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Cheryl Holt
Além Da Paixão
(Further Than Passion)

Kate Duncan concorda em ajudar sua jovem prima a encontrar um marido,
e...
Capítulo 1
Londres, Inglaterra, 1813…
- Uma poção de amor? - brincou Kate Duncan. - Diga que é uma
brincadeira, por favor....
para deixá-lo apaixonado perdidamente era uma loucura. Não, era mais
que uma loucura: roçava a demência. Teria ela enlouqu...
Chiando os dentes, Kate saiu com toda pressa e fechou a porta. Sua
anfitriã, a lady sofisticada madrasta de Lorde Stanford...
Havia um espelho na parede e ela contemplou seu reflexo com
atenção. Sob a luz mortiça, não aparentava absolutamente ter v...
Procurou de novo sua imagem no espelho e lhe pareceu que
resplandecia com um inusitado atrativo que a fascinou. Suas mecha...
Kate tentou identificá-la. Achou-a meio parecida com lady Pelham,
mas concluiu que podia tratar-se de qualquer uma. Na rea...
Resplandeciam com intensidade. Ela percebeu aquele olhar tão tangível
como uma carícia.
«Vêem - lhe ouviu sussurrar com vo...
Algo pareceu rasgar-se de súbito dentro dela, sacudindo o lugar
secreto onde habitavam sua solidão e seu desespero. Kate a...
Capítulo 2
- Quem é a encantadora ruiva que se hospeda com os Lewis?
- A ruiva?
- Sim - respondeu Marcus. - É miúda, esbel...
cessar pelo título, o que sem dúvida ensinou a Marcus uma lição decisiva
sobre o modo como o mundo funcionava.
Nunca mais ...
decepcionado uma vez e não permitiria que a serpente voltasse a
aproximar-se demais dele.
- A que se deve este interesse r...
Tinha economizado um pouco de dinheiro, o suficiente para viajar de
navio a Índia ou a Jamaica. Voltaria a começar, viveri...
considerado inclusive a possibilidade de não vir à festa, mas o anseio por
saber se sua misteriosa bisbilhoteira se achava...
Usava um feio vestido cinza, com botões no pescoço e nos pulsos, que
não deixavam à vista nem um pedacinho da cremosa pele...
Tinha detrás de si uma história de escândalo? Oxalá fosse assim! Seria
fantástico!
- Bem, desculpe-me, miss Duncan. Teria ...
- Tem as maneiras de uma cabra.
Ele riu sufocadamente.
- Não é a primeira vez que me dizem algo assim.
- Não me surpreende...
experiência seria nova e excitante, pois fazia já tempo que tinha deixado
o amor à margem, quando ainda era muito jovem e ...
- Um fanfarrão.
- Com efeito.
Ela o olhou fixamente. Seus verdes olhos cintilavam banhados por
lágrimas de raiva e frustra...
meios para ajudá-la. Tratando-se de um anel tão valioso, encarcerariamna, poderiam inclusive deportá-la às colônias penais...
Quanto se parecia com sua formosa e irrefletida mãe? Se lhe
apresentasse a ocasião de desfrutar, seria capaz de conter seu...
Assombrava-se daquela situação, de se sentir tão familiar com ele, e se
negava a dar asas às fantasias daquele homem que d...
foram caindo ao chão, onde ricocheteavam e tilintavam. Kate tentou
espiar aonde foram parar, sabendo que jamais os encontr...
Ele evitou sua pergunta e interpelou a sua vez:
- Como conseguiu entrar ontem à noite?
- Não tenho nem idéia ao que se ref...
que não devia ter-se arriscado a ir ao encontro, por muito obstinado que
ele se mostrasse em suas exigências.
Tinha que tê...
olhasse para abandonar em um instante sua integridade e seus
princípios. Acaso não tinha orgulho nem dignidade?
Separou-se...
- Seremos amantes, Kate, durante o tempo que se prolongue sua
visita. Será maravilhoso. Prometo-lhe isso.
- Não vamos ser ...
que a pequena cadeira em que sua mãe se escorou não cedesse ao seu
peso.
Tinha o cabelo de um cinza monótono; os traços, i...
Melanie, que parecia um saca-rolhas em frente ao espelho, gorjeou
alegremente:
- Parece-me tolice que seja capaz de gastar...
- Deveria lhe informar da freqüência com que se comenta quão
formosa sou.
«Formosa como uma estátua de mármore», pensou. P...
mãos. Em um só dia, ela mesma tinha passado de estar cozinhando em
seu lar na Cornualhes, com seu marido às portas da mort...
seus objetivos. Acaso não compartilhava seu mesmo interesse por forjar
um matrimônio importante? Durante anos, Regina tinh...
Regina não pôde controlar mais seu temperamento. Levantou-se e
caminhou para Melanie até que a teve frente a si, a apenas ...
- Se segue te pavoneando aqui, em Londres, quanto tempo acha que
levará até que te reconheçam, até que a gente saiba quem ...
tinha duvidado nem um instante em aceitar o insinuante convite de
Pamela, que sentia curiosidade por saber se teria adivin...
Ela se encaminhou para o sofá enquanto ele seguia cada um de seus
movimentos; sentou-se ao seu lado e lhe estendeu a taça....
amostra de consentimento e assumiu o controle do abraço, acolhendo-a e
estreitando-a nos braços.
Introduziu os dedos entre...
- Querido, me permita que te demonstre no que consiste.
Ele se reclinou e ela lhe afrouxou as calças para ter mais espaço ...
Ela reprimiu uma careta amarga. Insensato! Ele que não era
consciente do que estava desperdiçando? Os homens suplicavam um...
- Bem - espetou Melanie, - se não tivesse derramado o primeiro frasco
de poção de amor, não teríamos que comprar outro. É ...
- Anda já, Kate - se mofou Melanie. - Como se Stanford fosse capaz de
apaixonar-se por uma criada! Nem um tônico mágico po...
Kate entrou na farmácia. Ao tempo que olhava a seu redor soou uma
campainha. Era um lugar pitoresco, repleto de vidros e a...
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  1. 1. Cheryl Holt Além Da Paixão (Further Than Passion) Kate Duncan concorda em ajudar sua jovem prima a encontrar um marido, ela pretende usar uma poção de amor de um farmacêutico para seduzir o famoso Marcus Pelham. Marcus vive rodeado de numerosas damas dispostas a compartilhar sua cama. Entretanto, nada o excitou tanto como a imagem de Kate observando-o. Marcus tenta divertir-se um pouco com Kate, bebe o elixir e perde o controle cada vez que se aproxima dela. A travessura acaba quando ele percebe que a atração que sente por Kate é selvagem e real. Enquanto a ensina na arte da sedução, ele se apaixonará perdidamente pela primeira vez? Disponibilização, Tradução e Formatação: Gisa Revisão: Irany Projeto Revisoras Traduções
  2. 2. Capítulo 1 Londres, Inglaterra, 1813… - Uma poção de amor? - brincou Kate Duncan. - Diga que é uma brincadeira, por favor. - Não, não é. - E o que imagina ganhar? Lady Melanie Lewis, sua prima longínqua, de dezesseis anos, respondeu com rebeldia: - O que você acha? Quero que Lorde Stanford se apaixone por mim. Kate logo mal pôde conter as gargalhadas. - Lorde Stanford? Apaixonar-se? - exclamou. - Sim. Kate respirou profundamente para tentar acalmar-se. - Onde a conseguiu? - Um farmacêutico vendeu-me. Melanie se inclinou para frente e acrescentou sussurrando: - O homem assegura que é extremamente forte, assim devo ser prudente e administrá-la de forma adequada; do contrário podem aparecer conseqüências imprevisíveis. - Que tipo de conseqüências? - Se não agir com cuidado, duas pessoas que não se dêem poderiam sentir-se atraídas, e isso seria catastrófico. Kate olhou o teto com desdém. - Melanie, não pode acreditar que esta beberagem seja autêntica. - Por que não seria? - As poções mágicas não existem! - Pare! Isso demonstra o pouco que sabe. Paguei uma fortuna por esta. Tem que ser autêntica. Kate segurou o frasco contra o abajur e o sacudiu levemente. Viu que continha um líquido escuro e teria apostado seu último níquel que se tratava de vinho tinto. - O que é exatamente o que devo fazer? - perguntou. - Tem que dar-lhe pouco antes da minha entrevista com ele. Ponha no brandy ou na sopa, sem que ele veja, é obvio. - É obvio… - Amanhã pela tarde, quando nos apresentarem, seria o momento ideal. Quero-o encantado desde o começo. - Encantado? - Sim. Kate suspirou. Durante anos tinha sido dama de companhia de Melanie, e também sua tutora, instrutora e guardiã. Não era a primeira vez que a ouvia dizer uma série de bobagens, que a via engendrar idéias estranhas e insensatas, mas esta era, com certeza a mais extravagante. Para todos, Marcus Pelham, de trinta anos, Conde de Stanford, era uma uva sem semente, frio, libertino e distante. O anseio de Melanie
  3. 3. para deixá-lo apaixonado perdidamente era uma loucura. Não, era mais que uma loucura: roçava a demência. Teria ela enlouquecido? Marcus Pelham jamais amaria Melanie. Pusesse a beberagem em sua comida ou não, ele jamais ia apaixonar-se. Sem dúvida, Melanie conhecia os limites e as repercussões de um matrimônio aristocrático. Sua mãe Regina, mostrou-lhe todos os detalhes. Se Lorde Stanford escolhesse Melanie como prometida, seria pelos motivos habituais: dinheiro, propriedades, alianças familiares. O carinho não desempenharia nenhum papel. - O momento em que o faça é crucial - prosseguiu Melanie. - Tem que falar com o serviço para saber quando e onde é mais provável que ele… - Melanie, me escute. - Kate tomou pelos ombros e a sacudiu. - Não vamos fazer isso. Não vou fazer. - Vai sim! - Stanford é um cavalheiro inteligente, ardiloso e perspicaz. E se me surpreendesse? Como ia justificar-me? - Francamente, Kate, você não tem imaginação. - Melanie a separou de si. - Tem que começar inventando uma história. Assim, se lhe descobrirem, terá uma desculpa pronta. E bem, quando será? Kate contou até dez, rogando para ter paciência. Melanie sempre tinha sido obstinada e Kate já se cansara dos seus desejos. - Vejamos se assim me entende: você está proibida de tentar. Se insistir, falarei com sua mãe e farei que a detenha em seus propósitos. Ante a menção de sua mãe, Regina Lewis, Condessa viúva de Doncaster, Melanie se encolerizou e seus cachos de cabelo dourados se agitaram com fúria. - Se te atrever a fazer isso, - ameaçou gritando - consagrarei o resto de minha vida a fazer com que se arrependa. - Se cale antes que desperte a toda a casa - ordenou Kate, tão zangada como sua prima. Tinha vivido longo tempo com Melanie e tinha suportado muitas manhas de criança para tolerar outra, menos ainda na metade da noite. Colocou o frasco na cômoda e se dispôs a partir irada. - É muito tarde e amanhã teremos um dia ocupado. - Leve a poção. - ordenou Melanie agarrando o frasco e o esgrimindo como se ele fosse uma arma. - Não pode me dar ordens. - Se não levar isso, farei algo drástico, como… como… Parecia em seu arrebatamento que não conseguia encontrar nenhuma conduta o bastante censurável, mas seu semblante acalorado fazia temer que se encontrasse quase tendo um colapso nervoso. - Pelo amor de Deus! - resmungou Kate. - Dê-me isso. Aproximou-se dela e agarrou o frasco. Melanie a olhou com ar triunfal, pois em nenhum momento tinha duvidado de sua capacidade para coagi-la e conseguir que se submetesse aos seus desejos, fossem quais fossem.
  4. 4. Chiando os dentes, Kate saiu com toda pressa e fechou a porta. Sua anfitriã, a lady sofisticada madrasta de Lorde Stanford, era de natureza despreendida, por isso um abajur colocado junto ao patamar e aceso permanentemente iluminava o seu caminho. Dirigiu seus passos cansativamente para a escada com a intenção de subir aos seus aposentos, mas se sentia fatigada, exausta pela viagem a Londres e por ter que batalhar todas as horas com Regina e Melanie. No terceiro degrau se deixou cair com a cara entre as mãos. Não havia pressa. Seu dormitório era um espaço ordenado, limpo e cômodo, mas com poucos móveis e silencioso, situado no final de um corredor deserto. Aquela localização isolada só acentuava a solidão que vinha sentindo nos últimos tempos. Ao menos não a tinham hospedado no desvão com os serviçais! Tinha sofrido uma infinidade de humilhações desde os oito anos de idade, depois de ficar órfã, mas seu orgulho não teria suportado mais essa. Tinham se passado tantos anos desde que seu pai ostentou o título de Conde de Doncaster…, desde que morrera e o filho de Regina, Christopher, fosse resgatado da pobreza e das sombras para substituir seu pai. Kate mal podia recordar aquele período de riqueza e privilégios. Realmente tinha sido filha de um Conde? Realmente tinha sido sua mãe a mulher mais formosa da Inglaterra? Era certo que tinha vivido como uma princesa? Ou tudo se tratava de um sonho, recorrente e inexplicável? A mãe de Kate se casou muito jovem. Sentiu-se angustiada e infeliz naquele matrimônio e, no final, fugiu para a Itália com um amante. O pai de Kate foi incapaz de suportar tamanho escárnio e se suicidou, deixando Kate desamparada, sem recursos, sem dote e sem ter designado nenhum tutor responsável por ela. Antes de ter tempo de digerir a tragédia, a indômita Regina se mudou a Doncaster e tomou as rédeas do poder. Em poucas semanas, seu doentio marido tinha herdado o Condado e havia falecido, para sorte dela, viúva e com um bebê que seria o novo Lorde. Desde então tinha administrado as propriedades como uma rainha despótica, dirigindo com mão de ferro e intimidando todo mundo até que todos cediam as suas ordens. Regina nunca permitia que Kate esquecesse que era uma fastidiosa carga, que começava a envelhecer, que os egoístas dos seus pais não tinham pensado no seu bem-estar e que a tinham abandonado aos caprichos do destino. Regina aproveitava a menor ocasião para recordar o quanto fracos e dementes tinham sido os pais de Kate e que seu sangue manchado corria por suas veias. Repreendia-a tão freqüentemente e com tal veemência que as críticas acabaram arraigando-se em Kate, que para impedir que outras pessoas descobrissem sua esquecida linhagem e a julgassem severamente, não revelava a ninguém seu sobrenome.
