou. Barda parou e pousou-o delicadamenteno chão. Suas pernas tremiam, mas ele endireitou o corpo e se virou para observar acidade em chamas.
  • 77. — Nunca pensei que iria vê-lo em pé outra vez, amigo — Barda comentou,alegre. — Aquela queda que Jasmine provocou foi...— Era deixá-lo cair ou vê-lo desaparecer na boca da serpente — justificou agarota. — O que acha que seria melhor? — completou, devolvendo a Lief a espada, quebrilhava sob a luz da Lua, a lâmina ainda manchada com o sangue de Reeah.— Jasmine — Lief começou. Mas ela deu de ombros e virou-se, fingindo estarocupada ajeitando Filli em seu ombro. Ele percebeu o constrangimento da garota dianteda perspectiva de vê-lo agradecido por ela ter-lhe salvado a vida.— Você acha que é seguro descansarmos aqui? — perguntou, mudando deassunto. — Como acabei de quebrar todos os ossos do meu corpo, acho que nãoagüentaria atravessar o rio agora.— Acho que é bastante seguro, sim. Não vai haver ratos por aqui durantealgum tempo. — Barda respondeu. E então abriu um largo sorriso e passou as mãosdos ombros até os quadris. — Noradzeer — acrescentou.— Lief, como você sabia, antes de a serpente ter-lhe contado, que antigamenteo povo de Noradz vivia na Cidade dos Ratos? — Jasmine indagou, curiosa.— Havia muitos indícios — Lief informou, cansado. — Mas talvez eu nãotivesse ligado os fatos se não tivesse encontrado isto. — Ele tirou o cálice sem brilho docinto e entregou-o aos amigos.— Ora, é igual ao cálice que continha as cartas VIDA e MORTE, o CáliceSagrado de Noradz — Barda constatou, tomando-o nas mãos, surpreso. —Possivelmente ele caiu e foi deixado para trás quando o povo fugiu da cidade.Lief sorriu quando o minúsculo focinho negro de Filli surgiu na gola de Jasminepara ver o que estava acontecendo.— Não é de espantar que Filli tenha assustado o povo de Noradz — disse ele.— Filli não é nem um pouco parecido com um rato! — Jasmine exclamou,indignada.— Eles detestam qualquer coisa pequena e peluda. Acho que aprendem a teresse medo desde que nascem — Barda arriscou.— Como o medo de derrubar comida no chão ou deixar travessas descobertas,pois essas atitudes costumavam atrair milhares de ratos— Lief completou. — Ou o receio de comer alimentos estragados, comoacontecia muitas vezes na época da praga. A necessidade de tomar todos essescuidados deixou de existir hã centenas de anos, mas os Ra-Kacharz garantiram que omedo permanecesse, para manter as pessoas presas a eles e ao Senhor das Sombras.Lief falava despreocupada e indolentemente, a fim de livrar a mente dos fatoshorríveis que haviam acabado de acontecer. Mas Jasmine fitou-o, séria, a cabeça
  • 78. inclinada para o lado.— Então quer dizer que é bem possível que um povo que nasceu depois deregras idiotas terem sido criadas esqueça a sua história e as siga por obrigação? Eu nãoacreditaria nisso se não tivesse visto com meus próprios olhos.Lief percebeu que aquela era a maneira de Jasmine dizer que estavacomeçando a acreditar que os reis e rainhas de Deltora tinham menos culpa do que elaimaginara, fato que o deixou muito satisfeito.— Mas sempre há uma opção, e obrigações podem ser esquecidas— acrescentou depressa ao ver Lief sorrir. — Aquela garota, Tira, nos ajudouapesar do medo. — Jasmine fez uma pausa. — Espero que um dia possamos voltarpara libertá-la. Ou libertar a todos, se desejarem.— Esta é a nossa grande chance de fazer isso. — Lief soltou o Cinturão eestendeu-o perante si no chão áspero da planície. Barda entregou-lhe a coroa quecontinha a grande opala.Ao aproximar-se do Cinturão, a pedra caiu da coroa para a mão de Lief.Imediatamente, a mente dele foi invadida por imagens de desertos arenosos e céusrepletos de nuvens ameaçadoras. Ele se viu sozinho entre dunas ondulantes eintermináveis, sentiu o terror à espreita, invisível, e abafou um grito de medo.Lief olhou para cima, viu Jasmine e Barda fitando-o ansiosos e fechou a mãotrêmula com mais força ao redor da pedra.— Eu havia esquecido — ele começou com voz rouca, tentando sorrir.— A opala nos mostra cenas do futuro. E parece que isso nem sempre é umavantagem.Temendo que lhe perguntassem o que vira, ele se inclinou para encaixar apedra no Cinturão. Sob seus dedos, as cores do arco-íris pareciam faiscar e queimarcomo fogo. Bruscamente, seu coração acelerado se aquietou, o temor esmoreceu e foisubstituído por um calor latejante.— A opala também é o símbolo da esperança — Barda murmurou,observando-o.Lief assentiu, pressionando a mão sobre as cores vibrantes e sentindo o poderda pedra fluir por seu corpo. E, quando finalmente fitou os amigos, seu rosto estava empaz.— Então agora temos o topázio, símbolo da lealdade; o rubi, símbolo dafelicidade; e a opala, símbolo da esperança- afirmou ele, calmamente.— Qual será a próxima?Jasmine estendeu o braço para Kree, que voou até ela, dando um gritopenetrante e alegre.
  • 79. — Qualquer que seja a quarta pedra, certamente não irá nos conduzir aperigos maiores do que as outras três — disse ela.— E se isso acontecer? — Barda brincou.— Enfrentaremos o que vier — respondeu ela com simplicidade, dando deombros.Lief ergueu o Cinturão — sólido, seguro e um pouco mais pesado do que antes— e ajeitou-o ao redor da cintura. Lealdade, felicidade e esperança, pensou o garoto, eseu coração se encheu desses três sentimentos.— Sim — disse ele. — Vamos enfrentar qualquer perigo. Juntos.

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