  5. 5. Havia um espelho na parede e ela contemplou seu reflexo com atenção. Sob a luz mortiça, não aparentava absolutamente ter vinte e cinco anos, embora fosse essa sua idade. Seu cabelo mogno brilhava denso e sedoso, e não era, como Regina se empenhava em proclamar de vez em quando, indicador de um temperamento hedonista. Regina afirmava que era o tipo de cabelo das bruxas, que a cor incitava as maneiras selvagens e que tinha sido a ruína da mãe de Kate. Por medo de ser acusada de ter caráter dissoluto, como sua mãe, Kate estava acostumada a ocultar seu cabelo sob toucas e capuzes. Entre as sombras, seus verdes olhos cintilavam com vida, seu rosto era muito formoso e atraente. Sua esbelta figura era feminina e suas curvas, bem definidas e sedutoras, por isso não conseguia detectar indício algum da patética criatura que Regina a fazia sentir-se. Era como se estivesse contemplando a mulher que desejava ser em lugar da que era. Baixou o olhar e inspecionou o frasco, ainda em seu poder. - Uma poção de amor. - murmurou.- O que virá depois? Fazia já tempo que tinha percebido a estupidez que a cercava. Tal e como seus pais tinham evidenciado, o excesso de paixão conduzia à desgraça e a tragédia, e Kate não estava disposta a ajudar Melanie a cometer nenhuma imprudência. Kate desarrolhou o frasco com a intenção de verter o líquido na terra de um vaso de barro, quando um impulso estranho (travessura? loucura?, tédio?) desviou-a de seu propósito inicial: longe de desfazer do conteúdo do frasco, ingeriu-o de um só gole. O preparado, diferente do que tinha previsto, não tinha gosto de vinho. Seu sabor era mais terroso, mais doce e aromático, como se tivesse sido destilado a partir de flores e hortelã. Lambeu-se deleitosamente, lamentando não dispor de um pouco mais. De repente percebeu algo similar a um rumor em seus ouvidos, como se estivesse ouvindo as ondas de um oceano enfurecido rompendo na praia. Sentiu uma repentina rajada de calor no corpo. Afrouxou o cinturão e as lapelas cederam, mas não sentiu alívio algum. Incomodada desabotoou a camisola e abriu um pouco o sutiã para que passasse ar pelo seu interior. O tecido parecia quente e áspero, e seu tato a irritava. Embora fosse uma agradável noite de junho, a casa estava fria. Mas Kate ardeu com desejo de rasgar a roupa e correr nua pelos corredores. Como em um estado de embriaguez, aquela idéia lhe arrancou uma risada nervosa. O cabelo lhe pesava, a larga trança se tornou incômoda e lhe provocou dor na cabeça. Desfez-se do laço, afundou os dedos entre as mechas, liberando-os, permitindo que se pendurassem ao seu desejo. Aquela desibinição a fez sentir-se redimida, travessa, inclusive metida.
  6. 6. Procurou de novo sua imagem no espelho e lhe pareceu que resplandecia com um inusitado atrativo que a fascinou. Suas mechas envolviam seus quadris com brilhos vermelhos e dourados que cintilavam em uma espécie de halo. Seus olhos se tornaram esmeraldas e desprendiam um brilho misterioso, como os de um gato; suas bochechas se acenderam. Tinha um aspecto atrevido, apaixonado, indômito, como se acabasse de cometer um ato escandaloso… ou como se estivesse a ponto de cometê-lo. Olhou ao redor e se assombrou ao descobrir que já não estava sentada na escada. Não tinha a menor ideia de como tinha chegado até ali, mas se encontrava em um comprido corredor, frente a um arsenal de portas que se perdiam no infinito. Sua visão era limitada e imprecisa; entretanto, o resto de seus sentidos se aguçou. Era capaz de cheirar a cera nas molduras de madeira, perceber as partículas de pó sob a mesinha ornamental, ouvir um ratinho brincando de correr dentro da parede. Onde estava? Não duvidava que aquele lugar fosse a mansão de Lady Pelham, mas desconhecia sua localização exata. Era aquele o corredor que levava aos seus aposentos? Todas as portas pareciam iguais. Qual era o seu? Desesperada para se deitar e se recuperar da vertigem, pôs-se a andar por aquele corredor que a constrangia como uma luva. Seus membros pesavam como pedra, seu corpo se movia lento e lânguido, como se em lugar de caminhar, nadasse. Baixou o olhar e se surpreendeu segurando a maçaneta de uma porta com uma de suas mãos; decidiu-se girá-la e entrou num dormitório. Mas não era o seu! No que estava pensando? Penetrou-se em uma grande suíte, que sem dúvida alojava a um homem, adornada com cortinas granada, tapetes felpudos e um imponente mobiliário de mogno. A sala estava vazia, mas ao fundo havia um segundo quarto. Caminhou sigilosamente para a porta, seus pés nem pareciam tocar o chão. Era maior que o primeiro. Nela havia uma extravagante chaminé de mármore na qual, em que pese a estar no verão, um vivo fogo ardia esbanjado no lar. O centro era ocupado por uma magnífica cama apostada sobre um pedestal. Com uma robusta armação, um colchão elegante, e postes e cabeceira esculpidos à mão, parecia o tipo de leito destinado ao sono de um Príncipe ou um Rei. Um homem e uma mulher jaziam sobre a roupa de cama, totalmente nus. Kate soube que devia partir imediatamente, mas não podia deixar de olhar. O homem estava estendido; a mulher, ajoelhada sobre ele. Era loira, meio roliça; com a juba dourada se derramando sobre suas costas. Seus voluptuosos peitos ondeavam ritmicamente, seus quadris oscilavam enquanto se balançava sobre o homem. Cavalgava-o como no lombo de um cavalo; seus movimentos eram peritos, fluídos, elegantes.
  7. 7. Kate tentou identificá-la. Achou-a meio parecida com lady Pelham, mas concluiu que podia tratar-se de qualquer uma. Na realidade, ao aguçar a vista, viu seu próprio rosto onde deveria ter estado o da mulher. Era ela aquela mulher? Estava tão aturdida… Espiou-os, muda e ansiosa, indiferente à possibilidade de repararem em sua presença. Era invisível, flutuava no ar, um fantasma intangível. Escondeu-se entre as sombras e se concentrou no homem. Moreno e de olhos escuros, era o homem mais belo que jamais tinha visto. Traços perfeitos. Esbelto, robusto, musculoso; provavelmente praticava esgrima para manter-se em forma. Embora não o reconhecesse e não tinha idéia de quem podia ser, achou-o familiar, querido, como um velho amigo com quem se reencontrou. «Finalmente te encontrei», esteve a ponto de dizer, mas se conteve bem a tempo, entusiasmada por um súbito e transbordante arrebatamento de alegria. Ele beliscou os mamilos da mulher, manipulou-os e os apertou entre os dedos enquanto a mulher estremecia, extasiada. Kate sentiu um calafrio nas costas. Era como se aquele homem estivesse acariciando seus próprios mamilos, seus próprios peitos. Sentiu uma pontada no útero, seguida de um espasmo. No rincão secreto que custodiavam suas pernas cresceram o calor e a umidade. Seu corpo compreendia e acolhia de boa vontade tal libidinosa conduta. Sentia que estalava, que irradiava um vigor e uma energia que a incitavam a desejar e cobiçar. Vibrou com uma necessidade e um desejo de sensações às que nem sequer sabia dar nome. O casal perpetrava uma dança incrível, um balé de sensualidade e finura deliciosas, cada um com um papel a interpretar. Estiravam-se e se contraíam, atraíam-se e rodavam, suas pernas e braços em uma coordenação perfeita, e de maneira instintiva Kate entendeu que estavam fazendo amor. Estava sendo testemunha do ato secreto no leito conjugal. E o ato era tão formoso, tão fascinante… Ela teria ficado ali eternamente, olhando-os, estudando-os e perguntando-se sobre sua relação, suas intenções. «Poderia estar com ele, sussurrou uma voz. Poderia amá-lo. Ele poderia corresponder ao seu amor. Não é isso o que quer, o que sempre quis?» A voz era tão categórica, tão firme e tão real que a fez vibrar, excitou-a e lhe inspirou a suspeita de que, se apressasse a seguir seus ditados, podia converter-se na mulher que estava com ele. Sentia-se perplexa, não compreendia o que estava ocorrendo; tentou fugir, mas descobriu ser impossível arrancar-se dali. O homem olhou para ela e lhe sorriu. Pôde ver então que seus olhos não eram escuros, mas sim de um tom azul brilhante, abrasador.
  8. 8. Resplandeciam com intensidade. Ela percebeu aquele olhar tão tangível como uma carícia. «Vêem - lhe ouviu sussurrar com voz sedutora. Deixe-me ser seu homem.» O homem amassou de novo os seios de sua amante; logo foi descendendo para o ventre, até que sua mão se perdeu entre as pernas da mulher. Kate podia sentir o roce, o suave tremor, o calor da mão, podia cheirar o excitante aroma que emanava da pele dele. Tinha estimulado um lugar sensível, desconhecido até então para ela, mas que palpitava e doía ao ritmo de seu próprio pulso… e também o dele. Estavam conectados, unidos na raiz de suas almas. Dentro dela crescia uma estranha pulsação. Era tão potente, tão arrebatadora, que lutou por segui-la, para não perder seu compasso, convencida de que em algum momento ia explodir de prazer, que ia estalar em mil pedaços. Piscou e ele estava em frente a ela, sem ser consciente de quando ou como se tinha aproximado. Era alto, ao redor do metro oitenta, e se inclinava para ela; sua robusta anatomia a empurrava, pressionava-a contra a parede. Cada ápice de seu corpo estava já imprensado contra o dela. Ele era tenso onde ela apresentava relevos, magro onde ela tinha curvas. Pela mente de Kate cruzou por um instante a fugaz idéia de que seus corpos tinham sido especificamente criados para encaixarem entre si. «Quero-te», murmurou ela em silêncio. «Sempre me quis», respondeu ele. Ele elevou a mão e mostrou um anel com um sem-fim de pedras preciosas e diamantes transpassados. No centro luzia uma safira, da mesma cor que seus olhos. «É para ti, ele disse. Fique com ele para que possa recordar.» «Não posso.» Mesmo na confusão do momento, Kate soube que aquele anel era muito valioso para que ele o desse de presente e, ainda mais importante, considerava-se muito insignificante para ser sua depositária. Como ia justificar que estivesse em sua posse? Kate o rechaçou com delicadeza, mas ele o deslizou em seu dedo e logo lhe fechou a mão com firmeza para que não o deixasse cair. «Faça-o por mim.» Sua expressão era tão convincente e sincera que não pôde rechaçar a oferenda. «De acordo.» Ele se inclinou para ela e ela se preparou para receber o beijo que esperava, mas, no último momento, ele tirou o corpete de sua camisola e deixou no ar um de seus seios, cujo mamilo se contraiu imediatamente. Ele o lambeu com ânsia e depois o sugou.
  9. 9. Algo pareceu rasgar-se de súbito dentro dela, sacudindo o lugar secreto onde habitavam sua solidão e seu desespero. Kate aferrou-se ao seu amante e o atraiu para si, desejando poder fundir-se com seu corpo e não voltar a separar-se dele. Ele mordiscou sua carne tensa, lhe provocando uma dolorosa agitação que mal podia suportar. Kate se separou dele capengando… e se surpreendeu em seu quarto, em sua cama. Seu aspecto evidenciava que tinha estado movendo-se e derrubando-se. Os lençóis estavam úmidos e o travesseiro, no chão. Devia ter sonhado. Tinha que ser um sonho! Tentou levantar-se, aturdida, e estremeceu ao sentir as pontadas de uma repentina e terrível enxaqueca. O coração pulsava com tal ferocidade que inclusive as veias lhe doíam. Notou algo úmido e pegajoso entre as pernas, seu corpo chorava o anseio insatisfeito. Estava banhada em suor e tremia. Precisava proteger-se daquele frio repentino. Surpreendeu-se ao ver seu corpete abaixado e um de seus seios nu. Tremendo de desgosto, esfregou com a palma de uma mão o rígido mamilo. Gemeu agoniada ante a corrente de sensações que tal gesto liberou. Apressou-se a recolocar a roupa e tampar-se com ela. O que tinha acontecido? O que tinha feito? A luz da lua projetava misteriosas sombras sobre a penteadeira. Kate esquadrinhava ao redor, tentando extrair conclusões do que via, até que reparou no frasco vazio da poção de amor que havia bebido na escada. Retrocedeu assustada e afastou a vista dele. Ao agachar-se para recolher o travesseiro, notou um peso incomum em sua mão. Elevou-a e observou alarmada o elaborado anel de pedras preciosas. - Meu Deus! - exclamou quase sem fôlego. Era robusto, intrincado, de ouro gentil e lustroso, com pedras de corte fino e elegante. Por que tinha aquele anel? O que significado? Se a descobrissem com ele, o que ia dizer? Nem sequer podia imaginar uma resposta coerente. Deixou-se cair e fechou os olhos com força, ansiosa por conciliar um comprido sono. Tinha a esperança de que ao despertar o anel e o frasco teriam desaparecido.
  10. 10. Capítulo 2 - Quem é a encantadora ruiva que se hospeda com os Lewis? - A ruiva? - Sim - respondeu Marcus. - É miúda, esbelta, muito formosa. - Não tenho menor idéia – respondeu Pamela. - Pensei que todas eram loiras. Escondido parcialmente pelas cortinas, Marcus espiou o salão de baile por cima do balcão. Ocupavam-no não menos que uma centena de pessoas; o que para Pamela era um jantar íntimo e exatamente por isso era o tipo de evento social que ele detestava. A orquestra que Pamela tinha contratado tocou os primeiros acordes e os casais se apressaram a tomar posições na pista de baile. - Está segura de que não há com eles uma mulher que se ajuste a minha descrição? - Certamente - insistiu Pamela - Lady Regina foi tediosamente explícita ao me apresentar todos os seus familiares. Trouxe com ela a sua filha Melanie e a seu filho Christopher. - O Conde? - Meu preferido, devo acrescentar. Marcus a examinou. Com trinta anos, a sua mesma idade, era famosa por sua beleza. Exibia seu cativante cabelo loiro em um coque e um caro vestido, gentileza dele, que acentuava sua gloriosa figura. Mas seu esplendor físico não conseguia ocultar o tubarão que espreitava em seu interior. Era uma arpía, uma caça fortunas, e a julgar pelo comentário que acabava de emitir sobre o Conde de Doncaster, parecia evidente que tinha os olhos postos nele. Pobre homem. - Que idade tem? Uns dezoito? - Acredito que sim. - Não é um pouco jovem, inclusive para seus escassos escrúpulos? Ante o insulto, Pamela se arrepiou. - Não mencionei ter interesse nele. - Não foi necessário. Conheciam-se desde meninos. Na adolescência, ele imaginou insensatamente que a amava, durou só até que ela se casou com seu pai viúvo. Pamela tinha cobiçado com ardor ser Condessa e tinha lutado sem
  11. 11. cessar pelo título, o que sem dúvida ensinou a Marcus uma lição decisiva sobre o modo como o mundo funcionava. Nunca mais voltou a confiar em ninguém. Tampouco se importou com alguém mais. - Simplesmente o achei bonito - concordou ela. - E agradável. É um menino muito agradável, o que não posso afirmar de outros nobres que conheço. - Também é muito rico. - Sim, obviamente. Marcus fez uma careta de desdém e contemplou a concorrência, irritado pela obrigação de travar amizade com o inocente e ingênuo Christopher Lewis, embora só fosse para lhe sussurrar algumas palavras de aviso. Claramente, o moço era um camponês vaidoso e leigo. Pamela o comeria vivo. - Está segura de que não há uma ruiva com eles? Marcus detestava voltar ao tema, detestava oferecer a Pamela algum indício de que algo lhe importava, mas não podia evitar. Morria para saber mais da mulher que tinha irrompido em seus aposentos na noite anterior. Parecia drogada, ou talvez era sonâmbula… Estava intrigado. Pamela lhe tinha suplicado que se reunisse com ela na noite anterior e, contra sua vontade, ele concordou e foi à mansão, algo que só fazia em pouquíssimas ocasiões. Durante seu encontro secreto, estava convencido de ter trancado a porta da suíte particular em que se alojava, por isso não conseguia deduzir como tinha acessado a ela sua sedutora observadora. O encontro tinha sido estranho. Enquanto a mulher estava no quarto, via seu rosto olhando Pamela, como se fosse com ela com quem deveria estar na cama, como se se concentrando no desejo tivesse podido dobrar sua vontade para que se aproximasse. Depois, aquele sonho no qual faziam amor. Tinha sido tão excitante, tão real, que ainda lhe incomodavam as calças cada vez que o recordava. Sabia que a mulher tinha uma pequena e linda marca de nascimento na nádega, podia descrever o perfil exato de seus mamilos. Mas como era possível? Seu encontro imaginário tinha sido emocionante, enlouquecedor, e no seu fim sentiu grande paz e serenidade. Estava decidido a encontrá-la, a averiguar se as qualidades que tinha detectado eram reais ou se aquela conexão mágica não tinha sido mais que o fruto de um inexplicável sonho. Mas dificilmente podia dizer algo disto a Pamela. Ela nem tinha reparado que tinham visita. Tinha concentrado todos seus esforços em lhe demonstrar a perita amante que era, um ardil patético com o qual ela confiava obter um incremento em seus ganhos. Era uma puta; divertia-lhe jogar com ela, deixá-la acreditar que podia reavivar seu amor. Ele era um homem ardiloso. Já tinha lhe
  12. 12. decepcionado uma vez e não permitiria que a serpente voltasse a aproximar-se demais dele. - A que se deve este interesse repentino pelas ruivas? - perguntou ela. Observou-o receosa, mas ele dominava à perfeição a arte da indiferença. Sabia mostrar-se frio e distraído para não transmitir informação alguma a respeito das suas intenções. Ela podia olhá-lo intensamente sem obter a menor pista sobre seus pensamentos. Ele mudou de assunto. - Viu meu anel, o do selo? - Por quê? - Esta manhã, ao me vestir, não estava onde o deixei. - Está insinuando que a ruiva anônima o roubou? - Para falar a verdade, suspeitava de você. Pamela se esticou em uma careta desagradável. - É um animal! Não sei por que abri a porta! - Seria porque esta casa é minha? Marcus vivia em um aposento alugado sobre o salão de jogos dos irmãos Steven e permitia que Pamela habitasse uma casa que, no fim das contas, ele sempre tinha detestado. - Não se cansa de me recordar isso cada vez que passa por aqui. Se tanto me odeia, por que não me deixa na rua e termina com isto? - Uma idéia maravilhosa, a levarei em consideração. - É muito cruel, Marcus. É condenadamente cruel. Seus olhos se alagaram em lágrimas, mas com as habilidades dramáticas das que fazia alarde não era fácil saber se eram reais ou fingidas. - Por que insiste em me atormentar? Ele encolheu de ombros. - Diverte-me. - Brinca comigo, me convida a sua cama, mas na manhã seguinte não tem uma palavra amável para mim. - Não me culpe de optar por se comportar como uma rameira. Se morrer por abrir as pernas, com muito gosto me encaixo entre elas. Ela o olhou carrancuda. - Céus, como te detesto! - Acredite, minha queridíssima mamãe: o sentimento é mútuo. - Não se dirija a mim como a sua mãe! - Não é isso o que é? - Por que não traz a carruagem agora mesmo e me leva a uma casa de caridade? Livre-me deste suplício! Pamela se queixava sem trégua de quão jovem tinha sido ao casar-se. Seu pai tinha blindado as propriedades, a separação de bens não se produziria até que Marcus se casasse aos trinta e um anos, para o quais faltavam uns poucos meses, mas a Marcus nada disto lhe importava absolutamente.
  13. 13. Tinha economizado um pouco de dinheiro, o suficiente para viajar de navio a Índia ou a Jamaica. Voltaria a começar, viveria como um homem comum, sem as obrigações aborrecidas que vinham com o título de Stanford. As décadas que seu pai tinha passado sumido na recriminação e o menosprezo, na duplicidade e a decepção, não lhe inspiravam o menor ápice de orgulho ou afeto. Albert, sua primo longínquo, podia ficar com tudo, com a bênção de Marcus, mas em tal caso Pamela ficaria também arruinada, e este era um dos temas recorrentes das suas arengas. O pai de Marcus não lhe tinha legado dinheiro próprio - sintoma de sua sorte conjugal, sem dúvida, de modo que dependia de Marcus para tudo. Se ele não assegurasse suas posses, o fim de Pamela seria funesto, daí sua doentia compulsão para acelerar as bodas, entusiasmo do qual ele não compartilhava. Pamela o pressionava com toda jovem disponível e desesperada no reino, desejosa de que ele se apaixonasse por alguma delas; mas quanto maior era seu empenho em lhe arranjar um compromisso, tão menos disposto ele se mostrava em considerar as candidatas. De repente, sentiu-se afortunado por ele ter rejeitado sua proposta de matrimônio anos atrás. Com seus permanentes lamentos e exigências o teria levado prematuramente à tumba. - Ainda não estou disposto a te abandonar. É muito mais divertido ver como sofres. - É um canalha! - Pamela se encaminhou furiosa para a escada. - Estou farta de ti. Vamos conhecer os Lewis. Quero acabar já com esta tortura e assim te evitar o resto da noite. - Até que necessite de mim novamente. - Comeria brasas antes de voltar a me deitar contigo. Tinha alcançado já o patamar da planta superior quando viu que ele não a seguia. - Vem ou não? - E se não for? Parecia que desta vez Marcus a tinha empurrado além dos seus limites e Pamela tremeu de raiva. - Juro por Deus, Marcus: se não me acompanhar, entrarei no salão e anunciarei bem alto, para que todos me ouçam, que decidiu desprezar aos Lewis, apesar de serem meus convidados especiais. - E por que eu deveria me importar que montasse uma cena? - Exato, por que deveria se importar? Crê que as pretendentes crescem nas árvores? São muito poucos os pais dispostos a considerar sua proposição. Dedicou-se a insultar e ofender todos aqueles que se viram tentados. Regina Lewis não sabe o quanto é desprezível. Sua filha Melanie é nossa última esperança. Diga-me, o que decide? Em sua opinião, lady Regina e lady Melanie podiam apodrecer junto com todos os que estavam naquele salão lhe era indiferente. Tinha
  14. 14. considerado inclusive a possibilidade de não vir à festa, mas o anseio por saber se sua misteriosa bisbilhoteira se achava na mansão foi mais forte que ele. Tinha que tratar-se de uma acompanhante dos Lewis. - Leve-me, minha amada madrasta. - Se cale. Ao chegar na metade da escada, a caminho do salão de baile, Pamela se voltou para Marcus. - Acabo de lembrar: há uma ruiva com eles. É uma instrutora ou uma dama de companhia ou algo assim. Diga-me a verdade, se preocupa que seja uma ladra? Deveria fechar com chave o faqueiro de prata? - Não é necessário. Se desaparecer algo mais, revistarei seu dormitório, e depois o seu. - Oh, é… Seguiu descendo, irada, mas recuperou o aprumo ao alcançar o vestíbulo. Em público sempre fingiam manter uma relação amistosa. Pegou-o por um braço e o conduziu lentamente para a sala de baile. Como era de esperar, sua presença desatou um murmúrio coletivo, o qual garantia que as especulações a respeito de Melanie Lewis estavam indo vento em popa. Pamela o acompanhou ao fundo da sala, onde os Lewis escutavam música e aguardavam impacientem sua chegada. Eram um grupo triste, embelezados com um estilo antiquado, um indicador da falta de sofisticação e preparação para a temporada em Londres. Soava uma valsa e os Lewis observavam boquiabertos o baile, como se assistissem a aquele espetáculo pela primeira vez. Pareciam tão deslocados que quase sentiu lástima por eles. - Não podia ter encontrado a uma costureira para a garota, sussurrou Marcus, antes de soltá-la entre as víboras da alta sociedade? - Não houve tempo, - murmurou Pamela sem deixar de sorrir com cortesia. - Além disso, não sou sua mãe. Não sou responsável pelo seu traje. Regina, obesa e séria, estava no meio. Transmitia melancolia e arrogância. Marcus estremeceu em apenas imaginá-la como sogra. Melanie era terrivelmente jovem, formosa e roliça, como um sacarolhas loiro, grandes olhos azuis e bochechas rosadas. Salvo pelo detalhe de seu semblante carrancudo, parecia uma boneca de porcelana. Christopher era belo e encantador. Embora seu traje fosse velho, usava-o com elegância e não chamava a atenção, como as mulheres de sua família. Era alto, desajeitado e também tinha os olhos azuis, como Melanie, mas emanava uma distinção e um ar amistoso que devia ter herdado da família paterna. Junto a eles, mas em segundo plano, de pé, encontrava-se sua fantasia ruiva. O fabuloso cabelo da jovem, de um esplendor que ele não tinha visto antes em nenhuma mulher, estava escondido sob um estúpido boné, como temerosa de que alguém descobrisse o quão chamativa era.
  15. 15. Usava um feio vestido cinza, com botões no pescoço e nos pulsos, que não deixavam à vista nem um pedacinho da cremosa pele que escondia. Embora tentasse se confundir com o papel da parede, era única, excepcional, e brilhava como a estrela mais radiante. Ao vê-la de novo, seu coração se deteve uns instantes. Lembraria-se ela do que tinha ocorrido? Adoraria saber. Aproximaram-se deles e Pamela ostentou seu estilo mais adulador e obsequioso. - Aqui estão! - disse a Regina com afetação. - Os procuramos por toda parte. Apresento-lhes o filho de meu defunto marido, Marcus Pelham, Lorde Stanford. Enquanto Pamela borboleteava, sua visitante de sonho lhe dirigiu um olhar e ao fazê-lo seu rosto empalideceu horrorizado, tanto, que Marcus surpreendeu que ela não desmaiasse. Teve a esperança de que não se tratasse de uma atuação, embora suas expressões fossem muito reveladoras. A moça se sentia aterrorizada, desesperada para fundir-se com o gesso da parede e desaparecer. Em uma tentativa de afastar-se, retrocedeu com sigilo um passo. Regina tinha se posto em pé para as apresentações, mas Marcus a desprezou dirigindo-se sem mais preâmbulos para a ruiva. Fez uma reverência. - Lady Melanie, é você muito mais formosa do que tinha imaginado. Obrigado por vir. Sua presença me agrada enormemente. Era uma conduta ofensiva, mas foi incapaz de conter-se. Detestava tudo em relação aquele encontro, em particular o desejo de Pamela que ocorresse de uma maneira tão pública. A ruiva fez uma careta de dor, desejando que o chão se abrisse e a engolisse. Regina balbuciou ofendida, Christopher afogou uma risada e piscou os olhos à ruiva, e Melanie soltou um grito e se abanou. Os convidados que formavam redemoinhos ao redor riram dissimuladamente do que acreditavam que tinha sido um delicioso fora por parte de Marcus. Com os olhos cravados nos dela, tomou sua mão e a levou aos lábios, mas Pamela o afastou com brutalidade e o fulminou com o olhar. - Marcus - o admoestou brincalhona, como se fosse uma brincadeira da qual todos tinham desfrutado. - Esta é a instrutora de lady Melanie. Miss… miss… Desculpe-me, não consigo recordar seu nome. Como se chama? - Duncan. - respondeu a ruiva com voz pausada - Kate Duncan. - Tem algum vínculo com os Doncaster Duncan? - perguntou ele. - Absolutamente. Estava petrificada, horrorizada de que lhe tivesse perguntado se tinha conexão com o conde anterior. Por que aquele elo devia ser secreto?
  16. 16. Tinha detrás de si uma história de escândalo? Oxalá fosse assim! Seria fantástico! - Bem, desculpe-me, miss Duncan. Teria jurado que você pertencia à nobreza. Doída, deixou-o com a palavra na boca e lhe brindou um olhar furioso e uma careta de recriminação. Sua natureza temerária o assombrou. Por algum motivo, não tinha previsto algo assim. Não era afetada nem tímida e isso ainda o intrigou mais. - E esta é lady Melanie - dizia Pamela, arrastando-o - sua mãe e seu irmão… Pamela falou em torrentes, enchendo o incômodo momento com seu bate-papo estúpido. Melanie e Regina fizeram uma reverência, mas sua irritação era tão patente que Lorde Stanford se perguntou-se se vingariam do desprezo, se miss Duncan seria castigada. Não tinha pensado nisso antes de comportar-se daquele modo. Em situações sociais, importava-lhe tão pouco a opinião dos outros que mal reparava em sua própria conduta. Suportou os Lewis o tempo suficiente para sossegar os ânimos; propôs um encontro com Christopher para montar a cavalo e permitiu que Pamela o comprometesse para um jantar na noite seguinte. Com a extremidade do olho percebeu como a indomável miss Duncan planejava sua escapada. Assim que soube que todos tinham esquecido sua presença, a jovem se confundiu com a multidão e escapuliu às escondidas pela porta mais próxima, que dava à galeria. Ela desapareceu assim que teve ocasião de fazê-lo, mas não pôde correr detrás dela. Muitos convidados tinham sido testemunhas da sua travessura, de modo que teve que cruzar o salão antes de sair e assim passar inadvertido. Viu-a imediatamente, escondida sob uma árvore junto à cerca posterior. Nervosa, caminhava de um lado a outro, observando a casa, esperando a que o caminho estivesse livre para poder penetrar pela porta de serviço sem topar com ninguém. Não o tinha visto abandonar a mansão e, acreditando-se só no jardim, saiu disparada para a porta. Ele se escondeu entre as sombras, olhando como se aproximava, e assim que ela agarrou a maçaneta, ele pôs uma mão sobre a dela. Ela deu um salto e soltou um grito de medo. - Olá, miss Duncan. - Sorriu como um gato que acaba de comer um canário - Interessante encontrá-la aqui. - Você…! - exclamou ela, retrocedendo com passo inseguro. - É assim como se saúda um Conde? - Ofereceria-lhe a deferência de conde… se atuasse como tal. - Fere-me, - burlou ele. - É um desprezível descarado! Dá-se conta dos problemas que causou? - Não. Por que não me explica isso tudo?
  17. 17. - Tem as maneiras de uma cabra. Ele riu sufocadamente. - Não é a primeira vez que me dizem algo assim. - Não me surpreende. É um chato, um maníaco. - Também me dizem isso com freqüência. - Sabia que eu não era lady Melanie. O que pretendia envergonhandoa e a sua mãe? E a mim? - Nada, gostei de fazê-lo. - Quantos anos tem? Oito? Nove? Não é mais que um menino. Estou segura de que um bom açoite o curaria de muitas de suas aflições. - Não sou um menino, como bem sabe depois de sua aventura noturna. - Começou a empurrá-la para a balaustrada. Com cada passo, ela retrocedia, até que suas pernas se chocaram contra o corrimão. - Sou um homem feito. - Está balbuciando como um idiota, talvez outros tenham que tolerar seu comportamento grosseiro, mas eu não. Adeus. Kate tentou escapar, mas ele não estava disposto a deixá-la escapar. Aproximou-se dela, seus corpos se roçaram. A sensação o estremeceu. Saltavam faíscas ali onde se tocavam e lhe resultava fascinante voltar a estar perto dela. Compartilhavam uma afinidade física, o tipo de compatibilidade que só os amantes mais afortunados conseguiam. Estavam sintonizados e se ele fosse o bastante insensato para tomá-la como amante, o sexo entre ambos seria fabuloso, incrível. Ela podia perceber isso também? Era acaso inocente? Sendo tão excitante, tão sedutora, era meio difícil de aventurar. Devia ter ao redor de vinte e cinco anos. Como podia ter vivido tanto tempo sem que nenhum homem a reclamasse? - Por que me espiava? - O que? - Vi-a ontem à noite, em meu dormitório. Ela tropeçou e seus joelhos pareceram debilitar-se, mas rapidamente recuperou o controle. - Não tenho nem idéia do que está falando. Cheguei ontem a Londres e até há uns minutos, quando se plantou frente a mim de um modo detestável, não nos conhecíamos. Não sei onde estão seus aposentos ou por que dá por feito que estive ali. Mentia pior que ninguém! Era mais que evidente que recordava cada instante da aventura e lhe deleitou saber que não era sonâmbula, que lhe tinha espiado intencionalmente. Estava interessada nele porque era uma virgem amadurecida que desejava pôr fim a sua castidade? Ou era uma mulher que não tinha um homem em sua cama há muito tempo? Em qualquer caso, resultava-lhe impossível resistir a ela e estava mais que disposto e encantado de submeter-se a qualquer que fora seu delírio. Apertou-se contra ela e lhe aconteceu um dedo pelos lábios carmim. Estavam úmidos, convidavam-no. Sentiu a tentação de beijá-la. A
  18. 18. experiência seria nova e excitante, pois fazia já tempo que tinha deixado o amor à margem, quando ainda era muito jovem e imprudente para permitir que o coração interviesse em seus assuntos. Seu mundo se encheu de prostitutas pegajosas e submissas, dispostas a fazer tudo ele lhes pedisse, mas nunca experimentava prazer algum em sua companhia. Quão refrescante seria passar o tempo com ela, derrubar-se em seu resplendor, inundar-se na excitação que sentia junto a ela. Talvez encontrasse a maneira de reacender a capacidade de maravilhar-se e regozijar-se que não sentia há tanto tempo. - Quero que sejamos amantes, lhe disse. Quero saber o que é estar com você. Ouvir esta sugestão a ofendeu de tal modo a jovem perdeu o fôlego. - Minha impressão inicial de você foi a de uma pessoa simplesmente tola, além do imaginável, mas troquei que opinião. Acredito que é louco de pedra. Tentou afastá-lo. Ele a agarrou por uma mão e a sacudiu para que se detivesse. - Reúna-se comigo em minha suíte. A meia-noite. - Que suíte? Você não vive aqui. Esta é a casa de lady Pamela. - Sou o proprietário desta monstruosidade. O quarto do senhor é meu, sempre que quiser usá-lo. - A noite anterior se mostrou desorientada; era possível que não fosse capaz de recordar sua localização, por isso acrescentou- : Está na ala sul, no quarto andar, no final do corredor. Use a escada de serviço. - É evidente que não farei algo semelhante. Sou uma dama respeitável e a instrutora de lady Melanie. Como se atreve a me pedir isso? - Não lhe estou pedindo isso. - Está-me obrigando a aceitar? Em que pese a ostentar a pior reputação de Londres, ainda respeitava certos princípios e jamais teria tentado arruinar a vida de mulheres castas. Tinha muitas fêmeas dissolutas ao seu alcance, mas parecia que com ela não era capaz de comportar-se melhor. - Se não vir - lhe advertiu- , acusarei-a de roubar meu anel. De modo que… o tinha roubado. Até esse momento não tinha estado seguro disso, mas já não lhe cabia a menor duvida. Kate se tinha ficado boquiaberta, tratando de encontrar a resposta mais apropriada. Ao final, murmurou: - Que anel? - Não sei quando ou como se apoderou dele, nem por que. Tampouco posso dizer que pareça uma ladra, de modo que não posso deduzir um propósito para o furto. Só quero que venha a meia-noite e se tiver que coagi-la para contar com sua presença, farei-o. - É um animal. - Não o nego.
  19. 19. - Um fanfarrão. - Com efeito. Ela o olhou fixamente. Seus verdes olhos cintilavam banhados por lágrimas de raiva e frustração. - Não me faça isto. Por favor. - Tenho que fazê-lo. Com um gemido de cólera, ou talvez de desespero, ela se afastou e correu para a porta. Capítulo 3 Kate perambulava por seu dormitório. O relógio marcava seu inexorável passo para meia-noite e o momento em que Lorde Stanford esperava sua chegada. Sentia-se tão irada que ansiava destroçar algo. Como tinha se envolvido em tal enredo? E como ia sair dele? Marcus Pelham! De todas as malditas possibilidades! Tinha-o visto em seu quarto! Sabia quem era e ele era desse tipo de desgraçados que se pavoneiam constantemente; estava segura de que a envergonharia sempre que pudesse. Nunca a deixaria em paz, nunca lhe permitiria esquecê-lo. Deixou-se cair na cama com a cara entre as mãos. Como desejava que tudo tivesse sido um pesadelo! Dispunha ainda de dez minutos para decidir se obedecia ou evitava sua ordem. Se optasse por evitá-lo, ele a acusaria de roubo, e então, o que ia ser dela? Nem sequer Christopher, um conde de pleno direito, teria
  20. 20. meios para ajudá-la. Tratando-se de um anel tão valioso, encarcerariamna, poderiam inclusive deportá-la às colônias penais ou, Deus não o queria, executá-la. Se decidisse ir à entrevista, era muito consciente de que os propósitos daquele homem distavam muito de ser inocentes. Sem o menor respeito por sua castidade ou qualquer das possíveis conseqüências do encontro, o grande canalha a seduziria e, desgraçadamente, não estava segura de ter arrependimentos. Não teria necessidade de empregar a força. Era a poção de amor? Como podia ser? O que havia no interior daquele maldito frasco? Kate estava segura de que sucumbiria de bom grau aos seus encantos, o que a fazia ponderar a possibilidade de que a beberagem a tivesse transtornado um pouco. Acaso não tinha aprendido nenhuma lição da insensatez da sua mãe? Até estando casada e sendo uma Condessa, sua mãe tinha fugido com seu amante italiano. Até então tinha sido desventurada, havia-se sentido insatisfeita, tinha odiado seu marido, o pai de Kate, um homem aflito e sufocante, e tinha fugido para a perdição, sem lhe importar a desolação que deixava atrás de si. Seu pai se retirou da vida e Kate ficou órfã no mundo, sem um centavo. Sua mãe, como resultado de seu temerário flerte, deu a luz a uma filha ilegítima. A garota, Selena Bela, tinha já dezesseis anos, a mesma idade que Melanie. Apresentou-se na Inglaterra sem avisar, dois anos atrás, com uma acompanhante e com Kate designada como sua tutora no testamento da sua mãe. Kate não tinha chegado a conhecê-la, mas com a ajuda da Regina se pôs de acordo com o fiduciário de Selena - um advogado de Londrespara arrumar seus assuntos. Kate tinha coordenado o aluguel de uma casa, a contratação de serventes e a escolha de uma dama de companhia, e tinha autorizado o pagamento de todos os gastos. Entretanto, tudo isso era ao que tinha decidido limitar a conexão com sua irmã. Não suportava a idéia de ter uma meia irmã de origem secreta, não podia suportar lembrar-se de sua mãe e de sua apaixonada natureza. Quando Kate se atrevia a examinar sua própria vida, horrorizava-se ao comprovar que sob sua fachada plácida e amável se escondia uma mulher tão temerária como tinha sido sua mãe. Era a insatisfação uma característica que se herdava? Kate estava farta de sua vida de faxineira, em que era tratada como uma obrigação não desejada e na qual tinha que consultar Regina mesmo para o assunto mais insignificante. Asfixiava-se no mundano e estava disposta a aceitar a provocação de ser imprudente e irresponsável. E isso a assustava.
  21. 21. Quanto se parecia com sua formosa e irrefletida mãe? Se lhe apresentasse a ocasião de desfrutar, seria capaz de conter seus impulsos desenfreados? O relógio marcou a hora. Kate olhou a penteadeira. O frasco vazio seguia ali, burlando-se de como se deixou levar por suas inclinações mais hedonistas. Aproximou-se dele, agarrou-o e o atirou pela janela que dava ao jardim. Em seguida voltou para a cama e procurou debaixo do travesseiro. O anel estava onde o tinha deixado, envolvido em um lenço. Deu uns passos inseguros para a chaminé, revolveu entre as brasas até encontrar uma greta na argamassa e escondeu ali o anel. Stanford podia acusar a de ter roubado seu anel, mas antes teria que encontrá-lo! Kate agarrou a capa, a jogou sobre os ombros e se cobriu a cabeça com o capuz, para ocultar-se. Logo se aproximou da porta e apareceu ao corredor. Ao não ver ninguém, correu para a escada e subiu. Para sua surpresa, o dormitório do Marcus estava situado exatamente em cima do dela. Era uma pequena distância, um breve passeio entre ambos. A proximidade podia facilitar os encontros, em caso de estar disposta a sucumbir na libertinagem, e tal não era o caso. Tinha a intenção de esclarecer as coisas, lhe demonstrar que não ia tolerar más condutas e lhe convencer de que era uma mulher honrada e virtuosa. Quando menos, a visita lhe serviria para estudar a disposição da casa e poder assim devolver o anel em algum momento sem que ele tivesse modo de averiguar como tinha retornado a seu poder. A porta estava entreaberta, indício inequívoco de que Marcus a esperava. O muito canalha! Entrou nas pontas dos pés. Como um felino faminto, preparado para atacar, ele se regozijava no sofá. Sem a jaqueta e o laço; tinha desabotoados os primeiros botões da camisa, que deixavam à vista um arbusto de cabelo escuro no peito. As mangas enrugadas mostravam sombras do mesmo pêlo nos braços. A noite anterior lhe tinha observado nu mas, por algum motivo, esta displicência casual lhe resultava mais fascinante que a nudez total. - Feche a porta - disse ele com voz pausada, uma voz de barítono que lhe estremeceu as vísceras. Sem opor reparos, ela cumpriu a ordem e logo se aproximou até que seus pés se roçaram. Ele a olhou com uma concentração selvagem que acendeu uma chama em seu ventre. Aquela sensação a alarmou. Não ia permitir que a afetasse! O seguia escrutinando-a e o silêncio se fez opressivo. - Estou aqui, senhor - começou ela . O que é o que quer? - Chama-se Kate? - Sim, Kate Duncan. - Quando estivermos sozinhos, Kate, me chamará de Marcus.
  22. 22. Assombrava-se daquela situação, de se sentir tão familiar com ele, e se negava a dar asas às fantasias daquele homem que dava por certo que se produziria um segundo encontro. - Não o farei, Lorde Stanford. E você não deve me chamar Kate. Para você sou miss Duncan. Com a graça de um leopardo, ele ficou em pé. Na sombra, parecia mais alto do que recordava. Estava bebendo um licor, brandy ou uísque, a julgar pelo aroma. Apurou o conteúdo do copo e o deixou em uma mesa que havia perto. Apesar da sua altura imponente, ela não se sentiu ameaçada e suspeitou que grande parte de sua jactância era presunção. Podia admoestá-la e rugir, podia lhe dar ordens e gritar, mas jamais lhe faria mal. Ao constatar isso, relaxou e se sentiu menos angustiada ante algum perigo potencial para sua virtude ou alguma intenção arteira por parte dele. De um puxão, Marcus lhe tirou a capa, que foi cair aos seus pés. - Tem alguma roupa que não seja cinza? - Tenho um vestido de domingo. É negro. - Detesto o efeito que tem em ti o cinza. Desvanece a cor de sua pele. - Sim, é minha maior preocupação. - Deveria se vestir com roupa verde, combinando com a cor de seus olhos. - Estou segura de que ficaria muito bem. - respondeu ela com ironia. - Comprarei-te alguns vestidos e os guardarei aqui, em meu quarto Poderá vesti-los só para mim. - Não o fará. - Farei-o. - Permiti-lhe que me coaja desta vez, mas se acha que vou obedecer suas próximas ordens, seu otimismo é absurdo. - Sempre consigo o que quero. - Comigo não. Ele se aproximou; seus pés se introduziram sob seu vestido, suas pernas se enredaram nas dela. Kate nunca tinha estado tão perto de um varão adulto e seus sentidos se dispararam. Sentia seu calor, o aroma do sabão com o que se banhou; assaltavam-lhe fragrâncias fortes e masculinas, de tabaco, de cavalo. Ainda havia outra mais sutil, almiscarada, e acreditou que devia ser sua mais íntima essência. Todo o corpo de Kate estava eletrificado. Entre ambos cintilavam faíscas. De repente, sentia tantos desejos de tocá-lo, de lhe passar a mão por entre a camisa ou talvez acariciar seus musculosos braços… Ardia para estreitar-se contra ele, convencida de que seus corpos se encaixariam à perfeição. O anseia era primitivo, arrebatador e lutava contra ele com cada fibra de seu ser. Ele levou uma mão aos seus cabelos e acariciou o pesado coque; foi retirando lentamente os grampos e os ornamentos que o prendiam, que
  23. 23. foram caindo ao chão, onde ricocheteavam e tilintavam. Kate tentou espiar aonde foram parar, sabendo que jamais os encontraria e perguntando-se o que iriam pensar as criadas quando varressem pela manhã. Não obstante, que ele tivesse uma convidada em seus aposentos privados era um acontecimento habitual. Seus serventes não se surpreenderiam ante tal descoberta e era necessário que recordasse tal detalhe. Ele era um libertino sofisticado e experiente, e para ela aquele era só o segundo dia de sua primeira viagem a Londres. - Tem um cabelo fabuloso. - E você é um adulador incorrigível. Ele jogou com as largas mechas, elevando-as e separando-as. O coração de Kate se acelerou. Nunca antes tinha recebido um elogio de um homem, nunca tinha caminhado com um amante sob a luz da lua, nem a tinham acompanhado a casa da igreja. Sem herança e sem projetos, era insignificante, invisível, apenas perceptível, não era ninguém, nem sequer criada ou membro da família. Nenhum cavalheiro que valesse a pena a quereria. Seu elogio lhe avivou a vaidade; desejou que fosse sincero. Fazia tanto tempo que ninguém se fixava nela e estava tão penosamente se desesperada por obter aprovação… - Quando vier ver-me - proclamou ele- , deverá deixá-lo solto e escovado. A ofensa era intolerável! Acaso estava surdo? - Não vou voltar. Não ouviu uma só palavra do que lhe disse? - Não. Ele a agarrou por uma mão, reclinou-se no sofá e puxou-a dela até que a teve em cima. Kate gritou de indignação, tentou escapar do seu abraço, mas ele a tinha bem apanhada. Era impossível escapar. Estavam unidos em um mesmo molde, os pés, as coxas, as cinturas, os ventres… Se ajustaram com rapidez. Os seios dela estavam esmagados contra o peito dele e seus mamilos se despertaram. Com o menor movimento palpitavam e doíam. Sentia-se completamente envergonhada e lutou com maior empenho para separar-se dele, ansiosa para abrir um espaço entre ambos, mas ele a impediu lhe pondo a mão nas costas. Deslocou-a para que suas entrepernas se encontrassem, e o torso do Kate soube imediatamente que isso era justo o que necessitava. Instintivamente, flexionou as pernas. E ele pôs-se a rir! O muito vilão! - Miúda, parece uma fera. - Solte-me. - Não. Atraiu-a ainda mais e se flexionou para ela, e ela sentiu algo que jamais tinha experimentado, que nem sequer tinha imaginado. - Por que se aperta assim contra mim?
  24. 24. Ele evitou sua pergunta e interpelou a sua vez: - Como conseguiu entrar ontem à noite? - Não tenho nem idéia ao que se refere. Pensava negar eternamente. - Por que pegou meu anel? - Não o peguei! Ele a escrutinou e lhe advertiu: - Não deveria me mentir, Kate. Posso saber quando o está fazendo. Acariciava-lhe uma nádega, era difícil concentrar-se, pensar com certa distância. - O que vais fazer com ele? Vais ficar como uma lembrança? Ou o devolverá ao seu lugar quando eu não estiver? Desse modo, poderíamos agir como se nunca tivesse desaparecido. Ela franziu o sobrecenho: Marcus tinha adivinhado suas intenções. Ele esboçou um sorriso de satisfação. - Já vejo. Tinha decidido devolvê-lo na minha ausência. Então, por que não me avisa com antecipação, para que não apareça de improviso? Deste modo, tudo seria mais fácil. - Eu não tenho seu anel, insistiu ela. Ele a fez rodar para inverter suas posições. Kate ficou debaixo dele. Estava apanhada, e furiosa! Tinha pretendido dominar o encontro, expondo seus argumentos com brevidade, e depois dedicar-se a suas coisas, com a reputação e a castidade intactas. O que ia fazer agora? Devia convencer este homem da sua deliciosa postura ética, mas seu corpo a impelia com força a um lugar que não queria visitar. - Deixe que me levante. - Não. Kate suspirou. - Falar com você é como falar com a parede. - Prestaria atenção se dissesse algo interessante. Brincava com seu vestido, tentando desabotoá-lo. - Vai violar-me? - Sim, mas você gostará. - Detenha-se. Agora. - Sinto muito, mas não posso te agradar. - Lorde Stanford! - O primeiro botão se soltou- . Lorde Stanford! Marcus! Ele sorriu, pois jamais tinha duvidado de que podia convencê-la a lhe chamar pelo seu nome de batismo, e assim de repente… - Sim, Kate. O que quer? - Não penso me relaxar sem mais enquanto me tira a roupa e… e… Queria lhe informar de todas as coisas que não pensava fazer, mas seu léxico tinha graves carências para discutir sobre assuntos carnais, e não estava disposta a usar palavras tais como «nua» e «despida». Na sua presença era tão difícil manter a compostura que naquele instante soube
  25. 25. que não devia ter-se arriscado a ir ao encontro, por muito obstinado que ele se mostrasse em suas exigências. Tinha que tê-lo sabido. Realmente tinha que ter previsto. - E…? - inquiriu ele, lhe recordando que não tinha terminado a frase. - Não importa, vagabundo. Solte-me! - Divertiu-se enquanto me via com Pamela? Assim que recordou todos os detalhes eróticos da cena, suas bochechas se acenderam de tal modo que se surpreendeu de não estalar em chamas. - Suas acusações são insultantes e não tenho a mais remota… Marcus a beijou. O movimento foi imprevisto, repentino, e ela se esticou e manobrou para lhe afastar, decidida a negar-se e resistir até que ele desistisse, mas antes de poder reagir, percebeu o empenho como um pouco tão doce, tão íntimo, que não se fazia à idéia de boicotá-lo subitamente. Os lábios de Marcus eram suaves, quentes, e pressionavam gentilmente os seus. Fechou os olhos. Sendo esse seu primeiro beijo, viuse sobressaltada por sua formosura, seu feitiço. Como podia ter vinte e cinco anos e nenhuma vez ter experimentado semelhante gozo? Surpreendendo-a por completo, ele deslizou a língua dentro de sua boca; suas línguas se encontraram. O gesto lhe desatou um súbito comichão no estômago. Tinha o gosto de brandy que tinha estado bebendo e aquele sabor era tão esplêndido e tão libidinoso que a fez gemer de prazer. Hipnotizada, extasiada, nesse momento teria feito tudo que lhe pedisse e concluiu que esse era o motivo pelos quais as mulheres eram cortejadas e persuadidas até os abismos do pecado. Outras conheciam os perigos de uma paixão tão temerária, mas ela, acanhada e rendida já, não encontrou remédio em nenhuma das advertências que até então tinha acatado. Queria mais… Queria abandonar-se a aquela desenfreada espiral, a aquele pandemônio incomparável e, e qualquer proeza que fosse necessária para que ele continuasse, continuaria com gosto. Estava tão transbordada que não era consciente de tudo que acontecia, e pouco a pouco reparou que seu sutiã estava já desabotoado e que ele o arrancava. Em poucos segundos, seus seios ficariam expostos e não havia maneira de predizer o que aconteceria depois. Em sua mente soaram os alarmes. De algum modo, tinha caído de cabeça em um inferno selvagem que transcendia ao seu controle. Não tinha sido sua intenção encontrar-se em tal apuro! Eram essas as propensões de sua mãe, que saltavam em primeiro plano? Tinha lutado com tanta tenacidade para ser virtuosa, para ser um exemplo, uma boa pessoa… e tinha bastado que um homem bonito a
  26. 26. olhasse para abandonar em um instante sua integridade e seus princípios. Acaso não tinha orgulho nem dignidade? Separou-se dele violentamente. - Marcus, por favor. Ele se deteve e a olhou, franzindo o cenho, tão arrebatado pela paixão que pareceu não reconhecê-la, e o coração do Kate se nublou. Provavelmente tinha seduzido toda criada que entrou pela porta. Que mulher estaria a salvo em tal ninho de pecado? Sem dúvida, ela era só uma mais na longa lista de mulheres que tinham sido beijadas até tocar o céu naquele cômodo sofá. - O que ocorre? - perguntou ele. - Não posso seguir. Sentia-se humilhada, envergonhada de não poder ser a meretriz que ele esperava. - Por que está tão preocupada? Só estamos nos beijando. Não há nada de mau nisso. - Sim, mas você espera muito mais que um beijo e eu seria incapaz. Ele se fez a um lado; com aquele gesto lhe proporcionou a oportunidade de escapar. Ela estremeceu e se sentou, lhe dando as costas. - Acredita que sou alguém que não sou. - É apaixonada, Kate. Não pode negar esse aspecto de sua pessoa. Tampouco eu posso. - Insiste nessa idéia absurda de que sou decadente, que sou o tipo de mulher que pode comportar-se segundo seus costumes, aqui, na cidade. Mas sou uma garota do campo. Não estou preparada para a libertinagem e me desculpo se lhe fiz acreditar o contrário. Ele se incorporou e a abraçou, lhe acariciando a nuca com o nariz. Ela desconhecia a sensibilidade daquele ponto e estremeceu; lhe arrepiou a pele dos braços. - Não esteja triste - sussurrou ele. - Não estou, só quero… - O que quer? - insistiu ele ao vê-la incapaz de prosseguir. - Quero ser mais liberal. Oxalá pudesse ser a pessoa que acredita que sou. É patético, não é? Ele se afogou em uma gargalhada. - É tão lasciva, Kate, e está tão preparada para o que eu posso te dar… - Não, equivoca-se. Ela se voltou, ansiosa de persuadi-lo que a tinha julgado mal, mas estava tão perto dele e seus formosos olhos azuis a esperavam ali mesmo… Poderia ter tentado à Santa Virgem, como esperava resistir ela a seus encantos se era uma simples mortal? Kate se sentia tão fraca frente a ele que acreditava ser ele capaz de derrubar qualquer muro que ela interpor entre ambos para mantê-lo afastado, e esta certeza a aterrorizava.
  27. 27. - Seremos amantes, Kate, durante o tempo que se prolongue sua visita. Será maravilhoso. Prometo-lhe isso. - Não vamos ser nada. Vou e não retornarei. Não me peça isso, não me pressione, não me ordene. Não cederei. Como se Kate não tivesse pronunciado nenhuma palavra, ele anunciou: - Encontraremo-nos todos os dias, a meia-noite. Começava a acostumar-se a que não a ouvisse. Era um menino mimado. - Não, Marcus. Levantou-se, recolheu sua capa e se envolveu com ela os ombros. Cobriu-se a cabeça com o capuz. Ele a olhava, sem mover-se, sem intervir. Era o momento de partir, mas não encontrava a coragem para fazê-lo. Olhou-o, com mil considerações na ponta da língua. E se não voltasse a estar a sós com ele? O que lamentaria não ter feito? Nada parecia apropriado, de modo que deu a volta e saiu correndo, mas antes que alcançasse a porta, ele a chamou. - Amanhã de noite, Kate. Estarei esperando. - Esperará em vão, insistiu ela. - Não acredito. Virá. Sua confiança, a certeza de que ela cederia, enfurecia-a. Com um grunhido de frustração, abriu a porta e se deslizou para o corredor. Capítulo 4 - Qual é sua opinião, mãe? - A respeito de que? Christopher Lewis estava sentado na suíte de sua mãe, vendo-a comer um doce atrás de outro de uma grande caixa. Não podia recordar nenhum momento em que a tivesse visto sem comida diante, e que o céu assistisse a aquele servente que deixasse vazio o prato de Regina. Obcecava-se com as provisões como um banqueiro com o ouro. Comia em todas as horas uma ou outra guloseima. Esse era o motivo pelo qual estava extremamente obesa. Christopher se surpreendeu de
  28. 28. que a pequena cadeira em que sua mãe se escorou não cedesse ao seu peso. Tinha o cabelo de um cinza monótono; os traços, inchados e avultados. Pelo que ouvia, tinha sido formosa no passado, mas pelo seu aspecto atual era difícil discernir se aqueles falatórios eram certos. - Em relação às novas sementes que quero adquirir para nossas terras… - Parece-me um esbanjamento colossal. - Mas é o último avanço científico. - Tolices, folhetins. Christopher suspirou. Estava tão acomodada nos velhos tempos que se mostrava suspicaz ante qualquer sugestão. Ele tinha tantos planos para a fazenda, tantas inovações que ansiava levar a cabo… Não encontrava o modo de influir nela. Sua mãe mantinha sempre a bolsa tão bem fechada que provavelmente não seria capaz de arrancar-lhe até tê-la na tumba. Desejava reafirmar-se como Conde. Não podia imaginar de onde lhe vinha a necessidade para melhorar Doncaster, mas intuía que a tinha herdado de seu pai, que havia falecido quando ele ainda engatinhava. Sem dúvida não a tinha adquirido de Regina! Uma pessoa fria e reivindicativa a quem teria preferido conhecer nunca. A seguinte pergunta, Regina se mofou de suas idéias, como sempre fazia, mas ele insistiu: - E quanto aos pedidos da esposa do pároco? Regina esteve a ponto de engasgar-se com um bombom. - Nem pensar. - Mas é uma idéia magnífica. Poderíamos criar uma escola sem dificuldade. - O que é o que nesta verde terra de Deus te leva a acreditar que devemos educar a cada criança que perambula frente a nossa porta? - Nossos trabalhadores devem saber ler e escrever. E multiplicar. Sorriu, sabendo que sua mãe estaria mais molesta pelo segundo que pelo primeiro. Odiava suas idéias inovadoras. - Seriam capazes de contar com precisão nosso dinheiro, quando o estivessem ganhando para nós. - Jamais. Regina se ruborizou até a incandescência e se concentrou de novo em engolir e em revisar seus papéis. Nesse mesmo instante, Christopher decidiu que compraria a maldita escola. Embora Regina fosse uma avara de marca maior, dava-lhe uma mesada, da qual ele jamais gastava nem um centavo. Tinha economias e estava decidido a fundar uma escola e a levar até o fim os seus propósitos. Não seria difícil ocultar o projeto dos olhos de Regina. Ela nunca se preocupava com a vida do resto da humanidade, de modo que não perceberia o que estaria ocorrendo.
  29. 29. Melanie, que parecia um saca-rolhas em frente ao espelho, gorjeou alegremente: - Parece-me tolice que seja capaz de gastar seu tempo e energia em tais sandices. - Tem razão, Melanie - concordou ele ironicamente. - Em troca, poderia me dedicar de corpo e alma a propósitos transcendentais como provar roupa. - Exatamente - respondeu ela, muito obtusa para compreender que seu irmão acabava de provocá-la. Christopher suspirou de novo. Como podia ter Regina como mãe e Melanie como irmã? Que giro do destino os tinha agrupado na mesma família? Os homens do campo difundiam histórias sobre intercâmbios de meninos recém-nascidos e ele se perguntava freqüentemente se algum elfo não o teria raptado ao nascer e o teria deixado depois na casa equivocada. Se não fosse pela presença tranqüilizadora de Kate ao longo dos anos, não sabia adivinhar o que teria sido dele. Ela, e os criados com quem travava amizade, o tinham orientado na vida e o ajudado a descobrir o homem que realmente era. Agora que já contava dezoito anos, esse homem lutava para emergir à superfície. Estava ansioso para que sua mãe reconhecesse e lhe cedesse o lugar que lhe correspondia por direito próprio, mas não sabia como consegui-lo. Ficou em pé. Necessitava de ar fresco, afastar-se daquela companhia sufocante, sofrível. - Aonde vai? - perguntou sua mãe. - Vou cavalgar com o Stanford. - Estará de volta na hora do jantar? - Sim, mãe. - Nem a menor algazarra com ele. Ou qualquer tipo de coisa que lhe proponha. Christopher pôs os olhos em branco. Sua mãe ainda o via como um pirralho. Se chegasse tarde da noite era porque que tinha saído às escondidas, de suas correrias com os meninos do povo ou de seus flertes com as garotas do botequim, sofreria uma síncope. - Sossegue, resistirei a suas tentativas de me corromper. Dirigiu-lhe um olhar admoestador: - Não se faça o preparado, não estou de humor para seus descaramentos. - Sim, senhora - respondeu ele com tom adulador, embora sem arrepender-se absolutamente de suas palavras. - Empregue a ocasião sabiamente. Não poupe adulações para sua irmã. Melanie acrescentou:
  30. 30. - Deveria lhe informar da freqüência com que se comenta quão formosa sou. «Formosa como uma estátua de mármore», pensou. Por fora era atraente, mas por dentro era vaidosa, frívola e malvada. - A elogiarei até que brilhe - mentiu Chris. À margem da vontade de ambas, não tinha intenção alguma de ajudar no intuito de unir Stanford e Melanie. Chris não desejava isso nem ao seu pior inimigo. Nem se vendo preso a um poste e ameaçado por uma tribo selvagem diria uma palavra elogiosa sobre Melanie; antes estaria disposto a que lhe cortassem a língua. Aquela moça carecia de toda virtude e não pensava em ajudá-la, nem tampouco a sua mãe, a enganar o Stanford. Partiu antes que o curvassem com mais ordens absurdas que não tinha intenção de acatar. Regina manobrou sua imponente massa corporal para observar Christopher afastando-se; logo examinou o correio que lhe tinham enviado de casa. Melanie rondava perto e Regina considerou oportuno esconder a primeira página, como também faria quando chegasse Kate, embora Melanie não lesse o bastante bem para entender aquele escrito; o segredo era desnecessário com ela. Regina não recordava quando tinha decidido roubar Selena Bela, mas sim a facilidade com que o tinha conseguido. Outros eram incrivelmente ingênuos, sobretudo alguém como Kate, que só via a bondade nas pessoas e jamais se dispunha do mau; de fato, nunca lhe tinha ocorrido comprovar as faturas que enviava Bela. Kate não conhecia sua meio-irmã, circunstância que Regina tentava perpetuar por todos os meios para que Kate não fosse testemunha da modéstia com que Bela se via forçada a subsistir por culpa dos seus furtos. Além disso, Kate nunca tinha tido ao seu cargo a administração de um lar, assim não podia saber com exatidão o preço das coisas ou quanto se requeria para cobrir gastos. Regina falsificava as faturas que Bela enviava a Kate e esta não as questionava, como tampouco tinha questionado a garantia de que seus pais não lhe tinham deixado herança alguma. Tinha sido fácil enganá-la. Obviamente, Kate era muito jovem quando se produziu o suicídio de seu pai e não pôde perceber que a tinham manipulado. Regina tinha furtado seu dote, que levava uma eternidade desaparecido sem o menor rastro que pudesse culpá-la. Agarrou a carteira onde guardava seus documentos e sorriu para si, satisfeita com sua perícia na arte da duplicidade. Suas economias cresciam exponencialmente e nestas ocasiões sentia tentação de alardear sua sagacidade, mas nunca o faria. Não poderia justificar seu comportamento frente aos outros. Nestas ocasiões lhe resultava difícil inclusive explicar a si mesma, mas sabia melhor que ninguém com que rapidez as fortunas podiam trocar de
  31. 31. mãos. Em um só dia, ela mesma tinha passado de estar cozinhando em seu lar na Cornualhes, com seu marido às portas da morte, suas economias esbanjadas em remédios inúteis e dois bebês mugindo e atirando de suas saias, a ter um marido elevado a Conde. O marido tinha morrido de forma repentina e seu filho tinha herdado o título, e se mudaram para uma mansão com duzentos cômodos. Christopher e Melanie não recordavam os embaraçosos tempos nos quais seu pai tinha sido o seguinte na linhagem para herdar um grande Condado e mesmo assim trabalhava para ganhar a vida, coisa que lhe tinha granjeado o desprezo de todo o povo. Os filhos acreditavam que a vida era uma celebração de gente rica que esbanjava e se abandonava facilmente a qualquer prazer, mas Regina jamais esqueceria como tinha sido antes e jamais voltaria para a terrível situação de ter que humilharse ante seus vizinhos. Não podia depender da sorte. Se tinham conseguido ascender tanto, também podiam cair em seguida, e se negava a sumir-se de novo na penumbra. Se viesse alguma tragédia, as posses de Kate e Bela a amparariam, e não albergava nenhum sentimento de culpa pela situação. Essas duas mulheres não mereciam tal riqueza caída do céu. Eram filhas de uma puta. Deviam pagar pelos pecados de sua mãe. Regina engoliu o último pastel, molesta por ter tido que pedir ao serviço que lhe servissem mais quantidade quando era sua obrigação fazê-lo. Gostava de ter comida à mão e poder beliscar cada vez que gostasse. Durante um tempo não tinha disposto de um chefe francês e freqüentemente tinha que preparar ela mesma as sobremesas; nunca se tinha recuperado de tão horrível experiência. - Onde está Kate? - protestou Melanie, golpeando o chão com um pé em um gesto petulante que incomodou a Regina. Tinha lutado para proporcionar estabilidade e uma educação aos seus filhos, mas em retorno de semelhante opulência, o intento se converteu em desafio. Melanie assumia que o mundo girava ao seu redor, por muito que Regina se empenhasse em lhe advertir do contrário. A garota era irritante, mimada e presunçosa, e exasperava a Regina. Quando a realidade lhe chegasse como uma bofetada, quando a tragédia se desatasse, Melanie seria incapaz de se encaixar as circunstâncias, desmoronaria-se ante os primeiros indícios de adversidade. Graças ao céu, tinha dado a luz ao Christopher, possuidor do intelecto, juízo e a astúcia de Regina. Embora em ocasiões o menino fosse também muito compassivo, sob sua tutela chegaria longe. - Não demorará a vir. - Disse o mesmo há quinze minutos. - Pois deixe de insistir. Sempre tenho razão. Dirigiu um olhar furioso a Melanie e se perguntou quando tinha mostrado aquela moça algum interesse por algo alheio a si mesmo ou
  32. 32. seus objetivos. Acaso não compartilhava seu mesmo interesse por forjar um matrimônio importante? Durante anos, Regina tinha suportado uma infinidade de rejeições e lhe tinha cozido o sangue tentando ignorar os falatórios que questionavam a legitimidade de Christopher como herdeiro ou que apontavam a sua família como intrusos no círculo da nobreza. Quando Melanie desposasse o Stanford, Regina se regozijaria no triunfo. - Quais são seus planos com Lorde Stanford? - perguntou. - É evidente que ontem não lhe causou a menor impressão. - E foi minha culpa? - Tendo sido considerada uma criada, de quem crê que deve ser a culpa? - De Kate. Estava pavoneando-se frente a ele. Você a viu. Se tivesse sido mais comedida, nada disto teria passado. Falará com ela? Regina já tinha decidido falar com Kate sobre seu descaramento. Repreendia-a a respeito com freqüência. Kate era vítima direta de muitos dos piores aspectos de sua mãe - o orgulho, a teimosia, o desdém e também mais ousada do que se esperava em uma mulher. Embora Kate não percebesse, os homens se sentiam atraídos por ela, motivo pelo qual Regina a obrigava a usar o cabelo coberto. Do contrário, qualquer cavalheiro despreparado poderia ver-se levado à perdição, e Regina não ia permitir que Kate perpetuasse os estragos que sua mãe tinha instigado; não, enquanto vivesse sob seu teto e sua conduta pudesse dar mau exemplo ao Melanie ou ao Christopher. - Sim, falarei com ela, mas enquanto isso você precisa se organizar. Stanford nos visitará esta noite, de modo que tenho que te perguntar de novo: como vai impressioná-lo? - Não o farei - respondeu, elevando seu presumido nariz - . O odeio, é um grosseiro e não quero que seja meu marido. - Não tem voz a respeito. Se casará com quem eu diga e o fará de boa vontade. - Não. Casarei-me com alguém que me ame e não com esse ser cruel e vicioso. Tem o coração de pedra. - Se cale. Não suporto seus desvarios românticos. Melanie parecia disposta a replicar irada, mas por sorte Kate bateu na porta e sua presença as salvou de uma discussão. - A castigará de verdade, mamãe? Por ter chamado a atenção? - Se preocupa com Kate quando seus próprios atos foram abomináveis. Vá ao seu quarto e não saia até que esteja preparada para me explicar com todos os detalhes como pensa em seduzir Lorde Stanford. - Não o farei. Já lhe disse. Não o farei!
  33. 33. Regina não pôde controlar mais seu temperamento. Levantou-se e caminhou para Melanie até que a teve frente a si, a apenas uns centímetros. Regina sobressaía sobre sua filha. - Não quero ouvir nenhuma palavra mais, maldita ingrata! - Ou? Vais bater-me? Mandar-me à cama sem jantar? - Não se considere adulta, ainda posso te castigar. - Sempre acha que pode me obrigar a fazer o que for, mas desta vez não. Não me importa que tenhamos tido que viajar tão longe. Não me importa que te envergonhe. Não aceitarei uma imposição desta. Regina lhe deu uma bofetada e Melanie tropeçou e esteve a ponto de perder o equilíbrio. - Não vais faltar-me ao respeito! - gritou Regina indignada. Menos ainda depois de ter lutado tanto para conseguir este convite e solucionar seu futuro. Kate chamou de novo, mais brandamente que antes, o que indicava que estava ouvindo a discussão, e Regina se enfureceu ainda mais. - Vai-te! - gritou. - Estou farta de ti. Engolindo as lágrimas e com uma mão em sua avermelhada bochecha, Melanie saiu correndo. Kate murmurou algo sobre uns novos vestidos que chegavam da costureira, mas a informação não a deteve. Inquieta, Kate a viu correr até o final do corredor, mas não fez nenhum comentário. Fazia tempo que tinha aprendido que o que ocorresse entre a Regina e seus filhos não era assunto dela. Entrou e fechou a porta; soube imediatamente que o que ali lhe esperava era uma inspeção e que Regina estava impaciente para levá-la a cabo. Kate nunca tinha aceito o fato de que as circunstâncias não lhe tivessem sido favoráveis. Mesmo assim, mantinha a compostura com a dignidade de uma rainha, como se seu pai ainda governasse Doncaster, como se em suas veias não corresse o sangue manchado de seus desenquadrados progenitores. Para evitar que esquecesse sua insignificante condição, Regina se encarregava de recordar-lhe em todo momento. - Bem - começou Regina - o que tem a dizer a seu favor? - Não tenho explicação para o comportamento de Lorde Stanford. Quando menos, não ia fingir que não sabia o motivo pelo que a tinha convocado. - Não me canso de te advertir que evite chamar a atenção. Acaso desejas que lhe pontuem de puta, como a sua mãe? - Você sabe que não o sou. Os lábios do Kate se contraíram até quase desaparecer de seu rosto. Embora nunca havia dito nada a respeito, aborrecia o modo em que Regina criticava seus pais, e o fazia tão freqüentemente como lhe era possível. Kate se parecia com sua mãe e Regina vivia com a certeza de que ao menor empurrão se comportaria como ela. Terei que esporeá-la continuamente para que não se desviasse do bom caminho.
  34. 34. - Se segue te pavoneando aqui, em Londres, quanto tempo acha que levará até que te reconheçam, até que a gente saiba quem é? - Não saberão. - Se correr o menor rumor sobre sua procedência, abandonarei-a a sua sorte. - Era uma ameaça efetiva e Regina a tinha usado para pressionar Kate em todo tipo de ocasiões. Seu temor de ser expulsa de Doncaster era real e uma arma que Regina esgrimia repetidamente. - Carece de ofício, de dinheiro, de contatos. Aonde irá se lhe desterro? Como sobreviverá? Suplicará a sua irmã bastarda que te acolha e te alimente? - Christopher jamais consentiria que me desterrasse. - se defendeu Kate, com um indício de integridade. - Como ia impedir? Inclusive no caso de que lhe convencesse de contradizer minhas ordens, pode imaginar como seria sua vida? Juro-te que faria dela um inferno. - Estou segura de que o faria. - Não consigo compreender por que me ocorreu permitir que viesse conosco a Londres, mas a partir deste momento permanecerá fora de vista. - Assim o farei. - Não voltará a ter oportunidade de envergonhar ao Melanie ou desonrar a família. - Como queira. - Acompanhará Melanie em seus passeios, mas não estará presente em nenhuma ocasião em que Lorde Stanford possa ver-te. - Como desejar. - Se tiver dúvidas sobre os acontecimentos aos quais pode assistir e quais deverá evitar, me pergunte. - Assinalou o corredor com uma mão . Agora vá, estou farta de ti. Kate partiu sem questionar seus intuitos e Regina se apressou a fazer soar a campainha para chamar um criado. A discussão lhe tinha despertado o apetite. Confiava em que ficassem mais doces na cozinha. Pamela caminhou lentamente para o vestidor e se olhou no espelho. Embora tivesse completado os trintas, seguia sendo formosa. Nunca tinha estado grávida, por isso seu corpo conservava as curvas e a graça de antigamente, seus peitos luziam firmes e abundantes. Era sensual, esplêndida, uma mulher no ápice de sua vida que sabia o que queria e o que tinha que fazer para poder consegui-lo. Inclinou-se um pouco para verificar melhor o decote e se o negligé que tinha escolhido era o adequado. À vista ficava a atraente firmeza de seu peito; a provocadora orografia de seus mamilos se adivinhava atrás do fino tecido. Através de uma fresta na porta vislumbrou Christopher Lewis esperando pacientemente no sofá, na sala de espera do seu quarto. Tinha sido fácil o seduzir. Até com dezoito tenros anos, era já um homem. Não
  35. 35. tinha duvidado nem um instante em aceitar o insinuante convite de Pamela, que sentia curiosidade por saber se teria adivinhado suas intenções. Estaria impaciente? Seria bom amante? Ou só um ingênuo? Qualquer das possibilidades resultava tentadora. Se iria iniciá-lo no ato sexual, seria um amante entusiasta e fogoso - como estavam acostumados a serem os homens jovens, mas se era virgem, Pamela o doutrinaria encantada. Deteve-se para aplicar uma última gota de perfume e logo se aproximou dele sem pressas. - Olá, Christopher. - Seguiu avançando com sigilo, desfrutando da admiração do jovem frente a semelhante escassez de roupa. - Posso te chamar Chris? - Sim. - E você deve me chamar de Pamela. Lady Pamela é tão aborrecido e formal… O moço tinha uns grandes olhos azuis, cabelos loiros ondulados e uma figura um tanto desajeitada. Resultava adorável em extremo. Também era rico, um fator que ela sempre considerava muito atraente e que se tornava ainda mais interessante agora que Marcus tinha esbanjado seus últimos recursos. Christopher escolheria em algum momento a uma Condessa e ela fazia já anos que o era; além disso, por que devia escolher a uma afetada principiante? Considerando sua juventude e ingenuidade, acaso não lhe conviria mais uma mulher mais velha? E quem melhor que ela? A emoção lhe acelerou o pulso. - Gostaria de um brandy? - A minha mãe não gosta que eu beba, especialmente de dia. - Bom, Regina não está aqui, não é? Ele riu entre dentes. - Não, não está. - Acompanha-me? - Que diabos…? - A expressão tinha escapado de sua boca contra sua vontade e, como o pequeno cavalheiro que era, apressou-se a desculpar: - Eu sinto muito. - Não terá que lamentar o que acontecer quando estamos sozinhos. Pamela caminhou para trás do sofá e passeou um dedo brincalhão por sua nuca. - Sinta-se livre para ser você mesmo. Conduziu seus passos para o armário dos licores e percebeu que ele a examinava. Seu salto de cama era apertado e cativante. Serviu as taças lentamente, para que ele pudesse contemplá-la. Pamela se voltou e um súbito halo de cumplicidade pareceu lhes unir. Ele já não era um menino. Sabia para que o tinha convocado e estava disposto a consentir.
  36. 36. Ela se encaminhou para o sofá enquanto ele seguia cada um de seus movimentos; sentou-se ao seu lado e lhe estendeu a taça. Ao mínimo contato, uma faísca lhe queimou o braço. Do primeiro momento havia sentido uma atração irresistível por ele e não podia compreender a razão. Não tinham nada em comum. Nem bagagem, nem experiência, nem formação, nem idade, mas estava gostando muito dele, de modo que não ia tentar desvelar o mistério. Freqüentemente, a atração física a desconcertava. Ela tomou um gole e se sentiu ferver ante o olhar descarado dele. - Diga-me, Chris, tem alguma garota te esperando em casa? - Não há muitas candidatas em Doncaster apropriadas para mim. - Acredito. Irá à caça de prometida durante sua estadia em Londres? - Não estou preparado para me casar. Minha mãe diz que não há pressa. - Uma mulher sábia. - Provavelmente isso era o único no que conviria com a antipática e provinciana Regina. - Pois, se não estar no mercado dos esponsais, terá que procurar outras atividades para te entreter. - Estava pensando exatamente o mesmo. Ele mal tinha provado o licor, por isso ela tomou seu copo e o deixou na mesa. Se aproximou um pouco mais; um de seus seios pressionou o braço do Christopher. O mamilo se endureceu, lhe ferroando. Ele sorriu. Talvez fosse mais sofisticado do que ela tinha suspeitado. - Beijaram-lhe alguma vez? - perguntou ela. - Muitas vezes. Pamela fez uma careta reprovadora. - Mas disse que não tinha nenhuma garota especial… - Sabe guardar um segredo? - Sim. - Algumas noites saio incógnito ao botequim do povo. Com um gesto de ofensa fingida, ela procurou ar para dizer: - Sua mãe se escandalizaria. - Sem dúvida. - Ouvi que as garotas dos botequins são meretrizes. Ele se pôs a rir. - Sim, algumas sem dúvida são. - Por que não me mostra o que lhe ensinaram? Morro por aprender. - Acho que sim. Por um instante teve a sensação de que tinha empregado um tom depreciativo, como se também a considerasse uma meretriz, mas sua expressão era convincente; seu sorriso, imutável. Deviam ser impressões delas. Olhou-o fixamente, perguntando-se se ele iniciaria o encontro, mas seu acompanhante permanecia imóvel e a espera a mortificava. Incapaz de suportar aquela incerteza por mais tempo, deu o primeiro passo: posou seus lábios nos dele. Christopher pareceu interpretá-lo como uma
  37. 37. amostra de consentimento e assumiu o controle do abraço, acolhendo-a e estreitando-a nos braços. Introduziu os dedos entre seus cabelos e a língua em sua boca; ela se deleitou ao descobrir que as rameiras com as quais tinha flertado tinham sido excelentes tutoras. Estava louca por ele e seu desejo não se originava nem da sua fortuna nem do seu título. Ele amassou seu peito até que Pamela se retorceu de agonia, desesperada-se para que lhe oprimisse o mamilo. Ele não o fez, de modo que ela guiou sua mão para onde precisava tê-la. Contudo, não estava recebendo suficiente estimulação, por isso soltou o cinto de seu negligé e deixou seu peito ao descoberto. - Toque aqui - disse sem fôlego, excitada. Desejava muito mais do que lhe oferecia. Ensinou-o a ferroar e espremer, a beliscar e ferir. Era um aluno ávido e entendeu imediatamente o que se requeria dele. - Assim? - perguntou. - Ah, sim, não pare. Pamela estava fascinada, arrebatada, aflita. Tinha tido muitos amantes, antes e depois de seu matrimônio, mas todos sem exceção tinham resultado insatisfatórios. Sempre a tinham deixado com a sensação de que estava perdendo algo, que a autêntica paixão pura jamais lhe seria concedida, e nesse instante um brilho antecipatório se prendeu em seu interior. Talvez Christopher ia proporcionar lhe o que não tinha conseguido nenhum homem antes. Incitando-o, acendendo-o, massageou entre suas pernas. Seu falo se endureceu sob a calça. Desabotoou-lhe os botões abrindo passo para sua mão. - O que está fazendo? - perguntou ele. - Quero acariciar suas partes íntimas. Vai-te encantar. Estava já tão excitado como ela. - Sim, sim… Seu verga apareceu para recebê-la. Ela a envolveu com uma mão e começou a acariciá-lo num ritmo constante. Ele estava exaltado, ereto, e se movia com uma exuberância juvenil que a enfeitiçava. Estava segura de ser a única mulher que o havia meio tocado com tal intimidade, e que por conseguinte ele não resistiria muito mais. Pamela queria que sua viagem inicial fosse memorável, espetacular. - Vou pôr minha boca sobre ti. - anunciou. - Alguma mulher lhe fez isso antes? - Não. Nunca. - Sabe do que se trata? Alguém lhe explicou isso? - Ouvi comentá-lo de alguns homens… Sendo conhecida por sua destreza em cometidos carnais, Pamela sorriu satisfeita:
  38. 38. - Querido, me permita que te demonstre no que consiste. Ele se reclinou e ela lhe afrouxou as calças para ter mais espaço de manobra. Situou-se sobre seu membro e passou a língua pela cabeça, lambendo o suco sexual. Depois de umas poucas carícias ele estava já ao limite e Pamela introduziu o falo em sua boca, segura de que seria uma curta carreira para o final. Ele empurrou com força, uma, dois, três vezes e seu sêmen saiu a fervuras. Derramou-se com um gemido de prazer, correndo-se extasiado, empurrando dentro dela uma e outra vez, como se não conseguisse alcançar o final. Em algum momento, a tormenta se acalmou, seus embates se sossegaram, sua ereção se relaxou. Ela ainda desfrutou de um último gosto da sensível cabeça, saboreando seu gosto, seu aroma; logo se afastou. Satisfeita e agradada com suas armas sedutoras, Pamela se abraçou a ele, impaciente por receber algum elogio ou, quando menos, algum comentário adulador, mas ele guardava silêncio. - Foi incrível - aventurou ela. - Sim, incrível, concordou ele. - Alegro-me de que me tenha permitido te mimar. - Estava um pouco confusa por sua reticência, mas obviamente ele era virgem. Era compreensível que não encontrasse as palavras apropriadas. – Vamos para minha cama? - perguntou, gemendo e estirando-se, desejosa de continuar. - Poderíamos fazer amor durante horas. Ele consultou o relógio. - A verdade é que devo me reunir com minha mãe em poucos minutos. - Sua mãe? - Odiava a Regina e não pôde simular a mofa em sua voz. Acreditava que acabava de falar com ela. - Tenho que falar com ela de novo. - Já é um homem. Um Conde. Sua mãe pode esperar. Ele encolheu de ombros. - Quando ela está feliz, tudo é mais fácil para outros. Pamela sentiu um acesso de ira. Como ousava aquele moço ser tão ingrato? Como ousava pensar em partir sem uma palavra amável? Esteve a ponto de desprezá-lo, mas em seguida recordou que era acanhado em jogos carnais. Não compreendia que era rude passar bem e logo desaparecer. Existia também um protocolo sujeito à lascívia, mas nunca o tinham ensinado. Como podia esperar que seguisse as normas? Era outro aspecto sobre o que teria que lhe educar durante as horas de deleite, os encontros de prazer que compartilhariam. - A que hora acabará a reunião com sua mãe? - Não sei, mas estarei ocupado depois. Tenho encontros programados para toda a tarde. - Mas esperava que pudesse escapar de volta… - Não será possível.
  39. 39. Ela reprimiu uma careta amarga. Insensato! Ele que não era consciente do que estava desperdiçando? Os homens suplicavam uma oportunidade para estar com ela! Ela podia escolher e tinha escolhido a ele, e mesmo assim ele se comportava como se o ocorrido não tivesse significado nada, como se ela não significasse nada. Pamela conservava seu orgulho, de modo que não lhe deixou ver quão furiosa estava. - Talvez esta noite, depois, que todo mundo dormir. - Talvez - respondeu ele, sem deixar claro o que pensava, fazendo que Pamela, atônita, se perguntasse se estava ou não interessado. Os amantes nunca a desdenhavam, muito menos depois de ter provado seus frutos luxuriosos. Sua falta de entusiasmo era tão chocante e insólito que a deixava perplexa. Na vez que estava desejosa e disposta para um segundo encontro, ele se mostrava indiferente. - Suponho que te verei no jantar. Estava decidida a atuar com sua mesma despreocupação. - Se não antes. Como uma menina, tocou as nuvens ante aquela possibilidade. - Que tenha uma tarde fantástica. - Terei. Christopher se levantou e aparou sua roupa, passou os dedos pelo cabelo e, em um abrir e fechar de olhos, já estava preparado para partir. Inclinou-se e pousou as mãos nos braços de Pamela. - Foi fabuloso. - Deu-lhe um beijo rápido nos lábios. - Obrigado. E imediatamente deu a volta e partiu. Ela olhou em direção à porta, escutando sua retirada. Aquela não podia ter sido sua única visita! Tinha sido muito excepcional, muito extraordinário, embora devido a sua inexperiência, era provável que ele não pudesse percebê-lo. Precisava lhe iluminar. O sabor de seu sêmen era forte e já não lhe resultava prazenteiro. Alcançou o copo dele e bebeu seu brandy, limpando assim os últimos restos de sua escaramuça. Não sabia por que, mas se sentia deprimida e suja. Serviu-se um pouco de vinho e o bebeu também de um gole. Logo fez soar a campainha para que lhe preparassem um banho. Capítulo 5
  40. 40. - Bem - espetou Melanie, - se não tivesse derramado o primeiro frasco de poção de amor, não teríamos que comprar outro. É culpa minha que seja tão torpe? Era uma tarde ensolarada de verão, mas mal entrava luz no interior da carruagem e Kate agradecia as sombras, pois ocultavam seu semblante crispado dos olhos de Melanie. Essa maldita poção! Acaso não tinha ocasionado já suficientes estragos? Melanie tinha exigido ver o frasco e Kate não podia explicar sua ausência, de modo que tinha mentido sobre o ocorrido, quando na realidade teria que tê-lo evitado: era péssima mentindo. - Não o derramei intencionalmente. Escorregou de minha mão. - Pelo amor de Deus, Kate! Cada dia se pode confiar menos em ti. Mamãe diz que se continuar assim, te expulsará de casa. O que será de ti então? Kate esteve tentada a proferir umas quantas réplicas mordazes, mas se conteve. Regina estava acostumada ameaçá-la e, sendo mais jovem, a idéia a tinha aterrorizado. Mas já não. Estava tão farta que o desterro seria um alívio. Isso a obrigaria a virar-se sozinha, coisa que tinha que ter feito muitos anos antes, mas o hábito e a rotina lhe tinham impedido de seguir outro caminho. Em qualquer caso, estava decidida a que se a expulsassem o fizessem em conseqüência de uma infração drástica. Não ia permitir perder tudo por uma estúpida beberagem, embora não acabava de atrevesse a considerá-la uma fraude. Embora desejasse negar, o elixir possuía propriedades misteriosas. Tinha-a levado contra sua vontade, aos aposentos de Stanford e já não conseguia pensar em nada que não fosse ele. Sua mente se viu afetada até tal extremo que temia que a beberagem fosse perigosa, que fosse capaz de modificar sua personalidade. Quanto tempo durariam os efeitos adversos? E se alguma vez chegasse a enlouquecer? Estava destinada a consumir sua vida nos pensamentos obsessivos por Stanford? Uma mulher bem podia voltar-se louca, adoecer em tais sonhos perversos. Kate desejou poder penetrar em sua própria cabeça, limpar seu interior com uma boa vassoura e eliminar todas as imagens e fantasias relacionadas com o Stanford. - Podemos nos esquecer da poção? - Não, não podemos - resmungou Melanie. - Acaso te pedi eu a lua? Ordenei-te que o vertesse em sua taça de vinho e nem sequer foi capaz de fazer tão simples gesto. - Não é tão singelo como o expõe. E se tivesse dado no momento equivocado? Poderia ele ter se apaixonado pela faxineira. O que teríamos feito então?
  41. 41. - Anda já, Kate - se mofou Melanie. - Como se Stanford fosse capaz de apaixonar-se por uma criada! Nem um tônico mágico poderia ocasionar algo tão anormal! - Pode me escutar, por favor? - Não. Estou decidida. - A carruagem estralou e se deteve, e Melanie espiou o exterior. - Chegamos. A loja do farmacêutico está ao final da rua, em um beco. Esperarei-te aqui. Kate suspirou, perguntando-se se poderia convencer Melanie de que tivesse em conta suas advertências. Embora Stanford ingerisse vários litros daquela beberagem, sua conduta não experimentaria a menor mudança. Era um homem infame, jogaria com sua própria madrasta, com o Kate e com ela mesma. No que outra aventura libertina poderia incorrer? Que mulher se entregaria a semelhante vilão dissoluto? Trocou de tática. - Melanie, já conheceste Lorde Stanford. Já viu como é. - E? - Sua missão não sortirá efeito. - Fará. Mamãe assegura que é um homem muito apaixonado, mais ainda depois de saber quão formosa sou. - É o que ela espera, Melanie. - Era muito arriscado contradizer a Regina, de modo que Kate estava entrando em um terreno bastante perigoso. Regina estava acostumada enfurecer freqüentemente a Melanie, mas esta jamais admitiria que sua mãe pudesse estar lhe mentindo. - E se te fizer uma proposta? É muito maior que você, muito mais experiente e sofisticado. - Insinuas que não sou suficientemente boa para ele? - Não! Só digo que não é o homem que te convém. Será muito desgraçada. - Absolutamente. - insistiu obcecada. - Há tantos jovens disponíveis na cidade… Se aproximam mais a sua idade e compartilham suas afeições e diversões. Por que não amplia o espectro de busca? Não tem por que se limitar a ele desde o começo. - Mamãe decidiu que seja Stanford e nenhum outro, assim não cabe a menor duvida de que será meu marido. - E acrescentou, com aspereza : De modo que te cale de uma vez e me traga essa poção! Abriu a porta da carruagem e empurrou Kate à rua. Um lacaio correu a ajudá-la a baixar a escadinha. Intercambiaram um leve sorriso; o gênio de Melanie não lhes surpreendia. Seu temperamento fervia com freqüência. Enquanto avançava rua abaixo, Kate refletiu sobre os vínculos que entrelaçavam sua vida com a de Melanie, quão estranha era sua relação. Kate tinha nascido com tudo e tudo lhe tinha sido arrebatado. Melanie tinha nascido sem nada, mas lhe chovia a riqueza e o prestígio; e, entretanto, as duas eram infelizes.
  42. 42. Kate entrou na farmácia. Ao tempo que olhava a seu redor soou uma campainha. Era um lugar pitoresco, repleto de vidros e aromas exóticos. As paredes estavam cheias com estantes que continham curiosas garrafas e potes. O proprietário apareceu da parte traseira e Kate mal pôde conter uma gargalhada. Embelezado com roupas folgadas, bem poderia ter saído das páginas de uma lenda ancestral de dragões e cavalheiros. Tinha o cabelo prateado e luzia um gorro bicudo. - Posso ajudá-la? - perguntou. - Sim - respondeu Kate. - Faz uns dias, uma conhecida lhe comprou uma poção de amor e queria comprar outra. Para ela, não para mim. - Outra? - exclamou ele. - Os ingredientes são muito fortes. Não me sentiria cômodo vendendo mais. Ela extraiu o maço de notas que Melanie lhe tinha dado e o estendeu, imaginando que o dinheiro lhe faria trocar de opinião. Melanie podia ser sofrível e Kate não retornaria à carruagem sem um novo frasco. - O outro me caiu. Rompeu-se. Desconfiado, ele a esquadrinhou. - Deve me garantir que não o administrou ao cavalheiro objeto de seu interesse. Não posso permitir que o sature com uma dupla dose, pois não há modo de prever o prejuízo que estaria lhe ocasionando. Se o pobre homem se apaixonasse em excesso, poderia lhe falhar o coração. Não serei responsável por… um assassinato. - Oh! Pelo amor de Deus! - Kate lançou um olhar desdenhoso ao teto e elevou uma mão como o teria feito ante um juiz. - Juro que caiu. - Bem, em tal caso… Acredito que poderia você me convencer… a um preço justo. - Não penso lhe dar nem um centavo mais, enganador. Isto é tudo o que tenho. - Não fique assim, não é para tanto. Encaminhou-se à estante adjacente e, depois de uma prolongada ausência, retornou com outro frasco, que ela se apressou a guardar em sua bolsa de mão. Dispunha-se a partir quando no último instante se deteve. Segura como estava de que aquele homem era um estelionatário, detestava ter que lhe consultar a ele, mas não sabia a quem mais recorrer. - Poderia lhe fazer uma pergunta hipotética? - É obvio. - Suponhamos que alguém tivesse ingerido a poção. O que ocorreria se, por exemplo, uma pessoa despreparada o ingerisse acidentalmente? Existe algum antídoto? - Um antídoto? - Sim. Se uma pessoa o bebesse sem saber o que é, tornaria-se algo ansiosa. Para estes casos deve existir algum… remédio. O farmacêutico, ardiloso como era, sopesou-a a consciência.

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